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Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology - 2008, Vol. 42, Num. 3 pp.

513-519

Da Diversidade: Uma Definição do Conceito de Subjetividade 513

ARTICULOS
Luis Artur Costa1
Tania Mara Galli Fonseca
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil

Resumo
O conceito de subjetividade tem sido cada vez mais utilizado em trabalhos referentes às ciências huma-
nas. Diante de sua conceituação por vezes imprecisa, o uso do conceito de subjetividade banalizou-se
em diversos segmentos da psicologia, perdendo sua especificidade. O presente ensaio efetuou uma
definição do conceito de subjetividade no que tange as suas bases filosóficas e implicações práticas. A
partir de sua distinção conceitual diante da definição de identidade, erige-se um panorama das concep-
ções de ontologia e epistemologia atreladas a cada conceito. A partir daí, desdobra-se a distinção da
subjetividade no que tange a sua lógica, ética e práxis.
Palavras-chave: Subjetividade; identidade; Filosofia.

From Diversity: A Definition of the Subjectivity

Abstract
The concept of subjectivity has become frequent in works related to the human sciences. Given its
novelty and its sometimes inaccurate conceptual definition, the use of the subjectivity concept has become
stereotyped in several segments of psychology, losing its specificity. The present essay intends to trace a
clear definition of the concept of subjectivity, considering its philosophical bases and its practical
implications. Starting with its conceptual difference from the definition of identity, a panorama of the
conceptions of ontology and epistemology related to each concept is constructed, unfolding the logical,
ethical and practical distinction of subjectivity.
Keywords: Subjectivity; identity; Philosophy.

A Identidade e seus Operadores Conceituais: de alguma forma, participarem da perfeição pertencente
A Forma, a Substância e o Método às Idéias, mas possuem um status ontológico inferior,
pois estão submetidos às mutações que assolam nosso
Iniciemos a discussão sobre a subjetividade delimi- mundo vulgar das coisas de sentir.
tando alguns operadores que definem o conceito de iden- Para ter acesso a este mundo inteligível, devemos
tidade desde o princípio da filosofia. Para tanto, nos buscar a pura intelecção apartada de tudo o que é sen-
utilizaremos alguns exemplos colhidos na história da sório: o corpo, suas paixões e as coisas dos sentidos
filosofia, os quais nos servem para ilustrar os pressu- (Platão, trad. 1996). As tão aclamadas capacidades de
postos conceituais deste instrumento teórico em duas Sócrates, para com o controle de suas sensações, resso-
de suas formas principais: a dedutiva e a indutiva. Ele- am um ascetismo platônico: suportar os efeitos do frio
mentos os quais, adiante, servirão para elaborar um intenso na neve, sem cobrir-se, durante as longas mar-
diálogo entre a identidade em algumas escolas filosófi- chas, permanecer sóbrio e lúcido, por mais vinho que
cas e correntes psicológicas. beba e, ser o único que não é acometido da vontade de
Em Platão, o “ser” é concebido como algo perfeito se deitar com o mais belo jovem do banquete (Platão,
e, se perfeito, não pode deixar de ser. Sendo o fenecer e trad. 1983).
o mudar uma marca de imperfeição, pois, se não per- Em Aristóteles, também haveria a afirmação de um
manece como é, logo não “é” de fato verdadeiramente. conceito identitário, mas não pelo apelo à idéia em sua
Assim, as Idéias platônicas são estruturas inteligíveis, forma perfeita: esta se dá pelo conceito de substância
as quais não se encontram no tempo, mas fora dele: na (ousia), propriedade primeira do ser a qual todas cate-
eternidade. Já os objetos sensíveis “são” somente por, gorias se referem. É a substância que garante a
univocidade e constância do ser, já que é nesta que
todos acidentes se imprimem para existirem. Todas
1
características contingenciais inseridas na fugacidade
Endereço: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de
Psicologia, Departamento de Psicologia Social e Institucional, Rua
temporal nada mais são do que atributos predicados a
Ramiro Barcelos, 2600, Sala 13, Santana, Porto Alegre, RS, Brasil, CEP esta essência, a qual dá suporte a estes sem perder sua
90035-003. E-mail: lartur@cpovo.net constância: “Agora, a principal propriedade da subs-

R. Interam. Psicol. 42(3), 2008

coerente com a noção de idêntico a si do-nos sobre o que nos faz dizer que um pedaço de cera No entanto existem diversas complicações na ope- duro posteriormente derretido é “o mesmo”. fazem isso de seu meio. cia como referente ao encontro das memórias passadas narização dos sentidos. por conseqüência. 57). una. ou por estas. dois vezes dois sempre são quatro. enquanto outros podem afirmar que Seguindo uma lógica semelhante de dividir a reali. dependem da essência base própria que o sujeito efetuaria suas interações com identitária para serem. modo independente das demais configurações da reali. seriam modificações as quais im- do bloco de cera. LUIS ARTUR COSTA & TANIA MARA GALLI FONSECA 514 tância parece ser isto: que apesar de permanecer idên. 1641/1999. as propriedades e atributos que se realizam de processamento da informação. mutação atômica de ferro para plástico (mudança de ção de todas as aparências. que é esta cera e que é apenas meu entendimento que a Mas. para a correção do saber. inconstante. a aparência) e a vêem a consciência enquanto um atributo “interior”. pensamentos que produzem a ligação entre passado e mas de erigir um modo. privativo. 1620/1999. Se tratássemos da da razão (o entendimento. questionan. portanto. que ordena à subs. ou ainda. explicitará ração do conceito de identidade para circunscrever os o caráter abstrato da substância e o papel fundamental limites dos objetos em nosso mundo. por exemplo. fugaz. Mesma prerrogativa será feita e planejamentos futuros que fazemos em nossa mente por Francis Bacon em seu Novum organum para que ou cérebro no presente. Sempre iguais a si mesmas. de ções para além do indivíduo. todos possam conhecê-la. da substância. que eu concorde de diriam o próprio uso do conceito identidade como expli- que não poderia mesmo conceber pela imaginação o cação cabal para a persistência de nossas denominações. poderiam alguns a ontologia dos seres seja definida por sua substância argumentar que a constância da identidade depende essencial. o método. aqui. essências anteriormente citadas. as verdades primeiras são de). pensamentos. as formas de compreender tal fenôme- Para Além da Forma e da Substância no variam muito na filosofia. Mas no seu Discurso ao método. distinguindo-se da imagina. p. e a mesma. 1903/1989. por isso. p. a sua trans- ção e das sensações). As perspectivas identitárias de consciência usual- dade: tendo. a matemática e a geometria). 2008 . um status ontológico superior de mente a identificam enquanto entidade reificada em ser o que realmente é. Assim. ou um epifenômeno dar asas ao intelecto. dade está muito atrelada ao conceito de consciência e por serem as únicas que independente da situação de nossa autopercepção. a necessária discipli. para que lhe fruto do agenciamento de esquemas de condiciona- sejam coibidos o salto e o vôo” (Bacon. irá demais. Interam. 42(3). mas chumbo e peso. Aristóteles de uma essência substantiva. critérios necessários e suficientes na definição de algo vislumbrar com o entendimento a abstração de sua ser idêntico a si (identidade). Façamos. afetos e memórias que culo. a forma seria o critério delimitador de uma identidade dade em substância e acidentes. um modo menor. No entanto. ainda que uso do conceito identidade. rede cortical) que se nestas. através do qual futuro construindo nosso presente (Bergson.” (Aristóteles. então. cérebro) ou forma (esquemas acidentes. uma didática divisão desta composta: a substância (conteúdo material ou abstrato miríade de perspectivas em duas posições gerais: as que sobre o qual se imprime a forma. p. o qual influi e modifica as mesmas nesta R. referem a si mesmas constituindo uma interioridade sem retirar-lhes sua constância e univocidade. se acaba por permitir o vê o conhecer como dependente do sensório. Seria através desta dentes não existem por si. não é de se esquemas mentais e decisões. cadeira em que estás sentado. Damásio. Sem pretender oferecer uma resposta para um erigir outro espaço ao corpo e seus sentidos: definindo termo contemporaneamente tão polifônico. Pois é esta que. psicologia ou neurociên- Assim. pois é com a percepção de permanecem as mesmas (um circulo é sempre um cír. em se tratando de mim ou de ti. vemos uma configuração da realidade cias. não importa afirmamos nossa existência perante nós mesmos e os onde ou quando). Sendo um gerenciador de sejam vencidos os ídolos do saber: “Assim. privativa do indivíduo fechada em si. uma forma. podemos enquanto condição para o acesso ao verdadeiro nas ressaltar uma definição que nos conceitua a consciên- coisas. Tal realidade é contraposta aos uma substância (mente. a noção de identi- as inteligíveis (a lógica. 1985. trad. Tratando as tica. Quando falamos de humanos. inteligível. a verdadeira base ontológica (mudança de forma). Psicol. a troca de suas pernas por rodas está para além do sensível. nossas percepções. e. Para Descartes. não basta im- concebe” (Descartes. possibilitar a identidade de substância e forma para Novamente vemos o corpo e suas sensações postos impossibilitar uma coisa sempre igual a si (identida- em questão. impe- aparência: “É necessário. É pediriam o uso dos conceitos forma e substância como necessário olhar para a cera nua de seus acidentes. sua substância: sua identidade. forma (estrutura abstrata. a consciência costuma estar atrelada aos atos e 81). consegue apreender o que substância). Os aci. 2000). Não se trata mais de escrever as verdades mesmas. é capaz de receber qualificações inconstâncias da fugacidade como atributos predicáveis ARTICULOS contrárias. e quando o são. Descartes. mento. existem por si. apartada de tudo que é contingente. e as que diluem esta em uma rede de intera- tância). diante da altera. 265).

Desfaz-se o esquema antes expli- do coletivo. Vamos mais longe: não é algo novo. Liberamo-nos do agente-essência. pois se ocorre. colapsado no ciais de adjetivos. é exatamente neste conjunto de referidos a si mesmos em uma coerência interna. mas algo acontecimentos: linhas de força. formado apenas pelas contingências. Interam. uma presa carregando consigo transmutação. estamos afirmando que este ao qual denomino. ARTICULOS ca a cada. em um só tempo: o pre. Lindzey. ofere- presente. impossibilitado entre algo chamado pensamento e as nossas sensações de isolar-se em um “si mesmo”. todo predicado/ acidente exige um sujeito/substância. 1907/1964. Um jogo que tem suas regras afirmadas toda uma trajetória singular e tortuosa. tirpado de seu corpo e identificado com a consciência sibilidades de futuro. Um momento capturado qual constitui uma espécie de jogo em permanente por meu olhar restrito. onde o atributo não é mais uma qualida- parte deste. pressupostos que encontramos o sujeito cartesiano ex- Nossas memórias e planos. e desaceleradores de verbos. por exemplo. ramenta subjetividade. as quais jamais são tecimento. o contingente. aquém da divisão forma-con. explícita. ultrapassar como ação orgânica e histórica. Logo. 2008 . elas são no que ocorre. Existimos. assim. Aqui nossas memórias e acidentes. e passamos a considerar tudo seus momentos é algo novo que se junta ao que havia enquanto um intrincado mosaico de ações. e. registro constituinte e constituído das marcas do É motivado pela sedução da linguagem que o homem tempo. e partidas por um binarismo do particular e formando um estilo. 123). a aparente auto- divíduo. com a subjetividade. quando e mudadas em cada ação. encontra-se sustentada jos sempre cambiantes de forças. antes de ser feita de igualdades. impelidos construção das estilísticas do ser. a se identificado com a consciência já está. 2000. etc. Passamos então da designação de coisas predicadas do mesmo modo que em um percurso errante. teúdo. tudo da identidade enquanto algo igual a si mesmo. mas jamais como algo dizemos. não estamos afirmando que seja o subjacente ao que ocorre. evidência do penso logo existo. Não passam de artigos de fé gramaticais. a partir do qual nossas ações erigem-se do que busca uma verdade além do aparente. pois se encontramo. um campo todo Transubjetivando: As Forças superfície. toma pre moventes. estes binarismos são trocados através deles. O cogito cartesiano. distinto. existem na concretude de nossos abstrata e autocontida. que lhe dêem um sentido. tal substrato. Corpo-no-mundo. do dentro e do fora. Formado em uma e afetos. as quais cendo a estes uma causa-agente ou um fim-paciente são o futuro no agora. no qual de alguma forma aquele passado atua. aí. mas sempre enquanto entidades de realidades A subjetividade. mas sim a expressão verbal de nos onde estamos é só porque já estivemos em outro um modo de ser. “Mas não existe um imprevisível” (Bergson. irá denunciar a de- planos são conhecimentos abstratos em uma entidade pendência secreta da aparente naturalidade da identi- inteligível autocontida (mente. mas a criação de um encontro. acontece. uma essência sob foi. mento mais visível. constituída por diferenças contingentes. & Campbell. Damásio. Nietzsche. mas sim que é agora um enquanto ocorre. pensamos captar originalmente. DA DIVERSIDADE: UMA DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE SUBJETIVIDADE relação. O corpo mais que todo. Nomes pró- sente e suas virtualidades. ou mesmo dade para com os pressupostos implícitos na lógica e informações neuroquímicas restritas ao cérebro e sua na linguagem: “A palavra e o conceito são o funda- rede neural (Beck & Freeman. de-adjetivo de um ser. do sistema nervoso citado de uma divisão da realidade em essências e central e do periférico. não existe ‘ser’ por trás do fazer. a qual p. onde estilística expressionista. pelas O conceito de subjetividade transborda as linhas predicações em constante movimentação verbal. mesmo sendo díspar. o ‘verdadeiro’ nelas” (Nietzsche. esquemas). parte de juntamente com a possibilidade de discernibilidade um mundo-ação. por uma complexa rede constitutiva do sujeito. Assim. a própria afirmação de um eu corpos e de nossas ações. 1999a. ele mesmo. do R. a um sujeito. justapostas. pelo qual acreditamos nesse isola- Hall. a designar as coisas. expressões. do lugar diferente do que agora passamos: “Cada um de ser por trás das ações. E. esta é de mudança na expressão. a concretude do vir-a-ser. é 515 distintas: mantidas por uma coerência interna específi. e efeitos que se concatenam em uma trama dinâmica. a é um instante de um processo. 2000). está sempre a ultrapassar sua construção enquanto in. uma causa para um efeito. p. nosso passado e pos. Psicol. substantivos. memória prios. de uma ação. por exemplo. nos vamos im- passagem: de um processo. Erigimos então. o cami. no qual vagamos-expressamos. quando pensamos eu mesmo ou tu as próprias. 45). Fala da constante por nossas forças em arranjo. os quais não podem por diversas outras afirmativas como: “pensa-se” e ser reificados em entidades ou órgãos. para a expressão de acontecimentos sem- nho percorrido influi no que irá se percorrer. em um mundo- há constância em seu critério. E. de um acon. nos lançando ao que será. antes. Trata-se de uma construção forjada em arran. São efeitos mesmo. mesmo idêntico ao que foi. mento de grupos de ações: com eles não nos limitamos Já para as perspectivas que utilizam o conceito-fer. plicando com as demais expressões. tampouco “sou eu que penso”. então. Corpo não identitário. 1993. que servem de unificadores referen- concreta do passado todo superfície. de onde se atualizam novas ações. 42(3).

101). restar-lhe-ia apenas a suas guerrilhas de diferenciação. do devir. consciên- tância ou forma. Transubjetivando: O Impessoal Disparando Substância. onde nem tudo se resume à ciar. ali queda por milê- ARTICULOS nios até uma ação externa lhe dilapidar desta situação. apela a uma metafísica puramente temporal. te a uma interioridade abstrata (mente. 2003. mas nada para além é elemen. indivíduo não significa mais o que não cósmicos constituintes da luz do sol: a planta vive como pode ser dividido em si. aqui ele é as ondulações a se vivo. Pois. Abrindo o pensar sobre o ma-ente. mas enquanto sistema. que o uso do conceito subjetivi- realidade relativa. promovem as (re)constituições do siste. categorias. as quais estilhaçam sustentar. como a planta que de práticas. deste processo que aqui forma da empiria dada. em atravessamentos os quais. referen- Nesta perspectiva o ser não aparece enquanto subs. surge gerando comunicação entre o corpuscular dos contro fluido. mas que está sempre se afirmando ma ao mesmo tempo corpuscular e ondulatório. aqui. cia). mesmo depois da mente íntimo. LUIS ARTUR COSTA & TANIA MARA GALLI FONSECA 516 atuar. Para Simondon (2003). o ser não teria uma unidade de identidade. 36). da matéria da existência. ou seja. sem constituir um sentido único e es- tratando-o como explicativo das características deste sencial como garantia da coerência do ente. em sua tuindo o privilégio do indivíduo constituído. uma trama complexa e conjuntiva na sofia e a psicologia por. constituindo-se não está sempre a ultrapassar-se nos momentos de satu. ‘o agente’ é uma ficção acrescentada à saturação definitiva de um ser inanimado. Trabalhará antes com um sistema que constrói e (re)inventa a todo momento uma campo de singularidades pré-individuais as quais em interioridade ressonante em um sistema que lhe ultra- sua composição constituem o ser na “ação dos díspares. 110). ou seja. tecendo um tecido conjuntivo de “e”. onde está sem- pestividade das singularidades impessoais. em um processo de agenciamento vivo surge na brecha entre sistemas. 1887/1999b. e até onde nosso olhar alcança a dança. R. diferenciação da diferença que não está ção. ser para o impessoal e suas singularidades nômades constitui uma perspectiva a qual podemos denominar que constituem a virtualidade a diferençar e diferen- empirismo transcendental. elementos químicos no solo e o ondulatório dos raios duo. onde não cessa a individuação. Trata-se da portanto. a partir das potências impessoais as ondas e a água pela qual deslizam o fundo a lhes das ressonâncias meio-indivíduo. Não fosse assim. é a diferença: as disparidades que geram disparações. de suas implicações. Interam. como o cris- ação – a ação é tudo” (Nietzsche. 42(3). “toda verdadeira relação como pela disparação” (Orlandi. tece a unidade transdutora. a ligação de ressonâncias que constroem um siste- constituída em algo. São diferenças que pode ser dividido do que lhe envolve. O essencial da ontogênese cípios para explicar o formar-se partindo do já for. que inun. enfim. dam o sistema-ente de metaestabilidade. Todos unidos veu. 94). Simondon um rizoma sem a interioridade da consciência iden- demonstra o privilégio ontológico que habita a filo. Invertia-se a operação. como discurso confessional auto-referido. 2008 . construiu uma fi. o princípio de individuação é a media- Subjetivação. to fundador ou organizador da mesma. sem transpassá-lo ou questionar os termos da complexidade das relações presentes nesta trama que sua ontogênese. pois uma proposição espaço-temporal. “Então o indivíduo seria apreendido como uma Vemos. pre a acontecer. a potencializar o devir. ao estudarem o princípio de qual vários sentidos se afirmam simultaneamente de individuação. por exemplo. axioma para pensar o ente. tendo posição de ser” (Simondon. o indivíduo institui-se enquanto relação. a individuação constituinte. forma. depois de formado. então. como um campo problemático pré-individual. uma determinada fase do ser que dade atrelado ao de subjetivação em muito se diferen- supõe uma realidade pré-individual anterior a ela. p. dispara no entremeio destas fundamental do ser (identidade). o qual ele se reduz ao ponto bem definido. a possibilidade de erigir uma polaridade entre estas duas Simondon (2003). pensando disparação. 2003. mas habitada pela intem. Psicol. passa. E. p. o vento crispando tomar parte no devir. pois o ente é o entre e tais polaridades losofia que não irá pensar o indivíduo enquanto átomo findam por se transpassar. eu. matéria. disparam em seu encontro outro distinto. p. mado. Pois. 2003). mas sim. desti- são de um plano virtual onde as singularidades. do que o envol. 106). uma unidade transdutora (p. imanência simplesmente. no seu en. mas antes ração problemática pelas potências impessoais do como carta que acompanha o movimento das forças e pré-individual. não são princípios Diferenças individuadores. e cia do conceito de subjetividade enquanto algo simples- que não existe completamente só. expressam o que denominamos indiví. tal da rocha que. onde a pedra ressoa segundo uma metaestabilidade própria ao ser atinge o espelho do lago. erigindo prin. não partirá deste enquanto Assim. O ser na força de uma ação. mas sim a em si. se para alguns em um sistema de comunicações permanentes. tenso. titária. por constituir uma unidade ressonância entre estes. Tal compreen. a noção aqui apresentada constitui-se enquanto que não pode ser circunscrito a uma identidade. 2003. portanto. Tomamos. enquanto expandirem e o leito que as rebate. ao tempo em que este último individuação” (Simondon. p. denominamos subjetivação. sempre partirem do indivíduo dado: modo paradoxal. maleável. mas. o que não disparidades (Simondon.

mas. pois tudo submete a regras (auto) realização da essência do indivíduo. O corpo-prisão nos condição humana” (Hall et al. a personalidade representa a essência da verdadeiro para além do tempo. todos comportamentos diferentes apresentados pelo A carne. 2000. impede-nos de conhecer o indivíduo . cimento se chegar. 1977. sejam linhas centradas em formas ou substâncias. tais escolas concordam na exis- olhar e o que se busca com tal pesquisa e/ou inter. que iguala os engenhos e não deixa muita margem para tudes impostas pela concretude da vida. baseada em suas estruturas profundas. 1993. por um processo que pode se na produção de saber. mo- onto-epistêmicas são constituídas também por uma tivacionais). quanto diversas situações. aguçando seus instrumentos de controle sentidos em sua empreitada do conhecer para que estes e previsão sobre os fenômenos naturais. verdade. afetivos. em prol do desenvolvimento de segundo uma ortopedia do método. 1993). são estratégias dependentes dos conceitos aqui percepções. os quais se admitem estarem presentes gia de ampliação do ser. 1993. que pode ser vencida Afinal. . quem olha e quem é olhado. delimitando perfis cognitivos e ao sujeito que perscruta. ou filtro a ser domesticado em prol da reduz e formaliza o sujeito a um conglomerado de es. ou efetividades. 2008 . individuação (Von Franz. p. Um corpo universal e abstrato: corpo-filtro do e verificáveis. Sejam esquemas (cognitivos. onde. 1977) e possível anular pelas regras auto-impostas do método. em suas forças com as quais R. universal sem que suas diferenças possam abalar a Já em Descartes e Bacon. iluminismo e da modernidade. com o nascimento do coerência unívoca do contrato entre todos firmado. o qual sintetiza trabalhados. encontramo-nos diante Partem assim. não basta tatear o empírico para deste. Interam. experimentar não pura inteligibilidade abstrata. p. tanto Platão quanto Aristóteles vêem cia identitária genérica denominada personalidade. evitando a influência de fatores conativos. operativos mundo. por exemplo. Este laridades devem ser deixadas de lado em prol de um é o caso. ações.. Corpo-filtro generalizado pelo técnico-científicos ou mercantis. da razão: produzir saber. Do iguais na aventura do conhecer. com a tomada da escuridão pela luz do Nous. seja com fins terapêuticos. como o Cognitivismo (Beck & translucidez que se crê sem tintas. . mas sim um abismo invertido que nos lança e quemas de condicionamento positivos. 1985) e de algumas correntes da psicologia cores desta vontade pelo geral. 2000). desta estética da da personalidade. tais definições transtornos. 517 Os conceitos de identidade e de subjetividade duz e formaliza o sujeito a uma personalidade fruto de ARTICULOS atualizam no seu uso todo um instrumental epistêmico um esquema formado por crenças fundamentais as quais atrelado a uma determinada perspectiva ontológica que se ativam em uma cadeia causal uniforme para as mais se aplica tanto ao sujeito considerado “objeto”. Com o corpo-filtro. enquanto o segundo re. determinada postura ética perante o que é pesquisado. 42(3). 1993) vemos uma teleolo. Psicol. DA DIVERSIDADE: UMA DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE SUBJETIVIDADE Os Corpos da Prática extinção do comportamento. o primeiro prisão. realizarem o ideal progressista técnico-científico. em seus impulsos. (Rogers. ao menos em algum grau. de tornar-se mais e melhor humano. tência de um elemento integrador e organizador das venção.. coisas reais em si. Von Franz. nas teorias Humanistas da Psicologia periência. considerado correto para ao correto conhe- moral de ascese. o corpo não é Freeman. Traços. mas aos quais se acredita ser chamar para alguns auto-atualização (Rogers. sim o adotar um modo específico mesmo dominação: aqui conhecer é uma aventura (científico). temperamentos. Hall et al. o nosso método de descoberta das ciências quase a elegia da ampliação da consciência sobre as vicissi. qual. o indivíduo republicano e laico pode [ao self] tornamo-nos seres humanos mais completos” se constituir enquanto membro de uma comunidade (Von Franz. p. afetivos. O método torna todos os indivíduos distanciando-se das bestas irracionais e irascíveis. 1620/1999. inclusive das suas. em Nietzsche. o modo de construídas ou inatas. A libertação do enten. negativos e de desfaz no mundo. desenvolvimento de um humano melhor: “Ouvindo-o Deste modo. afunda em uma escuridão sensível. disciplinando sua ex- mesmo modo. pensamentos. em prol do rígidas e demonstrações” (Bacon. fala mais de multiplicar tentativas de encontro de dimento não possui um sentido restrito à utilidade. este ser humano abstrato dos e mantidos com o objetivo de esquadrinhar as ca- que não habita qualquer canto deste nosso mundano racterísticas humanas em conceitos claros. 162). e objetiva um mundo e um sujeito segundo esta essên- Por exemplo. muro. Vê-se aqui “Pois. para um projeto de dominação da natu- da exigência de formatação do corpo e sua sensibilida. 92). 32). permite do próprio corpo: prisão que lhes impõe as fugacidades uma continuidade coerente e trans-situacional ao sujeito: pueris e ilusórias das paixões e sensações sem os freios “A personalidade é aquilo que dá ordem e congruência a da harmonia racional e seu conhecimento da simetria. método que o constrói no caso do Behaviorismo No entanto. para outros. de modo à melhor prever e controlar as mundo que deve ser moldado para o correto sentir das capacidades deste homem. etc. Evidentemente. dos testes Psicométricos. Suas singu.. a a necessidade de seccionar-se. Aqui. para melhor não a maculem com o que há de subjetivo. reza. que regula os da sociedade. Deste modo. serão demonstradas as (Skinner. baseada na a excelência individual. crenças centrais. nasci- sujeito epistêmico universal. afetos.

na damento de pluralidade. cartografando suas dife- to. na obtenção de que jamais cessa de ir entre um lado e outro findando categorias identitárias gerais. seu próprio pensar. 116). Sendo tervenções facilmente reproduzíveis e que se efetivem isto o que ocorre com a psicanálise e alguns humanismos com sucesso em uma larga média populacional. reduzindo-as a partir de um crivo abs. não completamente dividuado do dução. cada li. Como no Cognitivismo-comportamenta. acabando com os limites e cisões: melhor sirvam para práticas de previsão e controle o “O paradoxo é. o impressio. a partir dos quais se deve enquadrar a compreensão renças. Já a redução pela indução ocorre ao pers. estas mesmas são o personalidades. caprichos. ao mesmo tempo. conflito edipiano. entram em diferentes arranjos de dominação. das escalas e tipos. personalidades. é o corpo-cartógrafo no conhecer: dros sintomatológicos. os esquemas e os transtornos. querer. um “si mesmo”. pelo contrário. adas em teorias formalizadas e generalizáveis que bus- mas sim pensar o conhecer através da transdução cam a identificação dos fatores causais dos fenômenos (Simondon. citados. do mesmo. 1975. Psicol. qua- Este. em questão (crenças básicas. já que para os olhos A identidade. como ontogêneses permitiria pluralizar a lógica como um fun- tampouco possui fronteiras delimitadas. 109). 2008 . em seguida. Vislumbrando este. Corpo-rizoma. epistêmica e modo ontogenético. igualdades a partir de critérios de semelhança já dados nar e impor nossa existência que é uma existência ou encontrados no campo. Interam. o que destrói o bom mais simples e generalizáveis possíveis. éticas e estéticas: “A classificação das prio indivíduo. imanente às derivações lidade perspectivista. para com estes obter um conectada. se Parece cada vez mais se intensificar o paradoxo ao utiliza de estratégias de simplificação que se fundamen- pensarmos que o corpo é abertura para o mundo – e tam na melhor definição (mais objetiva e operacional) não fechamento.” (Simondon. não se voltarão a um indivíduo. aos quais usualmente atribuímos uma unidade essencial centrada Estratégias da Igualdade e da Diversidade na consciência. ficista voltada ao controle e previsão generalizáveis. padrões de igualdade as singularidades do sujeito e do trói o senso comum como designação de identidades social. como tais intervenções prática. transtornos. complexidade dos fenômenos. etc. das tensões problemáticas do sistema. p. por sua vez. LUIS ARTUR COSTA & TANIA MARA GALLI FONSECA 518 ressonamos. substancializando-o e formatando- crutar o empírico a partir de um crivo metodológico o como um “à parte”. É a potência de deslocamento do paradoxo. partindo de uma perspectiva cienti- desta prática este não pode assim ser objetivado. mas possibilita a criação de práticas que possam ser expres- a presenti” (Simondon. às quais constituem e reinventam R. 2003. onde pré-existem determinadas categorias de Já o conceito de subjetividade busca a ampliação da classificação estrutural ou de fim teleológico do sujei. portanto. Corpo que não nega ou aparta sua subjetividade.). por sua vez. que apontam a O corpo em Nietzsche é ele mesmo um turbilhão de um potencial mutagênico virtual que integra a dispa- forças em constante embate estratégico tendo. diferencia-se a si e ao mundo. Logo. A dedução simplifica as possibili. O corpo é uma pluralidade de vontades lista e na Nosografia Psiquiátrica. que não somente jamais é um. 3). Tal formatação teórica em busca dos parâmetros cien- trato formado por princípios ou leis que pressupõe uma tíficos foi e é fundamental ao desenvolvimento de in- determinada realidade harmônica aos mesmos. onde se constroem. de potência em conexão com os fluxos de forças do a partir da empiria e do método experimental. nem de indução redutora. transformando. o que des. Simplifica com senso como sentido único. E práxis da psicologia da diferença. Cada corpo é uma inscrição temporária Assim. transbordando ao pró. etc. p. retrato ordenado que seja mais efetivo. pois. não de modo isolado. 42(3). Ao invés de nos separar do mundo. dades do que há. não somente os é exatamente no que tange a abarcar a diversidade que procedimentos terão de ser reinventados para cada este posicionamento mostra sua maior peculiaridade encontro entre singularidades. sentir. com estas oposições. Sendo tal operação o que “Um conceito não é a priori nem a posteriori. é um propagar-se rizomático e mundo. uma resolutibilidade parcial. sem uma unidades gerais simplificadoras da sintomatologia: as essência por trás das forças. Estas segundo um padrão abstrato. de um padrão de igualdade em um fenômeno. p. existem também di- que ocorrem em seu contexto. as quais. É esse arranjar-se. das diversas lutas pontuais nesta perspectiva da subjetividade. mas. Agrupa ele nos permite fazer parte dele: o habitar. 2003). contingencial que é. diversas ARTICULOS mundo em uma alternância de arranjos. afirma sua singularidade móvel e sua parcia. perspectiva os. A trans- ser. mas que formam redes descentradas de organização. não se sas como técnicas e manuais. gerais de estruturas. encontram-se base- trata de abstração dedutiva. ridade ao invés de excluí-la dos dados ou modelá-la nha de força. que opera agrupando semelhanças em conjuntos que investigando nestes as linhas que o levam para além de excluem a diferença que escapa a estes: o desvio da si. em primeiro lugar. versas lógicas. de mas sim. A rede de condições de possibilidade das mais varia- curva normal. como existem diversos modos de ontogênese em constante modificação. 2003. peculiaridades. Assim. pois. dividindo-os e enquadrando-os nos esquadros fixas” (Deleuze.

M. Trad. In Platão: Vol. Os pensadores. mentos e intervenções. Mestre e doutora em Educação pela UFRGS. Pelbart & R. São Paulo. Skinner. B. R. G.). A. Rio de Bacon. (Original publicado em 1887) experiências. São Paulo. In ção diante da pergunta colocada naquele momento. São Paulo. In Bergson: Vol.. H.. Guimarães. Ediouro. Psicol. Os atuação e pesquisa. 21. Lógica do sentido (L. (Original publicado em 1620) Bergson. (1975).). (1999b). F. Psicóloga. Ferreira. (Original lógico.).). conferências e outros escritos (F. A. 7-157). Trad. C. (1996). Nietzsche. Orlandi. Rogers. A evolução criadora. Trad. São Paulo. V.. RS: Artes Von Franz. A. B. R. 99-117). Souza. & Freeman. O banquete (J.). Lindzey. M. Corvisieri. A. L. (1983). R. SP: Martins Fontes. Terapia cognitiva dos transtornos São Paulo. ArtMed. H. L. P. Hall. Villalobos.). Bacon: Vol. Rio de Janeiro. Medeiros. 519 tido de referente a aquilo que é particular a um “si Trad. subjetividade enquanto tentativa Damásio. C. Jung. Deleuze. 160-229). São práticas não servem a generalizações perante outras Paulo.). Médicas. L.). (1999a). Beck. Os pensadores (3. Platão. Trad. tra invisibilizado por representações gerais. L. Aquilo que é menor e mutável. Subjetividade. 24. Portugal: Cadernos de subjetividade (pp. Psicólogo.. (1985). R. SP: Companhia das e constituem os fluxos produtores do nosso mundo Letras. (1993). Atualmente é professora titular da UFRGS. G. (Original publicado em 1903) mesmo”. Vol. J. T. Silva. Vallandro. Cartas. vivido. pectiva serve à complexificação de um dado campo de Platão. SP: Nova Cultural. A produção a partir desta pers. In Francis Janeiro. (1993). Trad. que se encon. também estão dando novas ferramentas para aproxi. (2000). São Paulo. Porto Alegre. O individuo e sua implexa pre-individualidade. In P. Referências Simondon. SP: Abril Cultural. RJ: mar-se da singularidade do acontecimento em questão. 87-96).). G.). A. (1985). Meditações (E. (2003). Souza. Genealogia da moral (P. Received 30/06/2006 (Original publicado em 1907) Accepted 14/09/2007 Luis Artur Costa. pp. Obras incompletas (R. L. Costa (Eds. 13. Pós-doutora pela Universidade de Lisboa. SP: Cultrix. O processo de individuação (M. R. Trad. Trad. O homem e seus símbolos (pp. Gomes. Os pensadores. C. São Paulo. F.). R. Os conhecimentos e intervenções decorrentes destas Nietzsche. personalidade (4. 38. SP: Nova Cultural. mas sim. Veronese. são flexíveis e deslocáveis. O mistério da consciência: Do corpo e das de apreender aquelas linhas fugidias que transpassam emoções ao conhecimento de si. publicado em 1641) Segundo este modo. Porto Alegre. não no sen. e tampouco à simplificação de procedi. SP: Hucitec. G. DA DIVERSIDADE: UMA DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE SUBJETIVIDADE os sujeitos a cada instante. São Paulo. ed. S. (1989). O reencantamento do concreto: Aristóteles. 42(3).). Descartes. Lisboa. visibilizando outros arranjos que lá pensadores. ed. Interam.). B. Trad. (2000). Rio de Janeiro. RS: po. SP: Nova Cultural. Fillman. Trad. como as definições de normal e pato. Andrade. S.). In C. São Paulo. O reencantamento do concreto: Cadernos de subjetividade (pp.). Torres Filho. A república (L. Trad. R. (1999). (1964). C. F. Os pensadores. (2003). Nietzsche: Vol. F. tampões SP: Perspectiva. Organon (P. & Campbell. 2. Trad.). Tornar-se pessoa (M. São ARTICULOS Paulo. In Descartes: da diversidade. 2008 . In P. Fortes. São Paulo. SP: Nova Cultural. Trad. Mestre pelo Departamento de Psicologia Social e Institucional da Univer- sidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pinho. Novum organum (J. Trad. SP: Hucitec. SP: Companhia das Letras. Teorias da caver-se o pesquisador e o profissional perante o cam. M. Costa (Eds.). permitindo sua reinven. RJ: Delta. E. Pelbart & R.. as práticas de que pode pre. J. Tania Mara Galli Fonseca. C. Trad. A gênese do indivíduo (I. (1999). RJ: Nova Fronteira. de personalidade (A. Bergson. Sobre o behaviorismo (M. (1977).