You are on page 1of 3

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

Arthur Guilherme Monzelli

A IMPORTÂNCIA DA COMPREENSÃO DO FENÔMENO DA DEPENDÊNCIA

Trabalho elaborados para a disciplina


Mariátegui, o Indigenismo e as Vanguardas
Latino-Americanas, ministrada pelo Profª Drª.
Silvia Beatriz Adoue.

Araraquara – SP
Outubro de 2015
Introdução

A discussão sobre o caráter dependente do capitalismo desenvolvido pelos países latino-


americanos remonta a segunda metade do século XX, no entanto, ainda hoje essa questão discussão
choca muito aqueles que tomam contato com ela pela primeira vez. Existem inúmeras explicações
para isso, no entanto, destaquemos apenas uma: a mistificação da histórica da América latina vinda
de fora e responsável pela impregnação de ilusões a respeito das nossas formas de luta e de
mudança social. A principal “ideia fora do lugar”1 que trabalharemos diz respeito a possibilidade de
desenvolvimento econômico e social por meio de revoluções burguesas e nacionais em solo latino-
americano. Esse princípio promove duas conclusões ideológicas e obscuras: a primeira delas
consiste na definição dos países latino-americanos como “nações de terceiro mundo”, ou seja,
Estados que durante a corrida insana do capitalismo selvagem tornaram-se retardatários dos países
de capitalismo central (lê-se de “primeiro mundo”). A segunda conclusão obscura é consequência
direta da primeira e diz repeito a cristalização do papel do “terceiro mundo” enquanto exportador de
insumos e matérias primas (lê-se bens de consumo) ao “primeiro mundo” importador de bens de
capital e tecnologia de ponta.
Vale ressaltar que existem outros efeitos da definição ideológica da América Latina
enquanto um continente atrasado frente o capitalismo de “céu de brigadeiro” que vigora na Europa
e nos EUA – principalmente os processos de modernização autoritária, implantados por meio de
ditaduras civis e militares2, as quais surgiram sob a falácia da garantia do desenvolvimento
econômico, bem como da transição do “terceiro para o primeiro mundo”. Entretanto, nos ateremos
neste breve ensaio a trabalhar com a desconstrução da teoria do atraso a fim de tratar da noção de
dependência, a qual não só nos permite olhar com mais sinceridade para a nossa história, mas
também nos possibilita uma perspectiva crítica e autônoma, capaz de nos municiar para construir
nosso próprio caminho, superando a ideologia colonizadora que tanto contamina a América Latina e
os seus sujeitos. Não podemos nos esquecer, é claro, que o texto: “Ponto de vista aintiimperialista”
de Mariátegui contribuiu muito para a constituição da “teoria da dependência”, na mesma esteira
seguida inclusive por Florestan Fernandes.

A Questão do Atraso Estrutural ou a Cínica Incapacidade Revolucionária da Burguesia

Evidentemente, uma discussão mais passa muito longe dos limites da nossa discussão aqui,
mesmo assim, isso não nos impede de levar a cabo algumas observações que talvez deixem claro a
atualidade do texto de Mariátegui e da discussão acerca da nossa dependência, bem como nos
incitem a estudar mais sobre este assunto. Sendo assim, podemos começar nossa reflexão pela
crítica que Mariátegui faz ao Kuomitang 3 latinoamericano, ou seja, o indigenista peruano em 1929

1
Essa noção foi desenvolvida pelo crítico literário Roberto Schwarz, inspirado nas leituras que fez de Sergio Buarque
de Holanda e Antonio Candido. Segundo Schwarz, o liberalismo – entre outras ideias geradas em solo europeu –, por
exemplo, não pode ser simplesmente duplicado no Brasil – nem em nenhum outro lugar que não a Europa –, pois sua
raiz sócio-histórica é a européia, são as transformações históricas que decorreram especificamente deste continente.
Mas isso não significa – como bradavam os evolucionistas e positivistas – que somos inaptos a tais ideias, muito pelo
contrário, somos perfeitamente capazes de desenvolver uma democracia ou levar a cabo a revolução comunista, no
entanto, tudo isso precisa ser levado a cabo considerando nossas especificidades histórica. No caso de Mariátegui, não
era possível fazer qualquer tipo de manifestação social sem considerar a importância crucial da população indígena –
mais da metade da população inteira do Peru, pelo menos na época em que Mariátegui escrevia.
2
O Brasil sentiu isso na pele com a Era Vargas (1930 – 1945) e com a Ditadura Militar (1964 – 1985).
3
Kuomitang é a famosa aliança entre a burguesia e o proletariado e campesinato chinês contra a invasão japonesa, a
qual embora seja conhecida como uma aliança entre polos antagônicos que “deu certo”, também expressa contradições,
principescamente quando a burguesia chinesa oprimiu uma greve, ponde em risco a derrota para os japoneses, só para
não perder sua hegemonia dentro do kuomitang.

2
já tinha consciência da impossibilidade de se realizar uma aliança entre burguesias nacionais latino-
americanas e suas populações indígenas, camponesas e proletárias, para a realização de uma
revolução burguesa nacional própria. No final das contas a ideologia da conquista da soberania, ou
seja, a busca pela realização da revolução burguesa política (lê-se as noções de liberdade pessoal,
de imprensa, igualdade perante a lei, entre outras realidades do capitalismo central que jamais
chegaram as colônias, após a independência) não podia ser nada mais além de uma ilusão, uma
piada – de muito mal gosto, diga-se de passagem.
Isso aconteceu, a grosso modo, por causa da estruturação das classes sociais dentro da
América Latina. Em outras palavras, as elites agrárias (nossos senhores de engenho e barões do
café, ou os gamonales peruanos) jamais se preocuparam em trazer para a realidade ex-colonial as
conquistas burguesas europeias em seu sentido político, por exemplo, a mais emblemática delas: a
abolição da escravatura e a reforma agrária. Da pequena burguesia (lê-se os trabalhadores de
colarinho branco) também não podemos esperar qualquer tipo de aliança consistente com as
camadas excluídas, a fim de reivindicar soberania nacional e direito políticos. Isso pode ser
explicado pelo pedantismo patológico da pequena burguesia, expresso no seu terror a proletarização
e em sua subserviência a burguesia internacional (em nosso caso, ao ianque, que as pequenas
burguesias sempre sonharam em um dia ser). Não é possível nem minimamente cogitar aliança com
as burguesias financeiras, as quais só interessam o acúmulo irrestrito de capital e para tanto,
financiam todo tipo de governo que mantenha um mínio de “paz social” por meio da
desinformação, do populismo e do impedimento de toda e qualquer reivindicação social que posso
questionar o status quo.
Após termos destacado a contribuição de Mariátegui na crítica daquilo que ele chamou de
kuomitang latino-americano, esperamos ter deixado claro a falácia de toda e qualquer aliança com
as burguesias internas a fim de promover uma “segunda revolução nacional”, ou melhor, como
Florestan Fernandes define, “uma revolução dentro da ordem”. A alternativa para a superação da
condição de atraso da América Latina não é tentar acompanhar os mesmos passos trilhados pelo
capitalismo central (lê-se Europa e EUA). Tal perspectiva é impossível não só porque a burguesia
nacional dos países latino-americanos é traidora e cruel, mas, para além disso, por causa da aliança
estrutural entre o atraso latino-americano e o desenvolvimento do capitalismo central. Em suma, o
atraso latino-americano pode até existir, mas ele é estrutural, ou seja, ele é essencial e condição de
existência do desenvolvimento dos capitalismos centrais. Portanto, a perspectiva anti-imperialista
de Marátegui não só é extremamente atual par ao nosso tempo, bem como anda na esteira de
inúmeras tentativas de esclarecimento da nossa condição histórica para que possamos fazer nossas
“verdadeira s revoluções”, para que possamos andar com nossos próprios pés – mesmo que isso,
signifique marchar contra o ex-colonizador, atual imperialista investidor.