You are on page 1of 6

S EÇ ÃO 1 | A r ti gos

Seguindo rastros na cidade de Osório:
encontros com corpos trans
Following traces in the city of Osório:
encounters with trans bodies

de Cristiane Knijnik1 e Lívia Caldieraro de Souza2

RESUMO: O presente artigo foi elaborado a partir ABSTRACT: The present article was elaborated from
de experiências noturnas na cidade de Osório-RS e de nocturnal experiences in the city of Osório-RS and of
interrogações surgidas no percurso acadêmico. Colhendo questions raised in the academic course. Gaining traces
rastros (Gagnebin, 2006) deixados pela vivência cotidiana (Gagnebin, 2006) left by the daily experience of the
da violência que cerca o preconceito em que estão violence that surrounds, the prejudice in which trans
sujeitos os corpos trans (utilizo o termo corpos trans como bodies are subject (I use the term trans bodies, as a
referência a travestis e a transexuais, assim como à fuga da reference to transvestites and transsexuals, as well as the
heteronormatividade e que propõem novos significados escape from heteronormativity and which propose new
e interrogações para além do binário), a escrita propõe-se meanings, and interogations beyond binary), the writing
a ler tais vestígios através da articulação teórica. O artigo proposes to read such traces through the theoretical
apresenta uma crítica às próteses normativas arquiteturais articulation. The article presents a critique of the
e corporais balizadas na heteronormatividade binária. normative architectural and corporal prostheses marked
Construto da modernidade, a heteronormatividade toma in binary heteronormativity. Constructed from modernity,
o sexo biológico pelo corpo, patologizando e deixando heteronormativity takes biological sex through the body,
rastros e marcas. Utiliza-se como referencial teórico as pathologizing and leaving traces and marks. The Queer
políticas Queer de Judith Butler e Paul Beatriz Preciado, policies of Judith Butler and Paul Beatriz Preciado, as
bem como o conceito de rastro a partir de Jean Marie well as the trail concept from Jean Marie Gagnebin, are
Gagnebin. A teoria Queer se propõe antinormativa, used as theoretical references. Queer theory proposes
como uma opção político teórica; como forma de pensar antinormative, as a theoretical political option; as a way
o sujeito para além dos limites impostos pela cultura of thinking the subject beyond the limits imposed by the
em determinado momento. O artigo apresenta-se em culture at a given moment. The article is divided into four
quatro partes. 1) Ponto de partida 2) O rastro e o grito 3) parts. 1) Starting point 2) The trail and the cry 3) Intimate
Arquitetura do íntimo: banheiros e cultura 4) Desfecho architecture: bathrooms and culture 4) Ending for what is
para aquilo que segue inacabado. unfinished.
Palavras-chave: Transexualidade, Corpo, Cidade. Keywords: Transexuality, Body, City.

1
Doutora em Psicologia (UFF), Especialista em Intervenção Social em Saúde Mental (URV-Espanha), professora de psicologia da UNISINOS –
São Leopoldo. E-mail: criskini@hotmail.com
2
Graduada em Psicologia pela UNICNEC – Osório RS. E-mail: livia.caldieraro@gmail.com

20

para sempre impossível recuperá-las socorrer o corpo abalado aparece a imagem do pintor expressionista norueguês. só podemos Edvard Munch. menos a da ponte (de linhas retas) formando uma Houve um gesto de diferença e um grito que era rastro. Lá em um quarteirão de distância. no risco. transitando no abismo entre os sexos. encontram-se rastros das histórias e feridas abertas que gritam e se apagam. à luz da razão. onde é o mundo do corpo. Nivelar este quadro à simples ideia da loucura seria como tornar supérfluo o que contém de além da tela e coletivo. devem decifrar não só o rastro São fragmentos de existência noturna em mo(vi)mento entre sombras. São existências processo. Corpo social marcado de exclusão. do que não pode existir à luz do dia. As autoras que nos acompanharam Rastro que é fruto do acaso. esses primos menos distantes do que podem parecer à primeira vista. balizá-las tomadas nas declamações. mas sim deixados ou esquecidos. da negligência.113) Todas essas vidas destinadas a passar por baixo de qualquer Fones.] vidas que só sobrevivem do choque com um poder que não quis senão aniquilá-las. (p. Era de longe. entre ruas principais e secundárias. A imprevisibilidade dos encontros em bares. que sinaliza contraponto. rastro. como margem e das pessoas que nem parecem perceber o rosto distorcido. Como quem deixa rastros não o faz com Ao longo do percurso.206/207) Entre silêncios. sem dúvida. [. Diluem em si. na opacidade da noite. Aparece aquele batom. chuvas. angústia) e suas ondulações da imagem. prejulgar sua legibilidade. os afetos inscrevem o intenção de transmissão ou de significação. no entanto. Os contrastes quentes (intensidades) e frios (dor. de sua produção involuntária. o praças marcam o tempo da cidade e desta escrita. estranhamento que modula espaços de habitar. chacotas.. Para modo que é. discurso e a desaparecer sem nunca terem sido faladas só puderam de piadas. que inquieta a normatividade. nas mentiras imperativas supostas nos jogos de poder e nas relações Figura 1 – O Grito com ele. Na boemia ou no simples transitar. além e aquém das dualidades. das cores. vidas que só nos retornam pelo efeito de múltiplos acasos. Diaphora | Porto Alegre. É hora de recolhê-los e decifrá-los através do desdobramento do pensamento. talvez marcas de brincadeiras. sua marca perdida na alameda. Era na praça. entre espaços frágeis marcadores da existência. Instrumentos de uma performance deixar rastros – breves. É quando as luzes da natureza diminuem sua intensidade e as luzes artificiais dos postes se ligam que eles surgem. (2003). de um partir do momento de seu contato instantâneo com o poder. rastros não são criados — como são outros inominável. despertam a aura do Rigorosamente falando. Marcavam um grito abismal no corpo que se escreve/inscreve. ele denuncia uma presença ausente — sem. fomentam o fechar-se. será que de Osório-RS e de interrogações surgidas no percurso acadêmico. folhas que caem em redemoinhos. O detetive. Conforme Foucault signos culturais e linguísticos —. vermelho. da lembrança. no assalto e na surpresa do encontro fugidio. tais como podiam ser “em estado livre”. 2006) deixados pelos encontros com corpos trans3. Surgem o rastro e o grito para nos lembrar daquilo que questiona. “O Grito” (1893). nelas próprias. muitas pessoas transitando. Introdução: ponto de partida se anima numa sexta-feira e bebe uma cerveja. às vezes da neste percurso foram principalmente Judith Butler e Paul Beatriz Preciado. o decifrar dos rastros tempo. na insustentabilidade de existir no fio da calçada diurna da razão comercial. assim como portas abertas e portas fechadas. a plenos pulmões. e se transformam em personagens nas esquinas. De aparente insustentável desamparo de laço social. violência. (p. nas quebradas. Deixam rastros. com frequência enigmáticos – a musical. seus fones de ouvido. com travestis e transexuais e não deixamos de perceber o rastro do grito. ventos. no limiar da vida. à distância. ou pelo menos apagá-las. mas também tentar adivinhar o para os paradigmas citadinos. sobreposições de imagens que transpassam seus transeuntes e nos apontam na sua singularidade concreta. Ecoava alto O presente artigo foi elaborado a partir de experiências noturnas na cidade e muita indiferença a volta. 17 (1) | jan/dez 2017 21 . impressos em marcas e signos. dos cheiros e dos amigos dos espantos que surgem na noite que parte essa escrita. A cena atordoa o corpo. uma transexual a dançar como se o poste de “pare” ainda o paradigma de “anormal” que nosso tempo imprime aos corpos das fosse um pole dance em uma música que ninguém escutava a não ser ela. enunciador O rastro e o grito na obra. De tudo que se vive e sobrevive no coletivo dos sem nome. nas parcialidades táticas. desamparo. Então um berro. muitas vezes violento. deixado por um animal que corre ou por um ladrão em O corpo trans mistura-se com a cidade e sua arquitetura promovendo o fuga. Colhendo rastros alguém escutou? Segundo Gagnebin (2006): (Gagnebin. arqueólogo e o psicanalista. ruas e também é marcado por essa não-intencionalidade. nas partidas. indicativos simbólicos da solidão. Apenas se podia observar seu mexer o corpo como quem 3 Ao longo do artigo utilizaremos o termo trans para referirmo-nos aos transexuais e travestis. São dos encontros da memória. incisivos.. a escrita propõe-se a ler tais vestígios através da articulação teórica. corta a cena. surdez. v. os batimentos cardíacos não serão mais os mesmos.

subvertendo-o. anda com um estilete.] A afirmação de que as solidão e manter a convivência entre os moradores. Bento (2008) em seus estudos com travestis e transexuais em processo mas tem dificuldade de iniciar o tratamento hormonal. A falta de transporte público. foi A identidade de gênero diferencia-se da orientação sexual. este processo de reconstrução do corpo é marcado por conflitos que põem às claras as ideologias de gênero. me acho linda. (p. afirmam: “eu odeio meu corpo”. [. (p. Ela anda pela cidade a cantar e dançar como o argumento metonimicamente espelha a própria interpretação se utilizasse do canto da sereia para seduzir e encantar os passantes. que ainda vigora. 1993). seres classificados como doentes. transexuais e travestis que se como transtornados. pelos genitais: pênis x vagina. Para Jaqueline Gomes de Jesus (2012). (p. Mora no bairro Mutirão. relata que se sente uma mulher completa. de compor seu gênero identitário. e se diz Não há um rechaço monolítico ao corpo entre as pessoas muito vaidosa. Em meio a moderna para os corpos. 17 (1) | jan/dez 2017 22 . potência viva que transita entre dos sujeitos. densamente povoadas por aqueles que não gozam do status de sujeito. Queixa- Este saber/poder biomédico produz um discurso que as classificam como se de solidão. em seu texto faz um manifesto. G. em que o sexo define a verdade última atrações e expulsões. apontando sua fragilidade binária. (2000). Para sobreviver. e os/as colocam em posição de permanente sexo oposto. por esta razão. com necessidade da cirurgia. e a possibilidade de cura pela cirurgia. mas cujo o habitar sob o signo do “inabitável” é necessário para que o domínio do sujeito seja circunscrito”. construindo muros invisíveis na cidade. pois consome álcool e não de redesignação sexual refuta esta posição: possui recursos financeiros. ela recorre à prostituição. Essas negociações podem de mal-estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo reproduzir as normas de gênero. fechado em si mesmo. e suas Preciado (2011). não existindo consenso de como denominá-lxs. v. e múltipla. Belo Horizonte: Autêntica. seu corpo. D é uma mulher muito feminina. Conta que suas conhecidas trans costumavam disputar muito por transexuais. considera a postura transexual como transtorno de personalidade. com uma densidade populacional de não mais de 3 mil habitantes.). Em muitos momentos. Louro. é uma transexual que circula entre vários bairros de Osório à noite. desfilando como É como se a genitália fosse o corpo. permeado por para logo depois dizer: “nossa. não obstante. O Corpo educado: Pedagogias da sexualidade. (2a ed. catalogado representando a totalidade do que seria seu passado e futuro? Há nas construções sociais. Caminha com passos afirmativos. transexuais e nasceram). A autoimagem para muitos é positivada mediante a causa da aparência e. (p. Toma-se a parte (as genitálias) pelo todo (o corpo). A necessidade cirúrgica não a afasta de se sentir sucedido. p.153..47) ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão *** conforme quanto possível ao sexo desejado. pessoas que se denominam As violências sofridas por corpos trans na cidade apontam para as barreiras do cisgêneras (se identificam com gênero de nascimento) ou as trans discurso de saber/poder biomédico. constituindo-se dentro de uma diversidade identitária travestis acabam desnaturalizando sexo/ gênero/sexualidades. filósofo espanhol. Os rastros de D. Contudo. E nos levam é problematizada pelas experiências trans. negros e prostitutas uma multiplicidade de afetos. A questão de gênero deixa de ser binária e definida pela transexuais serve de maneira a balizar os corpos para que sejam inteligíveis na presença dos genitais. Ela gostaria de realizar a cirurgia de redesign sexual. dificultam a circulação entre bairros. na rearticulação e nos desvios da tecnologia dos 4 Para Butler – “O abjeto designa precisamente aquelas zonas “inóspitas” e “inabitáveis” da vida social. como por exemplo. principalmente igrejas neopentecostais e centros afro-brasileiros entre outras formas de suportar a meu cabelo e meu bumbum. usa vestidos curtos à noite. Conforme Bento (2006): O Código Internacional de Doenças. CID-10 (Organização Mundial da Saúde. produzindo rupturas no discurso vigente. Os saberes psi operaram práticas higienistas na cidade reconhecem como heterossexuais ou homossexuais ou bissexuais e etc. vive a encantar a cidade. localizado na periferia.10) Se faz na apropriação das disciplinas de saber/poder sobre os sexos. D. naturalizante e normatizador que produzem ou transgêneras (que não se identificam com o gênero do qual marcas subjetivas. batom.97) ruas solitárias. podendo existir balizada na higienização e classificação de homossexuais. assim como desestabilizá-las ao anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica longo dos processos de reiterações. maquiagem. dizendo que particularidades. Dentro deste espectro ainda existem pessoas que o corpo Queer não se identificam com nenhum dos dois gêneros. que o corpo e as expectativas do sexo de nascença não foram suficientes uma mulher completa. A própria história da psicologia no século XX (um passado próximo). Este desejo se acompanha em geral de um sentimento negociação com as normas de gênero. assexuados e que teriam ojeriza a que parece tão homogênea. Seus rastros fazem-nos questionar sobre a diversidade nesta cidade seres abjetos4. que são. a questionar: existiria um corpo verdadeiro? Um corpo que pudesse ser descrito podemos considerar que: como a exposição. não foi bem. Esse movimento de construir se não houvesse pessoas na volta. Diaphora | Porto Alegre. pessoas transexuais odeiam seus corpos está baseada em tropos assim como o preço da passagem. 210) D. Este bairro é isolado do centro. A necessária coerência dos manuais que descrevem as para construir um sentido. através do discurso patologizante. Apresentam-se seus critérios: No entanto. fundadas Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do no dimorfismo. como é o caso de nossa personagem. apontam que a condição de mulheridade não está dada A experiência transexual aponta que o sexo designado ao nascer. valorização reiterada de partes dos seus corpos tidas como “lindas”. No processo pautados pelo poder-saber biomédico. com formas de vivenciar os papéis de gêneros. “perfeitas”. mas metonímicos. Desta forma a naturalização do dualismo homem/mulher norma da matriz heterossexual.. são submetidas a diversos procedimentos médicos e psicológicos para ajustar seu corpo.

] em realidade. seus modos de aproximação apontam a miséria do nosso tempo. se abrir. (2012): 5 “O rastreio é um gesto de varredura do campo. só fazendo programa para poder voltar para casa. ou ele é um menino. Cantar o grito existências abjetas.Há meios para isso. Carro para.65) transvalorar. encontram-se sujeitos a violências cotidianas. então. Kastrup. na praça. como uma opção político teórica. aquele ônibus já passou aqui duas vezes.. Tudo aquilo que subverte o discurso heteronormativo. Podemos dizer que somos todos cirurgiados de nascença. Segundo Preciado citadino tão hostil. nas instituições. A construção discursiva invade os pelas instituições tradicionais. (p. na vida e na morte. E tu acha que posso? espaços urbanos. A autora complementa que não existe diferença entre os sexos e sim uma O que pode um corpo que questiona a heteronormatividade6? As caminhadas multidão de diferenças e potências de vida em conflito entre as relações de na cidade seguem produzindo questões. a (heterossexual/homossexual). Depois da Dança. transmitir. Tu vês. assim.E o que mais sonhas? banheiros públicos.. mas nele também eles se desatam. Na última vez o cretino me Em consequência deste pouco reconhecimento na esfera social. intervenção e produção de subjetividade. meu santo é forte. para manter a ordem das coisas como estão. em sua não representatividade pegava esse homem” – diz um homem se referindo à transexual. diferenças. passa por uma . se apagam uns aos outros e continuam seu insuperável conflito. de forma a “normais ou “anormais”. elas se vão. e pistas em escolas. [. deixando Foi muito difícil que me vendessem fiado. vocês estão aí se prostituindo? Como ecos. olhos tortos e dizeres: “eu poder. que não cessa de desaparecer e se reatualizar. sem que saibamos bem de onde. Nos bares. constroem balizas heteronormativas voltadas para a heterossexualidade. e a pergunta das frente aos regimes de visibilidade política. 17 (1) | jan/dez 2017 23 . de aceleração.algo de alegria se manifesta em um ambiente exemplo. sexos-políticas especificas de produção dos corpos “normais” e Partimos do grito como um gesto inicial que nos movimentou ao canto. . passados do mesmo modo que dele nascem os desejos. do uso do corpo. L. – diz ela uma menina. com namorados. não precisavam. de ritmo. a sem pudor. (2015).. ” Passos. no ritmo de seus fones de ouvido. A divisão dos banheiros e os espelhos.. entra-se em campo sem conhecer o alvo a ser perseguido. E a falar do mundo das prisões onde anda. que faz com que se afirme corpos que se levantam contra os regimes que os constroem como uma potência prenhe de histórias. aparência. ainda que com dentes mesmo do nascimento através da ecografia. mas sobre uma multiplicidade de miséria da cidade e a solidão estrutural da mulher trans. as expectativas Paramos. nos precedem. (p. v. os afetos e suas escritas (marcas). Como uma vida impedida de amar. Esses gritos ultrapassam desfalecimentos e os erros nele também eles se atam e de repente o corpo individual. na intimidade. forma de censura. baseados em órgãos genitais e no binarismo de gênero que obscurece as Os sonhos continuam. Aquela em que o amor estaria restrito heterossexualidade compulsória fomentada pelas expectativas sociais desde antes à “zona”. as histórias. e pagar conta aqui no centro. Os próprios fluxos de desejo do corpo trans questionam a essencialidade universalista do binarismo do gênero. de eliminar um discurso vivo. Eu o conheço. afiados ou aqueles que propõem salvação no conforto de nunca dizer seu nome.. às instituições burguesas do século XIX e à implementação na arquitetura de . como o tamanho do vestido e o movimento. Escrever nos impele a caminhar. 24. questionam seus pressupostos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. acham que pobre nunca paga nada. onde nem a sua Caminhando pela mesma rua.40 6 Cunhado por Judith Butler.Fazer faculdade. transversar. E. na arquitetura heteronormativa das cidades. Diaphora | Porto Alegre. o termo heteronormatividade produz uma falsa sensação de estabilidade. (2003).16) tentar apagar qualquer mistério (há algo de temível). “desviantes”.. Todo um modelo se constrói sobre este crivo. atravessando-as e acarretado. Pode-se dizer que a atenção que rastreia visa uma espécie de meta ou alvo móvel. [.. se exprimem. nos estabelecimentos. que são muitas. o batom (vermelho) produz Arquitetura do íntimo: banheiros e cultura pelo som e imagem aquilo que extrapola ao olhar. assim como se corpos através da imagem. de velocidade. que inclui formas de ser/estar na norma social que definem homem e mulher. p. p. banheiros públicos. transitar. fronteiras para proteção e segurança. postos de saúde. Foucault (2012) nos diz: Incluímos aí também às epistemologias sexopolíticas straight que ainda dominam a produção científica.E o pior que sei. Remontam assim eu sou honesta. A cidade reage com sua existência. corpos trans deixou quase sem roupa. uma voz ao longe faz rastrear5 presença e a sua ausência devem restar. Em Microfísica do Poder. as práticas discursivas . Enem. Sonha. ao que destoa das normas e valores.Ei meninas. opõem as instituições que se querem soberanas e universalmente representativas. lojas. As cidades produzem. tornam-se consequentemente. no mundo. Ela é . e o cárcere. No corpo se inscrevem os espaços. apenas. Butler. viu? Elas não precisavam ser tão idiotas. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade.Sim. Inicialmente apenas como local para os dejetos corporais nos . entram em luta. transpassar.] não repousa sobre uma identidade natural As formas em que uma vida podem se fechar. mas o frio aumenta. Minha família é muito religiosa e meu santo. construindo um discurso de normatividade compulsória. Sobre o corpo se encontra o estigma dos acontecimentos A teoria Queer se propõe antinormativa.. As formas de negligência/indiferença dos passantes que suscitam in(cômodos). Sulina.Poxa. & Escóssia. ele surgirá de modo mais ou menos imprevisível. transmutar. impondo o binarismo nos papéis de gênero como homem versus mulher. à prostituição. assim. Desde a ecografia e a visualização do sexo. diversas formas de exclusão. V. escolas para terminar o segundo grau. por . gêneros e dos modos de se relacionar. transladar. J. estudar Psiquiatria.] rastrear é também acompanhar mudanças de posição. Ed. os como forma de pensar o sujeito para além dos limites impostos pela cultura em determinado momento (a vida que não cabe nas caixas). Tornando convidando a dançar na chuva. [. Pistas do método da cartografia: Pesquisa. surgem como forma de um poder sobre os corpos.Porque eu encaro mesmo . Consideradas como “monstruosas” amigas “será que ela é do ramo. encontrando-se à parte. É conhecida como a sem vergonha Binarismo este que determina papéis masculinos e femininos corroborando uma pelo que relata de sua família. Os rastros ressoam e fazem pensar no íntimo. vou perguntar!”. contagiar e se contagiar (homem/mulher) nem sobre uma definição pelas práticas na cidade. constroem-se muros. um espaço de vigilância dos . Tenho que voltar para casa. Não se suporta o ininteligível. Clandestina. Porto Alegre.

para que desejável. onde a cartunista Laerte Coutinho vai em um restaurante. 17 (1) | jan/dez 2017 24 . habitando o intimo da cultura vigente e deixando seus semelhantes às da ecografia. inventam novos doméstico. atraente e feminino e. mas a ação que praticou é um cerceamento”. o capital- Preciado (2012) utiliza o exemplo dos banheiros do aeroporto George heterossexual é um investimento da exclusão e violência que insiste em barrar o Pompidou em Paris. pelas separações de cabine. deve abrir-se somente em espaços fechados estabelecimento de novos códigos conjugais e domésticos que e protegidos da visão de outros homens. v. As placas apontam para damas ou cavalheiros. o vaso. mictório.. Como sugere Lee Edelman. disse Laerte. a inteligibilidade funcionar também como um teatro de ansiedade heterossexual. Petrópolis: Vozes.se sob estes códigos. fabrica efeitos homogêneos de poder. para além das cagadas e mijadas. e demonstra sua indignação ao ser No século XX. os objetos e a forma em que estão expostas convidam a pensar o máquinas que comem nossas merdas são na realidade normativas próteses de território sanitário. mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo[. Paulo (Rodrigues. Segundo Butler (2003).] o essencial é que ele se saiba vigiado. (2001).39) Tornando os habitantes pela margem.] Panóptico é uma máquina maravilhosa que.19). Ao que serve o banheiro? Porque esse receptáculo de nossos esquecimento. Diaphora | Porto Alegre. Não é casual que a nova disciplina fecal imposta pela anal) da visão pública. classificando.190.. sofrendo normatividade da heterossexualidade compulsória. do mictório. e agressões. orifício nascente burguesia ao final do século XIX seja contemporânea do potencialmente aberto a penetração.. (p. cito o exemplo de homossexualidade. de gênero. paródia do ambiente doméstico. Estas normativas tentaculares se espalham por todos os cantos da cidade. no chão. (re) produz situações que as deixam a margem. através do poder que naturaliza. “O que a mulher queria dizer com: ‘Eu tenho crianças’? Qual o problema de a menina ver uma travesti no banheiro? As pessoas pensam que os outros andam pelados dentro do banheiro”. Os modos em que as os gêneros enquanto. foi alertado por um dos sócios como espaço de refazer. “O gerente garantiu o direito da freguesa de espernear em Figura 2 – Placas de banheiros detrimento do meu direito. Desta forma. Os banheiros femininos estão permeados desta paródia pela lógica do perpassam as instituições. a norma binária estende seus tentáculos forças hegemônicas que insistem em tentar apagar a sua potência e a relegar ao do privado/público.]As inofensivas cabines estão. O aviso ambiguidade que destoasse das normas. p.. Ele foi gentil. aborda o panóptico de Bentham. condena ao âmbito da privacidade. a discussão foi mais acalorada. porque ele não tem necessidade de sê-lo efetivamente[.se o princípio de sua própria sujeição. da próxima vez. oriundas da transfobia. funcionando como uma miniatura de lugares para logo se alojar sob os corpos sexo-gênero-sexualidade produzindo. ou melhor. “exige que certos tipos de ‘identidade’ não possam ‘existir’ – isto é. do local que. Preciado (2012) ressalta a produção da a muitas trans. fá- las funcionar espontaneamente sobre si mesmo. rejeitos se tornou normatizador? Portas fechadas pelo capital-heterossexual delimitam o lugar da prostituição Sobre o banheiro masculino. o ânus masculino. (p. Ainda segundo Preciado (2012)“Uma arquitetura que fabrica mostrando como a mesma lógica espalha-se pela cidade. e sabe disso. Em sua inspeção binária. e nos modos de se relacionar. panóptico7. Torna-se notável que existe uma sub-cidadania. Com a cliente. São lugares onde se retoca a maquiagem.] Quem está submetido a um campo de visibilidade. inscreve em si a relação de poder na qual ele desempenha simultaneamente os dois papéis.” Foucault. suas portas fechadas ou abertas caráter performativo.”(p. como uma maquinaria disciplinar. nas paredes. símbolo da feminilidade abjeta/ sentada.14) uma matéria no jornal O Estado de S. Os banheiros são cenários normativos de produção da masculinidade. Este exemplo retoma ao regime de visibilidade/invisibilidade. incluindo e excluindo.. (p. costuma colocar esta população em risco de rastros nas portas. como um modelo de prisão: “O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. quando não correspondente a essas expectativas. a partir dos desejos mais diversos. M. nas privadas. nos banheiros de rapazes.] que o prisioneiro seja observado sem cessar por um vigia[. se vigia aquilo que seria hierarquizando. torna.16) exigem a redefinição espacial dos gêneros e que serão cúmplices da normalização da heterossexualidade e da patologização da Como exemplo dessas violências e deste cerceamento cotidiano produzido pela não inteligibilidade está exposto e ecoa em muitas mídias. porque de outro modo poderia suscitar um convite homossexual.. funcionem sob estes signos. Neste contexto. retoma por sua conta as limitações do poder. “a família tradicional”.. Qualquer mínima diferença. Vigiar e punir. levaria a questionar se era mesmo foi motivado pela reclamação de uma cliente. que acabam em muitas ocasiões sendo expulsas de casa. Moldando corpos. teria de usar o masculino. preserva os momentos de defecação de sólidos (momentos de abertura 7 Citando Foucault. O corpo trans subverte as agressões verbais ou físicas. afirmou Laerte.] o detento nunca deve saber se está sendo observado. analisando sua arquitetura. cuja filha estava no aquele banheiro o certo.[. a dimensão espacial remete à gênero..[... 2012). reguladora.. “O banheiro é um tabu que precisa ser encarado de maneira menos apaixonada”.192. funcionando como uma grande máquina heterossexista banheiro. excessivo. com signos que remetem aos códigos vigentes do que é ser dama ou cavalheiro. A diferença nem do ‘sexo’ nem do ‘gênero”. A separação dos banheiros masculino e feminino começa a compor o cenário da arquitetura da cidade. podem produzindo corpos não inteligíveis. debaixo do pretexto da higiene pública [.. homem/ mulher permeado de fantasias que segregam. Na saída do estabelecimento. os banheiros se tornaram um espaço público das tecnologias advertido que dá próxima vez deverá utilizar o banheiro masculino. aquelas em que a divisão espacial de funções genitais e anais protege contra uma possível o gênero não decorre do sexo e aquelas em que as práticas do desejo não ‘decorrem’ tentação homossexual.

A. (2000).br/ noticias/geral. Editora. G. 95-112. Rio de Janeiro: Forense Universitária. um novo grito sensível à escuta do Litoral Norte. J. Uso do banheiro feminino por Laerte termina em polêmica. assim. Editora Sulina. (2012) Sujeira e Gênero.com. São Paulo. G. 11-20. expulsão e morte. Retirado de http://sao-paulo.substantivoplural. (2012). 3(4). Belo Horizonte: Autêntica. (2001). poder-saber. Estratégia. 26 Janeiro). Butler. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. J. Petrópolis: Vozes. ocasionando reviravoltas em campos de relações de forças em conflito. Anais do VII Fazendo Gênero – ST16 Sexualidades. Corpos e próteses: Dos limites discursivos do dimorfismo. Entre instituições/estado/arquitetura. Gagnebin. Louro. Graal. São Paulo: Ed. Preciado. Brasília: Autor. escrever. Disponível no site < http://www.827344 Diaphora | Porto Alegre. São afetos e modos de existência em “trans-ito”. (2a ed.uso-de-banheiro-feminino-por-laerte-termina-em-polemica- imp-. J (2006). Masculino/Feminino. Jesus. corporalidades e transgêneros: narrativas fora de ordem. Referências Bento. Organização Mundial da Saúde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira Foucault. Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. fazendo.Estudos gays: gênero e sexualidades. Revista Estudos Feministas.br/sujeira-e-genero- mijarcagar-masculinofeminino-por-beatriz-preciado/ > Rodrigues. B (2006). A diferença que faz a diferença: Corpo e subjetividade na transexualidade. impedimentos. M. Desfecho para aquilo que segue inacabado A produção de corpos e cidades heteronormativas funciona como maquinaria da exclusão produzindo barreiras. Para “trans-formar” (escolhemos esta grafia para enfatizar e criar múltiplo sentido para o sufixo TRANS) criar outros modos de existir. O Estado de S. (Orgs.. Bagoas . & Escóssia L. Um grito de resistência se faz necessário frente às normativas das instituições tradicionais que exercem domínio e exato controle sobre corpos gênero-sexo-sexualidade. Foucault. Porto Alegre: Artes Médicas. Beatriz. Porto Alegre. Bento. Kastrup.). (2011). M. resistência à onda conservadora e aos retrocessos nas mais diversas esferas de nosso presente. Vigiar e punir: Nascimento das prisões. Microfísica do poder. Multidões queer: notas para uma política dos “anormais”. o corpo trans tenciona os poderes vigentes.estadao. 19(1). B (2008). (2012. 34. esquecer. 17 (1) | jan/dez 2017 25 . (2003). v. Passos E. Beatriz. Lembrar.intervenção e produção de subjetividade. Pistas do método da cartografia: Pesquisa. O Corpo educado: Pedagogias da sexualidade. OMS (1993). Mijar/Cagar. Orientações sobre identidade de gênero: Conceitos e termos. Colher rastros e decifrá-los através da escrita nos faz desconstruir mundos vigentes fazendo aparecer resistência e multiplicidade naquilo que parece homogêneo. Foucault. (2003). V. (2012).com.) (2015). Paulo. M. Preciado.