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VIVER EM PORTUGUÊS

A LITERATURA DO NOSSO TEMPO

Elaborado pela formadora,

Isabel Ribeiro
Ficha Técnica

Objetivos e Condições de Utilização


O formando deverá complementar os conhecimentos adquiridos e retidos durante a
sessão com a leitura do presente Manual.
Contém todos os temas abordados durante o curso, devendo ser um suporte ao estudo a
desenvolver pelo formando, bem como um reforço aos conhecimentos adquiridos
durante a sessão.
A leitura do Manual não invalida que o formando não aprofunde os seus conhecimentos,
através da consulta da bibliografia recomendada ou de outros que julgue convenientes.

Conteúdos do Manual

OBJETIVOS:
Identificar características genéricas do texto literário.

Caracterizar genericamente os diferentes géneros literários.

Distinguir os vários géneros literários.

Estabelecer relações entre a literatura portuguesa do século XX e outras formas de

expressão artística.

Identificar fontes de influência de diferentes correntes ou autores nacionais e

estrangeiros.

Reconhecer um conjunto de autores representativos do século XX e relaciona-os com a


sua forma de escrita e principais obras.

Desenvolver capacidades de leitura, interpretação, análise crítica e de apreço pela arte.

CONTEÚDOS:

Conceito de literatura
Conceito de texto literário

A literatura portuguesa do século XX

A relação da literatura portuguesa do século XX com outras formas de expressão

artística

Os autores e a sua produção literária - que géneros literários e que temáticas:

Agustina Bessa Luís

António Lobo Antunes

David Mourão Ferreira

Dinis Machado

José Cardoso Pires

José Saramago

Lídia Jorge

Manuel Alegre

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vergílio Ferreira
Fontes Bibliográficas

 Breve dicionário de Autores Portugueses, Verbo


 Cintra, Lindley e Cunha, Celso (1999): Breve Gramática do Português
Contemporâneo, Lisboa,
 Coelho, Jacinto do Prado, Dicionário da Literatura Portuguesa, Edições João Sá
da Costa, 12ª Edição
 Dicionário da Literatura Portuguesa, Coelho, Jacinto do Prado

 Guimarães, Fernando, Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, Porto, Lello &


Irmãos, 1992.
 Lopes, Óscar, Entre Fialho e Nemésio, Estudos de Literatura Contemporânea,
vol. II, Lisboa, IN-CM, 1987
 Matos, Maria Vitalina Leal de, Introdução aos Estudos Literários, lisboa, verbo,
2001.
 Meneses, Salvato Telles de, O que é a Literatura, Lisboa, difusão Cultural,
1993.
 Obras de Teoria da Literatura: Teoria da Literatura, Silva, Victor Manuel de
Aguiar
 Orpheu, Lisboa, Contexto, 1989
 Reis, Carlos, O conhecimento da Literatura – introdução aos Estudos Literários,
2 Edição, Coimbra, Almedina, 2001.
 Rocha, Clara, Revistas Literárias do Século XX em Portugal, Lisboa, IN-CM,
1985

Autor(es): Isabel Ribeiro


INDICE

DEFINIÇÃO DE LITERATURA ……………………………………………………8

CARACTERIZAÇÃO DO TEXTO LITERARIO.....................................................12

GÉNERO NARRATIVO..............................................................................................17

TEXTOS NARRATIVOS.............................................................................................18

GÉNERO LÍRICO........................................................................................................18

TEXTOS LÍRICOS.......................................................................................................19

GÉNERO DRAMÁTICO.............................................................................................19

GÉNEROS LITERÁRIOS...........................................................................................22

ANÁLISE DA ESTRUTURA EXTERNA OU FORMAL.........................................30

MIGUEL TORGA.........................................................................................................44

FICHA DE TRABALHO INFORMATIVA Nº 4:.......................................................46

DAVID MOURÃO FERREIRA...................................................................................58

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN …………………………………...67

RUY BELO..................................................................................................................743

EUGÉNIO DE ANDRADE …………………………………………………………..75

JOSÉ GOMES FERREIRA …………………………………………………………79

CARLOS DE OLIVEIRA ……………………………………………………………81

FICHA DE TRABALHO Nº 12 …………………………………………………….. 83


O módulo intitulado ”A literatura do nosso tempo” está pensado segundo
perspetivas de informação e de formação.
Pensa-se que, no contexto de um segundo nível de formação académica, os
formandos não deverão ignorar o que está temporalmente mais próximo de si, em
qualquer área do saber, e também ao nível do que em literatura se escreve e de quem o
faz.
Os media divulgam, algumas vezes, o que de mais recentemente se publica, mas
é importante que paralelamente haja um acompanhamento mais especializado, no
sentido de levar cada formando ao melhor aproveitamento possível daquilo que a
literatura lhe pode oferecer.
O presente módulo deverá, pois, ser aplicado nesta perspetiva, de molde a que os
formandos se tornem cada vez mais atentos à escrita literária, desenvolvam
competências de autonomia de leitura, de apreço pela arte e capacidade de retenção de
informação, por esta via.
Antes de começar

Trabalho de Pesquisa

1-Define “literatura”.

2-Explicite o conceito “poema”.

3-Exemplifique seis Escritores Portugueses.

4-Responda à questão: “Para que serve a literatura”.

5-Distingue os termos: “Conotação/Denotação”.

6- Exemplifique referindo três tipos de livros.


Definição de Literatura

Literatura pode ser definida como a arte de criar e recriar textos, de compor ou
estudar escritos artísticos; o exercício da
eloquência e da poesia; o conjunto de
produções literárias de um país ou de uma
época; a carreira das letras.

A palavra Literatura vem do latim


"litteris" que significa "Letras", e
possivelmente uma tradução do grego
"grammatikee". Em latim, literatura significa uma instrução ou um conjunto de saberes
ou habilidades de escrever e ler bem, e relaciona-se com as artes da gramática, da
retórica e da poética. Por extensão, refere-se especificamente à arte ou ofício de
escrever de forma artística. O termo Literatura também é usado como referência a um
corpo ou um conjunto escolhido de textos como, por exemplo, a literatura médica, a
literatura inglesa, literatura portuguesa, etc.

O poder da Palavra na Literatura

Sabemos que o reino das palavras é farto. Elas brotam do nosso pensamento de
maneira natural, não temos a preocupação de elaborar o que dizemos ou até mesmo
escrevemos. As palavras, contudo, podem ultrapassar os seus limites de significação,
podendo assim conquistar novos espaços e passar novas possibilidades de perceber a
realidade.
O caminho que a literatura percorre é este. O artista sente, escolhe e manipula as
palavras, organiza-as para que produzam um efeito que vá além da sua significação
objetiva, procurando aproxima-las do imaginário.

A obra do escritor é fruto da sua imaginação, embora seja baseado em elementos


reais. Da concretização desse trabalho surge então a obra literária.
Dotado de uma perceção aguçada, o escritor capta a realidade através dos seus
sentimentos. Explora as possibilidades linguísticas e manipula-as no nível semântico,
fonético e sintático.

A literatura é uma manifestação artística e difere das demais pela maneira como
se expressa, a sua matéria-prima é a palavra, a linguagem. O texto literário caracteriza-
se pelo predomínio da função poética.

Observe, no poema Procura da poesia, como o poeta Carlos Drummond de


Andrade descreve o escritor entrando no “reino das palavras”.

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.


Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão intenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.


O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.


Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície inata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.


Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda húmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

ANDRADE, Carlos Drurmmond de. Poesia


completa & prosa. Rio de Janeiro:José Aguilar,1973.
CONCEITOS E FUNÇÕES DA LITERATURA

CARACTERIZAÇÃO DO TEXTO LITERARIO

LITERATURA: CONCEITUAÇÃO

Toda a manifestação artística feita com a palavra recebe o nome de literatura.


Esta palavra designa textos que procuram expressar o belo e o humano através das
palavras.

A literatura trata de textos que possuem uma


preocupação estética, que provoca prazer e conhecimento do
seu conteúdo, forma e organização. Por ser uma expressão
do homem é um bom meio de comunicação, porque explora
todas as partes da linguagem.

Pode utilizar simultaneamente palavras, recursos


gráficos ou visuais e é bem vista na comunicação do dia-a-
dia. Na televisão, cinema, teatro, DVD, rádio, jornais e até
em revistas de quadradinhos. Porque em todos esses campos existe um elemento em
comum: a palavra.

A utilização da literatura não é de hoje. Na Grécia antiga, Aristóteles, filósofo de


destaque, mostrou que a literatura tem também a propriedade de exprimir, mostrar
sentimentos coletivos, ou seja, de um grupo, sociedade ou de uma época e que os
purifica pela expressão escrita, com fortes emoções. Esta propriedade chama-se catarse,
ou seja, purificação das emoções. Foi bem explorada por escritores de todas as épocas.

A literatura procura o essencial, o universal, pode contribuir para a formação


dos homens, indicando-lhes a maneira de agir, de mostrar os seus prazeres, desejos e
outros sentimentos. Isto ajuda o homem a conhecer-se melhor. A literatura dá vida ao
sentido das palavras, por exemplo:

Havia um mendigo cego e as pessoas que passavam por ele não lhe davam
quase nada, mas um homem fez a diferença; para ele ganhar mais esmolas trocou o
cartaz que carregava com as palavras ”cego de nascença” por outro: “chegará a
estação das flores e eu não a verei mais”. Através do exemplo nota-se que simples
palavras ganham sentimento.

A LITERATURA E AS SUAS FUNÇÕES

A literatura pode ser definida como:

- Um elemento de catarse

- Um elemento do conhecimento do mundo, tanto do passado e do presente,


como da mentalidade de uma sociedade ou época.

- Um elemento essencialmente ligado ao homem, ao seu próprio conhecimento.

- Um elemento de formação e desenvolvimento em todos os campos do saber:


intelectual, moral, ideológico e até estético.

CARACTERÍTICAS DO TEXTO LITERARIO:

SENTIDOS DAS PALAVRAS

Num texto literário, dependendo do contexto em que uma palavra se encontra, o


seu significado pode ser real, ou seja, esta pode ter um objetivo comum a todos. EX:
Romeu é cego por isso lê em braile.

Este exemplo mostra o valor denotativo da palavra. (a palavra cego)

Mas esta mesma palavra em outro contexto pode ter outro sentido, ou
interpretação.

EX: Romeu estava cego de paixão por Julieta.

Neste caso a mesma palavra cego tem valor conotativo.

Para melhor entendimento, observe:


Na denotação aparece:

- Uma linguagem informativa, objetiva.

- Tem por objetivo um conhecimento prático e científico.

- A palavra é usada no seu real sentido.

EX: Ganhei um par de brincos dourados.

Na conotação aparece:

- Uma linguagem mais afetiva e subjetiva.

- Tem por objetivo uma apreciação bela e criativa.

- A palavra é empregue no seu sentido figurado.

EX: Os anos que você esteve ao meu lado, foram anos dourados.

ATIVIDADES

Indique se as palavras abaixo em destaque estão em sentido denotativo ou conotativo:

a) A raiz desta árvore já está afetar a estrutura da casa.

_______________________________________________

b) A raiz de todo o mal da humanidade é a falta de amor.

_______________________________________________

c) Ela é uma víbora perigosa, com suas atividades.

_______________________________________________

d) A víbora é uma cobra muito perigosa.

_______________________________________________
1- Determine em que sentido foram empregues as palavras:

Denotativo (d), ou Conotativo (c):


(___________) O meu pai é o meu espelho
(___________) Parti o espelho da casa de banho.
(___________) Essa menina tem um coração de ouro.
(___________) A Praça da Sé fica no coração do Porto.
(___________) Fez um transplante de coração.
(___________) Tu és mesmo mau: tens um coração de pedra.
(___________) Para vencer a guerra era preciso alcançar o coração do país.
(___________) Completou vinte primaveras.
(___________) Na primavera os campos florescem.
(___________) O leão procurou o gerente do Metro.
(___________) O metro é uma unidade de comprimento.
(___________) Estava tudo em pé de guerra.
(___________) Ela estava com os pés inchados.
(___________) É órfão de afeto.
(___________) Muito cedo ele ficou órfão de pai.
(___________) Caíram da escada.
(___________) O leão caiu num sono profundo.
(___________) Feriu-se na boca.
(___________) O alpinista conseguiu escalar a montanha.
(___________) Ela disse uma montanha de absurdos.
(___________) Este cavalo venceu a corrida.
(___________) Você foi um cavalo durante a partida.
(___________) O nosso guarda-redes engoliu um frango naquele jogo.
(___________) Correu muito, mas não apanhou o frango carijó.
(___________) A tempestade já conspirava no ar.
(___________) Os cascos do animal tiravam fogo dos seixos do caminho.
(___________) O pescador vinha a chegar.
(___________) O chão era uma confusão desolada de galhos.
(___________) A casa estava no meio de um vale que o sol beijava.
(___________) A varanda corria ao longo da face norte da casa.
(___________) Havia outros cães.

2) Explique: porque é que as expressões com sentido conotativo são muito usadas em
textos poéticos?

3) Responda: ao escrever um texto científico, usa-se a linguagem denotativa ou


conotativa? Justifique a sua resposta.

4) Escreva uma frase com sentido conotativo e uma frase com sentido denotativo para cada
palavra abaixo:

a) gelo b) mundo c) estrela

Gelo:
Conotativo:
________________________________________________________
Denotativo:
_______________________________________________________

Mundo:
Conotativo:
_______________________________________________________
Denotativo:
_______________________________________________________

Estrela:
Conotativo:
_______________________________________________________
Denotativo:
_______________________________________________________
Género Literário

Os Géneros literários são geralmente divididos, desde a Antiguidade, em três


grupos: narrativo ou épico, lírico e dramático. Esta divisão partiu dos filósofos da
Grécia antiga, Platão e Aristóteles, quando iniciaram estudos para o questionamento
daquilo que representaria o literário e como essa representação seria produzida. Essas
três classificações básicas fixadas pela tradição englobam inúmeras categorias menores,
comummente denominadas subgéneros.

O género lírico faz-se, na maioria das vezes, em versos e explora a musicalidade


das palavras. Entretanto, os outros dois géneros — o narrativo e o dramático — também
podem ser escritos nessa forma, embora modernamente se prefira a prosa.

Todas as modalidades literárias são influenciadas pelas personagens, pelo espaço


e pelo tempo. Todos os géneros podem ser ficcionais ou não-ficcionais. Os não-
ficcionais baseiam-se na realidade, e os ficcionais inventam um mundo, onde os
acontecimentos ocorrem coerentemente com o que se passa no enredo da história.

Género narrativo

O género narrativo nada mais faz do que relatar um enredo, sendo ele imaginário
ou não, situado em tempo e lugar determinados, envolvendo uma ou mais personagens,
e assim o faz de diversas formas. As narrativas utilizam-se de diferentes linguagens: a
verbal (oral ou escrita), a visual (por meio da imagem), a gestual (por meio de gestos),
além de outras.

Quanto à estrutura, ao conteúdo e à extensão, pode-se classificar as obras


narrativas em romances, contos, novelas, poemas épicos, crónicas, fábulas e ensaios.
Quanto à temática, às narrativas podem ser histórias policiais, de amor, de ficção, etc.

Todos os textos que englobam foco narrativo, enredo, personagens, tempo e


espaço, conflito, clímax e desfecho são classificados como narrativos.
Textos narrativos

Seguem, abaixo, modalidades textuais pertencentes ao género narrativo.

 Romance: é um texto completo, com tempo, espaço e personagens bem


definidos e de caráter verosímil.
 Fábula: é um texto de caráter fantástico que procura ser inverosímil (não tem
nenhuma semelhança com a realidade). As personagens principais são animais
ou objetos, e a finalidade é transmitir uma lição de moral.

 Epopeia ou Épico: é uma narrativa feita em versos, num longo poema que
ressalta os feitos de um herói ou as aventuras de um povo. Quatro belos
exemplos são O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, Os Lusíadas, de Luís de
Camões, Ilíada e Odisseia, de Homero.

 Novela: é um texto caracterizado por ser intermediário entre a longevidade do


romance e a brevidade do conto. A personagem caracteriza-se existencialmente
em poucas situações. Como exemplos de novelas, podem ser citadas as obras O
Alienista, de Machado de Assis, e A Metamorfose, de Kafka.

 Conto: é um texto narrativo breve, e de ficção, geralmente em prosa, que conta


situações rotineiras, anedotas e até folclores (conto popular). Caracteriza-se por
personagens previamente retratadas.

 Crónica: é uma narrativa informal, ligada à vida quotidiana, com linguagem


coloquial, breve, com um toque de humor e crítica.

 Ensaio: é um texto literário breve, situado entre o poético e o didático, que


expõe ideias, críticas e reflexões morais e filosóficas a respeito de certo tema. É
menos formal e mais flexível que o tratado. Consiste também na defesa de um
ponto de vista pessoal e subjetivo sobre um tema (humanístico, filosófico,
político, social, cultural, moral, comportamental, literário, etc.), sem que se
paute em formalidades como documentos ou provas empíricas ou dedutivas de
caráter científico.
Género lírico

Na maioria das vezes é expresso pela poesia. Entretanto é de grande importância


realçar que nem toda a poesia pertence ao género lírico. Este género preocupa-se
principalmente com o mundo interior de quem escreve o poema, o eu-lírico, que pode
ser também chamado: sujeito lírico, voz lírica ou voz poética. Os acontecimentos
exteriores funcionam como estímulo para o poeta escrever. O que é fundamental num
poema é o trabalho com as palavras, que dá margem à compreensão da emoção, dos
pensamentos, sentimentos do eu-lírico e, muitas vezes, levam à reflexão, portanto,
sendo geralmente escrito na primeira pessoa do singular.

A importância da palavra no poema é tão relevante que é possível aproveitar


toda a riqueza fonética, morfológica e sintática da língua e, através dela, podem
construir-se várias maneiras de provocar sensações no íntimo do leitor. Devido a essa
intensidade de expressão, as obras líricas tendem a ser breves e a acentuar o ritmo e a
musicalidade da linguagem.

Textos líricos

Seguem, abaixo, modalidades textuais pertencentes ao género lírico:


 Ode: é um texto de cunho entusiástico e melódico, em geral, uma música.
 Hino: é um texto de cunho glorificador ou até santificador. Os hinos de países e
as músicas religiosas são exemplos de hinos.

 Soneto: é um texto em poesia com 14 versos, dividido em dois quartetos e dois


tercetos, com rima geralmente em A-B-A-B A-B-B-A C-D-C D-C-D.

 Haicai (ou haiku): é uma forma de poesia japonesa, sem rima, constituídos
normalmente por três versos na ordem de 5-7-5 sílabas.

Género Dramático

É composto por textos que foram escritos para serem


encenados em forma de peça de teatro. Para o texto dramático se
tornar uma peça, deve primeiro ser transformado em roteiro, para depois poder ser
transformado num texto do género espetacular.

É muito difícil ter uma definição de texto dramático que o diferencie dos demais
géneros textuais, já que existe uma tendência atual muito grande em teatralizar qualquer
tipo de texto. No entanto, a principal característica do texto dramático é a presença do
chamado texto principal, composto pela parte do texto que deve ser dito pelos atores na
peça e que, muitas vezes, é induzido pelas indicações cénicas, rubricas ou didascálias,
texto também chamado de secundário, que informa os atores e o leitor sobre a dinâmica
do texto principal. Por exemplo, antes da fala de uma personagem é colocada a
expressão: «com voz baixa», indicando como o texto deve ser falado.

Já que não existe narrador neste tipo de texto, o drama é dividido entre as duas
personagens locutoras, que entram em cena pela citação dos seus nomes.

"Classifica-se por drama toda a peça teatral caracterizada por seriedade, ou solenidade,
em oposição à comédia propriamente dita".

Subclassificações dos géneros

A notícia é um exemplo de texto não literário.

 Elegia — é um texto de exaltação à morte de alguém, sendo que a morte é


elevada como o ponto máximo do texto. Um bom exemplo é a peça Romeu e
Julieta, de William Shakespeare.
 Epitalâmia — é um texto relativo às noites nupciais líricas, ou seja, noites
românticas com poemas e cantigas. Um bom exemplo de epitalâmia é a peça
Romeu e Julieta nas Noites Nupciais.

 Sátira — é um texto de caráter ridicularizador, podendo ser também uma crítica


indireta a algum facto ou a alguém. Uma piada é um bom exemplo de sátira.

 Farsa — é um texto onde as personagens principais podem ser duas ou mais


pessoas diferentes e não serem reconhecidos pelos feitos dessa pessoa.
 Tragédia — representa um facto trágico e tende a provocar compaixão e terror.
SÍNTESE: COMUNICAÇÃO LITERÁRIA

O que faz do homem aquilo que ele é, um ser distinto de todos os demais seres
vivos, é a linguagem, a capacidade de comunicar com os outros homens, partilhando
com eles todo o tipo de informação. Pela linguagem o homem é capaz não apenas de
comunicar (transmitir e receber informações), mas também, e principalmente, de
recolher e tratar dados, elaborando a informação que transmite. Em suma, graças à
linguagem, o homem é capaz de pensar e de comunicar. Pensamento e linguagem estão,
portanto, indissoluvelmente ligados. Podemos dizer que não há pensamento sem
linguagem, nem linguagem sem pensamento,

A Literatura é uma forma particular de comunicação, provavelmente tão antiga como o


homem. Também aqui encontramos um emissor (autor), um recetor (leitor) e
uma mensagem (a obra literária) que circula de um para o outro.

Autor - Texto literário - Leitor

Ao distinguirmos uma variedade específica de comunicação – comunicação literária –


caracterizada por uma mensagem diferenciada, estamos implicitamente a estabelecer
uma oposição entre o texto não literário e o texto literário. Vejamos então de forma
sintética quais são esses traços distintivos.

Texto literário Texto não literário


 Linguagem conotativa  Linguagem denotativa

 Tendência para a subjetividade  Tendência para a objetividade

 Predomínio da função poética  Predomínio da função informativa

 Significante assume valor expressivo  Significante como mero suporte do


significado
 Desvio relativamente à norma
linguística  Respeito pela norma linguística

 Finalidade estética  Finalidade utilitária


 Relação de correspondência com o
 Relação de verosimilhança com o real
real

GÉNEROS LITERÁRIOS

Dissemos atrás que a literatura, entendida como a procura do prazer estético através da
linguagem, é tão antiga como o homem. É uma afirmação arriscada, porque não existem
documentos que a comprovem. Dado que a invenção da escrita é relativamente recente
na história da humanidade, os registos literários mais antigos têm escassos milhares de
anos. Mas sabemos todos que a linguagem oral precede a escrita e, por isso, não
corremos o risco de errar ao afirmarmos que antes das primeiras narrativas serem
registadas pela escrita já existiam contos que os mais velhos transmitiam aos mais
novos; antes da poesia circular em cancioneiros já existiam canções; antes de Ésquilo e
Aristófanes escreverem as suas tragédias e comédias já havia certamente representações
por ocasião das festividades.

Tradicionalmente distinguem-se três géneros literários: o lírico, o narrativo e


o dramático. Os seus traços distintivos podem ser apresentados da seguinte forma:

Expressão do mundo interior


Expressão do mundo exterior
(emoções, sentimentos, estados
(acontecimentos envolvendo personagens)
de alma)
Caráter dinâmico
Caráter estático
(os acontecimentos sucedem-se no decorrer do
(suspensão do fluir do tempo)
tempo)
Acontecimentos Acontecimentos
Género lírico narrados vividos
Género narrativo Género dramático

As formas narrativas mais frequentes são o romance, a novela e o conto. De forma


algo simplista podemos dizer que do romance para o conto há uma progressiva redução
na complexidade da ação, no número de personagens, na diversidade de espaços e na
duração temporal.
Menos frequente, é a epopeia uma narração, geralmente em verso, de acontecimentos
grandiosos com interesse universal ou nacional (p. ex. Os Lusíadas).
EXERCÍCIOS:

01) O género lírico na maioria das vezes é expresso pela:


a) Poesia.
b) Jornal.
c) Cinema.
d) Show.
e) Novela.

02) O género dramático geralmente é composto de textos que foram escritos para
serem encenados em forma de:
a) Música.
b) Peça de teatro.
c) Poesia.
d) Novela.
e) Cinema.

03) Soneto é um texto em poesia com:


a) 10 versos.
b) 12 versos.
c) 13 versos.
d) 14 versos.
e) 11 versos.

04) A sátira é um texto de caráter ridicularizador, podendo ser também uma crítica
indireta a algum facto ou a alguém. Um bom exemplo pode ser:
a) Canção.
b) História.
c) Piada.
d) Filme.
e) Teatro.

05) Geralmente a fábula tem por finalidade transmitir:


a) Alguma lição de moral.
b) Alguma crítica.
c) Alguma história.
d) Alguma mensagem.
e) Algum elogio.

06) Os géneros literários são geralmente divididos em:


a) Real, ficção e comédia.
b) Narrativo, lírico e dramático.
c) Circo, Novela e teatro.
d) Real, sonho e filme.
e) Narrativo, subjetivo e adjetivo.

07) No género narrativo, as narrativas utilizam-se de diferentes linguagens. São


elas:
a) Gestual, conto e romance.
b) Verbal, novela e crónica.
c) Romance, epopeia e novela.
d) Crónica, fábula e conto.
e) Verbal, gestual e visual.

08) Leia abaixo um soneto de Gregório de Matos:


"Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:


A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?


Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,


Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei".

Assinala a alternativa incorreta:


a) A sátira é um género que pretende despertar o riso do público.
b) Além do divertimento, a sátira pretende moralizar a sociedade.
c) Podemos afirmar que este género é conservador.
d) O conservadorismo da sátira está no facto que pretende punir, através do ridículo,
aqueles que transgridem as leis sociais.
e) A sátira é um género revolucionário que pretende abolir as instituições estabelecidas
como a Igreja e a Monarquia.

09) Ainda sobre o soneto acima, assinale a alternativa incorreta:

a) O poeta faz uma brincadeira com as próprias regras do soneto.


b) O personagem é satirizado pois não tem nenhuma qualidade digna de louvor, por
isso, compor o poema é algo penoso e difícil para o poeta.
c) O personagem é cheio de virtudes, o que torna extremamente difícil fazer-lhe um
elogio à altura de suas qualidades.
d) O personagem é vítima da sátira, pois pretende obter honrarias (no caso um soneto)
em sua homenagem para as quais ele não é digno.
e) Ao ridicularizar o personagem, o poeta mantém uma posição conservadora, pois
repõe a ordem social no lugar.

10) O género épico é formado por obras (em verso ou em prosa) de extensão maior,
em que um narrador apresenta personagens envolvidas em situações e eventos. As
grandes navegações portuguesas a partir do século XVI também foram
representadas em versos escritos na literatura portuguesa do século XVI. Qual o
nome mais importante dessa época na literatura portuguesa?
a) José Saramago
b) Eça de Queiroz
c) Luís Vaz de Camões
d) Carlos Drummond de Andrade
e) Paulo Leminski

FIGURAS DE LINGUAGEM

As figuras de linguagem são recursos usados para dar maior ênfase ou sentido à
expressão. O estudo dessas figuras ajuda a entender melhor os recursos utilizados pelos
escritores nos seus textos. Veja algumas das figuras de linguagem mais usadas:

COMPARAÇÃO

É uma comparação, ou seja, uma equivalência real entre um comparante e um


comparado por meio de um termo de comparação, uma frase, palavra ou locução, que
deixa claro a comparação na frase.

EX: Ela é gorda como uma porca.

METÁFORA

A metáfora é uma comparação, mas de maneira indireta, porque não possui


termos específicos de comparação. Ela associa ideias semelhantes, ou seja, usa uma
palavra fora do seu contexto normal para fazer parte de um outro contexto.

EX: O nosso chefe é um leão.

METONÍMIA

Esta é a substituição de um termo por outro com o qual há uma relação de


sentido. Essa relação pode ser:

- Efeito pela causa

EX: Bebeu a morte.


Bebeu veneno.

- Continente pelo conteúdo

EX: Bebeu dois copos

Bebeu duas doses de wisque

- Autor pela obra

EX: Eu li a obra de machado de Assis.

Eu li machado de Assis.

CATACRESE

É como uma metáfora do dia-a-dia. O seu objetivo é desviar uma palavra do seu
sentido próprio para dar nome a outra coisa que não tem nome específico.

EX: Braço do sofá

Perna da mesa.

EUFEMISMO

É usado para amenizar o que é desagradável, através da substituição de palavras


graves e fortes, diretas por outras mais suaves, brandas.

EX: Ela foi desta para melhor. (quer dizer ela morreu)

IRONIA

É o uso de palavras, expressões, mas que querem dizer o contrário do que está
sendo dito.

EX: Com governo honesto e sem corrupção não precisa ter medo do futuro.

ANTÍTESE
É usada para opor dois termos na mesma frase ou parágrafo, enfatizando os seus
contrastes.

EX: Quando estou triste, fico alegre.

ELIPSE

Uma ou mais palavras são omitidas na frase, mas que são subentendidas.

EX: Elas todas no quintal de casa. (Quer dizer que elas todas estavam no quintal
de casa; o verbo estar ficou em elipse.)

ANÁFORA

É a repetição de palavras em intervalos regulares no final ou início de frase,


serve para enfatizar ideias.

EX: Pense em mim

Chore por mim

Liga pra mim

HIPÉRBOLE

Este é o exagero intencional de uma ideia ou sentimento.

EX: A minha casa é um palácio!

PROSOPOPÉIA

É a figura que dá características humanas a seres inanimados, abstratos ou


irracionais. Um exemplo comum: são os filmes onde mostram animais com
características humanas.

EX: O rei leão.


FICHA DE TRABALHO INFORMATIVA Nº 1 – COMO SE DEVE ANALISAR
UM POEMA?

Num comentário poético devem tratar-se os seguintes pontos:

Estrutura externa

Estrutura interna

Linguagem poética

Uma proposta para analisar um poema


1. Análise da estrutura externa ou formal

1.1. Número de estrofes do poema.


1.2. Número de versos por estrofe e classificação.
1.3. Esquema rimático e tipo de rima.
1.4. Número de sílabas métricas.

Há que ter em conta a época em que se contextualiza o poema, pois poderá não respeitar
estes itens de análise. Assim sendo, também é importante salientar a liberdade formal.

2. Análise da estrutura interna ou do conteúdo


2.1. Tema central do poema.
2.2. Assunto desenvolvido.
2.3. Como se distribui o assunto ao longo do poema, em partes, momentos e que
relações se estabelecem entre elas.
2.4. Recursos morfológicos (substantivação, adjetivação, tempos verbais,), sintáticos
(tipos de frases,..) e semânticos (figuras de estilo), que se inscrevem no poema e de que
modo contribuem para a expressividade e enfatização das ideias da mensagem
exprimida pelo «sujeito poético».

Há que ter consciência que um poema é tão aberto e suscetível de tantas análises
diferenciadas quantas as sensibilidades que o olham.
Estrutura externa

Geralmente, o poema apresenta-se em verso. O primeiro a fazer será a análise


métrica do poema, com inclusão de um comentário sobre todos os aspetos
métricos: versos, pausas, acentos, rimas e estrofes. É preciso ter em conta que alguns
poemas não apresentam uma métrica tradicional, mas verso livre, o qual não responde a
nenhum dos aspetos métricos citados.
No verso, indica-se o nome, classificação e origem, (por exemplo: o verso
alexandrino é um verso de arte maior, composto por versos heptassílabos, de origem
medieval). As pausas finais são as que marcam verdadeiramente o verso, por isso se
deve também fazer referência. Pode-se fazer ainda alusão aos ritmos presentes no
poema. A rima é outro aspeto formal importante, não esquecer de assinalar o tipo e o
esquema rimático.
Finalmente, comenta-se a estrofe. Na formulação tradicional são frequentes as
composições de formas fixas: sonetos, p.ex., mas desde o Modernismo que aparecem
esquemas métricos sem esquema fixo, para permitir a livre criação ao poeta.

Estrutura interna

Na estrutura interna analisam-se as diversas partes em que podemos dividir o


conteúdo do poema, adiantando, em parte, o significado do poema. A estrutura interna,
por vezes, está muito ligada à estrutura externa. Muitas vezes são os recursos próprios
da linguagem poética os facilitadores da divisão do poema, porém a sua delimitação é
complexa e necessita que se atenda a diversos aspetos que a seguir se apresentam.

Linguagem poética

A análise da linguagem poética é a parte mais árdua da análise. Apresenta múltiplas


aberturas e os recursos são muito variados, por isso se deve ir analisando os elementos
atribuindo-lhes valores significativos. Apresentar uma enumeração de elementos
poéticos sem valor não tem grande interesse para o comentário do poema. Dizer que o
poema apresenta muitas metáforas, repetições, ou aliterações carece de interesse se não
for acrescentado a expressividade desses recursos. Outro aspeto a evitar é limitar-se a
definir as figuras de estilo, (por exemplo: a aliteração é a repetição de fonemas), isto
não interessa para o comentário.
Para realizar um bom comentário deve-se evitar as listas e explicações que não trazem
nada sobre o texto, o importante é procurar o seu valor poético no poema em análise.
Deve-se sempre referir o valor expressivo das figuras de estilo e o valor expressivo que
apresentam os materiais linguísticos (palavras). Estes dois aspetos são muito
importantes e funcionam quase sempre no mesmo plano.
A seguir apresento alguns elementos que podem servir de guia em qualquer análise
poética. Chamo atenção para o facto de estes elementos poderem não aparecer todos
em todos os poemas, e cada poema imporá a ordem em que se comentam estes
materiais.

Fonologia
O principal recurso fonológico que apresenta o texto já foi abordado na estrutura
externa, pois todos os elementos métricos são fonológicos.
A aliteração, muito presente em muitos poemas pode apresentar valores expressivos
importantes conforme os sons que se repetem.

Morfologia
A Língua oferece múltiplas possibilidades expressivas, apresento algumas mais
significativas:
O substantivo: os valores do substantivo radicam mais do seu significado do que do
seu aspeto morfológico. Talvez que o único aspeto morfológico que interessa mais é a
presença de morfemas apreciativos- diminutivos, aumentativos e depreciativos. Em
todos eles são os valores afetivos que se sobrepõem aos verdadeiramente denotativos. O
poeta não aumenta ou diminui magnitudes, apenas manifesta a sua subjetividade face às
realidades que alude o substantivo.
O adjetivo: Deve ser tido em conta pois as suas possibilidades são muito variadas.
Aumentam segundo a sua função e frequência: desde o adjetivo com função de atributo
aos adjetivos epítetos à volta do nome. A sua colocação face ao nome também é muito
variável: por exemplo os adjetivos valorativos normalmente antepõem-se enquanto os
objetivos se pospõem.
O verbo: Os valores modais, aspectuais e temporais que o verbo oferece são muito
usados por muitos poetas.
Determinantes e pronomes: normalmente unem-se ao verbo para mostrar as pessoas
gramaticais.

Sintaxe
Os recursos sintáticos mais frequentes são: paralelismo, repetição, hipérbato, assíndeto e
polissíndeto.

Semântica.
A maior complexidade dos textos poéticos radica do predomínio dos valores conotativos
frente aos denotativos. Podem remeter para determinados temas constantes em cada
poeta. As figuras literárias presentes no plano semântico são numerosas.

Figuras de pensamento
 Personificação/prosopopeia
 Antítese (contraste de ideias)
 Hipérbole

Tropos
 Metáfora
 Sinestesia
 Comparação
 Metonímia
 Sinédoque

Aspetos a considerar quanto à realização da análise textual

Comentar um texto é verificar o que o autor disse e como o transmitiu, relacionando


ambos os conceitos; é observar as conotações e os sentidos implícitos, interligando-os
com as ideias explícitas; é um momento em que o leitor estabelece afinidade com o
texto que lê, expondo a sua sensibilidade estética, articulando aquilo que o autor disse, o
modo como o fez, com a sua subjetividade de quem analisa e comenta.
O texto deve ser uno e coerente, resultado da articulação de todos os aspetos a tratar,
nos diferentes planos de análise.

As citações devem aparecer entre aspas. Quando não for necessário citar um verso
completo ou uma frase completa deve-se utilizar o sinal [...] no local em que se
interrompe a transcrição. Quando se desejar citar mais do que um verso e essa citação
seguir exatamente a ordem do poema em análise, deverá separar-se os respetivos versos
por meio da utilização de uma barra oblíqua.

A poesia revela sentimentos, estimula a imaginação e apela à sensibilidade. É uma


forma muito particular e própria que cada um de nós tem de ver o Mundo e as coisas.

Para compreenderes melhor o texto poético é importante que tenhas algumas noções que
te ajudarão a apreciar toda a sua beleza.

Verso - cada uma das linhas de um poema.

Estrofe - conjunto de versos. As estrofes têm nomes diferentes conforma o número de


versos.

1 verso - monóstico
2 versos - dístico ou parelha
3 versos - terceto
4 versos – quadra ….

Rima - correspondência de sons nas sílabas finais dos versos. Também há versos soltos
ou brancos em que não se verifica a correspondência de sons. No entanto, a rima é um
elemento importante para o ritmo e a expressividade do poema facilitando, também, a
memorização.

Ritmo - é dado ao poema pela combinação dos sons das palavras. Confere, ao verso,
musicalidade dando expressividade ao poema e tornando mais agradável a sua audição.

FICHA DE TRABALHO INFORMATIVA Nº 2 – NOÇÕES DE VERSIFICAÇÃO


TIPOS DE VERSO:

♦ Monossílabos
♦ Dissílabos
♦ Trissílabos
♦ Tetrassílabos
♦ Pentassílabos
♦ Hexassílabos
♦ Heptassílabos
♦ Octossílabos
♦ Eneassílabos
♦ Decassílabos
♦ Hendecassílabos
♦ Dodecassílabos

A RIMA (identidade ou semelhança de sons em lugares determinados dos versos)

Tanto limão, tanta lima


Tanta silva, tanta amora,
Tanta menina bonita...
Meu pai sem ter uma nora!

♦ rima soante: quando a correspondência de sons é completa (amora / nora).

♦ rima toante: quando há conformidade apenas da vogal tónica, ou das vogais a partir da
tónica (lima / bonita).

A RIMA E O ACENTO: quanto à posição do acento tónico, as RIMAS, como as


palavras, podem ser:

a) AGUDAS
Vinhos dum vinhedo, frutos dum pomar,
Que no céu os anjos regam com luar...
(Guerra Junqueiro)

b) GRAVES
Calçou as sandálias, tocou-se de flores,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores.
(António Nobre)

c) ESDRÚXULAS
No ar lento fumam gomas aromáticas,
Brilham as navetas, brilham as dalmáticas.
(Eugénio de Castro)

RIMA PERFEITA
A rima é uma coincidência de sons, não de letras:

Céu puro que o Sol trouxe


Claro de norte a sul,
O teu olhar é doce,
Negro assim, qual se fosse
Inteiramente azul.
(Alphonsus de Guimaraens)

Há rima perfeita tanto entre sul e azul, como entre as formas trouxe, doce e fosse, que
apresentam a mesma terminação grafada de três maneiras diferentes.

RIMA IMPERFEITA:
Nem sempre há identidade absoluta entre os sons dispostos em rima:
Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz...
(Gonçalves Dias)
RIMA POBRE:

Consideram-se POBRES as rimas feitas com terminações de palavras da mesma classe


gramatical.

Exemplos: infinitivos em –ar;


particípios em –ado;
gerúndios em –ando;
diminutivos em – inho;
advérbios em – mente.
(...)

RIMA RICA
São as rimas que se fazem com palavras de classe
gramatical diversa ou de finais pouco frequentes.
O teu olhar, Senhora, é a estrela da alva
Que entre alfombras de nuvens irradia:
Salmo de amor, canto de alívio, e salva
De palmas a saudar a luz do dia...
(Alphonsus de Guimaraens)

AS DISPOSIÇÕES MAIS FREQUENTES DE RIMAS SÃO AS SEGUINTES:

a) rima cruzada

Poesia é carne e é flores, a


é suor cristalizado, b
trepidação de motores a
num céu diurno e estrelado. b
(António Gedeão)

b) rima emparelhada
Ora, se o filho do alfaiate qualquer dia a
Inaugurava ainda a Quinta dinastia!... a
Eu sentado no trono!... Eu rei de Portugal!... b
Que, rei ou presidente, enfim é tudo igual... b
(Guerra Junqueiro)

c) rima interpolada

Quando perderes o gosto humilde da tristeza, a


Quando, nas horas melancólicas do dia, b
Não ouvires mais os lábios da sombra c
Murmurarem ao teu ouvido d
As palavras de voluptuosa beleza a
Ou de casta sabedoria; b
(Manuel Bandeira)

Não raro, a rima está ausente do texto poético. Os versos tomam então o nome de
versos brancos ou soltos.

Roseira magra
em seiva ardendo
sem folhas
defende com espinhos
áspera
a pequenina flama
do coração exposto.
(Henriqueta Lisboa)

ESTROFES:

Numa composição poética, os versos distribuem-se habitualmente por pequenos


conjuntos – estrofes ou estâncias.
De acordo com o número de versos agrupados, as estrofes tomam nomes particulares:

• estrofes de dois versos – dísticos ou parelhas


• estrofes de três versos – tercetos
• estrofes de quatro versos – quadras
• estrofes de cinco versos – quintilhas
• estrofes de seis versos – sextilhas
• estrofes de sete versos - sétimas
• estrofes de oito versos – oitavas
• estrofes de nove versos - nonas
• estrofes de dez versos – décimas
FICHA DE TRABALHO Nº 3 – NOÇÕES DE VERSIFICAÇÃO

1. Como se denomina uma linha de um poema?


a. Verso
b. Estrofe
c. Linhita
d. Anástrofe
2. Heptassílabo é
a. Um gato com sete vidas.
b. Uma estrofe com sete sílabas métricas.
c. Um verso com sete sílabas métricas.
d. Uma estrofe com sete versos.
3. A um verso com quatro sílabas métricas, chamamos
a. Quadrissílabo
b. Tetrassílabo
c. Quarteto
d. Quadra
4. Alexandrino é
a. Um hendecassílabo.
b. Um verso escrito por Alexandre O´Neil.
c. Um dodecassílabo.
d. Um verso com onze sílabas.
5. A medição das sílabas métricas chama-se
a. Silabação
b. Escansão
c. Topografia
d. Metrificação
6. Uma estrofe com dois versos denomina-se
a. Pentassílabo
b. Dissílabo
c. Dueto
d. Dístico
7. Um eneassílabo é
a. Um verso com seis sílabas métricas
b. Uma sílaba com “n” de letras
c. Um verso com nove sílabas métricas
d. Um verso com onze sílabas métricas
8. No esquema rimático AABB, encontramos rima
a. Interpolada
b. Emparelhada
c. Cruzada e Emparelhada
d. Cruzada
9. Hendecassílabo é
a. Um verso com dez sílabas métricas
b. Um verso com onze sílabas métricas
c. Um verso com trinta sílabas métricas
d. Um verso com doze sílabas métricas
10. No esquema rimático ABCDE, existe
a. Rima interpolada
b. Rima cruzada e interpolada
c. Rima interpolada e emparelhada
d. Rima branca
11. De um poema em que os versos não rimam dizemos que tem
a. Rima livre
b. Rima solta
c. Arrima prima
d. Rima branca
12. Um soneto é uma composição poética
a. Constituída por duas quadras e dois tercetos, geralmente com versos
decassílabos.
b. Constituída por versos que provocam um efeito soporífero.
c. Constituída por duas quadras e um terceto, geralmente com versos
decassílabos.
d. Constituída por duas quadras e dois tercetos, geralmente com versos
tetrassílabos.
13. No esquema rimático ABCBA, encontramos rima
a. Cruzada e Interpolada
b. Emparelhada e Interpolada
c. Interpolada
d. Cruzada
14. À semelhança de sons no final de cada verso ou mesmo no seu interior
chamamos
a. Parecença
b. Coincidência
c. Consonância
d. Rima
15. Que nome se dá a um verso com uma só sílaba métrica?
a. Monossílabo
b. Solitário
c. Monástico
d. Monóstico
16. Uma sétima é
a. Um verso com sete sílabas métricas
b. Uma estrofe com sete sílabas métricas
c. Uma estrofe com sete versos
d. Um conjunto de sete poemas.
17. Verso solto diz-se
a. Do verso libertado por Prometeu
b. Do verso que se escreve no Dia 25 de Abril
c. Do verso que não rima com nenhum outro na estrofe
d. Do verso que fica no final de cada estrofe e rima com o último
18. Anáfora significa repetição
a. De palavras iniciadas por ANA
b. De palavras ou expressões no início de cada verso
c. De ideias ou conceitos em cada estrofe
d. De palavras ou expressões no final de cada verso
19. Que nome se dá a um verso com sete sílabas métricas?
a. Heptassílabo ou Redondilha Menor
b. Sétima
c. Tetrassílabo ou Redondilha Maior
d. Heptassílabo ou Redondilha Maior
20. Uma oitava é
a. Uma estrofe com oito versos
b. Um verso com oito sílabas métricas
c. Um verso que chegou em oitavo lugar
d. Um verso com oito sílabas gramaticais
Miguel Torga

Vida e obra

Nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa


Trás os Montes, aldeia onde cresceu e que o havia de marcar
para toda a vida. De nome Adolfo Correia da Rocha, adotou o
pseudónimo de Miguel Torga (torga é o nome dado à urze
campestre que sobrevive nas fragas das montanhas, com raízes
muito duras infiltradas por entre as rochas).
Depois de uma breve estadia no Porto, frequentou apenas por
um ano, o seminário em Lamego. Em 1920 partiu para o Brasil, onde foi recebido na
fazenda de um tio. Regressou depois a Portugal acompanhado do tio, que se prontificou
a custear lhe os estudos em Coimbra. Em apenas três anos fez o curso do liceu,
matriculando se a seguir na Faculdade de Medicina, onde terminou o curso em 1933.
Exerceu a profissão na terra natal, passou por Miranda do Corvo, mas foi em Coimbra
que alguns anos mais tarde acabou por se fixar. "Atordoado na meninice e escravizado
na adolescência, só agora podia renascer ao pé de cada rebento, correr a par de cada
ribeiro, voar ao lado de cada ave", pouco sociável, mitigou a solidão rodeando se de
livros. Foi logo após ter entrado para a universidade, que deu início à sua obra literária,
com os livros "Ansiedade" e "Rampa".
Só em 1936 passou a usar o pseudónimo que o havia de imortalizar. Desde a década de
trinta até 1944, escreveu uma obra vasta e marcante, em poesia, prosa e teatro. Não
oferecia livros a ninguém, não dava autógrafos ou dedicatórias, para que o leitor fosse
livre ao julgar o texto. Foi várias vezes candidato a Prémio Nobel da Literatura.
Ganhou vários prémios entre eles o Grande Prémio Internacional de Poesia e em 1985
o Prémio Camões. Com ideias que se demarcavam do salazarismo, foi preso e pensou
em sair do país, mas não o fez por se sentir preso à pátria e a Trás os Montes, longe do
qual seria um "cadáver a respirar".
A sua poesia reflete as apreensões, esperanças e angústias do seu tempo. Nos volumes
do seu Diário, em prosa e em verso, encontramos crítica social, apontamentos de
paisagem, esboço de contos, apreciações culturais e também magníficos textos da mais
alta poesia. Toda a sua obra, embora multifacetada, é a expressão de um indivíduo
vibrante e enternecido pelas criaturas, tremendamente ligado à sua terra natal. Faleceu
em 1995. Em 1996 foi fundado o Círculo Cultural Miguel Torga.

Bibliografia: Poesia: "Ansiedade" (1928), "Rampa" (1930), "Tributo" (1931),


"Abismo" (1932), "O outro Livro de Job" (1936), "Lamentação" (1943), "Libertação"
(1944), "Odes" (1946), "Nihil Sibi" (1948), "Cântico do Homem" (1950), "Alguns
Poemas Ibéricos" (1952), "Penas do Purgatório" (1954), "Orfeu Rebelde" (1958),
"Câmara Ardente" (1962), "Poemas Ibéricos" (1965). Ficção: "Pão Ázimo" (1931), "A
Terceira Voz" (1934), "A Criação do Mundo" (5 volumes, 1937 1938 1939 1974 1981),
"Bichos" (contos, 1940), "Contos da Montanha" (1941), "Rua" (1942), "O Senhor
Ventura" (1943), "Novos Contos da Montanha" (1944), "Vindima" (romance, 1945),
"Pedras Lavradas" (contos, 1951), "Traço de União" (1955), "Fogo Preso" (1976).
Teatro: "Terra Firme, Mar" (1941), "O Paraíso" (1949), "Sinfonia" (poema dramático)
(1947). Literatura autobiográfica: "Diário" (16 volumes, 1941 1993), "Portugal" (1950).
A UM NEGRILHO

Na terra onde nasci há um só poeta.


Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação


Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

Miguel Torga

FICHA DE TRABALHO INFORMATIVA Nº 4:

1. Faça a análise do poema “ A um negrilho” de Miguel Torga.


FICHA DE TRABALHO – CONTO DE MIGUEL TORGA

Ladino
Grande bicho, aquele Ladino, o pardal! Tão manhoso, em toda a freguesia, só o
padre Gonçalo. Do seu tempo, já todos tinham andado. O piolho, o frio e o costeio não
poupavam ninguém. Salvo-seja ele, Ladino.
Mas como havia de lhe dar o lampo, se aquilo era uma cautela, um rigor!... E
logo de pequenino. Matulão, homem feito, e quem é que o fazia largar o ninho?! Uma
semana inteira em luta com a família. Erguia o gargalo, olhava, olhava, e - é o atiras dali
abaixo!... A mãe, coitada, bem o entusiasmava. A ver se o convencia, punha-se a fazer
folestrias à volta. E falava na coragem dos irmãos, uns heróis! Bom proveito! Ele é que
não queria saber de cantigas. Ninguém lhe podia garantir que as asas o aguentassem. É
que, francamente, não se tratava de brincadeira nenhuma!
Uma altura! Até a vista se lhe escurecia... O pai, danado, só argumentava às
bicadas, a picá-lo como se pica um boi. Pois sim! Ganhava muito com isso. Não saía,
nem por um decreto. E, de olho pisco, ali ficava no quente o dia inteiro, a dormitar.
Pobre de quem tinha de lho meter no bico...
Contudo, um dia lá se resolveu. Uma pessoa não se aguenta a papas toda a vida.
Mas não queiram saber... Quase que foi preciso um para-quedas.
Mais tarde, quando recordava a cena, ainda se ria. E deliciava-se a descrever as
emoções que sentira. Arrepios, palpitações, tonturas, o rabinho tefe-tefe. E a ver as
coisas baças, desfocadas. Agoniado de todo! Valera-lhe a santa da mãe, que Deus haja.
- Abre as asas, rapaz, não tenhas medo! Força! De uma vez!
Tinha de ser. Fechou os olhos, alargou os braços, e atirou o corpo, num repelão...
Com mil diabos, parecia que o coração lhe saía pelos pés! Ar, então, viste-o.
Deu às barbatanas, aflito.
- Mãe!
Mas afinal não caía, nem o ar lhe faltava, nem coisíssima nenhuma. Ia descendo
como uma pena, graças aos amortecedores. Mais que fosse! No peito, uma frescura fina,
gostosa... Não há dúvida: voar era realmente agradável! E que bonito o mundo, em
baixo! Tudo a sorrir, claro e acolhedor...
A mãe, sempre vigilante e mestra no ofício, aconselhou-lhe então um bonito
antes de aterrar. Dar quatro remadas fundas, em cheio, e, depois, aproveitar o balanço
com o corpo em folha morta, ao sabor da aragem...

Assim fez. Os lambões dos irmãos nem repararam, brutos como animais! A mãe
é que disse sim senhor, com um sorriso dos dela...
E pousou. Muito ao de leve, delicadamente, pousou no meio daquela matulagem
toda, que se desunhava ao redor duma meda de centeio.
Terra! Pisava-a pela primeira vez! Qualquer coisa de mais áspero do que o
veludo do ninho, mas também quente e segura. Deu alguns passos ao acaso, a tirar das
cócegas nos dedos um prazer de que ainda tinha saudades. Depois, comeu. Comeu com
fome e com gula os grãos duros que o sol esbagoava das espigas cheias. Numa bicada
imprecisa, precipitada, foi a ver, engolira uma pedra. Não lhe fez mal nenhum. Pelo
contrário. Ricos tempos! Desde o entendimento ao estômago, estava tudo inocente,
puro. Fosse agora, e era indigestão pela certa. Arrombadinho de todo! Por isso fazia
aquela dieta rigorosa...
Falava assim, e ria-se, o maroto. Nem pejo tinha da mocidade, que o ouvia
deslumbrada.
- A vergonha é a mãe de todos os vícios - costumava dizer.
E tanto fazia a Ti Maria do Carmo pôr espantalho no painço, como não. Ladino,
desde que não lhe acenassem com convite para arrozada numa panela, aos saltinhos ia
enchendo a barriga. Depois, punha-se no fio do correio a ver jogar o fito, como quem
fuma um cigarro. Desmancha-prazeres, o filho da professora aproximava-se a assobiar...
Ah, mas isso é que não. Brincadeiras com fisgas, santa paciência. Ala! Dava corda ao
motor, e ó pernas! Numa salve-rainha, estava no Ribeiro de Anta. Aí, ao menos,
ninguém o afligia. Podia fartar-se em paz de sol e grainha.
- Que mais quer um homem?!
- O compadre lá sabe...
- Bem... Tudo é preciso... São necessidades da natureza... Desde que não se
abuse...
E continuava, muito santanário, a catar o piolho. Depois, metia-se no banho.
- Rica areia tem aqui o cantoneiro, sim senhor!
D. Micas concordava. E só as Trindades o traziam ao beiral da Casa Grande.
Adormecia, então. E a sono solto, como um justo que era, passava a noite.
Acordava de madrugada, quando a manha rompia ao sinal de Tenório, o galo. Isto, no
tempo quente. Porque no frio, caramba!, ou usava duma tática lá sua, ou morria gelado.
Aquelas noites da Campeã, no Janeiro, só pedras é que podiam aguentá-las. E chegava-
se à chaminé. Com o bafo do fogão sempre a coisa fiava de outra maneira.

Ah, lá defender-se, sabia! A experiência para alguma coisa lhe havia de servir. Se
via o caso mal parado, até durante o dia punha o corpo no seguro. Bastava o vento
soprar da serra. Largava a comedoria, e - forro da cozinha! Não havia outro remédio.
Tudo menos uma pneumonia!
A classe tinha realmente um grande inimigo - o inverno. Mal o Dezembro
começava, só se ouviam lamúrias.
- Isto é que vai um ano, Ti Ladino!
A Cacilda, com filhos serôdios, e à rasca para os criar.
- Uma calamidade, realmente. Mas vocês não tomam juízo! É cada ninhada, que
parecem ratas!
- O destino quer assim...
- Lerias, mulher! O destino fazemo-lo nós...
Solteirão impenitente, tinha, no capítulo de saias, uma crónica de pôr os cabelos
em pé. Tudo lhe servia, novas, velhas, casadas ou solteiras. Mas, quando aparecia
geração, os outros é que eram sempre os pais da criança.
- Se todos fizessem como eu...
- Ora, como vossemecê!... Cala-te, boca. Mudemos de conversa, que é melhor...
Segue-se que não sei como lhes hei-de matar a fome... - gemia a desgraçada.
- Calculo a aflição que deve ser...
E o farsante quase que chorava também. Quisesse ele, e a infeliz resolvia num
abrir e fechar de olhos a crise que a apavorava. Pois sim! Olha lá que o safado ensinasse
como se ia ao galinheiro comer os restos!... Enchia primeiro o papo e, depois, a palitar
os dentes, fazia coro com a pobreza.
- É o diabo... Este mundo está mal organizado...
Um monumento! Como ele, só mesmo o padre Gonçalo. Quanto maior era a miséria,
mais anediado andava.
- Aquilo é que tem um peito! Numas brasas, com uma pitada de sal...
Mas já Ladino ia na ponta da unha. Não queria quebrar os dentes de ninguém.
Carne encoirada, durásia... E acrescentava:
- Isto, se uma pessoa se descuida, quando vai a dar conta está feita em torresmos.
Que tempos!
O mais engraçado é que já falava assim há muitos anos, com um sebo sobre as
costelas, que nem cabrito desmamado.
De tal maneira, que o Papo Magro, farto daquela velhice e daquelas manhas, a certa
altura não pôde mais, e até foi malcriado.
- Quando é esse funeral, ti Ladino?
Mas o velho raposão, em vez de se dar por achado, respondeu muito a sério,
como se fizesse um exame de consciência:
- Olha, rapaz, se queres que te fale com toda a franqueza, só quando acabar o
milho em Trás-os-Montes.

Miguel Torga, Os Bichos

I. Interpretação do conto “Ladino”, de Miguel Torga

1. O título do conto que leste é o nome do seu protagonista- um pardal que se comporta
como um ser humano. De acordo com o seu nome, qual é a principal característica da
maneira de ser da personagem?
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________

2. Pela leitura das primeiras linhas fica-se a saber que Ladino é um pássaro resistente. A
que característica psicológica se deve esse facto?

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______________________________________________________________________

3. A história do primeiro voo de Ladino é reveladora da sua maneira de ser. Observa, no


quadro seguinte, a divisão deste episódio em três momentos.
3.1. Atribui um título a cada um, escolhendo entre os seguintes:
♣Segurança ♣Hesitação ♣Decisão

3.2. Responde às perguntas relativas a cada momento.

1º momento (1) “Matulão, homem feito, e quem é que o fazia largar o


ninho?!” O que revela esta frase sobre Ladino?

(2) Descreve a sua relação com os outros membros da


família.

________________

(3) “Pobre de quem tinha de lho meter no bico…”. Explica o


sentido desta frase.

(4) Aponta o motivo que levou Ladino a resolver-se a voar.

a. ⃝ Desejava saber como era pousar na relva.

2º momento b. ⃝ Estava farto de comer apenas o que a mãe lhe dava.

________________ c. ⃝ Queria provar que era tão corajoso como os outros


irmãos.
(5) Transcreve um grupo adverbial e a oração
subordinada que revelam que o primeiro voo ficou para
sempre na memória de Ladino.

3º momento (6) Indica as reações da mãe e dos irmãos ao primeiro voo de


Ladino.

________________

4. Já em adulto, as ações de Ladino continuam a revelar a “cautela” que lhe permite ser
o único “do seu tempo” ainda vivo.
4.1. Refere:
a. a alimentação;
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
b. as noites e os dias de Inverno;

______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
c. a sua relação com os pássaros fêmeas.

______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
5. “Falava assim, e ria-se, o maroto.”
A expressão sublinhada, que o narrador utiliza para referir Ladino, contribui para a
construção do retrato psicológico do pardal.
5.1. Transcreve, da parte final do texto, outras expressões utilizadas.
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
6. A linguagem utilizada no conto apresenta algumas características da oralidade e
marcas de um registo de língua popular. Retira, dos primeiros parágrafos, exemplos
das seguintes características:
a. Construção frásica com elipses;
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
b. Interjeições e expressões populares;
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
c. Frases exclamativas.
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________

7. Faz corresponder os segmentos textuais aos respetivos recursos retóricos:

a. “Do seu tempo, já todos tinham andado.” comparação

b. “Quase que foi preciso um paraquedas.” metáfora

c. “Arrepios, palpitações, tonturas, o rabinho tefe- ironia


tefe.”

enumeração
d. “Deu às barbatanas, aflito.”

eufemismo
e. “Ia descendo como uma pena (…)”
8. O recurso à personificação do pardal poderá ser utilizado para criticar os seres
humanos que têm comportamentos idênticos à personagem.
8.1. Reflete sobre que características humanas são criticadas, indicando os comportamentos
de Ladino que as ilustram.
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________

II- Gramática

1. Classifica as frases do quadro em ativas ou passivas:

Frase ativa Frase passiva


a. O pardal foi alimentado pela mãe até muito tarde.
b. Ladino não abandonava o ninho.
c. A mãe mostrou-lhe a coragem dos irmãos.
d. No fim, Ladino sentiu um grande alívio.
e. Aquele voo seria recordado por ele mais tarde.

2. Transforma as frases passivas em ativas e vice-versa.


2.1. Transcreve os grupos preposicionais com a função sintática de complemento agente
da passiva.

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______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________

3. As frases seguintes são frases ativas em que as formas verbais estão em tempos
compostos. Converte-as em frases passivas, conforme o exemplo:
Ladino terá vencido a preguiça. → A preguiça terá sido vencida por Ladino.
a. O pardal terá visto muitos companheiros esfomeados.
______________________________________________________________
b. O bicho tinha guardado algum milho.
______________________________________________________________
c. Algumas pessoas teriam feito a mesma coisa.
______________________________________________________________

4. Numa frase passiva, nem sempre o complemento agente da passiva está explícito.
Indica a(s) frase(s) em que tal acontece:
a. Ladino foi elogiado pela mãe.
b. As suas habilidades no ar foram ignoradas.
c. No Ribeiro de Anta, o pardal não era incomodado.

5. Indica a que classe e subclasse pertencem as palavras da frase “Grande bicho, aquele
Ladino, o pardal!”
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______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________

5.1. Refere a subclasse dos nomes apresentados:


Ladino freguesia frio família asa mãe vergonha Gonç
alo
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________

6. Identifica as funções sintáticas desempenhadas pelos enunciados sublinhados:

“O piolho, o frio e o costelo não poupavam ninguém.”


2) “(…) e quem é que o fazia largar o ninho?”

3) “A vergonha é a mãe de todos os vícios”

sujeito

4) “A mãe, coitada, bem o entusiasmava.”

predicado

5) “Pobre de quem tinha de lho meter no bico.”

complemento direto

6) (…) e, depois, aproveitar o balanço com o corpo(…)”

complemento indireto

7) “Depois, punha-se no fio do correio a ver jogar o fito (…)”

complemento oblíquo

8) “Numa salve-rainha estava no Ribeiro de Anta.”

9) “Depois, metia-se no banho.”

10 “Acordava de madrugada, quando a manhã rompia (…)”

7. Identifica o tempo e o modo verbais dos verbos das frases:


a. “O piolho, o frio e o costelo não poupavam ninguém.”
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
b. “―Abre as asas, rapaz, não tenhas medo!”
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
d. “Deu às barbatanas, aflito.”
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______________________________________________________________________
e. “Mais que fosse!”
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David Mourão Ferreira

Escritor e professor universitário português, natural de Lisboa.


Licenciou-se em Filologia Românica em 1951. Foi professor do
ensino técnico e do ensino liceal e, em 1957, iniciou a sua
carreira de professor universitário na Faculdade de Letras de
Lisboa. Afastado desta atividade entre 1963 e 1970, por motivos
políticos, foi professor catedrático convidado da mesma
instituição a partir de 1990.

Entretanto, mantivera nos anos 60 programas culturais de rádio e televisão. Em 1963


foi eleito secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores e, já nos anos 80,
presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Logo após o 25 de Abril de 1974,
foi diretor do jornal A Capital. Secretário de Estado da Cultura em vários governos entre
1976 e 1978, foi também diretor-adjunto do jornal O Dia entre 1975 e 1976.
Responsável pelo Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste
Gulbenkian a partir de 1981, dirigiu, desde 1984, a revista Colóquio/Letras, da mesma
instituição.

A sua carreira literária teve início em 1945, com a publicação de alguns poemas na
revista Seara Nova. Três anos mais tarde, ingressou no Teatro-Estúdio do Salitre e no
Teatro da Rua da Fé. Publicou as peças Isolda (1948), Contrabando (1950) e O Irmão
(1965). Em 1950, foi um dos cofundadores da revista literária Távola Redonda, que se
assumiu como veículo de uma alternativa à literatura empenhada, de realismo social,
que então dominava o panorama cultural português, defendendo uma arte autónoma.

Em 1950, publicou o seu primeiro volume de poesia — Secreta Viagem. David


Mourão-Ferreira colaborou ainda nas revistas Graal (1956-1957) e Vértice e em vários
jornais, como o Diário Popular e O Primeiro de Janeiro. Foi poeta, romancista, crítico e
ensaísta.
A sua poesia caracteriza-se pelas presenças constantes da figura da mulher e do amor, e
pela busca deste como forma de conhecimento, sendo considerado como um dos poetas
do erotismo na literatura portuguesa.

A vivência do tempo e da memória são também constantes na sua obra, marcada, a


nível do estilo, por uma demanda permanente de equilíbrio, de que resulta uma escrita
tensa, e pela contenção da força lírica e sensível do poeta numa linguagem rigorosa,
trabalhada, de grande riqueza rítmica, melódica e imagística, que fazem dele um
clássico da modernidade.

Entre os seus livros de poesia encontram-se Tempestade de verão (1954, Prémio Delfim
Guimarães), Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Memoriam Memoriae (1962),
Infinito Pessoal ou A Arte de Amar (1962), Do Tempo ao Coração (1966), A Arte de
Amar (1967, reunião de obras anteriores), Lira de Bolso (1969), Cancioneiro de Natal
(1971, Prémio Nacional de Poesia), Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), As
Lições do Fogo (1976), Obra Poética (1980, inclui as obras À Guitarra e À Viola e
Órfico Ofício), Os Ramos e os Remos (1985), Obra Poética, 1948-1988 (1988) e
Música de Cama (1994, antologia erótica com um livro inédito). Ensaísta notável,
escreveu Vinte Poetas Contemporâneos (1960), Motim Literário (1962), Hospital das
Letras (1966), Discurso Direto (1969), Tópicos de Crítica e de História Literária (1969),
Sobre Viventes (1976), Presença da «Presença» (1977), Lâmpadas no Escuro (1979), O
Essencial Sobre Vitorino Nemésio (1987), Nos Passos de Pessoa (1988, Prémio Jacinto
do Prado Coelho), Marguerite Yourcenar: Retrato de Uma Voz (1988), Sob o Mesmo
Teto: Estudos Sobre Autores de Língua Portuguesa (1989), Tópicos Recuperados
(1992), Jogo de Espelhos (1993) e Magia, Palavra, Corpo: Perspetiva da Cultura de
Língua Portuguesa (1989). Na ficção narrativa, estreou-se em 1959 com as novelas de
Gaivotas em Terra (Prémio Ricardo Malheiros), os contos de Os Amantes (1968), e
ainda As Quatro Estações (1980, Prémio da Crítica da Associação Internacional dos
Críticos Literários), Um Amor Feliz, romance que o consagrou como ficcionista em
1986 e que lhe valeu vários prémios, entre os quais o Grande Prémio de Romance da
APE e o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, e Duas Histórias de Lisboa
(1987). Deixou ainda traduções e uma gravação discográfica de poemas seus intitulada
«Um Monumento de Palavras» (1996). Alguns dos seus textos foram adaptados à
televisão e ao cinema, como, por exemplo, Aos Costumes Disse Nada, em que se baseou
José Fonseca e Costa para filmar, em 1983, «Sem Sombra de Pecado».

David Mourão-Ferreira foi ainda autor de poemas para fados, muitos deles celebrizados
por Amália Rodrigues, tal como «Madrugada de Alfama». Recebeu, em 1996, o Prémio
de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

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FICHA DE TRABALHO Nº5

Penélope

Mais do que um sonho: comoção!


sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,


que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,


e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David Mourão Ferreira

Exercícios:

1. Atente nos elementos textuais que se ligam à ação de tecer.


1.1. Faça o levantamento de todos esses elementos.

1.2. Agrupe-os segundo a classe gramatical a que pertencem.

2. Na sua opinião, quais os versos essenciais à compreensão do poema?

3. Explique o sentido do título do poema.

4. Atribua outro título ao poema, apresentando as razões da sua escolha.

5. Explique a relação eu/tu expressa no poema, partindo do valor expressivo de


“manto” e de “pudor”.

6. Relacione as primeiras afirmações do eu poético com a certeza que ele enuncia


no final do poema.

7. De que forma a última estrofe pode constituir surpresa?


Manuel Alegre

Vida e obra

Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu a 12 de maio de 1936 em


Águeda. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde foi
um ativo dirigente estudantil. Apoiou a candidatura do General
Humberto Delgado. Foi fundador do CITAC – Centro de
Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, membro do TEUC –
Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, campeão
nacional de natação e atleta internacional da Associação
Académica de Coimbra. Dirigiu o jornal A Briosa, foi redator da revista Vértice e
colaborador de Via Latina.

A sua tomada de posição sobre a ditadura e a guerra colonial levam o regime de Salazar
a chamá-lo para o serviço militar em 1961, sendo colocado nos Açores, onde tenta uma
ocupação da ilha de S. Miguel, com Melo Antunes. Em 1962 é mobilizado para Angola,
onde dirige uma tentativa pioneira de revolta militar. É preso pela PIDE em Luanda, em
1963, durante 6 meses. Na cadeia conhece escritores angolanos como Luandino Vieira,
António Jacinto e António Cardoso. Colocado com residência fixa em Coimbra, acaba
por passar à clandestinidade e sair para o exílio em 1964.

Passa dez anos exilado em Argel, onde é dirigente da Frente Patriótica de Libertação
Nacional. Aos microfones da emissora A Voz da Liberdade, a sua voz converte-se num
símbolo de resistência e liberdade. Entretanto, os seus dois primeiros livros, Praça da
Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967) são apreendidos pela censura, mas passam
de mão em mão em cópias clandestinas, manuscritas ou datilografadas. Poemas seus,
cantados, entre outros, por Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire e
Luís Cília, tornam-se emblemáticos da luta pela liberdade. Regressa finalmente a
Portugal em 2 de maio de 1974, dias após o 25 de Abril.

Entra no Partido Socialista onde, ao lado de Mário Soares, promove as grandes


mobilizações populares que permitem a consolidação da democracia e a aprovação da
Constituição de 1976, de cujo preâmbulo é redator.
Deputado por Coimbra em todas as eleições desde 1975 até 2002 e por Lisboa a partir
de 2002, participa no I Governo Constitucional formado pelo Partido Socialista.
Dirigente histórico do PS desde 1974, é Vice-Presidente da Assembleia da República
desde 1995 e é membro do Conselho de Estado (de 1996 e 2002 e de novo em 2005). É
candidato a Secretário-geral do PS em 2004, naquele que foi o mais participado
Congresso partidário de sempre.

Em 2005 candidatou-se à Presidência da República, como independente e apoiado por


cidadãos, tendo obtido mais de 1 milhão de votos nas eleições presidenciais de 22 de
janeiro de 2006, ficando em segundo lugar e à frente de Mário Soares, o candidato então
apoiado pelo PS.

Em 23 de julho de 2009 despediu-se do lugar de Deputado, que ocupou durante 34 anos


e que deixou por vontade própria nas legislativas de setembro. Foi reeleito para o
Conselho de Estado em novembro de 2009.

É sócio correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências, eleito em março


de 2005.

Em abril de 2010, a Universidade de Pádua inaugura a Cátedra Manuel Alegre,


destinada ao estudo da Língua, Literatura e Cultura Portuguesas.

Tem edições da sua obra em italiano, espanhol, alemão, catalão, francês, romeno e
russo.

Em janeiro de 2010, Manuel Alegre anuncia a sua disponibilidade para travar o combate
das presidenciais em 2011 e em maio de 2010 apresenta formalmente a sua candidatura
à Presidência da República.

FICHA DE TRABALHO INFORMATIVA Nº6

Atente no poema.

CANTAR A LIBERDADE

«Trova do Vento que Passa»


Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam


tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas


ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas


pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa


por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos


direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada


ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada


e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada


só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo


se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro


dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia


dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

ManuelAlegre
Sophia Mello Breyner Andersen

Sophia de Mello Breyner Andersen (Porto, 6 de


novembro de 1919 - Lisboa, 2 de julho de 2004) foi uma das
mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a
primeira mulher portuguesa a receber o mais importante
galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões,
em 1999.

Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno. O seu avô, Jan Henrik Andresen,
desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região, tendo o seu filho
João Henrique comprado, em 1895, a Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico
do Porto. Como afirmou em entrevista, em 1993, essa quinta "foi um território fabuloso
com uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa".

Criada na velha aristocracia portuense, educada nos valores éticos e cristãos, dirigente
de movimentos universitários católicos, veio a tornar-se uma das figuras mais
representativas de uma atitude política liberal, apoiando o movimento monárquico e
denunciando o regime salazarista e os seus seguidores. Ficou célebre a sua Cantata da
Paz "Vemos, Lemos e Ouvimos. Não podemos ignorar!" Casou-se, em 1946, com o
jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e foi mãe de cinco filhos, um
dos quais é Miguel Sousa Tavares.

Em 1964 recebeu o Grande Prémio de Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores


pelo seu livro Livro sexto. Em 1975, foi eleita para a Assembleia Constituinte pelo
círculo do Porto numa lista do Partido Socialista, enquanto o seu marido navegava rumo
ao Partido Social Democrata.

Distinguiu-se também como contista (Contos Exemplares) e autora de livros infantis (A


Menina do Mar, O Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, O Rapaz de Bronze, A Fada
Oriana, etc.). Foi também tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare. Para além do
Prémio Camões, foi também distinguida com o Prémio Rainha Sofia, em 2003.
Sophia de Mello Breyner morreu aos 84 anos no dia 2 de julho de 2004 no Hospital da
Cruz Vermelha.

Bibliografia:

Poesia;

Prosa;

Contos para crianças;

Antologias organizadas pela autora;

Teatro;

Ensaios,

Traduções

Sobre a poesia de Sophia…

Sophia diz que «o poeta é um escutador». Esta expressão relembra outras formulações
como a de Fernando Pessoa: «o poeta é um fingidor», ou a de Vitorino Nemésio: «O
poeta é um mostrador». Para Sophia, a poesia é a «arte mágica do ser» e o poeta «o
sacerdote», o «mago», que se compromete com o sofrimento do mundo.

Se o poema nasce de um estado de atenção, o ato poético é o fruto de uma «revelação


mágica» e constitui uma forma de comunhão com a Musa, o sobrenatural, o Absoluto, o
outro lado da natureza. Então, as palavras que integram os poemas não são apenas a
matéria-prima, elas são o «nome das coisas» e estabelecem uma aliança com o real, elas
são o seu espelho vivo.

Algumas das suas composições são interpretações de obras de arte ou homenagens a


poetas ou outros artistas (Fernando Pessoa, Camões, Cesário Verde, Vieira da Silva,
Arpad Szenes, etc.) que põem em evidência a sua admiração por aqueles que são
privilegiados pelas Musas, que são sacerdotes do Absoluto, e mostram principalmente o
seu fascínio pela arte clássica.

A praia, o mar, o jardim, a casa são evocações de imagens da infância e


da juventude e representam momentos inesquecíveis do desenvolvimento do seu ser.

O tempo, em Sophia, é um «tempo dividido» entre o presente e o futuro, sendo o


primeiro o tempo de agir na construção do segundo. A este tempo contrapõe-se o tempo
absoluto que se espelha na natureza, no mar, no infinito.

A noite é para esta poetisa «o espaço imenso» que lhe permite uma libertação pelo
sonho.

A cidade é também uma confusão que impede a procura da perfeição e da harmonia e


do equilíbrio, referências do mundo antigo.

É justamente a esta noção clássica de equilíbrio, que é associado o sentimento


de justiça e de verdade.

O tema do amor assume na sua obra vários aspetos: o amor-posse, o amorfraternidade,


o amor-paixão. Está quase sempre ligado ao tema da espera, que denuncia um
certo sebastianismo, igualmente presente em Fernando Pessoa (na Mensagem), e que,
frequentemente, apela à vinda de um Salvador que é como que um refúgio na esperança.
Fernando Pessoa foi para Sophia uma referência e é evocado e invocado em muitos dos
seus poemas.

FICHA DE TRABALHO Nº 7

I. Após ter lido atentamente as informações Sobre a poesia… responda, agora, às


questões que se seguem:

1. Indique os núcleos temáticos da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen.


2. O texto supracitado apresenta-nos várias definições de “poeta”. Identifique-as.

3. Explique, por palavras suas a afirmação de Sophia “ O poeta é um escutador”.

II. Leia atentamente o poema que se segue:

CIDADE DOS OUTROS

Uma terrível atroz imensa


Desonestidade
Cobre a cidade

Há um murmúrio
Uma telegrafia
Sem gestos sem sinais sem fios

O mal procura o mal e ambos se entendem


Compram e vendem

E com um sabor a coisa morta


A cidade dos outros
Bate à nossa porta.

1. Identifique o tema do poema. A temática tratada é comum surgir na poesia de Sophia?


2- Como caracteriza, Sophia, a cidade?
3. Explique, por palavras suas a última estrofe do poema.
4. Analise o poema «Cidade», tendo em conta os seguintes aspetos:
- desejo de evasão no texto;
- caracterização do espaço da cidade;
- relação que o «eu» estabelece com o «tu» a quem se dirige;
- integração no universo poético da autora.

5. Faça uma pequena dissertação a partir das afirmações de Sophia de Mello Breyner
Andresen:
1. “ O verdadeiro desenvolvimento só nascerá do desenvolvimento cultural de toda a
população de cada país. E essa é a grande transformação que poderá salvar o mundo em
que estamos”.

2. “É a cultura que ensina o homem a escolher, a criar e a construir a própria vida, em


vez de a suportar”.

FICHA DE TRABALHO Nº 8
PORQUE
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem


E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos


E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Agora responda ao seguinte questionário:


O poema desenvolve-se em torno de uma oposição.
1. Identifique os elementos que o sujeito poético opõe.
2. Sinalize a conjunção e o advérbio que marcam essa oposição.
3. Ligue os nomes que se seguem ao elemento a que se referem:
dissimulação
falsidade/hipocrisia
ousadia
medo
denúncia
os outros cedência tu
aventura/risco
honestidade
calculismo
Ruy Belo

Vida e Obra
Ruy Belo Nascimento nasceu em 1933 e veio a falecer em
Lisboa, em 1978. Poeta e ensaísta, natural de São João da
Ribeira, Rio Maior, licenciado em Filologia Românica e em
Direito pela Universidade de Lisboa, obteve o grau de
doutor em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana
de Roma, com uma tese intitulada Ficção Literária e
Censura Eclesiástica. Exerceu, ainda que por pouco tempo,
o cargo de diretor-adjunto no então Ministério da Educação Nacional, mas o seu
relacionamento com opositores ao regime da época, a participação na greve académica
de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pelas listas da Comissão Eleitoral de
Unidade Democrática (CEUD), levaram a que as suas atividades fossem vigiadas e
condicionadas.

Ocupou, ainda, um lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid (1971-


1977). Regressado, então, a Portugal, foi-lhe recusada a possibilidade de lecionar na
Faculdade de Letras de Lisboa, dando aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino
noturno. Faleceu um ano mais tarde, aos 45 anos.

E tudo era possível

Na minha juventude antes de ter saído


da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido


o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida


e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança


entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo

FICHA DE TRABALHO Nº9

1. O texto está claramente marcado por um “antes” e um “agora”.

1.1. A que momentos da vida do eu correspondem o “antes” e o “agora”?

1.2. Que acontecimento separa esses momentos?

1.3. Que fontes de conhecimento estão ligadas a cada um desses momentos?

2. “e tudo era possível era só querer”.

2.1. Retire do texto as expressões que, simbolicamente, reenviam para essa


ideia.

2.2. Pode dizer-se que o verso transcrito se refere aos dois momentos acima
referidos. Como?

2.3. Que efeito se tira do emprego do pretérito imperfeito nesse verbo e no


poema.

3. Que importância teve para o eu o facto de ter “viajado”?


Eugénio de Andrade

Passamos pelas coisas sem as ver,


Gastos, como animais envelhecidos:
Se alguém chama por nós não respondemos,
Se alguém nos pede amor não estremecemos,
Como frutos de sombra sem sabor,
Vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Vida e obra de Eugénio de Andrade

Poeta português, nasceu em 19 de janeiro de 1923 em Póvoa de Atalaia, Fundão, no seio


de uma família de camponeses. A sua infância foi passada com a mãe, na sua aldeia
natal. Mais tarde, prosseguindo os estudos, foi para Castelo Branco, Lisboa e Coimbra,
onde residiu entre 1939 e 1945. Em 1947, ingressou nos quadros do Ministério da
Saúde como inspetor-administrativo dos Serviços Médico-Sociais, onde permaneceu até
1983. Em 1950 foi transferido para o Porto, onde fixou residência.

Abandonou a ideia de um curso de Filosofia para se dedicar à poesia e à escrita,


atividades pelas quais demonstrou desde cedo profundo interesse, a partir da descoberta
de trabalhos de Guerra Junqueiro e António Botto. Camilo Pessanha constituiu outra
forte influência do jovem poeta Eugénio de Andrade.

Embora não se integre em nenhum dos movimentos literários que lhe são
contemporâneos, não os ignorou, mostrando-se solidário com as suas propostas teóricas
e colaborando nas revistas a eles ligadas, como Cadernos de Poesia; Vértice; Seara
Nova; Sísifo; Gazeta Musical e de Todas as Artes; Colóquio, Revista de Artes e Letras;
O Tempo e o Modo e Cadernos de Literatura, entre outras.

A sua poesia caracteriza-se pela importância dada à palavra, quer no seu valor
imagético, quer rítmico, sendo a musicalidade um dos aspetos mais marcantes da
poética de Eugénio de Andrade, aproximando-a do lirismo primitivo da poesia galaico-
portuguesa ou, mais recentemente, do simbolismo de Camilo Pessanha.
O tema central da sua poesia é a figuração do Homem, não apenas do eu individual,
integrado num coletivo, com o qual se harmoniza (terra, campo, natureza - lugar de
encontro) ou luta (cidade - lugar de opressão, de conflito, de morte, contra os quais se
levanta a escrita combativa).

A figuração do tempo é, assim, igualmente essencial na poesia de Eugénio de Andrade,


em que os dois ciclos, o do tempo e o do Homem, são inseparáveis, como o comprova,
por exemplo, o paralelismo entre as idades do homem e as estações do ano. A evocação
da infância, em que é notória a presença da figura materna e a ligação com os elementos
naturais, surge ligada a uma visão eufórica do tempo, sentido sempre, no entanto,
retrospetivamente. A essa euforia contrapõe-se o sentimento doloroso provocado pelo
envelhecimento, pela consciência da aproximação da morte (assumido sobretudo a
partir de Limiar dos Pássaros), contra o qual só o refúgio na reconstituição do passado
feliz ou a assunção do envelhecimento, ou seja, a escrita, surge como superação
possível. Ligada à adolescência e à idade madura, a sua poesia caracteriza-se pela
presença dos temas do erotismo e da natureza, assumindo-se o autor como o «poeta do
corpo». Os seus poemas, geralmente curtos, mas de grande densidade, e aparentemente
simples, privilegiam a evocação da energia física, material, a plenitude da vida e dos
sentidos.

Foi galardoado com o Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores,


atribuído a O Outro Nome da Terra (1988), e com o Prémio de Poesia Jean Malrieu, por
Branco no Branco (1984). Recebeu ainda, em 1996, o Prémio Europeu de Poesia. Foi
criada, no Porto, uma fundação com o seu nome.

Autor de uma importante obra poética, podem referir-se os seguintes títulos:

Adolescente (1942); As Mãos e os Frutos (1948); Os Amantes sem Dinheiro (1950); As


Palavras Interditas (1951); Até Amanhã (1956); Conhecimento da Poesia (1958); O
Coração do Dia (1958); Os Afluentes do Silêncio (1968); Obscuro Domínio (1971);
Limiar dos Pássaros (1972); Véspera da Água (1973); Memória de Outro Rio (1978);
Matéria Solar (1980); O Peso da Sombra (1982); Poesia e Prosa, 1940-1989 (1990), O
Sal da Língua (1995), Alentejo (1998), Os Lugares do Lume (1998) e Antologia Pessoal
de Poesia Portuguesa (1999). Organizou ainda, várias antologias, como a que dedicou
ao Porto (Daqui Houve Nome Portugal, 1968) e a Antologia Breve (1972). Em 2000,
publica Poesia. Escreveu também livros para crianças. É um dos poetas portugueses
mais traduzidos para outras línguas.

Em 1982, o Governo português atribuiu-lhe o grau de Grande Oficial da Ordem de


Santiago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito em 1988. Em 1986, recebeu o
Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários. Em 1996, recebeu o Prémio
Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (Jugoslávia).

Em 1999 organizou a obra Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa.

Em maio de 2000, recebeu o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de


Escritores, entregue pelo Presidente da República. O prémio distingue todo o percurso e
toda a obra do escritor. Também recebeu, no mesmo ano, o Prémio Estremadura de
criação literária e o Prémio Celso Emilio Ferreiro, para autores ibéricos.

Em fevereiro de 2001, Eugénio de Andrade recebeu o Prémio Celso Emilio Ferreiro, na


Galiza. Em maio, Eugénio de Andrade foi homenageado no Carrefour des Littératures,
em França. Em julho, foi atribuído ao poeta o Prémio Camões, que se mostrou
satisfeito, quer pelo prestígio do galardão, quer por ver o seu nome associado ao de Luís
de Camões.

No mesmo ano publicou Os Sulcos da Sede, distinguida com o prémio de poesia do Pen
Clube Português.

Faleceu a 13 de junho de 2005, no Porto, após uma doença neurológica prolongada.


FICHA DE TRABALHO Nº 10

A CASA DOS POETAS

http://www.fundacaoeugenioandrade.pt/index3.htm

No Porto a Fundação Eugénio de Andrade é um espaço não só dedicado ao poeta mas


também habitado por ele. O sítio oferece informações sobre a vida e a obra de Eugénio
de Andrade e permite visionar um portefólio de retratos e desenhos feitos por vários
artistas e dedicados ao poeta. Destacam-se também trinta poemas, com versões em
várias línguas.

1. Investigue que poetas portugueses tem casas-museu.


2. Destaque a casa de Eugénio de Andrade.
3. Procure poemas deste autor que tenham a ver com os lugares em que ele
habitou.
4. Selecione o poema que melhor traduza o espaço intimo de habitação do poeta-
cidadão.
José Gomes Ferreira

Vida e obra:

Escritor, poeta e ficcionista português, natural do Porto.


Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na
Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal,
enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de
vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova
e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo
do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das
afinidades entre a sua obra e o neorrealismo. José Gomes
Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas
reações e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa
influências tão variadas quanto a do empenhamento neorrealista, o visionarismo
surrealista ou o saudosismo, numa dialética constante entre a irrealidade e a realidade,
entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos
outros.

Da sua obra poética destacam-se, para além do volume de estreia, Lírios do Monte
(1918), Poesia, Poesia II e Poesia III (1948, 1950 e 1961, respetivamente), recebendo
este último o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. A sua
obra poética foi reunida em 1977-1978, em Poeta Militante. O seu pendor jornalístico
reflete-se nos volumes de crónicas O Mundo dos Outros (1950) e O Irreal Quotidiano
(1971). No campo da ficção escreveu O Mundo Desabitado (1960), Aventuras de João
Sem Medo (1963), Imitação dos Dias (1966), Tempo Escandinavo (1969) e O Enigma
da Árvore Enamorada (1980). O seu livro de reflexões e memórias A Memória das
Palavras (1965) recebeu o Prémio da Casa da Imprensa. É ainda autor de ensaios sobre
literatura, tendo organizado, com Carlos de Oliveira, a antologia Contos Tradicionais
Portugueses (1958).

Em junho de 2000, foi lançada no porto a coletânea Recomeço Límpido, que inclui
versos e prosas de dezenas de autores em homenagem a José Gomes Ferreira
FICHA DE TRABALHO Nº 11

Devia morrer-se de outra maneira.


Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (veem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

Questionário:

1. Como vê o Poeta a morte?

2. Há uma forma diferente de morte nos versos de um poeta? Explique por palavras
suas.

3. O que podemos aprender com a lição de vida do Poeta?


Carlos de Oliveira

Vida e obra

Carlos Alberto Serra de Oliveira nasceu a 10 de agosto de


1921, em Belém do Pará (Brasil) e morreu em Lisboa a 1 de
julho de 1981. Filho de emigrantes portugueses, apenas
passou os dois primeiros anos de vida no Brasil. Em 1923, a
família regressou a Portugal para se fixar na pequena aldeia
de Febres (Gândara) e o pai prosseguir aí o exercício de
Medicina. Dez anos mais tarde, já depois de concluída a instrução primária, Carlos de
Oliveira mudou-se para Coimbra a fim de frequentar e de concluir os estudos liceal e
universitário. Ingressou na Faculdade de Letras em 1941, acabando mais tarde por se
licenciar em Ciências Histórico-Filosóficas.

Durante os 15 anos que permaneceu em Coimbra, o poeta e escritor criou e desenvolveu


uma de sólida amizade, de convívio intelectual e de solidariedade ideológica com outros
jovens universitários, nomeadamente Joaquim Namorado, Fernando Namora e João
Cochofel. Enquanto estudante integrou um grupo de intelectuais reclamadores de um
novo conceito ético e estético, ou seja, de um novo humanismo. Foi, também, por esta
altura que começou a colaborar nas redações das revistas Vértice e Seara Nova.

Em 1968 publica dois novos livros de poesia, Sobre o Lado Esquerdo e Micropaisagem
e colabora com Fernando Lopes no filme por este realizado e terminado em 1971, Uma
Abelha na Chuva, a partir da obra homónima. Publica em 1971 O Aprendiz de
Feiticeiro, coletânea de crónicas e artigos, e Entre Duas Memórias, livro de poemas,
pelo qual lhe é atribuído no ano seguinte o Prémio de Imprensa. Em 1976 reúne toda a
sua poesia em Trabalho Poético, dois volumes, apresentando os livros anteriores,
revistos, e os poemas inéditos de Pastoral, livro que será publicado autonomamente no
ano seguinte. Publica em 1978 o seu último romance Finisterra, paisagem povoada de
inspiração gandaresa, obra que lhe proporciona a atribuição do Prémio Cidade de
Lisboa, no ano seguinte.

Morre na sua casa em Lisboa a 1 de julho de 1981.


Obras:
Poesia: Turismo (1942); Mãe Pobre (1945); Colheita Perdida (1948); Descida aos
Infernos (1949); Terra de Harmonia (1950); Cantata (1960); Micropaisagem (1968,
1969); Sobre o Lado Esquerdo, o Lado do Coração (1968, 1969); Entre Duas Memórias
(1971); Pastoral (1977).
Romance: Casa na Duna (1943; 2000); Alcateia (1944; 1945); Pequenos Burgueses
(1948; 2000); Uma Abelha na Chuva (1953; 2003); Finisterra: paisagem e povoamento
(1978; 2003).
Crónicas: O Aprendiz de Feiticeiro (1971, 1979).
Antologia: Poesias (1945-1960) (1962); Trabalho Poético (1976; 2003).

Carta da infância
Amigo Luar:

Estou fechado no quarto escuro


e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.
Carlos de Oliveira
FICHA DE TRABALHO Nº 12

1. Atente na relação claro/escuro.

1.1. Associe essa relação aos localizadores espaciais presentes no texto.


1.2. Determine os elementos textuais ligados a claro e a escuro.
1.3. Refira-se ao verdadeiro significado de “quarto escuro”.
1.4. Explique a relação de “quarto escuro” com o mundo da infância.
1.5. Clarifique, agora, o sentido da oposição noite/luar-luz.

2. Ligue o emprego do pronome “eles” à intenção que subjaz a esta “Carta da infância”.

3. Como se explica esta opção por uma “carta da infância”?


BIBLIOGRAFIA

 Breve dicionário de Autores Portugueses, Verbo


 Cintra, Lindley e Cunha, Celso (1999): Breve Gramática do Português
Contemporâneo, Lisboa,
 Coelho, Jacinto do Prado, Dicionário da Literatura Portuguesa, Edições João Sá
da Costa, 12ª Edição
 Guimarães, Fernando, Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, Porto, Lello &
Irmãos, 1992.
 Lopes, Óscar, Entre Fialho e Nemésio, Estudos de Literatura Contemporânea,
vol. II, Lisboa, IN-CM, 1987
 Matos, Maria Vitalina Leal de, Introdução aos Estudos Literários, lisboa, verbo,
2001.
 Meneses, Salvato Telles de, O que é a Literatura, Lisboa, difusão Cultural,
1993.
 Obras de Teoria da Literatura: Teoria da Literatura, Silva, Victor Manuel de
Aguiar
 Orpheu, Lisboa, Contexto, 1989
 Reis, Carlos, O conhecimento da Literatura – introdução aos Estudos Literários,
2 Edição, Coimbra, Almedina, 2001.
 Rocha, Clara, Revistas Literárias do Século XX em Portugal, Lisboa, IN-CM,
1985