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ALFREDO EIDELSZTEIN

capítulo um
o grafo do desejo e a topologia

Vou dedicar a aula de hoje à apresentação do tema sobre o qual vai girar todo
o curso. Começarei levantando algumas questões que serão necessárias manejar bem
para poder aproveitar o que Lacan nos propõe mediante o grafo do desejo.
No ensino de Lacan, a série formada por modelos, esquemas, grafos, nós e
superfícies topológicas ocupa um lugar e uma importância exclusivos. Não há outro
psicanalista que tenha atribuído tanta importância, tanto tempo e tanto espaço a esse
problema das representações em psicanálise. Isso é muito razoável, dado que Lacan foi
o psicanalista que mais estudou e desenvolveu a teoria sobre a representação para o
sujeito humano.
Nessa série, os grafos representam a primeira entrada sistemática da topolo­
gia em psicanálise. Sou cuidadoso e digo “a primeira entrada sistemática’ da topologia”
porque, a rigor, já nos modelos e nos esquemas há questões topológicas, mas sendo
sistemáticos, a primeira entrada da topologia no ensino de Lacan é o grafo do desejo e
isso não é óbvio. Vamos trabalhar esse ponto.
Começo com uma questão histórica muito importante que remete a uma
dimensão estrutural. O primeiro estudo sobre grafos foi realizado por Euler (1707-
1783), um dos matemáticos mais prolíficos da história. Esse estudo de Euler sobre os
grafos é a base da topologia. De modo que, em Lacan, os grafos não são somente a
entrada da topologia na psicanálise, mas também das matemáticas.
Imagino que para a maioria de vocês talvez não tenhamos feito mais do
que abrir uma nova pergunta. Se antes a pergunta era sobre o grafo, agora é sobre a
topologia. Por que haveria de nos interessar que os grafos são a entrada sistemática da
topologia no ensino de Lacan e, portanto, na psicanálise?
Tentarei argumentar a favor disso e o farei já incluindo uma consideração clí­
nica. Se nosso ponto de partida é a estrutura do real, do simbólico e do imaginário para

imaginário é onde se produz a imagem que engana o sujeito. Isto que acabo de dizer náo é. 16 . pré-consciente e consciente). a estrutura que corresponde ao inconsciente é a do real. O argumento é que o modelo óptico responde à teoria lacaniana da tópica do inconsciente. Esta é a metáfora espacial de Lacan no modelo óptico: Nela. mas Lacan nos propõe que assim convém seguir. vamos partir do que considero uma leitura estrutural do modelo óptico. Para tanto. simbólico e imaginário). se a estrutura é tal como a concebemos (real. e simbólico é o espaço do virtual. para darmos conta do sujeito da psicanálise precisamos nos valer de uma estrutura real. Apenas para visualizar melhor o problema. em toda consideração teórica. partir da perspectiva dessa mesma estrutura. Para anunciá-lo de forma ainda mais precisa: as elaborações teóricas em psicanálise. do imaginário e do simbólico (ao invés de inconsciente. Qual é a tópica do inconsciente para Lacan? Segundo Lacan. lhes proponho fazer um giro de um quarto de volta no sentido anti-horário no esquema acima. concebida como espacial. o que é uma tópica em psicanálise? E mais particularmente. Agora. O GRAFO DO DESEJO dar conta do sujeito com o qual opera a psicanálise. simbólico e imaginário. um argumento teórico. é necessário. Entáo. na verdade. Esse “entre” é a metáfora espacial. o que é a tópica freudiana? Uma relaçáo entre instâncias. as intervenções do analista e a direção da cura se regem pela estrutura do real. Simplesmente que entre o inconsciente e a consciência está e sempre estará o pré-consciente. real é o corpo inacessível para o sujeito. Proponho tomá-lo como o próprio fundamento da prática analítica lacaniana: sua especificidade. E verdade que a psicanálise começou por aquilo. Vou tentar lhes mostrar as dificuldades que surgem quando náo operamos assim. entre sistemas. simbólica e imaginária.

desmente o que se quer afirmar no nível dos conteúdos. que ambos estão deter­ minados pelo simbólico. Mas o problema é que Lacan nos apresenta esta informação de que o simbólico determina por igual o imaginário e o real com um modelo cuja própria estrutura é imaginária. mas que a encontra. Lacan afirma que essa sua analogia é uma analogia grosseira.“o imaginário e o real estão no mesmo nível”. Vou lhes mostrar dois exemplos. onde funcionam as ana­ logias? Há duas dimensões muito óbvias. está representado por um espelho. Esta frase parece um tanto misteriosa. se estamos utilizando um instrumento imaginário para dar conta dele? O modelo. o A. há um exemplo muito interessante. em sua estrutura. Primeiro. Há outra analogia ainda mais grosseira e é: a ordem simbólica. No contexto do modelo óptico. O imaginário e o real estão no mesmo nível? O que quer dizer com “no mesmo nível”? Que tem uma relação tópica equivalente a respeito do simbólico. do imaginário e do real . ALFREDO EIDELSZTEIN esquema n°2 Esta é a proposta de Lacan: o simbólico determina o imaginário e o real.esta é uma citação de Lacan . Essa é uma analogia grosseira e não fui eu quem disse. como vamos sustentar a ideia de que o significante é o determinante. Então. Lacan disse que não é no espelho onde a criança encontra a imagem fascinada e fascinadora de si. É dito que o simbólico é o que determina. é desmentido o que se quer afirmar mediante seu uso. por sua vez . Quando dizemos “estrutura imaginária” devemos começar a pensar a res­ peito do simbólico.se queremos que esses significantes nos digam algo. este procedimento é um desmentido. dada sua estrutura imaginária. 17 . mas na própria forma de dizê-lo vai ser anulado aquilo que se está dizendo. A respeito disso. no olhar da mãe (deixemos claro que “mãe” é uma função. E qual é essa equivalência? Precisamente. O problema é que é impossível sustentar a dimensão da analogia no campo do simbólico porque o significante . Em termos psicanalíticos.este é um axioma elementar —é pura diferença. que o estádio do espelho está repre­ sentado por um espelho. no modelo óptico. não há analogia no nível do significante. quando se vira. O primeiro sentido que vamos atribuir ao “imaginário” é de analogia. Ou seja.

é uma função como no caso da função pai). a forma variaria. Isto é muito importante porque nos retifica. nenhuma função de tamanho ou de distância men­ surável é levada em consideração. apenas darei alguns dados para começar a pensar sobre esse problema. como na topologia. Proponho articularmos a concepção psicanalítica do tempo e do espaço com o fato de que em topologia as dimensões de tamanho e distância mensurá­ veis não cumprem nenhuma função. no mínimo. não afirmei nada sobre a topologia. o que é um “olhar fascinado”? A primeira coisa que percebemos é que o olhar fascinado requer. não fazemos outra coisa que desmenti-lo. A primeira\ que em topologia se ignora a forma. até aqui apenas justifiquei que é necessário que a estrutura conceituai da psicanálise coincida com o que a psicanálise afirma que é a estrutura do sujeito. diagnosticar segundo as aparências (aqueles que têm prática clínica já devem ter descoberto quantas vezes a aparência de uma neurose obsessiva encobre uma estrutura histérica. a determinação da ordem simbólica porque re­ mete à questão do desejo. Não estou dizendo que nós psicanalistas não levamos em consi­ deração a dimensão do tempo e do espaço. Por isso é denominada. mesmo que ainda não tenha dito por que a topologia é adequada para isso. implica levar em consideração. de modo que essas dimensões do tempo já não coincidem em absoluto com nenhuma categoria de medida: um instante pode ser mais longo do que vários anos. Não disse o porquê e também não irei dizer. não podemos fazê-lo em função da medida. do simbólico e do real. O GRAFO DO DESEJO que poderia ser ocupada pelo pai ou pela avó. ou seja. Esse aproveitamento da topologia. que em topologia as formas não cumprem nenhuma função. a dimensão do espaço não vale pela medida. Bom. como a geometria da lâmina de borracha. mesmo não sendo psicanalista. isto é. digo que. Vocês sabem perfeitamente que às vezes um ins­ tante não termina nunca. no nível conceituai. apenas que a solução lacaniana para este problema é a topologia. A respeito do espaço é ainda mais fácil perceber o problema. Em psicanálise. na realidade. cinco dimensões. Mas se nós explicamos isto com espelhos. dobrar e apertar a superfície. Em psicanálise. Na verdade. como forma de conceber a estrutura do imaginário. mas não sua estrutura. Pois bem. Quem não suspeitaria. Em psicanálise fazemos extensiva esta propriedade ao tempo e ao espaço. as formas não cumprem uma função determinante. porque ainda que se pudesse esticar. Até Lacan. é por isso que o imaginário não pode estar numa posição determinante naquilo que é escolhido para representar a es­ trutura. A segunda: em topologia. e que outras vezes muitos anos se passam em um momento. . a noção de estrutura clínica. por exemplo). cos- tumava-se trabalhar com “formas clínicas”. metaforicamente.

O que significaria a noção de indivíduo caso se diga que nada distingue o interior do exterior? A quarta: a topologia subverte a relação sujeito/objeto. O grafo será uma boa via para pensar sobre esse problema. não permitem de forma alguma pensar afirmações fundamentais de Lacan. De novo. vamos passar a trabalhar. As estruturas com as quais trabalha a topologia não são determinadas em absoluto pela dimensão da medida. sem dúvida. com um objeto bidimensional e com um sujeito também 19 . Vou ser mais preciso: a topologia subverte certa concepção da relação sujeito/objeto. É a partir da oposição res extensa/ res cogitans que foi produzida a precipitação onde a res extensa é concebida como tri­ dimensional —se a coisa é extensa é tridimensional. por exemplo. quer dizer que já não é mais universalmente certo que o objeto seja tridimensional. que é a mais difundida. milhares de quilómetros podem não cumprir nenhuma função. porque ela trabalha com objetos.e a res cogitans (o pensamento) é “adimen- sional”. por exemplo: que o inconsciente. O problema é que conceber a separação no nível espacial (sua medida em quilómetros. não digo que as categorias de interior e exterior não se apliquem. ALFREDO EIDELSZTEIN que a separação entre um filho e um pai em conflito é ainda duvidosa se o que ocorreu foi que o filho foi para a Europa. Esta dimensão vai ser muito mais difícil de explicar que as anteriores. há objetos. mas dividido como um de dentro em relação a um de fora: o mundo. Desse modo. sendo o discurso do Outro. por exemplo) não resolve o conflito e na topologia também não resolve. Aí incidem as noções da topologia.sobre o interior e o exterior e suas relações. Indivíduo é um ente indiviso. mas aquilo que apresenta problemas. do par tridimensionalidade/a-dimensionalidade. o conhecido “o saber não ocupa lugar”. é o mais próprio que tem o sujeito. As categorias imaginárias —com as quais vocês contam . A terceira\ a topologia nos permite trabalhar com uma relação nova entre interior e exterior. partes extra partes. Como vai ser justamente o mais interno aquilo que o sujeito recebe do Outro e que se caracteriza precisamente por ser externo? Talvez não o tenham pensado assim e a frase de Lacan continua sem fazer sentido. graças à articu­ lação psicanálise/topologia. há coisas bidimensionais. Assim. a que opera com mais força em todos nós: res ex­ tensa!res cogitans (a coisa extensa/a coisa pensante). onde cada uma implica exterioridade a respeito da outra . Por que é preciso um analista para alguém se analisar? A noção de indivíduo (que convém voltar a lembrar para opor à de sujeito) quer dizer “indivisível”. E isso nos serve porque coincide com aquilo que sustentamos em psi­ canálise lacaniana: o sujeito e o objeto a da psicanálise são bidimensionais. concepção esta que é universal. com superfícies bidimensionais. o mais interno. assim como com o tempo e o espaço. é a estrutura da experiência analítica. digo que aqui a forma de relaciona­ mento é diferente daquela do senso comum. mas não percam de vista que se funda sobre a divisão entre o interior e o exterior.

que é bidimensional. do tamanho.as 20 . além de cada sujeito. exceto os invariantes. Ele sustenta que todas as linguagens do mundo. Então. V O GRAFO DO DESEJO bidimensional. Abraçar as flores assim como um corpo abraça seu objeto —via zona erógena —. Parece que tudo se desmancha. Para que? Para poder encontrá-lo na realidade. eu supus que o grafo do desejo não era topológico. nem o tamanho. porque as flores são tridimensionais e o objeto a é bidimensional. mas ainda não foi dito nada sobre o porquê do grafo do desejo ser topológico.coincide com a noção de objeto a em Lacan? Não. fica a estrutura. é a confusão do sujeito. Faz algum tempo. o cross-cap e a garrafa de Klein . o que é verdade para todo sujeito. Tomemos as flores da metáfora do vaso no modelo óptico. Em que medida é necessária essa noção de invariância? Onde encontramos invariantes estruturais no ensino de Lacan? “O inconsciente está estruturado como uma linguagem” é invariante em Lacan. mas terão que ser explicadas. ou seja. Já devem ter percebido que um objeto de satisfação pulsional não coincide totalmente com a noção de Lacan do objeto a bidimensional. têm a mesma estrutura. nem a forma. O fato é: tudo se desmancha. Para encerrar este primeiro percurso. resta algo que é invariante: por exemplo. que não é somente a psi­ canálise que pega da topologia a noção de invariantes. Esta não é uma confusão teórica. nós sempre queremos fazer tridimensional o objeto a. por exem­ plo. A quinta (e última): a topologia opera com a noção de invariantes. nem a distância. os linguistas também. Eu não sei se vocês têm a mesma sensação. digamos que o primeiro ponto de im­ portância do grafo do desejo é que ele é a via pela qual se introduz a topologia de forma sistemática em psicanálise. o toro. Sei que não explico todas essas frases que exponho como argumento. mas aqui convém não esquecer (justamente por isso uso como exemplo “o inconsciente estruturado como uma linguagem”). conhecidas ou por conhecer. da distância e da variabilidade subjetiva (dos sujeitos tomados um por um). será sempre um inconsciente estruturado como uma linguagem. Não ficam. Que o inconsciente está estruturado como uma linguagem implica exatamente o mesmo: todo inconsciente que todo psicanalista deva enfrentar na sua prática terá sempre a mesma estrutura. Roman Jakobson. a direção da cura ataca a concepção do objeto como objeto tridimensional. que o inconsciente está estruturado como uma linguagem. Os inva­ riantes são as propriedades estruturais. São aquelas que justamente vamos trabalhar mediante a elabo­ ração do grafo do desejo. Apesar do problema da forma. Invariante será a noção que nos servirá para articular a clínica do caso por caso com as propriedades estruturais. a sensação de que a partir do que estamos dizendo tudo vai se desmanchando. Supu­ nha que topologia era banda de Mõbius.

etc. Quanto a Lacan.. Lacan o intitula “A instância da letra no inconsciente. metáfora. a primeira “sistemática”.. sempre leva em 21 .” é um dos textos mais incompreendidos de Lacan. mas não é assim que ficou o título. A linguística fica do lado do significante e a psicanálise. porque cada vez irá adquirir mais importância.. ou seja. é um texto cheio de referências a Saussure.”. mas me parece bastante claro que o problema está muito antecipado pelo próprio Lacan já desde o título. quando Lacan transmite. e tam­ bém na psicanálise em geral.. Para justificar o que acabo de dizer.. Não devemos perder de vista que no francês lettre é carta e letra. Esta série.. entre letra e significante. é a primeira introdução sistemática —volto a ser cuidadoso —da noção de letra na psicanálise lacaniana. Ou seja. Porque. significante. “A instância da letra. um dos mais lidos e dos menos entendidos.. na altura do Seminário 5 nos anos 1957-1958. nos anos 60. lembrem-se do problema da dupla inscrição. gostaria que tivessem presente a série que podemos iniciar com “A carta roubada” e que podemos encontrar também na aula XVI do Seminário 2. do lado da letra. Eles também estão em Freud. estou colocando para vocês que o grafo do desejo é uma ferramenta ideal para opor significante e letra. avancemos até o Seminário 17: o avesso da psicanálise. Pode-se traçar um elo no ensino de Lacan que vai do Seminário 2: o eu na teoria de Freud e na técnica psicanalítica (1954-1955) até “A instância da letra. Não há dúvida de que a noção de “letra” no ensino de Lacan não permanece fechada nos anos 60. a Jakobson. Sempre supus —eu também —que era um texto linguístico por excelência no ensino de La­ can: se queremos ver como se introduz a linguística no ensino de Lacan convém ler “A instância da letra.. metonímia. Essa é uma dimensão do problema da oposição entre linguística e psicanálise.”. ALFREDO EIDELSZTEIN quatro superfícies topológicas.. Aí aparece uma oposição elementar. que começa com “A carta roubada” e segue com “A instância da letra. O segundo ponto que faz do grafo do desejo uma elaboração crucial no ensino de Lacan é que ele é a via de entrada forte da noção de letra.”... Se realmente tivesse sido seu texto linguístico por excelência Lacan teria escrito “A instancia do significante no inconsciente”. por exemplo. mas de suma importância: que o signi­ ficante se escuta e a letra se lê.” —à altura do Seminário 7: a ética da psicanálise e Seminário 8: a transferência. na verdade. O que ocorre é que. o problema é como são entendidos SI e S2. que é onde aparecem os conceitos de fonema. proponho que se encerre para nós com “Subversão do sujeito. Então. Isso quer dizer que ainda é preciso fazer um trabalho de articulação entre o que mais conhecemos da topologia e o grafo do desejo. nem sequer ficará delimitada. para opor —para articular e diferenciar —linguística e psicanálise. há abundantes referências linguísticas..”. Imagino que vários de vocês ainda estão nessa posição. há antecedentes..

Por que será. também são letras. “eu escuto sentido”. SI e S2: significante 1 e significante 2. que por um lado tem letras e por 22 . S2: significan- te do saber ou conjunto das articulações significantes. estamos trabalhando o argumento de que o grafo do desejo é o modo como. por isso creio que há que deixá-la em francês para conservar a polissemia. “eu escuto”. a palavra “voz” e a palavra “significante”. Mas aí. Notem que. e ainda os pontos de chegada e de partida do vetor que cruza os quatro pontos de interseção. O que quero dizer é que Lacan náo escreve a palavra “significante”. palavras. o “S”. é trabalhado por Lacan. Palavras como: jouissance —que deixei em francês —ou como “signi­ ficante” —que traduzi. pela primeira vez e de forma sistemática. Analisemos agora o grafo do esquema n°3: Esta é uma versão do grafo esquemática. diríamos ingenuamente. por um lado há letras. fala sempre em vias da coisa. sem levar em consideração a teoria dos grafos). e no meio temos as palavras. Lacan nunca fala da coisa. ele escreve uma letra. se introduz a função da letra em psicanálise lacaniana. “Jouissance”. S l: significante mestre. Tem uma linha com uma flecha (um vetor. O GRAFO DO DESEJO conta que aquilo que ele está transmitindo em conteúdo deve estar também presente no dispositivo que elege para transmiti-lo. mas é uma letra com um sub índice. quando Lacan nos diz isso. que quer dizer “gozo”. não é completa. Não se trata de minúcias. aproveitando a homofonia: “eu ouço”. ele nos está tomando como sujeitos. Notam que há uma posição peculiar no grafo? Estão no meio de uma linha. e ainda em psicanálise em geral. a palavra “castração”. é o grafo que utilizarei para trabalhar este problema. e por outro. resumida. Então temos a palavra “gozo”. então. que vocês leem como “significante” e que creem que é um significante. um número. Notem também que os pontos de interseção são letras.

. e em outro lugar do grafo o escreve com a palavra “significante”. e o grafo do desejo é um dispositivo teórico para esse fim. entre outros. não escuta. porque o objeto a —como tal —não está escrito no grafo do desejo. Por quê? Porque somos sujeitos falantes. devemos levar a sério essa aparente falta de sistematicidade. mas aí não é o objeto a. pois o grafo do desejo é anterior. Podemos adiantar que a primeira corresponde à imagem do outro e a segunda ao fantasma. Para opor o significante à letra é necessário um bom dispositivo teórico. ou a que tem quando compõe a fórmula “S” barrado punção “a" minúscula ($0a). Isso é o que se trabalha no grafo: a oposição entre o significante que escutamos e a letra. Então. então. Vou tentar demonstrá-lo. Tal aspecto vai precisar de uma quantidade de argumen­ tos porque —por exemplo —as datas não coincidem. isso não se encaixa facilmente. Talvez já tenham estudado muitos comentaristas da obra de Lacan que lhes garantem que o objeto a se incorpora no seu ensino à altura do Seminário 7. Não sei o quanto estas questões poderão estar próximas à prática de vocês. pulsão.? Eu lhes proponho responder que é “o grafo do de­ sejo” porque ali se introduz o objeto a causa do desejo. Como o autor é Lacan. de modo geral. do lado da letra “i” minúscula. Porque. um último argumento em favor do grafo do desejo —este é o mais arriscado de todos os argumentos que apresentarei —é que o grafo do desejo é a introdução do objeto a no ensino de Lacan. se a função de objeto a como causa de desejo não é a estrutura fun­ damental do grafo do desejo. O que é custoso entender é por que em um lugar do grafo Lacan escreve “significante”. Apesar disso. causa do desejo. etc. é o grafo do desejo e não o grafo de Lacan ou o “grafo das funções psíquicas” ou o “grafo do desejo. o ideal simbólico). No entanto. que tem que ser lida. Finalmente. por que o grafo do desejo se chama “o grafo do desejo”? Há ainda um argumento para deixar a questão mais complexa: no contexto das “funções psíquicas” que Lacan inscreve no grafo (desejo. porque a estrutura fundamental do grafo é o objeto a. com um “S”. o desejo é somente uma letra entre outras letras. mas se essa prática é efetivamente analítica. da pulsão. Primeiro. fantasma. i(a). do fantasma”. um analista lê. lhes proponho considerarmos que a estrutura do grafo do desejo é o objeto a. mas isso contraria o que acabo de afirmar. o ideal imaginário. ALFREDO EIDELSZTEIN outro tem palavras? O S(A) do grafo se lê: significante de uma falta no Outro. não observamos esses detalhes. propriamente dito. Um analista. em todas suas tardes de consultório deverão se deparar com o problema de distinguir entre escutar e ler. Entretanto. podem-se criar várias exceções a esta afirmação. Mais adiante discutiremos a função que tem a letra ‘V ’ minúscula entre parêntese.

Especificamente. O GRAFO DO DESEJO Agora vamos ter que fazer um trabalho que talvez. para alguns. não havia resposta para esse problema. Euler encontra a resposta porque faz. O trabalho de Eu­ ler é o que lhes apresentarei a seguir. cidade esta que já não existe porque hoje é chamada de Kaliningrado. que tinha duas ilhas que estavam conectadas com as margens do rio e entre si por sete pontes. percorrer as sete pontes sem passar por nenhuma delas duas vezes e voltar para sua casa? Até Euler. esquema n°4 Dissemos que é em relação aos trabalhos de Euler que foi desenvolvida a teoria topológica. a pergunta que as pessoas do local se faziam era: “Pode um habitante de Kõnigsberg sair da sua casa. talvez muito chato. Kõnigsberg era o nome de uma cidade universitária alemá. Começaremos por “as pontes de Kõnigsberg”. a topologia. agregando alguns esclarecimentos meus. os trabalhos de Euler sobre os grafos relacionados ao problema das pontes de Kõnigsberg. margem do rio esquema n°5 24 . pode ser divertido e para outros. Mas de qualquer forma temos de fazê-lo se a gente quer entrar no ensino de Lacan: estudar a teoria matemática de grafos e redes. um grafo. Essa cidade se caracteriza por estar atravessada por um rio. Este seria um mapa aproxi­ mativo delas. Desse entretenimento nasce a teoria matemática dos grafos e depois. o rio Prequel. do mapa. Então.

A ponte “3” é a que une ambas as ilhas. 25 . tampouco a forma das pontes representa a forma real dessas pontes. Da mesma forma que o tamanho não cumpre nenhuma função. Neste tipo de problema é indiferente que entre uma ponte e outra haja 1 km ou 1 mm. ALFREDO EIDELSZTEIN Onde está a dificuldade para compreender a passagem de mapa a grafo? Creio que qualquer um de vocês teria aceitado que se desenhassem as ilhas com dois círculos. à margem superior). A pri­ meira ponte que aparece acima à esquerda. A ponte que está abaixo desta. o tamanho e a forma das ilhas não importam. No grafo. Agora a pergunta: é possível percorrer completamente esse grafo sem passar duas vezes pela mesma linha e sem levantar o lápis? Visto que é um grafo. Com o grafo que segue e que chamei de “grafo escolar”. a pergunta já pode ser respondida formal e rigorosamente. vamos chamá-la de “2”. Para uma melhor compreensão. como uma ilha. uma ilha e um hemisfério adotam agora a mesma repre­ sentação. essa que vai da ilha esquerda à margem superior. Elas são representadas todas iguais por­ que se considera que o rio corta a superfície da terra em dois. vamos nomear cada uma das pontes. O tamanho já não tem função nenhuma. Na próxi­ ma aula trabalharemos as premissas matemáticas necessárias para poder responder essa pergunta. Porque é possível representar as margens do rio com um ponto? Porque na realidade há uma continuidade entre os três pontos de chegada (das três pontes que dão. por exemplo. na ilha esquerda e vai até embaixo. e que todo o “hemisfério” que fica por cima do rio equivale a um ponto. vamos chamá-la de “1”. as quatro superfícies (duas ilhas e duas margens do rio). vai ser mais fácil achar uma solução experimental. tal como a ciência o exige. ~6 aquela que está debaixo da “4*'&“7” a que está debaixo da “5”. Fica claro que para este sistema de pontes. “5” a sua vizinha. temos quatro círculos que representam. Observem que forma e tamanho desapareceram como função. “4” a primeira da outra ilha que vai para cima. O que com certeza não teriam aceitado é que as margens do rio fossem representadas por um ponto. respectivamente.

A estrutura que estamos traba­ 1 O vocábulo usado pelo autor é "terna”. avançaremos um pouco na teoria matemática dos gra­ fos. V O GRAFO DO DESEJO quantidade de arestas orientação do percurso por vértice completo do grafo esquema n°6 Eu brincava no colégio com este grafo. primeiro de 3 a 4. Poderíamos dizer que um grafo é um terno1(não sei se isso já parece interessante para vocês. Então. mas não terminará onde partiu”. Chamaremos os círculos de vértices e as linhas de arestas. Por isso coloquei o percurso que vai de 3 a 4 primeiro. que aparece em português nas teorias matemáticas sobre grafos como “terno" (N. Observem que neste “grafo escolar” partimos de um vértice de arestas ímpares (3) e chegamos a outro vértice de arestas ímpares (3). o de baixo à direita. Qual é a forma certa de percorrer esse grafo? Sair sempre de um vértice cuja soma de arestas seja ímpar. É possível traçar todo seu percurso com somente um traço sem passar duas vezes pelo mesmo lugar e sem levantar o lápis? Para poder responder. percorrer todas as pontes e voltar para sua casa? Se a estru­ tura das pontes de Kõnigsberg fosse aquela do “grafo escolar”. o de baixo também. o de cima à direita.R. não conseguimos chegar ao mesmo lugar da partida. Lembrem que a pergunta era: pode um vizinho de Kõnigsberg sair da sua casa. ou seja.). depois se pega uma diagonal para depois de traçar os dois lados do triângulo. por isso passei a chamá-lo de “grafo escolar”. Pode percorrer todo o circuito. O que segue fica claro: primeiro se percorre o perímetro do retângulo. . quatro também. voltar pela outra diago­ nal. a resposta seria: “Não. ou seja. neste caso sair de 3. e o que está mais longe sobre a direita. Quero que observem que. esse ponto não é um vértice (tal como o segundo “grafo escolar” demonstra). mesmo fazendo o percurso completo. Gostaria que observassem que o vértice de cima à esquerda tem três arestas que chegam ou saem dele. tem quatro. tem dois. Percebam que o ponto de superposição das diagonais é um ponto de falsa interseção. Vamos tentar algumas definições.

Há uma frase de Freud que Lacan reto­ ma. Voltando ao assunto. diria eu. tanto na nomenclatura (Id. Antes das respostas. o sujeito deve advir”. there the Ego shall be ("onde estava o Id. uma tríade de vértices e arestas e uma relação que a cada elemento de “A” (arestas) associa um par de elementos de “V” (vértices). As arestas podem ser representadas por “linhas” ou “elos”. Vejam que a letra cp é frequentemente utili­ zada na matemática para dar conta de diversas questões. 4 A presente citação.). e que em 2 Tradução do vocábulo francês ça utilizado por Lacan (N. até a exaustão. Ver prefácio dos tradutores (N. 3 A tradução proposta para o fragmento em discussão segue a tradução da Standard Edition. por ser mais neutro3. seria o mesmo que conceber uma ponte que ligue um território com nada. em lugar do Id como tradução do Es. Seguindo Lacan. No entanto. Deve ficar claro que a superposição das arestas tais como as das diagonais do “grafo escolar” não constituem um vértice. por que traduz Ich por “sujeito” e não por eu?. assim como todas as citações dos textos de Lacan que surgirem ao longo do livro.). temos duas perguntas. Precisamente La­ can —cujo ensino em psicanálise começa por fundar a oposição entre eu e sujeito —vai ficar confundindo o eu e o sujeito quando traduz Ich? Para encontrar uma resposta racional para esta questão.. onde “V” é vértice. E impossível que exista uma aresta que conecte um vértice com nada. cp). Cada aresta é uma união de dois vértices. foi adicionado em nota o volume e a página correspondente à Edição Standard Brasileira (ESB) em todos os casos em que a obra de Freud seja efetivamente citada.R. Observem a conveniência de issci1. Dizemos que o grafo é uma estrutura tripartite.).T.. então. correspondem à versão disponível em português na tradução das edições brasileiras de Jorge Zahar Editor. foram acrescentadas notas sobre as diferenças entre os termos que aparecem na tradução oficial brasileira e aqueles utilizados pela tradução castelhana. No caso das obras de Freud. bem facilitados entre si da seguinte maneira (vide figura 14): uma Qn que de fora (0 ) penetra no neurônio a . Representemos o eu como uma rede de neurônios investidos. proponho trabalhar uma citação de Freud e seu esquema correspondente (esquema n° 7) do texto “Projeto de una psicologia. Ego) quanto no acréscimo de artigos: Where the Id was. A tradução de Lacan é: “onde isso era. A fórmula matemática para isto é: G (V. . Um vértice pode ser imaginarizado como um “ponto”. Quando necessário. também chamado de “nodo".”4. nós também a utilizamos. simbólico e imaginário —e a estrutura de um grafo também é tripartite). “A” é aresta e “cp” a relação. Vou dizê-la em alemão porque o problema está em alemão: “Wo Es w ar solllch werden . sempre buscando seguir o fio de coerência com a exposição do autor. outro problema.T. V ALFREDO EIDELSZTEIN lhando é tripartite —real. A. ali estará o Ego") (N. Primeira: as pontes de Kõnigsberg podem ser percorridas tal como apresentado no problema? A segunda: o que são essas arestas no grafo do desejo que vêm do nada e vão a nenhuma parte? Por enquanto as respostas ficarão em suspense. tradução seguindo a proposta de Lacan.

“gama” e “delta”). por força inibirá processos psíquicos primários5. p. 28 . 1914: “Introdução do outro eu . tal como o esquema de Freud indica? Antes de seguir.da esquerda para a direita. “beta”. e 6 (“alfa”. que só libera para b um quociente e. porque entende que é uma referência freudiana ao primeiro 5 ESB.). eventualmente não chega nada a b. símbolo freudiano para quantidade. se considerarmos o Ich como um grafo de neurônios. Explico também as letras porque elas também não sáo muito bem entendidas. O que está à esquerda é Qn6. se existe um eu. Antes de terminar. Portanto. lhes proponho construir esta série: 1. 3. assim titula­ da). Três “introduções” à teoria psicanalítica de três funções bem diferenciadas: dois eus diferentes e o Outro. 367. "Introdução ao Narcisismo". V O GRAFO DO DESEJO ausência de influxo teria ido para o neurônio b . 1996. Freud propõe que representemos “o eu como uma rede de neurônios investidos”. vou explicar o esquema que acompanha a citaçáo (esquema de­ senhado pelo próprio Freud). Portanto. para eles seria a mesma coisa se Freud tivesse dito que representássemos o eu como um grafo de neurô­ nios investidos. E correta a traduçáo de Lacan. a notação é Q (N. Se seguirmos o circuito que se iniciou em “a”. v. I. (3. 1895: “Introdução do eu (nome do tópico 14 do “Projeto para uma psi­ cologia científica”).T. Qn esquema n°7 Os matemáticos consideram como sinónimos “grafo” e “rede”. uma dirigida a “a” e outra dirigida a “b”. e tem uma direçáo: a quantidade segue . A primeira que aparece é a letra “a” e para baixo sai uma seta cuja letra é a “b”. Quando Lacan tem que traduzir o Ich de “ Wo Es war soll Ich werden” escolhe “sujeito”.se preferirem . 2. as letras que se seguem sáo: a. que é onde Freud diferencia entre as pulsões libidinais do eu como objeto e as pulsões egóicas do outro eu. y. existem duas flechas. 1955: “Introdução do grande Outro” (lição do Seminário 2. isto é. 6 Na tradução da ESB. é influída de tal modo pela investidura cola­ teral em a .

"V Se seguirmos o circuito e 5 "alfa”. é necessário distinguir bem o sujeito do eu como objeto da captura da libido narcísica. por : nada a b. eu. de “representações”. uma rede de representações. de “traços mnêmicos” e. o sujeito. i erra é a “b”. assim titula- bem diferenciadas: dois o Ich de “ Wo Es war soll Ich a freudiana ao primeiro 29 . ou seja. para eles seria a " c o um grafo de neurô- o Ich como um grafo i citaçáo (esquema de- fumbolo freudiano para . Lacan encontra o sujeito no mesmo lugar que Freud: o sistema de significantes.. mais tarde ainda. ao eu como uma “rede de neurônios”. Freud. entáo. Portanto. o do “Projeto. ALFREDO EIDELSZTEIN peia investidura cola. “Neurônios” que depois serão chamados. “beta”.” é.. Portanto. Este eu é um grafo de investidos” significantes. r 'rede”.da esquerda para à muito bem entendidas. que do eu como objeto e as iéo Seminário 2. “gama” e 4 do "Projeto para uma psi- “ o ao Narcisismo”. O primeiro eu. com estrutura de grafo. um grafo. Representações estas que a teoria linguística moderna chama de significantes. ou seja.