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INSTITUTO DE ENSINO SUPERIOR DE NOVA VENÉCIA

LICENCIATURA PLENA EM LÍNGUA PORTUGUESA/INGLESA E ESPANHOLA E
SUAS RESPECTIVAS LITERATURAS

ALESSANDRA CHAVES DE OLIVEIRA SILVA
MILSOLANGE DO NASCIMENTO MACHADO
VALÉRIA MARQUES PEREIRA

A MULTIPLICIDADE DE LINGUAGENS POÉTICAS NO INTERIOR DA OBRA DOS
HETERÔNIMOS DE FERNANDO PESSOA

NOVA VENÉCIA
2006

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ALESSANDRA CHAVES DE OLIVEIRA SILVA
MILSOLANGE MACHADO DO NASCIMENTO
VALÉRIA MARQUES PEREIRA

A MULTIPLICIDADE DE LINGUAGENS POÉTICAS NO INTERIOR DA OBRA DOS
HETERÔNIMOS DE FERNANDO PESSOA

Monografia apresentada ao Instituto de Ensino
Superior de Nova Venécia, para aprovação no
curso de graduação em Letras com Licenciatura
Plena em Língua Portuguesa / Inglesa e Espanhola
e suas respectivas Literaturas. Orientadora:
Lourdes Aparecida de Souza Cesana

NOVA VENÉCIA
2006

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FICHA CATALOGRÁFICA

para aprovação no curso de graduação em Letras com Licenciatura Plena em Língua Portuguesa / Inglesa e Espanhola e suas respectivas Literaturas. Aprovada em de de 2006. 11 ALESSANDRA CHAVES DE OLIVEIRA SILVA MILSOLANGE MACHADO DO NASCIMENTO VALÉRIA MARQUES PEREIRA DIÁLOGO ENTRE LINGUAGENS POÉTICAS NO INTERIOR DA OBRA DOS HETERÔNIMOS DE PESSOA Monografia apresentada ao Instituto de Ensino Superior de Nova Venécia. COMISSÃO EXAMINADORA __________________________________________ Professora Lourdes Aparecida de Souza Cesana Instituto de Ensino Superior de Nova Venécia Orientadora __________________________________________ Professora Viviane Dias de Carvalho Pontes Instituto de Ensino Superior de Nova Venécia ___________________________________________ Professor Álvaro José Maria Filho Instituto de Ensino Superior de Nova Venécia .

filhos. esposos. 12 Dedicamos o presente trabalho a nossos pais. a toda a nossa família e aos nossos amigos com todo amor e carinho. irmãos. .

a nossa família pelo apoio e compreensão aos nossos professores e a nossa orientadora Lourdes Aparecida de S. . 13 Agradecemos primeiramente a Deus por ter nos dado condições de estarmos concluindo essa graduação. Cesana em especial.

Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de grande utilidade metafísica.” (Fernando Pessoa) . 14 “Sentir é compreender. Deus é toda a gente.

Ricardo Reis. Alberto Caeiro é o poeta naturalista. Cada um de seus heterônimos tem uma visão particular do mundo. associado ao poeta norte-americano Walt Whitman. PALAVRAS-CHAVE: heterônimos. ortônimo. a multiplicidade de linguagens dos heterônimos de Fernando Pessoa e ortônimo. acredita que o único caminho a se tomar na vida é o de afrontar a morte com o silêncio. através de pesquisa bibliográfica. . refletindo-se em três estilos absolutamente distintos. Fernando Pessoa realiza sua obra através de várias personalidades poéticas. observando pelas peculiaridades de cada personalidade diferentes posturas artísticas. mas contraditoriamente faz a apologia do anti-heroísmo. 15 RESUMO Considerado o poeta mais complexo da literatura portuguesa. Álvaro de Campos. multiplicidade. das sensações puras e do ceticismo. cultiva a audácia e a energia. Essa pesquisa tem como objetivo identificar. descrever e analisar. psicografia. literatura. pagão e estóico.

.........10 1............8 APRESENTAÇÃO DO CONTEÚDO DAS PARTES DO TRABALHO.........................................................................................................37 ....................1 AS PERSONALIDADES PESSOANAS EM MEIO AO MODERNISMO PORTUGUÊS.........................................................13 2....10 1............................................................................................................................................................................................................13 2...................................................11 1...............6 META.....................................................................11 1................................10 1................................................3 ALBERTO CAEIRO...................................5 HIPÓTESES............10 1.....34 3 CONCLUSÃO.................18 2........................... 16 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................10 1...........................................................................9 1...6 DIÁLOGO ENTRE AS MÚLTIPLAS FACES DE FERNANDO PESSOA............................4..4 OBJETIVOS...............................................................................................9 1....7 METODOLOGIA.........................................................................................................................2 DELIMITAÇÃO DO TEMA..............2 FERNANDO PESSOA ...................................................................11 1.....................1 OBJETIVO GERAL......................................................................................................................................................14 2.................1 JUSTIFICATIVA DO TEMA......................................................4.........3 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA.......................36 4 REFERÊNCIAS..........................5 ÁLVARO DE CAMPOS..................O ORTÔNIMO....2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS......21 2......................................................................................................11 2 REFERENCIAL TEÓRICO..................4 RICARDO REIS......................25 2............................

17 1 INTRODUÇÃO No presente trabalho. e podemos verificar que há diferenças na maneira de escrever. máscaras ou heterônimos com que Fernando Pessoa assina sua obra. uma atitude-experiência assumida pelo próprio Pessoa. considerando que para a compreensão da poesia de Fernando Pessoa é necessária uma análise das várias linguagens que aparecem em suas obras. pela idéia de que o poeta é um desajustado. ortônimo e heterônimos. racionalista e semipagão. dando ênfase a seus heterônimos mais famosos que são: Alberto Caeiro. Pessoa também assinava alguns textos com seu próprio nome. ou Álvaro de Campos. pelo fato de encontrarmos na obra Pessoana uma multiplicidade de linguagens poéticas. constituem em cada um deles. Fernando Pessoa assinou sua obra com vários nomes. o neoclássico. Ricardo Reis. pois. . Pessoa cria heterônimos: Alberto Caeiro. neurótico e angustiado. Não se trata. propomo-nos comentar a estética do poeta português Fernando Pessoa.1 JUSTIFICATIVA DO TEMA Esta pesquisa motivou-nos. A obra literária de Fernando Pessoa é uma das mais intrigantes da literatura desde o final da década de 1940. quando o poeta foi descoberto pela crítica. Os nomes. ortônimo. muitos lêem poemas de Ricardo Reis. 1. porém de simples uso de pseudônimo. Assim. Abordaremos acerca das diferentes linguagens poéticas que podemos encontrar em sua obra. Sua poesia é marcada pelo ceticismo. nesse desdobramento de si mesmo. Alberto Caeiro. como se fossem diversos poetas. Álvaro de Campos. Desde então. marcado para a solidão e o desamparo. o futurista. o camponês sábio. Álvaro de Campos e Ricardo Reis. pensando que se trata de poemas de Pessoa. todos eles com seu estilo próprio. É interessante sabermos diferenciar ortônimo dos heterônimos. processo antigo usado para cobrir ou não o anonimato. como também na maneira como ortônimo e heterônimos vêem a vida. tem surgido diversas discussões sobre o fenômeno da heteronímia. pela sensação do tédio. com sua visão de mundo particular.

dá-lhes biografia. uma vez que os poemas de Fernando Pessoa compõem um dos maiores enigmas da história da Literatura. já que se trata de um poeta que inventa outros. onde Pessoa mostra as personalidades criadas por ele em cada circunstância. Há em Pessoa um diferencial. 1.1 Objetivo geral • Caracterizar as diferentes linguagens dos heterônimos de Fernando Pessoa e ortônimo. cada poema seu tem algo peculiar. Portanto surge a questão: Há diversidades de linguagens na obra de Fernando Pessoa ortônimo e heterônimos? 1.2 DELIMITAÇÃO DO TEMA: No estudo de Fernando Pessoa e seus heterônimos são relevantes muitos aspectos. Todos são grandes poetas e apresentam diferentes posturas artísticas. pois ele conseguiu se expressar de formas diferentes.4.2 Objetivos específicos • Identificar a peculiaridade da linguagem de cada heterônimo e também de Fernando Pessoa. estilo próprio e até um mapa astral. 18 Diante disso. pois na obra contém um complexo teor literário. ortônimo. 1. Esta pesquisa propõe uma análise das linguagens poéticas dos heterônimos de Pessoa dentro da realidade que cada um foi criado e também analisando a linguagem de Fernando Pessoa ele mesmo. . • Compreender a maneira de cada um escrever. ou pelas idéias contidas em suas obras. constata-se que essa pesquisa é relevante. seja por fatos marcantes da personalidade de cada um. nas diferentes circunstâncias de vida de cada um.4.4 OBJETIVOS 1.3 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA Os estudiosos de hoje buscam entender os heterônimos de Fernando Pessoa. 1.

criatividade. através de suas obras sentimos que há vida. sendo. esses heterônimos são invenções de personagens completos. . com características e linguagens bem distintas. como também as de Fernando Pessoa. ele criou os heterônimos. feita uma pesquisa bibliográfica com o intuito de coletar informações que servirão de subsídio teórico que buscará definir na obra pessoana a vida de cada heterônimo. Os textos de Fernando Pessoa e seus heterônimos nos remetem à idéia clara da multiplicidade de linguagens poéticas. apresentação dos objetivos. porque percebe-se na obra de cada um. metas e hipóteses de estudo. Mais do que meros pseudônimos.7 METODOLOGIA Esta pesquisa é do tipo exploratória e explicativa.6 META Pretende-se com esse projeto de pesquisa fazer uma análise acerca das linguagens encontradas dentro da obra Pessoana. Com sua imaginação. através da delimitação e justificação do tema. apesar de serem frutos da imaginação de Pessoa. pois. histeria e a maneira de extravasar. 1. 1. um diferencial. que têm uma biografia própria. mostrando as características e a linguagem poética de cada um. pois.8 APRESENTAÇÃO DO CONTEÚDO DAS PARTES DO TRABALHO No primeiro capítulo apresenta-se a introdução desse trabalho. 19 1. pois.5 HIPÓTESES A busca da expressão do moderno é uma das aspirações que marcam profundamente a geração de Pessoa. Nela destaca-se os pontos relevantes dessa pesquisa. linguagens e estilos literários diferenciados. Linguagens que se diferem. são várias personalidades dentro de uma só. o ortônimo. ou seja. 1. os heterônimos e ortônimo. características de acordo com a realidade de vida de cada um.

que. . procurando mostrar o quão importantes e intrigantes são os heterônimos e Fernando Pessoa. Nele são abordadas as características do poeta. Logo a seguir são apresentados todos eles: ortônimo e heterônimos. Em seguida há um estudo acerca dos heterônimos: Alberto Caeiro. finalmente faz-se uma reflexão dos capítulos anteriores. informações da sua biografia. bem como Fernando Pessoa e seus heterônimos inseridos nesse movimento modernista. ortônimo. bem como características e análises de poesias mostrando as posturas poéticas dos heterônimos. onde nota-se algumas diferenças existentes entre eles. Fernando Pessoa. Na conclusão. Ricardo Reis e Álvaro de Campos com informações biográficas de cada um. 20 O segundo capítulo inicia o referencial teórico. inicialmente aborda aspectos do modernismo português. comportamento em meio à sociedade. e análises de algumas poesias. ortônimo é o próximo assunto pesquisado. numa abordagem dialógica.

autodidata de grande erudição. os meios artísticos estão inundados por manifestos de vanguarda. Chamada também de presencismo. O ano de 1915 nos remete a alguns fatos de fundamental importância para o entendimento do Modernismo português: a Europa vive a Primeira Guerra Mundial. que circulou de 1927 a 1940. Pessoa não só criou seus heterônimos como estabeleceu para cada um deles. Com essa publicação se dá a primeira geração modernista. Essa contava com a participação de Fernando Pessoa. É através dessas biografias que podemos verificar quão diferentes eles se apresentam. por estudos de psiquiatria e psicanálise. uma biografia própria. Portugal assiste às turbulências iniciais do período republicano. filosofia. . dando fim também ao Modernismo. Tendo esse quadro como pano de fundo é que se vê o início da produção literária de um dos casos mais polêmicos de todos os tempos: Fernando Pessoa e seus heterônimos. Fernando Pessoa. na década de 1910 colabora em algumas revistas de caráter nacionalista e ao mesmo tempo entra em contato com as correntes vanguardistas européias. é a geração contemporânea dos principais manifestos da vanguarda européia.1 AS PERSONALIDADES PESSOANAS EM MEIO AO MODERNISMO PORTUGUÊS O Modernismo português tem como marco inicial a publicação de Orpheu – Revista Trimestral de Literatura. Mário de Sá-Carneiro. A segunda geração teve como órgão divulgador de suas propostas a revista Presença. O presencismo esfacelou-se em meio à segunda guerra mundial no ano de 1940. Apaixonado por ocultismo. mergulhado num clima de profundo nacionalismo. Almada Negreiros e do brasileiro Ronald de Carvalho. essa geração combatia o academicismo e difundia a estética modernista esforçando-se para que a obra de Fernando Pessoa se tornasse conhecida. 21 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.

p. homem que teve a capacidade. Aos 17 anos.O ORTÔNIMO “Desejo ser um criador de mitos. liderou um grupo de jovens no lançamento da revista Orpheu. Após o desaparecimento da revista. nessa mesma cidade. por meio de estilos de escrita diferenciados. 22 2. para criar heterônimos. Pessoa inovou a poesia. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas”. p. nasceu em 13 de junho 1888 em Lisboa. como representantes contundentes dos "eus" que habitam dentro de todos nós. que marca o início da literatura moderna em Portugal. que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade” (PESSOA. Cada vez mais leitores têm descoberto o valor do escritor e do pensador Fernando Pessoa. O poeta. jornais etc. problematizadas nos contextos do mundo de hoje. indo muito além de pseudônimos. Extremamente inteligente e talentoso. Quando de sua morte. “Sinto-me múltiplo. Pessoa entregou-se a uma vida solitária dedicada à poesia e ao álcool. onde fez seus estudos secundários com notável brilho. Aos cinco anos tornou-se órfão de pai. apenas alguns de seus escritos tinham sido publicados em revistas. Faleceu em 1935. Seus .51). múltiplas facetas interiores do ser humano. Foi levado pela mãe e pelo padrasto para a África do Sul.51). mas sua profissão foi a de correspondente comercial em línguas estrangeiras. bastante adequados às realidades íntimas da alma. de "teatralizar” poeticamente. extrapolando as características estéticas do período Modernista. Portugal. Daí uma das razões da atualidade de seus textos. como preferia assinar.2 FERNANDO PESSOA . entre outras coisas. 2005. regressou a Lisboa e cursou Letras e Filosofia. ou simplesmente "Fernando Pessoa". (PESSOA. quase a totalidade de sua obra ainda permanecia inédita. Em 1915. 2005. escrevia também em outros idiomas (como inglês e francês). Considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa. Fernando António Nogueira Pessoa. no qual estava inserido.

abúlico. apaixonado por ocultismo. era certamente uma das grandes vozes da poesia ocidental do século XX. os gestos de . no espaço incolor mas real do sonho. O ortônimo nos mostra como sentir a paisagem. Mais que os heterônimos. Assim. Daí o surgimento de muitos heterônimos. tendo nós. Também tende para o gosto pelo que é maneirista pelo uso do paradoxo. 1997. e psicanálise. e angustiado por ser lúcido. p. toda arte é conversão da sensação em objeto. Poemas Dramáticos. O próprio Pessoa apresenta cinco condições ou qualidades para entender os símbolos do ortônimo: a simpatia. toda arte é conversão da sensação em sensação. revela-se dialético. a compreensão e a graça. quando trabalha um simbolismo lúcido e consciente. todo objetivo é uma sensação nossa. do complexo e do sutil. Uma tristeza é um lago morto dentro de nós. Escreveu ainda: Cancioneiro. para ele. Apesar da relativa obscuridade em que veio a falecer. 23 poemas são divulgados pela prestigiosa revista Presença. daí apresentar-se tradicional e moderno ao mesmo tempo. Também escreveu Quinto Império. onde se revela ocultista. onde transparece seu sonho sebastianista e monarquista. aperfeiçoa mais o simbolismo através da subjetividade excessiva. a intuição. e 35 Sonnets. Uma aguda crise de cirrose hepática o mataria aos 47 anos. ao mesmo tempo. autodidata de grande erudição. Através de sua poética. Depois conclui que: Todo estado de alma é uma paisagem.165) Como vemos um espírito tão rico e até paradoxal como o de Pessoa. lúcido. onde se apresenta lírico e desencantado. e Platônico: Cultivador do vago. da síntese elevada ao máximo e através do exagero da atitude estática e da mescla de sensações. (PESSOA. não podia se resumir numa só personalidade. mas o único livro publicado em sua vida foi Mensagem. pois. amante do mistério. “Eu vejo diante de mim. e sendo nosso espírito uma paisagem. Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. temos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. principalmente o de Ricardo Reis. as caras. estudos de psiquiatria. filosofia. a inteligência. consciência do exterior e do nosso espírito. o ortônimo tem uma atitude perspicaz de ver as coisas.

1993. 24 Caeiro.”. Na essência. 1986. na própria linguagem poética. Enche-se de lágrimas Meu olhar parado. diferenciando entre si. Esse desafio que sua poesia representa. além disso. Pessoa tem um genial poder de síntese que singulariza sua linguagem poética. pois seus poemas se abrem. p. a visão do cotidiano rotineiro). sua produção poética contraria a nitidez de enunciado que lhe é peculiar. mas plural. e que se pressente decisiva. está na genialidade com que retira o leitor da visão estável do mundo (como é.95) As lembranças que uma música traz. Mas nota-se algo. que foi composto em forma tradicional. que é a criação de personalidades poéticas com posturas filosóficas diversas.outra. na pluralidade das linguagens heteronímicas. para levá-lo a perceber.” (PESSOA. p. Sabe-se que Fernando Pessoa é um importante nome do Modernismo Luso. como o saudosismo. e que é um dos maiores poetas portugueses. Lida em conjunto e em confronto. Construí-lhes as idades e as vidas. que percebe-se no poema abaixo: Pobre velha música! Não sei por que agrado. sua principal característica é a heteronímia. Segundo Seabra (1988. uma existência . 97). O que implicava que o sujeito pleno.243). em geral. Pessoa chama atenção à idéia de que as sensações podem ser alteradas (estrofe 2) abrindo possibilidades para que a . pois que buscá-lo nos próprios poemas. Eis o tema desse poema. “O drama havia. Recordo outro ouvir-te. Ricardo Reis e Álvaro de Campos. p. ainda desconhecida. com inquietação. Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti. (PESSOA. No entanto podemos notar no ortônimo outras características. que ao mesmo tempo é carregada de dualismo. Com que anciã tão raiva Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei: Fui-o outrora agora.

como um retorno à infância. p. o poeta utiliza uma métrica tradicional e popular. E viu-se a terra inteira de repente Surgir. tenha sua existência questionada. e o império se desfez. correndo. Quem te sagrou. redonda do azul profundo. até ao fim do mundo. no cidadão português. 1993. Há um paradoxo no último verso. e foste desvendando a espuma. falta cumprir-se Portugal”. falta cumprir-se Portugal! (PESSOA. Pessoa coloca a vontade de Deus e o sonho humano como forças responsáveis pela concretização da obra. sempre recordada em tons melancólicos. na forma de lembranças. Do mar e nós em ti nos deu sinal Cumpriu-se o Mar. unificando terras e mares. criou-te português. é na verdade. Clareou. Esse saudosismo de Fernando Pessoa. para tanto. uma ficção gerada pelas emoções do presente “agora”. é manifestado no plano pessoal. reflete bem o espírito dominante em Mensagem: a necessidade da realização de Portugal como a super- . de largo uso desde fins da Idade Média: a redondilha menor (verso de cinco sílabas poéticas). elemento temático central do poema. E a orla branca foi de ilha em continente. Que o mar unisse. como se a idéia de que a felicidade estava no passado “outrora”. surge como um clima de recuperação de uma lembrança da grandiosidade antiga do Império Português. O final do poema “Senhor. no caso as Navegações. Deus quis que a terra fosse toda uma. Exemplo disso é o poema O Infante: Deus quere. Sagrou-te. a obra nasce. 25 imagem que se tem do passado. o que quer dizer que é no agora que ele pensa ter sido feliz no outrora. A musicalidade é fundamental para a leitura e interpretação do texto. ortônimo. já não separasse. Senhor. A música evoca a infância.89) Esse texto expõe a idéia que era vontade divina que o Império Português se estabelecesse. no entanto. o homem sonha.

Aliás.3 ALBERTO CAEIRO Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa. quando lá o autor voltou. os prados e as flores que contempla com sua grandeza. O rebanho é os meus pensamentos . que rejeita todas as estéticas.. Seus versos livres são um convite a desaprender as idéias para aprender as coisas. Daí ser ele o heterônimo que nada quer. de grande simplicidade. Este heterônimo pessoano.84). No mesmo local. todas as abstrações. conforme o pensamento nacionalista então dominante. Daí ser o mais infeliz. sua vida e seus poemas se confundem. sua sabedoria consiste em ver o mundo de forma sadia e plena. Nessa redução do mundo. parece usar o raciocínio sem querer demonstrar isso. já anunciada por Fernando Pessoa na década de 1910. Chamado de o poeta-pastor é o homem reconciliado com a natureza. 2.) Sou um guardador de rebanhos. vindo este a se completar já em Lisboa. enquanto tenta provar que não intelectualiza nada. em abril de 1889. 2005. Passou quase a vida inteira numa quinta de Ribatejo. por restringir o mundo. além de fugir do progresso e a ele renunciar. p. Autodidata. Caeiro faz uma poesia da natureza. da vida de Caeiro não há o que narrar. Lá escreveu O Guardador de Rebanhos e uma parte de O Pastor Amoroso. diante da possibilidade de se infelicitar com o sol. comparando-os com ele próprio. e na mesma cidade faleceu tuberculoso em 1915. é o que mais intelectualiza entre as personalidades pessoanas. que não foi completado.. uma poesia dos sentidos. 26 nação. escreveu ainda alguns poemas de Poemas Inconjuntos. todos os valores. (. “Os sentidos são divinos porque são a nossa relação com o universo. fica mais latente o "nada". das sensações puras e simples. Mesmo assim. procura minimizá-los. já no final da vida. e a nossa relação com o universo Deus” (PESSOA.

27 E os meus pensamentos são todos sensações. (. Que chegam com correias tenso mantas Pedem “salada” descuidosos Sem pensar que exigem a Terra-Mãe. as fontes. No meu prato que mistura da natureza! As minhas irmãs as plantas..CAEIRO. de compreender o seu verdadeiro significado. As primeiras coisas vivas e irisantes Que Noé viu Quando as águas desceram e o cimo dos montes Verde e alagado surgiu. É um homem de visão ingênua. 33 ) . p. Para ele. Caeiro é o mestre dos demais.) (CAEIRO. Toda a sua produção poética aborda a questão da percepção do mundo e tendência do ser humano em transformar aquilo que vê em símbolos. As companheiras das fontes. As primeiras verdes palavras que ela tem. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. porque tem a ordem e a disciplina que o paganismo tinha e que o cristianismo fez perder: poesia é ver.. Foge para a natureza e procura viver tão simplesmente como as flores.. o real é a própria exterioridade. Possui uma linguagem fluente. O poeta pagão. É contra interpretações alegando que a inteligência reduz tudo a simples conceitos vazios. as santas A quem ninguém reza E contam-as e vêm à nossa mesa E nos hotéis os hóspedes ruidosos. Mantém posição antimetafísica. é sentir. 1997. Caeiro tem uma filosofia que prevê objeções e explica defeitos. E no ar por onde a pomba apareceu O arco-íris se esbateu. A sua frescura e os seus filhos primeiros. destacando a felicidade proporcionada pelos sentidos em comunhão direta com a natureza. 1997. por este motivo. alegando que não se deve acrescentar às coisas nada de subjetivo.. as aves.27) Esse fragmento da poesia de Caeiro identifica o ato de pensar com a relação de sensação do corpo com o mundo. que se prosa. sendo incapaz. p. instintiva e se entrega à infinita variedade de sensações.

Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda..) Um dia que Deus estava a dormir E o Espírito Santo andava a voar. Reparasse que nascera deveras.. Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se. o mundo sensível é muito importante.. Ele foi à caixa dos milagres e roubou três... fontes dos montes e aves. pois. tendo a divindade na própria carne divina. Observa-se no poema acima uma linguagem fluente. pensar é estar doente dos olhos. O poeta foge para a natureza. Além de mestre foi também chamado de cirurgião pelos seus discípulos porque os quer operar a todos do apêndice da alma para serem. E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto. pois é nele que se manifestam as formas divinas (os deuses) que os homens podem vivenciar em sua vida efêmera. p. E de vez em quando olhando para trás. apenas ver.. Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do mundo. Mas não penso nele Porque o pensar é não compreender. apenas corpo. Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. e mantém uno. (..) (CAEIRO. 2003.. 28 Toda a produção poética acima aborda a questão da percepção do mundo. . Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.150) Para o espírito pagão.. Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado na cruz que há no céu E serve de modelo às outras. procurando a simplicidade das plantas. Caeiro é mais do que pagão: é o próprio paganismo..... Por isso a receita é tão simples: não pensar. Esse paganismo de Caeiro encontra-se na busca de uma integração sensorial com a natureza. como os deuses. Creio no mundo como num malmequer. (. Porque o vejo. ao nascer.. sentindo-se parte dela... onde se destacam vários componentes existentes no planeta terra. E eu sei dar por isso muito bem.. ver. Depois fugiu para o sol E desceu pelo primeiro raio que apanhou. (. quase em prosa. É assim que nunca se desdobra. o ser humano transforma aquilo que vê em símbolos.) O meu olhar é nítido como um girassol. O mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..

Amar é a eterna inocência.. Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama. (... no dia 28 de janeiro de 1914. Com as colocações que Caeiro faz como “.) (CAEIRO.. o poeta sintetiza sua proposta de vida: “eu não tenho filosofia: tenho sentidos. comedido e correto. Esse mesmo olhar também capta a eterna novidade das coisas.” As considerações de Alberto Caeiro acerca da realidade da Natureza e da vida. nem o que é amar. 1993.67) A lucidez é uma das suas características. Para Caeiro. de forma que nunca olhamos duas vezes para o mesmo ser ou objeto. pensar é não compreender.. p.. de quem adquiriu a lição de paganismo espontâneo. / o mundo não se fez para pensarmos nele/ (pensar é estar doente dos olhos)” ele nega ter qualquer interpretação racional do mundo. e amo-a por isso. ele é racional. Esse poeta representa o lado humanístico de Pessoa e recupera aspectos clássicos. 1997. Reis nasceu da seguinte maneira: . Mas porque a amo.. O segundo heterônimo a surgir discípulo de Alberto Caeiro..35) O olhar é o principal meio de o poeta captar a realidade que o rodeia. p. E a única inocência não pensar. São eles: Ricardo Reis. Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.. Álvaro de Campos e o próprio Fernando Pessoa.4 RICARDO REIS Ricardo Reis nasceu em Lisboa.. (REIS. a cada instante que passa a Natureza e o mundo se renovam. Em Ricardo Reis: Há a renúncia de quem atingiu os píncaros da humana lucidez e abstrai seus conceitos de impermanência e símbolos da contemplação voluntária de uma natureza quem o homem iguala a essencialidade ideal que lhe basta. Segundo o próprio Pessoa.. 2.. 29 Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... fizeram com que o poeta ganhasse alguns discípulos.

Por isso. voltada para o prazer. é vida. necessidade de gozar o presente. (. elíptica. oferece o único sentido para a vida. contida. . por uma fenomenológica eternidade terrena. através do paganismo. A temática de Ricardo Reis. possui uma linguagem densa. é o meio. a necessidade de fruir o momento presente. Reis é defensor da monarquia. sintaxe clássica. (. é a passagem do tempo. é um homem culto.. p. breve o ano. procurou sempre o mais alto. Sua obra caracteriza-se por versos curtos. fatalidade da morte. Clássico por excelência. anterior à idéia cristã do pecado. Ricardo Reis se manifesta poeticamente através de odes. o poeta neoclássico. A palavra é um instrumento emotivo-intelectual e na literatura não existe nada que contenha em si a emotividade.) Breve o dia. 30 “O Dr. da arte moderna”. numa arte poética particularmente sua. 1997.. pensado. e sintaxe latinizante.70) Ricardo Reis representa o homem clássico. forma originária da velha Grécia que corresponde a uma espécie de canto. ou seja. latinista e semi-helenista.. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos especialmente de realização. tem atitudes hedonistas. breve tudo. referências mitológicas. contemplativa. inda que mágoa. Esse heterônimo pessoano. (REIS. com vocabulário muitas vezes erudito. no íntimo. Sua atitude diante da vida é serena. concisa. idealista e platônico no amor. a emoção não é a base da poesia. Que. Este. a mente absorve Todos mais pensamentos. que lembram a lírica grega. e atitude epicurista que é a tendência para a felicidade pela harmonização de todas as faculdades humanas.) Para Reis. pelas 11 horas da noite. Isto. Seus temas são lugares-comuns clássicos: brevidade da vida.. para encrustar uma poesia refinada. O mesmo breve ser da mágoa pesa-me. cunhada em linguagem esmerada e com vocabulário algo alatinado. constata o efêmero da vida e anseia. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 28 de janeiro de 1914. o impossível até. intelectualizada. não tarda nada sermos. preso aos valores da Antigüidade.

passamos como o rio. quer não gozemos. observa-se a leveza das imagens afetivas que o poeta elaborou. os ódios. nem ódios.. Nem invejas que dão movimento demais aos olhos. se for sombra antes. Quer gozemos.). Depois pensemos. (Enlacemos as mãos. Viver de forma sábia o presente (“colhamos flores. nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças.. as paixões que levantam a voz”. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim .. crianças adultas. .à beira-rio. 1997.. para ao pé do Fado. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes. lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova. nada deixa e nunca regressa. Mais longe que os deuses. p. passamos como o rio” e “Mais vale saber passar silenciosamente/ E sem desassossegos grandes”. É claro também o conceito Epicurista: devem-se evitar os “amores. indicando normalmente o correr do tempo. em busca de uma tranqüilidade amorosa. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa.) Pagãos inocentes da decadência. / Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti/ Ser-me-as suave à memória lembrando-te assim – à beira do rio”.. construindo uma proposta suavemente melancólica de relação amorosa. /. (. porque não vale a pena cansarmo-nos. nem paixões que levantam a voz. que a vida Passa e não fica. Desenlacemos as mãos. e não estamos de mãos enlaçadas. Vai para um mar muito longe. Ao menos.. à beira do rio. (REIS. Porque nunca enlaçamos as mãos. quer não gozemos. E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio. Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.55) Nesse poema. O exemplo desta relação entre a aceitação da morte e a celebração dos prazeres da existência encontra-se na mais célebre ode de Ricardo Reis (sem título): Vem sentar-te comigo Lídia. 31 geralmente um poema de estrofes simétricas.e que o seu perfume suavize o momento”) e evitar a paixão excessiva é uma forma que o poeta encontra de fugir da dor provocada por uma saudade violenta: “E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio. com intuito de exaltação ou discussão da vida desenvolvida especialmente pelo poeta latino Horácio. Pagã triste e com flores no regaço. Sem amores. O fluir de um rio é uma imagem freqüente na poesia clássica. De qualquer modo: “Quer gozemos.

E acrescenta: Não mais longe eles vêem.19) Ricardo Reis aparece como coadjuvante do mestre Caeiro. este o momento. No mesmo hausto O dia. Segundo Reis. um símbolo. isto É quem somos. tensa. fitos Os mesmos olhos no futuro. diz Ricardo Reis. A vida e a morte fazem parte de um mesmo sopro. leva Reis a valorizar o presente “esta é a hora. 32 Outro elemento importante do poema é a presença feminina a quem o poeta dirige suas palavras.. Esta é à hora. vivendo o que já passou “Vêem o que não vêem. isto é quem somos. esses preceitos a que Reis dará a forma disciplinada. p. Essa mesma tendência a endereçar o poema a uma mulher que se confunde com a própria motivação poética do artista também pode ser observada na poesia do século XVIII. outros. não tentam ver em cada coisa sinal dum além. Vêem o que não vêem. pois. . a não teres Véus nos olhos nem na alma. mas mais claro Na certa Natureza E a contornada vida (. o que exprime com simplicidade infantil. Uns. (REIS. e o tempo flui constante e nos mostra nossa própria insignificância. (REIS.“Para os deuses as coisas são mais coisas”. O poeta diz que somos o presente. vêem O que não pode ver-se. 2003. os deuses são superiores porque não tentam descortinar o que existe para além da aparência das coisas.. Essa consciência da brevidade da vida e da inevitável morte. tu das cristãs angústias. “vendo o que não se pode ver”.58) Nesse poema Reis critica tanto aqueles que se prendem ao passado. com os olhos postos no passado.. Por que tão longe ir pôr o que está perto – A segurança nossa? Este é o dia. e é tudo. Perene flui a interminável hora Que nos confessa nulos. este é o momento. e é tudo”. isto é.) Aprende. 1993. Ó traidor da multíplice presença Dos deuses..”. numa linguagem oral. quanto àqueles que fixam seus olhos no futuro. duma ode clássica. p. porque és ele.

Um poeta que se propõe a abrir seus sentido todos ao mundo e à vida. e as conquistas tecnológicas. Engenheiro. ou energia. a sentir o que ele sentiu.5 ÁLVARO DE CAMPOS “O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza. às máquinas. como toda a atividade. em março de 1914. Este poeta sensacionista. O artista subordina tudo à sua sensibilidade. principalmente diante do ser e o não ser. Ele é a terceira face de Pessoa. A primeira.64). inquieto. soltos como a flutuação emocional do autor. um indício de força. Álvaro de Campos nasceu em 15 de outubro de 1889. equilíbrio. Nessa fase. da própria força que se manifesta na vida. da morbidez. representa a parte mais audaciosa a que Pessoa se permitiu. Daí seus poemas fortes. buscando uma linguagem poética capaz de exprimir sua alucinante vontade sensacionista. A trajetória poética de Álvaro de Campos está compreendida em três fases. e está inserido no que é moderno. que os domina pela força do inexplicável. que force os outros. e também sentimentos pessoais profundos. queiram eles ou não.” (CAMPOS. A segunda fase. mas com alma. através das experiências mais barulhentas do futurismo português. p. a rapidez e o nervosismo. inclusive com algumas investidas no campo da ação político-social. e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma. Campos seria: . 1993. 33 2. acreditava que a arte era. fazendo converter tudo em substância de sensibilidade. vigorosos. impulsivo. cheio de ironias e questionamentos que remetem a profundas crises existenciais. organismo no delírio e no desvairamento. é a fase do "Opiário". Em sua personalidade são predominantes as emoções impulsivas. energeticamente construídos em versos livres. mais mecanicista é onde o Futurismo italiano mais transparece num aclimatamento em terras de Portugal. oferecido a Mário de Sá-Carneiro e escrito enquanto navegava pelo Canal do Suez. turbulento.

A terceira fase. Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita. que tantas vezes tenho sido ridículo. (CAMPOS. apesar de trazer alguma coloração surrealista e dionisíaca. é mais moderna e equilibrada. de ritmos explosivos e linguagem coloquial. absurdo. Que tenho sofrido enxovalhos e calado. Indesculpavelmente sujo. mesquinho. quem mais foi marcado pelos caracteres da modernidade. Eu. que tenho feito vergonhas financeiras. me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco. que tenho sido cômico às criadas de hotel. Eu. também. tantas vezes porco. Eu.” resta apenas o orgulho da sinceridade com que expõe sua moral. Eu. o êxtase e a desilusão.112) É nessa fase onde a sensação é mais intelectualizada. tantas vezes reles. variando entre a excitação e o cansaço. do sono e do cansaço. a euforia e a depressão. Na produção poética de Álvaro de Campos. Nunca serei nada. E eu. que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes. 34 Um Whitman com um poeta grego dentro. “Não sou nada. Pois Pessoa o coloca numa dupla seqüência: a de uma arte orientada pelo ideal grego e a dos cantores de hinos a civilização moderna e sensações por ela provocadas. tantas vezes vil. questionador de todas as convicções. a despeito de intelectualizar as sensações é a personalidade pessoana que mais se aproximou de uma poesia realista. Não posso querer ser nada. aquela que. A angústia o consome: “Esta angústia que trago há séculos dentro de mim” e na dimensão terrível da noite. Uma outra dimensão de Álvaro de Campos (o lado contrário da modernidade) é a de um poeta desesperado. que quando a hora do soco surgiu. o poeta se dilacera “Na noite de insônia. substância natural de todas as minhas noites”. Que tenho sido grotesco. . 1997. conforme podemos verificar no famoso Poema em linha reta: Nunca conheci quem tivesse levado porrada. testemunham à crise de todos os valores da vida urbana e industrial. Desse universo destroçado. submisso e arrogante. Que quando não tenho calado. Eu. os versos livres. e. é que Álvaro de Campos. Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas. que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho. p. Eu. tenho sido mais ridículo ainda. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. O que se constata. pedindo emprestado sem pagar.

sua solidão. Esses fatos cotidianos desprezíveis remetem a uma profunda sensação de isolamento. na medida em que todos os seus conhecidos “têm sido campeões em tudo”. os “perfeitos”. . nunca sofreu enxovalho. Essa carga de ironia sugere certa injustiça que o poeta deixa subentendido. enquanto se diminui. meus irmãos. Que contasse. estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo”.. De um lado a figura do poeta. neste mundo. Álvaro de Campos expressa. mas uma infâmia. apontando seus mais graves defeitos. sua diferença em relação ao homem comum. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes. os “príncipes”. Já no primeiro verso é estabelecida a oposição básica que sustenta o texto. Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado. estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? (CAMPOS. Esse se propõe a abrir seus sentidos todos ao mundo e à vida. o poeta enumera uma seqüência de fatos que comprovam a própria “vileza”. de outro. 35 Eu. buscando uma linguagem poética capaz de exprimir sua alucinante vontade sensacionalista. Percebe-se isso nos dois últimos versos: “Arre. 1997. Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes — na vida. Ele promove uma total demolição de si.134) Esse poema possui uma linguagem carregada de agressividade e mágoa. não uma violência. dentre os heterônimos é o único que apresenta evolução. se os oiço e me falam. Campos é ansioso pelo progresso de sua terra. de maneira radical. sempre rodeada de um caráter negativo. Mas essa avaliação negativa do próprio eu tem um sentido irônico. Eu verifico que não tenho par nisto tudo. mas uma cobardia! Não. são todos o Ideal. que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas. de dificuldade de adaptar-se ao mundo. A partir do primeiro verso. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo. p.. Arre. na verdade está se engrandecendo diante dos outros. pois. O poeta sente-se um marginal.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. Janelas do meu quarto. Para uma rua inacessível a todos os pensamentos. Estou hoje lúcido. Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente. profuso. A aprendizagem que me deram. Falhei em tudo. como se soubesse a verdade. Estou hoje vencido. Desci dela pela janela das traseiras da casa. Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos num só momento difuso. Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. Em que hei . Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua. 1993. acreditava que a arte era como toda a atividade.63) Com essas características turbulentas. e dependência do ópio. E à sensação de que tudo é sonho. Mas lá encontrei só ervas e árvores. 36 Sentir tudo de todas as maneiras. como coisa real por fora.de pensar? Que sei eu do que serei. um indício de força ou energia da própria força que se manifesta na vida. e uma partida apitada De dentro da minha cabeça. impossivelmente real. As conseqüências disso estão nas suas poesias sensacionalistas. E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. Real. À parte isso. certa. Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens. E quando havia gente era igual à outra. tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio. impulsivas. o que saberiam?). Saio da janela. Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres. como se estivesse para morrer. tenho em mim todos os sonhos do mundo. completo e longínquo. Fui até ao campo com grandes propósitos. (CAMPOS. Nunca serei nada. eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu. Como não fiz propósito nenhum. ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo. sento-me numa cadeira. p. Viver tudo de todos os lados. . E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida. onde ele expressa depressão. Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é. desconhecidamente certa. Pode-se retirar como exemplo o poema Tabacaria: Não sou nada. talvez tudo fosse nada. como coisa real por dentro. Não posso querer ser nada.

sou mais certo ou menos certo? Não. Ou marquesa do século dezoito. Ou deusa grega. E fico em casa sem camisa. Serei sempre só o que tinha qualidades. Pórtico partido para o Impossível. Mas sou. pra o decurso das coisas. Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. E quem sabe se realizáveis. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas. E ouviu a voz de Deus num poço tapado. quem sabe?. o vento que me acha o cabelo. pequena. E o resto que venha se vier. Ou patrícia romana. Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol. concebida como estátua que fosse viva. Levantámo-nos e ele é alheio. impossivelmente nobre e nefasta. (Come chocolates. Não. Crer em mim? Não.) Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu. . Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. Ou não sei quê moderno . Ou princesa de trovadores. come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e. que consolas. Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira. Escravos cardíacos das estrelas. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.não concebo bem o quê -. não creio em mim. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. nem um. Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo. Come. e talvez serei sempre. Ainda que não more nela. que é de folhas de estanho. Deito tudo para o chão. sem rol. ou não venha. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo. Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.. Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais. nem em nada. ao tirar o papel de prata.. (Tu. ou tiver que vir. Mas acordamos e ele é opaco. que não existes e por isso consolas. decotada e longínqua. Saímos de casa e ele é a terra inteira. nem em mim. pequena suja. que não tenho nenhuma certeza. ainda que tenha razão. Serei sempre o que não nasceu para isso. como tenho deitado a vida. gentilíssima e colorida. Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - Sim. verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -. Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. o da mansarda. Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou. a sua chuva. 37 E a história não marcará.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Quando quis tirar a máscara. E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte. Sempre o impossível tão estúpido como o real. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime. A certa altura morrerá a tabuleta também. . Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse. Talvez tenhas existido apenas. Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. seja o que for. Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Vejo os cães que também existem. Ele deixará a tabuleta. E a língua em que foram escritos os versos. Quando a tirei e me vi ao espelho. E o que podia fazer de mim não o fiz. Calcando aos pés a consciência de estar existindo. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta. 38 Tudo isso. Fiz de mim o que não soube. amei. e perdi-me. como tudo. e eu deixarei versos. e até cri. Estava pegada à cara. Vejo as lojas. e os versos também. já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas. vejo os passeios. Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Ele morrerá e eu morrerei. vejo os carros que passam. que sejas. E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo. E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira. E tudo isto é estrangeiro. Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície. se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. como um lagarto a quem cortam o rabo E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. Sempre uma coisa defronte da outra. estudei. Sempre uma coisa tão inútil como a outra. Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam. E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso). Já tinha envelhecido. Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. O dominó que vesti era errado. Estava bêbado. Essência musical dos meus versos inúteis.) Vivi.

(CAMPOS. / Não posso querer ser nada”). num momento sensitivo e competente. mas.) Visto isto. nota-se que ele se derrama nas linhas da sua poesia. Enquanto o Destino mo conceder. / Nunca serei nada. Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Esse eu . E a complexidade desses sonhos é tamanha que faz o leitor se emocionar diante dessa depressão. da angústia com o cotidiano e dos sonhos de libertação. complexa desse heterônimo. humano. Isso pode ser observado a partir dos primeiros versos. Esse. Semiergo-me enérgico. O poeta é absolutamente depressivo em relação a si próprio (“Não sou nada. E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. Essa linguagem depressiva. p. 39 Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?). ao mesmo tempo.lírico possui dentro de si todos os sonhos do mundo. talvez. 1997. Oscilando entre o mundo interior e a realidade universal. o eu - . (O dono da Tabacaria chegou à porta. convencido. Fechado em seu quarto. fazendo com que ela assuma características de prosa. ele sabe que tem “todos os sonhos do mundo”. o poeta trata. continuarei fumando. Sigo o fumo como uma rota própria. e o dono da Tabacaria sorriu. sua linguagem é também carregada desse sentimentalismo egoísta e depressivo. E gozo. cujo sentido vai se constituir na base de todo seu poema.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. seja o poema mais conhecido de Álvaro de Campos. levanto-me da cadeira. pois. Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!. conheço-o: é o Esteves sem metafísica.121-125) A emotividade de Campos é explicitamente expressa em seus versos. Vou à janela. Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz. Ah. em compensação. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança. nos remete à idéia de que ele seja o que mais se aproxima de Fernando Pessoa ortônimo. solitário. E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. No poema acima.

contudo essa solução não o satisfaz. o poeta procura alguma coisa que o inspire. que o faz ver o que os outros não podem ver. Álvaro de Campos expressa aqui a angústia do homem moderno. ou seja. Essa consciência da inutilidade de tudo leva Campos a sentir-se um exilado. aquilo tudo que aprendeu com os homens) e parte em busca da natureza. por impedir o homem de ser feliz. Vivendo seus sonhos. passa a invejar uma menina que come chocolates inocentemente. pois as “aspirações altas e nobres e lúcidas” talvez nem vejam “a luz do sol” nem atinjam “ouvidos de gente”. ou como quem só conquista tudo em sonhos. que não encontra mais ponto de apoio para as suas inquietações e. um sofrimento de maneira que. ele toma consciência de que os sonhos nada valem. Na seqüência. uma pessoa que sonha com as estrelas e sofre de uma doença cardíaca. O poeta se vê como um “escravo cardíaco de estrelas”. Mas a sensação de euforia com o sonho não dura muito. Por isso recorre a musas inspiradoras do passado. por isso mesmo. Essa percepção extraordinária das coisas se dá devido à sua grande capacidade imaginativa. Álvaro de Campos toca num aspecto que é uma constante na obra de Fernando Pessoa: o de que o pensar é doloroso. ainda que tenha razão. A consciência disso causa-lhe um cansaço. mais adiante do poema. se entrega ao desespero. onde percebe um mistério. . que é a morte e o destino que ninguém vê. O resultado é um distanciamento cada vez maior da realidade. ao sentir o vazio dentro se si. o poeta volta a opor a fantástica capacidade de sonhar à limitação do mundo exterior. um ser à parte em relação à humanidade. que o impede de ter emoções fortes. 40 poético contempla uma rua. “O mundo é para quem nasce para o conquistar / E não para quem sonha que pode conquistá-lo”. Na estrofe oito. ele procura esquecer toda aprendizagem (isto é. do mundo visível. Na realidade. mas a sensação de vazio continua a mesma. já que seu “coração é um balde despejado”. Na verdade. na medida em que se sente desconfortável em qualquer lugar que esteja. Ele imagina o mundo como se fosse um teatro. Nesse momento.

No centro do teto da tua intensidade inacessível. Ao vê-lo.. Sou dos teus. apenas sorri. Álvaro de Campos. que tem consciência de que nada vale a pena.. foi poeta e jornalista. Campos confessa sua admiração por este poeta em Saudação a Walt Whitman: . No teto natural da tua inspiração de tropel. de pé sobre a terra natural. sem consciência alguma do que o cerca. de aí desde Deus vês-me ao contrário: De dentro para fora. Não sei se estou aqui. vês a minha alma — Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo — Olha pra mim: tu sabes que eu. seu lugar no teatro é no vestiário e jamais no palco. Sou dos teus. Nos teus ver sos. Os versos finais do poema colocam frente a frente o eu . Álvaro de Campos é o poeta do integrar-se e do entregar-se.. Meu corpo é o que adivinhas. Devido a isso.. não sou teu cantor. . O poema fecha com a absoluta solidão do poeta. 41 onde todos representam e o “eu” é o único que não sabe nem pode representar. não sou teu amigo. evohé! Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade. Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos.. Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim. Ou de cabeça pra baixo. E cheira-me a suor. Seus poemas apresentam longas enumerações de imagens. o poeta experimenta uma sensação de desconforto e passa a ter a sensação da absoluta inutilidade de tudo. linguagem vibrante e musicalidade própria. engenheiro. Whitman passou parte da sua vida em Brooklyn Ferry (Nova Iorque)..poético e o dono da tabacaria que representa o homem comum.. vivendo todo período de transformação industrial de seu país. Há ali sentir demais. a certa altura não sei se leio ou se vivo. Sofreu grande influência de Walt Whitman. produziu uma obra poética bastante original escrita em versos de métrica livre. pregando a valorização dos sentidos e exaltando a vida moderna e a democracia. enquanto o dono da tabacaria.. a óleos. Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso! Nunca posso ler os teus versos a fio. desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos. a atividade humana e mecânica. Não sou teu discípulo. que nasceu nos Estados Unidos. até da própria poesia. Poeta sensacionista. olha pra mim. pendurado numa espécie de estabelecimento. Meu velho Walt. meu grande Camarada.

mais iguais no empenho de obter conhecimento.. 42 Abram-me todas as portas! Por força que hei de passar! Minha senha? Walt Whitman! Mas não dou senha nenhuma. 2... Personalidades distintas. pois. penso.) não me tragam estéticas! Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos.. mesmo que dentro dele mesmo. a liberdade. suas vozes ecoam e dialogam entre si.. o rompimento de todos os limites.74) Fernando Pessoa: O poeta é um fingidor. uma ao lado da outra. (. e o que não passa. Alberto Caeiro diz: Não me importo com as rimas..) (REIS. Quando sinto.) Sou um técnico. essas vozes de Fernando Pessoa são diferentes nas respostas vislumbradas. 1993. do paganismo. Passo sem explicações.) (CAMPOS. p. Assim quisesse o verso: meu e alheio E por mim mesmo lido. do frenesi.. 1997.6 DIÁLOGO ENTRE AS MÚLTIPLAS FACES DE FERNANDO PESSOA Pessoa nunca está sozinho. Campos. da desordem. 1997. da anarquia. Múrmuro.. Já Alberto Caeiro. ele sempre tem alguém para dialogar. não me enfilerem conquistas Das ciências. não do rio. de opiniões formadas. Fora disso sou doido.)(CAEIRO.. Raras vezes Há duas árvores iguais.) (CAMPOS. das artes. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor .... o refreamento. é equilibrado e ordenado. (.71) Álvaro de Campos: (. (. enquanto aquele é desequilibrado. p. mas tenho técnica só dentro da técnica. o rio passa. Que é nosso. p. com todo o direito a sê-lo.. Penso e escrevo como as flores têm cor Mas como menos perfeição no meu modo de exprimir-me Porque me fala a simplicidade divina De ser todo só o meu exterior. 1993. p.. Reis preza a contenção.111-112) Encontra-se em Campos uma linguagem poética que se difere da linguagem do heterônimo Ricardo Reis. Palavras são idéias.. (.33) Ricardo Reis: Severo Narro. da civilização moderna!(. esse. é o poeta do campo..

ele mostra como é que faz seus versos. E seus versos são seus da mesma forma são dos outros que os lêem. o poeta e o poema. sem rima. e isso lhe causa insatisfação. 43 A dor que deveras sente. (PESSOA. p. e com todo direito a sê-lo. Assim ele remete a uma relação fundamental: a do artista e sua obra. que ele pensa e sente. Mas só a que eles não têm. sem padrão fixo. de ilusões. E os que lêem o que escreve. Ele não quer estéticas e nem moral. Já Álvaro de Campos é desiludido com a vida moderna e com o convívio social. Esse comboio de corda Que se chama o coração. principalmente à criação literária. a possibilidade de o artista recriar a realidade trabalhando a partir de suas emoções. diz ser técnico. O poeta diz que seu modo de exprimir não é tão perfeito quanto o das flores. Considera-se doido. de verdades. Caeiro escreve com simplicidade e transparência. O ortônimo questiona a respeito de toda a criação artística. Não as duas que ele teve. Pessoa afirma que o poeta é um fingidor. Para ele o artista se transforma num criador de mundos. 97) Nesses diálogos notam-se as divergências que há na maneira como cada um vê a arte de escrever. a entreter a razão. Ele versa agressivamente e com virilidade. E assim nas calhas de roda Gira. Os diálogos acima exemplificam muito bem as faces de Fernando Pessoa e as diferenças nas linguagens poéticas de cada uma delas. Na dor lida sentem bem. de sonhos. . e também a posição do poeta no ato da escrita. com um fluir espontâneo e natural do vento que se levanta. 1993. mas tem a técnica só dentro da técnica. Reis diz que palavras são idéias.

há uma busca daquilo que é absoluto. e os heterônimos acabam sendo as máscaras. o poeta multiplica-se em heterônimos. de que se valem o poeta para esconder-se atrás delas. o valor estético de toda a obra é indiscutível. Os heterônimos são. Compreende-se que esse fenômeno da heteronímia criado por Pessoa é fascinante. Fernando Pessoa se divide em múltiplas personalidades. escrevendo de forma diferente. Ricardo Reis e Álvaro de Campos poderiam ser considerados peças de Portugal. impossível para uma única pessoa. a fim de melhor revelar-se. Conclui-se que a obra literária de Fernando Pessoa é uma das mais intrigantes da literatura portuguesa desde o final da década de 1940. quando o poeta foi descoberto pela crítica. . assim. 44 3 CONCLUSÃO Do desdobrar de personalidades nascem os heterônimos de Fernando Pessoa. Pode-se dizer também que tanto Fernando Pessoa ortônimo. enquanto a formação cultural e a postura ideológica de cada um remetem aos vários tipos sociais. por isso. ao mesmo tempo. universal. de acordo com cada uma delas. constata-se a relatividade das coisas. Diante desse processo. dos quais podemos destacar: os heterônimos representam diferentes visões de mundo e diferentes personalidades poéticas. tanto na poesia ortônima como na heterônima. Esse processo é uma genial mistura de personalidades. meios de conhecer a complexidade do mundo. pois. como Alberto Caeiro. e além dele há outros aspectos relevantes na obra. as descrições físicas lembram os vários tipos humanos portugueses. E a diversidade heteronímica de Pessoa vem do fato de. serem eles o ego do poeta.

São Paulo: Martin Claret. São Paulo: Scipione. Literatura Portuguesa: das origens aos nossos dias. A Literatura Portuguesa. 1997. Ulisses. 1992. Fernando Pessoa ou o Poetodrama. 11. 2 MOISÉS. 7 PESSOA. Célia. José de. ed. 1999. Português: de olho no mundo do trabalho. ed. São Paulo: Cultrix. Massaud. 6 PASSONI. 2.. José de. Coleção melhores poemas. São Paulo: Scipone. ed. José Augusto. Martim. Fernando. 12 TERRA. Adolfo Casais. São Paulo: Scipione. São Paulo: FTD. 1993 5 NICOLA. NICOLA. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. As múltiplas faces de Fernando Pessoa. José de. 1985. 2005. Poemas Escolhidos. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 4. São Paulo: Princípio. ed. 45 4 REFERÊNCIAS 1 CLARET. 7. . São Paulo: O Globo. 2. 2006. 1997. Ernani. Poesias de Álvaro de Campos. 1995. 10 ______. 32. 9 ______. Fernando Pessoa – Pensamento vivo. A poesia de Fernando Pessoa temas portugueses. 3 MONTEIRO. 11 SEABRA. ed. 8 ______. São Paulo: Global. 2003. Como ler Fernando Pessoa. INFANTE. 4 NICOLA. 1988. 2003. O guardador de rebanhos. São Paulo: Núcleo.ed.