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As Várias Faces da Psicologia

Fenomenológico-Existencial

Valdemar Augusto Angerami - Camón (Org.)

A n a M a r i a L o p e z Calvo d e Feijoo • A n d r é R o b e r t o R i b e i r o Torres


José P a u l o G i o v a n e t t i • M a u r o Martins Amatuzzi
S a m a n t a M a r i a Visigalli M a r t i n s • Sylvia M a r a Pires de Freitas
T e r e z a Cristina S a l d a n h a Erina!
As VÁRIAS FACES
DA PSICOLOGIA
I ENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL
110687

Valdemar Augusto Angerami - CAMON

(Org.)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo


As várias faces da psicologia f e n o m e n o l ó g i c o - e x i s t e n c i a l /
Valdemar Augusto Angerami-Camon (org. ) . -- São P a u l o :
André Roberto Ribeiro Torres
Pioneira Thomson Learning, 2005.
José Paulo Giovanetti
Vários a u t o r e s .
Bibliografia. Mauro Martins Amatuzzi
ISBN 8 5 - 2 2 1 - 0 4 9 6 - 4

Samanta Maria Visigalli Martins


1. Psicologia existencial
fenomenológica
2. Psicologia
I. Angerami Augusto, Valdemar A u g u s t o .
Sylvia Mara Pires de Freitas
Tereza Cristina Saldanha Erthal

SISTEMA INTEGRADO DE BIBLIOTECAS


CDD-I50.192 p . Inocente Radrizzani
e

Centro Universitário São Camilo


índice para catálogo sistemático:
THOMSON
I . Psicologia f e n o m e n o l ó g i c o - e x i s tencial 150.192
THOMSON

G*r*nt« Editorial: Produtora Editorial: Revisão:


Adilson Pereira Lígia Cosmo Cantarelli Marcos Vianna Van Acker
Mônica Cavalcante Di
Editora de Produtora Gráfica: Giacomo
Desenvolvimento: Fabiana Alencar
I íanielle Mondes Sales Albuquerque Composição:
Virtual Laser Ltda.
Supervisora de Copidesque:
Produção Editorial: Cristiane de Vasconcellos Capa:
l'.ili i< i.) La R o s a Schlecht Evandro Angerami p r e s e n t a ç ã o

( OPYRIGHT © ¿005 de T o d o s o s direitos r e s e r v a d o s . Dados Internacionais de


Pioneira Thomson Learning N e n h u m a p a r t e d e s t e livro Catalogação na Publicação E s t e livro reúne diferentes trabalhos realizados sob a ótica fenomcnológico-exis-
I til.i , u m a d i v i s ã o d a p o d e r á ser r e p r o d u z i d a , s e j a m (CIP)
I h o m s o n L e a r n i n g , Inc. quais f o r e m o s m e i o s e m p r e - (Câmara Brasileira do icncial. Trata-se de uma obra na qual diferentes realizações foram reunidas para que
I homson Learning™ é u m a g a d o s , s e m a permissão, p o r Livro, SP, Brasil) os estudiosos da área pudessem compreender os avanços efetivados dentro da abor-
m a n .1 registrada a q u i escrito, d a Editora. A o s A s várias faces d a psicologia
utilizada sol) licença. infratores a p l i c a m - s e a s f e n ó m e n o lógico-existencia I dagem fenomenológico-existencial. E novamente fizemos uma junção de autores
s a n ç õ e s previstas n o s artigos / Valdemar Augusto
I m p i e s s o n o Brasil. 102, 104, 1 0 6 e 1 0 7 d a Angerami-Camon (org.). -
consagrados com novatos, estabelecendo assim um contraponto sobre o modo
Printed in Brazil. Lei n a
9.610, d e 1 9 d e S ã o P a u l o : Pioneira como o processo de desenvolvimento fenomenológico-existencial está se efetivando.
12 3 4 07 06 05 fevereiro d e 1 9 9 8 . Thomson Learning, 2005.
Vários a u t o r e s .
O pioneirismo e o arrojo dos trabalhos apresentados certamente serão referências na
114
Rua rraipu, Bibliografia. vanguarda da prática da psicologia no Brasil.
I» a n d a i CEP 01235-000 ISBN 85-221-0496-4
Sío Paulo SP 1. Psicologia existencial 2. Um novo livro, um novo sonho a acalentar a nossa esperança de que estamos
rei (11)3665-9900
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Psicologia fenomenológica
construindo uma psicologia decididamente humana.
I. A n g e r a m i A u g u s t o .
•..11 ® t h o m s o n l e a m i n g . c o m . b r 05-2996 CDD-150.192
w w w thomsonlearning.com.br índice para catálogo
sistemático:
1. Psicologia f e n o m e n o l ó g i -
co-existencial 150.192
o b r e os autores

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo


Psicoterapeuta. Professora da PUC-RJ. Professora do Curso de Formação em Psico-
terapia Fenomenológico-Existencial do Centro de Psicoterapia Existencial. Presi-
dente do Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro.

André Roberto Ribeiro Torres


(iiaduado em Psicologia pela Unip (Campinas, SP). Psicoterapeuta especializado em
fenomenologia Existencial, professor do Centro de Psicoterapia Existencial e diretor
social da Associação Tamoio Vivo. Já publicou textos sobre psicoterapia existencial em
revistas e sites, tema também apresentado pelo autor em vários congressos.

José Paulo Giovanetti


I )outor em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. Pro-
lessor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais. Professor do Instituto
Santo Inácio (Centro de Estudos da Companhia de Jesus). Coordenador do Curso
de Especialização em Psicologia Clínica da FEAD Minas.

Mauro Martins Amatuzzi


(liaduado em Psicologia pela PUC-SP. Especializado em Aconselhamento Psicoló-
gico pela USP. Doutor em Educação pela Unicamp. Professor do Programa de Mes-
I rado e Doutorado em Psicologia da PUC-Campinas.

Samanta Maria Visigalli Martins


Psicoterapeuta. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Campinas. Docente do
(lurso de Psicologia do Centro Universitário Hermínio Ometto - Uniararas. Super
visora de Estágio Clínico-Existencial Humanista da Uniararas.
A', vi Uli 11 d li I ". I Ii I I i'.li I ili « |li I li 'I il il I h •! il ill « |l Klsti 'I h Ii il

Sylvia Mara Pires de Freitas


Psicóloga. Psicoterapeuta Existencial. Mestre em Psicologia Social e da Personalidade
pela PI K ! RS. Especialista em Psicologia do Trabalho pela (lEUi TL/RJ. Formação em
Terapia Vivencial pelo Núcleo de Psicoterapia Vivencial/RJ. Docente e Supervisora de
Estágio em Psicologia do Trabalho na Universidade Estadual de Maringá/PR. I )ocente
e Supervisora de Estágio em Psicologia Clínica, Aconselhamento Psicológico e
Psicologia de Grupo da Universidade Paranaense (Unipar), Umuarama, PR.

Tereza Cristina Saldanha Erthal u m á r i o


Graduada em Psicologia pela UFRJ. Mestre em Psicologia pela PUC-RJ e especialista
em Psicologia Clínica. Com formação em Psicoterapia Rogeriana, Gestalt-terapia e
Existencialismo, desenvolveu a Psicoterapia Vivencial, u m a abordagem existencial
sartreana. Psicoterapeuta individual e de grupo, exerce as funções de Supervisora
Clínica e de Professora-Adjunta da PUC-RJ, além de orientar e treinar psicoterapeutas
nos cursos de formação em Psicoterapia Vivencial. Autora de vários artigos, no Brasil
e no exterior, também escreveu diversos livros enfocando sua atividade clínica. ( apítulo 1
Atualmente, agrega a seu currículo a direção do grupo Ser-Vir, ampliando ainda mais
a visão existencial do homem. A Arte da Psicoterapia
Valdemar Augusto Angerami - Camon
Valdemar Augusto Angerami - Camon
Psicoterapeuta Existencial. Professor de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde na
PUC-SP. Professor do Curso de Psicoterapia Fenomenológico-Existencial na PUC-
MG. Coordenador do Centro de Psicoterapia Existencial e Professor de Psicologia da (lapítulo 2
Saúde da UFRN. Autor com o maior n ú m e r o de livros publicados em Psicologia
do Brasil e também de livros adotados em universidades de Portugal, do México e do A Perspectiva Existencial diante da C o m u n i d a d e Carente
Canadá. de Recursos Socioeconómicos
André Roberto Ribeiro Torres

Poesia: "Coletando a Exis(/Insis-)tência"


André Roberto Ribeiro Torres

Capítulo 3

(irupos de Crescimento: u m a Prática Sob o


hnfoque Fenomenológico
Samanta Maria Visigalli Martins e Mauro Martins Amatuzzi

- VIII -
A v
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tciltoro lhomson
Capítulo
Capítulo 4

A Psicologia Clínica no Serviço C o m u n i t á r i o do


Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial
do Rio de Janeiro (Ifen)
1
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

a r t e d a p s i c o t e r a p i a
Poesia: "Lembranças da Superfície"
André Roberto Ribeiro Torres
Valdemar Augusto Angerami - Camon

Capítulo 5

Psicologia no Contexto do Trabalho: um Enfoque Para


Fenomenológico-Existencial troque Márcia Coutinho,
1 2 3
Sylvia Mara Pires de Freitas uma aluna... uma professora,
uma amiga... uma companheira,
a ensinar o sagrado dom do magistério e
da dedicação fraterna da amizade...
Capítulo 6

n a P e r S P e C t l V a f t
« t ó g i co- & i s t e „ d a l 1 5 1
Introdução
liste trabalho tem a intenção de refletir aspectos da psicoterapia enfeixando-os
com a conceituação da psicoterapia como um m o d o refinado de manifestação
Poesia: "Do Desapego..." artística; portanto, o seu êxito estaria diretamente ligado aos dotes artísticos do
1 7 1
Valdemar Augusto Angerami - Camón psicoterapeuta.
Discutiremos nuances que determinam que a psicoterapia, longe de ser apenas
um emaranhado teórico que t a m b é m apresenta um conjunto de técnicas específicas,
é uma prática na qual a condução do processo pelo psicoterapeuta se faz com base
Capítulo 7
na sua capacidade de criar e inovar a partir de seu próprio desenvolvimento. Assim
apresenta detalhamentos sobre a prática da psicoterapia efetivada sob o olhar feno
Um M u n d o Novo, u m a Nova Pessoa , , 7
menológico-existencial e suas contribuições para o avanço das discussões en
Tereza Cristina Saldanha Erthal
volvendo essa prática na contemporaneidade.
Merleau-Ponty (1999) ensina que fenomenologia é uma tentativa de descrição
direta de nossa experiência tal como ela é, e sem n e n h u m a deferência à sua gênese e
às explicações causais que o cientista, o historiador ou o sociólogo dela possam
- X - fornecer. É dizer que fenomenologia é voltar às coisas antes do surgimento da
1
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consciência. E um processo psicoterápico embasado nesse modelo, ao considerar após sua apreciação. Outros amantes tio cinema evocarão a figura do grande duvim
cada pessoa c o m o única, com peculiaridades próprias c que não se repetem, sueco Ingmar Bergman como o cineasta que tratou com maior profundidade as
certamente exigirá do psicoterapeuta u m a performance que vá muito além do questões de sofrimento e superação da alma humana. E não se trata de polemizai
domínio de um conjunto de técnicas estanques que se prestam a atender a qualquer estabelecendo-se um confronto entre a obra dos dois grandes mestres, pois
paciente. igualmente professamos admiração e até m e s m o idolatria pela obra de Bergman,
A nossa reflexão será direcionada no sentido de articular contrapontos que se apenas podemos afirmar que escolhemos E La Nave Va pela transformação que
mostrem como um novo olhar para se dimensionar a psicoterapia sob esse prisma. ocorre ao longo de seu desenvolvimento. A eloqüência desse filme associada à sua
A psicologia de há muito caminha de mãos dadas com algumas manifestações grandiosidade, com os diversos personagens tendo suas vidas cruzadas das mais
artísticas, e não são poucos os trabalhos que se desenvolvem com esse imbricamento diferentes maneiras, nos dá um paradigma bastante eficaz para um pareamento com
indissolúvel. Desse m o d o , até mesmo em tratamentos realizados com pacientes o processo da psicoterapia e o seu desenvolvimento em si.
psiquiátricos vamos encontrar atividades que se articulam a partir de manifestações Fellini inicia E La Nave Va com imagens em preto-e-branco e sem qualquer
artísticas, não apenas c o m o m e r o adereço do tratamento de laborterapia, mas como sonorização. E, sem nos darmos conta, ele nos remete à própria história do cinema
um dos principais coadjuvantes no processo de recuperação do paciente. O ex- q uando, em seu início, os filmes eram igualmente em preto-e-branco e sem
pressionismo do paciente através do manejo de tintas e pincéis sobre u m a tela, por qualquer sonorização. Aos poucos, de maneira lenta e progressiva, ele vai tingindo
exemplo, é atividade cujo efeito catártico é conhecido por todos que de alguma as imagens, inicialmente em tons em que se misturam sépia e u m a coloração bem
maneira se debrucem sobre a condição humana. Iremos refletir sobre a mani- suave de cor pastel, para aos poucos tingir as imagens com cores vivas bastante
festação artística não do paciente em sua livre e vã expressão catártica, mas do artista expressivas e ainda com o acréscimo de sonorização. As imagens que eram mudas e
presente no psicoterapeuta e na sua arte inigualável de desvendar mistérios da alma sem colorido ganham som e cor. E de m o d o estonteante ele vai apresentando o
h u m a n a utilizando-se do recurso artístico mais sublime que foi legado à condição desenvolvimento de seu enredo, mesclando diálogos com trechos operísticos. E de
humana: o alívio do sofrimento e do desespero h u m a n o s por meio da palavra; da modo bastante consistente vai descortinando um novo horizonte ao nosso campo
cura de sintomas que afligem a alma h u m a n a de m o d o angustiante e torturante por perceptivo, no qual se misturam agora a força da trama e o m o d o mágico com que
meio do encontro que se estabelece no processo da psicoterapia; da arte de o enredo vai sendo desfiado nos envolvendo de m o d o arrebatador. Vamos nesse
promover a transformação do paciente e de si mesmo pelo domínio dos acon- m o m e n t o efetivar um corte em nossa digressão sobre o filme e articulá-lo com o
tecimentos que se processam nesse encontro. É um trabalho que segue por sendas processo da psicoterapia.
próprias e que, seguramente, transforma o paciente em um novo ser e faz do Inicialmente precisamos refletir com que instrumentos esse artesão deno-
psicoterapeuta um artesão por cujas mãos foi talhado e erigido esse novo ser. minado psicoterapeuta desenvolve sua arte. A predominância de sua ação se dá por
meio de sua percepção. Pelo m o d o como ele apreende o que o paciente está trazendo
à sessão e a maneira como essa apreensão é codificada é que se processa a trans-
E La Nave Va... formação perceptiva que vai ser desenvolvida juntamente com o paciente para a
criação de novas possibilidades existenciais. E, para u m a reflexão ainda mais criativa
Vamos iniciar nossa reflexão a partir daquele que é considerado um dos maiores e que desenvolva ainda mais nossa imaginação, vamos tornar esse trabalho, além de
filmes da história do cinema e também u m a das grandes obras-primas do grande seus postulados teórico-filosóficos, um roteiro cinematográfico.
diretor Federico Fellini, o magnífico E La Nave Va.
Iniciemos, então, com vultos aparecendo na tela escura e, em dolby stereo, o Adágio
Fellini consagrou aos seus trabalhos um toque de emoção; dificilmente alguém do Concerto rf 21 para piano e orquestra de Mozart. Em seguida a câmera fechando
que assiste a algum de seus filmes sai imune. São filmes que abordam a condição em um close do psicoterapeuta, pensativo, momentaneamente curvado sobre um
h u m a n a com tal profundidade que podemos afirmar sem medo de erro que, depois texto no qual faz algumas anotações. Esse é o nosso personagem e nele iremos
de assisti-los, nós passamos por profundos m o m e n t o s de reflexão e até mesmo de debruçar nossas considerações.
transformação. Filmes que mostram a alma h u m a n a em diferentes ângulos de
A câmera em travelling agora focaliza seu semblante mostrando um aspecto refle
análise que nos fazem crer que tudo se transforma e ganha novo dimensionamento
xivo sobre suas próprias anotações.

- 2 -
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X S ( a c iiii i da i isl< i 'i i i

Fellini, em E La Nave Va, situa seu enredo em 1914, q u a n d o o Gloria N, um Fm /:' La Nave Va a elite dos passageiros observa de um patamar superior os
luxuoso navio, deixa a Itália levando as cinzas de u m a célebre cantora lírica para sua sérvios divertindo-sc com seus cantos e danças.
terra natal, a Ilha de Erimo. Cantores, músicos, amigos, nobres e um jornalista O contraste é notório e acintoso.
acompanham o inusitado funeral. A tranqüilidade dos primeiros dias de viagem é
Os sérvios, com suas roupas simples e com o sofrimento vincado em cada
quebrada q u a n d o o navio recolhe u m a embarcação com fugitivos sérvios que estava
parle do corpo e das vestimentas, divertem-se felizes observados pela elite dos
à deriva em alto-mar. Esses novos tripulantes são refugiados da recém-iniciada
passageiros com suas roupas de gala. E a esse contraste das aparências é acrescida a
Primeira Guerra Mundial.
rigidez corporal com que eles observam as danças e a cantoria. Aos poucos, no
O estado de fadiga desses refugiados associado à total precariedade de con- entanto, eles vão se libertando dessas amarras criadas no imaginário e, lentamente,
dições de recursos materiais estabelece u m a distinção muito clara e até mesmo vão se misturando aos sérvios e também passam a divertir-se de m o d o bastante
acintosa entre os dois conjuntos de tripulantes. A direção do navio, em um primeiro arrebatador. Fellini usa a câmera em close em diversas situações e nos coloca de
momento, tenta separar os sérvios dos demais passageiros. No entanto, o que se frente com a intimidade expressiva de alguns desses personagens.
assiste é uma tentativa de aproximação de alguns dos passageiros que faziam parte
A música é esfuziante e a alegria dos sérvios contagia o próprio espectador, que
do primeiro bloco, os quais poderiam ser definidos como a elite da tripulação.
com muito sacrifício não se lança igualmente ao frenesi da dança.
Assim, assiste-se a tentativas de partilha dos alimentos, de m o m e n t o s de entreteni-
mento com participação coletiva nas danças dos sérvios e até mesmo envolvimento
O nosso psicoterapeuta está pensativo. O seu próximo paciente apresenta
emocional entre duas pessoas dos dois grupos. Fellini então conduz a trama de
forma a misturar magia e emoção de m o d o único e incrível, fazendo com que
questões existenciais que estão levando-o a um sofrimento extremado,
sejamos levados às lágrimas em diferentes m o m e n t o s do filme. A música desse filme principalmente pelas circunstâncias em que se dá o enfrentamento de tais
dessa vez não é de Nino Rota, que fez com Fellini a mais perfeita parceria entre problemas.
direção e música. No entanto, em que pese essa ausência, a trilha musical dirigida
A psicoterapia é um processo no qual a vida do paciente é exposta de m o d o
por Gianfranco Plenzo mistura trechos clássicos do m u n d o operístico com melodias
único. A maneira como ele divaga sobre suas possibilidades e dificuldades faz com
inéditas, tornando-a igualmente esplendorosa.
que adquira determinantes próprios e que exigirão do psicoterapeuta dotes ar-
E o que nos interessa nessa trama e que iremos contrapor com a psicoterapia tísticos que lhe possibilitem transcender até mesmo os modelos teóricos que estejam
é o m o d o libertário como a elite do navio rompeu determinadas amarras socioemo- a embasar sua prática. Diante do paciente não há como se recorrer ao cabedal de
cionais para conviver com os sérvios e experienciar momentos de grande arrebata- fundamentos teórico-filosóficos que estejam a sedimentar a nossa atuação. Não há
mento e prazer. Voltemos então à nossa projeção e novamente observemos o nosso como pedir ao paciente que ele nos aguarde, por pequenos m o m e n t o s que sejam,
psicoterapeuta. para que possamos, então, recorrer à nossa bibliografia a fim de aferirmos a melhor
maneira de abordar suas dificuldades emocionais. Essa possibilidade não existe, pois
Ele está reflexivo e aguarda a presença de um paciente. ,i dinâmica da psicoterapia exige u m a intervenção precisa no m o m e n t o de sua
ocorrência, não se admitindo, ainda que hipoteticamente, qualquer simulação
Merleau-Ponty (1999) ensina que o real deve ser descrito, não construído ou posterior. O p r ó p r i o processo de supervisão apresenta tais limitações, pois, q u a n d o
constituído. Isso quer dizer que não posso assimilar a percepção às sínteses que são o caso é levado para discussão ao supervisor, trata-se de algo que já ocorreu e que
da ordem do juízo, dos atos ou da predicação. A cada m o m e n t o , meu campo não se reproduzirá, e de outra parte a própria segurança buscada pelo supervisio-
perceptivo é preenchido de reflexos, de estalidos, de impressões táteis fugazes que nando se dará apenas em relação ao seu embasamento teórico, que determinará um
n.lo posso ligar de maneira precisa ao contexto percebido e que, todavia, eu situo conjunto reflexivo de intervenção, mas não terá como atuar sobre sessões que já
imediatamente no m u n d o , sem confundi-lo nunca com minhas divagações. ocorreram.

(> nosso psicoterapeuta reflete sobre as circunstâncias que envolvem a vida de Merleau-Ponty (1999) mostra que a série de minhas experiências apresenta-se
seu paciente e o modo como poderá ajudá-lo na superação de seus desatinos como concordante, e a síntese tem lugar não enquanto elas exprimem todas um
emocionais. certo invariante e na identidade do objeto, mas enquanto elas são recolhidas pela

-4- - 5 -
A a r t e da i «li i rti tn i| ili i
As v< im is (ai es da psli ologla tem m m o l ó g xlst< o lai

última delas e na ipseidade das coisas. Nesse sentido, q u a n d o lalamos em atitude m e s m o ,i essência de sua e m o ç ã o . A vibração da voz sentida nos m o m e n t o s de

única, estamos fazendo referência a algo q u e n ã o se repete n e m m e s m o c o m o desespero é o desespero expresso no olhar e em outras expressões gestuais. T u d o é

m e s m o paciente. uniforme na totalidade c o r p ó r e a , a p e n a s c a b e n d o ao recurso da lala a possibilidade

ile poder expressar esse teor de e m o ç ã o . É facilmente perceptível a condição da


A peculiaridade de cada pessoa, ademais, torna essa condição de unicidade
l i n g u a g e m , i n c l u s i v e e m n o s s a b u s c a d e i d e n t i d a d e s o c i a l . A n o s s a fala nos identifica
ainda m a i o r e m a i s a g u d i z a d a . E s e diante d o m e s m o paciente t e m o s indícios d e q u e
e mostra a nossa inserção sociocultural, de tal m o d o q u e dificilmente se faz tal
os diferentes m o m e n t o s de seu processo farão c o m q u e t e n h a m o s a sua própria
dissociação. S o m o s aquilo q u e expressamos pela fala, de maneira q u e a totalidade
transformação n o c o n j u n t o d e s u a s atitudes e m a n i f e s t a ç õ e s existenciais, n o t o c a n t e
corpórea igualmente responde a tais manifestações em seu expressionismo gestual.
a diferentes pacientes essa questão ganha contornos de detalhamentos ainda mais
Merleau-Ponty (1999) assevera q u e a posse da linguagem é c o m p r e e n d i d a em
requintados. É dizer q u e o nosso e m b a s a m e n t o teórico-filosófico p o d e nos dar um

p r i m e i r o l u g a r c o m o a s i m p l e s existência efetiva d e " i m a g e n s verbais", q u e r dizer, d e


e n f e i x a m e n t o d e atitudes e d e c o m p r e e n s ã o da condição h u m a n a q u e n o s habilita a

estarmos diante de nosso paciente de maneira verdadeira para poder ajudá-lo em traços deixados em nós pelas palavras pronunciadas ou ouvidas. O sentido das

s u a e m p r e i t a d a libertária. Entretanto, é o nosso d o m artístico q u e poderá conduzir palavras é considerado c o m o d a d o c o m os estímulos ou c o m os estados de cons-

esse p r o c e s s o , u n i n d o esse c a b e d a l teórico-filosófico c o m atitudes q u e possibilitem ciência q u e se trata d e n o m e a r , a configuração s o n o r a o u articular d a p a l a v r a é d a d a

u m a intervenção precisa no m o m e n t o exato em q u e o paciente manifesta seus c o m o s t r a ç o s c e r e b r a i s o u p s í q u i c o s , a fala é u m a a ç ã o , n ã o m a n i f e s t a p o s s i b i l i d a d e s

desatinos existenciais. interiores do sujeito; o h o m e m p o d e falar do m e s m o m o d o que a l â m p a d a elétrica

poder tornar-se incandescente.


Um primeiro ponto de reflexão no processo de psicoterapia é sobre o deta-
B u s c a m o s em nossa prática de psicoterapeuta a superação pessoal através das
l h a m e n t o da fala do paciente. Muitos estudiosos já se d e b r u ç a r a m c o m afinco no
palavras; d i r e c i o n a m o s t o d o s os n o s s o s esforços p a r a q u e o p a c i e n t e p o s s a atingir o
estudo dos aspectos q u e envolvem as nuanças da fala do paciente, e sobre isso

t a m b é m iremos nos deter brevemente. seu autoconhecimento e o seu autocrescimento por m e i o de um processo no qual a

s u a fala s e r á e s c u t a d a p e l o p s i c o t e r a p e u t a p a r a ser t a m b é m o u v i d a p o r esse p a c i e n t e


Feijoo (2000) coloca que a fala é considerada o instrumento fundamental na
de maneira elaborada e refletida à luz de u m a transformação q u e ocorre nessa
tarefa do psicólogo, é o instrumento de q u e o h o m e m dispõe para explicitar sua
reverberação.
situação. Augras apud Feijoo (2000) ensina q u e a fala, pelo seu caráter físico e
É na psicoterapia, dentre as diversas formas de tratamento apresentadas na
abstrato, interpretativo e manipulador, concentra em si todas as modalidades de

formulação e atuação do ser no m u n d o . Para atender ao objetivo inicialmente contemporaneidade, q u e a fala ganha u m a proeminência sequer tangível em outros

p r o p o s t o , q u a l seja o d e e n c o n t r a r n a s i t u a ç ã o existencial s u b s í d i o s p a r a e s t a b e l e c e r m o m e n t o s d a história d a h u m a n i d a d e . Entretanto, é necessário q u e consideremos a

u m a c o m p r e e n s ã o individual, o questionamento da linguagem afirma-se c o m o a d v e r t ê n c i a d e M e r l e a u - P o n t y ( 1 9 9 9 ) , q u e a p o n t a p a r a o fato d e q u e a p a l a v r a a i n d a

m e i o necessário à investigação. está d e s p r o v i d a d e u m a eficácia p r ó p r i a , d e s t a vez porque é apenas o s i g n o exterior

de um reconhecimento interior q u e poderia fazer-se s e m ela e para o qual ela n ã o


E se a fala a p r e s e n t a - s e c o m o algo fundamental e inerente à própria condição
contribui. A palavra n ã o é desprovida de sentido, visto q u e atrás dela existe u m a
h u m a n a , na psicoterapia ela apresenta-se c o m o o instrumento m a i o r de todo o
o p e r a ç ã o c a t e g o r i a l , m a s ela n ã o t e m e s s e s e n t i d o , n ã o o p o s s u i ; é o p e n s a m e n t o q u e
desenvolvimento desse p r o c e s s o , até m e s m o naqueles m o d e l o s de atendimento q u e
t e m um sentido, e a palavra continua a ser um i n v ó l u c r o v a z i o . A s s i m , ela é apenas
priorizam abordagens c o m o uso de técnicas e expressão corporal. A fala apresenta
um f e n ô m e n o articular, sonoro, ou a consciência desses f e n ô m e n o s , m a s , em
um colorido facilmente identificável da e m o ç ã o q u e transmite. E x e m p l o disso p o d e
q u a l q u e r caso, a linguagem é apenas um a c o m p a n h a m e n t o exterior d o pensamento.
ser observado em ligações telefônicas, q u a n d o n ã o t e m o s o expressionismo gestual
É o significado q u e atribuímos à palavra q u e lhe dá contornos constitutivos e
de n o s s o i n t e r l o c u t o r e t o d a a s u a e m o ç ã o é t r a n s m i t i d a p e l a v i b r a ç ã o d a v o z , d e tal
libertários; a palavra possui, desse m o d o , vibrações e configurações q u e lhe são
sorte que, muitas vezes, apenas nas primeiras palavras já t e m o s condições de
inerentes e q u e se transformam na própria e m o ç ã o q u e vibra em cada fragrância de
identificar a c o n d i ç ã o e m o c i o n a l dessa pessoa.
vida. A palavra pode, então, estar em concepção na qual estará a q u é m c o m o

Na psicoterapia a fala determina o m o d o c o m o , inclusive, ocorrerá a inter-


expressão significativa, o u , a o c o n t r á r i o , estar a l é m . É dizer q u e estamos diante de

venção do psicoterapeuta. É dizer que, se esse artesão da arte da c o m p r e e n s ã o da


um imbricamento no qual inicialmente n ã o há n i n g u é m q u e fale, ou ainda que ha
condição h u m a n a descuidar dos detalhamentos da fala do paciente, perderá até
um sujeito, m a s ele n ã o é o sujeito falante, é o sujeito p e n s a n t e .

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A psicoterapia, ao longo das últimas décadas, sistematizou um cabedal teórico I'a mesma forma quando damos ao nosso pensamento fala interioi ou
no qual reflete das mais diferentes maneiras sobre a importância da fala na exterior, ele progride no instante e como que por fulgurações, mas em seguida é
manifestação dos sentimentos humanos e até mesmo como tudo que se passa em preciso que nos apropriemos dele, e é pela expressão que ele se torna nosso
nossa subjetividade é transpassado através dela. Assim desde teorizações que
i Merleau-Ponty, 1999). É dizer que a denominação dos objetos não vem depois do
atribuem à fala até mesmo a manifestação de possíveis atos falhos até aquelas que
iii onhecimento, ela é o próprio reconhecimento. Da mesma forma que expressar os
igualmente a situam como a fonte primeira do desaguadouro do expressionismo
sentimentos e as dificuldades e vicissitudes da vida por meio da palavra é uma
humano. No entanto, embora professemos a importância da fala e de sua articulação
maneira de estabelecer o reconhecimento dos fatos que possam estar agrilhoando a
no desenvolvimento da psicoterapia, é necessário novamente escutarmos Merleau-
própria vida.
Ponty (1999), que nos ensina que, se a fala pressupusesse o pensamento, se falar
Voltemos ao psicoterapeuta de nosso filme.
fosse em primeiro lugar unir-se ao objeto por uma intenção de conhecimento ou

por uma representação, não se compreenderia por que o pensamento tende para a

expressão como para seu acabamento, porque o objeto mais familiar parece-nos
Na última cena que havia sido mostrada ele está pensativo e a seqüência mos-
indeterminado enquanto não encontramos seu nome, pois o próprio sujeito pen-
tra que ele estava à espera de um paciente. Este chega e é recebido pelo nosso
sante está em um tipo de ignorância de seus pensamentos enquanto não os for-
psicoterapeuta. Após os cumprimentos formais, ele é convidado para adentrar
mulou para si ou mesmo disse e escreveu, como mostra o exemplo de tantos
a sala de psicoterapia, e mais uma sessão terá início. A câmera passeia pelo
escritores que começam um livro sem saber exatamente o que nele colocarão. ambiente mostrando as nuanças da sala de atendimento do nosso psico-
terapeuta antes de enfocar com mais detalhamento a sessão que ora se inicia.
Fellini coloca os passageiros do Glória N em situações nas quais os seus sen-
timentos são expressos tanto pela fala como por trechos operísticos em uma Cada detalhe mostrado pela câmera enfeixa com seus detalhamentos o con-
variação temática que reflete os desatinos vividos pelos diferentes personagens. A lexto sobre o qual as nossas divagações irão se processar. É importante fazermos
condição libertária é mostrada com cada um desses personagens na realidade
uma breve pausa nesse sentido para refletirmos sobre o ambiente no qual a
rompendo com grilhões erigidos e sedimentados no próprio imaginário, o que,
psicoterapia se processa. É comum, principalmente nos colegas que estão iniciando
aliás, se configura como a mais difícil das amarras a serem rompidas. Quando
no exercício da profissão, a preocupação com a presença de muitos livros no
estamos diante de dificuldade e barreiras criadas no imaginário, a nossa condição
ambiente da psicoterapia. Em geral tal preocupação denota a necessidade de mos-
libertária necessita superar-se de modo único e arrebatador, pois tais barreiras
trar cultura e saber a partir da presença de um número significativo de livros. Na
sempre estão muito além da própria configuração de realidade. Ao mesmo tempo
realidade, o saber indispensável para a prática da psicoterapia terá de ser exibido
em que a fala é libertária, é necessário que fiquemos atentos, ao fato de que, se um
pela performance do psicoterapeuta durante o desenrolar do processo, e não pela
pensamento que se contentasse em existir para si, fora dos incômodos da fala e da
presença de livros. Ou, o que é ainda pior, muitas vezes, nesse afã de exibir livros em
comunicação, logo que aparecesse, cairia na inconsciência, o que significa dizer que
sua sala de atendimentos, exibem-se livros que sequer apresentam tangenciamento
ele nem mesmo existiria para si.
com a psicoterapia. E que muitas vezes até comprometem o próprio desenvolvi-

Alguns autores muitas vezes começam um livro sem saber o que exatamente mento do processo em si.

nele colocarão, sendo que a trama vai se desenvolvendo com o próprio desenrolar O ambiente do nosso psicoterapeuta apresenta cadeiras de vime, muitas plan-
do texto, assim como dizia Machado de Assis, para quem "palavra pede palavra que
tas e alguns quadros de arte na parede. Esses quadros apresentam detalhes que
se transforma...", igualmente Fellini pode ser enquadrado nessas reflexões quando
podem se tornar projetivos para os pacientes, fato esse que também requer um certo
realiza o filme 8 Vi. Nele, mostra um cineasta às volta com a falta de inspiração
cuidado em sua exposição e também na observação daquilo que é trazido pelo
diante da realização de um novo filme. Considerada por muitos analistas como um
paciente a partir dessa projeção. Merleau-Ponty (1999) ensina que, como se disse
filme autobiográfico, essa obra mostra de modo claro como alguém que precisa
freqüentemente, para a criança o objeto só é conhecido quando é nomeado, o nome
desenvolver uma determinada produção artística se vê envolto nas mais diferentes
é a essência do objeto e reside nele do mesmo modo que sua cor e sua forma. Para
dificuldades quando não consegue definir aquilo que seria o seu ideal de concepção
o pensamento pré-científico, nomear o objeto é fazê-lo existir ou modificá-lo. Esses
e lapidação de sua atividade.
"erros", no entanto, seriam incompreensíveis se a fala repousasse em um conceito,

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As Vl111 15
' faces da psli oli gla fenomenológli o-exístencíal A dilo do l >sli i »Ii in M 'I''

pois este deveria sempre se conhecer como distinto dela e conhecê-la como um A sessão de psicoterapia se inicia eo nosso paciente começa ,i divagar sobre triviu
acompanhamento exterior. Da mesma maneira, a composição dos objetos em uma lidades como que a buscar um "aquecimento" para adentrar cm questões mais
sala de psicoterapia deve seguir parâmetros que sejam inerentes à própria realidade dolorosas. Fala de seu cotidiano permeando coisas de sua rotina profissional com
cultural do psicoterapeuta. A fala presente em um processo de psicoterapia deve ser questões que envolvem sua realidade familiar no tocante à praticidade de algumas
deliberações que se vê obrigado a tomar pela ausência da esposa. E, num repente,
aquela sobre a qual o paciente direcione seus desatinos e percalços existenciais de tal sem que se determine um ponto de estrangulamento dos assuntos iniciais, começa
modo que o ambiente da psicoterapia não seja um estímulo para desviá-lo de tais a lalar sobre a noite do suicídio de sua esposa. Eis a sua fala:
propósitos.
— Estávamos na sala assistindo à televisão. O Thiago, a Daniela e eu. Assistíamos
ao "Show do Milhão" com o Silvio Santos. Nada havia que nos mostrasse que algo
O paciente que está sendo atendido pelo nosso psicoterapeuta é um homem tão terrível estava por acontecer. A Andréia foi para o quarto dizendo que estava
de cerca de 35 anos de idade e que apresenta em seu semblante sinais visíveis com sono. E, além do mais, ela não gostava daquele programa, que na realidade
de sofrimento e desespero. Seu aspecto denota também sinais visíveis de noites assistíamos por causa das crianças, que gostavam demais daquelas provas de conhe-
cimento. A única coisa que poderia ser descrita como diferente é que naquela noite
mal dormidas. Ele é viúvo e pai de dois filhos pré-adolescentes. Sua esposa se
ela estava muito calada e quase não falou com nenhum de nós. Mas isso também
matou a cerca de dois meses em uma noite trancada em seu quarto no mesmo não era muito diferente de outras noites, quando ela ia dormir alegando cansaço,
momento em que ele e os filhos estavam na sala assistindo à televisão. sem praticamente nos dirigir a palavra. Eu mantinha o meu revólver guardado
sobre o maleiro do guarda-roupa, bem escondido, com medo de que as crianças o
Dissemos em um texto anterior (Angerami, 2003a) que o suicídio é um ato que descobrissem e pudessem fazer alguma traquinagem. Não tinha receio dela. É
sempre é revestido de muita violência, independentemente do instrumento hilário, não? Nada em seu cotidiano demonstrava que ela estava tão desesperada.
utilizado. A violência repousa no ato em si e não na maneira de sua ocorrência. O Não havia nenhum indício que pudesse demonstrar o seu estado d'alma. Ou será
suicídio é também um ato sobre o qual repousam sentimentos de culpa nos que éramos tão insensíveis a ponto de não perceber o seu desespero? Nos últimos
familiares e amigos que conferem ao ato uma dramaticidade que não cessa. Assim, tempos, inclusive, a nossa vida estava calma, sem brigas e nenhum amargor. Tudo
é muito estranho. Não é possível articular os fatos para tentar compreender o que
sentimentos envolvem principalmente os familiares com questões do tipo: "o que aconteceu naquela noite...
fizemos de errado", "onde falhamos", "o que poderíamos ter feito para evitar essa
tragédia?" E assim por diante. Todas essas questões, reflexões, causam à família um O nosso psicoterapeuta mantém-se em silêncio e mostra que a arte da psicoterapia
sofrimento infindável que muitas vezes é até maior do que o luto em si. consiste, muitas vezes, em manter o silêncio para que o paciente possa escutar a
dimensão de sua dor.
O nosso paciente, assim, traz sobre si tais sofrimentos além daqueles inerentes
à sua própria peculiaridade. Ele foi indicado para procurar o nosso psicoterapeuta E manter-se em silêncio é um exercício de ascese espiritual diante do turbilhão
depois de inúmeras consultas psiquiátricas nas quais simplesmente recebia emocional exibido pelo paciente. É necessário que se respeite sua catarse e que ela
prescrição medicamentosa de calmantes e ansiolíticos. seja o contraponto em que ele pode se escutar para que sua dor tenha uma outra
Nada mais. i onfiguração, permitindo, assim, que a intervenção do psicoterapeuta seja realmente
Um amigo da família indicou o nosso psicoterapeuta, e ele, desesperado com a o bálsamo capaz de cicatrizar suas chagas emocionais.
sua condição e sabedor que tinha ainda sobre si a responsabilidade dos filhos, que A câmera focaliza o semblante de desespero de nosso paciente. Aperta as próprias
igualmente estavam desesperados e atônitos com a ocorrência, procurou pelo mãos como se quisesse esmigalhá-las. Em seguida desatina a chorar um choro
tratamento buscando encontrar uma âncora para sua vida. profundo, no qual o ranger de seus dentes é detalhe apanhado em close com a
O suicídio, além de mostrar o desespero em que a pessoa se encontra envolta, câmera abrindo em um contraponto entre a luminosidade do sol que adentra a sala
mostra também a nossa fragilidade, de tal maneira que nos encontramos com e o tom escuro provocado pelo enquadre do diafragma nessa projeção. O nosso
nossas vidas se tocando e se modificando a partir do contato com outras vidas, ainda psicoterapeuta mantém-se em silêncio. E o paciente, como que recuperando o
fôlego, continua a falar:
que não tenhamos consciência de tais fatos. Dizer que o suicídio trouxe uma nova
dinâmica àquelas vidas é óbvio, no entanto, o que precisa ser esclarecido é o modo — O pior é o Thiago, coitado, que ainda se sente responsável pela morte da mãe,
dizendo que, se ela estivesse assistindo à novela, ela não se mataria. Ele tem a
como enfrentarão suas novas realidades existenciais após a tragédia que se abateu sensação de que ela se matou por causa daquele programa do qual ela não gostava.
sobre eles. Estamos tão perdidos com essa tragédia que cada um fala uma coisa e nada tem a

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vci com n.iil.i. Na verdade, estamos tão perdidos com isso tudo (/t/f qualquei bo (> que o senhor está querendo saber...?
bagem é usada para tentar explicar uma coisa de que sequei sabemos./ verdadeira 1'odemos perceber pela pergunta do paciente que a colocação i/i> psicoterapeuta,
dimensão. A I >.miel.i, outro dia mesmo, disse que achava quea m.ie tinha se matado embora feita de maneira bastante simples, traz. em seu bojo um questionamento >quc
porque ela não eslava com notas boas na escola, li eu às vezes penso que ela se
ii.ii) estava sendo leito pelo paciente, de tal modo que esse se vê obrigado a lelletii
cansou de nós porque eu tinha falado em separação alguns meses atrás. Nao lemos
como saber o que aconteceu. Ficamos procurando em cada uma de stnis últimas sobre o suicídio de uma outra maneira, certamente bastante diferente dessa usual
lalas e ações algo que possa nos direcionar algum tipo de compreensão para tudo que está sendo feita em seus relatos.
que aconteceu. Mas não tem jeito, quanto mais pensamos c falamos, mais nos () psicoterapeuta ressalta, então, sua intervenção:
damos conta de que estamos completamente sem rumo...
Eu perguntei qual é o significado do suicídio de sua esposa em sua vida...
A câmera agora focaliza o nosso psicoterapeuta, que continua em silêncio a escutar
O paciente é novamente focado em close, mostrando sinais de desconforto
o drama de nosso paciente. Ao mesmo tempo, mostra um grande acolhimento em
sua dor com uma postura na qual se mostra o modo como sua dor é compreendida emocional diante do questionamento do psicoterapeuta e, após exibir expressões
e aceita sem nenhum tipo de julgamento e preconceito. gestuais bastante tensas, coloca:
— O que o senhor está querendo saber? Acho que entendo o que você quer dizer.
O nosso paciente é focalizado agora com a câmera inserindo-o no contexto da sala
Você está me questionando no que minha vida se tornou depois desse ato. O que
de atendimento de tal modo que ele é inserido como fazendo parte daquela
totalidade. E ele continua a falar: aconteceu com a gente depois disso tudo, e no que passamos a acreditar, ou melhor,
descrer depois da morte dela... talvez também você esteja falando da ruína moral em
— Eu às vezes fico pensando que sou culpado pela sua morte porque ela se matou que nos encontramos ao enfrentar os olhares das pessoas que parecem estar o
com meu revólver. Sc eu não possuísse arma de fogo em casa, talvez ela não se tempo todo com o dedo em riste a nos dizer: ela se matou e vocês são os culpados.
matasse. Mas também acho que, se ela realmente quisesse se matar, ela procuraria Culpados de quê, porra? Como podemos ser culpados de alguma coisa se estamos
outro jeito. Agora, esse negócio de ela ter se matado quando todos estavam em casa sendo condenados ao maior dos sofrimentos... As crianças perderam a paz... Estão
assistindo à televisão foi muito cruel. Ela não teve piedade nem dos filhos, sem indo mal na escola... Eu estou desorientado no trabalho e na vida... E o tempo todo
pensar no que o seu ato faria na vida deles. Os dois estão precisando de tratamento convivemos com pessoas que querem saber detalhes do que aconteceu... E sempre
como eu. Estamos um pior que o outro. Parecemos barata tonta andando de um tem aqueles que dizem: e vocês não perceberam nada?! Ela não manifestava
lado para o outro da casa sem conseguirmos entender o que de fato ocorre... nenhum ato estranho? O que teríamos que perceber, porra? Como poderíamos
saber que ela estava de saco cheio da vida e de todos nós? Como poderia saber que
A câmera focaliza o paciente, detalhando sua expressão gestual, mostrando o sofri-
a filha-da-puta sabia mexer na minha arma? E ainda como poderia adivinhar que
mento estampado em seu rosto e a vibração tonal presente em seu depoimento.
ela iria escolher um momento em que estávamos todos reunidos? Quando ouvimos
Novo close, e as mãos a gesticular são focadas, dando novo constitutivo de cena o barulho do tiro e corremos para o seu quarto, foi o maior desespero, aquela cena
nesse fragmento da sessão de psicoterapia. dela toda ensangüentada....
A câmera agora se distancia do paciente e, em uma nova abertura, foca o psico- Nesse trecho do depoimento do nosso paciente, ocorre um corte de cena. E, em vez
terapeuta em interação com o paciente, dando destaque ao ambiente todo. de a câmera focalizá-lo enquanto ele fala, apenas sua voz é mantida, mas as imagens
exibidas agora são as da cena que ele descreve. Assim são mostrados em uma sala o
Focaliza-se um dos quadros que emoldura a parede, permitindo ao espectador um
nosso paciente e os filhos assistindo â televisão quando é ouvido um forte estam-
interlúdio com aquela obra de arte que faz parte do ambiente. Esse contraponto da
pido de arma. E todos correm para o quarto e encontram a esposa e mãe ensan-
obra de arte com o depoimento desesperador do paciente é uma maneira de fazer
güentada com a arma ao lado do corpo.
com quea dramaticidade da emoção transmitida seja atenuada e o espectador possa
sim continuar atento ao conteúdo que está sendo transmitido. Novo corte de cena e novamente a câmera focaliza o nosso paciente em seu
A câmera foca o psicoterapeuta que, após esperar que o paciente interrompa seu depoimento:
depoimento, coloca: — Isso que é o significado do suicídio em minha vida? A total falta de rumo em que
estamos todos? A total desorientação... ninguém mais sabe o que fazer para tentar
— Qual o significado do suicídio de sua esposa em sua vida...?
entender o que aconteceu... todos estamos fazendo tratamento... e isso você sabe,
O paciente olha atônito para o psicoterapeuta como querendo entender o teor de sua estamos todos com a cabeça pegando logo de tanto remoer os últimos instantes de
pergunta. Afinal, a única coisa sobre a qual ele fala nos últimos tempos é sobre a morte sua vida... Será que tinha algum brilho estranho em seu olhar e nós não perce-
e o suicídio da esposa. E, como, então, pode ser questionado sobre o significado do bemos!? Será que ela havia se queixado de nós para alguém e nós não ficamos
suicídio? Desse modo olha atento para o psicoterapeuta e, então, pergunta: sabendo!? Ou será que ainda estamos condenados a pagar pelo resto da vida pela

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I X S ( a i iii" da i »8li' 'i i 'i' i

tom ai.i dela!? I tuilo muito estranho, <• /i/i/<> uni.i lom ura só... As \ cz.es eu tu ordo l ih lia Nave \ 'a observamos, em meio à turbulênc i.i provoc ada pela presença
de madrugada ouvindo o barulho daquele tiro... f. tudo um grande horror... voei i vios n o navio, a necessidade de uma superação constante paia que as nuanças
estar causado, mal se agüentando nas próprias pernas e no meio da madrugada ser
lil•• i L u i.is da condição humana possam se manifestar de modo bastante marcante.
acordado por barulho de tiro é loucura demais para a compreensão de qualquer
cristão... I • M i n i então, d e modo generoso, em uma alternância significativa aos conflitos d o s
p i i H s a g c i r o s , mostra-nos o navio flutuando sobre as águas em uma noite esplen
A câmera novamente recua e foca o ambiente em sua totalidade. Passeia com o
i ,i As águas adquirem tons prateados ao mesmo tempo em que o azul do céu
espectador pela sala e se detém, agora, nas plantas. O contraste da vida presente nas
plantas colide com o depoimento desesperado de nosso paciente. As vozes são I.Iiii.i e s s e quadro de maneira esplêndida. Esse mesmo contraste também s e
deixadas quase que imperceptíveis e o som fulgurante é o da música de Mozart. nliscrva no processo de psicoterapia, no qual o paciente igualmente alterna mo
Dessa vez o primeiro movimento do Concerto V para Violino e Orquestra, um n u niiis d e turbulência com fragmentos de serenidade e até mesmo de prazer. E
andantino vigoroso que traz vida e luz para a cena exibida. 'li. iv.u tais contrastes e fazer com que esses sejam sustentáculos para a recupe-
Novo enquadre para o expressionismo gestual do paciente que continua a falar: i n, .ih emocional do paciente é, sem dúvida alguma, um dos predicados necessários
— A sensação que tenho é que, quando passo pela rua, todos me olham e dizem nas
i ii i ii pleno desenvolvimento desse processo.
minhas costas: aquele é o marido da suicida, aquele é o canalha que levou a mulher A arte da psicoterapia consiste justamente nessa condição do psicoterapeuta
ao fim da linha, ao desespero maior que uma pessoa pode chegar. O pior mesmo • Di i iinseguir apreender os sentimentos do paciente em suas alternâncias para levá-
não é estar sendo julgado pelos outros, o pior é eu mesmo me condenar. O meu lii .i reflexões que possam direcioná-lo a novas perspectivas e rumos existenciais. É
maior algoz sou eu mesmo, o meu maior juiz é o meu espelho; o meu carrasco é o
meu próprio pensamento... Tem momentos em que penso que não agüentarei mais
Igualmente a sua condição de respeito aos movimentos do paciente em direção a
i m v o s patamares libertários e que muitas vezes são conflitantes com valores an-
esse tipo de pressão... Momentos em que parece que a cabeça vai explodir...
Momentos em que eu também não dou um tiro na cabeça porque penso nas i mente estabelecidos. Antes de qualquer outro balizamento, é saber que a
crianças... Se não fosse por elas acho que cu não estaria agüentando essa barra... É i' iii iiieiapia, assim como um filme de Fellini, é um desfiar constante de emoção em
muito difícil... É muita destransação para segurar... Não tenho um segundo sequer iii amplitude mais esplendorosa. E aqui podemos estabelecer um paralelo entre a
de trégua... Não consigo pensar em outra coisa que não naquela cena dela toda
ensangüentada... Tenho a sensação de que não vai ser possível reconstruir nada...
l'Mi oierapia como processo libertário e outros processos de desenvolvimento pes-
ii.il i o m os filmes de Fellini e as produções cinematográficas estadunidenses.
Tudo desmoronou naquela noite... É tudo um flagelo que não tem mais fim... É
tudo um verdadeiro circo de horror... Cena de tiro, sangue e muita gritaria... Você ()s filmes de Fellini primam por trazer a emoção presente na condição humana
não imagina o que é, então, ter que prestar esclarecimentos para o pessoal da polícia . li diferentes maneiras e sempre de modo totalmente inusitado. Não há em sua obra
técnica... Também, coitados, eles estão no papel deles, precisam fazer a
reconstituição da ocorrência... A gente que já está quebrado e não agüenta mais
nenhum momento em que esse aspecto não seja mostrado de modo marcante. Os
nada e ainda tem que ficar dando um monte de explicações que parecem não ter o hl m e s estadunidenses, ao contrário, apresentam apenas a preocupação com o
menor sentido... Mas, pensando bem, não, que servicinho maroto o desse pessoal, i iiileienimento, tendo em suas produções a preocupação em fazer com que o
passam a vida reconstituindo cenas de morte, mexendo em cadáveres... Na verdade, • l'ii tador saia da exibição cinematográfica satisfeito com os finais felizes que são
é a gente que não está em condições de falar em morte, em suicídio, nessas coisas mostrados. A sua produção cinematográlica é parte da portentosa indústria do
todas... Os vizinhos tentando acalmar as crianças, os parentes e os amigos chegando,
i nlretenimento estadunidense, a qual, além dos números absurdos de faturamento
e o corpo lá estendido para a reconstituição da ocorrência... Não dá... Será que é isso
que você quer saber quando pergunta sobre o significado do suicídio? Não, o financeiro, também traz em seu bojo a transmissão dos valores de sua cultura.
suicídio dela é algo que não pode ser explicado nem colocado em palavras... O que \ • .nu, o chamado "American way of life" é também transmitido por esses filmes.
ele está fazendo em minha vida, então, é algo que não dá para calcular... É tanto o já foi dito inúmeras vezes, é possível conhecer-se o coração de Nova York - o
estrago que não é possível contabilizar... Talvez quando tudo estiver mais serenado i entrai Park, (Manhattan) etc. - sem nunca ter colocado os pés por lá, pois a
seja possível uma avaliação das perdas e danos. Um domingo desses, depois do
produção cinematográfica estadunidense torna esses cantos bastante familiares a
almoço, o telefone tocou e era a mãe dela... Coitada, estava chorando e dizia que
agora não mais iríamos almoçar aos domingos na casa dela... Sem dúvida, com ela Iodos os espectadores que assistem aos seus filmes. Desse modo, aquele depoimento
ninguém mais almoçará... Mas a coisa é que as crianças e eu não temos como i i o freqüente das pessoas que visitam Nova York pela primeira vez sobre a
enfrentar essa barra do almoço do domingo em família sem a presença dela... Ainda liiiiiliaridade dos locais visitados nada mais é do que a repercussão imediata da
está tudo muito recente... Tudo é muito difícil... Tudo é um só desespero... transmissão do American wayoflife.

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As V< lili IS li li OS <)(] | isll i l|l K |ll I || II |i i| i ii i| ii i|,'„ |„ , , , ixlsll l| ii li il
I i lili ni i Ihi ii ni ni
A , irti •' i' 11 ''.i' • iti" i|

Althousser apud Angerami (2003a) ensina que alienação é justamente aquele \ câmera afasta-se do paciente e foca o ambiente. Detalha o semblante do
processo pelo qual determinados valores sao transmitidos sem que tenhamos clareza /•Mi oterapeuta, que observa atento o depoimento c/e nosso paciente. Ele nada lala e
da maneira como ocorreu sua inserção. Assim, por exemplo, a prática freqüente tias
permite, assim, que o paciente continue com o seu depoimento de dor.
grandes cidades brasileiras de restaurantes selfservice nada mais é do que uma
Essa semana tive que tazer compras no supermercado... foi aquele sufoco, pois
íamos juntos e agora estou tendo que me virar sozinho com isso... Não se trata da
dessas imposições culturais que nos são transmitidas, dentre outras formas, por
dificuldade de não saber o que comprar, até porque praticamente era eu que la/ia a
meio da indústria de entretenimento estadunidense.
lista dn (pie precisávamos em casa, a questão é outra, é não tê-la ao meu lado para
Esse contraste entre a produção de Fellini e a produção estadunidense é seme- mais nada. Nesse dia do supermercado foi como se constatasse esse fato de maneira
lhante às diferenças existentes entre a psicoterapia de base fenomenológico-exis-
muito dolorosa, pois nem mesmo o fato de dormir sozinho na cama tinha
lencial e aquelas que representam o poder dentro dessa área - predominantemente
escancarado de modo tão cruel a sua ausência... É muita dor... A sensação que leniu >
e que o coração vai explodir... E o pior, sou hipertenso... e se não me controlar vou
a psicanálise e a psicoterapia de base cognitivo-comportamental. Enquanto a
encontrar com ela no inferno antes do tempo... E não dá nem para pensar nisso,
primeira trabalha de modo artesanal, aceitando cada paciente como único, alguém
pois as crianças, mais do que nunca, dependem agora da minha presença... Estou
singular cuja peculiaridade apenas e tão somente é inerente a si próprio, as demais completamente perdido e sem direção... O único rumo que tenho agora na vida é
apresentam, além de teorizações estanques que englobam a totalidade das pessoas, cuidar dos meus filhos, pois eu mesmo já estou condenado com essa espada na
um conjunto de técnicas que é acoplado a qualquer paciente que esteja sendo i abeça a me fustigar o pensamento... Imagine se eu vou conseguir encontrar outra
submetido aos seus métodos. mulher... certamente, na hora de beijá-la, vou ter que interromper tudo, pois
ouvirei o barulho do tiro... falo assim como se em algum momento eu não ouvisse
Dissemos anteriormente que Fellini, em E La Nave Va, praticamente faz uma esse barulho... Já falei, a única coisa que tenho na cabeça é esse barulho... E sabe o
retrospectiva da própria história do cinema, pois, se no início ele apresenta imagens (pie o senhor pode fazer? Quando o convidarem para dar alguma aula sobre
sem som e cor, no final do filme, ao contrário, após o encerramento da trama, ele suicídio, o senhor me chama que eu vou falar sobre o significado do suicídio e o
exibe o set da filmagem com toda a estrutura de andaimes e demais recursos uti-
barulho do tiro na cabeça... Certamente vai ser uma aula inesquecível... E quando
os alunos fizerem alguma pergunta sobre como superar esse sofrimento,
lizados nessa produção. Como um novelo de lã que aos poucos vai ganhando forma
simplesmente direi que o tiro é a realidade maior dessa vida e que, portanto, não
depois de estar completamente desfiado, vamos entrando em contato com os
pode ser deixado de lado jamais... E se eles ainda quiserem, falarei sobre o
recursos que ele usou para criar um dos filmes mais magníficos da filmografia
significado do suicídio detalhando a cena dela ensangüentada no chão à espera da
mundial. Assim também a psicoterapia precisa se utilizar desse artesanato trazido polícia técnica... Darei detalhes dos gritos das crianças e do meu desespero em
pela apreensão do psicoterapeuta ao depoimento do paciente para enredar sua vida tentar acalmá-las.
de modo grandioso e único. O nosso paciente chora muito, e a câmera, distanciando-se um pouco, focaliza seu
semblante de dor ao mesmo tempo em que fecha e abre simultaneamente em uma
alternância entre a sua expressão de desespero e o ambiente no qual se desenvolve
Voltemos, então, ao nosso paciente e seu depoimento com a câmera focando os seus o processo da psicoterapia. Suas mãos cobrem o rosto como a protegê-lo do próprio
olhos:
choro. O psicoterapeuta mantém-se em silêncio.
— Nos primeiros dias que se sucederam à morte dela, era como se não fosse pos-
sível essa tragédia. Tudo era muito irreal, fiquei ouvindo aquele tiro dia e noite... I aqui podemos dizer que reside um dos grandes pontos da arte da psico-

Não adiantava tentar dormir, pois bastava fechar os olhos que aquele barulho sur- i' i.ipia: saber o momento em que o silêncio do psicoterapeuta é a melhor das

gia como se fosse a única coisa que existisse na vida. E o pior é que ainda tinha as Inlei venções possíveis; saber que muitas vezes a palavra é desnecessária, pois o gesto

crianças para consolar... Não estava agüentando nem comigo mesmo e ainda tinha • li .u olhimento é dado pela postura de interação e pela maneira como o paciente se
os meninos para amparar. Acho que é isso que você quer saber quando pergunta i" ii ebe compreendido em sua dor. É dizer que, embora o psicoterapeuta tenha na
sobre o significado do suicídio, não? O significado do suicídio é isso: uma lama que palavra a proeminência de sua intervenção, muitas vezes, o silêncio é que determina
cobriu toda a nossa vida sem piedade de ninguém... Não somos mais os mesmos...
i' .ii olhimento presente no processo. E, seguramente, quando ouvimos psicotera-
Tudo agora é feito a partir da referência do suicídio... Tudo passa por aquela noite...
i • hlis experientes relatando suas experiências, uma das primeiras coisas que salta
Nem mesmo ver televisão conseguimos, pois, afinal, foi enquanto víamos televisão
In-, olhos é sua postura de colocar que aquelas intervenções consideradas pri-
que ela estourou os miolos... E não existe nada que possa trazer algum alívio para o
inordiais no início da atividade vão perdendo, aos poucos, espaço para o silêncio,
nosso sofrimento... Vê o meu caso, além de tomar calmantes para tentar dormir,
ainda tenho que vir aqui para tentar encontrar algo que me traga paz. para a reflexão introspectiva. Colocam que os anos de prática vão moldando suas

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posturas de modo que se evidencia com total nitidez que o paciente se escuta com i.i/oes dessa postura e ler I.inibem consciência das conseqüências de seu ato, pois
muito mais afinco no silêncio. icguramente, para o paciente, essa atitude o levará a reflexões muito contundentes,

Em um trabalho anterior (1995) colocamos que o paciente, quando fala de i > som do silêncio é algo bastante difícil de ser suportado, principalmente para

modo convulsivo no processo psicoterápico, escuta sua dor de maneira única. E que quem já possui o coração dilacerado pelo sofrimento; o silêncio faz com que n o s

com base nessa escuta pode, então, refletir sobre a dimensão de sua realidade e a i\s< utemos de maneira única sem qualquer ruído a desviar nossos sentimentos.

apreensão que faz de sua problemática a partir disso. O silêncio é, assim, um E se adentrarmos então em reflexões por meio das quais o silêncio depende de
contraponto portentoso ao depoimento de dor do paciente, pois, diante dessa pos- iiiii.i superação do próprio psicoterapeuta para ser inserido no processo, e isso se
tura, será possível perceber o tanto de acolhimento e respeito existentes na postura
i onsiderando que a nossa propulsão primeira é sempre intervir através da palavra,
do psicoterapeuta. No entanto, é importante frisar que o silêncio como postura de
irmos que o silêncio é o balizamento pelo qual a psicoterapia ganhará contornos
intervenção deve ser balizado de modo a ser um diferencial de intervenção e não
específicos de superação de nossos limites pessoais. Será assim o determinante de
algo que possa soar como falta de alternativa no rol de intervenções disponíveis ao
que o depoimento do paciente, ao ser confrontado com o silêncio do psicoterapeuta,
psicoterapeuta.
lerá uma nova configuração de reflexão. E seguramente de um novo desdobramento

O domínio desses detalhamentos é responsável pelo fato de que, muitas vezes, em seu constitutivo existencial.

temos profissionais que são excelentes teóricos, mas incapazes de exercer uma

prática convincente de psicoterapia. E a psicoterapia apresenta-se como um enfeixa- Voltemos, então, o foco novamente para o nosso paciente:
mento praticamente artesanal entre a teoria e seus postulados teóricos, e a sua prá-
— A dor que sinto é tão imensa que, por mais que tente falar, não é possível dimen-
tica, muitas vezes, implica que a intervenção do profissional mostre um completo sioná-la em toda a sua extensão. É uma dor que parece que vai estrangular o peito...
divórcio de seus pressupostos teóricos, pois a sua ação ocorre no momento em que falta o ar para respirar... falta claridade na casa, no dia, na rua, em todo lugar... A
o paciente expressa seus sentimentos, portanto não permite que a sessão seja sensação que tenho é de que só existe treva em minha vida... É tudo sempre igual,
interrompida para que o psicoterapeuta possa consultar sua teoria para balizar a não existe um só momento em que temos trégua... às vezes tenho vontade de ir até
intervenção. Apenas queremos atentar para o fato de que a sua atuação, e conse- a igreja para rezar pela alma dela, mas qual o quê, não consigo... E as crianças o
qüentemente suas intervenções junto ao paciente, ocorre em um relacionamento tempo todo me perguntando o que aconteceu com mãe... Por que ela fez isso... Por
único, no qual as coisas são imediatas e, muitas vezes, sem pertinência e sujeição de
que ela se matou praticamente na presença de todos... Por que ela queria nos casti-
qualquer postulado teórico.
gar desse jeito... E o que posso responder, se eu também procuro respostas para
essas perguntas? É uma sensação tão estranha ter que procurar respostas para
O corpo teórico que embasa nossa atuação deve estar presente em nossos questões sobre as quais não temos o menor conhecimento e nem sabemos se elas
valores e na própria concepção de mundo que professamos, e isso, por si, já implica existem... Eu sinto que não vou agüentar por muito tempo essa vida... Ou as coisas
que a nossa atuação terá tais pressupostos, ainda que, muitas vezes, não estejam mudam ou então não sei o que será de nós...
claros em algumas de nossas intervenções. O silêncio ganha significado e contornos
O psicoterapeuta nesse momento é focado pela câmera, que mostra o semblante e
específicos principalmente quando, por meio dele, fazemos com que o paciente
sua expressão gestual. Em seguida, mostra em close sua intervenção:
possa refletir sobre o sentido dessa pausa entre os diferentes momentos de sua fala.
— Você também está pensando em se matar?
O depoimento do paciente será cortado pelo silêncio do psicoterapeuta e sua

continuidade será assim balizada pelo seu próprio contraponto de dor. E, na medida
A câmera focaliza novamente o paciente na continuidade de seu depoimento:
em que o paciente possa experimentar o som do silêncio e a própria reverberação de — Não, doutor, eu já falei que não posso pensar em me matar porque as crianças
sua dor, seguramente, estamos caminhando para que novos contornos possam se estão precisando de mim como nunca... Imagine se eu também me mato, acho que
configurar em sua realidade existencial. É dizer que a turbulência presente em sua elas se matam também... mas o meu desespero é tanto que, se não fosse por elas,
narrativa pode mostrar-lhe contrapontos ao seu desespero de modo a trazer alívio acho que também teria feito alguma loucura... não sei se me matar, mas alguma
imediato através desse processo catártico, como também, e principalmente, loucura eu já teria feito... mas não precisa se preocupar, pelo menos nesse momen
mostrar lhe novas perspectivas existenciais. Na realidade, é sempre importante
to eu não tenho a menor condição de pensar em também me matar... Eu pre< isi >,
sim, é matar esses fantasmas que me atormentam a alma desde o dia em </ue ela se
asseverai que, para se manter em silêncio, o psicoterapeuta precisa ter claras as
matou... Preciso acabar com esses pensamentos que me atormentam e não me

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A ( « l o <i(i i isl( c ili iinplu

deixam cm paz... Preciso acabar com o som daquele tiro na minha cabeça... Mas é muito pior, era algo que acontecia debaixo de nossos olhos <•
»< »í.(«,.;t> e, o </(/c

acho que essas coisas só vão me deixar de verdade quando eu morrer... Mas nesse nada percebíamos, nada notávamos... É muita coisa para acomodar no pensamen-
momento não dá para pensar nisso... As crianças precisam muito de mim... Nesse to... é muita coisa para caber dentro da minha cabeça... E não tem coisa pior nes-
momento até estou entendendo a verdadeira extensão daquela máxima que diz ses momentos quando as pessoas tentam te consolar falando do ato dela como se
que a morte é o verdadeiro descanso da vida, pois do jeito que as coisas estão, acho fosse uma doença qualquer que leva suas vítimas depois de muito sofrimento...
que só mesmo a morte para me trazer um pouco de paz... Mas não adianta, nesse Nesses casos, é claro que a família sofre com a dor da morte, mas nos casos de
momento tenho que continuar batalhando pelas minhas coisas, pois tenho as suicídio tem também o ódio que fica pelo ato e pelo egoísmo daquele que se mata...
crianças para amparar... A loucura que passa pela minha cabeça é tanta que um dia fica uma sensação de amargor que não tem como ser estancado apesar de todo o
desses peguei o jornal e fiquei lendo a parte de efemérides e fiquei tentando adi- apoio que os amigos e familiares tentam passar... mas claro que também tem aque-
vinhar quem daqueles mortos teria cometido suicídio... É muita loucura, não? E les malditos que te olham com olhar de censura como se estivessem te condenan-
quando leio essas notícias dos conflitos do Oriente Médio nos quais existem os do pelo tiro que ela se deu... fá não basta a própria consciência a nos condenar o
atentados suicidíis, logo penso que deviam ser pessoas que já estavam cansadas e tempo todo e ainda vêm esses malditos se colocando em um patamar de evolução
desesperadas da vida e que aproveitam o conflito para buscar a paz para sua a nos mostrar os caminhos da condenação... Se já não bastasse a nossa própria
almas... Não sei, tudo é muito estranho... Nada mais possui configuração.... Nada culpa pela falta de entendimento... É muito difícil, doutor... O senhor não pode
mais possui formas conhecidas... Tudo é muito estranho... tudo é muito estranho... imaginar o que os parentes de quem se mata sofrem... O senhor não tem como
avaliar o que é estar sangrando o tempo todo e as pessoas te cercando com um
A câmera foca o psicoterapeuta, que, mostrando indícios gestuais de acolhimento
ao depoimento do paciente, coloca: sem-número de perguntas e questionamentos para os quais nós também não
temos respostas...
- Em que momentos o suicídio de sua esposa faz com que você pense também na
sua morte com mais vigor?...
Nessa intervenção do psicoterapeuta, p o d e m o s constatar q u e sua intenção foi

A câmera muda de foco e, com o som de orquestra dando acordes vigorosos da expor as intenções do paciente no tocante à própria morte. Ressalte-se q u e tal

abertura da Sinfonia no 2 de Tchaikovsky denotando muita emoção, enquadra o intervenção é bastante delicada, na m e d i d a em q u e expõe de maneira drástica a

expressionismo gestual do paciente em seu semblante de dor e desespero: loialidade das e m o ç õ e s q u e estão sendo trazidas à tona em seu depoimento. Ele

avança no sentido de mostrar ao paciente q u e a sua intenção de destruição está


- Essa pergunta tem um quê de dúvida c de desafio... vamos ver se entendi bem. O
senhor está me perguntando se em alguns momentos a idéia de meter uma bala nos sendo percebida e acolhida e que, ao m e s m o t e m p o e m q u e t r a z tal q u e s t ã o à l u z d a

miolos fica mais forte do que em outros momentos, é isso, não? Acho que essa idéia reflexão, expõe ao paciente através de seu próprio d e p o i m e n t o a extensão de seu

de colocar um fim em tudo não me sai do pensamento, mas em alguns momentos desespero. Esse detalhamento de intervenção irá exigir um a p u r a m e n t o e

a coisa fica muito pior. A coisa fica complicada principalmente de noite, naqueles sensibilidade muito grande por parte do psicoterapeuta, pois a sua arte consiste
momentos em que se aproxima o horário em que ela morreu... Nesses momentos o exatamente nesse aspecto, ou seja, intervir de acordo c o m as circunstâncias q u e
bicho pega... Nesses momentos a coisa fíca feia... Preciso pensar muito nas crianças
estejam a nortear o desenvolvimento da psicoterapia, c o n s e g u i n d o balizar de m o d o
para não fazer nenhuma bobagem, pois a idéia de me encontrar com ela no inferno
bastante lúcido e eficaz o desespero e a dor presentes no d e p o i m e n t o do paciente.
é muito forte... E aí as coisas se misturam, pois ao mesmo tempo em que tenho
S a l i e n t e - s e , a i n d a , q u e tal i n t e r v e n ç ã o v e i o p r e c e d i d a d e a l g u m a s i n t e r v e n ç õ e s p a u -
piedade dela, tenho também muito ódio, pois ela acabou com a nossa vida... não sei
se vamos conseguir esquecer disso tudo e vivermos de outra maneira que não esse ladas pelo silêncio do psicoterapeuta, que, c o m o dissemos anteriormente, igual-

inferno que estamos passando... Felizmente as crianças estão sempre por perto mente possui vigor e muita abrangência. É necessário colocar t a m b é m q u e o

nesse horário... E justamente por pensar nelas é que consigo me superar e afastar psicoterapeuta, para atender casos q u e apresentam esses indícios de desespero e

esse pensamento maldito... Na hora de dormir também a coisa pega, pois fico revi- sofrimento, precisa estar aberto para u m a perspectiva bastante a m p l a em seu limiar
rando na cama até de madrugada sem conseguir dormir, e não preciso falar sobre o ile suportabilidade à dor e ao desespero h u m a n o , além de precisar de u m a larga
que tico pensando, não? E tem mais, não adianta ninguém me falar nessa história
experiência para poder fazer tais intervenções s e m o risco de causar danos ainda
de Deus, que Ele está nos protegendo, que Ele nos ama e outras coisas mais, pois a
maiores à condição emocional do paciente. São conhecidos inúmeros casos de
questão é muito mais complexa. Nesses momentos é você com o seu pensamento,
pacientes q u e t ê m sua condição emocional agravada por intervenções inadequadas
é você se censurando, tentando entender a loucura que ela fez, tentando com-
preender a extensão de seu egoísmo, a dor e o desespero que ela tinha cm seu ao longo de processos d e psicoterapia.

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A Medicina define c o m o iatrogenia aqueles casos nos quais os pacientei mil l.i/em parle de nossa vida sem que a lenhamos c o n c e b i d o em nos, nem
p o s s u e m sintomas e sofrimentos provocados por erro de intervenção profissional ! ' .i I u n d a m O s . Assim, gerações, u m a a p ó s a o u t r a , " c o m p r e e n d e m " e re.i
No entanto, para aqueles erros cometidos ao longo do processo de psicoterapia, i • g e s t o s sexuais, p o r e x e m p l o , o g e s t o d a c a r í c i a , a n t e s q u e o filósofo defina
ainda falta u m a d e n o m i n a ç ã o . O q u e n ã o significa dizer q u e sejam poucos, n e m li i ignilicações intelectuais, que é a de encerrar em si m e s m o o corpo passivo,

t a m p o u c o q u e n ã o sejam igualmente sérios. Assistimos a todo tipo de constran ii In no sono d o prazer, interromper o m o v i m e n t o contínuo pelo qual ele se

gimento provocado por intervenções errôneas e inadequadas ao longo do processo H la ii.is coisas e para os outros (Merleau-Ponty, 1999). E a psicoterapia, na

psicoterápico. E n ã o se trata simplesmente de se considerar errôneo a partir do lida em q u e é um encontro intenso no qual todos os m o v i m e n t o s são percebidos

n o s s o o l h a r e de n o s s o s p r e s s u p o s t o s teóricos, e s i m a partir d o s valores inerentes ao ipn ' ndidos de forma única, permite, então, q u e o expressionismo gestual seja

próprio paciente e q u e muitas vezes n ã o são considerados pelo psicoterapeuta em •I i.uiie de diferentes configurações do processo em si. É a t r a v é s do m e u corpo

seu afã de intervenção. O q u e precisa nortear q u a l q u e r p r o c e s s o de psicoterapia são i npreendo o outro, assim c o m o é por m e u corpo q u e p e r c e b o "coisas". A s s i m

os valores do paciente, pois esses é q u e d e v e m dar r u m o aos nossos processos de preendido", o sentido do gesto n ã o está atrás dele, ele se confunde c o m a

levá-lo a u m a condição decididamente libertária. E tais questionamentos, e m b o r a


ura do m u n d o q u e o gesto desenha e q u e por m i n h a conta eu r e t o m o , ele se

pareçam óbvios, são cada vez m a i s distantes da prática de muitos profissionais q u e


l o próprio gesto (Merleau-Ponty, 1999).
praticamente tentam o t e m p o todo enquadrar seus pacientes em seus postulados

teóricos. E esses, por mais brilhantes e fascinantes q u e p o s s a m ser, muitas vezes


\ Ollcmos ao desespero do nosso paciente:
destoam dos valores buscados pelo paciente em seu afã libertário. A apreensão q u e
Essa pergunta é muito traiçoeira, pois, além de falar do meu desespero, estou
fazemos do d e p o i m e n t o do paciente sempre está à m e r c ê de nossas limitações
arrancando coisas de dentro do peito com que eu mesmo estou bastante surpreso...
perceptivas, o q u e significa dizer q u e é necessário q u e s e m p r e estejamos atentos a
Nao podia imaginar que havia tantas coisas enterradas e que têm o poder de me
esse fato para n ã o se incorrer em digressões falseadas e que, inclusive, sejam
deixar completamente atônito com o seu descobrimento... Dia desses uma ex-
distantes da realidade do próprio paciente. A m i n h a percepção é a m i n h a totalidade
colega de faculdade me telefonou e ficou dando voltas na conversa antes de entrar
corpórea, e esse detalhamento é algo extremamente necessário para q u e a inter-
no assunto que realmente lhe interessava e que era a justificativa do telefonema. E
venção do psicoterapeuta seja algo abrangente q u e possa, a s s i m , atingir s e u s deter- foi meio assim, quando percebi a verdadeira intenção de seu telefonema, que não
m i n a n t e s libertários. E o m e u c o r p o expressa em suas n u a n ç a s os m e u s sentimentos, era trazer conforto ou mesmo saber das nossas necessidades depois dessa tragédia,
o q u e significa dizer que, muitas vezes, dizemos coisas ao paciente por m e i o dos ao contrário, era simplesmente para especular se eu havia deixado ela, com brigas
gestos e n ã o das palavras. As variantes da m i n h a p o s t u r a estão sempre a demonstrar e outras questões, em total estado de desespero que não lhe restou outra saída que
detalhes da m i n h a intervenção. não o suicídio... Tive que me conter, e surpreendentemente me mantive em uma
calma de monge beneditino c não a mandei simplesmente para o devido lugar... e
De outra parte, v a m o s encontrar situações nas quais a prática diária da assim, dia após dia, temos enfrentado toda sorte de afronta com as pessoas nos
psicoterapia está s e m p r e a n o s m o s t r a r q u e a l g u m a s v e z e s o p a c i e n t e c h e g a n a sessão abordando como se estivessem a investigar o cerne daquela ocorrência... Já não
seguinte falando q u e agiu segundo a nossa orientação e inclusive discorre sobre
basta a própria consciência a me torturar incessantemente c ainda vêm esses
malditos para azucrinar ainda mais as ideias... li tem aqueles ainda que te abordam
c o m o foi importante tal conduta. De início ficamos surpresos c o m tal afirmação,
com papo de religião, falando de Deus. de perdão, de passagens bíblicas e outras
pois u m a simples reflexão mostrará q u e nada falamos q u a n d o o paciente n o s trouxe
tantas coisas que me soam tão absurdas que não consigo imaginar que possa haver
tal temática. No entanto, se é fato q u e nada falamos em termos verbais, m a s por
uma preocupação real de nos trazer algum pouco de alívio, o que parece, de fato,
m e i o do nosso expressionismo gestual e o paciente, atento aos nossos m o v i m e n t o s ,
é que eles estão buscando a tal da salvação e nos usam como instrumentos de seus
codifica os n o s s o s gestos e os interpreta de a c o r d o c o m a s u a a p r e e n s ã o perceptiva. objetivos... Não sei, é tudo muito estranho, tudo muito absurdo, é tal qual dizia um
Merleau-Ponty (1999) assevera q u e n ã o c o m p r e e n d o os gestos do outro por antigo locutor esportivo: "É ripa na chulipa e pimba na gorduchinha..." Só assim
um ato de interpretação intelectual, a c o m u n i c a ç ã o entre as consciências n ã o está
mesmo para se ter uma idéia da loucura que vivo, "ripa na chulipa e pimba na
fundada no sentido c o m u m de suas experiências, m e s m o porque ela o funda: é
gorduchinha", ou seja, se você não ficar esperto, ainda vai preso por ser "cul-
pado"pela morte dela, pois é tanta gente especulando que nem sei mais... Por isso
preciso reconhecer c o m o irredutível o m o v i m e n t o pelo qual me empresto ao espe-
é que quando ocorrem essas mortes que a imprensa destaca, todo mundo se torna
táculo, me junto a ele em um tipo de reconhecimento cego q u e precede a definição
suspeito, pois sempre se precisa encontrar algum culpado... Sempre se precisa
e a elaboração intelectual do sentido. É dizer q u e as definições do expressionismo

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A', vi nli ]•, li ii i •;; i li i l isli i ili ii |l( i d 'i ii ii i ii 'i ii i|i « ||i 11 i ixlsti i| |i |i il A arto rio i isli i iti w i| ili i
I . lili ih i l l m i m o n

apontar a . ulpa na direção daqueles que estavam próximos i/.i i ítima... I scmprt iil.. i • m m .il. Refletimos em um trabalho anterior (Angerami, 1995) .1
foi assim, comigo não seria diferente... A questão c </(ic nus também não temoi ml i h . ia dessa atitude, pois será de fundamental importância para o paciente
resposta para essa loucura e ainda temos que ficar respondendo .1 tudo... Então me li 111I.1 r p r u r i ) , 1 a presença do psicoterapeuta em suas buscas rumo .1 novas
diga se não é para ter vontade de também meter uma bala na cabeça?... Ao menot 1 Hl i 11 \ .i•• existenciais.
11

uma coisa é certa, isso eu mio posso fazer de jeito nenhum, pois eu tenho as 1 1 p ó s I m a mostrada nessa cena com o silencio do psicoterapeuta, segura
crianças para cuidar e essa traição eu não vou cometer contra eles... basta a mãe,
sl 1.1 esse estar junto de modo bastante claro e convincente, com o paciente
que não considerou ninguém cm sua loucura... acho que, se ela tivesse pensado um
1 1 i h | n 1 In 11 ar ao mesmo tempo em que se sente acolhido em seu desespero e dor.
pouquinho neles, nem precisava pensar em mim, apenas neles, ela não leria
cometido essa loucura... Se tivesse pensado no que eles iriam passar com o ato dela, "In. .1 u n a , ao ser mostrada com o silêncio sendo intercalado apenas com
acho que ela não teria se dado aquele tiro... Eu não posso acreditar que ela, sendo do p . u lente e sem nenhum outro ruído, reproduz a dimensão da sessão de
mãe, não tivesse ao menos um pouco de piedade dos próprios filhos, não tivesse i|i i.ipia, na qual tal procedimento ocorre de maneira semelhante. É dizer que,
um mínimo de compaixão deles... Não consigo acreditar que ela tenha desprezado . 'es, para se intervir com o silêncio, é necessária u m a postura muito mais
totalmente o que poderia acontecer com todos com o seu gesto... lá me disseram I il 11 >i i.l.i do que aquela feita com o recurso da palavra, pois essa, além de outros
que ela estava desesperada, mas isso não me serve de atenuante, pois, na verdade, amentos, ainda pode ser balizada pela razão e contemplada com interca-
desesperados estamos nós que nem ao menos sabemos o que aconteceu... Ela 11,is quais se pode perceber toda u m a configuração de dados que muitas vezes
poderia ir procurar tratamento... Poderia ir na igreja, sei lá, poderia fazer qualquer I • 11.1. digressões teóricas e não necessariamente contraponto ao verdadeiro
coisa, até ir embora e me abandonar levando consigo os fdhos, seria menos 1 nlo do paciente. É da nossa tradição social o uso da palavra sobrepondo-se
doloroso, pois ao menos não teríamos que enfrentar o olhar de censura de todos...
modos de expressão e, na realidade, esse expediente permite u m a racio-
O suicida é uma pessoa muito cruel que não pensa em ninguém para executar sua
II ill i.,.io ausente em outras manifestações. Assim, um olhar de dor é muito mais
loucura, não tem piedade daqueles que vão continuar vivos c que terão que ficar
11 dente do que possíveis palavras que tentem defini-la; um olhar de desejo tem
explicando para o mundo aquilo que eles mesmos não sabem... O suicida é alguém
que precisa arder nas profundezas do inferno, pois a sua crueldade é impiedosa... II |<odei de desnudar o outro com um vigor que as palavras certamente não pos-
Seu desamor é brutal, e a sua total falta de sensibilidade com o sofrimento dos 11 olhar de angústia é capaz de espelhar a alma de maneira única. As palavras
outros o torna um verdadeiro monstro que precisa ser condenado pelo próprio 1 ih 111 esse aspecto de permitir uma elaboração e uma reflexão contínua, o que,
demônio... A maior prova de que o inferno existe é o sofrimento da família de , 1 ntilro lado, também permite que a pessoa possa se escutar e esclarecer alguns
alguém que se mata... Não pode haver sofrimento maior, não pode haver 1 In', que possam lhe ser obscuros. Merleau-Ponty (Merleau-Ponty, 1999) ensina
condenação tão cruel... i". .1 gesto lingüístico, como todos os outros, desenha ele mesmo seu sentido.
II ira mente essa idéia surpreende, mas somos obrigados a chegar a ela se que-
A câmera focaliza o olhar do paciente e configura seu desespero em todo seu
" i i i " . compreender a origem da linguagem, problema sempre urgente, embora
expressionismo gestual. Misturam-se às lagrimas o movimento de suas mãos se
i 1 nlogos e lingüistas concordem em recusá-lo em n o m e do saber positivo. Tais
apertando como se a sua intenção fosse esmigalhá-las.
liiIikações nos asseveram a necessidade de um total despojamento de conceitos
Diante de seu choro, o filme também apresenta o som do silêncio sem música para i|'i mi istieos que nos impeçam de caminhar nessa nova direção. Parece impossível
que o seu choro possa provocar a comoção que a dramaticidade da cena exige. 'i n ás palavras, assim como aos gestos, uma significação imanente, porque o gesto
Novamente destaca-se aqui o silêncio do psicoterapeuta, que, após duas
• limita a indicar u m a certa relação entre o h o m e m e o m u n d o sensível, porque esse
intervenções por meio da palavra, agora intervém através do silêncio, de tal modo
ndo e dado ao espectador pela percepção natural, e porque assim o objeto in-
a permitir que o paciente possa se expressar em sua dor sem ter nada que possa
interrompê-lo nem tampouco lhe desviar a atenção. li ih n i n a i é oferecido à testemunha ao mesmo tempo em que o próprio gesto.
No processo da psicoterapia, é necessário que o psicoterapeuta esteja, então,
E aqui novamente temos a câmera se distanciando e mostrando a totalidade do
lli 1 Mi 1 para poder apreender a totalidade dos gestos do paciente, o que significa dizer
ambiente com o paciente chorando e o psicoterapeuta em posição de acolhimento,
acompanhando-o em seu corolário de dor e sofrimento. que dessa confluência poder-se-á enfeixar os sentimentos colocados e assim dispo-
nibilizá-los para uma reflexão abrangente e decididamente libertária. O contra-
Essa postura ressalta a importância de estar junto para que ele possa, nesse ponlo entre as diferentes expressões gestuais do paciente - aí incluindo-se a
acolhimento, ter uma base sólida de acolhimento para o soerguimento de seu .li< liIação verbal e as corporais - pode ser um instrumento bastante eficaz nessa

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A 1 uli • 1 li 1 1 >*.(< 1 ih i|(l| il( 1
I iIlidiu l l m m s ó n

modulação necessária para a intervenção que mostre ao paciente as diferente! II "li. M i n a i s s o h i e os quais .1 maioria tias psicoterapias se estrutura, mas, untes de

perspectivas presentes em seu enredo existencial. A gesticulai .10 verbal visa uma 111*1 li 1 balizamento, mostra L i m a sensibilidade à própria condição humana
11I10

paisagem mental que em primeiro lugar não está dada a todos e que ela tem por i uliiniento e d o r . Nesses casos, em que o sofrimento tio paciente esta em uma
função justamente comunicar. E essa possibilidade é articulada pelo sujeito falante i" limítrofe, é muito importante essa presença marcante do psicoterapeuta
a partir de sua perspectiva sociocultural e do imbricamento que determina que , 11 > que e l e possa confiar não apenas no processo da psicoterapia, como também, e
aquilo que a natureza não dá a cultura o fornece. E o sentido da fala é apenas o I ipalmente, no acolhimento que está sendo mostrado. Em trabalho anterior
m o d o pelo qual ela maneja esse m u n d o lingüístico, ou pelo qual ela modula nesse 11 1.11111, 1 9 9 5 ) mostramos que, entre o conjunto de atitudes necessárias para i|iie
teclado de significações adquiridas (Merleau-Ponty, 1999). II i' i. nlerapeuta possa atender aos casos de tentativas de suicídio, bem como aos
Voltemos ao nosso paciente que, após se escutar em seu contraponto de dor e liares de pessoas que efetivaram o suicídio, a principal era a postura de
balizando o seu sofrimento com o silêncio do psicoterapeuta, prossegue em sua . N c n l o e disponibilidade para ser p r o c u r a d o fora dos horários previamente

narrativa: 1 ih. lei idos. Esse tipo de postura gera u m a confiança no paciente que poderá
I Im saher que terá acolhimento se titubear em seu caminho de dor.
— Dia desses uma conhecida veio me falar do centro espírita que ela freqüenta, e
que, se fosse até lá, talvez conseguisse alguma comunicação com minha mulher... . \ i amera focaliza o paciente levantando-se e despedindo-se do psicoterapeuta.
É muita loucura isso tudo, parece que esse pessoal tem ligação direta com o além, Novo corte e agora a câmera focaliza o paciente andando pelas ruas de São Paulo.
ou seja, enquanto nós ficamos nos torturando em busca de alguma informação, ( ibserva as pessoas, as vitrines, o trânsito e segue pensativo pelo seu caminho.
de alguma luz para clarear nossas dúvidas, eles simplesmente possuem algumas
Novo corte e a câmera focaliza a sala onde se desenvolve a psicoterapia.
fichas telefônicas que devem ter sido adquiridas no inferno e dizem que podem
conversar com aqueles que já morreram... E o pior é que o meu desespero é tanto < 7( ise /);) sala vazia e destaque para os quadros que estão a emoldurar as paredes.
que até pensei em procurar esse tal centro... Mas também aí já é demais, eu ir a
um centro espírita em busca de informações daquela maldita que não teve a I .se é um recurso muito utilizado por Fellini e que em E La Nave Va, além da
menor piedade de nenhum de nós... Imagine que cena mais linda, eu no centro III da emoção, também estão presentes de m o d o a expor as cruezas da con-
ir.id.ide
rezando e pedindo proteção para a alma dela... Aí também já é demais... Daqui a de..!' 1 humana. Em um trecho, após u m a seqüência emocionalmente muito intensa,
pouco vem mais alguém e vai querer me levar em algum centro de umbanda ou . li simplesmente mostra o navio navegando, tendo como fundo uma noite
sei lá de mais o quê, e ter que participar das oferendas com matanças de animais • iplendorosa com a música alternando temas que variam de tonalidades e se
para que a alma dela tenha sossego... Se ela queria sossego, devia ter buscado aqui ' nli hoam com o contraponto dos violinos e violas da gamba. Indescritivelmente
na terra e não no inferno... Na verdade, o inferno é o que estamos vivendo e não
maravilhoso! A alternância da densidade emocional com o esplendor da fotografia
o lugar onde ela deve estar...
iliid.i é algo que transcende as palavras e toda c qualquer tentativa de análise que

Nova pausa e, após um pequeno silêncio para que o paciente se recupere de seu queira fazer. Em outras obras, o mestre Fellini utiliza-se desse recurso à exaustão,
choro e desespero, o psicoterapeuta simplesmente coloca: I 11 mio com que o espectador viva essa seqüência em toda a sua intensidade.
— O seu tempo terminou... Espero por você na próxima sessão... Ou então, se você Essas cenas, com o nosso paciente transitando pelas ruas, permitem u m a pausa
precisar, basta me ligar que eu arrumo um horário antes da sua próxima sessão... II lensidade da emoção vivida nas cenas anteriores, bem como que se faça u m a breve
mi inspecção para se assimilar a densidade do que foi vivido até então. Esse recurso
O paciente olha para o psicoterapeuta e diz: 1 111 i I i/.ado para mostrar que, embora a sessão tenha se encerrado, a vibração do que
— Que bom saber que o senhor está disponível caso eu precise... Caso a minha im vivido nela permanece c o m o fragrância na realidade do psicoterapeuta que fica
situação se agrave... Espero não precisar, mas é muito bom saber que posso contar I refletir e a tentar elucidar tudo aquilo que lhe foi depositado em termos emo-
com a sua ajuda a qualquer momento... Isso é muito confortante... . 11 hlús pelo paciente.
1, c o m u m se analisar o processo de psicoterapia apenas como ocorrência nas
Essa atitude do psicoterapeuta, estando à disposição para atender o paciente,
II específicas. No entanto, é sempre importante ressaltar-se que u m a sessão não
soes
se este necessitar, antes de sua próxima sessão, mostra um cuidado e um acolhi-
mi mina necessariamente em seus limites horários, pois, muitas vezes, o psico-
m e n t o ao seu desespero e dor. É dizer que essa disponibilidade transcende os moldes
1. i.ipeuta continua a trabalhar com esse atendimento, seja discutindo o caso em

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uma possível supervisão clínica, seja ainda buscando subsídios teórico filosóficos nilanlo, medi.mie a capacidade de reconhecê-la. Esse reconhecimento não pode
para embasar sua atuação. li não são poucos os atendimentos que estão a nos exigir • iinlei ei no mesmo instante em que acontece a presença, ela pode chegar apenas
uma perlormance além dos limites horários da sessão de psicoterapia. Da mesma i pois do presente da presença. A reflexão que fazemos de nossos atos é sempre
forma que um professor universitário não tem o seu horário de aulas restrito apenas
Di i' rior a sua ocorrência pela própria condição de que o presente, de fato, não
ao m o m e n t o em que está em sala de aula, pois necessita preparar o conteúdo
indi o, orrer, uma vez que a consciência pode reconhecer o presente somente depois
programático a ser transmitido aos alunos, além de ter t e m p o para correção e orien
|tli i le li.io é mais presente; o presente pode ser reconhecido somente depois de ter
tação de trabalhos acadêmicos, igualmente o psicoterapeuta têm sua performance
li i"i li.ido (lassado. Não podemos nunca estar presente em um presente.
estendida para além dos limites do horário da sessão de psicoterapia.
I le outra parte, quando evocamos a arte do cinema para contrapor à arte da
Isso tudo sem falar daqueles casos nos quais o conteúdo emocional do paciente lii ilerapia, temos sempre à nossa frente a questão de que esse presente é o deter-
exige do psicoterapeuta u m a condição de superação para que não se deixe sucumbir ante que imprime características artísticas às duas manifestações. Refletimos sobre
diante do que foi colocado. Profissionais experientes colocam a necessidade de se "i. i venções "ocorridas" no campo da psicoterapia em um instante em que o presente
proteger da avalanche de desespero e dor despejados pelos pacientes sobre a nossa ao se esvai em uma fagulha de tempo e espaço. Epstein apud Charney ensina
própria estrutura emocional. É dizer que carregamos em nossa estrutura corpórea Pu o cinema tornou-se emblematicamente moderno ao unir espaço e tempo; a
as marcas de sofrimento de nossos pacientes e, muitas vezes, até os determinantes de i ii. i.i ilo filme surgiu de sua capacidade de movimento e mudança no espaço e no
suas vidas. Desse modo, se não houver uma preocupação bastante sensível a tais ll 1111 'o. lie coloca ainda que a pobreza lamentável de enredos surge em primeiro lugar
ocorrências, podemos até mesmo sucumbir diante do teor de desatinos e conflitos io conseqüência do fracasso de avaliar essa regra primordial: não existem sen-
de ordem emocional que recebemos diariamente em nossa prática clínica. E sequer iiiiiiiilos inativos, isto é, que não se deslocam no tempo. Enfatiza ainda que somente
estamos fazendo referência àquelas situações nas quais as nossas questões pessoais
• i. aspectos móveis das coisas, seres e almas podem ser fotogênicos.
se misturam às do paciente. Nesses casos, eventuais supervisões e discussões clínicas
poderão clarear nossa conduta, fazemos, sim, referência à defesa que se faz ne- () cinema é acima de t u d o movimento.
cessária para que a gama de problemas emocionais do paciente não nos leve igual- A lotogenia não admite estagnação. E o movimento atravessa o tempo e o
mente à sucumbência emocional. E desprezar tais questões é, na realidade, não • Dpuço. Não existe presente real. Ao olharmos o céu na noite estrelada de inverno
atentar aos riscos presentes na prática da psicoterapia, na qual nos vemos expostos iprei iamos a Constelação de Escorpião se movendo com um p u n h a d o de estrelas,
a todo tipo de sortilégios provocados pelas intempéries emocionais do paciente. E, l i ' .iiieiamos o passado, pois as estrelas que percebemos movimentam-se de m o d o
nesses casos, nos quais a temática proeminente é a da própria destruição do pa- antagónico à nossa maneira de cronometragem do tempo. Olhamos para o céu e já
ciente, a questão torna-se ainda mais delicada, pois estaremos diante de situações • Diurnos sentindo u m a certa nostalgia, pois antes de qualquer outro balizamento, o
limítrofes entre vida e morte e isso, por si só, já é determinante de um apuramento liosso olhar presente está captando o passado daquelas estrelas e nebulosas. Ou
e desgaste emocional muito intenso. Esses casos expõem a nossa fragilidade de ainda nas palavras de Sartre: "antes de si mesmo, atrás de si mesmo: nunca ele
m o d o único e não há, assim, como não se precaver, em termos emocionais bastante ini-.ino" (Sartre, 1992). E dessa maneira a psicoterapia insere-se na modernidade da
apurados, para que também não sucumbamos diante dos desatinos emocionais e do " ima forma que o cinema: acima de tudo uma experiência em movimento que
desespero do paciente. E a questão que torna esse questionamento ainda mais ligou a experiência da vida diária na modernidade. Podemos afirmar ainda que a
angustiante é que tudo se passa em instantes. É dizer que as coisas se processam em • speriência do cinema refletiu a experiência epistemológica mais ampla da m o -
u m a fagulha de tempo que sequer permitem qualquer reflexão apriorística. ili iiiidade. É dizer que os sujeitos modernos (re)descobriram seus lugares como
divisores entre passado e futuro ao (re)experimentar essa condição como es-
Heidegger apud Charney (2001) ensina que, no instante da visão, nada pode
pei ludores de cinema. Passado e futuro confrontaram-se não em u m a zona hipo-
ocorrer. O que visa ressaltar a impossibilidade de viver, de estar "em" um instante da
ii ih ,i, mas no terreno do corpo (Charney, 2001).
visão. É dizer que nada pode ocorrer no instante da visão porque ele sempre nos
escapa antes que possamos reconhecê-lo. Desse m o d o , podemos reconhecer a I >e outro lado, Merleau-Ponty (1999) ensina que ver é e n t r a r e m um universo de
ocorrência do instante somente depois. A cognição do instante e a sua sensação ' res que se mostram, e eles não se mostrariam se não pudessem estar escondidos uns
nunca podem habitar o mesmo instante. E dessa maneira, então, o presente está ih.is dos outros ou atrás de mim. Em outros termos: olhar um objeto é vir habitá-lo
sempre perdido. A presença nomeia u m a categoria da consciência, ela existe, i dali apreender todas as coisas segundo a face que elas voltam para ele. É dizer que

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igualmente no campo tia psicoterapia estamos apreendendo aquilo que nos é mo$\ \ ultcmos .ii> nosso filme.
trado pelo paciente no instante em que sua realidade se mostra a nossa apreensão, I'. pois i/e alguns doses nos quais o nosso paciente é mostrado na rua em sua
O artista plástico que tem diante de si matéria-prima bruta que será trabalhada • uninliada, a câmera o localiza agora chegando para mais uma sessão de psi
para que ganhe contornos específicos e seja transformada em u m a obra de arte, l.i/ i, 'd /.//•/./. Ele e recebido pelo psicoterapeuta que o convida a entrar.
de sua talhadeira o instrumental necessário para que essa transformação seja
i nhnera localiza o psicoterapeuta que diz:
atingida. Assim, sua atividade de talhar ganhará um novo dimensionamento quando
do produto final de sua atividade. Da mesma forma, a psicoterapia desenvolve-se a I então, como você está?
partir da palavra transformando as mazelas e sofrimentos do paciente a partir de sua \ amos indo, doutor... Com tanta 'socação' na cabeça, é difícil dizer que se está
ressignificação e de seus arroubos libertários. É dizer que o nosso instrumental de bem I tudo muito difícil... Às vezes tenho a sensação de que não vou agüentar,
trabalho é a nossa sensopercepção em toda sua exuberância. É com ela que iremos ma-, lazer o quê, não? Vamos levando do jeito que dá. Ontem fui chamado na escola
talhar as vicissitudes trazidas pelo paciente para que sejam transformadas em novos • /.''. meninos. A diretora me recomendou que redobrasse a atenção principalmente
constitutivos emocionais. \ohre o menino, pois ela percebe que esses problemas estão fazendo com que ele se
ílisperse durante as aulas e tenha sérios prejuízos cm seu rendimento escolar. Ele
A riqueza da língua em suas nuances também é determinante da maneir.i mio diega a correr risco de reprovação, mas, segundo o que ela disse, ele está
como o paciente pode expressar seu sofrimento e seus anseios libertários. A pre- pi ii Iene lo muito do conteúdo das aulas, pois quase sempre é flagrado olhando para
dominância das vogais em u m a língua, das consoantes em outra, os sistemas de . i i .I//U, sem direção. Não sei o que fazer, pois esse é um tranco que todos estamos

construção e de sintaxe não representariam tantas convenções arbitrárias para l utssando e /wo sei como dar um pouco de alívio a ele. As coisas vão se complicando
exprimir o pensamento, mas várias maneiras, para o corpo h u m a n o , de celebrar o .1 . .ida dia. /,' r/771 problema atrás do outro. E tudo girando em torno dessa tragédia
m u n d o e finalmente de vivê-lo. O corpo exprime detalhamentos ao conteúdo que despencou sobre as nossas cabeças. Dói demais pensar nisso tudo, dói tanto que
lingüístico do mesmo m o d o que é indissolúvel à imagem da praia a presença do parece que nunca mais terá fim. Mas não temos alternativa que não deixar o tempo
l mssar e acreditar que ele vá cicatrizando a nossa ferida. É tudo dolorido demais. É
mar. Daí proviria o fato de que o sentido pleno de um língua nunca é traduzível em
tudo inconcebível. É uma dor que não temos como suportar. E toda sessão é a
u m a outra. Podemos falar várias línguas, mas uma delas permanece sempre aquela
mesma ladainha, parece que eu não tenho mais nada para falar a não ser chorar
na qual vivemos. Para assimilar completamente u m a língua, seria preciso assumir o
sobre as conseqüências dessa tragédia.
m u n d o que ela exprime, e nunca pertencemos a dois m u n d o s ao mesmo tempo. É a \ . Amcra se volta para o psicoterapeuta.
célebre citação dos estudiosos de lingüística de que determinadas palavras e funções
são pertinentes em suas essências apenas através da nossa língua original. Assim as Novo enquadramento em sua postura para dar ênfase à sua intervenção:
palavras mãe e pai, palavrões e oração têm seu significado expresso de maneira Você não está mais agüentando as coisas que envolvem esse suicídio, e, no
autêntica apenas quando professados em nossa língua original. Da mesma forma, , iiianio, o seu drama pessoal apenas se iniciou...
determinadas operações como a realização de contas aritméticas, cálculos geo-
métricos etc. igualmente encontram na língua original sua verdadeira expressão. i intervenção, o psicoterapeuta mostra ao paciente de m o d o contundente
i boi.i sua dor esteja pungente e nos limites da tolerância, é fato notório que
Na psicoterapia, a expressão da dor manifesta através da palavra ganhará con-
• i idatleira dimensão de seu drama está apenas em seu início. Essa pontuação, que
tornos específicos que trazem em seu bojo a própria dimensão do sofrimento
ih priiK ípio pode parecer até mesmo desumana, pois, em lugar de trazer alívio
manifesto pelo paciente. É pela palavra que seu constitutivo de sofrimento ganhará
lialo .i dor presente no depoimento do paciente, ao contrário, parece lancetar
formas que serão lapidadas artesanalmente pelo psicoterapeuta para, então, ganhar
la iii.lis a sua alma já dilacerada e sofrida. No entanto, ela é sim bálsamo
novos contornos e se transformar, assim, em anseio libertário. É dizer que a arte da
I ilii/anle para as chagas existenciais de nosso paciente, pois irá mostrar-lhe as
psicoterapia exigirá que sejamos artesãos na plenitude do termo.
-.-.idades tle um fortalecimento em sua estrutura emocional, na medida em que
O campo da psicoterapia é o local ideal para a ocorrência de transformações as outras situações de desatinos e sofrimentos em diferentes níveis decorrentes
que nos dimensionem para novos horizontes existenciais nos quais a nossa flama •li tragédia que envolveu sua família certamente ainda ocorrerão pela própria
libertária possa resplandecer diante das facetas do sofrimento. il ih. idade das filigranas envolvidas nesse ato. E seguramente u m a intervenção

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A n vi nli i', li ii (••, 11.1 i , ili i, ||, i i, .| i, ,|, i,,, i, ,|, i, || >| K I, i| A i iili • i li i i iSll i itl 'I' i| il' i
l' lii. ih i I h o i n s C f

dessa magnitude implica na necessidade de um amplo conhecimento da estrutufl iln processo de psicoterapia e o que ele julgou mais importante, Si
• 1,1'ii

emociona] do paciente, pois, ao mesmo tempo em que lhe escancara s u a s i t u a ç â j in.idos la lures não são por ele considerados importantes, certamente ficarão
convidando-o a uma reflexão contundente, também propicia um novo esteio de ' ' I" . onlexto da supervisão, ainda que possam ser, sob outra ótica, os aspei tos
compreensão aos detalhamentos de seu drama pessoal. Embora possa parei ei pui i.inies de uma determinada sessão.
contraditório, o fato de o psicoterapeuta mostrar ao paciente que a sua dor, a pesai \ nossa base teórica é determinante da nossa postura frente ao paciente, m a s
de aguda e dilacerante, é apenas a ponta de um iceberg continental, e isso certl . i " I . transformar-se em uma camisa-de-força a nos agrilhoar os movimentos
mente será algo de que o paciente talvez tenha dimensão, o m o d o como o psico-
uma intervenção decididamente libertária. O nosso arcabouço teórico pode
terapeuta apresenta certamente o levará a um novo enfrentamento da situação.
isso instrumental de compreensão da realidade emocional do paciente, mas
É sabido que, q u a n d o diretamente envolvidos em u m a determinada situaçãd lai na is algo infalível que sempre está acima da ocorrência dos fatos. E, de outra
não temos consciência de sua verdadeira dimensão nem tampouco dos níveis de "i . r i e ainda o fato de que jamais iremos dominar u m a estrutura teórica de
comprometimento emocional que apresentamos diante dos fatos. Assim, é bastante iiIn absoluto e de modo irretocável.
c o m u m o paciente tomar consciência de fatos no processo da psicoterapia que I hsseinosem trabalho anterior (Angerami, 2 0 0 4 ) que, ao escolher por uma
parecem óbvios depois do conhecimento, mas que eram completamente difusos e sem I iida teoria para o embasamento de nossa prática profissional, estamos
alcance em âmbito perceptivo. Esse aspecto é bastante importante, pois implica, i de uma situação de identificação com tais postulados. A nossa escolha não é
inclusive, no aspecto sensível de intervenção, ou seja, é necessário que se tenha !• a i a pai lir de parâmetros que não a identificação com a concepção de valores, de
bastante claro que a intervenção deve ser sustentáculo de fortalecimento emocional tio l e de m u n d o apresentados por urna determinada teoria. E isso por si só
paciente e não apenas um mero exercício teórico de intervenção. llliplii a dizer que, ao abraçarmos um determinado arcabouço teórico, estamos indo
Os psicoterapeutas mais jovens, de m o d o geral, acreditam que o desempenho i contro dos parâmetros de identificação dessa teoria com os nossos valores
satisfatório de sua atividade implica maior número possível de intervenções que i ' m i s Nao há como escolher uma determinada teoria que não seja afinada com
mobilizem o paciente em diferentes âmbitos de sua estrutura emocional. No ns valores pessoais. Do contrário, estaremos efetivando algo que irá beirar a
entanto, os anos de prática irão mostrar que muitas vezes a reflexão balizada a partir ipii/ofrenia, pois atuar em discordância com os postulados teóricos que estejam a
do silêncio possui u m a eloqüência muito maior tio que possíveis intervenções deter- ill ii a nossa prática é algo totalmente insólito e desprovido de sentido. A nossa
minadas, não pelo contexto da psicoterapia em si, mas muito mais por possíveis i a sempre estará presente em nosso conjunto de intervenções, mas o que
estruturações teóricas. i i i mina o constitutivo de intervenções do psicoterapeuta no exato m o m e n t o de
orrência é o que iremos definir como sendo a arte da psicoterapia, pois, antes
No m o m e n t o em que temos o paciente à nossa frente, é a nossa sensopercep-
d. qualquer outro parâmetro, ela ocorrerá num hiato de tempo no qual nada mais
ção que irá determinar os aspectos precisos que determinam a forma de nossa
possível que não essa arte única e precisa de intervir de acordo com aquilo que é
intervenção. Evidentemente, o nosso arcabouço teórico nos dá o enfeixamento
ipn endido no m o m e n t o de sua ocorrência.
necessário para a compreensão da realidade emocional do paciente, b e m como dos
moldes que determinam os aspectos de nossa intervenção. No entanto, como Assistimos a alguns psicoterapeutas jovens indo ao encontro de determinadas
dissemos anteriormente, no m o m e n t o preciso em que ocorre a psicoterapia, não as a partir de parâmetros que não são claros e precisos em seu universo de
l i m e s . Assim, desde escolhas pautadas por valores mercadológicos até aquelas
temos como interromper a sessão para uma consulta aos livros e indagar, assim, qual
a melhor intervenção a ser balizada. Nem tampouco temos o supervisor clínico a In - ' ninadas pela imposição de determinadas teorias em âmbito acadêmico, temos,
• iii.io, toda u m a sorte de atuações que não possuem a menor congruência entre os
nos indicar qual o melhor caminho a ser seguido e qual a melhor intervenção a ser
realizada. Ao contrário, temos apenas as nossas estruturas sensoperceptivas a dores pessoais do psicoterapeuta e a teoria que está a embasar sua atuação. Essa
apreender a realidade emocional do paciente, e a partir disso determinar a maneira Imposição ocorrida no meio acadêmico é ainda mais grave de ser analisada e
como conduzir o processo da psicoterapia. K dizer que, q u a n d o ouvimos ques- .latada, pois, nos principais centros universitários do país, assistimos a u m a
tionamentos sobre a estrutura dos modelos vigentes de supervisão clínica, não há Imposição despudorada de teorias a partir do poder vigente no meio acadêmico.
iiii, a maioria dos nossos centros acadêmicos impõe como válidas apenas as
como rebater tais críticas, pois minimamente a supervisão é feita sobre o depoi- \

mento do terapeuta, e, o que é ainda mais contundente, apenas sobre aquilo que ele psicoterapias embasadas a partir da psicanálise e do modelo cognitivo-compor-
lamental. Outras estruturas teóricas sequer são apresentadas para conhecimento dos

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A s vViilcis í(i, o s d n p s l . oIcKild l o n o m n n o l í ' n o x l s l o n i l,il Editora morrtídl A i irti • 1 li 11 isli 1 >!' IH l| ih 1
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alunos, e, q u a n d o i» são, na realidade .1 transmissão do conhecimento é feita p o i . iiiiini.i teórico científica da prática ria psicoterapia, tal ocorrência é re

profissionais que abraçam outros modelos teóricos. Assim, p o r e x e m p l o , a t e o r i a Mlll ntli do simples lato cie que tais divagações teóricas não se prestam a mais nada
junguiana é dada por u m profissional da área cognitivo-comportamental, ou s e j a 1 simples digressão teórica. Não é possível, assim, sua adequação a nenhum
alguém que irá ensinar u m a teoria da qual diverge frontalmente. Evidentemente, a 1I1 prática psicoterápica, nem tampouco a uma reflexão sobre a própria
universidade cumprirá sua proposta curricular, mas os alunos não receberão argu
iiiiiln a o humana.
mentos convincentes sobre essa teoria na medida em que o próprio professor desa
I 111 l e x i o s anteriores (Angerami, 2002a, 2002b, 2003b, 2004) falamos exaustivas
credita dela. E não adianta cairmos na ilusão de que o professor estará sem
obre a idiotia de tentar compreender a complexidade da condição humana com
contaminação e que transmitirá tais teorias de m o d o isento e sem críticas ácidas a elas.
limentos e emoções a partir de experimentos realizados com animais. E o que
Isso tudo sem contarmos que determinadas abordagens sequer são apre 1 ei a v e , os grandes arautos dos experimentos embasados a partir da ótica
sentadas aos acadêmicos, ainda que por professores sem conhecimento teórico para vo comportamental simplesmente afirmam que a emoção h u m a n a deve ser
tal. A abordagem fenomenológico-existencial, na grande maioria dos nossos centros 1 siderada na medida em que não pode ser definida operacionalmente nem
universitários, sequer é apresentada como proposta de psicoterapia, e, não raro, pouco \erilicada nos experimentos científicos, e não pode ser considerada nos
deparamos com alunos que declaram jamais ter ouvido falar sobre essa abordagem nll 11 In', desses experimentos. E, simplesmente, desconsiderar a emoção em
e tampouco conhecem seus pressupostos. De m o d o geral, para o acadêmico livrar III ilquei referência que se faça à condição humana é negar o que ela tem de mais
se da camisa-de-força imposta pelas universidades, que valorizam a psicanálise e o 1 iili.u, aquilo que pode ser definido, inclusive, como a nossa característica mais
método cognitivo-comportamental, é necessário um grande processo de superação, 1 ,111,1 e que mais nenhuma outra espécie apresenta.
pois esse acadêmico não apenas terá que procurar fora das lides acadêmicas outros
N o entanto, até mesmo bisonhamente, assistimos à expansão dessa abordagem
arcabouços teóricos, como t a m b é m terá que enfrentar toda sorte de preconceitos na
1 1 que é imposta aos nossos universitários como se fosse a verdade suprema, em
ruptura com essa estrutura de poder.
palamar de dogmatismo comparável apenas aos radicalismos religiosos. Tentam
Discorremos em texto anterior (Angerami, 2003b) sobre os preconceitos e I 1 ar a idéia de que somente é possível conhecer a peculiaridade da condição
críticas que são lançados à minha pessoa em função da teoria que professamos e 1 .111.1 a partir das respostas obtidas em experimentos com pombos, ratos, cobaias

propagamos. Essas críticas não se concentram apenas nos textos propriamente ditos, pli I d i s s o certamente temos que discordar, pois do contrário teremos que trabalhar

mas se expandem ao âmbito pessoal, e somente após vários anos de confronto pude IIrl 1 1 ilação de u m a psicoterapia que seja um processo no qual o paciente será
constatar que a sua raiz é justamente a nossa "petulância" em nos posicionarmos Idado segundo as premissas comportamentais daquilo que nos tentam estipular
contrariamente ao poder vigente no âmbito da psicoterapia. Não se trata de postular iiiiin "certo" e "errado". Ou seja, contrariamente a todas às nossas propostas

que a nossa proposta teórica é a melhor, a mais eficaz ou qualquer outro adjetivo iii" 11,11 ias em psicoterapia. E de outra parte também teríamos que negar a psico-
que se queira arrolar, mas apenas de que aos acadêmicos deveria ser permitido o 1 rupia como u m a arte, pois, da maneira proposta por essas correntes, o que importa
direito de conhecer o leque de propostas teóricas existentes para compreensão da anejo adequado de um conjunto de técnicas e não a aceitação de um processo
psicoterapia, e não apenas a imposição pura e simples das abordagens identificadas |iial a verdadeira condição emocional d o paciente vai sendo desfiada aos poucos,

com o poder vigente nas lides acadêmicas. Ao se fazer u m a escolha conhecendo-se I. iii.nnente, em u m a transformação como a do artesão que na olaria transforma o
u m a amplitude maior de opções, seguramente teremos um desdobramento de
dai 10 em vaso.
possibilidades muito mais ricas e abrangentes. E não há como negar tais evidências,
Esse artesão, embora possa d o m i n a r um conjunto específico de técnicas, trans-
no entanto, o que assistimos com um vigor cada vez maior é à imposição pura e
1 1.1 o barro no tempo certo, dando-lhe uma configuração que o transforma em
simples da psicanálise e do método cognitivo-comportamental. Daí chegarmos a
cu de modo único e que não se repete, e isso a despeito de criar diversos vasos em
números absurdos como os exibidos pelos institutos de psicologia das nossas
um mesmo dia. Assim também é a arte da psicoterapia, quando, a despeito do
principais universidades, em que a maioria das dissertações e teses acadêmicas é
1. lerencial teórico que esteja a embasar as nossas intervenções, temos então uma
efetivada a partir de experimentos realizados com animais. A impressão que se tem
I" 1 loi mance que não se repete e que se transforma diante de cada paciente. Não há
é de que estamos na área de zootecnia, veterinária e t c , mas jamais no âmbito da
10 se exigir um conjunto de intervenções sistematizado e que seja o mesmo para
psicologia, tais as conclusões obtidas a partir das respostas animais. E q u a n d o
i n d o tipo de paciente, diante da diversidade de cada caso, associada ao fato de que
assistimos ao embate dos acadêmicos em psicologia em separarem a psicologia
• ida paciente possui sua estrutura emocional constituída de maneira única e sempre

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A ( llli ' i li I l isll I ili Mi l| ili I
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' ' " es da i isli i »1«« ili 1f< in« >mi im ili«i «ist» m< l< il

.1 partir de sua historicidade. Também não ha como se exigii que o paciente Ê hl jamais será tal qual idealizamos. K o psicoterapeuta, com essas colo
comporte de acordo com as expectativas que fazemos dele, ou seja, i ada caso exigi] mostra ao paciente que, embora o seu desatino esteja apenas começando,
uma arte específica, uma renovação contínua de intervenção precisa e sempfl lia se estabelecer uma condição temporal definitiva e que nao permita ale
pontuada a partir das necessidades emocionais do paciente. É isso que, sem dúvidj sua transformação. É dizer que uma das principais propostas libertárias da
1
alguma, irá conferir esse constitutivo de arte à prática da psicoterapia, ou seja, lapia e justamente dar ao paciente condição de transformar uma vida inerte
determinará a nossa condição de intervenção em um m o m e n t o bastante delicadl I nl.i em sofrimento em u m a busca contínua de novos horizontes nos quais
para o paciente, m o m e n t o esse que tenha o poder de desvelar as questões ema Ih in existem as perspectivas para desdobramentos de alegria e prazer.
cionais que possam estar obnubilando a sua consciência.
i » pai iente olha para o psicoterapeuta com olhar de indagação e coloca:
Voltemos, então, para a nossa sessão de psicoterapia com a nossa câmera focando I I »esse jeito parece que você dá uma no cravo e outra na ferradura, como se dizia
paciente em uma abertura bastante ampla, de modo a possibilitar que o seu ei antigamente... Mas igualmente c verdadeiro que, embora o meu sofrimento esteia
pressionismo gestual seja captado em sua íntegra. apenas começando e que muita água ainda vai rolar debaixo da ponte, não podemos
— O pior é que sua colocação é verdadeira... Embora tente negar de todas as formas e • Irlmir como será o nosso futuro, nem tampouco se estaremos sofrendo mais do
procure até convencer outras pessoas de que o pior já passou, na verdade sei que m que agora... ou até mesmo se estaremos sofrendo... Acho que esquecer não será fácil,
coisas apenas se iniciaram, com tudo ainda por acontecer... Não dá para pensar nisso in.is também não dá para prever que será sempre assim... Acho que o senhor tem
sem se desesperar, pois as coisas já estão insuportáveis e constatar que tudo eslJ razão, doutor, as coisas estão difíceis, mas também podem mudar...
apenas começando é muito doloroso... Mas igualmente é real, e necessita que
enfrentemos o demônio sabendo de sua força... Mas quando você me diz que as coisas Pausa.
apenas esfão começando é como se você estivesse fazendo uma profecia qualquei I I o psicoterapeuta novamente mantém-se em silêncio. E faz com que o paciente
que estivesse errado. Mas não, as tuas palavras são duras, é verdade, mas são sábias, I <i >ssa se escutar e pensar nas suas colocações de modo mais abrangente e reflexivo.
são palavras de alguém que está acostumado a lidar com o sofrimento humano e que
sabe que, realmente, o meu infortúnio está apenas em seu início... E eu preciso me
\ ai te da psicoterapia consiste nesse dimensionamento de se saber o m o m e n t o
fortalecer não sei como, pois ainda por cima tenho a responsabilidade de cuidar pata
que meus filhos não desmoronem de vez. Eu não consigo me imaginar no futuro sei 11 |l Intervir verbalmente e aquele no qual a intervenção precisa é o silêncio. E aqui
esse pesadelo... tudo que consigo pensar tem esse inferno no meio... iente cabe u m a colocação sobre a postura dos psicoterapeutas mais jovens que
O psicoterapeuta permanece alguns segundos em silêncio com a câmera foca- liam muita dificuldade em se manter em silêncio, acreditando que a atuação
lizando todo o ambiente e, em seguida, intervém: i i i ' aquela permeada por muitas intervenções verbais. É no som do silêncio que
- É fato que o seu infortúnio apenas esta se iniciando... Mas igualmente é fato que i lima pode se expressar com mais vigor e clareza. A fala é rica em expressões
a vida não é uma lógica matemática na qual podemos prever o nosso futuro de i.iis, mas o silêncio t a m b é m é contraponto igualmente importante na
maneira absoluta...
imdiiçáo da psicoterapia.
M e i Icau-Ponty (1999) assevera que a fala é a única, entre todas as operações
Essa intervenção do psicoterapeuta mostra ao paciente que, a despeito de seu
l'n ssiv.is, capaz de sedimentar-se e de constituir u m saber intersubjetivo. Não se
sofrimento, não há como se estabelecer que as coisas sempre serão desesperadoras
plii a e s s e fato observando que a fala pode ser registrada n o papel, enquanto os
do m o d o que ele apresenta, pois se existe algo fascinante na existência humana, é
i" • mi os comportamentos só são transmitidos pela imitação direta. Na psico-
justamente a imprevisibilidade, condição que nos coloca na situação de não
li i ipia, a lala c acompanhada de todo o expressionismo gestual do paciente, o que
sabermos c o m o serão as nossas reações diante dos diferentes desatinos que a vida
i ii i i esse processo um constitutivo de apreensão no qual as partes não podem ser
nos apresenta. Ninguém pode prever, por exemplo, c o m o serão seus sentimentos
illssoi i.idas do todo sob n e n h u m a circunstância. A fala se esquece de si mesma como
diante da própria morte, e isso em que pese fazer todo tipo de vivência que possa
I nu 11 ml ingente, ela repousa sobre si mesma, e é isso que nos dá o ideal de um
prepará-lo para esse m o m e n t o . Igualmente ninguém pode definir como será sua
reação diante de um assalto, ou diante até mesmo de u m a inesperada notícia de i ii .amento sem fala, enquanto a idéia de u m a música sem sons é absurda. E o
alegria. As nossas reações sempre serão revestidas por essa condição de im pressionismo gestual t a m b é m precisa ser codificado de m o d o preciso para que
ii in se i n c o r r a em erro interpretativo. N ã o é apenas o gesto que é contingente em
previsibilidade. E da mesma forma o futuro que se descortina em nosso horizonte

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AS VI »Ii IS l( , < Ii 1 I ISll i lll II |il I Ii II 1 1 Ii ili Ii j|< mi ixlsll 'I Ii Ii ll A , ii|. • i li i i ISll i ili 'li l| il' l
I i llli Hl I Uli II I S O «

relação a organização corporal, é a própria maneira de acolher a situação e de vivi' |rl li,id.is p e l a historicidade d e c a d a pessoa; o sofrimento presente e m i a d a

la. Nao basta que dois sujeitos conscientes tenham os mesmos órgãos e o mesma q u e o olhar transmite de modo único e peculiar. Enfim, tantos quesitos
sistema nervoso para que em ambos as mesmas emoções se representem p e l o s ii i ' i. no repertório de quem deseja conhecer a condição humana, que n a o
mesmos signos. O que importa é a maneira pela qual eles fazem uso de seu corpo, e ' • I ' iia l o s na integra. Merleau-Fonty (1999) assevera que o m u n d o e aquilo
a informação simultânea de seu corpo e de seu m u n d o na emoção (1999). li di/ei I hemos. N a o é preciso se perguntar se nossas evidências são mesmo
que, ao tentarmos apreender a totalidade das manifestações expressas pelo pacientd • liidi "ii se, por u m vício de nosso espírito, aquilo que é evidente para nós n a o

estaremos indo ao encontro de sua essência e, dessa maneira, teremos uma condiçM .In ..li lo i "iii referência a alguma verdade em si; pois, se falamos de ilusão, e
ainda maior de ajudá-lo em sua libertação existencial. i ' ' ' mhei emos ilusões, e só pudemos fazê-lo em n o m e de alguma percepção
Fellini, em suas obras, sempre focalizou a expressão gestual, enfatizando ,i e s m o instante, se atestava como verdade, de forma que a dúvida, ou o

emoção a partir da expressão corporal. Em u m a de suas grandes obras, intitulada In ni.i ao mesmo tempo nosso poder de desvelar o erro e não poderia,
Noites de Cabina, nos m o m e n t o s mais emocionantes e de extrema comoção, os , desenraizar-nos da verdade. O cinema é u m a ilusão? Ou simplesmente é a
sentimentos são passados ao espectador através do olhar, ou seja, aquilo que é vivido In. i" da vida sob o olhar de algum cineasta? E a psicoterapia é verdade, ou
pelos personagens ganha força e dimensão de dramaticidade pelo que os olhos lei i d o ilusório sobre o qual repousam a dor e a angústia contem-
expressam. Sua câmera focaliza os olhos dos personagens e mostra toda a dimensão i I qual a textura da verdade que repousa em uma sessão de psicoterapia,
da dor h u m a n a no olhar. No conjunto de sua obra, a expressão corpórea é mostrada , i ni u m a sessão cie cinema?
de m o d o que a vivência dos sentimentos seja enfeixada de maneira absoluta. E isso
\ i ida que palpita pulsante dá-nos a sensação de interromper sua trajetória
é u m a das coisas mais importantes no resgate que os aficionados e estudiosos da arte
lo . íamos em uma sessão de cinema ou, então, em u m a sessão de psicote-
do cinema fazem de sua obra. E seguramente a psicoterapia muito tem a aprendei
' .| .' l ' u n t o se a vida nos permitisse, nesse breve hiato de tempo, u m a vivência
no contato com a maestria de seus filmes, pois em cada um existe uma gran
|in a passagem das horas fosse sentida e até mesmo vivida. Verdade, ilusão ou
diosidade na compreensão da alma humana que o fascínio exibido transcende a arte
iii 11 onstatação de que o m u n d o não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu
cinematográfica e se espraia em nossas vidas, deixando-nos à mercê das paixões que
ii e s t o u aberto ao m u n d o , comunico-me indubitavelmente com ele, mas não
eles nos suscitam. E, ao contrário de outros grandes diretores que estabeleceram um
i " ih i i M e i leau-Ponty, 1999). E se o m u n d o é aquilo que vivo em u m a sessão de
fio condutor às suas obras, dando-lhes constitutivos que se tornaram verdadeiros
signos da totalidade dessa obra, Fellini se mostrava um novo diretor a cada filme; um "ii a emoção que lateja nos personagens do enredo exibido; sou a dor e a
novo artesão criando um novo entalhe a cada obra; um novo artífice a construir uma
1
• •'' q u e transbordam ao longo da trama e da vivência mostrada na tela.
nova pilastra da compreensão humana em cada detalhamento que exibia em seus I'.' modo, em u m a sessão de psicoterapia, sou a dor do paciente, suas
m e s m o

filmes. E, embora o nosso olhar seja bastante contaminado pela nossa paixão cinéfila, . e u desespero e sua alegria. Naqueles momentos, a minha realidade
ainda assim, é algo que parece primordial a todos que minimamente desejem conhecer ' i' ii. i.il e a sua manifestação de dor ou de alegria. As suas palavras, mostrando
aspectos de detalhamentos da alma humana: um debruçar-se apurado e cuidadoso • ii ii ao de seu sofrimento, repercutem em minha alma e vibram emoção que me
1
sobre a obra dos grandes mestres do cinema fará com que a arte da psicoterapia possa lorma I a n to quanto a ele durante o desenvolvimento desse processo. O meu
se acrescer dos ensinamentos que eles nos legaram em seus trabalhos. ! ii iiio vagueia ao sabor de suas emoções. O pensamento não é nada de "in-

' ' li n a o existe fora do m u n d o e fora das palavras. O que nos engana a
Detalhes como a força do olhar, os sentimentos despertados pelas grandes
peito disso, o que nos faz acreditar em um pensamento que exista para si antes
paixões; a trama de vidas que se tocam e se buscam a partir de razões obscuras e que
pressão, são os pensamentos já constituídos e já expressos, dos quais podemos
I inhiai n o s silenciosamente e através dos quais nos damos a ilusão de uma vida
III i 1999). F dizer que a vivência da psicoterapia consiste em u m a dialética
1. N e s s e rol p o d e m o s incluir, a l é m de Fellini, os seguintes diretores: B e r g m a n , Zefirelli, Bertolucci, W i m t la q u a l a manifestação do pensamento através das palavras alterna os sen-
Wenders, Kieslowski, Tornatore, Frank Capra, Almodôvar, Bunuel, A n t o m o m , Visconti, Polanski,
""" M i " , em um diapasão de diferentes tons e de diferentes matizes emocionais, li,
K u r o s a w a , e Pasolini e M a n o e l de Oliveira. Desses ainda estão em atividade Tornatore, Zefirelli, A l m o d ô v a r '
W i m W e n d e r s , Polanski e Bertolucci. O s d e m a i s d e i x a r a m o b r a s q u e s e eternizaram entre n ó s e q u e farão' i ili' i nância, na qual os sentimentos são desfiados de m o d o contínuo, o psico
deles f i g u r a s d e p r o e m i n ê n c i a , s e m p r e presentes a lodos q u e a m a m a sétima arte e seu i m b r i c a m e n t o c o m ipi tila se abre à perspectiva emocional do paciente de m o d o a permitir que ele
a própria vida.

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1 1
A l , Vl'llli IS II II ( 'S ( le I I ISll i lll » |ll I li 'I li il I II M II lll K |li l l i I X l s t l 'I H II il a i iiii i da l«li 'i' ifl i| 'i'

possa nao apenas se escutar em seu desespero emocional, mas também evoluii im i oltemos,/ nossa sessão de psicoterapia.
sentido d e superação das barreiras que possam estar agrilhoando s e u desenvolvi
t>, / ' m s ,/e mn breve silencio, o paciente continua com o seu depoimento:
mento pessoal.
In menos saber que as coisas podem se modificar traz um certo alívio, pois acho
De outra parte, assistimos que uma pessoa, ao decidir ser psicoterapeuta, alein que a pior coisa que pode acontecer a alguém é justamente a perda da esperança de
dos cursos de graduação necessários - psicologia e medicina -, também busta mu futuro melhor. Em tudo que fazemos, trazemos a esperança de que o futuro será
cursos de especialização que a possam sedimentar em sua prática profissiond melhor... Sempre esperamos que após um dia de chuva venha o sol... Difícil é espe-
Geralmente esses cursos oferecem um conjunto sistematizado de técnicas com • tar, depois de um grande temporal, que venha mais chuva ainda... O pior é que
quais a pessoa tentará desenvolver sua atividade de psicoterapeuta. No entanto, I depois do temporal às vezes vem muita chuva, mas quando acreditamos que é o sol
que curso n e n h u m é capaz de ensinar é justamente essa capacidade de inlervii que irá aparecer na seqüência, parece que a própria dor diante do temporal ganha
ttnu crio alívio... Há um dito popular que aprendi lá na Bahia que diz: "não se come
naquela fração de tempo em que o fenômeno de dor do paciente ocorre. Naquela
vatapá ílepois da feijoada...", e, na verdade, acho que é isso que está acontecendo
exata circunstância na qual o único recurso que temos ao nosso dispor para efetivai
• omigo, depois de comer uma grande quantidade de feijoada, ainda tenho o vatapá
nossa intervenção é única e tão somente a nossa sensopercepção. E nisso consiste a
para devorar... Não dá, é simplesmente impossível, depois de feijoada ninguém
arte da psicoterapia, nessa condição ímpar de enfebeamento de nossas possibilidades agüenta comer vatapá... Mas é exatamente essa a idéia que tenho de tudo que esta-
de intervenção de acordo com as manifestações do paciente. É aquela fagulha dl mos passando... Não adianta reclamar que estamos empanturrados pela feijoada
t e m p o e espaço na qual dimensionamos a dor h u m a n a em toda a sua extensão, de que alguém não sei de onde ainda está nos obrigando a comer vatapá... não dá, mas
m o d o a abarcar o sofrimento que nos é colocado com o respeito que a situação que também não adianta reclamar, pois as coisas assim estão postas e assim terão que
a própria psicoterapia está a exigir. Somos u m a frágil ilusão q u a n d o nos colocamos ser conduzidas... É por isso que a idéia de que as coisas podem melhorar no futuro
na posição de mestres que estão a ensinar a arte da psicoterapia aos alunos, pois, ao e confortante... Ela traz até mesmo um grande alívio no que estamos vivendo, é
contrário, o que fazemos é u m a contínua reflexão teórica e prática sobre as i orno se nos fortalecêssemos para continuar na luta com tanta tranqueira para
circunstâncias que envolvem a psicoterapia. () verdadeiro aprendizado ocorre de enfrentar... E mesmo diante de nuvens negras, quando a chuva se mostra iminente,
fato em nossa prática q u a n d o temos que fazer a conversão dos ensinamentos ainda podemos ter a certeza de que o sol está presente atrás dessas nuvens tão car-
regadas... E seja para que lado for, teremos a certeza de que algum dia as coisas se
teóricos com aquilo que está sendo exibido pelo paciente. E, da mesma forma que
modificarão...
outras manifestações artísticas, é somente a prática que nos dará essa condição
artesanal de condução do processo da psicoterapia. É tal qual um artista plástico, Nova pausa. Uma seqüência com a camera localizando a totalidade do ambiente
com o som do silêncio acolchoando as imagens que estão sendo mostradas. O psi-
que, por mais que possa freqüentar ateliês de grandes artistas, e observando com
coterapeuta então pontua que a sessão terminou. Despedem-se com a câmera
esses a técnica de mistura das cores na fragmentação de tons e semitons, e apesar do
locando o paciente levantándose e caminhando em direção à porta de saída. Novo
grande esteio de sustentação artística que obterá nesses contatos, ainda assim, sem
elosc do paciente caminhando pelas ruas.
dúvida alguma, o seu desenvolvimento se dará q u a n d o ele próprio e m p u n h a r o
/ uma sucessão de imagens da cidade é mostrada para se fazer um contraponto ao
pincel e buscar as suas combinações de cores. A partir disso se desenvolverá e poderá
teor dramático que foi exibido na sessão.
tornar-se um grande artista. A observação das técnicas de outros artistas é igual-
mente importante em sua formação cultural, e disso não se tem a menor dúvida, fellini utilizava-se muito desse recurso de contrapor cenas leves e divertidas
mas a sua verve artística se dará pelo desenvolvimento de seu aprendizado em suas ni filmes que tinham grandes cargas dramáticas. Assim, cm Noites de Cabíria, por
próprias telas. Igualmente, a psicoterapia está a exigir que tenhamos um constante i inplo, juntamente com toda a trama de desespero e dor presentes ao longo do
aperfeiçoamento teórico e filosófico, pois, antes de qualquer outro balizamento, é Ulme, iremos presenciar situações divertidas como a nos preparar o espírito para o
indispensável que tenhamos u m a base sólida a sustentar nossa prática, mas in- que virá na seqüência. A sua dosagem de leveza e dramaticidade, sem dúvida
dubitavelmente o que irá fazer de nós psicoterapeutas de destaque é a nossa prática. lignina, fez de seus filmes verdadeiros referenciais nessa condição, pois essa
Artesanal ou medíocre, o constitutivo que iremos conferir à nossa condição de iii' i nincia faz com que, ao assisti-los, debrucemo-nos sobre a verdadeira dialética
psicoterapeuta dependerá do tanto que possamos aprender com o nosso próprio • 11 . ondição h u m a n a , na qual são alternadas situações dramáticas com situações de
desenvolvimento na arte da psicoterapia. i i i cr. Merleau-Ponty (1999) ensina que a reflexão não pode ser plena, não pode ser
iiih esclarecimento total de seu objeto, se não toma consciência de si mesma ao

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/ V i V i 1,11
1! ' bda iisli i ili«|)(i fimi. «nu'iii iii><iIcchixlshmu li ii A i llli • i li I i isli i ili lll l| 'li I

mesmo tempo que de seus resultados. Precisamos, assim, nao apenas nos instalar em durante unia sessão de psicoterapia, em que o paciente desfia seus enredos em
uma atitude reflexiva, mas ainda refletir nessa reflexão, compreender a situação .I' .velamentos semelhantes no tocante a nos levar a inúmeras reflexões sobre a
natural à qual ela tem consciência de suceder e que, portanto, faz parle de sua nossa própria vida. Bergman, por meio de sua obra, nos leva a um mergulho tão
definição. É dizer que devemos objetivar não apenas praticar a filosofia e a própria Intenso nas profundezas da alma humana, que praticamente podemos considera la
psicoterapia, mas ainda dar-nos conta da transformação que ela traz consigo no didática a lodos que queiram compreender a essência h u m a n a em seus mais com
espetáculo do m u n d o e da nossa existência. I'lesos e diferentes matizes.

E esses espetáculos do m u n d o e da nossa existência estão presentes tanto no I )esse m o d o , quando vemos o psicoterapeuta colocar para o paciente que,
campo da psicoterapia como no cinema. Igualmente se mostram totalitários em embora sua realidade existencial esteja bastante turva, isso não significa que não
nossas vidas e não temos como seguir impunes após uma eloqüente sessão de existam outras perspectivas para sua vida, temos u m a clara justaposição da
psicoterapia, da mesma forma como não saímos sem alteração depois de assistir a alternância que a vida se nos apresenta. Ou seja, a nossa realidade existencial jamais
um grande filme. Somos tocados no âmago mais profundo de nossa alma diante e eslática, sempre se apresenta em u m a contínua mudança, e nesse p o n t o reside o
dessas experiências; somos amalgamados da maneira mais delicada diante das sustentáculo sobre o qual a psicoterapia sedimenta a estrutura emocional do pa-
transformações que vivenciamos nesses contextos. Uma chama nos invade o peito e i unte. Ele será fortalecido para que não esmoreça diante dos diferentes desatinos
nos faz mais sensíveis diante dessas experiências; é como se o clamor que nos direciona que a vida possa apresentar, mas nunca com a ilusão de que, superados os problemas
à nossa própria humanidade se fizesse presente nessas situações e simplesmente que o levaram à psicoterapia, ele não terá mais n e n h u m a gama de dissabores em sua
atendêssemos aos seus chamados. Não há como esperar algo diferente dessas expe- trajetória existencial. Essa reflexão é muito importante para que não se altere a
riências, pois o seu ímpeto é tão forte e eloqüente que não temos como resistir e não verdadeira dinâmica dos fatos, o que significa dizer que, mesmo superando desa-
aderir da maneira mais simples que a nossa condição humana permite. tinos que possam estar agrilhoando determinado paciente, esse, muitas vezes, ainda
O grande diretor Ingmar Bergman, em uma de suas obras-primas, o estu- nao apresenta u m a estrutura emocional suficientemente solidificada para o
pendo Fanny e Alexander, alterna m o m e n t o s de extrema felicidade vividos pelos i nlrentamento de outros tantos dissabores de sua própria vida. Daí a necessidade de
personagens principais do filme com situações de extremo sofrimento, mostrando que a psicoterapia possa, então, expandir-se além dos problemas que são trazidos e
na tela a própria configuração da existência, na qual se alternam igualmente explicitados pelo paciente em suas sessões iniciais, pois, na quase totalidade dos
m o m e n t o de extremo arrebatamento com situações agudas de sofrimento. E o que i asos, esses apenas se mostram como a ponta do iceberg continental que se esconde
é a nossa vida se não essa alternância de momentos prazerosos com sofrimento e sobre as águas sombrias de uma existência turva. É dizer que, na medida em que
dor? Não há como esperar que a vida tenha apenas situações prazerosas, tampouco somos uma totalidade corpórea, não temos algo que se manifesta isoladamente em
que seja apenas u m a vivência infindável de situações tortuosas. E em Fanny e nossa existência, ao contrário, temos múltiplas facetas de ocorrências que se inter-
Alexander esse contraponto é mostrado de maneira tão grandiosa, com deta- i alam e se justapõem umas sobre as outras.
lhamentos tão preciosos, que não há como não nos projetarmos no próprio enredo Dizer que somos psicoterapeutas experientes é simplesmente dizer que apren-
do filme e não o trazermos para a nossa vida. Na realidade, o que esses grandes demos o segredo que o rio despeja na serra, ou seja, aprendemos continuamente a
diretores conseguiram fazer em seus filmes foi justamente a arte de trazer para as escutar a dor h u m a n a sem desígnios e sem conecituações. E acima de tudo sem u m a
telas o verdadeiro contraponto da condição h u m a n a em todos os dimensio- J a r e z a absoluta da manifestação de sua ocorrência. Compreendemos o sofrimento
namentos de sua justaposição existencial. Em outra obra m o n u m e n t a l , O Sétimo h u m a n o distinguindo-o em suas diferentes manifestações e sem a preocupação de
Selo, Bergman mostra um cavaleiro que retorna das cruzadas e confronta a própria I,i/ermos dessa compreensão nada mais que não um sustentáculo a fundamentar
morte em uma partida de xadrez. Cada lance disputado é uma forma de adiar o
nossas intervenções profissionais. É constatar que estamos em um contínuo
m o m e n t o final, e a única coisa que pede ao seu adversário é que esse m o m e n t o seja
aprendizado sobre a condição humana; é saber a cada sessão que estamos apren-
adiado até que obtenha conhecimento, ou seja, até que encontre algum sentido para
dendo um p o u q u i n h o mais sobre a arte da escuta e da intervenção sobre a dor do
a sua vida para que, então, a m o r t e seja plenamente justificável. É um contraponto
outro; é dimensionar que a nossa vida sai enriquecida depois de cada sessão de
tão magnífico com a perspectiva da morte que não há como não se evocar a nossa
psicoterapia com os acréscimos emocionais que recebemos de nossos pacientes. E
própria vida diante desse mesmo confronto. E se temos esses tipos de questio-
saber de nossas limitações perceptivas na apreensão do fenômeno que se mostra
namentos diante da exibição desse filme, igualmente eles t a m b é m se fazem presentes
diante de nós na figura do paciente é saber que, por maior que seja a nossa

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/ v v | r i | A i irt< i da i i s l i i iti »n ii ' i . i
' ' is fi ii es da i «li i ih»ili i fi i rv m< i l i « i ixlsti h i

experiência, ela depende de nossa percepção - limitada e reduzida na apreensão da . ia prestes a receber, la/, um questionamento sobre seus relacionamentos e o modo
totalidade de qualquer fenômeno que se manifesta diante de nós. como tentou conduzir a própria vida. Em um dado momento, esse personagem
milha que está morto e se vê no caixão mortuário com um relógio sem ponteiros, A
Merleau-Ponty (1999) ensina que a realidade não é u m a aparência privilegiada
que permaneceria sob as outras, ela é a armação de relações às quais todas as metáfora usada pelo mestre é clara e precisa: a m o r t e não precisa de horário paia
aparências satisfazem. Diante da minha janela de trabalho observo algumas m o n - se manifestar c na eternidade t a m p o u c o ele precisará de instrumentos que o
tanhas e vales que fazem parte da Serra da Cantareira, em São Paulo. Se mantiver informem da condição horária. E isso faz com que ele, ao despertar, adquira cons
meu porta-canetas diante de meus olhos, ele me esconde quase toda a paisagem, sua i leneia da necessidade de resgatar seus relacionamentos de m o d o a torná-los mais
grandeza real permanece medíocre, porque esse porta-canetas, que mascara tudo, é prazerosos e significativos em termos verdadeiramente h u m a n o s . Essa reflexão
apenas um objeto visto de perto, e essa condição o torna maior do que a grandeza .obre a necessidade de se ressignificar a própria vida está presente em outras obras
da paisagem propriamente dita; ela praticamente desaparece diante de minha visão do mestre Bergman. Além dos já citados Sétimo Selo e Morangos Silvestres, vamos
momentaneamente obnubilada, ainda que por um objeto tão pequeno. Assim lambem encontrar esse contraponto reflexivo em Sonata de Outono, no qual uma
também deve ser nossa reflexão em relação ao que apreendemos do depoimento do inusicista, depois de longo período de ausência motivado p o r concertos nos mais
paciente, é necessário um cuidado renovado e contínuo para que tenhamos sempre diferentes cantos do universo, visita a filha e o genro. A constatação primeira é de
claro que aquilo que se processa em uma sessão de psicoterapia é crivado pela nossa que são estranhos e que praticamente mal conhece os próprios netos. As cir-
sensopercepção, o que torna t u d o muito delicado e limitado. i unstâncias que permeiam a trama do filme são, então, direcionadas para aspectos
que envolvem a necessidade de resgatar-se os vínculos que se m o s t r a m esmaecidos
Da mesma maneira, o nosso paciente está com sua consciência obnubilada
em função de ausência tão prolongada. Ressentimentos, rancores e outros tantos
pelo sofrimento, o que o impede de ver outras possibilidades para a sua vida que não
sentimentos afloram e são colocados e são desfiados de m o d o a mostrar de m o d o
apenas e tão somente a dor e o desespero de sua condição momentânea. E, tal qual
i laro e contundente as asperezas da condição h u m a n a diante da própria circuns-
o porta-canetas do exemplo anterior que se transforma em u m a trava aos nossos
tancia que se apresenta à nossa realidade perceptiva. E disso a psicoterapia igual-
olhos, impedindo-nos de ver uma paisagem mais ampla e esplendorosa, o so-
mente trata, da circunstância inusitada que envolve a condição h u m a n a e que nos
frimento de nosso paciente t a m b é m o impede de ver outras circunstâncias para sua
impulsiona a novos horizontes e a constantes movimentos de ressignificação da
vida que possam transformá-la em termos libertários e alvissareiros. A própria
própria existência.
expressão usada pelo paciente de que, atrás de nuvens densas e carregadas, ainda
assim temos a presença do sol obnubilada momentaneamente pela tempestade, é A psicoterapia é movimento. É o transbordamento contínuo de emoção que
indício de que ele está se estruturando para buscar outras perspectivas para sua vida nos leva a novos horizontes nos quais a nossa perspectiva de vida se transforma e se
além da dor e do sofrimento. E mostrar ao paciente que a vida é uma contínua mostra em diferentes panoramas existenciais. E aceitar as transformações que a vida
alternância seguramente é mostrar a ele outras possibilidades que podem se mostrar se nos apresenta, bem como as nossas dificuldades emocionais diante das barreiras
ao seu campo perceptivo. que surgem em nossos caminhos, é igualmente a arte de viver levada a extremos
bastante significativos. Visconti, em seu último filme, intitulado O Inocente, mostra
O autoconhecimento buscado na psicoterapia e que impulsiona o paciente ao
justamente em seu enredo a trama se desenvolvendo a partir das dificuldades emo-
autocrescimento e à cura de determinados sintomas certamente é obtido q u a n d o
cionais do personagem principal e sua extrema dificuldade em aceitar um rela-
esse consegue perceber que a alternância de nossa vida é, antes de qualquer outro
cionamento interpessoal no qual o outro seja respeitado e considerado como pes-
dimensionamento, fator que nos possibilita ir ao encontro daquilo que concebemos
soa. O mestre conduz a trama do filme de m o d o a evidenciar o tanto que u m a vida
como libertário para a superação de nossos desatinos e vicissitudes. E o que é o
alquebrada por dificuldades emocionais igualmente conspurca outras tantas pessoas
Autoconhecimento tão buscado senão a própria avaliação que fazemos das nossas
que estão ao seu redor. E podemos afirmar, praticamente sem margem de erro, que
vivências e de seus d e s d o b r a m e n t o s diante das circunstâncias que se lhes
o processo capaz de quebrar essa cadeia contínua de sofrimento e desespero é
apresentam? Ou seja, avaliamos as nossas vivências do passado a partir da nossa
justamente a psicoterapia.
sensopercepção do presente e de todos os desdobramentos que se configuram em
As dificuldades que se sucedem em uma determinada vida t r u n c a m o próprio
nossa apreensão momentânea. Bergman, em outro de seus filmes maravilhosos, o
desenvolvimento dessa pessoa e agrilhoa outras possibilidades que poderiam surgir
estupendo Morangos Silvestres, apresenta a trama de um personagem, um médico
em seu caminho e desenvolvimento. A psicoterapia é o processo através do qual o
bem sin ediclo que no ocaso de sua vida e diante de u m a homenagem acadêmica que

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As V! IH. 1:1 I. ii i ••, 11 i i ,i,i, , ,|, „ ,|, i i, ,| I, „ 11, ,| i, , | , - „ , | | , , , i, ,|
( X S |( A i iili • i li i i isli ' >l i >li i

paciente r levado ,i iinui contínua reflexão sobre os determinantes que estejam poderia validar os comentários que esses faziam acerca de seus filmes, li segu
ceifando suas possibilidades de superação e de desenvolvimento pessoal. Assim, i amente tais colocações servem para questionar qualquer nível de crítica que se faça
além de ser uni processo libertário, é também um processo no qual a arte do i ih lodos os âmbitos do saber, a necessidade do estabelecimento de um marco
psicoterapeuta adiciona um toque de requinte a esse desenvolvimento. É dizer que, di\ isõrio bastante preciso sobre a diferença de "conhecimento" e "competência".
da mesma forma que existem inúmeros artistas plásticos, mas que apenas alguns são
A psicoterapia, sendo u m a prática cuja reflexão repousa sobre sessões ocor
capazes de exprimir com grandeza e sabedoria a combinação das cores, igualmente
i i d a s sem a mínima possibilidade de resgate daquilo que foi vivido, torna-se, assim,
apenas alguns psicoterapeutas são capazes de levar a arte da psicoterapia a parâ-
refém de críticos contumazes que são capazes de mostrar grande "conhecimento"
metros elevados de desenvoltura e esplendor.
teórico sobre sua performance, mas são igualmente incapazes de exibir a "com-
Vivemos um m o m e n t o no Brasil no qual os Conselhos Regionais de Psicologia petência" necessária para o seu exercício.
estão buscando o reconhecimento da psicologia como ciência. Apesar de essa ser, na
Trabalhos acadêmicos envolvendo a reflexão da prática da psicoterapia são
realidade, u m a questão bastante árdua por envolver ditames científicos e os
lei l o s , na sua quase totalidade, em um total distanciamento da própria realidade dos
propósitos da psicologia, ainda assim, se isso for conseguido, poderemos, então,
la l o s . E isso implica que, muitas vezes, o que está descrito, e que serve para conferir
estabelecer um outro balizamento. A psicologia pode ser considerada ciência, mas a
titularidade acadêmica aos seus autores, não atina com a prática propriamente dita
psicoterapia é u m a arte. E c o m o tal deve ser considerada e analisada.
da psicoterapia. E a arte da psicoterapia exaustivamente defendida nesse trabalho
E ao tratarmos a psicoterapia como arte e o psicoterapeuta como um artesão
• aminha distante desses trabalhos na quase totalidade das vezes. E isso sem consi-
que irá desenvolver um trabalho artístico do mais alto requinte, temos, então, que,
derarmos que muitos orientadores estão mais preocupados com o exibicionismo
além do próprio embasamento teórico e filosófico para nossa prática, é necessária 2
.uadêmico do que propriamente com a construção de teorias e trabalhos que
essa verve artística que será desenvolvida e talhada ao longo de u m a experiência
possam verdadeiramente sedimentar os caminhos daqueles que buscam na seara
como ferro forjado em fogo brando. Temos inclusive inúmeros teóricos que
• 11 adêmica subsídios para suas práticas. A condição de psicoterapeuta nos exige u m a
ensinam sobre a prática da psicoterapia, se prestam ao trabalho de supervisão
performance contínua de aprimoramento e desenvolvimento, e o fato de podermos
clínica, mas que não conseguem se firmar na prática da psicoterapia por não
recorrer a outras áreas do saber não nos denigre, ao contrário, eleva-nos a condições
conseguirem se desenvolver nessa arte. Assim, irão depender de muito e m p e n h o e
sobejas em nossa trajetória de crescimento pessoal.
dedicação extrema se desejarem se firmar nessa prática, pois não desenvolveram essa
verve artística que faltará naqueles momentos decisivos nos quais à nossa frente O psicoterapeuta, antes de tudo, deve ser alguém sintonizado com a realidade
existem apenas a dor e o sofrimento do paciente, m o m e n t o s esses em que não contemporânea, com as coisas que circundam seu espaço existencial. E poder buscar
podemos, como mostramos anteriormente, minimamente recorrer aos textos que na arte dos grandes mestres do cinema subsídios para nossa prática profissional
formam o nosso cabedal teórico. seguramente é um privilégio ímpar. Isso seguramente só pode nos tornar melhores
tanto no campo profissional quanto até mesmo no pessoal. O cinema desenvolve no
É c o m u m depararmo-nos no meio acadêmico com esses teóricos que, ao espectador a arte da concentração ao que está sendo mostrado e vivido na projeção
serem indagados sobre as razões pelas quais não exercem a prática da psicoterapia, que se espalha na tela. Permanecemos em silêncio e somos conduzidos ao sabor das
u m a vez que ministram aulas sobre a temática e muitas vezes até orientam trabalhos emoções que a projeção exibe em seu enredo. E esse silêncio, c o m o mostramos
acadêmicos, simplesmente afirmam que não possuem tempo disponível para isso. A anteriormente, é u m a das maiores conquistas sobejamente decantadas pelos
verdadeira razão, no entanto, é outra, pois a arte da psicoterapia pode ser ensinada,
mas a sua prática depende do desenvolvimento dessa verve artística. Caímos, na
realidade, na discussão envolvendo a diferença entre "conhecimento" e "compe-
tência". Assim, por exemplo, posso ter "conhecimento" do que seja u m a bela jogada 1. Exibicionismo acadêmico foi um termo que aprendi com a querida Ronilda Ribeiro, pessoa cuja grandiosi-
dade de saber é proporcional à sua simplicidade. Em uma conversa coloquial, ela descreveu que alguns
futebolística, mas não tenho "competência" para executá-la. Desse modo, esses
acadêmicos o cultuam como se fosse atitude indispensável para atividades que envolvem a elaboração e
teóricos terão "conhecimento" sobre a arte da psicoterapia, mas não terão "com- orientação de trabalhos acadêmicos. Basia observar como alguns acadêmicos se comportam em mesas de
petência" para exercê-la. Fellini, em u m a de suas últimas entrevistas, afirmou que defesas de teses e dissertações para alcançarmos as palavras de Ronilda, ou seja, nessas ocasiões, tais
acadêmicos tentam ofuscar o trabalho que está sendo defendido com colocações cujo objetivo principal é
gostaria de ver algum crítico de cinema dirigindo um filme, pois somente assim
justamente o de se exibirem diante dos colegas e da platéia que eventualmente acompanha o desenvolvi
mento desses trabalhos.

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A% vi nli is l< li i is (1« i i isli i ili ii |li i d ii ii ii iK lii( >lú< )ii 11 i ixlsli ii ii li il A (iili • i li i i isli i ili 'li i| i|i i

psicoterapeutas mais experientes. Vivê-lo é uma arte; transmiti lo como p o n t o de (luriosamente folheava um livro sobre Pasolini no qual o biografo pim m a \ a
mutação profissional é evolução; sabê-lo como um dos mais eficazes recursos da ilrar que sua morte, longe da explicação oficial de que havia sido mero i rime
psicoterapia é uma de nossas maiores sabedorias. Polanski, em um de seus (limes passional, linha sido motivada por razões políticas em função das posições q u e o
mais dramáticos, o estupendo Lua de Fel, cujo drama também é desenvolvido no mestre mostrava em seus filmes e em sua vida, quando me ocorreu lazer esse coi te
interior de um navio, com o personagem principal narrando sua história para um entre a vida pulsante que se faz presente em u m a sessão de psicoterapia e a exube
companheiro de viagem, em um dado momento pontua de forma clara e precisa a i a m ia emocional exibida em u m a sessão de cinema. Decidi por uma proeminênc ia
partir das palavras do narrador sobre a condição do passageiro ouvinte: "Você daria um i in lellini por ser, em minha visão, o mestre que melhor mostrou as alternâncias da
b o m analista... você sabe escutar como poucos...". E seguramente estamos diante de \ ida humana em seu trabalho.
u m a das maiores verdades que cerca nosso desenvolvimento profissional, a capacidade Caminhei nesse sentido, sempre buscando uma melhor compreensão dos
de se manter em silêncio diante da narrativa do paciente, na qual o seu desespero e dor detalhamentos entre os filmes citados e a situações vividas durante o processo de
estão estampados de m o d o absoluto. E pautar esse silêncio com intervenções precisas psicoterapia, iniciando uma trajetória que se mostra grandiosa à nossa frente. Mas
que levem o paciente a reflexões e desdobramentos em seu esboço existencial é o ponto seguramente demos o primeiro passo. E a grande jornada, então, se iniciou...
no qual se fundamenta a soberana arte de ser psicoterapeuta.

Obras dos Grandes Mestres


Considerações complementares
Ao fazermos o contraponto da verve artística necessária para o pleno desen- Neste trecho do trabalho citaremos algumas das principais obras dos grandes mes-
volvimento da psicoterapia com a arte do cinema, estamos, na realidade, mostrando 11 es, pois é sabido que os seus trabalhos, de m o d o geral, não são acessíveis ao grande
o tanto que podemos aprender em outras áreas do saber que podem enriquecer a publico.
nossa prática. E isso naturalmente não exclui outras formas de arte, como a pintura,
a música, a literatura etc. A escolha pelo cinema foi aleatória, e isso não significa que Federico Fellini
essa forma de arte seja soberana em relação às outras, tampouco mais completa ou
• A Estrada da Vida
atribuída de qualquer outra valoração que a laça superior. C o m o já foi dito exaus-
tivas vezes pelos mais diferentes teóricos, a escrita mostra de m o d o indissolúvel • Mulheres e Luzes
características e valores pessoais de seu autor. E evidentemente não fugimos disso ao • Noites de Cabíria
escrever esse trabalho, embora a área artística na qual sempre transitei com maior • Ginger e Fred
desenvoltura foi a música, sendo que durante muitos anos de minha vida, inclusive,
• Satyricon
atuei profissionalmente como musicista. O cinema, além de u m a paixão avassala-
dora, é também u m a das minhas grandes frustrações de vida, pois todos que me • A Voz da Lua
conhecem na intimidade sabem do desejo que sempre tive de ser cineasta, enfim, de • A Doce Vida
viver o cinema de u m a forma mais intensa do que a de m e r o espectador. Já escrevi • Os Boas-Vidas
textos para teatro, mas q u a n d o me vi na iminência de escrever roteiros cinema-
• Boccaccio 70
tográficos, recuei; sentia-me como uma criança que se recusa a acreditar que Papai
Noel é u m a ilusão criada pelos adultos. Ao idealizar esse trabalho, titubeei entre que • Abismo de um Sonho
caminhos artísticos buscar. Estava mais seguro para transitar pelos caminhos da • Julieta dos Espíritos
música, enfeixando reflexões sobre a fenomenologia da música e sua inserção com • A Trapaça
a psicoterapia. No entanto, a riqueza presente nessa paixão avassaladora que é o
• Amarcord
cinema me fez decidir por esses caminhos. A música talvez fique para u m a outra
ocasião em que poderei desenvolver um trabalho minucioso sobre a fenomenologia • E La Nave Va
dos sons e a sua repercussão e influência na vida h u m a n a .

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A . il h il li 11 H»
l nloKipIn
as vi mi is li li I is I In I isli I >li « |li I h 'I h il I h 'I n ili li I ixlsli il i( :k il 11 hi. un l l i n m i g )

Ingniar Bergman / ih hino Visconti


Morangos Silvestres • Belíssima
A Flauta Mágica i i| isessào
Cenas de um Casamento \ In ia freme
Ovo de Serpente Sedução da Carne
O Olho do Diabo I ih Rosto na Noile
Gritos e Sussurros Kimui' seus Irmãos
Sonata de O u t o n o i i I eopardo
A Fonte da Donzela • Vagas Estrelas da Ursa
O Sétimo Selo • () Estrangeiro
Fanny & Alexander • ( >s I teuses Malditos
• Moile em Veneza
Pier Paolo Pasolini • I udwig, a Paixão de um Rei
• Teorema
• Violência e Paixão
• O Evangelho Segundo São Mateus
• () Inocente
• Medeia
• Noites Brancas
• M a m m a Roma
• Accattone - Desajuste Social
• Comício de Amor Roman Polanski
• Gaviões e Passarinhos • Tess
• Édipo Rei • Piratas
• Decameron busca Frenética
• As Mil e Uma Noites • I ,ua de Fel
• Saló, os 120 dias de Sodoma • A Morte e a Donzela
• Contos de Canterbury • O Ultimo Portal
• O Pianista
Giuseppe Tornatore • Chinatown
A Lenda do Pianista do Mar
• Quê?
O H o m e m das Estrelas
• O Bebê de Rosemary
Uma Simples Formalidade
• A Dança dos Vampiros
Sempre aos Domingos
• Armadilha do Destino
Cinema Paradiso
• Repulsa ao Sexo
listamos Todos Bem
• A Faca na Água
O Professor do Crime

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- 50 -
As vi iili ih li I. (is do i iüIi i ili <
i |ii i h ii ii ii i ii ii ii i|i ii |ii , , , ixlsli •! ii ii ii 1
A arfo da | ish i 'i w ii ili i

Franco Zeffkelli
Akira Kurosawa
(lallas Forever
K.iii
• Chá com Mussolini
'.uiilios
• Carmen
i Is Sele Samurais
• Jane Eyre, Encontro com o Amor Madadayo
• Sonhos Proibidos • i) Idiota
• Hamlet I lerzu Uzala
• A m o r sem Fim Irono Manchado de Sangue
• O Campeão Kapsódia em Agosto
• Jesus de Nazaré Kagemusha
• Irmão Sol, Irmã Lua
• Romeu e Julieta
I• i I c rências bibliográficas

Pedro Almodôvar
• Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos i Kami, V. A. Históriaspsi: a ótica existencial em psicoterapia. São Paulo: Pioneira,
M l
• Ata-me!
. Psicoterapia existencial. 3. ed. São Paulo: Pioneira T h o m s o n
• O Matador
II iii ning, 2002a.
• Fale com Ela
. Psicoterapia fenomenológico-existencial. São Paulo: Pioneira,
• Tudo sobre Minha Mãe
'110 '|i.
• Kika . Suicídio: fragmentos de psicoterapia existencial. São Paulo: Pioneira
• Maus Hábitos 11 m u i Learning, 2003a.
• A Lei do Desejo . Psicoterapia & subjetivação. São Paulo: Pioneira T h o m s o n Lear-
• Carne Trêmula C, 2003b.
• A Flor do Meu Desejo . Vanguarda em psicoterapia fenomenológico-existencial. São Paulo:

• O que Fiz para Merecer Isso?


IMoneira Thomson Learning, 2004.
i IlAKNiiY, L.; Schwartz, C. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo:
KrzysztofKieslowski i. & Naify, 2001.

• A Liberdade é Azul I i ih ii i, A. C. L. A escuta e a fala em psicoterapia. São Paulo: Editora Vetor Psícope-
• A Igualdade é Branca ilngógica, 2000.
• A Fraternidade é Vermelha 11 ii i au-Ponty, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
• Em Nome do Pai
Sari ri;, J. P. El ser y la nada. Buenos Aires: Editorial Paidós, 1982.
• O Crime Perfeito

- 52 - - 53 -
Capítulo

6 " perspectiva existencial


diante da c o m u n i d a d e carente
de recursos socioeconómicos
André Roberto Ribeiro Torres

Introdução
11 presente texto baseia-se na minha experiência inicialmente clínica no Centro
nniiinitário de u m a favela da periferia de Campinas. A intenção do trabalho não é
I klémica, mas sim a de lançar um "olhar ingênuo" filosófico sobre um ambiente
• In paradoxal. Para minha própria referência, no entanto, baseio-me na obra de
i 11. .ni 1'onty, principalmente ao que se refere à relação constante entre H o m e m e
unindo. Não encarando ambos como pólos que se influenciam, mas como com-
! ii tes de um mesmo sistema. H o m e m e m u n d o compõem-se mutuamente. O
do da favela", portanto, não influencia ou determina o favelado, mas ambos
lo o mesmo sistema, pois, como diz Merleau-Ponty: "O corpo próprio está no
do assim como o coração no organismo; ele mantém o espetáculo visível
inulamente em vida, anima-o e alimenta-o interiormente, forma com ele um
lema" (Merleau-Ponty, 1999, p. 273).
Inicialmente, o que me prendia a atenção eram as peculiaridades que se
mostravam na comunidade. No entanto, assim que deparei com uma manchete da
1
i l' brasil comentando uma projeção da O N U (Organização das Nações Unidas)
ubre a condição mundial das favelas, percebi que este estudo tomou uma amplitude
«i ("Número de favelados deve dobrar até 2030, diz O N U " ) , tornando-se
As vriili is li ii i •:. i li i i isli < ili><||i i [< >i \, n i n .| n ,| «||co-i ixlstl II li li il A 1 ii r.| 11 'i llvi 1 1 ixlsli 11 H li il 1 lli 111I1 • 1 li 1 i i ii 111111I1 li 11 1 1 'i lt('
(
-

inquestionável .1 importância de compreender melhor e s s a realidade que se M lambem creio ser importante relatar a s características p r ó p r i a s da foi ma q u e
pande. O relatório The Challenge ofSlums: (¡I0h.1l Report 011 lluman SettlemetlÉ llllnha p i a t i e a clínica n a comunidade assumiu. Podemos considerar ter chegado a
2003 (O Desafio das Favelas: Relatório Global sobre ¿1 Moradia Humana) du lli 111.In-, s e considerada d o ponto de vista da tradição filosófica e psicológica.
programa ONU - Habitat, que realizou o estudo, diz que, atualmente, aproxi I . I o n chegando a uma séria conclusão: adoro batalhas. Sinto prazer em lutar!
madamente um bilhão de pessoas mora em favelas - n ú m e r o que equivale hoje a um o se eu tivesse uma missão a cumprir. A emergência me fascina! As situações
sexto da população mundial -, e a projeção para 2030 é de que, sem mudança', ninpliçadas a s e resolver no exato m o m e n t o em que ocorrem... Isso contribuiu para
radicais na atual taxa de crescimento de favelados, 2 bilhões da população mundial 1 II l u l u em muito minha permanência na comunidade. Diferente d o mais comum:
estejam nessas mesmas condições. Estimando que o n ú m e r o total de habitantes do 1 ' ms que se dispõem a trabalhar oferecem seu serviço e ganham a confiança local,
planeta Terra seja de 8 bilhões em 2030, o número de favelados será equivalente a ao conseguem lidar com as dificuldades encontradas em um lugar onde a
um quarto da população mundial. O Brasil é o país líder em favelas na América
i' iliilade e a miséria são tão presentes e impossíveis de dissimular.
Latina, que conta com 14% da população mundial de favelados contra 60% na Ásia
Ressalto a dificuldade não só do trabalho em si. O simples contato com coisas
e 24% na África. A importância do estudo, portanto, mostra-se no âmbito de um
1' lai 11 madas ao tema já é motivo para u m a certa tensão. Escrever este texto e reviver
fenômeno mundial e não apenas local como erroneamente pode pensar o senso
111 lembrança situações e sentimentos sem solução é uma carga deveras pesada. É
c o m u m (sífe BBC Brasil).
• • M i n i s e isso me obrigasse a ver algumas belezas irrepetíveis fora do contexto da

Iniciei a prática "em c a m p o " sob a forma de plantão psicológico, conforme Lm la e sentir a mesma experiência de maneira mais suportável.
conceituação de Miguel Mahfoud (1999), que consiste em atendimentos psicoló
gicos mais voltados a situações emergenciais, lidando com situações diferentes da
psicoterapia tradicional e adaptando-se ao contexto no qual são inseridas. Assim,
após um ano de atividade, passei por situações diversas e inusitadas que me fizeram
pensar e repensar a prática clínica de maneira contundente. Desse modo, cheguei a
Breve histórico da comunidade e do núcleo
questionar sua eficácia, na tentativa de resgatar o seu sentido originário. Isso tudo 1 < imunitário
sob a influência constante do caos e da instabilidade. Apesar das críticas que tem
sofrido o conceito de pós-modernidade, poderíamos chamar tal condição de Pós- I ih In começou com a Rosângela. Católica, ela começou a participar da comunidade
Moderna, já que ela ultrapassa em muito qualquer tentativa de sistematização, ou, du bairro para o qual se tinha mudado. Todos sabiam da existência da favela na
melhor dizendo, ordenação "Moderna" (Oliveira, 1995). trgiào, mas ninguém tinha contato com os moradores, até que foi lançada a
1

Tais experiências m o s t r a r a m - m e o quanto t u d o que tentam nos ensinar tão- iimpanha da Fraternidade de 1995' sobre os "excluídos". Seu pensamento foi
somente a partir dos livros exclusivamente teóricos e distantes de um substrato real rápido: "Não há excluído maior que o favelado!". Ao constatar que até então não
fecha-se cada vez mais em mero papel e tem pouco valor na experiência ou, ao con- havia atividade alguma da igreja na favela, Rosângela nem procurou apoio para sua
trário, cairíamos na equação de que o H o m e m surgiu antes do livro. Então, teríamos ' 'iii.ide de realizar a novena naquele local. Foi até lá e começou a bater às portas das

a condenação dos livros descrita por Machado de Assis em Dom Casmurro (Assis, - i a s , bater palmas em frente aos barracos, propondo aos moradores que iniciassem
1968, p. 34): I novena da Campanha da Fraternidade. Aí sim foi que recebeu todo apoio de uma
II iibora de uns 80 anos, que começou a incentivar os outros moradores a
Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos pai liciparem da atividade, oferecendo seu barraquinho para os encontros.
roídos por eles.
Iniciaram a novena que, no t e m p o previsto, seria encerrada. No m o m e n t o em
- Meu senhor - respondeu-me um longo verme gordo - nós não sabemos
que iam terminar, os moradores pediram à Rosângela que continuasse. Atendidos os
absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem
pedidos, formou-se um grupo para rezar o terço, que até hoje se reúne todas as
amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada.

1 Atividade proposta pela Igreja Católica através da C N B B (Conferência Nacional d o s Bispos do Brasil), m a i s
A vida não se resume ao papel e, estando restrita a este, é simplesmente burra.
intensa n o p e r í o d o d a Q u a r e s m a , e m q u e s e desenvolve u m l e m a diferente a c a d a a n o .

-50- - 57 -
'Vi vi mi is ii ii os (l( i i isli i ili«||i i I. •! i. .i i n .| i, ,|, „ |i, ,, , ixlsli >i ii i, ||
Milorn Ihorri A I ii IIS| li 'i llvi I i IXlsIl 'I II l< ll l III II lli ' i |l 1 i i II I II II III ll li ll ' i l IH II li' I,

sextas feiras a noite com o nome que eles propuseram: "Sexta l e n a ila Ta/". Nin> Inação para ninguém em especial e construiria algo que pudesse beneficiar
guém briga ou discute às sextas-feiras! idadi Resolveu criar um núcleo assistencial.
Sentindo as necessidades que o ambiente "pedia", porem, os terços forilrl • Ina da dec isao, o médico doou sua metade do terreno para a construção
tomando urna forma muito "própria". Depois de alguns pai-nossos e algumas aw • In \ n . dois cômodos que haviam sido construídos para a família, foi
1
marias, começaram a discutir as situações específicas do ambiente. É nesse p u n i u I 'i ido um salão.
que a historia começa a ficar mais interessante. As discussões se davam sobre a vida \ siiui.io foi uma lição de cidadania, contando com doações de diversas
deles, a realidade, as dificuldades, as coisas que viviam... A cada semana se levantan I
M . pnlílii os que, mesmo opostos entre si, se fundiram nesse ideal. É claro que,
um tema: sexo, adolescentes, drogas etc. Evidentemente, sem n e n h u m profissiori a
. asos, havia interesses escusos, mas conseguiu-se manter apenas o que
responsável e n e n h u m compromisso técnico-científico. Apenas com o que ele»
i a, impedindo que fizessem (e até hoje nos preocupamos com isso)
viviam em relação a esses temas.
ii . mi panfletagens dentro do núcleo.
Rosângela foi diagnosticada em todas as nosologías psiquiátricas possíveis por 1
' . problemas, no entanto, não pararam por aí; e o núcleo, antes de se firmar
discutir sobre esses temas pertinentes e perigosos no seio da favela. E com a iil teve diversos desafios. Em u m a ocasião, um rapaz contratado para tomar
participação dos próprios coadjuvantes daquela história de realidade. Foi advertida li núcleo vendeu o terreno por conta própria! Endividado por causa de
diversas vezes por colegas, parentes, representantes de instituições e várias ou 11 .r.
i i iilregou a casa para u m a traficante como pagamento das suas dívidas. Às
pessoas que recomendavam que parasse com aquilo, pois era loucura.
i limas da manhã, tocou o telefone da Rosângela: era u m a pessoa avisando d o
Q u a n d o o g r u p o contava aproximadamente quatro anos de existência, Cd In Ao chegar ao núcleo, encontrou u m a família inteira m o r a n d o lá e
meçaram a aparecer com mais clareza necessidades básicas de algumas pessoas llllmando que comprara a casa.
próximas: gente precisando de comida, remédio... Elas iam se ajudando da forma
\ I i.iialha começou na regional da prefeitura responsável pela região. Por meio
que podiam.
liab , conseguiram u m a casa em o u t r o bairro para abrigar essa família,
Situações inusitadas surgiam e exigiam pronta intervenção. Um dia, surgiu do a do núcleo. Até a mudança e os papéis precisaram ser pagos pela
u m a barraca de camping no meio da favela. Foram se informar e souberam que a ingela. Segundo suas próprias palavras, "foi só sujeira em cima de sujeira",
mulher que estava nessa barraca com cinco filhos encontrava-se desabrigada porque lei minado o problema da invasão, começou o desrespeito por parte de alguns
o marido havia colocado fogo no barraco deles. Alguém lhe doou uma barraca cie nlores, principalmente os envolvidos com o tráfico. Eles arrebentavam os
camping e ali ela ficou "amontoada" com os cinco filhos. Sensibilizada pelo falo, dos que eram colocados e saqueavam o núcleo, levando material elétrico,
Rosângela, junto com alguns moradores, invadiu um terreno pertencente à empresa
l.idi min o etc. Eram os parentes do rapaz que havia vendido o núcleo.
de saneamento de água em Campinas' para construírem, em mutirão, u m a casa para
I'i lo bom ou pelo mal - ou, como diria Nietzsche, "para além de b e m e m a l " - ,
essa mulher. Ela já estava para ser processada q u a n d o um médico, sabendo do
s marginais da região, sabendo de toda essa história e de como Rosângela
ocorrido, propôs comprarem um terreno. Ele compraria o terreno e Rosângela
lava sendo prejudicada ao tentar ajudar os moradores d o bairro, resolveram tomar
construiria. Cada um ficaria com metade do terreno: o médico construiria um
atitude: deram u m a surra nas irmãs desse rapaz e o juraram de morte. Fora-
centro espírita e Rosângela se encarregaria da casa para a mulher. Entretanto, quan
i id. I. ale hoje ele não p o d e pôr o pé no bairro. Isso tudo ocorreu sem que Rosângela
do terminaram a construção, a mulher voltou com o marido e foram morar juntos
.d ii sse, mas a verdade é que, desde então, não houve mais problemas. Criaram um
em outro lugar, pois uma das exigências da moradia era que o marido não poderia
• |iu in.i de segurança extremamente eficiente para que as atividades pudessem ser
estar junto.
. ili/adas. Sabemos que não é o ideal, mas, longe de querermos virar mártires,
Surgiram novos problemas: mais de 80 pessoas de diversos pontos da cidade i unos interessados em ajudar os moradores a diminuírem seus problemas. Temos
batiam à casa da Rosângela pleiteando a casa! Ao ver tanta necessidade e a pos- |lli conviver com a realidade social da favela. Não há como ignorá-la. E o nar-
sibilidade de, ao contentar uma família, descontentar tantas outras, ela decidiu que itlialico é u m a realidade. Estamos sujeitos à violência ali, entretanto, talvez,

.'. S.in.is.i (Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A.). I i ..ni|>.inhia de Habitação.


- 58 - - 59 -
A ,„,.,,„, iivuoxIsliHK I n W l l u n l . M m u n i , l.i,l mnlo

o |.i disse antes, essa e uma situação que criei para maior compreensão do
estejamos mais seguros ali que em outras regiões da cidade, pois estamos envolta
'speiloda imprevisibilidade das situações com as quais é preciso lidar muna
em uma aura de proteção inexistente em outras regiões.
i ...' , na lavela. Apesar de hipotética, é u m a situação que não seria tão difícil de ser
As situações que presenciamos fogem completamente ao nosso controle, f*
li i ilada no ambiente. Além da confusão do próprio caso de Pedrinho, não seria
lidar com o imprevisto o tempo todo. Os exemplos são dos mais variados e vM
lipi. a se na semana seguinte Antônio, ex-marido de Luciana e a quem Pedrinho
desde a possibilidade de um tiroteio em frente ao núcleo até a constatação de moi Ci
i av.i de pai, procurasse por atendimento com a queixa de disfunção erétil com
de parentes dos clientes que atendo. Por muito tempo, o local preferido paru a
va esposa, a ex-mulher de Wagner, ou a vizinha de Daniela, ou até a própria
comercialização de drogas foi justamente a calçada do núcleo, devido ao lalo de n.\U
l la (!!!). Iniciei a confusão da história com a ação do narcotráfico, mas isso não
ser u m a casa e, por isso, não ter um fluxo diário. Esses imprevistos seriam apenas i •
i regra. Essas mudanças acontecem independentemente do tráfico de drogas.
ligados ao narcotráfico, não excluindo outros, como mudança súbita tanto di
endereço quanto dos parceiros com quem se relacionam. \ ai ias atividades foram realizadas, mas terminaram por falta de voluntários:
inalo, teatro e dança, por exemplo; alguns universitários beneficiaram muita
Vou ilustrar uma situação hipotética para facilitar a compreensão. A mãe de
, hl. regularizando a sua documentação. Hoje temos o atendimento em Plantão
Pedrinho, Luciana, me procura por indicação da escola, pois seu filho apresenta
problemas de c o m p o r t a m e n t o na classe, atrapalhando os outros colegas. Pan lógico, por m i m coordenado, consultoria jurídica e também assistência às
desenvolver um trabalho com Pedrinho, tento levantar os dados mais básicos de s u a fianças e orientação de mães pela Pastoral da Criança. U m a ordem religiosa
vida, como, por exemplo, a filiação. Sei que Luciana é sua mãe e pergunto a ela sobi 1 I, 11 iliui cestas básicas para algumas famílias. E, finalmente, o núcleo tornou-se uma
o pai. Luciana me diz que o pai é João, mas que hoje está m o r a n d o com Antônio, a ação cujo início se deu recentemente e já possibilitou parceria com o poder
quem Pedrinho chama de pai mesmo sabendo que seu pai biológico não é ele. i ..ih, o, viabilizando aulas de alfabetização para adultos. Dessas aulas, também já
Até aqui t u d o se dá de maneira perfeitamente compreensível, pois não é uma .1 inçamos um resultado no m í n i m o gratificante: u m a das alunas conseguiu um
situação específica da favela e se faz presente em várias camadas sociais. Conti hipiego porque pôde ler e preencher corretamente a ficha fornecida pela empresa
nuemos com nossa situação hipotética. Duas ou três sessões depois, podendo ter .... interessados no cargo.
cumprido algumas atividades, como u m a visita escolar ou uma conversa telefônica
com a professora de Pedrinho, noto que não é mais Luciana que está levando o
menino para o atendimento. Justamente neste dia em que estava pensando em
conversar com ela para conseguir mais informações sobre a vida familiar, encontro () c a m i n h o das questões: choques
u m a pessoa que não conhecia. Mesmo assim, convido-a para conversar e descubro Tadinho do meu mão...
que é uma prima de Pedrinho.
Não xei quem mato ele.
Pergunto a Daniela (esse seria o nome da prima) algumas coisas sobre Pedrinho, Mãe falo: 'Não xai, Duaido ! 4

e ela demonstra saber muito pouco, pois está começando a conhecê-lo melhor agora Não xai senão vão mata oxê!'
que ele está morando em sua casa. Nesse momento me surpreendo e pergunto o
Num icutô...
motivo de Pedrinho ter-se m u d a d o e começa-se a pintar um q u a d r o com
Ele num icutô...
características de favela: Adílson, o irmão de Pedrinho, que estava envolvido no tráfico
de drogas, foi jurado de morte por um traficante de outro bairro. Para evitar a M., 6 anos.
situação, ele fugiu para outro estado. Antônio, que costumava tomar meia garrafa de
pinga no fim do dia, passou a beber uma garrafa inteira por dia e culpar Luciana pela
maneira como criou Adílson. Luciana, descontente com a situação geral, envolveu-se O senhor já sabe: viver é etcétera..." já dizia Riobaldo, personagem de João
com Wagner, seu vizinho, e decidiu ir morar com ele. Porém, Wagner estava de iuimarães Rosa (1968, p. 74). Porém, só pude compreender com autoridade essa
mudança para um outro bairro periférico que se localiza do outro lado da cidade. Para limples afirmação ao entrar em contato com esse "etcétera" tão presente do viver.
que Pedrinho não perdesse a matrícula na escola nem os atendimentos médico e
psicológico, Luciana deixou-o com sua ex-cunhada, irmã de João. Para quem já não se
lembra do começo da história, João é o pai biológico de Pedrinho, mas que não verá I N u m e fictício a d o t a d o para proteção d a privacidade.
o filho, pois já voltou para sua cidade natal no Paraná há mais de um ano.
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As vi mi is faces da | isli i ><
l ii |li i fi h u n i i< >i k >Ii i< |Ico-i ixlsti n i< li ii 1
A i«irsi ii ii üvi 11 ixlsti 'i ii n il In inte da i on ii n il< lade i i in n ili

Toda a expectativa que contornamos no imaginário, pensando ser profis- Alem do que já foi narrado no histórico do núcleo, lenho a acrescentai que
sionais tão importantes e indispensáveis se mostra falsa ao depararmos com a crueza Sônia tem 34 anos e já é avó, fato que, apesar de cada vez mais c o m u m na classe
de situações tão complexas e miseráveis. Há problemas emergenciais muito media hoje em dia, ainda causa perplexidade. A principal queixa que a motivou a
anteriores à questão psicológica. Obviamente os problemas psicológicos não são procurar atendimento foi o estupro de seu filho de oito anos de idade por um
excluídos como se costuma dizer no senso c o m u m , mas, diante da escassez de morador da vizinhança (mesmo sendo algo terrível, o m e n i n o não parecia tão mal
recursos tão básicos, a saúde psíquica deixa de ocupar lugar de destaque. Des- como a mãe). Os fatores não destacados mas não menos importantes são sua
cobrimos, então, que, na prática, o psicólogo é o último profissional a ser procurado. tentativa de suicídio e o seu alcoolismo e o do marido. Apesar de tudo, Sônia ainda
Não só percebemos a nossa pequenez mas também a das teorias nas quais nos exibia um sorriso como o último escudo em sua batalha. Entramos em sessão. Ela
baseamos. No final da minha graduação, baseava-me em Rogers e sua Abordagem lalou bastante e, ao se sentir satisfeita pelo "desabafo" (sic), foi embora. Porém,
Centrada na Pessoa (ACP). Não posso negar que me foi u m a ferramenta muito útil, preocupado com a possibilidade de um suicídio iminente, deixei meus números de
mais pela minha insegurança que pela sua eficácia. Percebi, no entanto, as limitações telefone à sua disposição para que ela pudesse ficar mais segura e soubesse que
das teorias distantes do fenômeno ao deparar com situações em que me sentia mal poderia contar comigo n u m a situação de desespero. A m a n h ã seguiu tranqüila com
por recorrer a u m a técnica. Sentia u m a mudança sempre que recorria a alguma outros atendimentos. Ao término do meu horário, fechei as dependências do núcleo
técnica de atendimento, como se a relação tão rica que estava estabelecida desa- e fui para minha casa. Qual não foi minha surpresa quando, após o almoço, o
parecesse nesse m o m e n t o . Pelo simples fato de recorrer a u m a técnica. Ao pensar telefone tocou! Sônia chorava e dizia que já tinha bebido o suficiente e que, ao
qual seria a resposta mais adequada, dividindo o espaço clínico com a teoria, sentia desligar o telefone, iria até a linha do trem terminar com tudo. Cautelosamente,
que, naqueles segundos, não estava mergulhado na relação com o cliente; tinha de convenci Sônia a voltar até o núcleo para conversarmos.
ausentar-me da situação e reduzir a um mero procedimento a grandeza da exis-
Nessa segunda vez, entrou na sala sem o seu sorriso-escudo: era o desespero em
tência que se desvelava bem na minha frente. As situações começaram a deixar
pessoa. Sentada em u m a cadeira, dobrava seu corpo para a frente, misto de posição
minha técnica cada vez mais limitada. Conseqüentemente, eu me achava cada vez
letal e reação de um soco no estômago. Tremia inteira enquanto soluçava. Assim
menos eficaz, cada vez mais mediato na relação que deveria se dar de maneira
decorreu a nossa tarde, até conseguirmos u m a ambulância para levá-la ao plantão de
imediata, isto é, sem a mediação de u m a técnica.
psiquiatria da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A intenção, no entan-
Angerami teve u m a oportunidade única em seu intenso combate às teori- to, era a de que Sônia não passasse a noite sozinha, u m a vez que n e n h u m parente se
zações distantes da realidade brasileira. Em u m a de suas publicações (Angerami, propôs a acompanhá-la. Por incrível e triste que pareça, a melhor opção, devido à falta
a
2002 , p. 10), narra um episódio ocorrido justamente com o próprio criador da ACP, de vagas nos leitos, foi que Sônia passasse a noite sentada n u m a das cadeiras do
Carl R. Rogers: este, ao deparar com as condições precárias da realidade hospitalar, pronto-socorro com acompanhamento esporádico do residente em psiquiatria que
carcerária e comunitária no Brasil, recomendou que não nos utilizássemos de sua estava de plantão. Como precisei viajar no dia seguinte, o caso decorreu com minha
teoria, pois ela fora criada a partir de u m a realidade dos EUA e que lá as pessoas, por supervisão a distância, por telefone. O que sei é que ninguém da família queria se
piores que estivessem em termos emocionais, tinham suas necessidades básicas responsabilizar e retirá-la do hospital após a alta. A única que se prontificou foi sua
preenchidas; de acordo com Rogers, portanto, era necessário que criássemos u m a filha; entretanto, por ser menor de idade, não poderia assinar como responsável. No
teoria inerente à nossa própria realidade. encontro que tivemos posteriormente, perguntei-lhe sobre sua experiência no
Todo profissional tem u m a história que marca sua carreira ao pôr seu con- hospital, queria saber como estava tudo agora. Sônia nada respondia. Desisti. O tempo
teúdo em xeque e m u d a r sua prática e sua vida para sempre. Eis o meu: corria sem palavras. Apenas olhos fixos nos olhos por 10 ou 15 minutos com total
5
Sônia compareceu ao núcleo comunitário para ser atendida. Eu já esperava intensidade e vivacidade. Depois disso, Sônia fez um comentário banal do tipo
por ela; afinal, os rumores de sua história já haviam chegado até mim. "preciso ir para fazer almoço", abraçou-me e retirou-se da sala. Assim decorreu
durante aproximadamente um mês, até ela ser internada para tratamento do
alcoolismo. Depois disso, por um bom tempo, o simples fato de alguém entrar pela
5. N o m e fictício a d o t a d o para proteção d a privacidade. U m a o b s e r v a ç ã o i m p o r t a n t e : S ô n i a é a m u l h e r q u e porta me provocava frio na barriga e uma sensação de peso nos ombros.
foi e n c o n t r a d a c o m os cinco filhos n a barraca de camping e m plena favela a p ó s o incêndio d o barraco
C o m o afirmei anteriormente, essa experiência me tirou todo o chão teórico
p r o v o c a d o pelo m a r i d o e para q u e m foi construída a casa q u e hoje é o próprio núcleo, c o n f o r m e já narra-

d o n o histórico. que havia sido construído e sobre o qual me sentia seguro e satisfeito. Passei a ver as

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A P E R S P E I T L V A E X I S T E M LALDLI 1 LAI O M U N L D A D E I NTE,
/v, vi IIIIII. IIIIIIS l ll I I ISll l lll ll |ll I li 'I li II III 'I li lli ll ||l i i i IXlSll 'I li li ll

I 1 1 h 111 g i i . i d o geralmente em torno de um psicologismo e determinismo


Iimitações (U' maneira evidente e .1 incompatibilidade de U N I A teoria "impoi 1.1.1.
1 iiiqui 1, seja p o r considerar o H o m e m fechado em sua psique ou seja t o m a n d o o
(.0111 a nossa realidade. O que antes me ajudava agora me prendia.
11I1 .1 1 determinante. C) mesmo autor denuncia em outra publicação essa
I )o que pude aproveitar sobre tal episódio, está principalmente o puro i onlatl
II idíi ninai como alienante (Angerami, 2003).
entre duas pessoas com u m a intensidade tão presente que dispensa o uso tia pala\ 1 1
alcançando talvez u m a proximidade ao que Merleau-Ponty chama de "anlepit
dicativo" e "pré-reflexivo" (Merleau-Ponty, 1999), isto é, uma relação que acoutei 1
anteriormente à atribuição de qualidades à pessoa (antepredicativo) e ao uso da
on vi v e n d o c o m o tráfico: p a r a d o x o s
intelectualidade (pré-reflexivo). Movimento parecido com esse notei acontece
c o m as crianças. Aprendi a ter um contato mais próximo com as crianças por ca 11 1
ibsurdos
da falta de recursos para atendimento infantil. Não quero, de maneira alguma, la/ei
um elogio à pobreza, mas observo que, excluídas todas as ferramentas e temo O tiziu saltita e canta solitário num dos galhos do terreno.
Iogias, podemos compreender realmente o que é um contato h u m a n o e, no caso «In É o terreno onde escondem as químicas.
profissional em psicologia, o que é um contato terapêutico verdadeiro e não pu Os vizinhos varrem suas calçadas de terra.
r a m e n t e técnico. Sons vêm distantes eparecem não chegar.
Sônia não foi o único choque na minha mudança de percepção dessa realidade Vendedores se aproximam, trazendo ofertas a quem não pode comprar.
Talvez o mais marcante, mas várias situações p o d e m ser citadas. Vejo uma mae
Céu sem sol.
catando do chão u m a chupeta e colocando de volta na boca da filha sem ao menos
Clima de chuva sem chover.
tirar a terra. Presenciei, algumas vezes, mães que ofendem seus filhos de nove ou de/
a n o s de idade, chegando a culpá-los com clareza pelas dificuldades pelas quais estSG Que atmosfera mais interessante...
A N D R É TORRES
passando. Uma dessas mães ofereceu-me a adoção d a f i l h a , pois não agüentava m a u
a menina. Na presença da menina, ela claramente me perguntou: "Quer ela pia
você?" Essa mulher, porém, encontrava-se n u m a situação pessoal bastante com • 1
ih . n u l o paradoxal dessa minha experiência fica mais nítido com a descrição de
prometida; não sabia qual era seu próprio nome completo e não se lembrava nem ih m i , eventos ocorridos nos quatro lados do nosso núcleo.
m e s m o o primeiro nome do companheiro. Referia-se a ele como "o h o m e m que eu 1 nquanto na frente pode-se, muitas vezes, sentir o cheiro de maconha acom-
tô agora" (sic). Também não sabia o nome de seus filhos. Dizia "aquele mais velho", 1 de latas e garrafas de cerveja e ver o tráfico funcionando em voz e com a
mb.ida
"aquele que passou aqui agora há pouco", "a menina do meio" etc. Todos esses I pação de garotos de 10 ou 12 anos em plena manhã de sexta-feira, nota-se, ao
acontecimentos me influenciaram. Eu pensava em como promover um setting Mi 1 11 no salão do núcleo, um lugar fresco (não tem forração, piso ou qualquer coisa
terapêutico onde se pode ouvir tiros no m o m e n t o do atendimento. |li tipo e puro cimento no chão) e muito bem arejado (não há vidros nas janelas).
O grande choque com a psicologia tradicional é o fato de ela não considerar o \ l.ilia de reboco possibilitou a formação de um ninho de corruíras no interior de
social na medida em que tende a enxergar o H o m e m como escravo de um suposto ih 1 d a s paredes do salão, que proporciona um belo eleito de eco para o seu tão
"aparelho psíquico" que independe de sua história. Na atualidade, contudo, esse llii loilioso canto misturado ao sol amarelo-alaranjado das manhãs. Desde então,
p a n o r a m a está se modificando. Temos respaldo filosófico e bibliográfico para II ida m e acalma mais que o canto d a corruíra.
combater essas idéias, como os escritos de Angerami, por exemplo, que, produzidos I levido à precariedade de recursos e espaço adequado para a prestação dos
principalmente pelo viés de Merleau-Ponty, propõem o fim dessa separação em
• 1 vii,os, enquanto guardamos material coletado para uma futura reforma para a
diferentes instâncias. Apesar de o pensamento tradicional propor u m a visão de
ijiiiil ainda não temos fundos, divido o setting terapêutico com metros de areia e
H o m e m "biopsicossocial", ainda assim divide o ser h u m a n o nessas instâncias para,
li 1 is de cimento e cal.
depois, escrever teses e teses para tentar reintegrá-lo. Uma obra exemplar da
I )o vizinho da direita, ouço as discussões íntimas e pessoais de um casal, o que
abrangência dada por Angerami à historicidade e à realidade na qual a pessoa se
lenuncia a falta de privacidade no bairro e, para mim, portanto, a falta de
constitui tem como tema a drogadicção (Angerami, 2002b), dando um aspecto
político e social nunca visto em uma obra sobre adicção de drogas, pois, até então, ijii ilquer indício da mítica "neutralidade científica".

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1
A , vi nu is li li i ><;, (lc i i isii i ili ii |li i li 'i li li i ii 'i ii ikii |k 11 i ixlsli •! n k il A i ii iis| ii 'i llvi 11 'xisli 'iii li il (lli inli; (lo i lomiinli li K li • i i ih 'iili v

A vizinhança da esquerda, por sua vez, apresenta-me uni canto bonito e No mesmo domingo de pesagem, depois de ajudar a cuidar das crianças que
sofrido, cantado com u m a leveza ímpar e acompanhado de uni instrumento de In nu .nu e brigam com a mesma intensidade e inconstância do bairro, fui ao apar-
cordas, possivelmente um violino ou u m a viola de gamba. iiio de um amigo em busca de entretenimento. Da sacada desse apartamento,

Da janela dos fundos vem até mim um verdadeiro espetáculo proporcionado li iii se visão de grande parte da cidade. Meus olhos passaram por cada esquina,
pela luz do sol. Apesar dessa beleza natural, agradeço pelo fato de as janelas do Imaginando tudo o que poderia estar acontecendo naquele momento. Quantas
núcleo serem altas demais para se ver diretamente o que se passa lá fora. A luz invadi illnações parecidas com a que vivi! Quantas misérias e tragédias desconhecidas de
o salão com u m a claridade tão indescritível quanto especial. Essa luz, porém, Ira/ niiiii deviam habitar aquelas esquinas, aqueles bairros, aquelas construções inaca-

como acompanhamento tiros próximos ressoando únicos no silêncio do bairro, os I i.i, las... Uma imensa angústia tomou conta de mim. Passei a me sentir completamente
quais minha cliente deduz serem fogos de São João. ii i ipi dente, frágil, pequeno. Todo o meu trabalho, toda a minha suposta coragem fora
ipen.is um ínfimo momento de u m a única situação tão isolada quanto os bairros da
Houve um domingo de pesagem em que nos vimos em uma situação com
l" 111i-i ia. Ao mesmo tempo, era uma situação geral, potencialmente presente em todas
plicada: os colaboradores do tráfico da região estavam em frente ao núcleo (local
onde geralmente realizam suas vendas de m o d o mais ou menos discreto), fumando i. esquinas e em todos os terrenos que podia avistar daquela sacada.
cigarros de maconha e t o m a n d o cerveja. Dois dias antes, eu havia encontrado no Essa sensação me fez chegar à conclusão de que eu (embora seja essa a primeira
parapeito de u m a das janelas do núcleo um punhado de maconha e um celular. li leia que nossa reação tão h u m a n a esboça à violência) jamais poderia ser u m super-
Através de parte das janelas do núcleo é possível um contato direto com a viela onde lii 11 ii, um justiceiro, um "Barman" que faria justiça com minhas próprias mãos... Eu
era feita a maior parte do tráfico. Joguei, então, pela janela, os dois artefatos linha, a partir de então, muito trabalho pequeno para fizer e muita vontade de
diretamente no chão da viela que passa ao lado do núcleo. Naquela época a presença mostrar isso a outros profissionais, tentando compromissados com essa situação
do narcotráfico na região estava muito forte. Voltando ao dia da pesagem, uma pessoa . .ii.istrófica que vivemos nos dias de hoje. Eu já sabia que, sozinho, não chegaria a
ligada ao núcleo encontrou um pacote de munição que havia sido colocado dentro lugar nenhum!
do núcleo pela janela do banheiro. Um dos pré-adolescentes ligado aos traficantes
Faria, portanto, minha pequena parte da melhor maneira possível!
requisitou a devolução do pacote encontrado, que foi devolvido com presteza.
Para isso, algo devia mudar...
A moradora responsável pela pesagem c h a m o u - m e a um canto e expôs o seu
receio sobre a realização da atividade naquele dia. Perguntou-me: "O que você
acha?". Não posso negar que me vi aflito, em uma verdadeira situação de escolha
sartreana: deixar nosso espaço para o narcotráfico ou enfrentar os traficantes, Kceducando-me c o m o peculiar:
deixando claro o nosso papel?
Rapidamente cheguei à conclusão de que, algumas vezes, a ignorância é sábia e,
a minha inserção como um membro
arriscadamente, optei pela segunda alternativa, contando que já havia demonstrado tlesta comunidade
certa demarcação do nosso território. Peguei a chave e exclamei um decidido "Vamos
fazer, sim!" Passando pelo meio da roda formada, escancarei a porta. A partir de então, l.ndo iniciado o capítulo anterior com Guimarães Rosa para ilustrar a vastidão da
descobri o quanto nos respeitavam. Comecei a prestar atenção e notei que mesmo os . ri.se teórica e prática que me surgiu, valho-me do mesmo livro do mesmo autor
agentes do tráfico admiram os benefícios que levamos ao bairro com nossos serviços, (Rosa, 1968) para expor o resgate do sentido originário da psicoterapia, que me
pois nos cumprimentaram com o maior respeito e abriram espaço na roda (o mínimo ocorreu após o choque:
necessário) para que todos pudessem passar. Dias depois, colocamos um ridículo
cadeadinho no portão do núcleo para impedir que continuassem a usar nossa caixa de Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas. Lenga-
força como estoque de drogas para venda. Embora pudesse ser facilmente arrombado, lenga! Não devia de. O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez
o cadeado foi um grande símbolo de vitória. por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai
embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo.
Essa situação, somada ao presenciamento de outras misérias e tragédias hu- Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais
manas que me procuravam em busca de ajuda em situações que eu mal conseguia de si. Para isso é que o muito se fala?
supor tão próximas, levou-me a um estado muito reflexivo. E as idéias instruídas do senhor me fornecem paz.

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As vi mi is i, i, ' is i ii 11 isli i 'i' n |li i ii 'i ii ii i ii 'i ii ili i, i -1,1. i ii ii ii A i ii irei»'i iivi i' ixlsti 'i ii i« ii < lli ii ii' •' i o ii ii ili l a d e i i iri it iti i

Essa é .1 melhor definição ele contato terapêutico que já vi! B disso me dei conta Esses dois campos sao exatamente os mais misteriosos, nos quais o sei humano
depois de tanta turbulência: a fala de um matuto fictício - o Riobaldo, jagunço tios busca infinitamente por explicações que melhor suavizem sua convivência com os
sertões de Minas Gerais. Sertões violentos e belos, não muito diferentes das fenômenos incompreensíveis da realidade. Minha satisfação foi exatamente esta:
condições que eu vivenciava naquela comunidade. quanto menos se sabe, mais conhecimento se produz! Eu não era, portanto, o ume o
Enquanto o "psicoterapeuta" de Riobaldo parte de vez, eu chego ao bairro e ,i não saber...
dele parto uma vez por semana, m a n t e n d o - m e alguém "de fora", mas, ao mesmo Na maior parte do tempo, o ambiente é muito pacato e eu trabalho e estudo
tempo, completamente inserido na comunidade. Creio ter compreendido total- iranqüilamente. Há momentos de longo silêncio interrompido por algum som
mente o "mergulho no sensível", expressão cunhada por Merleau-Ponty {apua muito distante que quase chega a ser parte desse silêncio, ambiente impossível na
Carmo, 2002, pp. 35-52) na expansão de suas idéias sobre a historicidade como parte legião central das grandes cidades, nas quais simplesmente não há momentos de
integrante do ser h u m a n o . C o m essa idéia, o autor tenta se opor à expressão quietude.
"sobrevôo do real" utilizada por Heidegger. Merleau-Ponty expressa a importância Vou sentindo a mudança do centro ao bairro à medida que me aproximo.
de se misturar ao m u n d o e viver a realidade em vez de manter-se um observador Nesse trajeto, há um resgate progressivo e evidente do cotidiano, das coisas simples
distante. A idéia é de que os que se mantêm distantes não atingem um conheci- e próximas: vejo as ruas mais simples, as pessoas nas calçadas, crianças andando
mento verdadeiro sobre o real. O "mergulho no sensível" é polêmico porque a sozinhas, moleques chutando latas e jogando pedras, pipas sendo empinadas, jogo
tradição filosófica coloca o âmbito sensível, ou seja, a realidade como a conhecemos de bola, de taco, casas simples etc. O cenário que cada vez mais se evidencia parece
como inferior ao supra-sensível, isto é, aquilo que está além da realidade, aquilo que
ser a própria letra de Chico Buarque e Vinícius de Moraes escrita para a música de
é eterno e superior. Essa sim, segundo a tradição, seria a única coisa que merece
(iaroto, "Gente Humilde", que tão bem retrata essa realidade.
atenção da filosofia. Obviamente, estamos de acordo como Merleau-Ponty em
Uma cena marcante eu vislumbrei em um m o m e n t o de "intervalo" do aten-
oposição à tradição filosófica, pois, até agora, o que narramos foi um questio-
namento das teorias a partir da experiência vivida. dimento, quando, da calçada do núcleo, vi duas meninas batendo corda para que
uma terceira pulasse, enquanto um senhor já idoso, vizinho do núcleo, contava em
O que me fez chegar a tão óbvia conclusão foi a observação das coisas pecu- voz alta quantas vezes a garotinha pulava: "Um... dois... três..."
liares àquela comunidade, elementos de construção da minha nova visão do mesmo
Em outra oportunidade, após ler conversado com esse senhor na mesma
contexto.
calçada sobre suas "encabulações" (assim se referiu aos seus problemas), ele me
Um dos mais convincentes episódios foi quando um dos principais traficantes levou u m a garrafa de café e alguns pedaços de bolo. Foi o pagamento de sessão mais
da região, o "gerente da boca", conversando comigo na calçada em frente ao núcleo, sincero que já recebi! A partir daí, ele passou a me levar café e lanche toda semana.
falou de suas mágoas e sentimentos, do sofrimento com o abandono da mulher. Nem sempre tem condições de me levar o lanche, mas o café é garantido.
Sentimentos tão humanos quanto os dos clientes que atendo na clínica particular.
Um hábito peculiar deste homem simboliza a esperança presente n u m a
Embora essa colocação seja óbvia, é preciso ressaltá-la, pois existe um preconceito de
atmosfera adversa: deficiente, com acentuada dificuldade para andar, varre todos os
que os pobres, por já estarem completamente arrasados em termos socioeconómicos,
dias u m a calçada de terra!... Relembra o mito de Sísifo, condenado pelos deuses a
não possuem o direito de também apresentarem problemas emocionais.
levantar u m a pedra sobre u m a montanha. Após o trabalho completo, a pedra volta
Exponho e comento a seguir alguns m o m e n t o s ocorridos durante aten- a rolar m o n t a n h a abaixo e Sísifo precisa descer a montanha para reerguê-la até o
dimento ou fora dele (na maioria das vezes) que mais me tocaram na minha rica topo novamente. Isso acontece todos os dias. Longe de julgar esse trabalho inútil,
experiência naquele bairro, a começar pela constatação de que eu não estava só Maciel (2003) interpreta que Albert Carnus nos leva a pensar em um "Sísifo feliz",
nessa confusão e no presenciamento dos paradoxos e irracionalidades da vida fora que compreende seu destino, encontrando um sentido para o absurdo da vida.
dos livros.
Espanta-me presenciar tantas crianças espertíssimas no dia-a-dia mas cheias
Os próprios livros me mostraram isso. Enquanto organizava u m a pequena cie dificuldades na escola. Meu questionamento certamente recai sobre o sistema
biblioteca formada a partir de doações, notei que os livros mais grossos e numerosos vigente nas escolas públicas. Jovens "perdidos" e garotos trabalhando para o
eram exatamente os que abordavam direta ou indiretamente temas religiosos e narcotráfico certamente têm correlação com essa omissão. Reforçando, porém, o
filosóficos. caráter social, não se trata de condenarmos professores e diretores, pois conhecemos

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AS VClli is li li i is (ln i , ,|, ii ||, i I, i, i, „ 1 , , „ ,|, „
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A i li irs| «i llvi i i 'xisli 'In d il < II' inli • i li ih ml' I' i' I" ' ' ""i il"

su.i realidade precaria no brasil. A questão c politica c ja se loinoii clássica na li n eai algumas ».idearas etc. Iin um dos dias, encerrados os atendimentos, alguns
historia rio país. ll ol os i la vi/i nh.i nça lo iam alé o núcleo e começamos a lazer aviões de papel. I a i
' ii.111.is.i como fazer os aviões e, depois, íamos jogar no salão e na rua. Nessa
Em relação à educação, lembro-me de u m episódio que apresentei em unia
mesa-redonda sobre Formação no VII Congresso Brasileiro de Psicoterapia imoiUmidade, pude ver diretamente o relacionamento de Maurino com os outros
Existencial, em j u n h o de 2003. Algumas escolas da região, descobrindo meu nulos e interferir diretamente, apontando os momentos em que ele estava
• In ..nulo dos colegas e os m o m e n t o s em que os colegas estavam tentando provoi a
trabalho no núcleo, passaram a me encaminhar crianças com "problemas de
1
aprendizagem". Um dos garotos, Wagner ', de sete anos, me disse que gostava de lazer I" I oi muito produtivo estar ativo no exato m o m e n t o da passagem do consultói io
"continhas" e que era m u i t o b o m nisso. Resolvi me certificar e, após seu i o ia i na. Um primeiro passo para o início da diminuição dessa barreira.
assentimento, passei uma "continha" muito simples para que solucionasse: 1 + I. ( hilras crianças, meninos e meninas, demonstram u m a pureza tão marcante
Wagner olhou para o papel, olhou para mim, olhou para a conta, olhou para mim • Pu chega a ser comovente. Falam de suas atividades cotidianas alheias à mídia
novamente, voltou a olhar para o papel, coçou a cabeça, olhou para m i m e v i ilíada para sua idade. Ver um garoto de dez anos que ajuda o pai, caseiro de uma
exclamou: "Três!" Notando que Wagner não tinha a menor compreensão do que era lii. .na, descrevendo suas atividades com tanta clareza - e até parecendo se sentir
u m a conta, do que era u m a unidade e de como somar, comecei a refletir com ele io satisfeito -, me faz pensar que é possível viver u m a real simplicidade, uma
sobre essas questões. Peguei uma caneta hidrocor e disse: "Aqui eu tenho uma i,olidianidade, como mostra Heidegger, ou seja, não encarando o dia-a-dia com
canetinha". Peguei outra caneta: "Aqui tenho outra canetinha. Se eu juntar esta mais banalidade, mas tendo um profundo sentido naquilo que se realiza, por mais
esta, com quantas canetinhas fico?" Wagner m u d o u sua expressão para um ar de iniples que seja a atividade (Michelazzo, 1999).

compreensão e alegria, olhou para m i m e exprimiu com segurança: "Duuuuuuas..." Não só as práticas com crianças, mas igualmente outras situações me deram a
Neste trabalho, meu contato com crianças a u m e n t o u muito e minhas oportunidade de questionar o senso comum da psicologia. A idéia que se tem, por
intervenções têm sido cada vez menos tradicionais e mais diretas. Em outra sessão, • kcmpio, de que não se deve atender membros da mesma família, cai por terra em
Wagner disse estar apressado: estava escalado para a final do campeonato de futebol uma comunidade onde várias pessoas do mesmo grupo familiar procuram-me
da escola. Sinceramente, achei que seria extremamente contraditório segurar o Individualmente como única opção, deixando meu papel muito mais próximo do
garoto para o atendimento quando, no m o m e n t o , ele só pensaria no jogo. antigo "médico de família" que de um psicólogo clínico. Acredito que o psicólogo
Dispensei-o para que pudesse dar sua contribuição ao seu m u n d o , onde tal jogo era i línico que exerça sua profissão em cidades pequenas ou em zonas rurais consiga
(e é) tão importante. identificar esse fenômeno que aqui tento expor. Outra situação são os "atendimentos"
na tua ou na calçada, que, com sua autenticidade e espontaneidade, mostram o
Um outro exemplo igualmente interessante pelo seu caráter libertário ocorreu
quanto o discurso na clínica pode ter sido planejado pelo cliente, que transforma o
com um outro garoto da mesma idade de Wagner, que atendi por bastante tempo.
i spaço em um ambiente artificial, muitas vezes com o assentimento do profissional.
Aliás, eram colegas de classe. Este era, em especial, um m e n i n o muito "agressivo" e
"bagunceiro" (assim fora "diagnosticado" por familiares e professores). Por conta Surpreende-me como algumas pessoas parecem muito fortes diante das
disso, além de ter dificuldades na escola, também apresentava problemas no rela- adversidades. Não obstante a miséria e as péssimas condições em que vivem,
cionamento com os colegas, pois brigava demais. Após um longo tempo de mantêm-se inacreditavelmente em pé. Uma resistência admirável a que os teóricos
atendimento para u m a proposta de plantão psicológico, comecei um processo para i h a m a m de "resiliência"; eu, p o r é m , prefiro "força", sem o tecnicismo de
que Maurino' pudesse finalizar o acompanhamento. Não havia condições! A cada vocabulário. É um fenômeno incrível quando topamos frente a frente com ele.
semana sua mãe o trazia de volta, queixando-se de que estava "piorando", pois Outro aspecto é a ausência de privacidade. A idéia de privacidade que temos
voltara a fazer bagunça. Após realizar outras atividades com ele, como jogar n.io se aplica naquela comunidade, que já traz em seu n o m e a idéia de que tudo é
"burquinha" (bolinha de gude), por exemplo, Maurino passou a ser meu "secre- l o m u m a todos, inclusive a vida particular. Esse extremo de vida comunitária é
tário". Destinava-lhe algumas funções, como a r r u m a r livros na estante, ajudar a presente e chamo atenção para a importância de estudá-lo melhor: é um problema
da vida em comunidade ou u m a vantagem na divisão dos sofrimentos? Até os
lelacionamentos amorosos se dão de forma peculiar. Em outra realidade social,
6. Nome fictício adotado para proteção da privacidade. quando terminamos um relacionamento, geralmente não temos vontade de ver ou
7. Nome fictício adotado para proteção da privacidade. ouvir falar da pessoa em questão pelo menos por um tempo. Na comunidade.

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As vi irli is li ii es da i isli i ili m |Ii i Ii ii h h i h h h >Ii ii |Ico-i ixlsti n h |i il I i llll Hl I HlDIlll A i i. r.| « li livi i i ixlsti i h H il , In ii ili ' ' I h » H lll I' i' I

convivem lado a lado o ex-marido, a amante, o "ficante", a esposa, a ex mulhei eu i, . agradecendo o s e r v i ç o prestado, independentemente ,1, , u
m i a e sai ila s e s s ã o

Sem intervalos. Após t a n t o p e n s a r a respeito, c h e g u e i a conclusão d e que


., i, i d e . p e n s a d o o u n a o .

Sem a privacidade, dificulta-nos a utilização clara do conceito de identidade ,. ilineiilc n a o preciso obrigar as pessoas a cumprir o tempo t r . K l i u o n a l d a s e . . a o

Os moradores, de certa forma, são o próprio bairro, tendo, simultaneamente, muitM i I i. ,e satisfazem c o m 15 minutos, que seja esse o tempo dessa p e s s o a .
e poucas diferenças e semelhanças. O fato de morarem na favela atribui caractd I e m h i o m e de uma situação em que agradeci a existência dessa característii a.
rísticas muito próprias a essas pessoas, interferindo nas vivências mais básicas de I . ..Minei 1 l e g u e i ao núcleo naquele dia, vi que algumas pessoas já me esperavam n a
cada uma. Podemos citar como exemplo o projeto de vida dos moradores. Presos a • , l . . m 1 .i. Por sorte, foi um dia em que resolvi ir meia hora mais cedo a t é l.i. ( ,omo
imediaticidade das emergências socioeconómicas, calcam-se de maneira forte no . - m o s nenhum tipo de trabalhador fixo vinculado ao núcleo, cu m e s m o m e

presente, deixando a desejar as perspectivas de futuro. Em outras palavras, difícil I m urrego, no dia de atendimento, de abrir as portas, arrumar as salas, receber as
mente se encontra no bairro alguém que sonha em fazer u m a faculdade e se esforça pi s s o a s , a t e n d ê - l a s e, ao fim do expediente, fechar o recinto. Assim o fiz. No entanto,
realmente para isso enquanto está excessivamente preocupado em conseguir comida d ei a ficar preocupado com o n ú m e r o de pessoas que aumentava cada vez que
para a família. Não estou dizendo que essas pessoas não existam, apenas que sao , h o l h a v a para a sala de espera. Percebendo que aquele seria u m dia incomum em
felizes exceções. h la, ao ao número de atendimentos, comecei os atendimentos de um m o d o mais
Ali, as pessoas querem e não querem ser institucionalizadas. Querem para se dinâmico que o usual. A cada intervalo entre um atendimento e outro, notei que o
sentir importantes, saber que há alguém para ajudar, que há alguém para tomar conta. ncro de pessoas esperando não diminuía. Por isso, não tive t e m p o de descanso,
Querem ter as instituições que outros bairros têm e que eles estão tão acostumados a atendendo um cliente em seguida do outro. Entre eles havia crianças, adolescentes,
não ter ou a perder. Entretanto, não querem de jeito n e n h u m (e com toda razão) lovens, adultos e idosos, trazendo as queixas mais variadas. Encerrei os atendi-
perder a singularidade e a simplicidade da sua vida, do seu bairro, da sua gente. m e n t o s quase u m a hora depois do usual e, ao contar os nomes anotados e fichas

preenchidas, espantei-me ao totalizar onze atendimentos em pouco menos de


Percebi, inclusive, que sentem essa "proteção" com a minha simples presença.
quatro horas.
Mesmo que ninguém compareça no horário de atendimento, se eu falto um dia, vão
até a casa da coordenadora do núcleo (Rosângela) para avisá-la que não fui e lambem refleti bastante sobre essa situação. Achei que tinha cometido um
perguntam se vou voltar ou se desisti de vez. Percebo t a m b é m que a minha presença absurdo, um atentado contra a ética. Porém, ao me recordar singularmente de cada
é muito importante por si mesma, apenas para que vejam a porta aberta, o carro aiendimento para esboçar os relatórios, observei que as sessões não haviam sido de
parado na frente; mesmo que o meu trabalho mais árduo do dia seja puxar papo forma alguma superficiais. Que algumas questões profundas haviam sido atingidas,
com os vizinhos do núcleo. Esse é o ponto mais intrigante da experiência. É um mesmo com um tempo aparentemente insuficiente para tal. Lembrei-me das
poder invisível e silencioso que me foi atribuído, como nos atendimentos realizados pessoas satisfeitas com a breve atenção concedida e concluí que essa atitude é
com Sônia, em que ela apenas me olhava nos olhos e quem dizia era apenas o possível no ambiente em que eu me encontrava. É claro que não pretendo propor
silêncio. A presença é mais importante que qualquer conteúdo implantado ali. uma clínica que funcione dessa maneira. Sei que esse não é um modelo a ser
seguido. Havendo u m a alternativa para resolver a situação, certamente eu teria
Para se ter idéia de como tudo é "vivo", ou seja, encontra-se em movimento
leeorrido a ela, como um outro profissional, por exemplo. No entanto, foi uma
próprio e independente, é interessante dizer que mesmo o controle sobre o tempo
atitude de respeito que tive para com as pessoas que, naquele dia, procuraram por
das minhas sessões é muito limitado. O próprio tempo da sessão pode ser muito
variável. A sessão pode durar muito menos tempo do que o c o m u m ou, como já ajuda psicológica no núcleo. Talvez aquele fosse o único horário em que tinham
aconteceu em casos extremos, ocupar a tarde inteira de um dia, chegando a disponibilidade para comparecer ao atendimento. Felizmente, tal ocorrência nunca
completar cinco horas de dedicação a aspectos relacionados a apenas um caso mais se repetiu.
clínico. Um outro atendimento, também emergencial, levou mais de duas horas até Essa característica me fez lembrar da experiência relatada por Mauro Martins
a sua conclusão. Amatuzzi (1996, pp. 109-14) ao tentar compreender o "conselheiro popular" na feira
livre de u m a cidade praiana. Mauro passava-se por "conselheiro", cobrando u m a
As pessoas que costumam procurar por atendimento no núcleo dificilmente
pequena quantia por 15 minutos de "conselho". O mais intrigante é que, como eu
fazem uso dos tradicionais 50 minutos de atendimento. O tempo varia, em média,
de 15 a 30 minutos. Geralmente, depois desse curto período, o cliente simplesmente mesmo constatei, é possível alcançar resultados significativos em tempo aparen-
temente tão curto.

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111
'" " n e o i ixlüli 'iii I, il
A l li irS| II 'i hVl l i IXlStl 'l li li li ' Hi II ill ' I li I ' ' 'I i li II ill li li li • I I ih II ill •

Para ni un, essa experiência toda denuncia o fim de qualquer suposição Icôrli
sem raízes no nosso chao de realidade social, lí o fim de qualquer referência a ui .... n l a d a s pessoas. Como é possível notar no decorrer deste texlo, ocorrem varias
ser h u m a n o ideal em detrimento da constatação do real. Q u a n d o se estabelece um till I I, ins em setores da vida pessoal dos moradores que não são tão comuns em
.ih.is liasses sociais. Por exemplo, nos relacionamentos amorosos; mesmo que
ideal a ser alcançado promove-se, certamente, u m a frustração e um possível inli i
de decadência, pois o ideal nunca poderá ser atingido. Nesse sentido, a realidade, li) in in lenha o hábito de trocar de parceiros, isso se dá de maneira diferente da que
âmbito do sensível, passa a ser visto c o m o um empecilho para as teorizaçõl -li.lalei em minha experiência. O que vemos, geralmente, é uma troca de
quando, na verdade, elas devem ser elaboradas justamente a partir desse panorama Humorados ou de amantes, não sendo c o m u m u m a pessoa que, ao trocar de
Estou descrevendo a vivência em um bairro específico de u m a determinada cidade p a n eiro, mude de endereço de um dia para o outro. Contando, também, que isso
Dentro dessa própria cidade, é possível identificar diferenças gigantescas na simple, Iiode m o r r e r várias vezes com a mesma pessoa, ou seja, ela pode m u d a r de casa
mudança de um bairro a outro. Se essa alteração tão pequena pode causar tamanha filias vezes quantas troca de parceiro.
diferença, imaginem o resultado da simples aplicação de u m a teoria "importada", ou A partir dessa constatação, podemos partir para outros m o m e n t o s da vida dos
seja, criada e desenvolvida em outro país, com gritantes diferenças sociais, econfl adores e constatar que essa mudança é "viva" até nos menores detalhes. Uma
micas e culturais. Não excluindo todo e qualquer pensamento de países outros, pai a m i a r e m que me ocorreu para compreender melhor essa idéia é justamente o m o d o

que essa teoria possa ser utilizada, mostra-se m i n i m a m e n t e necessário um profunda . i u n o sempre estão as casas e barracos do bairro. As moradias da favela estão sempre
estudo e, talvez, u m a revisão da mesma sob o olhar do campo prático em questão. i ih i(instrução ou reforma. Seja u m a parede a ser rebocada, um m u r o cuja
Na favela, toda a m i n h a compreensão clínica e prática psicoterapêutica linha .li tição foi interrompida, u m a calçada a ser feita inteira ou pela metade, um
que partir daquela realidade específica e não originar de u m a hipótese acadêmica. portão que é trocado, um telhado ainda sem telhas sobre a laje ou a simples presença
Meu papel é o de engrandecer a sabedoria sobre o m u n d o e não o de reduzir as de material de construção (pedra, areia, tijolos, cimento etc.) sobre u m a das calçadas
vivências ao academicismo. da rua. Sempre há material de construção por perto - inclusive no nosso próprio
luii leo, como já descrevi anteriormente.
As casas m u d a m , as pessoas m u d a m , as ruas m u d a m , os pontos de tráfico

Considerações fina i s
mudam, as crianças m u d a m , os animais m u d a m , os terrenos mudam... Sempre é
possível ver u m a mudança na paisagem.
Não pretendo afirmar que só há mudanças nesse ambiente. Em qualquer lugar
Há um mistério na pobreza, e não sou suficientemente covarde para fingir
do mundo, a mudança ocorre o tempo todo. Apenas digo que é na favela que a
crer que ela não passa de um problema geral de mudança fica evidente, sendo impossível ser ignorada. Torna-se claro, nesse local
Economia Política (...) Ouso escrever que uma sociedade sem distante das proteções do Estado, o quanto as coisas m u d a m no dia-a-dia,
pobres é cristãmente inconcebível (...). A pobreza voluntária (...) [preserva] demonstrando, em princípio, u m a grande insegurança. O incerto, o imprevisto, que
entre nós esse fogo que lavra sob a cinza, do qual, de geração em geração, se pretende mostrar inexistente na realidade de u m a classe social mais avantajada,
se eleva repentinamente a alta chama do puro amor. na favela é visível. É quase u m a regra. E tão visível que chega a ser óbvio. O invisível,
(...) Por um pobre de menos, tereis cem monstros, então, passa a ser tudo o que é fixo, a segurança, o certo, o previsível. Nada disso,
e por um santo de menos, tê-lo-eis cem mil. porém, deixa de existir, mas seu desabrochar é muito sutil. Há u m a certa
George Bernanos 8 estabilidade na vida que levam essas pessoas: de um m o d o em que a vida parece
impossível, muita gente vive.
C h a m a - m e muito a atenção o movimento presente neste tipo de comunidade. Digo Mostra-nos, novamente, José Carlos Michelazzo (1999), baseando-se em
"movimento" no sentido mais amplo do termo. Não me refiro à movimentação de Heidegger, que, há muito tempo, a cultura ocidental, em n o m e da segurança, tenta
carros ou pessoas na região. Refiro-me à forte presença da mudança, da inconstância fugir da constatação de que, na verdade, existem m u i t o mais incertezas e
inseguranças na vastidão deste m u n d o que a cada instante se transforma. Apren-
8. B E R N A N O S , G. Présence de B e r n a n o s . Paris: Librairie Plon, 1 9 4 7 . C i t a d o p o r O L S O N , R. G. I n t r o d u ç ã o
demos a acreditar em verdades universais, em certezas eternas, em valores fixos, em
ao existencialismo. S ã o Paulo: Brasiliense, 1962. p. 190.
empregos estáveis, em relacionamentos duradouros, mesmo que isso tudo custe o

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As vi lili is I. ii os cio i isli i )k ti |li i d 'iii mu 'iii i|i i. |h 111 ixlsti 'iii N il I i lili ni i l h . m i s o A i ii irS|»H livi 11 ixlsti Mu li il i lli m i o d iiiiii ili li ii li • i (ironlt

empobrec imento da nossa própria vida, dos nossos próprios sentimentos. M e s m o 11' i rá teoria eficiente enquanto não se considerar o fenômeno como peculiar, úni< o
q u a n d o aquilo que nos motivava lanío torna-se opaco e parece nao ter mais i Irrepetível. Somos obrigados a "voltar às coisas mesmas", como sempre afirmou
sentido em nossa vida, insistimos em negar a possibilidade de mudar. Batalhamos i In i 11 ,io propor a fenomenologia.
para que tudo volte a ser como antes, acreditamos que t u d o que queríamos aind.i Isso tudo só se faz possível com uma flexibilidade tanto da abordagem quanto
e denso e real. lio profissional. A problemática falta de recursos t r a n s f o r m o u - s e em uma
Rubem Alves (2000) escreve sobre esse fenômeno em relação à educação, m i . ir.id,ide do contato, o que me favoreceu u m a psicoterapia livre de conceituações
recomendando aos adolescentes que pretendem ingressar em u m a universidade que , as tradicionais. O contato se dá do m o d o mais p u r o possível, diferentemente
não tenham medo de m u d a r o curso que almejam se isso for necessário. Diz Iam di leorias que pregam o uso de tecnologia de ponta e altíssimo custo para alcançar
bem ser muito pesado o fardo que i m p u t a m ao jovem nesta época da vida, deixando [•ingressos nos atendimentos. Se esse tipo de método mostra-se restrito ao âmbito
a entender que é a hora em que ele fem que decidir todo o caminho de sua vida no • li i línica tradicional, imagino a distância enorme em que ele se encontra com
m o m e n t o do vestibular. Se a marca da caneta for assinalada no lugar errado da ii laçao à comunidade e à sociedade em geral.
folha, todo o seu futuro estará perdido. A verdadeira relação terapêutica é u m a relação como qualquer outra, com a
Dessa maneira, cada vez menos torna-se possível um pensamento flexível, v iinlagem de que um dos lados sabe que caminhos podem ser viáveis para ajudar o
aberto a essas mudanças. Tomarmos as coisas como sempre fixas e objetivas faz com ih mi o a crescer e se fortalecer. A informalidade pode ser muito mais significativa e
que elas "percam o sentido", conforme refletimos a respeito do Sísifo de Carnus. As i In a/, haja vista os aviões de papel, as bolinhas de gude, as conversas na calçada, o
coisas devem fazer sentido como demonstrou o garoto na sua compreensão de como . mb.He entre psicologia e futebol, o café c o m o pagamento etc. Na comunidade, o
funciona u m a conta de adição, surpreendendo-se e maravilhando-se com a sultório e a rua não têm separações tão definidas. Embora haja pouquíssima
operação 1 + 1, talvez a mais básica de toda a matemática. Merleau-Ponty (1999) l'i i\ ,ic idade, pode-se conhecer o sentido mais forte da expressão relação terapêutica
afirma que, no tradicionalismo filosófico/psicológico, "forma-se (...) um paralelamente à diluição do "Doutor": sou visto como um m e m b r o da comunidade.
pensamento 'objetivo' (...) que finalmente nos faz perder contato com a experiência Pude, com minha experiência, traçar uma história de compromisso social
perceptiva da qual todavia ele é o resultado e a conseqüência natural" (Merleau- lo profissional na clássica maneira "sin perder la ternura jamás!" O "social" tão
Ponty, 1999, p. 109). Ou seja, fugir ao fenômeno, atingir a suposta perfeição de uma lil.ido e enfatizado no qual nós, psicólogos, devemos trabalhar, está, muitas vezes, ao
verdade geral e universal, elimina o que chamei de "movimento", que é o princípio nosso lado e ainda falamos dele com ares distantes, como uma meta futura. Temos
básico da existência q u a n d o se segue o pensamento de Heráclito de Éfeso. O famoso I.nelas ao lado de mansões. Comecei um trabalho com apenas três horas semanais e
filósofo pré-socrático ensinava que "nos mesmos rios entramos e não entramos, • iinsegui muito progresso com esse povo que vive suas maravilhas e suas tragédias.
somos e não somos" (Souza, 1999, p. 92), ou seja, não p o d e m o s jamais nos banhai I l.i ainda u m a minúscula vivência comunitária, uma pequena cultura singular
no mesmo rio, pois, ao colocarmos o pé nesse rio pela segunda vez, a água que daquele bairro, coisa há muito perdida nos outros lugares que nós, "cultos e
havíamos tocado na primeira experiência já seguiu o seu curso há muito tempo. . i\ ilizados", freqüentamos. Não só meu olhar, mas também minha intervenção
Aliás, até essa segunda oportunidade, nós mesmos já não somos mais a mesma passou a ser "comunitária".
pessoa desde que nos b a n h a m o s nesse rio pela primeira vez. Hoje, como diretor social da Associação Tamoio Vivo, com sede no nosso
A angústia de reconhecer que o m u n d o é provisório é insuportável aos perfec- núcleo, tornei-me referência em saúde mental na região. No entanto, para os
cionistas. Q u e m compreende esse movimento aprende. Q u e m não compreende, moradores, sou um m e m b r o da comunidade. Recebo encaminhamentos oficiais de
critica as idéias que nele se fundamentam. várias instituições. Mantenho contato com escolas, centros de saúde, o CAPS da
região (Centro de Apoio Psicossocial, administrado pelo Serviço de Saúde Cândido
Mostra-se acentuado, portanto, o imediato caráter da ação profissional. O des- 9
I erreira , referência em saúde mental na Organização Mundial da Saúde), ins-
preparo para situações inusitadas, o improviso diante da falta de recursos, a ausência
iiiilições de serviço social e comunitário e, principalmente, com os próprios mora-
de parâmetros, definições, teorias e conceitos são fatores marcantes e presentes para
dores do bairro, que construíram minha "fama" por iniciativa própria. Esta se
o profissional que se dispuser a trabalhar nesse contexto. De tão caóticas sob o ponto
de vista da lógica, as situações não podem ser minimamente classificadas. Costumo
imaginar a favela como um "campo de provas" às teorizações, pois creio que não
•' www.candido.org.br.

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alastrou com ¿1 chegada das agentes de saúde da prclcilura, que me li/eram algumas Para ISSO D O U meu apoio psicológico:
visilas paia discutir casos do bairro.
Segurando seu corpo pelos ombros,
Q u a n t o ao episódio no qual relatei minha angústia e motivação em fazer algo, Peço que caminhe até sua casa
comecei a refletir que, no fundo, não quero e não tenho como salvar vidas. Não sou
I la sabe o caminho, não é surpresa
"super-herói" nem "justiceiro". Meu papel é ajudar as pessoas a resgatarem ou
encontrarem o valor que dão à própria vida, religando-se ao sentido de sua vida.
Evidentemente não sou eu quem dita o valor ou o sentido da vida às pessoas, Passamos a viela com sucesso!
mas, certamente, posso ajudá-las e incentivá-las a procurar por algo tão próximo e |á posso ver sua morada!
tão difícil de encontrar: a simplicidade em que vivem, apesar da violência, parece o
melhor caminho. Uma criança de dois e duas de dez anos de idade me apoiam no trabalho

I )ona Célia já está no sofá!


Uma última imagem...
Enquanto ouço sua angústia desesperada de querer morrer, penso:
"Amanhã, alguém terá de percorrer este caminho com ela?
Ou com esses poucos passos já é possível aprender?"
PEQUENOS PASSOS

André Torres
Tudo está quieto e confortável...
Brinco e desenho com as crianças que vieram me visitar
Uma criança vem rápida, gritando meu n o m e lá da frente
"É outra brincadeira..."
- penso comigo por já estar acostumado
Referências bibliográficas
Seus olhos me desmentem e a sigo
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Meu trabalho de psicólogo, agora, é levantá-la do chão Thomson Learning, 2002b.
Sob a vista debochada dos vizinhos e assustada das crianças . Psicoterapia e subjetivação. São Paulo: Pioneira Thomson
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1 0 . N o m e fictício a d o t a d o para proteção d a privacidade.

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l lomem,
In-.iriimento do ser
I lomem é música
Musica só existe q u a n d o é executada e escutada
I .i utar ou ouvir?
I (epende do d o n o da orelha...

I lashback Join for Free Blackjack Game over


Sei me free
I alar inglês
t .hiem sabe...
• )iiem sabe?

(hii, oui Bon Apetit Bon Suoir C'est la vie


1'atiez francez
Quem sabe?
(airno diria?

lalar português
Quem saberia?
Apenas o João
() da Rosa,
I )os Guimarães
Ou o Carlos, talvez,
() velho gaúche,
1 )u Monte mines
Que pasa, Pablo?
- 8 0 -
Tdltoia Thomson

I )iga, colega, |i igas com os deuses!


Reze comigo I linguém há de perder ou ganhar
As lágrimas que acabamos de compor I possível apenas jogar.
Somos compositores, quem diria? Não quer?
Que dia! ( )l uno!
C o m p o m o s para as outras músicas e para nós também 1'ode ser uma das peças manipuladas
< hl até o próprio dado...
Homens I l.i de ter os cantos arredondados, Homem...
Além?
Zaratustra nos enviou? Risos divinos o acompanham com batatas.
Que acham? Aos vencedores?
Que procuram? Nem pensar!
Nada? Aos bons jogadores, que sabem cear.
Ou ninguém? Vencedores comem como porcos!
Nihil N.io saboreiam a beleza do paladar
I hope not... i orno q u a n d o inventaram o sal
( o m o q u a n d o criaram o açúcar
Que música, < o m o q u a n d o puseram o cordeiro para assar
Que sonata, ( o m o q u a n d o tiver fome
Que barulho ouço neste papel! ( Hi q u a n d o minha alma o desejar
Suas linhas são cordas
A caneta é o arco UfL.
O violino escreve! Respiro.
Mas as melodias ficam impressas... .Ainda respiro
As marcas só devem ser ouvidas por olhos atentos li, um dia,
Por línguas fugazes l lm dia...
E banquetes sonoros serão servidos durante as orgias literárias que podem ser vistas Me espirro.
no quarto, no escritório ou na sala de estar.
No bar não!
Essas coisas não se faz em público!...
Vergonha...
Mostrar a todos
Nossos momentos
Movimentos mais íntimos

O bom jogador
Está dentro ou fora com a mesma alegria e prazer.
Quem é você?
Acha que joga com outros homens?
Risos infinitos imortais:
Rd Rá Rà Rá

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- 8 2 -
Capítulo

rupos de crescimento:
uma prática sob o enfoque
fenomenológico
Samanta Maria Visigalli Martins
e
Mauro Martins Amatuzzi

Q u e g r u p o é esse?

() Grupo de Crescimento (GC) é um tipo de grupo que pode se caracterizar como


psicoeducativo, ou seja, ensina àqueles que participam dele a olhar para seu cotidiano
de forma especial. Tem enfoque terapêutico, mas não pode ser confundido com
grupos de psicoterapia como os que encontramos em diversos contextos. Essa
diferenciação se dá principalmente pelo lalo de que, nos grupos estritamente psico-
terapêuticos, os relatos dos participantes partem de suas queixas iniciais, ou seja,
partem de u m a questão ampla que normalmente está fazendo o cliente sofrer há
algum tempo. No GC os relatos dos participantes partem cie situações cotidianas. O
início do grupo se dá por meio de uma pergunta disparadora: "O que te tocou durante
a última semana?" ou "Qual fato vivenciado por você durante esta semana foi mais
marcante ou mais significativo?" Partindo de uma dessas questões, fazemos que o
cliente vá em busca de algo que tenha vivido naqueles últimos dias, há pouco tempo.
Tendo como base essas perguntas iniciais, o facilitador do GC deve ter em
mente, para que seu trabalho tenha um norte, sete passos principais que foram
inicialmente propostos por Amatuzzi, Echeverria, Brisola e Giovelli (1996, p. 5) com
,v. vim.!» ,u< iv, (iii psici ni iijid i, nu iminH)|(')i ||(-o i ixisli un i, || SRUI n U D E C R E S I I M E N T O : u m a prnllco s o b o onl l.'iH .ni. 'iH In.
i

o nome de Roteiro de Reflexão Grupai (p. 105) e posteriormente foram reescritoi encontros d e 9 0 minutos d e duração, com periodicidade semanal. Samanta Martins
(Martins, 2004), completando o roteiro com alguns levantamentos teóricos sobre a i oordenou os grupos com uma estagiária do curso, e o trabalho loi supervisionado
Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers, e a prática em si, com os grupos qufi por Mauro Amatuzzi. Os grupos ocorreram na clínica-escola da Universidade.
a autora realizou. Abaixo, encontra-se a descrição desses passos. Iodas as nove participantes foram pacientes da clínica-escola e já haviam passado
pelo procedimento de triagem habitual. Antes do início dos grupos, elas foram
1. Sentar: os participantes sentam-se confortavelmente em cadeiras dispostas i unialadas via telefone e passaram por u m a entrevista individual.
em círculo, sem espaços vazios, para que todos possam se olhar frente a
frente. Este é um m o m e n t o em que se faz parar a correria do dia-a-dia e
passa-se para u m a postura mais reflexiva.
2. Contar: os participantes contam, um a um, o relato marcante que os tenha
() primeiro grupo
tocado durante a semana a partir da pergunta inicial do facilitador. Este é o
m o m e n t o de apenas contar o fato. Participantes':

3. Escolher: o grupo escolhe um dos relatos expostos para que ele seja contado • Rosane, de 45 anos, separada, manicure/pedicure, mora com u m a irmã e
de forma mais abrangente para todos. Isso acontece sob forma de consenso duas sobrinhas. Uma mulher que vive grandes conflitos com as sobrinhas e
entre os membros do grupo ou quando há algum relato que tenha tocado a não sabe como olhar para si própria, fazendo tudo para ajudar as irmãs. Foi
todos de forma especial, sempre levando em consideração o sentido do m o r a r com uma delas, que tinha ficado viúva, para ajudá-la.
relato para todos os membros do grupo. • Sandra, de 20 anos, solteira, estudante, mora com a mãe e o irmão. Uma ga-
4. Sintonizar: neste momento os integrantes do grupo devem contar experiências rota em corpo de mulher, tem sérios problemas com a mãe, que é evangélica
pessoais que tenham o mesmo sentido que o relato escolhido anteriormente. e diz para a filha que só indo â igreja seus problemas estarão resolvidos. A
Os participantes devem relatar algo que tenham vivido ou presenciado e que mãe não quer n e m que a filha estude, pois de nada adiantaria, já que o
tenha alguma semelhança com o relato inicialmente escolhido. m u n d o irá acabar e a única salvação é a igreja.
5. Analisar: neste passo o grupo faz um aprofundamento daquilo que está • Rosângela, de 19 anos, amasiada, d o n a de casa, mora com o companheiro.
sintonizando; é o m o m e n t o de expressar suas ressonâncias afetivas em Uma moça nova com responsabilidade de mulher. Sente-se muito só e quer
relação ao "tema" em que o grupo está envolvido. Podem ser usados neste muito ter um filho. Acabou se juntando com o marido por viver em conflito
m o m e n t o materiais de apoio que ajudem, como algum texto reflexivo, u m a com os tios com quem morava anteriormente.
música ou até mesmo as próprias teorias psicológicas.
• Valquíria, de 31 anos, casada, dona de casa, mora com o marido e os três
6. Agir: neste m o m e n t o os membros do grupo falam o que estão levando da filhos. Uma mulher de olhar triste. Diz. estar em depressão por ter perdido
reunião que está chegando ao fim, colocam aquilo que fez sentido para eles um filho há alguns anos; nao consegue superar essa perda.
no encontro. Em grupos comunitários é neste m o m e n t o que se pensa em
Para que o relato de cada encontro nao fique cansativo, daremos exemplos de
ações concretas. No caso dos CGs, no entanto, trata-se apenas de u m a
reflexão sobre o sentido pessoal da reunião do grupo. cada reunião utilizando Versões de Sentido (VSs) que nada mais são que "a fala
expressiva da experiência imediata de seu autor, face a um encontro recém-
7. Despedir-se: é o final da reunião. Além das combinações de praxe, o facili-
terminado" (Amatuzzi, 2001, p. 74). F um relato livre, que não tem a pretensão de
tador pode conversar, se necessário, com algum m e m b r o do grupo que
ser um registro objetivo do que aconteceu no encontro, mas sim a expressão da
precise de atenção especial.
reação sentida naquele m o m e n t o .

A prática em si
Vamos nos ater neste relato aos grupos que fizeram parte da pesquisa de mestrado I. Os n o m e s utilizados neste relato são t o d o s fictU m s . K m - . U I D A D O loi t o m a d o para q u e as PARTICIPANTES n a o

em Psicologia de Samanta Martins (2004). Foram dois grupos que realizaram seis f o s s e m identificadas.

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A', VOlli IS l( K i 'S ( li I I «li l lli il |ll 1 ll 'III il I li 'I li ill II |li i i ' IXlSll 'I li l( ll ([ i .ni, „,., (ir, en -.i Inii m i l . u m n | irritli o s o b o i mli i q u o U «n n i i o m ilrtcjlrn

Pode ser uma reação escrita ou falada. Em um processo terapêutico, a VS darl liidora de um serviço público de saúde, há quatro m e s e s eslava aguardando o agen
o significado do encontro, ou seja, será relatado aquilo que fez mais sentido para 0 J á m e n l o cie uma consulta medica, pois as dores haviam voltado e ela n a o sabia

cliente ou para o terapeuta. As VSs foram escritas individualmente por cada parti ni lazer para que elas passassem. A angústia de não saber o que tem e de nao
cipante e pelas facilitadoras, antes do término do encontro . 2
ll" i o que fazer para sanar essa dor a estava deixando completamente impotente,
J i onforme a reunião foi caminhando, elas puderam levar o sentido da dor física para
VS1 (l' encontro) - Sandra: "Compreendi que os problemas que eu tenho ai
11 plano da dor psíquica, que, por vezes, também causa impotência. Na VS de Valquíria
pessoas do grupo também têm. E comecei a entender e a raciocinar. Tudo que se
passa com mais clareza através dos testemunhos das outras pessoas. E o fato de eu In a evidente o quanto ela tem esperança e vontade de viver, apesar de suas dores.
a
estar apenas começando a viver. Através de tantos testemunhos mais profundos dÒ VS4 (4 encontro) - Rosane: "Hoje eu abri o meu coração, ele estava muito
que o meu". . li >/( nido. Chorei mas me senti muito bem, cada dia que passa você vai aprendendo
mais coisas, e hoje tudo o que elas falaram a mim foi muito bom. Vou ter sempre
Essa VS de Sandra fala exatamente como foi este primeiro encontro. Todas elas
p u d e r a m compartilhar o que estavam sentindo e saíram da reunião sabendo que i .sã esperança comigo, essa luz nunca irá se apagar".
não estão sozinhas com seus problemas, todas sofrem por algo e, q u a n d o com- Nessa reunião, o assunto em foco foi o da ansiedade que cada u m a carregava.
partilhado, faz com que exista um processo inicial de alívio. I odas falaram algo relativo à ansiedade, Sandra falou mais sobre isso, pois é algo que
a i la enfrenta fortemente, ela tem reações físicas q u a n d o muito ansiosa, dores de
VS2 (2 encontro) - Rosângela: "O sentimento das pessoas resume-se em
estômago, falta de ar. Todas falaram que são ansiosas e querem resolver os problemas
várias coisas sentimentais, com família, romance e religião. Em caso que conversar
não resolve nada porque a mágoa é muito grande, é sem sentido". i.ipidamente, mas que não gostam muito de falar sobre eles. Rosane contou sobre
.eus problemas com as sobrinhas e chorou bastante. As outras colocaram para fora
Nesse encontro, o grupo discutiu principalmente o tema relacionamento, to-
a i a s questões e perceberam que, quando falam verdadeiramente o que sentem, a
das relataram algum tipo cie conflito em suas relações pessoais. O que mais apareceu
ansiedade melhora, pois olham para os problemas "de frente".
foram problemas familiares. Ao final da reunião, elas estavam convictas de que
a

conversar com as pessoas queridas não adiantaria nada, é exatamente o que mostra VS5 ( 5 encontro) - Rosângela: "Quando um sentimento entra em nossa casa,
a VS de Rosângela. Porém, foi interessante perceber que todas elas acharam b o m nao entra só em nossa, mas por outro corredor da vida. É aí que não sabemos onde
conversar no grupo, pois com as pessoas com q u e m elas têm o conflito não resolve Imscar soluções, sendo que os problemas vêm de toda parte. Onde achar soluções?".
conversar, mas com o grupo foi importante. Nessa penúltima reunião, uma das participantes tomou coragem de contar algo
que não havia conseguido contar a ninguém, Rosângela disse que achava que estava
VS3 (3- encontro) - Valquíria: "Eu percebo que todos têm seus problemas, por
interessada por um rapaz da escola que freqüenta e que não gostava mais do marido
exemplo, a dor todos têm, sentem de uma maneira diferente, dor da alma, física,
da mesma forma. A partir desse depoimento, todas as outras foram dando "conselhos"
mental. Mas o mais importante é que ninguém perde a fé, a esperança, o amor e a
força de vontade de lutar. E a esperança de que dias melhores virão. Eu tenho muita do que ela deveria ou não fazer e falaram um pouco sobre algumas experiências
fé e esperança e luto para ser feliz e poder lazer as pessoas ao meu redor também se pessoais. Percebeu-se que elas estavam mais confiantes para conversar e colocar o que
sentir bem e poder contar comigo quando precisar. Agradeço a Deus a cada dia que sentiam em relação à situação da colega. O grupo caminhou quase que "sozinho". Elas
acordo e que possa ser feliz seja qual for a situação". estavam mais soltas e confiantes. A VS de Rosângela demonstra o quanto ela está
confusa e sofrendo com a situação, sem saber onde buscar soluções.
Essa reunião fez com que elas pensassem nos diversos tipos de dor. O que elas a
VS6 ( 6 encontro) - Sandra: "Durante a experiência que tive nesse grupo,
mais falaram foi que, diante de algumas dores, elas sentiam certa impotência. O
aprendi que sempre há e haverá uma luz no final do túnel. Antes parecia que havia
principal relato foi o de Valquíria, que contou que aos 15 anos foi ao médico por
sentir muitas dores nas pernas e que, a partir daí, sem saber a causa, o médico lhe uma venda em meus olhos, não queria enxergar as coisas como elas são, só pensava
disse que aos 30 anos ela ficaria presa em u m a cadeira de rodas. C o m o é freqüen- nos outros e não dava espaço a mim mesma. Agora estou bem mais centrada e sei
que dias melhores virão. Assim como diz a letra de uma música: 'devia ter amado
mais, ter chorado menos, ter visto o sol nascer... O acaso vai me proteger enquanto
eu andar distraído'. Várias coisas eu devia ler leito mais e outras de menos, e agora
2. As V S s transcritas aqui estão em itálico para q u e fique evidente o caráter individual de cada um d o s relatos.
eu sei que abrirei espaço para mim ".
F o r a m corrigidos a p e n a s o s erros d e p o r t u g u ê s q u e p u d e s s e m prejudicar o e n t e n d i m e n t o d a sentença.

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i ,ii i | » , % i i i . i ii igi i i i i i » i iii i : u r n a p r á t i c o sc )h oi )i i t i « | i n > li n i< n i u »i< i l ' » | l '
i iiiii nu T h o m s o n 1

I s i o l l i e m o s | > . i i , i ilustrar e s s e último encontro a VS de Sandra, pois achamos q u e velho está lendo com uma mulher muito diferente daquela que ela sonhou
l o i ,i que explicitou de forma clara o que ocorreu no grupo, com Iodas as que dele ler como nora. Não sabe o que fazer com essa situação. Está muito abalada.
participaram. Percebemos que iodas elas, no início do grupo, conseguiam olhar p a r a • Vanessa, de 40 anos, casada, a u t ô n o m a , mora com o marido e com os três
fora de si próprias, ou seja, seus problemas estavam vinculados aos outros. Com o filhos. Uma mulher esclarecida, trabalha c o m o a u t ô n o m a vendendo
passar das semanas e com tudo o que foi discutido e aprofundado, elas passaram a olhar produtos diversos. Mora com o marido, mas na realidade eles são separados,
para si mesmas, descobriram que os outros fazem parte da vida de cada uma, mas que cada um tem seu quarto. A maior preocupação é com seu filho mais novo,
as soluções para os conflitos estão dentro delas próprias. Nas palavras de Sandra "... não que tem dificuldades escolares, ele tem nove anos e não consegue escrever.
queria enxergaras coisas como elas são, só pensava nos outros e não dava espaço a mim
• Laura, de 35 anos, casada, empregada doméstica, mora com os dois filhos e
mesma. Agora estou bem mais centrada e sei que dias melhores virão..."
o marido. Sente muita falta da filha que m o r a em outro Estado. Não se
Uma outra forma de ilustrar o quanto as participantes se modificaram é por conforma com a situação de a filha ter sido expulsa de casa pelo pai. Ela
meio da VS de Martins a respeito do último encontro do grupo. sente dificuldade de criar os filhos sem a ajuda do marido, que é alcoólatra.
• Dora, de 64 anos, viúva, d o n a de casa, mora com os netos. É u m a senhora
Elas cresceram!! Como foi importante ouvir tudo isso. Rosane: eu não pego mais os
problemas da minha irmã para mim. Agora eu divido ou digo que quem tem que acostumada com a rotina de todos os dias, cuida dos netos, pois a filha
resolver c ela. Sandra: descobri que eu só olhava e resolvia o problema dos outros e morreu e ela os cria. Diz ter muitos problemas de saúde e leva a vida
o meu não. Ficava largada. Parei de ter tanta ansiedade, aprendi a pensar, dar tempo cuidando dos netos e cuidando de sua saúde
ao tempo. Também vi que o Deus da religião da minha mãe existe, mas que Deus
• Maria, de 49 anos, amasiada, comerciante, mora com o companheiro, o filho
está em todos os lugares e que eu não vou ser punida se não for da religião dela.
Rosângela: eu percebi que posso sofrer, posso ter que ir no fundo do poço para e o enteado. Está desamparada pelos acontecimentos recentes. O marido
depois conseguir ver o caminho. Posso perder com isso, mas não vou morrer se tiver a r r u m o u u m a amante, sua vizinha, mas não quer sair da casa. Ele passa o dia
que sofrer um pouco. Vou lutar para resolver os meus problemas. Valquíria: não caio trabalhando ao lado dela na mercearia que têm juntos e à noite d o r m e com
mais no estado de depressão que eu estava. Eu via somente coisas ruins, não a outra. Ela não sabe o que fazer com essa situação. Ela t a m b é m cuida de seu
agradecia as coisas boas. Hoje eu vejo coisas boas. Foi fantástico perceber que elas se
filho e do filho dele, fruto de um outro casamento.
modificaram em pouco tempo. Deu certo! Percebi que quando se ouve as pessoas,
há frutos. Elas se sentiram acolhidas, elas conseguiram olhar para si próprias. Pri-
Este segundo grupo foi bem diferente do primeiro. Todos os relatos que fare-
meiro elas mesmas, depois os outros.
mos a seguir mostram o quanto as participantes não conseguiram se desligar de suas
"queixas iniciais". Essas queixas foram ouvidas na entrevista individual, que foi
Nessa VS, Martins colocou com suas palavras o que ouviu delas no último
realizada com cada u m a delas antes do início do grupo.
encontro do grupo. Elas mesmas conseguiram se modificar e conseguiram expressar
isso por meio de seus relatos a respeito de como foram as reuniões. A última reunião Utilizaremos, c o m o ilustração, o m e s m o p r o c e d i m e n t o a n t e r i o r m e n t e
caracterizou-se por u m a avaliação do grupo, se diferenciou um pouco dos outros adotado.
encontros que focalizavam um relato significativo que ocorrera na semana. Nesse V S 1 ( P encontro) - Carmem: "Eu sinto que os nossos problemas são todos
dia foi pedido para que elas fizessem um balanço de como estavam saindo dos iguais. Eu, principalmente, sofro muito ao ver meu filho sair de casa às 7 da noite e
encontros, já que o grupo estava chegando ao fim. chegara 1 hora da manhã, eu fico desesperada, não durmo enquanto ele não chega".
Nesse primeiro encontro, foi pedido para que cada uma delas iniciasse dizendo
por que estava naquele grupo. A intenção era a de uma apresentação e poste-
O segundo grupo riormente a isso seria dado início aos relatos significativos da semana. Cada u m a
contou o motivo de estar no grupo, e as falas estavam relacionadas com a razão pela
Participantes: qual elas procuraram atendimentos na clínica-escola. A reunião ficou centrada na
queixa inicial de cada uma, tanto que a VS de C a r m e m revela o quanto ela sofre com
• Carmem, de 48 anos, casada, dona de casa, mora com o marido e os quatro as atitudes de seu filho que atualmente está se relacionando com u m a mulher que
filhos. Carmem sente-se muito infeliz pelo envolvimento que seu filho mais ela não aprova. Ao mesmo tempo em que Carmem fala do filho, chega à conclusão

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AR, vi nu IS d ii iI LI 11 ISLI I ILI LI |LI I LI 'I K II i H 'I II I I I » |II I > I IXLSLI 'I II LI IL F-RILTOIN THOMSON 11 ] ( .ii i| ii >:, i li • i li 'Si ll i H -l il< i i ll i H l I ih llli < 1 si il I ili ii |i l< • li 'I li il i li 1 li ili 'I IN ' '

de que os problemas relatados no grupo são semelhantes. Isso fica evidente na lala: demonstrava uma certa dificuldade de entendimento, notou-se uma preocupação das
"Eu sinto que os nossos problemas são todos iguais". colegas em fazê-la tomar decisões favoráveis ao filho, pois ela achou que deveria
a
VS2 (2 encontro) - Maria: "Mais importante foi eu falar do meu problema. simplesmente brigar com ele e pronto, a situação estaria resolvida. Nas VSs, de modo
Eu queria me libertar do meu problema ". geral, houve alguma menção a respeito do caso. A VS de Laura demonstrou o quanto
Nessa segunda reunião, foi pedido às participantes que contassem algum acon foi produtivo para ela falar sobre esse sério problema.
tecimento que houvesse tocado a cada u m a delas. Os relatos ficaram ainda centrados VS5 (5- encontro) - Laura: "Cuidar dos meus filhos sozinha é muito difícil.
nas queixas iniciais, mesmo sendo pedido para que falassem de algo vivenciatlo I htr tudo não dá mais. Eu gosto muito do meu filho e da minha filha".
durante a última semana. O relato de Maria foi o que tocou mais a cada uma delas Q
VS5 (5 encontro) - Carmem: "Eu gostaria que as coisas melhorassem. Espero
e a partir dele puderam falar sobre o tema liberdade. A maioria delas vive com um que tique mais fácil, que os meus filhos consigam serviço para eles serem mais
companheiro, somente Dora não, pois é viúva. Carmem mora com o marido e os felizes. Gostaria que meu filho mais velho terminasse de vez com a mulher que está
filhos e vive bem com ele. Maria vive com o companheiro, mas ele tem outra mulher,
atrapalhando a vida dele".
passa o dia com ela e a noite com a outra. Vanessa mora com o marido, mas cada
Nesse encontro elas repetiram alguns relatos anteriores, contaram algo que as
um tem seu quarto, por conveniência vivem sob o mesmo teto, e Laura tem o
havia tocado, mas não estavam conseguindo encontrar soluções para suas questões,
marido que ocupa o fundo da casa, bebe muito e não a ajuda em nada. O assunto
liidas estavam presas ao dia-a-dia e não conseguiam ir além. Laura coloca em sua
liberdade foi iniciado por conta de Vanessa achar estranho Maria morar sob essas
VS a dificuldade de criar seus filhos sozinha. Parece ser u m a forma de constatar que
condições. Na VS pode-se perceber que para Maria foi importante compartilhar
ELA mesma não consegue lidar com suas questões e com isso não sabe passar as
suas questões.
informações aos filhos. Carmem também fala em sua VS sobre as dificuldades dos
o
VS3 (3 encontro) - Vanessa: "Agora meu sentimento está muito confuso, pois filhos estarem sem emprego, mas fica evidente o quanto ela fica presa nas questões
dei de cara com um passado tão remoto que jamais achei que ia mexer tanto comigo referentes ao filho mais velho, que segundo ela está vivendo um relacionamento que
assim, não imaginei que tinha machucado tanto outras pessoas como machuquei. atrapalha a vida dele.
Mas ainda sinto que tem alguma coisa que preciso colocar para fora e não consigo,
Colocamos como ilustração duas VSs para que ficasse mais claro o que
talvez seja medo de olhar realmente como sou".
pareceu-nos significativo desse encontro.
Nesse terceiro encontro havia somente três participantes e elas conseguiram a
VS6 (6 encontro) - Vanessa: "Todos os encontros que tivemos foram muito
contar um relato marcante da semana, porém, com o decorrer da reunião, os as-
importantes, pois a cada dia eu buscava uma verdade sobre meus sentimentos, e só
suntos voltaram a ficar relacionados com suas queixas. O grupo evoluiu para o tema
I (inversando no grupo eu encontrei a verdade dentro de mim. Eu consegui enxergar
relacionamentos e as três estavam muito tristes. C a r m e m falou sobre o filho que
0 que eu realmente necessito para melhorar como pessoa. Eu consegui sentir o que
atualmente namora u m a mulher mais velha e que ela não se sente bem com isso,
devo fazer para caminhar e enfrentar meus medos sem ter tanto medo. Obrigada
chorou. Laura falou novamente sobre a filha, falou da saudade que sente dela e
por tudo, foi muito bom estar com vocês".
t a m b é m se emocionou. Vanessa citou um encontro que teve com um ex-namorado
Vanessa, em sua última VS, reflete sobre como os encontros do grupo foram
e falou sobre o quanto isso mexeu com ela, como ilustra sua VS. Foi um encontro
importantes para que ela olhasse para si própria de forma diferente, percebesse em
emocionado, elas estavam tristes e puderam ouvir umas às outras com compaixão.
a
1 ada reunião o que ela necessitava de fato. A nosso ver, Vanessa foi a que mais se
VS4 (4 encontro) - Laura: "Eu me senti bem melhor com esta conversa sobre
beneficiou deste grupo. Ela parecia estar mais envolvida com seus próprios senti-
o meu filho e vou tomar uma decisão".
mentos, a busca de sentido ficou mais clara para ela. Apesar disso, todas as parti-
Nesse encontro o assunto principal abordado foi como elas criam os filhos. i ipantes tiraram proveito do grupo. C a r m e m aprendeu a se ouvir, não modificou
Iodas contaram, inicialmente, algo que havia tocado a cada uma durante a semana. suas opiniões, mas aprendeu a colocá-las de uma forma mais amena, principalmente
O relato mais chocante foi o de Laura, que relatou que seu filho de nove anos havia l»ara o filho mais velho. Maria adquiriu confiança nela própria e isso fez com que
S I D O abusado sexualmente por u m colega de rua, mais velho. Todas ficaram abaladas seus relacionamentos externos ficassem melhores. Ficou mais "forte" para lidar com
com o problema e compartilharam histórias semelhantes além de darem "con- o marido. Laura, apesar de toda dificuldade de entendimento, sentiu-se bem no
S E L H O S " para Laura em relação ao que ela deveria fazer. Por ser u m a mulher que grupo e conseguiu perceber algumas formas de vida diferentes da sua, e isso foi

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As VI irli is li II es do i «li i ili n |li i fi H n h i ii II H i|i « ||CO-i ixlsti n n li il , ll |( )|i I 1 ( '-II L| K )S ( 1 ( I I LI 'SI LL I LI 'I LLI I III I LI I I IH III' I I SI IL I LLI II |L LI ' I' 'I LI IL I I' 'I I' >L'*LLJL< O

importante, pois percebeu que não está sozinha com seus problemas. Dorij , I I I separado). Alem disso, e uma descrição "contagiante", isto e, que envolvi t)
diferente das demais, foi a integrante que menos se envolveu com o grupo, faltou a ih. iio que descreve e aquele que o ouve ou lê. A descrição deve provoi .u naqueli
varias reuniões e percebeu-se que ela se colocava em um papel diferenciado, era uma mi LI o mesmo fenómeno, no seu sentido e no sentimento. Q u a n d o se lê AB O A
espécie de "conselheira mais velha", dava seus conselhos às outras mas em nenhuma ,| i.iii fenomenológica, o fenômeno se faz presente ao leitor, intenc ionalinenle, e

reunião mostrou envolvimento pessoal. Por essas razões, não exemplifia . Miau torna o mais capaz de lidar com ele.
nenhum encontro com suas VSs.
Quando lemos um bom relato fenomenológico cie uma experiência humana
mialquer (ainda que estivesse um tanto distante de nós), ele nos torna mais sábios,
mi I I . aptos a lidar com coisas parecidas que venham a aparecer em nossa vida.
Conclusão da prática i mando um grupo constrói junto u m a descrição fenomenológica de algum lalo
Ivi ih i.ido ou parcialmente significativo, ele se torna, enquanto grupo, mais capa/
Os dois grupos foram diferentes, cada um com suas peculiaridades, porém, ambos .1, se apropriar do fato, aprender com ele, lidar com coisas parecidas. Ou seja, a
atingiram o objetivo proposto: as reuniões fizeram com que todas as participantes I. Í C I ição fenomenológica é mais útil que a empírica quando se trata de habilitar o
conseguissem evoluir dentro, é claro, de seus limites pessoais. ,, pessoa ou grupo, para uma ação mais h u m a n a . A descrição fenomenológica

O interessante foi que elas conseguiram perceber a importância de chegar ao habilita diretamente quem a faz ou quem dela participa: a pessoa se torna mais apta
sentido das coisas. A partir do m o m e n t o em que elas puderam tomar contato com . MAIS criativa frente a situações parecidas.
o sentido interior de um evento vivido, tornou-se possível identificar quais outro! Existem, no entanto, formas um tanto diferentes de descrição. Uma coisa é
acontecimentos da vida faziam-nas refletir de forma semelhante. Assim, passou a II. si i ever o que está presente na consciência, e outra bem diferente é descrever o que
haver maior compreensão de situações aparentemente distintas e das formas de i torna presente à consciência. No primeiro caso, ficamos nos sentimentos subje-
relação estabelecidas com os outros. Percebendo isso, a transformação tornou-se livos, interiores. Podemos não estabelecer relação entre eles e o m u n d o . No
possível. ..R,u ndo caso, abrimo-nos aos significados múltiplos das vivências, descrevemos os
I ventos do m u n d o em relação significativa conosco ou com quem os vivência e,
fazendo assim, permanecemos no campo do estar no m u n d o . Q u a n d o falamos
presente na consciência" corremos o risco de nos fecharmos no subjetivismo.
Um pouco de teoria Permanecemos na relação sujeito-objeto e m a n t e m o s u m a a b e r t u r a aos
significados e sentidos. Uma descrição do que está na consciência é u m a descrição
Q u a n d o falamos em tentar fazer com que as participantes do GC busquem o sentido
./os sentimentos subjetivos, e uma descrição do que se faz presente à consciência é
de suas vivências, estamos dando início a uma reflexão fenomenológica. De que
111 na descrição do mundo na proporção de seus significados. A descrição do m u n d o
forma? Pensar em buscar o sentido de vivências reais é u m a das formas de descrever
..ii dos significados que encontramos ao estarmos no m u n d o é u m a tarefa para a
o vivido, e a descrição é o m o d o utilizado pela fenomenologia para que se possa
psicologia fenomenológica.
chegar ao fenômeno, torná-lo presente de forma reflexiva.
No caso dos GCs apresentados aqui, a busca do sentido de cada u m a das
A fenomenologia a que nos remetemos aqui é prenunciada por Franz Brentano
participantes dos grupos estava intimamente ligada a um olhar para a relação sig-
(1838-1917) no século XIX e formulada por Husserl (1839-1938) posteriormente.
nificativa de cada u m a com o m u n d o . Através da escolha e do relato de um
Essa maneira de olhar superou a dicotomia sujeito-objeto que se pregava até então.
AC ontecimento recente que as tenham tocado pessoalmente, exerceu-se a partilha de
"A fenomenologia não prioriza nem sujeito n e m objeto, mas, sim, a indissociação de
significados comuns e iniciou-se a formação de um senso comunitário de estar no
um aspecto e outro na própria estrutura da vivência da experiência intencional.
(Bruns, 2003)" mundo. A pessoa que cria o hábito de refletir em grupo, partilhando suas vivências
A partir de relatos de acontecimentos que a tocaram, acaba percebendo com o tempo
A descrição fenomenológica é a que se faz não do objeto enquanto separado que está encarando sua vida, suas queixas e seus problemas de outra maneira, muito
do sujeito, mas justamente enquanto em sua relação com a consciência h u m a n a . É mais criativa.
uma descrição que envolve sujeito e objeto, unidos (embora possam ser pensados

-94- - 95 -
A Vl 1
'' s da pui ologla fem .mein iiogii o-exlstem lai I 'lili m I Ih' in im >n

Capítulo
Referências bibliográficas
Amatuzzi, M. M. Por uma psicologia humana. Campinas: Alínea, 2001.
; Echeverria, D. E; Brisóla, E. B.; Giovelli, L. N. Psicologia na
4
comunidade. Campinas: Alínea, 1996.
Bruns, M. A. T. A Redução Fenomenológica em Husserl e a Possibilidade de Superar
Impasses da Dicotomia Subjetividade-Objetividade. In: Psicologia e Fenome
nologia. Reüexões e Perspectivas. Bruns, M. A. T. e Holanda, A. F. (Orgs.). Cam
pinas: Alínea, 2003.
psicologia clínica no
Martins, S. M . V. Grupos de Crescimento: Descrição d e s u a Prática em
Clínica-Escola de Psicologia. 162 pp. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós
Graduação em Psicologia-PUC-Campinas, 2004.
serviço comunitário do Instituto
de Psicologia Fenomenológico-
1
1 existencial do Rio de Janeiro (Ifen)
2
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

Introdução
•) Estatuto de Fundação do Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do
a
Kio de Janeiro, no artigo I do seu capítulo 1 - Da Denominação, diz:

O Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro, doravante


simplesmente denominado Ifen, é uma Sociedade Civil de Direito Privado, sem fins
lucrativos, de caráter Científico Cultural, regido pelo presente Estatuto e pelas
disposições legais e regulamentares que lhe forem aplicadas e, subsidiariamente, ao
Regime Interno do mencionado instituto.

Ainda segundo o Estatuto, o Ifen tem por objetivos: alínea (h) - Colaborar e
prestigiar projetos sociais dentro de suas finalidades; e alínea (i) - Desenvolver
atividades de cunho social em Psicoterapia e suas formações de atendimento com
base na Psicologia Fenomenológico-Existencial.

I. O Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro é urna instituição sem lins lui i a
tivos que tem como objetivo principal divulgar o pensamento existencial em Psicologia.
- 96 -
1. Presidente do Ifen.
AS vi MU IS li |i i •:. i li i i i8|i i I|I ii j|c i i, ., i, d i ii || „ |i „ ||, , i , | |
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O Curso de Especialização em Psicologia Clínica oferece estágio supervisio do D E fazer psicologia de "fábrica de interiores" ( 2 0 0 0 ) . Assim, agimos no mundo
nado, e a prática clínica cios psicólogos em formação abre a possibilidade para que moderno, afetados pelas exigências deste m u n d o dominado P E L A razão, P E L A mélrii A
as pessoas de baixa renda possam usufruir de um acompanhamento psicológico. a< reditamos que SÓ é válido aquilo e aqueles que se enquadram nessa ordem das < i lisas
A procura pela clínica social do Ifen advém, na maioria das vezes, da população A psicologia articulada no modelo científico utiliza as técnicas psicológic as em
de baixa renda. A comunidade vem buscando os nossos serviços com diferentes U M A concepção corrente, como u m dispositivo capaz d e atingir f i n s previamente
demandas, no entanto, a de maior procura é de crianças c adolescentes com dificul determinados. Vai buscar na natureza h u m a n a todo o potencial de que o homem
dades na escola, seja de aprendizagem, seja de relacionamento. É certo que questões «lispoe. As pessoas só têm valor q u a n d o úteis e sempre que se destinem ao progressi i.
acerca do que é psicoterapia aparecem com muita freqüência. Alguns compreendem Para saber onde as pessoas se encontram, faz-se necessário antes de qualquer ação
do que se trata sem n e m sequer saber cognitivamente o que é. Outros continuam a terapêutica categorizá-las, para depois utilizar os procedimentos mais adequados
não entender m e s m o que se dêem todos os esclarecimentos a respeito e perguntam: àquele caso.
serve para quê? Fora tais considerações, p o d e m o s perceber que essas interpretações A técnica, na modernidade, constitui-se como um desvio do sentido da téchne
do m u n d o estão carregadas dos modos de subjetivaçâo da modernidade: cultura da grega, sendo tomada por sua função interventora, a partir de uma preparação
utilidade, da produtividade em série, da lei da vantagem, dos resultados. ealculável. Atém-se aos fatos, que devem ser mensurados e modificados a partir de
A ênfase na eficácia e na eficiência, na previsão e nos resultados, na produção uma intervenção, de m o d o que se possa explorar todos os seus recursos, destinados
em série, no acúmulo e na extrema valorização do c o n s u m o são legados da ciência A produção e ao consumo, em um círculo vicioso. Trata-se do progresso e do avanço
moderna para a humanidade. É natural então que seja isso que se espera dos profis- tecnológico, que tem como finalidade o bem-estar h u m a n o . A técnica moderna
sionais de saúde para com a população. Mantém-se a expectativa de que apliquem atinge a natureza para dela extrair os seus recursos, inclusive os recursos da própria
técnicas comprovadas cientificamente para obter os resultados desejados. natureza h u m a n a . Não cuida, descuida. Não deixa que as coisas surjam a seu modo
Acreditam os especialistas que compartilham dos princípios da modernidade na natureza, explora-a. E assim passamos a organizar toda a educação de nossos
que toda a natureza, inclusive a humana, se constitui como reserva e, como tal, sua filhos. Inteligentes são aqueles que sabem bem matemática. A arte e a filosofia,
técnica deve se dar de m o d o a poder explorar todos os recursos de que a natureza enfim, eram destinadas àqueles que chamamos de "vagabundos", u m a vez que não
dispõe. O b o m técnico é aquele que sabe preparar e buscar esses recursos para poder produzem no sentido moderno. Nossos filhos t a m b é m se constituem recurso
explorá-lo em todo seu potencial. Ainda seguindo tal linha de pensamento, tão logo natural, dos quais devemos extrair todos os seus recursos para a produção. O valor
nada mais se tenha a explorar, tal elemento natural deve ser descartado, já que não reside no ganhar dinheiro de maneira "fácil". E como é difícil não se deixar levar,
mais produz. esquecer-se de si próprio, e conduzir-se pelo modismo, consumismo, enfim, pelo
que a m u n d a n i d a d e determina.
Os profissionais do Ifen partem do princípio de que não se devem manter na
perspectiva moderna, logo não reconhecem o h o m e m como recurso, deslocam-se É certo na atualidade que todos os nossos filhos têm de saber inglês, infor-
da tendência à categorização do h u m a n o , suspendem os rótulos com os quais a es- mática, balé, futebol, independentemente de seu desejo, de sua vontade, de seu
cola, os pais ou, ainda, outros profissionais dirigem-se às crianças ou adolescentes. interesse, de sua aptidão. Não se busca o seu "modo-de-ser" que, na sua incons-
Tentam alcançar aquilo que a pessoa mostra no seu m o d o de ser. tância, mostra-se ao mesmo tempo em que se esconde. AÍ está a dificuldade. O
sucesso passa a ser aquilo que todos esperam dos jovens, independentemente da
Na atualidade, tende-se a considerar o h u m a n o como recurso a ser explorado ou
classe socioeconómica a que estes pertencem.
a ser revelado. Aquele que não mostra o rendimento escolar de acordo com o
A categorização, a culpabilização na psicologia clássica parte da idéia de que o eu
padrão de aprendizagem, estabelecido pelo social, passa a ser rotulado como
constitui-se substância autónoma que se relaciona com outra substância também
possuindo u m a dificuldade de aprendizagem. Instaura-se aí a culpabilização do
autônoma: o mundo. A partir dessa crença, vai buscar no indivíduo suas mazelas, seus
indivíduo, já que este se apresenta como recurso não disponível, pois não responde
desvios. Assim, não aprender um determinado conteúdo tal como padronizado pela
às solicitações do m u n d o . Toma-se esse h o m e m como um eu encapsulado, em que
instituição escolar ou atuar de m o d o diferenciado ao modelo padrão acaba por
ele é visto só, esquecendo-se de t u d o a sua volta. O psicólogo é então convocado a
constituir-se n u m a categoria de diagnóstico, interpreta-se essas expressões como ina-
"consertar" o que há de errado, depois de ter reafirmado o diagnóstico. Baptista
dequações, desajustes. Logo que se conheça a peça e o funcionamento dessa engrena-
( 1999) refere-se a tais profissionais de psicologia como "amoladores de faca" e a esse
gem, a situação poderá ser sanada.

98 - 9 9 -
A ' , VI IILI IS LI II I - S I LI I I ISLI I ILI II |li I LI II II .11 II LI i, I|, I, | | , | | | , , , „ I, ,1 A I !• I, ,I ||L I I III III i I I LI > Si IIVLL, Ill II HL' IH' ' ' I' ' LI ISLLLI LL' I ( I N I M i ' LLL II ||L L
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N.I perspectiva existencial, dcslocamo nos da crença moderna di \ me p r e o c u p a d o I I U I i l o e que ela e o irmão V I V E M S E A L I A I [indo,
I > Q U E LENI

encapsulado, e a existência é tomada como abertura, a que I Icidoggci de procurando alguma coisa pra brigar com o outro; e, às vezes, A L E passandi •
d a s e i n (Heidegger, 1998). Desconsideramos a dicotomia e u - m u n d o e A I icdil nu • D obrigada a levantar c o r r e n d o para separar os dois, já que O L I O não liga.
que o h o m e m sempre se constitui na relação que estabelece com o mundo i m I ' I » Q U E O L I O costuma lazer q u a n d o essas brigas acontecem?
relação que estabelece consigo próprio. Assim sendo, sempre corre o risco de pi idi \ \S vezes ele está d e i t a d o , c o n t i n u a lá e finge que não está ouvindo nada.
se no m u n d o ou perder-se em si mesmo. Na maioria das vezes, ocorre que m peiil
E L E levanta, bale em lacinta ou coloca ela pra trabalhar.
no m u n d o , esquece-se de si mesmo, tornando-se mais u m , e que o seu querei
pensar e o seu fazer é aquilo que o m u n d o determina que deve ser. Esquece si h I' I com o menino?
suas possibilidades de ser e acaba sendo o que se diz que se deve ser. \ () Zezinho não, esse e l e s e m p r e protegeu. Gosta mais dele do que da

Existir implica sempre a incerteza do futuro imediato, do desconhecido. Na mi AS vezes, peço ao Z e z i n h o p a r a fazer alguma coisa em casa e ele não deixa.
tentativa de negar a realidade tal como ela é, o h o m e m p o d e tender a acreditai qi|| P A senhora poderia me d a r um exemplo?
ele é especial, que tudo pode controlar, enfim, que não está lançado no m u n d o n \ Q u a n d o estou passando m a l e c h a m o o Zezinho na rua para ajudar a irmã
todos os outros homens. Porém, no fundo sabe que tais certezas não são verdadeil I Mi . A S A . lavar uma louça, varrer o q u i n t a l , ele vem e o tio não deixa, manda ele
Conhecendo os paradoxos que encerram a existência humana, esse homem I I.iiii.AI NA rua e diz que isso é t r a b a l h o d e mulher.
desespera. Eis o que verdadeiramente faz o h o m e m h u m a n o . C o m o com a crença na P F qual é a atitude da s e n h o r a nessas situações?
incerteza do destino de cada um dos homens na terra, na incerteza da verdade dj \ Eu fico quieta, p o r q u e e l e d i z q u e é o h o m e m da casa e q u e m m a n d a é ele.
amanhã, c o m o devem proceder os educadores que preparam o adulto do fiilunif I' Qual a reação da Jacinta q u a n d o isso ocorre?
Sem lugar para respostas exatas, reducionismos e verdades inquestionáveis, ,un
A Fica revoltada, fala p a l a v r ã o , xinga o irmão, diz que o tio é um vagabundo
ditando na existência c o m o eterno movimento paradoxal, não há lugar para E S T E
mu só liça d o r m i n d o .
reotipias, para critérios rígidos.
I' - O que leva Jacinta a r e a g i r dessa forma?
Os profissionais do Ifen compartilham da crença de que o h o m e m se constitui
A - Ele trabalhava em u m a l a n c h o n e t e , depois começou a faltar muito e foi
c o m o existir, no paradoxo da própria existência h u m a n a , portanto, não há lug.u
mandado embora. Aí começou a t r a b a l h a r de vigia em u m a galeria desses shoppings
para definições, culpabilizações, categorizações e previsões.
lli 11uipa, trabalho b o m que não c a n s a v a . Também não ficou muito tempo. Ele tem
bronquite e sente muita falta de ar, e de todos os meus filhos é o único que sempre
. LEVE ao m e u lado, p r i n c i p a l m e n t e q u a n d o descobri que estava com câncer, ele
Apresentação da prática da clínica social lempre me ajudou.
A - A gente vive da pensão q u e eu recebo e da ajuda da minha filha mais velha.
Vale exemplificar a partir de dois atendimentos c o m o se dá o trabalho psicológico
P - A senhora atualmente e s t á em tratamento?
no serviço comunitário do Ifen:
A - Não. Depois que operei em 88, não voltei mais no hospital. O Senhor está
Caso Jacinta . Ilidando de m i m . Veja você, a m i n h a filha apareceu com essa doença m u i t o depois
de mim, mas ela sempre foi m u i t o descrente, vivia chamando o n o m e do cão, não
A avó de Jacinta procura o comunitário do Ifen com a seguinte queixa: agressividade
linha juízo. Eu acho que Deus n ã o p e r d o a os pecadores, por isso a levou tão rápido,
em relação ao irmão e desinteresse pela escola. A adolescente tem 12 anos e está
J
ELA morreu de câncer no útero.
cursando a 2 série do Ensino Fundamental. Devido às freqüentes ausências de
P - C o m o as crianças r e a g i r a m à m o r t e dela?
Jacinta à escola, a avó solicitou u m a avaliação psicológica para que a adolescente
pudesse continuar matriculada. A - O Zezinho chorou m u i t o , m a s a Jacinta não derramou uma lágrima. A mãe
maltratava muito as crianças. Q u a n d o saía e chegava, encontrando a casa desar-
Entrevista psicossocial e anamnese com a avó de Jacinta(A): I umada, batia em todos os dois, e ai de m i m se falasse alguma coisa. E isso sempre
foi assim, até m e s m o q u a n d o o p a i era vivo.
P - Gostaria que a senhora me dissesse o que vem acontecendo com Jacinta.

- 100 - - 101 -
A ' , vi nii is fi ii os c i o i isli i ili ii |li i d 'i ii ii i ii 'i ii i|i ii |ii ni ixlsli M H li ii o,,,l A t isli i ili«|l< i < linli o IH i si 'ivli.i i < ' iiiiiiiilliiiii u i o Insllliili i i li • Psli i ili«|li i

I' A senhora poderia me falar como era o relacionamento do iasai? P K, atualmente, como a senhora sente a aceitação dela pela escola?
A - Eles viveram pouco tempo juntos, porque ele já era casado, linha outrfl A Eu estou muito preocupada, porque Jacinta está faltando m u i t o à escola.
família. Esse era um dos motivos das brigas, minha filha queria que ele largasse I P A senhora poderia me dizer o motivo pelo qual ela está foliando tanto a
outra família. Kle vinha pouco aqui. E morreu em um desastre de automóvel, fie
, mola?
morreu sem registrar as crianças, minha filha ainda tentou recorrer na justiça, mas
A - Porque ela, com todas essas brigas, e o irmão estudam juntos no mesmo
morreu sem saber o resultado. As crianças só estão com o nome da mãe.
iiilégio. Ela pediu à tia para ficar na casa dela. Eu sempre p d i a m i n h a filha que, e

P - Q u a n d o ele morreu? i. a i n que eu morrer, leve a Jacinta para m o r a r com ela, e o Zezinho ficaria m o r a n d o
A - Jacinta tinha 2 anos e Zezinho, 4 anos. Por isso eu acho que não sentiram iqui c o m o tio, porque a minha preocupação é que não quero deixar Jacinta aqui
muito, pois viam pouco o pai. . u m o lio, porque sei que ele não tem cabeça, sempre bebeu muito. Jacinta já veio
P - C o m o era q u a n d o ele vinha ver as crianças? Mi. dizer duas vezes que o tio abriu as calças e ficou mostrando e c h a m a n d o ela, e aí
. la ,.iiu correndo; é por isso que ela tem tanta raiva dele, ela fala q u e só não vai pra
A - Ele trazia as compras. As crianças gostavam de vê-lo chegar trazendo balai
, usa da tia de vez porque não quer me deixar sozinha aqui. Ela é m u i t o amorosa
e doces, brincava com os filhos. O Zezinho é a cara do pai.
i ou ligo, mas tem medo do tio, aí vai pra lá e fica faltando às aulas.
P - A senhora poderia me falar como foi a gravidez de sua filha quando estava
grávida da Jacinta? P - Qual é a posição da senhora em relação a esses comportamentos do tio?
A - Nunca falei com ele, tenho medo, ele pensa que ninguém sabe, mas já avisei
A - Como estava no início ainda, ela e o marido ficaram muito felizes. Isso foi
a minha filha. Eu acho que ele é doente porque bebeu durante muitos anos.
assim quando ficou grávida do Zezinho e da Jacinta também.
P - C o m o é a relação da Jacinta com a tia?
P - A senhora poderia me dizer como foi a reação da mãe ao nascimento da
Jacinta? A - Ela gosta muito da tia, o sonho dela é ir pra lá. Minha filha tem uma

A - Ela gostou muito, era o que queria, pois queria ficar com um casal, um •atuação boa e uma filha de 13 anos que Jacinta gosta e se dá muito bem.
menino e uma menina, e foi o que aconteceu. P - O que a tia pensa sobre ela faltar à escola?

P - A senhora poderia me dizer como é o sono da Jacinta hoje? A - Ela diz que é melhor ela ficar lá, sem apanhar do tio e ficar a t u r a n d o ele, e
que senão ela vai acabar ficando traumatizada. Aí eu deixo.
A - Posso sim, porque d u r m o pouco e sempre vou ao quarto das crianças. Ela
fala muito, às vezes rola de um lado pro outro, já caiu da cama várias vezes e às vezes, P - Se Jacinta entrou na escola com oito anos, e hoje está com 12 anos, ela
a
quando isso acontece, ela vai pro meu quarto dormir comigo. Mas eu sei por que deveria estar na 5 série, poderia me falar sobre isso?
isso acontece. São três quartos, um do tio, o meu que fica no meio e depois o das A - No início ela faltava muito, porque fiquei doente, a mãe ia trabalhar e ela
crianças. Ela d o r m e com o irmão. ficava ajudando. Depois a mãe ficou doente e ela sempre parava de ir à escola, foi
P - E a senhora poderia me dizer o que acontece? reprovada várias vezes.
A - fi porque até hoje as crianças não foram batizadas. P - A mãe foi à escola conversar com as professoras?

P - E o que acontece q u a n d o não se batiza u m a criança? A - Não, nunca foi. Só raramente para fazer a matrícula para o outro ano.

A - As crianças ficam meio perturbadas, porque não tem a proteção do Senhor. P - Q u a n d o Jacinta foi para a escola, qual a reação dela?
E os espíritos ruins ficam perturbando. A - Gostou muito, fez vários amigos.
P - A senhora já escutou o que ela fala q u a n d o está dormindo? P - Ela fazia os deveres em casa?
A - Não, ela fala enrolado. A - Às vezes sim, outras tínhamos que ficar mandando.
P - Q u a n d o Jacinta começou a freqüentar a escola? P - O que a senhora pensa a respeito disso?
A - Tarde, bem tarde. A mãe nunca ligou. Foi para a escola com 8 anos, por isso A - Acho que ela tem preguiça de estudar, vê que ninguém a ajuda em casa,
está tão atrasada. nem o irmão, nem o tio. Eu ajudo no que posso, e também prefere ficar na lia.

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As vi nu is li ii us ci(i i isli i i|i ii ||i i li 'i K )i i )i .| K ilúi ||(;o i .|:,|, .| i, |i ||
x
• A \ r.H i ili ii iii 11 In iii i ,i iv i 'i i ii ii i i i i irli i do li i s t l t u t i i' i' • i 'si' ' ' i ' i( i i ' i

I' - Existe alguma atividade escolar pela qual ela demonstra mais interesse? I' E nessas ocasiões em que não faz o que lhe é pedido?
A - Sim, gosta de desenhar e adora quando tem festa no colégio, ela sempre A - Aí às vezes eu não a deixo brincar.
dança. A tia dela compra a roupa, ela fica muito feliz nessas horas. Esse ano a tia fez
P - E isso ocorre com freqüência?
um bolo de aniversário para sua professora, Jacinta ficou muito feliz.
A - Não, somente quando vejo que ela não quer fazer por preguiça.
P - Como estão as notas da Jacinta esse ano?
P - E como Jacinta reage quando está de castigo?
A - Boas, apesar de faltar. Ela disse que vai passar. Quando tira boa nota fica

contente. A - Na maioria das vezes, senta quieta e vê televisão sem ir brincar, outras vai
pio quarto e fica chorando.
P - A senhora poderia me dizer se Jacinta já demonstrou alguma curiosidade
sobre sexo? P - Jacinta cuida-se sozinha ou a senhora lhe diz o que fazer?

A - Às vezes ele me fala sobre o que alguma de suas colegas fez: beijou um A - Não. Acorda de manhã, escova seus dentes, ela mesma escolhe sua roupa,
garoto, que outra está n a m o r a n d o . Uma vez, quando a mãe era viva, e nesse dia se penteia, suas colegas sempre pedem a ela para fazer penteados, ela gosta; lava seus
estava com um h o m e m no quarto, eu a peguei olhando pelo buraco da fechadura, sapatos, arruma sua cama.
levei ela pro meu quarto e lhe disse que não contaria a sua mãe se me prometesse P - Ela costuma pedir que a senhora lhe compre algo?
não fazer mais. A - Não, q u a n d o pede é geralmente roupa, ela sabe que a pensão que ganho é
P - O que Jacinta costuma fazer q u a n d o chega da escola e tem o tempo livre? pouca, aí ela pede à tia, que compra sempre que pode o que ela pede.
A - Chama suas amigas para brincar. P - Qual a pessoa de família a que Jacinta é mais chegada?
P - E de que costumam brincar? A - A tia e eu.
A - Gostam muito de se pintar, colocam brincos, pulseiras, anéis, fazem P - A senhora poderia me dizer como é um dia em sua casa com Jacinta?
penteados e ficam fingindo que são grandes. A - Q u a n d o é dia de semana, a acordo às seis horas. Ela se veste, toma café, vai
P - Jacinta tem alguma amiga preferida? a escola. Chega, toma banho, almoça, depois me ajuda na casa; quando termina
A - Não. Ela fala que gosta muito da prima. i orre para a rua para brincar. Os deveres só faz quando tem vontade ou eu a p o n h o
para fazer.
P - Quais as brincadeiras de que Jacinta mais gosta?
P - Se u m a fada pudesse realizar três pedidos de sua neta, o que ela pediria?
A - Andar de bicicleta, jogar bola e, às vezes. Q u a n d o era pequena brincava de
casinha, mas ultimamente não muito. A - Morar na casa da tia, saúde para sua avó, roupa, brinquedos e u m a
bicicleta.
P - O que ela mais gosta e menos gosta de fazer?
Sessão livre, no primeiro encontro, a avó fez as apresentações e Jacinta
A - Às vezes ela adora arrumar a casa, outras o tio pode bater mas ela não faz
observou atenta tudo o que sua avó dizia, sem interromper em n e n h u m m o m e n t o .
direito.
Jacinta perguntou, então, o que iríamos fazer. Respondi que ela poderia
P - Jacinta tem preferência por algum brinquedo?
escolher qualquer coisa a fazer. Então, imediatamente levantou-se:
A - Hoje em dia não, também não posso comprar brinquedos. Ela tem muitos
J - Eu tenho u m a coleção de papéis de carta, você quer ver?
papéis de carta, e atualmente anda agarrada com seu álbum, trocando com as
amigas e a prima. Respondi que gostaria. Então, abriu u m a pasta, pegou o álbum e sentou-se ao
P - Jacinta se dá bem com as outras crianças? meu lado e começou a contar a história de cada papel de carta. Os que havia trocado,
com quem trocou e por que trocou. Os que ganhou, os que eram difíceis de achar,
A - Sim. Às vezes fica de mal, mas faz as pazes rapidinho.
os de que ela gostava mais, os que faltavam em cada coleção, quanto custou cada
P - C o m o Jacinta reage àquilo que você m a n d a ela fazer?
papel etc. No total havia 330 papéis, pelos quais demonstrou grande interesse; disse
A - Tudo que m a n d o ela fazer ela faz, só não faz se estiver muito chateada ou que todas as suas amigas tinham um e que gostava muito de trocar papéis de carta
aborrecida com o irmão e o tio. E é muito carinhosa, me abraça, beija. com elas.

- 104 - - 105 -
A%
vi IRLI IS II II es DA I «LI i >LI » |LI I FI N N N I N »I h i|i k || <ISTI N N i. II i ),,, I a P S L C O L I « ih i' In IN o nu si iivlço i i imunlli irli i do Instlluti 111' i PÍLI i ili" |l< i

Aluiu novamente o álbum e pediu para mie eu olhasse um por uni c respon Sessão livre: segundo encontro
desse qual havia gostado mais. Olhei todos e escolhi um, então, pegou novamente o 1

álbum, retirou o papel do plástico e disse: I Bem, Jacinta, gostaria de saber se lhe foi dito o motivo por estar aqui.
I Minha avó falou que é porque eu não gosto da escola e estou faltando muito.
J - Se você gostou desse, então, fica pra você.
I' - E o que você pensa sobre isso?
P - Obrigado. N ã o vai fazer falta na sua coleção?
I - Eu gosto da escola, só que estou agora na casa da minha tia e é longe de
J - Não, eu tenho muitos e também gosto de dar presentes.
onde eu estudo.
P - Então, obrigado. Gostei muito.
P - E em casa, você estuda?
Logo depois, ficou observando uma pasta na qual havia folhas em branco e ) - Às vezes estudo. Minha tia vai me colocar em u m a explicadora para eu não
perguntou a que se destinavam. Respondi que era para desenhar, caso ela quisesse. perder o ano todo.
Perguntou se poderia fazer um desenho, respondi que poderia fazer quantos dc.se
P - O que você mais gosta na escola?
jasse. Levantou, pegou o papel, retirou seu estojo de lápis e começou a desenhai.
Disse que desenharia u m a flor e perguntou se poderia usar moedas para fazer as ) - Eu tenho dois professores, e gosto mais do de Português e Estudos Sociais.
pétalas da flor, porque não queria que ficasse torto. Respondi que poderia fazer da P - O que leva você a gostar desse em especial?
maneira que achasse melhor. Pegou, então, uma caixinha dentro do armário na qual
) - Porque ele é legal, t u d o que ele fala eu entendo.
havia moedas e desenhou as pétalas da flor contornando a moeda com o lápis c, logo
após, pintou o desenho. P - E o outro professor?
I - Esse é chato, fica cobrando o tempo todo, passa muita coisa para fazer em
Q u a n t o ao desenho, perguntei se não gostaria de escrever algo sobre ele, res
i asa, e qualquer coisa chama a atenção.
pondeu que sim, mas que usaria régua para que as palavras não ficassem tortas.
P - Está vendo todos esses materiais sobre esse armário? Você pode utilizar o
Terminou e me entregou perguntando se poderia desenhar um papel de caria
de que ela gostava muito. Abriu o álbum e mostrou o papel. Perguntei por que ela que quiser.
gostava daquele papel em especial; respondeu que gostava de desenhos com rosas e Jacinta, então, levantou-se e olhou o armário. Pegou u m a pilha de jogos e
flores. Pegou, então, u m a folha, colocou em cima do papel de carta e tentou repro-
. olocou em cima da mesa.
duzir o mais parecido possível. Q u a n d o terminou, disse que não usaria régua, não
quis colorir o desenho e disse: A primeira atividade foi com um quebra-cabeça. Perguntou se não estava
faltando peças. Levou quatro minutos para m o n t a r e perguntou se podia desman-
J - Acabei!
cliar e que tinha achado fácil.
Logo depois, disse que não queria desenhar mais. Então, perguntei: Logo após pediu para ver u m a caixa azul na qual havia 18 jogos. Olhou todas
P - Qual a brincadeira de que você mais gosta? as i .irtelas e desistiu, dizendo que não sabia n e n h u m dos jogos, somente o jogo de
J - Eu gosto de brincar de pique, andar de bicicleta e jogar bola com as minhas d.unas.
colegas. Pediu para olhar as outras caixas de jogos que estavam sobre o armário.
P - O que você menos gosta de fazer? I si olheu, então, um jogo chamado "Loto Loteria", o qual consiste em um jogo de
J - Às vezes eu não gosto de arrumar a casa, mas eu sei que tenho que ajudar a associação em que a criança escolhe a palavra que o desenho da carteia mostra,
minha avó, porque ela está doente. ii >locando em seu lugar correspondente. Terminou em dois minutos. Leu em
P - E como você se sente q u a n d o isso acontece? seguida as palavras que foram formadas: vaca, boca, sino, luva, bule, bola, gato, bolo,
\ ela, cama, foca, pipa, olho, copo, casa, pato, faca, sapo, bala.
J - No começo eu fico com raiva, mas sei que tenho que ajudar.
A seguir escolheu o jogo que combina o h o m e m e suas profissões. Nesse jogo
P - Se u m a fada viesse até você e pudesse realizar três pedidos, três desejos .1 criança deve fazer relações entre as profissões e seus instrumentos de trabalho;
seus. O que você pediria?
• .ida figura só pode ser encaixada naquela que lhe é correspondente, no total de 40
J - Uma bicicleta, u m a Barbie e uma Chuquinha. figuras. Levou 10 minutos, disse que acabara e perguntou se estava certo. Todas

- 106 - - 107 -
A : ; várias ía< o s d a psli o l o (onomnnolòiji xl^lorn lol
i dlfi >ra i h o m i H I (ORQ.) A i ISLI O L O Q L A I TU ih 111 ii i '.i 'I vii. M U N L T Á R L O DO INSTITUTO D© I 'SL< i IL<»ii' I

estavam certas. Recolocou as peças, levantou, olhou durante um tempo o armário p hnptista refere se a um diagnóstico psicológico de dificuldade de aprendi
perguntou se os lápis de cera e as tintas eram para ser usadas. Respondi que sim. I'< i II , realizado em um menino que residia na Mangueira , no Rio de I A M N O , 1

guntou se podia desenhar, e que não queria mais jogar porque os jogos eram l.uci»
i| L A U D O para a "cegueira" do psicólogo que elaborou o laudo. ESTE, Q U E
demais e eram para crianças.
|| iguosliea a dificuldade verbal e numérica da criança, certa vez é abordado P E L O
Levou para a mesa: caixa com lápis de cor, caixa de hidrocor, a caixa com l a p a rtli N I N O em um semáforo, e ele argumenta acerca do produto que tinha em mãos, a
de cera, todas as latinhas que tinham lápis e canetas, todas as tintas guache, ficandi I I N I de vendê-lo. Realizada a venda, faz o troco em u m cálculo rápido, já que o sinal

apenas um pequeno espaço para poder desenhar; tomava cuidado para não dei • lava prestes a abrir para o motorista.
rubar as coisas que estavam na mesa, e desenhava desequilibrada. |at inta também poderia ser diagnosticada como agressiva e com dificuldades
Mi aprender, caso tivesse sido avaliada pelo olhar psicológico investido da indile
Começou a desenhar, parou de repente, olhou para mim, e disse:
11 IH A e por interpretações padronizadas. Seu contexto seria ignorado e teria sido
J - Outras pessoas vão ver esse desenho ou é só você? • LI i . R I vada como um eu encapsulado.
P - Possivelmente outras pessoas poderão vê-lo. 1'ode-se constatar, a partir do relato da avó e de Jacinta, que não há evidências
ili hostilidade n e m desinteresse com relação à escola. A baixa freqüência às aulas é
Então, virou a folha e disse:
In iinstancial, bem como as atitudes agressivas. Jacinta aprende com facilidade as
J - Então eu vou começar de novo do outro lado porque está feio. I nelas que lhe são dirigidas, bem como demonstra interesse e motivação em realizá-
P - Você não quer que fique feio? 11 Relaciona-se com a psicóloga mostrando-se solícita e gentil.
J - Eu não. lacinta e a avó, já que o restante da família não aceitou o convite de comparecer
AI IS encontros, continuaram a comparecer aos encontros com a psicóloga. A avó
Recomeçou o desenho do outro lado da folha, usando tinta guache. Desenhou passou a entender as faltas às aulas, a reação de Jacinta ao tio e ao irmão e a se em-
uma nuvem e disse:
penhar mais para que as relações se modificassem no contexto familiar.
I - Olha só a "borrocação" que o pincel fez: não tem importância, né? lacinta, não mais se culpando pelas situações familiares, pôde deixar a avó em
P - O que você acha que deve fazer? I ASA e se empenhar mais em suas atividades. Tudo passa a acontecer quando a
II nação pode ser pensada e novos posicionamentos se tornam possíveis.
) - Acho que vou continuar com esse mesmo.

Silêncio. Jacinta continuou desenhando. < aso Júnior

J - A borracha está sujando a folha. i lm segundo caso atendido na clínica social revela também como os atravessamen-
TOS do m u n d o m o d e r n o estão presentes nos consultórios de psicologia. Júnior, 15
P - Nosso tempo está quase terminando, ainda temos 10 minutos.
. M O S , vem ao serviço comunitário do Ifen a pedido do pai, que se preocupa com o
Terminou, então, de colorir, entregou-me o desenho. Levantou e guardou tudo I omportamento agitado do adolescente em casa e na escola, que vem prejudicando
o que estava em cima da mesa. Parou, em seguida, de frente para o armário, pegou S E U rendimento escolar. Temia que os freqüentes convites para comparecer à escola
u m a bailarina e disse: pudessem resultar no afastamento do adolescente da instituição escolar.
J - Bonita!...

Recolocou-a em seu lugar e pegou um fogão de madeira dizendo:

J - Que legal, ainda não tinha visto de madeira.

Saímos, Jacinta puxou a porta, trancou e entregou-me a chave. i ARTIGO INTITULADO " O M E N I N O Q U E QUANTO M A I S FALAVA M A I S S U M I A S E M DEIXAR VESTÍGIOS"; CHEGOU À S M I N H A S

M Ã O S N U M A CÓPIA S E M AS REFERÊNCIAS DA PUBLICAÇÃO. O AUTOR É L U I S A N T Ô N I O BAPTISTA.

I. M A N G U E I R A É U M A FAVELA LOCALIZADA NA Z O N A NORTE DO R I O DE JANEIRO.

- 1 0 8 - - 109 -
A', vali' IS li li i •'. i li I I isli i ili » |U I li 'I li H I li •! li ili ii |H i i i iXlstl 'I li li ll |Oni i A l iSli < ll< «|l( i i IIIil< 11 i H ' '•' 'ivli 11 i i >iIH ii ll' iili i i li i li isllli lli iili' IMi olofjl'1

Entrevista com o pai pai, o adolescente não tem nina postura submissa, só faz o que quer e ai ha q u e é "o
dono da verdade" (sic). O pai afirma ainda que Júnior tem um tio bastante violento,
N.i entrevista com o pai, este relata que júnior demonstra grande dificuldade para
que já foi preso por roubo. Relata um episódio, ocorrido há aproximadamente dois
se concentrar em algo que não seja do seu interesse, além de se apresentar de forma
meses, em que o menino discutiu com sua tia, começou a xingar e deu um som na
agressiva. Tais características aparecem dentro de casa e na escola. O pai de Júnior
geladeira. Seu pai, nessa ocasião, o agrediu fisicamente, embora não tenha o hábito
afirma ter grande preocupação com seu filho.
de agredir fisicamente seus filhos. Júnior ficou revoltado, ameaçou ir para a casa de
Segundo o relato do pai, a mãe de Júnior engravidou no fim do relaciona sua mãe. Porém, seu pai não permitiu que fosse: "Ele não vai do jeito epie ele quer,
mento com ele, o que resultou em inúmeros conflitos na relação. A mãe foi expulsa vai quando eu achar que tem que ir" (sic). O adolescente, segundo o pai, não respeita
de casa por ter engravidado e foi morar com o pai de Júnior e a avó paterna, porém, mais ninguém, somente a ele, pois tenta lhe mostrar quem dá as ordens, tenta lhe
continuaram relacionando-se conjugalmente. O pai se responsabiliza pela gravidez mostrar sua autoridade. O pai reconhece que cobra muito de Júnior, que o coloca
ter sido "tumultuada" e acredita que isto afetou o c o m p o r t a m e n t o do menino. sob grande pressão, pois quer que ele seja saudável, que tenha objetivos e uma
O pai de Júnior diz ter acompanhado o desenvolvimento dele e que na infância inserção social perfeita.
não apresentara problemas. Os problemas começaram com o ingresso de Júnior na
escola, quando estava aproximadamente com seis anos. A escola apontava para a Entrevista com a mãe
necessidade de um a c o m p a n h a m e n t o para Júnior, pois este não conseguia trabalhar
em grupo; "se a brincadeira não fosse por conta dele, ele não queria que tivesse a Na entrevista com a mãe, é apresentada a seguinte queixa: Júnior revela dificuldade
brincadeira" (sic). Segundo o pai, atualmente, Júnior não consegue concentrar-se e de concentração nas atividades escolares e também de relacionamento na escola:
faltam-lhe objetivos de vida. Preocupa-se por morarem em um lugar "com tanto P - Qual o motivo que levou você a procurar um psicólogo para Júnior?
acesso a coisas negativas" (sic); Júnior não revela n e n h u m projeto de futuro, diz: "Ele M - Bom, é... meu filho estava na escola. E teve esse encaminhamento para vir
é u m a espoleta a detonar a qualquer m o m e n t o " {sic), referindo ao medo de que para cá. Ele é u m a criança que não consegue se concentrar na escola. Também ele
Júnior tenha acesso a drogas e ao crime. não consegue, é... como é que eu falo, é se dar com as outras pessoas. Então o pai
O pai relata que Júnior já foi transferido de turma e só não foi expulso porque dele me pediu para eu vir, até mesmo eu não queria. Porque meu filho é separado,
1
tem um pai presente no colégio. Júnior freqüenta a 6 série. Da última vez que o a
mora com o pai. Mora com o pai e eu m o r o sozinha, então eu moro na Mangueira ,
chamaram, foi no primeiro semestre, quando Júnior roubou um chocolate de um ele tem muito medo do m e u filho um dia se tornar..., porque você sabe que
colega. No ano passado, houve u m a situação em que Júnior tentou agarrar uma adolescente não pode estar só, né ? Então ele está assim dividido, ele fica dividido, e
menina para beijá-la. eu acho que isso mexe muito na cabeça dele. Porque vivendo em duas famílias.

Júnior sempre m o r o u na casa da avó paterna e, no final de ano, passou a residir P - Q u e m pediu para ele vir aqui foi o pai?
com sua mãe. O pai diz que, na casa da mãe, nada falta a Júnior, seus pertences M - Foi o pai através da escola né? Acho que esse papel aqui é da escola e o pai
permanecem desorganizados e ele faz o que quer. Na casa da avó, Júnior "é mais incentivou porque... fsso eu não sei, não tenho certeza, mas eu vou tornar a ligar
cobrado, tem limites" (sic): "Ele entra e tem que entender que a casa é de todo para ele, mas acho que isso veio da escola.Vim aqui para tentar ajudar ele, para
m u n d o " (sic). O pai considera isso "confuso" para o adolescente, â medida que este tentar melhorar esse jeito dele. Júnior está com o pai, só que ele já está uns f 5 dias
tem "uma casa em que tem tudo e outra na qual divide as coisas, onde t u d o é i omigo, porque a avó dele está doente. O pai não mora com a mãe dele, é assim: eu
coletivo" (sic). moro só, o pai mora em outra casa. E a avó mora em outra casa com ele. Mora com
Júnior tem, por parte de pai, um irmão da mesma idade, com o qual prati- a avó. Não mora com o pai. O pai somente dá orientação, por telefone, vai à noite
camente cresceu junto. Segundo seu pai, Júnior às vezes se perturbava e batia em seu quando vem do trabalho.
irmão, que não podia retribuir, mas atualmente este também se impõe, apesar de ser P - Você está dizendo que ele está desligado.
mais calmo. M - Olha só. Comigo ele tem o comportamento bom, mas, com a família do
Júnior, quando se sente agredido, retribui na mesma hora e, quando tem um pai dele, ele não tem o comportamento bom, ele é agressivo, ele não entra em
problema, agride as pessoas com palavras e às vezes até fisicamente. Segundo seu acordo, ele... Sabe? Não está nem aí. Na escola ele é u m a criança que não tem
i oncentração, a professora fala com ele, parece que está viajando.

- 110 - - 1 1 1 -
A s vi in. is |i i, i», , |, i i , ,|, „ ,|,, [,., „ „, „ „ „ ,|, „ „ „ |, ,|
11iii.ihi ih.inisor
kl ihii iOni i A i isli i ili ii |li 11 linli 11 I H i si >ivli,111 i iiiiiiiilli'iili > (li i iiiüilliih 11 iii m i ' iii ii ih

I' Ble não presta atenção. Mas eu ac ho que o filho, na minha opinião, eu acho que o filho pre< isa ficai a
i iia. ou com o pai, porque eu acho que isso mexe muito na cabeça da criança. Porqui
M Nao presta atenção. Na medida, conforme ele não presta atenção, .u.ilu
. li . devem pensar assim, eu não sei por que ele não se abre, criança geralmente n a o
i.unhem nem fazendo os deveres direito né?
lala Ele diz para mim que quer morar comigo, mas eu não sei qual a maneira que ele
I' - V, as notas dele?
iai querer me obedecer, aquelas coisas todas, porque eu acho que ele deve pensai
a
M - São péssimas, está repetindo de ano. Está repetindo a 6 série, porque ele .r.sim: "A minha mãe mora só, o m e u pai m o r a em outra casa e eu fico aqui com a

nao teve melhora n e n h u m a desde o começo do ano, porque ele estava comigo, al lia vó". No fundo ele não deve concordar com isso. Eu estive conversando com o
repetiu. Aí o pai falou: "Ele vai ficar comigo porque eu dou em cima dele, ele vai lei pui dele também. E cheguei a u m a conclusão que não estava certo. E o medo do pai
que estudar". Está lá com o pai e vai repetir t a m b é m . Então o problema não era eu
di I' e que eu trabalho o dia todo e que ele fica em casa só e pode... as outras pessoas,
() problema era ele, entendeu, porque ele vai à escola, ele sai de casa arrumado, tudo
os outros colegas influenciarem ele, e ele se envolver com drogas.
direitinho. Vai até a escola. Já fui saber na escola o que estava acontecendo, ano
P - E você tem m e d o disso também?
passado fui direto, depois eu fiquei m u i t o chateada porque só tinha reclamação.
Então eu falei que agora era a vez do pai, eu já tinha vergonha de ir na escola. M - Tenho m e d o também, mas ele já tem 15 anos, né? Estou sempre con
versando com ele, sempre orientando ele e tem que dar um voto de confiança,
P - Por que só reclamavam dele?
porque a gente nunca pode. É... prender demais uma pessoa, n e m t a m b é m soltar.
M - Só reclamavam. M a s eu acho o que faz u m a pessoa se estruturar é o amor. Você tem que ter amor
P - E o que reclamavam dele? por alguém, né? Tem que dar carinho, eu sou mãe que dou carinho, converso muito,
M - Que ele não tinha concentração, que ele faltava à aula. E às vezes não laço a comida nas horas certas, roupa lavada, casa, conforto, que isso tudo faz parte
estava na escola, na sala de aula, e quando estava na sala de aula se desligava, ficava lambem.
conversando com o outro, n ã o prestava atenção. Ele dizia para m i m que não faltava P — Ele quer continuar m o r a n d o com você?
à aula. Mas as professoras diziam que ele faltava, não ficava fora do colégio, ficava ali M - Ele quer continuar comigo.
no pátio, teve u m a época que ele foi para o Shopping da Tijuca. Falava que ia para
P - E o que é que está impedindo ele de continuar com você?
a escola mas ia andar no shopping.
M - O pai dele.
P - Agora você falou para m i m que ele não se dá bem com os amigos, como
P - O pai dele não quer?
assim? Ele fica sozinho, ele fica com os amigos? C o m o é esta relação?
M - Não quer, por causa desses problemas que te disse aqui. E ele, comigo,
M - Onde?
dorme a noite toda, ele almoça, ele janta, ele lancha, ele pesca, eu o ensinei a deixar
P - Na escola.
bilhete n u m papel. Eu vou pescar, então você diz: "Eu estou na praia pescando"
M - Na escola, agora eu n e m sei, sabia? Crescendo, agora ele já está se então q u a n d o eu chegar do trabalho eu sei onde você está. Ele a r r u m a a casa para
e n t u r m a n d o melhor. Essa dificuldade, tanto dentro de casa como na escola... eu não mim... Eu falo na hora, sabe? Você comeu alguma coisa, lava, você estende a toalha,
voltei esse ano na escola, estou até para voltar, para depois eu falar para ele e para a lenta ser organizado. Porque tinha só atenção para ele. Porque o problema do m e u
diretora que eu estou procurando psicólogo, estou fazendo acompanhamento. filho também, eu acredito, porque ele gosta muito de ser só ele, ele gosta de chamar
P - E você acha então que agora o Júnior está se relacionando melhor com os atenção. Ele gosta de tudo só ele ali presente. O pai dele ligou para a minha casa
amigos? semana passada e falou assim: "Ah! Preciso conversar com você". Aí eu fui até lá.
Q u a n d o eu cheguei lá, ele falou que chamou atenção do meu filho, e meu filho
M - Está se relacionando muito melhor, só que eu acho, eu acho, que ele co-
agrediu ele, partiu para cima dele e ele foi obrigado a bater nele, porque ele tinha
migo... eu não sei, por que agora eu comecei a trabalhar todos os dias, antes eu só
passado dos limites. Aí falei: "Até aí tudo bem, você corrigiu ele, porque ele passou
t rabalhava de segunda a quinta, agora estou de segunda a sexta, e só chego em casa
cios limites, ele realmente passou". Ele falou que ele vai embora daqui, se n ã o for para
a noite. Eu não sei como vai ser esse convívio dele sozinho dentro de casa. Porque
sua casa, ele vai embora para o m u n d o . Aí, eu conversando com ele, perguntei se ele
ele está comigo porque a avó está doente. Mas quando ele estava na casa da avó, eles
não achava melhor o Júnior voltar para as minhas mãos, porque eu acho que o
sabem que ele está por ali, né? Estão sempre vigiando, têm aqueles cuidados todos.
problema do meu filho... ele... eu não sei. Eu acredito que ele tem que ficar comigo.

-112- -11-3-
A ; ; VI'ILLI IS I< I< I •:, I LI I | >SLI I ILI « |L< I LI 'I H H I K M H >|i « |K :< > I IXLSLI IL U LI IL I , lilc .K i L I N I M - I O F L A M ) • • ! ( M I I |(')I<I ) A L ISLI I ILI « |L< I I III IL< O M I S O I V L I , O I I I I I I I I N L L I IILI I < I O INSLLLILLI N L N 1'SLI I ILI » |LI I

Porque, olha só, pára para pensar, eu falando para ele: Você mora m u i outra pessoa, P Ele .u ha que é dispensável, nao prec I S A ir A escola?
eu moro só, e ele fica aqui com a sua mãe, você acha isso certo? Acho que cada filho M F, mas acho que quase NAO vem dever de CASA, e mais Indo na escola.
tem que ficar com seus pais. Seja ele o problema que for, seja a dificuldade que fofi
I' Ah! Os deveres são mais lá.
Se você morasse com a sua mãe dentro da mesma casa, aí tudo bem. Mas você nao
mora, ele deve se perguntar: "O m e u pai está de um lado, a minha mãe está de ou11 < i, M - Fie tem problema de relacionamento na escola.
e eu estou aqui na casa da minha avó". Q u a n d o fiquei grávida, meu pai não aceitou, I' - E qual é esse problema?
eu fiquei muito nervosa porque eu era jovem, não sabia o que iria fazer, estava
M - Eu não sei se é com os professores ou alunos. Ele não tem concentração,
estudando, então eu tive que sair de casa e ir morar na casa dessa avó dele. Então eu
L O I isso que a professora me falou: seu filho não tem concentração na sala de aula, A
tive uma gravidez, que eu acredito que a gravidez você passa tudo que poderia.
ERIILE está falando, parece que ele está no outro m u n d o .
Então, se você teve u m a gravidez tranqüila, vai nascer um bebê tranqüilo. É que nem
você criar uma criança n u m ambiente tranqüilo, a criança vai ser u m a criança P - E ele? Ele fala o que para você, q u a n d o você conversa com ele sobre esses
i ranqüila. Não vai? Fiquei m o r a n d o com minha sogra, e agora, ele está assim, lá e cá, problemas?
Ele está mais com ela do que comigo. Ele ficou mais lá, porque os cinco anos da V I D A M - Nem perguntei.
dele foram lá dentro. E eu falei para minha sogra que, o t e m p o que eu fosse morai
P - Você conversou com ele sobre isso?
só, eu não iria arrancar meu filho das mãos dela, porque eu não sou u m a pessoa
ingrata. Porque é muito difícil u m a pessoa criada naquele convívio. E de repente: M - Não. Acho que a última vez ele falou que para ele está bom, que ele não
"Olha, agora eu comprei u m a casa, vou pegar o meu filho e ele vai morar comigo". L A / nada, está tudo bem.
Não sou assim. Eu teria que tirá-lo aos pouquinhos e foi o que eu fui fazendo, sabe? P - Ele acha que está tudo bem na escola? Que não tem problema algum?
Ia passar os finais de semana, ficava 15 dias e deixava e foi indo. Só que, agora que
M - Ele tem dificuldade para aprender, para estudar, né? Mas eu pergunto
ficou maiorzinho, ele agora quer ficar comigo.
, orno foi a escola hoje? Foi bem. C o m o é que foi a escola hoje? Foi bem. Você foi à
P - Ele então agora lhe diz que quer ficar com você? fs< ola hoje? Fui.
M - Quer ficar comigo. P - E q u a n d o ele repetiu de ano, o que ele falou para você. "Ah! Mãe, não
P - E ele diz isso para o pai? entendi." Q u a n d o o pai quis pegar ele de volta, porque tinha repetido de ano, no ano
anterior, O que você falou para ele? E o que ele falou para você?
M - Diz isso para o pai, o pai diz que não, é u m a confusão que às vezes eu não
gosto n e m de falar muito para não confundir a cabeça da criança. M - Ele sente, assim, dificuldade. Ele não tem um interesse de estudar, sabe,
assim, de chegar, de fazer as tarefas. E eu já presenciei várias reuniões na escola. Eu
P - Então ele diz para o pai que quer ficar com você e o pai não aceita. E a avó?
O que a avó fala? AI ho que ele é assim... acho, porque ele é criado em duas famílias. Eu acho que toda
I I iança que é mandada por várias pessoas é criança desparafusada, eu acho.
M - Ela não fala nada. Ela não fala nada até mesmo porque ela está muito
doente. Ele diz para m i m (o pai do m e u filho), que o meu filho é a paixão da mãe P - E o pai, você acha que o pai fica em cima dele em relação ao estudo?
dele, que a mãe dele fica muito preocupada q u a n d o ele não está lá. Mas eu não M - Fica. Cobra, liga para a escola, liga para a diretora, pergunta se ele foi para
acredito não. Eu acredito que, se ele estiver comigo, tudo bem que ela vá se A escola, se não foi, vai até a escola, pega o boletim, tira xerox, bota na parede da casa,
preocupar, porque ela é avó. Mas ela está muito adoentada, não está com estrutura, I obra mesmo. Até que as notas dele são boas.
sabe, para tomar conta de criança.
P - E você trabalha o dia inteiro, volta somente à noite?
P - E o problema do colégio dele, você então não vê esse problema, ele ser M - Somente à noite. Mas, aí, eu acho, que eu não sei... eu falei para ele que
desligado. E falou para você que não é nada disso. Somente é assim no colégio e com I sse ano, a gente podia, ele podia ficar comigo para gente ver o desempenho dele na
a avó.
escola, que de repente ele passa bem na escola, essas confusões todas, né? Ele sai da
M - É . Acho que comigo, porque ele d o r m e bem, come, vai pescar, fica dentro minha casa para a escola e a gente vê, na metade do ano se ele não tiver n e n h u m a
de casa. Esse negócio de escola para ele... Ah! Isso é muito chato. melhoria, ele volta lá para casa dele de novo, para a casa da avó.

- 115 -
AL, VFLLLI L\ LI LI OS (1(1 I LÜLI (ILI )C |II I LI I| II I| I II I| II i|i ,I | | O O I IXLSTL 'I LI LI LL ,,,Mii |i )i. i i A I ISH I * X |LI I I LLIIL' 11 IH ' SI MVLI 111 I I I I I I I I I L L Ú I L I I I LI I LIISLLLIILI 11 L I ' I M I ' ILI»|LI I

I' I. ele concordou? I LI Mas EU acredito que seja O problema LODO... essa separação que EU ADIO QUE

M - Ainda não conversei isso com ele, ainda vou conversai. i h , SE muito NA cabeça da criança. O que e um psicólogo? É lipo U N I medico?
P - Ainda vai conversar?... Mas você disse para mim que pediu e ele nau
concorda. Ele acha que tem que ficar... / til revista com a diretora da escola

M - Ele falou que vai pensar nisso. Aí eu comprei um celular, né? Para ele de \ diretora da escola em que Júnior estuda há três anos, desde a 3' série, pois está
vez em quando ter um contato. Para o filho também não sentir que está largado. A , ih . A N D O neste m o m e n t o a & série do Ensino Fundamental, disse que S E U aprovei
qualquer hora pode ligar. Aí ele conversa com o filho, marca uma pescaria, m a u a de lamento é regular, não apresentando dificuldade específica no que diz respeito a
sair, marca alguma coisa para não ficar: "Ah! Meu pai me abandonou". Na cabeçj I P I I ndizagem, embora venha faltando excessivamente às aulas.

dele, né? Eu já tive essa conversa quando ele me chamou, porque eu acho, eu lalei kelaciona-se com facilidade com seus colegas, porém não tem n e n h u m amigo
para ele: "O mais certo que você tem que fazer, que eu acho, é esse menino vir pai a I, I O . Fm função de sua indisciplina, foi trocado de turma três vezes, não apresen-
as minhas mãos. E depois a gente vai ver como vai ficar". tando dificuldade em se entrosar com os novos colegas.
E - E ele já está com você há quanto tempo? A diretora relata que Júnior apresenta comportamento agitado, sempre brin-
M - Já está comigo há mais de 15 dias. Está ficando sozinho, eu deixo o almoço . ANDO O U " a r r u m a n d o confusão" (sic) na sala. Aponta para a dificuldade do adoles-
pronto, ele esquenta, ele come. O lanche da m a n h ã geralmente eu dou para ele. E EM aceitar regras e limites. Diz que "ele conhece muito bem os seus direitos,
Q u a n d o eu chego à noite, dou a janta, se tiver um biscoito, ele vai lá mesmo e come M A S nao quer saber dos deveres" (sic).
Ele toma banho, se arruma todo, se emperequeta todo, arruma a casa. Ao ser chamado a atenção, mente, nega ou "fica com cara de sonso" (sic). Dian-
P - E com você, como ele se comporta? II .1, alguma autoridade (diretora ou professora), mostra-se educado, não é agressi-
M - Não. Ele não é agressivo. Já teve u m a fase assim de querer, mas eu também. O I , ale se desculpa às vezes. No entanto, demora a assumir seu erro, mesmo diante
Opa! Vamos parando por aí. DE icsiemunhas ou provas; na ocasião em que fugiu da escola pulando o muro ou
quando roubou o estojo de um colega, negou terminantemente no início e só depois
P - E com a avó dele?
, ONLESSOLI" (sic).
M - É. Ele responde para ela também. Responde para ela. Eu fiquei noiva
A diretora reafirma a disponibilidade do pai em querer ajudar a resolver os
semana passada. Eu vou me casar, quer dizer, eu vou levar mais u m a pessoa para
pi i iblemas do filho, atendendo sempre que solicitado a comparecer à escola, ou mes-
minha casa. Já conversei com ele. Espero que ele também não venha atrapalhar.
MO por conta própria. Diz ainda que o pai acredita que Júnior nunca aceitou a
P - E o que ele falou disso?
separação dos pais. Júnior tem um irmão, do segundo casamento do pai, quase da
M - Ele falou que para ele tudo bem. Agora fiquei noiva. Então quer dizer, ele NU SINA idade e que estuda na mesma escola. O pai atualmente está casado, mas não
fala bem. Ele pescou uns peixes. Ainda falou assim: "Convida ele para comer um mais com a mãe desse irmão. A diretora t a m b é m comentou que a mãe "não tem
peixe". Ele falou por telefone: "Ah! vem cá comer um peixe com a gente". Para v o c | pulso" (sic).
ver que ele não é uma pessoa que não se adapta. Eu nunca procurei um psicólogo,
A diretora considera-o um rapaz "estranho" (sic), pois, apesar de estar acima
sabe por quê? Para minha família, ninguém precisa de psicólogo. Porque eu acho
.LA média dos outros alunos da escola em termos financeiros e intelectuais, não
que a gente tem que aceitar os problemas da vida, tentar superá-los.
apresenta um rendimento correspondente à sua capacidade.
P - Você não o traria aqui?
M - É. Eu fiquei pensando com Deus se isso seria u m a boa solução para ele. Ai Helatórío da Sessão Livre
lalei: "Mas o problema é que não é você que tem que ir para o psicólogo. O problema
l lo início da sessão, Júnior se mostra lacônico, respondendo monossilabicamente ao
é ele que está precisando cie um psicólogo". Então isso ficou o tempo todo na minha
que lhe é perguntado. Diz que seus pais haviam conversado com ele sobre a psico-
cabeça. Então eu estou aqui para o bem dele. Para o bem do meu filho. Eu, graças a
lerapia, mas não sabia o motivo de estar ali. Não concorda que isso possa melhorá-
Deus, tenho um equilíbrio bom, moro só, tive muitas dificuldades, constituí uma
lo EM n e n h u m aspecto e que essa idéia é "coisa do pai dele". Não demonstra interesse
casa, mas vivo minha vida n u m a tranqüilidade, nos céus, agora o problema todo e

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AS Vi lili I'. li ll I VI (111 I isll i ili ii |li I h 'I li H I H 'I ll lll'll |li l i i ixlsll 'I ll h ll i
Apsl nica no serviço comunitário do institui Pá Ol

de lalar sobre si mesmo, apresentando "tiques" (olha sempre paia o seu Lulu
esquerdo) quando o assunto é abordado.
(lonclusão
No decorrer da sessão, relatou morar um pouco na casa do pai e um pouco na I ni ambos os casos, a continuidade desses adolescentes na escola que freqüentavam
( a s a da mãe, mas que prefere ficar com a mãe. Diz que tem essa preferência porque estava condicionada ao parecer psicológico. Dessa forma, parecia q u e e s s e s alunos
na (asa de seu pai m o r a m muitas pessoas da família dele, e com sua mãe são só eles "desajustados" precisariam de um especialista que os adequasse aos padrões de
dois. (ionla que se relaciona b e m com seus pais, assim como com seus amigos dl normalidade. Padrões determinados pela metodologia científica e adotados p e l a
escola. Afirma ser agressivo apenas quando outra pessoa age assim com ele e diz que s o i iedade, mais especificamente, pela sua característica de "ordem e progresso". Se
o faz para se defender. a s s i m não fosse, ocorreria o descarte de alunos que não correspondem às e x p i e ta

I hirante a sessão, foram realizados quatro jogos (dominó, jogo-da-velha, forca uvas desenvolvimentistas. O aluno que não se constitui em recurso disponível ao
e dama). Ao longo da execução das tarefas, Júnior se mostrou bastante concentrado I I escimento d e u m a nação, descarta-se, exclui-se.
e atento, apresentando energia vital, entusiasmo, iniciativa, capacidade de planeja* O diferente, por não corresponder ao padrão de aluno com potencial, é rotu
mento, criatividade e pensamento lógico. lado como desinteressado e agressivo, entre outros adjetivos, para ser encaminhado
Enquanto se saía vitorioso nos jogos, não apresentava "tiques"; porém, quando para "conserto" e, se este não for possível, é colocado à margem.
se encontrava em situação de angústia, como q u a n d o não sabia algum detalhe do C o m essas exposições, o Ifen demonstra o c u m p r i m e n t o de seu compromisso
jogo que podia fazê-lo perder, os "tiques" voltavam a aparecer. com o social. Por meio de sua clínica, vem colaborando com projetos de cunho
Durante os jogos, observou-se que Júnior se utilizava de todos os recursos de social em Psicologia e prestigiando-os.
que dispunha para ganhar. Tentava vencer os obstáculos, esforçando-se para atingir
o sucesso.
Reagiu de forma tranqüila tanto q u a n d o ganhou como quando perdeu nos Keferências bibliográficas
jogos, apresentando apenas em determinada situação u m a certa irritabilidade
quando percebeu que perderia u m a partida de dama. Baptista, L. A. A cidade dos sábios. São Paulo: Summus, 1999.
Durante toda a sessão, mesmo com o vínculo estabelecido com a estagiária e . A fábrica de interiores. Niterói: EduFF, 2000.
apesar de se mostrar mais solto e relaxado, continuava não apresentando interesse
11EIDEGGER, M., O Ser e o Tempo, Petrópolis: Ed. Vozes, 1998.
na auto-revelação. Sempre que lhe era perguntado algo de sua vida, fosse da sua
família, da escola ou da sua namorada, respondia com poucas palavras, não per-
mitindo que o assunto se estendesse.
Ao final da sessão, Júnior mostrou-se solícito para guardar os objetos utili-
zados e interessado em saber q u a n d o teria que voltar.
Pode-se perceber como o contexto de vida de Júnior favorece a confusão em
que o adolescente se encontra. Não se trata de um eu agressivo, mas de alguém que
reage à confusão em que se encontra. O rótulo de desinteressado consiste em algo
perigoso, já que, em muitas situações, o interesse de Júnior se faz presente.
Júnior, sua mãe e seu pai foram convidados a comparecer aos encontros com a
psicóloga e logo entenderam a necessidade de estabelecer uma comunicação mais
clara entre eles e também de decidir com o adolescente o destino de sua vida.

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Poesia

c ^ e m b r a n ç a s da superfície
André Roberto Ribeiro Torres

l'arece que a distância faz com que nos lembremos melhor das coisas.
() nào-encontrar dá mais nitidez à memória.
I Ima lembrança remota, um fato sem muita importância...
I isso que fica dos contatos humanos.

li lentamos ser sempre e cada vez mais profundos para sermos inesquecíveis...
I edo engano.
i) superficial é parte da profundidade.

A cor da água que vemos é proporcionada pela luz do sol e o fundo do lago ou do mar
Ii nossa profundeza em relação com o m u n d o que cria nossa superfície.
A superfície não é apenas superficial!...
li é das superfícies de profundidade reflexa que nos lembramos
I >a singela grandeza de cada u m .
Capítulo

sicología no contexto do
trabalho: um enfoque
fenomenológico-existencial
Sylvia Mara Pires de Freitas

Introdução
No Brasil, a Psicologia no contexto do trabalho desenvolveu-se no bojo do sistema
capitalista. Criada para atender as demandas do sistema produtivo, essa subárea da
Psicologia apresenta-se hoje, basicamente, constituída de três "faces": a Psicologia
Industrial, a Psicologia Organizacional e a Psicologia do Trabalho. Por terem sido
produzidas cada u m a delas em momentos históricos distintos, podemos também
considerá-las como "fases" dessa subárea.
Essas três fases/faces apresentam concepções próprias sobre a relação ser h u -
mano-trabalho. Cada uma, de acordo com sua criação, foi ampliando as formas
anteriores de compreensão dessa relação. No entanto, mesmo tendo ampliado e
enriquecido a subárea da Psicologia no contexto do trabalho com novas concepções
que se opõem à idéia da relação causa/eleito, encontramos u m a carência de traba-
lhos que direcionam seus estudos em busca da compreensão de como o ser h u m a n o
significa sua existência no m u n d o do trabalho.
O conceito de existência aqui é fundamentado no pensamento sartreano de
que nada existe antes do ser h u m a n o , não há uma finalidade prévia que possa
justificar sua natureza e/ou seu destino. Portanto, o ser h u m a n o simplesmente existe
e sua essência será aquilo que ele fizer de si mesmo, ou seja, o que ele se quiser. Sendo
A ' , VI MI II II II 91 DA I IILI I ILI II |LI 11« •! II II I II •! II III II III I I I IXISTI 'I II LI II I M , I i|i K |II I I II I I I II ILI IXL( I ( L O I N LL II III lo I LI N I 'I IH II |I LI • LI 'I LI IL I H 'I LI ILI II |LI '

assim, o ser h u m a n o é livre para criar se e criar o m u n d o em que vive, inclusive O ampliação desta para a fase da Psicologia Organizacional e a criação poste la
m u n d o do trabalho. Psicologia do Trabalho, que trouxe uma nova proposta de compreensão da relação
Podemos supor, talvez, que o tema da liberdade humana, como fundamento ser humano-trabalho.
do existencialismo, seja um tanto melindroso para ser inserido dentro de um con Depois de situar o leitor nesses três momentos, trago algumas vivências pes
texto onde exista a tentativa de alienar o trabalhador para que este não lenha soais sobre meu trabalho nesse contexto, bem como algumas reflexões sobre a
consciência dessa intenção. Digo isso por acreditar que o objetivo da alienação N Ã O lelação ser humano-trabalho, fundamentadas na abordagem fenomenológico
seja tão somente com relação à não-reflexão do trabalhador sobre sua condição de existencial.
explorado, u m a vez que esse alerta já pôde ser captado pela consciência de G R A N D E
parte daqueles que vendem sua mão-de-obra e, no m u n d o capitalista, para assim O
ser, esta é u m a das condições da existência h u m a n a . Acredito que o maior problema
reside no fato de essa condição não poder ser assumida claramente nas relações de Os sentidos sobre o trabalho construídos
trabalho. Com isso, a intenção de alienar o outro sobre sua condição aparece quase
sempre revestida de um sentido positivo, como, por exemplo, em um sentido lato, o ao longo da história
ideário do capitalismo liberal, que produz a imagem do indivíduo livre dentro da so-
ciedade, com iniciativa individual para negociar com o mercado, sem a intervenção tomemos como referência os períodos pré-capitalistas, como nos coloca Carmo
do Estado, e cuja política oportuniza oportunidades iguais para todos. ( 1992). Partindo da Grécia Antiga, o trabalho valorizado era o trabalho intelectual,
Diante do exposto, p r o p o n h o apresentar aqui algumas reflexões sobre as pos- o contemplativo, por ser a principal fonte de contato com a verdade. A reflexão era
sibilidades de lançar um olhar existencial para o contexto das relações de trabalho, concebida como u m a ação e, para tanto, as tarefas mais humildes e pesadas, como o
bem como relatar algumas experiências próprias com trabalhos realizados através trabalho braçal, eram delegadas aos escravos. Estes últimos eram considerados
de estágios supervisionados. similares às máquinas, u m a vez que, para realizarem suas atividades, não precisavam
pensar. O escravo, na concepção da classe hegemônica, era desprezível, não por
Apesar de ser um trabalho que ainda encontra muitas resistências na prática,
trabalhar, mas porque em dado m o m e n t o de sua existência tinha preferido a
pelo fato de ir de encontro àqueles tradicionais realizados pela Psicologia no contexto
servidão ao risco de morrer pela liberdade. O pensamento da época era de que o
do trabalho, que visam à adaptação do trabalhador a esse contexto, vislumbramos
possibilidades de transpor tais resistências com o tempo, quando os trabalhadores, escravo era escravo porque era covarde, e assim o era por opção.
inclusive os que poderíamos classificar como compondo a classe dominante, se cons- Ser livre para a classe hegemônica grega representava não ter necessidade de
cientizarem de que a proposta de reificação do outro, além de ajudar a promover o estar ocupado. A palavra ócio vem do latim otium, que por sua vez é igual à palavra
adoecimento individual e das relações de trabalho, também afeta o seu fim, que é a grega Skole, que significa escola. Sendo assim, a ocupação era um estado de não-
produção. E a produtividade perde o sentido quando o ser h u m a n o não se percebe ócio, que seria negar o ócio.
como criador desta, uma vez que lhe é imposta e não de sua autoria. Já na Idade Média, a condição de liberdade e de poder era a posse de terra. No
Começo, então, fazendo uma breve contextualização histórica sobre os sen- entanto, o trabalho era desvalorizado pela Igreja Católica, por considerar que este
tidos produzidos sobre o trabalho, desde a Grécia até a criação do sistema capitalista. afastava o ser h u m a n o de Deus, sendo valorizado somente como u m a atividade
Acredito ser relevante resgatar "as histórias", u m a vez que para cada m o m e n t o o ser disciplinar para manter as pessoas ocupadas, como u m a forma de purificar as
h u m a n o escolhia um tipo de sistema político e econômico que convinha aos mentes dos pecados.
interesses de u m a minoria dominante. Q u a n d o digo que foram escolhidos pelo ser No período de transição da Idade Média para o Renascimento, o "fazer"
h u m a n o , incluo também nessas escolhas aqueles que não pertenciam a essa minoria, começa a p r e d o m i n a r sobre o "saber". O desenvolvimento das cidades e a criação
pois, enquanto o sistema era mantido, assim o era por todos, pelo fato de com- das pequenas fábricas corroboraram a admiração e conseqüente valorização do
pactuarem de alguma forma com tais escolhas. trabalho.
Depois serão situadas as fases da Psicologia no contexto do trabalho; a criação Antes da consolidação da sociedade capitalista, o trabalho valorizado era o
da primeira fase, a Psicologia da Indústria, se dá com a industrialização. Houve a artesanal e o artístico. Aos poucos, no século XVI, a produção familiar vai dando

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A v n , l n ; i 1 1 1 1 1
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tdltoro Thomson

lugar ao sistema de corporação de artesãos. Estes últimos e seus aprendizes vendiam Destarte, as reflexões sobre a quem contribuíam nan favoreceram a descons
seus produtos, e não sua torça de trabalho. irução de concepções que inlencionam coisilicar o trabalhador, làis iomepçOes
(iora a Reforma Protestante, ainda no século XVI, o sofrimento oriundo do Ira tornam-se danosas para a existência humana, malogrando a característica do vil a sei
bailio passou a ter um novo sentido. O sacrifício pelo trabalho significava motivo de A seguir, mostraremos como se deu o desenvolvimento de cada fase/face da
orgulho e conformismo. A obtenção de lucro e o enriquecimento passaram a sei Psicologia no contexto d o trabalho, b e m como suas respectivas concepções
legitimados pela Igreja. O êxito e a prosperidade eram dos eleitos por Deus. O trabalho filosóficas.
virou o sentido da existência humana. Negar esse sentido significava desafiar a glória
divina. Surge a máxima produzida por Benjamin Franklin: "Tempo é dinheiro".
Os valores individualistas produzidos pelo ideário capitalista, bem como o
apelo pela auto-realização, pela acumulação de capital como um fim em si mesmo, O desenvolvimento das fases/faces da
passaram a ser um dever do indivíduo. A miséria perdeu seu sentido místico. A so-
ciedade disciplinar do século XVII concebia os pobres e libertinos como obstáculos Psicologia no contexto do trabalho
à ordem.

O controle "dos corpos", na nova sociedade industrial, começou com a explo-


ração da mão-de-obra infantil e das mulheres. Os artesãos, com as mulheres e as A Psicologia Industrial
crianças, foram concentrados nas fábricas, em espaços restritos e insalubres, por
longas horas de trabalho e com poucos ou n e n h u m direito. Não mais detendo o C o m o já dissemos anteriormente, a relação ser humano-trabalho apresenta pers-
p o d e r decisório sobre o processo de p r o d u ç ã o , bastava aos trabalhadores pectivas diferentes na história da subárea em questão. A primeira fase desta, a
obedecerem às ordens de seus superiores. A liberdade que tinham restringia-se em Psicologia da Indústria, ou Psicologia Industrial, direcionava seus estudos para a
aumentar seu poder aquisitivo p o r meio de mais trabalho. A total dedicação ao adaptação do trabalhador à sua função.
trabalho em prol da produtividade passou a ser o sentido da existência h u m a n a .
A concepção funcional do ser h u m a n o deve-se à influência da Psicologia ame-
O ideário do liberalismo consolidou-se com o sistema capitalista, apresen- ricana funcionalista, que compreende a necessidade de ajustamento do ser h u m a n o
tando ao ser h u m a n o a idéia de liberdade. Liberdade esta dirigida à livre con- ao meio. No caso da relação ser humano-trabalho, essa não era entendida dialeti-
corrência do mercado e à exaltação dos direitos individuais. O social começou a não camente, mas como necessidade do trabalhador em sobreviver ao mercado produ-
ter mais sentido. Exaltou-se a liberdade do cidadão para vender sua força de tivo, e somente conseguiriam suprir tal necessidade aqueles que apresentassem
trabalho, sem a interferência governamental. maior capacidade de adaptação às exigências do tipo e ambiente de trabalho.
No final do século XIX começou u m a preocupação com o ser h u m a n o p o r este O taylorismo foi um sistema de organização de trabalho que em muito con-
não mais conseguir acompanhar o ritmo das máquinas. C o m o a produtividade não tribuiu para que o ser h u m a n o fosse concebido como u m a máquina. Entendendo o
era a contento, profissionais dirigiam seus conhecimentos para ajustar o ser h u m a n o trabalhador como um indivíduo passivo, economicamente útil por ser um instru-
ao ritmo produtivo. A partir daí a Psicologia começa a sua história no contexto do mento rentável, a Administração Científica clássica, representada por Frederick
trabalho. Winslow Taylor, ao retirar a decisão do processo produtivo das mãos dos traba-
Observemos que, durante toda a trajetória da organização social do trabalho, lhadores da fábrica e colocá-las nas mãos dos gerentes, dividiu o m u n d o entre
o sentido do trabalho foi produzido pelas classes hegemônicas, de acordo com seus aqueles que deveriam pensar e aqueles que deveriam somente executar as tarefas.
interesses pela manutenção do s t a t u s q u o de cada época. Da mesma forma, a Sendo assim, as práticas hegemônicas, que emergiram nessa época, consolidada pela
Psicologia no contexto do trabalho teve início dirigindo seus esforços para a Psicologia Industrial, como o recrutamento, a seleção, a ergonomia, a orientação
manutenção do s t a t u s q u o . Com o tempo, a Psicologia Industrial e a Psicologia vocacional e profissional com base nos testes, a análise e descrição de cargos e a
Organizacional são afetadas por questionamentos de outras disciplinas, como, por avaliação de desempenho, foram práticas criadas com o objetivo de adaptar melhor
exemplo, da Psicologia Social Crítica, e, com isso, a Psicologia no contexto do o ser h u m a n o à função que exerceria e/ou que já estava exercendo (Freitas, 2002).
trabalho se viu diante da necessidade de rever seus projetos. C o m esse intento, p o d e m o s relacionar a preocupação com a saúde mental do

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Editora I I U 'IIR.OFI

trabalhador"I... I apenas na medida em que pudesse ser reconhecida como parte d o | organização. O s estudos fundamentados, E M S U A grande maioria, N O S paradigmas
insumos necessários ao sucesso da produção e da lucratividade" (Scligmann Silva, estruturalistas E sistêmicos, consideram o homem organizacional como adaptável
1994, p. 48). aos papeis atribuídos pela organização. Práticas como as tio desenvolvimento
Também, não dissociada ao objetivo do a u m e n t o da produção em função do organizacional (DO), desenvolvimento interpessoal, desenvolvimento D E recursos
projeto do lucro, a Escola das Relações Humanas, tendo como precursor EltOB humanos, estudos sobre clima e cultura organizacional, programas de qualidade DE
Mayo, buscou a produtividade através da tentativa de compreender a relação S E I vida E D E qualidade total objetivavam regular os conflitos advindos D A S R E L A Ç Õ E S
humano-trabalho por intermédio das necessidades sociais e dos relacionamento! enlre indivíduo e organização por meio de normas e regras (Freitas, 2002).
interpessoais. Mayo e os seguidores da Escola das Relações Humanas ampliaram os A preocupação com a saúde mental, nessa fase, orienta-se para a organização
estudos dirigidos somente para os indivíduos, característicos da Administração . ONIO um todo, compreendendo que esta, como um sistema aberto, pode adoecei
Científica, para o contexto grupai. Surgiram, então, os treinamentos de pessoal diante das necessidades de mudança interna (endógena) e externa (exógena). Pro
através de técnicas de dinâmica de grupo, dirigiram-se estudos para a comunicação mover a saúde mental, então, é trabalhar a organização para que esta seja capaz DE
e para os comportamentos de grupo (Freitas, 2002). C o m a Escola das Relações •E adaptar a essas mudanças.
Humanas começaram t a m b é m estudos voltados à motivação humana.
Percebemos, então, que a orientação para o ajustamento das relações ser
A ampliação do enfoque para o social também teve a influência da Psicologia humano-trabalho continuou sendo o fim a ser atingido. Tanto na Psicologia Indus-
norte-americana. As condições geradas pelo período entre-guerras (1919-1939) trial quanto na Organizacional, as discussões sobre a saúde mental do trabalhador
ocasionou a migração, da Europa para os EUA, de teóricos das relações humanas. vinculavam-se às políticas de gestão.
Muitos deles judeus que fugiam do sistema nazista, como Kurt Lewin e Jacob Levy
Moreno. Além disso, as condições nos campos político-ideológico, econômico e
científico-tecnológico dos EUA, tais como o regime democrático contrapondo-se ao
sistema totalitário da Alemanha nazista, da Rússia stalinista e da monarquia absoluta A Psicologia do Trabalho
do Japão, e a necessidade de se desenvolver trabalhos grupais, com a entrada dos EUA
na Segunda Grande Guerra (1939-1945), entre outros fatores, foram favoráveis para o No final da década de 1970 e início da de 1980, surgem movimentos de psicólogos
desenvolvimento de uma ciência direcionada aos processos grupais (Carneiro, 2003). brasileiros contestando a forma como a Psicologia brasileira vinha direcionando seus
estudos dentro da Psicologia Social. Fundamentada, até então, nos pressupostos de
Contudo, tanto a Administração Científica quanto a Escola das Relações Hu-
causa/efeito, ou seja, com a objetividade, a experimentação/comprovação, a neutra-
manas, teorias hegemônicas da fase da Psicologia Industrial, concebiam o conflito
lidade e a generalização dos seus estudos (Guareschi, 2001), a Psicologia brasileira,
como patológico, portanto, deveria ser eliminado, extinto ou evitado.
principalmente a Psicologia no contexto do trabalho, foi duramente questionada pelo
No tocante à saúde mental do trabalhador, a concepção cartesiana de m u n d o
seu comprometimento com a classe dominante e com a manutenção do status quo do
dessas teorias as direcionam a realizar u m a análise da saúde e da doença como o p o -
sistema capitalista.
sições, conseqüentemente fundamentando dicotomicamente a forma de conceber o
Acontecimentos como a criação da Associação Brasileira de Psicologia Social
que é normal e o que é patológico (Canguillem, 1990). Não obstante, a idéia da
(Abrapso), a fundação do Pari ido dos Trabalhadores (PT) e o movimento pela
normalidade fica assim relacionada à capacidade de produzir, e a idéia de patologia
Reforma Sanitária, todos ocorridos no início da década de 1980, corroboraram no
com a não-produtividade, ou seja, com a possibilidade ou não, respectivamente, do
desenvolvimento ideal das tarefas e das relações sociais. direcionamento de estudos da Psicologia dentro do contexto do trabalho para a
relação saúde mental e trabalho. Esse novo campo de estudo trouxe consigo a fase
da Psicologia do Trabalho.
O movimento pela Reforma Sanitária introduziu a expressão Saúde do Traba-
A Psicologia Organizacional lhador, contrapondo-se aos modelos hegemônicos implantados pelas práticas da
Medicina do Trabalho, Engenharia de Segurança e Saúde Ocupacional (Nardi,
Na segunda fase da Psicologia no contexto do trabalho, denominada Psicologia 1999). O modelo anterior de saúde apresentava a idéia de um sujeito passivo,
Organizacional, a concepção de indivíduo e do social é ampliada para o m u n d o da t o m a d o como objeto da atenção da saúde e, dentro da Psicologia no contexto do

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A V l | l l l | :
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Trabalho, essa concepção contribuiu para que se entendesse o contexto do trabalho


como um fator de referência para o ajustamento do trabalhador (Tittoni, 1999),
Vivências iniciais: um projeto de negação
como mencionado anteriormente, nas fases da Psicologia da Indústria e na Orga
da liberdade do ser-que-trabalha
nizacional.

O novo enfoque da Saúde do Trabalhador compreendeu que este é um sujeito Iniciei nesta subárea no ano de 1987. Após terminar a especialização em Psicologia
ativo no processo de saúde-doença, devendo apresentar u m a participação ativa nas do Trabalho, passei em um concurso público promovido por uma empresa estadual
ações de saúde (Nardi, 1999), e o contexto do trabalho passou a ser considerado de grande porte.
como um fator constitutivo do adoecimento e saúde mental (Tittoni, 1999). C o m o Durante estadia como psicóloga nessa empresa, trabalhei no setor de s e l e ç ã o
menciona Sampaio "[...] a obsessão pela produtividade cede lugar para uma de pessoal e ministrava treinamentos de desenvolvimento de pessoal. Na época,
compreensão mais próxima do h o m e m que trabalha [...]" (1998, p. 27). éramos u m a equipe que contava com dez psicólogas para realizar tais atividades . 1

A Psicologia do Trabalho, então, a partir da década de 1980, direcionou seus A seleção de pessoal era realizada p o r meio de várias etapas: aplicação de (estes
estudos para a psicopatologia e psicodinâmica do trabalho, através de estudos de de habilidades específicas e de personalidade, entrevistas individuais ou grupais,
Dejours (1987, 1994), Chanlat (1992) e Codo e colaboradores (1993, 1995). Os dois aplicação de dinâmicas de grupo e provas situacionais e o assessoramento à área
primeiros com forte influência da Psicanálise, e o terceiro objetivando o compro- cliente em entrevistas profissionais.
metimento com os direitos sociais dos trabalhadores através de redefinição de novas Tecnicamente, buscávamos fazer um trabalho coerente com o que mandavam
políticas de saúde e assistenciais, por intermédio do estabelecimento de nexos os manuais. Respaldávamos as escolhas dos instrumentos para seleção na análise e
causais entre sintomas de origem psi e situações de trabalho (Tittoni, 1999). descrição dos cargos, buscando não lançar mão de "achismos" sobre essas escolhas.
Contempla t a m b é m essa fase temas sobre subjetividade e trabalho, c o m o os Bem, tecnicamente, parecia t u d o perfeito. No entanto, todo esse aparato
influenciados pelas Ciências Sociais e, dentre outros estudiosos, Sato (1994) e Spink instrumental não me livrava de vivenciar a angústia por ter que dar um parecer que
(1994), que dirigem suas análises da saúde mental e trabalho situando-as na vida definiria u m a condição imediata para o candidato, de estar ou não empregado em
cotidiana. um futuro mais próximo, e por não saber se minha escolha seria a melhor.

Concordando com Sampaio (1998), podemos colocar que essas fases da Psico- O "poder" que percebia ter com relação à definição desta questão, ao mesmo
logia no contexto do trabalho também se mostram como faces desse contexto. tempo em que era p o r m i m percebido como algo prazeroso, t a m b é m me afligia
Ratificamos o fato de terem sido construídas em m o m e n t o s históricos distintos, e quanto ao fim de minha função: fazer a escolha do candidato que apresentasse o
que continuam coexistindo no mesmo contexto atual. No entanto, as duas primeiras melhor diagnóstico e prognóstico.
fases/faces apresentam concepções distintas da terceira quanto à compreensão da Percebam como, por vezes, nos iludimos com o poder. Por meio de pequenos
relação ser humano-trabalho. contatos com os candidatos, tentávamos prognosticar seu futuro como trabalhador.
Mesmo apresentando um arcabouço teórico plural para se entender, explicar, Mesmo sabendo que um prognóstico não poderia garantir o sucesso profissional de
interpretar, analisar e/ou intervir nessa relação, pouco se reflete, dentro da Psicologia alguém, pois assim aprendemos na academia, deveríamos realizar escolhas mais
no contexto do trabalho, sobre a condição existencial do ser trabalhador. Muitas próximas ao ideal pretendido pela função a ser ocupada, de acordo com o que rezava
teorias administrativas e psicológicas são importadas pelo Brasil, buscando adaptá- a análise e a descrição do cargo. Torcia para que "o vir-a-ser" do candidato não
las ao nosso contexto de trabalho. No entanto, ao tentarmos compreender a relação fugisse muito do parecer por mim realizado.
ser humano-trabalho através de um olhar preestabelecido, perdemos de vista a A m i n h a escolha por compactuar com uma concepção funcionalista de Psi-
vivência do indivíduo que trabalha. cologia trazia em seu bojo o meu engajamento com o projeto adaptativo do ser

Tal como sugere a fenomenologia sobre o "voltar às coisas mesmas", prosse-


guirei minhas reflexões mostrando um pouco de minha vivência inicial como
psicóloga no contexto do trabalho.
1. N e s t a é p o c a , a p o p u l a ç ã o de funcionários dessa e m p r e s a era de, a p r o x i m a d a m e n t e , 12 mil.

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R,I, ( > | , , ( ) L O N O C O N T O X L O ( I O LINBOLHO U M O N L O Q U O LONORNONOLÓQLI 0

humano, a lu/ das normas e valores que constituíam .1 cultura da organização effl para aceitarem o processo de mudança, lambem nós, que pertencíamos ao Setoi de
que trabalhava. O suposto olhai' empático não clava conta de garantir a vaga para O Recursos Humanos, vivenciávamos a instabilidade no emprego. Imaginem quão
candidato, ou seja, de nada adiantava compreendê-lo em sua existência, se esta NFLO angustiante era para nós, psicólogos, dar um sentido positivo a um tema que Iam
estava em consonância com o que a empresa esperava dele. Ih 111 nos afligia. Precisávamos negar a nossa condição existencial de possíveis
desempregados para conseguir realizar os treinamentos. Enfim, ao mesmo lempo
Humanamente, sofria q u a n d o deparava com candidatos que relatavam pus 1
em que tentávamos coisificar, alienar o outro diante de sua possível condição futura,
sar muito do emprego para sua sobrevivência, mas que não se encaixavam no perfil
também assim fazíamos conosco.
da função pretendida. No entanto, como técnica, em n o m e da ciência, já linha .1
Os programas de Qualidade Total, inseridos na empresa, poderiam respaldar a
resposta na "ponta da língua" para esses casos. Falava para eles, quase automa
ticamente: "O seu currículo será cadastrado em u m a função que mais se aproxima escolha de futuros funcionários a serem demitidos, c o m o aconteceu q u a n d o da
de suas habilidades, e assim que abrirem vagas para essa função, entraremos em entrada de Fernando Collor na Presidência, no ano de 1990. Aqueles que não se
contato com o senhor". Pensava que assim estava sendo ética, uma vez que N Ã O "encaixaram" no perfil da nova cultura engrossaram a lista dos demitidos, e aqueles
negligenciava as exigências de minha função como selecionadora e ao mesmo leni que ficaram deveriam compactuar com as mudanças.
po não deixava o candidato sem esperanças. Não que o que dizia não fosse leito, Retornando à atividade de treinamento em prol da Qualidade Total, tentá-
muitas vezes eram realmente convocados para participar de um processo seletivo vamos treinar os funcionários para incutir seus fundamentos, principalmente aque-
para u m a função em que o cadastrávamos, o problema residia na necessidade ime les que objetivavam a qualidade de atendimento. Algum tempo depois, percebi o
diata do emprego, u m a vez que a fome não é atemporal. projeto forjado em n o m e da qualidade, que pretendia criar um sentido de valo-
rização e conseqüente obediência dos funcionários aos novos valores e normas da
Tal situação, vivenciada p o r profissionais de seleção, é tão freqüente que há
empresa, os quais compactuavam com os ideais neoliberais. Obviamente se esses
muito é discutida na disciplina de ética profissional, nas faculdades de Psicologia. A
ideais primavam, inclusive, pelo desmonte do Estado, éramos um dos alvos princi-
discussão permeia o seguinte conflito: quem é o nosso cliente? A empresa ou o
pais a ser atingidos, u m a vez que se tratava de u m a empresa estatal.
candidato? No entanto, assim posto, a pergunta já sugere que devamos escolher por
A produção do sentido da qualidade total era t a m b é m realizada por meio de
uma das duas partes, e por vezes conclui-se que é a empresa, por ser ela quem nos
treinamentos de qualidade de atendimento. As ações que muitos desses tipos de
contrata. Devemos então "servi-la" da melhor forma.
treinamentos empreendem podem chegar ao desrespeito com o ser h u m a n o . Na
C o m u m e n t e compactuamos com o olhar que concebe u m a empresa se cons- tentativa de incutir novos valores, crenças, regras e t c , desconsidera-se a vivência do
tituindo, dicotomicamente, dos que contratam e dos que são contratados. Cabe ser h u m a n o na sua relação com o trabalho. Lembro-me bem de um episódio,
ressaltar que não vislumbro saídas mais saudáveis para essa questão, u m a vez que a quando dávamos treinamento de "qualidade de atendimento" aos funcionários que
própria situação não deixa muita saída. O n ú m e r o de vagas oferecido já irá excluir lidavam com o público. Em um desses treinamentos, ao falar sobre a importância do
alguns candidatos à função.
b o m atendimento, do respeito com o usuário e t c , um dos funcionários me
Acredito que uma das saídas que está ao nosso alcance é tomar consciência questionou sobre como conseguir tal feito quando recebiam ofensas dos usuários,
dessa condição em que também estamos inseridos e assumir de forma responsável a que por vezes eram realizadas com atitudes agressivas, por intermédio de palavras
nossa escolha de continuar ou não compactuando com ela, no que toca ao nosso de baixo calão, ou mesmo de comportamentos como o de cuspir no dinheiro antes
papel de psicólogos. de entregá-lo para pagar o produto. De imediato me senti impotente para lhe dar
u m a orientação. Acredito que, na verdade, tal impotência foi a mesma que o
C o m relação às atividades de desenvolvimento de pessoal, estes começaram a
funcionário vivenciara ao projetar-se na situação por ele relatada. Qualquer orienta-
eclodir q u a n d o a "tal" da qualidade total começou a ser importada pela empresa em
ção que eu desse, em prol da qualidade de atendimento nessa situação, estaria
que trabalhava, justamente coincidindo com o período de que nos aproximávamos,
tia entrada do neoliberalismo no Brasil, com o então candidato Fernando Collor de negando sua vivência e somente me preocupando com a imagem da empresa diante
Mello, no final da década de 1980. de seus usuários e, se assim eu procedesse, minha resposta t a m b é m negaria que essa
imagem é criada pela intersubjetividade dos funcionários com os usuários. A
|á se ventilava na empresa propostas para terceirização de alguns setores, inclu- orientação mais viável que p u d e dar no m o m e n t o , e que considerei mais autêntica
sive o de Recursos Humanos. Ao mesmo tempo em que treinávamos os funcionários

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ile minha parle, foi a de colocai' para o funcionário que eu compreendia S U A V I V E M ia ii.ilialho, para que, assim, pudesse tentar clarificá-la para eles, respeitando as es
diante dessa situação, bem c o m o sua vontade de reagir a ela, mas que as conse c olhas que fizessem.
qüências de sua escolha p o r u m a ação do m e s m o nível que a do usuário poderia I >iante dessa reorientação de minha concepção da relação ser h u m a n o traba
colocá-lo em u m a situação desconfortável perante a empresa, p o d e n d o chegar, lho, observei que a abordagem que mais se identificava com m e u novo projeto era
dependendo de sua ação, à demissão. Seriam decisões que seus superiores tomariam
mesmo a fenomenológica-existencial. Porque toda essa forma de desfamiliarizar
as quais eu no m o m e n t o não poderia prever. No entanto, acrescentei que também
minha crença do papel do psicólogo já estava sendo revista enquanto fazia a
compreendia o quanto deveria ser ruim para o funcionário acolher os insultos, mas
formação nessa abordagem, só que, como era uma formação direcionada para a área
que a decisão do que deveria fazer somente compreendia a ele, desde que as con-
I línica, não vislumbrava ainda sua aplicação no contexto do trabalho, pois também
seqüências destas estivessem conscientes para o funcionário.
anula acreditava na fragmentação do ser h u m a n o em áreas da existência, ou seja,
Não pretendi com essa colocação coagir o funcionário a não ter atitudes que a< reditava que a forma de se lidar com o ser h u m a n o na clínica, no trabalho, em
denegrissem a imagem da empresa, uma vez que estava realizando um treinamento instituições educacionais etc. deveria ser diferenciada. Ao arriscar u m a intervenção
de qualidade de atendimento. Somente objetivei que ele escolhesse u m a ação da qual I o m u m para o contexto clínico em um contexto de trabalho, observei que a postura
pudesse depois dar conta de assumir.
da outra pessoa foi a de se posicionar de forma mais m a d u r a e responsável.
Essa foi a primeira vez que me coloquei em treinamentos que coordenei, de Não quero com isso fazer alusões de que devamos a partir de agora realizar
forma a não dar u m a resposta pronta para o outro, mas limitá-la a abrir o foco de psicoterapias em outros contextos que atuarmos. C o m o a abordagem fenomeno-
possibilidades para que o outro assim pudesse proceder à sua escolha. Observei que,
logico-existencial direciona o foco principal para a relação vivenciada entre psi-
com essa minha colocação, não houve u m a contraposição por parte do funcionário,
cólogo e seu interlocutor, objetivando ajudá-lo a tomar consciência de seu ser-no-
o que ocorria m u i t o q u a n d o buscava mostrar a saída mais correta, ou seja, q u a n d o
m u n d o e a responsabilizar-se por suas escolhas, p o d e n d o assim lançar m ã o de suas
o induzia a fazer o que a empresa considerava ideal e com isso o ignorava. Na
próprias capacidades para existir, em vez de buscar a compreensão do ser h u m a n o
tentativa de se fazer presente para minha consciência, os funcionários tendiam a me
por meio de teorias, podemos também lançar mão de seu método e técnicas em
questionar quanto a essa "saída ideal".
outros contextos, uma vez que somos ser-em-relação em qualquer um desses casos.
A partir desse dia, comecei a compreender que, por mais que tentemos ignorar Como Erthal diz:
a escolha do outro em prol da escolha ideal, o o u t r o fará o que decidir, seja por
compactuar com o que dissermos ou por aquilo que considerar melhor para ele. A O aumento da conscientização dos dados de sua experiência passa a ampliar suas
escolha é sempre dele, e não haverá treinamento, seja de que tipo for, que induzirá, opções existenciais; sua experiência passa por um crivo de avaliação própria, fazendo
per si, a escolha do outro. Sendo assim, comecei a me posicionar de forma a mostrar com que o risco não mais seja bloqueado para dar lugar a um vir-a-ser mais
as condições colocadas pela empresa, bem como a compreender a vivência dos espontâneo e realizador. É a tentativa atualizante, antes bloqueada pelo medo e
funcionários diante delas, respeitando os critérios tanto da empresa como do insegurança, que passa a se exprimir com mais clareza na atuação do ser. Sendo aceito
[...], sente-se livre para deixar de lutar desesperadamente pelo apreço do outro, e
funcionário quanto à escolha pelo melhor caminho a tomar.
passa a se ocupar mais de si mesmo. Assim, a aceitação incondicional [do psicólogo]
Alguns leitores podem pensar que, diante dessa escolha, quis "lavar minhas leva a uma aceitação de si próprio ( 1 9 9 1 , p. 9 6 ) .
mãos" perante minhas responsabilidades como psicóloga no contexto do trabalho.
Muito pelo contrário, o que percebi a partir desse dia foi que comecei a me Sendo assim, se a nossa proposta como psicólogos é de compactuar com a
desfamiliarizar com a crença de que o psicólogo é capaz de mudar o comportamento adaptação do indivíduo, é porque já escolhemos para ele c o m o deve agir. Na
dos outros. Somos impotentes diante de tal feito, porque a escolha está sempre nas tentativa de encaixá-lo a determinada situação, negamos aceitá-lo nas suas escolhas.
mãos do outro, mesmo que mude, a escolha por assim fazer é do outro e não nossa. Se para o existencialismo o ser h u m a n o é o que faz de si, negar suas escolhas é negar
sua existência enquanto um ser livre, na tentativa de transformá-lo em u m a coisa,
Minha responsabilidade, então, como psicóloga, começou a ter um novo
um objeto. C o m o a liberdade do ser é uma questão ontológica, perpassa todos os
sentido para mim. Em vez de tentar ajustar o indivíduo à sua função ou à organi-
contextos, inclusive no contexto do trabalho. Quiçá seja pela negação dessa questão
zação, c o m o objetivam as fases/faces da Psicologia Industrial e da Organizacional,
que hoje nos deparamos com uma humanidade vivenciando um grande vazio
comecei a tentar compreender a vivência da relação dos indivíduos com o seu
existencial.

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Retomando então o meu percurso dentro da empresa, quando percebi o s e n O labor e s t a diretamente relacionado a manutenção da vida, como faziam o s
lido que la/ia para mim a utilização dessa concepção também dentro do contexto primitivos. |á o trabalho "[...] é a atividade correspondente ao artificialismo da
do trabalho, as demais atividades de cunho adaptativo começaram a perder seu existência humana, existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital
sentido quanto às possibilidades de se promover a saúde mental do trabalhador. da espécie, e cuja mortalidade não é compensada por este último". A autora
No ano de 1990, então, c o m a entrada de Fernando Collor de Mello na Presi acrescenta "[...] o trabalho produz um m u n d o 'artificial' de coisas, nitidamente
dência da República, começou o processo de demissão na empresa. O enxugamento diferente cie qualquer ambiente natural [...]. A condição h u m a n a do trabalho é a
do quadro de funcionários seria tal, juntamente com a não possibilidade de contra mundanidade" (p. 15).
tação, que o Setor de Recrutamento e Seleção ficaria por um grande tempo ocioso. Uma outra atividade h u m a n a descrita por Arendt (2001) é a ação. Esta "[...] é
Aproveitei então o m o m e n t o em que poderíamos fazer acordo com a empresa por a única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
meio da demissão voluntária, para dar entrada no pedido da minha. Durante dois coisas ou da matéria, corresponde à condição h u m a n a da pluralidade, ao fato de que
anos fiquei atuando na clínica e prestando consultoria para algumas empresas como
os homens, e não o H o m e m , vivem na Terra e habitam o m u n d o " (p. 15).
autônoma. No ano de 1993, entrei para a docência superior.
Poderíamos fazer uma relação do labor e do trabalho, respectivamente com a
Foi a partir da abertura desse espaço de atuação como supervisora de estágio relação do orgânico e do inorgânico, e do para-si e do em-si, tal qual nos coloca Sartre
curricular em Psicologia do Trabalho que venho ampliando as possibilidades de (2002). Esse autor utiliza o termo orgânico para designar a constituição do ser
realizar alguns trabalhos com os estagiários em empresas de diversos portes, humano, sendo o inorgânico todas as coisas e objetos. O para-si é o m u n d o da
orientados pela fenomenologia existencial. consciência e o em-si, o m u n d o das coisas materiais. Para Sartre, a consciência (para-
No entanto, antes de relatar minha vivência atual c o m o psicóloga no contexto si) é um Ser inacabado, ao qual sempre falta algo para se completar. Sendo assim,
do trabalho, f u n d a m e n t a n d o - m e na abordagem fenomenológico-existencial, intenciona captar o em-si para preencher seu vazio. Essa relação entre o Ser (em-si) e
realizarei uma breve exposição sobre como podemos compreender as relações de o Nada (consciência) é uma relação dialética que se reflete em todas as manifestações
produção p o r meio dessa concepção, mais especificamente segundo Sartre. humanas. "O para-si precisa do em-si para existir. [...] o h o m e m precisa devorar a
corporeidade do m u n d o , precisa 'encher-se de Ser'" (Perdigão, 1995, p. 184).
No plano prático, o esforço h u m a n o para saciar a fome é a primeira e a mais
rudimentar necessidade da relação do ser h u m a n o com o m u n d o . Compreendendo
Existência e Liberdade: o ser humano a distinção entre labor e trabalho segundo Arendt (2001), o esforço h u m a n o , para
"sartreano" nas relações de trabalho obter o fim de somente saciar sua fome, estaria dentre as atividades do labor. Já o
trabalho, como concebido por essa autora, é uma artificialidade, pois compreende
C o m o vimos anteriormente, a cada período histórico, a organização social do uma objetivação do ser h u m a n o , uma vez que este imprime na natureza u m a marca
trabalho é estabelecida de acordo com a criação de u m a condição h u m a n a pelas sua. Há um projeto h u m a n o colocado na matéria.
classes hegemônicas. Digo condição concordando com Arendt (2001) e Sartre (apud Tentemos compreender melhor. Sartre (2002) define o para-si (consciência)
"Os Pensadores", 1978), por não aceitarem a questão da natureza h u m a n a . Para esses como um ato espontâneo guiarlo pelo devir. Sendo consciência intencional, esta está
autores, o ser h u m a n o não possui uma natureza, mas sim uma "universalidade sempre buscando preencher-se de acordo com o que projeta como necessidade sua,
h u m a n a de condição" (ibidem, p. 16). Por condição, Sartre define como o conjunto e o trabalho passou a ser uma dessas necessidades, quando o ser h u m a n o trans-
de limites a priori que esboçam a situação do ser h u m a n o na sua situação fun- cendeu sua existência no m u n d o a pura necessidade de sobrevivência.
damental no universo.
Uma vez que o trabalho passou a ser o sentido para a existência h u m a n a , como
Q u a n d o nos reportamos a Arendt (2001), esta faz u m a distinção de três vimos anteriormente, o ser h u m a n o tenta imprimir nele o seu projeto. Em vez do
atividades h u m a n a s fundamentais: o labor, o trabalho e a ação. Para essa autora, projeto h u m a n o nascer da espontaneidade livre da consciência (para-si), esse
projeto passa a solidificar-se, a reificar se no trabalho. Os resultados do trabalho
O labor é uma atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano,
cujo crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as h u m a n o passam a ter " u m estatuto de realidade objetiva" (Perdigão, 1995, p. 188).
necessidades vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A pois descobrem-se fora de si, tornando-se então um em-si, ou seja, uma matéria
condição humana do labor é a própria vida (p. 15). inorgânica, u m a coisa.

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I

() sei humano, então, concebendo o trabalho como o sentido de sua existem ia, organização social d o trabalho, sua construção parte d a necessidade d o sei humano
o transforma em essência, bem como passa assim a compreender sua existência, ou de subjugar o Outro. Se não houvesse a negação da natureza â sobrevivem ia do sei
seja, em vez da existência preceder a essência, nesse caso, a artificialidade do trabalho humano, que lhe confere o sentido de escassez, viveríamos em um inundo de
(essência) definirá a existência h u m a n a . Esta última seria criada a partir da abundância, onde todos poderiam suprir suas necessidades. Mas, ao contrário, o sei
concepção do trabalho. humano, na vivência da ameaça de não preencher o seu vazio, criou sua I listória
No entanto, no ato de trabalho também estão presentes as relações humanas. fundamentada em lutas de classes-.
Para Sartre, o m ú t u o reconhecimento do Outro c o m o sujeito nas relações de Apoiando-nos nessa compreensão, observamos que a Psicologia no contexto
produção, "[...] faz com que cada um seja para os outros mais do que meros do trabalho lança-se como projeto profissional com o fim de, por um lado, poder
produtores, mas h o m e n s " {ibidem). Com essa afirmativa, Sartre discorda de Marx, dar conta dessa escassez nas relações de produção e, por outro, como também uma
por considerar que não seriam os dados históricos e econômicos que fazem nascer ameaça, pois também a imprime.
as relações humanas, mas, sim, estas últimas, por nascerem primeiro, é que fazem As práticas da Psicologia Industrial, como a seleção, por exemplo, ao mesmo
com que exista a possibilidade de existir u m a História h u m a n a .
tempo em que é possibilidade para um candidato conseguir um trabalho e assim
De uma maneira mais particular, podemos entender esse fenômeno dentro das tentar suprir sua escassez, por outro, também é a ratificação desta ao não selecioná-lo.
relações de trabalho, de acordo com o contexto em que estas passam a existir. Uma O treinamento busca preencher u m a escassez da empresa, mas nem sempre a
vez compreendendo que as relações humanas precederiam a História humana, do trabalhador, pois o que é oferecido nem sempre está em concordância com a
podemos transferir essa compreensão relacionando-a para um contexto específico necessidade deste último, mas sim da empresa. Com isso, essa subárea acaba criando
dentro de u m a empresa ou qualquer outro contexto em que se processem as relações 1
práticas inertes , pois busca alienar o trabalhador de seus projetos livres, em-
de trabalho.
penhando-se para que o O u t r o viva u m a vida que não é sua, u m a vez que coloca fins
Existem as matérias inorgânicas comuns a todos que trabalham dentro de um que competem ao trabalhador realizar, fins estes que alienam a práxis à matéria, dei-
contexto. O ambiente físico do local de trabalho, os materiais e instrumentos xando o h o m e m escravizado à matéria, e assim passivo. Na Psicologia Organi-
utilizados, o trabalho que tem que ser feito em c o m u m , as tarefas que se têm que zacional ocorre o mesmo em um âmbito maior, somente por não tratar diretamente
cumprir seriam exemplos dessas matérias inorgânicas. Além disso, como nos coloca do indivíduo e sua função, mas dos trabalhadores com a organização.
Perdigão, "os homens se reconhecem mutuamente como projetos, práxis, trabalho
Observemos, então, que o psicólogo industrial e o organizacional são veículos
orientados para fins futuros etc." (1995, p. 185), estando ligados por essas matérias
quase sempre utilizados, a partir de projetos da empresa, com o fim de buscar preen
inorgânicas.
cher sua escassez, por meio dos trabalhadores e dos clientes destas. Estes últimos
O problema das relações humanas, enquanto reciprocidade, se dá q u a n d o u m , representam para a empresa uma ameaça à sua sobrevivência. O psicólogo, então,
a contragosto, compreende-se enquanto um meio para que o Outro realize seu fim. pelo seu trabalho, tenta intervir e transformar o ser h u m a n o em matéria inorgânica,
Diante disso, poderá tender a agir de forma a fazer o m e s m o com o Outro. em coisa-em-si, bem como seus clientes, tornando-se mediador entre empresa,
Através de u m a reciprocidade positiva, a matéria inorgânica poderia servir empregados e clientes, por imprimir neles o projeto que é próprio da empresa e que
como um meio para a união dos trabalhadores. Visando a um fim único, cada um também concebe como seu, quando assim o aceita.
pode optar por se fazer como um meio para o projeto do Outro e vice-versa, n u m a
conjugação de esforços. No entanto, no tocante à reciprocidade negativa, Sartre
(2002) menciona que esta acontece pelo controle da liberdade do outro nas relações
de trabalho, que se dá pela escassez material. O ser h u m a n o está sempre diante da
possibilidade do Outro enquanto ameaça à sua sobrevivência. Bem como nos 2. APESAR DE SARTRE CONCORDAR C O M M A R X NO TOCANTE À LUTA DE CLASSE, LANÇA-LHE U M A CRÍTICA POR NÃO FUNDA
colocamos da mesma forma diante do Outro, " u m a força inimiga como eterno MENTAR ESSA LUTA NA ESCASSEZ, E POR M A R X , AO CONTRÁRIO, CONSIDERAR Q U E É O SER H U M A N O O RESPONSÁVEL PELA

condenado à morte" (Perdigão, 1995, p. 191). ESCASSEZ, DECORRENTE DA PRODUÇÃO CAPITALISLA.

3. PARA SARTRE, A PRÁTICA REFERE-SE AS AÇÕES DE OUTROS H O M E N S E É INERTE PORQUE OS PROJETOS Q U E C R I A M AS


Essa vivência cria um sentido individualista, competitivo, um m u n d o amea-
MATÉRIAS ESTÃO CRISTALIZADOS NO PASSADO, POR FAZEREM PARTE DE RESULTADOS ACABADOS. O PRÁTICO-INERTE É U M A
çador. C o m o vimos a n t e r i o r m e n t e , em t o d o s os m o m e n t o s históricos da CATEGORIA UNIVERSAL, ENQUANTO O I N D I V Í D U O É PARTICULAR.

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Os projetos com relação à produtividade para a sobrevivência da empresa e que com ELE trabalham EM UM certo campo material de ação prática. (!ada U N I sente
assim dos seus funcionários levam os seres h u m a n o s a fins que fogem aos seus se "inserido em uma classe" porque interioriza esse peso passivo sofrido P O R ele e
controles. Todas as ordens e comandos são dados aos trabalhadores a partir desse seus iguais, identifica-se com os outros membros da classe pela incapacidade que ele
e os demais experimentam para superar a passividade e a dispersão (ibidem).
projeto de lucro, pela matéria. A lucratividade ordena a maneira como devem aluar.
Sartre menciona que o m u n d o Prático-inerte ocasiona o fenômeno de contra- C o m o poderíamos contribuir para a superação dessa situação como psi-
finalidade. A liberdade de u m a pessoa, no sentido de suprir sua escassez, busca cólogos?
controlar a liberdade do Outro para que este se sirva como meio para que seu fim Primeiramente, é preciso compreender que o fato de essa situação existir não
seja atingido. O suposto "controlado", então, inverte sua práxis individual na significa que haja a negação da livre práxis no Prático-inerte. Para que haja a inten-
tentativa de conduzir o "controlador" a u m a contra-finalidade. Cria-lhe emboscadas
ção de provocar a alienação e a passividade do Outro em nós, e vice-versa, é porque
para que isso não aconteça.
antes foi reconhecida a possibilidade da livre práxis de ambos.
Podemos exemplificar essa reciprocidade negativa citando exemplos de
É o reconhecimento primeiro da liberdade que faz o controle acontecer, bem
ociosidade, de absenteísmo, de alguns tipos de acidentes de trabalho, de morosidade
como também é a própria liberdade que torna a situação de controle constran-
no trabalho, enfim, das mais diversas formas de ação que dificultam o processo
gedora. Se for pela liberdade que o ser h u m a n o aprisiona e se deixa aprisionar, e que
produtivo.
"reconhece a condição insuperável dessa situação", será por ela t a m b é m que pode se
Tais atividades que levam os indivíduos isoladamente a sofrerem a contra- realizar a opção pela sua não-negação e assim pela transposição da situação que a
finalidade alienam os projetos livres. Na busca de se proteger do controle do Outro, tentativa da negação da liberdade a impõe.
que, por ser-lhe dito o que e como fazer seu trabalho, tenta também controlar o
Podemos encarar nossa liberdade limitada por outras liberdades, mas a liber-
controle do Outro. Essa ação torna-se estranha a ele, u m a vez que o processo e o
dade do ser h u m a n o nunca será suprimida. O que constitui o Para-si (consciência)
resultado de seu trabalho não lhe pertencem, por não ser ele próprio o seu
é superar-se em direção a algo.
construtor e sim este ser o projeto do Outro.
Sartre concebe a liberdade no sentido de liberdade no desejo de querer por si
Dentro de um contexto de trabalho, então, o que deve ser produzido e vendido,
mesmo, querer autonomamente, e não no projeto da obtenção do que se quer,"[...]
ou seja, a matéria inorgânica, reúne as pessoas nesse contexto, mas de forma
não se é menos livre porque não se consegue o que se quer, mas seríamos não-livres
alienada, u m a vez que estão assim reunidas por um objeto exterior. O fato de
(o que é impossível) se nosso querer fosse condicionado" (Moutinho, 2001, p.73).
estarem reunidas não significa que estejam em reciprocidade positiva. Poderá haver
uma unidade aparente criada pelo objeto lucro, mas escravizadas a um destino Essa premissa não coloca a liberdade de querer como u m a situação meramente
imposto, em que cada u m a deverá desempenhar o seu papel, vivendo suas alteri- abstrata. Sartre coloca a liberdade de escolha como um potencial que pode fazer
dades de forma alienada ao negarem a possibilidade de m u d a r esse destino imposto. acontecer os possíveis. Mesmo em um campo restrito, no qual m i n h a liberdade é
Sentem-se incapazes de negar a negação de suas condições de projetos livres. cerceada pela imposição da liberdade do Outro, como o exemplo do m u n d o
capitalista, ainda assim há possíveis com a minha liberdade.
Essa situação leva à sensação de impotência geral diante do capitalismo.
Segundo Perdigão, é essa sensação que leva à identificação do trabalhador em "[...] Nascemos em um m u n d o em que há condições preestabelecidas: a condição
se reconhecer idêntico aos outros de sua classe" (1995, p. 201). financeira de minha família, a cultura, meu sexo, condições físicas, n ú m e r o de
irmãos, situação política e econômica do país em que nasci etc. Mesmo com essas
Se esse reconhecimento não leva às ações organizadas, pela reciprocidade posi-
tiva, a fim de m u d a r e m tal situação, pode parecer somente como uma identificação condições preexistentes à minha existência, cada um de nós as vivência de modo
abstrata. No entanto, a estratificação de classes, bem como as divisões também particular. Perdigão coloca que "[...] cabe a nós próprios viver essa facticidade [...],
contidas nelas, contribui para não haver u m a práxis c o m u m ou, quando as têm, dar-lhe um sentido, projetar nossos fins sofridos conforme certos meios de ação
seguem um projeto imposto. Perdigão menciona que singularmente nossos" (1995, p. 204).
Para que exista a liberdade, também há de existir o m u n d o Prático-inerte. Não
O que constitui um indivíduo como "pertencente a uma classe" é o reconhecimento há liberdade em situação de ausência da não-liberdade, pois se não existisse o
que faz da própria impotência como decorrente da impotência dos companheiros
controle não teríamos a que superar.

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AS VI IRLI IS FI LI ES DA I ISL< I ILI»|LI I ÍI H N H i H H N ILI« |L< O - I IXLSTI H N LI II I mi , i|I .i IH I mi , I . H I I I IXTI I DO IN I L « I I I H I UM EI I F I « | I H • FI H N >I I N H V iIi " |LI 11

No entanto, para Sartre (2002), a livre escolha não basta para libertar o ser A aparição do grupo-em-fusão dependerá de uma integração desejada e de um
h u m a n o cie seu destino prefixado pelo m u n d o já existente, o m u n d o Prático-inerte. projeto e ação de cada membro. O que aqui ocorre é que o próprio grupo criará o
Pela própria estrutura deste último é que se constitui a necessidade de uma praxis seu projeto, que será o grupo, havendo u m a união de interioridade. Para com-
de grupo. Sartre acrescenta que sem o Prático-inerte não haveria a necessidade da preender o grupo, haverá a necessidade de compreender a ação individual de seus
união dos homens. Uma vez que o Prático-inerte nega a individualidade por integrantes, na medida em que estas se fizerem práxis em c o m u m . A ação do
necessitar da alineação de cada indivíduo aos que suportam a mesma situação de indivíduo institui o grupo, e o grupo é instituído pela ação individual.
passividade e a mesma alienação (lembrem que falamos anteriormente que o Bem fundamentados nessa compreensão, voltamos à pergunta sobre as nossas
sentido de pertencer a u m a classe dá-se pela identificação com os Outros por contribuições como psicólogos no contexto do trabalho. Veremos, a seguir, como
também estarem na mesma situação), somente a práxis de grupo poderá negar a poderemos imprimir ações para ajudar na constituição do grupo-em-fusão.
situação de negação imposta pelo Prático-inerte. "O Prático-inerte engendra e
sustenta qualquer ação de grupo destinada a negá-lo" (Perdigão, 1995, p. 205).
Colocando um exemplo prático, é possível observar que somente podemos
economizar quando tivermos consciência de que há um projeto do m u n d o Prático- Vivência atual: um projeto de aceitação
inerte em prol do consumo. No m u n d o do trabalho, o ser h u m a n o somente poderá
superar, pela ação, a condição que lhe é colocada de um Ser em-si, um ser-de-classe,
da liberdade do ser-que-trabalha
se assim tiver consciência da "[...] pressão original do Prático-inerte: o sofrimento,
a necessidade, o perigo frente à escassez [...]" (idem, p. 206). A Psicologia do Trabalho é a fase/face que mais se aproxima de um projeto que busca
compreender o ser-que-trabalha através de diferentes concepções. No tocante à fe-
Voltemos a Élton Mayo, um dos precursores da Escola das Relações Humanas,
nomenologia-existencial, podemos dar nossa contribuição partindo da compreen-
que representa u m a das teorias hegemônicas da Psicologia Industrial. Mayo percebeu
são e aceitação da liberdade humana. Sem a pretensão de levar ao Outro o que
que o grupo é tão importante para a produção quanto o investimento na Admi-
achamos que necessita, buscamos compreender como este se compreende como
nistração dos Tempos e Movimentos proposta por Taylor. No entanto, os esforços de
trabalhador e assim poder ajudá-lo a refletir sobre sua compreensão.
Mayo foram ao encontro de se trabalhar o ser humano, objetivando a produção de um
significado aos trabalhadores para que estes se sentissem pertencentes a um grupo. Não Na tentativa dessa ajuda, buscamos ampliar a consciência do trabalhador para
foi à toa que naquela época houve um boom de trabalhos realizados com grupos. que este possa compreender a forma como compreende sua relação com o m u n d o
Destarte, esses trabalhos propunham-lhes um sentido de estarem em comum com os Prático-inerte.
outros e não em conflito com eles. Esse modo de compreender o grupo Sartre chama Lançamos mão, em um primeiro m o m e n t o , do método de pesquisa fenome-
de coletividade serial, que é um m o d o de existência social denominado pelo Prático- nologia). Para tal, realizamos entrevistas individuais com os trabalhadores, obje-
inerte, pois, no contexto de produção, uma vez que se descobriu a força do grupo, esta tivando compreender sua vivência diante de u m a situação temática, como, por
pode servir em favor da produção. Sendo assim, na sociedade serial há um m o d o exemplo, o relacionamento interpessoal, o clima e a cultura da empresa em que tra-
típico de sentir, pensar e agir. Os treinamentos costumam servir de meios para chegar balha, etc. Geralmente essa demanda temática nos é apresentada pela pessoa que
a este fim pretendido: a serialidade. contrata nosso trabalho. No entanto, para que também não transformemos nossas
Para Sartre, contraditoriamente, é um dos projetos do Prático-inerte: o grupo ações em conjugação, nos projetos do Prático-inerte, que nos tenta reificar para que
serial, que poderá enfrentar suas pressões. Através da união-de-consciências haverá continuemos a reificar o Outro em prol desse projeto, acolhemos a colocação, mas
um projeto em c o m u m do grupo. Perdigão nos coloca que não nos sentimos por satisfeitos com a queixa.
Sendo assim, em um primeiro contato com o trabalhador, apresentamos como
[...] para que possa vir a existir algo como um grupo-em-fusão, é preciso que pessoas objetivo compreender como ele vivência a temática apresentada como queixa. Para
que atuam juntas em um determinado campo Prático-inerte, unificadas por um
tal feito, a Fenomenologia existencial fundamentará nossas análises e utilizamos a
terceiro excluído e um perigo comum, sintam juntas, livremente e por si, a urgência
de mudar a situação em uma práxis comum, reconhecendo a ação de grupo como o redução fenomenológica como o processo metodológico para apreender o vivido,
único método eficaz de vencer o isolamento, suas rivalidades, e assim liquidar o cuja experiência relatada deverá ser obtida através de entrevistas abertas, indivi-
Prático-inerte para sobreviver (1995, p. 213). duais, sendo estas nosso instrumento de pesquisa. Como nos coloca Forghieri

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( 1 9 9 . 1 ) : " o método fenomenológico apresenta-se, então, .i Psicologia, como um Essa síntese é desdobrada em duas descrições: (a) Descrição específica da
recurso apropriado para pesquisar a vivência" (p. 58). estrutura: essa descrição é realizada através da análise idiográfica, que se refere a " |... |
representação das idéias por meio de símbolos que permeiam as descrições ingênuas
Com relação à entrevista como instrumento, como esta é orientada pelas
dos sujeitos, (compreendendo] [...] o estudo individual de cada discurso (Martins;
questões norteadoras, não significa que não possamos introduzir quaisquer outros 5
bicudo, 1989) . (b) Descrição geral da estrutura: nessa descrição, através da análise
questionamentos. C o m o são questões norteadoras, elas são colocadas para somente
nos orientar, mas não se fecham em si mesmas. No entanto, possíveis questões que nomolética, procuramos nos distanciar dos específicos da situação na direção de um
M G N I F I C A D O geral do fenômeno, ou seja, partindo da análise individual iremos em
atravessem as entrevistas não devem apresentar um caráter curioso, sem acrescentar
qualitativamente dados significativos para nossa análise; muito menos perguntas direção ao geral, objetivando obter os aspectos mais comuns de todos os discursos.
que não deixam opções para o entrevistado, como no caso em que estes deverão De u m a forma geral, pela análise idiográfica ou "dos individuais" (Bicudo,
responder sim ou não. 2000, p. 92) obtemos as características de cada descrição. Reunindo as características
de todas as análises idiográficas, nos encaminhamos à análise nomotética, em que
Pedimos permissão para gravar as entrevistas, enfatizando o sigilo quanto ao seu
poderemos obter também as características mais abrangentes, ou seja, como
conteúdo. Um ponto importante a ser ressaltado é a importância de arrumarmos a fala
denomina Bicudo (2000), "as categorias abertas" (p. 93). Desse m o d o , obteremos as
do entrevistado e a devolvermos a ele, para que este confirme ou não que o que estamos
compreendendo é o que ele deseja comunicar. É uma maneira de termos um feedback idiossincrasias (individualidades contidas nos discursos), as divergências (aspectos
do entrevistado sobre sua compreensão do assunto que está relatando, e a possibilidade diferentes), e as convergências (aspectos c o m u n s ) " (Martins; Bicudo, 1989).
de ele organizar seu pensamento para melhor se expressar. Em seguida buscamos por temas centrais que emergem da descrição geral da
estrutura de significado do fenômeno e análise dos mesmos. Segundo recomen-
Após realizadas as entrevistas, estas são transcritas na íntegra. Entramos em
dações de Suransky {apud Bernardes, 1991), que, apoiada em Sartre e Paulo Freire,
contato com cada um dos relatos, isentando-nos de qualquer atitude intelectua-
propõe u m a fenomenologia social através da síntese do meio intersubjetivo e o
lizada e/ou moral, objetivando apreender o sentido do todo, ou seja, buscando o
núcleo essencial do fenômeno (Martins; Bicudo, 1989) ou, como coloca Giorgi contexto social, comprometida com a orientação dialética, realizamos, nesta etapa,
(1978), objetivando obter u m a compreensão geral do enunciado. o levantamento de temáticas centrais, extraídas pela análise nomotética, que mos-
trem o fenômeno do sentido da experiência vivida pelo trabalhador, donde reali-
Segundo Bernardes (1991), nesta primeira etapa de análise:
zamos as análises compreensivas desses temas centrais fundamentadas nos
pressupostos da fenomenologia-existencial.
[.,.] a compreensão geral buscada por meio da leitura da descrição ingênua não
necessita ser questionada ou mesmo explicitada, já que sua finalidade reside em O levantamento e a análise de temais centrais, também como nos coloca
colocar o pano de fundo para a etapa da discriminação das unidades de significado Bicudo, significam que "[...] a experiência vivida, ao ser expressa [...], deixa a marca
(p. 24).
do sentido percebido pela pessoa e, ao mesmo tempo, a marca da história da cultura
Depois passamos à leitura da descrição escrita completa com a finalidade de por meio de sistemas constituídos de expressão" (2000, p. 98).
4
discriminar unidades de significado na perspectiva psicológica, tendo como foco o De posse desses temas centrais, passamos da etapa da pesquisa para a etapa da
fenômeno pesquisado e m a n t e n d o integralmente a linguagem com a qual o sujeito devolução de seus resultados e discussão dos mesmos. Os temas centrais são
expressou-se. disponibilizados em Módulos. Para que não fique um trabalho enfadonho, somente
Transformamos, então, as expressões cotidianas do sujeito na linguagem temático, antes de serem trabalhados, para cada um dos temas, buscamos dinâmicas
psicológica, com ênfase no fenômeno que está sendo investigado. Realizamos depois que propiciem vivências dos trabalhadores, relacionadas aos mesmos.
u m a síntese das unidades de significado, transformando-as n u m enunciado Depois solicitamos que cada integrante do grupo se coloque de acordo com
consistente com o fenômeno pesquisado. sua vivência. Passamos então a mostrar-lhes o sentido dado pelo grupo ao tema, de
acordo com a pesquisa. Abre-se então a discussão sobre toda a vivência.

4. C O M P R E E N D E - S E POR U N I D A D E S DE SIGNIFICAD OS AS DESCRIMINAÇÕES E S P O N T A N E A M E N T E PERCEBIDAS NAS DES-


CRIÇÕES DO SUJEITO, SEGUNDO ATITUDE, DISPOSIÇÃO E PERSPECTIVA DO PESQUISADOR E S E M P R E FOCALIZANDO O FENÔ-
5. A I N D A SEGUNDO B I C U D O ( 2 0 0 0 ) : "IDIOGRÁFICA V E M D E IDIOSSINCRASIA, D O Q U E É M U I T O I N D I V I D U A L " ( P . 9 2 ) .
M E N O Q U E ESTÁ SENDO ESTUDADO ( M A R T I N S ; B I C U D O , 1 9 8 9 ) .

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11
A.', VI LLLI IS LL 1« i •:, I L( I I ISLI I I|( LI |LI I D 'IH )L III 'IH IL('n |LI I > (IXLÍTL 'I LI LI LL I '!i|i i )|i H ||i I IH l l l ll lll IXll l I ll i I I I LL 11 111 II i: I II1 I l 'I III » |L LL ' LL II II '111' ' I I ' * ' » |L<

l)c acordo com essa proposta de trabalho, possibilitamos a tomada de C O N S Ao mesmo tempo em que lalo da importância de trabalhar a tomada de cons
ciência dos membros do grupo sobre suas compreensões dos lemas, bem como ciência da liberdade responsável, não deixo de fora os próprios psicólogos. Uma vez
discussões para possíveis mudanças ou não. escolhido esse viés de trabalho, esse profissional também deve tomar para si a
É importante enfatizar que, de u m a certa forma, esse tipo de trabalho encontra proposta de uma postura reflexiva e responsável sobre suas possibilidades e
um campo restrito para ser aplicado. Primeiro por apresentar uma ameaça ao limitações.
projeto do m u n d o Prático-inerte, segundo o qual, q u a n d o o psicólogo está sendo Considero que um dos pontos mais angustiantes nessa vivência é lidar jus-
pago pelo seu trabalho, seja como a u t ô n o m o seja como empregado da própria tamente com o que prega a liberdade sartreana. Geralmente, q u a n d o queremos algo,
empresa, já existe um projeto desta para esse profissional. tendemos a pensar que podemos conquistar e esquecemos que tal liberdade existe
Acredito que poderemos imprimir trabalhos como esses, que primam pela porque também existe um m u n d o resistente. No entanto, não é esse m u n d o resis-
liberdade do ser humano-que-trabalha, em situações em que também nos posi- tente que limita nossa liberdade, mas por esta última existir somos seres lançados ao
cionarmos em nossa liberdade. A prática docente em situações de estágio super- inundo. Não escolhemos ser livres, somos constrangidos a ser livres. "Somos
visionado nos dá u m a certa autonomia perante a empresa. No entanto, isso não quer inteiramente livres para pôr fins, mas não para deixar de pô-los: a liberdade é um
dizer que não consigamos t a m b é m transcender as outras situações que nos constrangimento" (Moutinho, 2001, p. 75). A liberdade só é em situação, engajada
aprisionam em nossa liberdade com nosso trabalho. no m u n d o e, ao assumirmos a responsabilidade por nossas escolhas, estamos nos
referindo à tomada de consciência de sermos autores de um evento ou um objeto,
como afirma Moutinho (2001).
A m u n d a n i d a d e é colorida pela nossa consciência intencional. É ela que irá
Considerações finais mediar a relação do ser h u m a n o com o m u n d o , sendo assim, a mundanidade, que
seria a coisa em-si, per si, nada tem a ver com os nossos projetos, nossos objetivos,
É importante enfatizar que a proposta fenomenológico-existencial no âmbito do
nossos fins. As resistências desveladas em nossa consciência no contexto do nosso
trabalho não objetiva levar, a priori, mudanças para as relações. Longe de nos
trabalho, assim, são de acordo com o que nossa liberdade projeta como fim, dife-
percebermos como profissionais potentes para isso, por nós mesmos, intentamos a
rente da realização desse fim. A nossa liberdade nessa relação reside na possibilidade
possibilidade da ajuda da tomada de consciência dos nossos clientes sobre as
de projetarmos saídas para as adversidades, o resultado desse projeto, portanto, não
escolhas que realizam e, assim, sem lançar mão da má-fé, possam estabelecer
diz respeito à liberdade. Para isso devemos supor tanto as possibilidades do fracasso
relações no contexto da produção, mais responsavelmente.
quanto do sucesso em nossos projetos.
Sendo assim, considero que a questão do adoecimento psíquico é mais pro-
Da mesma forma, o nosso trabalho como psicólogos existenciais busca tra-
pícia nas relações em que os indivíduos percebem-se não-livres por acreditarem que
balhar justamente a possibilidade da conscientização de nossos/as clientes das esco-
sua existência está condicionada por outrem. Usando de má-fé, delegam a condição
lhas por eles/as realizadas e o assumir a responsabilidade por elas. E diante disso
da existência condicionada a terceiros, e assim sentem-se impotentes diante de seu
poderem realizar escolhas responsáveis. Q u a n d o isso acontece, obviamente ficamos
querer autônomo.
muito felizes, mas, do contrário, não deixa de ser também u m a escolha deles,
Penso que essa proposta de trabalho, apoiada na concepção fenomenológico- restando-nos respeitá-los, uma vez que não podemos escolher por eles.
existencial, não é u m a proposta de fácil execução. Talvez por isso poucos p r o -
fissionais trabalham com ela dentro desse contexto. Primeiro, geralmente, q u a n d o
nosso trabalho é solicitado, ele se embasa n u m projeto que vislumbra possibilidades
de resoluções de possíveis problemas que dificultam a produtividade. Somos cha- Referências bibliográficas
mados para "consertar" algo que não está bem, ou mesmo para prevenir possíveis
Arendt, H. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
problemas, como nos casos de recrutamento e seleção, em que tentamos encontrar
o " h o m e m certo para o lugar certo". Mesmo sendo esse um jargão ultrapassado, pois Bernardhs, N. M. G. Análise compreensiva de base fenomenológica e o estudo da
refere-se às concepções da fase/face da Psicologia Industrial, não consigo perceber
experiência vivida de crianças e adultos. In: Educação, Porto Alegre, ano XIV, n. 20,
outro objetivo com essas atividades.
p. 15-40, 1991.

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A ' , V IIK IS L( H OS ( I C I I ISLI I IK « |II I D 'I H H I H 'I H ILL h |K 111 IXLSLI 'I H K IL 1
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Capítulo

upervisão clínica na perspectiva


fenomenológico-existencial
Jose Paulo Giovanetti

Buscando u m a formação profissional sólida do psicólogo, os currículos de Psico-


logia têm u m a disciplina, mais prática, intitulada Estágio Supervisionado, em que
um professor e psicólogo clínico com mais experiência ajuda o quase formando em
Psicologia a refletir sobre sua prática. Esse estágio supervisionado abarca um grande
leque de atuação do psicólogo, podendo-se destacar a supervisão clínica, isto é, a
"orientação" que visa a iluminar a relação cio trabalho entre o "quase formando"
psicólogo e o seu cliente, aquele que se presta a uma ajuda psicológica.
É claro que a atividade clínica é muito mais ampla do que a modalidade deno-
minada psicoterapia. A divergência em definir o objeto da psicologia clínica é muito
grande, e alguns teóricos explicitam a seguinte posição: o psicólogo clínico é aquele
que trata de todo tipo de comportamento psíquico que pode acompanhar ou não
uma doença. Porém, outros teóricos querem excluir as perturbações psiquiátricas da
psicoterapia. Diante dessa discussão, liça difícil ter u m a clareza sobre o objeto da
atividade clínica. Podemos, porém, definir a psicologia clínica como o ramo da
Psicologia "que tem por objeto os problemas e perturbações psíquicas, assim como
o componente psíquico das perturbações somáticas" (Eiuber, 1993, pp. 15-6). Dessa
forma, a psicologia clínica trabalha com os problemas psíquicos que se manifestam
nos comportamentos normais ou psicopatológicos.
Duas observações se fazem necessárias. Pm primeiro lugar, é importante lei
clara a orientação teórica que susténtala esta prática. Hoje, os principais modelos
que sustentam a prática clínica são a psicanálise, a abordagem comportamental
cognitiva e a humanista-existencial. Com isso, não estamos dizendo que as outras
orientações teóricas não sejam importantes e não mereçam um destaque na
Hii\|"iunii | c ; n | I >i lf it mvi:,< II II III III I I III I I II 'l'.f II 'i IIVl I II 'I H II I I' N II »11 I' |i' i IKW11 'I i' I' II
11

foi mação tio psicólogo. A segunda observação c que o T A M P O tia psicologia I línii A é () aprendizado de refletir sobre o que se vive é construído ao longo da vida, e e, poi
muito vasto e podemos destacar, hoje, A Psicologia da saúde, a neuropsicologia isso, que a contribuição do terapeuta experiente é necessária, pois ele é "capaz de
clínica, a psicologia comunitária e a psicoterapia. Assim, chias questões aparecem refletir na relação psicoterapêutica a relação psicoterapêutica, à medida que ela
para nós em primeiro lugar: explicitar o que entendemos por supervisão em decorre" (Buys, 1987, p. 17).
psicoterapia e clarear qual o modelo teórico de nossa prática. Esses serão os dois
A possibilidade de crescimento h u m a n o e profissional se dá na medida em que
passos iniciais de nosso estudo. Dividiremos nossa reflexão em três partes: primeiro,
somos capazes de refletir sobre aquilo que vivenciamos e, por isso mesmo, desven-
abordaremos a especificidade da supervisão clínica, destacando que tipo de relação
damos os entraves e os extramuros para o nosso crescimento. Assim, o objetivo da
é construída entre o professor supervisor e o aluno que tem o seu trabalho de
atendimento terapêutico com um cliente que veio buscar sua ajuda. Num segundo supervisão "é dar ao terapeuta iniciante, de forma sistemática, o contexto relacional
m o m e n t o , será necessário explicitar o marco teórico que sustenta todo o nosso apropriado à reflexão sobre a situação psicoterapêutica" (idem). A avaliação sobre o
trabalho clínico, para, finalmente, elucidar o que seja a prática da supervisão na que se viveu n u m a relação intersubjetiva feita com o auxílio de u m a outra pessoa é
perspectiva fenomenológico-existencial. de extrema importância para a formação profissional do psicólogo.
O segundo ponto que merece nossa atenção, q u a n d o tratamos da especifi-
cidade da supervisão, é o pressuposto de que ninguém nasce psicoterapeuta, mas vai
se formando ao longo de sua prática. É necessário desenvolver por meio cia super-
O que é a supervisão clínica? visão as características do terapeuta. Bucher explicitou em seu livro, A psicoterapia
pela fala, algumas qualidades pessoais necessárias à psicoterapia, e encontramos na
supervisão o lugar ideal para, por meio dessa relação especial, sedimentar as
Especificidade da supervisão clínica
qualidades destacadas.

A psicoterapia se constrói a partir de uma relação terapêutica e sua sedimentação se De u m a maneira resumida, podemos destacar as qualidades levantadas por
dá por meio do aparecimento e da constituição do vínculo intersubjetivo. O terapeuta Bucher (1989, pp. 70-1) e que devem ser cultivadas na supervisão: a primeira delas
deve ter uma atenção especial a essa relação que se vai construindo e fortalecendo ao é o interesse pelo h u m a n o . A profissão de psicoterapeuta não se resume à aplicação
longo de todo o processo. Isso quer dizer que, além de vivenciar a relação, o terapeuta de técnicas, mas ao cultivo cia sensibilidade pelo h u m a n o . O início da formação
deve refletir sobre o que acontece nela. Poderíamos dizer que essa dupla face da terapêutica passa pelo despertar de uma atitude que mostre que a pessoa que está
vivência terapêutica é necessária para o bom desenvolvimento da psicoterapia. diante de você seja vista na sua totalidade e na sua particularidade. Totalidade que
Uma observação preliminar se faz necessária no sentido de distinguirmos a nos impede de reduzir o ser que sofre diante de nós a um conjunto de sintomas.
psicoterapia da supervisão. Buys, falando da questão, diz o seguinte: "Psicoterapia e Particularidade no sentido de que esse h o m e m enfermo tem suas características
supervisão se distinguem na medida em que a psicoterapia é um contato direto, próprias que não podem ser reduzidas e esquematizadas a alguma classificação.
imediato com a realidade, enquanto a supervisão é u m a reflexão sobre esse contato Sensibilidade para o h u m a n o é ser "tocado" por cada cliente em particular, abrindo-
independente dos aspectos anteriormente apontados" (Buys, 1987, p. 23). Assim, a se para sua história de vida de forma global. A supervisão aparece como o lugar onde
supervisão caracteriza-se como o espaço mais apropriado para a reflexão sobre a o psicólogo iniciante tem um espaço apropriado para entrar em contato com essa
prática clínica. Esse espaço deve ser buscado no sentido de não só se passar para o sua realidade, discutindo-a juntamente com um psicólogo mais experiente, que
supervisando orientações técnicas de como lidar com a situação, mas de levá-lo a deverá não só refletir sobre as técnicas terapêuticas mais adequadas, mas sobre seu
desenvolver a capacidade de refletir sobre a sua maneira de trabalhar. engajamento pessoal no trabalho terapêutico.
Ora, o grande valor da supervisão é de que um terapeuta mais experiente possa É também, aqui, na supervisão, que o terapeuta iniciante tem a possibilidade
ajudar aquele que está iniciando sua atividade clínica a refletir e descobrir algumas de perceber com mais nitidez se possui a capacidade de lidar com as manifestações
nuances que muitas vezes não aparecem de imediato. Em vez de refletir sozinho psicopatológicas e conflitantes do ser humano. Nada melhor que a reflexão sobre sua
sobre o que acabou de vivenciar no seu atendimento clínico, o supervisando tem a atividade clínica para enxergar com clareza que, além da sensibilidade para com o
possibilidade de compartilhar com outro terapeuta suas dúvidas e suas dificuldades. h u m a n o , essa sensibilidade é para tratar dos problemas existenciais. Ninguém, ou

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quase ninguém, procura terapia para falar que esta bem na vida. Esse tipo de cliente passes ajudao supervisando a perceber que alguns problemas surgidos na relação
dificilmente aportará no seu consultório. Assim, a atividade terapêutica e muito terapêutica devem ser, às vezes, levados para a sua terapia pessoal, caso o supervisando
mais curativa do que preventiva. esteja também em processo de terapia. Separar o joio do trigo ajuda tanto no desen-
volvimento da relação terapêutica como no crescimento h u m a n o de ambas as parles.
A terceira condição indispensável para a formação do psicoterapeuta apontada
pelo autor é o aspecto técnico envolvido no trabalho clínico. Para Bucher, ele é ne- Sobre a função técnica da supervisão, Buys é explícito quando diz: "a intervenção
cessário para que o profissional possa lidar com desenvoltura com a situação confli- didática teórica liga a técnica à teoria, dando inteligibilidade à primeira. Sendo as
tante. O saber técnico é insuficiente, porém de suma importância para o iniciante técnicas decorrentes da teoria, a intervenção teórica deve responder, entre outras
poder saber como abordar o conflito e elaborá-lo e integrá-lo. É a supervisão o lugar coisas, ao porquê das técnicas" (1987, p. 26). Analisar que tipo de intervenção foi feita
ideal para falar e checar todo o conhecimento teórico adquirido ao longo de sua pelo supervisando, refletindo se tal intervenção era a mais adequada ou não - se o
formação. procedimento adotado ajudou o conteúdo a aflorar e se, também, o conteúdo surgido
foi trabalhado de m o d o a levar o cliente não só a percebê-lo, mas a começar a elaborá-
lo. Todas essas questões devem ser discutidas no espaço criado pela supervisão, a fim
de que os crescimentos pessoal e profissional sejam dialeticamente integrados.
As funções da supervisão
A última função, e talvez a mais sutil, apontada pelo autor, é a função expe-
riencial. Embora a nossa fundamentação teórica seja diferente da de Buys, não
A supervisão é distinta da psicoterapia, sua especificidade pode ser resumida em
relegamos a um segundo plano a função experiencial da supervisão. Só a compreensão
dois pontos principais: primeiro, refletir a relação na relação e, segundo, buscar o 1
dessa função torna-se diferente .
crescimento h u m a n o do supervisando, fica agora o problema de como alcançar
essas duas dimensões da questão. Assim, Buys, de forma sucinta, mostra que a Para nós, a intervenção experiencial, ao focalizar a experiência do terapeuta
supervisão tem três funções, a saber: a primeira, uma função teórica que pode ser iniciante, procura ajudá-lo na vivência das atitudes que colaboram para a construção
desenvolvida com a função técnica. Existe também u m a função experiencial (Buys, da relação terapêutica. O processo de escuta do supervisor deve proporcionar ao
1987, p. 17). Vamos tratar a seguir dessas funções. supervisando o fluir da vivência da escuta. As vezes, a grande escola para o nosso
trabalho terapêutico não é tanto os livros, mas a relação pessoal que estabelecemos com
A primeira função, que é a função teórica, pode ser entendida como a orien-
o nosso terapeuta pessoal. Ora, o grande aprendizado da escuta passa pela maneira
tação do supervisor sobre problemas relacionados à compreensão teórica do "pa-
como nós a vivenciamos com o nosso supervisor. Falar sobre a boa escuta e as atitudes
ciente". Ter u m a idéia sobre que tipo de problema está sendo trazido pelo paciente,
existenciais, aqui, seria extrapolar muito o objetivo do nosso trabalho. Normalmente
ajuda na possibilidade de pensar como a terapia será conduzida, pois, em termos
essas questões são tratadas quando desenvolvemos a teoria da prática em psicoterapia.
gerais, a maneira de trabalhar com uma pessoa neurótica é diferente de trabalhar
com urna pessoa psicótica. Cada um dos conflitos exige posicionamentos diferentes.
Não necessariamente estamos defendendo um psicodiagnóstico nos moldes tra-
dicionais, mas u m a certa idéia da personalidade do paciente é necessária, para Tipos de supervisão
podermos enfrentar com mais objetividade a questão. Normalmente, em matemá-
L I I a, dizemos: equacionar bem o problema, montar com precisão a regra de três, já Neste ponto, talvez possamos encontrar um grande n ú m e r o de modalidades que
I meio caminho andado para a solução da questão. Aqui, a dimensão operativa poderíamos nomear de supervisão. V o u ater-me somente a duas possibilidades: a
(diagnóstico) da relação terapêutica deve ser trazida para a reflexão. supervisão em grupo, que acontece de forma regular nas escolas, e a supervisão in-
dividual, muito c o m u m entre os terapeutas iniciantes que buscam apoio n u m
(Hitro aspecto, que exige um olhar mais atento, é a análise de como está sendo
profissional mais experiente, normalmente em consultórios particulares.
• 11 ni iirada a relação na terapia, pois grande parte do sucesso de uma terapia está na
qualidade da relação construída entre o terapeuta e o seu paciente. Na supervisão
p o d i ni aparecer com clareza as questões que estão facilitando ou dificultando o

i li ' i iM 'Kamento da relação terapêutica e em que medida, em muitas vezes, as questões I. PARA B U Y S , ESTE SERIA o LUGAR EM Q U E O SUPERVISANDO REFLETIRIA SE ESTÁ DESENVOLVENDO AS TRÊS ATITUDES ROGE
ni il ii .olvidas do terapeuta podem estar interferindo no processo. Clarear esses im- RIANAS (CONGRUÊNCIA, E M P A T I A E CONSIDERAVA" POSITIVA INCONDICIONAL) DE FORMA ADEQUADA.

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A supervisão de grupo, mais c o m u m nos estágios curriculares, pode obedecer


perspectiva e a fenomenologia existencial. Daí ser importante dar uma visão ge
serie île fatores que caracterizam o encontro entre o professor-supervisor e o
.I I I M . I

aluno estagiário. C) n ú m e r o de participantes tem variado muito de faculdade para nerica e simples do que sejam a fenomenologia e o existencialismo, bases filosóficas
l.u uldade, dependendo, muitas vezes, da estrutura da escola. Normalmente o aluno do nosso trabalho.
atende A U N Í cliente durante a semana, quase sempre u m a única vez e, juntamente
N U I L os outros alunos, tem u m a reflexão e orientação do professor sobre o que está

se passando na terapia e qual o caminho a seguir. Esse n ú m e r o de alunos varia de


(rés a 15 pessoas e a supervisão d u r a mais ou menos duas horas e meia. Q u a n d o o
Fenomenologia
numero de alunos é baixo, o tempo é suficiente para u m a boa aprendizagem, mas,
A Fenomenologia é u m a corrente filosófica, mais precisamente um método de
q u a n d o o número é elevado, a situação fica difícil e exige u m a certa flexibilidade em
investigação da realidade, que tem fecundado a Psicologia já há alguns anos. Essa
alguns pontos, como, por exemplo, delimitar o tempo de exposição do caso, desta-
presença, usando como ponto de partida a data que nos parece mais significativa,
cando somente os pontos mais relevantes e perdendo as nuances, que na maioria das
vezes são o fator mais rico na compreensão do caso. começou no domínio da Psicopatologia quando, em 1913, o psiquiatra e filósofo K.
Jaspers (1883-1969) escreveu a sua Psicopatologia Geral. De lá até hoje, esse impacto
No entanto, o que é extremamente positivo na supervisão coletiva é que, tem crescido e provocado u m a grande fecundidade, atingindo vários domínios,
q u a n d o um aluno expõe o seu caso e discute o desenvolvimento dele com o su- como a Psicologia Experimental (A. Michotte, 1881-1965), a Psicologia Comparada
pervisor, os outros alunos estarão aprendendo pontos que, às vezes, não estão
e a Fisiologia Antropológica (F. J. J. Buytendijk, 1887-1974), a concepção holística do
acontecendo no seu trabalho de atendimento. Por exemplo, um aluno está tendo
organismo (Kurt Goldstein, 1978-1965). O impacto maior tem sido entre os
dificuldade de fazer o conteúdo aflorar para um trabalho futuro, e o outro está tendo
psiquiatras como, para nos atermos apenas a dois expoentes, L. Binswanger (1881-
problemas nas posturas que deve adotar para uma boa escuta. Q u a n d o se discutem
1956) e M. Boss (1903-1990), que fundaram seus próprios métodos de análise
os casos em conjunto, cada um aprende com o caso do o u t r o aspectos que talvez
terapêutica.
venham a acontecer consigo mais tarde. Nesse tipo de supervisão, o importante é
deixar que a cada aluno que está vivendo um processo terapêutico com um cliente Do outro lado do Atlântico, a influência da fenomenologia tem sido grande,
possa examinar com o professor e os outros colegas o seu posicionamento pessoal com destaque para a Universidade de Duquene de Pittsburgh, Centro de Pesquisa
NA sua vivência. em Psicologia Fenomenológica, sob o impulso de A. Giordi, que publicou um livro
Psychology as a human science, em 1970, no qual defende a idéia de u m a renovação
Na supervisão individual, s u p o n d o que sua duração seja de 50 minutos, o su-
radical da psicologia, sobre bases fenomenológicas.
pervisando tem mais tempo para expor seu atendimento e discutir com mais calma
É necessário notar que Rollo May, em 1958, ao organizar um livro intitulado
os impasses e as possibilidades de superação dessas dificuldades. Nesse tipo de
supervisão se constrói u m a relação intersubjetiva mais sólida do que na supervisão Existence: a new dimension in Psychiatry and Psychology, desencadeou, nos Estados
em grupo, pois o tempo maior e a qualidade da relação possibilitam uma reflexão Unidos, u m a influência marcante da Fenomenologia, pois apresentou ao público
mais profunda sobre o que se está vivendo. Porém, é necessário "acentuar o fato de americano alguns dos principais representantes europeus da aplicação da feno-
que a supervisão não é da psicoterapia, mas sobre a psicoterapia; como o psico- menologia à Psicologia. Ainda nos IDA, é importante destacar o surgimento do
terapeuta a está vendo aqui e agora (não lá e então) e vivendo-a n u m a relação (com Journal of Phenomenological Psychology, dirigido por A. Giorgi (Pittsburgh), K.
o supervisor)" (Buys, 1987, p. 23). G r a u m a n n (Heidelberg) e G. Thinès (Fouvain), representantes dos principais cen-
tros nascentes da Fenomenologia.
A partir desse início, que alguns pesquisadores olhavam com u m a certa des-
confiança, a Fenomenologia tem sido uma corrente filosófica de grande fecundidade
0 que entendemos por perspectiva na psicologia. Para ter u m a idéia da amplitude desse impacto, cito o livro de H.
1 en omenológico-existencial ? Speigelberg, Phenomenology in the Psychiatrie and Psychology.
Diante desse breve quadro, gostaria agora de salientar, nesta apresentação, o
Após termos refletido sobre o que entendemos por supervisão, é necessário expli-
impacto da Fenomenologia na Psicoterapia, destacando o diferencial psicoterapia)
citar A fonte de inspiração filosófica que dará sustentação à prática clínica. Nossa
na Fenomenologia Existencial. Assim, dividirei o trabalho em três partes: e relação
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entre .1 fenomenologia e a psicologia, especificidade cia psicoterapia, a atitude feno fenômeno é, por sua v e z , um objeto que se refere ao sujeito e um sujeito em relação
menológica na psicoterapia. ao objeto. C )om isso, não se quer dizer que o sujeito sofreria alguma apropriação poi
parle do objeto, ou vice-versa. O fenômeno não é produzido pelo sujeito; muito
menos corroborado ou demonstrado por ele. Toda a sua essência consiste em se
mostrar, em se mostrar a "alguém". Logo que esse alguém começa a lalar daquilo q u e
A presença da fenomenologia na Psicologia se mostra, tem-se a fenomenologia (Van Der Leeww, 1970).

A fenomenologia surge no início do século com Husserl (1859-1938), cujo grande A Fenomenologia apresenta-se, dessa maneira, como um método de abordar o
ideal era encontrar u m a base sólida para a ciência, fazendo para isso uma crítica ao fenômeno, como u m a metodologia da compreensão, e não da explicação. Não nos
psicologismo que veio a constituir um poderoso método de investigação. Ricoeiu interessa, aqui, descrever quais são os procedimentos para atingir esse objetivo. Isso
explicita que "a fenomenologia é um vasto projeto que se fecha sobre uma obra ou nos levaria muito longe da nossa intenção. Queremos, outrossim, destacar que
11111 grupo de obras precisas; ela é menos uma doutrina e mais um método, capaz de aquilo a que se visa, o fenômeno que se mostra, é meramente o entrelaçamento do
encarnações múltiplas, e, dela, Husserl explorou somente um pequeno número de pos- sujeito com um objeto, por meio da intencionalidade. O que, em terminologia mais
sibilidades" (Ricoeur, 1986, p. 8). Daí a necessidade de observar, às vezes, o m o d o específica, seria a descrição direta da diversidade das estruturas noético-noemáticas.
1 0 1 1 1 0 certos autores aplicaram o método fenomenológico a diversos temas e Jeanson, no seu estudo sobre Fenomenologia, conclui, de maneira brilhante,
problemas h u m a n o s - como fizeram os filósofos existencialistas - para captarmos a dizendo que o "método é, em primeiro lugar, um caminho que se abre dentro de
especificidade da abordagem fenomenológica. uma certa direção, é u m a certa maneira que se tem de pesquisar, de colocar os
Muitas vezes, aprendemos o que é a Fenomenologia observando a maneira problemas, de interrogar o m u n d o e de se interrogar" (Jeanson, s.d., p. 67). Assim,
pela qual alguns autores e pesquisadores utilizam o seu método de investigação. esse caminho deve ser fecundo, pois nos leva a compreender as coisas. E, mais do
A Fenomenologia apresenta-se como um método de abordar a realidade que isso, Jeanson completa "um método é, antes de tudo, uma atitude ao olhar o
diferente do método das ciências naturais, que visam a entender o seu objeto por objeto estudado" {ibidem). Assim, seguir os passos do método fenomenológico é
meio de explicações formais. Aqui, a novidade está em que o fenomenólogo busca incorporar u m a atitude fenomenológica.
compreender as razões que suscitam determinada atitude. Dartigues define, com
precisão, que "compreender um comportamento é percebê-lo, por assim dizer, do
interior, do ponto de vista da intenção que o anuncia, logo, naquilo que o torna Existencialismo
propriamente h u m a n o e o distingue de um movimento físico" (Dartigues, f 992, p. 5f).
Ora, a Fenomenologia é um método compreensivo, pois busca explicitar a Enquanto a Fenomenologia é compreendida pelos discípulos como um método, o
intenção específica da "visada" (a maneira de como o h o m e m dirige sua atenção Existencialismo é entendido como uma doutrina filosófica sobre o h o m e m . As
implicada na percepção) que cada ser h u m a n o tem ao entender algo. C o m o exemplo filosofias da existência surgirão como uma oposição a toda filosofia clássica, a qual
podemos dizer que duas pessoas, um viajante e um madeireiro, olham de maneira é entendida como o estudo das essências, cuja idéia principal seria a compreensão
diferente u m a mesma árvore. O primeiro mira a árvore como algo que lhe servirá das dimensões estáveis. Os filósofos da existência vão redirecionar as perguntas
como alívio para o cansaço da caminhada fatigante, enquanto o segundo olhará a sobre o h o m e m . Em vez de se perguntar: o que é o homem?, se perguntará: quem é
arvore na perspectiva de que ela possa oferecer-lhe u m a madeira de qualidade para o homem?
a fabricação de um móvel. A intenção, ao abordar a árvore, é completamente
Evidentemente, a palavra existencialismo começou a ser usada depois da Pri-
diferente, embora os dois personagens possam dizer a mesma frase: "Que árvore
meira Guerra Mundial para designar justamente o movimento de alguns pensadores
maravilhosa!" pois é a captação dessa intencionalidade, desse sentido orientador, a
e de alguns literatos sobre a investigação de quem é o h o m e m . Esse movimento, que
tarefa da fenomenologia.
se estruturou com mais força no entre guerras, isto é, entre 1918 e 1945, teve suas
Captar, na sua profundidade, a relação específica entre o objeto "visto" e o raízes históricas no pensamento de quando o filósofo dinamarquês se opôs ao
sujeito que visa ao objeto é o desafio primordial de u m a abordagem fenomeno- pensamento pós-hegeliano dominante do seu tempo. A idéia central de luta de
lógica. Van Der Leeww explicita que a Fenomenologia procura captar o fenômeno, Kierkegaard era reagir contra o caráter universal, intelectual e determinista do
delinindo-o da seguinte maneira:

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AS VI IRLI IS FI II SS DA I ISLI I ILL«III I FI 'I I< N I N I I< > I . » | I <ISTI I N I, II S U | II IRVLI IN ih A NA I » I R S I « " HVI 11< M< I M I MI ILI«ILI O - I «ISTI I I

afirmando O interesse pelo singular e pela vontade. Segundo O S H I S


LUTRLI.IIII.NINO, célebre do existencialismo é: "A existência precede a essência". Isso quer dizer que
toriadores, O movimento existencialista se iniciou na Alemanha, em 1 9 1 ° , q u a n d o devemos olhar para a vida concreta do dia-a-dia e, a partir daí, compreender quem
Harlh publicou um comentário sobre a epístola aos Romanos e Jaspers publicou A e o homem, e não defini-lo como animal racional e social, suas características mais
Psicologia da Mundividência. De um lado, o movimento existencialista ganha forças universais. A explicitação de sua essência se faz na existência. A reflexão filosófica deve
justamente a partir da década de 20, u m a vez que o entre guerras foi um período ELE abandonar toda elaboração abstrata e dar atenção às experiências concretas, pois são
muito sofrimento, desespero e angústias. Esses temas tornaram-se os temas justamente essas experiências que vão desvelar o ser do h o m e m . O sentido do ser (que
preferidos dos existencialistas, pois se preocupavam em falar e refletir sobre o que o e o objeto da metafísica) vai aparecer na concretude do existente humano.
homem estava vivendo naquele instante. Por outro lado, esse movimento só veio a Assim, a vida por meio do despertar da banalidade do viver cotidiano, com
SE expandir fora do contexto europeu a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. seus grandes problemas, como a decadência, a angústia, o existir trágico, é o foco da
A década de 1950 foi, talvez, a década de divulgação do movimento existencialista. doutrina existencialista. A dificuldade que encontramos ao estudar o existencia-
É necessário observar que, embora encontremos um n ú m e r o muito grande DE lismo é que este não se constitui como um sistema unitário. A palavra é tão vasta na
escritores ditos existencialistas - Buber, Buttmann, Guardini, Carnus, Dostoievsky, sua abrangência que traduz mais um enfoque sobre os problemas do que um siste-
entre outros -, só são considerados clássicos filósofos existencialistas Heidegger, ma filosófico unitário entre os diversos existencialistas. É claro que, ao estudarmos
laspers, Sartre e Mareei. Uma segunda observação é que todos esses quatro filósofos, Heidegger, vamos verificar uma sistematização entre os conceitos que explicam a
que passaram para os anais da história da filosofia como os filósofos da existência existência h u m a n a , mas sua reflexão aborda questões muito diferentes das abor-
(Wahl, s.d.), utilizaram, cada um a partir de u m a inspiração pessoal, o método dagens sartreanas e jasperianas. A preocupação com a questão do ser é de extrema
fenomenológico para concretizarem as suas reflexões sobre o h o m e m . importância no pensamento desses autores, bastando lembrar os títulos das obras
A filosofia da existência p o d e ser concretizada através de suas grandes caracte- mais importantes tanto de Heidegger - O Ser e o Tempo - como de Sartre - O Ser
rísticas. A primeira é que todos os filósofos e escritores procuram valorizar o e o Nada.
h o m e m . A segunda é que todos procuram descrever e explicitar o m o d o concreto de A presença da fenomenologia no pensamento dos principais teóricos da filo-
o h o m e m viver, isto é, refletindo sobre os problemas do cotidiano, como, por sofia da existência é uma revelação da contribuição que a fenomenologia oferece na
exemplo, sobre a angústia, a liberdade etc. formulação da doutrina existencialista. Embora sejam duas filosofias diferentes, a
Mas, afinal de contas, o que é então o existencialismo? É possível uma defi- fenomenologia oferece ao Existencialismo um método de investigação na formu-
nição dessa doutrina a partir de tão diversas abordagens? É possível encontrarmos lação de suas temáticas. N ã o podemos esquecer, também, que Heidegger foi um
um denominador c o m u m entre Heidegger, Sartre, Mareei e Jaspers? discípulo de Husserl e o substituiu na universidade de Friburgo. Assim, a fenome-
nologia oferece aos filósofos existencialistas um instrumento de reflexão que os
Wahl diz que "estas filosofias são um início do e m p i r i s m o metafísico e do
ajuda a explicitar o vivido, a vida nas suas mais diversas concretudes, com a angústia,
sentimento de inquietação h u m a n a . Nelas não e n c o n t r a m o s u m a definição, m a s
u m a caracterização, e é o m á x i m o a que p o d e m o s aspirar" (s.d.). Aqui, e m - a culpa, o encontro, o amor etc.
pirismo é t o m a d o no sentido de que se vai refletir sobre os elementos h u m a n o s A análise existencial, terapia que se desenvolveu na Suíça por meio de dois
q u e são irredutíveis a toda construção, o que segundo Wahl estaria p r ó x i m o do grandes psiquiatras, Ludwig Binswanger e Medard Boss, teve c o m o inspirador
t e r m o empregado por Heidegger de faticidade. Assim, o esforço desses filósofos é maior Martin Heidegger. Destacar alguns pontos do pensamento desse importante
explicitar os aspectos que caracterizam a vida h u m a n a , a s s u m i n d o u m a p o s t u r a filósofo vai trazer algumas luzes para entendermos a corrente terapêutica intitulada
de especulação sobre a existência. Daí ser o conceito de existência central nessa Daseinsanalyse.
filosofia. O ponto de partida do pensamento de Heidegger é o problema ontológico, isto
A filosofia da existência coloca de maneira categórica que só o h o m e m existe. é, seu interesse maior é o estudo do ser. Sua filosofia reflete um esforço gigantesco
O h o m e m não pode ser reduzido a u m a substância, como foi compreendido pela no desvelamento da verdade do ser, isto é, procurar trazer à luz da razão o ser e suas
filosofia clássica. Ela é u m a maneira de entender a existência como existência h u - estruturas, a qual vai se dar por meio da análise descritiva dessas estruturas. No seu
mana. O dado primário a partir do qual se pode compreender o h o m e m é a livro O Ser o Tempo, escrito em 1927, obra que marcará de forma decisiva alguns
existência e não a essência, a definição a priori do h o m e m . Por isso mesmo, a frase terapeutas existenciais, procura desvendar as estruturas essenciais do ser, do Dasein

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(I xistência) e cuja dimensão da temporalidade é a de maior destaque. To is o I >asein nada Análise Existencial. Evidentemente, existem diferenças entre as duas aboi
c essencialmente temporalidade. Heidegger considera o homem não estando NO dagens e nao podemos colocá-las dentro de u m a só perspectiva. As divergências sao
Tempo, mas constitutivamente temporal. Daí o significado profundo do seu livro < > grandes, porém, não cabe neste trabalho apresentar essas nuances. O essencial é
S R / e o Tempo. A temporalidade é estruturante do ser. destacar que o pensamento de Heidegger teve um impacto grande na estruturação
Assim, a filosofia de Ser e Tempo será denominada analítica existencial, q u í de algumas abordagens terapêuticas.
leni como objeto o desvelamento do Dasein. Na primeira parte, temos uma análise Binswanger foi o primeiro que buscou no pensamento de Heidegger uma
fundamental do Dasein e a segunda parte estuda o Dasein e a temporalidade. Nessa inspiração para sua prática clínica. Q u a n d o o texto de O Ser e o Tempo veio à luz em
analise lundamental do Dasein, podemos descartar alguns pontos que terão um 1927, Binswanger, juntamente com um grupo de estudiosos e terapeutas ansiosos por
impaclo muito grande nas terapias que se basearem no pensamento de Heidegger. encontrar uma fundamentação para as suas práticas clínicas, começou a estudar esse
O Dasein possui a característica essencial de estar conectado diretamente com livro. Nessa época, Binswanger estava muito influenciado pela fenomenologia de
0 mundo, não podendo ser compreendido separado do m u n d o . Mais, ele não existe 1 lusserl, pois o encontro intelectual com Freud não estava sendo satisfatório para a
fora do mundo, não é exterior ao m u n d o , mas está em relação de constitutividade fundamentação da psiquiatria. O encontro com Heidegger vai possibilitar, em 1930,
c O N I o mundo. Daí que o Dasein é um Ser-no-mundo (In-der-welt-sein). O m u n d o uma virada na sua trajetória profissional, fundando o Daseinsanalyse.
e o correlato existencial e estrutural do ser h u m a n o . É c o m a publicação do Traum und Existenz (Sonho e Existência) que Bins-
Uma segunda característica do h o m e m estruturante de sua existência é o que wanger marca de forma revolucionária o p e n s a m e n t o psiquiátrico. A partir daí,
1 leidegger chama de ser-com (mit-sein): os outros. No entanto, será o seu discípulo ele vai construir t o d o um arcabouço teórico q u e c u l m i n a r á c o m a publicação do
K.ui Lõwth que desenvolverá mais esse aspecto apontado em O Ser e o Tempo, livro Grundformen und Erkenntnis menschlichen Dasein (As formas fun-
I leidegger mostra que viver em comunidade faz parte da estrutura do ser e é o as- damentais e o conhecimento da existência humana). Sua a n t r o p o l o g i a feno-
pecto mais estruturante do Ser. Isso implica que o h u m a n o só se desenvolve no menológica faz a fundamentação de toda a Análise Existencial. Nessa obra se faz
humano. Se o h o m e m viver n u m a comunidade de lobos ou macacos (como no mito presente a i m p o r t â n c i a de I leidegger, t e s t e m u n h a n d o , assim, o impacto desse
do Tarzan) não desenvolverá qualidades e características h u m a n a s , como, por exem- filósofo na prática clínica.
plo, a linguagem. O h o m e m , para se tornar h u m a n o , deve partilhar a sua existência Medard Boss estabeleceu um contato mais próximo de Heidegger, desen-
com a existência de outros h u m a n o s , com os seus semelhantes. A partir dessas duas volvendo u m a série de seminários na sua casa, n u m bairro de Zurique chamado
dimensões essenciais do Dasein, Heidegger desenvolve várias outras considerações Zollikon. Esse diálogo foi desencadeado em 1947 por meio de u m a carta que Boss
sobre a existência humana, com desdobramentos sobre o que significa uma escreveu a Heidegger, solicitando deste uma ajuda intelectual. Boss vislumbrou no
existência autêntica ou inautêntica. Na segunda parte do texto, nos é apresentada a
contato com a filosofia existencial cio I leidegger u m a luz que pudesse iluminar sua
estrutura ontológica do Dasein, em que se destacam exposições sobre a angústia, o
prática clínica. Assim, durante uma década, mais precisamente entre os anos de
scr-para-a-morte, a temporalidade e a historicidade.
1959-1969, Heidegger visitou Boss e estabeleceu com este e seus discípulos um fe-
cundo diálogo'. Contrariamente a binswanger, Boss buscou no contato com
Heidegger u m a inspiração para a operacionalização da psicoterapia.
Análise existencial Em Zurique, Boss fundou um instituto com o n o m e de Daseinsanalyse para
desenvolver as idéias e dar continuidade ao trabalho clínico. No Brasil, um intercâmbio
I >ois autores que utilizaram o pensamento de Heidegger para repensarem os seus entre Sólon Spanoudis e Medard Boss possibilitou a fundação do Instituto de
trabalhos clínicos foram Binswanger e Boss. O primeiro utilizou os ensinamentos Daseinsanalyse de São Paulo, que tem divulgado o pensamento do psiquiatra suíço.
heideggerianos para buscar u m a fundamentação nova e uma sustentação para a
psicopatologia e para a atividade clínica. O segundo utilizou mais as reflexões de
I leidegger no sentido de encontrar meios mais práticos de como operacionalizar a 2. SOBRE A TRAJETÓRIA INTELECTUAL DE BINSWANGER C AS LINHAS MESTRAS DE SUA
psicoterapia. O encontro com o pensamento e a figura viva de Heidegger pos- « O EXISTIR H U M A N O N A OBRA DE L U D W I G BINSWANGER", E M Síntese ( N O V A F A S E ) , N 5 0 ANO 990 PP 8 ^ 9
3 O CONTEÚDO DESSES ENCONTROS FOI PUBLICADO E M PORTUGUÊS E M U M A CO-ED.ÇAO B D U C / V O Z C S . M.uUn
sibilitaram a esses dois psiquiatras a construção de uma escola de terapia denomi-
Heidegger. Seminários de Zollikon. M E D A R D BOSS ( E D . ) , PETRÓPOLIS: E D U C - V O Z . E S , 2 0 0 1 .
I U P O I V L S O O I INILI U NO P O T S P I L L V . I LI ' I H PINI ' I H ILI OXIIAOM MI
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" « I' 11 «LI ' ILI .1 LI. I D I N I I I I H MI ILI II |L XLSTI ' I I I LI IL

conjunto do processo. Será que essa entrega ou não entrega esta dificultando o
Prática da supervisão na perspectiva processo como um lodo? A condução cia terapia é entender qual o lugar dessa sessão
no desenvolvimento de todo o caminhar, é compreender como o que foi vivido na
fenomenológico-existencial sessão pode trazer u m a luz sobre o desenrolar do processo terapêutico. A condução
da sessão é perceber o que está acontecendo no encontro.
O primeiro ponto que merece ser tratado aqui é a questão: de que tipo de supervisão
estamos falando? No final da primeira parte do nosso estudo, destacamos a super
visão em grupo e a supervisão individual. Nos cursos de Psicologia, talvez com raras
exceções, a supervisão acontece em grupo. O que varia é o número de supervi- Questões iniciais
sandos. As reflexões que vamos agora trazer para o leitor dizem respeito a essa
modalidade de supervisão. O que não quer dizer que alguns dos elementos não Aqui, queremos trazer à tona algumas questões que surgem logo no início da terapia
possam ser utilizados na supervisão individual. No entanto, não podemos esquecer e às quais o supervisor deve estar atento, no sentido de ajudar o novo terapeuta a se
que a supervisão de grupo tem características muito próprias. posicionar de forma crítica e criativa diante dos desafios que vão surgindo.
A primeira questão de fundamental importância para o êxito da terapia e que
deve ter a atenção do supervisor diz respeito à qualidade da relação terapêutica que
está sendo instaurada. No início da terapia, muitas vezes, o paciente, só pelo fato de
C o n d u ç ã o da sessão versus condução do
ser bem acolhido, já se coloca n u m a posição de confiança com respeito ao seu
processo terapêutico ouvinte, no caso, o terapeuta. Saber acolher é o primeiro requisito para se tornar um
bom terapeuta, pois é justamente a qualidade do acolhimento que vai possibilitar a
A distinção inicial que ajuda muito o iniciante é distinguirmos didaticamente a su- qualidade da relação intersubjetiva que está sendo instaurada. Muitas vezes, expe-
pervisão de sessão, isto é, a condução da sessão e a supervisão da terapia, ou seja, a rimentamos um alívio só pelo fato do nosso ouvidor nos acolher com um sorriso.
condução da terapia. Por condução da sessão devemos estar atentos ao que se passou Já nos sentimos reconfortados pelo simples fato de o outro dedicar um pouco do seu
nos 50 minutos da sessão. O que aconteceu de relevante no tempo do atendimento. tempo a nós. Assim, o terapeuta é aquele que, no âmbito da sessão, dedica 50 mi-
Outra coisa diferente é termos clareza sobre o m o m e n t o da sessão dentro de todo o nutos a u m a pessoa que durante toda sua vida não teve n e n h u m m o m e n t o de
transcorrer do processo terapêutico. Assim, ao analisarmos a sessão, temos que ter acolhimento. Mostrar que você tem um tempo para ouvir o outro já é um primeiro
essas duas perspectivas do olhar. O fato é o mesmo, mas ele está sendo compreen- passo para desencadear no outro a vivência da confiança, condição básica para o
dido por meio de duas "visadas" (para utilizarmos um conceito da fenomenologia). b o m desenrolar da terapia.
As vezes o supervisando pode ter uma sensação de que a sessão foi u m a catástrofe Rudio nos diz: "A psicoterapia existencial procura cumprir seus objetivos
se olhar do ponto de vista da exploração do material, mas ela p o d e ter sido muito através de um relacionamento entre terapeuta e cliente que tem a feição de um
"proveitosa" se a entendermos no conjunto da vida do cliente. Ele começou a se
verdadeiro encontro h u m a n o " (Rudio, 1998, p. 124). Qualquer relação intersubje-
descobrir. Foi a primeira vez que ele começou a falar de si mesmo.
tiva que possa provocar em nós a experiência do encontro prima pela qualidade da
Olhar a condução da sessão é buscar refletir sobre o que se passou diretamente relação. Q u a n t o melhor é a relação, mais profundidade no encontro. Aprender a
na relação com o terapeuta. C o m o foi a vivência da relação terapêutica. Na fase desenvolver essa postura é o primeiro passo para que o processo terapêutico se
inicial da terapia, as primeiras sessões devem possibilitar ao cliente a vivência da estruture de forma libertadora para o cliente.
experiência de confiança. Às vezes, algumas pessoas, ao se colocarem desarmadas na A segunda questão em que o supervisor deve ajudar o terapeuta iniciante é dar
entrevista inicial, já começam a aceitar seu terapeuta. Outras são mais desconfiadas referências teóricas que o ajudem a montar um quadro de leitura, isto é, de como o
e testam o terapeuta no sentido de verificarem se p o d e m entregar a este o seu paciente organiza sua vida. Alguns teóricos chamam essa compreensão de diagnós-
conteúdo vivencial, isto é, a sua intimidade. Podemos dizer que esta entrega básica é tico; nós entendemos que se trata de se buscar u m a sistematização dos principais
condição sine qua non, sem a qual a terapia não deslanchará. O supervisor deve pontos de vista do cotidiano do cliente. Romero (1999), no seu livro Neogêneses: o
estar atento para verificar se a confiança do cliente já começou a acontecer. Por o u t r o desenvolvimento pessoal mediante a psicoterapia, na segunda parte, mais preci-
lado, é muito diferente ver como esse m o m e n t o inicial pode ser compreendido no

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i ' 'I< " IN I IL h IL H I m m LI M « IN 11 I IXISII 'I IL |I IL ;I I| LI I VLSI TI m IN III 111 LI 11 « IRS| "I 'I LIVI I LI 'I h IL 11' 'I « ILI » IL XLSTI IL h LI IL

sãmente N O S capítulos X XV, apresenta A S diversas áreas I L O m u n d o P E S S O A L T I O A postura deve ser de ajuda para desvelar o significado dado ao que se vive.
I liente que devem ser levadas em consideração, e, por isso mesmo, capazes de N O S l'ara isso, lenho que desenvolver dentro de mim uma atitude de não classificar o que
oferecer O quadro de sua existência. São as seguintes áreas: os relacionamentos A L E esta sendo vivido pelo cliente. Q u a n d o rotulo as coisas, não deixo aparecer o
livos; os relacionamentos familiares e a relação conjugal; a invenção DA vida NO verdadeiro sentido dado pela intencionalidade da consciência. É preciso tomar uma
plano I L O trabalho; os relacionamentos imaginários e simbólicos; planos, projetos e distância, colocar entre parêntese a atitude de classificar para, na calma do encontro
perspectivas futuras e a compreensão do desenvolvimento biográfico. Essa visão DO existencial, ajudar a aflorar o significado. Muitas vezes, n e m deixamos o outro
conjunto DA vida do paciente ajuda o terapeuta a perceber quais as áreas de conflito terminar de falar e já estamos com nossa resposta pronta ou uma nova pergunta a
e quais as áreas em que a vida flui de forma sadia e autêntica. ser feita. O treino de u m a boa escuta é o caminho para sedimentar u m a atitude
Na nossa perspectiva, esse quadro deve ser m o n t a d o aos poucos, sem que for- fenomenológica.
cemos o cliente a responder a um questionário, o que desvirtuaria todo o sentido de
encontro terapêutico. É na medida que o cliente vai expondo suas queixas e suas
vicissitudes que vamos m o s t r a n d o em nossa compreensão teórica o quadro do seu
Desenvolver u m a compreensão
inundo pessoal. Ele deve surgir de forma espontânea no decorrer do processo. H
preciso ajudar o terapeuta iniciante a não se afobar e querer construir esse pano- fenomenológico-existencial
rama com perguntas diretas, em forma de interrogatório, que só prejudicariam o
andar da terapia. Aqui, esbarramos no aspecto mais delicado da supervisão. Para o desenvolvimento
dessa compreensão, dita fenomenológico-existencial na prática, supomos que o
A terceira questão, que merece muita atenção na supervisão, é que o terapeuta
terapeuta iniciante tenha tido um estudo sério do que caracteriza essa abordagem,
iniciante muitas vezes mistura sua problemática com os problemas que o cliente traz
tenha estudado e assimilado alguns pressupostos teóricos que servirão de base na
para a sessão. Queremos dizer que a queixa apresentada, isto é, uma dificuldade do
compreensão do caso e na sustentação teórica de sua atitude terapêutica. Vamos,
cliente, tem, às vezes, relação com alguma vivência do terapeuta. Por exemplo, o
rapidamente, trazer, agora, algumas reflexões que podem nos ajudar a entender a
cliente começa a falar sobre a morte de um parente e, p o r coincidência, o terapeuta
especificidade dessa compreensão.
perdeu, também, um parente muito próximo e sua ferida reabre. Com freqüência,
se O terapeuta não trabalhar b e m suas questões pessoais, acaba misturando-as com O que buscamos compreender? Na linguagem dessa abordagem, é o fenômeno.
as do cliente. Dessa forma, não consegue diferenciar muito b e m o que se passa, pois O que se entende por fenômeno? "A palavra 'fenômeno', de origem grega, quer dizer,
fica atordoado com a questão levantada. C o m o ainda não trabalhou bem a questão etimologicamente, 'o que aparece'. Significa aquilo que é percebido pelos sentidos e
E ela dói dentro dele, de forma inconsciente, começa a desviar o assunto quando ele que se revela (aparece à consciência, quando esta entra em contato com a realidade"
aflora. Ajudar a separar o problema pessoal do problema do paciente é de suma (Rudio, 1998, p. 130). Significa a maneira como percebemos a realidade e a inte-
importância. Digo separar, pois tratar o problema não deve ser na supervisão, mas riorizamos.
na sua própria terapia. Desenvolver o autoconhecimento é u m a tarefa essencial para Essa é a famosa distinção entre o fato e o fenômeno. O fato é o acontecimento
O bom andamento do processo terapêutico. exterior a nós e o fenômeno é a maneira como eu percebi o fato e o tornei meu. Por
A quarta questão pode ser resumida da seguinte maneira: como ajudar o ini- exemplo, diante da queda d'água nas cataratas do Iguaçu, cada visitante percebe a
ciante a construir e a ter u m a atitude terapêutica fenomenológica? queda de acordo com sua maneira de ser, com seu ponto de vista pessoal. Uns vão
ficar mais impressionados do que outros pela beleza do momento. A representação
As palavras de Rudio p o d e m começar a iluminar o nosso caminho. Ele diz:
que tenho na consciência mais a intensidade dessa representação é que constitui o
"Um ponto fundamental para o fenomenologista é que o comportamento do indi-
fenômeno. O fato é a queda d'água, e o fenômeno é a maneira com que cada um
víduo não é uma reação à realidade como tal, mas, sim, ao significado que ele lhe
percebe e dá significação a essa percepção. Assim, para cada um o fato se revela à
atribui. Quer dizer, o indivíduo se comporta como resposta ao significado que ele dá
consciência na particularidade da minha história pessoal, "o fenômeno é u m a
AO que existe" (Rudio, 1998, p. 131). Assim, o supervisor deve insistir para que o
terapeuta iniciante busque centrar sua atenção não no comportamento reativo, mas espécie de 'tradução' vivencial que as pessoas fazem dos fatos" (idem).
no significado que justifica o comportamento. Assim, todo o procedimento técnico da terapia é para ajudar o cliente a se
aproximar do que ele experiencia, do fenômeno, da tradução do fato em algo que

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A ' , Vi lili l!¡ li li l ", l l( I I ISll l lll K ||l I |l 'I II II1II 'I li ili'ii | | i i i i i x l s t l 'III |l ll !'il|| ll IIVlSI II ll III III l I I II I I ii l|S| II 'i IIVI I H 'I II ll I M 'I 11 Mi " |H i ' • ia ' ii ii

lenha significado para ele. (!omo disse anteriormente, o terapeuta da abordagem fe A atitude principal a ser desenvolvida pelo supervisor é ter diante de si que ele
nomenológica trabalha com o significado que a pessoa atribui à realidade. "A base do nao vai formar ninguém, que ele não vai moldar ninguém. Ele vai simplesmente
trabalho que o fenomenologista realiza como terapeuta não se encontra nos 'fatos', passar alguns conhecimentos teóricos e práticos que possam ajudar o supervisando
mas nos 'fenômenos' que lhes são transmitidos pelo relato do cliente" (ibidem). a desenvolver habilidades terapêuticas. Evidentemente, ninguém nasce terapeuta,
mas cada um será terapeuta à sua maneira. Mestre é aquele que transmite
Aqui, o importante é saber o que utilizar para que o conteúdo significativo (o
experiência, mas respeita que cada um de nós vivencie, seguindo a sua maneira de
fenômeno) possa aflorar. O terapeuta iniciante tem, também, que aprender "como"
ser, a relação terapêutica com o cliente. O supervisor é aquele que abre os olhos do
e "quando" utilizar as técnicas apropriadas para fazer o fenômeno aparecer. A su
supervisando, mas não diz a toda hora o que deve fazer, ele dá critérios para que
pervisão deve ter presente essas questões para que o supervisando tenha um
cada um encontre o seu caminho. É como o processo de educação, você ilumina o
aprendizado sólido no seu trabalho clínico.
caminho para que o outro possa fazer suas experiências pessoais.
A questão que aparece agora é a seguinte: de onde surge esse significado? Ele
Assim, partimos do pressuposto de que o supervisor deve deixar aflorar as
não acontece por acaso. Ele brota da estrutura da existência da pessoa. Assim, na
habilidades do supervisando, que, algumas vezes, podem ser diferentes e até mais
perspectiva fenomenológico-existencial não basta fazer aflorar o fenômeno, é pre
ciso compreender a estrutura de vida que dá significado a essa vivência. Por isso, "a originais que a sua. Cada um terá uma maneira própria de conduzir a terapia. As
tarefa principal do terapeuta existencial no 'encontro' é procurar 'compreender' o regras auxiliam na medida em que nos ajudam a ver o que se passa, mas não
seu cliente, não apenas no que ele manifesta diretamente por palavras e gestos, mas podemos ficar presos a elas.
também no significado, nem sempre claro, que ele dá à vida e que se revela, de forma O lugar da supervisão no currículo escolar não é só uma transmissão do
ampla, pelo seu próprio m o d o de ser e de agir" (Rudio, 1998, p. 125). Desvendar a conhecimento de u m a pessoa dita mais experiente para outra menos experiente. É,
estrutura de vida que orienta toda vivência da realidade é a segunda etapa da terapia antes de tudo, um encontro h u m a n o , em que haverá um crescimento pessoal de
e o iniciante deve aprender técnicas que possibilitam desvelar essa realidade. De uma ambas as partes. O supervisando crescerá existencialmente à medida que encontrar
forma simples, podemos dizer que o "núcleo do processo terapêutico-existencial o seu caminho de trabalho, e o supervisor à medida que crescer com as novas vi-
está na busca de conhecer, compreender, analisar e avaliar o significado das 'expe- vências originárias do envolvimento profissional. Cada um, a seu modo, sedimen-
riências' e das 'vivências' que o cliente tem no seu envolvimento com o m u n d o " tará a sua vida através de sua prática profissional.
(Rudio, 1998, p. 123). Cada u m a das palavras ditas neste parágrafo tem u m a im-
portância e um peso teórico que, aqui, no nosso trabalho, não é possível desenvolver,
mas que merecem toda uma reflexão posterior. Conhecer, compreender, analisar e
avaliar são verbos que denotam u m a ação que deve ser exaustivamente trabalhada.
Referências bibliográficas
É no conjunto dessas ações que se caracteriza a Análise Existencial.
B U B H E R , R. A psicoterapia pela fala: fundamentos, princípios e questionamentos.
Para terminar este ponto, gostaria de salientar que esse processo de compreen-
São Paulo: EPU, 1989.
são de vida não é, de maneira alguma, uma compreensão intelectual mais vivencial.
B u y s , R.C. A supervisão da psicoterapia na abordagem humanista centrada na
As palavras de Rudio confirmam nossa preocupação q u a n d o diz: "Para ajudar o
cliente a buscar u m a vida sadia e autêntica, o terapeuta (existencial) procura levá-lo pessoa. São Paulo: Summus, 1987.
a refletir sobre si mesmo de u m a forma existencial" (1998, p. 122). D a r t I G U E S , A. O que é fenomenologia? 3. ed. São Paulo: Editora Morais, 1992.

H u b e r , W . Vhommepsychopathologique et la psychologie clinique. Paris: PUF, 1993.

O surgimento de um novo terapeuta J e a n s o n , F. La phenoménologic. Paris: Tequi, s.d.

O último ponto que gostaria de explicitar é sobre o papel do supervisor no processo R i c o E U R , P. Husserl. L'École de la Phenoménologie. Paris: Librairie Urui, 1986.
de aprendizagem do terapeuta iniciante. C o m o deve ser essa presença? Que tipo de R o m e r o , E. Neogêneses: o desenvolvimento pessoal mediante a psicoterapia. S a n
supervisão deve o terapeuta mestre desenvolver para que possa surgir um novo
José dos Campos: Novos Horizontes, 1999.
terapeuta?

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A\ VI lili T. Ii Ii O S (IO I Hill i ili H |li I Ii 'I H H I li 'I Ii ili H |i i i i 'XI',Ii 'I Ii Ii I
Poesia

KNNIO, I'. V . Diálogo maiêutica e psicoterapia existencial. São LOSE DOS Campos:
NOVOS Horizontes, 1 9 9 8 .

Waiii,, |e,in. As filosofías da existência. Lisboa: Publicações Europa-América, s.D.

Van Der G. Epílogo. La religion dans son essence et ses manifestations


Leeww,

phenménologie de la religion. Tradução: Erika Lourenço (mimeo). Paris: Payot, 1 9 7 0 .

'o desapego..
Valdemar Augusto Angerami - Camón

Para
Marina Boccalandro...
Ca rinh o samen te...

Inverno... a Constelação de Escorpião


sinaliza um novo tempo...
u m a nova ilusão...
O o u t o n o se foi... o outono ficou
apenas em reminiscências de
doces recordações do que se foi...
dos sonhos... da ilusão...
do que foi vivido... do que
foi perdido... o t e m p o não passa...
quem passa somos nós...
O inverno é o mesmo hoje, ontem
e amanhã... do apego da vida
à própria finitude... de nossa
efemeridade... de que somos passagem...
de que somos fragrância que se
perde no ar... da ilusão de
que somos senhores de
nossas vidas... de que nada somos...
d o orvalhar n a madrugada... d o olorar D O S
craveiros... da florada de inverno com
sua exuberância e que também irá
se transformar quando
- 1 7 0 -
1
A , VI M I R. ii II es da i isli i ili»|li i ii H N N I M H H III »il Klsti H H II il

i hcgar a primavera... da dor... hoje proi ura por esse V A Z I O que ficou...
das lembranças cie momentos felizes... e ile que adiantou O apego se tudo se constitui
das noites de alegria... em desapego?! E o que é a vida se tudo,
absolutamente tudo, é nadas-
1 )e que somos a se tudo é u m a ilusão a nos
exuberância da transformação... mostrar a magnitude do desapego...
de que somos o nada... ile que as floradas se renovam...
de que nada somos e de que o luamento está sempre a
diante da dimensão do universo... nos mostrar a nova estação... de que sou t u d o
e de que o universo somos nós diante do desapego... e de que a
na imensidão do amor... de que minha vida não me pertence...
o mar guarda em suas eu sou por ela levado... e que o apego
águas o segredo do desapego... maior da vida é o desapego em suas
da lágrima e dor... do riso diferentes manifestações... de que sou
de alegria... de que a minha desapego ainda que tente negá-lo...
vida é nada... tudo... de que as transformações que vivo
sempre me mostram que tudo
E de que tudo se transforma
sempre está passando... passando...
diante do desapego... e o que é o apego se
passando... assim como essas linhas passaram...
a vida é desapego?! Dos amigos que se
assim como esses momentos se foram...
foram... dos desencontros...
no desapego da condição humana...
das despedidas... dos encontros...
da alegria da chegada e do choro doído
das partidas... de como as floradas
se abrem ao vento que irá
despetalá-las... de como nos
apegamos a tudo e nada somos...
de como a vida nos mostra a
todo instante... a todo m o m e n t o
que t u d o se transforma em
despedida... em renovação...

Outros invernos virão... ainda que


a minha alma vagueie perdida
em busca de novas floradas... ainda que
meu espírito busque pelos cantos dos universos seus
pontilhados de apego... o desapego é
a própria condição humana... eu sou
o meu passado no desapego... passeio pela
minha infância e tomo sorvete
na tarde de verão... e vejo o bonde
passando pela minha rua... esse bonde levou
meus sonhos de menino que

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Capítulo

mundo novo,
uma nova pessoa
Tereza Cristina Saldanha Erthal

Chamo de espiritual saber separar o essencial do nao-essencial.


Franz Mare

Introdução
Estamos acostumados a definir a pessoa como a soma de suas partes, esquecendo de
perceber que o ser h u m a n o está presente a si mesmo em termos de u m a experiência
interior indeclinável. Perguntamos qual é o fato central da vida h u m a n a e podemos
responder que a pessoa é um indivíduo vivo e atuante, cuja conduta m u d a contínua
e constantemente e que tem capacidade de dar-se conta desse fato. Uma pessoa
compreende a si mesma em termos de suas respostas observáveis subjetivamente,
em que o pensamento é apenas uma parte.

A vida, no que tem de melhor, é um processo que flui, que se altera e onde nada está
fixado. É nos meus pacientes e em mim mesmo que descubro que a vida é mais rica
e mais fecunda quando aparece como fluxo e como processo... Vagando assim ao
sabor da corrente complexa das minhas experiências, tentando compreender a sua
complexidade, torna-se evidente que não existem pontos fixos. Quando consigo
abandonar-me completamente a esse processo, é claro que não pode haver para mim
nenhuma situação fechada de crenças, nenhum campo instável de princípios a que
me agarrar. A vida é orientada por sua compreensão e por uma interpretação
variáveis de minha experiência. A vida é sempre um processo de devir (C. Rogers, em
Justo, 1976).
— > v ^ ' M " " " I » 'i l' " |K I I • N t n M V II II 1
I L I N 11111111 L I IH 'vi I, 1111111 111 ivi 1 111 ISI

Quando nos preocupamos cm definir .1 pessoa, precisamos lei cm mente essa desenvolvimento d e uma consciência mais grupai. A ciência rcdueionisl.i i a m n o
fluidez e analisar os diversos processos a que uma pessoa está exposta em uma épo< .1 descrédito e cresceu o interesse pelas culturas mais antigas com a sua sabedoria
da vida. Não se pode tentar essa façanha sem considerar o cenário a que está inserida
.1111 estiai.
I nibora várias tentativas já tenham sido feitas nesse sentido, o cenário em que n o s
Iodas essas conquistas, e outras não mencionadas, levam-nos a transformar
encontramos hoje tem por base mudanças relacionadas à pessoa. Conhecimentos:
profundamente o conceito que temos da pessoa. Coisas antes sequer pensadas agora
novos alteram a nossa concepção das possibilidades de um indivíduo, alem de
SE tornam possíveis: o controle das diversas funções do corpo, a capacidade de
mudarem nossa percepção da realidade e de alterarem o nosso sistema de crenças.
autocura, a habilidade de criar novas realidades, a possibilidade de atingir diferentes
Os avanços tecnológicos, m o s t r a n d o incríveis progressos na inteligência, n o s níveis de consciência etc. Está se adquirindo u m a consciência de si c o m o um pro-
lem sido mostrados. Bebês de proveta, clones, meios ambientes artificiais e contro
i esso de mudança, n u m universo novo em que não cabem mais as velhas idéias. Não
lados pelo h o m e m , operações realizadas p o r m i c r o c o m p u t a d o r e s e outras
podemos nos mover gradativamente do velho para o novo; exige-se sempre um
invenções ricas do ser h u m a n o nos levam a admitir u m a m u d a n ç a ininterrupta n o s
salto. Mudanças de paradigmas então ocorrem. Q u a n d o as novas maneiras de en-
l o m p o r t a m e n t o s e na sua forma de avaliá-los. Tais descobertas tecnológicas eslao
tender o indivíduo se tornarem habituais no pensamento h u m a n o , as transfor-
1 ada vez mais afastando o h o m e m do contato com a natureza, i m p r i m i n d o uma
mações serão inevitáveis, com todos os riscos inerentes a um recomeço.
nova forma de interpretar a realidade. Cada vez mais fechado em seu intelecto, sua
solidão aflora. Na tentativa de estudar a pessoa totalizadora, e n c o n t r a m o s muitas caracte-
rísticas que poderiam ser consideradas definidoras. Entretanto, nos detivemos na
Ao mesmo tempo, e talvez como conseqüência desse avanço, tem existido um visão interior do eu c o m o favorecedora de todas as demais. Da abertura para o
e n o r m e interesse por todas as formas de meditação nos tempos atuais. O que se m u n d o interior ressurgem novas maneiras de ver e de ser que se abrem, igualmente,
parece buscar é o reconhecimento e o uso de fontes interiores de energia. Um n ú - para o m u n d o exterior. O desejo por u m a inteireza, isto é, a luta pela totalidade da
mero cada vez maior de pessoas relata estados alterados de consciência através de vida, em que pensamento, sentimento, energia física e energia psíquica se acham
disciplinas psicológicas. Da mesma forma, tem crescido o respeito e o uso da intui- integrados à experiência, parece ser possível quando o foco interno está desenvol-
ção como um forte instrumento do ser h u m a n o para atingir suas mais preciosas vido. Essa pessoa é indagadora, buscando encontrar um sentido e um objetivo para
metas. Os horizontes têm sido abertos. A telepatia e a premonição foram c o m p r o - a vida que transcendam o individual. Deseja um caminho de paz interior e, quando
vadas para merecerem o reconhecimento da ciência. O próprio conceito de saúde experiência um estado alterado de consciência, entra em contato com a unidade do
integral vem a u m e n t a n d o a compreensão de tais capacidades. O estudo dos poderes universo. Muitos as chamam de pessoas iluminadas, ou portadoras de luz, não
espirituais e transcendentais da pessoa tem convidado cientistas a se dedicarem ao apenas pela sua capacidade de se interiorizar, mas pela forma c o m o compartilham
estudo do cérebro na tentativa de entender a poderosa mente com ampla capacidade os seus achados, trazendo luz aos que ainda residem na sombra. U m a pessoa cuja
de ação inteligente. Brown (1980) diz ser possível atingir u m a supraconsciência no mente está consciente da nova realidade, ao m e s m o tempo em que a cria.
processo evolutivo a que a h u m a n i d a d e está exposta hoje.
Portanto, nosso principal objetivo é fazer ressaltar a capacidade para o ser
A Física moderna e o misticismo oriental apresentam agora as suas conver- h u m a n o olhar para dentro de si mesmo e encontrar tudo aquilo que lhe está dispo-
gências: todo o universo é uma e n o r m e dança cósmica, na qual se inclui o h o m e m . nível o tempo todo: a verdadeira realidade. Talvez, dessa forma, a idéia descentra-
A divisão estrita dos campos da matéria, do tempo e do espaço perdem a sua então lizada de si surja e a cooperação, c o m o uma forma superior de relação, se concretize.
relevância, algo revolucionário para a consciência h u m a n a . O pensamento na humanidade como um todo pode expurgar a visão puramente
Mas essa nova forma de perceber a realidade t a m b é m está presente fora do egoísta em que o ser h u m a n o está inserido e promover um maior bem-estar social.
âmbito da ciência. Socialmente falando, temos os grandes movimentos defendendo
direitos que antes eram inimagináveis (gays, negros, índios, mulheres a l t e r a n d o a
sua posição na vida...), chamando a atenção para os estereótipos ainda presentes.
Tudo parece conspirar para u m a mudança no c o m p o r t a m e n t o das pessoas e na A pessoa em questão
conseqüente forma de defini-las. Conclusões mais sábias surgem q u a n d o se vê a
pessoa c o m o um processo e não como algo rigidamente pronto. A atual t e n d ê n c i a é O termo "personalidade" é usado para mencionar os m o d o s c o m o as pessoas dife-
enfatizar cada vez mais a liberdade individual da escolha, assim c o m o salientar o rem ou se assemelham umas às outras.O movimento para o estudo da pessoa total

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AS VClIll IS [c l( ( >S ( l( I I isll l >|i ii ||i l I, i| |, ,| i „ ., i, ,|, „ ||, , , , „ i, ,| Dm mundo n< >v< >, limo m ivi i |»i:;:;i»i

M vem existindo desde Allport (1961), Carlson (1970) e outros que se referiram .i As categorizações continuaram no estudo dinâmico da personalidade (torças
pessoa como um todo integrado e em funcionamento. Tanto aquilo que é c o m u m , motivacionais subjacentes ao c o m p o r t a m e n t o ) . Consistiria a personalidade numa
como o que é único interagem. Filósofos e psicólogos instauraram uma enorme soma de partes? |á sabemos que não. Sabemos também que não podemos descrever
confusão quanto à definição da pessoa resultante da carência de interação entre os o ser h u m a n o completamente, pois, a cada faceta descoberta, u m a nova verdade se
dois pontos de vista. Problemas já surgem como decorrente das definições das abre e novas indagações surgem. Aliado a isso está o fato de que nossos sentidos são
palavras. Considerando que as palavras adquirem vários significados dentro de um incapazes de responder a todos os estímulos possíveis. Geralmente selecionamos
determinado contexto, é natural tal confusão n u m universo em que a especificidade alguns possíveis em detrimento de outros, tal é a tarefa da percepção.
e a congruência são demasiadamente exigidas. Seja pela definição conceituai, seja
Vê-se, claramente, que o estudo das diferenças individuais é bastante pro-
pela associação que a palavra tem para a pessoa, a confusão está instaurada. Talvez
blemático. E c o m o fica o problema do "eu"? Reconhecemos algo c o m o sendo "nosso
não devêssemos nos prender às palavras em si, mas nos seres h u m a n o s com suas
eu", subjetivamente. Especulações sobre o assunto vêm desde W. James e o beha-
características. Mas, c o m o seres h u m a n o s , temos dois problemas a enfrentar: as
viorismo d o m i n o u muitos anos o pensamento dos psicólogos que se interessaram
diferenças individuais e o problema do eu. Isso porque é dito que todo ser h u m a n o
pela investigação científica. A investigação experimental do "eu" coube a Michael
e único, pelo menos desde Aristóteles essa diversidade tem sido vista como um
Argyle (1969) que distinguiu "eu" de "mim". O primeiro c o m o agente atuante e
problema científico. A ciência sempre coube a descrição acurada do seu objeto de
consciente; o segundo, a pessoa a que os outros reagiam.
estudo com posterior explicação ou controle. Fica muito difícil aplicar esse modelo
as pessoas. Se considerarmos a expressão "toda pessoa é única" como um fato, só O afastamento do behaviorismo se deve a uma reação liderada por aqueles que
poderemos entendê-la c o m o u m a pessoa. O modelo mais c o m u m no estudo da estavam interessados na pessoa, na sua experiência e no seu desenvolvimento. Isso
pessoa tem sido o nomotético ou aquele que envolve leis gerais. C o m ele, perde-se fez ressurgir o interesse no "eu" ou, se preferirem, no estudo da experiência interior.
de vista a pessoa em meio a números e generalizações. O estudo dos casos in- Em Carl Rogers (1977), por exemplo, o "eu" não é senão a percepção que a pessoa
dividuais, ou modelo idiográfico, t a m b é m não parece ser a solução mais satisfatória, tem de si mesma. Em parte resulta da diferenciação da personalidade ao longo do
considerando que a pessoa não existe isoladamente. Foi em razão dessas dificul- desenvolvimento da experiência total, como t a m b é m das interações com outros que
dades que os psicólogos passaram a estudar a personalidade ou o conjunto de dão sentido particular à experiência de si. A aparição do eu consciente acompanha
qualidades que constitui a pessoa. a aparição de u m a necessidade de atenção positiva do outro. Esta, por sua vez, gera
a necessidade de atenção positiva de sua parte. Assim, o outro significativo pode
A sensação de sermos diferentes dos outros é c o m u m e resulta em construir- influir no processo de avaliação próprio da pessoa. Começa a existir um hiato entre
mos categorias ou classificações para as demais pessoas. Um exemplo claro existente aquilo que é valorizado pelo outro e o que é vivenciado pela pessoa.
desde a época pré-socrática é a Teoria dos Humores de Empédocles. Como os filósofos
O tema pessoa é por demais antigo. Pessoa deriva de "persona" que significa
pré-socráticos procuravam estabelecer quais os elementos constitutivos do universo,
máscara e que no teatro indica caráter. Em O misantropo, Molière focou o que uma
Empédocles apoiou-se nos quatro elementos (terra, água, fogo e ar) para fundamentar
pessoa sente quando retira a sua máscara. Também no cinema o ataque à identidade
o seu ponto de vista. Se a pessoa é parte do universo, t a m b é m nela existem tais
individual foi apresentado diversas vezes indicando o profundo interesse por esse
elementos e sua diversidade é explicada pela combinação desses elementos em cada
ser: ar-sangue-seco; fogo-fleuma-quente; água-bílis amarela-úmido; terra-bílis negra- assunto fascinante (os irmãos Marx, por exemplo). Faz-se mister algum critério
Irio. Tal classificação orientou Galeno na sua Teoria dos Quatros Temperamentos como característica básica de definição. Cada época faz ressaltar um determinado
(sangüíneas, melancólicas, fleumáticas e coléricas). Avanços no conhecimento der- ângulo. Seja Freud com seu sistema fechado de energia, seja a máquina de reflexos de
rubaram tais categorizações, relegando-as a mera curiosidade histórica. Watson, a noção cristã de alma ou ainda o conceito budista de "cebola" que precisa
ser descascada para se chegar à unidade com o Ser universal, são critérios escolhidos
Mas, assim como os tipos, os traços ou características dominantes na pessoa de acordo com o fundamento adotado. Não podemos deixar de falar que o que a
serviram de critério para definir a personalidade. Na grande mole h u m a n a costuma- psicologia descobre muitas vezes muda a natureza do que é investigado. O que o
se destacar os introvertidos e os extrovertidos, por exemplo. Os primeiros assumem investigador espera descobrir geralmente influencia no que ele realmente descobre.
uma atitude tímida e são mais introspectivos. Os segundos, escondendo a sua reali-
Evidentemente, cada pessoa se desenvolve dentro de um contexto de pres
dade e conflitos através da fala loquaz com a presença de ruídos, erguem uma cor-
tina densa pela exteriorização que se permitem, inseguros e instáveis. supostos sobre a humanidade. Os existencialistas, por exemplo, sugerem que os

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homens elevem se preocupar com a própria existência como indivíduos. A antro


Representa um compromisso com o desenvolvimento máximo das capacidades
pologia se preocupa com o que é ser h u m a n o . Dentro do existencialismo encon-
internas e individuais de cada pessoa. As chamadas experiências culminantes, se-
i ramos uma visão diferente do h o m e m de acordo com a postura cristã ou ateia que
gundo ele, nada mais são que experiências intensas de a m o r pleno ou mesmo de
se advoga. "Singular é a característica através da qual deve passar a humanidade",
vivências cotidianas. São estados de auto-realização que h a r m o n i z a m a pessoa que
expressa o pensamento kierkegaardiano. Para Kierkegaard (1972), o universal não
os vivência.
passa de u m a abstração do singular. E esse singular é o singular-homem. Somente o
siugular-homem tem consciência de sua singularidade. Era ele contra o espírito do As teses orientais advogam a pessoa como um ser integral, cujas dimensões se
seu tempo que enredava as pessoas no anonimato e na impessoalidade. A igualdade expressam de variadas formas: consciência, comportamento, personalidade, iden-
não existiria nesse m u n d o , já que a diferenciação é própria da pessoa. O ideal da tificação, individualidade. Tais manifestações se organizam n u m a expressão trinaria,
sociedade, rechaçado por ele, constitui na conformidade das pessoas às outras. Em qual seja, o corpo ou ser psicofísico, mas não apenas ele, como também a matéria
v i v de se tornarem verdadeiros "eus", transformam-se em u m a terceira pessoa considerada efeito; o perispírito, ou modelo organizador, e o espírito ou a indivi-
genérica. Segundo ele, u m a das escolhas que u m a pessoa deve fazer é ser ou não ser dualidade eterna. Nessa concepção, o espírito, imortal, preexiste ao corpo, e sua
ila mesma. A primeira exige a presença de um eu infinito. "E recusando-se a aceitar origem remonta os milênios passados do processo evolutivo, desenvolvendo-se
1i seu eu, a ter como seu esse eu que lhe coube em sorte, quer, pela forma infinita, através das experiências corpóreas com a crescente aquisição de faculdades e funções
persistir em ser, construir ele próprio o seu eu" (Kiekegaard,1972). Mas reflete que que conduzem ao crescimento. A pessoa, assim, sintetiza as variadas dimensões que
o homem nunca será ele próprio enquanto quiser ser somente ele próprio. Implica lhe cumpre aprimorar ao longo da sua existência, com o desabrochar de recursos
necessariamente relação a um outro. A perfeição consistiria em sermos nós embrionários, indispensáveis ao seu existir.
próprios, totalmente, o que significa dizer que o h o m e m total é mais do que a sua Toda essa visão situa-se para além da física; por isso m e s m o é chamada de
natureza. O desespero surge q u a n d o nega a Realidade que o criou, Deus. Portanto, metafísica, interessando-se pelo aspecto mais amplo e mais sutil da realidade que
singular é singular perante Deus. apenas a pobreza dos nossos sentidos não é capaz de atingir. Ultrapassa, portanto,
os fenômenos, observados como realidade factual. A ciência m o d e r n a (Einstein,
Sartre é o representante do existencialismo ateu que suprime a idéia de Deus
para que exista o homem. Para ele, o h o m e m nunca pode prescindir totalmente de si, Bohr, Oppenheimer...) confirma esse dado q u a n d o coloca de vez a nocaute o
de seu eu, que é seu projeto. Mas, quando crio o h o m e m que quero ser, crio o h o m e m empirismo materialista. Ao reduzir toda matéria à energia, a ciência moderna fez
e]uc deve ser, indicando com isso que "escolhendo-me, escolho o homem", como disse com que o materialismo agonizasse justamente por falta de matéria. Q u e ironia! E
Sartre (1997). Assim, a nossa responsabilidade envolve toda a humanidade. enquanto tal ciência crescia em sua busca, a filosofia idealista kantiana funda-
mentava-se no espírito racional como única realidade, afastando-se cada vez mais da
A filosofia, através dos séculos, buscou demonstrar que a pessoa é distinta do
matéria (quase-realidade), vista então como miragem ou algo que parece real. O
indivíduo e do ser psicofísico. Do ponto de vista psicológico, a pessoa é um ser que
se expressa em múltiplas dimensões (humanista, comportamental e existencial), empirismo e o idealismo assim se opuseram como movimentos de extrema es-
além dos novos potenciais que estrutura o seu ser pleno. querda e direita.
Qual será então o caminho para definir ou descrever a pessoa mais adequa-
A psicologia ocidental, diferentemente da psicologia oriental, manteve o con-
damente? Parece existir u m a proposta de filosofia integral, capaz de adotar ambas as
ceito de pessoa entre os limites do nascimento e da morte, com uma estruturação
visões, considerando que a filosofia em si é u m a síntese de duas antíteses. Podemos
transitória. A psicologia oriental, por sua vez, sustenta a idéia de u m a realidade
admitir essa síntese na relação causa-efeito. Tal proposta já é encontrada em Aris-
transcendente, embora não negando a imanência na expressão da forma e relati-
tóteles, discípulo de Platão, que dizia não haver realidade (causa) separada do
vidade corporal. Abraham Maslow (1972), considerado o pai espiritual da Psicologia
fenômeno (efeito). Spinoza, discípulo de Aristóteles, defendia a tese de que, embora
1 himanista, foi o que mais se aproximou da tese espiritualista q u a n d o considerou a
realidade e fenômeno estivessem ligados, não existia u m a relação idêntica entre
questão do crescimento e do desenvolvimento pessoais, procurando compreender as
ambos. Afirma a realidade como essência de qualquer fenômeno. Que essência seria
realizações mais elevadas que os seres h u m a n o s são capazes de realizar. Estudando
essa? Seria Deus, ou alma mais precisamente, e sua linguagem. Deus é, então,
diferentes pessoas brilhantes em seus feitos, e, segundo sua avaliação, sem neuroses
imanente em qualquer ser. O ser seria governado por esse Deus imanente nele. Tal
ou problemas pessoais maiores, chegou ao conceito de auto-realização. Significa a
visão conclui que Deus está no m u n d o , assim como o m u n d o está em Deus ( c a u s a
exploração plena de talentos e potencialidades levando a u m a grande realização.
e efeito n u m a relação unívoca).
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A proposta metafísica é transcendente e imanente porque transcende a fac ul importante, a identificação interna constitui um problema maior q u a n d o o apego
dade dos sen titios, da mesma forma que vê por dentro dos fenômenos sensitivos. forte é responsável por vícios e paixões degenerativos. Q u a n t o menos evoluída a
Essa é considerada u m a visão sintética que p r o p õ e u m a visão do h o m e m c o m o pessoa, mais apegada. Assim, o seu crescimento deve se "desidentificar" de hábitos
aquele que faz o q u e é, e x t e r n a n d o em atos o seu p r ó p r i o ser. Essa pessoa ho que geram falsas necessidades. O sofrimento, para a filosofia oriental, seria resul-
líslica é aquela que chegou a apreender a verdadeira realidade, Deus. Não Deus tante da identificação com o que é ilusório, desconsiderando a impermanencia da
como figura antropomórfica, m a s c o m o u m a energia superior cujas partículas vida física.
estariam contidas nas pessoas. E aí a grande verdade a ser c o m p r e e n d i d a seria
A individuação: ser pleno que alcançou a realização. Imperecível, a indi-
que cada um de nós estaria no m u n d o com u m a tarefa natural, p o r é m grandiosa,
viduação seria o espírito em si mesmo que sabe como agir para ser pessoa integral.
de servir à h u m a n i d a d e .
A pessoa, que superou os condicionamentos com a sua consciência desperta, é o ser
Vamos agora examinar as várias manifestações dessa pessoa integral que essa total ou a individualidade eterna.
visão estabelece:

A consciência: a psicologia tradicional, aferrada ao organicismo, ignora os


elevados níveis de consciência, tão presentes na psicologia filosófica do oriente, que
enseja a superação dos limites conhecidos e familiares, por meio do transe ou da
A natureza interior da pessoa
meditação profunda. As experiências nas diversas áreas de consciência alterada
Cientes das dificuldades de abranger a pessoa total, escolhemos nos concentrar na
proporcionam dilatação do conhecimento. A consciência, nesse caso, como perfeita
natureza interior da pessoa. Não é necessário se afastar do m u n d o , como pregam os
identificação entre o conhecer e o fazer, entre o saber e o amar, faculta u m a am-
idealistas, para olhar essa natureza. Na verdade, a postura correta é a investigação
plitude maior de possibilidades para penetrar em dimensões metafísicas, em que
interna até chegarmos a uma compreensão básica, o que exige uma faculdade mais
outras realidades seriam a base do ser pessoal.
sensitiva. Embora as sínteses metafísicas já se encontrem presentes em alguns povos, e
O comportamento: analisemos, primeiro, o c o m p o r t a m e n t o quanto à inte- a caminho em outros, não é nossa pretensão chegar a elas. Contudo, grandes fenô-
ração da pessoa consigo própria e com o outro. Todas as atitudes que caracterizam menos na humanidade só se acham presentes quando há grandes compreensões. A
u m a pessoa são resultantes do convívio social e de suas aspirações, gerando a síntese que estamos mais preocupados em destacar é aquela da unidade, ou seja, a
consciência individual que, por sua vez, responde pela do grupo social a que afirmação de que cada um de nós está no m u n d o para servir à humanidade. Essa seria
pertence. Agora, observemos o c o m p o r t a m e n t o estruturado pela mente. A pessoa a característica mais importante da pessoa e que parece estar enchendo as sessões de
é, acima de tudo, a sua mente, isto é, o que elabora, torna-se; quando cultiva, ex- psicoterapia atualmente. Antes, porém, de levantarmos esse ponto, vamos nos deter
perimenta. A mente tanto pode algemar quanto liberar, sendo necessário um em algumas pessoas que se destacaram na história da humanidade, servindo-a com o
conjunto de disciplinas para comandá-la, ao invés de ser a d o m i n a d o r a irredutível. seu brilhantismo, para depois entendermos o que podemos extrair disso.
O desejo expressaria o p o n t o evolutivo da pessoa, respondendo pela conduta e seus
Einstein constitui um bom exemplo da pessoa totalizadora a que o texto se
fatores decorrentes. O c o m p o r t a m e n t o imporia necessidades e a sua expressão
refere. Cientista e filósofo familiarizado com os m u n d o s ocidental e oriental, espe-
simultânea, definindo dessa forma a pessoa.
cialmente um filósofo de intuição cósmica, chegou a conversar com Bergson sobre
A personalidade: representa a aparência para ser conhecida, dominada pela u m a proposta para as atividades da "Nova República da Decência", que todos os
imposição das leis e costumes da época e da cultura. Considerando a existência de h o m e n s de boa vontade desejam para o m u n d o . Afirmava, com ênfase, que
um eu profundo e real, estaria ela em distonia com esse eu, gerando eternos "existimos para os nossos semelhantes". Com o cérebro afeito às ciências exatas, não
conflitos. O desafio está em assimilar e exteriorizar todos os condicionamentos em excluía as artes e a filosofia. Para ele, a verdade independe da humanidade, baseado
coerência com este ser real, assim fazendo a pessoa assumir a sua realidade superior que estava em sua certeza interna, intuitiva. A certeza não decorre de procedimentos
e positiva. O resultado seria a obtenção da harmonia entre o ser e o parecer.
empírico-analíticos, mas da intuição ou "puro raciocínio": "... se há u m a realidade
A identificação: dois tipos de identificação se fazem sentir no caminho do independente do h o m e m , há também uma verdade relativa a essa realidade; e de
progresso: externa e interna. Enquanto a primeira se debate nas múltiplas lutas para igual m o d o a negação da primeira traz consigo a negação da segunda" (Einstein, em
assimilar os comportamentos sociais nos quais o apego assume a condição mais Prigogine, 1980).

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aeronaves não parece divergir desses estudos anteriores. Uma de suas turbinas de
Assim, ,i verdade é uma realidade anterior e posterior ao homem; existe inde
pendente de uma concepção da verdade. água chega a ser quase moderna. Projetou um barco movido a rodas e um c a n o a
autopropulsão. Leonardo constitui um exemplo indiscutível da combinação de
I )iscípulo de Spinoza, Kant e H u m e em filosofia, assíduo, da mesma forma, das
características consideradas em seu potencial máximo. Se considerarmos que a mela
obras de- Platão, sua filosofia é cósmica, diferente da filosofia daqueles que se alge
do desenvolvimento h u m a n o é o desenvolvimento pleno de todas as qualidades
mam ao intelecto. Sua afirmação de que espaço e tempo são relativos não são poesias
superiores, podemos dizer que Leonardo a atingiu. Algum dia todas as pessoas
ou divagações, mas verdades matemáticas. Todos lembram daquilo que estudaram
desenvolverão todas as suas possibilidades.
na escola, que os corpos não são puxados para baixo, como afirmam os físicos
i lássicos, simplesmente porque, segundo ele, não há "embaixo" ou "em cima", no W. Shakespeare nos parece uma ilustração sábia. As lições de vida do magnífico
universo. Einstein nos ensinou que os corpos se movimentam apenas e, no seu Shakespeare p o d e m ser relevantes aos nossos esforços de dominar u m a grande e
i rajeto, tendem para o caminho de menor resistência, contrário à força gravitacional importante habilidade: a elaboração das emoções com a utilização da mente. Extre-
absoluta. Sua intuição precisa apontar-lhe para um caminho que não tropeça nas mamente hábil nas palavras, pôde ele demonstrar que, apesar de sua educação
l.u ticidades. Q u a n d o diz que a verdade independe do h o m e m , ou seja, que a informal, suas inspirações eram provenientes de alguma coisa pré-lógica que
verdade não é apenas transcendental (critério subjetivo), mas efetivamente o trans- chamamos intuição. Sua escola foi, na verdade, a própria vida. A virtude, proposta
i i n d e , não tem provas para isso no sentido empírico, mas a reafirma, ainda que não desde os tempos de Platão, o cuidado e a inteligência ao conduzir a vida foram
possamos dizer o que significa. exaltadas p o r ele t a m b é m . Sua obra nos mostra como podemos cultivar a inteli-
gência intra e interpessoal, enriquecendo nossos próprios insights e nossa com-
Quantas coisas no m u n d o não estão relacionadas à mente humana! A luz do
preensão dos outros. Suas peças são apreciadas por todo tipo de pessoa, de todos os
sol é um exemplo. A luz que enche o universo, apesar de já ser um estudo comum,
continentes. São simples e acessíveis, ao m e s m o tempo em que infinitamente
continua sendo um mistério. É ao mesmo tempo onda e partícula, nem por isso
complexas, conduzindo a u m a variedade de perguntas. É c o m o se fossem u m a espé-
ilusória. A visão intuitiva emerge do ser independentemente dos sentidos e das
cie de guia para a compreensão do d r a m a interno de nossas vidas emocionais.
elaborações intelectuais. A teoria do conhecimento (epistemologia) prescinde dela.
A afirmação empirista de que todo o conhecimento sintético se fundamenta na Proclama ele a mestria do self, de sermos capazes de transpor as tempestades emo-
experiência apresenta limites. É possível haver conhecimento não-inferido. O cionais, em vez de sermos afogados no mar de emoções. Para ele, os medos são
empirismo faz o conhecimento depender da percepção. Contudo, sendo o co- verdadeiras barreiras a que chama de traidores: "Nossas dúvidas são traidoras e
nhecimento um conceito vago e ilusório, como se situa u m a observação? Pode um nos fazem perder o b e m que nós freqüentemente precisamos vencer, pelo medo de
observador concluir sobre o afeto de outro através dos sentidos? Parece que o tentar" (Mensure for Measure). Foi, dessa forma, o grande precursor do que
critério mais confiável é a afirmação da própria pessoa, e o crédito a ela elimina o Goleman chama hoje de inteligência emocional.
desgaste da reflexão. A criatividade estética não se atém na percepção dos sentidos Sua obra também parece oferecer um guia para a superação das limitações
ou mesmo nas funções intelectuais da pessoa, da mesma forma que a fé. mentais impostas: "Não existe nada mais que o bem e o mal, mas o pensamento os
faz assim". Ou: "Não faça de seu pensamento a sua prisão".
Outra figura expoente na nossa história é Leonardo Da Vinci. Mais conhecido
No espectro de sua obra, Shakespeare descreveu com precisão as emoções,
por suas famosas pinturas, foi ainda muito bem-sucedido como cientista, inventor
tanto as vividas por ele, como as vividas por outros. O resultado foi a intensidade e
e profeta. Tinha consciência do sistema heliocêntrico uns trinta anos antes que
a dimensionalidade sem precedentes. Captou o mais dócil dos sentimentos
(Copérnico o divulgasse. Era versado tanto em filosofia como em anatomia, as-
tronomia, botânica, ciência natural, medicina, ciência ótica, meteorologia e aviação. h u m a n o s e o mais brutal. Seu fascínio pela psique h u m a n a envolveu todas as idades.
Atingiu grandes avanços nesses campos e seu conhecimento é usado até hoje pelos Em As you like ir, discriminou sete idades do h o m e m , ou sete fases, que estão
cientistas modernos. Bastante estudado em arquitetura, música e arte bélica, fez presentes em suas obras em detalhes: o jovem h o m e m em Hamlet; o amante Otelo;
projetos para produção em massa de canhões, munições e outros tipos de armas que o soldado Macbeth, e Lear, o velho, são alguns desses exemplos. Todos eles nos
poderiam ser encaradas como ancestrais dos tanques de guerra. mostram como vivemos com mágoas por causa da fragilidade do ego h u m a n o , da
ausência de equilíbrio, perspectiva e proporção em nossas vidas. Hamlet, por
Da Vinci fez estudos acurados sobre a vida e os movimentos das asas e penas
exemplo, sofre de paralisia da vontade e conseqüente inabilidade de agir decidida
de aves, procurando extrair deles o segredo do vôo. A construção moderna das
mente por não desenvolver a correia visão de examinar todos os lados das questões

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apresentadas. Shakespeare nos fala tio egoísmo, tão presente, e que precisa ser pouco conhecida pelo homem social externo. O que é mais externo pode sei
transposto e Iransnuilado por uma decisão consciente de abraçar o equilíbrio para definido como o que é percebido p o r ele, ou está disponível para ele nos diversos
podermos resolver conflitos. Ressalta o amor como o poder redentor em nossas vidas. aspectos de seu eu público. O m u n d o externo parece existir apesar de nós. Menos
Tudo o que esse iluminado escritor expressa como pessoa é a sua grandiosa exteriores são as percepções relativas ao percebedor (percepção do trabalho, das
capacidade de viver seu eu interno e dividir com o m u n d o as suas conseqüentes relações interpessoais estabelecidas, o que pensamos que vamos dizer para
reflexões. Aprendeu ele, e por isso nos ensina, a ver a mente como flexível, capaz de outros...). Tudo indica que o eu interno começa nesses limites. Nele surgem associa-
se adaptar, de forma graciosa, aos muitos diferentes papéis na vida. É como se ções com pensamentos que aparecem espontaneamente. Nesse universo habitam as
existisse um grupo de atores internos que desempenhassem suas partes no teatro da sensações vagas, assim como os sentimentos, as imagens confusas... O eu que se
vida. Pode existir u m a forma coordenada de desempenho de nosso conjunto dirige para o externo parece se orientar pelas circunstâncias, enquanto no m u n d o
interno. Dessa forma, a relação intrapessoal estaria realizada e a inteligência bem interior o ponto de referência é interno e a vida parece surgir espontaneamente, não
mais aplicada na vida. limitada pelo pensamento, percepção ou algo ligado à situação exterior imediata. Tal
m u n d o interior é expresso por meio de imagens, daí ser a riqueza de imaginação tão
O engajamento com as verdades intuídas e a preocupação em dividi-las com
presente nos grandes homens da humanidade.
OS demais fazem desse escritor u m a marca na humanidade. É impossível ler
Shakespeare e não se sentir mexido, uma vez que ele convida os buscadores a Compreendo uma imagem como uma área de luz ao redor de uma área de
realizarem um mergulho interno. Trata-se de um ser mortal que se tornou imortal escuridão com a forma de um olho. Esta é interior e não fabricada, porque surge
P O R suas idéias, da mesma forma que Leonardo Da Vinci e Einstein. Todos os três por si. Sem sentido ou utilização, ainda não estão evidentes. Se esqueço a imagem,
parecem ter desenvolvido muito b e m a capacidade de olhar para dentro de si seu emprego pode ficar permanentemente perdido. Na medida em que invisto na
mesmos e ousar buscar o conhecimento. Na ciência ou na arte mergulharam e imagem, posso sentir gradativamente o seu sentido. Ela vem lentamente. Alguma
coisa assim como a visão no escuro, mas não a compreendo. O eu pode reagir e
descobriram que não há nada que não possa ser desvelado. Sua ousadia os levou a
rejeitar a idéia como ilusória. A escuridão não pode ver - é uma imaginação tola.
transformar conhecimento em sabedoria. Mas no mundo interior, as imagens conceituais crescem lentamente, como uma
0 que vimos com essa pobre descrição de pessoas tão completas nos leva a semente, de quase nada a formas cada vez mais diferenciadas. Vejamos.
(...) De acordo com a imagem descrita anteriormente, o olho é um ponto negro
questionar o fator facilitador e também o impeditivo para o desenvolvimento total.
rodeado de luz. É visto como alguma coisa que contrasta com a luz. É visto. As
Reparem que n e n h u m deles estava criando apenas para si, pois tiveram u m a enorme associações recorrem a uma variedade de cenas, como uma pessoa que parece
influência nos posteriores acontecimentos do m u n d o . Os três se preocupavam em estúpida à luz da sabedoria de outras. Mas é mais do que isso. Isso reflete a igno-
proporcionar conhecimento aos demais que compartilhavam da sua época. Dividir rância consciente de si mesmo, lenho um estranho sentimento da sabedoria da
(ou compartilhar) parece ser a expressão bem digna desses mestres do saber. Na ignorância, e o olho pisca para mim. Então, de minha ignorância vejo que sou a
verdade, seu saber podia anteceder a humanidade, mas era dirigido para ela. Albert ignorância consciente de si mesma, cercada de luz, paradoxalmente iluminada,
Sehweilzer (1988) expressa melhor essa questão q u a n d o nos diz: ao mesmo tempo em que a consciência de minha escuridão. Agora a imagem
não é imaginação tola. Posso vê-la como uma representação correta do mesmo
estado naquele momento. Posso ver que não compreendo" (Van Dusen, em Carl
A ética do respeito à vida não admite que um homem seja condenado ou quiçá
Rogers, 1976).
premiado de viver livre das responsabilidades que impõe a dedicação de um ser hu-
mano a outro. Exige que todos nós sejamos, sob algum aspecto e em determinado
lugar, homens a serviço de outros homens. Nessa belíssima passagem está o contato com o m u n d o interno e rico do autor,
que parece se abrir às possibilidades variadas e tenta descrever essa realidade que se
1 Vaisamos na pessoa com seus caminhos tortuosos de escolha. Aquelas que, lhe abre. Se inicialmente existe um "eu" que, rigidamente construído, se volta para
com um intelecto dilatado, p o d e m ultrapassar os sentidos e, portanto, participar do os hábitos exteriores tentando enquadrar toda a interpretação dos acontecimentos
inundo intuitivo, e aquelas que não apresentam a intuição tão bem desenvolvida, nesse cerco quadrado, por outro, surge um "eu" meio nômade, redondo, que se porta
mas Q U E N E M por isso estão excluídas desse atributo. Se é verdade que a intuição sem cerimônia diante de sentimentos e pensamentos obscuros. Enquanto o "eu"
independe do intelecto, é possível que qualquer um possa desenvolvê-la. externo procura pela verdade e quer comprová-la, o "eu" interno representa a ver
I IE acordo com Wilson Van Dusen (1976), podemos descrever a pessoa pela dade sem esforço. Assim é a diferença entre a pessoa na superfície e a pessoa na
•AIA vivência externa e interna. Existe, segundo ele, u m a profundidade natural, profundidade. Bergson (1989) refere-se a essas formas, como, respectivamente, o "eu

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(Ir superfície" e o "eu profundo". O "eu de superfície" é mecanizado, estático e as duas. Através da inteligência elaboramos conceitos, analisamos dados, espa
restrito ao social, enquanto o "eu profundo" caracteriza-se pela permanente mu
cializamos e lixamos a realidade. Mas essa atividade do intelecto, do eu externo, nao
dança e não-repetição contínua. Trata-se de um eu criador, dinâmico, livre, e pode,
garante o verdadeiro conhecimento da essência do objeto. As essências só podem ser
n u ii,io, ser atingido pela pessoa. A liberdade só encontra existência nesse eu criador
atingidas por meio da intuição. Nela, existe a possibilidade do encontro do eu
que constitui, segundo Bergson, a verdadeira personalidade do h o m e m . Entretanto,
interno com a intimidade do objeto. A metafísica, por essa razão, tem na intuição
.1 maioria das pessoas experiência apenas o "eu de superfície", sem jamais experi-
seu principal método.
mentar tal liberdade.
Chama-se intuição a compreensão sintética que só se torna possível q u a n d o
() "eu" exterior e o "eu" interior p o d e m ser vistos como um ou como entidades
separadas. Muitos sintomas psicopatológicos retratam a luta entre eles: o que não é existe u m a unificação profundamente subjetiva. A intuição é um d o m í n i o
.11 eito como nosso nos atormenta. Se, no entanto, eles são vistos como unidade, a abrangente do princípio da universalidade e, q u a n d o está funcionando, ainda que
i oncepção do "eu" se amplia e variadas possibilidades surgem n u m a forma aberta de momentaneamente, ocorre uma perda completa da separatividade. Isso porque,
apreensão. Emanuel Swedenborg (1902) afirma ser esse eu interior e subjetivo o que q u a n d o u m a pessoa intui, comunga de u m a identificação com todos os seres,
ha de espiritual no h o m e m , com u m a faculdade para se representar verdadeira- transcendendo a qualquer padrão diferenciador. A intuição é o reconhecimento
mente. Nesse pensamento, a morte do "eu" externo é o nascimento de t u d o mais. O interior, não teoricamente, mas como um fato da própria experiência, da completa
egoísmo não abre portas, mas levanta muros, muros que nos separam dos demais. identificação com os outros seres humanos, de cada um construir u m a parte da
Separados, defendemos nossos castelos com todas as armas. humanidade. Implica u m a capacidade crescente de compreender amorosamente o
outro, preservando o desapego da personalidade. O apego tanto às características da
Uma das formas de se cruzar a fronteira entre o "eu" e os outros é o amor.
personalidade, como o apego excessivo às necessidades e exigências do m u n d o
Uuber (1958) explica muito b e m esse p o n t o q u a n d o descreve a relação Eu-Tu. No
fenoménico, restringe a total capacidade de abstração e o contato com a intuição.
amor existe a unidade. O mistério do Eu-Tu pode ser desvendado no a m o r e na
Essa é a razão por que os budistas valorizam a disciplina do desapego como
amizade, quando os dois se t o r n a m u m . O "eu" exterior está preocupado com a
individualidade, não tendo visão para a unidade. O m u n d o pessoal conhecido por condição fundamental para atingir níveis superiores de realidade.
nos é pintado segundo nossos sentidos pessoais. O m u n d o é u m a espécie de Q u a n d o a intuição é desenvolvida, tanto a afeição como a posse de um espírito
representação da pessoa e esse parece ser o quadro da verdade social e psicológica. de expressão amorosa são demonstradas. O que produz isso é aquele sentido inclu-
Alguém se interessa pelo m u n d o objetivo impessoal? Podemos conhecer a qualidade sivo e sintético da vida e das necessidades de todos os seres. Sabemos que o amor
de L i m a pessoa pelo m u n d o que conseguimos encontrar. Q u a n t o mais a pessoa nega t u d o aquilo que constrói barreiras, que faz crítica e que produz separação. Na
permite a expressão da unicidade, mais os valores universais sociais passam a fazer pessoa com intuição, há uma descentralização do dramático "eu" que tudo relaciona
parte de sua vida. É q u a n d o se diz que pessoas boas encontram b o n d a d e nas pessoas com seu m u n d i n h o pessoal e é o único de importância para ele.
ou que aquele que atira pedras é porque já tem uma na mão. No m u n d o das
Se reconhecemos os símbolos como as formas exteriores e visíveis de u m a
interações humanas, naquele em que vivemos, o outro é uma cópia duplicada de
realidade interior, q u a n d o se ganha a facilidade de descobrir a realidade por trás de
mim. Ê o m u n d o de espelhos, que somente deixa de sê-lo q u a n d o procuramos o
qualquer símbolo, seja um ser h u m a n o , u m a idéia ou um símbolo abstrato
reflexo em nós mesmos. É o m e s m o que dizer que à medida que nos permitimos ser
i iiinii somos, permitimos que o outro também o seja. O que parece ser o agente
qualquer, esse fato por si só é indicador da presença da intuição. Qual o conceito
mediador entre esses dois m u n d o s ou "eus" são os sentimentos da pessoa. Embora subjacente de qualquer símbolo estudado? Essa parece ser a freqüente indagação.
os sentimentos sejam o "eu", nessa perspectiva, a pessoa não é senhora, mas u m a Pessoas como Leonardo Da Vinci, Einstein e Shakespeare, para citar apenas alguns
espécie de servidor. O "eu" exterior parece ser previsível, antecipando seus atos e dos muitos que contribuíram para o m u n d o , podem, sem qualquer dúvida, se
escolhas no cenário da paisagem temporal. O que é interior parece sem sentido, encaixar na lista de pessoas que entraram em contato com esse núcleo interiorizado
e m b o r a o sentido exista em si. Não há amarras temporais; na verdade, o que há é a pessoal. Intuitivamente, chegaram a verdades nunca antes sonhadas e que per-
inlemporalidade, porque, neste m u n d o , tudo é agora. d u r a m até o presente m o m e n t o . Tais verdades pertencem à h u m a n i d a d e e é para ela
que a pessoa contribui. De acordo com Platão, a razão é um cocheiro que controla
Bergson (1989) aponta que a inteligência e o instinto são formas diferentes e
com firmeza os seus corcéis, e, nesse caso, a intuição seria o proprietário da
i oníplenicniares de ação sobre a matéria e que é na intuição que se dá a síntese entre
carruagem.

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C) que parece obstruir esse caminho natural intuitivo s.io as distorções Pensava em se dirigir para o m u n d o de u m a forma mais construtiva e não fazer
(miragens e ilusões) tão presentes n u m m u n d o cujos ensinamentos priorizam os dinheiro com aquilo que poderia estar contribuindo para a destruição de alguns.
valores egoístas e a lei de levar vantagem em tudo. Uma pessoa é lançada num Entrou em choque com os reais motivos que antes o m a n t i n h a m preso a seu cargo.
quadro em que figuram pequenos pontos pretos n u m a paisagem colorida, porém Descobriu suas miragens, especialmente a de poder e, n u m estágio mais avançado,
turva. Tanto as miragens (distorções do m u n d o emocional), quanto as ilusões desapegou-se. Pensava em estudar ou trabalhar em outra coisa. Era grande a sua
(distorções do m u n d o mental) contribuem para o desenvolvimento da miopia busca e não foi m e n o r seu resultado. C o m o não era mais tão jovem, ficava difícil,
humana. Será que pensadores iluminados de todas as áreas podiam ser portadores não impossível, estudar medicina, coisa que antes desejava, mas que p o r medo
dessa doença? Acredito que não. Olhos bem abertos e visão clara são considerados a fugira. Com a sua experiência em empresas, decidiu dedicar-se à terceira idade
janela da intuição acurada. construindo um lugar, antes visto como utópico, para ajudar aquelas pessoas que
A ilusão é primordialmente de qualidade intelectual e é característica da ati- não tiveram a mesma chance que ele. Desenvolveu um espaço onde podia ensinar
lude da menle das pessoas que são mais racionais do que emocionais. Decorre da aos mais experientes no m u n d o fenomênico a encontrar a vivência no m u n d o da
má compreensão das idéias, b e m como de sua má interpretação. Significa a reação sabedoria interior. O que o surpreendeu foi vender tudo o que tinha para construir
da mente indisciplinada ao m u n d o das idéias. As idéias contatadas na interioridade essa idéia e compartilhar com os que nada de material tinham a oferecer. Coloco
são levemente percebidas, porém, a novidade da experiência leva-o fundo no reino aqui u m a de suas falas desenvolvida nesta época:
da ilusão. Aquilo que ele traz para a sua interpretação é inadequado. A idéia que
aflorou de sua intuição é distorcida porque ele não discrimina um conceito intuitivo Não sei como explicar, mas me sinto levado por uma realidade interior que me dá
de um lógico-conceitual. dicas de como agir. Sei por onde ir, apesar das barreiras; sei que vai dar certo, apesar

de não ter subsídio nenhum para isso. Apenas sei. É o mesmo que acontecia comigo
A miragem diz respeito ao m u n d o emocional, isto é, está mais associada às
quando comecei a dar vazão para coisas que não imaginava ser capaz de com-
pessoas que se desenvolveram mais emocionalmente. É preciso deixar claro que,
preender. Subitamente uma luz, um insight, e eu sei. Quero e preciso fazer algo que
embora sejamos u m a unidade, enquanto nos desenvolvemos há o predomínio de
some e não mais subtraia. Quero fazer o meu melhor sem precisar fazer alarde disso.
u m a característica sobre a outra, e a forma como interpretamos o m u n d o , externo e
O grande prazer que tenho está em perceber que, ao ver pessoas felizes, torno-me um
interno, depende do quanto transcendemos ou do quanto ainda estamos apegados ser mais pleno. Você sabe que não sou religioso, mas sou capaz de dizer que descobri
a quaisquer características. Q u a n d o se tem consciência das miragens e ilusões, assim a minha religião: misturar-me ao mundo, arregaçar as mangas e me juntar com
como dos apegos, começa-se u m a jornada disciplinadora para despegar-se. A quem posso trabalhar para o bem comum. Às vezes visualizo a humanidade como
liberação das miragens resulta n u m a vida mais livre e de utilidade; a liberação das uma grande comunidade onde o bem-estar do todo é mais importante do que o de
ilusões, u m a liberação da mente para fluir mais amplamente. algumas unidades. Talvez seja utópica, mas a idéia é o que me motiva para continuar

concretizando os meus sonhos...


O leitor pode pensar que isso somente ocorre com pessoas especiais e que o ser
h u m a n o normal nunca alcançará tal estágio. Em minha prática como psicote-
rapeuta posso afirmar que isso não é prerrogativa dos sábios. Tenho recebido clien- Assim como ele, outros tiveram experiências interessantes no transcorrer da
tes cujo desenvolvimento transcende os manuais livrescos, fazendo-me lançar em psicoterapia. A sensação de não pertencer a este m u n d o , muitas vezes classificado
lugares jamais estudados por mim. Pessoas que já ultrapassaram o estágio da como esquizofrênico por q u e m não sabe interpretar verdadeiramente, é c o m u m . Tal
preocupação egoísta, natural em quem começa a se explorar para se conhecer m e - sensação é indicativa de u m a visão mais ampla e em processo de fusão. Enquanto a
lhor, e buscam um outro tipo de aperfeiçoamento. Antes a expressão mais c o m u m unidade não ocorre, experimenta-se a sensação de ser u m a pessoa diferente ou
era "preciso resolver isso para ficar bem", por exemplo; depois, "não vejo sentido em estranha. Na verdade, essa pessoa está alcançando estágios b e m maiores de
descobrir todas essas coisas e não encontrar u m a utilidade mais ampla para elas". percepção e se percebe diferente. Mais tarde compreende que todos p o d e m atingir
( lueslionamentos sobre a atual profissão, formas de se relacionar com o m u n d o , são esse m o m e n t o ; é só u m a questão de tempo e preparo. A sensação desagradável
comuns em ambas as fases, contudo, existem aqueles que radicalizam suas desaparece e surge a necessidade de contribuir para a aceleração do desenvol-
mudanças visando contribuir para um m u n d o melhor. Lembro-me de um cliente vimento das pessoas para que possam compreender e usufruir as reais experiências
que era um executivo de grande porte em u m a companhia de cigarros. Q u a n d o da vida.
entrou nesse ponto de autoconhecimento, descobriu u m a contradição interna.
III II 1 1 I I I I I I lo I H ivi i. I I I I li I IH iVl I I li ISS< ii I
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ticidade. Infelizmente essa não é uma palavra comum no dicionário de lodos.


0 desequilíbrio da pessoa Muitas barreiras bloqueiam a sua expressão. De acordo com a maturidade ou não
do ser psicológico, a comunicação padece dificuldades que podem ser sanadas se
(> que se considera saúde da criatura h u m a n a está relacionado ao equilibrio mental, existir um propósito firme para o êxito. Deve existir um impulso dominante para a
.1 harmonia orgânica e ao aspecto socioeconómico. No conjunto harmonioso desses convivência, para o diálogo. A ausência desse impulso pode chegar a provocar
11 es I.llores nenhuma perturbação penetra. De relevante significado encontram-se as desequilíbrio emocional.
desordens do comportamento emocional. O equilíbrio muitas vezes é rompido,
A comunicação desempenha, indiscutivelmente, um papel relevante, se emo-
devido a fatores considerados gigantes da vida psíquica, como amor, angústia,
cional, livre e visceral, sem as pressões da desconfiança e da insegurança pessoal.
1 ancor e ódio. Certamente estamos nos referindo ao amor bruto, ou possessivo, que
Coordenando idéias para o diálogo, auto-analisa-se, facilitando o próprio enten-
deposita no desejo a sua carga de aspiração. Frustrações freqüentes conduzem à
dimento. Rogers (1962) destacou muito bem o papel da congruência interna, que é
transferência neurótica do que chamamos amor-posse, amor-ambiçâo, amor-
o fluxo direto de comunicação entre sentir, pensar e agir. A autocongruência
desejo, amor-sexo. A criatura, carente de amor, projeta-se irreflexivamente no outro
engendra a autocongruência do outro e os diálogos se tornam limpos, transparentes,
esperando completar-se. Então, não logrando a realização, decompõe-se e, nessa
sem qualquer ruído, de pessoa para pessoa.
ioda, quanto mais aspira, mais exige e sofre. A angústia surge como resultante da
impossibilidade de obter controle da sua vida. Vivenciando a incapacidade de O que bloqueia enormemente tal processo de livre comunicar são os padrões
alcançar metas, refugia-se na angústia. Equivocado em relação à felicidade, realiza comportamentais fundamentados geralmente em padrões n e m sempre reais. Muitas
buscas desenfreadamente hedonistas. O ser dá lugar ao ter e, obviamente, uma vezes aceitos por conveniência, neles existem regras estatuídas pelo indivíduo, para
seqüência de frustrações assume o posto. A autoconfiança, antagônica dos estados exercer u m a boa apresentação pública, em detrimento do eu profundo com o seu
de angústia, vai delineando os valores reais e um esforço para atingi-los. O rancor t o m de mudança.
está associado ao acúmulo de situações desagradáveis que não foram liberadas No comportamento social, as pessoas submetem-se às regras do b o m conviver,
adequadamente. Uma catarse é necessária, mas, na maior parte das vezes, é impe- preocupadas em dissimular sentimentos para atingir tal objetivo. As pessoas inte-
dida pelo medo da própria exposição social, gerando verdadeiros entulhos psíqui- ragem socialmente, mas não se deixam conhecer de fato.
cos. A postura oposta ao rancor é o perdão, que elimina as defesas e elaborações O comportamento cultural arrecada outras aquisições (artística, intelectual
mentais acompanhados de desejos de vingança. N u m a época como a nossa, a pró- etc.) que p o d e m levar a atitudes competitivas em total desrespeito pela pessoa
pria palavra perdão está associada a u m a atitude piegas e frágil e não ao seu verda- h u m a n a . Uns absorvem melhor certas aprendizagens que outros, e estes, n u m a
deiro objetivo, a compreensão. O rancor mal-administrado conduz ao ódio: desen- presunção lamentável, não se conformam com tal disparidade. O olhar está fora;
volve-se u m a análise injusta do comportamento de outros em relação a si próprio. não está no eu interior.
( orno vítima, deixa-se consumir pelo complexo de inferioridade e descarrega seu
Também a situação econômica interfere nesse parecer, pois compraz a pessoa
odio através de comportamentos agressivos. O descontrole chega à etapa terminal.
a se expor desnecessariamente a desperdícios abusivos em n o m e de um título
Fara assumir a condição de progresso e harmonia, a pessoa deve encontrar a ilusório. Deseja-se aparecer mais, ser o mais extravagante...
necessidade de tornar a mente um espelho e colocar-se diante dele, completamente Nos raros m o m e n t o s de introspecção, o auto-encontro choca e pode levar a
desnuda. A observação da realidade, sem o contágio das emoções provenientes do pessoa a fugir desse contato através de algum aditivo (álcool, droga, comportamento
apego, lança a criatura h u m a n a na rota da auto-análise, conseguindo um retrato fiel exibicionista...). Escapa da realidade interna para lugar n e n h u m .
do que é e aprendendo a amar-se e ajudar-se. Despojada de artifícios antes ocultos
O comportamento moral, sujeito a imperativos legais, é estabelecido conforme
a si, ruma ao progresso e à harmonia. Nessa fase nova, o amor incondicional
o interesse imediato de grupos e legisladores que dimensionam o seu próprio prazer
manifestado em todas as expressões, tanto dirigido para si como para os demais, dá
em detrimento do bem-estar geral. Apoiados em comportamentos morais e sociais
a iónica.
egoísticos, não parecem considerar realmente a vida.
Sabemos que o comportamento desvela ao exterior a realidade íntima do ser
Existe ainda o comportamento religioso, cuja área é composta de imposições
humano. Porém, nem sempre tal manifestação se reveste de autenticidade. E, se
castradoras que resultam em hipocrisia.
lalamos de pessoa em sua mais completa tradução, precisamos falar de auten-

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Mas o s o r h u m a n o prossegue em s e u desenvolvimento, exposto .1 mudanças; Isso porque o bem e o mal estão inscritos na consciência humana, na sua har
s e u comportamento pode sofrer alterações. A estrutura psicológica exige renovação moniosa organização. O a m a d u r e c i m e n t o psicológico p r o m o v e padrões de
i estudo de si mesma. Aos poucos o ser vai se desvelando e imprimindo a sua m a n a sensibilidade e consciência que a liberam de injunções inferiores. Mais aberta às
real. Assim, ninguém é de lato igual ao outro, nem pode ser avaliado mediante as diversas possibilidades que suas escolhas oferecem, a pessoa cria u m a espécie de
1 omparações da frágil aparência. sinalizador capaz de identificar aquilo que pode ou não ser editado. Na plenitude de
u m a pessoa, a edição está associada a algo mais do que o bem para si mesma.
Sabendo-se parte de um todo maior, é capaz de entender que sua escolha afeta o
grupo. Dessa forma, escolhe para todos e se beneficia como grupo. Mas, antes que
() problema do bem e do mal na pessoa esse processo evolutivo ocorra, precisa aprender a discernir para si, movimento
natural dos que buscam a escala do crescimento. Faz testes constantes, e, se por acaso
Quando lalamos em sermos para a humanidade, rapidamente surge no pensamento incorre em equívocos de seleção e tomba na escolha inadequada ou desarmoniosa
.1 dualidade existente na pessoa, do bem e do mal. Remanescendo com as suas aspi (ainda que sob a perturbação de uma desordem interior), contacta sua falta e busca
1 ações de crescimento e elevação, de nobre a equilibrado, ao mesmo tempo em que a reparação.
.1 violência impulsiona atitudes agressivas, presente o desejo de possuir ou o
O bem e o mal, debate tão antigo, apresentam ainda u m a linha divisória bas-
menosprezo de si mesmo, a psicologia da pessoa não poderia ficar indiferente a essa
tante fluida. O que hoje pode ser considerado bem pode ser o mal amanhã, como
dualidade. Ela se concretiza nos atos de ser, gerando fenômenos relevantes de
uma dialética sofista. Esse divisor de águas, no entanto, passa a ficar mais claro
1 onsciência que resultam em equilíbrio ou desordem psíquica.
quando o eu interno abre a passagem na cortina densa do ser e, enfrentando os
C) exame da dualidade remonta à Antiguidade, n u m a cultura ancestral na qual resquícios egoístas de u m a personalidade em formação, aponta para objetivos
encontramos o esforço, tanto da religião quanto do pensamento, de tentar estabe- maiores e mais saudáveis, mantenedores da paz. O ser, fragmentário e dúbio, carente
lecer paradigmas. De abstrações meramente filosóficas ou religiosas à ética e à de amor e paciência, fortalece-se e encontra o ponto do meio onde uma síntese se
psicologia, esse tema tornou-se destaque. O Código de Hamurabi, famosa "Estela de forma. Os questionamentos m u d a m de cor e tom e a nova pessoa, mais totalizada,
Diorito", já trazia definições claras do que propunha ser atos louváveis e atos transcende ao m a r de dualidades do mundo. A releitura do c o m p o r t a m e n t o in-
reprováveis, simbolizando a dualidade. A Bíblia representa o bem nas entidades dividual e coletivo oferece contribuição de resultados positivos. Nas múltiplas
angelicais, e o mal nas demoníacas. A metafísica, analisando a criação, estabelece o formas de fugir a isso há o retorno à ignorância e à manutenção da dualidade. A
bem e o mal se vinculando a um conciliador, n u m a representação simbólica de um psicologia, preocupada que está com a libertação dos conflitos, põe ênfase na res-
triângulo isósceles. Também há a interpretação chinesa com o Yin e o Yang se con- ponsabilidade decorrente da consciência lúcida, i m p u l s i o n a n d o a pessoa à
ciliando na suprema perfeição. O Hinduísmo aparece com a trilogia Brahma maturidade. Impositivos castradores alimentam o desequilíbrio e a desintegração.
( Princípio Supremo) e as forças antagônicas Vishnu (Princípio Construtor) e Shiva
Ao contrário, a constante busca de realizações contínuas, dos sucessos na batalha das
(Princípio Destruidor). Em todas essas versões, a concepção do bem aparece como
circunstâncias, naturais no processo da vida, reforça a marcha dos motivados pelo
1 Lido o que fomenta a beleza, o ético, a vida com seu aspecto moral; e o mal, ao que
amor como opção livre de utilização da vida. Mas isso somente se torna possível
se opõe ao harmonioso. Da mesma forma, essa dualidade tem a sua visão na socio-
uma vez estabelecidas diretrizes saudáveis, nas quais o sofrimento, proveniente do
logia, qual seja, o bem estando associado a atos que p r o m o v a m o ser e o grupo
crescimento, é visto como u m a possibilidade superável, resistida e diluída através de
social. O mal seria t u d o aquilo que impede o progresso de tais realizações.
reflexões. Gosto da analogia oriunda da língua chinesa na qual um mesmo símbolo
A adoção de condutas mentais e físicas, idealistas e comportamentais do bem, oferece dois significados: crise e oportunidade. As difíceis crises podem representar
vai aos poucos sendo edificada e a pessoa torna-se um instrumento útil no grupo grandes oportunidades.
social. É um processo que evolui do estado de torpor da consciência até seu pleno Tudo parece se originar da ausência de a m o r dirigido a si próprio que res-
funcionamento responsável. No processo de libertação dos condicionamentos es- p o n d e pela desarmonia que aflige a pessoa. Nem sempre essa carência é consciente,
1 lavi/antes, o discernimento aparece. Tal discriminação, presente naquelas pessoas instaurada como forma de desrespeito, desconfiança e mágoa sobre si mesmo. O
inteligentes e analíticas, passa por cima de códigos que satisfazem as conveniências imperativo "ame a si mesmo" não pode ser confundido com um a m o r egoísta
ile poucos que tentam tornar legais comportamentos que não são de todo morais. direcionado a prazeres pessoais. É mais do que isso, visto que se trata de amor

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sempre levando a pessoa a considerar que, q u a n d o nao está leliz, algo nao está bem;
preservador da paz. O auto amor, se podemos chamar assim, induz a elevação tios
sentimentos e à conquista de valores éticos que promovem a pessoa. Enseja o auto conclusão incorreta. O conforto e o poder são alguns dos critérios traçados. Mas .1
amor, o bem-estar, o equilíbrio, cooperando com a estabilidade emocional. Sua felicidade se expressa mediante vários requisitos que estabelecem as diferenças de
ausência estimula a baixa-estima e formas diversas de se exteriorizar, isto é, falando qualidade do que é ser feliz, face às variações que i m p õ e m nos grupos e nas pessoas,
e aparentando algo que não faz, e a saúde psíquica começa a se abalar, já que nao demonstrando que as aspirações de uns n e m sempre correspondem às de outros. A
suporta essa dualidade geradora de infortúnios. Há um inter-relacionamento entre diferença entre o que se supõe ser e a sua autenticidade dimensiona o seu quadro tle
mente e corpo mais sério do que parece. Desse modo, o a m o r dirigido a si mesmo é desejos que interpreta como a busca plenificadora da felicidade. A felicidade, assim,
mentor tia veracidade de atos e palavras, sustentando a saúde psicológica. É, sobre tem a ver com alguma identificação da pessoa com seus sentidos e sensações,
tudo, um auto-encontro, a conquista da consciência de si mesmo e tal conquista, sentimentos e emoções, ou do mais elevado ideal (cultural, artístico, religioso) com
com todos os seus atributos e possibilidades, constitui a meta primordial da a verdade. Da mesma forma, a felicidade não tem a ver com satisfação de desejos
existência. que, u m a vez saciados, são seguidos por outros com veemência.
Na busca da felicidade são inevitáveis os estágios de sofrimento e prazer, por
Estamos diante da pessoa que está r u m o ao processo de desapego e de desi
dentificação de paixões. Para o desiderato, o amor próprio deve ser revisto e subs- constituírem fenômenos da experiência h u m a n a . O lamentável é o surgimento de
tituído pelo amor profundo, sem conotação egoísta geradora de conflitos evitáveis. um sentimento de culpa que nega ao indivíduo o direito de fruir a felicidade. O
I labituada ao não-enfrentamento interno, geralmente a pessoa se cerca de meca- prazer, sem o estigma do sofrimento, não existe. Na tentativa de escape, busca-se o
nismos escapistas visando preservar a atitude condicionada. oceano de gozos, afogando ali os ideais mais altos que consomem os sentimentos e
perturbam as emoções. A consciência de culpa conspira contra a concretização da
A conquista do eu interno é um processo que se deve começar imediatamente,
felicidade.
recorrendo a terapias eficientes que inspiram a auto-análise e o confronto antes
indesejável. A grande problemática-desafio da criatura h u m a n a está agora sendo Associada à felicidade está a busca constante de grandes paixões, confundidas
l raçada: a aquisição da paz. Estando desequipada dos instrumentos interiores que o com o que se chama de amor. O estado emocional chamado "apaixonar-se" não tem
harmonizam em relação a si e ao outro, desanima diante dos primeiros empecilhos, nada a ver com o real amor. Parece ser uma espécie de pico de sensação semelhante
que J U L G A intransponíveis. É indispensável uma revisão d o comportamento h u m a n o , àquele produzido por drogas como a cocaína. Não há esforço para se apaixonar;
tle um estudo acerca do silêncio interior. A viagem para dentro de si exige o gra- apenas acontece. É uma armadilha da natureza, construída pela bioquímica de
dativo controle de uma mente irrequieta, a que os orientais chamam de "macaco nosso cérebro. O principal ponto é que não dura. Os psicólogos pesquisadores dessa
louco que salta de galho em galho", induzindo-a ao autodescobrimento. Todos área afirmam ter u m a duração média de dois anos.
somos escravos da mente. Sabemos que o universo existe em razão daquele que o Q u a n d o o estado de se apaixonar termina, pode ser o início do real amor, mas
observa e da mente que o analisa. Uma vez controlada, a mente passa a servir de isso requer esforço. Contudo, o amor é incondicional, não se prende aos limites da
instrumento de análise útil, ajudando na tarefa de crescimento. Vimos que uma forma, do tempo ou espaço. Nos animais, assim como em criaturas inferiores, o
pessoa que carece de discernimento e de vivência compatível adquire ilusões amor é instintivo; eles não são responsáveis pela expressão dessa força em suas vidas.
consideradas fixações. Isso porque o apego, essa fixação perturbadora na per- Seres h u m a n o s , entretanto, têm escolha e então o grande p o n t o é a autodeter-
manência, constitui-lhe a meta existencial. Mais tarde, avança da prisão egoísta para minação consciente nas trocas amorosas. O amor não é simplesmente essa emoção
a conquista de sua realidade. que é idealizada nas canções populares e nas poesias. É mais u m a força cósmica que
governa o propósito de nossas vidas. É como se compreendêssemos todo o objetivo
da criação cósmica. Até compreendermos isso, seremos continuamente frustrados e
desapontados em nosso esforço de encontrar o amor, não importa quantos rela-
A felicidade cionamentos nós tentarmos. Geralmente as pessoas têm necessidades, físicas e
emocionais, e encontram alguma coisa para completar suas necessidades que cha-
(chegamos ao conceito de felicidade. Tudo indica que o sentido ou significado da m a m de amor. Q u a n d o sentem que a outra pessoa não mais satisfaz tais necessi-
vida concentra-se na busca e no encontro da felicidade. Confundida com prazer, dades, dizem que seu amor acabou e que estão infelizes. Tal é o contraste entre a
descaracteriza-se. Na verdade, a visão da felicidade é sempre distorcida, quase

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paixão c o .niioi como diferentes estados. E obvio que não começamos a a m a i entrar em contato com uma nova pessoa e, obviamente, com uma maneira diferente
nu ondic ionalmente, mas eventualmente nós temos que aprender .1 sentir esse amor de defini-la. Se antes a preocupação era com uma possível classificação em
e expressa lo. categorias, agora o ponto ressaltado é a integração. Não mais podemos enxergar a
A filosofia oriental nos fala de dois estágios do coração: o primeiro, chamado pessoa como u m a combinação de partes, mas como um ser em contínua mudança,
de coração escuro, é o estágio totalmente egoísta, concernente somente ao eu. Nele, visto como u m a estrutura unitária.
,1 pessoa acredita ser esse estado de consciência a única real substância da existência. Exaltamos o crescente desenvolvimento da liberdade interior para que
I in conseqüência, há u m a total identificação com o corpo físico e seus impulsos, já possamos atingir u m a interpretação significativa da nossa própria experiência. Para
que a grosseira criação material é a única realidade. Mas nem todos os seres esse fim, o autoconhecimento e a transcendência das habituais barreiras do pequeno
humanos estão na mesma classe da vida. Existem muitas pessoas cuja consciência ego precisam ser adquiridos. A busca incessante do crescimento, natural naqueles
está nesse estado de coração escuro. Outros, porém, já se encontram em um que não se satisfazem com o que lhes é imposto, acaba por apontar para um novo
diferente estado de evolução e expandiram a barreira do eu para incluir outros. caminho. A realidade objetiva passa a ser vista como u m a resultante da visão
interiorizada e as verdades, antes inabaláveis, começam a não fazer o mesmo sen-
O segundo estágio é o de u m a consciência mais inclusiva e, portanto, de um
tido. Isso porque passamos a desobstruir a retina e, com isso, deixamos a verdadeira
coração propulsor. Reconhece-se que há mais do que perseguir propósitos de
desejos egoístas. É aí que a pessoa se torna ansiosa pelo real conhecimento. C o m - luz penetrar. A cegueira mental e emocional que anteriormente reinava passa a ser
preende que não pode encontrar completude voltando-se apenas para si; descobre diluída pela intuição luminosa; como se um véu repentinamente caísse e uma nova
que precisa se dirigir para outros. Essa é a grande oportunidade de expandir as forma de experimentar a realidade surgisse. Continuamente a confiança nesse eu
barreiras do ego em direção a algo maior. Pessoas que carecem dessa compreensão interior se fortalece e vai, aos poucos, se tornando transparente. Não há limite ao
acham que seus relacionamentos, especialmente as relações maritais, não fun- desconhecido; tudo pode ser desvelado.
cionam. Não fazem esforço em crescer da atração emocional para o amor verdadeiro Felicidade e a m o r são redefinidos nessa nova pessoa. A visão restrita do que
e não egoísta. Exigem a mudança do outro para a auto-satisfação. Aqueles que se pode conseguir de bom e de belo dá lugar a u m a amplitude dilatada. Ser para a
encontram relações harmoniosas na vida provavelmente trabalharam sobre o amor h u m a n i d a d e é u m a prerrogativa necessária, em que o altruísmo não é mais u m a
antes. A m o r exige trabalho e a felicidade momentânea precisa ser vista como a forma enfeitada de egoísmo. Querer entender a si mesmo e ao m u n d o ; querer ser
alegria perene de se doar e apreciar o que se recebe. parte importante da criação humana; querer transformar o velho m u n d o na
esperança viável de oferecer o novo a todos não é u m a utopia na pessoa
totalizadora.
Um m u n d o novo, portanto, nos c apontado. Um m u n d o mais h u m a n o e mais
Conclusões humanitário que será capa/ de explorar as capacidades da mente e do espírito
h u m a n o s . Um m u n d o feito tle indivíduos integrados e inteiros talvez origine u m a
Inclusividade; cooperação; liberdade de expressão; inteireza com o corpo, mente, ciência mais h u m a n a com uma tecnologia que vise ao enaltecimento da pessoa.
sentimentos e espírito; busca da verdade; inovação; serviço a outros... Essas são Tudo isso é possível q u a n d o .1 < natividade é liberta e as pessoas percebem seu real
algumas das características presentes nas pessoas consideradas totalizadoras. Pessoas poder, sua capacidade estia liberdade. Podemos optar por escolher esse m u n d o , nos
que desenvolveram u m a enorme capacidade intuitiva como resultado da reorien- reorientando melhor, mas acredito que, ainda que essa não seja a escolha de
tação do seu olhar. Grandes personagens na história da humanidade marcaram a sua muitos, será o caminho inexorável da nossa cultura. Prigogine (1979), químico
estada no m u n d o pelo desenvolvimento dessa característica ímpar. Citamos apenas
ganhador do p r ê m i o Nobel de 1977, nos disse: "Vemos um m u n d o novo à nossa
três desses seres que muito nos impressionam, mas não estamos fazendo jus à
volta. Temos a impressão de que estamos no alvorecer de u m a nova era, com todo
quantidade de pessoas que puderam trazer contribuições importantes em várias
o entusiasmo, toda a esperança e também lodos os riscos inerentes a um reco-
áreas de conhecimento.
meço...". Nesse m u n d o novo habita a nova pessoa que, integrada e doadora, será
As transformações radicais enfrentadas por nossa cultura, decorrentes das capaz de m u d a r os paradigmas da realidade, trazendo a luz dos seus olhos para a
conquistas científicas e de progressos alcançados em outros campos, nos fazem cegueira de muitos.

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terapia, Psicopatologia, Psicologia C o n t e m p o r â n e a ,

PROC£DENCIA:...ßdLft ÛGfl.. I Psicologia do D e s e n v o l v i m e n t o e A c o n s e l h a m e n t o


Psicológico. L e i t u r a indicada, t a m b é m , para p r o -
gramas de pós-graduação em Psicologia da Saúde, Psicossomática e
disciplinas psiquiátricas

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