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Desenvolvendo recursos linguísticos argumentativos e problematizando opressões

presentes na sociedade em sala de aula


Isadora Cabral
Murilo Ariel de Araujo Quevedo

Inspirados em todas as manifestações que vêm ocorrendo no país e nas pautas


de diversos movimentos sociais que vêm atuando, especialmente por conta da
violência sofrida pelas minorias por eles representadas, elaboramos um projeto de
aprendizagem de Língua Portuguesa a fim de que pudéssemos conscientizar nossos
alunos sobre o que é preconceito e como ele afeta mulheres, negros, homossexuais e,
consequentemente, a sociedade como um todo. Além disso, pensamos que a temática
se fazia relevante também por estarmos em uma turma de ensino médio, que poderia
vir a utilizar as discussões tratadas em aula quando fizessem a prova e redação do
ENEM.
Realizamos nossa experiência de estágio em uma turma composta de 35 alunos
entre 14 e 16 anos do 1º Ano do EM de uma escola pública de Porto Alegre. Quando
iniciamos o projeto, tínhamos o receio de encontrar resistência da turma ao tema
proposto e aos textos escolhidos, pois, além da temática polêmica, os textos a serem
trabalhados em aula eram de diversos gêneros. Contudo, muitos dos alunos se
mostraram engajados em discussões sobre, por exemplo, feminismo e homofobia, e
traziam essa discussão para a aula antes mesmo de termos proposto alguma atividade.

Problematizando preconceitos, opressões e discursos de ódio


O projeto em si consistia na discussão de diversas formas de preconceito.
Racismo, machismo e homofobia foram os principais temas que escolhemos devido à
alta exposição em noticiários e na internet, proporcionando aos alunos ferramentas
para o debate em aula e também na sociedade. Outro fator determinante para a nossa
escolha foi que a própria turma manifestou interesse nesses assuntos em específico, o
que não excluiu a possibilidade de que outros temas surgissem durante a discussão.

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Partimos da proposta de trazer diferentes textos e discutir com os alunos sobre
como esses preconceitos estão presentes na sociedade, guiando-os para a construção
de uma campanha de conscientização que teria a escola como interlocutora. Com
esses textos, poderíamos trabalhar argumentação e figuras de linguagem, conteúdos
que o professor titular solicitou que fossem abordados, e guiá-los para fazerem uso
desses recursos linguísticos nas campanhas.
Logo na primeira aula, decidimos começar com um debate sobre o que é
preconceito. Em resposta a perguntas norteadoras como “o que é preconceito para
vocês?” e “vocês já sofreram preconceito?”, a turma expôs o que sabia do assunto, nos
dando uma boa base para desenvolver as discussões e atividades do projeto. É
importante ressaltar que a turma era, na sua grande maioria, muito participativa,
fazendo com que rapidamente entendêssemos o lugar de fala de cada um deles e
como poderíamos usar suas experiências em sala de aula.
Vencido o medo da aceitação do tema, passamos a nos preocupar com a
aceitação dos diversos tipos de texto. Com o intuito de dar início à discussão sobre
racismo, propomos a leitura do conto “O caso da vara”, de Machado de Assis1. Ainda
que um pouco temerosos em apresentar logo na primeira aula um texto de certa
dificuldade literária, havíamos observado que os alunos se engajavam facilmente nas
diferentes leituras trazidas pelo professor regente e decidimos arriscar. Como já
esperávamos, a turma se manteve atenta à leitura com breves interrupções para
questionar o vocabulário ou alguma passagem do enredo. Como o interesse pelo tema
“racismo” era muito grande, o conto foi um bom trampolim para que a turma
começasse a comparar a situação da população negra de antigamente com a dos dias
atuais. A partir desse texto e da discussão causada por ele, uma aluna se colocou como
uma das poucas negras da sala de aula e questionou a quantidade de professores,
inclusive estagiários, negros. Além disso, também instigou a turma a pensar sobre as
cotas raciais, o que resultou no pedido de que houvesse uma aula sobre o assunto.

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Os textos de Machado de Assis e os do fórum do ENEM foram retirados de blogs. Os links para cada
um deles se encontram nas referências.

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Devido a essa demanda, a segunda aula foi remodelada. Seguindo a proposta
de usar diferentes tipos de texto, a escolha da vez foram os poemas do poeta gaúcho
Oliveira Silveira, que tratam da situação do negro no Brasil de maneira mais
contemporânea que Machado. Trabalhamos com as figuras de linguagem, como
metáfora, hipérbole e personificação, e também com as características da poesia,
rima, versos e entoação, mostrando que grande parte das reações causadas pelos
poemas se devia à estrutura feita pelo poeta. Após a leitura e a discussão dos poemas,
propomos um debate sobre cotas raciais nas universidades públicas, como solicitado
pela turma. Nesse debate começamos a trabalhar com os alunos a argumentação e o
que é necessário em um bom argumento (objetividade, exemplos, concretude).
Na terceira aula, levamos duas canções, uma de Ellen Oléria (Testando) e outra
de Elza Soares (Maria da Vila Matilde (Porque Se a da Penha É Brava, Imagine a da Vila
Matilde)). As duas músicas tratam de racismo, mas também falam sobre
empoderamento da mulher. O começo da aula foi dedicado à escuta das músicas
acompanhadas das respectivas letras. Depois houve uma discussão sobre as temáticas
presentes nas letras das canções e o seu significado. Dessa forma, foi trabalhada a
autoria (quem fala, por que fala e para quem), bem como os efeitos de sentido do uso
de certos recursos linguísticos empregados pelas autoras das canções. Outro ponto
importante da discussão foi a diferença de oralidade e escrita, já que logo foi
percebido pela turma a diferença na maneira de cada cantora cantar e também as
partes das músicas em que havia expressões existentes apenas na fala.
Na aula seguinte, o preconceito escolhido para discussão foi a homofobia.
Pensando em levar textos diferentes e, prevendo auxiliá-los a perceber os elementos
argumentativos discutidos nas aulas anteriores, escolhemos dois textos, autênticos de
alunos reais, que utilizavam de um fórum de ajuda online para estudar a redação do
ENEM. Nesse fórum, cujo link para acesso está nas referências, inúmeros textos eram
postados e submetidos à revisão de outros alunos, professores ou outros leitores do
referido fórum, com dicas de (re)escrita e correção. Ambos os textos apresentavam
muitas inadequações em relação à argumentação e pudemos ler e analisar junto com a

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turma. Dessa forma, utilizamos os tipos de argumentos sugeridos por Fiorin (2001) -
argumento de autoridade, argumento baseado em provas concretas, baseado no
consenso, baseado no raciocínio lógico e argumentos baseados na competência
linguística - para dar base a essa análise feita e deixar mais claro para os alunos o que
faz um argumento ser bom, utilizando como base os quatro conceitos estabelecidos
por Guedes (2009) para produção textual: concretude, objetividade, questionamento e
unidade temática.
Já na quinta aula, o tipo de texto escolhido foi história em quadrinhos (HQ).
Como observamos, desde o início das aulas, o interesse dos alunos em super-heróis,
escolhemos a graphic novel do grupo de heróis X-Men (Deus ama, o homem mata), em
que o discurso de ódio, a opressão e a luta por igualdade por parte das minorias era
assunto central. O propósito, assim, era que os alunos relacionassem os mutantes
perseguidos e oprimidos pelo vilão humano da história com situações de opressões e
preconceitos presentes na sociedade em que vivemos. Assim, conduzimos a turma ao
laboratório de informática para que pudessem fazer a leitura da história em
quadrinhos.
Na nossa sexta aula, separamos a turma em três grupos, cada um deles
referente a um dos personagens principais da graphic novel lida na aula anterior. Cada
personagem possuía uma ideologia diferente. O Professor Xavier, por exemplo, é líder
dos mutantes do bem, luta pela igualdade entre mutantes e humanos. Seus
argumentos são todos voltados para uma sociedade onde não exista diferença entre a
minoria mutante e o restante das pessoas. Já Stryker, o grande vilão, é um humano
sem poderes que prega, na televisão e em jornais, que os mutantes sejam extintos.
Seus argumentos são baseados no ódio ao diferente e no desejo de que a raça humana
seja toda igual, isso quer dizer, sem ninguém que apresente qualquer característica
fora do que é tido padrão. Por fim, o personagem Magneto, também mutante, mas
que, diferentemente do Professor, não quer a igualdade de direitos entre mutantes e
humanos. Ele prega a extinção dos humanos sem poderes, já que acredita que os

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humanos só querem matá-los. Magneto, então, quer lutar contra a opressão
oprimindo.
Após a separação dos grupos, orientamos cada um deles a montarem
argumentos que justificassem o posicionamento do personagem do respectivo grupo,
discutindo entre si e se preparando para um debate que aconteceria na aula seguinte.
Ainda na sexta aula, separamos os alunos nos grupos das campanhas para que
também discutissem entre si o que fariam na sua campanha: contra qual preconceito
eles se posicionariam, como eles fariam isso, que argumentos utilizariam, etc.
Na sétima aula, dividimos a turma nos três grandes grupos: Xavier, Stryker e
Magneto, para que fizessem um debate usando os argumentos montados
anteriormente e pudessem ver se seus textos possuíam as características que já
tínhamos trabalhado (concretude, objetividade, exemplificação). Estipulamos regras
como as de debates para presidenciáveis que ocorrem na TV. Cada grupo teria 5
minutos para se apresentar, depois um grupo diria para quem direcionaria a pergunta,
haveria um tempo para réplica, e o grupo a quem foi feita a pergunta teria tempo para
tréplica. Outras regras estipuladas foram a de não-agressão, tanto física quanto verbal,
a de respeitar o espaço de fala do colega e a de que todos no grupo deveriam
participar.
Ao fim da aula, deixamos como tarefa para a semana seguinte a entrega de um
texto no qual deveriam posicionar-se com um dos pontos de vista apresentados na
HQ, mas não necessariamente com o que defenderam no debate. O texto deveria ser
escrito nos moldes do ENEM e também deveria ter em vista as quatro características
essenciais para uma boa escrita - questionamento, concretude, objetividade e unidade
temática - sugeridas por Guedes (2009). A produção escrita foi reescrita na nona aula
com os alunos seguindo as orientações que escrevemos na primeira versão do texto,
bem como com orientações durante a reescrita em aula de acordo com as dúvidas de
cada um.
Nossas últimas aulas foram destinadas à criação das campanhas, apresentação
para a turma e exposição na escola. Como o processo criativo das campanhas foi feita

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em aula, pudemos acompanhar de perto o que cada grupo debateu ao escolher o tema
da sua campanha. A grande maioria escolheu criar cartazes que chamassem a atenção
para os preconceitos trabalhados em aula ao longo do estágio (sendo homofobia
escolhido por três de cinco grupos); contudo, era possível escolher algum preconceito
não trabalhado em sala de aula, mas que o grupo julgasse importante combater.
Assim, um grupo fez a sua campanha contra o bullying, que não foi trabalhado
diretamente com a turma, mas que para esses alunos era importante.
O suporte escolhido para as campanhas, por sua vez, foi majoritariamente
cartazes espalhados pelo colégio. Um grupo, porém, além dos cartazes criou também o
projeto de um blog, mas não publicou a página. Antes da exposição dos trabalhos,
cada grupo apresentou o que fez para a turma, gerando pequenos e importantes
debates sobre as escolhas de foco de cada campanha, bem como sobre os temas
abordados por cada um.

Resultados do Projeto
Ainda que seja aplicável em qualquer contexto escolar, fomos favorecidos pelo
engajamento da turma. Do início ao fim do projeto, os alunos traziam materiais extras,
seja para discussão, seja para comentar em aula. Tanto que, já na nossa primeira
semana, criamos um grupo no Facebook para que eles compartilhassem com a turma,
mesmo fora do horário de aula, qualquer vídeo, texto ou foto, que acreditassem ter
relação com os assuntos tratados em sala de aula. Podemos afirmar, portanto, que não
só foi possível perceber um interesse em pesquisar e ir mais fundo nos assuntos, mas
também uma melhora nos recursos linguísticos argumentativos usados pelos alunos
tanto na escrita quanto na fala. Acreditamos que o envolvimento com o tema fez com
que eles quisessem argumentar bem sobre ele, causando automaticamente um
interesse pelo aprendizado dos recursos linguísticos necessários para argumentação.
Além disso, acreditamos que o fato de termos trabalhado com textos de
diversos gêneros dentro da mesma temática fez com que os alunos se interessassem
mais ainda pelas discussões, levando-os a propor para o professor titular da turma

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uma continuidade de nosso projeto com outras leituras e discussões. Somamos a isso
também não só um aprendizado dentro da área textual, mas um acréscimo na
cidadania de cada um deles.

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Referências Bibliográficas
ASSIS, Machado de. O caso da Vara. Disponível em:
http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/contos/macn006.pdf. Acessado em:
27/12/16.
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GuihSilva1 em 2012 Disponível em: <http://capaciteredacao.forum-livre.com/t735-
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Isadora Cabral
Licenciada em Letras pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul.

Murilo Ariel de Araujo Quevedo


Licenciado em Letras pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul.

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