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ESTADO DO MARANHÃO
SECRETARIA DE ESTADO DA SEGURANÇA PÚBLICA
POLÍCIA MILITAR DO MARANHÃO
DIRETORIA DE ENSINO
CENTRO DE FORMAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO DE PRAÇAS
Criado pela Lei Estadual no 3.602, de 04/12/1974
Tel: (98) 3258.2128/2146 Fax: (98) 3245.1944 – End: BR 135, Km 2–Tirirical

CFSd PM 2018
SOCIOLOGIA DO CRIME E DA
VIOLÊNCIA

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APRESENTAÇÃO

Este trabalho representa um esforço coordenado dos integrantes do Centro de Formação e
Aperfeiçoamento de Praças – CFAP e objetiva fomentar a produção de conhecimento, padronização
de procedimentos operacionais e proporcionar subsídios àqueles interessados em adquirir
informações, proporcionando também base teórica que deverá ser usada por todas as Unidades
Polos de Ensino da PMMA, por ocasião de Cursos de Formação ou atualização, bem como poderá
ser aprimorada e utilizada em outras atividades de ensino que, com certeza, haverão de acontecer.
Certamente, os conhecimentos não foram exauridos e também não foi essa a nossa pretensão, mas
sim deixarmos nossa parcela de contribuição nesse contexto.

EQUIPE DE COORDENAÇÃO TÉCNICA:

COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA:.Cel QOPM Auceri Becker Martins (CMT do CFAP) e TC
QOPM Beltrão (Sub CMT do CFAP), Major QOPM Marco Aurélio Galvão Rodrigues (Chefe da
Divisão de Ensino), Capitão QOPM Égiton Marques da Rocha, Chefe da STE, Cb PM almicele Sá
do Nascimento (Auxiliar da STE) e Sd PM Walfran Sousa do Nascimento (Auxiliar da STE).

Responsável pela edição e aprimoramento textual:
Cel QOPM Auceri Becker Martins - Cmt. CFAP

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MENSAGEM DO COMANDANTE

Caros alunos e alunas do Curso de Formação de Soldados da Polícia Militar do Estado do
Maranhão. Vocês foram selecionados entre muitos, candidatos para uma carreira promissora e de
ascensão, a qual tem como meta a preservação da ordem pública e segurança interna do nosso
Estado. Parabéns pela vitoriosa caminhada feita até aqui. Foram ultrapassados os desafios iniciais
das entrevistas, dos exames e das avaliações para serem considerados “aptos” a uma nova etapa
desta seleta carreira.
São notórias as expectativas e perguntas, no entanto, venham com o compromisso e
disposição para um aprendizado constante que tem o objetivo de ampliar seus conhecimentos e
habilitá-los de maneira que possam atuar como agentes de segurança de forma preventiva e/ou
repressiva como força de dissuasão em caso de perturbação da ordem, mantenedores da ordenação
pública e multiplicadores de uma polícia baseada na proximidade com a comunidade.
A formação profissional é óbvia e exige de seus aprendizados dedicação intelectual, moral,
física, espiritual e muitas vezes abdicação de seus familiares e amigos. Valorizem os sacrifícios que
venham enfrentar e os limites conquistados. Aprenderão a amar a verdade e respeitar acima de tudo
e todos à justiça, e assim promovê-la sempre a todo custo na busca de uma sociedade mais justa e
igualitária.
Temos a expectativa de que todos vocês concluam com êxito todas as etapas neste processo
de formação que ora se inicia. A sociedade maranhense certamente anseia por novos agentes de
segurança pública e acredita numa pacificação social.
Sendo assim, em nome da Polícia Militar do Estado do Maranhão, sejam bem vindos! E
considerem-se neste momento impar de vossas vidas, futuros Soldados da Polícia Militar.
Que o Senhor nosso Deus os proteja e vos abençoe!

CEL QOPM JORGE ALLEN LUONGO GUERRA
Comandante Geral da Polícia Militar do Maranhão

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PALAVRAS DO COMANDANTE DO CFAP

O incremento intelectual e técnico na qualidade do serviço dos profissionais em segurança
pública é filosofia de gestão do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PMMA desde
que travei meu primeiro contato com o ensino nessa instituição.
O educador militar persegue o objetivo de satisfazer plenamente nosso cliente e estabelece o
conceito de “confiável” para um formando na prestação de serviços. Alinhados com o discurso de
aliança entre modernidade e tradições, os profissionais desse Centro buscam ininterruptamente,
identificar oportunidades de melhoria a partir da experimentação e aprimoramento de práticas,
nunca indiferentes às possibilidades de inovação, preservando valores éticos pautados em respeito
ao cidadão e ao próprio policial militar.
Em um ano de profunda inquietação social e de eventos da magnitude de uma eleição
presidencial e de uma copa do mundo em nosso país, enfrentamos o desafio de fazer segurança
pública de qualidade. Vivemos essa nova ordem mundial, sem fronteiras na informação, onde
ideologias se inflamam e paixões transbordam preceitos de respeito, civilidade e urbanidade.
Momento em que a preservação da paz social se faz imperativa, sob pena de sucumbirmos ante ao
caos, o crime e a anarquia.
É na preparação desse profissional que sustentará os alicerces da democracia nas ruas e nas
palavras que debruçamos nossos esforços, talentos e trabalho incessante. Precisamos estar
familiarizados com as frequentes exigências desse mundo em ebulição social, moral e ideológica,
perseguindo novos instrumentos de aprimoramento e progresso na seara educacional.
Dessa forma senhores e senhoras, com a alma cheia de vontade e o semblante humilde,
ciente de que estamos recém iniciando essa jornada, que começamos a trabalhar no ideal proposto
por este Centro de Formação, que é a de aproximar o policial militar da comunidade ampliando seu
espectro de percepções e sensibilidades sem jamais descuidar do seu preparo técnico e intelectual
para a prestação de um serviço à altura das expectativas do nosso povo.

Cel QOPM Auceri Becker Martins
Comandante do CFAP

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SUMÁRIO

1. Introdução ................................................................................................................... 6
2. Violência e Criminalidade no Estado do Maranhão ............................................. 7
3. Violencia, medo e outros fatores que influenciam a convivência humana ........ 8
4. Socialização e Criminalidade: Algumas Questões ................................................ 9
5. Crime e criminalidade: breve retrospectiva histórica ......................................... 14
6. Agressão, violência e criminalidade: algumas explicações. .............................. 17
7. Criminalidade e violência: contextos permissivos e desencadeadores ............. 24
7.1. Imputabilidade penal e prevenção do delito ................................................. 28
7.2. A criminalização da pobreza .......................................................................... 33
7.3. .Juventude e a expectativa de criminalidade ................................................ 41
8. CONCLUSÃO ......................................................................................................... 47
BIBLIOGRAFIA ......................................................................................................... 49

estão concentradas mais intensamente junto às camadas sociais menos favorecidas. 3. . Introdução 1. Trazendo para termos práticos. burlaram as regras legais da sociedade. fazendo-se entender pela grande maioria da população. a partir do contexto histórico e cultural do nosso país. já consiste em violência. 1983. o resgate da dívida social possibilitaria o viver em uma sociedade menos injusta e violenta. Para se alcançar a ambiência de paz social. em virtude da qual um indivíduo se torna degenerado e declara abandonar os princípios da natureza humana. p. permitem com que os cidadãos delinqüentes. por si só. 36). podem ser compreendidas e analisadas. a violência e a criminalidade. Além dos problemas econômicos e sociais. tenham como se sobressair de sanções mais rigorosas e. tanto no planejamento de suas ações como no grau de violência empregado. também. A relação entre crime e violência dá-se justamente no ato da realização da ação criminal. as vítimas. tem sido a pauta diária dos comentários no cotidiano social. tornando-se uma criatura prejudicial. raça. 4. pela freqüência de incidência. poucos problemas sociais mobilizam tanto a opinião pública como a criminalidade e a violência e afetam tão intensamente a população. • Tem-se a percepção de que há um recrudescimento das ações dos criminosos nos últimos anos. de acordo com os resultados apresentados. o fato de um cidadão cometer um crime já é um ato violento e a intensidade deste ato definirá a violência aplicada. O tratamento que esta abordagem dá a violência e à criminalidade refere-se a termos relacionados à segurança pública. que os trâmites legais existentes. 2. há comumente dano causado a uma pessoa ou outra. BARP. • Crime consiste na violação da lei e na divergência da regra precisa da razão. Embora o temor à violência seja universalmente distribuído em toda a sociedade. 2005. a impunidade estimula aqueles que já possuem alguma tendência a enveredar pelo submundo do crime. de uma maneira ou outra. que. 7). de uma maneira ou de outra. ao ferir a integridade do que está estabelecido como legal em determinado ambiente. (BRITO. De acordo com Beato Filho (1999). credo religioso. ou seja. no Brasil. torna-se necessário aplicar investimentos em programas voltados à redução da pobreza e das desigualdades sociais. p. tornando-se esta situação ainda mais grave nos grandes centros urbanos. de fato. Os meios de comunicação noticiam resultados das sanções impostas sobre aqueles que. sexo ou estado civil. onde são registrados os maiores índices de ocorrências. que tem relação direta ou indireta ao dia-dia dos policiais militares e que. para a geração de emprego e renda e em programas educacionais e de lazer que mantenham os jovens longe do crime. 6 1. desta forma. ficando esta mais ou menos intensa. Neste sentido. independentemente de classe. (LOCKE.

o Maranhão apresenta índices abaixo da média nacional.. destacando-se aqueles de grande porte.. contextos permissivos e desencadeadores e dentre eles a questão da imputabilidade penal e prevenção do delito. uma retrospectiva histórica da preocupação do homem com o delito. [. 2007). Ministério da Justiça. no Brasil. quanto ao grau de periculosidade ou de intensidade. onde se apresentam problemas comuns aos de outras grandes cidades. algumas explicações para a agressão humana. ousadia e risco. com o objetivo da obtenção ilícita de valores ou de bens. a violência e a criminalidade. • Feitas tais considerações. sobre o mapa comparativo divulgado pelo Ministério da Justiça/Secretaria Nacional de Segurança Pública. mais uma vez.. do comportamento das taxas do total dos registros de ocorrências por 100 mil habitantes nos Estados. quando analisados com os demais Estados da Federação. não. quanto à freqüência de acontecimento e. Em pesquisa realizada no dia 2 de abril de 2007. 2006. isso não significa que o risco da atividade policial exercida pela PMMA seja menor. (REVISTA. Ainda que o Estado do Maranhão figure com índices abaixo da média nacional. Violência e Criminalidade no Estado do Maranhão A maioria da população maranhense concentra-se nos centros urbanos. o réu protelou seu julgamento e agora. 44). 7 5. O cenário tem se apresentado de maneira bastante preocupante. . consegue manter-se em liberdade graças a manobras jurídicas traçadas por seus advogados... da criminalização da pobreza e da possível vulnerabilidade da juventude em relação a envolvimentos com violência e criminalidade. haja vista os eventos criminais que pontuam os dados estatísticos do Estado. 2. mas em ascendência de 30 (trinta) a 76 % (setenta e seis por cento) no período. normalmente são vistos. Durante os quase seis últimos anos. nos propomos a refletir individualmente alguns aspectos da violência e criminalidade enfocando questões sobre socialização e criminalidade.. como os assaltos praticados junto às instituições bancárias ou contra pessoa. p. em relação à média da taxa nacional do período 2001 a 2003. comparativamente. resguardando as devidas proporções. que. (BRASIL.. não são condenados. os índices de práticas criminais apresentados pelos Comandos de Policiamento de Areas no interior do Estado e pelo Comando do Policiamento Metropolitano sobem consideravelmente..] fazia parte de uma perversa estimativa da ONU: 98% dos assassinos de mulheres. Quiçá essas reflexões venham possibilitar algumas estratégias preventivas e de enfrentamento dessa questão que tanto sofrimento causa ao homem e a sociedade.

a violência e criminalidade têm crescido assustadoramente. a partir dos trabalhos de Gabriel Tarde. que leva ao medo. nos documentários. surgiu a Sociologia Criminal.. o homem inicia uma trilha de solidão. conhecendo os fatores contingênciais de ações entendidas como crime pela cultura. A criminalidade e a violência têm sido objeto de estudo de várias teorias e ciências incentivando o homem a buscar explicar e posicionar-se frente a essa "esfinge" do nosso tempo. desconfiança. bares. crenças diferentes. evidenciam os estragos provocados por esse "'monstro" fugidio. no jornal da TV.). o que é diferente). ou de agressão. As notícias amedrontam. mas provoca estranhos sentimentos. camisa na cabeça) como ameaçadores a sua integridade. a criança. ansiedade. das delegacias. na vizinhança. o Brasil tem um conjunto sistematizado de leis que regulam formalmente as relações entre os homens estabelecendo conseqüências penais para quem transgredir. (MEZGER Apud FARIA JÚNIOR. pois considera o crime como pressuposto da pena. nas prisões. O Brasil precisa buscar respostas que auxiliem o homem a. nas organizações terroristas. depressão. Apesar das leis. e esta como conseqüência jurídica daquele. hoje a pior ameaça é o outro. no lar. Na busca de assegurar as condições de "ordem e progresso". 2001 p. Desse modo entende que seja possível. Ainda no século XIX. penitenciárias. as pessoas tendem a investir no "radar perceptivo" de perigo. Se em épocas passadas eram aos lobos. Os acontecimentos comentados no bar da esquina. O medo pode oportunizar atitudes de reclusão (em si mesmo. e passam a ver alguns espaços (periferia. nos lares. no trânsito.. nas fábricas. tribunais. festas) e tipos de pessoas (jovem. o próprio homem.35). e para eles voltam-se com uma conduta de esquiva. pois muitos entendem que "a melhor arma é o ataque" Desse modo cria-se um estranho. medo e outros fatores que influenciam a convivência humana Violência.. com roupas maiores que o dono. o que possui bens. Essa é uma sociedade que promete felicidade. de cortesia preventiva ou de agressividade. Violência. estresse. 8 3. o que nada possui. na periferia. que estudaram o crime como categoria específica de fato social. Com o medo e a violência ampliados. nas escolas. onças e tubarões que o homem temia. medo. idéias diferentes. que emerge no esporte. buscando desvendar o contexto em que eles ocorriam.. solidão. negro. nos espaços interpessoais. nas ruas. violências contra objetos contra a natureza e até contra si mesmo. Émile Dunkheim E Enrico Ferri. egoísmo. nas igrejas. assegurar a ordem. peito nu. Violências contra o outro (a mulher. amedrontador e fascinante caminho de violências. À medida que desacredita no outro. desenvolver mais eficazmente suas . através da sanção.

2001 p.). Nesse processo segundo Dunkheim. que expliquem o aumento de determinado crime. desenvolvendo estratégias ao nível da família. 1999.. 1974. 9 políticas de segurança pública. de que modo as políticas implementada~ na prevenção do delito e redução da criminalidade estão produzindo seus efeitos e como aperfeiçoá-las. escola. Elas supõem não apenas o envolvimento das polícias e da Justiça. . e as características das vítimas. da criminalização da pobreza e da possível vulnerabilidade da juventude em relação a envolvimentos com violência E criminalidade. ações e sentimentos com os homens do grupo e cultura. com auxílio de ciências sociais como a sociologia. LAKATOS. contextos permissivos e desencadeadores e dentre eles c questão da imputabilidade penal e prevenção do delito. para ganhar aprovação e evitar punições (PEREIRA 8 FORACCHI. lazer. Importante. Exige que as outras políticas públicas incorporem-se a elas. ou portador de um. impactos e motivos supostos (inclusive o impacto que a mídia lhe empresta). meio social onde gerou a prática delitiva (CARLOS ADRIANO. (. personalidade desviada dos padrões normais da boa convivência.d. que remédio deverá ser ministrado para que esse mal seja combatido (FARIAS JUNIOR. onde internaliza um denominador comum de pensamentos. c violência e a criminalidade. partilhar sentimentos e crenças comuns. passando a agir segundo os usos. c psicologia social. as respostas das razões porque o homem se torna criminoso. Quiçá essas reflexões venham possibilitar algumas estratégias preventivas e de enfrentamento dessa questão que tanto sofrimento causa ao homem e a sociedade. costumes e leis vigentes. Assim busca-se conhecer o delinqüente em seu aspecto biológico e psiquiátrico. vizinhança. os homens constroem e partilham uma consciência coletiva. E que uma política de prevenção precisa descobrir suas tendências antes que se disseminem como 'valor' para a população vulnerável a sua influência. s. a estatística. com moralidade e sanções próprias a cada espaço histórico e social. O presente estudo se propõe a refletir alguns aspectos da violência e criminalidade enfocando questões sobre socialização e criminalidade. através do processo de socialização. Socialização e Criminalidade: Algumas Questões O homem aprende a comportar-se. O mundo se tornou perigoso porque os homens aprenderam a dominar a natureza antes de dominar a si mesmo (SCHWELL TZER) 4. Faz-se necessário então considerar os tipos. portanto se faz descortinar os fatores criminógenos. uma retrospectiva histórica da preocupação do homem com o delito. trabalho. áreas. a ciência jurídica. 1995). de modo a prevenir a ocorrência de crimes. COSTA. comunidade.35). E importante refletir que alguns tipos de delitos sofrem influência da moda.. algumas explicações para a agressão humana. em sociedade.). e avaliar.

168). de higiene). São produtos da vida em comum e exprimem suas necessidades. onde o indivíduo internaliza os padrões de comportamento.. acomodação e assimilação. Frente aos padrões da consciência coletiva e às expectativas de papéis. interiores das pessoas. obra de gerações passadas.. A assimilação decorre dos contatos primários e linguagem. classificadas e com isso nos tornamos herdeiros de todo o trabalho de longos séculos. 1975). . (DUNKHEIM In PEREIRA & FORACCHI. em seu modo de pensar e agir. hábitos (alimentares. que tem seu! gostos. 1986. A adaptação provoca estreita identidade do homem com sua cultura. Pode-se dizer então que o meio social e a cultura. Se conhecidas as variáveis disposicionais de "Joãozinho". e que fazem a mesma pessoa agir diferente frente a situações variadas. é possível prever que vão aglomerar pessoas em torno. mas para isso se faz necessária uma elaboração finíssima das próprias matrizes da estamparia a exigir cuidados e precisão escrupulosos.. os padrões culturais internalizados permitirão coincidências dos padrões individuais de conduta e coerência da norma comportamental estabelecida pelos membros de determinada cultura (HERSKOVITS Apud LAKATOS. (HARRISON. c homem. para observar. 10 Há costumes com relação aos quais somos obrigados a nos conformar (. tradições. sentimentos e atitudes.. o homem manifestará lógicas de ação.. que demandam a genialidade (MAKARENKO. 1999.. modos de comportamentos. 38 e 47) Desse modo. valores... estabelecem comportamentos aceitáveis ou não. o . sofre processos de adaptação. construídos de tal modo que o canibalismo. não fomos nós individualmente. Aprendendo uma língua. constroem numerosos detalhes da personalidade e do comportamento humano (. aprendemos todo um sistema de idéia! organizadas. se forem conhecidas as variáveis circunstanciais de cada situação.).) Ora os costumes e as idéias que determinaram esses tipo. p.. In CARDOSO & IANNI. é possível prever também que ele irá tentar apartar a briga.. Exemplo.a que se reduziria o homem se retirasse dele tudo quanto a sociedade lhe empresta. esquema de representação mental (estereotipo.. atitudes. Os padrões aceitos. MARION J. frente a uma briga surgida na escola. 1974.) em prensas simples em estamparia padronizada. Assim.. que os fizemos. Outros detalhes só podem ser feitos pelas mãos de um mestre com mãos de ouro e olhos agudos. e as variáveis disposicionais. mesmo que esta não esteja ocorrendo com algum amigo seu. São mesmo. tidos como válidos e preciosos para a cultura. na sua maior parte. como válidos na consciência coletiva de cada grupo/cultura. que fazem diferentes pessoas agirem de modo semelhante frente às mesmas situações. 1973) . p. que partem de um núcleo de coerência de cada indivíduo. e frente à pressão que eles exercem. fica possível fazer previsões do comportamento de um grupo e/ou indivíduo.

e quem os transgrida sofre sanção forte. alguns podem fazê-lo por considerá-las válidas. e exige medidas de controle para evitar a proliferação do desvio. Muitos desses "mores" são tão importantes. 1974. Apesar da socialização possibilitar a aprendizagem das normas vigentes e da coerção que força a conformidade a elas. os campos de concentração nazistas. que dependendo do tipo de sociedade. Geralmente o comportamento desviado indica que pode ter havido falha na aprendizagem da norma ou na internalização do seu valor. mas as seguem mecanicamente. pois que em terra de sapos. Outros transformam-se em costumes ou "mores"( MERTON In & FORACCHI. porém essa inadaptação nem sempre é prejudicial ou patológica. 1999). do valor da norma transgredida e do status do infrator. e exercem maior controle comportamento. ou que a sanção para aquela conduta discrepante inexiste. cedendo c pressões. 1980. que a consciência coletiva não prevaleceu sobre a individual. A transgressão das normas é um fato em todas as sociedades. Alguns permanecem. CHINOY Apud LAKATOS. JOHNSON Apud LAKATOS. ROS MACDAVID & HARARI. os usos ou "folkways". é fraca ou pouco aplicada. veja o que acontece com quem desobedece. transformam-se em leis. 1999). Ao longo da sua filogênese civilizatória. . onde. e conforme a relevância desse direito violado para o grupo. 11 infanticídio. outros não as entendem. A acomodação é um "ajustamento" externo. aperfeiçoados modos de fazer que deram certo. pois sua obediência é considerada importante. como podem resultar em descaso. ou seja. LAKATOS. por isso quem não os adota está sujeito à sanção branda. ou sofrer alterações. formal. exilar e decretar prisão. Em relação às leis quem as transgredi torna-se delinquente. o que reduz a hostilidade (OGBURN & NIMKOFF In CARDOSO & IANNI. quem transgredi usos e costumes. 1999). Entre os que agem segundo as normas. com objetivo vicariante. justas. embora parecendo convivência pacífica. Como a lei outorga ao Estado o poder coercitivo e a ele cabe a aplicação da sanção. porém não são obrigatórios. transformando-se em adaptação. pode ser tido tão natural como comer peixe. podem apresentar-se como pena severa. fica sujeito à severa penalização. Agindo assim. vive um antagonismo latente que pode ter vazão brusca em respostas agressivas e desproporcionais ao estímulo. tem seu comportamento lido como marginal ou delinquente. nem todos aderem e assim apresentam comportamentos desviantes (LINTON In CARDOSO & IANNI. combater a mortalidade infantil. que tão logo a sociedade seja letrada. o apedrejamento e decepar a mãos de infratores. 1973. de cócoras com ele. e assim estabelecem formal e impositivamente regras de comportamento. Toda transgressão é um indicador de que o sistema de controle social falhou. o homem age coagido ao imposto. 1973. nem que para isso precise usar a força física. temporário. o homem tem experimentado.

LANE E SEA LAKATOS. Convém refletir sobre a extensão e/ou restrição do conceito de cidadania em cada contexto histórico-político. de natureza ante social. que influenciarão as opções do sujeito a ele vinculados funcionalmente. o ladrão pode ser "Robim Hood". 1978. lá é considerado como padrão valorizado. na lei e na prática. Frente a esse delito resta a penalização do transgressor. MACDAVID & HARARI. dos considerados cidadãos. aspirações e perspectivas de vida (ROSA. devido a isolamento do grupo por distâncias espaciais. além da família. Nem toda sociopatia é delinqüência. frente às quais precisará efetuar difíceis. os "homens-bombas" como mártires da liberdade. o subversivo pode ser o "Zorro". (ASCH. preconceitos e hostilidades. de instrumentos elaborados formalmente para regular o comportamento. 1980. de modo que um assassino pode ser visto como herói. Essa diferença de padrões de aprovação ocorre porque o indivíduo. garantir a conformidade às . podendo gerar estereótipos. o mesmo comportamento tem padrões de aceitação e reforço diferentes em cada subcultura ou em cada momento da história de uma mesma cultura. reconhecido como de status e recompensado. pois os costumes são respeitados naturalmente. e suas implicações no cotidiano das relações sociais. Embora nem todo desvio seja condenável ou não desejável. complexa. participa de diversos grupos de referência. Às vezes existem grandes diferenças e antagonismos nos padrões de referência. e as ações desviantes são mínimas em quantidade e gravidade. Em uma sociedade heterogênea. simples. a partir dos quais formula suas opiniões. estruturais e psicológicas. 1999). o indivíduo que tem neles apoio vive dissonâncias cognitivas. Em uma sociedade homogênea. Desse modo a noção de delinqüência é produto sociocultural. muitos deles são considerados sintoma de desadaptação ao grupo e tidos como sociopatia. pela ofensa a costumes considerados importantes para a sobrevivência do grupo. passaram a considerar o seu sujeito imputável. para o que influenciará o valor conferido pelo grupo e sociedade ao padrão de comportamento. e comporta uma ação ou omissão em ofensa às normas aprovadas e tidas como necessárias ao desenvolvimento e harmonia do grupo. como em defesa do direito dos membros do grupo. 12 O comportamento lido como desviado pode estar ocorrendo em consonância com um subgrupo que possui padrão divergente e que exerce maior força como referencia para o sujeito. sua percepção dele e o grau de identificação do indivíduo no grupo. existe maior necessidade de leis. MACDAVID & HARARI. não se fazem necessários regulamentos escritos. onde aquilo que está considerado como desvio. inclusive em relação a criminalidade. 1977. que pela relevância que assumiram em cada contexto da história. 1980) Dependendo do grupo e cultura. pois esta se refere apenas aos desvios mais graves. Quando os valores e atitudes de diversos grupos estão conflitantes.

cercas elétricas. respectivamente. de vez que só a ele cabe o poder de violência através da aplicação da sanção legalmente arbitrada na Lei.2: 100 00 hab e 44. a crescente população itinerante ou imigrante. se fazem necessárias medidas que lhe restaurem. Honduras e Jamaica. a instabilidade intensa de costumes. indenizações. o que lhe seria devido pelo Estado. quer de pobreza. No Brasil a média de assassinato por 100 000 habitantes é em torno de 24. e penalização dos que transgredirem as normas estabelecidas (OPPENHEIMER E GUMPLOWIAZ apud 1999). segurança particular). Talvez isso reflita um momento de arranque que gera desordem social com conseqüentes impactos na organização intrapessoal e interpessoal.. Pelo Código Penal e Código Civil. 13 normas. ou de uma irracional racionalidade. Estudos do ILAUD (Instituto Latino Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento para o Delinqüente) têm mostrado que nos países em desenvolvimento. apesar do detalhado ordenamento legal. valores e status. compra de armas. efetivamente essas competências.10. como previamente estabelecidas e o aparato de segurança instituído. o comportamento do homem civilizado tem-se mostrado imprevisível e assustador. prisão. Se fossem consideradas como paises as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. exigindo participação da sociedade civil no encontro de estratégias de vida nas relações interpessoais da cultura. e penetrando no âmbito das políticas sociais básicas. a gestão da segurança. o Estado pode penalizar com multas. 3: 100 000 hab. essa taxa representaria 74. perdendo apenas para a Colômbia. 1995). No Brasil. Ora. muitos são os que desacreditam na competência do Estado para inibir preventivamente os delitos e penalizar os transgressores da lei. o que o coloca em quarto lugar entre os países nesse indicador de criminalidade. deixando de ser questão apenas da área de segurança pública. muito embora. apesar dos instrumentos legais. Nesse clima. exílio e morte (MAAX WEBER Apud COSTA. o índice de violência apresenta-se maior do que nos paises localizados nos eixos extremos. tanto que o interesse pela violência e criminalidade tem assumido relevância ímpar. controle social. a criminalidade se mostre crescente. o que os colocariam na "poli posicion” criminalidade do "rank" mundial. privação de liberdade. buscando com as mãos (cursos de defesa pessoal. a urbanização acelerada. quer de riqueza. o desemprego a falta de perspectivas. se for considerado que o Estado surgiu como resposta às lutas e conflitos entre grupos. . estabelecem uma lógica de um "salve-se quem puder” racional irracionalidade. Assim. passando a ser uma organização política a quem foi a administração dos conflitos.

crânio e corpo. analisando o contexto social onde ocorre..316). Thomas Hobbes dizia que o homem é lobo do próprio homem e assim a vida em sociedade precisava de uma autoridade para mediar conflitos.d. e questionava se seria justo punir a vítima dos condicionamentos sociais. ambição. Enquanto isso. Rousseau acreditava que as causas da criminalidade estariam na sociedade. 1985 p. que o fizeram romper os costumes e valores importantes para a vida em sociedade. de atitudes de perdão e misericórdia. Na Idade Contemporânea. e não abrange todas as diversas formas de violência do homem e sociedade. sistemas sociais.(FARIAS JUNIOR. são incapazes de fixar e compreender princípios morais. Na Grécia antiga. a violência e a criminalidade. por isso só é possível estudá-lo. 14 5. de oferecer a outra face ao agressor. fazer o bem a quem persegue. Thomas Morus já considerava que o crime possuía causas sociais. Voicin afirmava que o crime resulta de defeitos no sistema nervoso e Lombroso levantou sua tese do determinismo biológico. Na Idade Moderna. . A Bíblia exemplifica em Caim... identificou que as ações discrepantes de algumas pessoas não eram decorrentes de possessão de 'demônios'. que podem adoecer isoladamente. Já DELLA PORTA buscava conhecer o caráter do criminoso.). e são desafios presentes para cada pessoa. civilização. como estratégia para inibir outras transgressões. Aristóteles falava de paixões e fatores sócio-econômicos e reivindicava punição para o criminoso. Também nessa época Broca equiparava o criminoso ao louco. e sua forma de entendimento ao longo das civilizações. ciúme. pela má educação e pela viciosa organização do Estado (PLATÃO apud DELLA NINA. ao longo das civilizações. e sim de uma doença. 2001). família. A partir daí muitos são os estudos que buscam explicar a agressão. do atire a primeira pedra. (TAYLOR et alli apud ADRIANO CARLOS s. e assassinar Abel. Sua mensagem testemunho de amar até aos inimigos. constitui-se nos mais poderosos antídotos para a violência. Crime e criminalidade: breve retrospectiva histórica O crime é a transgressão de uma norma arbitrada em lei. Na Idade Média. apesar da inteligência. Platão afirmava que os crimes são causados pela falta de cultura. No início dessa era. em seus estudos. o que implica em independência entre as capacidades mentais. a partir de traços do rosto. os motivos de inveja. e preconizava que quem violasse o contrato social merecia pena. Muitas delas. Philippe Pinel. Jesus falava das bem-aventuranças. devido às diferentes relações de desigualdade.

desconsiderando as diferenças decorrentes das condições materiais de suas existências. Surgiu então os neoclássicos. pouco desenvolvido. Assim. sob a influencia de Darwin. embora as hipóteses levantadas. o criminoso primário que não persistiria no crime. restabelecer a ordem. como predeterminantes nos sujeitos de ações transgressoras. . o criminoso louco. não sendo livre. Como representante da Escola Positiva destaca-se Lombroso. onde seu sujeito é responsável por ela e por suas conseqüências. pelo social. gerem polêmicas. Outros a fatores bio-psico-sociais. o criminoso profissional que se torna por pressões e ocasiões do meio. associou o criminoso a um homem menos evoluído na escala zoológica da espécie. uma característica semelhante à do homem primitivo. defeito nos olhos. todos são iguais perante a lei. que tem em Beccaria um de seus representantes. pelo moral e psicológico. O Livre Arbitrismo da Escola Clássica considera o homem responsável e imputável pelo seu crime. Para a Escola Clássica a pena teria objetivo de intimidar. dentição anormal. de vez que a biologia predeterminaria seu comportamento. e pode discernir o bem e o mal. Em seu estudo classificou os criminosos em cinco tipos: o criminoso nato. que seria um homem selvagem. argumentando que o comportamento possui fatores desencadeante determinados pelo biológico. características sexuais invertidas). o homem. 15 Pelo visto. punir. também a criminosa. Lombroso estabeleceu analogia entre alguns caracteres pertinentes ao homem mais primitivo (a simetria do rosto. Então. que advogavam que toda ação humana. onde à vontade do sujeito não teria papel ativo. onde fatores biológicos. que estaria desencadeada por fatores superiores à sua vontade. concluindo que um subtipo humano não teria como contrapor-se a um impulso de violência. embora transgredisse. Portanto para essa corrente. pois uns atribuem suas causas ao livre arbítrio do homem. que advogavam a consideração de circunstâncias atenuantes e de inimputabilidade. a partir da autópsia de cadáveres dos criminosos. porém apesar da penalização os crimes aumentavam A Escola Positiva surgiu questionando o livre arbítrio. não lhe permitindo outra opção a não ser a delinqüência. o de Milanês Vilena. encontrou no crânio de um deles. explosivo que cometeria crimes movidos por impulsos que preencheriam suas crises emocionais. e o criminoso por paixão. incluí-se a Escola Clássica. Entre os defensores do livre arbítrio. Outros defendem teorias deterministas. que teria uma perturbação mental associada à delinqüência. sociais e vivenciais tornam o sujeito preso a suas armadilhas. que atribuía predisposição para comportamentos violentos e transgressores a defeitos na anatomia. orelhas grandes. não decidia sobre sua ação. seria fruto de escolha livre. expiar a culpa. pois possui inteligência e consciência livres. Essa tese surgiu quando ele. o enigma do comportamento violento e desviante tem sido objeto de investigações exaustivas.

1857. PINEL. ameaça de suicídio. Ultrapassando a visão da explicação do crime como fato pessoal. encontra oposição em outra corrente da mesma escola. cujos desdobramentos embasaram o surgimento de uma sociologia criminal. o que impediriam ao sujeito insurgir-se contra a ação delituosa. que transferia para o meio social a responsabilidade pela ação humana.d. MOREL. Essa explicação justificaria muitos sujeitos que cometem delitos e são extremamente inteligentes e responsáveis. mas com falhas em seu juízo.3 e p. p. Durkheim. têm reações afetivas frágeis. a partir da observação de maior freqüência de ações criminosas numa mesma família. Essa incapacidade poderia apresentar diversas gradações de consciência até a completa inconsciência sobre as conseqüências de seus atos. 16 Alguns discípulos de Lombroso. que defendia o determinismo social. físicas e sociais. 2001). e sobre esses atos. 1798. a partir da qual agiria impulsivamente. ficando à mercê de suas reações psicológicas. sem avaliar conseqüências. gerando falhas no núcleo da personalidade. Outro enfoque dessa Escola Positiva evidenciou aspectos volitivos e afetivos como incapacitantes do juízo moral. defendiam que a tendência para ações anti-sociais seria herdada geneticamente. mas por isso foram contestados. não tem como ser responsabilizado plenamente. . explicado devido ao comprometimento de funcionamento de apenas algumas das funções psicológicas. Esse determinismo biológico da Escola Positiva. PRITCHARD. (ALBERCOMBRY.4). Desses estudos sobre os fatores incapacitantes da vontade. desconsiderando os fatores de aprendizagem social. resultando no que seria um determinismo psicológico. ficava impossibilitado de escolher. considera o crime como um indicador da sanidade do sistema de valores que constitui a consciência coletiva de modo que procura a solução do problema criminal não apenas na responsabilização exclusiva do delinqüente mas na responsabilização do comportamento criminal por elementos típicos da própria sociedade que funciona como um ambiente verdadeiramente condicionador da ação individual (DURKHEIM apud ADRIANO CARLOS. e o entendimento da irresponsabilidade plena do sujeito sobre seus atos devido a uma psicopatia. Para ele a criminalidade era efeito de falhas na anatomia social. Seu principal representante. conduta anti-social sem arrependimento (CHECKLEY. embora anti-sociais e criminosos. sociais e psicológicos. não teria culpa de seus atos. Apud FARIAS JUNIOR. 1835. sendo determinado. incapacidade para seguir um plano de vida. 1656. 2001). de tal modo que também penalmente. sua responsabilidade ficaria atenuada. que ao lado de Gabriel Tarde e Lacassagne. KARPMAM HARE apud BALLONI. vida sexual impessoal e pouco integrada. s. chamava atenção para os condicionantes sociais da criminalidade. que possuía causas antropológicas. Enrico Ferri. surgiu o conceito de periculosidade. um dos principais expoentes da sociologia criminal. seja por livre arbítrio seja por determinantes biológicos. Assim seria possível que um sujeito inteligente para planejar. e o homem. Raffaele Garófalo representa esse argumento.

pode ocorrer a anomia (DUNKHEIM In PEREIRA & FORACCHI. que oportunizam vários entendimentos sobre essa incógnita. Durkheim considera que não existe crime em si. de modo que a criminalidade não seria obrigatória (DIGNEFFE apud BALLONI. explicava que quando ocorre uma individualização excessiva. Durkheim analisando a anomia e sua relação com o crime e o suicídio. na sociedade. pois a ação humana só será crime se ofender os sentimentos coletivos e assim for considerado pelo conjunto da sociedade. quando a individualização é insuficiente. garantindo a segurança dos cidadãos. O fenômeno criminalidade talvez constitua hoje a questão que maior interesse tem provocado no Estado. e ainda ao crime ou suicídio anômico quando o indivíduo frente a inúmeros fracassos e decepções encontra nele uma solução. aos que vão às lutas. nos cidadãos. ficando desacreditados argumentos sobre determinismo biológico e social. nas famílias.Mas. Por enquanto nem os governos (federal. . (o que ocorre em uma sociedade heterogênea). O poeta faz apologia aos bravos. a qual luta ele se refere? Será a luta de um homem contra outro homem por posses. dinheiro. Dessa forma verifica-se que historicamente foram desenvolvidos vários estudos sobre crime e criminalidade. pode facilitar um crime ou suicídio altruísta. o que evidencia seu caráter relativo de transgressão do que for construído como valor numa dada sociedade.. Essa questão apresenta-se como um enigma da "Esfinge do Desenvolvimento". por maiores que sejam suas conseqüências objetivas. Agressão. estaduais e municipais). 17 Afirmando que o crime é produto sócio-cultural. estabeleceu uma forte influência da consciência coletiva sobre a individual. 6. ressaltando que a medida que essa consciência coletiva restringir sua influência frente aos indivíduos. Estudando o suicídio e o crime como decorrentes do modelo de organização social. têm conseguido a resposta que intimide a esfinge e a faça recuar . aos que sabem enfrentar as adversidades. 2001). Ele inquieta e exige incessantes estudos na busca de ferramentas que auxiliem o homem e as sociedades a atuarem preventivamente sobre os fatores dele desencadeantes. pode predispor ao crime ou suicídio egoísta. violência e criminalidade: algumas explicações. onde condições materiais de bem estar coroem o nível de relações interpessoais e de confiabilidade no outro humano. poder e diversão? Será a luta do homem em favor de outro homem ou de si mesmo. para . 1974). nem a sociedade civil. de modo a reduzir a ocorrência de crimes.

(BIAGIO. garras e presas. criatividade. Seis estudos indicam que existem inibições naturais nas outras espécies animais. e outros animais. no qual. em desvantagem. Talvez confiante em que o possível agredido. o apertar de um gatilho ou de um botão. atribuindo a ela o adjetivo de civilizada. há muito superada pelas gerações anteriores. pela emoção ou argumentos. A agressão para os etologistas seria ferramenta de sobrevivência. onde efetivamente. Para tanto é necessário redimensionar uma questão como irrelevante no contexto de tantas inovações científicas e tecnológicas. na área da brutalidade. e lhe garantem o uso cidadão do termo “civilizado”. aliadas à inteligência com capacidade de planejamento. a ciência. Na civilização o homem pode ter construído um verdadeiro labirinto.. Todos os animais são agressivos. que significa mover-se para diante. virtual e realisticamente. sua filogênese não o equipou com inibições naturais. o agressor. 18 demarcar as fronteiras que impeçam o avanço de selvageria e da barbárie. poderia usar a linguagem e o pensamento conceitual para sensibilizar e desarmar. violência. onde as vítimas se tornam sem rosto ou invisíveis. caso não desenvolva inibidores de valorização e respeito à vida e ao outro. outros. a tecnologia e as relações interpessoais horizontais e solidárias adquiram status. risos e sonhos o homem tem empregado na construção de sua morada. Civilização. pode perder-se de si mesmo. armas que distanciam a vítima do agressor e podem camuflar a dimensão concreta e emocional de sua ação. a pedra. de um divertimento. frutos. mais comuns. A invenção das flechas e zarabatanas. Quanto suor. raízes. O fogo. a lança. que controlam a agressão. lágrima. criminalidade. porém só o homem é violento. apesar de terem força para matar até outros animais maiores. com seus valores morais e controle social. um anima sem presas e garras para matar caças grandes. não matem os membros da mesma espécie. sem a qual a agressividade humana transforma-se em violência descontrolada. 1975). pode ser até parte de um jogo.. . pois sobrevivia tendo como alimentos folhas. impedindo que animais de maior porte que os homens. A palavra agressão origina-se de “ad gradior”. funcionou como uma garra não prevista na evolução da espécie. uns na área da determinação. foram potencializadas com as armas de fogo e de controle remoto. a faca. daí seus significados múltiplos. não se faziam filogeneticamente necessários ao homem. mas que no momento atual apresenta-se como desafio: a socialização adequada de seus membros. suplantaram. Quanto mais ainda há por construir até que às artes. enfrentamento das situações que se apresentarem. Esses mecanismos que inibem a agressividade entre membros da mesma espécie. as mesmas que impedem lobos e leões de matar membros de sua espécie. A inteligência desenvolvida com e na cultura.

violência abrangeria toda situação onde o sujeito fica prejudicado em seu desenvolvimento. esses óbitos. E quando a agressão objetiva recompensas extrínsecas. intrigas. planejada. supõe uma intenção de provocar dano a alguma coisa ou a alguém. ou de violência movidas por descontrole emocional. e nem toda ação que destrói bens é violência (arrombar porta para retirar vítimas de incêndio). qualquer ação dirigida para provocar danos em alguém ou em algo. De acordo com COSTA In FUKUI (1992). as ações que envolvem os maus-tratos físicos e psicológicos e negligências.1989).). um campeonato esportivo ou até uma guerra. experiências ou acidentes atômicos. e o homem é visto simultaneamente como seu grande construtor e maior predador. entende-se por violência. Pode-se ainda analisar que nem toda ação que provoca sofrimento é violência (injeção. posto que não havia os meios para evitar a doença ou combatê-la. toda uma população vista sem poder econômico e político para fazer valer seus direitos. são frutos de uma violência. Algumas de suas vítimas são fruto de negligências e omissões da gerência das políticas sociais básicas. e agressão com violência nas brigas de rua. em assaltos.. a chamada violência estrutural. Atualmente o espaço interpessoal e interinstitucional está repleto de contradições. obturação de dentes. porém. provocando um déficit entre realidade e potencialidade. Outras violências fruto de omissões. passam despercebidas. é conveniente analisar o entendimento de Johan Galtung (1975) sobre violência. diz-se que é uma agressão instrumental. na tomada de bola do artilheiro. pois a violência é aprendida. os que morrem de fome. Dizemos que são vitimados. e às vezes até pela vítima. não pode ser lida como violência. Note-se. a mortandade por tuberculose no século passado no Brasil. ou seja. porém que o que é violência em uma cultura.. Assim é possível ver agressão sem violência. incêndios criminosos. colocar sua criança par ser mordido por formigas. de trabalho. egoísmo. drogas. A violência estrutural atinge. Assim. Hoje. Para ele. que justificam suas atitudes como as melhores possíveis de serem dadas na circunstância. e vão gerando suas vítimas impunemente. Assim. para um indígena. Ainda outras resultam de acidentes no trânsito. disputas de poder. os que não aprendem a ler e a se . são vistas como normais pelo agressor. dinheiro. posto que a livra de “maus olhados”. Talvez a aplicação da vacina “tríplice” fosse tida para eles como uma violência. indiscriminadamente. em outra pode não ser. cirurgias. Assim. imobilismo. Considerando que a vítima muitas vezes sofre violências despercebidas pelos seus agressores. posto que é fruto de um consenso coletivamente construído. 19 É sabido que agressão e violência embora processos paralelos. todos os que sofrem danos produzidos pela violência estrutural (AZEVEDO & GUERRA. não é tido como violência. por exemplo. Outras vítimas resultam de devastações das matas. os que morrem hoje de doenças evitáveis e curáveis. poluição dos rios. etc. Paradoxalmente. a utilização da agressividade com objetivos destrutivos. nem sempre estão expressos na mesma ação.

apedrejamento. drogas. direta ou indireta.). que coisificado. 1983). A violência pessoal pode ainda ser Direta (dirigida para a vítima) e Indireta (sem direção definida). mentir. Acrescente-se a isso a desestabilização de valores. 20 posicionar numa sociedade letrada. e outras ainda em adesão à delinqüência. transgressões de toda ordem. fraudar. corrupção. dando lugar à violência manifesta. mobilidade. mesmo que as palavras não o digam). e rebelar-se contra a ordem estabelecida. fruto do sistema capitalista. física ou psicológica. Nas relações engendradas nesse bojo. daí muitos sujeitos desenvolverem atitudes ambivalentes em relação à violência. homicídios. contaminada pela poluição de um "vale-tudo do ter". encontram-se arbitradas nos costumes e códigos penais de cada sociedade. veicularem o "poder" como "supra-sumo" das aspirações. embora não sejam regras de causa e efeito. agredir. Muitos acreditam que em ambientes onde existe a violência estrutural. castigada (brigar. Nessa lógica. é possível inferir inter-relações. a violência pessoal se manifesta mais freqüentemente. a Violência Psicológica (insultos. não tem motivo para ser ou não violento (MARX. pois se parte do suposto que o pobre pode não aceitar sua condição de privação. Entre a violência estrutural e a pessoal.. onde o padrão de sanção fica flutuante. verifica-se então que em algumas situações é recompensada. que predominam na sociedade heterogenia. a violência estrutural também está incluída nas categorias de crime e para elas também estão previstas sanções em seus documentos legais. A violência pessoal comporta uma ação danificadora manifesta ou latente. onde o interesse talvez seja apenas resguardar motivos de sublevar a segurança. status. . dizemos que são vitimados por uma violência estrutural. opções válidas para o objetivo pretendido. tiros. assediar. em outras. A violência latente é aquela que pode explodir no ambiente que a permite ou induz. facadas. desumaniza a sociedade. Em algumas sociedades. ocorre um consumismo exacerbado e um vazio existencial. laços afetivos. roubar e outros delitos praticados com habilidade.. à medida que os fatos sociais em suas mensagens. aliena o homem. e ora permite ora condena o mesmo comportamento. assaltos. deixando emergir a vontade individual. Em relação à conduta agressiva. Entre as diversas formas dessa violência manifestar-se é possível identificar a Violência Física (brigas. os que são atingidos por catástrofes previsíveis. Frente a essa possibilidade acionam mecanismos assistencialistas e repressores. tem provocado aprovação do meio. desvios de dinheiro. A produção da riqueza e miséria..). As formas de manifestação da violência pessoal consideradas transgressoras da ordem. tornando violências. pichar. chicotadas.. humilhações. costumes. resultando às vezes em tolerância. outras em sanção e sentimento de culpa. a consciência coletiva de valores e ética fica fragilizada. as pessoas passam a ter valor relativo e os objetos valores absolutos.

(GEIWITZ. os neurotransmissores (serotonina. entendida também culturalmente. como a estrutura límbica e lóbos frontal e temporal. egoísta. os códigos que limitam a conduta tornam-se um convite a sua transgressão. propriedade e poder. Advogando que o comportamento resulta de uma adaptação psicossocial. os evolucionistas explicam a agressividade como fruto de adaptação para a sobrevivência do ser (SAWREY & TELFORD. onde a sobrevivência. o colesterol. como um ser holístico. T3. por que agiria contra as normas socialmente aprovadas. MACDAVID & HARARI. e a agressão é dirigida à pessoa percebida como responsável. T4. o stresse. egoístas. HALL. Assim. capaz de desencadear até a auto-destruição. dopamina. considerando-se ainda que toda ação produz uma reação. Se o homem é ser social. (2001). PALHANO. insulina e outros). o homem sofre dentro dela inúmeros constrangimentos (ASCH. a outra pessoa que com ela tenha algo em comum. seria na teoria do Drive. Segundo Dollard. 1975. noroadrenalina). em relação a preservação de si mesmo e em suas interações com o meio. 1974). impiedoso? Os geneticistas buscando explicar o comportamento violento. Convém então refletir. 2000). a fome. Porém a Thanatos pode ser canalizada para expressões socialmente construtivas. e outros BERGERET & LEBLANC. em franco desacordo com a lógica coletiva de valores? Será que sua ação foi impulsiva. reconhecem que existem fatores biológicos que podem interferir na agressividade. 1973. ou na impossibilidade. e oportunizado a sobrevivência literal do sujeito. os novos gestalgistas o concebem como ser bio-psico-social em interação com o meio. os hormônios (testosterona. do seu autoconceito e auto-estima. energia da vida. e a instigação ou provocação. impaciente. ou simbólica. Freud fala de uma energia da morte. furto e delitos diversos. a luminosidade intensa. 2001. e as formas menos danificadoras de sua expressão. . 21 Assim se faz importante que o processo de socialização possibilita-se aprendizagens onde o sujeito discriminaria em que situações a agressão seria apropriada. e ainda em auto- agressividade. (PERS. BALLONI. e vêem a agressividade como uma função saudável que desempenha papel importante no processo de desenvolvimento. 1970). 1977). mas que antagonizada pela Libido. 1980. RODRIGUES. como tentativa de suicídio. 1997). os distúrbios cromossômicos. a Thanatos. coagida ou ele escolheu transgredir? Será que ele fez sua leitura dos códigos de conduta e sanções? E agora. Considerando o homem em sua totalidade. destruição de objetos. o motivo desencadeante de comportamentos agressivos e violentos. Considerando-se que para Freud e os psicanalistas a civilização é repressiva. usa ou desusa esse ou aquele padrão. aprende seus comportamentos em grupo. se o uso de atitudes violentas. como lidar com pessoas que se expressam de modo agressivo. Miller. MYERS. Explicando a agressividade. 1999. anti-sociais tem possibilitado a aquisição do status de respeito. o sono. por exemplo. 1991. Doob e Sear a frustração gera agressão. do prazer. papel e valor. violência sexual. TsH. de car´[ater anti-social como briga. (FRIEEDMAN et al. Essa energia pode manifestar-se por condutas agressivas. voltar-se-ia para objetos substitutivos. fuga. conduta perigosa a acidente. A frustração da necessidade ou desejo.

1994. resultando na substituição dos comportamentos mal adaptados. que direcionam a triagem. que resulta em expressões pessoais e sociais a partir da percepção de ameaça ou segurança. desde que lhes sejam afastadas na prateleira da cultura. Guidano. e 'quais os "eu ideais" estão sugeridos. e esse mundo mágico pode facilitar a aproximação ao crime. HALL. impostos para serem internalizados por cada geração. buscam superar as visões deterministas. provocando sofrimentos também no ambiente. NEIMEEYER. Outra linha teórica recente no estudo do comportamento. construídas pelas aprendizagens realizadas desde o nascimento. SKINNER. mas trabalhadas. dependentes de outros que lhes "tratem". e vão sendo ratificadas. em contato com suas melhores qualidades humanas. Esses conflitos podem comprometer suas identificações e auto-imagem. Walters. sua representação de si e do mundo. os delinqüentes são vistos como pacientes. Essa incapacidade para tolerar frustrações pode acionar mecanismos internos de compensação. 2000). a da Aprendizagem Social. 1997). Caso contrário a tensão se manifesta em conflitos com o mundo externo e vai gerando sucessivos conflitos. opções de status por violência. onde a fantasia inventa façanhas incríveis para convencer também os outros de seu poder. A partir desses entendimentos de Rogers e Maslow. já que existe um convencimento interno. que defendem a realização da pessoa como meta inerente de cada homem. intrapessoal e com os códigos da cultura. tornam possível modificar pensamentos distorcidos e alterar as crenças funcionais. afirma que o comportamento é fruto da aprendizagem social realizada a partir da imitação de modelos e dos reforços atribuídos (BANDURA. (EYSENCH. os sujeitos em questão passam a ter papel ativo no processo de aprendizagem significativa. a codificação das informações do ambiente. Outra linha teórica que estuda o comportamento humano. 1980. que tem como expoentes Bandura. (EYSENCH. No entendimento dessa situação tornam-se importantes as crenças nucleares. suas relações interpessoal. 1994) Esses cognitivistas defendem a importância da internalização do conflito pois. que podem ser acionadas para um contínuo autodesenvolvimento e busca de auto-realização. Skinner. (MACDAVID & HARARI. Gibson. a dos cognitivistas como Gardner. . HALL. é necessário verificar para onde estão as setas que a cultura coloca apontando como valor de auto-realização. Porém para os humanistas. obsoleta. Elas podem cumulativamente gerar sofrimento ou alegria. e colocar o homem como gestor de sua existência. Se as atitudes agressivas e transgressoras das normas forem tidas como doença social. 2000). Os estudos dos humanistas como Rogers e Maslow. 22 A incapacidade de tolerar frustrações tem gerado ações impulsivas. se essas distorções forem encaradas como fruto de aprendizagens efetivadas. a coerção exterior faz-se desnecessária. estruturas cognitivas profundas. se a regra for interna. 1999. agressividade ou misericórdia. e colocadas variadas e atraentes opções que possuam efeitos desejados pelo sujeito e pela cultura. aponta a agressão como uma resposta emocional dentro de um campo vital do entendimento da situação.

como respostas aprendidas no ambiente. e como foi associada como bem sucedida para seus propósitos. Fala-se de paz. a própria experiência ajudou a brutalizar tanto a guerra como a política: se uma podia ser feita sem contar os custos humanos ou quaisquer outros. A agressividade pode ter sido modelada por reforço em esquemas de fugas e esquiva naquelas situações onde por emissão de comportamento agressivo o sujeito evitou ou livrou-se de uma situação aversiva. 2001). pela própria circunstância social do sujeito. padrões e sanções estão em mutação instável. 1996.. induzindo/facilitando a emissão de 'conduta semelhante. Desse modo o que pode ser considerado como comportamento mal adaptado. pois eles são mais vulneráveis aos efeitos dessa exposição. foi resposta aprendida e seguida da conseqüência desejada para o sujeito. ROSA. 1997. trabalho. esses comportamentos desviantes podem ocorrer em conseqüência de frustração. mas investe-se na produção de armas com poder crescente de destruição e morte. HALL. ética. as políticas sociais básicas. sociais. devido traço de personalidade. como resposta a expectativas e a percepção que o sujeito tem de si e de seu papel na sociedade. Conforme afirma HOBSBAWM (1996. se a sociedade deve cobrar à medida que ensina. considerando a teoria da Aprendizagem Social. dinheiro e poder por qualquer meio. sua ação agressiva consegue êxito. e ainda da forma como o homem e os grupos interpretam e elaboram a gestão de suas vidas (SAWREY & TELFORD.. FICHTNER. onde esse comportamento agressivo estabeleceu ligação de identificação com o modelo. e o que tem assumido prestígio entre os comportamentos. Ora. como fruto de entendimento de uma situação que leva a interpretar a situação e agir de acordo com o sentido. 34). 1978.. 1974. Resta saber em que medida a agressividade contra outra pessoa e o patrimônio está sendo ensinada em nossa sociedade. ASCH. mas privilegiam-se os que conseguem posses. contraditoriamente. interpretação e posicionamento que envolvem as ciências biológicas. psicológicas... e ficar alerta em relação a imagens e modelos que cercam as crianças e jovens. honestidade. 2000. Essas possibilidades exigem uma análise. 23 Assim comportamentos agressivos podem vir como respostas aprendidas por imitação de modelos agressivos recompensados. mas convive- se com a impunidade. Condena-se a violência. podendo virar hábito e incorporar-se como justificativa para o comportamento. então cabe refletir quais normas e valores estão hoje aprovados pela sociedade e dominantes nas práticas sociais. solidariedade. porque não a outra? Pelo exposto. talvez a única opção para obter reconhecimento de sua existência e atenção. pois por elas o sujeito adquire o poder do modelo admirado ou temido. como resultado da desorganização da sociedade onde valores. p. Fala-se de cidadania. 1977. como resultado das múltiplas interações sociais. BLOS. BALLONI. as políticas de segurança e de . Ainda é possível que devido reforço positivo oferecido. continuará sendo usada.

brigas. melhorar o rebanho. colchões macios. mas uma batalha de grupos por chances iguais de participação (DAHRENDORF. exames de ultima geração. Entre eles estão as chacinas. preenchem o desejo com roupas e tênis de marca. Tem sua sede no coração e deve fazer parte inseparável do nosso ser. e de lá voltam com seus ecos que forçam o governo e a sociedade civil a ouvi-los e posicionarem-se. para o Brasil tem se configurado como utopia. pratos sofisticados. GANDHI 7. as revistas. tecnologias de ponta. os livros escolares. últimos padrões de técnicas utilizadas para preservar a natureza. que permitem a muitos residirem no conforto. O progresso não é um esforço comum para mover a fronteira da escassez. educação. dinamizar a agricultura. saúde. O Brasil. Essa realidade onde crianças. no Canadá. não foi registrado nas manifestações comemorativas da classificação da Coréia para as quartas de final. latrocínios. escola. mas não pode escamotear as desiguais condições de existência. 1992. as altas taxas de mortes violentas na juventude. o desemprego. incrementar a industria.31). sem preocupação com assaltos. Desse modo a mídia. se veste com as cores dos hábitos de consumo e status de primeiro mundo. remédios e cirurgias com as últimas . pois A não violência é uma veste com a qual nos revestimos ou da qual nos despimos a gosto. jovens. balas perdidas. artes. o número de mortes por desnutrição e doenças evitáveis. shows. preocupado em apresentar às outras nações indicadores de desenvolvimento. foi a de um torcedor emocionado vítima de problemas cardíacos. cotidiano na Coréia. outros espaços de lazer. supermercado. e em outros países. o índice de analfabetismo. jóias. nenhum ato de violência. Criminalidade e violência: contextos permissivos e desencadeadores Na disputa da copa do mundo de futebol na Coréia em 2002. 24 assistência social na construção de uma cultura onde a atitude pacífica faça parte do homem social. trabalho. pois a única morte que assumiu espaços nos noticiários. p. porém seus indicadores ultrapassam as fronteiras. adultos e idosos podem se deslocar tranqüilamente para estádios. O grito desse contraste tenta ser amordaçado por programas assistencialistas. enquanto a maioria nem lugar para dormir possui. na Austrália.

aviões. Expande-se o não compromisso em responsabilizar-se por coisas coletivas. 1987). roubar. discrepância entre o que possuem e o que deveriam ter. insatisfação. são desprestigiados. pois com a desigual distribuição de renda e de oportunidades de acesso ao saber a aos postos de trabalho. falta de participação social (SCHNEIDER. Muitos dos atos violentos são indicadores de uma estrutura social incorreta. 1999. talves porque em ambos exista um equilíbrio do nada ter para consumir ou do muito ter para consumir. 58). justificando- se. educação está fechado. por questão de sorte e talento. 1978. violência. na fantasia. podem potencializar a violência e a criminalidade. Assim “compra-se” virtualmente. embora os mecanismos sejam questionados e sejam fugidias as realizações. mola propulsora da mora está quebrado. Entretanto nos países em desenvolvimento o índice de criminalidade é explosivo. estratégias de sobrevivência e envolvimento com a polícia. Essa desorganização gera verdadeiras cidades com uma subcultura própria. como a ponta de iceberg. s. abuso sexual e negligência até na própria família.. 25 técnica e produtos descobertos pela ciência. senso de futilidade.. bater. aliciar para prostituição e/ou drogas. divergente da oficial. Na cultura oficial o semáforo para trabalho. só aparecendo atalhos para sub ocupações e humilhações. desemprego. carros. atributos e padrões de um status e de um papel que nunca encontrará (ROSA. sub-saláriso e autodesvalia. gerando estresses. Como „ninguém‟ importa-se com qualquer coisa que não lhe diga respeito diretamente. Estudos do ILAUD (apud KAHN.LAKATOS. p. aumenta a tolerância a desvios da norma. que „ninguém‟ interfere. de modo que o outro pode enganar. saúde. nem ao menos para chamar a Polícia. provoca confusão. empobrecimento. 232). sem envolvimento. p. assassinar. escassez de serviços urbanos. e até a crimes. bebidas. talvez devido à desorganização que assume nessa busca da mudança onde foge da pobreza mais não é capaz de ter nível de consumo. Os costumes e valores tidos como sagrados. delinqüência. O prazer e o interesse pessoal dão a tônica das relações impessoais. habitação. essas ofertas ficam apenas no imaginário para maioria das pessoas. humilhar. de relacionamento com violência física e psicológica. e o desejo frustrado. não souberam aproveitar os provimentos e as chances que a sociedade liberal capitalista oferece. A idéia de que o censo de coesão social. A desorganização social potencializa a criminalidade que por sua vez tenta “vestir-se” como natural e necessária para o contexto. ou fatalmente enfraquecido (MAC IVER apud. indicando que existe muito gelo subterrâneo nas relações humanizadoras. Neste cenário prevalece a anomia. e que se faz necessário ascender as águas para viver em . onde a chance de se dar bem está aberta.produtos que estão negados para todos os que não tiveram a senha da prerrogativa.d) demonstram que os países extremamente pobres ou extremamente ricos possuem menor índice de violência. significando tanto um pedido de socorro.

vivendo o que Kurt Lewin chamou de conflito de esquiva-esquiva (GEIWITZ. a grupos vicinais e de coetanos de bancos escolares. individualismo exarcebado. mas porque essas as armas existem em um contexto violento. enfraquecimento dos laços familiares e dos padrões religiosos e vicinais de sanções sobre as condutas. verifica-se que entre os "civilizados" está havendo uma falha nos processos de aprendizagem. sentem necessidade de se vincularem a um grupo que tenha poder e se submetem a suas regras com uma disciplina que a sociedade jamais imaginou que eles seriam capazes. LAKATOS. favorecendo o aparecimento de condutas desviadas para o ilícito. Ora. uma "briga boba". Esses grupos exercem grande influencia em seus novos adeptos. tem enfraquecido a coesão social. e o jovem da periferia situa- se na linha de fogo da polícia e dos grupos organizados do crime. banalização do corpo. Muitos são os jovens que. termina em tragédia. Esses grupos dão "proteção" mas exigem fidelidade. Que regras? Em muitos casos uma "brincadeira". BALLONI. baixos padrões de vida. (ROSA. enquanto o menino brasileiro manuseia na infância armas de brinquedos. muitas são as oportunidades para comportamentos desviados das regras. Numa sociedade pluralista surgem diversos grupos com idéias contrárias ao padrão historicamente estabelecido como aceito pela Constituição e demais leis do país. com desigualdades sociais gritantes. e embora não causem dano real. 1999. barulhentas e luminosas. sociais e espirituais. em suas dimensões biológicas. Se. 26 segurança. em sua juventude. o menino índio ao receber o arco aprende também que ele é destinado a uma finalidade socialmente aprovada. preservando a espécie humana através da proteção de suas crianças e adolescentes. 2001). e que ele. ausência de metas comuns e do orgulho nativista. não o utiliza para intimidar ou matar pessoas. familiar e vicinal. psicológicas. povoam o imaginário e . As favelas tem sido exemplo de espaço urbano onde a criminalidade está estreitamente associada à desorganização econômica. com o enfraquecimento dos laços de pertencimento à família. mobilidade física e de statu que dificulta os controles vicinais.1978). metas culturais cada vez mais fugidias aliadas a padrões de consumo inacessíveis para a maioria da população. enfraquecimento dos códigos comuns de condutas. que são submetidos a provas às vezes extremas para serem aceitos como membros. O anonimato da vida das grandes cidades. drogas. ou esse processo é eficaz e a falha está no que é ensinado. os laços de “pertencer” a uma comunidade. Não raro essa prova envolve conduta transgressora para testar o grau de adesão e submissão do novo agregado. se considerar que o pequeno índio manuseia na infância um arco de verdade. Essas situações ocorrem não apenas pela quantidade de armas de fácil acesso. A qual solicitará proteção? Nessa realidade desorganizada. grande densidade de população em áreas empobrecidas nas periferias. (ROSA. especialmente devido à facilidade de acesso a armas de fogo. 1978. 1973).

O usuário pode. Muitas sociedades ainda consideram criminoso e doente mental como semelhantes. BEATO FILHO. e distúrbios mentais. as diversas situações em que se encontre com uma arma na mão. além das situações comuns às de usuário. 1984. sob efeito da droga. é a venda de drogas que está associada aos homicídios (ZALUAR. o que contraria o entendimento do senso comum de que o doente mental é perigoso. os devedores. são condenados socialmente na vida real. Este tipo de violência ocorre por não haver formas legais de resolução de conflitos entre traficantes e usuários. Daí muitos estudos ressaltarem que. Outra questão que vem provocando violência e. A arma na mão de um jovem é uma estratégia perigosa.97% dos criminosos eram doentes mentais. os skin heads. também são passíveis de prevenção. são percepções do "outro" como diferente (COOLEY In CARDOSO & IANNI. as rígidas normas que punem com a morte os delatores.1973). os mãos negras. Ela o coloca em situação de direção perigosa e vulnerável a acidentes diversos. subtrai a vida de um outro de forma objetiva. e de forma subjetiva. também a sua pode ser impedida de prosseguir por esse fato. não programado por si. Entre os traficantes. pode usa-Ias impensadamente. que incoerente a esse exercício. Assim com um gesto automático. morte é a do uso e tráfico de substâncias psicoativas. os justiceiros são alguns comportamentos que podem acontecer a partir do que está sendo veiculado pela mídia ( ) . 27 naturalizam seu uso indiscriminado e inconseqüente. os bad boy. pois tendo ensaiado seu uso em situações banais e irreais. se a sociedade. Também devido à necessidade de conseguir dinheiro para custear o consumo. 1999). xenófobos. o usuário pode envolver-se em pequenos ou grandes delitos. destruindo vidas. mas que espera que ele continue a responder com o "gatilho do controle" que aprendeu a manusear. conhecendo os indicadores. 2001) deram conta que apenas 2. muitas vezes fomentam sentimentos racistas. que o colocam em situação de risco de até matar para obter a condição de consumo. porém estudo epidemiológico sobre criminalidade e distúrbios mentais na Alemanha (HAFNER e BOCKER apud BALLONI. Ao segurar uma arma o sujeito pode confundir-se num emaranhado virtual. os não colaboradores. ter facilitado sua expressão de violência. caso também o sejam. onde a realidade perde o sentido e as vidas sua e dos outros podem fazer parte de um mundo estranho a si mesmo. oferecesse outras formas de canalização das tensões e tratamento para as enfermidades mentais. acrescente-se a briga por "mercado" com quadrilhas rivais. Assim os meios de comunicação de massa em suas informações e programações. mais do que o uso. neuroses. Note-se que alguns crimes cometidos sob "violenta emoção" ou por pessoas com psicoses. As torcidas violentas de futebol. de extremismos políticos e religiosos. Outro fator que tem contribuído para sentimentos de rejeição e antagonismo e violências deles derivada.

banais.. 7.15-17) Em todas as culturas. a "suspensão" e a "advertência". Assim a "palmada" e a "palmatória". pintam violência e prazer com a mesma tinta. "clips". Se ele der ouvidos. A prevenção de contextos de risco e desencadeadores da criminalidade exige ações efetivas e sistemáticas. anulando pessoas que nele existam e banalizam desrespeito à vida com torturas aprovadas. Jak.. talvez um resquício emocional que o ajudou filogeneticamente a sobreviver. não existe o crime . embora muitos atos humanos sejam igualmente considerados crime em diferentes culturas. mas incentivada e reforçada. Se ele não der ouvidos. associando categorias raciais. no clube. evidenciam conflitos raciais e sócio-econômicos pela ótica da oposição entre o bem e o mal. Caso ele não dê ouvidos. na escola. a "multa" e a "penitência" constituem signos de coerção/penalização e para livrar-se deles o homem tende a se comportar do modo desejado. (Mateus. as características de suas vítimas. sua freqOência. o homem reage aversivamente.. As exposições repetidas à mesma cena. residenciais. É valiosa para essa tarefa a analise de todas as contingências que cercam os crimes.. os motivos e fragilidades do autor do delito e da sociedade onde ocorreu o delito. em que a violência não só é consentida. Duro de Matar. etárias. É sabido que frente a algo novo.1. tornando-as corriqueiras. tome com você mais uma ou duas pessoas. decerto é porque a cultura espera uma crescente adesão de sujeitos a esses comportamentos. que impeçam que o crime aconteça. seja tratado como se fosse um pagão. Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos. músicas. Exterminador do Futuro. comportamentais. caso contrário está sujeito a punições. o extripador. para que toda questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. mesmo que essa pena tenha objetivos pedagógicos. 18. RoboCop2. a sociedade coloca uma sanção frente a ações que violam o padrão de conduta aprovado como importante para o modo de vida e valores de sua realidade. programas. profissionais e sócio-econômicas a serem merecedoras de agressividades de toda ordem.. Na família. . você terá ganho seu irmão. Imputabilidade penal e prevenção do delito . se são apresentados modelos tipo Rambo. o homem precisa agir conforme as normas estabelecidas.vá e mostre o erro dele. O comportamento desviado das leis de um país é considerado crime e seu autor fica sujeito a ser penalizado com diversos graus de severidade entre o desprezo até a morte. em todos os ambientes em que se relaciona. dissensibilizam para cenas semelhantes. na Igreja.. os contextos sociais onde ocorreram. Então. no trabalho. Brigas de Rua. sem importância. só entre vocês dois. mas em particular. comunique à Igreja. no trânsito. Porém. o que pode predispor outros sujeitos a serem protagonistas de cenas parecidas. 28 Muitos filmes. Também podem transformar o corpo em mercadoria e objeto de consumo.

pois que a ofensa. possui íntima relação com o contexto sócio- histórico da sociedade onde o delito ocorreu. A pena de prisão é uma invenção recente da civilização. Antes da prisão os que transgrediam eram obrigados a indenizar ao Estado sua ofensa com dinheiro ou trabalho e/ou eram banidos. e em praça pública.. pois sua maiêutica estava pondo em perigo a estabilidade do sistema. embora possa ter lesado propriedade ou vida de um cidadão. Para cada delito está previsto também em lei.. A escolha do tipo de sanção e dos objetivos que a animam. à medida que haja falhas na internalização desse denominador comum de padrões de conduta.d. Para Durkheim o crime deve ser reconhecido como indicador da sanidade do sistema de valores que constitui a consciência coletiva (apud ADRIANO CARLOS. Iraque. Sócrates foi condenado a beber "sicuta". Jordânia. Assim como essa consciência coletiva é ascendente sobre a consciência individual. Irã. Luis XV e Maria Antonieta são exemplos de pessoas que transgrediram os costumes de sua época ou foram surpreendidos pelas mudanças que possuíam novos critérios a partir dos quais eles eram considerados ameaças. dissuadir outros a se aventurarem pela via da transgressão.. Bequimão. e também por ela as alternativas de sanção estão estabelecidas. pondo em dúvida um princípio em que se assentava a ordem social. Galileu ao afirmar que a terra era redonda. em outra seja aprovado.". e sobre esse axioma muitos ainda hoje são penalizados. só aplicável à medida que houve viabilidade de arcar com as despesas desses "fora da lei". conforme a gravidade da ofensa. e muitos paises da África do Sul. Israel. A penalização daquele que violou as normas esteve sempre de acordo com a ideologia de cada realidade. teria cometido um crime. Líbia.). s. Tiradentes. data de 2050 a. uma sanção. exilados. na Suméria. C. de vez que ele é concebido a partir das relações entre homens em um determinado contexto histórico e político. punir o culpado. dissuadi-lo a permanecer no caminho do crime. Síria. que pode ter como objetivo: vingar a ofensa. pode ser punido com castigos corporais e até a morte. O primeiro código de lei que previu ao invés de castigos corporais. com o código do Rei Ur-Nammun. o comportamento transgressor das normas legalmente aprovadas. na China. Não raro a pena é decretada em processos rápidos sem direito a ampla defesa e . e seria punido em praça pública se não recuasse. fere a lei.. Assim é possível que o mesmo ato considerado crime em uma sociedade. Ainda hoje em alguns países. multas e indenizações para o autor do delito. 29 como realidade universal. os crimes tornam-se mais freqüentes. mortos. violado a verdade. Joana D'Arc. impedir que ele reincida (por contenção externa e/ou por reabilitação para comportamentos aprovados) e proteger a sociedade desses violadores das normas. A "Lei do Talião" propunha " olho por olho .. O estabelecimento e aplicação da pena cabe ao Estado. e foram penalizado por isso com a própria morte. Entre esses paises encontram-se o Egito.

fuzilamento e outros Estudos indicam que a existência da "pena de morte" não é por si só fator de inibição da criminalidade. ao homicida. se apreendido.(Corte do Estado da Califórnia. 1972. além do efeito incapacitante (morto não transgride). s. depois de morto. ponderando as conseqüências de seu ato para si e sua família e as possibilidades de vir a ser penalizado pela sociedade. ao estuprador. a violência até reduziu suas taxas. envenenamento por gases e injeção letal. sabendo que estaria perdido se preso. cada vez que ela retira a vida de um de seus membros. a preocupação é com a sociedade que se diminui ela mesma. ao contrário do que muitos pensam. Dinamarca: (1930). 4. pois que o autor de um delito grave que. Revogue-se pois ao homem e ao Estado esse direito. Num mundo de tantos avançoS das ciências.É preciso que qualquer pena seja imputável a todoS oS que . pois "se me pegarem eu já terei muitas "contas” para pagar com o mesmo valor . Alguns paises do oriente ainda utilizam chicotadas. A pena de morte parece uma vingança oU impotência da sociedade de conviver Com. Ela degrada e desumaniza todos aqueles que dela participam. p. não é tolerável que a retirada da vida seja vista Como único caminho de proteção do sujeito e da sociedade. o fazem em ritual privado com processo jurídico longo. poSto que não pode morrer duas vezes. Para quem a defende. oU alterar a realidade psicológica.. Bélgica (1963). 30 por crimes políticos que nem envolvem violência pessoal e atentado à vida. o acusado tivesse descoberto sua inocência. pois em diversos países onde ela foi extinta como Noruega : (1905). Suécia: (1921). não é motivada por qualquer simpatia pelos criminosos que cometeram atos de violência. Suíça: (1942). A forma de imputabilidade para a pena capital no ocidente utiliza cadeira elétrica. social e cultural do sujeito que transgrediu. maior O efeito inibitório. pode ser julgado merecedor da pena máxima. é um direito que só pertence a Deus. e assim mesmo sob nosso protesto. não se preocuparia em corrigir-se e não voltar a transgredir. Já os países do mundo ocidental que adotam a "pena de morte". Além disSo o direito de tirar a vida de alguém. Itália (1944). Resta refletir se O sujeito antes de Cometer seu primeiro delito que envolve agressão grave e morte avaliaria antes. quanto maior a severidade da pena.). Como dizia David Nasser num artigo da revista "O Cruzeiro" na década de 60.. Considere-se ainda que o medo de ser condenado à pena de morte. e ela é incompatível com a dignidade do homem e com a dignidade da Justiça. continuará sua vida Como transgressor. Alemanha Ocidental (1949). apedrejamento. Ela não é necessária para atingir a finalidade legítima do Estado. também possui o efeito intimidatório para outros (veja O que acontece Com quem. pois sabe que se for pego. apud MAGALHÃES. Acrescente-se a isso que não adianta apenas legislar estabelecendo duras penas ao seqüestrador.d) A pena capital. mas que mesmo assim permitiu situações em que. sua pena não pode ser aumentada... As razões que fazem um Estado abolir a pena capital podem ser exemplificadas no texto: Nos concluímos que a pena capital é de uma crueldade inadmissível.Assim. sentindo-Se perdido. poderia não ser estratégia mais apropriada de redução da criminalidade.

"acontecível"para quem transgredir. 31 Cometerem o delito. envolvem castigos corporais como chicotadas em praça pública. ou que basta ter bons advogados para ficar impune penetrou de tal modo no senso comum. a fogueira. que marcam bobeira. a sanção estabelecida e conseqüente redução daquela transgressão. os demais delitos são penalizados mais por sorte ou azar. os bestas. o que tem exigido do Estado uma postura inteligente para que cadeia e penitenciária não se tornem "quartel" do comando organizado. pois as chances de ser preso são mínimas. mas é sabido por todoS que não podem contrariar o interesse do "comando". não há regras escritas. o medo e o descrédito de que pela via da Polícia e Justiça seja possível combater a criminalidade. para que sejam desfeitos.Hoje nos paises do Ocidente como o Brasil. Muitos acreditam que a prisão não foi feita para eles. apresentando fatos e indicadores das ações e resultados da política de segurança. Historicamente a imputabilidade era aplicada em locais públicos. Na cultura oficial. caso contrário perde seu caráter inibitório. verificam-se inúmeras defasagens. que é necessário maior agilidade nos aparelhos policiais e de justiça aliados a uma ampla campanha de sensibilização e divulgação na mídia. uma estrutura física e de recursos humanos para cumpri-la. o incapacitante. no imaginário do povo. o apedrejamento. tenham sobrevivido como arquitetura em algumas cidades. e utilizava O fuzilamento. que têm gerado descrédito e crescimento de delitos. oU pelo menoS ser uma possibilidade Concreta. foram abolidas. Avaliando-se o crescente número de registros nos Boletins de Ocorrência (BO) versus providências tomadas versus culpados penalizados. a forca. que não conseguem dinheiro e poder para comprar a liberdade. portanto a ameaça de sanção não tem funcionado como estratégia de prevenção da transgressão. que dão mancadas. A crença de que a polícia não consegue prender. Ela existe para os outros. a quilhotina. A maioria das penas hoje envolvem privação de liberdade. pois não existe lugar escondido bastante para livrá-lo da pena. . Note-se que esse crescimento de delitos registrados acontece em uma realidade em que muitas vítimas deixam de registrar suas queixas por descrédito no sistema ou medo de represálias dos agressores. Essa não certeza de penalização reduz a eficácia do disposto na lei. embora os "Pelourinhos". o que exige do país que a adota. Essa pena de detenção possui além do efeito intimidatório. oficialmente. embora dentro das penitenciárias. Nas subculturas onde a criminalidade é a "lei". continuam a comandar ações criminosas. com o valor real e simbólico de coerção que exerciam. excetuando-se os fotosensores do trânsito que asseguram a todoS que transgredirem a norma. Esse efeito hoje na era do celular e Internet tem sido desmistificado com a audácia de bandidos que. pois quem está preso estaria impedido de fazer algo contra a sociedade. as penas que.

terá com certeza um farto manancial de estratégias melhores a serem implementadas no interesse da coletividade. de proteção à sociedade e de reabilitação do sujeito que o cometeu. Resta refletir em que medida a cadeia oportuniza aprender que o "crime não compensa?". as escolhas. pelo mesmo delito que se cometido por alguém com curso superior. estupradores. (como corrupção. desvio de recursos públicos. muitos crimes que inclusive colaboram para a permanência dessas injustiças sociais. pois não são penalizados. após o cumprimento de pena de prisão banalizam o valor da vida? Em vista dessa realidade. tem sido aplicadas penas alternativas. pois que ele teria obrigação de preservar os valores morais aprendidos desde a infância. sonegação. em que os jovens e os pobres constituem-se a maioria da população carcerária. previa que o homem livre que cometesse qualquer delito seria punido mais severamente do que um escravo pelo mesmo delito. as relações intra e interpessoais. reflete-se se será justo obrigá-los à matrícula na "especialização em criminalidade" oferecido nas cadeias. Assim enquanto a justiça for mais severa com quem a estrutura social já penalizou pela negação de direitos. Porém para impedir o crime torna-se prioritário que sejam construídos limites internos. freios de conduta internalizados pelo sujeito. as perspectivas. incapacitados para a pratica de novos delitos? Será que os que antes não seriam capazes de matar. em muitos paises. a inserção no mercado de trabalho não os alcançaram? À medida que a sociedade passe a buscar clarificar quais os efeitos da prisão na vida dos que por ela passaram. Nesse caso é imprescindível que o autor do delito não seja visto como criminoso. . Será que os antes homicidas. a sociedade brasileira pune severamente o pobre. Enquanto o código de Hamurabi na Mesopotâmia de 1700 A C. negligência e incompetência na execução das políticas sociais básicas) tendem a ser ampliados. algo que ele não poderia deixar de ser. podem dar efetivas contribuições. (e o Brasil já começou a adotá-las). a punição comportaria inúmeras prerrogativas. às vezes por um roubo ou trafico como opção de sobrevivência? Que outras estratégias podem ser deflagradas na prevenção secundária do delito. e nisso as escolas sócio- psicológicas que trabalham comportamento humano. o autoconceito. latrocidas. a profissionalização. de vez que a família afetiva e economicamente estruturada falhou? A educação. Essas penas alternativas possuem efeito intimidatório. 32 Outra reflexão sobre o efeito incapacitante é que essa prisão só atua a partir de limites externos que impedem movimentos. após o cumprimento da prisão estarão respeitando o direito à vida. mas como alguém que transgrediu a norma. o sem instrução. Considerando-se que muitos dos condenados à prisão são pessoas que cometeram delitos em que não foram envolvidas violências físicas contra a vida. o sem emprego. e segundo uma visão mais recente que alia punição e recuperação do transgressor.

as faltas que vem sofrendo. uma grande parte deixa definitivamente o campo da vida. Para eles qualquer violência é merecida. preparação. Eles são os excluídos. se vêem obrigados a chutar a bola da sobrevivência. Muitos tombam golpeados pelas faltas dos adversários.representam sinal de perigo a ser reprimido o quanto antes. hoje lhe são atribuídos estereótipos que o ligam à marginalidade. abrindo-lhe os caminhos da perspectiva pela via aprovada socialmente. ter a estima da torcida (comunidade). recuperando-o? 7. e muitas vezes passam a retribuir com intensidade. Se antes ao pobre eram atribuídas qualidades que o faziam merecedor do "Reino". Vivem de teimosos e resignam-se ou rebelam-se em relação à "camisa de força" imposta. 33 feriu valores. Sabem que a taça da cidadania está fora de cogitação. e assim marcariam os gols da justiça social. Mesmo de pés descalços. à agressividade. instrução. De inofensivo exposto à piedade. políticas básicas. franzinos. estão prestes a. passou a ser gerador de medo e de atitudes de esquiva. será que não há um modo mais barato e eficaz para punir a ação e dissuadir o sujeito de continuar transgredindo. ter preparadores técnicos e físicos (educação e saúde). assistenciais de proteção). Desses. sem nenhuma equipagem. à criminalidade. porém podem ser protagonistas "requisitados" pelas grandes agências de contravenção. pois se ainda não delinqüiram. e encontrar um denominador comum de padrões de conduta em que seja vivido pelo menos o respeito e cumprimento dos códigos escritos na lei maior do país onde residem? Em termos objetivos de custo-benefício. A criminalização da pobreza De repente muitos meninos se vêem em meio a uma partida do campo da vida. Outros continuam em campo. Em relação à existência de padrões divergentes e antagônicos de conduta numa mesma cultura maior. São-lhe destinados espaços para papéis de figurantes da grande novela das relações aprovadas. será possível descobrir e implementar estratégias capazes de reduzir as distâncias entre os antagonismos que geram violências de toda ordem. possa alterar as circunstâncias de sua vida e prevenir novas transgressões. alterando também suas condições materiais de existência. onde .. E saber que tudo que queriam era pertencer a um time organizado (uma família). . A sociedade tem feito uma leitura diferente da pobreza. o respeito do juiz e dos bandeirinhas (governos. mas pode e fará escolhas mais acertadas à medida que o exercício cumprido durante a aplicação da pena. 1992). o fascinante e perigoso programa de “Linha Direta". portanto.2. mas embora crianças e adolescentes não tem esperanças. mesmo que sob estreita tutela do Estado. do desenvolvimento e paz que o Brasil tanto precisa (RAMOS.

quadrilhas e até com o chamado crime organizado.. trabalhar. qualquer coisa que os impeça de cumprir uma profecia de ameaça escrita pela própria sociedade no habite-se de residência periférica. mas se um pobre desesperado vendo a fome de seus filhos.. hospital e escola de qualidade. os índios. os doentes mentais e os reconhecidos como diferentes (prostitutas. sejam atores de violências. ladrões. que podem comportar da discriminação e negação de acesso até o risco de virem a ser vítimas de extermínio. Porém a classe média ou rica. constroem uma muralha maior que a da China. e justifique o preconceito. percebem-se em situação de inferior desigualdade. por esse chão p'ra dormir A certidão p'ra nascer e a concessão p'ra sorrir Por me deixar respirar. mesmo que se torne . mendigos. o que ratifica o imaginário de que todo pobre pode transgredir. Suspeito que venha envolver-se com criminalidade. roubou o frango da "merenda escolar".). em um fosso só transponível por “dado de sorte" . o pobre.. que fizer negociata na compra/venda da merenda escolar. 1991). ter esperança encontram-se os desempregados. In FAUSTO & CERVINI. Sim. estudos demonstram a transmissão intergeracional da pobreza (BARROS. merecedores da cadeia ou da morte. que lhe impede o acesso às "melhores" cenas da vida. Desse modo. bandos. (ZALUAR. Nessa situação de "impedimento" de viver. esses estigmas que fazem a população periférica ser vista como perigosa. ter saúde. 115). não contribua para colocar em evidência qualquer ato que os associe à delinqüência. pois passa a ser tido como suspeito para não merecer acesso a emprego. 34 Por esse pão p'ra comer. Essa marca ultrapassa a pele do presente e "ferra" gerações. e marginal. os residentes da periferia. p. tráfico de drogas. do egoísmo. Assim é preciso cuidado para que a expectativa de que o favelado. 1992. estudar. homossexuais.. na carteira de trabalho jamais assinada. ter um lar. ter perspectivas de futuro. prostituição. da violência estrutural. As notícias não se preocupam em alardear ações solidárias realizadas pela população pobre. Muito cedo as famílias aprendem que seus filhos possuem por sobrenome: Pobreza. o negro. da discriminação. no boletim da escola negada. na receita não formulada. torna-se manchete. que por isso estão sujeitos a serem alvos de radicalismos extremos. Apartados de toda esperança à qualquer acesso a espaços sociais cidadãos. os moradores de rua. CHICO BUARQUE São pessoas marcadas com "ferro de brasa" esquentado no fogo do preconceito. por me deixar existir. assassinos. Nesse contexto fazer parte das chamadas classes perigosas colocou os membros das classes populares ou do proletariado em situação paradoxal e dilema de difícil saída.

apesar da privação extrema de inúmeras famílias. colocando uma adversativa entre essas duas palavras. roubar. embora tenha incorporado a expectativa de papel de que venha a se envolver com a criminalidade. porém o estigma de pobreza é tão forte que muitos expressam-se coerente ao ditado "sou pobre. adolescente ou adulto escolheria ser diferente. muitos moradores lutam pela sobrevivência segundo os mais cristalinos valores éticos. não transfere para os demais integrantes de sua classe 0 seu delito. e todos os meninos tem seu lar. Vergonha de viver na condição de despossuído da sorte. que assume caráter particular . uma vizinha. inclusive a de serem acusadas. mesmo que o Estado muitas vezes não lhes seja aliado. um compadre. demonstram que a . Como diz a música eu só quero é ser feliz. desacreditadas. que a maioria das questões que lhes são levadas são delitos simples que passariam despercebidos nas grandes cidades. agredir. Com o descrédito que a sociedade lhe impingiu.maioria da população em situação de pobreza rejeita e censura o crime. mesmo quando perdem os pais ainda pequenos e não têm parentes. São incapazes de enganar . danificar. Para eles o envolvimento de um de seus filhos ou vizinhos em atividades criminosas representa uma vergonha. Também nas áreas empobrecidas nas grandes cidades. de destino. de si mesmo. 35 notícia. se a criminalidade decorresse da pobreza. um outro alguém assume os órfãos. pois a política pública que coloca a seu alcance é a de Segurança. Estudos feitos por Adorno e Bordini. de posses. nenhuma criança. e viesse a ser amarrado no sistema prisional. Ouve-se muito de delegados. Lutam bravamente para escapar e livrar seus filhos da fome e da criminalidade. No Brasil os espaços que ampliam horizontes para os seguimentos empobrecidos de sua juventude apresentam o semáforo vermelho da vergonha. passam a ser alvo de violências de toda ordem. porém honesto" . Não raro a mídia denuncia famílias que amarram filhos na perna da mesa. tendo que escapar dos bandidos e da polícia. Coelho e Paixão (apud MAlA. e os assassinatos cometidos por jovens oriundos dessas áreas. que muitas vezes trabalha segundo a ótica que alia a pobreza e a pouca idade ao potencial de delinqüência. discriminadas apenas pelo "sobrenome". contra a qual se posiciona. a "rua não gera filhos". porém em muitas situações essa foi a única estratégia entendida como eficiente para evitar que "seu menino" se envolvesse com a "barra pesada" da esquina. andar tranqüilamente na favela onde nasci. s. A naturalização do crime que os grandes jornais estampam em suas manchetes. não ~ compartilhada pelas famílias e moradores dos bairros pobres.d. essas cidades é que apresentariam os maiores índices de criminalidade.). Ora. com população eminentemente pobre. promotores e juizes lotados em cidades pequenas. vergonha de sobreviver no inferno onde o . fazendo a sociedade ler como naturais às brigas e mortes nas periferias. Nelas também.

o tempo ocioso de seus filhos é preenchido por trabalho.. lazer. Para outros. o que torna perverso o ventre de uma cultura que a concebendo como em circunstancia especial de desenvolvimento. música. Os "filhos da rua" adquirem o sobrenome da grande família dos excluídos. acostuma-se a permitir ensaios de liberdade virarem agressividade e violência. mas é tão escondido que também se presta para treinar tiro. medo dos traficantes. A rua é lama só. inferioridade e marginalidade. delinqüência e criminalidade . . lhe nega as condições de proteção e induz a forte sentimento de privação. porém contraditoriamente.. destino irremediavelmente trágico estaria presente nessa população. e essa imagem negativa que os afasta da filiação. computação. realizar desejos sexuais e às vezes esconder produto de um roubo e até um corpo de algum "otário". 36 calor que lhe anima os batimentos são provocados pelo medo da polícia.(FICHTNER. Embora a infância seja construção da cultura. Para a classe social que pode pagar. estratégias de sobrevivência na rua. traduzida por uma hiper atividade. o tempo ocioso de seus filhos é preenchido com aulas particulares. A ocupação do tempo ocioso de crianças e adolescentes tem sido vista como um investimento no futuro por diversas classes sociais. esporte. e dela herdam o abandono material e moral. e incursões crescentes em atividades marginais. desamparo. dependência. ou pelo jogar de conversa fora na esquina. viagens. Muito cedo a escola da rua. que pode traduzir-se em agressividade e desprezo pelas normas aprovadas e valorizadas mas que não os inclui. não dá nem para brincar de pique. fome de tudo. hostilidade. medo de ver-se encurralado entre o crime ou a morte. gera dificuldades de aceitação de si e desse destino imposto. e estratégia de sobrevivência assume o comando dos destinos. não é possível negar que ela existe. turismo sexual e grupos organizados do crime. sendo alvo fácil para o alistamento no grande exército de traficantes. Segundo MINAIO (1993) as crianças vão para a praça pública mensageiras da miséria e da impotência que se abateu sobre o lar. O mito de Édipo. sinuca. a rua não abre caminhos. cinema. O mato roçado pode servir para jogar bola. é capaz de lançar-se com todo seu poder contra aqueles que se interpõem em seu caminho. enclausura destinos e perversamente. 1997). que na desesperada tentativa de não ter castrado sua vida. A incapacidade para suportar a si mesmo e esse contexto de vida gera uma insaciável sede de mudança. como espaço de aprendizagem. medo do desemprego. aqueles que tem dificuldades até para colocar o feijão na mesa. A escola não lhe atinge ou é longe ou exige farda e outros signos de pertencimento distante de conseguir. fliperama. puxar fumo. vulnerabilidade a doenças e a morte. medo da fome.

muitos crêem ser o trabalho infantil uma estratégia eficiente para socializar esse menino. s. anonimato e perigos. é exigida fidelidade irrestrita. As famílias de classe média e privilegiada também buscam preencher a ociosidade de seus filhos com inúmeras atividades. Considerando-se ainda que o potencial para envolvimento com o crime contra terceiros está mais presente no menino. a chance de inclusão social. porém muitos desses programas são desenvolvidos mecanicamente e não alteram as condições e as possibilidades de futuro desse menino. Muitos grupos denominam-se "gangues".d. que não são questionadas nem por eles nem pela sociedade. a qual por sua vez converte em verdadeiro o conceito originalmente falso (MERTON apud MAIA. pichação. os da periferia também vivem uma ambigüidade por várias identidades que se embaralham à sua frente. Muitas vezes nos grupos a que se filiam. profissionalização. de desejos e sonhos. experimenta um conflito radical. como espaço de identidade e sentimento de afiliação e solidariedade. Desocupados buscam preencher o tempo e o tédio com o que aparece. das metas de sucesso e status. as "escolhas" podem incluir uso e tráfico do corpo. saúde. p. 14) Os jovens da periferia. (Porque será que não se mostram capazes de cumprir as normas legais da sociedade maior?). Assim muitas são as iniciativas que buscam socializar e instrumentalizar esse menino para um trabalho no lado "certo". Merton analisa a expectativa em relação ao comportamento e fala de uma profecia que se auto cumpre. muitas vezes percebem-se sem nenhuma perspectiva de superar o contexto que lhes oprime. contribuindo para camuflar as desigualdades num contexto da ideologia liberal. para a outra geração. Desvalorizados por si e pelo sistema. e às vezes por falta de políticas públicas de educação. e entre as opções de se livrar do destino ou aderir a ele. armas. é para ele que é dirigida a maioria das vagas nos programas de assistência social e de proteção. livrando-o de ser engolido pelas teias da marginalidade. porém entre elas o trabalho como antítese do ócio não é priorizado. mesmo que seja um trabalho subalterno. essa profecia seria uma definição falsa da situação que provoca uma nova conduta. álcool e outras drogas e outras transgressões das normas sociais. da incapacidade de acesso a meios "legítimos" para fazer a travessia de sua realidade concreta de existência até os modelos de felicidade engendrado no bojo do sistema. Esse menino então pode perceber-se como empurrado para um destino fatídico. embalando para mais tarde. brigas. 37 Seguindo um raciocínio de que é preciso preencher o tempo da criança pobre com trabalho. o que facilita o entendimento popular que a gente quer ter voz ativa. sob os quais 0 jovem realiza exercícios de submissão a normas. no nosso destino mandar. maltrato de animais. mas eis . introjetam um autoconceito de inferioridade. Tensos mais que os outros jovens. lazer. resultando em percepções de força e poder para defender-se da discriminação. com hierarquias e códigos rígidos. desvalorizados. e os rituais e ações ganham mais força e sentido em si.

.) A minha vida é um pesadelo e eu não consigo acordar. queimar. Mas não sou cidadão. desconfiados e depressivos ou agressivos na tentativa de conseguirem ter os padrões de consumo que lhes ofuscam os olhos. sexo ocasional. um indigesto. sentimentos de culpa. dos signos necessários para o acesso aos empregos geram alcoolismo e outras drogas. Eu sou o resto do mundo GABRIEL.estima. E eu num tenho perspectivas de sair do lugar. matar. "Virar o jogo". de serviços sociais básicos. roubos. ausência de regras e de denominador comum . Porque p'ro rico ou p'ro turista eu sou poluição.. Não tenho nada a perder. onde se alojam famílias em busca de uma perspectiva melhor. Tantas frustrações podem gerar uma reação agressiva. 38 que chega a roda viva e carrega a gente e o destino p'ra lá. Predomina o que Durkheim denominou anomia. (. e frente a ela muitos fazem suas apostas..) Mas não fui eu que fracassei. as famílias empobrecidas sofrem a falta de tudo. Situadas em área de marginalidade espacial. Quando me revoltar quebrar. baixa auto.. Eu não posso aparecer na foto do cartão postal.. os excluídos e deserdados. não mais possível de ser contida pelo lar como instância de pertencimento. o que acarreta também a distância aos acessos de participação. trabalho para seus filhos. e viabilizar caminhos de delinqüência.) Eu sou mendigo. saúde. onde tudo pode acontecer. banalização do corpo e da violência. Então que culpa terei. Rebelar-se contra esse modelo discriminador pode não ser a saída. A grande catedral erguidas no imaginário da mídia eletrônica tem gerado imaturidade. depressão. aderindo a referências de outra cultura antagônica a legalmente instituída. por não terem aproveitado as "chances" que a escola ofereceu. (. um vagabundo. Sei que sou brasileiro. porém apresenta-se como uma possibilidade. reduzindo a dissonância de pertencer sem pertencer a uma cultura que o exclui. (. Como pertencer a um lar que nada tem? A perda das raízes gera uma experiência descontextualizada sem passado e sem rumo. até não poder resistir (CHICO BUARQUE). não se importam com o ganho que a família considera ter conquistado e passam a sentirem-se frustrados e inferiores. criminalidade... A não adequação das roupas e linguagens. pode também não levar a nada.. O velho fogão de gás representa para a geração mais velha um status de acesso comparado com o de carvão usado no campo. também de regras que normatizem os comportamentos e de acessos a "caminhos de futuro". nas periferias. e assim o "ilegítimo" pode tornar-se apropriado. tentativa de suicídio. o que os moveu do campo para a periferia urbana foi um sonho de melhores condições de educação. os passos e a auto- estima. Porém os filhos envolvidos pela telinha mágica que os familiariza com 'n' estilos de vida e objetos de consumo. Porque eu nem pude tentar. podem desertar da sociedade e seus valores. mas é uma "rima". um indigente. drogadição. vai contra a corrente. O PENSADOR O modelo capitalista liberal tem gerado um enchimento das cidades com grandes bolsões de pobreza.

tem gerado ocultação de transgressões de pequenos delitos. gera uma perspectiva trágica onde a desesperança de aspirações podem produzir diversas formas de inserção discrepante no modelo de um modo de vida egocêntrico. em sua visão. uma proteção. gerando desajuste e imprevisibilidade. expondo muitos meninos a obterem favores imediatos. um espaço para namorar. que estudaram. uma roupa. qual seja. Seu agir contraditório. Esse sociólogo também estudou o suicídio como fenômeno decorrente de situação onde as aspirações humanas. de modo que seus membros não vejam essas configurações diferenciadas como inferiores ou incompetentes. sentem-se inferiores. 1996. 1978) também evidenciam as metas culturais . a sociedade esquece de explicar os inúmeros crimes cometidos pelo "colarinho branco". da escola. Os estudos de Merton (ROSA. não levam a nada.das metas culturais postas que. gerando ainda menos perspectivas para sua prole. inatingíveis como responsáveis para comportamentos desviantes. frustrados. p. 39 de padrões de comportamento. e inconseqüente . filhos e filhas da classe média e alta. sem apostar em alvos.37). FICHTNER. Dessa convivência surge uma cumplicidade. Como a família atual envolve complexas relações entre domicílios onde pai e mãe moram em domicílios diferentes e com cônjuges diferentes. se tornam dificilmente realizáveis. A situação residencial facilita a convivência com pessoas e grupos ligados a diversas formas de crime. 1978. e acreditando na dependência causal entre pobreza e criminalidade. abortos. a não obediência a qualquer comando externo. se faz necessário trabalhar o imaginário social. por pessoas de "bem". drogas. uma carteira de cigarro. Culpada por não ter conseguido "domar" seus filhos. um som. Esse modelo neoliberal que disponibiliza através da mídia eletrônica. em que se torna cúmplice de situações não desejáveis. Para ele a supervalorização de "riqueza e prestígio" oportunizou anomia. Também essas metas inatingíveis podem provocar adesão a rituais que passam a ter valor em si mesmo. que têm acesso a ambiente com status valorizados. 1997). e ainda a rebeldia que pretende substituir todas as metas e meios existentes (BLOS. potencializa envolvimentos e gravidades dos delitos. e com ela atos de desvio. .o que ao contrário do desejo. apatia e a renuncia. a frustração. existe um atalho. a perda de interesse e de objetivos de vida (DURKHEIM apud ROSA. de áreas nobres. Dessa cumplicidade à adesão aos comportamentos dessa subcultura. e nesse clima a impulsividade encontra eco.Sem ilusão e esperança para crerem em si mesmo e verem a vida como realização pessoal. bens e status associados a felicidade impossível de ser conquistada pela maioria da população. a família se sente cada vez mais impotente e infeliz. provocando tal situação o desânimo. criadas e estimuladas pela sociedade. Inquieta frente aos marcadores da escala de terremotos que indicam um aproximar-se crescente de um vendaval de violências. acreditando que ao esconde-Ias elas podem desaparecer. imediatista.

independente de qualquer conduta. As políticas públicas de educação. esporte. Ela precisa ter fortalecido seu reconhecimento como instância delegada de socialização e humanização. A sociedade tem investido em programas de assistência social que tentam "domar" aqueles que a vida destinará a grande arena para lutar contra a morte ou matar. saneamento. lazer. Ao invés de investimento em penitenciária de segurança máxima. sem os instrumentalizar para superar essa realidade. Urgente reverter na sociedade e no Estado. a distância entre a realidade e as metas culturais " inatingíveis". Em um mundo em que a ciência e a tecnologia prometem longevidade. e nisso a sociedade precisa investir. a corrupção. policiais. Assim tornam-se imperiosas políticas sociais básicas que as alcance. trabalhos lúcidos que não se detenham em criticar as estruturas sociais mas apontem saídas a curto e médio prazo. transporte coletivo. contexto sócio. pois a vida humana é limitada. não têm encontrado a população pobre. o contexto familiar e vicinal de seus padrões de referência. o desespero. sejam agentes externos. serem vistas como suspeitas. o egoísmo. a depressão. as violências. É necessário pois focalizar o olhar para essas crianças e adolescentes vitimadas ou vitimizadas. Se a família é capaz de estabelecer vínculos "vacinais" contra a criminalidade. comerciantes. e para essas pessoas o "amanhã" pode ser muito tarde. mas rebelar-se contra esse destino também é uma possibilidade. trabalho. professores. O significado de seu "sobrenome". a injustiça social. minimizando as dores da realidade presente. residência. carros blindados e até peles a prova de balas não se tentou ainda uma fórmula que reduza as condições de miséria onde estão inseridos milhares de famílias. ou se as encontra o fazem de forma fragmentada e paternalista. a resignação com que se posicionam frente a esse "campo de . o Estado e a sociedade deveriam investir na família onde serão construídos laços afetivos e sentido de vida que não incluam a violência como estratégia de obtenção da herança humana. ela precisa de proteção. É urgente desenvolver estratégias capazes de retirar da pobreza o estigma ferrado com preconceito que as faz. e não destinatária de ações episódicas de programas assistencialistas. É preciso perceber as forças de pressão que estão ocasionando a situação individual e trabalhar sobre elas. num contexto histórico-cultural. 40 Em muitas realidades. A família deve ser considerada sujeito de direitos. vendo-as como agredidas por suas histórias pessoais. folclore. por situação de nascimento. conforto. saúde. sejam familiares.cultural. habitação. inclusive penalizando os autores ou cúmplices das violências estruturais e pessoais que as vitimam. o destino atribuído é aprendido. Muitas experiências envolvem propostas domesticadoras e civilizatórias envolvendo atividades de arte. vizinhos e outros. educação e trabalho. porém sem buscar alterar as variáveis materiais de suas vidas.

determinados a superar as condições adversas. mas permanecia imóvel. ativismo sexual ou inibição da atividade sexual. Acorrentados a contextos de risco muitos jovens reagem escondendo-se em quadros de depressão. então com sua ira aplacada. velocidade. construindo um caminho de fidelidade a esse ideal. Quiçá houvesse até um concurso entre os jovens. acorrentada e imobilizada. violências contra o patrimônio e contra pessoas. devido às condições de precariedade material e emocional das famílias em que nasceram e do contexto circundante. Apesar de toda a ideologia de valorização da juventude. Dor . tédio. o monstro das diversas formas de violência apresentar sua face e devorar essas vidas. E pensar que esses túneis absorvem energias vitais. abandono da escola (e com ela as perspectivas de futuro). drogas. apatia. fugas de casa. . paralisia operacional que dificulta a aprendizagem. era aprovada e festejada. bulimia. Hoje para se defrontar com o monstro da violência. pichações. furto. violência sexual. por um contexto que assiste imobilizado. 7. em que se incluem: 'gazear' aula. drogas. de armas brancas e de fogo. sentimento difuso de rejeição. ansiedade. tráfico e outros. sofrimento e morte. desamarra a jovem e lhe apresenta perspectivas de vida e futuro. mata o monstro. A paz então é instalada. fanatismo religioso. de envenenamento. outra língua. que seriam capazes de imobilizar o monstro do medo e perigo e estabelecer uma estratégia cognitiva que norteasse a saída do labirinto da violência e criminalidade. de overdose. de socos e pontapés. que podiam ser qualquer um de "nós". o jovem tem se constituído num grupo de altíssimo risco para mortes violentas. a ausência e a abundância de bens tem obstruído o sentido da vida. 'pegas'. . entregues ao monstro. 41 concentração".3. para eleger quais seriam sacrificados. em troca de um tempo onde a sociedade ficasse sem a ameaça do monstro. Ainda muitos outros jovens reagem pelo caminho do trabalho e estudo.Juventude e a expectativa de criminalidade E a jovem no desfiladeiro. mas de também brasileiros. também os eleitos são jovens. delinqüentes. esperava sua "sorte" . de dor. Jovens gerados no ventre de uma crise social em que. sofrimento e morte não de outra raça. Muitas dessas mortes já foram decretadas com a certidão de nascimento. Vítimas de acidente de carro. desviantes. os jovens tem tido sua vida banalizada. suicídios.Ao longe a população observava a hora em que o monstro apareceria. contraditoriamente. depressões. tentativa de suicídio. homicídios. anorexia. Os mitos e os fatos que a história traz à tona estão repletos de exemplos de situações onde a violência contra terceiros. exogâmica. Outros tentam escapar utilizando comportamentos agressivos. por não acreditar ser possível detê-lo. De súbito aparece Teseu. roubos de carros. que poderiam ser prevenidas e evitadas. possibilitando o cavar desesperado de túneis com a "pá" da agressão.

(ERICKSON. a justiça. teoricamente considerados abomináveis. que supõe também evolução sexual do auto-erotismo até a heterossexualidade. e com ela sentimentos de cumplicidade. Assim. comportando oscilações de humor. o “sim senhor”. É esperado que esses comportamentos. contradições nas manifestações de conduta. Considerando-se que a adolescência é um período chave do desenvolvimento. Desse modo. o jovem talvez seja a população mais vulnerável para os efeitos desses heróis que intimidam o governo. suas experiências anteriores. homicídios. 1992). o som. Estando numa fase de construção da própria identidade. a sociedade. poderão auxiliar ou dificultar ao jovem a resolução desse conflito. os do agenciamento de mulheres. da indústria cinematográfica e da polícia. admiração. podem gritar “isso é um assalto”. termina provocando. lealdade e identificação com o modelo (BANDURA apud HALL. (KMOBEL. a roupa. a música preferida no “baile” e a bebida de graça. e conseguir facilmente a carteira e relógio da eventual vítima. Porém. a polícia. Embora seja fenômeno que possui estreita relação com a sociedade e cultura onde está inserido. o CD. crises religiosas. tendo como conflito nuclear básico a construção da identidade versus confusão de identidade. crimes sexuais (como o do Moto Boy. assassinatos e outros crimes inexplicáveis (como o do estudante Mateus que atirou em espectadores de um cinema no shoping em São Paulo). poderão ampliar seu poder para obter o que desejam. a sociedade brasileira ainda convive com criminosos de diversas categorias. roubos. em algumas camadas das gerações mais jovens. Assim. o afastamento dos pais e a adesão a grupos. as projeções de futuro e as percepções que fazem delas. o sectarismo dos colegas e até a cega obediência às suas ordens e caprichos (SKINNER apud HALL. podem obter o dinheiro. afinal a sociedade também ensina que “vale tudo” por um minuto de glória. surge a perspectiva de seguir o modelo e se dar bem. a namorada ou a transa. a partir de uma ação “bem sucedida”. a nota e a aprovação na escola. a chave do carro. Sob ameaça de quebrar objetos da casa. os do crime organizado que utilizam tecnologia em armas e estratégias. Para Erickson (1976). reforçada. 42 No início do século XXI. os autores de crimes passionais. trabalho escravo. a forma como muitos dessas pessoas passam a adquirir respeito e poder mesmo em um território restrito. a adolescência é um período que oportuniza diversos graus de instabilidade na busca de si mesmo e de sua identidade. 1976). deslocalização temporal. maltratar um animal de estimação e até pessoas. experimentam papéis transitórios que lhes possibilitam o “sabor” do poder. atitude social reivindicatória. não despertem admiração de ninguém. 2000). Nesse caminho. em São Paulo). assim como o destaque que passam a obter da mídia. os do trafico de drogas. Há os de "colarinho branco". 2000). seqüestro. as experiências vividas na infância poderão instrumentalizar o adolescente a apresentar autoconfiança e reconhecimento mútuo ou uma atitude de dúvida em relação . intelectualização e a fantasia na elaboração de sua identidade.

Confuso a respeito de tudo e de si mesmo. possibilitando-lhes uma perspectiva de futuro. o adolescente pode embaralhar o ter com o ser. onde se observa a exclusão da conceituação lógica dando lugar a expressão através da ação" ( KNOBEL. ou busque que a realidade exterior apresente-se tão instável e confusa como sua percepção de si. Em algumas situações. 1978) essas manifestações representam recaptulações dos conflitos infantis e portanto oscilam entre dependência intensa e independência exagerada. a ação anti-social traduz um pedido que alguém se importe e funcione como um controle externo. drogadição. determinação. que dependendo da estabilidade afetiva e das circunstancias do meio circundante. de uma identidade. 11). contestação. podem ou não serem transitórios. ao outro. e que eles teriam poderes para colocar as coisas em ordem e redefinir as condições agressivas e aversivas onde estão inseridos. como se possuindo bens pudesse possuir a si mesmo. que não tem medo (FICHTNER. e ainda. ao mundo. possa ser assumido pelo Estado através da polícia e justiça. Ressalte-se que . ou grande embaraço e pudor. à limpeza e à ordem. uma espécie de atuação. impetuosidade. podem ser uma necessidade de auto-afirmação. e nesse plano drogas e armas podem ser incluídas como opção. Outras vezes agride pessoas. do autoconceito e auto-estima. aliados à imaturidade emocional e vivencial podem fazer o adolescente demonstrar hostilidade. podem fazê-lo desligar-se emocionalmente dos pais. pastor. de tal modo que a posse material de bens passe a ter subjetivamente significados importantes na existência. p.) que o auxilie a recuperar impulsos primitivos de amor .. desprezo. mantendo-se estranho em sua própria casa. sentimento de culpa e desejo de corrigir-se (WINNICOTT . juiz. uma figura de autoridade (parentes. policial. no qual nenhuma limitação é aceita pois a ação impulsiva atropela o pensamento e não gera culpa. vulnerabilidade em relação ao corpo. impulsividade. proteção e investimento que lhe foi negado. sociedade e estado. 43 a si. Segundo Ana Freud (apud GALLATIN. A atuação funciona como mecanismo de descarga da tensão. temores de possibilidades de incesto. no objeto roubado o jovem procura a compensação para o sentimento de perda emocional. Em alguns casos haveria um desejo de que o papel familiar de cuidado. pois "produz-se um curto-circuito do pensamento. precisa de instrumentos que o façam sentir-se forte. o que o outro 'deve possuir' no plano afetivo. de desrespeito às regras e limites da família. objetos e espaços. 1996). ou inibição por vergonha e medo de não corresponder às expectativas suas e do meio. professor . Para conseguir êxito nessa façanha. de dificuldades para confiar em laços de pertencimento. Também possibilitarão autocerteza e autonomia no autoconceito. destrutividade. apresentam ou excessiva curiosidade a respeito do sexo. 1997. de um "por à prova" o sentimento de autocerteza onde precisa demonstrar que é mais rápido. A busca de um autoconceito. Às vezes. talvez descarregue o tumulto interno. demonstram obstinação. 1995). como se o objeto pudesse trazer do outro. padre. . 1992. BLOS.Nessas situações. Essa irritabilidade. explosão.

do que ficar tentando ser o que nunca será. prever conseqüências de ações. Na maioria das vezes esses comportamentos desaparecerão. Porém. pois considera que é melhor ser um "zero à esquerda". mesmo que seja arriscado. uso de drogas.). alguém que lhes mande.. 1992). atitudes em comum. . de crueldade. Muitas crianças são extremamente dependentes de ações externas. possibilitando-lhe „n‟ aprendizagens. que nega sentido a qualquer tarefa e faz o adolescente realizá-la de forma mecânica. reprovado pelo meio circundante. podendo submeter-se à condutas de indiferença. condutas destrutivas de objetos. representa poderosa força na determinação do comportamento. limites. tatuagens. sem experimentar nenhuma ligação com ela nem com seu resultado. algo para fazer. sonhar. seja estudo. estímulos externos. visto com significativos. até que escolha os que sejam mais representativos de sua identidade desejada. de impossibilidade. também fica vulnerável à pressão e regras do grupo para sentir-se aceito. "roleta russa". Em relação aos ensaios na busca da identidade. devido a uma espécie de “paralisia operacional” nesses casos pode ter dificuldade em compreender algo sozinho. mas poderá negar-se a essa busca e fixar precocemente um papel que não gostaria de desempenhar . e o contar o feito como proesa tanto pode ser mais um ato agressivo como um pedido de ajuda. 44 muitas vezes as transgressões não geram culpa ou sentimento de reparação. angustias. reconstruindo muitos aspectos desse mundo. e dificilmente questiona as deliberações. No grupo. Na adolescência o grupo de amigos. " rebelde sem causa". animais e pessoas. ou ao contrário. encontrando fundamentos para argumentação e estratégias de superação das dificuldades. de modo que se oferece como espaço para ensaiar identidades em oposição ao do meio familiar. podem possibilitar ao adolescente seu envolvimento com as tarefas. direção perigosa. pois que são circunstanciais e transitórios. de ultrapassagem dos dogmas. 'terror que espalha medo". a sociedade tem inventado que o tempo existe para ser “matado”.vocabulário e comportamentos contraditórios. Erickson (1976) defende que o adolescente poderá apresentar iniciativa e experimentação de muitos papéis. (KNOBEL. desinteresse por tudo. e ainda sentir-se culpado de não ter chances de êxito em outros papéis. provocarão um sentimento de inutilidade. interesses. adereços (pirsing. Ora. . Sua influência se faz demonstrar em preferência por roupas. até pelo lazer. o que pode acarretar ociosidade. O grupo afrouxará seus laços à medida que os papéis adultos forem sendo assumidos. de irresponsabilidade. Essas crianças parecem demonstrar incapacidade para atividades internas que lhes desenvolveriam a capacidade simbólica e lhes instrumentalizaria para avaliar. com idades. o jovem testa os dogmas e pode transformá-los em valores. vistos como inatingíveis. As experiências da infância redimensionadas agora na busca de sua identidade. deliberar coerente aos sonhos. corte de cabelo. lazer e trabalho. discriminado.

.) O homem que pauta seu comportamento na perspectiva imediata. de vez que as outras opções estão além dos recursos da pessoa. 45 O tédio pode ser indicador da incapacidade de conviver consigo. insensível e sabe como preencher o tempo.. desânimo e apatia. Desde a satisfação primitiva com um pedaço de pão de mel. alguém que possa “salvá-lo de si mesmo”.) Faz-se mister converter insistentemente os tipos de alegria mais simples em outros mais complexos e humanamente significativos. ou estabelecer uma previsão de papel sexual que o habilite a envolver-se com o outro... 1976). Porém essas atividades podem ser exoressão de real dificuldade em conjugar e conciliar passado e futuro. a perspectiva de futuro( .).) E preciso organizar essa mesma alegria. Também é tempo em que formulará sua cresça pessoal. Se ele se dá por satisfeito com a sua própria perspectiva ele é forte. (. anorexia e bulimia. de um plano de vida. possibilitando agressividade como resposta freqüente. ativismo sexual ou inibição sexual. A depressão e deserção real ou emocional pode predispor à delinqüência. como disse Makarenko: O ser humano não pode viver no mundo se não tiver pela frente alguma coisa jubilosa (. velocidade no trânsito. até o mais profundo senso do dever. provocando medo e raiva. pretendendo talvez ser um pedido de “socorro” para uma fragilidade emocional. e assim pode apresentar-se como ameaça.. haverá ansiedade. podem dificultar ao jovem compreender as conseqüências do seu comportamento. Na construção de uma ideologia. a escolha de identidades aprovadas pela família e sociedade. Se o sujeito acreditar que a vida pode ser melhor amanhã. tornar-se estranho ao próprio corpo. possibilitando ainda autodesvalia e falta de perspectivas . a dificuldade em elaborar pensamento simbólico. é corajoso.. o jovem. o adolescente redefinirá significados para a sua sexualidade.. Educar um homem significa educar nele os caminhos da perspectiva pelos quais se distribui a sua .(.. ter intimidade e não se isolar. podendo desenvolver um sentido de zelo pelos outros e valores da cultura ou estagnar. de concentrar-se. e a não internalização dos padrões morais que a sociedade considera válidos. que ele. tentam demonstrar aos outros e a si mesmo. . fuga da escola.) O verdadeiro estímulo da vida humana é a alegria do amanhã.. podendo iniciar precocemente atividades genitais sem envolvimento afetivo. colocando em risco a vida e a liberdade.(. ele não transgredirá com facilidade..) coloca-la como uma realidade possível(. drogas. Num contexto de ausência de futuro. Na construção de sua identidade. e gerar distorções na auto imagem. Se houver grande a distância entre o “eu real” e o “eu ideal”. ou como um coitado. deixar-se manobrar com facilidade em um cinturão de falta de perspectivas. posto que "nada importa". sujeito de pena. falhas na elaboração da memória como instrumento de identificação. que remete a uma necessidade de controle externo. e pode dificultar a convivência com parceiros. e a hostilidade para com tudo e todos que representam melhor situação no tempo como dimensão de vida. e ainda construir uma ideologia que lhe torne um sábio aprendiz. o almoço de hoje é mais fraco.. atitude beligerante. ou um desesperançado da vida ( ERICKSON.

acontecerem os comportamentos de desvio que caracterizam a anomia. 178.. e ser preso. As dificuldades de estabelecimento de vínculos afetivos com a família. insuficiência de condições econômicas para sustento. cria- Io com indispensável paixão. é possível que defasagem crescente entre as necessidades dos jovens e os meios reais para satisfaze-Ias possam gerar condicionantes para a criminalidade. num mesmo patamar de possibilidades e significados. a falta de participação social e a desorganização familiar. está se dirigindo. Se o aumento da delinqüência entre adolescentes decorre da anomia. que responda as questões básicas a respeito da vida e de si mesmo. 1993). reforço de interesse e o benefício imediato após a atitude violenta e/ou criminosa. Assim ele perceberá que todo caminho possui mão dupla. aqueles que pelas próprias condições de desenvolvimento.207). têm gerado dissonâncias cognitivas. sem saber que ele precisa cobrar de si mesmo. 1997). com a mesma intransigência com que cobra dos outros. na visão de Merton e posteriormente Benjamim. fazem parte do currículo desses jovens que se impõem pelo medo. evidência de modelos violentos valorizados no meio circundante. seja na família. são construídos os contextos de risco e vulnerabilidade para transgressões e violências. A sociedade tem apresentado cenários de glamour e sedução. 46 alegria de amanhã. Nesse caminho o adolescente pode transformar-se num grande homem pequeno. As distancias intransponíveis entre o que é permitido e pretendido x oportunidades oferecidas.) Os dons quixotes sabem enxergar o futuro em cada migalha. dificuldade de internalizar conflitos e elaborar soluções avaliando escolhas e conseqüências. freqüentemente 'resolvidas' com explosões de violência e agressividade. baixa escolaridade. ROSA.(. (ADRIANO CARLOS. deixando atônitos com essas luzes. por elas. morrer ou viver. onde atitudes de indiferença. ausência de limites ou excesso de rigor e intransigência na imposição dos mesmos. sociedade e Estado. LEITE. ou sejam. e que será possível conciliar seu . (ROJAS In FICHTNER. que intimida a tantos e a si mesmo.. Nessa sociedade heterogênia. discriminação e "profecia" de fracassos se interpõe nas relações entre as gerações. onde a sanção atribuída à transgressão pode ser considerada como questão do acaso. ausência de perspectivas de trabalho e futuro. violência e impunidade. Também as contradições nos mecanismos de controle social. Considerando que no mundo do "tudo permitir" prevalece a anomia. estão em busca da identidade.d. 1978). ( MAKARENKO. constituiriam o móvel para. Assim as metas culturais inatingíveis para quase todos. os adolescentes. 179.. 1974. corrupção. dos resultados objetivos de suas ações e do abismo ou viaduto a que ele. cujo significado encontra-se na impotência diante de regras impossíveis de serem cumpridas (SAWREY & TELFORD. seria possível relacionar a criminalidade juvenil e adulta com a desorganização social. s. 1986: 177. dinheiro e poder . movida pelo "salve-se quem puder".

Assim. sentimentos e sanções entre todos os que partilham a mesma linguagem. derrota o monstro e casa com a princesa. onde um distrai a vítima outro lhe toma a bolsa e outro mais adiante a recebe. que existe saída e abrir as janelas das perspectivas reais que lhe possibilitarão motivos para empreender essa grande proesa. Leonardo Pareja. enquanto os estrategistas no campo da criminalidade se organizam para melhor exercer suas funções. 47 passado com o futuro. onde Perseu. representam poderes diferentes que espalham terror e pânico. Os fios desse novelo poderão ser utilizados para mapear o complicado labirinto da existência. pois por ele conseguem dinheiro e poder frente à vítima e à sociedade. os aparatos de internalização dos valores dominantes como a Escola e a mídia. são exemplos de jovens cheios de talentos. Fernando Outra Pinto. Às vezes é pelo delito que levam pão à família. à medida que se dispuser a desalinhar o emaranhado novelo em que se transformou a sua vida. Fernandinho Beira-Mar. Por quanto tempo o Estado ainda vai achar que pode menos que esses rebeldes sem causa? O Estado tem a maioria da sociedade. Bin Laden. 8. a sociedade temerosa fica acuada. para muitos que iniciam o caminho da criminalidade. que a sociedade desperdiçou e permitiu sua sentença de morte. Pelo delito passam a ser "alguém". a Constituição. Inter. Embora todo crime produza impactos na vida da vítima e sua família. Mas para isso a sociedade precisa lhe segredar que é capaz. CONCLUSÃO O crime e a violência são manifestações que indicam a saúde das relações sociais. de modo que venham a constituir-se denominador para as ações. Elias Maluco. território e metas comuns. os aparatos de exercício da coerção pela força como a Justiça e a Polícia. semelhante ao do Minotauro. Se o Estado desejar matar a "Medusa da criminalidade" e aproveitar-se da cabeça . mesmo alguém "indesejado". das políticas públicas e dos valores da cultura considerados importantes a ponto de serem internalizados pela socialização. Aprendem as táticas da administração gerencial. confundindo a polícia. o resultado de seu delito pode ser gratificante. e até num assalto de rua utilizam divisão de tarefas. apesar de considerado sem chances. Porém. na vida social também a vida do autor do delito vive impactos que poderiam ser aproveitados pelo Estado para que ele não reincidisse. e passam a especializar-se nessa atividade lucrativa.relações de trabalho.

e no capacete de Plutão. representada pela política pública de Educação. capaz de tornar invisível e inatingível. encontrará. toda uma sociedade sob sua guarda. representado pela segurança pública. nas sandálias aladas de Mercúrio. Lembre-se que voce tem papel importante e indispensável. que pode forjar perspectivas de vida em toda a geração. que pode além de proteção. refletir em suas manobras a experiência de quem sabe qual o alvo e como atingi-lo. no escudo de Minerva representado pela Policia Militar. O Estado "desejante" de libertar a sociedade do monstro da violência. decerto terá êxito. faça sua parte e cobre resultado daqueles que tem tambem o dever de faze- la. representada pela Justiça que é capaz de a todos alcançar. na afiada espada forjada por Vulcano. 48 do monstro para petrificar as ações delinqüentes e violentas que ameaçam e intimidam a população das cidades e do campo. . restaurando a vida e a solidariedade entre as pessoas. tal qual como o Perseu da mitologia.

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