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DOI:10.22600/1518-8795.

ienci2017v22n3p192

V22 (3) – Dez. 2017
pp. 192 - 206

DA INSTANTIA CRUCIS AO EXPERIMENTO CRUCIAL: DIFERENTES PERSPECTIVAS NA
FILOSOFIA E NA CIÊNCIA

From the instantia crucis to the crucial experiment: different perspectives in philosophy and science

Anabel Cardoso Raicik [anabelraicik@gmail.com]
Programa de Pós Graduação em Educação Científica e Tecnológica
Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário Trindade, Florianópolis, SC, Brasil

Luiz O. Q. Peduzzi [luizpeduzzi@gmail.com]
Departamento de Física
Programa de Pós Graduação em Educação Científica e Tecnológica
Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário Trindade, Florianópolis, SC, Brasil

José André Peres Angotti [zeangotti@gmail.com]
Programa de Pós Graduação em Educação Científica e Tecnológica
Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário Trindade, Florianópolis, SC, Brasil

Resumo

A existência e o significado dos experimentos cruciais são questões que não ostentam consenso na ciência
e na filosofia da ciência. Duhem, Popper e Lakatos, por exemplo, apresentam posicionamentos antagônicos
entre si e, inclusive, em relação à ideia de instantia crucis explicitada por Francis Bacon no Novum Organum.
Este artigo visa resgatar a definição baconiana, reconhecendo que ela faz parte de uma postura filosófica
distinta das teses contemporâneas, e discutir algumas concepções de experimento crucial tanto por filósofos
da ciência, quanto por alguns estudiosos, como Newton. Ainda, apontar algumas reflexões para o ensino de
ciências.

Palavras-Chave: Experimentos cruciais; Instantia crucis; Francis Bacon; Filósofos da Ciência.

Abstract

The existence and meaning of crucial experiments are issues that do not hold consensus in science and the
philosophy of science. Duhem, Popper and Lakatos, for example, present antagonistic positions among
themselves and even in relation to the idea of instantia crucis made explicit by Francis Bacon in the Novum
Organum. This article aims at rescuing the Baconian definition, recognizing that it is part of a distinct
philosophical position of contemporary theses, and discussing some conceptions of crucial experiment both
by philosophers of science and by some scholars, such as Newton. Also, point out some reflections for the
teaching of sciences.

Keywords: Crucial experiments; Instantia crucis; Francis Bacon; Philosophers of Science.

3 Raicik. 2011. promovida pela distinção entre os contextos da descoberta e da justificativa (Reichenbach. consideravelmente. 2013. Em síntese. Oliveira. Raicik. Hacking. e isto não é compatível com o próprio relato de Bacon sobre eles. Nesse novo percurso experimental. 1988). 2016. uma prática que envolve observações enquanto ações (Paixão. refinar e estabilizar os fenômenos” (p. 2013. também propicia profícuas reflexões. A. É certo que Bacon não valorizou. C. Ao negligenciarem 1 o lado experimental da ciência. 2003). condizem com sua construção filosófica. Norwood Hanson (1924-1967). 1882) – experiência instruída – está trazendo nos últimos anos discussões interessantes acerca das distintas funções que a experimentação pode assumir na ciência e evidenciando algumas lacunas e incógnitas para a plena compreensão da sua filosofia (Georgescu. Hacking (2012) salienta que na ciência “é preciso ‘torcer o rabo do leão’. Isso significa que. Tese de doutorado em andamento: Experimentos Exploratórios e Experimentos Cruciais no Âmbito de uma Controvérsia Científica: A Eletricidade Animal como Estudo de Caso. Essa visão restrita. Stephen Toulmin (1922-2009). Thomas Kuhn (1922-1996). 350) e nesse sentido Bacon estaria respondendo a uma “questão de Paul Feyerabend: O que há de tão especial a respeito de ciência?” (p. 2010. Todavia. Gooding. 350). Luigi Galvani. Jalobeanu. Georgescu & Giurgea. Desde então. Ele frisa que a relação entre hipótese e experimentação é peculiar e dependente de cada estágio do desenvolvimento da ciência. sem ano3. 235). exprime em “Representar e Intervir (2012). fazendo alusão às palavras baconianas. Hacking (2012) salientou que apesar de Bacon não ter feito nenhuma contribuição para o conhecimento científico. deixando a sua função limitada. epistemológicas da experimentação na ciência. Universidade Federal de Santa Catarina. conferida por muitos filósofos (Gooding. a necessidade de se reconhecer que “experimentar é criar. Um dos ensinamentos de Bacon foi o de justamente recomendar que se experimentasse de modo a “sacudir as dobras da natureza” (p. por estudiosos como Robert Hooke. 2002). 2011. Imre Lakatos (1922-1974). 1986. o “conceito” de experimento crucial foi uma de suas ideias metodológicas mais importantes. dados capazes de decidir entre teorias distintas (Arteaga. neste artigo. o significado atribuído ao experimento (ou à instância) crucial tanto no início do período moderno. da especulação. mas nem toda crítica filosófica indutivista concebida a ele. A experientia literata (Bacon. Giglione. precursor do novo experimentalismo. 193 . As concepções pós-positivistas buscaram (e buscam) evidenciar que o experimento não é apenas demonstrativo. manipular o mundo. 1 Ao mencionar a ‘negligencia’ do experimento. Weeks. que como Hacking diz o maltratam. Ian Hacking. ao teste das mesmas (Steinle. 2 O termo teoria é utilizado. como sinônimo de hipótese. Franklin (1986) ressaltou que nas análises histórico-filosóficas sobre a ciência desse período o que prevalecia era o domínio teórico do conhecimento. nem da matemática. culturais. A sua indução. Hacking. diferentemente daquela sustentada pelo aristotelismo. Franklin se refere à relevância (hierárquica) da teoria sobre o experimento. filósofos e historiadores estavam rejeitando a ideia de que o experimento pudesse também gerar teorias 2. 2000). sociais. e não o da experimentação que já tinha seu papel estabelecido e indiscutível. 58). 192-206. 13). Não obstante. ou seja. 2002). O confronto entre o que se idealiza e o que realmente se realiza se interligam (Raicik & Peduzzi. além de carregadas de teorias. basicamente. certas concepções apresentadas pelo filósofo Francis Bacon (1561-1626) foram e estão sendo resgatadas. 353). 2000. Robert Boyle. cuja origem remete à ideia de instantias crucis abordada por Bacon no Novum Organum (1620). Paul Feyerabend (1924-1994) acenderam a necessidade do “novo experimentalismo” pautado em considerações históricas. Hacking (2012) afirma que “ele podia prever que a nova ciência seria uma aliança entre habilidades teóricas e experimentais” (p. publicado em 1983. 1994). por si só. fútil e pueril. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). a perspectiva experimental da ciência. de forma a desvendar seus segredos” (p. as experiências estão carregadas de prática. 2012). “a filosofia da ciência mais tardia fez dos experimentos cruciais experimentos absolutamente decisivos” (p. não tem somente o papel verificacionista ou falsificacionista e que ele não é capaz de apresentar. As críticas ao positivismo lógico feitas por Karl Popper (1902-1994). uma vez que ela denota distintas interpretações que não reúnem consenso. as múltiplas facetas e finalidades do experimento na ciência passaram a ser bastante discutidas na filosofia da ciência (Franklin. A noção de experimento crucial. produzir. 1988. 2017 INTRODUÇÃO Ao longo do século XX a filosofia restringiu. o papel das hipóteses. Isaac Newton. 2011. assim como ocorre com frequência nas obras aqui citadas. 2015). 2012. pp. adequadamente. pratica a seleção orientada e contínua dos casos para a formulação de enunciados gerais (Carrilho. 2008). acabou se tornando a “visão padrão” da experimentação até meados do século passado (Steinle. 1938).

Silva. de luta. 1979. quanto por filósofos como Duhem. conformes. Nessa perspectiva. Nesse percurso. 1979. Popper e Lakatos. Ela argumenta que ambas são uma espécie de “programa ad-hoc para derivar preceitos úteis de um tipo de regra e orientações para futuras operações sem recurso às formas 7 e princípios” (Dumitru. evidencia que o seu conceito não possui uma história contínua. 183). distintas interpretações acerca da função das instâncias prerrogativas. p. 2017 Alessandro Volta e outros. juntamente com a instância de divórcio. 2010). 2000. do caminho. décima quarta instância prerrogativa apresentada. ignora e negligencia distintos aspectos (filosóficos. de acompanhamento e hostis. elas podem ser chamadas de “instâncias decisivas e judiciais e. a dedução e a prática. faz-se. pertence a classe informativa e. do currículo. Cupani & Pietrocola. subjuntivas. por filósofos como Pierre Duhem (1861-1916). por sua vez. da porta. suplementares. II. a escala ascendente e descendente dos axiomas e as instâncias prerrogativas (Bacon. p. 47). “suposições que sugerem experimentos ou observações que. sociais. monádicas. Após cumprir o que ele denominou de Primeira Vindima5. migrantes. policrestas e. 2012). por exemplo. a retificação da indução. de aliança. 1979. 6 A experiência instruída teria duas funções principais na investigação da natureza: i) gerar experimentos lucíferos (luminosos) – cuja função permite a descoberta das causas e dos princípios. na literatura secundária. por esta via. 5 A Primeira Vindima consistiria de axiomas inicialmente coletados que podem ser chamados de hipóteses provisórias. INSTANTIAS CRUCIS: A ENCRUZILHADA DE BACON No livro II do Novum Organum (1620). p. 230). Schmiedecke & Porto. o investigador deveria recorrer às técnicas auxiliares da indução. que fornece o material da indução. 8 Como o próprio Bacon ressaltou. da vara. ainda que relevantes. que dependem de valores específicos dos sujeitos ou de uma comunidade. seja por meio de professores e/ou materiais didáticos e paradidáticos utilizados em sala de aula. secantes. Logo. ii) preparar a mente para o trabalho de interpretação (Raicik. busca-se apontar reflexões para o ensino de ciências. Os experimentos. constitutivas. mais especificamente. subjetivos) que influenciam fortemente a tomada de decisões na ciência. Popper. De acordo com Dimitru (2004) há. pp. como bem salienta Kuhn (2011). Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). 2010. p. admite que tanto as instâncias prerrogativas quanto a experiência instruída têm um papel na montagem eficaz da história natural e experimental. Ele enumerou várias delas. LII. II. são apenas um dos distintos elementos que motivam as escolhas teóricas na ciência. as prerrogativas da natureza. em alguns casos. como “fatores que. os limites da investigação. da potestade. cruciais. outras tantas são realizadas por intermédio de dispositivos que auxiliam os sentidos (Hacking. clandestinas. 192-206. A historiadora Lisa Jardine. A noção de que “um” experimento pode fazer com que uma hipótese seja rejeitada e outra aceita com base somente na evidência empírica produzida. sucintamente. ostensivas. Literalmente. mágicas. tornando ativas as ciências” (Oliveira. limitativas. forçam a investigação num certo sentido” (Andrade. a variação da investigação segundo a natureza do assunto. as instâncias prerrogativas podem ser entendidas. quanto mais adiante. XVIII). p. XXI. 7 Formas nada mais são do que as leis da natureza (Horton. desviantes. contrapontos com a concepção de Bacon. por fim. II. 2002. 1979). este artigo visa discorrer sobre a noção baconiana de instantia crucis e apresentar discussões acerca dos experimentos cruciais tanto por estudiosos como Newton. indicando e designando novos fatos e. 1979. elas podem ser distinguidas em dois grupos: um com ênfase na parte informativa da filosofia baconiana e outro referente às suas operações ou práticas (Bacon. Algumas das instâncias são observações pré- teóricas. políticos. 2017). 2013. Além disso. por sua singularidade. Hodson. Peduzzi & Angotti. de dose da natureza. 161). outras são motivadas pelo desejo de testar teorias. sendo apenas esta última discutida em sua obra. 1973). processo composto pelo desenvolvimento de tábuas e mecanismos complementares. Posteriormente. A instantia crucis8. 2012) ou. Bacon discorreu sobre vinte e sete instâncias prerrogativas 4 que faziam parte do seu método experimental. 134). de divórcio. 1988. de instâncias de oráculo e mandato” (Bacon. Por certo. as compara com a experientia literata6. históricos. de modo geral. Isto é. ainda persiste a ideia de existem experimentos cruciais na ciência – entendidos como definidores e incontestáveis – suficientes para. Medeiros & Medeiros. uma vez que Bacon tomou o termo por referência/analogia as cruzes que se colocam nas estradas para indicar bifurcações. No ensino de ciências. os preparativos para a investigação. p. 194 . como observações notáveis (Hacking. por exemplo. 2015. 4 Instâncias solitárias. dirimir debates fervorosos (Carmo. XXXVI. ela pode ser traduzida como “instância de encruzilhada”. preserva o intelecto das “formas e causas falsas” (Bacon. irão reafirmá-las ou corrigi-las. Lakatos. indicadoras. de citação.

uma instância crucial que consiste em analisar os polos de um magneto esférico. para ser verificado se ele se move mais velozmente que antes. para confirmar a segunda hipótese e. p. p. nesse caso. o intelecto se acha inseguro e em vias de se decidir entre duas ou mais naturezas que se devem atribuir à causa da natureza examinada. 2017 “Quando. Para não obter resultados precipitados. não são fornecidas pela natureza. por natureza. Se ela se voltar na direção do eixo da Terra subitamente ou pouco a pouco. Muitas dessas instâncias. 11 Peduzzi. na verificação de seus movimentos. Todavia. enquanto o das outras é variável e dissociável. 167). A princípio. em analogia com a Terra. em razão de maior força de atração. “Entretanto. XXXVI. II. refutar a anterior. p. Sendo que os polos da agulha passam a ser os mesmos que os do magneto. então estará estabelecido que a causa do peso é a atração da massa terrestre” (Bacon. II. a princípio. ou seja. sendo que um encontra-se no ápice de um templo altíssimo e outro na sua base. consequentemente. é causado pela presença da Terra. XXXVI. no final. “significa ou equivale à propriedade ou qualidade predicável de um corpo” (Andrade. A questão é resolvida e é aceita como causa da primeira natureza. aplicadas intencionalmente e estabelecidas com trabalho árduo e diligente” (Bacon. maiores serão a força e o ímpeto com que são impelidos a ela. Ao discorrer sobre a natureza da polaridade de uma agulha de ferro quando tocada por um magneto. No aforismo XXXVI. XXXVI. primeiramente. 10 Expressão utilizada por Bacon (1979). 161). Do contrário. 1979. ela era impraticável naquela época. é apresentado duas hipóteses em relação aos corpos pesados: i) eles tendem. do livro II do Novum Organum. 2015. 2012. o fato de que. Bacon salientou que uma causa da instância crucial pode ser duvidosa e. 161). ao centro da Terra. as instâncias cruciais indicam que o vínculo de uma dessas naturezas com a natureza dada é constante e indissolúvel. mas o movimento em si. como dito por Bacon. II. Isso posto. 2013). No processo antagônico. 195 . o experimento nos levaria à estrada errada não preocuparia Bacon: ele jamais disse que os experimentos cruciais precisam dar fim à tarefa da interpretação” (Hacking. na sincronização de dois relógios – um movido por contrapeso de chumbo e o outro por compressão de uma mola de ferro – e. 1979. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). p. 93). p. 354). ele diz que sua explicação se bifurca na seguinte ordem: i) o magneto comunica à agulha a capacidade de se voltar para o polo. p. em tais situações. ii) são atraídos e arrastados pela força da própria massa terrestre. Bacon propõe um experimento que consiste. II. Inicialmente. pp. cabe analisar o comportamento dela quando tirada do magneto. como ele afirmou. 1979. fazer com que a investigação tenha que prosseguir. XXXVI. Em outro exemplo. XXXVI. mais fraca e lenta se torna essa força. Bacon sugeriu. há distintos exemplos que elucidam o conceito de instância crucial. Assim. A segunda hipótese foi afirmada por Willian Gilbert que considerou a Terra uma grande esfera magnética. Isso implica que as instâncias crucias podem apresentar tanto a função de refutar algumas explicações quanto a de confirmar uma das causas (Dumitru. desta forma. ii) a agulha é excitada pelo magneto. o relógio colocado no alto deveria se mover "mais lentamente em virtude da menor “força de gravidade”10. assim. 1979. em vista do concurso frequente e comum de mais naturezas. 161). Bacon ressaltou que: “A experiência deve [deveria] ser repetida com a colocação do relógio nas profundezas de alguma mina situada muito abaixo da superfície da terra. a causa é a presença da Terra. quando mais próximos do centro da terra. Muitas vezes. 1979. 9 O termo na natureza. enquanto as demais são afastadas e repudiadas” (Bacon. Se se verificar que efetivamente o peso dos corpos diminui com a sua colocação no alto e que aumenta embaixo. somente. 192-206. Em outras palavras. a instância serviria para reafirmar a teoria aristotélica de movimento natural 11. faz-se necessário encontrar um fato que pode ser explicado. 166). apesar de ser uma “ideia maravilhosa”. Este experimento poderia ser. nelas termina o curso da investigação ou em muitas outras este é por elas completado” (Bacon. quando duas (ou mais) causas parecem responder igualmente bem a uma determinada natureza. p. Esse experimento serviria. II. como o exemplo aludido. “são buscadas. uma instância crucial. elas “são muito esclarecedoras e têm uma significativa autoridade. em seguida. “considere-se a causa como duvidosa e prossiga-se na investigação” (Bacon. 1979. para Bacon. por uma delas. quando sobre ele for colocado uma agulha não imantada e ali mantida por vários dias. Assumindo que a segunda conjectura seja verdadeira. na investigação de uma natureza 9. Efetivamente. Um deles refere-se a natureza do peso e da gravidade. prossegue-se admitindo que quanto mais próximos os graves (corpos) se encontram da Terra.

ele salientou que os fenômenos observados nos tubos deveriam ser explicados pela pressão atmosférica ou por uma espécie de resistência ao vácuo. como ressaltado anteriormente. novos caminhos devem ser abertos e percorridos. EMPREGO DO TERMO EXPERIMENTUM CRUCIS NO INÍCIO DA CIÊNCIA MODERNA: OS ESTUDOS DE NEWTON SOBRE LUZ E CORES No final do século XVII. Discorrendo sobre o fenômeno das cores que apareciam quando a luz penetrava diferentes tipos de lâminas transparentes delgadas. ele parece ter usado pela primeira vez o termo experimentum crucis. o termo passou a ser utilizado – com a variação de instantia para experimentum –. em virtude de um equívoco dos postes de sinalização. aqueles que são necessários para a descoberta de causas e princípios (Weeks. A lei que estabelece 196 . depois de ter subido cento e cinquenta braças [~330m]. Assim. 55). passaram a guiar os passos da ciência moderna. Hooke salientou que “(. assim como fez Boyle. mencionada pelo famoso Pecquet. Assim. Robert Hooke também adotou o adjetivo crucial a uma de suas experiências apresentada na Micrographia. mesmo que possua caráter confirmador. Boyle.). por alguns estudiosos que parecem fazer alusão aos princípios baconianos que. enquanto a outra previa exatamente esse efeito. 2012). e que no topo da colina havia descido acima de três polegadas” (Boyle. Em 1662. e fora dele pelo nosso autor: a saber. 14). houve uma nova tendência na escrita dos estudos desenvolvidos na ciência e Boyle pode ser considerado um dos principais defensores da “nova filosofia”. Todavia. Apenas um experimento. em A Defence of the Doctrine Touching the Spring and the Weight of the Air. deveria ser buscado (Dumitru. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). 48-49). 1996). A hipótese de Linus não poderia dar conta de explicar o que ocorreu. publicada em 1665. caso se constate a causa pela presença da Terra.. cujo título de Barão de Verulam lhe foi atribuído. A influência baconiana é notória em sua obra. 2017 Nesse exemplo. portanto.. 2013. 2013). É importante destacar. p. as instâncias cruciais exigem o desenvolvimento de experimentos luminosos. Paschal. isto é. “E tal Experimentum Crucis (para falar como nosso ilustre Verulam 12) é concebido pela nobre observação de M. também. p. 1662. Boyle utilizou a expressão para um experimento que envolvia a explicação do comportamento do mercúrio em tubos de Torricelli nos altos e nos pés das colinas (Boyle. pois o manuscrito em que descreveu esse resultado foi perdido (. pp. 2006). “mesmo aqueles que acabam tomando a estrada errada. 2008). 2012. Essa segunda hipótese era defendida pelo jesuíta Franciscus Linus que tinha aversão ao vazio e admitia que a “suspensão do mercúrio dar-se-ia por conta da atração produzida por ar rarefeito ou sutil que se infiltraria e preencheria o espaço deixado pelo mercúrio” no tubo (Ribeiro. não se sabe exatamente quando isso ocorreu e nem como ele procedeu. que a experiência de Torricelli. Após a publicação do Novum Organum. 1662).) Esta Experiência. p. o mercúrio caiu duas polegadas e um quarto abaixo de sua posição ao pé da montanha. 13 “A lei da refração da luz foi descoberta pelo físico holandês Willebrord Snell entre 1621 e 1625.. Afinal. tendo continuado o legado de Bacon (Sargent. Ao que parece ele provavelmente teria escrito a palavra errada. Reside aqui “um exemplo quase perfeito de uma instância crucial de Bacon” (Dumitru. se não for verificado isso. Afinal. Contudo. Hooke pode ter intencionalmente escrito experimentum. tem-se a função da instância de confirmação. que elas são decisivas apenas às vezes (Hacking. por escrever de memória substituiu instantie por experimentum (Silva & Martins. No entanto. mas mantendo a essência da ideia baconiana – ao menos do seu ponto de vista. p. 1989). é que aqui estão todos os tipos de cores geradas em um corpo transparente. o que é mais observável. utilizou assim o experimento crucial com a função demonstrativa. fortemente.. as instâncias de Bacon poderiam se referir a experiências e/ou observações de distintas ordens. modificando o termo.. 2008. 354-355).. nenhuma coleta de casos. “pois esta está sempre vulnerável ao perigo do confronto com uma instância contraditória” (Silva. que mostrasse um efeito explicado por apenas uma teoria. podem sempre retraçar seus [sic] passos” (Hacking. realizada ao pé e em diferentes partes de uma montanha alta (de altitude de quinhentas braças ou três mil pés) [equivalente a aproximadamente 1000m]. com apelo retórico ou não. vai provar tal 12 Boyle se refere a Bacon. 192-206. propicia uma conclusão definitiva. Com efeito. onde não há propriamente nenhuma refração como Descartes 13 supõe (.) acima de tudo.

1979. 3076). pela qual passava a luz solar. Muitos estudiosos alegaram que. 171). ela não existia. 56). 2001. deveriam ser realizados e priorizados. durante as discussões com os críticos. p. Aliás. ainda.. que não decompunha a luz em novas cores. A verificação da não procedência dessas hipóteses levou Newton. Em síntese. o experimento era composto de uma lente à frente de um prisma. em conclusão à descrição das instâncias cruciais. publicado em 1672. em uma possível irregularidade no vidro ou ainda a uma falta de paralelismo do feixe de luz proveniente do Sol que penetra o orifício da persiana. Algumas passagens de seus trabalhos podem indicar. Uma de suas experiências. 2010. 2001). então. ao seu famoso experimento: “a eliminação gradual dessas suspeitas finalmente levou-me ao Experimentum Crucis” (Newton. apenas produzia uma mancha da cor selecionada. depois de algum tempo empenhando-me em examiná-las com maior circunspecção. 54). Todavia. a instantia crucis demandava. XXXVI. classifica esse experimento como luminoso. uma hábil concessão retórica ao espírito baconiano que primava na Royal Society” (Granés. Conforme destacou Dimitru (2004). porquanto. Newton parece ter sido influenciado pela expressão usada por Hooke em sua obra. 3078). eu esperava que ela fosse circular” (Newton. 192-206. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3).. e não a partir de razões prováveis” (Bacon. De acordo com Bacon.) tendo escurecido meu quarto e feito um pequeno orifício na veneziana de minha janela. Embora o experimento tenha sido apresentado que a razão entre o seno do ângulo de incidência e o seno do ângulo de refração é constante para um dado par de meios foi demonstrada formalmente por René Descartes em sua ‘Dióptrica’” (Peduzzi. não obtiveram os mesmos resultados encontrados por Newton. que instigou o desenvolvimento de diversas outras. Isso parece ter sido o que Newton fez. sem que fosse preciso abandonar a lei da refração de Descartes – que admitia que o raio incidente e o raio refratado que saem de um prisma se comportam de maneira simétrica na posição de desvio mínimo do prisma. p. Granés (2001). “apresentar o experimentum crucis como uma instância de descobrimento em lugar de uma instância de corroboração é. A lente possibilitava produzir um espectro fino e com cores bem definidas em um anteparo. Inicialmente. coloquei meu prisma à entrada dele. mas. que objetivavam encontrar as causas dos fenômenos investigados. 38). 645). Os experimentos decorrentes envolveram a busca incessante de Newton pela explicação da forma oblonga. para admitir a entrada de uma quantidade conveniente de luz solar. devido ao tamanho do astro e a sua distância finita da Terra. Mas todas estas conjecturas se mostraram infrutíferas. alguns estavam propondo experimentos que contrariavam as conclusões dele (Silva & Martins. surpreendeu-me vê-las em uma forma oblonga. ele teria utilizado o termo experimentum crucis com apelo retórico. p. não obstante. o discurso newtoniano se altera. Em seu artigo “Nova Teoria sobre Luz e Cores”. servindo como um guia ou marco divisório. 2017 como o nosso três vezes [thrice] excelente Verulam chamou um Experimentum Crucis. 1672. 1672. A princípio. p. pp. ao tentar reproduzir o famoso experimento. mas não qualquer experimento. sobretudo. foi assim descrita por ele: “(. p. em homenagem a Bacon (Granés. Não obstante. 1996). Os designados luminosos. 197 . Um furo no anteparo permitia que uma pequena faixa do espectro passasse por um segundo prisma. 2015. A princípio. “Hooke explicitamente desafiou o status epistêmico da teoria de Newton: ‘não posso pensar que ela seja a única hipótese’” (Zempler & Demeter. um experimento cuidadosamente planejado. pelo qual direciona nosso curso na busca da verdadeira causa das cores” (Hooke. Newton explicou o fenômeno da formação das cores devido à refração (Cohen & Westfall. 1962). Granés. embora tenha tido a função de refutação (ao que se refere a teoria de Descartes) a experiência de Hooke não ofereceu subsídios para confirmar uma teoria alternativa. habituar a mente humana a julgar por seus próprios meios e segundo experimentos lucíferos. ela serviu para o desenvolvimento da sua própria teoria. p. 2002. para que a luz fosse refratada para a parede oposta. Bacon. p. II. 1996). Para além disso. escrito para conferir maior credibilidade em uma cultura que primava pelo apelo experimental. 2005. Silva & Martins. que ele denominou um de seus principais experimentos de crucial com Descartes e Hooke em sua mente (Westfall. aos poucos. inclusive a crucial. 1665. 2001. segundo as leis aceitas da refração. foi uma diversão muito agradável observar as cores vívidas e intensas assim produzidas. por exemplo. Ou. por parte de Newton. Newton admitiu que a causa do problema poderia estar nos componentes de seu experimento. ele passou a averiguar distintas hipóteses que poderiam produzir o alongamento do espectro. afirma que elas “foram tratadas um pouco longamente para.

A luz branca poderia ser de alguma forma transformada ou. Dessa maneira. De acordo com Hacking (2012) a visão mais comum que se tem sobre os experimentos cruciais é que eles favorecem apenas uma teoria. Hooke e sobretudo por Newton. os séculos XIX e XX parecem tê-lo resgatado com o caráter puramente definidor. que nem podem existir. a menos que se enumerasse as diversas hipóteses que envolvem um determinado grupo de fenômenos. essa metodologia que utilizava a redução ao absurdo 15 (reductio ad absurdum) para a edificação de verdades na ciência. dialogados com diversas hipóteses. a instantia crucis. 198 . em termos baconianos. depois. distanciaram-se mais ou menos da ideologia baconiana. Duhem foi um físico. Todavia. por exemplo. Antagonicamente à concepção boyleana. tomando essa expressão das cruzes que em uma interseção indicam vários caminhos” (Duhem. pela contradição experimental. Logo. como consequência. em parte. o surgimento de uma contradição. O debate estará resolvido. Duhem contestou. incontestável. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). que a cada raio que produzia uma cor se associa um grau específico de refringência e vice- versa (Assis. tão crucial assim. As variantes do experimento crucial mostravam. concordar que: “Queremos obter de um grupo de fenômenos uma explicação teórica certa e incontestável? Enumerem-se todas as hipóteses que é possível fazer-se para dar conta desse grupo de fenômenos. 2016. pois existiam outras explicações possíveis. não foi um único experimento. aquela que não for condenada será. Um “físico nunca está seguro de ter esgotado 14 Os experimentos variantes são explicitados. Suponha-se. há posturas filosóficas que assumem. eliminem- se todas. Não obstante. de forma concludente. 2002). condenar-se-á a segunda hipótese ou a primeira. pp. que não podiam ser modificadas por refrações. seu experimentum crucis parece não ter sido. que eles existem apenas em retrospectiva ou. quando mais de uma via se apresentasse. contudo. 555). não era possível argumentar isso somente a partir dele. mas isso não é possível. historiador e filósofo da ciência que argumentou a inexistência de experimentos cruciais. com distintas concepções. comentados e ilustrados na “Óptica” (Newton. 1). Na geometria. responsáveis pela produção de cores. p. por alguns filósofos da ciência que. conforme ele argumentou. 15 “O método de redução ao absurdo consiste inicialmente em admitir como verdadeira a negação de determinada afirmação e continuando-se o processo de demonstração observa-se. Analisando a ciência em sua contemporaneidade ele salientou sem. Isso é condizente. serviu de inspiração para distintas discussões no âmbito da filosofia da ciência. uma verdade nova será adquirida pela física. em particular. Newton afirmou que a demonstração de um único experimento. Esta última deixará de ser uma hipótese para tornar-se uma certeza. bem julgado. 2009). EXPERIMENTOS CRUCIAIS: INCONSONÂNCIAS NA FILOSOFIA DA CIÊNCIA A noção de Bacon de instantia crucis foi retomada. Um experimento poderia direcionar o caminho. esse método era adotado na refutação. mas um conjunto 14 deles que permitiu estabelecer que os raios de luz possuíam propriedades intrínsecas. ainda. que apenas duas hipóteses estejam presentes. Por certo. com a ideia de instantia crucis. Conforme seja observado o primeiro dos fenômenos previstos ou o segundo. o que torna a negação da hipótese inicial um absurdo” (Galvão. 1984. e não também com o sentido de descoberta ou invento. de fato. p. poderia se aferir que o prisma criava as cores. 192-206. Santos & Barbosa. porém na física passou a ser empregado como meio de demonstração (Amaro. de agora em diante. A contradição experimental – a refutação –. 2002). como conceitualizado por Bacon (Amaro. 2009). normalmente (e de forma geral) traduzida como “experimento crucial”. Este é o teste experimental que o autor do Novum Organum chamou de fato crucial. distanciam-no fortemente de um empirista absolutamente indutivista. em termos. não era capaz de transformar uma hipótese em uma verdade indiscutível. ainda. ainda. salvo uma. 2017 como suficiente para concluir que a luz solar é heterogênea. Procurem-se as condições experimentais tais que uma das hipóteses anuncie a produção de um fenômeno e a outra um fenômeno completamente diferente e realizem-se essas condições observando o que acontece. os seus estudos evidenciam a realização de uma gama de experimentos que. Embora o argumento de Newton possa induzir à ideia da existência de um experimento único com o qual se apresenta algo de forma indiscutível e decisivo. poderia suprir a reiteração de um grande número de experimentos. a partir da utilização do termo por Boyle. contundentemente. quando há duas (ou mais) em competição.

Cabe ressaltar que Bacon admitiu a função de refutação da instância crucial. com a instância crucial. à luz de distintas concepções teóricas. 2012). “Poder-se-ia objetar a concepção desenvolvida aqui – de acordo com Duhem – que em cada teste não é só a teoria sob investigação que está envolvida. Popper afirmou: “Procuramos escolher para nossos testes os casos cruciais (. parece não ter identificado isto na obra do filósofo. 2012). pode-se.. o filósofo Popper considerou os experimentos cruciais fundamentais no processo avaliativo das teorias científicas. Cabe ressaltar. Um teste empírico não é uma resolução definitiva. Duhem afirmou não ser possível a existência de experimentos cruciais na ciência (Cassini. p. Para ele. Ademais. deveria ser abandonado. e encontrar um critério de progresso científico” (Popper. 2013). enquanto Bacon acreditava que uma experiência crucial poderia demonstrar ou verificar uma teoria. 2009). Só pelo exame de como suas várias teorias respondem à experimentação podemos distinguir entre as teorias melhores e as menos boas. que Bacon não buscava. em cada teste não é só a teoria sob investigação que está envolvida. que refuta definitivamente uma teoria. Eles serviriam. Passou a conferir caráter empírico aos enunciados básicos (não somente a “sistemas” teóricos). 231). De qualquer forma. um dilema tão rigoroso? Ousaríamos dizer que jamais uma outra hipótese poderá ser imaginada?” (Duhem. p. já que uma verdade absoluta não pode ser alcançada (Peres. 277). p. desta forma. p. também. 2007). 1984. mas para testá-las a fim de comprovar sua qualidade (Rufatto & Carneiro. Com efeito. divergiu da concepção baconiana. 139). o outro é necessariamente verdadeiro. “Mas. 1982. de fato. a falseabilidade de teorias. Popper relativizou a questão da falsificação. no entanto. 2014. Ou. elas não comparecem ao tribunal da experiência isoladamente. sempre é possível ter-se uma instância contraditória. 1959. 17). Isto é. o mito de um experimento crucial. físico. em termos metodológicos. 1982. salvar outra através da revisão de alguma hipótese auxiliar conectada ao método de testagem (Hacking. Lakatos. só pelas tentativas de refutação pode a ciência ter esperança no progresso. mas sempre em conjunto (Freire Jr. Ele reconheceu que resultados negativos são mais poderosos que os positivos (Oliva. provar a outra” (Popper. Duas hipóteses físicas formam.) no sentido baconiano. reconhece-se o caráter conjetural dos resultados produzidos em uma pesquisa. p. não há lugar para uma terceira alternativa. Nesse sentido. também. “As ‘experiências cruciais’ no sentido de Popper não existem: no melhor dos casos elas são 199 . Desta forma. não simplesmente para corroborar teorias. 556). Popper tem compreensão das críticas de se atribuir a um experimento crucial a característica de ser decisivo para a refutação de uma teoria. diremos que ela pode na melhor das hipóteses refutá-la” (Popper. Popper identificou o desenvolvimento do conhecimento científico como algo enérgico. o eixo central de sua epistemologia. 2002). matemático e filósofo. onde persiste (e deve persistir) uma dinâmica permanente de testes cruciais. A verdade de uma teoria física não se decide no cara ou coroa” (Duhem. admitindo-as como válidas. Novas “descobertas” e interpretações podem sempre ser formuladas. discordou de Popper. 1982. “De fato. 139). sujeitando-os ao teste crucial. uma prova ou explicação incontroversa e indubitável. como visto em alguns de seus exemplos. 2015). Consequentemente. alguma vez. ocorre na escolha teórica. é claro. 2002. “Entre dois teoremas de Geometria contraditórios entre si. 141). Não é possível confirmar ou refutar hipóteses ou teorias em separado. ser necessário voltar-se novamente às sinalizações e tomar um outro caminho (Hacking. Efetivamente. 2017 todas as hipóteses imagináveis. Duhem e. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). refutando (ao menos) uma delas – sem. deveria ser operacionalizado pela busca da falsificação de enunciados singulares” (Peres. Popper. no entanto. indicam encruzilhadas entre teorias. “Assim. pode-se tomar a estrada errada e. Se um é falso.. p. ele definiu o experimento crucial como algo que “é projetado para refutar uma teoria (se possível) e mais especialmente um [experimento] que é concebido para produzir uma decisão entre duas teorias concorrentes. Quase sempre é possível remendar uma teoria com hipóteses auxiliares.. Em dessemelhança à Duhem. 192-206. mas também todo o sistema de nossas teorias e premissas” (Popper. p. mas também todo um sistema de concepções e premissas teóricas. afinal. quando se testa uma hipótese. Afinal. pp. a história da ciência evidencia que isso não é compatível com o que. ainda.

1974). Como o filósofo ressaltou. “nenhuma dessas anomalias. ser abandonada. 2012). a falsificação ou refutação de uma teoria não significa que ela seja rejeitada por toda a comunidade. um efeito ocioso sobre a imaginação e a determinação dos estudiosos (Lakatos. 1987. grifo original). também colidem com aquela discutida por Bacon. 1987. 1999). 1979. quando um programa16 foi derrotado por outro” (Lakatos. 214). Com efeito. Como ele salientou. Assim. os experimentos cruciais são descritos como aqueles que permitem decidir ou tomar uma decisão entre teorias rivais. p. Ainda assim. 163. pp. A concepção de Popper de conjecturas e refutações deveria. podemos – numa longa visão retrospectiva – chamar crucial a uma experiência se se verificar que ela proporcionou uma corroboração espetacular do programa vitorioso e o fracasso do programa derrotado (no sentido de que nunca foi ‘explicada progressivamente’ – ou. Contudo. p. Não se aprende. e os cruciais aqueles que proporcionam evidência que permite contrastar duas ou mais teorias sem que isso implique. só pode haver o abandono de uma série de teorias interligadas. para fazer inclinar a balança entre programas rivais de investigação” (Lakatos. 1978. retrospectivamente. chamadas de ‘experimentos cruciais’ ou não. Lakatos tece críticas pontuais à concepção de Popper 17. 17 Lakatos distingue três Poppers: o falseacionista dogmático – um mito inventado. no máximo. Todavia. muito menos ‘crucial’. 1996. aceitando ou rejeitando uma única teoria. Em síntese. os experimentos decisivos poderiam ser aqueles que proporcionam indícios considerados suficientes e adequados para a aceitação ou a rejeição de uma teoria. 195). plenamente ao menos. o que Bacon entende por “decisivo” pode não consentir. se mesmo assim o programa for derrotado. 1978. na perspectiva lakatosiana. 200 . 1987). caberia ao investigador julgá-las. p. De acordo com Cassini (2015). sobredito. Todavia. p. nenhum enunciado básico é capaz de rejeitar uma teoria. então “a guerra estará perdida e a experiência original será vista. o adjetivo “crucial” poderia ser empregado ao experimento que tivesse a capacidade de prever fatos novos e desconhecidos. para o progresso teórico. Conforme ele explicitou. Ele tem exigido. conforme o autor apontou. o falseacionista ingênuo. 285). O verdadeiro Popper nunca explicou circunstanciadamente o processo de apelação por cujo intermédio alguns ‘enunciados básicos aceitos’ podem ser eliminados” (Lakatos. equivocadamente. o falseacionista sofisticado. Afinal. com a ideia de destituição imediata e inequívoca de uma teoria. 225). p. frequentemente. são objetivamente cruciais” (Lakatos. no entanto. como tendo sido ‘crucial’” (Lakatos. necessariamente. a “confusão” entre experiências cruciais e decisivas. numa palavra. Mas a disputa não está encerrada: a qualquer programa de pesquisa é lícito sofrer alguns insucessos. que discordam entre si. sem que outra teoria melhor esteja necessariamente envolvida. empírico e heurístico (Lakatos. a reabilitação. para Popper ele estaria pautado em anomalias (Nickels. a caracterização dos experimentos cruciais pela filosofia da ciência dá margem. “Nenhum experimento isolado pode desempenhar um papel decisivo. Lakatos justifica isso afirmando que “o verdadeiro Popper nunca abandonou suas primeiras (ingênuas) regras de falseamento. somente. A ele cabe. até o presente. de uma heurística que instrui os cientistas a modificar o cinturão protetor (conjunto de hipóteses auxiliares e métodos observacionais) de modo a adequar o programa aos fatos” (Silveira. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). O autor defende que o verdadeiro Popper é uma junção de um falseacionista ingênuo com elementos de um sofisticado. conforme o filósofo salientou: “Não existem experiências cruciais. como um desafio dentro de uma “batalha”. fornecem luz em meio à sombra. Ao que parece. 2017 títulos honoríficos atribuídos a certas anomalias muito tempo depois do acontecimento. aceitando uma e rejeitando outra. na aceitação/rejeição de alguma delas. 284-285). a noção de experimentos cruciais em retrospectiva é um posicionamento antagônico daquele apresentado por Bacon (Hacking. p. Nesse sentido. isso se assemelha com a 16 “Um programa de pesquisa constitui-se de um núcleo firme (conjunto de hipóteses ou teoria irrefutável por decisão dos cientistas). mas comparando um programa de pesquisa com o outro. pelo menos não existem se por elas entenderem experiências capazes de derrubar instantaneamente um programa de pesquisa. 1979. que significam que a teoria está refutada’. se realmente observadas. 219). Contudo. diferindo novamente de uma visão mais simplista da filosofia popperiana. Ele ainda interpreta ‘falseamento’ como resultado de um duelo entre a teoria e a observação. p. sempre é possível progressivamente defender uma teoria durante um prolongado tempo. 192-206. e não de uma teoria individual. Enquanto que. Neste sentido. para Lakatos. e Popper se inclui aqui. Em seus escritos. Popper e Lakatos. A noção baconiana dá margem ao caráter decisivo da instância crucial. quando um programa de pesquisa sofre uma derrota e é suplantado por outro. No entanto. que ‘se estabeleçam de antemão os critérios de refutação: urge que haja consenso em torno das situações observáveis. Estritamente elas podem ter. As concepções de Duhem. as instâncias cruciais são elucidativas. um experimento que contradiz um programa de pesquisa é visto. ‘explicada’ – pelo programa derrotado)” (Lakatos.

às vezes se debruça em ondas de harmonia. mediante a qual os jovens são levados a pensar a ciência como um campo de construção de conhecimento. 46). sua análise e desenvolvimento não são algo estático. “nenhuma experiência é crucial na altura em que é realizada (exceto talvez psicologicamente)” (1978. de cientistas “gênios” e do desenvolvimento sempre linear e acumulativo da ciência. “Mesmo sem serem muitas vezes efetivamente decisivos. permanentemente. Somente à luz de um referencial teórico é possível analisá-los ao longo da história da ciência. 164). os dados isoladamente não podem decidir ou gerar teorias. Como ressaltam Cupani e Pietrocola (2002). 349). p. “embora seja mais do que provável que eles pensavam que estavam” (Dumitri. como a ideia de experimentos cruciais. onde se articulam. o significado e a consideração da existência. da verdade absoluta das teorias. o ensino está cada vez mais fazendo uso de programas televisivos. Não é necessariamente verdade que Boyle ou Hooke. 2015. Os significados atribuídos ao termo diferem não só em crivos filosóficos. Ademais. 100). Mas eles também requerem cuidados historiográficos. constataram características que intensificam concepções limitadas da experimentação e da própria ciência. ou instâncias cruciais.. Assim. 2010). Este é um pressuposto que realça a ideia de que evidências empíricas independentes de corpos teóricos de conhecimento existem. contextual e dinâmico. 2004. É enganoso apresentar aos alunos a ideia de que as teorias são abandonadas por causa de alguns “resultados negativos”. como na própria concepção dos estudiosos. ou não. tomou como um dos critérios de avaliação o pressuposto de que os livros trouxessem “uma visão de experimentação afinada com uma perspectiva investigativa. de experimentos cruciais são relativos. ao menos as que são explícitas. A retomada de sua gênese. por exemplo. como o mar. outros podem não ver. 2017 concepção baconiana. Schmiedecke e Porto (2015). Todavia. no entanto. 16). um experimento. são bastante esclarecedores. discorrer sobre os experimentos cruciais em uma perspectiva histórico-filosófica. Cabe ressaltar. uma vez que podem reforçar o mito do experimento crucial. por si mesmo. muitos estudantes acabam atribuindo ao experimento crucial o papel de validar uma teoria (Silva. “O papel crítico dos experimentos é um aspecto importante da ciência. além de livros didáticos. como filmes. Essas considerações essenciais acerca de experimentos cruciais parecem inexistir no ensino de ciências. o certo é que alguns experimentos. todas as teorias têm que conviver com 201 . mas enérgico que. estavam utilizando a locução “experimento crucial” com o mesmo entendimento de Bacon. que os livros estão buscando aprimorar a visão de ciência apresentada. como salienta Lakatos. mas também de fatores idiossincráticos relacionados à biografia e à personalidade individual” (Kuhn. pode ser fecundo para um ensino que visa romper com a estereotipação da experimentação. por vezes em um maremoto de desconcertos. nas seções anteriores. evidencia que a ciência. 192-206. incontestavelmente. mas as teorias somente são abandonadas quando existem evidências que obrigam a isso (que persistem por longo tempo e atingem o cerne fundamental da teoria) e/ou quando uma teoria alternativa e mais promissora se torna disponível. 2015) de física. Por certo. precisa ser apreciado. p. A ambiguidade existente na análise da importância e relevância de dados empíricos é algo a ser refletido também no ensino de ciências. A relatividade de significados do termo. p. como o mito do observador neutro. na história. o ensino admite quase que tácita e acriticamente que os experimentos cruciais existem e podem estabelecer a “verdade” científica. com base nos dados de um único experimento. séries e documentários. com Bacon. por consequência. Como já apontava Hodson (1988). O Guia do Livro Didático (PNLD. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). Não obstante. p. entre teorias.. torna-se um caminho profícuo para isso. sempre. teoria e observação. pensamento e linguagem” (Brasil. e não apenas o da justificação. dirimindo dúvidas e apontando novos caminhos” (Peduzzi. ao analisarem alguns episódios de materiais desse gênero. Isso implica que.). Nesse sentido. em análises de livros didáticos é fácil identificar visões limitadas da experimentação. A experimentação é um processo complexo. 2011. ENSINO DE CIÊNCIAS E EXPERIMENTOS CRUCIAIS: BARREIRAS A ENFRENTAR Como se pôde ver. não é capaz de decidir. p. outra é rejeitada. onde alguns “cientistas” veem um experimento definidor e incontestável. que não admitia que os experimentos cruciais pudessem (e precisassem). do experimento crucial. É comum a ideia de que uma hipótese é aceita e. Na prática. “As escolhas que os cientistas fazem entre teorias rivais dependem não apenas de critérios compartilhados (. dar fim à tarefa de interpretação do investigador. todo o contexto da descoberta. pp. 2014.

Geralmente. Mesmo assim. Enganamos os alunos quando fingimos que os tipos de experimentos que eles desenvolvem em classe constituem meios seguros de escolher entre teorias rivais” (Hodson. mas de abrangência aparentemente menor (. etc. 36-37). 2010). isso está longe de ocorrer. rico e complexo campo de conhecimento. para os estudiosos e para a própria ciência de uma determinada época e contexto. 2000). 1988. no ensino de ciências. Por fim. as decisões fundamentais dos estudiosos são justificadas no sentido das escolhas feitas de acordo com valores específicos dos sujeitos ou de uma comunidade. Isto é. histórico. o uso do termo ‘experimento crucial’. Além disso. Ou seja. os estudiosos lidam com argumentos teóricos e experimentais pertencentes a paradigmas distintos. incluindo sua noção de experimentos ‘cruciais’. que a experimentação é parte integrante e essencial do processo de construção do conhecimento. p. Essas reflexões tendem apenas a melhorar a visão de ciência que se espera e almeja que um aluno tenha para compreender esse vasto. propicia reflexões acerca do papel dos experimentos no desenvolvimento científico e sua dependência com o contexto em que se insere. 2017) podem ser discutidas e levadas à reflexão dos alunos. ou seja. então os experimentos (ditos) cruciais. sobretudo. Há. A análise do contexto da descoberta. 2011. distintas funções epistêmicas da experimentação. como mostra a praxis científica. 192-206. 2001).. per se. sociais. 2017. 344-345). e não apenas o seu contexto da justificativa. 2016). ou ‘tradução’. e justificado. como ressalta Kuhn. Um resgate da noção de instantia crucis de Bacon permite que se contextualize. o tipo mais primitivo de racionalismo propôs que as controvérsias deveriam ser resolvidas por meio de experimentos cruciais (Kitcher. um debate pode ser resolvido. “alguns cientistas valorizam mais do que outros a originalidade. a princípio. 2017 resultados anômalos. não são e não podem ser compatíveis. um consenso atingido por meio de um experimento desse tipo. não seriam logicamente possíveis. culturais.. embora difícil. não geram teorias. porque. que envolve o diálogo entre as expectativas e convicções teóricas do investigador e as observações que ele realiza. em diferentes meios que divulgam a ciência e até mesmo na sala de aula. não deixando de reconhecer sua limitação diante de novas posturas epistemológicas. existe. para a escolha paradigmática. que os dados. da gênese e do desenvolvimento de uma controvérsia. apenas uma comunicação parcial entre eles. Investigações em Ensino de Ciências – V22 (3). paradigmas rivais oferecem lentes conceituais diferentes. subjetivas. sociais. Como salienta Steinle (2002). A ‘comunicação’. filosóficas. 202 . apesar de Bacon instituir uma concepção duramente empírico-indutivista. a relevância de determinado experimento. para não ser abatido pela crítica contundente dos que a ele se opõem” (Peduzzi & Raicik. que competem pela preferência dos membros da comunidade. “Admitindo-se teoricamente a incomensurabilidade dos paradigmas. como uma instância inapelavelmente decisiva. Atrelada à noção dos experimentos cruciais distintas concepções relativas à Natureza da Ciência (Peduzzi & Raicik. isto é uma característica natural da ciência. p. precisa ser bem ponderado. cultural.) toda escolha individual entre teorias rivais depende de uma mescla de fatores objetivos e subjetivos. particularmente quando se leva em conta o fator tempo. contextuais. ou de critérios compartilhados e individuais” (Kuhn. quando em um embate científico. Ademais. a falta de uma medida comum entre eles. como a ideia de que não há observações neutras. considera-se que o papel dos dados experimentais é crucial para a aceitação ou rejeição de uma teoria (Niaz. ele permitiu que a experimentação tivesse o seu lugar de destaque na ciência (Raicik & Peduzzi. 55-56). Na perspectiva kuhniana. é possível apontar na filosofia baconiana. Aliás. religiosas. e por isso são mais propensos a assumir riscos. no âmbito do paradigma no qual aderem. O estudo de controvérsias científicas também é uma das possibilidades para a inserção dessa temática. que a ciência é influenciada por perspectivas culturais. irá depender de diferentes perspectivas filosóficas. p. Alguns preferem teorias mais abrangentes e unificadas a soluções exatas e detalhadas dos problemas. essa discussão. epistemológico. Contudo. evidencia que distintas teorias podem ser originadas por meio de uma mesma experiência (Kipnis. inevitavelmente. pp. as distintas compreensões de um experimento crucial e romper com a visão estereotipada de que uma “verdade” pode ser alcançada.

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