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Gadet, Françoise; Pêcheux, Michel

A Língua inatingível —Françoise Gadet; Michel Pêcheux


Tradução: Bethania Mariani e Maria Elizabeth Chaves de Mello --
Campinas —Pontes, 2004.

Bibliografia.
ISBN 85-7113-186-4

1. Análise do discurso 2. Lingüística 3. Semântica


4. Linguagem e história I. Françoise Gadet II. Michel
Pêcheux III. Bethania Mariani e Maria Elizabeth Chaves
de Mello(traduçâo) IV. Título

CDD - 410
401.4

índices para catálogo sistemático:


1. Análise do discurso : Lingüística 410
2. Discurso : Análise : Lingüística 410
3. Análise semântica : Lingüística 410
4. Linguagem e história 401.4
2004
Copyright by © dos autores, gentilmente cedido para a publicação
língua portuguesa para a Pontes Editores Ltda.

Coordenação editorial: Ernesto Guimarães


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2004
Impresso no Brasil
SUMARIO

SO BRE O INTANGÍVEL,O AU SEN TE E O E V ID E N T E ............ 7

P R E F Á C IO .............................................................................................11

INTRODUÇÃO ............................................................................... 17
A LÍNGUA D E M A R T E ..................................................................... 19

I. A METÁFORA TAMBÉM MERECE


QUE SE LUTE POR E L A ..........................................................27
1. LINHA RETA, PÊNDULOS, ESPIRAIS......................................29
2. A FO RM AÇ ÃO D A S LÍN G U AS N AC IO N AIS.........................35
3. A ANTRO PO LO G IA LINGÜÍSTICA ENTRE
O D IREITO E A VID A.................................................................... 41
4. O S H O M E N S LO U C O S POR SUA L ÍN G U A ..........................45
5. O REAL DA LÍNGUA É O IM P O SSÍV E L ................................51
6. D O IS SA U SSU RE?..........................................................................55
7. A IRRU PÇ ÃO D O EQ U ÍVOC O NO R E A L ............................( 6 3
8. O UTU BRO D E 17 E A FORÇA D AS PALAVRAS..................ÁSÍ
9. O S PROTAGONISTAS D O OUTUBRO LINGUÍSTICO
E L IT E R Á R IO ................................................................................... 73
10. O S CAM PONESES DA IN TELLIG EN TSIA............................77
11. A DUPLA FACE D O GIGANTE M A ÍA K O V S K I................. 83
12. COMEÇA A GRANDE L IM P E Z A ............................................ 87
13. O H UM O R PERDIDO N O GRANDE M É T O D O .................. 93
14. A DUPLA L IN G U A G E M ........................................................... 97
15. A "LINGUÍSTICA MARXISTA ” ............................................. 101
16. D E CÍRCU LO E M C ÍR C U L O .................................................105
17. O ÚLTIMO D O S C ÍR C U L O S...................................................111
18. A LINGÜÍSTICA TORNA-SE SÉ R IA ...................................... 115
II. PERTENCEMOS A UMA GERAÇÃO QUE
ASSASSINOU OS SEUS POETAS.........................................119
1. A GRANDE TRAVESSIA..............................................................121
2. A LÍNGUA: M O D ELO LÓ G IC O O U REALIDAD E
F ÍSIC A ?...........................................................................................[127
3. POPPER E M C H O M S K Y ............................................................133
4. D EU S INFINITO C RIO U O M U N D O F IN IT O ......................139
5. A AM BIGÜ1DADE COM O PARÓDIA D O EQ U ÍVOC O.... <J45
6. O SISTEMA PO STO A N U P E L A S SU A S F A L H A S ............ J4$~
7. QUAL É A COR D A S ID ÉIAS VERD ES?................................ 153
8. SO M O S DA G ERAÇ ÃO Q U E FAZ L IN G Ü ÍS T IC A .............. 163
9. NUNCA O M AC A C O O M A IS INTELIG ENTE..................... 173
10. ESTRATÉG IAS F A G O C IT Á R IA S........................................... 179
11. D O IS C H O M SK Y ?.......................................................................183
12. E N SIN A R A GRAM ÁTICA O U N Ã O ? ................................... Ç85
13. D IREITO CONTINENTAL E U RO PEU E
DIREITO A N G L O -S A X Ô N IC O ............................................... 189
14. ENIGMA, W ITZ E J O K E .......................................................... 193
15. A LIN G U AG EM HUM ANA VISTA POR
UM M A R C IA N O ..........................................................................1 9 9
16. A S FALHAS D E UMA RA ZÃ O SE M F A L H A .....................Í203
17. N A S CABEÇAS, A M ÁQUINA D E E S T A D O .......................ZÓ7

C O N C L U S Ã O ...................................................................................211
A LÍNGUA P E R D ID A ?....................................................................213

BIBLIOGRAFIA 215
SOBRE O INTANGÍVEL, O A USENTE
E O EVIDENTE

Este livro, escrito a quatro mãos (e temos aqui o privilégio de um


prefácio feito por um dos autores, Françoise Gadet), merecia há muito
uma boa tradução para que os leitores de Michel Pêcheux, ou da análise
de discurso que ele inaugura, pudessem apreciar a sua maestria em mos-
trar o saber como incompleto e instalar o deseio de compreender mesmo
assim. Mantendo sempre como objeto o discurso. O título que escolhi
para a apresentação brasileira da tradução me é muito caro: o intangível,
o ausente e o evidente são modos de presença muito diversos de proces­
sos inconfundíveis que tocam a relação da língua com a história. A disci­
plina capaz de tratar dessa relação em sua materialidade contraditória é a
análise de discurso.
Nessa obra podemos ver como a noção de equívoco trabalha a refle­
xão sobre a análise de discurso, sem trégua. Mas não é só das noções
discursivas que trata este livro. Seu nome já aponta para o que inquieta
os autores: a língua em seu real que, como diz J-C Milner, é o impossí-
^yel. Para compreêlkitíi isSo, e pai Lindo da idéia de que há língua e há
línguas, os autores se dão a difícil tarefa de compreender a relação
língua/discurso.
Para tal, fazem uma belíssima história da lingüística, sem deixar de
lado o sujeito do conhecimento, o político, a ideologia e a própria histó­
ria. E sua tomada geral dessa história de idéias se faz pela contradição.
Contradição que interroga a línmiq em sua vizinhança imediata com o
paradoxo e o absurdo: aí ele introduz a noção de “witz” e um deslizamen­
to nas certezas lógicas do “american joke”.
Criticando o empreendimento lingüístico que se encontra constituti­
vamente afetado por uma dupla deriva - a do empirismo e a do raciona-
lismo - ele vai mostrar, com sua reflexão sobre esta história, que esta
dualidade contraditória se realiza materialmente na própria estrutura
das teorias lingüísticas e na história de seus confrontos. Trabalhando
todo o tempo a contradição de que existe língua e existem línguas, pas­
sando pela reflexão sobre a formação das línguas nacionais, ele toma
partido junto mas ao mesmo tempo contra J-C Milner pois se para
Milner há só o real da língua para Michel Pêcheux há também o real
da histórig.. É assim, diz ele, que se pode sair da pessimista oposição
’simplista(formalismo/sociologismo) e encontrar razões em uma com­
plexidade contraditória.
Eu considero esta questão fulcral para a análise de discurso em
geral e para este texto em particular. Na “conversa” com Milner po­
demos ler no texto: “O materialismo histórico pretende se fundar so­
bre uma tomada desse real como contradição. É precisamente o que
recusa J-C Milner considerando na hora atual a história como um
puro efeito imaginário, eventualmente mortífero, e sobretudo não como
um real contraditório”. Portanto, é pela discussão do real da história
em sua relação com o real da língua, pelo absurdo, pelo impossível,
pelo equívoco, pela contradição e não pela oposição formalismo/socio-
logísmo que Pêcheux sustenta teoricamente a história da lingüística que
ele formula.
Se a questão do real da língua e da história e sua relação com o conhe­
cimento assim como a questão da contradição é um eixo dessa reflexão,
não podemos deixar de realçar o modo como ele introduz e sustenta teo­
ricamente a questão do sério, do jogo, da piada como forma de argumen­
tar sobre a praxis discursiva que toca a materialidade da língua. E o faz
porque a esta altura a análise de discurso voltava-se com empenho para
materiais de linguagem que não se esgotavam metodologicamente no cor-
pus do discurso político. Já na citação sobre Brecht (p.95 do original)
podemos ler: “B. Brecht escreveu que era difícil aceder ao Grande Mé­
todo (a dialética) quando se era desprovido de humor”. Nesse ponto o
impossível e a contradição se conjugam manifestando o real da história.
E a história de. _qne fala Michel Pêcheux é a de Stalin, dos intelectuais
soviéticos, e dos camponeses, atingidos paradoxalmente pela divisão do
processo revolucionário contra si mesmo.
E se falo nesse paradoxo, e no humor necessário para poder vivê-lo
em sua contradição, é porque a teoria também não é indiferente a este
processo. O que Michel Pêcheux compreende bem quando, com Gadet,
escreve o capítulo sobre “A lingüística se toma séria”. Pretende-se co­
mandar a língua, apagando sua materialidade, seja pela “falaciosa trans­
parência da lógica e no arbitrário mistificado da “loucura””. Suportar
então a irrupção do non-sens no pensamento, dizem os autores, é respon­
der a uma profunda necessidade política. Essa é uma prática de quem
trabalha na relação da materialidade da língua com a materialidade da
história, ou como Pêcheux define, a discursividade: efeito da língua su­
jeita a falha que se inscreve naJiistóría.
Sao fartos os trabalhos em que Michel Pêcheux fala da passagem do
irrealizado para o sentido possível, do non-sens, do trabalho do equívoco
e da falha não como defeito mas como modo constitutivo de existência e
de funcionamento do/suieito e do sentido. Indo mais longe, a partir do
que que diz Lacan £obre a metáfora, ele faz dela, ilocalizável como a
poesia, um efeito revolucionário, pois a metáfora faz mexer as evidênci­
as do “mundo nortnal”. £
É assim que pie e Gadet contam a história da reflexão sobre a lin­
guagem, a partif de uma perspectiva discursiva, falando sobre Saussu-
re, Chomsky, 4 Círculo de Praga e outros, desfiando histórias sobre o
enigma, o w iti, o joke. E aqui vale a pena observar como se pode falar
da ciência, através de argumentos teóricos inesperados. Segundo o
que diz o texto, o encontro do humor judeu e do absurdo anglo saxão é
o lugar de uma contradição. A ambigüidade anglo-saxã é fundamental-
mente dicotômica, inscrevendo-se no mundo lógico, reduzido, do mun­
do que constrói o raciocínio lógico. Já a relação do humor judaico ao
absurdo é diferente: ele não se dá jamais à pura lógica, mas supõe
sempre um desvio pela história, pela língua, pelo Texto. Reconhece­
mos aí a materialidade do discurso. Por aí podemos também deduzir
que a liripn^fi^st-^prirafírr-^ pnr.nntra Hg outro lado, do lado de uní
humor lógico,-^urdo ao equívoco^ Mostrando este jogo enlre_Q witz~ecT
jõke,~C) qué os autore^3tão^pg5gurando evitar, sempre, é uma concep­
ção biõlogizahte, a-histórica do homem.
Chamo a atenção para o fato de que os autores tomam a questão do
humor, do witz, do joke, não para fazer uma descrição ou apresentar uma
explicação, mas para produzir uma teoria que abra a compreensão de
uma história, no caso, da ciência. F. este o procedimento da análise de
discurso em uma reflexão que se dá como objeto a elaboração de uma
análise de discurso que
Michel Pêcheüx propôs.
. Gostaria de referir ao trabalho da tradução tão bem cuidado pelas
tradutoras. Eu as conheço de muito e sei de como, para elas, uma tarefa
como essa coloca em pleno o que diz Pêcheux quando fala da interpreta­
ção: é uma questão política, é uma questão de responsabilidade. Cumpri­
da com esmero e à risca.
E para terminar, reproduzo o humor com que, exemplarmente, os au­
tores fecham (e não fecham) seu texto:

“Sobre o tempo lógico: o camponês, o burguês e o oficial.


Quando se conta uma história a um camponês, ele ri três ve­
zes. A primeira, quando a contamos. A segunda quando a explica­
mos para ele. A terceira quando ele a compreende.
Um burguês, ele, ri duas vezes. A primeira quando a contamos.
A segunda quando a explicamos. Mas de todo modo ele não a
compreende.
O oficial ri uma só vez, quando a contamos; ele não lhe deixará
o tempo de explicá-la, e ele não está aí para compreendê-la”.

Espero que esta história que contam os autores encontre nos


leitores o tempo de rirem muitas vezes, estejam em que lugar esti­
verem.

Eni P. Orlandi
Campinas, Outubro de 2003
PREFÁCIO
Françoise Gadet

O pedido da tradutora da obra para que eu escrevesse um prefácio,


quase 20 anos após a redação de La langue introuvable, e quase 20 anos
após a morte de Michel Pêcheux, me causa evidentemente prazer; mas tal
solicitação não é para mim insignificante e me obriga a percorrer um
caminho intelectual que não foi renegado nem esquecido, mas de certa
forma colocado a distância por diferentes razões que ultrapassam ampla­
mente meu percurso pessoal.
La langue introuvable, livro denso, constitui, sem dúvida alguma, um
gênero dificilmente identificável (para mim como aparentemente para ou­
tros, pois - como foi pouco citado - parece ter encontrado poucos leito­
res quando de sua publicação em 1981): simultaneamente reflexão epis-
temológica no âmbito de uma disciplina, estado da arte daquilo que veio
a se chamar mais tarde “ciências, dã linguagem” (termo adotado oficial-
mente na França apenas e rrf1983) ao colocar em realce contradições
fundamentais que a atormentavam (daí o diagnóstico, já na época, de
uma “crise” da disciplina), e retomo a seus fundamentos, sobretudo filo­
sóficos. E, como pano de fundo, reflexão sobre as condições de constitui­
ção da análise de discurso, cujos fundamentos são em parte determinados
pelo fato de que foi na lingüística (embora nem sempre através de lin-
güistas) que ocorreu sua emergência.
Uma distância de 20 a 25 anos parece constituir um tempo suficiente
para permitir o retomo a um texto com um olhar, por assim dizer, um
pouco mais exterior. Assim, antes de mais nada, reli o texto, supondo que
ele certamente tinha conservado algum interesse, já que existem pesquisa­
dores que desejam lê-lo, atualmente, e fazer com que seja lido, ao ponto de
se darem ao trabalho de traduzi-lo. Mas busquei sobretudo reler o texto
não com um espírito de inventário que de início se impôs a mim e do qual
tive dificuldade de me desprender (gosto/não gosto, mantenho / assumo /
modulo / recuso...), mas como um texto, e não mais como meu texto (meu,
apenas em parte, pela distância temporal como também pela escritura a
dois que maltrata a pretensão de autoria; e, justamente, não sou sempre
capaz de dizer sem hesitação qual de nós dois é a fonte de quê - o que é
mais motivo de prazer, pois é sinal de que é um texto e não uma colagem).
Sou de início tomada pela ambição teórica e epistemológica, que
me parece bastante característica dos anos 70-80, e que pode nos pa­
recer hoje em dia ao mesmo tempo excessivamente generalizante e
derrisoriamente otimista, mas que é, com certeza, marca de uma épo­
ca pouco anterior ou concomitante ao momento de algumas desilu­
sões, teóricas e políticas, pelas quais nossa geração passou. Parece-
me que seria difícil continuar a assumir uma tal ambição nos dias de
hoje. Por sinal, ela não deixou de me irritar e tornou essa releitura,
confesso, uma provação a que me submeti sem prazer. Parece-me di­
fícil compreender uma tal ambição relativa ao ponto de vista sem re­
tornar àquilo que os anos 70-80 representaram na França, anos de
esperança, sob os aspectos intelectuais, culturais, políticos1. E, por­
tanto, em primeiro lugar, à totalização do projeto que não posso mais
me adequar: que poderia justificar essa arrogância, esse tom, que me
parece às vezes mais coberto de certezas do que de um espírito de
pesquisa (no sentido de uma busca), apesar de o que ele diz expressar
de fato uma inquietude? Embora um tal projeto, intelectualmente am-
hicioso. de traçar um horizonte de análise de discurso confrontando
três cam pos^históna (ideologia), inconsciente e lingüística (língua)
- possa ainda não se ter perdido de vistã7perdeu-se o imperialismo,
em uma época em que cada um se fecha isoladamente em suãBTscípli-
‘ Jia e s e in t e r e s s a p n i i r n a ris e n e n n t r n s ín tê T rtts rT p fT n a re s (e p n r~ rjn ê
nãcLdizer. os encara com desconfiança). ~
Encontro em seguida o que me parece serem intuições confirmadas
pelo desenrolar da história, quanto ao destino a médio prazo da disciplina
lingüística, desde então cercada por um movediço terreno de contradi­
ções no qual ela se afundou seguindo um movimento pendular entre o
formalismo e o empirismo (o primeiro esboço do livro, por sinal, havia
sido um longo artigo, intitulado, segundo o estilo dramático bem típico
da época: “Haveria para a lingüística uma via fora do fonnalismo e do
sociologismo?”)- As duas tendências apresentavam-se então como obstá­
culos"gêmeos ou simétricos, como duas figuras em espelho, cada uma
refletindo caricaturalmente e com frieza o recalque da outra. Hoje em
dia, ninguém pode mais vê-las como simétricas: o sociologismo se afun­
dou no empirismo e no ecletismo, é o formalismo que ocupa o primeiro
lugar e foi em seu nome que se autorizou o desTnTeressecTâs ciências da
hnguflgern pelos seres falantes (suas produções, suas falas, seus textos,
seus_discursosj,~os quais élá"não pode levar em conta a não ser como
suportes, inevitáveis, dê sistemas linguísticos.
Mas vejo tamBêm, além das"réflexões inevitavelmente ultrapassa­
das pelo estágio em que se encontram as teorias atuais, o que me
parecem ilusões, como a esperança de que a gramática gerativa ou
qualquer outra teoria formalista seria suscetível de fornecer um es­
quema de descrição ou de modelização para as disciplinas do discur­
so. Não mais consigo compreender como pode ter imaginado na épo­
ca que essas duas orientações podiam constituir projetos intelectual­
mente aproximáveis, senão compatíveis. O que era então levado em
consideração através de uma formulação em termos de “real da lín­
gua” pode, atualmente, com o recuo, ser visto como uma tentativa de
buscar sempre mais adiante uma demanda de estudo da língua, espé­
cie de ilusão paralela àquela formulada diante das ferramentas da in­
formática. A manutenção do fio de Ariadne de uma incontornável
materialidade da língua, bem frisado no texto de Denise Maldidier, é
o que traz uma certa beleza, mas talvez também a utopia - sempre
graças ao recuo - do primeiro livro de Michel Pêcheux, L 'analyse
authomatique du discours*, publicado em 1969.
Desejando atualmente traduzir essa obra, os brasileiros2nos remetem
ao sentido que ela pôde adquirir, e portanto evidentemente à pedra que
ela constitui no caminho (em um sentido bastante amplo) de uma reflexão
sobre a análise de discurso. Essa análise de discursos “à francesa”3 mu­
dou muito a partir dos anos 80. Ela se institucionalizou relativamente na
universidade: viu surgirem vários manuais e dicionários; cristalizou-se
ao redor de “escolas” (ao mesmo tempo como hetero- e como auto-desig­
nação, já que pesquisadores puderam reclamar para si essa designação);
conturbou até certo ponto as fronteiras das disciplinas (reconfiguração
no interior das ciências da linguagem, conduzindo estas últimas a levar
em consideração a análise literária, a reflexão filosófica, ou perspectivas
como a história, a etnologia ou a microssociologia); banalizou-se, em
certa medida, em uma demanda social de ajuda à leitura; e, enfim, se
expandiu para fora da França.
Todos esses destinos constituem o percurso previsível de uma disci­
plina “vencedora”, que consegue se impor em um campo e construir seu
lugar no panorama, muitas vezes já bastante ocupado, das ciências hu­
manas. Um outro indício desse sucesso é que os pesquisadores que an­
tes evitavam o termo podem reivindicá-lo abertamente hoje em dia. Dito
isso, há também indícios de relativo fracasso (entre eles sua marginali­
dade em currículos de ensino, com exceção de alguns espaços bem iden­
tificados). Revela-se, então, oportuno nos dias de hoje fazer um balan­
ço sobre o desenrolar dessa aventura intelectual, balanço esse diante do
qual diferentes iniciativas dos brasileiros nos têm colocado (tal é o caso,
por exemplo, do colóquio que deverá ocorrer em novembro de 2003 em
Porto Alegre).
Concluirei, por conseguinte, este prefácio evocando uma busca, a
minha evidentemente, já que Michel Pêcheux não se encontra mais aqui
para dizer qual seria a sua, durante esses vinte anos em que tudo se
modificou para aquele que quer situar sua reflexão nas disciplinas do
discurso. Meu caminhar foi pouco a pouco se distanciando das ques­
tões epistemológicas (pelo menos das diretas), para se concentrar em
tomo de um certo trajeto de sociolingüística, disciplina que provoca
sarcasmos em La langue introuvable (mais pesados certamente do que
aqueles que visavam o formalismo). Em vinte anos teria eu mudado de
orientação e de indagação fundamental? No entanto, o que busco NO
sociolingüístico nada tem a ver com o projeto simplista dado como ob­
jetivo DA sociolingüística (uma co-variação banal e monótona, entre
social e lingüístico ou linguageiro). Essa busca, eu a resumo como
uma interrogação sobre o que fazem os seres humanos quando pro­
duzem discurso ou texto, quando pensam produzir sentido ou algo
que pareça fazer sentido para outros locutores. Análise de discurso
e sociolingüística poderiam, então, se encontrar do mesmo lado em um
projeto intelectual; e pouco importa no final das contas se chamamos
uma tal interrogação dessa ou de outra maneira.
Faço então a sugestão de que está chegando o tempo em que pode­
rá emergir uma nova configuração das disciplinas da fala (do discur­
so, do domínio das práticas linguageiras), mais ou menos iniciada e
desejada já em La langue introuvable, mas talvez muito cedo e, sem
dúvida, de modo canhestro e com muitas ilusões. Uma nova configu­
ração implantada no terreno de uma lingüística do contexto (no senti­
do amplo, que retoma algo tanto do fio do discurso quanto do inter-
discurso), que se apoiaria nas preocupações fundamentais que têm
em comum certas correntes de análise de discurso, de sociolingüísti­
ca, de pragmática, de análise da conversação, mas também certos es­
tudos da língua falada (por exemplo, de acordo com a recente mani­
festação da “macro-sintaxe”). Nova configuração que não buscaria
especialmente defender uma unicidade das ciências da linguagem, nem
tenderia à autarquia com relação às outras ciências humanas ou à
história4, e não retomaria a ilusão estruturalista de uma disciplina em
posição de liderança intelectual.
' Essa nova configuração se interessaria, pelo sujeito falante, visto em um
sentido .amplo como utilizador da linguagem, como sujeito historicamente
situadovc com o sujeito E tal configuração trataria de transformar em objeto
de investigaçãcvcompreensível e possível, náo somente o que ele diz e o qué
parece dizer mas também o que faz quando fala —éjjobretüdo quandü fàla
do modo que fala-c não de outra forma-tanto quando escuta ou se cala.

Tradução do prefácio:
Bethania Mariani e Fernando Afonso de Almeida
NOTAS

1. Desse ponto de vista, o grande texto de Denise Maldidier, “(Re)lire M ichel Pêcheux
aujourd'hui”, que apresenta os trabalhos de Pêcheux na abertura de L ’inquiétude du
discours (É ditions des Cendres, 1990) consegue de modo m arcante colocar a febre
teórica dessa época. [Tradução brasileira de Eni P. Orlandi lançada pela Pontes em 2003,
A Inquietação do discurso —(Re)Ier Michel Pêcheux Hoje.]
2. Vendo de longe (o Brasil visto da França), parece sempre possível categorizar de modo
grosseiramente generalizante. Naturalmente, não se trata do conjunto do povo do Brasil,
e é necessário ressaltar o papel desempenhado por determinadas pessoas. Foi a iniciativa
de Eni Orlandi em 1987 ou 1988, dirigindo-se a mim, justamente como co-autora de La
langue introuvable, que direta ou indiretamente propiciou o desenrolar de uma boa parte
das relações posteriores entre brasileiros e franceses sobre a análise do discurso.
3. Por oposição, em particular, à análise de discurso anglo-saxã. As duas tradições têm
poucos contatos, e penso que esta é uma das apostas em termos dos desdobramentos
dessa disciplina na medida em que ela saberá produzir uma síntese dessas duas tradições.
Ver a obra do inglês Glyn Willians (ele mesmo muito atípico no mundo anglo-saxão),
para avaliação disso que tinham proposto os franceses, logo, Pêcheux: French Discourse
Analysis. The method o f post structuralism, London & New York, Routledge, 1999.
4. Uma tal configuração é o que me parece propor o programa do colóquio de pragmática
previsto para ocorrer em Toronto em julho de 2003. Não sou, então, a única a sonhar
com um tal reagrupamento. De modo paralelo ao que disse com relação à sociolingüísti-
ca, a pragm ática é, então, tomada como uma vasto guarda-chuva das disciplinas do
discurso.
* [Ver em tradução brasileira Gadet, F., Flak, T. Por uma análise automática do discurso.
Campinas: Ed. da Unicamp, 1993]
A LINGUA DE MARTE
Se o objeto da lingüística consiste no duplo fato de que existe língua e
de que existem línguas, é necessário pensar no momento de sua divisão
que, aliás, é a imagem de Babeli o mito anresenta a divisão das línguas
coincidindo com o começo do Estado, do direito, das ciências é~dõ~prazer
sexual... logo, com o começo de urrKjm^ssív^etõrfro ãõ paraíso perdi­
do. contemporâneo mesmo dessa_peraã~~^— /
A lingüística, ciência da língua e das línguas, ciência da divisão sob
a unidade, traria assim, linkritojem seu destino o desejo irrealizável de
curar a ferida narcísica aberta pelo conhecimentCLda divisão. Seria esse
destino que induz a estranha propensão da lingüística a se resvalar na
ignorância? Essa surdez interna ganha terreno cada vez que a lingüísti­
ca deixa o real da língua, seu objeto próprio, e sucumbe às realidades
psicossociológicas dos atos de linguagem que - pelo viés da designa­
ção, do contrato, do imperativo ou do performativo - terminam em
histórias de maçãs1. r—^
O que, então, a lingüística foraduilno ihtmor de si mesma? Nosso
empreendimento é recuperar (através dW escolas, das fêórías é cias pro­
blemáticas que marcam sua história) as_recorrências que, pela organiza­
ção que impõem ao trabalho lingüístico e pelo regime de funcionart^nto
científico que determinam para esse trabalho, são o sintoma dessa insist
tência no ensurdecimento. Elas podem ser resumidas em três questões:
0 C o m o é possível que o modo de existência dos conceitos lingüísti-
cos seja tão diferente do observado nas outras ciências? Frente aos nume­
rosos lingüistas que, nos últimos cinqüenta anos, propuseram sua Teoria
Global da Linguagem, como seria taxada a pretensão do físico escreven­
do, hoje, um Tratado do Mundo?
Quando Einstein ou Heisenberg expõem sua filosofia ou sua con­
cepção do mundo, fazem-no no mais das vezes após anunciar sua des­
coberta teórica e sem impacto direto sobre ela. Quando Chomsky acres­
centa à sua teoria lingüística uma referência às fontes filosóficas do
cartesianismo e às noções psicologistas como a da competência ou a
das estruturas mentais inatas, uma tal disjunção não é mais possível,
porque a filosofia chomskiana da linguagem e a concepção de homem
falante que ela contém não podem ser dissociadas de elementos teóricos
novos a ela acrescentados.
) t,
No entanto, a lingüística não poderia se reduzir a uma concepção de
mundo. Ela comporta intrinsecamente uma prática teórica que toma a
língua como objeto próprio, o que chamamos de “o real da língua”.
Mas a história da lingüística revela também uma tendência, inelutável ao
que parece, de fazer das filosofias espontâneas e das concepções do mundo
linguísticas a própria teoria lingüística, que, assim, corre sempre o risco de se
tomar uma ciência humana e social (C.H.S.)2. É isso que se produz, por
exemplo, quando o princípio de distintividade, que funda a pertinência fono-
lógica, se toma um filosofema geral que caracteriza a lingüística e que com­
porta ao mesmo tempo uma concepção comunicacional da linguagem.
2. Como é possível que, ao longo da evolução da lingüística, nenhu­
ma questão seja definitivamente abandonada no debate científico? A in­
tervenção de proibições acadêmicas - por exemplo, na questão da origem
das línguas - ou de decisões administrativas sobre a organização do ensi­
no da gramática apenas desloca ou recalca os problemas.
Como se a lingüística não quisesse saber nada sobre suas próprias
raízes, sobre sua história. Por que se espantar, então, que esse recalcado
faça retomo do interior mesmo das preocupações lingüísticas, na forma
de pontos em que a lingüística se trai?
O questionamento sobre a língua - e sobre o que se pode articular a
seu respeito - é uma preocupação estritamente especializada, indepen­
dente de onde a psicanálise tiver chegado a respeito do homem como
animal simbólico, ser falante? Se as apropriações que a psicanálise acre­
ditou poder se autorizar com relação a certos conceitos lingüísticos fa­
zem a lingüística correr o risco de desaparecer como tal com o avanço da
primeira, essa ameaça tem, entretanto, a vantagem de constituir em retor­
no um sintoma para os lingüistas: na verdade, eles não podem mais recu-
sar a idéia de que sua CíêHSra organiza sua autonomia em troca-de um
certo número de ignorâncias e recalques.
Mas essa vaga suspeita faz apenas nascer um mal-estar.
“Lingüista durante a semana, lemos os poetas nos dias de Sabá”, es­
creve um lingüista.
Ou então: ocupamo-nos com anagramas, música, política...
3. Onde a lingüística pretende chegar? Quais são seus “fins últimos”?
Sua história parece escandida por revoluções se instituindo por um gesto
teórico elementar (opor, comutar, parafrasear, manipular, transformar...),
em um método tomado como garantia de seu estatuto científico.
Como é possível que tais revoluções sejam somente revoluções palaci­
anas que, para interromper as incertezas anteriores não fazem senão modi­
ficar as alianças no campo das disciplinas universitárias? Regulam-se por
portarias as relações de vizinhança e de fronteira da lingüística com a ma­
temática, a estatística, a lógica, a psicologia, a sociologia, a biologia...
Como se a série dessas interrupções, através das quais a lingüística
tenta indefinidamente sair de si mesma sem nunca consegui-lo, lhe fosse
imposta do exterior, como um destino.
É um acasfl-sa.g distribucionalismo se desenvolve em uma época em
-que as necessidades do comércio, e depois da guerra, exigem procêdimefr-
íqíl rápidos e maciços de aprendizado de línguas? Se os procedimentos
markovianos dex.Qipunicação encontram as exigências de uma circulação
dájnformação em um aparelho administrativo, integrado e homogêneo? Se
a gramática gerativa coincide com a éxtensão comercial e estatística do
cálculo eletrônico com finalidades administrativas, voltado para a análise
jie experiências, pára a análise documental e para o tratamento de imensos
sistemas de dados? Se a renovação dos estudos semânticos, nesse mesmo
contexto, aparece com acentuadas exigências tecnológicas (comunicação
homem-máquina) e jurídicas (automatização das decisões judiciárias)? Se
o florescimento da sociolingüística se encontra ao lado do surgimento de
.uma nova gestão política das “diferenças” sociais?
Administração, tecnologia, pedagogia, direito e conservação da me­
mória social (dos dicionários aos bancos de dados), ou seja, as diferentes
“soluções” que as sociedades de classes não cessam de inventar para se
eternizarem.
As finalidades últimas da lingüística, longe de visar a uma solução
teórica, parecem manter uma relaçãõestreita com o desejo político de
terminar de uma vez por todas com os obstáculos que entravam a “comu-
nicação” entre os homens. Do esperanto àslínguas lógicas, os lingüistas
não param de procurar a nova língua universal capazjde reproduzir o
milagre de uma Pentecostes científica: Babel reencontradãT
— As perguntas que acabamos de formular ultrapassam amplamente a
prática cotidiana dos lingüistas e podem parecer estranhas a essa prática.
Questões sobre as continuidades ou descontinuidades da história da lin­
güística, sobre os “precursores” que nela se podem reconhecer, a existên­
cia de uma cientificidade comum que permita avaliar as diversas teorias,
são questões muito mais habituais para os lingüistas.
Ao explorar o espaço das principais conjunturas teóricas que consti­
tuem o trabalho lingüístico, tentaremos discernir, no entanto, como ques­
tões tão distantes como as mencionadas anteriormente fazem retomo nes­
se espaço, com insistência de um estranhamento familiar.
- A primeira conjuntura que estudaremos é a das origens pré-científi-
cas da lingüística, produzidas no momento da formação das línguas naci­
onais e desenvolvidas segundo dois eixos ideológicos do direito e da vida,
em uma dupla estratégia de apropriação antropológica das “linguagens”.
Essa conjuntura é traçada pelo fio subterrâneo das loucuras linguageiras
(algumas vezes oficializadas, outras vezes reconhecidas numa glória pós­
tuma, outras ainda definitivamente recusadas) nas quais os segredos da
língua afloram na forma parodística do delírio.
- O momento histórico dos começos (em que se fecha a construção do
indo-europeu) é o da constituição do princípio do valor: Saussure e o Cur­
so de Linguística Geral*; é claro, mas também os delírios etimológicos de
Brisset (no final do século XIX) ou as preocupações de Victor Henry com
a língua marciana3. Os enigmas subterrâneos dos anagramas, das línguas
criptográficas artificiais e das fronteiras da linguagem assombram imedia­
tamente a jovem disciplina. Uma inclinação suspeita que, sob ares científi­
cos, abriga o retomo de um ponto recalcado da lingüística...
- O encontro «ia lincrürétiea -nascente com a modernidade política se
BEoduz na Rússia de outubro de 1917. O princípio do valor encontra-se
desenvolvido “em estado prático^TTcsse imenso trabalho de massa que
afeta, nesse momento, as línguas da futura União. Fazendo parte da inte­
lligentsia revolucionária, os formalistas (lingüistas, poetas e escritores)
começam a pensar nesse processo e tentam administrar seus efeitos. O
encontro acaba mal: pouco a pouco, passam a ser evitados, são condena­
dos, excluídos, liquidados. Surdez política crescente com relação à or­
dem da linguagem e à do inconsciente? Os trabalhadores da língua serão
as primeiras vítimas do stalinismo nascente, enquanto a “lingüística mar­
xista” de Nicolas Marr vem se instalar no lugar do mestre.
No mesmo momento: a dupla linguagem política se toma a regra na
URSS, o funcionalismo - marxista ou não - invade a lingüística euro­
péia, a seriedade neopositivista começa a classificar os enunciados (pro­
vidos de sentido / desprovidos de sentido), a higiene nazista começa a
“purificar o mundo”.
- O itinerário de Roman Jakobson - do Círculo de Moscou, em
1915, ao Círculo de Praga nos anos trinta, em seguida nos EUA, por
ocasião da segunda guerra - simboliza a Grande Travessia que uma
geração de intelectuais (filósofos, cientistas, escritores, poetas, lógi­
cos e lingüistas) se viu forçada a fazer, perseguida pelo terror nazista.
O declínio do estruturalismo lingüístico europeu coincide com o nas­
cimento do movimento estruturalista dos anos sessenta4, que só se
refere aos procedimentos saussureanos para transformá-los em metá­
fora, no campo da filosofia, da história, da antropologia e da psicaná­
lise. A lingüística recomeça no MIT, inaugurando uma teoria científi­
ca da sintaxe que iria se tornar a Gramática Gerativo-Transformacio-
nal (GGT), associada ao nome de Chomsky. A lingüística da palavra
cede lugar a uma lingüística da frase5, grandemente presente na reto­
mada anglo-saxônica do neopositivismo.
Um avanço considerável na compreensão do real da língua, em parti­
cular pelo papel do agramatical e do absurdo nos raciocínios lingüísticos,
tem como contrapartida novos modos de recobrimento, logicistas e psi­
cossociológicos.
- A conjuntura contemporânea se constitui assim por uma contradição
entre um trabalho de interrogação da língua, na vizinhança imediata do
paradoxo e do absurdo (o espaço teórico de eficácia do Witz) e um mergu­
lho nas certezaslógicãs dó õm êncãn joke. Um compromisso se estabelece
entre o papel excepcional que tem, na lingüística americana, o Povo do
Livro (a Lei, o Texto, a Escritura) e os ideais do american way o f life.
A aposta nessa contradição começa a repercutir na França para além
das fronteiras da lingüística, no momento em que a crise do marxismo se
choca com os projetos neoliberais da gestão ideológica de massas. A língua
dg-tnadeira do direito e da política se enrosca com a língua de vento- dãf
propaganda e dã~pu5Hcidáctè. Umaiàee obscura de nossa modernidade à
qüè uma reflexão sobre a língua não poderia permanecer cega.
A introdução do n° 387-388 da revista Critique, consagrado ao mito
da língua universal, evoca, ao lado dos projetos histórico-políticos que
visam impor ao universo uma língua dominante (o latim, atualmente o
anglo-americano), as múltiplas tentativas de instauração de uma língua
universal artificial remediando a “confusão babélica” por sua unicidade,
sua veracidade e sua adequação.
“A semelhança entre as descrições escolásticas da linguagem dos an­
jos e as da comunicação extraterrestre na ficção científica contemporâ­
nea é, sob esse aspecto, impressionante. Dois avatares de um mesmo
sofrimento e de um mesmo desejo que a lógica e a lingüística desse século
não terminaram de explorar” (p. 650).
O fantasma da Torre de Babel toma, então, atualmente, a forma de
histórias de marcianos, nas telas (por exemplo, Encontros de Terceiro
Grau**), e também nas reflexões dos lingüistas: a literatura americana7
(e a francesa, mais recentemente) multiplica as aparições de epistemó-
logos marcianos, que figuram a exterioridade absoluta de um conheci­
mento mítico, liberado de toda memória histórica ou cultural... e aue
encontra uma formulação adequada em uma língua universal lógico-
mãfêmatíca, também sem memória8... Na época atual, o neopositivismo
víajcTdè disco voador e fala a língua de Marte.
L Mas Marte é também o deus da guerra... e a lógica não é apenas o objeto
inofensivo do prazer doslogiops. As máquinas lógicas fabricam, hoje em dia,
suas próprias memórias para melher apagarem as dos povos, e para melhor
administrarem os complexos industriais, administrativos e militares que vão
tomar as decisões no lugar delas. Se é urna “língua fascista”9, é precisamente
essa língua lógica, língua metálica, sem aspecto exterior.
As expressões “linguagem humana”, “língua natural” cessaram doravan­
te de serem tautologias e se tomam a forma específica Dela aual sienificantes
são inscritos no aparelho do inconsciente. Em toda língua falada por seres
humanos, os traços significantes, as “marcas” lingüísticas não se estruturam
^segundo a ordem lógico-matemática. A dificuldade do estuTBjlãs línguas
naturais provém do fato de que suas marcas sintáticas nelas são essencial- j
mente capazes de deslocamentos, de transgressões, de reorganizações. É tam- /
bém a razão pela qual as línguas naturais são capazes de. política. /[
Quanto às inscrições e às siglas (no mármore, no papel ou na pelejj
dependem desse espaço intermediário, situado entre a marca lingüística e '
o traço lógico, espelhado pela figura do jurídico: ou seja, ao mesmo tem­
po as classificações sem vestígio e os jogos da ambiguidade, os artifícios
da asserção e a repetição gregária.
A língua do direito representa, assim, na língua, a maneira política de
denegar a política: espaço do artifício e da dupla linguagem, linguagem
de classe dotada de senha e na qual para “bom entendedor” meia palavra
basta. A língua do direito é uma língua de .madeira,
j No interior do socialismo existente, esse lugar acabou sendo preen- c
I chido pela própria política, que chegou assim a se denegar a si mesma
sem o recurso do direito10: milagre de um discurso que, ao proclamar a
transparência de sua lei, funciona de modo ambíguo, milagre de uma
política que elimina a política.
A língua de madejngsacialista é uma língua fóbica, construída para
fazer fracassar dê antemão qualquer contradição e se proteger ao falar
das massas, do interior de uma estátua de mármore.
O capitalismo contemporâneo, por seu lado, compreendeu que tinna
interesse em quebrar as estátuas. Dominação mais sutil, que consiste em
re|brçar_as marcas pelo jogo interno de sua diferença, pelo logro publici-
tário da linguagèriTTOmercraí e política": a “língua de vento” permite à
classejm poder exercêf sua mestria, sem mestre aparente. Ela nã©-serve
tampouco a seu mestre. O imperialismo fala hoje uma língua de ferro,
mas aprendeu ajprná-la tão ligeira quanto er ventq. V __

NOTAS

1. Esse fruto empírico-teológico desempenha um papel importante nas reflexões lingüísti­


cas e lógico-lingüísticas, seja nas demonstrações, seja nos exem plos. Algumas maçãs
foram comidas uma vez ou outra em Chomsky e também nos lógicos como Reichenbach
ou Quine.
De modo mais ambicioso, o matemático R. Thom recorre ao enunciado Eva come uma
maçã (M odèles m athém atiques de Ia morphogenèse) para d efinir seu “ processo de
predação”, no qual o objeto desaparece sem que o sujeito (Eva, na ocorrência) seja de
forma alguma afetado!
Esse mesmo fruto permite que Bloomfield exponha sua teoria behaviorista do sentido.
Quando Jill está com fome (“alguns de seus músculos se contraem e são produzidas
algumas secreções, sobretudo em seu estômago”), pede a Jack (em uma “resposta-substi­
tuta” ao estímulo da fome) para pegar uma maçã para ela, o que ela faz (Langage, cap.
2). Em L'Ordre médical (Seuil, 1978) [Clavreul, J. A ordem médica: poder e impotên­
cia do discurso médico. SP: Brasiliense, 1983], Jean Clavreul comentará “Jill poderia
muito bem ter qualquer outra coisa, diferente de uma maçã, para pedir a Jack, como, por
exemplo, brincar de Adão e Eva, pois é provável que Jill e Jack já tenham ouvido falar de
histórias de maçãs e paraíso terrestre, como você e eu (e muito certamente Bloomfield,
Chomsky e Lyons, se bem que eles não digam nada sobre isso; mas é dessa forma que se
manifesta o recalque pelo discurso ‘científico’)” (p. 41).
2. Com relação à hermenêutica das C.H.S., a lingüística dispõe do privilégio de ter um objeto.
Como escreve o linguista Jean-Claude Milner: “As ciências humanas satisfazem à demanda
no que ela tem de ilimitado: tudo se toma representável por meio delas, e isso de acordo com
o estilo moderno. Somente as representações dependem da ciência e essa tem o direito do
olhar sobre qualquer realidade. Toda realidade devendo, portanto, dar lugar a uma representa­
ção científica, é necessário incluir no movimento de extensão total do discurso da ciência
realidades que, inicialmente, se definem como rebeldes a ela. De um modo geral, tudo que se
pensar relacionado a um assunto - foracluído, como se sabe - e que será retomado no que ele
tiver de representável. As ciências humanas logram seu estatuto desse movimento de inclusão
e se resumem a um complexo de representações relativamente a um moi [eu]. É o caso da
psicologia, ciência por excelência do moi [eu] como fonte das representações. Em seguida,
toda a série das representações desse moi [eu] do lado da sociedade e de suas práticas. Com
relação a esse ponto a lingüística é original: ela distingue seu objeto no ponto que não diz
respeito a um moi [eu] fonte das representações. E o que significa a exclusão da semântica
pela lingüística. A lingüística não quer conservar esse sistema de representações que acompa­
nha as estruturas” (entrevista em Action Poétique. n° 72). Para uma critica das C.H.S., ver
Thomas Herbert, Réflexion sur la situation théorique des sciences sociales et, spécialement,
de la psychologie sociale. Cahiers pour l ’analyse, n° 2, e Pour une théorie générale des
idéologies. Cahiers pour l'analyse, n° 9; Michel Pêcheux, Les vérités de la Police, op. cit.
[Pêcheux, M. Semântica e discurso: uma critica à afirmação do óbvio. Campinas: Ed. da
Unicamp, 1988]; Michel Plon, La théorie des jeux: une politique imaginaire, Algorithme,
Maspero; Paul Henry, Le Mauvais Outil, KJincksieck [Henry, P. A ferramenta imperfeita:
língua, sujeito e discurso. Campinas: Ed. da Unicamp, 1992] (em particular a crítica do
campo da complementaridade indivíduo/sociedade nas teorias da linguagem).
3. Em 1901, o lingüista V. Henry, professor de sânscrito e de gramática comparada das línguas
indo-européias na Universidade de Paris, se arrisca a estudar “uma língua que não existe”,
a linguagem marciana produzida por uma reputada espírita da região, que pretende retrans­
mitir (e traduzir com a ajuda de um intérprete) emissões provenientes do planeta Marte. O
professor de psicologia Théodore Floumoy, da faculdade de Ciências de Genebra, por sua
parte, se interessa por esse caso de “glossolalia sonambúlica” e Saussure também foi
convidado a dar sua opinião. “Se descartarmos a priori, escreve V. Henry, a hipótese de uma
comunicação sobrenatural da senhorita Smith com os habitantes de Marte - da mesma
fomia que a ciência tem o direito e o dever de banir de seu dominio toda hipótese inverifi-
cável - será admitido, provisoriamente, que o marciano foi totalmente inventado por ela”
(Le Langage martien, p. 4). Havia aí material para aguçar a curiosidade de um lingüista: a
questão da existência dos universais lingüísticos, com fronteiras (humanas?) de seu campo,
começava assim a emergir através de uma situação de exceção “preparada pela patologia".
4. Apreciar as razões do nascimento na França de uma ideologia estrutura lis ta em 1960
suporia reconsiderar os papéis históricos da intelligentsia francesa antes da guerra, na
Resistência e no imediato pós-guerra.
5. Os trabalhos sintáticos de Lucien Tesnière são praticam ente os únicos na Europa a
prefigurarem essa lingüística da frase. Mas seu projeto não apresentará seguidores.
6. Retomamos a fórmula bastante significativa de R. Debray, Modeste Contribution, Maspero,
1978.
7. Benjamin L. W horf já utilizava esse efeito em Les langues et la logique (Linguistique et
Anthropologie) distinguindo três tipos de observadores: o local, o exterior e marciano.
8. É também a idéia de uma língua universal, de uma língua semântica, que animava Stalin,
inspirado nesse aspecto por Marr, apesar da condenação sem recurso desse último, em 1950.
Uma língua universal que viria preparar o reinado mundial do comunismo, depois do fim da
luta de classes. As linguas atuais dariam a uma língua comum, a uma língua-pensamento
liberada dos acidentes da matéria fonética.
9. Roland Barthes, Leçon, p. 14 [Barthes, R. Aula. SP: Cultrix, 1996]. Voltaremos a esse
ponto.
10. Em La légalisation de la classe ouvrière, Bemard Edelman escreve “É prazeroso ver a
grande aliança do humanismo burguês e do humanismo stalinista, sob o signo do humanis­
mo jurídico. Em ambos os casos, é o Direito integrado no Homem que triunfa” (p. 195-
196). E Edelman cita na página seguinte um comentário do direito soviético feito por
um eminente professor de direito, na França de 1953: “Essa plena conciliação do inte­
resse geral e dos interesses individuais que a estrutura econômica soviética realizou
permite buscar e atingir aquilo que, nos países burgueses, era uma quimera inacessível, o
assentimento de todos às regras do direito. Basta para isto explicar para cada um a razão
de ser dessas regras: se ela é corretam ente explicada, qualquer cidadão será levado a
aplicar essas regras, até mesmo no caso em que elas funcionam contra ele (René David,
citado por B. Edelman).
11. Em nossos dias, a propaganda política foi para a escola de publicidade e troca com ela
boas receitas emprestadas de recursos do estudo língüístico: “Escolha o socialismo, você
terá uma grande surpresa” , dizia a direita frente ao Programa comum; uma marca de
aparelho de som propõe hoje “os sons tais como são”. A arte publicitária, considerando-
se como a verdadeira prática poética de massa de nosso tempo, se orgulha de vender o
sonho. Pura poesia da diferença! Nenhuma relação com o capitalismo.
* NT: [Saussure, F. Curso de linguística geral. SP: Cultrix, 1979].
** NT: [Referência ao filme Close Encounters o f the Third Kinel (1977), de Seteven Spielberg,
cujo título em português foi Encontros Imediatos do Terceiro Grau],
/
A METÁFORA TAMBÉM MERECE
QUE SE LUTE POR ELA1

Pode-se continuar a garantir para a lingüística um privilégio, o de


que seu curso tem como propriedade torná-la negligente.
J.-C. Milner

- O que fa z o “p ” na palavra “meia ”?


- Mas não há “p ” na palavra “meia ”!
- Como assim? Não há?
- O que faria um “p ” na palavra “meia ’’?
- Mas é justamente isso que eu estou lhe perguntando!
1. LINHA RETA, PÊNDULOS, ESPIRAIS...
A reflexão sobre a linguagem não tem, evidentemente, começo histó­
rico assinalável. Os historiadores da linguística2 restringem-se a buscar,
no tempo e no espaço das civilizações (a índia, a Grécia, a cultura árabe,
a Idade Média cristã, etc.), algumas configurações polêmicas em que,
antes que se trate de “ciência lingüística”, o fato da língua já se encontra
no centro do debate. As duas controvérsias misturadas que, durante vári-
ds séculos, opuseram o aristotejismo à filosofia estóica, constituem um
ixemplo privilegiado disso: com efeitos recorrentes - transformados e
deslocados - na história da lingüística, até nos confrontos mais recentes.
A primeira controvérsia éjponstituída pelo duplo par natureza/con-
^enç5o~ApnsTçãõ~naturalista, defendida pelos estóicos, vêna linguagem
ama atividade natural que reflete o ajuste harmonioso do homem com a
ããtürêzaTãljíãlayxas são imitações do mundo, reproduzem-no por ono-
nnatopéia e^simbolismo sonoros. A linguagem humana é, assim, o produ­
to de uma relação natural de expressão que une o macrõcpsmp ao micro-
EõsmqTjfs “formasoriginais”, os “sons primTtivos”"da língua aparecem,
através fla~s interpretações etimológicas livres, como traços visíveis des­
sa mesma harmonia.
Tísadeptos do convencionalismo, retomando a argumentação de Aris­
tóteles em De interpretatione, retrucamjpie-a.relaçâo entre as palavras_e.
as coisas, longe de ser um fato natural, resulta de umãconvenção arbitrá­
ria. A Ijngíla é um código que forma sistema, um sTmboIIs~mo superposto
ao mundo exterior por efeito de atos humanos fêlacionados ora ás con-
vènÇüertácitas d o~agõ, ora a um exercício legislativo explícito.
A segunda controvérsia opõe a tese analogista à tese anomalista.
Para~õs_3êTensores (arístòTêfiCOS) 'da ãnalogíã^ õs paradigmas formais
(como a conjugação e a declinação) são a prova de que a língua é, em
grande pãTte; o prodüto de uma regulandade~proporcíonal que traduz a
existência de umãTede de princípfos arquiteturais, de uma ordem interna
dFÕõnstmção::
Contra essa concepção, os estóim s valorizam os casos nm que a
relação de proporção encontra-se rompida por uma “irregularidade” .
EJes retiram daí o argurhénto para concluir pelo caráter essencial da
anom aliãlmgm itica e para acusar os analogistas de serem tão somen­
te uma casta de gramáticos rígidos: dedicados a “corrigir” pretensos
defeitos de analogia, na verdade eles impõem sua ordem, insuportável
à língua.
Assim foi formada, nos fios dessa dupla controvérsia, a trama históri­
ca de um jogo de palavras teórico-político que afeta os termos da lei, da
ordem, da regra e do código. É sobre esse jogo com as palavras que se
dividem, ainda hoje, os que pretendem teorizar sobre a língua:
I - por um lado, os que, entendendo “princípio” atrás da palavra lei^
' “disposição” atrás da palavra ordem, “funcionamento” atrás da palavra
.regra e “sistema” atrás da palavra código, designam, assim, uma rede de
j relações internas, caracterizando em sua própria estrutura o real próprio
: de toda língua (entre muitos outros: as gramáticas especulativas do final
da Idade Média, os modistas, Pierre Hélie, a gramática de Port-Royal,
Louis Hjelmslev e Noam Chomsky);
- por outro lado, os que, traduzindo ]ei por “obrigação”,, ordem por
“mandamento”, regra por “regulamento” e código por “jurisdição”, con-.
cebem toda língua como o produto social precário de um estado de fato,
resultante de uma longa série de decisões acumuladas (a maioria dos
historiadores antigos, as gramáticas empiristas do Renascimento, Vauge-
las, os teóricos românticos, Edward Sapir, Antoine Meillet e a sociolin-
güística hoje), f
As posições, seguramente, mudaram de conteúdo ao longo das dife­
rentes conjunturas teóricas atravessadas pela reflexão lingüística até a
sua forma atual; elas engendraram numerosas posições secundárias, sus­
cetíveis de múltiplas trocas de lugares3, chegando a alianças, às vezes,
paradoxais. Entretanto, a questão de um real da língua4 inscreve-se nessa
disjunção maior entre a noção de uma ordem própria à língua, imanente
a estrutura-de-seus efeitos, e a de uma ordem exterior, que remete a uma
dominação a conservar, a reestãbelecer ou a inverter.
Para os que sustentam que a língua trabalha com a existência de uma
ordem própria, o real da língua reside naquilo que nela faz Um, a assegu­
ra no Mesmo e no Idêntico e a opõe a tudo o que da linguagem cai para
fora dela, nesse inferno ininteligível que os Antigos designavam pelo ter­
mo de “barbarismo”: o campo do interdito na linguagem é, assim, estru­
turalmente produzido pela língua, do interior dela mesma. O barbarismo
constitui a designação arcaica, ao mesmo tempo lingüística e política, do
exterior da língua. Ele é o sintoma, pela relação com o nada, da primeira
percepção do impossível. É por esse viés que uma reflexão gramatical
autônoma começa a se constituir.
E justamente nesse ponto do interdito que os adversários dessa posi­
ção situam suas suspeitas: eles não querem ser enganados por uma obri­
gação social dissimulada em uma ordem natural, por uma coação políti­
ca, fazendo-se passar por necessidade lingüística. A ordem da língua?
Nada mais do que a ordem política na língua. Uma incessante vigilância
déTudo o que - alteridade ou diferença interna - arrisca questionar a
construção artificial de sua unidade e inverter a rede de suas obrigações.
Nisso, diversas posições políticas puderam fixar-se: em uma defesa pa­
ranóica da língua5, ou em um fascínio pelo “bom selvagem”6, que supos­
tamente teria o privilégio de poder romperlTordem daTfngua.
Entre o interdito e o impossível, o cõrpoclepráticãs^progressivamen-
te formãdasüa pré-história da linguística até a sua emergência científica)
encontra-se, ao mesmo tempo, profundamente dividido. Em termos atu­
ais, essa divisão apresenta-se assim:
—se a questão é, antes de tudo, apreender as variações que afetam as
formas de inscrição do sentido na matéria fônica ou gráfica, e interpretá-
los como repercussão da “vida social” sobre a língua, o essencial da
prática consistirá em observá-los e descrevê-los como dados lingüísti-
cos, insistindo-se em colocá-los em correlação, para reconstituir a rede
social de coações e de obrigações que as produziram;
- se, ao contrário, trata-se de cemir na língua o efeito de uma causa­
lidade estruturalmente autônoma, a prática do lingüista consistirá em cons­
truir a teoria dessa estrutura, em raciocinar formulando hipóteses expli­
cativas em um vaivém entre dados, fatos e teoria.
O empreendimento linguístico encontra-se. assim, constitutivamente
afetado por uma dupla deriva:-.qjdo empirisrriõ^ baseando-se principal­
mente em uma concepção historicízante doS'‘tÊnôrnenos sociaisü_e_de-
sembocando na figura contemporânea do^ocwlagismõ^íjio racionaíis^
mo, tentando fundar, uma pela outra, a umdadS^ipSngTra e a coerência
sistêmica do pensamento, com a figura contemporânea dõTõg/czs/jto, no
horizonte. Ao longo do século XIX, assiste-se à instalação do qüêTevará
a essa configuração atual. O formalismo do sistema prepara-se entre os
partidários da unidade, em relação mais ou menos clara com a constitui­
ção da lógica moderna, enquanto que se manifesta a resistência dos par­
tidários da diversidade concreta (na dialetologia, por exemplo7).
Essa dualidade contraditória realiza-se materialmente na própria es­
trutura das teorias lingüísticas, e na história de seus confrontos: em
tomo do par prínceps dados/sistema, concepções diferentes entram em
conflito. Uma marcha retilínea progressiva e contínua, partindo dos
dados para chegar à percepção das estruturas (é a atitude de lingüistas
como Emmon Bach, Nicolas Ruwet ou Christian Nique); um movimen­
to pendular no qual a tendência empirista viria, em intervalos regula­
res, questionar as construções teóricas racionalmente estabelecidas, para
suscitar novas ou simplesmente moderar o frenesi sistêmico pela recor­
rência às “realidades” lingüísticas (o que ilustra, por exemplo, a atitude
de Claude Hagège); enfim, compondo o desenvolvimento retilíneo e a
oscilação cíclica, a imagem sintética da espiral, bem conhecida pelos
epistemólogos do “desenvolvimento científico” (por exemplo, as refle­
xões de R. Thom8).
A série dessas metáforas (linha reta, pêndulo ou espiral), que as filo­
sofias espontâneas dos linguistas subentendem, parece condenada a repe­
tir indefinidamente, sob diversas formas empiristas ou racionalistas, os
atos imaginários de “fundacão-metodológica”.
Um deles, entretanto, (f-C. Milngj, indiretamente designou a inutili­
dade dessas metáforas cinemáticas, fazendo, no seu Amour de la lan­
gue' cpHHjue o conjunto do debate concentre-se em um só e único ponto:
eleisubstitui ò falso debate metodológico entre o empirismo e o raciona-
lismo por um debate"sobre a questão do real da língua, ou seja, segundo
o nosso ponto de vista, sobre ã posição materialista em lingüístíca.
Através de uma argumentação da qual retomaremos alguns elementos
decisivos mais adiante, Milner afirma sua tese: “tudo não pode ser dito”:
em outras palavras, toda linguaje afetada por uma divisão (figurada pela
distinção entre o cogeto e o inçorreto), que se sustenta pela existência de
um impossível, inscrito na_própria ordem da língua:
"ATíhgua ehfsTnlõ é nada mais do que essa divisão considerada em
geral, uma língua é uma forma particular desta divisão; um dialeto de
uma língua, uma reorganização específica de uma divisão particular”
(L ’amour de la langue, p. 27).
Assim o materialismo que Milner defende parece, à primeira vista,
coincidir rnuifõ com a posição do racionalismo linguístico clássico, que
ele, logo de saída, dispensa de toda responsabilidade política em relação
à Ordem, separando a ordem da língua (e a divisão que dela resulta)
daquilo que ele chama “moedagens imaginárias” dessa divisão:
“A mais conhecida e mais perigosa [dessas moedagens imaginárias]
consiste em utilizar a linguagem da mestria, considerando o impossível
como uma obrigação de um soberano - quer se trate de contrato, de ca­
pricho, ou de consenso tácito. Sabe-se, no mais, que, desde sempre, os
ditadores, de César a Stalin, preocuparam-se com a língua, reconhecen­
do nela a imagem mais fiel de um poder nu, que não precisa nem mesmo
dizer o seu nome. Por outro lado, parece que a causa da liberdade interes­
sou-se pelo que se denuncia como o artifício das gramáticas e a pretensão
das suas regras - até afirmar que não existe impossível para a língua”
(L ’A mour de la langue, p.27-28).

NOTAS
1. No belíssimo livro de M. Kundera, La vie est ailleurs [Kundera, M. A vida esta em outra
lugar. RJ: Nova Fronteira, 1992], um velho poeta surrealista é vaiado por um público de
jovens estudantes na Tchecoslováquia recém-socialista de 1949, porque ele quis “acoplar
o socialismo ao surrealismo, o gato ao cavalo, o futuro ao passado!”. Altivo e sozinho,
ele grita-lhes que “a liberdade é o dever da poesia e que a metáfora também merece que
se lute por ela”. Que “ele acoplaria o gato ao cavalo e a arte moderna ao socialismo e que,
se isso fosse donquixotismo, ele queria ser um dom Quixote, porque o socialismo era para
ele a era da liberdade e do prazer e que ele rejeitava qualquer outro socialismo” (p.245-
246).
2 . Atualmente existem muito poucas histórias globais da lingüistica (poderiamos citar Mou-
nin, Lepschy, Robbins e Jacob). Mas muitos estudos parciais, até mesmo pontuais, vêm
justamente completá-las, transtornando freqüentemente, em pontos precisos, os esque­
mas norm alm ente aceitos.
3. As posições da analogia e da anomalia se confrontaram historicamente e dialogaram sobre
várias questões:
- devemos reformar as línguas existentes ou construir línguas artificiais?
- devemos ser realistas ou convencionalistas?
- devemos comparar as gramáticas existentes ou construir uma gramática universal?
Progressivamente, surgiram fomações mistas, ao mesmo tempo racionalistas e empiris-
tas, tentando fazer a síntese entre as duas posições fundamentais. Por exemplo, Herder,
W. von Humboldt, os estruturalistas europeus ou os distribucionalistas americanos.
4. A questão de um real da língua é, para nós, subjacente à da própria existência da lingüistica
com pretensão científica.
Esta tese retoma a de J.-C. Milner, no uso que ele faz do termo real, tomado de emprés­
timo a Jacques Lacan (distinção real/simbólico/imaginário).
A realidade empírica, na sua positividade, não poderia ser confundida com o real, intrin­
secamente relacionado ao impossível, e não mais tal ou qual construção hipotética,
como as estruturas profundas da Gramática Gerativo Transform acional. assim como
parece supor M. Ronat (“Chomsky 78”, Ornicar, 14).
O concreto com o qual a lingüistica trabalha, de natureza negativa (ver Saussure), é o
efeito propriamente lingüístico desse real.
5. Contra o estrangeiro, fonte impura de diferença e invasor potencial, contra os tradutores-
traidores que, por seu comércio com a alteridade, por seu jogo de entre-dois-lugares,
entre o mesmo e o outro, contaminam a ordem interior. Heródoto já dizia: “A comuni­
dade inteira constitui tão somente um só sangue e uma só língua”.
6. O “bon schizo” é a sua figura moderna, desterritorializando a lingua ao restitui-la ao seu
estado original de fluxo linguageiro. Ver, como exemplo desta posição, os escritos de
Gilles Deleuze e Félix Guattari, particularmente L'Anti-Oedipe e Rhizome [Delleuze, G ,
Guattari, F. O anti-Edipo: capitalismo e esquizofrenia. RJ: Imago, 1976].
7. Mas não se pode ainda falar de logicismo para caracterizar um Schleicher, preocupado em
definir uma unidade genética da língua. Mesma observação para os neogramáticos.
8. Thom propõe uma reflexão sobre a estrutura histórica das teorias. Ele aplica-a à
lingüistica, distinguindo uma fase de pura descrição, uma fase de reducionismo, em que o
objeto é “ colonizado” por outras disciplinas mais avançadas, uma fase de ascetismo
estrutura lista (1974, La Linguistique, Discipline morphologique exemplaire).
* NT: [Milner, J.-C. O amor da lingua. Porto Alegre: Artes Médicas Ed, 1987].
r
2 . A FORMAÇÃO DAS LÍNGUAS
NACIONAIS
Assim, se considerássemos que a categoria materialista de real espe-
cifica-se exçlusivamente pela sua relação com o impossível, com que real
podér-se-ia afirmar que p materialismo histórico trabalha? A questão do
materialismo excêde^portanto, o puro terreno da epistemologia: ela en­
gaja uma aposta política baseada na existência de um real da história. O
materialismo histórico pretende basear-se em uma percepção desse real
como contradição.
É precisamente isso que J.-C. Milner recusa, considerando atualmen­
te a história como um puro efeito imaginário, eventualmente destruidor,
mas não principalmente como um real contraditório: a história como es- <
paço imaginário só é suscetível de conclusões práticas, por exemplo, o '
confronto entre a ditadura dos donos da língua e a causa da liberdade. O
ódio da ditadura chegaria ao ponto de levar Milner a resgatar pratica­
mente algum interesse pela posição sociologista, desqualificada por ra­
zões teóricas bem convincentes? A história virfa colocar Milner em...
uma contradição?
Não seria por que a recusa de um impossível (identificado ao proibido)
não é de maneira alguma apanágio só dos revoltados, mas que os mestres,
também, sabem recorrer a essa mesma recusa quando necessário1?
Se a política atravessa a história da lingüística, não é sob a forma de
uma contradição simples e monótona, opondo sub specie aeternitatis o
partido da ditadura ao da liberdade, como o fixismo opõe-se ao transfor-
mismo vitalista, como o estado de coisas existente proibido pela classe
dominante opõe-se às transformações exigidas pelas classes dominadas.
Uma vista superficial da história teria tendência a identificar direta­
mente o formalismo logicista com os interesses das diversas classes do­
minantes que se sucederam na história: seu aspecto idealista favoreceria,
de fato, a justificativa do “estado de fato” lingüístico e a imposição de
normas em nome da “natureza da língua”; a tendência sociologista apa­
receria, desde então, como porta-voz dos interesses das classes domina­
das: seu aspecto materialista traduzir-se-ia por uma percepção crítica
das diferenças e das mudanças de uso que contribuem para a denúncia do
estado de fato existente.
Permanecer nesse ponto conduziría, entretanto, a uma “politização”
simplista do empreendimento lingüístico. L ’A mour de la langue dá os
meios teóricos de embelezar esse erro, ao mesmo tempo em que elimina a
questão política. Mas, se (contrariamente ao ceticismo político de Mil­
ner, com o qual não compartilhamos) consideramos que há um real da
história, é em uma complexidade contraditória que temos algumas possi­
bilidades de encontrá-lo, e não na oposição simplista evocada há pouco.
É essa posição, em apoio contraditório à de J.-C. Milner, que tentare­
mos considerar aqui, começando por examinar os caminhos que o poder
tomou emprestado da burguesia nas suas políticas da língua.
Supor que, durante todo o período de sua “ascensão”, a luta ideológi­
ca da burguesia capitalista em matéria de língua teria se apoiado exclusi­
vamente no elemento sociologista e que a instalação de seu domínio teria
correspondido a um retomo de suas posições na fixação logicista do for­
malismo, seria desconhecer como, desde o início, a burguesia trabalhou
para reapropriar-se dos grandes formalismos religiosos, jurídicos e lin-
güísticos pré-capitalistas (universais escolásticos, direito romano, gra­
mática latina). Seria também ignorar como a revolução cultural burgue­
sa (difusão conjunta da Técnica, da Instrução e da Democracia parla­
mentar) prosseguiu no terreno das “diferenças”, da “mudança” e da “va­
riação”, para tentar absorver os efeitos delas em seu proveito.
A dominação da ideologia burguesa não é pura repetição da eternida­
de feudal (tal como ela se inscreveu no que G. Duby2 chamou de figura
imaginária da trifuncionalidade).
O movimento histórico da sociedade feudal (que começa com o esfa­
celamento do império romano e tennina com as monarquias absolutis­
tas) resulta paradoxalmente da insistência repetida dessa figura trifimci-
onalista fixa. Ela buscou aí realizar sua estrutura, reorganizando continu­
amente as relações entre suas três “ordens”, sem jamais questioná-las.
A disjunção entre o Eterno e o Temporal, rapidamente abolida na
festa (a de Bouvines, por exemplo, que inaugura, entretanto, a ordem
tripla da monarquia moderna) ou na pessoa excepcional do Rei Santo
(Luís IX), organiza-se em uma divisão mista do universal com o históri­
co, baseada nessa figura trinitária que o período das revoluções burgue­
sas deveria fazer explodir, historicizando o universal e universalizando a
história.
Em vez do dispositivo feudal de distanciamento, destinado a manter
regularmente ordens separadas, a classe dominante burguesa desenvolve
procedimentos de interpenetração com as classes dominadas. Nascimen­
to político da questão lingüística.
As ideologias feudais supunham a existência material de uma barreira
lingüística separando aqueles que, por sua condição social, eram os úni­
cos capazes de ouvirem claramente o que devia ser dito, e a massa de
todos os outros, considerados ineptos para se comunicarem realmente
entre si, e a quem os primeiros só se dirigiam com a tagarelice retórica da
religião e do poder3.
Da mesma maneira, nem o feudalismo nem as monarquias absolutas
implantaram uma política da língua qualquer: o “corpo lingüístico” da
época feudal, o mosaico dos falares e dos dialetos, permanecia tão into­
cável quanto o corpo do rei, por razões paradoxalmente idênticas.
A política burguesa transforma a rigidez das ordens em terreno de
£onfronto das diferenças. O que havia começado com as empresas de
Cristianização da igreja medieval, e continuara com o início do colonia­
lismo (particularmente, as gramáticas dos missionários), ganhou, com a
çonstituição dos Estados nacionais, a forma de um projeto político, que
dolocava na ordem do dia das revoluções burguesas a “questão lingüísti-
da”: constituição da língua_nacional através_daalfabetização, aprendiza-
germe utilização legaTdessa língua nacional4.
I O feudalismo mantinha a ordem dominante “traduzindo-a” em for-
jnas especificas de representações e imagens próprias às diversas classes
dominadas. A particularidade das revoluções burguesas é de tender a
absorver essas diferenças para universalizar as relações jurídicas, no
momento em que se universaliza a circulação do dinheiro, das mercado­
rias... e dos trabalhadores “livres”.
I Para se tomarem cidadãos, os sujeitos devem portanto se liberar dos
barticularismos históricos que os entravam: seus costumes locais, suas
concepções ancestrais, seus “preconceitos”... e sua língua materna.
O espaço desse jogo com a palavra “liberdade” é medido pela distân­
cia que separa os projetos escolares dos revolucionários jacobinos (parti­
cularmente, em matéria lingüística, os de Condorcet) e a realidade do
sistema escolar burguês instituído por Jules Ferry, em 1880.
A impossibilidade de um compromisso com a monarquia conduziu a
burguesia francesa a uma aliança popular para destruir a antiga domina­
ção, ao mesmo tempo em que organizava progressivamente sua própria
ordem, sob a máscara dessa aliança: ela podia, assim, ao mesmo tempo
continuar a proclamar o ideal da igualdade diante da língua, como uma
das condições efetivas da liberdade dos cidadãos, e organizar uma desi­
gualdade real, estruturalmente reproduzida por uma divisão política no
ensino da gramática5. 1 . r
A maestão da língua é,.portanto, uma questão de Estado, com uma
política de invasão, de absorção e de anulação das diferenças, que supõe
\ antes de tudo que estas últimas sejam reconhecidas: a alteridade constitui
.na sociedade burguesa um estado de natureza quase biológica, a ser trans­
formado politicamente.
O poder do Estado burguês reveste, portanto, ao mesmo tempo a
forma logicista de um sistema jurídico concentrado em um foco único e
a forma sociologista de uma absorção negociada da diversidade: poder
que funciona simultaneamente segundo a figura jurídica do Direito e se­
gundo a figura biológica da Vida. /
Assim se realiza a divisão do trabalho que dá à configuração dual da
ingüística sua forma contemporânea: ,
/ . '
j - do lado do Direito, a ditadura logicista instituindo a circulação
I oficial das significações garantidas por uma autoridade central
I (como o Estado detém o monopólio da emissão dos símbolos mo­
netários e garante seu valor);
- do lado da Vida, as múltiplas práticas fragmentárias, indefinida- <
mente reelaboradas e aperfeiçoadas pelas quais a divisão estraté­
gica burguesa encontra o caminho de seu exercício. A abertura
social dos usos lingüísticos representa as formas evidentes nas
quais a burguesia negocia sua instalação e seu sustento, apoiando-
se nas classes dominadas para lutar contra elas, e lhes retomar a
“causa da liberdade”.

A ideologia do Direito ou a da Vida pode, segundo as circunstâncias,


parecer avançar ou retroceder; mas tanto uma como a outra têm como
fim alcançar o termo impossível da luta de classes burguesas: parar a
história (fixar a sociedade por disposição jurídica), ou terminá-la (abrir
caminho ao que, na dominação burguesa, ainda não encontrou suas com­
pletas condições de realização, ao que escapa ainda ao seu reconheci­
mento integrador das classes dominadas)6.

NOTAS

1. Afinal de contas, é a Napoleào (e não a algum defensor da liberdade) que a tradição atribui
esse enunciado gramatical parodístico: “ a palavra impossível não é francesa”. A ordem
política apresenta aqui as aparências paradoxais da divisão gramatical para melhor negar
a sua existência: é (politicam ente) impossível que a palavra ‘‘impossível” pertença à
língua francesalE Mussolini: “Impossibile non è italiano” ...
2. Cf. Les Trois Ordres ou FImaginaire du féodalisme (N.R.F., 1978) de G Duby [Duby, G
As três ordens ou imaginário do feudalism o. Lisboa: Estampa, 1994.], que retoma e
prolonga as teses de Dumézil sobre a trifuncionalidade.
3. As formas do direito da época feudal exprimem essa não comunicação entre o espaço
nobiliário, em que se regula a transmissão do nome e do feudo, e o espaço plebeu, em que se
gera o destino de todos os que, não sendo “bem nascidos”, não têm “nome”. Essa fronteira
estrutural se complica pelo jogo de uma outra disjunção, opondo historicamente o direito
escrito (proveniente do direito romano), estabelecido no sul da França, e os direitos consue-
tudinários em vigor no norte, sob a influência germânica.
4. Numerosos trabalhos voltam-se para essa questão: R. Balibar e D. Laporte. Le Français
national (Hachette. 1974); M. De Certeau. D. Julia e J. Revel. Une politique de ta
langue: ta Révolution française et les patois: l ’enquête de Grégoire (Gallimard, 1975);
A. Chervel, ... et il fallut apprendre à écrire à tous les petits Français (Payot, 1977); F.
Furet e J. Ozouf, Lire et Ecrire (Minuit, 1977); para só citar os maïs completos e
. recentes.
5. Tendo como modelo a Grammaire française de Lltomond, o ensino da língua francesa
constituiu-se a partir do modelo do latim, reservando a experiência do bilinguismo à
classe dominante e fornecendo às massas uma gramática simplificada e truncada, baseada
na lógica da frase simples.
6. A articulação contraditória da relação Direito/Vida constitui um objeto recorrente da
reflexão de Michel Foucault. O impressionante trabalho histórico e filosófico desse
autor, que deliberadamente desenvolveu-se ao largo do pensamento marxista, traz para
o interior deste último uma reação da qual é urgente saber tirar partido. O marxismo só
terá a ganhar um pouco de clareza na sua própria crise. A relação entre as ideologias do
Direito e as da Vida foi recentemente reabordada por Foucault em La Volonté de savoir
[Foucault, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. RJ; Graal, 1982]. Encon­
traremos em “Le Droit du sexe” de Hélène Roudier (Action poétique, 72) o esboço de
uma perspectiva m aterialista reconhecendo nesse ponto a importância de Foucault.
Agradecemos aqui a H. Roudier pela releitura critica que ela aceitou fazer do primeiro
capítulo.
I
3. A ANTROPOLOGIA LINGÜÍSTICA ENTRE
O DIREITO E/A VIDA

Esse duplo fantasma político repercute-se na ideologia burguesa do


Homem. O humanismo burguês preocupa-se com a humanidade, ao mes­
mo tempo no nível das suas leis universais e no de suas características
biológicas diferenciais. A noção de antropologia (que se refere tanto à
filosofia kantiana quanto às investigações empíricas de Broca e de seus
sucessores sobre a “zoologia da espécie humana”) exprime esse duplo
aspecto jurídico-filosófico e biológico, que assinala o começo histórico
da hegemonia burguesa. Ê nesse duplo espaço que a questão lingüística
do homem enquanto animal falante foi elaborada:
- A via da antropologia histórica e etno-sociológica estende uma
rede descritiva sobre a diversidade das línguas e dialetos para mostrar o
conjunto de suas diferenças. O romantismo alemão, que nasce com Her­
der (que foi posteriormente deturpado nas concepções völkisch do nazis­
mo1), constitui nesse reconhecimento das diferenças, que é também uma
busca das origens, uma das principais ideologias bio-históricas, que, en­
tre os temas do progresso e os da decadência, vão se dedicar ao longo do
século XIX a gerenciar esse contato fascinado do pensamento lingüísitco
com o plural. De outras formas, a antropologia persegue hoje esse reco­
nhecimento da diversidade, “conservando” fragmentos dela nos diferen­
tes atlas e museus lingüísticos do Estado.
Esse empreendimento de devoração classificatória realiza-se tanto no
etnocídio descentralizado (por exemplo, os índios da América) da antro­
pologia anglo-saxônica quanto no jacobinismo centralizador do tipo fran­
cês: a dominação lingüística da burguesia instalou-se em nome do “folk”,
do “ Volk” ou do “povo”, mas sempre na obsessão dos começos e dos
gérmens. É aí que a questão imaginária da origem da língua encontra a
sua perpétua retomada, no fantasma da vida como não-saber e fonte de
todo saber: os gestos, os sinais e os gritos (que a etnologia busca nas
fronteiras “primitivas” da humanidade e que a psicologia persegue no
desenvolvimento da criança) irão desvendar os segredos da pré-história
da palavra? Como as necessidades do animal humano, entregue ao conta­
to da matéria nua, sustentaram-se na materialidade da voz? Como é
possível filogeneticamente e ontogeneticamènte que a vida fale? Essas
questões fantasmáticas continuam a perseguir as filosofias da lingua­
gem, eventualmente em nome do marxismo (de Engels a Tran Duc Thao).
—A outra via da antropologia moderna é a da lógica què, da
escolástica a Leibniz, depois à escrita simbólica, funciona no sentido de
um tribunal ou de uma máquina. A lógica dos tribunais garante material­
mente o exercício do Direito, como poder ditatorial disfarçado pelo seu
próprio funcionamento. E essa ditadura do Direito que garante a disjun­
ção entre o lícito e o criminoso, o legítimo e o ilegítimo, o válido e o não-
válido, o verificável e o falso ou o não-verificável. Desse modo, o que os
filósofos kantianos chamaram o “tribunal da lógica” ancora-se no uni­
versal administrativo dos tribunais: as ideologias da Ciência como escri­
ta lógico-matemática retomam por sua conta essa determinação jurídica,
fazendo da ciência uma máquina lógica. A noção de língua lógica como
plano do real garante, assim, a coesão do positivismo da ciênciacom ã
prática do direito e surge no âmago da questão lingüística pela idéia de
axiomatização. Fixar no início convenções arbitrárias necessárias aos
símbolos e às regras, depois colocar a máquina para funcionafrassim
materializar-se-ia um tribunal lingüístico pronto para legitimar a valida­
de das expressões.
O irrealizável dessas convenções só faz reforçar o fantasma de uma
língua universalmente apropriada a seu objeto, suscetível de garantir a
unidade comunicacional do gênero humano. Unidade, UNO2, ONU... é
preciso uma língua internacional (latim, inglês, esperanto, ou alguma
metalíngua artificial) e um sistema unificado de tradução automática dos
Jdocumentos3. .. -
I Façamos cálculos lógicos e não_a_guerraj{
Encontramos aqui o velho sonho leibniziano de língua característica
universal, constituída por elementos lógicos fundamentais que servem de
ferramentas parado Pensamento Humano: a ideologia logicista do tribu­
nal automático e máquinas-que-funcionam-sozinhas, a ditadura jurídico-
tecnológica pretendendo tomar o homem mestre da natureza e da socie­
dade.

NOTAS

1. Nesse longo caminho cuja fase final é exposta por Jean-Pierre Faye em Les Langages
totalitaires (Hermann. 1972). numerosas formas intermediárias deveriam ser evocadas,
entre as quais as teses de Humboldt referentes à criatividade das línguas populares (ver a
esse respeito G. Mounin, L'Arc, n°72). Essa corrente se renovará no antropologism o
lingüístico de F. Boas. E. Sapir e B.Whorf. Deve-se consultar igualmente sobre esse
assunto o trabalho interessantíssimo de L.-J. Calvet, Linguistique et Colonialisme, Payot,
1974).
2. De onde sai o incoativo UNESCO., dando a entender que as idéias podem conduzir o
mundo...
O lingüista americano Zellig Harris escreveu em 1962 um artigo intitulado Preventing
World War IIP no qual ele examinava as condições práticas que permitem a uma língua
internacional esperar o sucesso. Deixando de lado o campo lingüístico excessivamente
complexo dos valores e opiniões (filosofia, política, literatura...), ele pensa na possibi­
lidade de construir uma interlingua científica reduzida (language fo r International coo-
peration) para uso dos cientistas, dos técnicos e de todos os que seriam obrigados a se
comunicar para além das fronteiras e das línguas nacionais no caso de uma deflagração
atômica ter destruído os governos e os sistemas de intercomunicação mantidos por eles.
Os EUA formaram há alguns anos o projeto de um procedimento lógico de base que
permite veicular, no interior da zona de influência dos Estados Unidos, as informações
jornalísticas, prevendo sua retraduçâo adaptada às particularidades “retóricas” (ideológi­
cas) de cada conjuntura local do sistema. Parece que as preocupações na URSS não são
fundam entalm ente diferentes: A m ericanos e Soviéticos se confrontam e se refletem
nessa conquista do tecido mundial das significações.
4. Ver, a esse respeito, M. Plon, La Théorie des jetix, une politique imaginaire, em que o
fantasma logicista e psicossociológico da resolução dos conflitos é sistematicamente
desm ontado.
1
4 1. OS HOMENS LOUCOS POR
SUA LÍNGUA
\
Esses dois caminhos da antropologia lingüística moderna projetam,
assim, o real da língua na esfera do Direito e da Vida. Mas essa dupla
“moedagemTmaginária”, pela qual a língua toca na questão de Estado,
é também o indício de dramas em uma outra cena completamente dife­
rente. Sob a série histórica das teorias nas quais constituiu-se a lingüís-
tica moderna, a trama inconsciente de destinos individuais em luta comf
uma certa loucura, totalmente específicãTsõb as construções legitima-1
das da cienciaTIhguistica, a psicose e os dehnós secretos tendõT Iin-
gyagem, as línguas ou a língua como ponto de fixação: o que MTchel
Ricrssens-denominoualogofllia' "
E portanto por amor quê ãlguém se toma “louco, pela língua”: por <
amor e inicialmente por apego primeiro aq corpo da mãe, quando sua
insistência toma a forma de um amor da língua-mãe ou da língua mater­
na.
1 Então o simbólico faz irrupção diretamente no corpo, as pala­
vras tornam-se peças de órgãos, pedaços do corpo esfacelado que o
“logófilo” vai desmontar e transformar para tentar reconstruir ao
mesmo tempo a história de seu corpo e a da língua que nele se ins­
creve: essa “kmcnrajias palavras”, que pode desembocar na escrita
(Raíeiais, Joyçe, Artaud ou Beckett), na poesia (Mallarmé) ou na
teoria lingüística, persegue sem trégua o laço umbilical que liga o
s3gpiíicãxitê_aa^igni^&a4o, para rompê-lo, reconstruí-lo ou transfi­
gurá-lo:
“O teatro de Artaud é baseado na incorporação, na sucção, no gesto,
no grito, no significante originário, ele é teatro do inconsciente, é um ato
em que a palavra combina com a profundidade de unia língua fundamen­
tal; na língua-mãe composta de três sílabas que se redobram e se desfa-
zem, ele encontra a história íntima de sua infância e se libera de seus
massacres”2.
Nesse empreendimento lingüístico selvagem, louco por palavras, não
há separação entre cqgrito e o vocábulo, procuram-se as sementes das
palavras entre os sons e o sentido, perseguem-se as palavras sob as pala­
vras através das aliterações, dos acoplamentos, das repetições e das equi-
valências3. Espontaneamente naturalista e cratiliano, esse trabalho en-
-■contra nas onomatopéias as raízes que justificam o vocábulp, triunfando
sobre os acasos da convenção: —
“Üma ligação tão perfeita entre a significação e a forma de uma pala­
vra, que parece causar uma só impressão, dcT sucesso, ao espírito e aos
ouvidos, é pungente; mas, principalmente no que chamamos as ONO­
MATOPÉIAS [...], elas perpetuam nos nossos idiomas um procedimento
de criaçãoquê foi tatvez õ primeiro de todos”4.
Nessa linhagem de loucos pela língua: Schreber e suas “vozes”
que o interpelam em “língua fundamental” ( Ursprache)\ Jean-Pierre
Brisset, que busca a verdade da origem da humanidade na língua, por
segmentações e jogos de palavras em forma de trocadilhos; L. Wolf-
son, “o estudante de língua esquizofrênica”, como ele mesmo se auto­
denomina, cuja língua materna feria tanto os ouvidos que foi preciso,
no seu amor-ódio por ela, que ele estabelecesse um sistema de “tradu­
ção instantânea” que convertesse rapidamente todo vocábulo inglês
em uma palavra de alguma língua estrangeira próxima no sentido e no
significante5.
Loucos, mas, apesar disso, reconhecidos em seu tempo (século
XVIII), os teóricos da “mimologia” (Court de Gébelin, de Brosses)
acrescentam as palavras forjadas por imitação dos gritos e “barulhos
vocais” humanos às onomatopéias stricto sensu (que refletem os baru­
lhos de origem física - tinidos - ou animal - cuco). No âmago dessa
língua orgânica fundamental... p a p a L sjnamãe, “mimologismos cari­
nhosos”, formados a partir dos halEnrjos hilahiaig dos barulhos de
sucção e de beijos... Charles Nodier, em pleno século XIX, vai perseve­
rar em “sonhar sobre as palavras” no seu Dictionnaire raisonné des
onomatopées françaises que, por sua vez, tanto fascinou o Bachelard
da Poétique de la rêverie".
Reconhecidos, encobertos ou descobertos por um reconhecimento tar­
dio ou póstumo, esses trabalhadores obstinados, possuídos pela loucura
das palavras, ocupam um lugar impreciso na história da iingüística e,
entretanto, eles a assombram: assinalam que a língua materna é a fonte
em que se nutre a Iingüística, e também a sua mágoa. Designam esse
ponto extremo da “deriva empirista” em que a língua e o corpo, desterri-
torializados, segundo a expressão de Deleuze (L ’Anti-OEdipe), se com-
binam no seu “fluxo”.
Ao lado dos que são levados por essa deriva, “deixando errar seu
fluxo no corpo pleno da linguagem”, há os que decidem construir “seu
império de ciência e de texto”. Essas duas fórmulas de Pierssens tentam
localizar (através da dupla esquizofrenia/paranóia) posições diferentes,
ocupadas freqüentemente pelos mesmos, no espaço da logofilia. A pri-
meira é esse amor pela língua materna que acabamos de evocar. A.segun­
da se alinha entre “procedimentos” de construção (Roussel), “gramáticas
lógicas” (Brisset) e línguas artificiais. O pòntò de virada em direção a
essa segunda série logofílica reside na relação entre a frase e a sintaxe:
Brisset descobre nas palavras frases arcaicas minimais, Isidore Ducasse,
apaixonado pela matemática, procura unTftuar a sintaxe, a construção
lógica, a retórica e a moral6.
Assim, à “loucura das palavras” fascinada pela onomatopéia cor­
responde uma “loucura dos enunciados”, decifrando raciocínios articu­
lados sob a superfície das palavras. Razão louca, construindo uma es­
crita lógica para restituir essas articulações sob formas de convenções
motivadas em seus hieróglifos7. Razão louca, inscrevendo-se ora em
um delírio privado, ora na paranóia institucionalizada de um método
científico. Essa via desemboca em códigos numerados, álgebras e espe­
rantos lógicos, como os que propõe o bispo Wilkins8, com que Descar-
.•tes sonha em suas cartas ao Padre Mersenne, ou que Leibniz imagina:
/ não mais inscrição simbólica da língua materna no corpo, mas tentativa
] de dominar “racionalmente” o corpo do pensamento, com a ajuda de
/ uma língua ideal toda poderosa. A língua lógica está no imaginário sem
' o saber e, confundindo este último com o especular, ela considera-se
simbólica9.
As bases logofílicas dessa deriva “racionalista” não são claramente
mais racionais do que as da outra deriva: o fantasma da língua mãe e o
da língua ideal constituem as duas modátidâdes fundamentais sob as
quais o real da língua finge sê-lo falando pelo viés da loucura. Deve-se
entender por isso também que a lingüística encontra seu real no ponto
em que ela relaqiona-se com a psicose: caso contrário, o papel que a
noção de protolíngua representa na história dessa disciplina (a ser esta­
belecido, como no caso do sânscrito, do hebreu ou do hitita, ou a ser
reconstruído, como o conceito de indo-europeu) permaneceria incom-
Ipreensível. Pesquisar essa prõfõlíhgua ou construí-la não implica a
mesma relação com o real: o indo-europeu pode ser ao mesmo tempo
uma língua mãe originária e uma língua ideal, mas não uma língua
materna. É provavelmente essa abstração (construção de um saber) de
uma língua que não é falada por ninguém que alguns lingüistas não
puderam suportar: por exemplo, Schleicher, quando ele consegue es­
crever uma fábula em Ursprache reconstituída, fingindo fazer dela uma
língua materna para um sujeito. Igualmente incompreensível, essa obs­
tinação em construir uma língua universal, esperanto ou volapük'0: além
do papel do sânscrito e do indo-europeu na formação dos lingüistas do
início do século11, a preocupação em se proteger das falhas das “lín­
guas naturais” leva lingüistas como Otto Jespersen, E. Sapir ou André
Martinet a engajar-se (como em uma missão) na construção de algum
“novial”**678*12.
E, enfim, esse encontro, plenamente oficializado a partir dos anos
trinta, da lingüística com os escritos lógico-positivistas...
Entre o amor pela língua materna e o desejo da língua ideal, a lingüís­
tica científica revela “estranhos parentescos com aquilo que ela vive de
excluir” 13. ~~

NOTAS

1. A logofilia, paixão comum “do lingüista, do escritor e do psicótico,” é o objeto de La Tour


de babil (1976). ——
Em Un discours au réel (1973), E. Roudisneco já aponta a relação entre ciência e loucura
nestes termos: “Perceber-se-ia [...] que bom número de discursos referentes à gramática
ou à fonética e julgados “delirantes” pelos psiquiatras ou pelos lingüistas dizem verdades
sobre a loucura e a linguagem que precisamente escapam aos psiquiatras e aos gramáticos.
Muito frequentemente tais discursos ultrapassam os trabalhos da ciência” (p. 109).
2. E.Roudinesco e H. Deluy, La Psychanalyse mère ei chienne, p. 40.
3. O que afeta assim a língua não se restringe ao registro da literatura ou da experiência
analítica: a história recolhe os seus traços, sob todas as formas de expressão marginaliza­
da ou desértica, beirando o impossível. Por exemplo, o caso do profetismo camisardo que
surgiu na virada dos séculos XVII e XVIII. estudado por D. Vidal, em L'A blatif absolu,
théorie du prophétisme, Anthropos. 1977.
4. Mallarmé, citado por Pierssens. p. 44.
5. E. Roudinesco (1973) comentou essa linhagem analógica: "Schreber. no seu delirio. diz a
mesma coisa que Freud, muitas vezes melhor; é dizer o impossível da metalinguagem que
desconhece a dimensão da verdade; é dizer o engodo normativo de todo estudo baseado j
na idéia de uma teoria fundamentada na existência de diferentes na linguagem”.
Por sua vez, Judith Milner faz também essa aproximação em De quoi rienl les locateiirs?
Ela chama a atenção, por outro lado, para o fato de que a logofilia de Wolfson diz )'
respeito às condições do Estado americano: o judeu Wolfson desenvolve uma estranha I
amizade com um maçom italiano, que também se sente deslocado em uma língua que não
é a dos seus ancestrais. k
6. Pierssens opõe Ducasse a Mallarmé, dizendo: “Enquanto este último reserva toda a sua
atenção às palavras, Ducasse concentra seu esforço nas frases" (op.cil.. p. 50) ,
7. Da Begriffschriji de Frege às reflexões freudianas sobre o sonho, o traçado que pensa
sozinho inscreve-se na nossa modernidade. Ver em particular Jean-Michcl Rey, Parcours
de Freud, Galilée. 1974.
8. Na Brève histoire de ta linguistique (A. Colins. 1976), R. H. Robbins [Robbins, R.
Pequena história da linguística. RJ: Ao Livro Técnico, 1983 ] evoca o Essay towards a
Real Character and a Philosophical Language do bispo inglês John Wilkins. para quem *
a obra do Padre Mersenne era familiar. Esse texto, publicado em Londres em 1668, com
o apoio oficial da Royal Society, visa, segundo Robbins. à “elaboração sistemática dos
princípios aplicáveis universalmente de uma lingua apta à comunicação entre todos os
membros de todas as nações do mundo” . í
Robbins expõe, a partir de um exemplo, esse projeto de "esquematização completa do conhe­
cimento humano, compreendendo as relações abstratas, as ações, os processos e os conceitos
lógicos, os gêneros e espécies naturais das coisas animadas e inanimadas, e as relações físicas
e institucionalizadas entre os seres humanos vivendo em família e em sociedade [...]. Pode-
se fornecer um exemplo simples: “pai” é representado pelo caracter 4 - que se compõe do
signo de base -3- para a relação do gênero “econômico" (interpessoal), ao qual acrescenta-se
uma linha obliqua à esquerda, indicando a primeira subdivisão - no caso das relações econõ-
micas, a de consangüinidade -, uma linha vertical à direita indicando a segunda subdivisão - no
caso da consanguinidade, a relação de ascendência direta - e um meio-circulo acima do centro
do caracter indicando o sexo masculino” (Robbins, p. 121-122). Ainda aqui... o hieróglifo da
paternidade.
9. Retomamos aqui as formulações de H. Roudinesco em "La Psychanalyse dans l'impossible
de son histoire" (Pour une politique de la psychanalyse, Maspero, 1977), particular­
mente pp. 70, 103 e 111.
10. “A gente se vê sonhando diante desses singulares produtos da imaginação criadora que
são, por exemplo: o “Carpophorophilus" (1734), o “Blaia Zimondal” (1884), o “Ken-
tung" (1942), o “Antibabilona” (1955), o “Pantos-Dimou-Glossa” (1858), o "Phona-
rithmon” (1840), o "M yrana” (1889), o “Nature Mother Tongue” (1939), ou ainda a
misteriosa “Langue Bleue” (1896). H que dizer do “Solresol” (1866), língua inteiramen­
te musical (recompensada nas Exposições universais de 1867 e 1885) da qual Gajewsky
dá uma versão “ótica”, substituindo as sete notas por sete cores: ou então do “ Timerio”
(1921), língua universal numérica, em que ‘eu te amo’ escreve-se ‘1-80-17’”.
Essa enumeração de Jean-Claude Michéa em Kial venkis esperanto? (Critique, 387-388)
representa uma seleção entre as centenas de línguas universais criadas desde 1850.
11. Bloomfield, por sua vez, trabalhará para reconstituir uma protolíngua ameríndia.
Entre as línguas artificiais, é preciso obervar o destino excepcional do esperanto (ver

/ estudo de J.-C. Michéa já citado), criado em 1887 por Lazare Zamenhof, que relaciona
esse projeto às suas raizes judaicas, nestes termos: “Se eu não fosse um Judeu do gueto, a
idéia de unir a humanidade não me teria vindo à mente, ou não me teria obcecado tão
obstinadamente durante toda a minha vida. Ninguém pode sentir tanto quanto um Judeu
do gueto a infelicidade da divisão humana. Ninguém pode sentir a necessidade de uma
língua hum anam ente neutra e não-nacional com tanta força quanto um Judeu, que é
obrigado a rezar a Deus em uma língua morta há muitos anos, que recebe sua educação e
sua instrução na língua de um povo que o rejeita, e que tem companheiros de sofrimento
em toda a terra, com os quais ele não pode se fazer entender. Meu judaísmo foi a razão
principal pela qual, desde a mais tenra infância, eu me dediquei a uma idéia e a um sonho
essencial, ao sonho de unir a humanidade” (citado por J.-C. Michéa).
Se esse empreendim ento teve um sucesso relativo, é provavelmente por causa de sua
evidente superioridade linguística, mas sobretudo graças à implantação das organizações
esperantistas, que rapidamente dispuseram de uma base operária internacional. O fato de
que o “pai” dessa língua-organização sempre tenha se recusado a se comportar como
chefe da horda também pôde representar um papel.
13. M. Pierssens, La Tour de babil. Editions de Minuit, 1976.
* [Bachelard, G. A poética do devaneio. SP: Martins Fontes Ed., 1988.]
** NT: No original novial.
5. O REAL DA LÍNGUA
É O IMPOSSÍVEL

Assim, segundo a posição estrutural das relações entre simbólico,


real e jmagittá*4eriicrifi€ônsQÍente, a logOfilia iiãu detiva' ào acaso. Tra­
ta-se exatamenle-de-4eis -gêneros-d& loucura, no sentido ao mesmo
tempo gramatical e sexual: o “feminino” da língua materna, língua mãe
do fluxo oral das palavras, o “masculino” da língua ideal, escritura em
que o significante ausente domina a construção sintática. Daí a velha
idéia de classificar as línguas segundo a disjunção masculino/feminino,,
conforme elas fossem mais sintáticas ou mais lexicais. Rousseau, no
seu Essai sur 1’origine des langues’, tenta uma classificação desse
gênero, entre as línguas do Sul.(nascidas da paixão, caracterizadas por
sua entonação cantada e a predominância das vogais) e as do Norte
(nascidas da razão, em que dominariam a gramática, a lógica, a frie­
za... e as consoantes)1.
O retomo de tais fantasias não sintomatizaria o ponto dificilmente
confessável, em que o mistério da sexualidade surge em meio às proble­
máticas da ciência lingüística?
A figura do pai (o Falo, a Ordem, o Direito e a Razão), em
conjunção e em desconjunção com a da mãe (a matriz, o fluxo, a
Vida): a encruzilhada imaginária em que certos humanos encon­
tram “o amor pela língua” e, às vezes, o desejo de estudar lingüís­
tica. Nessa cena primitiva em que seu desejo logofílico os espera e
os atrai para seu gênero, o que lhes advém da história (sob as figu­
ras ideológicas do Direito e da Vida) se relaciona a um laço incons­
ciente singular.
Ficando nesta simples constatação de que a língua “tem alguma
coisa a ver” com a sexualidade, correr-se-ia o risco de simplesmente
repetir o sintoma, e reproduzi-lo da maneira mais cômica. Como faz,
por exemplo, R. Thom, quando metaforiza os processos lingüísticos
nas figuras da sexualidade genital2: fazendo uma analogia entre a
emissão da mensagem lingüística e o ato de fecundação, fazendo do
enunciado o equivalente de um embrião, que comporta um ectoderma
(o sujeito), um mesoderma (o verbo) e um endoderma (o objeto como
presa possível), Thom acredita captar a chave universal da comuni-
cação como troca lingüística bem sucedida e relação sexual realiza­
da. Ele só faz conjurar a questão3.
Contornando, por uma espécie de biolingüística especulativa distribu­
ída por escritas matemáticas, o ponto em que a existência da língua atin­
ge a do inconsciente... o ponto da interdição do incesto.
Ora, é exatamente neste ponto (irreparável no interior do proces­
so biológico da sexualidade) que J.-C. Milner, retomando algumas
formulações de Lacan, designa “aquilo pelo qual, com um só e mes­
mo movimento, há língua (ou seres qualificáveis como falantes, o
que dá na mesma) e inconsciente”4. Ele acrescenta que esse ponto
j de impossível surge do fato que, como dois sujeitos não podem se
unir, “não há relação sexual” (Lacan), de quem ele retoma o termo
“alíngua”.
A tese defendida por Milner relaciona, assim, inteiramente, a possibi­
lidade da lingüística com aquilo que a língua contém do impossível5, “im­
possível de dizer, impossível de não dizer de uma determinada maneira”.
O Edipo lingüístico corresponde ao fato de que toda a alingua não pode
ser dita, em qualquer língua que seja.
Assim, contra a formulação do Tractatus*’ de Wittgenstein (“aquilo
sobre o qual não se pode falar, deve ser calado”), Milner valoriza que “o
fato de que um impossível deva dar lugar a uma proibição explícita prova
que há pelo menos um lugar do qual se fale do que não se pode falar: esse
lugar é-a alíngua”. ~~
A posição logofílica da língua materna aparece, retrospectivamente,
como a Figuração mais direta da alíngua; quanto à posição da língua
ideal, ela parece remeter àquilo pelo qual o “nem tudo da alíngua” venha
a se projetar em um tudo que pretenda representá-la. O “real da língua”
é, portanto, o impossível que lhe é próprio.
! Baseando-nos contraditoriamente nessa tese de Milner, tentamos aqui
fazer trabalhar o real da história como uma contradição da qual o impos­
sível não seria foracluído. Assim, aquilo que avançamos historicamente,
no que se refere às ideologias da Vida e do Direito (para além do par
simplista dos ditadores donos da língua em oposição à causa da liberda­
de) consegue se unir, através da logofilia, com a posição teórica de Mil­
ner referente ao real da língua.
Ao mesmo tempo, a questão do materialismo histórico é o ponto em
que nos separamos politicamente de Milner. Que Milner não aceite, hoje,
conceber a história de outra maneira que não seja a forma parodística de
um materialismo de síntese, narcísico e cego, no qual a história só pode
apresentar a forma de um desenvolvimento sintético progressivo da cons­
ciência6e que, por conseguinte, ele negue a ela toda possibilidade de real,
isso é outro caso.
NOTAS

1. Encontra-se esse mesmo tema desenvolvido por certos gramáticos do século XIX: “Ob­
servou-se que certas línguas se dividem desde a origem em dois grandes ramos: um
apresentando um caráter predominantemente m asculino, o outro predominantemente
feminino: um mais rico em consoantes, o outro em vogais; um mais marcado pelas
terminações gramaticais originais, o outro mais propenso a apagar essas terminações e a
simplificar a gramática pelo uso das circunlocuções” (Max Millier, Lectures sur la science
du langage, Londres, 1864).
É igualmente frequente encontrar tal divisão, sexual-gramatiral-transposta para os deva­
neios sobre as origens da linguagem, especialmente a poética, como nessa, observação de
I. Fonagy: “O r parece masculino por causa do esforço muscular maior que ele exige para
a emissão, em comparação com ò ráv eo tãf oü 6 m labial” ... Nesse ponto, aprovamos a
cn’ticã"qne Baudrillard faz disso em L ’Echange symbolique et la Mort (Gallimard, 1976)
[Baudrillard, J. A troca simbólica e. a. morte. Lisboa: Edições 70. 1996]: “Verdadeira
metafísica dé uma língua original, tentativa desesperada de encontrar um habitat natural
dó poético, um gênio expressivo da língua, que bastaria captar e transcrever”. Aqui, como
em outras figuras “logofilicas”, o principio do arbitrário do signo encontrar-se-ia magi­
camente afastado da questão: mergulha-se mais uma vez nas velharias linguísticas do
.Crátilo.
2. A idéia desta analogia não é completamente nova. Alain Pons (in Critique, 387-388)
evoca um gramático do século XVII, Gabriel de Foigny, para quem “a linguagem é uma
segunda geração, una e hermafrodita como a geração biológica. O óvulo, representado
pela vogal, é fecundado pelos princípios de diferenciação que são as consoantes” (p.729).
3. Ver, em O rnicar?, n° 16 (1978) [Thom, R. Parábolas e catástrofes: entrevista sobre
m atemática, ciência e filo so fia . Lisboa: Dom Quixote, 1985], uma entrevista com
Thom, da qual participavam particularmente os lingüistas A. Culioli e J.-C. Milner. Pode-
se 1er nela: Milner: “Admitamos a sua proposta: a função fundamental da linguagem é a
comunicação. Conclui-se daí que ela funciona? Thom: “Ah, sim! Creio que a linguagem
é um instrumento muito bom”.
4. L'Amour de la langue, p. 26 [ver nota 23].
5. O trabalho do gramático e do lingüista consiste em construir a rede desse real, de maneira
que essa rede faça Um, não como efeito de decisões que viriam arbitrariamente rasgar
essa unidade em um fluxo, mas por um reconhecimento desse Um enquanto real, ou seja,
como causa de si e da sua própria ordem. Fazer lingüistica é supor que o real da língua é
representável, que ele guarda em si o repetível, e que esse repetivel forma uma rede que
autoriza a construção de regras.
6. A história como antropologia, ou seja, um dos pontos maiores do auto-recobrimento da
descoberta de Marx.
* NT:[Rousseau, J. J. Ensaio sobre a origem das línguas. Campinas: Ed. Unicamp, 1998].
** NT: [W ittgenstein, L. Tractatus logico-philosoftcus. SP: Edusp. 2001],
6. DOIS SAUSSURE?
Portanto, o rea l da língua não é costurado nas suas margens como
uma língua lógica: ele é cortado por falhas1, atestadas pela existência do
lapso, do Witz e das "senês associativas que o desestratificam sem apagá-
lo. O não-idêntico que aí se manifesta pressupõe a alíngua, enquanto
lugar em que se realiza o retomo do idêntico sob outras fôrmas; a repeti­
ção do significante na alíngua não coincide com o espaço do repetível e
que é próprio à língua, mas ela o fundamenta e, com ele, o equívoco que
afeta esse espaço: o que faz com que, em toda língua, um segmento possa
ser ao mesmo tempo ele mesmo e um outro, através da homofonia, da
homossemia*, da metáfora, dos deslizamentos do lapso e dojogodepala-
vras, e dq bom relacionamento entre os efeitos discursivos.
^ Esse saber sobre a relação entre real e equívoco inicia-se na obra de F.
de Saussure, que constitui ainda hoje uma aposta na questão da lingüísti-
ca como ciência: o que nela foi inaugurado continua a se manifestar por
efeitos paradoxais.
O primeiro paradoxo é a própria origem da descoberta saussuriana,
que encontra suas condições nas práticas dos gramáticos comparatistas,
dando a possibilidade de representar os fenômenos lingüísticos em uma
escritura: Saussure teria feito algo diferente do que apenas fixar a novi­
dade progressivamente surgida ao longo do século XIX? Haveria, de
fato, uma revolução saussuriana?
Por outro lado, Saussure constitui, direta ou indiretamente, a pedra de
toque de todas as escolas lingüísticas atuais, o seu ponto de partida críti­
co. Em nome de Saussure, os lingüistas se dividem, porque o próprio
Saussure carrega em si essa divisão, que transparece na dicotomia fácil
que opõe o Saussure do Cours de linguistique générale (tanto mais claro
e frio quanto for comentado segundo a leitura dos editores), ao dos Ana-
grammes (em que vaga a obscura loucura da decodificação, das associa­
ções escondidas nos versos saturninos). O hermeneuta renegado pelo
universitário, a esquizofrenia trabalhando para desfazer, à noite, o que a
mania das dicotomias havia tecido: a favor ou contra Saussure, todas as
combinações do positivo ao negativo foram tentadas2, sem esgotar o se­
gredo do “projeto saussuriano”.
Uma configuração teórica singular, marcada pelo desenvolvimento de
elementos contraditórios. Como, entre os antigos saberes da linguagem,
teria surgido o objeto da lingüística? Como a velha questão filosófica do
arbitrário do signo aí coexiste com a língua como sistema de signos? Se for
absolutamente necessária uma pedra de toque da teoria, onde buscá-la? No
arbitrário do signo ou no valor? O saussurianismo seria um avatar da opo-
siçãq_sociologísmo/formalismo (a língua como relação social e a língua
como sistema arbitrário)*# Seria uma nova forma da complementariedàde
filosófica confrontando a riqueza concreta da Vida com conceitos do Direi­
to? Uma reformulação da oposição Natureza/Convenção? Uma versão
moderna da dupla indivíduo (domínio da psicologia)/sociedade (domínio
da sociologia)? O saussurianismo teria inaugurado a semiologia contem­
porânea como ciência geral dos signos? A comunicação seria um conceito
saussuriano? A língua seria o que permanece quando, da linguagem, sub­
trai-se a fala? Em “a língua é um sistema de signos”, o que se deve entender
por “sistema” e o que se deve entender por “signo”? A noção de valor
resulta de uma importação teórica proveniente da economia política?...
Qualquer apresentação da teoria saussuriana já é um posicionamento
e um partidarismo em relação às condições históricas de cientificidade da
lingüística.
A versão corrente mais aceita consiste em situar o núcleo do em­
preendimento saussuriano no arbitrário do signo, controlando a rela­
ção entre significante e significado3: Saussure? É muito simples!... O
signo lingüístico, análogo ao símbolo por sua dualidade constitutiva,
distingue-se deste pela ausência de toda relação natural entre os ter­
mos dessa dualidade. A língua como sistema de signos, imensa pági­
na cuja relação frente/verso é regulada pelo arbitrário, traduz esse
constitutivo efeito de convenção que “as relações sociais” impõem à
linguagem.
Desde então, há uma tendência de se considerar que as relações
de oposição de cada signo com os outros elementos do plano lin­
güístico formam uma rede constituída por uma estrutura, equilibra­
da como uma Gestalt perceptiva ou física4,em um campo de forças
em que cada elemento reage sobre todos os outros. Munindo essa
estrutura da capacidade de se reconfigurar, chega-se à idéia de
uma potencialidade criadora interna ao sistema, autorizando a mu­
dança sob a estrutura, o deslizamento da massa falante sob a siste-
maticidade, as significações surgidas na fala sob o campo em equi­
líbrio da língua: a fala torna-se assim o outro da língua, ao mesmo
tempo interior e exterior a ela^suaxausa e seu.resultado no sujeito
falante.
As imagens do equilíbrio e da circulação, desde então, vêm inevitavel­
mente afetar o conceito de língua assim definido, metaforizando nele as ve­
lhas representações da moeda: a língua é um “tesouro de signos” que, do
/mesmo modo que os signos monetários, só têm valor com a condição de
circularem najgomunicaçâo, de trocarem (por coisas ou por outros signos).
Nessa representação, o conceito de valor lingüístico aparece como um
caso particular do valor monetário: simples conseqüência, que possa ser
deduzida do sistema. Daí os numerosos comentários sobre as passagens
em que Saussure refere-se à economia política tal como ele a conhecia
(essencialmente Walras e Pareto), aí buscando a chave do seu sistema...
Alguns (como Rossi-Landi, Marcellesi e Gardin) usam-nas como ar­
gumento para engajar a lingüística na via de uma “crítica” análoga à que
Marx fez à economia política burguesa, considerando a língua “como
trabalho e como mercado”. Outros (como Baudrillard), basendo-se em
toda economia do signo, desenvolvem uma concepção lingüística da po­
esia como aniquilamento de todo valor5.
Sob essas duas formas aparentemente opostas, essa visão maniqueís-
ta leva a jogar um dos dois Saussure contra o outro.
Para n o v o saussuriaqismo-ftão- se divide assim: o que faz aqui
irrupção na lingüística (e que nela fica parcialmente entravado) refe­
re-se precisamente à relação entre o diurno e ò noturno, entre a ciên­
cia e a poesia (ou até a loucura). O que só pode ser concebível reto-
mando-se as duas faces da obra saussuriana sob o domínio do concei­
to de valor6.
No artigo “Natureza do signo lingüístico”**, redigido em 1939, Emile
Benveniste é um dos primeiros a questionar o primado do arbitrário na
interpretação do trabalho de Saussure. Ele insiste na necessidade lingüís­
tica dissimulada sob o arbitrário constatando que esse efeito só é obser­
vável do “ponto de vista de Sirius” (decisão contingente de um mestre
incompreensível); em compensação, do ponto de vista da simbiose soei- ^
al, a relação entre significante e significado adquire a forma de uma ne­
cessidade que constitui o ponto de partida da lingüística, ciência não
marciana, mas humana. Para libertar a lingüística dessa questão filosófi­
ca, Benveniste comenta a referência feita por Saussure ao terceiro termo,
a realidade (substância): ele desloca assim a carga arbitrária sobre a rela­
ção de significação entre o signo (significante/significado) e a realidade.
A questão do arbitrário absoluto encontra-se assim localizada em uma
espécie de materialismo da realidade que deveria permanecer exterior à
reflexão lingüística: esta última diz respeito ao estudo da relação signifi­
cante/significado como efeito do arbitrário relativo, ao estudo do signo
não em seu isolamento mas na sua relação com outros signos: “O caráter
‘félãtivo’ do valor não pode depender da natureza ‘arbitrária’ do sig-
no.[...] Dizer que os valores são ‘relativos’ significa que eles são relati­
vos uns em relação aos outros. (...] Opostas, elas se mantêm em mútua
relação de necessidade” (p. 54-55).
Benveniste restitui assim, à noção de valopjsua função cardinal na
descoberta saussunana. A partir dele, C. NormancPcomeça a empreen­
der a anulação do risco de gestaltismo subsistente nessa interpretação:
para isso, ela insiste que a incompreensão da noção de valor provém do
fato de que os comentadores se fecharam em uma dicotomia (arbitrário/
não arbitrário): as confusões da redação do Cours de Linguistique
Générale (e a ordem às vezes aleatória restituída pelos editores) dissi­
mulam a importância do “relativamente motivado”7que nos coloca, pro­
priamente falando, no terreno lingüístico. Passamos de uma configura­
r ã o dicotômica para um espaço de três termos^ em que o lingüístico se
baseia em uma exclusão/ O que vem aqui em terceirolugáTem relação
ao motivado e ao imotivado, é a relação de um signo com umoutro signo,
o mecanismo não gestáltico interno à língua, próprio ao real desta última:
o valor sustenta e, ao mesmo tempo, limita o arbitrário. -----
í Saussure, não é tão simples assim! Colocar o valor como peça essen-
fcial do edifício equivale a conceber a língua como rede de “diferenças
sem termo positivo”, o signo no jogo de seu funcionamento opositivo e
diferencial e não na sua realidade; conceber o não dito, o efeito in absen-
tia da associação, em seu primado teórico sobre a “presença” do dizer e
do sintagma; o não dito é constituinte do dizer, porque o todo da língua só
existe sob a forma não finita do “não-tudo”***, efeito da alíngua; é pelo
papel constitutivo da ausência que o pensamento saussuriano resiste às
interpretações sistêmicas, fúncionalistas, gestaltistas e fenomenológicas
que, entretanto, elas não cessam de provocar. A revolução saussuriana

(
provoca o esfacelamento da complementariedade.
Só se pode perceber a tese do valor ligando fundamentalmente o
trabalho sobre os Anagramas com a reflexão do Cours de Linguisti­
que Générale.
Qjante das teorias-que isolam o poético do conjunto da linguagem,
como lugar de efeitos especiais, o trabalho de Saussure (tal como ele é,
por exemplo" comentado por StaroBinski) faz do poético um deslizamen-
. to inerente a toda linguagem: o que Saussure estabeleceu não é uma pro­
priedade do verso saturnino, nem mesmo da poesia, mas uma proprieda-
cte" da própria língua. O poeta seria apenas aquele que consegue levar i
essa propriedade da linguagem a seus últimos limites; ele é, segundo a /
palavra de Baudrillard, suprimindo a sua acidez, um “acelerador de par- j
tículas da linguagem”. Poder-se-ia assim dizer, no espírito do comentário !
de Lacan sobre a fórmula “não há pequenas economias”: “não há lingua- .
gem poética”.
A incompreensão desse ponto decisivo induz uma deriva na leitura
do Cours de Linguistique Générale. Assim, da interpretação que E.
Roulet faz da associação em Saussure: comentando as relações as- 1
sociativas e o esquema sobre “ensinamento”8, ele reproduz o esboço
de Saussure, mas nele não há mais do que três eixos: é o quarto, o do
elemento, justamente, que desapareceu... o da “simples comunida­
de das imagens acústicas”, do qual o Curso de Lingüística Geral
diz em nota que, por mais anormal que esse caso possa parecer, sua
existência é provada por “uma categoria inferior de jogos de palavras '
baseados nas confusões absurdas que podem resultar da pura e sim­
ples homonímia”. Qu seja, aquela que dá abertura, na obra de Saus-
suriTa^ formulação da questão da língua, sem que o horizonte da alín-
gua seja imediatamente foracluído. O espaço do valor é o de um
sistêmico capaz de subversão em que, no máximo, qualquer coisa
pode ser representada por qualquer coisa. ’
A conseqüência é que a língua domina o pensamento, impondo-lhe al (,
ordem do negativo, do absurdo e da metáfora. É aí que a ciência da lin4
guagem relaciona-se com o registro do inconsciente. J
Freud e Saussure, dois contemporâneos que se ignoraram: Freud indo
buscar nas divagações históricas de Karl Abel uma caução lingüística
qüê õ faz imaginar como fenômeno da língua o que provém do efeito do
inconsciente no discurso9. Saussure buscando na regra de uma seita poé­
tica (os poetas saturninos que ele estuda nos Anagramas) a explicação de
um problema interno à língua10.
Mas essa tese do primado do valor permanece frágil: no próprio inte­
rior do saussurianismo, o caráter negativo do signo é ameaçado de ser
encoberto na positividade da comunicação; a tese do discemível é amea­
çada pela racionalidade operatória da pertinência", o não-finito elíptico
do todo da língua é ameaçado de ser recoberto na imagem do jogo de/
xadrez (implicando um número finito de casas, de peças e de combina- j
ções); o equívoco do associativo e da metáfora é ameaçado de desapare-1
cimento sob a univocidade psicológica das escolhas e das intenções sele- \
tivas no interior do paradigmático...
O que, pelo saussurianismo, institui-se na língua por uma relação
com o real da alíngua, e passa a analisar os seus efeitos, é constitutiva­
mente ameaçado de derivar para uma descrição semiológica da realida­
de. Restauração do primado da significação, da positividade do signo e
do fechamento de um sistema finito de elementos. Restauração da com-
plementariedade e retomo ao arbitrário do signo absoluto da convenção
filosófica universal: Édipo livre para se casar com a sua mãe12?

NOTAS

1. Em La Double Faille, F. Gadet ( 1978) tentou uma aplicação dessa noção introduzida por
J.-C. Milner sobre o sujeito da enunciação. Ela desenvolve a idéia de que as fendas na
língua são de natureza dupla, marcadas de maneira diferente na sintaxe: uma. caracteri­
zada por dificuldades de escritura, relaciona-se diretamente com a presença do sujeito da
enunciação; a outra, que supõe inicialmente um ponto de vista de fora da sintaxe, remete
definitivamente a uma reflexão sobre o processo da metáfora como constitutiva do real
da língua enquanto processo sem sujeito. É este segundo aspecto que é abordado aqui,
através do conceito saussuriano de valor. Para a discussão completa dessa questão, ver o
capitulo 2, principalmente os parágrafos 6 e 7.
2. Um número de Recherches intitula-se “Les Deux Saussure” (n° 16). A revista Semiorexí também
dedicou dois números a esse tema (1974, I, 2 e 1975, II. I ). Por outro lado, L. J. Calvet, em Pour
et contre Saussure (Payot, 1975) [Calvet, L-J. Saussure: pró e contra: para uma linguística
social. SP: Cultrix, 1977], defende a idéia de que é privilegiando o Saussure dos Anagrammes que
se conseguirá estabelecer uma teoria da língua nas suas relações com o inconsciente. J.
Kristeva ( Théorie d'ensemble, Seuil, 1968] vê no trabalho dos Anagrammes um aconte­
cimento liqüidando a teoria do signo. Foi provavelmente J. Baudrillard, em L ’Echange
symbolique et la Mort (op.cit.), que dá a versão mais sedutora dessa posição disjuntiva, que
tem, entretanto, o inconveniente de supor o problema resolvido.
3. É particularmente a posição de A. Martinet e de G Mounin, de J.-B. Marcellesi e B. Gardin
(Introduction à la sociolinguistique, Larousse, 1974) [Martinet, A. A linguística sincrô-
nica: estudos e pesquisas. RJ: Tempo Brasileiro, 1974], de F. Rossi-Landi e dos diferen­
tes autores da revista L'Homme et la Société, n° 28 (1973) [Rossi-Landi, F. A linguagem
como trabalho e como mercado: uma teoria da produção e da alienação lingiiisticas.
SP: Difel, 1985], É igualmente a de Baudrillard, sob formas mais complexas que comen­
taremos mais abaixo.
4. Segundo a teoria da Gestalt, toda “forma se confia à intuição por suas propriedades de
diferenciação perceptiva, em contraste com a indiferenciaçâo do “ fundo” . Esse princi­
pio, aplicado antes de tudo à percepção visual, valeria também pela percepção das
formas sonoras: um som isolado, uma nota, “oferecem-se espontaneamente” ao ouvin­
te, mas a complexidade de uma forma sonora não é redutível à análise da posição relativa
de seus elementos; essa complexidade só pode ser apreendida através de um efeito de
sistema inscrito na percepção. Sabemos que a teoria da G estalt tentou estender essa
concepção à própria estrutura dos fenômenos físicos, através do exemplo da distribuição
das cargas elétricas em um condutor, afirmando que toda modificação local se repercute
no sistema de distribuição das cargas.
A idéia que o saussurianismo seria uma fenomenologia da linguagem, aplicando a esta
última as leis da Gestalt. apóia-se em uma tradição em que se conjugam Mach e Husserl:
haveria assim um saussurianismo do ponto de vista (uma versão disto é proposta por F.
Jameson. The Prison-House o f Language. Princeton University Press, 1972). constitu­
tivo do objeto lingiiístico à maneira do gestaltism o perceptivo, e um saussurianism o
objetivo colocando, como o gestaltism o físico, a existência da estrutura do próprio
interior do objeto.
Denis SIakta (“Esquisse d ’une théorie lexico-sémantique". Langages, n° 23) mostra o
processo pelo qual a interpretação estruturalista de Saussure (em Martinet ou Mounin, e
até em Benveniste), apaga a distinção objeto real/objeto de conhecimento: finalmente,
a estrutura é no objeto.
A tese que defendemos aqui visa a contrapor sob suas duas formas a gestaltização e a
fenomenologização do saussurianismo.
5. Nesse empreendimento antieconomista (!) de extinção do valor, Baudrillard baseia-se em
leis descobertas por Saussure no trabalho sobre os Anagrammes (principalmente a de
associação de duplos). O resultado disso é um sistema fechado em que “uma vez quebrada
a instância do sentido, todos os elem entos constitutivos passam a fazer trocas, a se
corresponder" (p. 298) em um espaço que, a partir daí. só pode ser uma combinatória
fechada em que qualquer valor se anula. É na biunivocidade que une o significante ao
significado que Baudrillard coloca imediatamente este último, o que tem como resultado
identificá-lo com a lei, em um esquema que instaura a lógica no centro da língua: “Nada
nunca participará da lingua sem obedecer ao princípio da não contradição, de identidade
e de equivalência." É ao mesmo tempo no domínio dos significados, no cotidiano econô­
mico que os “valoriza” que surge o ilimitado, o infinito discursivo.
6. Apoiamo-nos aqui na leitura que Godel faz do Curso, sobe as contribuições das edições criticas de
Engler e Mauro, e sobre diversos trabalhos que os pressupõem: C. Haroche, P. Henry e M.
Pêcheux (“La Coupure saussurienne’’, Langage, n° 24), os trabalhos de Claudine Normand
(“Propositions en noies en vue d'une lecture de E de Saussure", “L ’Arbitraire du signe comme
notes en vue d'une lecture de F. de Saussure". “L'Arbitraire du signe comme phénomène de
déplacement". Langages, n° 49. e Avant Saussure, Dialectiques/Complexe, 1978) e de J. M.
Rey (Parcours de Freud, Galilée, 1974).
O conceito de valor tem nas notas originais do Curso um lugar bem mais importante que
o que aparece na apresentação de Bally e Séchehaye. Godel mostra que, na ordem de
apresentação dos cursos, o arbitrário do signo só aparece como conseqüência da tese
sobre o valor. C. Normand 'mostra (1973) as conseqüencias teóricas que se pode tirar
dessa constatação: L. J. Cálvet chega a conclusões análogas.
Aproximamo-nos iguajmgnlc.das posições de M. Ronat em La Langue manifeste (Action
põêtiqíie, 1575), que defende a figura de um Saussure único e o primado do valor, embora
não a possamos seguir quando eja diz que este último “é apenas uma abordagem justa, mas
no nível da superficie, dps conceitos.” Se nos parece interessante constatar que certos
aspectos do trabalho de Chomsky combinam com o conceito saussuriano de valor (ver o
capitulo II), não nos parece absolutamente que seja a distinção entre [estrutura de] super­
ficie / [estrutura] profimda (por mais fecunda que ela seja) que possa constituir um prolon­
gamento seu.
7. Dezenove é [signo] relativamente motivado, porque entra na série dezoito, vinte e nove...
Da mesma forma, macieira è [signo] relativamente motivado com relação à maçã e à
cerejeira.
8. Saussure reconhece quatro eixos de associações possíveis, expostos a partir do termo
“ensinam ento” :
- ensinamento - ensinar, ou seja. uma relação entre significantes e significados no
nível do radical.
- ensinamento - aprendizagem, ou seja, uma relação entre significados.
- ensinamento - desfiguramente, ou seja, uma relação entre significantes no nível do
afixo e da natureza verbal do radical.
- ensinamento - elemento - justamente, ou seja, uma relação da pura homofonia no
nível do significante.
9. Freud acreditou poder encontrar nas “línguas prim itivas” a ausência de negação que
caracteriza o processo do sonho. Benveniste faz uma critica lingüística das posições de
K. Abel e da utilização que delas fez Freud.
10. Ver J. Starobinski, Les Mots sous les mots, Gallimard, 1971. [Starobinski. J. As palavras
sob as palavras: os anagramas de Ferdinand de Saussure. São Paulo: Ed. Perspectiva,
1974.]
11. Naturalmente, estamos pensando aqui em Martinet, e em algumas de suas formulações
referentes ao trabalho do lingüista, entre as quais aquela em termos de chaves (La
linguistique synchronique). Mas também em Hjelmslev, que chegará a “semiotizar até o
pacote de substância rebelde que está no ‘nível físico” ’, segundo a formulação de M.
Arrivé, que não seguiremos na sua defesa de Hjelmslev. mas cuja honestidade de apresen­
tação crítica nós apreciamos. Esse “anti-Saussure”, "metafísico do estruturalismo” (ter­
mos de H. Meschonnic, citados por Arrivé), acaba, de fato, constituindo a língua como
um sistema fechado, em que a estrutura do real toma-se indiscemível da da língua, como
no fam oso exem plo jum en to = ca va lo A fê m e a , considerado como paralelo de
gata =gato +fem inino.
Não estamos longe aqui de uma teoria do mundo... normal.
O “materialismo da realidade" não suporta a teoria do valor.
12. Benveniste (1966), evocando a questão da existência do complexo de Edipo nas “soci­
edades prim itivas”, escreve: “ Se esse complexo é inerente à sociedade como tal, um
Édipo livre para se casar com a sua mãe é uma contradição nos seus termos” (p.84).
* NT: No original homosémie.
** NT: [Benveniste, E. Problemas de linguística geral. Campinas: Pontes, 1991],
*** NT: No original pas-tout.
7. A IRRUPÇÃO DO EQUÍVOCO NO REAL

Pensar na revolução saussuriana como em algo que rompe, com cer­


teza, com um passado realizado, é provavelmente a pior maneira de se
representar o efeito Saussure. Saussure não resolve a contradição, invisí-,
vel antes dele, que une a língua à alíngua: ele a abre, tomando-a visível, i) I
Se o diumo não suporta ser separado do noturno, o estatuto do conceito ' '
é desviado na sua relação com os deslizamentos da metáfora e do equívo­
co1. A ausência de um conceito não produz seu simples contrário, e a
loucura não é a sua simples mudança ou falta. É na trama imaginária de
uma teoria que se negocia a relação com a loucura: quando, hoje em dia,
decidimos lançar a ciência contra a loucura, começamos por fazer da
ciência uma lógica oposta à não-lógica* da loucura; esquecemos, assim, / <•
que a loucura (e a poesia) fazem também um certo uso da língua, são )
igualmente apreendidas no real. A língua como lugar de um saber em que ; 1
ficções podem ser regradas é o ponto logofílico contraditório pelo qual a t
lingüística toca o seu real.
Depois de Galileu, Darwin, Marx, Freud... o que aparece com Saus­
sure é da ordem de uma ferida narcísica. Um saber aí se libera, o qual,
sob o peso do que a ciêriCia dá llhguagem acreditava saber, a obcecava
[sem que ela aceitasse reconhecê-lo: a língua é um sistema que não pode /
ser fechado, que existe fora de todo suieito. o aue não implica absoluta)
imente queela escape ao representável.
Compreende-se que muitos saussurianos se tenham empenhado, em
nome de Saussure, em tratar dessa ferida, em disfarçar a novidade insu­
portável que perturba assim as relações entre o desejo, o real e o impos­
sível2.
O mais espantoso é que J.-C. Milner, cuja reflexão constitui um questi­
onamento do narcisismo na lingüística, refere-se aqui à distinção entre “a
ética da ciência” (a semana de trabalho dos lingüistas) e “a ética da verda­
de” (a leitura dos poetas no dia do Sabbat). Em L ’amour.de la langue,
em que a indissociabilidade dos dois Saussure é, entretanto, reconhecida, a
tese saussuriana do valor não é aplicada. Isso poderia ser o corolário da
posição sustentada por Milner em relação ao equívoco, cuja percepção ele^
restrmge'~ã?PÍpopfp^^ e~atgumaY~cõmcTdênçjaX-fel izes com as
escritas eruditas: sem a poesia, afirma ele, nõíFnão teríamos a idéia de que „
alínguaj e insCfévÍmõreãirêl5s~Eõcã(ÍÍlhus, lapsos ete-seriam acidentes.

tc. 9 r' O v •' 63


Mas de onde vem essa certeza sobre o lugar da poesia, ponto privile­
giado de cessação? Ppder-se-ia também entender, sob o princípio saüssu-
riano do valorrqúe a poesia não tem lugar determinado na língua parque
ela é literalmente coexfensiva a esta última, do mesmo modo que o equí­
voco: talvez “não haja poesia”3.

I
Não há poesia porque o que afeta e corrompe o princípio da univoci-
dade na língua não é localizável nela: o equívoco aparece exatamente
como o ponto em que o impossível (lingüístico) vem aliar-se à contradi
ção (histórica); o ponto em que a língua atinge a história.
| A irrupção dojjquívQÇOJÍeta o real da história, 0 que se manifesta
pelo íàtodeique todo processo revolucionário atinge também o espaço da
língua: 1789, 1870, 1917... essas datas históricas correspondem na lin­
guagem a momentos privilegiados: a instauração do francês nacional, a
1“mudança de forma” da métrica francesa tradicional introduzida por Rim-
baud4, e o surgimento das “vanguardas” literárias, poéticas e lingüísti-
> cas, no campo do Outubro russo.
'! Toda desordem social é acompanhada de uma espécie de “dispersão
: anagramática” (Baudrillard), que constitui um emprego espontâneo das
leis lingüísticas do valor: as massas “tomam a palavra”, e uma. profusão
, de neologismos e de transcategorizações sintáticas induzem na língua
uma gigantesca “mexida”, comparável, em menor proporção, àquela que
?. os poetas realizam. /
Esse trabalho da língua adquiriu no Outubro russo de 1917 sua forma
maior moderna em uma proximidade máxima entre a revolução, a litera­
tura e a reflexão lingüística. A partir do epicentro de Outubro, uma onda
de choque atravessou a Europa, marcando a era do imperialismo e das
revoluções proletárias: o começo do socialismo, mas também a ascensão
em potência e a generalização (através da guerra de 1914-1918) dessa
máquina de tipo novo cujas engrenagens se formaram ao longo do século
XIX, e que constitui a forma-Estado contemporânea.
Essa onda de choque, cujas repercussões contraditórias nós sentimos
hoje no estado mundial do século XX agonizante, afeta também a refle­
xão sobre a língua: os anos 1960-1970 viram florescer uma série de tra­
balhos que pesquisavam as relações de correspondência e os encontros
abortados entre os formalistas russos e os dois Saussure5 e também entre
as lutas revolucionárias, as políticas lingüísticas e o poder de Estado,
essencialmente sobre a Revolução Francesa.
( Parece hoje que essas duas linhas de interrogação se cruzam no ponto
1 histórico de Outubro 1917: a história da lingüística será doravante inse-
• parável das questões de alfabetização, de escolarização, de jornalismo,
j de propaganda de massa, de revolução cultural etc, surgidas com a entra­
da em cena do proletariado russo. Essa mudança ideológica, esse gigan-
tesco processo metafórico em que o sentido passa a se produzir no interi­
or do não-sentido6 refere-se a toda a Europa (com repercussões no resto
do mundo)7.
O trabalho da língua no país dos sovietes constitui na nossa mo­
dernidade o ponto histórico em que se sobredetermina a relação entre
a política revolucionária, o exercício contraditório das práticas lin-
güísticas e a reflexão teórica sobre a materialidade da linguagem: nós
tentamos uma espécie de “acupuntura teórica”8, retomando os encon­
tros problemáticos que marcam esse triplo espaço, nos limites do im­
possível.
Além das aproximações que podem ser estabelecidas aqui e ali
entre a revolução de 1789 e a de 1917, é preciso enfatizar a homolo- \
gia de ambas em tudo o que se refere à questão da língua. No impé­
rio tzarista, o russo “literário” falado na corte - fortemente impreg­
nado de francês (e muitas vezes diretamente derivado) - constituía
uma língua tão artificial e separada do conjunto do povo quanto a
língua aristocrática dos nobres do Antigo Regime; os movimentos
contraditórios do despotismo filosófico “esclarecido” e do obscuran­
tismo haviam deixado na língua,sedimentações lexicais (importadas
principalmente do francês diplomático-literário e do alemão militar e
científico). Seu estatuto era bem comparável ao das raízes latinas e
gregas, progressivamente surgidas na língua acadêmica (científica e
jurídica) do século XVIII francês. Quanto às línguas populares (en­
tre elas, o russo dos camponeses), elas formavam uma multiplicidade
tão diversa quanto a dois “patoás, dialetos e idiomas” encontrados
pelos revolucionários franceses de 1793. /
Poder-se-ia, assim, retomar, sobre a Rússia revolucionária, o co­
mentário de Ferdinand Brunot sobre as conseqüências lingüísticas da
Revolução francesa: no seu prefácio ao tomo X de sua Histoire de
la langue française (“La langue classique dans la tourmente”),
Brunot enfatiza que “as classes cujo falar havia permanecido até
então fora da vida política e administrativa, cujos costumes, as idéias,
os sentimentos só excepcionalmente eram refletidos na literatura,
passavam bruscamente na frente da cena, representando um papel
tanto mais considerável quanto as outras classes, dizimadas, dissoci­
adas, perdiam sua importância”.
Em 1917, como em 1789, um enorme “trabalho da língua” é posto em
prática; as massas em revolução passam a falar9. As pesquisas e compi­
lações lingüísticas, combinadas a considerações sobre a formação das
“palavras novas” em luta contra as antigas, os numerosos ensaios produ­
zidos sobre essa questão podem dar uma idéia desse trabalho lingüístico
das massas de Outubro10.
NOTAS

1. C. Normand, na sua Métaphore et Concept (Dialectiques/Complexe, 1976), procurou dar


conta, m etodicamente, dos contornos dessa inflexão.
' 2 ) “Continuar a fazer do arbitrário a novidade saussuriana seria o mesmo, a nosso ver, que
proceder por ‘deslocamento’, segundo o procedimento primário do inconsciente que, no
sonho manifesto, acentua um elemento (acessório para o conteúdo latente) em prejuízo
do essencial que permanece censurado: a definição do signo como valor, ou seja, como
diferença, abrindo caminho para pesquisas materialistas sobre o trabalho do significante
! sentidas como perigosas para a filosofia dominante” (C. Normand, L 'arbitraire du signe
comme phénom ène de déplacement, Dialectiques, n 1-2, p. 126).
3. Talvez houvesse somente um mito do poeta, no sentido em que René Balibar pôde afirmar:
“Todo o trabalho social lingüistico e ideológico foi recalcado [pela política burguesa do
i ensino do francês] fora das representações dos mitos: no alto a auréola do dom natural veio
coroar o poeta, soberano nascido do universo das-palavras; em baixo a medalha do mérito
veio recompensar indivíduos laboriosos que conseguem dificilmente, cada um por sua conta,
descobrir a transparência dita natural entre as palavras e a realidade” (“Les Travaux pratiques
de la poésie". Action poétique, n.67-68).
4. Cf. Jacques Roubaud, La Vieillesse d'Alexandre, Coll. “Action poétique”, Maspero, 1978,
p. 19. “ Por volta de 1870, o processo de mudança de forma da métrica francesa tradi­
cional, seu romance de Alexandre - até então bastante regular - vai ao encontro de uma
catástrofe. Em seguida, começa um período “turbulento” destinado a se prolongar muito
antes durante o século XX. Nós ainda estamos nele, talvez. Podemos quase assinalar o
momento dessa catástrofe por um poema, composto provavelm ente alguns meses de­
pois da queda da Comuna de Paris.” Esse poema de Rimbaud começa por “Ai estou, aí
estou sem pre” .
5. Encontramos traços disso nos trabalhos iniciais do grupo Tel Quel e os dos coletivos de
Change e Action politique.
6. Essa formula retoma uma definição lacaniana da metáfora.
7. E ele não se limita ao espaço da língua, mas (pelo cubismo, o dadaismo, o futurismo, o
surrealismo...) atravessa também a pintura, a música, o teatro, o cinema, a arquitetura...
8. O termo é de R. Linhart, em seu magnifico Lénine, les Paysans et Taylor [Linhart, R.
Lenin, os camponeses e Taylor. Lisboa: Iniciativas, 1976], do qual fizemos muito uso.
9. E, ao mesmo tempo, elas passam a “fazer reviver em uma mesma palavra seus diferentes
sentidos vizinhos, esquecidos durante muito tempo [e a] to m a r próxim as [algumas]
palavras afastadas umas das outras” segundo uma definição da atividade poética proposta
por Tynianov a propósito de Khlebnikov (Action poétique, n° 63, p.49).
10. A Revolução francesa foi também marcada por trabalhos efetuados febrilmente como os do
Abade Grégoire, e pela publicação muito precoce de dicionários da língua nova, tais como
o de Snetlage, Gõttingen. 1795: Diccionnaire français contenant les expressions de nouve­
lle création du peuple français.
* NT: No original a-logique.
8. OUTUBRO DE 17 E A FORÇA DAS
PALAVRAS'

S. Karcevski (que, em Genebra, havia seguido os cursos de Saussure


até o seu retomo à Rússia em 1917) expõe com um interesse fascinado -
e ligeiramente condescendente - alguns aspectos desse processo lingüís-
tico de massa em La langue, la Guerre et la Révolution (Berlim, 1923).
Um pouco mais tarde, em uma perspectiva lingüisticamente comparável,
A. M. Selichtchev acrescentará, em La Langue de l ’époque révolutin-
naire; observations sur la langue russe récente (Moscou, 1928), outras
anotações convergentes que podemos recapitular confrontando-as com
as observações de F. Brunot sobre a Revolução francesa:
a) Termos familiares mudam de repente de sentido; não somente os
termos de tratamento, tais como gospodin, que se transformou em marca
de injúria como Monsieur em 89, mas também termos de uso coloquial,
que ganham bruscamente um sentido político através de uma espécie de
jogos de palavras: assim, o termo mesocnik, que designa classicamente o
fabricante de bolsas (cf. sapoznik. fabricante de botas, sapateiro) e que,
no momento da fome e do comunismo de guerra, passa a denominar os
traficantes que transportavam clandestinamente cereais em bolsas. O
emprego da palavra tricoteuses durante a Revolução francesa correspon­
de a um fenômeno análogo, muito freqüente em período de transforma­
ções sociais.
b) Termos existentes mas desconhecidos ou pouco familiares são ob­
jeto de lapsos que os deformam, e se reconstroem por derivação a partir
de uma raiz conhecida e acessível. Por exemplo, spekuljant (especula­
dor) toma-se skopuljant (a partir do verbo skopít ' que significa juntar2),
do mesmo modo que, na França de 1789, o verbo extirper (extirpar os
inimigos da República) se tomara extriper...
c) Termos importados de formações discursivas especializadas (ad­
ministração, exército, política) são retomados através de uma tradução
interna que arrisca um sentido com mais ou menos felicidade:
- algumas vezes a tradução “cai bem” graças a um sólido saber
prático como no caso daquele camponês que, questionado sobre o senti­
do da palavra ultimatum, respondeu: “E quando se diz: ‘passa o dinheiro,
passa o cavalo, senão eu mato você!”’;
- às vezes a tradução desliza no falso sentido ou no contra-senso
como a famosa maison à Cottée que André Chénier perdeu. Do mesmo
modo, acontece que a palavra plénum (do C.C.) seja interpretada atra­
vés do termo plen que significa cativeiro, ou o verbo konstatirovat’
(constatar) confundido com kastrirovat’ (castrar)...
- nessa via, a confusão pode ir até o absurdo, como quando a expres­
são élements du budget é entendida pelos camponeses russos como de­
signando o trabalho da lavoura, ou uma doença, ou um tipo de fumeiro.
O mais estranho é que a palavra budget prossegue, apesar de tudo, o seu
caminho, reaparecendo na expressão être en plein budget com o sentido
de “être sur son trente et un”. O período da Revolução Francesa conhe­
ceu aventuras lingüísticas semelhantes, como essa déflagration de tous
les vices na qual supunha-se que viviam todos os acima citados3. Muitos
outros exemplos mostram que “tudo pode se dizer”, ainda que não se
diga j amais “qualquer coisa”: - —-
- acontece também que a importação funcione como uma marca
política de reconhecimento: tomadas de empréstimo a uma língua morta
ou estrangeira4, e envoltas por uma aura revolucionária, algumas pala­
vras tomam-se verdadeiros fetiches. Assim o termo de origem militar
signaliirovat (transmitir uma mensagem por sinalização), de repente
empregado no discurso político, no lugar dos termos russos usuais, signi­
ficando “indicar”, “dizer” ou “mostrar”. Da mesma fonna, o francês
revolucionário havia posto em uso o termo geométrico emdito comcider
[coincidir] para designar o fato de se estar de acordo em relação a uma
mesma perspectiva política. Observemos que, nessa ordem de idéias, a
língua política conservou suivre une ligne [seguir uma linha], faire le
point [examinar a situação], converger [convergir], etc.
d) Enfim, termos e expressões surgem, formados por derivação analó
gica (transcategorização) ou por composição. Após 89, o verbo négocier
[negociar] produz o substantivo négociant [negociante]; da mesma for­
ma, o substantivo soviet [soviete] dará o adjetivo soviétique [soviético]
progressivamente substantivado, depois o verbo soviétiser [sovietizar]
que produz soviétisation [sovietização], O caso bem conhecido dos adje­
tivos-substantivos derivados de nomes próprios (hébertiste ou trotskys-
te, jdanovchtchina...) é igualmente muito freqüente. Assim também no
que se refere à feminização dos nomes de profissões.
A formação das expressões por composição gramatical (N + adj. N +
prep. + N) ou por justaposição coloca em jogo processos metafóricos
extremamente produtivos, sob o efeito de relações ideológicas que espe­
cificam os domínios de importação. Assim a Revolução francesa, inscri­
ta em uma referência constante às ciências da natureza, às formas latinas
do direito e da política e à filosofia das Luzes, produziu expressões como
le thermomètre du patriotisme [o termômetro do patriotismo], le patrio­
te rectiligne [o patriota reto], les vils satellites des despotes [os satélites
vis dos déspotas] etc. As referências ideológicas da revolução bolchevis-
ta são parcialmente semelhantes (por exemplo, através da metaforização
prática da eletricidade, sem falar da referência geral à Revolução france­
sa) e parcialmente diferentes (principalmente as teses políticas de Marx,
Engels desenvolvidas por Lenin, a referência à Comuna de Paris e tam­
bém o discurso militar): daí resultará uma série de expressões metafori-
zando a política nas figuras da guerra, tais como offensive prolétarienne,
forteresse ouvrière, parti des ennemis du peuple, front de la lutte idéo­
logique, front de la littérature, sentinelle littéraire [ofensiva proletária,
fortaleza operária, partido dos inimigos do povo, front da luta ideológica,
front da literatura, sentinela literária], etc.
Uma das inovações (politicamente discutível) da língua soviética foi o
uso sistemático das iniciais (por exemplo, L.E.F, Front gauche de l'art*)
articuladas como uma nova palavra (pronunciada [liéfj) apta a novas
derivações. Segundo esse procedimento, o Comitê Central (C.K.) toma-
se o Ceka, a Nova Política Econômica toma-se a nep, e assim sucessiva­
mente, até formar uma língua administrativa nova, na qual muitos
“s'empêtraient les pieds comme dans des vêtements de femmes5" [enfia­
vam os pés como em roupas de mulheres],
E de se notar também a proliferação precoce das palavras compostas do
tipo socialdemocrata, socialtraidor (cf. a deusa-razão de 1789), freqüente-
mente reduzidas, tais como as numerosas Proletkult, Rabkorr, Rabfac etc.
Assim, um novo risco de hermetismo surgia, cujos efeitos políticos (em par­
ticular sobre a aliança cidade-campo, a famosa smytchka da qual voltaremos
a falar) não foram, aparentemente, detectadas ou retificadas a tempo6.
e) As observações anteriores, que formam o essencial das anotações
de Karcevski e de Selichtchev, referem-se, em sua maior parte, à forma­
ção das palavras. Esses autores só abordam superficialmente as questões
de sintaxe e reconhecem ambos que as regras da gramática russa subsis- v
tiram no seu conjunto. Entretanto, é preciso insistir no fato de que o
regime da frase, freqüentemente o seu ritmo, às vezes a ordem das pala­
vras e de maneira geral sua construção submeteram-se a tendências con­
traditórias que também se inscrevem no estilo de Lenin: por um lado,
rupturas de construções - Lenin se interrompendo no meio de uma frase
por uma exclamação falada: kakoye (mas como!) - liberdades gramati­
cais, desnivelamentos estilísticos e formas populares (Lenin falando de
um erro político, dizendo que aquele que o cometeu se “sentou em cima
de borracha”; por outro lado, longas frases lógicas arrumadas em perío­
dos latinos e dispostas como uma argumentação jurídica (ou, às vezes,
como um desfile militar!)7.
J
69
Assim aparece no trabalho lingüístico de Outubro uma contradição, no
estado nascente, entre o trabalho do jogo de palavras, do lapso e da metáfora
(pondo em ação o princípio saussuriano do valor na língua) e a pressão
administrativa (que se exerce sobre ela de fora e de cima para baixo). Essa
contradição repercutir-se-á em uma série de questões políticas: por exem­
plo, a das nacionalidades que compunham a URSS, a do estatuto da crítica
literária, da relação com as vanguardas... e também a da ciência lingüística.
/ Pois no exato momento em que a língua toma-se um problema de
pstado, a lingüística está se tomando uma disciplina científica: Outubro
Ide 17 é também o encontro da política com a língua e a ciência. Como
escreveu Tynianov na sua Autobiographie: “Foi preciso que se produzis-
£ se a maior de todas as revoluções para que o abismo entre ciência e lite­
ratura desaparecesse”8. ' ^ ç-
/""Nesse ponto em que começa a lingüística (Moscou é um dos raros
/lugares que Saussure tomou-se conhecido a partir de 1917)9, uma revo-
/ lução cultural se prepara: o movimento das massas de Outubro traça,
/ assim, entre os profissionais da linguagem (escritores, poetas e teóricos,
j todos cuja profissão relaciona-se com falar, escrever e trabalhar a lín-
i gua) uma linha de demarcação entre aqueles que dobrar-se-ão diante do
risco da anarquia e do caos no academicismo da tradição russa, baseado
em uma língua ao mesmo tempo litúrgica e feudal, e aqueles que, de
\várias maneiras, escolherão “o campo da revolução”. Essa linha se des­
bocará com os avatares da revolução.

NOTAS
1. Agradecemos aqui aos especialistas em russo Yvan Mignot. Monique Slodzian e Florence
Dupont. sem as traduções e conselhos dos quais esta passagem não teria podido ser escrita.
2. Skopit tem um segundo sentido: “castrar”. Aliás, pode haver interferência com kopulja-
ciia, que designa o ato de copular.
3. Citado por F. Brunot, Histoire de la langue française, t. X, p. 139.
4. As palavras dècrel [decreto], commune [comuna], tribunal [tribunal], comité [comitê],
régime [regime], nationalisation [nacionalização] vêm diretamente do francês. Outros
termos como appareil [aparelho], état-major [estado-maior], avant-poste (posto avança­
do) são importadas do alemão.
5. O observador Safir, citado por Selichtchev, conta as palavras de um cam ponês que
exprime a sua repugnância diante dessas palavras incompreensíveis, que lhe fazem “mal
à alm a” : “a gente m astiga, a gente engole, m as a gente não entende nada”. E ele
acrescenta esse julgam ento assustador: “estamos contaminados pela política” .
6. E importante associar isso às observações de Lenin sobre a palavra sovnarko:: “Nem
mesmo nós estamos acostumados a essa palavra bárbara sovnarkoi\ quanto aos estrangei­
ros, dizem que eles muitas vezes procuram no indicador se essa estação de trem existe"
(citado por B. E. Eikhenbaum, Les tendances fondam entaies du style de Lenine", Litté-
rature/Science/ldèologie, n° 2).
7. A nova eloquência “marxista-leninista” acentuará cada vez mais, e apesar das inúmeras
observações de Lenin, esse segundo aspecto fraseológico que leva a essa retórica que fala
indefinidamente de “agüentar o curso” da revolução, “abrir os caminhos” do socialismo, “se
preparar para o combate final e decisivo”.
8. Action poétique, n° 77, p. 59.
9. Na sua apresentação dos textos lingüísticos de Marx, Engels, Lafarque e Stalin. L.-J.Calvet
escreveu: “ Sabemos hoje, com o confortável recuo da história, que o lingüista genebrino
deve muito a Lafargue e a Engels: o formalismo floresce em Moscou, depois em Praga,
espalha-se por toda a Europa e forma a lingüística geral que sempre conhecemos.” Três
observações sobre esse ponto:
- o Saussure que Karcevski introduz em Moscou e depois em Praga é um Saussure muito
funcionalizado (Karcevski já opõe a linguagem científica - dicionário de etiquetas combi­
nadas com a ajuda de ferramentas gramaticais - e a linguagem cotidiana do “homem agindo
e sentindo”);
- aliás, o formalismo não “floresceu muito tempo em Moscou”, de maneira que a
interpretação sociologizante dos escritos de Lafargue e de Engels, sobre as descobertas do
lingüista genebrino, foi amplamente importada, pelo menos na URSS;
- enfim, trazemos para esse trabalho alguns argumentos que nos parecem de natureza
a enfraquecer a idéia, geralmente aceita, segundo a qual “a lingüística que nós sempre
conhecemos” constituiria para esse trabalho o desenvolvimento daquilo que as intuições
saussurianas contêm de mais profundamente inovador.
* NT: Frente Esquerdista da Arte. <

/)i
9. OS PROTAGONISTAS DO OUTUBRO
LINGUÍSTICO E LITERÁRIO

Enquanto os decadentes, simbolistas, acmeístas... permanecem, em


sua grande maioria, em uma prudente reserva ou exprimem uma franca
hostilidade, homens preocupados com a “força das palavras” engajam-se
na revolução e decidem sacudir o velho mundo1:
- Os marxistas do Proletkult, formados na escola de Bogdanov e de
Lounatcharski (comissário do povo na Instrução Pública), fortalecidos pela
sua implantação operária de oitenta mil membros, organizados em inúme­
ros clubes, revistas, teatros e escolas, engajam-se a fundo sobre todos os
fronts... entre os quais o da Arte: “A noção de arte proletária implica uma
revolução total na esfera dos procedimentos artísticos” (Gastev).
- Os futuristas, em revoltà contra a ordem cultural burguesa, reco­
nhecem na revolução soviética a grande mudança que previam, no pro­
longamento de La Gifle au goút du public2: “céus da poesia, eu me
precipito para o comunismo” (Maíakovski).
- Os Scythes eslavófilos (Blok, Klouiev e o teórico Ivanov-Razoumnik...),
os imagistas reagrupados em tomo de Essenin respondem ao “apelo cantante”
do Outubro revolucionário sob formas muitas vezes contraditórias.
-Finalmente os formalistas, reunidos no Círculo Lingüístico de Mos­
cou (formado por iniciativa de Jakobson a partir de 1915 e compreenden­
do particularmente Mandelstam e Pastemak) e no Opaiaz (O. Brik, Chlo-
vski, Polivanov, Jakobson, depois Tynianov, Eikhenbaum, Tomachevski,
Jirmunski...), iniciam o estudo científico da língua e das leis da produção
poética: trazem assim sua contribuição à revolução proletária, desmisti-
JTcando as obscuridades místico-literárias da “linguagem dos deuses”, e
analisando as formas do conto, da narrativa, do poema populares; eles
pretendem ser os “coveiros da poesia idealista”3.
De 1917 ao início dos anos vinte, essas diferentes correntes vão man­
ter-se na frente da cena ideológica. A língua russa, bruscamente traba­
lhada por esse funcionamento desencadeado da metáfora, telescopia* a
atualidade política (slogans e palavras de ordem) e as formas poéticas
(rimas, jogos de palavras, enigmas...)4a literatura popular; experimen­
tação maciça das profundezas fonológicas, morfológicas e sintáticas, dos
equívocos do sentido com a matéria verbal.

1' ..r • , C? •:\<~


y
Como esse desdobramento, esse “espírito inexorável da revolta eter­
na”4, pôde em alguns anos vir a fracassar na máquina infernal da União
dos escritores (nascida na ambigüidade das disposições legais de 19325)
e das medidas administrativas de 1937?
- Os projetos iniciais de Proletkult, politicamente suspeitos há muito
tempo, são implantados em 1921 por uma decisão de Lenin em um papel
subordinado ao comissariado do povo na Instrução Pública. A partir des­
sa data surgem associações sectárias, cada uma mais “proletária” do que
as outras6.
- Os formalistas, expostos a ataques cada vez mais violentos, come­
çam a manter suas distâncias, transportando para outros lugares o cen­
tro das pesquisas lingüísticas sem, entretanto, romper os laços de traba­
lho com a URSS.
- A morte se espalha, em uma série impressionante, sobre poetas ainda
jovens (suicídios, longas agonias, execuções): Blok, Khlebnikov, Essenin...
- E o próprio Maiakovski, esse gigante do trabalho poético, depois de
ter tentado duas vezes construir uma Frente de esquerda da arte (L.E.F. e
a nova L.E.F.), esfacela-se em 1930 contra o rochedo da vida quotidia­
na... O que foi que levou Maiakovski ao sucídio?
Ao lado dos que partem, há os que ficam e se estabelecem, ou se
reconvertem, ou terminam por se calar como Chlovski e Eikhenbaum a
partir de 1930. E há os que chegam... Os comentadores habituaram-se a
ver nisso o efeito de uma fatalidade histórica, de uma perda dq estado de
graça poética. Em suma, uma questão de intelectuais, se íevarmosaò pé
da letra as palavras de Maiakovski: “O pássaro de fogo caiu no quotidi­
ano dos utensílios de cozinha”. Acrescente-se a isso a “personalidade” de
Stalin, e eventualmente o pesadume burocrático do sistema soviético, e
vocês entenderão porque a URSS dos anos trinta emudece...

NOTAS
1. fReferimo-nos aqui aos numerosos estudos que tratam das questões de Iingüística, literatura
I e poesia na URSS dos anos vinte, publicadas particularmente nas revistas Aclion poètique
I e Change. assim como aos trabalhos de E. Ferrario e F. Cham pam eau, L. Robel, C.
* Frioux. D. Lecourt. H. Deluy, C. Bettelheim , R. Linhart, A. Préchac, C. Prigent, J.
Kristeva et T. Todorov.
2. lissa Gifle c o manifesto dos cubo-futuristas de Bourliouk, Kroutchonykh, Khlebnikov.
M aiakovski. em 1912.
3. A expressão é de Brik que, no seu m anifesto La m éthode form elle, assim definirá o
O p a i a " Opaiaz" estuda as leis da produção poética. Quem ousará impedi-lo? O que dá
"Opaiaz" à edificação da cultura proletária?
1) Um sistema científico no lugar da acumulação caótica dos fatos e das opiniões pessoais.
2) Uma avaliação social das personalidades criadoras no lugar da interpretação idólatra da
"linguagem dos deuses”.
3) O conhecim ento d a sie -isd a produção, ppétiça no lugar da iniciação “mística” aos
"mistérios da criação” . " Opaíaz" é o melhor educador da juventude proletária.
4. Maíakovski citado por Jakobson. cm “La Génération...". p. 77.
5. A resolução do C.C. do Partido, datada de 23 de abril de 1932, parecia marcar o fim dos
sectarismos e o início de um certo liberalismo:
“Hoje [...] o quadro das organizações literárias e artísticas proletárias existentes
revela-se excessivamente estreito e freia o impulso da criação artística.
"Essa circunstância corre o risco de transformar essas organizações de meios de
mobilizar ao máximo os escritores e artistas proletários em tomo das tarefas da constru­
ção socialista, em meios de cultivar o espirito de ‘panelinha’, de afastar-se das tarefas
políticas da atualidade e de romper com grupos importantes de artistas e escritores
simpatizantes da construção socialista.”
“Nessas condições, o Comitê Central do Partido Comunista (bolchevista) da Rússia
decide:
1) liqüidar a Associação dos escritores proletários.
2) unir todos os escritores que defendem a plataforma do poder soviético e se
esforçam em participar da construção socialista, em uma União única dos escritoes
soviéticos, que compreende uma fração comunista.”
6. É nessa época que Bogdanov, filosoficamente condenado, deixa o campo para se dedicar
às primeiras experiências biomédicas de transfusão sangüínea. Ele pagará com sua pró­
pria vida a última experiência praticada sobre si mesmo.
* NT: No original télescope.
1
10. OS CAMPONESES DA
IN T E L L IG E N T S IA

Trabalhos materialistas como os de Bettelheim ou de Linhart permi­


tem que se esboce uma outra análise, começando por se desvincular de
uma concepção poético-religiosa da revolução e interrogando sobre a
origem das contradições que se refletem, assim, com toda a evidência,
entre a jovem intelligentsia soviética.
i Segundo Linhart, dois conjuntos de problemas contribuíram para dar
sua fisionomia e sua estrutura à União Soviética; esses dois problemas,
que se referem às duas classes fundamentais de produtores diretos, são:
- a política agrária (ou seja, as relações políticas entre a revolução e
os camponeses);
- a política de organização do trabalho industrial (ou seja, um dos
aspectos determinantes da relação com a classe operária).
Linhart acrescenta que os dois pontos são “estreitamente imbrica-
\ dos”. Gostaríamos de examinar aqui como a imbricação desses dois
■problemas maiores da reyqlução soviética se projeta nn rampn das
i lu tasjed ag n g iV^s ftrprisampnte^nKr» a gnpstão da linpnapem e Ha
Ipolítica na língua: para isso, é necessário retroceder até a configura­
ção ideológica pré-revolucionária russa, já marcada pela oposição
cidade-campo sob a forma da dupla ideológica ocidentalismo-eslavo-
filia, insistindo no fato de que nem o ocidentalismo, nem a eslavofilia
constituem, enquanto tal, posições de classes homogêneas. O discur­
so de cada uma dessas formações se divide em dois, sob o efeito da
luta de classes:
- O ocidetalismo moscovita serve, ao mesmo tempo, de referência
aos “tzares esclarecidos” (organizadores das primeiras fábricas sob a
forma de monopólios do Estado, iniciadores de reformas econômicas e
apóstolos do modernismo) e aos revolucionários racionalistas (pratican­
tes das ciências - principalmente a biologia, a fisiologia e a psicologia -
, fervorosos leitores de Fourier e dos anarquistas ocidentais, constante­
mente perseguidos pela censura e pela polícia tzarista, ameaçados de
serem declarados loucos, e banidos).
- A corrente eslavófila também se divide, já que a ideologia religiosa
ortodoxa da Santa Rússia aí segue as preocupações dos populistas, fasci-
nados (atraídos e amedrontados) pelas potencialidades que dormem no
fundo da “alma camponesa”(Gorki)...
Com efeito, o poder tzarista baseia-se, ideologicamente falando, em
um misto perpetuamente em mutação de ortodoxia religiosa e de ociden-
talismo “racional”; quanto aos grupos revolucionários que o enfrentam
durante todo o século XIX, eles são também o espaço de uma mistura
ideológica, unindo o racionalismo “científico”, ateu, à sentimentalidade
populista: a revolução soviética leva marcas disso, inscritas no eixo ide­
ológico que a atravessa do oriente ao ocidente1, do passado ao futuro, do
campo à cidade, da velha atônita ao “homem novo”.
- Numa das extremidades desse eixo, as visões prometeanas do fu­
turismo (a cidade e as máquinas) condenando “os ritmos lentos, calmos,
regulares da antiga poesia [que] não correspondem mais ao psiquismo do
citadino de hoje”(Maíakovski).
- A corrente do Proletkult participa dessa febre industrial que, acom­
panhando a revolução e apoiando-se nela, sacode a velha Rússia.
- Os interesses teóricos dos formalistas levam-nos, aliás, para a
outra extremidade desse eixo ideológico: para as poesias-adivinhações
(Polivanov), para os enigmas, os contos populares (Propp), para a cons­
trução dos mitos que povoam as comunidades lingüísticas do velho
império dos tzares, transmitindo-se de gerações em gerações. Sua sen­
sibilidade estética e suas preocupações científicas (a etnografia, o estu­
do dos folclores, a descrição das múltiplas línguas da União - Poliva­
nov também) os atraem para as formas orais da narração e da poesia
populares, simples e irônicas, e as narrativas fantásticas cheias de hu­
mor satírico (Bakhtin faz reflexões sobre Gogol, Rabelais; Chlovski
redige um estudo sobre o humor contemporâneo e define o conceito de
“estranhamento”).
Os imagistas, os irmãos Sérapion, mais tarde os escritores do Oberiu
(Sociedade da arte real) estarão desse mesmo lado. É impressionante cons­
tatar que tudo o que se refere à pesquisa lingüística fixa-se preferencial­
mente ao lado do passado histórico e dos campos2. Um pesado destino
para carregar em uma tal conjuntura.
É nesse espaço ideológico que a revolução de Outubro repercute as
contradições fiindamentais que a movem, no nível da organização do tra­
balho industrial, da propaganda política em direção aos campos, e da
questão das nacionalidades: como alfabetizar e instruir as massas hetero­
gêneas que constituem o povo soviético, respeitando, ao mesmo tempo,
as particularidades nacionais, e, em primeiro lugar, as diferentes línguas?
Como conciliar as necessidades econômicas e políticas (difusão das téc­
nicas agrícolas e industriais, estabelecimento da administração soviética)
com as formas nacionais e as “heranças” que elas veiculam?
Costuma-se apresentar Lenin como um jacobino centralizador enlou­
quecido, dedicado a aplicar a todo custo um projeto coerente e infalível
de unificação política e de industrialização forçadas: isso implica repre­
sentar as formas novas da luta de classes próprias ao jovem Estado
revolucionário como um puro e simples processo de apropriação do es­
paço campesino a partir de um centro urbano soviético. Essa visão sim­
plista corrompe, na verdade, o papel sobredeterminante da relação cida­
de-campo no processo revolucionário oriundo do Outubro de 17: é inte­
ressante lembrar, a propósito, que, diante dos populistas menchevistas e
socialistas-revolucionários, Lenin foi, no momento decisivo, o único a
reconhecer o movimento de massas que percorria o campesinato, e dele
tirar as conseqüências políticas. O destino da revolução soviética que se
iniciava foi lançado a partir dessa posição a “contracorrente” de Lenin,
relativamente isolado em meio aos reflexos anti-camponeses da intelli­
gentsia revolucionária3.
Lenin pressente, portanto, a necessidade política de se trabalhar a
contradição entre a cidade e o campo, em prol da revolução soviética,
desenvolvendo uma espécie de revolução cultural baseada em uma troca,
uma smytchka, e não em uma simples evangelização revolucionária em
um único sentido: da cidade para o campo4.
Quanto ao que nos interessa aqui, isso significa que as forma­
ções ideológicas do eixo cultural e literário futurismo-Proletkult-
formalismo, subentendidas pela relação racionalismo-populismo, não
existem como blocos opostos, mas se reúnem em suas contradições
internas: como compreender de outro modo essa insistência do mi­
raculoso no seio do futurismo, esse frenesi científico dos formalis-
tas, levando-os a perscrutar os mecanismos da paródia, do Carna­
val e do fantástico, e essa estranha religião socialista dos bogdano-
vianos, misturando as reflexões epistemológicas, com a revolução e
a “construção de Deus”?
A luta sobre a organização do trabalho industrial constitui nesse ponto
um exemplo esclarecedor: desde 1913, antes das primeiras intervenções de
Lenin sobre o taylorismo, Bogdanov interessa-se por Taylor e começa a
desenvolver suas concepções “organizacionais” do trabalho e da socieda­
de, profúndamente marcadas por uma ideologia anti-camponesa.
No plano literário, isso levará às duas narrativas de ficção-científi­
ca otimista (L 'Ingénieur Mémmi e L 'Étoile rouge) em que Bogdanov
profetiza sobre a futura organização perfeita da sociedade das máqui­
nas. Ora, desde 1920, após a primeira consolidação da revolução, o
engenheiro escritor Zamiatin escreve Nous autres*, romance de ante­
cipação fantástica e de ficção política, tendo por tema o Estado unifi­
cado do futuro, em que a Razão organiza a sociedade subjugando o
indivíduo: ele exprime assim seus receios diante do risco de uma con­
clusão institucionalizada da revolução; ele põe em andamento os re­
cursos de uma escrita satírica, abrindo fendas na narração simples da
realidade, pelos jogos da elipse e da metáfora (segundo a técnica ex-
pressionista do skaz)5. Sintoma no estado puro, o romance de Zamiatin
é estruturado pela contradição entre a artificialidade da Cidade Ideal e
a naturalidade recalcada do espaço exterior6. O tema do drama fan­
tástico de Nous autres é a possibilidade de um contato entre os dois
espaços, a existência de uma falha nas fronteiras da Cidade. A ficção
política que percorre o romance questiona a posição do Benfeitor,
garantia do fechamento organizacional da cidade,“unanimemente” sus­
tentado pelo povo... com cerca de alguns “doentes”7, irresponsáveis
trabalhados pela falha: o stalinismo profetizado desde 1920, e já as
figuras ideológicas da dissidência8...
Lenin, por sua vez, não escrevia romances. Mas ele abordou politica­
mente a questão do taylorismo e a ela voltou muitas vezes com o senti­
mento de que tratava-se de um ponto sensível (de um nó complexo vital)
em que se decidia também a sorte da revolução soviética.“Progresso da

1
técnica e das torturas” escreve Lenin sobre Taylor... Ou como fornecer
às massas os meios de se apropriarem do “saber” tayloriano de maneira
a manter a produtividade, ao mesmo tempo em que se reservava tempo
livre suficiente para que os operários e os camponeses pudessem efeti­
vamente dirigir o Estado?

(
Tocamos aqui nos limites históricos do pensamento de Lenin, compri­
mido entre a necessidade de uma liberdade de participação crítica na
política por parte de todos os cidadãos e a exigência de sua subordinação
“técnica” no processo de trabalho organizado pelos “especialistas”: Le­
nin trabalha assim, tanto quanto pode, a contradição ideológica que une
os Rogdanov e os Zamiatin, ao mesmo tempo que os opõe; o que está em
jogo é superar o fracasso do populismo e do neo-populismo e reduzir esse
abismo que separa os componentes da sociedade, no processo revolucio­
nário. Nesse confronto, Lenin irá até o ponto em que ele reconhecerá
publicamente que se “afundou”...
No campo específico da língua e da literatura, uma parte comple­
xa se envolve assim entre os que representam ideologicamente as for­
ças do proletaria d o urbano (o futurismo e o Proletkulf) e os que (como
os formalistas, os imagistas, os sintetistas...) funcionam sob certos
aspectos como os representantes ideológicos e culturais do povo e
das massas camponesas. Poderíamos, por essa razão, chamá-los “cam­
poneses da intelligentsid"-. um jogo complexo entre a febre organi­
zacional das cidades e o humor crítico inscrito nas tradições culturais
do campesinato.
Lenin nunca tomará partido entre as duas correntes ideológicas9e ele
preparará os que, como Máíakovski, conseguem, em uma espécie de
smyichka intelectual, sustentar literariamente a sua unidade contraditória
revolucionária.

NOTAS
1. Uma das questões estratégicas da revolução soviética refere-se à expansão em direção ao
oriente. Ela fracassará parcialmente nisso, o que permite afirmar que a revolução perma­
nece. em grande parte, ocidental.
2. Nas práticas dessa linguística, nada préfigura a dialectologia social e seu ponto de aplicação
mais freqüente que constitui o meio urbano.
3. Desde o inicio da revolução, Lenin se opõe a Stalin em relação ao problema das nacionali­
dades: Stalin (e com ele Préobrajenski, Boukharin e Piatakov) considerava que o direito à
livre disposição das nacionalidades devia ser interpretado como direito à autodeterminação
das “massas laboriosas”, e “subordinado aos princípios do socialismo”. Lenin replica de­
nunciando as ameaças de chauvinismo russo contidas nessas perspectivas, e defende, im­
perturbável, o princípio de autodeterminação das nações, chamando a atenção para o fato
de que, onde a divisão de classes entre burguesia e proletariado ainda não havia aparecido,
a palavra de ordem “autodeterminação das massas laboriosas” era simplesmente uma
máscara comunista dissimulando a hegemonia russa.
4. A propósito disso, Linhart menciona uma passagem dos Feuillets du bloc-notes de 1923,
em que Lenin assim se exprime: “Nós podemos e devemos empregar nosso poder para
fazer realmente do operário urbano o propagador das idéias comunistas entre o proleta­
riado rural. Eu disse ‘comunista’, mas apresso-me em fazer reservas, receando provocar
um mal entendido ou de ser entendido demasiadamente ao pé da letra. Isso não deve de
jeito nenhum ser interpretado no sentido de que nós deveriamos, imediatamente, levar
ao campo as idéias com unistas, pura e sim plesm ente”(t.33, p. 477-478). Linhart co­
menta essa hesitação, esse gesto im ediatam ente contido e entretanto mantido através
dessa contenção, falando de um tipo de “ lapso voluntário” de Lenin, que teria tocado na
própria essência da luta ideológica sobre a questão cidade-campo.
5. v Atualmente, vemos despontar uma redescoberta dessa .técnica de subversão através de
Jtma escritad e lib e rad a m en te sim ples, aquém do “teórico” . O belo livro de Régine
Robin' Le Cheval blanc de Lénine ou l ’Histoire autre (Dialectiques/Complexe, 1979).
é a obra de uma historiadora já reconhecida por seus trabalhos. Seu percurso, desde a
história objetiva, redutora do sujeito (estilo anos sessenta), passa por nmn ir.tprrr,rraçàr
sobre a espessura e a opacidade Ha l i n g u a p d n H is p n r s o , à tp n t r a h o U i n - A . n m n h i '^ n r i s
e ficção científica em que o escritor representa a estranheza familiar de sua história ns
história; percurso que permanece bastante isolado. Lemos com um prazer particular c
fm fd o livro, em que uma pluralidade de passados incoativos trabalha sua impossíve
identidade.
6. Detalhe curioso: os nomes dos personagens sendo substituídos por letras seguidas de utr
número de código, os homens são representados por consoantes e as mulheres, pela;
vogais. E é exatamente por uma mulher que a passagem escondida, conduzindo ao espaçe
verde exterior, é revelada ao engenheiro herói do romance.
7. Em um artigo de 1921, intitulado “Estou com m edo”, Zam iatin preocupa-se com t
conformismo social que reduz progressivam finte ao silêncio-“os Innros.-os-eremitas, o:
heréticos, ns sonhadores, os revoltados, os céticos"... 1921 é também o ano da interdi
ção das “ facções” no Partido Bolchevista.
8. Huxley. Orwell e muitos outros após eles reinscrevem essa interrogação politica na luti
ideológica anti-socialista. Por sua vez, Zam iatin escreve em 1931 uma carta a Stalin
dizendo principalm ente:
“Já que vão me matar, deixem-me ir morrer em outro lugar.” Ele é autorizado a emigrar
e morre em Paris, em 1937.
9. Entretanto, ele suportava mal a independência ideológica do Proletkult em relação ao
Estado Soviético. Sua carta no Pravda em dezembro de 1920 é “a primeira tomada de
posição direta do Partido nos casos culturais”, escreve Claude Frioux em “Lenin, Maíako-
vski, o Proletkult e a Revolução cultural”. Ele acrescenta: “A carta considera esta ‘inde­
pendência’ intolerável, não conforme à estratégia de concentração de todas as forças do
Estado revolucionário sob a direção do Partido. Por conseguinte, a carta decide autorita­
riamente que tanto no nível do escalão central como no do escalão local, os Proletkults
são colocados em “posição das partes constitutivas do trabalho do comissariado à Instru­
ção”, de “seção sujeita ao comissariado e mantendo-se no seu trabalho pela orientação
ditada ao com issariado pelo Partido comunista.”.
* NT: [Zamiatin, E. Nós. RJ: Anima, 1983]
11. A DUPLA FACE DO GIGANTE
MAÍAKOVSKI

Essa não-coincidência entre a oposição cidade/campo e a oposição


revolucionário/contra-revolucionário é bem ilustrada, no plano ideológi­
co e literário, pelo fato de que em 1917 o poeta simbolista Blok também
havia respondido ao apelo de Lounatcharski, ficando ao lado de Meyerhold
e de Maiakovski. A corrente futurista, em seguida o L.E.F., representam
bastante bem o centro de gravidade da configuração complexa das van­
guardas que se condensa no espantoso empreendimento de Maiakovski,
o homem contraditório:
- Por um lado, um trabalho de despoetização sarcástica da “Natureza”
dos estetas, dos poetas acadêmicos refugiados na psicologia açucarada dos /
belos sentimentos1. É a morte da Arte com A'maiúsculó, parãque viva a '
revolução, através dos inúmeros cartazes políticos que, durante a guerra j
civil e o comunismo de guerra, vão divulgar nas cidades e nas aldeias as
palavras de ordem bolchevistas... Essa subversão da arte e da linguagem,
que corresponde, na materialidade das palavras, ao que acontece com a
imagem cinematográfica com Dziag Vertov, Eisenstein... e com o gestò
teatral com a “biomecânica” de Meyerhold, é uma espécie de demiurgia
revolucionária unindo os sotaques da primeira época do Proletkult:

“Somos nós mesmos criadores de nosso hino fervente:


o barulho das fábricas e dos laboratórios...
Nossas veias e nossos músculos são mais seguros do que preces

Cada um de nós
Nos seus cinco dedos
Segura as cadeias dirigentes do mundo.”

Há, assim, em Maiakovski, um “poeta-operário”^ irmão de todos os i


que nos intervalos do trabalho da fábrica ou dos campos tomam da pala- /
vra e da pena, diante daqueles cuja profissão é falar e escrever: /

“O trabalho é vivo e novo


Oradores tagarelas
Ao moinho!
Aos moleiros!
Que a água dos discursos faça girar as mós!”

Maiakovski não fala apenas por essas pessoas, mas com elas, no es­
paço embrionário de uma revolução cultural que não chega a se formu­
lar completamente...
- E há a outra face do gigante, aquela que se inclina para o humor,
a fantasia desregrada, e a derrisão agressiva2; Maiakovski nunca re-
pfegará aqueles com quem ele lançava, em 1912, La Gifle au goút
public: Khlebnikov, o poeta vagabundo sonhando criar uma língua
nova “transmentaP’(o zaoum), espécie de esperanto poético susten-
vtando-se no fato de que “o som é maior que o sentido”: e também
; Kroutchonykh que teorizou com o nome de sdvig (lapso) o efeito pelo
qual uma palavra evoca automaticamente uma série de outras, por
associação fonética. Através deles, Maiakovski aproxima-se da cor­
rente formalista, cujos vários pesquisadores, lingüistas e especialis­
tas da literatura, como Chlovski, Brik, Tynianov, participarão, aliás,
dos trabalhos do L.E.F.: a p ra z e r de brincar com as palavras e sobre
as palavras, e a arte de usá-las’ como uma arma í“a cavalaria das
lanças”); o gosto pelas aproximações inesperadas, pelas deformações
significantes explorando todos os recursos da fonologiã73a morfolo-
gia e da sintaxe russas; a irresistível vontade de “abrir a língua como
se abre o pescoço”... nada de tudo isso deixará jamais Maiakovski,
que constitui, assim, a realizaçãa improvável de uma certa imperti-
nência revolucionária: de La Gifle até La Punaise, Maiakovski não
cessará de confrontar o novo fantástico industrial, científico e revolu­
cionário a todas as forças que, no próprio nome desse fantástico, con­
tinuam a puxar a revolução para baixo :“Eu vou esbarrando na buro­
cracia, nos ódios, na papelada e na estupidez”3.
Sabemos que Lenin, apesar de seu gosto literário meio clássico, de­
fendeu Maiakovskijcontra os que o julgavam incompreensível, exagera­
do e perigoso4. ,
As contradições de Maiakovski são também as contradições, lucida­
mente reconhecidas, aceitas e trabalhadas até o ponto de extrema tensão,
da política leninista... até o ponto em que ela fica paralisada.
O homem contraditório foi, entretanto, recuperado pelo stalinismo...
Apesar das provocações e do seu suicídio, o conformismo stalinista pôde
reconstruir dele uma imagem positiva de herói revolucionário5. 0 caso de
Khlebnikov era diferente, que fazia propaganda revolucionária às mar­
gens do Cáspio fumando com os iranianos: a errância, a Ásia, a droga, a
loucura.
NOTAS
1. “Uma das palavras de ordem, uma das grandes conquistas do L.E.F., é a desestatização das
artes aplicadas, o construtivismo. Seu suplemento poético é o poema de agitação econô­
mica, a propaganda.”
2. “A transformação social do mundo está realizada, mas a revolução do espírito ainda está
por fazer. [...] Os personagens de La Punaise assemelham-se muito aos Naus de Zami­
atin, mas em MaTakovski a própria antítese dessa comunidade racional utópica, a rvolta
em nome do capricho irracional, do álcool e da felicidade pessoal nâo-controlada é
ridicularizada sem nenhuma indulgência, enquanto que Zamiatin a idealiza”. (Jakobson,
La Generation..., p. 83-84)
3. Foi Maiakovski que replicou aos apparatchiki referindo-se a Essenin a respeito do seu
gosto pelo álcool: “ É melhor morrer de álcool do que de tédio”; foi ele também que
escreveu que, se viessem a fazer de Lenin um deus, seria m elhor mandar explodir o
Kremlin'.
4. “[Maiakovski em seu poema] ridiculariza as reuniões e critica os comunistas que só
querem ter assento em assembléia. “Não sei se é assim também em poesia, mas, em
política, certifico que é exatamente assim.”(1922)
Lenin defende o poeta Maiakovski... mas isso não o impede de intervir pessoalmente para
limitar a difusão de suas obras. Assim, a respeito de seu poema 150.000.000, que ele
considera uma “asneira estúpida e pretensiosa”, ele escreveu: “Como as pessoas não
tiveram vergonha de votar pela edição de 150.000.000 em 5000 exem plares?... Na
minha opinião, é preciso im prim ir essas coisas em um, dez ou, no m áxim o, 1500
exemplares para as bibliotecas e as pessoas diferentes, e chicotear Lounatcharski pelo
seu futurismo” (citado por C. Frioux, “Lénine, Maiakovski, le Proletkull et la Revolution
cullurelle", p. 103)
5. Ainda a respeito de Essenin, ele declara também que ele próprio está barrado do convívio
dos poetas pelo seu gosto pelo álcool, seu fascínio pelas armas de fogo e sua preguiça de
escrever.
12. COMEÇA A GRANDE
LIMPEZA

Em alguns anos, pontos vitais da revolução soviética serão atingidos,


antigas dificuldades vão se agravar, arrastando consigo a recrudescência
das soluções de facilidade que, a longo prazo, só fazem aprofundar o mal.
O ano de 1924 é, neste sentido, um importante ponto de referência:
Lenin acaba de morrer; a política da N.E.P. continuará ainda durante
alguns anos, com todas as dificuldades condensadas nessa aliança de
classes: a relação da classe operária com o campesinato, assimétrica des­
de 1918, toma-se cada vez mais uma relação de subordinação, traduzin­
do o fato de que a revolução no campo é uma revolução “de cima para
baixo”, uma revolução importada. A aliança se degrada, a smytchka se
transforma em uma raz-smytchka. A oposição entre Stalin e Trotsky con­
torna essa questão, com uma mesma atitude protetora e condescendente
em relação aos camponeses: no plano ideológico e literário, resulta daí
um endurecimento das correntes exteriores ao marxismo, e principalmente
em relação ao formalismo, condenado desde 1923 por Trotsky em Litté-
rature et Révolution1.
Entretanto, o C.C. de 1924 sobre a literatura continuará a garantir
politicamente a existência de diferentes correntes, escolas e movimentos;
mas um processo se trava, no qual as armas de uns e outros vão progres­
sivamente voltar-se contra eles. A intervenção do bolchevista Gorlov é
um bom exemplo disto: tendo compreendido que, sob a etiqueta do “for­
malismo”, é_também o movimento futurista que está em causa, Gorlov
decide responder para defender as concepções literárias do futurismo e
para proteger Maiakovski.
Mas, ao mesmo tempo, ele se considera obrigado a impedir a
propagação de um incêndio: no momento em que os formalistas se
interessam pela inscrição da política nas formas da língua e do dis­
curso (particularmente, estudando o estilo de Lenin2), Gorlov se es­
mera em dissociar o futurismo de qualquer contaminação formalis-
ta. Seus ataques (visando o “populismo” de Essenin e as “saladas
ideológicas”, em que se fala de Deus, do Cosmos e do Sexo) não
têm outro fim. Do mesmo modo, Gorlov tenta dissociar a corrente
futurista dos trabalhos de Kroutchonykh, cujo temperamento ele
acusa de “anti-social”3. Com o seu modo classificador, fóbico e fil­
trante (o bom futurismo contra o mau), Gorlov acentua o taylorismo
ideológico de Maiakovski e o condensa como sério. A mecanização
da vida, a higiene metálica do mundo e a limpeza da língua...4 a
maneira pela qual Golov defende Maiakovski é pior do que todos os
ataques:
Maiakovski não necessita de palavras parasitas. Ele toma cada pala­
vra e a faz trabalhar. Já pôs em ação essa mesma organização científica
do trabalho sobre a qual nós nos contentamos em palavrear.” (ibid.)
A “ciência marxista da linguagem” não tardará a ver a luz, com
diversas garantias, entre as quais... Maiakovski5.
Desde as reflexões de Bogdanov sobre a relação entre “o ato de traba­
lho” e a representação do mundo, inspiradas pelas intuições lingüísticas do
“genial Noiré”6 até a realização jafética* de Marr, o sonho de Babel proli­
fera na revolução soviética, sob a forma de um fantasma de progresso em
direção a uma língua universal correspondendo ao estádio do comunismo.
O enterro político repercute na literatura e nas questões de língua. O
Proletkult, que, no início, ameaçava romper com qualquer Herança cultu­
ral e constituir uma força política autônoma, constitui, a partir de 1924
(no domínio literário, pelo menos, pois o cinema de Eisenstein e alguns
outros é de uma qualidade bem diferente) numa maneira de neo-classi-
cismo proletário, em que a emoção psicológica, o pitoresco simbólico e o
realismo reaparecem... coloridos de vermelho7. Sua concepção da rela­
ção com a política explode nessa frase sinistramente profética de um
poeta da Forja: “O Mestre está chegando e ele nos dividirá”8.
Ao mesmo tempo, as preocupações iniciais de Bogdanov e de Gastev
em matéria de organização do trabalho se deslocam do Proletkult para o
futurismo, desencadeando aí um fenômeno que poderíamos qualificar de
ultra-taylorismo ideológico9.
Assim, o processo de nova submissão ideológica continua na literatu­
ra até um ponto em que Bogdanov e Gorki quase se fundem em um só e
único criador coletivo. Bogdanov e sua circunspecção racionalista para a
tradição e o individualismo camponês; Gorki e seu medo fascinado dian­
te da “barbárie” proveniente do fundo do campo. A eslavofília e o oci-
dentalismo se reorganizam, assim, no novo dispositivo da ideologia sovi­
ética que está se transformando em stalinista: os novos “camponeses” da
intelligentsia oficial, falando em nome do povo russo, começam a orga­
nizar o jdanovismo**.
As antigas fendas aumentam até se transformarem em abismos (entre
Bogdanov e Zamiatin, entre Gorki e Essenin) e a disjunção é garantida
entre “o engenheiro das almas”, útil, fiel, retilíneo, e “o homem a mais”,
parasitário, futuro hooligan, necessariamente dissidente10...
O agravamento da política soviética pós-leninista tem uma de suas
raízes na fetichização de algumas medidas e disposições provisórias de
Lenin, desvinculadas de suas condições concretas de aplicação, e absolu-
tizadas. A centralização jacobina e o taylorismo “proletário” tomam-se,
assim, as bases duráveis do sistema soviético. O Estado + as estradas de
ferro, com a eletricidade como forma concreta em que se alternam a pre­
sença do Estado na produção material (homogeneidade, isotropia e ins-
tantaneidade da distribuição da energia) e a presença dos esquemas da
produção material no Estado (organização técnica das decisões, com cir­
cuitos de especialistas montados “em série” ou “paralelamente”, segundo
as necessidades do organograma político).
A Eletricidade metaforiza, assim, a circulação da política nas massas,
ela representa o ideal de uma comunicação transparente, a “língua trans-
mental” realizada, a ferramenta semântica universal da ideologia marris-
ta***, o impulso pedagógico capaz de levar até o “homem elétrico per­
feito” (D. Vertov).

NOTAS

I. Em 1922 e 23, Trotsky redige LUtérature et Révolution [Trotsky, L. Literatura e revolução.


RJ: Zahar, 1969]. O organizador do Exército Vermelho passa em revista o fronl da litera­
tura... Antes de fazer a critica detalhada de KJouiev (poeta camponês que desaparecerá por
volta de 1933, vítima da depuração), de Essenin, dos irmãos Sérapion, de Pilniak e dos
“escritores rústicos”, Trotsky dá sua apreciação sobre esse jovens escritores: “Eles não
têm nenhum passado pré-revolucionário e, se tiveram que romper com alguma coisa, fo[
na m elhor das hipóteses, com bobagens. Seu perfil literário e. de maneira mais geral,
intelectual, foi criado pela revolução de acordo com o ângulo em que ela os tocou e, cada
um à sua maneira, todos a aceitaram. Mas, nas aceitações individuais, encontra-se um traço
comum que separa-os nitidamente do comunismo, ameaçando-os constantemente de a elç
se oporem. Eles não percebem mais a revolução no seu conjunto, e o ideal comunista lhes
é estrangeiro. Estão todos mais ou menos inclinados a depositarem suas esperanças no
camponês, bem acima do operário." (grifo nosso) Depois de ter examinado o caso de
Blok (“é certo que Blok não é dos nossos. Mas ele veio a nós. E, assim fazendo, ele se
dividiu.), Trotsky aborda a questão do futurismo, declarando que esse movimento teve a
sorte de ser surpreendido pela revolução no momento em que ainda era perseguido pela
antiga sociedade, do que resulta sua adesão ao novo regime; ele formula, sobre Maiakovskj
um diagnóstico de um otimismo moderado. Trotsky volta-se então para a escola fomia-
lista, da qual ele começa por afirmar que ela manifesta, “com todas as suas forças, sua
oposição ao marxismo.” Critica vivamente Chlovski e Jakobson, relacionando “o método
formal” com as tradições burguesas da “arte pura”, sem ver as relações que ligam também
o “formalismo” Iingüístico às preocupações populistas. E ele argumenta, ao lado, sen,
entender o que escreve: “Os métodos da análise formal são necessários, mas não suficien.
tes. Podemos contar as aliterações nos ditados populares, classificar as metáforas, enunie-
rar as vogais e consoantes numa canção de núpcias, tudo isso enriquecerá, indiscutivelmen­
te, de uma maneira ou de outra, nosso conhecimento do folclore; mas, se não conhecermos
o sistema de rotação das culturas empregado pelo camponês e o ciclo que dai resulta na syj
vida, se não percebermos a significação do calendário eclesiástico para o camponês, desje
o momento do seu casamento até o do parto da camponesa, só conheceremos da arte
popular a casca, sem atingirmos o seu caroço.”
É precisamente por esse caroço que, em 1922, a revolução soviética está se batendo: a
intervenção de Trotsky significa que, no momento em que os bolchevistas perdiam o
contato de massas com os camponeses, desligavam-se também dos escritores, poetas e
teóricos que se obstinavam em explorar a “casca” lingüística e poética... Os “campone­
ses da intelligentsia” haviam se transformado no alvo preferido.
Ver sobre este assunto em Littérature/Science/ídéologie, n° 2, uma tradução dos estudos
publicados em 1924 por B. Eikhenbaum (Les Tendances slylistiques fondam entales du
langage de Lénine) e B. Tomatchevski (La Construction des Thèses), precedido de uma
introdução de J. Thibaudeau: Lénine, les Formalistes et nous.
3. “ Kxoutchonykh atenta para a integridade orgânica da língua; ele mata a própria língua
como fator de ordem social. Em nome da revolta social, ele cria uma obra anti-social. E
um mau revolucionário.”(N. Gorlov, Futurisme et Rèvoliition. Moscou, 1924). “
4. Na sua Histoire de Ia merde (Bourgois, 1977), D. Laporte aponta a coincidência entre a
higiene urbana e a preocupação em apurar a língua: o mesmo ano de 1739 vê aparecer
o decreto de Villers-Cotterets, que consagra o uso exclusivo do francês pelas atas oficiais
(Malherbe e Vaugelas prosseguirão, e duzentos e cinqüenta anos mais tarde a Revolução
Francesa dará as condições de nascim ento do francês nacional) e um decreto sobre a
inspeção das ruas e estradas, os dejetos e as imundícies. “Se a língua é bela, é.porque um
mestre a lava. Um mestre que lava.os lugares de merda^retira as imundícies, saneia cidade
e língua para conferir-lhes ordem e beleza”, (p. 15) —
5. Para fazer p a rar a ação, é preciso fazer parar a consciência, e, para fazer parar a
consciência, é preciso colocar o freio na sua forma —a palavra. Nos últimos tempos, foi
'i o' j

a gramática que funcionou como esse freio... a palavra, como o homem, teve os pés e as
m ãos atados.
O futurismo emancipou a palavra revertendo o poder, absoluto da gramática. Ele quebrou a
forma petrificada da palavra que encadeava o pensamento. Refez, num sentido revolucio­
nário, os velhos estatutos militares. O Exército vermelho das palavras está agora liberado
da disciplina do bastão e ele encontrou na pessoa de M aiakovski seu primeiro chefe
revolucionário” (Gorlov, ibid).
6. Em Méthodes de travail et mêthodes de connaissance, Bogdanov escreve: “ As interjei­
ções de trabalho são as raízes originais do discurso hum ano. Cada uma constitui a
designação compreensível do ato de trabalho com o qual ela se relaciona, natural a todos
os membros da coletividade. Esta é a solução para a origem da linguagem dada pelo genial
Noiré, um m arxista em filologia com parativa, que não tinha noção do m arxismo. A
palavra-conceito se desvinculou do trabalho, foi concebida pela produção.”
Os fantasmas milenares sobre a origem das palavras no grito e na onomatopéia retomam,
assim, em nome de um marxismo biologizado e sociologizado.
7. O conformismo operário à moda de Verhaeren invade a poesia proletária. É a época do
lirism o revolucionário açucarado (Jarov), e dos im pulsos poéticos para a felicidade
comunista (Bezymienski). Simultaneamente, os apparatchiki da literatura, com o dis­
curso estereotipado, controlam as diferentes organizações de zelo “proletário”.
8. Em 1923, S. Trétiakov encontra a força profética de responder aos “espertalhões da
Forja” : “e sem mestres, camaradas ferreiros, vocês não podem realmente?”
Graças, talvez, à sua ligação de amizade com B. Brecht, uma certa capacidade de descon­
fiança irônica se m anifesta nele: acerca de um a narrativa pretendendo relatar uma
conferência agrônoma (“ E à noite a comuna se apertava estreitam ente no hotel parti­
cular e, com os ouvidos bem abertos, retendo a respiração, ouvia uma conferência sobre
os solos”.,.), Trétiakov conta a confissão estranha do agrônom o: “ Efetivam ente, eu
tentei, no passado, fazer uma conferência sobre os solos aos membros da comuna; eles
adormeceram assim que pronunciei as primeiras palavras.” E ele comenta esse efeito de
dupla linguagem: “No relato, eles ‘retêm a respiração'; na realidade, ‘eles todos ador­
m eceram ’. Assim, a narrativa patética transformou-se em campo fértil para o humor.”
9. Trétiakov, dividido, insere-se também nessa tendência para a "industrialização” do
trabalho literário: “Nós vivemos na época da planificação social e da direção social. [...]
Nós temos uma direção central das estatísticas, um exército de correspondentes operá­
rios, congressos políticos, um partido, um comitê central. Em uma palavra, um enorme
aparelho que absorve os fatos e que, ao tratá-los cientifícam ente, realiza previsões
políticas. [...] O individualismo artesanal do escritor gera também, inevitavelmente, a
desconfiança em relação ao pensamento sociopolítico justo, a desconfiança em relação
às diretrizes, e se esforça em justificar e defender o direito à desconfiança.”
Uma parte de sua própria desconfiança irônica, entretanto, permanecerá, levando suas
repercussões sufocadas até o I Congresso dos Escritores de 1934 (sobre a necessidade,
também para os escritores, de aprenderem e estudarem várias línguas, sobre a questão dos
companheiros de percurso...).
10. Em 1929, escritores provenientes do L.E.F., do formalismo e das correntes proletárias,
parecem ter pressentido, bruscamente, o perigo: reúnem-se em tomo da revista Presse et
Revolution para tentarem reconstituir uma sm ytchka cultural diante da ameaça do
neoclassicism o stalinista. Tarde demais: a revista só terá uma existência efêmera até
1930. [...] O 1 C ongresso da União dos Escritores, em 1934, foi marcado por uma
intervenção de Radek, que rasga o trabalho literário de J. Joyce, em nome do realismo, da
racionalidade e da moral.
* NT: No original jdanovism e, relativo a Jdanov (1896-1948), político soviético.
** NT: No original japhétidologique.
***NT: No original, marriste, relativo a Nicolas Yakovlevich Marr (1864-1935), fundador
da Nova Teoria da Linguagem e defensor de uma concepção de língua como fenômeno de
classe.
13. O HUMOR PERDIDO NO GRANDE
MÉTODO

A recriação soviética do mundo começa. Vitória aparente de uma nova


raça de Julio Veme (ateus, vermelhos e especialistas) sobre o imobilismo
e atraso religiosos; mas também revanche secreta da Religião, no interior
desta vitória... A religião do Homem Novo, fundada com base em uma
metafísica do Trabalho, visa melhorar a espécie humana: “A incapacida­
de dos homens em saber se manter nos causa vergonha diante das máqui­
nas” (D. Vertov).
O homem novo é o organismo pavloviano, montagem complexa de
reflexos, de segmentos maquínicos a ajustar, a regular, a organizar com
novas combinações, tão miraculosas quanto as inovações de Lyssenko;
a condução política da planta humana faz a felicidade dos Novos Jardi­
neiros.
Assim, na fusão revolucionária do trabalho produtivo e da escola, a
pedagogia e a jardinagem começam a importar sobre a iniciativa experi­
mental das massas: a positividade sem falhas do Homem Novo se apres­
sa em acabar com as contradições da luta de classes. Um salto fora do
reino da necessidade para aquele da liberdade, neste para além do Estado
que, de tal forma, ia se parecer a um ultra-Estado.
Chega desse humor distanciado através do qual Lenin exprimia o ina-
cabamento da revolução, através da imagem bem surrealista em que é
questão a edificação dos vasos sanitários em ouro do comunismo1.
Chega desse olhar lúcido indicando os pontos de falha, de deslizamen­
to ou de decadência da revolução soviética:
“Note, dizia Lenin à camarada secretária encarregada de transcrever
suas últimas reflexões sobre as contradições no desenvolvimento da re­
volução, note: é aqui que Lenin afundou!”
Comparando esta confidência de Lenin sobre o modo como, um pou­
co mais de um quarto de século depois, Stalin dita seu pensamento, no
momento de uma cena relatada pelo tenente-general A. lakovlev:
Quando se discute, em um círculo restrito, sobre um dado problema,
Stalin quer que cada um diga tudo o que tem a dizer. Ele pergunta a
opinião de alguns, depois resume o debate, após o que ele estende a um
dos assistentes uma folha de papel:
- Escreva.
“Um dia, também tive de tomar notas segundo suas indicações.
Sabendo que ele exige um trabalho impecável, fiz o maior esforço
para não cometer incorreções textuais.
“Assim falando, Stalin se aproximava de mim de tempos em tem­
pos, para olhar por cima do meu ombro.
De repente ele interrompeu, leu o que eu havia escrito e, dirigindo
minha mão que segurava o lápis, colocou uma vírgula”2.

O stalinista sério, aquele do padre ensinando o catecismo mas tam­


bém aquele do instrutor durante o ditado: a experimentação das massas
se toma uma gigantesca sala de aula.
B. Brecht escreveu que era difícil aderir ao Grande Método (a dialéti­
ca) quando não se tem humor3: foi de tanto serem levados a sério que os
anátemas lançados nos debates ideológicos se voltaram contra os seus
autores; foi em nome das condenações que eles haviam fulminado e das
excomunhões recíprocas que se haviam lançado que eles fracassaram,
todos, progressivamente.
Por um artifício da dialética, o que a jovem intelligentsia soviética
havia produzido voltava-lhe, assim, de chofre, irreconhecível e, ao mes­
mo tempo, familiar4.
Esse processo histórico, que não se circunscrevia à esfera dos atos do
sujeito Stalin, não é, também, mais uma fatalidade que teria, assim, atin­
gido os intelectuais soviéticos. É talvez uma espécie de lenta irrupção,
surgida do próprio interior da revolução soviética, ameaçando-a à medi­
da que ela tomava a sua forma: os sujeitos do processo stalinista (antes
de tudo quadros políticos e especialistas, intelectuais de todas as áreas, e,
entre eles, poetas, escritores, lingüistas) fizeram muito “o serviço sozi­
nhos”. O fracasso estratégico da revolução em relação ao campesinato,
arrastando consigo um processo de decomposição progressiva das con­
tradições de base da sociedade soviética, repercutiu, através da divisão
social e política do trabalho, no conjunto dessa sociedade, encontrando,
em toda parte, matéria para agravar-se. E, paradoxalmente, essa divisão
do processso revolucionário contra si mesmo tomou a forma de uma von­
tade de unificar a sociedade, rejeitando tudo o que pudesse retardar a
realização imaginária dessa unidade.
Nesse ponto, o impossível e a contradição se conjugam, manifestando
o real da história.
Os “camponeses da intelligentsia” constituem um dos espelhos sen­
síveis desse processo: um dos setores da sociedade em que os elementos
decompostos das contradições de classe vieram se refletir com uma par­
ticular intensidade.
f / No espaço da língua, a busca impossível da unidade imaginária é
'paga ao alto preço da dupla linguagem da dominação5.

NOTAS ^

1. Conta-se a seguinte piada anti-soviética que dá a medida da decadência deste surrealismo


leninista: um burguês francês, visitando o Kremlin nos anos trinta, se espanta ao consta­
tar que o metal precioso se mostra lá em profusão (escadas de ouro, mesas de ouro,
telefones de ouro...). Ele observa para seus anfitriões que, em seu país, o ouro fica
trancado em subterrâneos, sob a proteção de grades e guardas armados. Resposta de
Stalin: “No nosso país, o homem é o capital mais precioso.”
2. Éludes soviétiques, n° spécial Stalin, janeiro 1950. “É esse o estilo stalinista no trabalho”
3. “Me-ti dizia: Há pessoas incapazes de rir das coisas sérias. Não se saberia fazê-las querer
rir, mas não se deve tampouco de deixar proibir de rir de coisas sérias. Pode-se falar com
humor e com seriedade de coisas sérias, com humor e com seriedade de coisas engraçadas.
Para as pessoas sem humor, é em geral mais difícil compreender o grande método.”
(“Sobre o humor”, in Me-ti, livre des retournements, L'Arche, 1968).
4. Nesse ponto, uma observação de Jakobson: “Nossa geração é de perdedores. Os que têm,
agora, aproximadamente, entre trinta e quarenta e cinco anos. Os que, ao entrarem nos
anos da revolução, já tinham uma forma, não eram mais argila sem rosto, mas ainda não
estavam fossilizados, ainda eram capazes de sentir e se transformar, de compreender o
que os cercava, não na sua estática, mas no seu porvir.” (La Génération..., p. 73).
5. Não basta, portanto, invocar as urgências da situação obsidional da URSS e as necessidades
impostas pela ascensão do nazismo, que já eram as da guerra civil e do comunismo de
guerra, em um período em que, além do mais, o jovem Estado soviético ainda não havia
consolidado suas forças. A URSS resistiu ao e triunfou sobre o nazismo, não por causa do
stalinismo, mas muito apesar dele...
14. A DUPLA
LINGUAGEM

Dupla linguagem, na qual, quanto mais falamos em Lenin, mais nos


afastamos dele; quanto mais apelamos para a “prática viva”, mais somos
prisioneiros de fórmulas; quanto mais falamos em lutar contra o chauvinis­
mo, mais oprimimos as nacionalidades; quanto mais pretendemos defender
a literatura, mais a sobrecarregamos de medidas administrativas...
O duplo discurso stalinista é uma língua de Estado, uma série estra­
tégica de discursos obstinados em eliminar toda contradição e em disfar­
çar a existência das relações entre as classes. A especificidade da língua
de Estado stalinista é a de invocar o marxismo-leninismo para esmagar
as práticas marxistas e leninistas, é a de brandir o “realismo socialista”
contra os que, recusando transfigurar as contradições do real em um puro
cristal, são acusados de defonnar a realidade1. Ela usa da astúcia e do
amálgama para contornar, indefmidamente, o que todo o mundo diz e que
ninguém pode dizer.
O grotesco e o odioso, excluídos da epopéia oficial, retomam, então,
à realidade, pelo viés do absurdo: escreve-se o relato dos acontecimentos
antes que eles ocorram; os personagens históricos aparecem, mudam de
biografia ou desaparecem; inocentes se declaram culpados por fidelidade
ao ideal... O bom senso stalinista é um bom senso delirante, baseado em
uma higiene da palavra e do espírito:
“Uma outra vez (conta ainda Iakovlev), faltava elegância à minha
frase. Stalin perguntou:
- Por que, então, você colocou o verbo após o sujeito? Há alguma
coisa aí que não vai bem. É assim que você deveria ter escrito!
E ele corrigiu.
Em seguida a esse episódio, eu reli muito atentamente a gramática da
língua russa...
Stalin dá uma importância extrema a uma formulação correta do pen­
samento.
- Quando um homem não sabe enunciar seu pensamento de uma
maneira justa e precisa, isso significa que ele pensa também sem siste-
jma, de uma maneira caótica. Como poderá ele, nessas condições, dar
conta do trabalho que lhe foi confiado”? (Ibid.)
Nossos dois exemplos de “ditados” poderiam constituir o emblema
do que entre 1917 e 1930 afeta a relação com a língua: a linguagem
tende a se fazer passar pelo real, a representá-lo sem distâncias, a cons­
tituir um equivalente dele2.
Num livro denso, mas repleto de informações extremamente precio­
sas, F. Champamaud (Révolution et Contre-rèvolution culturelles en
URSS.) aborda esse ponto com o título “Stalin e a metáfora”; ele co­
menta os termos usados por Lenin na luta ideológica (tais como lutar até
a morte, liquidar...), mostrando que se trata de metáforas que Stalin anu­
lou tomando-as ao pé da letra, confundindo, assim, a linguagem com o
real. Champamaud cita, a esse respeito, as declarações de Siniavski di­
ante de seus juízes:
“Se realizamos metáforas, é o fim do mundo..Dizemos “a sombra
cai”, “está chovendo”, “as estrelas vão embora”. Se isso de fato aconte-
cesse, o mundo seria uma catástrofe. Quando Lenin falava de nossos
adversários ideológicos, ele utilizava metáforas. Stalin realizou essas
metáforas, e foi assim que os horrores do ano de 1937 começaram.”
Stalin é, antes do tempo, um teórico desconhecido, do.performativo
alargado, tendo_organizado, sem nenhum humor, essa coincidência entre
o dizível e p existente, que o poeta Jean Tardieu evoca ao afirmar:

“Se o mundo fosse coerente


Eu não poderia dizer: está chovendo
Sem que, imediatamente, a tempestade caísse3

Jakobson aborda a mesma questão nesses tennos:

“Há países em que se beija a mão de uma mulher, e, outros, em


que se contenta em dizer: “Beijo a sua mão”. Há países em que se
responde, à teoria do marxismo, com a prática do leninismo; e
países em que a loucura dos bravos, a fogueira da fé e o Gólgota
do poeta não são apenas expressões figuradas”. {La Génération...).

x O que surge, assim, do interior da ideologia stalínista de Estado, é


(ima forma bem particular.4e_seriedadei _cega à ordem da linguagem. O
^borto da revolução cultural4 está em relação direta e determinâda com
jessa anulação do jogo metafórico (desse jogo que, desvinculando a lín-
bua do real, constitui aquilo que a ela se refere). A instalação espontâ-
pea do princípio do valor em outubro de 17 encontra aqui a sua base
jideológica e política: daqui para a frente, o sentido se isola do nonsen-
Ise, porque o sentido coincide com as palavras no real da ideologia sta-
flinista5.
Retomando, por essa via, as concepções sociológicas provenien­
tes do século XIX “materialista” (o determinismo universal, a influ­
ência do meio...), a crítica literária com pretensão marxista vai, des­
de então, fechar cada vez mais os olhos para a especificidade do
registro de língua, e retomar a velha dicotomia plekhanoviana" da
arte e a vida social, dissociando forma e conteúdo. Concede-se ao1
conteúdo um primado absoluto sobre a forma, em nome do materia­
lismo histórico: o “fundo” da obra, as idéias que ela veicula, traduzem
as intenções do autor, as concepções sócias e as mentalidades que
elas “refletem” nesse espelho da sociedade que constituem a arte
em geraj e a literatura em particular6.
A forma literária é, portanto, simplesmente a condição exterior de tal
ou tal outra tendência ideológica e não representa nenhum papel especial
nela: ela é neutra, já que é puro instrumento. O “método sociológico”
identifica-se, dessa maneira, com o marxismo e luta em seu nome contra
o “formalismo”, e, antes de tudo, contra a idéia de uma autonomia relati­
va das formas literárias. O novo academicismo marxista faz até, dessa
luta, um caso de Estado: através do Aparelho Repressivo, ele “trata como
convém” as tendências “anti-revolucionárias”, “anti-humanistas” e “anti­
sociais”... em nome do leninismo e da famosa teoria leninista do reflexo.
As intervenções filosóficas de Lenin (referentes à relação entre o ser e o
pensamento no processo do conhecimento e dos desafios políticos do
materialismo) tomam-se, assim, a garantia “científica” de concepções
sociopsicologistas, estrangeiras à reflexão de Lenin.
A linguagem como imagem lógica da realidade, reflexo do real e ex­
pressão da objetividade: o realismo socialista em literatura baseia-se no
mito de uma coincidência entre a linguagem e o real, impondo-se descre-
vê-Io “objetivamente”, tal como é... na ideologia stalinista, ou seja, de
fato, transfigurar a realidade ao “refleti-la”7.

NOTAS

1. Quando, num texto submetido ao controle do Glavlit (Direção dos negócios literários),
uma frase apresenta um conteúdo suspeito, ela deve ser imputada ao autor do texto, com
todas as conseqüências legais que daí resultam, a não ser que pareça que este último (ou
o herói positivo que supostamente ele apresenta no interior da sua obra) se desligue
completamente dela: assim, os censores, do mesmo modo que os confessores, necessitam
de uma teoria da enunciação...
2. O stalinismo encontra, aqui, a insipidez do classicismo francês e de seu cartesianismo
trivializado: “o que se concebe bem. enuncia-se claramente” ..., curiosamente retomada
nos detalhes do ‘‘princípio de cooperação” de Grice: “A categoria de modalidade [(refere-
se)...] mais ao como se deve dizer do que o que se diz: “seja claro" - “evite exprimir-se
de maneira confusa" - “evite ser ambíguo” - “seja breve" - “seja metódico” . A clareza
associa-se à economia de meios, e o “cartesianismo". aos imperativos do capitalismo:
time is money.
3. Le Fleuve cachê, “Metaphysical Poetry”, p. 139.
4. Os projetos de proletarizaçào do aparelho solar e de fusão do trabalho manual e do
trabalho intelectual, que Lenin e K roupskaía pretendiam realizar através do ensino
coletivo e do trabalho politécnico, são afogados pela seriedade jdanoviana: é necessário
que os professores ensinem e que os alunos estudem...
5. Isso estabelece o âmbito da “nova lingüistica” que está por vir. Como o formula J.
Kristeva: “[...] a ética de um' discurso lingüístico mede-se pela poesia que ele pressupõe”
(“L'Ethique de la linguistique", Critique, n° 322).
6. Sob o sociologism o de Plekhanov, a ideologia literária da Vida triunfa, opondo os
conteúdos secretos, realistas, vividos... às “ formas” literárias, arbitrariamente identifi­
cadas ao formalismo jurídico e à secura “desumana”. A forma realista impunha-se, assim,
em nome dos conteúdos: a grande forma histórica do realismo tolstoiano, ao qual os
formalistas haviam, justam ente, tentado prestar atenção. De vários pontos de vista, G.
Lukács, L. Goldmann e, mais recentemente, P. Macherey analisaram e criticaram essa
ideologia realista.
7. O realismo literário stalinista não surgiu ex nihilo. Ele reorganiza em uma ideologia de
Estado elementos esparsos tais como, por exemplo, a assunção simbolista da realidade
quotidiana em “realidade superior” (o que Kloulev criticará com o nome de “laquage” da
realidade) e também a tendência futurista de identificar a realidade com a linguagem.
* NT: No original plekhanovienne, relativo a Georgi Valentinovich Plekhanov (1856-
1918), socialista russo.
15. A “LINGÜÍSTICA MARXISTA ”
Essa concepção da linguagem, inerente ao “método sociológico”, não
poderia deixar de influir nas pesquisas lingüísticas: no final dos anos
vinte, a idéia de uma “lingüística marxista” impõe-se progressivamente
na URSS, e encontra uma aparente consistência com as hipóteses de
Marr referentes às origens socíopsicológicas da linguagem (do grito à
palavra articulada). Marr apresenta a existência de línguas de classes e
desenvolve uma interpretação de estádia do materialismo histórico, se­
gundo a qual os modos de produção se sucedem e se encadeiam numa
ordem progressiva, da comunidade primitiva até o comunismo...
O horizonte final de uma linguagem semântica pura (tão distante das
reprèssõés gramaticais e sintáticas da linguagem articulada quanto esta
última o é da linguagem gestual) constitui um retomo do recalque positi­
v is ta bogdanoviano, em contraponto a esse furor sociologizantê dedicado
^aliqüidar o “formalismo”; o que aparece, aqui, é a idéia de um esperanto
universal da revolução mundial1. \
Em 1929, aparece Marxisme et Philosophie du langage*, assinado
por V. Volochinov, recentemente republicado na França com o nome de
M. Bakhtin na perspectiva de um requestionamento marxista do “forma­
lismo” saussuriano. Diante das fantasias marristas, o sociologismo de
Volochinov aparece como muito mais razoável, menos fechado à ordem
específica da linguagem, de maneira que certos lingüistas, que tomam o
partido do marxismo2, vejam nele o anúncio de uma sociolingüística
materialista, varrendo no seu princípio o idelismo dos dogmas saussuria-
nos e dando claramente lugar a uma aplicação do “método marxista” em
lingüística; e, de fato, alguma coisa da temática atual dos atos da fala, da
enunciação como interação verbal, da palavra viva do diálogo oposto ao
fechamento do monólogo, como também dos projetos de tipologia (da
linguagem ou discursiva) já está presente em Volochinov, apoiado numa
psicologia do corpo social herdada de Plekhanov:
“As relações de produção e a estrutura sociopolítica que elas condici­
onam diretamente determinam todos os contatos verbais possíveis entre
indivíduos, todas as formas e os meios da comunicação verbal: no traba­
lho, na vida política, na criação ideológica. Por sua vez, tanto as formas
quanto os temas dos atos da fala revelam-se serem as condições, as for­
mas e os tipos da comunicação verbal” (p.38).
Assim (e ainda hoje) a perspectiva de uma “lingüística marxista” en­
contra suas garantias materialistas em Plekhanov, sob a forma de uma
psicosociologia da comunicação verbal3.
Esses avatares do método sociológico ilustram bem uma característica
típica das relações ideológicas stalinistas: Marr e Volchinov estão, cada um
à sua moda, inscritos em uma concepção plekhanoviana da linguagem e da
sociedade. Ora, é precisamente em nome da distinção plekhanoviana entre
a forma e o conteúdo que o Estado stalinista vai liqüidá-los: Volochinov
desaparece por volta de 1936; quanto aos discípulos de Marr (ele próprio
morre em 1934), eles são objeto, em 1950, de uma célebre intervenção de
Stalin, que põe um ponto final no marrismo histórico4.
A revolução soviética, afirma Stalin, plekhanoviano também, pro­
va que um só e mesmo conteúdo stalinista pode se realizar sob dife­
rentes formas nacionais, particularmente se exprimir nas diferentes
línguas da União. O essencial era impor novos “conteúdos”; as “for­
mas” lingüísticas prosseguiram, servindo à nova classe dirigente, como
elas haviam outrora servido à burguesia e ao feudalismo. Para Stalin. 1
a língua tem o mesmo status dos especialistas: ela constitui uma fer- •
ramenta, um instrumento de comunicação homogêneo no conjunto
da sociedade:

“[...a língua] foi criada enquanto língua do povo inteiro, única para
toda a sociedade e comum a todos os membros da sociedade.
Posto isso, o papel auxiliar que representa a língua como meio de
comunicação entre os homens não consiste em servir uma classe
em detrimento das outras, mas em servir indiferentemente a toda
a sociedade, todas as classes da sociedade”5.

A ideologia stalinista de Estado acertava, assim, suas contas com o


seu próprio passado (a esperança de uma língua universal do socialismo
mundial) ajustando-se às necessidades políticas do “socialismo em um só
país” (o Estado do povo como um todo), colocando no devido ponto a
política das nacionalidades que disso decorrem: respeitar as formas para
melhor impor os conteúdos.
O efeito imediato foi, nós o gabemos, o inverso do que se havia
produzido nos domínios da biologia e da agronomia6: Stalin apareceu
dessa vez aos olhos da opinião mundial como um dirigente cheio de
“bom senso”, que põe fim a vinte e cinco anos de delírio lingüístico. De
todos os lados, foi um alívio: os lingüistas despolitizados estavam satis­
feitos de ouvirem da boca do próprio Stalin que sua disciplina escapava
aos critérios de classe; quanto aos lingüistas progressistas ideologica­
mente ligados à revolução de Outubro, eles podiam, daqui para a fren­
te, contratar novas alianças teóricas e desenvolver livremente suas
próprias iniciativas materialistas.
Com a ideologia lingüística da comunicação amparada na imagem da
ferrâmenta, Stalin revelava-se um adepto do estruturalismo pós-saussu-
riano na sua versão íuncionalista mais rasteira. A lingüística ocidental
'encontrava, bruscamente, aí, alguma coisa de si mesma e da mediocrida­
de que a ameaça... alguma coisa que poderíamos chamar da ordem do
sério.

NOTAS
1. Quanío ao esperanto real, que obteve um sucesso bem grande na URSS, ele foi politica­
mente com batido a partir de 1925. Os esperantistas comunistas formam, a partir de
1928, uma cisão que será liqüidada na URSS em 1937, depois que a seção alemã já havia
sido liqüidada pelos nazistas em 1933 (ver sobre esse assunto J.-C. Michéa, art. cit. P.
671).
2. Por exemplo, J. B.-Marcellesi et B. Gardin, Introduction à la sociolinguistique, Larousse,
1974, et L.Guespin, Langages, 41 [Marcellesi, J.B., Gardin, B. Introdução à sociolin-
giiistica. Lisboa: Ed. Aster, 1975]
3. A ideologia da Vida instala-se, assim, na lingüística soviética, ao final de um percurso
que, começado com Humboldt, desemboca nas pesquisas de psicólogos não pavlovia-
nos como Vigotski e Luria. Por seu humanismo teórico, eles se opõem ao behavioris-
mo reflexológico como o farão, em seguida, Léontiev e seus seguidores (cf. L. Sève na
França), mas permanecem igualmente cegos à subversão freudiana da psicologia. Após
1930, a psicanálise desaparece completamente na URSS: ela certamente feria demais
o narcisism o dos Homens Novos. Encontrarem os em Freudism, de Volochinov, um
exemplo dessa radical incompreensão dos desafios psicanaliticos.
4. O mestre decidiu. Encontramos uma história da intervenção stalínista e de suas motiva­
ções em matéria de política lingüística em Les Maîtres de la langue. Após o esmagamen­
to do marrismo histórico, os temas marristas sobrevivem, como o prova o triunfo atual
do neo-marrismo, que de novo reduziu a nada a corrente neo-formalista ressurgida nos
final dos anos cinqüenta, em favor dos efeitos técnico-científicos ligados à coexistência
pacífica no período krouchtcheviano. Ver, a esse respeito, os números 15, 33 e 46 da
revista Langages.
5. Tradução em Les Maîtres de la langue, p. 200.
6. Enquanto tratava-se, sob muitos aspectos, da mesma política de Estado aplicada a um
outro dominio, o da coesão político-profissional, territorial, familiar, no contexto de
um estado multinacional e plurilingüe. Sobre essas questões, ver o Lyssenko de D. Lecourt
(Maspero, 1976) e o artigo J.M. Gayman, Lutte des classes et Guerre des langues en
URSS in Les Maîtres de la langue.
* NT: [Bahktin, M. M arxism o e filo so fia da linguagem: problem as fundam entais do
método sociológico na ciência da linguagem. SP: Hucitec, 1986].
C'
r
16. DE CÍRCULO
EM CÍRCULO

Não se trata de retraçar aqui esse caminho da lingüística ocidental,


muito mais familiar, aliás, aos leitores franceses. Vamos nos contentar,
ainda aqui, em designar alguns “pontos sensíveis”.
Desde 1925, com o desaparecimento da revolução cultural soviética1,
o primeiro encontro direto entre uma revolução socialista e um saber
lingüístico de tipo científico fracassou definitivamente. Uma conjuntura
histórica fecha-se, assim, provisoriamente (?), ao país dos “mestres da
língua”, para a ciência lingüística.
Não é por acaso que foi em grande parte para Praga que o lugar
das questões lingüísticas se transportou. Praga, essa plataforma gira­
tória da Europa central, na encruzilhada de culturas diferentes (o
mundo eslavo, o mundo alemão, o mundo judeu), compensando o iso-
Jiacionismo em que a confina a dissolução do império austro-húngaro
poF um espírito ae abertura que se manifestará na diversidade das
personalidades que virão af expor suas idéias de 1925 até a Segunda
_ Guerra Mundial: Hjelmslev, Bloomfíeld, Jones, Camap, Husserl, Bron-
dal, Benveniste2...
Sabemos que, se a iniciativa da criação do Círculo Lingüístico de
Praga (C.L.P.) é devida ao tcheco Mathesius, foi basicamente o manifes­
to apresentado em Haia, em 1928, no 1 Congresso Internacional de Lin-
güistas, e assinado por três imigrantes russos, que ficou conhecido como
seu nascimento efetivo. Esses três imigrantes são R. Jakobson, S. Trou-
betzkoí e S. Karcevski.
O trabalho do C.L.P. é essencialmente considerável nos domínios da
fonologia e da poética, muito ligadas ao espírito do Círculo, como o sim­
boliza o trajeto de Jakobson, que chegou à lingüística através da poética,
e concebendo o seu interesse pelas duas disciplinas nestes termos: “A
textura fônica nada tem a ver com os sons, mas sim com os fonemas, ou
seja, com as representações acústicas capazes de serem associadas às
representações semânticas” (“A nova poesia russa”). Visto o que diz Jako­
bson da importância que teve para ele seu encontro com o verso tcheco (o
choque da diferença entre o ritmo russo e o ritmo tcheco), podemos acei­
tar a hipótese de J.P. Faye (Change, 3), segundo a qual é o próprio deslo-
camento (de Moscou para Praga) que provoca a revolução da fonologia
estrutural - e do que a acompanha.
Além do que eles trazem da reflexão de Moscou, a influência dos
imigrantes russos manifesta-se nos métodos de trabalho que se impõem a
Praga (da qual Mounin escreve: “O Círculo de Praga instaurou num con­
gresso científico o estilo de trabalho de um congresso bolchevista [...] e
também um estilo de elaboração coletiva dos seus trabalhos” (p. 108).
Aliás, como em Moscou, serão sempre abordados estudos teóricos e uma
prática literária e poética3.
O C.L.P. é muito marcado pelo encontro de personalidades bem dife­
rentes. Jakobson, o antigo animador do Círculo de Moscou, esse homem
que alia, numa combinação fascinante, um caráter de lingüista erudito à
moda antiga (diz ele: “Eu falo russo em dezenove linguas” - citado por
Georgin) e preocupações teóricas das mais exigentes. Vindo para a lin-
güística, seduzido por um “campo que não pertencia a ninguém” (Cahi-
ers Cistré), a poesia, ele trará consigo a necessidade do trabalho sobre o
significante. TroubetzkoY, um sábio certamente mais rigoroso, formado
pelo método comparatista, influenciado pelo formalismo russo, mas guar­
dando as suas distâncias (“Eu não posso me considerar um verdadeiro
formalista” - citado por Mounin, p. 103). Quanto a Karcevski, ele con­
tribui com o conhecimento do ensino de Saussure.
A contribuição do C.L.P. pode ser considerada como essencialmente
contraditória. Por um lado, será uma tentativa de aplicação prática do
que havia ficado no plano teórico com Saussure: a reflexão privilegiada
sobre o domínio dos sons baseia-se na apreensão da maneira pela qual
nasce o sentido na poesia, o que significa que a língua, objeto do lingüis­
ta, nunca é separada da língua, objeto da literatura4. Por outro lado, ele
será uma primeira etapa para a instalação da ordem do sério na lingüísti-
ca, uma retomada da ideologia da comunicação, à qual ele traz uma ga­
rantia científica.
Assim, no que se refere à fonologia: podemos dizer que Troubetzkoi
é, ao mesmo tempo, aquele que, por um progresso decisivo, extrai a con­
cepção do fonema daquilo que ela guardava de fundamentalmente psico-
logista num Baudouin de Courtenay (para quem o fenômeno era “o equi­
valente psíquico do som”) e aquele que, definindo-o como parte de um
sistema funcional, introduz na lingüística uma teleologia que encontra
sua expressão na ideologia da comunicação. “A língua é um sistema de
meios de expressões apropriadas a uma finalidade”, está escrito na pri­
meira Tese de Praga. Portanto, a contribuição decisiva de um conceito
fundamental vinha prolongar uma idéia de Saussure, o conceito de distin-
tividade reconhecido como uma propriedade da língua (e fundando-a, ao
mesmo tempo, como lugar do impossível organizado em partições). Mas,
ao mesmo tempo, pelo próprio fato de só assinalar essa propriedade de
distintividade, tem-se o risco de deslizamento dessa noção para a positi-
vidade da comunicação.
Contraditória, também, a concepção do sistema, da qual podemos
indagar se ela deve mais a Saussure ou a Husserl. Com efeito, os
empréstimos a Husserl parecem muito coerentes, quando o aspecto
sistemático da língua não é mais um complemento do aspecto funcio­
nal: a intencionalidade da linguagem (em Husserl, a intencionalidade
das pretensões da consciência), o retomo ao sentimento direto da lín­
gua próprio ao lingüista, que levará a privilegiar a introspecção. De
resto, a influência de Husserl chega através de Bühler, participante
ativo do C.L.P., tendo experimentado, através da psicologia e das ciên­
cias humanas, uma via de utilização da fenomenologia da Gestalt. Por
um lado, Bühler volta-se contra a Escola de Viena, cuja concepção
logística da linguagem, segundo ele, ignora a especificidade da língua
natural; por outro lado, é ele que especifica uma teoria da linguagem
(de natureza semântica), baseada em funções concebidas como cons­
titutivas da natureza da lingua.Eledistingugo-essencialmente, a função
de..representação, a de expressão e a de apelo. Os praguenses refor­
mularão essas funções a elas acrescentando, entre outras, a função
poética5. Uma conseqüência da influência de Bühler é a caracteriza­
ção da língua como equilíbrio entre o aspecto da intelectualidade e o da
afetividade, que se organizam na função de comunicação (voltada para
o significado, subdividindo-se em linguagem prática e linguagem de
formulação) e a função poética (voltada para o significante).
A aplicação da teoria saussuriana é contraditória também. Embora
um ponto essencial de Saussure, o valor, tenha sido certamente entendi­
do, pelo menos nos seus efeitos práticos (a noção de oposição fonológica
não teria podido aparecer numa área exclusivamente funcionalista, ela
deve muito à diferença saussuriana), parece que a leitura do Curso que
pôde ser feita pelos membros do C.L.P. ficou bastante superficial. Com
efeito, eles parecem só considerá-lo como um meio de oposição aos neo-
gramáticos: o sistema de signos, de construção teórica que há em Saussu­
re, toma-se um dado da língua; a oposição lingua/fala não é reconhecida
nos seus efeitos; o arbitrário do signo só é evocado por Jakobson, e para
ser refutado; a oposição sincronia/diacronia é questionada pelo conceito
jakobsoniano de “sincronia dinâmica”, a linearidade do significante é
afastada.
Em compensação, há um ponto do dispositivo saussuriano que terá
um desenvolvimento particular: é a oposição paradigma/sintagma. Pode­
riamos ser tentados a explicar o pouco interesse do Círculo pela sintaxe
(lembremo-nos desta reflexão de Troubetzkoí, citada por Georgin: “A
sintaxe me terrífica”) pela insistência no funcionamento paradigmático.
Seria considerar que a sintaxe é necessariamente da ordem do sintagmá-
tico, o que estabeleceria um ponto de superioridade do distribucionalis-
mo americano6. Ora, há pelo menos um lingüista, L. Tesnière, membro
do Círculo, embora tenha permanecido muito isolado, que explorou as
possibilidades de tratamento paradigmático da sintaxe, mostrando, as­
sim, que ela era diferente de uma simples concatenação7... Portanto, sal­
vo exceção (como Tesnière e Guillaume), a sintaxe ficará em suspenso,
entre os lingüistas europeus. Ela voltará bem mais tarde, através dos
Estados Unidos, com os trabalhos de Harris e Chomsky.
No plano não gramatical, a reflexão do C.L.P. abrirá o caminho para
um trabalho sobre â relação entre paradígma/sintagma, que desencadea­
rá um artigo célebre de Jakobson em 1956. Jakobson utiliza essa oposi­
ção para distinguir, a respeito dos tipos dè ãfãsTas, o pólo metafóriccfdo,
pólo metonímico, associados, respectivamente, à similaridade e à cõfttf-
güidade. A distinção entre metáfora e metonímia é aí consideravalménte
ampliada, principalmente na análise dos procedimentos poéticos, na des­
crição dos sistemas de signos diferentes da linguagem, por exemplo^a
pintura, e no estudo da estrutura dos sonhos, em que se encontram os dois
métodos fundamentais estabelecidos por Freud na Traumdeutung (con­
densação e deslocamento, posteriormente elaborados por Lacan).
Contraditório em último lugar, o trabalho sobre a poéticaj^aessenci-
al, o C.L.P. permanece herdeiro dos formalistas russos, que Jakobson
mantém como fonte nestes termos: “O formalismo evoluía para o método
dialético, permanecendo fortemente marcado pela herança mecanicista”
(Change, 3). Portanto, o mesmo objetivo de estudo dahngua literária
por ela mesma, com, talvez, uma orientação histórica mais pronunciada:
o C.L.P. trabalhará com o significante e manterá os seus laços com o
Opaiaz de O. Brik (pelo menos, enquanto este último existir).
O C.L.P. (e particularmente Jakobson) desenvolverá esta idéia, se­
gundo a qual não há dimensão da língua que escape a priori ao poético,
o que significa, segundo os termos de Milner (Cistre), por um lado, que
“a poesia é homogênea à língua”, por outro lado, que “a língua não pode­
ria ser pensada completamente se a ela não se integrasse'a'possibüidade
do poético”.
O grande interesse apresentado por esta relação entre literatura e lin-
güística (apesar da maneira pela qual ela permanece prisioneira na evi­
dência de uma “fúnção poética”) é, talvez, a contrario, por uma compa­
ração com o Círculo Lingüístico de Copenhague (fundado em 1931, con­
siderando-se, também, herdeiro de Saussure) que ela aparece mais niti­
damente. Em Copenhague, toda referência à literatura é excluída, só a
lógica matemática é levada em consideração8, e um dos fins explicita-
mente buscados é a elaboração de uma teoria lingüística universal. As
aplicações práticas são particularmente raras, o Círculo de Copenhague
permanece centrado numa radicalização abstrata e logicista do pensa­
mento de Saussure, de quem Troubetzkoi dirá: “O prazer de forjar con­
ceitos toma-se, em si mesmo, o seu próprio fim” (citado por J. Fontaine).
É nesse contexto que surgirá a famosa oposição hjelmsleviana entre de­
notação e conotação, trazendo uma aparência de justificação lingüística
;à dupla psicológica inteligência/afetividade, e provocando, ao mesmo tem­
po, uma disjunção mortal entre o nível dito “lógico” da comunicação e o
nível dito “afetivo” do efeito poético. ~~
O C.L.P. será dissolvido, em 1939, com a entrada dos nazistas em
Praga. Troubetzkoi morre no mesmo ano. Jakobson, após uma longa er-
rância, e finalmente expulso da Europa pelo nazismo, chega aos Estados
Unidos... onde fundará o Círculo Lingüístico de Nova York no final da
Segunda Guerra Mundial. Suas orientações se radicalizam: a ruptura
tendencial entre lingüística e literatura vai se acentuar. Jakobson escreve
ainda sobre a literatura, mas também sobre o lugar da lingüística nas
Ciências Humanas e Sociais: a teoria da informação, a afasia, a elabora­
ção de uma segunda teoria fonológica que ele organiza com Fant e Halle,
onde suas tendências para uma teoria dos universais se ampliam (ele
sonha com uma tabela de Mendeleíev dos elementos fônicos universais).
Esse extraordinário homem de cultura terá uma ação decisiva para
mostrar à lingüística ocidental esses trabalhos que ela ignora: os forma-
listas russos (é Jakobson que chamará a atenção de Lévi-Strauss sobre o
trabalho de Propp, de quem ele se lembrará para a elaboração da análise
do mito), ou os Anagrammes, dos quais ele diz: “E a obra mais importan­
te de Saussure.”

NOTAS
i. As práticas do distanciamento e da “camavalização" (da herança cultural, do folclore e
das concepções populares) iam nesse sentido, e ficamos sonhando com a nova cultura de
massas que daí poderia ter resultado...
2. Jakobson, em Hypothèses (Change): “Nào devemos esquecer que a situação da Tchecos-
lováquia, após a Primeira Guerra Mundial, era a de uma jovem República, de um país
rejuvenescido, em que a revolução espiritual estava no seu apogeu, em que as muralhas
entre os diversos domínios das atividades humanas, os diversos departamentos, as diver­
sas disciplinas não existiam mais.”
3. O Círculo sempre guardará laços estreitos com os criadores de todos os países: com os
russos e o tchecos, evidentemente, mas também com os surrealistas franceses.
JMilner afirma na entrevista da Action poètique (72) ”0 que é muito grande em Jakobson
é que ele reconheceu o que eu chamo de 'o ponto da poesia’, numa instância que se define

Í
por não ter nenhuma significação: o fonema.”
5. É só muito mais tarde que Jakobson dará uma forma definitiva à sua teoria das funções
da linguagem.
6. A partir da mesma época, desenvolve-se nos Estados Unidos uma teoria que se relaciona
também com o estmturalismo. embora os seus postulados sejam diferentes. Seus proce­
dimentos organizados em termos de distribuição e de contexto permitem-lhe desenvol­
ver uma teoria da língua homogênea do fonema à frase, sem bloqueio entre os diferentes
níveis, como acontecerá com o estruturalismo europeu.
7. Aliás. Tesnières é, com Saussure, Jakobson e Benveniste, um dos raros linguistas que
correu o risco do texto, sem fechar-se na frase.
8. Embora prestando-lhe homenagem, Jakobson dirá (Hypothèses): “Creio que o Círculo de
Copenhague era muito mais fechado aos artistas que o nosso.”
1 7 .0 ÚLTIMO DOS CÍRCULOS
Opondo-se, dessa maneira, ao “discurso lógico” (discurso da ciên­
cia, linguagem de formulação, etc.), por um lado, e às linguagens
autônomas da poesia,, da literatura, da filosofia... e dà política, por
outro, a língüística do Círculo de Praga e, mais ainda, a do Círculo de
Copenhague, seguiam outro caminho, que tomava também a forma
de um outro Círculo: o neopositivismo do Círculo de Viena, cujo che­
fe, o lógico Carnap, viera em 1935 expor em Pragã~sua _concepção
de linguagem: a forma moderna, “científica”, da escrita lingüística
nasceu no centro desse espaço constituído pela Viena de antes do
Anschluss.
A velha monarquia barroca de Kakânia1, desmoronada em 1918,
havia sido substituída por um pequeno país com uma grande história:
esforçando-se para sobreviver, pelos seus ritos, sua moral, seu teatro,
em salvar as aparências, a Áustria confontrava-se cada vez mais com
um trabalho de modernização “à moda prussiana”. Aos austríacos,
“ensinava-se a viver” no mundo moderno (com toda a solicitude car­
regada de derrisão protetora que comporta essa expressão). Num tal
universo, contra a dupla ameaça do terror e da estupidez opressoras,
os que ousavam pensar - fossem eles físicos como Mach ou Hertz,
músicos como Mahler, poetas como Hoffmanstahl ou filósofos e lógi­
cos como Wittgenstein - só podiam subsistir na revolta, escolhendo o
partido da razão e da liberdade.
O escritor polemista vienense Karl Kraus, contemporâneo de Wit­
tgenstein, de Freud e de Musil, simboliza bem a sensibilidade desse teci­
do intelectual vienense: durante mais de trinta anos (de 1899 a 1933),
através da sua revista Die Fackel (A Chama), Kraus lutará obstinada­
mente contra a destruição da língua e do espírito, perpetrada dia a dia
pela fraseologia da imprensa, das informações, da propaganda, dos slo­
gans publicitários e de toda essa máquina estatal-capitalista que iria se
transformar na mídia atual.
Como o jornalista-filósofo Fritz Mauthner2, Kraus é um Sprachkri-
tiker atento às violências políticas que o Estado moderno faz com a
língua: assim como escreve W. Benjamin, Kraus concentrará “todas
as suas energias na luta contra a fraseologia que é a expressão lin­
güística do arbitrário com o qual, no jornalismo, a atualidade se arro-
ga o domínio sobre as coisas3 (Cahier de 1’Herne, n° 28, p. 86).
Pois a resistência política entre o que Kraus teve tempo, antes de
morrer, de chamar de “a terceira noite de Walpurgis”, espalhando-se
pela Europa, passe também por uma Sprachkritik, uma “crítica da
língua”.
É nesse ponto que o paradoxo vienense atinge o máximo da sua
contradição, entre uma posição purista cheia de confiança na língua e
sua capacidade crítica de resistência, e uma posição marcada pela
suspeita, de desconfiança crítica em relação às ilusões da linguagem
quotidiana. A expressão “crítica da língua” é lingüisticamente ambí­
gua: ela pode designar (genitivo subjetivo) o fato de que a materiali­
dade de uma língua resiste aos que querem dela se apoderarem para
colocá-la a seu serviço; ela pode também derivar (genitivo objetivo)
num empreendimento de domínio da língua visando a purificá-la,
libertá-la de suas aderências irracionais, para reformá-la numa língua
conforme a Razão. Essa segunda via, baseada numa filosofia logicis-
ta que retomava os projetos leibnizianos de língua característica uni­
versal (em nome da modernidade da Ciência e da escrita científica),
foi a do neopositivismo camapiano4.
Diante da regressão intelectual e afetiva que levaria ao nazismo, o
neopositivismo engajou-se na luta contra as “aberrações metafísicas” do
quotidiano alemão, numa política da Razão: as deformações da lingua­
gem natural (paradoxos e pseudo-questões) engendram enunciados inca­
pazes de qualquer verificação. Por isso, eles são até desprovidos de sen­
tido e devem ser pura e simplesmente rejeitados.
Esse trabalho de saneamento científico da linguagem levaria a um dos
dogmas fundamentais do neopositivismo, aventando a possibilidade - e a
necessidade - de separar, no conjunto dos enunciados, os que são “dota­
dos de sentido” (de maneira que se pode, pelo menos em direito, conceber
métodos de verificação que permitam declará-los verdadeiros ou falsos)
e os que são “desprovidos de sentido” (e sobre os quais não há nada a
dizer).

NOTAS

1. A kaiserliche und königliche Monarchie, na abreviação oficial K-K-Monarchie, e, por


derrisão de Musil, Kakânia. [NT: Musil, R. O homem sem qualidades. RJ: Nova Frontei­
ra. 1989, p. 24.]
2. Mauthner. Beitrage zu einer Kritik der Sprache, 1906. Mauthner foi. no início do século,
o primeiro escritor europeu a fazer da linguagem o tema m aior de um estudo filosófico,
reagindo contra a impostura política veiculada pelas “palavras pomposas e abstratas
como Volks e Geist
3. Um trabalho de Almuth Grésillon (Régularités et Irrégularités dans la langue de H.
Heine, inédito), no qual ela se interroga sobre as “condições políticas e ideológicas nas
quais se fazem brincadeiras com a língua” ( Witz judeu, brincadeiras socialistas contra o
regime, loucura publicitária da linguagem na França atual...), chamam a nossa atenção
sobre uma obra de Christian Johannes Wagenknecht: Das fVorispiel bei Karl Kraus. Esse
autor nota um aumento muito forte da freqüência dos jogos de palavras, no Die Fackei,
nos períodos 1914-1919 e 1929-1933. A. Grésillon lança a hipótese de que “em certos
momentos - quando o combate político não é mais possível? Quando o sistema está
estagnado? Quando é cedo demais para fazer a revolução? - continua-se a ação política
por outros meios, ou seja, brincando com a lingua” .
4. A idéia de Leibniz é que a silogística clássica é demasiadamente sujeita à linguagem natural
e à forma oral. E preciso construir uma linguagem no modelo da álgebra, uma linguagem
do raciocínio-cálculo, que mostre sem falar, que investigue sem ouvir, uma linguagem do
olho-pensamento, uma linguagem que (se) veja.
18. A LINGÜÍSTICA TORNA-SE SÉRIA
Essa partição, supondo que a linguagem é um instrumento transmis­
sor do sentido, só poderia interessar aos lingüistas funcionalistas, con­
fortando suas concepções na seriedade da certeza lógica, e extraindo dela,
correlativamente, um resíduo poético arbitrário.
O equívoco da alíngua, inscrita na língua sob a forma do espaço do
valor, era, assim, dissimulado no patológico da margem, do distancia­
mento, da regra violada e da obscuridade inefável. A contradição política
dos neopositivistas (proveniente da dominação interna de Camap sobre
Wittgenstein) foi, sem dúvida, a de não compreender a tempo que, por
trás da regressão da barbárie nazista, uma sinistra “modernidade” estava
surgindo, também ocupada em sanear, purificar e peneirar, nas línguas e
nos espíritos.
Pois o que surgia, desse modo, na ideologia espontânea da lingüística
ocidental, e encontrava lugar no paradoxo do Círculo de Viena, estava
longe de constituir um episódio teórico autônomo: as novas necessidades
do capitalismo de Estado estavam se instalando na Europa. Mais especi­
ficamente, um elemento novo se constituía assim, indispensável à moder­
nidade da administração capitalista que iria se realizar de 1930 a 1950,
ao preço de um desencadeamento da violência de classes culminando na
Segunda Guerra Mundial.
Esse elemento novo indispensável foi a invenção de uma gestão estatal
da ideologia, desunindo e acoplando os discursos especializados (tecnica­
mente adequados a seu objeto e coincidindo com ele), e os discursos prove­
nientes de um espaço completamente exterior, lugar do ilógico e do não
formulável, em que a “poesia” e a “loucura” combinam seus poderes.
Paradoxalmente, inofensivos lógicos (na sua maior parte fervoro­
sos antinazistas) enunciam, em um outro plano e visando outra coisa,
as regras de gestão discursiva do Estado capitalista moderno (cuja
forma original realizar-se-ia no Estado total nazista, antes de se desen­
volver no sistema imperialista americano, de maneira consideravelmente
aperfeiçoada): por um lado, a precisão “científica” de um corpo de
enunciados, administrando os bens e as dores, a vida e a morte, o tra­
balho forçado e o desemprego organizado; por outro, o delírio despro­
vido de sentido, que, segundo a fórmula cínica de Goebbels, tem tanto
mais chances de “funcionar” quanto maior for1: desde 1930, a fórmula
do capitalismo de Estado combina a magia da T.S.F. aos imperativos
da nova organização do trabalho.
E nesse espaço da modernidade capitalista, marcada pela lógica da
administração (a língua de madeira do Estado) e pela “língua de vento”2
da propaganda, que a linguagem foi instituída como “instrumento de co­
municação”... dissimulando pela noção higiênica de informação o fato de
que o que se comunica provém de uma loucura do Estado: a era dos
comunicados é, ao mesmo tempo, a da comunicação das ordens e a dos
delírios comunicados.
Diante dessa reconfiguração violenta do Estado capitalista, a re­
volução de outubro de 1917 havia se desviado demasiadamente, para
ter meios de resistir de outra maneira, diferente da contra-identifica­
ção (reinscrição reflexiva do adversário, na luta travada contra ele):
no marxismo paródico do Estado stalinista, a disjunção neopositivista
entre o sentido e o nonsense reinstalou-se bem facilmente, coman­
dando as relações entre a ciência, a vida quotidiana (o byt) e o inefá­
vel; de Mach a Bogdanov, depois do Proletkult até Jdanov, essa disjun­
ção se transformou insensivelmente para chegar, como foi visto, na
oposição entre o bom senso (lógico, sadio, normal) e o nonsense (pa­
tológico e anti-social) que constitui uma das pedras angulares mais
sólidas do edifício stalinista.
Aí, também, a lógica administrativa esbarra no delírio fraseológico do
bluff e da propaganda. Os mestres da novlíngua3 stalinista dedicam-se,
eles também, a apagar os traços da memória e a fazer dobrarem-se as
imaginações, de maneira que o pensável, o dizível e o visível acabem
coincidindo: a mecânica dos processos de Moscou e as práticas que
ainda hoje ocorrem na URSS marcam a obstinação em cercar essa im­
possível coincidência, pela pesquisa das “provas” (através do labirinto
das frases que X teria pronunciado diante de Y segundo o testemunho de
Z), e o desenvolvimento da dedução “lógica” (se o camarada diz A, é
porque ele pensa B...). O que surge invencivelmente, em toda essa en­
cenação, é o retomo imprevisto do absurdo no âmago da lógica do dis­
curso de Estado, a falha na lógica dos Homens de Mármore...
Alguns, nos dias de hoje, aproveitam-se disso para identificarem o
comunismo ao imperialismo e ao nazismo, designando o ponto em que,
no Leste como no Oeste, a forma do Estado moderno impõe sua lei às
práticas lingüísticas e às concepções da língua que a elas se associam.
Entretanto, apesar das contra-identificações que não cessaram de circu­
lar entre o primeiro Estado proletário do mundo e o Estado capitalista
moderno, o julgamento que não dá razão a nenhum dos dois, herdado dos
humanismos da guerra fria, tropeça num ponto essencial. Com efeito, a
magia negra hitlerista substituía, sob novas formas, os lances de prestidi-
gitação jurídico-políticas que garantem o processo de reprodução da ex­
ploração capitalista: um mesmo fio negro percorre o século XIX, des­
de a Alemanha de Weimar até o império americano de hoje. Enquanto o
fio vermelho, proveniente de outubro de 17, desfiou-se na caricatura,
por volta dos anos trinta, abrindo no marxismo e no movimento revoluci­
onário uma crise que coexiste com a do imperialismo, sem ser o seu
reflexo inverso.
Essa crise do pensamento revolucionário não deixa de ter repercus­
sões na questão da língua4, através dessa invasão conjunta das línguas
de madeira, das línguas de ferro e das línguas de vento, que tendem a
apagar a materialidade da língua na falaciosa transparência da lógica e
no arbitrário mistificado da “loucura”.
Kraus, o polemista judeu não marxista amigo de Brecht, costumava
dizer: “Eu não sou um mestre da língua”, acrescentando: “A língua é a
mãe dos pensamentos e não sua serva”. Ele tocava aí numa questão polí­
tica decisiva do século XX: o risco mortal que surge quando um pensa­
mento estratégico, infiltrando-se no deslizamento infinito do sentido e do
nonsense, decide comandar a língua.
O fato de que o capitalismo tenha se tomado mestre nesse trabalho
teria podido não provocar a inveja dos seus adversários. Mas os que
fazem política do lado do proletário freqüentemente não entendem muito
de língua, com raras exceções, que arriscam rapidamente ficarem isola­
das, de várias maneiras.
Liberar o nonsense e suportar sua irrupção no pensamento, não é
ceder a uma reivindicação em favor dos “direitos da poesia”, é responder
a uma profunda necessidade política do movimento revolucionário e da
reflexão marxista: o última remédio, talvez, contra a estupidez5
A língua de ferro, de madeira, ou de vento... façamos ouvido de surdo.
Como se, desde há muito tempo, estivéssemos impedidos de usar a língua.

NOTAS

1. Por exemplo, esta declaração de Goebbels: “Nós não combatemos o marxismo porque ele
é um movimento operário, mas porque é a sua desfiguração.”
2. A ironia nazista, o humor negro com fundo sério e de higiene eram apenas as primeiras
tentativas disso.
3. Em apêndice a seu 1984. G Orwell [Orwell, G 1984. SP: Ed. Nacional, 2003] imagina a
destruição estática da língua pela fabricação de uma “novlingua" simplificada, que eliminasse
as ambigüidades e tomasse quase impossível a expressão das “opiniões não ortodoxas” . A
alusão aos métodos hítlerianos do eufemismo (“o trabalho é a liberdade”, inscrito na entrada
dos campos nazistas) e às formas do discurso stalinista (a simplificação da expressão “comu­
nismo internacional" pela abreviação Komintem) é evidente. Mas realidades lingüisticas mais
atuais como os “básico”, os "standard" e os “primeiro nível" aí são designadas e denunciadas
enquanto formas inaceitáveis de um mínimo vital lingüistico que encerra as massas nas
estreitas fronteiras do que o sociolingüista B. Bemstein chamaria de “código restrito”.
4. Em Langage et marxisme, J. L. Houdebine interrogou a relação (constantemente presen­
te, embora, mais freqüentemente lateral) que os principais teóricos do marxismo man­
têm com a questão da língua (que ele trata, aliás, sempre como “questão da linguagem”)
e com o que, desde a época de Marx e Engels, está se tomando a linguística. Ele mostra
como uma cegueira sobre o fato de que a língua é, ao mesmo tempo, sistema e efeito
histórico, associa-se a uma surdez sobre o jogo do significante, que, entretanto, não cessa
de atravessá-la (e nada será fundamentalmente modificado quando os marxistas terão a
possibilidade histórica de acesso a Saussure e a Freud). Parece, então, que, desde a sua
origem, o marxismo, sobre a questão da língua, sofre uma dupla deriva: entre um socio-
logismo cego ao sistema e a utopia logicista de um “discurso verdadeiro” reduzindo,
politicamente, o sujeito a um ponto científico.
5. Na URSS, o uso uniformemente difundido das piadas soviéticas contadas na privacidade
constitui uma válvula de segurança que fecha essa disjunção, contribuindo eficazmente para
a manutenção da ordem. O próprio Brejnev deve contá-las para si mesmo e rir delas
sozinho. Sintoma ideológico do socialismo? E aqui, como isso funciona?
PERTENCEMOS A UMA GERAÇÃO QUE
ASSASSINOU OS SEUS POETAS1

Talvez seja o melhor testemunho da fecundidade


de uma doutrina o engendrar a contradição que promove.
E. Benveniste

Em Berlim, em 1933, Moisés anunciou a Jacob que ele estava


indo embora para os Estados Unidos.
Jacob: “Mas é longe!”
Moisés: “Longe de onde? ”
1. A GRANDE TRAVESSIA
Em 1939, o Círculo de Viena se desloca definitivamente. A Terceira
Noite de Walpurgis cobre a Áustria e a Alemanha. A Europa tomou-se
essa gigantesca “casa de loucos”, em que não é de bom tom ser um inte­
lectual e, menos ainda, um judeu e, menos ainda, um intelectual judeu.
Os herdeiros de Frege e de Mach, os contemporâneos de Kraus (mor­
to em 1936) e de Wittgenstein (que ensinou em Cambridge, Grã-Breta­
nha, a partir de 1930) entraram, assim como muitos outros, na grande
diáspora do século XX.
Á figura do intelectual imigrante data dessa época: aqueles para os
quais “a mesa de trabalho consistia, daí para a frente, na única pátria
verdadeira” (Kraus) entravam no espaço internacional da intelectualida­
de ocidental: nesse espaço, dominado pelo liberalismo anglo-saxão, que
parecia ignorar os controles minuciosos das opiniões e a regulamentação
patmlhadora do pensamento, alguns europeus haviam, outrora, atingido
extremos de reconhecimento. O austríaco Wittgenstein, por exemplo, que
havia feito, no início do século, uma parte de seus estudos de engenharia
em Manchester, e que havia, também, assistido, em Cambridge, às confe­
rências lógico-matemáticas de B. Russell: e foi justamente o Tractatus de
Wittgenstein, redigido em 1919 e publicado em 1922, que fornecera a
matéria das primeiras discussões do Círculo de Viena...
O encontro da cultura européia ocidental com o espaço do pensamen­
to anglo-saxão, precipitado pelo surgimento do nazismo e pela Segunda
Guerra mundial, havia, portanto, ao menos no domínio que nos interessa
aqui, sido grandemente prefigurado: a lógica proposicional de Frege e
sua Begriffsschrift já haviam sido confrontadas com as pesquisas logísti­
cas de B. Russel, e Camap, o príncipe dos neopositivistas, já dispunha
dos mecanismos de escrita que faltaram à Sprachkritik, de Mauthner2. O
Círculo de Viena deixava, então, como herança, um processo preciso e
aparentemente suscetível de ser levado a bom termo: doravante, seria
“tecnicamente” possível apoderar-se, com método, das superstições ver­
bais ( Wortaberglauben) escondidas por trás da “linguagem natural”, efe­
tuando, com elas, o que o matemático alemão Hilbert havia feito com a
geometria, nos seus Grundlagen, de 1899.
Com efeito, Hilbert havia demonstrado que o corpo das proposições
da geometria clássica pode ser mecanicamente engendrado por um “sis-
tema formal” constituído 1) por um inventário de símbolos elementares,
2) por uma série de enunciados construídos com a ajuda desses símbolos,
extraídos do conjunto das seqüências possíveis enquanto “seqüências dis­
tintas”, constituindo as “expressões bem formadas” da geometria clássi­
ca, 3) e por um conjunto de axiomas e de regras que permitissem cons­
truir todas as expressões bem formadas e somente elas.
A intuição de Camap é que esse sistema formal funcione, na realida­
de, como uma língua, comportando: 1) um vocabulário, 2) um corpus de
enunciados, 3) uma gramática engendrando os enunciados. Se, portanto,
uma ciência funciona como uma língua logicamente construída, deve ser
possível, em contrapartida, reconstruir cientificamente as “línguas natu­
rais”, libertando-as de suas ambigüidades, duplos sentidos e outras apa­
rências enganadoras. O projeto “construcionista” camapiano consiste,
finalmente, em axiomatizar a linguagem quotidiana para reconduzi-la à
“linguagem de formulação”, conforme a sua essência lógica.
Sabemos que Wittgenstein encontrou-se logo em desacordo com o
fundo dogmático desse projeto: o espírito de K. Krauss (o “respeito pela
língua”) acabava de se confrontar, nele, com o rigor ffegeano. A partir de
1930, Wittgenstein ensina em Cambridge, a convite de B. Russel, e con­
tribui para o desenvolvimento, lá, do que devia se tomar a filosofia ana­
lítica ou “filosofia da linguagem ordinária”3.
A filosofia analítica inglesa não pode ser entendida independentemen­
te dos adversários filosóficos contra os quais ela se constitui, a saber:

—antes de tudo, a filosofia hegeliana, essencialmente através da


interpretação que McTaggart e Bradley deram aos leitores ingle­
ses durante quase meio século;
- mas também a filosofia neopositivista oriunda do Círculo de
Viena.

O ponto paradoxal é que o neopositivismo (de Camap, Reichenbach,


Tarski, etc) tinha precisamente como tarefa a de fornecer à “idade da
ciência” a filosofia positiva que lhe faltava, afastando os falsos proble­
mas, as “questões sem pé nem cabeça”, induzidas pelas filosofias hegeli-
anas e pós-hegelianas: a filosofia analítica, portanto, deve ser concebida
como uma tentativa de retificação crítica do neopositivismo estrito, um
enfraquecimento do “dogmatismo” vienense, destinado a se dar mais
conta de que ele mesmo não podia realizar seus próprios objetivos fun­
damentais, particularmente acerca de tudo o que diz respeito à questão da
linguagem. Essa retificação - ou essa revisão - pensou encontrar o seu
simbolismo adequado no itinerário fascinante de Wittgenstein, cujas duas
obras mais importantes (o Tractatus, 1921, e as Investigações jilosófi-
cas, 1953), foram respectivamente associadas à tradição neopositivista
ortodoxa e à filosofia da linguagem ordinária.
A posição neopositivista clássica do Círculo de Viena consistia em
supor que, já que a língua fala, ao mesmo tempo, dela mesmo e do mundo
(Camap), deve ser possível constituir uma ciência geral da inferência,
que integre as leis do mundo exterior numa física (idealmente estendida a
todos os objetos desse mundo exterior) e as “leis da linguagem” numa
lógica (regulamentando os enunciados dessa linguagem, tanto a respeito
dela mesma quanto a respeito do mundo). Diante de uma tal ontologia
logicista (pressupondo que o próprio ser da linguagem é de natureza lógi­
ca) a filosofia analítica intervém para contestar radicalmente a possibili­
dade de uma construção suscetível de “normalizar” todos os enunciados
dos quais uma língua é capaz. A idéia, familiar desde Camap, de uma
língua lógica normal suscetível de reconstruir os enunciados das línguas
naturais numa forma lógica equivalente, é precisamente o que a tradição
aberta pelo “segundo” Wittgenstein vai refiitar, empreendendo minucio­
sas análises descritivas das “finezas” da língua natural.
Os analistas ingleses da linguagem encontram, assim, a intuição kraus-
siana da Sprachkritik objetiva, segundo a qual a linguagem ordinária é
uma mestra muito erudita e sutil, pela qual convém deixar-se conduzir.
“Para eles [os filósofos da linguagem ordinária], as línguas naturais,
que os filósofos têm o hábito de estigmatizar como desajeitadas e impró­
prias ao pensamento, contêm, na realidade, uma riqueza de conceitos e
distinções das mais sutis, e elas cumprem uma variedade de funções às
quais os filósofos permanecem, geralmente, cegos”4.
Essa concepção levou os filósofos da linguagem ordinária, principal­
mente depois de Austin, a se interessarem por certas categorias lingüísti-
cas que apresentam particularidades de funcionamento em relação às es­
pecificidades de seus usos: os performativos, a classificação dos verbos
em função de suas relações semânticas. Essa linha de reflexão, seguida
posteriormente por Searle, terá um grande sucesso quando se unir à refle­
xão pragmática proveniente do trabalho de Morris. O ponto comum des­
ses diferentes trabalhos é uma consideração da relação do enunciado com
a situação na qual ele é emitido (relações entre os interlocutores, intenções
e crenças quanto ao estado do mundo, circunstâncias do ato de locução...).
O centro dessa filosofia lingüística condensa-se na noção introduzida
pelo “segundo” Wittgenstein de “jogos de linguagem” (Sprachspiel') en­
quanto conjuntos de atos numa “forma de vida”. Posteriormente, o fato
de que um enunciado contenha “pressupostos” leva a pensar que a lin­
guagem é um dispositivo orgânico, um sistema de ferramentas destinadas
a produzir certos efeitos informativos, injuntivos ou performativos, num
determinado contexto5. Essa concepção será, em seguida, lida como uma
teoria dos “atos de linguagem” que se desdobrariam entre os sujeitos
falantes como tentativas estratégicas em que cada qual visa a impor aos
outros um mundo de linguagem a título de convenção indiscutível. As
questões de “pragmática” e as chamadas problemáticas dos mundos pos­
síveis e das leis normais da comunicação, surgidas após Austin, derivam
dessas premissas “actanciais”6.
Assim, Wittgenstein, esse austríaco anglófilo, que adorava, simultanea­
mente, os contos de Tolstoi e os westerns americanos, esse aluno de Fre­
ge que foi também o discípulo de Russel, aquele que foi considerado como
um lógico porque havia escrito Tractatus e que se tomou, por causa das
Investigações filosóficas, o modelo do cético moderno, pode, em parte
contra a vontade dele, funcionar como um símbolo: ao mesmo tempo o
símbolo da Grande Travessia dos intelectuais europeus e o desse cruza­
mento da figura lógica do Direito com a da Vida, cujas incidências sobre a
constituição dos problemas lingüísticos nós evocamos mais acima.
O espaço que os herdeiros diretos e indiretos do Círculo de Viena
encontrariam do outro lado do Atlântico apresentará também caracteres
ideológicos dessa clivagem interna Direito/Vida, em condições especifi­
camente americanas. Nesse espaço: o passo insólito de um pioneiro do
pensamento americano, o filósofo lógico Charles Sanders Peirce (1839-
1914) que, no momento exato em que Frege estabelecia a primeira versão
do cálculo proposicional moderno, traçava independentemente as vias de
uma “álgebra da lógica”, utilizando o método das tabelas de verdade; a
ele devemos também uma “fenomenologia” (mais próxima de Maine de
Biran que de Husserl só mencionado uma única vez, para criticá-lo por
ter cedido ao psicologísmo); mas Peirce é mais conhecido, principalmen­
te, por ter anunciado os princípios de uma “semiologia” (ou semiótica)
que, sem nada dever, evidentemente, às pesquisas saussurianas, aborda a
relação do sèmainon com o sàmaínoménon, pelo viés do pragmatismo.
Retrospesctivamente, Peirce aparece como um precursor desconheci­
do de Russell e Camap, um vizinho vindo de um mundo paralelo diante
deles, nascido na outra Cambridge, a de Massachussetts. Antes que o
século XX comece, Peirce já anuncia que a filosofia deve, para curar as
suas taras, livrar-se das palavras que nada significam e das questões mal
construídas; ele já parte para a guerra contra a estupidez humana e o
desregramento intelectual das questões insolúveis, dos problemas fictíci­
os que ela fabrica com a ajuda de “palavras colocadas umas atrás das
outras”: e ele já designa o remédio todo poderoso do pragmatismo, se­
gundo o qual o sentido de cada enunciado que aceitamos está contido nos
comportamentos práticos.
É no interior desse horizonte que foram reinterpretadas as teses de
Camap (sobre a significação de uma frase como idêntica ao modo pelo
qual se determina sua verdade ou falsidade) e as de Wittgenstein (sobre a
coincidência da significação com o uso): o pragmatismo operatório do ne­
opositivismo e do behaviorismo lingüístico, junto às tentativas de aplica­
ções da lógica e das matemáticas da informação ao estudo da “linguagem
natural”, formam, assim, a conjuntura na qual a lingüística americana ia se
desenvolver, do estruturalismo de Bloomfield ao gerativismo chomskiano.
Fato histórico incontestável da teoria lingüística, o chomskismo tem,
ao mesmo tempo, como efeito, fixar as suas fronteiras, e, assim, tomá-la
reconhecida. Tentaremos auscultar a série de pontos sensíveis dessa con­
tradição incessante da lingüística: Chomsky se divide em dois.

NOTAS

1. Retomamos, com esse titulo, uma expressão de Milner (entrevista na Aclion poêtique, n"
72), que faz uma alusão ao título de um artigo de Jakobson: “A geração que gastou os seus
poetas”, que começa com essa inscrição de Maiakovski: “ Mortos e pouco me importa se
é por mim ou por outrem que eles foram mortos”
2. Pode-se remeter essa prefiguração do encontro até Mach, que, além dos seus trabalhos de
fisico, dedicara-se a conciliar o kantismo, a filosofia aforística de Lichtenberg e as teses
empiristas de David Hume.
3. Wittgenstein, como Popper, aparece como um dissidente do neopositivismo. Como ele,
refugiou-se na Inglaterra, onde morre em 1951. Mas Wittgenstein nada tem da serenidade
britânica de Sir Karl Popper. Sua obra contraditória constitui, ainda hoje, o desafio de um
debate filosófico, particularmente na questão de saber se convém opor um primeiro Wit­
tgenstein, autor logístico do Traclatus, e um segundo que. por suas Recherches philosophi-
ques [W ittgenstein, L. Investigações filosóficas. Coleção Os Pensadores. SP: Editora
Nova Cultural, 1991], teria dado um impulso inicial à “filosofia da linguagem ordinária”. É
bem verdade que o próprio Wittgenstein havia oposto sua nova maneira de pensar à antiga,
mas pode-se também afirmar que ele nunca voltou ao que avançava no Traclatus. A recente
publicação da Gramática filosófica contribui, igualmente, para questionar a facilidade dessa
dicotomia que a tradição académica levou ao pé da letra. Por trás dessa posteridade contra­
ditória dos dois produtos que a obra de Wittgenstein autoriza, por trás do efeito Wittgens­
tein, tal como ele se inscreveu na história do pensamento contemporâneo (e, em particu­
lar, na história da lingüística), há a prática filosófica de Wittengestein, enquanto maneira
excepcional de filosofar: uma prática do pensamento oposta a toda construção do sistema
filosófico e a todo efeito controle. A releitura de Wittgenstein constituí um desafio impor­
tante. Ver, a esse respeito, a obra de D. Lécourt: Le Néo-positivisme en question: Karl
Popper et Ludwig Wittgenstein.
4. Urmson, J. Colloque de Royaumont, 1962, citado por Benveniste, 1963.
5. Por exemplo, o célebre enunciado o rei de França é careca supõe que existe, atualmente,
um rei de França e apenas um.
6. Ver, a esse respeito, a forma deliberadamente utilitária dos títulos pouco provocadores
dos textos austinianos: Como falar? Alguns meios bem simples, ou então Como fa zer
coisas com palavras, tradução literal de How to do things with words. Na mesma ótica,
o trabalho de O. Ducrot retomará, principalm ente, a noção de jogo, que ele opõe à
concepção da língua como código ou como instrum ento de comunicação. Para uma
critica da problemática dos “atos da linguagem”, particularmente sobre a concepção do
pressuposto em D ucrot. ver Henry. P. Le m auvais outil, K lincksieck, 1977. Uma
tentativa original de aproximação entre a filosofia dos atos de linguagem e a versão
lacaniana do freudismo: a de S. Felman, em Le scandale d 'un corps parlant, a partir do
funcionamento da promessa no mito de Dom Juan.
2. A LÍNGUA: MODELO LÓGICO OU
REALIDADE FÍSICA?

Em 1954, a revista Language publica dois artigos extremamentes


contraditórios que vão marcar, nas suas condições teóricas de formação,
o que se tomará a gramática gerativo- transformacional: essa controvér­
sia, opondo Y. Bar-Hillel e N. Chomsky, parece-nos própria a esclarecer
os desafios da história da G.G.T.
A base da polêmica entre Bar-Hillel e Chomsky, o necessário terreno
comum sobre o qual os adversários confrontam os seus argumentos,
constitui-se das teses gerais dos lógicos provenientes do Círculo de Vie­
na. O lugar do debate é circunscrito por um certo número de pressupos­
tos, dentre os quais o principal refere-se à relação entre o mundo real, as
construções da lógica formal e a natureza do conhecimento científico.
Evidentemente, essa concepção refere-se à própria noção de língua:
se a ciência é constitutivamente da ordem de uma “língua bem feita”,
cuja relação com o real se regula pela sua própria forma, a linguagem
cotidiana vai, por contraste, revelar-se uma “má ferramenta” que estraga
essa regulagem, engendra enunciados “metafísicos”, cuja relação com o
real é desregrada e ilimitada. Em lógica, é a estrutura formal que decide
tudo.
Acontece que, por sua vez, os lingüistas estruturalistas haviam pro­
gressivamente (através da crítica do psicologismo lingüístico dedicado
à vã exploração das significações) chegado à necessidade do primado
epistemológico do estudo da língua como estrutura formal. De Saussu-
re ao C.L.P., do C.L.P. ao funcionalismo, de Bloomfield a Harris e de
Harris a Chomsky, um deslocamento teórico foi realizado, conseguindo
colocar no centro das preocupações lingüísticas a questão da constru­
ção sintática dos enunciados; no campo americano, essa questão se
colocará nas formas, fazendo diretamente alusão às preocupações d;
lógica matemática. Assim, noções como frase (enunciado limitado <
completo), form a lógica (descrição formal da estrutura predicativa dt
enunciado), expressão bem formada (série de signos respeitando as re c
gras de construção de uma sintaxe), e também decidibilidade, consis
tência, completude'começaram a circular entre o campo da lógica for­
mal e o da lingüística, em condições que não podiam ser reguladas c

/
priori nem pela lingüística nem pela lógica matemática. Daí esse con­
fronto polêmico que agora vamos retraçar.
A posição de Bar-Hillel inscreve-se explicitamente na linhagem logís­
tica de Camap, prolongada e retificada por Tarski: baseando-se na idéia
camapiana de uma “sintaxe lógica da linguagem” (1934), Bar-Hillel re­
toma o projeto de uma teoria formal das formas lingüísticas, excluindo
toda referência à significação dos símbolos e ao sentido das expressões.
Ele retoma, assim, a lógica do “primeiro” Wittgenstein (o do Tractatus),
em tais condições que a lingüística aparece, de fato como de direito, como
uma parte da lógica. Se, de fato, a linguagem é a imagem do mundo^e, se
o mundo é um tecido de fatos elementares descritíveis:

- em termos de predicados munidos de argumentos (formando


orações) e
- em termos de ligações interoracionais

é evidente que a sintaxe encontra o seu modelo adequado na lógica ma­


temática, no duplo nível do cálculo dos predicados e das ligações intero­
racionais.
Assim, Bar-Hillel concebe o núcleo da lingüística como essencial­
mente constituído por um duplo sistema de regras:

- as regras de formação (garantindo a geração de proposições


sintaticamente corretas) e
- as regras de transformação (regulando as relações de conse-
qüência ou de dedução entre as orações).

É principalmente nesse segundo sistema de regras que Bar-Hillel in­


siste, vendo nele a base de uma reintrodução das preocupações semânti­
cas fundada nos desenvolvimentos da sintaxe lógica pelos pesquisadores
da escola polonesa, particularmente Tarski. Segundo Bar-Hillel, a se­
mântica, doravante, deixou de ser “a salada que levava esse nome no
primeiro quarto do nosso século, e que tanto desencorajava Bloomfield”2,
já que ela provém, agora, no mesmo nível que a sintaxe, de um uso siste­
mático do simbolismo da lógica matemática e de seus procedimentos for­
mais.
Para fundamentar sua argumentação, ele cita exemplos lingüísticos
dessas regras “lógicas” de transformações:

- a relação de substituição contextual com efeito sinonímico (ex:


oculista/médico dos olhos);
- a relação da equivalência (ex: ativo/passivo) e
- a relação de conseqüência (tipo: “todos os gregos são homens”
e “Sócrates é um grego”, dá “Sócrates é um homem”).

Bar-Hillel não vê nenhuma razão para proibir ao linguista de estudar


essas diferentes relações, confiando-o ao estudo das regras de formação;
e ele prevê até que a gramática (enquanto parte formacional da sintaxe) e
a lógica (enquanto parte transformacional desta última) acabarão por
realizar sua fusão unificadora na base da sintaxe lógica de Tarski.
Ora, é precisamente a essa ontologia logicista da língua que Chomsky
critica na sua resposta, “Sintaxe lógica e semântica: sua pertinência lin-
güística”.
Sobre a relação entre lingüística e lógica, Chomsky adota imedia­
tamente a posição “metodológica”, que ele nunca abandonará explici­
tamente. Seguindo, nesse sentido, a crítica popperiana do neopositi­
vismo clássico, Chomsky recusa-se a ontologizar a relação da lógica
com a linguagem, como fizeram os carnapianos, para quem lingüistas
e lógicos têm, defmitivamente, o mesmo objeto. Chomsky coloca muito
em questão a idéia que a sintaxe lógica e a semântica formal (desen­
volvidas, inicialmente, a respeito de uma reflexão sobre os fundamen­
tos da matemática) possam, de alguma maneira, referir-se ao objeto
dos estudos lingüísticos. Segundo ele, é como se disséssemos que um
autor de ficção científica e um pintor abstrato têm o mesmo objeto
que o físico!
Essa referência à física não aparece por acaso no texto de Chomsky:
ela retoma a perspectiva popperiana transpondo-a para a lingüística. A
língua apresenta-se como um real particular, cujo tipo de consistência e
de resistência epistemológica é totalmente comparável ao da física. A
lógica de Camap e de Tarski enquanto “física do objeto qualquer” (F.
Gonseth) não saberia, portanto, constituir a priori um modelo do objeto
lingüístico, já que esse objeto, justamente, não é qualquer, mas especifi­
cado por suas determinações próprias. O aparelho da lógica matemática
é, portanto, de uma generalidade poderosa demais para representar, seja
onde for, as propriedades lingüísticas: uma linguagem artificial contém,
a priori, todas as propriedades que seu criador terá querido comunicar-
lhe. Ora, essa transparência faz falta, justamente, no caso das línguas
naturais, que os sujeitos falantes dominam bem antes de poderem formu­
lar as suas regras, supondo que alguns deles jamais o façam.
A lingüística deve, portanto, proceder como a física, e usá-la com a
lógica da mesma maneira, ou seja, do modo puramente metodológico
implicado na construção de uma teoria. Um ano mais tarde, em Logical
Structure o f Linguistic Theory, Chomsky voltará a essa questão, es­
crevendo:
“É certamente correto considerar que a lógica é indispensável para
formalizar teorias, seja em lingüística, ou em qualquer outra maté­
ria, mas esse fato não nos fornece nenhuma percepção do tipo de
sistema que forma a matéria da lingüística, nem da maneira de
tratá-la. Nem esse fato, nem o fato indiscutível de que o trabalho
em lógica, acessoriamente, conduziu a intuições importantes quanto
ao uso da linguagem [...] não podem provar, em nada, que o estu­
do das propriedades formais (ou semânticas) das línguas naturais
poderia se moldar no estudo das propriedades formais (ou semân­
ticas) da lógica ou das linguagens artificiais” (p.83).

O objetivo principal de Chomsky é invalidar a ontologia lógico-gra­


matical dos camapianos para garantir a existência autônoma de um fun­
cionamento gramatical da língua, cujas propriedades estão, na época,
ainda muito próximas do estruturalismo de Harris. Sob muitos aspectos,
pode-se mesmo dizer que Structures syntaxiques* constituirá a formata­
ção dos resultados lingüísticos do estruturalismo (salvo em alguns pon­
tos, como a ambigüidade): Chomsky absorve, assim, provisoriamente,
um certo aspecto do estruturalismo lingüístico3 e usa todas as suas forças
contra o seu adversário principal de então, apoiando-se em argumentos
antilogicistas que não desautorizariam os minuciosos filósofos da lingua­
gem da Escola inglesa: em diversas questões sensíveis, entre as quais o
estatuto da sinonímia, a não-congruência entre a inferência lógica e as
transformações gramaticais, o funcionamento “ilógico” dos conectores
e, ou, se...então, e os quantificadores na linguagem quotidiana, Chomsky
decide questionar a posição logicista na base de notações descritivas muito
próximas as da filosofia analítica; ele coloca o projeto de gramática lógi­
ca em situação instável diante das sutilezas das línguas naturais, mos­
trando que uma lingüística com pretensão científica não pode permitir-se
negligenciá-las.
À sua maneira, Chomsky enuncia, assim, a distância paradoxal entre
o objeto real da lingüística e o objeto de conhecimento que essa disciplina
se propõe construir: é nessa recusa inicial do logicismo puro, nessa sen­
sibilidade à relação ambígua que a lógica simbólica mantém com a teoria
lingüística que reside, antes de mais nada, toda a parte de materialismo
da empresa chomskiana. A materialidade da língua só consente em se
representar no materialismo de uma escrita com a condição expressa de
não se identificar com ele4.
Convém, portanto, não se enganar sobre a significação inicial das
referências de Chomsky: se é bem verdade que as construções teóricas
baseiam-se muito nos trabalhos de Post sobre os fundamentos das mate­
máticas (1949)5, não se trata, inicialmente, de uma modelização lógica
da língua. A representação das “estruturas profundas” (com a ajuda das
arborescências determináveis no interior das máquinas abstratas chama­
das de Türing) constitui a aplicação de uma hipótese lingüística, e não a
criação de uma língua lógica artificial6. Na perspectiva chomskiana ini­
cial, o lingüista só constrói sistemas lingüísticos artificiais na exata me­
dida em que um físico descreve o comportamento de objetos idealizados
em um mundo artificial; trata-se, portanto, de idealização e não de mo­
delização.

NOTAS

1. Esse jogo com as palavras marca bem o que está em questão aqui: para os teóricos da lógica
matemática, a decidibilidade remete à existência de procedimentos algorítmicos que
permitem para toda expressão bem formada decidir se ela é um teorema (entendido
como enunciado verdadeiro), a consistência designa a impossibilidade que um sistema
contenha ao mesmo tempo a titulo de teorema um enunciado e sua negação, a comple-
tude representa o que perde um enunciado consistente quando se introduz um enunciado
não decidível. Os lingüistas interpretarão a decidibilidade como capacidade de um enun­
ciado ser caracterizado como gram atical ou não gram atical, a consistência como a
coerência de um sistema de notação lingüística, e a completude como a propriedade desse
sistema poder dar conta de todos os enunciados caracterizados como gramaticais.
2. Langages, 2, p. 38
3. Chomsky comentou retropesctivamente o compromisso absorvente que ele então se
atribuiu: nos Dialogues [Chomsky, N., Ronat, M. Diálogos. SP: Cultrix, 1983], ele
evoca os procedimentos de descobertas do estruturalismo americano, dizendo que era
possível interpretá-los como a teoria que, aplicada ao corpus, produz a gramática. Essa
abordagem, im plícita no trabalho do estruturalism o, é precisamente o que Chomsky
absorveu na sua própria posição, independentemente da opinião dos estruturalistas, e,
mesmo, totalm ente contra essa opinião: “R epito, não é a interpretação deles, é a
minha. Creio que ela é legítima, mesmo se ela entra em contradição com o que eles
mesmos pensavam de seu trabalho”.
4. A posição de Chomsky consiste, portanto, em uma suspensão metodológica do julgamento,
referente à relação entre língua e lógica. Diante dos formalismos lógicos existentes na
época do debate com Bar-Hillel, ele se contenta em indicar sua inadequação. Mas a sofisti­
cação e a diversificação dos sistemas lógicos construídos pelos lógicos contemporâneos
deixa, apesar de tudo, aberta a possibilidade que, na família dos sistemas lógicos, um deles,
um dia, revele-se adequado à estrutura da língua: Chomsky não questiona a própria idéia da
existência de direito de uma lógica adequada à língua.
5. Eles mesmos inscritos na linhagem dos Principia mathematica, de Russell.
6. Mesmo se os lógicos puderam, em seguida, reapropriar-se da sua estrutura com o nome de
gramáticas de Chomsky. Iniciativa à qual Chomsky dá o seu aval (cf. Gross e Lentin.
Prefácio. In: Gramáticas formais).
* NT: [Chomsky, N. Estruturas sintáticas. Lisboa: Edições 70, 1980].
3. POPPER EM CHOMSKY
No estudo dos campos em que se desenvolve a reflexão de Chomsky,
não é possível não se deter diante da fiança epistemológica que constitui,
para ele, o trabalho de Karl Popper: daí provém um certo número de
conceitos dos quais ele faz uso; daí, mais do que do neopositivismo car-
napiano, provém a referência à física.
Popper apresenta-se, em relações ambíguas de proximidade e de oposi­
ção ao neopositivismo, como um crítico de dois dos aspectos fundamentais
da corrente neopositivista: a noção de observável e a teoria da indução.
Popper critica o recurso que os neopositivistas fazem aos observáveis
pelo viés dos enunciados protocolares (o sujeito N, no tempo t e no lugar
x, observou que P): eles permanecem fechados em “dados dos sentidos”,
numa maneira psicologista de abordar a questão do conhecimento cientí­
fico: pois, de fato, é impossível trazer o conhecimento até a sua fonte
observacional.
É igualmente de um questionamento do psicologismo que se trata, na
critica da teoria da indução: Popper sustenta que uma nova época do
conhecimento científico não se abre jamais pelo encontro de um fato, mas
pelo enunciado de um problema, no qual é questionada uma teoria já
existente. Diante desse problema, é necessário construir uma nova teoria,
capaz de propostas suscetíveis de serem experimentadas, o que fornece
um critério de avaliação da potência comparada das teorias em causa.
Portanto, não se trata mais de indução e de verifícabilidade, mas de false-
abilidade, na medida em que nós não podemos pretender ter um domínio
total e minucioso de todos os fenômenos do mundo: não se pode nunca
mostrar que uma teoria é verdadeira, mas simplesmente falsificá-la. Uma
teoria ainda não falsificada é considerada verossímel.
A distinção neopositivista clássica entre “enunciados dotados de sen­
tido” e “enunciados desprovidos de sentido” é, portanto, desde então,
deslocada para a oposição “enunciado científico” (porque falsificável) e
“enunciado não-científico”.
Essa modificação designa, na reflexão de Popper, um ponto materia­
lista indiscutível: o lugar do erro, dessa maneira é atribuído um estatuto
central em um processo de conhecimento científico.
Entretanto, os elementos materialistas dessa posição não impedem
necessariamente de ver a que ponto ela permanece prisioneira daquilo
mesmo que critica: a posição do neopositivismo. Permanece prisioneira
na evidência de que o pensamento é, por essência, subjetivo, na idéia de
um método da ciência e na concepção da experiência científica como
método, abrindo para o formalismo dos mundos possíveis, cujo mundo
real seria apenas um caso particular. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que
a epistemologia popperiana apresenta-se como uma reconfiguração (mais
sutil) do dispositivo neopositivista.
Tanto para Popper quanto para Camap, mas segundo uma modalida­
de bem diferente, o modelo científico de referência é a física.1
Chomsky é um popperiano consistente: pode-se perguntar por que
esse epistemólogo de idéias políticas tão diferentes das suas, que fala tão
pouco da língua, interessa-o a ponto de lhe servir de referência na consti­
tuição de um modelo gramatical.
A ausência em Popper de toda teoria da língua constitui, paradoxal­
mente, uma superioridade de Popper sobre Camap, pois Camap tem uma
teoria da língua, uma teoria lógica da linguagem, que, em princípio, subs­
titui, com vantagens, o lugar das teorias lingüísticas, se é que lógica e
lingüística têm o mesmo objeto.
Por outro lado, Chomsky tinha uma posição antibehaviorista em psi­
cologia. Um dos seus primeiros escritos, em 1959, é Une revue du com-
portement verbal de Skinner, um panfleto bastante violento em que ele
começa a afirmar as posições mentalistas que vão se tomar, posterior­
mente, seus pressupostos psicológicos e filosóficos; do mesmo modo, em
todos os seus primeiros trabalhos, a crítica ao behaviorismo lingüístico,
julgado intrinsecamente incapaz de dar conta de um certo número de
características da linguagem natural, ocupa um lugar importante2. Esse
antibehaviorismo vai ao encontro do antisubjetivismo popperiano: do
mesmo modo que o físico não pode se deter só diante dos observáveis, o
lingüista também não atinge o essencial da língua apenas pelo exame dos
dados imediatos.
Enfim, o terceiro ponto sobre o qual o modelo popperiano aparece
como superior ao modelo camapiano é o contexto epistemológico, o lu­
gar da experiência. Ao empirismo subjacente ao logicismo camapiano
opõe-se a escolha popperiana por um racionalismo científico em que a
experiência, longe de ser a simples percepção de dados acessíveis aos
sentidos, toma-se o teste das potencialidades de uma teoria: as diferentes
teorias buscam induzir-se mutuamente ao erro, de maneira a realçar o
verossímel.
É, portanto, numa perspectiva essencialmente popperiana que Chomsky
vai introduzir um certo número de traços de sua teoria. A oposição entre
duas disciplinas (a lógica e a física), entre duas concepções científicas (o
modelo de Aristóteles e o de Galileu), ele vai acrescentar a oposição entre
dois objetivos reservados à ciência e a oposição entre dois modos de
raciocínios científicos.
A oposição entre os dois objetivos da ciência, a descrição e a explica­
ção, é um lugar comum da epistemologia. Ela permite a Chomsky rele­
gar as outras teorias (essencialmente o estruturalismo3) a uma concepção
taxinômica, enquanto que ele tem como objetivo a explicação à sua pró­
pria teoria4.
Explicar refere-se, antes de tudo, à relação que uma teoria introduz
entre a representação e os dados. Chomsky fará passar essa relação pela
noção de idealização, concebida através de uma comparação com a físi­
ca: uma atitude científica impõe uma abstração, um afastamento de cer­
tos “fatores não pertinentes” (1977, p.75). “Vocês devem abstrair um
objeto, vocês devem eliminar os fatores não pertinentes. Nas ciências
exatas, esse princípio não é nem mesmo discutido, ele é evidente. Nas
ciências humanas, por causa de seu nível intelectual muito fraco, conti-
nua-se a questioná-lo. É triste. Em física, vocês idealizam, talvez esque­
cendo algo de terrivelmente importante. É um dado histórico, não se deve
preocupar com isso5.”
A explicação e a abstração encontram-se igualmente na questão do
modo de raciocínio, a partir do abandono do imediatismo da observação
que conduz à hipótese das estruturas profundas. É na oposição estrutura
de superfície/estmtura de profundidade que repousa, particularmente, o
desafio da formalização, pois não poderia ter formalização da estrutura
de superfície, a não ser que formalizada e distintiva, como o faz o estru­
turalismo.
Embora a observação imediata não seja o objetivo do estudo, as pro­
priedades da língua não dão conta dos dados observáveis: ao contrário do
que se passa com o estruturalismo, em que a representação pode ser cha­
mada de “os próprios dados considerados do ponto de vista da distintivi-
dade”6, só são propriedades as características dos dados que não são
definitórios.
A oposição entre os dois tipos de gramáticas sobre o emprego da no­
ção de propriedade em um raciocínio aparece no uso que ambas fazem do
exemplo. O exemplo na G.G.T.7 aparece, na ilustração da conduta, como
o representante de uma classe, com o apoio de uma propriedade ou de
uma hipótese exposta em intensão, contrariamente à sua função numa
gramática de Harris que vise à extensão, que trabalha a partir de listas, e
onde a noção de exemplo se dilui na de ocorrência.
As propriedades que, pelo próprio fato de não darem conta dos obser­
váveis, são em número teoricamente ilimitado, organizam-se em hipóte­
ses logicamente não necessárias, das quais não se pode prever as inci­
dências, o que dá lugar, desde então, à verificação empírica e a eventuais
refutações: as “predições”8 seriam realizadas nos fatos? “Explicar os
dados”, isso significa, então, construir uma representação formalizada e
hipotética, cujos observáveis aparecerão como efeitos, construir uma gra­
mática sempre em princípio passível de revisão e jamais exaustiva.
Trata-se, realmente, de um raciocínio sobre a língua, que toma a for­
ma particular de uma argumentação hipotético-dedutiva. A “dedução”
supõe, tanto quanto a hipótese, a passagem pela teoria: mesmo quando os
argumentos são empíricos, as conclusões são em grande parte determina­
das pelos postulados, estabelecendo o contexto teórico inicial. Daí o lu­
gar e a importância atribuídos à homologação empírica9.
A peça principal de um raciocínio assim constituído é, evidentemente,
a falseabilidade: não está em questão a evidência de axiomas, mas postu­
lados. O apelo à verificação empírica assim realizado faz com que nunca
o sistema possa funcionar como uma axiomática, construída unicamente
sobre critérios internos.
Assim são estabelecidas as hipóteses fundamentais da teoria, que
não vão variar do primeiro modelo aos mais recentes desenvolvimentos
(o que Nique [1978] chama de hipóteses maiores): o nível frásico, a
dependência estrutural (a língua como conjunto ordenado de frases, em
que cada tipo depende dos outros) e a estrutura abstrata (relação abs­
trata porque indireta, supondo a hipótese gramatical, entre as frases).
Duas conseqüências consideradas como propriedades da língua deri­
vam dessas hipóteses: o objeto língua não pode ser corretamente apre­
endido fora de uma distinção entre estruturas profundas e estruturas de
superfície; a relação entre os dois níveis é exprimível por meio de trans­
formações.
O principio de autonomia da sintaxe, que constitui uma das constan­
tes fundamentais do empreendimento de Chomsky, é ao mesmo tempo a
fonte e a conseqüência desse esquema: entre o nível da materialidade
(fônica e gráfica) e o nível da significação, não se pode não aventar a
hipótese do nível da sintaxe, que constitui o princípio explicativo desse
estabelecimento de relações10.

NOTAS
1. A física é o domínio privilegiado, se não único, da reflexão epistemológica de Popper,
desde a Logique de la découverte scentifique (1934). até La Connaissance objecrive
(1972). [Popper, K. O conhecimento objetivo. SP: Itatiaia Ed.].
2. Mesmo se for, parece-nos, o comentário muito ‘europeu” que nos faz Ruwet (1968), que
vai contribuir para a interpretação desse primeiro Chomsky como um empirista susen-
tando o combate sobre pontos de língua.
3. Transformar o estruturalismo, ou mesmo sua versão distribucionalista, em um simples
fenômeno de listas procede da redução, até mesmo da deformação interessada. Quanto
ao trabalho do próprio Saussure, vimos que as dificuldades que o estruturalismo europeu
pôde encontrar posteriorm ente não esgotavam, de maneira alguma, o seu interesse.
Notemos, entretanto, que, nessa via, o próprio Chomsky vai muito menos longe que o
farão seus diferentes comentaristas (Bach, 1966, Ruwet, 1968, ou Nique, 1974, para
tomar apenas alguns exemplos entre os mais conhecidos) [Nique, C. Iniciação metódica
à gramática gerativa. SP: Cultrix, 1977]: ele apenas esboça a via de uma reconstituição
imaginária da história da lingüística em fase em que se recolhem os dados e fase em que
eles são explicados (ver, por exemplo, Le Langage et la Pensée) [Chomsky, N. Lingua­
gem e pensam ento. Petrópolis: Vozes, 1971],
4. O termo “explicar” não é desconhecido da reflexão gramatical. Classicamente, ele remete
a uma questão de origem (por exemplo, na etimologia) ou a uma interpretação dos erros,
os dois supondo a passagem por uma certa lógica da lingua. E claro que esse termo não
tem, de modo algum, o mesmo sentido em Chomsky.
5. Pierre Kuentz (1977) fornece elementos de reflexão sobre a idealização em lingüística
como atitude científica. Ele opõe experiência a experimentação (em que se pode “levar
em consideração tudo o que não se pode levar em consideração”) e apresenta, assim, a
questão da natureza do objeto-língua, onde a experimentação não é possível. A gramática
gerativa só se apóia, portanto, nas práticas da gramática. Por outro lado, para uma
critica da “visão empirista do conhecimento”, expressa aqui por Chomsky, ver Althus-
ser, L. e Balibar, E. Lite le Capital, p. 39-45 [Althusser, L., et al. Ler o capital. RJ: Zahar,
1979/1980].
6. Milner, 1973, p. 23.
7. Kuentz (1977, p. 115) mostrou que o “exemplo de gramática é muito menos “abstrato”,
muito m enos “descomprom issado” do que os partidários e adversários da gramática
gerativa gostariam de fazer crer.” Além dos que são oriundos de uma longa tradição
gramatical, ou das instruções ministeriais em matéria de escolaridade, os exemplos da
GG.T. fazem efetivamente apelo a referências literárias (ex.: Ruwet, 1972 e 1979), a um
quotidiano banal (ex.: Chomsky, Deep Structures). a saberes ideológicos ou políticos que,
em princípio, teríam os em comum, autores e leitores de gramáticas gerativas (ex.:
Lakoff, 1970). Essa pretensa abstração nada mais é. portanto, do que um certo modelo
sociocultural.
8. Daí o sentido de “projetivo”, que vem completar “explícito” na significação do termo
“gerativo” : trata-se de projetar as propriedades organizadas num corpo de hipóteses no
conjunto infinito das fases da lingua.
9. Um exemplo muito simples, visando a ilustrar ao mesmo tempo o interesse dessa homo­
logação no estabelecimento de uma regra e a utilização feita no raciocínio das impossi­
bilidades da lingua. Por exemplo:
1) Pierre encontrará Maria.
2) Quem Pierre encontrará?
3) A razão pela qual Pierre encontrará Maria é um segredo.
4) *Quem a razão pela qual Pierre encontrará é um segredo? A impossibilidade de (4) faz
pensar que a extração do objeto em uma questão quem...? só é possível numa frase
simples. Essa instauração do impossível-na-língua, no raciocínio de Chomsky, encontra
a noção popperiana de experiência de pensamento, que pensa nas conseqüências de uma
dedução levada até ao absurdo (neste caso: se funciona numa frase simples, por que não
funcionaria numa frase complexa?).
10. Se toda a idéia de gramática ou de teoria lingüística supõe a relação entre o som e o
sentido, a hipótese de um nivel intermediário não é automática. Assim, para Saussure, a
relação fundamental é expressa de modo imediato, pela relação entre significante e
significado no signo.
4. DEUS INFINITO CRIOU O
MUNDO FINITO

A relação do projeto chomskiano com as perspectivas da física não


implica que o projeto lógico-matemático esteja ausente, ou que ele possa
ser limitado só pela forma das questões de escrita. A posição popperiana
de Chomsky permite um camapianismo dominado (e negociado) que
contribui para a orientação do empreendimento, numa relação dupla com
o modelo da física e com o modelo da lógica matemática.
Nos termos da epistemologia contemporânea dominante, poder-se-ia
dizer que acontece aqui uma hesitação teórica entre diversos tipos de
modelos. A inflação dos sentidos desse termo remete:
- às representações operatórias da teoria física (cuja forma exem­
plar clássica é constituída pelo modelo planetar do átomo de Bohr);
- às construções axiomáticas da lógica matemática (por exemplo, o
modelo axiomático da geometria euclidiana);
- às montagens materiais simulando um processo ou reproduzindo-
o (modelos elétricos de processo, industriais ou outros);
- aos dispositivos simulando ou suprindo uma função biológica (rim
artificial, por exemplo).
A função tendencial dessas diferentes significações não impede de
interrogar as suas repercussões: a referência aos modelos de tipo físico
sustenta, no chomskismo, o projeto de construir imagens plausíveis, ide­
alizações eficientes suscetíveis de “darem conta” da opacidade do real da
língua. Trata-se, desde então, de construir experiências e não de “proce­
dimentos de descoberta”, baseados na prática da sondagem: este é um
ponto de ruptura decisivo com a lingüística estrutural.
Se, portanto, a lingüística gerativa é determinada pela especificidade
de um real opaco, essa heteronomia teórica supõe, ao mesmo tempo, o
modelo autônomo de um procedimento de construção. Constrói-se uma
série de dispositivos artificiais (máquinas teóricas) para que sua rentabi­
lidade epistemológica diferencial possa ser avaliada. O objetivo que uma
gramátiva gerativista procura (modestos procedimentos de avaliação, e
não procedimentos de descoberta) supõe, portanto, uma tecnologia de
construção de máquinas gramaticais, cada uma constituindo um protóti­
po numa série; cada protótipo caracterizar-se-á, como um autômato in­
dustrial, pelos graus de liberdade que o seu mecanismo supõe, e pelas
limitações que lhe servem de guia.
E nesse ponto que a G.G.T. encontra a noção de modelo matemático,
como forma mais “abstrata”de um sistema mecânico de pressões. Poder-
se-ia dizer que Chomsky, assim, negociou com a tentação fdosófíca de
constituir uma axiomática lingüística; a construção de uma série de es­
critas sintáticas permite-lhe não ceder imediatamente à não transparência
da materialidade lingüística, garantindo e desenvolvendo de maneira
coerente o princípio de autonomia da sintaxe.
A ligação da G.G.T. com o espaço dos modelos lógico-matemáticos
passa, assim, pela noção de poder de geração: a sintaxe (no sentido lógi­
co-matemático do termo) é da ordem da combinatória e do recursivo,
sintetizável sob a forma de regras de construção reiteráveis. O momento
da geração das regras tem, portanto, exatamente a forma de uma axiomá­
tica (axioma-frase, algoritmos de reescrita) sujeita aos critérios lógicos
de coerência e de não-contradição, mas esse momento conserva a função
de um postulado no interior de procedimentos de avaliação. Pode-se, des­
de então, supostamente conceber a língua como um sistema de regulari­
dades, inscrito no horizonte da consistência (condição de uma descrição
não contraditória) e da completude (princípio exigindo que o todo do
sistema possa originar-se da descrição).
Esse benefício teórico paga-se com uma pesada contribuição entre a
especificidade da materialidade lingüística e esse espaço lógico-matemá­
tico. Em lógica matemática, à sintaxe (enquanto teoria reguladora do
poder de geração das fórmulas) é acrescentada uma semântica, interpre­
tando o conjunto das fórmulas elaboradas, projetando-as no conjunto
bivalente das marcas verdadeiro/falso: os teoremas verdadeiros são, as­
sim, filtrados entre todas as expressões sintaticamente bem formadas.
Ora, a introdução da composição semântica, ao lado do princípio combi­
natório e recursivo da sintaxe, supõe, em matemática, que à teoria forma­
lizada gerada pela sintaxe possa corresponder um setor matematizado
que a interprete, constituindo-a como seu modelo (assim, o espaço eucli­
diano ordinário da intuição constitui um modelo para a teoria formaliza­
da da geometria euclidiana).
Trata-se de um processo completamente diferente quando os gramáti­
cos gerativistas “interpretam” uma sintaxe, projetando-a no espaço se­
mântico bivalente do aceitável/inaceitável, que, em princípio, equivale,
para os enunciados lingüísticos, ao que a dupla bivalente verdadeiro/
falso represente em relação aos enunciados matemáticos: mas como se
pode, assim, fazer a analogia entre “teorema verdadeiro” pela “frase acei­
tável”? Parece que só pode ser ao preço de retomo injustificável do con­
ceito matemático de modelo, pelo qual um sistema formal (uma sintaxe
6G.T., por exemplo) se tome o “modelo” de uma realidade empírica
(por exemplo, a competência do sujeito falante).
O grande vencedor, assim liberado nesse retomo, é essa ideologia
empírico-formalista constitutiva das C.H.S., da qual A. Badiou pôde di­
zer:
“No seu discurso [...], “linguagens formais” e “fatos empíricos” são
confrontados como duas regiões heterogêneas. Que as segundas sejam
eventualmente “modelos” das primeiras permite “pensar” o confronto
como relação. Mas, precisamente, em matemática, o dispositivo formal é
aquilo pelo qual, surgindo como modelo, uma região matemática é trans­
formada, testada, experimentada quanto ao estatuto de seu rigor ou de
sua abrangência. É inconcebível que uma tal transformação seja a de
outra coisa diferente daquilo que, sendo sempre já matemática, é seman­
ticamente considerada suscetível de se articular ao dispositivo sintáxico.
É porque é ele próprio teoria materializada, resultado matemático que o
dispositivo formal pode entrar no processo de produção dos conhecimen­
tos matemáticos; e nesse processo o conceito de modelo não designa um
aspecto exterior a ser formalizado, mas um material matemático a ser
testado1.
Essa analogia (que trata, por exemplo, a língua como se ela consistis­
se no “sempre já matematizado”) leva, portanto, a mergulhar, de novo, o
lingüista na ideologia filosófica das ciências humanas: o humanismo car­
tesiano atribuía à alma meios finitos em relação às idéias construídas
pelo entendimento e uma capacidade infinita de julgamento, na medida
em que o julgamento só pode dizer sim ou não, aceitar ou recusar a ver­
dade de uma idéia ou outra apresentada pelo entendimento. A sintaxe do
entendimento cartesiano é, em suma, sujeita ao princípio semântico do
julgamento, e a filosofia chomskiana não exprime outra coisa sobre esse
ponto: a partir de Aspects', a figura do poder regulamentado vai se trans­
formar, e a criatividade se substituir à recursividade. A dialética do finito
e do infinito se desloca, assim, desde o campo da lógica matemática até o
do discurso humanista: partindo de uma descrição da língua como poder
de um sistema capaz de infinito, Chomsky chega à noção teológica do
feliz agenciamento das pressões como expressão da liberdade humana2.
Ao mesmo tempo, o princípio de expressão do infinito na língua sofre
uma modificação técnica decisiva: de propriedade das transformações,
ela se toma uma propriedade da base.
Esse deslocamento teórico, que é marcado pelo aparecimento da refe­
rências filosóficas a Descartes, Port-Royal e Humboldt, assinala, no
chomskismo, a passagem tendencial de uma teoria da língua para uma
teoria da natureza humana, de uma teoria logicista do sistema como su­
jeito, para uma teoria humanista do sujeito-sistema.
Assim, engaja-se na filosofia da G.G.T. um segundo uso do termo
“modelo”, remetendo, não ao espaço lógico-matemático, mas ao da si­
mulação dos procedimentos biológicos. A atividade de construção de es­
critas, de sintaxes e de máquinas lingüísticas, assume, desde então, uma
nova direção: orienta-se para a construção de autômatos, no sentido car­
tesiano do termo, ou seja, de animais-máquinas, passíveis (ao menos por
uma ou outra de suas funções) de simular a vida, como a bomba simula o
coração. Assim, Ruwet (1968, perfeitamente, coerente, sobre esse ponto,
com a perspectiva chomskiana) definirá a gramática como “um conjunto
de instruções explícitas, um algoritmo que constitui um modelo hipotéti­
co da competência lingüística do sujeito falante” : a fusão tendencial entre
os diversos tipos de modelos (resultando dos desenvolvimentos conjuntos
da lógica matemática, da informática, da teoria das linguagens artificiais
e do automático de simulação) suscita uma renovação dos projetos ciber­
néticos dos anos cinqüenta, visando à construção de cérebros artificiais
dotados de pensamento e de linguagem.
Trata-se de construir, a partir daí, um dispositivo cuja autonomia apa­
rente (após sua construção) reproduza ao máximo as propriedades de
auto-regulação, de autocontrole, de autodesenvolvimento e até mesmo de
auto-reprodução do organismo vivo. No nível do pensamento e da lin­
guagem, isso supõe separar-se, o máximo possível, na concepção de um
dispositivo, o tempo da sua construção (programação, armazenamento
de uma competência) e o da realização efetiva (finalização de suas fun­
ções, performance), com, no horizonte, uma “passagem para o infinito”
(a expressão é de G. Canguilhem), no qual o construtor apagar-se-ia
completamente por trás da sua construção, tendendo a fazer dessa última
um verdadeiro processo neurobiológico. Supremo narcisismo...
Há, aqui também, um “benefício teórico” inegável, devido à inscrição
do infinito no próprio interior da linguagem, como propriedade estrutural
dessa última: o aspecto criativo da linguagem aparece, a partir daí, na
gramática, e não mais como no estruturalismo, numa realização da sub­
jetividade e da liberdade humanas. Chomsky introduz aqui um elemento
teórico capital que contrapõe a concepção da língua como ferramenta
inconsciente. Mas, simultaneamente, e de maneira contraditória, o fan­
tasma filosófico de totalização3, o narcisismo teórico da passagem ao
infinito aparece como o preço a pagar. O projeto de uma teoria da lingua­
gem sem resto nem defasagem, parcialmente desfeito por Chomsky no
nível lógico-matemático, reaparece no da construção abstrata de meca­
nismos de inteligência artificial aplicados à linguagem humana.
Através dessa rede de contradições, o destino da lingüística parece ser
o de uma ciência-limite, ou de uma ciência dos limites, considerada entre
o ideal da ciência e a teologia: J.-C. Milner indica (entrevista na Action
poétique, n° 72) que, se relacionarmos a lingüística ao espaço da ciência
física, só podemos compará-la à cosmologia, onde a exclusão do sujeito
da ciência (observador fora do universo) se desfaz, embora se mantendo.
Do mesmo modo, Culioli (1968) convida a uma reflexão sobre a rela­
ção entre objeto, modelo e observador, salientando a existência de “pon­
tos de resistência” que a lingüística pode oferecer à sistematicidade, ao
rigor, ao explícito... a tudo o que a aproxima da física: o fato de que a
metalinguagem seja considerada na língua de uso, que a linguagem su­
ponha uma perpétua atividade epilingüística (assim como uma relação
modelo/realização), que uma concepção utilitária da linguagem como
produtora de sentido num instrumento de comunicação entre sujeitos uni­
versais fracassa na relação de interioridade-exterioridade que o sujeito
mantém com a língua. Assim, o código não é bijetivo, pois supor uma
relação biunívoca seria deixar de lado fenômenos como o mal-entendido,
a metáfora, o lapso: “uma das propriedades da linguagem humana é a de
se prestar à axiomática euclidiana e à imagem poética”4 (p. 108).
Poder-se-ia fazer constatações análogas quanto à relação da lingüísti­
ca com a lógica matemática, através do fato paradoxal de que a existên­
cia histórica das metalinguagens especializadas repousa na impossibili­
dade estrutural de referir a própria língua a uma metalinguagem que a
fundaria.
Chomsky encontrou esse paradoxo na sua prática de lingüista, diante
dos ideais contraditórios da física e da lógica: apesar da circulação ideo­
lógica da noção de código, importada das teorias da informação, trans­
posta à biologia molecular, e voltando, agora, pelo viés da gramática, a
regra lingüística só pode ser identificada a um código pré-construído. Ela
supõe, para ser estabelecida, a construção de experiências falsificáveis, e
não a referência a estruturas biológicas que, supostamente, a garantam,
a priori.
A contradição do chomskismo revela-se, aqui, entre o cuidado em
construir protótipos gramaticais (parciais, portanto, experimentáveis) e
a tentação de um recurso narcisista infalsifícável aos ideais totalizantes
da biologia, cujos efeitos veremos bem mais longe.

NOTAS

1. Le concepl de tnodèle, Maspero, 1969, p. 58 [Badiou. A. Sobre o conceito de modelo.


SP: Mandacaru, 1989].
2. “A imagem de um espirito, inicialmente não pressionado, espalhando-se livremente em
todas as direções, sugere, à primeira vista, uma concepção rica e otimista da liberdade e
da criatividade humanas, mas creio que isso é um erro. Russell estava certo quando
intitulou o seu trabalho de La connaissance humaine: son champ ei ses limites [NT:
Russell, B. O conhecimento humano: sua finalidade e limites. SP: Ed. Nacional, 1958],
Os princípios do espírito fornecem tanto o dominio quanto os limites da criatividade
humana. Sem tais princípios, a compreensão científica e os atos criativos não seriam
possíveís"(Knowledge and Freedom, Panthéon, New York. 1971, p.49).
3. Structures sxntaxiques deve seu rigor e se caráter formalmente sedutor de ser (o que
Chomsky não refará nunca mais) uma teoria total da língua (tão “completa” quanto uma
gramática tradicional). A partir de Aspects, è no plano filosófico que se manifesta o
princípio de totalizaçâo.
4. Culioli toca aqui no ponto em que a linguística tende a “desperdiçar os poetas”...
* NT: [Chomsky, N. Aspectos da teoria da sintaxe. Coimbra: A. Amado Editor, 1975]
5. A AMBIGÜIDADE COMO PARÓDIA
DO EQUÍVOCO

O antifuncionalismo militante de Chomsky sempre se opôs à concep­


ção da linguagem como instrumento de comunicação, através de uma
disjunção entre estrutura e função (ver, por exemplo, a polêmica sobre
Searle e Strawson em Réflexions). Um dos seus argumentos para dizer
que a linguagem não é feita para ser útil, mas é simplesmente uma propri­
edade da espécie humana, recaiu durante muito tempo sobre a questão da
ambigüidade, característica fundamental, mas antifuncional ao possível,
da linguagem humana.
A ambigüidade não constitui, entretanto, um conceito chomskiano
propriamente dito. Em Structures syntaxiques, o único modelo que lhe
atribui um lugar teórico real, essa questão é abordada quase unicamente
em “O poder explicativo da teoria lingüística”, ou seja, quando a teoria já
está constituída sobre outras bases. Desde Aspects, o termo não faz mais
parte do aparelho teórico, e, na reconstituição parcialmente imaginária
que Chomsky dá da história da G.G.T. nos Dialogues, a ambigüidade
não é jamais citada como elemento que tenha podido confortar a distin­
ção entre estruturas de superfície e estruturas profundas. Muito rapida­
mente, com efeito, o problema essencial que Chomsky apresenta é a
formalização da estrutura profunda: nesse domínio, a ambigüidade cons­
titui apenas um fenômeno pontual e idiossincrático considerado como
puro sintoma, uma conjuntura de discussão. Em compensação, ela conti­
nuará a ser utilizada no plano do combate filosófico (por exemplo, em
Problems o f Knowledge and Freedom).
O destino reservado à ambigüidade não é exatamente o mesmo na
“leitura européia” de Chomsky, inaugurada na França por Nicolas
Ruwet1, em que a ambigüidade toma-se um critério de adequação das
gramáticas, lutando a favor da hipótese das estruturas profundas.
A questão da ambigüidade parece-nos apresentar um duplo interesse:
primeiramente, como ponto em que se faz a recuperação (tarde demais)
de alguns traços da tradição européia, de Aristóteles a Port-Royal2, em
seguida, como marca de oposição aos lógicos, pela designação de pontos
na língua que resistem a um tratamento lógico: é um ponto essencial da
diferença entre “língua natural” e “linguagem artificial”.
Ruwet se mostra sensível ao interesse da ambigüidade, mas segue a
tendência chomskiana na apresentação que faz dela: a ambigüidade é um
pequeno problema que “representamos”, do qual “damos conta”, que
“levantamos”, que “explicamos”, que “resolvemos”, num mundo lógico
reduzido, tratado em termos semânticos e/ou lógicos. Além das ambigüi-
dades “resolvidas” pela análise em constituintes imediatos e que não en­
contramos nunca a não ser em exercícios universitários (eu fotografo as
crianças diante do banco ou eu recebo um vaso de China), as ambi-
güidades destacadas constituem aporias do estruturalismo e supõem a
passagem pelas estruturas profundas. Elas tratam de construções como
o predicativo do objeto {achei esta fruta deliciosa) ou do genitivo obje­
tivo ou subjetivo {a critica de Chomsky, o ódio dos judeus). As exten­
sões posteriores (na gramática dos casos ou na semântica gerativa) não
modificarão essa concepção inicial.
Desfazer a ambigüidade supõe aceitar a evidência, segundo a qual é
um ou outro, e, principalmente, não os dois ao mesmo tempo ou outra
coisa completamente diferente: a língua não pode tolerar o incerto, ou
dizer duas coisas ao mesmo tempo. O ódio dos judeus é ou o que nós
sentimos por eles, ou o que eles sentem pelos outros, mas nunca um com­
posto dos dois ou o que eles podem experimentar por si mesmos (cf. K.
Kraus, o anti-semita judeu apesar dele mesmo).
C. Haroche conseguiu mostrar (1978, p. 34 e subseqüentes) como, em
ambigüidades estabelecidas com justificativas perfeitamente gramaticais,
deparávamo-nos com categorias jurídicas apresentando a questão do su­
jeito: a oposição sujeito/objeto (os trabalhadores maghrebinos pertur­
bam o bairro - pelo que eles são ou pelo que fazem; Jean quebrou a
vidraça - passando através dela ou com um martelo); a identidade (o
presidente julgou as crianças culpadas; primeiro sentido: as crianças
que são culpadas; segundo sentido: ele julgou que elas eram culpadas3; X
fe z com que Y morresse: voluntariamente ou não); propriedade perma-
nente/propriedade contingente (a perna de John: a que faz parte do seu
corpo, ou a que ele tem sob o braço; os castores constroem diques: eles
são ou não construtores de diques?).
C. Hagège e P. Le Goffic, em perspectivas de crítica à gramática ge­
rativa, avaliam o que Hagège chama de “busca do não-ambíguo” do “ve­
lho sonho lógico-filosófico da língua Ideal”, lugar de clareza por excelên­
cia tanto em Platão quanto em Descartes. Num “mundo lógico reduzido4,
fala-se a partir de um espaço em que é apresentada como primeira a
trilogia transparência/univocidade/regularidade, à qual se opõe tudo o
que não entra nesse esquema: o ambíguo, o ambivalente, o irregular, a
exceção, o vago...o não-nomeado5. Segundo a observação de Le Goffic
(sobre Aristóteles, mas podemos sem dúvida aplicá-la a Chomsky), o
lógico chega a “retificar a linguagem em nome da sua teoria do mundo”;
como Camap, aliás, havia decidido fazer.
Se, portanto, a ambigüidade pode aparecer como um ponto de expres­
são privilegiado do equívoco na língua, é apenas no modo da paródia: ela
é somente um sintoma de uma questão que permanece informulável, uma
aproximação6. Para Chomsky, a noção de ambigüidade é sem ambigüi­
dade.
Aliás, a ambigüidade corre o risco de fazer com que a teoria volte ao
que ela deveria permitir evitar, como o mostra o interesse de teóricos da
comunicação: ela arrisca reintroduzir uma interpretação utilitária da
G.G.T. Assim Searle (“Chomsky et Ia Revolution linguistique”) apre­
senta as transformações como realizando uma grande economia na lin­
guagem; a ambigüidade seria apenas o baixo preço a pagar para essa
economia, baixo porque a comunicação passa sempre, salva pelo contex­
to. Searle coloca assim o princípio de economia na própria língua, numa
propriedade do objeto real, enquanto que Chomsky faz dela uma propri­
edade exigida da gramática, uma característica do objeto de conhecimen­
to percebida no nível da teoria da gramática, o que lhe permite a elegân­
cia metodológica de salvar a língua dessa depuração.
A ambigüidade constitui, portanto, um ponto privilegiado da contra­
dição chomskiana: nunca mais Chomsky terá semelhante intuição da es­
pecificidade indiscutível da língua, mas também nunca mais ele ficará
tão próximo de um jogo lógico. É em termos lógicos, com argumentos
lógicos, que ele aborda o que poderia lhe permitir escapar ao logicismo:
daí a paródia.

NOTAS

1. Lembremos que foi em grande parte através da Introduction à la grammaire generative


[Ruwet, N. Introdução à gramática gerativa. SP: Perspectiva, 1975] que os franceses se
iniciam a Chomsky. Parece-nos que sua compreensão de Chomsky sofrerá os efeitos disso,
em função da leitura mais empírica do que logística que Ruwet dará dele. Ruwet apresenta-
se, sempre, muito mais do que Chomsky, interessado pelas questões da linguagem: sua
formação faz dele um “letrado” à européia, mais do que lógico. Observaremos a mesma
ótica no interesse pela paráfrase e pelo desvio.
2. No temos que só seguindo as declarações de Chomsky (principalmente La Linguistique
cartésienne, Seuil, 1969) e as distorções que ele faz da teoria de Port-Royal, como
mostra Pariente (1975), é que podemos conservar como antepassada da estrutura pro­
funda as análises que os senhores propuseram para os relativos ou para os genitivos.
3. Não levaremos em conta aqui um terceiro sentido - fonte de piadas: se o presidente é o
juiz Salomão, ele acha que as crianças devem ser cortadas ao meio.
4. Além do que é mostrado através desse tratamento dado â ambigüidade, parece-nos que a
problemática dos “contrários” origina-se da mesma idéia: é assim com o tratamento inicial
da relação ativo/passivo pela G G T , é assim com relações lexicais como a estudada por
Harris entre comprar e vender, por Lakoff entre dissuadir e persuadir a não, ou por
Chomsky entre to persuade, to intend e to believe, é assim com argumentos dados por
Fillmore para substituir a noção de função pela de caso (João golpeou Paulo e João
recebeu um golpe de Paulo, em que João é sempre sujeito, mas representa um papel
contrário). Não teríamos aí uma velha idéia de lógica na língua, como a que seduziu Freud
em Le seus opposé des mois primitifs? [Freud, S. “A significação antitética das palavras
primitivas”. In: Obras completas, vol. XI. RJ: Im ago.j.As condições da normalização
industrial constituem um equivalente prático dos mundos reduzidos da lógica: nem um
objeto, nem uma parte de objeto que seja munido de um nome codificado exprimindo suas
características diferenciais. Assim, esse mundo de objetos normalizados pode se escrever
exaustivamente, como os mundos fictícios dos lógicos.
5. As teorias poéticas não escapam sempre a esse tipo de distinção. Assim, Jakobson, que
opõe a mensagem poética centrada em si mesmo à mensagem centrada na comunicação
corrente (Essais, cap. 11), escreve: “A ambigüidade é uma propriedade intrínseca, inali­
enável, de qualquer mensagem centrada em si mesma, enfim, é um corolário obrigatório
da poesia,” Baudrillard, recusando essa posição, dirá: “A ambigüidade não é perigosa. Ela
não muda nada no principio de identidade e de equivalência, no princípio do sentido
como valor, simplesmente, ela faz os valores flutuarem, toma as identidades difusas, faz
as regras do jogo referencial ficarem complexas, sem aboli-lo” (p.312). Assim, a separa­
ção é deslocada, mas conservada: a singularidade do poético, sua exterioridade irredutível
não é posta em questão.
6. Aliás, a ambigüidade sempre corre o risco de constituir um lugar de retomo da subjetivi­
dade, uma dificuldade do recurso à intuição; embora um julgamento de gramaticalidade
possa dispensar a intuição semântica, o sujeito falante, tendo que produzir apenas um
julgamento em sim/nâo, o julgam ento de ambigüidade faz intervir o sentido, apesar de
Chomsky ter sempre fornecido justificações sintáticas das análises estabelecidas graças a
um julgamento de ambigüidade. A ambigüidade é sempre ambigüidade para um assunto.
6. O SISTEMA POSTO A NU PELAS
SUAS FALHAS

Acabamos de ver que, se a ambiguidade pode ser entendida como uma


aproximação da dimensão do equívoco, isso não é às custas de uma per­
turbação decisiva na construção chomskiana: ela não constitui nada de
exorbitante à construção teórica e não é, de jeito nenhum, irredutível à
escrita.
Não se trata da mesma coisa com alguns pontos que, após Milner,
chamaremos de “as falhas”, que vêm desfazer a regularidade do sistema
naquilo que é dado como o seu centro: no nó da consistência/completude.
Algumas notas de gramáticos haviam, desde há muito tempo, atraído
a atenção sobre pontos em que a língua não mais pode ser comparada a
um puro sistema lógico: são os pontos que manifestam a presença do
“homem na língua”, segundo as palavras de Benveniste. É assim com o
ne expletivo, assinalado por Damourette e Pichon (do qual Lacan propõe
uma análise “sutil”), é assim com os embreantes estudados por Jakob-
son, e com diversos pontos de “expressão da subjetividade” assinalados
por Benveniste, como o sistema dos pronomes, os indicadores da dêixis,
a expressâojda temporalidade e os verbos de falà^Atenotando, pelo seu
sentido, urnãtõThdivTtlíial riê~afca~nce~sõciar que ele chamará põsteri-
ormèhtê (seguindo Ãustinl de pirformativos. tentando dar um conteúdo
linguístico a essa categoria que permanece semântica (ou sociológica)
ernÃustim —----------
Alguns gramáticos vão explorar essa via de maneira mais sistemáti­
ca, servindo-se da G.G.T. para pesquisar seus pontos de fracasso: assim,
Judith Milner, cujo trabalho se organiza em tomo da interrogação (por
que não?, Wieso? em alemão, em quê? e sua resposta em nada), e
Jean-Claude Milner (os palavrões e insultos, os nomes de qualidades, a
oposição saber que/saber se). Outros trabalhos estudam a especifici­
dade de algumas palavras (como amigo ou vizinho - Pedro é um ami­
go querendo dizer um amigo meu) ou de certos verbos (como parecer
—parece que P querendo dizer parece-me que P).
Por exemplo, J. e J.-C. Milner propuseram (1975) uma análise do
funcionamento da interrogação por que você quer que em diálogos como
o Witz seguinte:
- Mas não está chovendo!
- Por que você quer que chova?
- Já que você tinha me dito que era uma cidade de água...

Partindo das propriedades do interrogativo por quê? e das do verbo


querer em francês, eles mostram que essa fórmula não possui nenhuma
de tais propriedades1.
O fracasso dos testes_sintálicos leva à hipótese de que se trata de um
fenômeno diferente (segundo o raciocínio: dois segmentos têm a mesma
estrutura~sé~ê~ somente se reagirem da mesma maneira aos testes). No
caso presente, os autores decidem aproximar essFfunciõMtTIênfÕdo dos
performativos, do qual ele só difere pela presença de uma segunda pessoa
no lugar em que o performativo comporta a primeira2.
De um ponto de vista semântico, esse performativo de segunda pessoa
teria como função colocar o interlocutor em posição de ter querido sua
__enunciação, e equivale a pedir-lhe justificativa.
Esse exemplo, e os outros assinalados mais acima, têm uma caracte­
rística comum: a impossibilidade em que se encontra o lingüista de recor­
rer ao único sujeifo falante para o.descrever, e a obrigação de ver nele
uma presença do sujeito de enunciação “capaz de desejo èhào simêtfizã-
__vej”3. A existência desses pontos toma contraditórias e não còmplemen-
tares as duas exigências de completude (podemos não íevá-las em con­
ta?) e de consistência (para descrevê-las, é preciso um procedimento de
escrita diferente). ~~ ---- ----------
No estudo de um fenômeno do mesmo gênero (o interrogativo ale­
mão Wieso?), J. Milner propõe considerar o modelo chomskiano não
como “sem objeto”, mas como “muito parcial”. Assim, além das “regula­
ridades da língua, cuja explicação não requer nenhuma referência ao
fato de que a língua seja falada”4, restam duas ordens de fatos a consi­
derar: aqueles que colocam em jogo a existência de um locutor (fatos de
enunciação) e os que põem em jogo dois locutores, diferentes (fatos de
locução). Judith Milner considera desde então a língua como o conjunto
das regularidades dessas três ordens, o que supõe a disjunção do “siste­
mático” e do “homogêneo”.
Essas reflexões apresentam, naturalmente, o problema da representa­
ção gramatical. Os “fatos de enunciação” não são desconhecidos dos
lingüistas, e diversas soluções foram consideradas para representá-los.
André Meunier (“ Observations sur Vhypothèse performative’’'’) faz
um balanço dos diversos tratamentos propostos: além de Bally, Austin,
Reichenbach e Jespersen, Katz-Postal (1964) com os marcadores de
frase Q e I (questão e imperativo) que serão retomados por Jean Dubois
e Françoise Dubois-Charlier (1970) numa análise da frase que distingue
o constituinte da frase do núcleo (solução que apresenta a vantagem de
evitar considerar a assertiva como a forma não marcada); os operado­
res performativos de Harris, apagáveis por transformação, que serão
retomados por Maurice Gross, e a análise de A. Culioli, que distingue um
núcleo de termos relacionais e das operações. Depois, mais recente­
mente, as hipóteses performativas que propõem uma integração global
da “força ilocucionária” na descrição gerativa, tal qual a de Ross (1970),
que faz com que toda frase seja dominada por uma frase da forma eu
declaro que..., eu ordeno que... (com sujeito que se refere ao objeto
direto que está na frase enunciada). Sadock (1969 e 1974) propõe um
esquema similar, mas com a vantagem de considerar essa hiperfrase
como um quadro virtual não suscetível de realização efetiva.
É uma solução do mesmo gênero que propõe Ann Banfield (“Le
style narratif et la grammaire des discours direct et indirect”) com o
núcleo E (Expressão) que domina a frase enunciada e pode ser reescrito
não somente em P, mas em SN e P, SN ou P, QUASE-VERBO + SN...5.
O núcleo E é acompanhado do princípio “ 1 E/l eu” regendo o funciona­
mento das pessoas: para cada E, existe um referente único do eu, do tu
e do presente.
Essas proposições, no âmbito da gramática ou da semântica gerativa,
oferecem a vantagem de tomar os mais numerosos fatos em considera­
ção, de propor soluções para outros fenômenos que não aqueles para os
quais elas foram feitas para explicar, e de permitir predições que se veri­
ficam. Mas elas parecem-nos apresentar um grave inconveniente, sua
heterogeneidade ao sistema de notação da G.G.T.: a presença da enunci­
ação num núcleo superior à frase só faz oferecer um jogo de escrita.
Podemos nos contentar, nesse ponto, com a conclusão a que chega J.-
C. Milner após haver feito uso do núcleo E:
“Estes últimos [os conceitos que põem em causa a enunciação], em
compensação, revelam-se, se não os reduzirmos a estenogramas e os re­
metermos às suas causas, heterogêneos ao conjunto da notação. Não se­
ria dizer que, para a teoria, as condições de consistência e de completude
são impossíveis de coabitar?
Se for assim, trata-se de um limite independente de todo contexto teó­
rico particular, e que, principalmente, não é próprio nem à gramática
transformacional, nem à sua presente versão: é o próprio real da língua
que, em alguns dos seus lugares, só pode ser descrito integralmente pela
associação ao formalismo de termos que o subvertam. É a própria língua
que só pode ser percorrida totalmente no olhar de um ponto que, como
totalidade, a desfaz”6.
Quanto aos “fatos de locução”, eles são muito menos estudados pelos
lingüistas, e é só às custas de um artifício de escrita que J. Milner e J.-C.
Milner conseguem propor uma formalização deles através da extensão
do núcleo E aos performativos.
Não é, portanto, no plano das propostas de tratamento que reside, a
nosso ver, o interesse das falhas, mas na “subversão” (termo de Milner)
que elas fazem o modelo chomskiano sofrer. Naturalmente, trata-se de
um ponto em que a lingüística encontra a psicanálise: Benveniste primei­
ro, J. Milner e J.-C. Milner também.
Embora a lingüística não tenha nada a dizer do inconsciente, ela pode
assinalar pontos na língua em que o sujeito não pode ser apresentado
como um sujeito desejante.

NOTAS

1. O verbo querer não pode ser substituído por outro verbo de volição, como desejar.
- a resposta à questão não pode ser de tipo causal.
- a interrogação não pode ser parafraseada por uma interrogação indireta (eu te pergun-
to...)
- não há obrigação de colocar o verbo no infinitivo quando o sujeito de querer e o da
completiva forem idênticos.
- a negação de querer mostra-se impossível.
- querer não pode aparecer na primeira pessoa.
- a completiva está no passado em relação a querer, e não no futuro.
2. Lembremos as propriedades dos performativos:
- propriedade semântica constitutiva: a enunciação equivale a um ato;
- propriedade morfológica: o verbo está sempre na primeira pessoa do presente;
- esse presente tem valor pontual;
- um performativo não pode ser inserido.
3. L 'Amour de la langue, p. 46.
4. Lembremos que, de uma maneira geral, a lingüistica opera, seja com um sujeito falante
único (como o “locutor-ouvinte ideal" de Chomsky), seja com uma dupla de sujeitos
considerados no esquema da comunicação; mas nesse caso ela os vê como simétricos.
5. Permitindo tratar, por exemplo, as frases:
- uma cerveja e eu parto!
- uma cerveja e eu vou embora!
- merda para o tapete! ou seja, a idéia de integrar à gramática formas que são afastadas
dela (exclamações, expressões incompletas, frases sem verbos).
6. 1978. p.374.
7. Q U A L É A CORDAS
IDÉIAS VERDES?

Se as falhas apresentam uma questão da relação da língua com a


consistência, isto se dá unicamente através da problemática do~ponto'de
cessação, do ponto de vista da própria temia: a homogeneidade do sistê-
Tnacle representação. Mas não se pode evitar, em seu prolongamento, de
levantar a questão da consistência do objeto língua. O que seria uma
,regranngüística, se ela tem que representar de maneira consistente um
objeto inconsistente?__
Para abordar essa questão, pareceu-nos indispensável fazer a hipóte­
se de que a prática gramatical de Chomsky contém dois momentos (sem
relação cronológica) inextricavelmente emaranhados:
- o momento da homogeneidade material, que consiste em abrir um
espaço homogêneo, reunindo o gramatical e o agramatical, sem que essa
união forme nenhuma totalidade. De um ponto de vista formal, nada per­
mite distinguir a seqüência gramatical da seqüência agramatical: as duas
são, fundamentalmente, da mesma natureza. Levantaremos a hipótese de
que essa homogeneidade se fundamenta no nível dos procedimentos de
investigação (produção de exemplos e de contra-exemplos, apoiando-se
no agramatical, no raciocínio) no.qye-úiteFpfetaremqs como uma explo­
ração sistemática do impossível da língua O impossível aparece, então,
como a condicãÕhomogênea ao que elêTtorna possível: o gramatical.
Esse momento, que marca a novidade radical da G.G.T. na história da
gramática, parece irrepresentável como tal, na teoria: pelo fato de sua
evanescência tomá-lo difícil de isolar, os lingüistas tendem a fundi-lo no
segundo momento, que ocupa inteiramente a frente da cena teórica
chomskiana, ou seja:
- o julgamento de partição, que consiste em traçar uma separaçãc
uma linha de demarcação entre o que pertence à língua e o que não lh
pertence. Essa operação, ao contrário da primeira, faz intervir o julga
mento do locutor (no recurso à intuição1). O julgamento por intuição, qu
permite situar um enunciado numa escala de aceitabilidade, e que autori
za, eventualmente, a construção de um teste destinado a sustentar os da
dos assim obtidos, é transformado em fato, tomando lugar, na teoria, n
contexto do conceito de “gramaticabil idade”. Os fatos, considerados d
ponto de vista do predicado bivalente gramatical/agramatical2, tomam-
se argumentos que entram numa demonstração. No nível estritamente
gramatical, o conceito de competência é a garantia teórica dessa constru-
çaõ^Assiõi>£j}uêsIão dos d a ã o sQimedíiatamente considerada, na G.G.T.,
na sua relação com a quentão da suieitn.
Ora, embora esses dois momentos estejam intrincados, eles não estão
em continuidade teórica, e, a um certo nível, entram em contradição.
A homogeneidade material, através da continuidade do gramatical e
do agramatical, apresenta a relação entre a língua e o absurdo. Entende­
mos, com isso, que há um saber prático guiando os procedimentos de.
construção dos objetos da reftexãõjgramátical (antes de qualquer refle-
'Xão sõbTff a sua gramátícabilidade), e não uma máquina, produzindo to-
das as possibilidades formais: esse sãbérprátrcosulJÕéêssFpercepcão do
absurdo,~pda~qugrtod5 suíeito~Falante se coloca em posição de construir
& que^yentuãlmente, se revela da ordem do impossível3.
A dificuldade, para os Iingüistas, de pensar sua prática no interior
desse primeiro momento, tende a fazê-los contornar o ponto do impossí­
vel no que ele supõe de negativo: assim, quando estabelecem a relação
entre gramatical e possível, estabelecem-na normalmente sem referência
ao impossível, e fazem, no interior do possível, uma seleção que tende a
fixar essa noção. Por exemplo, quando M. Ronat (que, aliás, se apresen­
ta, em La langue manifeste, como um defensor incansável da dimensão
poética intrínseca à língua) acredita que pode distinguir três ordens de
possiveis na lingua (introdução aos Dialogues, p. 11): “o possível jurídi­
co, o possível científico e o possível lúdico”. O linguista seria um homem
séncT^ele não busca dètermmar o que é possível pelo jogo” - e, por que
k não?, os jogos com a língua são de natureza diferente das regras da lin-
gua?; o destino da normatividade estaria há muito tempo traçad n i sgria.
portanto, exclusivamente do possível científico que estaríamos tratando.
Quanto a nós, parece-nos, ao contrário, que é na confusão desses três
possíveis.pensados em relação com o impossível, queresideq interesse
da GGT., pòis é apenas a essa condição que todo enunciado (por mais
alternativo que ele possa ser consideradoj e cãfãcterizaveí^
Nesse ponto, a posição de Judith Milnèr’ quãndoeTa propõe o concei­
to de “fronteira”6(“de que riem os locutores”?) parece-nos atingir, o mais
perto possível, esse ponto vacilante do impossível-na-língua. Sua refle­
xão supõe a percepção dessa comunidade de natureza entre gramatical e
agramatical. A fronteira supõe “uma relação de disjunção exclusiva en­
tre dois conjuntos, cuja única definição é negativa”. Ela ilustra, assim,
uma certa interpretação do princípio de identidade na língua: “não é uma
disjunção simples, mas ela conjuga uma oração apresentando uma iden­
tidade (tal forma é essa forma, um homem é um homem) e uma outra,
apresentando a impossibilidade de outra coisa (essa forma não é tal (tais)
outra (s), um homem não poderia ser uma mulher). É crucial para as
fronteiras que elas apresentem impossíveis”7 (“Poussière de soleiF, p.
129).
A G.G.T. apresenta, então, uma concepção da língua e da linguagem
diferente da de todas as outras teorias. Se o agramatical aí é caracterizá-
vel nos próprios termos que descrevem o gramatical (a língua), a língua
tal como ela é percebida na G.G.T. relaciona-se com dois tipos de exteri­
ores: seu exterior especifico, o agramatical, e seu exterior radical, a ser
percebido fora dela (o que Chomsky remete à parte do “sistema de conhe­
cimentos e de crenças”- Aspectsf.
É nesse ponto que o primeiro e o segundo momento se alternam, se­
gundo o primado que se atribui a cada um desses dois exteriores: se
contornamos o impossível próprio ao exterior específico, substituindo-o
pelo exterior radical, damos-lhe, ao mesmo tempo, a precedência à ques­
tão dos dados e à da referência, pelo viés da operação de afastamento,
que desencadeia uma relação implícita ao normal, e interpretamos o im­
possível como uma interdição.
A via própria à G.G.T. para o distanciamento é representada por de­
clarações explícitas (por exemplo, a definição dos conceitos de “compe­
tência” e de “locutor ideal” no início de Aspects, estabelecendo a série
das ignorâncias voluntárias em orações essencialmente negativas: fazer
como se não houvesse variações, fazer como se os locutores não possuís­
sem nem história nem inconsciente) ou por um silêncio igualmente nega­
tivo sobre tudo o que, na linguagem, não é a língua9.
Essa problemática pode levar à marginalização de dados: a seleção
entre enunciados gramaticais e agramaticais toma-se um problema de
reconhecimento de “alguns casos marginais” (entre outros, C. Nique, 1974,
p. 23), uma espécie de teoria do distanciamento implicitamente referido à
“linguagem normal”.
Ela pode também conduzir a um questionamento da própria bivalên-
cia: seja na agramaticalidade relativa de Lakoff, segundo a qual a compe­
tência só seria definível levando em consideração pressupostos de cada
locutor10, seja nos “conjuntos flexíveis”, em que a língua é considerada
comportando uma vasta zona indecisa entre os pólos do “incontestavel­
mente gramatical” e do “incontestavelmente agramatical”. Uma maneira
como outra de contornar a inevitável inconsistência...
Se o primeiro momento tem como característica o fato de não arriscar
o sujeito, e de só poder romper na transgressão, o segundo põe em jogo
um sujeito psicológico como suporte de um julgamento em sim/não. Daí
a abertura possível para um narcisismo teórico que, tratando a língua
como um conjunto constituído pela união de dois subconjuntos mutua-
mente exclusivos, só deixa como abordagem do sentido uma concepção
de conjunto, em que aparecem noções tomadas de empréstimo à estatísti­
ca: a variação e o desvio, implicando a idéia de distância.
E, portanto, de maneira crucial sobre o tratamento do desvio que vai
se dar a contradição que opõe e relaciona esses dois momentos. Atingi­
mos, assim, o ponto arcaico da G.G.T., onde alguma coisa de irreversível
decidiu-se sobre a relação entre o sentido e o não-sentido.
No nível do modelo de Aspects, a questão dos dados em uma G.G.T.
comporta o problema da doação desses últimos, problema considerado
aberto, apesar de P. Kuentz (1977) ter mostrado a que ponto esses últi­
mos, tais como suas imagens aparecem nos exemplos, referem-se de fato
a uma certa discursividade. As frases gramaticais são concebidas, em
relação com a agramaticalidade, em termos de relação com o desvio":
esta é particularmente a problemática de Chomsky em Some Methodolo-
gical Remarks, que chegará a certas formulações de Aspects, e a de J.Katz
em Semi-sentences: eles levantam a possibilidade de uma interpretação
metafórica em termos de desvio.
O modelo da gramática gerativa nesse ponto permite considerar o
desvio em quatro níveis:

- má formação de uma estrutura de base em termos de categori­


as; ex: os cientistas verdade o universo (exemplo de Katz).
- aplicação ilícita de uma transformação a um domínio que não é
o seu: Pedro come a manhã/a manhã é comida por Pedro.
- violação de uma subcategorização estrita: enganar a língua
(Barthes).
- violação de uma restrição de seleção: incolores idéias verdes
dormem furiosamente.

Os outros desvios são remetidos às incongruências semânticas ou


pragmáticas.
Os lingüístas consideram geralmente que é apenas com os dois
últimos tipos que se pode entrar no seu domínio: nos dois primeiros,
haveria mais língua, pelo menos do ponto de vista do julgamento de
partição. Desconstrução da língua'2? Em todo o caso, somente as
duas última violações são visadas na “teoria dos graus da gramatica-
lidade”.
Essa última nos parece comportar dois aspectos contraditórios: por
um lado, a reafirmação da homogeneidade do gramatical/agramatical,
no estabelecimento de regras através da reflexão sobre o agramatical,
por outro lado o aspecto regressivo de uma ligação intrínseca dessa pers­
pectiva com a teoria dos traços.
Essa problemática do desvio fixa, nas suas próprias ambigüidades, a
contradição entre os dois momentos da homogeneidade material e do julga­
mento de partição, que se espelha na ambigüidade do termo “analogia”.
Uma problemática do distanciamento e do desvio só é concebível em
relação a uma totalidade, estrutura da língua da qual nos afastaríamos
mais ou menos. É nessa perspectiva que pode nascer a teoria dos traços,
ou qualquer teoria equivalente.
Sabemos que a teoria dos traços nasceu da idéia (concebida como
uma necessidade) de excluir certas frases da gramática, sobre problemas
de restrições de seleção.
A evolução de Chomsky sobre esse ponto reflete-se no tratamento
reservado à frase: incolores idéias verdes dormem furiosamente. Em
Structures syntaxiques, ela serve para ilustrar a noção de “gramatical”
em oposição à de “dotado de sentido”. Jakobson responderá (“La Signi-
fication grammaticale selon Boas”), qualificando Structures syntaxi­
ques de “prova pelo absurdo” da impossibilidade de construir uma teoria
totalmente não semântica da estrutura gramatical. Ele propõe uma in­
terpretação metafórica da frase, e sugere limitar a noção de agramatica-
lidade no caso em que toda possibilidade de informação semântica desa­
parece, o que o conduz à idéia de uma “pesquisa semântica no domínio
do nonsense” (p.206).
Os traços —sintáticos - são características impostas a cada uma das
categorias em uma frase (por exemplo, há desvio, portanto agramaticali-
dade, se um substantivo [+animal] [+humano] aparece como sujeito di­
ante de um verbo que não o sustenta) a que devem corresponder os traços
das unidades lexicais que vêm ocupar os lugares.
O inconveniente maior é, além de naturalmente a formulação positi­
va, a maneira pela qual somos conduzidos a um sentido preexistente;
aqui, o uso da analogia remete à idéia de uma normalização, em um
processo de exclusão. Vemos como passaremos daí a uma teoria dos
mundos possíveis.
O emprego que Milner faz da noção de referência é muito mais sutil:
tal emprego lhe permite, por exemplo, operar uma distinção entre dife­
rentes tipos de aposto (os nomes ordinários e os “nomes de qualidade”)
sobre a base da autonomia referencial (os nomes de qualidade não têm
autonomia referencial). Mas Milner insiste, assim, numa teoria implícita
da preexistência do sentido.
Na base dessas constatações, consideramos que conceder o primado
ao segundo momento sobre o primeiro, deixar invadir esse primeiro mo­
mento vacilante pelo segundo, ceder no exterior específico da língua,
sobrecarregando-o pelo seu exterior radical, é cair num narcisismo da
semântica: a questão dos dados provoca o julgamento de seleção, que
envereda pela teoria dos traços, que pressupõe, por sua vez, uma se­
mântica do sentido preexistente, desencadeando a questão da referência
ligada à semântica do mundo normal.
O que, assim, faltaria à lingüística chomskiana, mesmo sendo uma
concepção do segundo momento, suscetível de transformar a questão dos
dados, do sujeito e da referência de uma maneira tal que a autonomia do
primeiro momento seja preservada?
O que estaria em causa seria a cegueira da lingüística sobre a
discursividade, que não se resume ao efeito de intradiscurso (que a
G.G.T. pode efetivamente apreender nos limites da frase, construindo
“gramáticas do discurso”), mas remete à existência de um interdis-
curso como efeito constitutivo de seqüências exteriores, independen­
tes e anteriores, sobre a seqüência “dada” . O “exterior radical” não
seria mais, desde então, o sistema (extralingüístico) dos conhecimen­
tos e das crenças, remetendo às idéias e aos objetos pensados por
um sujeito; ele residiria na ordem específica do interdiscurso como
efeitos discursivos inscritos nos campos de arquivos (reais ou virtu­
ais), no sentido de Foucault. Essa conversão teórica, levando em conta
a existência histórica das “materialidades discursivas”, desloca ao
mesmo tempo a questão do sujeito e a dos dados, já que, além da
análise sintática da seqüência, ela tende a substituir a interpretação
semântica (sobrecarregada de pressupostos lógico-jurídicos, em que
a semântica repete as categorias do direito, macaqueando-as), por
uma prática de interrogação dos textos referidos à sua posição em
um campo histórico.
A tese que resulta disso é que o sentido não preexiste à sua constitui­
ção nos processos discursivos.
Esse ponto tem conseqüências imediatas sobre a questão da autono­
mia referencial: em seu artigo “Constructions relatives et articulati­
ons discursives"*, P. Henry mostra que a propriedade de autonomia
referencial é apenas uma conseqüência de uma propriedade parafrásti-
ca de substituição, determinada discursivamente13.
Chegamos, então, às condições ideológicas que ao mesmo tempo per­
mitem a prática lingüística chomskiana e fornecem-lhe evidências cuja
origem ela reconhece. Assim, quando Chomsky, em uma nota de “Deep
Structures", comenta as argúcias da semântica gerativa sobre a análise
de to kill em cause to die'4, ele se refere a condições discursivas parti­
culares - um roteiro de série noire: “posso fazer com que alguém morra
conseguindo que ele atravesse o país no carro dirigido por um louco
perigoso, mas, neste caso, ninguém poderá dizer que eu o terei matado,
no sentido próprio.” (p. 19). O que permanece invisível é que chegamos,
assim, ao domínio das evidências jurídicas, que extraem sua evidência só
das práticas específicas do direito. Ora, estas últimas não são apenas o
pretexto dos jogos da literatura policial: a questão da responsabilidade
(diferida, camuflada, traficada) de um assassinato pode ser uma questão
política, como o mostra a argumentação sobre a responsabilidade diante
dos acidentes de trabalho: fatalidade? homicídio por imprudência? as­
sassinato? Não se pode mais ignorar aqui que a língua é afetada pela luta
de classes, na determinação dos termos, fórmulas, construções, sintag­
mas, estruturas de enunciados.
O efeito de retomo sobre o primeiro momento da posição que acaba­
mos de esboçar é de aliviá-lo da semântica do sujeito pleno de si mesmo
e de seu sentido, permitindo ao absurdo fazer valer os seus direitos na
língua. O espaço da primeira operação poderia ser reinterpretado como
o de um deslocamento potencial dos funcionamentos sintáticos no interi­
or do sistema15.
Nos “problemas em suspenso” de Aspects, Chomsky parece tocar esse
ponto, quando ele sugere ver a gramática como engendrando diretamente
a língua (as frases não desviantes) e de maneira derivada, por analogia16,
todas as outras seqüências providas de sua descrição estrutural. Infeliz-
mente, essa perspectiva será desperdiçada...
A noção de transgressão sintática (deslocamento não localizável de
uma fronteira) opõe-se, assim, a toda lingüística do distanciamento17, na
medida em que a metáfora não é mais concebida aí como simples desvio,
como efeito sintático situado no ponto em que o intradiscurso encontra o
interdiscurso.
J.-C. Milner recorre à bela expressão de “trocadilho sintático” (seu
coronel de marido a partir do modelo de seu imbecil de marido), para
manter a existência e a coerência de uma classe particular dos nomes de
qualidade: se, entretanto, atribuímos à língua a propriedade de transgres­
são, a realidade dessa classe desaparece...
Joëlle Tamine, trabalhando num contexto harrissiano, tira um bom
partido da noção de “extensão de propriedade” (1979): ela mostra que
a sintaxe, indiferente, permite, tanto seu coronel de marido (com efei­
to de apreciação) quanto seu imbecil de marido (com efeito de clas­
sificação):

“Seja qual for o tipo de metáforas considerado, nenhum pode ser


caracterizado por um fato de sintaxe que o oponha ao próprio de
maneira específica.[...]. O que não significa, por isso, que a parte
da sintaxe seja negligenciável, já que, ao contrário, na ausência de
um acordo entre os contextos e as variáveis lexicais, é a sintaxe
que leva a responsabilidade da interpretação de conjunto a ser
atribuída às metáforas (55 bis)."
A sintaxe ao mesmo tempo indiferente e responsável.
A metáfora não é localizável, como a poesia: como para a poesia,
pode-se defender a idéia de que ela não existe, se está em toda parte na
origem da produção de sentido. Ela faz com que as evidências se mo­
vam do “mundo normal”: um efeito revolucionário.
Neste sentido, a metáfora também merece que se lute por ela18.

NOTAS

1. Além de tudo o que pôde ser dito sobre a mutabilidade da intuição e sobre a dificuldade de
uma posição reflexiva sobre sua própria prática intuitiva (por exemplo, por W. Labov ou
pelo próprio Chomsky), e apesar do deslocamento que essa noção vivenciou, evoluindo
de simples ferramenta metodológica das Structures syntaxiques, um dado entre os outros,
para um lugar central na base psicológica da competência (de ferramenta, ela se toma um
princípio de explicação), o recurso à intuição só pode ser visto como uma pura teoriza­
ção de uma prática espontânea: o ponto fundamental é a constatação de uma desigualda­
de no julgamento.
2. Essa distinção discreta e radical constitui um ponto fundamental da compreensão da
natureza da língua. Chomsky encontra aqui um ponto chave da teoria de Saussure e do
Círculo de Praga, o conceito de distintividade, antes que este último seja desviado para
uma positividade.
3. Essa conjunção do sentido com o não-sentido, percebida no absurdo como processo sem
sujeito, retoma alguma coisa da teoria saussuriana do valor.
4. A própria norma social é dominada pelo predicado bivalente do gramatical: “Não é a
normatividade que toma possível a desigualdade entre os enunciados, mas o contrário”,
escreve Milner (1978). É desse ponto de vista que recusamos a crítica feita por Deleuze
e Guattari a Chomsky em Rhizome (p. 19): "A gramatical idade de Chomsky, o símbolo
categorial S que domina todas as frases, é, incialmente, um marcador de poder, antes de
ser um marcador sintático: tu constituirás frases gramaticalmente corretas...”
5. É o que aborda P. Henry (1977, p.10), realçando a distinção entre “tudo da língua”e “tudo
dos enunciados possíveis” , que apresenta a questão de saber se “o todo dos enunciados
possíveis é definível de outra maneira que a puramente formal”.
6. Seu estudo das brincadeiras com a língua mostra que o riso se dá na medida em que um certo
saber é violentado, sendo por isso mesmo reafirmado, de maneira negativa. O jogo com
a língua é, então, um modo de acesso à regra.
7. A referência à sexualização não aparece aqui por acaso, o impossível da relação sexual
também é traduzido por uma série de defesas referindo-se à sexualidade. Um impossível
faz aí também uma partição entre dois conjuntos que, embora de mesma natureza, não
constituem uma totalidade, a não ser nas comunidades político-edênicas, onde os huma­
nos vivem como irmãos e irmãs.
8. As gramáticas tradicionais ou estruturalistas negociam com exteriores irredutíveis à sua
própria ordem: a falta para uns, o não-atestado para outros. E entre os dois que o sujeito
falante perde sua respeitabilidade, desaparecendo por detrás da lingua.
9. Daí o erro de objetivo de um certo número de criticas dirigidas aos conceitos da G.GT. Um
“excesso de idealização” é denunciado por psicolingüistas que deploram a impossibilidade
de se reter, a partir daí, uma realidade psicológica ou neurofisiológica do comportamento
lingüístico, ou por sociolingüistas que vêem aí a ignorância ou a incompreensão da riqueza
da realidade social (para uma crítica desse último ponto de vista, ver F.Gadet, “a sociolin-
güística não existe: eu a reencontrei", art. citado). Nos dois casos, passamos ao lado do
caráter conceituai reivindicado nos distanciamentos. É claro que, nesse ponto essencial, a
“competência" recorta o conceito saussuriano de “lingua”.
10. Assim, considere-se a frase: Pierre tratou Maria de comunista e ela, por sua vez, insultou-
o. Se você considerar que ser tratado de comunista é um insulto, esta frase é aceitável, mas
o mesmo não ocorre se você vir nisso uma honra. P.Henry mostra (1977, p. 39) o
inconveniente gramatical que há em admitir que uma frase como a terra gira possa ser
considerada como agramatical por um ouvinte pré-Galileu. Uma outra solução proposta
para tratar da relação entre aceitabilidade e sentido, uma abertura talvez da G.G.T. sobre a
discursividade: o avaliador de Weinreich (1966), componente específico que atribui a cada
ftase um grau de desvio variando em função da situação em que ela é enunciada.
11. Trata-se, aí também, de um problema que desaparece posteriormente. Poderiamos dizer
que, na história da G.G.T., a verificação (através do aspecto predicativo) prevalece sobre
a estratégia da falseabilidade.
12. Uma abordagem da língua pela psicanálise (por exemplo, no sonho, o lapso ou a psicose)
obrigaria certamente a uma modificação desse ponto de vista. Será que a “perturbação”
que a língua pode sofrer passa apenas por processos passíveis de serem expressos em
termos gramaticais?
13. Para precisões sobre essas questões, podemos nos reportar particularmente a:
- C. Haroche, P. Henry e M. Pêcheux, "La Sémantique et la Coupure saussurienne:
langue, langage, discours”, Langages, n° 24, 1971 ;
- M. Pêcheux, Les Vérités de la Police, “Théorie”, Maspero, 1975;
- P. Henry, Le mauvais Outil, Klincksieck, 1977;
- Langages, n° 37, “Analyse du discours; langue et ideologies”;
- Langages, n° 55, “Analyse de discours et linguistique générale";
- J. Guilhaumou e D. Maldidier, “Courte critique pour une longue histoire", Dialec
tiques, n° 26;
- J.-J. Courtine, Quelques problèmes théoriques et méthodologiques en analyse de
discours, à propos du discours communiste adressé aux chrétiens (tese, Nanterre,
1980)
14. Que faria um gerativista (gram ático ou sem ântico) diante desta última proposta de
Kafka, lembrando ao seu médico sua promessa de não deixá-lo sofrer a sua agonia: “Se o
senhor não me matar, o senhor é um assassino”?
15. Cf. neste ponto o trabalho de C. Kerbrat, particularmente a conotação, que apresenta
assim a sua perspectiva: “Pode-se perguntar por que, isso seria tão mais simples, não se
fala, sempre, literalmente; pode-se ficar espantado com esse paradoxo que constitui o
tropo, que coloca os sujeitos codificador e decodificador em uma situação, acima de tudo,
desconfortável, já que supostamente eles percebem a impostura que constitui o sentido
literal, atravessando-o para atingir um sentido derivado mais facilmente receptível, sem,
por isso, expulsá-lo totalmente; o sentido literal cede resistindo, mas resiste cedendo, e
conserva até o fim uma certa validade (...) sem a qual o tropo perderia toda e qualquer
legitimidade” (La connotation, p.8). Baseando-se nisso, C. Kerbrat dedica-se a um estudo
metódico dos pontos em que do sentido se forma, quando “não se fala literalmente”,
...abordagem excepcional entre os puros linguistas.
16. Seja um segundo sentido da palavra “analogia”, atingindo a homogeneidade do gramati-
cal/agramatical. Observemos que essa noção é também utilizada por Saussure, num sen­
tido que retoma a direção indicada em Chomsky: a linha da quarta proporcional, a
associação, o valor e a criatividade. Para uma história da noção de analogia, dos neo-
gramáticos à G.G.T., e seu papel para tratar da relação entre possível, não-possível e
impossível da língua, cf. S. Delesalle, M.-N. Gary-Prieur e A. Nicolas, “La règle et le
monstre: quelques fig u res du possible en linguistique".
17. O ponto de poesia, por sua posição equívoca em relação à regra, nem dentro (a não ser
por não poder explicá-la), nem fora (a não ser por se chegar a uma teoria do distancia­
mento), constitui em si mesmo um questionamento das fronteiras. Assim se institui uma
confusão entre a distinção normal/patológico e talvez a distinção vida/morte: querer
contomá-la é a morte na língua (a lógica?).
17. bis. “Métaphore et Syntaxe", Langages, n° 54, 1979.
18. Ruwet desenvolve, sob esse aspecto, um exemplo muito interessante. Para a frase: que
soldados comandam esses oficiais? (1972, p. 279), que permite a escolha quanto à
destinação do sujeito e do objeto, ele considera que a interpretação mais “normal” que
possa, com efeito, ser dada, faz de oficiais o sujeito e de soldados o objeto, já que são
normalmente os oficiais que comandam. Mas, diz ele, qual poderia ser a interpretação
dessa frase na Rússia revolucionária de 1917, em que a “normalidade” estava perturbada?
O interesse dessa reflexão de Ruwet, bem europeu nesse ponto também, é que a política
não está prescrita.
NT: “Construções relativas e articulações discursivas” . Em Cadernos de Estudos Linguís­
ticos. ( O r g a n iz a d o por Eni P.Orlandi e J.W. Geraldi) Campinas, Instituto de Estudos da
Linguagem. n° 19, jul./dez. 1990, p.43 a 64.
8. SOMOS DA GERAÇÃO QUE FAZ
LING ÜÍSTICA

Acabamos de ver vários pontos em que Chomsky se divide em dois.


Eles exprimem o materialismo chomskiano com os limites que ele encon­
tra: o ponto em que esse materialismo é “desperdiçado”, porque suas
contradições são contornadas.
Essa facilidade negligente, essa certeza de ter contornado o obstáculo,
sinaliza a prática da geração atual dos lingüistas: nesse sentido, Milner
tem razão em perceber aí alguma coisa da ordem de um desperdício, ou
até de um assassinato: os especialistas da língua regulamentaram sua
relação com alíngua.
Os lingüistas chomskianos se libertaram, assim, da inquietação em
que a freqüência profissional de certos efeitos do inconsciente os mergu­
lhava, pagando o preço de uma inscrição de sua disciplina no campo
universitário das Ciências Humanas e Sociais, de onde a inclassificável
psicanálise está a priori prescrita. A relação com o equívoco, que, como
acabamos de ver, afeta toda língua no interior dela mesma, numa série de
pontos precisos, encontra-se, ao mesmo tempo, impedida: a lingüística
chomskiana cedeu sobre o que Milner chama sua “posição sofística” (suas
antinomias, chicanas, sutilezas e subterfúgios), e que chamaremos de sua
contradição:
- por um lado, enquanto ela visa à construção de um real como todo
consistente, representável por uma rede de regras, a lingüística só pode
ignorar o equívoco, insuportável ao “materialismo da escrita”, pelo qual
essas regras são escritas;
- por outro lado, o fato que, em cada língua, o equívoco se manifesta
inexoravelmente através dos fenômenos lingüísticos localizáveis interdi­
ta a lingüística de excluí-los de seu ideal de completude.
A inscrição, com Chomsky, da lingüística no campo das “escritas
galileanas” (após aquelas dos indo-europeístas e das representações
formais dos estruturalistas) não desfez, absolutamente, essa contradi­
ção. Ela aí está presente, devido à anfíbologia da escrita matemática
que se associa a ela doravante, na medida em que o espaço intrinseca­
mente motivado da escrita das regras aí se mistura com o extrínseco
das notas ad hoc e dos subterfúgios. A contradição está presente, mas
sob uma forma mascarada e camuflada. Nunca a lingüística havia per­
cebido de tão perto a rede de seu real; nunca, também, ela esteve tão
perto de ser abalada, no recalque especulativo das línguas lógicas. Es­
taria ela, por esse viés, conseguindo os seus fins? A posição contradi­
tória da lingüística toma-se insuportável ao pensamento universitário
moderno. Acerto de contas com o domínio psicanalítico, sem que o
confronto jamais tenha ocorrido, resultado de uma relação de forças
no interior da cultura: por um lado a lógica matemática e o sério das
ciências biológicas, por outro as preocupações ditas “filosóficas” ou
literárias”.
A divisão mortal aberta, nos anos trinta, entre a ciência lingüística, o
trabalho da língua e a política aprofunda-se, assim, tomando a aparência
de uma purificação.
No processo de recuperação, não há um momento, que se possa assi­
nalar, no qual as coisas teriam andado mal no chomskismo: uma ameaça
constitutiva libera, agora, seus efeitos filosóficos e teóricos. Essa filoso­
fia intermediária do chomskismo, que surge hoje, revela-se, finalmente,
ter sido sempre a de Chomsky.
Autorizar-nos-emos, ao mesmo tempo, a negligenciar a cronologia
das formulações, para tentar atingir o âmago da questão: dadas as varia­
ções que a G.G.T. conhecerá ao longo de vinte e cinco anos de história,
é evidente que o invariante será enunciado filosófica e não tecnicamente.
Vimos que o ponto materialista essencial (e sempre mantido) residia
na posição da sintaxe como nível autônomo do que não pode não ser
considerado para relacionar sentido à materialidade fônica ou gráfica. A
evolução desse nível central aparece como condicionada por duas deter­
minações desiguais, uma das quais é subordinada à outra: a questão do
sentido (a relação entre sintaxe e semântica) e a questão da restrição de
poder (na relação entre base e transformações). A busca de meios de
limitações a um mecanismo gerativo intrínseca e demasiadamente pode­
roso é sempre dominada pela exigência de interpretabilidade semântica.
Assim, na primeira restrição estabelecida, o apagamento recuperável
(Aspects), a necessidade de não apagar a esmo não importa o quê (ligada
à obrigação de não sobrecarregar a base), exprime-se nos termos da con­
servação semântica. Muito rapidamente, a questão do sentido funciona
como um ponto de fiiga da G.G.T.1.
Um poder gerativo ilimitado conseguiria relacionar os enunciados
aceitáveis: a necessária limitação não levará a questionar o princípio de
autonomia da sintaxe.
A reestruturação chomskiana da lingüística, portanto, conduziu essa
última a buscar sistematicamente restrições, coações e condições, aplicá­
veis a tal ou tal nível da seqüência gerada (na base, o componente trans-
formacional, a inserção lexical, o filtro das superfícies e sua interpreta­
ção lógico-semântica).
Constatações práticas2 e dificuldades encontradas no manejamento
do formalismo determinaram a história desses procedimentos. Restrições
(exceções idiossincráticas à aplicação de uma regra) às coerções (refe­
rentes à ordem, como o princípio cíclico; ao domínio, como A sobre A;
ou à operação autorizada, como a distinção de Emonds entre transforma­
ções radicais e transformações preservadoras), até as condições (que
impõem um filtro próximo de determinismos biopsicológicos a transfor­
mações formuladas em termos bem gerais).
Decidindo construir tais procedimentos (capazes de isolar o infinito dos
enunciados teoricamente aceitáveis, de decantá-lo do “mau infinito”), a
GGT. afirmava ipso facto que a linguagem é infinita no seu gênero, e que
é justamente o “gênero” que cabe a ela estudar cientificamente.
Parece, assim, que é a especificidade da linguagem humana que cons­
titui o objeto teórico da G.G.T., e não a variedade das línguas naturais em
suas propriedades diferenciais: essa filosofia dos universais engajará a
construção de uma “gramática universal” (G.U.) comportando a priori
opções muito restritivas (cuja realização só depende de alguns parâme­
tros), dotando essa gramática de um poder expressivo limitado. Ideal­
mente, a gramática particular de uma ou outra língua natural será especi­
ficada assim que assinalar os valores dos parâmetros no interior do es­
quema “não marcado” de G.U.
É a tese de existência desse núcleo fixo universal da linguagem huma­
na que marca, sob o aspecto teórico-técnico especializado, a atual gera­
ção de lingüistas.
A filosofia implícita de sua prática é organizada em tomo da noção de
“criatividade governada por regras” no contexto da frase. Sua contradi­
ção motriz, não formulada como tal nem nos textos técnicos nem mesmo
nos seminários filosóficos, poderia se enunciar como a relação entre um
“pode-se” e um “não se deve”:
- pode-se sempre considerar uma construção gramatical (resultante
de operações anteriores) como elemento de uma nova operação;
- não se deve jamais extrair arbitrariamente de uma construção exis­
tente uma porção qualquer para dela fazer o elemento de uma nova ope­
ração.
Essa formulação filosófica tem sua contrapartida técnica em duas das
hipóteses maiores da G.G.T. (segundo os termos de Nique):
- há transformações interpretáveis em operações de apagamento, de
deslocamento e de substituição, que relacionam estruturas profundas a
estruturas de superfície, como a hipótese da estrutura abstrata, pela qual
são engendradas as frases da língua;
- as frases da língua são analisadas numa série de constituintes hie­
rarquizados, como a hipótese da dependência estrutural, preservando as
estruturas já engendradas.
Aposição teórica da G.G.T. em relação à frase (terceira hipótese maior
que organiza as duas outras) se intertraduz, assim, com a tese filosófica
diretiva do chomskismo: é na frase como enunciado completo que o po­
der gramatical de engendramento encontra seus limites internos constitu­
tivos.
Pelo viés das noções de enunciado completo e de estruturas preserva­
das, a G.G.T. atinge os problemas lógico-semânticos da construção dos
objetos de pensamento, e a questão da referência: a lingüística chomskiana
é fundamentalmente uma lingüística do nome3. Daí o fato que, dentre as
estruturas afetadas de limitações na sua capacidade de serem transforma­
das, o sintagma nominal adquire uma forma igualmente importante.
Esse ponto pode ser relacionado com a noção ffegeana de objeto, en­
tendido no sentido em que “um objeto é tudo o que não é uma fünção, é
aquilo cuja expressão não comporta nenhum espaço vazio”4: as estrutu­
ras submetidas às condições podem, ao menos parcialmente, ser assimi­
ladas a funções saturadas (não comportando nenhum espaço vazio), a
objetos no sentido fregeano5. Assim acontece com a subjacência (limita­
da às categorias cíclicas, entre as quais a frase e o S.N.) ou com a condi­
ção do sujeito especificado, que tomaremos aqui como exemplo.
A S.S.C. (SpecifiedSubject Condition) foi enunciada em Conditions
on Transformations nos seguintes termos:
Nenhuma regra pode relacionar X a Y na estrutura
...X...[...Z...WYV...]...
se Z for o sujeito especificado de WYV, [ ] indicando uma fronteira de
frases. “Sujeito especificado” designa um S.N. contendo itens lexicais ou
um pronome não anafórico.
Assim, a partir das frases seguintes:

(1) The candidates each expected [PRO to defeat the other] (Cada
candidato esperava bater no outro)
(2) The candidates expected to defeat each other (Os candidatos
esperavam se bater uns com os outros)
(3) The men each expected [the soldier to shoot the other] (Cada
um dos homens esperava que o soldado abatesse o outro)
(4) *The men expected [the soldier to shoot each other (Os homens
esperavam que o soldado abatesse cada um).

Segundo Chomsky, (4) está “bloqueada” por causa da presença de the


soldier, sujeito especificado da frase encaixada.
C. Nique (1978) faz uma apresentação em francês da mesma condi­
ção, sobre um fenômeno diferente:

(5) Marie fará [Jacques escrever a Michèle]


(6) Marie fará escrever Jacques a Michèle
(7) Marie fará escrever a Michèle por Jacques
(8) Marie o fará escrever a Michèle
(9) *Marie lhe fará escrever a Michèle
(10) Marie lhe fará escrever por Jacques

em que (9) é excluída porque a pronominação de A Michèle em lhe impõe


a ultrapassagem da fronteira de frase acima do sujeito especificado Jac­
ques (o que não é o caso em (10)).
No exemplo de Chomsky, parece que, o que é proibido, é um defeito
ou um excesso de saturação (no sentido fregeano) na frase encaixada6.
No exemplo de Nique, parece que passar por cima de um sujeito espe­
cificado significaria emaranhar dois ciclos diferentes, o que só pode ser
feito em condições bem particulares (regulamentadas pelo núcleo COMP:
quando não há sujeito especificado, o relacionamento dos dois ciclos é
feito automaticamente pela presença de um pronome anafórico na frase
encaixada).
Assim, no exemplo da S.S.C., parece que as condições técnicas da
“criatividade governada por regras” traduzem, de fato, uma coerção não
escrita muito geral, que se pode interpretar como um dispositivo de pro­
teção do enunciado contra os diversos riscos de desconstrução. O que
supõe a frase como tudo fechado e completo.
Essa desconstrução da frase se materializa, entretanto, no trabalho do
sonho, no lapso, no disparate, no nonsense e no efeito poético, que têm
como efeito desmontar o enunciado: “tudo pode ser dito”7.
Essa resistência à desconstrução, surda aos efeitos do inconsciente,
explica a escolha do inatismo e o recurso à noção de órgão mental como
garantia filosófica desse dispositivo de proteção: a referência à biologia
cauciona a especificidade do núcleo fixo de Gramática Universal, fazen­
do dessa última uma doação (endowment) de todo organismo humano.
O “é assim”da G.G.T., apreendendo o espaço da língua como o campo
sintático do gramatical-agramatical, se metamorfoseia, assim, em uma
propriedade orgânica da espécie humana, análoga na sua contingência
ao olho facetado de alguns insetos ou à carcaça dos crustáceos. Não é
de se espantar que o ponto de transgressão desapareça através dessa
metamorfose! A biologia chomskiana não é um simples acompanha­
mento filosófico da G.G.T.: ela sintomatiza uma recuperação teórica
interna8.
Em uns vinte anos, passou-se de um horizonte filosófico (vago e
relativamente acolhedor) da prática lingüística ao sectarismo biopsico-
lógico. Da competência às estruturas mentais inatas, e destas últimas
aos universais, a semântica e a biologia selaram sua aliança: o império
dos sentidos integrando as facilidades da lógica natural e as evidências
do órgão mental.
A língua inatingível é a aparição no interior da lingüística de um espa­
ço lógico regulamentando as práticas dessa disciplina, levando o sujeito
humano a se reconhecer nesse regulamento.
Desde o início, Chomsky constantemente polemizou com as posições
logicistas em lingüística. O último episódio é o afrontamento com a se­
mântica gerativa. Chomsky ganhou... Não há mais semântica gerativa:
ele acabou arrancando dela a arma da lógica e ele está se adaptando
perfeitamente a essa recuperação. As noções de foco e pressuposição
instalam-se como evidências lingüísticas muito compartilhadas: a lógica
natural permite aos lingüistas não verem a diferença entre língua e dis­
curso, bem como as conseqüências que resultam daí. Vinte e cinco anos
após a polêmica com Bar-Hillel, ele tem toda razão de temer que seja a
posição deste último que tenha finalmente triunfado.
Quando é preciso uma lógica que seja ao mesmo tempo bastante po­
derosa para poder predizer alguma coisa do comportamento humano e
bastante fluida para ser um modelo desse comportamento, é a lógica na­
tural, tal como era apresentada, por exemplo, por Lakoff (1970), que
forneceu o melhor modelo9.
Se for necessário à lingüística uma lógica que permita formular todos
os conceitos exprimíveis na linguagem natural, uma lógica que possa dar
conta de todas as inferências corretas que podem ser feitas nessa lingua­
gem, essa lógica é a lógica natural10.
Um dos grandes interesses históricos da G.G.T., considerando o lu­
gar e a forma que ela dá à sintaxe, foi o de acabar com a idéia de uma
liberdade do sujeito falante, instalada na sua subjetividade. Sobre esse
ponto, também, Chomsky retoma a reflexão saussuriana, prolongando-
a: a tese da autonomia da sintaxe intervém na lingüística como uma
ferida narcísica...
O retorno ao primado da semântica no estudo das estruturas sintá­
ticas (por exemplo, a noção de pressuposição, lugar de escolha volun­
tária do sujeito falante) seria interpretado como uma tentativa de re­
paração dessa ferida: tentar recompor a unidade natural e lógica do
espírito humano, não suportar o que o nascimento da lingüística le­
vou a dividir, o corte que separou as preocupações lingüísticas (a
semântica não sendo, defmitivamente, uma parte da lingüística como
as outras")-
O milagre da biologia é o fim (das contradições) da lingüística, inscre­
vendo-se no sujeito pleno da semântica.
A contradição que divide Chomsky está se fechando numa unidade
imaginária...

NOTAS
1. A semântica constitui o único ponto em que nos pareceu indispensável fazer um minimo
de história. Propomo-nos a encontrar quatro períodos na história da G.G.T., em função
da posição da relação entre sintaxe e semântica, e do estatuto reservado às relações entre
estruturas profundas e estruturas de superfície. - O período de Estruturas sintáticas ( The
Logical Structure o f Linguistic Theory, Structures syntaxiques, “A Noção de regra de
gramática” e “Abordagem transformacional da sintaxe”). Dessa época data o princípio
de autonomia da sintaxe, em oposição à crença difundida, segundo a qual pode-se “en­
contrar os fundamentos semânticos na teoria sintática” (Structures syntaxiques, p. 106).
Em função do desejo de que “o contexto sintático da língua, isolado e desligado pela
gramática, possa servir de base a uma descrição semântica” (p. 116), uma grande parte da
reflexão dessa época é dedicada às relações entre sistemas formais e sistemas semânticos.
Como dirá Chomsky mais tarde nos Dialogues, sua análise semântica articula-se em duas
direções: uma que se relaciona aos trabalhos de Goodman (reformulação de uma teoria do
sentido em teoria do sentido referencia], apoiado em uma lógica extensional) e de Quine
(embora ele se lhe oponha sobre a derivação da sintaxe a partir da semântica); a outra que
associa-se à corrente de “Wittgenstein II” e à filosofia de Oxford, particularmente sobre
a questão do uso da linguagem. O ponto de ligação entre as duas é uma concepção da
semântica como reflexo da sintaxe, em que a interpretação semântica acompanharia a
divisão da sintaxe: “o problema geral de uma análise do processo de compreensão é assim
reduzido, em um sentido, à explicação da matéria cujas frases núcleos são compreendidas,
estas últim as sendo consideradas como “elementos de conteúdo” de base, a partir dos
quais formam-se pelo desenvolvimento transformacional as frases mais complexas da
vida real” (p.I05). Embora a complexidade do elo que une sintaxe e semântica não seja,
portanto, negada, entretanto ela não é levada em conta em toda a sua amplitude, como
o mostra o tratamento da inserção lexical. As regras lexicais são regras de reescritura, do
mesmo tipo que as regras de formação categorial, o que apresenta o grande inconvenien­
te de permitir à gramática de gerar todo tipo de frases “de um grau de gramaticalidade
intermediária". Uma primeira modificação será feita em Approche transformationnelle
de Ia syntaxe. A teoria standard (Fodor e Katz, 1963, Katz e Postal, 1964, Current
Issues o f Linguistic Theory, Aspects. La Nature formelle du langage). Na nova formula­
ção do modelo, a base comporta um componente categorial independente do contexto
e um componente lexical compreendendo um léxico (conjunto não ordenado de entradas
lexicais), as regras de sub-categorização estrita ou contextuai e as regras de inserção
lexical (que inserem um formato lexical na série pré-terminal produzida pelo componen­
te categorial). E sobre as estruturas profundas produzidas por essa base que intervêm as
regras de interpretação semântica, dando assim, aliás, sua característica essencial às
estruturas profundas (determinar a representação semântica). Daí a “elegância” (Searle)
de um modelo perfeitam ente simétrico. A influência dos trabalhos de Katz. Fodor e
Postal é decisiva nessa nova formulação. Em 1963, Fodor e Katz, inspirando-se no
modelo de Estruturas Sintáticas, haviam proposto associar representações semânticas
às estruturas sintáticas, com um modelo comportando dois tipos de regras de projeção: as
que interpretam os indicadores sintagmátícos e as que interpretam as configurações de
transformações. O trabalho de Katz e Postal, em 1964, propunha reduzir esses dois tipos
a um só. a partir da demonstração segundo a qual os indicadores transformacionais não
representam nenhum papel na determinação do sentido, as transformações obrigatórias,
porque não podem ter efeito semântico, e as transformações facultativas, porque eles
demonstram a necessidade de reformulá-las em transformações obrigatórias determina­
das pela presença de um elemento de base. Desde então, tudo está arrumado para o que vai
se tomar o postulado central da teoria standard: somente as estruturas profundas parti­
cipam da determinação do sentido. Em Remarks (p. 117), Chomsky voltará a esse mode­
lo, qualificando-o de “teoria mista”, que ele julga bastante “artificiar' por causa do duplo
estatuto de categoria de base e de traço no léxico das categorias lexicais como N. V... Em
D ialogues, ele vai denunciar os principais defeitos e as am bições da representação
semântica assim proposta, remetendo a responsabilidade essencial desse modelo a Katz,
e m inim izando a parte que ele nele teve. A analogia postulada entre a fonologia e a
semântica, enquanto sistema supostamente universal, conduz à idéia de existência de
“traços distintivos semânticos”. Assim, ele critica Katz por ter tido a ambição de “repre­
sentar todo o pensamento”, num sistema válido em todas as línguas, e independentemen­
te das considerações extralingüísticas (portanto, do conhecimento do mundo). Diante da
semântica extensional de S.S., podemos, portanto, falar de uma semântica intensional.
Antes de passar ao modelo seguinte, uma digressão se impõe pela semântica gerativa. -
A semântica gerativa, diante da qual só nos deteremos aqui no seu aspecto “crítica da
teoria padrão”, na medida em que foi em grande parte ela que determinou as modificações
que intervirão na teoria padrão extensa. - A semântica gerativa vai marcar uma ênfase do
papel da semântica na gramática: ela apóia-se na idéia da semântica universal de Chomsky,
abrindo a perspectiva operatória de um cálculo do sentido, aproveitando-se das técnicas
lógicas que, desde os trabalhos dos lógicos dos anos trinta, não haviam cessado de se
refinar. A semântica gerativa toma, assim, Katz e Fodor ao pé da letra (embora Katz se
revele violentamente contra essa tendência): as estruturas últimas subjacentes possuem
representações sem ânticas definidas em termos lógicos. - As críticas endereçadas à
Teoria Padrão vão se concentrar em dois pontos (sem por isso constituírem uma corren­
te perfeitam ente organizada):
a) a estrutura profunda será questionada particularmente a respeito de duas categorias: George
Lakoff e Emmon Bach (este último fazendo referência a Camap e Reichenbach) mostram
a necessidade que essas últimas sejam ao mesmo tempo menos numerosas (um certo
número de categorias não aparecerão, portanto, nas estruturas profundas: assim, Lakoff,
1965, faz propostas para fundir o verbo e o adjetivo numa categoria predicado, Bach,
1968, traz igualmente o substantivo para essa categoria predicado) e mais abstratas (ex­
pressas em termo semânticos e finalmente lógicas). Ela será igualmente questionada pela
complexidade das frases (uma frase considerada como simples em termos tradicionais pode
comportar vários predicados ), e na análise das coações de seleção (assim, McCawley,
1968, mostra que as restrições não são características de uma palavra - portanto, de um
item lexical único - mas do conjunto de um constituinte, e que elas são de ordem exclusi­
vamente semântica).
b) a inserção lexical será criticada ao mesmo tempo em relação ao papel e à natureza dos itens
lexicais e em relação ao lugar de sua intervenção. McCawly para to kill e Postal para to
remind mostram que é inadequado considerar os itens lexicais como unidades inanalisáveis
e propõem que as estruturas subjacentes só comportem elementos semânticos primitivos
(“atomizados”). Transformações intervêm, portanto, para substituir os elementos atômi­
cos pelos itens lexicais (transformações pré-lexicais).
- A teoria padrão estendida (Remarks, Deep Struclures, Jackendoff. 1972). Modifican­
do a T.S. ao mesmo tempo sob o efeito dos críticos da semântica gerativa e da reflexão
semântica de Jackendoff, Chomsky faz apelo ao direito inalienável de todo pesquisador
modificar radicalmente suas posições. Em Dialogues, M. Ronat lembrará que Jackendoff
já trabalhava nesse tema na época da T.S., de uma maneira que ela distingue do trabalho
Fodor, Katz e Postal nestes termos: “Alguns faziam do componente sem ântico uma
representação do mundo, enquanto outros a limitavam a problem as muito precisos e
testáveis” (p. 145). “Entretanto, não é essa segunda corrente que Chomsky havia con­
servado na época de T.S., embora possa parecer que esse trabalho de Jackendoff está
mais no prolongamento de Estruturas sintáticas" (Dialogues, p. 150).
Embora o essencial da determinação do sentido seja mantido no nível da estrutura
profunda, em que são estabelecidas as significações lexicais e as relações gramaticais
essenciais (sujeito, objeto...) para a representação semântica, um certo número de fenô­
menos (dos quais, aparentemente, podemos fazer uma lista fechada) necessitam, para
serem interpretados, que elementos, que só possam ser introduzidos por transformações,
intervenham. E o caso do foco e da pressuposição, do campo dos qualificadores e da
negação, de certos advérbios como even e only, de certos auxiliares de modos, dos
procedimentos anafóricos e da referência (Deep Structures). Ao mesmo tempo, tirando
partido das observações dos sem anticistas gerativistas, Chomsky avança a hipótese
Iexicalista (Remarks) que tem como efeito remodelar a relação entre categorias de base.
A comparação entre categorias (seja em termos de propriedades sintáticas ou em termos
de restrições de seleção) pode ser expressa de maneira diferente das semelhanças na base,
ou pela aproximação ligada às transformações: as regras de redundância lexical permiti­
rão assinalar uma categoria sintática (por exemplo, N ou V) a um item anteriormente
não especificado desse ponto de vista (expresso X). Como vimos na questão da ambigüi-
dade, o interesse das nominalizações se deslocou completamente (a relação entre amor
e amar não supõe mais um verbo subjacente a amor).
— A teoria padrão estendida revista (Conditions, Filters and Contrai. Rêflexions sur le
langage) [NT: Chomsky, N. Reflexões sobre a linguagem. SP: Cultrix, 1980], A base
(comportando sempre um componente categorial e lexical) produz indicadores sintag-
máticos iniciais que são transformados pelas regras transformacionais em estruturas de
superfície, conservando os “traços” das relações fundamentais na base. Dois tipos de
regras de interpretação semântica vão ser aplicados, daqui para a frente. As primeiras,
que fazem parte da gram ática de frases e referem-se a fenômenos como as anáforas
relacionadas e as relações temáticas... produzem a forma lógica. O conjunto dessas regras
submete-se a um certo número de “condições”. O segundo tipo de regras de interpretação
semântica aplica-se nas formas lógicas e interage com outras estruturas cognitivas. É
somente nesse ponto que se obtém uma representação completa da significação. Em
relação ao modelo de Aspects e à exigência de universal que se exprime aí, o essencial do
que é questionado novamente refere-se à possibilidade de sistema, mas não a de traços
universais. Assim, noções (como agente, instrumento...) e propriedades são supostamen­
te universais. Além dessas relações, “não se pode separar a representação semântica do
conhecimento do mundo” (Dialogues) e é preciso levar em conta outros sistemas cog­
nitivos.
2. Como a observação segundo a qual aplicava-se às transformações em uma certa ordem,
primeiro na frase mais encaixada para ascender até a frase superior. Essa observação
conduziu ao princípio cíclico.
3. Esse ponto é ilustrado, por exemplo, na posição de Aspects, em que os traços do
substantivo são dominantes em relação aos dos verbos. Uma outra posição é possível,
representada pela posição de Harris que se poderia qualificar de “linguística do verbo” .
4. Écrits logiques, p.90.
5. Para a interpretação de algumas estruturas classificadas enquanto S.N. pré-construídos,
ver P. Henry, Le mauvais outil, op. cit., passim. e M. Pêcheux, Les vèritès de la palice,
op.cit. p. 85-105.
6. A problemática da saturação nos parece igualmente subjacente à distinção de que se serve
Edmont para limitar as transformações: elas só poderiam ser de dois tipos: as transformações
preservativas de estruturas, que produzem uma série com a aparência de uma série engendrada
pela base, e as transformações radicais, que perturbam a ordem de base e só podem ser
aplicadas nas principais. Assim, é o princípio da preservação de estruturas que impede formar
(14) no mesmo modelo que (12):
(11) Um vento glacial está soprando
(12) Um vento glacial está soprando as folhas
(13) Está soprando um vento glacial
(14) *Está soprando as folhas um vento glacial
A extraposição do indefinido não pode se aplicar a (14), pois ela produziria uma série
comportando dois S.N. sucessivos, o que nunca é produzido por nenhuma regra de base.
7. Um exemplo grosseiro, tirado do manual do soldado de infantaria: a questão de qual
objeto são os p é s l construída a partir da resposta: os pés são objeto de cuidados
constantes da parte do soldado de infantaria.
8. A associação recen tem en te con stitu íd a no sentido dos gerativ istas, denom inada
G.L.O.W ., apresenta nos seus p rin cíp io s fundadores uma d efinição do linguista
chom skiano im plicando a ligação intrínseca entre uma certa prática gram atical e
uma concepção do m undo que retom a integralm ente os postulados biopsicológicos
da filosofia chom skiana. Uma boa exposição disso é apresentada em Parlons-nous
grãce à un organe m ental?, de P. Jacob e J.Y. Pollock ( C ritique, 387-388). J.-C.
Milner dá uma resposta a esse posicionamento através da questão: podemos separar a
teoria gramatical chomskiana de suas aderências filosóficas? A que ele responde “sim” .
Diante da frase do G.L.O.W.: “ The generative Unguist regards the principies that deter­
m ine lhe class o f p o ssib le human gram m ars as a genetically based property o f the
human species" (O lingüista gerativista considera os princípios que determinam a classe
das gramáticas hum anas possíveis como uma propriedade da espécie humana fundada
geneticamente), ele mostra que ela pode ser entendida ora como uma implicação lógica,
ora como uma constatação factual. Ele recusa a primeira e retruca à segunda: “Existe ao
menos um lingüista gerativista, eu mesmo, que rejeito [esta proposição]”. Milner termi­
na essa intervenção com uma alusão a Lyssenko: ele se insurge, assim, diante da imposi­
ção de uma filosofia oficial à prática lingüistica. Compartilhamos, evidentemente, sua
reprovação e sua inquietação, mas não o seguimos na idéia de uma dicotomia entre ética
e ciência, e ética e verdade, que nos parecem fundamentar ao mesmo tempo sua esperan­
ça (de permanecer lingüista) e seu desespero (diante da imbecilidade que ameaça essa
ciência).Em que condições teóricas uma reinscrição do materialismo chomskiano num
outro espaço de afinidades seria possível?
9. Lakoff parte da reflexão segundo a qual as relações entre lingüistica e lógica, gramática
e raciocínio, não são puro acaso; ele se apóia em fenômenos como a pressuposição, a
hipótese de um performatívo abstrato sob frases simples, e o fato de que certas regras
fazem mais do que purificar frases gramaticais e agramaticais. E essencialmente sobre os
pontos referentes aos problem as lexicais que as proposições de Lakoff adquirem uma
forma concreta, através da problem ática da decomposição lexical e dos postulados de
sentido: ele retoma sobre esse ponto um dos postulados fundam entais da sem ântica
gerativa referente ao caráter não primitivo de certos itens lexicais, analisados em predi­
cados atômicos que podem ser relacionados entre si por axiomas. Na hipótese de uma
generalização possível a todas as línguas (de uma universalidade), essa perspectiva con­
duz á problemática indissoluvelmente articulada dos mundos possíveis, na qual trata-se
de estabelecer condições de verdade para os postulados de sentido. Lakoff não aparece
assim como um precursor do biologismo chomskiano?
10. Assim o logicism o e o pragm atism o se reunificam: os dois rebentos opostos que a
tradição atribui a W ittgenstein encontram-se na troca de evidências que circulam entre
o espaço da lógica e o do dizer-em -situação, e que formam a m oderna filosofia da
linguagem. Num texto que aparecerá em breve, La Double Négation chez Wittgenstein,
P. Henry expõe em quê a prática filosófica de W ittgenstein exclui toda filosofia da
linguagem. Embora pudéssemos falar de uma dupla traição do pensamento de Wittgens­
tein...
11. Ver sobre este ponto O. M annoni (C lefs pour lim a g in a ire ou la u tr e scène) [NT:
Mannoni. O. Chaves p ara o imaginário. Petrópolis: Vozes, 1973], que propõe uma
interessante comparação entre a lingüistica e a física, baseando-se na importância da
lâmina de Occam na história das ciências: do mesmo modo que Descartes deu uma base à
fisica moderna pela distinção entre a alma e o corpo, foi só se separando da semântica
que lingüístas puderam dar respaldo cientifico à lingüistica. Numa perspectiva bastante
similar, ver igualmente Les vérités de la palice. particularmente sobre os mundos possí­
veis e a articulação com a problemática leibniziana (p.40-42).
9. NUNCA O MACACO O MAIS
INTELIGENTE...

A coerência filosófica do empreendimento chomskiano se marca na


relação explícita que o cartesianismo mantém com a biologia; a biologia
de Chomsky é com efeito uma biologia muito particular, uma biologia de
engenheiro deliberadamente calcada sobre a biomecânica cartesiana: os
castores constroem diques, as aranhas tecem teias, e os homens produ­
zem frases com S.S.C. e preservação de estruturas...
Neste fixismo biológico, toda referência à evolução, à auto-organiza­
ção ou à instrução pelo erro se acha a priori excluída: cada estrutura
surge do interior, ela se revela e se desenvolve (no sentido fotográfico
destes termos) pelo viés de declanchamentos provenientes do ambiente.
O recente confronto Piaget/Chomsky1 foi a oportunidade para este
úlitmo marcar claramente seu desacordo com os ideais auto-reguladores
da psicologia cognitiva genebrina; os piagetianos esperavam, no entanto,
tomar Chomsky ao pé da letra de suas próprias declarações relativas “à
lingüística como ramificação da psicologia”, suscetível de contribuir para
“uma certa compreensão dos mecanismos da inteligência humana” (Ré-
flexions, p. 13), de maneira a negociar com o chomskismo um pacto
teórico de aliança (ou ao menos de não agressão) sobre a base de um anti-
empirismo presumido em comum.
Assegurou-se que Chomsky - quem, segundo as aparências, partilha
com Piaget a mesma ignorância deliberada sobre os conceitos psicanalí-
ticos (em suas origens e, mais ainda, em seus desenvolvimentos proble­
máticos atuais) - não se inquieta muito com a psicologia cognitiva piage-
tiana. O encontro forneceu, deste modo, um belo exemplo de diálogo de
surdos: Piaget se esforçando em se adaptar a Chomsky para assimilá-lo,
e Chomsky recusando obstinadamente em se reconhecer nesta assimi­
lação.
Como seria de se esperar, a neurobiologia molecular constituiu a aposta
fundamental do debate: o fixismo chomskiano fez valer que a inscrição
de programas inatos nos componentes genéticos estabelecia a tese da exis­
tência de um núcleo fixo específico da linguagem como propriedade do
“órgão mental” humano, assim como a função glicogênica é a proprieda­
de do fígado nos vertebrados; o construtivismo piagetiano, do seu lado.
se esforçou em mostrar que os mecanismos de hereditariedade, combi­
nados às mutações genéticas aleatórias, não eram concebíveis senão
quando associadas a um processo universal de auto-regulação que re­
veste uma importância particular no funcionamento do cérebro humano.
É interessante relatar a este propósito o comentário de um especialista
da neurobiologia molecular, J.-P. Changeux, que participava deste en­
contro:
“ [...] Importa estar consciente do perigo destacado por Althusser de
se instaurar uma relação de “exploração” de uma disciplina por outra.
Depreende-se tanto na na exposição de Piaget quanto naquela de Chomsky
uma tendência a explorar a biologia em proveito da psicologia ou da
lingüística” (p. 276-277).
Sobre a analogia entre o cérebro (lugar do órgão mental da lingua­
gem) e não importa qual outro órgão (olho, coração, fígado ou órgão do
andar), J.-P. Changeux observa que a metáfora cérebro/fígado, útil tal­
vez para um público de linguistas, pode se revelar enganosa para psicó­
logos e biólogos: a célula do fígado, hepatócito, só é superficialmente
comparável ao neurônio:

“Na realidade, o neurônio enquanto célula é infinitamente mais


complexo do que um hepatócito. Por seus prolongamentos axiais
e dendríticos, ele pode entrar em relação com, freqüentemente,
milhares de outras células, o que manifestamente um hepatócito
não pode fazer. As funções essenciais do sistema nervoso e, em
particular, a capacidade de aprender, são determinadas por estas
relações intercelulares” (p. 277).

Quanto à noção de “hereditariedade específica” introduzida por Pia­


get a partir das teorias de Konrad Lorenz (teorias pelas quais Chomsky
se interessa igualmente), Changeux também exprime grandes reservas,
sublinhando que as metáforas biológicas, às vezes úteis, se tomam rapi­
damente perigosas quando são extrapoladas.
Fora de toda tomada de posição entre as teses do inatismo e aquelas
do construtivismo, fora de toda síntese hipotética, parece-nos que o pro­
blema (filosófico e lingüístico) se situa aquém deste debate, no ponto de
concordância implícito que sustenta o desacordo, lá onde a interrogação
lingüística cede diante das construções da biologia.
Porque, mesmo supondo que se tome em consideração o status do
patológico com relação à normalidade (o que os dois debatedores não
fazem senão lateralmente e em geral a título de simples prova a contra­
rio), permanece impossível de se referir às categorias do absurdo e do
nonsense, as quais escapam da ordem do biológico2. De modo que, na
série de dicotomias opondo a hereditariedade ao meio, o organismo ao
ambiente, e a história individual à das socidades, alguma coisa da ordem
da língua se encontra inevitavelmente recoberto.
Desse ponto de vista, o debate entre o inatismo e o construtivismo se
reduz ao confronto entre dois narcisismos teóricos, aquele do olhar abso­
luto e aquele da absorção total. A diferença reside na relação com o
tempo.
Pode-se com efeito interpretar a posição inatista como a instauração
de uma distância máxima entre o momento filogenético da constituição
do cérebro humano e aquele de seu emprego nas suas diversas atividades
atualmente observáveis, daí o “comportamento lingüístico”: a história da
evolução das espécies não tem nada a ver, por exemplo, com a história
transformacional de uma frase! Além do mais, as diferenças intra-huma-
nas (étnicas, sociais, históricas) aparecem, nessa perspectiva, como ex­
tremamente fracas face à especificidade humana tal como ela apareceria
em relação a um anjo ou a um Marciano3. A perspectiva inatista tende,
assim, a este olhar absoluto em que, objeto real e objeto de conhecimento
vindo a coincidir, o epistemólogo se instala no lugar do construtor. Geor-
ges Canguilhem denunciou este subterfúgio a propósito da biologia car­
tesiana: poderíamos aplicar a mesma crítica ao chomskismo para o qual,
no fundo, Deus é chomskiano por tudo o que concerne a linguagem hu­
mana4.
A posição construtivista pode ao contrário ser interpretada como um
empreendimento de recobrimento filogenético e ontogenético, no ponto
em que a história de cada “desenvolvimento” individual reproduz parci­
almente a evolução das espécies e a história dos conhecimentos científi­
cos: “ao longo do tempo, novos conceitos e esquemas cognitivos mais
ricos são adquiridos ao mesmo tempo pelos indivíduos e pela comunida­
de científica em seu conjunto”(p. 239).
Os tempos diferentes, incomensuráveis aos olhos de Chomsky, se en­
contram deste modo “telescopiados”*no processo universal da “ultrapas­
sagem”. Da actínia ao homem do século XX, construtor de dispositivos
de inteligência artificial, a auto-regulação dos comportamentos caminha,
resolvendo equilíbrios e conflitos. Esta concepção se apóia sobre outras
figuras metafóricas: não mais os anjos ou os Marcianos, exteriores ao
mundo observável, mas os animais e as máquinas, expressões hieraqui-
zadas do empreendimento auto-regulador.
Também era inevitável que, em um debate entre Piaget e Chomsky,
surgisse a dupla questão de saber se os macacos falam5e se as máquinas
são capazes de ter inteligência.
Para os piagetianos, nenhuma dúvida é permitida: trata-se mesmo de
linguagem e de pensamento, nas formas estadiais, transitórias do ponto
de vista do desenvolvimento das construções (naturais e artificiais) da
inteligência. Com relação ao nível “anterior”, estas formas correspon­
dem à aquisição de estruturas mais poderosas, com uma extensão do
meio própria e com um crescimento dos poderes; o momento do desen­
volvimento humano não é senão o coroamento.
Para os chomskianos de estrita ortodoxia, ao contrário, as construções
da inteligência sensório-motor não saberiam preparar o que quer que seja da
linguagem humana. Chomsky desvaloriza as figuras do animal e da máqui­
na: sua argumentação faz lembrar o famoso símio datilógrafo de Emile Bo-
rel6. A condição de dispor de pouco tempo (para produzir todas as seqüênci-
as possíveis e para separar dentre estas as raras jóias sintaticamente corre­
tas) sendo estritamente irrealizável, a hipótese de construções verbais pro­
duzidas pela inteligência sensório-motora não é pouco vantajosa: nunca o
macaco o mais inteligente disporá de regras gerativas...
Chomsky, que tem uma concepção redutora do estruturalismo, tem
finalmente também uma concepção muito behaviorista da animalidade e
das construções da inteligência artificial: ele deixa para ela generosa­
mente o território da besteira... sem ver o ponto em que a suprema inteli­
gência nela vem se perder7.
A visão piagetiana é diferente, já que é à força de pensar besteiras que
a inteligência supostamente progride até os ápices lógico-matemáticos do
bourbakismo.
O chomskismo coloca um deus construtor na Origem; o piagetismo
constrói a inteligência como Fim da história8.
Cada uma das duas concepções fracassa em pensar seu objeto como
processo sem Sujeito nem Fim(ns): sem dúvida porque, através de seu
desacordo, elas partilham a mesma obstinação lógica em separar o senti­
do do nonsense. Que elas fracassem nisso, uma e outra, infatigavelmen­
te, pode-se interpretar como o efeito material do real da língua.
Desse ponto de vista, a única vantagem filosófica de Chomsky sobre
Piaget é a falha de seu narcisismo teórico: tendo questão com este real,
Chomsky é constrangido a admitir que o saber lingüístico do sujeito fa­
lante excede sempre aquilo que o lingüista é capaz de construir a este
respeito; então, face aos “sujeitos” e suas pesquisas cognitivistas, a epis-
temologia piagetiana não pode se desfazer da absoluta certeza de saber
sempre um pouco mais.

NOTAS

1. Théories du langage, théories de Tapprentissage. debate entre Jean Piaget e Noam


Chomsky, organizado e coligido por M assimo Piatelli-Palmarini, 1979. [Piattelli-Pal-
m arini, M assimo (org.). Teorias da linguagem, teorias do aprendizado. Piaget, J. &
Chomsky. N. São Paulo: Cultrix / EDUSP. 1983.]
2. Ao longo de uma conferência feira no M.I.T. e reproduzida em Scilicet, 6/7, Lacan
provoca os defensores do órgão mental remetendo-lhes ao órgão da marcha: “A única
coisa que me parece substanciar a alma é o sintoma. O homem pensaria com sua alma. A
alma seria a ferramenta do pensamento. O que faria a alma desta pretensa ferramenta?
A alma do sintoma é alguma coisa dura, como um osso. Acreditamos pensar com nosso
cérebro. Para mim. penso com meus pés, é lá unicamente que encontro algo de duro; às
vezes penso com a hipoderme da testa, quando dou um esbarrão. Vi eletroencefalogramas
em quantidade suficiente para saber que não há sombra de um pensamento.”
3. A figura da epistemologia marciana tomou-se trivialidade na reflexão chomskiana. Aquela
do anjo aparecia no com entário meio sério, meio irônico de Jerry Fodor: “ [...] nós
devemos parecer aos anjos da mesma forma que as outras espécies o fazem a nossos
olhos: organismos cuja inteligência é formada por sua história, deste fato fragmetário,
orientado pela tarefa e específica de um domínio. Tenho certeza de que é isto que dizem
os anjos quando eles fazem antropologia. Por pouco que eles causem pena” (p. 472).
4. Esta posição se trai em frases como “os filtros parecem ter sido feitos para permitir saídas
gramaticais correspondendo ás estruturas de base ‘racionais’ (Filtros e controle, p. 488),
que fazem pensar neste grito do coração que o humorista Bernard Shaw, em Cesar e
Cleopatra, coloca na boca do solene Britannus face à maquinária do farol de Alexandria
e de sua estranha caldeira contendo água em ebulição: “Não compreendo, este não é um
modelo inglês” (it is not o f british design). A convicção profunda de Chomsky é que é
impensável que uma língua humana não seja “o f chomskyan design". Os dados, eles só
têm que existir...“de um certo ponto de vista, podemos dizer que estes princípios expli­
cam que os dados sejam como eles são” (Réflexions, p. 138). Mas toda liberdade de falar
segundo outros princípios é deixada aos anjos e aos Marcianos...
5. O grande público pôde formular uma opinião sobre esta questão graças ao filme Koko le
gorille qui parle. As m acacas Sara e Washoe, um pouco menos conhecidas, são as
protagonistas das discussões científicas.
6. E. Borel imagina que se tenha disposto uma armada de macacos datilografando a máquina
ao acaso sobre as teclas: cada linha de quarenta signos constitui uma seqüência, equipará­
vel. dentre o conjunto das seqüências possíveis. O objetivo de Borel é mostrar que a
probabilidade de se obter por esse meio qualquer coisa que se pareça com uma frase é
excessivamente fraca; quanto a obter uma tal tragédia de Shakespeare, virtualmente
contida na atividade destes infatigáveis quadrúmanes, ela é, bem entendido, rígorosamen-
te negligenciável.
7. E, no entanto, Chomsky efetua esta junção sem pensar nela, atribuindo sucessivamente a
uma criança “não estruturada” (segundo os princípios humanos “normais” da manipula­
ção das estruturas linguísticas) e a um epistem ólogo marciano a mesma hipótese -
chomskianamente absurda - de um tratamento seqüencial da relação entre afirmativa e
negativa em sim-não.
8. Piaget e sua dialética universalmente assimiladora fazem sonhar a mais de um teórico
“m arxista” . É na mesma proporção mais tocante notar que o piagetismo permanece
estranho a toda preocupação diretamente política. Por outro lado, a filosofia chomski­
ana autoriza uma política de natureza racionalista humanista pré- (ou pós-?) marxista. O
humanismo se marca por exemplo por este cartaz anti-racista colocado nos muros de
Berkeley, fazendo valer que a G.G.T., por seu universalismo, trata todas as linguas do
mundo sobre um pé de igualdade. O engajamento político pessoa! de Chomsky vai mais
longe: uma posição corajosa e sem concessão.
* NT: No original télescopés.
10. ESTRATÉGIAS FAGOCITÁRIAS
Em alguns momentos da história da Gramática Gerativo-Transfor-
macional, Chomsky deixa de lado uma questão, seja por considerá-la
enigma provisoriamente fora do foco, seja por considerá-la assunto já
compreendido e resolvido. Não se trata, é claro, de questões compreendi­
das e resolvidas a priori (e para sempre), porque - assim como tudo que
diz respeito ao inconsciente freudiano, por exemplo - não encontram
representação no arcabouço teórico da Gramática Gerativo-Transforma-
cional. Trata-se de uma sucessão histórica de controvérsias nas quais
certas questões são tratadas, depois deixadas de lado, para então reapa­
recerem eventualmente sob uma nova forma.
A história da Gramática Gerativo-Transformacional ficou marcada
por essa seqüência contínua de debates, sendo que a força teórica de
Chomsky reside, em grande parte, na sua capacidade de detectar, a partir
de suas intuições estratégicas de lingüista, o ponto em que se situa a
questão crucial do momento, posicionar-se a respeito dessa questão e
recompor face a ela as outras posições teóricas ativas nesse mesmo mo­
mento. É o que dá ao chomskismo esse estilo intelectual particular, no
qual a polêmica guarda sempre o aspecto de uma “questão de família”:
uma série de exclusões e rejeições, baseada em alianças provisórias, con­
ciliações táticas e compromissos de níveis variados...
Com efeito, tudo se passa como se, nessas querelas de família, Chomsky
estivesse (tanto e às vezes mais do que os adversários que enfrenta) en­
volvido numa espécie de duplo jogo de defesa e ataque, cujos princípios
seriam os seguintes:
- posição de defesa, provisoriamente tolerante e conciliadora diante
dos embates secundários do conflito, visando alianças com base em uma
partilha científica do território: liberdade para cada um trabalhar em seu
próprio domínio;
- posição de ataque no front principal, visando colocar o adversário
em um dilema no qual tem de escolher entre duas saídas: aquela de estar,
“na realidade”, de acordo quanto ao essencial com as teses do momento
da Gramática Gerativo-Transformacional (sob uma forma menos ele­
gante, menos geral ou menos fundamentada1), mesmo se ele se obstina
em fingir o contrário, e aquela... de abandonar suas pretensões de conti­
nuar no território científico considerado2.
As considerações precedentes mostraram as diferentes condições
nas quais essa “estratégia fagocitária” pôde exercer-se diante do logi-
cismo, do distribucionalismo, da semântica gerativa, da sociolingüís-
tica e da pragmática. Nem o caso das “teorias da comunicação” esca­
pa, tampouco, dessa estratégia que reveste nesse caso a forma limite
de uma verdadeira autodenegação teórica: o sistema de defesa-ataque
chomskiano é aqui assegurado por declarações paradoxais “raciona-
listas” de não-agressão, que evocam as “inumeráveis circunstâncias
normais” (tais como a conversa comum, as trocas sociais, a escrita
espontânea, a expressão sincera de si mesmo e... a atividade de p es­
quisa) nas quais “a linguagem é utilizada no sentido próprio, as fra­
ses têm seu sentido estrito, as pessoas acreditam no que dizem ou
escrevem, mas (na qual) não há intenção de levar o auditório (que não
é suposto existir ou mesmo suposto não existir) a crer em tal coisa ou
a empreender tal ação3”.
A prática chomskiana das conferências de semi-vulgarização científi­
ca desmente essa afirmação.
Considerar que, apesar dessa denegação racionalista de Chomsky, as
contradições que atravessam o campo da lingüística atravessam também
as atividades teóricas da Gramática Gerativo-Transformacional, não é se
alinhar incondicionalmente do lado dos “teóricos da intenção de comuni­
cação”. Certamente, pode parecer à primeira vista que por meio dessa
série de reconfigurações estratégicas, Chomsky tenha conseguido manter
firmemente suas duas teses diretrizes, a saber:
- a tese da autonomia da sintaxe, diante de tudo que tende a recolo­
cá-la em causa, seja na reflexão lógica, nas abordagens “sociologistas”
ou na própria pesquisa lingüística;
- a tese anti-behaviorísta diante de tudo que pode ameaçá-la filosó­
fica ou tecnicamente.
Mas a obstinação da escola chomskiana em não ver as contradi­
ções que a atravessam a tomam cega ao fato de que, a cada encontro
com adversários, ela faz uma volta em torno de si mesma, por uma
seqüência de vitórias à moda de Pirro... Não é certo que, frente a este
duplo jogo, o chomskismo tenha podido salvar suas duas teses diretri­
zes, diante do logicismo da semântica gerativa, do pragmatismo das
teorias da comunicação e do behaviorismo dos psicolingüistas experi­
mentais.
Da teoria standard à teoria standard ampliada e, depois, desta à teo­
ria standard ampliada revista, Chomsky se dedica a comentar a continui­
dade intencional de seu trajeto, como uma organização política que nego­
cia, de um congresso a outro, suas viradas estratégicas e seus abando­
nos.
NOTAS

1. Françoise D ubois-C harlier (1972) concluiu uma apresentação da controvérsia entre


Lakoff e Chomsky nesses termos: “ Vê-se que a ‘teoria ortodoxa revista’ leva em consi­
deração, com uma análise diferente, várias das preocupações dos semanticistas gerativis-
tas (o que permitirá a Lakoff dizer, por sua vez, que com estas modificações a teoria se
toma uma ‘variante notacional’ da semântica gerativa) - o paradoxal, nesta controvér­
sia, é que tanto Chomsky como Lakoff chegam, ambos, a dizer ao mesmo tempo que as
duas teorias são idênticas, mas que a do outro está errada (esquematizamos, bem enten­
dido. m as é um pouco a im pressão que se tem ao final desta Longa M archa
Teórica).’’Podemos também dizer, como faz J.-C. Milner em sua nota “Pour un système
de réfutation universel" (Por um sistema de refutação universal) (Ornicar?, 7) quando
estuda com o ter sem pre razão no enunciado de uma teoria, enunciando cinco casos
diferentes. Salientamos a exposição do quarto caso: “Seu parceiro defende uma teoria
que não é nem mais forte nem mais fraca.” “Diga que as duas teorias são equivalentes e
aplique uma variante do princípio de Occam. Você defenderá, com efeito, que a teoria
contrária, sendo equivalente, não se distingue da sua senão pela notação (neste caso diz-
se ‘variante notacional’ - forma polida - ou ‘variante estilística’ - forma ofensiva), mas
impeça que se tire a conclusão de que ela tem algum valor. Tendo em vista o princípio de
Occam, segundo o qual os seres e, em particular, as teorias não devem ser multiplicadas
inutilmente, toda teoria equivalente é, em relação à sua, inútil e destinada ao nada.” Nada
nesse texto nem no contexto teórico ao qual ele pertence permite decidir o grau de ironia
chegando m esm o à derrisão nele empregado. Isso não impede o lingüista Milner de
consagrar uma parte importante de seu trabalho a defender a escolha que fez da teoria
standard am pliada contra a semântica gerativa.
2. Já era a posição de ataque fundamental do racionalismo leibniziano com relação aos
empiristas.
3. Réjlexions, p. 79.
11. DOIS CHOMSKY?
Na capa de apresentação de Dialogues, a afirmação de que haveria
“dois Noam Chomsky”, o primeiro, um cidadão dos Estados Unidos de­
nunciando os crimes do imperialismo americano e desempenhando o papel
de “estraga prazeres do ‘liberalismo totalitário’” e o segundo, um lingüista.
Esse desdobramento, modesto e prudente nas suas intenções (entre a
tomada de posição política do simples cidadão e o trabalho do especialis­
ta), pode realmente ser assumido até o fim? É realmente possível conside­
rar que os dois Noam levam a tal ponto uma vida independente que nada
mudaria se fosse constatado que os escritos políticos de Chomsky não
tinham sido escritos por ele, mas por um contemporâneo que, por acaso,
tivesse o mesmo nome?
Não. Em primeiro lugar, as intervenções políticas de Chomsky (e mes­
mo sua crítica da intelligentsia americana) são atos de um intelectual mun­
dialmente reconhecido, e se apoiam nesse reconhecimento. Em seguida e
principalmente: porque o trabalho do lingüista Chomsky não é somente um
trabalho de especialista; em suas reflexões, ele põe em jogo posições filosó­
ficas (principalmente sob a forma de uma controvérsia entre o racionalis-
mo e o empirismo) e não somente um ou outro aspecto especializado de sua
reflexão. Chomsky não se contenta em produzir teorias na lingüística como
as usinas Ford lançam modelos de carros no mercado. Sem dúvida muitos
chomskianos (americanos ou europeus) podem se enganar quanto a isso -
eles se contentam em circular orgulhosamente com o último “modelo” -,
mas resta o fato incontomável, irredutível à pura produção de modelos, de
que Chomsky reflete constantemente na história das teorias gerativas trans-
formacionais, reavaliando seu alcance e sua significação à luz de seu esta­
do “provisoriamente definitivo”.
Se o trabalho político do historiador consiste, ao menos em parte, em
reinterpretar, em função da conjuntura presente, os elementos históricos
conhecidos, é certo que Chomsky realiza um trabalho de historiador, so­
bre seu próprio trajeto e sobre a história da lingüística. A seu modo, ele
reescreve a história da Gramática Gerativo-Transformacional e das ciên­
cias da linguagem... mas o faz “a seu modo”, cedendo a facilidades mui­
tas vezes desconcertantes.
Essa reescritura da história, apagando retrospectivamente alguns pon­
tos do trajeto, projetando, no passado, ancestrais mais ou menos míticos,
retificando suas próprias perspectivas... pode ser também considerada
como um sintoma, como o vestígio de determinações invisíveis, recalca­
das, para serem reconstituídas à luz da interpretação chomskiana.
No estudo desse sintoma, pode-se partir de um primeiro fato negativo:
a ausência quase completa no chomskísmo de referência à tradição gra­
matical européia, exceção feita às figuras ancestrais do cartesianismo e
de Humboldt. Na reconstrução histórica que Chomsky opera, opondo
“lingüística tradicional”, “estruturalismo” e “gerativismo”, tudo aconte­
ce como se a pré-história indo-européia do comparativismo e da neogra-
mática da lingüística atual não existisse. As filiações com os estudos
clássicos e as humanidades, que marcam os trabalhos de Saussure (o
indo-europeu e o verso saturnino), Bally (a filologia grega e o sânscrito),
Meillet (as humanidades greco-latinas) ou Benveniste (o comparativis­
mo, a antropologia e a referência a Freud), não são levadas em conta1.
Pela sua sutileza e pela variedade de suas ligações culturais, o estru­
turalismo europeu destrói as classificações dicotômicas nas quais os epis-
temólogos da Gramática Gerativo-Transformacional pensam a história
da lingüística. Ele é demasiadamente perpassado de preocupações literá­
rias e filosóficas para ser assimilável a essa “variação da pesquisa cien­
tífica” constituída pelo behaviorismo, segundo a expressão de Chomsky
(Réflexions)1.
Os lingüistas europeus são, por sua formação, “eruditos”, às vezes
formados em filosofia ou em psicologia. A lingüística americana começa
em um lugar bem diferente sendo, em grande parte, obra de antropólogos
e etnólogos formados pela escola de Boas. Com exceção de Chomsky,
todos os lingüistas americanos, de Sapir e Bloomfield até Harris, têm
essa característica comum de terem trabalhado, em algum momento de
suas carreiras pelo menos, com as línguas ameríndias, observadas e estu­
dadas em campo. O encontro do outro (no corpus de sua língua, de seus
costumes e de suas práticas) é uma figura chave da lingüística america­
na, às voltas com o completo desconhecido, como o seriam entre nós
esses famosos antropólogos marcianos.

NOTAS

1. Ono Jespersen é um dos raros europeus do século XX a escapar desse silêncio. Mas para
ele. também, a recuperação se faz posteriormente (Questions on Form and Interpreta-
tion).
2. Isso não impede Chomsky, de forma alguma, numa retrospectiva permitida pelo fato de
que o estruturalismo não é mais a frente principal de conflito, de proclamar a importân­
cia histórica de seu mestre Jakobson e do estruturalismo europeu (Hvpolhèses, p. 64).
12. ENSINAR A GRAMÁTICA OU NÃO?
Do lado europeu, então, a lingüística nasce de uma relação que privi­
legia os textos (principalmente os textos greco-latinos), na sua autorida­
de de “letra” e de “espírito”, que faz com que a reflexão sobre a língua
seja normalmente parte do uso “elevado” dela - a base dessa protolin-
güística em formação1é, antes de tudo, a longa série dos escritos religio­
sos e profanos que constitui o corpo das humanidades, o universo fictício
e ideal dos manuais escolares, onde a gramática e a retórica se conjugam
para constituir a figura ao mesmo tempo formal, moral e social do “con­
veniente”. O latim é a língua de referência que realça e embeleza a
língua materna - primitiva e vulgar. Escola de lógica e sinal de reco­
nhecimento social, o latim dá acesso às carreiras da eloqüência, às car­
reiras jurídicas e à política burguesa, essencialmente consideradas como
uma atividade discursiva parlamentar. Na Europa e especialmente na
França, a língua nacional constitui assim um jogo social inscrito na pró­
pria estrutura da escola. A gramática da língua materna, grandemente
decalcada do latim, é objeto de ensino e ocasião de armadilhas e empe­
cilhos em todos os níveis2, na soletraçâo, silabação, pronúncia, ortografia
e nas famosas re grasdêconco rdánc i£ E a prática da explicação de
texttJírprÕlonga isso tudo lTno nívef superior”.
Nada semelhante aconteceu nos Estados Unidos. Os primeiros merca­
dores aventureiros que se instalaram na costa leste não eram especial­
mente humanistas eruditos, e menos ainda os diversos dissidentes religi­
osos, atraídos pelo Novo Mundo, cuja relação com a Bíblia era mais um
modo de vida do que uma leitura erudita das Escrituras. Instalar-se para
sobreviver num espaço desconhecido (virgem aos olhos de colonos civili­
zadores), confrontar-se com um mundo exterior ao mesmo tempo atraen­
te e hostil, produziu uma cultura completamente diferente e, principal­
mente, uma outra significação para a palavra cultura, que a percepção
americana herdará - inteligência prática adaptada a objetivos de sobrevi­
vência e de expansão. Nesse contexto, a língua deixa o espaço europeu
do adestramento (pela repetição, interpretação e comentário) e se toma
um órgão-instrumento do sujeito, um dos meios pelos quais ele se expri­
me, se comunica com os que o cercam e age sobre eles. Isso explica
porque o ensino da língua materna americana apresenta a particularidade
de ser um ensino sem gramática, sem aprendizagem de regras e sem exer-
cicio fonnal no sentido europeu do termo3. O que conta na educação
americana é o treinamento do uso orai da linpna (elnr.nrãn dicção, leitu­
ra) e sua uuhzaçao nos múltiplos confrontos e debates organizados em
aula sobre os mais variados assuntos, que fazem parte integrante das
tradições escolares americanas. A língua americana é assim um órgão
funcional integrado ao sistema corporal, sem essa divisão européia que
opõe, desde a escola, a letra e o espírito, o corpo e a alma, o sensível e o
inteligível. É natural, para um jovem americano, dar conta de uma leitura
desenhando um quadro, escrevendo um pequeno roteiro ou representan­
do-a. E isso continua “no nível superior”, na maneira americana de abor­
dar as obras literárias.
Desse modo, a criança aprende o uso de sua língua materna sem que
ela lhe tenha sido propriamente ensinada. Chomsky exprime o ponto de
vista clássico do sistema escolar de seu país quando, a propósito de uma
controvérsia sobre as “teorias da comunicação”, contesta essa afirmação
de Strawson segundo a qual “os humanos simplesmente não iriam adqui­
rir nem mesmo o domínio da língua se não fossem expostos, crianças, ao
condicionamento dela ou treinamento nela pelos membros adultos da co­
munidade. [...] O problema [das crianças] é o de responder oralmente a
situações de modo a receber uma recompensa ou evitar uma punição, e
não o de expressar suas crenças”4.
As evidências da realidade escolar americana são suficientemente for­
tes para autorizar Chomsky a contestar a afirmação de Strawson: “Não
há razões para pensar que as afirmações sejam verdadeiras” (ibid.).
Certamente, mas será essa uma razão para aceitar as evidências da ideo­
logia americana?
Vê-se talvez um pouco melhor em que condições Chomsky foi levado
a reescrever a história da Gramática Gerativo-Transformacional. Tra­
tou-se, basicamente, de dar conta da descoberta de uma teoria gramati­
cal em condições culturais nas quais não havia nenhuma tradição em
matéria de gramática. Era necessário inscrever essa descoberta (essen­
cialmente o itinerário teórico que vai do estruturalismo de Harris ao ge-
rativismo da T.S.) numa história da lingüística suscetível de prefígurá-la
fomecendo-lhe títulos de nobreza. Foi nessas condições que qs fantas­
mas de Descartes, dos Senhores dcTPort-Royal e de Humboldfàlrâves-
garqpi n AtlânfiVo Alguns5 viam aí uma vingança do anglo-centrismo
sobre as culturas latinas, uma tentativa que visava substituir (absorven­
do) o velho imperialismo cultural greco-latino por um imperialismo lin-
güístico anglo-americano. A Gramática Gerativo-Transformacional seria
dessa forma a expressão de uma corrente anexionista que visava re­
construir as diferentes línguas da Terra pelo modelo do inglês, exata­
mente como os missionários e exploradores europeus tinham reconstru-
ído, do século XVI ao XIX, todas as línguas que eles encontravam to­
mando o latim e o grego como referências universais.
A “lingüística cartesiana” seria, assim, a garantia racionalista clássi­
ca da nova universalidade, ao passo que a corrente humboldtiana seria a
base de seu caráter aberto e criativo.
Mas não é seguro que se possa tomar ao pé da letra essa interpretação
que a Gramática Gerativo-Transformacional dá de suas próprias origens;
a tradição ideológica anglo-saxônica se apagando ela mesma diante dos
fantasmas do racionalismo clássico francês e do racionalismo alemão da
Aufklãnmg. De Locke a Hume, Berkeley, J.S. Mill e Peirce, existe tam­
bém um caminho que conduz até a Gramática Gerativo-Transformacio­
nal, quaisquer que sejam as repugnâncias filosóficas que Chomsky possa
mostrar com relação ao empirismo clássico e suas versões modernas.
Esse caminho, que marca a especificidade teórica das ideologias anglo-
saxônicas, apresenta-se como um sintoma que, na sua própria história, a
interpretação chomskiana não cessa de recalcar.
Isso conduz a reexaminar o fundamento histórico da controvérsia fi­
losófica americana que opõe o empirismo ao racionalismo para tentar
determinar a posição real da Gramática Gerativo-Transformacional, seu
solo ideológico efetivo, sem se ater à palavra da interpretação chomskia­
na, o que supõe um desvio pela história ideológica que, do século XVII
até nossos dias, fundamenta essa controvérsia.

NOTAS

1. Foi na universidade alemã que nasceu a gramática comparada, os elementos favoráveis


estavam ali reunidos. A maior parte dos grandes comparatístas são alemães e numerosos
linguistas da prim eira parte do século XX foram parcial ou totalmente formados na
Alemanha (Whitney, Baudoin de Courtenay, Saussure, Jespersen) ou são germanistas por
formação (Sapir, Bloomfíeld).
2. Sobre a história da maneira pela qual, de 1850 a 1950, as exigências escolares fixaram a
gramática dita tradicional e a ortografia, ver ...Et il fa llu t apprendre à écrire à tous les
petits Français, de André Chervel, que fala de “racionalização da ortografia sob um
aparato que a apresenta como a verdade objetiva da língua”. Em particular, os exemplos
da concordância do particípio passado e do complemento circunstancial.
3. Esse ponto constituiria em si mesmo o objeto de um estudo sistemático que ainda não foi
feito, não no nosso conhecimento. Encontram-se algumas indicações orientadoras sobre
essa questão, por exemplo, uma observação de Ducrot-Todorov no artigo “Norme”, ou o
artigo de W. Labov “L'Étude de l ’anglais non-standard” (Langue Française, no. 22).
4. Réflexions, p. 88, n° 52.
5. É o caso de André Martinet (citado por C. Hagège, p. 47) que fala do “abandono do
imperialismo greco-latino para impor o imperialismo lingüístico do inglês". Igualmente,
numa perspectiva mais política, Joseph Emonds e Frederick Newmeyer (1971) chamam
a atenção para o modo como “ lingüistas sustentaram o poder econômico dominante
pelas políticas lingüísticas internacionais que eles apoiavam”, em particular preconizan­
do o uso do inglês como língua internacional auxiliar.
13. DIREITO CONTINENTAL EUROPEU E
DIREITO ANGLO-SAXÔNICO

Chegamos aqui no ponto mais profundamente recalcado do chomskis-


mo, no qual a gramática e o direito entram em contato através da noção
de regra. Tudo se passa, para Chomsky, como se a oposição racionalis-
mo/empirismo, sendo uma oposição filosófica, devesse encontrar sua ori­
gem no terreno puramente filosófico. No primeiro capítulo, começaram a
mostrar como a categoria do Direito (e, correlativamente, a da Vida) se
dissimulava atrás dessa aparência “filosófica”. O que foi colocado dá
meios de ir mais longe, e de interrogar as variações de relação entre regra
gramatical e regra jurídica, através das diferenças internas que afetam a
categoria do direito (sua ideologia e suas práticas), sob o desenvolvimen­
to ele mesmo desigual e diferencial do modo de produção capitalista.
Essas diferenças têm a ver, ao mesmo tempo, com as formas diferen­
ciadas que a passagem da produção feudal à produção capitalista tomou
na Inglaterra e na França e com as condições bem particulares nas quais
o capitalismo americano se organizou, sem ter que destruir, voltar atrás
e reapropriar os dispositivos político-jurídicos herdados da feudalidade e
da monarquia, com os quais os burgueses europeus se tinham confronta­
do1. Dito de outra forma, o desenvolvimento escalonado do Modo de
Produção Capitalista produziu configurações bastante diferentes daque­
las do direito inglês, do direito continental europeu (de tipo francês) e do
sistema jurídico americano. Isso não deixou de ter conseqüências sobre
as questões que tratamos aqui.
Com efeito, acontece que o espaço do direito europeu continental co­
incide grandemente com o da gramática escolar ensinada, ao passo que a
inexistência, positiva e eficaz, de uma tradição de ensino gramatical mar­
ca o espaço territorial do direito anglo-saxão. Do direito romano até o
Código Civil2, que constitui a sua racionalização burguesa, o direito con­
tinental europeu se apóia sobre o sistema regulamentar de um texto redi­
gido, que tende a constituir a unidade abstrata de uma Razão escrita,
feita para ser aplicada à totalidade das conjunturas da prática jurídica.
Na sua origem, o direito continental é um direito erudito, letrado, doutri­
nal, exercido por especialistas dotados de uma formação universitária em
que o latim traz sua “lógica” ao pensamento jurídico. Nessa ordem uni-
versai da doutrina, a nomenclatura das categorias do direito romano cons­
titui por seu sistema de sanções ao mesmo tempo um modelo de organiza­
ção social e um dispositivo moral de formação dos comportamentos. O
direito continental oriundo do direito romano é, então, fundamentalmente
um direito de regulamentação3.
Sabe-se que o direito inglês é profundamente diferente nas suas ori­
gens e na sua estrutura. Ele repousa antes de tudo na autoridade do pre­
cedente da coisa julgada, inscrita na série de julgamentos cujos textos
sucessivos formam não um código unificado, mas uma acumulação de
arquivos. Não se trata então de aplicar sempre uma regra jurídica a fatos
já constituídos no espaço do Direito, mas de determinar em que medida
os fatos considerados coincidem ou não com um “estado de coisas” que
tenha sido objeto de um julgamento anterior. É aí que intervém a prática
jurídica da distinção, que permite sempre assinalar as diferenças na repe­
tição, as inovações na experiência do passado. Enquanto o espírito do
direito romano é o de aplicar a lei, o do direito inglês é de conduzir um
litígio até seu termo, agindo entre o princípio da tradição e o da distinção,
segundo regras de procedimento cuidadosamente estabelecidas: o direito
anglo-saxônico, derivado do direito inglês, é fundamentalmente um di­
reito de jurisprudência e de procedimento.
O sistema jurídico americano, progressivamente organizado no quadro
do direito inglês e de sua Common Law, apresenta globalmente as mesmas
características do direito europeu continental. Sem dúvida, a questão da
propriedade das tenras introduz uma importante diferença entre a Inglater­
ra e os Estados Unidos quanto ao peso da história no direito. A ausência no
direito americano da longa tradição técnica dos juristas ingleses restringiu
os práticos americanos a se formarem com sua própria experiência, sem
dispor de todas as coletâneas e arquivos que constituem, no entanto, a base
de um direito de jurisprudência (segundo a palavra do decano Pound, “o
principal fator de formação do direito americano foi a ignorância”). As
condições ideológicas eram muito mais propícias do que na Inglaterra para
que os ideais revolucionários das Luzes imprimissem alguns de seus traços
antifeudais ao direito americano, colocando-o assim em posição intermedi­
ária com relação aos direitos inglês e francês (pós-revolucionário e napole-
ônico). O que fica é que o essencial do sistema jurídico americano se funda­
menta nos princípios ingleses. Diante do primado da jurisprudência, a Dou­
trina não se impõe jamais e não pode “codificar” nada (no máximo, pode
ter um periódico restatement o f the law4, que constitui um simples lembre­
te, sem valor legal). O caráter oral e naturalmente dramático dos debates,
sem discurso construído5, traduz o primado do aspecto sistemático, meto­
dológico, até mesmo casuístico, na prática jurídica americana. Enfim, o
papel do juiz com relação à lei vem ainda confirmar essa apreciação, na
medida em que somente a interpretação da lei, em situação, pelo juiz qua­
lificado para fazê-lo, lhe dá verdadeiramente um sentido (nela mesma, a lei
não significa nada enquanto não tiver sido interpretada, a obscuridade in­
trínseca e positiva do enunciado legal só desaparece pelo uso institucional
regulado).
Assim, nesse sistema de diferenças que opõe o espaço da regulamen­
tação ao do procedimento, o lingüístico e o jurídico se encontram do
mesmo lado.
No espaço regulamentar, a determinação pode revestir a fonna hete-
ronômica pelo constrangimento (efeito do arbitrário feudal) ou, por des­
locamento e retomo, a forma autodeterminada da Razão (o efeito de uni­
versalidade da revolução burguesa à moda francesa). Nos dois casos, no
entanto, o constrangimento é de natureza dedutiva totalizante e silogísti-
ca e coloca o fato individual sob a generalidade da lei.
O espaço da regra de procedimento põe em ação uma outra forma de
constrangimento formal completamente diferente, no qual a aplicação do
raciocínio aos “dados” supõe incessantes mudanças de nível para obrigar
as antinomias a se revelarem, mostrando dessa forma o absurdo ao diri­
gi-lo metodicamente contra si mesmo.
É que, nesses dois espaços, o trabalho de interpretação é completa­
mente diferente. No primeiro, trata-se de trabalhar as fórmulas de um
texto para nele incluir ou excluir tal ou tal caso. No segundo, é a fonna,
a estrutura lógica da situação que trabalha de alguma forma sobre si
mesma. Como não vir logo à idéia que as gramáticas européias metafori-
zam o primeiro espaço, onde (de Aristóteles a Kant) a lógica se coloca
como sistema dos Universais da Razão? Enquanto que a linguística ame­
ricana, que culmina na Gramática Gerativo-Transformacional com sua
prática do distinguo e das sutilezas, seu gosto pelos debates extremados
e sua familiaridade com o absurdo, metaforizaria epistemologicamente o
outro espaço, o da lógica como método e procedimento6.
Como se, na constituição do pensamento moderno, a escolástica me­
dieval não tivesse desaparecido sem deixar resto, mas tivesse se rompido
em dois pedaços, consagrados a um destino diferente: a lógica dos uni­
versais no espaço racionalista europeu, a casuística no espaço do empi­
rismo W.A.S. P White Anglo-Saxon Protestants...6b's*.

NOTAS

I. Entretanto, a luta contra as forças históricas do passado não está ausente da história do
Estado americano. A chamada guerra de Secessão teve por motivo a questão da escrava­
tura. conseqüência do comércio triangular. O importante foi que a “abolição” que dela
resultou não teve de maneira nenhuma as mesmas repercussões na construção dos EUA
que a destruição da feudalidade na construção dos Estados burgueses europeus.
2. O debate entre direito canônico e direito romano e o papel do direito monárquico galicano
deveriam evidentem ente ser exam inados em detalhe nessa reinscrição. NT: Galicano
refere-se à igreja católica francesa que se posicionava contra o controle administrativo
papal.
3. Como exemplos desse direito continental temos o Código civil napoleônico, o Código
prussiano e o sistema jurídico da monarquia austro-húngara (mundo burocrático “kafki­
ano”).
4. O restatement o f the law constitui um empreendimento de reexposiçâo sistemática do
direito. Trata-se de uma série de obras continuamente revistas, que apresentam as diver­
sas partes do sistema jurídico sob a forma de disposições claras e logicamente coordena­
das e seu conjunto constitui uma espécie de código oficioso desprovido de qualquer valor
obrigatório legal. N ota-se que a oposição regulam entação / Common Law parece se
reabsorver progressivamente, na medida em que o aumento das dimensões da máquina
jurídica impõe sua uniformização pela legislação promulgada. Mas essa introdução da
regulamentação legal no sistema americano se acompanha (e se mascara) de um recurso
constante a essas disposições supra-jurídicas (referidas no texto da Constituição) e às
medidas infra-jurídícas elaboradas em múltiplas “comissões”, como a National Advisory
Commission on Criminal Justice Standards and Goals, criada em 1973. O sociólogo do
direito, Jean-Paul Brodeur. a quem devemos os esclarecimentos que precedem, nos fez
observar (com unicação pessoal) que a noção de standard tenta integrar de maneira
precária a motivação regulamentadora da tradição jurídica européia e a motivação prag­
mática da tradição anglo-saxônica. O standard visa uniformizar a prática mas não tem
valor de lei (embora seja muitas vezes mais eficaz!) e seu enunciado é essencialmente
provisório.
5. Na formação dos juristas americanos, o treinamento para a arte do debate desempenha um
papel importante, sob a forma de tribunais fictícios (m oot-coun ), onde virtualmente
casos são debatidos, segundo a tradição escolar americana e um pouco à maneira dos
confrontos organizados pelos estudantes nas universidades medievais.
6. J.-P. Brodeur observa a respeito disso: “talvez a aproximação entre a noção de standard
e as diversas reformas do chomskismo sob a forma standard theory, extended standard
theory, modified extended theory não seja fortuita. Ali se desenvolve, me parece, uma
parte ambígua que não deixa de ter analogia com o direito americano: produzir um
consenso (motivo de regulamentação) aberto a um perpétuo processo de revisão (moti­
vo pragm ático)” .
6.b,s Em seu texto Arts de faire, M. de Certeau [NT: Certeau, M. de. A invenção do cotidiano:
/. artes de fa zer. Petrópolis: Vozes, 1994] parece tocar nessa distinção pelo viés da
separação entre “estratégias” (insularidades administrativas ou científicas dominantes,
inscritas nas línguas artificiais) e “táticas” (as formas de resistência prática colocando
em andamento, segundo as ocasiões, procedimentos sofísticos, para não dizer casuísti­
cos).
*NT: W.A.S.P., sigla que indica White Anglo-Saxon Protestant.
14. ENIGMA, WITZ E JOKE
O espírito dos universais não é o mesmo que o da casuística, o que é
marcado na língua por uma relação diferente no humor.
Do lado das classificações e regulamentos, o enigma clássico (a ques­
tão apresentada a Édipo sobre o animal que anda com quatro, depois com
duas, depois com três pernas), que, por exemplo, na França, é recriado
no contexto escolar nas brincadeiras de colegiais, muito freqüentemente
na base de jogos com a língua ou trocadilhos (as questões como O que é,
o que é?, ou Por quê?, os Qual é o cúmulo do...?, as diferenças e as
tautologias1).
Do outro lado, os jogos de absurdo e as antinomias circulam entre o
Witz judeu e o joke anglo-saxão.
Essa diferença de espírito aparece como o minúsculo sintoma de uma
grande diferença histórica no tratamento do que se denomina a “questão
judia”.
Na Europa, essa questão adquiriu a forma de uma diferença irrecupe­
rável, de uma alteridade que não pode ser absorvida na universalidade da
razão: da Espanha à França, da Europa Oriental à Alemanha, o que foi
perseguido durante dez séculos, através dos ataques às comunidades ju­
dias, os banimentos e os guetos foi, antes de tudo, a singularidade frágil
de uma religião sem Estado e de uma língua sem território, obrigada a
sobreviver no equívoco2, sob a racionalidade ocidental que se instalava,
afastando-se das formas da escolástica.
A contribuição que os judeus da Europa trouxeram ao desenvolvi­
mento dessa racionalidade não deve dissimular que, simultaneamente, a
tradição casuística (a prática da interpretação dos textos levada até o
raciocínio vão, a arte do debate sustentada, através de uma teia de argú­
cias, até os confins do absurdo) conservava todo o seu vigor nas comuni­
dades judias. Essa tradição sobreviveu, paralelamente, como uma outra
racionalidade, inscrita nas singularidades concretas de uma história, es­
capando ao Todo da razão transhistórica ocidental.
A questão judia não tomou a mesma forma, de maneira alguma, no
espaço ideológico anglo-saxão: a Inglaterra de Cromwell retoma o regu­
lamento de expulsão editado por Eduardo I em 1290, e a integração dos
judeus ingleses realiza-se, em seguida, sem muitos problemas3. Quanto
aos Estados Unidos, as práticas de extermínio de massa, de expulsão e de
prisão não estão ausentes de sua história; mas essas práticas foram exer­
cidas com outros povos, por evidentes “razões” relacionadas às necessi­
dades capitalistas de apropriação de territórios (a questão indígena) e a
gestão de uma força de trabalho liberada da escravidão (a questão ne­
gra)... A integração judia nos Estados Unidos nunca constituiu realmente
uma questão política. Ela foi acelerada, aliás, pelas circunstâncias políti­
cas do entre guerras europeu, antes de tudo pelo anti-semitismo de massa
dos regimes nazistas: de 1930 até os nossos dias, os intelectuais judeus
ocuparam um lugar decisivo na Grande Travessia.
Todas essas determinações explicam que a ideologia W.A.S.P. tenha
acolhido tão facilmente a tradição intelectual judia, fundindo-se com ela
a ponto de nela se reconhecer, e, muito freqüentemente, de com ela se
identificar. Isso suscita a questão geral da relação que as bases do pensa­
mento americano mantêm com a cultura judia, questão que será especifi­
cada aqui, no domínio da lingüística4, interrogando-se a posição específi­
ca desta última: entre as tendências da reflexão lógica anglo-saxã (e suas
relações com o absurdo) e a tradição intelectual do Witz judeu, entre o
raciocínio pelo absurdo e a argumentação a contrario (naquilo que ela
reproduz do funcionamento talmúdico). Os pontos de emergência desse
lugar são múltiplos: entre o papel dos debates escolares e jurídicos na
cultura americana e a tradição pedagógica própria às sinagogas (ao mes­
mo tempo lugar de culto, escola e biblioteca); entre o estatuto americano
do juiz, cujas decisões são sistematicamente publicadas e comentadas
como interpretações da lei, e a função dos rabbis, intérpretes e juízes em
matéria judeo-religiosa; entre a casuística judiciária do direito americano
e a argumentação talmúdica, enfim.
Não é de se espantar que, nessas condições, questões lógico-lingüísti-
cas muito “sérias”, referentes à necessidade e à contingência, ao singular
e ao geral, ao funcionamento prático dos silogismos como regra de vida,
aos fundamentos lingüísticos e não lingüísticos da referência e da verda­
de, ao jogo dos shifters abordados pela correferência na comunicação
verbal, etc, possam apresentar, nos trabalhos americanos, uma tão estra­
nha familiaridade com os temas ancestrais do Witz judeu, literalmente
obcecado pelas questões de fronteiras (fronteiras do sentido, do corpo, da
língua, da razão e do pensamento...).
Tal conjuntura não é estranha ao fato de que o chomskismo tenha
conseguido extrair de maneira tão precisa o papel heurístico determinan­
te do agramatical, enquanto exterior específico da língua.
Do mesmo modo, as reflexões sobre a identidade e a relação entre
uma coisa e seu nome adquirem um contorno particular em um universo
de pensamento no qual, tendo-se ultrapassado uma fronteira invisível,
pode acontecer que as cadeias desapareçam (Wittgenstein e Quine), que
os gatos desapareçam lentamente por trás de seu sorriso (L. Carroll), ou
que mesmo uma inexistência de cachorro tenha um preço (Witz judeu).
Não desenvolveremos mais, aqui, todos os traços pelos quais o Witz
judeu e o humor anglo-saxão coincidem e acabam formando uma base
epistemológica específica, facilmente reconhecível na lingüística ameri­
cana e nos trabalhos da escola de Chomsky: é bem provável que esse
encontro seja considerado, nos próximos anos, como uma identidade de
natureza e tome-se um novo lugar comum do “pensamento ocidental”.
Sobre esse ponto, faremos, antecipadamente, grandes reservas, apoian­
do-nos no exemplo do chomskismo: o encontro do amor judeu com o
absurdo anglo-saxão é o lugar de uma contradição e não de uma simples
fusão. Acrescentemos que os desafios ligados a essa contradição são de
uma natureza diretamente política, já que há uma relação entre a língua e
a história.
Marcamos essa contradição pela tensão que surge entre o joke e o
Witz, no desvio de duas breves brincadeiras:
- o joke é a resposta do camponês americano a seu pastor, no mo­
mento em que este último o convidava a agradecer ao Senhor por lhe ter
dado uma terra tão bela: “Se o senhor tivesse visto o estado desta terra,
quando Ele ma deu!...”
- o Witz é a resposta do pequeno alfaiate judeu a seu cliente descon­
tente por ter esperado durante seis anos a entrega de uma calça e obser­
vando que Deus só havia levado seis dias para criar o mundo: “Sim, mas
veja a calça e veja o mundo...”
Entre essas duas histórias, há também uma fronteira a atravessar, do
otimismo operatório e demiúrgico da atividade humana transformando o
mundo, ao pessimismo lúcido daquele que sofre as vicissitudes como um
destino histórico. Pelo seu jogo, o humor anglo-saxão traça fronteiras no
domínio da língua, usa o absurdo como uma ferramenta domesticadora e
pedagógica, para fazer surgir a necessidade deste mundo diante da de
todos os outros mundos possíveis, para organizar essa necessidade e do­
miná-la5.
Compreende-se que em tal terreno o equívoco e o incongruente sejam
apenas ervas daninhas que a jardinagem lógica se empenha em fazer de­
saparecer. A ambigüidade anglo-saxã é fundamentalmente dicotômica:
ela se inscreve nesse mundo lógico reduzido, nesse modelo reduzido cons­
truído pelo raciocínio lógico6.
A relação do humor judeu com o absurdo é diferente: não se entrega
nunca à pura lógica, mas supõe sempre um desvio pela história, a língua,
o Texto. O Witz é obcecado pela letra de um texto indefinidamente ambí­
guo, desprovido, na origem, dos limites da pontuação7, e das marcas
modalizadoras da afirmação e negação: um aquém da frase, nos conteú-

É
dos indeterminados e inacabados, em suspenso, como a escrita do janse-
nismo de Port-Royal8... Um aspecto da ambigüidade que não podia esca­
par a Chomsky: a lingüística americana encontra-se do outro lado, do
lado de um humor lógico surdo ao equívoco9.
Nesse ponto, a questão política se revela na contradição: o humor
judeu e o joke anglo-saxão têm em comum esta maneira bem particular
(ao mesmo tempo cheia de respeito e de derrisão fóbica) de entrar em
contato com a diferença, a exterioridade, a adversidade possível; mas a
semelhança permanece aí. Além disso, há tudo o que separa uma ideo­
logia dominada - pela qual a “normalidade” que lhe é historicamente
imposta é o absurdo que se deve aceitar tal qual para sobreviver - de
uma ideologia dominante e expansionista, reforçando a sua normalida­
de pela demonstração do seu absurdo10. O encontro da alteridade indí­
gena, negra, chicana ou porto-riquenha, a partir da língua materna
americana, não tem a mesma significação que a inscrição no espaço de
socialização yankee de uma criança cuja família continua a falar ídiche
no quotidiano. Questão de dominação nas relações entre as línguas,
questão política que separa a fraqueza dos dominados e a tranqüila
certeza do dominante a que, “normalmente”, o mundo pertence. Ques­
tão política da relação com a normalidade, na sua forma biológico-
natural e jurídico-institucional.
O que se constata desse ponto de vista na história da G.G.T., tal como
ela se reinterpreta ao se retificar, é um deslocamento progressivo do cen­
tro de gravidade das preocupações chomskianas: no começo, lida-se com
uma nova teoria gramatical, passavelmente consistente e tendendo a rea­
lizar sua própria completude. A situação viveu uma tal evolução que se
chegou a discussões acadêmicas, ultra-especializadas, até sectárias, do
chomskismo atual, ligadas a uma filosofia militante da linguagem como
órgão mental. Tudo se passa como se os piores lados da casuística medi­
eval, do ergotismo talmúdico e das argúcias do empirismo W.A.S.P. ti­
vessem marcado encontro no coração de uma concepção biologizante a-
histórica do Homem.

NOTAS
1. O que fica exatamente no meio de Paris? (a letra R). Por que Napoleâo usava suspensórios
tricolores? (Para segurar as calças). Qual é o cúmulo da freira? (Viver virgem e morrer
como santa). Qual é a diferença entre Paris, Virgínia, o explorador e o urso branco?
(Nenhuma: Paris é metrópole, Virgínia amava demais Paulo, o explorador ama estar no
pólo e o urso branco é dono do pólo), N.T. Em francês, este último jogo é possível por
causa de “pôle” , que aparece foneticamente em mélropole, Paul, pôle.
2. Sobreviver: entre a língua morta da religião (o hebreu), a língua da comunidade (ídiche ou
judeu-espanhol) e a língua do Estado com a qual ela se relaciona. Neste ponto, ver o
belíssimo testemunho, ao mesmo tempo biográfico e histórico, de uma filha de comunis­
tas judeus poloneses: Le Cheval blanc de Lènine, de Régine Robin.
3. 0 que não quer dizer que não haja anti-semitismo inglês: anti-semitismo na literatura
inglesa (O mercador de Veneza. Dickens...), problema judeu numa época de revival
protestam no século XIX. surgimento de guetos no século XX (East End de Londres),
anti-semitismo militante que ganha grupos de intelectuais (Eliot. Pound).
4. Sempre se observou a importante proporção de linguistas americanos de origem judia
(ver, por exemplo, Giulio Lepschy, 1968, p. 101, sobre Sapir: “de origem judia, como
várias grandes personalidades da lingüística americana, de Boas a Bloomfield, Harris,
Chomsky”) [Lepschy, G. A lingüística estrutural. SP: Perspectiva, 1971] Na falta de
comparação sistemática com outros domínios da atividade científica nos EUA, é difícil
ver nisso mais do que um indício, favorável às teses apresentadas aqui.
5. Jean-Jacques Lecercle (em comunicação pessoal) propõe-nos a seguinte síntese das
propostas das posições que ele elabora em sua tese: Le non-sense.
1.0 non-sense (Carroll, Lear...) é o lugar de uma contradição produtividade textual/texto
como produto; sentido como processo ou processo*/sentido como efeito. Isto dá conta das
características próprias do absurdo do nonsense**: palavras insensatas, mas frases bem
formadas; histórias idiotas, mas narradas segundo as regras da narrativa ou consideradas na
coação de uma metrificação estrita (exemplo: La chasse au snark, que é uma história louca,
cheia de mapas geográficos brancos e de monstros inexistentes, mas que é também um
concentrado de epopéia, repleta de leitmotiv, de clichês retóricos e obedecendo a uma
versificação rígida). Essa contradição adquire diversas formas, lingüisticas (desregramento
semântico/hipercorreção sintática), lógicas (ilogismo/silogismo), literárias (maravilhoso/
terra a terra). A paródia do nonsense é um bom exemplo dessa contradição: ela é, ao mesmo
tempo, afirmação do valor do modelo do texto parodiado, marca de admiração.
* NT: No original “sens comme procés ou processus/sens comme effet": em que procès diz
respeito ao processo jurídico, enquanto processus concerne ao encadeamento de fenô­
menos.
** NT: No original non-sensique.
2. Essa contradição tem um aspecto dominante, o segundo. O desregramento introduzido
pelo nonsense é tão somente o pretexto para o surgimento de uma super-regularidade.
No centro do texto nonsense* há uma falta (mais frequentemente semântica): o texto
desenvolve, em torno dessa falta, e para conjurá-la, toda uma série de estruturas de
acréscimo: numérica (duplo ou série), sintática e retórica (inventários, paralelismos),
narrativa e prosódica (lugares comuns narrativos, versificação estrita). O nonsense é um
gênero sintático: a sintaxe é sempre rigorosamente observada e serve de barreira. A
hipercorreção sintática é o excesso que conjura a falta semântica.
* NT: No original non-sensique.
3. Extrai-se do nonsense uma concepção implícita à linguagem, que não é, realmente, a de
Humpty Dumpty; é uma concepção de lógico: a linguagem é um instrumento de comunicação,
inadequado, porque permite a ambigüidade e os jogos de palavras; o nonsense tem uma estratégia
corretiva: pôr em ação todas as possibilidades de fracassos da linguagem para denunciá-los, para
consertá-los. Mas essa estratégia é contraditória: há um risco em entrar nesse jogo, é o de ver
a língua escapar ao sujeito que a fala, vê-la falar o sujeito (Humpty Dumpty, enquanto mestre
da língua, tem como função renegar este risco). Esta é a tendência que se anuncia num texto
nonsense*, mas apenas se anuncia: cf. a operação da contradição anunciada acima.
* NT: No original non-sensique.
4 .0 nonsense insere-se numa conjuntura ideológica (participa da “ideologia dominante”
- termo aqui excessivamente vago). Produz-se no seio de um aparelho ideológico deter­
minado, o A.l.E. escolar: sua origem imediata deve ser pesquisada nas canções de alunos
de escolas (e não nos Nursery Rhymes), e o nonsense perde o seu lugar na história da
literatura infantil vitoriana: como os outros textos destinados às crianças, o texto
nonsense* tem valor educativo (o nonsense é um gênero pedagógico); diferente dos
outros textos, é um texto consciente do papel e do funcionamento lingüisticos; não mais
pregação religiosa ou moral, mas aprendizagem lingüística (o que vai bem mais longe do
que as simples regras de gramática; o nonsense analisa também o emprego da linguagem
em situação: polidez lógica como arma, réplica, etc).
* NT: No original non-sensique.
6. A noção de mundo lógico reduzido corresponde ao ambiente dos robôs inteligentes, do
tipo do autômato de Vinograd (capaz de manipular cubos, cilindros, cones e pirâmides e
de aprender a construir torres dialogando com um instrutor humano), e ao dos macacos
falantes educados em laboratório. No horizonte, uma fusão das capacidades infra-huma-
nas e supercibeméticas, renovando os fantasmas de mecanização da “besta humana”. A
pesquisa do jornalista científico Vance Packard, traduzido para o francês sob o título de
L 'homme remodelé, dá uma idéia terrificante do que espera a humanidade.
7. A escrita hebraica é determinada pelas consoantes; este fato, associado ao papel místico
que lhe é atribuído nos cálculos dos “números" da Cabala, retoma as constatações feitas
acima sobre a função imaginária das consoantes no espaço do pensamento conceituai:
aqui agora, as vogais representam o nível do sensível e do acessório....
8 . Aproximamo-nos aqui da análise de certos aspectos do sonho, realizada por Freud.
Podemos nos indagar se, na maneira atual pela qual a psicanálise aborda essa questão, ela
não ficou muito como uma espécie de linguística da palavra, surda aos problemas da frase
e da sintaxe. Como escreve M. Ronat em “Chomsky 78”: “Os escritos psicanalíticos -
pelo menos a prática - consideram uma concepção muito simples da língua. Os jogos de
palavras citados, os lapsos, etc., referem-se, em sua maior parte, a aspectos que diríamos
“locais” e “superficiais”. O campo da negação, por exemplo [...] ou a palavra com duplo
sentido. Ou o trocadilho com algumas palavras contíguas. Ora, evidentemente, “a língua
trocada” está em todo lugar em que a base de uma regra lingüística lho permitir: não
somente graças à homonímia, às ambigüidades estruturais, etc. Mas, por exemplo, no
nível transformacional. Há também lapsos transform acionais.
9. Não parece que esse ponto tenha sido realmente levado em consideração por J.-C.Milner,
que, em L ’Amour de la langue, identifica a gramática gerativa com a noção de escrita
formal, reservando o resto aos poetas. Quanto a Judith Milner, que aborda a questão das
fronteiras e de sua transgressão do interior da gramática gerativa, ela não parece verificar
nenhuma diferença de fundo entre o Witz e as acrobacias lógicas à Lewis Caroll (o que não
suprime em nada o prazer que pode nos dar a leitura de Alice).
10. O sionismo, que tenta passar por uma ideologia dominada, é um elemento constitutivo da
ideologia dominante americana. A propósito, disse Chom sky recentemente: “Um dos
grupos de influência mais eficientes nos Estados Unidos, no que se refere à informação,
é o meio sionista. Não se deveria crer que é um meio judeu: compõe-se essencialmente
da intelligentsia liberal. Para quem Israel tornou-se o símbolo da maneira pela qual se
deve tratar o terceiro mundo.” (Charge, n° 38, p. 114).
75. A LINGUAGEM HUMANA VISTA
POR UM MARCIANO

Sabemos que esta filosofia chomskiana faz da lingüística uma parte


da psicologia, essa última estando inscrita num setor da biologia - en­
quanto teoria dos diferentes órgãos mentais integrados a título de elemen­
tos modulares no sistema inato dos órgãos do sujeito humano.
No princípio, nenhuma parte do campo da experiência humana deve­
ria escapar a essa “hipótese geral do que é inato”, já que ela inclui a
existência, a título de módulo do senso comum, de princípios referentes
ao “lugar e ao papel dos indivíduos na sociedade, à natureza e às condi­
ções de trabalho, mas também.... à estrutura da ação humana, à vontade,
à escolha, etc.” 1; assim todo o real histórico encontra-se absorvido, de
direito, por essa biologia fantástica... de direito, se não de fato, pois,
afirma imediatamente Chomsky, os sistemas que vêm a ser evocados são
“provavelmente inconscientes e mesmo fora de alcance para a introspec-
ção consciente” (ibid.). De maneira que eles devem ser considerados como
um vasto pano de fundo de suposições, de crenças, de atitudes e de con­
venções não especificadas. Definitivamente, a história escapa ao conhe­
cimento porque seu real não é imediatamente presente na razão (como o
é, por exemplo, o real da gramática universal, perceptível na própria
existência da linguagem); ele se dissolve na crença. Compreendemos des­
de então que o real histórico seja objeto de uma expulsão fora da esfera
racional, em nome da luta contra o empirismo: da história como órgão
mental, não há grande coisa para dizer!
Do ponto de vista dessa antropologia “marciana” que constitui o dis­
farce contemporâneo de uma posição clássica em filosofia, a única ques­
tão verdadeiramente interessante é a da estrutura e das fronteiras da es­
sência humana, como núcleo racional baseado num universo biológico:
reinterpretada nessa filosofia, a G.G.T. toma-se uma prova em apoio da
existência de um núcleo humano invariante, pelo menos para o que se
refere ao setor modular da linguagem. A título de contra-hipótese, os
chomskianos chegaram a imaginar que um pesquisador marciano, bem
equipado e tão pouco sensível às considerações da ética humana quanto
um médico nazista, decida educar crianças humanas em condições expe­
rimentais, privando-as de qualquer contato com uma língua humana qual-
quer, e lhes impondo o uso de uma língua artificial violando sistematica­
mente certas regras da gramática universal humana: a “língua mental” da
gramática universal (chamemo-la de metalinguagem2) seria atingida ao
mesmo tempo, de maneira que essa experimentação-limite sobre a língua
materna constituiria o equivalente comportamental de uma manipulação
genética atingindo a própria estrutura das capacidades humanas3.
Esse jogo especulativo no limite do possível, na encruzilhada dos ca­
minhos entre o behaviorismo e o racionalismo, apresenta a questão: o que
seria, para um sujeito humano, pensar, falar e viver? A lua prossegue a
sua órbita, sem calcular seu trajeto nem dispor do conhecimento das leis
de Newton; a pedra é atraída para o centro da terra sem nenhuma apren­
dizagem; o coração não aprende a ser o coração... Do mesmo modo,
segundo Chomsky, a metalíngua da lógica natural freia o seu caminho e
produz um sistema de regras que permite a cada humano distinguir os
seres animados humanos e não humanos, os objetos manipuláveis como
instrumentos ou não, alienáveis ou não como bens que se trocam ou par­
tes do corpo... Tudo se passa como se, por uma espécie de harmonia
preestabelecida, a gramática universal guardasse as categorias, também
“universais”, do direito burguês: a responsabilidade própria ao direito
das pessoas, a possessão ligada ao direito sobre as coisas4.
Vemos mal, nessas condições, como os discursos da história, na sua
forma prática e teórica, poderiam ser outra coisa além da construção de
relações místicas entre conglomerados imaginários tais como “o capi­
tal”, “as massas”, “o povo”, “a classe operária”, etc, invisíveis aos olhos
sociobiológicos dos sábios marcianos: nem coisa, nem ato, os procedi­
mentos de exploração da luta de classes e da revolução são inclassificá­
veis no direito... e irrecuperáveis na gramática, a não ser nas formas da
série, do coletivo e do indefinido. E se a luta de classes escapasse às
evidências lógicas da gramática como às evidências práticas de qualquer
administração das pessoas e das coisas, e às injunções ortopédicas e
policiais com as quais todo direito fundamenta sua base, se ele funcio­
nasse, por outro lado, na regulamentação ou no processo5?
As únicas falhas que podem ser observadas no próprio interior da
gramática universal chomskiana não estão desse lado, em que o real da
história é excluído sem retomo: elas só aparecem, de fato, na fronteira
ambígua do corpo como ponto paradoxal, oscilando entre o animado e o
inanimado; as observações de Chomsky sobre a expressão a perna de
John são esclarecedoras a esse respeito:
“O sintagma John s leg é ambíguo: podemos utilizá-lo para referir­
mo-nos, ou à perna que John tem por acaso em sua posse (posse aliená-
vel), e que ele leva, por exemplo, sob o braço; ou à pema que faz real­
mente parte do corpo de John (posse inalienável)6.”
Uma longa série de exemplos, de reflexões e de exceções que
florescem na literatura condensa-se nas reflexões de Body moves in
Semai and in French (1974), de Diffloth, em que um ponto de vista
de semântica gerativa se serve da questão das partes do corpo para
discutir a elaboração da categoria agente: os sujeitos dos movimen­
tos corporais não seriam realmente agentes, na medida em que eles
não comportam o predicado atômico CAUSA (ele próprio estabele­
cido graças a um certo número de testes, comportando particular­
mente a voluntariness, que nos leva diretamente à questão da inten­
cionalidade e da responsabilidade).
Poderíamos, assim, organizar na G.G.T. uma lista de dilemas relacio­
nados à expressão do “funcionamento gramatical” ambíguo das diversas
partes do corpo, oscilando entre a indivisibilidade autônoma e responsá­
vel do corpo como esfera pessoal expressiva, e a coisificação de partes
destacadas, peças artificiais ou dejetos7.
No confluente do direito, da lógica e da saúde (física e mental), a
filosofia chomskiana supõe uma administração do mundo “normal” apli­
cada a preencher as suas brechas, como se a “naturalidade” das evidênci­
as corporais e comportamentais estivesse sempre sendo assegurada, di­
ante do lapso e do ato falho. E de que se protege, assim, a lingüística
contemporânea, se não for dessa fragilidade subjacente que ameaça as
evidências mais bem instaladas?
Diante da garantia peremptória da asserção chomskiana, segundo a
qual “o coração não aprende a ser o coração”, diante das certezas dignas
de uma nova teologia8que essa garantia envolve, referente à Ordem das
coisas, inscrito na essência dos seres, a inquietação do Witz retruca: se
lhe disserem “cão que ladra não morde”, responda sempre: “sim, mas
será que o cão que está latindo atrás de mim sabe disso?”

NOTAS

1. Réflexions, p. 46.
2. Trata-se realmente de uma novidade? Ela não deixa de lembrar a “língua-pensamento” de
Nicolas Marr, de quem este último escrevia: “E é precisamente esse meio da comunica­
ção humana desigual pela sua eficiência, a saber, a língua-pensamento, que é preciso
utilizar como meio mágico, para não somente levantar um pouco a moral no trabalho,
intensificar os ritmos e com paixão levar seu trabalho atual a termo com sucesso, mas
para organizar o trabalho com uma planificação consciente por numerosos anos nas
condições de um livre aperfeiçoamento técnico desse trabalho” ( in Les Maîtres de la
langue, p. 1 1 2 ).
3. Podemos sempre sonhar... “Talvez eles pudessem [os Marcianos], sem violentar nenhu­
ma regra da ética científica marciana, provocar certas mutações genéticas entre os
humanos para determinar suas conseqüências eventuais no comportamento lingüístico
humano” (Jacob e Pollock. 1979, p. 753). No imaginário: o romance de ficção cientifica
pura (por enquanto) A inserção, de lan Watson. Numa experiência em três partes
(perturbação da lógica, da percepção visual e da linguagem entre as crianças educadas em
meio isolado), um linguista ensina a uma criança uma “língua inserida” traduzida por um
computador. A criança ficará louca.
4. As noções de objetivo, fonte, agente e instrum ento de ação, aceitas por Chom sky
enquanto relações temáticas próprias ao sistema linguístico universal, manifestam essa
reinscrição do Direito na gramática sob a figura do Biológico.
5. A oposição res/personna dom ina a reflexão chomskiana sobre os exem plos, entre a
tecnologia instrumental em relação às coisas (John utilizou a mesa para escrever em
cima dela; John quebrou a janela com um martelo; John utilizou esse martelo e essa
espátula para esculpir esse personagem) e a investigação juridica das responsabilidades
(John suspeita BUI de ter matado Jane). O corpo constitui o ponto de encontro do
intencional e do não-intencional (Um vento bastante fo rte endureceu completamente o
braço de John). A questão de saber se Nixon é uma pessoa ou um autômato inscreve-se
no mesmo contexto filosófico, do mesmo modo que a discussão (retomada por Saül
Kripke) de Chomsky (em Réflexions) sobre o que aconteceria à pessoa da rainha Eliza-
beth II se fosse concebível que ela tivesse outros pais que não os que a história lhe atribui.
Seria esse o único ponto de contacto “científico” do chomskismo com a história?...
6. Remarks, p. 104.
7. A relação desses problemas com a religião parece-nos apresentada numa nota de Body
moves em que Diffloth diz deixar de lado as “imagens de partes do corpo exibidas em ex-
voto nos lugares de peregrinação visando curas miraculosas”.
8. Chomsky encontra explicitamente o transcendentalismo providencial de Peirce, segundo
o qual o homem recebeu o dom de um espírito adaptado às suas necessidades.
16. AS FALHAS DE UMA
RAZÃO SEM FALHA

No espaço da lingüística atual aparece, em filigrana, a tensão entre as


duas formas antagonistas da inteligência moderna: a inteligência domina­
dora ordenando o mundo para lhe dar suas ordens e a que resiste sob a
primeira, porque agüenta o seu insuportável1. A inteligência frágil, precá­
ria, inquieta e contraditória, diante da suficiência narcísica, auto-satisfeita,
segura de si mesma como o sol iluminando o mundo2, dos organizadores.
A imbecilidade atravessada pelo Witz, enquanto lugar de uma perda
em que se figura a castração, diante da estupidez do mau jogador, pelo
qual a lógica do domínio se reconstitui com júbilo, sem perder nada...
Chomsky I e Chomsky II têm, ambos, bons motivos para se travarem
o combate contra a estupidez encarnada por esse “sacerdócio secular
reivindicando uma autoridade absoluta, ao mesmo tempo espiritual e tem­
poral, em nome de um conhecimento científico insubstituível da natureza
do homem e das coisas3, contra essa ‘nova classe’ de técnicos que espe­
ram inaugurar o reino da inteligência cientifica, o mais aristocrático,
despótico, arrogante e elitista de todos os regimes”4.
Não é certo, entretanto, que na sua luta contra os saberes dominadores e
assassinos, Chomsky tenha resistido até o fim ao “liberalismo totalitário”:
Chomsky I, o lingüista, tem uma tal necessidade de ter sempre razão e de
colocar os seus adversários no bolso que acontece-lhe reescrever uma his­
tória e o mundo à sua maneira, sem se preocupar com a violência teórica
totalizante à qual ele cede, assim; quanto a Chomsky II, sua linha política
herdada da filosofia socialista libertária de Russell5 baseia-se também, es­
sencialmente, na força sem falha da razão diante da estupidez opressora.
Wittgenstein defendeu que é “muito importante para um filósofo não
ser inteligente o tempo todo...” ou seja, suportar a sua própria fragilida­
de: o limite paradoxal do sistema chomskiano é talvez o de não deixar
nenhum lugar para a imbecilidade, enquanto saber indefmidamente ame­
açado guiando a resistência e a revolta dos que suportam a exploração, a
dominação e a exploração.
A posição de Chomsky é prisioneira dos novos desafios do liberalis­
mo W.A.S.R Evidentemente, ele denuncia as técnicas de controle estáti­
co, as estratégias de assistência (ortopedização e artificialização dos com-
portamentos) combinadas com os dispositivos de vigilância repressiva
do Estado imperialista, que possui ao mesmo tempo a imanência policial
do olhar divino e a transcendência de uma Providência. Mas as múltiplas
estratégias visando “revalorizar” a autonomia e a responsabilidade indi­
viduais não fazem parte do mesmo dispositivo ideológico? O neolibera-
lismo totalitário não é ao mesmo tempo a sociobiologia tratando a huma­
nidade como um conjunto de coletividades animais em conflito e a lógica
doce do “menor mestre”? Ao mesmo tempo a germanização dos EUA.
e a americanização da Europa ocidental? Ao mesmo tempo a lógica do
Ovo da serpente (Ingmar Bergman) e a doçura insidiosa da Balada de
Bruno (Wemer Herzog)6? Há alguns anos, a polêmica político-científica
entre os behavioristas e os humanistas parece estar se acalmando nos
EUA, à medida que a posição empirista radical se revela insustentável e
que o racionalismo se naturaliza pelo viés dos universais biológicos7. A
biologização da política e o caminho liberal para o “menor Estado” apa­
recem cada vez mais como dois dispositivos estratégicos alternativos e
complementares: as regras da Vida interiorizam as injunções do Direito.
A interpelação ideológica do tipo W.A.S.P. implica que o sujeito livre
participe ativamente de sua própria submissão como os clientes de Henri
Ford quando este lhes anunciava: “Entregamos o carro na cor escolhida
pelo cliente, desde que ele a escolha negra”. Esta brincadeira normalizado­
ra pertence à linhagem do humor sério de Swift e das anedotas involuntári­
as do liberalismo, quando ele atinge seus limites macabros. E exatamente
o avesso do humor judeu, transformado em instrumento de dominação8.
Como se a ideologia W.A.S.P. tivesse se reapropriado do espírito
de perseguição da cultura judia, transformando-o em delírio paranóico
de controle: nesse sistema, um ato de agressão toma-se um gesto de defe­
sa e de autoproteção do modo de vida americano.
Entretanto, Chomsky é um dos que, nos Estados Unidos, foi mais longe
na denúncia desse sistema9, tentando encontrar o “lado bom” da ideologia
liberal para voltá-lo contra o liberalismo totalitário: a estratégia de Chomsky
consiste em separar, ao máximo, a ordem estática da ordem universal da
razão, caracterizando o Estado e a lei como irracionais, derivando para o
mundo louco de 1984, diante do indivíduo biologicamente depositário da
razão. Ele tenta, assim, remontar a mais de duzentos anos de história, mar­
cados pela conjunção de empirismo e estatização, e encontrar “o que sub­
siste de válido na doutrina liberal clássica”10 (ou seja, segundo ele, as
raízes ideológicas do socialismo humanista libertário) sob a ideologia do­
minante empírico-estática do imperialismo atual.
Chomsky tenta, assim, encontrar, no pensamento cartesiano, as fontes
de oposição de Rousseau aos tiranos, na filosofia kantiana da liberdade, as
fontes da tendência moderna à autonomia, e na teoria humboldtiana das
necessidades fundamentais humanas, as fontes de um marxismo antu
ritário, visando a desenvolver “a atividade livre e consciente” dos indjv -
os e sua “vida produtiva”, em associação com seus semelhantes.
O humanismo político de Chomsky reivindica, então, Bakunin Co
Marx, e Rosa de Luxemburgo contra Lenin, no momento em
vários lados, começa-se1' a reconhecer que o centralismo, a burocrac’- ^
o autoritarismo desfiguram o socialismo. ^

NOTAS

1 . O universo chapliniano constitui um exemplo desse antagonismo dos tempos moq


em que o imigrante submisso ao trabalho parcelado encontra-se em confronto
organizadores do trabalho e da sociedade. Mundo burlesco, em que o que se faz de cf
está em confronto com os tolos.
2. Prévert percebe os meandros desse narcisismo mortal:
"o sol fetiche
...o astro dos prados
o astro do assassinato
o astro da imbecilidade
o sol m orto.”
3. Réflexions. p. 163. Chomsky retoma os termos de Isaiah Berlin, The Bent Twig,
4. Ibid. Chomsky retoma desta vez uma citação de Bakunin.
5. O filósofo-lógico Bertrand Russell, afilhado de John Stuart Mill e pacifista da prj
Guerra mundial, constitui a figura paterna dos dois Chomsky. O itinerário do ld„; e 't;,
• -
conhecido. Deve-se ao filósofo político uma reflexão sobre a Rússia soviética ( -77“ ^‘ C o .
et pratique du bolchevisme, 1920) e várias obras de inspiração socialista humaj,;eoh '
libertária, entre as quais Raads to Freedom (1918) e Príncipes de reconstruction So f- e
(1926) [NT: Russell, B. Princípios de reconstrução social. SP: Companhia Hd. NaC]' ÍC/L
1958]. O que se segue é historicamente comum através da Fundação Russell para a j> *1,
o Tribunal Russell. A preocupação de organizar as condições de um governo rnun*í 5
nunca o deixou, até a sua morte, em 1970. q,< 1|
Na sua Lição inaugural no Collège de France, R. Barthes sustenta que “a língua” Co
performance de toda linguagem, “não é nem reacionária nem progressista: ela é simpi***0
mente facista” (p. 14). Para consolidar essa tese geral. Barthes toma 0 exenip |0 ®s'
francês: “Na nossa língua (esses são exemplos grosseiros), eu me restringi a me ]a ^0
primeiramente como sujeito, antes de anunciar a ação que será apenas, daqui por dja
meu atributo: 0 que faço é somente a conseqüência e a consecução do que sou; do mês1*6,
modo, sou obrigado a escolher sempre entre o masculino e 0 feminino, o neutro ^
complexo são proibidos para mim; da mesma forma, ainda, sou obrigado a marcar
relação com o outro, recorrendo ao tu ou ao senhor, o suspense afetivo ou social
recusado. Assim, pela sua própria estrutura, a língua implica uma relação fundamenta] ®
alienação” (p. 12-13). Embora ele evoque a passagem de Jakobson (A Significação
matical segundo Boas) segundo o qual “a verdadeira diferença entre as linguas não res Q'
no que elas podem ou não podem exprimir, mas no que os locutores devem levem ou não dev11''6
transmitir”, Barthes parece fazer aqui uma confusão entre proibido e impossível,
impossível c
se as línguas não fossem todas fundamentadas pelo impossível de dizer. Por outro |a<j
a posição de Barthes apresenta o inconveniente de salvar indiretamente as discursjyj^0’
des anglo-americanas. É interessante constatar, com efeito, que 0 anglo-americano.
segundo a classificação fantástica de M. Müller evocada mais acima, sena uma lj„
feminina, foge a essa característica “fascista”, por dois dos três critérios apresentad0s'8Ua
oposição masculino/feminino tem uma função gramatical particularmente reduzida1, ^
oposição tu/vás* não existe): seria porque o primeiro imperialismo do mundo
paradoxalmente de uma língua na qual os efeitos de poder são estruturalmente redu?.j(
ao mínimo? Mesmo que o sistema gramatical do anglo-americano fosse efetivamente
menos repressor, essa deficiência de regulamentação arbitrária e de codificação legislati­
va não è compensada por outros poderes ideológicos fragmentários, inscritos nos funci­
onamentos discursivos? Isso acontece sem que pensemos: a América nas nossas cabeças.
Sobre outros tipos de funcionam ento, talvez m enos grosseiros, poderiam os pôr em
evidência a eficiência ideológica de algumas posturas discursivas, por exemplo, o papel
da inserção quase automática de / mean ou 1 Ihink como procedimento de subjetivação,
modalizando a asserção por um distanciamento que pode ser interpretado como a pre­
tensão de respeitar o que a opinião do outro pode ter de diferente, ou como uma deriva
para o solipsismo. Bem stein, aliás, valorizou esse funcionamento quase imposto, pro­
pondo distinguir "ntiddle ciass" e “working ciass". pela tendência em empregar prefe­
rencialmente I ihink (I mean) do que you know (you see), esses últimos mais diretamente
demonstrativos ou pedagógicos, supostamente exprimindo um pensamento rígido. Ver
em francês a tendência que se espalha desde alguns anos em empregar eu quero dizer
(diante de você entende)**. O exercício lingüistico do relativismo cético é o poder do
“m enor chefe” neo-liberal, cujo totalitarism o sutil aprendeu a fazer a economia das
figuras do Benfeitor e do Big Brother. Esse aspecto parece ter um pouco escapado à
sagacidade dos descendentes literários de Zamiatin e de Orwell.
* NT: Em português a oposição seria você/senhor (a).
** NT: No original j e veux dire (cn face de tu vois).
7. Os temas da sociobiologia (essa “nova ciência" que milita ativamente contra o igualita-
rismo democrático) constituem um índice dessa convergência: E. Wilson, o sociobiolo-
gista a quem, em 1978 nos EUA, foi atribuído pelo Com itê internacional contra o
racismo o título de “sábio fascista e racista do ano”, não hesita em retomar por sua conta
a tese de Chomsky referente às determinações inatas das capacidades humanas. E o fato
de fazer assim apelo às opiniões de um homem de esquerda célebre constitui, aos olhos de
Wilson, uma irrefutável prova de sua boa fé científica. Restaria saber que reflexões tal
episódio pôde inspirar Chomsky.
8 . Em 1905, um debate juridico aconteceu a respeito de uma lei do Estado de Nova York,
proibindo que os operários padeiros trabalhassem mais de 60 horas por semana. O
prim eiro ponto de hum or sw iftiano é que a lei não visava a proteger os operários
padeiros (que trabalhavam à noite em condições particularmente penosas), mas apenas
para evitar que um excesso de cansaço os tomasse mais frágeis aos gérmens da tubercu­
lose e, assim, arriscassem contam inar a clientela. O segundo ponto é que, apesar das
motivações da lei, a C orte declarou essa lei inconstitucional, porque ela ia contra a
liberdade dos operários padeiros; a Corte justificou sua decisão, observando que uma tal
lei introduzia o socialismo, que prepara para o comunismo e a anarquia: se respeitarmos
a liberdade dos operários padeiros de trabalharem mais de 60 horas sem anais, nada
impedirá que, amanhã, leis venham a proibir os corredores a pé de ultrapassarem uma
certa velocidade, ou limitar o trabalho dos intelectuais.... Segundo A. Tunc, Le Droit des
États-Unis, P.U.F, 1974.
9. No recente texto sobre as conversas com Régis Debray (Change, n° 5, La Machine à
conter), Chomsky acusa mais uma vez o “sistema imperial'’ dos Estados Unidos e explica
com o m assacres que eles abrigam sob a capa dos Direitos Humanos (por exem plo,
100.000 mortos em Tim or Leste) são sistematicamente silenciados pelo Goulag-Circus
da midia. As coisas chegaram a tal ponto, que essa mídia trata Chomsky de bolchevista,
escondendo seu desacordo radica] das formas de socialismo existentes. Por sua parte, as
organizações comunistas (particularmente, a direção do Partido Comunista Francês e seu
“resultado globalm ente positivo") citam os argumentos antiimperialistas de Chomsky,
calando o resto de suas posições políticas. Cada um se vira como pode....
10. Réflexions. p. 160. Chomsky renova, assim, o gesto de K. Kraus, de quem W. Benjamin
disse: “Levar as condições do capitalismo burguês de volta a uma forma passada que elas
nunca conheceram, este é o seu programa”.
1 1 .0 mérito de Chomsky. neste ponto, foi, principalmente, de estar muito avançado para a
sua idade. “ Eu era anti-leninista aos doze anos”.
17. NAS CABEÇAS, A MÁQUINA
DE ESTADO

Diante da autoridade do Estado, concebida corno uma pura exteriori­


dade que considera nulas as “intenções profundas” dos indivíduos,
Chomsky constrói, a partir das origens filosóficas do pensamento liberal,
a imagem de um indivíduo autodeterminado pelas leis da Razão: prosse­
guindo na linha da política russelliana, esse individualismo racionalista
inscreve-se, de fato, na corrente pedagógica e científica do anarquismo
racional. Todo indivíduo se desenvolve como uma árvore, que requer não
os limites mesquinhos do mau jardineiro do estado, mas o laisser-faire de
uma organização social finalmente conforme à sua natureza. Citando a
frase de Bakunin, segundo a qual “as leis de nossa própria natureza...
constituem a base real de nossa existência e a causa efetiva de nossa
liberdade”, Chomsky prossegue, precisando que uma “teoria moral liber­
tária terá que determinar essas leis e fundamentar nelas a noção de mu­
dança social, com seus objetivos e a longo termo”1.
Em outros termos, a política chomskiana apóia-se no projeto anar­
quista fundamental de uma sociedade autoregulada por seus universais
naturais:
“Destruam o Estado e a propriedade individual [...] e tudo irá bem:
todos caminharão naturalmente de acordo; todos trabalharão, porque o
trabalho é uma necessidade fisiológica; a produção corresponderá sem­
pre e naturalmente às necessidades do consumo; e não haverá necessida­
de nem de acordo nem de regra para que [...] cada um, fazendo o que
quiser, faça, sem o saber e sem o querer, exatamente o que querem os
outros.”
Essa declaração do grande teórico anarquista Malatesta repercute nos
escritos políticos de Chomsky. Aí encontramos as mesmas noções de acor­
do, de correspondência natural e de harmonia inconsciente entre os dife­
rentes órgãos do corpo social: o Estado aí aparece como uma formação
histórica parasitária, perturbando o livre jogo das leis universais do orga­
nismo social.
Veremos um dia uma “sociologia transformacional” das relações so­
ciais, teorizando a maneira pela qual as criatividades livres podem libe­
rar-se do entrave das estruturas irracionais da economia e da política2?
Esse narcisismo político supõe uma concepção de homem sem a qual
o inconsciente é tão somente o não-consciente ou a inconsciência. Chomsky
compartilha essa concepção, aparentemente, com os teóricos da psicolo­
gia soviética (F. Bassine, por exemplo) e de seus derivados.
O indivíduo como sistema de órgãos (compreendendo particularmen­
te os diferentes “órgãos mentais”, entre os quais a linguagem) inscreve-se
perfeitamente nesse para além do Estado, que constitui o mito político-
científico paradoxalmente comum às correntes organizadoras do anar­
quismo e do stalinismo: a razão orgânica desse ultra-Estado, enquanto
gramática universal da sociedade, é necessariamente inscrita sob uma
forma específica em cada um dos órgãos do indivíduo, inclusive na lin­
guagem como órgão mental.
Ao real não contraditório desse ultra-Estado potencialmente harmô­
nico opor-se-ia, assim, somente a conspiração dos governantes e dos
ideólogos manipulando, o desreal do conto (mito, publicidade e propa­
ganda enganosa), pelo qual o Estado continua a enganar e adormecer as
massas.
Por um lado, portanto, o sentido, (o verificável, o factualmente verda­
deiro, o literalmente exato), por outro o nonsense da “qualquer coisa”
intoxicadora?
Essa interpretação é, em si mesma, uma teoria da ideologia, uma teo­
ria racionalista herdada do Iluminismo: acreditando pôr fim à manipula­
ção, arriscamos reproduzi-la, repetindo a disjunção entre o sentido e o
não-sentido, sem discernir o que se representa na sua complexidade. Con­
denamo-nos, assim, a oscilarmos no interior de um dilema construído
sobre duas posições especulares: aquela em que o real identifica-se, auto­
maticamente, com a “qualquer coisa” que é o seu enunciado, funcionan­
do como seu simulacro eficaz, e aquela em que o real está, a priori,
dissociado da linguagem, sempre suspeito de escondê-la ou travesti-la:
dilema do engano e da Verdade.
O ponto crucial da política chomskiana é que, definitivamente, não se
vê como, em tal organismo, poderia subsistir um lugar qualquer para a
resistência e a revolta, que supõem que a linguagem humana seja diferen­
te de um puro órgão mental: o horizonte biorracionalista do anarquismo
chomskiano tende, cada vez mais, a esconder o alvo subversivo crítico,
pois a resistência e, às vezes, a revolta que atravessam as massas, a inte­
ligência e o saber históricos, que aí se constituem assim, não poderiam se
inscrever nos sistemas modulares do órgão mental.
Se Chomsky I tivesse teoricamente razão nas suas extrapolações filo­
sóficas biologizantes, as esperanças políticas de Chomsky II seriam des­
providas de todo fundamento: se a linguagem fosse um órgão mental, ela
seria condenada - enquanto o Estado não desaparecesse - a ser apenas
uma peça lógica da atual máquina de Estado, uma incrustação específi­
ca de seu poder, inexoravelmente instalada na máquina de nossas cabe­
ças.
A estratégia chomskiana de retomo da ideologia liberal permanece
prisioneira da adversidade que ela enfrenta.

NOTAS

1. Réflexions, p. 163-164.
2. A idéia de acabar com o irracional obcecava já os empreendimentos utópicos e anarquistas
visando a organizar racionalmente a ilha social perfeita. Esse aspecto contraditório do
anarquismo repercutiu ao mesmo tempo na construção stalinista do socialismo e no posi­
tivismo das Ciências Humanas e Sociais. Trata-se sempre de suscitar a grande mutação
humana, abrindo para a sociedade sem conflitos dos Homens Novos, ao preço da prescri­
ção do tempo e da história.
I
A LÍNGUA PERDIDA?

Durante a Revolução francesa, o jornalista Martainville, de opinião


realista declarada, havia sido convocado diante do tribunal revolucioná­
rio.
O presidente, para incriminá-lo mais ainda, insistia em chamá-lo de
De Martainville; este último, impaciente, disse-lhe:
- Cidadão presidente, estou aqui para que me diminuam e não para
que me engrandeçam.
- Tudo bem, disse um Jacobino do pretório, com bom humor, alargue-
mo-lo1.

No século XX, os jogos políticos com a língua parecem refúgiar-se


nas “histórias”:
Lenin acabou de morrer. Seu corpo, encerrado num bloco de gelo, é
exposto na rua para que cada um possa admirá-lo. Entretanto, o Conse­
lho dos comissários do povo procura em vão um homem digno de suce­
der a Lenin. Como as reuniões sucedem-se sem resultado, alguém pro­
põe que Trotsky seja encarregado de pedir conselho ao primeiro homem
da ma que ele encontrar: o povo falando, a sua escolha será ratificada.
Trotsky sai e encontra Mosché:
- Eh! Mosché, diga-me: quem você veria no lugar de Lenin?
- Oh, é bem simples: todos os bolchevistas2!

“O Witz é a mais sociável das produções do inconsciente ” (Freud).

“O verdadeiro riso, ambivalente e universal, não recusa o sério, puri-


fica-o e o completa. Purifica-o do dogmatismo, do caráter unilateral, da
esclerose, do fanatismo e do espírito categórico, dos elementos de medo
ou de intimidação, do didatismo, da ingenuidade ou das ilusões, de uma
nefasta fixação sobre um plano único, do esgotamento estúpido”3.

SOBRE A LÓGICA E A GRAMÁTICA

“Se falamos da superstição dos lógicos, nunca me cansarei de ressal­


tar um pequeno fato muito curto que as pessoas atingidas por essa su­
perstição não gostam de confessar; é saber que um pensamento vem
quando “ele” quer e não quando “eu” quero, de maneira que é falsificar
os fatos dizer que o sujeito “eu” é a determinação do verbo “penso”.
Algo pensa, mas que seja justamente esse velho e ilustre “eu”, trata-se,
para dizer em termos moderados, de uma mera hipótese, de uma alega­
ção; isso não é, antes de tudo, uma “certeza imediata”. Enfim, seria dizer
demais afirmar que alguma coisa pensa, essa “alguma coisa” já contém
uma interpretação do próprio processo. Raciocinamos segundo a rotina
gramatical: “pensar é uma ação, toda ação supõe um sujeito ativo, por­
tanto...”4.

SOBRE O TEMPO LÓGICO: O CAMPONÊS, O BURGUÊS


E O OFICIAL

Quando contamos uma história a um camponês, ele ri três vezes. A


primeira, quando a contamos. A segunda, quando a explicamos. A tercei­
ra, quando ele a entende.
Um burguês, por sua vez, ri duas vezes. A primeira, quando a conta­
mos. A segunda, quando a explicamos. Mas, de qualquer maneira, ele
não a entende.
O oficial só ri uma vez, quando a contamos; ele não nos dará tempo de
explicá-la, e não estará presente para entendê-la5.

NOTAS

1. Segundo P. Guiraud, Les jeux de mots, citando o Larousse do século XIX.


2. Segundo R. Geiger, Nouvelles histoires juives
3. M. Bakhtine, L'Oeuvre de François Rabelais [NT: Bakhtine, M. A cultura popular na
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5. Segundo R. Geiger, Nouvelles histoires juives.
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