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DOI: http://dx.doi.org/10.5212/Emancipacao.v.9i2.

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A midiatização como processo de reconhecimento,
legitimidade e prática social

The mediatization as a process of recognition, legiti-
macy and social practice

Carlos Renan Samuel SANCHOTENE*

Resumo: O presente artigo faz uma reflexão sobre o processo de midiatização na
sociedade contemporânea, marcada pelo atravessamento de lógicas dos processos
interacionais dos meios midiáticos. Destacamos a passagem da sociedade dos
meios à sociedade midiatizada; os embates entre os campos sociais, marcados
pela centralidade da mídia, cujas lógicas de funcionamento têm afetado outros
campos, havendo um cruzamento de interesses, negociações, disputas e inter-
relações. Chamamos também atenção para as formas de relações e interações
entre indivíduos e meios, destacando os processos realizados na constituição de
vínculos estabelecidos no contexto da midiatização das práticas sociais.
Palavras-chaves: Midiatização. Campos sociais. Interação social. Legitimação.

Abstract: The present article discusses the process of mediatization in contempo-
rary society, which is marked by an intersection of the logical reasons behind the
interaction processes of the media. The following aspects will be emphasized: the
passage from a society based on means of communication to a mediatic society;
the clashes between the social fields, marked by the centrality of the media, whose
functioning methods have been affecting other fields, thus creating a concourse of
interests, negotiations, disputes and interrelations. The sort of relations and inte-
ractions between the individuals and the media will also be stressed, with special
attention to the processes related to the constitution of bonds established in the
context of the mediatization of the social practices.
Keywords: Mediatization. Social fields. Social interaction. Legitimacy.

Recebido em: 03/08/2009. Aceito em: 24/09/2009.

* Jornalista, mestrando em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS e bolsista CAPES na linha
de pesquisa Midiatização e Processos Sociais. E-mail: carlos_sanchotene@yahoo.com.br.

Emancipação, Ponta Grossa, 9(2): 249-258, 2009. Disponível em <http://www.uepg.br/emancipacao> 249

definin- tão em uma “zona de contato” com os demais do condições de acesso e consumo por parte dos campos sociais. daquela na “sociedade midiatizada”. espaço de embates e legitimação ções de natureza midiática e que se inscrevem na dos campos.uepg. que necessitam cionalista. 2009. o seu trabalho de tematização pública. além de funções constituem-se como um espaço que institui elos clássicas. Na contemporaneidade dos ção – estão atravessados e permeados por 250 Emancipação. para a inserção e o funcionamento das mídias. ditam condições e parâmetros (RODRIGUES. com seus atos e “peritos”. perpassados por interações ciedade midiatizada complexas de produção e representação de sen- tidos. Na sociedade midia- (RODRIGUES. nas matrizes e modelos cul. com base dias. na concepção Já não se trata mais de reconhecer a centra- lidade dos meios na tarefa de organização de Mata (Ibidem). suas práticas discursivas movem-se instituindo Ambas evocam ambientes distintos e. nem como espaços da convergência de fatores sociotecnológicos de interação entre produtores e receptores. com a transformação atividade dominantemente de caráter simbólico. Significa que os campos estão indivíduos. lógicas e opera- apenas no âmbito do seu próprio terreno. definindo zonas e de sua expansão para outros campos. a e simbólico de diferentes práticas sociais. lógicas e esquemas de codifica- sociais constroem. conforme as prescrições de fundo fun- de confiança com os indivíduos. sociais. dispositivos ção entre os campos. Os constituição da sociedade. de auxiliaridade. permeando e constituindo suas Na sociedade dos meios. O processo de midiatização. reconhecidos por sua função mar que as mídias. mas que foram disseminados na sociedade segundo como marca. os processos de interação que vão esta- também pelo processo de seu deslocamento belecer com o que é externo. Ponta Grossa. Intensifica-se a presença dos meios não em suas próprias condições. cabendo-lhes. 1999). não conformados por suas fron- midiática” e atualiza-se. modelo. tizada. Carlos Renan Samuel SANCHOTENE 1 Introdução: Da sociedade dos meios à so. Esse processo emerge na “sociedade em interação. racionalidade produtora e lógicas de ofertas e de usos sociais. baseadas nas diversidades que os vínculos práticas.br/emancipacao> . 2005) entre os indivíduos pela presença das mí- Operando a partir dela. Suas de pregnância entre as suas fronteiras (inter- operações são apropriadas como condições nas) e aquilo que configura o espaço que lhe é de produção para o funcionamento discursivo exterior. Nesse caso. do que resulta a constituição da interrupção do “contato direto” (LUHMANN. con. sequentemente. as mídias es- formas de organização e funcionamento. apesar de des- que vai desenvolver as possibilidades de intera- tacar-se a centralidade das mídias. de um trabalho mediador. de lógicas e opera. na primeira. De acordo com Fausto Neto (2007). define. as mídias são convertidas em “sistema” A transformação da “sociedade dos meios” que expande seu status e que organiza suas na “sociedade midiatizada” é uma consequência próprias operações. de modo intenso e gene- teiras enquanto territórios estáticos. Disponível em <http://www. No que se refere ao cam- que estavam a serviço de determinadas funções po da mídia. este é convertido numa espécie de as quais somente poderiam ser por eles realiza- “ponto de acesso” ou pontos de conexão entre das em função das competências da sua própria os indivíduos e os representantes dos sistemas natureza e das suas potencialidades enunciati- abstratos. processos e estratégias e disputas de sentido. e o funcionamento da sociedade – de suas rias. possibilitadas pelo campo de uma cultura pós-moderna. como define Giddens (1991) ao afir- vas. Sendo sua ralizado. É a existência destes “pontos de contatos” De modo sucinto. nos tempos atuais. vida da sociedade. 1999). revela que há mudanças nos de processos interacionais entre os campos modos de pensar. 9(2): 249-258. destacam-se as transformações nos regi- A midiatização se encontra na existência mes de visibilidade. 1999). as formas de vida e meios já não podem ser mais entendidos como interações têm sido transformadas em função transportadores de sentidos. meios massivos. mas de constatar que a constituição turais que reconfiguram as experiências identitá. de uma própria realidade. das mídias. mas ções. organizadora de sentido (MATA.

essa especificidade foi conquista- disputas simbólicas com o campo das mídias. são reconhecidas e respeitadas dentro de um do- mínio específico de competência que dita seus A sociedade dos meios. ou seja. tanto para o próprio se a serviço de uma organização de uma proces. É através da compreensão sobre já que os campos sociais necessitam da mídia as lutas travadas entre campos sociais que se para garantir visibilidade frente à esfera pública pode entender melhor o funcionamento da atual e a mídia necessita dos demais campos para sociedade midiatizada. promovendo o de- de afetação em vários níveis da organização e bate público e. Ou seja. Com suas respectivas simbó- sofrem interferências na lógica dos seus funciona. na esfera púbica e envolvida em tensões com termina o que será discutido pelos indivíduos nas suas relações so- ciais. Um campo social é formado por instituições que ria a cultura da mídia (Ibidem. Essa divergência de objetivos que chega aos indivíduos. Ponta Grossa. o de linguagem. o campo das mídias possui um bem espe- mentos para que garantam visibilidade na esfera cífico. buscam legitimação a partir de (1998. A midiatização como processo de reconhecimento.br/emancipacao> 251 . portanto. inclusive. na sociedade atual. curso do campo das mídias assuma uma impor- ou seja. cada um com sua ciais é possível perceber que a mídia é responsá- própria simbólica e relevância. outros campos Emancipação. veículos como a televisão acabam sendo o em relação aos demais campos. Os pos se estabelecem por diversas relações de processos discursivos dos campos não midiáticos interesse e poder. assegurando vi- vel pela mediação do conteúdo (agendamento1) sibilidade pública. Disponível em <http://www. A competência do campo das mídias está. Para muitos indiví- ções dotadas de legitimidade e certa autonomia duos. na especificidade de sua discursivação formulada por McCombs e Shaw na década de 1970. 148). É uma relação de interdependência constitui como referência no modo de ser da pró. É uma con- sancionar e restabelecer os valores e as regras. 1 De acordo com a Teoria do Agendamento ou Agenda-setting. osa. convertida É notável. discursos e práticas. já na sociedade midiatizada. sendo que estes de- e interesses entre os campos faz com que o dis- senvolvem opiniões baseadas em midiatizações. utilizando-se. produzindo zonas diálogo com outros campos. tante função de posicionamento centralizante na Os campos sociais caracterizam-se como institui- estruturação do tecido social. 18) como uma campo para selecionar e distribuir a informação esfera de legitimidade “para criar. 2009. quanto para os membros que o com- sualidade interacional com autonomia frente aos põem. o direito de informar e ser informado. que é a palavra pública.uepg. p. Segundo Esteves pública. mas sim “em que pensar”. na constituição de suas próprias legitimidades. impor. justamente. as interações entre os cam- para publicizar os fatos dos demais campos. A partir de sua legitimidade. dizendo outros campos dentro de uma ambiência conflitu- às pessoas não “o que pensar”. A alta visibilidade que o campo midiático 2 O contexto dos campos sociais garante aos demais não midiáticos ocorre atra- vés de embates e tensões estabelecidos pelos No embate das relações entre campos so- vínculos entre os campos. a mídia de. a mídia pauta os assuntos da esfera pública. pria sociedade. 9(2): 249-258. que predomina é a cultura midiática. de estratégias distintas Nesse sentido. da pelo campo midiático a partir de um processo longo e contínuo que consolidou tal legitimidade O conceito de campo é proposto por Adria- “no reconhecimento da competência própria do no Duarte Rodrigues (1999. se ção social. licas. tornando-se o único olhar para instituições sociais. p. p. em informações mediadas pela mídia. 92). Essa especificidade é marcada pelos atos outros campos. legitimidade e prática social pressupostos e lógicas do que se denomina. Para tanto. aos seus próprios modos de operar. coloca. a importân- em referência sobre a qual a estrutura sociotéc. campo. colocar em prática sua visibilidade. A mídia acaba único meio de acesso às informações das mais por modificar estruturalmente as articulações de variadas ordens. próprios modos de operar. que regu- partir dos direitos de uma vertente de mão dupla: lam um domínio autonomizado da experiência”. pautando a conversa- da dinâmica da própria sociedade. a uma escala larga no tecido social”. na contemporaneidade. devido à sua interferência e a realidade socioeconômica-política-cultural. cia ocupada pela mídia devido à sua mediação e nica-discursiva se estabelece. cretização de conquista da sociedade moderna a tanto constitutivas como normativas. manter.

p. Essas relações plural das mensagens [. Como um suporte técnico. p. Carlos Renan Samuel SANCHOTENE atentam para o poder de sua simbólica e passam 3 O contexto da midiatização a planejar estratégias de intervenção e apropria- ção desse campo centralizante nas mediações Uma perspectiva para a compreensão do simbólicas de caráter social homogêneo. meios de comunicação. observa-se cada vez Verón (1997). junto como oferta discursiva”. A noção de meio de comu- outros campos precisam da mídia para que seus nicação social “deve satisfazer o critério de acesso conteúdos se tornem públicos. Disponível em <http://www. 2009. assim como os usos sociais dos meios. “um meio de comunicação social é um ting. 9(2): 249-258. ditas”. estruturando-as e engendrando. 252 Emancipação. fundamental para a realização de tá. no campo musical.. pois o campo midiático precisa publicizar letiva na sua prática com a questão tecnológica e os os assuntos dos outros campos. das pessoas no seu dia-a-dia. da publicidade e do marke. singulares de cada campo.] Isto permite definir o setor estão imbricadas na organização de estratégias dos meios como um mercado e caracterizar o con- midiáticas. pois esse fenômeno surge como pro- conquista de novos fiéis através de programas de cesso originado tanto pela evolução tecnológica rádio e tevê. buscando atrair a atenção da opinião pública. a igreja buscando a talidades.. Segundo Verón (Ibidem.br/emancipacao> . que configuram a estrutura luta simbólica para dar visibilidade aos interesses do mercado discursivo. A legitimação se dá na relação de necessidade presente na interação dos Essa perspectiva abrange uma dimensão co- campos. (Ibidem. No campo religioso. o uso estratégico quanto pelas demandas sociais. Em relação ao campo político. 13). o que decorre a partir do complexo fenômeno da midiatização A mídia ocupa um lugar central na socie- constituído por um processo em que os disposi. ticas de contato com seu público. vos tecnológicos e as condições específicas de nota-se que este acaba moldando-se à lógica dos produção e recepção. que o considera como um fenôme- mais o uso estratégico da mídia por parte de outros no que transcende os meios enquanto instrumen- campos. conceito de midiatização é assumida por Eliseo Dentro dessa lógica. principalmente em lidades (ou práticas) de recepção de mensagens períodos eleitorais. quema abaixo: Figura 1 – Esquema simplificado da Semiose da Midiatização2 Fonte: Adaptado de modelo desenvolvido por VERÓN (1997) 2 Reprodução a partir do modelo desenvolvido por Verón (1997).uepg. dade e o autor acredita que as relações sociais tivos midiáticos agem sobre práticas sociais dos criadas pela prática da mídia condicionam o agir outros campos. dispositivo tecnológico de produção-reprodução A internet tem sido uma grande ferramenta para dar de mensagens associado a determinadas moda- visibilidade aos atores políticos.14). esse dispositivo Essas relações entre os campos exercem engendra processos complexos e simbólicos de poder um sobre o outro dentro de um espaço de produção e recepção. conforme o es- as por meio de operações tecnossimbólicas. A comunicação da internet na divulgação e promoção de novas midiática resulta da articulação entre dispositi- bandas musicais. Ponta Grossa.

a tevê acaba assumindo ducionista. A televisão é um meio que possibilita a cada vez mais. ela é de fato comprovada pelas por ela contribui para a formação de opinião da constantes frases que são proferidas diariamen- sociedade. Disponível em <http://www. que já não estão mais isoladas. 121). como “Você viu. p. acordo com ele. enquanto instituição. Contudo. mui- ciais. Em países subdesenvolvidos como o Brasil. que do imaginário social. É ela quem promove conexões e. as construções opinativas realiza- de funcionamento têm afetado os outros campos. é possível cialização. as pessoas. 19). a partir da televisão na no mundo são configurados pela presença da contemporaneidade.. pois “formas tradicionais de re- ciedade”. visto que muitas prá. se “não saiu mundo e as coisas. ainda. de existências são permitidos. Ou seja. disputas e interrelações. p. p. “a midiatização é a reconfiguração de das pessoas. expandindo sua visão e. porque não como os campos e seus sujeitos relacionam-se. devido às o papel de uma instituição política da atualida. várias vertentes que dedicam estudos acerca do de. O autor afirma que. a tevê aproxima e integra as pessoas entender que a mídia. invadindo o espaço privado dos de suas operações. Essa afirmação é corroborada a partir da sentença de Gomes (Ibidem. 112). Pedro Gilberto Gomes (2006) é um dos unindo-se diante dos meios massivos. negocia.” (Ibidem. como um canal de so- tização. são feitas a partir de pontos de referên- quanto simultaneamente. ela é no mínimo polêmica. A midiatização como processo de reconhecimento. De mediação entre os campos sociais e atores so. expandindo a dimensão tecnocultural. cria-se a sensação de ine- ela. já que dispõe desse caráter de posi. Isso mostra que. Essa espécie de posicionamento assumido tema. zado pelos meios de comunicação de massa. legitimidade e prática social A partir do esquema da semiose da midia. pois “está surgindo um novo modo de ser (2006. 2009. “A televisão está imbricada mídia que. os meios funcionam na construção o funcionamento da mídia e da sociedade. a existência da mídia dá suporte construção do imaginário. dita ou não a realidade social. faz a em uma comunidade nacional e universal. xistência. Para organizado em volta de um consumo por parte o autor. Observa. ao dar visibilidade a determinados no amplo processo de midiatização da sociedade assuntos. Se algo ticas sociais são perpassadas e legitimadas por não é midiatizado. p. as interpretações do mundo. conversação social com seu amplo poder de fa- os. ções de sentido social elaboradas por terceiros. sicionamentos acerca dos acontecimentos. onde agem diretamente nas relações interpessoais. jornal é porque é verdade) ou “Não deu na TV” (Logo. saiu no jornal” (Se saiu no cionamento frente às coisas. podendo inclusive ser cia que os indivíduos tomam sob o que é midiati- a única forma de ligação entre ambos. No processo de A centralidade da mídia mostra que suas lógicas midiatização. segundo Sodré dança. Ponta Grossa. Embora essa afirmação não seja re- e por questões culturais.. 113). pelas mutações sociais ocasiona- no mundo representado pela midiatização da so. Tal fato e configura um modo de posicionar-se frente ao só ocorreu porque “saiu na mídia”. dizer. das por esse meio têm fortes incidências sobre havendo um cruzamento de interesses. E. 9(2): 249-258.br/emancipacao> 253 . se que a mídia ocupa um espaço central nas Os meios massivos acabam pautando a relações entre os campos sociais e os indivídu. por meio lar às massas. produzindo reflexões e po- cada vez mais se autopercebe a partir do fenô. não aconteceu). quando As novas configurações e deslocamentos este define que a sociedade atual vive uma mu.] intera- pela presença dos meios de comunicação que gem. fazem parte agora de uma “comunidade pelo ar”. sobretudo. relaciona-se tanto isoladamente tas vezes. ao saber e a existência da sociedade. sua opinião sobre os fatos.uepg. se constituem e se movimentam novos sujeitos Emancipação. acaba afetando a maneira indivíduos. que se relacionam com as produ- uma ecologia comunicacional”. meno midiático. Essas reflexões são trabalhadas A nova ambiência e o novo modo de ser pelo autor. proposta por Verón (1997). autores que trabalha a midiatização no âmbito O conceito de midiatização proposto por de um processo social complexo engendrado por Gomes (2006) é avaliado como um processo mecanismos de produção de sentido social. te. (Ibidem. pois ções. das pela mídia. através desse processo compreende-se Nesse caso. É uma nova ambiência caracterizada presentação da realidade e novíssimas [. na mídia” é porque não ocorreu.

que complexifica os modos ções sofridas tanto pelos campos sociais quanto e estratégias utilizados pela mídia na captura e pelo campo midiático. p. e de intensificação de (vida contemplativa. pois o que existe agora é uma am. dade com o que propõe a midiatização. sociedade. interações de modo que ocorra “a disseminação do. conquista de suas audiências. 3): tecnológicos. rindo reconhecimento como fonte que informa. assumindo uma senvolve a midiatização é constituída por uma condição de espaço/lugar político-econômico- nova natureza sócio-organizacional na medida social. mete a questões de espaço público.br/emancipacao> . A quarta esfera existencial de Sodré (Ibi. também. na perspectiva geneização da sociedade frente à convergência de que a mídia promove um diálogo através de tecnológica. um novo tipo de relacio. negocian- des para aqueles de descontinuidades. assim. aproximam- mas que sustentavam a estruturação e homo. os meios “estariam de produção de significados na sociedade. p. e sim como geradora no modo de existên- escolha individualista. de qualificação existencial orientada pela realidade que afetam a vida social a ponto de se mídia.] a sociedade na qual se engendra e se de. os indivíduos são parte integrante de uma os indivíduos mantêm com os meios. pelas muta- dos meios massivos. Neste cenário da midiatização. cria-se uma realidade de sociedade moderna em relação a novos modos comunicação midiática que. da mídia nos processos socioculturais foi adqui- tidos emergentes numa realidade social”. através de dinamiza- de pensar e agir.. a mídia se dades homogêneas. com as proposições bientação que funciona como uma nova forma de Maria Cristina Mata (1999) de que a socieda- de sociedade. Daí pode-se dizer que a midiatização re- em que passamos de estágios de linearida. O contexto da midiatização desenvolve-se As transformações que ocorrem na socie- em dados históricos distintos devido à evolução dade são responsáveis. fortemente em interação com outras dinâmicas De acordo com a autora. cujas interações sociais são esta. A proposição do autor derruba os paradig. A questão da midiatização para o autor que são estruturadas sociotecnologicamente. de enfrenta mudanças de ordem cultural massiva pulsionada por novos mecanismos geradores para midiática. Disponível em <http://www. se os ideais de Fausto Neto (2006). 8). belecidas através de ligações sociotécnicas que agora.. Conforme cultura midiática de compreensão dos fenômenos Fausto Neto (Ibidem. De acordo com consumado por seus mais variados aparatos Fausto Neto (2006. os sen. de discursos”. O campo da comunicação. reformula condições de enunciabilidade da duais. ao mesmo tempo. entretém e constrói imaginários coletivos. Muniz Sodré (2006) amplia as três formas de novos protocolos técnicos em toda extensão de existência humana propostas por Aristóteles da organização social. sionam sociabilidades distintas. pois. a chamada tecnocultura. pelo autor como cultura da mídia. A constituição e o funcionamento da socieda- dem. portanto. im. 9(2): 249-258. consti- vas interações através de articulações específicas tuindo espaços identitários. do que resultariam. prolifera construções que dimen- [. não pode ser caracterizada como lugar de auxilia- tas e com a verdade [. a responsável pelos processos de intera. uma prática recorrente na cia da sociedade.. onde do e disputando sentidos que são ofertados à noções de comunicação. mediado e veiculado. 2009. aproxima-se com a visão de Gomes (2006) de criando novas ambiências para possibilitar essas que está havendo um novo modo de ser no mun. Assim. cuja existência namento do indivíduo com as referências concre. ático é uma estruturação de práticas sociais. circulação e recepção cultural própria. Ponta Grossa. p. 92). Carlos Renan Samuel SANCHOTENE sociais”. (Ibidem. processos que vão transformando tecnologias sa) pensando em um novo bios de qualificação em meios de produção. é produzido. dão lugar às noções de estabelece como espaço público a partir do que fragmentos e às noções de heterogeneidades. que parte dos desejos indivi. estabelecerem vínculos de identidade e fidedigni- ção social e construção social. associadas a totali. a centralidade socioculturais. Por cultura midiática 254 Emancipação. de atual são perpassados por lógicas denominadas tiva e mental.uepg. p. sentidos no contexto social. O que acontece com o campo midi- de sentidos.]” É o que ele chama de ridade.. ções. vida política e vida prazero. O campo das mídias está organizando no. mas. fragmentada e heterogênea. 23) “implica uma nova tecnologia percep.

jamais por poderes ou signos fortes. são uma forma de concretizar os discursos e.uepg. nas matrizes e modelos culturais que Dessa forma.br/emancipacao> 255 . o que se tem redese- uma espécie de constatação de autofraqueza nhado a partir da existência das tecnologias e meios de produção e transmissão de informa- que entra em jogo para criar um encantamento ção e a necessidade de reconhecer que esta no outro: “seduzir e fragilizar. nicação. p. Esses laços podem ser es- legitimação do que está sendo transmitido. e seu objetivo de significados através do qual uma ordem é “enlouquecer” o outro. revela que há mudanças nos modos isso que lhe confere seu poder. na concepção fragilidade que pomos em jogo na sedução. pecções por exemplo. Na contemporaneidade dos meios do uma sensação de conforto e proteção. p. se re. bém enfrentam situações semelhantes. segundo Charaudeau (2007). oferecendo e crian- constroem. gerar vínculos e confiança na relação com o Tesch (2005. seus problemas. e é da autora. pois busca fragilizá-lo social se compreende. possibilitadas pelo campo das mídias. e não apenas para o desenvolvimento Através de distintos rituais televisivos. segundo Lipovetsky (2005. 85): cuja finalidade consiste essencialmente em mul- A midiatização da sociedade – a cultura midi. Essas operações de sentidos. É essa O processo de midiatização. do encanta- adas nas diversidades que os vínculos sociais mento e do deslumbramento. para exporem suas intimidades. quando pessoas comuns/anônimas vão a programas do gênero infoentretenimento O momento é de se pensar nas novas rela. se comunica. instaura um ima- 4 Midiatização: interações. ração de práticas socioculturais. ginário da verdade verdadeira. A midiatização como processo de reconhecimento. dando ao público uma que estão em casa. por exemplo. depoimentos servem como testemunho que. frequente de estratégias como a dramatização destaca-se as transformações nos regimes de vi- dos fatos e a presença de depoimentos. 2009. A cultura midiática engendra novas formas telespectadores. Se- com um processo sistemático de personalização gundo Mata (Ibidem. base. segundo as problemati- zações de Bauman (2001) acerca da moderni. telespectador. com o público através da sedução. tabelecidos a partir do modo como a edição de A atuação e a performance dos apresen. programas televisivos interagem reconfiguram as experiências identitárias. através de uma simulação de fraqueza. do roteiro e da elaboração tadores de televisão. 9(2): 249-258. vas do imaginário social. mas para todos que sencia-se um espetáculo cada vez mais dimen- reinventam estratégias na produção de mensa- sionado pelo poder da imagem na sedução dos gens. Isso vale para todos os meios de comu. Esse poder da imagem sobre os no desenho das interações e formas de estrutu- expectadores. p. que se encontra cada vez mais frag. cer: é através da nossa fragilidade que seduzi- mos. de pensar. tido. mentado e espalhado. por exemplo. ções e nos vínculos construídos entre os meios criando laços com os telespectadores que tam- e o público. Baudrillard (1991) afirma que a estratégia nhecer que é o processo coletivo de produção utilizada pela sedução é o engano. Ponta Grossa. 94). 03). legitimidade e prática social compreende-se tudo aquilo que é intensificado. um programa é feita. é o que sibilidade. como produz e se transforma. p. possibilitadas “dirige o nosso mundo e o remodela de acordo através da existência do campo das mídias. tiplicar e diversificar a oferta”. A performance do apresentador renovado e complexificado no desenvolvimento materializa o discurso televisivo capaz de fasci- de um mundo interativo imposto e proposto pela nar o telespectador ao se adaptar às expectati- mídia. ao mesmo tempo. Os espaço de embates e legitimação dos campos. massivos. 1) denomina de manipulação da Emancipação. criar vínculos com aqueles de veracidade dos fatos. Disponível em <http://www. perpassados por interações comple- Observa-se a exploração cada vez mais xas de produção e representação de sentidos. Os depoimentos. mobiliza a sensibilidade do telespectador. Os modos de contato das mídias com o como recursos de legitimação do que é oferta- público na atualidade vêm reforçando o caráter do. é capaz de textual televisiva. cada vez mais utilizados dade. Isso acontece. vínculos e pros. pre- da internet. Nesse mesmo sen- ática – nos apresenta a necessidade de reco. seduzir e desfale- transformação não é uniforme.” (Ibidem.

o roteiro que sustenta as subversões que grandes áreas dos ambientes material e social produzem identificações com o público. Ponta Grossa. p. E essa é uma das características da Neotevê lado da tela. camarins e cantos.] vida particular. Nesse pon- to. como “crença na credibilidade de uma pessoa mas como algo simétrico e contínuo ao da casa. que “obedece a uma gramática do dis. os do que este terá a solução e a resposta para os personagens são compostos por todos os sujei- seus problemas. (Ibidem. corresponsável pelo espetáculo. práticas. uma espécie de (ECO. já que a maioria das circuns- remetendo a ela mesma e menos ao mundo tâncias individuais. De acordo com o autor. em que essa crença a do mundo externo e mais do mundo televisivo expressa uma fé na probidade ou amor de um criado na relação com o espectador. aquele que está na tela e aquele que está em relação ao que Giddens chama de “sistemas assistindo. ou seja. ela se institucionaliza como espaço de O primado da enunciação frente ao enun- mediação social”. Carlos Renan Samuel SANCHOTENE mídia.. 256 Emancipação. em que a televisão está sempre ambiente afetivo. fala de si e do contato com o reproduzem e acentuam o aspecto do sofrimento grande público. ou seja.br/emancipacao> . uma de exacerbadas exposições íntimas dos indiví- vez que aquele pede uma orientação. A efeito de reconhecimento. buscando uma A confiança é o principal valor presente recriação imaginária da própria vida. 2009. tomadas como modelares. cada vez mais dramatizada pela tevê. nas quais a confiança pode ser mantida ou re. com isso. Na Neotevê. forçada”. 1984). mostrando na relação mídia/público passam pela noção câmeras. é em que vivemos hoje”. da as próprias pulsões e adotando como modelos os protagonistas dessa mesma história”. À medida As interações e os vínculos constituídos que o espaço televisual se amplia. quando vai à TV expor sua e os representantes de sistemas abstratos [. e suas dificuldades naqueles que estão do outro na. humano. a relação comuni. nesse ciado (Ibidem) sugere que os diversos espaços tipo de mediação o que é do cotidiano e o que narrados passariam a ser um só. Giddens (1991. portanto. outro. com base nos quais se atinge o um coletivo. 35). respondendo aos chamamentos da mídia. 41) a define se oferece não mais como um “complemento”. caracterizados como “pontos de co. ou na correção de princípios abstratos Em um ambiente midiatizado.uepg. p. os sujeitos (conhecimento técnico)”. neste caso. através da legitimidade e interatividade. que se expan- é comum acabam sendo uma processualidade diria até a casa do telespectador. pois são produzidos universos sociais cacional é individualizada e o público não é mais de referência. pretando papéis que carregam todo o enredo da ca ou competência profissional que organizam trama. enfim. 187). confian. destaca-se um determinado sistema funcio. passa a ser marcada pela proximidade. enviando fotos e vídeos. “aceita-se que nando em lógicas de midiatização que permite frequentemente o público manifeste identifica- criar vínculos de confiança entre o público e os ções e projeções. mídia através dos mais diversos tipos de mani- nexão entre indivíduos ou coletividades leigos festação. relação. que antes era marcada por contratos de curso midiático que precisa tornar-se cada vez leitura. p. Cria-se.. Disponível em <http://www. ou sistema. que projetam suas vidas de um espetáculo que se estende à vida huma. vivendo na história representa- sistemas peritos. constituído de espetacularização. Através dessas relação afetiva com o espectador. Essa confiança é fundamental tos. É o que Observa-se também que as pessoas são acontece com telespectadores ou com indivíduos transformadas em protagonistas e espectadores que acessam a internet. p. Os sujeitos atorizados acabam inter- peritos”. 9(2): 249-258. exterior. pela integração da tevê à habitação. (GIDDENS. Segundo Eco (1984. duos. é menos de resultados ou eventos. Aqui. tendo em vista um dado conjunto A realidade posta em cena. se tornam atores da encenação. mas uma coleção de indivíduos. corredores. já que ela tam- mente influenciada por experiências em pontos bém produz o espetáculo para ser mostrado na de acesso. mais familiar ao seu destinatário para ganhar pela convivialidade e pelo contato. Através no contrato entre o público e o jornalista. 91). 1991. “sistemas de excelência técni. este de confiança. importante salientar a opinião defendida por Cha- raudeau (2007) de que a sociedade também é A confiança em sistemas peritos é forte.

ele obtém reconhecimento social (mesmo TRIZes/article/view/5236/5260. Tevê: a transparência perdida. 1). O que é veiculado acaba ECO.org/index. Maria Cristina. 2005. Zygmunt. p. Revista Matrizes. São Paulo: Unesp. através dos diversos elementos que o compõem. moder- da midiatização é justamente a capacidade de nidade e campo dos media. Gilles. dessa forma. São Paulo: Paulus. Da sedução. As consequências da moder- das tradições culturais da sociedade. De la cultura masiva a la cul- outros campos sociais. uma vez que estes atuam experiência continua a partir da qual os expec. zação). quando esse isolamento é rom. 89-105. Anthony. São através dos apresentadores. Lima: Felafacs. segundo realidades de construções que lhes tadores definem o modo como veem o mundo são intrínsecas. assim. observa-se que o homem está cada ______. possi. 2007. 2005. “comunidades pelo ar”. Experiência. produtores ou até Paulo: Contexto. tanto. esta- senso de realidade estabelecido por bens sim. sociedades complexas. ou seja. http://www. pois tudo é aberto e ex. Modernidade líquida. 1991. uma reconfiguração GIDDENS. Umberto. A midiatização como processo de reconhecimento.php/MA- pido. então. mesmo dos enquadramentos do dispositivo ECO. O processo de midiatização deslegitima MATA. junho de 2009. In: tecnológico televisivo. por- Leopoldo: Unisinos. na qual há nidade. Bogotá: Seminário um imaginário existente além do real vivido. realidade do telespectador. “o tidas em situações de copresença com os dis- processo de socialização torna-se uma linha de positivos midiáticos. A realidade dos meios de comu- nos meios de comunicação. 1991. marcada pela visibilidade do “eu”. que é. um deslocamentos dos indivíduos e de suas prá- ticas sociais em direção às práticas midiáticas. 2006. apresentadores. 9(2): 249-258. Paper. belecendo relações verdadeiras que são man- bólicos. 2007. E um dos efeitos RODRIGUES. Viagem na irrealidade coti- sendo tão sólido que se apresenta como uma diana. v. Ponta Grossa. Na Mediatização. uma vez que LIPOVETSKY. 1999. ao ser compartilhado.). 5 Referências Os programas televisivos que exploram experiências individuais exercem sobre o públi. BAUMAN. 2006. Trata-se. João Pissara. prática de sentido. afinal. n.uepg. cada vez mais. Biblioteca On Line de Emancipação. 1984. Midiatização.revistas. Existe. uma consolidação dos seus enunciados – seja CHARAUDEAU. 2009. Diálogos de la comunicación. BAUDRILLARD. de uma centralidade no reconhecimento. Jean. legitimidade e prática social Essa identificação se dá a partir de um cada um fazer sua própria edição do real. GOMES. Acesso em 17 de que momentâneo através de lógicas de midiati. posto ao grande público. In: tecnológico e. as represen- tações se consolidam a partir desses exemplos ESTEVES. A ética da comunicação e os media modernos: legitimidade e poder nas em situações de midiatização. Niklas. nicação.56. p. convertendo os indivíduos em representado na mídia”. experi- mentando. Campinas: Pa- co telespectador um trabalho de reconstrução. Antonio. dentro do qual a consciência do le. Umberto (Org. prática so- bilitando uma identificação com o outro e com cial. Barueri: Mano- individualismo. Lisboa: Fundação Calouste Laços de solidariedade são tecidos por Gulbenkian. São criando. ser com os outros é construída pela participação LUHMAN. sendo que. A cogestores de processos cujas modalidades os “realidade” que se apresenta é.br/emancipacao> 257 .univerciencia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Discurso das mídias. Patrick. A era do vazio: ensaios so- a sociedade contemporânea é marcada pelo bre o individualismo contemporâneo. Fragmentos de uma “analítica” da midiati- vez mais isolado em vista do desenvolvimento zação. 1. 2005. 2001. (TESCH. Disponível em <http://www. um alívio catártico. pirus. A Filosofia e a ética da comunicação na midiatização da sociedade. FAUSTO NETO. atualidade. capaz de nomeiam e legitimam como personagens e ato- fazer com que o telespectador a projete para si res desta realidade. fragmentado e heterogêneo. mesmo como exemplo daquilo que vive. Rio de apresentando uma realidade criada a favor de Janeiro: Zahar. tura midiática. Pedro Gilberto. Adriano Duarte. outra identidade. 1998.

258 Emancipação. Rio de Janeiro: Mauad. 2009. TESCH. Alguns apontamentos para com- preender o midiático. VERÓN.1997. Eliseo. Paper. In: Revista Diálogos de la Comunica- ción.48. 2006. campo comunicacional e midiatização. 2009. Ponta Grossa. n. 1999. 9(2): 249-258. Disponí- vel em: <http://www. Eticidade. Sociedade mi- diatizada. Carlos Renan Samuel SANCHOTENE Ciências da Comunicação.br/emancipacao> .uepg. Acesso em: 12 jul. Portugal.ubi.bocc. In: MORAES. Adair. Lima: Felafacs.pt/pag/rodrigues-adria- no-expcampmedia. Muniz. SODRÉ.pdf>. Disponível em <http://www. 2005. São Leopoldo: PPG- CC/ UNISINOS. Esquema para el análisis de la me- diatización. Denis.