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SETE POR CENTO

MILA WANDER
CÉSAR COSTA
ATENÇÃO!
Esta é uma obra de ficção; nomes e situações ocasionalmente podem remeter o leitor à
realidade, todavia, não são descrições do cotidiano ou uma história real. Aos menores de
dezesseis anos, esta não é uma obra recomendada por conter cenas de sexo e violência, salvo
supervisão de um responsável. É proibida a cópia parcial ou total desta obra. É proibida a
distribuição de PDF. Os autores se eximem de qualquer responsabilidade mediante este aviso.
Dedico esta obra aos meus queridos leitores e familiares.
MILA WANDER

Dedico aos meus filhos, Carol e Matheus, minhas mais perfeitas obras.
CÉSAR COSTA
Sumário
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Epílogo
Prólogo

Fogo e fumaça cobriam a atmosfera, tornando-a inóspita até mesmo para aqueles que já
cruzaram as trevas. Gritos e ranger de dentes ecoavam pelos vales. O ruído de metal retorcido
causava calafrios, ampliava o cenário de medo e tortura. Apesar da tragédia anunciada, todos
os que prezavam pela paz ainda tinham esperança de que as coisas pudessem ser diferentes,
mas não foram. A guerra foi declarada, inocentes pagaram pelos pecadores, atrocidades como
nunca antes vistas em milhares de anos de história se mostraram reais. Ataques partiram dos
dois lados, em todas as direções.
A poeira que subia e o cheiro de sangue entravam pelas narinas e enfureciam ainda
mais as tropas. Homens e mulheres, sem distinção, lutavam lado a lado contra o mal que
tentava invadir e dominar toda a Terra. Considerou-se aquela uma batalha decisiva e, se o mal
prevalecesse, os habitantes do planeta iriam prantear e sofrer pelo resto de suas miseráveis
vidas. Qualquer esperança que pudesse existir no coração da humanidade dependia da bravura
do Exército do Bem.
A guerra que se espalhara por toda a Terra encontrava seu epílogo naquele vale que já
fora uma das maravilhas da natureza, mas que agora não era mais do que um deserto sombrio.
O combate final fora anunciado e as forças do bem estavam predominando. Os recursos
bélicos estavam praticamente esgotados, mas a vitória final seria a chance de proporcionar para
as gerações futuras o utópico sonho do planeta liberto de todo o mal, com paz e felicidade.
Num embate violento, os dois exércitos se chocaram e o que era tão esperado
aconteceu. Depois de tantos gritos de desespero dominarem o ambiente, as forças do eixo do
mal estavam reduzidas e enfraquecidas, mas não desistiriam até que o último de seus soldados
tombasse em campo. E a vontade deles foi feita. Impiedosamente, a coalizão do bem avançou a
fim de extirpar a vida de todos os que se opunham ao seu sonho de liberdade. A ordem era
matar a todos, sem sobreviventes, sem prisioneiros. Não havia chance para vacilar, era tudo ou
nada, e o combate foi tão terrível quanto poderia ser.
— Nunca imaginei que seria necessário chegar a tanto — Miguel se sentou no chão
coberto de carne apodrecida, ao lado do amigo que já descansava após a batalha.
— O que está feito, está feito — Gabriel respondeu.
— Olhe para este lugar, está desolado! — Uma lágrima desceu pelo rosto de Miguel, que
nunca conseguiu suportar qualquer ato violento, mesmo este sendo absolutamente necessário.
— Fizemos o que foi preciso. — Embora também se afligisse diante de tanta violência, o
amigo estava mais conformado.
Os dois soldados olharam atentamente o cenário de horror e destruição. Incontáveis
corpos cobriam a Terra, o sangue corria como se fosse um rio, porém o ar se tornava cada vez
menos rarefeito. Era uma situação desoladora para quem só conseguia absorver o bem, mas a
humanidade não resistiria por mais tempo se uma medida drástica como aquela não fosse
tomada. Seria melhor assim. As forças inimigas haviam sido derrotadas com muito custo.
No que se considerou a Terceira Guerra Mundial, a humanidade se viu frente ao maior
dos desafios. Do jeito como as coisas estavam, logo cada ser humano estaria corrompido, cada
governo estaria sujeito às forças inimigas. A guerra foi inevitável, por mais que muito trabalho
precisasse ser feito para que o mundo se restabelecesse.
Repentinamente, começou a chover. Foi como se a natureza implorasse para que os
vestígios da guerra fossem lavados. O céu chorou as inúmeras perdas, mas os que
sobreviveram sabiam que tudo estava terminado, anos de paz e esperança podiam ser, enfim,
vislumbrados. Era a ideia de que a esperança se manteria intacta que impedia o desespero de
ver tantos irmãos caídos ao chão, unidos à massa fétida dos inimigos.
Os dois soldados caminharam enquanto viam as sombras do que, horas antes, eram
vorazes guerreiros. Alguns comemoravam a vitória final, outros choravam ao lado dos
companheiros que não sobreviveram para acompanhá-la. Perceberam que, como eles, os
aliados também andavam sem rumo entre os corpos. Um casal se beijava como se sentimentos
contidos estivessem sendo externados naquele instante, um contraste de dor e amor tão singelo
que ambos os amigos se emocionaram.
— O que vamos fazer com eles? Precisamos ser justos. — Miguel quebrou o silêncio que
se instalara entre os dois enquanto observavam a cena.
O casal estava ferido, ambos sujos e malvestidos, mas pareciam incapazes de se
separarem. Miguel e Gabriel sabiam que aquela simples atitude acarretaria um tremendo
problema; naquele momento, no entanto, só pensaram na bondade que precisava existir dentro
daqueles que amam verdadeiramente.
— Nem sempre é possível ser justo sem comprometer o bem maior. Não imagino que
possamos correr o risco de tê-los entre nós — Gabriel respondeu com pesar.
— Não imagino como o General poderia agir diferente, ele sempre cobra o preço da
justiça de todos.
— Eles são uma ameaça e você sabe disso.
— Ainda assim, uniram forças conosco e lutaram ao nosso lado! — Miguel rugiu.
— De qualquer modo, isso não compete a nós, não é mesmo? Estamos discutindo à toa.
— Você sabe que o General nos ouve. Nossa opinião pode fazer a diferença.
— Não vejo como poderíamos confiar neles. No fim das contas, a natureza fala mais
alto. — Os amigos fizeram uma pausa em seus discursos só para constatarem que o casal ainda
se beijava, parecendo alheio ao tamanho do problema que tinham em mãos. O amor
geralmente vem sobrecarregado por inúmeras intempéries, mas aquela certamente não devia
ser negligenciada. — Seria perder todo o trabalho que tivemos, caso resolvam se rebelar por
algum motivo. É do conhecimento de todos que esses indivíduos têm o temperamento muito
volátil.
— São criaturas vivas, dignas de misericórdia, além de que combateram ao nosso lado.
— A ideia de não salvar toda e qualquer alma era difícil de digerir para Miguel. — São seres
capazes de amar como todos os outros, não percebe? —Apontou na direção deles.
— Não adianta discutirmos, conversaremos com o General e veremos se há algo que
possamos fazer, já que você parece se importar tanto. Se há uma coisa que essa guerra me
ensinou, é que o bem maior não pode ser ameaçado.
— Tenho certeza de que o General também se importa. Essa é uma decisão importante
demais para ser tomada sem cuidado. Descartá-los agora seria uma tremenda traição.
Gabriel estava cansado demais para debater com o amigo de tantos anos. Além de tudo,
discutir sobre o assunto era irrelevante, já que a decisão não cabia a eles. Procurando por um
fim à discussão, limitou-se a dizer:
— Veremos.
Dias depois, enquanto a Terra se preparava para a mudança — mesmo que a grande
maioria não soubesse como tal mudança se desenrolaria —, um conselho foi formado. Os
resultados foram relatados e as perdas contabilizadas. Apesar de ser firme e exigente, o
General era um homem justo, bom e aberto ao diálogo. Os principais comandantes falaram,
todos tiveram a oportunidade de expor seu ponto de vista e tudo foi levado em consideração.
Até mesmo representantes dos aliados puderam expressar suas opiniões e foram
respeitosamente ouvidos.
Não foi uma tarefa fácil, pois o assunto era extremamente importante e secreto, por isso a
decisão foi tomada longe dos olhos e ouvidos dos demais. Após muita deliberação, a
compaixão do General falou mais alto. Porém, o preço a pagar precisaria ser aceito e não
haveria volta. O risco era muito grande e, para que tudo desse certo, os dois lados precisariam
ceder.
Após deliberação do comando central, um conselho dos aliados foi formado. Houve
muita argumentação, muitos foram os que se opuseram, mas a possibilidade de uma nova vida
animou a maioria. A decisão foi tomada e os termos propostos pelo conselho do General foram
aceitos. Assim, sete por cento dos habitantes da Terra aceitaram o destino que lhes seria
imposto. Tudo decidido sem que o restante da população mundial tivesse ciência.
— Isso será como uma benção para todos vocês! — O General falou alto para que fosse
ouvido pelos representantes dos aliados. — Sei que as medidas são um tanto drásticas, contudo
não há outra forma. A paz precisa ser mantida a qualquer custo. Vocês representam uma
grande parte da população mundial, as coisas não vão ser tão fáceis, mas agirei desta forma
para demonstrar a minha gratidão pelo que fizeram por nós. Não há outra medida. Cada um de
vocês terá que esquecer quem realmente são.
Sem que jornais noticiassem, sem que os líderes mundiais aprovassem, sem que as
maiores autoridades médicas estivessem envolvidas, uma ação conjunta foi tomada pelas
tropas do General e sete por cento da população que cobre a Terra adormeceu e se esqueceu de
tudo, criando o maior desafio para a ciência moderna.
Em um cenário absolutamente contrário ao da guerra — um lugar incrível, composto por
uma floresta densa e cachoeiras magnânimas que tinham suas águas refletidas pelos raios do
sol —, os amigos se reencontraram mais uma vez.
— Sabia que o General não me decepcionaria — comentou Miguel.
— Tenho que reconhecer que seus argumentos foram muito convincentes e fundamentais
ao conselho — Gabriel sorriu para o amigo. Ele tinha verdadeiro orgulho da bondade do
companheiro.
— Não será nada fácil, mas eles vão superar.
— Se você diz... — Gabriel deu de ombros. — Desde que a Terra esteja livre das
influências do mal...
Os dois andaram, pensativos, pelo gramado verde à beira de uma das cachoeiras.
— Você não se pergunta o que pode acontecer com aqueles dois? — Miguel se
empertigou. Há um tempo não parava de pensar naquilo.
— Quem?
— Aquele casal. Lembra?
Gabriel sorriu de leve, mas logo deixou o sorriso morrer.
— Eles vão se esquecer, como todos os outros.
Um grande silêncio se fez entre os dois. Voltaram a caminhar e se sentaram em uma
rocha grandiosa sem nada conseguirem dizer sobre aquilo. A verdade era que Gabriel também
já havia pensado sobre eles.
— Acha que é justo? — Miguel fez a grande pergunta que não conseguia ser calada.
— Acha que é justo a Terra voltar aos tempos de trevas por causa de um casal
apaixonado?
— Não — Miguel não pensou duas vezes antes de responder. — Você tem razão.
— Nós conseguimos, meu amigo... — Gabriel deu um tapinha nos ombros do parceiro.
— Não se aflija. Nós conseguimos...
Os dois se encantaram com o novo céu daquele horizonte, que prometia dias melhores
para todo o mundo.
Capítulo 1
André

Normalmente, a vida das pessoas é um mar de confusão. Todos têm histórias para
contar, um passado. Carregam suas bagagens. Isso não é, necessariamente, uma coisa ruim,
pois toda essa bagagem, no final das contas, é o que faz as pessoas serem quem são. É sempre
bom ter aquela história de verão para contar, aquele caso de amor, as festas com os amigos,
uma despedida de solteiro. Cada um tem sua vida, sua história, seu elo com um passado
recente que, ao mesmo tempo, parece tão distante.
Afinal, o que são cinquenta ou sessenta anos? Nada! Porém, quando alguém tenta se
lembrar de sua infância, parece que tudo aconteceu em outra vida. Isso é normal, inerente ao
ser humano, e todos são iguais.
Bem, na verdade, nem todos. Meu nome é André Fernandes. Ao menos é assim que
venho me apresentando para as pessoas nos últimos dez anos. Toda essa história, essa
bagagem, é tão recente para mim que carrego, no máximo, uma bolsa de mão. Está meio
confuso, não é mesmo? Irei explicar melhor.
Há dez anos venho lutando com uma condição que parece ter afetado uma boa parte da
população mundial. Ao menos sete por cento dos habitantes da Terra receberam o mesmo
diagnóstico que eu. Na falta de palavras melhores, os médicos vêm chamando de Perda
Hemisférica de Memória Sem Agente Desencadeador Conhecido. Apenas um nome comprido
e bonito para: seu cérebro bugou e não sabemos por quê.
Muitos afirmam que foram experiências do governo que deram errado, mas acho difícil
que seja verdade. Não que não acredite numa boa parcela de teorias da conspiração, mas, neste
caso, seria necessário o envolvimento de quase todos os líderes mundiais, visto que foi uma
situação generalizada. Não adianta pedir explicações. Num belo dia, um monte de gente
acordou assustada sem saber quem era e onde estava.
Fazer o quê?
Claro que a teoria da conspiração se solidifica ainda mais devido ao fato de todas essas
pessoas terem perdido a consciência pouco tempo após o término da Terceira Guerra Mundial.
Até acredito que possa ter sido alguma arma química, mas não saberia explicar como essa
arma selecionou as pessoas afetadas. Talvez todo mundo tenha sofrido a ação dessa arma, mas
apenas uma porcentagem de nós tivesse a disposição genética necessária para sofrer os efeitos.
Essa é apenas mais uma das inúmeras teorias que venho escutando ao longo desses anos. É
engraçado ver que tantos buscam, tão insistentemente, uma explicação para este fato. Qual a
diferença de saber o que causou isto ou não? Vai trazer minhas memórias de volta? Bom,
talvez... A esperança é a última que morre. Ao menos é o que dizem. Eu mesmo nunca conheci
nenhuma mulher chamada esperança.
De tudo que se tem falado nesses dez anos, o principal é que nenhum padrão foi
encontrado para a doença, e acredite, todo tipo de testes, exames e estudos já foram realizados.
O fenômeno continua completamente sem explicação. Não existe um relato sequer na literatura
conhecida de alguém que tivesse recobrado uma memoriazinha que seja. Sei que eu mesmo
não tenho nenhuma lembrança de nada que tenha se passado antes do dia em que acordei como
André pela primeira vez.
Alguns ainda estão em busca de uma resposta, mas eu já fiz as pazes comigo mesmo há
alguns anos. Preferi viver minha nova vida sem o peso do passado e construir uma nova
história que poderá um dia, quem sabe, ser compartilhada com meus filhos e netos. Por que
não? É lógico que o passado poderia me reservar experiências maravilhosas, uma família,
amores, sei lá, mas também poderia exibir o filme de um André que não me orgulhasse, que
me fizesse ter vergonha de quem sou. Diante das possibilidades, a dúvida me pareceu algo
bastante aceitável. Meu passado pode ser como eu imaginar que seja, isso me conforta às
vezes.
Hoje, trabalho como representante comercial. Foi a melhor opção que encontrei para
conseguir um trabalho rápido, pois junto com as minhas memórias, foram embora também
meus conhecimentos sobre, fosse qual fosse, a minha profissão anterior. Eu não precisei ser
alfabetizado de novo nem nada do tipo, continuei sabendo ler e escrever. Ao abrir os olhos
ainda conseguia, por exemplo, usar um celular ou computador, mas todo o resto sumiu. Eu,
assim como os outros sete por cento, sequer sabia o ano em que estávamos, qual o nome do
presidente, minha identidade, idade... Enfim, nada de relevante.
Pelo que se tem noticiado na televisão, parece que muitos ainda tiveram a sorte de
encontrar parentes que tentaram, aos poucos, contar-lhes suas histórias, devolvendo-lhes
algumas lembranças que deixaram de ser intimamente suas, mas que podiam ser recontadas
através das palavras dos outros. Eu não tive essa sorte. Acordei num hospital, sem parentes,
sem amigos, nada de documentos, nem uma única alma que se lembrasse de minha existência
prévia. Sempre imaginei que estivesse em viagem, bem longe de minha casa e conhecidos
quando essa doença me atingiu. Puro azar. O típico caso de lugar errado na hora errada.
Minha história começa, portanto, aos vinte e poucos anos, idade que eu aparentava ao
acordar. Hoje imagino ter cerca de trinta e dois, mas os médicos não conseguem ser
conclusivos com relação a isso. Meu DNA apresenta características que sugerem que eu tenha
cerca de cento e setenta anos, o que, obviamente, é impossível, mas ao mesmo tempo carrego
também informações genéticas que sugerem que eu tenha cerca de dez anos de idade, o que
também não é aceitável.
Efeitos colaterais de minha estranha doença? Desculpe, mas eu não sei. Gostaria muito
de poder dar uma resposta conclusiva, mas não a possuo.
Minha vida é um constante paradoxo. Sinto-me cansado de respirar e, em paralelo,
percebo uma enorme disposição para viver. Ao mesmo tempo em que ajo com seriedade,
principalmente em meu trabalho, muitas vezes acabo agindo como uma criança. Todos os
homens são assim!—já me disseram —, porém no meu caso é diferente, não sei como fazê-los
compreender, mas é bem diferente. É como se meu relógio biológico funcionasse em dois
universos paralelos justapostos e sincronizados. Acabei me enrolando, não é? Pois é assim
mesmo, não é mole explicar.
Por exemplo, não sou homossexual, tenho certeza absoluta disso, mas muitas vezes sou
assediado por mulheres e simplesmente não me sinto atraído, como se meu corpo me dissesse
que ainda não é a hora, que ainda sou novo demais para um envolvimento romântico. Como se
ainda tivesse muito para crescer e conquistar antes de perder meu foco com isso. Porém, tem
horas que não pareço eu mesmo, me dá uma loucura, sei lá. É claro que já tive minha cota de
relacionamentos, ainda que em alguns casos eu tivesse que me forçar a fazer isso. Na maioria
das vezes, estou com uma mulher hoje, louco de paixão e, no dia seguinte, não aguento mais
sentir o cheiro dela.
Os cheiros, estava me esquecendo desse detalhe. Não sei se antes eu já tinha esse, sei
lá, chamemos de dom, mas tenho um olfato muito desenvolvido. Os cheiros me enlouquecem
na mesma medida em que me acalmam. Outra coisa impossível de explicar, é como se eu
tentasse explicar o sabor do sal a alguém que nunca o provou. Só mesmo estando na minha
pele, embora não deseje a ninguém uma vida assim.
Fico muito confuso, pois não tenho muitas oportunidades de conversar com outros dos
sete por cento. Sei que ainda somos muitos, mas espalhados pelo mundo, não fica tão fácil de
nos encontrarmos. Além disso, todos estão se esforçando tanto para serem normais que não
saem por aí gritando aos quatro ventos: — Ei, olhe para mim, sou um dos sete por cento!
Aí você pode me dizer: — Mas tem a Internet, blá, blá, blá. — Só que tem muitos
idiotas que se passam por um dos sete por cento só para encher o saco. O que mais tem é gente
se passando pelo que não é. As pessoas conseguem ser muito maldosas quando querem.
Enfim, como já disse antes, não me cobre explicações, pois não tenho nenhuma
resposta satisfatória para dar, sou apenas o que sou e venho tentando me conformar ao máximo
com isso.
— Satisfeita? O que acha de tudo isso?
— Interessante.
— Interessante? É só isso que tem para me dizer? — Ajeitei-me na confortável
poltrona do consultório.
— Bom, a parte em que você me explicou sobre os sete por cento eu já sabia, na
verdade é um assunto amplamente estudado e difundido. Porém, é interessante te ouvir, pois
cada um tem seu ponto de vista.
— Sim, além do mais, foi a senhora quem me pediu para contar tudo desde o início. —
Sentei mais para a ponta da poltrona e encarei a terapeuta diretamente nos olhos.
— Exatamente. Quero ouvir tudo de você, não quero pré-estabelecer conceitos. Como
saber se você não será o primeiro a sentar aqui e se lembrar espontaneamente de algo do seu
passado?
— Procurei a senhora porque me disseram que tem alguma experiência com o meu
caso. O que pode me dizer?
— Se o senhor veio até aqui procurando comparações com outros pacientes, está
perdendo o seu tempo. Jamais falarei sobre outros. Primeiramente, por uma questão ética, e em
segundo lugar porque não pretendo influenciá-lo de nenhuma forma.
— A senhora já ajudou alguém a... a... Curar-se não seria a melhor expressão...
— Certamente já ajudei alguns a serem mais felizes, independentemente das dúvidas.
Porém, e estou sendo muito sincera quando digo isso, você é o primeiro que não tem ninguém
presente da sua vida anterior.
— Olha, já estou resignado quanto a isso. Às vezes acho que os sete por cento são
abençoados. Hoje vivemos num mundo feliz, as pessoas se dão bem, os países se ajudam.
Doenças como a AIDS e o Ebola foram erradicadas, a fome caminha a passos largos para ser
extirpada. Ouço tantas histórias de como o mundo estava à beira do caos dez anos atrás, que
fico grato por não ter essas memórias. São tempos felizes, como se diz e, sim, acho que posso
me considerar um cara feliz.
— Há quanto tempo você se mudou para a cidade?
— Cerca de seis meses.
— Qual o motivo?
— Fui transferido, a empresa precisava de um novo representante aqui. Os negócios
estão se expandindo, muito mesmo.
— Qual o nome do seu terapeuta anterior?
— Terapeuta anterior?
— Sim, da cidade onde o senhor morava.
— Nunca tive outro terapeuta.
A doutora Eva Sales fechou o bloco onde anotava algumas observações, não a conversa
toda, pois estava sendo gravada, mas apenas as ideias que lhe surgiam enquanto conversava
com seus pacientes. Ela ajeitou os óculos e me estudou por alguns instantes. Meio sem graça,
desviei o olhar e observei o consultório luxuoso, com paredes cobertas de diplomas
emoldurados, artigos de jornais e revistas médicas, além de fotos com pessoas que pareciam
importantes.
Enquanto divagava, a doutora pigarreou e conseguiu chamar a minha atenção. Ela se
aprumou na cadeira, aproximou o seu rosto o quanto pôde, respirou fundo e falou de forma
espremida, como se reprimisse uma explosão de raiva:
— O senhor está me dizendo que viveu todo esse tempo sob essas condições, enfrentou
essa mudança drástica sozinho e nunca foi encaminhado a um terapeuta? Qual o telefone de
seu médico? Preciso ter uma conversinha com ele.
— Acalme-se, doutora. Eu fui orientado e até mesmo encaminhado para um terapeuta.
— E então?
— Nunca fui lá.
— Poderia me dizer o motivo? — Ela tornou a se ajeitar para trás em sua poltrona que
aparentava ser duas vezes mais confortável que a minha, apesar de já ser excelente.
— Nunca senti necessidade.
— E após esses dez longos anos, o senhor simplesmente acordou numa bela manhã de
sol e decidiu que era hora de procurar ajuda?
— Na verdade, foi numa terrível noite de tempestade.
— Ora, não estou para brincadeiras — a doutora bufou.
— Não estou brincando, só queria deixar claro. — Dei de ombros e enxerguei a
impaciência no rosto da doutora.
— O que houve nessa terrível noite de tempestade? — Percebi um tom irônico na
pergunta, mas preferi ignorar.
— Desde que me mudei para cá, mensalmente venho sentindo essas fortes dores de
cabeça e, nessa noite, tive uma enxaqueca especialmente terrível e dolorosa. Decidi que era
hora de procurar alguém.
— Por que não um médico?
— Procurei médicos nos primeiros meses, mas nada funcionou. Logo, um deles
aventou a possibilidade de ser algo psicológico. Dessa vez resolvi seguir a orientação e vim até
a senhora.
A doutora Eva voltou a tomar notas em seu bloco.
— Qual foi a última vez em que esteve num relacionamento?
— Depende do que a senhora define como relacionamento.
— Relacionamento afetivo, amoroso, sabe como é, com uma mulher... Ou homem...
— Já falei que não sou homossexual — protestei.
— Não estou aqui para julgar. Esta é uma zona de segurança, podemos tratar sobre
qualquer assunto.
— Estou bem certo de minhas preferências, obrigado. Eu entendi que a senhora se
referia a algo amoroso, enfim... Quis saber o que a senhora considera relacionamento. Um
namoro, noivado, casamento?
— Algo que tenha durado mais do que um mês, ou mais do que apenas saídas,
ficadas... Algo além do casual, mais do que sexo sem compromisso.
Fiquei instantaneamente envergonhado ao ouvi-la falar tão abertamente sobre essas
coisas. Se eu tivesse a pele clara, teria ficado vermelho como um pimentão.
— Hum, deixe-me pensar... — Fingi tratar a coisa com naturalidade. — Nunca!
— Nunca? Como assim?
— Bom, nesses dez anos nunca me envolvi com alguém cujo relacionamento durasse
mais do que um mês ou passasse do casual.
— Eu entendi essa parte, o que quero saber mesmo é: por quê?
— E eu vou saber? Devo ter problemas, estou estragado. Bom, que estou estragado é
um fato, cérebro bugado, lembra? Digo, deve ser minha condição genética. Não tenho
respostas, já lhe disse! Esperava que a senhora pudesse me ajudar. Se for para eu vir aqui e lhe
dar as respostas, ao menos me deixe sentar na poltrona mais confortável, então!
A doutora me olhou como se quisesse me matar por um segundo, mas logo mudou de
expressão.
— Você nunca se apaixonou? — Ela estava boquiaberta.
— Apaixonar? Sim, umas duas ou três vezes... por semana.
— Isso é um comportamento adolescente.— A doutora bateu a caneta no bloquinho e o
colocou em cima da mesinha que estava ao seu lado.
— E eu não sei? Tenho amigos e colegas com quem me relaciono profissionalmente.
Como representante, tenho contato com muitas pessoas diferentes, conheço novas mulheres
quase todos os dias, muitas delas interessantes. Quando percebo, estou pensando muito nessa
ou naquela. Porém, logo conheço outras mulheres interessantes e me apaixono novamente.
Pensei que isso fosse algo normal.
— Se você fosse um rapaz de quatorze anos com os hormônios transbordando pelo seu
corpo, seria perfeitamente normal, mas para um adulto de trinta e tantos... — Ela franziu a
testa e arregalou os olhos, como que reprovando minha atitude.
— O que posso fazer?
— Não se apaixone tanto.
—Ah! Simples assim? Estou pagando o quê, cento e quarenta reais a consulta, para a
senhora me dar um conselho desses? Não se apaixone tanto!? — Dei uma entonação
especialmente sarcástica à última frase.
— Cento e oitenta.
— O quê?
— Cento e oitenta a hora, mas não se preocupe, aceitamos todos os cartões de crédito e
débito.
Respirei fundo. Sabia que a doutora estava tentando mexer com a minha cabeça e eu
não entraria no seu joguinho. Ela ia ver que eu não era nenhum adolescente preso no corpo de
um adulto, ela ia ver, não ia dar o gostinho, só de birra! Quem pensa que é?
— Como a senhora sugere que eu não me apaixone tanto? Vamos lá, me empreste aí o
seu bloquinho que eu vou anotar a receita da fórmula mágica. —Recompus-me e resolvi por os
dotes terapêuticos dela à prova. Aquele era um jogo que dois podiam jogar.
— É apenas nosso primeiro encontro, como espera que eu lhe responda isso? — a
doutora pareceu incomodada.
— Por cento e oitenta a hora, a senhora deveria saber — provoquei.
— Em dez anos você não tem as respostas e em cinquenta minutos quer que eu as dê?
— Ponto para ela.
— Cinquenta minutos? Não passou esse tempo todo, não!
— São cinco e cinquenta.
— Ah, tudo bem, mas eu só cheguei aqui às cinco e dez, foi um inferno para encontrar
vaga.
— O tempo é contado a partir da hora marcada, sinto muito. — Ela fez um biquinho e
balançou a cabeça jogando os cabelos de um lado para o outro.
— Quer dizer que, se a senhora atrasar, eu ganho desconto?
— Estamos divagando e fugindo do foco da conversa.
— Tudo bem, são meus minutos, podemos gastá-los como eu quiser. Se no meio da
consulta, a senhora precisar sair para ir ao banheiro, eu ganho desconto?
— Isso não acontecerá, pode ficar tranquilo.
— Digamos que aconteça...
— Não acontecerá! — Eva estava se impacientando.
— E se a senhora estiver com aquele piriri danado, fazendo biquinho para sair e não
puder mais segurar? Hein, hein? — Segurei o riso. Nem eu acreditava como estava sendo tão
infantil, mas era mais forte do que eu.
— Se eu estiver doente, desmarcamos a consulta e deixamos para outro dia.
— Tudo bem, mas e se a senhora começar a passar mal aqui no consultório, bem na
hora da minha consulta? Preciso saber, precisamos estabelecer um padrão.
— Isso nunca aconteceu.
— Entretanto, a possibilidade existe...
— Não, não existe! — Eva foi taxativa.
— Existe sim, a senhora não é melhor do que ninguém. Eu mesmo, uma vez estava
atendendo um cliente quando, de repente...
— Tudo bem, se eu precisar sair para ir ao banheiro no meio da consulta, o senhor
ganha um desconto — ela me interrompeu, visivelmente irritada.
— E de quanto seria o desconto?
— André, se isso acontecer, o senhor não precisa pagar a consulta, tudo bem? Está feliz
agora? Chega desse assunto! — a doutora pegou o caderno de notas novamente.
— Olha que está gravado, hein! — apontei para o gravador digital.
— Tudo bem — bufou.
— Do que falávamos mesmo? — perguntei, com um triunfante ar de vitória.
— Seu tempo acabou, nos vemos novamente semana que vem — ela disse num tom
seco.
A doutora Eva se levantou, atirou o bloco na poltrona, dirigiu-se até a porta, abriu-a e
falou, apertando os lábios:
— Passar bem, senhor André, até semana que vem!
Eu me levantei sorrindo, sentindo-me bem comigo mesmo, saíra vitorioso, provei que
era o macho alfa. Passei pela doutora com o peito estufado, olhar de superioridade e lhe dei
uma última encarada. Até que a danada era bonita, porém tratei logo de afastar o pensamento.
Parei ao lado de minha terapeuta e disse:
— Passar bem, doutora, nos vemos na próxima quarta — tentei soar tão formal quanto
ela.
Saí da sala e a doutora Eva fechou a porta. Dirigi-me até o balcão onde a secretária
lixava as unhas despreocupadamente.
— Dinheiro ou cartão, senhor?
— Cartão, e coloca no crédito que é pra tarifa ser maior.
— Como, senhor?
— Nada, passa aí no crédito.
A secretária sorridente pegou meu cartão e o inseriu na máquina. Observei-a enquanto
cumpria a tarefa mecanicamente. Já tinha certa idade, mas até que não era de se jogar fora.
Definitivamente, eu tinha que parar com aquilo. Comecei a dar algum crédito ao que a doutora
dissera.
Para me distrair, olhei ao redor da saleta de espera, observei os quadros na parede,
contemplei as plantas...
— O senhor coloca a sua senha, por favor? — fui interrompido.
— Como?
— Sua senha!
Sorri e digitei a senha na máquina. Enquanto esperava a confirmação, vi uma mulher
entrar correndo pela porta.
— Que horas são? — rosnou de um jeito esbaforido. Parecia cansada e bastante
irritada, coisas que não eram tão comuns de serem vistas nos semblantes das pessoas hoje em
dia. Só isso seria o suficiente para chamar a minha atenção, mas teve algo mais. Havia muito
mais do que pude conceber.
Meus olhos sempre atentos, principalmente quando me mostram uma mulher bonita,
demoraram-se sobre ela. Não consegui definir o que meu corpo sentiu, só soube que jamais
havia ficado tão intrigado — e excitado — em toda a minha nova vida.
Tudo porque fui transportado para uma dimensão paralela, tão irreal e impensada que
achei que tivesse cochilado durante a sessão e imergido em um sonho. Um sorriso de lábios
rubros e carnudos invadiu a minha mente, junto com um nome sussurrado com vestígios
evidentes de prazer: Mikah. Era a minha voz que repetia aquela palavra como um mantra,
agarrando-se a ela como quem agarra a própria chance de felicidade.
Não fui capaz de desviar os meus olhos, sobretudo quando a mulher enfim me olhou e,
como se estivesse tão encantada quanto eu, encarou-me atentamente até entreabrir lábios tão
carnudos quanto os que vagavam livremente através do meu lapso. Sua expressão irritada
mudou da água para o vinho; agora ela parecia confusa. Devo salientar que tal transformação
não deixou sua beleza menos atraente para os meus olhos nem por um segundo.
— Boa noite, senhorita, são seis e cinco — a voz educada da recepcionista nos
despertou.
A mulher misteriosa desviou os olhos dos meus, porém continuou bastante inquieta.
Caminhou até a porta da terapeuta Eva Sales, a mesma porta que eu tinha atravessado no
minuto anterior.
— Olha que o seu tempo está passando e a doutora não dá folga, são cento e oitenta
reais — brinquei, não podendo conter o lado que os médicos disseram que só tinha assoprado
dez míseras velas. Já o outro, o centenário, tentava disfarçar e ocultar a estranheza do que
acabara de acontecer.
Teria sido uma lembrança? Aquela mulher diante de mim podia ser uma conhecida do
passado? Fosse o que fosse, ela parecia ter me reconhecido, embora estivesse disfarçando tão
bem quanto eu.
— Como? —a mulher indagou e mal pude ignorar o nível do prazer que senti em ouvir
sua voz.
— Cento e oitenta... — murmurei e suspirei fundo.
— O quê? — Ela ainda parecia confusa. Evitava olhar para mim com o mesmo afinco
que eu a observava. A diferença era que ela não conseguia se manter distante, já eu...
Conseguia até demais perceber cada detalhe de suas feições. Seus cabelos lisos e cor de fogo,
seus olhos castanho-claros que brilhavam, seu rosto perfeitamente desenhado e com aparência
muito jovial.
— Reais, né? Dólares é que não vai ser — finalmente respondi.
— Do que você está falando? — Nem eu mesmo sabia direito, mas respondi:
— Da consulta.
— Como eu poderia saber?
— Você não sabe quanto paga?
— Eu pago o plano, não sou trouxa de pagar particular. — Ela foi seca.
— Bem pensado...
— A senhora pode entrar, a doutora Eva a está esperando. — Por um momento, achei
que a recepcionista havia caído em um abismo quilométrico e sumido do mundo, pois não
poderia haver mais ninguém nele além de mim e daquela desconhecida.
— Obrigada. —A ruiva forçou um sorriso e entrou no escritório, deixando-me com
uma sensação de perda quase esmagadora.
A porta se fechou enquanto a secretária retirava meu cartão e o comprovante da
operação. Ela me entregou o papel e me desejou boa noite.
— Qual é o nome dela?
— De quem? Daquela mulher?
— Sim.
— Sinto muito, mas não posso revelar. O senhor compreende.
— Compreendo, boa noite.
Entretanto, a verdade era que eu não compreendia, só havia tido uma ideia melhor. Pelo
que fui informado, os encontros na terapeuta eram sempre semanais e quase nunca havia
remanejamentos, por isso tinha certeza de que, se me atrasasse novamente como naquele dia,
poderia me encontrar com aquela mulher. Podia esperá-la na saída, mas isso soaria esquisito
até para um esquisitão como eu. Não queria espantá-la, como sabia que faria caso não agisse
com paciência.
O jeito era esperar a próxima semana até conseguir fazer do nosso encontro algo
meramente casual. Só assim, talvez, conseguisse as respostas para as minhas perguntas. Quem
sabe surgissem outros devaneios? Quem sabe ela soubesse quem realmente eu era? Não podia
ignorar o que sua mera aparição causou dentro de mim. Mesmo que ela não soubesse nada a
meu respeito, meu interesse permaneceria vivo.
Foi assim que comecei a pensar na moça que conheci brevemente na sala de espera do
consultório de minha terapeuta. Jurei que pararia de agir daquele modo — um juramento que
se perdeu em menos de dois minutos —, mas aquela nova paixão semanal não pôde ser contida
pela minha genética bugada.
Capítulo 2
Mikaela

Aquela dor de cabeça estava quase me matando, mas o fim do expediente demoraria
pelo menos umas — conferi no meu relógio de pulso — três horas. Tudo bem que eu já devia
ter me acostumado com o incômodo, a dor e eu deveríamos ser amigas íntimas de tanto que
nos encontramos nas esquinas da vida. Se bem que a minha tinha tantas esquinas que devia
estar mesmo era numa encruzilhada. Parte da população parecia me cumprimentar, com ar
sorridente, caminhando pelas mesmas arestas que não faziam sentido para mim, só para elas.
Não era fácil compreender o que fazia de verdade uma pessoa que sequer sabia quem
era. Quero dizer, eu sabia exatamente como pegar as embalagens dos Gulosinhos, os biscoitos
recheados mais saborosos do mundo, arrumá-las nas prateleiras do supermercado onde
trabalhava, vestir uma camiseta supercolorida e sorrir para o mundo, tentando convencer a
todos — inclusive a mim — que tudo estava certo e que eu era parte daquela vida feliz que
todo mundo parecia ter.
O pior de tudo eram as redes sociais, que eu custei muito a entrar, mas me cadastrei
após alguém me dar a ideia de que poderia encontrar algum conhecido. Decepção. Contudo, ali
era um mar de alegria e felicidade tão absurdo que eu ficava me questionando se as pessoas
eram tão felizes assim ou se era fachada de internet. Mas os sorrisos, esses sim estavam ali,
estampados na cara de cada cliente, cada funcionário, cada criança ranhenta.
— Bom dia! Obrigada! Volte sempre! A senhora já experimentou o biscoito
Gulosinhos? Os recheados mais saborosos do mundo! — Eu simplesmente detestava aquela
rotina.
Eu fingia fazer parte daquele universo feliz. Era o que eu fazia, mas sentia, bem lá no
fundo, que não era o que eu devia fazer de verdade, embora nenhuma ideia mais legal
conseguisse se instalar na minha cabeça sem que eu tivesse a mesma sensação de estar
cometendo um erro enorme.
Não conseguia medir o nível de confusão em que estava. Desesperava-me ao
compreender que não saber o que fazer era o menor dos meus problemas. Ninguém estava
imune à total confusão mental se não conseguisse se lembrar de suas origens, seu passado, da
vida que costumava levar antes da palavra costume perder totalmente seu significado, ou seja,
quem eu era há dez anos.
Tudo se resumia a ingressos para shows e boates, um batom cor de sangue e uma peça
íntima muito ousada. Além de um grupo de pessoas que se diziam meus amigos — mas que
nunca vi mais gordo — que me impuseram um nome e falaram coisas sobre mim como se
estivessem falando de alguém que, igualmente, nunca vi mais gorda. Pedi aos meus amigos
que me mostrassem fotos de quem eu era, mas todos me disseram que eu corria de fotos como
o diabo corre da cruz. Num mundo tão digital, não entendia como não havia sequer uma selfie
minha!
Sinceramente, não fazia ideia de quem era Mikaela, uma jovem órfã de vinte e um anos
que amava se divertir como se não houvesse amanhã, bebia exageradamente, usava drogas e
amava tirar algumas peças de roupa em cima de um palco escuro e sombrio. Uma louca
esquisita e misteriosa que fazia amizades noturnas, nunca conversava sobre nada que fosse
pessoal demais, de forma que as pessoas mais próximas simplesmente não sabiam em que ela
trabalhava ou onde morava.
Todos os shows mórbidos foram cancelados, as boates fecharam, as drogas ilícitas
deixaram de existir e o mundo se tornou um lugar onde não cabia a antiga Mikaela. Tanto faz,
porque jamais me veria cometendo tantas atrocidades. Talvez fosse por causa daquilo que eu
tinha perdido a memória — ou sofrido uma Perda Hemisférica de Memória Sem Agente
Desencadeador Conhecido, como está escrito em meu laudo médico —, jamais me adaptaria
ao novo mundo.
Pelo menos foi essa explicação que ouvi dos tais amigos que, aparentemente, mudaram
de atitude sem precisarem se esquecer de si mesmos. O mundo tinha alcançado um estágio de
tanta bondade e pureza que coisas muito diferentonas acabaram perdendo completamente o
espaço. Também devia ser por isso que nunca consegui me adaptar, mesmo sem fazer ideia do
que estava faltando para que eu começasse a sorrir sem motivo, como faziam as pessoas que
passavam por mim no corredor de biscoitos. Eu simplesmente, dentro de mim, sabia que não
me encaixava naquele mundinho perfeito.
Entretanto, aquela parte da minha história só eu conhecia, coisa rara, já que todos
sempre sabiam sobre mim mais do que eu mesma. Apesar de viver uma vida tranquila, de ter
ganhado do Governo um apartamento grande, arejado, com varanda e uma boa expectativa de
vida, apesar de meus vizinhos serem ótimos, bem como todos do prédio, do bairro, da cidade,
do país... Apesar do clima geral de felicidade, de ver que todos se ajudavam e que ninguém
estava sozinho... A solidão se enraizara no meu peito de modo que, durante aqueles dez anos
de vida nova, jamais consegui me sentir feliz, o vazio dentro de mim era como um buraco
negro.
Ninguém podia saber. Ausência de felicidade era um erro tremendo, um pecado que
todos sabiam que ninguém seria capaz de cometer, e que eu não somente fui capaz como
cometia repetidas vezes, trancada em meu reduto de fachada alegre. Não que coisas ruins
nunca acontecessem no dia a dia, mas a esperança que via nos olhos das pessoas não
atravessava os meus. Era como se eu fosse proibida de sentir tão bom sentimento, afinal,
melhor do que de fato ser feliz era ser esperançoso. Eu me contentaria se ao menos sentisse
esperança.
Eu não guardava nada de prazeroso para me consolar; nem uma música, um livro, um
programa de TV, um jantar à luz de velas. Nada era motivo de júbilo. Nada varria o imenso
vazio para debaixo do tapete da minha alma. Não tinha lembranças, fossem elas boas ou ruins,
e todas as que tentei juntar naqueles dez anos foram cobertas pela amargura, má vontade,
insatisfação, tédio, raiva e, às vezes, ódio. Sentia-me uma criminosa, com medo de ser
descoberta e tratada como a aberração que eu provavelmente era.
Se aquelas pessoas soubessem que por trás da garota do Gulosinhos havia uma mulher
que só faltava explodir de tanto ódio, com certeza me internariam ou dariam um jeito de me
tirar de circulação. E aquilo eu não queria, pois a liberdade era a única coisa que me restara, se
é que podia chamar de livre uma vida construída por mentiras — as que me contaram e as que
eu já cansei de contar.
Simplesmente não confiava em ninguém. Não me entrava na cabeça outra coisa além
da ideia de que todos viviam imersos em uma existência falsa, programados para serem felizes
como naqueles comerciais de margarina. Sempre achava que, por trás daqueles sorrisos, havia
maldades que eu desconhecia, mas que minha alma entendia profundamente e por isso não se
deixava enganar.
De uns meses para cá, meus pensamentos conturbados pioraram. Fiz questão de afastar
todos os amigos de minha vida anterior, uma parte por ter certeza de que só me aturavam
porque tinham pena de mim e outra porque eu só os aturava para não ficar muito sozinha. O
que era uma tremenda ironia, pois sempre me pareceu que, quanto mais pessoas houvesse ao
meu redor, mais longe minha mente estava. O problema era que, conforme eu me afastava
também fisicamente, ficar sozinha foi se transformando no meu novo hobby, principalmente
quando sabia que meu quadro de doença, ou loucura, estava ficando cada vez mais instável.
As dores de cabeça eram horríveis, e as de dente também. Qualquer dentista que eu
frequentasse — e que nunca resolvia o meu problema — dizia que nunca tinha visto uma
arcada dentária tão perfeita e resistente quanto a minha, portanto não dava para entender o
porquê de tanta dor. Eu evitava comer a maioria das coisas de que gostava, talvez um dos
motivos por eu estar constantemente de mau-humor.
Também deixei de sentir sono. Era como se meu metabolismo, já bastante acelerado
para uma pessoa comum — segundo me disseram os médicos quando fui diagnosticada como
pertencente aos sete por cento —, se recusasse a me deixar relaxar. Eu ficava sempre em
alerta, achando que estava sendo perseguida e agindo como se eu estivesse perseguindo algo
que desconhecia, mas que era fundamental para mim. Não era incomum ouvir sons e vozes que
eu tinha certeza que não estavam lá. Ouvi falar de uma doença chamada de zumbido no
ouvido, não sei se era aquilo que eu tinha, mas o incômodo era constante e enlouquecedor.
Quando finalmente conseguia dormir, após tomar vários remédios, tinha sonhos
bizarros que envolviam mortes e muito sangue. Geralmente era eu quem matava as pessoas
nesses pesadelos, o que os deixava ainda mais assustadores. Entretanto, não chegava a ter
medo de mim mesma, por mais maluca que me auto-intitulasse. Desde que me lembro, sempre
fui uma pessoa boa, apesar de tudo. Jamais tiraria a vida de alguém e não achava que tinha um
comportamento psicopata.
Bom, não achava até que comecei a sonhar acordada também. Aconteceu pela primeira
vez na semana retrasada, quando estava indo ao trabalho pela manhã. Sem querer — e eu não
queria mesmo —, acabei me encontrando com uma das antigas amigas e, enquanto
conversávamos, não consegui parar de contabilizar as tantas maneiras que poderia utilizar para
matá-la. Fiquei com água na boca e as mãos coçando para fazê-lo; ninguém tem noção do
tamanho controle que precisei ter para não cometer uma barbaridade.
Tudo bem que eu sempre a odiei, mas nada justificava meu comportamento. Nunca
havia sido um ódio mortal como daquela vez, mas aquela amiga gostava de brincar com a
minha cabeça, mencionando o tempo todo um suposto namorado que eu possuía na antiga
vida. Não me lembrava do sujeito, claro, e ninguém além dela sabia nada sobre ele, tornando a
situação ainda mais esquisita — como se não bastasse o fato de eu ser estranha o suficiente.
Questionei-a muitas vezes, pedi mais informações, fotos, um número de telefone, mas,
convenientemente, ela tinha perdido seu celular. Eu sabia que ela estava mentindo, colocando
caraminholas na minha cabeça. Se bem que, se fosse verdade, o cara simplesmente evaporara,
deixando-me sozinha a fim de se aproveitar da minha amnésia. E então estariam justificados os
motivos de ninguém saber nada sobre ele: qualquer coisa que pudéssemos ter não ultrapassava
a falta de compromisso.
Ela era a culpada pela minha mania de procurar rostos dentre a multidão. Desde que me
falou que o cara era alto e negro, simplesmente não conseguia ver um homem com tais
características sem me sentir uma idiota. Para alguém que se dizia sem esperanças, até que me
saía bem quanto a isso. Bem lá no fundo, desejava encontrar aquele cara para lhe perguntar
pelo menos sobre a profissão que eu seguia antes de perder a memória.
Devia ter sido por isso que, quando finalmente me dei por vencida e procurei uma
terapeuta para informar sobre os meus mais recentes surtos psicóticos, acabei não falando
absolutamente nada sobre eles — podia estar maluca, mas nem tanto a ponto de confessar
meus pecados —, só falei sobre o cara negro e o quanto me perturbava procurar por alguém
que não existia. Ela teve a ousadia de me dizer que eu estava fugindo do meu passado e que
não conseguia lidar com a ideia de que um dia tive um. Vê se pode? Claro que não voltei para
aquele consultório-espelunca.
Senti alguma coisa mexendo na barra do meu uniforme. Era uma criança sorridente,
esperando com alegria para receber uma amostra grátis do Gulosinhos. Estendi um pacote com
impaciência. Revirei os olhos quando percebi que a mãe dela me olhou com ar desconcertado e
sorriu falsamente.
— Você não tem filhos? — a mulher perguntou, e meu primeiro pensamento foi lhe
perguntar se aquela informação era de sua conta. Todo mundo aos trinta e um precisava estar
casada e ter filhos?
— Não. — A pentelha tentava abrir o pacote com os dentes, mas só conseguia deixá-lo
cada vez mais babado. Eca.
— Desculpe-me, você é tão nova.
Ofereci-lhe meu sorriso mais caricatural e fingi estar ocupada organizando a prateleira.
Nada respondi, pois não adiantaria convencê-la de que não, eu não era tão nova, embora
parecesse. A única coisa que mudara em mim naqueles dez anos foi o comprimento do meu
cabelo, nada mais.
Um médico um dia me disse que eu sofria de uma espécie de envelhecimento
retardado. Quase falei que o retardado era ele, mas não podia questionar o meu espelho, que
teimava em me deixar intacta. Podia parecer loucura, muitas mulheres usavam cremes e
passavam por inúmeras cirurgias para evitar o envelhecimento... Mas eu queria envelhecer!
Era envelhecendo que todos tinham a certeza de que morreriam em breve. Eu sabia o quanto
soava doentio, mas respirar me causava tédio.
A mulher saiu do meu campo de visão, levando a criança consigo, e finalmente pude
parar de exibir meu lado atriz. Suspirei fundo e dei de ombros. Estava cansada. Os saltos que
eu era obrigada a usar diariamente acabavam com os meus pés.
— Ei, Mikaela... Como vai? — Levei um susto e derrubei alguns pacotes de
Gulosinhos no chão. Sérgio Florêncio se materializou na minha frente, era um dos seguranças
do supermercado. O cara tratou de me pedir mil desculpas e de me ajudar a colocar os pacotes
de volta na bandeja. Praguejei internamente durante todo o processo. — Desculpa, princesa.
Não queria assustá-la.
Demorei um pouquinho observando seu sorriso galante. Sérgio estava nitidamente
disposto a me levar para jantar há algum tempo. Fechava o cerco e me tratava tão bem que me
dava vontade de vomitar na cara dele. Não que ele fosse feio ou cheirasse mal, muito pelo
contrário, o segurança era tão atraente que nem mesmo seu uniforme o deixava menos
comestível, além de que exalava um cheiro bom de perfume masculino importado.
Definitivamente, eu nunca fui daquelas menininhas fresquinhas que gostavam de galanteios,
mimos e pessoas pegajosas. De pegajosas já bastavam as crianças melequentas que rodeavam a
minha seção.
O problema era comigo. O problema sempre era comigo.
— Relaxa aí — ignorei o galanteio. Essa mania do Sérgio me chamar de princesa me
cansava.
— Estava pensando... — começou, mas eu não podia deixar que terminasse.
— Preciso pegar uns...
—... se você queria ir ao...
—... pacotes lá no galpão.
O sorriso de galã se esvaiu. Quase tive pena, mas eu já o conhecia suficientemente bem
para saber que a situação se intensificaria se eu a deixasse se prolongar.
— Tudo bem, princesa. — Estremeci por dentro.
Sorri e me virei, pronta para ir ao galpão e ficar olhando para as prateleiras até alguém
desconfiar de que eu não tinha nada para fazer por lá. No entanto, antes que pudesse me livrar
do bonitão, senti uma mão segurar a minha, impedindo a fuga. Um choque percorreu meu
corpo. Não uma sensação boa como quando se é tocado pela pessoa amada, mas algo como se
fosse uma violação. Encarei o segurança, que já tinha voltado a sorrir.
Puxei minha mão com uma força que não pretendia usar e percebi que ele ficou
constrangido por ter agido sem meu consentimento.
— Por que você sempre foge de mim? — Ele fez aquela cara de cachorrinho pidão,
mas para mim ele estava pedindo um soco bem no meio da cara.
— Não estou fugindo de...
— Claro que está, Mikaela. O que fiz de tão errado? Você é jovem, bonita e solteira, o
que te impede de aceitar um simples convite para um jantar?
Parei um pouco, confusa, olhei fundo em seus olhos e disparei:
— Como sabe tantas coisas sobre mim? — exibi uma careta feia que era a verdadeira
expressão que traduzia meus sentimentos. Sérgio voltou a sorrir.
— Duas delas eu descobri sozinho. — Olhou-me dos pés à cabeça de um modo irritante
e depois corou de vergonha por ter sido indiscreto, o que me irritou mais ainda. — A última, vi
em sua ficha cadastral. — Ele corou mais ainda, deixando rosinha sua pele outrora branca.
Gaguejei algumas coisas ininteligíveis, sentindo-me uma babaca. Coloquei uma das
mãos na cabeça, como que segurando os pensamentos para que não se transformassem em
palavras e deixassem o abrigo de meu cérebro.
— Há algum problema? Tem medo do que as pessoas vão falar? —Sérgio continuou,
ignorando meu total desconcerto. — Sei que trabalhamos no mesmo lugar, mas não vejo isso
como um empecilho para...
— Não há problema algum comigo — menti. Odiava, do fundo do meu coração,
quando alguém me perguntava se eu tinha algum problema. — Só não quero sair contigo.
Você ainda não entendeu? Quer que eu desenhe? Você se acha tão irresistível que, se uma
mulher lhe diz não, ela só pode estar com algum problema?
Achei que o Sérgio ficaria magoado — como era minha real intenção —, porém ele
apenas suspirou e continuou me olhando com suavidade. O cara era tão legal que sequer
conseguiu ficar chateado com a minha atitude. Em vez de me xingar, tocou a lateral da minha
face com doçura. Contudo, o excesso de açúcar só me trouxe ainda mais enjoo. E raiva.
— Só me dê um motivo, princesa. Por favor.
Eu tinha uma lista imensa de motivos para não sair com aquele cara, e pode ter certeza
de que o fato de trabalharmos no mesmo local sequer estava contido nela. Encarei-o por tanto
tempo que a raiva só fez aumentar. Prendi os lábios e apertei minhas mãos contra a bandeja
que eu segurava. Autocontrole era a palavra que minha mente repetia sem pausas, porém
nenhum esforço que fiz adiantou.
Ergui a bandeja, derrubando todos os pacotes no chão, e a atirei contra a cabeça de
Sérgio. O barulho estridente que o alumínio fez quando se chocou no piso foi ensurdecedor. O
segurança deu vários passos para trás, atordoado. Acho que, como eu, não acreditava que eu
tivesse sido capaz daquele ato de violência. Chamei a atenção de alguns clientes que
circulavam pelo amplo corredor de biscoitos.
Juro que não pensei em recuar. Continuei observando os olhos claros da minha presa
com ar cruel, até que lhe agarrei o pescoço com as duas mãos. Empurrei seu corpo grande
contra a prateleira localizada no lado oposto. Sérgio foi com tudo, engasgando, tentando
berrar, mas sem conseguir. Por ser quase da altura dele, não tive dificuldade de encostar nossos
rostos sem largá-lo. Uma força descomunal, característica que herdei não sei de quem, se
apossou do meu corpo e me fez apertar a garganta do cara até sentir alguma coisa dentro dele
se rompendo.
— Não me chame de princesa — rosnei baixo, como uma fera atiçada com vara curta.
— Vou te dar muitos motivos, seu otário: você é legal e isso me dá nojo. Conheço caras como
você, são certinhos demais, perfeitos demais. Querem um relacionamento sério, casamento,
filhos, fim de semana no campo... Como eu odeio essa vida perfeitinha que você vive! —
Minhas mãos pareciam feitas de aço. Sérgio começou a verter sangue pela boca, mantendo os
olhos vidrados em mim de um jeito assustador.
Encarei seu sangue como se estivesse hipnotizada. Parei de falar porque, de repente,
qualquer coisa era menos interessante do que vê-lo sangrando com desespero. O líquido
vermelho me atraiu como a um imã. Foi contra toda a normalidade que segui ao encontro de
sua boca, beijando-o e sugando saliva e sangue. Sérgio estava tão desesperado que não foi
capaz de me impedir. Bem que tentou me fazer largá-lo, porém meus punhos firmes o
mantiveram no lugar.
— Não queria tanto um beijo meu? Aí está!
Afastei nossas bocas e fechei os olhos. Tentei me recordar da última vez que me senti
tão bem quanto naquele instante. Não encontrei nenhuma lembrança, por isso tive certeza de
que nunca havia me regozijado tanto nos últimos dez anos. Lambi meus próprios lábios e
reabri os olhos. Sérgio já estava sem vida. Havia morrido com os olhos esbugalhados e a boca
sangrenta escancarada.
Não satisfeita, pressionei minhas mãos até seu corpo cair inerte no chão, separado de
seu crânio. Sorri ao constatar o estrago que eu havia feito. Depositei a cabeça sem corpo na
prateleira e procurei a bandeja no chão. Continuaria distribuindo os Gulosinhos em paz.
Finalmente.
— Mikaela? Mikaela, você está bem, princesa? — a voz do segurança invadiu meus
devaneios.
Pisquei diversas vezes. Abri a boca, absolutamente descrente, quando vi o Sérgio ainda
diante de mim, vivinho. Conferi seu pescoço; estava intacto, interligando tronco e cabeça como
era seu dever fazer.
Dei alguns passos para trás, sentindo meu corpo desfalecer devagar. Ele tomou a
bandeja das minhas mãos e a colocou em cima de uma das prateleiras, depois veio em meu
socorro. Comecei a respirar forte, angustiada, desesperada. Não podia acreditar que havia
acontecido de novo. Mais um surto psicótico? Onde aquilo ia parar?
— Princesa... O que você tem? Estou muito preocupado contigo — Sérgio murmurou
enquanto me amparava de um jeito tão cavalheiro quanto romântico. Qualquer mulher amaria
ser tratada com tanto carinho.
Observando seus olhos de perto, percebi que eu estava feliz por ele ainda estar vivo.
Não sabia de onde vinha tanta ira, mas eu não queria senti-la.
— Desculpa — falei com sinceridade. Estava me desculpando por tê-lo matado, mesmo
que tivesse acontecido somente durante o surto. — Você é legal, Sérgio.
Ele sorriu largamente, como se o que eu tivesse dito fosse um elogio, mas não foi.
Talvez significasse apenas uma justificativa para a minha cabeça entender que não se matava
alguém por ser legal.
— Você também é. — O cara, definitivamente, não me conhecia. — Está se sentindo
melhor?
— Sim... Sim, obrigada. — Afastei-me de seus braços vagarosamente. — Quem sabe
outro dia, está bem? — falei, referindo-me ao convite para jantar.
Sérgio entendeu aquilo como um indicativo para manter a esperança em vez do que
realmente era: um indicativo de que eu queria me ver livre de sua presença o mais rápido
possível, sem maiores questionamentos, sem ofertas de ajuda, sem mais galanteios.
— Certo, princesa. Vou cobrar, hein? — Piscou um olho e foi embora, deixando-me
com mais uma perturbação mental para dar conta.
A primeira pessoa em quem pensei foi na Eva Sales, a terapeuta sem-noção que pelo
visto só fazia dizer verdades na lata. Precisava marcar um novo horário naquela espelunca.
Jurei que não voltaria lá, porém seria mais seguro tentar tratar a minha loucura do que dar asas
a ela até ser tarde demais.
Capítulo 3
André

— Levanta André, você já está atrasado! — Senti duas mãos chacoalhando o meu corpo
e acordei assustado, com o coração quase saindo pela boca.
— Cara, você não podia ter feito isso, não podia ter me acordado justo agora que eu
estava sonhando com a mulher mais linda do mundo... — resmunguei, ainda tentando fazer
meus batimentos cardíacos voltarem ao normal. Eu ia matar o meu amigo por ter me acordado
justamente quando estava na melhor parte do sonho.
— Já passou da hora e ainda queria ficar sonhando?
— O quê? Você está maluco, Frederico? Desde quando eu tenho horário? Quem faz meu
cronograma sou eu, cara!
— Tá de zoeira, né?
— Por quê?
— Primeiro, meu nome é Fred! Segundo, hoje é o dia da reunião da empresa. Eu já estou
quase pronto, pensei que você estivesse se arrumando.
— Caraca, esqueci! — Dei um tapa no meio da minha testa. — Que horas são?
— São dez para as oito e precisamos estar lá às oito e meia. Não vou te esperar, estou
indo nessa, lamento, mas já estou em cima da hora.
— Otário, nem vai me dar carona?
— Você que deu mole, a gente se vê lá porque hoje na rádio falou que o trânsito estará
um inferno. Falou, fui!
Fred saiu comendo uma fatia de pão e eu tratei de pular da cama. Estivera sonhando com
a deusa linda de cabelos vermelhos que vira há quatro dias e que não saía mais da minha
cabeça. Pelo visto, o sonho estava bom demais para que meu relógio biológico me avisasse que
era hora de levantar. Normalmente eu não usava despertadores, apenas mentalizava a hora de
acordar antes de dormir e meu corpo fazia o resto do trabalho. Contudo, pensando bem, acho
que na noite anterior tudo que fiz foi pensar nela, como vinha fazendo desde o primeiro
momento em que a vi. Ainda não sabia seu nome, mas por alguma razão o nome Mikah não
saía da minha mente. Será que ela fazia parte do meu passado esquecido? Muito difícil.
Fui para o banheiro e tomei uma ducha rápida, não havia tempo a perder. Coloquei meu
melhor paletó, afinal, aquele era o dia de encontrar com as gatinhas que trabalhavam nos
escritórios da empresa. De vez em quando eu errava o pedido do cliente de propósito, só para
ter que ir até lá resolver. Obviamente, tudo poderia ser feito por telefone, mas sempre dava a
desculpa de que era mais fácil realizar os procedimentos pessoalmente. Aquela era uma
oportunidade maravilhosa para estar ainda mais bonito, arrumado e cheirozão, com meu
perfume importado que chegara pelos correios dois dias antes, bem a tempo.
Fiz um lanche rápido, escovei os dentes, olhei no relógio e... Minha nossa! Já eram oito e
quinze. Deixei de lado a rotina matinal de checar as mensagens no aplicativo do celular e
também nas redes sociais. Tinha quinze minutos para estar no escritório seguindo um trajeto
que, normalmente, demorava quase quarenta minutos para ser percorrido. Não tinha jeito, teria
que pegar minha moto de quinhentas cilindradas e enfiar o pé, ou melhor, a mão no acelerador.
Peguei meu capacete, que sempre estava atirado em algum canto da sala, fechei a porta da
frente com atenção para não ter que voltar e conferir, desci até o estacionamento, peguei a
moto e saí.
Passava pelos carros como se fosse uma bala disparada por uma potente arma. A
adrenalina era viciante. Eu até evitava utilizar minha moto muitas vezes, pois sempre sentia a
enorme compulsão de correr, fazer manobras arriscadas, cortar sinais vermelhos apenas pela
emoção e risco de causar um acidente. Sim, é uma coisa estúpida de se fazer, mas juro que é
um instinto animal, mais forte do que eu. Ultimamente, com todos os sintomas que me
assolavam, eu sentia ainda mais o desejo de fazer loucuras e já tinha feito uma boa parcela
delas.
Era muito estranho, para as pessoas, ver alguém fazendo o que eu fazia, uma vez que a
sociedade estava muito mais pacata e obediente às leis após a pacificação mundial. Por um
bom tempo, também fui mais um cordeirinho entre tantos, mas ultimamente minha pele de
lobo era bem mais aparente. Não quis me abrir cem por cento com a doutora Eva, mas
recentemente vinha passando por experiências estranhas.
As fortes dores de cabeça foram apenas o início de tudo. Com o avançar das semanas,
passei também a sentir dores lancinantes pelo corpo todo, como se meu esqueleto quisesse
rasgar os músculos e sair. Coincidentemente, isso piorou muito desde minha consulta com a
psicóloga. Na noite retrasada, a dor foi tanta que enchi uma velha piscina de plástico que
estava no apartamento quando cheguei para morar com Fred, meu colega de trabalho. Coloquei
bastante água e todo o gelo que encontrei. Cheguei a ir a um posto próximo e comprei todos os
sacos de gelo que eles tinham. Devo ter sofrido uma hipotermia brava, mas foi a única forma
de aliviar um pouco os sintomas. Sorte que o Fred havia saído com sua ficante e não iria
dormir em casa, pois seria muito difícil explicar o que seria aquela cena. Nem eu entendi
direito.
Quando resolvi buscar ajuda, eu já havia desistido de procurar os médicos. Toda vez era
a mesma coisa. Faziam infinitos exames de todo o tipo que existe e, no fim, nada era
descoberto. Sempre ouvia a mesma resposta: — Senhor, seus exames não apresentaram nada,
deve ser alguma consequência do que aconteceu há dez anos. Talvez sintomas da PHMSADC
(Perda Hemisférica de Memória Sem Agente Desencadeador Conhecido). Eu já estava de saco
cheio de ver todos os meus problemas colocados na conta daquela doença misteriosa. Porém,
quando tudo se tornou demais para suportar, rendi-me e marquei a consulta com a doutora Eva.
Rasgava a pista o mais rápido que a moto me permitia, já não faltava muito e talvez não
fosse me atrasar, afinal. Ao chegar próximo à sede da empresa, desacelerei. Não podia
aparecer assustado e afobado, minha entrada precisava ser gloriosa. Aproximei-me do
estacionamento lentamente, exibindo minha moto e meu terno novo. Parei, retirei o capacete,
recoloquei os óculos escuros, dei uma ajeitada nos dreads, pisquei para uma moça que me
olhava e dirigi-me à recepção.
— Bom dia, Mara. Ou devo dizer, maravilhosa?
— Ah, André, deixa disso que assim eu fico envergonhada. — A mulher corou
violentamente, e eu abri ainda mais o meu sorriso.
— Vergonha do quê, minha linda? A reunião já começou?
— Ainda não, o trânsito está fazendo muita gente se atrasar, resolveram dar mais quinze
minutos de tolerância. — Ela sorria, sem jeito.
— Obrigado pela informação e continue com o excelente trabalho. — Dei uma piscadela
e a recepcionista me retribuiu com o mesmo sorriso tímido.
A Mara nem era aquela maravilha toda, mas eis uma lição importante, se quiser se dar
bem com as lindas, trate as bonitas bem e as não tão bonitas, melhor ainda. Digo não tão
bonitas, pois me recuso a aceitar que existam mulheres feias. Tem mulher que não sabe se
arrumar, isso é uma grande verdade, mas de todas dá para tirar algo de belo, nem que seja o
caráter. Bom, isto não é um curso de como conquistar as mulheres, então a lição termina aqui.
Olhei no relógio, eram oito e trinta e sete. O atraso fora pequeno, mas o retardo da
reunião me deu tempo de ir ao banheiro tirar uma água do joelho e dar um retoque no cabelo.
Entrei tranquilamente e fui até o mictório, pois as cabines estavam fechadas. Quando havia
começado a urinar, escutei a voz mais odiosa que já ouvi na vida:
— Andy! Que prazer em revê-lo. — O sujeito colocou a mão no meu ombro.
— Robson, você acabou de mijar e está colocando a mão em mim! — Tentei me
desvencilhar, mas eu ainda estava fazendo xixi e não queria molhar meus sapatos caros. — É
sério isso?
O maldito deu uma gargalhada. Meu sangue ferveu.
— Ah, Andy, vai ficar de cerimônia? Você já fez coisa pior com o meu Virgulino.
Conforme a conversa se desenrolava, outros funcionários que estavam no banheiro foram
saindo apressados para a reunião e só ficamos nós dois.
— Meu nome não é Andy e eu nunca te dei essas intimidades, Robson. Aliás, que tipo de
imbecil dá nomes para seu pênis, ainda mais de Virgulino?
— Esqueceu do Virgulino, Andy?
— Eu nunca tive nada com você, nunca te dei a liberdade e não acho graça nas suas
piadinhas ridículas. Tira a mão de mim! — Dei um tapa na mão dele, que ainda posava em
meu ombro. O ódio começou a me corroer.
— Calma, Andy. Você tem raiva só porque sou o Top Seller,e quem vai para as Bahamas
novamente este ano, com tudo por conta da empresa, sou eu! Se você se comportar bem, deixo
você ir como meu acompanhante...
Juro que tentei me segurar, mas conforme aquele idiota do Robson ia falando, o sangue
ia fervendo. Ele já me atormentava há meses, desde que eu chegara à cidade. No princípio, ele
até foi legal comigo. Como precisava fazer amigos, cheguei a sair com ele e com a turma
algumas vezes. Eu já tinha ouvido falar dele na cidade onde trabalhava antes, mas nada muito
específico.
Acontece que ele era um verdadeiro pé no saco e me irritava constantemente. Tudo bem,
o cara era um ótimo vendedor, mas aproveitava para rebaixar os outros por conta disso.
Aqueles não tinham sido os meus melhores dias do mês, fora as dores incessantes, o calor...
— Afaste-se de mim, agora! — Terminei o meu xixi e fechei o zíper da calça. Virei de
frente para o idiota, a fim de encará-lo severamente. — É o último aviso!
— Nossa! Como ele está violento, gente! O que você vai fazer, hein, hein? — Ele me
cutucava com os dedos que, minutos antes, haviam segurado o Virgulino e não tinham sido
lavados.
— Cara, eu estou te avisando...
— Cão que ladra não morde. — Robson puxou meus cabelos.
Foi instintivo, uma coisa animal inesperada e assustadora até mesmo para mim. Segurei
sua mão com força e mordi o dedo indicador de Robson a ponto de quase arrancá-lo. O sangue
começou a escorrer imediatamente. O susto foi tão grande que meu colega de vendas sequer
conseguiu gritar, tudo que pôde fazer foi me olhar horrorizado e visivelmente descrente que
aquela situação estivesse acontecendo.
Soltei seu dedo, passei a mão em meu queixo e, em seguida, olhei para o sangue dele
em minhas mãos. Robson encostou-se na parede e tentou sair do banheiro, mas eu estava em
seu caminho. Quando se aproximou, empurrei-o pelos ombros. Assustado, ele tentou se
esconder em uma das cabines reservadas, trancando a porta e subindo na privada. Como um
animal, dirigi-me até a cabine e dei um chute na porta, que se quebrou. Agarrei-o pelo
colarinho, atirei-o ao chão e comecei a chutá-lo e a socá-lo.
— Não morde, né? Cão que ladra não morde? Só que eu não sou um cão, seu idiota, eu
sou um lobo, está entendendo? Um lobo selvagem! — Continuei chutando enquanto Robson
chorava e se contorcia.
— O que você está fazendo, André? Era apenas brincadeira, o que você está fazendo? —
as perguntas eram entrecortadas pelo choro e pela perda de fôlego cada vez que era golpeado.
— O que eu estou fazendo? —parei, de repente tomando ciência da situação. — O que
eu penso que estou fazendo? — Olhei para as minhas mãos ensanguentadas.
— Por favor, não me mate, eu não conto nada para ninguém... — Robson suplicava.
Aterrorizado, limpei minhas mãos com um papel toalha e corri para fora do banheiro.
Passei voando pela recepção e sequer respondi à pergunta de Mara, que queria saber para onde
eu estava indo. Fui até o estacionamento, subi em minha moto e saí acelerando loucamente.
Não sabia o que tinha acontecido comigo, eu jamais fizera algo do tipo. Ou será que fizera em
minha vida pregressa? Eu precisava pensar, precisava me isolar de tudo e de todos.
Rasguei pelas pistas da cidade com meu coração batendo acelerado e minha adrenalina à
mil. Ainda não entendia nem acreditava no que estava acontecendo, aquilo não podia ser
verdade, de jeito nenhum. Os carros pareciam apenas borrões para mim, a luz do sol brilhava
forte na viseira do meu capacete, cegando-me parcialmente. Minha dor de cabeça infernal
começou a me afetar novamente, justo naquele momento. Eu precisava de um refúgio, de me
isolar, urgentemente.
Quando me dei conta, estava pilotando através de uma estrada de terra. Árvores
frondosas e altas preenchiam os dois lados da paisagem, quase formando um arco completo
por sobre a pista. O ar fresco e o aroma da manhã da floresta me inebriavam. A sensação de
liberdade era indescritível. Comecei a pilotar mais devagar, observando a linda paisagem que
se desenhava diante de mim. Eu não sabia como tinha pilotado até ali e nem sabia que no
entorno daquela cidade havia um lugar tão maravilhoso.
Parei o veículo, retirei o capacete, desliguei o motor, coloquei o suporte e desci da moto.
Depositei o capacete no guidão e olhei ao redor. Os raios de sol, que atravessavam as
folhagens, tocaram meu rosto de modo reconfortante. O que estava acontecendo comigo?
Ouvi barulho de passos nas folhas. Parei e escutei. O belo cantar dos pássaros se
misturava ao som de insetos. Ouvi os passos novamente e olhei para a direção de onde
pareciam vir.Para meu espanto, vi uma bela mulher de cabelos lisos e vermelhos. Lábios
igualmente vermelhos continham um sorriso. A mulher parecia me provocar, mas não emitiu
nenhuma palavra. Apenas caminhava se apoiando nos galhos baixos das árvores, num ritmo
que lembrava o de uma valsa. Sim, ela valsava com a natureza.
Como se me aproximasse de algum pequenino animal, com medo de assustá-lo,
caminhei lentamente. A mulher pareceu não se incomodar, até que eu estivesse perto demais.
Ela sorriu, virou-se e saiu correndo pelo campo.
— Espere! Por favor, quem é você? Onde estou, afinal? —minha voz não parecia minha,
era como se eu estivesse sob o efeito de algum anestésico.
Tentei correr atrás dela, mas minhas pernas perderam as forças e uma dor de cabeça
insuportável me fez gritar e cair no chão. Em posição fetal, segurei meus cabelos e parecia
querer arrancá-los, tamanha era a dor que me acometia.
— Mikah! — meus lábios pronunciaram involuntariamente.
A dor me fez desmaiar.
Meus olhos se abriram, e a luz do sol me cegou. Esfreguei as mãos no rosto e sacudi a
cabeça. Enxerguei um vulto se aproximar de mim, antes que meus olhos se acostumassem com
a claridade.
— Você está bem? — perguntou-me uma voz doce.
— Mikah? — pronunciei o nome mais uma vez.
— O senhor sabe onde está?
— Estou na floresta— respondi, para logo em seguida enxergar o quarto onde me
encontrava.
— Tem certeza?
Eu já não tinha certeza de mais nada. Para não parecer um louco completo, decidi ser
coerente com o que eu estava vendo diante de mim:
— Estou num hospital. O que foi que aconteceu?
— O médico logo estará aqui para responder a todas as suas perguntas.
— O que foi que aconteceu? — insisti.
— O senhor se envolveu em um acidente de moto. A coisa parece ter sido realmente feia,
é um milagre que esteja bem desse jeito — explicou-me uma enfermeira.
— Minha moto?
— Bom, pelo que me disseram, o pouco que sobrou dela foi recolhido para o pátio da
polícia.
— Há quanto tempo estou aqui?
— Pouco mais de vinte e duas horas.
— Que horas são agora?
— Quase sete.
Fechei os olhos e respirei fundo. A dor havia passado. Provavelmente por causa dos
fortes analgésicos que entravam pelo equipo que estava ligado ao soro com medicamento.
— Vou avisar ao doutor Hernandes que o senhor acordou, com licença.
— Meu celular?
— Está na mesinha, junto com os demais pertences, mas o senhor não pode pegá-lo
agora, tudo bem?
— Tudo bem — minha cabeça doía demais para discutir.
A enfermeira saiu e, conforme se afastava, reparei no seu belo rebolado. O que havia de
errado comigo? Até quebrado no hospital eu tinha que ficar prestando atenção naquelas coisas?
Eu era mesmo incorrigível.
Logo, senti uma forte vontade de urinar, por isso me levantei, ainda um pouco zonzo,
retirei o soro do suporte e carreguei-o até o banheiro. Assim que abri o zíper, lembrei-me de
Robson. O que teria acontecido? Teria tudo sido um sonho?
Voltei para meu leito e o médico já me esperava.
— Como o senhor está se sentindo?
— Estou ótimo. Quero ir embora.
— Acalme-se! O senhor escapou de um acidente muito feio. Qualquer um que olhe para
a sua moto diria que o piloto não sobreviveu. É mesmo um milagre.
— Se estou bem, deixe-me ir.
— Gostaria que o senhor ficasse em observação por mais um dia, pelo menos.
— Não quero. Onde é que eu assino para sair daqui? Devolva as minhas coisas!
Precisava deixar o hospital. Sabia lá se a polícia não apareceria a qualquer momento,
cobrando informações sobre o que eu fizera com o Robson! Precisava de um tempo para
pensar, arrumar alguma desculpa. Fiquei parado encarando o médico, esperando por uma
resposta.
Meio sem jeito, ele falou:
— Senhor André, eu insisto para que o senhor fique aqui um pouco mais.
— E eu insisto que quero ir embora, vocês não podem me manter aqui contra a minha
vontade.
— Está bem, se é o que o senhor quer.
Pareceu uma eternidade até que a burocracia do hospital fosse cumprida e eles me
trouxessem os papéis para assinar. Peguei minha carteira, relógio e celular, que estava todo
quebrado. Como eu não tinha mais transporte, liguei para o Fred,usando o telefone do hospital
— expliquei rapidamente o que havia acontecido, pois ele nem ficara sabendo do acidente —,
e pedi para que me buscasse. Esperei sentado no banco em frente ao hospital durante cerca de
meia hora, até que ele apareceu.
— Que loucura, cara! Como foi que isso aconteceu? — Fred estava rindo.
— Você ri, né? Pimenta no dos outros é refresco!
— Ah, você nem se machucou, nem aconteceu nada. Deve ter sido uma batidinha besta.
— Minha moto está completamente destruída, perda total.
— E como foi que você saiu inteiro? Como aconteceu?
— Não sei, ninguém sabe, não houve testemunhas.
— Bom, moto você compra outra... Tirando as brincadeiras, ainda bem que não
aconteceu nada de mais grave contigo.
— Como foi a reunião? — Estranhei o fato de Fred estar tão normal e não comentar
nada.
— Foi tranquila, cara, você não perdeu grande coisa.
— E... o Robson estava lá?
— Não apareceu, não. O que é estranho, pois ele sempre gosta de esfregar na cara dos
outros que ficou em primeiro e que vai ganhar a viagem da firma.
— Ninguém falou nada? Estava tudo normal?
— Ninguém falou o quê? Seja objetivo, homem!
— Nada não, esquece.
Finalmente chegamos ao nosso apartamento. Eu só queria deitar, dormir e acordar
apenas quando fosse o dia da minha consulta com a doutora Eva. Não que estivesse tão
empolgado assim para ser interrogado novamente, mas estava louco para me reencontrar com
minha deusa dos cabelos vermelhos.
Será que eu havia sonhado aquele lance todo do bosque? Que doideira estaria
acontecendo comigo? Teria o fim de semana inteiro para pensar naquela mulher e também para
tentar entender o que teria acontecido no banheiro da empresa. Seria real ou um sonho
macabro?
No dia seguinte, fui até uma feira de eletrônicos que acontece a semana inteira. Comprei
um celular novo, coloquei o chip do antigo e recuperei todos os contatos. Resolvi ligar para o
Robson e sentir qual era a dele. Se a coisa tivesse acontecido de verdade, ele iria falar algo. Eu
precisava saber. Disquei o número que estava na minha agenda. Só dava caixa postal. Devo ter
discado umas trinta vezes e não obtive sucesso. Mandei uma mensagem instantânea, ele sequer
a recebeu. Devia ter desligado o telefone para ficar em paz durante o fim de semana.
Convencendo-me de que seria aquele o caso, resolvi esperar até o dia seguinte para tentar
novamente o contato.
Durante a noite, pesadelos me assombraram. Revivi toda a cena do banheiro, parecia
ainda mais real do que a cena original. Esperei que o pesadelo passasse até que eu chegasse
novamente à cena do bosque, mas permaneci apenas no banheiro, de novo e de novo. Já não
aguentava mais, a noite foi interminável. Finalmente, às seis da manhã, pulei da cama com o
corpo todo dolorido, não dava para continuar deitado.
Zanzei pela casa, assisti ao noticiário matutino, naveguei em todas as minhas redes
sociais, fiz meu café da manhã. Estava completamente irrequieto. Fred se levantou e percebeu
meu estado, mas preferiu não falar nada. Quando finalmente deu oito horas, peguei meu
celular e disquei para o Robson. Nada! O celular continuava desligado. Aquilo não parecia
nada com o Robson babaca que eu conhecia; ele acordava cedo, trabalhava muito, vendia mais
ainda e tirava onda mais que demais. Estar com o celular desligado indicava que algo estava
errado.
Resolvi ligar para a empresa, e foi a Mara quem me atendeu:
— Oi, Mara, minha querida, você poderia confirmar o número do Robson? Preciso muito
falar com ele.
— Oi André, o número dele foi desativado.
— Como assim, o que houve?
— O Robson esteve aqui hoje, logo cedo, e pegou a papelada dele para a transferência.
Está indo para outra cidade.
— Como pode? Assim, de repente?
— Pelo que a Sônia, do RH, me falou, ele alegou problemas pessoais e disse que
precisava ser transferido com urgência. Do jeito que ele estava apavorado, não tardaram em
fazer o que pediu... Afinal, Top Seller tem suas regalias.
— Ele comentou o que houve?
— Não, ninguém sabe.
— Obrigado, Mara, você é um anjo.
— De nada, querido, disponha.
Desliguei o telefone, pensativo. Fui para o meu quarto imaginando o que poderia ter
acontecido. Deitei, pensando, mais uma vez, sobre a cena do banheiro. O jeito seria esperar
pela consulta com a doutora Eva, talvez ela me ajudasse a enxergar uma luz no fim do túnel.
Estava cansado demais para trabalhar, então apenas fechei os olhos para tentar dormir e
esperar pelo final da tarde.
Capítulo 4
Mikaela

Eva Sales estava falando sozinha há mais de meia hora. Tentava me convencer de que os
meus surtos eram provenientes do estresse. Segundo ela, eu estava trabalhando demais e não
separando tempo algum para o lazer. Aquilo não era mentira, devo admitir. Porém, não tive
coragem de contar cada detalhe bizarro da minha imaginação assassina, só comentei os surtos
como sendo distrações que me levavam a um universo paralelo, uma coisa nada a ver com
corpos ensanguentados tombando. Sendo assim, devia ser por causa da total ignorância que a
terapeuta ainda estava tranquila, com aquela voz profissional que dava uma falsa impressão de
que ela sabia de tudo.
Quem, de fato, sabia de alguma coisa? Eu mesma não fazia ideia de nada. Nos minutos
intermináveis dentro daquela sala, só conseguia sentir o cheiro dele. Estava impregnado no
ambiente de um jeito tão avassalador que parecia fazer parte de mim, deixando-me aérea. Não
havia comentado com a Eva sobre o fato de não conseguir parar de pensar em seu paciente
anterior, soaria esquisito e abriria espaço para que me desse mais um sermão sobre como eu
não devia deixar todos os caras negros do mundo me abalarem.
O problema era que aquele homem não havia apenas me abalado. Assim que coloquei
meus olhos no sujeito, senti o mundo inteiro desabando dentro do meu peito. Uma reação
absolutamente atípica. Já tinha me encontrado várias vezes com rapazes negros, altos e fortes
como aquele — embora nenhum deles fosse tão bonito —, mas existia alguma coisa diferente
em seu olhar. Logo, pensamentos nada puritanos me levaram a delírios que consistiam em
minhas mãos acariciando os dreads compridos que compunham seus cabelos e em minha boca
ávida procurando pela sua.
Senti-me uma boba enquanto tentava disfarçar, fingir desinteresse. Nem me lembrava de
nada sobre as banalidades que conversamos no curto tempo em que levei para entrar na sala da
Eva, só me lembro perfeitamente de sua voz masculina, porém divertida a um nível infantil,
quase inocente. Vi bondade naquele cara, mas vi certa maldade que faltava em todos os caras
que cruzaram o meu caminho nos últimos dez anos. Não era de se admirar que foi a malícia
contida em seus olhos que ativou ainda mais a minha imaginação e intensificou a obsessão que
meu corpo não conseguia deixar de nutrir.
Precisava descobrir um pouco mais sobre aquele homem, mas era claro que não podia
perguntar nada para a terapeuta. Ela ia entender o motivo da minha postura impaciente no
mesmo instante.
Observei-a com atenção assim que decidi ser o momento certo para tentar agir como
uma pessoa normal.
—... Você precisa voltar a cultivar relacionamentos, Mikaela. Amizade, amor... Há
quanto tempo não sai com alguém?
— Não sei — respondi e suspirei aliviada por ter voltado a prestar atenção em suas
palavras pouco antes de ela me fazer uma pergunta.
— Tente lembrar.
— Não me sinto à vontade para sair com meus antigos amigos. Não faço a menor ideia
de quem eles sejam e, para dizer a verdade, não creio que eles me conheçam tão bem assim.
Parece que tudo o que eles têm para me contar diz respeito a uma Mikaela clubber, louca e
drogada... Essa Mikaela não existe mais, não me reconheço nas histórias doidas que me
contam — confessei. Pensei em completar com a frase: não vejo por que insistir em me
relacionar com gente que preciso fingir que conheço, mas desisti.
— Você quer elaborar mais sobre isso? — A doutora se aprumou na cadeira.
— Não há mais o que falar. Confesso que, no início, por me desconhecer totalmente,
tentei entrar no ritmo de vida deles, mas se eu era assim, agora não me encaixo mais. Fico
completamente deslocada. Mas este já é um aspecto superado, não tenho mais nada a falar
sobre isso.
— Tudo bem, mas e quanto a relacionamentos amorosos?
Mudei a posição das minhas pernas, cruzando-as agora com a perna direita por cima da
esquerda. Inspirei fundo e o cheiro dele tornou a me assombrar. A retrospectiva dos meus
relacionamentos amorosos desde que acordei com amnésia se resume a... nada. Simplesmente
nunca tive vontade de conhecer ninguém. Tornei-me uma mulher assexual— pelo visto, ao
contrário do que eu era —, descrente do amor e até mesmo do desejo. A solidão era a única
coisa em que eu acreditava.
— Não vou forçar a barra — limitei-me a dizer. Remexi-me na cadeira, ainda bastante
inquieta. Eva Sales franziu a testa, analisando-me com atenção redobrada.
— Como assim, Mikaela? O que quer dizer com forçar a barra?
— Você pode querer me diagnosticar, dar um termo técnico ou mesmo me chamar de
frígida... Mas as pessoas, de um modo geral, não me atraem. É isso. A senhora não sabe o
esforço que estou fazendo para lhe dizer essas coisas.
— É tão difícil assim? — Eva franziu a testa, como se achasse que eu estava
exagerando.
— A senhora é tão entediante...
— Entediante? Este é um ambiente para terapia.
— Tudo bem, não precisa se explicar ou se defender. O problema está mesmo comigo,
todos são entediantes para mim e, respondendo à sua pergunta, simplesmente não vou fazer o
que não é de meu interesse.
Ela nada respondeu. Continuou me encarando como se eu fosse um objeto de estudo
superinteressante.
— Quais são os seus interesses? — perguntou finalmente.
Pensei por um segundo, tempo de sobra para chegar à única conclusão verdadeira: eu não
tinha interesse em nada e em ninguém. Ou melhor, exceto por aquele cara, mas aquela
informação ainda era muito recente para que eu a processasse. Porém, numa primeira análise,
acreditei que o interesse só existia porque eu estava doente daquela obsessão implantada com
sucesso por uma maluca — e insistida por outra, no caso, eu.
Decidi ir embora antes da sessão acabar. Não sabia o que tinha dado em mim, mas não
pude ficar naquele lugar, sentindo aquele cheiro se mesclando à angústia do meu peito
enquanto assistia à terapeuta sabichona querer mandar na minha vida. Levantei-me da poltrona
confortável e caminhei até a porta às pressas. Eva Sales se levantou e chamou meu nome três
vezes antes que eu decidisse parar e avisá-la:
— Vou atrás da única coisa em que tenho interesse, se me permite.
Ela sorriu e aquiesceu como se eu precisasse de sua permissão para prosseguir. Saí e bati
a porta atrás de mim, atravessando a recepção sem olhar para trás ou para os lados. O cheiro
dele ainda podia ser sentido ali fora. Inspirei profundamente assim que cheguei à rua, agora
escura por causa do sol que havia se escondido no horizonte.
Sempre adorei as noites. Alguma coisa acontecia dentro de mim quando o sol dava lugar
à lua. Apesar de me sentir ainda mais melancólica e solitária, o mundo parecia finalmente ser o
meu lar quando as pessoas chegavam às suas casas e se preparavam para dormir. Devia ser por
isso que eu tinha problemas com o sono, pois queria curtir um pouco mais as horas noturnas,
saboreando a doce sensação de pertencimento que não encontrava durante o dia.
Foi me sentindo renovada que fechei os olhos e depois os reabri. Observei o céu escuro
por alguns segundos. O cheiro ainda estava lá, nítido nos meus sentidos. Era uma sensação
nova, algo que nunca havia experimentado. Depois de raciocinar um pouco, percebi que aquela
não era exatamente a fragrância de um perfume; de um modo inexplicável, aquele aroma
parecia fazer parte do cheiro daquele homem de um modo especial, como se fosse o odor de
seu espírito.
Será que eram os tais feromônios de que tanto se falava?
Não soube dizer qual foi o momento em que comecei a fazer aquilo, entretanto, quando
me dei conta, estava seguindo pelas ruas e avenidas da cidade como uma caçadora em busca de
sua presa. Não conseguia imaginar como era possível sentir o rastro do cheiro, porém farejei
como um animal, seguindo instintos malucos que eu nem sabia que possuía. A estranheza foi
absurda, mas nada me fez parar ou recuar. Precisava encontrar aquele cara de novo, e dane-se
o sentido — ou a falta dele — daquilo tudo.
Os saltos pararam de doer depois que meus pés adormeceram. Devia estar parecendo
uma louca, correndo, parando, caminhando sorrateiramente, inspirando fundo, gemendo baixo
quando percebia que ainda podia senti-lo. O auge da minha loucura foi alcançado assim que
parei em frente a um prédio simples, de classe média, em uma rua comum. Os portões estavam
fechados, mas eu podia ouvir o barulho de uma moto ao longe. Escondi-me atrás de um dos
carros que estavam estacionados na rua.
A moto se aproximou e todos os pelos do meu corpo se eriçaram. O cheiro se
intensificou drasticamente, bem como os meus batimentos cardíacos. Entreabri os meus lábios
quando um negro alto desceu do veículo. Ele era mesmo enorme, uma espécie de homem que
qualquer mulher temeria se não o desejasse antes de tudo. Não me lembrava de como era sentir
desejo por qualquer coisa, embora soubesse, sem explicações lógicas, que já havia sentido
muito daquele mesmo sentimento. Talvez por isso não me achei tão esquisita quanto deveria.
Pensei em abordá-lo, em lhe falar alguma coisa nada a ver, mas não tive tempo. Os
portões da garagem do prédio foram abertos e o homem voltou a subir em sua moto turbinada,
sumindo do meu campo de visão em instantes. Foi difícil desistir. Passei horas intermináveis
escondida, espreitando, esperando pelo nada. Cada suspiro me trazia novos motivos para
continuar me embriagando daquele aroma enlouquecedor.
— Mikah... — Ouvi uma voz doce bem atrás de mim.
Ergui-me, assustada. A rua havia sumido. Os carros foram embora, o asfalto, os prédios e
casas daquele bairro. Tudo havia dado lugar a um vasto matagal, similar a uma floresta. Dei
vários passos para trás, sentindo os meus pés descalços se lambuzarem de terra e grama. Minha
calça jeans e a blusa de alças deram lugar a um vestido branco muito fino, que escorria pelo
meu corpo como se não chegasse a me tocar. Meus cabelos vermelhos outrora presos estavam
esvoaçantes, contrastando de um jeito incrível com a minha pele e o vestido.
— Mikah... — A mesma voz se fez presente, desta vez vinda ainda mais de perto. Olhei
para trás. Uma névoa densa começou a tornar o cenário sinistro além da conta.
Alguma coisa me fez sorrir. Escondi-me por trás de uma árvore que tinha o caule da
grossura de um carro. Era imensa, assustadora, mas o medo havia deixado o meu corpo.
Escalei a mesma árvore com desenvoltura, como se estivesse acostumada a fazer aquilo. Sorri
de novo ao escutar passos. Alguma coisa me dizia que o ruído era baixo, quase imperceptível,
mas que o meu cérebro ágil ouvia perfeitamente. Equilibrei-me em um dos galhos grossos sem
emitir som algum.
— Sei que está aí, Mikah... Posso sentir seu cheiro.
Avistei um homem negro bem abaixo de onde eu estava. Seu corpo se encontrava quase
despido, sendo coberto apenas por uma espécie de calça preta rasgada. O peito másculo e
imponente me incitou o pecado em questão de segundos. Ele não usava dreads longos, tinha o
cabelo raspado bem curto, mas algo dentro de mim sabia que se tratava do mesmo sujeito que
eu havia conhecido na minha terapeuta.
— Não me confunda, Mikhayah! — bradou como um guerreiro em plena batalha,
cortando o silêncio da floresta e me provocando um arrepio profundo. Instintivamente, deixei
meu corpo cair com destreza. Meus pés sentiram o chão e aterrissei como uma felina, de pé na
frente do homem.
— Você não tem muito senso de humor — murmurei baixo. Ele me encarou seriamente
durante longos segundos, até que sorriu de leve. Acompanhei-o.
— Qual é o seu problema?
— Tenho muitos problemas, mas um dos seus é não conseguir me localizar. — Desta vez
eu ri. Ele também. Suas mãos pararam nas laterais do meu rosto e, de um segundo para o outro,
já estávamos nos beijando violentamente. Foi ele quem se distanciou primeiro, deixando a
razão nos separar, embora nossas testas continuassem grudadas.
— Não podemos mais—aquela frase me fez fechar os olhos. — É loucura prosseguir.
— Você é um fraco.
Suas mãos prenderam os meus braços como se quisesse provar o contrário. Não cheguei
a sentir dor, mas aquela força exacerbada me deixou incomodada. Apesar disso, queria que ele
não me soltasse nunca mais.
O homem prendeu os lábios e me encarou com raiva estampada em seu olhar.
— Se não querer que você corra riscos é ser fraco, então sou o mais fraco de todos os
homens. — Suas mãos me apertaram ainda mais. Meus ossos estavam quase se partindo,
porém continuei sem reclamar. — Minha família não está satisfeita. Em breve irão te caçar,
Mikah. Não vou permitir.
— Morrer será um alívio. Morrer por você, então, será uma honra. — Meus lábios
tremeram enquanto palavras impensadas saíram da minha boca. A raiva dele se intensificou,
mas acabou me soltando depressa. Senti o gelo de sua rejeição congelar todos os meus nervos.
— Como consegue dizer algo assim? Ama tão pouco sua própria vida? Como posso lutar
para ficar ao seu lado se não quer continuar respirando?
— Lutar? — Sorri, porém, foi um sorriso que emitia toda a minha tristeza. — Estou
vendo a sua luta. Veio se despedir de mim. Seu beijo teve gosto de adeus.
O homem ficou visivelmente contrariado. Balançou a cabeça com surpresa e desgosto.
— Às vezes é preciso recuar. Estou recuando, Mikhayah, não estou desistindo.
— Recuando para me manter segura.
— Exatamente.
— Isso soa ridículo.
— Não para mim. Sua segurança é o que me importa. Não podemos continuar fingindo
que nada está acontecendo. Você nasceu para ser uma solitária, mas eu preciso da minha
família. Eles são como eu, é meu dever protegê-los também.
Meu peito queimou de ódio.
— É isso, então? Está com medo de que eu ataque o seu povo? — Dei vários passos para
trás, consciente de que não fazia uma expressão muito positiva. — Não confia em mim?
— Não é isso, Mikah, por favor. — Ele tentou se aproximar, mas o mantive distante. —
Sei que não os atacará, mas sei que se defenderá, e com razão.
— Já disse que morrer será um alívio! Não me defenderei.
— Mas eu quero que se defenda, será que não entende? Eu não quero te perder. Não vou
te perder. — Ele encontrou um modo de me prender contra o caule de outra árvore com seu
corpo gigantesco. Sairia dali facilmente, mas meu corpo não quis. Deixei-me levar pelo
sentimento que queimava a minha pele. Seu beijo possessivo me fez quase explodir. — Eu a
amo... Eu a amo... — sussurrou entre os meus lábios de modo doentio.
Senti lágrimas lambuzarem o meu rosto. O homem as enxugou com os polegares, e pude
vê-los rubros, da cor de sangue.
— Seguirei além da montanha — avisei. — Rumo ao norte. Há uma pequena vila.
— Vai ficar bem?
— Sempre fico bem, não é tão fácil assim me matar.
— Darei um jeito de...
— Não. Fique com os seus, proteja a sua família. São tempos difíceis. Os homens nos
perseguem como animais. Tenho a eternidade para te esperar.
Ele balançou a cabeça novamente.
— Mikhayah, você sabe que eu não tenho a eternidade.
— É por isso que eu sei que você não vai demorar tanto. — Sorri. — Não me importa
quantos anos de solidão viverei, desde que haja um dia em que volte para mim. Até lá, o
mundo terá mudado. Ele sempre muda. Já vivenciei muitas coisas sem você, não será difícil
fazer isso novamente... Embora eu preferisse que não fosse necessário.
— Não me faça crer sem que seja verdade, sou uma criança diante de você.
Acariciei seu peitoral. O homem fechou os olhos como se sentisse muito prazer. Parecia
absurdo dizer que aquele ser imponente era uma criança, mas ele tinha razão. Seus anos
reduzidos diante dos meus nos faziam bem diferentes.
— Confie em mim — murmurei. — Um dia o nosso amor deixará de ser proibido, como
tantas coisas outrora proibidas são permitidas hoje.
A iniciativa para o nosso primeiro último beijo foi minha. Eu sabia que haveria outros.
Aquele amor não deixaria de ser proibido tão cedo, mas ele não precisava saber daquilo.
Bastava continuar alimentando sua esperança infantil. Era o meu modo de protegê-lo.
Diferentemente dele, eu não tinha medo. Minha esperança estava no dia em que ele tivesse a
coragem de quem já viveu mais do que o necessário e percebesse que viver imerso no perigo
era a nossa sina.
Jamais seríamos livres para amar. Cabia a ele escolher amar mesmo assim.
— Adeus — falei quando o beijo findou contra a nossa vontade.
— Adeus... Mikah... Jamais esqueça que eu a amo. Sempre irei te amar.
Aquiesci e não me deixei dizer que também o amava. Ele precisava esperar por aquelas
palavras pelo mesmo tempo que eu esperaria por ele. Corri o mais depressa possível floresta
adentro, chorando lágrimas de sangue. Depois de duas horas correndo na direção do Norte,
escalei uma árvore desesperadamente.
O vento soprou forte, e senti meu corpo trepidar com perigo. Minhas mãos encontraram
uma janela, ajudando a me manter apoiada. Abri os meus olhos, assustadíssima. Eu estava
escalando um prédio? O prédio do cara negro da terapia?
— Ai, meu Deus! — berrei. Cometi a imbecilidade de olhar para baixo. Vi os carros
estacionados na rua deserta. Eu já devia estar no terceiro andar. Minhas pernas estavam
abertas, envolvendo a construção como se quisesse abraçá-la. — Ai, meu Deus! Socorro! —
Meu pedido de ajuda saiu abafado, quase um choramingo. Tentei me manter equilibrada, mas
não consegui.
Larguei a janela e meu corpo tombou, caindo a toda velocidade até atingir o chão
gramado do térreo. Senti uma dor absurda, era como se todos os meus ossosestivessem se
espatifando ao mesmo tempo. Depois, a escuridão total me fez companhia.
Acordei com a luz incômoda dos primeiros raios de sol. Estava estirada no chão, diante
do prédio do homem que virou a minha nova obsessão. O que havia sido tudo aquilo? Como
eu ainda estava viva? Será que tinha mesmo escalado aquele prédio ou tudo não passou de uma
grande ilusão? Um sonho maluco?
Com a cabeça latejando, ergui-me lentamente. O resto do meu corpo estava
absolutamente intacto, mas em minha roupa havia algumas manchas de sangue. A estranheza
subiu a um nível tão insuportável que comecei a chorar. Não fazia ideia do que havia acabado
de acontecer, só que precisava ir para casa antes que desse a hora das pessoas começarem a
sair de suas casas para viverem mais um dia.
Pulei o muro do prédio, nem sei como, e corri pela rua até conseguir chamar um táxi. De
início, o taxista não pareceu muito propenso a parar, mas entrei na frente do carro, forçando-o
a uma freada brusca. Só então ele percebeu que eu não estava muito bem, desceu do veículo e
me amparou.
— Minha nossa, o que aconteceu com a senhorita? Foi assaltada? Quer que eu a leve a
um hospital? — O taxista ficou angustiado com o meu estado deplorável.
— Só me deixe em casa, por favor, por favor, por favor... Não faça perguntas. — Falei o
meu endereço aos murmúrios e caí em um pranto infindável. O taxista não atendeu ao meu
pedido, ficou me perguntando o tempo todo se eu não devia ir a um hospital ou à polícia.
Maldita sociedade moderna que se preocupava com os problemas dos outros. Devia ser muito
melhor antes, quando cada um cuidava da sua vida.
Meu apartamento ficava do outro lado da cidade, portanto o caminho foi torturante e
muito longo. O tempo todo o senhor Tiago, esse era o nome do taxista, olhava pelo retrovisor
querendo puxar assunto, mas quando eu o encarava pelo espelho com a maquiagem borrada,
ele apenas balançava a cabeça negativamente. Por alguma razão, aquilo me irritava tanto que
me visualizei algumas vezes avançando em seu pescoço e lhe rasgando a carne com os dentes.
Céus! O que é que estava acontecendo comigo, afinal? Eu estava limpa há dez anos,
não podia ser nenhuma sequela do abuso de drogas no meu passado, não era possível.
Quase não acreditei quando cheguei ao meu quarto e fechei todas as cortinas,
incomodada demais com qualquer resquício dos raios solares. Uma dor de cabeça fazia com
que o sangue latejasse, era quase como se algo lá dentro quisesse estourar o meu crânio e
ganhar liberdade. Uma fome gigantesca se apossou de mim. Fui até a cozinha. Na geladeira,
havia os restos de um almoço de sei lá que dia. Sem sequer esquentar as sobras, devorei-as
como um animal faminto. A sede era anormal também. Peguei uma garrafa de dois litros de
refrigerante e a entornei quase que num só gole.
A cabeça latejava mais e mais. Abri as portas dos armários em desespero, procurei pelo
frasco de remédios que há tempos não usava. Entupi-me de analgésicos, fazendo-os descer
pela garganta com o restinho de refrigerante que ficara na garrafa. O que diabos estava
acontecendo comigo? Meu corpo estava quente, sentia uma febre estranha se apoderando de
mim. Despi-me por completo e entrei no chuveiro com a água gelada caindo sobre meu corpo.
Senti um arrepio me invadindo, cada gota ressoava em minha cabeça como um tambor. Meus
sentidos estavam aguçados, não era apenas o olfato.
Sem forças, saí do banheiro enrolada apenas na toalha, sem sequer me secar. Os
medicamentos estavam começando a fazer efeito e fui me sentindo meio mole. Atirei-me na
cama, caindo em um sono profundo que foi quase um desmaio.
Não consegui me lembrar do que se passou durante meus sonhos, mas estava agitada e
com o corpo dolorido quando despertei com uma música irritante e insistente. Era meu celular
que tocava. Por um segundo, pensei que pudesse ser aquele homem maravilhoso que
vislumbrei em meus devaneios e sorri como uma boba. No outro segundo, já estava
praguejando baixo, julgando-me uma louca perturbada. Claro que um cara que eu não conhecia
— e que não me conhecia também — jamais me ligaria.
O telefone emudeceu. Olhei no visor: dezessete chamadas perdidas. Quando fui apertar o
botão para ver quem me ligava, o aparelho voltou a acender as luzes e a música tornou a tocar.
— Alô? — atendi, fazendo questão de demonstrar meu mau humor.
— Mikaela? Onde você está?
— Quem é? — Fiz uma careta.
— Sou eu, o Sérgio. — O homem parecia bem preocupado do outro lado da linha.
— Que Sérgio?
— O segurança do supermercado. Poxa vida, esqueceu de mim tão rápido?
Bufei, contrariada. Apertei as têmporas com o polegar e o indicador de uma mão. A
cabeça ainda doía bastante, mas a escuridão do meu quarto me trazia conforto. Como queria
estar dormindo em vez de ter que aturar alguém! Quando terminasse a ligação, precisava me
lembrar de desligar o telefone para não ser incomodada de novo.
— Como conseguiu o meu número?
— Er... É que... Eu... Bom...
Não aguentei ouvi-lo gaguejar como um idiota, pois a minha paciência já estava no
limite. Nem sei como simplesmente não apertei o botão para encerrar a chamada.
— Que seja. O que quer? — Suspirei fundo.
— Bom, é que você não veio trabalhar hoje, então pensei que alguma coisa tivesse
acontecido. Fiquei preocupado...
“Alguma coisa, de fato, aconteceu, mas não posso te contar, seu imbecil. Além disso,
ainda que eu pudesse, não o faria.”
— Não é nada. Deve ser gripe. Estou com febre e dor no corpo. Pode avisar à chefia para
mim?
— Ah, que pena. Pode deixar que eu aviso, sim. Há algo mais que eu possa fazer? Quer
que te leve alguma coisa? É só me passar seu endereço...
“Há várias coisas, mas me deixar em paz é a principal.”
— Não, obrigada. Estou bem. Amanhã pego no batente. — Tentei parecer o mais natural
e simpática possível, embora minha vontade fosse mandá-lo cuidar da própria vida.
— Está certo. Melhoras, princesa... Estou aqui se precisar. Esse é meu número pessoal,
se quiser, é só gravar na sua agenda. — Sérgio percebeu o clima estranho e tentou
desconversar. — De qualquer forma, até amanhã.
Desliguei sem me despedir. Levantei e tomei mais um par de comprimidos, aquela
conversinha furada do Sérgio tinha realmente me deixado com dor de cabeça. Tudo que eu
queria era apagar. Dormi durante todo aquele dia, mas à noite não consegui pregar o olho. Fui
trabalhar, na manhã seguinte, como um zumbi, incomodada com qualquer barulho. A semana
se resumiu a uma verdadeira porcaria. Trabalhei mecanicamente, sorri forçadamente e interagi
o mínimo possível, ignorando todo mundo quando podia, inclusive o Sérgio, que tentou nova
aproximação, mas foi logo cortado pelo meu péssimo humor.
Sentia-me cada vez mais esquisita, tentando me lembrar de como havia sido o incidente
diante do prédio do desconhecido. Passei vários dias encucada com aquilo e, quanto mais
pensava sobre tudo, menos conclusões eu tirava e aquilo me enlouquecia cada vez mais.
Contudo, uma ideia não deixava de vagar pela minha mente: eu havia endoidado de vez.
Aos menos nos dias que se seguiram a dor de cabeça e a febre me abandonaram. Meus
sentidos pareciam ter voltado ao normal. Será que alguém havia me drogado sem que eu
percebesse? Será que a doutora Eva teria feito algo comigo? Algum experimento maluco? A
semana se arrastou e tudo o que eu queria era que o dia de minha consulta chegasse logo, para
tirar algumas dúvidas, ou melhor, satisfações com a doutora.
Capítulo 5
André

Aquela era uma das grandes vantagens de ser um representante comercial. Claro que eu
precisava apresentar resultados, alcançar metas e tudo mais — e olha que não era nada mole,
era ralação sempre. Porém, quando necessitava, podia tirar um dia de folga sem ter que dar
satisfações a ninguém, ou ainda fazer um horário mais light, mas é claro que depois tinha que
correr atrás do tempo perdido para compensar.
Quando acordei, naquele início de tarde de segunda-feira, já com o corpo doído de tanto
ficar deitado, ouvi o típico barulhinho que nos convidava a ficar embaixo das cobertas. Olhei
pela janela e constatei que chovia lá fora. Não era nenhuma tempestade, os pingos caíam finos
e constantes, quase como um choro da natureza, lavando a selva de pedra que havia substituído
a vida silvestre há tantos anos.
Olhei para o relógio e constatei que ainda era meio dia e quinze — o que parecia ter sido
uma eternidade na cama, não passara de poucas horas. Faltavam quase cinco horas para a
minha consulta. Contudo, precisava admitir que minha ansiedade não era para ver a cara da
doutora Eva, mas sim para esbarrar novamente com a sua paciente das dezoito horas. Aquela
moça dos cabelos vermelhos não me saída da mente de jeito nenhum. Na maioria das vezes,
com minhas paixonites crônicas, nenhuma mulher habitava tanto tempo em meus
pensamentos, era necessário apenas visualizar o próximo rabo de saia para que o anterior
ficasse esquecido.
Resolvi tomar um banho gelado para colocar as ideias no lugar. Normalmente eu não
gostava de banhos mornos, pois pareciam anestesiar minha mente e meu corpo. Relaxar não
era muito a minha praia, meu sangue parecia correr rápido e ferver mais do que o da maioria
das pessoas. Minha pressão também era mais alta, coisa de quatorze por dez. Os médicos
insistiam que eu deveria tomar remédios. Até experimentei uma vez, mas faziam-me sentir
estúpido, sonolento, sei lá. O doutor insistia que remédios para pressão não tinham esse efeito
colateral, mas eu sabia o que sentia e resolvi deixar para lá.
Na maioria dos dias, eu daria uma checada na internet, tomaria meu banho, me arrumaria
e, estando tão ansioso e entediado, caminharia até o consultório. Pararia em alguma lanchonete
e depois daria uma volta, deixando o tempo passar, mas daquela vez a chuva não me permitiria
fazer isso. Resignei-me com a ideia de que teria que esperar. Entrei em minhas redes sociais,
que no meu caso, deveriam se chamar redes antissociais, visto que quase não tinha amigos,
nem movimentação. Respondi algumas mensagens instantâneas, a maioria delas com pedidos
de clientes e depois deixei o celular de lado. Fui até a sala, liguei a televisão e mudei os canais
para ver o que estava passando.
Quando menos esperava, a porta do apartamento se abriu com força. Dei um salto no
sofá por causa do susto. Coloquei-me em posição de alerta e vi Fred passando pelo vão.
— Você quase me matou do coração, maldito! — Joguei uma revista velha, que estava
em cima do sofá, na direção do meu colega de apartamento.
— O que está fazendo aqui? Não vai trabalhar hoje, seu vagabundo? — ele sorriu.
— Não dá, cara, hoje não estou legal.
— Vi que você passou todo o fim de semana meio esquisito. Na maioria das vezes,
procuro não me intrometer, mas aconteceu alguma coisa?
— Sim, não e talvez.
— Para que eu fui perguntar?
— Deixa pra lá, seu idiota! — Apesar de não sermos amigos íntimos, Fred e eu nos
dávamos bem e tínhamos liberdade para usar certos termos e apelidos carinhosos.
— Não, tudo bem, fala...
— Cara, tem alguma parada esquisita acontecendo comigo. Fora as dores de cabeça e
tudo mais que já comentei, ando tendo algum tipo de alucinação, visão, ou sei lá, algum tipo de
lembrança.
— Lembranças? Isso é possível na sua situação? — Fred sabia que eu fazia parte dos
sete por cento e achava tudo muito interessante.
— Não há nenhum caso documentado, mas vai saber...
— O que quer dizer com isso? — meu colega de apartamento se sentou no sofá,
mantendo certa distância para me olhar de um jeito curioso.
— Não sei te explicar, nem eu consigo entender...
— Fala com os médicos!
— Estou falando, vamos ver no que dá. Porém, além disso tudo, ainda tem essa garota...
— Está de sacanagem, não é? Você pensando em alguma garota? Quem diria! Que
problemão, hein? — Fred riu com bastante ironia.
— Cara, sei que já costumo ser meio taradão, só penso na mulherada o tempo todo, não
posso ver um rabo de saia, mas dessa vez é diferente. Essa mulher não sai da minha cabeça.
— O que foi que rolou entre vocês? Foi alguém que você pegou, ficou numa balada? O
que aconteceu?
— Não, ela também é uma paciente da doutora Eva.
— Ih, maluco com maluco dá maluquice, hein! — Ele deu mais uma gargalhada.
— Vai ficar de zoeira? — Olhei para ele de um jeito sério.
— Calma, cara. Continua, o que rolou?
— Nada de mais, apenas falei com ela por cerca de dois minutos e a moça entrou para
sua consulta.
— Espere aí! Está seriamente me dizendo que não tira da cabeça uma mulher em quem
você sequer deu um aperto de mão? Com quem não falou mais do que dois minutos? Isso é
estranho até mesmo para você, meu amigo.
Fred sempre encontrava uma maneira de fazer com que eu me sentisse um verdadeiro
imbecil.
— Ah, deixa pra lá, esquece isso. Some daqui!
— Não, não, pera... Já procurou ela na internet? Vamos ver quem é?
— Cara, pensa junto comigo... Eu não sei o nome dela, não sei o que faz da vida, não sei
nada! Como quer que eu a encontre online?
— É, isso faz sentido, não tinha pensado nesses detalhes.
— Vai embora, vai, me deixa quieto com meus pensamentos!
— Bom, tenho mesmo que almoçar voando e sair logo para um compromisso. Você já
comeu?
— Não estou com fome. Obrigado.
— Beleza, vou pegar qualquer coisa aqui e vazar.
— Vai nessa.
Fred foi para a cozinha e eu fiquei novamente sozinho na sala. Será que ele tinha razão?
Parecia mesmo absurdo pensar tanto em alguém sobre quem eu não sabia absolutamente nada,
nem mesmo o nome. Eu estava precisando de ajuda. Porém, e o sonho ou visão, ou alucinação,
sei lá? E tudo que se passara na floresta? Teria acontecido ou não?
Passara dias me convencendo de que aquilo tinha sido resultado do meu acidente, algo
que eu vivenciara apenas em meus sonhos, enquanto estava desacordado no hospital, mas
ainda não conseguia ter certeza de nada. A história da floresta era tão confusa quanto o
episódio envolvendo o Robson no banheiro da empresa.
Não aguentava mais ficar naquela casa, apenas com meus pensamentos, medos e anseios.
Resolvi me vestir, coloquei meu sobretudo e saí. Peguei meu carro, pois a moto não existia
mais, dirigi até o bairro comercial, onde o consultório da doutora Eva ficava, e estacionei no
prédio onde minha terapeuta trabalhava. Olhei no relógio, ainda era uma e vinte e sete. A
chuva caía, mas meu sobretudo impedia que eu me molhasse, além dos pés que estavam
protegidos por uma bota de couro com forro impermeável.
Caminhei até uma lanchonete próxima, retirei o casaco e me sentei. Pedi apenas uma
água com gás e fiquei observando o movimento da rua. Tantos rostos, tantas pessoas
desconhecidas. A chuva deixava as calçadas um pouco mais vazias, porém o fluxo de vidas
para lá e para cá ainda era intenso. O cheiro de terra molhada, proveniente dos jardins do
parque em frente, me preencheu as narinas. Percebi que, ultimamente, eu estava mais sensível
aos odores. Até mesmo meu perfume, de uso costumeiro, passara a ter uma nova cor.
Foi reconfortante passar aquela tarde de chuva, e relativo frio, sentado naquela mesa. A
garçonete me interpelou algumas vezes, querendo saber se estava tudo bem, se eu estava
satisfeito, se queria mais alguma coisa. Acabei olhando o cardápio e pedi uma porção de
batatas e peixe frito. Aquilo acabou sendo o meu almoço, mas tudo estava excelente; a batata
crocante e sequinha, como tinha que ser, e o peixe bem torradinho, como eu havia pedido.
Quando estava prestes a colocar mais uma porção de fritas na boca, eu a vi, quase como
um fantasma, uma aparição. Levantei-me de supetão e corri em direção à grade da lanchonete.
Continuei acompanhando a figura com os olhos, ela estava na esquina, prestes a atravessar a
rua. Peguei meu sobretudo, dei os primeiros passos em direção à saída e senti uma mão em
meu braço.
— Senhor, a conta.
— É melhor me largar. — Virei-me para o lado e vi uma expressão de horror no rosto da
garçonete.
Olhei ao redor e percebi que os clientes se inquietaram. Alguns até pegaram seus
celulares. Iriam ligar para a polícia ou começariam a filmar, esperando por alguma confusão.
Sacudi a cabeça e olhei para a rua novamente. O fantasma se afastava. Voltei minha atenção
para a garçonete.
— Quanto lhe devo?
— Não sei, senhor, é preciso pedir ao caixa que feche sua comanda.
Enfiei a mão no bolso, tirei um punhado de notas e as estendi à moça.
— Isso é suficiente? — A visão que me atormentara se afastava mais e mais.
— Acredito que sim — a mulher respondeu, após examinar as notas.
— Fique com o troco!
Rapidamente, dirigi-me à saída. O fantasma havia desaparecido do meu raio de visão,
precisava correr ou perderia aquela imensa oportunidade. Atravessei a rua ouvindo gritos e
buzinadas dos carros que freavam bruscamente para não me atropelar. Corri em direção ao
último local onde a havia visto, olhei em todas as direções, mas parecia ser tarde demais.
Coloquei as mãos no rosto e as esfreguei lateralmente, não podia acreditar em tamanho azar.
Meu dia havia começado mal e, aparentemente, terminaria pior.
— Que bosta! — ouvi uma voz proveniente de algum lugar.
Apoiei-me no corrimão que ladeava a calçada e olhei para baixo. Descendo uma
escadaria, encontrava-se a Praça dos Apaixonados, um lugar que exalava certo romantismo e
onde era possível se ver, com frequência, casais aos beijos e afagos. Lá embaixo, sentada em
um banco, sob uma cobertura, estava a mulher dos cabelos vermelhos que eu procurava.
Meu coração palpitou e senti as minhas pupilas se dilatarem. O cheiro da chuva vinha
acompanhado de um aroma novo para mim. Desci pausadamente a escadaria, pois não queria
assustá-la e nem demonstrar que estava ali por sua causa. Tudo deveria soar o mais casual
possível.
— Bosta! Maldito celular! Não acredito que vai me deixar na mão, não acredito! — A
mulher jogou o aparelho dentro de uma sacola plástica que carregava.
Aproximei-me como se fosse apenas um estranho se importando com os problemas de
alguém.
— Precisa de ajuda, moça?
— Não, obrigada — ela respondeu de modo rude, sem sequer erguer a cabeça para ver
quem a interpelava.
— Tem certeza?
— Olha, se você é algum tipo de tarado, saiba que tenho spray de pimenta e um taser. —
Ela ainda evitava fazer contato visual.
— É mesmo? E estão guardados dentro dessa sua sacolinha transparente? — dei uma
risada.
— Olha aqui, seu idiota... — A mulher dos cabelos vermelhos se levantou e travou no
momento em que me encarou. Seus lábios tão rubros quanto os cabelos se entreabriram, e acho
que passamos uma eternidade nos encarando. Confesso que devo ter feito uma careta tão
embasbacada quanto a dela, e o pior de tudo foi não conseguir entender o que estava
acontecendo conosco.
— Relaxe, só estava querendo te ajudar — fingi desinteresse.
— Tudo bem, é que, bem... — ela desviou o rosto e aproveitei a oportunidade para
admirar o modo como seus olhos dourados pareciam sempre saber mais do que eu.
Perguntei-me se aquela mulher por acaso conhecia alguma coisa sobre o meu passado,
e quase gritei para que começasse a me contar, caso contrário eu iria... Eu iria beijá-la até que
me dissesse.
Balancei a cabeça e voltei ao meu plano mais racional.
— Espere um pouco... Acho que estou te reconhecendo. Você não é paciente da doutora
Eva? — fiz a melhor expressão de sonso que pude.
— Sim, acho que me lembro de você.
Como ela poderia não se lembrar? Não existem muitos negros de dois metros de altura
com cabelos rastafári perambulando pela cidade.
— Meu nome é André, não me lembro do seu...
— Porque eu nunca te falei. Meu nome é Mikaela.
Alguma coisa dentro de mim parou de funcionar, mas ao mesmo tempo senti que outra
entrou em um ritmo tão acelerado que me causou náuseas.
Mikaela. Mikah.
— Prazer, Mika... ela — proferi seu nome de um jeito engasgado graças ao nó que
havia se instalado na minha garganta. — Agora que já fomos devidamente apresentados, há
algo que possa fazer para te ajudar?
Ou há algo que você possa fazer para me ajudar?
— Não, obrigada.
— Tem certeza?
— Ora, mas por que é que não me deixa em paz? — a moça teve um rompante
inesperado. Percebi em seu olhar algo diferente. A expressão outrora curiosa com a minha
presença se tornou meio amarga, fria.
— Sinto muito, não era minha intenção incomodá-la.
Mikaela me observou com atenção. Começou pelos meus olhos e foi disfarçando o
interesse em todo o restante. Senti-me praticamente despido diante de seu olhar ávido, e em
outras condições eu seria capaz de perder o controle total do meu corpo, mas, naquele instante,
apenas permiti que me analisasse.
— Desculpe, desculpe — ela disse, por fim. — Não estou muito bem, só estou tentando
ficar sozinha.
— Não se preocupe comigo, não sou do tipo que se ofende facilmente — menti. — Vi
que você estava com problemas por causa do celular. Quer usar o meu?
— Já lhe disse que não.
— Desculpe, deixarei de tentar ser um cavalheiro.
— Olha...
— Eu sei, eu sei, você só quer ficar sozinha. Não tem problema, não é como se eu não
tivesse nada melhor para fazer do que ficar aqui falando com você. — Por que diabos eu tinha
falado uma coisa tão estúpida? Será que eu nunca podia ficar por baixo?
Ela me olhou, com desgosto, por um segundo, porém depois sorriu como se tivesse
gostado da minha capacidade de me comportar como um babaca.
— Muito bem, senhor ocupado, então vá. Aliás, se meu relógio não estiver errado,
estou vendo que está quase na hora de você ir tratar as caraminholas da sua cabeça. — Sorriu
com desdém. — E não se atrasa não, porque depois é a minha vez.
Olhei para ela por alguns segundos. Apertei os olhos e foquei em suas íris. Devo ter
parecido intimidador, pois Mikaela deu um passo vacilante para trás e recuou um pouco. No
impulso, segurei a sua mão. Alguma coisa em seu olhar me atraía, quase como se me
hipnotizasse.
Repentinamente, a praça sumiu, dando lugar a um salão luxuoso, enorme e repleto de
luzes. Alguns casais dançavam ao nosso redor, alheios a nossa presença. Mikaela não estava
mais vestindo jeans surrados e sim um vestido longo e negro como a noite. O traje tinha tantos
babados e era tão armado que eu quase não conseguia me aproximar dela, por isso segurei sua
mão macia e a levei à boca com ternura. Um sorriso provocante brotou de seus lábios,
traduzindo o mistério contido naquele olhar.
Acordei do transe e voltei à praça quando a ouvi rosnar:
— Afaste-se de mim, por favor! — ela se soltou rapidamente.
— Desculpe, desculpe, essa não foi a minha intenção... — Ainda tentava me recuperar
da visão que tinha acabado de me deixar ainda mais intrigado.
— O que há de errado com você? — Mikaela segurou sua sacola com mais firmeza.
— Vários médicos e especialistas não souberam dizer.
— Como? — ouvi seu arquejo, absolutamente surpresa com a minha resposta.
— O que há de errado comigo.
— Que idiota — sussurrou.
— O quê?
— Nada, preciso ir — virou as costas e começou a andar na chuva.
— Você é um dos sete por cento, não é? — gritei, mas não antes de perceber que não
havia ninguém por perto.
Consegui prender sua atenção novamente.
— E se for? Isso não é da sua conta!
— Você é como eu, sabe como me sinto... — meu grito se misturou ao barulho da
chuva que batia no solo.
Mikaela se virou na minha direção. Pareceu indecisa sobre o que falaria. Não tive
certeza, mas percebi resquícios de decepção em seu semblante.
— E daí? Isso não nos torna melhores amigos, nem nada do tipo! — ofereceu mais um
sorriso irônico.
Fiquei parado, observando-a se afastar sem ousar olhar para trás. Conferi meu relógio e
já eram quinze para as cinco. Precisaria partir ou me atrasaria para a consulta. Apertei o passo
enquanto a chuva aumentava. Mikaela. Ao menos agora eu tinha um nome real para chamar o
rosto que habitava minha mente, meus sonhos e minhas alucinações. Quase sem perceber,
deparei-me com o prédio de consultórios onde deveria entrar. A chuva havia aumentado
consideravelmente e uma pequena ventania havia se iniciado.
Entrei no elevador, cumprimentando as pessoas que ali estavam, e subi até o terceiro
andar. Falei com a secretária da doutora Eva, que logo me anunciou e pediu para que eu me
sentasse e aguardasse. Esperei por pouco mais de um minuto até que ela me mandou entrar.
Como me concentrar após o que havia se passado? Como falar de meus problemas se
minha mente não tinha espaço para outra coisa que não fosse Mikaela? Teríamos um passado
em comum? Teríamos nos conhecido na outra vida? Seria capaz que eu estivesse me
lembrando de alguma coisa? Ainda era muito cedo para falar sobre isso com alguém, então
decidi não entrar no assunto com a doutora Eva.
— Boa tarde, senhor André. Pode se sentar, estou apenas abrindo o seu arquivo aqui
para ver onde paramos. Vai levar apenas um minuto — a voz da doutora irrompeu meus
ouvidos, tirando-me do transe em que eu estava.
— Boa tarde, doutora Eva — respondi mecanicamente, sentando-me na cadeira de
costume.
— Como passou a última semana? — Ela ainda vasculhava numa pasta.
— Bom, tirando o acidente de moto que tive, estou bem.
— O que aconteceu? — demonstrou uma preocupação fingida.
Relatei o que eu sabia sobre os fatos, ou seja, praticamente nada. Falei do estado em
que minha moto havia ficado e do período no hospital. Para dizer a verdade, estava enrolando
o máximo possível para que não pudéssemos falar sobre os assuntos psicológicos, por assim
dizer. Não estava disposto a cometer algum deslize e acabar falando de minhas alucinações e
de minha suposta fixação em sua paciente das dezoito horas. Sabia que o propósito da terapia
era sermos completamente honestos e tentarmos descobrir nossos sentimentos com a ajuda de
um profissional, mas eu preferia tentar descobrir essa parte da minha loucura sozinho, pelo
menos por enquanto. Além disso, se eu demonstrasse meu interesse em Mikaela, corria o risco
de que Eva trocasse nossos horários, pois certamente não consideraria isso apropriado.
A conversa da doutora não passou de puro blá-blá-blá para meus ouvidos. A todo
instante olhava para o meu relógio, ansioso por sair daquela sala e me deparar com a linda
Mikaela dos cabelos vermelhos — não havia nada que eu quisesse mais do que isso naquele
momento.
— O senhor tem algum compromisso, André?
— Como? — indaguei como se acabasse de voltar de outra dimensão.
— Percebi que o senhor não para de olhar no relógio.
— É que tem jogo hoje, estou ansioso para assistir.
— Jogo numa segunda-feira? Isso é normal?
— Na verdade, é a reprise do jogo de ontem... Enfim, nada de importante. Desculpe,
vou parar de olhar o relógio — tentei desconversar, mas só porque já eram oito para as seis,
ficar sem olhar o relógio por oito minutos não seria nada de mais.
Após mais algumas palavras trocadas e informações anotadas, a doutora Eva
finalmente me dispensou. Agradeci a ela por seu tempo e saí ansiosamente da sala. Qual não
foi meu desânimo ao perceber que Mikaela não estava na recepção. Aproximei-me da
secretária para pagar e confirmar a próxima consulta.
— A doutora não tem mais pacientes por hoje? — fingi puxar conversa fiada.
— Ainda tem mais uma, mas ela chegou aqui ensopada, irritada de um jeito que o
senhor precisava ver.
— Foi embora? — quase não consegui disfarçar minha decepção.
— Acho que foi ao banheiro tentar se enxugar um pouco. Aqui está o seu cartão e o seu
comprovante.
— Obrigado, tenha uma boa semana. — Guardei tudo na carteira e direcionei-me ao
elevador.
Quando cheguei ao saguão do primeiro andar, vi que a chuva estava absurdamente mais
forte do que quando havia entrado no prédio. Dentro da sala fechada e com o ar-condicionado
ligado, não era possível perceber que a coisa estava tão feia. Ri sozinho, imaginando o quão
molhada Mikaela teria chegado ao prédio.
Quando estava prestes a sair e me encaminhar para o meu carro, que estava no subsolo,
alguma coisa me impediu de prosseguir — talvez a certeza de que nunca sairia daquele lugar
sem conferir como estava a mulher dos meus devaneios. Eu precisava revê-la, precisava falar
com ela novamente. No parque, Mikaela devia ter me julgado um completo imbecil. Não
poderia deixá-la com aquela impressão, precisava me redimir.
Contrariando todo o bom senso, sentei-me em um dos bancos do saguão do prédio e
esperei. Peguei algumas revistas e tentei me distrair para fazer passar o tempo, porque o meu
celular estava completamente sem sinal de internet. Aquele dia estava sendo realmente de
testar a paciência até mesmo de Jó. De repente, as luzes ao meu redor se apagaram, tudo ficou
numa escuridão sem fim. Imaginei que houvesse faltado luz no local. Alguém se aproximou e
cobriu meus olhos por trás, o que pareceu um pouco estúpido, visto que o breu era completo.
Retirei as mãos de sobre meus olhos e notei que o céu estava claro e limpo. Olhei para
trás e a vi. A moça de cabelos vermelhos. No entanto, eles não estavam ruivos, mas sim
negros, muito negros.
— O que fez com seu cabelo? — indaguei.
— Gostou? — Ofereceu-me um sorriso enorme.
— Você é linda de qualquer jeito! — Puxei a mulher pelos braços, trazendo-a para
diante de mim, e a beijei.
— Pelo visto você gostou mesmo! — Ela se afastou mais depressa do que a minha
vontade conseguiu assimilar.
— Espere, aonde vai? — Levantei-me e a segui. — Mikah?!
Ela começou a rir e a correr, quase como se quisesse que eu participasse de uma
brincadeira infantil. Tentei acompanhá-la, mas ela era rápida demais e se escondeu por entre
algumas árvores. Comecei a procurá-la, guiado por seu riso que ecoava pelo ambiente de modo
quase que psicodélico. Era como se o som se perdesse em outra dimensão.
— Mikah! — chamei mais uma vez.
— Estou aqui, venha me pegar! — ouvi a resposta.
Sorri e corri na direção de sua voz e do seu cheiro inebriante. No chão, pude verificar
os seus rastros. Parei e inspirei mais uma vez, ela estava por perto. Dei a volta num
aglomerado de árvores, esperando surpreendê-la do outro lado. Quando dei um salto para
assustá-la, a mulher se encontrava parada em frente a um homem muito branco, um sujeito
completamente albino. Os dois me olharam. Mikah tinha uma expressão de medo em seu rosto.
— O que está acontecendo aqui? — minha voz saiu trêmula.
— Precisamos de vós, creio que esperásseis que esse dia fosse chegar.
— O que quer dizer com isso? Mikah, sobre o que ele está falando?
— O momento que tanto temíamos chegou, precisamos escolher nosso lado — ela
respondeu de modo resignado.
— Afaste-se dela!
Tentei me colocar entre a mulher e o sujeito albino quando fui atingido por uma
espécie de choque. Caí no chão, sentindo dores por todo o corpo, e me contorci. Angustiado,
ouvia apenas a voz daquela linda mulher:
— Você está bem? Você está bem?
— Mikah? — murmurei ao abrir os olhos e me deparar com a Mikaela. A real.
— Qual é? Mal nos conhecemos e já está cheio de intimidade? Não gosto de apelidos
— sorriu, mostrando que não havia ficado chateada como gostaria de transparecer.
— Desculpe, não sei o que aconteceu — levantei do chão e me sentei no banco. Ela fez
o mesmo, parecendo preocupada de verdade.
— Você é epilético, ou algo do tipo? Estava aqui no chão se contorcendo todo quando
saí do elevador.
— Que horas são?
— Sete!
— Como é possível? — Levei minhas mãos à cabeça.
— Bom, até onde eu sei, as horas nunca param de passar.
Visualizei seu sorriso sarcástico de perto. Meus olhos logo se demoraram em sua boca
desenhada, e precisei fazer novo esforço para manter os meus instintos selvagens contidos.
— Deixa pra lá, obrigado.
— Beleza, estou indo. Tchau! — Ela se levantou apressadamente e eu a acompanhei.
Evitei segurá-la no último instante. Não queria entrar em outro devaneio.
— Espere, Mikaela, gostaria de falar contigo.
— Vai começar a me perseguir agora?
— Não é nada disso, só quero me desculpar. Não sei por que agi de modo tão idiota
hoje, mais cedo.
— Bom, eu também não fui muito legal com você, preciso admitir. — Abaixou os
olhos na direção do chão. Ignorei a coceira que senti nos meus braços, eles queriam puxá-la e
obrigá-la a jamais desviar os olhos de mim.
— Aceitaria tomar alguma coisa comigo?
— Parei de beber — ela deu de ombros, ainda evitando me olhar.
— Pode ser um café, ou chá.
Mikaela suspirou profundamente. Fechou os olhos e, quando os abriu de novo, parecia
mais decidida.
— Tá aí... Faz tempo que não tomo um chá.
— O que acha?
— Eu não tomo chá porque não gosto de chá.
Que mulher difícil!
— Não importa o que a gente vai beber, Mikaela. Que seja qualquer coisa, só quero...
Só preciso falar com você.
— Por que precisa tanto falar comigo?
— Diz a verdade... Seja sincera. Você quer falar comigo também.
Ela prendeu os lábios, relutante, mas foi aquiescendo lentamente.
— Quero.
— Então pra quê o charminho?
— Estou com medo — falou pausadamente, meio irritada.
— Eu também.
Nunca havia sido tão sincero com alguém em toda a minha nova vida. Algo me dizia
que ela também não estava muito atrás.
— Por favor, sem esquisitices... — sua súplica me fez baixar a guarda.
— Sem esquisitices. Prometo.
A chuva já havia amenizado no momento em que Mikaela e eu deixamos o prédio e
fomos para uma casa de chá próxima dali. Ela com certeza não tomaria chá, mas finalmente eu
teria a chance com a qual sonhei durante toda a última semana.
Pena que não daria para cumprir o que prometi. Sabia que as esquisitices estavam
apenas começando, dava para sentir só de observar, de modo hipnotizante, sua pele branca
corando depois que passei meus braços por cima de seus ombros, a fim de lhe proteger do frio
que a chuva havia deixado.
Capítulo 6
Mikaela

Tentei não pensar nos motivos imbecis que eu tinha para aceitar andar lado a lado com
um total desconhecido no meio da rua. Apesar de ter achado o André um verdadeiro idiota, não
podia ignorar as esquisitices que, pelo visto, não estavam acontecendo só comigo. Ele era
como eu. Fazia parte dos sete por cento. Nunca havia me passado pela cabeça que o cara negro
com quem uma louca disse que eu andava pudesse sofrer da mesma amnésia que eu sofria.
Não estava afirmando que o André era esse cara, mas o fato de ser tão perturbado
quanto eu, me deixou aliviada — por poder justificar uma suposta rejeição — e decepcionada
ao mesmo tempo. Afinal, se ele fosse quem tanto esperei, jamais poderia me dar alguma
informação sobre mim. É por isso que eu não entendia por que havia aceitado o seu convite.
Havia uma placa de alerta bem no meio de sua testa: André significava problema. E eu não
podia conviver com mais problemas além dos meus.
A noite estava fria, mas não de um jeito desconfortável. Definitivamente, não precisava
ser abraçada por ele, mesmo que estivesse usando apenas uma camiseta branca simples.
Entretanto, não consegui fazê-lo me largar até que chegamos a um estabelecimento bem
bonito, que inspirava os requintados chás da tarde que rolavam em mil oitocentos e
antigamente. O lugar estava um pouco vazio devido ao tempo ruim que fazia. Caminhamos até
uma mesa redonda pequena, rodeada de poltronas acolchoadas com estampa florida.
Ele sorriu para mim quando nos acomodamos. Não soube direito onde direcionar os
meus olhos, e a dúvida me fez encará-lo por mais tempo do que o normal. Não dava para
acreditar que estava frente a frente com o homem que tomou conta de todo e qualquer
pensamento que surgiu na minha cabeça durante a última semana. Sua imagem era exatamente
como me lembrava: olhos grandes e escuros, boca carnuda com dentes enfileirados e um
queixo másculo que dava vontade de morder.
Nosso encontro mais cedo havia me tirado da órbita. Foi difícil me controlar diante de
sua beleza e magnitude; meu corpo era atraído com força na direção dele, e eu fazia mais força
ainda para repeli-lo. Tinha conseguido até então, porém não saberia responder até quando seria
possível deixá-lo longe. Sua personalidade alegrinha demais me deixava irritada, mas os
resquícios de desdém e brutalidade contidos no seu jeito de falar me intrigavam em um nível
perigoso. Sem contar com a sua capacidade de quase me comer com os olhos. Nenhum homem
havia sido tão indiscreto comigo, pelo menos não sem me pedir milhões de desculpas depois.
Precisava significar alguma coisa.
— Então, Mikah...
— Mikaela. Não gosto mesmo de apelidos.
André aquiesceu, sorrindo debilmente.
— Mikaela. O que vai beber?
— Pensei que não importasse.
Daquela vez ele bufou, demonstrando impaciência. Não podia fazer nada se as palavras
rudes saíam da minha boca sem que eu percebesse. Era por causa disso que eu não convivia
com ninguém; não sabia ser agradável e as pessoas gostavam de ser agradadas. Talvez eu não
o fizesse porque detestava ser bajulada, ao contrário de todo mundo.
Uma garçonete se aproximou e nos perguntou se queríamos alguma coisa. André
tomou a iniciativa de pedir dois milk-shakes de chocolate com calda de caramelo. Não
reclamei. A única coisa que as mulheres do mundo e eu tínhamos em comum, além do órgão
sexual, era o gosto incondicional por tudo que tivesse chocolate.
Comecei a bater os dedos na mesa, meio impaciente. O tédio já ameaçava retornar. Não
adiantava o que eu fizesse, tudo me entediava depressa demais. Fixei meus olhos no arranjo
floral em cima da mesa.
— Quer dizer que você faz parte dos sete por cento— André tentou puxar assunto.
— Sem esquisitices — comentei seriamente, dando pouca bola.
— Desculpa, mas não sobra tanta coisa assim para conversar contigo se todas as
esquisitices forem excluídas.
— Não posso fazer nada. — Dei de ombros. — Você prometeu.
— Hum... No que você trabalha?
— É sério? — Fiz uma careta. — Falaremos sobre trabalho?
— Tudo bem, vamos começar de novo. O que gosta de fazer nas horas vagas?
Cerrei os punhos sobre a mesa e prendi os lábios com força. Por que todo mundo
precisava fazer aquela pergunta? Todos os caras com quem saí para jantar, e não foram
poucos, visto que tentei bastante ser alguém normal antes de desistir, adoravam saber sobre as
coisas que me interessavam. Que tédio!
— Nada.
— Não está funcionando, Mikaela. Dá pra me ajudar?
— Desculpa, mas fui sincera — adiantei-me, olhando-o de perto. André parecia
decepcionado comigo. — Não gosto de fazer nada.
— Nadinha?
— Nada.
— Nada, nada?
— Nada, André. Não gosto de músicas, filmes, livros ou qualquer esporte. Não tenho
um videogame ou um computador. Não curto nada. A única coisa que ainda faço é dar uma
fuçada no celular, aqui e ali.
Ele ofereceu uma expressão incrédula, que me fez sorrir de leve. Jamais havia sido tão
sincera antes. Geralmente, respondia aos caras que curtia feminices do tipo ir ao salão de
beleza e ler revistas sobre moda, tudo para não correr riscos de ser obrigada a praticar alguma
atividade em comum. Contudo, não conseguia entender o que aquele homem fazia comigo.
Pela primeira vez, não tive vontade de fingir ser quem não era ou fazer o que não faço.
— Isso é interessante... — murmurou.
— Por favor, você está parecendo a doutora Eva — bufei. — Não me olhe como se eu
fosse um objeto de análise.
Seus olhos se arregalaram muito.
— Não! Jamais, Mikaela. Desculpa... Não estou te olhando assim, eu juro. — Sua mão
grande foi repousada sobre a minha na mesa. Olhei para ela, não ousando me mexer. Ele era
absurdamente quente. — Também odeio quando ela me olha desse jeito, é patético. É só que...
Sofro exatamente do contrário. Gosto de fazer tantas coisas que é difícil escolher. Preciso
sempre estar em movimento, sempre em ação. Pareço um lunático. Minha concentração é
desvirtuada depressa, nada me sacia, nada é o bastante.
— Deve ser o mesmo problema — murmurei, sem parar de observar nossas mãos
juntas. As cores das nossas peles contrastavam tanto que era esquisito perceber que se
encaixavam de um jeito tão perfeito. — A diferença é que nem me dou o trabalho de tentar
nada. Sei que jamais serei saciada. Talvez eu seja menos insistente que você.
— Ora, dê algum crédito a si mesma. — Ouvi o som de seu riso. Desviei os olhos para
ele. Meu coração começou a bater depressa demais.
Minha única sorte foi ser surpreendida pela garçonete, que trouxe os milk-shakes.
André parou de me tocar e voltei à realidade. Por um segundo, tinha perdido a noção de tudo.
Alcancei o canudo e suguei fervorosamente até ser preenchida pela doce sensação de
ter chocolate dentro de mim. Cheguei a fechar os olhos com força. Minha dentista havia
proibido doces por causa da dor de dente crônica, mas decidi ignorar suas recomendações. Para
ser sincera, não tinha pensado nelas até então.
— Eu gosto disso — sussurrei depois de levar quase a metade da taça. Olhei para o
André; ele já havia terminado. Devia ter dado um gole só. — Uau... Você também deve gostar.
— Quando gosto de uma coisa, vou até o fim para saboreá-la o mais depressa possível.
Eu o encarei durante um tempo prolongado depois daquela frase. Voltei a encostar
meus lábios no canudo, e ele acompanhou o movimento da minha boca com muita
concentração. Senti meu rosto pegando fogo. Sabia que havia ficado vermelha sob seu olhar
malicioso. Esperei por um pedido de desculpas, que não veio. André continuou me encarando
com ousadia. Não soube dizer se me senti patética ou satisfeita. Era de se esperar que eu
sentisse a primeira coisa, não a segunda. Bom, acho que aquele dia queria se manter atípico.
— Quer mais? —André perguntou no momento em que ouvimos o barulho de quando
o canudo não tem mais nada para sugar, mas a pessoa insiste em continuar.
Assenti. Ele fez o mesmo pedido à garçonete, que passava por perto para atender outra
mesa.
— Sua vida deve ser um tédio — ele concluiu depois que voltamos a ficar sozinhos. —
Não consigo imaginar o que é viver sem fazer nada.
— Imagine-se preso em um caixão durante dez anos. Essa é a minha vida. — Peguei
um guardanapo e comecei a enroscá-lo entre os dedos. A ausência da mão dele começou a ser
sentida. Era insuportável.
— Não consigo imaginar, desculpe. Não é possível que nada te agrade.
Você me agrada. Você e chocolate.
Arquejei diante de meus pensamentos malucos. Definitivamente, eu não estava em meu
estado normal. A garçonete chegou com a nossa segunda rodada, que foi embora tão depressa
quanto a primeira.
— Vamos mudar de assunto? — sugeri.
— Por que foge deles?
— Estou entediada. Se quer saber, só há uma coisa que eu gosto de fazer—percebi
minha boca falando sem que meu cérebro raciocinasse. Não acreditava que estava prestes a me
abrir com um desconhecido. — Gosto de sentar na varanda do meu apartamento e observar a
noite. Fico imaginando que estou no alto de uma árvore e que tudo abaixo de mim é inferior à
minha existência. Passo horas assim, fingindo que sou importante e me deliciando com o ar
noturno.
André me encarou com tanta seriedade que me senti corando de novo. Concentrei-me
no que fazia no guardanapo, esperando sua opinião ou ao menos que falasse alguma coisa
idiota. O silêncio fez com que me sentisse uma estúpida. Até aí tudo bem. O que não dava para
entender era por que eu não queria que ele me achasse uma estúpida. Nunca me importei com a
opinião de ninguém, sobretudo com relação a mim.
— Você quer morrer.
— Desculpa? — Minhas veias congelaram imediatamente.
— Fale a verdade, Mikaela. Você não quer viver. É por isso que desistiu de fazer
qualquer coisa. — Eu estava quase confirmando tudo, e o intitulando o melhor terapeuta de
todos os tempos, por ter encontrado a raiz dos meus problemas, até que ele jogou tudo ao chão
com a próxima frase: — Você precisa de um namorado. Não acredito que você não gosta nem
de... — parou.
As veias outrora congeladas se esquentaram até fazer meu sangue ferver.
— Otário. — Levantei-me depressa da cadeira, mas ele me segurou.
— Não. Por favor, não vá, desculpa.
— Quem pensa que é para me analisar assim? — rosnei baixo para não chamar a
atenção dos outros clientes. — Acha que sofro de falta de sexo? Aposto que queria se
candidatar a resolver meu problema, não? Era esse o seu próximo passo? Largue-me.
André não largou o meu braço, porém sua pele ganhou uma coloração esquisita. Acho
que ficou envergonhado com as minhas palavras.
— Não, Mikaela, não... Juro que não, me desculpe se a desrespeitei! Não foi essa a
minha intenção.
— Melhor me largar — grunhi, queimando de raiva.
Ele finalmente foi razoável e me soltou. Suspirei fundo. Pensei mil vezes antes de
começar a andar até a saída. Em condições normais, sequer pararia para pensar, iria embora
depressa. No entanto, precisei reunir coragem para deixá-lo e nunca mais cruzar seu caminho
novamente.
— Sente-se, Mikaela. Por favor, sente-se.
Prendi a respiração e tirei algumas notas do bolso da minha calça jeans. Deixei o
dinheiro em cima da mesa e finalmente me livrei da esquisitice daquele encontro. Para o meu
infortúnio, havia começado a chover de novo. Eu gostava da chuva, só não de me molhar.
Curtia observá-la de longe como algo inalcançável, admirava sua beleza sem querer fazer parte
dela, pois a partir do momento que eu fizesse parte, sabia que deixaria de ser bela.
Andei a passos largos pela rua pouco movimentada. Minha visão embaçou devido às
lágrimas que se reuniram e se misturaram com as gotas grossas que caíam do céu. Fiquei
ensopada em questão de segundos, abraçando-me com força para espantar o frio e a dolorosa
sensação de vazio. Cheguei perto do prédio da terapeuta e pensei seriamente em procurá-la,
explicar que não queria viver e tentar achar outra solução para o meu problema que não
envolvesse um namorado otário.
Senti mãos inexplicavelmente quentes tomarem meu corpo e me puxarem de maneira
decidida. Vi-me enlaçada em um abraço caloroso, urgente, sufocante. Um corpo grande
preencheu as lacunas da minha existência em segundos.
Comecei a chorar alto, como jamais havia acontecido em dez anos. Cruzei meus braços
ao redor de um pescoço grosso e senti cabelos crespos e fartos entre meus dedos. Um raio
poderoso irrompeu do céu e deve ter atingido um ponto muito próximo, pois ouvi um barulho
ensurdecedor acompanhado por uma luz capaz de transformar a noite em dia, por um segundo,
naquela rua.
Assustamo-nos e nos separamos.
— Caraca! Deve ter caído muito perto! — André gritou. — Venha, Mikaela, estacionei
meu carro no prédio da terapeuta. Não é seguro ficarmos aqui.
Ele puxou a minha mão e me levou até o subsolo do prédio comercial, que servia como
garagem. O lugar era imenso. Havia poucos carros por ali àquela hora, mas aparentemente
André tinha estacionado bem longe da entrada. Andamos de mãos dadas, sem pressa. Eu ainda
me sentia descontrolada, aérea, entendendo muito pouco do que tinha acabado de acontecer.
— Espera... Espera, André. — Parei de andar. Ele se virou na minha direção,
conferindo meu estado com curiosidade. Estávamos ensopados. — O que... Onde está... Eu
preciso ir para casa.
— Sei disso. Vou te levar.
— Não. Vou pegar um ônibus.
— Deixe disso, sim? Sei que agi como um idiota, só para variar, mas não precisa
arriscar sua vida lá fora por causa de birra.
— Não estou fazendo birra. — Fiz uma careta.
— Está sim, sua birrenta. — Uma mão grande foi parar na lateral do meu rosto. Tive a
sensação de que ele podia esmagar o meu crânio só com ela, porém seu toque foi
absolutamente suave. — Desculpa, Mikaela. Eu não quis te ofender dizendo aquilo. Deixe-me
te proteger.
Encarei-o e, no fundo, sabia que alguma coisa ia acontecer. O momento pré-devaneio
era exatamente aquele, pude sentir, por isso não me assustei quando o estacionamento sumiu,
dando lugar a um descampado amplo.
André estava diante de mim, usando roupas que pareciam do século passado: camisa
branca de mangas compridas e babados exagerados, calça larga preta e botas de cano alto por
cima da calça. Seu cabelo estava curtinho, mas o rosto era o mesmo.
— Deixe-me te proteger — sussurrou baixinho, alisando a lateral do meu rosto.
— Não há o que ser protegido além do nosso amor — respondi como se soubesse
exatamente sobre o que estávamos falando. — Apenas sinta e, assim, estará o protegendo.
— Jamais deixarei de sentir o que se enraizou em mim. Não há força que nos separe,
Mikhayah. Nada é maior do que o meu amor por você. — Ele me abraçou com força, como se
fosse incapaz de me largar algum dia.
Voltei ao estacionamento mais depressa do que desejava — por incrível que pareça,
começava a gostar daqueles devaneios malucos, por menos sentido que eles fizessem —, e me
dei conta de que o André, o real, me abraçava de novo.
Por um mísero segundo, senti paz. Tranquilidade. Aconchego. Por um instante breve,
não senti vontade de morrer. Queria viver. Senti-me viva, pronta para encarar os fantasmas do
meu passado. Pronta para encarar qualquer coisa.
Tê-lo tão perto, com nossos corpos molhados completamente colados um ao outro, fez
um fio discreto brilhar dentro de mim: o fio da esperança. Uma centelha pequena, uma chama
leve, mas que foi capaz de iluminar a escuridão que havia sido tatuada em meu espírito.
— Mikah... — ele sussurrou com sofreguidão.
— Estou aqui...
Suas mãos calorosas percorreram os meus cabelos até as pontas, no meio das minhas
costas. André me puxou ainda mais, tentando nos unir até nos tornarmos um só. Não parei para
pensar na loucura que era estar nos braços dele no meio de um estacionamento vazio enquanto
uma tempestade caía lá fora. Em dez anos, nunca havia estado em uma situação tão íntima com
qualquer pessoa. E pior, sentindo absoluto prazer. André despertou em mim uma Mikaela até
então desconhecida.
Ele se afastou um pouco só para me olhar. Seus olhos escuros pareceram ainda mais
brilhantes. Eu sabia o que aquele homem ia fazer. Foi por isso que, contra todos os meus
princípios, fechei os olhos e esperei. Seu hálito quente foi se aproximando devagar. Entreabri
meus lábios para recebê-lo, e então ouvi um estrondo terrível.
Gritei de susto e larguei o André no impulso, percebendo que a energia do
estacionamento havia faltado, deixando tudo imerso na escuridão.
— O que foi isso? — ele perguntou com um berro. — Ouviu?
— Claro que ouvi! Foi ensurdecedor! Deve ter sido outro raio... Ai, meu Deus, e agora?
A energia voltou de repente e as luzes se acenderam. Olhamos ao nosso redor. André
chegou a dar uma volta diante de si, parecendo tão espantado quanto eu.
— Vamos sair daqui. Vou te levar em casa. Por favor, não negue.
— Tudo bem... —arfei alto. A adrenalina total ainda percorria o meu corpo. O que
tinha sido tudo aquilo? — Tudo bem, vamos logo!
Andamos apressadamente até o carro dele. Não voltamos a nos encostar durante o
caminho. Entramos em um sedan com bancos de couro muito confortáveis, era uma pena que
iam estragar por causa das nossas roupas molhadas.
Alguns minutos depois, paramos em um congestionamento quilométrico por causa da
forte chuva. Devia ter acontecido algum acidente na via ou algo do tipo.
— Espero que você não se mate — André murmurou depois que percorremos em
silêncio pela metade do caminho tortuoso até o meu apartamento.
— O quê?
— Não cometa uma loucura.
— Você quer que eu não me mate ou que não cometa uma loucura? — Olhei-o,
sorrindo. Ele sorriu de volta.
— Certo, pode cometer loucuras. Só não se mate.
— Não vou me matar. Posso conviver com o tédio durante anos.
Caímos no silêncio novamente. O trânsito insuportável estava deixando André
impaciente, dava para perceber. Foi por isso que liguei o som mecanicamente.
— Não precisa fazer isso, Mikaela. Sei que não gosta de música. — Ele desligou.
Infelizmente, estava com a razão. Eu só ia me esforçar um pouco para não deixá-lo entediado
como eu. Não fazia sentido, claro. Nunca me importei em agradar ou em fazer alguma coisa
por alguém.
Comecei a balançar minhas pernas nervosamente. Percebi que ele fazia o mesmo, só
que com as mãos: agitava-as sobre o volante.
— Como você acordou? — perguntei, mas me arrependi. Não queria tocar em assuntos
difíceis, mas aparentemente todos os nossos assuntos eram assim.
André me olhou um pouco, mas logo voltou a se concentrar na pista.
— Sozinho. Perdido. Foi um saco. E você?
— Foi um saco também — limitei-me a responder. — O que acha que aconteceu?
— Não sei. Não penso muito sobre isso. Não mais.
Pensei em comentar sobre os devaneios que estava tendo, mas desisti. Aquilo só iria
assustá-lo, ou fazê-lo me achar ainda mais louca. Não queria estragar tudo. Além do mais, eu
nem devia confiar nele, embora estivesse agindo completamente de modo contrário nas últimas
horas. Apesar de tudo, cada vez mais me convencia de que André era um idiota. Comprovei
quando chegamos ao meu apartamento.
De um jeito cafajeste, ele sorriu para mim. Cheguei, por um instante, a me inebriar pela
fileira de dentes perfeitos e extremamente brancos, e por aquela boca que me atraía de um jeito
espantoso. Senti um arrepio subindo pela coluna. Eu não sabia o que eu queria, ou se queria
mesmo alguma coisa, mas, por uma fração de segundos, cheguei a considerar o que jamais
passou pela minha cabeça. Até que André fez a famosa pergunta cretina, que quebrou todo o
encanto do momento:
— E aí, Mikah, não vai me convidar para entrar? Afinal, eu te trouxe até aqui e estou
todo molhado...
A atração se transformou numa imensa vontade de lhe desferir um soco bem dado e
destruir aqueles malditos dentes de porcelana. Podia ter sido uma pergunta simples se não
viesse acompanhada por aquele sorriso cretino e da insinuação feita por sua linguagem
corporal.
Juntei tudo na panela e cheguei à conclusão de que, sim, ele só queria se aproveitar de
mim e eu era a maluca que estava tendo surtos sobre nós dois. Se não fossem aqueles surtos,
com certeza jamais teria aceitado qualquer tipo de aproximação.
A raiva que senti quase não pôde ser contida. Queria pular no pescoço daquele sujeito
até fazê-lo entender que jamais seria burra para cair em suas artimanhas. Se bem que a ideia de
pular em cima dele fez meu corpo tremer com mais um arrepio na coluna.
— Não. Obrigada pela carona — fui o mais seca possível.
Abri a porta do carro.
— Espera! Você não me deu o seu telefone. — Ele segurou mais uma vez em meu
braço. Minha cabeça gritava: Saia! Porém meu corpo implorava: Fique!
— Não posso te dar meu telefone, senão fico sem ele — fiz uma piada boba e manjada,
mais para desviar meu desejo do que necessariamente para fazê-lo rir. Aliás, ele não riu
mesmo e muito menos eu.
— Mikah, por favor, não faz assim! — Desvencilhei meu braço e saí do veículo.
— Vai à merda, André! Você não passa de um safado, como todos os outros. E pare de
me chamar de Mikah, não te dei intimidade. Nem mesmo meus amigos me chamam assim —
refleti um segundo, lembrando que não tinha nenhum amigo de verdade.
— Não é nada disso, você não está entendendo! — Ele abriu sua porta e começou a sair
do carro.
Com medo do que um homem enorme daqueles poderia fazer com uma mulher como
eu, saí correndo sem sequer fechar a porta do carro. Peguei nervosamente minhas chaves e abri
o portão de entrada. André não correu ou tentou me impedir, mas os meus instintos gritavam:
Corra, corra dele! Enquanto meu corpo ainda gritava: Corra, corra para ele!
Cruzei a portaria depressa, certificando-me de que a porta ficasse trancada. Sequer tive
paciência de esperar pelo elevador. Tomei as escadas e minhas pernas bambeavam, mal
conseguindo vencer os degraus. Quase não acreditei quando finalmente cheguei ao meu
apartamento. Fechei a porta e suspirei profundamente.
Deixei meu corpo cair no chão. Meu coração estava tão acelerado que parecia querer
sair pela boca. Na verdade, era o milk-shake que queria sair. O esforço e o desespero me
causaram um tremendo mal-estar. Corri para o banheiro e vomitei. Os braços e pernas
continuavam tremendo.
Céus, o que aquele homem tinha para mexer tanto comigo? Qual magia aquele corpo
tinha para exercer tamanho poder de atração sobre o meu? Por que me sentia uma completa
otária perto dele? O idiota era mesmo ele, ou será que era eu?
Corri até a janela do apartamento. Ele continuava parado na calçada, olhando para a
fachada do edifício. Tentei abrir a janela, pronta para falar alguma coisa. Sei lá, me desculpar.
Afinal, eu acabara de agir como uma mocinha indefesa fugindo de um agressor. Porém, a
maldita janela, que sempre emperrava, custou a abrir. André sacudiu a cabeça negativamente,
como se estivesse chegando à conclusão de que eu não valia a pena. Entrou em seu carro e
partiu.
Eu era mesmo uma estúpida. Aquele homem era a primeira pessoa por quem sentira
algum tipo de conexão nos últimos dez anos, e eu simplesmente o havia enxotado daquela
maneira. Definitivamente, eu não estava bem. Precisava de um banho, de uma noite de sono
completa, de muitos analgésicos para a dor de dente, que começou a me assolar de novo —
maldito milk-shake —, e de um novo cérebro, pois o meu estava mais estragado do que
parecia.
Além de todas as loucuras que vinha enfrentando em níveis cada vez maiores na última
semana, ter que ficar pensando num total estranho, safado, otário, alto, lindo e musculoso... Ai,
aquela luta entre meu cérebro e meu corpo estava me enlouquecendo.
Tomei um banho para abaixar a tensão, deitei completamente nua, queimando pelo
calor e pelo fogo que ardia dentro de mim — ódio e desejo — e, com algum custo peguei no
sono, mas infelizmente nada pude fazer quanto ao cérebro.
E, enquanto respirava durante os dias que se seguiram, pensei no André de todas as
formas possíveis.
Capítulo 7
André

Eu simplesmente não podia acreditar no que havia acabado de acontecer. Que tipo de
mulher louca simplesmente surta sem eu ter feito, ou dito, nada de mais, e sai correndo como
se eu fosse algum maníaco? Fiquei atônito, tentando assimilar o que se passara. Durante um ou
dois minutos sequer consegui voltar para o carro, fiquei olhando para a fachada do prédio.
Aquilo era surreal demais até para um cara como eu, cheio de visões loucas, ataques repentinos
e explosões de raiva.
Do nada, percebi que a cena estava estranha demais. Ficar parado ali sem razão
começaria a causar desconforto nos moradores e alguém poderia acabar chamando a polícia.
Sacudi a cabeça como que tentando acordar de um torpor, entrei no meu carro, liguei uma
música para me distrair e saí cantando pneu. Eu estava enfurecido. Como é que a Mikah, ou
melhor, Mikaela, podia ter feito uma coisa daquelas comigo? Realmente havia acreditado que
nossas histórias estavam interligadas de alguma forma, mas, diante da reação da mulher,
aparentemente eu jamais saberia.
A raiva foi me subindo à cabeça. Dirigi sem rumo pela cidade, tentando esfriar um pouco
os miolos antes que eles começassem a fritar. Desliguei o celular, pois o barulhinho das
mensagens entrando a todo instante estava me irritando. Quando me dei conta, estava passando
lentamente em frente à Praça dos Apaixonados, lugar onde encontrei Mikaela mais cedo
naquele dia. Apesar do gigantesco fora que tinha acabado de levar, o meu maldito cérebro
continuava me conduzindo ao encontro daquela mulher complexa, confusa, mal-humorada e
tão estranhamente linda e hipnotizadora.
Antes que meu subconsciente acabasse me levando de volta ao prédio dela, e eu me
enfiasse em mais alguma situação embaraçosa, resolvi ir direto para minha casa e dormir. Uma
boa noite de sono me faria esquecer tudo aquilo. Tentaria ao máximo parar de pensar nela e
procuraria seguir com minha vida, como vinha fazendo nos últimos dez anos: um dia após o
outro, uma paixonite após a outra. Aquilo tudo era informação demais para a minha cabeça... E
ainda faltava uma semana até meu próximo encontro com a doutora Eva. Daquela vez, eu
estava mesmo precisando desabafar.
Quando entrei no apartamento, já eram quase dez e quarenta da noite. Assim que
coloquei os pés na cozinha para tomar um copo de água, Fred apareceu. Estava muito bem
vestido, tinha passado um dos seus perfumes mais fortes e terminava de ajeitar o cabelo com o
gel.
— Fala, André! Qual é a boa?
— Boa? Pelo visto quem tem algo de bom para hoje é você! Aonde vai todo arrumado
desse jeito? E esse banho de perfume que você tomou?
— Cara, hoje a noite promete... Promete muito!
—Num dia de semana? —Fiz uma careta de estranhamento.
— Pois é, e acho que você devia vir comigo!
— Está doido, cara? Amanhã preciso trabalhar, aliás, preciso recuperar o tempo
perdido de hoje, que não fiz nada.
— E você acha que amanhã não tenho trabalho também? Tenho, pelo menos, sete
clientes confirmados para visitar. A empresa está com uma campanha nova e quem vender
mais vai ganhar uma televisão de quarenta e nove polegadas. Bom, você não deve ter visto,
aposto que nem pegou no seu tablet hoje.
— Não mesmo. Então, aonde é que você vai?
— Amigão, está tendo uma nova balada rave na cidade. Uma parada meio
experimental, meio psicodélica. Como segunda é um dia que não costuma ter nada de bom na
cidade, resolveram investir nisso. Ainda acho que você deveria vir comigo, vou me encontrar
com uma galera muito maneira e você está mesmo com cara de quem precisa espairecer.
Enquanto bebia meu copo de água, refleti sobre o convite que Fred acabava de me
fazer. Será que era a oportunidade perfeita surgindo num momento de necessidade? Eu
precisava mesmo esquecer Mikaela, ela era tão doida que duvidava muito de que algo fosse
rolar entre nós dois.
— Tudo bem, eu vou contigo. Espera uns quinze minutos para eu me arrumar, ok? Vai
lá esquentando o carro — respondi finalmente.
— Carro? A gente não vai de carro, não! Vamos pegar um táxi.
— Táxi? Pra quê, cara? Nós dois temos carro, se você não quer ir no seu, podemos ir
no meu.
— O problema não é esse, meu caro amigo inocente... É que, se tudo der certo esta
noite, estaremos tão loucos que nenhum de nós terá condições de dirigir na volta para casa! —
Fred gargalhou alto e me deu um tapa nas costas.
Normalmente eu pensava demais nas coisas, então daquela vez resolvi apenas me
deixar levar. Nada melhor para curar uma decepção amorosa e esquecer uma garota do que sair
e conhecer outras garotas. Esse era um santo remédio usado desde os primórdios da
humanidade, e que sempre deu certo.
Fui para meu quarto, tirei as roupas úmidas e as depositei em cima do cesto de roupas.
Tomei aquele banho gelado super-rápido e voltei para o meu cômodo. Escolher uma roupa
para a balada não costumava ser tarefa difícil para mim, afinal, meu tamanho e meus dreads
costumavam atrair muito mais a atenção do que necessariamente o que eu estivesse usando.
Para não ficar atrás de Fred, passei também um de meus perfumes mais caros e pronto!
Estava adequado para uma rave louca numa segunda-feira. Descemos e pegamos o primeiro
táxi que passou pela rua. Fred estava excitadíssimo, trocava mensagens instantâneas
enlouquecidamente, combinando os últimos detalhes com os amigos e não parava de falar
como aquilo tudo seria muito bom. Eu continuava, apesar de tudo, pensando somente na
mulher de cabelos vermelhos e lábios tentadores. Era isso, cheguei à conclusão de que
precisava me soltar e enlouquecer naquela noite, precisava esquecer aquela doida a qualquer
custo.
O táxi nos deixou bem em frente ao local. A música eletrônica podia ser ouvida em alto
volume a quarteirões de distância. Na entrada, nos encontramos com um grupo de cerca de dez
pessoas, todos amigos de Fred, um pessoal que nunca havia conhecido, mas os homens
estavam todos com roupas de marca e as mulheres eram todas muito bonitas. Meu colega de
apartamento logo tratou de me apresentá-las. Senti os olhares cobiçosos das mulheres e
também lhes ofereci alguns olhares mais incisivos. A noite, definitivamente, prometia.
Entrando no lugar, a música era ainda mais ensurdecedora do que eu poderia imaginar.
As garotas foram logo pulando, dançando e se esfregando em nós, homens. Era loucura total, o
clima instigava e era impossível ficar parado. As luzes estroboscópicas me deixaram um pouco
tonto no início, mas logo me acostumei com elas e acompanhei o seu colorido que refletia na
expressão de felicidade das pessoas. Gente bonita, festa e alegria era tudo de que eu precisava
naquele momento. Fiquei feliz por ter aceitado o convite de Fred que, por sinal, já havia
sumido e se misturado em meio à multidão.
Uma vez em Roma, aja como os romanos. Comecei a dançar e a me entrelaçar com a
mulherada que me rodeava, estava mesmo a fim de perder a linha naquela noite. Fred
reapareceu com copos cheios de uma bebida colorida, que eu sequer tive a curiosidade de
perguntar o que era, apenas peguei e comecei a entornar. Há tempos eu não saía para uma noite
de loucura e curtição, e ali iria me soltar.
As músicas estavam cada vez mais aceleradas, as pessoas cada vez mais alucinadas e
eu cada vez mais imerso naquilo tudo. Maristela, uma das garotas que estava no grupo de Fred,
se aproximou e, sem falar nada, colocou a mão por trás do meu pescoço e me beijou.
Aquilo sim que era terapia, que doutora Eva que nada!
Deixei-me levar por aquele beijo inebriante, com nossos corpos dançando e a bebida
subindo à cabeça. Envolvi-a com meus braços e a ergui para que ficássemos da mesma altura.
Ela começou a passar as mãos pelos meus dreads, estava bem louca e eu não estava muito
diferente. Tanto sentimento reprimido na última semana precisava mesmo ser extravasado.
Dancei como não me recordo de ter dançado nunca antes em minha vida. As bebidas
surgiam sei lá de onde, uma mais colorida e diferente que a outra. Eu simplesmente bebia,
dançava e me entrelaçava cada vez mais com a Maristela. Cada nova música fazia meu sangue
pulsar com mais intensidade. Em algumas oportunidades vi Fred se divertindo tão loucamente
quanto eu, ele sorria e me fazia sinais como quem dizia: — Hoje você vai faturar!
Todo o resto que aconteceu naquela festa passou como um borrão pelos meus olhos.
Era música alta, dança, muita bebida e muitas doses de Maristela, aquela menina sabia mesmo
como agradar um homem, ainda mais um com o coração partido e vontade de ver o mundo se
explodir. Foi pegação pura, algo com o que já estava acostumado, mas que vinha relutando em
fazer nos últimos dias.
Quando abri os olhos, já era manhã. A luz do sol me cegava. Olhei no relógio, ainda
era cedo, nove horas. Sentei-me e olhei ao redor. Era algum lugar que eu não conhecia. Um
quarto de hotel ou algo assim.
O que tinha acontecido?
Em minha mente dolorida a noite anterior passava em flashes. Levantei da cama, olhei
mais uma vez ao redor. Não havia ninguém comigo. Corri até um pequeno sofá, onde minhas
roupas estavam. Minha carteira estava lá, ufa, não havia sido vítima de algum golpe. Porém, o
que diabos eu estaria fazendo sozinho em um quarto de hotel?
Andei em direção ao banheiro. Quando coloquei a mão na maçaneta, alguém puxou a
porta para dentro. Era Maristela. Meu coração se apertou. A imagem de Mikaela
instantaneamente veio à minha cabeça. Droga! Eu havia feito aquilo tudo para esquecê-la e a
primeira coisa que me veio ao ver outra mulher saindo de um banheiro, num quarto de hotel
onde certamente não havíamos passado a noite apenas nos beijando, foi que eu estava traindo a
minha amada.
Traição? Ela não era nada minha e, pela sua atitude, jamais seria. Então por que aquele
sentimento? Por que aquele mal-estar?
— Bom dia, gatinho! — Maristela me ofereceu um sorriso e um beijo estalado nos
lábios.
— Bom dia — respondi ainda meio sem jeito.
— Pode entrar, eu já terminei.
Saí para o lado, dando passagem a ela.
— Preciso correr, hoje tenho que trabalhar. Isso que dá farrear em dia de semana. —
Sorri para ela.
— Poxa vida, você vai sair, assim? Depois de tudo que fiz pra você esta noite? — Ela
lançou aquele olhar pidão de gatinha manhosa.
— Não, não. Você está certa. Podemos sair para tomar um café da manhã em algum
lugar — respondi sem sequer me lembrar de tudo que tinha feito pra mim naquela noite, mas
se ela queria aguçar minha curiosidade, tinha conseguido.
Fui ao banheiro e tomei um banho rápido. Voltei para o quarto, me vesti, dei uma
rápida conferida no celular e saí com uma Maristela sorridente ao meu lado. Será que ela
estava pensando que éramos namorados ou alguma coisa do tipo? Descemos até a recepção do
hotel, paguei a conta e nos encaminhamos para a rua.
— E agora, para onde vamos, já que estamos os dois a pé? — perguntei.
— Ah, tem um café aqui pertinho que é um luxo, mas antes a gente podia dar uma
paradinha no mercado que fica no caminho. Preciso só comprar uma coisa.
— Tudo bem, vamos lá, então. — Seu sorriso era tão lindo e cativante que não fui
capaz de lhe negar.
Era uma situação estranha. Nós dois estávamos, após uma noite muito louca,
caminhando lado a lado. O que fazer? Andar de mãos dadas não parecia fazer sentido para
mim, mas ficar de mãos abanando também me soava estranho. Resolvi não tomar nenhuma
atitude, deixei que ela fizesse o que achasse mais propício para a situação. Maristela parecia ter
lido minha mente e, num movimento brusco, agarrou-se ao meu braço e passou a andar
daquela forma pela rua.
O mercado realmente era bem pertinho e não tardou para que entrássemos nele. Disse
para Maristela ir pegar o que queria que eu ficaria circulando perto da entrada. Mesmo quando
tive meus namoros de curta duração, nunca gostei de fazer compras com as mulheres, sempre
achei um saco. Estava apenas olhando superficialmente e desinteressadamente algumas sessões
quando tive uma visão que me deixou completamente sem reação.
Tudo bem, ela estava vestindo um uniforme bem comum, não estava muito bem
arrumada, mas aqueles cabelos, aquela boca, eram inconfundíveis. Com a maior expressão de
falta de paciência possível, e num movimento repetitivo e entediante, Mikaela ajeitava uma
porção de pacotes de biscoito na prateleira que destacava uma promoção. Não deu para
acreditar. Que peça mais sem graça do destino me levar até aquele lugar, ainda mais
acompanhado!
Minhas pernas não sabiam para que lado se mover. Fugia, torcendo para que ela não
tivesse me visto, ou ia em sua direção e a cumprimentava? Depois da noite anterior, imaginei
que ela não quisesse muito papo comigo, então decidi simplesmente me afastar. Porém, e se
ela tivesse me visto e achasse que eu estava sendo muito grosseiro ao não cumprimentá-la?
Sem saber o que fazer, o destino mais uma vez se encarregou de tomar a decisão por
mim. Vindo de um dos corredores, com algum objeto nas mãos, Maristela falou numa altura
que, certamente, o mercado inteiro escutou:
— Pronto, André, já consegui o que queria. Vamos embora, querido!
Querido? Ela era do tipo de pessoa que chamava todo mundo de querido ou realmente
estava achando que uma noite de aventuras nos tornava um casal? Contudo, o pior não foi isso,
mas o fato de que, na mesma hora, Mikaela levantou a cabeça e olhou na nossa direção, o que
quase todos que estavam ali fizeram. Então, ela viu Maristela se aproximar de mim e me puxar
pelo braço.
Juro que não foi impressão minha quando vi os olhos de Mikaela se acenderem. A cor
dourada transformou-se num vermelho sangue. Sacudi a cabeça, imaginando estar vendo
coisas, e observei quando ela atirou uma caixa cheia de biscoitos no chão. Aparentando estar
furiosa, saiu andando rapidamente por um dos corredores. Vi que um segurança do lugar
tentou falar com ela, mas foi afastado com um empurrão.
— Querida — entrei no jogo —, vá ao caixa pagar que preciso ver uma coisinha e já
volto.
Saí andando rapidamente, antes mesmo que Maristela pudesse responder, e segui na
mesma direção para onde Mikah tinha ido. Era muita sacanagem do destino. Aquilo não podia
estar acontecendo comigo; justamente comigo que não gostava desse tipo de complicações
amorosas, me encontrava diante de uma falsa namorada arrumando problemas por causa de
uma falsa amante.
Era coisa demais para a minha cabeça. A vontade que eu tinha era de sair correndo
daquele mercado deixando aquelas duas mulheres para trás, mas o meu sentimento foi mais
forte e não pude fazer aquilo.
— Mikaela, por favor, me espera! Não faz assim!— Eu estava andando mais rápido
para me aproximar dela, e juro que a vi enxugando algumas lágrimas.
— Eu estava certa, saia de perto de mim!
Ela começou a correr. Se entrasse na área restrita aos funcionários, seria complicado
continuar a perseguição. Quando passamos por uma interseção dos corredores, um sujeito
trajando uniforme se aproximou e perguntou:
— Algum problema? Ele está te incomodando, Mikaela?
— Sim, está, e você também! Suma daqui, Sérgio. Os dois, deixem-me em paz!
—Afaste-se da moça, você a ouviu— Sérgio parou e colocou a mão em meu ombro.
— Ah, você não vai querer ir por esse caminho, cara! — Encarei o segurança, que
devia ter uns trinta centímetros a menos do que eu.
— Vou chamar a polícia! — ele respondeu nervosamente.
Vendo que as coisas poderiam se complicar, Mikaela retornou, segurou a mão do
segurança e a abaixou.
— Está tudo bem, Sérgio, pode deixar que eu falo com ele.
— Vou chamar a polícia — ele repetiu, ainda bastante nervoso. Nunca vi um segurança
tão frouxo quanto aquele.
— Não precisa, está me ouvindo? — Mikaela o olhou com desgosto. — Eu resolvo
com ele aqui, pode ir lá para o seu lugar.
— Estou no rádio, qualquer coisa é só chamar.
— Obrigada.
Esperamos até que o segurança se afastasse. Olhei assustado para o rosto
completamente sem expressão de Mikaela.
— Não faz assim... — murmurei, mas ela me interrompeu abruptamente.
— André, não somos namorados, não somos nada, não temos o que conversar. —
Mikaela foi tão fria que cheguei a sentir um calafrio.
— Não é assim, poxa!
— Você tem uma namorada, grande coisa! Não é o primeiro canalha comprometido a
dar em cima de outras mulheres.
— Quem, a Maristela? Você entendeu tudo errado, ela não é minha namorada, ela não
é nada minha... Eu a conheci apenas ontem à noite.
— Sei, ontem à noite... E já está nessa intimidade toda, chamando de querido. Acredito.
— O sarcasmo ficou evidente em seu olhar duro como rocha.
— Ela deve ser uma dessas pessoas, você entende...
— Você é mais babaca do que eu tinha pensado. Por que acha que eu estou me
importando e que quero ouvir as suas explicações?
Abri a boca para falar alguma coisa importante. Pensei em lhe contar sobre a minha
obsessão, sobre os surtos, sobre o fato de não conseguir parar de pensar nela nem por um
segundo sequer. Ia lhe confessar que, pela primeira vez em dez anos, sentia que devia, e queria
dever, explicações a alguém e que não me passava pela cabeça explicar nada sobre a minha
vida a outra pessoa que não fosse ela. Porém, tudo aquilo ficou guardado em algum lugar bem
atrás da minha garganta. Soaria maluco demais, e só a afastaria para ainda mais longe do meu
alcance.
— Mikaela, não faz assim. Sei que você não está pedindo explicações, mas eu quero
dá-las, quero que você entenda.
— Não perca o seu tempo e o meu. Estou pouco me lixando, dá pra entender? —
Arquejou profundamente. — Você continua entediante.
Sua frase me deixou bem magoado. Fui comparado a todas as outras coisas em sua
vida: um tédio completo. Eu queria representar algo além do que ela esperava. Meu desejo era
nunca lhe causar tédio, era sempre surpreender e mostrar que a vida podia ser boa. Queria que
Mikaela aprendesse a gostar de viver, e de preferência que eu a ensinasse.
— Mikah, não faz assim comigo, não me afasta antes mesmo de me conhecer, estou te
pedindo... Por favor — soei completamente desesperado, talvez porque estava mesmo.
Ela piscou os olhos marejados diversas vezes.
— Acho que já te conheci o suficiente. Não tem mais nada que me interesse, se é que
tive algum interesse antes. E pare de me chamar assim, já disse que não gosto de apelidos.
— Está mentindo.
— O quê? — rosnou como uma fera prestes a atacar.
— Está falando por falar. Se não se importasse comigo, se eu não fosse de seu
interesse, não estaria reagindo assim.
Ela pareceu desconcertada por alguns segundos, mas logo retomou o controle.
— Você deve mesmo se achar o último biscoito do pacote, não?
— Você é muito teimosa mesmo, hein?! — soltei sem raciocinar, morrendo de raiva da
porcaria do destino e daquela mulher encrenqueira.
Mikaela se aproximou de mim com uma fúria indescritível no olhar. Podia jurar que vi
seus olhos ficando avermelhados novamente. Ela colocou o dedo em riste diante do meu rosto.
Seus lábios estavam excessivamente atraentes. A linda mulher começou a falar um monte de
baboseiras que eu nem prestei atenção, só conseguia enxergar seus lábios se movendo, mais e
mais rápido. Quando menos esperava, segurei seus pulsos, puxei seu corpo em direção ao meu
e... Um enorme clarão nos rodeou, o tempo parou por um instante. Um zumbido ensurdecedor
tomou conta dos meus ouvidos.
Abri os meus olhos e me afastei de Mikah. O lugar onde nos encontrávamos estava
completamente desolado, focos de incêndio se multiplicavam em todos os lugares. Voltei a
olhar para ela, e lágrimas de sangue corriam por seu rosto.
Ouvi um barulho de passos se aproximando. Olhei para trás e vi aquele mesmo sujeito
albino que aparecera para nós no meu devaneio anterior. Mikah segurou minhas mãos,
encarou-me com um misto de dor e alegria e disse:
— Eu vou te encontrar, prometo.
— Vou ficar te esperando. Eu te amo, Mikhayah.
— Eu também te amo, Àndreas. Confie... Confie em nós.
— Eu nunca vou te esquecer. É uma promessa. Não há nada que nos separe.
— Não há nada que nos separe — ela repetiu entre lágrimas, mas um sorriso lindo
estampava o seu rosto perfeito.
O senhor albino parou diante de nós e nos permitiu um último beijo. Quando nos
abraçamos, ele se aproximou e nos separou.
— Está na hora! — O albino nos encarava de um jeito esquisito.
Mikaela se desvencilhou dos meus braços de supetão e, inesperadamente, deu um belo
tapa em meu rosto, que estalou alto. Doeu muito. Para ser sincero, achei que tinha quebrado
alguma coisa de tanta dor que senti. Onde aquela maluca conseguiu arrumar tamanha força?
— O que está pensando que vai fazer, seu idiota? Largue-me! — Ainda procurei pelo
homem albino, porém não o encontrei mais.
Minha mente havia voltado de vez ao supermercado.
— Mikaela, me desculpe, eu, eu... — murmurei, ainda atônito por causa do mais
recente devaneio. Balancei a cabeça com força, tentando acordar de um sonho.
— Suma daqui! Saia, saia, não quero te ver! — gritou e correu para dentro da área
exclusiva para funcionários.
Ao olhar para o lado, percebi que Maristela se aproximava. Imaginei que ela não tivesse
visto quando agarrei e quase beijei Mikaela, ouvindo apenas os gritos.
— Quem era aquela doida? — minha acompanhante perguntou.
— Ninguém, é apenas uma amiga — respondi, passando os dedos no meu rosto. Ainda
estava doendo muito.
— Você está precisando escolher melhor seus amigos, querido. Vamos tomar um café.
Maristela envolveu meu braço, me puxou para fora do mercado e, finalmente, fomos
tomar o nosso café da manhã.
Capítulo 8
Mikaela

Culpei a TPM depois que passei quase meia hora chorando escondida no banheiro das
funcionárias do supermercado. Não havia de ter outra explicação para o meu comportamento
incomum — jamais me importei com o que as outras pessoas faziam ou deixam de fazer. Não
conseguia justificar o funcionamento do meu cérebro, muito menos do meu coração, que
insistia em doer como se tivesse sido traído.
Tinha acabado de comprovar que eu estava mais do que certa o tempo todo: André era
um aproveitador cretino e fugir dele foi a coisa mais sensata que já fiz na vida. O que não
conseguia entender era por que me importava tanto. E daí que ele se relacionava com outra
pessoa? Aquilo certamente não era da minha conta nem nunca foi. Os meus devaneios,
provenientes daquela obsessão ridícula, deveriam ser calados de uma vez por todas. Não
aguentava mais viver daquela forma esquisita.
Definitivamente, eu estava precisando começar a me comportar como uma pessoa
normal. Trancada no banheiro, em meio a lágrimas incessantes, percebi que precisava mudar o
rumo da minha história. Não dava mais para continuar agindo como sempre agi, do contrário
seria infeliz, ficaria amuada pelos cantos, sendo antagonista do meu próprio filme. No fundo
da minha alma, sabia que estava esperando um milagre acontecer ou uma mudança cair do céu,
porém nada se transformaria se eu continuasse sendo a mesma Mikaela de sempre. Eu
realmente não queria ser a idiota que chorava por ter perdido o único cara que podia ser capaz
de me entender.
Só queria não me sentir tão péssima o tempo todo. Queria não achar que sempre estava
fora do lugar, que não pertencia a nenhum ambiente, que nada me satisfazia e que nada podia
fazer para mudar isso. Talvez eu precisasse começar a fingir que estava bem, a cultivar amigos
falsos, a ter namorados entediantes, como sugeriu o André, e a ser uma mulher comum. Talvez
eu me sentisse melhor se continuasse a fingir ser quem não era, a fazer o que não gostava e a
sorrir sem motivo. Eu ficava reclamando que tudo era entediante, mas a verdade era que eu
mesma me causava tédio.
Saí do banheiro e fui surpreendida pelo Sérgio que, aparentemente, tinha me aguardado
durante todo aquele tempo. Eu sabia que meus olhos estavam vermelhos e inchados, por isso
morri de vergonha com a sua aproximação. Não queria me sentir tão exposta, muito menos dar
uma de vítima. Se chorei, foi por mim e pela minha babaquice e não pelo que o André tinha
me feito — ele nem fez nada! — pelo menos é o que eu estava tentando me convencer.
— Você está bem, Mikaela? — Sérgio veio ao meu socorro como se eu fosse alguém
importante. — Quer que eu te leve para casa?
— Não... — dei alguns passos para longe dele. — Não foi nada. Além do mais, o
expediente ainda não acabou.
— Tomei a liberdade de falar com a Tereza... Informei que você estava passando mal.
Ela te liberou.
Tereza era a nossa chefe, uma mulher legal e flexível, sobretudo comigo. Acho que ela
gostava de mim, ou então me tratava daquele modo diferenciado porque eu tinha um laudo
médico que me garantia ter folga sempre que não estivesse bem. Aquele supermercado era
uma das tantas empresas que contratavam loucos perturbados que faziam parte dos sete por
cento. Tudo partiu de uma iniciativa do governo para garantir emprego digno e uma vida
comum às pessoas como eu. Perguntei-me se o Sérgio tinha conhecimento sobre o meu laudo.
Sua cara de pena não deixava esconder que sabia.
— Não será necessário. Você não devia ter importunado Tereza por causa disso. —
Tentei controlar a raiva que sentia daquele homem que, de repente, se viu no direito de tomar
conta da minha vida. — Da próxima vez, lembre-se de que posso resolver os meus problemas
sozinha.
Não fiquei para conferir o semblante decepcionado do Sérgio — se é que ele ficaria
decepcionado, eu estava torcendo para que sim. Dei alguns passos na direção do corredor de
biscoitos e estaquei. Mal saí do banheiro e já estava agindo como a velha e rabugenta Mikaela,
uma mulher amarga, chata e entediante. Aparentemente, minha decisão de me tornar uma
pessoa mais sociável não durou mais do que as famosas resoluções de fim de ano, que são
feitas no dia trinta e um e quebradas no dia primeiro.
Girei sobre meus calcanhares, notando que o Sérgio ainda estava no mesmo lugar.
Olhava para mim com tristeza evidente em seus olhos bem azuis. Soltei um suspiro derrotado.
Sérgio era um homem bom. Sobretudo, um homem comum. Se eu quisesse mudar e me
relacionar com alguém, teria de ser com um cara como ele e não com um maluco que só me
acrescentaria mais problemas.
— Ei... Aquele jantar... está de pé? — Nem sei como tive coragem de fazer aquela
pergunta. Precisei de toda a minha força de vontade.
Sérgio sorriu imediatamente. Seu sorriso foi tão grande que me deu pena do coitado. A
esperança dele me comoveu de tal modo que senti vontade de continuar chorando. Não sabia
que tipo de sacrifícios teria de fazer para conseguir ser normal, só não podia deixar a
desistência continuar levando para longe a minha vontade de viver.
— Claro! Caramba, estou muito feliz que queira jantar comigo, Mikaela. — Sérgio se
aproximou e, daquela vez, não recuei. Tocou-me os braços e me olhou de perto. — Pode ser
hoje? Não vou conseguir esperar um dia sequer.
Sua sinceridade e desespero me deixaram chocada. Será possível que o Sérgio não
tinha outra mulher para dar em cima? Estava realmente esperando pela minha boa vontade?
Desde quando?
Por alguns instantes, pensei em retroceder. Sua atitude e seu olhar de extrema
felicidade me fizeram refletir se ele não seria algum tipo de maníaco obcecado por mim. Abri a
boca para dizer que não ia dar, mas tudo o que saiu por entre meus lábios foi:
— Po... Pode.
— Pego você em casa às sete? — Sua ansiedade me deixou enjoada. Arrependi-me de
ter feito aquilo tudo, mas era tarde para recuar. O pouco de compaixão que havia sobrado em
mim não permitiu que eu não tivesse consideração por aquele rapaz desesperado pela minha
companhia.
Aquiesci, incapaz de respondê-lo com palavras.
— Vou providenciar as reservas agora mesmo. — Ofereceu-me um sorriso galante e se
afastou devagar sem me dar as costas, como se eu fosse algum tipo de divindade ou realeza. —
Até lá... Não esqueça. Estarei na sua casa às sete em ponto.
— Espera... Eu nem te dei o meu endereço.
Sérgio corou de imediato, parecendo bem desconcertado.
— Eu sei onde você mora. Não se preocupe. — Ele foi embora antes que eu pudesse
desabafar a minha raiva, mandá-lo ir catar coquinhos e exigir que parasse de buscar
informações confidenciais sobre mim.
Só me restou voltar ao trabalho e, resignada, aceitar o meu destino infeliz porque,
sinceramente, sabia que não haveria felicidade para mim naquele mundo, pelo menos não
enquanto eu respirasse. E mais um dia entediante arrumando biscoitos e oferecendo amostras
grátis se passou.
Estava morta de cansada quando cheguei a minha casa e não acreditei que, ao contrário
de todos os dias, não iria tomar um banho e sentar no parapeito da minha janela para observar
o primeiro dia de lua cheia durante toda a noite. Não, em vez disso, eu me arrumaria como
uma bela dama e fingiria me divertir com o meu colega de trabalho.
Coloquei um vestido azul-marinho simples, com alças largas e detalhes em renda da
mesma cor. Soltei os cabelos e me limitei a usar o meu velho batom vermelho e um pouco de
delineador preto. O batom foi um dos poucos objetos que sobrou da minha antiga vida; acordei
com ele dentro de uma bolsinha. Aquele não era o mesmo, pois havia usado até o fim, mas a
embalagem era a original. Todo ano eu comprava um novo e fazia uma adaptação. Aquele
batom era uma das poucas coisas que me ligava ao meu passado.
Calcei sandálias pretas de salto alto e, às seis e cinquenta e nove, ouvi buzinadas lá
embaixo. Era o Sérgio, que olhava para o meu andar como se estivesse esperando uma deusa
sair de lá. De fato, senti-me muito bonita sob seu olhar brilhante quando o encontrei na calçada
em frente ao prédio. Ele foi muito educado ao abrir a porta do carona para que eu entrasse em
seu carro. Reparei que estava vestido socialmente, embora dispensasse o uso de terno, e que
cheirava a homem bonito.
O caminho até um dos restaurantes mais caros da cidade foi longo, porém silencioso.
Acho que ele estava com medo de colocar tudo a perder, e eu... Bem, eu não tinha nada para
dizer. Assim como não teria durante toda aquela noite.
Fomos recebidos maravilhosamente bem no estabelecimento, e me perguntei como o
Sérgio pagaria por tudo aquilo. Seu salário como segurança não era ruim, mas não tinha
certeza se dava para bancar certos luxos como aquele.
O homem pediu que trouxessem um determinado vinho sem sequer me consultar.
Esperei o garçom elegante se afastar, aproximei-me um pouco do rosto dele como se fosse
fazer algum gracejo. Ele se moveu para frente, esperando alguma palavra doce, e ficou
bastante embaraçado quando me ouviu dizer:
— Eu não bebo... Desculpa.
— Oh, eu que peço perdão, princesa. — Sérgio pareceu magoado consigo mesmo. —
Vamos fazer assim, você experimenta só um pouco e depois mando trazer o que quiser. Tudo
bem? Tenho certeza de que vai adorar esse vinho, é bem suave. Nada exagerado.
— Tudo bem—dei de ombros.
Comecei a tamborilar meus dedos sobre a mesa. A falta de assunto era insuportável, e
depois de quase cinco minutos sem que falássemos nada um para o outro, desisti de tentar
disfarçar meu descontentamento. Minhas pernas começaram a se agitar por debaixo da mesa, e
nenhuma posição naquela cadeira acolchoada era boa o bastante. Reparei que as pessoas ao
nosso redor pareciam felizes, animadas, jantando, bebendo e conversando.
Olhei para o Sérgio e ele me observava com atenção.
— Você está muito linda. Aliás, você é linda, Mikaela.
— Obrigada— limitei-me a dizer, não sendo capaz de devolver o elogio.
O garçom chegou com o vinho e brindamos timidamente antes de sorvermos o primeiro
gole. Assim que o líquido escarlate se encostou à minha boca, virei a taça imediatamente. Uma
parte de mim se sentiu decepcionada. O vinho era bom, sim, mas a cor me parecia mais
apetitosa do que o conteúdo. Sérgio arregalou os olhos, surpreso com a minha atitude, porém
nada falou.
— Queria saber um pouco mais sobre você, princesa... — finalmente ele puxou um
assunto. — Queria te conhecer de verdade.
— Não há muito para se saber sobre mim, na verdade.
— Aposto que há — sorriu como um galã de novela. Sérgio era realmente um homem
muito bonito. Não havia nada de errado com ele, com certeza não. Precisava me lembrar de
não ser a coisa errada entre nós dois. — O que faz quando não está trabalhando? O que curte
fazer?
Encarei-o por alguns instantes. Lembrei-me dos olhos escuros do André, totalmente
diferentes daqueles que me encaravam, esperando respostas aceitáveis para aquela mesma
pergunta. Imaginei que, daquela vez, era isso que deveria fazer.
Soltei outro suspiro.
— Gosto de ler revistas de moda — falei com os lábios trêmulos. Meus olhos se
encheram de lágrimas, mas os pisquei tanto que devo ter conseguido disfarçar.
— Ah... Legal. Você realmente se veste muito bem, princesa. E o que mais gosta de
fazer?
Prendi os lábios. Não consegui pensar em outra coisa a não ser a melhor forma como
eu poderia atingi-lo com a minha taça de vinho.
— Compras. Até estourar o limite do cartão de crédito — menti mais uma vez.Sérgio
riu, porém continuei mais séria do que nunca. Fazer papel de menina fútil não casava
exatamente com meus ideais de vida.
Outro garçom perguntou se gostaríamos de fazer os nossos pedidos. Ele me deu
liberdade para escolher o que quisesse, por isso, sem procurar muito pelas tantas opções, pedi
uma salada sem graça qualquer. Sérgio pediu algo gorduroso que tinha a ver com carne ao
molho de alguma coisa que eu não sabia pronunciar. O garçom anotou nossos pedidos e nos
deixou sozinhos novamente.
Encarei um dos lustres belíssimos que compunham o salão do restaurante. O lugar era
mesmo bem requintado. Até as toalhas de mesa, mesmo brancas, pareciam ser caras. Os
guardanapos de linho me causaram certo ar nostálgico — coisa rara que me espantou —, bem
como a enorme quantidade de talheres ao redor dos pratos. Eu já estive em um ambiente como
aquele, tive certeza. Só não naquela vida. Meu Deus... Estava tendo lembranças? Lembranças
reais?
— Espero que não esteja endividada, Mikaela — Sérgio continuou no mesmo assunto
em que paramos. — Mulheres costumam cometer esses exageros, é bem comum e não estou te
recriminando por isso, só fico preocupado contigo.
Revirei os olhos, impaciente. Sexismo me deixava enfurecida. Foquei na minha taça de
vinho, que o garçom tinha enchido novamente. Segurei-a pelo cabo, mas antes de pegá-la,
mudei de ideia e agarrei a taça com água. Eu já era anormal demais estando sóbria. Não queria
imaginar o que podia ser capaz de fazer se ficasse embriagada.
— Não precisa se preocupar comigo.
— Eu me preocupo.
— Por quê? — falei alto demais, afastando minhas costas da cadeira para encará-lo
mais de perto. Limpei a garganta e voltei a me amparar no encosto.
— Não é segredo que eu gosto de você, princesa. Quando te vi, não pude acreditar no
tamanho da beleza que estava diante de mim — Sérgio falou com as bochechas levemente
rosadas, mas manteve a voz firme. — Sou um homem tímido, não costumo sair com muitas
mulheres, pois pretendo encontrar a certa para mim. Não quero assustá-la, mas enxerguei essa
mulher em você, Mikaela. É por isso que eu me importo. E é por isso que não vou desistir tão
fácil de te conquistar.
Pisquei os olhos tantas vezes que eu não sei como não comecei a usar os meus cílios
como leque. Suas palavras soaram como um tiro bem na minha cabeça. A vertigem que senti
quase não pôde ser controlada, e me vi levantando devagar, cuidando para não dar de cara no
chão.
— Vou ao banheiro. Com licença — murmurei antes que a situação se tornasse ainda
mais periclitante. Não ousei olhá-lo antes de ir.
Atravessei a porta do banheiro calmamente, como uma verdadeira dama, mas depois
me atirei contra o lavabo, apoiando minhas mãos ao redor da pia. Uma ânsia de vômito me fez
prender a respiração e apertar a garganta. Será que teria que vomitar todas as vezes que saísse
com alguém? Era tão antissocial a este ponto? Não derramei uma lágrima sequer, mas soluços
reprimidos fizeram meu corpo inteiro sacudir. Inspirei e expirei profundamente diversas vezes
antes de erguer a minha cabeça na direção do espelho.
Esperava ver uma mulher transtornada diante dele, mas o que vi me deixou ainda mais
apavorada.
Eu não vi nada.
— Ai, meu Deus... — Toquei o espelho para conferir se era, de fato, um espelho. Por
algum motivo, ele não refletia a minha imagem. — Ai, meu Deus... O que... — Fechei os
olhos, levei minhas mãos à cabeça e a sacudi como se tentasse fazer meus olhos voltarem a
funcionar no tranco. Tentei controlar meus batimentos acelerados, mas eles só se acalmaram
quando reabri os olhos e, finalmente, consegui me enxergar. Meu reflexo estava lá, como
deveria ser desde o princípio. — Eu estou ficando louca... louquinha...— murmurei para mim
mesma.
Depois de expirar e inspirar profundamente inúmeras vezes, fiquei pronta para encarar
aquele estranho jantar. As palavras do Sérgio ainda circulavam na minha mente, fazendo-me
perceber o quanto estava sendo injusta com ele. Apesar de não me conhecer, e talvez por isso
estar tão louco por mim, eu não podia tratá-lo de uma forma tão fria, tão desdenhosa, tão...
desumana. Não podia magoar seus sentimentos. Não se pode brincar com eles, mesmo estando
equivocados. Eu mesma, que naquela tarde descobrira ter sentimentos, sabia que não era nada
agradável quando os outros mexiam com a nossa cabeça.
Sentei-me à mesa, percebendo que nossos pratos já haviam chegado. Sérgio sorriu de
um jeito triste para mim, mas não comentou nada. Começamos a comer silenciosamente. A
minha salada até que estava boa, composta por mais ingredientes do que eu me lembrava de ter
pedido.
— O que você gosta de fazer? — perguntei em um murmúrio, disposta a ser uma
mulher normal que faz perguntas normais.
— Gosto de jogar futebol aos domingos. Curto filmes também. Adoro ir ao cinema.
Você gosta?
— Gosto. — Engoli em seco. Tomei um gole de vinho para me ajudar.
— Que bom, podemos ir depois do jantar. O que acha?
— Não vai ficar muito tarde? Temos que trabalhar amanhã.
— Prometo que não. Deixo você em casa antes da meia-noite, como uma princesa que
você é. — Sorriu largamente, e fiz um esforço absurdo para lhe devolver o sorriso.
Tomei mais três taças de vinho só para suportar o tédio constante que vivenciaria no
cinema. Só de pensar, começava a sacolejar as minhas pernas sem pausas. Sérgio foi
extremamente delicado o tempo todo. Pagou a conta, impedindo-me de sequer reclamar com
relação a isso, voltou a abrir a porta do carona para mim e me guiou pelo cinema com a mão
entrelaçada na minha, como verdadeiros namorados. Não consegui nem pensar na ideia.
Parecia absurda até para que o meu cérebro absorvesse.
Passei duas horas olhando fixamente para frente, tentando entender o filme. Era um
romance mel com açúcar qualquer, cheio de beijos e juras de amor, o que só me deixava ainda
mais mortificada e enojada. Não entendi qual era o problema do casal em questão, achei a vilã
mais legal do que a mocinha, e o mocinho simplesmente não me atraía. Um cara sem sal,
bonito, mas muito bobão, que se atirava o tempo todo aos pés da mulher.
Olhei para o lado e imaginei que Sérgio poderia perfeitamente ter saído da tela do
cinema para ter aquele programa comigo. Consegui sorrir com a ideia. Sérgio me olhou e
sorriu de volta, imaginando que minha expressão fosse voltada para ele. Logo me aquietei e
continuei olhando para a telona. Um tédio completo. O que salvou a noite, com certeza, foi o
balde de pipoca, que detonei nos primeiros vinte minutos de filme, mesmo estando satisfeita
por causa do jantar.
Como prometido, Sérgio me deixou na frente do meu prédio antes da meia-noite. De
novo, abriu a porta do carona para mim e ficou me observando sem nada falar, talvez
esperando que eu tomasse alguma iniciativa. Foi desconcertante. Esperei e esperei pela
pergunta cretina de sempre, mas ela não veio.
— Você... quer... subir? — meus lábios se moveram e falaram aquilo sem que eu
sentisse ou raciocinasse.
Parecia surreal, um acontecimento alheio a qualquer realidade que me pertencesse. Não
fui eu quem perguntou aquilo, de jeito nenhum. Alguma entidade devia ter se apoderado do
meu corpo, ou talvez o filme idiota que acabara de assistir tivesse me idiotizado também.
— Como quiser, princesa — ele sussurrou e segurou a minha mão. Subimos pelo
elevador no mais completo silêncio. Tinha consciência dos meus lábios trêmulos e da minha
pele corada de nervosismo e vergonha.
Paramos diante da minha porta. Fiquei olhando para ela, esquecida do que devia fazer.
Sérgio pigarreou e me acordou do transe. Peguei as chaves na minha bolsa e abri, com
dificuldade, a maçaneta. Minhas mãos também tremiam muito. Ele as segurou, tomando-as
para si.
— Mikaela... Não precisa fazer nada que não queira.
Encarei-o como um animalzinho acuado. Sérgio estava incrivelmente perto. Espalmei
minhas mãos sobre o seu peito, mas esqueci de empurrá-lo para longe. Elas ficaram ali, sem
motivo, sem sentido. Juro que tentei sentir alguma coisa. Fiz esforço para ao menos tentar
desejar aquele homem bonito diante de mim, forcei o meu corpo a ter vontade de fazê-lo entrar
na minha casa. Mas eu não consegui. Como nunca havia conseguido até encontrar o André.
Diante do meu silêncio, Sérgio se aproximou ainda mais e encostou seus lábios nos
meus com suavidade. O movimento me causou estranhamento total, e a sensação foi tão ruim
que o afastei depressa, resfolegante e prestes a explodir de tanto horror. Meus olhos se
encheram de lágrimas imediatamente, logo, coloquei-as para fora.
— É melhor você ir embora.
— O que há com você, Mikaela? — Sérgio me olhou com preocupação sincera. — Foi
magoada, é isso? É por causa de uma desilusão que se comporta sempre na defensiva? Tem a
ver com aquele sujeito que apareceu no mercado hoje?
Balancei a cabeça em negativa, mas depois achei que aquela justificativa seria a mais
fácil de lidar. Não queria machucá-lo, ele havia sido muito legal comigo naquela noite.
Certamente não merecia se relacionar com alguém como eu. Insistir naquilo seria um erro
injusto comigo e, principalmente, com ele.
— É. Por favor, vá devagar — choraminguei.
— Tudo bem. Não se preocupe, princesa — acariciou o meu rosto. — Não tenho
pressa. Você vale qualquer espera.
Abri a boca, bem devagar, e esperei. Agradeci por saber o momento exato em que teria
um devaneio. Aquilo estava piorando, mas, ao mesmo tempo, o costume me faria saber que
viajaria na maionese. Saberia que tudo o que se passasse dali em diante seria irreal.
Foi por isso que não me espantei quando vi André diante de mim, completamente sem
roupa e com o meu corpo pequeno entre seus braços enormes.
— Não podemos — falei pausadamente, alisando seus músculos definidos. — Não sei
se é certo. Temos que esperar.
Luzes bruxuleantes saíam de candeeiros e iluminavam um quarto repleto de móveis
antigos. André me imprensava contra uma parede tão fria quanto o meu corpo. O dele estava
quente como brasa.
— Você vale qualquer espera, Mikah... Não me importo.
— Eu me importo... — Avancei na direção da sua boca. Mordi seus lábios, que
sangraram, e suguei seu sangue adocicado mesclado com sua saliva divina. — A lua cheia
precisa passar. É perigoso.
— Eu sei.
Continuei lambendo seus lábios com desejo enraizado. Enroscamos nossas línguas e,
num estalo, percebi-me beijando o Sérgio com selvageria. Havíamos entrado em minha casa e
nos atracávamos em uma das paredes da sala. Ele me depositou sobre o sofá e colocou seu
corpo sobre o meu. Ouvi sua veia pulsar e seu coração bater forte. Não sei o que deu em mim.
Simplesmente continuei o beijando em vez de gritar — como quase fiz —, imersa em uma
espécie de transe maluco que me impulsionava até ele.
Não era desejo. Ia além disso. Era mais forte. Minha garganta seca pedia socorro,
implorava. Guiei meus lábios pelo pescoço dele, absorta. Abri os meus olhos e os senti
queimando como se tivessem chamas embutidas neles. Lambi sua pele branca, sentindo sua
veia pulsando, massageando minha língua em alta velocidade. Um pensamento ruim me
acometeu, uma ideia assassina.
Gritei bem alto.
— O que foi? Eu te machuquei? — Sérgio se afastou depressa, afobado e muito
assustado.
— Não... — Balancei a cabeça freneticamente. — Não. Vá embora. Por favor, vá
embora! — Levantei-me do sofá e abri a porta depressa, sem ter coragem de olhá-lo.
— Mikaela, eu...
— Por favor! Vá! Agora!
— Me... Me desculpa...
— Eu... só não estou pronta. Por favor, entenda.
— Não tem problema, princesa. Não fica assim. — Sérgio se aproximou de mim e me
deu um beijo no topo da cabeça. — Até amanhã. Perdoe a minha indelicadeza.
Fechei a porta com força, mal esperando que ele saísse. Corri até a geladeira e tomei
toda a água, o suco e o refrigerante que estavam lá. Depois, terminei de secar o garrafão no
filtro, quase cinco litros de água. Depois de três xixis e de vomitar água duas vezes — além do
jantar e da pipoca —, ainda estava sedenta.
Deitei na cama suando frio. Entretanto, meu corpo inteiro estava em chamas, causando
uma sensação esquisita de choque térmico. Foi a noite mais longa que já passei na vida. Nunca
me senti tão mal. Rostos, risadas e sensações ruins invadiam a minha mente em flashes
confusos, indefinidos. Fosse o que fosse que estivesse acontecendo comigo, sabia que não
podia ter lógica.
Estava quase ligando para um hospício — eu mesma ia me entregar à loucura —,
quando amanheceu e finalmente apaguei.
Já era noite quando acordei, e me sentia bem melhor. A cabeça latejava um pouco, mas
só. Ouvi batidas na minha porta. Sonolenta, meio desorientada, vesti uma camisola leve, passei
água no rosto e fui atender sem ao menos me perguntar quem poderia ser.
Um desconhecido me observou da cabeça aos pés antes de perguntar:
— 402? A senhorita é a Mikaela?
— Sim...
— Encomenda para você.
Só então reparei que o cara trajava um uniforme de alguma empresa de entregas. O
sujeito me deu um arranjo enorme de rosas vermelhas e uma caixa misteriosa. Por fim,
entregou-me um bilhete.
— Assine aqui, por favor.
Já estava na minha mente que aquilo tudo era coisa do Sérgio. Só ele podia ser
romântico à moda antiga. Assinei onde o entregador solicitou e tranquei a porta assim que ele
se foi. Depositei as rosas em cima da mesa, cheirando-as e sorrindo como toda mulher faria.
Devo ter me permitido um momento meramente feminino.
Abri a caixa e dei de cara com a maior variedade de chocolates que já tinha visto na
vida. Tinha chocolate de todas as marcas, formatos, aromas, embalagens... Eram muitos. Meu
coração começou a palpitar diante deles. Meu próprio corpo fez deduções malucas, e de
repente já sabia que aquele presente não havia sido do segurança.
Abri o bilhete com as mãos trêmulas e li a mensagem em voz alta:

Espero que passe algumas horas longe do tédio, fazendo a única coisa de que você
gosta — cuidado para não ter dor de barriga (nem de dente). Depois que parar de funcionar,
me ligue. Juro que me esforçarei para não ser entediante. Ah, as rosas me lembraram seus
cabelos e seus lábios. E o seu cheiro. Você exala perfume de flores exóticas, Mikah.
Enfim, me perdoa?
Beijos,
André.

Havia o número de seu telefone logo abaixo. Reli aquele bilhete pelo menos umas mil
vezes. Depois da décima foi que resolvi devorar os chocolates. E só depois do vigésimo
segundo doce que um sorriso despontou dos meus lábios e, enfim, senti que o havia perdoado.
Assim, sem lógica mesmo. Fui absolutamente comprada por flores, chocolates e uma cartinha
fajuta.
Capítulo 9
André

Saí do mercado de cabeça quente. Maristela falava sem parar e eu não conseguia prestar
atenção em nada. Na minha mente, só tentava compreender o que havia acabado de acontecer.
Mikaela sentia ciúmes de mim? Para quem dizia não se importar, ela havia ficado nervosa e
abalada demais. Eu deveria investir mais ou não? Comecei a pensar que tudo não passava de
loucura minha. Por que, afinal, estava tão obcecado por aquela mulher, se havia milhares que
dariam tudo para ficar comigo?
Olhei para o lado, Maristela ainda continuava a falar. Parei e a encarei. Ela ficou
surpresa, emudeceu e olhou diretamente para mim. Num ato impensado, puxei-a pela cintura e
a beijei. Ela correspondeu ao gesto com bastante intensidade. Podia sentir os olhares dos
transeuntes nos censurando. Além de o mundo ter se transformado num lugar cheio de
harmonia e segurança, as pessoas também haviam ficado muito mais conservadoras. O que não
era necessariamente algo ruim, mas daí a olhar duas pessoas se beijando como se fosse alguma
aberração, já era demais. Definitivamente, eu nunca me encaixaria naquele novo mundo
perfeito. Talvez o antigo André fosse um bom rapaz, mas com certeza eu não era.
Encerramos o beijo e Maristela entrelaçou seus dedos nos meus.
— O que isso significa? — indagou, sorridente.
— Significa que senti vontade de te dar um beijo. Não posso?
— Claro que pode. Quando quiser, gatinho.
— Falta muito para chegarmos ao café?
— Na verdade, ele está logo ali naquela esquina — apontou para um local mais à frente.
— Então, o que estamos esperando?
Com as mãos ainda unidas, caminhamos até o café. Sentamo-nos em uma mesa com
decoração simples, porém que dava um aspecto chique ao lugar. Minha acompanhante
continuava falando e falando. Sua voz soava como daquelas patricinhas, filhinhas de papai,
que tinham todos e tudo o que queriam aos seus pés, mas também não era para menos. Do alto
de seus um metro e setenta e cinco, cabelos castanho-claros, olhos cor de mel, pele lisa e boca
perfeita, Maristela era uma mulher que chamava muito a atenção e eu me sentia bem por estar
circulando ao lado dela.
Vários homens a olhavam com cobiça, mas no fim das contas, era comigo que ela havia
passado a noite — embora eu não me lembrasse de nada — e era comigo que ela estava
sentada naquela mesa.
Fizemos nossos pedidos, comemos e conversamos. Foi um final de manhã muito
agradável, pois acabei descobrindo que, mesmo com o aspecto de patricinha, ela era muito
inteligente. Pedi a conta e paguei novamente, dessa vez sem me incomodar com isso, estava
gostando mais e mais da companhia dela.
— Agradeço pela maravilhosa noite e pela ótima manhã, mas realmente preciso ir
trabalhar agora — falei enquanto alisava sua mão.
— Você precisa mesmo ir? — Ela fez beicinho. — Agora que estávamos começando a
nos entender tão bem?
— Trabalho, sabe como é? Senão daqui a pouco você vai ter que começar a pagar as
coisas para mim.
Maristela sorriu.
— Por quê? Você é algum tipo de machista que acha que uma mulher não pode nunca
pagar a conta? — Ela deu uma gargalhada gostosa.
— Não é nada disso, mas acho que fica chato, não é? Bom, você quer que eu chame um
táxi para te levar a algum lugar?
— Não se preocupe, seu bobo. Acho que vou ficar por aqui mesmo. Tenho algumas
coisinhas para resolver — ela olhava fundo nos meus olhos, como tentando invadir a minha
mente, o que seu perfume delicioso já fazia com minhas narinas.
— O que você faz da vida, afinal? — Fiquei curioso.
— No nosso próximo encontro, eu te conto — ela deu uma piscadinha e um tapinha de
leve na minha mão, que permanecia estendida sobre a mesa.
Maristela tomou a liberdade de pegar meu celular dentro do bolso dianteiro da minha
calça e salvou o seu número na agenda. Depois, discou do meu celular para o dela, de modo
que meu telefone ficasse gravado na memória do seu aparelho. Com um sorrisinho malicioso,
tornou a enfiar o celular no meu bolso da frente. Num movimento brusco, pulou em meu colo,
entrelaçou os braços em meu pescoço e me beijou.
— Vê se me liga! Você não vai se livrar tão fácil de mim — ela falou após se soltar.
— Pode deixar — retribuí o sorriso malicioso que ela me oferecia.
Saí apressadamente do café, precisava mesmo voltar ao trabalho. Meu aplicativo de
mensagens estava bombando de pedidos por visitas dos meus clientes. Dei sinal para um táxi
que passava e informei o meu endereço. Cheguei a casa já perto da hora do almoço. Fred não
estava lá. Tomei um banho rápido, troquei de roupa, peguei meu tablet e fui trabalhar. Afinal,
não dava para viver de farra o tempo todo. Era hora de visitar alguns clientes e tentar recuperar
o tempo perdido dos últimos dias.
Apesar de ter passado por momentos agradáveis ao lado de Maristela, Mikaela ainda não
me saía da cabeça. Eu estava em meu segundo cliente, que além de uma mercearia, possuía
também uma floricultura. Já o atendia há alguns anos e, pode-se dizer, que tínhamos certa
amizade. Não éramos parceiros nem nada, mas nosso relacionamento ia além do estritamente
profissional. Percebendo que eu estava agindo meio estranho, ele me indagou:
— Está tudo bem contigo, André?
— Sim, sim, está tudo tranquilo — respondi sem desviar os olhos do tablet, onde
procurava pelo preço de um produto.
— Vamos lá, rapaz! Dá para perceber que alguma coisa aconteceu, você quase não
presta atenção no que falo. Brigou com a mulher, foi? — Sorriu.
— Mais ou menos isso... — Fiquei sem graça.
— Se meus anos de experiência me ensinaram alguma coisa, é que se pode consertar
tudo com flores e chocolates, quando o assunto diz respeito a mulheres — ele gesticulava
como se segurasse um enorme buquê de flores.
— Se fosse tão simples assim... — lamentei.
— Vamos fazer o seguinte! Vê se me arruma um desconto bom aí no total da compra que
eu mando entregar na casa da sua dama e te cobro apenas o preço de custo, na amizade. Mas
eu só consigo mandar entregar amanhã, tudo bem?
Pensei um pouco na proposta dele. Era óbvio que eu devia mandar flores para a
Maristela, depois do que passamos e tudo mais, porém apenas Mikaela me veio em mente.
Sorri para o vento quando a imaginei recebendo as flores. Qual seria sua reação? Queria ser
uma mosquinha para poder estar lá bem na hora.
— Tudo bem. Se é assim, eu topo! — Apertamos as mãos.
Saí da loja me sentindo um pouco mais leve. Havia escolhido as flores e os chocolates,
assinado um belo cartão e orientado que entregassem a encomenda no final da tarde, horário
em que ela já deveria estar em casa. Talvez, por meio daquela atitude, eu conseguisse acertar
as coisas com Mikaela. Por mais que ela quisesse passar a imagem de durona e de que não
tinha sentimentos, aquilo haveria de mexer com sua cabeça e seu coração. Acabei passando o
resto do dia mais tranquilo, tentando não esquentar a cabeça pensando nela.
Depois de visitar mais alguns clientes, fui para casa e me deparei mais uma vez com o
Fred. Por mais louco que ele parecesse e por mais que não fôssemos melhores amigos, sempre
era bom chegar e encontrar alguém no lugar de um espaço vazio e mudo.
— A noite foi boa mesmo, hein, malandro? Nem voltou para casa ontem — ele tinha um
sorriso bobo no rosto, demonstrando que a noite dele também não havia sido nem um pouco
ruim.
— Não foi nada mal...—sorri, sem jeito.
— Valeu a pena ou não? — Ele deu um tapa de leve nas minhas costas.
— Imagino que sim! — Sentei-me no sofá, prevendo um interrogatório. Fred permanecia
em pé, de frente para mim.
— Imagina? Eu vi você saindo da festa com a gostosa da Maristela. Está de brincadeira?
E olha que naquela ali eu nunca coloquei as garras, faz pouco tempo que nos conhecemos. Pelo
que soube, ela não sai dando mole para qualquer um — ele gesticulou puxando as duas mãos
fechadas para trás e levando o quadril para frente, repetidamente.
— Ela é gente boa — tirei os sapatos enquanto tentava parecer o mais desinteressado
possível.
— Boa? Bota boa nisso! — Fred deu uma risada escandalosa, se aproximou de mim e me
cumprimentou, batendo em minha mão. — Você se deu bem, muito bem, meu irmão!
— Acredito que sim. — Ainda não sabia muito bem o que dizer. Se voltasse a falar da
Mikaela, ele provavelmente ia atirar alguma coisa na minha cabeça.
Se Fred percebeu a minha falta de vontade em falar sobre a noite passada, não deixou
evidente. Como sempre fazia, não se aprofundou mais no assunto e foi logo saindo:
— Bom, preciso mesmo ir — pegou a jaqueta de couro que estava pendurada nas costas
de uma cadeira. — Também não me dei nada mal com uma gatinha ontem e marcamos de ir a
uma festa juntos hoje. Está a fim de ir?
— Não, não, muito obrigado. Minha semana já começou agitada demais. — terminei de
tirar as meias e a camisa.
Ele foi embora depressa, deixando-me sozinho no apartamento. Olhei para o meu celular,
já eram quase oito horas da noite. Diabos, preferia muito mais ter o número da Mikaela em
minha agenda a ter o da Maristela. Seria difícil esperar pelo dia seguinte, isso se a durona
desse o braço a torcer e me ligasse depois de receber as flores.
Olhei pela janela, a lua cheia resplandecia lá fora, quase transformando a noite em dia.
Percebi que não estava me sentindo muito bem. Devia ser resquício da ressaca por causa da
noite anterior. Entrei na internet e rolei desinteressadamente a página principal de uma rede
social. Visualizei algumas mensagens, mas não as respondi; “Que se dane se ficassem com
raiva”. Resolvi dormir — por falta de coisa melhor para fazer — e foi o que fiz; tirei minhas
roupas, vesti um short e uma camiseta, depois pulei na cama e simplesmente apaguei.
Acordei com a porta do meu quarto sendo aberta violentamente. Dei um salto da cama,
assustado. A luz se acendeu e me deparei com um Fred de olhar arregalado e visivelmente
aterrorizado.
— Que merda é essa que está acontecendo aqui? Você está bem, cara, aconteceu alguma
coisa contigo? — meu amigo perguntou quase sem fôlego. O meu também foi embora por
causa do susto tremendo que levei com sua invasão ao meu quarto.
— O quê? Eu é que te pergunto: o que houve? — berrei, bastante eufórico.
— Olhe para você, veja seu estado! Pensei que estivesse morto! — Ele não parava de
gritar, se aproximou e me sacudiu, como se quisesse me fazer acordar de um sonho.
Eu ainda estava bem confuso, com as ideias embaralhadas na minha mente. Analisei-o
com atenção, percebendo que o seu estado era que estava interessante. Tinha as roupas e os
cabelos amassados, além dos olhos vermelhos, meio doentios.
— Do que diabos você está falando, Fred? Está bêbado?
— Cara, quando entrei em casa, vi um rastro de lama e sangue pelo chão da sala que
trazia até o seu quarto... Aí abro a porta e te encontro assim! Você acha que eu não deveria
estar assustado?
— Assim? Assim como, cara?
— Você está de sacanagem, porra? Olha só pra você, maluco! Se olha no espelho! — Ele
apontava freneticamente para o espelho que ficava na porta do meu guarda-roupas.
Sem compreender nada, levantei-me e me encarei no espelho. Eu estava coberto de
sangue seco, da cabeça aos pés. Meus cabelos estavam colados pelo líquido coagulado. Minhas
roupas estavam rasgadas e imundas, cobertas por sangue e terra. Por um instante, senti meu
corpo perder as forças e precisei me sentar novamente em minha cama antes que desmaiasse.
— Você vai me dizer o que aconteceu? — Fred estava muito abalado também e se
sentou do meu lado, esperando por uma resposta aceitável.
— Não faço ideia... — passei as mãos trêmulas pelos meus cabelos e senti nojo.
— Eu vou para a balada encher a cara e você que fica bêbado? O que foi, está ficando
maluco? Como assim, não sabe o que houve? — Ele sacudia as mãos com as palmas viradas
para cima, como se esperasse que eu depositasse ali alguma explicação.
— Fred, eu te juro, não sei o que aconteceu. Eu me deitei ontem para dormir e só acordei
agora com você invadindo o meu quarto. Juro! — Senti os meus olhos se enchendo de
lágrimas. Quantas loucuras precisavam acontecer na minha vida para que eu me desse conta de
que estava ficando realmente maluco, como supunha o Fred?
— Ah, então algum maníaco entrou em nosso apartamento, te encheu de sangue e lama e
saiu fora? Tudo isso sem te acordar! É uma pegadinha! É isso? — Agora ele parecia chateado
comigo, mas de um jeito esquisito, por causa da embriaguez.
— Realmente, não sei o que te dizer.
— Pode se abrir comigo, cara— Fred se levantou da cama e sentou-se em uma cadeira
próxima para poder ficar frente a frente comigo. Sua expressão deixou claro que estava com
nojo da minha condição imunda. — Você se meteu em alguma confusão? Alguém te atacou?
Mexeu com a mulher de alguém? Já sei, a Maristela é casada e o marido descobriu! Eu sabia,
aquela doida nunca me inspirou confiança...
— Fred, para! Para de surtar! — gritei, impaciente. — Eu não sei o que aconteceu, não
tem nada a ver com Maristela e nem com o diabo a quatro.
— Precisamos chamar a polícia! — Ele procurou pelo celular em seus bolsos.
— E dizer o que, exatamente? — Adiantei-me e segurei seus braços para o impedir de
ligar.
— Sei lá, diz qualquer coisa... Que você ficou loucão, drogado, bêbado e que pode ter
machucado alguém. Como é que você quer que eu saiba o que dizer? Não fui eu que fiz... que
fiz... sei lá que merda que você tenha feito.
— E eu vou dizer o que não fiz? Já te falei que fui dormir e não saí de casa — fechei os
olhos e inspirei fundo. — Vamos deixar isso como está, por favor, não conte nada a ninguém.
Vão pensar que estamos loucos.
— Cara...
— Por favor, Fred, por favor! Se fosse com você, eu faria isso — tornei a me sentar na
cama e juntei as mãos como em uma súplica.
Ele balançou a cabeça negativamente e inspirou fundo algumas vezes.
—Contra tudo que o meu bom senso diz... Tudo bem, vamos deixar essa parada quieta...
Mas se você continuar com as esquisitices, vou te pedir para arrumar outro canto para ficar.
— Não vai acontecer mais nada. Até hoje nunca tinha acontecido... Obrigado mesmo
assim. Vou tentar descobrir o que se passou e prometo que te falo se souber de algo.
— Acho bom... Bem, dane-se toda essa merda, eu preciso dormir.
Fred estava bêbado demais para discutir. Acredito que, se eu quisesse, mais tarde poderia
dizer que tudo aquilo tinha sido coisa da imaginação dele. Certamente o meu colega de
apartamento acreditaria. Porém, não seria capaz de arriscar uma mentira e ser desmascarado,
afinal, eu não tinha culpa de nada, tudo que fiz realmente foi deitar e dormir. Fiquei muito
confuso e preocupado com o que poderia ter acontecido.
Saí da cama e fui tomar um bom banho. O sangue estava incrustado nos meus dreads e o
cheiro forte me deixava tonto. Tentei lavar com xampu, sabonete e até detergente, mas o cheiro
me impregnava as narinas de modo enjoativo. Limpei meu quarto, joguei meus lençóis no lixo,
arrumei a sala e limpei todos os cantos possíveis, mas o cheiro permaneceu lá, impregnado em
mim. Eu já não aguentava mais.
Num ato de puro desespero e nenhum raciocínio, peguei a tesoura de desossar frango que
tínhamos na cozinha, e que nunca tínhamos usado, e comecei a cortar os meus cabelos. Fui
retirando os dreads um por um, até que não sobrasse nada além de um corte de cabelo
irregular. Procurei nas gavetas até encontrar minha máquina de cortar cabelo, que há tempos
não usava. Coloquei a lâmina quatro e passei por toda a minha cabeça até acertar o corte. O
cheiro continuava me enlouquecendo. Coloquei tudo dentro de um saco de lixo e o depositei na
lixeira do prédio.
Finalmente o odor me abandonou e pude respirar novamente. Só depois percebi a
merda que tinha feito: eu adorava os meus dreads e não estava em meus planos me livrar deles
tão cedo. Olhei um homem quase careca no espelho e me desesperei completamente. O cheiro
irritante havia ido embora, mas com ele foi também a minha sanidade mental.
Tinha que admitir a mim mesmo que eu não estava nada bem. Minha confusão só
aumentava. Precisava urgentemente de aconselhamento. Sabia que a doutora Eva não gostava
de receber seus pacientes mais do que uma vez por semana — ainda mais depois da minha
última consulta, quando quase não falei nada —, ela dificilmente aceitaria um encaixe, mas
precisava tentar.
O dia havia amanhecido sem que eu percebesse, enquanto limpava o sangue e a lama
do apartamento e também cortava meus cabelos. Dentro de cerca de uma hora, a psicóloga
estaria em seu consultório. Resolvi que seria melhor falar pessoalmente, seria muito mais fácil
conseguir ser atendido do que se tentasse alguma coisa por telefone.
Uma irritante dor de cabeça e um constante mal-estar se mantiveram presentes o tempo
todo, mas não poderia simplesmente me encher de remédios, deitar e esperar que tudo
passasse. Pela primeira vez, sentia um forte desejo de me abrir verdadeiramente com alguém
antes que eu enlouquecesse de vez. Sentia que poderia explodir se não compartilhasse aquela
loucura com alguém que ao menos tentasse me compreender.
Tomei um breve café da manhã. Enquanto escovava os dentes no banheiro, encarei no
espelho aquela nova figura. Era como se olhasse para algum estranho. Já tinha uns bons anos
que eu não cortava o cabelo, ainda mais tão curto, e minha imagem já estava fortemente
associada aos meus dreads. O que será que Mikaela pensaria sobre o meu novo visual? Talvez
ela se interessasse mais por minha nova aparência. Tentei pensar nisso para me livrar do
sentimento depressivo que sufocava o meu peito. Devia ter tentando outras coisas para me
livrar daquele cheiro.
Afastei os pensamentos que me levavam a fazer tudo em ritmo mais lento. Olhava no
relógio de instante em instante, esperando que a hora passasse mais rápida do que o normal. A
dor de cabeça aliada à ansiedade me deixava com extremo mau-humor. Não aguentando mais
esperar, desci para o estacionamento, peguei meu carro e dirigi até o consultório da doutora
Eva.
Quando parei em frente ao prédio de consultórios, ainda faltavam cerca de quinze
minutos para iniciar o horário de atendimento. Subi até o andar correto. A secretária não estava
na recepção. Achei aquilo estranho, pois imaginei que ela devesse chegar um pouco antes da
doutora para receber os pacientes, atender às ligações, marcar novas consultas. Pelo visto, eu
estava errado, ou ela apenas estava um pouco atrasada naquele dia.
As luzes do saguão estavam apagadas. Tomei a liberdade de acendê-las e resolvi sentar
para esperar que alguém chegasse. Passei as mãos no rosto e na cabeça que, apesar dos vários
analgésicos, ainda doía bastante. Já que havia acendido as luzes, por que não ligar também a
televisão e me livrar daquele silêncio ensurdecedor? Foi o que fiz.
Um canal de notícias estava sintonizado. Falavam sobre um fato muito bizarro que
havia acontecido na noite anterior. Aparentemente, algum animal havia atacado uma fazenda
de gado local e esfacelado cinco ou seis bovinos. A repórter tentava reprimir o riso enquanto
alguns moradores juravam ter sido obra de um chupa-cabra. A cena era mesmo de embrulhar o
estômago. Os bois estavam tão destruídos que mal dava para saber o que era o quê. A notícia
me chamou a atenção. Não pude deixar de pensar que aquilo podia ter alguma relação com o
que havia acontecido comigo, mas como?
Quando menos esperava, a porta do consultório da doutora Eva se abriu. Havia alguém
ali, afinal.
— Bom dia, posso ajudá-lo? — Um senhor com cabelos, barba e bigode brancos
apareceu na porta entreaberta.
— Desculpe, acho que estou no andar errado. Procuro pela doutora Eva. — Levantei-
me um pouco sem jeito por ter sido pego no flagra.
— Qual é o seu nome? — Ele abriu a porta por completo e deu um passo em minha
direção.
— Meu nome é André, André Fernandes. Desculpe se o atrapalhei, achei que estava no
andar da doutora Eva — levantei-me e me aproximei um pouco sem jeito.
— Sim, sim, eu entendi da primeira vez. Você está no lugar certo. Espere um pouco. —
O homem pegou uma folha de papel com algo escrito e a consultou. — Hum, seu nome não
está na lista de hoje.
— Lista? — Estiquei os olhos para tentar ler alguma coisa no papel que o sujeito
portava.
— Sim, de pacientes — ele percebeu meu movimento e virou o papel, permitindo-me
que o visse.
— Oh, não, não... O senhor não vai achar meu nome aí, não tenho nada marcado para
hoje. É uma emergência.
— Compreendo...
— O senhor é o novo secretário da doutora Eva? — Tentei puxar assunto.
O sujeito me encarou com um olhar de desaprovação. Alguma coisa que eu fiz ou disse
certamente não o deixou muito feliz.
— Meu nome é Doutor Cláudio Alcântara, sou colega da doutora Eva. Ela teve alguns
problemas particulares e precisará se ausentar por tempo indeterminado. Estou aqui como um
favor para que o tratamento de seus pacientes não seja interrompido.
— Quer dizer que o senhor será meu novo terapeuta? — Eu não estava gostando nada
daquela informação.
— Sim, isso mesmo, prazer — o doutor Cláudio estendeu a mão e eu o cumprimentei.
— Não sei como me sentir com relação a isso. Eu estava começando a me acostumar
com a doutora — não sei se o doutor percebeu, mas minha voz estava trêmula devido ao meu
nervoso.
— Compreendo como possa estar se sentindo, mas posso lhe garantir que sou
extremamente competente.
— O senhor não compreende, meu caso é um pouco diferente.
— Diferente como? — Ele ficou curioso.
Olhei ao redor, como que conferindo se não havia mais ninguém por perto.
— Sou um dos sete por cento— sussurrei.
— Oh, sim, sim... Muito interessante. A doutora Eva me avisou mesmo que estava
tratando de duas pessoas com Perda Hemisférica de Memória Sem Agente Desencadeador
Conhecido. Não se preocupe, modéstia à parte, sou considerado a maior autoridade no assunto.
As descobertas, ainda que tenham sido poucas, são, em sua maioria, associadas aos meus
estudos.
— Se o senhor diz — dei de ombros.
— Enfim, o que posso fazer para ajudá-lo? Visto que o senhor não tinha consulta
marcada para hoje, imagino que algo tenha acontecido para vir até aqui — o psicólogo saiu do
caminho, como que me convidando a entrar.
— Bom, não sei se deveria... Sequer conheço o senhor — hesitei.
— Sim, sei que é difícil, mas em algum momento você terá que confiar em mim,
André. Imagino que esperar pela doutora Eva e interromper seu acompanhamento não seria
uma boa escolha.
Eu não queria começar do zero naquela altura do campeonato, mas ignorar que
precisava de socorro imediato seria burrice da minha parte.
— O senhor tem razão.
— Gostaria de entrar no consultório? — ele estendeu a mão na direção da sala que
costumava pertencer à Eva.
— O senhor não tem nenhum paciente para chegar agora? — Estranhei a
disponibilidade repentina.
— Não, o primeiro será apenas às dez. Temos algum tempo. Cheguei cedo apenas para
poder me organizar e me inteirar do caso a caso.
— Não vou te atrapalhar? — Fiquei sem jeito.
— De forma alguma, fique à vontade!
— Quanto o senhor cobra pela consulta? Os valores sofrerão alguma alteração? —Não
sei por que fiz aquela pergunta. Dinheiro era a última coisa que estava em questão diante do
meu problema.
— Não se preocupe com isso, hoje não será uma consulta, apenas um bate-papo — ele
abriu um sorriso convidativo.
Entramos no consultório. O doutor Cláudio me pediu para que aguardasse alguns
instantes e começou a procurar o meu arquivo. Fiquei tenso, não sabia se deveria me abrir com
ele do mesmo modo que havia planejado fazer com a doutora Eva. Contudo, a angústia em
meu peito era tanta que resolvi colocar tudo para fora.
Mesmo com os arquivos em mãos, o doutor solicitou que eu fizesse um relato
detalhado sobre mim; como acordei num hospital em lugar desconhecido, todas as consultas
médicas que fiz, todos os remédios que tomei... Falei também sobre o que me levou até ali, as
fortes dores de cabeça, delírios e sensações estranhas.
Por fim, naturalmente, acabei falando sobre minha obsessão por Mikaela, meu recente
caso com a Maristela e sobre como me sentia com relação a tudo. Expliquei que, embora
morasse com alguém, na maior parte do tempo eu acabava ficando sozinho e que isso me fazia
mal. Quase sem acreditar, acabei me abrindo totalmente e contando sobre a experiência
daquela madrugada.
O doutor ficou preocupado. Perguntou-me se eu fazia ideia do que tinha acontecido.
Relatei a ele a notícia que vira na televisão antes de nosso encontro e disse que temia ter
alguma relação com o caso.
— Será que estou com algum problema de sonambulismo, doutor? — Procurei me
ajeitar na poltrona de modo a conseguir olhá-lo de frente.
— Não há como afirmar que sim e nem que não, porém, seria um caso extremo.
Normalmente, sonâmbulos não saem por aí despedaçando animais em fazendas. — Ele abriu
um sorriso sarcástico para aliviar o clima tenso.
— Foi o que imaginei — relaxei e encostei novamente na poltrona.
— Contudo, sendo você um dos sete por cento, não podemos descartar nenhuma
hipótese — ele anotava algumas informações em meu arquivo.
— Somos tão amaldiçoados assim?
— Meu rapaz, jamais diria que esquecer as intempéries da vida e os horrores que a
guerra trouxe sobre a humanidade fosse uma maldição — aproveitando a pausa que eu fiz
enquanto meditava sobre essas palavras, o doutor se levantou, caminhou até um dos cantos da
sala e ligou o ar condicionado.
— Acha que é uma benção? — Perguntei enquanto ele ainda estava de costas.
— Poderíamos dizer que sim, mas essa é apenas a minha opinião — ele respondeu sem
me olhar, enquanto tentava diminuir o termostato do aparelho.
Lembrei-me de todas as esquisitices que aconteciam na minha vida e cheguei à
conclusão de que aquele homem estava completamente enganado. Fazer parte dos sete por
cento estava longe de ser uma benção.
— Como poderia? — perguntei só por perguntar.
— Quando nascemos, chegamos a esta Terra limpos e puros, sem marcas e manchas.
Ao longo de nossa vida, acumulamos uma série de dissabores, dores, desilusões. Os sete por
cento, na minha visão, tiveram a oportunidade de nascer de novo e creio que seja um grande
desperdício preocupar-se ou tentar recuperar a sua vida antiga. Mais sábio seria aproveitar essa
nova chance de partir do zero e construir um novo André — Cláudio caminhou durante sua
resposta até chegar novamente ao seu lugar e se sentar.
Pensei em dizer ao doutor que eu não me preocupava ou tentava recuperar a minha
antiga vida. Essa fase já tinha sido muito bem superada. Eu não era depressivo como a
Mikaela. Só queria ser um cara comum e agir normalmente, porém aquelas dores, os
devaneios, os surtos... Tudo aquilo me impedia de seguir adiante. Não era como se eu fosse
atrás das estranhezas, elas que me perseguiam.
— O que o senhor acha desses flashes, essas espécies de lembranças?
— Impossível isso ser alguma lembrança. Até mesmo pelo que você relatou, trata-se de
algo acontecido há quase duas centenas de anos, e o senhor não me parece tão velho assim. —
Riu. — Ou então, me passe os nomes dos cremes que usa para que eu tenha essa mesma
aparência quando tiver meus cem anos.
Não achei a menor graça.
— Não sei o que pensar sobre tudo isso. Às vezes acho que vou enlouquecer. Eu já
tinha meus problemas, mas depois que mudei para esta cidade e, principalmente, nas últimas
semanas, o nível das loucuras está se intensificando e tudo está acontecendo cada vez mais
rápido.
— Tenho muita experiência com pessoas que sofrem com PHMSADC, ou como
costumamos chamar, para facilitar, PHM. Devo admitir que o senhor parece ser um caso único.
Ainda que não sejam, necessariamente, lembranças, seu cérebro trabalha de forma estranha na
criação dessas alucinações. Se tudo isso acontecesse durante o sono, poderíamos dizer que são
apenas sonhos, mas como há episódios em que você está acordado... precisamos analisar
melhor — o doutor não inspirava nenhuma confiança de que realmente era tão entendido
quanto ao meu problema assim.
— Se o senhor tem tanta experiência no assunto, como é que nunca conheceu nada
parecido com minha situação? — Indaguei.
— Bom, acabei de conhecer neste instante, não foi? — Ele gostava de ser
engraçadinho, pelo visto, mas aquilo já estava me entediando.
De repente, senti-me cansado de tudo aquilo. A falta de explicação para o meu
problema me deixava possesso. Doutor Cláudio, no final das contas, era igual à Eva: falava,
falava e não chegava à conclusão alguma. Pelo visto, nada mudaria. Aquelas consultas só
serviriam para que eu desabafasse, nada além disso. Claro que era bom poder me abrir com
alguém, mas o efeito prático em minha rotina era basicamente nenhum. O tédio que Mikaela
dizia sentir parecia querer se apoderar de mim. Bocejei.
Quando imaginei que a lenga-lenga tinha acabado, ele voltou a falar várias outras
coisas, sobre relacionamentos, o lado emocional de toda essa história, como lidar com o sexo
oposto naquele momento, mas tudo me pareceu um monte de bobagens sem fundamento.
Quem era ele para me dar conselhos amorosos, ou me dizer o que deveria fazer? Ele havia
acabado de me conhecer e, embora eu tivesse feito um belo resumão de toda a minha vida,
achei que ainda era cedo demais para ele me conhecer e me compreender da forma como ele
queria fazer parecer. Cansado de toda aquela conversa fiada, resolvi que era hora de partir.
— Doutor, preciso mesmo ir. — Levantei-me da poltrona, visivelmente decepcionado,
interrompendo sua última frase, a qual eu nem havia dado o mínimo de atenção. — Tenho que
trabalhar. Já foi um grande alívio poder me abrir com o senhor e me sinto até um pouco
melhor. Muito obrigado mesmo — menti.
— Disponha, André. — Ele se levantou também. — Foi um grande prazer conhecê-lo.
Podemos nos encontrar novamente na segunda-feira, no seu horário normal, tudo bem?
— Sim, doutor Cláudio, segunda sem falta estarei aqui.
Quando saí do consultório, estranhei o fato de a secretária ainda não ter chegado, mas
não me prendi muito àquele detalhe, até porque não teria que pagar nada. Conferi minha
agenda e minhas mensagens enquanto descia no elevador. Saí do prédio, peguei meu carro e
parti para mais um dia de trabalho, rezando para que Mikaela recebesse as flores e, finalmente,
me ligasse. Alguma coisa muito forte dentro de mim dizia que só ela me acalmaria de verdade.
Capítulo 10
Mikaela

Minhas mãos tremiam e suavam em bicas enquanto segurava o meu celular com força.
Havia digitado o número do André pelo menos umas sete vezes, mas nunca concluindo a
ligação. Pensava e repensava sobre os prós e contras de falar com ele. Eu tinha muitos motivos
para não querer ter absolutamente nada a ver com o sujeito. Ele era problemático, esquisito,
meio bobão e muito metido. Mesmo assim, meus dedos insistiam em digitar aquele número
depois que uma única vantagem me vinha à mente: o homem me fazia bem, e alguma coisa me
fazer bem era raro.
Seus problemas, na verdade, eram um alívio para mim. Perto dele eu não me sentia tão
estranha, um peixe fora d’água. Sua capacidade de mudar o meu humor, mesmo contra a
minha vontade, era notável. Nunca ria de suas piadas toscas, mas não significava que eu não
gostava delas. Além de tudo, ele não parecia se importar muito com o meu péssimo humor.
Pelo menos não ficava me olhando como se eu fosse um cristal prestes a ser quebrado diante
de qualquer movimento brusco; falava verdades na lata, tirava-me do sério, insistia em manter
contato comigo mesmo sabendo perfeitamente que eu não era do tipo que mantinha contato
com alguém.
Era diferente com o Sérgio. Ele estava na minha cola porque não me conhecia, e isso era
tão entediante quanto injusto. Eu tinha sido tão sincera com o André que, por incrível que
pudesse parecer, ele era a pessoa que mais sabia sobre mim no mundo, tirando, talvez, a
doutora Eva Sales. O pouco tempo que passamos juntos foi revelador na mesma medida em
que foi intenso, despertando-me sentimentos contraditórios difíceis de entender.
Também não podia me esquecer de que André era o único homem capaz de me
despertar desejo — em vez de me sentir uma pessoa insuportável, sentia-me uma mulher
diante dele, o que não acontecia diante de ninguém. Eu sabia bem o que podia ter acontecido
naquela noite de tempestade. Estava lá quando os olhos dele brilharam ao cruzarem com os
meus. Vi sua boca entreaberta, sedenta por um beijo longo. Recebi seu abraço terno, protetor,
que me deixou tão segura quanto assustada. Havia sinceridade em cada gesto que me ofereceu.
Havia verdade. Não podia ter me enganado tanto.
Em contrapartida, vê-lo com outra mulher no mercado me deixou mais do que irritada;
cheguei ao limite do ódio. Não conseguia entender o porquê de ele ter insistido em falar
comigo, em explicar o que não tinha explicação. Ou melhor, tinha uma só: ele era um safado
que havia me enganado. Se o sujeito fosse embora e nada falasse, talvez tudo tivesse sido mais
fácil. Eu me convenceria de que o que passamos, para ele, não teve importância e continuaria
vivendo a minha vida estúpida como sempre fiz.
Mas não. André insistia. E havia me mandado as rosas mais bonitas que eu já tinha
visto, junto com um conjunto de números que me levariam diretamente a ele, sem rodeios. Por
causa dessas ideias que não se acertavam dentro da minha cabeça que eu não conseguia parar
de digitar e apagar aqueles números repetidas vezes. Toda vez que pensava em clicar no botão
verde, vinha a imagem da vadiazinha que o acompanhava no mercado, fazendo-me desistir.
Sobrepondo qualquer justificativa, ainda tinha os devaneios, surtos ou seja lá o nome
daquilo que acontecia comigo. Seria muito burra se os ignorasse. André precisava fazer parte
daquele mistério, afinal, eu não tinha devaneios com o Sérgio ou com qualquer outro homem,
apenas com ele. Mesmo tendo passado essa experiência com Sérgio, foi a imagem de André
que apareceu. Não dava para ignorar que alguma coisa estava diferente e que ele podia ser a
resposta que sempre busquei com relação a quem fui antes de ser uma maluca intragável.
Talvez tenha sido por isso que deixei meu dedo escorrer e finalmente iniciar a ligação.
Ouvi dois toques na maior impaciência, com o coração na mão e a respiração presa. Piorou
quando uma voz masculina inconfundível falou casualmente:
— Alô?
Meu cérebro deve ter congelado. Não soube o que responder, sequer entendi que
precisava responder alguma coisa. Minha sala foi tomada apenas pelo ruído da minha
respiração ofegante. André ainda insistiu, repetindo vários “alôs”, porém continuei muda,
petrificada. Ele não desligou, esperou eternos segundos para matar a charada.
— Mikah? — Seu timbre foi capaz de arrepiar até o dedinho do meu pé.
Desliguei imediatamente, assustada como um cordeiro diante de um lobo. Arrependida
de ter feito papel de trouxa, larguei o aparelho em cima da mesinha de centro, como se soltasse
uma brasa, e me afundei no sofá. Eu não tinha nada para falar com o sujeito. Nada da minha
vida deveria lhe interessar e vice-versa. Passei um minuto divagando quando ouvi o celular
tocar. Ainda conferi, pensando ser o Sérgio, mas reconheci o número de imediato: eu o havia
digitado tantas vezes que poderia repeti-lo até de trás pra frente.
Arquejei de pavor e rejeitei a ligação quase derrubando no chão tudo o que estava a
minha frente. Daquela vez, desliguei o aparelho, prometendo que mudaria de número assim
que fosse possível. Talvez eu estivesse exagerando, mas a minha mente não suportou direito a
ideia de receber ligações perturbadoras. E se eu resolvesse atender? Que tipo de consequência
sofreria se deixasse o André ir adiante?
Bem que tentei me acalmar, porém não consegui. Andei de um lado para o outro dentro
do meu apartamento, sem saber o que fazer para parar de pensar nele. Meu corpo implorava
pela sua presença, reclamava das minhas atitudes e me julgava uma otária de marca maior por
tê-lo distanciado como se eu não me importasse. Estava mentindo para mim mesma, como o
próprio André tinha falado no supermercado. A parte teimosa que habitava o meu ser replicou,
dizendo que mentia para todo mundo há anos e não era nada de mais continuar vivendo de
mentiras.
Assisti aos minutos passarem lentamente, como que me castigando por não ter feito
nada que pudesse torná-los mais úteis. O nervosismo só se intensificava. Comecei a suar frio e
a quase ter a cabeça explodida devido a uma pressão insuportável que o nada exercia sobre ela.
Por fim, rendi-me de vez e deixei lágrimas marejarem os meus olhos. Ainda não estava pronta
para derrubá-las, mas só fazê-las presentes foi capaz de me aliviar um pouco.
Depois de quase enlouquecer com minhas próprias ideias, escutei buzinas na rua. Elas
se tornaram muito insistentes, mas nada me fez achar que eram para mim. Só tive certeza
quando comecei a ouvir gritos.
— Mikah! Mikah! — Era ele. André bradava o meu nome, ou melhor, o apelido que ele
mesmo tinha inventado, como um alucinado. — Mikah!
Ignorei as janelas abertas e me sentei no chão da sala. Tapei os meus ouvidos com as
mãos, mas ainda consegui ouvir seu chamado. Soava alto e claro, martelava o meu juízo e
parecia bater no ritmo acelerado da minha pulsação. Os meus vizinhos, com certeza, estavam
ouvindo aquele espetáculo. Só depois que me lembrei de que não morava totalmente sozinha
que levei em consideração tomar alguma atitude.
— Mikah! Por favor, Mikah! — O desespero do André se tornava cada vez mais
evidente. E, quanto mais desesperado, mais alto ele gritava. — Mikah, sei que está aí!
Abri a porta e desci as escadas do jeito que estava; trajando jeans surrados, camiseta
branca sem sutiã e chinelos azuis. Enquanto descia, ainda passei as mãos pelos cabelos para
amenizar a minha aparência horrível, mas não deve ter ajudado muita coisa. Atravessei a
portaria às pressas e, respirando fundo, alcancei a rua. Fiquei olhando para o chão.
— Mikah... — As mãos dele seguraram meus braços. Tentei não morrer diante de seu
toque quente, profundo. — Mikah, como você está?
— Não interessa — minha voz saiu rouca e baixa, carregada de tristeza. Não ousei
encará-lo. — Pare de tentar acordar os vizinhos. Você é maluco.
— Sou. Não vou me desculpar por isso. Não posso mudar o que sou.
Não sei dizer por que eu sorri. Acho que, no fundo, consegui me identificar
completamente com o que ele disse. Realmente, não queria que se desculpasse por ser quem
era, visto que eu jamais faria algo assim. Tomei coragem e ergui a minha cabeça a fim de olhá-
lo. O que vi diante de mim me fez arquejar alto até fazer todos os músculos do meu corpo se
contraírem de um jeito estranho.
Era ele. A imagem do homem que rodeava os meus delírios, sem tirar e nem pôr
absolutamente nada. Abri a boca e o encarei durante longos segundos, analisando cada detalhe
de seu rosto esculpido.
— O que fez com o seu cabelo? — perguntei em um murmúrio, ainda estupefata.
— Cortei— André passou a mão pelos cabelos escuros curtinhos, raspados com
uniformidade.
— Por quê?
Ele me olhou mais intensamente e balançou a cabeça.
— Você não vai querer saber o real motivo.
— Se não quisesse saber, não teria perguntado.
Ofereceu-me um sorriso debochado capaz de me deixar aérea.
— Tudo bem, eu te conto tudo se aceitar ir a algum lugar comigo. Precisamos
conversar, Mikah. — Ele acariciou a lateral do meu rosto e afastou uma mecha de cabelo
vermelho que estava atrapalhando a minha visão.
— Não me chame de Mikah. E não temos nada para conversar.
— Não há nada que queira me dizer?
Respondi balançando a cabeça, porém não consegui olhá-lo nos olhos. André segurou o
meu queixo e me obrigou a encará-lo.
— Então, por que me ligou? — Dei vários passos para trás o mais rápido que pude,
incapaz de rebater. — Pare de se enganar, Mikaela.
As lágrimas teimaram em aparecer. Meus olhos foram tomados por elas até que, do
nada, começaram a cair sem pausas. André ficou muito perturbado diante da minha tristeza.
Tentou se aproximar, mas o repeli como pude. Pensei em entrar no prédio, mas temi que
tentasse me acompanhar. Ele não podia ir até a minha casa. Não sei o que faria se o tivesse em
um ambiente privado. Temia que o meu corpo traísse a minha razão mais uma vez.
— Como você está? — perguntou novamente. — Eu realmente preciso saber.
— Péssima. Como sempre. — De novo, fui mais do que sincera. — E você?
— Péssimo. Estou enlouquecendo de verdade.
— Eu também! — choraminguei. — Estou cansada. Não aguento mais.
André conseguiu me desarmar não sei como. Deixei que seus braços me tomassem por
completo. Fui envolvida pelo seu corpo quente e aconchegante, que me inspirava uma
segurança que nunca tive. Chorei com o rosto afundado em seu peitoral másculo enquanto
inalava seu cheiro sublime e tentava, em vão, retomar o controle.
— Não vou dizer que vai ficar tudo bem — sussurrou perto do meu ouvido. — Eu não
sei se vai. A única coisa que sei é que eu vou ficar com você.
— Não faz sentido! — continuei chorando sem dignidade, mas minha frase acabou
ficando perdida quando percebi que as coisas faziam mais sentido quando ele me abraçava. —
Eu não sei o que fazer.
— Shhhh... Vamos começar saindo daqui. — Ele se afastou um pouco só para enxugar
as minhas lágrimas com os dedos longos. — Vem comigo?
— Não...
— Por favor. Eu te imploro, Mikaela. Dê uma chance pra gente.
Não precisei responder nada. André apenas segurou a minha mão e eu me deixei levar.
Certamente eu não estava vestida para ir a canto algum, mas não me importei e ele muito
menos. Seguimos em seu carro em silêncio. Percebi que o som estava ligado quando entramos,
mas ele desligou assim que deu partida. Tentei adivinhar para onde estava me levando e errei
feio. Nenhuma possibilidade pensada me levou ao Lago dos Sete Cisnes, uma área grande,
repleta de árvores e pistas de cooper que rodeavam um lago imenso.
Para ser sincera, gostei da escolha. Havia algumas poucas pessoas se exercitando por
ali, mas atravessamos todas elas e nos perdemos na área gramada localizada na beira do lago.
Àquela hora, ninguém ousaria ficar por perto. Era muito esquisito e escuro, além de frio.
Porém, naquela noite, a lua cheia resplandecente iluminava tudo de um jeito encantador. Não
havia cenário mais romântico.
Sentamo-nos no gramado, lado a lado. Inspirei o ar gélido da noite e me senti mais
viva. Por incrível que pareça, o frio não me incomodava. Pouca coisa conseguia me incomodar
quando estava imersa em um ambiente obscuro.
Visualizei a lua enorme diante de nós e, de repente, senti um pouco de aflição. Uma
angústia difícil de ser compreendida.
— Acordei sujo de sangue e lama ontem à noite. Meu colega de apartamento pensou
que eu estava morto. Não consigo entender o que aconteceu... Apenas deitei e dormi... Não me
lembro de ter saído de casa. Havia rastros na casa inteira.
Olhei para o André. Ele narrou tudo rapidamente, assim, do nada.
— Ai, meu Deus...
— Não sei se é sonambulismo, não sei o que fiz. Não sei do quê ou de quem era aquele
sangue. Cortei o cabelo porque estava cheirando muito mal.
Prendi os lábios. Toquei-lhe a face suavemente, sentindo sua barba recém-aparada.
André ainda olhava a lua, um pouco envergonhado pelo que havia acabado de confessar.
Parecia triste também.
— Está piorando. Nenhum terapeuta vai resolver isso — concluiu.
— A gente sempre soube que não. — André finalmente me encarou. Fechou os olhos
como se adorasse o meu toque em sua pele.
— Suas mãos são tão frias...
— Você que é muito quente. — Afastei-me depressa. Ele pegou minha mão e a
recolocou em seu rosto.
— Não pare. Estava bom.
Sorri. Percebi um pouco de suor escorrendo pela sua testa. Franzi o cenho. Não fazia
sentido. Estava muito frio diante do lago, ele não devia estar suando.
— Você está bem?
— Só com um pouco de vertigem. Vai passar.
Aquiesci. Eu sentia vertigens o tempo todo, mas, naquele momento, felizmente, estava
me sentindo ótima. Decidi me afastar quando percebi que a situação era estranha demais. Eu
não devia estar tocando André daquela forma. Era o meu corpo me traindo mais uma vez.
— Você ainda não saiu correndo — André falou assim que voltamos a encarar a lua.
— Por que eu sairia?
— Não ficou assustada depois do que eu te disse?
— Não.
— Não tem medo de que eu seja algum maníaco?
— Não é bom ter medo do que a gente é. Tudo o que você for, posso ser também. Só
fico preocupada porque não sei onde isso vai parar.
— Se é que vai parar.
— Se é que vai parar... — repeti e suspirei profundamente. — Ontem eu bebi todo o
líquido que tinha no meu apartamento. A sede não passava. Não consegui me ver no espelho
por um minuto completo e... Quase ataquei meu colega de trabalho.
André se pôs em alerta.
— Atacou? Como?
— Não sei, André. Eu... queria matá-lo. De verdade. Queria que sangrasse.
— Se for aquele puxador de saco do supermercado, então deveria ter feito. — Ele riu
de um jeito bobo. Não o acompanhei. — Ei, estou brincando. — Olhei-o com a cara feia. —
Eu sei, não tem graça. Desculpa.
Levantei-me do gramado e caminhei decididamente até uma árvore gigante. André veio
junto.
— Mikah... É sério, me desculpa. Caramba, só falo merda! — Continuei andando sem
olhar para trás. — Mikah!
Senti uma coisa me empurrando por trás e me imprensando no caule da árvore. Fui
girada como se nada pesasse. André usou seu corpo para intimidar o meu, deixando-me presa e
com os braços erguidos. Suas mãos prendiam meus pulsos com força. Comecei a respirar forte,
tomada pelo seu gesto firme, decidido.
Ele passou a língua pelos lábios, umidificando-os. Por um instante, imaginei os meus
lábios deslizando contra os dele até encontrá-la. Um fogo insuportavelmente quente cresceu
dentro de mim.
— Você tem que aprender a ignorar as bobagens que eu falo — ele sussurrou baixinho.
Seu corpo prendeu ainda mais o meu. Achei que fosse enfartar de tanto desejo.
— Não dá. Você é muito idiota e eu sou impaciente.
Pensei que o André fosse rir, porém se manteve muito sério. Seu humor era difícil
demais de compreender. Ora ele parecia um cara maduro ora eu poderia confundi-lo com uma
criancinha mimada.
— Aquele cara. Ele te tocou?
— Que cara?
— Seu colega de trabalho, Mikaela. Por que você quase o atacou? O que ele te fez para
se sentir tão ameaçada?
— Nada.
— Não minta para mim — rosnou, diminuindo ainda mais o espaço entre nós, se é que
ainda havia algum.
— Não fui obrigada a nada, se é o que quer saber.
Senti uma coisa esquisita subindo pelo peito dele. Parecia um rosnado contido, que não
chegou a lhe escapar pela garganta. A expressão estampada em seu rosto era de um animal
selvagem defendendo sua cria.
— Não quero que ninguém te toque.
— Quando e onde foi que você comprou direitos sobre mim?
André ficou com tanta raiva que não conseguiu falar nada. O suor começou a escorrer
da sua testa como se ali fizesse uns cinquenta graus Celsius. Logo em seguida, seu corpo
começou a tremelicar um pouco, até que, sem nenhum aviso, espasmos malucos o fizeram se
agitar muito. Ele se afastou de mim, meio transtornado. Os olhos arregalados me fizeram
entender que alguma coisa nele estava muito errada.
— O que foi? O que você tem? — Tentei ampará-lo, mas ele deu vários passos para
trás.
— Fique... longe. Não quero te machucar.
— André... — Ergui uma mão para tocá-lo, mas ele soltou um urro feroz que me
causou verdadeiro pavor. — Desculpa, eu não queria te deixar assim...
Os olhos dele emitiram uma luz dourada similar à da lua. Tremi nas bases. O que será
que estava acontecendo com ele?
— Mikaela... Vá embora. Saia daqui depressa.
— Não... Não vou te deixar.
Não sei que coragem foi aquela que surgiu dentro de mim, só sabia que jamais teria a
capacidade de deixá-lo desamparado em um momento difícil.
— Se acontecer de novo... Se o sangue na minha roupa for o seu... Mikaela... Por favor.
— Não.
— Ótimo... Adeus, Mikah.
André avançou na minha direção e prendeu seus lábios contra os meus de um jeito
possessivo. Não fez movimento algum, apenas pressionou nossas bocas e assim ficou,
forçando nossos corpos a ocuparem um só lugar no Universo. Senti-me tonta de desejo e
pavor, tragada por uma onda poderosa que fez meu sangue correr mais depressa, de uma
maneira desconhecida por mim. Derreti em seus braços fortes e permaneci estática, apenas
esperando que, de fato, nossos corpos se fundissem. Realmente achei que pudesse ser possível.
Tão de repente quanto me beijou — se é que aquilo poderia ser chamado de beijo —,
André saiu correndo em disparada na direção da área tomada pelas árvores, similar a uma
mata. Levei minhas duas mãos à boca e tentei recuperar o fôlego. Olhei para o lado que ele
havia corrido e não o encontrei mais. Apertei meus lábios com as mãos e os puxei, quase
arrancando a minha pele.
Não podia abandoná-lo. Eu não voltaria para casa e fingiria que tudo estava bem.
Aquele homem ia escutar poucas e boas. Quem já viu me beijar e sair correndo?
Inspirei a brisa noturna mais uma vez, enchendo o meu peito de coragem. A noite
estava ao meu favor, podia sentir em minhas veias. Deixei meus chinelos na grama e saí
correndo feito uma louca, exatamente como o André tinha feito.
Atravessei o gramado, transpus obstáculos, circulei por meio de inúmeras árvores na
maior velocidade que consegui. Nem eu sabia que podia ser tão rápida. O vento passava pelos
meus cabelos e esfriava a minha cabeça, deixando-me segura, preparada para o que desse e
viesse. Mesmo que tivesse percorrido uma distância considerável em pouco tempo, não me
senti cansada. Nada me faria desistir de alcançá-lo.
Podia sentir seu cheiro entre as árvores. Sabia exatamente qual caminho tomar. Fui
levada até o André por uma força invisível, alheia à nossa compreensão. Consegui visualizá-lo
depois de alguns minutos correndo. Por mais que já estivesse em meu limite, apertei o passo e
cheguei até ele em um minuto. Abri os braços e usei o meu corpo para fazê-lo parar.
Caímos juntos diante da copa de uma árvore sem folhas. André se debateu
violentamente, rosnando como um bicho, porém não conseguiu escapar dos meus braços.
Tinha consciência de que ele estava colocando uma força absurda para sair dali, mas meus
músculos aquecidos pareciam barras de aço contendo a fera.
— André! Pare! — Encarei-o com olhos ferozes. Sentia-os ardendo como duas
labaredas. — Olhe para mim!
Seu olhar estranhamente amarelado se manteve na minha direção. Aos poucos, ele foi
se acalmando, até que parou de se debater. Na medida em que a luz amarela deixava os seus
olhos, o homem foi ficando cada vez mais aéreo.
— Mikah...
— Estou aqui. Não vou te deixar. Prometo.
— Eu te amo, Mikhayah... — sussurrou como se estivesse delirando e apagou.
Minha pressão deve ter baixado ou algo do tipo, pois passei séculos em cima dele, sem
conseguir entender, explicar ou reagir diante do que falou. Aquele nome, que parecia estar em
outra língua, não me era estranho. O André dos meus devaneios me chamava daquele modo.
Só então percebi que havia um homem desacordado necessitando de socorro.
— André? — Toquei seu rosto. Ainda estava quente como brasa. — André? Acorde!
Vamos, acorde! — Conferi sua pulsação. Estava acelerada.
Suspirei de alívio e depositei minha cabeça em seu peito. Não fazia ideia do que estava
acontecendo, mas prometi a mim mesma que nunca mais me afastaria do que claramente era a
minha sina. André fazia parte do meu eu, dava para sentir a cada suspiro que eu soltava diante
de seu corpo inerte. Poderia ter desistido da Mikaela chata e mentirosa que acordou sem
memória, mas não podia desistir da que conseguia ser corajosa, sincera e mulher ao mesmo
tempo diante dele.
Aquela poderia valer a pena.
Capítulo 11
André

O celular não parava de tocar havia vários minutos, e aquilo já estava me irritando.
Depois de tantas chamadas consecutivas, eu teria que mudar a música do toque, pois a tinha
escutado o suficiente para uma vida. Por alguma razão eu não o desligava, como se o ruído
insistente me conectasse com a realidade. Meu corpo ainda doía muito após o episódio da noite
anterior e por ter dormido mal, mas, para dizer a verdade, meu cérebro doía ainda mais. O que
diabos estava acontecendo comigo? Como tive forças para fazer o que precisava ser feito com
Mikaela?
Porém, a pergunta que não queria calar naquele momento era: Como era possível que
alguém pudesse ligar tão insistentemente depois de ficar claro que eu não estava a fim de falar
com ninguém? Resolvi levantar e preparar meu café da manhã. Enquanto observava
monotonamente o pão dentro da torradeira e as luzinhas vermelhas da resistência do aparelho,
recordei-me dos fatos da noite passada.
Depois de me recuperar do que quer que tivesse sido aquele ataque, levantei-me e pedi
que Mikaela me levasse para casa. Ela insistiu para que fôssemos até um hospital, mas eu
jamais teria como explicar o que havia acabado de me acontecer. Minha cabeça estava confusa
e eu ainda estava bastante atordoado, mas recusei veementemente seus insistentes pedidos.
Dando-se por vencida, Mikaela desistiu da ideia do hospital e resolveu que me acompanharia
até meu apartamento. Tudo aquilo era demais até mesmo para mim, um cara grande e forte que
vendia saúde. Ela me deixou sentado em um banco próximo ao lago, foi até meu carro e voltou
para me pegar.
Seguimos em silêncio, não havia muito o que falar após tamanho momento de tensão.
Mikah ligou o som do carro numa rádio local, que tocava músicas dos anos oitenta, uma época
da qual não podíamos nos recordar, por mais que a tivéssemos vivido. A maior parte do tempo,
fiquei com a cabeça baixa, cobrindo o rosto com as mãos, como se tivesse algum motivo para
me envergonhar.
Paramos na portaria. Mikaela explicou ao porteiro que estava me levando para casa, ele
me deu uma boa olhada e permitiu nossa entrada. De certo, ficou imaginando que eu havia
tomado um porre daqueles, mas isso não me importava nem um pouco. Indiquei a ela o local
de minha vaga. Mikah estacionou e me amparou para sair do veículo. Eu ainda estava um
pouco trêmulo e bastante abalado. Ela me ajudou a andar até o elevador que nos levaria ao
andar do meu apartamento.
Entreguei-lhe as chaves, pois ainda estava com a visão um pouco turva. Na quarta
tentativa, ela conseguiu acertar e me ajudou a caminhar lentamente pela sala.
Desabei sobre o sofá, minha respiração ainda estava rápida e difícil. Mikaela voltou para
fechar a porta e parou ao meu lado, parecendo bastante preocupada e assustada.
— Mikah, acho que devemos dar um tempo — falei após alguns instantes de silêncio
constrangedor.
— Como, André? Você está ficando louco? — Ela pareceu se irritar com a minha
proposta.
— Isso não deve ser tão difícil, afinal, até hoje você não queria ficar comigo. Antes eu
não tivesse insistido...
— Acho melhor não termos esta conversa agora, você não está bem e acabará falando
coisas das quais se arrependerá — Mikaela foi até a cozinha, abriu os armários até que
encontrou uma caneca, onde serviu água gelada que retirou da geladeira.
— Arrepender? Você viu o que aconteceu hoje? Estou imaginando coisas, por acaso? —
Não conseguia ter muita paciência. Estava chateado por tudo aquilo ter acontecido e assustado
por não saber quando poderia acontecer de novo.
— Não, você não está louco, eu estava lá... — ela me entregou a caneca.
— O que houve comigo? — Bebi um gole, o líquido gelado desceu pela garganta me
fazendo um bem danado.
— Não faço ideia, mas foi assustador — Mikah pegou a caneca e foi novamente até a
geladeira tornar a enchê-la.
— E você ainda acha que não tenho motivos para querer que fique longe de mim? — Eu
observava seu corpo perfeito por trás, desejando poder colocar minhas mãos sobre ela.
— Não é para tanto. Eu fiquei lá, não fiquei? E as coisas voltaram ao normal, não foi? —
Mikaela tornou a me entregar a caneca e eu bebi novamente tudo em um gole.
— Normal? Não faço ideia do que seja normal, aliás, acho que nunca tive nada de
normal na minha vida, pelo menos não depois de descobrir fazer parte dos sete por cento. As
coisas parecem só querer piorar. Devia ter dado atenção ao doutor Cláudio, ele parece saber o
que diz — coloquei a caneca em cima da mesinha e me deitei no sofá. Permaneci com os olhos
fechados, pois a luz da sala me incomodava.
— Doutor Cláudio? Quem é esse sujeito? Você nunca me falou sobre ele.
— Certo, você ainda não sabe disso, pois só vai ao consultório na próxima segunda.
Acabei indo lá hoje de manhã porque estava muito angustiado com algumas coisas. Cláudio é
o nome do nosso novo psicólogo.
— Novo psicólogo? Que história é essa? Ninguém me avisou nada! — Mikah se sentou
no sofá, levantando minha cabeça e colocando sobre seu colo. Eu não deveria, mas permiti.
— Nem a mim, mas parece que a doutora Eva precisou de uma licença, não sei bem o
que houve, acho que algum problema particular. O fato é que ela pediu a esse tal doutor
Cláudio Alcântara, seu colega, que a substituísse pelo tempo em que precisasse ficar fora —
abri meus olhos rapidamente, apenas para enxergar o lindo rosto de minha companhia.
— Ele falou de quanto tempo se tratava? — Mikaela tentava controlar o tom de voz, mas
estava evidentemente se irritando.
— Não, mas você irá conhecê-lo na segunda-feira e poderá lhe perguntar diretamente. O
doutor parece ser um cara legal. Fala um monte de bobagens como a doutora Eva, mal dá para
sentir a diferença — consegui sorrir, ainda que a dor de cabeça estivesse me matando, mas não
pude saber se Mikaela fez o mesmo, pois permaneci com os olhos cerrados.
— Tudo bem, deixe esses detalhes para lá. Agora me diga, o que foi que ele andou
enfiando na sua cabeça para você vir com esse papo assim, do nada? — ela insistiu.
— Mikah, não quero ter essa conversa, não agora. Ainda não me sinto recuperado.
Ouvi Mikaela soltar um longo suspiro. Achei engraçado o fato de ela ainda não ter
reclamado por eu estar repetindo sem parar o seu apelido. Imaginei que tivesse se acostumado.
— André, por que está agindo assim? Por que lutou tanto para se aproximar de mim e
agora quer me afastar? Eu não estou com medo do que aconteceu. Foi assustador, admito, mas
não penso que deveria me afastar por causa disso...
— Pois eu penso que sim — fui taxativo. Eu não podia colocar aquela mulher em perigo.
E se eu a machucasse? Andar em minha companhia era como carregar uma bomba relógio.
— Vamos descobrir, juntos, o que houve. Você pode ir a outros médicos, fazer mais
exames, não podemos desistir sem tentar!
— Não sei se tenho disposição para tudo isso agora.
— Por favor... — sua voz veio carregada de súplica. Abri os olhos para vê-la mais uma
vez. Mikaela parecia desolada. — Pela primeira vez em muito tempo, sinto que tenho uma
conexão real com alguém. Talvez seja pelo fato de sermos parte dos sete por cento, ou talvez
tenhamos nos conhecido em vidas passadas...
Meu corpo retesou com a possibilidade, mas tudo parecia tão irreal quanto o que tinha
acabado de me acontecer.
— Não acredito em vidas passadas. Se existe mesmo um Pai nos céus, ele não seria ruim
a ponto de nos mandar para este inferno mais de uma vez. Diabos, a minha cabeça está me
matando! — apertei os olhos com força.
— Quer que eu pegue algum analgésico? Diga-me onde estão. — Senti as mãos frias
dela apertando o meu braço. Tremi sob o seu toque preciso.
— Já tomei todos os que tinha por aqui e esqueci de comprar mais.
— O que foi que o doutor Cláudio te falou, afinal? —ela voltou a insistir no assunto.
— Um monte de bobagens, nada que valha a pena repetir.
— E ainda assim você diz que deveria dar ouvidos a ele? Como pode ser bom dar
ouvidos a um monte de bobagens? Por favor, diga-me o que ele te falou — a súplica de outrora
começa a se transformar novamente em raiva.
Pensei mil vezes se deveria lhe dizer aquilo. Estava caminhando em um campo minado.
Se eu tinha as minhas esquisitices, Mikaela não ficava nada atrás e poderia ter uma explosão
de raiva, caso eu não usasse as palavras corretas. Abri novamente os olhos, encarando as
chamas nos olhos dela, suspirei e tomei coragem.
— Já que insiste tanto, ele disse que eu deveria me afastar de você. Esse é o motivo de eu
tomar essa decisão tão difícil — falei, sabendo que havia acabado de pisar numa mina
terrestre.
— Como assim? Quem ele pensa que é? O maldito sequer me conhece! —Mikaela jogou
minha cabeça para cima, levantou-se do sofá e se atirou sobre a poltrona que ficava ao lado.
Sua expressão se tornou selvagem. Parecia uma felina perigosa, mas, ao mesmo tempo,
estupidamente linda. Devo ter entreaberto os lábios como um idiota diante de sua beleza. A
ideia de afastá-la me pareceu estupidez. Como me afastar de alguém que claramente mexia
comigo?
— Ele não falou exatamente sobre você, estou tomando a liberdade de adaptar suas
palavras — amenizei.
— Não compreendo...
— Ele é algum tipo de especialista bam-bam-bam no que diz respeito aos sete por cento.
Após sair de seu consultório, fiz uma breve pesquisa sobre o doutor. Dos poucos avanços que a
ciência teve no nosso caso, ele foi o responsável pela maioria. Parece ser um sujeito bastante
inteligente e é a pessoa que está mais próxima de encontrar alguma explicação ou solução para
o nosso caso — eu realmente queria acreditar no que tinha acabado de dizer.
— E o que o tal bam-bam-bam te falou, com todas as letras? — Ela foi bastante
sarcástica.
— O doutor me explicou que existe uma relação comprovada entre a aproximação de
algumas pessoas dos sete por cento e a aparição de surtos psicóticos, falsas recordações e até
mesmo casos incuráveis de loucura. — Mikaela fez uma careta incrédula, talvez igual a que fiz
quando o doutor soltou aquela bomba. — Sem entrar em muitos detalhes, explicou que foram
observados casos onde, quanto mais próximas moram as pessoas como nós, ou quanto mais se
relacionam, ainda que esta relação seja de amizade, comercial, enfim, quanto mais próximas se
tornam, piores os sintomas. Imagine que loucura seria caso esse relacionamento seja afetivo,
romântico e ainda mais, sexual? — Ela abriu a boca e me encarou de cima a baixo. O nosso
relacionamento só podia ser mais do que mera amizade. — Em resumo, o que nos enfraquece é
a aproximação com outro indivíduo dos sete por cento. Somos a nossa própria Kryptonita.
— Kryptonita? — Ela sacudiu a cabeça, sem entender.
— Aquela pedrinha verde, que deixa o super-homem enfraquecido — expliquei como se
estivesse falando sobre a coisa mais óbvia do mundo.
— Desculpa se não sou tão nerd quanto você — Mikaela sorriu.
Permaneci sério, pois o assunto estava me tirando do eixo.
— Quando você me contou sobre o tal guardinha que atacou, comecei a levar as palavras
do doutor mais a sério e, logo em seguida, me aconteceu... aquilo.
— Tudo não deve passar de coincidências! — ela bufou, indignada com o que falei.
Arrumou os cabelos compridos e fechou os olhos como se buscasse um pouco de paciência.
— Coincidência? Você está querendo forçar um pouquinho a barra aqui, não é mesmo?
Juntos, somos perigosos, estamos fazendo mal um ao outro e, em breve, estaremos fazendo
mal às outras pessoas. — Sentei-me e encarei-a de perto para que ela, enfim, me
compreendesse. Não podia mais ignorar as palavras do doutor, não depois de quase fazer
besteira na frente dela. — Céus, eu acordei todo ensanguentado em minha cama, isso não te
diz nada? Posso ter matado os animais citados numa reportagem que vi pela manhã, mas pode
ter sido algo muito pior. Fico imaginando se não terei atacado algum ser humano. Eu não sei!
Não me lembro de nada!
Mikaela balançou a cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas. Meu coração foi
estilhaçado em mil pedaços ao vê-la daquele jeito. Tudo que eu queria era abraçá-la, beijá-la
com calma e passar o resto daquela noite bizarra ao seu lado, mas não podia. Não dava para
viver daquele jeito.
— Vamos com calma, André — resmungou, insatisfeita. — Acho que você está tomando
decisões precipitadas. Tudo pode ter uma explicação totalmente racional.
— Tudo bem, pense junto comigo... Tudo piorou quando me mudei para esta cidade. As
dores de cabeça, as alucinações, os apagões... Não comentei contigo, mas em várias
oportunidades tive visões, ou sonhos, não sei. — Ela arregalou os olhos e prendeu os lábios
com força. — É como se vivêssemos numa época antiga. Tudo isso poderia até ter sido
influenciado por algum filme que assisti, mas não me recordo de ter visto nada do gênero.
— Isso pode não ser nada de mais! — ela falou de uma forma grosseira, apoiando a
cabeça nas mãos. Estava realmente transtornada, e me perguntei se por acaso ela também não
estava tendo as visões que me assombraram nos últimos dias.
— Você não compreende, não é mesmo? Pode não estar levando a sério, mas jamais
vou me perdoar se fizer alguma coisa contigo. Não sei explicar, mas o que sinto por você é
muito mais forte do que jamais senti por alguém — confessei assim, sem mais nem menos. Eu
queria ser sincero com Mikaela.
Quando Mikah ergueu a cabeça, já tinha lágrimas escorrendo pela sua face.
— No lago, você disse algo... — choramingou.
— O que foi?
— Você disse que me amava — ela sussurrou devagar, em um ritmo que podia ser uma
música.
Senti meu peito ser invadido por um calor delicioso, reconfortante, porém as palavras
do doutor continuavam a me desesperar.
— Não me lembro disso — claro que eu lembrava, mas confirmar o fato não tornaria as
coisas mais fáceis.
— É verdade? Sei que não faz sentido, mas eu preciso saber, André. Você me ama?
— Mikah...
— Você me ama? — rosnou, perdendo a paciência.
— Isso não importa agora. Não percebe?
— Apenas responda à pergunta! — Ela se levantou, sentou em meu colo e repousou a
cabeça em meu peito, alisando a minha cabeça.
Achei que fosse morrer se não aceitasse suas carícias e começasse a retribuí-las, mas
até que ponto aquilo nos faria mal depois?
— Não torne as coisas mais difíceis, por favor.
— Que droga, André! É tão difícil assim responder à minha pergunta? — Mikaela gritou
e se levantou de vez. Seu gesto foi tão brusco que me senti meio tonto. — Você correu atrás de
mim e agora vem com essa conversinha? Quem pensa que é para brincar comigo dessa
maneira? — Suas lágrimas desciam copiosamente, e a cena me fez sentir uma dor profunda no
peito.
— Não podemos ficar juntos! — gritei alto, com raiva completa do mundo e de quem
éramos. — Será que é tão difícil assim de entender? Quer que eu desenhe?
— Não me trate como uma ignorante qualquer. — Os olhos dela brilharam e percebi um
reflexo vermelho partindo deles.
— Desculpe, mas não sei mais o que dizer para te convencer. Você não quer entender e
não quer acreditar. — Sentei-me no sofá, como se me preparasse para me defender de um
ataque.
— Você não podia ter feito isso comigo, André. A vida não faz nenhum sentido para
mim. Vivo todos os dias sem me importar com nada, nem ninguém, nem mesmo comigo. Você
tem ideia de como isso é infernal? — Mikaela usava um timbre rígido. — Ter que encarar os
malditos rostos felizes e sorridentes dos casais, das famílias, dos outros funcionários e fingir
que tenho alguma felicidade dentro de mim, sabendo que jamais poderei ter as mesmas coisas?
— Seus olhos estavam esquisitos ao desabafar suas dores. — Tem ideia de como é, para mim,
acordar todos os dias sem o desejo de viver, sem ânimo para nada, sem nada nem ninguém que
me faça querer voltar para casa após um dia cansativo de trabalho? — Ela cerrou os punhos. —
Você me vem com essa, justo agora que eu comecei a acreditar que poderia ter uma chance?
Tudo bem, eu te cortei no início, tentei fugir das borboletas que batiam no meu estômago,
tentei ignorar o suor frio em minhas mãos quando você aparecia, tive que me conter para não
estourar a cara daquela vagabunda que estava contigo no mercado e me odiei por te deixar na
portaria do meu prédio olhando para o vazio, mas agora que eu me rendi, que me abri para isso
tudo, você quer me cortar, assim? Isso não é justo!
— Mikah...
— Vá à merda! Você não tem o direito de me chamar assim. Não depois de me fazer ter
sentimentos pela primeira vez na vida, de me fazer crer que ainda havia esperança e de que o
sol poderia brilhar novamente, para depois querer colocar um fim em tudo isso, sem motivo
algum! — O choro só aumentava e sua raiva também.
Comecei a temer a sua raiva. Foi uma reação meio ilógica do meu corpo.
— Sem motivo algum? Tudo o que vem acontecendo não é motivo suficiente? —
Levantei-me e a encarei bem de perto. Pude sentir a sua respiração ofegante.
— Você é um fraco! Para um homem do seu tamanho, imaginei que fosse capaz de
aguentar mais as coisas.
— Estamos partindo para as ofensas agora? Acho que somos, oficialmente, um casal,
então! — tentei aliviar a tensão fazendo uma gracinha, mas, pelo olhar furioso que recebi
como resposta, não deu muito certo.
Mikaela voltou a se sentar na poltrona. Ela soluçava tanto que parecia estar à beira de um
ataque de nervos. Com a cabeça entre as mãos, ela repetia quase como um mantra:
— Por quê? Por quê? Por quê?
— Mikaela, não faz assim... — Respeitei seu desejo de não ser chamada pelo apelido.
Quando menos esperava, ela se levantou. Em seu rosto, corriam lágrimas vermelhas e
seus olhos pareciam resplandecer uma fogueira. Fiquei absorto, observando a vermelhidão que
tomou sua linda face. Sem falar nada, Mikaela me empurrou contra o sofá e me beijou com
ainda mais intensidade do que antes. Não tive qualquer outro pensamento que não fosse o de
me entregar loucamente àquela paixão.
Suas unhas se cravaram em meu peito, seu corpo se colou ao meu. Perto de mim, ela
parecia tão pequena e inofensiva, mas, naquele momento, Mikaela ganhou uma força sobre-
humana. Segurei-a pela nuca e permiti que nossos lábios continuassem entrando em choque. O
doce sabor de seu beijo me inebriava e, por mais que eu soubesse que nossa separação seria
inevitável, não queria que acabasse nunca.
Senti um leve beliscar em meu lábio inferior e senti o gosto do meu sangue se
misturando em nosso beijo. Aquilo pareceu acender ainda mais o fogo dela, e por mais
estranho que possa parecer, o meu também.
Não sei por quanto tempo nos beijamos. Permiti que ela fizesse o que quisesse comigo,
mas, eventualmente, aquilo precisaria parar. Esperei pelo momento certo, para não parecer que
eu a estava repelindo ou fugindo de seu contato, e separei nossos corpos. Aquilo não estava
certo, não depois de tudo o que o doutor Cláudio havia dito, não depois de tudo o que havia
acontecido.
Não era ilusão. Representávamos um perigo para nós mesmos e para os outros. Por
mais que meu peito doesse e meu coração se despedaçasse, por mais que ela pensasse que eu
estava sendo um fraco, eu precisava ser forte para tomar a decisão correta.
— Desculpe-me... Não torne as coisas mais difíceis, Mikaela. — Meus lábios ainda
sentiam seu toque preciso, doloroso, mas ao mesmo tempo profundo, excitante em um nível
difícil de compreender.
Nunca havia recebido um beijo tão marcante, tão carregado de sensações novas. E o
mais louco de tudo era que eu tinha reconhecido aquele beijo poderoso. Parecia que eu,
finalmente, tinha encontrado o meu verdadeiro lar.
— Diga que não sentiu nada — ela me desafiou.
Minha resposta foi dar de ombros. Mikaela deve ter entendido que eu tinha sentido
muitas coisas. Seus olhos estavam normais naquele instante, as lágrimas de sangue haviam
parado de correr, mas o desespero, e até mesmo algo que se parecia muito com ódio, estavam
presentes em um olhar intimidador.
— Você não respondeu à minha pergunta — continuou com o martírio.
— Qual delas? — Fiz-me de desentendido.
— Você disse que me amava... Você me ama, André? — Seu tom quase psicótico me
deixou em estado de alerta.
Mikaela se curvou toda e lambeu os meus lábios. Seu cheiro, sua pele fria, suas curvas
sobre mim... Era impossível responder outra coisa além de uma afirmação. Meu corpo sentia,
de muitas maneiras, o sabor do real amor me impulsionando. O sentimento praticamente me
obrigava a seguir adiante com bastante irresponsabilidade.
— O que quer que eu diga? — sussurrei em um delírio, fazendo uma força absurda para
não cair em tentação de uma vez por todas.
— Quero que me responda se me ama! — bradou em plena fúria. Senti que ela poderia
me matar se eu não respondesse.
— Mikah... — Toquei a lateral de sua face, mas ela se esquivou.
— É uma pergunta simples que exige uma resposta simples! Sim ou não? — Tinha
certeza de que os vizinhos estavam escutando seus gritos.
Um estalo de lucidez me fez acordar do transe que seus olhos hipnóticos tinham me
colocado.
— Não! Está bem? Se é isso que você queria, aí está sua resposta! Não, eu não te amo.
Não se deve levar em consideração os delírios de um sujeito após passar pelo que passei,
compreende? — Nem sei onde encontrei coragem para dizer tais absurdos.
Acho que o meu desejo de preservá-la era maior do que o meu desejo de tê-la comigo
para sempre. Senti que iria até o inferno só para tirá-la de lá, mas como salvá-la se eu era seu
próprio algoz?
— André... — as lágrimas estavam de volta.
— Sinto muito. Queria que as coisas pudessem acontecer de modo diferente.
— Por quê? Por que fazer com que eu me sentisse viva só para depois me matar? — Ela
deixou seu corpo escorrer para a poltrona novamente, como se perdesse as forças. — O que eu
te fiz para merecer sua indiferença?
Não dava para ouvir de sua boca que eu era indiferente. Quase joguei tudo para os ares,
pronto para provar o quanto eu me importava, mas meu corpo retesou como se mantê-la
protegida fosse a prioridade imutável dos meus instintos. Era mais forte do que eu,
ultrapassava todas as minhas vontades.
— Você precisa acreditar em mim. Precisa acreditar que é para o nosso bem. Olhe para
você, veja seu estado, perceba como está reagindo a isso tudo... Essa não é você, não é a
Mikaela que eu conheci — falei pausadamente. — Algo está muito errado em nós. Não é nossa
culpa que façamos parte dos sete por cento, não foi nossa decisão, estamos pagando por um
crime que não cometemos, mas as coisas são como são. Não estou feliz por essa decisão,
apenas estou sendo forte por nós dois. Você consegue me entender? É para o nosso próprio
bem. Tudo o que eu queria era que você não me odiasse, mas se essa for a única maneira de te
fazer entender, que seja.
— Covarde! — ela gritou.
— O que você chama de covardia está exigindo até a última gota de minhas forças —
repliquei.
— Você não pode fazer isso comigo. Eu te esperei, te esperei por tanto tempo! — disse
de um jeito delirante, como se estivesse imersa em um devaneio. — Ainda que levasse a
eternidade, eu te esperaria, mas aqui estamos nós de novo e você não quer dar o próximo
passo. Você nunca escolhe me amar mesmo assim!
No momento em que ela se ergueu para se aproximar de mim e fazer alguma loucura,
ouvimos o barulho de chaves na porta. Ela congelou e eu fiquei sentado na ponta do sofá. A
porta foi aberta, Fred entrou assobiando e, quando nos viu, deu um sorriso amarelo.
— Olá, gente, tudo bem? —ele certamente podia sentir o clima tenso no ar.
— Fala, Fred, está tudo bem, sim — tentei soar natural, mas minha voz embargada
certamente me denunciou.
— Não quero interromper. Vou para o meu quarto, com licença — ele se esgueirou por
um canto da sala como se desviasse de um cão raivoso preso numa corrente.
— Não se preocupe, eu já estava de saída — Mikaela informou seriamente.
Sem sequer se despedir, ela deu as costas, abriu a porta atrás de Fred e desceu correndo
pelas escadas. Senti um impulso enorme de segui-la, segurá-la pelos braços e tornar a beijá-la,
explicar novamente nossa situação, mas achei que seria melhor se as coisas simplesmente
terminassem como estavam.
Para dizer a verdade, Fred chegou na hora certa e me livrou de uma grande e demorada
discussão. Estava feito. Não procuraria mais Mikaela e não daria atenção a ela, caso me
procurasse. Até mesmo as sessões de terapia eu tentaria mudar de dia. Isso seria o melhor para
nós.
— Quem era mesmo? — Fred ficou bem curioso com a cena toda.
— Aquela é a Mikaela — informei com voz desanimada.
— Mikaela? A Mikaela?
— Ela mesma — soltei todo o ar dos meus pulmões.
— Gatinha.
— Isso não importa mais.
— Rolou estresse? Percebi o clima pesadão — apesar de entender o momento ruim, Fred
não conseguia segurar um sorrisinho de canto de boca.
— Não se preocupe, não voltará a acontecer. Desculpe-me!
— Estou começando a ouvir essa frase demais — ele abriu um sorriso largo dessa vez.
— Desculpa mesmo, cara. Se quiser, posso começar a procurar outro lugar — falava de
modo apático, olhando para os lados como se tivesse acabado de perder alguma coisa.
— Relaxa, cara, não precisa ficar nervoso. Deixa isso para lá!
— Acho que vou me deitar, mano, não serei boa companhia hoje — eu me levantei do
sofá ainda sentindo minha cabeça martelando.
— Boa noite, se cuida.
Sem responder, fui direto para o banheiro. Tomei minha costumeira ducha fria, para
amenizar a dor de cabeça e colocar as ideias no lugar. O que eu poderia ter feito de tão horrível
na vida para o universo me sacanear daquele jeito? Será que eu nunca poderia ser feliz, jamais
poderia viver como uma pessoa normal? Tudo o que eu queria era apenas um pouco de paz de
espírito, ter ao meu lado uma pessoa que eu amasse e que sentisse o mesmo por mim. Será que
era pedir demais?
Meu sono foi agitado e irrequieto. Muitas das visões e sonhos que tive antes se
repetiram. Vislumbrei novamente meus encontros com Mikah, num passado em que eu tinha
certeza não ter vivido. As roupas, os lugares, as pessoas, tudo se misturava numa grande
confusão. Eu não conseguia saber se estava dormindo ou acordado, mas poderia afirmar sem
nenhuma dúvida que os tormentos e a dor psicológica eram reais.
Eu não conseguia mais viver sem Mikah, mas também não poderia mais ficar com ela e
teria que me conformar e me acostumar com isso. Não conseguiria esperar até segunda
novamente, precisava desabafar com o doutor Cláudio antes, quem sabe na sexta-feira, pois
estava esgotado demais até mesmo para ir lá.
Após a noite infernal de insônia e visões, ali estava eu, arrasado e com o celular
tocando insistentemente. Resolvi atender de uma vez.
— Alô.
— Pensei que você não quisesse mais falar comigo — a voz feminina se animou do
outro lado.
— Não é nada disso, é complicado.
— Então vamos nos encontrar, acho que precisamos conversar e descomplicar as
coisas.
— Quando? — Respondi, um pouco sem paciência.
— O que me diz de... Agora?! — Uma risadinha acompanhou a frase.
— Tudo bem, só me dá um tempo, tipo uns trinta minutos, e eu vou aí onde você está
— cedi.
— Estou no mesmo café da última vez.
— Beleza, Maristela, daqui a pouco estou aí.
— Estou ansiosa, gatinho. Beijos.
— Beijos.
Desliguei o telefone e fui me arrumar. Se eu quisesse superar Mikaela, precisaria de
uma forcinha para ajudar, e essa força poderia vir justamente da Maristela. Por que não?
Capítulo 12
Mikaela

Uma onda de agressividade tomou conta do meu corpo de modo esmagador; fui sufocada
pelos sentimentos ruins e pela imagem do André que não parava de girar na minha cabeça.
Cheguei a minha casa depois de uma longa e perturbada viagem feita a pé. Se alguém me
perguntasse como consegui percorrê-la, não saberia responder. Meu corpo exigia movimento,
ação, ser testado até o limite, embora aquele longo percurso não tivesse saciado suas
necessidades.
Quebrei a maçaneta da minha porta ao girá-la, depois quebrei tudo o que encontrava na
minha frente: a mesinha de centro, os vasos, os quadros, copos... Nada conseguiu passar
despercebido pelo meu olhar feroz, que queimava como fogo. Peguei o garrafão cheio de água
com uma só mão e o entornei em cima de mim, queria lavar a minha alma, as minhas ideias, a
minha vida. Retirei um pedaço de carne crua da geladeira e a comi com as mãos, sentada no
chão da cozinha em meio a lágrimas.
O ódio era tanto que não cabia dentro de mim. Nem mesmo o fato de estar ensopada e ter
sangue bovino sujando todo o meu rosto me fez esquecer as palavras daquele completo idiota.
Comecei a tremer depois que meu estranho alimento acabou. Meu corpo pendia para frente e
para trás de modo ritmado como se eu fosse paciente em um hospício.
Tentei enxugar minhas lágrimas com as mãos sujas, porém as coisas só pioravam. Mais
líquido escarlate brotou do nada, ensopando-me, lambuzando-me, deixando-me desenfreada, e
fiquei sem entender até que percebi que não eram lágrimas que saíam dos meus olhos; era
sangue.
Gritei de pavor, contudo o grito foi sufocado por um soluço profundo, carregado da mais
pura dor. O sentimento de perda era tão palpável que eu poderia segurá-lo com minhas
próprias mãos. Meu coração batia depressa, reclamando alto pelo que sequer conhecia. Os
pensamentos se embaralharam até me deixar com a sensação concreta de que, na verdade, meu
peito conhecia perfeitamente aquele tipo de dor. Segurei um urro de dor e encarei uma versão
doentia de mim mesma num pedaço de espelho quebrado que estava no chão ao meu lado.
Um silêncio ensurdecedor se formou ao meu redor. Senti um zunido alto dominar meus
ouvidos, que parou quando ouvi a frase:
— Adeus, Mikah... — a voz dele sussurrou no meu ouvido.
Olhei ao redor, assustada, sabendo que em instantes a cozinha sumiria e eu seria
tragada por mais um devaneio. Contudo, não foi o que aconteceu. A cozinha não sumiu,
continuei exatamente no mesmo lugar, menos o meu cérebro, que viajou para outra dimensão
e, sozinho, recordou-se dos olhos tristes do André apontados na minha direção. Estávamos
sentados no que parecia ser uma calçada antiga, numa rua estreita composta por humildes
casebres. Eu vestia um longo vestido de seda da cor preta; ele se espalhava por toda a calçada
como se eu tivesse sido jogada ali.
— Àndreas... Não — implorei, quase gemendo.
Eu estava muito cansada. Livrei minhas mãos para tocá-lo e elas estavam ensopadas de
sangue. Entendi o motivo um segundo depois; havia um corte profundo e feio no meu
abdômen, onde pude ver um rasgão enorme no tecido do vestido. André me segurou pelos
ombros e juntou nossos lábios suavemente.
— Eu não posso te perder — disse de um jeito dolorido. — Como viver em um mundo
sabendo que você não estará nele?
Aos poucos, fui me sentindo um pouco melhor. A dor provocada pelo corte aliviava
devagar, o que não fazia sentido. Olhei para a minha condição debilitada mais uma vez e tive a
sensação de que o ferimento cicatrizava na velocidade da luz. Ele já não parecia mais tão feio
nem tão profundo.
— Podemos dar conta — murmurei, sentindo o suor escorrendo pela minha testa. —
Podemos passar por isso. Chega de fugir. Não posso te perder por mais trinta anos.
— É perigoso. Eles não vão recuar agora, Mikah. Saia desta cidade — ele parecia
bastante preocupado, seu tom de voz demonstrava isso claramente.
— Venha comigo — supliquei.
— Se eu for, eles irão atrás de nós. Jamais nos darão outra chance. Olha o que fizeram
contigo! Não posso permitir que isso aconteça novamente, não poderia jamais me perdoar se o
golpe tivesse sido certeiro.
— Não foi nada... — Arfei alto. Outro relance na direção do ferimento e tive certeza de
que, sim, eu estava me curando. — Não significa nada. Eles são fracos. Somos fortes, juntos.
— Eles não são fracos. Você que é forte demais.
Ri de maneira meio doentia.
— Meus anos de idade não foram vividos em vão.
Ouvimos ruídos similares a uma carroça puxada por cavalos e nos colocamos em alerta.
André me empurrou para o canto mais escuro da viela.
— Eles vão nos ver aqui... São bons caçadores, farejam bem. Vá embora, Mikhayah...
Se me ama, vá embora! — André me chacoalhou com firmeza, tentando me fazer entender o
que jamais compreendi.
— Você não faz sentido algum — rosnei. — Vou ficar porque te amo.
— Eles descobriram sobre nós, meu bem. — André segurou meu rosto e me encarou de
perto. Por algum motivo, eu conseguia vê-lo perfeitamente, mesmo ciente de que tudo estava
escuro a nossa volta. — Entenda o perigo em que nos metemos. O Conselho não nos perdoará.
Não podemos ficar juntos perante a Lei de ninguém... Nem da terra, nem dos céus, nem das
trevas...
Senti lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto.
— Sempre soube disso, Àndreas — confessei. — Jamais me iludi. Nosso mundo
perfeito não existe. Nenhum lugar foi feito para nós, mas você ainda tem os meus braços e eu
tenho os seus. Nada vai mudar o que sinto.
Os ruídos se intensificaram bastante. Os latidos de cães soaram alto, ecoando pela
mata. André se afastou e se levantou, alarmado. Puxou minha mão sem cuidado, fazendo-me
levantar também, depois me empurrou para longe. Meu corpo foi projetado para trás com
força, até se estatelar em uma parede grossa de pedra. Minha coluna estalou e senti uma dor
fina, que passou rápido. Ele parou por um instante, aguçou os ouvidos e tentou escutar mais
uma vez os sons que eram propagados pelo ar.
— Vá embora, eles estão cada vez mais perto. Posso senti-los! — ele rosnou até seus
olhos acenderem como dois sóis. Ver seus olhos brilhando era a única coisa que eu podia fazer
para observar o astro-rei.
Fechei minhas expressões e aprumei o vestido. Vi suas lágrimas, porém as ignorei. Eu
sabia que o ódio que sentia por ele nada mais era do que o amor chegando ao seu limite. Estava
farta de sentir os dois, por isso decidi lhe dar como punição, pelo menos, mais cinquenta anos
de solidão absoluta. Jamais deveria ter voltado tão cedo. Trinta anos não foram o bastante para
que Àndreas deixasse de querer mais me manter viva do que me manter por perto.
Ele sabia que eu ia embora. Foi por isso que se aproximou devagar e desabou de vez,
ajoelhando-se aos meus pés.
— Enquanto respirar, irei te proteger, Mikhayah. Vou te proteger de todos, inclusive de
mim. Eu a amo tanto... É tão forte que dói mais do que a chegada da lua cheia. Morro a cada
segundo sem você, mas prefiro morrer a te ver sucumbir por minha culpa. — Bateu no próprio
peito como um herói corajoso, mas só consegui ver um fraco covarde diante de mim.
— Você não sabe nada sobre dor — falei baixinho e decididamente, girando nos
calcanhares e seguindo pela ruela a passos lentos, despreocupados. — Se tivesse a mínima
noção do que é esse sentimento, não agiria dessa forma.
Não ousei olhar para trás. Aquele foi um adeus amargo, silencioso, ressentido. Um
adeus que nada mais foi que um até logo, pois muito antes do que o planejado, encontrei
Àndreas em uma cidade ao norte. E, quando nos vimos, amamo-nos ardorosamente durante
três dias completos, alheios ao passado e ao futuro.
Eu amava quando ele vivia o presente; nesses momentos, Àndreas parecia compreender
que somente o agora estava ao nosso favor. Mas ele nunca compreendia e continuava sem
compreender. Trocava tudo o que poderíamos vivenciar por um medo constante e uma
necessidade de me manter viva a qualquer custo, como se houvesse vida verdadeiramente
estando longe dele.
Ainda chorando na minha cozinha, tentei forçar meu cérebro a se lembrar de mais
detalhes, de mais acontecimentos do passado, que na verdade, mais pareciam ser
acontecimentos ocorridos em outra vida. Contudo, um buraco negro imenso se instalou em
minha mente e não consegui mais raciocinar. Cheguei a algumas conclusões importantes, que
exigiriam medidas drásticas e até mesmo absurdas. Não me importava. Podia aceitar que
André não me quisesse e não me amasse, só que não engoliria a ideia de ter a minha vida
invadida por alguém que eu sequer tinha a mínima noção de quem realmente era.
Esperei os dias passarem lentamente. Não fui trabalhar em nenhum deles, alegando
uma doença contagiosa qualquer. Sérgio me ligou centenas de vezes. Recusei as ligações até
que ele decidiu ser mais insistente — e chato — ao ponto de me enviar flores. Recebi-as e um
brilho de esperança ardeu em meu peito, pois achei que fossem enviadas pelo André. Quase
matei o entregador quando li o cartão com a assinatura do meu colega de trabalho. No bilhete,
ele me convidava para ir a uma festa de gala organizada pela associação dos donos de
supermercados da cidade. Não dei bola para nada. As flores pararam no lixo em algum
momento desconhecido.
Esperei impacientemente pelo dia da minha consulta. Cheguei na hora marcada,
trajando jeans velhos, blusa preta de manga comprida e tênis confortáveis caso eu precisasse
correr. Como já era o meu horário e não consegui localizar a recepcionista, entrei no
consultório do tal doutor Cláudio sem sequer bater na porta. Esgueirei-me e me sentei na
poltrona, aproveitando que ele estava de costas. O velho com cabelos brancos se assustou
quando me viu já sentada.
— O-Oi... A senhorita deve ser a Mikaela! Muito prazer em conhecê-la. — Ele esticou
uma mão para me cumprimentar, mas me limitei a apenas observá-la até que fosse recolhida, o
que não demorou muito a acontecer.
Visivelmente constrangido com o que havia acabado de acontecer, o doutor Cláudio se
sentou na poltrona da doutora Eva Sales como se já lhe pertencesse. Nunca gostei da Eva, mas
vê-lo ali tão confortavelmente me fez arder de raiva do sujeito, sobretudo porque ele parecia
ser legal. Prendi meus lábios e o encarei como uma felina faria antes de atacar uma presa
complicada de conseguir. Ele demonstrou certo espanto, mas não medo. Era como se me
enfrentasse.
— Desculpa, você deve estar confusa. Esqueci de me apresentar. Sou Cláudio
Alcântara, colega da doutora Eva. Ela precisou se ausentar e...
— Já ouvi falar do senhor — interrompi com a voz baixa, sem sequer me mover.
Minhas mãos seguravam o braço da poltrona com força para que o controle não me fosse
retirado.
— Ah... Ótimo. Bom, podemos fazer a consulta normalmente. Estou com a sua ficha
aqui — ele revirou alguns papéis que estavam em seu poder.
Suspirei de tédio e abri um meio sorriso. Inclinei o meu corpo para frente.
— Quem o senhor acha que é? — falei de modo pausado e claro.
— Perdão? — Cláudio piscou os olhos algumas vezes, talvez sem acreditar que eu
pudesse ser tão grosseira. Ainda bem que ele não me conhecia. Aliás, estava disposta a lhe
apresentar um lado meu que nem eu mesma tinha consciência de que existia e tinha a
impressão de que ele não ia gostar nada disso.
— Não me tire o resto da pouca paciência que ainda tenho, o senhor ouviu. Quem acha
que é para se meter na minha vida?
— Não estou entendendo, nós acabamos de nos conhecer, de que modo eu poderia ter
prejudicado...
Levantei-me em um salto e pulei em cima do doutor, apertando seu pescoço com força.
Ele se espremeu contra a cadeira com os olhos arregalados, totalmente sem reação. Olhou ao
redor como se esperasse que alguém fosse aparecer e salvar a sua vida, porém nada me fez
recuar. Encarei-o bem de perto, quase como se nossas bocas fossem se encostar.
— Não sei o que o senhor fez com a doutora Eva. Não sei para quem trabalha, não faço
ideia dos motivos que tem para falar baboseiras sem sentido ao único homem que fui capaz de
amar em toda a minha vida. — Até eu me surpreendi com o timbre rígido da minha voz. Nem
parecia que era eu ali, ameaçando o doutor e o encarando como se fosse um ser inferior a mim.
— Resumindo, não sei quem o senhor pensa que é, mas se acha que vai afastá-lo de mim, está
muito enganado.
Cláudio segurou meu braço com força. Ele estava ficando vermelho por causa da
ausência de oxigênio. Engasgou e tossiu algumas vezes quando percebi que podia matá-lo sem
pestanejar. Meu pensamento sanguinário me travou no último instante, fazendo-me recuar.
Lentamente, afrouxei o aperto e o larguei. Cláudio tossiu e respirou em desespero, buscando o
ar que lhe faltava nos pulmões.
Senti aquela maldita sede invadindo cada célula do meu corpo, porém me controlei e
engoli em seco.
— Senhorita Mikaela... — Doutor Cláudio tentou se recompor e agir naturalmente.
Confesso que fiquei muito surpresa por ele não ter ligado imediatamente para a polícia ou para
um hospício. Eu mesma me colocaria numa camisa de força se continuasse agindo daquela
forma bizarra. — Sente-se, por favor... Vamos conversar como duas pessoas civilizadas.
— Quem foi que te disse que sou civilizada? Como eu falei, o senhor nem me conhece
e se acha capaz de influenciar minha vida. Além do mais, não tenho nenhum assunto a tratar
com o senhor. Nenhuma mentira que disser me fará desistir. Você pode ser o maior entendedor
dos sete por cento que existe no mundo, não me importo nem um pouco com isso. — Sacudi
os ombros enquanto caminhava de um lado para o outro dentro do consultório, tentando conter
a sede e o ódio. — Não vim aqui para tomar chá com biscoitos e debater sobre os mistérios da
vida. Vim apenas deixar um recado muito importante, portanto preste bastante atenção, pois se
eu tiver que falar novamente, acredite, não serei tão carinhosa.
— Q-Que recado? — Ele gaguejou e arrumou os óculos no rosto enrugado. Parecia
bem nervoso com a minha presença e não parava de olhar ao redor como se, mais uma vez,
esperasse por algum socorro milagroso.
Andei pelo consultório enquanto o doutor se recompunha e eu tentava organizar a
melhor maneira de deixar o meu recado muito claro. Peguei com as duas mãos um troféu que a
doutora Eva ganhou por causa de uma pesquisa na área da psicanálise. Fiz o objeto em pedaços
dois segundos depois que o toquei, por isso decidi não mexer em mais nada.
— Não sei qual o seu propósito doentio, não quero saber se fazemos parte de alguma
pesquisa ou experimento social seu, nada me interessa. Quero apenas deixar bem claro que, se
o senhor continuar mentindo para o André e colocando caraminholas na cabeça dele, eu
mesma me certificarei de que a sua língua fique para sempre bem distante do resto do seu
corpo — percebi que um arrepio percorreu o corpo do homem.
— Mikaela... Entenda que tudo o que sente é uma grande ilusão. André me contou
sobre os sonhos, as memórias... Bom, memórias é apenas uma maneira de colocar as coisas,
porque na verdade nada disso existiu. Vocês provocam um no outro uma espécie de
esquizofrenia. Entenda que não é saudável para nenhum de vocês estar perto do outro — a voz
dele estava trêmula, mas percebi que, aos poucos, ele parecia se acalmar e ganhar mais
confiança.
Sorri. Cerrei os punhos e me aproximei do maldito doutor. Ele se contraiu na poltrona.
Achei ótimo observar uma gota de suor escorrendo pela lateral de sua testa. Assim estava
melhor. Doutor Cláudio voltou a sentir medo de mim e o seu medo me trazia uma doce
sensação de poder, intensificando a minha raiva e, consequentemente, aquela sede.
— Esquizofrênico é o senhor — murmurei com o olhar afetado. — Não sei quanto o
governo te paga para mentir, mas comigo não vai colar. Ou o senhor arranja outro diagnóstico
para o nosso problema...
— Ou o quê, senhorita Mikaela? Acha que pode me ameaçar e continuar vivendo
sufocada pelas mentiras que a senhorita mesma criou dentro de sua mente? Veja como está se
comportando! Você acha essa atitude razoável? Vir até meu lugar de trabalho me agredir e me
ameaçar? Se isso não é um surto psicótico, então devo rasgar todos os meus diplomas. Sou
respeitado internacionalmente na minha área, todos os especialistas do mundo se consultam
comigo quando se trata desse assunto. Meus estudos são factuais.
— O fato — gritei, colocando um dedo em riste, porém logo em seguida voltei a
amansar a voz. Cláudio pulou de susto. — É que eu o amo. Sou uma mulher com o coração
eternamente partido, não brinque comigo. — Balancei a cabeça e repeti dramaticamente: —
Não brinque comigo.
— Sinto muito se é essa a sua impressão, mas não estou aqui para joguetes. Não estou
brincando nem sendo pago por ninguém para cumprir uma agenda, seja lá qual for a que você
esteja imaginando.
Virei as costas, ignorando completamente o que o doutor dizia. Estava decidida a não
me deixar levar por suas palavras lisonjeiras, sempre invocando sua capacitação, diplomas,
prêmios e estudos, como uma prova contundente de que não mentia. Para mim, aquilo tudo não
passava de uma grande balela e nada, nem ninguém, me faria crer no contrário.
— Mikaela... — ignorei o seu chamado e me dirigi até a porta.
Saí do consultório não sem antes bater a porta com toda força. Mais uma vez, chovia
forte, e por isso me ensopei em questão de segundos. Parecia que chovia toda maldita segunda-
feira. Realmente essas consultas só me traziam azar.
Abracei o meu corpo e andei entre as gotículas de chuva. Senti-as no meu corpo como
se fossem agulhas penetrando até espetarem minha alma. Andei sem rumo até chegar à Praça
dos Apaixonados, local onde o André já tinha me surpreendido. Sentei em um dos bancos e
chorei silenciosamente, observando a chuva se intensificar e as pessoas se abrigarem nos
estabelecimentos próximos.
Não tardou para que a tempestade me trouxesse mais uma lembrança. Os lábios do
André estavam colados nos meus e nossos corpos mais unidos do que nunca, se entrelaçavam
de um modo perfeito no meio de uma chuva torrencial. Estávamos numa espécie de celeiro
com o telhado quebrado, no meio de montanhas de feno e equipamentos usados em plantações.
— Como foi que me encontrou? — ele murmurou entre os meus lábios. Eu não devia
escutá-lo, afinal, estava chovendo muito e o ruído da água era ensurdecedor, mas mesmo assim
o ouvi perfeitamente.
— Não sei porque ainda se admira, eu sempre te encontro — avancei em seu pescoço.
Abri minhas pernas ao redor de sua cintura e senti suas mãos me segurarem os quadris. Uma
boa quantidade de sangue jorrou de um ferimento que eu mesma provoquei. Dei goles fartos
naquele líquido inebriante, que me deixou ainda mais excitada e pertencente a ele. — Viajei
por cidades grandes, pequenos vilarejos, lugares esquecidos por Deus e pelos homens durante
anos. Conheci muitos homens e mulheres... — parei para suspirar alto. — E o seu sangue
continua sendo o melhor do mundo.
— Algum dia isso irá mudar? Será que deixarei de te amar tanto? Juro que tentei,
Mikhayah... Mas é uma tentativa vã e dolorosa. Jamais vou te esquecer. Os meus piores anos
são vividos na sua ausência — as palavras dele soavam como música para meus ouvidos.
— Os meus também — fui absolutamente sincera. — Estou preparada para o próximo
adeus, sei que ele virá, mas sei também que cada segundo contigo vale mais que os anos sem
você. É por isso que eu sempre volto. — Tomei mais um gole de seu sangue e ele gemeu alto,
seu corpo tremendo por causa de espasmos intensos.
— Há um pedaço de mim que você sempre carrega, Mikah... — André me encostou em
uma das paredes frias e intensificou o nível dos nossos afagos. — Estarei sempre incompleto
enquanto não puder te ter para sempre.
Era em vão enxugar minhas lágrimas diante daquela chuva, de volta à Praça dos
Apaixonados, mas fiz isso só para comprovar o que já sabia: novamente o líquido escarlate e
quente saía de meus olhos. Um resquício de entendimento me fez quase desfalecer. Tudo
aquilo tinha a ver com o que éramos? Os sete por cento podiam ser seres diferentes das
pessoas comuns, por isso agíamos de um jeito tão estranho? Por que eu parecia ter memórias
de épocas tão anteriores a que vivíamos? Que tipo de maldição nos foi dada? Havia a
possibilidade de sermos sobre-humanos? Como podia ser possível? Como ninguém havia
descoberto um detalhe tão importante? Ou será que descobriram e tentavam nos convencer de
que éramos loucos? Alguma pequena parte de meus devaneios era verdade? As inúmeras
dúvidas me angustiavam.
Nada fazia sentido. Não podia acreditar que histórias fantásticas pudessem ser reais,
mas também não podia duvidar daquelas lembranças. Eu não possuía tanta criatividade para
inventar aquelas coisas, além do mais, André dizia ter as mesmas impressões. As imagens e
sensações eram fortes, definitivas, seguras. Alguma coisa real acontecia com o meu corpo.
A cada novo devaneio, a cada novo episódio de loucura, eu me sentia diferente.
Definitivamente, não era a mesma Mikaela de algumas semanas antes. Ao que tudo me
indicava, eu não estava me modificando por causa do André. Segundo os meus devaneios,
sempre agi assim. Era forte e independente, insinuante, sensual e decidida. Cada vez mais eu
percebia que podia voltar ou passar a ser aquela Mikaela com ou sem ele. Fazia parte do que
eu era, seja lá o que fosse.
— Incompleta... — sussurrei, engolindo sangue e chuva.
Era assim que eu me sentia durante aqueles dez longos anos: extremamente incompleta.
Tudo que eu julgava ser apenas tédio, apenas desinteresse, apenas uma falha genética minha...
Estive incompleta esse tempo todo, sentindo a ausência da Mikaela inabalável e valente. Foi o
André que, em pouco tempo, me devolveu um pedaço importante de mim.
Embora eu não dependesse de ninguém para ser quem eu era, para atingir todo o meu
potencial, ficou claro que um pedaço do que me dava esse prazer pela vida estava nele. Um
pedaço que eu iria recuperar custasse o que custasse, nem que eu tivesse que exaurir todas as
minhas forças no processo.
Não perderia mais o meu tempo precioso encontrando soluções para minhas bizarrices
ou tentando engolir lendas que só existiam em filmes e livros. Não importava quem eu era ou
deixava de ser, ninguém precisava me explicar ou mentir, como faziam a Eva e o Cláudio.
Minha verdade era aquele amor e, por ele, eu atravessaria qualquer barreira.
Capítulo 13
André
— O que foi que você fez com o seu cabelo? — foi a primeira frase que Maristela disse
assim que me viu.
— Não gostou?
— Está diferente. Não menos gato, claro! Gostava dos seus dreads, mas não posso
dizer que desgosto do seu cabelo assim — ela deu de ombros.
— Bom, quem sabe deixo crescer de novo? — Dei de ombros também. Ela sorriu.
— Pensei que você não chegaria nunca! — Maristela fingiu estar brava. Devo admitir
que seu jeitinho era encantador.
— Eu disse que precisava me arrumar... — sorri, sem jeito.
— Pela demora, estava se arrumando para o seu casamento!
— Há-há-há. Muito engraçadinha, você!
— Sente-se, querido.
Maristela se levantou e me deu um selinho, indicando o lugar para que me sentasse à sua
frente. Recebi o beijo com naturalidade e achei bom, na verdade. Ela estava linda,
deslumbrante, e os raios tímidos do sol que tocavam o seu rosto lhe davam um brilho todo
especial. Fiquei encantado e, mais uma vez, tive a certeza de que, se havia uma pessoa no
mundo que pudesse me fazer esquecer Mikaela, essa pessoa seria a Maristela.
— Como você está, querido? —ela cruzou as mãos para frente e fixou um olhar atento na
minha direção.
— Estou bem. Com saudades de você, na verdade... — Minha mente dançava entre os
meus olhos, que enxergavam aquela bela moça, mas o meu coração, que palpitava como se eu
estivesse traindo a minha mulher. Tentei afastar aquele sentimento com todas as minhas forças.
— Saudades de mim? — Ela abriu um sorriso que exibiu seus dentes perfeitos e
iluminou ainda mais o recinto.
— Sim, por que o espanto?
— Não estou espantada, sei que sou irresistível — ela provocou.
— Não tenho como negar isso — concordei. — E você, como está?
— Muito mais feliz agora, depois de saber que sentiu a minha ausência — Maristela
segurou minhas mãos e as acariciou com ternura. Se tinha alguma coisa em que aquela mulher
era boa, era o jogo de sedução.
— Não seja boba, até parece que é possível não sentir a sua falta.
Maristela puxou sua cadeira para mais para perto de mim e tornou a segurar minhas
mãos. Por alguns instantes, era como se nada mais no mundo existisse. Porém, como um
mosquito chato que fica zunindo no ouvido, logo a imagem de Mikah me voltou à mente. Não
era possível que não conseguisse me concentrar na linda mulher que estava à minha frente e
tão interessada em mim. Há algumas semanas, Maristela seria tudo o que eu poderia desejar.
— Pedi um café... O que você vai querer? — Sua frase interrompeu os meus
pensamentos. Seu cheiro me invadiu quando se moveu; além de linda, estava com um perfume
maravilhoso, aguçando-me todos os sentidos.
Eu devia ter sérios problemas. Mesmo sentindo que o meu coração estava em frangalhos,
de forma que era difícil até respirar, não conseguia parar de analisar aquela mulher na minha
frente. Ela exercia um poder sobre mim, prendendo minha atenção de um jeito estranho.
Talvez fosse por causa da minha capacidade adolescente de me apaixonar por qualquer rabo de
saia, embora sentisse que havia algo diferente. Essa característica que sempre possuí nunca
havia me incomodado, até então. Acredito que porque jamais estive tão incongruente.
— Pode ser uma água com gás. Não quero nada de especial, só queria mesmo te ver. —
Eu fazia força para ser o mais galanteador possível, embora meu real desejo fosse estar com
outra pessoa. Ou talvez não. Meu cérebro não se decidia. As coisas com a Maristela eram tão
mais simples. A ausência de drama me fazia querer prosseguir.
Não tinha a menor ideia de onde tudo aquilo iria me levar, mas eu havia pensado muito
nas últimas horas e havia tomado a dura decisão de me afastar da Mikaela. Fazíamos mal um
para o outro, além disso, meu temor em machucá-la era muito grande. Obriguei minha mente a
esquecê-la por alguns momentos e consegui, com algum sucesso, vislumbrar apenas a linda
mulher que me acompanhava naquela bela manhã.
Durante aquele resto do café, conversamos animadamente sobre diversos assuntos, nem
parecia que eu estava derrotado por dentro. Após ficarmos um pouco no café, paguei a conta e
saímos caminhando pela cidade, que apresentava um dia muito belo com um clima ameno e
agradável. Mais uma vez, ela se agarrou em meu braço, como se precisasse de um apoio ou
guia para caminhar por aquelas ruas. Em nosso papo, descobri que Maristela também era
relativamente nova na cidade, mas linda e comunicativa como era, já havia feito vários amigos,
inclusive o Fred, que foi quem nos apresentou.
— Da última vez que nos encontramos, você ficou de me contar o que fazia para viver
— falei despreocupadamente.
— Bom, na verdade, trabalho em um grande jornal e abrimos uma filial aqui na cidade...
— Quer dizer que você é uma repórter? Que legal!
— Bom, não é bem isso — por alguma razão, seu rosto corou.
— Hum, redatora? Chefe de impressão? Algum tipo de gerente? — Eu ia enumerando as
várias possibilidades e Maristela apenas meneava a cabeça negativamente a cada novo chute
que eu dava.
— Não é nada disso — ela ainda parecia um pouco sem jeito.
— Bom, só sobrou uma coisa... Você é office boy, ou melhor, office girl do jornal? —
Soltei uma gargalhada.
Maristela me olhou de um jeito acanhado e logo percebi que deveria ter cometido uma
gafe.
— Desculpe, não há nada de errado em ser uma office girl, é um trabalho digno como
qualquer outro e...
Maristela não se conteve e me interrompeu com uma gargalhada.
— Não, seu bobo, não sou nada disso! Mas foi muito engraçado ver a sua cara achando
que tinha me ofendido — ela me deu um tapinha no braço, seguido por um beijo no rosto. Foi
a minha vez de ficar sem jeito.
— Muito engraçado! Estou morrendo de rir, você não está vendo no meu rosto, mas por
dentro estou me rasgando! — Brinquei e minha acompanhante gargalhou mais uma vez.
— Adoro seu senso de humor! — Ela me encarava de um jeito tão penetrante que
parecia estar scaneando minha alma.
— E então, não vai me dizer o que faz no jornal? — Peguei a pontinha do seu nariz
com os dedos, como se brincasse com uma criança.
— Sabe, não gosto muito de entrar nesses detalhes, a maioria dos homens fica meio
intimidada...
— Vamos lá, deixe de bobeira. Olhe o meu tamanho, acha mesmo que algo consegue me
intimidar? — insisti, parando no meio da calçada e segurando suas mãos. Fui tomado por uma
curiosidade repentina. Conhecer um pouco mais sobre Maristela estava sendo uma distração
agradável para os meus problemas.
— Tudo bem, mas espero que isso não altere nada em nossa relação — ela abaixou a
cabeça.
— Estou até com medo, agora! — Brinquei, apertando a ponta de seu nariz novamente.
— Eu sou a dona do jornal — Maristela disparou de uma só vez e prendeu os lábios,
esperando pela minha reação.
— Dona? É sério isso? — Fiquei desconcertado e muito surpreso. Ela não parecia ser
dona de uma coisa tão importante quanto um jornal. E não era qualquer um. Não fazia ideia do
quanto ela podia ser inteligente.
— Estou falando sério. — Lá estava o sorriso delicioso novamente.
— E eu pagando a conta de tudo até agora! —fingi estar indignado.
Maristela soltou uma gargalhada sem nenhum pudor e deu um tapa no meu ombro. Foi a
vez dela segurar a ponta do meu nariz. Ela alisou meu rosto e me observou por meio segundo.
Parecia aliviada com a minha reação.
Maristela segurou meu rosto com as duas mãos, ficou na ponta dos pés e me deu um
beijo estalado na boca. Sem falar nada, voltou para o meu lado, entrelaçou os dedos nos meus e
voltamos a caminhar devagar, de mãos dadas como um casal comum.
— Já disse que adoro seu senso de humor?
— Sim — eu não podia me ver, mas certamente estava com um sorriso bobo e
apaixonado naquele momento. Como eu conseguia ser assim?
— Mas sempre posso repetir: adoro seu senso de humor! — Rimos ao mesmo tempo.
Não pude deixar de reparar que me sentia um cara comum ao lado de Maristela,
diferentemente do que acontecia quando eu estava com Mikaela. O clima entre nós era sempre
tenso — e intenso também —, nada divertido. Talvez eu tivesse feito mesmo a melhor escolha,
apesar de estar me sentindo um nada naquele instante. Estar com a Mikah era sempre um
motivo de preocupação, mas nunca me senti tão vivo com alguém quanto me sentia com ela.
A dona do maior jornal do país estacionou em frente a uma vitrine que, de tão limpa,
exibia nossos reflexos.
— Formamos um belo casal — ela falou, toda animada.
— Não posso dizer que discordo.
Maristela se aproximou novamente de mim. Alisou meu novo cabelo carinhosamente,
como se tentasse se acostumar com meu novo visual, e me deu um beijo suave e doce. Nunca
beijei uma nuvem, mas acho que se alguém pudesse fazê-lo, aquela seria a sensação, tão macio
foi o toque de seus lábios sedosos, cobertos por um batom de um tom rosa bem delicado e com
cheiro de tutti-fruti. Bem diferente do beijo ardente, fogoso e quase animalesco de Mikah.
Alguma coisa estalou dentro de mim e, estranhamente, não era um sentimento de culpa, mas de
conforto.
— Não conte para ninguém, promete? — O beijo soou como uma espécie de suborno
para me calar.
— Entendo o porquê do pedido. Pode deixar que não falarei nada a ninguém. — As
pessoas tendiam a tratarem as outras de maneira diferente quando sabiam que elas tinham
muito dinheiro. Mesmo naquele mundo paz e amor, as coisas eram assim.
— Quer conhecer a redação do jornal?
— Podemos?
— Querido, você está falando com a dona, podemos tudo! — Ela deu uma risada.
— Eu gostaria, me parece muito interessante! — Para ser sincero, nem parecia ser algo
tão legal assim, mas com a Maristela eu iria até para uma exposição de cabeças encolhidas e
acharia o máximo.
Ela abriu novo sorriso e ficou muito satisfeita por eu ter aceitado seu convite.
Repentinamente, largou minha mão e deu sinal para um táxi que passava, e este logo
estacionou perto do meio-fio.
— Olá, meu nome é Tiago, para onde seguiremos? — falou o simpático taxista, assim
que nos acomodamos no banco traseiro do veículo.
— Para a sede do jornal Terceiro Milênio — Maristela informou. — Sabe onde fica?
— E quem é que não sabe, senhora? — O taxista deu partida e voltou para o trânsito
que corria lento e tranquilo.
Durante o trajeto, trocamos gracejos e alguns beijos breves. Saber que ela era dona do
maior jornal do país, e que era muito rica, não alterou em nada o modo como eu a olhava. Na
verdade, alterou sim, Maristela ganhou consideráveis pontos por sua humildade e pela forma
natural como tratava as outras pessoas que não estavam no mesmo nível financeiro que ela.
Independentemente de sua fortuna, era uma jovem adulta com disposição para viver e curtir a
vida.
Chegamos ao nosso destino e, dessa vez, Maristela fez questão de pagar ao taxista. Não
me opus, mas era uma sensação estranha deixar que uma mulher pagasse a corrida. Acho que
precisaria me acostumar com aquilo, pois Maristela começava a dar pistas de que as coisas
seriam um pouco diferentes dali por diante.
Assim que chegamos, nos receberam como se fôssemos donos do lugar. Bom, ao
menos um de nós realmente era. Logo, Maristela recrutou alguém para nos guiar por toda a
estrutura da empresa e foi um passeio bastante interessante. Muito melhor do que eu esperava,
devo admitir.
— Agora, estamos rodando a primeira edição de amanhã, que deverá chegar às bancas lá
pelas quatro da madrugada, para que esteja à disposição a partir das cinco. Claro que algumas
sessões, como a de esportes, serão fechadas mais tarde com os resultados da noite, mas a
menos que tenhamos alguma notícia bombástica, a edição será noventa e nove por cento essa
que está aí. Como de costume, vocês que estão conhecendo a empresa — o guia abriu um
sorriso para sua chefe — receberão antes de todo mundo uma Edição de amanhã. — Mais
tarde Maristela me explicaria a piada interna que fazia referência ao famoso seriado, que era o
seu preferido.
Assim que recebi o jornal e li uma das chamadas da capa, a minha mente congelou.
Maristela conversava animadamente comigo, mas eu não consegui prestar atenção em nada.
Reli a manchete que indicava a página da matéria completa. Procurei pelo local indicado no
interior do jornal, quando senti uma mão repousar suavemente sobre a minha, impedindo-me
de continuar.
— O que houve, querido? Você parece distante — Observei mais uma vez o sorriso e a
beleza encantadora de Maristela e meu coração palpitou por um instante.
— Hã? Desculpe, Maristela, não é nada, apenas vi uma reportagem que me interessou,
mas posso lê-la mais tarde. — Tornei a fechar o jornal.
— Sim, faça isso. Você poderá ler tudo após o almoço, certo?
Olhei no relógio e já passava das duas da tarde. Lembrei-me do meu trabalho, mas pouco
me importei, minha mente agora estava totalmente voltada para o que tinha visto nas páginas
impressas. Eu nunca havia contado para Maristela que fazia parte dos sete por cento, por isso
não quis despertar a atenção dela para o detalhe da matéria que tratava justamente sobre essa
parcela da população mundial. Apenas guardei o jornal de volta na sacolinha que havia
recebido contendo outros souvenires da empresa.
Com seu segredo revelado, Maristela resolveu não ir a algum restaurante simples, mas
fez questão de me levar a um dos lugares mais caros da cidade. A refeição foi digna de um rei.
As melhores comidas foram servidas, muitas das quais eu sequer conseguia pronunciar os
nomes. Apesar de toda a ostentação, Maristela não perdia o ar humilde, e foi muito agradável
durante todo o tempo. Porém, todo o luxo do restaurante, toda a beleza e simpatia da minha
acompanhante e todo o teor alcoólico que já subia ao meu cérebro não conseguiram desviar
meus pensamentos daquela matéria.
Acabei respondendo mecanicamente e sorrindo forçadamente durante toda a refeição.
Não sabia se Maristela tinha percebido, mas ela não deixou de puxar assunto um minuto
sequer. Sem dúvidas, eu teria aproveitado muito mais daquela agradável companhia, não fosse
o fato de estar ansioso pelo fim de nosso encontro. Quando finalmente terminamos de comer e
ela passou seu cartão na máquina, não me deixando pagar novamente, consegui dar uma
desculpa qualquer e disse que precisava partir.
— Lamento que precise ir, querido. Tinha muitos planos para nós ainda hoje... —
encarou-me maliciosamente.
— Sinto muito, mas eu já tinha combinado de ajudar o Fred e não posso vacilar com ele,
porque o cara sempre está me ajudando também — dificilmente alguém questionava quando
você dizia que precisava muito ajudar uma pessoa.
— Não precisa se explicar, eu compreendo perfeitamente. Amigos são para isso mesmo
— sua atitude e compreensão só me encantavam ainda mais.
Despedimo-nos com a promessa de voltarmos a nos encontrar em breve. Ela queria
chamar um táxi para me levar embora, mas não aceitei a gentileza. Maristela se pendurou em
meu pescoço e me deu um beijo demorado. Eu estava começando a me acostumar com aquilo
e não achava nada mal.
Assim que virei a esquina, corri para a primeira lanchonete onde poderia me sentar
num local privado e ler a matéria que tanto ansiava. O almoço havia demorado mais de duas
horas e eu já não me aguentava de curiosidade. Encontrei um lugar reservado no canto, longe
de olhares curiosos, pedi uma água com gás e me pus a ler.

Cirurgia Revolucionária Pode Ser a Esperança dos Sete Por Cento

A condição médica conhecida no meio científico como Perda Hemisférica de Memória


Sem Agente Desencadeador Conhecido (PHMSADC) afetou, há dez anos, sete por cento de
toda a população mundial. Suas vítimas sofreram de uma perda de memória completa e até
hoje não há caso registrado de alguém que tenha recuperado uma lembrança. Suas causas são
um grande mistério para a ciência desde então, e muitos estudos vêm sendo feitos.
“Até o momento, não foi possível ligar a condição a qualquer fator genético ou
ambiental, e o fato de os afetados estarem espalhados por todo o mundo, descarta
praticamente qualquer teoria já levantada. Outro fator relevante é que nenhum indivíduo
nascido, após esse acontecimento, apresentou tal deficiência.” — diz o doutor Cláudio
Alcântara, maior autoridade no assunto.
A síndrome é caracterizada pela falha de funcionamento de algumas regiões do
cérebro que, até então, não eram associadas por especialistas à programação da memória, o
que causou muita surpresa em toda a comunidade científica. Desde então, os “Sete Por
Cento”, como ficaram conhecidos os portadores dessa deficiência, vêm sofrendo por terem
que viver sem se lembrarem de nada do seu passado.
No entanto, um grupo de cirurgiões europeus afirma que essa realidade poderá ser
mudada em breve. Uma das mais promissoras frentes de estudo do tema foi inaugurada por
pesquisadores do Instituto de Pesquisa e Mapeamento do Cérebro Humano. Sob a
coordenação do renomado neurocirurgião, doutor Emot Clarence, eles alegam ter
desenvolvido uma cirurgia que seria capaz de reativar essas “porções inativas” do cérebro
dos seus pacientes.
“Os estudos se encontram em fase preliminar, mas as experiências realizadas em
animais, que tiveram essas partes do cérebro cirurgicamente desativadas e posteriormente
reativadas, mostram que não estamos longe de obter êxito com seres humanos. Nossa maior
vitória, até aqui, foi conseguir, na semana passada, uma autorização do Conselho Mundial de
Saúde, para começar a recrutar cobaias humanas, ou seja, pessoas que sofrem da síndrome e
desejam se submeter às primeiras cirurgias experimentais” — informou o doutor Clarence.
No entanto, “é muito cedo para criar esperanças e sair se submetendo a cirurgias com
eficácia não comprovada e ainda em estágio inicial de pesquisa” — adverte o doutor Cláudio
Alcântara, que é contra esse tipo de cirurgia tão invasiva: “Ainda mais numa região tão
sensível como o cérebro humano. É preciso deixar claro que a cirurgia tem mais chances de
fazer com que o paciente perca definitivamente todas as memórias, inclusive as cultivadas nos
últimos dez anos, do que efetivamente recuperar alguma de suas lembranças perdidas” —
concluiu o renomado psicólogo.
Para aqueles que quiserem saber mais sobre o tema, ou até se candidatarem à
cirurgia, seguem abaixo o site e os telefones do instituto europeu. Lembrando que a cirurgia
será gratuita e que, caso venha a se obter resultados positivos, estima-se que o procedimento
virá a custar mais de cem mil dólares.

Fechei o jornal com o coração palpitando. Eu não me importava se a tal cirurgia era
perigosa ou experimental. Não estava nem aí se corria o risco de ficar com o cérebro ainda
mais bugado do que o meu estava. Desde que ela me livrasse daqueles surtos constantes e me
poupasse da dor e agonia física, emocional e psicológica que vinha sofrendo nos últimos
tempos, tudo valeria a pena.
A partir daquele momento, coloquei em minha cabeça que precisava conseguir a vaga
para ser uma das cobaias humanas. Pensei em pegar o telefone e compartilhar a ideia com
Mikaela, mas então me lembrei que havíamos cortado relações e ela dificilmente atenderia a
minha ligação. E, se atendesse, me mandaria ir para o inferno.
Minha mente vagava em outra dimensão enquanto me dirigia para casa. Para ser bem
sincero, se alguém me perguntasse como cheguei ao apartamento, não saberia dizer. Reli a
matéria inúmeras vezes. Tentei ligar para o doutor Cláudio a fim de tratar com ele sobre o
assunto, mas estranhamente ninguém atendia no consultório. Imaginei que ele ainda estivesse
sem a recepcionista e não atendesse por estar com um paciente. Não me estressei por causa
disso, dentro de poucos dias teria a minha consulta com ele e então poderia tirar todas as
minhas dúvidas.
Pelo texto da matéria, ele estava bem por dentro do assunto e, embora sua opinião fosse
contrária à cirurgia, estaria capacitado a me dar maiores esclarecimentos sobre os fatos. Fiquei
em meu quarto, sem saber o que fazer com aquela informação e aquela esperança de um dia
voltar a ter uma vida normal.
Durante todo o dia seguinte, não saí de casa. Fred percebeu que algo de estranho estava
acontecendo. Indagou-me se poderia fazer alguma coisa para ajudar, mas disse a ele que estava
tudo bem. Eu não havia comentado nada com ele sobre a cirurgia, e pretendia continuar assim.
Ainda não tinha conseguido assimilar tudo aquilo, então era impossível compartilhar com ele
meus sentimentos sobre aquela notícia tão bombástica.
Eu sabia que tinha minhas obrigações a cumprir. Olhei minhas mensagens e estava
repleto de reclamações de clientes indagando onde eu estava, pois precisavam fazer seus
pedidos. Apenas ignorei. Estava tão esgotado por causa dessas ideias que o cansaço refletiu no
meu corpo e eu não resisti em me deitar para dormir no meio da tarde de sexta-feira. Bom, pelo
menos eu acreditei que estivesse dormindo, até que comecei a me sentir esquisito.
— Àndreas, não quero mais discussão! Você está proibido de se encontrar com
aquela... Aquela criatura novamente! — uma voz dura e masculina rosnou no fundo do meu
inconsciente.
— Mas, mas, senhor... — Meu corpo tremia de raiva.
— Você parece que não entende! Ela não faz parte da nossa classe, não podemos nos
misturar assim.
Meus dentes rangeram com força e a dor física se tornava tão insuportável quando a
emocional.
— Não aceito isso. Por que discriminar alguém somente porque não pertence à nossa
classe? Quem criou essas regras?
— Isso não faz a menor diferença. As coisas sempre foram assim e pronto! E não ouse
me enfrentar. Entenda que ela é de outro mundo, outra cultura, outros princípios. Com certeza
só quer brincar contigo, rapaz. O que uma criatura daquelas iria querer com um ser como nós?
Eu não fazia ideia, de fato, mas estava surdo quanto ao que ele dizia. Só conseguia
ouvir a voz do meu próprio coração, que pulsava apenas pela dona de olhos dourados incríveis
e da pele extremamente branca mais macia que já toquei.
— Pois jamais aceitarei isso! — Dei um soco na mesa e me ergui, como se tal ato
reforçasse a minha opinião.
Tomei um bofetão no rosto ao pronunciar essas últimas palavras. Eu estava no meio de
um vilarejo rústico, cercado de casas simples de madeira, usando uma vestimenta igualmente
simples. Em minha mão, jazia um machado com o qual eu cortava lenha pouco antes daquela
conversa se iniciar.
Foi preciso muito autocontrole para não usar aquele objeto mortal contra o sujeito que
me agredia, mas, por alguma razão que não ficou clara no momento, eu lhe devia respeito. Saí
de perto da mesa rústica e voltei para o local onde cortava a lenha, tentando reprimir as
lágrimas que insistiam em se formar no interior de meus olhos. Olhei para o lado e uma
senhora se aproximava.
— Não discuta com seu pai, meu filho...
— Eu a amo, mamãe. E já sou um homem, ninguém pode me proibir.
— Isso não acabaria nada bem, Àndreas. O seu pai e os demais anciãos não permitirão
que você se misture com alguém da estirpe dela.
— Vou embora daqui, então — joguei o machado no chão.
— Você sabe que isso não é possível, meu filho! — A senhora se aproximou de mim e
me abraçou, como que implorando para que eu não tomasse nenhuma decisão estúpida. Senti-
me reconfortado com seu abraço.
— Que inferno! Vida maldita onde não posso tomar minhas próprias decisões! E daí
que ela é de outra classe? E daí que somos diferentes? Pouco me importa se ela é mais velha,
mais rica e mais poderosa! — Desvencilhei-me gentilmente do abraço que me abrigava e
caminhava de um lado para o outro enquanto defendia meu caso.
— Gostaria que as coisas fossem diferentes, mas infelizmente não são. Isso é assim há
várias gerações e nossos antepassados certamente tiveram um motivo sábio e justo para
determinar que fosse assim — ela tinha um tom calmo e gentil.
— Por que ninguém me dá explicações? Talvez, se eu soubesse dos verdadeiros
motivos...
— O coração não dá lugar à razão, meu filho. Saber os motivos não influenciaria a sua
decisão.
— Vou embora daqui! — defini com um bracejo afetado.
— Eles iriam atrás de você.
— Vou me esconder. Sei fazer isso muito bem.
— Meu filho, meu inocente filho, você sabe que isso não seria possível — aquela que
aparentemente era a minha mãe falou com a voz doce. — Melhor aceitar seu destino e procurar
ser feliz com alguma das moças da vila.
— Jamais! Jamais desistirei desse sentimento...
Abri meus olhos repentinamente. Meu coração batia acelerado e o sangue parecia
correr rápido e quente em minhas veias. O que significava aquele sonho? Seria alguma
mensagem do meu subconsciente dizendo para me afastar de Maristela? Essa história de
classes havia me deixado muito confuso.
Não, eu não permitiria que um sonho dominasse as minhas ações. Até que eu pudesse
fazer parte do programa experimental e recuperar todas as minhas memórias, ficar com
Mikaela não era uma opção, e eu não aceitaria que um detalhe insignificante me afastasse
daquela que parecia ser a única mulher capaz de me fazer esquecer a ruiva de lábios carnudos e
deliciosos. Que, por sinal, me fazia uma falta espantosa.
Desesperado e temendo uma recaída, peguei o telefone, busquei o nome na agenda e
disquei.
— Alô! — A voz do outro lado da linha me causou um arrepio.
— Oi, sou eu.
— Eu sei, vi no identificador de chamadas do celular. Pelo menos dessa vez você me
ligou mesmo, hein?! — A voz soou em tom provocante.
— Claro que te liguei, Maristela, até parece que ia te ignorar.
— Eu sei, querido, sou irresistível! — Ela deu uma risadinha.
— Amanhã, topa sair?
— Amanhã não posso, querido. Aliás, a próxima semana será bem corrida para mim.
Tudo bem ser no domingo da semana que vem? Estarei disponível. Completamente disponível
— Maristela pronunciou a última frase de modo pausado.
— Todo esse tempo? Não sei se vou aguentar — me insinuei.
— Vai valer a pena, querido, eu prometo.
— Tudo bem, mas dessa vez não iremos a nenhum lugar chique, porque sou eu que vou
pagar e não estou nadando em dinheiro. — Dei uma risada meio forçada. Meu corpo ainda
tentava se recuperar daquele suposto sonho esquisito.
— Hum, que machista, não aceita ser bancado por mulher, não, é? — Maristela
gargalhou no telefone.
— Nada disso, é que essa é minha vez de pagar, na próxima a gente vai aonde você
quiser e você banca.
— Tudo bem, então. Aonde vamos?
— A um lugar bacana, te pego às nove.
— Preciso saber que roupa vou usar...
— É um restaurante com pista de dança, lugar simples. Coloca um vestidinho que tá
beleza.
— Ok, anota meu endereço aí.
Ela me informou o local e anotei num pedaço de papel, que tratei de guardar no bolso
com carinho para depois passar para o celular. Com o encontro marcado, o jeito era esperar até
o domingo e, se tudo desse certo, a noite seria inesquecível. Estava disposto a esquecer
Mikaela de uma vez por todas.
Capítulo 14
Mikaela

Cheguei ao meu apartamento com as roupas encharcadas, percebendo que não havia
sobrado um móvel intacto. Atravessei os escombros com a mente e o coração vazios, como
uma sombra sem vida que só existe por tragédia do acaso. Tirei minhas roupas e me joguei no
chuveiro de água quente. Enquanto o frio intenso ia embora, todas as lamentações seguiam o
mesmo rumo. De nada adiantaria me fazer de vítima. Eu não era mulher de chorar, era de agir.
Vestindo uma roupa confortável, comecei a arrumar cada pedacinho da minha casa. Não
devia ter descontado os meus problemas nela. A maioria das coisas precisou ser jogada no lixo,
mas pelo menos consegui fazer com que o local se tornasse habitável de novo. Precisava
retomar a minha vida com paciência. Não, jamais desistiria de sentir o que o André me fazia
sentir, só precisava saber recuar na hora certa para que se tornasse possível reverter a situação.
Forcei o meu corpo a relaxar em cima da cama. Foi difícil dormir, mas pelo menos
descansei até que amanheceu e o sono me pegou. Poucas horas mais tarde, meu despertador
alertou que já era hora de voltar a ser a garota esquisita do Gulosinhas. Depois de um tempo
sem ir ao trabalho, necessitava ocupar a minha mente com coisas banais, que me fizessem
esquecer que tudo era uma droga e me causava tédio. Talvez voltar a encarar a minha rotina
fosse a solução temporária da qual eu necessitava.
Pela primeira vez, vesti o meu uniforme sem me sentir uma completa idiota. Eu sabia o
que estava fazendo e o que queria para mim, não era mais uma mulher perdida que seguia as
regras da sociedade porque não havia nada mais interessante para fazer. Prendi meus cabelos
num rabo de cavalo, fiz uma maquiagem leve, coloquei os saltos que me matariam mais tarde,
suspirei fundo e saí de casa escondendo a minha loucura dentro da bolsa.
Desci pelo elevador, cumprimentei o porteiro — como quase nunca faço — e parei no
meio da calçada. Alguma coisa esquisita invadiu o meu corpo, causando-me um desconforto
sem igual. Olhei ao redor, tentando adivinhar o que se passava, mesmo sabendo que não
encontraria nada de errado em algum lugar que não fosse dentro de mim. Fiquei parada um
instante, respirando fundo o ar fresco da manhã e sentindo os raios de sol ainda fracos
massagearem meu corpo frio. Fechei meus olhos e atentei aos ruídos que me circundavam,
tentando me inserir no ambiente. Senti um leve enjoo e tontura.
Caminhei lentamente, ouvindo o som dos meus passos, até a primeira parada de ônibus,
ainda sem entender porque me sentia tão enjoada. Minhas mãos começaram a esquentar muito,
como se eu me aproximasse mais e mais de uma forte fonte de calor. Com uma conferida,
notei que ficavam cada vez mais vermelhas. Meus braços seguiam a mesma coloração.
Lentamente, toda a minha pele parecia querer entrar em combustão. O sol que inicialmente
parecia me massagear, agora me fazia querer morrer.
Sentei-me no abrigo da parada de ônibus, que àquela hora estava vazia. Respirei
profundamente mais de mil vezes até que percebi minha pele ter uma leve melhora. As mãos
voltavam, aos poucos, a ser brancas como a neve, como sempre foram. Não sabia o que
porcaria estava acontecendo comigo, mas de repente meu olhar travou no formato da sombra
que o abrigo proporcionava. Um pingo de raciocínio foi o bastante. Se o meu corpo estava
sofrendo transformações bizarras que indicavam características lendárias encontradas em
livros, então... então eu precisava comprovar de verdade.
Estiquei uma mão trêmula para frente, achando que o meu coração não podia bater mais
forte do que aquilo. Olhei para os dois lados da rua, confirmando que ninguém veria o que
aconteceria. Se é que aconteceria alguma coisa, mas não queria parecer ainda mais louca que o
usual. Quando meus dedos atravessaram a sombra e sentiram os raios solares, começaram a
pinicar como se jogassem neles gotinhas minúsculas de cera quente. O calor foi aumentando
devagar. Deixei minha mão no ar a fim de saber até onde eu suportaria. Não demorou mais de
um minuto e já parecia que ela ia explodir.
Recuei, assustada, escondendo a mão queimada dentro da camisa do uniforme. Não
podia mais me expor ao sol. Consequentemente, não tinha como ir trabalhar, visto que passaria
quarenta minutos em um ônibus quente e depois eu ainda caminharia dez minutos da parada
até o supermercado. Não havia como fazer aquele percurso sem entrar em combustão
instantânea. Eu estava apavorada. Nunca tinha sentido nada parecido e jamais ouvira falar de
alguém com tais sintomas. Já tinha lido sobre pessoas que não podiam se expor ao sol, mas
aquilo era absurdo e ridículo, ainda mais que eu nunca tinha sofrido aqueles sintomas antes.
Tomando doses fartas de coragem, tirei os sapatos de salto, segurei-os nas mãos e corri
o mais rápido que pude de volta ao meu prédio. Atravessei a portaria como um foguete e me
escondi em um canto entre o elevador e a passagem que dava para a garagem. Havia uma
fumaça fedida chamuscando sobre a minha pele. A reação que antes tinha levado alguns
minutos, parecia acontecer cada vez mais rápido conforme eu me expunha.
As palavras do doutor Cláudio sobre a esquizofrenia circularam pela minha cabeça como
um veneno mortal. Será que eu tinha enlouquecido tanto que estava imaginando tudo de
estranho que me acontecia? Todos aqueles sintomas eram mesmo ilusão? Se ficar perto do
André me causava mal, então por que, mesmo distante dele, ainda sofria danos? Nada fazia
sentido. Além do mais, aquilo não era coisa da minha cabeça, eu não estava tendo ilusões
sobre meus braços pegarem fogo. Até o cheiro de carne queimada eu conseguia sentir.
Subi até o meu apartamento sentindo o gosto da derrota crescer ainda mais na minha
língua. Minha vida social, que já era quase nula, havia sido reduzida a nada. A decoração do
meu apartamento, que já não era grandes coisas, agora se reduzia a cacos. Não sabia o que ia
fazer o dia todo trancada naquele lugar, nem em todos os outros dias sem que eu pudesse sentir
o sol.
Liguei para o mercado pedindo milhares de desculpas, mas que não poderia ir
novamente. Pela primeira vez senti medo de perder o meu emprego, mas logo em seguida não
me preocupei mais com isso. Que se danasse. Deitei na minha cama, achando que as
perturbações me consumiriam até que eu voltasse a agir como uma louca, entretanto, adormeci
em menos de um minuto. Só acordei quando o meu quarto estava tomado pela escuridão. Já era
noite e o meu corpo vibrou de adrenalina assim que percebeu as estrelas estampando o céu.
Tudo o que eu menos queria era ficar em casa sem fazer nada, por isso, mesmo que eu
não fizesse ideia de para onde ir, tomei um banho, coloquei um vestido preto decotado e botas
de cano alto, exagerei na maquiagem e segui sem rumo pela cidade, prestando atenção nas
pessoas, no trânsito, nos cheiros, nas luzes. Parecia outra pessoa. Ou será que a Mikaela dos
últimos dez anos era uma pessoa estranha e, por isso, nunca consegui me adequar a ela?
Sentia-me muito bem. A sensação era a de que o mundo me pertencia, ou melhor, que a noite
era minha e somente minha.
Senti o cheiro dele em algum momento; a fragrância se destacava de um jeito
impressionante no meio da multidão. Sabia que não adiantaria ignorar. Meus instintos
aflorados me levariam até o André querendo ou não. Espreitando como uma caçadora, parei
em frente ao prédio dele e esperei.
Vi quando seu amigo — de quem não conseguia lembrar o nome — saiu pela portaria,
usando um perfume muito forte que me fez entortar o nariz. Escondi-me atrás de uma árvore,
pois não queria ser vista. Seria ótimo encontrar o André sozinho. Precisávamos conversar, e
daquela vez de maneira racional. Estava pronta para não bancar a otária apaixonada.
Esperei a rua voltar a ficar vazia para me revelar. Tive a ideia anormal de começar a
gritar o nome dele — vingança é um prato que se come frio — e ia colocá-la em ação quando
senti uma mão forte segurar o meu braço. Por um instante, achei que o André tivesse me
surpreendido antes que eu pudesse surpreendê-lo, mas o cara diante de mim não era ele.
— Mikaela? — O sujeito sorriu amplamente, ainda me segurando. Fui desarmada
porque, além de saber o meu nome, ele se parecia muito com o André. Era alto, negro, com um
sorriso bonito e o olhar intenso apontado para mim. — Não acredito que é você! Não acredito!
Fui abraçada de um jeito envolvente. O idiota se achou no direito de me tomar pela
cintura e de afundar seu rosto no meu pescoço, passando braços musculosos espetaculares em
volta de mim. Eu ainda não sabia o que estava acontecendo, muito menos quem era aquele
homem que parecia me reconhecer de algum lugar. A estranheza me deixou sem reação. Ele
não podia estar me confundindo, afinal, meu nome não era tão comum assim.
— Poxa, vida... Como está bonita. — Ele agarrou meu rosto com as mãos enormes e me
olhou de perto. — Que saudade. Você não imagina o quanto senti a sua falta.
— Des... Desculpa, mas... — Balancei a cabeça negativamente. — Quem é você?
O cara riu de leve e me soltou. Não pareceu ofendido. Ainda tinha o semblante divertido
estampado em sua face máscula. Sua semelhança com o André continuava me espantando. O
cabelo raspado, o peitoral amplo, o sorriso perfeito, os traços bem definidos. Pareciam irmãos.
Será que eram gêmeos?
— Caramba, você me esqueceu. Dez anos foram o bastante, não?
Meu coração começou a se agitar muito. Fiquei imediatamente em alerta, desconfiada até
da minha sombra. Olhei com atenção para a rua escura, que ainda se encontrava vazia. Recuei
dois passos e encarei o sujeito.
— Do que está falando? — murmurei a pergunta.
— Sério? Você não se lembra de mim? Mentira, né? Sua brincalhona! — O cara
avançou, porém fui mais rápida e recuei. Suas mãos pararam no ar e ele finalmente parou de
sorrir. — Mikaela, sou eu. Andrew. Não lembra?
— An... Andrew? — A careta que fiz podia assustar um fantasma. Não sei dizer por que,
mas meus olhos se encheram de lágrimas. Não podia crer que aquilo estava acontecendo.
Quem era o sujeito? Por que se parecia tanto com o André, até mesmo no nome? — Não...
Não, não sei quem é você.
— Assim você me magoa, Mikhayah. Tudo bem que terminamos há dez anos, mas o que
vivemos foi tão...
— O que disse? — interrompi-o, atônita. Surpresa foi pouco para me definir. Meu
mundo inteiro pareceu estar desabando. — Do que me chamou?
— Mikhayah? — Ergueu uma sobrancelha.
Recuei mais cinco passos. Andrew percorreu mais do que isso para se aproximar e voltar
a me tomar em seus braços. Fui domada facilmente, travada pelo choque, pelo desespero de
começar a compreender que talvez tudo tivesse sido um grande equívoco. Aquele era o negro
que eu tanto procurava e não o André? Mas... o André havia me chamado daquele nome antes,
quando estava delirando, e disse que me amava.
— Quem é você? — repeti, sentindo-me perdida. — Quem é você, me diga agora! —
Desvencilhei-me de repente e o empurrei com força. Andrew só deu um passo para trás. —
Não toque em mim, não estou achando graça nessa brincadeira! Não sei o que você pretende
com tudo isso, mas não se aproxime! — Eu estava prestes a entrar em choque, meu cérebro
deu um nó tão grande que fiquei atordoada.
— Sei que te machuquei. Entendo que parti o seu coração, mas eu precisava daquela
oportunidade. Fiz de tudo para voltar e estou aqui. — Tornou a sorrir, parecendo bem sincero.
— Eu ia te procurar, juro que ia. Só estava tentando encontrar um lugar bom para te receber de
volta na minha vida. Você merecia mais do que aquilo.
Levei minhas mãos à cabeça e quase arranquei os meus cabelos. Aquele homem queria
me enlouquecer? Porque se fosse isso, estava conseguindo.
— Desculpa, eu... Andrew, não sei quem você é. Não sei do que está falando. Perdi a
memória. — Agitei os braços. Não estava em meus planos desabafar quais eram os reais
problemas, mas não encontrei outra saída. — Não me lembro de nada do que aconteceu há dez
anos, nem antes disso.
Ele deixou os olhos muito abertos.
— Não... Não! Você não está querendo me dizer que...
— Faço parte dos sete por cento.
— Oh, não! — Andrew tentou me tocar novamente e conseguiu. Suas mãos escorreram
junto com meus cabelos. — Não... Não acredito que te perdi assim.
Tive medo de chorar sangue na frente dele e deixá-lo assustado, por isso me contive ao
máximo para não derrubar as lágrimas. Deixei que me tocasse e acarinhasse. Minha vida
finalmente podia começar a fazer sentido. Eu teria as peças que me faltavam para montar o
meu quebra-cabeça.
Aquele homem precisava me dizer o que eu necessitava.
— Por favor... Por favor, se você me conhece, diga-me quem eu sou. Fale logo quem eu
fui.
— Você não se lembra de nada mesmo, Mikah?
— Não. Não me lembro. Por favor, conte-me tudo.
Andrew continuou me encarando intensamente. Olhou para os dois lados da rua e propôs
que fôssemos a um lugar onde pudéssemos conversar direito. Ele estava a pé como eu, por isso
caminhamos devagar até uma lanchonete que ficava duas ruas depois do prédio do André.
Minha atenção havia sido completamente desviada para o cara negro e carinhoso que fazia
questão de sempre estar me tocando. Foi por isso que, assim que nos sentamos e pedimos
refrigerantes, ele segurou minhas mãos e começou a alisá-las devagar.
— Eu não sei por onde começar, Mikaela. Ainda não acredito que você se esqueceu de
nós. Se bem que, acho que tive sorte. — Ele riu, mas não sentiu graça alguma. — Você não
estaria falando comigo se ainda se lembrasse.
— O que houve entre nós, afinal? — Todo aquele enigma estava me enlouquecendo.
— Namoramos por três anos completos. Foram os melhores anos da minha vida, não
duvide disso nem por um segundo — ele me olhava com profundidade, querendo demonstrar
toda sua sinceridade.
— Como... Como nos conhecemos? — Abaixei o meu olhar e fiquei encarando nossas
mãos cruzadas. Não sabia por que estava permitindo que um desconhecido me tocasse daquela
forma. Talvez por causa da possibilidade de ele saber mais sobre mim do que eu mesma. —
Como terminamos? O que eu fazia da vida? Por que me chamou de Mikhayah?
— Ei... Calma, meu bem. — Andrew alisou uma mecha de cabelo vermelho que havia
escorrido para frente. — Uma coisa de cada vez. Nós nos conhecemos no bar onde você
trabalhava. Você era uma das garçonetes dançarinas do lugar. Era um ambiente meio...
sensual. — Ele sorriu. — Eu me apaixonei assim que te vi.
— Eu era uma... — Prendi a respiração, ficando imediatamente vermelha. Não dava para
acreditar que esperei tanto para saber que eu não passava de uma prostituta.
— Não. Não, você só dançava, não há por que se envergonhar.
— É tão complicado acreditar nisso. — Soprei todo o ar dos meus pulmões. Os
refrigerantes chegaram e paramos um pouco para nos refrescar. Andrew não tirava seus olhos
escuros intensos de mim, mas eu não me sentia acesa, louca e desesperada por um beijo como
acontecia quando o André me olhava. Tudo bem que acabávamos de nos conhecer, mas esperei
pelas borboletas no estômago e pelos choquinhos, que não surgiram. — É inacreditável.
— Imagino... Caramba, eu não acredito que você ficou no escuro durante tanto tempo!
Estou me odiando por causa disso, Mikah. Eu devia ter voltado mais cedo, devia ter insistido
um pouco mais nas tentativas de contato que fiz.
— Agora já era, tanto faz. Águas passadas não movem moinhos. — Dei de ombros, sem
saber porque citei aquele ditado estúpido. — Continue... Conte-me mais.
— Você ganhava muito pouco dançando no bar. Eu era apenas um jovem que lutava para
continuar estudando. Não tinha um tostão furado, não podia te tirar daquele lugar. Mas eu te
amava tanto que... — Andrew segurou minhas mãos com mais força. — Vai parecer estranho,
mas eu ainda te amo. Voltei por você e nem acredito que te achei tão depressa. Se isso não
significa que nosso destino é ficar juntos, não sei de mais nada.
Podia ter me comovido com aquela declaração, mas não aconteceu. Meu coração foi
invadido por uma sensação estranha, irreconhecível, pensei que fosse nojo, mas não chegava a
ser isso. Acho que a palavra que melhor descrevia aquela sensação era: indiferença. Nenhuma
parte de mim achava prudente dar liberdade àquele homem. Sequer tinha vontade de beijá-lo,
mesmo ele sendo realmente um gato. Minhas reações a ele eram neutras, frias, calculadas. Se
eu ainda permitia que me tocasse era apenas para que se sentisse confortável e continuasse me
revelando mais sobre minha vida passada.
— Para onde você foi? — perguntei, morrendo de vontade de retirar minhas mãos de
perto das dele. Lembrei-me do fato de apenas uma amiga do passado se lembrar da existência
dele. — Namorávamos escondidos?
— Mais ou menos. Eu estudava o dia todo e só podia te ver à noite, mas você madrugava
no bar. Eu ia te ver todas as noites e... — Andrew riu de um jeito gostoso. — Às vezes nos
pegávamos no banheiro. Bons tempos.
— Nos pegávamos do tipo... sexo? — Meu rosto inteiro esquentou. Sempre achei que eu
fosse virgem, pois nunca me vi atraída por ninguém. A ideia de me relacionar daquela forma
me parecia nojenta. Até conhecer o André, obviamente.
— Oh, sim. Bastante.
Finalmente afastei minhas mãos e apoiei minha cabeça nelas. De novo, senti vontade de
chorar, mas ainda precisava recolher informações sobre mim, não podia afastar o Andrew nem
tão cedo. Se bem que, pelo andar da carruagem, ele não ia mesmo se afastar.
— Recebi uma proposta de emprego no exterior — Andrew continuou a narrativa, graças
a Deus, mudando de assunto. — Não soube o que fazer... Não queria te deixar, mas, se eu
ficasse, continuaríamos sem condições. Fui egoísta, sei disso. Eu te magoei. Demorei demais a
voltar e depois eclodiu a Terceira Guerra Mundial. Fui convocado, não entrei em grandes
conflitos, mas dei minha parcela de contribuição. O fato é que durante muito tempo tentei te
esquecer, mas não consegui.
Seus sentimentos por mim simplesmente não me afetavam. Eu tentava buscar uma
conexão com tudo o que ele me dizia, mas nada fazia sentido. E tudo ia além da memória
afetada, meus próprios instintos não me deixavam engolir aquelas histórias. Ou será que meu
subconsciente não aceitava que meu passado pertencesse ao Andrew em vez de ao André?
— Onde estão os meus pais? A minha família? — Repentinamente pensei que eu talvez
não estivesse tão sozinha no mundo como sempre imaginara.
— Você é órfã, Mikah. Sinto muito — suas palavras soaram como um balde de água fria.
— Foi o que sempre me disseram, mas eu precisava confirmar, não é? Tudo bem, estou
acostumada a ser sozinha, de qualquer forma — suspirei.
— Não será mais. — Andrew procurou minhas mãos de novo e as encontrou. Tomou-as
para si. O calor de seu toque que, em outras circunstâncias poderiam me trazer conforto,
apenas fizeram com que me lembrasse do calor de André. — Nunca mais vai ficar sozinha. Eu
prometo. Pelo menos no que depender de mim. Juro que nunca mais vou embora, a menos que
você venha comigo.
— Andrew... Entenda que, neste momento, na minha cabeça, você é um cara
desconhecido que acabou de aparecer do nada, me convencendo que é alguém do meu passado
e que, mais do nada ainda, começou a dizer coisas sobre mim — falei de modo pausado para
que ele me compreendesse bem.
— Eu sei, entendo sua situação e não te julgo por isso. No seu lugar eu também estaria
na defensiva. — Ele prendeu o maxilar como sinal de chateação. — Mas você não pode me
afastar do nada também. Sei que isso tudo não é justo contigo, mas se simplesmente me isolar,
não será justo comigo. Por favor. — Eu estava confusa, mas suas palavras continham alguma
lógica. Suas expressões se modificaram e ele arregalou os olhos como se acabasse de ter uma
revelação. — Ah, você já é comprometida. Cheguei tarde. É isso?
— Não — bufei de modo monótono. Por que as pessoas sempre têm que achar que tudo
diz respeito à relacionamentos e sexo?
— Está solteira?
— É o que não estar comprometida significa. — Não pude evitar pensar no André.
Sentia que o estava traindo falando daquele jeito, mas a verdade nua e crua era que não estava.
Não tínhamos nada um com o outro, nunca tivemos, para ser sincera, e, depois da nossa última
conversa, ele deixou claro que nunca teríamos. A minha obsessão por ele não passava de
devaneios malucos, lembranças confusas e um desejo avassalador que me tirava o foco.
— Está ficando tarde — a voz dele se tornou um sussurro suave e melódico, quase uma
música. — Vamos fazer assim. Vou deixar contigo o meu telefone. Quando quiser, me ligue.
Quero o seu também, se for possível. Vamos conversando devagar, vamos... começar de novo,
do zero, sem pressão. É tudo o que eu te peço. Dê uma chance pra gente. O que você tem a
perder?
“O que eu tinha a perder? Realmente, nada!” — Uma tristeza insuportável me fez sacudir
a cabeça e os ombros, como quem diz que tanto faz. Não queria começar nada do zero com
aquele desconhecido, mas era a melhor opção que eu tinha. Talvez ele fizesse aquelas
estranhezas sumirem. Eu devia tê-lo amado no passado, não poderia ser tão difícil assim amá-
lo de novo. Andrew parecia ser um cara do bem. Não de um jeito chato e grudento como o
Sérgio, apesar de ser bastante protetor. Suas mãos em mim o tempo todo não me deixavam
negar.
O surgimento do Andrew, de uma forma ou de outra, me fez repensar as loucuras
vivenciadas com o André. Enquanto pegávamos um táxi juntos, depois de termos trocado
nossos telefones, não parei de pensar no doutor Cláudio. Meu destino talvez fosse me contentar
que eu não passava de uma louca doente, que o melhor para mim era continuar agindo como se
fosse normal, e pior, como se fosse feliz.
Cabisbaixa e amuada, saí do táxi depois que Andrew me impediu de pagar pela corrida.
Despedimo-nos brevemente, porém creio que ele não achou o suficiente, pois desceu do táxi e
o liberou. Parou diante de mim, na frente da portaria do meu prédio.
Não conseguia definir o que eu estava sentindo. Era um misto de vergonha, por ter feito
papel de idiota aquele tempo todo, e de tristeza, por saber que nada seria do jeito que eu queria
que fosse.
— Você devia ter ido embora — comentei com a voz baixa.
— Não podia te deixar assim. Parece arrasada. Sinto muito, Mikhayah.
Meus nervos congelaram. Aquele nome me espantava, mas saído da sua boca me
causava verdadeiro terror. A palavra e a língua dele pareciam não se misturar, como óleo e
água.
— Você ainda não me disse por que me chama assim.
— É o seu nome verdadeiro. Você foi deixada em um orfanato quando era bebê, e este
foi o nome que estava escrito em um pedaço de papel. — Andrew sorriu um pouco. — Mas
decidiram não te registrar com um nome tão esquisito. Se não me engano, vem do hebraico,
então escolheram Mikaela, que é um derivado. Pelo menos foi o que você me contou um dia.
Desde então, brinco de te chamar assim.
A explicação me soou mentirosa. Ou talvez eu tivesse mentido para ele na época. Aquele
nome precisava significar algo mais. Ele mexia com os meus nervos. Saber do meu passado
estava me decepcionando, por isso apenas forcei um breve sorriso e desejei boa-noite ao meu
mais novo pretendente.
— Podemos nos ver no fim de semana?
— Andrew...
— Sem pressão. Juro. Preciso saber um pouco mais sobre como se virou sozinha. Preciso
te contar o que aconteceu durante a minha viagem. São tantas coisas a serem ditas. — Andrew
estava empolgadíssimo. — Tenho três anos de relacionamento para narrar. A gente se divertia
tanto! Éramos felizes, sei que sim. Você era incrível... Tenho certeza de que nada mudou.
Continua linda. Perfeita... — Ele veio se aproximando devagar e segurou o meu rosto.
Seus lábios diminuíram a distância entre a gente.
— Andrew, não força a barra — murmurei sem me mover.
— Tudo bem. — Prendeu os lábios e se afastou. — Desculpa. Só estou emocionado e
muito feliz. Posso te pegar às sete no domingo?
— Pode. A gente se vê — respondi por responder, apenas para me ver livre dele logo.
Entrei no meu prédio, subi pelo elevador, abri a porta de minha casa e, distraída, segui
até a janela para dar uma última olhada nas estrelas. Assim, quem sabe, pudesse refletir melhor
sobre o que havia acabado de acontecer. Esgueirei-me até me sentar no parapeito, mas meu
olhar logo foi atraído para o Andrew, que ainda estava na calçada em frente ao prédio.
Ele falava no celular com alguém, parecendo chateado, até que um senhor se
aproximou e começaram a conversar. Tentei ouvir o que falavam, mas não dava. Prestando
mais atenção no velho que conversava com Andrew, cheguei à conclusão de que se parecia
demais com o doutor Cláudio. No entanto, não tive certeza. Um táxi se aproximou e parou
diante dos dois. Eles entraram no veículo e partiram, fazendo a rua voltar ao silêncio
costumeiro.
— O que estão fazendo com a gente? — murmurei baixo, desconfiada de tudo e de
todos. — O que andam tramando?
Fosse o que fosse, se é que realmente era alguma coisa — ainda tinha a chance de eu ser
esquizofrênica e estar paranoica, imaginando mil teorias da conspiração —, poderia descobrir
no domingo.
Andrew não ia me escapar.
Capítulo 15
André

Olhei assustado para a vítima cujo pescoço estava preso e apertado entre as minhas
mãos. Num reflexo, como que despertando de um sonho profundo, larguei-a de uma vez, sem a
menor delicadeza. Seu corpo inerte foi ao chão num baque surdo. Sacudi a cabeça, pois um
forte zumbido me dominava os ouvidos.
“Fred?”, uma voz falou dentro de minha cabeça, “Fred? Você está bem?”
— Fred! — gritei ao finalmente sair do transe em que me encontrava. — Desculpa, Fred!
Tentei medir os sinais vitais do meu amigo, mas não consegui encontrar sua pulsação.
Coloquei o ouvido próximo à sua boca e nariz.Não escutei o som da expiração. Eu suava frio e
tremia como se estivesse entrando em choque, mas Fred precisava de mim e eu precisava me
concentrar.
— Fred? — Dei-lhe tapinhas no rosto para tentar acordá-lo.
Seguindo meus instintos, e os programas médicos que sempre vemos na televisão,
comecei a fazer uma massagem cardíaca, intercalando com a respiração boca-a-boca. Não
tinha certeza se eu estava realizando o procedimento correto, mas aquilo era melhor do que
nada.
— Acorda, cara, acorda, por favor! —continuei aplicando as massagens.
Repentinamente, Fred começou a tossir e a babar. Após alguns segundos que mais
pareceram séculos, ele voltou a respirar ruidosamente. Encostei minha cabeça em seu peito,
percebendo que a batida do seu coração estava forte e audível. Suspirei aliviado. Meu amigo
tentou se levantar, mas eu o impedi.
— Calma, cara. Vai com calma, fica deitado. Você está bem, relaxa.
Corri até a cozinha e peguei um copo de água, que o ajudei a beber pausadamente. Fred
passou a respirar com mais calma.
— O que diabos foi isso? Está ficando louco? —meu amigo gritou assim que acabou de
virar o copo, erguendo-se depressa do sofá. — Estava querendo me matar?
— Fred, desculpa, cara...
— Desculpa? Estou cansado das suas desculpas! Ou você me dá uma boa explicação, ou
vou pegar o telefone e ligar para a polícia agora! — ele vociferou.
— Não sei o que aconteceu, não me lembro de nada. Não imagino porque eu estaria te
estrangulando.
Mais recomposto, porém com raiva e confusão estampada em seus olhos, Fred explicou:
— Cheguei a casa e você estava deitado no sofá, tremendo, como se estivesse em
convulsão. Ficava se debatendo, falando palavras desconexas... Imaginei que fosse algum
ataque epilético, tentei te segurar... Você abriu os olhos e tinha um brilho amarelo neles! Eu
me assustei!— Fiz uma expressão incrédula, mas só para não assustá-lo ainda mais. A verdade
era que eu não me surpreendia com mais nenhuma estranheza que acontecesse comigo. —
Quando tentei me afastar, você simplesmente se levantou e começou a me estrangular com
uma força que nunca imaginei que pudesse ter.
— Fred, eu... eu lamento muito — soltei um longo suspiro. Eu estava me tornando um
grande perigo a todos que ficavam ao meu redor.
— Estou cansado de suas esquisitices. Diga-me, agora, o que está acontecendo. Você me
deve isso, quase me matou, seu desgraçado! — Meu amigo se sentou na poltrona, tentando se
acalmar. Sinceramente não entendo como ele não saiu correndo e não ligou para a polícia.
— Acho que você merece mesmo uma explicação...
— Pode ter certeza de que sim!
Respirei fundo, tomei coragem e me sentei de frente para ele. Já havia guardado aqueles
segredos por tempo demais e precisava finalmente desabafar com alguém. Mais até do que
revelaria para a doutora Eva, mais do que falei com o doutor Cláudio. Relatei cada detalhe da
minha vida para um pasmo Fred, que me olhava com incredulidade. Passei um tempão
contando sobre o dia em que acordei sem memória na maca de um hospital até o que havia
acontecido na noite em que ele interrompeu minha discussão com Mikaela. Eu já havia falado
com ele sobre o fato de pertencer aos sete por cento, mas nunca tinha entrado em detalhes.
— Nunca poderia imaginar uma coisa dessas! — Fred estava meio atordoado, ainda
tentando assimilar o que havia acabado de descobrir.
— Você não imagina o inferno que está a minha vida. — Afundei no sofá e suspirei
fundo, tentando espantar o cansaço por tudo o que andava acontecendo.
— Penso como deve ser enfrentar todas essas barras sozinho. Você devia ter me contado
antes, André. O que você acha que está acontecendo?
— Não faço ideia, mas algo está muito errado comigo.
— E o Robson, você descobriu o que houve realmente?
— Não faço ideia — balancei a cabeça em negativa. Ultimamente não andava tendo
resposta alguma para as perguntas mais importantes.
— Precisamos descobrir isso. Se ele resolve abrir a boca algum dia...
— Espere aí, o que quer dizer com “precisamos”? — Inclinei meu corpo para frente a
fim de encará-lo de perto. — Você não tem nada a ver com isso, cara, jamais poderia esperar te
envolver em toda essa loucura.
— O fato é que eu já estou envolvido, não é mesmo?
— O que quer dizer?
— Sabendo de tudo o que sei, ou te entrego à polícia ou te ajudo a descobrir o que está
acontecendo — ele foi até a cozinha pegar mais água. Observei as marcas de minhas mãos em
seu pescoço.
— Ora, Fred... — Tentei impedir.
— Nem vem, cara. Eu vou te ajudar. Aliás, você me falou tudo, menos o que estava
acontecendo quando cheguei aqui mais cedo — o fato de quase ter morrido há apenas alguns
minutos não parecia incomodar nem um pouco o meu companheiro de apartamento. A
curiosidade parecia ser maior.
— Estava tendo mais um daqueles sonhos, memórias, alucinações ou visões, sei lá. Por
mais que pense a respeito, ainda não cheguei a nenhuma conclusão do que significam esses
insights — bufei desanimado.
As lembranças da minha última visão estavam acabando comigo. Não parava de martelar
cada detalhe, havia sido tudo muito real. Sorri, recordando-me das melhores partes, as quais
me faziam pirar de tanta alegria. Tudo aquilo não podia ser ilusão. Eu não queria que fosse.
Comecei a narrar ao Fred um resumo do que havia me feito estrangulá-lo sem querer:
“Eu estava em uma vila bem pequena e usava roupas simples de camponês. Havia
acabado de cortar muitas e muitas toras para fazer lenha. O clima estava bastante frio,
aparentemente o inverno estava chegando, mas o meu corpo quente não era atingido pelo ar
congelante que cortava a mata. A noite já descia sobre ela, os animais começavam a se entocar
para mais uma noite de sono. Os grilos e corujas davam o ar de sua graça, criando uma trilha
sonora meio sinistra.
Àquela hora, eu já devia estar me recolhendo, porém o serviço era excessivo e eu havia
recebido ordens de não parar até que todas as toras estivessem cortadas e guardadas em nosso
depósito. A neve começaria a cair a qualquer momento e não era seguro arriscar passar o duro
inverno sem lenha. Uma agitação se fez ouvir entre os arbustos da mata e percebi que os
animais estavam inquietos. Não dei atenção e continuei o meu serviço.
Em algum momento que eu não soube precisar, percebi que a floresta se encontrava no
mais absoluto silêncio. O único ruído era da minha respiração ofegante enquanto erguia as
peças e as carregava para o local adequado. Estranhei a quietude, mas minha preocupação em
terminar logo a tarefa fez com que não me importasse.
Repentinamente, ouvi um movimento rápido por entre as folhagens e me virei para olhar
o que estava acontecendo. Alguém saltou sobre mim, fazendo-me derrubar as madeiras que
carregava. Pedaços de lenha voaram e caíram para todos os lados. Algo pesado me acertou a
cabeça e minha visão ficou turva por um instante. A lua quase cheia iluminava o descampado,
e a lamparina que eu usava me ajudou a ver melhor o que estava diante de mim.
Injeções de adrenalina percorreram o meu corpo. Tentei me levantar, mas uma força
surpreendente não me permitiu. Meus olhos brilharam.Uma luz amarelada característica
emanou deles. Em resposta, dois pontos vermelhos se acenderam na minha direção.
Vislumbrei o rosto mais perfeito que jamais havia visto em toda a minha vida. Cabelos ruivos,
cor de fogo, e olhos vermelhos como rubis me encaravam de modo nada amistoso.
— Então, você é um deles? — A mulher que estava sobre mim afrouxou um pouco a
força em suas mãos.
— Um deles, quem? — indaguei, fingindo não entender do que ela estava falando.
A linda mulher sorriu.
— Certo, certo... O que está fazendo aqui a essa hora? — Jogou os cabelos para trás de
modo sedutor e riu como se a minha confusão fosse divertida para ela. — Não aprendeu que
precisa se recolher ao pôr do sol?
— Eu é que te pergunto o que está fazendo aqui. — Tentei me manter imune ao seu olhar
malicioso. — Não sabe que os da sua classe não são permitidos nestas redondezas? Por muito
menos já se morreu e já se matou. Saia de cima de mim!
— Um espécime nervosinho, quem diria? — ela falou com ironia, referindo-se à fama
dos homens de nossa vila de serem pouco tolerantes, por assim dizer.
A belíssima mulher saiu de cima de mim, colocou-se de pé e me estendeu a mão.
— Consigo me levantar sozinho! — Ergui-me em um salto e tentei limpar minhas
roupas, que haviam se sujado de terra e folhagem seca.
— Que orgulhoso! — zombou. Seus olhos ainda eram duas esferas escarlates apontadas
na minha direção, como se fossem atravessar a minha pele.
— Melhor tomar o caminho de onde veio, antes que te descubram aqui — recolhia a
lenha, mas sem tirar os olhos de minha visitante, um minuto sequer. Todo cuidado era pouco.
— Obrigue-me — ela gargalhou.
— O que quer? Certamente não está aqui por acaso. — Ainda continuava pegando
pedaços de madeira aqui e ali. Tentava me recompor e fingir naturalidade, mas meu coração
batia depressa e ela parecia saber disso muito bem. — Você se faz de desentendida, mas não
veio aqui sem saber onde estava e, certamente, sabia muito bem quem eu era quando me
atacou.
— Um rapaz esperto — murmurou. — Muito bem, você me pegou. Estou de olho em
você há algum tempo... Há alguns anos, na verdade, que venho te observando.
— Você só pode estar de brincadeira. — Apesar de todos os meus músculos terem
travado instantaneamente, criei forças para levar mais lenha até o local apropriado. Voltei com
cautela, pronto para atacar caso fosse preciso.
— Não acredita?
— Que interesse você teria em mim? Uma mulher vivida, certamente... — Dei de
ombros.
— Às vezes, quebrar as regras é o que torna tudo mais interessante. — Seu sorriso
malicioso voltou a brilhar sob o luar.
— Você sabe que, se me tocar, estará condenada a fugir eternamente, não é? — Falei de
modo nervoso, antecipando o possível ataque.
Ela se aproximou de mim com lentidão, como se estivesse flutuando. Cada passo seu
parecia fazer parte de uma dança ritmada extremamente erótica, que me deixou confuso e
vidrado em seus movimentos.
— Depende... — falou baixinho, com uma voz muito sensual.
— Depende do quê? — Senti um arrepio percorrendo minha coluna.
— Depende se você vai gostar do modo como eu vou te tocar.
A mulher avançou sobre mim antes que eu pudesse refletir sobre o que havia acabado de
dizer, ou sugerir, derrubando-me novamente no solo. Eu era particularmente forte, mas ela
parecia ter garras de aço. Como se estivesse lidando com uma criança, o que eu, comparado a
ela, era mesmo, a mulher mordeu meu pulso e começou a sugar o meu sangue.
Uma dor lancinante percorreu todo o meu braço, indo até o cérebro, me causando
grande confusão. Fiquei horrorizado, pois sempre imaginei que estivesse imune aos seus
ataques. Estava enganado. Ela não somente podia fazer aquilo como também, pelos seus olhos
revirando de prazer, achava o máximo.
Apesar da profunda dor inicial, conforme aquela estranha sugava, meu braço ficava
dormente, aliviando a sensação. Ela não demorou muito naquele ponto. Parou e voltou a me
encarar. Antes que eu pudesse protestar — se é que eu ia mesmo protestar, pois naquele
momento me vi incapaz de reagir —, voltou a me flagelar, dessa vez em meu pescoço. Senti-a
me sugar novamente, e o som de sua sucção vibrando próximo ao meu ouvido me
proporcionou um estranho prazer.
Logo, ela tornou a parar. Pelo visto, não estava em seus planos me matar, não daquela
forma. Eu já não sentia o meu corpo do pescoço para baixo, a dormência e o formigamento me
causavam uma esquisita sensação de tranquilidade. Apesar de tudo, eu não estava com medo.
Ela, então, me soltou, mas não consegui me mover. Não só pela dormência, mas também
porque não tinha o desejo de sair dali. Quando menos esperava, com seu corpo ainda sobre o
meu, a linda ruiva começou a me beijar de modo agressivo. Mordeu meus lábios e começou a
lamber o pequeno veio de sangue que se formou. E me beijou novamente. Não sei que espécie
de magia era aquela que me dominava, mas eu estava inebriado. Sempre fora alertado para não
me aproximar de indivíduos como ela, mas jamais poderia compreender totalmente o porquê se
não vivenciasse aquela experiência.
A mulher se afastou de novo, atenta às minhas reações. Creio que estava me testando. Os
sangramentos em meu pulso e pescoço estancaram. Somente o gosto de sangue e o sabor de
seu beijo permaneceram. Aos poucos, meus movimentos retornaram e consegui ter uma
sensação completa do que acontecia. Ela ainda me observava com atenção, tão séria como
nunca vi alguém ficar.
Quando imaginava que aquela experiência de outro mundo havia acabado, ela tornou a
investir sobre mim, arrancando as minhas roupas. Fiquei estático, sem saber direito o que
aconteceria. Ela ia mesmo ter coragem de fazer aquilo comigo? Pensei que fosse impossível.
Não podíamos nos misturar, era tão proibido quanto perigoso, e eu sequer sabia os reais
motivos.
A ruiva tentadora pareceu adivinhar meus pensamentos e sorriu diante da minha total
nudez. Lambeu os lábios, dando a entender que eu deveria prosseguir, que eu deveria jogar as
regras para os ares e viver o momento com intensidade.
Sequer recuei. Já me encontrava louco, com o juízo retirado do meu cérebro através dos
lábios dela. Minhas mãos puxaram seu vestido negro com força, de um modo quase selvagem.
Despi aquela desconhecida como se fosse a última coisa que eu precisava fazer na vida.
Vislumbrei sua nudez composta por uma pele fria, branca e leitosa, que contrastava com a
minha de um jeito impressionante. As curvas voluptuosas de seu corpo acabaram com as
últimas chances que eu tinha de ir embora daquele lugar. Foi a minha vez de beijá-la do meu
jeito, e ela permitiu cada toque como se fosse uma necessidade tão vital quanto o meu sangue
que circulava por suas veias.
No meio de uma natureza silenciosa, nos amamos de modo indescritível. Vivi
sensações nunca antes experimentadas em minha vida. Seu toque realmente havia despertado
em mim os mais profundos desejos, sentimentos que eu sequer sabia que existiam. Eu, que
ainda era considerado jovem demais pelos meus, era encarado como um homem por aquela
que me vitimou e seduziu. Apenas isso me despertava ainda mais prazer.
Eu não queria que aquele momento de entrega total acabasse nunca, e pelo visto ela
possuía o mesmo desejo. Permanecemos unidos como uma só carne durante toda a noite, que
reservava o sigilo da madrugada somente para nós.
Não fosse o fato do dia começar a clarear, talvez tivéssemos permanecido ali, dois
cúmplices de um sentimento forte e profundo. Quando o frio começou a se tornar calor —
mesmo que houvesse uma chama entre nós que não nos permitiu sentir frio nem por um
segundo —, ela me deu um beijo, se levantou, colocou seu vestido e me olhou maliciosamente
uma última vez.
— Preciso partir.
— Espere! — Ergui-me. — Você vai voltar?
— Se me quiser de volta... — Ela sabia como me provocar, mas seu jeito manso,
diferente de como tinha se comportado durante toda aquela madrugada, me deixou alerta.
Percebi que, no fim das contas, aquela mulher fatal aparentava ser apenas uma menina;
delicada, meiga, doce. Os olhos haviam se apagado, agora eram duas luzes cor de mel, tão
encantadoras quanto as escarlates.
— Claro que quero! — Não tive receio de parecer desesperado com a sua partida. Ela
não parecia feliz em ter que partir também, portanto me senti seguro. — Quando será?
— Você bem que gostaria de saber, não é? — Sua risada me encantou ainda mais.
— Não brinque assim comigo...
— Quem sabe, da próxima vez que resolver trabalhar até mais tarde?
— Diga-me ao menos o seu nome, antes de partir — supliquei.
— Mikhayah... — pronunciou sensualmente. Eu sabia que aquele nome incomum seria
enraizado nas profundezas do meu ser.
— Eu sou...
— Àndreas. Sim, eu sei. — Ela ajeitou a alça do vestido, jogou o cabelo de lado e
sumiu na escuridão da floresta sem que eu pudesse acompanhar seus passos.
Durante vários minutos, fiquei parado, olhando para o céu que começava a clarear,
tentando assimilar o que de fato havia acabado de acontecer. Olhei ao redor, ainda havia um
bom punhado de lenha para guardar. Se os mais velhos levantassem e vissem o trabalho por
fazer, certamente as coisas não ficariam muito bonitas para mim.
Vesti minhas roupas e comecei a ajuntar a lenha, mas meu corpo estava muito fraco, só
não sabia se era pela quantidade de sangue perdido ou pela noite intensa que tivera com
Mikhayah. Fosse por um ou pelo outro motivo, o fato é que fraqueza nenhuma conseguiria tirar
aquele sorriso do meu rosto. Eu ainda não sabia, mas, àquela altura, eu já estava
completamente apaixonado.”
Pisquei os olhos quando concluí minha narrativa, da qual havia excluído as partes mais
quentes propositalmente. Resolvi contar ao Fred porque, antes de qualquer coisa, precisava
externar aquela loucura toda para alguém que eu confiasse. Não aguentava mais esconder.
Omitir aquelas visões era o mesmo que admitir que jamais aconteceram, e eu estava cansado
de tentar acreditar que a minha mente só me contava mentiras.
— E o que houve depois? — Fred estava curioso, claro, com os olhos bem abertos de
ansiedade.
— Acordei esganando o meu companheiro de quarto — consegui dar uma gargalhada,
apesar da situação tensa, e Fred riu comigo.
— Essa parte, infelizmente, eu já conheço!
— Mais uma vez, me desculpe — falei com sinceridade.
— O que você acha que esse sonho significa? Não sou desses que acredita em
interpretação de sonhos e tudo mais, mas uma história tão louca precisa significar alguma
coisa. — Fred se ajeitou mais uma vez na poltrona, acomodando-se no encosto, pois havia se
projetado para frente e sentado na ponta enquanto ouvia meu relato.
— Aí é que está, Fred, estou me convencendo de que essas visões não são sonhos —
recolhi-me no sofá, imitando meu amigo.
— Acha que é alguma vida passada? — Até onde eu sei, Fred não acreditava muito
nessa história de vidas passadas, mas nessas horas tudo se torna uma possível explicação.
— Não faço ideia do que seja, mas tenho cada vez mais certeza de que Mikah e eu
estamos predestinados a ficar juntos. Creio que lutar contra isso seja o mesmo que querer dizer
que o sol não brilha no céu — filosofei.
— Nossa, que profundo! — Fred soltou um riso.
— Para com isso, mané! — Ri também.
— Desculpe, desculpe, sei que a parada é séria. O que planeja agora?
— Preciso encontrar a Mikah, ser honesto de uma vez com ela e lhe dizer o que sinto.
Cansei de ser cauteloso, estou sempre preocupado com o que pode acontecer com os outros e
sempre acabo ficando para trás. Se Mikaela não tem medo de tudo o que viu e ouviu, por que
eu deveria ter? Estou decidido, vou me entregar a esse amor. — Fred me olhou de um jeito
esquisito. — Sim, eu a amo, tenho certeza disso.
Incrível como um simples sonho havia despertado em mim uma certeza tão grande, e
me feito mudar totalmente de ideia. Podia parecer loucura, mas o meu peito doía pela Mikah de
uma forma real. Não podia ser imaginação. E eu estava cansado demais para lutar contra.
— E a Maristela? O que pretende fazer com ela? — Fred me recordou de uma parte
que não gostaria de lembrar que existia. Ainda precisaria acabar fosse lá o que eu tivesse com
a Maristela.
— Sim, tem ela. Iremos nos encontrar no domingo. Vou pedir desculpas, mas vou dizer
que não podemos mais nos encontrar, meu coração já tem uma dona. Creio que ela
compreenderá se eu for sincero.
— Claro, porque todas as mulheres são tão compreensivas quando são trocadas por
outras! — Ele gargalhou e eu o acompanhei.
— A Mari é diferente. Pelo menos foi essa sensação que tive dela – expliquei.
— Olha que essa gente rica não está acostumada a ser contrariada.
—Já disse, a Maristela é gente boa, ela vai entender.
— Se você diz... — Fred deu de ombros.
— Bom, oficialmente, você é a pessoa que mais sabe a meu respeito em toda a face da
Terra. O que deseja fazer agora? — interrompi o papo de amigo, pois precisava saber das
intenções de Fred.
— Ainda acho que precisamos de uma estratégia para abordar o Robson.
— Cara, você tem noção da loucura toda que acabei de te contar? Depois de tudo isso,
ainda quer andar comigo? Ainda pensa em me ajudar? — Eu gesticulava feito um louco. Se
estivesse no lugar dele, eu teria me colocado para fora do apartamento a pontapés.
— Mano, tudo que você me falou é uma loucura tão grande que só pode ser verdade, e
já que é verdade, eu não posso simplesmente te deixar na mão. Você não tem culpa de nada,
não escolheu ser parte dos sete por cento e não escolheu fazer essas paradas estranhas. Se
tenho medo? Claro que sim, mas eu teria que ser muito filho da mãe para não te ajudar numa
hora dessas.
— Obrigado mesmo, cara, não sei nem como agradecer — adiantei-me e dei dois
tapinhas no joelho dele.
— Eu sei... Para de sujar minha casa de sangue e de me esganar que está tudo certo —
brincou.
Rimos juntos e conversamos um pouco mais sobre alguns detalhes das coisas que
haviam acontecido. Eu que temi durante tanto tempo deixar que Fred soubesse o que realmente
estava acontecendo comigo, acabei me surpreendendo com a compreensão e apoio que tive por
parte dele. Talvez eu devesse parar de julgar as pessoas e dar a elas a oportunidade de mostrar
quem realmente são também.
A segunda-feira desabrochou e decidi que não havia mais o que fazer no consultório do
doutor Cláudio Alcântara. Nada que ele me dissesse poderia me dissuadir de ir atrás da
Mikaela. Além do mais, eu falaria com ele sobre a cirurgia e certamente seria desencorajado a
fazê-la. Se realizar aquele procedimento me daria chances de compreender o meu passado e de
ficar bem com a mulher que eu amava, nada iria me impedir de seguir em frente.
Precisava conversar com Mikaela, tinha que lhe contar sobre as minhas visões e sobre
os meus planos para nos manter juntos. Contudo, nos primeiros dias da semana, não consegui
ligar, pois sabia que ela deveria estar muito magoada comigo. Cheguei a passar em frente ao
seu apartamento algumas vezes, mas não ousei tocar o interfone. A vida prega muitas peças,
havia decidido enfrentar o mundo pelo meu amor, mas me faltava a coragem de entrar em
contato com ela.
Após o meio da semana, tentei ligar algumas vezes e o telefone só caía na caixa postal.
Voltei a circular pela vizinhança dela, mas as luzes do apartamento estavam sempre apagadas.
Resignei-me a trabalhar duro durante os dias, pois o meu supervisor havia me ligado cobrando
resultados. Realmente, desde que vira Mikaela pela primeira vez, eu não havia feito quase
nenhuma venda. Tentei convencê-lo de que andava doente, ele fingiu que acreditou e me
comprometi a correr atrás do prejuízo. Afinal, eu ainda precisava de dinheiro para viver e até
mesmo ir à Europa, caso a cirurgia realmente se tornasse viável.
Enquanto isso, Fred trabalhava na tentativa de fazer contato com Robson e descobrir o
que realmente havia acontecido no dia em que me acidentei de moto. O primeiro passo foi
descobrir junto ao RH da empresa o local para onde ele havia se transferido. Meu amigo
acabou descobrindo que ele estava morando em uma cidade vizinha. A estagiária do RH lhe
forneceu também o novo número de telefone do Robson, mas por mais que tentasse ligar, suas
chamadas sempre eram desviadas para a caixa de mensagens, provavelmente porque o sujeito
pensava que era eu quem estava tentando entrar em contato.
O comportamento de Robson era muito estranho, de qualquer forma. Se tudo o que me
lembrava havia acontecido de verdade, por que diabos ele não tinha me denunciado? Por que
não chamou a polícia? Por que não relatou nada ao gerente da empresa? Por que simplesmente
partir, de uma hora para a outra, aventurando-se em uma nova cidade, deixando tudo para trás?
Alguma coisa não estava se encaixando naquela história toda.
O domingo estava quase chegando e eu teria o encontro com a Maristela. Não tinha
cabeça para mais nada no momento, então pedi que Fred desse um tempo com o papo sobre o
Robson. Eu precisava me concentrar, decorar um discurso de rompimento, alguma coisa. Não
queria magoá-la, cheguei a pegar o telefone algumas vezes para ligar e desmarcar, mas não
seria correto tratá-la assim. Precisávamos de um encerramento, um papo aberto e decente. Não
poderia simplesmente desaparecer, deixando-a sem saber a verdade sobre o que eu sentia.
Após tantos insucessos, resolvi que seria melhor encerrar minha história com a Mari
para só depois contatar Mikah. Agradeci ao acaso por não ter me dado coragem e por depois
não ter me dado linha, pois se falasse com Mikaela e acontecesse de ela saber sobre o meu
encontro com Maristela, as coisas poderiam se complicar novamente.
Acordei cedo no domingo, pois a ansiedade não me permitiria dormir. Saí para dar uma
caminhada pela rua, esfriar a cabeça e fazer o tempo passar. Havia marcado com Maristela
num restaurante tranquilo da cidade, lugar onde os casais normalmente iam para ter uma boa
refeição e uma conversa tranquila. Após as dez da noite, o salão era preparado para que os
casais pudessem dançar agarradinhos, ao som da música ao vivo de uma banda local.
Combinei de pegá-la às sete e meia, e não pretendia me alongar no restaurante ao ponto de
chegarmos à parte da dança.
Enquanto caminhava, repassava mentalmente todo o discurso que havia preparado,
dizendo como ela era linda, perfeita e como havia me proporcionado ótimos momentos que eu
jamais esqueceria — mesmo que eu tivesse esquecido totalmente o primeiro momento, que
devia ter sido o melhor, mas essa parte ela não precisava saber.
Porém, era hora de darmos um ponto final em tudo aquilo, pois estava cansado de trair
meu coração e não era justo ficar com ela daquela maneira. Várias e várias vezes repeti o
discurso, adaptei, fiz melhorias, imaginei diferentes cenários de como poderia ser a reação dela
e de como eu reagiria. Poderia acontecer tudo, desde ela levar numa boa até eu levar um
bofetão bem dado.
Quando já eram cinco e meia, fui para casa a fim de começar a me arrumar, pois se iria
terminar com Maristela, pelo menos me arrumaria direito. Tomei um banho demorado, escolhi
uma roupa casual, mas da melhor marca que eu tinha, coloquei perfume e desodorante na
medida certa, fiz a barba, enfim, me preparei o melhor que pude. O nervosismo estava a mil.
Sete e meia em ponto eu estava em frente à sua casa, uma bela mansão na parte nobre
da cidade. Fiquei intimidado, mas logo relaxei, pois em breve meu relacionamento com ela não
passaria de amizade, na melhor das hipóteses. Toquei a campainha e fui atendido por um
funcionário, que me conduziu até uma saleta de espera e pediu para que eu me sentasse.
Aguardei poucos instantes até que ela aparecesse.
Maristela estava simplesmente divina; como se costuma dizer, ela estava vestida para
matar. Titubeei por alguns instantes. O garoto de doze anos dentro de mim, repleto de
paixonites e sentimentos confusos se manifestou por um instante, mas logo tratei de silenciá-
lo. A programação para aquela noite tinha apenas um objetivo e eu precisava me ater a ele.
— Você está simplesmente deslumbrante — falei assim que ela se aproximou.
Maristela sorriu e me deu um selinho. Tentei evitar, mas não consegui. Até iniciar a
nossa conversa, precisava agir como se tudo estivesse normal.
— Obrigada, cavalheiro, você também não está nada mal. — Ela sorriu.
— Vamos? — estendi o braço.
— Com certeza! — Maristela passou o braço pelo meu e me acompanhou até o carro.
Para minha sorte, a cidade era pequena e o restaurante não ficava tão longe assim, pois
não saberia o que conversar se o trajeto fosse longo o suficiente para o silêncio se tornar
estranho. Coloquei uma música suave, ela me perguntou sobre o meu dia e eu dei respostas
genéricas. Ficamos alguns instantes em silêncio. O celular dela tocou e eu falei que não tinha
problema se atendesse.
Assim que chegamos, dirigimo-nos até uma mesa que foi gentilmente apontada por um
garçom. Eu seguia como se fosse um animal caminhando para o matadouro. Minha tarefa
naquela noite não seria nada fácil, seria preciso muito sangue frio e coragem para dispensar
uma das pessoas mais ricas, influentes e lindas da cidade.
— Sabe, passei a semana inteira curiosa com uma coisa — ela começou a falar depois
que nos sentamos e pedimos nossas bebidas.
— E o que seria?
— O que foi que você viu no jornal que te despertou tanto interesse naquele dia? —
Jogou os cabelos de lado e fixou seu olhar em mim.
— Você sabe que já nem me lembro mais, acho que era alguma matéria relacionada a
esportes — menti. — Certamente foi algo sem importância.
— Entendo. Ansiei muito por este dia — ela segurou minhas mãos, como já era de
costume em nossos encontros.
— Eu também, você não imagina o quanto — retribuí o gesto afagando suas mãos
macias.
— Sinto que tem alguma coisa legal surgindo entre nós. — Ao ouvir essas palavras,
meu coração disparou e minha garganta deu um nó.
— Olha, o garçom está aqui, vamos pedir nossos pratos? — desconversei e soltei uma
das mãos para fazer um gesto para o garçom. — Pode pedir o que quiser, que sou eu que estou
pagando! — Sorri sem graça.
Em todos os ensaios que fizera, eu só me esquecera de decidir uma coisa. Qual o
melhor momento para soltar a bomba em cima dela? Assim que chegássemos? Enquanto
estivéssemos comendo? Ou após a refeição, para estarmos confortavelmente de estômago
cheio? Eu começava a suar frio e temia que Maristela reparasse no meu comportamento
estranho.
Sem comentar a última coisa que ela havia falado, comecei a puxar conversa sobre
trivialidades, evitando qualquer assunto que tratasse a respeito do nosso relacionamento. Volta
e meia ela tentava embarcar nessa conversa, mas eu despistava perguntando mais sobre sua
vida, sobre como se tornara dona do jornal, sobre a mudança de cidade, enfim, qualquer coisa,
menos aquilo. Decidi que o melhor momento para abordar um assunto tão delicado seria
durante a sobremesa.
A hora se arrastava, meu corpo estava diante de Maristela, mas minha mente estava
trancada em meu quarto, recordando todo o discurso de rompimento que havia decorado e
adaptado. Até aquele ponto, tudo estava indo bem, havia conseguido evitar a todo custo soltar
alguma informação que a levasse a conclusões precipitadas. Porém, antes que eu pudesse dizer
alguma coisa, minha acompanhante disparou:
— O que está acontecendo, André? Está com algum problema? Você parece estar tão
distante...
— Como? — voltei a mim, repentinamente.
— Exatamente! Estou falando contigo, mas você parece estar em outra dimensão.
— Olha, Mari... Não sei a melhor forma de dizer isso, então acho que devo ir direto ao
assunto.
— O que foi? — Ela arregalou os olhos e se aprumou na cadeira, como que
antecipando o assunto desagradável que se desenrolaria a seguir.
Quando ia começar a recitar a fala decorada, minha mente congelou e minha boca
travou. Passando pela porta do restaurante, reconheci inconfundíveis cabelos vermelhos.
Prestei mais atenção naquela mulher que, sim, era mesmo a Mikaela, estava entrando no
estabelecimento. Ao seu lado, um homem negro, alto, cabelos bem curtinhos, forte... Quase
como se fosse uma cópia de mim mesmo. O que diabos estava acontecendo? Ela estava me
trocando pelo primeiro cara parecido comigo?
— Querido... — a voz de Maristela interrompeu meus pensamentos.
— Sim?
— Você estava prestes a dizer algo — ela piscou algumas vezes.
— Sim, sim, bem... É que... — Olhei por cima do ombro da minha companheira e vi
Mikah e o tal sujeito se acomodarem numa mesa. — Eu... eu queria te falar algo, mas meio que
não sei como começar...
— Seja direto, como você disse que ia fazer há alguns instantes. — Como se fosse
simples assim.
Meu cérebro continuava dando tilt, simplesmente não conseguia juntar as palavras e
formar as frases que me levariam a dizer que tudo estava terminado entre nós, que aquele
relacionamento não iria acontecer de verdade.
Do outro lado do salão, meu rival sorria enquanto falava algo que eu não podia ouvir.
Ele, certamente, estava fazendo galanteios para a minha mulher. Quem aquele maldito sem
vergonha achava que era?
— Quem está aí atrás? — Maristela indagou.
— Como? — Votei à realidade mais uma vez.
— Para quem você está olhando?
— Ninguém, ninguém, estou vendo se consigo chamar o garçom — inventei.
— Não se preocupe com isso agora, podemos escolher as sobremesas daqui a pouco.
Fale logo o que você queria dizer, já estou ficando ansiosa. — Ela jogou os cabelos para trás e
me encarou com uma expressão séria. — Você está me deixando preocupada.
Por mais que tentasse, não conseguia desviar meus olhos das cenas que se
desenrolavam algumas mesas à frente. Eu não tinha a menor ideia do que estava falando ou
fazendo.
— Bom, o que eu queria dizer, era, era... — balbuciei.
O papo parecia estar cada vez mais animado na outra mesa.
— Fale logo, homem! Você está tendo algum derrame, é isso? — Maristela começou a
se irritar.
— Não, não... É que, na verdade... — Olhos fixos em Mikah, coração palpitante, mente
confusa, o suor escorrendo pela testa. — Eu te amo — a frase escapou sem que eu tivesse a
menor noção do que acontecia.
— Sério, querido? — A mulher à minha frente reagiu com um misto de confusão e
felicidade.
— Sério, o quê?
— Isso que você falou! — Ela ainda sorria.
— E...e o que foi mesmo que eu disse? — Eu estava ainda mais confuso.
A pergunta saiu no momento em que vi aquele maldito cara se aproximar de Mikaela, a
minha Mikaela, e lhe dar um beijo nos lábios. Minha mente explodiu, senti meu coração
despedaçar. Não sabia se meu peito rugia de ódio ou de dor. Que diabos ela estava pensando
para aceitar um beijo daquele sujeitinho?
— André? André? Quer me dizer o que está acontecendo? Está tudo bem? — Maristela
balançava as mãos em frente ao meu rosto. Eu apertava os olhos para as lágrimas não rolarem.
— O quê?
— O que houve? Você fala que me ama e depois parece que está tendo um troço?
— Eu? Te amo?
— Foi o que eu ouvi — ela demonstrava irritação.
— Desculpe, Mari, desculpe de verdade, eu não sei... Não sei o que está acontecendo
comigo, preciso ir ao banheiro, me desculpe.
Levantei-me e quase corri até o banheiro. As lágrimas começaram a rolar. Nunca havia
chorado daquela forma em minha vida, todas aquelas sensações, emoções, sentimentos. Era
tudo muito novo e confuso para mim.
Parei diante da pia, abri a torneira e joguei um pouco de água no rosto. Estava numa
tremedeira danada, acho que minha pressão aumentou ainda mais do que o normal. Dei um
soco na parede, sequer senti a dor, pois a que me apertava o peito era muito maior. Será que
aquilo era sofrer por amor? Tinha que ser, uma dor tão intensa, jamais experimentada e que me
tirava do ar.
Olhei no espelho, meus olhos aparentavam estar um pouco amarelados. Controlei as
lágrimas. Havia feito tudo errado. Tanta expectativa e ensaio para nada. Em nenhum dos
cenários que havia imaginado, Mikaela aparecia como uma variável, e aquilo fez toda a
diferença. Não só ela, mas um maldito aproveitador que estava tentando conquistá-la num
momento tão delicado. Eu precisava fazer alguma coisa, mas como, com Maristela lá fora?
Sem saber ao certo o que deveria fazer, mas consciente de que aquilo jamais poderia
ficar barato, enxuguei meu rosto com uma toalha de papel, respirei fundo e saí do banheiro.
Capítulo 16
Mikaela

A campainha tocou insistentemente na noite de quinta-feira. Eu estava amuada no canto


da sala, sem saber o que fazer ou para onde ir. Havia passado o dia inteiro me queimando nos
raios solares que cruzavam as janelas do apartamento, por isso todas elas se encontravam
fechadas e com lençóis as cobrindo.
Mais uma vez, tentei sair de casa e ir trabalhar, porém não consegui. Minha vida havia
acabado, exceto quando o sol ia embora e a noite chegava. Toda vez que tudo ficava escuro,
sentia que era o começo da minha existência. Na noite anterior, havia saído e passado a
madrugada inteira rondando pelas ruas, sem qualquer destino. Não queria repetir o feitio
esquisito, portanto me obriguei a ficar em casa imaginando o que seria de mim dali para frente.
Com certeza teria de encontrar um emprego noturno, talvez como garçonete dançarina em um
bar.
Abri a porta achando que encontraria o Andrew — ou o André, na melhor das hipóteses
—, mas me surpreendi quando olhos azuis cheios de compaixão me observaram de cima a
baixo. Meu estado devia estar um horror; despenteada, trajando uma camisola rasgada bem na
altura da barriga e com algumas manchas avermelhadas na pele, presente do excesso de
exposição ao sol.
— Meu Deus, princesa... — Sérgio invadiu o meu apartamento e ficou em dúvida sobre
se podia ou não me tocar, já que minha pele estava horrível. — O que aconteceu? O que foi
isso nos seus braços?
Abracei a mim mesma e me afastei como pude, mas Sérgio continuou tentando se
manter perto, olhando-me com pena e evidente preocupação. Nada respondi, por isso ele
desviou a atenção para o interior do apartamento. Eu havia jogado quase todos os móveis fora.
O lugar estava vazio, oco, tinha até eco. Sérgio correu até os armários da cozinha e nada
encontrou por lá. Fez a mesma coisa com a geladeira e tapou o nariz em repulsa quando
percebeu que só havia uma mancha grotesca de sangue bovino.
— O que está havendo aqui, Mikaela? Está magra, pálida, com marcas de
espancamento... Minha nossa, o que... Você precisa me dizer alguma coisa. — Ele fechou a
geladeira e me olhou com raiva. — Quem fez isso contigo? Foi aquele sujeito? Vou ligar para
a polícia agora!
Sérgio sacou o celular do bolso, mas eu o impedi em um pulo. Arranquei o aparelho de
suas mãos e o joguei para longe. A força que utilizei fez o objeto se espatifar em pedaços,
deixando Sérgio estupefato. Aproveitando minha aproximação súbita, ele me agarrou pela
cintura e afundou o rosto no meu cabelo. Eu sairia de seus braços facilmente, mas apenas abri
o maior berreiro. Solucei como uma criança e, vencida, envolvi meus braços ao redor do
pescoço dele.
— Calma, princesa... Calma... Não chore, estou aqui. Tudo vai ficar bem, você vai ver
— Sérgio começou a sussurrar no meu ouvido. Por um instante, senti-me segura, mesmo ciente
de que ele nada podia fazer para reverter a minha situação. — Vou te proteger daquele
troglodita.
— Ele não fez nada, Sérgio... — menti, porque na verdade o André tinha feito muitas
coisas comigo, entre elas despedaçar meu coração e me abandonar no momento em que mais
precisei dele. — É só... — Enxuguei as lágrimas, agradecendo por terem saído normais dos
meus olhos, e me afastei. — Estou doente. Com uma reação alérgica muito forte. Não tenho
como ir trabalhar.
— Estou tentando aliviar a sua barra lá no supermercado, mas está cada vez mais
difícil. — Sérgio puxou um dos meus braços para analisar. — Alergia a quê, exatamente,
princesa?
— Ao sol — murmurei.
— Ao sol? Nunca ouvi falar de alguma coisa do tipo. Que estranho!
— É uma alergia rara. Eu não vou mais poder voltar ao supermercado, Sérgio, não
precisa me defender. Na verdade, quero que me ajude a pedir minhas contas — falei entre
soluços.
— Espera, princesa, se você está doente, então é só levar um atestado médico. Eles não
podem te demitir assim. — O pobre coitado continuava tentando me ajudar.
— Não tenho atestado. — Devagar, fiz com que suas mãos se afastassem da minha
pele.
— Como não? O dermatologista não te deu?
— Esqueci de pegar — olhei para o chão, mentindo na maior cara de pau. Não me
importei por estar dando uma de anta acéfala, só queria poder me explicar menos.
— Ligue para ele amanhã, peça para que separe um atestado. Eu mesmo irei pegar
pessoalmente. Você tem o meu telefone, não é? — Procurou por alguma coisa nos bolsos. —
Eita! Meu celular... — Sérgio caminhou até os destroços do aparelho. Não haveria mais jeito
de recuperá-lo. Pensei que meu colega de trabalho fosse ficar zangado, mas apenas retirou o
chip e o cartão de memória e os guardou no bolso, jogando o restante na lixeira da cozinha. —
Amanhã eu te ligo logo cedo. Tudo bem?
Aquiesci, pois estava sem saco de rebater. Eu não o atenderia e pronto, depois daria um
jeito de me explicar mais uma vez. Se bem que a minha vontade era de sumir daquela cidade,
deixando tudo para trás sem explicações. Podia alugar um apartamento bem longe dali, mas me
faltava grana e me sobrava alergia ao sol.
— Princesa... Por favor, me diz que você tem se alimentado direito. — Chacoalhei os
ombros, deixando claro que comer era a última coisa sobre o que eu pensava. — Foi o que
imaginei. Sua cozinha está vazia. Mikaela, você não pode ficar assim, sem cuidados.
— Estou bem. Vou me cuidar.
— Não, não está. Estou te olhando neste exato momento, você não está bem. — Sérgio
demonstrava desespero a cada palavra proferida. — Vamos sair daqui... Eu te levo à minha
casa. Prometo cuidar da sua saúde. Vou te deixar confortável, bem alimentada, eu juro. Deixe-
me cuidar de você, por favor.
— Você... — sussurrei, com os olhos marejados. Nunca alguém havia se preocupado
tanto comigo. — Você é muito gentil, mas não. Estou bem aqui, na minha casa. Não quero e
nem vou te incomodar.
— Não me incomodaria, princesa. Por favor. Deixe de ser cabeça dura ao menos uma
vez na vida. — Ele tinha uma sinceridade tão profunda na voz que me comoveu ainda mais,
mas eu precisava permanecer firme.
— Eu sou assim, não vou mudar. Se não gosta, então saia da minha frente. — Não sei
por que eu nunca conseguia ser simpática com uma pessoa por muito tempo. A frieza, a
grosseria, a impaciência e o tédio sempre me atingiam cedo ou tarde. — Aliás, o que veio fazer
aqui?
— Estava preocupado. Você não atende às minhas ligações, não aparece no trabalho...
Recebeu as flores?
— Sim. Obrigada. — Lembrei-me de como a lata de lixo havia ficado bem decorada
com a presença do buquê. Sem querer, sorri, e o Sérgio achou que eu estava sorrindo por que
tinha gostado delas.
— Venha comigo a algum restaurante ou alguma lanchonete... Sei lá. Você precisa
comer. Aposto que está faminta.
Prendi os lábios e o encarei fixamente. Podia sentir o calor que emanava do seu corpo.
Com um pouco mais de concentração, podia até mesmo ouvir seu coração batendo em um
ritmo acelerado. Tum, Tum, Tum, Tum... Sem parar. O ruído gostoso me deixou paralisada de
imediato.
— Na verdade, estou sedenta — grunhi baixo.
Sérgio conferiu os dois garrafões de água que jaziam no canto do chão da cozinha.
Estavam vazios. Pegou um copo em cima de um aparato e abriu a torneira mesmo, servindo-
me daquela água não muito confiável. Tomei tudo, pois era melhor ingerir aquilo do que o
sangue do meu colega, como era o meu real desejo. Por mais que ele pudesse ser irritante, era a
pessoa que mais se importava comigo no mundo inteiro. Eu não podia ser tão ingrata assim.
— Obrigada. — Devolvi-lhe o copo. Ele o colocou em cima da pia. — Já me sinto
melhor. Não precisa se preocupar comigo, Sérgio, juro que pedi comida delivery hoje e
belisquei um pouquinho. Estou satisfeita.
— Tem certeza? — Sua sobrancelha foi erguida devagar.
— Absoluta. Foi muita bondade sua vir me visitar, mas... — Forcei um bocejo,
espreguiçando-me. — Estou meio sonolenta. É efeito do remédio da alergia. Se não se importa,
eu gostaria de ir dormir agora.
— Tudo bem. Vou te deixar em paz, mas não se esqueça de ligar para o médico
amanhã e depois para mim. — Sérgio se aproximou mais uma vez e colocou uma mecha do
meu cabelo para trás. Beijou o topo da minha testa com carinho. — Se cuide, por favor. Eu me
importo contigo de um jeito que você nem imagina.
Pensei em perguntar de que jeito ele se importava, mas temi sua resposta. Em vez
disso, ofereci-lhe um sorriso meio forçado e caminhei até a porta a fim de me livrar dele
depressa. Sérgio passou por mim e, não satisfeito com o que já tinha feito, segurou o meu
queixo e me deu um beijo suave, breve. Nossos lábios mal se desencostaram direito e ele já
descia as escadas do meu prédio sem olhar para trás.
Não parei para entender sua atitude, nem mesmo a minha. Ainda pude ouvir seus
batimentos acelerados durante alguns segundos, até que finalmente sumiram. Expirei fundo,
apoiando-me na porta. A vontade de sugar o sangue dele era avassaladora, mas eu podia me
controlar. Fechei os olhos e tentei imaginar como seria a minha vida depois que todos aqueles
sintomas me consumissem. Se eles não passassem, jamais conseguiria levar a vida normal que
levei nos últimos dez anos — não que eu tivesse gostado dela em algum momento, mas até
mesmo aquela vida estúpida parecia melhor do que enfrentar as maluquices que vinha
enfrentando ultimamente. Nunca gostei de praia, mas como me fazia falta não poder sair no
sol... Daria tudo por uma areia e mar.
Depois de uma longa noite, passada nos cantos do apartamento escuro, adormeci
quando o sol nasceu. Não liguei para o médico, afinal, ele nem existia, e muito menos para o
Sérgio. Achei que ele tivesse desistido de mim, pois não voltou a me procurar nem na sexta-
feira e nem no sábado. Foi no domingo de manhã que me surpreendi com o ruído chato do
interfone. O porteiro pedia autorização para enviar uma entrega grande. Não sabia do que se
tratava, por isso fiquei pasma quando três entregadores, trajados com o uniforme de um
mercado online, apareceram com uma feira completa que daria para uns dois meses. Nem
precisei abrir o cartão que acompanhou a entrega, sabia que tinha sido coisa do Sérgio.
Eu havia passado dias sem comer absolutamente nada, mas não me sentia com fome.
Mesmo assim, tomei alguns iogurtes, mastiguei uns queijos e abri uma garrafa de vinho.
Estava muito cedo, mas quem se importava? Tomei o conteúdo através do gargalo e voltei a
adormecer na minha cama, com o corpo mais relaxado. Saber que estava de manhã, mesmo
que dentro do meu apartamento sempre fosse noite, me incomodava. Dormir era a minha
melhor opção nas horas de sol.
Na noite de domingo, acordei já disposta a tirar a limpo os meus assuntos com o
Andrew. Estava nervosa, sem saber direito como lhe fazer perguntas sem levantar suspeitas,
mas me arrumei como se estivesse prestes a me encontrar com um antigo namorado —
segundo ele, era isso mesmo. Coloquei um vestido roxo apertado, sandálias com saltos e,
depois de muitos dias de desleixo, penteei os meus cabelos.
O tempo que o Andrew demorou a chegar foi o suficiente para que eu elaborasse um
plano. Precisava fingir que estava caindo na ladainha dele. Se a conspiração toda realmente
existisse, o certo era me manter sempre atenta e fazer o oponente jurar que eu não desconfiava
de nada. Meu lado atriz estava mais do que acostumado a mentir, a fingir estar tudo bem, por
isso não fiquei nervosa quando ouvi buzinadas insistentes na rua e conferi pela janela: Andrew
havia chegado e dirigia um conversível preto muito luxuoso, com a capota aberta.
Desci pelo elevador e ele já me esperava na calçada. Sorriu quando me viu e tomou
minha mão para me ajudar a entrar no veículo. Soltei um assobio, tentando ignorar o cheiro
bom do perfume dele mesclado com a essência saborosa de seu sangue circulando rápido
demais pelas suas veias. Sentei confortavelmente no banco de couro e esperei que ele
circulasse o carro para entrar no lado do motorista.
— Bela máquina! — falei quando ele cruzou a primeira esquina. — Você faz o que da
vida mesmo?
Andrew riu e demorou um pouco a responder. Imaginei que estivesse pensando melhor
na mentira que me contaria. Eu, claro, já estava pronta para fingir que havia acreditado nela.
— Sou cardiologista.
Fiz uma careta. Sério que aquela resposta havia sido a melhor em que ele pensou?
Daquele jeito, seria difícil até de fingir que eu acreditei. Será que o Andrew estava me
testando? Minha única saída foi duvidar, porém de um jeito mais natural e divertido.
— Não brinca! Não sabia que cardiologistas podiam comprar um carro como este!
— Não se você não tiver estudado durante anos no exterior e não fizer inúmeras
pesquisas sobre cirurgias de risco. Minha equipe é pioneira em vários procedimentos no
mundo todo, estamos trazendo muitas novidades para o país. — Andrew riu
despretensiosamente quando percebeu o meu queixo caído. Já não conseguia mais identificar
onde começavam as mentiras ou as verdades no que ele dizia. — Por falar em equipe,
encontrei com um grande amigo psiquiatra na sua rua depois que você subiu. Uma
coincidência enorme! Ele mora no mesmo condomínio em que estou hospedado. Pegamos o
mesmo táxi.
Comecei a estalar os dedos das mãos nervosamente. Fiquei calada porque, mais uma
vez, meu comportamento neurótico se mostrava em evidência. Andrew não estava participando
de um ato conspiratório, do contrário, jamais me falaria sobre seu encontro na frente do meu
prédio. Sabia que não me viram observá-los lá de cima, pois acompanhei cada um de seus
passos. Ou seja, eu estava mesmo ficando louca e tudo fazia parte da maldita esquizofrenia.
Suspirei e afundei no banco. Andrew dirigia muito rápido, fazendo meus cabelos
ricochetearem e acertarem em cheio o meu batom vermelho. Mesmo assim, não achei tão ruim.
O vento estava particularmente agradável e eu podia aproveitá-lo para fazer os meus
pensamentos perturbados irem embora junto com ele.
— Você está bem, Mikah?
— Estou.
— Como foi a sua semana?
— Boa. — As mentiras saíam mecanicamente da minha boca. — E a sua?
— Bem cansativa, mas proveitosa. Desculpa não ter marcado esse encontro antes, eu
tenho mais plantões do que gostaria. Pensei em você o tempo todo. — Como não falei nada,
Andrew decidiu perguntar: — No que você trabalha?
— Vai ser vergonhoso te responder.
— É sério? Ainda é garçonete? — Ele parou em um sinal vermelho e me olhou com
desgosto. Seu olhar chateado me lembrou muito o André, tanto que soltei todo o ar dos meus
pulmões antes de lhe responder.
— Não. Sou representante comercial de uma marca de biscoitos em um supermercado
popular. É entediante.
— Ufa... — Andrew suspirou de alívio e me tocou o queixo, exatamente do mesmo
modo como o Sérgio tinha me tocado. — Que bom, Mikah. Não há por que ter vergonha disso.
É um emprego muito digno.
— Não é como se eu salvasse vidas fazendo cirurgias em corações.
— Ah, mas você tem o poder de salvar alguns corações. — Em uma atitude ousada
demais, ele repousou sua mão grande sobre o meu joelho. — O meu principalmente. Não
poderia salvar coração algum se não fosse você, Mikhayah. Foi por sua causa que eu quis ser
alguém melhor.
Afastei minhas pernas para longe da mão dele. Andrew percebeu meu ato e voltou a
segurar o volante. Não demonstrou chateação, porém permanecemos em um silêncio
constrangedor que durou até estacionarmos diante de um restaurante bonito. O lugar era bem
interessante. Não parecia ser muito caro, mas era acolhedor. Andrew me disse que, em certo
momento, uma banda começaria a tocar e poderíamos dançar um pouco. Eu não estava muito
animada para isso, mas entrei no lugar fingindo me sentir ótima com a minha companhia.
Andrew escolheu uma mesa exposta demais. Sempre gostei de me sentar pelos cantos
de qualquer estabelecimento, mas não pude recuar porque ele fez a gentileza de afastar a
cadeira para que eu pudesse me sentar. Logo em seguida, decidiu se sentar na cadeira bem ao
meu lado, fazendo o favor de deixar que eu sentisse seu cheiro o tempo todo.
Pedimos nossas bebidas e passamos alguns segundos nos encarando. Eu só tentava
compreender como alguém podia ser tão parecido com o André. Era coincidência demais.
Difícil até de acreditar que não havia nada errado com ele.
— Desculpa pelo que eu te falei no carro. Não quero forçar a barra, mas toda vez que
eu te olho... Não sei explicar. Você não faz ideia do quanto sonhei com isso durante todo esse
tempo. — Começou a brincar com os meus cabelos, usando as pontas dos dedos. — Só o fato
de poder te ver de novo já é um grande acontecimento.
Fiquei muda. Ainda não confiava totalmente nele. Havia uma pulga irritante atrás da
minha orelha, mas eu estava ficando tão maluca, meus sintomas se intensificando mexiam com
os meus nervos o tempo todo, por isso decidi ser sincera pela primeira vez desde que o vi.
— Eu me sinto estranha. Queria poder me lembrar de alguma coisa... — Parei, afinal,
eu me lembrava, sim, de alguma coisa. Só que essa coisa não envolvia o Andrew em nenhum
momento. — Queria que a minha vida fizesse mais sentido.
Andrew segurou minhas mãos de um jeito protetor. Começou a rir do nada, fazendo
uma careta nostálgica que, segundo meus amplos conhecimentos de atriz, não parecia ser falsa.
O coração dele batia em um ritmo maravilhoso e constante, suas mãos não suavam, suas
pupilas não dilataram. Bem que tentei encontrar algum sinal de mentira em seus gestos, mas
não conseguia achar e isso me perturbava.
— Você me disse algo assim anos atrás. Estávamos andando de bicicleta, passando por
algumas cidades... Era um ótimo dia de folga. Você ia tão rápido, gritava e ria e erguia as mãos
como se estivesse numa montanha-russa... Estava se divertindo tanto e sendo tão imprudente
que eu quase morria a cada curva louca que você fazia. — Rimos um pouco. Não sabia direito
por que eu tinha rido, acho que porque, pela primeira vez, me reconheci no que o Andrew
falava sobre mim. Ser imprudente tinha muito a ver comigo. — Perguntei por que você estava
se comportando como uma maluca, e você me disse que era daquele modo que a sua vida fazia
mais sentido.
— Não me lembro de nada, que droga! — falei, rindo de uma maneira desconsertada.
Andrew riu também, não percebendo o meu nervosismo. — Eu era uma maluca?
— Com certeza. Não tenha dúvida disso. — Ele segurou a lateral do meu rosto. —
Nunca me diverti tanto com uma pessoa, ou fui tão inconsequente. Jamais vivi momentos tão
intensos, loucos, perturbadores. Essa foi a minha vida contigo: totalmente sem nexo.
Meu coração congelou tanto pela sua sinceridade quanto pelos olhos escuros fixos na
minha boca. A decepção total pelo que eu era se transformou em um raio pequeno de orgulho.
Finalmente alguém falava sobre o meu passado usando palavras que eu queria ouvir.
— Não vejo como tanta loucura pudesse ter sido uma coisa boa para você — respondi
sorrindo, sem conseguir me mexer. Eu queria que ele parasse de me tocar daquela forma, mas
me vi incapaz de recuar. — Você parece ser bem centrado, nada inconsequente.
— Exatamente, Mikhayah. Sou centrado, certinho, correto. Você era o meu oposto e eu
te amava tanto, ficava atraído como um imã. — Andrew suspirou muito perto do meu rosto.
Senti seu coração sofrer uma variação brusca. Lambi meus lábios, controlando uma sede
intensa que me acometeu. Queria poder sentir sua veia pulsando sob a minha boca. — Eu me
sinto exatamente da mesma forma. Nada mudou.
Andrew diminuiu a distância entre nossos rostos em um segundo. Seus lábios
naturalmente grossos investiram suavemente contra os meus. Foi um beijo diferente, suave e
doce demais para o meu gosto. Causou-me uma sensação de estranhamento gigantesca, mas
não recuei porque seu coração acelerava a cada instante e eu não pude deixar de acompanhar
aquelas batidas intensas. Depositei uma mão sobre o seu peito, concentrando-me no sobe e
desce dos movimentos cardíacos, e comecei a beijá-lo da minha maneira; criando um jogo
maluco de línguas que era difícil de compreender.
Uma dor lancinante tomou conta da minha boca e da minha cabeça, então recuei e
afundei meu rosto no pescoço dele. Distribuí beijos em sua pele negra enquanto ele agarrava
meus cabelos, permitindo minhas carícias esquisitas. Passei minha língua ao longo de seu
pescoço e ouvi um suspiro perpassando sua boca, que estava parada perto do meu ouvido.
— Não faça isso... — ele murmurou, mas era tarde demais para que pudesse me
controlar.
Abri a minha boca, pronta para me saciar, e... alguma coisa se chocou contra a nossa
mesa. Afastei-me depressa do Andrew, soltando um grito. Meu companheiro se levantou da
mesa de repente. Demorei a entender que o André estava diante de nós, com as duas mãos
cerradas contra a mesa e me olhando de um jeito feroz.
— O que pensa que está fazendo? — a pergunta, que foi quase um rosnado, havia sido
direcionada a mim, mas o Andrew tomou a iniciativa de lhe responder. Achei que eu fosse
cuspir o meu coração.
— Ei, cara, saia daqui! —Andrew empurrou o André pelo ombro. Ele mal se mexeu,
continuou me encarando enfurecidamente.
— É isso mesmo que eu estou vendo, Mikaela, está me trocando pelo primeiro cara
parecido comigo?
Precisei de um segundo aterrador para controlar o impulso de me atirar nos braços dele
e pedir socorro, desculpas, sei lá, pedir qualquer coisa para que ele me tirasse daquele lugar e
me beijasse até amanhecer. Lembrei-me de todo o mal que havia me causado e pronto, foi o
bastante para que eu permanecesse imóvel, com os lábios presos e uma expressão indiferente
digna do Oscar.
— Saia daqui, André. — Cruzei os braços diante de mim e o olhei com forçada
naturalidade, ciente de que o meu coração já não me pertencia com a sua proximidade. Minha
vontade era de montar um barraco ali mesmo, mas não desceria do salto só porque o André
havia aparecido do nada para me impedir de matar aquela maldita sede.
— Eu não vou sair daqui até que me explique que merda é essa que está acontecendo!
— Ele falou alto, chamando ainda mais a atenção de todo o restaurante. Os garçons nos
olhavam, mas visivelmente tinham medo de intervir, ainda mais com dois caras de dois metros
se enfrentando.
Andrew deu outro empurrão no André. Ele deu um passo para trás, mas voltou a se
equilibrar na mesa para me intimidar. Ignorava totalmente a presença do meu acompanhante.
— Você é cego, por acaso? — instiguei, ciente de que meus olhos ainda pegavam fogo
por causa da mistura que a sede fazia junto com a raiva. — Acha mesmo que é o único homem
no mundo?
André soltou um rosnado e seus olhos escuros finalmente se acenderam, tornando-se
amarelados. Levantei depressa, odiando minha posição aparentemente inferior a ele, e também
me apoiei na mesa para encará-lo. Nossos rostos ficaram a centímetros um do outro. Quase
morri ao tê-lo tão perto. Como não consegui sentir seu cheiro antes? Era de longe o aroma
mais forte e irresistível que pairava a quilômetros.
Eu ia fazer alguma coisa, beijá-lo, talvez, mas uma voz entediante se fez presente.
André foi afastado devagar de perto de mim.
— Querido, o que houve? O que está acontecendo aqui? — A mesma lambisgoia que
estava com o André no supermercado dias atrás teve a força que o Andrew não teve de fazê-lo
se afastar, e olha que ela mal encostou nele.
Olhei melhor para ela; uma mulher bonita, bem vestida e com cara de rica, depois para
o André. Sorri ao entender tudo. Eles estavam juntos. Talvez ocupando uma das mesas do
restaurante.
Bem que eu estava achando ótimo causar ciúmes no André, mas as mesmas doses
dolorosas de ciúmes invadiram o meu coração e me deixaram ainda mais indignada. Meus
olhos queimavam tanto que eram capazes de explodir, dava para sentir. A vagabunda me olhou
com surpresa — certamente temendo o meu olhar cruel —, colocando uma mão na boca e se
escondendo um pouco atrás do André. Ele continuou me olhando, ainda decepcionado.
Coloquei um dedo em riste, sentindo lágrimas se formando em meus olhos.
— Você é patético — grunhi. Vi as mesmas lágrimas invadindo os olhos amarelos dele,
mas elas caíram antes que eu desse liberdade às minhas. — Nunca me arrependi tanto de amar
alguém quanto me arrependo de amar você.
— Mikhayah — ele falou com a voz dolorosa, chorando sem pudor.
Minha cabeça rodopiou instantaneamente. André não parecia estar no meio de um
ataque como da última vez que me chamou daquilo. Olhei ao redor, surpresa ao nível máximo,
e vi o Andrew nos olhando com uma expressão indecifrável. Tudo era tão confuso, estranho,
maluco, sem sentido, que dei alguns passos para trás, temendo a minha própria existência.
Como podia ser possível que o André conhecesse aquele nome sem que ninguém tivesse lhe
dito?
Voltei a me recordar das tantas visões que tive, sugerindo uma vida passada em que
estávamos juntos, nos amando. Como acreditar que ele não fazia parte da minha vida, de
alguma forma? Como justificar aquele amor que havia nascido do nada, sem que eu ou ele
fizéssemos qualquer esforço, sem que ao menos fizéssemos por merecê-lo? Sobretudo, como
não olhar o André e não sentir vontade de resolver aquela situação chata imediatamente, com
direito a distribuição de culpa e perdão?
Se tudo o que vivi com ele era verdade — por Deus, precisava ser verdade, eu só tinha
me esquecido disso por alguns instantes —, o Andrew continuava sendo uma grande farsa. Seu
olhar contrariado foi o bastante para que sua máscara caísse diante de mim. Contudo, eu
precisava ser mais rápida e inteligente. Se o mundo não queria que André e eu ficássemos
juntos, então eu tinha que dar o que ele queria. Ou, pelo menos, fazê-lo acreditar nisso.
— Não ouse me chamar assim, Àndreas... — murmurei de um jeito trêmulo, criando
uma força dentro de mim que eu nem sabia que existia. — Não quero te ver de novo, nunca
mais. Acabou. Sabe todas as lembranças? Esqueça-as. — Eu não fazia ideia se o André tinha
as mesmas lembranças que eu, mas, se tivesse, em algum momento ele ia perceber que eu
estava fingindo. Aquele era o meu modo de gritar por socorro e avisá-lo que, sim, eu me
lembrava de muita coisa e que não ia desistir tão fácil da força que nos unia. — Esqueça cada
toque, cada beijo, cada palavra, cada noite que passamos juntos... Esqueça tudo porque é a
melhor coisa que você vai fazer por nós.
— Do que essa mulher está falando, querido? — a vadia perguntou, assustada,
agarrando-se ao ombro dele. André a ignorou completamente. Continuou me olhando, dessa
vez com ar desesperado e sofrido, que só fez se intensificar com minhas últimas palavras.
— Estou falando sobre ele parar de querer repetir o passado — respondi e dei mais
passos para trás. — Se for para repetir, que seja o momento do adeus.
André circulou a mesa para se aproximar, tinha as mãos erguidas na minha direção. Dei
mais passos para trás, distanciando-me.
— Não! Não, Mikah, não. Por favor, não.
— Adeus.
Girei os calcanhares e corri o mais depressa que pude, reparando mais uma vez nos
clientes do bar que nos observavam o tempo todo com curiosidade. Atravessei ruas e avenidas
como um foguete, perdendo-me na escuridão da noite, misturando-me às sombras. Alguma
coisa muito forte me dizia que não era a primeira vez que eu fazia aquilo. Meu corpo parecia
saber muito bem a melhor forma de me esconder de tudo e de todos.
Capítulo 17
André

— Querido? Querido? — A voz de Maristela parecia vir de outra dimensão. Meus


ouvidos zuniam e eu não conseguia escutar nada direito. — O que está acontecendo, afinal? —
Ela mantinha a compostura, como pessoa fina e importante que era.
Eu não sabia o que fazer. Vi Mikaela se afastando e saindo pela porta do restaurante.
Meu primeiro impulso foi o de correr e segui-la, mas então Maristela segurou o meu braço,
insistindo em saber o que se passava. Olhei para a minha acompanhante e mais uma vez para a
porta, por onde aquele sujeito que estava com a minha Mikah também já saía.
— Desculpa, Maristela, eu sinto muito mesmo. Você não merecia passar por nada disso.
— Por alguma razão em sentia enorme desejo de chorar, só não sabia se era por estar
magoando a Maristela ou por estar perdendo a Mikaela.
— Sobre o que está falando? Ainda agora estava tudo bem, você dizia que me amava e
tudo mais!—sua expressão se tornou ainda mais confusa.
—Por favor, vamos conversar lá fora, as pessoas estão todas nos olhando. Você não tem
que passar por essa vergonha, é desnecessário.
Puxei uma confusa Maristela pela mão e a levei até uma varandinha que existia na
entrada do restaurante. Muito assustado, um garçom nos acompanhou, achando que
partiríamos sem pagar a conta. Mari quis pegar sua bolsa, mas não permiti. Abri minha
carteira, retirei o cartão e lhe disse que cobrasse também o que o outro casal havia consumido.
Toda aquela confusão era minha culpa, não era justo que o estabelecimento arcasse com os
prejuízos.
— André, você está me deixando preocupada— Maristela ainda me olhava de um jeito
assustado. Fiquei surpreso com sua inocência e bondade. Não tinha ficado óbvio demais o que
havia acontecido? Por um instante duvidei se poderia haver pessoa tão ingênua e de bom
coração como ela. Alguém tão diferente da Mikah.— Quem eram aquelas pessoas? O que
aconteceu ali dentro?
— Mari, eu sinto muito, de verdade. — Encarei-a com uma expressão sofrida, sem
encontrar coragem para lhe dizer o que tanto precisava.
A verdade era que eu estava tão abalado que só pensava na Mikaela e no seu adeus
proferido de forma tão intensa. Aquela única palavra foi capaz de me fazer desmoronar.
Definitivamente, era a que eu mais temia que saísse de sua boca, e eu só tinha descoberto
aquilo quando, enfim, saiu.
— Você está me assustando — Maristela insistiu.
— Você merecia que as coisas acontecessem de modo muito mais digno, mas a verdade
é que estou apaixonado por outra pessoa. Desculpa, sei que é uma frase meio clichê, mas não
tem nada de errado com você, o problema é comigo mesmo, eu juro. Seria maravilhoso se eu
pudesse sentir por você o que sinto por ela — desabafei de uma vez.
Maristela não deu um soco na minha cara, como imaginei que faria.
— Tem alguma coisa errada nessa história toda. Há menos de vinte minutos você dizia
me amar... — a confusão em seu rosto chegava a dar pena e a classe que mantinha mesmo
diante de tudo o que ouvia era digna de premiação.
— Eu falei aquilo sem querer. Não que eu não goste de você, pois eu gosto... Mas eu
estava tentando me enganar e, no processo, estava te enganando também. Hoje, vim aqui com
o único objetivo de ser verdadeiro contigo. Nosso relacionamento precisa terminar. Será
melhor para todos. Podemos continuar sendo amigos, se você quiser. Era isso que eu tinha
para lhe dizer, na verdade — uma enorme sensação de alívio dominou meu peito. Dizer
aquelas palavras não fora fácil, mas agora podia me sentir bem melhor.
Contudo, minha paz interior durou apenas alguns segundos, até eu ver a reação dela.
Seus olhos se encheram de lágrimas, as quais ela enxugava com as pontas dos dedos, tentando
manter a maquiagem e a dignidade intactas. Eu não podia fazer nada além de ser sincero, havia
errado com ela e, infelizmente, não tinha como evitar seu sofrimento. Aquilo estava me
matando.
— André... Você não imagina como suas palavras me machucam — as lágrimas se
intensificaram e começaram a rolar de modo contido. — Pensei que estivéssemos nos
entendendo, eu realmente imaginei...
— E estávamos, mas não posso ficar com alguém tendo outra na minha cabeça. Você me
compreende? — interrompi suas palavras que em nada ajudaram a aliviar a situação.
Antes que ela pudesse dizer algo mais, o garçom voltou com a máquina. Digitei a senha
e a operação foi aprovada. Tão logo quanto possível, tirei Maristela daquele lugar. Fomos para
o carro em silêncio. Abri a porta, ela entrou e se sentou. Dei a volta calmamente, entrei no
veículo sem acreditar na minha falta de sorte, liguei o motor e partimos. Eu simplesmente não
sabia o que dizer além do que já tinha dito. Um silêncio constrangedor se instalou no meio de
nós por alguns minutos.
— Vou te deixar em casa — informei seriamente, quebrando o silêncio.
— André, por favor, por tudo que você mais preza nessa vida, não faça isso comigo! —
As lágrimas dela começaram a descer copiosamente. Toda a compostura que Maristela havia
mantido no local público, se desfazia diante de mim. Meu coração apertou, eu não podia
ignorar a dureza do momento. A culpa era toda minha.
— Mari...
— Por favor, por favor, eu estou te pedindo, me dá uma chance, eu vou te fazer esquecer
aquela doida, por favor, André! Ela não te merece, você é muito melhor do que ela, será que
não percebe? — Ela soluçava enquanto me implorava por uma chance, sem qualquer
dignidade.
Fiquei espantado. Não esperava que Maristela se comportasse daquela maneira. Em
nenhum dos cenários que bolei em minha mente, imaginei lágrimas e súplicas daquela
magnitude. Não estava preparado para tal reação. Sabia que ela gostava de mim, mas não tanto
a ponto de implorar para que eu não a largasse.
— Não faça isso, Maristela, não se humilhe por minha causa. Eu não valho a pena,
ninguém vale tanto a pena. Além disso, torna as coisas ainda mais difíceis, pois eu realmente
sinto um enorme carinho por você. — Prendi minhas mãos no volante com força, não queria
arrasá-la, mas não queria falar nada errado que pudesse causar falsas esperanças.
— Você não entende! Uma pessoa na minha posição, com o meu poder... Simplesmente
não é fácil encontrar um amor verdadeiro, sem interesses... —Ela deu uma pausa significativa,
mas, entre soluços, logo continuou: — A quem estou querendo enganar? Não é só por isso...

— O que é, então? —olhei-a de soslaio.


— Não ficou óbvio para você? — Maristela me encarou com os olhos chorosos.
— Desculpa, não sou muito bom nessa coisa de relacionamentos — arquejei,
compreendendo o quanto havia sido ameno. Levando em conta tudo o que tinha acontecido, eu
realmente era péssimo com relacionamentos.
— Sei que é cedo, mas eu verdadeiramente te amo. Quando você disse que me amava, lá
no restaurante, por alguns instantes a ilusão de estar sendo correspondida me fez a mulher mais
feliz do mundo. No entanto, fui do céu ao inferno em menos de dois minutos!
Meu coração doeu, literalmente. Ver aquela mulher ali, abrindo sua alma e falando sobre
um sentimento profundo — que eu também era capaz de sentir, mesmo não sendo por ela —,
mexeu comigo. Nossa dor era a mesma: a do adeus. Porém, nada me desviaria da minha
Mikah. Não permitiria que ninguém me afastasse dela. Do mesmo modo que Maristela parecia
disposta e despir-se de todo orgulho, medos e honra por mim, eu estava disposto a fazer pela
minha amada. Aquele adeus não podia ser de verdade, não podia ser mesmo para sempre.
Jamais me conformaria com aquilo.
— Sinto muito, não há mais nada que eu possa dizer ou fazer — as palavras soaram
muito frias, até mesmo para mim.
— Você tem certeza disso? — Evitei olhar para minha companhia, com medo de não
resistir aos seus olhos suplicantes.
— Lamento. — Inspirei fundo enquanto mantinha os olhos na pista.
— Não vou desistir assim tão fácil. Eu vou lutar por você, André—Maristela parou de
chorar e falou de modo quase obcecado.
Sua sentença não me assustou. Mulheres como ela não estavam acostumadas a perder
alguma coisa. No entanto, nada me importava. Ela podia tentar à vontade, jamais conseguiria
tirar o amor que eu sentia pela Mikaela de dentro do meu peito. Tive devaneios suficientes
para ter certeza de que nunca deixaria de amá-la, nem se eu quisesse.
— Chegamos. — Parei em frente ao portão de sua casa, desci e abri a porta para que ela
saísse também. Maristela me olhou com profunda tristeza, abraçou-me com força e me deu um
beijo no rosto.
— Não precisamos nos tornar estranhos. Continuaremos amigos — falei sem emoção.
— Eu não vou desistir! — Maristela abriu um sorriso e correu para os portões de sua
residência.
Apesar de toda a dificuldade do momento, senti meu coração novamente mais leve por,
finalmente, ter encerrado aquela etapa. Era um problema a menos. Precisava agora encontrar
Mikaela, que já devia ter sido convencida por aquele sujeito a ficar com ele. Só de pensar
naquilo, todos os músculos do meu corpo se contraíram de raiva. O tempo gasto com Maristela
podia custar caro para os meus planos, mas fiz o que achei mais digno. Não podia deixá-la
sozinha naquele restaurante.
Entrei no carro e, enquanto me dirigia ao apartamento de Mikah— local para onde eu
sabia que em algum momento teria que ir —, comecei a refletir sobre as coisas que ela havia
dito antes de sair correndo pela porta do restaurante. O que quis dizer com esquecer cada
toque, cada beijo, cada palavra, cada noite que passamos juntos? Os toques, beijos e palavras
até faziam algum sentido, mas em relação às noites que passamos juntos, algo ali não se
encaixava. Até então, jamais havíamos tido nada além de alguns beijos ocasionais. De que
lembranças Mikah estaria falando?
Minha mente estava confusa demais para lidar com tudo aquilo, eram muitas
informações para serem filtradas e ainda contava com um coração aflito que não parava de
doer, além de me impedir de raciocinar com clareza. Talvez ela só tivesse falado as coisas sem
pensar, tenha se confundido ou apenas não passasse de uma força de expressão.
Prestei atenção no caminho enquanto me dirigia ao seu apartamento, pois era capaz de
causar algum acidente se não parasse de remoer o ocorrido. Peguei meu celular e tentei ligar
infinitas vezes, mas, em todas as tentativas, a chamada caiu na caixa postal. Meu desespero só
aumentava.
Finalmente cheguei em frente ao apartamento, mas as luzes estavam apagadas. Para onde
Mikah teria ido com aquele maldito cara? Minha mente entrou em espiral. Eu estava
enlouquecido, não podia deixar que alguém a roubasse de mim. Sim, porque ela era minha, não
sabia como, nem por que, mas pertencíamos um ao outro muito antes de tudo começar, há
apenas algumas semanas. Resolvi esperar um pouco mais. A hora passava e nada dela
aparecer. A ansiedade aumentava a cada segundo.
Cansado de esperar pelo seu retorno, comecei a rodar de carro pelas ruas e praças
próximas. Podia ser que eu os encontrasse conversando em algum lugar. Não podia dar tempo
de as coisas se acalmarem, do sangue esfriar e de eles ficarem numa boa. Só de imaginar os
dois se beijando, ou se encostando apenas, meu coração já acelerava e algum tipo de monstro
interior rugia dentro de mim.
Minha cabeça começou a doer bastante em algum momento. Senti meu corpo queimar
como se estivesse pegando fogo. Todos os meus ossos pareciam querer rasgar a pele e sair,
sensação que já tivera antes. Meus olhos começaram a queimar, meus dedos das mãos se
enrijeceram. O que diabos estava acontecendo comigo?
Parei o carro com medo de me acidentar, ou pior, machucar alguém. Estava numa rua
próxima ao restaurante onde toda a confusão havia começado. Foi quando o vi.
Instantaneamente, as dores deixaram de ser meu foco principal. O maldito sujeito que estava
com Mikaela caminhava apressadamente, e sozinho, por uma calçada. Não sei o que havia
acontecido e por que Mikah não estava com ele, mas seria a chance perfeita de tirar tudo a
limpo longe do olhar reprovador da minha amada. Seria uma conversinha de homem para
homem.
Bati a porta do carro de modo a fazer barulho e chamar a atenção dele. Já passava da
meia-noite, então o ruído ecoou, atingindo meu objetivo. Ele me olhou surpreso, mas não
temeroso. Andei com certa dificuldade, pois meus ossos continuavam querendo se separar dos
músculos.
— Olha, cara, não sei qual é o seu problema, mas não estou querendo confusão, ok? —
ele tratou de dizer ao ver que eu me aproximava.
— Não quer confusão? Sai com a mulher dos outros e vem com esse papo de que não
está querendo armar confusão? A confusão já está armada, meu camarada! — grunhi.
— Mikaela não me falou nada sobre um namorado. Sou completamente inocente nessa
história. Você não vai querer ter problemas comigo, cara. Estou de boa, vamos deixar que as
coisas continuem desse jeito — o imbecil continuava com uma postura defensiva, certamente
estava morrendo de medo.
— Acho bom você se afastar dela! — rugi. A dor aumentava e a minha raiva também.
— Ou você vai fazer o quê? — Ele pareceu perder a paciência e assumiu uma postura
desafiadora. Olhou ao redor, como se procurasse por alguma coisa, parecia bastante
preocupado com algo que não era a nossa briga.
— Ou vou acabar com a tua raça!—apontei o indicador em sua direção.
— Muitos já tentaram, nenhum conseguiu. — Ele sorriu ironicamente.
— Então, é hoje que você vai perder a sua invencibilidade — ironizei de volta.
Um grunhido surgiu em meu peito e irrompeu pela minha garganta, ecoando pela noite
fria. Raiva e força descomunais se apoderaram de mim e me atirei para cima do imbecil que
me desafiava e mantinha um sorriso irritante no rosto. Enrolamo-nos e caímos no chão. Eu
fiquei por cima, com a guarda passada como um lutador de jiu-jítsu, e ele protegeu seu rosto
com as mãos. Naquele instante, senti que podia matá-lo e o faria sem nenhum peso na
consciência.
Apliquei potentes golpes, que eram amortecidos por sua defesa, embora alguns
chegassem a atingir o seu rosto. Ele tentou me acertar, mas me esquivei com habilidade.
Soquei incontáveis vezes, minha ira me impedia de ficar cansado. A adrenalina estava a mil.
Enquanto o agredia, encarei-me por um instante na vidraçaria espelhada de uma das lojas e me
assustei com o tom amarelado e ameaçador em meus olhos. Aquela distração me custou toda a
vantagem que tinha e fui duramente golpeado.
Rolando por cima de mim, meu oponente conseguiu me colocar de costas no chão e
devolveu os duros socos que eu lhe havia aplicado. Seus olhos, intensamente escuros, pareciam
refletir as luzes azuis da vitrine, e sua ira era perceptível. Tentei me desvencilhar, mas ele
possuía uma força tão sobre-humana quanto a minha.
— Eu... falei... que... não... queria... brigar... contigo!— ele dizia enquanto intercalava
potentes socos em todo o meu corpo.
A dor, que já era quase insuportável, tornou-se ainda pior com a sequência de golpes
que sofri. Empurrei-o e finalmente consegui me afastar, saindo de baixo de seu corpo pesado.
Com certeza eu o havia subestimado. Aquele cara era do meu tamanho, aliás, era muito igual a
mim, mas havia confiado na força descomunal que sentia em meus braços no momento em que
estacionei. Não podia contar que, de algum modo, aquele sujeito tinha tanta força também.
Enquanto nos digladiávamos, algumas pessoas passaram e fugiram com medo. Outros
ameaçaram chamar a polícia, mas, àquela hora, quando chegassem, tudo já teria terminado há
muito tempo. Afastamo-nos por alguns instantes, para recuperarmos o fôlego. Estudei meu
adversário, que parecia não ter nenhum ponto fraco. Ele avançou com um grito e eu recuei,
desviei-me de seu ataque, mas ele girou e retornou, atingindo-me com uma cotovelada
giratória bem no meio do meu rosto...
Acordei com a luz do sol me incomodando os olhos. Dei um salto assustado e bati com
a cabeça no teto do carro. Olhei ao redor, sem saber onde estava até me dar conta de que
permanecia dentro do meu próprio veículo. Aquele maldito havia me apagado de vez e me
colocado, literalmente, para dormir. Passei os dedos embaixo do nariz e senti o sangue
coagulado, grudado em meu rosto.
Envergonhado e desnorteado, olhei na ignição e constatei que a chave não estava lá.
Procurei entre os bancos, embaixo dos tapetes e nada. Tive a ideia de apalpar minhas pernas
para sentir o interior dos bolsos e finalmente a encontrei. Dei partida no motor e olhei em volta
para ver se alguém me observava. A rua estava deserta, devia ser ainda muito cedo. Peguei
meu celular e vi algumas mensagens além de chamadas perdidas; todas do Fred. O relógio do
aparelho indicava que ainda faltavam cinco minutos para as seis da manhã. Precisava ir para
casa me limpar e dizer a ele que estava tudo bem.
No caminho, tentei ligar para Mikaela algumas vezes, sem sucesso. Fiquei me
perguntando se todo aquele drama não acabaria nunca. Sacudi a cabeça e suspirei longamente.
Aquilo tudo já estava me deixando cansado, mas eu não podia desistir. Liguei o rádio para me
distrair um pouco e pisei fundo no acelerador. Por ser ainda muito cedo, as ruas estavam
vazias, então não tardei a chegar ao meu prédio.
Assim que abri a porta do apartamento, Fred correu ao meu encontro. Aparentemente,
ele havia passado um bom tempo sentado, me esperando. Achei engraçada a sua atitude, pois
ele nunca havia feito aquilo antes, aliás, não me recordava de alguém jamais ter esperado por
mim.
— Está tudo bem, cara? — ele tratou de perguntar assim que encostei a porta. — Esse
sangue no seu rosto...
— Relaxa, dessa vez o sangue é meu mesmo. Eu me meti numa confusão e me dei mal
— sorri.
— Que doideira, meu amigo! Passei a noite inteira te esperando, ansioso. Liguei várias
vezes, mas você não atendeu.
— Digamos que eu estava fora da área de cobertura. O que aconteceu?
— Sem essa, primeiro você vai me contar o que aconteceu, porque eu estou muito
curioso com essa sua cara amassada aí! — ele riu, apontando para o meu rosto dolorido.
Contei detalhadamente tudo o que havia acontecido desde o momento que havia saído
de casa. Ele ficou bastante impressionado com a história sobre o cara negro que mais parecia o
meu reflexo.
— Você acha que ele pode ser seu parente? Um irmão gêmeo?
— Não faço a mínima ideia, mas ele não deu nenhuma demonstração de que pudesse
ter um irmão perdido. Ou se for o caso, pelo visto não nos dávamos nada bem. —
Gargalhamos juntos.
— Seria ele outro dos sete por cento?
— Impossível dizer...— Fui até a cozinha pegar um copo de água. — Agora me conta,
o que de tão importante você tinha para me dizer, que ficou acordado todo esse tempo?
— É sobre o Robson, cara.
— O que tem ele? — Parei com o copo a meio caminho da minha boca. O nervosismo
voltou com força.
— Consegui fazer contato com o desgraçado — Fred estava triunfante.
— E aí? O que rolou? — Sentei-me e aguardei as notícias enquanto virava o líquido
gelado de uma só vez.
— Ele ficou meio desconfiado, muito arredio...
— Bom, o cara sabe que moramos juntos. Qual foi a desculpa que você deu para entrar
em contato?
— Disse que tinha entrado uns clientes dele na minha pasta e que queria umas dicas de
como lidar com determinado cliente que é meio difícil. Foi o melhor que consegui pensar.
—Não foi uma desculpa tão ruim, na verdade. Ele engoliu? — Servi-me de mais água,
não satisfeito apenas com o primeiro copo.
— Ele não se interessou pelo meu problema, mas no fim me passou uns bizus. — Fred
deu uma risada irônica.
— Onde ele está, afinal? — voltei a me sentar.
Fred me olhou de um jeito esquisito.
— Você não acha melhor dar uma lavada nisso aí? — Ele passou a mão embaixo do
próprio nariz. — É que está meio nojento de ver.
— Tudo bem, vou tomar um banho e descansar. Depois podemos conversar
novamente. Mais uma vez, muito obrigado por tudo. — Sorri amistosamente, e Fred me
devolveu o sorriso. — Nunca pensei que um dia teria alguém para chamar de melhor amigo,
mas se não fosse você, não sei quem poderia ser.
— Não se preocupe, está tudo bem.
Fred me deu um aperto de mão e um tapinha nas costas. Enquanto me dirigia para o
banheiro, tentei ligar novamente para Mikaela, mas o telefone só ia direto para a caixa postal.
Ao contrário do que costumava fazer, coloquei o chuveiro na posição verão, para que a água
saísse morna e meus músculos pudessem relaxar. Eu nunca tinha sido surrado daquela forma
antes, meu corpo todo doía bastante.
Eu precisava encontrar Mikah. Tudo que tinha planejado acabara terrivelmente errado.
Ela, certamente, saiu do restaurante pensando que eu estava em um encontro romântico com
Maristela. Precisava encontrá-la e explicar tudo o que havia acontecido. Além disso, eu
também precisava ouvir boas explicações dela sobre o babaca que estava em sua companhia e
sobre as frases desconexas que me falou antes de partir.
Eu não estava, necessariamente, com sono, pois passara a maior parte da noite,
literalmente, desmaiado, mas meu corpo doído ainda assim me pedia cama. Resolvi que era o
que faria. Com certeza trabalhar não seria uma boa para aquele dia. Enquanto vestia uma roupa
confortável, meu celular tocou. Corri e me atirei sobre a cama, onde o aparelho estava, ansioso
por ver o nome de Mikaela no visor.
Número restrito. Achei estranho, mas atendi com euforia do mesmo jeito.
— Alô, quem fala?
— Este é o telefone do senhor André Fernandes? — indagou a voz que me soou
familiar.
— Sim, quem gostaria?
— Bom dia, André. Aqui é o doutor Cláudio Alcântara, o psicólogo.
— Sim, sei quem é o senhor. Em que posso ajudá-lo? — a frustração por não ser Mikah
do outro lado da linha soou evidente em minha voz.
— Estou entrando em contato porque o senhor faltou às nossas consultas nas duas
últimas semanas.
— Sim, eu estou ciente — soei um pouco debochado.
— Gostaria de verificar se está tudo bem com o senhor, se gostaria de agendar alguma
sessão para esta semana...
— Doutor Cláudio, muito obrigado pela sua preocupação, mas estou muito bem,
obrigado. Não pretendo continuar com a terapia. — Fui direto ao assunto.
— É minha obrigação adverti-lo de que a ausência de tratamento pode resultar em
episódios nada positivos. O senhor tem certeza de sua decisão? Se quiser, podemos marcar
uma sessão ainda hoje. O senhor pode me contar sobre os últimos acontecimentos e...
— Acontecimentos? — eu o interrompi. Um alerta soou dentro de mim, indicando
perigo. — Que acontecimentos são esses, doutor? Do que o senhor está sabendo?
— Não estou sabendo de nada — desconversou —, mas, por nossa conversa inicial,
imagino que situações novas tenham surgido. O quadro, no caso de pacientes como o senhor,
tende a ser progressivo.
— Pacientes como eu? O que o senhor quer dizer com isso, doutor? — Eu estava
bastante desconfiado e tentava pegá-lo em suas próprias palavras.
Ele fez alguns instantes de silêncio.
— Bom, falo a respeito dos sete por cento, o que mais poderia ser? — O doutor
pigarreou e sua voz soou um pouco desconcertada.
— Confie em mim, doutor Cláudio, eu estou ótimo. Desculpa, mas preciso desligar,
tudo bem?
— Tudo bem, mas se precisar, estou à disposição.
— Não vou precisar, muito obrigado e tenha um bom dia — desliguei sem sequer
esperar pela resposta do médico.
Realmente, eu estava precisando dormir. Tudo estava acontecendo de modo tão louco
que eu mesmo custava a arrumar qualquer explicação. Nunca tinha ouvido falar de psicólogos
ligando para os pacientes que desistiam de seus tratamentos. Que interesse ele teria em tentar
manter contato comigo? Tudo começava a parecer uma grande conspiração, eu já não tinha
certeza de mais nada.
Deitei e encarei o celular por alguns instantes. Resolvi abrir minhas redes sociais. Curti
e comentei algumas postagens, observei algumas fotos e respondi à alguns recados deixados no
aplicativo de mensagens instantâneas. Dei uma navegada na internet para me inteirar sobre as
últimas notícias. Não encontrei nenhum relato sobre minha discussão no restaurante, nem
minha briga na rua. Estava tudo bem. A única coisa estranha que li em alguns comentários, foi
sobre um poste que caiu inexplicavelmente numa rua da cidade. Olhei o endereço e não tinha
nada a ver com o local onde havia discutido com aquele sujeito, então não podia estar
relacionado. Como não conseguia me controlar, tentei ligar mais uma vez para a mulher por
quem descobrira estar imensamente apaixonado. Caixa postal mais uma vez.
Assim se passou a minha semana. Com muito trabalho para recuperar o tempo perdido
e estudos a respeito da cirurgia, a qual eu já estava decidido a me submeter. E também com
constantes tentativas de ligação e visitas periódicas ao apartamento de Mikaela, que continuava
sempre fechado, escuro e sem resposta pelo interfone. Havia perdido a minha mulher de vista,
no sentido mais amplo da expressão.
Capítulo 18
Mikaela

Esgueirei-me entre o muro alto de uma casa de esquina e uma espécie de caçamba, onde
os moradores jogavam seus lixos. O odor era insuportável, porém não mais que acompanhar o
cheiro do André se distanciando e o cheiro do Andrew chegando cada vez mais perto. Eu só
queria que fosse o contrário. Minhas narinas mais pareciam radares naquela noite fresca e
dolorida, funcionando quase como um GPS.
Não queria voltar para casa, não antes do amanhecer. Meu desejo era apenas vagar sem
rumo por aí, mas eu estava sendo seguida como se o mesmo radar invisível fizesse parte do
cara que quase me convencera de que eu era apenas uma pessoa normal. Tudo era tão maluco
que eu simplesmente escolhi não pensar demais; de certa forma, concentrar-me na fuga fazia
os últimos acontecimentos doerem menos.
Entrei em algumas ruas, saí de outras, pulei muros, circulei praças, tentei me livrar
como podia. Não sabia até que ponto, mas o Andrew podia ser muito perigoso. Pelo menos os
meus instintos só me mandavam fugir, e eu os obedecia. Ouvi passos decididos vindo de longe.
Controlei minha respiração para não ser pega. Andrew tinha finalmente me alcançado,
atravessando toda a lógica e me fazendo ter certeza de que ele não era nada do que tinha me
contado.
Sabendo que não adiantaria me esconder, porém orgulhosa demais para ser pega
vergonhosamente, escalei um contêiner com os pés descalços, visto que meus saltos tinham
parado em algum lugar desconhecido do trajeto que fiz até ali. Permaneci agachada no topo do
contêiner, sendo ajudada pela escuridão da noite para me manter invisível. Visualizei Andrew
passando com calma e, de repente, parando. Era a minha deixa.
Ergui-me em um salto e pulei até sentir meus pés no asfalto frio daquela rua.
Surpreendi-o por trás, mas acho que fiquei mais surpresa do que ele ao constatar que meus
joelhos mal dobraram com a aterrissagem. Meu corpo estava transformado. Podia sentir cada
veia, cada nervo, cada centímetro de mim agindo de maneira diferente. Não sabia exatamente
como, muito menos o porquê, mas eu havia deixado de ser a Mikaela de antes. Não me
reconheci. E o fato de não me reconhecer foi tão natural que achei saber exatamente quem eu
era.
Andrew se virou, com os olhos surpresos, e sorriu, mas o sorriso foi embora quando
percebeu meu olhar sério apontado para a sua direção. Ele observou o terreno ao redor e fiz o
mesmo. Não havia ninguém naquela rua particularmente escura, composta de muitos
estabelecimentos fechados e poucas residências.
— Pensei que tivesse te perdido — ele falou com a voz mansa, parecendo medir bem
as palavras. — Você está bem?
— Foi tudo calculado, não foi? —minha voz soou diferente. Foi um grunhido
animalesco que exalava a mais pura raiva. Só então percebi que minha pele queimava de ódio
daquele homem. — Você aparecendo do nada na frente do prédio dele. Sua conversinha fiada.
Depois o restaurante, a mesa... Você sabia o tempo todo que ele estaria lá. Com ela.
Andrew continuou com uma expressão indecifrável.
— Do que está falando? Nunca vi aquele sujeito na vida — ele falou de modo cínico e
tentou se aproximar de mim, mas eu o olhei de modo tão afetado que ele estacou. — Mikaela...
Eu não sei o que está acontecendo, mas preciso te levar para casa. Não me interessa quem
aquele sujeito é, não sei o que vocês viveram e me assusta o fato de ele ser tão parecido
comigo, mas eu não posso te deixar assim. Não aqui, não dessa forma. Por favor, venha
comigo.
— Você mente — falei tão baixo que mais parecia que eu tinha apenas mexido os
lábios sem emitir nenhum som. — Está pensando que sou uma mocinha bobinha, indefesa e
imbecil? Isso é uma afronta à minha inteligência.
Separei um pouco os meus pés e cerrei os punhos. Estava pronta para atacar, não
importando a falta de nexo que aquilo implicaria. Andrew deu um passo curto para trás,
percebendo o que eu estava prestes a fazer. Arregalou os olhos, espantado, ergueu as duas
mãos para frente e as chacoalhou um pouco.
— Mikaela... O que está fazendo? Estou assustado.
— Mentiroso! — ri com desdém. — Não importa o que me fale, não vou acreditar.
Ninguém precisa me dizer quem eu sou ou quem fui, sei perfeitamente. Isso significa que eu
sei, Andrew, que nunca te vi em toda a minha existência. Você é uma farsa. Não sei o que
pretende, mas não se aproxime novamente de mim.
Andrew passou as mãos nos cabelos curtos, em um gesto angustiado. Suspirou e bufou
de irritação, balançando a cabeça como se não acreditasse no que eu estava dizendo. Por um
instante, senti-me uma estúpida esquizofrênica. Minhas convicções voltaram quando me
lembrei do contorno dos lábios do André. Aqueles, sim, eram os meus lábios, só meus. Beijar
o Andrew era como beijar um pedaço de metal frio.
— Eu sei que está confusa. Tudo isso é muito novo para você, mas também é pra mim.
Acho que te pressionei demais, coloquei você numa situação complicada. Parece mesmo irreal
que eu tenha te encontrado, mas eu nunca...
Meus dentes cerraram e soltei um rangido baixo, interrompendo-o.
— Não dá para continuar com essa conversa.
Virei as costas e caminhei decididamente até o fim da rua. Meus pés ignoravam as
pedrinhas em que às vezes eu pisava, tamanha era a minha raiva de tudo e de todos. Alcancei o
único poste naquela rua que estava com a lâmpada acesa. Olhei para trás por sobre meu ombro.
Andrew continuava no mesmo lugar, observando meus passos com atenção e seriedade. Só
queria arrancar fora a verdade de seus lábios, e a minha incapacidade de fazê-lo me fez ter um
acesso de fúria. Não podia acreditar que ia falhar mais uma vez e voltar para casa sem as
respostas para as minhas perguntas.
Sem conter o ódio, rosnei alto e me atirei contra o poste com as duas mãos para frente,
como se quisesse arrancá-lo tanto quanto queria arrancar as verdades. Para a minha total
surpresa, o poste cedeu ao meu movimento como se fosse feito de papel. Praticamente se
rasgou no ponto em que toquei e inclinou para o lado perigosamente. Os fios foram se partindo
rápido. Quando não sobrou mais nenhum intacto, o grande pedaço de concreto pendeu na
direção de um carro estacionado na rua. Esperei pelo barulho estrondoso que aquilo causaria,
mas o tal barulho não veio.
Com os olhos arregalados e o coração acelerado, vi Andrew segurar a barra de concreto
com as duas mãos. Ele a afastou para longe do carro e a depositou no chão como se fosse
apenas um tijolo. Não sabia se me surpreendia mais com a minha força ou com a dele.
Andrew me encarou com raiva logo em seguida, e vi seus olhos naturalmente brilharem
em um tom azulado. Apesar de estar tudo muito escuro — e piorou quando o poste caiu, pois
aparentemente havia faltado luz —, conseguia ver cada detalhe da rua e do Andrew como se
fosse dia.
— Controle-se, Mikhayah! — Ele foi se aproximando de mim decididamente, ainda
parecendo bastante irritado. — Vai acabar machucando pessoas inocentes. Você está passando
dos limites, não percebe que é uma bomba prestes a explodir e levar tudo consigo?
Pensei um pouco sobre o que ele falou e sorri. Havia conseguido exatamente o que eu
queria: arrancar sua máscara e revelar seu verdadeiro rosto. Não tinha como o Andrew negar as
loucuras que estavam acontecendo. Ele fazia parte delas e me devia uma boa explicação, do
contrário jamais o deixaria em paz. A comprovação definitiva de que eu não estava
esquizofrênica, e que coisas surreais eram mais reais do que nunca, me deixou confusa, mas
feliz.
Assim que me alcançou, Andrew segurou o meu pulso direito.
— Venha comigo. — Não foi um pedido.
Fiquei incomodada com seu timbre imperativo demais, porém não discuti.
Caminhamos com pressa até o fim da rua, atravessamos uma avenida e, após alguns
quarteirões, chegamos até uma pequena praça. Sua mão não me soltou nem por um segundo.
Seu toque era forte como algemas, deixando-me irritada por me sentir presa. Algo me dizia
que ele tinha consciência daquilo e gostava.
— Sente-se — ordenou com a voz dura, indicando um banco ornamentado no centro da
praça. Sentei devagar, mantendo a cabeça erguida e o nariz empinado. Andrew finalmente me
largou, permanecendo de pé. — Você é inconsequente. É tão sutil quanto um elefante com
asas. Não tenho como encontrar palavras para definir o quanto estou decepcionado. Poderia ter
machucado uma pessoa! Seu jeito egoísta me deixa... Argh!
Andrew parecia um pai ralhando com uma filha que tinha acabado de fazer uma
travessura. Franzi a testa, acompanhando seus gestos espalhafatosos demais. Meu incômodo
veio do jeito infantil com que estava me tratando. Havia tanto a ser dito e ele queria reclamar
porque derrubei um poste? Faça-me o favor! Eu ter derrubado um poste não era mais
importante do que como consegui derrubar um poste.
— De fato, estou pouco me lixando — interrompi suas reclamações. Ele fez uma careta
afetada. — Pode começar me dizendo o que eu sou. E também o que você é.
— Achei que soubesse quem você é. Foi isso que me falou.
— Vamos pular as gracinhas, não tem ninguém rindo aqui — sorri só para ser mais
irônica ainda. — Você me deve explicações.
Andrew começou a andar de um lado para o outro. Seus olhos ainda vagavam em todas
as direções como se procurasse por algo, ou alguém. Ele estava visivelmente nervoso com
alguma coisa que, obviamente, ele jamais me diria o que era. Exibia um comportamento
suspeito que sequer tentava esconder.
Cruzei meus braços e esperei que começasse a falar.
— Não vou dizer nada. Nem se eu pudesse, eu te diria. — Eu permanecia sentada e ele
caminhava uma curta distância de um lado para o outro.
— Não pode fazer isso comigo — descruzei os braços e deixei toda a ironia, toda a
fome de superioridade desaparecer em um segundo. — Por favor, Andrew. Não me deixe no
escuro. Não posso mais lidar com isso sozinha.
Tentei me levantar, mas ele colocou a mão em meu ombro e me obrigou a permanecer
sentada. Andrew bufou e, por fim, sentou-se ao meu lado no banco. Analisou o meu rosto
durante muito tempo, parecendo bastante confuso e nervoso também. Sentia que ele estava
prestes a se abrir.
— Claro que não pode, mas você ignorou todos os cuidados que tomamos com a sua
saúde — disse com seriedade. — Você é teimosa e insolente. Aliás, sempre foi!
Ignorei seus xingamentos.
— Tomamos? O que quer dizer? Quem mais está nisso, o que querem de mim? O que
querem do André? — meu desejo era sacudi-lo até que as respostas caíssem de seus bolsos,
mas me contive, pois a cada instante sentia mais que ele tinha o desejo de me explicar, mesmo
contra a vontade de alguém que eu não sabia quem era.
— Quebrei milhões de regras segurando a porcaria daquele poste. Você não vai me
fazer quebrar mais uma sequer. Basta. — Andrew massageou as têmporas. — Vou te levar em
casa e você vai ficar quietinha. E reza para que não haja consequências, porque se houver, eu
juro que não vou ser mais misericordioso contigo.
— Misericordioso? — ri novamente, voltando ao desdém. — Que piada! Você e seja lá
mais quem destroem a minha chance de felicidade e querem falar sobre misericórdia? —
continuei rindo, mas em algum momento as lágrimas começaram a cair sobre o meu rosto. Foi
uma cena vergonhosa.
Lembrei-me do André e do nosso mais recente adeus. Era tudo tão dolorido e
sufocante! E se eu o tivesse perdido para sempre? Ele certamente foi embora com aquela
vadiazinha. Talvez o que sentisse por mim não chegasse aos pés do que eu sentia por ele. Não
podia esquecer que o idiota estava com outra mulher, a mesma do supermercado. Deviam ser
namorados há algum tempo.
Recordei-me do dia em que me deu um pé na bunda. André falou com todas as letras
que não me amava, rejeitou-me com uma desculpa furada. Eu precisava compreender, enfiar
na minha cabeça que, por mais que tenhamos um passado, o futuro poderia ser bem diferente.
Abri a boca quando pensei um pouco mais sobre a justificativa que o André tinha dado
para me chutar. Tudo levava a uma só pessoa: doutor Cláudio Alcântara. Tê-lo visto com o
Andrew não mais me surpreendia. Eles faziam parte de uma corja ridícula que havia sido
formada para impedir que eu me aproximasse do André. E se aquela vadia também estivesse
envolvida? Afinal de contas, Andrew tinha aparecido com o único objetivo de me afastar do
André e até estava conseguindo, antes de tudo ter dado errado.
Estavam nos enganando. Mas, por quê? O que havíamos feito de tão ruim? Algo me
dizia que tinha a ver com aqueles sintomas sinistros. Eu não podia desistir. Não ia dar o
gostinho para aqueles caras. André precisava ao menos saber o que se passava e decidir
sozinho se me queria ou não. Era injusto deixar que um bando de gente esquisita decidisse o
nosso futuro por nós. Jamais me conformaria.
— Só preciso saber de uma coisa, Andrew — murmurei com tristeza. — Só tenho uma
pergunta. — Ele nada respondeu, só continuou me encarando, por isso continuei: — Eu não
posso ficar com o André?
Andrew se tornou inexpressivo. Desviou os olhos para o chão e depois para os meus.
Num momento de ternura, como que buscando me confortar, ele segurou minhas mãos e as
alisou, para então dizer:
— Não — pareceu triste em dizer aquilo.
— Por quê? — soltei minhas mãos, seu toque me confundia.
— Você disse que era só uma pergunta. Eu a respondi por misericórdia, mas não abuse.
— Assenti. — Vamos embora, por favor.
— Não vou a lugar algum contigo. — Levantei-me do banco e ele também.
— Mikhayah, não seja imprudente.
— Você viu o que aconteceu, não? —apontei para uma árvore próxima a nós. Fingi
indignação total e até voltei a chorar. Precisava ser convincente. — Ele estava com outra
mulher! Acha que o quero? Oh, sim, eu o quero porque sempre o quis a minha vida inteira,
mas eu não quero mais querê-lo. Estou magoada e farta de ser ferida. Preferia ser como era
antes, fria e sem interesse por ninguém.
— Eu sinto muito — suas palavras exalavam sinceridade.
— Não sente nada. — Balancei a cabeça. — Não faz ideia do quanto estou destruída.
Só quero que isso acabe. Quero esquecê-lo, quero ser uma mulher normal. Por favor, Andrew.
O que devo fazer?
Ele olhou ao redor mais uma vez, como que se certificando de que a pessoa que não
queria que ele me contasse a verdade, não estava ali. Aquela atitude me irritava muito, mas
continuei chorando e esperando pelos seus comandos.
— Afaste-se dele.
— Vou fazer exatamente isso. André nunca mais vai me magoar. Vou viver a minha
vida, conhecer um cara, me casar, ter filhos... — as lágrimas caíam sem pausas. Cheguei à
conclusão de que elas não eram tão falsas assim. Eu chorava porque não fazia ideia do que
aconteceria comigo e com o André. — Mas... Sequer consigo me expor ao sol!
Andrew cutucou os bolsos da calça que vestia e tirou um papel de um deles. Entregou-
me e o abri sem demora. Era um atestado médico com vários carimbos, um deles pertencente
ao Departamento de Estudos e Defesa ao Portador de PHMSADC.
— Entregue ao segurança. Você pode voltar ao trabalho quando se sentir melhor, esse
atestado defende o seu direito de não trabalhar até que esteja bem, não importando quanto
tempo leve.
— Segurança? — Fiz uma careta. — Sérgio? Ele... Ele é um de vocês?
Meu coração ficou do tamanho de uma azeitona. Não podia acreditar que o Sérgio
também estivesse envolvido em tudo isso. Será possível que ninguém gostava de mim de
verdade? Tentei afastar aquelas ideias. André me amava. Precisava acreditar naquilo. Eu
estava agindo daquela forma por ele. Por nós.
— Não. Ele é só uma feliz coincidência. Uma sorte que você teve. Agarre a chance de
ser normal, Mikhayah. Não a desperdice.
— Não irei.
Andrew sorriu.
— Os sintomas vão sumir. Mantenha-se longe do André e sumirão completamente.
Fiquei surpresa porque, no fim das contas, André não tinha me chutado com uma
justificativa mentirosa. Cláudio Alcântara havia lhe falado o que Andrew estava me dizendo
naquele instante. A diferença era que agora eu tinha certeza da tal conspiração. O que não
entendia eram os motivos que eles tinham para nos protegerem, apesar de tudo. Por que
queriam tanto o nosso bem? Alguma peça não estava se encaixando.
Seria melhor mesmo me manter distante do André? Aqueles sintomas eram
insuportáveis, mas ficar longe dele era tão doloroso quanto. Talvez até mais. Contudo, eu
estava sendo muito egocêntrica o tempo todo. Seria melhor para o André se distanciar daqueles
sintomas horríveis. Nossa união lhe traria muita dor e eu sabia que não conseguiria lidar com
seu sofrimento. Eu só queria o bem dele. Ou não? O amor que eu sentia era tão egoísta assim?
— Vou me distanciar — falei com a expressão dolorida. Andrew acreditou nela porque
não era falsa. — Farei as coisas certas.
— Boa sorte — ele segurou meus ombros e me chacoalhou um pouco em um gesto que
dizia que tudo ia ficar bem.
Ele não parecia ser um cara ruim enquanto sorria daquele jeito. Palavras como
“misericórdia” pareciam ser naturais a ele. Afinal, que tipo de criatura ele era?
— Você não podia me falar nada do que falou, certo?
— Certíssimo. — Seu sorriso foi embora.
— Vai haver consequências para você?
—Provavelmente.
— Por que falou? —prendi os lábios. Nada mais me parecia justo.
Andrew ponderou por alguns segundos.
— A história de vocês virou lenda desde a primeira lembrança — falou baixo como se
temesse que alguém o escutasse. — Não é da minha natureza não torcer pelo amor.
— Você torce por nós? —fiquei bastante confusa. O cara tinha acabado de me mandar
ficar longe do André, como era capaz de torcer pelo amor?
— Não. — Ele tocou meus cabelos.
— Acho que não entendi, você está se contradizendo.
— Torço mais ainda pelo que é certo, Mikhayah. Nem todo amor é justo. O seu não é,
mas não deixa de ser amor e eu me importo.
Dei alguns passos para trás, sem saber o que dizer ou fazer. Uma chama acendeu dentro
de mim. Eu não podia desistir. Não podia, simplesmente.
— Não cruze mais o meu caminho — pedi. — Obrigada.
— Vou te levar e...
— Não. Eu sei ir para casa sozinha. Obrigada mais uma vez.
Guardei o papel que ele havia me dado na minha bolsinha. Girei os calcanhares e deixei
a praça em um segundo, sem olhar para trás. Eu parecia uma louca caminhando com roupa de
sair e descalça pela rua. Tomei o primeiro táxi que apareceu na avenida e me concentrei em
chegar a casa sem derrubar uma lágrima sequer.
Assim que atravessei a porta, fui até a cozinha e vi as embalagens da entrega que o
Sérgio havia feito. Peguei o cartão que ele tinha me enviado só para ver se havia ali algum
endereço, e o encontrei descrito no verso. Abri o cartão e me deparei com um convite grande e
bonito. Tratava-se de um baile realizado pelos donos das maiores redes de supermercado do
país. Um evento gigantesco que ocorria todos os anos.

“Minha princesa,
Por favor, aceite a encomenda de bom grado. Não paro de pensar que talvez não
esteja se alimentando bem. Não posso dar conta do nível de loucura que minhas ideias
alcançam quando penso na sua saúde. Você não me ligou. Tentei te procurar em casa, mas
você não atendeu a porta e nem o interfone. Não soube o que fazer.
Queria ao menos poder te levar nessa festa. Você parecia tão triste. Acho que te fará
bem respirar outros ares. Será à noite, portanto não há chances de piorar sua alergia. Por
favor, diga que será minha acompanhante. Não faz ideia do quanto é difícil conseguir esse
convite. Para ser sincero, fui sorteado.
Não paro de pensar nos seus lábios. Eu os amo.
Beijos, Sérgio.”

Suspirei fundo e sorri. Tive uma grande e louca ideia. Podia apostar como continuaria
sendo vigiada, portando era imprudente procurar pelo André, principalmente sem ter certeza de
que era o mais certo a ser feito. Precisava disfarçar e me distrair, duas coisas que jamais
conseguiria se ficasse em casa. Eu nunca ia convencer ninguém de que havia esquecido André
se continuasse me comportando como uma doida solitária que vagava sozinha pela cidade à
noite. Além do mais, se ele me procurasse, colocaria tudo a perder. Tinha certeza de que
estariam me vigiando. Tentariam, de novo, nos manter longe, e eu sabia que seria desgastante
para nós dois.
Foi por isso que separei algumas roupas em uma mochila e peguei um táxi rumo ao
endereço descrito no cartão do Sérgio. Parei em frente a uma casa modesta, mas com um
jardim bonitinho na frente. Atravessei um portão de ferro, passei por um caminho de pedra e
alcancei a porta. Toquei a campainha três vezes seguidas até que ele abriu a porta. Seu queixo
caiu ao me ver, principalmente em um horário nada convencional.
— Não suporto mais ficar sozinha — falei. Sabia que o estava usando, sabia que o
iludia a cada palavra, mas realmente não me importei. Talvez eu fosse mais egoísta, teimosa e
insolente do que o Andrew tinha imaginado. — Por favor, deixe-me ficar com você. Só por um
tempo... Eu juro, juro que não vou te atrapalhar.
Sérgio praticamente me agarrou. Não pestanejou, não teceu comentário ou fez qualquer
pergunta, só me puxou para si e me beijou como se sua vida dependesse daquilo. Eu não queria
que as coisas fossem daquele jeito. Aquele era o meu disfarce, mas não podia machucar
alguém que só queria o meu bem. Foi por isso que me afastei por completo quando o Sérgio
fechou a porta atrás de nós.
— Sérgio... Vá devagar. Por favor.
— Tudo bem. Tudo bem, não se preocupe. — Ele pegou a mochila que estava nas
minhas costas. — Fique à vontade, a casa é sua. Vou cuidar de você, princesa.
Eu estava disposta a me deixar ser cuidada. Precisava reunir os cacos do meu coração o
mais depressa possível. Recuar na hora certa me deixaria preparada para um ataque maciço.
Quando ninguém mais estivesse olhando, eu estaria de volta mais louca do que nunca, pronta
para lutar de verdade pelo que sempre foi meu.
Capítulo 19
André

— O que pensa que está fazendo?


— Ei, cara, saia daqui! — o sujeito me empurrou, mas eu nem me mexi.
— É isso mesmo que eu estou vendo, Mikaela, está me trocando pelo primeiro cara
parecido comigo? — gritei a plenos pulmões.
— Saia daqui, André. — Ela parecia decidida.
— Eu não vou sair daqui até que me explique que merda é essa que está acontecendo!
— O sujeito tornou a me empurrar.
— Você é cego, por acaso? Acha mesmo que é o único homem no mundo? — Aquela
frase me magoou profundamente, mas eu não podia deixar transparecer. — Você é patético —
a última sentença fez eco em minha cabeça.
— Mikhayah...— falei com a voz dolorosa.
— Não ouse me chamar assim, Àndreas... — Mikaela murmurou de um jeito trêmulo.
— Não quero te ver de novo, nunca mais. Acabou. Sabe todas as lembranças? Esqueça-as.
Esqueça cada toque, cada beijo, cada palavra, cada noite que passamos juntos... Esqueça
tudo porque é a melhor coisa que você vai fazer por nós.
— Não! Não, Mikah, não. Por favor, não.
— Não ouse me chamar assim, Àndreas...
— Àndreas! — gritei e saltei da cama.
Acordei encharcado de suor. Durante as últimas noites, aquele sonho se repetia
constantemente. O restaurante, a briga, Mikaela virando as costas e me abandonando. Porém,
daquela vez tinha sido um pouco diferente. As últimas frases se repetiram em meu
subconsciente, até que eu finalmente percebesse o que ela estivera querendo me dizer durante
todo esse tempo. Àndreas. Eu já havia escutado aquele nome antes, mas jamais havia revelado
a ela. De alguma forma, Mikaela sabia. Sim, ela sabia, e aquilo não podia ser coincidência.
Ainda que fosse impossível explicar, estávamos verdadeiramente conectados de algum
modo. Por mais que parecesse absurdo, por mais que as lembranças parecessem reais apenas
em uma época distante e, ainda que os médicos dissessem que era impossível, nós nos
lembrávamos de alguma coisa em comum. Algo que, devido às circunstâncias, era impossível
que não tivesse acontecido de verdade.
Eram memórias, sim, sem qualquer dúvida. Lembranças de outras vidas? De um
passado perdido? Ainda precisaria buscar aquelas respostas, mas agora eu sabia que Mikah
também sabia, e isso fazia toda a diferença.
Era informação demais para a minha cabeça e eu precisava compartilhá-la com alguém.
Nos últimos tempos, estava muito feliz e agradecido por, finalmente, ter podido me abrir com
um amigo, e ainda mais porque Fred fora compreensivo além do explicável.
— Fred — chamei assim que passei pela porta do meu quarto.
Ele estava sentado no sofá, assistindo à TV.
— Fala, cara, o que houve? — ele falou enquanto mastigava um pedaço de frango frito.
O cheiro me deu água na boca.
— Ela se lembra, cara, ela se lembra! — vibrei como uma criança que tinha acabado de
ganhar o presente que pediu para o Papai Noel.
— Quem se lembra do quê, mano? Do que é que você está falando? — mecanicamente,
ele largou os ossos em uma tigela, enquanto pegava outro suculento pedaço e levava à boca,
sem desgrudar os olhos da televisão.
Sentei do seu lado, tasquei a mão no baldinho que continha as asinhas, peguei uma e
comecei a devorar, sem pedir seu consentimento.
— Ei, o que pensa que está fazendo? — Fred franziu a testa e quase derrubou o seu
copo de refrigerante.
— Dá um pedaço? — falei com a boca já cheia.
— Fique à vontade, já que pediu com tanta educação! — ele riu com a boca cheia de
frango.
Expliquei ao meu amigo os detalhes que descobri em meus sonhos. Afinal, tudo o que
Mikaela havia falado sobre as noites que passamos juntos, sobre nossas experiências, além do
nome Àndreas, finalmente fazia sentido. Fred se animou por mim, eu estava exultante, parecia
um adolescente apaixonado.
— Você tem que ir atrás dessa mulher, bicho! Alguma coisa me diz que o destino de
vocês é ficar juntos. — percebi que ele comia as asinhas cada vez mais rápido, certamente para
não permitir que eu pegasse muitas.
— Nunca acreditei nesse negócio de destino... Quero dizer, nunca eu não sei, mas pelo
menos não nos últimos dez anos. Até então. — sorri, mais por causa das asinhas do que pelo
que eu havia acabado de dizer.
— Deixa de ser tão literal, cara. Isso é apenas uma força de expressão. O que eu estou
dizendo é que vocês têm uma história, um passado, e precisam ir atrás disso! — Fred pegou o
controle remoto e passou alguns canais, sujando o aparelho todo de gordura. Estava
interessado no que eu dizia, mas falava tudo de um jeito tão natural que me surpreendi.
— Sim, mas e se a coisa tiver terminado mal? E se tivermos nos separado por causa de
alguma briga? E se ela me traiu ou algo do tipo? — eram tantas dúvidas que minha cabeça
estava entrando em parafuso.
Enfiei a mão no balde para pegar a última asinha. Fred ergueu a sobrancelha na minha
direção. Sem jeito, larguei a comida e ele a pegou.
— E isso faz alguma diferença agora? — Fred insistiu.
— Imagino que não...
— O que o seu coração te diz? — Ele cuspiu os últimos ossinhos na vasilha e levantou-
se para colocar tudo na pia.
— Que ela é a escolhida! — abri um sorriso de orelha a orelha.
— Então, vai nessa, cara! — Fred sorriu também, voltou da cozinha e me deu um tapão
dolorido e gorduroso nas costas.
Fingi que nada havia acontecido.
— Eu não sei onde essa doida se enfiou — respondi, acompanhado por um suspiro.
— Já tentou ligar? Rastreou o número? Tentou usar o GPS do celular dela? — Meu
amigo me interrogava enquanto voltava para a cozinha e pegava um pouco de café na cafeteira
expressa.
— Fiz tudo isso, cara. Não a encontro de forma alguma. Deixei recados, vigiei a casa
dela...
— Você já pensou em passar naquele mercado onde ela trabalha?
— Na verdade, ainda não! — sentei-me no sofá e entornei uma xícara de café que Fred
havia me passado.
— Cara, não quero ser pessimista, mas... e se tiver acontecido alguma coisa com ela?
Você já passou em delegacias, hospitais, necrotérios?
Quase engasguei com a bebida quente. Comecei a tossir como um louco, demorando a
me recuperar.
— Vira essa boca para lá, seu idiota! É claro que não aconteceu nada. — pousei a
xícara no pires, tentando não derramar em mim o que sobrara.
— E se ela estiver doente ou muito mal dentro de seu apartamento? Já pensou nessa
hipótese?
— Obrigado, você só pensa coisas positivas. Fico até mais tranquilo desse jeito. Bom,
de qualquer forma, você acha que ela estaria tão ruim a ponto de não atender ao telefone?
— Quem sabe? Vai ver não quer ser incomodada.
— Ou perdeu os dois braços, né? Com o seu positivismo...
— O louco! — Fred caiu na risada.
Levantei em um pulo e agradeci ao meu amigo pelas ideias. Não dava para perder mais
tempo. E se Mikaela realmente estivesse mal, desmaiada em seu apartamento, ou coisa pior?
Eu precisava me certificar. Tentei ligar novamente. Por várias vezes, a chamada caiu na caixa
postal, a voz da secretária eletrônica já estava me dando raiva. Mandei várias mensagens de
texto, sem sucesso.
Resolvi seguir os conselhos de Fred. Saí de casa e comecei a visitar hospitais. Ficava
um pouco difícil procurar por Mikah, sem saber seu sobrenome, mas fiz o melhor que pude.
Não a encontrei em parte alguma. Resolvi procurar em delegacias, não havia nenhuma mulher
com os cabelos vermelhos que estivesse detida. Fui ao necrotério da cidade com as mãos
tremendo de tanto nervosismo. Não sabia o que faria se a encontrasse morta. Não queria nem
pensar a respeito. Cheguei a olhar algumas pessoas que estavam engavetadas como
desconhecidas, mas felizmente ela também não estava lá.
Havia perdido o dia inteiro naquela busca louca e interminável. Na verdade, eu é que já
estava enlouquecendo. Enquanto a buscava, liguei infinitas vezes na esperança de ser atendido,
nem que fosse por algum estranho que tivesse encontrado o celular dela. Nada. A noite já
avançava. Passei em frente ao prédio onde Mikaela morava. Toquei o interfone várias vezes.
Sem resposta. Decidi estacionar em frente e esperar até que ela aparecesse. As horas passavam.
O que diabos poderia estar acontecendo? Será que Fred estava certo? Talvez ela estivesse
mesmo desmaiada ou impossibilitada de fazer qualquer coisa dentro de sua casa.
Eu não conseguiria dormir mais uma noite sequer com aquela incerteza. Ninguém
simplesmente some do mapa. A rua já estava bastante deserta, eram quase duas da madrugada.
Observei o movimento, não havia mais ninguém transitando naquela hora. Apenas um
mendigo dormia na calçada, sob um toldo.
Saí do carro e me aproximei rapidamente do portão. Havia uma cerca elétrica, o que
dificultaria um pouco o meu serviço. Fui até uma parte do portão próxima a um poste que
estava com a lâmpada queimada. Encarei a cerca, refleti por alguns instantes. Por que tudo
tinha que ser tão difícil? A raiva e o desespero começaram a tomar conta de mim.
Inesperadamente, vi um reflexo amarelado atingir os arbustos que cresciam rentes ao portão. A
noite clareou de súbito.
Minha primeira reação foi me esconder, pois imaginei que alguém tivesse me
descoberto. Só então percebi que o tal reflexo amarelado parecia estar vindo de mim. Senti a
brisa da noite, acompanhada de toda a espécie de odores. Era como se, de alguma forma,
alguém tivesse ativado uma hipersensibilidade no meu olfato. Corri pela calçada com
movimentos rápidos e ágeis. Meu instinto me guiava. Estaquei diante das grades e pensei em
pular sobre elas, tentando não tocar na cerca. Porém, algo me fez tentar uma estratégia
diferente.
Surpreendendo até mesmo a mim, segurei duas barras com as mãos e as afastei,
entortando o aço como se fosse um pedaço de alumínio. Espantei-me com minha própria força,
mas meus instintos continuaram me guiando para o meu objetivo: o apartamento de Mikhayah.
Evitando os elevadores, subi pelas escadas como um animal de quatro patas. Escalei os
degraus rapidamente até chegar ao andar que procurava. Meu senso de direção aguçado não
me deixava errar o destino, mas não conseguia sentir o cheiro ou a presença de minha amada
em ponto algum.
Abri a porta corta-fogo com cautela. O corredor estava vazio. Esgueirei-me até a porta
da casa dela e parei para escutar. O andar inteiro dormia, não poderia fazer muito barulho.
Girei a maçaneta com cuidado, de modo a destravar a lingueta. Ao invés de me arremessar
contra a porta, fazendo muito barulho, apenas encostei meu corpo e pressionei. Mais fácil do
que podia supor, ouvi o marco da porta ceder e arrebentar por dentro, fazendo com que a
tranca da porta arrancasse o acabamento de metal, que caiu no chão do lado de dentro, fazendo
eco.
Entrei e me espantei com o que vi. A casa estava quase completamente vazia. Alguns
poucos móveis semidestruídos se encontravam organizados pelos cantos. Parecia um
apartamento fantasma. Teria Mikaela se mudado às pressas sem deixar nenhum vestígio?
Como podia me deixar daquela forma? Encostadas a uma parede, caixas exalavam um cheiro
de algo podre. Temi pelo pior, embora o cheiro fosse diferente da decomposição de um
cadáver.
Abri as embalagens e encontrei algumas comidas estragadas, em estado bastante
deteriorado. Acendi as luzes do apartamento e circulei pelos quartos, banheiro e cozinha. Não
havia sequer sombra de que alguém tivesse passado por ali nos últimos dias. O que será que
estava acontecendo? Teria o tal sujeito que me espancou feito alguma coisa com ela?
Voltei para a sala, dei uma última revirada nas caixas, que pareciam ser as únicas
coisas ali além dos móveis, e encontrei um bilhete caído por trás delas. Era uma mensagem
daquele esquisito que trabalhava no mercado com ela e dizia algo sobre querer ajudá-la. O
idiota ainda teve a capacidade de flertar com a minha garota. Rasguei o bilhete, morrendo de
raiva. Aquele deveria ser meu próximo passo: tentar localizá-la no trabalho e, caso não a
encontrasse, falar com o tal do Sérgio para ver se ele sabia de algo.
Logo cedo, assim que amanheceu, dirigi-me ao mercado onde Mikaela trabalhava. Já
não me sentia tão excitado quanto na noite anterior, quando amassei as barras da grade do
prédio e quando as desamassei, ao sair. Não ficaram retinhas, mas deu para disfarçar. Porém,
ainda sentia como se algum fogo ardesse dentro de mim. Eu não aceitava perder a mulher que
amava. Precisava descobrir que estranha força era aquela que nos unia e descobrir o que
Mikaela sabia a respeito de nós.
Parei no estacionamento do estabelecimento e desci do carro, bati a porta com raiva e
sequer me preocupei em trancá-lo. Caminhei de forma decidida em direção à entrada. Se a
Mikah estivesse lá, ia me ouvir. Como podia simplesmente desaparecer e me deixar sem
notícias? Ainda mais depois de tudo o que me falou no restaurante, dando a entender que sabia
de alguma coisa? Porém, mais do que irritado com o seu sumiço, eu estava preocupado,
precisava saber se estava tudo bem e provavelmente a abraçaria forte em vez de reclamar com
ela.
Assim que me aproximei da entrada e a porta automática se abriu, me deparei com
Sérgio, parado com as mãos na cintura e me encarando como se esperasse pela minha chegada.
E esperava mesmo, pois havia me visto chegar pela câmera de vigilância. Ele parou diante de
mim, olhando de baixo para cima, tentando me encarar.
— O que você quer aqui? — Sérgio colocou a mão sobre o cassetete.
— Os clientes agora são interrogados sobre sua lista de compras na porta do mercado?
— ironizei.
— Deixe a Mikaela em paz! — ele falou em tom autoritário, embora sua voz tremesse
um pouco.
— Ora, saia da minha frente, quem você pensa que é? — empurrei o sujeitinho
insolente para o lado.
— Ela não está aqui!
— E quem foi que te perguntou alguma coisa, idiota? — andava pelos corredores
tentando encontrá-la.
— Você não vai querer arrumar confusão — Sérgio destravou o coldre onde ficava a
arma enquanto caminhava ao meu lado tentando me impedir de prosseguir.
— Então agora o machão vai me ameaçar porque tem uma arma? Você precisa mesmo
ser muito corajoso. Vai... Fazer... O... Quê? — bati com as pontas do indicador e do médio em
seu peito, enquanto falava. O segurança começou a tremer. Eu podia sentir o seu medo. — Foi
o que pensei. Agora, saia da minha frente!
— Eu já disse que ela não está aqui. Mikaela está doente.
— Onde ela está? Já fui a todos os hospitais, passei no apartamento, tentei ligar. Se
você sabe onde ela está, me diga! — controlei-me para não gritar.
— Ela não quer que ninguém saiba. Está muito doente, precisa de descanso e
tranquilidade para se recuperar. Não irei trair sua confiança. Se ela não entrou em contato é
porque não quer falar contigo. Não a procure mais, assim que se recuperar, e se ela se
interessar, irá até você. — Ele tornou a travar o coldre. A tensão em seus olhos diminuiu um
pouco.
— Quem você pensa que é para falar por ela? Não passa de um lambão que fica
idolatrando o chão que Mikaela pisa. — Suas bochechas coraram violentamente. Que babaca!
— Percebi que você é um daqueles caras que fica perseguindo mulher. Como vou saber que
você não a sequestrou ou a matou? O que me impede de ligar para a polícia agora?
— Não fiz nada com ela! — Sérgio ficou absolutamente ofendido.
— E você quer que eu simplesmente acredite? Hein? Hein? — continuei cutucando-o
com os dedos, e meu gesto ofensivo ia mexendo com o seu psicológico.
— Tire a mão de mim! — ele gritou e tornou a alisar a pistola.
— Prove que está tudo bem ou ligarei para a polícia agora, registrando o
desaparecimento e dando queixa sobre você! — Ele estava nervoso, mas eu não ia desistir de
fazê-lo ficar pior.
— Está bem, vou ligar para ela, seu imbecil.
Sérgio pegou seu celular e discou nervosamente. Não tirei os olhos dele nem por um
segundo, para deixá-lo ainda mais abalado. Queria fazê-lo sentir medo, o cheiro do seu pavor
me dava prazer. Impacientemente, ele aguardou com o telefone colado no ouvido.
— Coloque no viva voz! — ordenei e o segurança obedeceu sem contestar.
— Alô, Mikaela?
— É você Sérgio? — Consegui escutar a voz de Mikah falando ao telefone e meu corpo
todo se arrepiou.
— Sim, sou eu... Aquele teu amigo está aqui, insiste em falar com você. Está dizendo
que vai chamar a polícia... Desculpa, eu sei que você não queria... Pode falar, ele está te
ouvindo.
Tomei o aparelho de suas mãos, quase o derrubando no chão, tamanha era a minha
ansiedade. Tirei o telefone do viva voz e coloquei-o no ouvido.
— Alô, Mikah? Como você está? Onde está? Estive te procurando como um louco. —
Falei tudo num atropelo, quase sem lhe dar chances de falar.
— Estou bem, André. Quero dizer, estou doente, mas tenho tudo sob controle. Sérgio
está me ajudando, não precisa se preocupar — ela falou num tom seco.
— Mas, Mikah...
— Não precisa se preocupar — e desligou.
Percebendo que a conversa tinha terminado, até mesmo pela minha cara de abobalhado,
Sérgio tomou o telefone da minha mão e o guardou no bolso, com ar de superioridade.
— Não apareça mais aqui, a menos que seja para fazer compras. Cobrimos qualquer
oferta da concorrência — ele ironizou, abrindo um sorrisinho sarcástico que me deixou
possesso.
Eu me controlei para não dar um murro na cara daquele imbecil, pois não valeria a
pena. Arrumar confusão era a última coisa de que eu precisava naquele momento. Voltei para
o meu carro e fui dar uma volta para esfriar a cabeça. Meu coração doía, Mikaela estava,
definitivamente, me afastando. Não compreendia seu jogo, ora tentando me dizer que também
se lembrava, ora me tratando com tanto descaso. Se eu não tivesse certeza do que sentia,
certamente já teria desistido de tudo.
No final da tarde, voltei a estacionar próximo ao mercado. Sérgio e Mikaela não se
livrariam assim tão facilmente de mim. Esperei até que o segurança do mercado saísse e o
segui. Procurei manter uma distância segura para não ser descoberto, mas também para não
perdê-lo de vista. Consegui ver o número no visor do celular quando Sérgio ligou e percebi
que se tratava de um telefone fixo. Seja lá onde Mikaela estivesse, Sérgio não iria para casa
antes de passar lá e visitá-la.
Fiquei feliz por saber que estava viva, apesar de muito preocupado com essa suposta
doença, e também desgostoso pelo que fazia comigo. Por que havia pedido ajuda àquele
esquisitão e não a mim? Ela parecia me querer, mas suas ações só me empurravam para cada
vez mais longe. Rodamos por algumas ruas durante algum tempo. Podia estar enganado, mas
Sérgio parecia dirigir como se estivesse tentando garantir que ninguém o seguia. Será que tinha
me visto?
A resposta não tardou, pois logo Sérgio estacionou em frente a uma residência humilde,
desligou o carro e dirigiu-se até o quintal.Mikah abriu a porta da frente antes mesmo que o
segurança tocasse a campainha e o recebeu com um beijo no rosto. Sérgio a abraçou e os dois
entraram na casa. Ela estava morando com ele? Mas, por quê? Eu não entendia mais nada. Será
que tudo não passara de uma brincadeira de mal gosto? E o outro homem que era parecido
comigo, onde estava? Que história era aquela de ficar com um sujeito diferente a cada dia?
Aquela não parecia nem um pouco com a mulher que eu amava. Algo tinha que estar errado e
eu iria descobrir o que era.
Muito irritado, resolvi que aquele não seria o melhor momento para confrontá-la. Fazer
as coisas com a cabeça quente, não era a melhor das opções. Salvei no celular o endereço, tirei
algumas fotos do local, tudo sem sair de dentro do carro. Liguei o motor e saí cantando pneus,
com os olhos queimando em fúria.
Devo admitir que, nos dois dias subsequentes, precisei de um enorme esforço para não
voltar ao lugar onde havia visto Mikah e Sérgio. Eu precisava de um tempo sozinho, tinha que
pensar nos cenários possíveis. Tinha ainda a questão da cirurgia, pois precisei redigir uma carta
de apresentação solicitando a participação nos experimentos. Precisei me concentrar muito
nessa tarefa, visto que uma carta bem elaborada poderia ser um enorme trunfo para ser
escolhido para o programa de testes. Não foram dias fáceis, dormir foi uma tortura e os
pesadelos continuavam se repetindo. Fred havia conseguido novo contato com Robson que,
embora muito desconfiado, aos poucos foi abrindo a guarda e já aceitava marcar um dia para
visitar seu antigo cliente.
Eu ainda permanecia confuso com tudo aquilo quando acordei na sexta de manhã.
Estivera trabalhando para recuperar o tempo perdido e andava muito cansado. Já era quase dez
horas quando me levantei. Andei pela casa como um morto-vivo, preparei qualquer coisa para
comer, sentei-me no sofá e, quando fui pegar o controle para ligar a televisão, percebi um
envelope meio diferente em cima da mesinha de centro.
Virei-o para ver o remetente, era um nome desconhecido. O destinatário do envelope era
alguém chamado Lauro, mas o endereço era mesmo do nosso apartamento. Certamente Fred
viu, achou que era engano e deixou em cima da mesinha para me perguntar depois. Eu, como
não estava nem aí, tratei de abrir a correspondência e me espantei ao ver meu nome escrito
num outro envelope que estava dentro do primeiro.
Abri-o rapidamente, com as mãos trêmulas, imaginando o que aquilo pudesse ser, e me
deparei com um convite para uma festa que aconteceria naquele mesmo dia, num local não
muito distante. Na verdade, um antigo castelo que havia sido transformado numa casa de
eventos. Junto do convite, havia uma pequena carta escrita à mão, que dizia o seguinte:

Àndreas,
Desculpe-me pelo modo como precisei agir nos últimos dias. Precisava me recuperar de
uma estranha doença e colocar as ideias no lugar. Posso parecer um pouco doida e
paranoica, mas não achei seguro te ligar ou te fazer uma visita. Tenho vários motivos para ter
certeza de que estamos sendo vigiados. Preciso muito conversar contigo, temos que esclarecer
algumas coisas que não fazem muito sentido e estão me deixando louca.Além de tudo, preciso,
com todas as minhas forças, te ver de novo.
O convite que lhe enviei é de uma festa onde estarei na sexta-feira e espero poder te
encontrar lá. Seja discreto, por favor. Imagino que será mais seguro e chamará menos
atenção se nos encontrarmos em um local público, onde possamos estar encobertos por uma
pequena multidão.
Não desanime, meu bem, nosso destino ainda não está cumprido e temos ainda muito o
que fazer. Sei que tudo isso soa um pouco misterioso, mas não consegui ter uma ideia melhor.
Confie em mim, tudo vai dar certo.
Até sexta,
Mikhayah.

Fechei o envelope, refletindo sobre as palavras que havia acabado de ler. Se Mikaela
pretendia me deixar com a pulga atrás da orelha, ela tinha conseguido. Fiquei feliz pelo fato
da festa ser naquele mesmo dia, pois eu não aguentaria de ansiedade se tivesse lido aquela
carta dias antes.
Esperei o resto da tarde até que Fred aparecesse para lhe contar as novidades. Se eu ia
até aquela festa por razões misteriosas, certamente iria levá-lo comigo, assim poderíamos
disfarçar melhor. Não questionei Mikaela nem por um segundo; eu também achava que alguma
coisa estava muito errada e não me surpreenderia se realmente estivéssemos sendo vigiados.
Meu amigo topou na hora e ficou muito empolgado, dizendo que parecia estar participando de
um filme daqueles gringos, como ele mesmo descreveu.
Tratamos de nos arrumar da melhor forma possível, usando nossos ternos mais chiques,
pois, como dizia o envelope, era uma festa no padrão de gala. Quando a noite caiu, partimos
em direção ao lugar. Não muito distante de nosso apartamento, havia um grande castelo que
havia sido reformado e era muito usado em festas da alta sociedade, motivo pelo qual eu nunca
estivera lá antes. O castelo era simplesmente incrível. A construção era bem antiga, tinha
conservado arcos gloriosos entre as inúmeras pilastras e as paredes grossas com os tijolos à
mostra. Era um lugar tradicionalmente luxuoso, mas, combinado com a iluminação e
decoração modernos, subiu a um nível tão alto que me deixou meio encabulado.
Não era acostumado a frequentar ambientes tão requintados, logo fiquei me sentindo
um peixe fora d’água entre pessoas bem-vestidas que pareciam importantes e cheias de
dinheiro. Pela primeira vez fiquei feliz em ter me livrado dos dreads, pois certamente chamaria
muito a atenção, no meio daqueles convidados. Fred nem pareceu se importar muito. Logo,
conseguiu taças de champanhe importado e se atirou nos canapés sem cerimônias, fazendo-me
ficar com vergonha alheia. Por outro lado, agradecia pela sua companhia, pois eu me sentiria
bem pior se tivesse ido sozinho.
Desde que deixamos nosso carro no enorme estacionamento, percebi que encontrar
Mikaela seria mais difícil do que imaginei. O castelo era gigante, composto por vários salões e
um jardim ainda maior que o estacionamento, embora pouca gente circulasse por lá, já que a
festa se concentrava nos salões. Uma música tocada por instrumentistas invadia cada cômodo
com leveza, dando a impressão de que estávamos em uma espécie de conto de fadas ou em um
daqueles filmes de época.
Fred teve a ideia de nos separarmos a fim de termos mais chance de encontrar a minha
amada. Verificamos se nossos celulares estavam com sinal e constatamos que estava tudo ok.
Caminhei decididamente por entre as pessoas, procurando por cabelos vermelhos e um rosto
inconfundível. Ficava nervoso a cada passo. Minhas mãos já suavam e a impaciência me
dominava devagar, como se fosse efeito de uma medicação. Respirava fundo e pausadamente.
A ansiedade estava quase me matando. Não sei se alguém estava percebendo, mas certamente
eu parecia um louco.
Andei e andei, e o máximo que consegui foi localizar o Fred, que já se engraçava para
uma morena bonitona, esquecendo-se do seu dever naquela festa. Não pude conter um sorriso
ao contemplar a cena, mas logo retornei à minha dura realidade. Suspirei alto, cansado de
procurar, mas sabendo que jamais desistiria. Meu peito já doía de saudade e desespero, dois
ingredientes fatais que me fizeram ter raiva e passar a circular com ainda mais pressa dentre os
convidados. Só consegui voltar a respirar de novo quando vi cabelos vermelhos magníficos,
acompanhados de olhos cor-de-mel e uma boca escarlate, atravessando o salão diante de mim.
Mikaela desfilava gloriosamente com um vestido vermelho sem alças, da cor de seus
cabelos, tendo a lateral aberta por uma fenda que deixava à mostra uma perna de cor leitosa e
aparência macia. Fiquei louco, deslumbrado. Jamais encontraria uma visão tão bela quanto a
que se mostrava diante de mim.
De repente, ela parou e fechou os olhos. Ergueu a cabeça e inspirou fundo. Sorriu. Seus
olhos já sabiam onde mirar, localizaram-me no segundo posterior e nos encaramos por um
minuto completo. Sorri também, pois sabia o que ela tinha acabado de fazer. Mikaela sentia o
meu cheiro à distância. Minha amada era capaz de sentir a minha presença, sempre foi assim.
Caminhei na direção dela, mas sua mão gesticulou para que eu parasse. Seus olhos se
tornaram inexpressivos, calculistas. Fiquei surpreso com sua capacidade de disfarçar. Estaquei,
irritado porque não podia tocá-la e beijá-la naquele instante. Já não dava para me conter de
tanta vontade, mas precisávamos de cautela.
Mikah apontou para cima e visualizei o lustre imenso composto por pequenos cristais
que brilhavam forte. Fiquei sem entender, por isso dei de ombros. Ela sinalizou para o céu
mais uma vez e, de repente, entendi. Ela estava apontando para o andar de cima, não para o
lustre. Era isso. Nós tínhamos um encontro marcado longe da confusão daquela festa. Eu não
perdia por esperar.
Capítulo 20
Mikaela

Procurei o Sérgio só para lhe avisar que precisava ir ao banheiro. Ele segurou minhas
mãos e perguntou se eu queria que me acompanhasse. Falei para não se incomodar, já que
conversava com um amigo segurança. Sua capacidade de ser grudento me deixava indignada,
contudo não podia negar que, graças a sua bondade, meus sintomas foram controlados e o sol
já não me machucava mais. Manter-me distante foi uma atitude mais que necessária, jamais
deixaria de agradecer ao Sérgio pela hospitalidade.
Mas eu tinha outros planos para aquela noite.
Subi as escadas devagar, consciente de que os olhos do André não se desviaram de
mim desde que nos localizamos naquela festa. O mais puro desejo fazia parte da sua expressão,
fazendo-me queimar de ansiedade para aquele encontro. Tínhamos muito para conversar,
porém a minha vontade real era de pular todas as palavras e chegar logo ao finalmente que,
com certeza, envolveria os nossos corpos mais unidos do que nunca em um momento intenso.
Meus nervos vibraram só de imaginar.
Segui por um amplo corredor, ouvindo o ruído dos meus sapatos no chão de porcelanato
brilhante. Passei por uma sala grande, com sofás e tapeçaria de dar inveja. Pensei na situação
deplorável do meu apartamento e não consegui conter um riso. A comparação com aquele
lugar era surreal. Tomei um segundo corredor e segui com passos firmes. O castelo era um
verdadeiro labirinto. Ouvi dizer que havia dezenas de quartos no andar de cima. Um deles
deveria servir, mas eu queria que fosse o que estivesse mais distante. Cruzei inúmeras portas
fechadas, alcançando um corredor perpendicular. Escolhi o lado esquerdo e avancei. Ouvi o
som de passos atrás de mim. Pelo cheiro, com certeza era o André.
Abri algumas portas para despistá-lo, só depois atravessei uma delas e visualizei uma
sala que poderia ser um escritório ou uma pequena biblioteca. Era grande, composta por
algumas mesas de madeira entalhada e sofás que pareciam antigos. As janelas eram cobertas
por cortinas longas de um tecido amarronzado. Prateleiras iam do chão ao teto, preenchidas
com inúmeros livros. Meu fascínio pelo lugar só foi quebrado quando me lembrei do motivo
que havia me levado até ali. Escondi-me atrás da porta e esperei impacientemente, arrependida
de ter pregado uma pequena peça no meu amado. Ele demorou mais do que eu pude suportar
esperar.
Quando finalmente o homem por quem esperava passou pela porta e parou no centro da
sala, fiquei o mais quieta possível, observando seu corpo esguio preencher o terno de um jeito
divino, provocante. Ele coçou a cabeça, parecendo confuso enquanto analisava o ambiente.
Fechei a porta com tanta cautela que sequer provoquei ruído, mas ele percebeu mesmo assim e
se virou rápido. Nossos olhares se encontraram de novo. Sorrimos. Com as mãos atrás de mim,
fechei a tranca da porta sem que ele percebesse.
André abriu a boca, mas desistiu de falar. Nem me dei o trabalho. Sabia que nada que
pudéssemos dizer seria mais importante do que estarmos, definitivamente, juntos e sozinhos.
Foi por isso que caminhei devagar em sua direção enquanto ele me filmava, parecendo
absorvido por cada um dos meus movimentos que eu me esforçava para deixar o mais
provocantes que me era possível.
O enorme homem avançou antes que eu o alcançasse e me puxou pela cintura. Uma
mão grande foi depositada na curva do meu pescoço. Juntamos nossos lábios com urgência,
pois não aguentávamos mais o vazio que a distância nos provocou. Enlacei meus braços ao
redor de seu pescoço, apertando-o e ganhando apoio para saltar e abrir minhas pernas ao redor
da sua cintura. Meu vestido só não me atrapalhou por causa da fenda enorme que permitia que
eu me movimentasse sem dificuldades.
Com intensidade, André guiou suas mãos ao longo das minhas coxas, apertando-as com
vontade. Cravei minhas unhas na sua nuca e fiz nossos lábios se movimentarem ainda mais
depressa em um beijo nervosamente louco, sem nexo, imprevisível. Nossas línguas mais
pareciam guerrear, fazendo malabarismos excitantes que me tiraram o fôlego. Cada vez que o
reencontrava, era como se nunca tivéssemos nos afastado, os sentimentos afloravam
incontroláveis.
Fui carregada por seus braços fortes, como se nada pesasse. André me apoiou na
beirada de uma mesa e, por trás de mim, suas mãos empurraram tudo o que havia em cima
dela. Deitou-me em seguida, com cuidado. Seu corpo imenso se inclinou por sobre o meu,
arrepiando-me por completa, principalmente por causa de sua temperatura elevada demais.
Meu amado, literalmente, pegava fogo.
Fiz força para arrancar seu terno. A vestimenta foi parar longe e, antes mesmo que eu
pudesse saber a cor exata de sua gravata, ela já voava pela sala. Arranquei os botões de sua
camisa e meus lábios se perderam dentro dela. Como uma maníaca, beijei sua pele rígida,
carregada de músculos definidos e muito quentes.
André deixou escapar alguns gemidos enquanto tentava encontrar o princípio do zíper
do meu vestido. Arranhei suas costas com as minhas unhas e ele urrou de prazer. Lambi o
contorno do seu pescoço, sentindo cada veia latejando forte por mim, pronta para me saciar ao
máximo. O desejo que eu sentia pelo seu corpo certamente incluía o que circulava por aquelas
veias. E eu tomaria tudo o que me pertencia naquela noite.
André desistiu de encontrar o zíper e começou a levantar o meu vestido. A saia toda foi
erguida até a minha cintura; seus dedos procuraram pelas minhas partes mais íntimas. Soltei
um gemido alto, carregado de pura satisfação, quando ele as encontrou. O desejo se
intensificou a um nível incompreensível, bem como a minha sede. Meus olhos começaram a
queimar. André me encarou enquanto eu me contorcia por causa do movimento de seus dedos
em mim. Sua expressão ficou séria de repente, creio que porque percebeu que meus olhos
estavam vermelhos.
Ainda muito sério, ele ergueu a outra mão e apontou para o próprio pescoço.
— Faça isso, Mikhayah... Mate a sua vontade.
Hesitei um pouco. O que ele estava propondo?
André se inclinou e deixou a pele que havia tocado bem perto de mim. Um movimento
mais brusco de seus dedos me fez quase gritar de tanta excitação. Ainda estava em dúvida. A
sede me consumia, mas... Eu não podia machucá-lo, podia? Era tudo tão maluco.
Lambi meus lábios e me assustei. Alguma coisa estava errada na minha boca. Levei
uma mão até ela e congelei de pavor: eu tinha criado presas! Sim, presas! Como nos filmes, eu
não podia acreditar.
— Ai, meu Deus! — empurrei o André com força e ele foi parar do outro lado da sala.
Quase se esborrachou no chão, mas conseguiu equilíbrio ao se apoiar em um sofá. Seu olhar
me procurou, confuso. Continuei sentada na mesa. — Eu... O que está acontecendo comigo?
— Mikah...
— Você... Está vendo isso? — arreganhei os dentes o máximo que pude, de modo a
expor a razão de meu espanto.
— Sim — André aquiesceu lentamente. Não parecia nem um pouco assustado, mas eu
morria de pavor. Minhas mãos tremiam ao tocarem as presas afiadas que saltaram da minha
boca. Era inacreditável.
— Ele tinha razão... — murmurei. — Eles têm razão, André. — Desci da mesa,
quebrando totalmente o clima que se havia instalado entre nós.
— De quem você está falando? — percebi a confusão em seu olhar.
— Nós não podemos ficar juntos, é perigoso! — choraminguei, nervosíssima.Fitei o
chão, envergonhada pelo que estávamos fazendo antes, mas piorou quando percebi os restos da
minha calcinha toda rasgada no chão da sala. — Eles tentaram nos avisar... Aquele cara que
você viu no restaurante, o Andrew, ele não é humano. Eu... acho que a gente também não é.
Ele disse que eu tinha que ficar longe de você para que os sintomas passassem. Eles querem
que a gente esqueça! É uma conspiração maluca que envolve até mesmo o doutor Cláudio. —
Eu falava como uma metralhadora, sabendo que tudo o que eu dizia não fazia o menor sentido.
André se sentou no sofá, afundando seu corpo parcialmente despido. Levou as mãos à
cabeça e apertou o crânio como se ele fosse explodir. Soltou um longo suspiro e me encarou
em seguida. Seus olhos brilhavam no tom amarelo já conhecido por mim. Meu medo se
intensificou. Não em relação a ele, mas do que seria de nós se prosseguíssemos. Ou do que
seria de nós caso nos separássemos.
— Eu não vou ficar longe de você, Mikaela. Já chega. Chega de fugir, de fingir que nada
está acontecendo — André se levantou do sofá. Sua expressão decidida me comoveu muito. —
Não quero esquecer. A partir de agora, só quero me lembrar. Danem-se esses caras. Não sei
quem são ou o que pretendem, mas eles não vão te tirar de mim. Quero que o mundo todo se
dane, para mim só existimos eu e você, nada mais! — suas palavras me emocionaram.
Fui me acalmando conforme seus olhos firmes se aproximavam dos meus. André apoiou
as mãos na beira da mesa e ficou me analisando de perto, creio que esperando pela minha
resposta. Espalmei minhas mãos em seu peito nu. Guiei meus dedos pelos seus ombros, a fim
de terminar de retirar sua camisa.
Foi um processo realizado quase em câmera lenta.
— Você se lembra mesmo? — murmurei a pergunta. André me ofereceu um sorrisinho
emocionado. — Do que se lembra?
— Na primeira vez que fizemos isso... — Ele fez círculos com os dedos nos meus
braços. — Você praticamente me atacou em um bosque.
Ri junto com ele, mas senti vontade de chorar também. Agora que o André tinha falado,
eu me lembrava. Podia sentir o cheiro do bosque. Ele estava cortando lenha, com o corpo todo
suado, exalando masculinidade, e eu não podia me aguentar de tanta vontade de tê-lo para
mim. Sempre detestei passar vontade. Naquela época, fazia exatamente o que queria, e ai de
quem me impedisse.
— Sinto que posso me lembrar de tudo se estiver contigo... E eu queria tanto me lembrar,
queria tanto que tudo isso ganhasse um sentido — murmurei.
André subiu os dedos e brincou com os meus lábios. Seus olhos tinham voltado a ficar
escuros, e me analisavam com endeusamento. Eu estava me abrindo e ele só queria saber de
me tocar. Isso até teria me decepcionado se ele não tivesse dito em seguida:
— Eu te amo há tanto tempo que esquecer de você é como esquecer de mim mesmo —
ele respondeu com a boca a centímetros da minha. Seu hálito fez cócegas na minha pele, e me
arrepiei da cabeça aos pés. André era tão quente! Parecia estar morrendo de febre. Acho que
nunca deixaria de me espantar. — Eu sei que viver sem você é a pior coisa do mundo.
— Você disse que não me amava — retesei um pouco, desviando os olhos e afastando
um pouco a cabeça.
— Ei... — André segurou o meu queixo, obrigando-me a continuar o encarando. — Foi a
maior mentira que já contei para alguém. Como pôde acreditar nela?
— Eu não acreditei — sorri. Ele também.
Meu sorriso morreu depois que mais recordações me acometeram. Senti-me sufocada
por elas. Percebi meus olhos enchendo-se de lágrimas, mas fui forte e as contive da melhor
forma possível.
— Alguma... Coisa sempre nos separava — franzi a testa e me concentrei nos tantos
adeuses que precisamos sofrer ao longo do tempo. Não dava nem para calcular quantos foram.
— Será que sempre foram eles? Mas... Por quê?
— Eu não sei. Você é diferente de mim e isso parece incomodar todo mundo. — Ele
continuava me alisando, fazendo-me um bem danado.
— Não parecemos tão diferentes assim — juntei minhas mãos no rosto dele, sentindo seu
maxilar perfeito contornando meus dedos. Seu coração batia tão acelerado... Era lindo de
ouvir. Uma verdadeira música para os meus ouvidos. — Nunca me incomodei.
— Nem eu.
— Oh, Àndreas... — atirei-me em seu pescoço e ele me abraçou. Voltei a envolver
minhas pernas na sua cintura. — Esse é o seu verdadeiro nome, sabia?
Ele riu e aquiesceu. Seus braços me ergueram da mesa.
— Sim, Mikhayah... Meu amor eterno...
Afastei meu rosto só para vê-lo de perto. Sorrimos juntos mais uma vez e trocamos um
longo beijo apaixonado. Era tão perfeito sentir o seu cheiro, o seu gosto, o seu toque. Minha
saudade era tão antiga que eu não fazia ideia de que a sentia até finalmente estarmos juntos de
verdade, já que até então só havíamos colecionado acontecimentos loucos.
André deu vários passos para trás e nos sentou no sofá, tendo o meu corpo sobre o seu.
Suas mãos percorreram minhas pernas, coxas e foram subindo lentamente até o topo das
minhas costas. Ele tentou mais uma vez achar um modo de me tirar do vestido. Meu corpo
tremeu quando senti o tecido cedendo lentamente. André tinha achado o zíper.
Aos beijos e suspiros, fui despida aos poucos, até que todo o vestido se concentrou na
minha cintura. O homem da minha vida me tocava como se eu fosse um cristal, redescobrindo
cada minúcia do meu corpo e certamente as reconhecendo.
Depois de vários minutos nos beijando e acariciando, percebi que ele hesitava. Devia ter
desconfiado, pois dificilmente nos amávamos com tanta paciência. Não importava quando
tempo tivéssemos ao nosso favor, os momentos que passávamos juntos eram sempre
emergentes.
Arquejei de frustração, sem compreender seus motivos. Separei nossos lábios e
aprumei minha coluna, sentando-me ereta sobre seu colo.
— Já desistiu? — sussurrei de um jeito desolado. André agarrou meus braços.
— Nunca! Não vou desistir.
— O que você tem, então? O que o impede?— Como sendo a pessoa que sempre achou
que fosse virgem, era eu quem devia estar com pelo menos algum receio. Não estava com nem
um pingo.
— Mikah... E se os sintomas realmente piorarem com a nossa aproximação? Até então
mal havíamos nos tocado direito... O que poderá acontecer depois que nós... Você sabe. —
pela primeira vez ele pareceu um pouco sem jeito.
Levantei-me depressa, segurando a parte superior do vestido para que não me sentisse
tão exposta. Seria inútil tentar fechar o zíper, mas tentei mesmo assim, furiosamente. Estava
cansada de temer. Só queria me entregar de vez àquele amor, e o resto que se explodisse. Mas,
no fundo, André tinha razão. Podia ser perigoso demais para nós dois. Aquela sede absurda
não me deixava negar.
Ele se aproximou pelas minhas costas e me ajudou com o vestido. Senti-me derrotada
com sua desistência. Recordei-me de meus devaneios, de quantas vezes aquele homem, que se
dizia meu eterno amor, havia me afastado, puramente por medo. Como eu tinha ódio daquela
palavra, tinha até mesmo nojo de pronunciá-la. Tentei me afastar depois, mas ele me prendeu
pelos ombros, abraçando-me por trás, e distribuiu beijos molhados sobre a minha pele. Não
dava para me sentir mais excitada que aquilo.
Estava possessa por ele me obrigar a passar vontade.
— O que você acha que é? — perguntei com os olhos fechados e a cabeça apoiada em
seu peito, após um longo suspiro. — Vidas passadas ou...
— Responda-me você — sussurrou no meu ouvido e me arrepiei pela milésima vez.
— Não faz muito sentido... Como alguém...? — parei com um arquejo incrédulo.
— Pode viver tanto? — André completou a minha pergunta. — Eu não sei, mas me sinto
tão velho quanto me sinto novo. E você?
— Estou cansada de viver. Neste exato momento a morte seria um grande prazer! —
cuspi as palavras.
André girou o meu corpo e tornou a me prender em seus braços. Pareceu bem chateado
com o que falei, mas era a verdade. O tédio, a desmotivação, a chatice... Eu era uma velha
ranzinza, sem dúvida alguma. Entretanto, com seus braços em volta de mim, a vida se tornava
bem interessante. Minha vontade de viver se renovava quando nossos olhos se encontravam.
— Você vai ver o que é ficar cansada de verdade, Mikhayah — um lampejo amarelado
tomou seus olhos e o André me jogou com tudo de volta para o sofá. Minha coluna estalou
com o movimento brusco, porém não senti dor alguma.
Ele se atirou contra mim, forçando minhas pernas a serem abertas e me beijando de um
jeito capaz de me tirar o fôlego em questão de segundos. Tê-lo tão grudado ao meu corpo,
sentindo o movimento rápido de suas veias, me fez morrer de sede. Beijei-o como um animal
feroz e, em algum momento, percebi seus lábios cheios de cortes, lambuzando nossas bocas de
sangue. Suguei o líquido escarlate misturado com sua saliva, ansiosamente.
André não recuou nem por um segundo. Continuou permitindo aquele beijo fatal como
se também sentisse prazer em me oferecer tudo o que eu necessitava. Seu sabor era realmente
inesquecível. Já me sentia bêbada de tão extasiada que estava em poder lhe provar. O beijo foi
intensificado e enrosquei minhas mãos no cinto dele. Devo ter quebrado o fecho, porque ele
cedeu fácil, abrindo-me mais uma porta na direção do que eu tanto ansiava.
Minha sede foi aumentando até que se tornou insuportável. Inspirei profundamente e,
além do cheiro magnífico do André, senti um bem diferente. Era um odor maravilhoso,
marcante, mas que me deixou alarmada porque não vinha do meu amado. Inspirei mais uma
vez e tive certeza absoluta: em algum lugar daquele castelo, alguém estava sangrando bastante.
André ainda avançava sobre mim quando segurei seu peitoral.
— André, espera... Espera! — Ele parou, mas me observou com os olhos semicerrados,
louco de desejo pelo nosso momento de entrega.
— O que foi desta vez, meu amor? — ele arfou com a voz rouca. Seus lábios grossos
estavam mesmo cortados, exalando um cheiro brando de sangue, pelo menos em relação ao
odor forte que eu ainda podia sentir. Definitivamente, aquilo não vinha do André. — Eu
desisto de resistir, não aguento mais... Só me deixe te amar sem medo, por favor. Quero estar
em você, depressa.
— Não é isso... Alguém está sangrando e não é você! — tentei afastá-lo de vez, mas
sua força me impediu.
— Como é que é? — Ele fez uma careta confusa.
— Alguém está sangrando muito... Posso sentir — inspirei mais uma vez. — Está
distante, parece não ser no castelo, mas é perto e... Está sangrando demais! Precisamos fazer
alguma coisa.
André deve ter compreendido a seriedade da situação, visto que se ergueu e começou a
procurar suas vestimentas. Rosnou baixo, evidentemente contrariado, quando encontrou a
minha calcinha. Colocou-a no bolso em vez de me entregar, mas não me importei. Não ia dar
para usá-la mesmo, tinha sido inutilizada.
— Fique aqui, Mikah. Vou dar uma olhada nos arredores. — ele ordenou.
— Não! Como vai conseguir achar se você não sente o cheiro? Ou você sente? —
ofereci-lhe um olhar angustiado.
— Não, não sinto, mas vou procurar.
— Eu vou com você, que coisa! Acho que já está mais do que comprovado que não sou
nenhuma donzela indefesa. — Levantei-me do sofá e aprumei o vestido. Estava meio
amassado, mas acho que ninguém notaria que estive aos amassos no andar de cima. — Por que
não quer que eu vá?
André suspirou alto.
— Algo me diz que não é certo te deixar muito perto de sangue.
Com certeza ele estava correto, mas eu era muito teimosa e mais ainda curiosa. Não
discuti, apenas caminhei até a porta, escancarando-a e inspirando novamente. O cheiro se
intensificava a cada instante. André terminou de abotoar o terno, disfarçando os botões
arrancados da camisa que usava por baixo. Deixou a gravata no mesmo bolso onde estava a
calcinha.
— Vamos logo! — segurou minha mão e seguimos rapidamente o mesmo trajeto que
fizemos para alcançar a saleta.
Descemos as escadas e o cheiro estava prestes a me enlouquecer. No entanto, não vinha
de ninguém do salão. Pude ter uma ideia geral das veias frenéticas de alguns homens já
bêbados de champanhe, também senti o odor de mulheres que, provavelmente, estavam
naqueles dias, mas nenhum deles era o que procurávamos. Segui até a porta que dava para a
saída com o André na minha retaguarda, segurando minha mão com força, provavelmente para
que eu não perdesse o controle.
Não parei para refletir sobre nada quando chegamos até o imenso jardim. O cheiro
estava mais forte do que nunca e agora eu podia ouvir alguns gemidos de dor. Aquilo aguçou
meus sentidos de uma maneira que eu jamais havia experimentado, ou que me recordasse, pelo
menos.
— Alguém está machucado. Ali! — apontei na direção de algumas palmeiras
enfileiradas. — Vamos, vamos rápido!
Como não havia muitas pessoas pelo jardim, corremos depressa sem causar alardes.
Quando nos afastamos de vez, então, não havia mais ninguém. Achei que a pessoa ferida
estava perto do castelo, mas pelo visto tinha me enganado. Corremos bastante, passamos por
arbustos, árvores, até de uma pequena horta, e nada. Mantive-me positiva porque o forte odor
só aumentava.
— Naquela direção! — indiquei e o André correu na minha frente, creio que
pressentindo o que aconteceria.
— Fred! — ele estacou e balbuciou, alarmado.
Não compreendi direito a cena que se fez diante de nós. Havia um homem esquisito
segurando um revólver apontado para outro sujeito que estava no chão, tentando estancar o
ferimento no braço, que sangrava muito. O desespero era visível em seus olhos, assim como a
insanidade era visível no rosto do outro que gritava:
— Onde ele está? Onde aquele maldito demônio das trevas está? — A arma
permanecia empunhada e o dedo dançava sobre o gatilho, podendo voltar a disparar a qualquer
minuto.
— Por favor, Robson, não faça nada de que vá se arrepender! — o tal de Fred
implorava. Eu o reconheci. Era um amigo do André, o mesmo que dividia o apartamento com
ele.
Meu mundo inteiro congelou naquele instante. Uma força sinistra se apossou de mim e
meus olhos começaram a queimar como brasas. Não conferi, mas tinha certeza de que as
minhas presas haviam retornado. Encarei o sangue de Fred como se estivesse hipnotizada, e eu
estava mesmo. Nada mais consegui raciocinar. Tudo o mais desapareceu diante de mim; só
conseguia enxergar aquele homem que sangrava divinamente.
Minha última reação racional foi apertar a mão do André. Rezei para que ele tivesse
força o suficiente para me fazer parar, porque, em uma fração de segundo, transformei-me
unicamente em instinto. E o meu instinto mais aguçado implorava aos berros por aquele
líquido vermelho inebriante. Jamais seria capaz de recuar sozinha.
Capítulo 21
André

Mikah apertou minha mão com força. Desviei meu olhar do homem com a arma por
alguns segundos e vi o reflexo vermelho nos olhos de minha amada. As coisas pareciam querer
sair totalmente do controle. Por mais que estivéssemos numa área mais isolada do castelo,
qualquer confusão, ou mesmo o barulho de um novo disparo, iria atrair curiosos para lá.
— Acalme-se, Mikah... — sussurrei em seu ouvido.
Em resposta, Mikaela apenas grunhiu. Senti-a apertar minha mão com ainda mais força,
e percebi um leve movimento seu em direção ao Fred e ao Robson. Como se tentasse domar
uma fera incontrolável, abracei-a e tentei segurá-la. Juntei as mãos ao seu redor, antecipando a
força descomunal que ela exerceria. Certamente não seria fácil resistir.
Mikah deu um urro alto, animalesco, e chamou a atenção de Robson que, até então,
estava de costas para nós. Ao se virar, ele arregalou os olhos e apontou a arma em nossa
direção. Suas mãos tremiam bastante, dificilmente ele conseguiria fazer mira e acertar, mas
todo cuidado era pouco.
— Que diabos é isso? — Seu olhar enlouquecido me preocupou.
— Calma, Robson, não faça nada precipitado — comecei a me aproximar
vagarosamente, enquanto também tentava manter minha amada calma. — E você também,
fique quieta — sussurrei novamente no ouvido de Mikaela, que parecia se controlar um pouco
quando me ouvia.
— Não estou fazendo nada precipitado. O que você quer comigo? Eu fui embora, não dei
queixa sobre nada. Por que anda atrás de mim? Por que mandou que o Fred me importunasse?
Sim, é óbvio que ele estava me ligando por ordem sua. Por acaso você acha que sou um idiota?
Eu não queria vir, não queria estar aqui, mas vocês não me deixavam em paz! O que foi, quer
me matar, é? — Robson tremia de nervoso, seu rosto estava bastante vermelho e lágrimas
começaram a rolar com fartura.
— Ninguém está atrás de você, Robson. Abaixe essa arma, por favor. Deixe-me explicar
— tentei controlar a situação. Alguém ali precisava manter a calma, e pelo visto eu era o mais
próximo dela, mesmo que meu corpo inteiro estivesse tremendo de pavor. Fred continuava
caído no chão, com o sangue se esvaindo pelo ferimento em seu braço.
— Não estão? De uma hora para outra o Fred não para de me ligar e você quer mesmo
que eu acredite nisso?
— Eu já lhe disse, preciso de ajuda com um cliente... — meu colega de apartamento se
intrometeu, tentando colocar panos quentes na situação.
— Cale a boca! — Robson gritou em plena fúria. Sua aparência era de alguém
descontrolado, capaz de fazer qualquer coisa. — Acha que sou estúpido? Você não tem cliente
nenhum meu, verifiquei no setor de cadastro da empresa. Inventasse uma desculpa melhor se
queria me matar, gênio! — Ele deu uma risada histérica.
— Robson, escute, eu não sei bem o que aconteceu no banheiro, naquele dia. Peço
desculpas se o machuquei — continuava na expectativa de acalmá-lo, mas nada parecia surtir
efeito.
— Pode me soltar, estou bem... — Mikaela murmurou baixinho e eu afrouxei o aperto,
porém sem largá-la totalmente. Queria que ela corresse para longe dali o mais rápido possível,
mas isso poderia assustar o Robson e fazê-lo atirar nela. Então eu jamais me perdoaria.
— André, você acha que é só me pedir desculpas e está tudo bem? Como você quer que
eu esqueça o que aconteceu? Ainda tenho pesadelos com aquilo todas as noites... — Robson
deixou a arma tremelicar em sua mão direita, que continuava apontando em nossa direção,
enquanto usou a mão esquerda para enxugar o suor e as lágrimas em seu rosto. — Você não
precisava ter feito aquilo, seu animal! Eu estava apenas brincando, estava apenas brincando...
Você me partiu duas costelas, sabia? Fora as outras escoriações e hematomas, além do mais...
— as lágrimas tornaram a descer e Robson, soluçando, não conseguiu terminar a frase.
— Sei que você pode ter ficado traumatizado por causa dos machucados, mas...
— Os machucados? — interrompeu-me. — Isso é o de menos, meus pesadelos não são
sobre isso.
Comecei a tremer ainda mais, temendo o que ele teria para dizer. Soltei Mikah, que já
estava mais calma, e caminhei na direção de Robson, que continuava apontando a arma para
mim. Ele parecia muito assustado, mas seus olhos mostravam que estava determinado a levar
aquela situação até o extremo, se fosse necessário.
— Saia daqui, seu monstro! Desta vez estou preparado! — Ele enxugou novamente as
lágrimas com a camisa, fez mira com o revólver e seus olhos se firmaram como se tivesse
acabado de decidir que atiraria sem dó nem piedade.
— Eu não estou te entendendo — respondi devagar, com as mãos erguidas em rendição.
— Não se faça de bobo, eu sei o que você é, eu vi no que se transformou! Não falei nada
para ninguém, pois não acreditariam e ainda me chamariam de louco, mas você não me
engana. Não sei como é possível, pensei que fossem apenas histórias da imaginação humana,
mas eu sei, vi com meus olhos e jamais esquecerei!
— Robson, vamos conversar... Vamos para outro lugar. Eu não sou nada disso que você
está imaginando—caminhei um pouco mais em sua direção. Queria ganhar tempo e também
tentar entender o que ele estava dizendo.
— Afaste-se! Se você se aproximar mais um centímetro, irei atirar, eu juro! — a arma
fez o click ao ser engatilhada.
Dei mais um passo e o dedo de Robson vibrou sobre o gatilho. Ele iria mesmo fazer
aquilo, não tinha volta. Inesperadamente, senti algo passar ao meu lado como um raio. Vi
apenas uma mancha vermelha rasgando o ar em direção ao homem armado. O revólver
disparou. Não senti nada. Olhei para o meu corpo, estupefato, e não parecia mesmo ter sido
atingido. Segui na mesma direção que Mikaela, mas quando dei por mim, ela estava debruçada
sobre o corpo de Robson, e havia bastante sangue ao redor.
— Mikaela, não faça isso! — gritei apavorado. Era tarde demais.
Ela simplesmente ergueu a cabeça e olhou para trás. Os dois pontos vermelhos acesos
eram inconfundíveis. Seu rosto estava completamente transformado, irreconhecível e lavado
em sangue. Ela sorriu, exibindo as enormes presas que haviam despontado de sua boca. Era um
sorriso frio, malévolo, cruel e encantador.
Logo, ela se voltou para sua vítima. Robson estava com o pescoço todo esfacelado, seu
sangue se espalhava pelo chão rapidamente. Creio que ele sequer chegou a saber como tinha
morrido.
Fui até o Fred, que havia perdido a consciência devido ao fato de ter sangrado muito.
Fiquei pensando o quanto ele teria visto de tudo aquilo e torci para que tivesse perdido os
sentidos antes do ataque final de Mikhayah. Não tardou muito até que surgissem os primeiros
curiosos. Escutei o burburinho se aproximando, peguei Fred nos braços com extrema
facilidade e chamei Mikaela, que ainda se esbaldava no sangue do Robson.
— Vamos, Mikah, tem pessoas chegando, não podem nos ver nesse estado — eu estava
muito preocupado. Como explicar o que estava acontecendo aos demais?
Visivelmente contrariada, ela abandonou sua refeição, limpou a boca com as costas da
mão e correu ao meu lado, em direção oposta ao castelo. Vagamos por entre uma área
vastamente arborizada, tentando localizar a saída e chegar até o meu carro. Sair pela porta da
frente com um sujeito desfalecido e baleado em meus braços, e também com uma mulher toda
suja de sangue ao meu lado, não parecia a melhor das ideias.
Finalmente visualizamos uma cerca, aquela seria a nossa saída. Com grande destreza,
Mikaela subiu até o topo, que não era muito alto, e estendeu os braços para que eu lhe
entregasse o Fred. Não cheguei a questionar sua capacidade de segurar um homem pesado e
bem maior do que ela. Subi e pulei para o outro lado, recebendo meu colega de apartamento
novamente em meus braços. Atravessamos a rua e nos escondemos ao lado de uma igrejinha
antiga que havia ali.
— O que faremos agora? — Mikaela indagou. O sangue escorria pela sua boca e
manchava de um tom vinho o seu vestido vermelho. A cena toda era bizarra, mas igualmente
fascinante.
— Precisamos levar o Fred até um hospital, não podemos deixá-lo aqui. — Depositei o
corpo de meu amigo no chão.
— Como pretende fazer isso sem chamar a atenção e sem ser pego pela polícia? —
Mikah pegou a barra do vestido e começou a limpar o sangue que lhe cobria o rosto e que
começava a secar.
— Fique aqui com ele, vou buscar meu carro e volto logo. O resto a gente resolve no
caminho!
Sem esperar resposta, lancei-me à rua e corri em direção ao amplo estacionamento,
onde deixara meu veículo. Estava repleto, muito mais do que quando cheguei. Olhei ao redor,
mas parecia impossível encontrá-lo. Totalmente atordoado com a situação, não conseguia me
lembrar de nenhum ponto de referência de onde o havia estacionado. Fui apertando o controle
do alarme, até que finalmente ouvi o barulhinho vindo de um ponto próximo. Sem querer
chamar muita atenção, entrei no carro e saí lentamente, como se nada de mais estivesse
acontecendo.
— Entre no carro! —ordenei para Mikaela assim que parei ao lado da igrejinha.
Desci, peguei, mais uma vez, Fred em meus braços e o coloquei deitado no banco de
trás. Fechei a porta com cuidado e voltei para meu lugar. Mais uma vez, saí como se nada de
errado acontecesse.
— E agora, para onde vamos? — a voz de Mikah soou nervosa.
— Para o hospital mais próximo!
— Vão querer saber o que aconteceu, farão milhares de perguntas, chamarão a polícia...
— Você quer que, simplesmente, eu o deixe morrer? Porque isso, nem de longe, é uma
opção! — irritei-me.
— Não foi isso que eu quis dizer... — ela ficou sem graça.
— Não se preocupe, vou dar um jeito e você não será envolvida em nada. Confie em
mim — segurei em sua mão, tentando lhe passar tranquilidade. Ela sorriu.
Achei que precisasse de apoio, afinal, tinha acabado de matar um cara e certamente não
sabia bem o porquê. Bom, eu também não sabia direito, mas tentava não pensar muito no
assunto, do contrário precisaria levar todos nós a um hospício.
Felizmente, o trânsito não estava muito pesado naquele dia e não tardou para que
chegássemos ao hospital de emergências da cidade. Parei alguns metros antes e peguei Fred
em meus braços.
— Mantenha o motor ligado — orientei Mikaela, antes de deixá-la sozinha. — Não se
preocupe com nada e não saia daí não importa o que aconteça, por favor.
Caminhei até a entrada do hospital e comecei a gritar por socorro. Não tardou muito, um
enfermeiro apareceu conduzindo uma maca. Eu disse que havia encontrado o homem
inconsciente numa rua próxima e que ele aparentava ter perdido muito sangue devido a um
ferimento em seu braço. Outra pessoa apareceu e começou a me fazer um monte de perguntas,
mas dei apenas respostas evasivas.
Pedi licença, alegando que precisava muito ir ao banheiro e, no momento em que se
distraíram, misturei-me a um grupo de pessoas na recepção e escapei pela porta principal.
Imaginei que o hospital tivesse câmeras e que logo me identificariam, mas aquilo não era
problema, visto que permanecer naquela cidade, obviamente, não era mais uma opção.
Caminhei preocupado até o carro, mas para meu alívio, dessa vez, Mikah havia me
obedecido e não saiu do lugar. Logo, dirigíamos o mais rápido possível para fora da cidade.
Custou-me muito abandonar o Fred naquela situação, mas não havia nada além disso que
pudéssemos fazer para ajudá-lo. A noite avançava fria, mas por dentro eu me sentia quente e
confortável, pois finalmente podia estar ao lado da pessoa que eu amava. Diante do que
aconteceu, não fazia sentido algum. Era egoísmo, com certeza, mas eu estava tão feliz por ter a
Mikah por perto que nenhuma estranheza chegava a ser realmente significativa.
— André, sobre o que aconteceu na festa... — ela interrompeu um silêncio que já
perdurava por alguns minutos.
— Não se preocupe, não estou pensando nada — procurei tranquilizá-la, já imaginando o
que se passava em sua cabeça.
— Aquilo não te assustou, nem um pouquinho? — Ela me encarou, parecendo bastante
aflita.
— Se eu disser que não assustou nem um pouquinho, vou estar mentindo. Porém,
também tenho minha cota de esquisitices. — Sorri e alisei sua mão, que repousava em sua
coxa. Estava fria como gelo.
Não se tocou mais no assunto. Na verdade, não falamos mais nada. Mikaela sorriu, ligou
o som do carro num volume baixo, repousou a cabeça em meu ombro e ficamos em silêncio
absoluto. Dirigi por quase uma hora, imaginando que, a qualquer minuto, sirenes da polícia
estariam nos perseguindo e nos mandando encostar, mas isso não aconteceu.
A cidade já havia ficado para trás, uma sensação de liberdade começou a preencher
meu peito, porém tinha dentro de mim um sentimento de que algo não estava certo. Pensei em
perguntar a Mikah se ela sentia o mesmo, mas não quis incomodá-la com isso. Olhei para o seu
rosto, naquele momento angelical. Ela dormia.
Rodamos mais alguns minutos quando observei algo estranho pelo retrovisor e
congelei.
— Mikaela, coloque o seu cinto — falei depois de algum tempo observando o veículo
que se aproximava.
— O que aconteceu? — ela se assustou ao ser acordada de supetão.
— Acho que estamos sendo seguidos.
Antes mesmo que ela terminasse de prender o cinto, acelerei repentinamente e nossos
corpos se chocaram com os bancos num solavanco. Rasguei pela pista escura e vazia. O carro
branco que nos seguia de longe, com as luzes apagadas, acelerou e veio em nosso encalço.
— É a polícia? — Mikaela estava bastante assustada, mas eu não me sentia diferente.
— Ser for, estão em um carro descaracterizado, mas não vou parar para descobrir! —
continuei pisando fundo.
O caminho era deserto e não existiam desvios. Na verdade, não havia muito para onde
fugir, não conseguia ver nenhuma rota alternativa, nem mesmo uma estrada de chão onde
pudesse entrar para despistá-los. A única solução foi continuar acelerando ao máximo,
esperando que o carro que nos seguia desistisse ou ficasse para trás. Em alguns momentos,
cheguei a acreditar que havia me livrado do perigo, mas logo via aquele pontinho de luz no
retrovisor.
Quando eu menos esperava, Mikah colocou a mão esquerda espalmada sobre meu peito
e gritou:
— Vire à esquerda, depois daquela pontezinha! — apontou adiante.
— O que tem lá? — Fiquei surpreso pelo rompante de minha amada.
— Eu não sei, mas não há tempo para discussões, apenas vire!
Mikaela falou com tanta certeza que não tive dúvidas em obedecê-la. Assim que
terminamos de atravessar a ponte, virei bruscamente na direção indicada, fazendo com que o
carro derrapasse e os pneus cantassem. Uma enorme nuvem de poeira subiu, mas logo
encontramos mato pela frente. Tomei um susto, pois ali não havia nenhum tipo de estrada ou
caminho, e foi preciso desviar de algumas árvores. Por muito pouco não nos acidentamos.
— Que loucura foi essa? Está vendo, não tem nada aqui! — grunhi.
— Apenas continue reto. Não sei por que, mas algo dentro de mim está falando muito
claramente para seguirmos nessa direção.
Volta e meia eu observava o retrovisor para ver se continuávamos sendo seguidos, mas
não via nem sinal do veículo branco. Ao menos parecia que os tínhamos despistado. Dirigi por
mais alguns metros floresta adentro e resolvi arriscar. Desliguei o carro e tentamos escutar se
havia algum barulho ao nosso redor. Nada, o silêncio reinava. Não vi também nenhuma luz se
aproximar.
— Conseguimos nos livrar deles, finalmente. Acho que agora já podemos voltar para a
estrada — falei, sentindo-me aliviado.
— Não, não podemos voltar. Meu coração continua me mandando seguir em frente. Não
consigo explicar, mas sei que deve haver um motivo.
— Não tem nada seguindo em frente, Mikaela, apenas a floresta. Não está vendo?
— Ainda assim, vamos em frente. Por favor, André — ela me pediu de uma forma que
seria impossível recusar.
Mais uma vez, engoli a minha opinião e fiz o que minha amada me indicava. Liguei o
motor e deixei os faróis no mínimo, para não chamar muita atenção. Segui devagar e
calmamente, evitando qualquer acidente. Estava me impacientando com aquela história de
sexto sentido. Já poderíamos estar longe, se não vagássemos por ali à toa. Preferi manter meus
pensamentos para mim mesmo. Mikah seguia em silêncio e com atenção.
— Ali! — Ela apontou para um lugar mais à frente. — Eu sabia que meus instintos não
poderiam estar errados.
— O que é aquilo? — Eu não conseguia enxergar direito.
— Parece um casarão antigo, vamos até lá — ela ficou excitadíssima com a descoberta.
Estacionei o carro em frente ao lugar. Não consegui entender o que uma casa daquelas
fazia no meio do nada, daquele jeito. Talvez em tempos passados houvesse alguma civilização
por perto, até mesmo uma estrada ou caminho, mas, naquele momento, não existia nada ao
redor. Deixei os faróis altos ligados para iluminar a porta. Duvidava muito de que aquela casa
tivesse instalações elétricas ou, ainda que sim, que estivessem funcionando.
A porta estava trancada, mas não foi muito difícil arrombá-la. Atirei meu corpo contra a
estrutura de madeira, e o marco, já apodrecido, se desfez, liberando o trinco e,
consequentemente, a passagem. A escuridão parecia ainda mais densa do lado de dentro
daquele lugar. Todas as janelas pareciam ser de madeira maciça e estavam lacradas.
Obviamente, não havia interruptores e não encontramos nenhuma outra fonte de luz.
Voltamos para o lugar onde tínhamos deixado o carro, meio decepcionados com o
achado.
— Não há muito que possamos fazer agora, imagino que devamos esperar o dia clarear.
Já não devem faltar muitas horas — propus.
— Precisamos descansar, tudo foi muito louco e agitado hoje. — Mikaela sentou-se
sobre o capô do veículo.
— Ficamos no carro ou dormimos lá dentro? — Eu não tinha mesmo nenhuma ideia do
que fazer, embora, pensando bem, o carro me parecia mais seguro àquela altura.
— Acho que prefiro ficar no carro. Não tem como saber as condições das coisas que
estão na casa, além disso, sabemos lá se tem algum animal perigoso vivendo ali... — Mikah
acabou corroborando meus pensamentos.
— Muito bem, ficaremos aqui fora, então.
Tratei de encostar novamente a porta do casarão. Inclinei ao máximo os bancos do carro,
para que pudéssemos nos ajeitar o mais confortavelmente possível. Deitamos e ficamos de
mãos dadas, em silêncio. Tudo que havia acontecido era informação demais para nós. Além de
todos os fatos bizarros, ainda pairava a dúvida de quem estaria naquele carro que nos seguia.
Tudo o que precisávamos era de um pouco de paz e meditar sobre o que estava acontecendo.
Senti um imenso impulso de beijá-la, mas muita coisa havia acontecido e não sabia se ela
estaria no clima. Preferi esperar por sua iniciativa, que não veio. Não acreditei que ela
estivesse desinteressada, mas imaginei que devia estar, assim como eu, refletindo sobre o
significado das últimas horas de nossa vida.
Se antes restava qualquer dúvida, agora já era uma certeza absoluta. Nós dois não
pertencíamos àquele mundo, ao menos não de modo convencional. Percebi a respiração de
Mikaela ficar mais lenta e pesada. Olhei para o lado e ela havia adormecido. Procurei fazer o
mesmo.
— André, André, me ajuda, socorro! — acordei com os gritos de Mikaela.
Dei um salto no banco, assustado, e me deparei com uma apavorada Mikah me
sacudindo com força. Ela segurava um dos braços, enquanto me tocava com a outra mão para
que eu despertasse. Percebi que algo estava errado no mesmo instante em que consegui
desembaçar a visão.
— Minha pele está queimando! O dia amanheceu e eu estou pegando fogo! — ela
sacudia os braços desesperadamente.
Só então me dei conta da gravidade da situação. Abri a porta do carro, dei a volta e tentei
retirá-la. Ela urrou ainda mais de dor, era como se alguém houvesse atirado um vidro de ácido
contra seu corpo. Apavorado e sem saber o que fazer, puxei-a para meu colo, fazendo com que
saísse definitivamente do veículo. As bolhas em sua pele aumentaram de tamanho e eu me
desesperei. Saí correndo com ela em meus braços e me atirei contra a porta do casarão, em
busca de alguma fonte de água para amenizar seu sofrimento.
Mikaela chorava muito e gemia de dor. Depositei-a numa velha poltrona, que agora era
possível ver no interior da casa, e saí em busca de algo que pudesse ajudar. Não tinha a menor
ideia do que procurava. Encontrei um antigo sifão que puxava água de algum poço artesiano.
Imaginei que pudesse existir algum balde ou vasilha por perto.
Circundei a casa até que encontrei um velho balde de madeira. Corri até o sifão e
comecei a bombeá-lo na expectativa de conseguir água, mas ele estava seco. Atirei o balde ao
chão com muita raiva, as coisas não poderiam dar certo apenas uma vez? Desesperado, fui até
o interior da casa, onde minha amada ainda gemia de dor.
— Mikah, o que está acontecendo? Como posso te ajudar? — ajoelhei-me ao seu lado e
segurei suas mãos com cautela.
— É o sol que está me fazendo isso! Pensei que o problema estivesse resolvido, mas
nosso contato realmente nos transforma.
— O que devo fazer? — Passei as mãos pela cabeça em desespero.
De modo estranho, Mikaela silenciou. Como que esquecendo completamente a sua
angústia, ela se levantou e se aproximou. Seus olhos estavam arregalados e olhavam vidrados
para algo atrás de mim. Virei-me para tentar enxergar o que ela via, mas não identifiquei nada
de imediato.
— Sente-se, você ainda não está em condições. O que está acontecendo?
O silêncio foi a minha resposta. Ela ainda caminhava lentamente como se estivesse
hipnotizada e como se fosse atraída pelo canto da sereia.
— Mikah, você está me deixando assustado. Diga-me, o que aconteceu? — Seu corpo
ainda tinha as horrendas bolhas, das quais parecia sair uma suave fumaça esbranquiçada. —
Mikah! — gritei e ela pareceu sair do transe.
— Eu me lembro, Àndreas, eu me lembro deste lugar — uma única lágrima vermelha
escorreu de seus olhos.
— Como poderia? — Fiquei confuso.
— Veja você mesmo! — Ela apontou para um quadro pendurado na parede que,
visivelmente, era um retrato pintado dela, ou de alguém muito parecida com ela, só que com
cabelos negros.
Fiquei boquiaberto. Era uma bela pintura onde Mikaela vestia uma roupa dos anos
cinquenta, muito chamativa. Admirei a tela por algum tempo, esquecendo-me também da
agonia que minha amada enfrentava. Como aquilo podia ser possível?
— Sinto como se já estivéssemos aqui antes. Uma espécie de Déjà Vu. — Corri os olhos
por todo o ambiente.
— Sim, já estivemos aqui antes, começo a me lembrar. São apenas alguns flashes de
memória, mas sei que não são devaneios ou sonhos. Estivemos neste lugar antes de tudo
acontecer, antes de sermos parte dos sete por cento. — Ela caminhava de um lado para o outro,
observando tudo o que fosse possível com a pouca luz que entrava pelas frestas das janelas e
pela porta semiaberta, visto que eu a encostara quando entramos.
Não demorou muito para que encontrássemos uma lamparina. Usando um pedaço de
cortina embebida em óleo, consegui fogo usando o acendedor de cigarros do carro. Logo
podíamos andar pelo restante do antigo casarão, procurando por mais lembranças perdidas. A
cada novo pedaço explorado, novos fragmentos de memórias vinham a nós, principalmente
para Mikhayah que, aparentemente, usufruíra daquele ambiente por muito mais tempo do que
eu. A emoção das lembranças e das descobertas foi tão forte que continuamos ignorando o
problema com a pele de Mikah, até que ela não suportou mais.
— Preciso descansar, André. — Ela se atirou sobre uma cama de casal coberta de poeira
que havia num dos quartos, no segundo andar.
— Precisamos descobrir um modo de fazê-la melhorar. — Passei a mão por sua testa,
tentando confortá-la.
— Eu usei um medicamento, enquanto estava na casa do Sérgio, mas acho que o que me
curou foi o tempo. Conforme recuperei minhas forças, minha pele foi melhorando. Também
não posso mais me expor ao sol...
— Precisa haver algo para acelerar o processo — insisti.
— Na verdade, imagino que haja uma coisa. Nunca me senti tão bem, tão forte e tão viva
quanto ontem, quando ataquei aquele sujeitinho esquisito.
— O sangue.
— Não poderia lhe pedir tamanho sacrifício. — Ela se virou na cama.
— Faça o que tiver que fazer, Mikah.
Inesperadamente, ela se virou, já com olhos flamejantes e presas afiadas brotando de sua
boca. Mikaela avançou em meu pescoço e começou a me sugar. Meu primeiro instinto foi
reagir, mas logo permiti que ela fizesse o que pretendia, pois era a única maneira de curá-la.
Enquanto ela se alimentava, tive visões e recordações de nossos primeiros momentos juntos
naquela casa. Foram dias de amor, luxúria e diversão.
Não demorou muito, minha amada desgrudou-se de meu pescoço e logo me mordeu os
lábios, sorvendo o líquido vermelho que brotava como uma fonte. Beijamo-nos
alucinadamente, como se nunca houvéssemos nos beijado antes. Rolei sobre ela na cama e
impus meu peso, imobilizando-a.
Encarei-a por alguns segundos, aproveitando a maravilhosa visão que tinha. Dessa vez
fui eu quem tomou a iniciativa e tornei a colar nossos lábios de modo violento. Ela ainda
buscava pelas gotas de vida que brotavam de mim, mas eu procurava algo mais e comecei a
tentar abrir o zíper de seu vestido.
— Não, por favor, agora não — ela segurou minha mão e sussurrou.
— O que houve?
— Não enquanto eu estiver assim...
— Eu não me importo. — Fui mais do que sincero.
— Mas eu sim, quero estar perfeita para você, quero me sentir feminina e desejável. Não
gostaria que nossa... digamos, primeira vez, fosse dessa forma.
— Eu compreendo. Está tudo bem, Mikhayah. Precisamos mesmo descansar.
Sem pronunciarmos mais nenhuma palavra, apaguei a lamparina e me deitei ao lado da
mulher que eu amava mais do que tudo no mundo. Ela se aconchegou a mim e eu a abracei
forte. A casa tinha fortes odores de mofo e poeira. Por alguns instantes, revivi todas as
adversidades que tivemos até chegarmos àquele momento. Sem demora, Mikaela apagou.
Meditei um pouco mais, até que meus olhos pesaram e finalmente se fecharam. Eu ainda
estava muito cansado, apesar da noite de sono no carro. Desta forma, adormecemos.
Capítulo 22
Mikaela

Despertei como se houvesse um relógio interno badalando, avisando-me que já havia


anoitecido e que era seguro despertar. Eu me lembrava de ter dormido com braços enormes ao
meu redor, porém naquele momento só a brisa fria que entrava por uma única janela aberta me
fazia companhia.
Grunhi de decepção, pois esperava acordar com o André por perto, de preferência ainda
me abraçando e sorrindo quando percebesse que eu já tinha aberto os olhos. No entanto, o
cheiro dele me consolou; ainda estava impregnado no quarto, nos lençóis, em mim.
Apesar de o ambiente estar completamente tomado pela escuridão, não senti dificuldade
para analisar cada partícula dele. Era um quarto amplo, com móveis antigos de aparência
pesada. Causava-me muita nostalgia. Tentei me sentir desconfortável por estar sobre lençóis
embolorados, contudo me surpreendi quando percebi que haviam sido trocados. Aqueles
estavam limpos, exalando cheiro de novo. Achei bem estranho, por isso tratei de me levantar
com calma. Passei a sentir diversos odores assim que me pus de pé. O cheiro do André
predominava, mesclado com um pouco de poeira, mofo, produtos de limpeza e, ao longe,
comida sendo cozinhada.
Procurei por um interruptor como força do hábito. Para a minha surpresa, um lustre
antigo se acendeu, fazendo o quarto brilhar em micropartículas que eu podia diferenciar bem.
Em cima de uma poltrona de couro gasto, havia algumas sacolas. Pareciam ter sido colocadas
ali há pouco tempo. Revirei o conteúdo delas e achei toalhas limpas, alguns produtos de
higiene pessoal e poucas mudas de roupa feminina. Sorri porque sabia que a presença daqueles
objetos havia sido proveniente do cuidado que o André tinha comigo.
Encontrei uma porta aberta que não era a da saída. Tratava-se de um banheiro amplo,
com uma banheira de porcelana antiga e azulejos escuros demais para fazer parte de um
banheiro. Tentei não me assustar quando me aproximei do espelho acima da pia e não consegui
ver o meu reflexo. Suspirei mais de tristeza do que de medo do que eu estava me tornando.
Não sei por que, mas fui consolada pelo meu próprio cérebro na velocidade da luz. Ele me
dizia que eu era linda demais para ser vista em um espelho medíocre, por isso não havia
motivos para me preocupar com a aparência.
Procurei pelas bolhas em meu corpo, porém não as achei. Minha pele estava
perfeitamente intacta. Retirei o vestido vermelho com cuidado, de repente me sentindo
imunda. Precisava de um banho com urgência. Ri sozinha quando percebi que não usava nada
por baixo. Não sabia qual era o paradeiro da minha calcinha, e nem queria saber. Não
importava.
Liguei a torneira da banheira na esperança de ter uma boa notícia. No começo, saiu um
líquido com uma coloração esquisita, que foi se clareando até de fato parecer com água.
Provavelmente ela vinha de um poço. Pelo cheiro, ia servir bem. Voltei para o quarto e peguei
algumas sacolas, levando-as ao banheiro. Despejei sais de banho e alguns óleos cheirosos na
banheira, sentindo-me boba porque o André tinha feito escolhas agradáveis demais, quase
como se me conhecesse como ninguém. Realmente, ele me conhecia. Não existia ser algum
daquele mundo que soubesse quem eu era mais do que o meu amado.
Dentro da mesma sacola, encontrei também duas caixas de tintura loira e um grande
frasco de água oxigenada. Entendi o recado e não precisei perguntar nada ao André para dar o
próximo passo. Enquanto a banheira enchia lentamente, preparei a mistura da tinta e coloquei
de lado. Lavei bem os cabelos e os descolori com a água oxigenada, depois apliquei a tintura.
Não fazia a mínima ideia de como teria ficado, mas levando em consideração que era apenas
para facilitar a nossa fuga, não me importei tanto.
Passei vários minutos imersa na água até o pescoço, deixando a tintura agir no meu
cabelo. Massageei o meu corpo com uma esponja macia, deliciando-me com a sensação
maravilhosa que era me sentir protegida, amada, segura. Há muito tempo eu não sabia o que
era aquilo. Sentir-me daquela forma era bom demais.
Depois de passado mais ou menos o tempo necessário, enxaguei os cabelos e os
hidratei com um creme que estava junto dos demais produtos. André realmente tinha pensado
em tudo. Após concluir a higiene de cada parte do meu corpo, vesti uma camisola preta de
alcinhas. Era bem discreta, apesar de tudo. Não deixava decote algum evidente e nem era tão
curta, de modo que me senti muito à vontade. Coloquei os sapatos vermelhos que usei na noite
anterior, penteei os meus cabelos, agora loiros, e, sem a possibilidade de ver como fiquei, tratei
de não deixar a insegurança me atingir.
Segui o cheiro do André pela enorme casa, cruzando corredores escuros e salas
abandonadas. Cada cômodo me trazia uma lembrança nostálgica, que de toda forma eram boas
e me faziam bem. Não sabia como as coisas por ali terminaram, ainda não, mas tinha certeza
de que eu havia sido muito feliz naquele lugar.
Ouvi um pequeno ruído na grande sala de entrada, a mesma que tinha vários ambientes
interligados; sala de jantar, estar e lareira em um único e aconchegante ambiente. Encontrei o
André com uma caixa de fósforos na mão, acendendo uma das várias velas que espalhou por
aquela sala. A lareira também estava ligada. Não era elétrica, portanto ele provavelmente tinha
providenciado lenha. Não pude conter um suspiro apaixonado.
— Está querendo me conquistar? — perguntei enquanto me aproximava dele. —
Porque se for, está funcionando bem.
André me ofereceu um riso despretensioso. Soprou o último fósforo, largou a caixa em
algum lugar e desfez a distância entre nós em um segundo. Seus braços logo me envolveram
num abraço apertado, que fazia mil e uma promessas para aquela noite. Correspondi àquele
abraço como se não fosse capaz de soltá-lo, e no fundo era a mais pura verdade. Eu não podia
mais imaginar uma vida sem ele ao meu lado. Tinha sobrevivido por dez anos longe do meu
único e eterno amor, um tempo sufocante que demarcou uma época da minha vida que eu
preferia fingir que jamais existiu.
Ele segurou o meu rosto com as duas mãos e me encarou como se estivesse
maravilhado. Sua face sob a luz das velas era a personificação da perfeição masculina. Minha
memória foi aguçada, fazendo-me recordar as tantas vezes que ele tinha segurado o meu rosto
e me olhado daquela mesma forma.
Depois de anos incontáveis, ainda éramos os mesmos, sentíamos o que sempre
sentimos, estávamos dispostos a continuar em nome do que jamais morreu dentro de nós, indo
contra tudo e todos, seguindo na direção oposta à própria natureza. Nosso amor era assim:
trágico, louco e perfeito, e nós simplesmente amávamos nos amar.
— Você é a coisa mais linda que eu já vi em toda a minha vida. Essa cor ficou
perfeita... — murmurou, referindo-se aos meus cabelos, e então eu definitivamente já não
precisava mais de um espelho. Sorri de alegria. — Sabia que acordaria assim que anoitecesse.
Está com fome... ou sede? — Ele ergueu uma sobrancelha.
— Hum... Acho que os dois. — Tentei não me sentir uma esquisitona. André agia com
tanta naturalidade que acabou sendo mais fácil do que imaginei.
— Vamos resolver um deles agora.
Ele puxou minhas mãos e me conduziu até uma mesinha que tinha organizado, não sei
como — também não sei por que uma casa tão grande tinha uma mesa tão pequena. Afastou a
cadeira para que eu me sentasse e depois sentou-se ao meu lado. Os talheres, as taças, os
pratos, a toalha de mesa, tudo estava bem limpo. Reparei melhor no ambiente e cheguei à
conclusão de que ele tinha feito uma faxina muito boa durante o dia. Não fiz pergunta alguma,
pois estava impressionada, mas ele fez questão de se explicar:
— Tentei melhorar as condições da nossa casa. A energia voltou depois que reparei
alguns fios. — Sorri novamente, tanto pelo que ele tinha feito como pelo fato de ter chamado
aquele lugar de nosso. — Há uma pequena cidade a alguns quilômetros daqui, no sentido
norte. Fiz algumas compras. Agora temos comida, roupas e o suficiente para passarmos alguns
dias sem nos preocupar com nada. O fogão só tem uma boca prestando, mas a geladeira
funciona superbem.
— Tem certeza de que não foi seguido? — De repente, senti-me aflita. — Não acho
prudente...
— Está tudo bem, Mikah — André me interrompeu, segurando-me uma mão. —
Ninguém me seguiu.
Visualizei os objetos sobre a mesa. André retirou uma tampa arredondada no centro
dela, deixando à mostra uma travessa com alguma coisa que parecia lasanha. O cheiro estava
divino. Minha barriga deu sinal de vida no mesmo instante.
— Desculpa, eu não sou bom cozinheiro. Só sei fazer lasanha. — Rimos juntos.
— Você foi incrível. Fez tudo isso e... — Apertei seus dedos entre os meus. Fiz uma
careta, lembrando-me de um detalhe. — Que horas acordou?
— Cedo. Não consegui dormir direito, para ser sincero. Estou ligadão.
— Eu nem te ajudei... Não está cansado?
— Nem um pouco. Não se preocupe, minha linda. Foi um prazer tornar esse lugar
habitável de novo. Além do mais, não devo te acordar antes do anoitecer, e não saberia o que
fazer durante todo o dia. Foi melhor assim para eu me manter ocupado — André tinha pego
uma colher grande e nos servia com cuidado. Havia um balde de gelo com uma garrafa de
vinho já aberta dentro dele; fui devidamente servida e me encantei com o doce sabor do
líquido.
Começamos a comer em silêncio, apenas nos observando e sorrindo um para o outro. A
lasanha estava boa de verdade, por isso não poupei elogios ao meu amado. O clima frio que
fazia lá fora não nos invadia nem por um segundo devido à presença aconchegante da lareira.
Dava para ouvir grilos e cigarras cantando na mata ao redor, emitindo uma calmaria que me
deixou muito relaxada. Eu estava na minha casa. Aquele era o meu lar.
— Queria fazer umas perguntas que provavelmente não devia fazer — André falou
depois que terminamos de comer e saboreávamos o vinho. — Mas não... Sei lá, não consigo
parar de pensar nisso.
— Pode perguntar, André. Sem problemas. Há tantas perguntas a serem feitas! —
concordei, pois certamente ainda faria muitas perguntas também.
— Bom... Eu queria saber... Não, não queria saber, mas preciso saber o que... Sabe,
aquele cara parecido comigo surgiu do nada e te beijou de um jeito... — André prendeu o
maxilar como se fizesse força para não explodir. — E ainda tem aquele segurança grudento, o
tal de Sérgio, que não para de te...
— Espera aí! Depois de tantas estranhezas, é isso o que te incomoda? — Eu poderia rir,
mas não senti a menor graça. André também não, tanto que fechou a expressão até deixá-la
dura como pedra. — Não andei te perguntando nada sobre aquelazinha, andei? Não pretendia
fazer isso. Queria pôr uma pedra no passado.
— Eu também, Mikaela, mas é impossível não pensar—soltou um longo suspiro. — O
ciúme está me matando. Acho que devíamos ser sinceros um com o outro, sem deixar dúvidas.
Só depois podemos colocar essa pedra no lugar certo.
— Tudo bem. — Dei-me por vencida. Apoiei minhas costas na cadeira e afundei. Não
queria falar sobre aquilo, mas André tinha razão. — Por onde quer começar?
— Por aquele cara que te beijou. — A careta que ele fez foi divertida, mas me mantive
séria.
Comecei a contar tudo sobre o Andrew, desde quando nos encontramos até o fim
trágico, e igualmente esquisito, naquela praça. André ouviu tudo com muita atenção, sem me
interromper uma única vez, mesmo nas partes mais incompreensíveis.
— Quanto ao Sérgio, eu precisava de um tempo distante de tudo. Depois do que o
Andrew falou, achei que fosse mais prudente me distanciar. Sérgio é uma pessoa do bem, fez o
possível para que eu melhorasse dos sintomas. Devo muito a ele, André, e é só. Não acredito
que está inseguro depois de tudo o que fiz por você.
— Só queria saber a verdade, Mikah, me entenda. Você fez o que precisava ser feito,
agora eu sei. — Cruzei os braços diante de mim e apenas esperei a vez dele de falar. André
demorou a perceber que era isso o que eu queria, mas finalmente soltou a real: — Fiquei com a
Maristela nem sei por quê. Tínhamos algo parecido com um namoro, que durou apenas
algumas semanas, mas nunca me envolvi de verdade. Ela só me fazia companhia quando eu
não sabia o que fazer ou pensar sobre nós. Mikah, acredite, nunca cheguei a sentir nada por ela.
— Não duvido. Se eu não tivesse certeza de que aquela mulher nada significava para
você, não teria feito o que fiz. — Eu não sabia direito se tinha mentido ou não.
— Podemos mudar de assunto, agora? — André parecia satisfeito por saber a verdade,
mas ainda estava incomodado, dava para sentir. — Chegou o momento da pedra.
Descruzei os braços e voltei a lhe segurar a mão por sobre a mesa.
— Não precisa se culpar. Nós dois somos culpados e inocentes na mesma medida. —
Aquela frase não fez muito sentido para mim, mas de alguma forma parecia ter lhe trazido
algum consolo.
— O importante é que agora estamos aqui— André sorriu e começou a alisar a minha
pele usando o polegar. — Não é?
— Sim... E eu estou tão feliz como nunca achei que pudesse ser. — Seu sorriso se
ampliou ainda mais. Ele se levantou e puxou a minha mão para que eu me levantasse também.
Seguimos até o centro da grande sala, diante da lareira. Não sabia o que pretendia fazer, mas
confiava cegamente em seus movimentos.
— Fique aqui. Vou te mostrar uma coisa.
Ele caminhou até uma grande e velha vitrola, depositada sobre um móvel de madeira
trabalhada. Apertou alguns botões e esperou. No início, o aparelho apenas emitiu um som
esquisito, depois notas suaves começaram a preencher o ambiente, junto com uma voz
inconfundível. Meu coração diminuiu de imediato, ficando do tamanho de uma azeitona. Eu
conhecia aquela música e, pela primeira vez em dez anos, sabia que apreciaria uma canção. A
emoção foi tanta que meus olhos se encheram de lágrimas.
André voltou sorrindo. Observou-me por um segundo, sem nada fazer, depois me tomou
pela cintura. Nossas testas se juntaram devagar. Antes que a primeira lágrima escorresse, ele a
amparou com os dedos e os levou à boca. Mal deu tempo de perceber que aquelas lágrimas
eram escarlates.
A música continuou, doce, lírica, expondo uma letra que definia o nosso amor como
nenhuma outra. Quando menos percebi, meus braços estavam em seu pescoço e nos movíamos
lentamente em uma dança mais do que especial. Cerrei os olhos por um instante e inspirei
fundo, trazendo todo o clima romântico preparado por André para dentro de mim.
Tornei a abrir os olhos e encarei o seu olhar, flashes intensos do passado voavam
livremente no campo das minhas lembranças. Aquela não era a nossa primeira dança. Não...
Longe disso. Eu me lembrava das mãos dele conduzindo o meu corpo em diversos momentos
da nossa história. Parecia que tinha sido ontem que estávamos em um baile pomposo, antigo,
em uma época de vestidos bufantes e carruagens. Diante de um salão repleto de casais que
dançavam com maestria, éramos, de longe, o mais apaixonado dentre todos.
Também me lembrava de uma noite de verão em uma floresta esquecida. Nossos corpos
balançavam em movimentos malucos, sem sentido, envolvidos em uma música que só existia
porque era possível existir o nosso amor. André ria como uma criança enquanto eu fazia o
mesmo, e nossos timbres eram tão alegres, esperançosos e confiantes que seria impossível
supor que a felicidade um dia nos abandonaria. Também já dançamos na chuva, numa noite
clara, no meio de uma viela esquecida, em uma praça movimentada...
— Eu te amo... — choraminguei e afundei o meu rosto em seu peito largo. — Eu te amo,
eu te amo, eu te amo... —apertei minhas mãos na sua nuca e André me puxou ainda mais para
si, deixando-nos sem fôlego. — Sempre te amei e sempre vou te amar.
Ele não respondeu, acho que porque receava começar a chorar, como eu. Não me
importei. Sentia em cada toque de suas mãos em meu corpo que o seu amor me pertencia tanto
quanto o meu pertencia a ele.
— Você só gostava de algumas músicas clássicas que sequer havia registro de
gravação... Com o passar do tempo, sua audição aflorada passou a não suportar as músicas
modernas. Até que surgiu o Elvis Presley. Lembra? — André murmurou com emoção.
Aquiesci, compreendendo os motivos de eu ter passado dez anos detestando ouvir qualquer
melodia. — Você disse que finalmente alguém tinha começado a fazer música boa. Eu te dei
esse disco no seu aniversário de... quinhentos e... — Ele parou e nos olhamos, assustados. —
sessenta e... três... anos.
— Oh, meu Deus... É apavorante.
— Ei... — André voltou a segurar o meu rosto. — Pare. Não se apavore. Mesmo que seja
inacreditável, é a verdade. Não devemos temer a verdade.
— Eu... Eu sou uma...
— Shh... — Ele tocou meus lábios. — Não diga.
— O que vamos fazer, André? —fiz a pergunta que pairava sobre nós há algum tempo,
mas ninguém havia tido coragem de fazer. — O que será de nós?
— Não, Mikah... Hoje, não. Não esta noite, por favor. — Suspirei fundo e consenti. —
Quero fingir que não há problema algum... Que somos duas pessoas que se amam, apenas isso.
Não comentei mais nada, porém, mesmo se eu quisesse, não teria dado tempo. André
uniu nossas bocas com fervor. Seus lábios grossos, como sempre, fizeram o favor de retirar
todo e qualquer juízo que por um acaso tivesse restado em mim. Suas mãos circularam pela
minha coluna em movimentos intensos, possessivos. Eu me sentia completamente dele quando
estava em seus braços, e ser dele era estar viva, era criar forças, era jamais desistir de lutar.
Seu coração acelerava mais e mais de acordo com o ritmo da profundidade do nosso
beijo. Acompanhar seu sangue sendo bombeado era tão bom quanto ouvir Elvis de novo. Fui
tomada por uma onda devastadora de excitação e sede, duas coisas que pareciam sempre andar
juntas dentro de mim. André desceu suas mãos, agarrando-me com firmeza, deixando claro
que ansiava por aquele momento íntimo tanto quanto eu.
Tentei me controlar como pude, porém a sede só aumentava. Quanto mais excitada,
mais sedenta pelo líquido da vida eu ficava. O problema era que André estava me deixando
enlouquecida, entregue, à mercê de suas mãos insistentes por procurar alguma coisa perdida
dentro da minha carne. Percebi o velho ardor deixando meus instintos em brasa. Ele deve ter
percebido a minha urgência, pois se afastou um pouco só para me olhar de perto.
— Vá em frente, Mikhayah...
— Não quero te machucar—olhei para o seu pescoço, no mesmo ponto onde eu o tinha
atacado na noite anterior, porém não havia vestígio algum de ferimento. Verifiquei seus lábios
com mais atenção: também não estavam inchados, mesmo que eu tivesse trabalhado
arduamente neles horas atrás. Guardei as perguntas malucas para mim. — Sei que é doloroso...
—Sim... Dói de tão gostoso que é—sorriu, esbanjando verdades através de seus lábios.
Suas mãos foram parar no meu rosto de novo. — Você não faz ideia do quanto amo quando
toma o meu sangue. É a sensação mais deliciosamente perigosa que já vivenciei.
Encarei-o com muita malícia. Sua resposta me fez ficar maravilhada e pronta para
qualquer coisa. Percebi meus olhos queimando, bem como minha boca. André fez uma
expressão maliciosa também, atiçando-me, desafiando-me a prosseguir. Empurrei-o com
bastante força e seu corpo se projetou para trás, indo parar em um dos largos sofás que
compunham a sala. Ele mal compreendeu o que havia acontecido e eu já estava sobre o seu
corpo, prendendo-o com as minhas pernas ao seu redor. A minha posição, somada ao meu
rosto ardendo, deixou o André meio assustado. Eu estava pronta para o ataque.
Inclinei o meu rosto na direção do seu pescoço, mas fui empurrada no último instante.
Parei em pé do outro lado da sala, quase me desequilibrando. Grunhi de angústia, decepção e
contrariedade, procurando os motivos do André por ter tirado a botija da minha boca. Ele já
estava de pé por trás do sofá, numa posição tão ofensiva quanto a minha, com o olhar
amarelado e um sorriso faceiro aberto de orelha a orelha.
— Está muito fácil para você, Mikhayah! Sei que curte uma caçada. Vou dificultar um
pouco as coisas.
Assim que falou aquelas loucas palavras, André simplesmente sumiu. Meus olhos
conseguiram detectar que ele tinha seguido por um dos corredores do casarão, porém tinha
certeza de que, aos olhos humanos, a velocidade que ele tinha atingido não o faria passar por
nada mais do que um vulto.
Soltei uma verdadeira risada maligna, presente apenas em filmes de terror. O sabor do
desafio era muito doce, o teor de adrenalina me excitava, deixava-me ainda mais louca, pirada,
fora de mim. André sabia o que me agradava, de verdade.
Fechei os olhos e inspirei fundo. A caçada havia começado. Finalmente entendi porque
aquela casa era tão grande e cheia de cômodos interconectados. Andei calmamente, sem
provocar ruído algum — coisa dificílima devido aos meus saltos — até o que parecia ser uma
vasta biblioteca. Todas as luzes da casa estavam desligadas, portanto contava apenas com
minha visão apurada demais e o meu olfato. O cheiro do André exalava tanto que mais parecia
que ele estava ao meu lado. Procurei perto de algumas cortinas. Ele certamente havia se
enroscado por ali, talvez de propósito, a fim de me distrair com o seu aroma.
Ouvi passos provenientes de um cômodo atrás de mim. Larguei os sapatos e corri até lá
na maior velocidade que pude, usando muita habilidade e desenvoltura para continuar sem
provocar ruídos. Os passos se distanciaram. Comecei a cruzar vários ambientes muito
depressa, escalando sofás, mesas, móveis de toda qualidade, até que estaquei em um quartinho
pequeno. Pelo cheiro forte, André só podia estar ali.
Esgueirei-me pelos cantos até alcançar uma das janelas. Depois, curvei-me pelo chão
para não ser notada. Preparei o meu corpo para o ataque e, escolhendo o momento certo, saltei
até o centro do quarto, ganhando impulso em um móvel que parecia uma caixa grande de
madeira. Caí sobre um pedaço de pano. Era a camisa que o André estava vestindo. Golpe
baixíssimo! Grunhi como um bicho, certa de que nada me faria desistir.
Ouvi mais passos, porém eles vinham de muito longe. Processei a localização do cheiro
da camisa dele, certa de que não me confundiria mais por causa dela. Voltei a correr a toda
velocidade. Atravessei um pequeno escritório, um banheiro maior que o da suíte e voltei para a
grande sala. Os sapatos do André estavam jogados perto da lareira. Ele estava soltando rastros
por toda parte. Maldito!
Soltei nova gargalhada e voltei a correr, daquela vez na direção oposta da casa, perto de
onde ficava a nossa suíte. No fim do corredor, vi a calça do André cobrindo um dos quadros.
— Seu safado... — murmurei, e tive a impressão de ter ouvido uma risadinha. Fiquei
ainda mais desajuizada. Estava excitada, sedenta, com os nervos à flor da pele e ainda
imaginando o André se escondendo por aí usando apenas uma cueca. Era informação demais
para processar.
De qualquer forma, a tal risada me fez ter uma ideia da direção por onde deveria seguir.
Atravessei mais uma sala e abri uma porta esquisita. Era o banheiro da suíte. Eu nem tinha
percebido que havia duas portas nele. A outra provavelmente dava para o quarto. Abri-a
devagar, no tempo exato de ver o André de costas, retirando a última peça que cobria o seu
corpo e a jogando em cima da cama. Ele se balançou um pouco, provavelmente segurando o
riso.
Não contive um sorriso malicioso, enervado por vê-lo daquele jeito, excitado pelo
mesmo motivo e temeroso porque, no fundo, eu ainda era uma mulher que não pensava
naquilo há dez anos e, de repente, tudo o que eu mais queria era não apenas pensar, mas agir.
Os segundos que usei para admirá-lo foram cruciais. André percebeu minha presença e
se virou rápido, nitidamente admirado por eu tê-lo encontrado daquela forma tão depressa.
Criei raízes, incapaz de me mover, tendo as mãos na maçaneta da porta do banheiro atrás de
mim enquanto admirava cada partícula do seu corpo rígido.
— Você me pegou... — ele murmurou de um jeito tão sensual que as minhas entranhas
se mexeram e me fizeram soltar mais um grunhido.
Não esperei a razão dar as caras, muito menos os medos femininos. Saltei
repentinamente, atacando-o como um animal selvagem faria com sua presa mais vulnerável.
André abriu os braços um segundo antes de eu me atirar contra ele. Cambaleamos para trás, até
que o meu amado se sentou na poltrona larga, tendo-me por cima. Voltei a envolver minhas
pernas ao seu redor e, sem pensar em mais nada, cravei meus dentes na pele fina de seu
pescoço.
André urrou de dor e prazer. Na verdade, não sei bem se foi um grito ou um gemido
alto, poderoso. Só sei que o seu timbre me deixou mais louca do que eu já estava. Comecei a
me remexer em seu colo, buscando o prazer além da saciedade da minha sede. Seu sangue
escorrendo pela minha garganta era simplesmente sublime, porém havia como aquela
sublimidade toda alcançar a perfeição absoluta. Eu sabia como, mas, por um milésimo de
segundo, tive receio.
Morri de medo de quem eu era, de quem eu estava me tornando e de quem ele me fazia
ser. Foi por isso que larguei o seu pescoço, engoli tudo bem depressa e beijei a sua boca como
se não houvesse nada mais importante do que aquilo.
— Mikhayah... — André sussurrou loucamente entre meus lábios. — Eu quero você...
Preciso de você, agora.
Voltei a remexer o meu corpo sobre o seu, porém com um pouco mais de calma,
mesmo que ainda mantivéssemos uma velocidade meio incompreensível. Logo, as mãos dele
me tomaram e me vi entregue ao desejo, à vontade, ao redescobrir. Sim, eu precisava
redescobrir o que significava pertencer ao André de todas as formas possíveis.
Ele segurou as alças da minha camisola e as arrebentou em um segundo. Guiou suas
mãos por entre áreas íntimas demais do meu corpo, revelando-me de forma emergente.
Envolvi seu pescoço com meus braços, talvez um segundo antes de o André decidir rasgar o
restante da minha camisola e me tirar dela de uma vez por todas. Tentei não me sentir esquisita
ou envergonhada, mas foi impossível. Havia sangue escorrendo pela minha boca, pintando
minha pele branca, misturando-se à dele. Claro, o cenário todo me fazia sentir um prazer
absurdo, mas o próprio prazer me assustava.
André não parecia sentir a mesma coisa, pois deixou sua boca percorrer livremente pela
minha pele, sugando-me junto com o seu próprio sangue. Soltei gemidos involuntários,
grunhidos excitados e, às vezes, risos maliciosos. Eu estava me esbaldando nas sensações
controversas, amando a dubiedade das minhas ideias, aflita e ao mesmo tempo ansiosa pela
entrega total.
Tratei de acabar logo com aquela angústia, com o sofrimento que era não tê-lo em mim
— ou tê-lo quase em mim; movimentei o meu quadril bruscamente, encontrando um modo
rápido de fazê-lo meu.
Soltei um gemido longo, carregado de emoções loucas. André fez a mesma coisa, mas
agarrou meus cabelos loiros e fez questão de me olhar nos olhos. A luz amarelada deles me
atingiu em cheio. Começamos a nos movimentar como maníacos, consumando nosso desejo,
nosso amor.
Naquele instante achei que, sim, tudo, absolutamente tudo que eu tinha feito por ele
havia valido a pena. Não era em vão que eu o amava tanto; André me conhecia, me entendia,
me protegia, me venerava e se entregava de corpo e alma a mim. Uma mulher podia viver a
eternidade ao lado de um homem como ele, e era o que eu vinha tentando fazer durante a
minha existência.
Nossos corpos se enroscaram, gotas de suor se misturaram ao sangue e seguimos um
ritmo acelerado, composto pelo que há de mais intenso no mundo. Odores, ruídos, toques...
Meus sentidos se afloravam e se direcionavam apenas àquele homem sob mim, que gemia,
contorcia-se, implorava pela minha presença e se regozijava quando me tinha cada segundo
mais e mais, sem cessar.
— Àndreas... —arquejei seu nome quando não podia mais suportar a intensidade de seu
ritmo bruto, nem mesmo do sentimento forte que cravava meu peito como se o tatuasse.
Explodi em um clímax intenso, que veio de mãos dadas com o dele como se fossem uma coisa
só.
Paramos de repente e nos encaramos. Lembrei-me das tantas vezes que nos olhamos
daquele jeito depois de um momento intenso juntos, em que ainda permanecíamos um no outro
e não tínhamos a menor pretensão de sair daquela condição. Havia sido tantas vezes que eu me
senti uma idiota por ter tido medo daquele momento. Soou tão natural, afinal de contas, nós
éramos pura chama; incansáveis, insaciáveis, sem gentilezas, sem suavidade. Éramos brutos,
intensos, profundos, apaixonados e explosivos como pólvora.
Eu realmente estava em casa.
— Você está bem? — ele murmurou a pergunta enquanto alisava seus dedos ao longo
da minha coluna. Reiniciei um movimento curto sobre ele, notando que ainda estávamos como
no início, mesmo após o êxtase.
— Muito mais do que bem — respondi sorrindo. Ele riu.
— Ótimo, Mikhayah. Porque era para eu ter me cansado, mas não aconteceu. Então
acho que não vou facilitar para você essa noite.
Rimos juntos.
— Por favor, Àndreas... — Rebolei meu quadril em um gesto ousado. — Não ouse
facilitar.
O meu amado me abraçou pela cintura e se levantou da poltrona, guiando-nos até a
cama que sempre foi o nosso paraíso particular. André cumpriu perfeitamente a promessa de
me dar trabalho. Não houve cansaço algum nem para ele ou para mim, por isso continuamos
até alcançarmos o nosso limite. O meu, infelizmente, chegou primeiro. Precisei parar quando
os raios solares cruzaram a janela. André correu para fechá-la antes que eu pudesse começar a
me angustiar e voltou para mim.
Sonolenta, afundei meu rosto em seu peito e murmurei:
— Faz um favor, Àndreas?
— Claro, meu amor... Qualquer coisa—ele envolveu seus braços ao meu redor, como
se eu fosse um de seus travesseiros.
— Esteja comigo ao anoitecer. Por favor.
Um beijo foi plantado na minha testa.
— Estarei contigo em todo anoitecer, Mikhayah.
Capítulo 23
André

— Por onde o senhor andava? — Fui recebido por Mikah com cara de brava e mãos na
cintura.
Encarei-a por um segundo, meio sem saber o que responder. Será que ela estava
realmente brava? Porém, antes mesmo que eu pudesse dizer alguma coisa, a cara fechada se
transformou num lindo sorriso. Não me contive e sorri também.
— Você me assustou, por um instante.
— Tinha que ver a expressão na sua cara. Foi tão engraçada!
— Vocês, mulheres, são meio bipolares, vai saber, não é? — Coloquei as coisas que
trazia em cima da mesa.
— Olha, não brinque com fogo! — Mikaela se aproximou de mim e me deu um beijo
nos lábios. — De verdade, por onde esteve? — Agora estava séria, mas não brava.
— Desculpe não chegar antes de você ter acordado, mas precisei resolver algumas
coisas. Comprei um pouco mais de comida, além disso, estou providenciando documentos e
passaportes para que possamos sair do país.
Ela me olhou de um jeito bem confuso. Eu não sabia como Mikaela iria encarar a ideia
da viagem, contudo, precisava arriscar. Não dava para vivermos daquele jeito para sempre. As
estranhezas, que não paravam de acontecer, deviam ser levadas a sério.
— Você acha seguro tentar fazer isso agora?
— Ou partimos o quanto antes, ou fecharão o cerco cada vez mais. Não sabemos quem
são essas pessoas, quais as conexões que eles possuem e nem o que serão capazes de fazer
conosco. Tenho certeza de que eles sabem quem e o que somos, do contrário não estariam nos
perseguindo.
— Acordei assustada. Tive um pesadelo horrível... Quando abri os olhos e não te vi aqui,
fiquei preocupada — minha amada se aproximou e me abraçou. Eu lhe dei um beijo na testa.
— Vamos comer, trouxe algumas coisas.
— Não se preocupe com isso, já providenciei nossa refeição. Siga-me!
Fui atrás de Mikaela até a cozinha. Quando entramos no recinto, admirei-me por causa
da mesa bem colocada, com pratos, talheres finos e taças de cristal. Havia uma panela de ferro
antiga sobre o fogão e o cheiro estava maravilhoso. De uma coisa eu sabia: Mikah havia
preparado algo muito melhor que lasanha.
— Tive bastante tempo para fuçar em todos os armários da casa. Achei cada coisa... —
ela sorriu.
— Está tudo lindo e o cheiro está divino. — Inclinei-me para lhe dar um beijo suave
entre o pescoço e o ombro. — O que você preparou para nós?
— Fiz um cordeiro assado! — Ela parecia muito orgulhosa de si, como se nunca tivesse
cozinhado na vida.
— Onde você conseguiu um cordeiro, meu amor? — perguntei desconfiado.
— Não se preocupe, ninguém me viu. Encontrei uma fazenda aqui perto. Foi entrar e
sair, bem rapidamente.
— E foi só o cordeiro que você pegou? — Sorri com malícia.
— Não se preocupe, não fiz nada com ninguém, se é o que quer saber — Mikaela
pareceu um pouco apreensiva depois do que perguntei, contudo decidi voltar a lhe distribuir
beijos e ela relaxou aos poucos.
Não importava o que fizesse, eu jamais a julgaria.
Sentamo-nos e comemos aquela deliciosa refeição. Conversamos durante um bom
tempo. Volta e meia relembrávamos a noite anterior, assim como muitas outras que
desfrutamos antes. As lembranças se tornavam cada vez mais frequentes, como se tivéssemos
aberto a porta de um calabouço e os prisioneiros criassem coragem para sair aos pouquinhos.
Não restavam mais dúvidas de que nossa história havia acontecido muitos anos antes
do que podíamos imaginar. Ainda não tínhamos certeza sobre várias coisas, mas conhecer a
nossa natureza, e relembrar muitos dos fatos marcantes de nossa vida pré-PHMSADC, nos
dava uma boa ideia do que ainda teríamos para descobrir.
Quando terminamos o jantar, Mikah me conduziu até uma das salas onde havia uma
vitrola. Sem falar qualquer palavra, ela foi até o aparelho e colocou a agulha sobre um disco
previamente depositado ali. O som melódico e calmante ressoou pelo ambiente. É claro que
estávamos arriscando muito e poderíamos ser descobertos por algum curioso, mas toda a
tensão que havíamos vivido nos últimos tempos precisava ser descarregada. A verdade era que
não estávamos mais nos importando com o mundo ao nosso redor.
Ainda em silêncio, ela se aproximou de mim e laçou meu pescoço com seus braços.
Segurei em sua cintura e permiti que o ritmo doce nos guiasse. Com nossos corpos colados,
dançamos sem pronunciar nenhuma palavra, apenas curtindo cada nota da bela música. Era
como se o tempo tivesse parado e, naquele momento, existisse apenas nós dois em todo o
planeta.
Após a dança, Mikah segurou minha mão e me guiou até o quarto. O clima era
demasiadamente inebriante, por isso me deixei levar como um cordeirinho. Ela havia pensado
em cada detalhe, cada momento. Se eu a havia surpreendido na noite anterior, agora era sua
vez de retribuir. Porém, ao invés de fazer as coisas com intensidade e loucura, como havia
acontecido antes, ela parecia estar com um humor mais calmo, queria fazer tudo com mais
carinho, por assim dizer.
No quarto, ela começou a me beijar e a acariciar o meu corpo, sem pressa, sem força,
com uma delicadeza que eu não imaginava que ela tivesse. Apenas curti o momento e permiti
que continuasse dirigindo a situação. Retribuí as carícias e os beijos românticos e me senti bem
com aquela nova forma de amar. Gentilmente, Mikaela retirou minhas vestes, deixando-me
apenas com a roupa de baixo. Com movimentos leves, ela se despiu e se deitou sobre mim na
cama.
Como se quisesse sentir o meu coração, ela encostou a cabeça em meu peito e me
acariciou por um tempo. Eu tentava antecipar o momento em que nos tornaríamos uma só
carne, mas ela parecia querer sorver o sabor de cada micro ação, sentir cada respiração nossa,
que se tornava ofegante por causa dos beijos prolongados que trocávamos. Eu não ousava dizer
nada, nem tomar nenhuma iniciativa por medo de estragar o momento intenso. Estávamos
jogando o jogo dela.
Com toda a delicadeza, Mikah deslizou pelo meu corpo e parou próximo à minha
virilha, onde cravou suas presas, atingindo a safena e sugando o líquido da vida. Não doeu
mais do que uma picada de agulha, e todo o clima de prazer criado por ela fez com que eu
curtisse o momento. Eu estava tão acostumado com aquela sede que sua atitude pareceu
absolutamente natural. Uma vez saciada, Mikah se levantou e me encarou com uma expressão
maldosa. Sabia que aprontaria logo em seguida e quase morri com a curta espera. Finalmente,
a minha amada partiu para cima de mim e nos amamos durante quase toda aquela madrugada.
Nem preciso dizer que no dia seguinte eu não estava em condições de levantar e fazer
qualquer coisa. Abraçados, dormimos durante as longas horas em que o sol esteve brilhando no
firmamento. Acordei já no final da tarde, sentindo-me completamente revigorado. Não tardou
muito para que minha amada despertasse.
Daquela vez, fiz questão de estar presente no momento em que seus olhos se abriram.
Fizemos uma refeição leve, tomamos um banho juntos e saímos. Era preciso tirar as fotografias
para os documentos falsos que eu havia encomendado.
Encontramos meu contato, um sujeito meio estranho que me fora indicado uma vez por
um dos meus clientes, que costumava realizar uns negócios, digamos, paralelos. Fomos
fotografados e rodamos um pouco por uma pequena vila das redondezas. Aproveitei para sacar
mais dinheiro. Não tinha medo que meus saques e o uso de meus cartões fossem rastreados,
pois a vila onde estávamos comprando o que precisávamos ficava há cerca de quarenta
quilômetros da casa na floresta onde nos escondíamos. Os horários em que íamos até lá eram
muito variados e procurávamos manter a discrição ao máximo.
Na quarta-feira, retornamos à vila e nossos documentos estavam todos prontos.
Identidade e passaporte informavam que eu agora me chamava Gustavo Andrade e que
Mikaela era Verônica Alves. Tudo havia ficado perfeito. Precisávamos apenas seguir para a
capital, comprar mais algumas roupas e nossas passagens para a Europa, mais precisamente
para a Inglaterra, para onde o instituto de pesquisa havia migrado, segundo as últimas notícias
que eu tinha lido.
Junto com os documentos, obviamente meu contato havia providenciado um visto
falsificado, para que pudéssemos entrar naquele país sem passarmos pelas autoridades locais,
assim que chegássemos. Nosso plano maluco precisava dar certo.
Voltamos para casa e começamos a arrumar nossas coisas para a viagem. Além de
roupas e outros artigos de necessidade, compramos malas para guardar e levar tudo. Completei
o tanque do carro, pois a viagem até a capital seria longa e não queríamos ter que ficar parando
no caminho para abastecer. Enquanto nos organizávamos, meu telefone tocava
insistentemente.
— Quem é que está ligando? — Mikah me indagou, meio desconfiada.
— É o Fred. Já tem três dias que ele me liga direto, até deixei o telefone no mudo —
respondi sem parar de guardar nossos pertences. Precisávamos partir logo dali.
— E por que não o atende? — Ela também terminava de colocar as últimas roupas na
sua mala.
— Sei lá, não quero envolvê-lo ainda mais em nossos problemas. Se alguém perguntar
se ele sabe de algo, será mais fácil se ele realmente não souber.
— Acho que, no mínimo, você deveria deixá-lo saber que estamos vivos e bem. Depois
de tudo o que ele fez...
Parei por um instante, encarei o belo rosto de minha mulher, pensei sobre o que tinha
falado e, finalmente, concordei.
— Você tem razão, vou retornar para ele. — Dei de ombros.
Peguei meu celular e liguei para o meu ex-colega de apartamento. Eu também estava
curioso para saber se ele tinha ficado bem e se recuperado do ferimento, só estava meio
nervoso com a situação, de um modo geral.
— Alô, André? Você está bem, cara? — Fred falou com ansiedade.
— Fala, meu amigo! Estou bem sim, e você, como está? — Tentei agir como se nada
bizarro tivesse nos acontecido nos últimos dias.
— Faz tempo que estou tentando falar contigo...
— Desculpe, cara, mas não quero te prejudicar e te envolver ainda mais nos meus
problemas. E seus ferimentos?
— Está tudo ok, não se preocupe com isso. Onde você está? Quando pretende retornar?
Soltei um suspiro cansado. Provavelmente nunca mais veria o Fred de novo. Não sei a
Mikah, mas eu não pretendia voltar nem tão cedo.
— Não vou retornar, cara... Não posso fazer isso, tem alguém atrás de nós. Estamos
partindo para bem longe.
— Eu preciso te ver antes de partir, tem algumas coisas que preciso falar contigo —
meu amigo parecia ter muita urgência, mas seu timbre deixou claro que não diria nada por
telefone.
— Não vai dar, cara!
— É sério, me diga onde vocês estão que eu vou até aí, é muito importante — podia
perceber, por sua voz, que ele não estava blefando.
— Estamos longe, cara, num local difícil de ser localizado, não sei se vai valer a pena,
fora o risco de alguma coisa te acontecer.
— Você não está me ouvindo, é muito importante o que tenho para te dizer, e tem que
ser pessoalmente!
Fiquei em silêncio alguns instantes. Não era nada prudente permitir que Fred fosse até
o lugar onde estávamos, mas diante de tanta insistência e do tom de urgência em sua voz,
acabei cedendo aos seus pedidos. Expliquei onde ficava nosso esconderijo e lhe dei os passos
que deveria seguir para chegar até nós.
Ficou combinado que ele nos encontraria na noite seguinte. Por mais que estivesse
preocupado, seria bom me despedir de alguém que acabara participando de alguns bons anos
de minha vida e que, na reta final daquela situação, havia se mostrado tão bom amigo.
Mikah ficou um pouco incomodada quando contei sobre a visita que receberíamos no
dia seguinte, mas no final concordou, dizendo que eu devia saber o que estava fazendo. Eu
estava muito ansioso com tudo. Mal podia esperar pela chance de ser selecionado para a
cirurgia. É lógico que nossas lembranças estavam voltando aos poucos e tal medida parecia
desnecessária agora, mas eu tinha certeza de que as lembranças que tivemos eram apenas a
ponta do iceberg. Eu precisava saber de tudo.
O dia da quinta-feira foi todo de preparativos. Como Mikaela estava dormindo,
esperando que a luz do sol se apagasse, coube a mim a maior parte das tarefas, que realizei
sem dificuldades. As horas avançavam rapidamente. Havia combinado com Fred para às sete
da noite, uma vez que não era aconselhável que ele fosse até nós durante o dia.
Já eram sete horas e nada de meu amigo aparecer. Fiquei imaginando se ele não estaria
perdido pela floresta, tentando nos encontrar. Mikah já estava acordada, então pedi a ela que
esperasse enquanto eu sairia pela mata à procura de Fred. Ela concordou, mas me pediu para
que eu não demorasse. Independente dele aparecer ou não, teríamos que partir o quanto antes,
sem mais delongas. Concordei e saí pela mata, ansioso por encontrá-lo perdido em algum
lugar. No fundo, não queria mesmo ir embora sem falar com ele.
Enquanto caminhava pela floresta, algo assustador aconteceu muito repentinamente.
Não sei explicar como tudo começou, mas passei a sentir fortes dores por todo o meu corpo,
tão intensas que fizeram com que eu caísse por terra. Tentei esfregar os músculos, mas a
sensação de ser espremido por um torno só aumentava mais e mais. Foi angustiante. Tentei
gritar forte, mas nenhum ruído escapou pela minha boca. Só me restou tentar absorver a dor e
esperá-la passar. Já havia experimentado algum nível de sofrimento antes, mas nada como
aquilo.
Inexplicavelmente, tive a sensação de que meu espírito, ou minha consciência, deixava
o meu corpo. Foi como se carne, músculos e tendões não me pertencessem mais, como se eu
estivesse apenas de carona no invólucro de outra pessoa, tornando-me um mero expectador.
Meus braços se retorceram, garras começaram a surgir no lugar das mãos de meu hospedeiro.
Jamais, desde que podia me lembrar, eu havia passado conscientemente por aquele tipo de
transformação, mas agora, mesmo ciente de tudo ao meu redor, eu não era senhor daquele ser
que se transformava.
Escutei um uivo profundo, emitido pela criatura em que meu corpo se convertera. Ela
começou a farejar o aroma da noite. Eu sentia que estava com fome, não de uma refeição
normal, mas de sangue e de carne, misturados ao cheiro de terror da presa. Sim, esse era o
tempero especial da carne caçada, o cheiro de medo. Corri de carona naquele corpo que
possuía, cada vez mais, vontade própria. Ele seguia se locomovendo como se fosse uma fera
sobre quatro patas. Eu era apenas um observador.
Não demorou muito até que a fera encontrasse sua primeira vítima. Com extrema
destreza, ela pulou sobre um pequeno esquilo que subia em uma das árvores. Foi tudo muito
rápido, em instantes, aquele pequeno ser da floresta não existia mais, porém a fera não estava
saciada. Continuamos circulando pela floresta, a todo instante o animal em que me
transformara parava e cheirava o ar. Sentíamos aromas diversos, mas quase tudo não chamava
muito a atenção.
Quando percebi, a besta selvagem estacou, farejando algo maior, algo que realmente
valeria a pena ser caçado. Desesperei-me ao perceber que seguíamos em direção à casa onde
Mikah aguardava o meu retorno. Tentei convencer o animal de que naquela direção não havia
nada que não a morte, mas ele não me deu ouvidos e continuou seguindo apressadamente.
Um clarão brilhou nos céus. Um gigantesco raio cortou o breu da noite e iluminou a
floresta. Os olhos da fera, amarelos e brilhosos, pareciam sorrir. O clima de terror se instaurava
no campo das minhas ideias limitadas. Para aquele monstro, nada poderia ficar mais perfeito
do que aquilo. A besta parou e uivou para a lua cheia que reinava no céu. O astro parecia estar
especialmente bonito naquela noite. Para meus olhos, o tom amarelo e forte da luz estava
avermelhado, como se sangue escorresse dos céus.
Por mais que eu gritasse que não, a fera não me dava ouvidos e nós corremos em
direção à casa. Não tardou muito para que a alcançássemos, afinal, eu não havia me afastado
tanto assim. Existia outro carro estacionado na frente. Fred provavelmente tinha chegado.
Comecei a gritar, na mente de meu hospedeiro, que não deveríamos estar ali, que aquilo estava
errado, mas ele continuava me ignorando completamente. Meu desespero se intensificou.
Inspiramos o ar noturno mais uma vez, um vento constante começava a varrer o
ambiente, fazendo com que as árvores balançassem e o som característico das folhas se
tornasse cada vez mais comum. Um novo raio cortou os céus e um trovão retumbou, fazendo
com que os pelos de nosso corpo se arrepiassem. Buscamos o cheiro que havia se perdido com
o vento. Ali estava ele.
Quando nos preparávamos para invadir a residência, escutamos o som de um motor. A
fera se virou para trás e observou a lanterna com sua luz bruxuleante, devido ao terreno
irregular. Ela observou atentamente e inspirou mais uma vez, com profundidade. Vimos uma
motocicleta se aproximar. A adrenalina se espalhou por nosso corpo ainda mais.
Níveis sobre-humanos do hormônio foram descarregados na corrente sanguínea,
fazendo com que todos os músculos de nosso corpo se retesassem. A fera deu um rugido tão
alto e tão forte que até eu mesmo me assustei. Sussurrei em sua mente para que se acalmasse,
mas os nervos, tendões e músculos não me obedeciam mais.
Quando a besta se preparava para correr em direção à moto, a porta da casa foi aberta
de supetão. Viramo-nos em direção ao ruído e meu coração quase parou quando vi Mikah e
Fred, parados diante de nós com uma expressão confusa.
— Corram! Fujam! — urrei, mas minha voz não ecoou pela boca de meu hospedeiro,
ficando restrita apenas à minha consciência.
— André! — Mikaela gritou assustada, dando alguns passos para trás. Ela estava com
medo de mim. Isso não podia ser uma boa notícia.
— Vocês precisam se mandar daqui, agora! — ordenei, mas minha voz, mais uma vez,
foi sufocada.
A motocicleta estacionou. A fera parecia estar confusa, indecisa para qual lado seguir
primeiro. Aquele segundo de dúvida foi crucial. Quando menos esperava, uma Mikah
transformada saltou sobre nós. Suas garras e presas se cravaram sobre o corpo peludo da besta.
Seus olhos vermelhos fizeram com que nos lembrássemos da lua de sangue.
— Fuja, Fred! — Mikah gritou, mas ele continuava atônito.
A moto finalmente parou ao nosso lado. Encarei o piloto que nos olhava aterrorizado.
Outro raio atravessou a noite, o trovão soou ainda mais próximo e soltei um uivo ainda mais
agudo daquela vez.
— Sérgio? — Mikaela se assustou quando viu o amigo que acabava de chegar e que
nos encarava com horror.
Um instante de distração foi o suficiente para que a fera a segurasse pelos pulsos e a
atirasse para longe. Chocado, Sérgio desceu da moto e correu para junto de Fred. Esperando
encontrar alguma segurança, ele empurrou meu colega de quarto para dentro da residência e
fechou a porta. Meu hospedeiro soltou um urro horripilante. Estava irritado e também excitado
pela caçada. Mikaela havia batido a cabeça no tronco de uma árvore e estava desacordada,
dando-nos a liberdade necessária.
Repentinamente, a porta da frente foi arrombada. A fera entrou na casa, farejando o ar
em busca de suas presas. O odor de pavor nos guiou até a cozinha. A porta de passagem estava
trancada, mas foi facilmente posta abaixo pela besta que parecia curtir ainda mais o momento.
Entramos no cômodo, mas não havia ninguém lá. Farejamos pelos cantos e fomos conduzidos
à porta dos fundos que dava direto para a floresta que rodeava toda a casa.
Sem nenhuma cerimônia, o gigante monstro em que eu havia me transformado
arrombou mais aquele obstáculo e lançamo-nos na noite escura da floresta de mata densa e
muitas árvores. O vento soava ainda mais forte em nossos ouvidos. O fato de estar a nosso
favor dificultava que localizássemos o cheiro das presas, mas isso apenas tornava as coisas
mais divertidas e interessantes.
A incidência de raios e trovões também se multiplicou. Nuvens começavam a esconder
a brilhante lua, tornando o clima ainda mais sombrio. Um par de olhos amarelados corria pela
floresta, farejando, revirando a vegetação e observando de cima das árvores.
E a chuva desceu. Impiedosa. Forte. Gelada. Cortante. Apenas mais um elemento para
tornar a caçada mais divertida. Corremos pela mata, o vento havia mudado de direção. O
cheiro de terror, misturado com urina, invadiu nossas narinas. A fera rugiu e sorriu.
As grossas gotas de chuva batendo nas folhas tinha um som cada vez mais
ensurdecedor. Não podia ouvir os passos de Fred e Sérgio, mas o cheiro deixava claro que a
fera nos conduzia na direção certa. Como que guiados por um radar, chegamos ao local onde
dois sujeitos horrorizados tentavam se esconder. Eles haviam encontrado uma grande pedra,
que formava uma espécie de caverna rasa, e ali se espremiam, tentando ficar invisíveis. O
cheiro do medo, aquele tempero irresistível, nos alcançou.
A fera parou diante deles e deu um urro tão horrendo que fez com que todos os
pássaros que se aninhavam ao redor enfrentassem a tempestade e voassem para longe. Fred se
ergueu com os braços esticados à frente, como se fossem suficientes para se proteger.
— André, sou eu, cara, seu amigo! — ele balbuciou.
— Deixe-o em paz, bicho maldito! Não ouse tocar nele! — eu gritava na mente da fera,
que parecia desconhecer a minha existência.
— André, não faça isso, cara, por favor...
Enquanto Fred tentava acalmar o bicho, Sérgio saiu correndo pela mata para salvar a
própria pele. Ele tentava seguir na direção de sua moto, mas estava completamente
desorientado. A fera poderia alcançá-lo e derrubá-lo numa fração de segundos, mas
propositalmente deixava que sua vítima tivesse um último lampejo de esperança. Sem saber o
que fazer, Fred correu na direção oposta. Um dos dois teria mais chances de fugir daquele
modo. É claro que o meu amigo torceu para que a sorte pendesse para o seu lado.
Talvez percebendo a estratégia, o monstro resolveu agir. Olhou para a direita e para e
esquerda e, como que lançando sortes, saiu em disparada para a direita. Corremos numa
velocidade incrível e não tardou muito para que alcançássemos a primeira presa. Atiramo-nos
sobre o homem desesperado, que não pôde fazer mais do que dar um grito de horror. Rolamos
pelo terreno já enlameado por causa da forte chuva e paramos encostados a uma grande árvore.
Os olhos amarelos e brilhantes encararam aqueles olhos foscos e sem expectativa. O
homem tentou se afastar, empurrando o corpo caído com as mãos, mas a lama fez apenas com
que ele escorregasse. Eu estava desesperado, podia sentir o que o monstro sentia e sabia que o
momento final estava chegando. Tentei fechar meus olhos, mas não havia como não enxergar o
mesmo que a besta.
Soltando um uivo agudo, a fera finalmente avançou sobre sua primeira vítima e,
literalmente, começou a esfacelar sua carne. O homem dava terríveis gritos de angústia e dor,
até que finalmente sua voz foi calada quando nós mordemos e arrancamos seu pescoço.
Banhávamo-nos em seu sangue, enquanto consumíamos seus restos mortais e nos fartávamos
com a refeição tão esperada.
Apesar do banquete, a fera não havia se esquecido de que havia mais. Logo, deixamos
os restos espalhados pelo chão e partimos em direção à nossa segunda vítima. Seu aroma ainda
estava pelo ar, mas o cheiro do sangue fresco atrapalhava um pouco a sua localização.
Atrapalhava, mas não impedia.
A fera galopou pelo meio da mata. Corríamos numa velocidade ainda mais incrível que
a anterior. As gotas batiam em nosso corpo e lavavam o sangue que nos cobria. Sentíamo-nos
mais fortes, revigorados e ansiosos por caçar. Aos poucos, eu estava me fundindo a ela,
devagar ia me acostumando com aquilo e começava a me sentir em casa.
Os raios cortavam o céu com cada vez mais frequência e intensidade, como se
soubessem que algo sobrenatural estava acontecendo sobre a face da Terra. Não fosse toda a
angústia de ter minha consciência prisioneira de meu próprio corpo transmutado, certamente
apreciaria com gosto o espetáculo proporcionado por aquela noite incomum.
Paramos por um instante e farejamos. O cheiro forte do medo estava presente. A outra
vítima estava bem próxima, quase podia escutar sua respiração acelerada. A besta caminhou
lentamente, sentindo na pele o ar gélido que acompanhava a chuva, que agora começava a
diminuir, tornando-se não mais do que uma garoa fina. Não havia escapatória, a vítima viveria
apenas pelo tempo em que permitíssemos.
Mais alguns passos adiante e o homem estava ali. A lua começava a reaparecer, os
grilos cantavam, dando ao clima um ar ainda mais selvagem.
— Corra, Fred! — ouvimos o grito vindo por trás de nós.
Sentimos uma forte pancada em nossa cabeça. A dor fez com que a fera ficasse
atordoada. Logo, uma pesada corrente nos laçava o pescoço. Fomos derrubados no chão.
— Desculpe, Àndreas! — Mikah cravou suas enormes presas em meu corpo.
A fera tentou se desvencilhar, mas aquele ser imortal sabia muito bem como nos
dominar. A corrente de prata pura fazia com que as forças de nosso corpo se esvaíssem, e o
sangue de que nos privava, acelerava ainda mais o processo de enfraquecimento. Quando
achou que já estava bom, Mikah parou de sugar o meu sangue. Senti minha consciência voltar
a se alinhar com o meu corpo. Aos poucos, sentia aquela mesma dor da transformação me
consumindo.
Estando fraco, sentindo muitas dores e muito frio, finalmente me entreguei e perdi os
sentidos.
Capítulo 24
Mikaela

Ver o André caído no chão, coberto de sangue e carne humana me fez quase
enlouquecer de vez. Olhei para o Fred — que não tinha conseguido correr, se escondendo atrás
de uma árvore, e que agora olhava atônito para mim. Por um instante, conferi se ele estava
inteiro ou lhe faltava alguma parte do corpo, que talvez estivesse grudada nos dentes do meu
amado. Para o meu alívio, o amigo do André estava bem, pelo menos fisicamente, apesar de
toda confusão vivenciada.
Ajoelhei-me no chão, já com lágrimas nos olhos. Foi fácil entender que, se o Fred estava
bem, o Sérgio deveria ter sofrido todas as consequências da transformação do André. Ergui a
cabeça e farejei o ar. Senti um cheiro forte, quase insuportável, de sangue fresco. Mais
lágrimas rolaram. Se tivesse sobrado alguma coisa do Sérgio, seria muito. Um soluço alto
atravessou a minha garganta.
— Que porra foi essa, Mikaela? Onde está o monstro? — Fred estava desesperado, e não
era para menos, com o rosto vermelho tomado pela adrenalina. A única coisa que consegui
fazer foi apontar para o André inerte diante de mim. — O André... me salvou? Conseguiu
matar a fera? — Ele apertou o coração como se sentisse uma dor absurda.
— Não, Fred. O André é, ou melhor, era a fera — murmurei. Encarei a lua altiva
querendo reaparecer no céu nebuloso. — Ele se transforma em noites de lua cheia. Eu... Eu
devia ter me lembrado disso, devia me manter atenta. Mas... — apertei a minha cabeça com
força.
— Você está querendo me dizer que... que ele é um...
— É. Ele é. E eu devia ter entendido as consequências quando encontrei essas correntes
no porão, hoje mais cedo— remexi as malditas correntes de prata, livrando-as do pescoço do
meu amado. Percebi que ainda havia alguns pelos cobrindo o seu corpo. A transformação de
André terminava devagarzinho.
O porão da casa podia ser encontrado após a abertura de um alçapão presente em uma
das salas. Era um lugar muito embolorado, que mais parecia um calabouço de tantas correntes
que tinha. Todas estavam bem fixas na parede por grandes argolas, menos a que eu tinha usado
contra o André, por isso eu a tinha levado para cima a fim de refletir sobre ela mais tarde. Em
nenhum momento compreendi a utilidade do porão, fui uma idiota, inocente, apaixonada e
orgulhosa demais para entender que estar com o André era estar frente a frente com o perigo.
Minha negligência era imperdoável.
— Por isso tantas estranhezas... — Fred falou baixinho, mas eu o escutei. — Por isso
André vivia surtando... — andou de um lado para outro enquanto mais lágrimas me
acometiam. — Meu Deus! É difícil acreditar nisso! E você? Você... — apontou para mim e
agitou os dedos. — Você tomou o sangue dele! Como teve forças para segurar uma fera
daquele tamanho?
— Eu tenho a minha própria cota de esquisitices, Fred. — Ergui-me rapidamente. O
cheiro de sangue estava me enlouquecendo, mesmo que eu estivesse saciada depois que quase
deixei o André sem ter o que circular pelas veias. — A história é longa e eu preciso verificar se
o meu amigo ainda está vivo.
Caminhei rapidamente floresta adentro, seguindo o rastro do cheiro forte, e logo percebi
o Fred tentando acompanhar os meus passos. Não falamos nada. Claro que ele preferiria me
seguir a ficar sozinho com o que quer que André fosse. Bom, talvez não ter conhecimento de
que eu era tão perigosa quanto o André tenha lhe ajudado na decisão. O fato é que seguimos
silenciosamente até alcançarmos uma pequena clareira.
Estava tão escuro na mata que Fred demorou a compreender o que eram aquelas coisas
esquisitas penduradas nas árvores e espalhadas por toda parte. Acho que a ficha dele só caiu
quando comecei a soluçar e gritar sem pausas, no auge do desespero. Fred se inclinou em uma
árvore e vomitou ruidosamente enquanto eu me culpava por cada partícula do Sérgio que se
encontrava estraçalhada diante de nós.
— Sérgio! Não! Não! — gritei muito alto, usando todas as minhas forças até sentir uma
dor aguda na garganta. Eu não sabia que guardava tanto carinho e respeito pelo segurança do
supermercado onde eu trabalhava. Sempre fui muito alheia aos seus sentimentos, jamais
cheguei a vê-lo do modo como ele queria, mas os dias em que fui abrigada por ele me fizeram
nutrir um sentimento de amizade que poucas vezes experimentei em minha existência. —
Desculpa, Sérgio... Desculpa!
Senti as mãos trêmulas de Fred tocando os meus ombros.
— Vamos sair daqui, Mikaela, pelo amor de Deus... Não adianta.
Fiz um movimento curto com apenas uma mão e empurrei o Fred. Ele se chocou contra
uma árvore próxima.
— Largue-me! — gritei. Fred me olhou assustado, provavelmente porque os meus olhos
brilhavam em um tom vermelho. Dava para senti-los fervendo.
— O que...? — Sua cara de pavor me fez buscar um pouco de calma. Eu não podia me
desesperar, não podia ficar me culpando e nutrindo raiva do mundo por causa da minha
irresponsabilidade.
— Vamos sair daqui, Fred — falei baixo, de um jeito acuado. Enxuguei as lágrimas e
expirei todo o ar dos meus pulmões. — Você tem razão, não adianta.
Virei as costas e caminhei lentamente de volta para o local onde deixamos o André.
Achei que o Fred não fosse me acompanhar, mas depois de dois minutos percebi sua
aproximação. Para minha surpresa, os pelos extras haviam sumido, bem como a expressão
animalesca em seu rosto, e ele tinha voltado completamente ao normal, embora continuasse
desacordado. Estava todo sujo de sangue e lama, com pedaços de sua roupa lhe envolvendo o
corpo de modo que não cobria quase nada. Foi triste demais vê-lo daquele jeito tão vulnerável.
Peguei-o em meus braços como se fosse uma criança, sob o olhar atento, curioso e
surpreso do Fred, que ainda não entendia como eu podia carregar um homem muito mais alto e
pesado do que eu. A verdade foi que nada senti; segurar o André realmente não me custou
esforço algum. Carreguei o meu amado até depositá-lo no sofá. Pedi para que seu amigo
trouxesse água em uma bacia, além de panos limpos. Tratei de pegar alguns lençóis, os mais
grossos que encontrei. Eu sabia exatamente o que fazer.
Com as mãos mesmo, terminei de arrancar os trapos do corpo do André. Fred chegou
com a água e os panos. Ele estava tão trêmulo que se manteve um pouco distante de nós,
sentado em uma das cadeiras da sala, incapaz de me ajudar na tarefa.
Ajoelhei-me no chão e comecei a trabalhar arduamente em deixar o André limpo.
Removi a sujeira e o sangue de seu corpo, mas a pior parte foi abrir sua boca a fim de arrancar
os vestígios do Sérgio que ainda ali se encontravam. Cada movimento que fiz foi regado por
lágrimas incessantes, contudo nada me impediu de continuar fazendo.
— Você o ama muito... — Fred comentou quando finalmente consegui deixar o André
asseado. Cobri-o com todos os lençóis e me sentei no chão diante dele.
— Amá-lo é como respirar — respondi simplesmente. Fred assentiu, sorrindo.
— Quem era aquele cara? Aquele que o... que o André...
— Um amigo que não merecia ter uma morte tão... cruel. — Pensei em chorar, mas uma
dúvida martelou o meu juízo. Uma peça não se encaixava naquela história. — Espera aí...
Como o Sérgio podia aparecer do nada? Ele não sabia que estávamos aqui!
Fred chacoalhou os ombros.
— Será que ele me seguiu?
— Só pode ter sido! — Encaramo-nos com olhares apavorados mirados um para o outro.
— Se ele te seguiu, outras pessoas podem ter feito o mesmo.
— Mas eu não vi nin...
— Precisamos sair daqui o mais rápido possível! — interrompi-o.
Ergui-me do chão na mesma hora em que o André acordou. Ele soltou um arquejo e
puxou o ar para os pulmões como se estivesse prestes a se afogar em uma banheira. Arregalou
os olhos ao máximo, depois começou a gritar coisas malucas. Seu corpo sofreu espasmos
frenéticos. Fred ficou absolutamente assustado, mas eu me mantive séria e abracei o André
com força.
— Shhh... Calma, estou aqui. Estou aqui... Sou eu, Mikhayah. — André continuou
agitado, mas foi se acalmando aos poucos. — Sou eu, meu amor. Tudo vai ficar bem...
— Mik... hay... ah...— Ele gemeu pausadamente, ainda se contorcendo como se sentisse
uma dor absurda. Um filete de suor lhe escapou pela lateral da testa. Seu corpo, naturalmente
quente, estava congelando. Aprumei os lençóis e me coloquei sobre ele. — Frio... Muito frio...
— Vai passar... Vai passar, querido. Shh...
Devo ter ficado cinco minutos esperando o André parar de se contorcer. Quando
finalmente aconteceu, ele parecia mais sóbrio. Parou de falar coisas sem sentido e ficou
encarando o teto. Depois de mais cinco minutos, finalmente me olhou, reconhecendo-me.
Segurou meu rosto com as duas mãos.
— Eu me lembro de tudo — falou, quase choramingando. Assenti.
— Está tudo bem...
— Matei uma pessoa.
— Está tudo bem — repeti e prendi os lábios para não começar a chorar.
— Não, não está— André balançou a cabeça em desespero.
— Ei... Sabe quantas pessoas eu já matei? Milhares. — Fechei os olhos e por um
segundo imaginei mil rostos perdendo a vida diante da minha sede insaciável. Não lembrava
direito, mas se eu tinha dito aquilo, significava que era verdade. — Acontece.
— Foi aquele seu amigo... O segurança. Não deu para evitar! — O coitado ainda estava
desnorteado de tanta culpa. Ele sempre ficava assim quando nossas tentativas de o prender
durante a transformação davam errado.
— Eu sei,Àndreas. Eu sei. — Beijei a sua boca com fervor. Ele não correspondeu no
início, pois estava muito consternado. Quando percebeu que eu não me daria por vencida,
abraçou-me fortemente e fez seus lábios dançarem junto aos meus em movimentos urgentes.
Ouvimos o Fred limpando a garganta e então nos separamos.
— Desculpem interromper o momento romântico, mas estamos diante de um problemão.
— Observamos Fred e não tivemos coragem de comentar coisa alguma. Eu ainda não era
capaz de largar André. — Quando voltei do hospital, na segunda pela manhã, nosso
apartamento estava todo revirado. Fiquei bastante assustado, mas, diante dos últimos
acontecimentos, resolvi não chamar a polícia antes de falar contigo, André.
— Você fez bem — respondi.
Meus batimentos cardíacos voltaram a acelerar. Na verdade, todos os batimentos que eu
podia ouvir, presentes naquela sala, estavam muito acelerados. Achei que o André ia falar
alguma coisa sobre o fato de alguém estar atrás de nós, mas não. Contra todas as expectativas,
ele demonstrou realmente se importar com o amigo. Deixou nossos problemas de lado um
instante, abriu a boca e perguntou:
— Como está o seu braço, Fred?
— Está bem. — O amigo ergueu um pouco a manga de sua camisa comprida,
mostrando-nos uma faixa grossa enrolada no local onde foi atingido. — Cicatrizando. Os
pontos ainda doem. Não se preocupe, temos um problema maior em nossas mãos.
— Desculpa por isso. E por tudo. — André tremeu em meus braços. — Você não devia
estar metido nessa história toda. Não é justo. Aliás, precisa ir embora daqui o mais rápido que
puder. Ao que tudo indica, isso pode não terminar nada bem.
Fred se ergueu da cadeira, talvez compreendendo que o que André tinha acabado de falar
era muito sério para ser ignorado. Balançou a cabeça devagar e soltou um suspiro confuso.
— Acho que tem mais coisas do que você imagina, André. Aparentemente, quem quer
que tenha revirado nosso apartamento não levou nada, mas na terça-feira um cara me parou na
entrada do nosso prédio, perguntando por você. Era um sujeito baixo, albino... Um cara bem
estranho. Ele insistiu bastante para que eu dissesse onde você estava, mas me fiz de
desentendido e não lhe disse nada. Quem é esse sujeito?
Franzi o cenho. Tentei buscar alguma coisa pela minha memória e encontrei um rosto
enrugado, envolto por uma pele tão branca que chegava a ser rosada. Eu conhecia um cara
albino, mas não fazia a mínima ideia de onde. Talvez fosse mais uma das memórias enterradas
no meu subconsciente, ou apenas meu cérebro me pregando mais uma peça. De qualquer
forma, meus instintos se agitaram. Aquelas notícias não eram nada boas. A imagem daquele
homem me inspirou um sentimento péssimo, quase sufocante.
— Não faço ideia de quem seja esse cara, mas não podemos parar para perguntar —
André se desvencilhou dos meus braços e se levantou do sofá como se não tivesse quase
surtado de dor minutos atrás, carregando um dos lençóis para lhe cobrir a nudez. — Vamos
embora, Mikah. Imediatamente. E você, Fred, volte para casa e finja que nada disso aconteceu.
É o melhor para todos.
— Nunca vamos conseguir alcançar a cidade antes de o sol nascer — protestei. Eu estava
louca para deixar aquele lugar, mas não podia ignorar um detalhe tão importante.
— Então paramos no caminho, nos escondemos em algum motel, sei lá! Só não podemos
ficar aqui.
— Eu não sei o que fazer — Fred admitiu. — Não acho boa ideia voltar para casa, viver
minha vidinha normal e fingir que nada aconteceu, mas ficar com vocês parece loucura
demais. O que acham que esses caras são capazes de fazer? Ao menos sabem quem são eles?
André suspirou ruidosamente, voltando a se sentar no sofá ao meu lado. Estava bastante
inquieto. Confesso que vê-lo em tamanha confusão me deu um pouco de medo, pois até então
ele sempre tomava as decisões sem titubear e sempre agia como se tivesse total controle sobre
a situação.
— Na verdade não tivemos muito tempo para pensar a respeito. Desde que iniciamos
nossa fuga, tudo parece girar em um espiral infinito. A princípio, supomos que são pessoas
empenhadas em não deixar que a Mikaela e eu fiquemos juntos.
— Não compreendo. Por que imaginam uma coisa dessas? Em que a felicidade de vocês
pode prejudicá-los? — Acho que Fred esperava por tudo, menos por uma explicação tão
simplista quanto aquela. Da forma como o André tinha falado, aquelas razões pareceram
realmente banais, mas eu sabia que, no fundo, não eram tão simples quanto aparentavam.
— Você acabou de ter uma boa amostra de um possível motivo, Fred — expliquei com
seriedade. — Você viu o que houve, viu no que nos transformamos e no que fomos capazes de
fazer. Somos seres absolutamente anormais. Há muita coisa errada conosco... Você não faz
nem ideia!
— Mikaela e eu somos diferentes, apesar de sermos igualmente esquisitos. Acreditamos
que pertencemos a raças distintas e que, de algum modo, essa combinação pode trazer graves
consequências. Tivemos lembranças, de uma época distante... Esta não é a primeira vez que
tentam nos separar.
— Pensei que as pessoas dos Sete Por Cento tivessem uma grave amnésia. — O amigo
de André parecia cada vez mais confuso.
— Isso é verdade! — André respondeu.
— Então, qual é a explicação?
— Qual é a explicação para tudo o que você presenciou nas últimas horas? — deixei a
questão no ar.
— Uau... — Fred assoviou e sorriu de um jeito nervoso. Era óbvio que estava morrendo
de medo da gente, mas, apesar de tudo, ele ainda confiava em nós, do contrário já teria saído
correndo. — Parece coisa de filme.
— Já chega, vou me vestir para que possamos partir. — André tornou a se levantar do
sofá. — As coisas que levaremos estão todas na mala do carro, mas ainda há roupas fora das
malas, ainda bem. — Ele se curvou para me beijar no topo da cabeça e desapareceu no
corredor. Muitos de nossos poucos pertences estavam dentro dos armários, pois combinamos
de levar o mínimo possível.
Fred ficou me analisando como se eu fosse uma aberração, e tentei não ficar chateada
com sua atitude. Eu estava quase pedindo para que parasse com aquilo quando ouvimos
batidas curtas na porta. Levantamo-nos ao mesmo tempo e nos encaramos de modo que
deixamos evidente o nosso pavor.
— Algo me diz que vocês não estão esperando visitas... — ele murmurou e eu gesticulei
para que se mantivesse em silêncio.
Caminhei vagarosamente até a porta, usando toda a minha concentração para não
provocar ruído algum. Percebi que o André havia silenciado, provavelmente porque também
ouviu as batidas. Coloquei o meu ouvido junto à madeira da porta e escutei novamente alguém
batendo. A pessoa tinha uma respiração apressada e estava com tanto medo quanto nós.
Arregalei os olhos quando percebi mais uma respiração forte. E depois mais outra. Ao todo,
havia três pessoas do outro lado.
Olhei para trás e percebi o Fred imóvel.
— Mikhayah! Àndreas! Sabemos que estão aí! — As batidas se tornaram insistentes.
Tentando controlar o meu corpo, andei de volta até o Fred e gesticulei para que
continuasse em silêncio. Só depois o agarrei, utilizando toda a força sobrenatural que havia em
mim, e corri de um modo silencioso até a porta dos fundos, que estava escancarada.
Atravessei-a depressa e, em menos de um minuto, percorria a mata como se fosse um vulto
entre as sombras da noite.
Quando achei que já estava longe o suficiente, coloquei Fred no chão. Ele estava
desnorteado por causa da velocidade absurda que consegui atingir.
— Fuja para longe, Fred! — alertei-o com a voz embargada. Mil emoções misturadas
deixavam o meu peito doendo de verdade. — Siga por aquela direção, você encontrará uma
cidade pequena em breve. Tome um táxi, um ônibus, qualquer coisa, só não ouse voltar.
— Mas...
— Rápido! — grunhi com tanta veemência que, sem querer, meus olhos se acenderam.
Fred recuou, temendo um ataque, e saiu em disparada na direção em que eu tinha apontado.
Voltei para casa ainda mais rápido, disposta a salvar o André. Se já o tivessem
capturado, faria questão de me render também. Jamais o abandonaria, só precisava deixar o
Fred seguro, afinal, ele não podia pagar por toda aquela merda. Minha cota de negligência já
tinha sido excedida por aquela noite.
Corri tanto e tão depressa que levei um susto quando alguém se colocou diante de mim.
Meu desespero era tanto que demorei a sentir o cheiro do André, por isso cheguei a me debater
quando ele tocou os meus braços. Quando percebi que era ele, abracei-o com força, quase sem
suportar o tamanho amor que parecia não caber mais no meu peito. Senti um profundo alívio
em vê-lo bem e o observei por alguns segundos.
— Estou bem. — Ele percebeu a minha preocupação.
— O que aconteceu? O que eles fizeram?
— Consegui pular a janela... — ele murmurou. — Estão revirando a casa. Acho que
não nos viram sair, mas não podemos pegar o carro, chamaremos muita atenção.
— Tudo bem, podemos nos mandar a pé, compraremos roupas e outros objetos pelo
caminho — falei tão baixo quanto ele.
— Nossos documentos falsos...
— Faremos outros — interrompi-o.
— O Fred?
— Está à salvo, não se preocupe — respondi quase atropelando a pergunta.
— E então?
Sem falar mais nada, nem perder mais tempo, puxei as mãos dele e comecei a correr
depressa. André correu também, tentando me acompanhar, contudo eu era muito mais veloz e
praticamente o arrastava pelo caminho. Paramos depois de cerca de quinze minutos mantendo
uma boa velocidade. A mata ainda estava fechada naquele ponto, mas eu já não conseguia
sentir a presença das três pessoas que nos perseguiam.
Estávamos completamente desnorteados, minha memória não tinha voltado tanto ao
ponto de eu ter a mínima noção de onde estávamos e de para que lado precisaríamos seguir de
modo a encontrarmos qualquer civilização. Aliás, eu nem imaginaria em que época e por
quanto tempo vivi ali, para saber se naquele tempo existiam as mesmas cidades e vilas de hoje.
— O que foi, Mikaela? — André demonstrou nervosismo.
— Não sei.
— Como assim, não sabe? Não sabe o quê?
— Não faço ideia de qual direção tomar... Pelo que me consta, podemos muito bem
estar andando em círculos e não chegaremos a nenhum lugar desse jeito.
— Você não está com o seu celular? — André olhava ao redor, tentando encontrar algo
que nos desse um norte.
— Ficou na minha bolsa, dentro do carro...
— Não sei para que diabos vocês mulheres querem um celular, se nunca o ouvem tocar
ou nunca o carregam — ele fingiu brigar, mas visivelmente estava tentando diminuir a tensão
do momento.
— Você por acaso está com o seu? — entrei no jogo.
— Eu estava, antes de me transformar em um monstro peludo e destruir toda a minha
roupa — sorriu.
— Deixe disso, o momento agora é sério. Vamos continuar!
— Para qual direção? — ele molhou a ponta do dedo na língua e o ergueu, como se
verificasse a direção do vento.
— Tanto faz, ficar parados aqui é que não vai adiantar nada!
— Vamos seguir em frente, então, ao menos não corremos o risco de dar de cara com
aqueles sujeitos — ele sugeriu.
— Tudo bem, vamos de uma vez...
— Mikah...
— O que foi?
— Só vai um pouquinho mais devagar! — Ele fez uma cara tão engraçada que foi
inevitável não cairmos na gargalhada.
— Tudo bem.
Recomeçamos nossa corrida frenética pela floresta. Eu tentava dosar a velocidade para
não o deixar para trás, mas era inevitável e, volta e meia, ele me pedia que reduzisse o passo.
Seguimos em frente por bastante tempo. A floresta foi ficando um pouco menos fechada à
medida que avançávamos, isso talvez fosse um bom sinal, pois imaginamos que nos
aproximávamos de alguma civilização.
Porém, as horas foram passando e não avistamos nenhuma possibilidade de nos
escondermos, pelo menos não algum lugar onde eu estaria totalmente protegida do sol.
Seguimos até um descampado quando, de repente, André parou.
— Mikah... — ele me segurou nos braços e me olhou desesperadamente. Eu não
precisei de mais nada para entender o porquê de tanto desespero: uma pequena olhada no céu e
pronto, o nível do nosso problema aumentou consideravelmente.
Estava amanhecendo.
Capítulo 25
André

— Não morra, não morra, não morra... — eu repetia aquelas palavras como um mantra.
As lágrimas em meu rosto não paravam de escorrer.
— O que está fazendo? Está louco, Àndreas? — Mikah sussurrou, gastando suas últimas
forças.
— Por favor, meu amor, resista apenas mais um pouco, logo estaremos em um local
seguro, eu prometo, eu prometo... — Meu coração ficava apertado por fazer promessas que eu
não sabia se seria capaz de cumprir, mas eu precisava manter a fé de que tudo terminaria bem,
caso contrário acabaria desistindo de tudo.
Além disso, não parava de me culpar por fazê-la correr mais devagar, apenas para que
não nos separássemos. Eu deveria ter pensado naquilo, deveria ter dito que ela fosse correndo
na frente para procurar seu abrigo e que nós daríamos um jeito de nos encontrar depois. Afinal,
nós sempre acabávamos dando um jeito. Era tudo minha culpa.
— Àndreas...
— O que foi, meu amor? — Não podia encarar o seu rosto, pois me movia em grande
velocidade e a última coisa de que eu precisava era tropeçar e derrubá-la no chão. Sua voz
fraca fazia com que mais e mais lágrimas brotassem em meus olhos.
— Àndreas...
— Mikah, fica comigo, fica comigo, não dorme.
Eu corria em desespero com minha amada nos braços. Não sabia onde estariam os nossos
perseguidores, porém meu instinto continuava me levando a prosseguir sem olhar para trás,
ainda que eu não soubesse por que deveríamos temer quem quer que fosse que nos quisesse
fazer mal. Voltar não parecia ser uma opção, mas deixá-la morrer bem diante dos meus olhos
também não era.
Quando percebemos que o sol despontava no horizonte, era tarde demais para fazer
qualquer coisa. Não havia nenhum tipo de caverna ou local seguro onde pudéssemos nos
abrigar sem que fatalmente fôssemos encontrados. Encarei Mikaela com o olhar interrogativo,
e ela apenas fez que sim com a cabeça, indicando que deveríamos seguir em frente, não
importava o que acontecesse. Demos as mãos e partimos velozmente, desviando da vegetação
que enfeitava a paisagem. Naquele momento, precisávamos não apenas nos distanciar daqueles
que nos perseguiam, como também iniciávamos uma corrida contra o tempo, correndo na
direção oposta ao sol nascente.
Sempre de mãos dadas, prosseguimos em desespero. Senti o corpo, normalmente frio,
de minha amada esquentar. Ela tentava se mostrar forte, mas bolhas começavam a se formar
nas partes expostas de seu corpo. Conforme os raios do astro rei tocavam sua pele clara, subia
um cheiro de carne queimada, que me causava um desespero cada vez maior. Insisti para que
parássemos e nos escondêssemos, mas ela não podia aceitar a ideia de sermos capturados por
sua culpa.
Enquanto seguíamos em frente, ela gemia de dor. Não podia imaginar o que Mikah
estaria sentindo. Fechei meus olhos para não ter que encarar seu terrível sofrimento, até que
senti sua mão se soltar da minha; ela caiu no chão sem ter mais forças para se mover.
Parei ao seu lado e ergui sua cabeça, colocando-a sobre minhas pernas dobradas.
Obviamente, ela tentou ser forte, porém não tinha mais condições e não conseguiu se levantar.
Tentou, por alguns segundos, me convencer a seguir sem ela. Disse que jamais se perdoaria se
eu fosse pego. Que era algo inadmissível. Contudo, era ainda mais impossível que eu a
deixasse morrer, apenas para não ser apanhado. Jamais iria permitir.
Sob protestos, foi nesse momento em que a tomei em meus braços e corri ainda mais
desesperadamente. Desejei ter a velocidade de minha amada, mas infelizmente uma
supervelocidade não fazia parte de meus poderes. Quando ela ficou inconsciente, meu medo de
perdê-la tornou-se ainda mais real. Lágrimas tornaram a brotar de meus olhos e a escorrer pela
minha face. Seus braços e rosto já estavam em carne viva, uma cena impossível de descrever.
Estávamos fora da mata cerrada já há algum tempo, causando uma incidência ainda maior dos
raios solares, e, por mais que eu tentasse lhe proteger com meu próprio corpo, Mikah ainda
sofria muito.
Quando começava a perder as esperanças, atingimos a beira de uma estrada. Esperando
encontrar civilização, corri por durante poucos minutos e logo avistei uma pequena casa, cerca
de duzentos metros à frente. Bastava apenas atravessar a pista e pegar um pequeno caminho de
terra. Parei bruscamente no instante em que um caminhão passou à toda velocidade e quase
nos acertou. Não tive muito tempo para fazer nada além de gritar um palavrão para o motorista
e continuar minha jornada até meu objetivo.
Parei defronte o portão. Estava trancado. Olhei ao redor, e os muros eram
demasiadamente altos, além de estarem recheados de cacos de vidro: resquício de uma
sociedade violenta antes da última grande guerra.
Depositei o corpo deformado de Mikah na grama, que fazia as vezes de calçada, e me
atirei violentamente contra o portão, fazendo com que um grande ruído ecoasse pelo terreno
vazio. A corrente não cedeu. Arremessei-me mais uma vez contra as folhas de ferro, e nada
aconteceu. Em desespero, desejei me transformar na fera que certamente arrancaria as
correntes e colocaria o portão abaixo com facilidade, mas quais seriam os efeitos colaterais
caso acontecesse?
Olhei para o lado, e uma espécie de sangue negro brotava em profusão, saindo pelos
olhos, boca e ouvidos de Mikhayah. Um profundo desespero me atingiu. Não sabia se
continuava tentando derrubar o portão, ou se corria até minha amada para tomá-la em meus
braços e reconfortá-la. Consciente ou inconscientemente, não sei, senti uma forte dor
percorrendo todo o meu corpo.
Eu estava me lixando para as consequências e, daquela vez, não lutei contra a
transformação que se anunciava. Grossos pelos logo recobriram meu corpo, e as tão esperadas
garras surgiram. Como se passasse uma faca quente na manteiga, golpeei a corrente, que se
partiu. Minhas garras atravessaram as folhas do portão de metal, deixando uma inconfundível
marca de minha passagem por ali.
Peguei Mikah nos ombros, entrei e encostei o portão para chamar o mínimo de atenção
de quem eventualmente transitasse pela rua. Surpreendi-me ao perceber que, daquela vez, a
fera não parecia possuir vontade própria, eu tinha absoluto controle e consciência de meus
atos. Dirigi-me à porta da casa, que cedeu ao meu impacto tão facilmente quanto o último
obstáculo que eu acabara de enfrentar. Estava a poucos segundos de retirar Mikaela do castigo.
No instante em que me preparava para arremessar meu corpo contra a porta de madeira,
esta se abriu repentinamente e um homem se posicionou em meu caminho, segurando uma
espingarda de forma ameaçadora. Hesitei por um instante e percebi o terror em seu olhar ao
ver o gigantesco monstro que eu era, parado diante de si. Certamente, devia ser uma visão
bastante perturbadora.
— Pare, seja lá o que diabos for você! Saia já da minha propriedade, do contrário irei
atirar! — o homem gritou e, vendo que eu avançava, puxou o gatilho da arma, que deu um
grande estouro.
— Saia da minha frente! —desviei do tiro e rugi. Agarrei a arma e a tirei das mãos do
senhor que se colocava entre mim e a salvação da pessoa que eu mais amava no mundo todo,
dando um solavanco em seu corpo.
O velho caiu para trás sentado, olhos arregalados, quase entrando em choque ao perceber
que a imensa fera falava sua língua e segurava um ser aparentemente sem vida, todo esfolado e
ensanguentado. Ele começou a fazer o sinal da cruz repetidas vezes, enquanto iniciava uma
oração.
Segurei-o pelo colarinho antes que conseguisse se levantar e correr para a rua. Tranquei
a porta da casa e arremessei a chave para um canto. Soltei-o e ele imediatamente se arrastou
para longe até dar com as costas na parede. O velhote suava frio, parecia que estava prestes a
entrar em colapso.
— A porta dos fundos? — indaguei com fúria.
— Está, está trancada... — o velhote gaguejou.
— Levante-se e feche todas as cortinas! — ordenei, vociferando.
— Como? — O senhor custava a assimilar as mensagens. Estava nervoso demais até
mesmo para obedecer a comandos simples.
— As cortinas. Quero todas fechadas. Agora! —Vi meus olhos, amarelos como farol,
refletindo no espelho que estava na parede diante de mim. Eu mesmo estaria tremendo de
medo caso estivesse no lugar do homem.
Muito relutante, ele se levantou. Percebi que estava com medo de passar por mim e se
dirigir às janelas, então cheguei para o lado, permitindo sua passagem. Ele cambaleou e cerrou
as cortinas da sala, logo em seguida dirigiu-se para os quartos e realizou o mesmo
procedimento. Enquanto o velhote fazia conforme eu havia mandado, depositei o corpo de
Mikah gentilmente no sofá. Não fosse ela um ser especial, minhas esperanças de que pudesse
se restabelecer estariam perdidas. Eu simplesmente não sabia o que fazer. Já havia assistido a
muitos filmes fantásticos, mas em nenhum deles jamais havia visto como fazer para ressuscitar
um ser como ela.
— Água! — gritei. Limitei-me a comandos simples, mas o velho parecia confuso
demais.
— Como? — ele indagou e minha fúria só aumentou.
— Vá buscar água fria, homem! Ela está fervendo! — Eu sabia que aquilo não fazia
sentido algum para o velho, mas para mim soava como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
O sujeito correu até a cozinha e logo retornou com uma garrafa plástica de água, que
devia ter pegado na geladeira. Derramei o líquido gelado sobre Mikaela, de forma a esfriar seu
corpo que parecia ter acabado de sair de um forno industrial. Mal tocava sua pele, a água
evaporava. Uma nova ida à geladeira se fez necessária, e lá estava o sujeito boquiaberto,
correndo para lá e para cá novamente.
Mikaela não expressava qualquer sinal de vida, não esboçava nenhuma reação. Pensei
em fazer uma transfusão improvisada, ou algo do tipo, mas não acreditava que aquilo
realmente pudesse fazer efeito. Era uma ideia estúpida demais.
A única coisa que eu sabia que funcionava, ajudando-a a recuperar suas forças, era o
consumo de sangue, porém Mikaela não estava em condições de sugar o sangue de alguém.
Imaginei que a única forma fosse ajudá-la a ingerir uma grande quantidade do líquido. Minha
única opção seria utilizar o dono da casa como alimento, já que sentia o meu corpo ainda fraco
por causa do sangue que Mikah bebeu. Porém, aquilo era demais para a minha cabeça. Nunca
havia matado uma pessoa, pelo menos não em sã consciência e com total controle de meu
corpo. Ao menos que me lembrasse. Sérgio não havia sido minha culpa. Porém, aquele
momento não era sobre Sérgio e eu, mas sobre Mikhayah. Eu precisava fazer alguma coisa.
Lutei contra minha consciência durante vários minutos. Seria justo tirar a vida de alguém
para dá-la novamente à pessoa que eu amava? Aquele sujeito não tinha culpa do que estava
acontecendo, ele estava apenas no lugar errado e na hora errada.
Não, eu não poderia fazer aquilo. Enquanto enfrentava um grande dilema, ouvi o
barulho de uma porta se abrindo. O velhote havia corrido até o armário embutido da sala e
tinha agora, em suas mãos, outra arma apontada para mim. Meus olhos se acenderam mais uma
vez.
— Agora, vou te mandar de volta para o inferno de onde você nunca deveria ter saído,
monstro maldito! — ele gritou, engatilhando a arma e se posicionando de modo ameaçador,
como se estivesse na posição de comando.
Sorri, e ele certamente não compreendeu o porquê.
— Obrigado por facilitar a minha decisão, velhote — minha voz soou tão gutural que
parecia vir do fundo de uma caverna.
Antes que ele pudesse esboçar qualquer reação, antes mesmo que fosse capaz de puxar o
gatilho, minhas grandes garras rasgaram seu pescoço. O sangue vermelho e quente começou a
jorrar com força, conforme as batidas de seu coração se tornavam mais aceleradas. Ele
engasgou em seu próprio sangue e sofreu um espasmo que o levaria finalmente à morte. Peguei
um jarro com flores que estava em cima da mesa, despejei seu conteúdo no chão com rapidez e
comecei a recolher o precioso líquido da vida que abandonava seu corpo.
Assim que o jarro ficou cheio, peguei a garrafa, que antes continha água, cortei sua boca
com minhas garras, para que a abertura ficasse maior, e a coloquei junto ao ferimento que
continuava despejando o alimento que poderia trazer Mikah de volta para os meus braços.
Quando a intensidade do sangramento diminuiu, segurei o velho pelas pernas, colocando-o de
cabeça para baixo para que não desperdiçasse nem uma gota do precioso elixir.
Tudo o que eu estava fazendo proporcionava um espetáculo bizarro que assustaria até o
mais corajoso dos homens. Tudo era surreal demais, mas eu procurava agir com a maior
naturalidade e simplicidade possível. O bem-estar de Mikaela estava acima de tudo e de todos.
Por mais que me espantasse, em nenhum momento eu senti o desejo de vomitar ou me senti
mal por aquilo. No fundo, eu sabia que muitas cenas, até mais bizarras do que aquela, haviam
se repetido ao longo da minha vida.
Ao me certificar de que já não haveria como recolher mais sangue, peguei os recipientes
e me uni à minha amada novamente. Segurei sua cabeça e encostei o jarro em sua boca
deformada. Aos poucos, virei o líquido como se alimentasse um filhotinho. Fui me acalmando
e minha transformação se desfez aos poucos.
Conforme fazia com que o sangue descesse pela boca de Mikaela, percebia uma leve
melhora em seu aspecto, como se suas queimaduras começassem a cicatrizar. Não tenho
certeza se realmente a reação era tão rápida assim ou se meu subconsciente me fazia enxergar a
melhora, mas o fato é que aquilo me acalmou um pouco e me permitiu agir com mais razão.
Não fazia ideia do tempo que levei naquela tarefa, mas procurei realizá-la sem pressa
para que nada desse errado. De gole em gole, todo o sangue colhido de minha vítima foi
levado ao corpo dela. Encostei meu ouvido em seu peito e pude ouvir um bater fraco, porém
ritmado. Sim, ela parecia estar de volta. Sem dúvida alguma o seu quadro de saúde melhorava
aos poucos. Embora não pudesse conter a felicidade que ardia em meu peito, procurei não criar
muitas expectativas, pois ainda era cedo demais para ter certeza de que Mikah se recuperaria
totalmente.
Um pouco menos agitado, me dei conta de que o velho poderia não estar sozinho no
momento de nossa chegada. Por um segundo me deu um arrepio na coluna. Comecei a revistar
a casa em busca de mais alguém que pudesse estar se escondendo por ali. Revirei os quartos,
armários, banheiros, tudo. Verifiquei as portas e janelas, que continuavam fechadas por dentro.
Felizmente, estávamos sozinhos. Respirei aliviado. Eu não gostaria de ter que tirar outra vida
inocente, mas tudo o que fiz foi apenas para a nossa preservação. O velhote não poderia ficar
vivo de qualquer forma, não depois de ter visto o que viu. Além disso, Mikaela precisava do
seu sangue.
Pensei em dar um fim em seu corpo, embora qualquer um esperasse encontrá-lo morto
após ver tanto sangue espalhado pelo chão da sala. Deixei-o onde estava. Não pretendia ficar
ali por tanto tempo a ponto da decomposição do seu corpo se tornar um problema. Procurei
pela casa outro cadeado e corrente. Ao menos deveria trancar novamente o portão e garantir a
nossa privacidade. Certamente seria necessário passarmos ao menos o resto do dia ali.
O relógio apontava para as sete e quarenta e cinco da manhã. Seriam longas horas até o
sol se pôr novamente e eu poder levar Mikhayah para outro lugar seguro.
— Àndreas? — ouvi um sussurro.
Corri até o sofá onde o corpo de Mikah já exibia uma aparência um pouco melhor e
debrucei-me sobre ela, levando minha boca até o seu ouvido.
— Shh, shh, shh... Não fale, meu amor, poupe suas energias. — Alisei seu cabelo, que
estava cheio de seu próprio sangue ressecado. Procurei forças para não chorar e fingir que tudo
estava bem diante dela.
— O que... O que houve? — Lágrimas de sangue passaram a escorrer de seus olhos e
aquilo me preocupou.
— Agora está tudo bem, Mikah. Descanse, não se preocupe. Procure não chorar, você já
perdeu sangue demais...
— O Sérgio... — ela balbuciou.
— Não se preocupe com o Sérgio, não se preocupe com nada. — Ela delirava, seu corpo
ainda ardia, como se estivesse em febre. — Acalme-se, feche os olhos e tente dormir.
Continuei alisando sua cabeça até que Mikaela pegasse novamente no sono. Recuperar
suas forças era algo essencial. Não consegui encontrar uma corrente substituta, mas achei em
um dos armários uma corda grossa que quebraria o galho. Saí apenas depois de verificar pela
janela que não havia ninguém à vista. Corri até o portão e o amarrei, dando vários nós cegos,
apertando com toda a minha força para que não fosse fácil desatá-los. Espiei a rua, não parecia
haver nenhum movimento anormal. Tornei a entrar e me tranquei na casa com Mikah.
Não estava com fome, mas sabia que, quando ela acordasse, precisaria de alimento que
apenas eu poderia proporcionar, então aproveitei que ela dormia e revirei a cozinha em busca
de algo que me forçaria a comer. Não havia muita coisa na geladeira, mas algumas panelas
pareciam conter o resto do almoço do dia anterior. Procurei prato e talheres pelos armários e
logo estava esquentando uma parca refeição no micro-ondas do velhote.
Revistei os bolsos do corpo inerte no meio da sala e encontrei o que procurava: um
celular. Não era dos mais modernos, mas deveria servir. Havia muitas coisas ainda para
resolver, mas eu tentava encontrar coragem para sair pela cidade, deixando Mikhayah sozinha
nas condições em que se encontrava.
Precisava providenciar um transporte para que nos deslocássemos com velocidade
assim que o sol se escondesse. Muitas dúvidas pairavam em minha mente. Os minutos
passavam. Assim que o micro-ondas apitou, retornei para a cozinha e retirei o prato, acordando
de um transe. Sentei-me ao lado de minha amada enquanto comia e acompanhei seu progresso.
Sua expressão melhorava visivelmente.
Era quase meio-dia. Contei os segundos e minutos por tanto tempo que quase
enlouqueci. Eu precisava conseguir um carro. Precisava ficar tomando conta de Mikah, eu
precisava... De tantas coisas!
Reunindo coragem, dei um beijo em seu rosto, peguei as chaves da casa e saí. Procurei
pelas chaves do portão da garagem, mas foi em vão, pois não a encontrei. Suspirei alto,
entendendo que teria que retirar a corda que eu tinha amarrado tão bem. Voltei até a entrada,
tranquei a porta de madeira da sala e me dirigi ao portão social. Desamarrei a corda, passei
pela abertura e tornei a amarrá-la. Quando dava o último nó, quase tive um infarto ao ouvir
uma voz bem atrás de mim.
— Boa tarde, vizinho!
Virei-me repentinamente e dei de cara com uma senhora, que aparentava ter cerca de
quarenta anos. Ela me olhava com curiosidade, mas não demonstrava que estivesse
desconfiando de que algo estava errado.
— Boa tarde, senhora. Como posso ajudá-la? — forcei um sorriso para fingir que ela não
estava me pegando no flagra. A expressão do seu rosto passou de curiosidade para
desconfiança.
— Você por acaso é amigo ou parente do senhor Alcides?
— O senhor Alcides? O senhor que mora aqui? — Disfarcei enquanto pensava em
alguma coisa.
— Sim, o senhor que mora aí... Está na casa dele e não o conhece? — a insistência dela
me deu nos nervos.
— Ahm, bem... Sim, eu o conheço... Só estou fazendo um serviço para ele. — Dei a
melhor desculpa que me veio à mente no momento.
— O senhor é pedreiro? Bem que o senhor Alcides disse que ia fazer uma reforminha. —
Ela pareceu menos tensa.
— Isso, isso mesmo, sou o pedreiro que ele contratou. O senhor Alcides precisou dar
uma saidinha. A senhora quer deixar algum recado para ele? Estou indo à venda pegar um
material que faltou, mas logo estarei de volta — eu continuava tentando soar o mais natural e
inocente possível.
— Nossa, o que houve com o portão?
— Bom, eu estava entrando com algumas ferragens e o acertei sem querer, não se
preocupe, vamos reparar tudo, dona...
— Rosa — ela sorriu. Senti a tensão se aliviar um pouco mais.
— Muito bem, dona Rosa, se a senhora me dá licença, eu preciso mesmo ir até a venda,
senão vou atrasar muito o serviço. E aí tem multa, aquela coisa toda. A senhora compreende,
não é mesmo? — Eu estava desesperado para sumir dali.
— O senhor Alcides demora?
— Olha, aí eu não sei dizer para a senhora. Para falar a verdade, ele não me disse para
onde ia. Mas acho que ele volta só mais tarde. — Tudo que eu não precisava era de uma
mexeriqueira perturbando enquanto Mikaela tentava descansar.
— Tudo bem, obrigada mesmo assim. — Rosa me analisou de cima a baixo, deu um
sorriso e seguiu seu rumo, assim como eu segui o meu, após conferir novamente se a corda
estava bem atada.
Caminhei por uma longa estrada até chegar ao centro da pequena cidade. O caminho
estava muito mais movimentado do que naquela manhã, mais cedo. Entrei numa loja de roupas
e comprei algumas novas, pois as minhas estavam rasgadas devido à transformação. Foi até
engraçado os olhares que as atendentes me lançaram quando viram um sujeito maltrapilho
entrando na loja, mas tratei de escolher as roupas rapidamente e pagar. Ali mesmo me troquei e
joguei as vestes antigas no lixo. Fui até uma pequena loja de celulares e comprei um chip para
colocar no celular que eu tinha pego do velho. Ficar com o número dele não seria uma boa
ideia.
Passava das quatro da tarde. Parei em um posto de gasolina, onde havia uma pequena
lanchonete e um caixa automático. Mesmo sabendo que poderia ser rastreado, saquei algum
dinheiro para nossas necessidades durante a viagem até a capital, onde compraríamos as
passagens de avião rumo à Europa. Aproveitei e peguei algumas guloseimas para comermos no
caminho.
Com roupas novas e estando um pouco mais arrumado, eu já não chamava mais tanto a
atenção, exceto pela minha altura, mas com aquilo eu já estava acostumado. Sentei-me no
balcão, coloquei uma cestinha com as comidas do meu lado, pedi uma lata de refrigerante e
observei o movimento. Ali seria o local ideal para conseguir o veículo de que precisava. Era só
esperar o sol se pôr e abordar alguém que estacionasse na parte mais isolada do posto. Não
estava muito feliz com aquela ideia, mas eu não tinha dinheiro suficiente para comprar um
carro e, definitivamente, naquela cidadezinha não haveria onde alugar um.
Pacientemente, esperei. Acabei fazendo um lanche e bebi um milk-shake para disfarçar,
pois ficar à toa sem fazer nem consumir nada acabaria despertando a atenção dos funcionários
do local. Assim passei as horas seguintes, olhando no relógio de instante em instante. Quando
eram cerca de sete e meia da noite, paguei pelo que tinha consumido e pelas compras que
fizera. Peguei a sacolinha, agradeci à moça do caixa, me dirigi até a outra extremidade do
posto e aguardei nas sombras.
Não tardou para que um carro se aproximasse. Parecia pequeno e não tão veloz, mas eu
não podia continuar esperando. Precisava reencontrar Mikah e partir o mais rapidamente
possível. Pensei em usar um boné ou alguma outra coisa que escondesse um pouco meu rosto,
mas imaginei que fosse desnecessário, pois dificilmente existiria na cidade outro homem negro
com mais de dois metros de altura.
Assim que o carro parou, saí com agilidade e abordei o rapaz que acabara de descer. Pedi
desculpas e disse que ligaria para o posto em alguns dias, dizendo onde deixaria o carro, mas
que aquela era uma situação de vida ou morte e que eu era obrigado a agir daquela forma. Ele
se assustou, esboçou uma reação, mas ao ver meu tamanho, apenas me entregou as chaves e
saiu do meu caminho. Entrei no carro e saí cantando pneus em direção à casa onde deixei
Mikah. Pelo menos, até aquele momento, apesar dos contratempos, as coisas pareciam estar
finalmente a nosso favor.
Essa sensação, entretanto, não durou muito tempo, pois assim que passei pela rua da casa
do senhor Alcides, percebi que havia vários carros de polícia parados em frente ao local onde
eu tinha deixado Mikaela, enfraquecida e indefesa. Meu corpo gelou e meu coração quase
parou. Acelerei, sem conseguir raciocinar direito, passando pelos policiais e dobrando na rua
seguinte, imaginando como faria para recuperar a mulher que eu amava.
Capítulo 26
Mikaela

Minha cabeça latejava como se alguém a estivesse martelando com força. Não havia
um pedaço de mim que não doesse, mas mesmo assim criei forças para me levantar de uma
superfície macia que percebi ser um sofá quando minha mente se organizou. Não fazia ideia de
onde estava nem como tinha ido parar ali. Pelo menos já era noite, então não precisaria mais
me preocupar com os raios solares. Ainda podia sentir uma dor incômoda na pele.
Meus primeiros pensamentos foram guiados na direção do André. Percebi que me
encontrava em uma sala desconhecida, e havia muito sangue ao meu redor. O cadáver de um
homem jazia no chão, ensanguentado. Assustada, levei uma mão à boca. Como previ, meus
lábios estavam ensopados do líquido escarlate. O cheiro forte me causou uma sede terrível,
mas o medo, milagrosamente, conseguiu ser bem maior.
— Ai, meu Deus... — corri até o homem para conferir se ainda respirava, na tentativa vã
de fazê-lo reanimar.
Era tarde demais. O coração dele não batia e, pelo cheiro que exalava, fazia algum
tempo. Seus ferimentos no pescoço pareciam arranhões de uma fera, no entanto, e não uma
mordida mortal. Não havia sido eu quem tinha ferido o sujeito.
Voltei a pensar no André. Será que havia se transformado novamente? Não consegui
sentir a presença de ninguém por perto, por isso me desesperei. Tentando não acreditar nos
meus instintos, ainda o procurei por cada ambiente da casa, em vão. Precisava encontrá-lo
antes que se metesse em outra confusão e gerasse consequências ainda mais espantosas do que
as da noite anterior.
O desespero e o pavor me fizeram travar por alguns minutos. Não soube o que fazer,
nem mesmo por onde começar a procurar o André. Só sentia o meu coração diminuindo. Não
queria, mas acabei imaginando como seria se o tirassem de mim e eu voltasse a ser a garota
sem graça, e sem objetivos, que era. Olhei para o horizonte através da janela da sala,
prometendo a mim mesma que, caso acontecesse qualquer coisa com o meu amado, saberia
uma forma eficaz de ir embora daquele mundo cruel: era só esperar amanhecer.
Minhas ideias bizarras foram caladas por algumas vozes perto da porta.
— Não vejo o senhor Alcides desde cedo... E aquele homem estava com a roupa toda
rasgada e suja de sangue, eu vi, tenho certeza de que era sangue!
— A senhora só pode estar ficando louca... — uma voz masculina respondeu.
— Vamos conferir logo se o Alcides está, depois veremos se fiquei louca ou não! — a
mulher insistia, certa de que tinha a razão.
Ouvi batidas na porta logo em seguida. A sala inteira estava tomada pelo sangue, não
tinha como limpar tudo em um segundo e fingir que nada tinha acontecido. Fui para um quarto
dos fundos, abri a janela cautelosamente, pulei e me esgueirei debaixo dela. Podia tentar pular
o muro alto, contudo tive muito medo de não conseguir ser rápida o suficiente para não ser
pega por ninguém. Ainda me sentia fraca, com as forças esgotadas, e tinha uma dor de cabeça
chata que não me deixava pensar direito.
As batidas se intensificaram até a curiosidade dos visitantes aumentar. Em alguns
minutos, a porta foi arrombada, e então ouvi gritos horrorizados. Tive vontade de chorar. Eu
era um monstro apavorante, bem como o Àndreas. Não devíamos andar soltos por aí, era
perigoso para os inocentes. Talvez aquelas pessoas esquisitas que estavam atrás de nós
quisessem exatamente isso; que não ficássemos juntos para não tirarmos a paz dos outros. Só
que eu não pretendia tirar a paz de ninguém. Só queria que houvesse um cantinho afastado no
mundo para viver aquele amor sem medo, sem preocupações. Seria pedir muito?
— Ligue para a polícia, Samuel! Rápido! — a mulher gritou em pleno horror. — Meu
Deus... Meu Deus, eu sabia! Eu sabia!
Ao ouvir a palavra polícia, cada nervo do meu corpo congelou. Precisava sair de perto
com urgência, porém continuava sedenta, toda dolorida e bastante fraca. Jamais conseguiria
pular o muro demasiadamente alto.
Esgueirando-me pelas paredes do lado de fora da casa, tentei me manter invisível,
sendo ajudada pela escuridão da noite. Não havia muitas opções além de sair pelo portão da
frente, já que o muro não continha falhas. Vi quando uma senhora e um rapaz saíram de dentro
da propriedade; o homem empunhava seu celular e falava nervosamente o endereço do local. A
senhora chorava em desespero, olhando para todos os lados como se esperasse ser interceptada
por algum ser vindo das trevas. Bom, aquele ser era eu.
Respirei fundo e contei até dez. Criei forças não sei de onde para correr o mais rápido
possível; atravessei a senhora e o rapaz como se fosse um foguete, mal dando tempo a eles de
saber o que tinha acontecido. Meus pés queimaram, meu estômago revirou e minha pele pediu
socorro, contudo não ousei parar. Ouvi alguns gritos atrás de mim. Não parei para conferir
quem gritava. A casa ficava na beira de uma estrada, deserta àquela hora. Adiante, havia mais
algumas construções, que eu só supunha a existência por causa de lâmpadas elétricas acesas no
meio do nada.
Segui pela estrada até perceber o quanto estava sendo burra — podia ser facilmente
localizada se traçasse aquele caminho. Por este motivo, embrenhei-me em uma mata rasa que,
depois de alguns metros, ficou bastante fechada. Dei uma conferida: ninguém tinha me
seguido. Seria tolice me perder ainda mais e adentrar a mata, o que me fez permanecer mais
próxima à estrada, que eu sabia que daria em algum lugar civilizado — não que eu soubesse o
que fazer quando chegasse lá.
“Onde diabos está o André?” — era tudo que eu conseguia pensar.
Corri até não conseguir dar mais um passo sem sentir uma dor lancinante. Caí de cara
no chão, exaurida, e me sujei inteira de terra. Comecei a chorar sem pausas. Apesar de estar
muito escuro, pude visualizar gotas fartas de sangue saindo dos meus olhos e molhando a
vegetação rasteira. Assustei-me com meus próprios gemidos e soluços.
Meu aspecto físico devia estar um horror. Não me lembrava de sentir tanta sede em
toda a minha existência. Precisava de sangue fresco, era um fato inquestionável e inadiável. Ou
eu me alimentava, ou me arrastaria pelo chão até o sol nascer e concluir o que não tinha
conseguido mais cedo.
Ouvi o ruído característico de um motor de carro. Arrastando-me no chão, tentei me
esconder atrás de um arbusto mais alto. Seria uma calamidade se eu fosse pega pela polícia
àquela altura do campeonato. Esperei o barulho das sirenes, mas nada pude ouvir. Tudo
indicava que o veículo que se aproximava era um carro comum de passeio. Mesmo assim,
mantive-me escondida. Estava com tanto medo de tudo que continuei chorando, contendo os
soluços e, ao mesmo tempo, tentando encontrar coragem para reagir. André estava precisando
de mim em algum lugar do mundo, não podia me dar por vencida.
Foi pensando nele que tive uma ideia maluca — mais uma dentre as tantas que já tive
desde que o conheci. Buscando força, coragem e determinação, ergui-me devagar. Caminhei
tropegamente até a beira da estrada, acenando para o veículo que se aproximava mais e mais a
cada instante. Não raciocinei sobre o que eu pretendia fazer; não queria saber se era certo ou
errado. Minha sobrevivência estava em jogo e eu precisava sobreviver.
Quase não consegui alcançar a estrada, tamanha era a minha fraqueza. Ergui os braços
e os chacoalhei da melhor forma que o meu corpo debilitado conseguiu. Percebi que o carro
começou a diminuir a velocidade. Exaurida, deixei-me cair sentada no chão. Não fazia ideia se
o motorista em questão teria coragem de parar no meio do nada para socorrer uma
desconhecida, mas ele acabou parando, fazendo-me lembrar de que o mundo havia mudado
demais desde a última guerra. A maldade só existia em mim.
— Moça? — Um rapaz, que aparentava uns vinte e poucos anos, desceu do veículo,
deixando os faróis ligados praticamente na minha cara. Fiquei incomodada com a claridade
repentina. — O que aconteceu?
— Ajude-me... — murmurei, mal conseguindo fazer as palavras saírem da minha boca.
Tentei verificar se o rapaz estava acompanhado, contudo não dava para ver se tinha alguém
esperando dentro do veículo.
— Minha nossa! Você está toda suja de sangue! Onde está ferida? — Ele parou diante
de mim e se curvou um pouco para me ver de perto.
— Aqui... Na barriga... — Indiquei um ponto na altura do meu estômago, que revirava
de sede e quase implorava por gotas fartas de sangue humano. Meu ventre estava pegando
fogo. — Ajude-me...
— Vou ligar para uma ambulância, moça, aguarde só alguns minutinhos! Pode ser ruim
tentar te tirar do chão.
— Não! — soltei um gemido alto. — Não... Só... Chegue mais perto. Veja se o
ferimento está muito ruim... — supliquei.
O inocente rapaz se acocorou diante de mim com uma expressão muito preocupada.
Sua sincera vontade de ajudar me fez frear por alguns segundos. Pensei em desistir. Não podia
machucar mais um inocente. Entretanto, quando ele ficou mais perto, ouvi o delicioso som de
seu coração batendo forte, exalando virilidade. Lambi meus próprios lábios, notando que
minhas presas já tinham aparecido do nada.
— Não encontro o ferimento, moça... — Ele me encarou e estacou. Sua surpresa foi tão
grande que acabou caindo para trás. Meus olhos certamente estavam acesos, analisando minha
vítima como uma cobra antes de dar o bote. — Que merda é essa? Quem é você?
Minha resposta foi dada em forma de ataque. O último reflexo do meu corpo foi saltar
em cima do sujeito, deixando-o preso sob mim. Meus lábios alcançaram sua jugular em
questão de segundos. Pressionei minhas presas no ponto exato e quase gargalhei quando senti
o doce sabor daquele sangue na boca. O rapaz tentou escapar, mas estava tão surpreso que não
sabia direito como fazê-lo. Depois de dois segundos me alimentando, já me sentia mais forte,
portanto, mesmo se ele soubesse como se desvencilhar, nunca conseguiria.
Prendi suas duas mãos contra o acostamento da estrada e firmei bem o meu quadril
contra o seu. Ele estava perdido. Eu não conseguiria parar, drená-lo estava bom demais. O
garoto se remexeu bastante e soltou gritos que só me deixaram em um estado avançado de
excitação. Percebi quando foi perdendo as forças, até que desmaiou. Ainda assim, não
consegui cessar. Podia ouvir seu coração ainda batendo, muito fraco, e sabia que só me saciaria
quando parasse de vez de escutá-lo.
— Largue-o! — alguém gritou. Não havia notado a presença de ninguém se
aproximando, por isso me assustei muito. Sentei sobre o corpo da minha vítima e olhei ao
redor. Não havia ninguém na estrada. — Vamos, Mikhayah, largue-o! Agora!
— Quem está aí? — berrei de volta, admirada porque aquela pessoa sabia o meu
verdadeiro nome. Totalmente recuperada da fraqueza, pus-me de pé. Girei o meu corpo em
volta de mim mesma. Não consegui ver nada diferente.
— Você é tão sutil quanto um elefante com asas! — a voz tornou a gritar, parecendo
completamente irritada e sem paciência. Eu já tinha ouvido aquela comparação antes. E aquela
voz.
Andrew.
— Andrew? — Dei outra volta ao redor de mim. — O que faz aqui? Onde você está?
Apareça!
Uma luz intensa atingiu a estrada como se fosse um raio. A claridade foi tanta que
achei que tivesse ficado cega. Soltei um grito apavorado. Tão rápida quanto veio, a luz foi
embora totalmente. Foi como se alguém tivesse tirado um retrato com o mais poderoso flash
do mundo.
Ainda estava atônita quando uma figura apareceu na estrada, ao lado do veículo do
rapaz, que ainda jazia desacordado no chão. Andrew tinha os olhos acesos em um tom azulado
e usava roupas brancas folgadas. Estava descalço. Aproximou-me com passos firmes.
— O que você é, Andrew? — murmurei, absolutamente surpresa com sua aparição
repentina. Sua imagem era igual a de que eu me lembrava, mas muita coisa nele estava
completamente diferente do Andrew que eu tinha conhecido. Não soube explicar qual
diferença era aquela.
Ele não respondeu a pergunta.
— Você fez tudo errado, Mikhayah — balançou a cabeça em sinal de desaprovação. Vi
decepção, raiva e até mesmo tristeza em seu rosto. — Fez o oposto do que disse que faria.
— Você foi idiota em achar que eu abandonaria o André — arreganhei as presas como
uma fera preparando-se para atacar.
— Fui...— assentiu com seriedade. — Um tolo. Suspeito que meus sentimentos tenham
ofuscado a minha razão.
— O que está fazendo aqui? — indaguei com raiva. Não tinha ficado nem um pouco
satisfeita com o fato dele interromper a minha refeição.
— Estou tentando limpar sua sujeira. Este homem que você atacou é um protegido, sua
louca! — ele apontou para o rapaz no chão. Uma luz prateada saiu de seu dedo e atingiu o topo
da cabeça da minha vítima. Fiquei calada, acompanhando aquele gesto esquisito com muito
espanto. — Quantas atrocidades vai cometer até perceber seu egoísmo? Pensei que fosse mais
inteligente.
Andrew parou de emitir aquela luz e guardou as mãos nos bolsos da calça branca.
Encarou-me. No instante seguinte, ouvi o coração do rapaz acelerar um pouco. Fiquei tão
chocada que comecei a rir. Não fazia ideia do tamanho do poder que Andrew tinha. Contudo, a
lembrança dos lábios dele nos meus me fez ficar com raiva. Ele era uma criatura chata e
invasiva, acima de tudo que pudesse ser.
— Olha, Andrew, a última coisa de que preciso agora é dos seus sermões. Poupe-me
deles, faça-me o favor. Vamos fazer assim, siga o seu caminho que eu sigo o meu, assim todos
nós saímos ganhando.
— Você não pode continuar achando que não haverá consequências. Olhe para si
mesma! — apontou para mim. — Está se destruindo. Está destruindo o André também. Vocês
destroem tudo o que tocam. Infelizmente, começo a reconhecer a velha Mikhayah de
antigamente. Imaginei que você tivesse aprendido, amadurecido.
Dei de ombros. Olhei fixamente para o asfalto da estrada. Minhas lembranças não
tinham atingido o ponto de reconhecer totalmente o meu eu do passado. Não sabia do que ele
estava falando, então fui incapaz de respondê-lo. Porém, precisava admitir, ele parecia me
conhecer melhor do que eu mesma. Provavelmente tinha toda razão.
Andrew soltou um longo suspiro diante do meu silêncio.
— Venha comigo. Os policiais logo estarão aqui. Não podemos permitir que eles te
encontrem e te encham de perguntas. Vamos! — Comecei a ouvir sirenes no exato momento
em que Andrew mencionou a polícia. Observei o rapaz no chão. — Ele vai ficar bem, se quer
saber. Não graças a você. Vamos, depressa.
Andrew caminhou decididamente na direção da mata. Eu não sabia o que fazer, nem
para onde ir, por isso resolvi acompanhá-lo. Não que eu confiasse nele, muito pelo contrário,
mas por total falta de opção. Poderia tomar outra decisão quando estivesse menos vulnerável.
O sangue, que foi bem recebido pelo meu corpo, estava me trazendo mais força e
discernimento. Tinha certeza de que não demoraria a estar absolutamente pronta para buscar o
André.
Adentramos a mata fechada antes que a polícia se aproximasse. Atravessamos árvores
de todos os tamanhos, cruzamos clareiras, rochas e até mesmo um pequeno riacho. Andamos
por quase meia hora rumo ao nada. Eu não fiz perguntas. E sequer sabia os motivos de não as
ter feito.
Andrew não comentou sobre coisa alguma durante o percurso. Permaneceu mudo,
manteve os passos firmes, mesmo estando descalço, e uma postura imponente de dar inveja.
Alcançamos uma pequena casa feita de madeira. Ele abriu a porta e se virou para me encarar
pela primeira vez desde que iniciamos aquela pequena jornada.
— Vamos, entre — ordenou.
— O que quer de mim? — fiz ar de insolente.
— Primeiro, que você se lave. Está fedendo a sangue e pecado, um cheiro podre que
me dá náuseas. Depois, quero conversar contigo — tornou a indicar a porta, orientando-me a
entrar de uma vez.
— E se eu não quiser? — cruzei meus braços e não me mexi.
— Não tem opção para você, Mikhayah. Obedeça! — sua voz soou como um trovão,
mas não me intimidou.
— Quer apostar? — mantive o ar de teimosia, talvez pela convivência, estava
começando a agir um pouco como o André.
Andrew ficou indignado com a minha postura. Seus olhos voltaram a se acender.
— Entre — usou uma voz tão dura que achei melhor não contrariá-lo daquela vez. Ele
era muito forte, podia me causar problemas maiores. Eu tinha que sobreviver para encontrar o
André. Quanto mais rápida fosse aquela conversa, melhor.
Entrei na casinha e constatei que tudo dentro dela era bem simples, mas aconchegante.
Na verdade, não era bem uma casa, era um ambiente com apenas um quarto e um banheiro.
Havia uma cama de casal, um conjunto de sofás — com colchas grossas os cobrindo –, tapete
fofinho no chão, uma penteadeira de madeira escura e um armário pequeno.
— Tem tudo de que você precisa... — Andrew trancou a porta da casinha e apontou
para uma passagem que dava para o banheiro. Ele não tinha porta, nem mesmo uma cortina
para manter a privacidade.
— Não vou me lavar com você olhando.
— Engraçado é que você não teve nenhum desconforto ao deixar o André fazer coisa
pior do que simplesmente te olhar.
— Isso é uma piada? — estreitei os meus olhos. Minha vontade foi de lhe dar um soco
bem no meio da fuça. — Como sabe o que fizemos ou deixamos de fazer?
Novamente, Andrew não me respondeu.
— Vou esperar sentado no sofá, não se preocupe que não irei ver nada. — Ele fez o que
disse e cruzou os braços.
Pensei em reclamar, mas eu também estava incomodada com a minha sujeira. Com
certeza o meu desodorante tinha vencido. Entrei no banheiro; era meio rústico, mas tinha
chuveiro, toalhas limpas e algumas roupas dobradas. Joguei as roupas sujas em um cesto e me
preocupei em me livrar do sangue, do suor e da areia. Tomei um banho de cabeça.
Estava meio envergonhada com a presença do Andrew na sala, por isso tentei ser
rápida. Enxuguei o meu corpo e só então percebi que as minhas opções de roupa eram uma
palhaçada. Só tinha vestidos florais meigos, sem graça. Nada de calças. Nada que permitisse
que eu me movimentasse à vontade. Perdido entre os vestidos, achei uma camisola preta bem
sensual. Achei estranha a presença daquele item no meio de tanta coisa açucarada, mas acabei
o escolhendo. Queria chocar o Andrew. Sabia que ele ia reclamar.
Com as pernas expostas e um decote de matar, saí do banheiro rebolando, fingindo
normalidade. Andrew me viu. Passou alguns segundos muito sério. Sentei-me na cama, diante
dele, e cruzei as pernas. Ele riu.
— Eu sabia que escolheria a camisola.
Minha cara foi parar no chão.
— Se sabia, então por que não deixou só ela disponível?
— Todo mundo tem escolhas, Mikhayah. Se chama livre arbítrio. Agora, pode me dizer
o que pretende tentando me seduzir? — ele foi direto ao ponto, me pegando completamente
desprevenida.
— Não estou tentando te seduzir.
— Ah, não?
— Não. Estou tentando te irritar. Você não tem cara de que gosta dessas coisas —
insinuei.
— Que coisas? — Ele voltou a ficar sério.
— Dessas coisas pecaminosas. Sabe o que eu acho que você é? Um anjo. Isso
explicaria toda a sua chatice.
— Um anjo? Eu? — Ele fez uma expressão desconfiada.
— Diante de todas as aberrações que tenho presenciado, nem me causa mais espanto —
respondi com naturalidade.
Andrew permaneceu sério. Suspirou e, sem querer, observou demais as minhas pernas.
Deu para notar que fez um esforço absurdo para não se deixar levar. Sorri, sentindo-me
vencedora. Acho que estava no meu sangue agir daquele modo, sempre hipnotizando,
mentindo, fingindo, chocando... Devia fazer parte do que eu era.
— Você acertou. Sou um Soldado do Senhor — informou finalmente.
Fiquei calada. Por mais que tivesse desconfiado, principalmente depois daquela
aparição louca na estrada, ter a comprovação me fez quase pirar. Queria me fazer de forte, mas
acreditar que havia mais seres diferentes como André e eu era espantoso. Andrew, um anjo? Se
ele era um enviado de Deus, então a situação toda deveria ser mais séria do que pensei.
— O que quer comigo? Abre o jogo, Andrew — demonstrei toda a minha impaciência
na esperança de que aquilo tudo terminasse logo.
— Não é o que eu quero que está em questão. — Ele sorriu, meio desconcertado. Não
entendi direito o que falou. — É o que você precisa fazer. Mikhayah, esqueça o André. —
Bufei e ri, balançando a cabeça. — Tem que levar a sério! Essa união é catastrófica. Não
percebe? Tende a piorar. Vai sair do controle.
Parei de rir. Comecei a me sentir péssima. Fiquei com vontade de chorar, mas não
queria me sujar de sangue de novo. Passei as mãos pelos cabelos, desesperada. Aquela
conversa já estava me cansando. Nem sabia por que eu estava dando atenção àquele sujeito,
mas algo me fazia ficar ali e escutar o que ele tinha para me dizer.
— Qual é a sua grande sugestão? — Só queria entender exatamente o que o Andrew
queria que eu fizesse. — Minha vida inteira ficou para trás.
— Venha comigo — disse com a voz decidida. Fiz uma careta.
— Para onde?
— Qualquer lugar. Apenas fique comigo, Mikhayah.
— Eu... Acho que não entendi — fiz uma expressão tão espantada quanto confusa.
Andrew me olhou de outra forma, de um jeito que me fez entender no mesmo instante.
Ele se ergueu do sofá e se sentou ao meu lado na cama. Perdi a capacidade da fala. Até me
mexer se tornou difícil. Criei raízes no colchão.
Andrew tocou o meu rosto com as duas mãos, obrigando-me a olhá-lo de perto. Mal
pude acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Aquela criatura só podia estar de brincadeira
comigo. Onde já se viu um ser celestial flertar com as trevas daquela maneira?
— Tão linda... — ele murmurou, fazendo movimentos circulares, com as pontas dos
dedos, no meu rosto. — Tão mortal. Você só precisa de luz, Mikhayah. Eu posso te dar essa
luz.
— Do... Do que está falando? — tentei me afastar, mas não consegui.
— Não há futuro para você com aquele homem. Eu implorei para que te dessem mais
uma chance. Ganhei uma, também. Ganhei a chance de te fazer esquecê-lo. De te fazer feliz.
— Andrew...
— Meu nome é Uriel. — Ele sorriu amplamente. — Não parei de pensar nos seus
lábios. — Acho que meu cérebro se derreteu. Virou uma papa disforme. — É diferente, mas o
que sinto não é proibido. Não causa mal a ninguém. Deixaram que eu me materializasse para
você, mais uma vez. Vão deixar que eu viva como um mortal. Contigo. Isso é um milagre,
Mikhayah. Você vai poder ser controlada de novo.
— Isso... Isso é... — Não tive tempo de falar nada. Andrew, ou Uriel, sei lá, fez nossos
lábios se unirem em um beijo sensual.
Uma luz forte tomou o meu corpo inteiro, partindo dele, enchendo-me de uma paz que
há muito tempo eu não sentia. Correspondi ao beijo sem sequer entender o porquê. Foi então
que me lembrei do André. De como beijá-lo era muito mais intenso, sufocante, prazeroso. De
como eu o amava. Não importava que um anjo me beijasse. Eu queria ser beijada pelo André.
Para sempre. Até o fim da minha existência.
— Isso é loucura! — empurrei o Uriel com força. Ele recuou, mas não porque eu o
empurrei. Ele era tão forte que seu corpo mais parecia ser feito de rocha.
— Mikah...
— Pare com isso! Perdeu o juízo? — Levantei-me da cama. — Eu... Eu sinto muito.
Não posso. Eu o amo. Andrew... Uriel... Enfim! Entenda, por favor. Não sei se falou sério ou
se é uma brincadeira muito sem graça, mas entenda que eu amo o André. Ele é o meu destino.
Prefiro morrer a ficar sem ele.
— Não é uma brincadeira... — ele murmurou. Sua tristeza foi tão intensa que até eu
consegui senti-la.
— O que é isso? É mesmo possível que um ser como você possa se apaixonar por
alguém como eu? É permitido esse tipo de relacionamento? Você está me deixando muito
confusa! — balbuciei as palavras, sem saber muito bem o que pensar de tudo aquilo.
— Se você quiser e permitir, assim será! — ele falou com firmeza. — Está em suas
mãos decidir.
Estendi as mãos espalmadas e as sacudi, como se quisesse fazê-lo se afastar
definitivamente de perto de mim.
— Sinto muito. Não posso. Não posso deixar de amar alguém que nasci para amar.
Ele aquiesceu, ainda muito ressentido.
— Tudo bem. — Levantou-se da cama também. — Eu via as pessoas se apaixonarem,
mas nunca vi um amor assim. Há três milênios ajudo almas desamparadas, e há mais de um
século acompanho vocês dois, sem nunca entendê-los de verdade. Já amei de todas as
maneiras, mas é a primeira vez que entendo o que é amar... dessa forma. Agora, entendo vocês.
— Não queria te machucar. Você parece ser muito bom, cheio de luz — não sei por
que, senti a necessidade de me justificar. É sério que eu não queria magoá-lo? Aquilo era
loucura demais, até mesmo para mim.
— Eu entendo... — ele murmurou de um jeito perturbador. Não mais parecia triste, só
parecia ter achado alguma resposta importante. — Eu entendo...
— Não me deixe sem ele... — choraminguei. — Se me ama, não me deixe sem ele —
foi a minha súplica.
Andrew se aproximou e voltou a tocar o meu rosto. Seus olhos se acenderam.
— Eu te amo, Mikhayah. Aceito a sua escolha. Venha comigo. — Largou-me depressa,
como se eu pegasse fogo, e caminhou até a porta.
— Para onde vai me levar?
— Para o Àndreas. — Ele sorriu e piscou um olho.
Eu nem soube o que pensar. Acho que os anjos eram criaturas incompreensíveis, eles
deviam amar de outro jeito. Foi por este motivo que me poupei de explicações. Apenas fui ao
encontro do meu verdadeiro destino. E não importava se era proibido. Meu amor pelo Àndreas
não precisava ser bonito ou bom. Só precisava existir.
Capítulo 27
André

Minha mente entrou em parafuso, eu não sabia mais o que fazer. Minha vontade era
voltar e enfrentar tudo e todos para resgatar Mikah, mas meus instintos me diziam para seguir
em frente, que tudo ficaria bem. Ser capturado ou me transformar e fazer uma chacina não me
pareciam boas opções. Teria que usar a cabeça. Afinal, eu nem tinha certeza se eles haviam
capturado Mikaela. No fundo, preferia acreditar em sua destreza e imaginar que ela tivesse se
recuperando e encontrado um meio de fugir da situação em que eu a deixara. Era hora de ter
calma e montar uma estratégia para tentar descobrir o que estava acontecendo exatamente.
Estava naquele debate mental há alguns minutos, enquanto dirigia completamente sem
rumo. Segui quase em transe, mal prestando atenção à rua. Quando percebi, estava me
direcionando para fora da cidade. Talvez fosse melhor seguir até um ponto seguro e abandonar
o carro, pois certamente o sujeito de quem o peguei emprestado já devia ter dado queixa. Logo
os policiais estariam atrás de mim também. A ideia era sumir da cidade com o veículo e não
ficar circulando por ali, dando bobeira.
Talvez devesse voltar para nossa cabana no mato, ver se minha amada havia fugido e
ido para lá. Valia a pena tentar, pelo menos. Quando tomei a decisão e me preparei para pisar
fundo no acelerador, com o intuito de chegar logo ao local de onde havíamos fugido, uma luz
branca muito forte veio em minha direção.
Senti como se algum veículo grande, com luzes muito mais fortes que um xênon, viesse
na contramão. Mal tive tempo de reagir, agarrei com firmeza o volante e tentei puxar o veículo
para o acostamento, mas não fui rápido o suficiente. O impacto foi inevitável.
Tudo girou diante de meus olhos. A batida parecia ter acontecido de baixo para cima, o
que me fez capotar violentamente. O carro girou algumas vezes até finalmente parar ao colidir
com uma árvore. O barulho de aço se retorcendo ecoou em meus ouvidos, fazendo com que
meus tímpanos quase estourassem. Era como se alguém arranhasse um quadro-negro, mas em
um volume extremamente alto.
Todo o meu corpo doeu, senti como se meu espírito tentasse desencarnar naquele
momento, se é que eu possuía um espírito. Fiquei muito zonzo, e um zumbido muito alto fez
com que eu quase perdesse a consciência. Senti um filete de sangue escorrendo da minha testa
e descendo pelo meu rosto. Apesar da violência do acidente, eu parecia estar a salvo.
Tentei me mexer, mas a dor me paralisou. Talvez eu tivesse quebrado alguma coisa.
Entretanto, ficar parado esperando por um socorro, que talvez nem viesse, não me parecia uma
boa opção. Tentei mexer na porta, mas ela estava muito amassada e emperrada. Procurei me
acalmar, pois minha respiração estava rápida, pesada e ruidosa. O motor ainda estava ligado,
por isso ainda havia risco de explosão. Procurei pela ignição e girei a chave, cessando o
barulho característico dos pistões.
Meus dedos doíam, minha cabeça parecia querer explodir. Prendi a respiração, tentando
me acalmar. Um, dois, três, quatro, cinco, seis... Comecei a contar. Era um exercício de
relaxamento que aprendi numa reunião da empresa. O mundo pareceu ficar em silêncio por um
instante, então, sem saber se estava tendo alguma alucinação, comecei a escutar vozes.
— Por aqui, o carro se chocou contra uma árvore! — ouvi ao longe.
— Por que fez isso? Ele poderia ter morrido! — Uma voz mais exaltada se manifestou.
Fiquei confuso. Teria o acidente sido proposital?
Tentei novamente destravar a porta num movimento repetitivo e desesperado, mas ela
continuou sem se mexer. Ouvi passos se aproximando e visualizei luzes como se fossem
lanternas. Limpei o sangue que escorria um pouco para os meus olhos. Arrisquei me mover,
mas percebi que minhas pernas estavam presas sob o painel que havia recuado para cima de
mim com o impacto. Apalpei minhas coxas, até os joelhos, pelo menos ainda podia senti-las.
Inesperadamente, aquela mesma luz branca me cegou de novo. Senti a porta do motorista
ser arrancada e lançada para o alto. O ruído indicava que ela havia sido arremessada para
longe, o que não era algo muito fácil de fazer com uma porta de carro. Mãos muito fortes me
seguraram e me puxaram em direção à saída.
— Minhas pernas! — Urrei de dor quando tive a sensação de quase ser dividido ao meio.
— Estou preso!
— Ajudem-me! — uma voz ordenou.
Como se alguém brincasse de desmontar um jogo de blocos, o carro foi partido. Imaginei
que quem tivesse aquele poder e força deveria ser bem assustador. Com que espécie de
criaturas eu estaria lidando? Transformado, eu era capaz de fazer coisas incríveis, mas nada
comparado àquilo. Como um boneco facilmente manejado, fui novamente puxado, daquela vez
com as pernas livres. Alguém me ergueu e, em seguida, atirou-me ao chão.
Meu corpo dolorido se chocou contra o cascalho proveniente das obras de pavimentação
da estrada. Senti pontadas pelas costas e braços. Minha cabeça bateu com força e estive a
ponto de desmaiar. Havia me acostumado com a condição de fera, demônio, possuidor do
controle da situação e, naquele momento, não era mais do que uma marionete sob poder de
outros.
— O que está acontecendo? — balbuciei. Minha voz não saiu mais forte do que um
gemido.
— Está na hora de lhe dar algumas explicações, mas não aqui. Vamos para outro lugar!
— Ao contrário da minha, aquela voz soou como um trovão.
Senti fortes braços me amparando. Logo, fui erguido e um ombro desconhecido serviu de
apoio para o meu braço esquerdo, mantendo-me em pé com alguma dificuldade. A luz forte
permanecia, conseguia distinguir apenas algumas esferas azuis no meio de tamanha
luminosidade. Minha visão já deveria ter se acostumado, mas aquela era uma claridade muito
acima do normal. Combalido e ferido, deixei-me apenas ser guiado, pensaria em como escapar
mais tarde, aquele ainda não era o momento de resistir.
— O que estão fazendo comigo? — inquiri com a voz ainda baixa e rouca.
— Não se preocupe, sua hora ainda não chegou, se é com isso que está preocupado —
informou-me um dos indivíduos.
— Para onde estão me levando? — questionei enquanto mancava e tentava acompanhar
o ritmo de meus companheiros.
— Para algum lugar onde chamemos menos atenção. — Foi a única explicação que
recebi e me contentei com aquilo por um tempo.
Caminhei com dificuldade, ainda me escorando no ser que eu mal conseguia distinguir.
Minhas pernas doíam a cada passo, eu mancava e dava passos pequenos e apressados. Senti
um impulso de me transformar e acabar com aquele joguinho de mistérios, mas me recordei do
que aconteceu com o carro. Se haviam feito aquilo com tamanha facilidade com um objeto de
aço, o que não seriam capazes de fazer com um reles ser de carne e ossos? Conforme
adentrávamos a mata, a luz foi diminuindo, como se não quisessem chamar mais a atenção.
Consegui, então, distinguir três indivíduos. Um era grande, forte e me ajudava na tarefa
de caminhar. Quando olhei para o lado, buscando reconhecer outro indivíduo, meu coração
gelou. Lá estava um sujeito albino, do mesmo modo como Fred havia descrito.
Instantaneamente, minha memória recobrou as lembranças, fazendo-me saber de onde eu
conhecia aquele ser. Sim, eu o havia encontrado em visões, naqueles flashbacks que agora eu
sabia se tratarem de lembranças do meu passado.
Recordei-me dele conversando com Mikah, separando-a de mim. Eu ainda não tinha
pleno conhecimento, mas compreendi que ele possuía grande influência em tudo que
acontecera até aquele instante. Meu espanto, porém, foi ainda maior, quando finalmente
percebi quem era o terceiro sujeito.
— Doutor Cláudio Alcântara?! — falei assustado e confuso. — Não compreendo, o que
o senhor tem a ver com tudo isso?
— Acalme-se, Àndreas, o momento para as explicações logo chegará.
— Mikaela! Onde ela está? O que aconteceu? Foram vocês que chamaram a polícia?
Seus malditos! — Fiquei irrequieto e senti o homem que me amparava apertar meu ombro com
força, indicando que eu deveria abaixar minha bola um pouquinho.
— Não se preocupe, alguém está responsável por recuperar Mikaela. Em breve ela estará
conosco. Não resista, apenas nos acompanhe, será melhor assim. Essa história já foi longe
demais, precisamos colocar um ponto final nisso, de um jeito ou de outro — respondeu o
sujeito albino, que tinha uma voz fria e assustadora.
— O que quer dizer? A que história se refere? Mikaela e eu?
— Silêncio! — Seus olhos se encheram de ira e uma luz azul se acendeu. Meus olhos
ficaram amarelos, como se um instinto de sobrevivência aflorasse, mas logo me controlei e
voltei ao normal.
Caminhamos por mais alguns quilômetros em completo silêncio, no que pareceu uma
caminhada eterna rumo ao nada. Contudo, resolvi ter paciência e descobrir o que eles tinham
para me dizer, afinal de contas, aquelas respostas eram tudo o que sempre busquei, desde o dia
em que acordei sem memória em uma cama de hospital, dez anos antes.
Alcançamos uma grande clareira. A madrugada já avançava, o clima estava frio e
tenso, uma névoa cobria a floresta, parecia uma verdadeira cena de filme de terror. Finalmente
paramos. O sujeito grande me largou e se reuniu aos outros dois, que já se encontravam diante
de mim.
— Sente-se — o albino, que parecia ser o líder, ordenou.
— Estou bem de pé, obrigado. — Não queria parecer fraco diante deles.
— Agora! — Sua voz reverberou como um trovão e eu obedeci, sentando-me sobre a
vegetação rasteira.
Se eu queria demonstrar coragem, havia falhado miseravelmente. Não entendi porque
cedia tão facilmente aos seus comandos, mas o fato é que sua voz possuía algo que me fazia
obedecer como um cachorro obedece ao seu dono. E isso me incomodava profundamente.
Mais uma vez o desejo de me transformar urgiu em meu peito, só que, mais uma vez, o refreei.
— Você tem uma decisão muito importante a tomar e, embora eu preferisse terminar
logo com isso sob meus próprios termos, a justiça requer que você saiba o que está
acontecendo e possa se decidir baseado em todas as informações...
— O que isso tudo significa? — interrompi.
— Silêncio! — ele ordenou mais uma vez, de modo enérgico. Ser ordenado a me calar
frequentemente estava me tirando do sério. — A partir de agora, eu falo e você apenas escuta.
Compreendeu?
Pensei por uma fração de segundo e resolvi que poderia tentar me livrar deles depois de
saber o que tinham para me dizer. Fiz que sim com a cabeça e permaneci mudo. Embora fosse
um sujeito de aparência idosa e franzina, o homem albino tinha uma presença bastante
imponente. Os outros dois pareciam respeitá-lo muito e não se intrometiam, nem ousavam
interrompê-lo. Com o silêncio restabelecido, as explicações que eu tanto busquei, finalmente
começaram:
Cerca de quinze anos atrás, Satanás e seus servos começaram uma grande
movimentação sobre a face da Terra. Algo muito ruim estava prestes a acontecer e as hostes
celestes foram colocadas de prontidão. Nosso Pai, o Senhor dos Exércitos, ordenou que
supervisionássemos as atividades do anjo caído e que estivéssemos preparados para uma
reação rápida.
Fui chamado e encarregado de liderar pessoalmente essa vigilância. Minha obrigação
era observar e relatar, a cada nova manobra realizada por nosso inimigo. Meu nome é
Anahel, e sou um dos anjos governantes dos céus. Acima de mim, estão apenas Deus, seu
Filho e seu Conselho. Logo, entendi a importância desse chamado, pois um anjo de alto
escalão não seria comissionado para uma missão menos importante.
Durante cerca de dois anos, acompanhei a estrela da manhã e relatei ao Pai seu
progresso. Não nos foi permitido interferir, visto que o homem tem seu livre arbítrio para
agir, mas um plano já estava traçado caso Lúcifer extrapolasse seus limites. Isso aconteceu
quando seus anjos malditos, seus espíritos imundos, passaram a dominar os corpos de
grandes lideranças espalhadas pela Terra, homens capazes de interferir politicamente e
decidir os rumos das nações. Sistematicamente ele os enredou em seus planos maléficos,
fazendo com que caíssem em suas garras e fossem possuídos por seus generais infernais.
Guerras e rumores de guerras se espalharam pelo mundo. Pequenos conflitos armados
surgiram aqui e ali. Seria o prenúncio do Armagedom, mas o Pai nos tranquilizava, dizendo
que ainda não era chegada a hora, pois o mundo ainda precisaria amadurecer em iniquidade
antes que pudéssemos interferir diretamente sem impedir que tivessem a chance de se
arrependerem e mudar. Pacientemente, acompanhei e relatei, solicitando sempre ao Senhor
que me permitisse intervir. A decadência da raça humana seria apenas uma questão de tempo,
caso os planos do maligno não fossem interrompidos e frustrados prontamente.
Aparentemente, o plano do Senhor era muito mais elaborado e meu entendimento era
limitado demais para que pudesse compreendê-lo e aceitá-lo sem ressalvas. Aos poucos, anjos
foram enviados à Terra para que se misturassem e agissem como seres humanos normais. De
certo modo, o Pai estava contra-atacando. Aos poucos, eles ocuparam cargos de liderança e
influência política entre os governos mais poderosos do planeta. Vi essa movimentação com
bons olhos, embora temesse um grande cataclismo. Naquele momento, ficou claro para mim
que o homem não seria capaz de mudar seu destino sem nossa intervenção. O General sempre
soube disso, mas nunca deixou de depositar a sua fé nos humanos.
Esses novos líderes mundiais abafaram, durante algum tempo, as revoluções causadas
por seguidores do mal, mas Satanás se movimentava com o crescimento exponencial de seus
exércitos. Ao mesmo tempo em que controlávamos grandes nações, Lúcifer se apoderou de
chefes de Estado de países radicais.
Devido à corrupção e natureza carnal do homem, sua influência se espalhava num
ritmo assustador, até mesmo para mim, que já vivi muitos ciclos desta Terra e já presenciei
muitos momentos de domínio do mal sobre os homens. Insisti muito com o Pai para que o
confronto fosse evitado, mas Ele parecia possuir propósitos maiores. Após muita insistência,
finalmente recebi permissão para intermediar um acordo.
Quando compareci diante do pai das mentiras, fui negligenciado. Ele não aceitava
discutir os termos de qualquer acordo comigo. Sentiu-se ofendido pela falta de deferência e
exigia a presença de seu Pai, o único a quem ele ainda temia e por quem ainda nutria alguma
forma de respeito. A exigência da presença do General era apenas para poder se vangloriar e
desafiá-lo pessoalmente, como havia feito outrora, no momento de sua expulsão dos céus, de
onde saiu coberto de vergonha.
— Para ti, seria impossível resistir à Sua glória sem definhar — respondi diante da
insistência de Satanás em encontrar-se com o Senhor dos Exércitos.
— Ora, se ele é Deus, também eu sou neste planeta. Sou adorado, idolatrado e seguido
com fé pelos homens. Muitos matam e destroem em meu nome e em meu nome subjugam os
humildes e fazem com que sofram desgraças e pereçam. — Lúcifer atingira o ápice de seu
orgulho e alucinação.
— Estou aqui apenas para estabelecer os termos, não entrarei em contenda contigo,
nem te concederei explicações, pois não as devo a ti. Não há negociação, não haverá
questionamentos. — Mantive o olhar firme e a cabeça erguida. O príncipe das trevas
estremeceu quando tentou se aproximar de mim e eu ergui meu braço direito, impedindo que
ele desse mais um passo.
— Quem você pensa que é? Não vê meus exércitos, meus domínios, meus reinos e minha
glória? Poderia te destruir em apenas um segundo. Exércitos me seguem e homens me
veneram, dando sua vida por mim se necessário for! — suas ameaças não cessavam, embora
não me intimidassem.
— Eis os termos — falei, ignorando seus protestos. — Não será permitido aos teus filhos
que possuam os corpos de pessoas justas. Poderão controlar apenas aqueles que assim o
desejarem.
— E eis que estes são muitos. Sim, milhares e milhões! E se espalham sobre a Terra
como as areias do mar. E como o próprio mar, as ondas de minhas hordas se espalham
inundando os corações dos filhos dos homens, fazendo com que se voltem a mim, me idolatrem
e me sigam. — Satanás deu uma risada histérica.
— Basta! Não tolerarei mais tuas interrupções. Malditos são teus espíritos imundos,
sobre vós lanço maldição em nome do Senhor dos Exércitos, que é nosso Pai que habita os
céus. Possuireis os corpos dos imundos, mas não mais podereis vos livrar deles, a morte deles
será a sua morte, até que todos os espíritos maus estejam banidos da Terra e o homem possa
novamente caminhar em paz. Quando o último de teus seguidores for extirpado, jamais tereis
forças para retornar e a Terra será habitada em paz e justiça por aqueles que forem
merecedores. — Minha voz soou como um trovão, coberta da autoridade do Pai e Lúcifer
estremeceu. Contudo, não deixou de lado sua soberba.
— Jamais me vencereis, e ainda que me derroteis, serei eterno governante e rei nesta
Terra de homens carnais e diabólicos! Enquanto existir apenas um maldito, meu poder e
influência jamais se extinguirão e estarei entre os homens para os açoitar e os aprisionar,
tornando-os eternamente meus. E sua semente a mim pertencerá e os frutos de seus lombos
somente a mim adorará. E assim será, de eternidade em eternidade até que eu retorne e
retome o lugar que sempre me pertenceu, desde quando eu me encontrava nos céus à esquerda
do Pai! — Ele cerrou os punhos e caminhou novamente em minha direção. A ira em seu olhar
superava muito qualquer coisa que eu já tivesse visto de mal no homem.
— Afasta-te de mim, Satanás! — ordenei. O ser das trevas estremeceu novamente e
recuou, ausentando-se de minha presença, lançando maldições e impropérios enquanto se
dirigia novamente aos seus. Entendi que minha missão tinha sido vã, pois meu intuito não era
apenas o de estabelecer os termos do combate, mas dissuadi-lo de tal atitude.
Guerras e rumores de guerras de expandiram ainda mais pelo planeta. Irado, Lúcifer
conduziu seus exércitos contra as nações justas e a muitas conseguiu subjugar. Sua horda
crescia assustadoramente. Cada vez mais os homens se tornavam duros de coração e
permitiam aos seus anjos demoníacos que os possuíssem. Com a nova ordem mundial, homens
antes cautelosos exibiram seu verdadeiro caráter e apoiaram as forças que dominavam o
planeta, aumentando ainda mais o flagelo sobre os fiéis.
Bombas, armas tecnológicas e toda espécie de material bélico foram usados à exaustão.
As hostes celestes direcionavam os combates para regiões inóspitas, mas Satanás não se
contentava apenas em destruir seus inimigos, queria pôr fim ao mundo como o conhecemos.
Ludibriando, mentindo e enganando, levou os homens a trabalharem para a destruição de seu
próprio lar. Muitos lugares foram devastados e assim permanecem até hoje, como é sabido
por todos.
Vislumbramos uma chance real de derrota, embora eu jamais acreditasse que o General
pudesse sucumbir a força de Satanás. Ao longo de gerações, a famosa luta do bem contra o
mal sempre fora vencida sem maiores esforços, mas a sociedade nunca estivera tão
corrompida como nos tempos atuais. Nem mesmo Sodoma e Gomorra viveram dias tão
sombrios antes de serem destruídas pela ira do Pai. Um conselho emergencial foi formado. As
baixas de homens justos e anjos eram incontáveis. O Senhor dos Exércitos decidiu que era a
hora de medidas mais drásticas, e então, os seres de suas classes finalmente foram
introduzidos nas batalhas.
— Seres de nossas classes, o que isso significa? — interrompi a narrativa, criando
coragem para sanar minhas dúvidas.
Anahel me olhou com reprovação, mas não se escusou à minha pergunta.
— Creio que já saibas do que estou falando. Mikaela e você já tiveram suficientes
demonstrações e lembranças da espécie de seres às quais pertencem — ele falou em tom
didático, como se estivesse se preparando para ministrar uma aula.
— Sim, percebemos que somos bastante diferentes, mas ainda não compreendo
exatamente o que tudo isso significa. O que nos levou a ser assim?
— Mikaela pertence à classe dos Imortais. Seres quase tão antigos quanto a criação do
mundo. Resultado das primeiras manifestações de Lúcifer. Demônios eternos, consumidores
de sangue humano que, porém, afastaram-se de seu criador. Seres das trevas que vitimam os
homens há gerações e gerações.
— Então, assim são chamados seres como Mikah? Imortais? Sim... Começo a me
recordar — as memórias afloravam conforme o anjo me dava mais e mais explicações.
Visualizei combates sangrentos em minha mente, destruição e horror.
— Tu pertences à classe dos Lupinos, seres híbridos, igualmente amaldiçoados, porém
não sois imortais, embora possam viver até algumas centenas de anos.
— Sim, começo a me recordar mais e mais. Contudo, uma parte de sua história segue
como um mistério para mim. Sendo nós, Imortais e Lupinos, seres das trevas, por que razão
lutaríamos ao lado dos exércitos da luz? — Aquela parte da história não ficou clara na minha
cabeça. — Não seria nosso maior interesse fazer com que as forças das trevas saíssem
vitoriosas?
— Nem sempre o que parece óbvio é a resposta correta. Para dizer bem a verdade, vocês
não tinham escolha a não ser lutar ao nosso lado, visto que Satanás nutre ódio feroz e mortal
contra suas classes. Vocês são naturalmente seres das trevas, porém não seguem as ordens de
quem diz governá-las. Isso o enlouquece. Um mundo dominado por Lúcifer, seria um mundo
onde suas raças seriam perseguidas e extintas.
— Tudo começa a fazer sentido. — Aos poucos, meus pensamentos de combatê-los
diminuíam e o desejo de saber mais se ampliava.
— A participação direta de suas duas classes na luta foi, sem dúvida alguma, o ponto de
virada de uma batalha que parecia perdida. Subestimamos a força que Lúcifer era capaz de
adquirir, assim como sua influência sobre as nações — o albino continuou explicando
didaticamente. — Todos vós fostes importantes e valentes guerreiros, especialmente quando
todos os recursos bélicos foram esgotados. No combate corpo a corpo, fizeram uma grande
diferença e garantiram nossa vitória. Conseguimos extirpar todos os espíritos imundos
incorporados e os demais foram expulsos e presos com Lúcifer para a eternidade nas cadeias
do inferno. Desde então, a paz tem reinado sobre a Terra e apenas os justos permaneceram
aqui, estabelecendo o início do que deveriam se tornar eras de amor e progresso. Não à toa,
muitos lugares devastados foram rapidamente reerguidos e as mazelas da terceira grande
guerra ficaram no passado.
— Tudo bem, compreendo que Satanás foi expulso e tudo mais, mas ainda não ficou
claro o que aconteceu com as outras criaturas semelhantes a Mikah e eu. Para onde todos
foram? Estão exilados em alguma terra desconhecida, uma ilha? O que houve? — Tantas
informações ao mesmo tempo mexiam com minha cabeça e só faziam minha curiosidade
aumentar.
— Bom, devo confessar que, se dependesse de mim, não existiria mais nenhum de vocês,
porém Miguel intercedeu junto ao Pai por sua vida e foi atendido. Não discordo, no fim das
contas, que essa tenha sido a melhor decisão.
— Miguel? Quem é esse sujeito? — Fiquei confuso.
— Nosso mais valente general, um anjo de grande influência e prestígio nos céus. Não à
toa, conseguiu influenciar a decisão do Pai e do conselho.
— Não compreendo...
— Após o término da batalha, encontramo-nos encurralados em uma questão ética. Não
seria justo eliminá-los, tendo vocês lutado ao nosso lado, mas, em contrapartida, seria perigoso
demais permitir que continuassem aqui, sob o risco de colocarem todo nosso árduo trabalho a
perder. — Ele suspirou.
— Então o plano inicial era mesmo se livrar de nós? É essa a bondade que os céus e os
anjos têm reservada àqueles que lutaram tão dura batalha lado a lado, sendo reconhecidamente
um fator importante para a vitória?
— Você não compreende, não era uma decisão simples. — O anjo entrelaçou os dedos e
colocou os indicadores sob o queixo.
— Ajude-me a compreender, então — desafiei.
— Lupinos se reproduzem entre si, gerando outros lupinos. Imortais, por concepção,
são estéreis e não se reproduzem. Sua classe aumenta à medida que mortais são infectados.
Porém, quando há um cruzamento entre as duas classes, as consequências são terríveis. —
Anahel fez um suspense.
— O que acontece?
— Demônios são criados. — Soltei um arquejo de pavor. Então era por isso que, ao
longo do tempo, um monte de coisas ruins sempre acontecia para que Mikaela e eu jamais
ficássemos juntos? Por isso que nosso amor era tão proibido? — Imortais podem gerar
espíritos imundos quando se relacionam com Lupinos. Por essa razão, uma inimizade foi
colocada entre suas raças desde o início dos tempos, fazendo com que não se aproximassem.
— Meus pais... Eu me lembro dos meus pais... Da minha família. Todos eram contra esse
amor.
O albino aquiesceu pesarosamente.
— Mikah e você são a prova de que essa aproximação pode acontecer e não podíamos
nos dar ao luxo de correr esse risco. Lúcifer não estava mais sobre a terra, mas um novo
demônio poderia surgir e continuar seu trabalho de trevas.
Meu corpo inteiro estremeceu com o que ele falou. Custei a acreditar que fosse verdade.
Estava tão estarrecido que não consegui refletir direito sobre todas as consequências do amor
entre Mikaela e eu.
— O que aconteceu, então? — perguntei aos murmúrios.
— Purah foi convocado, o plano foi apresentado em conselho e os líderes de suas classes
deliberaram, concordando finalmente com o destino que lhes era proposto. Uma chance de
continuação da existência de seus amados. Com o toque do esquecimento do anjo Purah, vocês
aceitaram esquecer todas as coisas, aceitaram viver uma nova vida.
— Nós aceitamos esquecer?
Novamente, ele aquiesceu.
— Uma benção foi derramada sobre vocês, suas mazelas foram suprimidas, fazendo
com que os Lupinos não mais se transformassem, especialmente em noites de lua cheia,
quando sua transformação se torna involuntária e extremamente perigosa. Com a benção, os
Imortais puderam conhecer a luz do dia, seus corpos foram transformados e ganharam a
condição da mortalidade, ainda que tenham uma vida muito mais longeva que um ser humano
comum. Porém, tudo isso só foi possível porque vocês aceitaram o toque de livre vontade, isso
não poderia ser imposto.
— Os Sete Por Cento! — Fiquei boquiaberto com a revelação.
— Sim, os Sete Por Cento são os que receberam o toque. Passaram a ser inocentes como
crianças e precisaram aprender como viver a vida de um ser humano normal.
— Agora começo a compreender os reais motivos de meu comportamento, que tanto era
criticado pela doutora Eva — mudei a posição em que estava sentado, pois minhas pernas já
doíam.
— Sim, biologicamente, você tem mais de um século, mas emocionalmente não passava
de um menino de dez anos entrando na pré-adolescência. Seu corpo permaneceria inalterado,
não havendo envelhecimento até que atingisse a nova idade de sua aparência de vinte e poucos
anos, quando então passaria a envelhecer como qualquer outra pessoa. O mesmo se daria com
Mikhayah, embora o caso dela fosse um pouco mais complexo e demorado.
— É muita informação para minha cabeça, começo a me colocar no lugar do Fred
quando lhe contei tudo o que vinha experimentando nos últimos tempos. Não deve ter sido
nada fácil para ele — passei as mãos pela cabeça, achando que ela fosse explodir. — Ainda
assim, apesar de tudo, por que Mikah e eu nos recordamos? Por que voltamos a ser quem
somos?
— Não resta nenhuma outra explicação a não ser o amor de vocês. Quando os tocamos,
dissemos que precisaríamos separá-los. Contrariados, vocês acabaram concordando com isso,
pois era preferível a separação à morte.
Enquanto Anahel relatava, tive uma visão. Mikah e eu de mãos dadas, selando nosso
amor e nosso pacto eterno com um último beijo de despedida. Encontrávamo-nos num mundo
abalado pelo caos da guerra, mas tudo em que conseguíamos pensar era um no outro.
As lembranças se tornaram vívidas:
— Ainda que passem o céu e a Terra, eu te encontrarei, Mikhayah. — Abracei-a como se
nunca mais a pudesse soltar.
— Eu irei te buscar até os confins da Terra, e ainda que consuma a última gota de
energia do meu corpo, irei te encontrar — ela respondeu minha promessa.
Um anjo se aproximou de nós e nos separou, o olhar angustiado de minha amada foi
minha última visão antes que recebesse o toque do esquecimento. As palavras de despedida
ecoaram em minha mente, até que recobrei a atenção no que o anjo me falava no tempo
presente.
— As circunstâncias da vida acabaram reaproximando vocês. Não esperávamos que
seu sentimento fosse tão profundo a ponto de recriar seus laços. À medida que se
aproximavam, os sintomas foram ficando mais intensos, daí as dores pelo corpo, dores de
cabeça, sumiços repentinos, entre outras situações que você e Mikhayah passaram a
experimentar. Quando percebemos, o problema já estava avançado. Substituímos a doutora
Eva Sales e Hemã, que vocês conhecem como Cláudio Alcântara, se esforçou para separá-los,
mais uma vez sem sucesso. Quando Mikhayah consumiu sangue pela primeira vez e quando
você finalmente sofreu sua primeira transformação, os efeitos se tornaram irreversíveis. Vocês,
aos poucos, tornariam a ser quem eram.
— Então tudo não passou de armação de vocês? O que esperavam com a nossa
separação?
— Imaginávamos que, seguindo caminhos opostos, os sintomas desaparecessem e tudo
voltasse ao normal.
— Por que só conosco? Por que isso não aconteceu com outros? Eles não convivem, não
se encontram? — Eu já estava ficando desesperado.
— Os que vivem entre os da sua espécie não enfrentam esse tipo de problema, o
relacionamento deles é normal, apenas o cruzamento é proibido. Com o toque de Purah, uma
força de repulsão natural se estabeleceu entre as classes, fazendo com que não se
relacionassem naturalmente. Como uma girafa pode conviver com um cervo, mas sua natureza
impede que se atraia ou se relacione com o animal de outra espécie, por exemplo. Imaginamos
que o problema estaria resolvido. Porém, nem mesmo o toque de Purah foi suficientemente
forte para extinguir a força vital do amor que sempre uniu vocês dois.
— Isso é incrível! — balbuciei.
— Sim, e muito comovente, mas nos traz a esta situação impossível. Deveríamos tê-los
mantido a uma distância maior um do outro, mas creio que ainda que estivessem em lados
opostos do mundo, acabariam sendo atraídos. Nunca imaginamos que um amor tão profundo,
intenso e verdadeiro pudesse existir entre suas espécies a ponto de uni-los dessa forma.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
— O que pretendem fazer agora? Irão nos matar? — tentei me levantar, recuando e
ficando numa posição defensiva.
— Bom, isso são vocês que decidirão.
— Não compreendo...
— Caso concordem em receber o toque novamente, isso não será necessário.
Abri bem os olhos, quase sem acreditar na sugestão do velho. Ele queria me fazer
esquecer de novo? Inacreditável.
— E toda aquela conversa sobre o nosso amor e tudo mais, não seríamos reunidos
novamente? — Fiquei bastante desconfiado.
— Provavelmente, sim, mas dessa vez acompanharemos a situação de perto para evitar o
contato entre vocês, não se preocupe — ele falava como se fosse a coisa mais simples do
mundo.
— Não sei se suportaria viver sem ela novamente. — Um aperto profundo no peito fez o
ar se esgotar em meus pulmões.
— Essa escolha também não foi fácil da primeira vez, mas você conseguiu, não foi? —
O anjo não conseguiu esconder um sorriso.
— O que acontecerá com o Fred?
— Não se preocupe, ele continuará sua vida normalmente, apenas não se lembrará de sua
existência e de nada do que aconteceu nas últimas semanas. O toque de Purah será diferente
para o caso dele.
— Jamais desistirei de Mikah, entenderam? — Ergui-me enfurecido, e o terceiro anjo se
aproximou velozmente, segurando meu ombro.
— Acalme-se! — ele ordenou.
Repentinamente, vindo do meio da floresta, ouvimos um barulho de palmas e uma risada
sarcástica soando alto. Viramo-nos para a direção de onde vinha o barulho. A surpresa estava
estampada no rosto de todos.

Clap, clap, clap, clap. O som das palmas ecoava.


— Que linda e comovente história de amor. Se eu tivesse um coração, estaria
derramando lágrimas neste momento. — As palmas continuavam, acompanhadas de uma voz
feminina, coberta de ironia, que eu não tardei em reconhecer.
Embora me causasse muito estranhamento o fato de ela aparecer do nada, assim que a
figura saiu detrás das árvores, tive certeza de a quem a voz pertencia. Ela caminhou
lentamente, parando diante de todos nós.
— O que faz aqui? — Hemã se adiantou, colocando-se entre nossa visitante e o restante
do grupo.
— Ora, não sabia que esta era uma festinha privada. Vocês deveriam ter colocado
seguranças na porta, controlando a entrada. Oh, esperem, não há portas aqui! Desculpem, erro
meu. — Ela deu uma risada histérica.
— Não entendo o que está acontecendo, como foi que você veio parar aqui, Maristela?
— A presença de minha ex-alguma coisa me deixou muito confuso.
— Por Lúcifer, isso está ainda melhor do que eu imaginava. Juram que não sabem
quem sou? Não, não, espera! Vocês estão brincando comigo! Nem mesmo os anjinhos
sabichões, filhinhos do Papai Todo Poderoso? — ela falou em tom jocoso, rindo sem parar. —
Eu devia ter trazido uma câmera para registrar este momento. Desculpem, sei que a situação é
séria, mas não consigo me controlar! — Maristela ria como uma adolescente que acabara de
ouvir a piada mais engraçada de sua vida.
— Saia já daqui, moça, este assunto não lhe diz respeito — o terceiro anjo a advertiu,
colocando-se ao lado de Hemã em posição ameaçadora.
— Gente, estou esperando o momento em que vocês vão dizer que estão tirando uma
onda com a minha cara. Não? Nada? Sério mesmo? — Ela continuou gargalhando de forma
espalhafatosa. — Vou dar uma dica: meu pai está preso!
Minhas veias congelaram ao compreender o que Maristela queria dizer.
— Um demônio? — Hemã olhou de modo confuso para o anjo mais experiente. —
Como isso é possível? Todos foram mortos ou aprisionados, certo, Anahel?
O albino balançou a cabeça e não conseguiu falar nada.
— Parece que o plano de vocês não era tão perfeito, afinal. Eu sou o ponto fraco, sou o
calcanhar de Aquiles — a voz de Maristela soou demoníaca e espantosa.
— Como isso é possível? — Anahel se espantou.
— Não sei, expliquem-me vocês. Fui ferida em batalha e abandonada à minha própria
sorte. Estava condenada à morte, não fosse uma bondosa senhora me encontrar nos campos,
me levar para sua cabana e cuidar de mim. Permaneci durante muitos meses entre a vida e a
morte. Nesse entremeio a guerra terminou. Após muito lutar contra os ferimentos e
enfermidades que se abateram, o corpo que eu havia possuído não resistiu e faleceu. Imaginem
qual não foi a minha surpresa ao me ver livre, fora daquele corpo doente e viva?! Minha cara
deve ter parecido muito com a de vocês agora. — Ela gargalhou. Falava em tom debochado
durante todo o tempo. — Sim, eu estava livre e viva! Com o término da guerra, parece que a
validade das condições expirou. Enfim, sou aquela que sobreviveu. Prazer! — Sua risada
ecoou novamente na mata.
— Isso é possível, Anahel? — o terceiro anjo estava perplexo.
— Aparentemente, sim, meu amigo. — Ele estava longe de parecer o anjo imponente e
seguro de alguns minutos antes.
— E por que veio atrás de mim? — perguntei a Maristela, ou melhor, ao demônio que
possuíra seu corpo.
— Ora, essa parte acho que teus amiguinhos são capazes de explicar, André. Ou devo
chamá-lo de Àndreas?
Olhei para os anjos em busca de explicação. Quem a deu foi Hemã:
— Ao longo das eras, espíritos imundos têm possuído corpos de homens e mulheres,
buscando se relacionar com os indivíduos das classes dos Lupinos e dos Imortais. Quando um
demônio se reproduz com um destes, um ser, capaz de quebrar as cadeias do inferno e trazer
Lúcifer de volta à Terra, é gerado. Muitos deles já existiram pela face da Terra, servindo como
uma espécie de apólice de seguro de Lúcifer, mas durante os combates, foram caçados e
dizimados, até que mais nenhum restasse com poderes de libertar seu pai maldito. Este
demônio espera conseguir se reproduzir contigo e assim alcançar os seus objetivos maléficos.
As surpresas daquela fatídica noite já não cabiam mais na minha mente perturbada.
— Mas por que justo eu? Com tantos Lupinos e Imortais sobre a Terra, sem
conhecimento sobre este fato e que se relacionariam com Maristela sem pestanejar, por que
não recorrer a nenhum outro?
— Pois isso não está evidente, meu querido? — Maristela apoiou as mãos na cintura e
explicou com ar debochado: — Para que isso seja possível, é necessário que o ser noturno do
qual gerarei um filho esteja, digamos, com suas funções ativas. E o único macho de uma das
duas espécies com função ativa caminhando sobre a Terra, hoje, é você. Parabéns, sinta-se
lisonjeado.
— Então, o único motivo para se aproximar de mim, me seduzir e se envolver
comigo... Você não me encontrou por acaso naquela festa, foi tudo combinado! — minhas
ideias começavam a clarear.
Toda aquela história parecia tão absurda que só podia ser verdade.
— Desculpe-me, Àndreas, você é um rapaz alto, forte e belo, mas você acreditou
mesmo que uma mulher poderosa e influente como Maristela Ramos, que poderia ter qualquer
homem aos seus pés, se interessaria verdadeiramente por um sujeitinho simplório como você?
Não me leve a mal, mas foi muita inocência sua crer nisso.
— Então tudo não passou de um jogo? — De algum modo, meu orgulho masculino
estava ferido.
— Pode-se dizer que sim, um jogo onde um movimento ousado e estratégico se torna
necessário.
Dizendo isso, Maristela, ou fosse lá quem ela fosse, pois não nos revelou seu
verdadeiro nome, sacou uma arma que levava escondida em sua cintura. Seus olhos se
tornaram completamente escuros e aterrorizantes, como se a íris se espalhasse por todo o globo
ocular. Por puro reflexo, atirei-me ao solo enquanto ela disparava à esmo em nossa direção.
— Se me matar, seus planos estarão frustrados! — tentei convencê-la a parar.
— Não preciso de você para nada, apenas das suas sementinhas! — Ela riu, debochada.
— Hoje em dia não existe apenas o método tradicional de se fazer bebês — continuou
distribuindo ironia e chumbo enquanto tripudiava.
Ela sacou uma segunda arma e continuou disparando. Os anjos fizeram uma retirada
estratégica para cima das copas das árvores. “Covardes” — pensei. Sem refletir muito, senti a
dor característica da transformação tomando meu corpo. Com uma expressão verdadeiramente
demoníaca, Maristela continuava avançando em minha direção. Uma das balas passou de
raspão em meu braço, fazendo com que ardesse como os infernos.
— Balas de prata, Mon chou! Não achou que eu não estaria preparada, não é? — ela
falou ao perceber minha expressão de confusão.
Já completamente transformado, avancei com o intuito de destroçá-la. Porém, não
podia me deixar enganar pela aparência doce e frágil daquele corpo, pois o demônio que nele
habitava era muito antigo, habilidoso, experiente e perverso. Tentei cortá-la com minhas
garras, mas ela desviou com velocidade e destreza impressionantes. Os anjos reapareceram,
emitindo ondas de luz brilhante na direção do ser das trevas.
Sempre imaginei que anjos possuíssem espadas flamejantes com as quais abatessem
seus inimigos, mas aquele não parecia ser o caso. Maristela se esquivou dos ataques e
respondeu com chumbo grosso. Ela possuía um cinto carregado de pentes para suas pistolas, os
quais trocava com a mesma agilidade com que escapava de nossos avanços.
Corri alucinadamente pela mata fechada, precisaria esperar que sua munição acabasse
para talvez ter alguma chance de combatê-la de igual para igual. As balas de prata passavam
zunindo por meus ouvidos. Caso alguma delas me acertasse, poderia representar o meu fim.
Derrubei árvores com minhas enormes garras, mas nada parecia impedir seu progresso.
Maristela permanecia em meu encalço. Os anjos pareciam desnorteados, tantos anos sem
enfrentar criaturas do inferno pareciam tê-los deixado enferrujados.
Corri até ficar encurralado em uma grande parede de rocha natural. Minha algoz se
aproximava cautelosamente. Os anjos reapareceram e se puseram à minha frente, formando um
semicírculo, como que para me proteger, embora eu duvidasse que esse fosse o real motivo.
— Anjinhos queridos, o meu problema não é com vocês. Afastem-se e deixem que eu
resolva tudo com o Àndreas aqui. Lupino, você não precisa morrer, sua história não precisa
findar aqui! Permita-me trazer o senhor da Terra de volta e ele lhe recompensará com tronos,
domínios e riquezas. — Fiquei parado, respirando ruidosamente enquanto ouvia a proposta
ridícula feita por aquele ser dos infernos. — Você não acreditou na conversinha mole desses
anjos, não é? O que foi que eles lhe disseram? Que Satanás odeia sua classe? Que queria
extingui-los? Ora, Lúcifer é seu pai, tanto quanto é meu. Que pai não perdoa seus filhos?
Vamos, una-se a mim!
Maristela permanecia com a arma empunhada de modo ameaçador, e os anjos
continuavam me protegendo. Quando o terceiro anjo se preparava para tomar a frente e atacar,
ouvimos outra voz conhecida, vindo do meio da mata.
— Essa vadia é minha! — Mikah apareceu do nada, pegando a todos de surpresa e
avançando sobre Maristela, que deixou sua pistola cair.
O susto foi tão grande que o demônio ficou sem reação. Mikhayah esbofeteou
furiosamente sua inimiga, rasgou pedaços de sua carne com as próprias unhas. Irada, pegou a
cabeça de Maristela e começou a golpeá-la contra uma pedra que estava semi-descoberta no
solo. Seus olhos vermelhos brilharam, suas presas longas e pontiagudas apareceram, e ela
cravou os dentes com gosto no pescoço da mulher.
— Mikah, não faça isso! — Andrew apareceu ao seu lado gritando, mas já era tarde
demais, o ser imortal já se esbaldava com o sangue de sua vítima.
O que aquele cara fazia ali?
Repentinamente, os olhos vermelhos se apagaram e Mikaela caiu ao lado de Maristela, se
debatendo como se enfrentasse um violento ataque epilético.
— O que está acontecendo? — corri em direção à minha amada.
Mesmo ferida e sangrando muito, Maristela soltou uma gargalhada engasgada, ainda
deitada no chão. Ergui minha enorme garra para rasgá-la e terminar o serviço, mas Andrew se
atirou sobre mim e me impediu.
— Não faça isso! — ele alertou enquanto tentava me capturar. — Se a mulher morrer, o
espírito se libertará e escapará de nós.
— Solte-me, preciso ver Mikah! O que houve com ela?
— O sangue de pessoas endemoninhadas é como veneno para os Imortais, ela jamais
poderia ter feito isso.
— O que podemos fazer? — gritei, desesperado, desvencilhando-me de Andrew. Aliás,
eu ainda não fazia ideia do que ele estava fazendo ali.
Tomei Mikah em meus braços, e senti as dores comuns quando meu corpo voltava ao
normal. Os outros anjos dominavam Maristela, tentando ao mesmo tempo aprisioná-la e
mantê-la viva. Comecei a chorar ao ver a situação deplorável de minha amada. Suas veias
começaram a ficar azuladas e muito marcadas sob sua pele extremamente branca. Seus olhos
se reviravam e sua boca abria e fechava num espasmo horrível.
— O que fazer, Andrew, o que fazer? Diga-me!
Ele também parecia desesperado. Isso, de alguma forma, deixou-me ainda pior.
— Só há uma alternativa, afaste-se!
Ele me empurrou para longe dela e começou a golpeá-la com seus dedos, abrindo
orifícios em seus braços, pernas, peito e costas. Atirei-me sobre Andrew, tentando impedi-lo
de fazer tamanha loucura.
— Pare com isso, você irá matá-la! — gritei enlouquecidamente.
— Saia de cima de mim, seu imbecil, estou tentando salvá-la! Precisamos fazer com
que todo o sangue infectado deixe seu corpo imediatamente.
Fiquei estático e atônito, observando enquanto o cara fazia as últimas perfurações no
corpo extremamente pálido de Mikah, permitindo que uma quantidade ainda maior de sangue
se esvaísse. Por fim, ele amparou sua cabeça, colocando-a sobre suas pernas e alisou seu
cabelo, enquanto os espasmos se encerravam.
— Uriel, precisamos levar o demônio. Você dá conta? — o albino indagou.
— Pode deixar comigo, eu resolvo a situação — ele respondeu com firmeza.
— Mas, e ele? — O outro anjo enorme me indicou com a cabeça.
— Não vai ser idiota de fazer qualquer coisa que possa prejudicar a recuperação de
Mikhayah, pode ter certeza disso.
— Muito bem, confiamos em você. Vamos! — Anahel falou para os demais.
Os três anjos ataram o demônio com cipós de modo improvisado e sumiram floresta
adentro. Sua luz desapareceu rapidamente conforme se afastavam. Uriel — aquele era o seu
real nome? Também era um anjo? — e eu ficamos em silêncio. Observávamos atentamente
minha amada, que permanecia sob os cuidados dele, o que era muito incômodo para mim.
— O que acontece agora?
— Acontece que você me deixa curá-la e, se for só um pouquinho esperto, aproveita a
oportunidade e some para nunca mais aparecer.
— Ficou maluco, cara? — gritei furiosamente.
— Não percebe que sua presença só faz mal a ela? Desde que se reencontraram, a vida
de Mikah tem sido uma sucessão de desastres e escapadas milagrosas da morte? Até quando
vai insistir nisso, até que seja tarde demais?
— Quem pensa que é? Você não sabe de nada da nossa vida, não sabe nada sobre
Mikah, não tem nada a ver com ela!
— Você não compreende, não é? É burro demais para perceber. Eu sei tudo que há para
saber sobre Mikhayah, acompanho sua vida desde muito antes de você nascer. Sigo seus passos
desde antes que sofresse sua transformação...
— Não compreendo...
— Eu a amo, muito mais do que alguém já a amou. Ela era ainda uma simples mortal
quando a conheci, uma moça doce, delicada. Eu a encontrei pela primeira vez quando impedia
que demônios dominassem sua vila, séculos atrás. Eu a vi, a cortejei, ficamos juntos por um
tempo, até que...
— Até que, o quê?
— Até que fui descoberto e proibido de estar com ela. Continuei acompanhando sua
vida, sem me aproximar dela, no entanto. Cuidei de longe para que nada de mal lhe
acontecesse, mas fui obrigado a sair numa missão dada pelo Alto Conselho. Quando retornei,
ela havia se transformado numa Imortal, mudada por um maldito ser das trevas que a atacou e
a deixou dessa forma.
— Meu Deus... — soltei um arquejo exasperado. Pelo visto, a cota de histórias
mirabolantes não havia extrapolado.
— Vinguei sua honra eliminando o maldito que a transformou nisso, mas não há meio
de fazer com que a transformação se reverta — Uriel continuou explicando. — Ela sofreu
muito sem a minha presença, jamais revelei a ela o que eu era e jamais pude explicar minha
partida. Porém, quando se transformou, tornou-se maléfica, espalhou a miséria pela Terra,
tornando outros iguais a ela. Isso tudo era pela amargura de não poder me ter por perto...
— Você quer dizer que...
— Torna-se óbvio agora, não é? Que ironia do destino, não é mesmo? Por que acha que
ela se aproximou de você? Por que imagina que tenha insistido nesse relacionamento ainda que
vocês pertencessem a classes distintas e inimigas historicamente?
— Não, não, isso tudo é mentira, cale a boca! — Eu comecei a chorar. Não dava para
acreditar que, na verdade, Mikaela não me amava. Sempre foi aquele cara parecido comigo.
— Ela encontrou em você o que sentiu falta durante séculos... Ela me encontrou em
você, Àndreas... Anos e anos sem fim, e lá estava você, minha imagem e semelhança, e o
coração dela se reacendeu. É isso mesmo, você foi apenas o substituto, uma peça de
reposição...
— Cale a boca ou vou te matar aqui e agora, seu maldito! — Ergui-me e me coloquei
em posição de ataque.
— Sim, faça isso e acabe com a última chance dela. Além do mais, não se preocupe,
Mikaela escolheu você. — Uriel pareceu triste, de repente. Deu de ombros e observou a
mulher em seus braços. — Pode ter sido apenas para me esquecer, no início, mas se tornou
algo real. Porém, insisto, se a ama, deve se afastar dela definitivamente.
Sem pronunciar mais nenhuma palavra, Uriel fez um pequeno corte em seu pulso,
encostando-o na boca de Mikah para que ela passasse a sorvê-lo. Colocando sua mão sobre as
feridas abertas e emitindo pequenas ondas de luz, ele fez com que os drenos cicatrizassem,
tornando a pele de Mikaela clara e lisa novamente.
— Você não compreende... O que sinto por ela vence qualquer barreira, jamais poderia
partir e deixá-la, fazendo o mesmo que você fez — rosnei, irritado, confuso, sem querer
compreender as loucuras que aconteciam sem que eu pudesse fazer nada. — Não sou covarde
como você, que se julga um ser superior por fazer parte da luz. Posso ser um indivíduo das
trevas, mas tenho honra e coragem que você jamais conheceu!
— Coragem? Acha que é preciso coragem para insistir no erro a qualquer custo?
Coragem é deixar quem você ama livre para que ela possa ter felicidade, ainda que não
compartilhe com ela. Ou eu me afastava ou haveria consequências. — Uriel ficou muito bravo
de repente. — Basta! Não lhe devo explicações. Se você quer insistir no erro, insista, mas esta
conversa acaba aqui e jamais deve ser mencionada novamente. Veja, ela está acordando...
Lentamente, Mikhayah abriu os olhos e recobrou a consciência. Ignorando o que Uriel
disse, assumi seu posto e a tomei em meus braços, acariciando seus cabelos e lhe dando beijos
na testa. Ela acordou desnorteada, sem saber direito onde estava e sem lembranças do que
havia acontecido.
— Acalme-se, meu amor. Tenho muitas coisas para lhe relatar, mas primeiro você
precisa descansar. Relaxe, mais tarde deixarei que se alimente de mim e recupere suas forças.
— Continuei alisando seu corpo, tentando lhe transmitir paz e conforto.
Ela olhou bem no fundo dos meus olhos, alisou meu rosto e piscou de modo sonolento.
Fechou os olhos e sorriu.
— Você está sempre presente para me socorrer, Andrew... Eu te amo... — ela
balbuciou e tornou a dormir.
Capítulo 28
Mikaela

Meu vestido comprido estava preso em um galho de árvore tão retorcido que mais
pareciam garras. Tentei puxá-lo com leveza de modo a não o rasgar — minha mãe me mataria
se soubesse que andei pela floresta sozinha de novo, e meu pai, nem se fala... —, mas a minha
posição e a delicadeza do tecido não ajudavam. Além do mais, aqueles saltos estavam me
matando. Havia caminhado bastante para uma dama acostumada a viver trancafiada em casa,
onde o exercício mais intenso era bordar lenços que seriam vendidos para os homens mais
elegantes da vila.
Já estava quase desistindo de manter a vestimenta intacta, e puxando tudo logo de uma
vez, quando mãos quentes foram colocadas sobre as minhas, que estavam revestidas por luvas
tão delicadas quanto o vestido. Eu sabia muito bem a quem pertenciam aquelas mãos de uma
coloração escura interessantíssima. O meu amado tinha chegado um pouco mais cedo para me
encontrar na clareira. A saudade não cabia em nossos corações.
Encarei seus olhos negros como a noite e acompanhei seu sorriso lindo ser aberto. Não
disse nada. Como falar alguma coisa diante de beleza tão evidente? Apenas a presença dele
irradiava uma paz intensa, que para mim funcionava como um ímã. Impossível seria não se
apaixonar por aquele homem. E era naquele estado que eu me encontrava: absolutamente
apaixonada pelo Andrew.
Embora ele fosse de família rica, a cor da sua pele era o principal motivo dos nossos
encontros serem às escondidas. Não sei bem se podia censurá-los, pois era pensamento
comum, mas meus pais não ficariam nem um pouco felizes e jamais aceitariam que eu me
casasse com um negro, mesmo que este fosse capaz de me dar uma vida de luxos.
A maioria dos relacionamentos da época era regida pelas posses e influência das
pessoas, mas a questão racial também era imperativa. Mesmo assim, eu não buscava luxo,
posses, influência ou ainda um escândalo, mas um amor verdadeiro, um sentimento tão
profundo que me consumia, acompanhado daquele sorriso, da boa educação, charme e
inteligência. Andrew era tudo o que eu buscava em um homem.
Pacientemente, ele conseguiu soltar as rendas do vestido e me livrar do galho. Observei
suas mãos grandes e fortes executarem com precisão uma tarefa tão delicada. Aprumei meu
corpo e, abrindo um sorriso malicioso, encarei-o de frente por alguns segundos. Andrew
esperou pelo que viria: com um pulo, agarrei-me em seu pescoço e lhe dei um beijo intenso,
talvez muito mais do que qualquer dama da vila tenha oferecido a um homem, mesmo este
sendo seu marido.
Eu nunca me importei com as opiniões e julgamentos alheios, nem se aquilo me levaria
a ser considerada leviana demais. Não estava nem um pouco preocupada. Andrew me
conhecia, sabia que eu não era uma qualquer e amava quando eu demonstrava afeto sem pudor.
Confesso que às vezes exagerávamos, porém sempre acreditei que todos os seres apaixonados
tinham o direito de agir assim.
— Você está sempre presente para me socorrer, Andrew... Eu te amo... — murmurei em
seu ouvido, ainda sem conseguir largá-lo. Queria morrer em seus braços. Seria um final
perfeito para a vida sem graça que eu levava antes de encontrá-lo.
— Eu também te amo, Mikhayah — ele plantou um beijo curto na ponta do meu nariz.
— Você chegou cedo.
— Minha alma estava ardendo de saudade — afastei-me um pouco, provocando-o com o
olhar.
— Sua alma é pura e doce, Mikhayah. — Ele me segurou pelas mãos e me puxou de
volta, para junto de seu corpo.
Por um segundo, examinei toda a perfeição de seu semblante, ainda não acreditando que
um ser tão maravilhoso pudesse ser meu. Eu exibia um sorriso bobo em meu rosto, que foi se
esvaindo na medida em que percebi que minha alegria não era correspondida por Andrew.
Muito pelo contrário, ele parecia bastante preocupado.
— O que aconteceu, querido? Está tão sério — alisei seu rosto, tentando apagar as rugas
de preocupação que se formaram.
— Não sei como dizer de maneira menos dolorosa, mas preciso lhe dar uma notícia nada
agradável. Terei de fazer uma viagem às pressas durante esta noite. Eu não queria, mas é
necessário...
— Viagem? Para onde? Por que justo agora? — Meu coração se comprimiu de angústia.
As viagens que Andrew fazia eram tão misteriosas quanto longas. Na última delas, quase
desfaleci de tanta saudade. Não sabia se suportaria ficar sem ele de novo. Era um martírio
esperar por notícias suas, quaisquer que fossem.
— Para o norte. Preciso verificar algumas propriedades da família. Problemas com
invasões... Não quero chateá-la com os detalhes, não é nada com que precise se preocupar, mas
meu pai precisa de mim. Eu volto logo, minha amada, isso lhe prometo. — Ele segurou minhas
mãos e as depositou sobre seu peito largo, másculo. — Não se aflija.
— Oh, mas já estou aflita. Não gosto de suas viagens. — Controlei uma lágrima que
queria escapar. Não queria deixá-lo triste e miserável como eu me sentia.
— Eu sei. Também não gosto de ficar sem você. Porém, trata-se de algo urgente.
Promete que ficará bem e não se arriscará sozinha pela floresta? Assim que eu chegar, darei
um jeito de marcar novo encontro — Andrew alisou meu rosto, contendo nova lágrima que
insistiu em rolar.
— Ficarei em casa te esperando. Prometo — sussurrei.
Andrew sabia quando eu estava mentindo, e certamente notou inverdade em minhas
palavras e em meus olhos. Eu não conseguia me controlar. Meu sangue vibrava em busca da
liberdade plena. Ficar em casa era o meu pior castigo, principalmente esperando por alguma
coisa que não tinha data para chegar. No entanto, diferentemente das outras vezes, ele não me
questionou. Aquilo não podia ser um bom sinal.
Assim se deu a nossa despedida, como tantas outras antes e depois de nós. Com um
beijo, lágrimas, juras de amor eterno, seguidos por dor e solidão. Chorei durante a interminável
volta para minha casa. Não encontrei consolo em nada e em ninguém. Em meu íntimo, eu
sabia que aquela partida não seria como as outras. Em meu íntimo eu estava certa de que
daquela vez algo estava diferente, Andrew estava diferente. Como desejei estar enganada...
De repente, tudo sumiu na minha frente e eu me vi sozinha em um espaço escuro.
Andrew havia ido embora. Ninguém jamais me defenderia. Não havia quem pudesse me salvar
das transformações do meu corpo. Eu estava vestida em trapos, caminhando cambaleante, com
muito sangue sujando as minhas roupas. Ele não tinha voltado da viagem. Esperei dias,
semanas, meses, anos. O meu amado se foi, deixando dor, solidão, angústia e sede. Muita sede.
Demorei muito até compreender o que havia acontecido comigo. Em uma noite de puro
desespero, embrenhei-me na floresta em busca do Andrew. Já havia passado muito tempo
desde sua partida e eu nunca mais tivera notícias dele. Não podia acreditar que tivesse
desaparecido, que jamais retornaria à vila, que não me amava mais. Procurei por parentes,
amigos, conhecidos, qualquer um que pudesse me dar uma informação sobre seu paradeiro,
mas parecia que, além de mim, ninguém sabia da existência daquele homem. Senti-me
enganada, humilhada. Como um homem que dizia me amar tanto poderia ter feito algo tão
horrível comigo?
Cheguei a pensar que estava louca, que havia fantasiado aquele romance, aquelas
aventuras, os momentos passados com o homem da minha vida, mas me recusava a aceitar tal
ideia. Não poderia estar louca a esse ponto. Ele existia: seu cheiro, seu sabor, seu rosto, tudo
isso não podia simplesmente ser obra da minha imaginação. Andrew existia e devia voltar para
me buscar. Eu não podia ter me enganado tanto. Tinha certeza de que ele sentia o mesmo que
eu, pois podia sentir seu coração bater acelerado quando nossos corpos se aproximavam.
Enquanto caminhava desnorteada, duvidando de tudo que tomara como certo durante
tanto tempo, ouvi o ruído de passos e parei diante de uma árvore imensa. Prestei mais atenção.
O som continuava e parecia se aproximar.
— Mikah! — ouvi um chamado, quase um sussurro.
— Andrew? — chamei, bastante desesperada e com lágrimas nos olhos. — Andrew, é
você? — Apesar de estar assustada, a esperança de que o homem que eu amava estava
retornando era maior. Nem por um segundo pensei em sair dali.
— Mikah! — novamente o chamado veio, como que trazido pelo vento.
— Andrew, por favor, meu amor, por favor, apareça! — supliquei com o coração se
enchendo de esperança.
O ruído se intensificou, parecia vir de todas as direções. Permaneci parada, em completo
silêncio, tentando decifrar de onde vinha o barulho. Uma brisa gelada pareceu se formar do
nada, agitando meus cabelos e as folhas das árvores. Meu corpo ficou todo arrepiado. Recuei
temerosa, não podia ser ele, sua presença nunca me trazia aquele medo, sempre me
proporcionava paz.
Quando me virei para voltar, uma sombra se colocou à minha frente. Era alguém
desconhecido, muito longe de ser meu amado. Como que montando um cenário sinistro, as
nuvens se abriram no céu, permitindo que a lua cheia banhasse toda a floresta com sua intensa
luz. Pude, então, distinguir um homem. Sua face demoníaca estava banhada em sangue. Seus
olhos, igualmente perturbadores, possuíam um reflexo vermelho e expressão doentia. Passando
a língua pelos lábios, ele sorriu, exibindo presas que se sobressaíam em sua boca. Sustentando
o sorriso maligno, ele ajeitou os cabelos desgrenhados que lhe caíam sobre os olhos, inclinou a
cabeça como se buscasse um melhor ângulo e me encarou.
Lentamente, como se deve fazer ao se afastar de uma fera sem provocá-la, dei alguns
passos para trás. No entanto, não deixei de encarar o sujeito nos olhos. Minha intenção era
ganhar alguma distância para, só então, me virar e correr sem olhar para trás. Enquanto eu me
afastava, o sujeito permaneceu imóvel, até mesmo o sorriso não se alterou. Ele parecia me
admirar, como se esperasse um movimento mais brusco meu, para só então agir. Finalmente
ganhei confiança para correr.
Virei-me e, ao dar os primeiros passos, fui surpreendida pela presença de outro ser
semelhante ao primeiro, bem à minha frente. Olhei para trás, mas o sujeito que me encarava
antes não estava mais lá. Seria o mesmo homem? Como poderia ser possível?
Pensei em utilizar o mesmo método, caminhando no sentido oposto, mas sabia que
aquilo não surtiria efeito algum. O homem se aproximou calmamente de mim. Observava-me
com tamanha curiosidade, como se eu fosse de alguma espécie desconhecida. Abri a boca,
querendo pronunciar algo que nem mesmo eu sabia o que era, mas ele levantou o indicador e
censurou meus lábios. Inspirei fundo.
Seu cheiro fétido me fez sentir náuseas. Senti meu corpo perder as forças e minha
consciência querer se desligar. “Andrew, onde você está? Venha proteger a mulher que você
jurou amar eternamente!” — desejei em meu íntimo. Estava prestes a desmaiar...
Fui amparada pelo estranho. Minha roupa delicada se encheu de sangue. A brisa gelada
chicoteou novamente a minha face, fazendo-me despertar do torpor que havia me dominado.
Diante da terrível imagem daquela criatura, não pude conter um grito que foi sufocado por suas
fortes mãos me apertando o pescoço. Encontrando forças, empurrei-o e caí no chão. Tentei me
afastar, rastejando pela floresta, mas sabia que tudo seria em vão. Num rápido movimento, ele
se atirou sobre mim e meus gritos ecoaram pela mata.
— Não! Não! Deixe-me em paz — gritei alto e me sentei de vez, desesperada, tentando
atingi-lo com chutes.
Não havia mais florestas, nem o monstro tomando o meu sangue. Eu estava no meu
quarto, no apartamento que deixei para trás quando decidi fugir com o André. Era noite, mas
as lâmpadas estavam ligadas.
— Calma, Mikhayah... — Andrew murmurou ao meu lado. Ele estava sentado na cama,
parecendo angustiado. — Foi só um pesadelo.
— É verdade? — falei com a voz trêmula. — Você... Você realmente existiu? Eu... Eu
me lembro de você. Andrew... Eu me lembro de você agora. Como isso é possível? Você
estava lá! — Coloquei as mãos na cabeça em desespero. — Não sei de mais nada. O que é real
nisso tudo? Por favor, diga-me! Estou enlouquecendo, não me deixe enlouquecer, por favor!
Andrew sorriu, mas foi um sorriso muito triste.
— Não vou pedir para que me perdoe, nem mesmo eu consigo aceitar tudo o que fui
obrigado a fazer. Não sou capaz de perdoar a mim mesmo e jamais esperaria isso de você.
Deveria ter estado lá, era minha responsabilidade impedir que você se transformasse em uma
Imortal, mas eu falhei — apontou para mim como se eu fosse um caso perdido. — A culpa foi
toda minha. Eu devia ter te protegido. Era o meu dever proteger uma alma tão pura.
— Preciso que me diga com todas as letras, para que eu possa acreditar. Você é mesmo
um anjo? Como pode? Não entendo! — abracei-me a um travesseiro, percebendo que estava
usando uma de minhas camisolas. Não fazia ideia de quem tinha me vestido, e isso me fez
ficar bastante envergonhada e me sentir muito vulnerável.
— Sim, Mikhayah, sou um anjo e você não está louca. Há muitos anos, fui designado a
proteger sua vila de constantes ataques realizados por demônios. Não convém agora contar
toda a história, mas não podíamos permitir que certos povoados da região entrassem em
conflito naquela época... O resultado seria desastroso. No início, desempenhei meu papel com
total desenvoltura e competência, até que te vi pela primeira vez... — Ele suspirou
profundamente. — Eu me apaixonei imediatamente e meu pensamento só se ocupava de você.
Andrew continuou se explicando:
— Como já era de se esperar, aquele amor foi proibido pelos céus, era inadmissível que
um anjo se envolvesse com um humano. Não tardou para que eu fosse afastado do seu vilarejo
e, no fim, a principal prejudicada nessa história toda foi você. Sinto muito, mas não pude ficar.
Não pense que não lutei, não pense que não coloquei em risco minha própria condição de anjo,
mas não me deixaram ficar, e eu simplesmente não tinha como te contar a verdade. Espero que
um dia você possa compreender tudo isso, ainda que eu não espere pelo seu perdão.
Senti uma vontade absurda de chorar. Afundei meu rosto no travesseiro e o manchei
inteiro com o sangue que se esvaiu dos meus olhos. Comecei a soluçar descontroladamente.
Minha existência não passava de uma tragédia composta por amores impossíveis. Preferiria
que aquele ser maldito que me transformou tivesse escolhido me matar. Eu já era amaldiçoada
antes mesmo de ser uma Imortal. Achei que minha vida como uma dos Sete Por Cento fosse
complicada, mas compreendi que eu já era um imã de problemas desde o início de minha vida
mortal.
Aos poucos, todas as lembranças enterradas voltavam à minha mente, como se uma caixa
com todos os meus segredos fosse aberta e minha terrível realidade se apresentasse para me
castigar uma vez mais. Sacudi minha cabeça, enquanto meus momentos com Àndreas eram
repassados.
Vi as guerras, tragédias e até mesmo as maldades que realizei ao longo de alguns
séculos de existência. Revi pessoas com as quais convivi. Num instante, elas eram apenas
rostos desconhecidos, mas no segundo seguinte ganharam um nome, um histórico e um
significado em minha vida. Revi as faces das muitas vidas que tirei enquanto precisava me
alimentar. Senti-me exausta por receber tantas informações. Tudo invadia minha mente num
turbilhão, que me fez ficar tonta.
Ainda não sabia se era melhor recordar de tudo, ou se teria sido melhor permanecer no
estado de ignorância em que me encontrava até algumas semanas antes. “Uma benção” — eu
tinha ouvido a doutora Eva dizer uma vez. Agora tinha que concordar com suas opiniões
malucas.
— Onde está o André? — Repentinamente, me recordei daquele que havia sido meu
companheiro por tantos anos. Ergui a cabeça e perguntei em um choramingo.
Andrew me observou durante alguns segundos. Percebi que sua tristeza aumentou com
a minha pergunta. Senti-me culpada, porém não conseguia arrancar de mim a preocupação.
Mesmo me lembrando do que o Andrew tinha significado, não parava de pensar no André e no
que ele acharia daquela história maluca.
— Ele está na sala. Quer que eu o chame? — O anjo negro pareceu se resignar.
— Não.
Andrew sorriu um pouco. Meu Deus, ele ainda tinha esperanças. Depois de centenas de
anos, ainda esperava que eu o quisesse. Porém, eu não o queria. O meu amor tinha morrido
junto com a donzela inocente e mortal que eu era.
Dentro do meu coração de gelo, não tinha sobrado mais nada dedicado a ele. E eu não
sabia dizer direito de quem havia sido a culpa. Seria mais fácil acusá-lo de tudo, dizer que ele
não lutou por nosso amor, mas o modo como eu o havia esquecido e superado não parecia ser a
forma como um amor verdadeiro enfrentaria a situação.
— Quero que me diga a verdade. Toda ela. Por que não posso ficar com ele? O que há de
tão errado? — falei num tom duro.
— Mikhayah... A história é longa e complicada, o André já está a par de tudo e em breve
vocês poderão conversar, mas no momento basta apenas que você saiba que o envolvimento
entre uma Imortal e um Lupino é extremamente perigoso. Vocês são capazes de gerar um
filho. Um demônio.
— Um demônio? — Levei uma mão à boca. O choque me fez arregalar os olhos.
— Sim. Infelizmente.
Andrew começou a narrar uma história louca sobre os demônios que outrora ameaçavam
o planeta. Contou-me sobre a Terceira Guerra Mundial e sobre como lutamos para expulsá-los.
Sim, lutamos. Eu também lutei ao lado do André, e por isso tivemos a misericórdia de Deus
que, com seu poder, nos fez esquecer o que éramos e proporcionou uma transformação em
nossos corpos para que tivéssemos a chance de vivermos em paz em meio aos humanos. Um
bom recomeço.
Porém, tudo foi por água abaixo porque André e eu começamos a nos lembrar do que
não devíamos. Nosso amor era tão profundo que nem mesmo a distância e a amnésia nos
fizeram ficar longe um do outro. Percebi que, sim, minha vida era uma tragédia fantástica
difícil de engolir. E o amor que eu nutria era um erro hediondo, que podia destruir o planeta e a
paz de todos os que viviam nele.
André e eu éramos um risco fatal, uma ameaça para o bem maior.
— Se o problema é só o fato de não podermos ter um filho, então basta que nos
cuidemos e o problema estará resolvido. Vamos nos prevenir e deixar que isso jamais
aconteça, Andrew — falei como se as coisas fossem simples assim.
No momento em que proferi tais palavras, lembrei-me de que eu não tinha me
prevenido nem um pouquinho antes. Sempre achei que eu fosse estéril. Pelo menos os médicos
me informaram quando fui encontrada depois da guerra. André não me questionou sobre o
assunto, acho até que nem se lembrou da prevenção. Decidi ficar calada. Não queria espantar o
Andrew. Eu podia ser afastada do André em um piscar de olhos se soltasse aquela informação.
O medo de perdê-lo me travou totalmente.
— Ninguém quer arriscar, Mikah — Andrew deu de ombros. — Você não faz ideia da
loucura que a história desse amor causa nos céus. As opiniões estão muito divididas, de forma
a ameaçar ainda mais a paz. Não é questão de prevenir ou não, é de a situação ser de extremo
perigo. Você e o André não vão ficar bem se estiverem juntos. Você vai precisar de sangue, e,
quanto mais sangue, mais irá à procura dele, podendo machucar muita gente inocente e até
transformá-las, iniciando um novo ciclo de criação dos Imortais. André vai se transformar em
todas as luas cheias, é inevitável. E você viu como ele fica incontrolável nesse período.
— Podemos lidar com isso. Iremos nos ajudar. — Eu parecia uma criança prometendo
aos pais que não tornaria a desobedecer.
— A verdade é que tudo pode acontecer. Certamente é mais fácil que tudo saia do
controle do que chegarmos a uma solução. — Andrew parecia não dar a menor atenção às
minhas promessas.
Suas palavras me deixaram extremamente irritada. A sede que eu já sentia não ajudou
muito. Havia acabado de acordar, precisava de sangue e de movimentar os meus músculos.
Aquela conversa era muito cansativa e enfadonha, estava me deixando sem um pingo de
paciência.
— Aposto como você é um dos que não torce por nós — rosnei e me levantei da cama.
— Acho que você duvida demais da minha vontade de te ver feliz — sua frase soou
sincera, mas eu não estava disposta a aceitar nada que viesse dele.
— Como não duvidar? Foi você que me abandonou. — Sorri com ironia. — Eu te
esperei até mofar, Andrew. Agora eu lembro como sofri pela sua ausência. Sofri tanto que o
meu amor morreu junto com tanta amargura.
— Eu sei. — Ele se levantou e tentou se aproximar, porém dei alguns passos para trás.
— É por querer te ver feliz que não te quero com ele.
— Não vou deixar que ninguém tome decisões por mim, muito menos esse alguém
sendo você. E caso não tenha percebido, eu cresci, não sou mais aquela menina doce e
inocente — meu tom irado o assustou.
— A decisão não está em suas mãos, Mikah. Sua teimosia não dará em nada! — Uma
luz intensa tomou conta do quarto, partindo do corpo do Andrew. Meus olhos arderam na
mesma hora, não suportando tanta claridade. Fui tomada por uma sensação maravilhosa de paz
e segurança, mas, ao mesmo tempo, senti-me manipulada.
— Pare de fazer isso! — Tentei proteger meu rosto com os braços.
A luz sumiu tão rápido quanto tinha surgido. Olhei ao redor, procurando pelo Andrew,
mas ele havia desaparecido junto com a claridade. Soltei um longo suspiro, apoiei minhas
costas na parede e deixei meu corpo cair pesadamente no chão. A porta do meu quarto se abriu
e o André apareceu, aflito. Atirou-se no chão com pressa e me tomou em seus braços. Nunca
abracei alguém com tanta vontade. Não consegui conter novas lágrimas, que mancharam a
camisa que ele vestia.
Suas mãos tomaram as laterais do meu rosto.
— Onde ele está? — perguntou, provavelmente referindo-se ao Andrew.
— Não sei, sumiu — choraminguei.
— É verdade, Mikah?
— Sim... É.
André tirou as mãos de mim. Sentou-se no chão e balançou a cabeça freneticamente.
Pareceu muito perturbado. Vi seus olhos se encheram de lágrimas e uma dor lancinante
estampada em seu olhar. Sua expressão só me fez chorar ainda mais. Não entendia por que ele
havia me soltado. Tentei abraçá-lo novamente, mas ele recuou depressa e se levantou do chão.
— Não se afaste, por favor... Por favor! — Ergui-me e tentei alcançá-lo.
— Como não, Mikhayah? Eu te amo a minha vida toda e descubro que você ama outro
cara? Que fui apenas um substituto? Minha vontade é de morrer, quero sumir antes que meu
cérebro aceite que isso é verdade. — Sua expressão de sofrimento me causou mais aflição.
— Você... Não... — gaguejei. — Ficou maluco? Quem disse que eu amo outro cara,
Àndreas? Achei que estivesse falando sobre a história maluca da guerra, dos demônios e do...
— Falei do Andrew! Da história que você tem com ele! — Nunca vi o André tão fora
de si e olha que já o tinha visto transformado mais de mil vezes. Ele estava completamente
desestabilizado.
Comecei a rir, do nada. Meu estômago até doeu de tanto que gargalhei. Parecia que eu
tinha enlouquecido de vez.
— Do que está rindo? Não vejo graça alguma nessa situação.
— Como você é bobo! Tivemos uma pequena história há tanto tempo que eu nem me
lembrava. Com você, eu vivi grande parte da minha existência, na verdade, a melhor parte
dela, e me recordei disso mesmo quando não podia. Eu te amo, seu idiota! — Aproximei-me e
dei um soco no braço do André, como provocação.
— Mas... Ele disse que...
— Não quero saber o que ele disse — interrompi-o, colocando meu dedo indicador em
sua boca carnuda. — Eu te amo, Àndreas. Entendeu? Quer que eu repita? Eu te amo, seu bobo.
Tudo bem, confesso que quando te vi naquele bosque, me lembrei dele, foi o que a princípio
me chamou atenção. Mas te vigiei por tempo o bastante para te conhecer sem que soubesse da
minha existência. E eu amei tudo o que vi. Depois que me entreguei a você, percebi que não
era capaz de pensar em qualquer outro homem. Deixe de ciúmes, meu amor!
Ele segurou a minha cintura e colou nossos corpos. Abriu um sorriso apaixonado.
Depois, deixou-o morrer.
— Eles querem nos separar — sentenciou. Tudo dentro de mim desmoronou diante da
mais pura verdade. Eu sabia que não ia adiantar fugir ou espernear, estávamos à mercê da
vontade alheia.
— Provavelmente, sim.
— Andrew me disse que é provável que recebamos o toque do esquecimento
novamente. — Apertei meus dedos em seus ombros. Meu corpo inteiro congelou de pavor.
— Vamos ser obrigados a esquecer?
— Eu nunca vou me esquecer de você, Mikhayah. Não sei como vou fazer isso, mas
me lembrarei e voltarei para os seus braços. Se conseguimos isso uma vez, conseguiremos de
novo, o sentimento que nos une é maior que qualquer outro poder.
Abracei-o forte, como se nunca mais fosse largá-lo. Eu sabia que, cedo ou tarde, não o
teria mais. Por um lado, agradecia pela capacidade de esquecer. Jamais ficaria em paz se
vivesse sem ele sabendo o que significava para mim, mas por outro, não podia acreditar que
tudo aquilo havia sido em vão. Depois de tanto sofrimento, tanta dor, tanta angústia... voltar à
estaca zero seria deprimente.
Só um milagre poderia nos salvar.
Capítulo 29
André

O milagre esperado por Mikah não parecia que viria. Ali estávamos nós, abraçados pela
última vez, nos beijando pela última vez, nos olhando e nos acariciando num derradeiro
momento que misturava felicidade e angústia. Felicidade porque, apesar de nossa salvação ser
impossível, tivemos a oportunidade de nos lembrar e de nos encontrar mais uma vez. Há dez
anos havíamos nos abraçado, nos beijado, nos olhado e nos acariciado, achando que jamais
viveríamos momento semelhante. Mas nós tivemos direito a uma segunda despedida.
A angústia era grande, pois por mais que desejássemos estar juntos, tínhamos
consciência de como nossa união poderia ser perigosa para toda a humanidade. Por mais que
nos amássemos profundamente, aquele sentimento não poderia estar acima do bem-estar
mundial, e sequer acima dos planos do Ser que criou todo o universo. O sentimento egoísta me
dizia para fugir dali com Mikah em meus braços, mas eu sabia que de nada adiantaria.
Precisávamos aceitar nosso destino.
Estava um silêncio muito grande no apartamento. Será que Andrew havia nos deixado
sozinhos? Teria ele nos dado a oportunidade de escapar? Desvencilhei-me dos braços de
Mikah com delicadeza, limpei uma lágrima vermelha que fugia dos seus olhos e farejei ao
redor. Não soube por quando tempo ficamos somente abraçados, mas eu deixei de prestar
atenção em qualquer outra coisa durante aqueles momentos. Não senti o cheiro de ninguém na
casa.
Tomei coragem e me dirigi até a porta do quarto. Mikhayah me olhou de modo
desconfiado, sem entender o que estava acontecendo. Lentamente, girei a maçaneta e abri a
porta que dava para um pequeno corredor que ia até a sala. Caminhei sem fazer barulho e segui
até a entrada. Abri a porta do apartamento e encarei o corredor vazio do andar. Não havia
ninguém mesmo.
O que estava acontecendo? Estariam os anjos nos testando?
— Mikah, estamos sozinhos — falei baixinho.
— Como é possível? Onde está o Andrew?
— Acho que não suportou estar no mesmo ambiente que nós... — Eu não conseguia
encontrar nenhuma explicação lógica para o que estava acontecendo. Teria o milagre tão
esperado acontecido, afinal? Os anjos nos deixariam em paz para que vivêssemos o nosso
amor, do nosso jeito?
— O que devemos fazer? — Mikaela estava tão confusa quanto eu. — Acha que
devemos fugir e nos esconder?
— Não deu certo da primeira vez, porque seria diferente agora? — Dei de ombros.
— Talvez Andrew esteja nos dando uma oportunidade...
— Ou talvez seja exatamente o que ele quer que façamos, assim poderá ter uma desculpa
para nos caçar e acabar me matando sem querer.
— Acha que ele faria isso? — ela me olhou assustada, pois jamais tinha considerado
aquela possibilidade.
— Os atos de um homem com os sentimentos feridos são imprevisíveis.
— Andrew é um anjo, não creio que fosse capaz.
— Anjo ou não, ele já foi desobediente antes. O que o impediria de fazer algo contra a
vontade de seu Pai novamente? — Por mais que pudesse parecer absurda, aquela explicação
fazia muito sentido para mim.
— Então apenas ficamos aqui e esperamos? — Mikaela se dirigiu até a porta, parou ao
meu lado e observou o corredor.
— Parece uma ideia tão ruim quanto a de fugir. Eu sinceramente não sei o que pensar.
Ainda acho que é um truque.
Ignorando tudo que havíamos acabado de conversar, Mikah foi até a cozinha, abriu uma
gaveta e pegou um celular que havia deixado para trás. Ela voltou até onde eu estava e, antes
mesmo que eu pudesse falar qualquer coisa em protesto, pegou minha mão e me puxou para
fora do apartamento. Esgueiramo-nos pelos corredores.
As luzes acendiam automaticamente conforme passávamos, o que nos causava um
grande susto, pois intensificava a sensação de que alguém estava sempre à espreita. Já estava
escurecendo lá fora. O dia havia passado tão rápido, estávamos tão envoltos em nossos
sentimentos, que nem percebi que a noite caía. Nós sequer fizemos qualquer refeição. Senti
meu estômago gemer só de pensar em comida.
— Elevador ou escadas? — ela perguntou, retirando-me do transe em que me
encontrava.
— Eu, eu... Realmente não sei.
— Escadas! — Mikah me puxou mais uma vez, com força.
Ela empurrou a porta corta-fogo com leveza e descemos os degraus com velocidade.
Algumas lâmpadas estavam queimadas, deixando alguns pontos num breu quase completo. A
qualquer momento podíamos ser surpreendidos por alguém ou alguma coisa. Não cheguei a
sentir medo, mas algo dentro da minha cabeça avisava que aquilo não tinha como terminar
bem.
Finalmente, chegamos ao último lance de escadas. Mikah tateou as paredes, encontrou a
porta, abriu-a e a claridade das lâmpadas do estacionamento nos atingiu. Olhamos ao redor. A
noite estava tranquila até demais. Não havia ninguém por perto, amigo ou inimigo. Uma
neblina leve cobria a cidade e um sereno fino aumentava a atmosfera de filme de terror. Uma
das lâmpadas do estacionamento oscilava, como se estivesse prestes a queimar. Por alguns
segundos, ficamos apenas observando, até que decidimos dar os primeiros passos.
Dirigimo-nos até a recepção. Não tinha ninguém na entrada também. Tudo estava fácil
demais, estranho demais. Num instante tinham vários anjos nos perseguindo, dizendo que
éramos uma ameaça, insinuando que deveríamos nos separar ou ser destruídos para o bem da
humanidade, e no outro estávamos completamente sozinhos, livres para escolher ficar ou fugir.
Nada daquilo fazia sentido para mim.
Senti os dedos de Mikah se fecharem com mais força sobre os meus. No fundo, sabia que
ela tinha as mesmas dúvidas e maus pressentimentos que eu, mas não ousávamos falar sobre
aquilo. Passamos pelo portão da recepção e nos lançamos para a rua, tão deserta quanto o
edifício de onde tínhamos acabado de sair. Paramos por um instante, olhamos para os dois
lados da rua. Para que lado seguiríamos? Aliás, para onde estávamos indo?
— Mikah...
— Aqui, não! — ela me censurou e resolveu tomar a direção da direita, virando na
primeira esquina que surgiu. Puxou minha mão e continuou me guiando em frente, seguindo
pelo canto de uma calçada.
Nossos passos ecoaram pela rua e nossas sombras se projetavam nas paredes, crescendo
e diminuindo, conforme passávamos pelos postes de luzes amareladas. Por vezes eu sentia que
estava sonhando. A cena era surreal demais para ser verdadeira. A névoa, o breu, as luzes, um
baita clichê de filme macabro. Porém, eu sentia com exatidão o ar extremamente gelado
entrando pelas narinas e o sereno que começava a umedecer a superfície de minhas roupas.
— Para onde estamos indo, meu amor? — sussurrei sem, no entanto, parar de correr ao
lado dela.
— Para longe! — Mikah olhou de soslaio para trás, conferindo se realmente não
estávamos sendo seguidos.
— Pare! Por favor! Apenas pare! — estaquei repentinamente, fazendo com que parasse
de supetão.
Mikhayah se virou para mim, seus olhos estavam tomados por lágrimas vermelhas.
Puxei-a para junto do meu peito e a apertei com força. Mikah começou a soluçar e a gemer,
como se sentisse uma profunda dor. Não me incomodei com o fato de suas lágrimas
mancharem minhas roupas, apenas quis estar ali para reconfortá-la.
— Não sei que circunstâncias permitiram que eu fosse capaz de concordar com isso há
dez anos, mas não sou capaz, não sou capaz de te perder, de te esquecer, de apagar a nossa
história de minha mente novamente, Àndreas... Eu simplesmente não posso, não posso fazer
isso. Não é justo, não é justo... — Mikah continuou gemendo e soluçando cada vez mais alto.
— Não posso voltar a ter a vida miserável e infeliz que tive nos últimos dez anos, fingindo que
sou alegre enquanto, dentro de mim, eu não era mais do que um poço de escuridão. Isso é pior
do que o inferno, é pior do que ser varrida desta existência. Por favor, não deixe que façam
isso, eu te imploro, André, por favor! — suas palavras continham tanta dor e desespero, que
senti um imenso aperto no peito.
— Mikah...
— Não, André, não permita que façam isso, eu sou a sua donzela em apuros, por favor,
salve-me! — ela deu um toque de dramaticidade à sua frase, certamente para me enternecer o
coração.
Eu nunca havia visto Mikaela demonstrar tamanha fragilidade, nem mesmo antes de
saber quem ela era de verdade. Aquela era uma faceta nova, de muitas que ela já tinha me
mostrado ao longo de dezenas de anos de convivência. Senti-me completamente incapaz de
defendê-la e me odiei por isso. Alisei seus cabelos loiros e a aconcheguei ainda mais junto do
meu peito. Suas mãos frias tocaram meu rosto, fazendo com que um arrepio percorresse a
minha coluna.
— Não vou permitir que façam algo que você não queira, meu amor. Isso, eu te prometo!
— Senti seus braços se apertarem ainda mais ao meu redor. Vê-la daquele jeito estava partindo
meu coração.
Dei um beijo no alto de sua cabeça e a ergui com as mãos, até que nossos olhos
pudessem se encontrar. Senti um enorme desejo de chorar junto com ela, mas um de nós tinha
que ao menos fingir que era forte para enfrentar aquela situação desesperadora. Infelizmente,
esse alguém precisava ser eu.
Quando eu estava prestes a beijá-la, senti nossos corpos se separarem com uma violência
inexplicável. Caí de costas e bati a cabeça num banquinho de cimento, instalado logo abaixo
de uma árvore. Fiquei zonzo por alguns instantes, mas não cheguei a perder a minha
consciência. Senti uma forte pressão no peito que, em seguida, se aliviou. Eu não conseguia
enxergar nada além da copa de uma árvore, da noite escura e da lâmpada amarela de um poste.
Ouvi gemidos partindo de Mikhayah.
Após os meus sentidos voltarem ao normal, consegui me reerguer e vi Mikaela caída
no chão, como se lutasse contra algo invisível. Eu não soube o que fazer, pois não compreendi
logo de início o que estava acontecendo, até que meus olhos vislumbraram um vulto, como que
uma forma escura, uma sombra revelada pela neblina que se adensava. O ar ficou mais pesado
e uma espécie de sexto sentido se aguçou em minha mente.
— Você não tirará de mim esse direito! — escutei uma voz estranha, arrepiante, que
parecia vir do vulto. — Eu trarei o mestre dos mestres de volta, essa honra pertence a mim!
— Solte-me, sua criatura maldita! — Mikaela conseguiu pronunciar a frase com
sofreguidão.
Ela havia fincado suas unhas compridas naquele ser amorfo, mas que, de algum modo,
parecia se tornar cada vez mais palpável. Tentei intervir, mas não sabia como agir sem
machucar Mikah. Saltei sobre o vulto, na esperança de derrubá-lo e afastá-lo de minha amada.
Rolamos juntos pelo chão.
Mikaela ficou ofegante, segurando o pescoço que antes era apertado pelo estranho ser.
Eu bati com a cabeça em um poste e fiquei um pouco desnorteado. O que diabos estava
acontecendo?
— Ali está ela! — reconheci uma voz que já havia se tornado bastante familiar.
Repentinamente, a sombra que estava atracada comigo me soltou e desapareceu. Quatro
seres cercados de uma luz extremamente branca passaram correndo por mim, em direção ao
vulto. Observei enquanto me deixavam para trás, caído na calçada úmida. Levantei-me e tentei
segui-los.
— O que está acontecendo? — alcancei o doutor Cláudio Alcântara, ou Hemã, como os
outros o chamavam, e segurei o seu braço, impedindo que avançasse com os demais.
— É o demônio que possuía o corpo da Maristela. — Ele tentou se desvencilhar, mas o
segurei com ainda mais força.
— Pensei que o houvessem capturado!
— Nós também pensamos, mas ele mordeu a própria língua, ou melhor, de sua
hospedeira, e a fez sufocar com o próprio sangue. Deste modo, conseguiu se livrar do corpo e
fugir.
— Quer dizer que a Maristela está morta? — senti verdadeiro pesar por ela.
— Receio que sim.
— Por que nos deixaram sozinhos? É algum teste, alguma brincadeira? — Tentei
arrancar a informação enquanto ele tornava a fazer força para se livrar de meu aperto.
— Sabíamos que ele viria atrás de vocês. Agora me solte, precisamos capturá-lo! — O
anjo agarrou minha mão. Senti minha pele queimando onde ele encostou e, em seguida, fui
arremessado para trás. Eu precisava para de subestimar a força daqueles seres celestiais.
Ergui-me e voltei até o lugar onde estava Mikaela. Ela ainda tinha uma expressão
apavorada no rosto, mas parecia recuperada. Era compreensível seu estado, pois havíamos
acabado de enfrentar algo bizarro, mas já havíamos enfrentado situações piores anteriormente
para que Mikah parecesse tão abalada.
— Você está bem?
— Tirando o fato de que ela quase decepou minha cabeça, sim! — apesar do sarcasmo,
ela ainda estava com uma expressão estranha no olhar.
— Meu amor, o que houve? Não precisa mais se preocupar, ela já foi e não poderá mais
te fazer nenhum mal.
— Não é isso, André... — Seu rosto estava lívido. Ela passou a balançar a cabeça
freneticamente, como se não acreditasse no que a sua consciência lhe dizia. Fiquei ainda mais
espantado com toda a situação, que pelo visto só piorava.
— O que é, então?
— Você não a ouviu? Não entendeu o que a Maristela disse? — Mikah praticamente
gritou. Ela estava mais descontrolada do que eu pude prever.
— Aquele ser não era a Maristela, meu bem.
— Isso são apenas detalhes... Você não consegue compreender o que aconteceu agora há
pouco? — Sua expressão de terror me angustiava.
— Mikah, eu, ahm... Estava meio atordoado...
— Eu estou grávida, Àndreas! Ela sabe, o maldito demônio sabe... Ela não teria dito
aquilo à toa! Consegue compreender a gravidade da situação? Se já queriam nos separar antes,
agora o que pensa que vai acontecer? — sua voz saiu alta e desesperada.
Meu mundo inteiro pareceu ter dado uma cambalhota. Por uns instantes, encarei a Mikah
fixamente e imaginei um mundo perfeito em que construíamos uma família em um lugar bem
longe daquela cidade. Viveríamos no campo, cuidaríamos de alguns animais, eu voltaria a
cortar lenha, como antigamente, e um monte de crianças, suficientes para formar um time de
futebol, nos traria uma felicidade com que jamais havíamos sonhado.
Fiquei tão estarrecido com a possibilidade que, novamente, senti vontade de cair no
choro. Em nenhum momento pensei que o fato de a Mikah estar grávida fosse um desastre.
Muito pelo contrário, parecia ser a melhor coisa que tinha nos acontecido nos últimos dias.
— Como... Como isso é possível? Como você sabe? Como ela poderia saber? — eu
gaguejava e me enrolava com as palavras.
— Faz todo o sentido, por isso estou me sentindo tão fragilizada, por isso continuo
agindo de modo totalmente diferente do normal.
— Mas, mas...
— Nós vamos ter um filho! — Seu olhar se iluminou. Por um microssegundo,
esquecemos o quão terrível era a notícia.
— Vamos... Vamos ter um filho. Meu Deus!
Abraçamo-nos com muita força. Fiz nossos lábios se enlaçarem de uma maneira intensa,
perturbadora. O beijo que trocamos foi capaz de me deixar tonto. Eu me sentia tão feliz e fora
da realidade que não consegui, a princípio, compreender que estávamos simplesmente
ferrados. Só tomei consciência depois que paramos de nos beijar e nos olhamos mais uma vez.
— Não podemos! — berrei, e larguei Mikah como se ela pegasse fogo. — Você ouviu o
que os anjos disseram!
Ela finalmente deu de ombros. Acho que a dose de realidade também a atingiu.
— Sim, sei do problema em que estamos metidos, mas não deixa de ser o nosso filho,
André! É o nosso bebê, seja ele o que for!
— Mikah, não faça isso, não fique assim... Não crie expectativas. — Fiquei com medo
de que ela tivesse alguma espécie de surto por causa das minhas palavras, mas aquela era a
verdade e precisávamos encará-la de frente. Não podíamos continuar fantasiando, mesmo que
fosse a minha real vontade.
— Não sou idiota, André, sei que este filho não poderá vir ao mundo, mas posso ao
menos sonhar.
— O que deseja fazer?
— O que quer dizer? — Ela me olhou espantada.
— Ninguém tirará nosso filho de nós, se você não quiser. Não irei permitir.
— Àndreas, eu te amo, mas não me faça promessas que não pode cumprir — Mikaela
se aproximou e alisou o meu rosto. — Já estou em paz com o nosso destino, apenas ficou um
pouco mais difícil agora.
— Está em paz? Então, por que fugimos?
— Eu não estava querendo fugir, apenas queria beijá-lo pela última vez, num lugar
romântico, um lugar que talvez viesse à minha memória e um dia me fizesse suspeitar da
existência desse amor tão puro...
— Você estava indo para...
— A praça dos apaixonados! — Ela me interrompeu. Aproximando-se de mim,
entrelaçou seus dedos aos meus e me ofereceu um sorriso bonito, que lutava contra a cara de
choro que insistia em fazer. — Vamos?
Como resistir? Apesar de não parecer uma coisa muito lógica a se fazer num momento
complicado como aquele, mal também não faria. Eu estava disposto a fazer qualquer coisa
necessária para que nossa separação fosse o menos dolorida possível para Mikhayah.
Caminhamos como dois jovens apaixonados, de mãos dadas, como se mais nada de
errado estivesse acontecendo no mundo. De repente, a imagem de cenário de filme de terror se
desfez de minha mente e um novo cenário, como de um filme romântico, surgiu. Sem
explicação, a névoa já não era assustadora, mas aconchegante. As fracas luzes amarelas dos
postes não mais projetavam sombras assustadoras, criavam um clima intimista e romântico, e o
frio da noite era apenas uma desculpa desnecessária para que nossos corpos se aconchegassem,
procurando o calor um do outro.
Logo, descemos as escadas que nos conduziriam ao centro do parque. Paramos naquele
local e nos encaramos diretamente, como se os dois tentassem gravar profundamente na
memória a imagem um do outro. Controlei-me o máximo que pude, mas se tornou impossível
impedir que uma lágrima rolasse pelo meu rosto. Lágrima essa que logo seria acompanhada
por outras. Mikah deu um sorriso forçado e limpou o meu rosto. Seus olhos vermelhos
brilhavam, ela parecia estar fazendo um esforço sobre-humano para vencer a dor e fingir que
tudo acabaria bem.
Passei meus dedos por seus cabelos agora loiros, mas não menos encantadores, queria
ter a sensação de tocá-los mais uma vez. Num gesto rápido, ela entrelaçou o meu pescoço e eu
passei as mãos por sua cintura. Cerrei os olhos e esperei que seus lábios apaixonados tocassem
os meus. Então ela me beijou, como da última vez em que havíamos nos despedido.
Acariciamo-nos enquanto nossos lábios pareciam querer se soldar, num beijo demorado e
profundo.
Mikhayah fez nossas bocas se distanciarem bem devagar. Ela sorriu de leve e me
soltou. Acabei soltando-a também, meio sem saber por que ela tinha se distanciado tão rápido;
minha pretensão era beijá-la até o último fio de oportunidade que nos fosse dada. Continuei
sem entender quando ela entrelaçou uma mão na minha e fez nossos braços se erguerem. Sua
outra mão foi colocada em meu ombro esquerdo.
— Eu estou me lembrando, Àndreas... — sussurrou baixo. Ela começou a se
movimentar lentamente, como se uma música inaudível a embalasse. Segui o seu ritmo sem
fazer perguntas. — Da nossa primeira valsa.
Mikah fez nossos corpos girarem uma vez. Fechei os olhos, inalei o cheiro bom que
exalava de seu cabelo e tentei ter a mesma recordação. Foi muito fácil. O salão da família mais
rica da região tomou lugar na minha mente. O evento mais refinado do ano era o
acontecimento mais esperado pela minha família, que sempre foi pobre, mas que era convidada
para o baile porque meu pai fornecia boa lenha e madeira de lei para os anfitriões.
Eu não esperava reencontrar a mulher de cabelos vermelhos que tinha me surpreendido
no bosque e me oferecido uma noite louca de prazer e luxúria, em que fui capaz de me sentir o
homem mais feliz e realizado do mundo. Eu vinha sonhando com ela noites a fio, nunca
sabendo quem era, de onde tinha vindo e, o mais importante, se voltaria.
Foi uma grata surpresa chegar à festa e vê-la bailando, trajando um vestido armado
cheio de tecidos e rendas, com os cabelos soltos dançando no ar e a pele branca como leite
iluminando o ambiente. Se havia dúvidas de que eu tinha me apaixonado por alguém que eu
sequer conhecia, elas se esvaíram naquele instante.
— Eu me lembro, Mikhayah... — murmurei no ouvido dela e tomei as rédeas da dança
sem música que encenávamos no meio da praça. Girei seu corpo miúdo e a reverenciei como
uma princesa. — Eu me lembro perfeitamente.
Giramos mais uma vez e a Mikah começou a gargalhar. Era incrível demais sentir a
mesma coisa que sempre senti durante quase toda a minha existência: o amor verdadeiro pela
mulher misteriosa de cabelos vermelhos — embora agora estivessem loiros —, e riso
contagiante. Não importavam as consequências do nosso amor, o mais importante era aquilo
que acontecia; nossas gargalhadas se misturando e nossos corpos bailando de alegria por
estarem juntos, por um mísero segundo ou por uma eternidade. Tanto fazia.
Capítulo 30
Mikaela

A valsa silenciosa, realizada no meio da Praça dos Apaixonados, se transformou em


um verdadeiro baile em meu cérebro quando minhas lembranças se tornaram vívidas. Dava
para sentir os cheiros, o sabor do vinho adocicado entre meus lábios, os sons da orquestra, das
conversas feitas no canto do salão e dos vestidos das mulheres escorrendo pelo chão
espelhado. Ainda me lembrava do olhar desejoso, e ao mesmo tempo inocente, do Àndreas.
Foi aquela inocência que me fez ficar completamente apaixonada por ele.
— A senhorita poderia me conceder a honra de ser sua companhia em mais uma dança?
— ele sussurrou no meu ouvido. Soltei um riso e aceitei a proposta sem sequer pestanejar.
Minha longa vida sempre teve altos e baixos, como uma montanha-russa sem prazo pra
parar de funcionar. Já vivi momentos de completa e inexplicável felicidade, mas também de
cruel e profunda tristeza. Sofri por amor, pelas perdas, pelas dores que só quem vivia demais
podia sofrer. Sorri por diversos motivos, mas aquele homem diante de mim me fazia sorrir de
uma maneira diferente. Eu esquecia a sede, a culpa, o sofrimento. Tudo parava a minha volta,
apenas para me fazer contemplar o belo homem que me encarava.
Nada mudou.
O André que valsava comigo na praça, despretensiosamente, ainda me fazia sorrir da
mesma forma, não importavam os anos que se passaram e as dificuldades que atravessamos
para vivenciar aquele momento. Nossa história, apesar de triste e carregada de separações
dolorosas, ainda era bela. Tão bonita quanto qualquer uma que narrasse a inimaginável
trajetória de dois seres que se amavam eterna e fervorosamente, mas que eram impedidos pelos
céus e pelos homens de ficarem juntos.
De repente, ele parou de dançar e tomou a minha boca com muita vontade. Correspondi
ao beijo, sabendo que aquele poderia ser o último. Eu não fazia ideia do que seria de nós, mas,
de uma coisa tinha certeza, aquele não podia ser o nosso fim. Nós merecíamos mais do que
tudo o que já tivemos.
— Não importa o que aconteça conosco, Mikah, eu vou te encontrar, prometo — André
segurou meu rosto e grudou nossas testas em um gesto repleto de carinho. — Ninguém poderá
destruir esse amor. Está me ouvindo? Ninguém! — Suas palavras me deram um fio de
esperança, embora não pudesse imaginar como ele seria capaz de cumprir tal promessa.
— É tão injusto! — choraminguei, sentindo o sangue de minhas próprias lágrimas
escorrerem e molharem os meus lábios. — Não devíamos sentir tanto amor assim. Não é
natural!
— Como? O que você quer dizer? — André fez uma expressão confusa. Ele também
chorava e tremia, creio que tão temeroso quanto eu.
— Se é um sentimento tão bom... tão bonito... tão sagrado... Por que nós, que somos
considerados seres das trevas, estamos sentindo? — minha pergunta pareceu pegá-lo de jeito.
O meu amado refletiu, porém não foi possível responder à minha pergunta. A verdade
era que nada daquilo fazia muito sentido. Se éramos maus, criaturas do demônio, o amor não
deveria fazer parte da nossa natureza, muito pelo contrário. Aquele quebra-cabeça não se
encaixava na minha mente.
— Eu não sei, Mikah — ele, enfim, respondeu. Suas mãos escorregaram para a minha
cintura. — Minha única certeza é a de que serei capaz de me lembrar de você, não importa
quanto tempo passe. Eles não conseguirão o que querem. Irei ao seu encontro e me
relembrarei, quantas vezes forem necessárias. Eu te prometo isso, meu amor... Meu único e
eterno amor — as últimas palavras saíram como um sussurro.
— E se nos matarem por causa disso? — enxuguei as lágrimas e o encarei com os
olhos arregalados.
André deu de ombros e soltou um longo suspiro.
— Aceito esse destino. Eu mataria e morreria por você, Mikhayah.
Aquiesci devagar, contendo um forte soluço de dor. Não consegui me expressar, mas
sabia, em meu íntimo, que também era capaz de matar e morrer pelo André. No fundo, havia
uma pequena farpa de esperança vibrando em meu peito. Talvez fosse o desejo comum aos
apaixonados; o de que, no fim, o amor sempre vencia e de que teríamos o nosso felizes para
sempre.
Esperei acordar daquele pesadelo, para que nada de ruim nos acontecesse, porém toda a
minha esperança se esvaiu quando ouvi a voz, daquela vez terna, vindo de algum ponto atrás
de nós.
— Quando os dois terminarem, precisamos partir.
Não nos assustamos, pois a voz era inconfundível e sabíamos de quem se tratava.
Demoramos ainda alguns instantes abraçados, nos encarando com pesar. Por fim, nos viramos
para observar o sujeito albino que nos aguardava. Fiquei com um pouquinho de vergonha, mas
nada que me fizesse largar o André.
— Vocês a pegaram? — o meu amado se preocupou com o paradeiro do demônio,
esse, sim, capaz de criar grandes problemas para a humanidade, muito mais do que nós, na
verdade. Por que não podiam nos deixar em paz?
— Sim, não foi nada fácil, mas felizmente Andrew conseguiu — o anjo respondeu com
seriedade. Suas expressões estavam bem esquisitas, mais do que o normal.
— Vocês nos usaram como iscas... — André resmungou. Segurei suas mãos com força
para que ele não saísse do controle. Não adiantava brigar com aqueles anjos. Éramos nada na
frente deles.
— Exatamente — O albino deu alguns passos na nossa direção. — Podemos ir agora?
— seus olhos emitiram aquele brilho azul característico.
— Para onde vamos? — questionei ainda sem largar as mãos do meu amado.
Não queria me separar dele nem tão cedo. Eu estava assustada, morrendo de medo de
que alguém aparecesse do nada e o arrancasse de mim. Meus instintos ordenavam que ficasse
alerta e pronta para o ataque, mas meu coração dizia que, quanto mais submissos fôssemos,
maiores seriam nossas chances. Nem de longe eu lembrava aquela Mikhayah forte e dona do
meu destino. Isso me incomodava, mas eu entendi que não era hora para deixar o orgulho me
ferir.
— Por enquanto, de volta para o seu apartamento. Precisamos resolver um probleminha
antes de solucionarmos o dilema maior — o anjo olhou para mim como se adivinhasse o que
crescia dentro do meu ventre.
Senti um frio absurdo percorrer o meu corpo. Durante aqueles momentos românticos ao
lado daquele que eu esperara tantas décadas para ser meu, havia me esquecido completamente
que gerava em mim uma criança, a qual jamais seria permitido nascer. Por mais que eu
entendesse a situação, senti novamente um aperto em meu peito.
Como dois cordeirinhos, seguimos para o abatedouro. Caminhamos de mãos dadas, em
silêncio, sem nenhum questionamento, com uma resignação que me deixava a cada segundo
mais irritada. André estava com a cabeça baixa, chorando sem alardes. Não dava para crer que
aceitaríamos o nosso trágico fim.
O filme de nossa primeira separação passou pela minha mente. Meus olhos tornaram a
se encher de lágrimas, como daquela primeira vez, pois não podia acreditar que precisaria
enfrentar tamanha angústia novamente. Eu não aguentava mais sofrer. A vida havia sido muito
desgraçada comigo. Talvez tamanho azar fosse porque eu era um ser infernal, que bebia
sangue de gente e espalhava o caos pelo mundo. A felicidade provavelmente não tinha sido
feita para alguém como eu. Não me era permitida.
Logo, chegamos ao meu velho apartamento. Lá estavam o Doutor Cláudio, nosso
antigo terapeuta, e mais um anjo enorme e forte, que parecia sempre proteger os demais.
— Onde está Andrew? — perguntei só pela curiosidade. André apertou a minha mão,
talvez indicando que tinha ficado com ciúmes do meu interesse pelo anjo. Olhei-o de soslaio e
balancei a cabeça, indicando que ele não deveria se preocupar.
— Já está longe daqui. Levou o demônio para seu devido lugar e não tem mais assuntos
a tratar com vocês — o anjo forte foi bem taxativo.
— Meu amigo, você está com o medicamento? — O albino se aproximou do falso
doutor.
— Aqui está — ele entregou ao parceiro um frasco contendo um líquido amarelo e
estranho.
Sem maiores explicações, o anjo albino se aproximou, parando bem na minha frente.
Esperava ver alguma expressão de satisfação ou superioridade em seu rosto, mas tudo que
consegui enxergar foi empatia e compaixão. Ele não se alegrava com aquilo. Passar por aquela
situação novamente também não estava sendo muito fácil para o anjo. Sua bondade acabou me
desarmando. Ficou claro para mim que ele era apenas mais um peão naquele jogo e que não
fazia nada além do que cumprir o seu papel no tabuleiro.
— Mikhayah... Precisamos que você beba todo o conteúdo deste frasco — sua voz soou
gentil, quase como se cantarolasse uma pequena canção. Apesar do tom amistoso, sabia que
aquilo não era um pedido, mas uma ordem.
Fechei os olhos e soltei o ar dos meus pulmões.
— Para que serve isso? — André perguntou, mas ninguém precisava responder, pois
estava bastante óbvio.
Eu já sabia o grande motivo da existência daquele frasco. Como uma cachoeira que
jorra, sem cessar, uma grande quantidade de água, lembrei-me de todas as vezes que me
encontrei com aquele maldito remédio. O reconhecimento me fez soltar um arquejo e derramar
mais lágrimas.
— Você sabe que não podemos permitir que a vida gerada em seu ventre se
desenvolva, já conversamos sobre isso — o albino ainda me olhava, como se eu que tivesse
feito a pergunta.
— É algo para fazer Mikah abortar? — André apoiou uma mão na minha cintura e me
puxou para junto de si.
— Sim, Àndreas. Como da primeira vez... E de todas as outras — murmurei entre
lágrimas. Desvencilhei, delicadamente, o meu corpo das mãos do André. Não adiantava fugir.
Na verdade, não havia como.
O fruto do meu ventre era amaldiçoado e só traria problemas. Eu não podia tratá-lo
como um bebê comum. Não podia nem imaginar a confusão que seria se eu tivesse um bebê-
demônio.
— Como da primeira vez, o que quer dizer com isso? — André com certeza ainda não
havia se lembrado. — Não me diga que...
— Sim, meu bem — eu o interrompi com seriedade. Peguei o frasco das mãos do anjo
albino, que sorriu ao compreender a minha decisão. — O mesmo ciclo, de novo e de novo.
Fomos inconsequentes no passado, no presente e, agora, eles temem que sejamos no futuro.
— Mikah... — a dor em sua voz foi inexplicável.
Encarei o André. Ele tinha lágrimas no rosto e expressava uma dor horrível por
presenciar aquilo. Eu não queria viver um só segundo vendo o homem da minha vida magoado
daquele jeito.
— Não podemos ter um filho, Àndreas. Vamos quebrar esse ciclo de uma vez. Na
próxima, iremos nos cuidar.
— Não haverá próxima vez, Mikhayah — Doutor Cláudio interveio. Eu o olhei com a
cara feia. Desde o nosso encontro no consultório, não podia ver aquele sujeito sem me sentir
enjoada, ainda que ele fosse um anjo.
— Vamos, querida, tome logo — o albino continuou me olhando de perto, talvez para
conferir se eu não ia fingir que ingeria o medicamento. — Tenho uma informação muito
importante para vocês, mas só posso dá-la depois que você beber tudo.
Com imensa dor queimando em meu peito, abri a tampa do frasco e entornei o líquido
amargo até que não restasse nenhuma gota. As lágrimas se multiplicaram, porém não havia
mais como voltar atrás. Estava consumado. Senti como se, não apenas meu filho, mas eu
mesma fosse morrer bem ali, aos pés daquele ser celestial.
— Muito bem... — o anjo albino segurou o pote vazio e o inspecionou antes de guardá-
lo no bolso. — Vocês dois precisam me ouvir com muita atenção.
— Nós iremos receber o toque de esquecimento agora? — André parecia ansioso, mas
eu sabia que ele estava morrendo de medo do que viria. Foi assim da primeira vez e não seria
diferente naquele dia.
Tornei a segurar suas mãos e a aconchegar o meu corpo no seu. Aquele calor foi capaz
de me tranquilizar mesmo em uma situação tão terrível.
— Escutem, não se precipitem — o anjo colocou as mãos para trás, como se nada do
que estava acontecendo o perturbasse de verdade. — Primeiro, devo informar que o conteúdo
deste frasco tornará Mikaela, definitivamente, estéril.
Arregalei os olhos.
— Estéril? — quase gritei na cara do albino. André me segurou com força, o que
acabou me acalmando. Eu estava tão assustada que reagi feito uma louca. Era óbvio que seria
mais fácil me tornar estéril de uma vez por todas.
— Sim, Mikhayah. Quanto a isso, não temos o que fazer. É demasiadamente perigoso
permitir que você engravide mais uma vez. O surgimento daquele demônio deixou todos em
polvorosa. Podem existir outros seres como aquele, escondidos e mancomunando uma
vingança. Além do mais, como você bem sabe, seu ventre já é naturalmente estéril, a única
exceção dizia respeito à semente de um Lupino.
— Não podemos arriscar de forma alguma, Anahel — o anjo grande bradou com uma
voz grave.
— A segunda informação foi passada a mim diretamente pelo General — o albino, que
pelo visto se chamava Anahel, andou de um lado para o outro, porém sem deixar de nos
encarar. — O Senhor dos senhores solicitou a minha presença e, com sua infinita misericórdia,
tem a oferecer a vocês dois um convênio.
— Um convênio? Que tipo de convênio? — André se empertigou. Fiquei bastante
inquieta em seus braços. Alguma coisa me dizia que não nos daríamos nada bem.
Anahel parou bem na nossa frente. Abriu um sorriso esquisito.
— A história desse amor é famosa nos céus, meus caros. O General, obviamente, se
manteve atento a tudo que acontecia aqui na Terra. Afinal, ele conhece a cada um de seus
filhos. Não seria diferente com vocês. Estávamos certos do caminho a seguir, mas após a
pergunta feita, mais cedo, por você, Mikhayah, Ele decidiu mudar o rumo dos acontecimentos.
Dei de ombros. Tentei me lembrar das coisas que eu tinha falado, porém nada me
pareceu tão importante ao ponto de fazer com que o Criador mudasse sua ideia com respeito ao
nosso destino.
— Que pergunta foi essa, Anahel? — indaguei, não podendo conter minha curiosidade.
— Ora, não é óbvio? Nós também nos perguntamos como tão puro amor chegou a
invadir esses corações amaldiçoados pelas trevas — o anjo apontou para nós dois com um
dedo ossudo. — A semente do amor foi plantada nos corações de cada ser de luz que habita
este planeta. E o Senhor, Ele jamais deixa de zelar pelo jardim semeado com o amor.
Prendi os lábios para conter a emoção daquelas lindas palavras. Mais uma vez, a
esperança vibrou em meu peito e me senti grata, mesmo sem saber os motivos de tanta
gratidão. Haveria uma chance para mim e para o André? Era isso o que ele tentava nos dizer?
Finalmente, Deus tinha olhado por nós?
— Fechem os olhos, os dois — o anjo albino ordenou. Não pensei em desobedecê-lo.
Segurei as mãos do André com força e cerrei as pálpebras em um segundo. — Podem abrir
agora.
Como um passe de mágica, o meu velho apartamento sumiu da nossa frente. Não
estávamos mais em minha sala, bom, pelo menos não na sala da Mikaela que vendia biscoitos
no supermercado. André, os três anjos e eu terminamos dentro da casa escondida no meio do
mato, a mesma que tinha o meu retrato pintado na parede. O lugar parecia igual a como o
havíamos deixado.
— Como paramos aqui tão depressa? — André perguntou em um timbre surpreso,
desafinando em algumas sílabas.
Os anjos apenas sorriam para nós.
— Escutem bem, Mikhayah e Àndreas, vocês foram condenados a ficarem aqui pelo
resto dos seus dias — Anahel ergueu a mão de um jeito teatral. Meu coração errou uma batida
no mesmo instante. — Vivendo em companhia um do outro sem que nada interfira em suas
vidas.
— Ah, meu Deus! — berrei alto, emocionada. — Isso não soa como uma condenação
para mim!
O meu amado me abraçou forte e choramos, juntos, como duas crianças que acabaram
de ganhar um mundo feito de doces. A emoção foi tanta que nos ajoelhamos no chão, ainda
grudados. Todas as minhas forças se esvaíram de tanta alegria. André me amparou.
— Esperem! — ele bradou em tom autoritário.
André e eu nos soltamos parcialmente, porém continuamos ajoelhados no piso,
encarando aqueles três anjos que tinham nos dado a melhor notícia de todos os tempos. Estar
com o amor da minha vida era a única coisa que eu queria. Nada mais importava no mundo
além de ter a chance de viver ao lado dele.
— Como eu falei, é um convênio — o anjo se sentou no sofá empoeirado. — Significa
que terão que fazer a parte de vocês.
— Eu faço qualquer coisa! — falei, rindo e chorando ao mesmo tempo.
— Eu também! — André estava tão empolgado que seu sorriso batia de orelha a orelha.
— Pois bem, as regras são claras: Mikaela, você se alimentará apenas do sangue de
animais. Sabemos que não é o melhor alimento na sua situação, e que não te regenera como o
sangue humano, mas essa é sua condição.
— Tudo bem, não se preocupe, estou disposta a fazer o necessário — apertei a mão de
André com força. O que será que ele teria que prometer ao anjo?
— Àndreas terá que se acorrentar em toda lua cheia, para não causar maiores prejuízos
e igualmente se comprometer a não derramar sangue em vão. Zelem por esta casa que o
Senhor concedeu a vocês.
— Sim, senhor — André se limitou a responder de modo sério. Acho que ele, assim
como eu, não podia acreditar em tal benção e não conseguia usar as palavras.
— Ah, e por último e mais importante: jamais tentem sair da ilha.
Permanecemos calados. Olhei para o André e ele expressava a mais pura confusão. A
última frase do anjo não fazia o menor sentido para nós. Afinal, não estávamos na casa, no
meio da floresta, no caminho de nossa recente fuga?
— Que ilha? — murmurei a pergunta, um tanto temerosa.
Anahel se levantou do sofá depressa.
— Nenhum ser deste planeta será capaz de localizá-los. Esta terra será invisível tanto
ao navegante quanto ao aeronauta, estará oculta ao homem e aos seus satélites e ferramentas de
exploração mais tecnológicas. Seu contato com o mundo exterior será inexistente, desde que
vocês jamais deixem este lugar. Este é o mundo feito para vocês, apenas para que se amem dia
após dia. Aproveitem a estada!
Uma forte luz invadiu a sala antes mesmo que eu pudesse tecer qualquer comentário. A
luz envolveu os três anjos diante de nossos olhos e, após um mísero segundo, desapareceu,
levando consigo aquelas criaturas divinas impressionantes. Passamos um minuto completo
com nossas respirações ofegantes, em silêncio e com o coração agitado pela adrenalina.
Fui a primeira a reagir. Em um gesto rápido e preciso, ergui-me do chão e corri até a
porta da casa. Abri-a, ouvindo um ranger característico da madeira pesada, e estaquei. Não
havia mata, como eu esperava. Em vez de uma vasta vegetação, a nossa antiga casa estava na
beira de uma praia. Era noite, mas mesmo assim pude contemplar a beleza do lugar onde
fomos deixados. A lua brilhava alta no céu, iluminando as ondas.
— Estamos... mesmo... em uma... ilha — André murmurou atrás de mim. Ele tinha
ficado ajoelhado no chão da sala, porém olhava através da porta com o queixo caído.
— Estamos — empinei o nariz e abri um largo sorriso. Olhei para a lua, que já não
estava mais cheia, e fiz um agradecimento silencioso.
— Eles nos exilaram do mundo... — André ainda estava perplexo.
— Não, Àndreas. O mundo foi exilado da gente.
A notícia era tão espetacular que não contive a vontade de deixar a casa para trás e
correr até que fosse possível os meus pés serem molhados pela água salgada que ia e vinha em
ondas tranquilas. Olhei para trás e soltei uma exclamação admirada ao perceber o restante da
ilha. Era enorme e coberta por muita vegetação. Nossa casa ficava entre a mata e a praia, como
se tivesse sido construída pelo melhor arquiteto do mundo.
Percebi André correndo em minha direção. Abri os braços e esperei que me alcançasse.
O meu amado me abraçou tão forte que caímos na areia. Rolamos entre as ondas, em meio a
gargalhadas e beijos fervorosos. O nosso amor, finalmente, poderia ser consumado, sem medo,
sem complexos, sem privações.
Não havia dúvidas, só havia a certeza de que tínhamos encontrado a verdadeira paz.
Enfim, sós.
Epílogo

Mais uma vez, o sol se punha naquela região esquecida pelo mundo. Era a hora em que,
normalmente, a natureza se agitaria com o despertar dos habitantes da ilha. Tudo ali
funcionava de modo diferente. Os predadores acordavam pela noite e, portanto, suas presas
haviam se adaptado à sua rotina.
Como em cada anoitecer, a porta da casa foi aberta. Um casal saiu, com dificuldade. O
homem, um idoso, era amparado pela mulher, uma moça que parecia ter congelado nos seus
vinte e poucos anos para sempre. Havia duas espreguiçadeiras feitas à mão, localizadas na
frente da casa, próximas às águas sempre calmas daquele imenso oceano. As ondas
continuavam indo e vindo, como da primeira vez em que ambos se viram naquele paraíso.
— Respire fundo a brisa fresca da noite, meu amor. Pelas próximas vinte e quatro horas,
você terá que ficar acorrentado e confinado no porão — ela ajeitou o casaco do senhor idoso
de modo que não sentisse o frio que fazia sempre seus ossos doerem.
— Mikah, dessa vez sinto que não será necessário — Àndreas alisou o rosto da amada e
tossiu.
— Não diga isso, por favor — o tom de súplica na voz da mulher foi tão profundo e
verdadeiro que fez o coração do sujeito doer.
— Os antigos sempre diziam que saberíamos a hora em que as correntes não seriam mais
necessárias. Sempre acreditei que falassem isso em sentido figurado, mas hoje posso ter a
certeza de que essa famosa frase é literal. Realmente, hoje não precisarei. Tenho dentro de
mim uma certeza absoluta. — Um arrepio correu pela coluna de Mikhayah.
Lágrimas de sangue escorreram pelo rosto da mulher, que nunca fora tão feliz como nos
últimos anos, mas que via claramente aquele homem, que era considerado seu sol, se esvair. O
tempo não havia feito um fio de seu cabelo, novamente e naturalmente vermelho, cair, mas o
senhor dos dias não fora tão generoso com seu par.
— Não fale isso, meu bem. Ainda é cedo. — Ela tentou esconder as lágrimas que
insistiam em descer em profusão.
— Já se passaram mil cento e sessenta e duas luas cheias...
— Sim, os noventa e três anos mais maravilhosos da minha vida.
Os dois se olharam com a mesma paixão de antigamente. Não importava quanto tempo
passasse, o amor que os unira continuava inabalável.
— E também da minha! — ele sorriu e tornou a tossir compulsivamente.
— Àndreas, diga-me que está enganado, por favor! — ela suplicou entre lágrimas. O
homem tocou sua mão macia com dedos ossudos, ressecados pela força do tempo.
— Como eu gostaria de estar errado, mas, dentro de mim, eu sei.
— Vou te amar eternamente! — Mikah agarrou a mão dele com delicadeza.
— Como se você tivesse alguma opção — o fraco e velho André ainda encontrou
forças para uma última piada. Ele riu, mas sua mulher permaneceu séria. — Não seja assim,
não me faça partir sem levar comigo um último sorriso teu — a forte tosse estava lá
novamente.
— Oh, André, não me peça para sorrir num momento desses!
— Aproxime sua cadeira da minha, deite-se aqui do meu lado, por favor.
Mikaela concordou em silêncio. Puxou sua cadeira para bem perto de André e encostou
a cabeça em seu peito, que subia e descia com uma respiração difícil e ruidosa.
— Eu te amo, Mikhayah.
— Eu também te amo, Àndreas.
Finalmente, a grande lua cheia começou a surgir no horizonte escuro. As fortes nuvens
que encobriam sua ascensão, finalmente se dispersaram e o fantástico astro esparramou seu
brilho sobre as águas e a areia. Como já era de se esperar, o corpo de André começou a
convulsionar violentamente. Mikaela o segurou com mais força, num abraço apertado e repleto
de amor.
Não tardou para que grossos pelos assumissem toda a superfície da sua pele negra e
reluzente. Seu corpo humano, aos poucos tomou a forma tão conhecida de uma fera. Os dentes
cresceram assustadoramente em sua boca longilínea. As dores da transformação percorreram
seu corpo como se centenas de espadas de prata fossem cravadas até atingirem seus ossos.
Com um último uivo, que mais soou como um gemido de morte, seu corpo não resistiu
e sucumbiu. O ciclo de sua vida estava completo. O objetivo de sua jornada na Terra, de estar
para sempre ao lado de sua amada, havia sido cumprido. Apesar das expressões de dor devido
à transformação, a fera partiu com plena alegria em seu coração.
Lágrimas de sangue banharam seu peito coberto de pelos. Um gemido gutural de dor
ecoou pela ilha. Mikaela permanecia abraçada ao seu amado, como se não acreditasse que
aquele realmente fosse seu fim. Ela já sabia que aquilo aconteceria, já sabia qual seria o ponto
final de sua história. Já havia passado por aquilo em outras oportunidades, mas nunca havia
doído tanto. Nunca, em sua longa existência, havia amado alguém como amava o André.
Ao longo dos últimos duzentos anos, ela já havia se despedido e se separado de seu
amado muitas vezes, mas em cada dor do adeus, estava plantada a esperança do reencontro.
Daquela vez era para valer, era para sempre. Por mais que lhe custasse crer, em seu íntimo ela
sabia.
Com uma dor quase incapacitante, ela cumpriu os últimos rituais, conforme haviam
combinado. Carregou o enorme corpo de seu amado e o depositou em uma bela sepultura que
ele mesmo tinha feito questão de preparar nos últimos meses, sentindo que seu último dia
estava próximo. Sem entender muito bem o porquê, leu para ele um texto fúnebre, também
preparado por seu amado, com citações dos momentos mais felizes que tinham encontrado,
tanto fora quanto dentro daquela ilha. Outra de suas solicitações.
Releu e relembrou dos primeiros dias ali. De como haviam brincado e se amado
loucamente. De quanto prazer eram capazes de proporcionar um ao outro, não somente quando
seus corpos se uniam como se fossem um, mas também com um simples toque, com a simples
convivência do dia a dia, com simples frases como “eu te amo”.
Leu sobre os momentos que se divertiam em caçadas, ou ainda quando resolveram
fazer reformas na velha casa. Quando corriam pela areia da praia ou quando se banhavam no
mar, outro palco de suas loucuras amorosas. Nenhum dia sequer, daqueles noventa e três anos,
havia sido entediante. Jamais sentiram falta de outros habitantes, os dois se completavam e se
bastavam. Cem por cento.
Em nenhuma oportunidade eles se desentenderam ou brigaram, ainda que ela tivesse
consciência de que isso se devia mais à humildade e temperamento calmo de seu amor do que
propriamente à sua vontade. Mikaela suspirou, lembrando que não poderia mais abraçá-lo e
esfriar suas ideias naqueles dias em que enlouquecia.
Mais lágrimas vermelhas preencheram os olhos da mulher, que compreendeu que
aquele texto não era para o André, mas sim para ela mesma, para que, diante da dor e
sofrimento causados pela morte de seu par, pudesse sorrir e se alegrar com a recordação de
tantos momentos inesquecíveis.
— Ele pensou em mim até o fim — seus lábios sussurraram.
Mikhayah levou quase a noite toda para realizar as tarefas com sofreguidão, temendo o
momento em que deveria cobrir a sepultura e não encarar o amor de sua vida nunca mais.
Finalmente ela criou coragem e assim o fez, com o sentimento de gratidão por ter vivid