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CONRAD EDITORA DO BRASIL LTDA.
CONSELHO EDITORIAL
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CONRAD LIVROS
DIRETOR EDITORIAL
Rogério de Campos
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0 MITO DAS NAÇÕ ES
A invenção do nacionalism o

Patrick J. Geary

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CONUD
LIVROS

Copyright© 2002 Fischer Taschenbuch Verlag
in der S. Fischer Verlag GmbH, Frankfurt am Main
Copyright desta edição © 2005 by Conrad Editora do Brasil Ltda.

TíTULO ORIGINAL Europaische Võlker im frühen Mittelalter.
Zur Legende vom Werden der Nationen

CAPA Ana Solt
TRADUÇÃO Fábio Pinto
PREPARAÇÃO Elaine Regina de Oliveira
EDIÇÃO Alexandre Boide
D1AGRAMAÇÃO Ana Solt
PRODUÇÃO GRÁFICA Alexandre Monti (Gerente),
Alberto Gonçalves Veiga, André Braga e
Ricardo A. Nascimento
CTI Alexandre Cardoso da Silva e Ednilson Moraes
GRÁFICA Cromosete

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Geary, Patrick]. , 1948-
0 Mito das Naçóes: a invenção do nacionalismo/ Patrick J.
Geary [tradução Fábio Pinto] -- São Paulo: Conrad Editora do
Brasil, 2005.

Título original: Europaischc Volker im frühen Mittelalter.
Bibliografia.
ISBN 85-7616-120-6

1. Europa - Relaçóes étnicas - História 2. Europa - Relaçóes
raciais 3. Imigrantes - Europa 4. Nacionalismo - Europa -
História - Século 19 5. Roma - Fronteiras - História 6. Roma -
História - Invasão dos bárbaros 7. Xenofobia - Europa 1. Título

05-6726 CDD-305.80094

Índices para catálogo sistemático:
1. Europa : Relações érnicas : História : Sociologia
305.80094
2. Nacionalismo étnico : Europa : História : Sociologia
305.80094

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DEDICATÓRIA ~ Para Jean Airiau e Jim Usdan. amigos e leitores dedicados que entendem a importância do passado para o presente. . assim como a diferença entre os dois.

.. . .. . . . 57 Capítulo 3 BÁRBAROS E OUTROS ROMANOS . . . SUMÁRIO ~ AGRADECIMENTOS ... .. .. 11 Capítulo 1 UMA PAISAGEM ENVENENADA: ETNICIDADE E NACIONALISMO NO SÉCULO XIX ... NOVOS ROMANOS ...... . ... .. . . . . . .. . . .. . . .. . . . . .. ... ... . .. . 203 1NDICE REMISSIVO . . 09 Introdução A CRISE DA IDENTIDADE EUROPÉIA ... . . 141 Capítulo 6 A RESPEITO DOS NOVOS POVOS EUROPEUS . .. 177 SUGESTÕES DE LEITURAS COMPLEMENTARES ... .. . . . . ... . . . . . . . . ... 81 Capítulo 4 NOVOS BÁRBAROS ..... ... . .. . . 27 Capítulo 2 POVOS IMAGINADOS NA ANTIGÜIDADE . . .... . .... . 113 Capítulo 5 OS ÚLTIMOS BÁRBAROS? ... . . . .. . . 207 ... .. . . ... . . . . . .. .... . . .. . . . .

con- duziu à Itália um exército heterogêneo formado por romanos pro- vincianos da Panônia. que dizia (baseado em quê. Fusão nos reinos ocidentais A Itália lombarda A Itália lombarda nasceu em meio a confusão e violência. cristãos ortodoxos e pro- vavelmente alguns ainda pagãos. hérulos. dei- xando-a vulnerável. nunca saberemos) descender da família real dos Gauti. na Itália. quando não os suprimiram totalmente. na Es- panha. discutiremos como o estabelecimento desses bárbaros na Gália. Em 568. gépidas. suevos. A guerra sangrenta entre bizantinos e ostrogodos exauriu a península. saxões e turíngios. o rei Alboino. Neste capítulo. como 1ambém a dos "novos" bárbaros que migraram para as regiões fron- 1ciriças abandonadas por esses grupos. a criação de novos reinos no território do . sármatas. Esses grupos tinham seus próprios . nos Bálcãs e até mesmo na Britânia tornaram incertos os 1imites entre os romanos e os bárbaros. Entre eles havia arianos. Capítulo 5 ~ OS ÚLTIMOS BÁRBAROS? Ao longo do século VI. búlgaros.1ntigo Império Romano transformou não só a natureza dos povos que deram seus nomes a essas unidades políticas regionais.

especialmente após a morte de Alboino (provocada por sua mulher).conquis- taram os vales piemonteses de Aosta e de Susa e os separaram da Itália lombarda. sucessor de Alboino. N. Paulo continua: Naqueles dias. Historia Langobardorum 2. Esses foram barrados nas entradas de Roma e de Nápoles pelo comandante romano (ou bizantino) de Ravena. enquanto os exércitos burgúndio e franco . de modo que teriam que pagar um terço de suas safras aos lombardos. A violência foi exacerba- da por sua natureza descentralizada. 2 Após a morte de Clefi. Historia Langobardorum 2. e outros ele expulsou". relata que Clefi. os lombardos (que provavelmente repre- sentavam entre 5% e 8% da população dos territórios que haviam ocupado) não deixaram cargos políticos para os remanescentes da elite romana que haviam sobrevivido à reconquista bizantina. Em seus novos ducados. Um habitante da parte oeste dos Alpes. Marius Aventicus. Não se tratava de um exército federado se estabe- lecendo em uma província romana sob o comando do imperador. historiador do século VIII. T.142 ~ O M i to d as Na ç ões líderes. invejosos uns dos outros e do rei lombardo. Os que sobraram foram divididos entre os "hóspedes" e feitos tributários. membros de dás ilustres ou reais. contemporâneo da ocupação lombarda. 32. Paulo Diácono. 31. . mas de uma conquista sangrenta e brutal.238.) AA 11. 2. a. muitos nobres romanos foram mortos por ga- nância.após as desastrosas incursões lombardas na Borgonha . baseando-se em um tex- to do final do século VI. 3. 1 De modo semelhante. "matou muitos da aristocracia e das classes intermediárias". quando os duques começaram a estabelecer ducados autónomos pela Itália. 573 MGH (Monumenta Germaniae Historica. 3 1. escreve que "[Clefi] matou muitos romanos poderosos.

mas não muito pior do que a dos que con- tinuavam sob a proteção do governador bizantino. ou seja. mesmo que isso fosse possível.. pelo menos. Early Medieval ltaly. Com o tempo (não sabemos exatamente quanto). durante a conquista. 4 Enfim a população romana que havia sobrevivi- do aos cercos e ataques das primeiras décadas aparentemente havia encontrado seu lugar na nova ordem lombarda. Era muito mais vantajoso conservar a maioria dela como contribuinte.. a vida na Itália lombarda devia ser melhor do que na Itália "romana". . O papa Gregório o Grande reclama. A vida da elite italiana remanescente sob a autoridade dos lom- bardos devia ser difícil. pos- sivelmente em regiões que ainda eram controladas pelo Império. e que indiví- duos de todas as classes pareciam às vezes mais inclinados a viver sob o domínio dos lombardos do que sob a implacável pressão dos agentes do fisco. 67. eles não foram rebaixados à escra- vidão ou à servidão. 14 3 Essas passagens parecem indicar que. ver Wickham. Os ou- tros proprietários foram forçados a pagar o tributo exorbitante de um terço de seus rendimentos aos seus conquistadores. A pequena elite militar lombarda dificilmente desejaria extinguir toda a classe romana abastada. p. ou então redistribuídas entre os lombardos. as sociedades lombarda e romana se fundiram. apesar dos tributos exorbitantes. 4. no final do século VI. Para informações sob re as várias fo ntes q ue sugerem a atração exerci da pe los lom bardos sobre. Entretanto. aos duques e ao rei. mui- tos proprietários de terras romanos foram mortos ou exilados. Suas terras provavelmente foram confiscadas e retidas como terras reais ou ducais. Na verdade. entre Roma e Ravena. que os proprietários de terras da Córsega tenta- vam fugir para a Itália lombarda em vez de fugir dela. que conservara partes importantes da costa italiana e da região central. Medidas como essa claramente subordinavam os remanescen- tes da elite romana aos seus conquistadores lombardos. algun s elementos da sociedade ita liana... Capítulo 5: Os último s b á rb a r os? .

"Legal Practice and Ethnic ldentity in Lombard lta ly". que buscava estabelecer uma unidade. Algu- mas inclusive.6 Por volta da década de 700. em Pohl. p. 1998. O indício mais evidente da adoção da cultura roma- na pelos lombardos é o uso que faziam das cidades. Inicialmente a lei era um dos meios mais importantes para :1 formação do povo lombardo. Rothari 367. a cerâmica e outros elementos da cultura ro- mana. casamen- tos entre membros dos dois grupos (de todas as classes) começaram a ser realizados. Mas essa dicotomia também começou a se desintegrar. como na tradição germânica. os documentos que faziam referência à variedade de grupos que formavam o exérci- to lombardo desapareceram em favor de uma identidade lombarda simplificada. a fusão já estava bastante avançada. . foml·~ arqueológicas e textos raros sugerem que de fato houve uma fusão. 32. A partir da metade do século VII. Então esses "novos" lom bardos e seus vizinhos romanos (a maioria) se amalgamaram. Leiden. OH guerreiros bárbaros de diferentes origens tiveram que se submeter :) lei lombarda. Todos os duques estabelecidos no reino (35 de acordo com Paulo Diácono) haviam adotado cidades romanas como base. No entanto. 6. a menos que fossem autorizados pelo rei a seguir um sistema legal alternativo. lado a lado com a dos romanos. Ver Brigitte Pohl-Resl. 5 Certamente a identidade legal lombard :1 não era determinada pelo sangue. 300-800. formaram uma nova identidade lombarda.209. As famílias davam nomes lombardos e romanos a seus filhos. criavam nomes híbri- 5. Historia Langobardorum 2. MGH LL 4. Aos poucos os lombardos foram adotando o vestuário.14 4 -e O Mit o d as N açõe s O conjunto de documentos sobre a população romana do rei n<1 lombardo do século VII é bastante limitado. Sob a pres- são da corte. Strategies ofDistinction: The Construction ofEthriic Communities. Primeiro os diferentes grupos que tinham participado das invasõe. embora as evidências sejam indiretas. quando os documentos escritos co- meçaram a reaparecer na Itália. mas pelo decreto real. Além disso.

The Lombard Laws. Pohl-Resl. ·unstâncias. poderia ser aplicado à questão da herança. O texto denota . Alguns interpretaram essa última frase 1 omo "os envolvidos deveriam seguir sua própria lei com rigor ape- nas quando os casos envolviam a questão da herança". em 1:1sos relacionados à herança. da forma que lhes conviesse.penas que. 209-210. . estas poderiam abrir mão de ambos os códigos e resolver a questão pessoalmente. p. Bluhme (Ed. 68-69. .ou com a dos romanos.). Naturalmente um acordo particular entre duas partes / .. MGH LL 4. 145 tio. "Legal Practice and Ethnic ldentity". Entretanto. As leis relativas à posse de terras continuavam 1•11do as romanas. escritas sob o comando de vários reis entre as 1 lí· ·adas de 650 e 750. Traduzido por Katherine Fischer Drew. Ca pítulo 5 : O s último s bá rba ros? . 9 Podemos d i'f.1ro: No caso dos escribas. 8 O édito segue afirmando que. Wickham. Early Medieval ltaly. 1973. dependendo das . Fi ladélfia. p.que é bem conhecida e acessível a todos . os documentos deveriam ser prepa- r. vigoravam paralelamente às leis romanas e 11•v ·lavam uma certa influência dessas.7 1 >s sistemas legais romano e lombardo também se entrelaçavam. "Legal Practice and Ethnic ldentity". nem mesmo elaborar documentos contrários à lei dos lombardos ou à dos romanos. 'l. 91 .er que se trata de uma interpretação forçada . decretamos que aqueles que preparam as escrituras devem escrevê-las de acordo com a lei dos lombardos . especialmente pelo fato de 11•rc m sido escritas.tra todos.1dos de acordo com a lei. p.~por aglutinação. os escribas tinham que preparar os documentos "de acordo com a lei". 209. Li utprando.. Por volta do início do século VIII. p. ~ leis lombardas. enquanto um dos dois códigos. 183-184. caso houvesse consenso entre as partes. eles não devem agir de outra forma que não seja a que está prevista nessas leis. fosse a dos romanos ou a dos lombardos. Um dos artigos do código do rei Liutprando deixa isso 1 l. em casos de herança. a lei lombarda já era válida p. li. Ver também Pohl-Resl. como nos casos de "Daviprand" e "Paulipert".

e apenas um. De acordo com uma escritura de 767. Dois casos analisados por Brigitte Pohl- Resl demonstram essa prática. que por acaso tinha o nome latino de Benenatus ("bem-nascido"). o uso de uma ou outra lei revelava muito pau- 10. p. uma mulher que tinha o bom nome lombarda de Gunderada. seria supérfluo. O artigo não estabelecia que os testadores não poderiam escolher entre os dois códigos.Resl.Pohl. já que em tais circunstâncias poderia haver outros envolvidos. mas. Em 758.. ou Gunderada não estava mais seguindo a lei romana. 11 Esses exemplos seguramente sugerem que. e o fato de todos serem donos da propriedade doada sugere que eram parentes. Entretanto um deles. para a lei romana. ou launegild. herdeiros em potencial. Para uma ação regida pela lei lombarda. 11. o consentimento do marido era normal e apropriado.lbid. por volta do século VIII. um grupo havia feito uma doação à abadessa de San Salvatore. "Lega l Practice an d Eth nic ldent ity". em Brescia. deixava a observação ao lado de sua assinatura de que deveria receber uma "retribuição".14 6 -<. de nascimento. 10 Aparentemente Be- nenatus havia sido o único da família a optar pela lei lombarda. oferecida a todos pelo rei Liutprando. 210. doou ou vendeu parte de uma propriedade com o consentimento de seu marido. ela e seu marido estavam agindo de acordo com o sistema legal lombarda. não era mais uma questão de sangue. que poderiam não con- cordar com o acordo. mas que era explici- tamente designada como "mulher romana" (Romana mulier). "de acordo com a lei lombarda". A lei havia se tornado um recurso. ou seja. Aparentemente. . Independentemente do significado exato da designação "mulher romana". ou sua romanidade pouco importava no contexto legal. O Mi to da s Nações seria inadequado. A escritura não faz distinção legal entre os doadores. As escrituras relativas à transferência de propriedades fundiárias revelam que a escolha da lei variava até mesmo entre indivíduos de uma mesma família.

os reis lombardos e supostamente a maior parte da população já haviam aderido à fé ortodoxa da maioria da população da Itália. Na época em que invadiu a Itália. Por volta do final do século VII.cas. que tentou impedir que os lombardos se con- vertessem ao cristianismo ortodoxo. Os significados dos dois termos variavam de forma complexa. sem grande drama ou conflitos.. . o exército lombardo era formado por cristãos ortodoxos. Ao contrário: independen- temente das origens biológicas dos habitantes da península. ou pelo menos um pagão que simpatizava com o arianismo. mas sim que haviam se tornado lombardos. nenhum dos outros reis tentou efetivamente estabelecer uma religião única para o seu povo. A fusão relativamente tranqüila dos romanos com os lombardos rnlvez tenha sido facilitada pela natureza heterogénea dos invasores. e uma parcela considerável da população lom- barda manteve sua fé pagã até o final do século VI.. por volta do século VIII a elite social se reconhecia como lombarda. 12. a fusão dos romanos com os lombardos não impli- cava a perda da identidade lombarda. ou de se seus ancestrais terem ou não chegado à Itália com Alboino.Chlotsuinda.. Apenas os lombardos tinham acesso ao poder e às riquezas. pagãos e arianos. 1981: 241 -258.12 Aparentemente Alboino era ariano.fosse uma cristã ortodoxa. Speculum 56. mas isso não significa que os romanos haviam se subordinado aos lombardos... Fanning. filha do rei í'ranco Clotário . No entanto. uma comis- são descreveu para o imperador Justiniano os lombardos como or- wdoxos. "Lombard Arianism Reconsidered". ou então simplesmente ignorá-las. Em meados do século VI. Seus sucessores eram arianos ou ortodoxos. Stephen C. por seu governo descentralizado e por suas identidades religiosas analogamente combinadas. Capí t u lo 5: Os último s bá rbar o s? . Com exceção do rei Autari (584-590). Já os duques podiam apenas apoiar ou se opor a práticas religiosas especí- f-i. embora sua primeira mulher . 147 co a respeito do que poderíamos chamar de identidade "étnica" dos proprietários de terras na Itália.

A respeito dos mercadores e dos que possuem riquezas em di- nheiro: que os maiores e mais poderosos tenham suas cotas de ma- lha e cavalos.. seu sucessor. . 1969: 221-268. 3. arimannus) era o homem livre arquetípico. aqueles que não têm mansões. Porém Tabacco não acredita que a assimilação já estivesse tão avançada. um escudo e uma lança . 72-73. em lombardo latinizado. ele admite que "talvez seja possível que. quanto àqueles que são seus inferiores.. Aistulfi Leges. devem ter um cavalo. essa identidade foi sutilmente invertida. devia se equipar como um lombarda. a convivência entre eles e os romanos remanescentes da classe dos proprietários de terras em um mesmo meio social tenha levado alguns romanos a aceitar a tradição jurídica do povo dominante . independentemente da realidade da época. escudos e lanças. pelo menos em teoria. Ser um homem de posses era ser um guerreiro: Que o homem dono de sete mansões tenha sua cota de malha e outros equipamentos militares. Wickham. Cambridge.. Para uma tradução. (96-97) 14. Mais recentemente. mas como os habitantes do terri- 13. p. que te- nham suas aljavas com arco e flechas. Early Medieval ltaly. Ser um lombardo era. Wickham se baseia nos dados e na análise de Giovanni Tabacco. seus seguidores devem ter cavalos.14 8 -<> O Mi to da s Na çõ e s A identidade lombarda se baseava na tradição da elite militar . e que tenha cavalos e outros arma- mentos. não como descendentes da população nativa da Itália. 1989. 228. 14 Em outras palavras. No código do rei Liut- prando (712-744). em seu Struggle for Power in Medieval ftaly: Structures of Politica/ Rufe. The Lombard Laws. trad. Da mesma forma. 13 Na época do rei Astolfo (749-756). o soldado (em latim. Essa era a imagem apre- sentada nas Leis Lombardas do século VIII.1. exercita/is.. não importando sua ascendência. quando a conversão dos lombardos ao catolicismo já estava praticamente concluída. ". nem mesmo como os seguidores da lei romana. escudos e lanças. 2.o grupo original que havia penetrado no reino -. Edictus Langabardorum. se uma pessoa era suficientemente rica. mas que têm 40 iugera de terra. ver Katherine Fischer Drew. E os "romanos"? Eles ainda aparecem no código de Astolfo. pelo fim do século VII. ser um guerreiro livre e um proprietário. "Dai possessori dell'età carolíngia agl i esceritali dell'età longobarda" Studi medievali x. p. Entretanto Tabacco continua duvidando de que tenha ocorrido uma "assimilação substancial legal e militar da popu lação romana livre pelos lombardos".

p. 48 e 20.. e sim os "estrangeiros" da parte do território italiano que ainda era controlada por Constantinopla. enquanto o termo romanus se tornava uma designa- ção territorial e política.). 4. anterior à con- quista da Itália pelos lombardos. Os godos. Edictus Langobardorum. e sua ocupação ao sul dos Pirineus se limitava a algumas uni- dades militares. nunca passaram de uma minúscula minoria em seu reino.cujos ricos comerciantes e mercadores eram então considerados lombardos -. The Lombard Laws. da qual toda a elite proprietária de terras pôde participar. Os romanos. havia a de raspar a cabeça do infrator e obrigá-lo a sair pelas ruas gritando: "desta forma sofrerão aqueles que negociam com os romanos sem a permissão real quando estamos em guerra contra eles". 81. 17.. intimamente ligada ao poder do Estado bizantino.. 16. havia sido levada a cabo. Capítulo 5 : Os últimos bárbaro s? . os soberanos góticos agiram de acordo com a tradição dos federados romanos. muito mais numerosos. capital do reino. Luigi Schiaparelli (Ed. 16 Uma nova etnogênese lombarda. . p. Codice Diplomatico Longobardo. os textos dos procedimentos jurídicos do século VIII se referem ao "tempo dos romanos" como um passado remoto. 228-229. A Espanha visigótica O reino gótico criado na Gália entre 418 e 419 seguiu o modelo de aliança federativa que vimos no capítulo anterior. fosse diretamente através de Ravena ou pelo papa.. Inicialmente estabeleceram-se na Gália. Durante os primeiros 50 anos. 15 Claramente os que são designados como "romanos" nesse caso não são os habitantes do reino lombar- do . Entre as ri- gorosas punições para essa infração. Roma. p. cuja população tem sido imprecisamente estimada entre 80 mil e 200 mil pessoas. Ver Drew. De modo semelhan- te. Aistulfi Leges. A lei proibia que os comerciantes negociassem com "um romano" sem a permissão real. continuavam 15. nos arredores de Toulouse. 149 tório italiano controlado pela autoridade imperial. 1929. 1.

As relações entre godos e romanos provavelmente eram regidas pelo código estabelecido por Eurico. p. 141-143. Wolf Liebeschuetz. Esse modelo foi desintegrado apenas em 466. válido para todos os habitantes do reino gótico. Alarico abordou duas questões cruciais para os galo-romanos de seu reino.1 de conduta foi uma conseqüência tanto da decadente situação po lítica na Gália e na Itália . em Pohl (Ed .). já que os interesses locais estavam sendo ameaçados não só pelo fim do pacto entre godos e romanos como também pela crescente imigração gótica que havia começado na década de 490. O rei Alarico II (484-507) liderou a tentativa de acordo.150 ---x. quando o rl'i Eurico desfez o tratado com o Império e conquistou efetivamen1 1• regiões do sul da Gália. uma cooperação efetiva começou a se formar entre as duas partes. pai de Alarico.. Porém os grandes pro- prietários de terras locais lideravam a resistência com o apoio de seus próprios contingentes e de seus aliados bárbaros. a leste. as autoridades militar e política prati camente não existiam no Ocidente. na Tarragona e em todo o vale do Ebro. Essa mudan<. principalmente no Ebro. A primeira delas era a necessidade de uma estrutura legal para seus súditos. Por volta de 460. e da Espanha. O conflito nã era apenas entre romanos e godos: em algumas regiões.como de um novo programa ideológi o dos godos. Contudo.. O Mito das Nações a viver tranqüilamente de acordo com suas leis. ao sul. O programa expansionista gótico gerou uma reação feroz po1• parte da população nativa. apesar do forte atrito entre os godos e a população sub- jugada. instituições e tr:1 dições. os godos haviam substituído comandantes romanos. O combate foi brutal.17 Mas em que leis seriam baseadas as transações entre os romanos? Alarico resolveu o problema ao publicar uma versão atualizada e abreviada do Código 17. . "Citzen Status and Law". e Eurico nada mais fez do qm• ocupar o vácuo de poder deixado pelos romanos. especialmente na Auvérnia e ao sul dos Pirineus. Strategies ofDistinction.

Elche. capital da estreita faixa litorânea entre os Pirineus e o Ródano. sob o comando do filho de um dos mais veementes líderes antigóticos da geração anterior. ainda sob o domínio dos godos. À me- dida que os sobreviventes do desastre. e com ele se extinguiram o reino gótico de Toulouse e a possibili- dade de uma rápida reaproximação entre godos e romanos. burgúndios e godos. Por volta de 507. apropriado para . sírios. com suas famílias e servos.~ situações mais básicas da vida no reino visigodo. em 438. conhecido como Breviário de Alarico. e havia comunidades nativas in- tactas após séculos de uma ocupação romana simbólica. atravessavam os Pirineus em direção à região central da Espanha.. A Espanha para a qual o exército derrotado transferia seu rei- no era uma unidade administrativa romana culturalmente variada. Em 506. Capítulo 5: Os últimos bárbaro s7 . combateu o fran- co Clóvis em Vouillé ao lado do rei gótico. apesar de ser ariano. Cartagena e Narbonne. Até mesmo os bispos ortodoxos se revelaram leais a ele. incluindo .{tlia entre francos. No entanto. o código legal básico dos romanos desde sua promulga- 1 ~ -to. Tortosa. Alarico conquistou a confiança dos proprie- tários de terras galo-romanos de seu reino. Alarico perdeu a batalha e sua vida em Vouillé. Além disso. que. africanos e judeus que viviam. um importante contingente de romanos.. era 11m código sancionado pela corte para seus súditos. os suevos continuavam governando a Galiza. estabelecidas antes do fim do domínio im- perial. não mais correspondiam às divisões geopolíticas do sul da ( . A segunda questão era a dificuldade criada pelas fronteiras das dioceses da Igreja. Alarico. em cidades portuárias como Tarragona. organizou o Concílio de Agde para reassegurar a hie- rarquia ortodoxa e resolver os problemas causados pelas novas reali- dades políticas do início do século VI. o reformulado reino gótico assumia um ar ainda mais desolado e hostil. O sumário. havia grupos significativos de gregos.1. C om essas medidas. Além da maioria de hispano-~omanos. em sua maioria. 151 I1odosiano.

Liebeschuetz. Um dos elementos do Código Teodosiano que haviam sido adap- tados e incluídos no Breviário de Alarico era justamente a proibi- ção desses casamentos. a romanitas li . p. Ao mesmo tempo. em Pohl (Ed. O derrotado exército góti 1. e o paganismo continuava bastante popular no século VII. teria pela fren1 1 um trabalho monumental se quisesse dar alguma unidade à penfn sula Ibérica. Sivan. 195-199. No século VI.. Strategies af Distinction. co11111 no vale do Ebro.). "Citizen Status and Law". proibindo casamentos entre bárbaros e romanos e preservando su:i fé ariana.. 19.152 --<> O Mi t o das Naçõe s a dos bascos no norte e ainda outras na Orospeda e na Cantáb. p. o que poderia ser prejudicial para os visigodos. 1. 19 Outros possíveis objetivos: a proteção da amea- çada identidade gótica (lembremos que os godos viviam em meio a 18. Nessas regiões rústicas e economicamente isoladas. p. a principal meta da proibição era evitar conspirações entre pr~vincianos romanos e seus parentes bárbaros. N.1 via significado pouco mais do que uma presença militar intermit ·11 te. para detalhes. tentavam isolar sua identidade. . os godos se preocuparam em consolidar sua posição n:1 Espanha. 189-203. talvez não tivesse a intenção de incluir os go- dos entre os barbari: provavelmente o verdadeiro objetivo era impe- dir que francos e romanos se casassem. O estabelecimento do reino visigodo na região central da Esp:i nha pode ser compreendido como o fim da migração gótica. estabelecida anteriormente por Eu- rico e Alarico. "The Appropriation of Roman Law in Barbarian Hands: Roman-Barbarian Marriage in Visigothic Gaul and Spain". os visigodos já haviam enfrentado fortes oposiç H durante o período da geração anterior. ver Hagith Sivan.1 localidades em que as tradições romanas tinham mais força. que havia batido em retirada pelos Pirineus em 507. apesar de terem que manter o modus vivendi com a eliu· romana proprietária de terras. "The Appropriation ofRoman Law". 139-140. No Código Teodosiano. formulada de modo ainda mais veemente. 18 A proibição no Breviário.

A proibição vigorou durante 50 anos. Certamente houve casamentos entre romanos e godos. p. Qualquer que 11. 111tre um godo poderoso e uma herdeira romana era um meio óbvio dr os godos se apropriarem das terras dos romanos. 149. 21 20. que sugerem que os godos começaram a se vestir (ou pelo menos a vestir seus defuntos) de uma forma que os distin- guia de seus vizinhos romanos. p. Ao longo do século VI._ 153 111 na população mais numerosa havia duas gerações) e a proteção dos ti r ·itos dos romanos. l·ndo entendida como uma forma de evitar casamentos entre godos 1• romanos. Entretanto a lideran- ça gótica considerava essas barreiras culturais essenciais e optou por fixa r novos limites.. também tinha em mente a preservação de sua identidade. que tinha proibido casamentos entre ca- tólicos ortodoxos e arianos. Liebeschuetz. '. 20 Não podemos determinar até que ponto essas tentativas de pre- servação da identidade gótica foram efetivas.. Como observou um historiador. após a fuga dos visigodos para a Espanha 1 proibição adquiriu um novo significado em um novo contexto. . a forte identidade ariana dos godos isolava-os da população ortodoxa romana e propiciava intrigas por parte dos bizantinos. embora os romanos gozassem de seus direitos à propriedade. Capítulo 5: Os últimos bárbaros7 . 141. Há evidências arqueológicas do início do século VI.. uma tentativa de manter a elite militar gótica separada da massa romana. continuavam de fora da esfera do poder político. "Citizen Status and Law". Liebeschuetz. "Citizen Status and Law". O arianismo constituía o segundo elemento da identidade gó- 1ica. assim como algumas conver- sões. o que deve ter estimulado tentativas ambiciosas de mudança de identida- de. "mas as leis góticas não definiam o que constituía um indivíduo godo". essas medidas tinham como meta a conservação da distinção entre godos e romanos. por exemplo. Além disso. já que o casamento. A liderança 1 ·ligiosa hispano-romana. 21. ou romanos do Oriente. até certo ponto forçado.sse o motivo original.

organizou um sínodo em Toledo que modificou a doutri- na ariana. Liquidou as revoltas em Córdoba e em Orense. Posteriormente Leovigildo tentou estimular a conversão dos católicos ao cristianismo gótico. por volta das décadas de 570 e 580. numa época em que os outros soberanos bárbaros ainda governavam de modo itinerante. e até certo ponto pacificou os bascos. começou a derrubar as tradicionais barreiras que separavam seus súditos. Leovigildo fez de Toledo capital permanente. Como a legislação da Igreja Católica proibia essa prática.154 --. e assim os bizantinos ocuparam as regiões litorâneas do sudeste da península. Sem dúvida. Para isso. enquanto os godos continuassem sendo uma elite militar isolada e pequena. dominou províncias distantes. considerada então um obstáculo para a união entre go- dos e romanos. Levando adiante seu projeto de centralização. essas uniões só seriam possíveis caso os católicos ignorassem as leis de sua igreja. O Mito da s Naç õ e s Provavelmente os reis góticos podiam decidir quem era e quem não era um godo. Entre 584 e 585. a monarquia penou com assas- sinatos. intrigas e movimentos separatistas.. seu controle sobre a Espanha seria bastante limi- tado. como a Cantábria e as Astúrias. todos os me- canismos que separavam os godos dos romanos começaram a ruir. O enérgico rei Leovigildo (569-586) fortaleceu e expandiu a auto- ridade real por toda a Espanha. Re- vogou a proibição da aliança matrimonial entre indivíduos de grupos diferentes. que seria tão sangrenta como a que havia destruído a Itália dos ostrogodos. e uma flexibilidade na definição devia ser necessária para manter o controle do exército gótico sobre o vasto reino. Os rebeldes chegaram a pedir a intervenção do imperador Justiniano. Por volta da metade do século. ameaçando iniciar uma reconquista. Seu verdadeiro objetivo provavelmente era encorajar os casamentos entre católicos e arianos. fazendo com que essa passasse a aceitar a paridade entre o Pai e o Filho (mas não entre Eles e o Espírito) e deixasse de exigir . derrotou o reino suevo da Galiza e o incorporou. Entretanto. sem uma base fixa para a corte.

Dietrich Claude. 23 A conversão dos godos destruiu as barreiras que impediam a as- similação sociocultural. e mais tarde em sua morte.). Entretanto. Nova York. Seu filho Hermenegildo descobriu um meio mais efetivo de consolidação. P. 1991. Stra tegies of Distinction. 22 . 18. seu irmão. 145. Ca p ít u lo 5: Os último s bár b aro s? . Durante uma revolta con- tra seu pai. citando a obra de Volker Bierbrauer e o utras. Cambridge. esperando ao que parece conquistar o apoio da maioria católica. p. King. Law and Society. 23. O vestuário e a cultura material dos godos e dos romanos. 1972. D. em Poh l (Ed. Law and Society in the Visigothic King dom .a "sociedade dos seguidores de Cristo. a identidade gótica permaneceu. Claramente o rei tentava d iminuir os obstáculos para que os romanos se tornassem godos. King. 24 Os últimos vestígios da coexistência de sistemas legais distintos desapareceram entre 643 e 644. assim como o termo lombardo na Itália havia se tornado uma designação de classe 22. 24. 25. Se a língua gótica ainda estava sendo usada fora da liturgia ariana (bastante improvável no século VII). A tentativa de Leovigildo fracassou por causa da forte resistência por parte dos bispos ortodoxos. Reger Collins. 155 um segundo batismo para a conversão. quando o rei Chin- dasvinto promulgou um código único para todos os habitantes do reino. Embora a revolta de Herme- negildo tenha resultado em seu exílio. sua meta era nada menos que a criação de uma nova sociedade unitária . que transcendia a tradicional dicotomia godo-romana". p. seguiu o mesmo caminho após a morte de seu pai. Segundo o próprio Recaredo. p . p. 11 9. Converteu-se ao catolicismo em 587 e liderou a rápida conver- são dos bispos arianos remanescentes e de toda a Igreja no Concílio de Toledo. unificaram-se. 132. _n ota 23. desa- pareceu rapidamente. em 589. converteu-se ao catolicismo. 25 Embora as distinções entre godos e romanos tivessem se desin- tegrado. que havia muito eram praticamente indistinguíveis. " Remarks abo ut Visigoths and Hispa no-Ro mans in t he Seventh Century". Early Medieval Europe. Recaredo. .

de acordo com um cânone do Sexto Concílio de Toledo. sen- do que 16 deles foram realizados entre 589 e 702. norte-africanos e outros grupos ortodoxos da Espanha foram compelidos para o populus ro- manorum. Porém esse processo deixou de fora uma parcela importante da população romana da Espanha: os judeus. podia alegar ascendência nobre. Quando o rei gótico abandonou o a~ianismo. esses dois "povos" puderam se unir. Os reis. Ser um "godo" significava ser um membro da elite do reino visigótico. 26 O rei Ervígio. houve uma simplificação da composição heterogênea da população. a identificação com o reino. Embora não fosse "etnicamente" um godo. Ver Claude. . era filho de um romano que havia sido exi- lado pelo Império Bizantino. Concilium toletanum 6. satisfazendo assim às exigências do concílio. A hierarquia católica apoiou veementemente essa perspectiva e os reis góticos que a sustentavam. de sangue nobre. O programa da unificação da socie- dade sob o catolicismo era conduzido pelos concílios de Toledo. 127--129.156 -e O M i to das Nações social e nível econômico. o poder. ser identificado como um indivíduo de ascendência gótica na Espanha significava pouco mais do que ser tido como uma pessoa ilustre. 26. o fato de os "romanos" da península nunca terem constituído uma população cultural e religiosamente unificada não havia sido levado em conta. realizado em 638. Mas isso significava apenas que os francos ou aquitanenses não poderiam reinar. deveriam ser "da gens góti- ca e possuir caráter meritório". 17. O que realmen- te importava era a riqueza. embora a conversão facilitasse a unificação dos godos e romanos. e não a ancestralidade. Durante as décadas de governo ariano. "Remarks about Visigoths and Hispano - Romans in the Seventh Century". era reconhecido como tal por ter nascido no reino visigótico. já que seu pai havia se casado com uma parente do rei Chindasvinto. Primeiro os suevos. p. vân- dalos. 244-245 . Contudo. p. Além disso. que assumiu o trono em 680. enquanto gregos. alanos e outros grupos arianos se fundiram em um único populus gothorum. sírios.

A adesão às leis judaicas relativas à alimentação. incluindo ba- tismos forçados e castigos brutais. eram considerados inimigos do cristianismo. No reino visigodo. Após a conversão dos godos. O deslocamento dos judeus em viagens passou a ser limitado e supervisionado pelo clero. No Império Bizantino. 27 A veemência com que os reis. enquanto o cristianismo ortodoxo se vinculava cada vez mais à romanitas. A Espanha visigótica então elaborou as mais precoces e tenebrosas leis contra eles. os judeus foram forçados a formar sua própria identidade isoladamente. Houve uma pressão avassaladora sobre os judeus. os judeus foram perdendo sua identidade romana. Os últimos bárbarosl .incluindo Julião de Toledo. apesar dessa pressão para que eles se convertessem. à circuncisão e ao proselitis- mo judajco passaram a ser punidos com açoitamentos. 130-144. Por fim. King. compelindo-os a entrar para a societas fidelium.. Desse modo. a mar- ginalização e a perseguição aos judeus foram ainda mais severas do que em Constantinopla. escalpamen- tos. Capítulo 5. até mesmo os judeus converti- dos. de acordo com a legislação real. apoiados pelo clero . Porém. que era de origem judaica-. o rei Ervígio ordenou a escravização de todos os judeus. as distinções entre esses bárbaros e os romanos desapareceram. convertidos ou não. 15 7 Ao longo do século VI. A cres- cente marginalização dos judeus em uma sociedade definida por uma identidade cristã unificada também ocorreu em território im- perial. os judeus passavam a ser cada vez mais marginalizados e perseguidos. . de modo semelhante. pp. o que os transformou em um povo desprezado e perseguido por seus vizinhos católicos. à medida que o cristianismo se vinculava ao Estado. e a alteridade dos judeus se tornou ainda mais evidente e perturbadora para os reis cristãos. buscavam eliminar os judeus contrastava categoricamente com a capacidade que tinham 27.. mutilações e o confisco de propriedades. Lawand Society.

e freqüc11 temente a própria estridência da legislação revelava a falta de apoi( 1 a essas medidas. um todo não parecia compartilhar desse ódio cáustico.certamente facilitou a rápida fusão dos francos com os romanos. que se baseavam no orgulho das populações por suas respectivas civitates. houve um processo semelhante. Do mesmo modo. sem grandes problemas nem tensões religiosas ou étnicas. uma afronta igualmente calculada à hegemonia dos ostrogodos. Clóvis e seus sucessores incorporaram as divisões administrativas das civitates romanas e estabeleceram suas capitais nos velhos centros administrativos do império. A conversão de Clóvis . ou até mesmo uma decisão pessoal de um rei guerreiro em busca da mais efetiva das divindades . Essa assimilação não implicou o desaparecimento das noções de identidade correlativas do reino. embora o estabelecimento do regnum francorum ampliasse a possi- bilidade da formação de novas identidades e vínculos de lealdade. O Mito das Na ç õ es de levar a cabo as medidas cruéis que decretavam. Nesse mundo. A população con 11 . longe dos centros culturais · políticos do império.11 esse "novo" povo. A identidade franca até o século VIII Ao norte do rio Loire. Assim as mesmas civitates continuaram . o processo foi mais rápido e efetivo do que em outros lugares. que suas diretrizes políticas haviam criado. eviden- tes no século V. O golpe de Estado dos francos em nada diminuiu esse regionalismo. nos séculos VI e VII. deix 11 um legado terrível na Espanha.158 . As identidades regionais. onde essa preocupação fanática co111 a pureza do sangue ressurgiria na Idade Moderna. Mas a determinação dos governantes de erradi . tiveram continuidade no mundo franco. com a maioria da população adotando a identidade d uma minoria reinante. os filhos e netos de Clóvis expandiram sua hegemonia em direção ao leste.fosse uma medida calcula- da para conquistar o apoio dos galo-romanos contra os visigodos.

que incluía regiões a leste do Reno.intimamente vinculadas às suas cidades. Nessa região.1s tropas eram reunidas de acordo com as localidades. independentemente de suas ascendên- cias ou vínculos militares. que abrangia o antigo reino dos burgúndios ao longo do Ródano e boa parte da Gália até Orléans.). com as elites locais . especialmente as das unidades militares bárbaras ·stabelecidas pela Gália. "Volkstum und Volksbewulltsein im Frankenreich des 7. sua capital. três reinos francos emergiram: o reino da Nêustria. p. Reims e posteriormente Metz. vol. Paris. as elites rapidamente se re- conheceram como francas.o. Enquanto Clóvis e seus descendentes in- corporavam os reinos francos rivais e outros reinos vizinhos a leste e ao sul. O território entre o Loire e o Reno continuou constituindo o centro do poder franco. em Eugen Ewig.. .1. Dessa fo rma. assim como Champagne. e na qual os francos haviam emergido para defender e então substituir a autoridade im- perial. e o da Borgonha. esses pequenos assentamen- 1os militares ainda conservavam sua identidade específica. Tours e Rouen. Munique. exatamente 1 orno no final da Idade Antiga. os chamava- ri de Langres. tinham nomes francos e se reconheciam e 28.. Ao longo do século VI._ 159 r ndo o foco do orgulho e das identidades regionais. A organização militar merovíngia reforçava esse regionalismo. ela também prolongava outras formas de identidade do final do 1mpério Romano. mas apenas um dos muitos que existiam. Cap ítulo 5: O s último s b árb ar o s? . o da Austrásia. o bispo romano que havia batizado Clóvis. já que .. região central que abrangia Soissons. Spiitantikes und friinkisches Gal/ien. Jahrhunderts". Eugen Ewig. Hartmut Atsma (Ed. aprendiam a lidar com as identidades regionais. os scoti de Besançon e os suevos de Courtrai. No século VII. os taifalos de Poitou. mesmo com seus seguidores em posições de poder.formadas pe- los descendentes dos antigos aristocratas provincianos e pelos novos . até mesmo os descendentes da família de Remígio de Reims. 28 O reino de Clóvis não era o reino dos francos. 234. Em meados do século VI. havia os saxões de Bayeux.1gcntes do rei franco . Além dis- . 1976.

como parte da crescente regionalização do mundo franco. provavelmente no início do século VII. Em outros lugares. foram reformuladas e ampliadas por um:1 série de soberanos francos ao longo do século seguinte. Partes dessa lei foram escritas pela primeira vez no iní ín do século VI. Tudo isso sugere que algum tipo de código legal havia sido criado para o reino austrásio. . · 30. Leeds. 1994. Em regiões como a Borgonha e a Aquitânia. Wood (eds. a organização político- militar dos francos criou novas identidades regionais. "Lex Scripta and Verbum Regis: Legislation and Germanic Kingship from Euroic to Cnut". nas tradições bárbaras e romanas das aristocracias locais. A versão final da Lex Ribuaritt é um texto carolíngio revisado por Carlos Magno. em P. a Lei Sálica geralmente era tida como :1 lei dos que viviam na parte ocidental do reino franco. p.160 . A população era governada por uma lei territorial. e dá a entender que havia uma lei ripuária não escrita além do Código propriamente dito. 29. Early Medieval Kingship. a chamad. p. N.). NaAustrásia. ge- rando também novas entidades políticas e sociais.1 Lei Sálica. lan Wood. As elites da Nêustria e da Austd~i . Patrick Wormald.i se consideravam um único povo. originalmente destinada~ aos seguidores de Clóvis. na Nêustria. e até os conflitos mais violento· entre elas eram vistos como guerras civis. 108. 1977. Na segun da metade do século VII.2 9 As versões escritas da lei. Além das fronteiras do Loire e do Reno. 30 Entretanto o texto revela influências do Código Burgúndio e da Lei Sálica. em parte. baseadas. os éditos reais e o direito consuetudinário termina- ram resultando no Código Ripuário. O Mito das Nações eram reconhecidos como tais. Harlow. H. e não como guerras en t 11 povos. 108-114. ou seja. TheMerovingian Kingdoms 450-751. Sawyer e 1. os francos impuseram seus códigos legais e governantes. e alguns susten- tam que o código completo data apenas do final do século VIII. antigas tradições legais e estruturas so- ciais foram adaptadas ao novo sistema franco.

Viena.. Wood. 1990.. o rei burgúndio Sigismundo promul- gou um código legal. mas também havia leis romanas adaptadas para questões concernentes apenas aos romanos. e foi ao mesmo tempo uma evidência e um agente da etnogênese dos burgúndios. 1993: 1-28. dos costumes burgún- d ios e da lei comum romana. Patrick Amory. o populus noster ("nosso povo") referido por Sigis- mundo eram os habitantes do reino. em Herwig Wolfram e Walter Pohl (Eds. 1. Uma rixa entre um tesoureiro merovíngio e um couteiro. elaborado a partir de uma combinação de éditos reais anteriores. p. Gregório de Tours. 2. Dessa forma. o código considerava todos os não romanos como um único "povo". Os conquistadores francos incorporaram o reino burgúndio a um reino mais amplo. a aristocracia local manteve com zelo um sentimento identitário burgúndio. "Meaning and Purpose of Ethnic Terminology in Burgundian Laws". que abrangia a maior parte da região ao redor de Orléans. foi resolvida de acordo com a lei burgúndia relativa aos duelos. sem com isso eliminar sua aristocracia ou suas 1rad ições legais preexistentes. Libri Historiarum X. 33. por exemplo. 16 1 A conquista do reino burgúndio transformou a região em um s116-reino franco. deixando-as intactas ao longo dos séculos VI. Typen der Ethnogenese unter besonderer Berücksichtigung der Bayern. Essa região do alto Ródano havia sido governada por um exército bárbaro heterogêneo .. 32. 33 Ao longo dos séculos VII e VIII. vol. antiga ca- pital burgúndia.. o Liber Constitutionum. preserva- do em sua singular tradição legal. 55. Contudo respeitaram as tradições sociais e legais dos burgúndios. 1O. p. lan Wood.estabelecido na região do Jura por volta de 443. VII e V III.. 31 Uma das principais metas do código era regular as relações entre os bárbaros e os romanos do reino. "Ethnicity and the Ethnogenesis ofthe Burgundians". Em 517.). Early Medieval Europe. Ca p ítul o 5 : Os ú lt im os b á rb a ros? . . quando levada à Justiça em Chalon-sur-Saône. fossem romanos ou bárbaros. sob o comando do romano Aécio que havia penetrado nas regiões de Viena e de Lyon nas últimas décadas do século V. 32 Na época de sua compilação. "Ethnicity". 55-69. 31.

como na Alamannia. que moldavam. a sociedade era basicamente . Nos séculos IV e V. mas todas ortodoxas e ligadas ao poder central franco --:. como na Alamannia.cada uma delas com sua própria lei e sua própria aristocracia. tratavam de tirar proveito da situação. A lei romana. Assim os chefões locais estabele- ciam alianças poderosas e. na Turíngia e na Bavie- ra. como o Breviário de Alarico. estabelecidos por alianças entre oficiais francos rebelados e autoridades locais.acarretou umá transformação fundamental na forma como a terminologia étnica havia sido usada durante séculos. e dificilmente envolviam algum tipo de sentimento nacionalista ou étnico. os governadores francos tendiam a "se tornar nativos". en- quanto as autoridades centrais estavam ocupadas resolvendo os pro- blemas do reino.comandantes regionais de origem franca . Ao sul do Loire. Os merovíngios governavam essas regiões por meio de duques . fosse pelo Código Teodosiano ou por suas formas abreviadas. poderosos movimentos separatistas estabeleciam principados virtualmente autônomos. mas mantidos por vínculos de parentesco e de patro- nato com as aristocracias locais. Processos semelhantes ocorreram em regiões a leste do Reno. os patrícios) desenvolviam poderosas identidades regionais. estabelecendo novos principados. vinculando-se às identidades das famílias aristocratas regionais. na Turíngia e prin- cipalmente na Baviera. na Aquitânia e na Provença.162 ---e O Mito das Nações Essa regionalização foi ainda mais marcante nas regiões conquis- tadas a leste do Reno.instalados pela força de suas tropas. onde os agentes francos eram rapidamente incorporados às aristocracias locais. Entretanto esses movimentos eram aristocráticos. estabelecia uma lei territorial uniforme para todos. Certamente havia atritos e. enquanto juravam lealdade a longínquos reis francos. A criação de poderosas identidades regionais . dividiam e reconstituíam os elementos regionais. e os condes e duques (na Provença. Esses ducados não eram formados apenas por povos preexistentes do período das migrações: eles eram criações dos francos.

251.e não de acordo com a língua.. "Volkstum und VolksbewuBtsein". cada vez mais. . no qual o termo é aplicado ao exército franco de Pepino I. do século VIII. historiador do século VI. p. Ewig. Assim o termo barbarus começou a adquirir um novo significado. Com o desaparecimento dos bárbaros no Império. como no livro dos milagres de santo Austregésilo.. uma identidade coletiva muito mais estável do que a miríade de nomes "tribais" que geralmente eram vinculados a suas famílias e seus exér- citos. passando a ser usado para designar os estrangeiros e. o termo barbari podia designar os alamanos pagãos ou os lombardos arianos. Embora na Antigüidade clássica o termo bárbaro fosse depreciativo. apesar de cristãos. com exceção da minoria judaica. comumente visto como um representante da aristocracia galo- romana. Pode-se dizer que esse fato ocorreu ainda mais rapidamente. essa distinção não significa- va mais nada. Na biografia de Columbano. escrita no primeiro quarto do sé- culo VII. Gregório de Tours._ 16 3 dividida em romanos e bárbaros. estava unida por uma única fé.. os romanos também deixaram de existir. ou até mesmo positiva. nunca usava o termo para designar a si mesmo. essa designação é claramente um comentário depreciativo a respeito de inimigos vio- lentos que. Por volta do início do século VII. os estrangeiros pagãos.34 Q uando o termo barbari era usado para designar cristãos. os exércitos federados do final da Antigüidade aceitavam o termo e o consideravam uma designação neutra. sua família 34. com os costumes ou com a lei. A cidadania romana era insignificante. de sua identidade não romana. Toda a socieda- de. assim como por indivíduos cuja própria vida revelava a falta de correspondência entre essa classi- ficação simplista e a realidade. mas nunca os francos ou os burgúndios. agiam como pagãos. uma perspectiva dicotômica do mundo aceita por ambos os grupos. Capítulo 5: Os ú ltimo s bárbaro s? . As populações regionais eram divididas de acordo com a classe social .

os francos e alamanos. especial- mente nas descrições convencionais das origens das famílias. 1989. ou se referia à classe senatorial. e unidades saxônicas haviam servido ao exército romano durante muito tempo. 275-291.. 35 Em outras fontes francas.. e Patrick J. "Foreigners in t he History of Gregory ofTours". no oeste.. Por fim.. o termo se tornou uma designação regional. Mitteilungen der anthropologischen Gesellschaft in Wien. . 36.164 . O Mito d as Naçõ es ou os que considerava como seus iguais. Ewig. p. que serviam de introduções à biografia dos santos. recorria à eti- queta regional que vigorava desde o século III. a designação é usada com mais liberdade. O novo mundo bárbaro O vácuo de poder deixado pela integração dos lombardos e outros povos ao Império durante os séculos V e VI foi rapidamente preen- chido por novas sociedades: a leste e ao norte do Reno. pelos saxões. os saxões eram os que mais se assemelha- vam aos seus predecessores. 36 Por volta do século VIII. Não há romanos na história de Gregório. na região do baixo Danúbio. um bando de saxões apareceu na Gália. 247-248. Na parte ocidental do Império Romano. No século V. Desses novos povos. "Ethn ic ldentity As a Situationa l Construct in the Early Middle Ages". nos Alpes. em Walter Goffart. o termo romanus passou a ser usado no reino franco da mesma forma que no reino lombardo: para designar os indivíduos da cidade de Roma. vai. Geary. Rome's Foi/ and After. e aos habitantes da Récia. p. 113. comandado por Odoacro. Walter Goffart. Piratas saxões da costa do mar do Norte pilhavam o Império desde o século III. geralmente restri- ta aos aquitanenses. pelos ávaros e eslavos. Londres. "Volkstum und Volksbewufltsein". 1983: 15-26. não mais havia romanos ou bárbaros. em meados do século IX. Esses "novos" bárbaros restabeleceram a bipolaridade que havia se desintegrado no território imperial. Em vez disso. supostamente o mesmo rei bárbaro que 35. mas o fizeram de um modo muito diferente e mais duradouro.

1991. que provavelmente era de origem huna. 38 Na Britânia. 165 mais tarde governaria a Itália. "Pagan ism and Christianity". ver Patrick Sims-Williams. e não saxônica. passaram a dominar o lado leste da província. Esses saxões. Pohl. 37 Como os francos e os alamanos. Por vezes. pelos monges ir- landeses e pelo trabalho pacífico dos cristãos nativos. não constituíam um povo "antigo". enfrentando (e ocasionalmente se aliando a) principados britano-romanos igualmente instáveis. que muitos acredita~ ser derivado de sax. os únicos guerreiros que usavam essa arma. de forma nenhu- ma. 3.associados a outros saxões oportunistas. já que eram obrigados a fornecer gado como tributo e defender o território franco dos vênedos. que eram pagãos.esses bandos guerreiros cons- tituíram pequenos principados. mas bandos descentralizados que operavam de modo independente. Avon. The Coming of Christionity to Anglo-Saxon England.n Englând. Henry Mayr-Harting. juros. Cambridge. Gregório de Tours. recrutados pelos gru- pos locais para defender a ilha após a retirada das tropas romanas no início do século V. Os últ i mo s bárbaro s? .. não sugere uma identidade consistente. "Telling the Difference: Signs of Ethnic ldeníity". Os francos consideravam os saxões um povo dependente. francos e frísios do continente . Eles não eram. tornaram-se cristãos ao longo do século VIL Eles foram convertidos pelos missionários romanos. que. 37. anglos. 600-800. Para uma abordagem do papel da população naÜva na conversão. 3. li. como os ro- manos da Itália lombarda. Ao longo dos séculos VI e VII. .. p. cap. 39. 18. eles aparentemente tiveram uma relação com o mundo franco notavel- mente análoga à relação que os francos haviam tido com o Impé- rio Romano dois séculos antes. 1990. que habitavam regiões ainda mais distantes. uma espada curta de um gume. os reis merovíngios organi- 37. Gradualmente .39 Os saxões do continente mantiveram sua organização descen- tralizada e sua identidade pagã.. ed. 38. Capítulo 5. da Espanha e da Gália. 54-86. p. alguns dos federados saxões. Religion and Literature i[I Weste. O nome "saxão". fundiram-se com seus conquistadores para formar uma nova sociedade.

tiveram que desenvolver formas complexas de organização e comunicação. 1997). Pohl. Porém os 40. Przemyslaw Urba nczyk (Ed . p. Essa confederação das estepes. Wood. flexibilidade e eficiência da cavalaria . Munique. Die Awaren. em Origins ofCentral Europe. que lhes permitiam viver em regiões praticamente inabi- táveis. 163-1 64. p. . 41 Eles se assemelhavam em muitos aspectos sig- nificativos a outros povos das estepes que surgiram na Europa no primeiro milênio. 1988. 18-19. semelhantes às orga- nizadas pelo imperador Juliano contra os francos e alamanos. as- sim como a formação de alianças com grupos semelhantes. Como se deslocavam centenas de quilômetros em migrações sazonais. 41. fugindo da expansão turcomana na região central da Ásia. Assim os imperativos do meio geraram formas ca- racterísticas de organização sociopolítica. os saxões se uniam aos francos em campanhas mili- tares. Pohl. 42. entre 558 e 559. estabe- lecendo rapidamente imensos impérios. Ch. "The Ro le ofth e Steppe Peo pl es in East ern and Central Eu ro pe in th e First Millennium A. 40 Os saxões provavelmente viam a si mesmos e sua relação com os francos de uma forma bem diferente.". no final do século VIII. Se os saxões tomaram o lugar dos francos e dos alamanos na Europa Ocidental. apareceu na bacia dos Cárpa- tos em 567 e. Mobilidade. Já tratamos dessa questão quando abordamos o efêmero império dos hunos de Átila.D. como quando formaram uma coalizão contra o duque franco Carlos Manel.) (Wa rsaw. 42 Esses nômades. The Meroving ian Kingdoms. p. propondo lutar contra os inimigos do Império em troca de subsídios anuais. O Mito das Nações zavam expedições punitivas contra os saxões. Durante o reinado do rei franco Carlos Magno. suas próprias tradições e sua religião. eles mantiveram uma independência bravia.166 . . desenvolveram técnicas de sobrevivência altamente espe- cializadas. enviou um emissário ao imperador Justiniano. que viviam em comunidades pastoris. Ein Steppenvolk in M itteleuropa 567-822 n. Em outras ocasiões. 65-78. os ávaros assumiram o papel dos godos e dos hunos no leste.eram essenciais para a sobrevivência. no início do século VIII.

rei ou khagan dos ávaros. A confederação ávara foi desintegrada sem deixar mais do que ricos túmulos no leste da Áustria e na Hungria. 43 . formado por cavaleiros ávaros e navios eslavos. Ta- manha catástrofe poderia sem dúvida significar o fim da hegemonia ávara. foram capazes de formar um reino . (N .que durou dois séculos e meio .. Um século mais tarde. e os ávaros foram derrotados. Ele penetrou no centro do reino ávaro. conquistou Sirrniurn. os ávaros desapareceram da história. alguns dos grupos subjugados tentaram se desgarrar após o desastre.relativamente centrali- zado. 167 ávaros. ao contrário de seus predecessores.) . na vitória e na derrota. monopolizando o nome "ávaro" de modo extraordi- nário. entre Bizâncio e os reinos ocidentais remanescentes.. sem a necessidade de urna grande batalha. O cerco durou pouco mais do que urna semana. Durante cerca de 20 anos. na Sérvia e Montenegro. cavaleiros ávaros invadiram a Baviera e a Itália. Em 582. Bajan firmou sua autoridade na Panônia. destruindo a confederação rnultiétnica. promoveu um ataque à cidade em sincronia com aliados persas.. mas teve um papel fundamental na criação do fenôrneno mais importante e duradouro do Leste Europeu: a rápida e completa eslavização dessa parte do continente e da Europa Central. De fato. combateu os utiguri. T.43 antiga capital ilíria. até que finalmente se depararam com urna força superior. Atual Sremska Mitrovica. mas o núcleo. re- presentada pela figura de Carlos Magno. Capítulo 5: Os últimos bárbaros7 . os antae. Seus filhos se sentiram fortes o su- ficiente para desafiar a própria Constantinopla: em 626. os gépidas e os eslavos.. institucionalizado e rnultiétnico. Após a retirada dos lornbar- dos. Em um período de apenas urna geração. atual Hungria. um grande exército. até estabelecer urna grande confederação rnultiétnica.. Os ávaros realizaram essa façanha porque conseguiram estabele- cer urna hegemonia sobre os diferentes povos da fronteira balcânica do império. Bajan. apesar de reduzido. permaneceu fir- me.

Essa transformação ocorreu sem grande alarde. Foi um processo que não deixou evidências escritas dos próprios eslavos. Esse debate sobre a origem dos eslavos é provavel- mente tão insignificante quanto o debate sobre a origem dos outros povos bárbaros. Há muito que os acadêmicos debatem a respeito da "região origi- nal" dos eslavos. assim como as províncias impe- riais dos Bálcãs e do mar Negro. Sendo assim. O Mito d as Nações Entre os séculos V e VII. suas estruturas políticas e sociais.suas origens. Apesar disso. e seus líderes raramen- te dependiam do ouro romano para obter sucesso. a eslavização foi muito mais efetiva do que as ocupações dos godos. as tropas bárbaras federadas incorpora- ram os sistemas de governo. Teodorico ou Clóvis. mesmo tendo modificado completamente o significado desse termo. sem migrações heróicas nem batalhas desesperadas. Os migrantes eslavos não adotaram o sistema de tributação. já que eles foram formados pela fusão dos povos que as fontes romanas chamam de citas ou sármatas com as popu- lações germânicas das regiões a leste do Elba. Na Europa Ocidental. A organização eslava não se baseava nos modelos imperiais. Quase tudo a respeito dos antigos eslavos . e sua dinâmica interna foi ainda menos notada e compreendida pe- los cronistas bizantinos e latinos do que a etnogênese germânica no Leste Europeu. deixadas para trás pe- las elites militares germânicas que haviam se deslocado em direção ao Império.. a religião e os assentamentos dos roma- nos. as regiões a leste da vasta área que havia muito era chamada de Germânia. passa- ram a ser controladas pelos eslavos.168 -. sem histórias de reis poderosos como Átila. dos francos ou dos saxões.tem sido um grande enigma. a agricultura. do Báltico ao Mediterrâneo. os efeitos da eslavização foram muito mais profundos. e terminaram se tornando inteiramente romanas. seu tremendo su- cesso . a or- ganização social ou o sistema político dos romanos. Ultimamente os acadêmicos têm sustentado de modo convincente que o ·"nascimento" dos eslavos ocorreu ao longo da .

incorpora- vam as populações nativas às suas estruturas sociais e lingüísticas. 22. Capítulo 5: Os últimos bárbaros7 e--. 45. The Making of the 5/avs: History and Archeology of the Lower Danube Region. 2001. DieAwaren. assim como. Procópio. A cronologia dos 44. conquistadores. Cambridge. História das Guerras VII. séculos antes. Contudo a expansão eslava era descoordenada e radicalmente des- centralizada. e Florin Curta. a língua e a cultura material eslavas apresentavam uma notável unidade em todo o Leste Euro- peu. No século VII. que se contrapunha radicalmente à total falta de centraliza- ção política. p. 169 fronteira bizantina. ver especialmente Pohl. agricultura de pequena escala e pequenas unidades sociais com organizações distintas. os eslavos não chegavam apenas como exércitos cobradores de tributos. 45 Essa descentralização talvez fosse o segredo do sucesso dos eslavos: como não tinham reis ou grandes líderes. Com seus arados leves. por fim.44 Entretanto a cultura eslava era muito mais ligada à terra e à agricultura do que a dos movediços exércitos fran- co e alamano. Suas ocupa- ções eram lentas. são discuti- das com a população". mas vivem há muito sob uma democracia. guerreiros-colonizadores eslavos cruzaram o Da- núbio e gradualmente foram ocupando os Bálcãs. historiador bizantino do século VI. . derrotar ou obrigar a servir ao império. não encontrando meios de destruí-los ou incorporá-los ao sistema imperial. 94-128. porém violentas. ca. Até a Baixa Idade Média. mas também como fazendeiros que cultivavam as terras que con- quistavam. Mas com certeza eles também eram conquistadores. sejam boas ou ruins. havia ocorrido com os francos e alama- nos ao longo do Reno. sob as pressões militar e econômica do Império. e conseqüentemente todas as questões relacionadas ao bem-estar do povo. que acabaram se tornando federados romanos e. Após suas conquistas. descreve como eles "não são governados por um único homem. xiv. os bizantinos não tinham a quem subornar. Procópio. 500-700 AD. Sobre as origens dos eslavos.

durante o cerco de Constantinopla. que já estava em um estágio bas- tante avançado. que logo seriam seguidas por exércitos eslavos sob o comando dos ávaros. e seu modelo de etnogênese pos- sibilitava uma maior concentração de poder e uma subordinação mais efetiva de indivíduos e grupos. suprimentos e mulheres. Os ávaros se apropriaram dos quartéis de inverno dos eslavos domi- nados.170 -<> O Mito das Nações fatos é incerta. mas os eslavos geral- mente os matavam ou cobravam resgate. ou então eram incorporados à classe camponesa. presenteando seus líderes em troca de tropas e apoio. Contudo eles tratavam algumas comunidades eslavas com certa reserva. A ocupação ávara pode ter aumentado a pressão eslava na fron- teira bizantina. As conquistas eslavas. Os ávaros foram fundamentais nesse processo. Já os cronistas ocidentais consideraram os . Os cronistas bizantinos descreveram os eslavos como vítimas da opressão dos ávaros. e não poderia ser diferente: o processo foi tão des- centralizado e fluido que dificilmente poderia ser cronologicamente determinado ou documentado. Nessa sociedade de solda- dos-fazendeiros. exigindo cavalos. Isso talvez explique as primeiras invasões da península Balcânica pelos eslavos na segunda metade do século VI. A organização hierárquica em larga escala dos grupos eslavos foi estabelecida por estruturas de comando externas. não havia opções. Em tempos de guerra. já que bandos eslavos fugiram desse novo império das estepes. ao contrário das germânicas de dois séculos antes. As contra-ofensivas bizantinas não puderam interromper o processo. de acordo com as necessidades. Outros grupos foram definitivamente incorporados ao reino ávaro. não significavam apenas a transferência da renda tributária: alguns soldados capturados conseguiam fugir. A eslavização de um amplo grupo que habitava entre o Elba e o baixo Danúbio já estava bem avançada quando os ávaros chega- ram. utilizavam os eslavos em sua infantaria e. utilizaram-nos em sua esquadra. Os líderes podiam ser germânicos ou centro-asiáticos.

estabelecido próximo aos fran- cos.. e Bizâncio. o dos croatas "brancos". DieAwai-en. Para isso. Capítulo 5: Os últimos bárbaros? . durante a crise do reino ávaro. muitos grupos da periferia do reino ávaro se rebelaram. dando especial aten- ção aos seus vizinhos eslavos. Constantino Porfirogêneto. organizou com muito sucesso um grupo de eslavos de origens distintas que havia se rebelado contra os áva- ros. foi provavelmente apenas uma de várias revoltas contra o khagan derrotado. que é quase inteiramente basea- da na crônica do imperador bizantino Constantino Porfirogêneto (905-959). e então ele governou um reino eslavo durante mais de 30 anos. os eslavos o elegeram rei. caps. Provavelmente as duas perspectivas es- tavam corretas. É impossível destrinchar completa- mente a história antiga dos croatas. 47 Constantino escreveu um tratado destinado aos seus sucessores sobre como administrar o Império. 4. que se seguiu à tentativa malsucedida dos ávaros de conquistar Constantinopla. Ele elabora uma genealogia mí- 46. provavelmente sob influência do malsuce- dido ataque a Constantinopla em 626. Poh l. De Administrando lmperio. 48. De acordo com uma fonte ocidental. As estruturas militar e política dos ávaros estabeleceram o con- texto da etnogênese de alguns grupos eslavos específicos. Fredegarius. 47. estabelecendo unidades políticas autô- nomas entre os francos. 17 1 dois "povos" como aliados. 29 e 30. Os vários grupos que no século X eram conhecidos como croa- tas e sérvios provavelmente foram formados nesse mesmo período. Na primei- ra metade do século VII. a oeste. Na região que provavelmente correspondia à atual República Checa. mas não podemos saber até que ponto sua crônica corresponde aos fatos. Constantino se refere a dois grupos de croatas. . 256-261. baseou-se no conhecimento de sua época e em documentos seculares (atualmente desaparecidos) dos arquivos imperiais. 46 A separação dos eslavos de Sarno da confederação ávara.. e o dos croatas da Dalmácia. a leste. Sarno. um franco. pp.

p. . e também como os "croatas" surgiram em regiões distintas do reino ávaro sem que precisemos supor grandes migrações ou uma família de irmãos. 52-53. The Early Balkans: A Criticai Survey fro m the Sixth to the Late Twelfth Century. Na verdade. Eslovênia.172 -G O Mit o das Naçõe s tica: os croatas habitavam "além da Baviera". Ann Arbor. 49. mas uma família de cinco irmãos e duas irmãs se separou deles e conduziu seu povo até a Dalmácia. Die Awaren. pôde designar um "povo" eslavo sem a preexistência de um povo croata não eslavo. 1983. que segundo ele habitavam um território além dos hunos. Cons- tantino também escreve sobre os sérvios "brancos". falharam. incluindo as regiões das atuais Alemanha. que fazia fronteira com o reino franco e com a Croácia Branca. Para um resumo do relato tradicional. ver John Fine. o qual relaciona aos croatas da Dalmácia.49 Mais uma vez ele relata uma lenda genealógica: dois irmãos. a princípio. 266. formaram unidades políticas distintas com identidades étnicas inventadas e genealogias fantasiosas. 48 Isso explica como esse termo. o termo "croata" era usado em várias partes da periferia do antigo reino ávaro. ao longo dos séculos VIII e IX. solici- tam proteção ao imperador Heráclio. p. que não é eslavo. Assim como pressupõe a existência de um povo conhecido como croatas "brancos". identificados como "croatas" por suas lide- ranças ou organizações. Poh l. às vezes antedatando a chegada dos ávaros. uma camada social ou um posto regional no reino do khagan. O termo provavelmente designava. Certamente o termo "croata" não aparece em nenhum docu- mento de antes da segunda metade do século IX como designação de povo ou tribo. liderando metade do povo. Provavelmente. As tentativas de atribuir algum tipo de unidade étnica a esses grupos. Grécia e da própria Croácia. Morávia. que então assenta os sérvios 48. onde derrotaram os ávaros e então se subdividiram em diferentes grupos. República Checa. esses grupos sepa- ratistas do reino ávaro. Áustria.

173 na província de Salonica. T. como os kutriguri. que corresponde à atual Sérvia. foram atacados e assassinados a mando do rei.. quando pedem permissão ao comandante Heráclio em Belgrado. 51 No período da geração seguinte. aos guerreiros das estepes centro-asiáticas. Kuver. . podemos compreendê-la como parte do rápi- do processo descentralizador que desintegrou o reino ávaro após sua derrota. dos onoguri. Capítulo 5: Os ú l timos bárbaros? . aos hunos. depois de terem se dispersado para o in- verno.. ao sul de 50. Ao mesmo tempo. pertenciam. Novamente. . revoltou-se contra os ávaros e liderou um grupo heterogêneo de descendentes de prisio- neiros romanos que haviam sido assentados no reino ávaro. Embora essa lenda possa ser questionada por falta de evidências históricas. 72. No entanto. refugia- dos búlgaros. 4. ganham um território. a diversidade dos búlgaros é explicada por uma lenda: cinco irmãos. filhos de Kuvrat. Além disso. Os búlgaros tiveram origem semelhante. mas.. na perspectiva dos romanos. assim como os grupos cujos nomes termi- navam em -guri.) 51. Fredegarius. 50 Posteriormente eles decidem retornar à terra pátria e. rebelaram-se contra os ávaros em 630 e unificaram os búlgaros nos arredores do mar Negro. Provín cia situada no terri tório da Grécia at ual. Os romanos haviam encontrado povos com esse nome nos arredores do mar Negro desde o século V Os búlgaros. os sérvios também surgem no período da derrota ávara em Constantinopla.um líder búlgaro. após uma revolta malsucedida na parte ocidental do reino. ela também explica a presença dos sérvios em regiões distintas do reino ávaro e justifica o surgimento de um novo "povo" nos Bálcãs que possui um nome não eslavo. após a derrota de 626. assim como no caso dos croatas. D e acordo com essa lenda. onoguri e oguri. (N. os que se rebelavam contra o khagan eram geralmente chamados de búlga- ros. ou seja. onde foram bem recebidos pelo rei franco Dagoberto.. fugiram para a Baviera.

Já os habitantes das regiões da Itália controladas pelo papa ou pelo Império Bizantino.174 -. como sempre. assim como os da Gália ao sul do Loire. descritos nas raras fontes históricas do período.existia antes das revoltas contra o rei ávaro. até a conquista da península Ibérica pelos exércitos berberes e árabes em 711. embora essas fossem designações relativas às províncias. Os soberanos francos comandavam turíngios. e não tribais. embora seus mitos genealógicos explicassem suas origens mais em termos étnicos do que em termos de organi- zação política. Ao longo dos séculos seguintes. Naturalmente essa terminologia provinha de séculos anteriores. no norte da Itália. De qualquer modo. Para os povos mais significativos. eram romanos. 50 anos antes. . Demetrius. embora as realidades sociais que a designavam já esti- vessem bastante alteradas. "kuver" e "croata". desenvolveram-se a partir de unidades políticas criadas em oposição ao domínio ávaro. os lombardos.o reino de Sarno. e organizados de acordo com as instituições e princípios de seus dominadores. Os francos formavam as elites no reino franco. somente com o tempo. na Espanha. Eles foram formados durante essas revoltas. por volta do início do século VIII. Assim. As identidades regionais. como definiriam a si mesmos. continuavam pe- sando bastante. 52. li. cujos nomes não eslavos provinham de títulos ávaros. esses grupos.. as populações das regiões do antigo Império Romano eram caracterizadas mais por identidades políticas do que por identidades étnicas. transfor- mando-se em "povos". Os habitantes livres dos reinos britânicos eram saxões. báva- ros. em maior escala. 5. O Mito das Nações Salonica. passaram a ser usados para designar indivíduos ou povos. os croatas ou os búlgaros de Kuver . 52 Possivelmente os nomes "kuvrat". Miracles of St.. designavam apenas títulos e. sua identificação com um reino geograficamente definido determi- nava como seriam designados e. nenhum desses grupos . frísios e alamanos. no século VII. e os godos.

estendia-se de Bizâncio ao Ocidente. a leste dos fran- cos.habitavam as regiões fronteiriças do norte do reino franco.eram os novos bárbaros. Capítulo 5: Os últim o s bár b a ros? . como os croatas. assim como os únicos romanos eram os habitantes de Roma..os saxões.. Esses grupos .. enquanto o vasto império multiétnico dos ávaros.. o mundo ainda se as- semelhava ao do século V Os saxões . 175 Por trás dessas unidades políticas estáveis. . os sérvios e os búlgaros.. gerando "novos" povos. os ávaros e suas crias . os únicos bárbaros que ainda restavam na Europa.termo usado para designar vários povos germânicos pagãos que não apresentavam uma unidade política .