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4º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Relações Internacionais

De 22 a 26 de julho de 2013.

ENTRE A UNIPOLARIDADE CONSOLIDADA E A UNI-MULTIPOLARIDADE:


as possibilidades e as limitações da inserção brasileira no contexto
internacional

Política Externa

Trabalho Avulso

José Renato Ferraz da Silveira


Universidade Federal de Santa Maria
Juliana Graffunder Barbosa
Universidade Federal de Santa Maria

Belo Horizonte
2013

1
José Renato Ferraz da Silveira
Juliana Graffunder Barbosa

Entre a Unipolaridade Consolidada e a Uni-multipolaridade: as


possibilidades e as limitações da inserção brasileira no contexto internacional

Trabalho submetido e apresentado no


4º Encontro Nacional da Associação
Brasileira de Relações Internacionais
– ABRI.

Belo Horizonte
2013

2
RESUMO

A partir do término da Guerra Fria (1989-1991), o mundo se depara com a sobrevivência de uma
“superpotência solitária” em um “momento unipolar”, enquanto a Política Externa Brasileira
articula o aprofundamento da inserção brasileira no cenário internacional. A inflexão nas
Relações Internacionais é observada pela nova distribuição de poder resultante do desfecho da
bipolaridade, a qual compreende aspectos híbridos de uni-multipolaridade. Ademais, como
assevera Nye (2009; 2012), o soft and cooptive power entra em voga e passa a ser utilizado
1
conjuntamente ao hard power de forma inteligente , para que Estados enfrentem o complexo
“jogo de xadrez tridimensional” que se apresenta: o tabuleiro do alto, militar; o tabuleiro médio,
representando as relações econômicas; e o último tabuleiro, domínio transnacional.
Inegavelmente, o Brasil almeja um papel de hegemon regional, em sua acepção gramsciana,
propagando sua influência econômico-institucional. Paradoxalmente, sob o prisma militar, o
Brasil está afastado dos principais focos de tensão internacional e, somado a isso, o país não
possui um papel proeminente a cumprir no campo da segurança internacional. O mosaico
internacional apresenta perspectivas que oscilam num jogo de luz-sombras entre a estabilidade-
instabilidade: de declínio relativo da hegemonia norte-americana à decadência político-
econômica das “velhas” potências europeias e ascensão econômica chinesa.

Palavras – Chave

Superpotência Solitária. Política Externa Brasileira. Relações Internacionais. Soft and Cooptive
Power. Hard Power.

1
O uso de maneira inteligente os recursos tanto de soft power quanto de hard power,
conjuntamente, configura o smart power, cunhado por Nye (2009)

3
1 INTRODUÇÃO

Conforme Velasco e Cruz e Sennes (2006), observamos que o cenário


internacional futuro, em uma perspectiva de curto prazo2, será definido pela conjunção
de três centros decisórios de poder - nas esferas política, econômica e militar - os
Estados Unidos, a Europa e a China. As capacidades relativas3 de cada um desses
pólos de poder dependerá da própria dinâmica endógena dos mesmos, a qual
caracterizará suas ações, em maior ou menor escala, como decisivas para moldar o
sistema internacional.
Deste modo, a intenção deste artigo é resgatar, ampliar e debater as principais
conjecturas descritas por Ricardo Sennes e Sebastião Velasco e Cruz no artigo O Brasil
no mundo: conjecturas e cenários (2006), projetando perspectivas à tríade do poder
internacional - Estados Unidos, Europa e China - e o comportamento brasileiro ante os
chamados cenários internacionais possíveis. Empregando os quatro cenários
(Desconcentração Conflituosa, Multipolaridade Benigna, Unipolar Consolidado e Ordem
Liberal Cosmopolita), o presente estudo propõe atualizar e a reavaliar o debate proposto
por Velasco e Cruz e Sennes conforme os quatro cenários descritos, tendo como base
de análise o caso brasileiro.
Conforme dito pelos autores, “o que buscamos foi apontar apenas algumas das
grandes forças que contribuirão certamente para moldar o sistema internacional nos
próximos vinte anos” (Ibid., p.32). Além desse apontamento metodológico - quanto ao
objetivo objetivos específicos - dos renomados autores, consideramos como
imprescindível evidenciar as tendências configurativas que se entrechocam. A análise
pendulará entre as duas perspectivas de unipolaridade e uni-multipolaridade
características do pós-Guerra Fria, e vislumbrará o Brasil diante dessa estrutura
internacional.
A pesquisa analisará qualitativamente as variáveis, se pautando pelo método de
abordagem tipo ideal weberiano, pois inferiremos sobre prognósticos a partir de dados
atuais; e o método de procedimento utilizando a técnica de revisão documental e
bibliográfica, artigos de periódicos, revistas e jornais, tanto internacionais quanto
nacionais.

2
O objetivo do artigo apresentado por Velasco e Cruz e Sennes está na prospecção de algumas
das linhas mestras que guiarão o sistema internacional em um horizonte de vinte anos.
Considerando que o artigo base foi publicado em 2006, o limiar temporal é o ano de 2026.
3
Capacidades relativas é a capacidade de um Estado em relação a outro.

4
2 DESENVOLVIMENTO

Os anos de 1990 marcam o término de um processo de transformações que


culminou em uma importante inflexão nas Relações Internacionais. Os Estados Unidos
se deparam com problemas de governança global, como por exemplo o terrorismo, o
aquecimento global, o narcotráfico, a contenção de armas de destruição massiva -
nucleares, biológicas e químicas -, em que precisam de outros atores engajados agindo
de forma combinada, cooperando com a superpotência. Sendo assim, não existe um
balance of power que leve a uma multipolaridade, pois a superpotência detem poder
para vetar esse comportamento. Desta forma, a proposta de uni-multipolaridade seria
mais um bandwagon4.
Tomé (2003), que vê este contexto como uma ordem uni-multipolar em que
nenhum dos lados - superpotência e potências proeminentes - deseja manter o status
quo, e sim expandir sua influência até alcançar a unipolaridade ou a multipolaridade,
respectivamente. Isso levaria a “uma sucessão de confrontos geopolíticos, de
competições geoestratégicas que, no seu conjunto, funciona numa espécie de “choques
múltiplos de contenções e competições” (Ibid., p.85). Porém, em um prazo razoável, é
um sistema que perdurará.
Os três eixos de poder indicados por Velasco e Cruz e Sennes (2006) - Estados
Unidos, Europa e China - são ampliados em outras análises para Rússia, Japão, Índia,
ou outras potências regionais (Huntington, 1999; Tomé, 2003). Esta pesquisa se
restringirá apenas aos três pólos, pois estes ditarão as linhas de forças precípuas da
arquitetura internacional dos próximos anos. “Do mesmo modo, a estabilidade
internacional e nas várias regiões do globo dependem tanto do comportamento da única
superpotência como da postura das potências regionais.” (TOMÉ, 2003, p.83), essas
diretrizes servirão para o Brasil definir a sua postura frente ao porvir.

2.1 Projeção de cenários e Inserção Brasileira no Contexto Internacional

O mundo atual é observado por Nye (2012) como um complexo “jogo de xadrez
tridimensional”: o tabuleiro do alto, militar; o tabuleiro médio, representando as relações
econômicas; e o último tabuleiro, domínio transnacional.se apresenta muito mais
complexo e dinâmico do que há vinte anos atrás. Mudanças nos padrões tecnológicos,

4
O bandwagon effect caracteriza um comportamento de adesão dos Estados de menores à um
Estado líder.

5
difusão dos meios de comunicação, o fenômeno da globalização fizeram que os atores
internacionais se multiplicassem entre Estados, Organizações Inter-Governamentais e
Forças Transnacionais5; e o poder se tornasse mais difuso. Como assevera Eiiti Sato,
“essa realidade, muito mais variada e dinâmica, representa uma considerável ampliação
de oportunidades, mas significa também maior dificuldade na construção de estratégias
de inserção internacional.” (2000, p.167)
Sem dúvida, no que concerne ao Brasil, as limitações e possibilidades quanto a
atuação internacional são dependentes do cenário que se apresentará. Embora as
carências e os problemas internos brasileiros impliquem em uma projeção limitada e
papel coadjuvante a cumprir no campo geopolítico mundial. Como adverte Paulo
Roberto de Almeida (2012, p.4), “O Brasil e a América do Sul - esta a única porção do
planeta em que o primeiro pode atuar de alguma forma relevante - constituem “polos de
poder” - se o conceito se aplica - absolutamente marginais do ponto de vista da
geopolítica mundial”.
Destarte, o desempenho crescente brasileiro só se verifica na ordem
geoeconômica mundial. A Economist Inteligence Unit prevê que, até 2030, o Brasil deva
atingir o PIB de U$7,34 trilhões, o que o transformará na quarta maior economia, atrás
apenas de China, EUA e Índia, respectivamente, e à frente do Japão, Alemanha,
Rússia, França e Reino Unido. De acordo com a Agência Internacional de Energia
(AIE), graças à descoberta de reservas de petróleo na camada do pré-sal, o Brasil
passará a ser o sexto maior produtor mundial em 2030, com 3,4 milhões de barris
diários, atrás de Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Irã e Canadá. Segundo a agência, o
Brasil será o terceiro país com o maior aumento porcentual previsto na produção de
petróleo até 2030, de 2,9% ao ano, atrás apenas do Iraque e do Canadá.
Contudo, apesar dessas projeções positivas, “o Brasil apesar de ser o país mais
rico do subcontinente, é um dos mais desiguais” (ROSSI, 2012, A23).

O Brasil, a despeito do que se crê habitualmente, não é


propriamente um país subdesenvolvido, ou sequer “em
desenvolvimento”, como se declara também: trata-se de um país
“rico” (pelo menos em recursos potenciais), mas com muitos
pobres. Ele constitui uma economia quase totalmente

5
Classificação de atores internacionais segundo Pecequilo (2004), que divide os atores não-
estatais em dois grupos: Organizações Internacionais Governamentais ou Inter-Governamentais,
que representam agrupamentos políticos constituídos fundamentalmente por Estados; e, Forças
Transnacionais, que possuem caráter transterritorial e de domínio privado, sub-categorizados
em: Organizações Não-Governamentais, Multinacionais (Transnacionais), grupos diversos da
sociedade civil (Igrejas, sindicatos, partidos políticos, grupos terroristas, máfias) e a opinião
pública internacional.

6
industrializada, embora lhe falte certo grau de autonomia
tecnológica suscetível de inserir essa economia nos grandes
circuitos da interpendência produtiva mundial (ALMEIDA, 2012,
p. 5).

2.1.1 Desconcentração conflituosa

Este é o panorama apontado como o mais provável dos quatro apresentados.


Conforme observado por Velasco e Cruz e Sennes (2006, p. 33):

nesse cenário, a primazia dos Estados Unidos na economia e política


mundiais se vê reduzida, pela ocorrência de um dos eventos a seguir,
ou de sua ação conjugada: o aumento do poder econômico e militar
da China, e a afirmação da identidade política da União Europeia, por
intermédio de uma Constituição própria e de uma Política Externa e
de Segurança Comum (PESCE) efetiva, com capacidade
independente de planejamento estratégico. Esse resultado é
reforçado ainda por dois outros eventos: a ascensão da Índia e a
integração da Rússia na União Europeia.

O cenário descrito, na visão dos autores, se opera de forma conflituosa, pela


emergência de potências regionais que limitam o papel de liderança da superpotência
na condução dos assuntos internacionais.

Agora, ninguém mais duvida que o século XXI será norte americano. O
novo milênio já é apresentado como mais uma era de domínio dos
Estados Unidos. Entretanto, tal certeza, como todas as anteriores,
ainda deixa em aberto muitos desenvolvimentos e indagações, tendo
sido encerrada apenas uma curta fase (e a primeira) do pós Guerra
Fria. Como os Estados Unidos definirão sua estratégia e política
externa, como as demais potências responderão à sua hegemonia,
contestando-a ou aproximando-se cada vez mais dela, como os países
fora do núcleo estarão se inserindo nessa nova ordem, como ela agirá
sobre eles, como serão as respostas às ameaças transnacionais e aos
desafios políticos e econômicos existentes e emergentes, são
referenciais que poderão mudar o destino do sistema, para melhor ou
para pior, para a instabilidade ou a estabilidade. Apesar de estarem no
centro do mundo, amparados por seus recursos e tradições, não
sabemos até quando a América permanecerá nessa posição
(PECEQUILO, 2003, p. 388).

Verifica-se, de acordo com Velasco e Cruz e Sennes, que o declínio relativo


norte americano é aliado a ascensão chinesa e a “afirmação europeia”. Essa dinâmica
de ascensão e queda, segundo Huntington (1999; 2003), aponta para um verdadeiro
sistema multipolar dentro de uma ou duas décadas. Na mesma linha de raciocínio,
Zgbiniew Brzezinski, conselheiro nacional de segurança do presidente Carter, com a
diminuição da percentagem da contribuição americana para a economia global tornará

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improvável a concentração de poder hegemônico nas mãos de um único Estado. A ideia
de que estamos no fim de uma era em que os Estados Unidos parecem estar
destinados a ser o primeiro hiperpoder global e também o último.
Além disso, dois eventos são projetados: a emergência da Índia e a provável
integração russa na União Europeia (UE). Ipso facto, em nossa concepção, a Rússia
parece “distante” do processo integracionista europeu. Não há “esforço” sinalizado pelo
condomínio franco-germânico em ter a Rússia como parceira na UE. Notamos que a
extensão da OTAN para o leste europeu na Polônia e Hungria - embora componente do
prisma geopolítico - é visto pela Rússia como “a ameaça é a percepção da ameaça”, ou
seja, nesse sentido, há uma incompatibilidade em ter a Rússia como parceira
estratégica tanto no aspecto econômico, e ainda mais enfaticamente no militar. A busca
da UE em outros fornecedores de gás e petróleo sinalizam a desconfiança e o receio de
ter dependência de recursos naturais russos - óleo, gás e carvão. E com essa assertiva,
Ferreira apud Nasser problematiza (2009, p. 62): “Moscou ainda tem um trunfo da maior
importância - o petróleo e o gás que a Rússia fornece à Europa”.
Outro ponto que merece análise é a redução da presença norte americana na
região do Oriente Médio, pela dificuldade de arcar com os custos econômicos e políticos
nela implicados. Há uma mudança de eixo pelo governo norte americano de Obama de
“abandono gradual” da mobilização militar na região. O documento Defense Strategic
Guidance de janeiro de 2012, referente às ações estratégicas que o governo Obama
tomará para segurar a sua liderança global, deixa claro a intenção do governo norte
americano em concentrar suas ações na região da Ásia-Pacífico. “Indeed, as we end
today’s war, we will focus on a broader range of a challenges and opportunities,
including the security and prosperity of the Asia-Pacific.”
No que tange ao Brasil, os autores apontam que a forma de inserção
internacional brasileira aumenta em importância: “se consolida como liderança e
coordenador estratégico” (VELASCO E CRUZ; SENNES, 2006, p. 34). Ainda afirmam
os autores que o processo de integração resulta maior estabilidade e ocupação
econômica e social das zonas fronteiriças e do interior do continente, reduzindo a
desigualdade econômica regional.
No entanto, como pondera Bárcena apud Rossi (2012, A23): “a América Latina é
a região mais desigual do mundo. Fora a desigualdade, a tributação é baixa na região o
que acarreta prejuízos no serviço público de qualidade; na educação, “50% dos
estudantes latinos americanos não alcançam os níveis mínimos de compreensão de
leitura, nos testes internacionais, quando, no mundo rico, a porcentagem de

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fracassados é de 20%” (ROSSI, 2012, A23); investimento em inovação e tecnológica,
“não supera nunca de 0,7% do PIB, quando na Coreia, por exemplo, é de 3%” (Ibid.,
A23); infraestrutura, “a América Latina está investindo 2% de seu PIB em infraestrutura,
quando precisaria de 5%, ano, ano, até 2020, pelas contas de Gurria (Ibid., A23).

Dispensável dizer que o continente é um grande fornecedor de


matérias primas e de energia para o resto do mundo, um papel que,
teoricamente, poder ser exercido em caráter substitutivo por diversas
outras regiões. o que poderia haver de exclusivo ao Brasil e à América
do Sul, que seria de fato suscetível de afetar os grandes equilíbrios
planetários, em quaisquer dos campos relevantes da geopolítica ou da
geoeconomia do mundo? À parte ser um continente constituído de
apreciável volume de pessoas, um contingente humano potencialmente
consumidor de produtos e serviços de maior valor agregado produzidos
em outras partes do mundo, a América do Sul fornece emigrantes para
o hemisfério norte, produz quantidade apreciável de drogas e uma
parte da criminalidade internacional associada a esses fluxos, mas que
tampouco são exclusivos da região (ALMEIDA, 2012, p. 4).

2.1.2 Multipolaridade benigna

Na concepção de Velasco e Cruz e Sennes (2006), nesse “cenário desejado”,


cria-se um maior equilíbrio entre Estados Unidos, União Europeia e China, consolidando
um mundo multipolar tendo principalmente o fortalecimento das instituições regionais e
multilaterais. Como no cenário anterior, observa-se a perda de poder relativo americano,
mas aqui o processo se dá de forma organizada e com a liderança dos Estados Unidos.
Nesse quadro, os Estados Unidos farão uso da sua posição temporária como única
superpotência para defender os seus interesses vitais, fortalecendo os laços com a
Europa, Rússia e China.
Esse abandono do papel de polícia global numa transição a um modelo de
“policiamento comunitário” ou “policiamento compartilhado” com outras potências é o
que aproxima do modelo misto uni-multipolar. Dessa forma, podemos comparar o
cenário de multipolaridade beninga ao contexto da Teoria da Estabilidade Hegemônica
de Charles Kindleberger (1986), onde uma hegemonia traz estabilidade econômica
suficiente ao sistema para que gere prosperidade e public goods, beneficiando à todos
que dela fazem parte. Esses bens públicos perdurariam em forma de regimes
internacionais, mesmo com o declínio relativo da superpotência, que agiria como uma
hegemonia evoluída, acatando a ordem por ela mesmo criada, e compartilhando os
custos da estabilidade e a governança em assustos globais.

9
Quanto ao Brasil, nota-se nesse cenário conforme ambos autores, um processo
de consolidação da liderança sul americana e o credenciam para ocupar lugar de
destaque nos principais foros internacionais. Diferente dessa perspectiva otimista de
liderança do Brasil, Almeida (2012, p. 4) rechaça qualquer projeção de poder brasileira
no subcontinente americano: “o Brasil está longe de determinar as principais
orientações políticas ou econômicas que poderiam ser adotadas pelos demais países
da região”. Almeida (Op. cit., p. 12), ainda considera que o peso do Brasil nas grandes
questões de segurança internacional e na construção de uma ordem multipolar é
efetivamente reduzido e limitado.

Pode-se, obviamente, inserir o Brasil no grande jogo estratégico no


plano global, quando se menciona a capacidade do país oferecer
colaboração para a construção da chamada multipolaridade, com
base nos instrumentos multilaterais atualmente disponíveis. O que se
costuma apontar, nesse terreno, é a candidatura do Brasil a uma
cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, objetivo que
parece constituir uma obsessão pessoal de alguns diplomatas e de
vário militares, ademais de ser uma aspiração que frequente,
habitualmente, as considerações de amplos fatores da comunidade
acadêmica, sempre com a justificativa que tal acesso contribuiria para
“democratizar as relações internacionais” e para ampliar o grau de
representatividade do sistema internacional (...) As prioridades têm a
ver, portanto, com uma agenda na qual o Brasil possa atuar com
pleno domínio de suas iniciativas, num contexto no qual essas
iniciativas apresentem alguma diferença real nos planos dos
resultados. Tal contextualização nos remeteria, de imediato, ao
entorno sul americano e o espaço econômico e político do hemisfério
americano meridional, onde a presença e a atuação do Brasil
encontram meios e condições para se exercer com força e impacto
significativos.

2.1.3 Unipolar consolidado

Nesse cenário, Velasco e Cruz e Sennes (2006), há o contraste com o panorama


de multipolaridade benigna. Os Estados Unidos confirmariam com êxito a estratégia de
perpetuar a configuração unipolar do sistema internacional em três fatores: dinamismo
de sua economia, controle exercido sobre os circuitos financeiros e no aparato bélico.
Os Estados Unidos manteriam limites aceitáveis ao poderio chinês, apoiando a Índia e
ao papel do Japão no sistema de segurança regional; influenciando e interferindo no
projeto de uma política externa comum e de segurança autônoma, mantendo a União
Europeia sob controle geoestratégico; com a expansão da OTAN e de seu sistema de
bases militares ameaçam e fecham o cerco a Rússia; no Oriente Médio, os Estados

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Unidos manteriam sua presença militar, com a mobilização crescente de tropas
estrangeiras sob o seu comando efetivo.
No que tange a China, Kissinger afirma (2011, p. 503): “a competição crucial
entre os Estados Unidos e a China muito provavelmente girará mais em torno das
questões econômicas e sociais do que militares”. Kissinger (Op. cit.) contraria o projeto
americano explicíto de organizar a Ásia com base na contenção da China. Vê essa
cruzada geopolítica norte americana com pouca chance de êxito. O rótulo apropriado
que Kissinger nota em relação a relação sino-americana é de coevolução. “Isso significa
que ambos os países buscam seus imperativos domésticos, cooperando no que for
possível, e ajustam suas relações para minimizar o conflito” (Ibid., p. 504-505).
Em relação a Europa e a Rússia, a expansão da OTAN é um projeto norte
americano de influência geoestratégica na aliança europeia e ao mesmo tempo visto
pelos russos como uma ideia de cerco.

é preciso ver que o interesse norte-americano na Ásia Central fez


renascer na Rússia a ideia do cerco, que vem da era stalinista. Essa
ideia do cerco não pode ser afastada quando se procura compreender
a postura de Putin vis-à-vis os Estados Unidos e, agora também, a
OTAN. O problema criado pela projetada instalação de bases mísseis
na Polônia e Hungria poderia ter tido tratamento diverso do que veio a
ter não fosse a sensação da Rússia de estar cercada, à qual se
acrescentou a vontade - mais que a pretensão - de voltar a ter, no
teatro de operações europeu, a importância que tinha o império czarista
(FERREIRA apud NASSER, 2009, p. 101).

No Oriente Médio, o planejamento para retirada das tropas norte americanas


sofreu uma pressão constante por parte da opinião pública dos Estados Unidos com a
decaptação de Osama Bin Laden e o agravamento da crise financeira e suas
consequências. Há uma forte oposição dos congressistas em aprovar qualquer medida
de envio de soldados americanos para missões internacionais que ocasionem em
baixas e resgatem o “fantasma do Vietnã”. Inclusive, existem alas conservadoras
minoritárias que defendem um isolacionismo
Quanto ao Brasil, esse cenário impacta de modo negativo nas tentativas do país
de ampliar sua influência política no plano global, limitando à ação nos foros
multilaterais o que corrobora o entendimento de papel reduzido brasileiro no contexto
geopolítico.

2.1.4 Ordem liberal cosmopolita

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Na última e mais improvável projeção, contraponto do cenário da
Desconcentração Conflituosa, Velasco e Cruz e Sennes (2006) afirmam uma série de
perspectivas sob a ordem liberal cosmopolita: a homogeneidade de identidades e
valores básicos entre Europa, Japão e Estados Unidos, entendimentos estabelecidos no
interior de redes globais associando burocracias públicas e privadas; Estados Unidos e
Europa superam as divergências no plano da segurança; a China mantém seu
dinamismo e se consolida como um dos principais polos de crescimento da economia
mundial; a Rússia se integra a União Europeia; a Índia converte-se em país líder em
segmentos de alta tecnologia; elevado nível de consenso entre os principais atores da
cena internacional; no Oriente Médio, a presença militar estrangeira se fará sob a
bandeira da ONU; a ação conjunta da “comunidade dos internacional” mantém sob
controle os níveis de tensão internacional e diminuem a ameaça do terrorismo; na
esfera econômica, redução de barreiras protecionistas e a geração de normas globais
rigorosas sobre um conjunto crescente de temas.
Dentre os cenários, é o que mais se aproxima de uma ideia kantiana de
cosmopolitismo, em que há uma federação de Estados debatendo conjuntamente sobre
os rumos que a sociedade mundial tomará. A instituição do Estado dará espaço ao
cidadão global e aos direitos que este tem, independente de sua origem ou
nacionalidade. O progresso econômico e tecnológico nos levariam a uma sociedade
semelhante à ideia de “aldeia global” de Marshall McLuhan, com mais interligações
entre os povos, culturas e etnias.
Para o Brasil, a projeção de poder apresentada em termos globais e no sub-
continente seria ampliada, uma vez que aspirações como a Reforma do Conselho de
Segurança da ONU, a ampliação dos foros decisórios mundiais como o Fundo
Monetário Internacional (FMI), teriam mais espaço para discussão e implementação.
Menos crises internacionais que demandassem intervenções humanitárias surgiriam, o
Brasil se consolidaria como ator normatizador da ordem internacional quanto à
Responsabilidade ao Proteger, as Metas do Milênio da ONU seriam buscadas com mais
afinco pelos países e regimes internacionais como Kyoto e o Tratado de Não
Proliferação de Armamentos de Destruição Massiva, avançariam.
Desta maneira, o Brasil se firmaria como hegemon regional, na ascepção
gramsciana, detendo um consenso entre seus vizinho de que lidera-os nas mais
variadas temáticas, representando-os nos foros internacionais e arcando com os custos
dessa posição.

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3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo problematiza o artigo de Sebastião Velasco e Cruz e Ricardo


Sennes (2006), O Brasil no mundo: conjecturas e cenários, partindo dos cenários
descritos pelos autores - cenário mais provável (desconcentração conflituosa), cenário
desejado (multipolaridade benigna), cenário contrastante 1 (unipolar consolidado),
cenário contrastante 2 (ordem liberal cosmopolita). Teve como objetivo a busca de
atualizar e ampliar a proposta prospectiva de Velasco e Cruz e Sennes que envolveu o
Projeto “Brasil: O país do futuro”. Além disso, a pesquisa trata de realizar uma rigorosa
revisão bibliográfica e do debate em torno da unipolaridade e uni-multipolaridade
abordando os três polos de poder - Estados Unidos, União Europeia e China - e o papel
brasileiro diante dos cenários sob uma perspectiva geoestratégica e geoeconômica.
Por conseguinte, o que se constata em nossa abordagem de “tipo ideal” - na
compreensão do complexo cenário contemporâneo - é uma reduzida ação brasileira no
campo geoestratégico e o Brasil dispõe de uma limitada margem de manobra no campo
geoeconômico independente da configuração mundial oscilar entre a unipolaridade ou
uni-multipolaridade. Gargalos de infraestrutura, disparidades sócio-econômicas, baixa
competitividade, educação de baixa qualidade, corrupção ativa nas esferas de poder,
são alguns dos fatos que ilustram o momento atual. Com base nisto, as proposições ao
Brasil de Paulo Roberto de Almeida mostram-se hoje lacunas não preenchidas que
deterioram o projeto do Brasil como player global e distanciam cada vez mais o discurso
do que o Brasil deseja se tornar, da prática posta.

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