You are on page 1of 2

população na década de 1960 foram muito influenciados

pelo livro A bomba populacional de Ehrlich, docente da U-


niversidade Stanford: “Enquanto você lê estas palavras qua-
tro pessoas morrem de fome”, dizia o subtítulo do best-sel-
ler à época. O livro preconizava abertamente métodos con-
traceptivos radicais, pois esse crescimento deveria ser inter-
Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação” rompido de imediato, naquele ponto, “por compulsão, caso
Turma: 3ª. Série do Ensino Médio métodos voluntários fracassassem”, nas palavras do autor.
Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal O pessimismo de Ehrlich não ficou sem resposta: deu ori-
Tema redacional 01: Superpopulação mundial: consequên- gem a uma das mais famosas apostas no mundo acadêmico.
cias socioeconômicas para a hodiernidade brasileira O economista Julian Simon, da Universidade Maryland,
previu que, ao contrário disso, as condições de vida melho-
Muvuca planetária: em outubro, rariam no período, tendência com perspectiva de continuar
seremos 7 bilhões de habitantes indefinidamente. Em 1980, Simon propôs um desafio ao seu
colega de Stanford. Se a população crescesse em ritmo mui-
Antônio Gois to superior aos recursos naturais, o esperado, de acordo com
a teoria econômica, seria que o preço dos recursos minerais
Em 1960, a população mundial eram três bilhões de subisse, já que haveria escassez em decorrência da procura
pessoas. Em apenas 39 anos, dobrou, passando a 6 bilhões crescente. Eles escolheram cinco minerais – cobre, níquel,
de habitantes em 1999. Um crescimento nunca antes visto. tungstênio, estanho e cromo – e, por dez anos, monitoraram
Em retrospecto intervalos em que a população dobrou fica- o preço médio de cada um. Em 1990, Ehrlich fez cheque de
ram cada vez mais curtos: 70 anos entre 1890 e 1960; 150 US$382,00 e entregou a Simon, pois o preço médio dos cin-
anos de 1740 a 1890; cinco séculos de 1240 a 1740; e mais co metais caíra 38,2%. Segundo o Banco Mundial, a taxa de
de um milênio entre os anos 40 e 1240. Quando apresenta pobreza em países não desenvolvidos – justo os que mais
esses números para seus alunos na Universidade de Michi- contribuíram para o crescimento populacional no período –
gan, nos EUA, o economista David Lam costuma provocá- caiu de 70% para 47% entre 1980 e 2005. Com a lamentável
-los com a pergunta: “quanto tempo levaremos para dobrar exceção da África subsaariana a tendência de queda se veri-
de tamanho mais uma vez e chegar a 12 bilhões? Serão 20, fica em todas as regiões, em especial na Ásia, sobretudo gra-
40, 60, 100 ou mais de 100 anos?” A pergunta é capciosa e ças ao desenvolvimento econômico chinês e indiano. ONU
a resposta mais provável baseada em recentes projeções da estima que quase um bilhão de pessoas ainda passem fome,
ONU (Organização das Nações Unidas) é “nunca”. Os rit- mas o problema não está na incapacidade de produzir comi-
mos de crescimento têm diminuído, e demógrafos já discu- da em uma escala global para alimentar a população. Mes-
tem quando atingiremos o ponto de inflexão, em que a po- mo considerando período em que a população mais do que
pulação começará a “encolher”. Até outubro deste ano pro- dobrou de 1960 a 2009, a produção mundial de alimento per
vavelmente em alguma cidade indiana ou chinesa, nascerá capita cresceu 41%. Como fomos capazes de melhorar con-
o bebê que fará a população atingir a marca de 7 bilhões de dições de vida ao mesmo tempo em que vivenciamos verda-
habitantes. A ONU estima que seremos 10 bilhões até fim deira explosão populacional? Para Lam, há três explicações
do século, quando, finalmente, a população começará a di- principais: globalização, resposta dos mercados e inovação
minuir. Projeções, é claro, são feitas com base em hipóte- tecnológica. Globalização entra na lista por ter contribuído
ses sobre comportamento futuro da fecundidade e mortali- à maior eficiência na produção e distribuição de alimentos
dade, que podem ou não se confirmar. Mas consideram tam- em escala global. A resposta dos mercados é simples de en-
bém padrões verificados no passado e movimentos já em tender. Se o preço da comida sobe pressionado pela deman-
curso que lhes dão base científica. Mesmo que o ritmo esteja da crescente, agricultores respondem a esse estímulo produ-
diminuindo e que seja improvável que a população volte a zindo mais, aumentando a oferta e diminuindo a pressão in-
dobrar, a previsão de que vai ser preciso abrir espaço para flacionária. A capacidade dos agricultores de responder ao
mais 3 bilhões de pessoas reaviva temores sobre o futuro. O mercado, porém esteve também relacionada à inovação tec-
problema não é espaço físico. Agrupados ombro a ombro os nológica. E, ao mesmo tempo em que a população dobrava,
atuais 7 bilhões de habitantes do planeta caberiam na cidade na segunda metade do século passado, ocorria a Revolução
de São Paulo. O que sempre afligiu a humanidade – ao me- Verde. Foi em 1970, por exemplo, que o agrônomo Norman
nos, desde quando o reverendo britânico Thomas Malthus Bourlaug (1914-2009), considerado o pai dessa revolução,
(1766-1834) previu, em 1798, que a população cresceria a ganhou o Prêmio Nobel da Paz por pesquisas que permiti-
uma velocidade superior à dos recursos naturais – é se sere- ram mais eficiência no plantio de trigo em países como Mé-
mos capazes de alimentar tanta gente. Olhando apenas para xico, Índia e Paquistão. Uma crescente urbanização também
o passado, há motivos para acreditar que sim. De Malthus a contribui para aliviar essa bomba populacional, por reduzir
Paul Ehrlich – biólogo que em 1968 previu uma “bomba” o ritmo de crescimento demográfico. Quanto maior foi a mi-
populacional que resultaria num quadro de fome em massa gração do campo para as cidades, mais rápido aconteceu a
ao final do século passado –, as previsões catastrofistas não queda da fecundidade. E o mundo, na década passada, pela
se confirmaram. Fatos mostraram que tinham razão os oti- primeira vez, se tornou mais urbano que rural, com mais da
mistas, e a produção de alimentos cresceu em ritmo superior metade da população habitando cidades. O passado, assim,
ao da população. David Lam, economista da Universidade alimenta os otimistas. No entanto, projetar o futuro é équa-
de Michigan, é presidente da Associação de População dos ção mais complexa. Dum lado, questiona-se novamente até
EUA. Em abril deste ano, o tema de seu discurso de abertura quando os mercados e a inovação tecnológica serão capazes
da convenção da entidade foi “Como o mundo sobreviveu à de responder ao aumento da demanda provocado pelo cres-
bomba populacional: lições de 50 anos duma extraordinária cimento populacional e econômico. Se a aposta entre Simon
história da demografia”. Lam relembra que os debates sobre e Ehrlich houvesse sido feita em 2000, a partir do preço dos

1
alimentos, Ehrlich sairia vencedor, pois o índice de preços tempo, e temos que discutir como nos adaptar a essa nova
monitorado pelo Banco Mundial revelou aumento de 143% realidade”, diz. O Brasil é um bom exemplo para explicar
na década passada. Os otimistas apostam que se trata de mo- esse efeito inercial do crescimento demográfico. Segundo o
vimento temporário. Eles ganharam munição quando em ja- IBGE, esse país já chegou, ao final da década passada, a u-
neiro deste ano o Instituto de Engenheiros Mecânicos, com ma taxa de fecundidade de 1,9, abaixo do nível de 2,1 filhos
sede em Londres, divulgou o relatório One planet, too many por mulher, considerado de mera reposição populacional.
people?. O autor, Tim Fox, afirma que, com devido investi- As projeções, porém, indicam que a população só deverá
mento e usando tecnologias já disponíveis ou em fase final começar a diminuir a partir de 2040. Mesmo tendo, em mé-
de desenvolvimento, é possível dar conta do aumento popu- dia, menos filhos, há uma proporção grande de mulheres em
lacional sobretudo se houver redução do desperdício e me- idade fértil. Além disso, com o aumento da expectativa de
lhora logística de transporte da produção agrícola. Há no en- vida, os brasileiros vivem mais tempo. O desafio para mui-
tanto uma variável nova e complexa em debate nos círculos tos demógrafos que rejeitam o rótulo de “neomalthusianos”
acadêmicos demográficos: aquecimento global. José Eustá- é como tratar, hoje, da questão populacional sem recorrer a
quio Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do preconceitos ou simplificações. Malthus era contra políticas
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), argu- públicas de ajuda à população pobre por considerar que is-
menta que século 20 foi período único, marcado pelo recor- so incentivaria o crescimento dela. Ao menos, nos círculos
de histórico de crescimento tanto populacional quanto eco- acadêmicos de maior prestígio, é raro encontrar quem ainda
nômico. Mas o fato de ter acontecido no passado, segundo defenda ideias como essa. Mas isso não significa que o ta-
ele, não é garantia de que se repetirá no futuro. “O grande manho da população seja variável desprezível. Em 2009, o
combustível do desenvolvimento, nos últimos cem anos, foi relatório anual do Fundo de População das Nações Unidas
o petróleo, uma fonte de energia fantástica, mas que poluiu defendeu ampliação do acesso à educação e a métodos con-
ar e atmosfera. O resultado é o aquecimento global, e o custo traceptivos como estratégia a longo prazo para lidar com o
do sucesso do século 20 está sendo cobrado agora”, diz Al- aquecimento global. Autor do documento Robert Engelman
ves. De novo, a inovação tecnológica terá papel fundamen- argumentou que a relação entre o tamanho da população e o
tal para garantir que o padrão de vida continue melhorando, meio ambiente, em vez de ressuscitar teses ultrapassadas so-
mesmo com crescimento populacional. Um relatório do bre controle compulsório da natalidade, poderia ser oportu-
Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas divulgado nidade para avançar na garantia dos direitos reprodutivos
em fevereiro deste ano apresenta uma estimativa do custo a- das mulheres. Em favelas cariocas, subúrbios europeus, tri-
nual dos investimentos para fazer transição da economia bos africanas ou megalópoles asiáticas, há farta evidência
marrom – baseada em fontes energéticas não renováveis – empírica da correlação entre maior escolaridade e menor
para a verde: US$1,3 trilhão por ano, ou 2% do PIB mundi- número de filhos. Com mais educação e acesso a métodos
al. “É, sem dúvida, muito dinheiro, mas menos do que é des- voluntários e seguros de controle da natalidade, cai o núme-
tinado hoje a gastos militares” afirma Alves. O mundo gas- ro de gravidezes não planejadas. Quando se reduz a mortali-
ta em torno de US$1,6 trilhão para se preparar à guerra. No dade infantil e acesso à escolaridade aumenta, mulheres ten-
caso do aquecimento global, no entanto, o tamanho da po- dem a ter menos filhos, especialmente quando lhes são da-
pulação não pode ser levado em conta apenas em números dos meios a que planejem melhor o momento em que quei-
absolutos. O impacto de cada habitante no problema ou sua ram ficar grávidas. Essa é, como afirma David Lam, a troca
pegada ambiental varia de acordo com seu nível socioeco- entre quantidade e qualidade: havendo menos filhos, é pos-
nômico e sua nacionalidade. EUA – cuja taxa de fecundida- sível investir-se mais em cada criança. Ao estimar que sere-
de já está em nível de reposição populacional (no qual a po- mos, no fim deste século, 10 bilhões de habitantes, a ONU
pulação ficaria estável, sem contar efeitos de imigração) – trabalha com uma variante média, considerada mais realista.
representa 5% da população mundial, mas consome 25% da No entanto, a entidade faz também um cálculo levando em
energia do planeta. A questão é que o modelo de desenvolvi- conta a redução mais rápida da fecundidade, e outro, proje-
mento econômico que permitiu que a população crescesse e tando queda mais lenta. Na variante baixa – de queda mais
melhorasse suas condições de vida no século passado conti- rápida –, chegaríamos a 2100 com 6,2 bilhões de habitantes,
nua a gerar dividendos. Especialmente na Ásia, mas tam- menos do que somos hoje. Na variante alta, o número atinge
bém América Latina, milhões de pessoas saem da pobreza 15,8 bilhões. Haver 9,6 bilhões de pessoas – a mais ou a me-
e formam nova classe média com aspirações de consumo i- nos, no mundo –, definitivamente não é um detalhe.
guais às de americanos ou europeus, o que tende a aumentar
mais o aquecimento global caso esse modelo de desenvolvi- (Folha de S. Paulo, “Ilustríssima”, 14.08.2011)
mento econômico permaneça assim. George Martine, ex-
-presidente da Associação Brasileira de Estudos Populacio-
nais, concorda que debates sobre planejamento familiar e ta-
manho ideal da população não podem ser ignorados nas dis-
cussões sobre aquecimento global. O perigo, para ele, é
transformar isso numa panaceia ou pôr a culpa na população
e desviar o foco do modelo de desenvolvimento baseado nos
atuais padrões de consumo. Para Martine, com ou sem cres-
cimento populacional, o mundo já está no limiar duma gran-
de ameaça climática e a margem de manobra para mudar es-
se quadro rapidamente via redução da fecundidade é míni-
ma. “Planejamento familiar não tem efeito retroativo. Cerca
de 80% do crescimento populacional projetado são inerci-
ais. Conquanto a taxa de fecundidade caia abruptamente em
todos os países, a população continuará crescendo por um