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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

Crislayne G. M. Alfagali

FERREIROS E FUNDIDORES DA ILAMBA.


UMA HISTÓRIA SOCIAL DA FABRICAÇÃO DE FERRO E DA
REAL FÁBRICA DE NOVA OEIRAS
(ANGOLA, SEGUNDA METADE DO SÉC. XVIII).

CAMPINAS
2017
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado composta


pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 22 de maio de
2017, considerou a candidata Crislayne Gloss Marão Alfagali aprovada.

Profa. Dra. Silvia Hunold Lara (orientadora)

Profa. Dra. Lucilene Reginaldo

Profa. Dra. Mariana Pinho Candido

Prof. Dr. Robert Wayne Andrew Slenes

Prof. Dr. Roquinaldo Ferreira

A Ata de Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta


no processo de vida acadêmica da aluna.
Agradecimento

Essa é uma das partes mais difíceis da tese, não há espaço para agradecer a todos que
me ajudaram durante esses anos. A primeira pessoa a quem gostaria de expressar gratidão é
minha orientadora, Silvia Lara, pelo apoio irrestrito, pela leitura atenta, pela paciência em
corrigir de novo e de novo e por me instigar à reflexão com questões argutas. Por tudo isso e
muito mais, devo à professora Silvia os méritos deste estudo.
Em todas as instituições pelas quais passei contei com o auxílio generoso de
historiadores e arquivistas. Em Lisboa, agradeço a orientação atenciosa e gentil do professor
Luis Frederico Dias Antunes. No Instituto de Investigação Cientifica Tropical e no Arquivo
Histórico Ultramarino, estou em dívida com todos os investigadores e funcionários que me
ensinaram a ler os catálogos e com paciência buscavam as muitas caixas que eu solicitava.
Nas pessoas de Carlos Almeida, Carlos Teixeira, Branca, Rosinha e Mário agradeço muito a
solicitude com que me receberam. Na Biblioteca Nacional, em especial agradeço à gentileza
da senhora Natália e à simpatia de Mafalda e Conceição, que sempre tinham café quente para
aquecer e despertar em tardes longas e frias. O mesmo se passou em muitos outros arquivos e
bibliotecas portugueses, espanhóis, no Centro de Estudos Africanos, em Leiden, Holanda, e
na biblioteca do Royal Museum for Central Africa, em Tervuren, na Bélgica. Agradeço a cada
funcionário e bibliotecário, sem seu trabalho e dedicação, não haveria história para contar.
Em Angola, no Arquivo Histórico de Angola, sou imensamente grata à Alexandra
Aparício, diretora do arquivo, e aos demais investigadores da instituição, como o doutor
Honoré Mbunga. Especialmente, deixo meu agradecimento ao senhor Januário, com quem
dividi a sala de estudos e que prontamente buscava os documentos que pedia. Todas as
manhãs me encontrava com um grande sorriso e muita disposição para mais um dia de
trabalho.
Minha visita à Luanda teria sido completamente diferente sem a ajuda da professora
Maria Conceição Neto, não há como agradecê-la por tudo o que fez por mim. Assim como
não consigo expressar o que significou passar um fim de semana no Dondo, junto à família
Galho, a Andelson André, Mama Mic e todos os amigos que fiz ali. Gentilmente me levaram
para conhecer as ruínas de Nova Oeiras e as de outros sítios históricos da região. Não teria
como fazer essa viagem sem a generosidade dessas pessoas. “Descobri que Luanda é grande,
mama auê”, como canta Mathias Damásio. Na margem de lá deste rio chamado Atlântico, me
senti em tantos aspectos na de cá, agradeço a todos que me acolheram, como o meu senhorio,
senhor Anselmo e a colega de casa, a professora Linda.
Encontrei pessoas que se tornaram muitos importantes para o desenvolvimento deste
projeto em congressos e reuniões científicas. Agradeço à Mariana Candido pela generosidade
intelectual, tanto em disponibilizar fontes, bibliografia e participar da qualificação e defesa
desta tese, quanto em apoiar essa jovem e ansiosa pesquisadora. Sou grata também a Mariza
Soares e Flávia Carvalho pelos apontamentos sobre a pesquisa e incentivo.
No Rio de Janeiro, agradeço à professora Regina Wanderley que me ajudou na
pesquisa junto ao IHGB e ao professor Roberto Guedes.
Agradeço à arquiteta Katia Sartorelli Verissimo e sua equipe pela elaboração das
maquetes que compõem esta tese.
À Roquinaldo, Lucilene e Bob agradeço os apontamentos, sugestões e críticas quando
do exame de defesa.
Os amigos e professores do IFCH, na Unicamp, são incentivadores desde o mestrado e
os agradeço por esse apoio. Obrigada, Flávia, pela disponibilidade em ajudar. As queridas
Day, Raquel, Andréa, Leca e Dani tornaram esses anos muito mais leves e prazerosos,
obrigada! Também sou grata pelos muitos cafés, conversas e apoio de Manu, Alisson,
Rodrigo, Deivison e Tati.
À minha irmã Débora e ao amado Guga, obrigada pela alegria e amor “mineirinhos”
com que preenchem a minha vida. Também agradeço a Rogéria e Mari pela amizade e
incentivo.
Ao quarteto que mesmo de longe continuo integrando, Gi, Tati e Kelly, obrigada pela
amizade. Agradeço também ao apoio de outros amigos de tempos de Ufop, professor Carlão,
Fabiano, Fabrício, Dani e Denise.
À minha família, agradeço a paciência, a compreensão, o amor e a companhia perene.
Minha mãe, Teresa, meu pai, Edemar, e meu irmão, Marão.
Agradeço à FAPESP pela bolsa de doutorado (processo nº 2013/12458-1) e pela bolsa
de estágio e pesquisa no exterior (processo nº 2014/19445-5), sem a estrutura fornecida pela
fundação não seria possível desenvolver esse projeto.
Dedico esta tese a todos que de alguma forma colaboram para o seu desenvolvimento
e conclusão.
Resumo

Esta tese analisa a instalação de uma fábrica de ferro na região da Ilamba, no interior
de Angola, na segunda metade do século XVIII, e seus desdobramentos a partir do ponto de
vista das sociedades africanas. As mudanças nas relações de trabalho foram as mais
impactantes e acabaram por deslindar modos de exploração do trabalho dos Ambundos, para
além da escravidão, impostos desde a conquista. O estudo das faces normativa e prática
dessas transformações trazem para o centro da narrativa os representantes da elite política
africana, que constantemente reivindicaram seu estatuto de vassalos para denunciar os abusos
que eles e seus súditos sofriam. Outros aspectos das relações coloniais manifestos durante a
construção da fundição de Nova Oeiras foram os conflitos em torno de minas e terras e o
controle da fabricação e comercialização de objetos de ferro. Esses eram recursos naturais e
utensílios que para os africanos detinham significados para além do econômico. Os ferreiros e
fundidores da Ilamba produziam um ferro de alta qualidade em fornos baixos, com seus
instrumentos rústicos. Sua trajetória, enquanto grupo de artesãos, foi o fio condutor da
pesquisa, pois permitiu compreender as disputas, conflitos, costumes e tradições envolvendo
tanto as estratégias do domínio colonial português, quanto as formas de resistência, a
invenção de novas práticas, a elaboração de discursos articulados pelos africanos. Na redução
da escala de análise, nota-se que as determinações locais tiveram peso tão ou mais
significativo nas decisões tomadas na sede do Império que as ideias Ilustradas que marcaram
o período. Os embates entre as personagens do sertão de Angola - moradores, sobas, os
“filhos”, capitães-mores, ilamba, imbari, negociantes, pumbeiros, ferreiros e fundidores –
guiaram as diretrizes governativas em Luanda e enfatizam as complexas redes hierárquicas
das relações de domínio, no auge do trato de escravos. Por fim, baseada em uma leitura das
fontes que privilegia o ponto de vista africano, a tese propõe uma nova interpretação sobre as
narrativas dos fracassos de Nova Oeiras, considerando que os Ambundos elaboraram
estratégias bem-sucedidas para manter em seu poder os conhecimentos e os benefícios que a
metalurgia conferia.

Palavras-chave: Real Fábrica de Nova Oeiras – Angola – História – Séc. XVIII; Ferro;
Metalurgia; Trabalho; Artesãos.
Abstract

This thesis analyzes the installation of an iron foundry in the region of Ilamba, in
Angola hinterland, in the second half of the 18th century, and how it unfolded, from the point
of view of African societies. The changes in labor relations were the most striking and ended
up revealing exploitation modes of the work of the Ambundos, beyond slavery, imposed since
the conquest. The study of the normative and practical sides of these transformations brings to
the center of the narrative the representatives of the African political elite who constantly
claimed their status as vassals to denounce the abuses they and their subjects suffered. Other
aspects of the colonial relationships manifested during the construction of the Nova Oeiras
foundry were the conflicts around mines and lands and the control of the manufacture and sale
of iron objects. For the Africans, these natural resources and tools were meaningful beyond
their economic value. The blacksmiths and smelters of Ilamba produced a high-quality iron, in
the low furnaces, with their rustic implements. Their trajectory, as a group of artisans, was the
guiding thread of the research, since it allowed to understand the disputes, conflicts, customs
and traditions involving both the strategies of the Portuguese colonial dominion, as well as the
forms of resistance, the invention of new practices, and the elaboration of discourses
articulated by the Africans. By reducing the scale of the analysis, it is noticed that the local
determinations had as much or more significant weight in the decisions taken at the seat of the
Empire than the Illustrated ideas that marked the period. The clashes between the people of
the sertão of Angola – residents, sobas, the “sons”, capitães-mores (“captain-major”), ilamba,
imbari, traders, pumbeiros, smiths and smelters – oriented the governmental guidelines in
Luanda and emphasized the complex hierarchical networks of dominance relationships at the
height of the slave trade. Finally, based on a reading of the sources that privileges the African
point of view, the thesis proposes a new interpretation of the narratives of the failures of Nova
Oeiras, considering that the Ambundos have devised successful strategies to maintain in their
power the knowledge and the benefits metallurgy conferred.

Keywords: Real Fábrica de Nova Oeiras – Angola – History – 18th century; Iron; Metallurgy;
Work; Artisans.
Lista de figuras e mapas

Figura 1 – Objetos de ferro. ....................................................................................................104


Figura 2 – Insígnias de poder em Angola. ..............................................................................106
Figura 3 – Ferro para o tráfico de escravos. ............................................................................108
Figura 4 – Facas Flamengas ....................................................................................................114
Figura 5 - Escopulo de ferro. .................................................................................................114
Figura 6 – O paredão e os muros planejados para represar o rio, 1770 c.a. ...........................126
Figura 7 - Planta da Povoação de Nova Oeiras, 1770 c.a. .....................................................127
Figura 8 - Alçado da Planta Fundição de Fábrica de Fundição de Ferro em Oeiras, 1855. ...131
Figuras 9 e 10: Plantas da Fundição de Fábrica de Fundição de Ferro em Oeiras, 1855 .......132
Figura 11: Planta esquemática dos prédios da fábrica de ferro ...............................................135
Figuras 12 e 13: Interior da Casa da Máquina, engenho hidráulico, armazém. Representação
do Açude, 1770 .......................................................................................................................136
Figura 14: Vista da Fábrica de Ferro em Oeiras, 1855 ...........................................................137
Figuras 15 e 16: A fundição de ferro em Nova Oeiras, 1797.. ...............................................225
Figura 17: Interior de uma Ferraria Hidráulica .......................................................................237
Figuras 18 e 19: Detalhes do interior da casa de fundição......................................................237
Figuras 20 e 21 As rodas d’água que moviam o malho (à esquerda) e os foles (à direita)... ..238
Figura 22: Planta da Ferraria de Figueiró, c.a. 1624 ...............................................................243
Figura 23: Placa de identificação do conjunto arquitetônico da fábrica de ferro, 1973 .........312
Figura 24: Placa de identificação do conjunto arquitetônico da fábrica de ferro (?). .............313

Mapa 1 – Carta dos Reinos de Loango, Kongo, Angola e Benguela, 1764. .............................33
Mapa 2 - Detalhe do interior do Reino de Angola, 1791 ..........................................................50
Mapa 3 – A região da Ilamba, 1790 ..........................................................................................83
Mapa 4 – Carta topográfica da província em que se localizava Nova Oeiras, 1769 c.a. ........121
Lista de tabelas e gráfico

Tabela 1 - Moradores do reino de Angola, 1777. .....................................................................56


Tabela 2 - Escravos que trabalharam em Nova Oeiras, 1768-1772.. ......................................205

Gráfico 1 – Despesas com a fábrica (1766-1772).. .................................................................172


Lista de abreviaturas e siglas

ACL - Academia das Ciências de Lisboa

AHU – Arquivo Histórico Ultramarino

AHA – Arquivo Histórico Nacional de Angola

AHM - Arquivo Histórico Militar (Lisboa)

AHTC - Arquivo Histórico do Tribunal de Contas (Lisboa)

AN – Arquivo Nacional (Rio de Janeiro)

ANTT - Arquivo Nacional Torre do Tombo (Lisboa)

BMP - Biblioteca Municipal do Porto

BNP - Biblioteca Nacional de Portugal

IEB – Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo

IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Rio de Janeiro)

GEAEM - Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar (Lisboa)

SGL - Sociedade de Geografia de Lisboa


Sumário

Nota preliminar .......................................................................................................................13

Introdução................................................................................................................................15

1. Um triângulo descontínuo: o Reino de Angola no séc. XVIII .........................................30


1.1 Os Ambundos no Reino de Angola.....................................................................................30
1.2 O esforço colonial de interiorização ...................................................................................40
1.3 A população de Angola .......................................................................................................54
1.4 Vassalagem e tributos .........................................................................................................64

2. De Ilamba a Nova Oeiras....................................................................................................82


2.1 Minas e terras: usos e sentidos ............................................................................................82
2.2 Ferro e aço, em barra e obras ............................................................................................101
2.3 Nova Oeiras, “máquina” imaginada no sertão ..................................................................116
2.4 As povoações civis ............................................................................................................139

3. O trabalho e os trabalhadores em Nova Oeiras .............................................................147


3.1 A regulamentação do trabalho ..........................................................................................147
3.2 Disputas, resistências e as violências do sertão ................................................................174
3.3 Domínio, dependência e relações de trabalho ...................................................................188
3.4 “Todos os que têm alguma luz do trabalho do ferro” .......................................................195

4. Ferreiros e Fundidores .....................................................................................................208


4.1 Jingangula, pulungus e tocadores de foles .......................................................................208
4.2 Da Biscaia .........................................................................................................................232
4.3 De Figueiró dos Vinhos ....................................................................................................241
4.4 Desencontro de conhecimentos .........................................................................................245

5. Sucessos e fracassos ...........................................................................................................252


5.1 “Trovoadas secas” .............................................................................................................252
5.2 Outras paisagens, mesmas questões ..................................................................................264
5.3 Administração e ciência ....................................................................................................276
5.4 Um projeto às avessas .......................................................................................................294

6. Palavras finais ...................................................................................................................303

7. Fontes e bibliografia..........................................................................................................316

8. Glossário ............................................................................................................................338

9. Anexos ................................................................................................................................341
13

Nota preliminar

Nesta tese, os vocábulos das línguas bantu que aparecem aportuguesados nas
fontes setecentistas são grafados de acordo com a documentação, salvo títulos nobiliárquicos,
rios e outros topônimos, que seguem a grafia em kimbundu e o kikongo. Procuro seguir a
grafia angolana oficial e a ortografia oficialmente padronizada destas línguas, para os termos
que encontramos os equivalentes1.
Não foi possível transcrever com rigor vários títulos políticos, cargos, funções do
século XVIII que utilizam palavras em kimbundu (essa é uma limitação da autora que não fala
kimbundu). Quando foi possível reconhecer títulos políticos já traduzidos em outras obras
historiográficas, transcrevo o nome tal como o documento cita e indico entre colchetes qual
seria a tradução mais aproximada. Exemplo: chefado Cabanga Cambango (provavelmente
Kabanga kya Mbangu, identificado como soba da Ilamba no Livro dos Baculamentos2).
Todas as palavras em outra língua que não a portuguesa e que não forem
topônimos, etnônimos e títulos nobiliárquicos, são grafadas em itálico. Algumas palavras,
cujo significado é importante para a análise, são melhor explicadas no glossário anexo. A
indicação no texto é um asterisco. Por exemplo: kimbari*.
Infelizmente não é possível saber com certeza como os centro-africanos da região,
que ficou conhecida como Reino de Angola, chamavam a si mesmos no século XVIII. A
identidade Ambundo é uma construção colonial e poderia reunir pessoas de diferentes origens
e filiações políticas. Com certeza, esse vocábulo não dá conta dessa diversidade. Para Virgílio
Coelho, o melhor vocábulo seria Tumundongo, que designa as populações originárias do
antigo reino do Ndongo. O autor prefere usar este termo a Mbundu, largamente utilizado na
historiografia, porque o segundo etnônimo, apesar de usado desde o século XVI na forma
aportuguesada Ambundo, não “é o que corresponde em nenhum dos contextos àquele que é
sugerido pela autoconsciência destas populações”. Ambundu (plural de Mbundu) significa
1
A grafia atual da língua kimbundu baseia-se no seu alfabeto e respectivas regras de transcrição constantes na
Resolução n. 3/87 de 23 de maio de 1987 do Conselho de Ministros da República de Angola. O alfabeto
kimbundu é composto pelos seguintes caracteres: a, b, c, d, e, f, h, i, j, k, l, m, n, o, p, s, t, u, v, w, x, y, z. As
regras de transcrição aplicam os seguintes fonemas: mb, mp, mv, mf, nd, ng, nj, nz, ny. “Segundo Lepsus, tanto
o C como o Q correspondem a K; o GE e o GI correspondem a um som gutural (gue, gui); O átono do final das
palavras deve ser representado por U; o S equivale foneticamente a ce/ci/ç e nunca Z”. José Delgado In: Antonio
de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas (1680). Anotado e corrigido por José Matias Delgado.
Lisboa: Agência-geral do Ultramar, 1972, v. III, p. 611 apud Aida Freudenthal, Selma Pantoja (ed.). Livro dos
Baculamentos: que os sobas deste Reino de Angola pagam a Sua Majestade (1630). Luanda: Ministério da
Cultura e Arquivo Nacional de Angola, 2013, p. 27.
2
Aida Freudenthal, Selma Pantoja (ed.). Livro dos Baculamentos, p. 50.
14

“negros” e seria uma elaboração de grupo étnico ou de povo “forjada pelos portugueses para
designar um vasto conjunto de populações que falam a mesma língua, o Kimbundu”. O autor
também considera que Kamundongo (singular de Tumundongo), por motivos desconhecidos,
passou a ter uma conotação pejorativa em Angola. Coelho utiliza Kimbundu como
substitutivo de Mbundu e usa o vocábulo para indicar comunidade, cultura, língua,
gemealidade no espaço cultural, povos, sistema. Isso porque para a “designação da noção de
povo ou comunidade é comum estas populações utilizarem o termo akwa”. No caso,
Akwakimbundu, os Kimbundu, “populações – ou comunidade – que falam a língua
kimbundu”3.
Assumo que Ambundos não é o melhor termo para fazer referência aos centro-
africanos do antigo Reino de Angola pois, sem dúvida, ele traz a perspectiva colonial.
Portanto, ele carrega todas as consequências do olhar europeu sobre os africanos na época, é
um termo preconceituoso, com objetivo de depreciar essas populações. Por outro lado, fazer
uso de um etnônimo atual, seria incorrer no anacronismo, pois não podemos presumir que
uma identidade étnico-linguística atual tenha sido a mesma reclamada pelos centro-africanos
há séculos atrás. Portanto, ciente de que as identidades são construções históricas que se
transformam ao logo do tempo, prefiro me ater ao nome Ambundo porque é o que os registros
históricos utilizam. Nas línguas bantu o plural das palavras é na maioria das vezes formado
pelo acréscimo de um prefixo (ex: kilamba, plural ilamba). No caso de Ambundo, por ser uma
forma aportuguesada de Mbundu e porque quero enfatizar que se trata de uma construção
colonial, seguirei o padrão português de pluralização ou inflexão de gênero (Ambundos,
Ambunda).
Ainda assim, reconheço que este assunto não é consensual e pode trazer muitos
problemas. Peço ao leitor que, ao ler o vocábulo Ambundos nesta tese, não o relacione ao
Mbundu e à sua tradução “pretos” ou “escravos”, porque de forma nenhuma esta é a minha
leitura. Ao ler Ambundo, leitor, compreenda que nosso conhecimento histórico sobre os
centro-africanos ainda é limitado e, especialmente, que desconhecemos como chamavam a si
próprios, no século XVIII. Feitas essas ressalvas, espero que, no decorrer do texto, possa
evidenciar o ponto de vista dos centro-africanos a respeito da história que quero contar, ainda
que recorra a um etnônimo criado por agentes coloniais.

3
Virgílio Coelho, Em busca de Kàbàsà. Uma tentativa de explicação da estrutura político-administrativa do
reino de Ndòngò. Luanda, Kilombelombe, 2010, p. 203 e 204, nota 1, p. 364.
15

INTRODUÇÃO

Pedro Manoel era um fundidor Ambundo do interior de Angola, no século XVIII.


Seu ofício era complexo e desgastante, por isso contava com a ajuda de auxiliares e
aprendizes, sempre acompanhado por dois “tocadores de foles”. Os ajudantes rasgavam serras
de pedra em busca de minério de ferro, que era partido em pedaços pequenos para ser mais
bem fundido. Esse era só o começo do trabalho: era preciso cortar lenha, preparar o carvão,
construir o forno, recolher feixes de papiro, controlar meticulosamente o tanger dos foles,
entre outras tarefas. Por meio de métodos específicos que misturavam conhecimentos práticos
com saberes secretos, do mundo invisível, adquiridos pelos seus antepassados e aperfeiçoado
durante muitas gerações, Pedro fabricava um ferro de excelente qualidade1.
Qual era o segredo? Bem, essa é a pergunta que muitos estrangeiros de passagem
por Angola se fizeram e que o governador Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (1764-
1772) se empenhou, particularmente, em obter uma resposta. Pedro Manoel não era um raro
fundidor na região, ao contrário, havia muitos fundidores e ferreiros dispersos por uma área
rica em minério de ferro, nas proximidades de Luanda, chamada a Ilamba. Coutinho, seguindo
as diretrizes das reformas pombalinas e ciente dos altos custos do ferro europeu, vislumbrou
uma alternativa para suprir com aquele metal valioso não apenas Angola, mas também o
Brasil e Portugal, e quem sabe conquistar novos mercados: construir uma fábrica de ferro. O
empreendimento não seria modesto, idealizou uma fábrica para fundir a artilharia necessária a
todo o império, não só de ferro, de bronze também. Em homenagem ao grande inspirador de
seus projetos, o conde de Oeiras, a fábrica se chamou Nova Oeiras.
O que Pedro Manoel, o fundidor, pensou de tudo isso? Essa é uma resposta difícil
de encontrar nas fontes, seu nome e seu ofício são praticamente tudo que sabemos sobre ele.
Porém, enquanto grupo de artífices, os ferreiros e fundidores, ele e seus companheiros

1
Certidão de José Francisco Pacheco, inspetor das obras da fábrica, sobre o estado da fábrica de ferro. São Paulo
de Assunção de Luanda Luanda, 13 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 28.
16

deixaram algumas impressões sobre a fábrica de ferro, nas entrelinhas da documentação


oficial.
Na fábrica de ferro, muitos ferreiros e fundidores eram dependentes de chefados
africanos dessa região. O ponto de vista dessas chefias está expresso de forma mais evidente
nas fontes. Na estrutura hierárquica do Reino de Angola, os chefados africanos assumiam
posições de destaque e eram eles que controlavam minas de ferro e a mão de obra de seus
dependentes.
De forma geral, a dependência do governador, que queria construir a fábrica, em
relação aos sobas que enviariam os trabalhadores é um dos principais embates e pontos de
discussão dessa tese. Em que termos ocorria essa parceria, em que condições, quais as
consequências tanto para os chefes, quanto para seus súditos são questões que guiaram a
escrita do presente texto; as indagações vão no sentido de compreender essa história do ponto
de vista dos Ambundos: de gente como Pedro Manoel, os ferreiros e fundidores da Ilamba,
dos chefados africanos, que tiveram de lidar com projetos e ações que lhes foram impostos
pelos agentes coloniais.

Em abril de 1765, o governador de Angola, Francisco de Sousa Coutinho deu


início às pesquisas sobre a mineração do ferro no Reino de Angola que levaram à construção
da Real Fábrica do Ferro de Nova Oeiras. A ideia inicial era estabelecer duas fábricas e, para
tanto, seriam fundadas duas povoações civis para ampará-las com o cultivo alimentos e o
fornecimento de trabalhadores. Na fábrica da Ilamba (região localizada entre os rios Kwanza
e Mbengu) se exploraria o “ferro da terra”, ou seja, seria necessário abrir galerias subterrâneas
para explorar o minério. Ela ficaria na povoação de Novo Belém e levaria o seu nome, junto
ao rio Nzenza, que permitiria a condução do metal até a cidade de Luanda. A outra fábrica
exploraria as serras de “ferro da pedra” que se localizam na confluência dos rios Lukala e
Luinha (afluentes do rio Kwanza), na jurisdição de Massangano, junto à povoação de Nova
Oeiras2.
A documentação sobre a Fábrica de Novo Belém não é tão extensa quanto a que
versa sobre a de Nova Oeiras, mas indica que ali foi produzido ferro sob a administração do
intendente João Baines de 1765 a 1768. Não sendo possível explorar o ferro da terra, ou seja,

2
O rio Lukala é o maior afluente do rio Kwanza, atravessa as províncias do Uíge, Malanje e Kwanza Norte. O
rio Luinha liga os municípios de Cazengo e Golungo Alto. Decidimos manter o vocábulo “fábrica” porque é o
que encontramos na documentação setecentista, seu significado se restringe a esse período histórico, se
aproximando ao vocábulo de Bluteau cuja definição é “a casa ou a oficina em que se fabricam alguns gêneros”.
Portanto, não deve ser associado às grandes indústrias do Sistema Fabril. Raphael Bluteau, Vocabulário
portuguez e latino, 10 v. Lisboa/ Coimbra: Colégio da Cia. de Jesus, 1712-1728, verbete “fábrica”.
17

“rasgar a terra”, em 1768, o governador mandou que as fábricas fossem unidas em Nova
Oeiras, enviando todo o ferro ali produzido e todos os trabalhadores de Novo Belém para
aquele local3.
Os trabalhos acadêmicos sobre Angola no século XVIII, em algum momento se
detêm na história da imponente fábrica de ferro cujas ruínas permanecem grandiosas até os
nossos dias. Sobretudo aqueles que pesquisam a administração do governo de Francisco de
Sousa Coutinho, conhecido como o “administrador filósofo”, analisam a fábrica como o
símbolo dos projetos da conquista portuguesa de Angola e seu hinterland. Gastão de Sousa
Dias, Ralph Delgado, Jofre Amaral e Antonio da Silva Rego são autores de obras que
enaltecem a figura de Sousa Coutinho e para quem a fábrica de ferro era um exemplo da
genialidade de seu governo e das potencialidades do colonialismo português. Escritas durante
o Estado Novo, essas obras revelam seu comprometimento com a perspectiva colonial,
justificando as ações dos agentes coloniais4.
A historiografia tem renovado as interpretações sobre o governo de Sousa
Coutinho e da fábrica de ferro, criticando a abordagem dos autores citados. Nas dissertações
de Ana Madalena Trigo e Sousa, de Mônica Tovo Machado e na tese de Flávia de Carvalho
encontramos referências documentais e estudos que se voltam para o ponto de vista africano
dessa história5. A leitura desses trabalhos foi muito importante para compor a presente
análise, embora eles tenham abordado tangencialmente a história de Nova Oeiras.

3
Gastão de Sousa Dias. D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho. Administração Pombalina em Angola.
Lisboa: Editorial Cosmos, 1936, p. 39.
4
Gastão de Sousa Dias, D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, Administração Pombalina em Angola; Jofre
Amaral Nogueira, Angola na época pombalina. O governo de Sousa Coutinho. Lisboa: [s. n.], 1960; Antonio da
Silva Rego, “A Academia Portuguesa da História e o II centenário da fábrica de Ferro em Nova Oeiras, Angola”,
In: Coletânea de Estudos em honra do prof. Dr. Damião Peres. Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1974,
p. 385-398; Ralph Delgado, “O Governo de Sousa Coutinho em Angola”. In: Stvdia, nº 6, 1960, p. 19-56, nº 7,
1961, p. 49-86, nº1 0, 1962. Ver também: Maria Teresa Amado Neves, “D. Francisco Inocêncio de Sousa
Coutinho: Aspecto moral da sua acção em Angola”. In: I Congresso de História da Expansão Portuguesa no
Mundo. Lisboa: Sociedade Nacional de Tipografia, 1938, p.120-150; A. Fuentes, “Dom Francisco Inocêncio de
Souza Coutinho. Esboço de uma obra que se perdeu”, Boletim do Instituto de Angola, nº 4, 1954, p. 35-40;
Marques do Funchal, O Conde Linhares. Lisboa: s/l, 1950.
5
Ana Madalena Trigo de Sousa, D. Francisco de Sousa Coutinho em Angola: Reinterpretação de um Governo
1764-1772. Dissertação (Mestrado em História). Funchal / Lisboa: Universidade de Nova Lisboa, 1996. É um
trabalho de densa análise de fontes que não tem sido revisitado como merecia pela historiografia; Mônica Tovo
Soares Machado, Angola No Período Pombalino: O Governo De Dom Francisco Inocêncio De Sousa Coutinho
– 1764-1772. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras E Ciências Humanas da Universidade de
São Paulo, 1998; Maria Adelina de Figueiredo Batista Amorim, “A Real Fábrica de Ferro de Nova Oeiras.
Angola, Séc. XVIII”. Clio, Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa, v. 9, 2003, p. 189-216;
Patrícia Bertolini Gonçalves, “Iluminismo e administração colonial. Angola vista por brasileiros no século
XVIII”. VIª Jornada Setecentista; conferências e comunicações. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2006, p. 481-490;
Ana Madalena Trigo de Sousa, “Uma tentativa de fomento industrial na Angola setecentista: a “Fábrica do
Ferro” de Nova Oeiras (1766-2772)”. Africana Studia, n. 10, 2007, p. 291-308; Flávia Maria de Carvalho, Sobas
e homens do rei: interiorização dos portugueses em Angola (séculos XVII e XVIII). Maceió: Edufal, 2015. Ver
18

Incontornáveis também são os estudos de Catarina Madeira Santos, em que a


construção de Nova Oeiras é vista como parte do projeto de um “governo polido” para
Angola, concepção diretamente relacionada à história das ideias e do Iluminismo que
envolveu um esforço colonial para fazer de Angola, mais que uma feitoria, uma colônia de
povoações civis. A autora interpreta a edificação da fábrica de Nova Oeiras como um
“dispositivo de governo”, em outras palavras, “um conjunto heterogéneo que comporta
discursos, instituições, arranjos arquitetônicos, decisões regulamentares, leis, medidas
administrativas, enunciados científicos, propostas filosóficas, morais”. No final de sua
narrativa das condições que possibilitaram instaurar um governo polido em Angola, a fábrica
surge como um símbolo máximo desse esforço ilustrado6.
Esta tese cita em muitos momentos essa historiografia, que se dedicou a
compreender quais foram os projetos coloniais, as instituições criadas, os mecanismos de
governo da administração portuguesa para o Reino de Angola setecentista. É importante
ressaltar que encontramos nela o interesse em abordar como as populações africanas lidaram,
na prática cotidiana, com essas imposições externas. Contudo, nossa proposta segue por outro
caminho; o interesse é inverter o ponto de vista de análise e abordar o tema da fábrica de ferro
a partir das determinações locais, das escolhas das lideranças africanas e, assim, analisar as
tensões sociais e políticas envolvidas na instalação de um projeto desta monta nos sertões
próximos de Luanda.
Em outras palavras, por meio da análise de algumas fontes inéditas ou de
documentos já conhecidos, mas analisados sob outra perspectiva e à luz do debate
historiográfico atual, nosso ponto de partida não é o estado português, o governo, a cultura
ilustrada, o cientificismo do século das Luzes; antes, nos interessam as relações sociais dos
atores locais – os sobas, seus súditos, os ilamba, os imbari, os trabalhadores da fábrica,
centro-africanos, europeus, luso-africanos, estrangeiros em suas relações com os funcionários
régios, os negociantes, os sertanejos. Se, por um lado, temos vasta bibliografia sobre as
experiências da elite administrativa, em contrapartida, ainda há muito o que fazer para
conhecer melhor o que os centro-africanos pensavam, como agiam, resistiam, negociavam, se
acomodavam e como refletiam sobre o que estava acontecendo com eles e com seu mundo.
Ao focalizar o ponto de vista dos Ambundos e concentrar a análise nas dinâmicas
internas a Angola, esta tese dialoga, necessariamente, com a bibliografia africanista. Para

também: José Gentil Silva, “En Afrique portugaise: L'Angola au XVIIIe siècle”. Annales. Histoire, Sciences
Sociales, 14e Année, n. 3, 1959, p. 571-580.
6
Catarina Madeira Santos, Um Governo “polido” para Angola : reconfigurar dispositivos de domínio (1750
c.1800), p. 21.
19

compreender a estrutura social e política do Ndongo, principal reino Ambundo, recorremos


aos estudos clássicos que analisam proficuamente as características dos primeiros contatos
entre portugueses e africanos, as resistências locais e seus desdobramentos durante a ocupação
colonial. Jan Vansina e David Birmingham foram os pioneiros na mudança da perspectiva de
análise sobre a história de Angola, a ênfase deixa de ser a ação missionária, a expansão
“pacífica” portuguesa e recai sobre o ambiente sociopolítico dos Ambundos e o impacto da
presença europeia sobre os mais variados aspectos da vida dos africanos. John Thornton é
herdeiro desses estudos, nas suas pesquisas sobre a configuração política do Reino do Kongo,
dos séculos XV até meados do XVIII, enfatizou as transformações internas daquele reino
como determinantes de seu destino mais que as pressões externas da colonização ou do tráfico
de escravos. Joseph Miller, na mesma direção, porém baseado na tradição oral Mbangala,
traçou a história dos “Estados Mbundu” assentados na concentração do poder em linhagens
matrilineares específicas e suas continuidades no decorrer do tempo. Beatrix Heintze é a
autora que mais tem se dedicado à história de Angola nos séculos XVI e XVII, privilegiando a
formação política e social do Ndongo e os contatos com os portugueses durante a expansão do
domínio colonial. Por fim, Em Busca de Kábàsà, de Virgilio Correa, traz para o centro do
debate os modos de vida e visão de mundo, traços étnicos, linguísticos e simbólicos próprios
dos “Kimbundos”7.
Como a fábrica de ferro foi construída no coração da Ilamba, região de longo
contato com os portugueses, nos interessou conhecer a história da micro-politica dos chefados
africanos e de suas alianças com o poder colonial. Foram fundamentais, aqui, os escritos de
Jill Dias e Isabel de Castro Henrique, que informam sobre a história dos microcosmos
políticos e sociais no interior da África, a formação de novas identidades ambíguas que ora
colaboram e negociam, ora resistem e recusam a presença colonial. Apoiada nesses autores,
pudemos avançar na reconstituição de aspectos da trajetória dos títulos políticos dos líderes

7
Dentre os estudos clássicos que analisaram a África Centro-Ocidental que enfatizaram a formação política dos
estados africanos ver especialmente: Jan Vansina, Kingdoms of the Savanna. Madison: Wisconsin University
Press, 1966; David Birmingham, Trade and conflict in Angola: the Mbundu and their neighbours under the
influence of the Portuguese, 1483-1790. Oxford: Clarendon Press, 1966; Jan Vansina, How societies are born:
governance in West Central Africa before 1600. Charlottesville: University of Virginia Press, 2004; The
Kingdom of Kongo: Civil War and Transition 1641-1718. Madison: University of Wisconsin Press, 1983; Joseph
C. Miller, Poder político e parentesco: os antigos Estados Mbundu em Angola. Trad. Maria da Conceição Neto.
Luanda: Arquivo Histórico Nacional de Angola, 1995; Beatriz Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos
sobre Fontes, Métodos e História. Luanda: Kilombelombe, 2007; Linda M. Heywood, John K. Thornton,
Central Africans, Atlantic Creoles, and the Foundations of the Americas, 1585–1660. New York: Cambridge
University Press, 2007; Virgílio Coelho, Em busca de Kábàsà: Uma tentativa de explicação da estrutura
político-administrativa do reino de Ndòngò. Luanda, Kilombelombe, 2010.
20

linhageiros, principalmente, nessa região que no século XVIII compõe o sertão próximo da
cidade de Luanda8.
Outro ponto importante da tese é a análise dos mecanismos de exploração local do
trabalho de africanos. Para isso, foi preciso compreender as mudanças nas relações de
trabalho ao longo do tempo e como a iniciativa colonial regulamentou a prestação de serviços
dos dependentes dos chefes linhageiros. Partimos do pressuposto de que os modos de
estabelecer o domínio colonial estão necessariamente relacionados às formas de controle do
trabalho dos africanos. Esse tema não é abordado pela historiografia que tratou das relações
firmadas pelos tratados de vassalagem entre portugueses e africanos9, e constitui mais uma
contribuição oferecida por essa tese.
Um estudo singular sobre o trabalho de centro-africanos e que reflete sobre a
legislação do trabalho é a dissertação de Elaine Ribeiro dos Santos, sobre os trabalhadores na
expedição de Henrique Dias de Carvalho (1884-1888). A autora reconstrói a experiência de
carregadores, guias e intérpretes a partir da obra do militar português, demarcando suas
práticas cotidianas e estratégias de resistências junto ao comando da expedição e às
autoridades africanas10.
A produção acadêmica sobre o trabalho africano na África, livre, obrigatório,
compelido, penal se concentra na segunda metade do século XIX e no século XX11. Ao
mesmo tempo, a historiografia sobre a sociedade angolana, em períodos anteriores, dedica-se
majoritariamente à análise do tráfico de escravos. Embora julguemos o tráfico um elemento
fulcral da história de Angola, o presente estudo é uma contribuição à história social do
trabalho africano no século XVIII. Evidentemente, há diversas conexões com o tráfico
negreiro, mas o objetivo, aqui, é discutir como se formaram as fronteiras entre as diferentes

8
Entre outros: Jill Dias, “Changing patterns on power in the Luanda hinterland, the impact of trade and
colonization on the Mbundu ca. 1845-1920”. Paudema, 32, 1986, p. 285-318; Jill Dias, “O Kabuku Kambilu (c.
1850-1900). Uma identidade política ambígua”. In: Actas do Seminário Encontro de povos e culturas em
Angola. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997, p. 15-52;
Isabel de Castro Henriques, Percursos da Modernidade em Angola: dinâmicas comerciais e transformações
sociais no século XIX. Lisboa: Instituto de Investigação Científica Tropical, 1997.
9
Beatriz Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, 2007; Catarina Madeira Santos, “’Escrever o poder’. Os autos
de vassalagem e a vulgarização da escrita entre os africanos: o caso dos Ndembu em Angola (séculos XVII-
XX)”. International symposium Angola onthe Move: Transport Routes, Communication, and History, Berlin, 24-
26 September 2003; Flávia Maria de Carvalho, Sobas e homens do rei, 2015.
10
Elaine Ribeiro dos Santos, Barganhando sobrevivências: os trabalhadores centro-africanos na expedição de
Henrique de Carvalho (1884-1888). Dissertação (Mestrado em História). São Paulo: Universidade de São Paulo,
2010.
11
Entre outros: Adriano Parreira e Dale T. Graden, “África em debate: uma herança identitária - o trabalho
forçado”. In: Africana Studia, n. 5, 2010, p. 135-168; Jeremy Ball, “Relatos de investigação sobre o trabalho
forçado em Angola na era colonial”. In: Actas do II Encontro Internacional de História de Angola. v. II. Luanda:
Arquivo Nacional de Angola; Ministério da Cultura, 2015, p. 79-110.
21

modalidades de trabalho que coexistiram no sertão centro-africano, em especial na fábrica de


Nova Oeiras.
Um debate historiográfico central é o que se detém sobre o impacto do tráfico
transatlântico de escravos nas sociedades africanas. Há historiadores que defendem que nem o
tráfico, nem o fim do comércio tiveram repercussões profundas na história do continente.
David Eltis, por exemplo, assume essa perspectiva principalmente no que se refere ao peso
demográfico do tráfico, afirmando que para Ashanti, do ponto de vista de estimativas
populacionais, o tráfico pode nunca ter sido importante. Para Thornton, é errôneo imaginar
que os europeus impuseram o tráfico aos mercadores e líderes políticos africanos, uma vez
que, eles “não sofreram pessoalmente as perdas de grande escala e mantiveram suas
transações”. Esses e outros autores estavam combatendo a ideia de um África eterna, de
sociedades que só sofreriam mudanças significativas face à estímulos externos12.
Outros estudiosos foram além da pesquisa demográfica e analisam os impactos da
economia atlântica nas mudanças da própria escravidão interna, no continente13. Para Angola,
muitos autores relacionam o tráfico transatlântico com transformações prementes seja na
guerra, na expansão colonial, nas redes de endividamento criadas pelo trato de escravos, nas
transformações na estrutura política Ambunda, entre outros fatores14. Nesta tese, percebemos
como o tráfico de escravos é fator estruturante das sociedades que se envolveram na
construção de Nova Oeiras. Ademais, analisamos o século XVIII, período auge do tráfico de
escravos e em que o contato com os europeus e o comércio de cativos eram de longa data,
sobretudo na Zona Atlântica, no hinterland de Luanda.

12
David Eltis, Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade. New York: Oxford
University Press, I987, p. 77; John Thornton, A África e os Africanos na formação do mundo atlântico, 1400-
1800, p. 122-125, 152. Entre outros, ver também: J. D. Fage, “Slavery and the Slave Trade in the Context of
West African History”. The Journal of African History, 10(3), 1969, p. 393-404; Philip Curtin, Economic
Change in Precolonial Africa: Senegambia in the Era of Slave Trade. Madison: University of Wisconsin Press, 2
v., 1975.
13
Paul Lovejoy, Transformations in slavery: a history of slavery in Africa [1983]. 2 ed. Cambridge: Cambridge
University Press, 2000; Patrick Manning, “Contours of Slavery and Social Change in Africa”. The American
Historical Review, 88(4), 1983, p. 835-857; Frederick Cooper, Plantation Slavery on the East Cost of Africa.
Portsmouth: Heinemann, 1997; Para um debate anterior, discutindo questões demográficas e sociais, ver: Walter
Rodney, How Europe Underdeveloped Africa. Londres: Bogle-L’Ouverture Publications, 1972; Joseph Inikori,
Forced migrations: The impact of the export slave trade on African Societies. London: Holmes and Meier, 1982.
14
Entre outros estudos: Jill Dias, “Changing patterns on power in the Luanda hinterland, the impact of trade and
colonization on the Mbundu ca. 1845-1920”, 1986; Isabel de Castro Henriques, Percursos da Modernidade em
Angola, 1997; Beatrix. Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre fontes, métodos e história. Luanda:
Kilombelombe, 2007; José Curto, “Un buttin illégitime: razias d’esclaves et relations luso-africanes das la région
des fleuves Kwanza et Kwango em 1850”. In: Isabel de Castro Henriques, Louis Sala-Mollins (ed.). Déraison,
Esclavage, et Droit: les fondements idéologiques et juridiques de la Traite Négrière et de l’Esclavage. Paris:
Unesco, 2002; Roquinaldo Ferreira, Transforming Atlantic Slaving. Trade, Warfare and Territorial Control in
Angola, 1650-1800. Tese (Doutorado) - University of California, Los Angeles, 2003; Beatriz Heintze, Angola
nos séculos XVI e XVII, 2007.
22

No que tange aos circuitos do comércio de cativos e a história das relações entre o
trato na África e seus links com o tráfico transatlântico, Way of death é referência
indispensável15. Entre aqueles que se dedicam à história social no Reino de Angola, destaco,
em especial, os estudos recentes de Roquinaldo Ferreira, sobre as conexões entre Angola e
Brasil, e de Mariana Candido, primeiro estudo exaustivo sobre a história de Benguela, com
ênfase na cultura e na sociedade africanas. O tráfico de escravos continua a ser um problema
central nestes estudos, mas eles diferem de outras abordagens porque seus autores pretendem
contribuir com uma análise qualitativa, buscando traçar as trajetórias de vida daqueles que se
envolveram no tráfico e compreender os mecanismos de escravização, as formas de
resistência e as consequências do tráfico de acordo com as experiências dos africanos e seus
descendentes. Como herdeiros de estudos precedentes, destacam o papel das “pessoas que
construíram esses lugares [Benguela e Luanda] e o[s] inseriram na economia global”16.
Esta tese dialoga mais de perto com essa historiografia que parte da perspectiva da
história social, inscrita na expressão inglesa: the history from below. A história “vista de
baixo” reuniu historiadores que ampliaram os limites da disciplina ao se voltarem para a
história das experiências de homens e mulheres das classes subalternas. Uma abordagem dos
processos históricos negligenciada nas narrativas clássicas que privilegiaram os grandes
acontecimentos e as personagens ilustres, ou ainda, que não foi considerada nas análises
estruturalistas dos historiadores marxistas. Este movimento historiográfico, que tem como
principais representantes Edward Thompson e Eric Hobsbawm é tributário do estudo pioneiro
de George Rudé, A multidão na história (1961), sobre os movimentos populares na França e
Inglaterra (1730-1848), especificamente greves, motins, rebeliões, insurreições e revoluções17.
Seguindo essa tradição teórica, Thompson se debruçou sobre a História do
Trabalho para além das temáticas das instituições, sindicatos, grandes lideranças, e se ocupou
sobretudo da cultura dos operários, seus costumes, valores, modos de vida, suas experiências.

15
Joseph C. Miller, Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan slave trade, 1730-1830. Madison:
University of Wisconsin Press, 1988.
16
Roquinaldo Ferreira, Cross-Cultural exchange in the Atlantic World. Angola and Brazil during the Era of the
Slave Trade. New York: Cambridge University Press, 2012; Mariana P. Candido, An African Slaving Port and
the Atlantic World. Benguela and Its Hinterland. Nova York: Cambridge University Press, 2013, p. 24;.No
Brasil, os programas de pós-graduação têm incentivado (sobretudo após a lei nº 10.639 que torna obrigatório o
ensino da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da rede de ensino) o estudo da cultura e das
sociedades africanas. O tema da Angola setecentista tem sido revisitado e importantes contribuições surgiram
recentemente como o livro de Flávia Maria de Carvalho, Sobas e Homens do Rei: relações de poder e
escravidão em Angola (séculos XVII e XVIII). Maceió: EDUFAL, 2015. Ingrid de Oliveira, Textos militares e
mercês numa Angola que se pretendia reformada: Um estudo de caso dos autores Elias Alexandre da Silva
Correa e Paulo Martins Pinheiro de Lacerda. Tese (Doutorado em História), Niterói: Instituto de Ciências
Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, 2015.
17
George Rudé, A multidão na história: estudo dos movimentos populares na França e Inglaterra, 1730-1748.
Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Campus, 1991.
23

O conceito de experiência para Thompson “é indispensável ao historiador, já que compreende


a resposta mental e emocional, seja de um indivíduo ou de um grupo social, a muitos
acontecimentos inter-relacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento”.
De forma mais clara, para este autor, “a experiência surge espontaneamente no ser social, mas
não surge sem pensamento. Surge porque homens e mulheres (e não apenas filósofos) são
racionais e refletem sobre o que acontece a eles e ao seu mundo”18. Como nosso enfoque é a
história do trabalho, esse é um recorte teórico basilar e que também tem sido empregado por
africanistas que reconstroem as trajetórias de trabalhadores africanos nos séculos XIX e XX19.
Ademais, essa tese compartilha da perspectiva afrocêntrica, na medida em que
traz para o centro da narrativa o papel dos africanos na história, ao mesmo tempo em que quer
ser mais que uma alternativa às versões eurocêntricas sobre a história da África e dos
africanos. Como explicitou o historiador Ki-Zerbo, o objetivo não é “construir uma história-
revanche, que relançaria a história colonialista como um bumerangue contra seus autores, mas
de mudar as perspectivas e ressuscitar imagens esquecidas ou perdidas”20. Por isso
pretendemos colocar a agência dos Ambundos e seus descendentes em relevo, porque
entendemos que é somente na análise das redes de sociabilidade que estabeleceram com
portugueses, outros europeus, outros africanos, que conseguimos apreender suas experiências,
sua visão de mundo, suas escolhas. Essa é uma história das tensões entre os interesses das
muitas personagens que circulam pelos sertões de Angola no Setecentos, identificando
relações de domínio, estratégias de resistência, acomodação, negociação. Por isso, é preciso
deixar de lado as construções binárias “colonizador/colonizado, ocidente/não-ocidente e
dominação/resistência”. Mesmo considerando que tais dualidades possam ser “mecanismos
úteis para iniciar o estudo de questões de poder”, elas acabam por limitar “a pesquisa sobre a

18
E. P. Thompson, A miséria da teoria ou um planetário de erros. Uma crítica ao pensamento de Althusser.
Trad, de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 15 e 16. Nas palavras de Jim Sharpe: “Thompson,
assim, identificou não apenas o problema geral de reconstruir a experiência das pessoas comuns. Ele também
enfatizou a necessidade de tentar entender as pessoas no passado, tanto quanto for possível ao historiador
moderno, à luz de suas próprias experiências e de suas próprias reações a essa experiência”. Jim Sharpe,
“History from below”. In: Peter Burke (ed). New Perspectives on Historical Writing. The Pennsylvania State
University Press, 1992, p. 26.
19
Frederick Cooper, “Work, Class and Empire: An African Historian's Retrospective on E. P. Thompson”.
Social History, v. 20, n. 2, 1995, p. 235-241.
20
Joseph Ki- Zerbo, Introdução, In: Joseph Ki- Zerbo (ed). História geral da África I: metodologia e pré-
história da África. 2° ed. revista. Brasília: UNESCO, 2010, p. XXXV. Sobre a perspectiva afrocêntrica, ver:
Paulo Fernando Moraes de Faria, “Afrocentrismo: entre uma contranarrativa histórica universalista e o
relativismo cultural”. Afro-Ásia, n. 29/30, 2003, p. 340 ; Mohamed Mbodj, “Le point de vue de Mohamed
Mbodj”. Politique Africaine, n. 79, 2000/3, p. 167 e 168 ; Steven Feierman, “African histories and the
dissolution of world history”. In: R. H Bates; V. Y. Mudimbe; J. O’Barr (ed.). Africa and the disciplines: the
contributions of research in Africa to the Social Sciences and Humanities. Chicago: University of Chicago Press,
1993, p. 186.
24

forma exata pela qual o poder é difundido e as formas como esse poder é engajado,
contestado, desviado e apropriado”21.
Por fim, o interesse particular na história da fábrica de ferro não tem por objetivo
escrever uma história monográfica. Antes consideramos importante o jogo entre as escalas de
análise proposto pela metodologia que ficou conhecida como micro-história. Com a
possibilidade de variar a escala e assim construir o macro pelo micro, consideramos a
reconstituição de elementos das histórias dos sobas, trabalhadores, funcionários régios que
conviveram em Nova Oeiras como um recurso metodológico fundamental para alcançar
nossos objetivos22. Por meio delas será possível lançar novas interpretações sobre a história
social dos Ambundos.
Para alcançar tais objetivos teóricos, foi preciso ler as fontes com um novo olhar e
enfrentar uma dificuldade comum a todos os pesquisadores que querem, por meio de
documentos administrativos coloniais, identificar as vozes dos que se pretendiam subjugados.
Achile Mbembe discorre sobre a distribuição do olhar em um contexto colonial, descrevendo
o europeu que observa o africano:
“um certo modo de distribuição do olhar acaba por criar o seu objeto, por
fixá-lo e por destruí-lo ou, ainda, por restituí-lo ao mundo, mas sob o signo
da desfiguração ou, pelo menos, de um ‘outro eu’, um eu objeto, ou ainda
um eu-à-parte. Determinado modo de olhar tem de fato o poder de bloquear
a aparição do terceiro e a sua inclusão na esfera do humano”23.

A perspectiva das autoridades portuguesas que redigiram grande parte dos


documentos que selecionamos negligenciou a descrição e a participação do “terceiro”, do
outro africano como um sujeito histórico passível da mesma complexidade dos europeus e,
por isso mesmo dotado de uma visão de mundo, conhecimentos, cultura e linguagem
igualmente multifacetados. Ainda que a voz dos africanos não assuma o protagonismo no
momento da produção desses documentos, acreditamos em poder localizar neles aspectos de
suas experiências. Suas vozes se fazem presente mesmo que como indícios esparsos - frases,
pequenas observações, resumos de suas ideias e falas. Na reunião destas pistas, com o
cruzamento sistemático da documentação, é possível conhecer a perspectiva africana desta
história.
Carlo Ginzburg comenta essa natureza dialógica das fontes, ao tratar dos
processos inquisitoriais. Se o diálogo se inscreve na premissa de que nos documentos as
21
Frederick Cooper, “Conflito e conexão: repensando a História Colonial da África”. Anos 90, v. 15, n. 27,
2008, p. 23.
22
Paul-André Rosental, “Construir o ‘macro’ pelo ‘micro’: Fredrik Barth e a ‘microstoria’”, In: Jacques Revel
(org.). Jogos de escalas, 1998, p. 151-172.
23
Achile Mbembe, A crítica da razão negra. Tradução de Marta Lança. Lisboa: Antígona, p. 191
25

“diferentes personagens são vistas como forças conflitantes”, nem sempre é fácil detectar as
vozes distintas que estão expressas nas fontes históricas. Por vezes o historiador é tentado a
observar “por sobre os ombros” do inquisidor, “seguindo as suas pegadas”, deixando-se levar
pela percepção de um juiz, esquecendo-se que este é apenas uma das vozes contraditórias do
processo24. Assim como Ginzburg, ao procedermos a análise das nossas fontes, temos de
resistir à interpretação colonial sobre os africanos, aos juízos de valor, aos filtros das
autoridades portuguesas e nos esforçar para entender o ponto de vista africano ali inscrito.
Stuart Schwartz adensa essa reflexão ao lembrar que as narrativas construídas por
colonizadores e colonizados têm uma via de mão dupla. Para este autor, todo conhecimento
colonial foi fundamentado nos encontros culturais, nas etnografias implícitas. Com isso,
Schwartz quer dizer que dos dois lados dos encontros comerciais, militares e/ou plenamente
coloniais, os “membros de cada sociedade mantinham ideias, frequentemente não enunciadas,
de si próprios e dos ‘outros’, e das coisas que lhes davam tais identidades”, um conhecimento
que não precisava ser articulado, mas que permeava os modos como as pessoas pensavam e
agiam. De forma geral, nas zonas de contato entre culturas diferentes ocorreram
continuamente transformações nessas formas de percepção de si e do outro em uma “tensão
dinâmica entre compreensões e expectativas prévias e novas observações e experiências”25.
Esses conhecimentos tácitos se propagaram por meio de tratados, crônicas,
memórias, instruções, cartas, leis, enfim uma variada tipologia de documentos que informam
os pressupostos de uma cultura em relação à outra (mutuamente), ora reforçando estereótipos,
ora reafirmando instrumentos de dominação e resistência. Na análise das fontes, consideramos
importante atentar para as múltiplas vozes que as constituem, e assim analisar os pontos de
vista e as estratégias dos variados súditos da Coroa portuguesa e de africanos que não estavam
sob seu domínio, no contexto da colonização.
Essas breves observações teórico-metodológicas são suficientes para indicar um
dos procedimentos analíticos importantes adotados na pesquisa que sustenta essa tese, pois
utilizamos uma documentação que é, essencialmente, oficial. Aparentemente, as séries de
fragmentos oficiais oferecem apenas a perspectiva metropolitana ou de seus agentes coloniais.
No entanto, resistindo a olhar sobre os ombros dos que produziram esses documentos,
realizando uma leitura cuidadosa de seus elementos, como nos informa a bibliografia, é
possível observar muitos aspectos sobre como os centro-africanos resistiram ao projeto de

24
Carlo Ginzburg, “O inquisidor como antropólogo”, Revista Brasileira de História, v.1, n.21, São Paulo:
ANPUH/Marco Zero, p. 6-10.
25
Stuart Schwartz, Implicit understandings: observing, reporting and reflecting on the encounters between
Europeans and other peoples in the early Modern Era, Cambridge: Cambridge University Press, 1995, p. 2 e 3.
26

implantação de Nova Oeiras. Assim, além da visão da metrópole e de autoridades portuguesas


sobre a fábrica de ferro, seus trabalhadores, os conhecimentos da fundição de ferro, essa
documentação também permite conhecer, em uma leitura a contrapelo, muitos aspectos dos
mundos do trabalho e das experiências africanas naquele contexto específico.
Em sua maioria, as fontes aqui utilizadas são parte da correspondência entre o
governo de Luanda e as autoridades do ultramar português, mais precisamente cartas e ofícios
trocados entre o governador do Reino de Angola Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho e os
Secretário dos Negócios da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de Mendonça Furtado
(1760-1769) e Martinho de Mello e Castro (1770-1795). Esta documentação está dispersa em
arquivos no Brasil, Portugal e Angola26. Parte complementar e primordial deste conjunto de
documentos é a correspondência - as cartas, bandos e portarias do governo de Angola –
trocada entre o governador, os capitães-mores e os intendentes das reais fábricas do ferro, no
interior de Angola. Este segundo conjunto foi coligido na visita ao Arquivo Histórico
Nacional de Angola e se mostrou essencial para colhermos informações mais localizadas e
específicas sobre o cotidiano da organização do trabalho no hinterland de Luanda. Boa parte
dessa documentação já é conhecida pelos historiadores, porém o objetivo de reconstituir a
história da fábrica de ferro “vista de baixo” exigiu que fizéssemos novas perguntas para essas
fontes. Afinal, como disse Hobsbawm “não existe material algum até que nossas perguntas o
tenham revelado”27.
Além do trabalho junto a fontes textuais, é preciso considerar os registros visuais,
as plantas, desenhos e mapas da região, povoação de Nova Oeiras, da fábrica de ferro e dos
modos de produção e transformação do metal. Estas imagens - algumas inéditas - mostram a
formação da povoação, as dimensões do edifício da fábrica, trazem a descrição em pormenor
dos engenhos e ferramentas nas notas do naturalista José Álvares Maciel (em fins do século
XVIII).

26
Estes documentos foram selecionados em um primeiro momento nos arquivos brasileiros: Instituto de Estudos
Brasileiros/USP, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sobretudo no PADAB (Projeto Acervo Digital
Angola-Brasil), no Arquivo Nacional e na Fundação Biblioteca Nacional. Na segunda etapa, em Portugal,
buscamos por estas fontes e pela bibliografia especializada no Arquivo Histórico Ultramarino, Biblioteca
Nacional de Portugal, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Sociedade de Geografia de Lisboa, Academia das
Ciências de Lisboa, Arquivo Histórico do Tribunal de Contas, Arquivo Histórico Militar, Museu Nacional de
História Natural e da Ciência, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, Biblioteca da Ajuda,
Museu Nacional de Arqueologia, Museu Nacional de Etnologia, Biblioteca Municipal do Porto e Arquivo da
Universidade de Coimbra. Como mestres biscainhos foram contratados para trabalhar em Nova Oeiras, visitamos
alguns acervos na Espanha principalmente em busca de mais informações sobre as técnicas de fundição e forja
do ferro: a Biblioteca Nacional da Espanha, o Arquivo Nacional da Espanha e o Arquivo Geral das Índias.
27
Eric Hobsbawm, “A história de baixo para cima”, In: Sobre história: ensaios. São Paulo: Companhia das
Letras, 1998, p. 215-232.
27

O texto está dividido em cinco capítulos: os dois primeiros apresentam


características gerais de Angola no século XVIII e os restantes tratam de temáticas que
considero mais relevantes. O primeiro capítulo oferece um panorama geográfico e
demográfico, no século XVIII, de uma parte do antigo Reino do Ndongo que foi chamada de
Reino de Angola e sua conquista pelos portugueses. Visa apresentar as tensões entre as
autoridades centro-africanas e os agentes coloniais na segunda metade do Setecentos, quando
há um esforço de interiorização colonial – expresso no projeto da fábrica de ferro. Segue-se a
isso uma análise ao longo do tempo dos autos de vassalagem firmados entre os portugueses e
os sobas, sob o ponto de vista das relações de trabalho.
Descrever e problematizar como a região das minas de ferro dos Ambundos se
tornou a Nova Oeiras de Sousa Coutinho é o tema do segundo capítulo. Primeiramente,
analiso a relação dos africanos com as minas de ferro, como parte do território sagrado de
seus ancestrais, já que tinham modos particulares de promover exploração dos minérios. Em
seguida, mostro como a busca por metais foi uma característica importante da colonização
portuguesa que, portanto, não mediu esforços para controlar as minas e explorá-las. São duas
maneiras divergentes de ver o mesmo recurso natural e, como veremos, isso levou a embates e
concessões. Há um longo conflito pelas terras onde as fábricas foram construídas; abordamos
os interesses dos diferentes indivíduos que participam desse embate, procurando apontar os
mecanismos que usam para legitimar a posse de terras. Nesta seção também trato do projeto
colonial, da formação da povoação de Nova Oeiras, das várias fábricas que serviram de
experiência para chegar ao projeto final e, por fim, da construção do edifício da fábrica.
No terceiro capítulo, investigo a história do trabalho e dos trabalhadores em Nova
Oeiras – africanos, biscainhos, portugueses, franceses, brasílicos. A ênfase recai na prática do
recrutamento de trabalhadores africanos para as fundições de ferro. Delimitei, assim, as
sobreposições e discrepâncias entre as diferentes formas de emprego desta mão de obra, uma
vez que na fábrica coexistiram trabalho escravo, livre, obrigatório e penal. Ao investigar o que
estava determinado nos acordos formais entre as chefias africanas e os portugueses,
acompanho o processo que se tornou uma tradição supostamente local de legitimar alianças
políticas – enviar trabalhadores a um soberano como tributo – em uma prática recorrente na
administração colonial. Em uma escala de análise mais reduzida, focalizo os aspectos da vida
cotidiana na fábrica, da divisão e do processo do trabalho. Este ajuste na objetiva permite
mostrar a complexidade desta trama - o tecido social em detalhe - e revelar as estratégias dos
soberanos africanos para manter sob seu domínio uma atividade milenar - a fundição e o
comércio do ferro. Este é um capítulo sobre tensões entre diversos sujeitos, já em um
28

momento mais enraizado do cotidiano das relações de trabalho: governador, moradores,


capitães-mores, sobas, ilamba, imbari entram em conflito repetidas vezes pelo domínio e
controle do trabalho dos Ambundos vassalos. Aqui, meu diálogo com a historiografia da
história social enraizada em contextos específicos é mais pungente, sobretudo no que diz
respeito à precariedade que a situação colonial impôs aos vassalos Ambundos, os principais
alvos da captura, do sequestro e da escravização ilegal.
Ademais, tratei das técnicas de fundição e forja do ferro empregadas em Nova
Oeiras pelos Ambundos – assunto do quarto capítulo. Destaco os significados do ofício de
ferreiro para os centro-africanos - para quem essa ocupação tinha uma conotação mágico-
religiosa. Recorro, para isso, às memórias que o degredado da inconfidência mineira José
Álvares Maciel produziu entre 1795-1797, nas quais retrata detalhadamente suas experiências
na fundição de ferro nessa região. Fora isso, trago para a tese a história da técnica de outros
ferreiros que ali trabalharam, principalmente, portugueses e biscainhos. É um capítulo sobre
como os trabalhadores, mais que fornecer sua força de trabalho para edificar Nova Oeiras,
produziram conhecimentos imprescindíveis para o desenvolvimento da metalurgia.
No quinto e último capítulo, comparo as versões da história da fábrica e da
produção de ferro em Angola. Neste ponto, acompanho as razões do fracasso de Nova Oeiras,
principalmente da inadequação técnica, já que os padrões de conhecimentos distintos
(europeus, africanos, luso americanos) não conseguiram se adaptar ao interior de Angola no
século XVIII, ou melhor, não foram capazes de criar uma forma de produção que
maximizasse os recursos naturais e humanos. As ligações entre as conquistas portuguesas na
América Portuguesa e no Reino de Angola eram intensas, sobretudo no século XVIII. Isto fica
evidente nesta interlocução entre “sujeitos” dos dois lados do Atlântico e, no caso da
elaboração e planejamento de fábricas de ferro nestas localidades, se observa também na
correspondência entre Francisco de Sousa Coutinho e o governador de São Paulo, o morgado
de Mateus. Tendo em vista estas questões, comparo duas experiências de exploração do ferro:
a Fábrica de Nova Oeiras e a fábrica que seria os primórdios do que no século XIX se tornou
a Fábrica de Ferro de Ipanema, no morro da Araçoiaba, em São Paulo.
Por fim, toco no incontornável assunto do fracasso da fábrica de Nova Oeiras. Se
existe algum consenso na historiografia é que a iniciativa fracassou - e as explicações para
isso são muitas: a mudança de governador teria interrompido o projeto ilustrado de Sousa
Coutinho; as minas de ferro não seriam produtivas o bastante para a fabricação em grandes
quantidades; o clima do sertão levou à morte os mestres europeus para ali enviados, ficando o
empreendimento sem trabalhadores especializados, entre outras.
29

Contudo, o fracasso é uma versão da história contada a partir do ponto de vista


dos planos coloniais. Se invertermos a ótica, como propomos aqui, e passarmos à versão dos
africanos, a conclusão pode ser diferente. A produção de ferro em Nova Oeiras pelos
ferreiros, fundidores e tocadores de fole africanos com seus pequenos foles e fornos foi
constante no século XVIII, mesmo depois do governo de Sousa Coutinho. Além disso, desde
fins do XVIII até quando temos notícia, em meados do século XIX, os trabalhadores locais
venderam suas barras de ferro à Fazenda Real. Portanto, podemos dizer que os centro-
africanos foram bem-sucedido sem continuar a minerar o ferro à sua maneira, não se
submeteram aos planos e conhecimentos coloniais.
Nas fugas dos trabalhadores, na sua recusa em aprender as técnicas estrangeiras,
nas estratégias dos sobas de ora colaborar, ora boicotar o projeto colonial, os africanos
conseguiram preservar ao longo tempo seu domínio sobre a exploração do ferro. Por isso,
consideramos que os planos de Sousa Coutinho para a fábrica de ferro fracassaram
principalmente porque não encontraram colaboração permanente nas elites e nos
trabalhadores africanos; o governo de Luanda fracassou em convencê-los do sucesso do
empreendimento. Não queremos dizer com isso que a construção e o recrutamento para o
trabalho na fábrica não causaram um impacto profundo nos sobados ao seu redor. Ao
contrário, o que afirmamos é que a violência do trabalho na fábrica e dos maus-tratos e
“pancadas” dos seus funcionários e a desagregação política e social das povoações africanas
provocada pela deserção constante de homens que não queriam ser mandados para o trabalho
na fábrica não foram suficientes para conter as resistências ao domínio colonial.
30

CAPÍTULO 1
UM TRIÂNGULO DESCONTÍNUO:
O REINO DE ANGOLA NO SÉC. XVIII

1.1 Os Ambundos no Reino de Angola

A República de Angola de hoje é muito diferente do que no século XVIII os


portugueses chamaram de o “Reino de Angola e suas conquistas”, “conquista de Angola” ou,
simplesmente, “Angola”. No último quartel do século XVIII, essa era uma área delimitada
pela presença portuguesa na África Centro Ocidental que se localizava, segundo o governador
Francisco de Sousa Coutinho (1764-1772), na latitude 8º48’que corresponde a uma das
coordenadas geográficas atuais da cidade de Luanda (vila fundada em 1576 que foi elevada a
foros de cidade em 1605).
“Angola fica situada na altura de 8 graus e 48 minutos; e como ou pelo
interesse que os antigos fizeram no sertão ou pela maior dificuldade das
Costas ficou logo no princípio muito apartada na Costa, quase como o
vértice de um triângulo de que os lados são o interior do país; por esta causa
cinco léguas ao norte da Costa e dez ao sul já são terras que não reconhecem
a El Rei Nosso Senhor”1.

1
Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, “Memórias do Reino de Angola e suas conquistas, escritas em Lisboa
nos anos de 1773 e 1775”. BMP, Códice 437, documento 10. Antonio Parreira traz as seguintes medidas: 1 légua
francesa = 3 milhas; 1 légua (1641) = 1 milha espanhola; 1 légua italiana = 3 milhas = cerca de 1250 m. Segundo
Joaquim Monteiro, em “Um viagem redonda da carreira da Índia (1597-1598)”, uma légua portuguesa
correspondia a 5920 m. Se considerarmos esse valor, significa que a soberania do rei de Portugal não era
reconhecida à aproximadamente 29 km ao norte e 59 km ao sul da Costa de Luanda. Isso mostra o limitado
traçado geográfico da influência portuguesa. Contudo, é preciso estar atento para “as diferenças dos valores
dados para a mesma distância, quando calculada em dias ou jornadas, podem estar relacionadas com os
diferentes ritmos de marcha, com as condições atmosféricas, o estado dos caminhos, com o peso transportado, e,
em muitos casos, podem ser consequência de erros de estimativa e até de impressão ou escrita. (...) Os africanos
no Kongo determinavam a distância das terras não por milhas ou espaço tal, mas em jornadas de homens
carregados ou ligeiros”. Adriano Parreira, Economia e sociedade em Angola na época da Rainha Jinga (século
XVII). Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 23 e 24. Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Uma viagem redonda da
carreira da Índia (1597-1598). Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1985, p. 463.
31

Esta citação faz referência ao domínio restrito do território africano pelos


portugueses. Os limites deste domínio teriam a forma de um triângulo descontínuo, seu
vértice afastado na Costa representaria o porto, a fortaleza e a cidade de Luanda, seus lados
seriam “o interior do país”, e outros vértices possivelmente eram o presídio de Encoge ao
norte e de Pungo Andongo no sul. Assim, a conquista de Angola era uma pequena porção da
África Centro-Ocidental que reconhecia o senhorio do rei de Portugal, cercada por domínios
outros, que não estavam submetidos à jurisdição portuguesa. Isto porque ao norte e ao sul,
reinos africanos resistiram à conquista europeia. Eles eram geralmente chamados de
“potentados” nas fontes portuguesas e, ao longo do tempo, estabeleceram acordos políticos
para intermediar relações comerciais com os estrangeiros, sobretudo no que se refere ao
tráfico de escravos2. Contudo, a resistência à ocupação colonial não se fazia sentir apenas nas
bordas descontínuas deste triângulo; ao contrário, o interior do Reino de Angola era formado
por algumas unidades administrativas portuguesas, cercadas por banzas, sobados, ou seja, por
unidades politicamente autônomas africanas, que haviam firmado acordos de vassalagem com
o rei de Portugal. A própria toponímia dos sertões de Luanda era puramente africana, a
povoação e fábrica de Nova Oeiras destoam do conjunto. Essa tensão geopolítica é uma das
marcas mais expressivas da fragilidade territorial e política da presença europeia na região.
Para Sousa Coutinho, o limitado recorte geográfico do Reino de Angola era a
causa das fugas dos escravos da cidade de Luanda, que não perdiam a oportunidade de se
deslocarem para a província de Kisama, imediatamente ao sul desta cidade (essa região só foi
subjugada por Portugal no século XIX), para se livrarem da escravidão3. Ao Norte, além de
potentados, havia concorrência do tráfico com comerciantes ingleses, franceses, holandeses e
dinamarqueses que não se intimidavam com a fragilidade do domínio português: “já no ano
de 1680 se mandavam respeitar as feitorias holandesas nas terras do príncipe do Sonho”, disse
Sousa Coutinho. O mani Sonho ou conde do Sonho, como era conhecido entre os
portugueses, era o governante de uma província do Reino do Kongo com uma localização

2
Sousa Coutinho não cita o Reino de Benguela, ao sul do Kwanza, como um vértice deste triângulo porque
desde 1612 este reino foi declarado independente com governador próprio. Contudo, após a expulsão dos
holandeses em 1648, Benguela passou a ser governada por um capitão-mor indicado pelo governador de Angola.
Somente em 1779 governadores voltaram a ser nomeados. Há de ressaltar que não eram reinos apartados, pelo
contrário, as relações comerciais e políticas entre esses reinos se tornaram ainda mais fortes no século XVIII.
Sobre o Reino de Benguela ver: Mariana P. Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World. Benguela
and its hinterland. New York: Cambridge University Press, 2013.
3
Desde o século XVII, a Kisama se tornou destino de escravos em fuga. B. Heintze lembra que muitas vezes
essa referência às fugas para a região nos textos dos governadores era na verdade uma forma de justificar
expedições militares junto à chefia para obter escravos. Beatriz Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos
sobre Fontes, Métodos e História. Luanda: Kilombelombe, 2007, p. 524. Joseph C. Miller, Way of Death.
Merchant Capitalism and the Angolan slave trade, 1730-1830. Madison: University of Wisconsin Press, 1988, p.
385.
32

chave para o tráfico de escravos que frequentemente comerciava com outros europeus,
minando os planos de monopólio dos portugueses4.
Em termos gerais, circunscreviam o Reino de Angola, no século XVIII, ao sul do
Kwanza a província de Kisama e a leste do rio Kwango, o Império Lunda. A oeste do
Kwanza, reinavam os potentados de Kasanje, do Holo e de Nzinga-Matamba. Ao norte do rio
Ndande, o Reino do Kongo, os Ndembu5 e os potentados Musulu, Sonho, junto ao rio Mbrije.
Na região do Reino de Loango, havia as sociedades Mubire ou Vili6. No mapa 1, essas
divisões tornam-se mais claras. Ele foi publicado em 1764, em Paris, e desenhado por Jacques
Nicolas Bellin, um importante cartógrafo da marinha francesa.
Nesta carta, os rios que cortam o território estão em relevo: o rio Zaire como
divisa natural entre o Reino de Loango e o Reino do Kongo; o rio Kwanza, principal via
pluvial do Reino de Angola; o rio Kunene, em Benguela, que marcava até fins do século
XVIII o limite conhecido do território ao sul de Angola pelos portugueses, o além-Kunene era
território inexplorado7.

4
FISC, “Memórias do Reino de Angola e suas conquistas”. O mani Sonho, titular do governo do Reino do
Kongo foi um dos primeiros parceiros comerciais dos portugueses. Principal autoridade de Mpinda, uma
província ao noroeste do Reino do Kongo, na margem sul do rio Zaire. Em ofício de 1766, Sousa Coutinho cita
outros potentados que assim como o Sonho se tornaram um empecilho à conquista portuguesa e aos avanços com
o tráfico de escravos: O mani Musulo e o ndembu Manicembo. São descritos como “soberbos potentados, os
mais fortes e assistidos de pólvora e bala dos portos vizinhos em que comerciam os estrangeiros (...) quase todas
as guerras que com eles tivemos foram malsucedidas”. Ofício do governador FISC. São Paulo de Assunção de
Luanda, 30 de Março de 1766. AHU_CU_001, Cx. 50, D. 7.
5
“Para Sul do Dande até ao Bengo (ou ao Zenza) estendia-se, e estende-se ainda, o território dos Dembo
(Ndembu), um povo de língua kimbundu com fortes afinidades com o Kongo, que correspondia, em grande
medida, aos ‘Ambundu’ das antigas fontes. Originalmente, Ndembu não era uma designação étnica, mas sim um
título dos grandes chefes locais. Estes formavam uma zona-tampão entre o Kongo e o Ndongo, e eram em larga
medida independentes, embora com uma nítida inclinação a favor do Kongo, cuja soberania reconheciam em
certas alturas”. Beatriz Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 183.
6
Joseph C. Miller, Way of Death, p.30-33.
7
A região ocidental da África Central, a savana ao sul da floresta equatorial, é marcada pelo caráter montanhoso
do território e pelo regime das chuvas. Nos vales encontram-se as terras férteis cuja estação da seca é de curta
duração. Em geral, há duas estações, a das chuvas de setembro a abril e a da seca entre maio e setembro
conhecida como cacimbo, quando as temperaturas se tornam amenas. Ao longo do corredor do rio Kwanza as
temperaturas são altas e as chuvas sazonais torrenciais. O recorte montanhoso da paisagem levou a desagregação
dos povos da savana que, em busca de um melhor habitat, se concentravam em regiões povoadas alternadas com
desertos. De forma geral, o clima é majoritariamente tropical úmido, mas incorpora todas as unidades ambientais
da África e a paisagem geomorfológica deste território é formada por extensos planaltos no interior e um relevo
movimentado no talude atlântico: “uma grandiosa escadaria que conduz ao oceano”. A savana africana se
localiza entre a floresta equatorial mais densa e o deserto nos trópicos, ocupando uma grande faixa do
continente desde leste a oeste, do Sudão aos Grandes Lagos, desde os entornos do Deserto do Saara, até os
entornos do Deserto de Kalahari, ao norte da África do Sul. Carlos Ervedosa, Arqueologia angolana. Lisboa:
Edições 70, 1980, p. 34 e 35.
33

Mapa 1 – Carta dos Reinos de Loango, Kongo, Angola e Benguela 1764.

Fonte: Jacques Nicolas Bellin, “Carte des Royaumes de Congo, Angola et Benguela avec les pays Voisins,Tire de l'Anglois”,
1764. National Maritime Museum, Paris. Disponível em:
http://www.davidrumsey.com/luna/servlet/detail/RUMSEY~8~1~233286~5509680:Carte-des-Royaumes-de-Congo,-
Angola?sort=Pub_List_No_InitialSort%2CPub_Date%2CPub_List_No%2CSeries_No?&qvq=q:angola;sort:Pub_List_No_In
itialSort%2CPub_Date%2CPub_List_No%2CSeries_No;lc:RUMSEY~8~1&mi=16&trs=25. Acesso em: 01/07/2016.

Por causa do caráter precário da afirmação da presença portuguesa no território


africano, para muitos historiadores seria equivocado chamar o Reino de Angola de colônia ou,
até mesmo, o período de ocupação portuguesa do século XV ao XIX de época colonial. As
primeiras investidas da expansão portuguesa são vistas por esses autores como tentativas de
administração colonial, principalmente após a instalação do governador-geral Francisco
d’Almeida, em 1592. Para Honoré Mbunga, antes do século XX, poderíamos dividir a história
de Angola em: 1482 até 1641, dominação portuguesa; 1641 até 1648, dominação holandesa;
1648 até o século XVIII, dominação brasileira; do século XVIII até 1975, dominação
portuguesa. Somente neste último período, a partir de 1915, com um contingente populacional
de 20 mil brancos, a administração colonial teria sido possível, datando apenas da década de
50 do século XX, o funcionamento da administração fiscal8. Outro relevante ponto é o da

8
Honoré Mbunga, “A problemática da periodização da História de Angola: o período colonial”. In: Actas do II
Encontro Internacional de História de Angola. Luanda: Arquivo Histórico Nacional de Angola/ Ministério da
Cultura, 2014, p. 149-171. O historiador John Fage considera que a região “dos estados costeiros da Costa de
Ouro, Congo, Angola, Vale do Zambeze e as cidades dos povos da África tropical continuou a ser muito
34

expansão da escravidão na África, a partir do chamado comércio legítimo. Quando os


africanos escravizados já não eram remetidos para a América, permanecendo no continente,
trabalhando em diversos ramos econômicos a fim de atender as novas demandas de produtos
africanos, como a cera e o marfim. Soma-se a esse argumento o da predominância do poder
político e das elites africanas, que teria se estendido até o século XIX.
Sem entrar no mérito da cronologia da história angolana, para o que nos interessa
aqui é importante observar que não avaliamos como um equívoco considerar a área de
influência portuguesa conhecida como Reino de Angola como uma colônia. Em primeiro
lugar, como ponderou Richard Reid, o termo “pré-colonial” acaba por privilegiar o “colonial”
e “atribui a um período posterior um poder transformador e um significado descomedido”.
Não queremos com isso atenuar o impacto do colonialismo a partir do final do século XIX nas
sociedades africanas. A questão é que a divisão por vezes impede o conhecimento de
dinâmicas africanas mais profundas, conflitos políticos, sociais e econômicos que estão
intimamente relacionados nos diferentes momentos da ocupação europeia na África. Reid
chama a atenção para a redução dos estudos sobre a época pré-colonial como consequência
sintomática dessa forma de interpretar os marcos históricos e dividir a história do continente
africano. Por último, para o âmbito desta tese vale mencionar mais um argumento de Reid. A
ideia de que os conflitos do passado (e múltiplos passados) são parte ativa do presente, as
memórias e os escritos sobre e fábrica de Nova Oeiras mostram isso de forma contumaz,
como veremos no último capítulo9.
Outro aspecto a considerar é que em diferentes territórios do Império português, a
colonização ocorreu como na formação do Reino de Angola, a princípio sem uma ocupação
efetiva e contínua do território e uma centralização política e administrativa que se limitava a
alguns centros urbanos, além de embates com as populações locais. O processo de ocupação
das terras brasílicas é um exemplo disso. O governador do Maranhão dizia, no século XVII:
“não somos senhores mais que das beiras-mares, e pelos sertões, como atrás digo, estão todas
as utilidades”10. Para Ângela Domingues, os territórios coloniais na América se sobrepuseram

semelhante ao que fora antes do século de D. Henrique, o navegador e de Vasco da Gama”. Esses autores
defendem que antes da Conferência de Berlim, e mesmo algum tempo após 1885, os portugueses tinham como
principal interesse o tráfico de escravos, não a colonização de Angola. John D. Fage, História da África. Lisboa:
Edições 70, 1997, p. 259.
9
Richard Reid, “Past and presentism: the ‘precolonial’ and the foreshortening of African History”. Journal of
African History, 52, 2011, p. 135–155.
10
Carta de Francisco Coelho de Carvalho para Dom João IV. São Luís, 20 de maio de 1647. Apud, Rafael
Chambouleyron, Monique da Silva Bonifácio, Vanice Siqueira de Melo. “Pelos sertões ‘estão todas as
utilidades’: Trocas e conflitos no sertão amazônico (século XVII)”, Revista de História, n. 162, 2010, p. 18.
Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/19150. Acesso em: 25/04/2016, p. 49. Grifo
nosso.
35

aos preexistentes, passando a coexistir com eles11. Esse também foi o modo como os
portugueses se estabeleceram na África e que possibilitou a manutenção do Reino de Angola
– coexistindo com soberanias africanas que, ao dominar grandes contingentes de pessoas,
controlavam também terras, recursos naturais e a força de trabalho para explorá-los.
Para nossos estudos, é importante assinalar que a partir da segunda metade do
século XVIII, há uma mudança nos esforços de colonização, à luz dos projetos do iluminismo
pragmático do marquês de Pombal12, a administração portuguesa na figura do governador
Sousa Coutinho construiu um plano para reformar o Reino de Angola, transformá-lo de
feitoria e colônia permeada por fortalezas (marcas da conquista) a uma colônia de povoações
civis. Como sabemos, Angola não se “reformou” aos moldes que Pombal esperava (o tráfico
de escravos continuou sendo sua principal vocação econômica), contudo existiu um gesto
colonial de inventariar recursos naturais, terras, gentes, domínios, conhecimentos e técnicas,
cartografar o espaço que causou transformações significativas nas sociedades da região. A
instalação de Nova Oeiras em terras de longo contato com os portugueses põe manifestas as
tensões que permearam esse processo.

O reino do Ndongo era o principal da região e foi com o seu rei, ou ngola para os
Ambundos, que os portugueses travaram os primeiros contatos e seguidas sucessivas guerras
durante todo o século XVII. Segundo Joseph Miller, o poder do ngola emanava do fato de ser
uma insígnia - feita de ferro, um machado ou faca que era símbolo de autoridade e acesso ao
mundo sobrenatural - introduzida pelos Samba entre os Ambundos que se tornaram detentores
de uma sofisticada tecnologia de fundição e forja do ferro13. Em uma corruptela do título
ngola, os portugueses denominaram sua nova conquista de Reino de Angola, ou em grande
parte das fontes simplesmente Angola. Em 1671, após sucessivos conflitos armados, os
portugueses derrotaram o Ngola Ari e submeteram à sua autoridade as chefias, detentoras de
títulos políticos entre os Ambundos, que antes estavam sob o domínio deste rei do Ndongo, os
sobas* e, além deste domínio, os ndembu*.
Dessa forma, a ocupação portuguesa se expandiu sobre as terras deste antigo
reino, e além dele, por meio da submissão dos sobados, inicialmente na região próxima à
11
Ângela Domingues, Quando os índios eram vassalos. Colonização e relações de poder no norte do Brasil na
segunda metade do século XVIII. Lisboa: CNCDP, 2000, p. 215.
12
Sebastião José de Carvalho e Melo recebeu o título nobiliárquico de conde de Oeiras em 1759 e dez anos
depois o de marquês de Pombal. O título de conde de Oeiras passou a subsidiários da Casa de Pombal. Como o
período abordado na tese compreende os dois títulos, lançaremos mão de ambos sem respeitar de forma
categórica o ano a cronologia de sua obtenção.
13
Joseph C. Miller, Poder político e parentesco: os antigos Estados Mbundu em Angola. Trad. Maria da
Conceição Neto. Luanda: Arquivo Histórico Nacional de Angola, 1995, p. 67.
36

Costa chamada de Ilamba, entre os rios Mbengu (Nzenza) e Kwanza e, ao longo do tempo, na
que circunscreve o corredor do Kwanza, passando pela desembocadura do Lukala, seu
principal afluente, até os limites do Reino de Matamba. No século XVIII, a administração
portuguesa deste território estava delimitada a norte pelo rio Ndande, a sul pelo Kwanza, a
leste pelo Lukala e a oeste pelo oceano Atlântico. Além disso, ao sul do território, desde o
início do XVII, havia se estabelecido a capitania de Benguela. O potentado da Kisama que
intermediava Angola e Benguela permaneceu independente até o século XIX.
Os Ambundos se concentravam nas regiões banhadas pelo rio Kwanza, um
subgrupo étnico-linguístico dos denominados pela historiografia como Mbundu. Como
afirmou Thornton, a África possuía indústrias bem desenvolvidas que produziam muitas
mercadorias, inclusive aquelas que eram importadas da Europa, tais como tecidos, ferro,
cobre, bebidas alcoólicas14. Esse é o caso dos Ambundos, que cultivavam arroz, inhames, óleo
de palma, painço, sorgo, entre outros produtos. Eram grandes caçadores, usavam
primordialmente arcos e flechas, arapucas, também reuniam grupos de homens para
armadilhas com fogo. Além disso, ocupavam-se na exploração de salinas, trabalhos em metal
(ferro e cobre) e tecelagem. Havia criação de gado nas zonas onde a mosca tsé-tsé não
representava uma ameaça. Segundo Silva Correa, nos sertões era costume que as mulheres
cultivassem as terras e assim se ocupassem dos “rudes trabalhos da enxada e do machado”,
“enquanto os pais, maridos ou parentes tec[iam] entangas (sic), [iam] à guerra, ou à caça das
feras”15. Silva Correa descreve a presteza dos “negros tecelões”:
“sem conhecimento dos teares da Europa, tecem entre duas varas encostadas
a parede, construindo panos de dois palmos e meio de largura e oito ou dez
de comprimento: uma entanga se compõe de três panos unidos pela
extensão. (...) São excelentes cobertas de cama para países frios: o resto se
consume em redes de pescar e pavios de cera”16.

O esposo polígamo era a base da estrutura social porque, quanto mais mulheres
um chefe possuísse, mais plantações (arimos) e mais alimentos teria, assim como uma maior
possibilidade de agregar dependentes e riquezas, já que o poder do chefe se assentava no
número de súditos que tinha sob seu domínio. Os Ambundos seguiam, predominantemente,

14
John Thornton, A África e os africanos na formação do mundo atlântico, 1400-1800. Rio de. Janeiro: Campus,
2004, p. 89.
15
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, Lisboa: Clássicos da Expansão Portuguesa no Mundo.
Império Africano, 1937, v. I, p. 113 e 156. Em kikongo moderno há a forma ntánga, “tecido espesso; tecido
vermelho escuro”.K. Laman, Dictionnaire kikongo-français. Avec une étude phonétique décrivant les dialectes
les plus importants de la langue dite kikongo. Bruxelles: [s.n.], 1936, p. 787).
16
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, v. I, p. 156. Collen Kriger estudou em minúcia a
produção de tecidos na região da Nigéria, uma arte que demanda alto investimento de tempo, habilidade,
conhecimento e esforço. Collen E. Kriger, Cloth in West African History. The African Archaeology Series.
Lanham, Maryland: Altamira Press, 2006.
37

relações de parentesco baseadas em linhagens matrilineares de sucessão em que os chefes


exerciam controle sobre a terra e os filhos, termo que se referia aos seus súditos, livres ou
escravizados. Davam grande importância às suas linhagens e de certa forma conseguiram
preservar sua estrutura social e política no decorrer dos séculos, apesar das transformações
ocorridas devido à influência colonial. Os mais velhos, os “tios” da linhagem eram chamados
de makota* (kota, no singular), e eram os guardiões e conselheiros dos detentores dos títulos
Ambundos, como o ngola; deles dependia a aprovação de um novo líder17.
Como mostra Flávia Carvalho, no Reino do Ndongo, não foram os ngola, mas sim
os sobas, os principais protagonistas das alianças com os portugueses, pois eles determinavam
quem poderia ter passagem por seus territórios, estabeleciam acordos comerciais,
intermediando as relações dos estrangeiros com os poderes locais. Assim,
“na prática, era o ngola mais um soba, sendo que a ele eram atribuídos
poderes sobrenaturais e que sua posição contrastava em tese com a soberania
que os portugueses pretendiam legitimar junto aos Mbundu e que
alcançaram, em 1671, com a deposição do último Ngola que representou
oposição aos interesses lusitanos”18.

Dessa forma, no século XVIII, os sobas Ambundos que foram avassalados aos
portugueses pertenciam à aristocracia do extinto Reino Ndongo. Nestas sociedades de
estrutura política complexa, o soba era o principal representante. No decorrer da ocupação
portuguesa, os sobas desenvolveram, segundo Jill Dias, uma “identidade ambígua”, ou seja,
adaptaram-se, “política e culturalmente ao mundo atlântico, aproveitando-se das novas
oportunidades comerciais e acomodando-se à presença colonial portuguesa, sem, contudo,
renunciar à sua identidade e convivência africana ou à sua autonomia política”19.
Outras autoridades dos Ambundos aparecem nas fontes portuguesas subordinadas
ou associadas aos sobas: o já citado conselheiro, o kota, o sobeta (sobas menores sob a
jurisdição de um soba mais poderoso), o tandala*, o ngolambole*, o kimbanda*, o kitombe*.
Existia também o kilamba*, descrito por Virgílio Coelho como um sacerdote
“encarregado de aplacar a fúria dos gênios da natureza”, mas ao que parece o significado
deste título se alterou no decorrer do tempo e devido à influência portuguesa porque passaram
a ser conhecidos pelos seus fortes laços com os colonizadores. Os “imbari”* (do kimbundu,
kimbari, pl. imbari, feitor, mordomo, caseiro) assumiam posições de subalternidade, eram

17
Joseph Miller, Poder político e parentesco, p. 35 e ss.
18
Flávia Maria de Carvalho, Sobas e homens do rei: interiorização dos portugueses em Angola (séculos XVII e
XVIII). Maceió: Edufal, 2015, p. 125.
19
Jill Dias, “O Kabuku Kambilu (c. 1850-1900). Uma identidade política ambígua”. In: Actas do Seminário
Encontro de povos e culturas em Angola. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos
Descobrimentos Portugueses, 1997, p. 15.
38

guerreiros africanos que serviram, em diferentes cargos, aos portugueses em tropas auxiliares,
na guerra preta. Ilamba e imbari são identificados pelo seu envolvimento no comércio de
escravos nos sertões20.
Segundo relatos do missionário João Antônio Cavazzi de Motecúccolo, no Reino
do Ndongo, a escolha do primeiro “chefe do país” teria ocorrido porque ngola-mussuri, que
significa “rei-serralheiro”, era “mais perspicaz que os outros”, pois conhecia “a maneira de
preparar o ferro”, assim, como usava de seus conhecimentos com “sagacidade e socorria a
todos nas necessidades públicas, ganhou amor e o aplauso dos povos”21. No Reino Luba, a
leste do Kongo, o seu fundador Kalala Ilunga estava associado à fundição e os rituais de
realeza reproduziam o trabalho do ferreiro na forja22. Em muitos mitos fundadores das
sociedades africanas a associação entre o controle da metalurgia e das minas de ferro e o
poder de um soberano era frequente.
Joseph Miller apontou a importância do mito do ferreiro como fundador dos, por
ele chamados, Estados Mbundu, destacando a necessidade de compreender as razões
ideológicas que fizeram com que reis e chefes perpetuassem essas tradições. Para além das
questões tecnológicas, há outros motivos para que os chefes atribuíssem origem estrangeira ao
conquistador e fundador dos reinos, pois “as origens alienígenas do ubíquo herói civilizador
davam a ele e aos seus sucessores uma legitimidade recusada aos simples residentes do país,
que pareciam destinados a serem profetas sem honra entre os seus pares”23.
De acordo com Miller, os motivos para a formação dos estados Mbundu estão
relacionados à influência de “grandes homens e mulheres”. Entre os motivos citados estava o
controle de recursos escassos e valiosos, como as salinas da Baixa Kasanje, do Kisama, do
Libolo, e os depósitos de minério de ferro no vale do rio Nzongeji e na subida do planalto de
Benguela. Outro motivo foram as inovações institucionais ocorridas ao longo do tempo
(conforme eles se associaram a outros grupos) capazes de atrair mais pessoas para esses
estados, como o caso dos Mbangala, guerreiros que se associavam sem levar em consideração
as linhagens de pertencimento24. Inovações de matriz ideológica também possibilitaram a

20
Além desses títulos de nobreza, os ferreiros também teriam uma posição privilegiada junto à elite do estado
Ambundo, devido a suas habilidades técnicas que tinham também uma função mágico-religiosa explicitada na
própria história da fundação do Reino do Ndongo, no mito do rei-ferreiro.
21
Antonio Cavazzi de Montecúccolo, Descrição histórica dos três Reinos do Congo, Matamba e Angola,
Lisboa: Junta de investigações do Ultramar, 1965, p. 164-166.
22
Jan Vansina, Kingdoms of the Savanna, 1966; Thomas Q. Reefe, The Rainbow and the Kings: A History of the
Luba Empire to 1891. Berkeley: University of California Press, 1981.
23
Outros estados Mbundu, além do Ndongo, Mbondo, Libolo, Pende, Holo, Songo. Joseph Miller, Poder
político e parentesco, p. 9 e 40.
24
No caso os Mbangala formavam “uma associação de varões, aberta a qualquer um sem ter em conta a pertença
de linhagem, na qual os membros da associação se submetiam a impressionantes rituais de iniciação que os
39

consolidação dos Ambundos, uma vez que a posse de um título dependia da capacidade de
convencimento de seu detentor, que possuía o direito de governar porque tinha “métodos
sobrenaturais” de provar os poderes que reivindicava. A aliança com aliados externos foi
outro fator fundamental para a conformação destes estados25.
Nesta tese, usamos a expressão Reino de Angola para referir à área de influência
portuguesa a partir de Luanda e seu hinterland. Partimos de duas premissas, a primeira é a
necessidade de guardar os termos que aparecem nas fontes contemporâneas quanto à
existência deste e dos demais reinos. A preocupação em analisar esta circunstância histórica
específica também se refere às relações entre o Reino do Kongo e o Reino de Portugal. John
Thornton assinala, entre as muitas semelhanças entre ambos os reinos, o fato de os dois serem
monarquias governadas por reis e classes de nobres em que relações de “realeza,
clientelagem, e influência dominaram o sistema político”26. A segunda premissa se explica
porque as elites políticas Ambundas passaram a utilizar essa nomenclatura como símbolo de
distinção social diante de outras autoridades da região. Linda Heywood, ao descrever as
características da realeza no Ndongo depois dos contatos com a monarquia portuguesa,
analisa o caso de Nzinga Mbandi. Em 1624 ela era chamada de “Dama do Ndongo” e, poucos
meses depois da morte de seu irmão, era reconhecida como “Rainha de Ndongo”. Ela não só
“se promoveu como soberana através das suas palavras e ações, como também possibilitou a
continuidade real do Ndongo depois dela”, os portugueses a reconheciam como “Dama
Rainha”, “Dona Ana” e tratavam-na por “Sua senhoria”27.
Assim, ao lançar mão do conceito de “reino” não estamos impondo uma noção
alheia às sociedades Ambundos do século XVIII. Após mais de duzentos anos de contato com
os portugueses, as autoridades africanas se apropriaram da noção de realeza como uma
estratégia para criar e reforçar hierarquias sociais no interior de suas próprias sociedades

afastavam do seio protetor do seu grupo filial natal e, simultaneamente, unia fortemente os iniciados entre si,
como guerreiros num regimento de super-homens, tornados invulneráveis às armas de seus inimigos”. Idem,
ibidem, p. 160.
25
Haja vista os acordos políticos dos Mbangala com os portugueses, fundamental para a manutenção de ambos
os poderes políticos. Idem, ibidem, p. 271.
26
John Thornton, “Early Kongo-Portuguese Relations: A New Interpretation”. History in Africa, 8, 1981, 183-
204. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/3171515. Acesso em: 30/062016.
27
Linda Heywood, “Descoberta de memória, construção de histórias: o rei do Kongo e a rainha Njinga em
Angola e no Brasil”. In: Actas do II Encontro Internacional de História de Angola. Luanda: Arquivo Histórico
Nacional de Angola/ Ministério da Cultura, 2014, p. 559 e 560. Ver também: Selma Pantoja, Nzinga Mbandi:
mulher, guerra e escravidão. Brasília: Editora Thesaurus, 2000; Marina de Mello e Souza, Além do Visível.
Poder, catolicismo e comércio no Congo e Angola, séculos XVI e XVII. Tese de Livre Docência – Universidade
de São Paulo, 2012; Linda M. Heywood, Njinga of Angola. Africa’s warrior queen. Cambridge: Harvard
University Press, 2017.
40

como no caso da rainha Nzinga no início do XVII28. Todavia, é importante acrescentar uma
ressalva. O conceito de reino da Europa Moderna não é o modelo mais indicado para
enquadrar a organização política das instituições do Ndongo. Não é possível considerar a
figura do ngola como a do rei no sentido de uma forte centralização política, pelo contrário,
no Ndongo uma complexa rede de poderes submetidos ao ngola determinava o equilíbrio
social e político do reino. Estes outros poderes assentados em relações de parentesco titulares,
políticas e não pessoais, tornavam essa figura centralizadora muito mais frágil e dependente
que a noção de “rei” pressupõe. As autoridades sob a soberania do ngola eram conselheiros,
secretários, administradores dos assuntos externos e da guerra. Os chefes de linhagens tal
como os sobas e os ndembu exerciam poder sobre um grande número de dependentes29.

1. 2 O esforço colonial de interiorização

Para o historiador M’Bokolo, desde 1656, quando a rainha Nzinga Mbandi


herdeira das linhagens Ambundas, soberana do potentado de Matamba voltou a se aproximar
dos portugueses retomando antigos tratados celebrados na década de 1620, a região do Reino
de Angola teria alcançado um equilíbrio cujas características pouco mudariam até meados do
século XIX. Contudo, M’Bokolo alerta para a continuidade da política de expansão para o
interior: os portugueses avançavam para as terras dos sertões “instalando quintas ao longo do
Kwanza e, para norte, ao longo do Mbengu e do Ndande (rios)”. Os reinos de Matamba e
Kasanje estavam presos à lógica comercial do tráfico de escravos dominado pelos
portugueses, que enviavam agentes para intermediar as negociações nestas localidades30.
Não há dúvida de que a expansão portuguesa para o interior do continente foi
definida pelo interesse na escravização de um maior número de pessoas para suprir as
demandas do tráfico transatlântico. Joseph Miller cunhou o termo fronteira da escravização
(slaving frontier) para mostrar os avanços das guerras e razias em busca de escravos, em
direção ao leste, no interior da África Centro Ocidental, desde o século XVI até as décadas de
70 e 80 do século XIX, quando a fronteira teria chegado à região dos grandes lagos. As novas

28
Roquinaldo Ferreira comenta sobre o empréstimo de elementos europeus pelos africanos em seu livro: “(...) os
africanos se apossavam de elementos da cultura europeia para reforçar hierarquias sociais entre eles”.
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World. Angola and Brazil during the Era of the
Slave Trade. New York: Cambridge University Press, 2012, p. 12; Roquinaldo Ferreira, “’Ilhas crioulas’: o
significado plural da mestiçagem cultural na África Atlântica”, Revista de História, 155, 2006, p. 17-41.
29
Sobre as hierarquias sociais entre os Ambundos no Reino de Angola, ver: Flávia Maria de Carvalho, Sobas e
homens do rei: interiorização dos portugueses em Angola (séculos XVII e XVIII). Maceió: Edufal, 2015.
30
Elikia M’Bokolo, África negra. História e Civilizações até ao século XVIII. 2ª ed. Lisboa: Edições Colibri,
2012, p. 408 e 461.
41

áreas avassaladas passavam a ser sociedades escravistas, ou seja, entravam na lógica do


comércio das mercadorias estrangeiras em troca de escravos que alimentavam o tráfico
atlântico. Miller diz que a fronteira da escravização progredia como uma onda demográfica
que deixava, por onde passava, instabilidade política, social, econômica e até mesmo
ecológica, uma vez que as elites políticas africanas se endividavam com os comerciantes e
caíam nas malhas do tráfico31. Estudos posteriores, especialmente os de Mariana Candido
mostram que os escravos não eram provenientes, majoritariamente, do interior profundo dos
sertões, como afirmou Miller, antes seriam recrutados na zona sob influência portuguesa, era
a escravização daqueles que tinham o título de vassalos do rei de Portugal, batizados,
versados no português e na cultura europeia32.
Apesar do peso inegável do comércio de escravos na expansão portuguesa, este
não foi o único fator que levou à ocupação do território. Além de afirmar as fronteiras da
conquista, frágeis e constantemente ameaçadas quer por outros europeus, quer pelos diversos
potentados africanos, os portugueses buscavam metais preciosos (ouro, prata) ou valiosos
(cobre, ferro) e também queriam promover a conquista espiritual, a conversão à fé católica33.
Nos séculos XVI e XVII, as campanhas militares e as incursões de missionários,
funcionários coloniais e particulares, como negociantes ou sertanejos, possibilitaram conhecer
os sertões de Luanda34. Contudo, é sobretudo na segunda metade do século XVIII, que o
espaço das colônias portuguesas foi reavaliado, dentro dos planos reformistas do marquês de
Pombal. O incentivo ao povoamento civil e à construção de novas vilas tinha por objetivo o
ordenamento e controle do espaço dentro de um programa de reformas, que visavam ampliar a
autoridade real no interior das colônias, aproveitando “ao máximo as potencialidades dos

31
“The slaving frontier zone thus washed inland in the 16th century and surged east like a demographic wave
bearing the sea-borne goods of the Europeans on its crest”. Joseph C. Miller, Way oh Death, p. 149. Um exemplo
da expansão da fronteira para o interior e suas consequências seriam as guerras travadas entre portugueses e,
principalmente, o ngola do Ndongo no século XVII. Às chamadas “guerras angolanas” sucedeu um período de
seca na região e na desagregação política do reino do Ndongo.
32
Ver: Mariana P. Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World. Benguela and its hinterland, 2013;
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, 2012; John Thornton, “As guerras civis no
Congo e o tráfico de escravos: a história e a demografia de 1718 a 1844 revisitadas”. Estudos Afro-Asiáticos, n.
32, 1997, p. 55-74; Linda Heywood, “Slavery and its Transformation in the Kingdom of Kongo: 1491-
1800”. The Journal of African History, v. 50, n. 1, 2009, p. 1-22. Um mapeamento das guerras nos sertões e sua
relação com o fornecimento de escravos é feito por Linda Heywood e John Thornton, Central Africans, Atlantic
Creoles, and the Foundation of the Americas, 1585-1660. New York: Cambridge University Press, 2007.
33
Jill Dias, “As primeiras penetrações portuguesas em África”. In: Luis Albuquerque (dir.). Portugal no Mundo.
Lisboa: Alfa, 1989, v. I, p. 281-298; Marina de Mello e Souza, Além do Visível. Poder, catolicismo e comércio
no Congo e Angola, séculos XVI e XVII. Tese de Livre Docência – Universidade de São Paulo, 2012.
34
Os relatos de Giovanni Antonio Cavazzi são fonte imprescindível para história dos reinos do Kongo e Angola
até o século XVII. Cf.: Giovanni Antonio Cavazzi de Montecúccolo. Descrição histórica dos três reinos do
Congo, Matamba e Angola. Tradução, notas e índices do Pe. Graciano Maria de Leguzzano. Lisboa: Junta de
Investigações do Ultramar, 1965. 2 v.
42

territórios até então inexplorados” ou pouco explorados35. De forma geral, há um esforço de


unificação do espaço no sentido afirmar a soberania portuguesa por meio de uma ocupação
política, de um “traçado urbano ordenado”, que tinha também por objetivo difundir valores
europeus, pretensamente superiores, nos súditos da Coroa, os “naturais da terra”. Os planos
coloniais encontraram diferentes formas de resistência a essas tentativas de dominação dos
sertões e de suas gentes. No Reino de Angola, não foi diferente, os programas de remodelação
do interior inspirados no que ocorria na América portuguesa se depararam com as lógicas
locais de ocupação territorial, embates que estiveram presentes inclusive no estabelecimento
da povoação de Nova Oeiras, fundada para abrigar os edifícios da fundição de ferro de mesmo
nome.
É neste contexto de promoção um maior controle do território e de seus recursos
naturais que naturalistas europeus estabeleceram como meta inventariar a natureza e os povos
sob domínio colonial36. Em Portugal, sob a orientação de Domingos Vandelli (1735-1816),
professor na Universidade de Coimbra, naturalistas se engajaram em viagens destinadas ao
Brasil, Cabo Verde, Índia, Moçambique e Angola37.
A representação cartográfica, ao mesmo tempo resultado e motivação dessas
viagens, foi um dos instrumentos usados para elaborar projetos de exploração do interior
africano. Na segunda metade do século XVIII, o governador Antonio Álvares da Cunha
(1753-1758), o primeiro a receber as diretrizes iluministas do então ministro Sebastião José
Carvalho de Melo, atentou para o lugar fundamental da cartografia do Reino de Angola: “pois
não é possível que possam compreender a vastidão destes domínios, sem que algum tome o
trabalho de o mostrar com clareza em uma carta geográfica”38.
O mapa de 1790 elaborado pelo coronel e engenheiro Luis Cordeiro Pinheiro
Furtado mostra as tensões que configuraram a complexa geopolítica do Reino de Angola.
Baseada em suas próprias viagens pelos sertões e naquelas incentivadas pelo barão de
Moçamedes (1779-1782), a carta de Pinheiro Furtado apresenta fronteiras abertas e a presença

35
Roberta Marx Delson, Novas Vilas para o Brasil colônia. Planejamento espacial e social no século XVIII.
Brasília: Edições Alva, 1997, p. 140. Como lembra Silvia Lara, “os termos urbanismo e planejamento são
empregados aqui de forma descritiva, já que suas acepções contemporâneas são um tanto anacrônicas em relação
ao período estudado”. Silvia Lara, Silvia Hunold Lara, Fragmentos setecentistas, escravidão, cultura e poder na
América portuguesa, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 34.
36
Ronald Raminelli, Viagens Ultramarinas: Monarcas, vassalos e governo a distância. São Paulo: Alameda,
2008, p. 97.
37
William Joel Simon, Scientific expeditions in the Portuguese overseas territories (1783-1808). Lisboa,
Instituto de Investigação Científica Tropical, 1983, p. 9.
38
Ofício do Governador Antonio Alvares da Cunha para Diogo de Mendonça Corte Real. São Paulo de
Assunção de Luanda, 8 de Agosto de 1753. AHU_CU_001, Cx. 38, D. 82. Apud Catarina Madeira Santos. Um
governo "polido" para Angola, p. 101.
43

portuguesa é marcada por uma rede administrativa composta por fortalezas, presídios,
distritos e feiras. Na legenda, o engenheiro explicou que seu mapa compreendia
“o estado atual dos Reinos de Angola e Benguela, com todos os
estabelecimentos portugueses dispersos pela Costa e interior daqueles
sertões: notadas todas as povoações dos negros do país, que são vassalos,
aliados e inimigos do Domínio Português, até aos últimos confins
conhecidos que fornecem objetos à exportação nacional”39.

Na explicação de Cordeiro vemos que existe uma categorização do espaço: há a


Costa e os sertões; o interior próximo, ou como se convencionou chamar na bibliografia,
Luanda e seu hinterland; o interior distante dos sertões onde governam os potentados não
vassalos da Coroa portuguesa que forneciam mercadorias e escravos “à exportação nacional”.
O termo sertão está eivado de significados e assume conotações similares nas diferentes
localidades do Império português. Os sertões do Reino de Angola são descritos nas fontes
como “incultos”, “dilatados”, “malignos”, “enfermos”, “desertos”, “sem recursos”,
“fechados”, “sujeitos a abusos”, “violências”, “matos”, “rebeldes”, em suma: uma região
“onde não existe polícia, caridade, temor de Deus, fidelidade, nem uso da lei natural”40.
Essa última frase de autoria de Silva Correa se destaca porque para além de
expressar o isolamento e desconhecimento geográfico dos sertões, se relaciona a uma região
que não estava sob domínio português e resistia ao avanço dos súditos da Coroa. Portanto, um
território sob outros domínios que não se reconheciam como vassalos do rei de Portugal e de
tudo o que essa submissão implicava, como a conversão à fé católica. Exemplos disso eram os
potentados que impediam o avanço português no sertão profundo (Kasanje, Matamba) e que
controlavam o comércio de escravos.
39
“Mapa geográfico compreendendo a Costa Ocidental d’África entre 5 e 19 graus de latitude Sul, e no
continente, o estado atual dos Reinos d’Angola e Benguela, com todos os estabelecimentos portugueses
dispersos pela Costa e interior daqueles sertões: notadas todas povoações de negros do país, que são vassalos,
aliados e inimigos do domínio português, até aos últimos confins conhecidos que fornecem objetos à exportação
Nacional. Em que foram corrigidas as posições e ortografia das antecedentes e arbitrárias cartas, pelas
observações do Marechal de Campo e Comandante Geral do Nacional e Régio Corpo de Engenheiros Luis
Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, então Tenente Coronel do mesmo Corpo, que por espaço de 10 anos que se
viu naquele Reino percorreu por várias expedições que dirigiu e comandou toda Costa entre Molembo e Cabo
Negro, e os inteiro do país, servindo-se de cálculos astronômicos, luzes e conhecimentos locais dos melhores
práticos e mais inteligentes da topografia do país. Construído no ano de 1790. Petipé (escala) de 30 léguas.
Desenhado pelo Capitão engenheiro Lourenço Homem da Cunha Eça”. Há também uma legenda para os
caracteres que indicam “Banza ou povoação de negros. O chefe chamado Souva” e para “Presídio, ou Forte
Português em que há guarnição”. GEAEM, 1207-2A-24A-111. Veja mapa 1 nos anexos.
40
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, vol. I, p. 31. Essas expressões encontram-se nos
documentos seguintes: Portaria sobre os jornais dos povos vassalos. São Paulo de Assunção de Luanda, sete de
dezembro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, D. 6 e 7. Carta de Luís Cantofer para FISC. São Paulo de Assunção
de Luanda a 18 de agosto de 1770.C. 8744, F. 6443, fl, 7. FISC, “Memórias do Reino de Angola e suas
conquistas”. Assim como no Reino de Angola, na Amazônia setecentista o sertão assumiu variados sentidos para
a administração portuguesa: “vastidão, distância, oposição ao litoral, acracia, refúgio, violência, conversão”,
entre outros. Rafael Chambouleyron, Monique da Silva Bonifácio, Vanice Siqueira de Melo. “Pelos sertões
‘estão todas as utilidades’: Trocas e conflitos no sertão amazônico (Século XVII)”, 2010.
44

Voltando à carta de Pinheiro Furtado, temos o registro de “terras pouco


conhecidas”, que podemos associar ao sertão enquanto uma vastidão distante. Assim, o que
esse mapa mostra é que, às portas do século XIX, o conhecimento e a apropriação portuguesa
do território africano eram mínimos. No caso do Reino de Angola, o vasto sertão indica que o
poder político português era muito precário no território, permitindo que muitas soberanias
africanas perdurassem até o avançar do Oitocentos.
O espaço ocupado pelo Reino de Angola foi divido no mapa em diferentes
povoações de “negros do país”; note-se que não há menção a povoações de brancos. Isso
mostra quem de fato povoava os sertões. Entre estas povoações, há as que foram submetidas
pela força das armas ao domínio português, como no caso do antigo reino do Ndongo. Há
ainda as comunidades aliadas que estabeleceram acordos políticos e comerciais com os
portugueses, principalmente ligados ao tráfico de escravos, como o potentado do Holo ou do
Mbangala Kasanje. Por fim, as sociedades inimigas que engajavam constantes revoltas ao
domínio português, como a Kisama que é identificada como província “indômita”41.
Em contraposição aos sertões, a cidade de Luanda era ordenada de modo similar
ao de outras cidades e capitais do império. O centro político, militar, administrativo e
religioso de Luanda ficava na Cidade Alta, na freguesia da Sé, cuja sede era a igreja de Nossa
Senhora da Conceição. Ali também se situava o palácio do governador, a caserna principal do
corpo da guarda e a Câmara Municipal. Na segunda metade do século XVIII, com o objetivo
de descentralizar a administração, foram construídos prédios públicos na Cidade Baixa ou
freguesia Nossa Senhora dos Remédios, onde se localizava o centro comercial. Entre eles
destacam-se: o edifício da Alfândega, o da Junta da Fazenda Real, o arsenal, a ribeira das
naus, o edifício do Terreiro Público (para recolha e distribuição de alimentos) e o passeio
público. Nos bairros que adentravam o planalto, como o do Rosário, de Santa Efigênia do
Carmo, havia hortas, culturas geralmente de milho e painço, e acampamentos dos escravos
que aguardavam o embarque. As ilhas – Cazanga, Desterro e Luanda – eram destinadas ao
cultivo de pomares, secagem de peixe e ao descanso dos moradores ricos42.
A descrição do mapa de Cordeiro também nos informa que a ocupação portuguesa
se deu por meio de “estabelecimentos dispersos”, ou seja, os fortes, as feitorias, os presídios e

41
Sobre as constantes rebeliões dos sobas do Kisama, ver: Aurora da Fonseca Ferreira, A Kisama em Angola do
século XVI ao início do século XX: autonomia, ocupação e resistência. Luanda, República de Angola:
Kilombelombe, 2012; Flávia Maria de Carvalho, “Sobas rebeldes de Angola”. Impressões Rebeldes, UFF – Rio
de Janeiro, 2016. Disponível em: http://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?temas=sobas-rebeldes-nos-
sertoes-do-ndongo-seculo-xvi. Acesso em: 20/09/2016.
42
José Carlos Venâncio, A economia de Luanda e hinterland no século XVIII. Um estudo de sociologia
histórica. Lisboa: Editorial Estampa, 1996, p. 35-40.
45

as jurisdições ou distritos. Essa forma de dividir e classificar o território dominado pelos


portugueses aparece também na obra do militar Elias Alexandre da Silva Correa43. Em suas
memórias, ele dividiu o território de Angola em “à beira da praia”, onde ficavam o Porto de
Angola, a Fortaleza de São Miguel, a Fortaleza de Penedo, os Fortes da Conceição e das
Necessidades e os “sertões” ou o “interior do continente”, onde os portugueses construíram
Presídios e Jurisdições44.
Os presídios tinham por excelência a função de abrigar a guarnição militar e eram
comandados por capitães-mores ou regentes. Subalternos a estes estavam três oficiais: um
tenente, um alferes e um ajudante. Esses oficiais de baixa patente se tornaram pontos chave
nos circuitos do tráfico de escravos do interior africano. Para o desenvolvimento deste
comércio junto a cada presídio encontrava-se uma feira - “aonde se expusessem os gêneros do
comércio e atraíssem facilmente a concorrência dos cativos”45. Os presídios criados ao longo
do tempo, seguindo o corredor do Rio Kwanza, foram Massangano (1583), Muxima (1599),
Cambambe (1604), Ambaca (1614), e Pedras de Pungo Andongo (1671), ao norte do rio. A
sul do Kwanza ficavam os presídios de São Filipe de Benguela (1617) e o de Caconda,
fundado a primeira vez em 1682 e, em meados do século XVIII, transferido para a região de
Katala, por ser mais segura. No século XVIII, foram fundados mais dois presídios: o de São
José de Encoge, em 1759, que se localizava na região dos Ndembu, um interposto comercial
importante das mercadorias estrangeiras oriundas de Loango e Cabinda que iam para o
interior de Angola; e o presídio de Novo Redondo, construído em 1769, na foz do rio Ngunza,
no Reino de Benguela, uma tentativa de combater o contrabando de escravos de outras nações
europeias46.

43
A biografia do militar Elias Alexandre da Silva Correa é praticamente desconhecida; sabe-se que ele era
proveniente da América portuguesa – “nascido americano português”. Após ter servido ao Marquês do Lavradio
(1749-1753), foi transferido para Santa Catarina, à época capitania anexa a do Rio de Janeiro. Em 1778, foi para
Lisboa para dar continuidade aos seus estudos. Seu propósito era construir uma carreira militar de êxito:
“adquirir no serviço real o acesso dos postos, estimação dos homens condecorados e bem-nascidos”. Com esta
finalidade, Elias Alexandre foi como voluntário para Angola. Segundo Ingrid de Oliveira, a principal motivação
do militar ao escrever a História de Angola era obter mercês: “Após ter servido ao Marquês do Lavradio (1749-
1753), foi transferido para Santa Catarina, à época capitania anexa a do Rio de Janeiro. Em 1778, foi para Lisboa
para dar continuidade aos seus estudos. Seu propósito era construir uma carreira militar de êxito: ‘adquirir no
serviço real o acesso dos postos, estimação dos homens condecorados e bem-nascidos’. Com esta finalidade,
segundo Magnus Pereira, Elias Alexandre foi como voluntário para Angola. Em agosto de 1782 foi provido no
posto de Ajudante do Regimento de Infantaria de São Paulo de Luanda, com a patente de capitão”. Ingrid Silva
de Oliveira, Textos militares e mercês numa Angola que se pretendia “reformada”: um estudo de caso dos
autores Elias Alexandre da Silva Correa e Paulo Martins Pinheiro de Lacerda. Dissertação (Mestrado em
História) – UFF, Rio de Janeiro, 2015, p. 210. Magnus Pereira, “Rede de mercês e carreira: o ‘desterro
d’Angola’ de um militar luso-brasileira (1782-1789)”. História: Questões & Debates, n. 45, 2006, p. 97-127.
44
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, v. I, p. 19-24.
45
Idem, p. 25.
46
Carlos Couto, Os capitães-mores em Angola no século XVIII. Subsídio para o estudo da sua actuação.
Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1972, p.104 e 105.
46

Correa da Silva também cita a formação de jurisdições ou distritos que eram


governadas por um capitão-mor provido trienalmente47. Ele destaca três distritos das
proximidades do rio Kwanza - Icolo, Dande e Golungo – os mais importantes na segunda
metade do século XVIII. Havia ainda distritos que se formavam nas vizinhanças dos
presídios, como Ambaca, Massangano, Cambambe, e também jurisdições sem conexão direta
com presídios, como o Bengo, no rio Mbengu, e Libongo, ao norte do rio Ndande, às margens
do rio Lifune48. Como se pode observar, de forma geral, os distritos e os presídios se
localizavam ao longo dos rios, que serviam de guias para o processo de interiorização. Seja
para a manutenção dos arimos49, como eram chamadas as lavouras, seja para a ocupação do
território, mas principalmente como rotas fluviais de escoamento do tráfico de escravos, os
rios foram fundamentais para a exploração das terras do Reino de Angola.
Ilídio do Amaral fez um estudo detalhado do Kwanza, chamado pelos portugueses
como “rio de Angola”. Se inicialmente o rio era um empecilho, porque não conseguiam entrar
com os barcos em sua barra, depois que os portugueses se estabeleceram no litoral, a
conquista do Ndongo e o estabelecimento do Reino de Angola tiveram esse rio como eixo
fundamental. Junto a este rio ficava Massangano, fortaleza e vila fundada por Paulo Dias de
Novais que simbolizava a entrado do sertão, isto é, “da conquista das terras para leste (em
territórios dos Ngola), para norte (dos Ndembu) e para sul (dos Kisama)”50. Este forte se
localizava numa colina rochosa da confluência do Lukala com o Kwanza num
posicionamento estratégico tanto para a defesa do território quanto para o resgate e embarque
de escravos51. Logo, as fortalezas construídas ao longo do Kwanza tinham também a função

47
Elias Alexandre da Silva Côrrea, História de Angola, v. I, p. 25.
48
Sobre este rio e região ao norte do Ndande: “Nesta barra do Ndande para o Norte, distância de três léguas,
desagua e faz barra o rio Lifune pequeno, inavegável, mas é da melhor água que há nesta Costa d'África do
domínio português. As origens deste rio, e do Ndande, dizem que vem dos estados dos dois Ndembu, o Dambi, e
o Quitoxe. A Leste do estado de Ambuila (Dembo poderoso, e vassalo de S. Majestade, mas mau e caviloso)
acima da barra deste Lifune, uma légua pela terra dentro, é a povoação do Libongo, vassalos de S. Majestade, e
donde sai o breu mineral”. Paulo Martins Pinheiro de Lacerda, “Notícias das regiões e povos de Quisama e do
Mussulo-1798. In: Annaes Marítimos e Coloniaes, série n.º 6 (4), 1846, p. 119-133. Transcrição de Arlindo
Correa. Disponível em: http://arlindo-correia.com/080109.html. Acesso em 30/04/2016.
49
“Terras nos arredores de Luanda, ao longo dos rios Kwanza, Dongo e Ndande, a região passou a ser chamada
de ‘celeiro da cidade’. Eram propriedades agrícolas que com o tempo foram associadas às formas tradicionais
africanas de cultivo e o arrendamento com investimentos de capitais maiores”. Selma Pantoja, “Donas de arimos:
um negócio feminino no abastecimento de gênero alimentício em Luanda nos séculos XVIII e XIX”. In: Selma
Pantoja (org.). Entre Áfricas e Brasis. Brasília: Paralelo 15, p. 24.
50
Ilídio do Amaral, O Rio Cuanza (Angola), da Barra a Kambambe: reconstituição de aspectos geográficos e
acontecimentos históricos dos séculos XVI e XVII. Lisboa: Ministério da Ciência e da tecnologia/ Instituto de
Investigação Científica Tropical, 2000, p. 14 e 15.
51
Joaquim José da Silva, em 1785, descreveu o rio Kwanza como “um dos mais importantes das possessões de
Portugal nesta Costa, assim pelas mercadorias que por ele se transportam comodamente para Calumbo,
Massangano, Muxima, e todos os outros presídios que estão nas suas margens, como pelas que se espalham por
quase todo o sertão de Angola e pelo comércio da Quissama e Libolo, férteis em ótimos escravos”. “Extrato da
47

de proteger esta importante rota comercial, via de comunicação e fonte de abastecimento,


visto que havia plantações de sobados e povoações avassalados ao longo do rio.
Elemento fundamental dos ideais de colonização, a igreja católica se fez presente
nessa rede administrativa. Elias Alexandre descreve as igrejas, irmandades, conventos que
existiam na cidade de Luanda e que constituíam um “estado eclesiástico” coeso desenvolvido
pelo trabalho dos clérigos e ordens religiosas. O quadro citadino é contrastante da situação das
igrejas dos distritos no sertão; havia templos espalhados por toda a conquista, mas muitos se
encontravam sem “sacerdotes que administrem sacramentos” e até mesmo a cidade de
Benguela sofria dessa “esterilidade” espiritual52. As reclamações não se restringiam à pouca
quantidade de párocos; o caráter destes sacerdotes também era questionado. Sousa Coutinho
se queixava do padre Rodrigo Pereira Jaques e seu envolvimento no comércio de escravos;
Jaques era vigário da povoação de Nova Oeiras e “pelo escândalo da vida e do comércio
público [era] incapaz de paroquiar um sertão de gentios e de homens corrompidos”, um
“homem mau” que tampouco se mostrava preparado para congregar “povos diferentes nos
gênios, nos costumes e na língua”53.
Vale lembrar que no distrito do Golungo, nas povoações de soba Bango
Aquitamba [Mbangu kya Tambwa], havia uma missão dos Carmelitas Descalços54. A ordem
chegou a Luanda em 1659, a missão tinha por objetivo fundar um convento de Santa Teresa
ali. No Mbangu kya Tambwa, a ordem também detinha um hospício55. Mesmo nesta missão,

viagem que fez ao sertão de Benguela no ano de 1785 o bacharel Joaquim José da Silva, enviado àquele reino
como naturalista e depois secretário do governo”. In: O Patriota, n. 1, 1813, p. 97.
52
Elias Alexandre da Silva Côrrea, História de Angola, v. I, p. 106.
53
Carta de FISC para o Cabido da Sé de Luanda. São Paulo de Assunção de Luanda, outubro de 1767. PADAB,
IHGB 126, DVD10, pasta 22, imagem DSC00047.
54
“O frei Belchior de Sousa nasceu em Mondim de Basto, nos fins do séc. XVI. Cursou gramática em Lamego.
Serviu como militar no Alentejo. Professou como carmelita descalço no Convento de Nossa Senhora dos
Remédios de Lisboa. Partiu para Angola em 1676, em companhia do governador e capitão general daquele reino,
Aires de Saldanha, onde construiu um templo e missionou em terras do Soba Bango Aquitamba [Mbangu kya
Tambwa]”. Verbete Belchior de Sousa, In: Barroso da Fonte (coord.). Dicionário dos mais ilustres
Trasmontanos e Alto Durienses. Guimarães: Editora Cidade Berço, 2001. Disponível em:
http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=571&id=4137&action=noticia. Acesso em:
23/04/2016. Cadonerga cita que nas províncias da Ilamba e Lumbu entraram os “filhos da sem par Santa Tereza
de Jesus, Carmelitas descalços, e tendo sua residência em terras e senhorios do soba Bango a Kitamba, onde têm
feito muitos serviços a Deus no bem daquela gentilidade”. Antonio de Oliveira de Cadornega, História Geral
das Guerras Angolanas. Anotado e corrigido por José Matias Delgado. Lisboa: Agência-geral do Ultramar,
1972, v. I, p. 239. Escrita aproximadamente entre 1670 e 1681, a História Geral das Guerras Angolas, de
Cadornega, tem sido fonte imprescindível para a escrita da história de Angola. Cf.: G. Childs, “The Peoples of
Angola in the Seventeenth Century According to Cadornega”. The Journal of African History, 1(2), 1960, p.
271-279; B. Heintze, “Written sources, oral traditions and oral traditions as written sources: the steep and thorny
way to early Angolan History”. Paideuma, 33,1987, p. 263-287.
55
Consulta ao conselho Ultramarino, 27 de novembro de 1665. Monumenta Missionária Africana, v. 12, doc.
243, p. 592. Consulta ao conselho Ultramarino, 27 de novembro de 1665. Carta régia à Câmara de Luanda, 17 de
janeiro de 1662. Monumenta Missionária Africana, v. 12, doc. 171, p. 425. Apud Alexandre Almeida Marcussi.
48

os frades não parecem ter seguido os preceitos da vida religiosa. Em 1754, há notícias de que
um missionário carmelita descalço, frei Lourenço de Jesus Maria, vivia ali há 14 anos “nos
matos, sem vida de religioso, nem hábito”56.
O esforço em construir povoações civis no sertão, tal como Nova Oeiras, é outro
aspecto das políticas iluministas que incidiram sobre o território africano na segunda metade
do Setecentos.
O Marquês Pombal, em um parecer de 1760, analisou as condições da ocupação
estrangeira na Costa Ocidental da África buscando justificar a proibição do comércio de
armas no sertão. Para ele, “os estabelecimentos que os ingleses, holandeses e dinamarqueses
[tinham] desde Cabo Branco até Loango [eram] uns miseráveis fortes, sem forma de colônia
ou povoação e a maior parte deles sem soldados”. O objetivo destas nações era simplesmente
o tráfico de escravos e por isso comerciavam armas sem receios, pois não pretendiam formar
ali colônias, “que [fizessem] zelos aos negros seus vizinhos”57. Para o governador, o Reino de
Angola devia ser o oposto disso, assim como deviam ser outros os interesses dos portugueses
em sua ocupação. É neste exercício comparativo que Pombal disse: “Angola não é feitoria,
tomou logo desde o princípio outra forma. Temos ali uma cidade populosa e muitas colônias
até pela terra dentro em muita distância do mar”58.
Depois de todas as informações sobre a fragilidade do domínio português, a
leitura de Pombal sobre a ocupação do Reino de Angola só pode ser considerada exacerbada,
ainda que os avanços da colonização portuguesa fossem incomparáveis aos de outras nações
europeias, que restringiam seu domínio a zonas litorâneas. Contudo, Angola como uma
colônia de povoamento branco era mais uma pretensão dos governos de matriz pombalina que
uma realidade em 1760. Talvez para adequar a realidade às intenções, a partir da segunda
metade do Setecentos, a política metropolitana fomentou uma nova forma de ocupação do
sertão do Reino de Angola: as povoações civis. Segundo Catarina Madeira Santos, as
povoações somariam à rede administrativa formada pelos presídios, feitorias, distritos e feiras
e deveriam ser separadas dos sobados: “a cada nova povoação era atribuído, juiz, capitão-mor

Cativeiro e cura. Experiências religiosas da escravidão atlântica nos calundus de Luiza Pinta, séculos XVII-
XVIII. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, 2015, p. 237.
56
Parecer do governador Antonio Álvares da Cunha sobre as minas de ouro do rio Lombige. Belém, 29 de
outubro de 1754. AHU, Códice 574, fl. 4 e 4v.
57
Parecer do Conde de Oeiras. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, 20 de Novembro de 1760. AHU, Cód. 555,
fl. 59 e 59v.
58
Idem, Ibidem.
49

de ordenança, e pároco, com igreja e freguesia”59. No governo de Sousa Coutinho foram


criadas povoações no Reino de Benguela e no hinterland de Luanda.
Assim, a presença colonial no Reino de Angola se sustentava por um lado, pelos
presídios, feitorias, feiras, povoações civis e, por outro, pelos sobados avassalados e aliados
aos portugueses. As fundições do ferro que se instalaram no hinterland de Luanda também se
constituíram como entrepostos da administração colonial do sertão. O intendente geral das
reais fábricas do ferro era frequentemente incumbido de resolver assuntos ligados aos
presídios e distritos vizinhos da fábrica, majoritariamente questões de natureza militar. Em
novembro de 1767, Sousa Coutinho ordenou que o intendente das fábricas Antonio Anselmo
Duarte de Siqueira marchasse para os presídios de Ambaca e Pedras de Pungo Andongo com
uma cavalaria que chegava ao porto de Luanda e promovesse a segurança daqueles
presídios60. Quando o Mbangala Kasanje solicitou ajuda ao governo de Luanda para a guerra
que enfrentava em seus territórios, Duarte de Siqueira foi incumbido de ir até à feira de
escravos que havia naquelas terras e providenciar a proteção dos negociantes à mando da
Coroa portuguesa que ali se encontravam61.
As fundições de ferro se localizaram a princípio na Ilamba, mas os edifícios de
Nova Oeiras foram construídos entre os rios Lukala e Luinha, região também conhecida como
Lumbu (ou Ilamba Alta), como se pode ver no Mapa 2. Trata-se de um corte de uma cópia do
mapa de 1790 de Pinheiro Furtado, datado de 1791. Essa cópia traz informações mais
detalhadas que o mapa de 1790 e mantém as legendas e explicações do anterior. Esses
acrescentamentos permitem conhecer em detalhe Luanda e seu hinterland, na margem norte
do Kwanza.
As localidades que descrevemos até aqui em sua maioria estão representadas no
mapa, os rios, as feiras, os distritos, a povoação de Nova Oeiras, as fábricas do ferro
(circuladas em vermelho), os arimos em que se cultivavam alimentos, a Missão dos
Carmelitas Descalços na povoação do soba Mbangu kya Tambwa, as salinas de Cacuaco
(fontes de sal marinho das lagoas de mesmo nome) e os sobados da região.

59
Catarina Madeira Santos, Um governo polido para Angola, p. 150.
60
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, coronel e intendente geral das reais fábricas do
ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, 25 de novembro de 1767. BNP, C. 8742, F. 6364, fl. 148.
61
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, coronel e intendente geral das reais fábricas do
ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, sete de março de 1768. IEB/ USP, AL-083-027.
50

Mapa 2: Detalhe do interior do Reino de Angola, 1791.


51

Fonte: Corte do “Mapa geográfico compreendendo a Costa Ocidental d’África entre 5 e 16 graus e 40 minutos de latitude
Sul, representando no continente o estado atual dos Reinos d’Angola e Benguela (...)” de Luis Candido Cordeiro Pinheiro
Furtado. Desenhado pelo mesmo Tenente Coronel Luís Candido Cordeiro Furtado; e copiado pelo discípulo do número
terceiro ano da Real Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho. Pedro José Botelho de Gouvea Cadete do Regimento de
Cavalaria de Meklemburg”. Lisboa, 1791. Biblioteca Municipal do Porto, BPMP_C-M&A-Pasta 24(17). Marcações nossas.

Entre os signos utilizados por Pinheiro Furtado para referenciar as diferentes


ocupações, há o da catedral, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, que representa a cidade
de Luanda. A igreja junto à Câmara Municipal e ao palácio do governador configuravam os
símbolos de poder do traçado ordenado do espaço urbano das cidades coloniais. Os presídios,
por sua vez, trazem a imagem de uma fortaleza, indicando sua principal função que era a de
guarnição militar, defesa do território. Tanto as feiras quanto a fábrica de ferro são indicadas
com um quadrado rosa, evidenciando uma localidade que não estava sob o domínio dos
chefados locais, um interposto colonial diferente dos presídios. A importância das salinas
também se verifica já que elas aparecem destacadas também com um símbolo próprio.
As inúmeras banzas (povoações) das chefias africanas e as cubatas* de seus
súditos indicadas por círculos cor de rosa, descritas como “povoação de negros”, perpassam
todo o território. A banza do soba Mbangu kya Tambwa é representada com o mesmo círculo
rosa, mas acrescenta-se uma cruz, para indicar que ali havia uma missão, a dos Carmelitas
Descalços. Diferente dos desenhos anteriores, o usado para representar as ocupações dos
Ambundos não corresponde ao ideal da época de um traçado regular dentro do imaginário
europeu de civilização e organização espacial; são pontos sem forma definida. A linguagem
cartográfica também foi utilizada para criar esses contastes entre um mundo que se pretende
civilizado, com prédios planejados, que na verdade muitos eram feitos de adobe e barro, e um
outro que se queria dominar cujas lógicas de organização escapavam à compreensão dos
colonizadores ou que foram menosprezadas por eles, impressa na imagem “barracas feitas de
palha” - como as autoridades viam as moradias africanas. Não é de se admirar que justamente
o governador Sousa Coutinho seja lembrado no “Catálogo dos governadores” como aquele
que fez reparos nos presídios e fortalezas, construiu povoações, “acrescentou ao palácio da
residência [do governador] a excelente varanda que tem para o mar”62. Neste ponto, é

62
“Catálogo dos governadores do Reino de Angola. Com uma prévia notícia dos princípios de sua conquista e do
que nela obraram os governadores dignos de memória”. In: Coleção de notícias para a História das nações
ultramarinas que vivem nos domínios portugueses ou lhe são vizinhas. Academia Real das Ciências de Lisboa.
Lisboa: Tip. da Academia Real das Ciências de Lisboa, 1826, p. 421. “Angola foi a colônia onde a tradição de
escrita de catálogos de governadores encontrou maior desenvolvimento. Nesta colônia, durante o século XVIII e
primeira metade do XIX, foram elaboradas diversas versões dessa modalidade historiográfica. Cada uma
retomava as versões anteriores, acrescentando-as com partes relativas aos governos subsequentes, relendo-os
segundo pontos de vista ora favoráveis à coroa e seus agentes, ora aos colonos luso-angolanos. Entre as diversas
versões dos catálogos, há uma atribuída ao coronel João Monteiro de Morais, que foi um dos principais líderes
52

interessante comparar os presídios com as “quipacas”* (do kimbundu, ekipaka) que eram
verdadeiras praças fortes africanas, trincheiras de pedras inacessíveis. No sertão de Angola,
conhecer e saber como valer-se de fortalezas rochosas, árvores resistentes, enfim o ambiente
natural era uma estratégia arquitetônica muito mais vantajosa que o adobe, a pedra e a cal.
O traçado vermelho desenhado no mapa mostra a rede administrativa e militar
formada pelos presídios no decorrer da ocupação portuguesa, ao longo do curso do rio
Kwanza, principalmente. Contígua a ela, está um tracejado amarelo que aponta outra rede de
finalidade comercial formada por algumas feiras que existiram neste território – Lukamba (a
grande feira de Ambaca), Beja e Dongo. Lembrando que a principal feira de escravos estava
além do Reino de Angola, fora da administração portuguesa, em Kasanje, controlada pelo
Mbangala. Esses traços nos permitem imaginar o triângulo de que falava o governador Sousa
Coutinho em suas memórias, que representaria a área que durante mais tempo estava sob
influência portuguesa. Para além deste interior próximo, a presença portuguesa adentrava os
sertões distantes de forma ainda mais fragilizada por meio de alianças com os chefados locais.
Este é o exemplo do importante título político ndembu Kakulu Kakahenda, cujo território se
localiza para além das linhas do suposto triângulo e que havia se tornado vassalo da Coroa
portuguesa em 1615 e, desde então, estabeleceu alianças e parcerias com os portugueses.
Os círculos azuis apontados no mapa são distritos tais como Golungo, Icolo,
Dande ou povoações, Libongo, Muxima junto ao presídio de mesmo nome, Lembo, Bengo
[próximo ao rio Mbengu], Nova Oeiras. Esses aglomerados mais ou menos povoados
abrigavam moradores de proveniência diversa e muitas vezes se relacionava a plantações,
como no caso dos arimos do Mbengu. Por fim, em verde estão representadas as missões
católicas, que era uma outra forma de influência colonial relevante, haja vista seu papel na
colonização dos sertões por meio da religião.
O mapa deixa evidente o quão descontínuo era esse triângulo, não só em suas
fronteiras, como também no seu interior em que as unidades políticas portuguesas conviveram
com unidades politicamente autônomas africanas, em que os chefes procuraram tanto quanto
possível manter sua independência por meio de alianças com a Coroa. No século XVIII, há
uma tentativa de implementar uma série de reformas nos sertões, tanto por causa da
agricultura fragilizada, da decadência moral do comércio sertanejo, quanto porque o gesto
colonial é de ocupar esse território de outra forma. Os nomes dos presídios e povoações são

das famílias tradicionais luso-angolanas da segunda metade do século XVIII. (...). Outra é de autoria de Manoel
Antônio Tavares, de origem portuguesa, que foi para Angola acompanhando o governador D. Francisco
Inocêncio de Souza Coutinho. Tavares constituiu família em Luanda e ali permaneceu por décadas”. Magnus
Pereira, “Rede de mercês e carreira: o ‘desterro d’Angola’ de um militar luso-brasileira (1782-1789)”, p. 99.
53

exemplos disso. Até então, eram topônimos que se relacionavam à conquista de grandes
sobados - Muxima, Cambambe, Golungo – uma marcação territorial da vitória das forças
coloniais. As povoações com nomes de vilas europeias queriam promover outro tipo de
colonização: incentivar as indústrias, o povoamento branco, a agricultura.
Aparentemente os portugueses construíram um vasto conhecimento do território
africano. Embora realmente essa profusão cartográfica evidencie um esforço de
interiorização, é preciso lembrar que um mapa é um sistema de símbolos; no caso da África, a
cartografia europeia estava imersa nos objetivos da conquista, elaborada para reafirmar a
ocupação portuguesa do território. A fixação geográfica das “povoações dos negros”- como o
engenheiro Pinheiro Furtado chama as banzas -, por exemplo, é equivocada se pensarmos esse
espaço do ponto de vista africano. A relação dos Ambundos com o seu território estava
vinculada a “complexos laços sobrenaturais [que] uniam cada grupo de parentesco às suas
terras e integravam o povo e o território numa única coletividade”63. A posse de um terreno
era coletiva e à medida que as colheitas esgotavam os solos das aldeias, novos campos eram
abertos em um sistema de cultivo itinerante. Soma-se a isso às formas de intermediar o mundo
dos vivos e o dos mortos entre os Ambundos. Seus chefes políticos portavam insígnias de
autoridade que permitiam que acessasse a forças espirituais, tal como o ngola que citamos há
pouco, para guiar seus súditos.
O movimento dos sobados seguindo diretrizes sobrenaturais e/ou em busca de
melhores terras para plantio não se alinhava ao traçado fixo da cartografia portuguesa, afinal,
eram duas concepções diferentes de ocupação territorial. Por isso, em 1797, o governador
Miguel Antonio de Melo indica falhas na carta de Pinheiro:
“Porquanto sendo as banzas ou aldeias dos negros fabricadas de casa de palha
e mudando-as elas quase todos os dias de uns para outros sítios, e nunca
pouco distante do deixado, todas as vezes que ou lhe apraz ou a isso são
levados por seus agoiros, e superstições, o que na carta se notasse hoje
povoado, amanhã se encontrará deserto, e cheio de mato habitado por
feras”64.

Ainda sobre os vínculos com o território, os soberanos africanos não relacionavam


seu poder à expansão territorial, antes o que era fulcral para eles era expandir seu domínio
sobre as pessoas. O que conferia poder a um soberano Ambundo de determinada linhagem era
a quantidade de dependentes sob seu controle, também chamados na documentação

63
Assim por exemplo, os espíritos dos antepassados de uma linhagem só descansariam se os corpos dos mortos
fossem enterrados nas terras da linhagem. Joseph C. Miller, Poder político e parentesco, p. 239.
64
Carta de Miguel Antonio de Melo, governador de Angola, para Rodrigo de Sousa Coutinho, secretário de
Estado da Marinha e Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, três de Dezembro de 1797. AHU_CU_001,
Cx. 86, D. 66. Apud Catarina Madeira Santos, Um governo polido para Angola.
54

portuguesa de “filhos”65. Entretando, mesmo indiretamente, uma coisa levava a outra já que o
domínio sobre suas gentes inicialmente era pautado pelas grandes plantações. Com a
interiorização da presença portuguesa e a exploração local de recursos naturais, além da
agricultura perder muitos braços para o tráfico, a relação com a posse linhageira da terra
sofreu alterações importantes, como veremos no segundo capítulo66.
De toda forma, a expansão portuguesa dependia das alianças com as elites locais,
sendo como aliadas ou vassalas. Desde as primeiras iniciativas dos portugueses de contatar o
soberano do Kongo, em 1483, o que garantia a permanência, o deslocamento e o comércio
dos estrangeiros eram as relações regulares que conseguiram estabelecer com as chefias
locais. Nosso objetivo aqui não é discutir o processo histórico das relações de dominação
entre portugueses e africanos, mas observar que, sem a anuência dos estados locais, não teria
sido possível a permanência estrangeira que, por isso mesmo, sempre foi muito frágil e
restrita. Como lembra o historiador M’Bokolo em passagem citada anteriormente, apesar da
precariedade do domínio português, a manutenção de Angola se sustentou por causa do
tráfico de escravos, das mercadorias estrangeiras: essa foi a relação de interdependência
estabelecida com as elites africanas mais importante e duradora, já que o comércio de cativos
se consolidou ao longo do tempo como a economia fundante da região, principalmente devido
à demanda de mão de obra na América portuguesa.

1.3 A população de Angola

Quais eram os habitantes que viviam nesse território? Como mostram as fontes
analisadas até aqui, o reino de Angola era povoado principalmente pelos centro-africanos.
Esses, principalmente, devido às migrações frequentes do tráfico poderiam ser de variada
origem, língua, costumes67.

65
Isso explicaria, de acordo com Thornton, o porquê de os estados da África não apresentarem, em geral, grande
extensão territorial, já que “o estado e seus cidadãos poderiam aumentar sua fortuna adquirindo escravos e não
precisariam comprar terras, a menos que estivessem com o espaço reduzido em seus países (o que não era o
caso)”. John Thornton, A África e os africanos na formação do mundo atlântico (1400-1800), p. 162. Segundo o
autor, na África Central, “o Kongo era o maior dos estados, com 130 mil km2; outros estados, como Ndongo,
eram menores, mas ainda nessa faixa”. Idem.
66
Eva Sebestyen, “Legitimation through Landcharters in Ambundu Villages, Angola”. In: Thomas
Bearth, Wilhelm J.G. Möhlig, Beat Sottas, Edgar Suter (ed.). Perspektiven afrikanistischer Forschung. Beiträge
zur Linguistik, Ethnologie, Geschichte, Philosophie und Literatur. X. Afrikanistentag, 1993, p. 363-378. Para
Mariana Candido, uma das grandes transformações nas sociedades africanas provocadas pelo tráfico
transatlântico foi o aumento da demanda por cerais, que favoreceu o acúmulo de riquezas nas mãos dos
produtores. Mariana Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World, p. 84.
67
Daniel Domingues da Silva, Crossroads slave frontiers of Angola, c. 1780-1867. Tese (Doutorado) – Emory
University, 2011, p. 90-100.
55

Uma boa forma de responder a essa pergunta é recorrer às contagens da população


feitas pelos administradores coloniais. Desde o reinado de Dom José I (1750-1777) as
autoridades metropolitanas preocuparam-se cada vez mais obter um maior controle
institucional sobre a população dos domínios ultramarinos. Junto ao propósito de instalar
povoações civis que levassem ideias e valores europeus aos habitantes dispersos pelos sertões,
os governadores das conquistas do ultramar passaram a ser obrigados a realizar
recenseamentos periódicos das populações. Esses censos geraram listas nominativas de
habitantes que, tabuladas, resultaram nos “mapas de população”68.
A primeira estimativa populacional foi encomendada pelo secretário do ultramar
Martinho de Melo e Castro, em 1776. Dois anos depois, foi publicado o mapa de “todos os
moradores e habitantes do reino de Angola e suas conquistas tirado no fim do ano de 1777 em
que entram os ndembu, Potentados, e sobas vassalos”, sob coordenação do governador
Antonio de Lencastre69. Oficiais régios fizeram as consultas junto aos sobas, aos párocos que
serviam no interior e aos capitães-mores. Devido à instabilidade da rede paroquial nos sertões,
a tarefa de coligir as informações ficou em grande parte ao encargo dos capitães-mores.
Esta fonte contém muitas fragilidades que passam pela precariedade da malha
administrativa e religiosa, uma vez que o número de oficiais régios e de clérigos era
insuficiente para controlar todo o sertão. Contudo, o maior entrave para um maior controle da
metrópole sobre o território e a população do Reino de Angola vinha das lideranças locais.
Em Benguela, por exemplo, os sobas temiam que essa listagem servisse a uma tentativa de
escravização das pessoas sob o seu domínio, por isso resistiam em fornecer corretamente os
dados pedidos pelas autoridades régias. Como explicou Antonio de Lencastre para o então
secretário de estado e da Marinha e do Ultramar:
“porque a longitude destes sertões, e a desconfiança em que pôs a todo o
gentio esta novidade, fez retardar tanto tempo a execução da dita ordem e

68
As listagens deveriam conter: “1) número de habitantes; 2) ocupações; 3) nascimentos, casamentos e óbitos; 4)
volume de importações; 5) volume de exportações; 6) produção, consumo e exportação; 7) preços; 8) entrada e
saída de navios”. Mariana P. Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World. Benguela and its
hinterland, 140-143. O objetivo deste levantamento de dados era conhecer o número e a qualidade dos
moradores, suas ocupações e os impostos arrecadados para a Real Fazenda. Integrantes de uma política
pombalina de povoamento e “civilização dos naturais” para todo o Império português, esses conjuntos
documentais também são encontrados, como era de se esperar, para a América portuguesa – Paraíba, Piauí, São
Paulo. Eles foram gestados segundo os princípios da Aritmética Política de William Petty, importante teórico do
mercantilismo inglês com quem Pombal estabeleceu contato. Sebastião José de Carvalho e Melo considera “a
necessidade de se realizar o ‘exame do número de habitantes do país de que se quer tratar’, o levantamento das
terras cultiváveis e da produção dessas terras, do quanto se pode taxá-las, do comércio (do que se vende e do que
se compra), dos rendimentos e salários” tendo em vista os lucros que o estado poderia obter. Antonio Cesar de
Almeida Santos, “O ‘mecanismo político’ pombalino e o povoamento da América portuguesa na segunda metade
do século XVIII”. Revista de História Regional, v. 15, n. 1, 2010, p. 103.
69
Antonio de Lencastre. “Mapa de todos os moradores...”. Luanda, 15 de Julho de 1778. AHU_CU_001_ Cx.
61, D. 81.
56

[as]seguro Vossa Excelência o muito que custou a que os chefes do dito


gentio dessem o Rol de todos os filhos e súbditos das suas Terras, em razão
de não haver entre eles pároco por donde se viesse a saber do seu número, e
desconfiarem de que seria esta novidade para lhe tirarem alguns dos mesmos
filhos conforme a quantidade deles, tendo-me sido necessário por muitas
vezes [as]segurá-los de que não era para tal efeito, nem para lhe suceder mal
algum, com cuja certeza deram o número dos habitantes das mesmas Terras
aos oficiais que a elas mandei (...)”70.

O governador assumia: “não me faço responsável pela incerteza do número dos


pretos do sertão, porque pelas razões referidas, não posso justificar-me, nem certificar a sua
verdade”. Além disso, trata-se de um registro localizado, realizado a partir de um
levantamento durante um restrito período de tempo. Feitas as ressalvas sobre os limites desta
fonte e descritas suas inexatidões, pode-se analisar o que seus dados trazem.

Tabela 1: Moradores do reino de Angola, 1777.


Gênero/ Cor Filhos (as) Filhos (as) de Filhos (as) de Filhos (as) Filhos (as) de Total
de brancos pardos pardos de pretos pretos
forros escravos forros escravos
Homens 1.031 1.762 244 191.816 17.643 212.496
Mulheres 550 1.784 253 234.337 24.697 261.621
Total 1.581 3.546 497 426.153 42.340 474.117
Fonte: “Mapa de todos os moradores e habitantes do reino de Angola e suas conquistas tirado no fim do ano de
1777 em que entram os Ndembu, Potentados, e sobas vassalos”. São Paulo de Assunção de Luanda de Luanda,
15 de julho de 1778. AHU_CU_001_ Cx. 61, Doc. 81. Estes dados aqui resumidos foram tabelados por Catarina
Madeira Santos e seguem anexos à sua tese. Cf: Catarina Madeira Santos, Um governo "polido" para Angola, p.
184.

Neste levantamento, a maioria dos homens e mulheres era adulta (os homens
tinham entre 15 e 60 anos, as mulheres entre 14 e 40 anos) e majoritariamente (89,88%) filhos
de “pretos forros”, ou seja, da população africana. O termo “forro” quando relacionado a
“preto”, neste documento, é usado para designar quem não era escravo dos europeus;
acreditamos também, assim como Joseph Miller, que seja equivalente a ser livre em
contraposição a ser escravo - e não a ser liberto, uma vez que não foram computadas quantas
dessas pessoas eram egressas do cativeiro71. Contudo, não sabemos quantos destes eram livres
de nascimento, ou seja, não eram escravos dos portugueses; e também não sabemos se eram
escravos sob a jurisdição dos sobas vassalos porque essa informação não foi considerada.
Entre estas 474.117 pessoas, apenas 0,33% eram brancos, e o número de mulheres brancas é
praticamente a metade do dos homens. As camadas intermediárias eram formadas por

70
Antonio de Lencastre. “Mapa de todos os moradores...”. Luanda, 15 de Julho de 1778. AHU_CU_001_ Cx.
61, D. 81.
71
“Uma categoria que inclui quase toda a população africana, ‘livre’ no sentido de não serem diretamente
propriedade de um europeu da colônia portuguesa, mas não necessariamente de nascimento local (e, portanto,
‘livre’ em termos africanos). Esta categoria, 89,3% do total, refletiu os efeitos da importação de dependentes por
parte da população Africano da conquista”. Joseph Miller, Way of death, p. 160.
57

escravos (9,03%) e pardos (0,75%). Mais uma vez constatamos que a percentagem de brancos
era ínfima frente a grande maioria de “pretos forros”.
Os historiadores que analisaram a demografia do Reino de Angola, ao longo do
tempo, procuraram interpretar esses resultados no contexto do tráfico transatlântico. Entre
estas avaliações, John Thornton ressalta principalmente um grande contingente de mulheres
entre a população africana que era desproporcional ao número de homens do mesmo grupo. A
causa desse desequilíbrio seria a demanda do tráfico por homens adultos72. Patrick Manning
torna este argumento mais complexo diferenciando a dinâmica do tráfico do litoral da do
interior. Comparou os censos de finais do século XVIII com os dados da exportação de
cativos e apoiou-se nos estudos sobre os preços dos escravos. Ele concluiu que os homens
destinados ao tráfico transatlântico eram majoritariamente do interior, enquanto que as
mulheres eram sobretudo da região litorânea. Para compensar, o litoral retinha a maior parte
das mulheres vindas do interior. A questão central para Manning era demonstrar que as
populações do interior da África Centro-Ocidental sofreram um despovoamento demográfico
ao longo da história do tráfico de escravos73.
Não é nosso objetivo adentrar nas questões das dinâmicas demográficas, antes
apresentar, dentro das limitações da documentação, um quadro geral da população do Reino
de Angola. José Curto explica que, para a cidade de Luanda, foram realizados ao menos 30
censos entre 1773 e 1844, mas as contagens após 1798 apresentam dados mais fidedignos
porque as categorias demográficas dos censos passaram a ser mais uniformes74.
A realidade dos presídios do interior é ainda mais desigual quanto ao número de
brancos. No presídio de Cambambe, segundo um levantamento de 1798, havia 19 homens
brancos (sendo 15 maiores de 25 anos), 77 “pretos”, 42 mulatos. Em Muxima, havia apenas

72
John Thornton, “The Slave Trade in Eighteenth Century Angola”. Canadian Journal of African Studies, vol.
14, n. 3, 1980, pp. 417-427.
73
Patrick Manning, “The enslavement of Africans: a demographic model”. Canadian Journal of African Studies,
v. 15, 1981, p. 499-536. Ver também: José C. Curto, “Demografia histórica e efeitos do tráfico de escravos em
África: uma análise dos principais estudos quantitativos”. Revista Internacional de Estudos Africanos, v. 14-15,
1991, p. 268.
74
Os censos a partir de 1798 passaram a apresentar: “os números dos civis diziam respeito a pessoas solteiras,
casadas e viúvas, nascimentos, casamentos e óbitos, emigrantes e imigrantes, ordenados por cor, gênero e
condição social, enquanto os dados sobre pessoal administrativo diziam respeito a burocratas, tropas
governamentais e eclesiásticos, com referência, normalmente, ao seu estatuto marital. Por último, mas não
menos importante, todos estes censos continham caixas separadas com informação quantitativa sobre os
domicílios e a distribuição ocupacional de parte da população civil”. José Curto e Raymond Gervais, “A
dinâmica demográfica de Luanda no contexto do tráfico de escravos do Atlântico Sul, 1781-1844”. Topoi, 2002,
p. 92.
58

dois brancos, 65 mulatos e 468 “pretos”. Já no distrito de Dande não foi contabilizado
nenhum branco, no Encoge eram apenas quatro e em Pedras de Pungo Andongo, cinco75.
Havia, portanto, poucos brancos em Angola, principalmente nos sertões mais
distantes da Costa. O governador Sousa Coutinho enviava frequentemente soldados e
trabalhadores reinóis, ilhéus e brasílicos para a povoação de Nova Oeiras76. A mortalidade do
“clima maligno” de Angola fez parte de toda a história da fábrica de ferro desta povoação. Em
1773, o capitão José Francisco Pacheco, um dos responsáveis pela condução dos trabalhos na
fábrica de ferro, durante os três anos que trabalhou ali registrou a morte de 77 brancos: 43
oficias mecânicos (carpinteiros, ferreiros, pedreiros, cabouqueiros), 29 degredados e 5
mulheres77.
Algo importante que Curto comenta é que, até meados do século XIX, o estatuto
da cor era definido pela associação de critérios de nascimento e econômicos78. Joseph Miller
supõe que as mulheres brancas identificadas no censo populacional da cidade de Luanda de
1773 eram, na verdade, filhas de influentes famílias luso-africanas, cuja riqueza e prestígio
social “branqueavam suas aparências”, assim como no Brasil, onde o “dinheiro
embranquecia”79. A historiografia brasileira tem analisado a polissemia dos termos que
aparecem nas fontes setecentistas, que ora determinariam a cor da tez, ora a condição social.
Considera-se importante compreender como a terminologia se desenvolveu em situações
históricas específicas. Nesse sentido, Silvia Lara pondera que a associação entre cor e
condição social “(...) não caminhava de modo direto, mas transversal, passando por zonas em
que os dois aspectos se confundiam ou se afastavam, e em que critérios díspares de
identificação social estavam superpostos”80. Exercer cargo administrativo, militar ou

75
Mapas dos presídios do ano de 1798. AHU_CU_001, Cx. 89, Doc. 88. Estas informações, dos homens que
serviam no interior, foram consultadas em: Catarina Madeira Santos, Um governo polido para Angola, p. 119 e
ss.
76
Em 1767, o governador remeteu nove soldados e trabalhadores para Nova Oeiras, dois deles eram ilhéus
“muito bem-procedidos grandes lavradores”. Carta para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, São Paulo de
Assunção de Luanda, 27 de setembro de 1769. PADAB, IHGB 126, DVD10,22 DSC00044.
77
Certidão de Francisco José Pacheco, inspetor de obras da fábrica de Nova Oeiras. São Paulo de Assunção de
Luanda, 13 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, Doc. 28.
78
José Curto e Raymond Gervais, “A dinâmica demográfica de Luanda no contexto do tráfico de escravos do
Atlântico Sul, 1781-1844”, p. 95.
79
Joseph Miller, Way of death, p. 293.
80
Silvia Hunold Lara, Fragmentos setecentistas, escravidão, cultura e poder na América portuguesa. São Paulo:
Companhia das Letras, 2007, p. 131. É importante observar como se davam essas associações entre cor e
nascimento e hierarquias sociais em outras localidades do império colonial português. Larissa Viana, por
exemplo, ao estudar as irmandades no Rio de Janeiro colonial discorreu sobre os alcances e os limites da ideia da
formação de uma “identidade parda” entre os confrades. Levando em consideração que identidades “são relativas
e mutáveis, produtos que são das negociações ou imposições sociais”, a autora alerta que no que tange aos
pardos “a referência não era apenas aos mestiços, mas também a formas de identificações mais sutis e próprias
da sociedade escravista, uma vez que o qualificativo pardo indicava o distanciamento da condição de africano”.
59

religioso, a cor da pele, o enriquecimento, a inserção política e/ou familiar entre outros
fatores, são categorias que poderiam se conjugar na determinação das hierarquias sociais e/ou
da cor.
Até aqui lidamos com dados dos mapas de população, censos organizados em
Lisboa e aplicados nas possessões ultramarinas que trazem designações gerais de cor, como
“preto”, “branco”, “pardo”, “mulato”. Há outros documentos, encomendados pelo governo de
Luanda e feito pelos oficiais régios do hinterland da cidade e dos presídios que trazem
informações mais ricas em detalhes sobre a qualidade dos moradores do Reino de Angola.
Trata-se das fontes dos presídios que quando se referem à população mestiça usam um maior
gama de termos “pardo”, “mulato”, “fusco”, “meio fusco” e, ainda, “cor honesta”. Assim, se
nos mapas de população há uma classificação de mais genérica, nas “notícias de presídios” do
interior dos sertões são variadas as designações e elas mudam de um local para outro. Esse
tipo de fonte traz listas nominativas dos moradores, cor, ocupação, cargo, patente militar dos
chefes de domicílio, posse de gados e escravos. Roberto Guedes considera que uma maior
variedade dos vocábulos de cor das “notícias” em relação aos “mapas” se deve a uma
tentativa das autoridades dos presídios de criar hierarquias locais, que qualificavam “a cor das
pessoas/famílias, bem como os status ou as posições sociais”, em uma sociedade marcada
pelo tráfico e a escravidão na África81.
Há uma diferença significativa, portanto, quando reduzimos a escala de análise e
estudamos a população dos presídios. Em uma relação dos moradores do presídio de
Massangano foram listados 87 moradores: 33 de “cor honesta”, 22 “fuscos”, 18 “pardos”, 5
“brancos”, 2 “meio fuscos”, 1 “pardo ou meio pardo”, 5 “pretos” e 1 “escuro”. Esse é um
exemplo da pluralidade de vocábulos usados para designar a população mestiça do sertão que
era quem ocupava cargos públicos, os súditos da Coroa. Ariane Carvalho observa que as
pessoas “fuscas” e de “cor honesta” possuíam importantes cargos e ocupações neste presídio.
Apenas “pretos”, “escuros”, e “meios fuscos” não eram proprietários de escravos82. Uma
hipótese é a de que, assim como na América portuguesa, as categorias intermediárias entre

Larissa Moreira Viana, O Idioma da Mestiçagem: as irmandades de pardos na América Portuguesa. Campinas,
SP: Editora da UNICAMP, 2007, p. 159.
81
Roberto Guedes, “Branco africano: notas de pesquisa sobre escravidão tráfico de cativos e qualidades de cor
no Reino de Angola (Ambaca e Novo Redondo, finais do século XVIII)”. In: Roberto Guedes (org.). Dinâmica
Imperial no Antigo Regime Português: escravidão, governos, fronteiras, poderes, legados. Séculos XVII-XIX.
Rio de Janeiro: Mauad X, 2011, p. 55.
82
Ariane Carvalho da Cruz, “Cor e hierarquia social no reino de Angola: os casos de Novo Redondo e
Massangano (finais do século XVIII)”. XIV Encontro Regional ANPUH-Rio de Janeiro, 2010. Disponível em:
http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1276742727_ARQUIVO_ArtigoAnpuhAriane.pdf.
Acesso em: 27/05/2016.
60

brancos, aludindo à liberdade, e pretos, referindo a escravos, tenham surgido como forma de
afastamento do estigma da escravidão.
Retomando a intenção de esboçar um quadro geral da situação populacional de
Angola setecentista, a avaliação com base nos censos de fins do século XVIII (pouco mais de
um século depois da derrota do rei do Ndongo), ainda que não possamos atribuir-lhes rigor
numérico e estimativo pelas razões descritas anteriormente, torna evidente que o povoamento
branco do Reino de Angola era uma diretriz metropolitana com muitos empecilhos para ser
colocada em prática.
Em suas memórias, o governador Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho também
reiterou a “falta de gentes”. Ele dividiu os europeus enviados para aquele reino em três
classes: “negociantes ou caixeiros, que em pouco tempo passam a primeira qualidade ou
morrem; degredados corrompidos cheios de vícios e moléstias e ilhéus, que conduz o
governador”. Os ilhéus eram maltratados pela viagem e os que chegavam a Luanda, morriam
logo. O casamento entre estes e as “mulheres ordinárias” eram raros, “muitos poucos os
capazes de concorrer para o adiantamento da colônia”, mesmo os casais novos se mostravam
incapazes de sobreviver um ano no sertão, quando não “pereceriam de miséria” nas praias de
Luanda. Entre os condenados ao degredo, distinguiu os “limpos” dos “miseráveis e infectos
das cadeias”; os primeiros se interessavam por postos e ofícios, apesar de recusarem o
casamento, e os segundos eram os “corrompidos e desesperados” como as “mulheres
prostituídas”, que só serviam de escândalo à justiça, em más e excessivas tavernas”. Para
Sousa Coutinho, os dois séculos de um esforço de colonização com remessas de condenados
ao degredo estariam levando aquele reino à ruína83.
A partir da segunda metade do século XVII e durante todo o século XVIII, há um
grande fluxo de degredados para Angola. Uma parte significativa acompanhava os
governadores a cada três anos e era enviada para comporem as tropas coloniais. Em 1759,
apenas um ano depois da chegada do novo governador Antonio de Vasconcelos (1758-1764),
dos 250 soldados que seguiram com ele, apenas 142 sobreviveram entre degredados (102) e
ilhéus (40). Os oriundos de Lisboa seriam mais adequados para o reforço militar da colônia,
enquanto os ilhéus, mais aptos a se adaptarem ao clima, promoveriam o povoamento e
reformas da colônia. Contudo, esses planos não chegaram a se efetivar. A deserção era uma
realidade constante, contra o que as autoridades pouco podiam fazer. Os soldos das milícias

83
FISC, “Memórias do Reino de Angola e suas conquistas”, fl. 5 e ss
61

eram pagos com produtos comuns do comércio de escravos, as fazendas e a jeribita84, por
exemplo. Os soldados mal preparados para os confrontos militares, parcamente remunerados,
se inseriam nas redes comerciais, comprando mantimentos e escravos85. Em 1760, o Conde de
Oeiras determinou o envio 60 casais das Ilhas da Madeira para o Reino de Angola, em uma
nova tentativa de promover o estabelecimento de colônias pelos sertões próximos de Luanda.
Nossa contribuição é ressaltar como a Coroa usou o degredo para enviar para
Angola trabalhadores especializados, oficiais mecânicos e técnicos.
Além disso, no Setecentos também foram enviadas famílias ciganas para Angola,
em alguns casos mais de uma geração foi degredada. Em Portugal, desde as Ordenações
Manuelinas (1514-1521) foram promovidas políticas discriminatórias contra os ciganos: não
podiam ocupar cargos públicos, religiosos e receber honrarias. As medidas restritivas se
intensificaram levando a sua expulsão da metrópole em 1526, e às penas ao degredo para
aqueles que não cumprissem os prazos em que deveriam deixar o reino. Se em um primeiro
momento, seu destino era o Brasil, no século XVIII, como vimos, o porto de desembarque
passou a ser Luanda. O Senado da Câmara de Luanda, em 1720, publicou uma série de
posturas proibindo que ciganos usassem seus “mantos”, seus xales pretos e demais trajes que
eram considerados indecorosos86.

84
Aguardente. Sobre o amplo emprego da jeribita como moeda de troca no tráfico de escravos, ver: José C.
Curto, Alcohol and Slaves: the Luso-Brazilian Alcohol Commerce at Mpinda, Luanda, and Benguela during the
Atlantic Slave Trade c. 1480-1830 and its impact on the societies of West Central Africa. Tese (Doutorado) –
Universidade da Califórnia, Los Angeles, 1996. Sobre o comércio de tecidos na África Centro-Ocidental, ver:
Telma Gonçalves Santos, Comércio de tecidos europeus e asiáticos na África Centro-Ocidental: fraudes e
contrabando no terceiro quartel do século XVIII. Dissertação (Mestrado) – Universidade de Lisboa, 2014.
85
Roquinaldo Ferreira, Transforming Atlantic Slaving. Trade, Warfare and Territorial Control in Angola, 1650-
1800. Tese (Doutorado) - University of California, Los Angeles, 2003, p. 145-153. FISC, “Memórias do Reino
de Angola e suas conquistas”, fl. 5 e ss. Sobre o povoamento branco no Reino de Angola, o Conde de Oeiras
disse: “Se tem quase extinto naquele reino os brancos que a ele foram transportados; morrendo uns de fome e
miséria na cidade e suas vizinhanças, acabando outros nos sertões fugitivos e vagos; e vindo assim a prevalecer
os negros de tal sorte que ainda poucos brancos que existem olham para as mulheres da Europa com estranheza,
como extraordinárias, preferindo por quase geral abuso o consórcio das negras”. Parecer que o Conde de Oeiras
apresentou a Sua Majestade sobre o que ainda falta para se restituir a Agricultura, Navegação, e o Comércio de
Angola contra os monopólios vexações e desordens que fizeram os objetos das leis de 11 e 25 de janeiro de
1758. Lisboa, 20 de novembro de 1760. AHU, Cód. 555, fl. 56-57. Nesse período, Angola e Moçambique se
tornaram então os principais destinos dos sentenciados ao degredo, temporário ou perpétuo. Um elevado número
de infrações recebia essa punição: crimes de lesa-majestade (contra o Estado), falsificação de moedas e crimes
contra o cidadão – roubo ou invasão de domicílio, por exemplo. Ademais, esta pena também era largamente
utilizada pelo Tribunal do Santo Ofício, sobretudo nas sentenças contra os judaizantes. A ameaça de ser banido
para os territórios portugueses na África foi uma arma importante utilizada pela administração portuguesa.
Angola em especial era vista como a “própria residência da morte” pelo seu clima maligno, doenças
desconhecidas, nativos hostis”. Sobre a pena do degredo, ver: Timothy J. Coates, Degredados e órfãs:
colonização dirigida pela Coroa no Império português, 1550-1755. Lisboa: Comissão Nacional para as
Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998; Tânia Macedo, Angola e Brasil: estudos comparados.
São Paulo: Arte & Ciência, 2002, p. 22 e ss.
86
Selma Pantoja, “Inquisição, degredo e mestiçagem em Angola no século XVIII”. Revista Lusófona De Ciência
Das Religiões, n. 5 e 6, 2004, p. 120.
62

Estes brancos que sobreviviam, ao se relacionarem com as populações locais,


deram origem aos luso-africanos. A historiografia atenta para o fato de que, ao longo do
tempo, se constituiu, especialmente em Luanda, uma elite formada por famílias de luso-
africanos. Eles eram independentes dos sobados e, ao controlar canais ligados ao tráfico
transatlântico, estabeleceram fortes ligações com as elites brasílicas. Um grupo “muito
heterogéneo e difícil de delimitar, que incluía sobretudo africanos negros (grande parte deles
antigos escravos) e ‘mestiços’, mas também alguns brancos”, como descreveu B. Heintze87.
Os luso-africanos estabeleciam ligações familiares que buscavam articular a elite camarária e
a colonial, beneficiando-se, assim da “acumulação de cargos da administração local com
cargos da administração central e dos presídios; o exercício de funções militares e
especialmente a participação em ações de Conquista”. Outra característica desta elite mestiça
era “o fato de estes homens serem grandes proprietários de terras, cujo produto abastecia
Luanda, e de, assim, serem também grandes proprietários de escravos”88.
Muitos escravos e libertos se engajavam em ofícios mecânicos (pedreiros,
carpinteiros, ferreiros), se tornaram curas ou ngangas*, sangradores, barbeiros, quitandeiras,
peixeiras, enquanto donos ou trabalhando em tavernas89. Essas figuras eram rotineiras em
Luanda.
Tendo em vista a magnitude do tráfico de escravos em Angola setecentista, as
personagens que se envolveram no comércio itinerante pelos sertões são fundamentais para
compreender as hierarquias sociais que se formaram neste contexto. Os sertanejos eram em
grande parte degredados, antigos marinheiros do Brasil e Portugal, e “filhos da terra”, como
eram chamados os nascidos localmente, inclusive as mulheres. Quando trabalhavam junto às
feiras locais, também eram chamados de feirantes, e supervisionavam o transporte e a venda
de mercadorias importadas (tecidos indianos, armas, jeribita) no interior de Angola. O
comércio sertanejo era patrocinado por comerciantes de Luanda e Benguela que consignavam
estes produtos aos sertanejos, que depois os vendiam aos africanos nos sertões e os trocavam
por escravos. Exímios conhecedores dos sertões, o sucesso de sua empreitada dependia da
associação com os capitães-mores e com sobas90. Muitos sertanejos enriqueciam e

87
Beatrix Heintze, “A lusofonia no interior da África Central na era pré-colonial. Um contributo para a sua
história e compreensão na atualidade”. Cadernos de Estudos Africanos, n. 7 e 8, 2005, p. 12.
88
Catarina Madeira Santos, “De ‘antigos conquistadores’ a ‘angolenses’”. Cultura, v. 24, 2007, p.5.
89
Suely Creusa Cordeiro de Almeida. “O feminino ao leste do Atlântico. Vendeiras, regateiras, peixeiras e
quitandeiras: mulheres e trabalho nas ruas de Lisboa e Luanda (séculos XVI-XVIII)”. In: Roberto Guedes (org.).
África. Brasileiros e portugueses, século XVI-XIX. Rio de Janeiro: Mauad X, 2013, p. 207-227; Roquinaldo
Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, cap.4.
90
Joseph Miller, Way of death, p. 271-272; Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World,
p. 32-34.
63

comerciavam em proveito próprio negligenciando as dívidas contraídas na Costa, como


denunciou Silva Correa: “o sertanejo carregado de dívidas e despido de virtudes se considera
em melhor estado que o precedente (...). Desliga-se no foro interno da obrigação de devedor,
conservando só as aparências, enquanto aplica os ganhos do comércio em vantagem
própria”91.
As condenações morais às posturas e a inabilidade dos sertanejos, que seriam bem
distantes dos padrões europeus, estão presentes em outras fontes setecentistas. Quando o
governador Sousa Coutinho escolheu Antonio Anselmo Duarte como intendente geral das
fábricas de ferro, justificou sua escolha por ser ele um sertanejo: “é certo que sendo preciso
quem faça aquele serviço com habilidade só se pode esperar inteiramente de um europeu, por
ora faço servir de intendente um velho sertanejo, que faz o que pode compreender”. O
governador alertava que o sertanejo deveria “ter ordenado suficiente para que [fosse] proibido
de comerciar”, pois isso o desviaria dos serviços da fábrica92.
Roquinaldo Ferreira cita outras categorias de pessoas livres e escravizadas que
trabalhavam no tráfico itinerante de cativos, como os quissongos (“pretos livres que trabalham
para homens brancos e escoltam africanos escravizados do interior para a Costa93”). Os
pumbeiros* eram os principais agentes do tráfico, o nome deriva do temo que os portugueses
de Angola usavam para denominar os mercados do Reino do Kongo. O governador Miguel
Antonio de Melo, em 1798, explicava em uma carta para o secretário do Conselho
Ultramarino que “pumbeiros se denominam em ambas a ditas línguas [Benguela e Ambunda]
os negros que levam fazendas e gêneros do comércio tomados no sertão das mãos dos
feirantes brancos para vender a outros pretos nas suas terras”. Para o governador, esses
agentes eram “mais ladrões que comissários volantes e causam ao comércio em geral grande
dano pelos furtos que cometem e pelos que facilitam aos feirantes”94.

91
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, v. I, p. 35.
92
Carta de FISC a Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e ultramar,
informando sobre o estabelecimento da real fábrica do ferro. São Paulo de Assunção de Luanda. 29 de dezembro
de 1766. PADAB, IHGB 126, DVD10,20 DSC00396. Antonio Duarte de Siqueira havia se destacado no
comando de expedições militares contra os potentados “Ambuíla, Muçosos, Maungos”. “Catálogo dos
governadores do Reino de Angola”, p.417.
93
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 59; Joseph Miller, Way of death, p.
189-190, 271-272. Em 1798, o governador do Reino de Angola definiu quissongos como os que se chamam “os
Benguelas na sua linguagem pretos que isentos do cativeiro servem homens brancos e regem outros negros
escravos”. Carta do governador Miguel Antonio de Melo para Rodrigo de Sousa Coutinho. São Paulo de
Assunção de Luanda, 30 de abril de 1798. In: Arquivos de Angola, v. I, n. 6, 1936, p. 325.
94
Carta do governador Miguel Antonio de Melo para Rodrigo de Sousa Coutinho. São Paulo de Assunção de
Luanda, 30 de abril de 1798. In: Arquivos de Angola, v. I, n. 6, mar. /1936, p. 325.
64

Também eram conhecidos como funadores, do verbo funar que nas línguas locais
significava “negociar comprando e vendendo”95. Essas personagens compartilhavam padrões
culturais e sociais com suas vítimas e por isso o “sucesso de seu negócio” dependia da
manipulação destes símbolos para se distinguirem dos escravizados. Um destes sinais de
diferenciação era o uso de calçados, neste caso, os comerciantes passavam a ser chamados
“negros calçados” e eram considerados brancos. Muitos se valiam do novo status social para
se livrarem das obrigações que deviam aos portugueses enquanto seus vassalos, negando-se,
por exemplo, a prestarem serviço como carregadores das mercadorias dos feirantes96. Essa
personagem é um exemplo de como a cor se relacionava com outras condicionantes que não
só a tonalidade da pele e, por outro lado, como os africanos e seus descendentes estavam em
constante risco de escravização.

1.4. Vassalagem e tributos

Segundo Vansina, a centralização do Reino do Ndongo ocorreu paulatinamente


ao redor da autoridade do ngola por meio da conquista dos sobados da região. Um processo
que dependeu muitas vezes do uso da força ao mesmo tempo em que garantiu grande
autonomia política dos líderes locais dentro de suas terras97. De acordo com os documentos da
Companhia de Jesus, de 1582 a 1610, estudados por Heywood e Thornton, 736 sobados
estavam sob a soberania da insígnia do ngola no século XVII98. Portanto, os sobas antes de
conhecerem o senhorio do rei de Portugal prestavam homenagens ao ngola, cujo o poder
político era comprovado pela tributação das províncias sob seu domínio. Em contrapartida à
fidelidade dos sobas, o soberano garantia a proteção contra a invasão de inimigos e
estrangeiros e, por meio dos seus poderes sobrenaturais, a fertilidade da terra, já que
controlava as chuvas. Os tributos que os chefes das linhagens deviam ao ngola eram
conhecidos como luanda*, futa* e vestir*, pagos em produtos, principalmente em escravos,
cereais, animais, mel e óleo99.

95
Carta do governador Miguel Antonio de Melo para Rodrigo de Sousa Coutinho. São Paulo de Assunção de
Luanda, 30 de abril de 1798. In: Arquivos de Angola, v. I, n. 6, mar. /1936, p. 325.
96
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 61-63.
97
Jan Vansina, How societies are born: governance in West Central Africa before 1600. Charlottesville:
University of Virginia Press, 2004, p. 200 e ss.
98
Linda Heywood, John Thornton, Central Africans, Atlantic Creoles, and the Foundation of the Americas,
1585-1660, p. 73
99
Aida Freudenthal, Selma Pantoja (ed.). Livro dos Baculamentos: que os sobas deste Reino de Angola pagam a
Sua Majestade (1630). Luanda: Ministério da Cultura e Arquivo Nacional de Angola, 2013, p. 1-23.
65

Quando da conquista portuguesa, o capitão donatário Paulo Dias Novais recebeu,


pela Carta de Doação, a prerrogativa de doar terrenos (as sesmarias) com a condição de serem
lavrados. Os beneficiados da Sociedade de Jesus foram os mais favorecidos na divisão das
terras doadas. Essas porções do território do antigo Reino do Ndongo englobavam “chefados
inteiros com suas fronteiras próprias e incluíam todos os seus habitantes e respectivos
bens”100, inclusive rios que eram usados para os mais diversos fins: irrigação, moinhos, entre
outros. Como as fortunas dos portugueses passaram a depender cada vez mais do tráfico de
escravos, a doação passou a ser conhecida como “doação de sobas” ou “repartição de sobas”.
O domínio passava da terra para as pessoas e mais valia comerciar os súditos dos sobas que
foram sendo avassalados, do que empregá-los na agricultura, por exemplo. Em síntese, assim
ocorreu a formação do “sistema de amos”, como eram chamados os religiosos ou seculares
que se tornavam donos das terras e das gentes que nelas habitavam101.
Diante da exploração dos colonos que, mais que nos frutos da terra, estavam
interessados no comércio de cativos, os sobas, por seu turno, perdiam prestígio perante seus
dependentes. Para saldar os tributos exigidos pelo amo, os chefes eram obrigados
constantemente a provocar razias em povoados vizinhos, inventar crimes que seriam punidos
com a escravidão ou expulsar grupos de infratores para depois escravizá-los - o que trazia
insegurança e fragilidade para o interior dos sobados. A contrapartida dos amos, sejam os
seculares, sejam os jesuítas, era inexistente, não se responsabilizavam nem pela instrução,
nem pela proteção dos chefes tutelados, como pregavam a lei e os preceitos religiosos dos
jesuítas.
Para alguns autores, a instituição de amos era uma tradição Ambunda antiga, e
representava a constituição de intermediários entre estrangeiros e a comunidade, ajudando “o
recém-chegado a adaptar-se ao novo ambiente”, além de evitar que este “agisse de forma
incorreta ou ferisse os costumes locais”102. Já B. Heintze considera que essa interpretação é
um equívoco, uma vez que, nas fontes que elucidam as relações entre amos e sobas, fica

100
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 251. A autora comenta a questão da terra em diferentes
momentos, ver principalmente: p. 250-273. Ver também: Ilídio do Amaral. O consulado de Paulo Dias de
Novais: Angola no último quartel do século XVI e primeiro do século XVII. Lisboa: Ministério da Ciência e da
Tecnologia/ Instituto de Investigação Científica Tropical, 2000.
101
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 255.
102
Alberto da Costa e Silva, A manilha e o libambo. A África e a escravidão, de 1500 a 1700 (2 ª ed.). Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 417 e ss. Catarina Madeira Santos, Um governo “polido” para Angola. “Os
possuidores dos sobados cobravam aos chefes africanos tributos, quer sob a forma de escravos, géneros ou
serviços. Do ponto de vista africano, a aceitação desta subordinação parece derivar de uma instituição
assimilável no reino de Ngola, onde os sobas tinham na corte um “grande” que era seu protetor ou ‘amo’. O
papel dos conquistadores, estabelecidos junto de Dias de Novais terá sido inicialmente associado a esse protetor
Ambundo residente na corte do Ngola”, Idem, p. 116.
66

patente que essa seria uma das justificativas dos próprios jesuítas para exercer seu domínio
sobre os sobados e arrecadarem tributos103. É muito importante levar em conta que,
provavelmente, não havia uma referência africana para a existência dos amos, que foi uma
instituição criada pelos agentes da Coroa, os jesuítas e os particulares. Isso porque essa forma
de legitimar um mecanismo de exploração e domínio pautando-se em características internas
das sociedades Ambundas se repetiu ao longo do tempo, como veremos.
Após a morte de Paulo Dias de Novais, que não deixou herdeiros, a Coroa enviou
para Angola o licenciado Domingos de Abreu Brito que foi responsável por avaliar a situação
econômica da conquista. Abreu Brito determinou que a ocupação do território e sua
administração deveriam ocorrer por meio da criação de um governo-geral, o que aconteceu
em 1591. Uma das razões desta mudança foi o fato de a Companhia de Jesus e os conquistares
particulares estarem enriquecendo e aumentando seu prestígio político, o que não promovia
maiores arrecadações para a Fazenda Real e era contrário à centralidade da figura do rei como
figura ordenadora em uma sociedade corporativa. Flávia Carvalho considera que “a extinção
do sistema de amos e a implementação da cerimônia de vassalagem representou uma
estatização, conduzida pela Coroa portuguesa, do poder [dos amos] exercido sobre os sobas”.
A necessidade de um maior controle fiscal sobre as transações no interior também foi um
importante fator na instituição da vassalagem dos sobas diretamente ao rei português104.
Os tratados de vassalagem têm sido documentos revisitados constantemente pela
historiografia. Beatrix Heintze foi pioneira no estudo exaustivo deste fenômeno e dos tipos
documentais que gerou. Para ela, termo “vassalo” foi introduzido pelos portugueses no
ultramar como um instrumento de poder, por meio do qual os chefes de linhagens passaram “a
ser vassalos do rei de Portugal num procedimento legal, documentado e reconhecido,
realizado na presença de testemunhas”, configurando um “tipo de dependência interestadual”.
Ao vencido cabia prometer cumprir todas as condições impostas, prestar juramento de
fidelidade e obediência. Em contrapartida, aos vencedores cabia a “promessa de proteção e a
investidura”. A autora ainda diferencia a “vassalagem voluntária”, quando os chefados por
razões políticas ou econômicas procuravam por iniciativa própria aliar-se aos portugueses, da
vassalagem imposta pela força das armas. Pontua, porém, que o primeiro caso era menos
frequente. A regra foi a condição de vassalo ser imposta às lideranças locais, de modo que os

103
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 262. Os jesuítas “remetiam para a existência de uma
organização africana correspondente, afirmando que a instituição dos amos tinha sido copiada dos intermediários
tradicionais dos Mbundu: uma derivação muito citada até aos tempos mais recentes, que – mesmo que esses
intermediários tivessem existido de uma forma institucionalizada – se tornou insustentável face aos nossos
conhecimentos atuais”.
104
Flávia Maria de Carvalho, Sobas e homens do rei, p. 81 e 82.
67

portugueses ditavam os códigos contratuais105. No topo da lista dos deveres estava o serviço
militar, sem ele a manutenção da presença portuguesa em Angola seria insustentável. Além
disso, o vassalo não poderia “fazer guerras nem conquista alguma, nem consentir que outros a
façam a soba vassalo algum que for da Coroa, antes a estes deve amparar até ordem do
governo”106.
O direito de passagem gratuita e livre também era obrigatório, o soba avassalado
deveria “dar livre e desembargada entrada em suas terras e senhorios a todos os portugueses
ou seus pumbeiros”107, além dos missionários. Outro item se referia à entrega de todos os
escravos fugidos dos portugueses que buscassem abrigo em seus territórios. Isso mostrava o
forte caráter mercantil desta relação de dependência, marcada pelos interesses do tráfico de
escravos.
Em resumo, o soba selava sua vassalagem perante um representante do rei, o
governador, ou o mais frequente, o capitão-mor do presídio a que passava a ser “lotado”, ou
se encontrava “anexo”, no sentido de subordinado. O contrato era, então, assinado na fortaleza
mais próxima. Havia um procedimento simbólico que marcava a conclusão do processo, uma
celebração que incorporava rituais da entronização de um novo governante da cultura dos
Ambundos – o undamento.
Na cerimônia perpetuada pelos portugueses, undar o novo vassalo significava
“deita[r] farinha (ou barro branco) sobre os ombros do chefe africano que a esfregava pelo
peito e pelos braços. Os sucessores da linhagem do soba avassalado deveriam se submeter à
investidura, assim que escolhidos pelos makota, caso contrário seriam considerados rebeldes
e, assim, passíveis de punição108. Assim, de parte da cerimônia, o undamento passou a ser
sinônimo da própria vassalagem.
Como os sobas viam as relações de vassalagem? Para Flávia Carvalho, os sobas,
na medida do que lhes foi possível, utilizaram o avassalamento “como estratégia de defesa e
de alianças militares contra inimigos comuns”109. A sociedade de Antigo Regime estava
pautada no conceito de desigualdade social, assim como as próprias hierarquias Ambundas
não se assentavam em um conceito de igualdade social. Dessa forma, a submissão ao rei de

105
Beatrix Heintze. Angola nos séculos XVI e XVII, p. 395 e ss.
106
Auto de vassalagem de Dona Isabel, regente de Ambuíla. São Paulo de Assunção de Luanda, primeiro de
julho de 1664. Monumenta Missionária Africana (CD) - SI - V12_d203.
107
Beatrix Heintze. Angola nos séculos XVI e XVII, p. 398.
108
Idem, Ibidem.
109
Flávia Maria de Carvalho, Sobas e homens do rei, p. 23.
68

Portugal ainda que pressupondo uma reciprocidade assimétrica permitia alguma margem de
ação porque estava pautada na ideia de interdependência110.
Catarina Madeira Santos considera que os tratados mantiveram razoavelmente as
mesmas fórmulas de escrita desde o século XVII até a década de 1920 e “esta continuidade
textual e institucional exigiu um exercício intenso da cultura da vassalidade e contribuiu de
forma decisiva para uma vulgarização de todo o vocabulário jurídico-político de raiz feudo-
vassálica”111. Contudo, no século XVIII, estes autos se tornam mais menos frequentes, sendo
retomados com mais intensidade na segunda metade do século, o que por si só já é uma
mudança significativa112. De acordo com Madeira Santos, há que se considerar que, na
segunda metade do Setecentos, com as novas ordenações estabelecidas pelo conde de Oeiras e
postas em prática principalmente por Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, no Reino de
Angola, os tratados de vassalagem passaram “de instrumentos jurídicos propiciadores da paz,
a instrumentos de civilização”113.
Outro aspecto desta mudança estava na necessidade de controlar os deslocamentos
dos sobados. A pretensão de sedentarizar as populações africanas se relacionava às guerras de
conquista. Na segunda metade do século XVIII, os tratados passaram a determinar que, após
derrota e o avassalamento, os sobas voltassem às suas terras - o que ligava os sobados à
jurisdição de um presídio, reforçando a política de povoamento e territorialização. Essa era
uma medida com estratégias delineadas: a manutenção da paz e a ocupação do território
favoreciam o tráfico de escravos e afugentavam as investidas de outras nações europeias no
território114. Flávia Carvalho entende a política de interiorização dos portugueses nos sertões
a partir de outra perspectiva; atenta às determinações locais, a autora considera que a
penetração só foi possível por meio das alianças com sobas, pois a cronologia dos autos de
vassalagem seria representativa do avanço da ocupação colonial115.

110
Ariane Cruz estudando as cartas patentes conferidas aos sobas e também a outros africanos e luso-africanos
mostra uma outra forma de incluir essas pessoas na administração portuguesa, ressaltando que não somente a
violência pautou a relação com o poder colonial. Existiram “negociações, apropriações, reconhecimento e
legitimação”. Ariane Carvalho Cruz, Militares e militarização no Reino de Angola: patentes, guerra, comércio e
vassalagem (segunda metade do século XVIII). Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro, 2014, p. 83.
111
Catarina Madeira Santos, “’Escrever o poder’. Os autos de vassalagem e a vulgarização da escrita entre os
africanos: o caso dos Ndembu em Angola (séculos XVII-XX)”. International symposium Angola on the Move:
Transport Routes, Communication, and History, Berlin, 24-26, 2003, p. 3.
112
Flávia Maria de Carvalho, Sobas e homens do rei, 2015 e Beatrix Heintze. Angola nos séculos XVI e XVII,
2007.
113
Catarina Madeira Santos, Um governo "polido" para Angola, p. 128.
114
Idem, p. 123 e 136.
115
Flávia Maria de Carvalho, Sobas e homens do rei, 23.
69

No âmbito desta tese, estes documentos ajudam a compreender como, no decurso


dos séculos, a obrigatoriedade da prestação de serviços por parte dos súditos dos sobas
avassalados se instituiu. Este é um tema caro ao nosso estudo, que focaliza o trabalho dos
dependentes dos sobas vassalos. Carlos Couto e Catarina Santos chamaram a atenção para o
tema116, contudo, em geral a bibliografia sobre o assunto não se detém nas formas de
regulamentação do trabalho dos súditos descritas nos autos.
Com a edição e publicação do Livro dos Baculamentos é possível entender quais
eram os tributos que os sobas deviam ao rei de Portugal, no início do século XVII, já que o
primeiro auto de undamento de que se tinha notícia é de 1664117. O termo baculamento (do
kimbundu, bakula, pagar tributo) foi incorporado pelos portugueses e se transformou, de
modo aportuguesado, no verbo bacular. Os funcionários régios estabeleciam o local, o mês e
as quantias cobradas, se comprometiam ainda a entregar recibos dos valores recolhidos, a não
cometer extorsões e a auxiliar os sobas em caso de guerra. O registro dos baculamentos
constituía a base para sujeitar as chefias africanas a um novo sistema fiscal118.
Nos baculamentos, os sobas avassalados assinavam um documento diante de
testemunhas africanas e portuguesas, atestando que o tributo que entregavam correspondia ao
que antes costumavam pagar ao ngola. Por exemplo, na província conhecida como Museke
(próxima à Costa), em julho de 1619, o soba Kambambe “se obrig[ou] por si e todos seus
sucessores a dar de tributo e baculamento” todos os anos a El-Rei, “cuja vassalagem tem
jurado em presença do senhor governador pelo modo da terra”; Kambambe entregava “10
peças d’índias e vinte [bodes] capados e 10 enseques de massa [sacos de massambala, sorgo],
que é o mesmo tributo e baculamento que seus antecessores costumavam a pagar a El-Rei de
Angola”119. O auto foi assinado no presídio de Muxima pela chefia, o intérprete (tandala) - já
que Kambambe não falava português – o capitão-mor do presídio e outros funcionários
régios.
O soba Kambambe foi derrotado pelos portugueses no começo do século XVII,
em uma batalha motivada pelas supostas minas de prata que o soba guardava. No final do

116
Carlos Couto, Os capitães-mores em Angola no século XVIII. Subsídio para o estudo da sua actuação.
Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1972, p. 245-252; Catarina M. Santos, Um governo
“polido” para Angola, p. 123, nota 314 e p. 129.
117
Auto de vassalagem ao rei de Portugal de Dona Isabel, regente de Ambuíla. São Paulo de Assunção de
Luanda, primeiro de julho de 1664. Monumenta Missionária Africana (CD) - SI - V12_d203.
118
Aida Freudenthal, Selma Pantoja (ed.). Livro dos Baculamentos, p. 15-23. Ver também: Aida Freudenthal,
“Sobas, conquistadores e ‘peças d’Índias’, 1619-1630”. In: Selma Pantoja, Estevam C. Thompson (org.). Em
torno de Angola: narrativas, identidades e as conexões atlânticas. São Paulo: Intermeios, 2014, p.69-87.
119
“Auto que mandou fazer o ilustríssimo senhor governador Luís Mendes de Vasconcelos do tributo e
baculamento que se obriga a dar a cada um ano para a fazenda de Sua Majestade (...)”. Presídio de Nossa
Senhora da Assunção [Muxima], 29 de julho de 1619. Livro dos Baculamentos, p. 87.
70

século, o soba foi descrito por Cadornega como o “cabeça” (nkanda) de outros sobas, “que
chamam do Ganga”. Kambambe conseguiu manter seu poderio, pois os governava com
grande prestígio, com “insígnia de bastão”120. A quantia e qualidade dos tributos são
indicativos do poder político e econômico dos sobas, Kambambe devia “10 peças da Índia”
(homem adulto saudável, “os que valem mais que os outros”)121, uma das maiores coletas
registrada entre os contribuintes de Museke. É claro que não chegava perto da quantia de 100
peças que Ngola Hari, o soberano do Ndongo, se obrigava entregar quando se tornou vassalo
da Coroa, em 1626122. Não consta no auto de vassalagem do ngola qualquer referência ao
envio sistemático de seus súditos para trabalhar para os portugueses.
Outras chefias menores pagavam apenas alguns sacos de sorgo, como o soba
Kakombe ka Katwa, da Ilamba123. O documento que determina as obrigações desse líder é um
pouco diferente do anterior. Neste caso o “capitão e recebedor”, Bento Rebelo, foi até a banza
de outro soba, Kyambata, provavelmente já avassalado, e chamou Kakombe, que atendendo
diligentemente o encontrou, e ali foi selada a vassalagem. O capitão ainda anotou que “o soba
era muito pobre e pequeno e que não podia dar mais coisa alguma”. Neste caso o intérprete
foi Diogo Dias.
As editoras do documento mostram que houve resistência à execução destes
tributos e que o controle das cobranças era muitas vezes precário. Citam, por exemplo, a fuga
de muitos sobas para junto de governantes mais poderosos ou para longe dos caminhos
conhecidos pelos portugueses, para a mata; nestes casos, os cobradores registravam “não se
encontra este soba”. Havia sobas como Kitexi que no undamento se comprometeu com
apenas uma “peça d’Índia” por “lhe terem dado guerra e estar a sua terra destruída e a gente
dele fugida para Matamba e outras partes”124. Em outros casos, o soba já não estava sob o

120
Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas (1680), v. III, p. 242. Kambambe não fazia
parte dos sobas do presídio de mesmo nome que serviam nas fábricas de ferros, no século XVIII. Devido à sua
importância, é de se imaginar que se ainda existisse no avançar do Setecentos, as autoridades coloniais teriam
solicitado o auxílio de seus dependentes, esse chefado é um exemplo da desestruturação política que se seguiu à
conquista e às cobranças de tributos.
121
Nessa época, a grande parte dos escravos tinha como destino as plantações de açúcar no Brasil. Até a
ocupação holandesa (1630-1654), os preços variavam de 9 a 20 mil réis. Joseph Miller, “Slave Prices in the
Portuguese South Atlantic, 1600-1830”. In: Paul Lovejoy (ed.), Africans in Bondage: Studies in Slavery and the
Slave Trade. Madison, University of Wisconsin: 1986, p. 48. O preço das “peças da Índia” variou de 22 mil réis,
em 1696, para 44 mil réis em1701 (levando em conta a descoberta do ouro em Minas Gerais, em 1695).
Roquinaldo Ferreira, Tranforming Atlantic Slaving, 2003.
122
Aida Freudenthal, Selma Pantoja (ed.). Livro dos Baculamentos, p. 186-190.
123
Termo de baculamento do soba Kakombe ka Katwa. Banza de Kyambata, 11 de junho de 1621. Idem, p. 114.
124
Idem, p. 193.
71

poderio português, estava em rebelião, por isso o cobrador indicava “está alevantado e não
paga”125.
Para os nossos objetivos, não é necessário trazer outros exemplos do Livro dos
Baculamentos; por hora basta dizer que em nenhum documento é citada qualquer obrigação
de prestação de serviço para funcionários régios ou moradores dos presídios, não importando
se os sobas eram poderosos, “pequenos” ou o próprio Ngola. Portanto, o trabalho dos
dependentes dos sobados não consta nos undamentos nem nos baculamentos que deviam aos
representantes da Coroa. Outro ponto a ser destacado é que os capitães-mores e os
“recebedores” dos tributos assumiam posição chave tanto no momento de confecção e
assinatura dos autos, quanto na recolha das mercadorias.
Os autos de vassalagem de Dona Isabel, regente de Ambuíla (na região dos
Ndembu), e do Duque do Wandu (ao norte dos Ndembu) não trazem especificações sobre
relações de trabalho126. No primeiro, de 1664, as obrigações de Dona Isabel eram basicamente
não permitir que emissários do Kongo, Nzinga ou outro Ndembu passassem por suas terras
(provavelmente, para comerciar ou estabelecer relações diplomáticas). O segundo, de 1666,
documento é mais descritivo, o Duque de Wandu prometia entregar as minas que existiam nas
suas terras, permitir a passagem por seu território, dar socorro “com sua pessoa e armas” aos
presídios, fortalezas, “acampar seus exércitos sendo necessário”. Em contrapartida, o rei de
Portugal garantia proteção militar e tratar o duque com justiça, “a ele e a todos os seus
vassalos”. Além de reconhecer os “foros, privilégios, honras e estatutos” do vassalo.
O interessante no segundo auto é que era condição para a vassalagem não só a
conversão à fé católica, mas também que o duque procurasse “um capitão [capitão-mor] para
o que for do serviço d’El rei”. Mais uma vez, o capitão-mor é uma figura central. Mesmo em
relação ao potentado de Wandu, que tinha uma lista maior de obrigações, não há nenhuma
menção de que deveriam prestar auxílio com o trabalho especificamente.

125
Idem, p. 20. Estes tributos foram extintos em janeiro de 1650, por Salvador Correia de Sá por considerar que
os tributos abusivos seriam uma das causas da rebelião dos sobas contra os portugueses quando da chegada dos
holandeses. Beatrix Heintze, “Luso-African Feudalism in Angola?” The Vassal Treaties of the 16th to the 18th
Century”. Separata da Revista Portuguesa de História, v. 18, 1980, p. 123. Contudo, há referência a eles em
documentos do início do século XVIII, o que mostra que havia distâncias entre as determinações da Corte e a
prática da administração no sertão de Angola. Carta [provedor da Fazenda Real de Angola], Rodrigo da Costa
Almeida, ao rei [D. Pedro II] remetendo uma relação do dinheiro enviado ao provedor-mor da Baía, Francisco
Lamberto, desde 1702, por conta da moeda de cobre, dos baculamentos, dos direitos dos oficiais e da piparia
que vieram com o governador Bernardino de Távora, bem como dos quintos e direitos das aguardentes. São
Paulo de Assunção de Luanda, dois de janeiro de 1704. AHU_CU_001, Cx. 19, D. 1977.
126
Auto de vassalagem de Dona Isabel, regente de Ambuíla. São Paulo de Assunção de Luanda, primeiro de
julho de 1764. Monumenta Missionária Africana (CD) - SI - V12_d203. Auto de vassalagem do duque de
Wandu, s/l, 11 de janeiro de 1666. Monumenta Missionária Africana (CD) - SI - V13_d001.
72

Em 1654, o “rei do Ndongo” escreveu ao rei de Portugal reclamando que sofria


“falta de vassalos” porque os seus haviam sido “usurpados” e empregados pelos portugueses e
colonos, sem o seu consentimento. O abuso gerou grande apreensão junto aos outros vassalos
do ngola, que viviam “com grande descrédito e risco”, temendo o mesmo destino. O rei
português ordenou que os vassalos fossem restituídos e os que haviam morrido fossem
ressarcidos. Acrescentou ainda que “os serviços” prestados fossem pagos. Por fim, deixou
uma recomendação ao governador:
“em nenhuma maneira consintais que meus vassalos ocupem os do dito rei
em coisa alguma, sem lhes pagarem seu trabalho e serviços, assim nas
cargas, como nos mantimentos, tudo por justos preços e sem se lhes fazer
violência”127.

A Coroa portuguesa, portanto, não reconhecia como direito de conquista a


prestação de trabalho gratuita dos súditos das autoridades africanas, tampouco que fossem
obrigados ao trabalho ou tratados com “violência”. Por outro lado, a determinação real
permite aventar que a cooptação do trabalho dos dependentes dos sobados, de africanos livres,
por moradores dos presídios e funcionários régios já era comum desde o início da conquista.
O governador Sousa Coutinho quis compreender se o trabalho gratuito dos
“filhos” (súditos) dos sobas vassalos era uma obrigação prevista nos autos de vassalagem – o
governador queria conhecer os “termos e autos de undamento que deram fundamento aos
serviços que faz[ia]m os sobas”. Ele recorreu aos capitães-mores e requisitou que
procurassem pelos autos nos documentos dos presídios. Isso foi feito “inventariando todas as
mais obrigações assim de darem trabalhadores para o real serviço, conserto de igrejas, entrega
de cartas, azeite para os corpos das guardas e o mais que constar verdadeiramente dos livros
de registros a este respeito”. O rol produzido em 1770 apresenta informações sobre 39
chefados128.
Em geral, os capitães-mores responderam com resumos dos undamentos. Alguns
alegaram que os papéis se perderam, que a única cópia tinha ficado com o soba avassalado, o

127
Carta de El-Rei de Portugal ao governador geral de Angola. Lisboa, 17 de agosto de 1654. Monumenta
Missionária Africana (CD) -SI-V11_d132. Esse documento é analisado por José Curto em: José C. Curto, “A
restituição de 10.000 súditos Ndongo ‘roubados’ na Angola de meados do século XVII: uma análise preliminar”.
In: Isabel Castro Henriques (ed.). Escravatura e transformações culturais. África - Brasil - Caraíbas. Lisboa:
Editora Vulgata, 2002, p. 185-208. Sobre o serviço dos carregadores, Alfredo Margarido destaca que o primeiro
regimento dos governadores, de 1666, já proibia que seu trabalho fosse gratuito. Alfredo Margarido, “Les
Porteurs : forme de domination et agents de changement en Angola (XVIIe-XIXe siècles)”. In: Revue française
d'histoire d'outre-mer, tome 65, n°240, 3e trimestre 1978. p. 377-400.
128
Carta que Sua Excelência [FISC] escreveu aos capitães-mores de todos os presídios e distritos sobre o
undamento dos sobas, ilamba e mais potentados. São Paulo de Assunção, três de outubro de 1770.
AHU_CU_001, Cx. 55, D. 6 e 7.
73

que mostra que, a rigor, esses tratados não eram revisitados pelo capitães-mores. No Icolo,
por exemplo, o regente anotou que “revendo o livro de registro, nele não achou termos, nem
atos de undamentos de sobas”.
O regente do distrito de Kwanza respondeu que “todo o serviço que fazem os
sobas dele [do distrito] é pago à risca e não são undados como são os dos presídios, nem
também consta por donde dessem princípio a obrigações particulares”. A malha
administrativa do hinterland de Luanda contava com as fortalezas, os presídios onde os sobas
juravam sua fidelidade, e com vários distritos. O regente sugere que havia sobas que não eram
undados na área sob influência portuguesa e que estabeleceram outras alianças com os
agentes coloniais, dividindo os sobas entre: os dos distritos e os dos presídios. Pode ser uma
imprecisão do regente ou um indício de que as relações com os sobados eram mais complexas
do que as inscritas nos escritos da vassalagem.
Se seguirmos a cronologia da conquista e da construção das fortalezas,
conseguimos acompanhar como a exigência das obrigações se alterou ao longo do tempo. A
ordem seria: Massangano (1583), Muxima (1599), Cambambe (1604), Ambaca (1614), e
Pedras de Pungo Andongo (1671). A maioria dos sobas, ilamba, imbari é de Massangano
(24), para onze deles o capitão-mor disse que estavam obrigados a “dar filhos para todo o
serviço real que for ordenado e serve a esta vila”. Dois sobas deveriam dar azeite “para
alumiar o corpo da guarda e os presos”. Quatro ilamba deveriam dar lenha, carvão, e servir
particularmente ao capitão-mor: “para o serviço particular dos capitães-mores”. Os outros
deveriam servir “a todo serviço real que lhe fosse ordenado” e “hoje serve com seus filhos na
Real Fábrica da Nova Oeiras”. O capitão-mor especificou que nos autos a cláusula era a
designação generalizada do “serviço real”, porém, naquele momento porque a fábrica
demandava, os chefados deveriam servir ali.
Um caso emblemático é de Domingos Acaulo, sobre quem o funcionário escreveu
que seu nome “não consta nos livros, porém tem obrigação de dar filhos para o serviço real”.
O capitão-mor pode ter se referido a uma prática regida pelo costume, era sabido que os sobas
davam “filhos para o serviço real”, mesmo que não constasse nos livros.
Para Muxima, Cambambe, Ambaca e Massangano não há quaisquer
especificações quanto a fornecer gente para o trabalho. Como nos autos de vassalagem
anteriores, destaca-se a fidelidade e obediência ao rei e ao seu representante mais imediato, o
capitão-mor.
O distrito de Dande (nas proximidades do rio de mesmo nome) é o único lugar em
que um funcionário disse que os sobas davam uma assistência “pontual”: “para o serviço das
74

fortificações da capital, e todas as mais obras reais, conserto de igrejas, auxílio aos
missionários, e soldados que andarem em serviço de sua majestade”129.
Portanto, os tratados mais antigos traziam a obrigação genérica de “dar filhos”
para o serviço real. A expressão é indeterminada e não há nenhuma indicação de que o quer
que se enquadrasse no serviço real devesse ser prestado de forma gratuita. Pelo contrário, o rei
português asseverou em meados do século XVII que todos os vassalos do ngola deveriam ser
sempre remunerados. Com o passar do tempo surgiram as obrigações mais específicas, como
o trabalho nas fábricas de ferro de Nova Oeiras. Ao que parece a prestação de trabalho era
adensada às obrigações das autoridades africanas quando a demanda surgia. Contudo não
eram somente demandas que poderiam ser enquadradas como “serviço real”, foram elencados
serviços prestados particularmente aos capitães-mores.
Podemos nos fiar nessa fonte produzida como resposta ao governador, uma
autoridade superior aos capitães-mores, a quem estavam subordinados e que podia puni-los?
Há razões para crer que sim. As fórmulas de escrita se repetem em documentos de diferentes
localidades, assim como as obrigações requeridas. Além disso, nos casos em que fogem à
regra, os próprios funcionários dão pistas de que o que faziam não era justo, incorria em
vexação, pelo exagero com que tentavam se distanciar daquela prática. Nota-se que para
justificar o uso da mão de obra dos sobados, o regente de Dande sublinhou que era uma ajuda
“pontual”. No distrito do Kwanza, o funcionário garantia que todo o serviço era “pago à
risca”.
Por meio da leitura da documentação, confirma-se o que o governador Sousa
Coutinho já suspeitava: o uso gratuito e irrestrito dos serviços dos “filhos” dos sobas, ilamba
e imbari não estava previsto como obrigação nos primeiros tratados de vassalagem. Por isso,
logo depois de chegar à conclusão de ser um procedimento injusto, como bom funcionário
régio ciente de seu dever de zelar pelo bem comum, o governador determinou que a partir de
então, outubro de 1770,
“todos os sobreditos sobas, imbari e ilamba estavam isentos das obrigações
que tinham por força das novas ordens de sua excelência, e só os sobas
Kimbi e Kixingango a tinham de darem azeite todos os meses para o corpo
da guarda e cadeia, e todos os mais sobas só davam filhos para o serviço
real, auxílio aos missionários e militares”130.

Assim, a maior autoridade régia no Reino de Angola reconhecia 200 anos de


exploração local do trabalho dos dependentes do soba, pessoas livres, sem contrapartida de

129
Idem. Ibidem.
130
Idem. Ibidem.
75

salário, ao menos segundo os códigos sociais portugueses: “a tal contribuição do trabalho


sendo imposta sem ordem de Sua Majestade, declarada viciosa pela sua régia clemência”131. E
pretendia mudar tais imposições. Como os chefes locais, os capitães-mores, os governadores
viam essa situação? Com que frequência os “filhos” eram requisitados? Essas são perguntas
fundamentais, que vamos responder com vagar no terceiro capítulo.
Por ora, nos interessou conhecer a face normativa das relações de trabalho, as
regulamentações, que são fulcrais porque remetem a uma política de domínio sobre os
“filhos”, os dependentes dos sobados, a força de trabalho do Reino de Angola, que, por sua
vez, está diretamente relacionada com o modo como se estabeleceu a colonização. O que seria
a vassalagem senão uma maneira de tentar dominar as “gentes” dos sertões de Angola? O
poder dos sobas se sustentava no domínio sobre suas “gentes”, sem esta “base” não existiria
possibilidade de acordo com os portugueses. O controle colonial sobre os súditos dos sobados
era indireto, intermediado pelas chefias locais, e não existia força militar suficiente para
controlar as múltiplas formas de resistência (revoltas armadas, fugas, quilombos); como então
cooptar essas “gentes” para o trabalho? Ao que parece a resposta para essa pergunta foi a
invenção de um costume, uma tradição, que se estabeleceu com a justificativa de que a prática
estava estabelecida como obrigação nos undamentos.
O governador Sousa Coutinho quando corrigiu essa má conduta, estabeleceu o
que lhe pareceu justo: que alguns sobas continuassem a dar azeite para o suprimento das
milícias e que todos os sobas deveriam dar “filhos” somente para o serviço real, auxílio aos
missionários e militares132. Em contrapartida, a resolução governamental e o conjunto da
documentação mostram que até então a gratuidade da prestação de serviços e a generalidade
de empregos para que eram cooptados africanos livres eram a regra.

Quem e quantos eram os sobas avassalados aos portugueses na segunda metade


do século XVIII? Como essas eram perguntas importantes para a Coroa portuguesa, o rei
ordenava a todo novo governador que tomasse conhecimento de todos os sobas que estavam
debaixo da sua “obediência e de paz e dos que estiveram e ora o não estão e que causa houve

131
Idem. Ibidem.
132
Em uma portaria de 1770, o governador define o que se entende por serviço real, auxílio aos missionários e a
particulares. Tudo passou a ser remunerado. Portaria em que se estabelecem os jornais dos “pretos
trabalhadores”, assinada por FISC. São Paulo de Assunção de Luanda, sete de dezembro de 1770.
AHU_CU_001, Cx. 55, doc. 6 e 7.
76

e quem lha (sic) deu para se levantarem”133. Estar “levantado” é uma designação de rebelião,
o soba já não reconhecia o domínio português.
Nem sempre esses levantamentos sobreviveram ao tempo ou estão acessíveis para
a análise histórica. Desde o final do século XVI o corredor do Kwanza foi marcado por
intensos confrontos militares entre os sobas e os invasores europeus. Como já nos referimos,
Aida Freudenthal e Selma Pantoja editaram o “Livro dos Baculamentos”, uma fonte
imprescindível para a compreensão das relações de poder entre eles, bem como do sistema
tributário e da rede comercial que existiam no Reino de Ndongo, no início do século XVII134.
As editoras identificaram os sobas que foram alvo da tributação da Coroa portuguesa, entre
1619 e 1639, desde Hairi, junto à margem norte do rio Kwanza, e “Além Mbengu” (rio) até
Cambambe (fortaleza portuguesa fundada em 1604). Nessa região, havia 202 vassalos e
contribuintes. A grande maioria localizada na região que, no século XVIII, abrigou a fábrica
de Nova Oeiras, na Ilamba e no Lumbu, onde 79 sobas avassalados se obrigaram a pagar os
tributos. A análise desses impostos, chamados baculamentos, permite entrever as hierarquias
locais entre as lideranças africanas, em que grandes sobas protegiam chefias de menor
poderio. Essas informações, comparadas com as de outras fontes, oferecem um panorama das
relações entre os poderes africanos e entre eles e os portugueses.
O militar Cadornega anotou, anos depois, as diferenças entre as correlações de
força entre os líderes africanos: havia os canda (do kimbundu nkanda, nhundu) que “com
insígnia de bastão” eram “cabeças e governadores dos demais”, “soba poderoso”, sobetas
(autoridades menores), ilamba, imbari135.
Em fins do século XVII, quando a conquista portuguesa avançou mais para os
sertões, Cadornega contou em média 250 sobas vassalos desde a cidade de Luanda até o
presídio da Pedras de Pungo Andongo, fundado após a conquista do Reino do Ndongo, e
autoridades da Kisama, Libolo, nas terras do Ndongo. A grande maioria situada nos arredores
dos presídios de Ambaca (57) e Pedras de Pungo Andongo (36). Apenas 21 dos sobas
arrolados por Cadornega constam na lista dos baculamentos do início do século136. O militar

133
Regimento do Governo do Reino de Angola dado em Lisboa, 12 de fevereiro de 1676. AHU, Códice 544, fl.
3.
134
Aida Freudenthal, Selma Pantoja (ed.). Livro dos Baculamentos, 2013, p. 15-23.
135
Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas (1680), v. III, p. 237 e ss.
136
Os sobas mantêm seus títulos político, por isso, podemos acompanhar por gerações a história desses títulos.
Por exemplo, quando encontramos o soba Bango Aquitamba [Mbangu kya Tambwa] desde o século XVII até o
XIX na documentação, sabemos que não se trata da mesma pessoa, mas dos muitos sucessores desse título
político, que por uma série de razões conseguem manter seu sobado ao longo do tempo. O próprio trabalho de
edição do Livro dos Baculamentos traz a anotação se o título do soba ou kilamba se repete na lista de Cadornega.
Contamos a partir da lista conferida pelos editores.
77

anotou também muitos ilamba como líderes políticos de relevo, a maioria em Ambaca, algo
que as listagens dos baculamentos não trazem137. Esse é mais um indício de como os ilamba
aliados aos portugueses, inclusive na guerra preta, e se estabelecendo como importantes
traficantes tornaram-se chefias de relevo no século XVIII, controlando um considerável
número de pessoas.
A discrepância pode ser explicada por um conjunto de fatores. Por exemplo,
Cadornega nem sempre nomeava os sobetas ou autoridades menores e isso pode ter omitido
muitos líderes que já eram súditos da Coroa; logo, sua listagem tende a ser incompleta.
Apesar disso, a leitura comparativa dessas fontes nos permite ter dimensão do nível de
desestruturação política que atingiu a região neste primeiro século da conquista portuguesa.
Sobre a área onde se assentou Nova Oeiras, Cadornega anotou: “os sobas da Ilamba e Lumbu
estão alguns deles atenuados com a calamidade do tempo”138. Informação que comprova o
enfraquecimento político e econômico, da pobreza resultante de muitos anos de guerras,
pilhagens e comércio de escravos.
Como há pouco nos referimos. Em 1770, com o intuito de inventariar os tipos de
serviços prestados pelas autoridades locais aos portugueses e regular as formas de
fornecimento do trabalho, inclusive para as fábricas de ferro, o governador Sousa Coutinho
ordenou que os capitães-mores dos presídios e distritos enviassem os termos e autos de
vassalagem pelos quais os sobas se obrigavam a servir os conquistadores. Essa era uma
maneira de saber mais sobre a população africana e controlar suas relações com as
autoridades espalhadas pelo sertão. Responderam a este levantamento os capitães-mores de
Muxima, Massangano, Cambambe, Pedras de Pungo Andongo, Ambaca, Distrito do Kwanza,
Dande, Icolo, Golungo e Bengo. Contudo, como vimos, nem todos os escrivães conseguiram
encontrar os documentos requeridos, ora justificaram que os autos haviam sido entregues aos
próprios sobas undados e por isso já não os tinham (como no caso do Golungo), ora que nos
distritos os sobas não eram undados, somente nos presídios (como no distrito do Kwanza).
Apesar das muitas falhas da listagem, constam os nomes de 33 autoridades locais vassalas

137
Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas (1680), v. III, p. 244. No Livro dos
Baculamentos, os ilamba aparecem como cobradores de impostos junto aos sobas. O Kilamba kya Phange é o
único kilamba que aparece enquanto tributário, undado, portanto, avassalado. Aida Freudenthal, Selma Pantoja
(ed.). Livro dos Baculamentos, fl. 28.
138
Idem, p. 236. Cadornega também anota as chefias de Benguela, que omitimos aqui, dado nosso recorte
geográfico. Para aquela região, Mariana Candido demonstra como o “colapso e a emergência de novos estados
no território de Benguela, como Kakonda e Viye, só podem ser entendidos no contexto da expansão do
colonialismo português e do tráfico transatlântico de escravos”. Mariana Candido, An African Slaving Port and
the Atlantic world, p. 6 e cap. II.
78

divididas da seguinte maneira: seis em Muxima, 24 em Massangano, uma em Cambambe,


duas em Pedras de Pungo Andongo139.
Cambambe é o único lugar em que consta uma mulher como soba, “Dona Ana
Soba” se obrigava “por si” e por “todos os seus sobetas”, “demais povo” e imbari a servir o
rei de Portugal. É interessante notar que normalmente o título de soba é apresentado antes do
nome da autoridade (ex: Soba Zombo Ndala Alexandre Francisco), o que não é o caso de
Ana. Dona Ana não foi a primeira soba que consta nas proximidades de Cambambe, como
“lotada” ao presídio, ou seja, que estava sob a jurisdição do capitão-mor daquela fortaleza. No
século XVII, Cadornega citou a Soba Dona Joana Quioza como chefia anexa àquela
fortaleza140.
No caso da líder Ana, só conhecemos seu nome cristão e dois títulos de distinção
diferentes (soba e dona), que unem critérios de diferenciação e hierarquização social
portugueses e dos Ambundos. Já Joana, apesar de batizada, apresenta um indício de
pertencimento a uma linhagem, pois traz um nome africano Quioza, que no século XVIII, se
aproxima muito do nome sobado próximo ao presídio de Muxima - Quizua141. Seria o caso de
linhagem que privilegiou a sucessão de mulheres? O título de dona era indicativo de uma
posição social e econômica de destaque no mundo português, inclusive em Angola.
Isto traz à memória outra mulher que foi líder entre os Ambundos, outra Ana, o
nome português da rainha Nzinga, cuja fama como estrategista a transformou em uma
personagem histórica singular. Em recente livro sobre Nzinga, Linda Heywood remete à
questão da importância da mulher na vida política do reino. Nas fontes europeias, desde o
século XVI, as mulheres da realeza do Reino do Ndongo não passaram despercebidas dos
estrangeiros, seus nomes foram anotados e sua proeminência destacada nos mais variados
âmbitos: participavam da corte do ngola, engendravam ações a fim de garantir a sucessão do
trono, figuravam como importantes líderes religiosas, entre outros142. Sendo assim, Soba

139
Há a menção de mais seis líderes locais, porém não são citados seus nomes. Carta de FISC aos capitães-mores
de todos os presídios e distritos sobre o undamento dos sobas e mais potentados. São Paulo de Assunção de
Luanda, 3 de outubro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, D. 6 e 7. Nesta cota, há uma série de documentos sobre a
regulamentação da prestação e serviço dos sobas feita por FISC em 1770.
140
B. Heintze já havia indicado a preponderância de lideranças femininas nesta localidade. Beatriz Heintze,
Angola nos séculos XVI e XVII, p.221. A autora, porém, não cita Soba Joana Quioza, por isso, imagina que
somente no século XIX, mulheres fossem indicadas como soba. O registro de Cadornega aponta que já no XVII,
havia mulheres como chefes em Cambambe.
141
“Mapa geográfico compreendendo a Costa Ocidental d’África (...)”, 1790. GEAEM, 1207-2A-24A-111. Veja
mapa 2.
142
Linda M. Heywood, Njinga of Angola. Africa’s warrior queen, 2017, p. 15-17; Sobre a rainha Nzinga, ver
também: Marina de Mello e Souza, “A rainha Jinga de Matamba e o catolicismo - África central, século XVII”.
In: Congresso Internacional Las relaciones discretas entre las monarquías hispana y portuguesa: Las casas de
las reinas (siglos XV-XIX), 2007.
79

Dona Joana Quizoa e Dona Ana Soba não foram exceções entre os sobas em Angola. Além
disso, havia sobas mulheres que prescindiam do título de dona ou de um nome católico, como
a Soba Axila ya Bangi143. Entender as diferenças entre essas líderes com maior ou menor
contato com o universo colonial é um exercício fulcral para a melhor compreensão do papel
das mulheres africanas e luso-africanas enquanto chefes e diplomatas.
É importante destacar também que as mulheres conhecidas como donas foram
agentes essenciais na estrutura social e econômica do Reino de Angola, sobretudo devido aos
novos arranjos sociais resultantes das dinâmicas do tráfico de escravos, que tinha como alvo
os homens. Historiadores vêm acompanhando as trajetórias de algumas donas e mostram
como a rede do tráfico transatlântico de escravos foi uma oportunidade para as mulheres
locais. Como resultado de seu envolvimento com portugueses e brasílicos, as mulheres
africanas adquiriram riqueza e status social, tornando-se parceiras no comércio de cativos.
Elas ficaram conhecidas como donas e controlavam um grande número de dependentes,
muitas plantações, tinham tavernas e se envolveram nas redes comerciais. Mariana Candido
mostra que, na década de 1770, muitas donas em Angola chegaram a se casar até quatro
vezes, evidenciando como o envolvimento com estrangeiros significou uma estratégia de
ascensão econômica e social para as mulheres Ambundas144.
Em um “inventário dos sobas, ilamba e imbari anexos ao serviço [da] fábrica do
ferro da Nova Oeiras”145, Dona Ana Soba não aparece listada entre os vassalos de Cambambe,

143
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 78.
144
É preciso lembrar que as mulheres conhecidas por donas, estudadas por Candido, não detinham o poderio
político e militar da rainha Nzinga. Mariana P. Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World.
Benguela and its hinterland, p. 318 e 319. Entre outros textos: Selma Pantoja, “Donas de arimos: um negócio
feminino no abastecimento de gênero alimentício em Luanda nos séculos XVIII e XIX”. Entre Áfricas e Brasis.
Brasília: Paralelo 15, 2001; Selma Pantoja, “Gênero e comércio: as traficantes de escravos na região de Angola”.
Travessias, n. 4-5, 2004, p. 79-97; Selma Pantoja, “As fontes escritas do século XVII e o estudo da
representação do feminino em Luanda”. In: Construindo o passado angolano: as fontes e a sua interpretação.
Actas do II Seminário internacional sobre história de Angola. Lisboa: Comissão Nacional para as
comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000, p. 583-596; Selma Pantoja, “Women’s work in the fairs
and markets of Luanda”. In: Clara Sarmento (ed.), Women in the Portuguese Colonial Empire: The Theater of
Shadows. Newcastle-upon-Tyne: Cambridge Scholars Publishing, 2008, p. 81-93; Mariana Candido, “Dona
Aguida Gonçalves marchange à Benguela à la fin du XVIII siècle”. Brésil(s). Sciences humaines et socials, v. 1,
2012, p. 33-54; Mariana Candido, “Marriage, Concubinage and Slavery in Benguela, ca. 1750-1850”. In: Nadine
Hunt, Olatunji Ojo (eds.). Slavery in Africa and the Caribbean: A History of Enslavement and Identity since the
18th century. London/New York: I. B. Tauris, 2012, p. 66-84; Mariana Candido, Eugénia Rodrigues, “African
women’s access and rights to property in the Portuguese Empire”. African Economic History, v. 43, 2015, p. 1-
16; Vanessa de Oliveira, “Gender, foodstuff production and trade in Late-Eighteenth century Luanda”. African
Economic History, v. 43, 2015, p. 57-61; Vanessa de Oliveira, “Mulher e comércio: a participação feminina nas
redes comerciais em Luanda (século XIX)”. In: Selma Pantoja, Edvaldo A. Bergamo, Ana Claudia da Silva
(org.). Angola e as angolanas. Memória, sociedade e cultura. São Paulo: Intermeios, 2016, p. 134-152.
145
“Inventário dos sobas, ilamba e imbari anexos ao serviço dessa fábrica do ferro da Nova Oeiras respectivo
aos Dízimos que pagavam antes da isenção que lhes concedeu o Exmo. Sr. e pelo que regularam de próximo,
número de filhos que cada um tem, e os que são dão por mês para o serviço da mesma fábrica”. Carta de D.
Francisco Inocêncio de Souza Coutinho para Antônio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das reais
80

apenas o Soba Dom André Fernandes Caboco Cambilo [Kabuku Kambilu146], que é
reconhecido como uma das principais autoridades africanas ao norte do Kwanza. Em outro
“inventário dos sobas, ilamba e imbari do distrito do Golungo que servem no serviço das
fábricas do ferro de Novo Belém e Nova Oeiras (..)”147 são listadas no total 67 autoridades
vassalas da região, a maioria do distrito do Golungo (65) e apenas dois sobas de Ambaca. A
maioria das chefias contadas nestes registros é das regiões circunvizinhas à fábrica; o presídio
de Ambaca era mais distante, por isso, constam tão poucas chefias dali. Na verdade, Ambaca
descrita como muito “dilatada”, por Cadornega, era a maior área do Reino de Angola e a mais
importante para o tráfico de escravos, com considerável produção de algodão, e que tinha em
média 80 sobados e ilamba vassalos148. Estas fontes mostram as lacunas do levantamento de
1770, pois justamente o escrivão do distrito do Golungo foi quem disse não ter encontrado os
autos de vassalagem porque esses documentos teriam ficado com os sobas depois da
cerimônia, e o escrivão de Ambaca não citou naquela listagem os nomes das lideranças locais.
Fora isso, os nomes das duas listagens não se repetem, o que pode indicar uma
complementaridade. Se levarmos em consideração a possibilidade de somar os dados destes
documentos, tendo em conta que não há repetição de nomes, chega-se a estimativa de que
havia, no mínimo, 100 líderes locais avassalados e relacionados aos presídios e jurisdições de
Massangano, Muxima, Cambambe, Ambaca, Golungo e Pedras de Pungo Andongo, para a
segunda metade do século XVIII.
O cruzamento das listas do Livro dos Baculamentos e de Cadornega com essas do
XVIII, em especial a dos sobas que serviam nas fábricas, indica que entre a centena de sobas,
44 eram sucessores de líderes já identificados no século XVII, a maioria da Ilamba, Lumbu e
Golungo. Portanto, os chefes dessa região onde foram formadas as povoações de Novo Belém
e Nova Oeiras vinham de uma longa relação com os portugueses. Essa permanência é um
bom exemplo de como essas chefias estabeleceram alianças com os colonizadores com o fim
de manter sua autonomia.

fábricas do ferro. Anexo: Inventário dos sobas, ilamba e imbari. São Paulo de Assunção de Luanda, 29 de
dezembro de 1768. IHGB 126, PADAB DVD10,22 DSC00303.
146
Jill Dias reconstrói a história do sobado Kabuku Kambilu, nas últimas décadas do século XIX. Jill Dias, “O
Kabuku Kambilu (c. 1850-1900). Uma identidade política ambígua”.
147
“Inventário dos sobas, ilamba e imbari do distrito de Golungo, que trabalhavam nas fábricas de ferro de Novo
Belém e Nova Oeiras, sobre os dízimos que pagavam antes de serem isentos, o número de filhos capazes que
cada um tem e que dão em dinheiro por mês (cópia posterior)”. S/l; s/d; PADAB, IHGB DL81, 02.19.
Possivelmente feito entre 1768 a 1770.
148
A estimativa é de Vansina que cruzou várias listagens de sobas vassalos ao longo do tempo. Jan Vansina,
“Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”. The Journal of African History, v. 46, n. 1, 2005, p. 23,
nota 88; Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas (1680), v. III, p. 244. Ver também:
Roquinaldo Ferreira, “O Brasil e a arte da guerra em Angola”. Revista Estudos Históricos, 2007, n. 39, p. 3-23.
81

É preciso tomar o cuidado de lembrar que essa permanência não quer dizer que os
sobas estiveram durante todo esse tempo avassalados, pois os nobres locais se rebelavam
constantemente contra a dominação estrangeira tanto pela ausência de uma efetiva conquista e
colonização, quanto porque os moradores e oficiais da Coroa tinham por atividade principal o
comércio de escravos, deixando para segundo plano o povoamento e a ocupação do território.
Não se trata aqui de reproduzir o gesto colonial e sua ansiedade de contar e
registrar, presente desde a conquista, e abundante durante a administração pombalina, que
queria criar uma imagem de controle e domínio149. Os números colhidos no cruzamento das
fontes são pouco representativos e de forma alguma perfazem o total de chefados africanos,
avassalados ou não, na época. Porém, a partir deles, podemos imaginar a dimensão do projeto
da fábrica de ferro naqueles sertões, o quanto mobilizou diversos chefados e suas gentes. Mais
que isso, o cruzamento de dados nos fornece um quadro de como, ao longo da ocupação
portuguesa, a correlação de forças entre africanos e portugueses foi se alterando, algumas
chefias sobreviveram, muitas outras sucumbiram, enquanto novas emergiram.

149
Para Arjun Appadurai, no contexto colonial, a profusão de informações numéricas, estatísticas, censos,
“gradualmente se tornou a parte mais importante da ilusão do controle burocrático e a chave para um imaginário
colonial em que abstrações contábeis, de pessoas e de recursos, a cada nível imaginável e para cada propósito
concebível, criaram a ideia de uma realidade indígena controlável”. Arjun Appadurai, “Number in the Colonial
Imagination”. In: Carol A. Breckenridge, Peter van der Veer, Orientalism and the Postcolonial Predicament.
Perspectives on South Asia. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1993, p. 317.
82

CAPÍTULO 2
DE ILAMBA A NOVA OEIRAS

2.1 Minas e terras: usos e sentidos

A região da Ilamba tinha recursos valiosos para os Ambundos, uma importância


que se relacionava, obviamente, a questões econômicas, mas não só por conta delas. A Ilamba
Baixa era limitada a norte pelo rio Ndande, os rios Luinha e o Lukala a leste; a oeste ia até
cerca de 40 km a leste de Luanda e a lagoa da Kilunda (situada na margem esquerda do rio
Mbengu), ou seja, quase até à Costa Atlântica. Essa província, que aparece registrada nas
fontes escritas em 1586, foi a primeira a ser conquistada pelos portugueses que a chamavam
de “Ilamba nossa”; seu chefe mais importante foi Mubanga, da linhagem do Ndongo1.
A Ilamba Alta ou Lumbu, região entre o Luinha e o Ndande, segundo Cavazzi,
possuía muitas minas de ferro; parte do Lumbu pertencia ao reino do ngola. Sob
administração portuguesa, parte da província da Ilamba Baixa e o Lumbu foram agregadas ao
distrito de Golungo2. No mapa abaixo, de 1790, o desenho registra os cinco montes em Nova
Oeiras, que eram os reservatórios de ferro identificados durante a prospecção para a instalação
da fábrica. Note-se que a Ilamba e o Golungo foram identificados, porém não são assinaladas
1
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História. Luanda:
Kilombelombe, 2007, p. 192 e 193. Aida Freudenthal, Selma Pantoja (ed.). Livro dos Baculamentos: que os
sobas deste Reino de Angola pagam a Sua Majestade (1630). Luanda: Ministério da Cultura e Arquivo Nacional
de Angola, 2013, p. 47. Giovanni Antonio Cavazzi de Montecúccolo. Descrição histórica dos três reinos do
Congo, Matamba e Angola. Tradução, notas e índices do Pe. Graciano Maria de Leguzzano. Lisboa: Junta de
Investigações do Ultramar, 1965, v. I, p. 33. Alec Ichiro Ito, Uma “tão pesada cruz”: o governo da Angola
portuguesa nos séculos XVI e XVII na perspectiva de Fernão de Sousa (1624-1630). Dissertação (Mestrado) –
USP, 2016, p. 81.
2
Aida Freudenthal, Selma Pantoja (ed.). Livro dos Baculamentos, p. 50. A própria palavra Golungo ou
Golungo, nome de uma antiga chefia da região, pode indicar que nesta localidade havia a exploração do ferro. O
sufixo – lungu nas línguas bantu está relacionado ao forno de fundição.
83

banzas ou sobados ou qualquer outro tipo de povoação ou ocupação. Neste capítulo, veremos
que essa lacuna não se faz presente nas informações que os funcionários régios acumularam.
Talvez o vazio tenha sido uma forma de atestar uma apropriação indevida dessas terras e
minas.

Mapa 3 – A região da Ilamba, 1790


Cadeia de “montes de
Rio Ndande
ferro”

Rio
Luinha
Lumbu
Rio
Lukala

Fonte: Detalhe do “Mapa geográfico compreendendo a Costa Ocidental d’África entre 5 e 16 graus e 40 minutos
de latitude Sul, representando no continente o estado atual dos Reinos d’Angola e Benguela (...)” de Luis
Candido Cordeiro Pinheiro Furtado. Desenhado pelo mesmo Tenente Coronel Luís Candido Cordeiro Furtado; e
copiado pelo discípulo do número terceiro ano da Real Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho. Pedro
José Botelho de Gouvea Cadete do Regimento de Cavalaria de Meklemburg”. Lisboa, 1791. Biblioteca
Municipal do Porto, BPMP_C-M&A-Pasta 24(17).

Joseph Miller aponta que os keta, um reino antigo da região, teriam baseado seu
poder no controle dos depósitos de ferro desta localidade. No século XVII, este reino já tinha
sido subordinado aos ngola. O controle das salinas e das minas de ferro são listados por
Miller como uma das causas da formação dos “estados Mbundu”, pois estes recursos raros e
necessários atraíram “pessoas não relacionadas entre si, de uma vasta área em busca do
desejado produto”. Quando as autoridades deste mercado angariaram prestígio e riquezas
suficientes, “ambiciosos governantes locais” converteram “o seu capital econômico em
autoridade política, formando um estado que reclamava a jurisdição sobre linhagens
adjacentes e mesmo mais distantes, bem como sobre os próprios recursos naturais”3.

3
Joseph C. Miller, Poder político e parentesco: os antigos Estados Mbundu em Angola. Trad. Maria da
Conceição Neto. Luanda: Arquivo Histórico Nacional de Angola, 1995, p. 267. Tamanha era a importância da
região que para Miller os ngola a kiluanje ali instalaram suas capitais e, mais tarde, “resistiram tenazmente aos
avanços portugueses em direção a esta área”, Idem, p. 77 e 86. Esta informação é difícil de precisar porque as
capitas do Ndongo não eram fixas. Segundo Beatriz Heintze, Kabasa (Cabaça na documentação portuguesa), a
cidade residencial e capital dos reis do Ndongo, pode ter sido situada na província de Quituxila, perto de
Ambaca. Na segunda metade do século XVII, “foi localizada algures entre os rios Lukala e Lutete, na província
84

Na Ilamba e no Lumbu os chefados mineravam o ferro muito antes das iniciativas


portuguesas de exploração deste mineral e, não por acaso, ali foram assentadas as fábricas de
ferro de Nova Oeiras e Novo Belém (em meados da década de 1760). As referências de
Cavazzi e da tradição oral coletada por Miller sobre as minas de ferro nesta região e as fontes
sobre o controle da tecnologia de forja do metal são indicativos de que esse minério era
explorado ali pelos Ambundos há muito tempo. O acesso a este recurso, bem como às salinas,
valorizava as terras, que foram alvo de disputas entre os próprios sobas e também entre eles e
outros súditos da Coroa portuguesa.
Durante as guerras de conquista, as chefias mais próximas de Luanda foram sendo
avassaladas e grande parte da população da região, já em 1650, “tinha sido reassentada em
terras ao norte e ao leste de Ambaca”4. Logo, como já mostramos no capítulo 1, os chefados
que ali encontramos no século XVIII e que sobreviveram às guerras, às razias em busca de
escravos, aos altos impostos, por meio de alianças com os conquistadores, tinham um longo
relacionamento os agentes régios.
As notícias que chegavam até os portugueses informavam haver muito ferro nas
jurisdições do Golungo (Ilamba e Lumbu), Ambaca, Cambambe, Caconda (região e presídio
no Reino de Benguela), além de outros sítios muitos distantes em que a ausência de rios não
permitia a condução do metal5. Em 1759, há relatos da existência de duas minas, de Kituxe e
Kalombo6, de “terra ferruginosa”, que se situavam nas terras de soba Kabanga kya Mbangu
(LB) 7, na Ilamba. Essas minas eram exploradas por meio da escavação de “furnas profundas”
que apresentavam “bastante risco e mortandade dos pretos” devido aos desmoronamentos
frequentes que eram provocados pela umidade8.

de Ndongo. Mudou várias vezes de localização. (...) O rei do Ndongo nomeado pelos portugueses em 1626 já
não residia em Cabaça, mas sim na fortaleza natural de Pungo Andongo, nas imediações da qual se situavam 32
aldeias, uma delas na planície, outras na montanha. A sua conquista por parte dos portugueses no ano de 1671
assinalou o fim do que restava do Estado do Ndongo”. Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 229.
4
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”. The Journal of African History, v. 46, n. 1,
2005, p. 10.
5
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 9 de maio de 1762. BNP, C.
8553, F. 6362, fl. 2 e 3.
6
Sobre esta Mina, a de Calombo, há uma informação sobre o lugar chamado de Kambulu que seria o “lugar no
antigo conc. do Golungo Alto, circ. civ. de Cazengo, distr. e prov. de Luanda onde se supôs a existência de
minas de ouro e ferro”. Pode ser que se trate do mesmo topônimo. Antonio de Assis Júnior, Dicionário
Kimbundu-português, linguístico, botânico, histórico e corográfico. Seguido de um índice alfabético dos nomes
próprios. Luanda: Argente, Santos e Comp. Lda. [s.d.], verbete “Kambulu”, p. 91.
7
LB significa que esses títulos constam como tributários da Coroa portuguesa no Livro dos Baculamentos, do
início do século XVII.
8
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 9 de maio de 1762. BNP, C.
8553, F. 6362, fl. 2 e 3.Antonio de Vasconcelos disse que as minas desabavam porque os trabalhadores não
tinham “indústria” para sustentar as galerias subterrâneas. É óbvio que é uma leitura preconceituosa que parte do
85

O minério de ferro também foi encontrado no lugar chamado Samba-Quibe (ou


Samquiba) pertencente ao soba Nguengue a Kimbemba, na jurisdição de Massangano,
“confinante com o da Ilamba, distrito do Golungo”. Foi nos terrenos desse soba que Sousa
Coutinho construiu Nova Oeiras; onde o minério de ferro era encontrado em pedra na
superfície da terra9. Nas “Notícias do Presídio de Massangano do Reino de Angola”, de 1797,
o regente do presídio informou ao governador de então que nos outeiros das terras desse
importante soba se tirava “ferro para fazer as enxadas com que cultivam os povos deste
país”10. Dali ele enviou 19 pedras de ferro como amostra para Luanda. Os montes de ferro de
Samba-Quibe, em 1800, são famosos por terem “as superfícies cobertas de riquíssimas minas
de ferro”11 e pela “vantagem de ter a pedra do seu metal à superfície”12. Para estas
localidades, as evidências mostram haver uma tecnologia de exploração do ferro sob o
controle das chefias locais e, no caso de Nguengue a Kimbemba, sob o domínio de uma
mesma linhagem ao longo do tempo. A palavra nguengue significa pessoa de grande
influência, o que nos leva a ponderar que se trata de um título político de considerável
importância na região, que quiçá pautava sua soberania pelo controle das minas de ferro13.
Encontramos muitos ferreiros em Ambaca, onde os sobas Lunge Riaquitamba,
Ndala ya Huyi (LB), Ndala Tandu (LB) e Ndambi a Kiza tinham muitos dependentes
especializados no trabalho com o ferro, não só ferreiros, mas também fundidores. Muitos
destes trabalhadores especializados que moravam nesta jurisdição eram na verdade naturais da
Ilamba e para ali teriam migrado devido a fomes em sua terra natal14. O dado mais uma vez

princípio que os africanos eram “ignorantes”, por isso, afirmo que havia ali uma tecnologia de exploração das
minas ainda que não fosse segura o suficiente para os trabalhadores.
9
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 9 de maio de 1762. BNP, C.
8553, F. 6362, fl. 2 e 3. “O ferro de pedra é inexaurível só à flor da terra e sem que nunca seja necessário cavar
para o extrair; muitas as lenhas, e com a circunstância de que no ano sucessivo [ao] seu corte estão renovadas, e
capazes de dar a mesma muitos os serventes satisfeitos com o mais módico jornal, as conduções muito cômodas
pela minha diligência; e enfim, tudo concorre para o maior progresso”. Carta de FISC para Francisco Xavier de
Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e ultramar. Luanda, 17 de fevereiro de 1767. RJIHGB 126,
PADAB DVD10,20 DSC00410.
10
“Notícias do Presídio de Massangano do Reino de Angola, de 1797”. IHGB, DL 31.07.
11
Carta de José Álvares Maciel para Miguel Antonio de Melo, governador de Angola. São Paulo de Assunção
de Luanda, 31 de março de 1800. AA, v. IV, v. 52 a 53, 1939, p. 302.
12
Carta de Antonio Salines de Benevides, sargento-mor e ajudante das ordens do governo para Miguel Antonio
de Melo, governador de Angola. São Paulo de Assunção de Luanda, 15 de novembro de 1800. AA, v. IV, v. 52 a
53, 1939, p. 327.
13
Antonio de Assis Júnior, Dicionário Kimbundu-português, linguístico, botânico, histórico e
corográfico. Seguido de um índice alfabético dos nomes próprios, verbete “nguengue”.
14
“Da mesma maneira me consta que por toda essa jurisdição se acham espalhados muitos ferreiros, e
fundidores naturais da mesma Ilamba, que por causa de fomes saíram das suas terras e foram para essas”. Carta
de FISC para Francisco Matoso de Andrade, capitão-mor de Ambaca. São Paulo de Assunção de Luanda, quatro
de janeiro de 1767. BNP, C – 8742, F – 6364. Como veremos, na verdade esses ferreiros começaram a ser
capturados, por isso fugiram para o interior.
86

corrobora ter havido uma tradição de mineração do ferro na Ilamba. Esses documentos
também nos mostram que essas minas, exploradas pelos sobas, estavam ativas durante a
instalação da fábrica de ferro.
À luz dessas informações, pode-se começar a compreender como o
empreendimento colonial de Sousa Coutinho era, na verdade, uma tentativa de tomar das
mãos dos sobas uma indústria já consolidada e que funcionava muito bem sem a interferência
externa.
Outros chefados importantes relacionados a minas nas proximidades de Luanda
são os sobas Mbangu Kya Tambwa15 (LB), Gongue Anamboa [Ngombeya Nambwa] (LB) e
Cariata [Kariata Kakavingi]. Em suas terras havia ouro e “pedras cristalinas” (diamantes), ao
longo do rio Lombige, nas proximidades de Lumbu16. Em Cambambe, no século XVII, havia
exploração de minas de chumbo. Rotineira também era a exploração de cobre; os portugueses
sabiam da existência de minas em Kasanje e em Ambaca17. No Novo Redondo, à sul do rio
Kwanza, descobriu-se uma mina de cobre nas terras do soba Hevo18. No Reino de Angola,
desconhecemos quais chefias controlavam o comércio desse metal pelo mesmo motivo pelo
qual os portugueses não conseguiram mais informações: “como os negros o tem por ouro,
cuidam muito em ocultá-lo”19. Jill Dias nos explica a razão de tamanho sigilo: “o cobre, sendo
muito mais raro, e, por conseguinte, mais valioso do que o ferro, era muito procurado (...) para
produzir artefatos especiais – ornamentos, vasos cerimoniais e rituais”20. O que os
portugueses ignoravam é que quem funde ferro, conhece as técnicas para fundir outros
minérios e metais. Uma hipótese é a de que a lide com o ferro rotineira e bem conhecida
escondia a produção de outros metais e objetos preciosos.
Apesar de as minas de cobre serem as mais vigiadas, em geral, os centro-africanos
resistiam a revelar a localidade de seus minérios, quaisquer informações sobre as minas eram
resguardadas com grande severidade. Nas citadas incursões à procura de ouro pelo rio

15
O portador do título Mbangu Kya Tambwa aparece como “cabeça” de 18 sobas em fins do século XVII.
Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas (1680). Anotado e corrigido por José Matias
Delgado. Lisboa: Agência-geral do Ultramar, 1972, v. III, p. 237.
16
Carta de Martinho de Melo e Casto, secretário dos Negócios da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, para
Antonio de Lencastre, governador de Angola. Palácio Nossa Senhora da Ajuda, 10 de julho de 1772. AHU,
Códice 472, fl. 21v -26v.
17
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, São
Paulo de Assunção de Luanda, 28 de junho de 1762. AHU_CU_001, Cx. 45, D. 58. Cara de Fernão de Sousa ao
rei de Portugal, 13 de agosto de 1625. Monumenta Missionária Africana (CD) SI - V07_d117.
18
Carta de FISC para Francisco Nunes de Morais, capitão regente do Novo Redondo. São Paulo de Assunção de
Luanda, 27 de agosto de 1772. AHA, Códice 80, fl. 116.
19
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, São
Paulo de Assunção de Luanda, 28 de junho de 1762. AHU_CU_001, Cx. 45, D. 58.
20
Jill Dias, Nas vésperas do mundo moderno: África. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos
Descobrimentos Portugueses, 1992, p. 145.
87

Lombige, o governador Antonio Álvares da Cunha mandou prender o citado soba Mbangu
Kya Tambwa que era um antigo aliado dos portugueses, mas nesse assunto o prisioneiro não
colaborou. Nas palavras do governador: “é [a] única virtude que tem os negros destes sertões,
que não revelam sigilo ainda que entendam que por este motivo lhe hão de tirar a vida”21. O
soba permaneceu preso durante três anos. O sucessor de Álvares da Cunha mandou libertá-lo
por ter averiguado que não havia ouro em suas terras apenas cascalho com poucas faíscas de
ouro22. Todavia, em 1798, foram enviadas novamente expedições pelas terras do Mbangu Kya
Tambwa à procura de minas de ouro. O silêncio dos dirigentes do sobado e a persistência
colonial em empreender novas incursões apontam para a existência de minas ali sob o
controle das chefias locais, que fariam de tudo para não as perder23. Um exemplo dado por Jill
Dias, ainda que de um período posterior, torna a questão mais evidente; ela cita que, em
meados do século XIX, um soba do Golungo Alto (Lumbu) ameaçava com pena de morte
quem divulgasse a homens brancos a localização de suas minas de ferro24.
O ouro parece ter se tornado importante para os chefes africanos, caso contrário
por que tanto segredo? O ouro e o diamante com certeza tinham valor para os europeus e
poderiam ser trocados por outras mercadorias, como as fazendas asiáticas e a jeribita, objetos
de valor para o comércio local. Tanto era assim que os primeiros exploradores das minas

21
Carta do governador Antonio Álvares da Cunha para o rei. São Paulo de Assunção de Luanda, 28 de fevereiro
de 1756. AHU_CU_001, Cx. 43, D. 4027. Outro exemplo é a mineração das malaquites na Serra do Bende (“nos
domínios de um vassalo rebelde do rei do Kongo”), também chamadas de pedras verdes. O governo de Luanda
ordenou que se averiguasse as qualidades dos minérios que ali haviam e durante a inspeção dever-se-ia “ver com
dissimulação tudo o de que constava a dita serra, que tanto estimam e recatam os negros”. As tropas portuguesas
não conseguiram entrar nas terras do Mani Kongo. Carta de FISC a Francisco Xavier de Mendonça Furtado
AHU_CU_001, Cx. 54, D. 113 e 115.
22
Carta do governador Antonio de Vasconcelos para Tomé Joaquim da Costa Corte Real, secretário e Estado da
Marinha e dos Domínios Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 6 de janeiro de 1759. Arquivo das
colônias, v. V, n. 30, p. 148.
23
Carta do governador Miguel Antonio de Melo ao capitão-mor do Golungo. São Paulo de Assunção de Luanda,
22 de janeiro de 1798. AHA, Códice 322, fl. 13v. O mesmo se passou com o militar Antonio Candido Gamito
que visitou outros povos bantu, os Maraves, na Costa Leste africana, na margem norte do rio Zambeze, em 1831
e 1832. Ele tinha o interesse em ver a mineração do ouro, naquela localidade feita exclusivamente pelas
mulheres, mas foi avisado “que [havia] a superstição de que não deve[ria]m ser vistos estes trabalhos senão por
quem os faz, porque foge o metal se outrem os vê”. Viagem que seguiu do rio Tete ao Zambeze, liderada pelo
major Monteiro. O diário foi escrito por Gamito. Antonio Candido Pereira Gamito, O Muata Cazembe e os
Povos Maraves, Chevas, Muizas, Muenbas, Lundas e outros da África Austral. Lisboa: Agência Geral das
Colônias, 1937, v. I, p. 38.Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Tomé Joaquim da
Costa Corte Real. São Paulo de Assunção, seis de janeiro de 1759. SGL, Arquivo das colônias, v. V, n. 30, 1930,
p. 148.Carta do governador Miguel Antonio de Melo ao capitão-mor do Golungo. São Paulo de Assunção de
Luanda, 22 de janeiro de 1798. AHA, Códice 322, fl. 13v. Instrução para Antonio de Lencastre governador do
Reino de Angola. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, 10 de julho de 1772. AHU, Códice 472, fl. 21v -26v.
Essas minas de fato existiam, foram exploradas, no século XX, pela Sociedade Mineira do Lombige (SOMIL) e
a Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG).
24
Jill Dias, “Relações econômicas e de poder no interior de Luanda ca. 1850-1875”. I Reunião Internacional de
História de África. Lisboa: Instituto de Investigação Científica, 1989, p. 249. Apud Juliana Ribeiro da Silva,
Homens de ferro. Os ferreiros na África Central no século XIX, p. 59.
88

foram dois particulares: um missionário carmelita descalço frei Lourenço de Jesus Maria que
“vivia nos matos”, aproveitando-se da missão em terras de Mbangu Kya Tambwa, e o mineiro
Caetano Álvares, exímio conhecedor de técnicas mineradoras. A Coroa só ficou conhecendo o
negócio porque o frei denunciou Caetano. Os sobas provavelmente estabeleceram acordos
com o frei e o mineiro visando algum favorecimento comercial25.
O segredo sobre as minas tinha um caráter imediato – proteger um recurso
econômico -, porém, naquela sociedade, este fator era indissociável das razões da cosmogonia
africana. Hampatê Bá lembra que na tradição da savana, os minerais são os “filhos do seio da
terra”, parte dos seres que têm uma linguagem “incompreensível para o comum dos mortais”.
O ferreiro-fundidor, como designa Hampatê Bá, aquele que se dedica a minerar o ferro
deveria ter um perfeito conhecimento da mineralogia, da mata, das plantas – “ele conhece as
espécies de vegetais que cobrem a terra que contém determinado metal e detecta um veio de
ouro simplesmente examinando as plantas e os seixos”. Cabia assim ao homem preservar o
equilíbrio entre as forças da natureza, “pois tudo se liga, tudo repercute em tudo, toda ação faz
vibrar as forças da vida e desperta uma cadeia de consequências cujos efeitos são sentidos
pelo homem”26. Pode-se imaginar que o conhecimento especializado dos minerais não seria
facilmente revelado aos portugueses e que revolver a terra em que descansavam os ancestrais
não podia ser uma operação banal, designada a qualquer mortal inábil.
Talvez a reação do soba sobre as minas de ferro, no século XIX, tenha sido mais
contundente por consequência da ação colonial no Setecentos, até onde conseguiram
perscrutar “não ficou rio, riacho, que se não apalpasse (...) examinados os morros, outeiros e
várzeas”27. Muitas foram as investidas para maior controle do território e exploração local de
riquezas. Porém o interesse colonial pelas minas era antigo, vale lembrar que, embora o
comércio de escravos tenha sido o fator determinante da conquista portuguesa do Ndongo, a
colonização e a ocupação territorial desde seus primórdios se relaciona com a busca por

25
Carta do governador Antonio de Vasconcelos para Tomé Joaquim da Costa Corte Real, secretário da marinha
e dos domínios ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 6 de janeiro de 1759. Arquivo das colônias, v.
V, n. 30, p. 148. Depois, em 1754, por decisão do governador, as minas passaram a ser exploradas
exclusivamente pela Fazenda Real, o frei parece ter conseguido escapar (não foi encontrado), mas Caetano ficou
preso por quatro anos, quando foi degredado para Minas Gerais (“onde por conhecido, não podem prejudicar as
suas experiências”).
26
Amadou Hampatê Bá, “A tradição viva”. In: Joseph Ki-Zerbo (org.). História Geral da África I. Metodologia
e pré-história da África. São Paulo, Ed. Ática/UNESCO, 1980, p. 195-199.
27
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Tomé Joaquim da Costa Corte Real. São Paulo
de Assunção, seis de janeiro de 1759. SGL, Arquivo das colônias, v. V, n. 30, 1930, p. 148.
89

minerais, inclusive as referidas minas de sal, mas principalmente os metais preciosos28. A


existência de minas de prata de Cambambe permaneceu no imaginário português durante
muitos séculos. Quanto às minas de ferro, além de Portugal não ter tradição de fabricação do
metal, é fundamental reconhecer que estamos lidando com uma política administrativa de
exploração de minérios, orientada, em um primeiro momento, pelas diretrizes mercantilistas29.
Na segunda metade do século XVIII, o reino ibérico passava por uma grave crise financeira e
a exploração das minas de ferro dentro de um quadro mais geral de reformas econômicas era
uma das maneiras de superá-lo.
A experiência da mineração na América portuguesa ditava os planos minerais em
Angola. Em relação ao ouro, por exemplo, a ideia era seguir a demarcação das terras,
impondo o imposto da capitação, como nas minas do Serro Frio. Trata-se, sem dúvida, de
uma associação direta à Demarcação Diamantina, iniciada em 1734, que deu origem ao
Distrito Diamantino. À suspensão imediata da mineração na área, seguiu-se a demarcação de
toda a área extrativista, uma estratégia para manter o controle sobre futuros descobrimentos.
O Arraial do Tejuco, na outra margem do Atlântico, dependia de uma ampla rede
administrativa, militar e fiscal, e ainda assim havia dificuldade em controlar o contrabando30.
É de se esperar que essas intenções esbarrassem no intenso controle das minas nas mãos da
elite política africana, que com certeza não queria suas terras demarcadas, tampouco ser
taxadas com mais impostos. Por outro lado, devido às condições locais das milícias
portuguesas, da fragilidade do sistema fiscal, no Reino de Angola, não era possível trasladar o
sistema do Distrito Diamantino para a África. Mais uma vez os portugueses dependiam da
parceria com os sobas, porém no assunto das minas de ouro eles não conseguiram impor sua
vontade ou estabelecer alianças. O longo silêncio de Mbangu kya Tambwa durante os três

28
Marina de Mello e Souza, Além do Visível. Poder, catolicismo e comércio no Congo e Angola, séculos XVI e
XVII. Tese de Livre Docência – Universidade de São Paulo, 2012, p. 63 e ss; Beatrix Heintze, Angola nos
séculos XVI e XVII, p. 244.
29
Para Birmingham as minas de sal foram um dos principais fatores que atraíram os portugueses para Angola.
David Birmingham, “Early African trade in Angola and its Hinterland”. In: Rochard Gray, David Birmingham
(eds.). Pre-colonial African Trade. Essays on Trade in Central and Eastern Africa before 1900. Londres, Nova
Iorque, Nairobi: Oxford University Press, 1970. Em seu livro, Juliana Ribeiro da Silva faz um histórico da
exploração portuguesa de minerais no ultramar. Desde os primeiros contatos dos portugueses com a África
Centro-Ocidental, o interesse pelos minerais esteve presente. Os Ambundos perderam muitas das minas de sal
para os portugueses, o que deve ter sido um dano irreparável, pois o sal era imprescindível na região e se
configurou uma importante moeda da terra. De maneira geral, “os portugueses de fato queriam acreditar que em
África existiam riquezas inesgotáveis”. Juliana Ribeiro da Silva, Homens de ferro. Os ferreiros na África
Central no século XIX. São Paulo: Alameda, 2011, p. 36.
30
Sobre a mineração na Comarca do Serro Frio, ver: Júnia Ferreira Furtado, O livro da capa verde: o regimento
diamantino de 1771 e a vida no Distrito Diamantino no período da Real Extração. São Paulo: Annablume,
1996.
90

anos de prisão é exemplar desse conflito. Os sobas continuaram a deter o controle sobre esse
recurso natural.
Como esse controle era efetivado? Com armas: tanto o frei que explorava as
minas tinha muitos “negros armados” à sua disposição, quanto Mbangu kya Tambwa era
conhecido pelo suporte que dava aos portugueses na chamada guerra preta, as tropas africanas
que compunham o exército português31.
A questão das minas, portanto, engendrava muitas tensões. Quando o governo de
Luanda resolveu instalar na Ilamba fábricas de ferro, os embates se manifestaram inicialmente
por meio de querelas pela posse daquelas terras. É evidente que o governo de Luanda
precisaria de parte das minas da região, que eram controladas pelos chefes locais. Além das
minas, Sousa Coutinho planejou que uma parcela das terras onde fundou Nova Oeiras fossem
utilizadas para hortas para a subsistência dos trabalhadores da fábrica e dos serviços
auxiliares32. O minério de ferro por si só englobava fatores de ordem social, religiosa e
econômica, se lembrarmos da centralidade dos mitos fundadores do rei-ferreiro na África
Central. Por isso, desde o início das tentativas de implantação do plano Ilustrado para a
mineração do ferro nessa região, desde a escolha do terreno para o assentamento das fábricas,
os sobas reivindicaram a posse das terras.
Conseguimos identificar as terras de alguns sobas da vizinhança mais próxima das
fábricas: Nguengue a Kimbemba, dono de minas de ferro, citado acima, “o qual soba vai
confinar com outro” Kyambata kya Ngoto (LB). “E indo-se circulando só na distância de dez
ou doze léguas (aproximadamente 50km) se acham os sobas seguintes”: Itombe ya KaNdongo
(LB), Nzambi a Keta, Ngola a Kiato, Ngolome (LB), Kabuku Kambilu (LB), Kisala kya
Kabuku (LB), Nzamba Nsungui, Kabuto e Kilamba Pedro Ambaxi. Essa relação foi feita pelo
capitão Joaquim de Sousa Lobo em uma missão encomendada pelo governador que pedia
“exatos inventários” da região onde seria instalada a fábrica: “todos os matos e lenhas
próprias a carvão, que ficam em distância de servir a dita fábrica, assim as suas quantidades,
como qualidade, e grossuras, como também o número de libatas, e de sobas, que podem fazer
este serviço”33. Terras e gentes foram catalogadas.

31
Em uma batalha, Elias Correa disse que os portugueses só conseguiram a vitória pela ajuda de um “valoroso
negro capitão de Mbangu Kya Tambwa”. Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola. Lisboa:
Clássicos da Expansão Portuguesa no Mundo. Império Africano. Série E, vol. I, p. 227.
32
Dizia o governador sobre as terras da região: “Como me dizem que do rio Luinha, onde há de ser a Nova
Oeiras, até a feira do Zundo, há terras admiráveis, estenderá as povoações e as sementeiras por todas elas,
estando baldias”. “Instrução secretíssima para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira”, intendente geral da fábrica
do ferro. (FISC). São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 73.
33
Instrução que levou o capitão Joaquim de Sousa Lobo. São Paulo de Assunção de Luanda, a 18 de julho de
1768. IEB/ USP, AL-083-099.
91

A descrição mostra que o funcionário percebia as divisões entre as terras dos


chefados. O governador e seus subordinados sabiam que aquelas terras tinham dono. Sousa
Coutinho chegou a afirmar isso nas cartas da governadoria em janeiro de 1767, quando disse
que a fábrica que se instalou no Luinha ficava no “terreno” do soba Nguengue a Kimbemba.
A fábrica do Novo Belém, no coração da Ilamba Baixa, ficava no “terreno” do Kilamba
Ngongue a Kamukala34. Ou seja: as fábricas foram instaladas em áreas que pertenciam, no
sentido político e econômico, a esses sobas e ilamba.
Um registro de fevereiro de 1767, dois anos após o início da construção das
fábricas, informa que a posse de terras na região foi reclamada pelos sobas anexos ao presídio
de Muxima. Naquele ano, o sargento-mor do presídio escreveu sobre conflitos entre
moradores e sobas de Muxima quanto à “pertenção (sic) das terras aonde se assenta a
fábrica”. Os moradores diziam ter comprado aqueles terrenos dos sobas, que, por seu turno,
os acusavam de tê-los roubado. O governador de então ordenou que o intendente geral das
fábricas de ferro desconsiderasse essas querelas e que desse ouvidos apenas a quem
apresentasse os documentos comprobatórios da propriedade. Requereu os papéis de venda
porque ele não estava seguro de que “os sobas pod[iam] ou não vender as terras do seu
estado”35. Essa é a primeira menção, no contexto de construção da fábrica, à ideia de que a
terra Ambunda não poderia ser negociada. Havia outras regras, que não eram ignoradas pelos
portugueses, que regiam a relação dos centro-africanos com seu território.
O assunto não se esgotou nesse evento. Em abril de 1767, o intendente das
fábricas escreveu ao governador sugerindo que a povoação de Nova Oeiras se fixasse junto a
banza do soba Muxixi, que ficava às margens do rio Lukala. A resposta foi que isso não seria
proveitoso, desaprovando a ideia do funcionário36. Não é de espantar que um ano depois
disso, o soba Muxixi, tenha reclamado as “terras do Luinha”37. Muito provavelmente, o
intendente avançou a ocupação até as terras do soba, mesmo sem a aprovação do governo de
Luanda.
Outros sobas da região entraram no conflito. Assim como aconteceu em Muxima,
no presídio de Massangano também havia um desentendimento entre sobas e moradores pelas
terras da fábrica. E, mais uma vez, o governador duvidou dos moradores, pois ponderou que
34
“Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira (...)”. São Paulo de Assunção de Luanda, 12
de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 73
35
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de
Assunção de Luanda, 18 de fevereiro de 1767. BNP, C 8742, F6364, fl. 148.
36
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de
Assunção de Luanda, dez de abril de 1767. BNP, C 8742, F 6364, fl. 167.
37
Carta de FISC para o coronel Antônio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral da fábrica do ferro. São
Paulo de Assunção de Luanda, 3 de fevereiro de 1768. IEB/USP, AL-083-003.
92

nenhum soba poderia ter feito essa negociação porque “comumente os sobas não po[dem]
vender as suas terras por serem uma espécie de morgado”. A ordem vinda de Luanda
determinou que as terras, que fossem classificadas como “baldias”, deveriam ser ocupadas até
que os supostos donos apresentassem seus “títulos” que comprovassem a “boa ou má venda”,
ou seja, a legitimidade dos negócios38. Se as terras baldias tivessem dono, eles seriam
obrigados a cultivá-las sob “pena de se lhes tirarem se logo o não fize[ssem]”39. Portanto, o
intendente não tinha autorização para ocupar terras produtivas40.
Os sobas, de fato, reclamavam a posse de terras e não apenas no contexto da
fábrica de ferro. Em 1759, quando os jesuítas foram expulsos do Reino de Angola, seus bens
foram apreendidos pela Fazenda Real41. Entre as muitas posses dos jesuítas, foram elencadas
casas, terras, arimos, fazendas –que eram as propriedades com maior produção de alimentos
em Luanda e seu hinterland. A posse destas terras era requerida tanto pelos moradores de
Luanda e dos sertões próximos quanto pelos sobas. O governador disse que essas querelas
levavam a “causas eternas” sem resolução e sobre os sobas registrou o seguinte: “há alguns
sobas que querem ter direito a muita parte delas porque sempre clamaram que [os jesuítas] as
retinham em má posse e as usurparam a seus antepassados com as sutilezas e as indústrias que
lhes eram naturais”42.
Para além do aspecto jurídico, deve-se notar que as disputas eram entre os
moradores de áreas sob administração portuguesas - onde predominava representantes da elite
luso-africana (como vimos no capítulo 1) - e os sobas, vassalos da Coroa portuguesa que
administravam de forma independente suas povoações.

38
Idem, ibidem.
39
“Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira servindo o emprego de intendente geral da
Fábrica do Ferro e que executaram também os capitães mores como intendentes particulares na parte que lhes é
respectiva”. São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 73
40
Não há qualquer menção a um tipo específico de cultura que deveria ser empregada.
41
“Dentre os muitos inimigos que a Companhia de Jesus teve ao longo dos três primeiros séculos de sua
existência em Portugal, o Marquês de Pombal foi o mais implacável a ponto de conseguir sua expulsão, primeiro
dos territórios portugueses, em 1759 e, depois, de toda a cristandade, em 1773, por ordem do papa Clemente
XIV”. Célio Juvenal Costa, “O Marquês de Pombal e a Companhia de Jesus”. In: S. L. Menezes; L. A Pereira.;
C. M. M. Mendes (orgs). A expansão e consolidação da colonização portuguesa na América. Maringá: EDUEM,
2011, p. 69. Sobre os jesuítas no Reino de Angola, segundo Catarina Madeira Santos, “a assistência missionária
da Companhia de Jesus no sertão angolano, no século XVIII, foi muito pouco expressiva. Desde a restauração,
em 1648, os jesuítas foram abandonando as missões do interior e passaram a ocupar-se acima de tudo do colégio
de Luanda (cujas obras se iniciaram em 1607) e dos arimos (fazendas ou propriedades agrícolas) que possuíam
em vários lugares, sobretudo na região do rio Bengo”. Um governo "polido" para Angola, p. 129.
42
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para o Conde de Oeiras. São Paulo de Assunção de
Luanda, 14 de maio de 1760. AHU_CU_001, Cx. 46, D. 4261. “Além dos sobas há também alguns moradores
que com causas eternas contendiam com eles sobre o mesmo; e igualmente a Misericórdia desta cidade, que há
mais de cinquenta anos traz com eles um renhido pleito sobre a satisfação de um legado, que deixou a dita casa
um homem de quem foram herdeiros e testamenteiros, que faleceu há cento e trinta e sete anos, importando a
herança quatrocentos mil cruzados, que todos [ensoparam] em si; e nunca satisfizeram o legado ainda depois de
alcançar a Misericórdia sentenças da Relação contra eles”.
93

Uma das questões principais para o governo de Luanda à época era o fomento à
agricultura, com o fim de combater a escassez de alimentos e a má distribuição de água. Em
um bando de 1768, o governador ordenou o levantamento de todas as terras baldias (“arimos
desertos”) ao longo dos rios Nzenza, Ndande e Kwanza. O documento permite entender como
as próprias políticas coloniais instigavam os conflitos sobre as terras. O governador prometeu
entregar as propriedades abandonadas a quem denunciasse seu estado improdutivo e se
obrigasse a cultivá-las. Se, para ter acesso à terra, bastava denunciar seu mal emprego, era de
se esperar que a denúncias seriam abundantes. O documento também nos informa que, as
terras do reino eram ou de “natureza de sesmaria” ou “de indevidas compras aos sobas”43.
O regimento dos governadores ordenava que se soubesse “de todas as terras que
são dadas, quem as deu, e que poder tinha para isso, e quem as possui” porque havia notícia
de que terras que haviam sido doadas não estavam sendo cultivadas. Diante disso, as terras
sem dono deveriam ser repartidas por quem se obrigasse a cultivá-las dentro de cinco anos. Se
os particulares não o fizessem neste prazo, elas poderiam ser passadas a outrem44. Esse trecho
remete ao que está na “lei das sesmarias”, de 1375, que foi compilada nas Ordenações
Afonsinas, Manuelinas e Filipinas, com algumas modificações nos textos desses registros45.
E as “indevidas compras aos sobas” ou a “má posse”, no caso dos jesuítas, como
descobrir os legítimos donos? A primeira hipótese é a desapropriação pela força, em situação
de guerra, por exemplo. Vansina disse que os sobas destituídos durante a conquista, não tendo
outro recurso, negociaram suas terras com os colonos46. Na ocupação portuguesa na margem
Oriental africana, a terra para os chefados africanos, em especial os Maraves, eram
propriedade coletiva, nenhum chefe a podia vender ou alienar. Um padrão que se repete entre
os Ambundos. Em Portugueses e Africanos nos rios de Sena, Eugénia Rodrigues faz um
longo inventário dos prazos na região do vale do Zambeze. No Índico, instituiu-se um outro
enquadramento jurídico para a repartição de terras, os prazos eram “concessões enfitêuticas,
em que a Coroa retinha o domínio direto e cedia o domínio útil em troca do pagamento de um

43
Bando sobre os arimos desertos. São Paulo de Assunção de Luanda, agosto de 1768. IEB/ USP, AL-083-92.
44
Regimento do Governo do Reino de Angola dado em Lisboa, 12 de fevereiro de 1676. AHU, Códice 544, fl.
8v.
45
Instituída no reinado de Fernando I, as sesmarias tinham por finalidade combater a diminuição da população
rural de Portugal. Código Filipino, ou, Ordenações e Leis do Reino de Portugal: recompiladas por mandado
d’el-Rei D. Filipe I, edição fac-similar da 14ª edição de 1821 por Cândido Mendes de Almeida. Brasília: Senado
Federal, Conselho Editorial, 2004, Livro IV, p. 43. Na América portuguesa, as sesmarias também era a principal
norma de divisão de terras nessa época. Ver, a respeito, Márcia M. M. Motta, Direito à Terra no Brasil. A
gestação do conflito (1795/1824). São Paulo: Alameda, 2009. Sobre o regime de posse de terras no Atlântico
português, ver: Antonio de Vasconcelos Saldanha, As capitanias. O regime senhorial na expansão ultramarina
portuguesa. Funchal: Centro de Estudos de História do Atlântico, 1992, p. 190. Na Costa Oriental, o marquês de
Pombal tentou “sesmarizar” os prazos, mas o sistema perdurou até o início do século XIX.
46
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”, p. 22.
94

foro”47, o arrendamento perdurava, inicialmente, três gerações e poderia ser renovado. Do


mesmo modo que os sobas, os chefados dos rios Sena entraram em conflito com os colonos,
que diziam ter comprado suas terras. E, neste ponto, esse livro pode nos ajudar a elucidar a
origem desse tipo de confusão: afinal, os moradores compravam ou não terras da elite
africana? No caso de Moçambique, o estabelecimento dos portugueses no território africanos
era selado com a oferta de panos. Na transação, “aparentemente, o chefe africano permanecia
o senhor da terra, embora os mercadores dos rios considerassem que as tinham comprado ou
que elas lhes tinham sido doadas”. A historiadora alerta que para compreender esse
enfrentamento é preciso separar os “conceitos europeus de doação e de compra” e “o
granjeamento de novos súditos pelos chefes africanos”48.
É válido considerar que uma confusão parecida tenha provocado os
desentendimentos entre os sobas e os moradores dos presídios, visto que as relações entre eles
eram pautadas por ofertas de mercadorias, como os tecidos, objeto-moeda comum na África
Centro-Ocidental49. Um gesto, uma negociação, uma simples troca de presentes tinha
significados distintos para os envolvidos; é possível imaginar que o que para os primeiros
colonos era uma transação de compra de terras, para os Ambundos representasse uma oferta
para autorizar a passagem pelo seu território ou celebrar uma aliança, por exemplo.
Os moradores começaram a enviar os “títulos”, Sousa Coutinho chegou a receber
uma lista dos que alegavam ter terras entre as que foram separadas para construir a fábrica. A
ordem era que se ressarcisse os que tiveram parte de suas propriedades anexadas
indevidamente à fábrica50. Não podemos dizer o mesmo sobre os sobas, se comprovaram a
sua titularidade sobre a terra. Porém, havia duas formas de lidar com os terrenos em Angola: a
sesmaria, que orientava como os moradores adquiriam terras, e a “espécie de morgado”, que
regulamentava a posse africana sobre seus terrenos. Como decidir em caso de sobreposição,
quando a mesma terra era reivindicada por chefes africanos e moradores, que lei valia, a dos
sobas ou as Ordenações? Além disso, qual eram as regras africanas de acesso à terra, o que
seria o tal “morgado” africano?
De acordo com a historiadora Isabel de Castro Henriques, “a terra africana é
abrangente, engloba todos os territórios africanos: a terra é o cosmos”, portanto integra o
47
Eugénia Rodrigues, Portugueses e Africanos nos rios de Sena. Os prazos da Coroa em Moçambique nos
séculos XVII e XVIII. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2013, p. 25.
48
Idem, p. 357. Rodrigues também aponta para a obtenção de terras por parte de mercadores por meio de
alianças militares e matrimoniais nos territórios dos Estados Karangas, emergentes do Império Monomotapa.
49
O termo objeto-moeda foi cunhado por Paul Lovejoy, em A escravidão na África. Uma história de suas
transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 169-170.
50
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral da fábrica de ferro. São Paulo de
Assunção de Luanda, sete de abril de 1769. IEB/ USP, AL-083-223.
95

espaço sagrado: “para os africanos a terra não é valor de troca, pois ela não pertence ao grupo
senão graças à mediação dos espíritos”. Dessa forma, no território africano encontram-se
alguns dos “pilares fundamentais da identidade africana”51, o parentesco e a religião. As
árvores sagradas, os rios, as plantas que forneciam os pigmentos das cores sagradas, os
tambores que levavam mensagens de uma cubata a outra, as sepulturas dos antepassados ou
dos heróis fundadores são marcadores importantes deste território52. Por exemplo, em 1809, o
capitão-mor do presídio das Pedras de Pongo Andongo ordenou aos alguns sobas vassalos
que fossem habitar em uma das ilhas do Kwanza. As chefias não aceitaram porque isso ia
contra “os seus ritos”, traduzidos pelos agentes coloniais como “leis gentílicas”53.
Quando Sousa Coutinho se referiu ao “morgado” a ideia mais próxima que o
funcionário régio conseguiu formular para compreender a relação dos sobas com as terras da
Ilamba foi a aproximação da noção de parentesco e transmissão de títulos de nobreza, para os
africanos, com a dos direitos de herança e de sucessão dos europeus. Segundo o dicionário do
padre Raphael Bluteau, um morgado ou “bens de morgado” eram “bens vinculados de sorte
que sem se poderem alienar, nem dividir, o sucessor justamente os possua na mesma forma e
ordem que o instituidor tem declarado”54. As Ordenações Filipinas determinam como deveria
ocorrer a transferência da herança que, em primeiro lugar, privilegiava o filho, homem,
primogênito e “posto que o filho mais velho morra em vida de seu pai, ou do possuidor do
morgado, se o tal filho mais velho deixar filho, ou neto, ou descendentes legítimos, estes tais
descendentes por sua ordem se preferirão ao filho segundo”55. O morgado também deveria
ser confirmado pelos herdeiros pela posse de um documento. Ao fazer essa analogia, o
governador entendia que a posse da terra era regida pelas regras do parentesco.
Embora exista uma relevante historiografia para outras partes do Império
português, especialmente para a América portuguesa, a Índia e a África Oriental, a
bibliografia sobre os conflitos por terras para o Reino de Angola e para a África Centro-

51
Isabel de Castro Henriques, “A materialidade do simbólico: marcadores territoriais, marcadores identitários
angolanos (1880-1950)”. Textos de História, vol. 12, n° 1/2, 2004, p. 40.
52
Sobre os múltiplos sentidos da terra para os africanos, Holly Hanson apresentou um exemplo interessante.
Hanson estudou como um sistema de relações sociais baseadas em “obrigações mútuas” (“reciprocal
obrigation”) foram a base do desenvolvimento do estado de Ganda. As obrigações giravam em torno da posse de
terra (que eram pagamento da obrigação), estavam imiscuídas de significado afetivo que determinavam
hierarquias sociais e políticas. Holly Hanson, Landed Obligation: The Practice of Power in Buganda.
Portsmouth: Heinemann, 2003.
53
Carta do capitão-mor de Pedras de Pungo Andongo, Matias Joaquim de Brito para o Governador Saldanha da
Gama, AHA, Cód. 3018, s.fl., 19 de Fevereiro de 1809. Apud, Catarina Madeira Santos, Um governo “polido”,
p. 129.
54
Raphael Bluteau, Vocabulário portuguez e latino, 10 v. Lisboa/ Coimbra: Colégio da Cia. de Jesus, 1712-
1728, verbete “morgado”.
55
Código Filipino, ou, Ordenações e Leis do Reino de Portugal: recompiladas por mandado d’el-Rei D. Filipe
I, Livro IV, Título 100, “Por que ordem se sucederá nos Morgados e bens vinculados”.
96

Ocidental, em geral, é escassa e voltada predominantemente para os séculos XIX e XX. Para
esses autores, as regras de acesso à terra Ambunda sofreram uma mudança significativa a
partir do declínio do tráfico de escravos, quando colonialismo português se voltou de forma
majoritária para as atividades agrícolas, o cultivo de mandioca, milho, índigo, além da
exploração de urzela, marfim e goma. Em resposta à expansão da agricultura, só então, os
portugueses teriam recorrido à exploração local do trabalho dos centro-africanos56.
A documentação consultada vai em sentido oposto. Como frisou Mariana
Candido, desde o século XVI, sob os desígnios dos direitos de conquista, em nome da guerra
justa, a ocupação portuguesa influenciou a política local de distribuição e controle da terra57.
No decorrer do tempo, a expansão para o hinterland de Luanda se intensificou com o
enfraquecimento do poderio dos africanos. Com o declínio do tráfico transatlântico, a posse
da terra se tornou uma questão central para o colonialismo, mas ela sempre existiu.
Para as regiões ao norte do Kwanza os estudos mais elucidativos sobre a posse de
terra são os de Eva Sebestyén sobre a transmissão da posse de terras nos Ndembu, em N’
Dalatando e no sobado Samba Cajú, na região de Ambaca58. Trata-se, portanto, de uma região
muito próxima a Nova Oeiras. A autora encontrou documentos guardados pelos sobas da

56
Cf.: Jill Dias, “Changing Patterns of Power in the Luanda Hinterland. The Impact of Trade and Colonization
on the Mbundu ca. 1845-1920”. Paideuma, 32, 1986, p. 285-318; José Carlos Venâncio, A economia de Luanda
e Hinterland. No Século XVIII. Um estudo de Sociologia Histórica. Portugal: Estampa,1996; Selma Pantoja,
“Donas de ‘arimos’: um negócio feminino no abastecimento de gêneros alimentícios em Luanda (séculos XVIII
e XIX)”. In: Selma Pantoja (ed.), Entre Áfricas e Brasis. Brasília: Paralelo, 2001, p. 35-49; Aida Freudenthal,
Arimos e fazendas: a transição agrária em Angola, 1850-1880. Luanda: Chá de Caxinde, 2005; Aurora da
Fonseca Ferreira, “A questão das terras na política colonial portuguesa em Angola nos anos de 1880: o caso de
um conflito em torno da Kisanga”. In: Maria Emília Madeira Santos (dir.). A África e a instalação do sistema
colonial - c.1885- c.1930. Lisboa: Centro de estudos de História e cartografia antiga, 2001, p. 261-272. Para o
Império português na América, ver: Tamar Herzog, Frontiers of Possession: Spain and Portugal in Europe and
the Americas. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2015; Maria Sarita Mota, “Apropriação
econômica da natureza em uma fronteira do império atlântico português: o Rio de Janeiro (século XVII). In: José
Vicente Serrão, Bárbara Direito, Eugénia Rodrigues, Susana Münch Miranda (org.), Property Rights, Land and
Territory in the European Overseas Empires, Lisboa: CEHC, ISCTE-IUL, 2015, p. 43-53; Para a África
Oriental, ver: Eugénia Rodrigues, Portugueses e Africanos nos rios de Sena, 2013; Maria Paula Pereira Bastião,
Entre a Ilha e a Terra. Processos de construção do continente fronteiro à Ilha de Moçambique (1763 - c. 1802).
Dissertação (Mestrado) – Universidade Nova de Lisboa, 2013, Albert Farré, “Regime de terras e cultivo de
algodão em dois contextos coloniais: Uganda e Moçambique (1895-1930)”, In: José Vicente Serrão, Bárbara
Direito, Eugénia Rodrigues, Susana Münch Miranda (org.), Property Rights, Land and Territory in the European
Overseas Empires, Lisboa: CEHC, ISCTE-IUL, 2015, p. 245-254.
57
Mariana Candido, “Conquest, occupation, colonialism and exclusion: land disputes in Angola”. In: José
Vicente Serrão, Bárbara Direito, Eugénia Rodrigues, Susana Münch Miranda (org.), Property Rights, Land and
Territory in the European Overseas Empires, Lisboa: CEHC, ISCTE-IUL, 2015, p. 230.
58
A autora encontrou 234 documentos entre “testamentos, listas de sobas, demarcações inspeções, compra e
venda de terrenos, casos litigiosos dos sobas por causa da terra e poder, correspondência com a administração
portuguesa e familiares, autos de vassalagem”. Eva Sebestyén, “Legitimation through Landcharters in Ambundu
Villages, Angola”. Perspektiven afrikanistischer Forschung. BeiträgezurLinguistik, Ethnologie, Geschichte,
Philosophieund Literatur. X. Afrikanistentag, 1993, p. 363-379; Eva Sebestyén, Os ‘arquivos’ de sobas
Ambundo: um caso transcultural dos testamentos em Angola. In: Actas do IV Curso de Verão da Ericeira.
População: encontros e desencontros no espaço português, 2003, p. 51-74; Eva Sebestyén, “O contexto cultural
dos marcos de terrenos nas aldeias Ambundu/ Angola”. Africana Studia, n. 24, 2015, p. 91-106.
97

região sobre disputas de terras e títulos de compra e venda desde o século XVII até o XX. São
registros escritos da tradição oral usados para legitimar a posse da terra, que mantêm os
protocolos narrativos dos testamentos portugueses, mas com conteúdo diferente. O testador
não elenca os bens e os respectivos herdeiros, antes deixa um registro de informações
importantes para a sua linhagem, inclusive para defender os herdeiros da escravização:
“principalmente uma declaração validando a filiação e um registro de inspeções de limites que
codificam a propriedade [as terras] da linhagem”59. Uma outra informação importante é que
os documentos dos sobas, da jurisdição do presídio de Ambaca, só eram reconhecidos como
autênticos se o escrivão oficial do presídio os registrasse. Logo, a administração colonial
reconhecia as terras das linhagens desde que fossem atestadas pelos seus funcionários. Mais
uma vez, nota-se a dependência dos chefes africanos dos funcionários dos presídios, já que
eram eles que registravam e autentificavam seus “testamentos”.
Para Sebestyèn, esses títulos serviam a dois propósitos. Atendiam às “exigências
portuguesas na medida em que relatavam detalhadamente os limites do sobado e os nomes
dos sobados vizinhos”60. Ao mesmo tempo, os registros serviam para salvaguardar a história
da linhagem: sua origem, as migrações, o primeiro assentamento, as guerras locais, as
alianças. Todas as vezes que um novo chefe era eleito, os limites do sobado eram
reconfirmados, com a inspeção de suas fronteiras.
Os limites dos terrenos eram determinados de forma diferente entre os Ambundos,
detinham conotação espiritual. No testamento de Dom Miguel Soba Caxinda Candala, de
1782, o soba descreve que as razões da migração de seu povo – “vendo que o meu povo era
bastante e não tinha cômodo para agricultarem”; as alianças que fez com outros sobas para
ocupar novas terras; os riachos e rios que serviam de marcadores dos terrenos, além de outras
marcações particulares – “pondo suas marcações”61. Segundo Sebestyèn, as marcas
fronteiriças utilizadas eram árvores específicas, que a autora descobriu terem propriedades
medicinais, “árvores com o desenho de uma cruz, pedaços de argila, pedaços de ferro,
pedras”, panelas de barros entre outros62. Em rituais anuais ligados a terra, os sobas recorrem
ao apoio dos seus antepassados e entidades da água, “nas margens dos rios fronteiriços para

59
Eva Sebestyén, “Legitimation through Landcharters in Ambundu Villages, Angola”, p. 364.
60
Idem, p. 365.
61
Agradeço a Roquinaldo Ferreira por ter compartilhado esse documento com os pesquisadores do
Cecult/Unicamp. Testamento de Dom Miguel Soba Caxinda Candala, 15 de maio de 1782, s.l. AHA, Caixa 3465
(Avulsos) - Ambaca.
62
Eva Sebestyén, “Legitimation through Landcharters in Ambundu Villages, Angola”, p. 365.
98

conseguirem boa colheita através da oferta às sereias, quiximbi donos dos rios, protetores da
terra”63.
Se levarmos em conta que esses não são os primeiros escritos guardados por
titulares de linhagens dessa região que chegaram ao nosso conhecimento64, é provável que os
sobas da antiga província da Ilamba também tivessem títulos para comprovar a posse
linhageira de suas terras e que os tenham apresentado para o governador65. Talvez, foi por
conhecer os documentos guardados pelos sobas que Sousa Coutinho usou a analogia ao
“morgado”, pois não poderia ser mais apropriada. No morgado “português”, a herança seguia
a linha paterna: filhos, netos, etc. Os Ambundos são de tradição matrilinear, portanto,
teoricamente, não seria a família do pai a preferida na sucessão, mas sim a da mãe. Todavia
não é o que Sebestyèn verifica: a transmissão dos títulos ocorria na linha patrilinear, o filho ou
a filha do soba tornava-se o herdeiro, protetor das terras da linhagem. No sentido prático, era
mesmo um morgado. A autora considera a hipótese de que a convivência com os portugueses
teria trazido essa mudança na transmissão e acesso à terra.
Nos documentos consultados, não há menção ao soba Muxixi ou aos sobas de
Muxima, o que indica que a disputa pelas terras não se dava apenas entre funcionários régios,
moradores e autoridades tradicionais centro-africanas. A posse de terras era também uma
questão geradora de conflitos entre os próprios sobas, e destes com os ilamba e imbari. Isso
se confirma, principalmente, no que diz respeito às terras da Ilamba Alta, com suas ricas
minhas de ferro.
Os ilamba, oficiais da guerra preta, segundo Beatrix Heintze, eram
recompensados “pelos seus leais serviços prestados com terrenos nas regiões dos [sobas]
vassalos”66. As terras onde foi fundada a fábrica de Novo Belém eram do Kilamba Ngongue a
Kamukala, ao redor de Nova Oeiras se encontravam terras do Kilamba Pedro Ambaxi e o
soba Muxixi, que reivindicava terras no Luinha, aparece em outra documentação como

63
Eva Sebestyén, “O contexto cultural dos marcos de terrenos nas aldeias Ambundu/ Angola”, p. 93.
64
Há ainda, pelo menos, o “Arquivo de Estado do Ndembu Kakulu Kakaenda”, composto por 210 documentos
trocados entre o ndembu e administração colonial, datados do século XVIII ao XX. Ana Paula Tavares e
Catarina Madeira Santos (ed.), Africae Monumenta. A Apropriação da escrita pelos africanos. Lisboa: Instituto
de Investigação Científica e Tropical, v. I, 2002.
65
É interessante observar que já no avançar do século XIX, em 1860, o soba Quipola, de Môssamedes, que
reclamava que a posse de terras que foram ocupadas por brancos para o desenvolvimento da agricultura,
solicitasse que o governador lhe entregasse o “título da terra” para comprovar que era o legítimo dono. O pedido
endossa o argumento de que a posse linhageira precisava ser atestada pelas autoridades coloniais. Mariana
Candido, “Conquest, occupation, colonialism and exclusion: land disputes in Angola”, p. 224.
66
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 451; Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c.
1760-1845”, p. 7 e 8. Apesar de o plural de kilamba corresponder exatamente ao nome desta região (Ilamba) não
conhecemos as razões desta coincidência. Sabemos que os ilamba recebiam terras em contrapartida à sua
participação na guerra preta. Mas todas essas terras teriam sido doadas aos ilamba? É uma questão para qual não
temos resposta, pois não temos elementos mais para avançar na análise.
99

kilamba67. Heintze e Vansina também sugerem que os ilamba poderiam se tornar sobas, com
o tempo. Contudo, parece haver um consenso nas fontes de que o kilamba ocupava parte das
terras dos sobas, inclusive para melhor espioná-los, porém não teria seus próprios terrenos68.
Os casos aqui apresentados sugerem que ao menos alguns chegaram a ter terras.
Provavelmente havia ilamba, sobretudo os primeiros que se associaram aos portugueses, que
se tornaram senhores de terras, recursos naturais e gentes e, que quiçá até passaram a ser
inseridos nos mecanismos políticos de parentesco, chegando a ser sobas. Já outros não foram
tão bem-sucedidos, permanecendo nos terrenos dos sobas, assim como muitos sobas menores,
ou sobetas, que eram congregados nas terras de um soba mais poderoso69. Porém, é preciso
lembrar que os ilamba não eram bem vistos (“odiados”) pelos sobas por causa de suas
práticas de espionagem e alianças com os portugueses70, haja vista que muitos sobas podem
ter sido subjugados ao domínio colonial pela ação dos ilamba, os capitães da guerra preta.
As contendas em torno das terras eram “causas eternas”, como citado em
documento anterior. O embate pelos terrenos na Ilamba se desenrolou e outra personagem
apareceu para requerer as terras - um “negro calçado” cujo nome não foi mencionado em
fevereiro de 176871. É provável que este homem seja João Correia, que apresentou uma
petição com o “título de senhor das terras em que se fundou a Nova Oeiras” para a Real
Fazenda um ano depois, em fevereiro de 1769. Neste documento ele disse possuir uma
lavoura de tabaco naquela localidade, bem como lucrar com a passagem dos rios Luinha e
Lukala, ao alugar suas canoas para que comerciantes e viajantes atravessassem os rios. Com a
povoação e o início da construção da fábrica, ele perdeu seus negócios e teve grande prejuízo.
As ordens vindas de Luanda mais uma vez requeriam que fossem apresentados “os títulos em
que funda o dito senhorio”, que se inquirissem a testemunhas “verdadeiras e livre[s] de toda a
suspeita” para saber se as terras eram cultivadas e o quanto rendiam e também em que se
assentava o direito de passagem dos rios72.

67
Carta de FISC aos capitães-mores de todos os presídios e distritos sobre o undamento dos sobas e mais
potentados. São Paulo de Assunção de Luanda, 3 de outubro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, D. 6 e 7.
68
Ver glossário.
69
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”, 2005, p. 8.
70
O sentimento de ódio registrado por Cadornega era tão patente que nos documentos encontrados por
Sebestyén uma frase é recorrente: “somos vassalos da Majestade não quer sujação [sujeição] de serviço de
empacaceiro, quilamba e quimbar”. Os sobas não pareceriam querer que sua identidade fosse associada à dos
ilamba e imbari. Eva Sebestyén, “O contexto cultural dos marcos de terrenos nas aldeias Ambundu/ Angola”, p.
92.
71
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira Intendente Geral das Reais Fábricas de Ferro. São
Paulo de Assunção de Luanda, 10 de fevereiro de 1768. IEB/USP AL-083-009.
72
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de
Assunção de Luanda, 27 de fevereiro de 1769. IEB/USP, AL-083-223.
100

Na documentação sobre as terras da Ilamba temos, portanto, poucas pistas acerca


de como foram resolvidos os conflitos envolvendo a posse de terra entre as chefias locais e os
outros súditos da Coroa portuguesa. É uma documentação fragmentária prenhe de
contradições e embates. Na instrução aos intendentes das fábricas de ferro, de junho de 1769,
Sousa Coutinho orientou como esses funcionários deveriam regular “a dúvida das terras”. O
objetivo da determinação era que a fábrica não se fundasse com violência, gerando revoltas
entre os africanos, moradores, negociantes (no que fracassou completamente pelo que vimos).
Para tanto, o governador reiterou que o legítimo dono deveria apresentar “seus títulos”. Se
alguém o fizesse, seria compensado com outras terras que estivessem livres. Se não existissem
“terras livres”, quem ocupou terreno alheio deveria pagar um tributo ao dono73.
De toda forma, a legitimidade da posse daquelas terras, na Ilamba, não parece ter
sido comprovada por ninguém. O que vimos é que todas essas personagens usaram os
recursos que tinham a seu alcance para provar a sua posse. As divergências apontam para
como o governo de Luanda, ao construir a fábrica, desagradou tanto os africanos quanto os
moradores dos presídios. Como este assunto não aparece novamente na correspondência sobre
a edificação da povoação e da fábrica de Nova Oeiras, pode-se aventar que nem os sobas,
nem os moradores, nem João Correia conseguiram provar que seus títulos eram verdadeiros, o
que permitiu que a região fosse ocupada pelos planos da Fazenda Real do governo de Angola.
Outra possibilidade é que eles tinham os títulos, mas não havia testemunhas para certificar a
posse. Ou os funcionários régios podem ter se valido de manobras legais - como classificar as
terras como baldias, requisitar a presença de testemunhas que não foram encontradas ou não
eram “verdadeiras e livres de toda suspeita” - como uma série de resoluções com o intuito de
desapropriar as terras dos moradores, dos sobas, dos ilamba, de João Correia, da
Misericórdia, provavelmente das donas74, que eram grandes proprietárias de arimos.
Apesar das diferenças marcantes entre as possessões ultramarinas portuguesas, em
todas a administração régia “incapaz de manter largos contingentes de soldados e funcionários
no terreno”75 recorreu a recursos de particulares para salvaguardar e administrar os territórios.

73
“Instrução porque se hão de governar o Intendente geral Antonio Anselmo Duarte de Siqueira na diligência
que agora faz para a Nova Oeiras com os Capitães Manoel Antonio Tavares, Antonio de Bessa Teixeira e
Joaquim de Bessa Teixeira a qual deve cada um guardar na parte que lhe é respectiva e por ela responder”. São
Paulo de Assunção de Luanda, 2 de junho de 1769. IEB-USP, Al-083-254.
74
As mulheres locais se tornavam grandes proprietárias de arimos no hinterland de Luanda quando as herdavam
como a terça de antigos senhores ou por conta do falecimento do marido - europeus ou luso-europeus
enriquecidos. Associando essas propriedades a outras como escravos, casas, lojas, tavernas, enriqueciam e
passavam a ser conhecidas como donas. Selma Pantoja, “Donas de arimos: um negócio feminino no
abastecimento de gêneros alimentício em Luanda (séculos XVIII e XIX)”. In: Selma Pantoja (org.). Entre
Áfricas e Brasis. Brasília: Paralelo Editores, 2001, p. 35-49.
75
Eugénia Rodrigues, Eugénia Rodrigues, Portugueses e Africanos nos rios de Sena, p. 27.
101

Em Angola, a vassalagem das chefias africanas permitiu que o controle do território se


estabelecesse por interposta pessoa e minimizou os custos dos europeus na administração de
terras, inclusive das que lhes eram desconhecidas76. Isso garantiu a conquista e a ocupação,
mas gerou os embates entre todas essas personagens descritas aqui. No século XVIII, em
linhas gerais, em nome da Razão de Estado, a Coroa e o governo de Luanda quiseram tomar
um poder que tinham repartido com os súditos. Na apropriação das terras e minas da Ilamba,
as relações de interdependência entre essas pessoas afloram e nos permitem visualizar os
muitos nuances do exercício de domínio.

2.2 Ferro e aço, em barras e obras

Os produtos de ferro vindos da Europa chamavam a atenção dos africanos porque


eram diferentes dos locais, tais como as espadas com desenhos distintos, e por isso acabavam
tendo valor como objetos prestigiosos. Por exemplo, a rainha de Portugal enviou certa vez
uma espada para o Hambo a Huíla (sul do Kwanza) como presente; essas trocas de
“galanterias” era uma política comum, parte da diplomacia entre os reinos europeus e
africanos para selar alianças e como forma de reconhecimento de prestígio e soberania77.
Contudo, os objetos estrangeiros faziam parte de um comércio complementar, que
não substituía o fabricado localmente. O minério de ferro é um dos mais abundantes do
continente e de fácil acesso, encontrando-se na superfície em muitas áreas, não só na Ilamba,
no Reino de Angola. A argila necessária para construir os fornos e suas demais aparelhagens
também é frequente, assim como a madeira para o carvão vegetal - um recurso natural que, a
longo prazo se exauriu em algumas localidades. Além disso, pode-se dizer que é o continente
em que o trabalho com o ferro foi mais difundido78. Logo, ali existiam todas as condições
para subsidiar a produção e circulação de ferro em barra e em obras79.

76
Mariana Candido, “Conquest, occupation, colonialism and exclusion: land disputes in Angola”, p. 224.
77
Carta para o capitão de Moçâmedes do secretário do governo de Angola. Moçâmedes, 22 de maio de 1849.
AHA, Códice – 326, fl. 78v. Ver: Mariza de Carvalho Soares, “Trocando Galanteria: A diplomacia do comércio
de escravos, Brasil-Daomé, 1810-1812”. Afro-Ásia, 49, 2014, p. 229-271.
78
Para a África Subsaariana, pesquisas arqueológicas mostram que a fundição de ferro ocorreu de forma
independente, ou seja, não foi importada para a região de outros lugares. Outro importante achado é sobre a
noção de que a redução do ferro por ser muito complexa teria derivado de experimentos com o cobre, como
consequência de uma tradição “piro-metalúrgica”. Arqueólogos consideram essa questão controversa, mas após
a revisão de novas evidências, dizem que não há qualquer tradição piro-metalúrgica na África que tenha dado
origem a fundição do ferro. Manfred K. H. Eggert, “Early Iron in West and Central Africa”, In: Peter Breunig
(ed.), Nok. African sculpture in archaeological context. Frankfurt: Africa Magna Verlag, 2014, p. 50-59. Há
muitos de estudos sobre a origem e o desenvolvimento da mineração de ferro na África. Destaco algumas
coletâneas e artigos: P. R. Schmidt (ed.), The Culture and Technology of African Iron Production. Gainesville:
University Press of Florida, 1996; Hamady Bocoum (ed.), The origins of Iron Metallurgy in Africa. New light on
102

Collen Kriger em seu livro sobre os ferreiros na África Central traçou todo o
percurso da história da exploração de metais na região. Os estudos arqueológicos revelam
uma grande quantidade de instrumentos de metal. Apesar da similaridade das funções, os
objetos variavam muito, isso demonstra uma ampla variedade de técnicas de forja do ferro,
sugerindo que os ferreiros desenvolviam técnicas distintas nas suas muitas oficinas e que
havia um grande mercado de produtos de ferro e cobre80. As barras de ferro produzidas na
Ilamba poderiam ser comercializadas ou transformadas na forja de ferreiros centro-africanos
em objetos destinados a diversos fins, que alimentavam uma intensa rede de mercadorias.
O ferro era a matéria-prima utilizada para fazer ferramentas para a agricultura,
para pesca, para caça, para armas de guerra, para objetos ornamentais (braceletes, pulseiras,
colares), para o tráfico de escravos e para confeccionar objetos sagrados - zagaias, cutelos,
machadinhas, enxadas, catanas, correntes, grilhões. O metal também era moeda importante no
continente africano para o tráfico de escravos: as elites locais exigiam ser pagas com cauris,
barras de ferro e cobre, manilhas81, instrumentos de guerra e peças de metais. O ferro e o aço
produzidos em muitas partes da África tinham qualidade igual ou superior às barras
fornecidas pelos europeus. O controle desta tecnologia permitia uma maior exploração da
agricultura, o que levava ao incremento da produção de alimentos e atraía também um maior

its antiquity. West and Central Africa. Barcelona: Unesco, 2004; J. O. Vogel (ed.), Ancient African Metallurgy:
The Sociocultural Context. Walnut Creek: Aka Mira Press, 2000; S. B. Alpern. “Did they or didn‘t they invent
It? Iron in Sub-Saharan Africa”. History in Africa, 32, 2005, p. 41–94; B. Clist, “Vers une réduction des préjugés
et la fonte des antagonismes: Un bilan de l’expansion de la métallurgie du fer en Afrique sudsaharienne”.
Journal of African Archaeology, 10 (1), 2012, p. 71–84. Um estudo de história clássico é Walter Cline, Mining
and metallurgy in Negro Africa. Menasha: George Banta Publishing Company Agent, 1937.
79
Em alguns lugares, os africanos trabalhavam em fornos com ar pré-aquecido, técnica conhecida na Grã-
Bretanha somente em 1828, que resultava em um ferro com maior teor de carbono, mais especificamente, o aço.
O inglês Nielsen foi o responsável por essa melhoria técnica na Europa: o aquecimento do ar insuflado no forno
reduzia a necessidade de carvão. Candice L. Goucher, “Iron is Iron 'Til it is Rust: Trade and Ecology in the
Decline of West African Iron-Smelting”. The Journal of African History, v. 22, n. 2, 1981, p. 181; S. T. Childs
and E. Herbert, “Metallurgy and its Consequences”, In: A. Stahl (ed.) African Archaeology: A Critical
Introduction. London: Blackwell, 2005, p. 276-301; John Thornton, A África e os africanos na formação do
mundo atlântico, 1400-1800, p. 90-93. Sobre a metalurgia do ferro na África Ocidental, ver: Walter Rodney,
History of the Upper Guinea Coast, 1545-1800. New York: Oxford University Press, 1970, p. 186 e ss; P. de
Barros, “Societal Repercussions of the Rise of Traditional Iron Production: A West African Example”, African
Archaeological Review, n. 6, 1988, p. 91–115.
80
Collen E. Kriger, Pride of Men: Ironworking in 19th Century, West Central Africa, Porthsmouth: N. H:
Heinemann, 1999, p. 29-44. Para a África Central é importante notar que arqueólogos, etnógrafos e historiadores
já não mais sustentam que a expansão Bantu se deveu ao domínio da metalurgia do ferro. Grupos falantes de
outras línguas foram igualmente importantes para a evolução da tecnológica de fundição de ferro. D. L.
Schoenbrun, A Green Place, A Good Place: Agrarian Change, Gender, and Social Identity in the Great Lakes
Region to the 15th Century. Portsmouth: Heinemann, 1998, p. 71; Eugenia W. Herbert, “African Metallurgy:
The Historian's Dilemma”. Mediterranean Archaeology, v. 14, 1999, p.41-48.
81
A manilha era um bracelete de metal, “geralmente de cobre ou latão, cuja circunferência não se fecha
inteiramente, como se fosse um ‘C’. Usava-se como adorno nos braços ou nos tornozelos e sobretudo, talvez já
antes da chegada dos portugueses aos litorais africanos, como moeda”. Alberto da Costa e Silva, A manilha e o
libambo. A África e a escravidão de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 9.
103

contingente populacional. Isso, por conseguinte, garantia mais poder aos soberanos, pois era o
controle de uma grande quantidade de dependentes que legitimava o poder das elites locais.
No Reino do Ndongo, os ferreiros da Ilamba produziam uma série de produtos de
ferro “instrumentos músicos, alfaias domésticas e armas”82. Segundo Beatrix Heintze, já na
primeira metade do século XVI, o Ndongo dispunha um comércio interno bem organizado,
“não só o sal, mas também o cobre, os artigos de ferro, o marfim, o óleo de palma, bem como
o gado graúdo e miúdo desempenhavam um papel especial”83. Ao lado de penas, cascas de
caracóis, missangas importadas, corais falsos, caudas de elefantes (xinga, kimbundu:
muxinga) e pinturas do corpo, as argolas de metal (kimbundu: dilunga, pl. malunga) e brincos
eram adornos muito apreciados entre os Ambundos84.
Os sinos também eram importantes, pois eram utilizados para promover a
comunicação – “embora fosse um instrumento muito pequeno, ouvia-se a uma grande
distância”85. Entre os Ambundos e os Mbangala o sino duplo sem badalo era instrumento
militar e objeto ritual, poderia ser untado com sangue de sacrifício, trazendo sucesso para os
combates. Quando passou a ser usado por agentes da guerra preta dos portugueses, o sino
duplo perdeu muito de seu valor sagrado86.
Collen Kriger aponta para a utilização de diferentes metais na confecção de
algumas peças, como ligas de ferro e cobre. Também indica usos que as fontes setecentistas
silenciam como é o caso do pagamento de dotes com barras de ferro, ligas de cobre, flechas,
lanças, facas, armas além de escravos, cabras, ovelhas e cães. Como a autora explica, o dote
era uma forma de concentrar fortunas nas mãos dos homens, fora isso, era uma maneira de
circular e redistribuir riquezas e uma oportunidade para indivíduos assumirem diferentes
papéis na hierarquia social87.
Isabel de Castro Henriques é outra autora que fez um levantamento cuidadoso
sobre os usos do ferro em Angola, entre eles, destaca os instrumentos musicais que não

82
Carta de Miguel Antonio de Melo, governador de Angola, para Rodrigo de Sousa Coutinho, secretário de
Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Luanda, 19 de dezembro de 1797. In: Arquivos deA ngola, v. IV,
nº 52 a 54, 1939, p. 259-262.
83
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 232.
84
Idem, p. 592.
85
Idem, p. 605.
86
Idem, p. 609.
87
Collen E. Kriger, Pride of Men: Ironworking in 19th Century, West Central Africa, p. 198. Entre as coleções
de objetos de ferro da África Central, destaca-se a do Congo Belga que se encontra no Royal Museum for
Central Africa, em Tervuren, Bélgica. Estive em Tervuren, mas não pude visitar o museu porque ele está
passando por uma grande reforma que se estenderá até 2018. O mesmo aconteceu em Luanda, o Museu Nacional
de Antropologia está também fechado para reformulação do acervo. Apesar do senhor Antonio gentilmente me
mostrar parte da coleção, toda a parte dedicada à ferraria estava inacessível.
104

poderiam ser fabricados sem a intervenção de um ferreiro, lembrando que os tambores


também tinham função de comunicação entre os sobados, as cubatas:
“os tambores de todas as qualidades, sobretudo os grandes tambores de
madeira, feitos de troncos esvaziados, mobilizam os machados, os serpetes
[instrumento de lâmina e cabo recurvados] e qualquer tipo de ferramenta
capaz de abater as árvores e de criar estas imensas caixas de ressonância, que
servem também par assegurar as comunicações à distância”88.

Havia também a necessidade de ferro para as ferramentas agrícolas, para a caça e


pesca. Além da circulação destes produtos, também existia a compra e venda de barras de
ferro já que nem todas as comunidades do Reino de Angola que produziam objetos de ferro
detinham as técnicas de fusão do minério. Nas terras do soba Mbangu kya Tambwa, por
exemplo, ao contrário do que se acreditava no início do século XVIII, não parece terem sido
exploradas minas de ferro. Era verdade que nesta localidade havia muitos ferreiros que
fabricavam produtos diversos, mas o ferro que utilizavam provinha “das machadinhas,
enxadas e mais ferros velhos” que compravam ou que recebiam em encomendas de obras89.
Isso nos permite ponderar que o ferro em barra tenha se tornado um objeto de troca
importante para o comércio na região. Nas figuras abaixo podemos compreender como o ferro
era um material fundamental para as atividades do cotidiano.
Figura 1: Objetos de ferro.

1 2 3 4

8
5 6

88
Isabel de Castro Henriques, Percursos da modernidade em Angola. Dinâmicas e transformações sociais no
século XIX. Lisboa: Instituto de Investigação Científica Tropical; Instituto da Cooperação Portuguesa, 1997, p.
323.
89
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 9 de maio de 1762. BNP, C.
8553, F. 6362, fl. 2 e 3.
105

Fontes: 1 – Machado – emblema de autoridade. Ferro. Tervuren, Musée Royal de l’Afrique Centrale.In: Jill Dias, Nas
vésperas do mundo moderno: África, p. 140; 2 – machadinha de guerra dos Mbangala; 3 – Machadinha Ovimbundu (Sul do
Kwanza); 4 - Machadinha ou enxada, que Njinga trazia no cinto na imagem anterior; 5 – Tambor usado na corte de Njinga.
Giovanni Antonio Cavazzi de Montecúccolo. Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola; 6 – Sinos
duplos, o primeiro é Mbangala, o segundo Ovimbundu e o terceiro foi retirado do desenho de um guerreiro de Njinga; 7 –
Sineta dupla. Museu Nacional de Etnologia (Portugal), AU.457, Angola; 8 – Adornos para uma noiva, Nigéria, alguns com
funções medicinais. Walter E. A. van Beek, “The Iron Bride: blacksmith, iron and feminity among the Kapsiki/ Higi”. In:
Nicholas David, Metals in Mandara Mountains society and culture. New Jersey: Africa World Press, 2012.
Obs: os números 2, 3, 4, e 6 foram copiados de Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 599 e ss.

Outros objetos de metal também eram forjados durante cerimônias específicas,


abençoadas por sacerdotes. Tanto no Reino do Ndongo como no do Kongo as insígnias de
ferro estavam relacionadas à realeza, tais como as machadinhas rituais - o emblema linhageiro
ngola. Joseph Miller explica que o ngola poderia ser uma enxada, um sino, um machado, uma
faca, pequenos objetos de ferro que permitiram uma maior mobilidade aos Ambundos. O
guardião do ngola poderia acessar o mundo dos mortos e tinha forças espirituais essenciais
para resolver os problemas e disputas de sua comunidade. Dessa forma, elementos materiais
da cultura com uma função aparentemente banal, como os citados acima, poderiam estar
imbuídos de significados espirituais fulcrais para a ordenação social e política90.
Juliana Ribeiro da Silva escreveu sobre a figura do ferreiro no século XIX, nas
regiões da África Central, ela resume os principais estudos sobre a temática e traz novos
elementos para repensar a questão. Quando analisa a presença de objetos de ferro e
ferramentas relacionadas ao ofício de ferreiro, como a bigorna e o martelo, em cerimônias de
entronização de novos governantes, a autora lembra que esses elementos serviam “para causar
um impacto visual e também para relembrar aos súditos a ligação do rei [ou do governante]
com um herói fundador detentor de um conhecimento tecnológico de extrema importância
para a garantia do bem-estar da população”91. A observação endossa o que dissemos sobre as
funções político-sociais dos utensílios de ferro, metal utilizado para exercer domínio e
legitimar as ações do detentor do ngola. Como nos conta Cadornega, o soba Kambambe
governava outros sobas menores com insígnia de bastão92. Nas imagens abaixo percebemos o
uso ritualístico e de reconhecimento linhageiro dos objetos metálicos: Nzinga e os reis de
Angola portando uma machadinha, lança, zagaia, vestindo panos finos ou a pele de leopardo
(signo de poder e riqueza). O Ndembu Kakulu Kakenda com dois barretes e adornado com
todas as suas outras insígnias. Há de se pensar se os objetos em si poderiam representar
gradações hierárquicas: arcos e flechas eram usados pelos os ngola, o ndembu, dois barretes,
os sobas, bastões.

90
Joseph C. Miller, Poder político e parentesco, p. 66-67.
91
Juliana Ribeiro da Silva, Homens de ferro. Os ferreiros na África Central no século XIX, p. 84.
92
Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas (1680), v. III, p. 241.
106

Figura 2: Insígnias de poder em Angola.

1 2 3 4 5

Fontes:1 – Rainha Nzinga com arco e flecha e machado. (o uso da coroa é uma adaptação de Cavazzi à imagem que ele tinha
de signos de realeza), Giovanni Antonio Cavazzi de Montecúccolo. Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba
e Angola; 2 e 3 – Representação do Rei de Angola, armas arco, zagaia, machado e lança. Antonio de Oliveira Cadornega,
História das Guerras Angolanas (1680), v. III; 4 – O Ndembu Kakulu Kakaenda “com todas as suas insígnias: barrete,
casaco de uniforme militar com galões; colete bordado; saco de pele à tiracolo; dois bastões”. 5 – Bastão do Ndembu Kakulu
Kakaenda, Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa. 4 e 5 foram copiados de Ana Paula Tavares e Catarina Madeira
Santos (ed.), Africae Monumenta. A Apropriação da escrita pelos africanos, p. 454 e 457.

Assim como ocorreu com os sinos duplos, que assumiram uma função mais
profana, é de se esperar que, no século XVIII, a presença portuguesa já tivesse produzido
algumas transformações na forma como os Ambundos lidavam com os instrumentos de metal.
Esse é o exemplo da malunga. O militar Silva Correa mencionou sobre a malunga no
contexto do tráfico de escravos, traduzida por ele como “argola de ferro que prende as mãos a
uma cumprida corrente”93. Cecile Fromont descreveu outro uso do malunga no Reino do
Kongo, onde designava um bracelete utilizado em cerimônias de sucessão e estaria, portanto,
relacionada à realeza94. Entre os Ambundos a lunga, singular de malunga, era uma relíquia
sagrada tal como o ngola, que conferia ao seu possuidor o controle sobre a fertilidade da terra
e as chuvas95. Há também a reminiscência da ideia de bracelete, o uso como adorno. Segundo
B. Heintze, a rainha Nzinga quando da sua conversão lançou ao fogo todas as malunga (mais

93
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola. Lisboa: Clássicos da Expansão Portuguesa no Mundo.
Império Africano. Série E, vol. I, p. 96.
94
Cecile Fromont considera que o bracelete malunga concede ao rei uma série de atributos oriundos de uma rede
de associações semânticas e visuais relacionadas à sua raiz linguística, ao material (ferro) e à sua forma (argola).
Para apresentar apenas um destes aspectos, a palavra malunga pertence a um grande grupo lexical nas línguas
bantu que agrega a ideia de divindade, infinidade, perfeição no sentido de realização, bem como, noções de
poder e força moral. Cecile Fromont, The art of conversion: Christian Visual Cutlture in the Kingdom of Kongo.
Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2014, p. 40. Um significado aproximado a ideia de ritual, de
sagrado, aparece no dicionário de Assis Junior: “instrumentos sonoros por meio dos quais se invocam certos
espíritos”. Antonio de Assis Júnior, Dicionário Kimbundu-português, linguístico, botânico, histórico e
corográfico. Seguido de um índice alfabético dos nomes próprios, verbete “malunga”, p. 276.
95
Joseph C. Miller, Poder político e parentesco, p. 62.
107

de duas mil), obedecendo ao padre capuchinho. A insígnia promovia o contato com os


antepassados e com os espíritos protetores. Depois de convertida, a rainha foi autorizada a
usá-las, mas ironicamente apenas as que fossem ungidas pelos missionários96.
A passagem em que o militar Silva Correa descreve o uso da malunga é exemplar
do valor deste objeto de ferro para os traficantes. O evento trata de um comandante anônimo
que havia recebido como despojo de guerra “um libambo de escravos”. Uma das “negras
presas aos ferros do cativeiro” estava tão doente que era incapaz de acompanhar a comitiva de
escravos. Diante disso, o comandante mandou que o soldado atirasse na mulher e que o seu
braço fosse cortado “para não perder a malunga”97.
Até hoje a malunga é utilizada na região como instrumento ritualístico98, assim
como os bastões e barretes como insígnias de poder político. Então, é provável que esses
objetos, assim como o sino duplo, tenham perdido muito do seu aspecto sagrado, mas
dependendo de quem os usa voltam a assumir sua função sobrenatural.
De todo modo, a leitura dos textos do militar Elias Correa mostra que o ferro era
importante porque além de prover produtos imprescindíveis para a agricultura possibilitava a
produção de grilhões para subsidiar o tráfico - “algemas e libambos”99. A respeito deste
último aspecto, os documentos sobre Nova Oeiras se referem enfaticamente aos prejuízos que
se acumulariam se faltassem os instrumentos de metal usados no aprisionamento dos
escravos. A importância de não cessar a produção de libambos, uma cadeia de ferro usada
para prender uma comitiva de 30 a 100 escravos pelo pescoço, é um exemplo disso100. Este
instrumento de captura, largamente utilizado não só no Reino de Angola, mas também na
América Portuguesa, não só era eficiente para evitar as frequentes fugas (a própria

96
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 594.
97
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, vol. I, p. 96. A malunga também poderia se referir
apenas a uma argola com finalidades ornamentais.
98
Sebestyèn contou que os ndembu que guardavam os seus “títulos de terra” como documentos sagrados usavam
a malunga emblema de poder. Eve Sebestyèn, “Legitimation through Landcharters in Ambundu Villages,
Angola”, p. 363.
99
“Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira servindo o emprego de intendente geral da
Fábrica do Ferro e que executaram também os capitães mores como intendentes particulares na parte que lhes é
respectiva”. São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 73. Carta de
FISC para Francisco Matoso de Andrade, capitão-mor de Ambaca. São Paulo de Assunção de Luanda, 25 de
maio de 1767. BNP, C – 8742, F – 6364, fl. 182v. “(..) achando vossa mercê ferreiros da Ilamba, ou fundidores
os mande ao dito intendente, porém com os dessa província não entenda mais que para os fazer trabalhar nestes
meses do cacibo [de seca] ferro de que o povo possa fazer as suas enxadas, libambos, e mais instrumentos para a
sua agricultura e comércio, o que tudo se entende para o próprio tráfico das gentes”.
100
Em kimbundu, lubambu, significa uma cadeia, grilhão, corrente, e era tão comum que se tornou sinônimo de
caravana de escravos. Uma palavra que ficou conhecida no clássico A manilha e o libambo de Alberto da Costa e
Silva, em que há uma descrição mais precisa: “punha-se nesta, de frente, o pescoço de um aflito e se fechava a
bifurcação com pedaço de pau muito bem amarrado. Num outro infeliz, a forqueta ia apoiar-se na nuca,
fechando-se depois na goela”. Alberto da Costa e Silva, A manilha e o libambo. A África e a escravidão de 1500
a 1700, p. 9.
108

necessidade deles é um indicativo de que as fugas eram rotineiras), mas também era uma
forma de tortura101.
Miller explicou como os agentes do tráfico agiam nas caravanas, com receio de
que os escravos fugissem, se revoltassem ou que lançassem algum feitiço contra eles ou que
os livrassem das cadeias, os deixavam extenuados com pouco suprimento de comida e bebida
e constantes castigos físicos. Os instrumentos para infligir as torturas eram zagaias, lanças,
algemas, o próprio libambo. A prática de marcar os cativos com ferro quente também foi uma
prática de longa data que visava evitar a troca por “peças” de menor valor102. Quem fabricava
esses objetos? O quanto o tráfico de escravos fez emergir um mercado de produtos de ferro
não só no Reino de Angola, mas em todo o mundo Atlântico? São perguntas que ajudam a
pensar na dimensão que tinha o trabalho de um fundidor e de um ferreiro em suas oficinas no
interior de Angola. Os objetos abaixo eram de uso rotineiro nas sociedades escravistas nos
dois lados do Atlântico; os elementos materiais da cultura são fundamentais para entender a
lide do trabalho com os metais.

Figura 3: Ferro para o tráfico de escravos.


1
2

3
4

Fontes:1 – peia e libambo. Museu Municipal Francisco Manoel Franco (Itaúna, MG); 2- libambos e gonilhas.
Biblioteca Nacional (RJ), Coleção Arthur Ramos; 3- Algemas. Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. 4 -
Conjunto de peças destinadas a castigar, imobilizar e marcar escravos no Brasil: viramundo, libambo, cinto de
ferro, palmatória, mordaça, gargalheiras, algema com cadeado e ferros de marcar. Museu Histórico Nacional
(RJ).

101
Segundo Silvia Lara, “facilmente um instrumento de captura se transforma em suplício ou tem um efeito de
aviltamento moral”. Silvia Hunold Lara, Campos da Violência. Escravos e senhores na Capitania do Rio de
Janeiro (1750-1808). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, p. 73-74.
102
Joseph Miller, Way of death, p. 193-195.
109

As armas africanas no Reino de Angola foram observadas em detalhe pelos


agentes coloniais, que registraram como eram feitas, usadas e comerciadas possivelmente com
o intuito de melhor coordenar estratégias de dominação destes povos. Os próprios emblemas
de poder das autoridades em Angola estavam relacionadas à caça e a guerra: arco e flecha,
lanças. Além deles, as lanças e os dardos também eram armas usuais, assim como uma faca
chamada nbili (mbili, Kikongo: mebele, faca punhal), que tinha 60 cm de comprimento e era
untada com veneno103. O governador Antonio de Vasconcelos, em 1759, acrescentou a esta
lista as zagaias e as machadinhas104. A machadinha teria sido apropriada pelos contatos com
os Mbangala, que a utilizavam como armas de guerra. O sargento-mor do distrito de Ndande,
Manoel Correa Leitão, cita também rodelas e catanas utilizadas pelos Mbangala, que parecem
ter sido apropriadas pelos Ambundos105. A boa qualidade das armas centro-africanas é
atestada pelos funcionários da Coroa portuguesa. O material de que eram feitas foi
reconhecido como superior ao europeu; a qualidade do metal e a forma do objeto eram
resultados dos conhecimentos técnicos de fundidores e ferreiros locais.
Uma das intenções do governador em promover a extração de ferro pela Real
Fazenda era o fabrico de “balas, bombas e granadas para fornecimento das (...) naus e do
exército”106 para socorrer as milícias sempre com parcos suprimentos e armamentos. Diante
dos altos preços do armamento europeu e a carência dos presídios e fortalezas do Reino de
Angola, Sousa Coutinho inventou um novo tipo específico de lança, uma partazana107 para
“armar negros e fortalezas”. O propósito de tais armas era capacitar a guerra preta, exércitos
africanos que lutavam pelos portugueses fundamentais para a manutenção da colonização.
Como Thornton afirmou, os europeus foram obrigados a reconhecer as táticas e as armas de
guerra africanas. Acrescentaria à sua afirmação a destreza da mão de obra de quem fundia o
ferro e o conhecimento de quem forjava as armas108.

103
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 601.
104
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 18 de janeiro de 1759. BNP,
C. 8553, F. 6362, fl. 1 e 2.
105
Manuel Correa Leitão, “Uma viagem a Cassange nos meados do século XVIII [1755]”, editado por Gatão de
Sousa Dias. Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, série 56, n. 1 e 2, 1938, p. 20.
106
Carta de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Conselheiro de Estado, Ministro e Secretário dos Negócios
da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, para FISC, governador de Angola. Palácio de Nossa Senhora da
Ajuda, 30 de abril de 1768. AHU, Códice 472, fl. 153-155.
107
Bluteau define partasana (grafada com “s”) como “uma espécie de alabarda, mas com o ferro mais cumprido
e mais largo”. Alabarda é uma “arma ofensiva e defensiva da qual usam os arqueiros na guarda dos príncipes, e
nas batalhas os alferes. Dizem que foi inventada em Albania, donde tomou o nome”. Raphael Bluteau,
Vocabulário portuguez e latino, verbetes “partasana e “albarda”.
108
John Thornton, “Art of war in Angola, 1575-1686”. Comparative Studies in Society and History, v. 30, n. 2,
1988, p. 361.Como mostrou Roquinaldo Ferreira, as tropas brasileiras enviadas para a Angola e o uso de cavalos
foram também relevantes para fortalecer a presença militar portuguesa em Angola. Transforming Atlantic
110

O governador enviou uma planta desta partazana especial (“imaginei uma


qualidade de partazana que reunindo tudo o que de semelhantes se tem visto e escrito faça
formidável e segura esta arma”) para que fossem fabricadas 700 peças no Rio de Janeiro que
retornariam a Luanda como lastro dos navios que tivessem por destino o porto da cidade.
Havia uma advertência, que fossem fabricadas com os 15 quintais de ferro fundidos no Reino
de Angola e não com qualquer outro tipo de metal, pois ele preferia “este a todos quanto há
para instrumentos de corte”. Os ferreiros do Rio de Janeiro, portanto, não deveriam se enganar
com a aparência rústica do ferro e do aço “imperfeitamente fabricados em pequenas barras”.
Eles também foram instruídos a revestir as armas de aço porque essa “mistura” era a utilizada
pelos técnicos Ambundos e o resultado era tão positivo que seus instrumentos não cediam à
longa “duração” e nem aos diferentes usos, “empréstimos”109. Essa ideia do governador
parece ter saído do papel porque em 1773 ele comenta que no “Rio de Janeiro se obraram
muitas partazanas da minha invenção para o que mandei ferro ao Conde [de] Azambuja”110.
Este é um registro evidente de apropriação de uma tecnologia africana, tanto em relação ao
uso do ferro quanto relativo à confecção de instrumentos de corte.
As notícias sobre a excelente qualidade do ferro da Ilamba são recorrentes na
documentação. Apesar de levar em consideração as observações de Antonio de Vasconcelos,
e de outros governadores como Sousa Coutinho que afirmou em suas memórias que os
Ambundos “jamais compraram algum ferro da Europa”111, não podemos nos valer delas para

Slaving. Trade, Warfare and Territorial Control in Angola, 1650-1800. Tese (Doutorado) - University of
California, Los Angeles, 2003, p. 159-171.
109
FISC envia a carga de ferro (15 quintais, sendo aproximadamente 1 quintal=60 kg, 900 kg de ferro) por meio
de um comerciante, Francisco Ferreira Guimarães, e encomenda ao Conde de Azambuja, Antônio Rolim de
Moura Tavares, então vice-rei do Estado do Brasil, que supervisionasse junto a Francisco Guimarães a
fabricação das partazanas. Carta de FISC para Francisco Ferreira Guimarães. São Paulo de Assunção de Luanda,
13 de fevereiro de 1768. AHA, Códice 79, Fl. 78v – 80. Carta de FISC para o Conde da Cunha, António Álvares
da Cunha, vice-rei do Estado do Brasil [provavelmente um engano no nome do destinatário, em 1768 o vice-rei
do Estado do Brasil já era o sucessor do Conde da Cunha, o Conde de Azambuja]. São Paulo de Assunção de
Luanda, 15 de fevereiro de 1768. AHA, Códice 79, fl. 80. Carta de FISC para Francisco Ferreira Guimarães. São
Paulo de Assunção de Luanda, 16 de janeiro de 1762. AHA, Códice 79, 192v.
110
Carta de FISC sem destinatário. Lisboa, 16 de setembro de 1773. BNP, C 8553, F6362.
111
Memórias do Reino de Angola e suas conquistas escritas por D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho,
governador e capitão general do Reino de Angola, escritas entre 1773 a 1775. Torre do Tombo, Condes de
Linhares, mç. 44, doc. 2, fl. 42. Temos poucos dados obre a importação deste metal em Luanda. Os comandantes
da Galera de São José e Nossa Senhora do Rosário, em 1756, apresentaram uma “carregação” feita na cidade de
Lisboa e entregue em Luanda. Entre os itens listados, encontramos “12 quintais de ferro de Biscaia”, “dois
arráteis de aço”, “três aparelhos com três facas flamengas”. No “Livro de receita e despesa da Fazenda Real do
Reino de Angola do ano de 1765”, foram registrados gastos com o ferro no total de 352$000 que compraram
aproximadamente 1 tonelada e 100 quilos do metal (159 quintais, 10 arrobas e 111 libras). Nem sempre a origem
da importação destes materiais foi anotada, embora o embarque no Rio de Janeiro seja citado frequentemente.
No caso de ferramentas - enxadas, pás de ferro, picaretas, alavancas grandes, marretas -, elas aparecem
importadas do Rio de Janeiro e têm por finalidade auxiliar a construção das obras reais. Um total de 143$915
foram gastos em 1765 com estes instrumentos. Para o ano de 1781, um total de 607$274 foram despendidos com
custos e gastos de madeiras e ferragens também para os serviços das obras reais. Terceiro livro da receita e
111

afirmar que na região da Ilamba e vizinhança não havia importação de ferro da Europa, que
sabemos que existia, e mesmo de outras áreas da África Centro-Ocidental. O comércio interno
controlado por africanos acontecia também com outros metais que poderiam entrar no Reino
de Angola por redes comerciais internas, “terra adentro”, como citou Vasconcelos. Em 1801,
o comerciante Joaquim Correa Pinto, “homem preto”, natural do Reino de Angola, que se
trajava “à maneira europeia”, fornece informações sobre o cobre que se comerciava na Feira
de Kasanje. Segundo Correa Pinto, as barras de cobre eram fabricadas na nação Mulua
(também chamada “Mwaant Yaav”, que ficou conhecido como o Império Lunda) e depois
compradas pelos vassalos do Jaga Kasanje112. Este potentado, por sua vez, comerciava o
metal em uma feira nos limites de seu território, mas não permitia que os feirantes vassalos da
Coroa de Portugal negociassem diretamente com os Mulua tampouco que fossem até as terras
que habitavam113. Assim, além de controlar o tráfico de escravos na região, o potentado
Mbangala Kasanje também dominava o acesso a mercadorias importantes, como o cobre em
barras ou já transformado em instrumentos.
Pedro João Baptista em sua “viagem para Angola para Rios de Senna”114, em
1802, afirmou ter encontrado ferro na região Lunda-kazembe (dos Mulua, acima citados). Ele

despesa da Tesouraria Geral [da Junta da Administração da Fazenda Real] deste Reino de Angola. Palácio de
São Paulo de Assunção de Luanda. 08 de janeiro de 1780. AHTC, Erário Régio, 4191. Embora o escrivão tenha
assinado na capa do livro na data de 1780, o livro também foi usado para registrar o ano de 1781, por isso, os
dados que citamos foram anotados para este ano.
112
Segundo Isabel de Castro, o cobre encontrado em Lunda poderia ser produzido em Kazembe, um tributário do
Mwaant Yaav. Isabel de Castro Henriques, Percursos da modernidade em Angola. Dinâmicas e transformações
sociais no século XIX, p. 313.
113
Carta de Miguel Antonio de Melo, governador de Angola, para Rodrigo de Sousa Coutinho, secretário de
estado da marinha e do ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 21 de outubro de 1801. AHU_CU_001, Cx.
102, D. 26. Manoel Correa Leitão, em 1755, descreve o Mulua como “muito poderoso e de seus senhorios e
domínios saem capitães despedidos por ele para oeste, para norte e para sul e mais partes, com tropas de
muitíssimas gentes, a fazer conquistas de escravos, que vendem conforme a parte mais vizinha onde os tomam
como para Benguela e para as partes onde se encaminham para Kasanje, para Holo, até para os reinos do Kongo,
So. Sos (sic), Quiiacas, quilubas, ungus, que todos têm metido debaixo de sua forte espada, tão valorosos e
temidos pelos estragos que tem feito em todos os domínios de quantos há, que basta a notícia do seu nome para
vencerem; de tal sorte que hoje já chegam a vender gente aos confinantes dos Ndembu Ambuela e Mutemos;
grandes homens por certo e tão famosos entre as nações de todos esses tão dilatados matos, que não se fala em
outra coisa; é certo que , a não serem eles, não teríamos tantos escravos, porque eles, pela sua ambição e fama de
vencer, feitos águias terrestres, correm terras tão remotas de sua pátria, só para azerem senhores de outras
gentes”. Manuel Correa Leitão, “Uma viagem a Cassange nos meados do século XVIII”. “O império Lunda do
Mwant Yaav - assim é vulgarmente referido na literatura - estendia-se, a quando do seu apogeu, do rio Kwango,
a oeste (Kasongo-Lunda), até ao Luapula, a este, tendo o seu movimento de expansão afetado a história desta
vasta área da África central até começos ou meados do século XIX”. Manuela Palmerim, “Identidade e heróis
civilizadores: "l'Empirelunda" e os aruwund do Congo”. In: 1ª Jornada de Antropologia intitulada
“Modernidades, etnicidades, identidades”. Universidade do Minho, 1998. Disponível:
http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5319/3/Identidade%20e%20heróis.pdf. Acesso em:
02/08/2016.
114
Pedro João Baptista, “Viagem de Angola para Rios de Senna”, “Explorações dos portugueses no interior
d’África meridional (...) Documentos relativos à”. Anais Marítimos e Coloniais, Lisboa, III, 5, 1843. Apud Isabel
112

encontrou a fabricação de barras de ferro que seriam entregues como tributo ao Quiburi (chefe
Kazembe da salina de mesmo nome) que o mandaria ao Mwaant Yaav. Este pode ser mais uso
do ferro, servir como tributo a ser entregue às chefias locais, como o era o grande Mwaant
Yaav. O viajante também observou que os ferreiros trocavam suas barras por farinha e outros
mantimentos, o que também mostra uma complementariedade do complexo mercado interno
centro-africano115.
Em sua viagem ao território do potentado Kasanje em 1755, Manoel Correa
Leitão reconhecia que o “grande Kasanje” era a barreira, à leste, que impedia avanço dos
portugueses pelo interior dos sertões nas proximidades do rio Kwango. Ele afirma haver
muito ferro, cobre e latão nesse território, além de descrever em pormenor as armas que eram
utilizadas: flechas de ferro e pau, “catana larga cinco polegadas e do comprimento de três
palmos”, “cinco ou seis lancinhas curtas com choupa [ponta comprida e afiada] de ferro”,
facas, rodelas, lanças116. Apesar de não entrar em pormenores sobre a exploração de minerais
nesta localidade, a leitura deste documento fornece indícios de que também o ferro, além do
cobre, era uma mercadoria controlada pelo potentado de Kasanje, ou ainda, que era produzida
por trabalhadores especializados nesta localidade.
Estes fragmentos mostram que há circuitos comerciais de metais controlados pelas
elites dos grandes potentados africanos sobre os quais pouco sabemos, mas que com certeza
foram intensificados com o tráfico de escravos. Na região costeira, por exemplo, além dos
portos de Luanda e Benguela, valendo-se das rotas de escravos no sul do Kongo, novas redes
de comércio levavam a outros pontos no norte, Loango, Cabinda, Molembo, que eram
controlados por franceses, holandeses e ingleses117.

de Castro Henriques, Percursos da modernidade em Angola. Dinâmicas e transformações sociais no século XIX,
p. 312.
115
Isabel de Castro Henriques lançou uma questão que permanece sem resposta: como as mulheres eram
responsáveis pela agricultura entre os Lunda, ser solteiro seria um requisito do ofício de ferreiro, uma vez que
precisavam trocar suas ferramentas por alimento? Eugenia Herbert tece considerações sobre o afastamento das
mulheres dos rituais de fundição de ferro, sobretudo quando menstruadas. A autora também fala sobre como
esses ritos demandavam abstinência sexual. Enfim, são questões importantes e com certeza estão interligadas,
mas faltam elementos para chegar a uma conclusão definitiva no momento, principalmente para os ferreiros da
Ilamba. Isabel de Castro Henriques, Percursos da modernidade em Angola. Dinâmicas e transformações sociais
no século XIX, p. 312-315. Eugenia W. Herbert, Iron, gender and power. Rituals of transformation in African
Societies. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, p. 79.
116
Manuel Correa Leitão, “Uma viagem a Cassange nos meados do século XVIII”, p. 20. As observações atentas
do sargento-mor Manuel Correa, natural da cidade de Luanda, “pessoa prática e inteligente no conhecimento e
línguas destes sertões” são fruto do olhar de um militar que foi mandado para aquelas terras com o objetivo de
atravessar o rio Kwango e descobrir todos os detalhes sobre os povos que habitavam o norte e o comércio que
por ventura realizavam na outra banda do mar. É a antiga pretensão do Conselho do Ultramar português e do
governo de Luanda de chegar à Costa Oriental africana.
117
Joseph Miller, Way of death, p. 209-215; Jan Vansina, “Long-Distance Trade-Routes in Central Africa”. The
Journal of African History, v.3, n.3, 1962, p. 375-390.
113

A análise da documentação, à luz da bibliografia, nos permite afirmar que os


Ambundos exploravam suas minas de ferro de lama ferruginosa e de pedra de ferro, inclusive
por meio de minas subterrâneas. Os portugueses, quando encontraram os centro-africanos
fundindo o aço, acreditam que ali existiam minas de aço, o governador de então chegou a
parabenizar o funcionário pela “descoberta do aço”. Os fundidores da Ilamba controlando a
quantidade de ar insuflada nos fornos podiam produzir um ferro com maior teor de carbono,
ou seja, o aço118. Os objetos que produziam seriam vendidos ou trocados por outras
mercadorias nas regiões circunvizinhas às minas ou oficinas de ferreiros, mas também
poderiam circular pelos sertões do interior. Os circuitos comerciais do ferro e de outros metais
formavam complexas redes “terra adentro” sobre as quais pouco conhecemos.
Para encerrar essa discussão sobre os sentidos e os usos do ferro no Reino de
Angola, principalmente na segunda metade do século XVIII, é preciso reafirmar a facilidade
em ter acesso ao ferro na região e, portanto, a facas, lanças. Os historiadores concordam que
esse período é um momento de grande insegurança, intensa escravização, quando a violência
atingiu níveis endêmicos119. Fora que, as facas eram moeda de troca importante na região120.
Por isso, o controle sobre a circulação de armas era uma das preocupações da administração
colonial. No Reino de Angola, uma lei de 1747 determinava que todo escravo pego com
armas seria deportado para o Brasil. Porém, o porte de armas era tão rotineiro que, em 1801,
castigos físicos foram adicionados como pena para tentar coibir a prática121.
Um exemplo do uso indiscriminado de facas e outros objetos metálicos
encontramos no de exame e corpo de delito de Manoel Salvador122. No processo são listados
alguns instrumentos de metal: duas facas flamengas, um escopulo de ferro [ver figura 4,
segundo a fonte, seria uma ferramenta de carpintaria], um canivete e uma catana. Salvador foi
preso em “flagrante delito” na casa do dono de uma grande quitanda e foi acusado de tentativa
118
Apenas pesquisas arqueológicas poderão confirmar esta hipótese, por hora nos pautamos nas fontes escritas
que mesmo quando não nomeavam o “aço” comentam a ductilidade do ferro ali produzido. Carta de FISC para
João Baines, capitão-mor do Golungo. São Paulo de Assunção de Luanda, 24 de agosto de 1767. BNP, C 8742, F
6364.
119
Mariana Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World. New York: Cambridge University Press,
2013, p. 233; Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World. Angola and Brazil during the
Era of the Slave Trade.New York: Cambridge University Press, 2012, p.
120
Jill Dias disse que facas frequentemente serviam de moedas na região. Um exemplo seria a faca de arremesso.
Jill Dias, Nas vésperas do mundo moderno: África, p. 139.
121
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 150 e 151.
122
Idem, p. 126-165. Salvador é uma personagem que se tornou conhecida pela historiografia nas análises de
Roquinaldo Ferreira, que estudou sua trajetória de vida a partir deste rico processo. Manoel Salvador vivia como
liberto apesar de servir como cozinheiro na casa daquele que alegavam (inclusive, ele próprio, que se declarava
escravo) ser seu senhor, João da Silva Franco, então tenente do Icolo. Sua história é paradigmática porque revela
como o ambiente urbano possibilitava uma maior mobilidade social e econômica. Traslado do auto de devassa
que tirou a respeito do crime do preto Manoel de Salvador, escravo do Tenente João da Silva Franco. São Paulo
de Assunção de Luanda, AHU_CU_001, Cx. 55, D. 43.
114

de roubo e de homicídio. O processo se desenrola e os objetos citados acima se tornam


evidências das atividades criminosas de Salvador: por que ele portava um escopulo, um
canivete e um saco no momento do flagrante? Quanto às facas flamengas, ele nunca assumiu
que lhe pertencessem.
A catana surge no processo como prova de um suposto crime anterior. É muito
provável que temendo as punições pelo porte indevido das armas, Salvador jamais admitisse a
posse das facas flamengas e da catana. Também é plausível imaginar que a ronda militar teria
plantado essas armas nos locais dos crimes. Talvez justamente a necessidade de produzir
provas foi o que levou o escrivão do processo a não apenas descrever as facas flamengas que
teriam sido encontradas no local do crime, mas também desenhá-las nas margens nas páginas
do processo como conferimos abaixo:

Figura 4: Facas flamengas Figura 5: Escopulo de ferro


“(...) eu escrivão ao
diante nomeado vim pelas onze “(...) com
horas da noite do dia dez de julho mais um escopulo de
deste presente ano para o efeito de ferro de comprimento
se fazerem perguntas ao dito preto, de um palmo e um
que em flagrante delito foi achado dedo de mim escrivão
e apanhado pela Ronda Militar em na forma que a
casa de Manoel da Silva Machado margem vai também
Palhares, com os instrumentos de
riscado no virar desta
duas facas flamengas de ponta
com os cabos reparados fora, as folha (...)”.
quais tinham de comprimento o
ferro delas, uma um [coto] menos
três dedos, outra com um [coto]
menos dois dedos tudo da mão
esquerda de mim escrivão na forma
que a margem vão riscadas (...)”.

Fonte: Traslado de Auto de exame e corpo de delito que se fez ao preto Manuel de Salvador, escravo do Tenente
João da Silva Francisco. São Paulo de Assunção de Luanda, 1771. AHU_CU_001, Cx. 55, D. 43.

Se Manoel Salvador poderia justificar o porte de uma ferramenta de um ofício


mecânico, tal como o escopulo do seu amigo carpinteiro, não poderia explicar as facas
flamengas, que “têm ponta e podem fazer ferida penetrante”. O uso das facas flamengas, em
especial, era proibido de forma generalizada, somente oficiais de “ministérios em que elas
fossem necessárias” poderiam portá-las. Essa lei é de 1719 e determinava que os “ministros
criminais” a cumprissem vigilantemente123. Mais uma norma legal que Salvador estaria

123
“Recomendação em que sua majestade manda declarar que na proibição da lei de 29 de março de 1719 se
compreendiam as facas flamengas debaixo das penas nela declaradas contra os que as trouxeram fora do
ministério para que são necessárias”. Ordenações e leis do reino de Portugal confirmadas e estabelecidas pelo
115

infringindo. A reprodução dos instrumentos que Manoel levava consigo é interessante. As


duas facas eram “facas flamengas de ponta” e no desenho percebe-se um traçado mais grosso
justamente nesta parte do objeto. Além disso, a descrição no processo corresponde
literalmente àquela da arma condenada pela norma legal (“duas facas flamengas de ponta”).
Seria essa uma tentativa de produção de provas, um esforço de enquadrar o réu em mais uma
condenação?
O conserto de armas de fogo também passou a ser feito pelos artesãos do ferro
Ambundos, inclusive nas fábricas de ferro124. Se somarmos isso a busca por chumbo, salitre e
ferro percebe-se o compromisso de Nova Oeiras com o provimento de armas para o Império
português.
O uso do ferro era frequente seja nos sertões distantes de Angola, seja no
ambiente urbano. Não é gratuita toda a atenção dos agentes coloniais sobre as minas, os
trabalhadores, os circuitos de comércio. O ferro era lucrativo e, dependendo nas mãos de
quem caía, perigoso, mas, sobretudo, era fundamental para o progresso da colonização: da
agricultura, do trato de escravos, da guerra, da manutenção da escravidão. Por um lado, obter
o controle da tecnologia de fundição e forja do metal passou a ser um objetivo colonial, por
outro resistir a essa apropriação tornou-se meta importante da elite política e econômica
Ambundo.
Contudo, as disputas por essas terras, recursos, comércio não pode ser
simplificada nesta oposição binária. Outros agentes se interpõem nestes conflitos: outros
reinos africanos (no caso do Mbangala Kasanje), os moradores das ocupações coloniais, os
negociantes dos sertões, os funcionários régios. Ainda assim, centro-africanos e agentes
coloniais tinham maneiras divergentes de ver o mesmo recurso natural. Para os Ambundos a
dimensão econômica da exploração do minério, da posse da terra, não se desvinculava de
aspectos religiosos e políticos, como é próprio de sua cosmogonia em que, como lembra o
historiador Hampatê Bá, “tudo se liga, tudo repercute em tudo”125.

senhor rei D. João IV, novamente impressas e confirmadas com três coleções; a primeira de Leis
Extravagantes; a segunda de Decretos e Cartas; e a terceira de Assentos da Casa da Suplicação e relação do
Porto, por mandado do muito alto e poderoso rei D. João V nosso Senhor. Livro Quinto. Lisboa: No Mosteiro
de S. Vicente de Fora, Câmara Real de Sua Majestade, 1747, p. 281.
124
Em uma ordem de 1768, o intendente foi encarregado de consertar as armas de três presídios da região. Carta
de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira. São Paulo de Assunção de Luanda, 10 de julho de 1768.
IEB/USP, AL-083-084.
125
Amadou Hampatê Bá, “A tradição viva”, p. 202.
116

2.3 Nova Oeiras, “máquina” imaginada no sertão

A historiografia sobre o governo de Sousa Coutinho pouco informa sobre a


história que contamos até aqui, as minas exploradas pelos sobas Nguengue a Kimbemba,
Nguengue a Kamukala, Lunge Riaquitamba, Huiadala, Ndala Tandu e Ndambi a Kiza, as
ferrarias controladas por Mbangu kya Tambwa. Apesar disso, a indústria do ferro na Ilamba e
seus arredores era antiga e bem consolidada nas raízes do comércio da região, administrada
pelas elites locais, para quem as minas de ferro eram valorosas e rentáveis. Sem essa incursão
pela Ilamba não é possível entender por que e como foi ali que se instalou a vila e a fábrica de
Nova Oeiras, que, em geral, é o ponto de partida nos estudos acadêmicos que analisam sua
história no contexto dos projetos da administração colonial no Setecentos. A historiografia
silencia sobre esses aspectos, mas eles foram levados em conta por Sousa Coutinho.
No século XVIII, os dicionaristas definiam como fábrica a “casa ou oficina em
que se fabricam alguns gêneros” como descreveu Bluteau, mas também o conjunto da tenda,
oficiais e materiais, “a gente, animais de serviço, máquinas, provimentos para alguma obra”,
como acrescentou Moraes Silva. Os termos “loja”, “oficina” e “fábrica” se apresentam como
sinônimos, que também estavam relacionados ao significado de “manufatura”, que seria a
“fábrica, mecânica, e oficina de artefatos” e “a obra feita nelas”, e de “indústria”, que
remeteria às “obras mecânicas” e à “arte e destreza para ganhar a vida” por meio do ofício126.
Portanto, a fábrica de Nova Oeiras pretendia ser também uma oficina, onde saberes de
diferentes origens se imbricaram na busca pelos “segredos” da metalurgia127.
A ideia de construir uma fábrica de ferro em Angola apareceu pela primeira vez
nos escritos do governador Antonio de Vasconcelos (1758-1764). Foi ele quem recolheu
amostras do minério, fez as primeiras experiências de fundição, enviou trabalhadores
especializados centro-africanos para Lisboa para que os especialistas do Reino pudessem
averiguar suas habilidades e conhecimentos metalúrgicos128. Os planos de Vasconcelos foram
executados pelo seu sucessor. Quando Francisco de Sousa Coutinho recebeu as ordens do

126
Raphael Bluteau, op. cit., verbetes “fábrica”, “oficina”, “indústria”. Antonio Moraes Silva, Diccionario da
língua portugueza, verbetes “fábrica”, “manufatura”, “indústria”.
127
A ausência de fronteiras nítidas nas definições dessas palavras é evidente; se descartarmos alguns
complementos, as distinções praticamente desaparecem. Com isso queremos dizer que, em Portugal e nas suas
possessões ultramarinas, no século XVIII, o significado de manufatura se aproximava dos sentidos que teriam as
palavras “fábrica” e “oficina” que, em momento algum, podem ser associados às grandes indústrias do Sistema
Fabril.
128
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Tomas Joaquim da Costa Corte Real,
secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 18 de janeiro de 1769.
AHU_CU_001, Cx. 45, Doc. 4189.
117

Conde de Oeiras para que promovesse a exploração do ferro, metal imprescindível para o
fomento de qualquer indústria naquele momento, ele foi informado de um conhecimento
histórico sobre os minerais que os súditos da Coroa reuniram no decorrer de séculos de
ocupação portuguesa. Em 1765, este governador decidiu começar uma grande empreitada,
cuja construção durou os oito anos de seu governo, e resultou nos edifícios da fábrica de ferro
de Nova Oeiras:
“No ano de 1765, fazia eu a grande Fortaleza do Mar, que foi como o
noviciado das minhas fadigas, não tendo ferro para as obras, e comprando a
12$800 o quintal do pouco que aparecia me resolvi a tirá-lo das
copiosíssimas minas deste Reino”129.

O ferro importado da Biscaia, Suécia ou Inglaterra era caríssimo, e Portugal, que


não tinha minas ou grandes indústrias do metal, nem técnicas de exploração e refino do ferro,
dependia das importações para abastecer o reino e as possessões no ultramar130.
Em termos de políticas econômicas do Império português, na segunda metade do
Setecentos, a busca por ferro se insere no que Fernando Novais denominou de “mercantilismo
Ilustrado”, pois nas medidas adotadas no gabinete pombalino ainda predominavam ideias
mercantilistas. Portanto, a indústria do ferro era vista como um ramo de suma importância
para a metrópole que, por sua vez, não produzia o suficiente para o próprio abastecimento. As
fábricas nos espaços coloniais livrariam a “metrópole das importações contribuindo para o
objetivo mais geral do programa do mercantilismo ilustrado, a posição no comércio
internacional em face das outras nações”131. É preciso lembrar que uma das principais
preocupações da expansão e manutenção do império português era a fabricação de armas.
Uma fábrica de ferro em Angola que prometia os rendimentos das ferrarias hidráulicas do
norte da Espanha, com o recurso da mão de obra qualificada e barata de centro-africanos
parecia a solução ideal:

129
Correspondência de Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, governador de Angola, dirigida ao morgado de
Mateus, governador da capitania de São Paulo. São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de agosto de 1769. BN
(RJ), Coleção Morgado de Mateus Microfilme 12, fl. 31.
130
Em Portugal, no final do século XVII, durante o Ministério do Conde de Ericeiras, o padre Rafael Bluteau foi
encarregado de contratar técnicos italianos para a produção de ferro no atual concelho de Figueiró dos Vinhos.
Uma das unidades régias instaladas na região foi a denominada Engenho da Machuca, que “no final do século
XVII te[ria] contado com a dotação de uma fornalha de fundição, uma fornalha de refinação e instrumento de
brocar; a sua produção era fundamentalmente de ferro em barra e em vergalhão”. Mas essa fábrica teve pouca
duração. Heitor Gomes, Monografia do concelho de Figueiró dos Vinhos, Figueiró dos Vinhos (Portugal):
Câmara Municipal, 2004, p.90. Em 1764, Sousa Coutinho, diante da falta de armamentos, sugeria que a artilharia
de bronze e ferro fosse “toda fundida em Angola ou no Rio de Janeiro”. Ele chega a citar o nome de um homem
de negócio que estaria disposto a promover este comércio, João Álvares Ferreira. Carta de FISC para Francisco
Xavier de Mendonça Furtado. São Paulo de Assunção de Luanda, quatro de junho de 1764. IHGB – PADAB,
DVD10,20 DSC00213.
131
Fernando A. Novais, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), São Paulo:
Hucitec, 1995, p. 285.
118

“ocorreu à Sua Majestade que estabelecendo-se agora nos limites dessa


cidade uma fábrica de ferro e havendo nela tanta abundância deste gênero, se
possam fundir nele não só todas as peças de artilharia que forem necessárias
para as Fortalezas desse Reino [de Angola], mas ainda uma grande
quantidade para as naus e para as Fortalezas da América e deste Reino, e da
mesma forma balas, bombas e granadas para fornecimento das mesmas naus
e do exército”132.

Nas próximas páginas, vamos analisar a formação da povoação de Nova Oeiras e


da construção do edifício da fábrica. Apesar de a fábrica ser um assunto incontornável da
historiografia, os pormenores das etapas de seu planejamento e construção ainda não foram
estudados. Uma fábrica de ferro demanda muitos recursos naturais e humanos, um edifício
com pretensões de suprir a carência de ferro do reino de Portugal, do reino de Angola e da
América portuguesa a ser instalado nos sertões próximos de Luanda (a aproximadamente 200
km da cidade) mobilizou um contingente de investimentos materiais, tecnológicos e de
pessoas incalculável133. É possível mensurar esses esforços e sacrifícios tanto pelos escritos de
Sousa Coutinho, que produziu uma grande quantidade de documentos e memórias exaltando
os seus feitos, quanto por fontes redigidas em períodos posteriores.
Na correspondência de Antonio de Lencastre, sucessor de Sousa Coutinho, foram
feitas duras críticas ao empreendimento fabril, descrito como uma quimera de “horrorosa
despesa”. Ali encontramos uma tentativa de contabilizar os sacrifícios financeiros e humanos
que possibilitaram a construção de Nova Oeiras – “conta da despesa feita com a construção da
Fábrica de Ferro da Nova Oeiras desde o primeiro de janeiro de 1766, em cujo ano principiou
até 24 de março de 1773”134. É preciso observar que há documentação sobre a fábrica a partir
de abril de 1765 e não 1766 como informou erroneamente o governador. De todo modo, de
acordo com esse cálculo, mais de 70 contos de réis foram gastos com jornais de trabalhadores,
principalmente, mas também com material de construção, canoas para a condução das barras
de ferro, remédios da botica, papel para a administração, até mesmo na pintura de quadros

132
Carta de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Conselheiro de Estado, Ministro e Secretário dos Negócios
da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, para FISC, governador de Angola. Palácio de Nossa Senhora da
Ajuda, 30 de abril de 1768. AHU, Códice 472, fl. 153-155.
133
Quando FISC escreveu para o Conselho Ultramarino sobre as conveniências de fazer esta fábrica em Angola,
ele afirmou: “É certo que as ditas fábrica são mais úteis aqui do que em Portugal (se as houvesse) porque os
serventes e as lenhas são absolutamente inúteis a sua majestade e aos povos, sem este emprego, lá tem muito
valor, cá nenhum, os transportes para Lisboa, e para o Brasil são muito fáceis e muito breves e incluindo este
trabalho todas as riquezas de uma copiosa mina, concilia todas as utilidades de uma manufatura, e aumenta o
comércio interior das fazendas do Reino, pois eu com estes gêneros se pagam as despesas do ferro: eu estou
persuadido que o rendimento deste metal no Régio Erário se aproximará muito ao do ouro nas minas da
América, se for atendido com o cuidado que refiro e que merece”. Carta de FISC para Francisco Xavier de
Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 17 de
fevereiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 53, D. 73.
134
Certidão de José Francisco Pacheco, inspetor das obras da fábrica, sobre o estado da fábrica de ferro. São
Paulo de Assunção de Luanda Luanda, 13 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 28.
119

para a igreja junto à povoação. Com esse valor foram construídos “todos os edifícios
públicos”, como as “casas de intendência, ferrarias, tesourarias, prisões e as habitações dos
mestres de todos os ofícios e engenheiros”, e uma igreja, de “três altares”135.
O arquiteto Fernando Batalha, que visitou as ruínas da fábrica na década de 1970
ficou impressionado pelo conjunto de construções:
“podem observar-se ainda dois extensos troços do dique que represava o rio,
o aqueduto condutor da água para mover os engenhos, um grande
compartimento para as rodas hidráulicas, um forno de fundição, uma grande
ferraria com três armazéns, e um canal para, escoar a água”136.

Hoje, parte considerável das construções foi tomada pela vegetação, de forma que
mal conseguimos ver o muro do açude.
Além do grande investimento humano que levou a migrações de famílias de vilas
próximas e deixou muitos sobados despovoados, a fábrica exigiu muito dos recursos naturais
da região. Para situar a fábrica entre os rios foi preciso romper “uma serra que mediava entre
as do ferro e os rios Luinha e Lukala”. De outra maneira não seria possível transportar com
facilidade tanto a pedra do ferro quanto as barras. A abertura possibilitava, então, todos os
transportes: “porque já agora daqui vão as fazendas e viveres de Portugal desembarcar à porta
da fábrica e de lá vem o ferro em direitura aos armazéns desta cidade”137. O grande
empreendimento também levou à descoberta de novas lenhas. Embora haja poucos estudos
sobre a devastação ambiental imposta pela presença colonial para essa região138, é de se

135
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e ultramar. São
Paulo de Assunção de Luanda, seis de setembro de 1769. IEB/USP, Al – 082 – 175. Parecer do capitão José
Francisco Pacheco, inspetor das obras da fábrica, do engenheiro Antonio de Bessa Teixeira, “que também
assistiu por algum tempo as mesmas obras”, e do mestre de obras, Antonio Ribeiro Cardoso. ANTT, Condes de
Linhares mç. 51, doc. 1, fl. 198. São Paulo de Assunção de Luanda, 17 de novembro de 1770.
136
Fernando Batalha, Povoações históricas de Angola. Lisboa: Livros Horizonte, 2008, p. 101.
137
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e do ultramar.
São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de março de 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 6 e 73.
138
Há de se destacar os estudos sobre o tráfico de marfim, que teve grande impacto ambiental na região. No
período de 1796 a 1825, foram comercializadas 56.992 pontas de marfim da África Centro-Ocidental. João
Baptista Gime Luís, O comércio do marfim e o poder nos territórios do Kongo, Kakongo, Ngoyo e Loango:
1796-1825. Dissertação (Mestrado) - Universidade de Lisboa, 2016. Sobre a organização e os efeitos sociais do
comércio de marfim em Angola, ver: Jill Dias, “Changing Patterns of Power in the Luanda Hinterland. The
Impact of Trade and Colonization on the Mbundu ca. 1845-1920”. Sobre o impacto das mudanças nos padrões
de caça, ver: Marcos Vinícuis Santos Dias Coelho, Maphisa & Sportsmen. A caça e os caçadores no sul de
Moçambique sob domínio do colonialismo c. 1895-c.1930. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de
Campinas, 2015. Sobre a temática na África, ver: William Beinart, “African History and Environmental
History”. African Affairs, v. 99, n. 395, 2000, p. 269-302. Emmanuel Kreike estudou o norte da Namíbia, no
século XX, e mostrou como o governo colonial, o mercado capitalista e o crescimento populacional contribuíram
para mudanças ambientais dramáticas na região. Emmanuel Kreike, Deforestation and Reforestation in Namibia:
The Global Consequences of Local Contradictions. Leiden: Brill, 2010. As mudanças no padrão de posse de
terras instauradas durante a colonização também foram decisivas, Clover e Eriksen analisam esse processo para
Botswana, Moçambique, África do Sul e Zimbabwe. J. Clover, S. Eriksen, “The effects of land tenure change on
sustainability: human security and environmental change in southern African savannas”. Environmental Science
& Policy, v. 12, 2009, p. 53–70.
120

imaginar o impacto da destruição de uma serra inteira na localidade. Situada às margens do


Lukala, Nova Oeiras não mudou mais de local.
Para promover a exploração da natureza, o sítio em que se localizava Nova Oeiras
foi detalhadamente estudado durante os anos de sua edificação. Destas análises restaram
muitos desenhos e plantas. Um destes documentos é a “Carta Topográfica da província que
fornece águas, lenhas, e serventes à fábrica do ferro da Nova Oeiras” de 1769, feita por
Manuel Antonio Tavares, um engenheiro militar formado na Aula de Geometria e
Fortificação de Luanda, em 1767, que trabalhou durante muito tempo com a Sousa Coutinho
no projeto da fábrica139. Esta carta foi estudada por Sara Ventura da Cruz que nos lembra que
a profusão cartográfica na segunda metade do século XVIII se relacionava a um projeto
político pombalino, que tinha por objetivo “passar do império politicamente plural e
territorialmente descontínuo” para “a integração ativa no e do império”. De forma geral, as
povoações e a cartografia se integram neste projeto, que “procurava a territorialização do
estado e de colonização do espaço intermédio, através do estabelecimento de povoações que
garantissem um domínio mais permanente, e não feito dos avanços e recuos inerentes à
conquista militar”140.
A carta é estruturada pelo desenho dos rios Kwanza, Lukala e Luinha, o primeiro
fundamental para o transporte do minério e os dois últimos para promover as lavouras e a
força hidráulica para mover os foles e malhos. Na carta topográfica também se localizam
lagoas (Cabemba, Engolome, Tôa, Salacata), representadas por letras azuis, os matos (mato de
Calaquele, Caçalacata, Casanha, Hougo) para as lenhas, em letras verdes, e a delimitação dos
sobados e banzas de onde viriam os serventes, tudo descrito na legenda na parte superior do
documento. Nesta legenda, à direita, são usadas letras e, à esquerda, números representam
outros elementos.

139
A Aula de Geometria e Fortificação de Luanda foi fundada em 1666, mas logo foi suprimida pela falta de
professores. O governador FISC foi quem a retomou em 1764, era destinada a militares, inclusive soldados. Em
uma carta de 1768, temos uma descrição em pormenor da carreira de Manuel Antonio Tavares. “Tem servido de
Mestre de Aula e Fortificação, desde 15 de abril de 1768: que trabalhou com outros, e fez cartas de todas as
costas do Reino de Angola: que foi à Fábrica do Ferro da Nova Oeiras regular a construção da mesma fábrica;
sendo mortos os mestres que se mandaram para este efeito; e que mediu e reduziu a cartas todos os terrenos, rios
e matos que servem à mesma Fábrica. Mostra mais uma certidão da vedoria e matrícula da gente de guerra em
Angola da qual consta que o dito Manuel Antonio Tavares, natural de Lisboa, sentou Praça de soldado
voluntariamente em 13 de junho de 1764; que em 18 do mesmo mês e ano passou para Cabo de Esquadra (...) E
como por ter dado provas claras de uma aplicação admirável e de um engenho particular para a ciência da
geometria pelo progresso que fez e a virtude com que a praticou voluntariamente, o continue Lente de Geometria
= que desde o dito dia continuou no Real Serviço na dita praça de ajudante até seis de agosto de 1768 que passou
para Capitão de Infantaria”. Carta sem destinatário assinada por Manuel Antonio Tavares, São Paulo de
Assunção de Luanda, 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 18.
140
Sara Ventura da Cruz, “A construção de uma ideia de território: a cartografia de Angola na segunda metade
do século XVIII”. Cabo dos Trabalhos, v. 12, 2016, p. 8.
121

Mapa 4: Carta topográfica da província em que se localizava Nova Oeiras, 1769 c.a.

Fonte: “Carta Topográfica da Província que fornece Águas, Lenhas, e Serventes à Fabricado Ferro da Nova Oeiras que
mandou fazer o Ilmo. Exmo. Senhor D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho Governador e Capitão General do Reino de
Angola, ano 1769”. Manuel Antonio Tavares, [Angola], 1769. 1 mapa ms.: papel, color.: 66x117 cm. (Fonte: AHM). Apud
Sara Ventura da Cruz, “A construção de uma ideia de território: a cartografia de Angola na segunda metade do século
XVIII”, p. 11.
Legenda na parte esquerda: A. Sitio de Calumbo; B. Sitio de S. José; C. Sitio da Kwanza; D.Zambela; E. Bruto; F. Sitio do
Guedes; G. Molamba; H. Soba Cacoba; I. Catenga; L. Lagoa de Cabemba; M. Cabemba; N. Lagoa de Tôa; O. Lagoa
122

Salacata; P. Sitio de Muchacaçoa; Q. Presidio de Muxima; R. Lagoa do Quizua; S. Lagoa do Engolome; T. Presidio de
Massangano; V. Cacoalâla. Fábrica de Telha e Tijolo; X. Povoação da Nova Oeiras; Z. Casa da Fábrica de Ferro; K. Açude.
Legenda na parte direita:1. Montes do Ferro; 2. Soba Nguengue; 3. Soba Nguindala; 4. Rio Kwanza; 5. Rio Lukala; 6. Rio
Luinha; 7. Soba Moene Capexe; 8. Soba Nguinza; 9. Caculo Cazongo; 10.Quionzo; 11. Caculo Cahango; 12. Empacaça;
13.Zambiaquela; 14.Macoche; 15. Soba Quizua; 16. Mato de Calaquele; 17. Mato de Caçalacata; 18. Mato de Casanha; 19.
Mato do Hougo.

Sara Cruz observou que os elementos – “as povoações, lagos e zonas de mato” -
assinalados são ligados por caminhos e rios, formando um “conjunto [que] compõe um
sistema quase estratégico, uma rede de comunidades”141. Contudo, é preciso lembrar que esta
é uma representação do espaço que serve a fins políticos, por isso temos a impressão de uma
ocupação contínua com ligações precisas entre as povoações. Assim, as áreas desconhecidas
são pretensamente preenchidas com o objetivo de expressar uma unidade territorial que “não
existe, mas pretende ser, apesar de tudo, comunicada”. As povoações, as banzas, as vilas, os
sobados, a empacaça são representados na carta com o mesmo desenho, não se diferenciando
quais elementos formavam as povoações africanas e quais as vilas e presídios fundados por
portugueses no sertão142.
Os números e a letra “H” em vermelho identificam as banzas e os sobados, as
ocupações centro-africanas no interior, que são mais numerosas que as coloniais fundadas
com objetivo de defesa do território e povoamento do interior – os presídios, a própria fábrica
e vila de Nova Oeiras, as fábricas de tijolo e telha. Os números 1 (montes de ferro) e 2 (Soba
Nguengue) estão bem próximos, o que nos leva a aventar que essa liderança política fosse o
soba Nguengue a Kimbemba, sobre quem falamos há pouco, que possuía minas de ferro e
trabalhadores à sua disposição para explorá-las. O desenho reforça a ideia de que parte das
terras da localidade pertenciam a essa chefia e que de alguma forma, por desapropriação ou
venda, passaram às mãos do governo de Luanda.
Todo o conjunto de ocupações ligado ao trabalho na fábrica de ferro está
assinalado em rosa. Este espaço também foi ocupado por particulares (o sítio do Guedes, por
exemplo), o que mostra a complexidade política e social do sertão.

141
Sara Ventura da Cruz, “A construção de uma ideia de território: a cartografia de Angola na segunda metade
do século XVIII”, p. 16.
142
Segundo Sara Cruz, todas essas povoações “apresentam coberturas idênticas e semelhantes padrões de
aberturas, com clara influência do padrão do colonizador. Somente os presídios têm a indicação do forte e há
uma distinção cromática de alguns edifícios, apontando para que os desenhados a vermelho representem
equipamentos públicos ligados à administração e igrejas, uma vez que alguns deles apresentam cruzes no topo.
Apesar desta distinção, os tipos habitacionais são os mesmos, havendo apenas, entre os edifícios desenhados a
preto, quatro tipologias diferentes em todo o desenho. A homogeneidade na representação dos edifícios pode
dever-se a uma não preocupação em individualizá-los, por se estar a abordar uma escala regional, ou
simplesmente por se utilizar um padrão de representação”. Sara Ventura da Cruz, “A construção de uma ideia de
território: a cartografia de Angola na segunda metade do século XVIII”, p. 16.
123

Como mostram as figuras, no encontro dos rios Luinha e Lukala se localizam a


povoação de Nova Oeiras e a casa da fábrica de ferro (letras X e Z). No parecer de 1769, feito
por Joaquim de Bessa Teixeira, ele constatou ser infindável o suprimento de madeiras na
região, que já tinha muitas cortadas para as obras e que havia várias qualidades: “paus de
sorveira [árvore endêmica da Ilha da Madeira, provavelmente levada para a região pelos
portugueses] de 35 até quarenta palmos de circunferência; há paus de tacula vermelhos; há
paus de Amoreira, e entre estes há paus de resina de breu; cujos paus dão tábuas de três,
quatro, até cinco palmos de largo”143.
As preocupações com as lenhas, para que se preservassem o suficiente para
alimentar os fornos de fundição, fez com que todas as fábricas auxiliares à construção –
fábricas de cal, telha, carvão e tijolo, principalmente – ficassem em regiões mais afastadas,
como a Vila de Massangano, que ficava a meio dia de viagem a pé. Para termos ideia da
dimensão das mudanças geográficas e ecológicas provocadas por este projeto, para um único
corte de madeira, registrado em 1769, foram serrados 800 grandes troncos de árvores144. Isso
sem mencionar outras atividades mineradoras, como a busca pelo ouro no rio Lombige, não
muito distante desse local. Não há para essa região da África estudos sobre a história dos
impactos ambientais provocados pela mineração como o livro de Warren Dean para a Mata
Atlântica, mas com certeza a fábrica de Nova Oeiras foi um fator de mudanças nos ciclos
ecológicos. A fábrica era abastecida pela extração de minério dos montes circunvizinhos e
que dependia da queima contínua de árvores, contribuiu muito para o esgotamento dos
recursos naturais na região. E é claro que isso repercutia nas vidas pessoas que ali moravam,
pois diminuía as terras cultiváveis e gerava fomes e secas, por exemplo145.

143
Documento que sua Excelência mandou registrar de várias cousas que viu, e observou na Real Fábrica do
Ferro da Nova Oeiras o Tenente de Cavalos Joaquim de Bessa Teixeira, São Paulo de Assunção de Luanda a sete
de fevereiro de 1769. IEB/USP, Al-083-207. A sorveira é uma árvore endêmica da Ilha da Madeira, sua madeira
é branca ou rosada, de textura fina, compacta e com uma grande dureza. Foi por isso frequentemente usada para
elaboração de peças sujeitas a um desgaste constante: pontas de moinhos, fusos, rolos, cabos de ferramentas. A
Tacula ou Takula é uma árvore africana, cuja madeira é muito apreciada e usada em tinturaria (corante
vermelho).
144
Carta de FISC para Francisco de Mendonça, secretário de estado da marinha e ultramar. São Paulo de
Assunção de Luanda, seis de maio de 1769. IEB/USP, Al – 082- 156.
145
Segundo Warren Dean, seiscentos quilômetros quadrados de floresta foram destruídos na região mineradora,
na América portuguesa, no século XVIII: “grande parte dessa queimada se repetiria na floresta secundária,
acessível às vilas e lavras de ouro. (...) A remoção exploratória, hidráulica e manual da superfície dos solos da
floresta sugerem que o empreendimento minerador do século XVII exigiu mais da Mata Atlântica que os
primeiros dois séculos de lavoura de subsistência e as plantações de trigo e açúcar”. Warren Dean, A ferro e
fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira, São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 116.
Há estudos sobre os impactos da mineração para outras regiões da África. Cf.: Josiah Rungano Mhute,
“Downcast: Mining, men, and the camera in colonial Zimbabwe, 1890-1930”. Kronos, n. 27, 2001, p. 114-132;
William Beinart, “Soil erosion, conservationism and ideas about development: a Southern African exploration,
1900-1960”. Journal of Southern African Studies, 11, 1, 1984, p. 52-83.
124

Quanto aos montes de ferro, Bessa Teixeira contou cinco, representados na carta
pelo número 1 (“que qualquer deles dá pedra para sempre, e sem fim”). A historiografia por
vezes relaciona o fracasso da fábrica com a baixa qualidade do minério de ferro ou a pobreza
das minas de Nova Oeiras, que não passariam de poucos filões. Desde o governo de Antonio
Vasconcelos até as pesquisas do naturalista José Álvares Maciel, que visitou a fábrica em
1797, foram enviadas para Lisboa amostras tanto da terra ferruginosa quanto do ferro em
pedra ali encontrados. Francisco de Sousa Coutinho chegou a enviar amostras para os
doutores Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, em Paris, e Antonio Ribeiro Sanches, em
Lisboa. A quantidade de ferro encontrada no mineral foi de 65% segundo Miguel Franzini,
professor de Álgebra na Universidade de Coimbra, e 68% de acordo com José Álvares
Maciel. A qualidade do metal reduzido foi sempre considerada excelente; além disso, a
mineração do ferro na localidade antecede a presença portuguesa, por falta de estudos
arqueológicos não sabemos o quanto, e foi densamente explorada no governo de Sousa
Coutinho e seus sucessores que continuaram a comprar o ferro produzido pelos centro-
africanos. Logo, a fábrica de ferro de Nova Oeiras não fracassou por falta de um minério com
taxas consideráveis de ferro146.
Joaquim de Bessa Teixeira encontrou também muitas pedras para a construção
dos edifícios, além de “barro vermelho e bom como também saibro [areia grossa em cuja
composição entram grânulos maiores de pedra, amplamente utilizada para a construção] que
para misturar com cal é excelente”. E ainda sobre os recursos naturais: “as águas são
excelentíssimas, por quanto a povoação fica entre os dois rios correntes, como é o mesmo
Luinha, e Lukala, e bebe cada um do que lhe parece”147.
A letra K da “Carta Topográfica da Província que fornece Águas, Lenhas, e
Serventes à Fábrica do Ferro da Nova Oeiras” representa o açude, “ou presa da água”, feito
pelo represamento do rio Luinha, uma obra que demorou cerca de dois anos para ficar pronta
(1768 a 1770) e que foi destruída por uma grande enchente em 13 de abril de 1770. Por isso,
seria preciso refazer “o açude e o boqueirão”. Um projeto chegou a ser esboçado e a
construção chegou a ser iniciada como se pode examinar com mais detalhe na Figura 6148. A
primeira demarcação do açude fora feita pelos mestres biscainhos, que ali trabalharam por
cerca três meses. Para sua reconstrução, houve muita discussão sobre como torná-la mais

146
Carta de FISC sobre a utilidade da fábrica de ferro. Lisboa, 16 de setembro de 1773. BNP, C 8553, F6362.
147
Documento que sua Excelência mandou registrar de várias cousas que viu, e observou na Real Fábrica do
Ferro da Nova Oeiras o Tenente de Cavalos Joaquim de Bessa Teixeira, São Paulo de Assunção de Luanda a sete
de fevereiro de 1769. IEB/USP, Al-083-207.
148
As cheias haviam destruído parte da fábrica, foram tão fortes que arrancaram árvores pelas raízes. Joaquim de
Bessa Teixeira. São Paulo de Assunção de Luanda, 25 de abril de 1770. BNP, Reservados C 8743, F6377.
125

segura, uma vez que não podiam mais contar com a opinião de técnicos especialistas, pois os
biscainhos já haviam falecido. Em novembro de 1770, os engenheiros e mestre de obra da
fábrica declararam que o açude tinha de comprimento 269, 5 m (1225 palmos), de seis a sete
metros de largura e 9,46 m de altura. A calha que liga do açude à fábrica, o aqueduto, estava
fundada sobre 22 arcos de 2,2 m de largura e 3,08m de altura, perfazendo um comprimento
total de 115,5m149.
Segundo a documentação, a obra de reconstrução do açude nunca foi concluída.
Em 1772, Sousa Coutinho ainda insistia com os inspetores das obras para que o açude fosse
feito com cuidado para que outra enchente não o destruísse150. O secretário do governo de
Angola, José da Silva Costa, em 1798, visitou a fábrica e encontrou o açude destruído151.
Depois disso, a fábrica foi abandonada pelos governos posteriores. Em 1830, o açude e o
canal por onde derivava a água para a fábrica continuavam completamente destruídos152.

149
As medidas da fonte são apresentadas em palmos, consideramos 1 palmo = 0,22m. Conforme: “Quadro geral
das principais medidas e moedas utilizadas nos últimos tempos do Brasil colonial” elaborado por Roberto
Simonsen, História Econômica do Brasil. 7ª ed. S. Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1977, p. 462-463. Termo de
juramento feito pelo provedor da Fazenda Real Manuel Cunha e Sousa, José Francisco Pacheco, Antonio de
Bessa Teixeira, Antonio Ribeiro Cardoso. São Paulo de Assunção de Luanda, 17 de novembro de 1770. ANTT,
Condes de Linhares, mç. 51, doc. 1, fl. 198.
150
Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, Intendente geral da Real Fábrica do Ferro da Nova Oeiras.
São Paulo de Assunção de Luanda, 19 de março de 1772. SGL, Arquivos de Angola, v.3, n. 30-33, 1958-1963, p.
423.
151
“Fui a Oeiras e os que a fábrica e tudo quanto lhe diz respeito está arruinadíssimo. O grande muro que
suspendia o curvo ao Ribeiro Luinha foi em parte lançado para este fora do seu lugar ou pelo peso das águas
acumuladas; este Ribeiro faz o seu giro bem perto da dita Fábrica, e mais adiante se avizinha ao canal”. Carta de
José da Silva Costa para Miguel Antonio de Melo, governador de Angola. São Paulo de Assunção de Luanda, 30
de abril de 1798. AHU_CU_001, Cx. 87, Doc. 71.
152
Carta de José Maria de Sousa Macedo Almeida e Vasconcelos, governador do Reino de Angola, para Nuno
Caetano Álvares Pereira de Melo, ministro assistente do despacho. S/l, seis de dezembro de 1830. IHGB,
PADAB DL76, 02.35.
126

Figura 6: O paredão e os muros planejados para represar o rio, 1770 c.a.

zzz
G E D
E
A
B D
C F

Legenda: A. o Paredão que impede a correnteza do Rio para se formar o Açude; B. o Rio Luinha na sua natural
correnteza; C. a transversão (sic) do Rio que se havia feito para se dar princípio ao Açude; D. Corte sobre a linha
xx que mostra a altura do paredão; E. morros entre os quais fica represada a água; F. Registro para lançar fora a
água que não for necessária à Fábrica; G. Expedição da água para o engenho pelos arcos zzz.
Fonte: “Planta das obras que estão feitas na Nova Oeiras para a fábrica do ferro”. AHU_CARTm_001, D.272.

Na planta da povoação de Nova Oeiras (Figura 7), também desenhada por Manuel
Antonio Tavares, que pela semelhança com outras da época, consideramos ter sido feita em
cerca de 1770, pode-se visualizar os dois rios que circunscrevem a povoação: no lado direito
na vertical, está o rio Lukala e na horizontal inferior, o rio Luinha. Não há detalhes sobre as
construções, mas são cuidadosamente desenhados 124 edifícios, sendo um deles a igreja,
sinalizada com uma cruz. Há mais de uma construção marcada de vermelho, a que se localiza
logo na embocadura dos rios pelas descrições de época é provável que sejam os armazéns e o
edifício do forno de fundição de ferro. As outras duas construções também coloridas de
vermelho não soubemos identificar.
127

Figura 7 – Planta da Povoação de Nova Oeiras, 1770 c.a.

A
C
Igreja

A
Casa da
B Fábrica?

Fonte: “Planta da povoação de Nova Oeiras edificada pelo Ilustríssimo Excelentíssimo Senhor Doutor Francisco
Inocêncio de Sousa Coutinho Governador e Capitão General do Reino de Angola. Feita e desenhada pelo
Capitão da Infantaria Manuel Antonio Tavares”. Legenda da planta: A – mostra a povoação; B - o rio Luinha; C
– o rio Lukala. Catálogo online da Biblioteca Nacional de Portugal. Disponível em:
http://www.bnportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=373%3Aaquisicao-de quatro-
valiosos-manuscritos&catid=49%3Aaquisicoes&Itemid=427&lang=pt. Acesso em: 30/08/2012. Marcações
nossas.
A planta lembra os ideais de “uniformidade e retilineidade” que foram usados em
diferentes locais do Império português para reunir populações locais em “novas aglomerações
de projeto regulamentado”. Por exemplo, no interior de Mato Grosso, em 1765, a aldeia de
São Miguel sofreu uma reformulação, um “aquartelamento”, inclusive para abrigar os
trabalhadores indígenas que ali viviam. O novo plano previa “longas alas de unidades
residenciais em arranjo simétrico [que] aparecem como alojamentos para os índios”. As
instalações estavam dispostas “de um lado e do outro de uma grande praça, em cuja frente
[ficavam] as casas do administrador da comunidade”153 e do vigário. Os engenheiros
formados por Sousa Coutinho sem dúvida receberam as mesmas diretrizes que aqueles que
desenharam as vilas em Mato Grosso, ambos procuravam seguir o programa de urbanização e
europeização do marquês de Pombal.

153
Roberta Marx Delson, Novas Vilas para o Brasil colônia. Planejamento espacial e social no século XVIII.
Brasília: Edições Alva, 1997, p. 34. A ocupação do sertão de Minas Gerais e a instalação de núcleos urbanos
nessa época foram estudados em: Cláudia Damasceno da Fonseca, Des Terres aux Villes de l’or. Pouvoir et
territoires urbains au Minas Gerais (Brésil, XVIIIе siécle). Paris: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
128

Em fevereiro de 1769, o tenente de cavalos Joaquim de Bessa Teixeira foi enviado


para a fábrica para apresentar um parecer sobre seus edifícios e expôs uma descrição
detalhada do que encontrou:
“Há nesta Fábrica cinquenta e três casas feitas boas, em que entram as da
intendência e dois armazéns de adobes, cobertos de telha, um em que se
recolhe as Fazendas, e mais apetrechos, como são os da Fábrica, e outro
serve para Ferraria, no qual trabalham os ferreiros; este tem um repartimento
para recolher alguns materiais. Casas pequenas de alguns Brancos, e Negros,
mais de cem: No lugar da Fábrica estão três moradas de casa feitas, uma para
o intendente, outra para o Capitão José Francisco [Pacheco, inspetor das
obras], e outra para os mestres e mais ajudantes. Também está neste mesmo
lugar um Alpendre grande feito, em que se vai recolhendo a cal e as
madeiras que se vão faceando, e aprontando; este alpendre fechado em que
se recolhe a ferramenta das obras como também tábuas de cal, quindas [cesto
cilíndrico sem tampa], sacos”154.

Nesta época, a povoação e a fábrica aparentemente estavam crescendo, haja vista


que havia mais de 150 casas para habitação. Ao que parece, as 53 “feitas boas” eram
reservadas para as famílias, enquanto os trabalhadores brancos solteiros e negros se
acomodavam em 100 pequenas casas. Para uma povoação no interior do Reino de Angola, é
uma quantidade considerável de moradias. Para fins comparativos, a cidade de Luanda
dividida por José Venâncio em quatro zonas abrigava 378 moradias na parte comercial e 112
na administrativa ou Cidade Alta155. A cidade de Benguela, em 1798, contava com 281
habitações, sendo a metade composta de casas modestas, as sanzalas (140), onde moravam
principalmente escravos e forros156. O arquiteto Fernando Batalha identificou parte das ruínas
da povoação e do antigo edifício da igreja. Investigações arqueológicas podem desvendar a
quantidade de casas, práticas agrícolas, alimentares, religiosas, enfim, uma infinidade de
aspectos da vida e do trabalho dos moradores da povoação157. Mas ainda estão por serrem
feitas.
Os funcionários que administravam a obra, juntamente com os mestres, tinham
suas moradias separadas do restante da povoação junto à ferraria, armazéns, alpendre,
segundo uma gramática do espaço de trabalho que lhes permitia vigiar os trabalhadores. Mais
uma vez, algo muito parecido com o que descrevemos há pouco sobre as novas vilas

154
Documento que sua Excelência mandou registrar de várias cousas que viu, e observou na Real Fábrica do
Ferro da Nova Oeiras o Tenente de Cavalos Joaquim de Bessa Teixeira, São Paulo de Assunção de Luanda a sete
de fevereiro de 1769. IEB/USP, Al-083-207.
155
José Carlos Venâncio, A economia de Luanda e hinterland, no século XVIII. Um estudo de Sociologia
Histórica. Lisboa: Editorial Estampa, 1996, p. 38.
156
Roberto Guedes lembra que as listas de moradores só abrangiam o pequeno núcleo de moradias do presídio
de Benguela, sem contar as sanzalas nos arrebaldes da cidade. Roberto Guedes, “Casas & Sanzalas (Benguela,
1797-1798)”. Veredas da História, ano VII, 2014, p. 66.
157
Fernando A. Novais, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), p. 105.
129

construídas em Mato Grosso: os administradores, os intendentes, os vigários moravam em


uma localidade privilegiada para facilitar a vigilância e fiscalização dos trabalhadores – os
índios na América, os Ambundos na Ilamba.
Em 1770, outra planta da fábrica foi elaborada pelo engenheiro militar Dom
Miguel Blasco a pedido de Sousa Coutinho. Apesar de não conhecermos o seu paradeiro,
encontramos uma breve descrição de sua legenda: a casa da Fábrica, e nela o engenho de fazer
o ferro, “forno aonde se liquida”, “forno onde se refina”, “arcos que conduzem água para o
engenho”, “lugar onde sai a água que se não precisa”158. Tendo em vista o falecimento dos
mestres biscainhos, a Coroa fiscalizou de perto o que foi feito com todos os recursos que
investiu naquela empresa. Para saber se a fábrica estava estabelecida conforme a planta
solicitada pelo governador, o provedor-mor da Fazenda Real Manoel Pinta da Cunha e Sousa
intimou o capitão José Francisco Pacheco, inspetor das obras da fábrica do ferro de Nova
Oeiras, o engenheiro Antonio de Bessa Teixeira (“que também assistiu por algum tempo as
mesmas obras”) e o mestre de obras Antonio Ribeiro Cardoso para que dessem um parecer
sobre o estado da construção à época. Eles garantiram que tudo foi feito conforme a descrição
acima – “feito e acabado com a maior segurança e perfeição” – com exceção dos foles porque
não havia mestre que soubesse como construi-los. Os engenheiros acharam por bem esperar a
chegada dos mestres que os fariam “à medida e satisfação deles”159. Logo, embora todos
edifícios estivessem em pé, a casa das máquinas não havia sido usada uma única vez, sem os
grandes foles, a fábrica e pedra e cal permaneceria à espera de técnicos que a colocassem em
prática.

158 Planta da Casa da Fábrica do Ferro e açude que se acha na Nova Oeiras, mandada fazer por FISC no ano de
1770. Dom Miguel de Blasco a delineou. São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de novembro de 1770. ANTT,
Condes de Linhares, mç. 51, doc. 1, fl. 194v. “Miguel Ângelo Blasco foi nomeado coronel, em outubro de 1750,
como engenheiro, com a obrigação de servir Portugal ou no Brasil, “nos portos, como em qualquer parte dos
sertões do Brasil e maranhão, por cinco anos”. Pertenceu ao número dos engenheiros recrutados para a
expedição à América, incumbida das demarcações de limites. Com ele foram contratados para o mesmo serviço:
Carlos Ignácio Reverend e João André Schwebel; como ajudantes de engenheiros, Adam Wentzel Hesteko,
Manoel Gotz e Inácio Hatton. Ângelo Blasco era genovês. Em atenção aos valiosos serviços por ele prestados
no Brasil foi promovido em 2 de outubro de 1763 ao posto de marechal-de-campo e em 21 de março de 1769
nomeado engenheiro-mor do reino na vaga aberta com o falecimento do ilustre engenheiro, Tenente-General
Manoel Maia. Entre os inúmeros trabalhos por ele elaborados, figuram a planta da Barra do Rio Grande de São
Pedro (Rio Grande do Sul), feita com a colaboração de José Custódio de Sá e Faria, em 1752, para servir de base
às operações técnicas e militares da demarcação dos limites, entre as possessões de Portugal e Espanha. Em
Santa Catarina, levantou e desenhou (tirou e riscou), em 1767, as plantas das fortificações: Santana do Estreito,
Conceição de Araçatuba e São Francisco Xavier”. Aurélio de Lyra Tavares, A Engenharia militar portuguesa na
construção do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Biblioteca do Exército, 2000.
159
Termo de juramento feito pelo provedor da Fazenda Real Manuel Cunha e Sousa, José Francisco Pacheco,
Antonio de Bessa Teixeira, Antonio Ribeiro Cardoso. São Paulo de Assunção de Luanda, 17 de novembro de
1770. ANTT, Condes de Linhares, mç. 51, doc. 1, fl. 198. “ Planta da Casa da Fábrica do Ferro e açude que se
acha na Nova Oeiras, mandada fazer por FISC no ano de 1770. Dom Miguel de Blasco a delineou. São Paulo de
Assunção de Luanda, 12 de novembro de 1770. ANTT, Condes de Linhares, mç. 51, doc. 1, fl. 194v.
130

Esse termo de juramento é fundamental porque nele conhecemos a dimensão do


conjunto de prédios e ferramentas que constituíam Nova Oeiras. Além do maquinário ligado à
fundição do ferro, foram feitas “uma casa de feitoria, duas ferrarias, cadeia, corpo de guarda e
outra casa mais, para o que quiserem aplicá-la”160. A presença de uma cadeia reforça a ideia
de constante vigilância do trabalho. Em Cacualala, localidade vizinha à fábrica e indicada pela
letra “V” na “carta topográfica da província em que se localizava Nova Oeiras”, de 1769
(mapa 4), foram instaladas fábricas de telha e tijolo, e dois armazéns para estocagem, além de
uma fábrica de cal em Muxima.
O forno de fundição construído em Nova Oeiras não foi feito conforme o das
ferrarias d’água da Biscaia, que utilizavam o forno catalão, ou seja, de tipo baixo. Inclusive
seu estilo arquitetônico é bastante discrepante do restante do conjunto, o que indica uma
construção posterior. Os mestres europeus faleceram antes de deixar qualquer planta do forno.
O alto forno edificado ao lado dos armazéns foi resultado de novos experimentos conduzidos
por Sousa Coutinho com auxílio dos engenheiros que formou da Aula de Geometria e tinha
por inspiração os fornos franceses e alemães. O governador chegou à conclusão de que o
rendimento proporcionado pela ferraria hidráulica não seria suficiente para a quantidade de
ferro que ele queria produzir em Nova Oeiras. Com o alto forno, esperava fabricar por dia de
20 até 70 quintais de ferro161. Contudo, a fundição seguindo estes preceitos técnicos nunca
chegou a funcionar, entre outras razões, porque não se encontrou pedras de cadinho (vaso de
barro que abrigava o metal fundido) que suportassem as altas temperaturas das fornalhas162.
Em 1861, Jacinto de Gouvea Leal pediu o aforamento das terras baldias “de uma e
outra margem do Luinha, no sítio denominado ‘Pedra Catão’, até a confluência do mesmo rio
com o Lukala e continuando pela margem direita este último até à sua confluência com o
Kwanza”, uma área total de 5.000 hectares. O suplicante queria empreender a cultura de
algodão no local e recebeu um parecer favorável com a “concessão perpétua para si e seus
descendentes”, livre de foro, “incluindo-se nesta concessão as minas da antiga fábrica de ferro
de Nova Oeiras”. O documento traz uma cláusula proibindo a demolição do conjunto

160
Idem.
161
“Assim é o serviço que fazem os biscainhos, trabalham ferro, porque são muitas as Fábricas, trabalha cada
uma muito pouco para fazer vulto em uma região em que o gênio dos povos a há de fazer única, e muito mais
dispendiosa; sendo como só servem régias grandes, e capazes de fertilizar um país dos situados entre os trópicos,
hão de ser dirigidas por franceses ou alemães, cujos fornos em 24 horas com três homens produziam de 20 até 70
quintais de ferro; tudo o contrário não vale nada, e não se deve adotar”. Carta de FISC para Luís Antonio de
Sousa, o morgado de Mateus, governador de São Paulo. São Paulo de Assunção de Luanda, quatro de maio de
1770. BNP, C 8743, F6377.
162
Carta de FISC para Martinho de Melo e Castro, secretário de estado da marinha e do ultramar. São Paulo de
Assunção de Luanda, 12 de agosto de 1771. AHU_CU_001, Cx. 55, Doc. 52 e 56.
131

arquitetônico e determinando que as terras da fábrica poderiam ser requeridas a qualquer


momento pela Real Fazenda. Depois de analisar as ruínas, Jacinto considerou que aquele
“magnífico edifício cuja fortaleza de paredes se [?] feitas de pedra pome de cantaria, est[ava]
feito com tanta consistência que poder[ia] resistir por séculos a intempérie do tempo”163.
Gouvea nos deixou algumas imagens e plantas importantes para compreendermos como esta
grande máquina imaginada deveria ter funcionado. Na Figura 8 estão desenhados em
perspectiva, da esquerda para a direita: os armazéns, a casa da máquina e o último, com as
escadas, é o forno de fundição de ferro.

Figura 8: Alçado da Planta Fundição de Fábrica de Fundição de Ferro em Oeiras, 1855.

Fonte: Alçado da Planta da Fábrica de Fundição de Ferro em Oeiras, Distrito do Cazengo, 1855. N. 3. Assinadas
por: Jacinto de Gouvea Leal. AHU_CARTm_001,D.1343. Legenda: A. Armazém; B. Casa da Máquina; C. Dita
do forno; D. Escadas para o Terrado do Forno; E. Ditas para o Tanque; F. Superfície exterior; G. Dita interior; a.
Portas; b. Janelas; c. Cano das duas águas do Telhado; d. Guardas do muro que dá serventia para o Tanque.
Escala em pés ingleses.

Nas plantas abaixo, figuras 9 e 10, temos os detalhes do edifício, o local do forno,
dos foles, do aqueduto e demais repartições da fábrica.

163
Carta de Jacinto Gouvea Leal para o Conselho Ultramarino. S/l, oito de março de 1855. AHU, Conselho
Ultramarino Angola, Cx. 35, Doc. 1598.
132

Figuras 9 e 10: Plantas da Fundição de Fábrica de Fundição de Ferro em Oeiras, 1855.

Fonte: Planta da Fábrica de Fundição de Ferro em Oeiras, Distrito do Cazengo, 1855. N. 1 .


Assinada por: Jacinto de Gouvea Leal. AHU_CARTm_001,D.1341-42. Escala em pés
ingleses. Legenda: A – Fábrica; B – Armazéns; C – Casa da Máquica; D – Cano d’Água; E –
Base do Forno; F – Forno; G – Lugar do Fole; H – Porta do cadinho; I – Arca poara o Cano;
J – Respiradouro do Cano; L – Pilares dos eixos do Fole; M – Arco do Tanque; N – Arcos em
que trabalham as rodas; O – Almofadas das rodas; P – Rampa para o forno; Q – Arco da
Frente. a – portas; b – janelas; c – escadas para baixo e entrada da fábrica; d – escadas para a
Casa da Máquina; e – sapata (sic) do forno; f – paredes da fábrica; g – base das escadas para o
plano superior do forno; h – aria em que assenta o forno; i – arco da calha d’água; j –
aqueduto; l- escada para o tanque e aqueduto; m – lugar das traves dos eixos das rodas; n –
cano de escoar a água da ária do forno; o – ponte do cano da saída das águas; p – fossos das
rodas.
133

Detalhes da casa do forno fundição:

A – Tanque; B- Terrado superior do forno;


C – Casa da máquina; D- Calha sobre o
aqueduto; E – Aria; F – Escada da frente;

a – escada para a calha; b – calha para a


roda; c – pilares do fole; d – portas; e –
boca superior do forno; f – janelas; g – arco
que sustenta o tanque; h – arco da frente; i –
borda da calha; j – borda do tanque; l –
parede e passadiço para o tanque; m – arco
que dá saída para o tanque; n – escada para
o terrado do forno; o – ditas da aria para o
terrado do forno; p – rampa para a aria; q –
paredes do plano do forno; r – comportas; s
– guardas das paredes e passadiço.
Fonte: Planta da Fábrica de Fundição de Ferro em
Oeiras, Distrito do Cazengo, 1855. N. 1 . Assinada
por: Jacinto de Gouvea Leal.
AHU_CARTm_001,D.1341-42.

Pela análise das plantas que coletadas durante a pesquisa documental e de fotos
atuais destes prédios, a equipe de arquitetos formada por Giovana Gomes Carreira, Katia
Sartorelli Verissimo e Stefane Saraceni Kaller, chegou à conclusão de que o edifício do forno,
indicado pela letra C, foi construído depois de A, os armazéns. Como vimos, o forno
realmente levou mais tempo para ficar pronto e por causa das experiências de fundição que
deterioravam suas paredes do mesmo pode ter sofrido mais modificações. As estruturas, os
traçados, os estilos e a grossura das paredes (as dos armazéns chegam a ter dois metros)
indicam que são prédios bastante diferentes; na casa do forno há detalhes arquitetônicos mais
134

bem-acabados. Nos armazéns eram estocados o minério de ferro, as lenhas, o carvão,


instrumentos europeus de fundição (“forja completa com safra” [bigorna]164) e era onde
trabalhavam os ferreiros brancos que refundiam as barras de ferro produzidas pelos técnicos
Ambundos, além de confeccionarem ferramentas e instrumentos. Toda a ferraria da fábrica foi
produzida localmente. Em 1772, esses prédios já estavam finalizados. A partir deste e de
outros desenhos, os arquitetos elaboraram a planta esquemática abaixo, além de imagens de
maquetes tridimensionais que nos permitem visualizar o conjunto arquitetônico por diferentes
perspectivas (ver anexo 6).

164
“Vai uma forja completa com safra, e o mais depressa que poder ser irão ferreiros brancos para reduzirem a
barras o ferro”. Carta de FISC para João Baines capitão-mor do Golungo, e intendente da fábrica do Novo
Belém. São Paulo de Assunção de Luanda, 9 de abril de 1767. BNP, C 8742, F 6362, fl. 166.
135

Figura 11: Planta esquemática dos prédios da fábrica de ferro

Fonte: Giovana Gomes Carreira, Katia Sartorelli Verissimo e Stefane Saraceni Kaller, Planta esquemática
extraída da planta de 1855 - Pav. Térreo. Reproduz a fábrica existente no século XVIII e forno de ferro
(construção mais recente, com destaque para estilo arquitetônico). A escala é em metros e foi estabelecida tendo
em vista um conjunto maior de plantas e desenhos analisados ao longo da tese.

A casa da máquina, a letra B da planta anterior, era onde ficavam as grandes rodas
d’água de madeira que moveriam os foles e o grande malho, fabricando o ferro segundo os
métodos europeus. Operação que nunca aconteceu. Essa máquina permaneceu apenas na
imaginação do governador. Nas memórias elaboradas para festejar seus feitos, Sousa
Coutinho, em 1779, rememorou o passado: “imaginei a ideia de uma fábrica de ferro, tão útil
como se prova da sua qualidade, da necessidade que temos dele, do diferente preço porque se
venda na América e da facilidade com que em navios de negros podia ir por lastro sem
despesa alguma”165. Encontramos detalhes da Casa da Máquina em desenhos e plantas de

165
Breve e útil ideia de comércio, navegação e conquistas d’Ásia e da África. s.l., 1779. Arquivos de Angola, v.
3, 1935, p. 140.
136

1769-1770, em especial duas plantas muito semelhantes, uma assinada por Manuel Antonio
Tavares e outra pelo tenente da artilharia João Manoel Lopes. Abaixo reproduzimos a
delineada pelo segundo, mais rica em detalhes.

Figuras 12 e 13: Interior da Casa da Máquina, engenho hidráulico, armazém. Representação do


Açude, 1770.

Legenda:
Planta da casa da Fábrica do
ferro e açude que se acha na
Nova Oeiras, mandada fazer
pelo Ilmo. Exmo. Snr. FISC
(...) no ano de 1770.
A – Casa da fábrica e nela o
engenho S, Z, de fazer o
ferro.
B – Forno aonde se liquida o
mesmo.
C - Pés direitos dos arcos
para cima dos quais vai a Malho A
água para o engenho.
Forno Foles
B
Roda hidráulica
para mover os
foles

Roda hidráulica
S z C
grande (cerca
de 18,5m de
circunferência)
para mover o
malho

Continuação da legenda:
D – Açude aonde vai água
para o dito.
E – Perfil da Casa da Fábrica
Açude considerando a cortada pela
linha XX da planta A.
F – Lugar por donde sai a
água de que se não precisa
para o engenho.
Fonte: Planta da Fábrica de
Ferro e açude de 1770,
assinada pelo Tenente de
E Artilharia João Manuel Lopes.
Roda para ANTT, Condes de Linhares,
Roda para
D mover os mç. 103, doc. 1.
mover o
malho foles
137

Observa-se que não há qualquer menção ao edifício chamada por Gouvea de “casa
do forno”, em 1855, que abriga um alto forno. A planta mostra apenas a casa da máquina e os
armazéns, o forno localizado à frente do fole é de tipo baixo, como eram os das ferrarias
hidráulicas da época. O que significa que o alto forno ainda não havia sido construído. Não
encontramos a letra “F” indicada na legenda, que era o lugar para onde era canalizava a água
descartada após mover a roda grande (18,59m de circunferência) que acionava o malho e a
roda menor (10,56m de circunferência) que movia os foles166. Na perspectiva a seguir temos
ideia do terreno em que se instalou a fábrica e dos detalhes do prédio do forno que
comentamos acima.

Figura 14: Vista da Fábrica de Ferro em Oeiras, 1855.

Fonte: Vista da Fábrica de Fundição de Ferro em Oeiras, 1855. Assinada por: Jacinto de Gouvea Leal.
AHU_ICONm_001_I, D.470.

166
Medidas descritas em: Termo de juramento feito pelo provedor da Fazenda Real Manuel Cunha e Sousa, José
Francisco Pacheco, Antonio de Bessa Teixeira, Antonio Ribeiro Cardoso. São Paulo de Assunção de Luanda, 17
de novembro de 1770. ANTT, Condes de Linhares, mç. 51, doc. 1, fl. 198.
138

Em 1769, Sousa Coutinho informava que a povoação de Nova Oeiras estava


estabelecida, assim como a “igreja, casas de intendência, ferrarias, tesourarias, prisões e
habitações dos mestres de todos os ofícios e engenheiros”. Ao lado da casa das máquinas e
dos armazéns apresentados acima, esquecida em uma descrição apressado do governador, à
sombra da grande fábrica, foi construída uma fábrica “mais pequena (sic) para trabalharem os
negros”167. Foi ali que todo o ferro produzido em Nova Oeiras foi feito. As fontes trazem
poucas informações de como era esse edifício chamado de “Casa da Fundição dos Pretos”168.
Para que os centro-africanos não parassem de trabalhar nas estações das chuvas, foram
edificados “cem lugares elevados cobertos, ou telheiros grandes”169. Essa “outra” fábrica era
uma pequena porção do gigantesco conjunto arquitetônico de cal e pedra e, ao contrário dele,
levou pouco tempo para ser construída. Não era de pedra bem-acabada como as fachadas de
Nova Oeiras e não resistiu ao tempo como a grande fábrica. Contudo, a fábrica “mais
pequena” foi o único sucesso desta empresa grandiosa porque ali se empregaram as únicas
técnicas bem-sucedidas na fundição de ferro – as Ambundas. Um dado esquecido pela
historiografia que se debruçou sobre a “fábrica grande” e seus fracassos.
Na pequena fundição, fornos escavados na terra, foles cobertos com pelos de
cabrito e pedras serviam de ferramentas para os ferreiros e fundidores Ambundos que
exportaram aproximadamente 60 toneladas de ferro e aço de 1765 a 1800 (ver anexo 2), além
de 30 a 40 quintais (1,8 t a 2,4t) mensais que abasteciam o Reino de Angola. Vale lembrar que
os centro-africanos não trabalharam apenas na fundição e forja do ferro. Quem construiu
Nova Oeiras, os grandes e belos arcos de seu aqueduto? Na produção historiográfica há uma
ênfase no idealizador desta grande máquina, mas o governador Sousa Coutinho, os
engenheiros, os intendentes, os inspetores arrastaram blocos de pedras? Um edifício que foi
assolado por enchentes, que ao menos uma vez sofreu um incêndio, quem o reconstruiu?
Quem arou a terra, quem cortou 800 troncos de árvores de uma só vez, quem carregou as
barras de ferro, fabricou telhas, selecionou, moeu e, em altas temperaturas, calcinou a cal?

167
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e ultramar. São
Paulo de Assunção de Luanda, seis de setembro de 1769. IEB-USP, Al – 082 – 175.
168
“A Casa da Fundição dos Pretos ficaria melhor junto à grande, em alguma distância proporcionada, porque o
mesmo inspetor vigiava ambos os trabalhos”. Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira,
intendente da fábrica de ferro de Nova Oeiras. São Paulo de Assunção de Luanda, 22 de julho de 1769.
IEB/USP, Al-083-274.
169
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente geral da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção de
Luanda, 10 de dezembro de 1766. BNP, C 8742, F6364.
139

2.4 As povoações civis

A fábrica só poderia subsistir se contasse com o apoio de uma povoação, que


possibilitasse a produção de alimentos e o fornecimento de mão de obra tanto para as
ferrarias, como as fábricas de telhas, tijolo, cal e carvão. Procurando mais uma vez seguir as
determinações do conde de Oeiras, na busca de transformar Angola em uma colônia de
povoações civis, Sousa Coutinho incentivou o povoamento branco do sertão próximo de
Luanda. Como já mencionado, em homenagem a sua filiação intelectual e administrativa, ele
chamou a nova vila no Lumbu de Nova Oeiras. Na Ilamba Baixa, foi erigida a vila de Novo
Belém. O governador enviou frequentemente soldados portugueses e brasílicos para essas
povoações. Em setembro de 1765, por exemplo, nove soldados do reino de Portugal seguiram
para Oeiras, entre eles trabalhadores, “grandes lavradores”. Esses homens deveriam ser
apartados da “ideia de soldados” e de se fardarem, pois, “uma vida civil não lhe[s] conv[inha]
ornamentos militares”. Assim que tivessem se estabelecido e fossem capazes de se sustentar,
os soldados receberiam baixa e deixariam de receber soldo. Os recém-chegados eram
incentivados a “casar, tratar da agricultura, do ofício de ferreiros e carvoeiros, os que para
estes dois últimos ofícios tiverem propensão”. O casamento seria com brancas, “moças
honestas com alguns escravos” que moravam em Massangano170. Se levarmos em conta a
hipótese de Miller de que as “brancas” de Angola eram na verdade mulheres locais e a
ascensão social de mulheres envolvidas em ralações matrimoniais com brancos, enriquecidas
no tráfico de escravos e posse de muitos bens, no Reino de Angola, há de se considerar que
essas mulheres com posses eram na verdade as donas, cujo protagonismo tem sido
reconstituído pela historiografia171.

170
“Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira servindo o emprego de intendente geral da
Fábrica do Ferro e que executaram também os capitães mores como intendentes particulares na parte que lhes é
respectiva”. São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 73. Carta de
FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de
janeiro de 1768. O governador não comenta sobre quem eram as mulheres brancas do presídio adjacente a Nova
Oeiras que possuíam escravos. Uma hipótese é que fossem órfãs dotadas à espera de casamento, como veremos a
seguir.
171
Selma Pantoja, “Gênero e comércio: as traficantes de escravos na região de Angola”. Travessias, n. 4-5, 2004,
p. 79-97; Selma Pantoja, “As fontes escritas do século XVII e o estudo da representação do feminino em
Luanda”. In: Construindo o passado angolano: as fontes e a sua interpretação. Actas do II Seminário
internacional sobre história de Angola. Lisboa: Comissão Nacional para as comemorações dos Descobrimentos
Portugueses, 2000, p. 583-596; Mariana Candido, “Dona Aguida Gonçalves marchange à Benguela à la fin du
XVIII siècle”. Brésil(s). Sciences humaines et socials, v. 1, 2012, p. 33-54; Vanessa de Oliveira, “Mulher e
comércio: a participação feminina nas redes comerciais em Luanda (século XIX)”. In: Selma Pantoja, Edvaldo
A. Bergamo, Ana Claudia da Silva (org.). Angola e as angolanas. Memória, sociedade e cultura. São Paulo:
Intermeios, 2016, p. 134-152.
140

A diretriz pombalina para a ocupação dos sertões era uma reforma do espaço pela
instalação de “povoações civis, decorosas e úteis para o bem comum da Coroa e dos povos”.
O conde de Oeiras utilizou essa frase, em 1752, em uma carta secreta ao seu irmão, Francisco
Xavier de Mendonça Furtado, à época recém nomeado governador do Grão-Pará e Maranhão.
Uma das primeiras ações do governador na Amazônia foi enviar uma expedição com colonos
açorianos para fundar a nova povoação e fortaleza de Macapá. O planejamento era que a
povoação tivesse de início em média de 600 pessoas brancas. Um dos objetivos é que fosse
um “chamariz” para os índios que viviam embrenhados nos matos fugindo dos aldeamentos
até então sob o controle de missionários. Incentivando a miscigenação, Pombal queria
adentrar nos sertões, povoando as novas vilas. Mendonça Furtado também fundou outras
povoações, como Bragança e Ourém, nomes portugueses tais como Nova Oeiras e Novo
Belém, repetindo topônimos de cidades reinóis de relevo para “reafirmar a pertença destas
vilas a um espaço que se queria inquestionavelmente português”172. É nesse programa de
ocupação e domínio colonial que estão inseridas as povoações da Ilamba. No que diz respeito
a Angola, essa diretriz vinha do parecer do conde de Oeiras sobre a situação deste reino
(1760), que objetivava “salvaguardar a presença portuguesa em Angola” e “passava, então,
pela adoção de uma política de fixação de colonos portugueses e supunha uma ocupação com
uma componente social estruturante e reformadora”173.
Ao contrário da política pombalina para outras partes do Império, de fomento à
miscigenação como instrumento de política colonial para povoar o sertão174, em Angola,
Sousa Coutinho considerava que o convívio com africanos tinha corrompido os costumes dos
europeus, principalmente no que se refere ao abandono da fé cristã – “as famílias em geral,
seja das que se acham mais acreditadas, seja das mais humildes, vivam encerradas e evitem
até os atos da religião, como a missa, o sermão, o sacramento da penitência”. Na leitura do
funcionário régio, o que acarretava tamanho desvio era o excesso de luxo, a “vaidade das
regiões do sol”, pois essas famílias não saíam de casa quando faltava “um excessivo número
de negras e mulatas que as acompanha[ss]em”, “peças de ouro, prata e pedras preciosas para

172
Renata Malcher de Araujo, “A urbanização da Amazónia e do Mato Grosso no século XVIII povoações civis,
decorosas e úteis para o bem comum da Coroa e dos povos”. Anais do Museu Paulista: História e Cultura
Material, 20(1), 2012, p. 57.
173
Catarina Madeira Santos. Um governo polido em Angola, p. 193.
174
Kenneth Maxwell, Marquês de Pombal: paradoxo do Iluminismo. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 120.
141

adorná-las”, “vestidos dispendiosos” ou o transporte em “cadeirinha ou tipoia”175. Estes


elementos eram os signos de distinção social dessa sociedade.
A corrupção dos costumes daqueles que nasciam em Angola, a maioria filhos de
portugueses com africanas ou luso-africanas, se devia à sua criação, pois, nas palavras de
Sousa Coutinho, essas crianças eram educadas em um “serralho de negras e mulatas corruptas
e infectas”. Assim, os luso-africanos cresciam “frouxamente criados”, falando as línguas
locais e incapazes do “menor trabalho”. As mulatas eram consideradas mulheres de “segunda
ordem”; Sousa Coutinho dizia que a maioria se prostituía publicamente e, quando
engravidavam, elas matavam seus filhos “sufocados e escondidos”. Os que sobreviviam se
criavam mal e, para o governador, eram de pouca valia para seu plano de difundir valores
europeus no sertão. Soma-se a isso, a forte presença das religiões locais que tornavam os
portugueses crédulos das “superstições” dos centro-africanos. Toda a retórica de Sousa
Coutinho era contrária à “mistura de sangue”, pois essa primeira contaminação seria a razão
da falência da manutenção dos costumes europeus em Angola176.
Para remediar essa situação, era preciso promover a propagação da religião
católica com “sábios religiosos” em substituição dos clérigos corrompidos de Angola. Em
segundo lugar, seriam proibidos “todos os costumes gentílicos”, ou seja, os “entambes (cantos
fúnebres entoados em kimbundu), paraninfos de casamentos e curas dos negros”. Por fim, em
uma tentativa de impedir a miscigenação, era preciso limitar o número de mulheres africanas,
escravas ou livres, que viviam nas casas dos portugueses ou nas vizinhanças. Fica evidente
aqui a hierarquização das culturas e sociedades europeia e africana, e as interpretações vão no
sentido de depreciar os africanos, sua cultura, língua e religião. O objetivo era povoar o sertão
com brancos que disseminariam padrões culturais europeus, pretensamente “civilizados”,
inclusive entre os centro-africanos. Só assim, Angola se tornaria uma colônia de povoamento
plenamente subjugada ao poderio português. A interiorização que os agentes coloniais
planejaram para a segunda metade do Setecentos pretendia se impor por meio da ocupação
destes espaços e da superposição de uma visão de mundo europeia177.

175
Memórias do Reino de Angola e suas conquistas escritas por D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho,
governador e capitão general do Reino de Angola, escritas entre 1773 a 1775. Torre do Tombo, Condes de
Linhares, mç. 44, doc. 2
176
Idem. A dependência do Kimbundu era tal que comerciantes e negociantes dos sertões pouco podiam fazer
sem o domínio da língua Ambunda.
177
Catarina Madeira Santos analisa as questões de hierarquização das culturas europeia e africana e o modo
como esses planos de imposição de um plano ilustrado para o Reino de Angola fracassaram. Os sertões seguiram
despovoados de brancos e o padrão cultural Ambundo foi o que permaneceu ao longo do tempo. Catarina
Madeira Santos. Um governo polido em Angola.
142

Uma leitura a contrapelo desse documento revela a importância das mulheres


africanas e suas descendentes na criação e educação dos filhos (as) dos portugueses e luso-
africanos. Como essas pessoas sobreviveriam em Angola sem falar kimbundu, kikongo, sem
os conhecimentos dos alimentos, plantas e ervas locais? Como se sustentaria uma povoação
sem os conhecimentos médicos africanos quando os europeus eram massacrados pelas sezões,
pela malária, e não dispunham de cirurgiões-mores suficientes? Apenas para refletir
brevemente sobre essas perguntas, sabemos que ao menos quanto a língua, a dependência do
Kimbundu era tal que seu uso chegou a ser proibido. Eram as mulheres africanas as
responsáveis pela criação dos filhos dos colonos enquanto suas mães ou como escravas em
suas casas. Aparentemente, as mulheres Ambundas representavam uma ameaça aos planos
coloniais justamente por serem as responsáveis pela a socialização dos luso-africanos, que
permaneciam falando as línguas locais, vestindo-se e comportando-se como os Ambundos178.
Essa seria uma das razões da ênfase na colonização com mulheres brancas.
As duas povoações que abrigariam as fábricas de ferro deveriam seguir as
orientações de Sousa Coutinho. As vilas fundadas em terrenos elevados para se beneficiarem
com os ventos que trariam mais salubridade ao ar, afastariam as doenças, corrigindo os
“defeitos do clima”, que era uma das causas das constantes mortes de europeus nos sertões. A
agricultura era uma condição a priori para o estabelecimento e manutenção das povoações,
aproveitando que nas redondezas havia “terras admiráveis”, nas palavras do governador
“quanto mais povoações, mais lavouras e mais rodas de farinha estabelecer, mais ferro tirará”.
Para o transporte do ferro, foi incentivada a criação de gado, enviado de Caconda (Reino de
Benguela), e a plantação da “erva tete”179 para alimentar os jumentos que seriam enviados da
América, bem como o cultivo de árvores frutíferas, inclusive há constantes remessas de
sementes de hortaliças para as “novas colônias”. Os moradores deveriam se empregar no
trabalho da lavoura, no corte de árvores e no fabrico do carvão ou na produção de ferro. As

178
Ao mesmo tempo que os meninos eram preparados para a vida pública e, por isso, aprendiam parcialmente o
português, as meninas permaneciam sem nenhuma instrução. Jan Vansina, “Portuguese vs Kimbundu: Language
Use in the Colony of Angola (1575 - c. 1845)”, Bulletin des Séances de l’Académie royal e des Sciences
d’Outre-Mer, vol. 47, (3), 2001, p. 267-281; Beatrix Heintze, “A lusofonia no interior da África Central na era
pré-colonial. Um contributo para a sua história e compreensão na actualidade”, Cadernos de Estudos Africanos,
7/8, 2005, p. 179-207.
179
Seria este o caruru (amaranthus viridis), Ewétètè? Na cultura brasileira, estudiosos acreditam que foi
culturalmente introduzido pelos africanos. É um ótimo indicador de qualidade do solo. Todas as partes do caruru
são comestíveis. É um alimento rico em ferro, potássio, cálcio e vitaminas A, B1, B2 e C. Tendo funções
medicinais como lactígeno, combate também infecções, problemas hepáticos, hidropisia, entre outras. As
sementes podem ser ingeridas torradas ou em pães e outras receitas.
143

tabernas estavam proibidas assim como qualquer estabelecimento semelhante que fomentasse
uma “colônia de bandidos”180.
A documentação sobre a Fábrica de Novo Belém e sua povoação não é tão
extensa quanto a que versa sobre a de Nova Oeiras, mas para ali também foram mandados
povoadores e trabalhadores. A fábrica de Belém produziu ferro no decorrer desde 1765 até
1768 sob a administração do intendente João Baines. Sem as técnicas para “rasgar a terra” e
explorar as minas subterrâneas, em Belém sempre se trabalhou apenas as pedras de ferro que
vinham de Oeiras. Como as viagens ficavam dispendiosas e não havia previsão de quando se
conseguiriam técnicos que soubessem abrir galerias para realizar a exploração subterrânea,
nem razão para dividir o contingente de trabalhadores entre as duas fábricas, em outubro de
1768, o governador mandou que as fábricas fossem unidas em Nova Oeiras, enviando todo o
ferro produzido e todos os trabalhadores para o novo sítio181. Note-se que a administração
colonial não conhecia a tecnologia para explorar minas subterrâneas que as elites africanas
detinham, como no caso analisado do soba Kabanga kya Mbangu, na mesma região em que
funcionava Novo Belém, na Ilamba.
Para formar novas famílias brancas nas povoações civis, as “órfãs e donzelas” da
vila de Massangano foram orientadas a se casar com os soldados, trabalhadores e demais
homens brancos que foram mandados para Nova Oeiras. Aquelas mulheres estavam sob o
jugo de tutores que mantinham a tutela sobre seus bens e não permitiam que elas se casassem.
As corrupções na administração dos bens de herança pela Provedoria dos Defuntos e Ausentes
eram uma das correções que o governo de Sousa Coutinho pretendeu implantar182. O
governador estaria livrando as moças deste roubo quando, em outubro de 1767, ordenou que
no prazo dois meses todas deveriam estar casadas. Ele esperava que, gratas por esse benefício,
por ter lhes salvo o dote, era de se esperar que as senhoras da vila de Massangano, Lembo e

180
Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira servindo o emprego de intendente geral da
Fábrica do Ferro e que executaram também os capitães mores como intendentes particulares na parte que lhes é
respectiva”. São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 73. Não há
muitas informações sobre a povoação de Novo Belém, de forma que vamos nos ater a formação de Nova Oeiras.
Em 1769, Joaquim de Bessa Teixeira ao visitar Nova Oeiras disse que ali já haviam vivido brancos antes:
“situada em um sitio que já foi habitado de muitos homens brancos, como se vê dos alicerces de casa antigas, de
que ainda hoje há vestígios, como também se prova pelas muitas árvores de espinho que tem, pois, pretos senão
cansam em plantar árvores de frutos”. Talvez devido à proximidade de Massangano, colonizadores dos séculos
XVI e XVII já tinham vivido ali. Documento que sua Excelência mandou registrar de várias cousas que viu, e
observou na Real Fábrica do Ferro da Nova Oeiras o Tenente de Cavalos Joaquim de Bessa Teixeira, São Paulo
de Assunção de Luanda, sete de fevereiro de 1769. IEB/USP, Al-083-207.
181
Carta de FISC para São Paulo de Assunção de Luanda, sete de agosto de 1768. IHGB 126, PADAB DVD10,
22 DSC00197.
182
Selma Pantoja, “Luanda: relações raciais e de género”. In: II RIHA, Rio de Janeiro, 1996, p. 75-81
144

Quisecle (ambas nas vizinhanças de Massangano) escolhessem maridos entre os homens de


Nova Oeiras183.
Um mês depois, o governador parabenizou o capitão-mor de Massangano por ter
cumprido suas ordens, mas reiterou a proibição do casamento de brancas e negros, que era a
regra - “o que faz uma ruína total dos interesses deste reino”184. A despeito da insistência do
governador, as medidas não trouxeram os frutos esperados. Um ano depois das primeiras
ordens para promover a povoação de Nova Oeiras, os poucos casamentos entre as moradoras
de Massangano e os homens de Nova Oeiras chegaram a ser um problema, pois levou à
“transmigração de famílias inteiras” junto com as noivas, despovoando a vila que estabelecida
ao redor do presídio185. Mesmo quando conseguia atingir seus objetivos, Sousa Coutinho
encontrava novos obstáculos.
Havia também o envio sistemático de famílias, soldados e degredados para as
fábricas, principalmente no período de 1765 a 1772, sob o governo de Sousa Coutinho. Como
há tentativas no final do século XVIII de reestabelecer a fábrica de ferro, de 1765 até 1800
entre trabalhadores especializados (85), pessoas para povoar as novas vilas (68) – a maioria
soldados, funcionários das fábricas (10) e engenheiros (5), foram enviadas ao menos 168
pessoas para estabelecer as fábricas de ferro (ver anexos de 3 e 4), fora os trabalhadores
Ambundos enviados pelos sobas mensalmente. Neste grupo, identificamos 22 degredados e
pessoas provenientes ou que foram enviadas de Lisboa, Ilhas da Madeira, Biscaia, França,
Bahia, Luanda, Muxima, Pedras de Pungo Andongo, Ambaca, Cambambe, Encoge e
Massangano.
Apesar de todo o esforço de fundar Nova Oeiras e Novo Belém sobre os alicerces
da colonização branca, as condições de vida nos sertões, a falta de mantimentos, as sezões
frequentes, o fracasso das lavouras, a vida dura no trabalho de construção e como ferreiros e
fundidores, tornaram esta povoação um “sorvedouro de gentes”. A botica da fábrica era
frequentemente abastecida com os remédios disponíveis, os raros frascos de quina e água da
Inglaterra. A criação de gados se tornou inviável porque os pastos seriam o que Sousa

183
Cartas e ofícios endereçadas aos regentes da vila de Massangano podem ser encontrados em: BNP, C 8742, F
6364. FISC ordenava ao intendente das fábricas de ferro: “como no Quisecle, e em Massangano haverá brancas
pela saia, e moças honestas com alguns escravos, fará vossa mercê todo o esforço para pretende-las para os ditos
noivos, e porque eles se agradem das ditas senhoras, visto que não há outros meios de povoar a terra”. Carta de
FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de Assunção
de Luanda, 25 de setembro de 1767. BNP, C 8742, F 6364, fl, 231 v.
184
Carta de FISC para Pedro Matoso de Andrade, capitão-mor de Massangano. São Paulo de Assunção de
Luanda, 14 de novembro de 1767. BNP, C 8742, F 6364, fl, 240.
185
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de
Assunção de Luanda, 10 de julho de 1768, IEB/USP, AL-083-084.
145

Coutinho chamou de “venenosos” (uma planta venenosa?)186. Soma-se a isso, as incursões de


“bárbaros” que assaltavam as povoações187. Sem falar nas vexações e violências que os
moradores sofriam nas mãos dos funcionários das fábricas. Os soldados enviados para Nova
Oeiras fugiam frequentemente por causa das fomes, como aconteceu em 1768, com soldados
que foram enviados para a nova vila do presídio do Encoge e para lá voltaram fugindo das
precárias condições de vida188. A deserção também poderia ocorrer porque, como já dissemos,
como o soldo era pago em mercadorias apreciadas para o comércio, os soldados abandonavam
o trabalho árduo de Nova Oeiras.
Não é à toa que havia uma prisão na povoação, aqueles que não se dedicassem à
agricultura ou se interessassem pelo trabalho com o ferro, deveriam ser imediatamente presos.
O governador teve de pedir ao soba Kabuku Kambilu que enviasse seus “filhos” para auxiliar
nas tarefas agrícolas porque os soldados não se interessavam, desertavam ou não conseguiam
cumprir a sementeira189. Em 1769, para agravar a situação dos moradores de Nova Oeiras,
houve uma grande seca - “grande falta d'água que o céu nos castiga”, seguida por uma grande
enchente no ano seguinte que destruiu grande parte dos edifícios.
Paradoxalmente, no entanto, três anos após começar a enviar brancos ou “quase
brancos” para as povoações, em agosto de 1769, o governador assegurou que apenas 20
pessoas brancas tinham morrido, além dos trabalhadores especializados que para ali também
foram mandados190. Havia ao menos 153 moradores segundo as casas contadas por Joaquim
de Bessa Teixeira - “casas pequenas de alguns brancos e negros, mais de cem”. Existiam
ainda “muitas árvores de frutos vários, e hortaliças que tudo há com abundância, belos
pastos”, sem, contudo, conseguir criar “gado vacum”191. O governador Sousa Coutinho

186
O inspetor de obras da fábrica explicou que as terras não eram propícias para a agricultura, tinham muitas
pedras ou eram pequenas demais. Carta de Antonio de Lencastre para Martinho de Melo, secretário de estado da
marinha e do ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 31 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 28.
187
Devido a essas incursões era preciso fortificar os moradores. Carta de FISC para Salvador de Menezes e Silva
capitão-mor e juiz da povoação do Novo Belém. São Paulo de Assunção de Luanda, 14 de janeiro de 1772. SGL,
Arquivos de Angola, v.3, n. 29, 1958-1963, p. 377.
188
Carta de FISC para o capitão-mor do presídio do Encoge, Paio de Araújo. São Paulo de Assunção de Luanda,
4 de abril de 1768. AHA, Códice 79, fl. 98v. Sobre o abastecimento da botica: Portaria para o doutor provedor
da Fazenda Real aprontar e remeter para Nova Oeiras, vários remédios de Botica. São Paulo de Assunção de
Luanda, 12 de abril de 1769. AHA, Códice 271, fl. 20v.
189
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e do ultramar.
São Paulo de Assunção de Luanda, 16 de maio de 1769. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 29; Carta de FISC para
Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de Assunção de Luanda,
27 de outubro de 1767. BNP, C 8742, F 6364.
190
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e do ultramar.
São Paulo de Assunção de Luanda, 1 de agosto de 1769. IEB/USP, Al – 082 – 164.
191
Documento que sua Excelência mandou registrar de várias cousas que viu, e observou na Real Fábrica do
Ferro da Nova Oeiras o Tenente de Cavalos Joaquim de Bessa Teixeira, São Paulo de Assunção de Luanda a sete
de fevereiro de 1769. IEB/USP, Al-083-207.
146

sempre procurou sublinhar que a povoação tinha chances de ser exitosa, fechando os olhos
para os constantes insucessos de suas iniciativas.
Os números de brancos mortos, em 1773, subiram para 77, sendo 5 mulheres, fora
os “centos de negros”, que não foram registrados. Apesar de as fontes não citarem com
frequência os africanos que moravam na povoação, sabemos que eles eram a principal mão de
obra utilizada. É de se imaginar que nem todos poderiam ir para Nova Oeiras e voltar todos os
dias para os seus sobados, pois alguns vinham de povoações distantes até oito dias de viagem.
Deviam ficar vivendo ao menos temporariamente na povoação ou em seus arredores, mas há
poucos dados sobre isso. Como dissemos há pouco, há indicações na documentação de que ali
existiam casas de brancos e de negros192.
A completa falência dos planos de formar ali uma colônia de povoamento branco
foi reconhecida quando Sousa Coutinho decidiu, em 1771, que a melhor saída para
estabelecer uma povoação seria “introduzir 200 casais de moleques de catorze [ou] de
dezesseis anos casados, para que os machos aprende[sse]m e fiz[essem] o serviço da fábrica e
as fêmeas cultiv[ass]em as terras de que se [haviam] de alimentar”, “assim como
costuma[va]m todas as outras deste país que deviam alimentar o casal”193. A única forma de
cultivar as terras e arregimentar trabalhadores seria utilizar a mão de obra centro-africana, ou
seja, mais que a força de trabalho, os conhecimentos e técnicas Ambundo de lavoura, criação
de gado e mineração e forja do ferro. Mas ele estava em final de governo e logo retornou a
Lisboa.
Assim que nomeado, o novo governador D. António de Lencastre (1772-1779)
ordenou o fechamento da fábrica de ferro sob alegação que era uma empresa muito
dispendiosa e que quando pronta não traria os lucros esperados. Lencastre suspendeu a
portaria de Sousa Coutinho para pagamento de jornais aos trabalhadores - o que causou o
abandono de boa parte da população que ali vivia. Contudo, a povoação não fora
completamente abandonada: quando o mineralogista José Álvares Maciel visitou a fábrica,
por volta de 1795, ele encontrou moradores na povoação que se sustentavam unicamente da
fundição de ferro: “vivem estes, e por muitos anos naquele sítio, e nos seus arrebaldes”194.

192
Certidão de José Francisco Pacheco, inspetor das obras da fábrica, sobre o estado da fábrica de ferro. São
Paulo de Assunção de Luanda, 13 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D. 28.
193
Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, Intendente geral da Real Fábrica do Ferro da Nova Oeiras.
São Paulo de Assunção de Luanda, 26 de novembro de 1771. BNP, Reservados, C 8744, F 6443, fl. 181v.
194
Carta de Miguel Antonio de Melo, governador de Angola, para Rodrigo de Sousa Coutinho, secretário de
estado da marinha e do ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 18 de março de 1800. Arquivos de Angola,
2ª serie, v. X, n. 39-42, 195. José Álvares Maciel, “Notícia da Fábrica de ferro da Nova Oeiras do Reino de
Angola”. São Paulo de Assunção de Luanda, 15 de dezembro 1797, [p. 9]. AHTC, Erário Régio, 4196.
147

CAPÍTULO 3
O TRABALHO E OS TRABALHADORES EM NOVA OEIRAS

3.1 A regulamentação do trabalho

Em 20 julho de 1767, a Junta da Fazenda Real do Reino de Angola analisou uma


súplica dos chefes africanos responsáveis por enviar trabalhadores para as fundições de ferro,
que estavam sendo construídas no interior daquela colônia. Eles pediam que “se lhe[s]
satisfizesse[m] o seu trabalho com a isenção do pagamento dos dízimos”. A justificativa era
que a troca seria vantajosa para eles porque poria fim às “violências que lhes faziam os
cobradores”1.
Os chefados obrigatoriamente já enviavam trabalhadores para as fábricas, que
recebiam “módicos jornais”2 em contrapartida, assim como aqueles que trabalhavam junto às
obras públicas. Ao que tudo indica, o sistema de cobrança de tributos não estava funcionando
bem do ponto de vista das chefias centro-africanas e os sobas resolveram escrever para o
governador, requerendo que, em troca das gratificações aos seus dependentes, eles
recebessem a isenção dos dízimos.

1
Cópia do Termo da Junta da Fazenda Real do Reino de Angola assinado por Manuel da Cunha e Sousa,
ouvidor e provedor da Fazenda Real, João Delgado Xavier, juiz de fora e procurador da Fazenda Real e
Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (FISC), governador e presidente da Junta da Fazenda Real. São Paulo de
Assunção de Luanda, 20 de julho de 1767. Este termo segue anexo à carta de FISC, para Francisco Xavier de
Mendonça Furtado, secretário do Conselho Ultramarino. São Paulo de Assunção de Luanda, 22 de agosto de
1768. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 27. Em abril de 1767, em carta para os intendentes das fábricas, o governador
já havia feito referência à essa súplica dos sobas: “porque me dizem, que os sobas, e imbari oferecem trabalhar
sempre nas fábricas sem outro pagamento que a isenção dos dízimos”. Carta de FISC para Antonio Anselmo
Duarte de Siqueira e João Baines, intendentes das fábricas de ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, 14 de
abril de 1767. BNP, C-8742, F-6464.
2
Carta de FISC para João Baines, tenente general. ”Instrução que lhe dou a respeito da fábrica de ferro”. São
Paulo de Assunção de Luanda, oito de março de 1766. BNP, C-8742, F-6464. A instrução determinava: “os
prontos módicos pagamentos, que podem acariciar, e atrair os negros destinados a este serviço, e mais outros de
diferente jurisdição”.
148

Não é possível saber quando e com quais palavras exatamente as lideranças locais
se reportaram ao presidente da Junta da Fazenda Real, pois apenas um resumo de seu pedido
está guardado nos arquivos. Contudo, o emprego da palavra “súplica”, neste excerto, pode ser
entendido como indício de que essas autoridades haviam aprendido a lidar com a burocracia
da administração portuguesa – e tinham certo domínio sobre os costumes, as etiquetas e as
normas que intermediavam as relações dos vassalos que se sujeitavam ao domínio do rei de
Portugal.
Esse aprendizado decorria de mais de dois séculos de contato com os portugueses,
mas também fazia parte das relações de dominação estabelecidas entre autoridades africanas.
Como descrevemos no primeiro capítulo, quando um chefe era undado por um soberano
africano, tornando-se seu súdito, deveria entregar periodicamente parte de suas produções
como tributo - farinha, feijão, cabritos, galinhas, pedras de sal. Com a conquista portuguesa, o
undamento passou a fazer parte dos autos de vassalagem. Em termos gerais, os chefes
africanos, ao serem vencidos, eram obrigados pela força das armas de Portugal a firmar um
compromisso mútuo, em que se submetiam ao domínio do rei português enquanto seus
vassalos. Este lhes devia proteção contra os seus inimigos em troca de prestarem auxílio
militar, pagarem tributos (produtos ou escravos) e abrirem seus territórios ao comércio
português, sobretudo de escravos3. Os sobas quando undados passavam a pertencer à
jurisdição de um presídio, sob a autoridade de um capitão-mor.
Sousa Coutinho foi o primeiro governador a redigir um regimento para os
capitães-mores, em 24 de fevereiro de 1765. Nele o governador determinava os “limites” da
autoridade destes funcionários, pretendendo dar fim “às iníquas barbaridades” cometidas “em
alguns de seus presídios”. O provimento das capitanias-mores era prerrogativa do rei; tanto
reinóis quanto moradores de Angola poderiam se candidatar ao cargo em regime trienal.
Entretanto, devido à malignidade do clima, nocivo aos reinóis, luandenses e sertanejos, ou
moradores da região eram preferidos. A princípio, os capitães-mores não recebiam
vencimentos; somente a partir em 1722 lhes foi atribuído um soldo de 300 mil réis anuais. A
principal razão para iniciar os pagamentos era o fato de esses funcionários angariarem suas
fortunas com o tráfico de escravos, deixando de lado suas funções administrativas e militares
e explorando sua relação de proximidade junto aos sobados para favorecer seu comércio. Ao
serem pagos, os capitães-mores foram proibidos de se envolver com o tráfico. Mas essa

3
Beatrix Heintze,“Luso-African Feudalism in Angola? The Vassal Treaties of the 16th to the 18th Century”,
Separata da Revista Portuguesa de História, v. 18 (1980), p. 111-131.
149

proibição teve pouca efetividade; na prática, eles continuaram a ser agentes fundamentais nas
rotas do comércio no interior do Reino de Angola4.
Uma das atribuições dos capitães-mores que mais rendia reclamações junto ao
governo de Luanda por parte dos sobas e seus subordinados era a cobrança dos dízimos.
Assim como em outras localidades do ultramar português, em Angola os dízimos eram
arrecadados por quem arrematasse o contrato trienal, caso o arrematante não cumprisse o
valor esperado pela Fazenda Real, ele arcaria com o dividendo. Os dizimeiros, como eram
chamados os arrematantes do contrato, procediam à arrecadação nos distritos vizinhos cidade
de Luanda, Dande, Bengo, Kwanza, Golungo e Icolo eram divididos em duas arrecadações.
Nos presídios e jurisdições do interior, os capitães-mores deviam auxiliar na cobrança. Os
dizimeiros contratavam cobradores, que efetivamente visitavam os sobados. O pagamento era
feito em produtos, em sua maioria alimentos, farinha, milho, azeite, animais, algodão entre
outros. Segundo Correa Silva as dificuldades para efetivar a cobrança do tributo, que
contribuíam para os desvios fiscais feitos pelos cobradores eram “a longitude dos presídios e a
escabrosidade das estradas, a destituição dos transportes”. Seguindo a “lei dos dizimeiros”,
como Silva Correa chama o procedimento abusivo destes funcionários, os que cobravam os
tributos aumentavam seus lucros na medida de sua “ambição” e não da capacidade da
população, que vinham da “dureza com que [o arrematante] calcula e arrecada o rendimento”.
Capitães-mores e cobradores se uniam para tornar o negócio mais lucrativo. Um exemplo era
a medida-padrão utilizada nas cobranças que sempre excedia a estabelecida pelo governo: as
balanças e demais instrumentos de medida utilizados na pesagem das mercadorias entregues
como dízimo eram frequentemente alterados para gerar mais ganhos5.

4
Idem, p. 53-71; Carlos Couto, Os capitães-mores em Angola no século XVIII. Subsídio para o estudo da sua
actuação. Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1972, p.104 e 105. Muitos historiadores têm
chamado à atenção para a generalizada participação dos funcionários régios no comércio de escravos. C.f.:
Joseph C. Miller, Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan slave trade, 1730-1830. Madison:
University of Wisconsin Press, 1988, p. 268; Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic
World. Angola and Brazil during the Era of the Slave Trade. New York: Cambridge University Press, 2012, p.
44; Mariana P. Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World. Benguela and its hinterland. New
York: Cambridge University Press, 2013, p. 175-185; Flávia Maria de Carvalho, Sobas e homens do rei:
interiorização dos portugueses em Angola (séculos XVII e XVIII). Maceió: Edufal, 2015, p. 89 e 90.
5
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, v. 1, p. 37.A agricultura não correspondia às ambições da
cobrança dos dízimos, que representava 10% da produção agrícola. Os valores eram muito baixos; entre 1730 e
1765, a receita anual era entre um e 2,5 contos por ano. Silva Correa assinalou que alguns sobados eram isentos
do “flagelo dos dizimeiros” porque o volume da produção agrícola era diminuto e não havia como contribuírem.
Em contrapartida, os sobas isentos entregavam ao governador um presente anual, um regalo, que provavelmente
eram escravos. Mesmo com os dízimos pagos pelos sobados que faziam isso por obrigação, a quantidade era
insuficiente para garantir a subsistência dos moradores de Luanda, que muitas vezes precisavam importar
alimentos (“socorros estranhos”) e outros artigos de primeira necessidade. Elias Alexandre da Silva Correa,
História de Angola, v. I, p. 165. Sobre o levantamento dos valores dos dízimos ver: Maximiliano M. Menz,
“Angola, o Império e o Atlântico”. In: Anais do XI Congresso Brasileiro de História Econômica, 2015.
150

O contrato do dízimo era “invejado” nos sertões porque gerava enriquecimento


para os contratadores. Sousa Coutinho investigou a situação e descobriu, em relação aos
dízimos que “pagava quem queria e que os cobradores convertiam em telecos, isto é,
hospedagens, tudo o que devia ser dízimo, para cujo fim, propriamente útil, praticavam todo o
gênero de violências com os miseráveis negros”6. Depreende-se que os telecos se referiam ao
tempo em que os cobradores ficavam nos sobados durante a coleta dos tributos. A presença
desses funcionários nas terras dos sobas, hospedados à sua custa, não era algo a que haviam
se comprometido, mas que a situação colonial impunha7. Para os sobas e seus dependentes, a
cobrança era sinônimo de endividamento, aumentando sua dependência junto aos capitães.
Assim, as reclamações contra os telecos eram regulares. Por exemplo, João Martins Laraxa,
capitão do distrito do Dande, foi destituído do seu cargo porque “praticava violências na
cobrança dos dízimos”, cobrando um tostão a mais para cada recibo que passava aos sobas8.
Além disso, o militar Elias Correa faz menção a que durante as “hospedagens” os
cobradores também procuravam por relações sexuais9. Vansina citou a presença de agentes do
comércio junto aos sobados como causa de muitos conflitos em torno do adultério e do roubo,
que traziam insegurança e instabilidade para os Ambundos sob domínio dos sobas. Isso
porque as penalidades para esses delitos eram altas multas, inclusive a escravização dos
culpados10.

6
Carta de FISC ao secretário do Conselho Ultramarino, Francisco Xavier de Sousa Furtado. São Paulo de
Assunção de Luanda, 30 de junho de 1765. ANTT, Ministério do Reino mç. 600, caixa 703, doc. 101. Cadornega
também fala sobre um dizimeiro do século XVII, Bartolomeu Nunes era natural de Elvas, casado e morador em
Luanda. Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas (1680). Anotado e corrigido por José
Matias Delgado. Lisboa: Agência-geral do Ultramar, 1972, v. I, p. 316.
7
Carta de FISC ao secretário do Conselho Ultramarino, Francisco Xavier de Sousa Furtado. São Paulo de
Assunção, 30 de junho de 1765. ANTT, Ministério do Reino mç. 600, caixa 703, doc. 101. Elias Alexandre da
Silva Correa, História de Angola, vol. I v. 1, p. 163-167; ver também: Carlos Couto, Os capitães-mores em
Angola no século XVIII. Subsídio para o estudo da sua actuação. Luanda: Instituto de Investigação Científica de
Angola, 1972, p. 124-133.
8
Carta de FISC para o tenente Joaquim de Bessa Teixeira. São Paulo de Assunção de Luanda, 17 de agosto de
1768. IEB/USP, AL-083-115.Outra consequência das pressões que o pagamento dos dízimos trazia para os
sobados pode ser observada na cobrança feita junto aos presídios de Ambaca e Cambambe. Os moradores dos
sobados anexos a estes presídios comerciavam o fiado de algodão e tinham que entregar essa mercadoria como
pagamento do dízimo. Os coletores do imposto passaram a exigir que o algodão fosse entregue em “paus de fio”
da “grossura de uma perna humana”. Reagindo ao aumento no volume dos pagamentos, os africanos
“constrangidos a engrossar os volumes até a medida satisfatória”, desfiavam trapos e roupas velhas a que
cobriam de fio para engrossar as maçarocas”. Sabemos que as fazendas eram moeda de troca importante,
facilmente convertida em bens e escravos. O algodão também era usado para fabricar outros objetos, como redes,
roupas. Os cobradores com certeza tinham interesse por essa produção por essa razão. Elias Alexandre da Silva
Correa, História de Angola, v. I, p. 164.
9
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, v. I, p. 94 e 95.
10
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”. The Journal of African History, v. 46, n. 1,
2005, p. 7; Mariana Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World, p. 204-205; Joseph Miller,
“Angola Central e Sul por volta de 1840”, Estudos Afro-asiáticos, 32, 1997, p. 30-32.
151

O governador de Angola cita os telecos em um contexto que também se refere a


roubos e razias, indicando que os sobados sofriam ataques e ameaças: “consta-me que na
jurisdição do Golungo (...) ainda estão inumeráveis vadios das tropas desta capital e dos
presídios, os quais andam roubando os povos e pedindo-lhes telecos”11. Também há
referência de que se devia evitar os “carregadores telecos ou quaisquer outras pensões
graciosas que a cobiça inventou”12, ou seja, os cobradores e capitães exigiam outros
pagamentos indevidos, como tomar à força carregadores dos moradores ou das chefias
africanas. A relação entre cobrança de tributos pelos capitães-mores, escravização, violência
armada e razias também era frequente durante o pagamento dos quintos reais, arrecadados em
escravos. Além disso, a falta de pagamento era um dos motivos “justos”, dentro do conceito
de guerra justa13, usados pelos funcionários da Coroa para atacar os sobados; um dos
resultados desses ataques era a escravização seus “filhos”. É provável que a violência sexual,
a captura e escravização de súditos dos sobas tenham sido parte dos conflitos a que as
autoridades africanas se referiam. E os chefes se esforçavam para proteger seus dependentes
de todas as formas das investidas de forasteiros14.
Sousa Coutinho promoveu uma alteração no recebimento dos dízimos; quis dar
fim aos telecos e, em lugar de cabritos, galinhas, enseques de farinha, milho, feijão fradinho,
algodão ordenou que os pagamentos fossem feitos em pedras de sal – uma por fogo (família),
no valor de 80 réis15. A pedra de sal era uma moeda corrente no sertão de Angola e o

11
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira. São Paulo de Assunção de Luanda, 15 de junho de
1768.IEB/USP, AL-083-070.
12
Portaria assinada por FISC. São Paulo de Assunção de Luanda, a 29 de outubro de 1768. IEB/USP, AL-083-
138.
13
Em resumo, a guerra contra aqueles que resistiam à conversão ao cristianismo. Sobre o conceito de guerra
justa, ver: Ângela Domingues, “Os conceitos de guerra justa e resgate e os ameríndios do Norte do Brasil”. In:
Maria B. N. Silva (org.), Brasil: colonização, escravidão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. Trabalhos que
evidenciam a escravização de cristãos: José C. Curto, “The Story of Nbena, 1817-1820: Unlawful Enslavement
and the Concept of ‘Original Freedom’ in Angola”, In: Paul E. Lovejoy e David V. Trotman (orgs.), Trans-
Atlantic Dimensions of Ethnicity in the African Diaspora. Londres: Continuum, 2003, p. 44–64; Ferreira, Cross-
Cultural Exchanges in the Atlantic World, 2012, p. 52-87; Mariana Candido, “O limite tênue entre liberdade e
escravidão em Benguela durante a era do comércio transatlântico”. Afro-Ásia, 47, 2013, p. 239-268.
14
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”. The Journal of African History, v. 46, n. 1,
2005, p. 7.
15
Carta de FISC ao secretário do Conselho Ultramarino, Francisco Xavier de Sousa Furtado. São Paulo de
Assunção de Luanda, 30 de junho de 1765. ANTT, Ministério do Reino mç. 600, caixa 703, doc. 101. Em
Angola, o sal era produzido a partir de salinas em Benguela e nas chamadas Cacuaco, próximas ao Bengo, fontes
de sal-marinho. O comércio do sal era contratado por um administrador, mas a partir de 1762, foi criada a
Administração da Venda do Estanco do Sal, que passou a ser responsável pela compra, transporte e venda do sal.
Isso tinha por objetivo diminuir os preços altos cobrados pelos particulares. José Carlos Venâncio, A economia
de Luanda e hinterland no século XVIII. Um estudo de sociologia histórica. Lisboa: Editorial Estampa, 1996, p.
55 e 56.
152

governador queria uniformizar a cobrança. Os valores correspondentes aos produtos poderiam


ser expressos no equivalente em réis (ver anexo 5)16.
Os tributos coloniais eram compatíveis com a lógica de sujeição dos sobas a uma
autoridade superior que precedia a presença portuguesa no continente. Se antes pagavam seus
tributos aos soberanos africanos, com os autos de vassalagem, passaram a pagar os dízimos e
outros impostos sobre a produção de bens que a elite política africana, por obrigação, devia
aos portugueses. Todavia, a relação de vassalagem não tolerava abusos e vexações17. Os
soberanos africanos pretendiam acabar com essas “violências” por meio de uma permuta:
ofereciam o trabalho de seus súditos junto às fundições de ferro aceitando como único
pagamento a isenção do pagamento dos dízimos.
A petição feita em 1767 pelos sobas da Ilamba deu origem a um processo de
revisão, empreendida pelo governo do Reino de Angola, de todas as formas de uso do
trabalho dos sobas vassalos desde os primeiros autos de vassalagem. O resultado foi uma
intensa incursão pelos arquivos, bem como consultas a historiadores e a outros funcionários
da Coroa sobre a matéria. Prontamente, a súplica dos sobas foi aceita pelo governador,
atendida pela Junta da Fazenda Real do Reino de Angola e, após a aprovação do rei de
Portugal, levou à portaria de outubro de 1768 em que se regularam os jornais dos
trabalhadores das fundições com a isenção dos dízimos dos sobados vassalos18. O documento
não terminou com a discussão sobre a remuneração do trabalho dos africanos. Em dezembro
de 1770, uma nova portaria determinava que “todos os serviços [fossem] pagos aos que os
fizerem, pelo preço comum das terras”19. O debate que começou relacionado à remuneração
do trabalho nas fundições de ferro levou a toda uma investigação sobre como eram realizadas

16
A partir de 1770, houve um aumento na arrecadação da Fazenda Real e os dízimos do sertão seguiram este
crescimento. Talvez esse tenha sido um dos resultados das políticas do governador Sousa Coutinho de reforma
da economia de Angola. Contudo, a arrecadação, quando comparada aos valores de outros lugares do ultramar
português, continuava a ser pouco representativa. Havia terra fértil, trabalhadores para lavrá-la, um comércio
dinâmico, e os arimos dispunham de trabalhadores, pois contavam, em média, com 37,5 cativos por unidade.
Uma explicação para isso é que a estrutura da economia de Angola estava pautada no tráfico de escravos, com
pouco setores voltados para outras atividades. Maximiliano M. Menz, “Angola, o Império e o Atlântico”, p. 14.
17
O padre Raphael Bluteau define abuso como “qualquer coisa feita contra a boa razão, a boa ordem”, já
vexação seria sinônimo de “maltrato” e, ainda: “diz se particularmente dos demandistas, que com pleitos injustos
e trapaças avexam as partes; e de uns régulos que com tiranias maltratam a província e perseguem o paisano
[aldeão]”. Raphael Bluteau, Vocabulário portuguez e latino, 10 v. Lisboa/ Coimbra: Colégio da Cia. de Jesus,
1712-1728.
18
“Dignando-se a Augusta Majestade de El Rei Nosso Senhor de usar de sua generosa e régia piedade em
benefício dos miseráveis negros empregados no serviço da fábrica do ferro, foi servido ordenar-se o
estabelecimento dos jornais que deviam vencer”. Portaria assinada por FISC. São Paulo de Assunção de Luanda,
a 29 de outubro de 1768. IEB/USP, AL-083-138. O governador se refere a essa portaria com a data de cinco de
novembro de 1768, talvez tenha havido uma segunda publicação.
19
Portaria em que se estabelecem os jornais dos “pretos trabalhadores”, assinada por FISC. São Paulo de
Assunção de Luanda, sete de dezembro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, doc. 6 e 7.
153

e pagas todas as formas de prestação de serviço dos dependentes dos sobas no Reino de
Angola. Esse percurso burocrático é o resultado de uma estratégia bem-sucedida das
lideranças africanas no intuito de proteger seus interesses e conquistar e garantir direitos.
Simultaneamente, essas determinações legais mostram que as autoridades portuguesas
reconheciam a grande dependência que tinham em relação às chefias locais para realizar
qualquer empreendimento a que se lançassem naquela colônia. E, essa relação de dependência
resultava do poder que as chefias exerciam sobre seus subordinados.
Na portaria de 1770, a primeira conclusão a que os funcionários régios chegaram
foi que os serviços que os sobas prestavam gratuitamente aos portugueses não constavam
como uma obrigação nos primeiros autos de vassalagem. Como já discutimos no primeiro
capítulo. Se antes vimos a face normativa da regulamentação do trabalho dos dependentes dos
sobados, agora, vamos analisar a face prática. Em outras palavras, como a autoridades
portuguesas chegaram a essa conclusão e o que podemos dizer sobre a origem da prática de
cooptar os súditos dos sobas vassalos para os mais variados serviços.
Na cultura “juridizada” do Antigo Regime, um conjunto de normas garantiam a
boa ordem, o bem comum, enfim, o bom funcionamento do organismo social, que tinha por
cabeça o justo soberano20. A infração das normas era uma ameaça a toda sociedade
corporativista, por isso, era preciso evitar as vexações. O rei e seus representantes, em tese,
deveriam ser os arbítrios dos conflitos, restabelecendo o equilíbrio na sociedade por meio da
justiça21. São esses conceitos que guiavam a leitura de Sousa Coutinho quando julgou a
prática de cooptar os dependentes dos sobas para o trabalho gratuito um abuso.
Catarina Madeira Santos interpreta a isenção dos dízimos dos sobas que enviavam
trabalhadores paras as fábricas de ferro como resultado da política pombalina, pois as ideias
Ilustradas teriam possibilitado a “reconfiguração dos tratados de vassalagem”. A autora diz
que foi pelo gesto Ilustrado de voltar aos arquivos “que teve lugar uma discussão sobre o tipo
de serviços devidos pelos sobas à administração”22.

20
Antonio Manuel Hespanha, As vésperas do Leviatã. Instituições e poder político. Portugal, século XVII.
Coimbra: Almedina, 1994; Pedro Cardim, Cortes e cultura política no Portugal do Antigo Regime. Lisboa: Ed.
Cosmos,1998.
21
“O rei exerce um ‘ofício’, cujo fim é o bem comum, e que consiste na justiça e na governança segundo o
direito, respeitando os foros das comunidades”. Armando Luis de Carvalho Homem, “Dionisius et Alfonsus, Dei
Gratia Reges et Communis Utulitatis Gratia Legiferi”. Separata da Revista da Faculdade de Letras, II Série,
Vol. XI, p. 12.
22
Catarina Madeira Santos. Um governo "polido" para Angola. Reconfigurar dispositivos de domínio (1750-
c.1800). Tese (Doutorado em História), Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova
de Lisboa, 2005, p. 322.
154

O que fizemos até aqui foi mostrar como a nova política em relação ao trabalho
foi, na verdade, iniciada pela “súplica” dos sobas avassalados. O processo, portanto, ocorreu
em sentido oposto, determinado por conflitos locais mais que por ideias europeias. A
dinâmica interna das sociedades africanas e a dependência do trabalho dos Ambundos para
efetivar os planos coloniais de exploração do ferro foram mais determinantes que a Ilustração.
As políticas imperiais mais abrangentes estiveram atreladas às situações locais, em um
contexto de reivindicação e negociação com a elite africana no Reino de Angola; a história do
trabalho Ambundo na fábrica de ferro é exemplo disso.
Para o provedor da Fazenda Real, Manuel Cunha e Sousa, o uso da mão de obra
gratuita dos súditos dos sobas provinha da imposição dos tributos no “tempo da conquista e
fundação dos presídios”. Ele especulou que, no momento do undamento, os sobas prometiam
na homenagem voluntariamente “cumprir as ditas obrigações, respondendo com muita
satisfação”, tanto que acrescentou: “segundo ouço estão prontos a tudo”. Contudo, quando o
provedor analisou os documentos disponíveis para construir seu parecer, os autos de
vassalagem a que nos referimos no primeiro capítulo e os undamentos do duque de Wandu e
do Ndembu Ambuíla (que anexou ao parecer), não encontrou a “clara obrigação de darem
filhos, ou vassalos, para estes ou aqueles serviços que não seja o de socorrerem eles com os
ditos vassalos e suas armas os presídios e fortalezas”23. Aqui, o provedor faz referência à
esperada ajuda em tempo de guerra. Afinal, os chefes não “estavam prontos a tudo”.
O provedor expôs seu “embaraço”, pois se os sobas tivessem sido de fato
obrigados nos autos de vassalagem a prestar serviço gratuitamente aos colonos, os ilamba não
poderiam estar na mesma situação, deveriam ser “isentos ou ao menos pagos”24. Há, assim,
uma diferença entre as obrigações dos sobas e dos ilamba. E, nesse ponto, há uma contradição
entre o governador e o provedor, enquanto primeiro dizia que existia serviços específicos
prestados pelos “ilamba e outros povos destinados”, o segundo considerava que por serem
aliados, esses “soldados da Coroa” não deveriam ser obrigados a mais serviços. De acordo
com as “Notícias do presídio de Ambaca”, os ilamba e imbari se ocupavam “exclusivamente
no real serviço, particularmente da guerra”25. Ainda assim, muitos ilamba e imbari enviavam
trabalhadores para as fábricas de ferro, o que mostra que estavam sujeitos aos mesmos

23
“Certos e determinados serviços que alguns deles fazem nos presídios que lhes ficam vizinhos, como são o
repararem uns a igreja, outros a fortaleza, outros a casa dos capitães-mores, darem outros azeite para os corpos
das guardas, outros que assistem na vizinhança do Kwanza, canoas e botadores (sic) para conduzirem os
fardamentos dos soldados aos presídios”. Informação do provedor da Fazenda Real do Reino de Angola, Manuel
Pinto da Cunha e Sousa. São Paulo de Assunção, 30 de setembro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, D. 6 e 7.
24
Idem.
25
Notícias do presídio de Ambaca, janeiro de 1798. IHGB/PADAB, DL 32.4.
155

“abusos” que os sobas, apesar da falsa impressão de que, por serem “espiões” e “capitães da
guerra preta”, só recebiam benesses dos colonizadores.
Por fim, o provedor, em 1770, chegou à mesma conclusão do governador Sousa
Coutinho: a causa das injustiças era o procedimento dos capitães-mores nos presídios que,
“degenerando em abuso contra os negros”, se apropriavam até mesmo de ferramentas de
trabalho (enxadas, pregos), e tinham os súditos dos sobas como seus “escravos”. A associação
com a escravidão estava diretamente relacionada com a gratuidade do serviço, pois os
trabalhadores entregavam lenha, carvão e “o mais que deles queriam”, “sem receberem ao
menos o alimento”26. De fato, havia sobas que eram designados para servir ao capitão-mor,
literalmente “para o serviço particular dos capitães-mores”, na sua cozinha, ou simplesmente
lhes era imposto “dar filhos para o serviço dos capitães-mores”.
O que o parecer do provedor indica é que poderia haver um costume local que
antecedia à chegada dos portugueses e que os capitães-mores se valeram disso para utilizar o
trabalho gratuito dos dependentes dos sobados. Contudo, não temos informação que prove a
existência de tal prática. O sistema de tributação do Reino do Ndongo envolvia a entrega
anual de produtos da terra dos chefados, que era chamada de luanda e consistia em “muitos
bois e cabras, galinhas e tudo o que têm em suas terras”. Beatrix Heintze comenta que, além
do gado, há referência no século XVII a óleo de palma e escravos27. Não há nos estudos que
se debruçaram sobre as formas de pagamento de impostos no reino do Ndongo uma referência
à prestação de serviços dos súditos dos sobados ao ngola. As pessoas que eram entregues aos
embaixadores do ngola eram escravas, como o próprio Livro dos Baculamentos mostra. Não
há descrição de contingentes de trabalhadores que deixavam por tempo determinado seus
sobados para servirem junto ao ngola, a não ser nas campanhas de guerra, mas neste caso a
finalidade é obviamente outra.
No entanto, na vigência do sistema de amos, decorrente da conquista, podem ser
encontradas as primeiras pistas sobre a prestação de serviços por parte dos sobas. Além dos
tributos em gêneros diversos, os portugueses exigiam escravos e, por motivos “ad hoc
inventados”, como diz Beatriz Heintze, os sobas eram obrigados a diversos trabalhos, “entre
os quais o trabalho nos campos, a construção de casas e o serviço de carregadores”28. Logo, a

26
Informação do provedor da Fazenda Real do Reino de Angola, Manuel Pinto da Cunha e Sousa. São Paulo de
Assunção, 30 de setembro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, D. 6 e 7.
27
Beatrix Heintze, Fontes para a História de Angola do século XVII. Memórias, relações e outros manuscritos
da coletânea documental de Fernão Sousa (1622-1635). Stuttgart: Steiner-Verlag-Wiesbaden-Gmbh, 1985, p.
207.
28
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História. Luanda:
Kilombelombe, 2007, p. 262.
156

obrigação de trabalhar gratuitamente nas terras do amo não foi algo expresso por qualquer
legislação. Cadornega também afirmou que desde a chegada dos primeiros conquistadores, os
dependentes dos sobas os serviam “na fábrica de suas casas e lavouras”, na construção de
fortificações e trincheiras29.
Por isso, tendo por base os estudos de Heintze e a discussão que fizemos no
primeiro capítulo, levando em conta as novas possibilidades de leitura sobre a tributação com
base no Livro dos Baculamentos, consideramos que, em síntese, essa prática de dispor do
trabalho dos súditos dos sobas não estava prevista nos tratados estabelecidos entre as chefias
Ambundo e os representantes da Coroa portuguesa. Afinal, as próprias autoridades régias
admitiam que a regulamentação do trabalho dos Ambundos não era uma cláusula dos tratados
políticos selados na conquista portuguesa. Ela foi, antes, “inventada” e, provavelmente, no
decorrer do tempo foi vista como um “costume antigo”, convenientemente imemorial30.
Segundo os undamentos recolhidos pelos capitães-mores, as obrigações de alguns
sobas vinculados a Massangano são genéricas: eles deviam dar “filhos” para todo o serviço
que fosse ordenado. A expressão “serviço real” que indicava nos autos de avassalamento a
necessidade de prestação de serviços de interesse do monarca português deu margem para que
muitas dessas chefias passassem a ser obrigadas a enviar trabalhadores para os mais variados
fins. Em Muxima, o auto de undamento do soba Ucusso Dom Manoel Domingos o obrigava a
aprontar “todos os seus filhos, sobetas e imbari para acudirem ao trabalho do Real Serviço”.
Nesta passagem, o texto remete à esperada ajuda em tempos de guerra, uma das principais
cláusulas da vassalagem. Contudo, o trecho possibilita outras interpretações porque se
explicitou que o soba deveria servir com seus súditos em “qualquer outra diligência do
serviço”31. Ao que tudo indica, as autoridades coloniais do sertão, os particulares (moradores,
negociantes), os missionários, os soldados e “os viandantes, desertores e fugidos” valeram-se
da indefinição da expressão “serviço real” para explorar as populações sob seu domínio.
Sousa Coutinho chega a usar a expressão “trabalho pessoal”32 para essa categoria de prestação
de serviço a particulares, que era frequente nos sertões.
É preciso frisar que as autoridades africanas tinham conhecimento que estavam
sendo “vexadas”. Por exemplo, em 1732, o soba Kabuku Kambilu, Dom André, requeria uma

29
Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas, v. I, p. 45; v. II, p. 67.
30
Carlos Couto trata sobre o assunto no capítulo “O trabalho forçado e gratuito condenação do abuso e suas
regularização pelo Reino”. Carlos Couto, Os capitães-mores em Angola no século XVIII. Subsídio para o estudo
da sua actuação. Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1972, p. 245-252.
31
Portaria em que se estabelecem os jornais dos “pretos trabalhadores”, assinada por FISC. São Paulo de
Assunção de Luanda, sete de dezembro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, doc. 6 e 7.
32
Idem.
157

provisão para se livrar das “vexações” de homens brancos, negociantes de escravos, marfins e
cera, que o obrigavam a ceder carregadores e chegavam a “ficar” com alguns, sem devolvê-
los ao soba. Uma referência à escravização dos carregadores, um risco a que corriam nos
sertões33. O soba apresentou este requerimento porque sabia que não tinha obrigação de levar
as cargas de particulares, só as de “Sua Majestade”34. Não há qualquer menção a pagamentos,
pelo contrário, esse seria o caso de “carregadores telecos”, tomados à força do soba.
O que se enquadraria como obrigações para o serviço real? Para dar fim às
confusões, na portaria de 1770, o governador legislou sobre dois tipos de serviços. Os
“serviços régios que ou nasceram com a fundação deste reino ou foram crescendo com a
diversidade dos tempos mais ou menos gravosos aos povos” seriam os seguintes:
“a fábrica de igrejas e serviço de missionários nas suas diferentes viagens
seja nas funções dos seus sagrados ministérios, seja nas diligências de
recobrar a saúde porque não devem pagar nada nem tem com que; e é de
direito que aqueles a quem servem os sirvam também; a construção das
fortalezas; casas de feitoria, dos capitães-mores e das prisões públicas; azeite
para os corpos da guarda, condutores ou correios de cartas seja para este
governo, seja para os potentados do sertão; assistência dos carregadores
necessários às diligências das tropas e as de justiça onde os culpados não
podiam pagar culpas; palha e milho para os cavalos”35.

A outra categoria de serviços era a dos que “cresceram arbitrariamente” e não


tinham origem “justa”:
“as maiores obras da capital com servidores muito distantes e sem o
necessário alimentos; as fundações novas feitas de graça e por povos
distantes, que nenhum interesse tinham no seu princípio e no seu fim; o
trabalho quase gratuito de minas; as enxadas tiradas aos sobas para pregos
das obras reais; outros gêneros seus não pagos e tomados por força; as

33
Mariana Candido analisou o processo de escravização de carregadores e a vulnerabilidade de sua situação nos
sertões. Mariana Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World, p. 216 e 217. Nas fontes, os capitães-
mores são considerados os grandes culpados pelas injustiças e abusos de que se queixavam os sobas nos sertões.
Silva Corrêa comentou sobre essa importante mão de obra e sobre os abusos cometidos contra os carregadores:
“A sujeição dos sobas ao seu capitão-mor lhe[s] põe nas mãos a dependência do expediente. Os volumes de
fazendas secas e molhadas que giram o continente se depositam nos ombros dos nacionais, para os transportar.
Cada sertanejo exige o número dos precisos carregadores. O capitão-mor em benefício do comércio é obrigado a
fornecê-los, mas a ambição tem chegado ao excesso de os vender debaixo de uma aparência honesta, quero
dizer, sobre a falta de carregadores recebe antecipados prêmios para os aprontar, sem cujas dádivas, persistiriam
as fazendas empatadas, sem se conduzirem às feiras destinadas”. Elias Alexandre da Silva Correa, História de
Angola, v. 1, p. 37.
34
Requerimento de Kabuku Kambilu, soba da jurisdição de Cambambe. Cambambe, quatro de junho de 1732.
AHU_CU_001, Cx. 29, D. 2806.
35
Portaria em que se estabelecem os jornais dos “pretos trabalhadores”, assinada por FISC. São Paulo de
Assunção de Luanda, sete de dezembro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, doc. 6 e 7. O governador também
menciona os Axiluanda, os moradores da Ilha de Luanda, que eram empregados em serviço no mar e em terra
em contrapartida de parca remuneração. Teriam sido condenados a uma espécie de “escravidão perpétua” por
terem se aliado aos holandeses quando da invasão holandesa no século XVII.
158

depredações dos maus capitães-mores; da barbaridade dos soldados e da


iniquidade dos sertanejos”36.

Entre o segundo tipo, Sousa Coutinho não incluiu os serviços considerados


“trabalho pessoal”, a que nos referimos, porque disse que esses já estavam abolidos e quem os
praticava havia sido severamente punido.
De todo modo, essa descrição abre um leque amplo de trabalhos desempenhados
pelos “filhos” das chefias africanas. Como estabelecido pela portaria, todos esses serviços
passariam a ser obrigatoriamente remunerados, seja pela Fazenda Real, seja por particulares
ou pelo Reverendo Cabido.
Ademais, os funcionários régios ou militares que serviam no interior gozavam de
grande autonomia em relação ao governo de Luanda por causa das dificuldades dos sertões,
que não permitiam uma fiscalização frequente. Podiam agir segundo seus próprios interesses
cobrando quantias excessivas de tributos, nos dízimos, por exemplo, lançando mão do
trabalho gratuito dos súditos dos sobas. Por outro lado, a relação de vassalagem acabou por
constituir uma forma de garantir que as autoridades locais tivessem liberdade para denunciar
os abusos, fazendo inclusive com que um capitão-mor se tornasse réu por sua conduta
inapropriada. Roquinaldo Ferreira alerta que temos de pensar essas alianças, entre portugueses
e líderes africanos, no contexto maior da “geopolítica comercial e diplomática” do hinterland
de Luanda. Para os portugueses, esses laços eram fundamentais para manter a segurança da
colônia e fortalecer o comércio, por isso os tratados deviam ser respeitados37.
Os sobas se tornaram conhecedores da política dos conquistadores, sabiam que
poderiam reivindicar o estatuto de vassalo mesmo que a realidade da vassalagem lhes
impusesse abusos e violências contra os quais pouco podiam fazer. Quando, em 1767, os
sobas que enviavam seus súditos para trabalhar na fábrica suplicaram que “se lhe[s]
satisfizesse[m] o seu trabalho com a isenção do pagamento dos dízimos”, eles tinham em
mente todo esse conjunto de ações dos capitães-mores e dizimeiros, que constantemente
invadiam suas povoações, excediam nas cobranças dos tributos - “violências que lhes faziam
os cobradores”38. Tanto é assim que rapidamente, africanos que trabalhavam em outros
serviços passaram a solicitar também a isenção39.

36
Idem.
37
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 42.
38
Cópia do Termo da Junta da Fazenda Real do Reino de Angola assinado por Manuel da Cunha e Sousa,
ouvidor e provedor da Fazenda Real, João Delgado Xavier, juiz de fora e procurador da Fazenda Real e
Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (FISC), governador e presidente da Junta da Fazenda Real. São Paulo de
Assunção de Luanda, 20 de julho de 1767. Este termo segue anexo à carta de FISC, para Francisco Xavier de
159

As reivindicações das chefias locais geraram todo esse movimento de pesquisa


junto aos arquivos de Luanda e dos presídios, a consulta a historiadores e a funcionários de
altos cargos da organização administrativa e política. Mais que a portaria que regulamentou os
jornais “dos pretos trabalhadores”, o resultado dessa “investigação” foi que essas autoridades
coloniais admitiram o quão pouco conheciam sobre a história da presença portuguesa em
Angola, das formas de arregimentação e controle da mão de obra africana, que em grande
medida estava nas mãos de particulares e das autoridades menos distintas dos sertões, em
especial o capitão-mor. Para reparar essa conduta, o governador e demais dirigentes do Reino
de Angola elaboraram novos mecanismos para exercer um maior controle sobre as relações de
trabalho. Lembro novamente que a prática de lançar mão do trabalho dos súditos dos sobas
vassalos era generalizada, responsabilizar os capitães-mores era apenas uma maneira de se
distanciar da pecha que recaía sobre eles.
Um exemplo desse gesto que busca exercer maior domínio sobre os dependentes
dos sobas vassalos são os inventários feitos pelos funcionários das fábricas de ferro, pois
neles são descritas as lideranças locais que cediam trabalhadores para as fábricas; a quantia de
“filhos capazes para o trabalho”, ou seja, quantas pessoas disponíveis para o trabalho os
sobas, ilamba e imbari declaravam ter; quantas dessas pessoas seriam enviadas por mês; o
valor do dízimo em produtos ou pedras de sal de que seriam isentos; o valor dos dízimos em
réis (ver anexo 5). Isso porque o governador precisava ter uma noção de como calcular a
isenção de dízimos. Assim se estabeleceu, por exemplo, que o Ngongue a Kamukala Antonio
Pedro, tendo declarado que tinha 250 “filhos capazes” daria por mês para o trabalho da
fábrica 42 desses dependentes.
Ainda que alguns inventários não venham datados, o cruzamento das fontes revela
que foram feitos entre os anos de 1768 a 177040. A lista que apresenta um maior número de
autoridades vassalas e trabalhadores elenca um total de 3.716 trabalhadores “capazes”, sendo
538 enviados por mês para os serviços da fábrica. Esse inventário correspondia a apenas um

Mendonça Furtado, secretário do Conselho Ultramarino. São Paulo de Assunção, 22 de agosto de 1768.
AHU_CU_001, Cx. 52, D. 27.
39
Os trabalhadores dos arimos de “Luz de Teles” também queriam a isenção dos dízimos. Carta de FISC para
Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, 18 de
julho de 1768. IEB/USP, AL-083-098.
40
Concluímos que os inventários e mapas são desta época porque há indicação nas cartas trocadas entre o
governador de Angola e os intendentes das fábricas de que esses documentos foram enviados ou recebidos. Por
exemplo, em julho de 1768, o intendente Antonio Anselmo Duarte disse que seguia anexo à sua carta para o
governador, o inventário dos sobas: “Inclusa remeto a atestação que vossa excelência pede e a carta, que fica
registrada, e juntamente remeto o inventário dos sobas, que o número da gente que dão (...)”. Carta de Antonio
Anselmo Duarte, intendente geral das reais fábricas de ferro, para FISC. Nova Oeiras, 24 de julho de 1768.
IEB/USP, AL-083-100.
160

terço dos “capazes para o trabalho” dos sobados porque os funcionários da fábrica não
deveriam sobrecarregar os sobados, tirando deles a mão de obra necessária para ao
desenvolvimento da agricultura e, no caso dos ferreiros e fundidores, para a produção de
libambos e cadeias destinados a suprir o comércio de escravos e ferramentas agrícolas. Isso
significa que sob o domínio de 67 chefias da região (65 do Golungo e duas de Ambaca41)
existia ao menos 11.148 subordinados considerados “capazes” de trabalho, inventariados
pelos próprios sobas. Esse levantamento é o mais completo porque provavelmente foi feito
em reposta às ordens do governador para que os capitães-mores e intendentes inventariassem
o que os sobados vizinhos às fábricas poderiam oferecer em termos de mão de obra. Mesmo
que, inicialmente, todas essas lideranças tenham colaborado com o projeto colonial, há
indícios de que essa parceria não se manteve ao longo do tempo.
Não há nenhuma indicação do que se entendia por “capazes para o trabalho”.
Sabemos que os “serventes que conduziam materiais” nas obras reais eram mulheres42, logo
nas fábricas de ferro não seria diferente, carregariam pedras, talvez mina bruta de ferro, entre
outros serviços. Com a exigência de homens jovens para o tráfico transatlântico, é possível
que qualquer criança, velho ou mulher capaz de trabalhar fosse incluso na listagem. É preciso
sublinhar o esforço colonial em dar ares de “justa” a uma forma de exploração até pouco
tempo antes considerada “abuso”. Afinal, a remuneração estendida a todos os serviços, a
isenção dos dízimos, só serviram para legitimar que a partir de então essas pessoas
trabalhassem nas mesmas condições precárias que antes, mas agora a prática era
regulamentada. As condições de trabalho na fábrica de ferro embasam esse argumento.
Isso é muito importante porque ao corrigir um abuso, nos termos jurídicos da
época, os agentes coloniais criaram novos mecanismos para explorar o trabalho de africanos
livres; no caso, o trabalho “constrangido”43 com a isenção dos dízimos. Assim, os
trabalhadores Ambundos em Nova Oeiras estavam sob as regras de outro tipo de
compulsoriedade, que não a escravidão. Os súditos dos sobas seriam “constrangidos” ao
trabalho por causa da isenção do imposto decimal. Não eram considerados escravos, a

41
Ambaca era mais distante de Nova Oeiras, apesar de ter muitos fundidores e ferreiros trabalhando ali.
42
“(...) nos serventes que conduzem materiais cujo serviço costumam fazer as mulheres”. Carta de Antonio de
Vasconcelos, governador de Angola, para Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras. São Paulo de
Assunção de Luanda, 14 de maio de 1760. AHU_CU_001, Cx. 46, D. 4261.
43
FISC diferenciava os “constrangidos” daqueles que voluntariamente fossem trabalhar na fábrica: “Aos negros
(...) que voluntariamente ou constrangidos forem trabalhar na sobredita fábrica”. Portaria assinada por FISC. São
Paulo de Assunção de Luanda, a 29 de outubro de 1768. IEB/USP, AL-083-138. Outro exemplo, dando
instruções de como agir com os soldados que não se ocupavam da agricultura, como deviam: “fazendo como
tantas vezes lhe tenho dito, trabalhar (...) constrangidos aqueles que voluntários e contentes o não fizerem”. Carta
de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira. São Paulo de Assunção de Luanda, 26 de fevereiro de 1769.
IEB/USP, AL-083-222.
161

contrapartida do pagamento, para as autoridades régias, era a garantia de que ali não se
empregava trabalho escravo. A palavra “constrangido” nos parece uma boa definição para o
período porque incorpora a ideia das relações hierárquicas e de dependência que estruturavam
ambas sociedades na época moderna - a europeia do Antigo Regime e a Ambunda dos
mecanismos políticos de parentesco. Ao mesmo tempo, o vocábulo reforça a violência do
processo porque traz a noção de coação, a ideia de alguém que foi “obrigado por força ou por
necessidade” a uma relação compulsória de trabalho44.
Dito isso, voltemos à análise dos “inventários dos filhos capazes”. Em outra
listagem da mesma época, datada de 1768, o intendente geral das fábricas de ferro relacionou
apenas 15 líderes locais que serviam às fábricas com seus súditos. Número muito inferior aos
67 sobas, ilamba, imbari antes listados. Os filhos capazes dessas 15 lideranças perfaziam a
soma de 1.913 e os enviados por mês, 27345. Aparecem também autoridades de outras
jurisdições, Cambambe e Massangano. Para o Golungo são listados apenas seis sobas que
aparecem no levantamento anterior, mas o número de trabalhadores tanto “capazes” quanto
que deveriam ser enviados diminui para todos eles. Se no rol anterior essas lideranças tinham
520 filhos capazes, no de 1768, tinham apenas 328, e, quanto aos súditos que seriam
enviados, o número caiu de 122 para 56. Em Ambaca ocorreu uma revisão do número dos
filhos a ser enviados em relação a ajustes no pagamento dos dízimos, por isso o número
aumentou, os filhos capazes passam de 460 para 600 e o de enviados por mês de 120 para
180.
Esse descompasso entre as listagens fica mais evidente quando os números são
comparados com os dados de um documento sem data intitulado “mapa dos sobas e ilamba
que se desanexam do serviço da fábrica por serem remissos em aprontarem seus filhos para o
serviço dela”46 (ver anexo 5.4). Assim, dos 74 chefes enumerados nas duas listas anteriores,
37 do Golungo foram desanexados dos serviços da fábrica; com eles se retiraram 344 filhos
capazes e 80 dos trabalhadores enviados por mês (conforme o primeiro rol: 3.716 filhos
capazes, 538 por mês). Os sobas “desanexados” voltaram a pagar o dízimo.

44
“Constrangimento”, segundo R. Bluteau, é definido como coação; “constranger” é obrigar por força e
“constrangido” é aquele que foi “obrigado por força ou por necessidade”. Raphael Bluteau, Vocabulário
portuguez e latino, 10 v. Lisboa/ Coimbra: Colégio da Cia. de Jesus, 1712-1728.
45
Carta de FISC para Antônio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das reais fábricas do ferro. Anexo:
Inventário dos sobas, ilamba e imbari. São Paulo de Assunção, 29 de dezembro de 1768. IHGB 126, PADAB
DVD10,22 DSC00303.
46
“Mapa dos sobas e ilamba que se desanexam do serviço da fábrica por serem remissos em aprontarem seus
filhos para o serviço dela e devem de hoje em diante, pagar o dízimo pela nova regulação que se fez”, s/d.
ANTT, Condes de Linhares mç. 46, doc. 11.
162

Em 1773, José Francisco Pacheco, então inspetor das obras da fábrica de Nova
Oeiras, citou que apenas nove chefias enviavam seus súditos para a fábrica. Eram chefes do
distrito do Golungo (6), de Ambaca (2) e de Cambambe (1) que enviavam 310 dependentes
por mês. Entre eles, apenas Mwata a Kamba do Golungo não constava nas listas anteriores47.
Vale observar que, ao longo do tempo, de uma listagem inicial de 74 lideranças locais que
contribuíam para o trabalho nas fábricas restaram somente nove. Percebemos a relutância dos
chefes locais em enviar trabalhadores, pois ora colaboravam, ora se rebelavam, tornando-se
remissos às ordens régias. Os intendentes da fábrica também reclamavam com certa
frequência da falta de trabalhadores. Essa atitude não era a esperada de um vassalo, por isso,
os chefados sofreram uma série de punições. Para citar um exemplo, os sobas anexos ao
presídio de Massangano foram obrigados a pagar uma multa em pedras de sal pelo tempo que
seus súditos se ausentaram do trabalho. O capitão-mor excedeu na cobrança, foi repreendido e
obrigado a restituir parte do pagamento48.
Ao olhar mais de perto essa documentação, é possível localizar entre os chefes
locais aqueles que possuíam maior número de dependentes capazes sob seu controle, o que
indicava aqueles que detinham o domínio sobre um maior número de pessoas. Como a
autoridade sobre amplo contingente populacional era o que determinava o poderio de um líder
Ambundo, essa documentação também nos fornece um recorte das diferenças
socioeconômicas e hierárquicas locais. A maioria dessas chefias (41 em 67) constava ter até
15 filhos capazes para o trabalho, 14 continham até 50 filhos, seis de 50 a 80 filhos, e sete de
150 a 1.000 filhos. É provável que essas sete autoridades fossem as principais da região entre
as vassalas da Coroa portuguesa, à época. Outra análise é a de que as chefias pequenas eram a
regra na região, como Vansina comentou, esse processo é decorrente da desagregação política
e econômica que os sobados sofreram ao longo do tempo por causa da ocupação colonial e
das exigências do tráfico transatlântico49.
O soba Mbangu kya Tambwa se sobressai do conjunto, pois era o único a ter
1.000 dependentes “capazes”. Um sobado, como vimos, importante para a manutenção do
domínio colonial, aliado de longa data dos portugueses. O Mbangu tinha muitos artesãos sob
o seu controle: pedreiros, carpinteiros, ferreiros. Esses últimos principalmente trabalhavam
sob encomenda; os clientes levavam o ferro e eles confeccionavam os objetos que eram

47
Carta de José Francisco Pacheco. Fábrica da Nova Oeiras, cinco de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D.
28.
48
Carta de FISC para Manoel de Abreu Aguiar, capitão-mor regente de Muxima. São Paulo de Assunção, 21 de
janeiro de 1772. AHA, Códice 80, fl. 48v-49.
49
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”, p. 3.
163

facilmente vendidos já que o sobado se localizava nas proximidades de Luanda em uma das
principais rotas para o comércio. A missão dos Carmelitas em suas terras pode ter favorecido
isso, uma vez que os religiosos incentivavam o ensino de ofícios mecânicos. O governador,
repetidas vezes, ordenou que o intendente da fábrica recorresse a esse soba quando precisasse,
por ter “mais filhos”50.
Depois dele, o Ngola Kimbi e o Kabuku Kambilu aparecem com um número
muito inferior de filhos capazes - 400 cada um, seguidos pelo Ngongue Embo Francisco
Lourenço, Muzenze a Nzenza Felipe Antonio e o Kilombo Kya Katubia Antonio, todos com
300 súditos. Entre as chefias com o maior número de dependentes capazes, citamos também o
Kilamba Ngongue a Kamukala Antonio Pedro (dono das minas de ferro onde foi construída
Novo Belém), com 250 filhos, e o Mbumba Ndala Bento de Souza, com 150. Com exceção do
Ngola Kimbi, de Ambaca e do Kabuku Kambilu de Cambambe, todos os outros eram vassalos
do distrito do Golungo.
Entre esses nomes anotados na forma aportuguesada se destacam títulos políticos
Ambundo, sobas identificados como ngola e ndala, enquanto outros são intitulados nzenza
(pode ser lido como associação aos Mbangala assim como kilombo). Já kilamba, como vimos
anteriormente, remeteria a uma autoridade militar associada aos portugueses51. Se deixarmos
de lado o critério dos chefes que possuíam mais filhos capazes, teremos uma porção
significativa de ilamba e imbari, os agentes militares da guerra preta, intensamente ligados ao
comércio de escravos, como responsáveis por expressivo contingente de trabalhadores.
Portanto, ao que parece, outras chefias concorriam com o poderio regional dos sobas, pois
controlavam um considerável número de pessoas na região52.

50
Carta de FISC para Antônio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das reais fábricas do ferro. São
Paulo de Assunção, quatro de julho de 1770. BNP, C 8742, F 6367.
51
O ndala era um titular vunga introduzido entre os Ambundos pelos hango do Libolo – “os antigos Mbundu
provavelmente usavam o nome Libolo apenas para regiões ao sul do Kwanza onde os reis hango tinham as suas
capitais. Os reinos Mbundu geralmente tomavam o nome dos títulos dos seus reis, neste caso os hango. Contudo,
Libolo é o nome hoje em dia usado pelos historiadores tradicionais Mbundu”. Há prevalências de posições
similares ao ndala ao sul do Kwanza. No caso de nzenza, Nzenza Ngombe é identificado nas crônicas militares
do século XVII como um líder Mbangala que foi derrotado pelos portugueses, passando a ser um importante
aliado da conquista colonial. O termo kilombo é mais complexo e polissêmico, variando ao longo do tempo.
Denomina uma associação Mbangala, “o significado original e primário da palavra designava uma associação de
varões aberta a qualquer um sem ter em conta a pertença de linhagem, na qual os membros da associação se
submetiam a impressionantes rituais de iniciação que os afastavam do seio protetor do seu grupo de filiação natal
e, simultaneamente, unia fortemente os iniciados entre si, como guerreiros num regimento de super-homens,
tornados invulneráveis às armas dos seus inimigos”. Joseph C. Miller, Poder político e parentesco: os antigos
Estados Mbundu em Angola. Trad. Maria da Conceição Neto. Luanda: Arquivo Histórico Nacional de Angola,
1995, p. 90-94, 159-161, 214.
52
Fora isso, como lembra Mariana Candido, essas nomenclaturas que designavam os chefes foram usadas pela
colonização portuguesa para classificar quem estava supostamente sob seu domínio: “os exploradores e
administradores portugueses classificaram os líderes da região centro-africana como mani, dembo ou soba,
independentemente da organização política ou ainda do grupo linguístico a que pertenciam”. Mariana Candido,
164

Uma carta do intendente da fábrica do Novo Belém, de dezembro de 1768,


oferece outros aspectos sobre como a quantidade de trabalhadores enviados se relaciona a
determinações político-administrativas locais53. O documento é uma resposta ao governador
sobre quais seriam os padrões para determinar que quantias de dependentes um soba deveria
disponibilizar para o serviço real. Por exemplo, o soba Mbangu kya Tambwa que tinha o
maior número de súditos capazes (1.000) só dispunha de 50 trabalhadores por mês, ao passo
que o Kilamba Ngongue a Kamukala Antonio Pedro, tendo 250 filhos capazes, enviava 42.
João Baines justificou a discrepância entre o Mbangu kya Tambwa e os demais chefes pela
demanda do trabalho na fábrica de Novo Belém, que era bem menor que a de Nova Oeiras.
Para corrigir esse erro, com a união das duas fábricas em Nova Oeiras, em outubro de 1768, o
soba passaria a enviar mensalmente 100 trabalhadores. Na verdade, Mbangu kya Tambwa não
considerava justa a cobrança dos dízimos porque seus antepassados haviam obtido a isenção
deste tributo do governador Dom Lourenço Almada (1705 – 1709), por causa de “missão que
serviam”54.
No caso dos dois sobas de Ambaca, o Ngola Kimbi e o Kariata Kakavingi, a
porção de dependentes capazes diferia consideravelmente, o primeiro declarava ter 400 e o
segundo 200. Contudo, o número de trabalhadores enviados era quase o mesmo, 50 e 40,
respectivamente. Além disso, ambos pagavam o mesmo valor de dízimo, 30$000 rs. Segundo
Baines, essa disparidade se explica por uma lógica local de entrega de tributos, de acordo com
a qual os sobas seguiam “o método dos seus antepassados”. Explico: os chefes ascendentes
desses sobados, por alguma razão não explicitada, foram abonados com um pagamento
reduzido de tributos, tal como o Mbangu, e, por conseguinte, passaram a disponibilizar menos
dependentes para o serviço real. Ngola Kimbi e Kariata Kakavingi como seus descendentes
reclamavam os mesmos benefícios55. Também seguiam este preceito dois sobas do Golungo,
Ngongue Embo Francisco Lourenço e Muzenze a Nzenza Felipe Antonio, ou seja,
reivindicavam direitos conquistados pelos seus ancestrais.

“Jagas e sobas no ‘Reino de Benguela’: vassalagem e criação de novas categorias políticas e sociais no contexto
da expansão portuguesa na África durante os séculos XVI e XVII”. In: Alexandre Vieira Ribeiro, Alexsander
Lemos de Almeida Gebera, Marina Berthet, África: histórias conectadas. Niterói: PPGHISTORIA-UFF, 2014,
p. 66.
53
Carta de João Baines para FISC, intendente da fábrica de ferro de Novo Belém. São Paulo de Assunção, 17 de
dezembro de 1768. IEB/USP, AL-083-203.
54
Cartão de João Baines para FISC. Povoação de Novo Belém, 17 de dezembro de 1768. IEB/ AL-083-203.
55
“Os primeiros antepassados dos Estados que sucedem os presentes se deram princípio com limitação na paga
do Dízimo, e no dar dos filhos, assim seguem os sucessores, esta é a razão da diferença, porque ainda que um
seja avultado, e outro sumenos (sic) no poder dos filhos, querem seguir as suas antiguidades nas regulações que
se praticam com eles”. Carta que João Baines escreveu para FISC. São Paulo de Assunção, 17 de dezembro de
1768. IEB/USP, AL-083-203.
165

João Baines não se limitou a aumentar o número de trabalhadores enviados


mensalmente por Mbangu kya Tambwa. O intendente sugeriu que a única forma de chegar ao
número justo de trabalhadores a ser enviado por sobado, segundo a “regra da razão” dos
colonizadores, seria proceder à contagem dos fogos (famílias) de cada um deles. Isso
implicaria que as autoridades locais permitissem que os funcionários régios entrassem em
suas povoações e contassem o número de famílias e pessoas aptas para o trabalho.
Evidentemente, esse procedimento não era algo desejável para os sobas, pois exporia os
recursos dos sobados, quantas pessoas dispunham para o trabalho, para a guerra, qual o
número de súditos, escravos, ou seja, informações que os subjugariam ainda mais ao domínio
colonial. No caso de Mbangu kya Tambwa, por exemplo, o cobrador dos dízimos, Maximo
Mathias Raposo Pimental, contou os fogos de seu sobado e taxou o valor de 200 réis por fogo
- um total de 300 mil e quatrocentos réis (1502 fogos). As demais autoridades africanas
temiam o mesmo inventário, o que mostra que omitiram o número de filhos de capazes que
realmente tinham56.
As medidas propostas por João Baines expressam os interesses de expandir e
reafirmar a presença portuguesa no interior do Reino de Angola. Além de arrolar quem eram
os sobas vassalos, quais as formas de prestação de serviço, quantos dependentes possuíam
aptos para trabalhar, a administração colonial determinou a demarcação do território dos
sobados que eram isentos do pagamento do dízimo por servirem nas fábricas de ferro. A
instrução do Conselho Ultramarino dizia que os sobas escolhidos para servir junto às fábricas
deveriam ter um marco de madeira em suas terras: “em que esteja gravado com fogo um R no
alto, e por baixo estas letras N. P. D. que querem dizer Não Paga Dízimo e por baixo – dá
tantos homens por mês para o serviço da fábrica”57. Essa resolução implicava uma mudança
da relação dos chefes Ambundos com a terra que, como discutimos anteriormente, não era
fixa nem tinha fronteiras facilmente demarcadas; os deslocamentos em busca de melhores
terras ou por conta das secas, guerras, enchentes eram uma prática local comum. Delimitar os
sobados era mais uma tentativa de expandir a influência colonial sobre as terras e as gentes
que estavam sob o domínio das autoridades Ambundas.
Os trabalhadores Ambundos das fábricas de ferro não eram provenientes apenas
dos sobados da região. Também há registros de pessoas enviadas de arimos próximos.

56
“Porque se consolam por algum modo, pelo que estão vendo praticar-se com Mbangu kya Tambwa, Ambaca,
e algumas partes mais”. Idem.
57
Carta de FISC para Joaquim de Bessa, tenente regente da Real Fábrica de Ferro. São Paulo de Assunção, 16 de
agosto de 1770. BNP, C 8744, F6443. Essa descrição é de 1770, mas a ordem do Conselho Ultramarino para que
os sobados fossem demarcados é de abril de 1768. AHU, Códice 472, fl. 150-153.
166

Vinham, por exemplo, do arimo de Luz de Teles; nesse caso recebiam pagamento, mas não
eram beneficiados com a isenção dos dízimos, apesar de terem pedido por isso58. Tarefas
específicas, como a produção de tijolos, eram feitas pelos “negros dos arimos
desemparados”59.
Há também indicação de “pretos forros tirados das sanzalas de alguns brancos”60.
O capitão-mor de Cambambe dizia que só poderia “aprontar” de 67 até 100 “pretos dos
sobas” para enviar para Nova Oeiras. Dentro desse número estavam os trabalhadores tirados
da sanzala de moradores brancos. Essa informação é interessante porque apesar de todas as
tentativas de Sousa Coutinho para enfraquecer a autoridade dos os capitães-mores, eles
continuavam a ser quem pressionava aos líderes africanos a dar “filhos”, cooptando mão de
obra na jurisdição de seu presídio ou distrito, inclusive junto a moradores.
Além disso, essa citação nos faz lembrar do alistamento das “gentes d’armas” a
que os moradores, sobas, ilamba e imbari estavam obrigados em tempos de guerra e nos dá
dimensão, mais uma vez, da centralização do capitão-mor como a autoridade régia mais
importante nas relações entre chefias africanas e a administração colonial. Ao que parece, as
autoridades coloniais recorriam ao mesmo mecanismo do alistamento militar para
arregimentar trabalhadores. Na guerra, “cada um [capitão-mor] calcula[va] pelo número dos
sobados que deve[ria] aprontar cada soba, sem, contudo, esvair as forças de seus estados”61.
Assim como no alistamento, o capitão-mor recorria aos dependentes dos moradores como
força de trabalho quando era preciso. Os dependentes não eram remunerados por participarem
da guerra porque sua cooperação era uma obrigação na vassalagem. O que poderia atraí-los
eram os lucros com despojos de guerra. Consideramos que a experiência militar tenha
contribuído para o recurso gratuito da mão de obra dos filhos, reforçando o “costume
imemorial”.

58
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente geral das reais fábricas de ferro. São Paulo de
Assunção, 18 de julho de 1768. IEB, USP, AL-083-098.
59
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente geral das reais fábricas de ferro. São Paulo de
Assunção, 15 de junho de 1768. IEB, USP, AL-083-070.
60
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado da Marinha e Ultramar. São
Paulo de Assunção, 15 de novembro de 1768. AUH_CU_001, Cx. 52, D. 68.
61
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, Lisboa: Clássicos da Expansão Portuguesa no Mundo.
Império Africano, 1937, v. II, p. 49 e 50. Sobre a arregimentação de gentes para a guerra preta, ver: Roquinaldo
Ferreira, Transforming Atlantic Slaving. Trade, Warfare and Territorial Control in Angola, 1650-1800. Tese
(Doutorado) - University of California, Los Angeles, 2003, p. 174-176; Ariane Carvalho da Cruz, Militares e
militarização no Reino de Angola: patentes, guerra, comércio e vassalagem (segunda metade do século XVIII).
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2014, p. 105 e 106.
167

Como vimos, com as portarias de regulamentação do trabalho de 1770, a mudança


principal foi a remuneração. Por exemplo, quando Sousa Coutinho solicitou consertos nas
prisões de um presídio ordenou ao intendente que mandasse “pretos (...) pertencentes” àquela
jurisdição com o único adendo de que fossem “prontamente pagos”62. O pagamento de jornal
e a forma como os dependentes dos sobados deveriam ser tratados foi mais um elemento que
causou conflitos no interior de Angola. Os trabalhadores dos sobados isentos dos dízimos
também deveriam receber um jornal, bem mais módico que os outros, mas o fato de os sobas
receberem a isenção do dízimo não implicava que seus súditos trabalhariam de graça63.
Esse gesto administrativo para melhor controlar terras e gentes, com a demarcação
dos dízimos, não foi um processo isento de tensões. Desde as primeiras experiências com
minas de ferro nessa região, o governador havia ordenado que os africanos fossem pagos com
módicos jornais, desde que não onerassem a Fazenda Real, e que fossem calculados de acordo
com o que recebiam os trabalhadores das obras públicas de Luanda. Segundo ele, era preciso
recorrer ao pagamento para “atrair” os africanos para as fábricas, “florescendo” assim as
povoações do sertão64. Fato é que, sem os Ambundos, os audaciosos planos de Sousa
Coutinho não seriam possíveis. A insistência na remuneração e a ideia de empregar pessoas
livres que não fossem submetidas a violências e maus-tratos se relacionava à experiência que
Sousa Coutinho adquirira por meio da observação de tentativas anteriores de cooptar
forçosamente os Ambundos para os projetos coloniais. Essa determinação concreta da
situação colonial foi mais importante que quaisquer ideias Ilustradas.
O governador disse especificamente que era preciso evitar os “meios de que foi
assistido o serviço de Lombige”, ou seja, a busca pelas minas de ouro na região65. No
Lombige, foram recrutadas o total impressionante de 170.400 pessoas durante dois anos e
meio nas bateias para procurar o ouro, como carregadores e nas “mais coisas precisas”66. A

62
Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, intendente da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção de
Luanda, 22 de maio de 1772. AHA, Códice 80, s. fl.
63
“(...) porque trabalhando diariamente não podem ser pagos com o dízimo, e devem receber jornal”. Carta de
FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de Assunção, 15 de junho
de 1768. IEB, USP, AL-083-070.
64
FISC em carta para João Baines, tenente general e intendente da fábrica de ferro de Novo Belém: “É preciso
que vossa mercê evite quanto poder a providência da força, fazendo com que os negros pagos modicamente até o
preço dos que trabalham nesta cidade possam não só viver contentes e satisfeitos de ganhar a vida nas suas
próprias casas, mas que a sua alegria faça atrair mais outros negros dispersos de forma que em lugar de ficarem
desertas as habitações pelas costumadas violências deste sertão, sejam estas as mais florentes, e povoadas de
todo ele”. Carta de FISC para João Baines, tenente general. São Paulo de Assunção de Luanda, 8 de março de
1766. BNP, C - 8742, F - 6364.
65
Idem.
66
O número salta aos olhos, mas é o que foi registrado pelo autor do documento; lembrando que valiam-se do
regime de recrutamento parcial, essa é a quantia de pessoas que trabalharam durante dois anos ali, não
necessariamente ao mesmo tempo. Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Tomé
168

cifra foi calculada pelos seis mineiros que trabalharam ali; os trabalhadores serviam em um
sistema de revezamento que é parecido com o que vigorou nas minas de ferro.
Além disso, o governador de então, Antonio de Vasconcelos, afirmou que o
“arraial” da expedição que minerava o ouro “nunca se compunha de menos de 500 ou 400”
trabalhadores. As violências (“vexações” segundo o documento) contra as populações locais
foram tantas que “as fomes que padeceram foram grandes, especialmente entre os pretos pois
só se lhes repartiam por mês, a cada trinta, três sacos de farinha e o terço de um de feijão”.
Supridos desses poucos alimentos, os trabalhadores percorriam longas jornadas, de mais de
seis dias. Isso ocasionava muitas mortes e fugas, que eram punidas pelos soldados que
perseguiam os fugitivos “maltratando e afugentando tudo”. Essa era a experiência histórica de
exploração do trabalho junto a minas que pautava a memória dos funcionários régios e
também a dos sobas e seus dependentes. Sousa Coutinho entendia que precisava dissociar sua
grande empreitada de qualquer referência à exploração do ouro que ocorrera em uma região
muito próxima daquela em que se fundou as fábricas de ferro, pois o Lombige ficava contíguo
às terras do Mbangu kya Tambwa, no Golungo. Por isso, segundo ele, o responsável pela
fábrica deveria substituir as violências empregadas naquele episódio por um “método mais
suave” de tratamento dos trabalhadores.
Para termos ideia de como esse número de trabalhadores é uma imensidão de
gente, nas Minas Gerais, durante o auge da mineração aurífera, a média aproximada de
escravos na região era de 100.000 pessoas67. E, obviamente, a cifra não corresponde apenas
aos cativos que trabalhavam na mineração. Hoje é indiscutível que a diversificação das
atividades econômicas foi uma realidade nessa região mineradora, ao longo de todo o
Setecentos. Portanto, parte dos escravos desempenhava ofícios urbanos, e se concentrava nas
atividades comerciais e agrícolas. Logo, a quantia de Ambundos que trabalharam no
Lombige, em comparação, salta aos olhos.

Joaquim da Costa Corte Real. São Paulo de Assunção, seis de janeiro de 1759. SGL, Arquivo das colônias, v. V,
n. 30, 1930, p. 148. Não há na transcrição a referência arquivística do documento. Mas quem o transcreveu
anotou o seguinte: “Este documento esteve em poder do marquês de Sá da Bandeira para os seus estudos sobre
Angola, talvez quando coordenava elementos para a sua Carta de Angola”. Imagino que esse documento também
serviu para Sá da Bandeira construir sua argumentação sobre a extinção do recrutamento forçado de
carregadores.
67
Os historiadores não chegaram a um número definitivo sobre a estimativa da população escrava nas Minas
setecentistas devido as dificuldades com a documentação. Só a partir de 1776 que as autoridades coloniais
começaram a encomendar arrolamentos de todos os segmentos da população. Portanto, a cifra de 100.000 é uma
estimativa. Douglas Cole Libby, “As populações escravas das Minas Setecentistas: um balanço preliminar”. In:
Maria Efigênia Lage de Resende, Luiz Carlos Villalta (org.). História de Minas Gerais. As Minas Setecentistas.
Belo Horizonte: Autêntica, v. 1, 2007, p. 407-439.
169

Aos capitães-mores se ordenou que “obrigassem” a todos os ndembu e sobas “de


todos os distritos por onde passa[vam]” a dar os “pretos que necessita[vam]”68. É difícil saber
se essas pessoas eram escravas ou estavam ali da mesma forma que os trabalhadores das
minas do ferro, cooptados ou constrangidos sob a justificativa de um “costume imemorial” de
valer-se do trabalho gratuito dos dependentes dos sobas. É possível que tanto escravos quanto
Ambundos livres, “filhos” constrangidos, compusessem esse grande número de trabalhadores.
O governador de Angola disse que foi preciso dar fim à mineração do ouro no Lombige tanto
“pelos excessos dos soldados” quanto “pelo desamparo das terras, atendendo ao receio em
que viviam os naturais de se tornar ao trabalho”69. Por conseguinte, podemos dizer que a mão
de obra africana foi largamente empregada nas minas, no Reino de Angola, que não era só
uma feitoria onde os africanos eram escravizados e enviados para as minas de ouro no outro
lado do Atlântico, era uma colônia com grande exploração local de trabalhadores.
Nas instruções dadas ao intendente Antonio Anselmo Duarte, em janeiro de 1767,
o governador relacionou o bom tratamento dado aos Ambundos com o sucesso da fábrica,
pois disse que os fundamentos de qualquer obra não poderiam subsistir se fossem “amassados
com sangue, e com lágrimas”. Por isso, ele deveria acabar “de desterrar todas as violências e
tiranias de que em outros tempos houve tão funestos exemplos, ordenando, que os negros
sejam muito bem pagos, e tratados”70. Pela experiência de seus predecessores, Sousa
Coutinho compreendia que a violência não era a maneira mais acertada de manter um
empreendimento como o que ele se propunha fazer: em uma localidade para onde ele teve de
transportar pessoas para formar uma povoação, com um clima que “sorvia gentes”, em uma
conquista em que o acesso dos colonos à mão de obra era sempre mediado pelos sobas e
outras autoridades locais71. Ele acreditava em meios indiretos de persuasão: o pagamento de
salários, por exemplo, que não faziam parte das lógicas locais de uso do trabalho dos súditos
dos sobas. Isso não fazia sentido nem para os capitães-mores, particulares, negociantes, que
durante séculos se valeram da autonomia dos sertões para cometer abusos, exigindo a
gratuidade do serviço; nem para os sobas e makota, a quem seus subordinados serviam,

68
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Tomé Joaquim da Costa Corte Real. São Paulo
de Assunção, seis de janeiro de 1759. SGL, Arquivo das colônias, v. V, n. 30, 1930, p. 148.
69
Idem. Esses trabalhadores parecem também terem sido remunerados em fazendas, porém o pagamento não
compensava as condições precárias de trabalho. No ano de 1756, despendia-se 300 mil réis em fazendas para o
“pagamento dos trabalhadores das minas”. Carta de Antonio Álvares da Cunha, governador de Angola. São
Paulo de Assunção de Luanda, 22 de janeiro de 1756. AHU_CU_001, Cx. 40, D. 72.
70
“Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, servindo o emprego de intendente geral da
fábrica do ferro, e que executarão também os capitães-mores, como intendentes particulares na parte que lhes é
respectiva” (FISC). São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 73.
71
Carta de FISC para João de Meneses, capitão-mor de Muxima. São Paulo de Assunção, seis de fevereiro de
1768. AHA, Códice 79.
170

entregavam impostos, porque lhes deviam lealdade e obrigações assentadas nas lógicas do
parentesco e em relações de dependência.
Para o governador, era preciso mudar o “gênio dos negros”, torná-los “ativos
trabalhadores”, mas queria fazer isso “sem assustá-los”72. Por isso mesmo, Sousa Coutinho
determinava que as condições de trabalho fossem observadas severamente: as barras de ferro
não deveriam ser carregadas nas costas dos Ambundos, mas nos lombos dos jumentos que
mandou buscar no Brasil; o castigo pela falta de trabalho deveria ser a diminuição do jornal e
de “nenhuma forma com pancadas”; ficava estabelecido ainda “meia hora para almoçar e duas
para jantar” escolhendo o período mais apropriado “para fugir ao sol”73. Além disso, os sobas
deveriam enviar a terça parte dos trabalhadores que tinham com a finalidade de que cada
trabalhador servisse apenas quatro meses por ano nas fábricas74. Neste último aspecto, há
também a preocupação de que houvesse trabalhadores suficientes nos sobados para o
desenvolvimento da agricultura75.
Também foi determinado o uso de uma espécie de “livro do ponto” pelo qual
“todos os trabalhadores se[riam] revistados pela manhã, ao jantar e à noite”. Deste livro eram
extraídas “pelo escrivão, no fim de cada mês, relações” pelas quais se faria o pagamento
mensal dos jornais dos trabalhadores76.
A reunião de trabalhadores em um ambiente laboral controlado, ainda que em um
momento anterior ao que se convencionou chamar sistema de fábrica, colocava em jogo o
controle técnico do processo de trabalho, da produtividade e da comercialização dos produtos
que fora da fábrica permanecia ditado pelos trabalhadores77. O “livro do ponto”, a hierarquia

72
“Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, servindo o emprego de intendente geral da
fábrica do ferro, e que executarão também os capitães-mores, como intendentes particulares na parte que lhes é
respectiva” (FISC). São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 73.
73
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado da Marinha e Ultramar. São
Paulo de Assunção de Luanda, 29 de outubro de 1768. AHU_CU_001, Caixa 52, D. 48.
74
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de Assunção,
29 de julho de 1768. IEB, USP, AL-083-090. “(...) mando que naqueles serviços distantes se estabeleça uma
medida certa de carga, e o número correspondente de caminhos, seja das Serras do Ferro para a Fábrica, seja das
carvoeiras, que a todos ficar comum”. Portaria estabelecendo os jornais dos trabalhadores da Fábrica de Ferro de
Nova Oeiras. São Paulo de Assunção, 20 de outubro de 1768. IEB, USP, AL-083-138.
75
“(...) dando sempre a terça parte dos filhos, que tiverem, para que se rendam aos meses, e fiquem as duas
descansando, e cultivando terra nas estações próprias”. Portaria estabelecendo os jornais dos trabalhadores da
Fábrica de Ferro de Nova Oeiras. São Paulo de Assunção, 20 de outubro de 1768. IEB, USP, AL-083-138.
76
Portaria estabelecendo os jornais dos trabalhadores da Fábrica de Ferro de Nova Oeiras. São Paulo de
Assunção, 20 de outubro de 1768. IEB, USP, AL-083-138.
77
Edgar de Decca chama a atenção para o processo histórico do desenvolvimento do “putting-out system”, o
modo de organização do trabalho que originou o sistema de fábrica, nas áreas coloniais. Para ele, na Europa, a
partir do século XVI,” nas áreas coloniais a concentração de trabalhadores destituídos de meios de produção e
expropriados de qualquer saber técnico apareceu como organização do trabalho mais eficiente para se levar a
cabo os interesses do lucro capitalista, e ali também a figura do empresário se tornou imprescindível para o
processo de produção”. O autor discorre como o processo de trabalho nos engenhos de açúcar no Brasil se deveu
171

administrativa e mesmo entre trabalhadores especializados, a disciplina, a vigilância, os


castigos, o aumento das horas de serviço e da velocidade e do ritmo de trabalho eram formas
de tentar exercer esse controle. Não é à toa que essa tentativa de instaurar uma nova
organização do trabalho gerou inúmeras resistências.
A vigilância sobre o trabalho e as revistas serviam ao propósito de registro para
depois proceder aos pagamentos e também para evitar roubos de ferramentas ou mesmo de
ferro, que era moeda de troca comum nos sertões. Os trabalhadores receberiam jornal pelos
dias de viagem que gastavam para chegar e voltar da fábrica78. Os jornais foram estabelecidos
da seguinte forma:
“Aos negros do território isento do dízimo se dará por dia de efetivo trabalho
e igual ao das obras desta cidade, 60 réis por dia em fazenda, sal e
mantimentos, recebendo no mês dentro dos limites deste jornal, ao menos
meio exeque de farinha; massa mbala [sorgo] ou feijão, porque de outra
forma pereceriam de fome”79.

Os salários eram pagos, portanto, em suprimentos de subsistência: sal, farinha,


feijão, peixe, mas também em fazendas. Nas despesas com os pagamentos aos trabalhadores
computadas por Antonio de Lencastre, de 1766 a 177380, tirando as despesas com os
fundidores que o governador contratou da Biscaia, que venciam um jornal de 2$400 rs, os
grandes gastos com o empreendimento foram com os jornais comuns, ou seja, os destinados
aos trabalhadores não especializados foram o motivo dos maiores gastos, como se vê no
gráfico abaixo:

a essa nova organização social do trabalho. Edgar Salvadori de Decca, O nascimento das fábricas. São Paulo:
Editora Brasiliense, 1982, p. 43 e ss.
78
“(...) mandará vossa mercê contar e pagar aos negros que forem chamados para o Serviço dessa Fábrica, como
dias de efetivo trabalho aqueles de ida e de volta, mas não hão de ser os que eles gastarem pela sua frouxidão, só
sim os que devem gastar, como qualquer homem diligente o faria indo, e vindo para cujo fim fará vossa mercê
uma lista dos dias de caminho que tem cada uma das libatas, que na regulação dos dízimos ficam obrigadas a dar
trabalhadores para a Fábrica, para pela mesma justa e sabiamente se lhe contarem os dias de ida e volta, e se lhes
pagarem”. Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, tenente regente da real fábrica de ferro. São Paulo de
Assunção, 22 de setembro de 1770. BNP, C 8744, F6443.
79
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e ultramar. São
Paulo de Assunção, 28 de novembro de 1768. AHU_CU_001, Caixa 52, D. 44.
80
Conta da despesa feita com a construção da fábrica de ferro de Nova Oeiras desde o primeiro de janeiro de
1766 a março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, Doc. 28.
172

sal para
jornais
comuns
fazendas
para
sal para sal para jornais
jornais jornais comuns sal para
comuns comuns jornais
comuns
fazendas
para
fazendas
para jornais jornais
comuns biscainhos comuns

Fonte: Conta da despesa feita com a construção da fábrica de ferro de Nova Oeiras desde o primeiro de janeiro
de 1766 a março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, Doc. 28.

Os pontos mais acentuados do gráfico correspondem à época da separação da


pedra para a construção e os reparos do açude no rio Luinha, de 1770 a 1771, que demandava
muito trabalho. Com essas despesas podemos computar quantos trabalhadores
aproximadamente trabalhavam na fábrica. Por exemplo, nesse “pico” de 1771, os gastos
foram de 12:232$327 rs (com sal) só para jornais comuns. Se considerarmos que a fábrica
ficou dois meses sem trabalhar, por conta de acidentes, chuvas, incêndios, temos 300 dias de
trabalho. Cada trabalhador recebia ao menos $60 rs por dia, logo, podem realmente ter
trabalhado cerca de 600 trabalhadores “comuns” por dia que limpavam o local, juntavam
pedras para a construção, minério para a fundição, lavravam a terra e construíam todos os
edifícios da fábrica e da povoação.
Os salários de carpinteiros, ferreiros, pedreiros eram pagos em dinheiro, ao menos
apenas a quantia entregue aos trabalhadores foi registrada pelos funcionários. Em período
anterior, há a possibilidade de serem pagos em fazendas, beirames (panos indianos), o que
provavelmente era o que ocorria. Não há qualquer divisão entre Ambundos, luso-africanos,
europeus (fora os biscainhos) ou brasílicos nestas listagens. Porém, outros documentos
comprovam que as diferenças existiam. No anexo 4, em que listamos todos os oficiais
mecânicos enviados para Nova Oeiras, os degredados deveriam ser pagos “conforme o seu
merecimento”; alguns artesãos já negociavam de antemão o seu salário (por exemplo, $600 rs
por dia); os biscainhos, eram os mais bem remunerados. Os ferreiros Ambundos, por seu
turno, que trabalhavam na “Casa da Fundição dos Pretos”, recebiam de $80 rs até no máximo
173

um vintém diariamente81. Assim, entendemos o quão “módicos” eram os pagamentos dos


africanos em comparação com os dos técnicos de outras origens.
Além dos gastos com salários, houve grande dispêndio com condutores,
conduções e canoas. O que mais uma vez comprova que nada se fazia sem o auxílio de
carregadores; em Nova Oeiras, parece que foram pagos. A botica também gerava despesas
(remédios e jornais de boticário e sangrador) já que os trabalhadores, sobretudo os europeus,
adoeciam muito; algum gasto compra de ferramentas (bigornas, na maioria) e apetrechos
indiscriminados e com os ordenados do intendente, escrivão e inspetor de obras que eram
anuais. A única despesa com material era “fatura da cal” e “jornais com a fatura da cal” que
era produzida em uma fábrica em Massangano. De resto, os recursos naturais da região
proviam tudo.
Essas normas não eram completamente coesas, abrigavam contradições. Os
intendentes das fábricas e os capitães-mores poderiam ir buscar “negros de outros territórios
que voluntariamente ou constrangidos fo[ss]em trabalhar na sobredita fábrica e se lhes
dar[iam] oitenta réis”82. Essas viagens à procura de trabalhadores poderiam levar até oito dias,
mostrando que pessoas de maior distância também foram obrigadas a trabalhar ali. O trecho
revela as contradições do pragmatismo ilustrado que permeia os planos coloniais; nos
princípios gerais pregava-se a não violência, porém na prática aqueles que não aceitassem ir
voluntariamente para a fábrica poderiam ser “constrangidos”, ou seja, obrigados pela força
pelos funcionários da fábrica. Isso fica mais claro em outro trecho em que fica estabelecido
que o recrutamento dos trabalhadores deveria ser feito “quanto possível for por sua livre
vontade, e com espírito de lucro, usando da força só em último lugar, e quando vir que a
persuasão não obra nada”83. Destacamos aqui que a violência no recrutamento de
trabalhadores estava, portanto, prevista nas normas da administração colonial, ainda que
apenas em casos extremos.

81
Carta de José Francisco Pacheco. Fábrica da Nova Oeiras, cinco de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D.
28. À princípio, antes das portarias para regular os salários, o governador estabeleceu como pagamentos para os
ferreiros e fundidores 2$400 rs pelo quintal de ferro produzido, pagos em fazenda.
82
Portaria assinada por FISC. São Paulo de Assunção de Luanda, a 29 de outubro de 1768. IEB/USP, AL-083-
138.
83
Idem.
174

3.2 Disputas, resistências e as violências do sertão

A fábrica contava com uma estrutura hierárquica e fiscal mínima: intendente,


escrivão, almoxarifes e inspetor ou mestre de obra. Os cargos eram preenchidos em sua
maioria por militares, capitães-mores e sertanejos, que haviam tido destaque em suas missões
anteriores e que demonstravam alguma experiência no conhecimento do território, do clima e
dos costumes locais. Como a maioria dos funcionários régios em Angola, eram africanos e
luso-africanos. Esses funcionários tinham a função de controlar as atividades internas da
fábrica e aplicar as ordens do governador que eram proferidas há quase duzentos quilômetros
do local em que as fábricas foram construídas.
As fontes indicam, entretanto, que o que acontecia nos edifícios da fábrica
contrasta em muitos aspectos com os planos coloniais. Talvez por isso, a postura do
governador tenha sido outra, quando sugeriu que os trabalhos fossem feitos por 200 casais de
escravos84. Sousa Coutinho disse que com escravos seria mais fácil atingir seus objetivos,
pois eram “mais cômodos e mais constantes”. Esse modelo se opõe completamente ao ideal
de uma povoação branca, com costumes europeus, fundada no trabalho “bem pago e bem
tratado” dos Ambundos.
O parâmetro do governador para a ideia de empregar escravos nas fundições era
uma fábrica que os franceses instalaram nas Ilhas Maurícias, contemporânea de Nova Oeiras:
as forjas de Mon Désir (1752-1772), um empreendimento que chegou a contar com o trabalho
de 790 escravos. A fábrica francesa contava com um alto-forno, produzindo cerca de oito
toneladas de ferro por semana (Nova Oeiras produzia por volta de 2t por mês). Segundo a
ideia do governador, com escravos, Nova Oeiras teria grandes lucros já que os conseguiria
mais baratos em Angola que os diretores de Mon Désir nas Maurícias85.
O primeiro aspecto a ser levado em conta foi a grande instabilidade e a disputa
pela mão de obra dos Ambundos que o trabalho nas fábricas causou, ou melhor, tornou mais
patente. Vansina comenta esse contexto de grande competição entre sobas, ilamba, imbari e
moradores, que eram muitas vezes patronos ricos e funcionários da Coroa, pela riqueza e
pelas “gentes”, seus dependentes. Para o autor, o século XVIII foi um período de grande
84
Portaria em que se estabelecem os jornais dos “pretos trabalhadores”, assinada por FISC. São Paulo de
Assunção de Luanda, sete de dezembro de 1770. AHU_CU_001, Cx. 55, doc. 6 e 7. “(...) E também se será mais
conveniente comprar Sua Majestade casais de escravos que estabeleça naquela povoação fazendo os homens o
serviço das mesmas e as mulheres o dos campos que devem alimentá-los a todos, e dando-lhe Sua Majestade no
fim do ano os panos necessários aos mesmos e seus filhos”.
85
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e ultramar. São
Paulo de Assunção de Luanda, cinco de dezembro de1769. IEB/USP, AL – 082 – 198. Huguette Ly-Tio-Fane
Pineo, Ile de France, 1747-1767. Mauritius: Mahatma Gandhi Institute, 1999, p. 246-250.
175

insegurança para os africanos que estavam no território sob influência portuguesa, as


linhagens mais humildes eram continuamente exploradas por aquelas que conseguiram se
fortalecer ao longo do tempo. A elite africana havia sobrevivido por meio da concentração de
riquezas, do uso de aparatos jurídicos para escravização e de alianças com a elite colonial; por
exemplo, por meio casamentos – no fim, “todos eram parentes”86.
Por um lado, os sobas que já tinham seus súditos cooptados para o trabalho de
capitães-mores, missionários e negociantes, com o advento das fábricas de ferro tiveram de
lidar com mais um encargo. Por outro, essas personagens do sertão do Reino de Angola não
tinham interesse em perder o costumeiro “auxílio” dos sobados. Os trabalhadores que foram
cooptados para as fábricas de ferro, os carpinteiros, pedreiros, ferreiros deixaram de servir nas
obras dos presídios, nos consertos das igrejas, nas obras particulares. Não era só por escravos
que havia disputas, o trabalho dos “constrangidos” era fulcral para a manutenção da colônia.
Sousa Coutinho determinou a produção de ferro como atividade prioritária e ordenou que os
capitães-mores consultassem o intendente da fábrica para que este decidisse quantos “filhos”
poderia dispor para outras tarefas em outras localidades87. Ao inserir mais uma autoridade nos
sertões, o intendente geral da fábrica, o governador interferia no controle que os capitães-
mores exerciam durante a arregimentação de “filhos” para o trabalho. Algo que gerou
inúmeros protestos por parte dos capitães.
Em 1772, o intendente da fábrica de ferro delatou o regente do Golungo, Félix da
Cunha de Almeida, por estar empregando os sobas anexos à sua jurisdição em “mucanos”88,
cobranças de dízimos dos anos passados e outros serviços” ao invés de enviá-los para as
fábricas. Na verdade, quase todos os líderes da jurisdição do Golungo ficaram obrigados pela
isenção dos dízimos a servir na fábrica, o que trazia grande sobrecarga de trabalho para os
dependentes dos sobados da região. O funcionário da fábrica reclamava que passava meses
sem receber trabalhadores de alguns sobas dessa região enquanto outros enviavam um
número muito menor que o estabelecido, o que era um empecilho para a conclusão das obras
da fábrica. Os sobas, por seu turno, alegavam que, por terem de cumprir essas outras
obrigações, não eram capazes de “aprontar os filhos que prometeram nos termos que
assinaram”. Diziam também que, pelos tratados de vassalagem, deviam obediência aos

86
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”, p. 11.
87
Carta de FISC para Francisco Xavier de Andrade, capitão-mor do presídio de Ambaca. São Paulo de
Assunção, 15 de setembro de 1770. BNP, C 8744, F 6443. Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de
Siqueira, intendente geral da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, 18 de setembro de 1768.
IEB/USP, AL-083-133.
88
Do kimbundu, mukanu, condenação, falta, culpa. Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 420.
176

capitães-mores não aos funcionários da fábrica89. Os sobas justificavam cada desobediência


tanto porque conheciam seus direitos, quanto porque temiam as punições.
Duas semanas depois, o governador mandou que o regente mandasse “em pronto
os trabalhadores” que o intendente da fábrica de ferro lhe pedisse, “sem desculpa alguma”.
Cunha de Almeida também não deveria ocupar os trabalhadores em outra atividade senão a de
concluir Nova Oeiras90.
O regente do Golungo é um caso exemplar da dinâmica interna das atividades dos
capitães-mores junto aos sobados. Além de proceder à cobrança de tributos, Félix imiscuía-se
nos tribunais de mucanos, “uma instituição africana incorporada pelo sistema legal português
em meados do século XVII que sintetizou a natureza entrelaçada dos costumes, do poder e do
direito na Angola portuguesa”91. No contexto africano, os mucanos eram cortes para a
resolução de conflitos civis, onde a “noção de dívida era central”. O roubo ou o adultério
eram considerados “violação de propriedade” e eram resolvidos por meio de pagamentos de
altas multas, que tinham por finalidade restaurar o equilíbrio social, eram vistas como
compensação92. Os capitães-mores passaram a participar desses tribunais e, desde fins do
século XVII, a Coroa portuguesa tentou a regular sua atuação nos mucanos porque as
denúncias dos abusos, sobretudo a escravização massiva, que cometiam contra os sobas e seus
súditos eram recorrentes. Além de instituir a presença de escrivães e testemunhas, ordenou-se
que quaisquer casos de contestação da escravização (apelidar a liberdade) deveria ser julgado
em Luanda, sendo o governador o juiz. Entretanto, os capitães-mores continuaram a ser
figuras importantes porque eram eles quem levava a autoridade africana até o tribunal na
capital. Os conhecidos abusos continuaram, os capitães agiam segundo seus próprios
interesses, exigindo subornos, pagos com escravos93.
Ao mesmo tempo, a situação não era favorável para os comerciantes,
principalmente em Ambaca. Jan Vansina escreveu sobre essa região, a área mais significativa
do Reino de Angola: a maior, mais populosa e mais importante do ponto de vista do tráfico de
escravos nos sertões. Ponto obrigatório nas rotas das caravanas vindas dos sertões distantes

89
Carta de Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro da Nova Oeiras, para FISC. Nova
Oeiras, 28 de dezembro de 1771. SGL, AA, v.3, n. 29, p. 361-393.
90
Carta de FISC para Félix da Cunha de Almeida, capitão regente do Golungo. São Paulo de Assunção, 10 de
janeiro de 1772.SGL, AA, v.3, n. 29, p. 361-393.
91
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 99.
92
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”, p. 11.Sobre as mudanças nos tribunais de
mucanos instauradas no governo de Sousa Coutinho, ver: Catarina Madeira Santos, “Entre deux droits, les
Lumières en Angola (1750-v.1800)”, Annales. Histoire Sciences Sociales, Paris, 2005, n. 4, p.817-848.
93
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 105-106. Roquinaldo Ferreira
acompanhou a história de africanos ilegalmente escravizados que contestaram sua condição junto a esses
tribunais.
177

com destino a Luanda. Por isso, reunia um grande contingente populacional atraído pelas
atividades de subsistência do comércio e contava com grande circulação de pessoas e
mercadorias94.
Inicialmente, a grande quantidade de ferreiros e fundidores trabalhando em
Ambaca chamou a atenção do governador, que passou a pedir “somente metade dos ditos
filhos”. Quatro meses depois, determinou que só os ferreiros e fundidores da Ilamba deveriam
ir para as fábricas e que em Ambaca, esses trabalhadores ficassem preparando o ferro e as
“enxadas, libambos, e mais instrumentos para a sua agricultura e comércio, o que tudo se
entende para o próprio tráfico das gentes”95. Os negociantes da região dependiam do trabalho
com o ferro mais que quaisquer outros e as demandas da fábrica começaram a concorrer com
as suas necessidades do metal. Nova Oeiras chegou a produzir 40 quintais de ferro por mês
que era enviado para Luanda, Lisboa, Rio de Janeiro e uma vez para uma nau da Índia; certo é
que a fábrica desestabilizou o mercado local de produtos de ferro. Há uma referência de que o
governador chegou a instalar naquela jurisdição uma pequena fábrica, provavelmente análoga
à “Casa de Fundição dos Pretos”, para arrefecer os ânimos dos negociantes96. Entretanto, a
falta de ferro persistia.
Os conflitos continuaram e Sousa Coutinho acusou os agentes do comércio de
Ambaca de espalharem mentiras sobre o serviço na fundição de ferro, pois atribuíam a
“deserção e ruína do país” às péssimas condições de trabalho em Nova Oeiras97. O
governador se defendia dizendo que as calamidades do Reino de Angola se deviam ao mau
procedimento daqueles pumbeiros, que praticavam o “reviro”98 e usurpavam o “governo das

94
Além disso, nos informa Elias Correa que ali havia grandes plantações de algodão e agrícolas, fabricação de
panos linhageiros (mais um item fundamental para o comércio – “moeda corrente” como diz o militar), também
se fabricava excelentes vasos de barro. Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, v. I, p. 121, 154,
156, 165
95
Cartas de FISC para Francisco Matoso de Andrade, capitão-mor de Ambaca. São Paulo de Assunção de
Luanda, cinco e 25 de maio de 1767. BNP, C 8742, F 6364.
96
Como é só uma pequena citação, não encontramos mais informações sobre essa pequena “fábrica”. Carta de
FISC para José Antunes de Campos, regente de Ambaca. São Paulo de Assunção de Luanda, 25 de janeiro de
1768. IEB/USP, AL-083-002. “Se o Intendente Geral entender, que essa Fábrica de Ferro, que para os
Negociantes, e Negros mandei estabelecer nesse Distrito produz as vexações que me foram presentes, e não dá
proveito, nem remedeia a necessidade [disto?] que os ditos Negros e Negociantes tem quando necessitam todo o
ferro que querem sem constrangimento ou violência, vossa mercê deixará os Negros Ferreiros e Fundidores
livres ao seu arbítrio para obrarem o que bem lhes parecer, visto que não há outro meio de conduzir semelhantes
gentes”.
97
Idem.
98
Os pumbeiros de Ambaca eram conhecidos pela prática do “reviro”. Os agentes do comércio eram contratados
por negociantes da praça de Luanda para comprar escravos nas feiras do interior, com as mercadorias adiantadas
pelo negociante. Era comum o “reviro” dos escravos obtidos no sertão, ou seja, os pumbeiros vendiam os cativos
para outro comerciante que oferecesse um valor maior, desrespeitando o trato com o primeiro.
178

sanzalas dos sobas”. Só no caso do soba Ngonga a Mwiza99, por exemplo, “uns poucos de
negociantes tiraram quarenta sanzalas”100. Governadores, negociantes, capitães e sobas
disputavam o governo das sanzalas, das gentes.
Segundo o intendente da fábrica Joaquim Teixeira, os comerciantes espalhavam
boatos de que os trabalhadores de Nova Oeiras sofriam “maus-tratos” e “pancadas” e que as
obras das fábricas implicavam um trabalho exaustivo, mas o motivo desses rumores era que
os negociantes queriam “livrar os negros do serviço” das fábricas porque os queriam para as
suas próprias “conveniências”. Ao se dirigir ao governador, o intendente relatou:
“pois não há negociante naquela província [Ambaca] que não tenha duas e
três libatas*, ou povoações agregadas a si para serviços próprios, aos quais
povos defendem, e patrocinam tanto como a seus escravos, pois como tais se
servem deles, e o mesmo se pratica em todas as jurisdições e por esta razão
publicam as perniciosas vozes de culparem em tudo a fábrica”101.

É provável que Joaquim Teixeira utilizasse as intrigas dos comerciantes para


acobertar os castigos físicos sofridos pelos trabalhadores de Nova Oeiras. De todo modo,
havia uma notória disputa pelo trabalho dos dependentes das povoações Ambundas, que eram
explorados por todos os agentes dos sertões como a citação acima atesta, comparando o
tratamento deferido a eles como aqueles usados com escravos. A escravidão e a escravização
marcavam as relações sociais, as relações de trabalho, como instituir um trabalho bem pago e
bem tratado nesse ambiente? O resultado eram as vexações.
Os comerciantes e sobas de Ambaca também reclamavam da distância que os
trabalhadores tinham que andar para trabalhar na fábrica. Ao que o intendente respondeu:
“Eu me admiro que se esqueçam do tempo em que todos os meses iam para
as obras desta capital 200 trabalhadores daquela província conduzidos por
soldado de cavalo, e então senão queixavam da distância, e agora que só é de
três dias de viagem lhes parece prolongada”102.

Uma referência ao reiterado costume de constranger os “filhos” dos sobas a


servirem junto às obras reais. A questão principal era que o serviço em Nova Oeiras tirava dos
negociantes daquela jurisdição a mão de obra não só necessária para todos os serviços, mas a

99
B. Heintze estudou esse sobado. Ficava ente os rios Lukala e Lutete, foi avassalado no início do século XVII.
C.f.: Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 539-554.
100
Carta de FISC para Francisco Xavier de Andrade, capitão-mor do presídio de Ambaca. São Paulo de
Assunção, 15 de setembro de 1770. BNP, C 8744, F 6443.
101
Carta de Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro da Nova Oeiras, para FISC. Nova
Oeiras, 28 de dezembro de 1771. SGL, Arquivos de Angola, v.3, n. 29, p. 361-393.
102
Carta de Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro da Nova Oeiras, para FISC. Nova
Oeiras, 28 de dezembro de 1771. SGL, Arquivos de Angola, v.3, n. 29, p. 361-393. Os soldados a cavalo eram
mesmo mais intimidantes para a comitiva de trabalhadores. Roquinaldo Ferreira comenta que com os cavalos os
soldados podiam perseguir com mais sucesso as populações em fuga, vencidas em guerra. Roquinaldo Ferreira,
Transforming Atlantic Slaving, p. 171.
179

precisa para dois empregos que lhes eram muito caros: os carregadores103 necessários para as
caravanas e os ferreiros e fundidores, que fabricavam os libambos. O desagrado não era só
dos negociantes de Ambaca, já que Sousa Coutinho determinou que: “nas terras que dão gente
para o ferro se não dê carregador a ninguém, seja qual for o pretexto”104.
Por fim, na fábrica de nova Oeiras, as fugas dos Ambundos provenientes de
Ambaca eram tão comuns que, em 1769, o governador ordenou que não se pedisse mais
trabalhadores daquela localidade. Sousa Coutinho dizia não conseguir entender o motivo das
“deserções” uma vez que os trabalhadores eram pagos e “mais bem tratados do que os
negociantes os tratam”105. Não há dúvidas de que os trabalhadores em Nova Oeiras foram
submetidos a condições precárias de vida, o que era motivo mais que suficiente para fugas.
Talvez os de Ambaca fugissem mais porque próximo àquela jurisdição se encontrava um
importante mercado que recebia africanos escravizados do reino do Holo, o Bondo. Ali, os
fugitivos viviam “livremente apesar das queixas dos comerciantes itinerantes (sertanejos e
feirantes) que operavam na região em nome dos comerciantes de Luanda”106.

Em Cambambe, uma chefia de grande relevância se rebelou, deixando de servir na


fábrica de ferro. As primeiras referências escritas ao soba Kabuku Kambilu são de fins do
século XVI, em que aparece como chefia importante no quadro político-militar do Reino do
Ndongo. Enquanto vassalo da Coroa portuguesa, esse sobado teve uma longa relação com os
agentes da administração colonial até finais do século XIX, quando perdeu sua predominância
política107. Na segunda metade do século XIX, o Kabuku era uma das principais lideranças
africanas no norte de Kwanza, detentor de poderes religiosos, grande população e

103
O capitão-mor de Ambaca dizia que tinha dificuldades de dar carregadores aos comerciantes porque o serviço
de Nova Oeiras ocupava “ainda bastantes negros do trabalho”. FISC denunciava “as violências que os mesmos
fazem aos tais carregadores, dando-lhes cargas exorbitantes, de forma que os mesmos para evitar a morte em
uma viagem tão dilatada, necessitam repetir a carga, alugando outro carregador à sua custa”. Carta de FISC para
Francisco Xavier de Andrade, capitão-mor de Ambaca. São Paulo de Assunção, 15 de abril de 1772. AHA,
Códice 80.
104
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente geral das reais fábricas de ferro. São Paulo de
Assunção, 15 de junho de 1768. IEB, USP, AL-083-070.
105
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte. São Paulo de Assunção, sete de novembro de 1769. BNP, C
8743, F 6367.
106
De acordo com o capitão-mor de Ambaca, o Bondo era “uma terra de muitas comunidades fugitivas formadas
por escravos que haviam fugido dos brancos, que às vezes eram capazes de apreender esses fugitivos, desde que
não estivessem relacionados aos africanos do país. Muitas vezes os fugitivos usavam laços com a população
local para formar grandes comunidades lideradas por fugitivos que se tornaram líderes. Alguns encontravam os
seus antigos proprietários na estrada, quando realizavam tarefas que queriam depois de repetidas solicitações,
após as quais retornavam livremente às suas casas”. Roquinaldo Ferreira, “Slave flights and runaway
communities in Angola (17th-19th centuries)”. Anos 90, v. 21, n. 40, 2014, p. 72.
107
Jill Dias, “O Kabuku Kambilu (c. 1850-1900). Uma identidade política ambígua”. Ver também: Roquinaldo
Ferreira, Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 41 e 42.
180

consequente poderio militar; havia expandido seu domínio sobre as terras dos sobados ao
longo do Kwanza, o que lhe permitiu o controle de rotas comerciais fulcrais.
O soba Kabuku Kambilu, D. André Fernandes, era um dos principais colaborados
das fábricas de ferro, enviava 400 trabalhadores todos os meses. A chefia deixou de servir
dois meses na fábrica porque o capitão-mor do presídio, a quem estava sujeito, “o notificou
para acompanhá-lo com todos os seus empacaceiros a uma diligência na província do
Libolo”108; uma provável incursão com “gente da guerra preta”, como os empacaceiros, para
repreender vassalos daquela província. O soba explicava que não podia “arder em dois fogos”
e por isso não havia enviado os 40 trabalhadores a que estava obrigado para Nova Oeiras.
Como resultado do conflito, o governador ordenou que José Tomás Xavier, o capitão-mor de
Cambambe, remetesse prontamente os trabalhadores para Nova Oeiras e continuasse a enviá-
los todos os meses109.
O soba Kabuku não cumpriu as ordens porque em maio de 1772, quatro meses
depois de o capitão-mor emitir a notificação, o governador determinou que o soba enviasse os
seus súditos para as fábricas sob pena de perder a patente que o governador lhe passara110,
bem como o “marco de isenção do dízimo”111. A ameaça ia no sentido de o soba perder duas
conquistas de peso: uma patente militar, símbolo de distinção social no sertão, e o marco dos
dízimos em suas terras, ou seja, o soba voltaria a ter de arcar com os impostos e a lidar com
os cobradores. Dois meses depois disso, o soba foi convocado a comparecer à presença do
governador. D. André Fernandes deveria explicar a razão de continuar faltando às obras da
fábrica de ferro, no prazo 15 dias, caso contrário o Sousa Coutinho mandaria “proceder
asperamente” contra ele por causa de sua desobediência112. Evidente menção a incursões
militares às terras de Kabuku como punição, caso ele não cumprisse a ordem. Essas razias
rendiam grande número de escravos113.

108
Carta de Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro da Nova Oeiras, para FISC. Nova
Oeiras, 28 de dezembro de 1771. SGL, AA, v.3, n. 29, p. 361-393.
109
Carta de FISC para José Tomás Vaz Vieira, capitão-mor de Cambambe. São Paulo de Assunção, 10 de
janeiro de 1772.SGL, AA, v.3, n. 29, p. 361-393.
110
Por mais que s tentasse acabar com a política de estender as mercês aos sobas em forma de patentes, elas
eram comuns. Uma importante estratégia para incorporar chefias africanas para cargos da administração
portuguesa. Ao mesmo tempo em que gerava novas hierarquias nos sertões. C.f.: Ariane Carvalho da Cruz,
Militares e militarização no Reino de Angola: patentes, guerra, comércio e vassalagem (segunda metade do
século XVIII). Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2014.
111
Carta de FISC para D. André Fernandes Soba Kabuku Kambilu. São Paulo de Assunção, sete de maio de
1772. SGL, AA, v.3, n. 30-33, p. 401-445.
112
Carta de FISC para D. André Fernandes Soba Kabuku Kambilu. São Paulo de Assunção, 29 de julho de 1772.
AHA, Códice 80.
113
Joseph C. Miller, Poder político e parentesco: os antigos Estados Mbundu em Angola. Trad. Maria da
Conceição Neto. Luanda: Arquivo Histórico Nacional de Angola, 1995, p. 150.
181

Não sabemos se o Kabuku foi atacado pelo capitão-mor de seu presídio, mas
parece que foi repreendido porque, em setembro do mesmo ano, assinou um termo em que
prometia “cumprir, observar e executar” as ordens do intendente da fábrica, “sob pena de
castigo”, não deixando faltar “um só negro no tempo competente” a que tinha se obrigado a
enviar114. Segundo os relatórios dos sobas que enviavam trabalhadores para Nova Oeiras, o
Kabuku continua neste serviço até 1773 (ver anexo 5, tabela 5.5).
É interessante observar que, mesmo sob ameaças, o soba Kabuku descumpriu
sucessivamente as determinações do intendente da fábrica, do capitão-mor e do governador.
Ao que tudo indica, a importância desse título político africano se consolidou ao longo do
tempo, pois no século XVIII o Kabuku detinha grande número de dependentes sob seu
domínio. A história das relações políticas e econômicas deste sobado com os agentes
coloniais revela uma trama complexa que passa da “colaboração à resistência”, da “adaptação
à rejeição”115, em que os titulares do sobado conseguiram a duras custas, com constantes
repreensões e ameaças, manter a soberania ao longo do tempo.
Esses embates põem manifesta a tensão que permeava as relações entre o governo
de Luanda e os funcionários régios do interior, bem como destes com os comerciantes e sobas
vassalos. Por outro lado, com o advento da fábrica de ferro, as autoridades locais se
encontravam ainda mais pressionadas a enviar seus dependentes para atender as muitas
demandas descritas até aqui. Mesmo em uma situação de múltiplas tensões, os sobas valeram-
se da prerrogativa de que todas essas demandas dependiam do trabalho de seus dependentes e
isso lhes garantiu alguma margem de ação.
No “mapa dos sobas e ilamba que se desanexam do serviço da fábrica por serem
remissos em aprontarem seus filhos para o serviço dela” constam 37 autoridades locais que
também abandonaram os serviços da fábrica e, por isso, voltaram a pagar os dízimos116. Entre
elas não encontramos o ndembu Kakulo Kakahenda, que foi expulso dos serviços da fábrica
pelo intendente ao que parece porque não tinha “filhos” o suficiente para enviar. Isso porque,
em dezembro de 1771, o ndembu foi readmitido na fábrica de Nova Oeiras. O governador
ordenou que o intendente devia tornar a recebê-lo, mesmo que o ndembu pudesse enviar

114
Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, intendente da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção, nove
de setembro de 1772. AHA, Códice 80.
115
Jill Dias, “O Kabuku Kambilu (c. 1850-1900). Uma identidade política ambígua”, p. 15.
116
O soba Kabuku não consta na listagem. “Mapa dos sobas e ilamba que se desanexam do serviço da fábrica
por serem remissos em aprontarem seus filhos para o serviço dela e devem de hoje em diante, pagar o dízimo
pela nova regulação que se fez”, s/d. ANTT, Condes de Linhares mç. 46, doc. 11.
182

apenas 16 trabalhadores por mês117. Sousa Coutinho chegou a determinar que o intendente das
fábricas enviasse soldados para punir os sobas que se beneficiassem com a isenção dos
dízimos e não enviassem trabalhadores. Ao tomar essa medida violenta, a conclusão do
governador era de que os próprios sobas, pela sua desobediência, geravam as violências de
que se queixavam118. Raciocínio plausível com o conceito de guerra justa, já que os sobas
deviam obediência enquanto vassalos e, uma vez, que se rebelavam, passavam a merecer os
castigos que estavam previstos nos autos de vassalagem.
Ao que parece, ao tentar fugir das violências dos cobradores dos dízimos, essas
chefias acabaram por vivenciar os abusos do governo de Luanda e de seus funcionários nas
fábricas de ferro. No caso do soba Kabuku, de Cambambe, a justificativa para sua
desobediência era a incapacidade de atender simultaneamente múltiplas demandas, uma
situação que seguramente se repetia em outros sobados. Em contrapartida, os relatos das
razões das fugas dos súditos dos sobas da povoação de Nova Oeiras são mais abundantes. Em
uma representação do soba D. Manoel Mendes Kisala ao governador de Angola, ficam
explícitas as razões por que seus dependentes desertavam dos trabalhos da fábrica. Ele se
queixava dos “muitos castigos, insolências, prisões e roubos” que seus filhos sofriam em
Nova Oeiras119. Além disso, ao contrário do que determinavam as portarias de 1768 e 1770,
os súditos do soba Kisala não recebiam pagamentos porque realizavam o serviço de limpeza
da povoação, o que para o governador era “bem comum” e por isso não precisava ser
remunerado120.
Essa não é única indicação de falta de pagamentos. Em outubro de 1767, o
governador explicou ao intendente da fábrica que enquanto os mestres biscainhos não
chegassem não seria possível realizar pagamentos. Os filhos do soba Kabuku Kambilu, que
deveriam ser convocados para auxiliar aos soldados nas lavouras da povoação, ficariam sem
receber jornal. Somente na colheita receberiam a porção correspondente ao seu trabalho121.

117
Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro da Nova Oeiras. São
Paulo de Assunção, 22 de dezembro de 1771. SGL, AA, v.3, n. 29, p. 343-351.
118
“Primeira, a regulação dos negros na forma das minhas ordens, porque é injusto que estejam alguns sobas
isentos do Dízimo não trabalhando na Fábrica, e posto que eu disse que não fossem lá soldados pelos não vexar,
isto se entende obedecendo eles as ordens, porque não obedecendo é certo que eles vem a ser o que radicam o
mal de que se queixam, e como esta é uma matéria de grande consideração, espero que vossa mercê a não
omita”. Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira. São Paulo de Assunção, 16 de novembro de
1769. BNP, 8743, FF 6377.
119
Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro da Nova Oeiras. São
Paulo de Assunção, 24 de fevereiro de 1772. SGL, AA, v.3, n. 30-33, p. 401-445
120
Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro da Nova Oeiras. São
Paulo de Assunção, 19 de março de 1772. SGL, AA, v.3, n. 30-33, p. 401-445.
121
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das fábricas de ferro. São Paulo de
Assunção de Luanda, 27 de outubro de 1767. BNP, C 8742, F 6364.
183

Em 1770, José Francisco Pacheco, então inspetor das obras da fábrica, foi
admoestado pelo mesmo governador, já explicitamente ciente dos motivos das deserções: “os
negros do trabalho se queixam das pancadas que lhe dão e que por isso desertam, vossa mercê
evite semelhante tirania”122.
O verbo “desertar” era utilizado em meios militares. Para Bluteau “desertar” é
“termo militar, fugir e deixar o campo, o exército, guarnição, praça ou regimento, ou
companhia em que está qualquer soldado”123. Como já dito, a experiência militar de
arregimentar gentes para a guerra definia as relações estabelecidas com os súditos dos sobas
que eram “constrangidos” ao trabalho. Isso porque o governador esperava dos subordinados
dos sobados obrigações similares às esperadas dos soldados que sob seu mando enviava para
Nova Oeiras. Os filhos dos sobas, por sua vez, não estavam sob controle direto do governador
ou dos funcionários das fábricas, estavam ali em obediência aos seus makota, sobas. Mesmo
com todas essas tentativas de regular as relações de trabalho, a administração colonial
fracassou neste sentido – os líderes locais, ainda que sofrendo todas essas pressões,
conseguiram resguardar o domínio sobre suas gentes.
As notícias sobre pancadas, falta de pagamentos, roubos não eram novas, em carta
para o capitão-mor de Muxima, o governador advertiu:
“devo advertir a vossa mercê que pague por justo e moderado preço assim os
carpinteiros como os negros que os ajudarem porque El Rei não quer o
sangue de seus vassalos e toda realidade e desamparo desta conquista
consiste na falta geral de pagamento ao miserável suor do que trabalha
porque não há uma pessoa tão bárbara que recuse o serviço quando se lhe
satisfaz, e os mesmos negros tem a bastante razão para conhecer estes
princípios, se fogem ao trabalho é porque ele só lhe produz pancadas e
injúrias; sendo este o princípio da ruína e da decadência do país não é
possível que eu o siga principalmente quando para remediá-lo tenha feito
tantas diligências e tendo multiplicado todos os trabalhos”124.

Os próprios moradores das povoações foram proibidos de “usar de negros no seu


serviço particular”, uma referência aos “filhos”, pagos pela Real Fazenda. Eles se
aproveitavam da situação para que os súditos dos sobados os auxiliassem a “formar casas ou
servir [em] lavouras”125.

122
Carta de FISC para José Francisco Pacheco, inspetor das obras de Nova Oeiras. São Paulo de Assunção de
Luanda, 14 de maio de 1770. BNP, C 8743, F6377, fl. 189v.
123
Raphael Bluteau, Vocabulário portuguez e latino, 10 v. Lisboa/ Coimbra: Colégio da Cia. de Jesus, 1712-
1728, verbete “desertar”.
124
Carta de FISC para Antonio João de Meneses, capitão-mor de Muxima. São Paulo de Assunção de Luanda,
seis de fevereiro de 1768. AHA, Códice 79, fl. 78.
125
“Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, servindo o emprego de intendente geral da
fábrica do ferro, e que executarão também os capitães-mores, como intendentes particulares na parte que lhes é
respectiva” (FISC). São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 73.
184

Como se pode observar, há um ciclo de abusos: os trabalhadores sofriam maus-


tratos nas fábricas, pressionavam as chefias que deixavam de enviá-los e acabavam por sofrer
as violências dos soldados em suas povoações, mandados para puni-los e cobrar que
cumprissem suas obrigações de vassalos. Sobas e seus subordinados lutavam contra esses
abusos, ou seja, aquilo que não estava previsto nos tratados firmados com a Coroa.
Outra causa para a fuga eram os riscos de escravização. Toda essa gente nas mãos
de capitães-mores, intendente, funcionários da fábrica, pumbeiros, todos reconhecidamente
entrelaçados ao comércio, corria risco de ser capturada ou sequestrada. Os funcionários da
fábrica deveriam ser bem remunerados para evitar que comerciassem escravos, assim como o
eram os capitães-mores. Porém, isso não impediu que escravizassem muitos dos “filhos” dos
sobas para ali enviados, pelo menos temos alguns indícios para pensar assim. O governador
ordenou que o intendente restituísse ao soba Kisala os “filhos que lhe apreenderam
injustamente”, bem como tudo o que “lhe furtaram” três auxiliares da fábrica126. Além disso,
o intendente geral da fábrica de ferro, Antonio de Siqueira, foi afastado do serviço da fábrica
porque o governador descobriu que ele participava das redes do comércio. Isso não era bem
uma novidade, Siqueira era natural do Reino de Angola, havia servido como tenente e alferes
de cavalaria, e há muito se sabia que seguia “pelas andanças no sertão ‘fazendo negócio no
qual se perdeu’”127.
Alguns dos trabalhadores preferiam fugir e ir para os arimos da região a
trabalharem na fábrica. No arimo de Bernardo Rabelo, havia 20 trabalhadores ali “asilados”.
Sabendo disso, mandou-se, expressamente, que os trabalhadores fossem remetidos a Nova
Oeiras. Rabelo respondeu que não os conhecia e que seria melhor enviar alguém para o seu
arimo que os reconhecesse e, então, o seu maculunto (do kikongo, nkuluntu, o mais velho, o
superior) “os entregaria pontualmente”128. O militar Elias da Silva Correa disse que a maioria
dos proprietários de arimos raramente os visitava, por causa do medo das doenças dos sertões,

126
Depois disso, Sousa Coutinho mandou que os filhos de Kisala passassem a ser remunerados. Carta de FISC
para Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro da Nova Oeiras. São Paulo de Assunção, 19
de março de 1772. Arquivos de Angola, v.3, n. 30-33, p. 401-445
127
AHU, CCU, Avulsos Angola, 14 de março de 1756, Caixa 40, documento 119. Apud Ariane Carvalho da
Cruz, Militares e militarização no Reino de Angola: patentes, guerra, comércio e vassalagem (segunda metade
do século XVIII), p. 132. Sousa Coutinho nos conta essa história quando da nomeação do intendente: “entendo
que este homem [Siqueira] era o único que aqui havia para estes primeiros estabelecimentos, creio os servirá
muito bem, e fez uma grande fineza, abandonando o seu comércio, por que sendo um pouco maltratado nos dois
governos antecedentes, saiu do serviço militar, em que era antigo alferes de cavalaria e se fez negociante”. Carta
de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado da Marinha e Ultramar. São Paulo de
Assunção de Luanda, 17 de fevereiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 73.
128
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente das fábricas de ferro. São Paulo de Assunção de
Luanda, 18 de fevereiro de 1767. BNP, C 8742, F6364.
185

deixando a cargo de um feitor a produção e o trabalho dos escravos, esse homem de


confiança, o maculunto, também poderia ser um escravo129.
Os relatórios enviados a Antonio de Lencastre permitem perceber que a
construção e a manutenção da fábrica custaram o sangue de seus trabalhadores. O testemunho
de 1773 é do capitão de infantaria José Francisco Pacheco, que servia de inspetor das obras da
Fábrica e que acompanhou os quatro mestres biscainhos enviados para ali, assim como
portugueses e degredados dos ofícios de ferreiros, carpinteiros, cabouqueiros e condutores,
além dos soldados e mais gentes mandadas para povoar Nova Oeiras. Deste contingente
(aproximadamente 168 pessoas, pelas nossas contas), contabilizou o capitão 77 mortos
brancos e centos de negros, que sequer foram registrados em suas anotações por terem sido
muitos – a tal ponto que não conseguia manter atualizados os seus registros130.
O capitão Pacheco garantiu que os jornais eram pagos na forma estabelecida,
inclusive as viagens de ida e volta. Sobre as condições de trabalho, afirmou o seguinte:
“É constante que grande número de pretos desertaram e desampararam as
suas antigas povoações e que outros acabaram a vida lastimosamente nesta
fábrica, e nas viagens, uns de moléstias naturais, e outros de mil desastres,
como pisados de pedras ou entulhos, afogados nas passagens dos rios em
tempo de cheias, e alguns apanhados do jacareo (sic), o que está sucedendo
ainda na mesma fábrica, e tudo acontecido por causa dos mesmos trabalhos,
como bem publicam os capitães-mores dos presídios e clamam os sobas e
ilamba pois dos mesmos falecidos e desertores, cujo número de uns e outros
ao certo é impossível saber-se131”.

A citação corrobora o que pode ser encontrado em outros documentos citados até
aqui: a experiência da fábrica expõe as tensões que existiam nos sertões acerca do uso do
trabalho dos “constrangidos”. Essas situações teriam provocado um “entranhável ódio” na
forma como os Ambundos concebiam os trabalhos da fábrica, sendo necessário os “mandar
buscar com violência”. O relato de Pacheco informa ainda como os trabalhadores eram
conduzidos até Nova Oeiras: eram levados pelos makota, os conselheiros dos sobas, a quem
os súditos Ambundos deviam respeito, obediência, a quem temiam. O medo de ir para Nova
Oeiras era tanto que os trabalhadores fugiam dos seus “próprios” makota ainda no caminho
para a fábrica132.

129
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, v. I, p, 112.
130
“Não posso porém atestar o número dos pretos que vinham servir naqueles trabalhos e que neles morreram
porque foram centos deles, e não tinha tempo para assentar o número daqueles miseráveis”. Carta de José
Francisco Pacheco. São Paulo de Assunção, 13 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D. 28.
131
Carta de José Francisco Pacheco. Nova Oeiras, cinco de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D. 28.
132
Idem. Nota-se que o espanto é do autor da carta: “fugiam dos próprios makota”.
186

Um documento literário de época, uma carta anônima, que versa sobre os


fracassos da fábrica de ferro, também fornece indícios de como eram feitas as conduções.
Uma das personagens afirma que ia para a fábrica todos os meses “centos e centos de negros,
que viviam distantes dois, quatro, até oito dias de viagem”, e que eles eram conduzidos “com
guardas e prisões, como se os levassem para um suplício”. O uso de cadeias e a escolta de
guardas foram medidas empregadas para evitar as fugas recorrentes. Isso se confirma na
continuidade do relato que muito se assemelha com o feito pelo inspetor das obras, José
Francisco Pacheco:
“Sabe vossa mercê também que estes negros andavam sempre à espreita da
ocasião de poderem desertar; e que repetidas vezes o faziam aos 29 dias de
trabalho, sem que um único que faltava a completar o mês os detivesse a
esperar o pagamento; perdendo todos jornais vencidos, de muito boa
vontade, só por não perder um dia de escapar-se. O pior é que nenhum destes
desertores tornou a buscar a sua antiga povoação; porque com o receio de
serem reconduzidos para a fábrica se tem entranhado pelos matos, e por essa
causa se acham os Estados de muitos sobas quase despovoados”133.

No que diz respeito ao cotidiano do trabalho nas fábricas, encontramos


concordância entre as fontes, tanto as contemporâneas a Sousa Coutinho, sua própria
correspondência, quanto as escritas para criticar seu governo. Por exemplo, a fuga antes de
receber os pagamentos também foi citada pelos funcionários da fábrica de ferro: a situação era
tão crítica que os trabalhadores não se interessavam pelo pagamento, “fugiam antes de recebê-
lo” mesmo que no vigésimo nono dia de trabalho134.
A resistência à escravidão no Reino de Angola, com ênfase nas fugas, tem sido
alvo de importantes contribuições de historiadores comprometidos em afirmar que resistência
foi fenômeno “constante em qualquer parte onde o resgate de escravos se tornou endêmico e a
escravidão floresceu”135. A análise sobre a formação de comunidades de fugitivos, como o
caso citado do Bondo e de quilombos, também aponta nesta direção136. Esses estudos nos

133
A semelhança entre o relato de José Pacheco e do interlocutor anônimo deste documento nos leva a duas
hipóteses: José Francisco é o autor dos dois documentos ou quem escreveu a carta anônima leu os relatos do
Pacheco. De toda forma era alguém que teve acesso à documentação elaborada sobre a fábrica. “Resposta que
um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”. s.l, s.d. BNP, Reservados, MSS Caixa
246, n. 22.
134
Carta de José Francisco Pacheco. Fábrica da Nova Oeiras, cinco de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57,
D. 28.
135
José C. Curto, “Resistência à escravidão na África: o caso dos escravos fugitivos recapturados em Angola,
1846-1876. Afro-Ásia, n. 33, 2005, p. 72. Roquinaldo A. Ferreira, “Escravidão e revoltas de escravos em Angola
(1830-1860)”. Afro-Ásia, 21-22, 1998-1999, p. 9- 44.
136
Beatrix Heintze, Asilo ameaçado: oportunidade e consequências da fuga de escravos em Angola no século
XVII. In: Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 507-539; Ainda Freudhental, “Os Quilombos de
Angola no Século XIX: A Recusa da Escravidão”. Estudos Afro-Asiáticos, n. 32, 1997; Roquinaldo Ferreira,
“Slave flights and runaway communities in Angola (17th-19th centuries)”, 2014.
187

auxiliam a reconstruir a história das experiências dos trabalhadores de Nova Oeiras que afinal
eram submetidos a condições de trabalho próprias da escravidão; a diferença é os
“constrangidos”, segundo regulamentação colonial, não deveriam ser tratados da mesma
forma137.
Para Roquinaldo Ferreira, uma das principais razões para as fugas de cativos, em
Angola, eram justamente as condições extenuantes de trabalho138. Afirmação que relativiza a
tese de que os africanos escravizados fugiam, e formavam comunidades de fugitivos,
majoritariamente pelo receio de serem embarcados e acabarem nas malhas do tráfico
transatlântico139. As fundições de ferro mostram que a exploração local do trabalho foi fator
decisivo para as fugas não só de escravos, mas de africanos livres sob um regime de trabalho
compulsório.
A análise desse conjunto documental revela que a principal consequência das
condições de vida e de trabalho a que os Ambundos foram submetidos foi o despovoamento
dos sobados. Os trabalhadores fugiam das “costumadas violências”140 do sertão, das pancadas
dos funcionários das fábricas, das pesadas tarefas que os aguardavam, carregando minério,
pedras para a cantaria, rompendo serras, cortando madeira para fabricar carvão, junto à
fundição do ferro. Eles não retornavam para suas povoações porque tinham medo de serem
enviados novamente para a fábrica. As continuadas deserções deixaram os sobados
despovoados, traziam instabilidade e insegurança, diminuíam a autonomia e ameaçavam o
poder dos sobas e dos makota, que tinham de escolher quem entre seus dependentes seguiria
para o trabalho mensalmente. Não é de admirar que muitos se desanexaram do serviço de
Nova Oeiras ou se recusaram a enviar suas gentes para ali.

137
A pesquisa mostrou que os escravos em Nova Oeiras aparecem em menor número, como analisamos mais
adiante neste capítulo.
138
Roquinaldo Ferreira, “Slave flights and runaway communities in Angola (17th-19th centuries)”, p. 70.
139
Para Thornton, o regime de trabalho local era fator de menor peso que a perspectiva de ser embarcado para as
Américas. “Where one can see clearcut opposittion to slavery in Africa is in its runaway communities. In some
cases, these are clearly connected to resistance to export in the Atlantic slave trade, as was the case in the slave
runaway communities that grew up south of the Kwanza River in Angola [Kisama], and dogged the Portuguese
for virtually the whole length of their tenure there. Likewise, the thousands of slaves who were harbored in
southern Kongo, similar runaways, were fleeing the deadly prospect of trans-Atlantic transportation and not a
labor regime”. John Thornton, “Africa and Abolitionism”. In: Seymour Drescher; Pieter Emmer (Eds.). Who
Abolished Slavery? Slave Revolt and Abolitionism: A Debate with João Pedro Marques. New York: Berghahn
Books, 2010.
140
Expressão usada quando o governador comentou sobre o pagamento dos Ambundos: “(...) até o preço dos que
trabalham nesta cidade possam não só viver contentes e satisfeitos de ganhar a vida nas suas próprias casas, mas
que a sua alegria faça atrair mais outros negros dispersos de forma que em lugar de ficarem desertas as
habitações pelas costumadas violências deste sertão, sejam estas as mais florentes, e povoadas de todo ele”.
Carta de FISC para João Baines, tenente general. São Paulo de Assunção de Luanda, oito de março de 1766.
BNP, C-8742, F-6364.
188

A questão do despovoamento é controversa na historiografia. Thornton defende


que o tráfico transatlântico não trouxe impactos significativos na constituição interna das
sociedades centro-africanas. As perdas demográficas foram recuperadas com a reprodução
biológica porque as mulheres africanas não eram o principal alvo do tráfico. Já para Miller, as
reconfigurações demográficas na África Centro-Ocidental foram resultado de fatores
ambientais, como mudanças climáticas, doenças e fomes, e não do impacto das exportações
de escravos141. Vansina, Heintze, Candido e outros autores, quando abordaram situações
históricas específicas na região, relacionaram o impacto da demanda por escravos, da
economia atlântica, e a expansão da ocupação colonial como razões da desagregação política
de chefados, que levaram ao despovoamento de regiões inteiras142. O trabalho constrangido
regulamentado pela iniciativa colonial foi fator de instabilidade política e econômica na
região, levando as autoridades coloniais reconhecer o despovoamento dos sobados que eram
fonte de trabalhadores para as fundições de ferro.

3.3 Domínio, dependência e relações de trabalho

Os “filhos” que estavam sob a tutela dos sobas eram chamados de “negros
habitantes”, “negros lavradores”, “pretos trabalhadores”, “pretos dos sobas”, “gentes”,
“negros tecelões”, “povos confinantes” (aos presídios), “pretos cultivadores”, “ajudatários”
(sic), “serventes”, “naturais”, “habitantes nos matos”, “povos sujeitos aos sobas”, “pobres
negros”, “filhos capazes para o trabalho”143. De imediato sua identidade está relacionada ao
trabalho: lavram, tecem, cultivam, são “capazes de trabalhar”, geram riqueza. Aparecem nas
fontes como dependentes, súditos, subordinados e, como disse Vansina, “com demasiada
frequência, as sociedades rurais africanas são consideradas como se fossem apenas uma parte
da paisagem”144.

141
John Thornton, “The slave trade in eighteenth century Angola: Effects of demographic structure”, Canadian
Journal of African Studies, 14, n.3, 1980, p. 417-427; Joseph Miller, “The significance of drought, disease, and
famine in the agriculturally marginal zones of West Central Africa”. Journal of African History, 23, 1982, p. 30.
142
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”; Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e
XVII; Mariana Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World, 2013.
143
Reunimos essas designações ao longo da pesquisa. Ver: Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola,
Lisboa: Clássicos da Expansão Portuguesa no Mundo. Império Africano, 1937, v. I e II. Cadornega, História das
Guerras Angolanas (1680). Anotado e corrigido por José Matias Delgado. Lisboa: Agência-geral do Ultramar,
1972, v. I, II e III.
144
Trocaria aqui apenas “sociedades rurais” por “sociedades dos sertões” para não incorrer nas oposições rural
versus urbano; populações rurais versus populações industriais que não existiam para a época e pouco ajudam no
momento da análise. Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”, 2005, p. 3.
189

Para o governador de Angola, essas pessoas estavam sob domínio dos líderes
locais o estatuto jurídico dos “filhos” enviados para trabalharem nas fábricas de ferro era o de
livres. Em 1769, ele afirmou que ali trabalhavam algo em torno de “400 negros livres”145 por
mês. Sousa Coutinho os reconhecia como livres porque supostamente eram remunerados e
bem tratados. Como vimos até aqui, essas premissas não correspondem de forma alguma à
situação a que foram submetidos os “filhos” dos sobas e às ordens que o governador dava aos
funcionários de Oeiras. O que as fontes mostram é que, do ponto de vista dos trabalhadores,
sob um regime de maus-tratos e trabalho extenuante, de pouco valia ser pago com os
diminutos salários que o serviço da fábrica oferecia.
As ideias de Sousa Coutinho de um trabalho bem pago e sem maus-tratos eram
resultado de uma experiência histórica de fracassos no recrutamento da mão de obra local,
como no caso das minas de ouro do rio Lombige, mas não só. Esse governador estava inserido
nas principais discussões sobre como efetivar um maior controle sobre as populações locais
nas diferentes colônias do Império português. Um exemplo paradigmático é o do Diretório
dos Índios, de 1757, projeto pombalino que reorganizou o trabalho indígena na América
Portuguesa. Quem implementou as normas legais do Diretório nas terras brasílicas foi
Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal e um dos principais
interlocutores de Sousa Coutinho, pois foi secretário de estado durante o seu governo. Antes
de assumir a pasta da Marinha e Ultramar (1760-1769), Mendonça Furtado foi governador da
província do Grão-Pará e Maranhão (1751-1759).
De forma geral, antes do Diretório, os índios podiam ser livres ou escravos. Os
índios aldeados eram livres, haviam sido cooptados por missionários a deixarem os sertões e
viver em aldeias próximas às povoações dos portugueses. Essa prática era conhecida como
“descimento” e tinha por objetivo “tanto a civilização dos índios quanto a utilização de seus
serviços”146. As aldeias eram habitadas apenas pelos clérigos, que as dirigiam, e os índios. Os
moradores das proximidades poderiam alugar o serviço de índios, que desde o início era
remunerado: “sejam as aldeias administradas por missionários ou por moradores, as leis
preveem o estabelecimento de taxa, os modos de pagamento e o tempo de serviço”147. A
forma como o tempo de trabalho era divido visava possibilitar que os índios cuidassem de seu
145
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de estado da marinha e ultramar. São
Paulo de Assunção, 29 de dezembro de 1769. AHU_CU_001, Cx. 50, D. 64
146
Beatriz Perrone-Moisés, “Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período
colonial (século XVI a XVIII)”. In: Manuela Carneiro da Cunha, História dos Índios no Brasil São Paulo:
Companhia das Letras, 1992. Ver também: John Monteiro, Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens
de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
147
Beatriz Perrone-Moisés, “Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período
colonial (século XVI a XVIII)”, p. 129.
190

sustento nas roças das aldeias. O “bom tratamento dos índios” (“bondoso e pacífico”) era
sempre recomendado, embora raramente cumprido, já que os moradores dos sertões tentavam
manter os índios aldeados como escravos.
Em muitos aspectos podemos comparar os índios aldeados com os Ambundos que
trabalhavam em Nova Oeiras: eram livres, deveriam receber salário, ser bem tratados, eram
incentivados a não trabalhar durante todo o ano para promover a agricultura. E o mais
importante, o acesso a essa mão de obra era mediado; na América Portuguesa, as aldeias eram
dirigidas por missionários que negociavam com os moradores sobre os salários e tempo de
serviço indígena; no Reino de Angola, o acesso ao trabalho dos moradores dos sobados
também era mediado pelos sobas e makota, que de certa forma também negociavam os
salários, já que ofereceram a gratuidade do serviço em troca da isenção dos dízimos.
Com o Diretório esse quadro mudou, nos sertões da América portuguesa, todos os
índios foram declarados livres e as aldeias foram transformadas em vilas. Ainda assim, eles
eram obrigados ao trabalho, mas sob outras regras. A mediação dos missionários já não
existia, os índios deveriam ser “governados no temporal pelos juízes ordinários, vereadores, e
mais oficiais de justiça”. Segundo José Alves de Souza Junior, “a instituição do regime do
Diretório representou a completa laicização da administração das povoações indígenas
existentes no estado do Grão-Pará e Maranhão”148.
Outra informação que nos interessa de perto é que todos os índios maiores de 13
anos deveriam ser anualmente matriculados como “capazes para o trabalho”. Exatamente a
mesma expressão utilizada nos inventários em que constavam os “filhos capazes para o
trabalho” dos sobas. As comparações não se limitam ao dito até aqui. Nos sertões da América
portuguesa, as disputas pelo trabalho indígena entre moradores, missionários e autoridades
coloniais eram frequentes, bem como os abusos e maus-tratos tanto junto às obras públicas,
quanto nos serviços prestados a particulares149.
A grande diferença entre estas experiências históricas era o domínio dos sobas
sobre os seus “filhos”. Enquanto o Diretório foi uma norma legal bem-sucedida no sentido de
retirar dos missionários o controle sobre a mão de obra dos índios aldeados, as portarias de
Sousa Coutinho em que se regulamentava os jornais dos “pretos trabalhadores” e garantia o
bom tratamento (o fim das “vexações” e “violências dos sertões”) dos súditos dos sobados

142
José Alves de Souza Júnior, “Negros da terra e/ou negros da Guiné: trabalho, resistência e repressão no Grão-
Pará no período do Diretório”. Afro-Ásia, v. 45, 2013, p. 173-211.
149
Idem. Ibidem. A concorrência pela utilização de índios nos serviços públicos e particulares incomodava muito
os colonos. Em 1703, a Companhia de Comércio do Maranhão apresentou à Coroa portuguesa uma exposição
em que protestavam contra o emprego de 400 índios no serviço do Arsenal da Marinha. Idem, p. 178.
191

não foram suficientes para tirar das mãos dos sobas e makota o domínio sobre os seus
dependentes.
É preciso lembrar que, no interior das sociedades Ambundas, assim como em
outras da África, o poder de uma chefia era mensurado pelo número de dependentes que
estavam sob seu controle. Para os sobas, os seus subordinados, fossem eles livres ou escravos,
e os serviços prestados por eles constituíam sua principal fonte de riqueza. Esse domínio se
assentava nas normas do parentesco matrilinear, em que os filhos dentro de um sobado não
pertenciam nem ao pai ou à mãe, mas à família da mãe, nomeadamente ao tio materno, que
era o chefe dos filhos de suas irmãs, que controlava alianças matrimoniais, as “transações
implícitas ao casamento e dotes, decorrentes da circulação das mulheres”150.
Como explicou Paul Lovejoy, dentro de uma linhagem, “os mais velhos
controlavam os meios de produção e o acesso a mulheres, e dessa forma o poder político era
baseado na gerontocracia”. Na ótica africana, as relações de trabalho estavam perpassadas por
laços de dependência, pois “os dependentes eram mobilizados no interesse da linhagem de
acordo com a determinação dos mais velhos” para as expedições de caça, a defesa das
povoações, as cerimônias religiosas151.
Os laços de dependência em épocas de dificuldades poderiam se tornar mais
precários justamente para os que mais se amparavam nelas, os parentes mais jovens, que não
tinham recursos financeiros ou mesmo idade para cuidar de si mesmos. Então, era preciso
construir outras ligações que não as biológicas que as suplementasse, uma dessas conexões
seria o penhor. Não era por acaso que as crianças eram as mais retidas como garantia de
dívidas.
De acordo com Lovejoy, a escravidão também era um laço de dependência152.
Desde muito cedo os agentes coloniais souberam identificar quem, entre os africanos,
segundo as “leis dos sobas”, era livre. Segundo Beatrix Heintze, no reino do Ndongo, no
século XVI, os jesuítas portugueses registraram que os prisioneiros de guerra e os escravos
comprados eram chamados de “mobicas” (do kimbundu mubika, pl. abika), já os Ambundos
escravizados eram conhecidos por “quisicos” (do kimbundu kijiku, pl. ijiku). A escravização
era uma pena imposta a criminosos. O termo “quisico” era empregado pelos colonizadores
para designar a “totalidade da população escrava por oposição aos “morinda” (kimbundu:

150
Sobre sociedades matrilineares na África, ver: Christian Geffray, Nem pai, nem mãe. Crítica do parentesco: o
caso Macua. Lisbo : Caminho, 2000.
151
Paul E. Lovejoy, Transformations in slavery: a history of slavery in Africa [1983]. 2 ed. Cambridge:
Cambridge University Press, 2000. p. 13; Joseph C. Miller, Poder político e parentesco: os antigos Estados
Mbundu em Angola, 1995.
152
Idem, p. 14-15.
192

murinda, pl. arinda), os Ambundos livres” que estavam organizados segundo linhagens
matrilineares. O verbete também teria sido usado para nomear “as aldeias destes mesmos
escravos” e “um determinado gênero de escravos, por exemplo, apenas os filhos dos
escravos”. O ngola servia-se dos ijiku como pagamento de tributos e recorria a eles para apoio
militar. Os ijiku tiveram grande importância na esfera política no Ndongo e,
“independentemente do fato de os superiores poderem dispor dos ijiku com maior liberdade e
decisão do que dos outros, é de presumir que a sua vida cotidiana nessas aldeias não tenha
sido muito diferente da vida população livre”153.
A autora pondera que Cavazzi observou que o vestuário dos escravos era mais
pobre. Além das aldeias de ijiku, havia também os escravos domésticos, provavelmente, já
chamados de mukama, desde finais do século XVI. Com o passar do tempo, em algumas
povoações, os escravos ganharam marcas de propriedade com a finalidade de impedir que
fossem trocados por outros de menor valor154. Em geral, a princípio, os escravos e os seus
descendentes não podiam ser vendidos. A principal diferença entre livres e escravos é o
pertencimento a uma linhagem. Como resumiu Vansina: “uma pessoa sem uma linhagem era
um escravo, uma pessoa com uma era livre”155. Daí o poder dos sobas e do conselho de
anciãos ser fulcral nessa relação de dependência, pois em grande medida, eram eles que
decidiam quem continuaria a pertencer a uma linhagem e quem seria expulso.
No episódio narrado por José Curto sobre os 10.000 súditos roubados do ngola,
no século XVII, até mesmo a herdeira que reclamava a posse dos súditos, disputando com o
rei do Ndongo, admitia que entre os milhares existiam vassalos que tinham fugido da
“violência de tiranos” – esses não eram escravos156. Em outro caso, Silvia Lara notou que
após a derrota do ngola e prisão de seus parentes, os seus súditos que deveriam ser
escravizados, como era previsto pela justiça da guerra, não foram porque os conselheiros do
Ultramar entenderam que deveriam permanecer “em poder dos reis e sobas circunvizinhos”.

153
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 486. Para Heintze, “havia uma hierarquia entre os
diversos tipos de escravos”. Os prisioneiros de guerra eram os “menos afortunados”, sendo inclusive utilizados
em sacrifícios humanos. O grau de “integração do escravo no seu próprio sistema sócio-político” era levado em
conta no momento de incorporá-lo na nova sociedade; dito de outro modo, a posição hierárquica que ocupava em
sua comunidade de origem era considerada no momento de lhe atribuir novas funções.
154
Heintze considera que isso acontecia também entre os Mbangala e, pela rainha Nzinga, em Matamba. Idem, p.
484 - 495.
155
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”, p. 6; Joseph Miller, Poder politico e
parentesco, p. 48.
156
José C. Curto, “A restituição de 10.000 súditos Ndongo ‘roubados’ na Angola de meados do século XVII:
uma análise preliminar”. In: Isabel Castro Henriques (ed.). Escravatura e transformações culturais. África -
Brasil - Caraíbas. Lisboa: Editora Vulgata, 2002, p. 185-208.
193

Afinal, muitos eram arinda, explicou Cadornega, “forros de sua nascença”157. Linda
Heywood também encontra o mesmo padrão de reconhecimento para o Kongo, os termos
“gente, naturais e naturais forros referem a um diferente grupo social” que os “fidalgos” e os
“de fora”158.
Havia ainda gradações entre a condição de livre e de escravo; existia, por
exemplo, o penhor. Uma pessoa livre poderia ser penhorada em troca de um empréstimo ou
como pagamento de dívida, mas permanecia livre e poderia ser a qualquer momento remida
pelos seus parentes. Para Vansina, a grande mudança em relação aos penhorados é justamente
que, no século XVIII, os penhorados passaram a ser fornecidos em “troca do empréstimo de
bens equivalente ao valor de um escravo”, como uma resposta a demanda crescente de
“produzir escravos” da economia atlântica. O autor considera que a prática se tornou comum
devido à concentração de poder em “matrilinhagens corporativas”, governadas pelos “mais
velhos” da linhagem que passaram a dispor de seus dependentes como forma de eles próprios
escaparem da escravidão (entregando o penhorado em seu lugar) ou para pagar dívidas, obter
bens e riquezas, uma vez que estavam envolvidos em uma ampla rede de endividamento em
torno das mercadorias que circulavam no âmbito do tráfico transatlântico159.
As autoridades coloniais admitiam que era comum pessoas livres, penhoradas, que
trabalhavam para pagar suas dívidas, ou as de outrem, fossem injustamente escravizadas,
sequestradas ou roubadas160. E, nesse caso, quando uma pessoa livre era capturada e/ ou
vendida como escrava, também já não fazia mais parte da linhagem.
No século XVIII, nessa região, o tráfico de escravos já havia se tornado o
elemento fundante da ordem econômica e social e foi por meio da ação de seus agentes
(traficantes, oficiais coloniais, entre outros) que a colonização se consolidou: a língua
portuguesa, a religião católica, novos padrões de alimentação e consumo, mudanças nas
relações de gênero tudo passou a entrar na órbita colonial ou a ser modificada por ela. As
formas legais e ilegais de escravização dentro dos sobados também se transformaram com a
pressão da economia atlântica. Sob influência portuguesa, mesmo antes da conquista, as
formas de escravizar os arinda, os livres dos sobados, já tinham sofrido alterações, sobretudo
em virtude do desenvolvimento do tráfico de escravos. Um exemplo disso é a “comutação da
pena de morte proferida em caso de rebelião contra o soberano, de adultério das suas

157
Silvia Hunold Lara, “Depois da Batalha de Pungo Andongo (1671): o destino atlântico dos príncipes do
Ndongo”. Revista de História (USP), n. 175, 2016, p. 214.
158
Linda Heywood, “Slavery and its transformation in The Kingdom of Kongo: 1491 1800”, Journal of African
History, 50, 2009, p.4.
159
Jan Vansina, “Ambaca Society and the Slave Trade c. 1760-1845”, p. 18.
160
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World, p. 78.
194

mulheres, ou de roubo, em escravidão perpétua” em desterro via inclusão do penalizado nas


redes do tráfico de escravos161.
Com certeza, o quadro era de insegurança na vida cotidiana dentro dos sobados,
os moradores que eram subordinados aos mais velhos de sua linhagem sentiam essas tensões e
se tornavam ainda mais dependentes dessas autoridades que poderiam protegê-los da
escravização. O perigo era real, estudos recentes têm mostrado que a escravidão era uma
ameaça principalmente aos vassalos: tanto os que moravam ao longo da Costa, participavam a
das redes de comércio e familiares, dominavam o português, quanto os que estavam sob
domínios das autoridades locais, apesar de estarem protegidos pela legislação portuguesa e
terem recorrido aos instrumentos de justiça frequentemente em caso de escravização
injusta162.
De certa forma, nesta tese vemos como a história do trabalho e das formas de
controle dos dependentes dos sobas se misturavam às concepções de escravidão da sociedade
escravista atlântica. Desse ponto de vista podemos entender por que os moradores de Ambaca
se tornavam patronos de agregados, “filhos”, que viviam em suas libatas e que apesar de não
serem escravos, por vezes eram tratados como escravos163.
Quando um “filho” era escolhido pelos makota para ir trabalhar em Nova Oeiras,
todo esse complexo universo de obrigações e laços de dependência era acionado. Desobedecer
aos anciões que controlavam a vida política e econômica de sua linhagem não era apenas uma
afronta aos espíritos dos antepassados, representava a perda de importantes conexões, que
eram ainda mais preciosas quando era preciso equilibrar-se na linha cada vez mais tênue que
delimitava os limites da escravização legal ou ilegal. É compreensível que muitas dessas
pessoas ao fugirem das violências a que foram submetidas nas fábricas de ferro não voltassem
para suas povoações de origem, quem poderia garantir que este ato de rebeldia não se tornasse
um motivo para ser escravizado?

161
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII, p. 486, p. 206. Para o Kongo, Duarte Lopes observou que
“você pode encontrar em São Tomé e Portugal não pequeno número de escravos nascidos no Kongo vendidos
pela necessidade entre os quais estavam alguns de sangue real e senhores principais”. Linda Heywood, “Slavery
and its transformation in The Kingdom of Kongo: 1491 1800”, p. 7.
162
Roquinaldo Ferreira, Cross-cultural Exchange in the Atlantic World. Angola and Brazil during the Era of the
Slave Trade. New York: Cambridge University Press, 2012. Mariana P. Candido, An African Slaving Port and
the Atlantic World. Benguela and its hinterland. New York: Cambridge University Press, 2013.
163
“Pois não há negociante naquela província [Ambaca] que não tenha duas e três libatas, ou povoações
agregadas a si para serviços próprios, aos quais povos defendem, e patrocinam tanto como a seus escravos, pois
como tais se servem deles, e o mesmo se pratica em todas as jurisdições e por esta razão publicam as perniciosas
vozes de culparem em tudo a fábrica”. Carta de Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica do ferro
da Nova Oeiras, para FISC. Nova Oeiras, 28 de dezembro de 1771. SGL, Arquivos de Angola, v.3, n. 29, p. 361-
393.
195

3.4 “Todos os que têm alguma luz do trabalho do ferro”

Portugal não era um país com tradição na exploração de minas de ferro. Ao


perseguir a meta de tornar o Reino de Angola um grande exportador de ferro que supriria as
demandas do império português e conquistaria novos mercados, Francisco de Sousa Coutinho
(e seus sucessores) recorreu ao conhecimento de todo ferreiro, fundidor, serralheiro, armeiro
que estivesse ou pudesse ser enviado para Angola – “onde agora são necessários todos os que
têm alguma luz do trabalho do ferro”164, em suas palavras. Artesãos para a construção do
edifício da fábrica também foram requisitados. De 1764 a 1790, um total de 85 oficiais
mecânicos passaram por Nova Oeiras: três cabouqueiros, dois canteiros, 21 carpinteiros, 14
ferreiros, nove fundidores, um fundidor e refinador de ferro, um funileiro, dois refinadores de
ferro, sete latoeiros, quatro serralheiros e 21 pedreiros. Porém, as personagens mais marcantes
nessa história foram os quatro biscainhos que para ali seguiram.
Em 1766, Francisco Xavier de Mendonça Furtado foi autorizado pelo rei a
procurar um “mestre de fora” que fosse estabelecer a fábrica. A cada nova carta trocada entre
o secretário do Conselho Ultramarino e o governador de Angola a espera pelos mestres era
tema recorrente. De Lisboa, Furtado procurava suprir a ausência do mestre enviando todos os
ferreiros e fundidores que podia para Angola, inclusive os que estavam nas cadeias do
Limoeiro165. Em território africano, Coutinho providenciava todos os detalhes para que,
quando chegassem, os mestres encontrassem as melhores condições de trabalho: casas foram
construídas, canoas toldadas para abrigar do sol providenciadas, um médico contratado, sem
mencionar o preparo e estoque de lenhas para o carvão e de minério para a fundição166. Levou
cerca de um ano até que, em 1767, o secretário do Ultramar recebeu uma carta da Vila de

164
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e
Domínios Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 27 de agosto de 1768. IEB/USP, AL – 082 – 087.
165
“Para que porém se adiante o que couber no possível a mesma fábrica, resolveu Sua Majestade que fossem
alguns oficiais de ferreiro, dos que se achavam presos nas cadeias desta Corte para se empregarem nesse
trabalho, reservando para quando for o referido mestre o mandar outros ainda mais hábeis para o total
estabelecimento da mesma fábrica”. Carta de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário dos Negócios
da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, para FISC. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, 21 de julho de 1767.
AHU, Códice 472 - fl. 124-126v.
166
Em 1768, Sousa Coutinho ordenou que o intendente se encarregasse dos preparativos: “Vossa mercê
suspenda a fatura do ferro e empregue os ferreiros somente no necessário às barras da medida que lhe mandei
para os reparos da Artilharia, empregando então todos os negros em ajuntar ferro bruto para que eles achem
muito pronto, e da mesma maneira carvão se houver meio de conservá-lo livre de umidade. É preciso que vossa
mercê faça adiantar a Fábrica do Tijolo, de maneira que eles possam ter logo ao menos doze milheiros prontos
para construir os fornos. Da mesma maneira fará fabricar mais canoas para que possa fazer-se a condução das
pesadas ferramentas”. “Quanto ás casas, espero que vossa mercê tenha feito algumas acomodações próprias para
estes homens, porque não estranhem mais este incômodo”. Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de
Siqueira, intendente da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, três de julho de 1768. IEB/USP, AL-
083-079.
196

Bergara, na província de Guipúzcoa, informando que os mestres estavam a caminho para


Lisboa167.
De uma forma geral, o Reino de Angola era um dos lugares mais temidos dos
condenados ao degredo, a viagem na maioria das vezes representava uma sentença de
morte168. Quais razões levariam um ferreiro ou fundidor espanhol a embarcar voluntariamente
nesta aventura? No caso, a remuneração deve ter sido um fator de peso, já que era alta, 2$400
rs por dia. Talvez como empregado em uma ferraria os rendimentos de um artesão biscainho
não chegassem a tanto ou variassem muito. Os ferreiros e fundidores do norte da Espanha
recebiam o equivalente à quinta parte do ferro que produziam169. Se fossem aprendizes, o
pagamento era ainda menor e poderia ser feito em roupas e sapatos. Um tempo em terras
distantes seria o suficiente para amealhar e alcançar melhores condições de vida.
Desconhecemos as outras razões que podem ter levado os mestres a aceitarem a
proposta, embora imaginemos que a aventura de instalar uma ferraria nos sertões de Angola,
conhecer de perto outras formas de fundição, tenha tido o seu peso. Fato é que, em abril de
1768, Joseph Manuel de Echevarria170, Francisco Xavier de Zuluaga171, naturais e vizinhos da
Província de Guipúzcoa, Francisco de Echenique172, do Reino de Navarra, e Joseph de

167
Carta de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário dos Negócios da Marinha e dos Domínios
Ultramarinos, para FISC. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, primeiro de maio de 1767. BNP, F3315.
168
Angola em especial era vista como a “própria residência da morte” devido ao clima, às sezões e às guerras
com os centro-africanos. FISC, “Memórias do Reino de Angola e suas conquistas, escritas em Lisboa nos anos
de 1773 e 1775”. BMP, Códice 437, documento 10.
169
Pablo Quintana Lopez cita quanto ganharam os trabalhadores da ferraria de Santa Eufemia, em Los Oscos,
durante o ano de 1679. O aroza, o ferreiro mais experiente e responsável pela ferraria, recebeu $900 rs, o
tirador, o forjador, e os dois fundidores auxiliares receberem cada um $400 rs, o tazador, o oficial mais baixo na
hierarquia, que poderia ser um aprendiz recebeu $200 rs. Esses valores estão desvalorizados para servirem de
parâmetro para o final do século XVIII, contudo nos ajudam a ter uma ideia dos baixos salários que os ferreiros e
fundidores recebiam. Pablo Quintana Lopes, La labranza y transformación artesanal delhierroenTaramundi y
Los Oscos. Siglos XVI-XVIII. Aportación a suconocimento. Taramundi: Associación “Os Castros”, 2005, Tomo
I, p. 143.
170
Rafael Ayo cita José Echevarri como um importante comerciante de minério de ferro em Portugalete, na
Biscaia, em 1826-27. Echevarri ou Chavarri era um dos quatro maiores comerciantes da região, com maior
número de negócios. Considero que uma ligação com o mestre enviado para Angola seja possível. Vale também
considerar que a família Chavarri procede de grandes proprietários de terras, minas de ferro e companhias
envolvidas no comércio do minério. Rafael Uriarte Ayo.“Minería y empresa siderúrgica em la economia
vizcaína pré-industrial (s. XVI-XVIII)”. XI Congreso Internacional de la AEHE, Madrid, 2014 p. 9 e 10.
“Algunos de los antiguos tratantes llegaron a convertirseen los principales productores de Bizkaia, de manera
que se formó una elite de mineros que controlaba gran parte de las concesiones, entre los que destacaban los
propietarios de origen local, especialmente los Ibarra, Chávarri y Ustara, que poseían concesiones de los
primeiros años de la demarcación minera”. Eneko Pérez Goikoetxea, Mineríadelhierroen los montes de Triano y
Galdames. Bilbao: E. Bilbao, 2003, p.65..
171
Há três ferrarias com o nome de Zuluaga em Guipúzcoa no levantamento que Luis Miguel Díez de Salazar
fez para a localidade, dos séculos XVI e XVII. Luis Miguel Díez de Salazar, “La indústria del hierro em
Guipúzcoa (siglos XIII-XVI) (Aportación al estudio de la industria urbana)”. La Ciudad Hispánica, Editorial de
la Universidad Complutense, 1985, p. 251-276.
172
Outra possível ligação familiar com os ramos relacionados às minas de ferro. Em 1825, José Francisco de
Echenique arrendou as ferrarias de Bereau e Biurra devido ao grande desemprego que assolava as ferrarias na
197

Retolaza, do Senhorio da Biscaia, foram contratados e convencidos a embarcar para o Reino


de Angola com o fim de “trabalhar no labor do ferro e em instruir outros neste ofício” durante
três anos. Dois deles comprometeram parte de seu ordenado para o sustento da família que
ficou na Espanha. Manuel de Echevarria remetia $600 rs de seu pagamento diário para sua
mulher Maria Josefa de Arana, na Vila de Bergara, em Guipúzcoa. Seu conterrâneo, Francisco
de Zuloaga estipulou a mesma quantia a ser enviada para seus tios, Francisco de Errasti e Ana
Batista de Aguirre, moradores na mesma vila173.
Em 24 de outubro de 1768, os biscainhos desembarcaram em Luanda. Até então,
haviam conseguido se livrar do contágio de “escorbuto”174, que vitimou 11 soldados e um
tambor durante a viagem. Hospedaram-se na casa de Sousa Coutinho e, no dia três de
novembro, partiram para Nova Oeiras. Mais de um ano após serem contratados e de uma
viagem de cinco meses e meio, em 14 novembro de 1768, os mestres chegaram àquela
povoação. Acompanhados pelos funcionários da fábrica, os mestres visitaram a região
circunvizinha para analisar o potencial dos rios, do minério e das matas e consideraram tudo
excelente.
No terceiro dia depois de sua chegada, em 17 de novembro, dois mestres
adoeceram e o médico José Serra Botelho lhes receitou sangrias e remédios. A botica da
povoação estava em péssimas condições, não havia medicamentos suficientes, fogareiro, nem
tacho para cozimentos, nem balança ou almofariz. O governador culpou o médico por não
cuidar do abastecimento contínuo da botica e, para prover algum socorro, enviou água de
Inglaterra, remédio amplamente empregado no combate a febres, tanto em Portugal quanto
nos domínios ultramarinos. O físico-mor luso-brasileiro José Pinto Azeredo em seus Ensaios
sobre algumas enfermidades de Angola disse se valer frequentemente dessa água porque
continha quantidades consideráveis de quina, mas era mais palatável que a quina pura175.

época. Pilar Erdozáin Azpilicueta, Fernando Mikelarena Peña, “Siderurgia tradicional y comunidad campesina.
La gestión de las ferrerías municipales de Lesaka y Etxalar en 1750-1850”. Vasconia, n. 32, 2002, p. 509.
173
Idem.
174
Encontramos a seguinte descrição no glossário publicado junto a edição comentada de Ensaios sobre as
enfermidades de Angola. Escorbuto também chamado de “mal de Luanda”. “Corrupção contagiosa do sangue
[...] figurando nos seus principais sintomas a aparição de manchas lívidas as diferentes partes do corpo, a
disposição para as hemorragias passivas, especialmente das gengivas, que estão moles, inchadas, fungosas e de
aspecto lívido”. Valdez: II, 387. In: José Pinto de Azeredo, Ensaios sobre algumas enfermidades de Angola
[1799]. Antonio Braz de Oliveira e Manuel Silvério Marques (ed.). Lisboa: Edições Colibri, 2003, p. 99.
175
José Pinto de Azeredo, Ensaios sobre algumas enfermidades de Angola, p.50. A quina foi imprescindível
para a expansão do império português. “Da Amazônia, no Brasil, foram transplantadas árvores para São Tomé,
onde se produziam toneladas de quina enviadas através dos domínios coloniais”. Jean Luiz Neves Abreu, “O
saber médico e as experiências coloniais nos Ensaios sobre algumas enfermidades de Angola”, In: José Pinto de
Azeredo, Ensaios sobre algumas enfermidades de Angola [1799]. Antonio Braz de Oliveira e Manuel Silvério
Marques (ed.), p. 204.
198

Após 16 dias de sua chegada, Joseph de Retolaza faleceu, segundo relatos do


governador, vítima de “escorbuto” e das más condições climáticas da região. As mesmas
causas levaram à morte Francisco de Zuluaga, no dia oito de dezembro, e Francisco de
Echenique, no dia 29 do mesmo mês.
Essas perdas foram lamentadas pelo governador em suas cartas, pois ele
começava a perceber a falência de seus recursos para manter a fábrica. O fato de Joseph
Manuel de Echevarria ter sobrevivido foi o argumento que usou com o secretário do Ultramar
para defender o sucesso que a fábrica ainda poderia ter. Isso porque esse ferreiro seria “o
melhor em sua arte”: “porque se este morresse e ficassem os três não se fazia nada, pois que
só ele possuía a sua arte, sendo os outros, um somente ferreiro, e os dois aprendizes de
fundição”176.
O investimento da Coroa portuguesa havia sido muito alto para que simples
explicações das causas dessas mortes fossem aceitas. Em pouco menos de um mês, foi
produzida uma série de pareceres dos funcionários da fábrica, do governador, do médico
encarregado da saúde dos biscainhos e do secretário do estado dos Domínios Ultramarinos.
Em primeiro lugar, Sousa Coutinho lembrou ao secretário do Ultramar que os mestres
chegaram em Angola na pior estação “para os novos vindos”, em novembro, durante as
torrenciais chuvas que arruinavam a agricultura e multiplicavam as doenças177.
Manuel de Echevarria suplicou ao governador que lhe permitisse retornar à sua
terra, mas não foi ouvido. Segundo Sousa Coutinho, não chegaria vivo nem a Muxima, quiçá
na vila de Bergara, na Biscaia. Para a infelicidade do governador, pouco tempo depois, em 23
de janeiro de 1769, Echevarria também faleceu vítima de uma violenta febre. Apesar do envio
de mantimentos, remédios, dos cuidados com o sol, em não “molhar os pés”, das sangrias, os
mestres não resistiram. As mortes foram atribuídas ao comportamento dos falecidos, que

176
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário dos Negócios da Marinha e dos
Domínios Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 25 de novembro de 1768. São Paulo de Assunção de
Luanda, 20 de janeiro de 1769, IEB/ AL – 082 -142.
177
Tanto era assim que o militar Elias Alexandre observou que “nos anos secos as moléstias são menos e mais
benignas”. Por exemplo, a doença conhecida como “carneirada”– “enfermidade anual, que leva muita gente à
sepultura” –, uma febre intermitente terçã, como é descrita nos Ensaios sobre as enfermidades de Angola (1799),
era frequente nas estações chuvosas. Também no glossário de Ensaios sobre algumas enfermidades de Angola;
Carneirada: “febre intermitente terçã. ‘Carneiraça ou carneirada, doença que dá na ilha de São Tomé’. Bluteau,
C, 153. ‘Desta podridão provêm aquelas febres pestilentas que chamam carneiradas nas minas do Mato Grosso,
Cuiabá e Guaiazes [Goiás]. Da mesma origem vêm outros males tão comuns a todo o Brasil como são os insetos
mais nocivos à saúde e outras moléstias vulgares’, Sanches, 1756, 31. Malária; epidemia de malária; moléstia
endêmica das margens do rio São Francisco, por ocasião das vazantes”. José Pinto de Azeredo, Ensaios sobre
algumas enfermidades de Angola, p. 94. Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, Lisboa: Clássicos
da Expansão Portuguesa no Mundo. Império Africano, 1937, v. I, p. 80. Carta de FISC para Francisco Xavier de
Mendonça Furtado. São Paulo de Assunção de Luanda, 26 de agosto de 1768. São Paulo de Assunção de
Luanda, 20 de janeiro de 1769, IEB/ AL - 082 – 089.
199

desprezaram os conselhos sobre os malefícios do clima e se excederam em comilanças e


bebedeiras178.
A morte foi realmente destino certo da maioria dos trabalhadores enviados para as
fábricas. Nas estações das chuvas, segundo Jill Dias e Joseph Miller eram mais comuns a
malária e as epidemias de varíola. As doenças do trato intestinal, especialmente as descritas
nas fontes como “disenteria” ou “diarreia”, além de problemas respiratórios, como bronquite,
pneumonia e tuberculose também eram responsáveis por endemias em Angola179.
Além dos biscainhos, houve ao menos uma iniciativa da Coroa portuguesa de
remessa massiva de trabalhadores europeus especializados para Angola, em 1771. Nesse ano
se produziu uma “relação dos oficiais mecânicos que se acham nomeados para embarcarem
para o Reino de Angola”: dois mestres latoeiros (um deles castelhano), um oficial de latoeiro,
um fundidor de sinos, um fundidor e refinador de ferro, um refinador e martelador de ferro,
um refinador de ferro (francês), dois fundidores e 8 carpinteiros (ver anexo 4). Os artífices
iam junto a oficiais militares, todos destinados a servir nas minas e fábricas de ferro. As
ferramentas e plantas para os engenhos das fábricas também seguiram nessa viagem:
caldeiras, serras, braga (uma espécie de laço) de ferro para os foles, modelos para os
aparelhos da ferraria.
Alguns mestres se destacam na listagem. Matheus Pirson Niheul era francês,
morador na rua do Vale, freguesia de Nossa Senhora das Mercês, em Lisboa. O “mestre de
refinar ferro” desembarcou em Angola em 1771. Na África, se estabeleceu em Nova Oeiras
com um jornal diário de 1$200 rs e se casou. Sua responsabilidade na fábrica era trabalhar a
massa de ferro fundida de modo a refiná-la, ou seja, retirar o máximo de escórias possível.
Seis anos depois, em 1777, quando a fábrica foi abandonada pelo governador Lencastre, o
mestre recebeu um aviso ordenando que voltasse para Portugal180.

178
Carta de Joaquim de Bessa Teixeira, intendente da fábrica de ferro, para FISC. Nova Oeiras, 27 de dezembro
de 1768. AHU_CU_001, Cx. 53, Doc. 8. Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário
de Estado da Marinha e Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 20 de janeiro de 1769. AHU_CU_001, Cx.
53, Doc. 8.
179
Jill Dias, “Famine and disease in the History of Angola c. 1830-1930”. The Journal of African History, v. 22,
n. 3, p. 358; Joseph Miller, “The significance of Drought, Disease and Famine in the Agriculturally Marginal
Zones of West Central Africa”. The Journal of African History, v. 23, n. 1, 1982, p. 23.
180
Matheus deixou em Lisboa uma mulher a quem prometeu casamento, Genoveva Lara. Inicialmente, a
apresentou como sua irmã solicitando que $240 rs de seu ordenado diário lhe fossem entregues. Em 1776,
escreveu aos Armazéns Reais de Lisboa pedindo que a pensão fosse suspensa porque Genoveva na verdade não
era sua irmã e ele já se encontrava casado em Angola. Em 1779, Genoveva solicitou que o débito fosse cobrado
porque ela não tinha condições de sustentar a si mesma e a seus irmãos e tampouco de se casar, já que fora
amante do ferreiro. “Relação dos oficiais militares, oficias mecânicos voluntários e degradados, e mais
degradados que devem embarcar na Sumaca que se acha próxima a partir para o Reino de Angola”. Palácio de
Nossa Senhora da Ajuda, a 22 de março de 1771. BNP, MSS Caixa 250, n. 71, Procuração de Matheus Pirson
Niheul, mestre de refinar ferro para que entregassem a sua irmã Genoveva Lara, uma pensão de 240 réis por dia
200

Dois serralheiros (cuja nacionalidade não é mencionada) que haviam fugido de


uma nau francesa também foram enviados para a fábrica. Antes passaram um tempo no
arsenal de Luanda, consertando armas. Um deles era um excelente cuteleiro e chegou a
confeccionar uma navalha com o ferro produzido em Nova Oeiras, que era propício para
instrumentos de corte, que depois foi enviada para Lisboa181. Diferente de um refinador de
ferro, não era de se esperar que um cuteleiro ou um serralheiro tivesse domínio técnico em
qualquer etapa da obtenção do metal. Seus conhecimentos seriam valiosos na fabricação de
objetos, como a navalha citada.
Francisco de Sousa Coutinho buscava diversos meios para implementar seu
projeto. Há relatos de que o governador de Angola se correspondia com outras autoridades do
império português em busca de ferreiros e fundidores, também de ferramentas e toda sorte de
ajuda que poderia obter. Em 1767, o então governador da Bahia, Conde de Azambuja,
mandou três ferreiros em resposta às súplicas de Sousa Coutinho – um português que havia
aprendido nas fábricas da Galícia e dois oficiais “excelentes”. Ao chegarem em Benguela,
“fiados na robustez do Brasil”, decidiram sair para caçar e depois disso adoeceram
gravemente e não resistiram. Ainda assim, o governador insistiu que o conde enviasse mais
um ou dois “que saibam perfeitos e habilmente o ofício de fundir o ferro na mina” e rogou
que se propagasse a notícia: “eles sabendo bem o dito ofício, hão de ganhar muito”. Solicitou
também que qualquer ferreiro que cometesse crime, na Bahia, tivesse como pena o degredo
para Angola, garantindo as despesas de viagem182.
O morgado de Mateus, governador de São Paulo (1765-1775), cunhado de Sousa
Coutinho, foi constantemente consultado sobre a possibilidade de envio de discípulos do
mestre responsável pela extração de ferro no morro do Araçoiaba, onde mais tarde se
instalaria a futura fábrica de ferro de Ipanema. O pedido era de ao menos um ou dois dos
aprendizes, isso seria o suficiente para lançar os fundamentos da fábrica: bastava os “que lhe
[ao mestre] tenham arrancado o segredo não só da fundição, mas da formatura da casa, e

pagos do ordenado de 1200 réis que ele vence. Lisboa, 12 de outubro de 1771. AHU_CU_001, Cx. 54, D.
101.Catálogo cronológico de todas as ordens régias que existem na Secretaria do Estado do Reino de Angola.
São Paulo de Assunção de Luanda, 18 de junho de 1777. AN (RJ), Códice 543. Carta de Genoveva Lara para a
rainha, D. Maria I. Lisboa, 11 de maio de 1779. AHI_CU_001, Cx. 65, D. 35.
181
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e
Domínios Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 27 de agosto de 1768. IEB/USP, AL – 082 – 087.
182
Carta de FISC para Antonio Rolim de Moura Tavares, conde de Azambuja, govenador da Bahia. São Paulo
de Assunção de Luanda, seis de agosto de 1767. BNP, C 8742, F6364, fl. 210.
201

engenhos”183. A propaganda de altos salários era reiterada em cada carta para essas
autoridades do ultramar português.
A prática de direcionar degredados de diversas localidades do império que
tivessem um ofício relacionado à fundição e forja de ferro para Nova Oeiras foi constante. Era
um contingente abundante e que não precisava necessariamente ser remunerado. Alguns dos
principais mestres de Nova Oeiras eram degredados, como o mestre carpinteiro Antonio
Joaquim de Almeida e Antonio Ribeiro, que construiu o forno da fábrica. De fato, essa
categoria de apenados constituía mão de obra importante para o Reino de Angola; eles
também estavam submetidos a condições precárias de trabalho em Nova Oeiras. Um dos
pedreiros responsáveis pela obra de cantaria do forno de fundição, Gregório José, foi mantido
em preso com calceta184 enquanto trabalhava, pois, apesar de ser um excelente artesão, era
também um “fino ladrão”185. Os oito degredados enviados em 1771 só receberiam “conforme
o seu merecimento”. Outros trabalhavam somente pelo seu alimento186.
Em um levantamento dos oficiais mecânicos de Luanda, de 1801, constam 374
trabalhadores divididos entre canteiros (4), pedreiros (46), pintores (2), torneiros (8), latoeiros
(6), ferreiros (26), penteeiros (3), calafates (11), carpinteiro de obra branca (52), carpinteiros
de ribeira (10), cabeleireiros (21), alfaiates (69), sapateiros (28), tanoeiros (44) e ourives (11).
Foram divididos entre mestres (65), oficiais (225) e aprendizes (84). Do total de 374 artesãos,
168 eram escravos e 206 homens livres187.
Não são mencionados libertos ou forros - o que não parece corresponder à
realidade já que a legenda do “mapa” registra que um dos carpinteiros era um “preto, velho e
liberto dos extintos jesuítas” e de um dos mestres torneiros também era um ex-escravo dos
religiosos. Talvez os libertos tenham sido contados junto com os livres, mas não se pode
afirmar isso porque os critérios de categorização não estão explícitos. O governador de então,
Miguel Antonio de Melo, que remeteu a listagem, notou ainda que entre os trabalhadores
livres muitos serviam como soldados e eram degredados da Europa e do Brasil. Apesar de a
maioria ser classificada como “oficial”, o que significa tinham completado a aprendizagem, o

183
Carta de FISC a Luis Antonio de Sousa, morgado de Mateus, governador de São Paulo. São Paulo de
Assunção de Luanda, seis de março de 1769. IEB/USP, AL-083-210.
184
Calceta: grilhão ou argola de ferro, que prende o pé do escravo ou do forçado de galé.
185
Carta de FISC para Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral das fabricas de ferro. São Paulo de Assunção
de Luanda, 10 de janeiro de 1772. Arquivos de Angola, v. III, n. 29, 1937, p. 361-363.
186
Em 1769, Sousa Coutinho remetia para Nova Oeiras “um preto pedreiro preso”, que receberia “o necessário
para o seu alimento”. Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira Intendente Geral das Reais
Fábricas do Ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, primeiro de janeiro de 1769. IEB/USP, AL-083-192.
187
“Mapa dos oficiais mecânicos que presentemente há nesta cidade, extraído do que se ordenou do estado da
sua povoação no mês de janeiro do corrente ano de 1801”. São Paulo de Assunção de Luanda, dois de abril de
1801. AHU_CU_001, Cx. 100, D. 4.
202

governador os julgava “tão imperitos que em outro qualquer país seriam reputados aprendizes
e ainda principiantes”188.
É interessante observar mais uma vez como a história do projeto de Nova Oeiras
suscita dados e temas relevantes sobre o trabalho no Reino de Angola. A contagem dos
artesãos foi feita tendo em vista a fábrica de ferro da Ilamba. O destinatário do documento é
Rodrigo de Sousa Coutinho, que nos últimos anos do século XVIII retomou os planos de seu
pai. Anexa ao “mapa” segue uma lista de trabalhadores que poderiam ser enviados para
trabalhar na reconstrução da fábrica.
Nesse cenário de escassez de mão de obra especializada, o degredo passou a ser
fonte permanente de fornecimento de artesãos. Se essa era a situação na cidade de Luanda, no
interior, era ainda mais difícil encontrar trabalhadores especializados para as obras reais. O
receio de enviar os degredados para os sertões era que, sem uma vigilância constante,
poderiam fugir, “desertar” como citam as fontes189. Justamente por isso, na tentativa de fugir
da prisão, muitos degredados mentiam sobre o exercício de um ofício. Por exemplo, em 1771
foram enviados cinco ferreiros para Nova Oeiras, mas apenas um deles era oficial de ferreiro,
“confessando os outros que para libertar-se da prisão que sofriam, se atribuíram os ofícios que
não tinham”190. Há que se relativizar aqui essa aparente falta de artesãos, os africanos eram
carpinteiros, ferreiros, tecelões, construtores e com certeza, aprenderam ofícios mecânicos nas
missões jesuítas ou servindo aos reinóis e brasílicos, muitos devem ter se valido dos ofícios
para inclusive amealhar pecúlio para a liberdade. De certo, tal como o governo colonial não
conseguiu controlar os ferreiros e fundidores e impor-lhes condições de trabalho alheias às
suas, também falharam com os demais trabalhadores manuais.
Além dos degredados, artífices voluntários seguiram para Angola. Assim como
Matheus Pirson, os mestres portugueses para ali embarcados receberiam 1$200 rs por dia, sem
contar com algumas ajudas de custo que compreendiam despesas com viagem e acomodação.

188
“Mapa dos oficiais mecânicos que presentemente há nesta cidade...”. Segundo as autoridades locais, a maior
parte dos serralheiros degredados só sabiam fazer pregos. “Também se precisam dois ou três bons serralheiros,
pois a terra os não tem, e os degredados que vêm com esse nome não passam de fazer pregos, com notável
prejuízo da Fazenda Real da Vossa Majestade”. Carta de Antonio Álvares da Cunha, governador de Angola, sem
destinatário. São Paulo de Assunção de Luanda, 28 de fevereiro de 1756. AHU_CU_001, Cx. 43, Doc. 4027.
189
As autoridades reclamavam de que nos presídios dos sertões a facilidade das fugas eram maiores. “A Real
Ordem de S. Majestade, expedida na data de 14 de novembro de 1761, pela qual ordena o mesmo senhor que
semelhantes ofícios sejam conservados presos no Trem desta Cidade pelo perigo de passarem aos sertões; e sem
embargo de que também nos ditos presídios nenhuma cautela há bastante para evitar semelhantes fugas, sempre
o mandei com as recomendações necessárias, não me atrevendo a tomar sobre mim outra resolução”. Carta de
FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios
Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 10 de junho de 1764. ANTT, Ministério do Reino mç. 600,
caixa 703, doc. 25.
190
Carta de FISC para Martinho de Melo e Castro, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios
Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 20 de setembro de 1771. BNP, C 8553, F6362.
203

Nota-se que os mestres e oficiais da comissão de 1771, que segundo a hierarquia dos ofícios
mecânicos eram os mais bem preparados entre os artesãos, recebiam a metade que os mestres
biscainhos que para lá foram em 1768 (seu jornal era de 2$400 rs). Contudo, o refinador
francês foi mencionado à parte, recebendo adiantado por quatro meses de trabalho e dois de
ajuda de custo - 108$000 rs. Logo, houve um esforço maior de convencimento, por parte dos
funcionários da Coroa.
Segundo uma carta do fundidor e diretor das fundições de ferro de Foz de Alge e
Machuca, na Vila de Figueiró dos Vinhos, Conselho de Tomar (Portugal), o francês José
Levache191, alguns portugueses refinadores de ferro que trabalharam nas minas foram
enviados na “época do Marquês de Pombal” para uma fábrica em Angola, onde faleceram.
Como é de se esperar, trata-se da fábrica Nova Oeiras. Francisco de Sousa Coutinho citou a
chegada dos “fundidores de Figueiró” e apresentou um parecer favorável de sua conduta pois
eram muito dedicados ao trabalho192. Eles seguiram na comitiva de 1771, onde constam os
sete empregados das minas de Tomar - quatro deles eram refinadores, marteladores de ferro, e
entre os outros três havia um mestre latoeiro, um oficial latoeiro e um fundidor de sinos (ver
anexo 4).
Na frente dos nomes dos fundidores de Figueiró lemos a expressão “voluntário
porém obrigado”. Essa frase diz respeito a que condições esses artífices foram mandados para
Angola. O termo “voluntário” significava que eram livres e que não foram condenados a essa
viagem como uma forma de punição, como no caso do degredo. “Porém obrigado” indica que
apesar de não ser punido por um crime, era a obrigação de ter sido nomeado pelo rei que os
constrangia ao embarque. Nos livros sobre Foz de Alge não encontramos detalhes sobre o
cotidiano do trabalho ali ou a forma como os oito funcionários foram remetidos para a África.
Alguns dados imprecisos são citados por Antonio Costa Simões, na “Topografia Médica das
Cinco Vilas e Arega” (1848)193, sem qualquer referência documental. Costa Simões disse ter
recolhido relatos junto à população local que diziam que o marquês de Pombal, por volta de
1760, havia mandado prender os fundidores, sem nenhuma justificativa.
Os mestres foram mantidos presos em Lisboa à espera do embarque “não sabem
se para Goa, se para Angola, para ali ensinarem a fabricação do ferro”. A prisão injusta teria
191
Carta de José Le Vache para Martinho de Melo e Castro, Secretário deEestado dos Negócios da Marinha e
Domínios Ultramarinos. Figueiró dos Vinhos, oito de novembro de 1791. AHU, Reino, Cx. 25, D. 31. Le Vache
era uma família francesa que se fixou em Portugal em meados do XVIII e que tinha por tradição o ofício de
fundidor de sinos.
192
Carta de FISC para Martinho de Melo e Castro, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios
Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de agosto de 1771. AHU_CU_001, Cx. 55, D. 52 e 56.
193
Antonio Augusto Costa Simões, Topografia Médica das Cinco Vilas e Arega: ou dos concelhos de Chão de
Couce e Maçãs de D. Maria em 1848 [1860]. 2ª ed. Coimbra: Minerva, 2003.
204

por único objetivo a promoção da indústria do ferro no além-mar e José Le Vache escapou
por uma única razão – ser estrangeiro. Ainda que não possamos comprovar essa narrativa pelo
cruzamento com outras fontes, o fato de os fundidores terem sido identificados como
“voluntários porém obrigados” é uma pista de que não foram contratados sem algum
constrangimento. Para o historiador Costa Simões, as ferrarias de Foz de Alge foram fechadas
pela ausência dos técnicos. Entretanto, há autores que defendem que o engenho foi encerrado
pelas dificuldades de transporte do ferro até Lisboa194. As duas hipóteses se complementam,
os problemas com os engenhos portugueses eram uma boa razão para investir em empresas
mais promissoras nas colônias, como Nova Oeiras parecia ser, ao menos aos olhos das
autoridades coloniais.
Outrossim, tal como os biscainhos, esses mestres sofreram com as intempéries do
clima local: Manuel Simões foi o primeiro a ser abatido pelas febres assim que chegou, em
agosto de 1771. O único que temos notícia de que sobreviveu foi Francisco Lourenço, que
recebeu a ordem de voltar para a Corte em 1777, junto ao francês Pirson195.
Apesar de conhecer e se beneficiar dos conhecimentos metalúrgicos dos ferreiros
e fundidores da Ilamba, o governador de Angola não reconhecia a capacidade africana de
produção de ferro. Por isso tentou de todas as maneiras importar mestres que considerava
mais habilidosos, sem se dar conta das implicações e problemas desses procedimentos. As
sucessivas mortes é o primeiro entrave para construir uma fábrica à moda europeia. Na
falência dessa estratégia, havia que se recorrer à mão de obra especializada local.
Por fim, escravos ao ganho de moradores das vilas próximas ou até mesmo de
Luanda também trabalharam em Nova Oeiras. Encontramos dados de pelo menos 12 escravos
dos ofícios de carpinteiro e pedreiro que receberam jornais de 1768 a 1772, entre eles, quatro
eram oficiais e um aprendiz. Note-se que no caso dos escravizados, eles não trabalharam na
casa de fundição ou como ferreiros, este foi um serviço desempenhado majoritariamente pelos
ferreiros Ambundos, dependentes dos sobados da região.

Tabela 2: Escravos que trabalharam em Nova Oeiras, 1768-1772.


Nomes Ofício Senhor (a) Remuneração e tempo de trabalho
Pedro aprendiz de D. Teresa de Barros da Silva Trabalhou de 1768 a 1770 - 18$300rs.
pedreiro (herdeira de Luis Gouvea, seu
irmão).

194
Jorge Gaspar (dir.), Monografia do concelho de Figueiró dos Vinhos. Figueiró dos Vinhos: Câmara
Municipal de Figueiró dos Vinhos, 2004, p. 90.
195
Catálogo cronológico de todas as ordens régias que existem na Secretaria do Estado do Reino de Angola. São
Paulo de Assunção de Luanda, 18 de junho de 1777. AN (RJ), Códice 543.
205

Antonio oficial de Antonio Simões da Silva Os escravos do mesmo senhor


pedreiro trabalharam de março de 1772 a abril de
1773 - 194$200rs
André oficial de Antonio Simões da Silva Os escravos do mesmo senhor
pedreiro trabalharam de março de 1772 a abril de
1773 - 194$200rs.
Miguel oficial de Antonio Simões da Silva Os escravos do mesmo senhor
pedreiro trabalharam de março de 1772 a abril de
1773 - 194$200rs.
Caetano Miguel Carpinteiro D. Maria da Conceição Simões Trabalhou em 1771.
Antonio Carpinteiro D. Maria da Conceição Simões Trabalhou em 1771.
Francisco
Paulo João Carpinteiro D. Maria da Conceição Simões Trabalhou em 1771.
Amaro Carpinteiro Paulo Gabriel Moreira Rangel Trabalhou em 1771.
Ventura José Carpinteiro Luis Prates Trabalhou em 1771.
João Felipe Carpinteiro D. Teresa de Barros Trabalhou em 1771.
Paulo Sebastião Carpinteiro Cônego Gonçalo Cardia Trabalhou em 1771.
Gaspar oficial de Joaquim da Costa Braga Trabalhou de fevereiro a dezembro de
pedreiro 1772, um total de 59$600rs
Fontes: AHTT, Erário Régio 4191; AHA, Códice 271, C-14-4.

Escravos com alguma especialização têm sido uma temática recorrente na


historiografia brasileira por diversos motivos. De um lado, eles tinham maior valor em
comparação com escravos sem habilidades definidas e rendiam mais lucros ao senhor, por
meio do trabalho ao ganho, por exemplo. Por outro, o ofício para um escravo podia
representar um meio de acumular pecúlio e, assim, adquirir a liberdade196. Na análise de um
documento que versa sobre a apreensão dos bens dos jesuítas em Angola pode-se vislumbrar
os significados do exercício de um ofício para os cativos em Luanda. Entre as posses
confiscadas pela Fazenda Real após a expulsão dos religiosos havia muitos escravos oficiais
mecânicos. Segundo a fonte, esses cativos poderiam comprar a sua liberdade por um “bom
preço” porque tinham “adquirido pelos seus ofícios com que o poder fazer”. O texto ainda
acrescenta que os escravos se fiavam nessa esperança com receio de “serem vendidos para
embarcar”197. Logo, no Reino de Angola, onde faltavam artífices, a qualificação além de um
modo de acumular pecúlio, poderia evitar cair nas tramas do tráfico transatlântico.
Como se pode observar ao longo desse capítulo, os oficiais mecânicos que
edificaram a fábrica de ferro e ali trabalharam eram de variada procedência e condições

196
“Escravos de artesãos e de donos de vendas também tinham muitas oportunidades para comprar sua
liberdade. (...) Escravos com tais talentos não só atingiam, no mercado de escravos, preço mais elevado que seus
companheiros sem especialização como eram, também, muitíssimo procurados”. A. J. R. Russell-Wood.
Escravos e Libertos no Brasil Colonial. Tradução de Maria Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Civilização
brasileira, 2005, p. 62.
197
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para o conde de Oeiras. São Paulo de Assunção de
Luanda, 14 de maio de 1760. AHU_CU_001, Cx. 46, D. 4261.
206

jurídicas e sociais198. Havia os que estavam cumprindo pena, a maior parte europeus e
brasílicos; os que seguiram para lá voluntariamente, persuadidos pelos altos salários e
promessas dos administradores coloniais; os que foram nomeados, coagidos e talvez até
aprisionados, como os fundidores de Figueiró dos Vinhos; os centro-africanos “filhos
capazes” dos sobas vassalos também constrangidos a ali trabalharem, mas por outros laços
sociais, as relações de pertencimento do parentesco; os escravos ao ganho com alguma
possibilidade de autonomia entre outros escravizados.
As relações de trabalho estavam submetidas a obrigações específicas que
variavam dependendo do lugar que cada um ocupava em uma complexa trama hierárquica,
característica das sociedades de Antigo Regime e que também encontramos entre os centro-
africanos, resguardadas as muitas diferenças. Os mestres fundidores biscainhos tinham as
melhores casas, foram cuidados em suas doenças, foram bem tratados, bem pagos e bem
alimentados. Os mestres portugueses e Matheus Pirson também gozaram de algum conforto.
A grande maioria dos degredados não tinha privilégios, alguns trabalhavam em prisões,
muitos desertaram. O maior número de trabalhadores era composto pelos dependentes dos
sobas que foram, com certeza, os submetidos às piores condições de vida e de trabalho. Os
escravos ao ganho pareciam ter mais autonomia e mobilidade que os “constrangidos”.
É preciso lembrar que “trabalho”, nesse contexto, se referia a um “exercício
corpóreo, rústico”. Os “homens mecânicos” foram identificados por Bluteau como “baixos,
humildes”, que se ocupavam das artes fabris, nos “ofícios necessários para a vida humana”.
Nas posições hierárquicas das sociedades modernas, baseadas em padrões de qualidade,
condição e estado, um trabalhador manual que ganhava seu sustento por meio da “mecânica
corporal”, do esforço manual, era excluído de uma série de honrarias porque sofria o estigma
do defeito mecânico. A legislação determinava que os artesãos não tivessem acesso a cargos
municipais - juízes, vereadores e oficiais de milícias - nem ao uso de símbolos de distinção
social. Podemos somar aos termos que aparecem no dicionário, outro conjunto de vocábulos,
como artífice, artesão, oficial e obreiro - todos operando com a ideia de que um oficial
mecânico “trabalha[va] para ganhar sua vida”199.

198
Os trabalhadores escravizados eram uma minoria em Nova Oeiras. A exploração local de mão de obra livre e
de degredados no “trabalho penal” já era uma realidade na África portuguesa muito antes do período conhecido
como colonial, a partir do final do século XIX.
199
Raphael Bluteau, Vocabulário portuguez e latino, 10 v. Lisboa/ Coimbra: Colégio da Cia. de Jesus, 1712-
1728, verbetes “artífice”, “ofício”, “trabalho”, “oficial”, “mester”, “mecânico”, “nobre”; e Antonio Moraes
Silva, Diccionario da língua portugueza, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789, verbetes “ofício”,
“trabalho”, “oficial”, “mester”, “mecânico”, “artezão”, “artífice”.
207

Ao que parece, quanto mais frágeis os laços de dependência, quanto mais


desprovidas de prestígio e influência, mais vulneráveis estavam essas pessoas ao domínio e
abusos de quem lhes era superior. De modo evidente, a origem, situação social e jurídica
regeram as condições de vida e de trabalho a que os operários de Nova Oeiras foram
submetidos.
208

CAPÍTULO 4
FERREIROS E FUNDIDORES

4.1 Jingangula, pulungus e tocadores de foles

Como já se disse algumas vezes, a metalurgia não era um ramo econômico de


tradição em Portugal. Por isso, Francisco de Sousa Coutinho aproveitou todas as chances que
teve para cooptar mão de obra especializada. Se, por um lado, isso levou à morte de muitos
artesãos europeus e brasílicos, por outro, fez com que os planos coloniais ficassem ainda mais
dependentes de outros técnicos habilidosos: os ferreiros e fundidores da Ilamba. Nas
fundições, eles eram os melhor remunerados; o governador ordenou que os que trabalhassem
“em forja e com exercício tão violento de fogo, que exceda o comum, se lhes
apontarão mais sobre os referidos jornais, 10 réis até um vintém por dia, o
que igualmente se praticará com os destinados para aprendizes, depois de
mostrarem luz bastante a distingui-los, assegurando-os do muito maior jornal
logo que se fizerem perfeitamente hábeis neste ofício, e tais que possam
substituir os mestres”1.

Esses ofícios dependiam dos conhecimentos da fundição e da forja de ferro e


acessavam o mundo invisível - o que conferia poderes específicos aos homens que os
exerciam, que poderiam resultar no acúmulo de riquezas e em grande influência política na
estrutura social dos Ambundos. Como esses homens foram parar nas fábricas de ferro?
Receber de 10 réis a um vintém de jornal a mais que os outros trabalhadores seria o suficiente
para atrair homens de posses e prestígio para o cotidiano brutal de trabalho nas fábricas? Para
responder a essas perguntas, é necessário, antes de mais nada, entender o ofício de ferreiro no
contexto centro-africano.

1
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado da Marinha e Ultramar. São
Paulo de Assunção, 28 de novembro de 1768. AHU_CU_001, Caixa 52, D. 44.
209

Há muitos trabalhos acadêmicos sobre o papel do ferreiro na África Central que


enfatizam que a função transcende os limites do exercício de um ofício cuja finalidade é
meramente econômica2. Os ofícios voltados para a transformação da natureza (fundidor) e da
matéria (ferreiro), nessa região, se relacionavam a uma complexa rede de significados
cosmológicos, sociais, econômicos e políticos. Ser ferreiro ou fundidor, portanto, era mais
que exercer uma profissão: essas pessoas possuíam um status diferenciado, tinham de
obedecer a regras e proibições, mas também gozavam de privilégios. Ou, como afirma Collen
Kriger, os artesãos do ferro compartilhavam uma “identidade baseada na sua ocupação,
gênero e privilégio”3.
As fontes empregam palavras como ofício, mestre e aprendiz, que remetem a uma
concepção do trabalho atrelada às corporações de ofício europeias, em que em uma oficina
trabalhavam mestres, obreiros assalariados e aprendizes, conforme um ritmo ligado às
demandas econômicas4. Muito diverso era o desempenho de um ofício tradicional entre os
Ambundos, embora também envolvesse um processo de ensino e aprendizagem. Mesmo
sabendo disso, utilizaremos as palavras europeias para encaminhar a análise desse item, pois
não temos como ter acesso à nomenclatura utilizada no Reino de Angola.
Há ao menos duas divisões claras do trabalho entre os artesãos do ferro e fogo:
havia o que fundia o metal e aquele que lhe dava forma, aquecendo e martelando-o; ambos
poderiam ter vários assistentes5. Nas circunstâncias em que a fábrica de Nova Oeiras foi
construída, encontramos três distintas, mas inseparáveis especializações: fundição, forja e
trabalho com os foles.
A bibliografia reitera o prestígio do ferreiro descrito nas narrativas missionárias
desde o século XVII. Em muitos mitos fundadores das sociedades da África Central era
frequente a associação entre o ferreiro e o poder político. De acordo com Antonio de Oliveira

2
Especificamente sobre o ofício de ferreiro na África Central, ver: Eugenia W. Herbert, Iron, Gender and
Power. Rituals of Transformation in African Societies, Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press,
1993; Collen E. Kriger, Pride of men. Ironworking in 19th century, West Central Africa. Portsmouth, NH:
Heinemann; Oxford: James Currey; Cape Town: David Philip, 1999 e Juliana Ribeiro da Silva, Homens de ferro.
Os ferreiros na África-central no século XIX, São Paulo: Alameda, 2011.
3
Collen E. Kriger, Pride of Men: Ironworking in 19th Century, West Central Africa, p. 13.
4
Para Portugal, o processo de aprendizagem de um ofício formava novos artesãos baseado em sucessivos
exames. O oficial examinado tinha direito à tenda própria. O mestre executava obras, “podendo empregar
obreiros e receber aprendizes”. Já o obreiro era o oficial que, sem ter sido examinado, trabalhava em troca de
salário. Por fim, o aprendiz ficava sob a responsabilidade de um mestre para receber a formação em seu ofício.
José Newton Coelho Meneses, Artes Fabris e Serviços Banais: ofícios mecânicos e as Câmaras no final do
Antigo Regime. Minas Gerais e Lisboa (1750-1808), Tese (Doutorado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003, p.48.
5
Collen E. Kriger, Pride of Men: Ironworking in 19th Century, West Central Africa, p. 13.
210

Cadornega, o primeiro rei do Ndongo teria sido um ferreiro que era chamado de gongolhas
(sic) (em kimbundu/kikongo ngangula ou no plural jingangula) - o que fazia com que a
ocupação fosse muito estimada e envolta por prestígio social e econômico6. Há também outras
palavras para ferreiro: musuri, kateli, unsugula, muxiri, unguoxilaekete7.
Linguistas históricos encontraram duas variações para a palavra ferreiro no Baixo
Kongo, ngangula e npangula, ambas derivadas do verbo bantu - pàngʊd, que significa “para
cortar, separado”8. Portanto, não teria uma ligação direta com a propagação da metalurgia na
região. Ao longo do tempo, é possível que o título político ngangula tenha se associado
metaforicamente a um ferreiro, que como líder também era responsável por resolver disputas
(“separar”)9. A metalurgia e a realeza compartilham uma compreensão comum da natureza,
das fontes e do controle do poder. No Kongo, chefes e ferreiros eram iniciados em
circunstâncias semelhantes, em cultos de aflição coletivos, poderiam ser da mesma linhagem,
respeitavam tabus alimentares, usavam as mesmas joias, braceletes. Os ferreiros eram também
sacerdotes, intercediam junto aos bisimbi, espíritos criadores da metalurgia. Para o século XX,
os relatos do antropólogo Mertens (1942) registram a participação do ferreiro nos ritos
durante a investidura e enterro de chefes10. Mesmo que os ferreiros não fossem
exclusivamente reis ou nobres, participavam dessas sociedades como lideranças respeitadas.
Em outras narrativas do século XVII, como as de Cavazzi ou Antonio Gaeta, a
linhagem do rei do Ndongo também estava relacionada ao domínio das técnicas do ferreiro11.

6
Antonio de Oliveira de Cadornega, História geral das guerras angolanas (1681). Anot. José Matias Delgado.
Lisboa: Divisão de Publicações e Biblioteca-Agência Geral das Colónias, 1940, vol. I, p. 56.
7
Antonio da Silva Maia, Dicionário complementar: português-kimbundu-kikongo.; A. de Assis Júnior.
Dicionário Kimbundu-Português; K.-E. Laman, Dictionnaire kikongo-français avec une carte phonétique
décrivant les dialectes les plus importants de la langue dite Kikongo.
8
Koen Bostoen, Odjas Ndonda Tshiyayi, Gilles-Maurice de Schryver, “On the origin of the royal Kongo title
ngangula”. Africana Linguistica, 19, 2013, p. 56 e ss.
9
Idem.
10
Eugenia W. Herbert, Iron, Gender and Power, p. 136-144; J. Mertens, Les chefs couronnés chez les Ba Kongo
orientaux : étude de régime successoral. Brussels: G. van Campenhout, 1942; Wyatt Macgaffey, Religion and
Society in Central Africa: the Bakongo of Lower Zaire. Chicago and London: University of Chicago Press, 1986;
Robert Slenes, “L´Arbre Nsanda replanté: cultes d´affliction Kongo et identité des esclaves de plantation dans le
Brésil du Sud-Et (1810-1888)”, Cahiers du Brésil Contemporain, Paris, n. 67/68, 2007, (partie II), p. 217-313;
Jan Vansina, “Linguistic Evidence for the Introduction of Ironworking in Bantu-Speaking Africa”, History in
Africa, 33, 2006, p. 321-361; John Thornton, “The Regalia of the Kingdom of Kongo, 1491-1895”. In: E.
Beumers & P. Koloss (eds), Kings of Africa: Art and Authority in Central Africa. Maastricht: Foundation Kings
of Africa, 1992, p. 56-63.
11
Segundo relatos do missionário Cavazzi, no Reino do Ndongo, a escolha do primeiro “chefe do país” teria
ocorrido porque Ngola-Mussuri, que significa “rei-serralheiro”, era “mais perspicaz que os outros”, pois
conhecia “a maneira de preparar o ferro”, assim, como usava de seus conhecimentos com “sagacidade e socorria
a todos nas necessidades públicas, ganhou amor e o aplauso dos povos”. Giovanni Antonio Cavazzi de
Montecúccolo, Descrição Histórica dos Três Reinos, Congo, Matamba e Angola, Junta de Investigações do
Ultramar, Introdução bibliográfica por F. Leite Faria, Tradução pelo Padre Graciano Maria de Leguzzano
Lisboa, 1965, vol. I, p. 253. Antonio da Gaeta, La meravigliosa conversione a lla Santa Fede di Cristo d
ellaregina Singa e del suo regnodi Matamba, Nápoles: Francisco de Maria Gioia, 1669.
211

O chamado Mubanga, principal soba da Ilamba Alta ou Lumbu, era herdeiro desta linhagem.
Para Cavazzi, o “mais considerável dos artífices” era o ferreiro12. Como acompanhamos no
capítulo 2, foi nessa região que, no século XVIII, a fábrica de ferro foi construída. Nas
palavras de Cadornega, o ngangula “entre este gentio é oficio muito estimado, e com ele se
adquirem escravos e fazenda, por ser o mais necessário para as suas lavouras (...)”13. O que já
remete a necessária presença material do ferreiro para o desenvolvimento da agricultura, da
caça, da guerra.
O fundidor, por sua vez, para alguns autores não teria a proeminência política do
ferreiro, embora tivesse importância ritual14. Cavazzi, por exemplo, quando explicou a
origem do ferro forjado em Angola, disse que, perto das minas,
“durante as chuvas, tomam uma certa terra que as águas levam para os
caminhos ou para as valetas e, colocando-a sobre o carvão, tanto a trabalham
com foles que, por fim, separando-se as escórias, fica o ferro muito bem
fundido e purgado”15.

O missionário não se referiu ao fundidor ao tratar dos ferreiros, destacando seu


lugar social e a estimação de sua arte, e limitando-se a narrar o processo de fundição. Ou o
mesmo artífice desempenhava as duas funções, seria um fundidor-ferreiro, ou de fato fundir o
ferro não era um oficio que garantia influência política, ao menos não como o do ferreiro.
Cadornega não teceu comentários sobre a fundição, então ficamos sem mais pistas para fins
do século XVII. De todo modo, devia haver interdependência entre esses ofícios, pois o
fundidor assim que fabricava o ferro precisava do forjador para transformá-lo em barras ou
objetos. Ao menos, nas fontes consultadas, os dois ofícios são citados sempre em conjunto,
como complementares.

12
A atividade do ferreiro seria a seguinte: “o serralheiro está sentado no chão encurvado penosamente, o que lhe
causa grande fadiga, e bate com uma das mãos, enquanto com a outra aciona os foles ou maneja o ferro”. No fim
do processo de forja, o produto era “uma seta, um machado ou um alfanje [catana]”. Giovanni Antonio Cavazzi
de Montecúccolo, Descrição Histórica dos Três Reinos, Congo, Matamba e Angola, v. I, p. 164 e 165.
13
Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas, v. I, p. 25 e 26. No “Catálogo dos
governadores do Reino de Angola” e na “História de Angola”, de Elias Alexandre da Silva Correa, há
referências à história da fundição de Nova Oeiras, mas nenhum detalhe mais específico sobre o processo de
trabalho nas oficinas de ferreiro ou fundidor. “Catálogo dos governadores do Reino de Angola. Com uma prévia
notícia dos princípios de sua conquista e do que nela obraram os governadores dignos de memória”. In:
Coleção de notícias para a História das nações ultramarinas que vivem nos domínios portugueses ou lhe são
vizinhas. Academia Real das Ciências de Lisboa. Lisboa: Tip. da Academia Real das Ciências de Lisboa, 1826.
Elias Alexandre da Silva Correa, História de Angola, 3 v, Lisboa: Clássicos da Expansão Portuguesa no Mundo.
Império Africano, 1937.
14
Pierre de Maret, “The smith’s myth and the origin of leadership in Central Africa”. In: P. Shinnie, R. Haaland,
(eds.), African iron working. Bergen: Norwegian University Press, 1985, p. 73-87; Maria das Dores Cruz, “Ritos
e ofícios. Algumas notas sobre a metalurgia do ferro em Angola”. In: M. Conceição Rodrigues, Homenagem a J.
R. dos Santos Júnior. Lisboa: Instituto de Investigação Científica Tropical, v. II, 1993, p. 131-143.
15
Giovanni Antonio Cavazzi de Montecúccolo, Descrição Histórica dos Três Reinos, Congo, Matamba e
Angola, v. I, p. 164 e 165.
212

Mais que revisar as descrições sobre a relevância simbólica e ritual do ferreiro,


nosso objetivo aqui é, por meio das fontes setecentistas, examinar esse ofício nesta
circunstância histórica específica. Neste sentido, procuramos compreender como os mestres
ferreiros e fundidores articularam o conjunto de mitos que envolviam seu ofício para exercer
seu domínio sobre seus dependentes e comunidades na Ilamba ocupada pela fábrica de ferro
de Nova Oeiras.
Em dezembro de 1768, o Kilamba Ngongue a Kamukala, Antonio Pedro,
informou ao intendente da fábrica de ferro de Novo Belém que ele tinha 42 filhos para
oferecer para o trabalho. Entre estes, 12 eram fundidores, chamados pulungu segundo o
“idioma da terra”, dois eram ferreiros e 28 tocadores de foles16. Na mesma região, no lugar
chamado Cathari (jurisdição de Golungo Alto), em 1800, o major e ajudante de ordens,
Antonio Salinas de Benevides descreveu fundidores e ferreiros como, respectivamente,
pulungus e gangulas17.
Não foi possível encontrar nos dicionários de línguas Bantu um significado para a
palavra pulungu que esteja relacionado ao trabalho do fundidor18. A única hipótese que nos
parece plausível é aquela que conseguimos lançar com base nos estudos de Collen Kriger.
Palavras para “forno” que compartilham esta raiz (-lungu) foram encontradas em diferentes
regiões da África Central - Lwena, Luba-Shaba, Hemba, Tabwa, Bemba e Fipa19. Para Kriger,
essa repetição representa as trocas de conhecimentos técnicos entre fundidores e ferreiros de
procedência diversa. Pulungu, portanto, estaria relacionado com o forno de fundição, e, por
isso, com o trabalho do fundidor.
Os sobas distinguiam seus trabalhadores entre fundidores e ferreiros20. Em 1767,
na “Casa de Fundição dos Pretos”, onde trabalhavam os fundidores, ferreiros e tocadores de

16
Carta de João Baines para Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho. Novo Belém, 17 de dezembro de 1768.
IEB, USP, AL-083-203.
17
Carta de Antonio Salinas de Benavides. São Paulo de Assunção de Luanda, 15de novembro de 1800. Arquivos
de Angola, v. IV, nº 52, 1939, p. 323. Benavides considerava o Cathari um lugar mais apropriado para a
instalação de uma fundição: “este lugar mais afastado que Oeiras légua e meia do rio Lukala ganha na
salubridade pois que se desvia outro tanto das lagoas do Lembo, quanto perde no afastamento do rio pelo qual se
hão de fazer as exportações”.
18
Pulungu verbete é geralmente traduzido como pobre, miserável mendigo. Antonio da Silva Maia, Dicionário
complementar: português-kimbundu-kikongo: (línguas nativas do centro e norte de Angola), 1961. A. de Assis
Júnior. Dicionário Kimbundu-Português. Luanda: Argente, Santos e Comp., Lda., [s.d.].K.-E. Laman,
Dictionnaire kikongo-français avec une carte phonétique décrivant les dialectes les plus importants de la langue
dite Kikongo. Mémoires de la Classe des Sciences Morales et Politiques, IRCB, 1936.
19
Agradeço ao professor Robert Slenes por me indicar essa hipótese e chamar a atenção para essa palavra nos
estudos de Kriger. Collen E. Kriger, Pride of men, p. 84 e ss.
20
Em Mbangu kya Tambwa havia notícias de “bastantes ferreiros”, produzindo enxadas, machadinhas e outras
ferramentas. Ali havia só ferreiros, uma vez que o metal que utilizavam era importado de outras localidades ou
entregue no momento da encomenda das ferramentas. Já citamos as duas minas na Ilamba, de Quituxe e
Calombo, de “terra ferruginosa”, que eram exploradas por meio de escavação de galerias, “furnas profundas”.
213

foles Ambundos, funcionavam 36 forjas, cada uma composta de três pessoas, “um era o
fundidor e dois lhe tangiam os foles” (totalizando 108 pessoas). Em outras 10 forjas
trabalhavam também três homens, “um ferreiro e dois dos foles, que batiam as pastas que
saíam dos fundidores e as reduziam em barretas” (num total de 30 pessoas)21. Então, podemos
considerar que a divisão entre essas especializações de fato exista. Porém, não eram ofícios
independentes, mas sim complementares.
Os fundidores e ferreiros que eram dependentes das autoridades africanas, como
no caso citado do Kilamba Ngongue a Kamukala ou o dos muitos ferreiros de Mbangu kya
Tambwa, serviam em Nova Oeiras porque, como “filhos”, estavam obrigados pelas relações
de parentesco a trabalharem ali. Podiam também ter sido capturados em razias ou vencidos
em guerra. De qualquer modo, esses artesãos devem ter sido alvos cobiçados na região. Os
sobas tinham interesse em manter uma mão de obra que lhes possibilitava acúmulo de
riquezas, poderio militar, haja vista o pungente mercado de produtos de ferro no Reino de
Angola. Outrossim, era de seu interesse direto ter, entre os seus dependentes, aqueles que por
poderes mágico-religiosos legitimassem sua autoridade, seja participando de rituais
específicos, seja produzindo emblemas de poder. Fora que eram artesãos essenciais para a arte
da guerra, produzindo facas, zagaias, machados, e consertando armas de fogo,
confeccionando balas. Essa não era uma estratégia política exclusiva dos chefados de Angola.
Na Guiné Inferior, no Império Ashanti, por exemplo, os líderes estendiam seu domínio
territorial e político, enquanto, incentivavam as artes e o artesanato. Com a Confederação
Ashanti, surgiram centros especializados; Fumesua, por exemplo, congregava ferreiros e
fundidores22.
Não eram somente os sobas que tinham interesse em manter esses trabalhadores
por perto. Com o aumento da demanda por libambos, algemas e prisões, negociantes e
moradores também se tornavam seus patronos ou protetores. Isso acontecia sobretudo em
Ambaca que, como vimos, foi o local mais afetado pela falta de ferro para esses e outros
objetos como as ferramentas agrícolas, provocada pelas demandas de Nova Oeiras – o que
causava muitas reclamações por parte dos comerciantes.

Isso mostra que diferentes povoações poderiam especializar sua produção de acordo com as demandas locais.
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 9 de maio de 1762. BNP, C.
8553, F. 6362.
21
Carta de José Francisco Pacheco. São Paulo de Assunção, 15 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D.
28.
22
J. Anquandah, Rediscovering Ghana’s Past. Harlow: Longman, 1982, p. 40.
214

Por outro lado (ou por isso mesmo), o ofício garantia aos ferreiros e fundidores
maior mobilidade; podiam deixar um sobado, ou mesmo fugir, e buscar a proteção de outros
líderes. Decerto, seriam bem-vindos23.
Os trabalhadores especializados poderiam ter sido constrangidos pela força a
trabalharem em Nova Oeiras como pode-se depreender das estratégias de recrutamento de
trabalhadores que analisamos no terceiro capítulo.
Outro fator que não podemos ignorar era o acesso às minas. Os artesãos detinham
o conhecimento, porém, as minas eram exploradas por sobas e ilamba poderosos que há
muito as guardavam. Para terem acesso ao minério, era preciso negociar com as autoridades
locais. Esse também podia ser um motivo para muitos ferreiros e fundidores empobrecidos
terem ido trabalhar em Nova Oeiras, para ter acesso ao minério e de alguma forma furtar o
ferro fabricado para suas próprias obras ou mesmo vendê-lo, já que era um objeto-moeda
comum em Angola. Quando, em 1762, o governador mandou fazer experiências para
averiguar a qualidade do ferro produzido, disse que não poderia dizer com certeza as quantias
fabricadas porque os “pretos [ferreiros e fundidores] furtaram alguns pedaços” do metal que
fundiram. Se somarmos essa informação à constante vigilância a que os trabalhadores
estavam submetidos na fábrica (eram revistados três vezes durante o dia), parece plausível
pensar que ter acesso ao minério não era tarefa simples e que Oeiras era uma oportunidade de
fugir ao controle das chefias locais24.
Por fim, essas pessoas eram remuneradas, em Nova Oeiras, como vimos poderiam
ser pagas em fazendas, uma mercadoria de valor que facilmente seria trocada por
mantimentos ou até mesmo escravos. Para aqueles que se encontravam em situações de
penúria, essa poderia ser uma alternativa viável.
A bibliografia aponta para a existência de grupos étnicos ligados ao ofício de
ferreiro25. É possível encontrar indícios desse aspecto em documentos referentes às fábricas
da Ilamba. Em 1767, o governador de Angola ordenou que o capitão-mor de Ambaca deveria
arregimentar ferreiros e fundidores da Ilamba, mas que não devia recorrer aos Mubires, “até

23
Em 1803, “pretos ferreiros e fundidores” dos sobas anexos ao presídio de Massangano encontravam-se
“refugiados” nas terras de outros sobas. Carta ao regente da Vila de Massangano. São Paulo de Assunção de
Luanda, oito de julho de 1808. AHA, Cód. 91, fl. 97v.
24
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 10 de julho de 1762.
AHU_CU_001, Cx. 45, D. 68.
25
Eugenia W. Herbert, Iron, Gender and Power; Collen E. Kriger, Pride of men. Ironworking in 19thcentury,
West Central Africa.
215

segunda ordem”26. No século XVII, Cadornega se referiu aos Vili ou Mubires como “negros
tratantes” que circulavam pelo reino do Kongo e “todas as mais partes”; eles andavam
“volantes” e eram temidos por serem “grandes feiticeiros”27. Essas são características que se
relacionam ao ofício de ferreiro na África Central, com suas poucas ferramentas (além dos
foles, poderiam usar pedras como bigornas, martelos para forjar o metal) poderiam circular
pela região em busca de clientes e feiras onde comerciar seus produtos. Em 1656, os Mubires
foram acusados de provocar uma rebelião entre os escravos das sanzalas e arimos, incitando-
os a fugir para se juntarem a “um negro do rei do Kongo que capitaneia a sua guerra contra o
conde de Sonho”28.
Em seus apontamentos de viagem do final do século XIX, Alfredo Sarmento
relata que, por volta de 1759, na fundação do presídio do Encoge, foram mandados para ali
“negros Mubires”, que eram oriundos do Loango. O que ele relatou é que “os usos e costumes
destes negros” eram diferentes; por exemplo, não aceitavam a escravidão entre eles. Os
Mubires pagavam tributos aos ndembu e consideravam-se estrangeiros, não se incorporando
às linhagens locais. Eram “trabalhadores e inteligentes”, entre eles havia ferreiros e
carpinteiros, sua identidade comercial estava relacionada ao tráfico de escravos29. Entre tais
características atribuídas aos Mubires, destacamos o isolamento social que também pode ser
considerado um aspecto da figura do ferreiro. Por seu ofício ser ligado às armas e, assim, à
morte, o ferreiro ao mesmo tempo que é respeitado é temido. Ademais, havia o interesse em
resguardar seus conhecimentos técnicos; assim, o afastamento os manteria em segredo.
Se os Mubires estavam no Encoge, é possível que eles em algum momento
tenham sido recrutados para o trabalho de Nova Oeiras. Sousa Coutinho, no entanto, não
parecia inclinado a aprovar a iniciativa do capitão de Ambaca de ir buscá-los. Talvez pela
reputação de causarem rebelião, de escolherem viver isolados, de serem poderosos feiticeiros.
Não podemos dizer mais sobre os Mubires porque encontramos uma única referência a eles na
documentação. Parece que eram um povo voltado para o artesanato, inclusive ou
principalmente os do ferro.

26
Carta de FISC para Francisco Matoso de Andrade, capitão-mor de Ambaca. São Paulo de Assunção, 25 de
maio de 1767. BNP, C 8742, F 6364.
27
Antonio de Oliveira Cadornega, História das Guerras Angolanas, v. I, p. 271. David Birmingham mostra
como os Vili se tronaram grandes mercadores de escravos no decorrer do século XVII. David Birmingham,
Central Africa to 1870: Zambezia, Zaire and the South Atlantic. Cambridge: University Press, 1981, p. 68.
28
Carta da Câmara de Luanda, 19 de janeiro de 1656; Consulta do Conselho Ultramarino, 3 de agosto de 1656.
AHU_CU_001, Cx. 6, D. 61
29
Alfredo de Sarmento, Os sertões d´África. Apontamentos de uma viagem. Lisboa: Francisco Arthur da Silva,
1880, p. 153, 159-161.
216

Encontramos artesãos do ferro que assumiam atitudes de liderança, próprias de


sua posição naquela sociedade, garantida tanta pela dependência de seus saberes práticos
quanto pelos espíritos bisimbi que os protegiam. Contrários às fábricas de ferro, em Ambaca,
“negros e negociantes” queixavam-se que faltava metal. Diante desse quadro, “negros
ferreiros e fundidores” já não conseguiam atender às demandas da jurisdição e de Nova
Oeiras ao mesmo tempo. O governador saturado com as intrigas e resistências, ordenou ao
regente de Ambaca: “vossa mercê deixará os Negros Ferreiros e Fundidores livres ao seu
arbítrio para obrarem o que bem lhes parecer, visto que não há outro meio de conduzir
semelhantes gentes”30. Ora, “semelhantes gentes” não parecem ter sido tão facilmente
cooptadas, “conduzidas” como o govenador esperava: nem com “persuasão” e nem com
“módicos salários”. Como decorrência dessas pressões, em 1769, Sousa Coutinho ordenou
que os súditos das chefias de Ambaca não fossem mais enviados para a fábrica. Portanto, os
artesãos ligados às lides do ferro e do “exercício violento do fogo” lançaram mão dos recursos
materiais, culturais e cognitivos que dispunham para, em uma situação pouco favorável,
fazerem valer sua vontade, negociarem os termos em que trabalhariam em Oeiras, ou até
quando colaborariam com os projetos do governador.
Temos uma referência que cruza ofício, acesso a poderes espirituais e
predominância política, e, contrariamente ao que se costuma encontrar na historiografia, trata-
se de um fundidor e não um ferreiro. Esse é mais um indício da interdependência entre os
ofícios de forma que ambos eram privilegiados entre os Ambundos. A referência é de março
de 1800, quando o mineralogista José Álvares Maciel descreveu as despesas que fez com
algumas experiências de fundição de ferro, entre elas constava: “ao soba desta Ilamba que
assentou o seu primeiro forno segundo os seus ritos”, junto da anotação do pagamento, 2$400
rs31. Uma quantia considerável: o mesmo jornal que, anos antes, venciam os biscainhos. Neste
caso, a autoridade máxima de uma povoação, o próprio soba, era o fundidor. O que nos leva a
pensar que muitos chefes políticos poderiam ser fundidores e ferreiros e controlar tanto minas
de ferro quanto amplos contingentes de súditos do mesmo ofício.
Quais razões levariam sobas fundidores ou “negros ferreiros e fundidores” que
agiam conforme “bem lhes parecesse”, chefes políticos cuja soberania dependia da associação
com o ferro, a colaborar com a fábrica de Nova Oeiras? Primeiramente, tinham solicitado
isenção do dizimo e, em contrapartida, prometeram trabalhadores, ou eram vassalos e deviam

30
Carta de FISC para José Antunes de Campos, regente de Ambaca. São Paulo de Assunção de Luanda, 25 de
janeiro de 1768. IEB/USP, AL-083-002.
31
Carta de José Álvares Maciel para Miguel Antonio de Melo, governador de Angola. Trombeta, dois de março
de 1800. BNP, C 8553, F6362.
217

obediência; logo, seriam punidos se não colaborassem. Em segundo lugar, a aliança com os
portugueses e a participação na construção de uma grande fábrica, representava para essas
chefias ascensão e prestígio social na complexa hierarquia local. Sousa Coutinho repetidas
vezes prometeu o enriquecimento daqueles que colaborassem com a fábrica. Se sobas,
ilamba, imbari frequentemente pediam mercês, patentes militares, sem dúvida se
interessavam pelos mecanismos de distinção social que os colonizadores ofereciam.
Por último, na lógica local, as escolhas do fundidor e do ferreiro relativas a
técnicas e ritos determinados não se dissociavam de suas aspirações econômicas. Ao
contrário, manter o sigilo sobre a localidade das minas, como vimos no capítulo 2, e dificultar
o acesso a seu conhecimento específico, por meio de ritos e segredos, eram estratégias não só
para controlar a mão de obra de aprendizes e dependentes como para garantir a exclusividade
de seus produtos. Trabalhar na fábrica, cotidianamente, era uma maneira de saber tudo o que
acontecia ali. Quiçá, um modo de sabotar por dentro o projeto colonial. No fim das contas, a
principal razão de Nova Oeiras, construída com pedra e cal, ter sucumbido vinha da
resistência dos que trabalhavam na “Casa da Fundição dos Pretos”. Os ferreiros e fundidores
recusaram o ritmo de trabalho e as exigências de produção que o projeto da Real Fábrica do
Ferro tentou impor. Isso porque, seguiam outro ritmo, fundiam e forjavam “segundo os seus
ritos”.

O que podemos dizer sobre esses ritos? Muitos rituais foram registrados por
etnólogos ao longo do século XX. Não se pode afirmar que os ritos que envolviam a fundição
no final do século XVIII correspondessem aos observados mais de duzentos anos depois.
Contudo, como bem lembrou o historiador Hampatê-Bá, “os ofícios tradicionais são os
grandes vetores da tradição oral”32. O autor considera o exercício de um ofício como o
exemplo máximo da tradição oral porque encerra-se ali mais que ações e gestos; ao transmitir
os conhecimentos para um aprendiz, o mestre está compartilhando “verdadeiros códigos
morais, sociais e jurídicos peculiares a cada grupo, transmitidos e observados fielmente pela
tradição oral”33.
Um exemplo dessa continuidade é o uso da pemba, uma argila branca que foi
citada por Miller como um pó sagrado utilizado por algumas linhagens Ambundas para

32
Amadou Hampatê Bá, “A tradição viva”. In: Joseph Ki-Zerbo (org.). História Geral da África I. Metodologia
e pré-história da África. São Paulo, Ed. Ática/UNESCO, 1980, p. 202. É interessante observar que também na
antiga África Ocidental francesa, na tradição bambara do Komo (Mali), que é a região de estudos de Hampatê-
Bá, muitos dos rituais descritos na transcrição de Redinha se repetem para os ferreiros daquela região. Por
exemplo, ali também se verifica o uso de uma vestimenta especial, de plantas, de preces.
33
Idem, p. 199.
218

assegurar a fertilidade das mulheres34. José Redinha, por volta de 1950, registrou os rituais de
uma fundição de ferro que também usavam a pemba, na povoação de Tchiungo-Ungo35. Nas
fundições registradas por Redinha, o forno foi modelado com características femininas – com
seios, umbigo, além da genitália feminina, que seria o lugar de onde o ferro escorria. Redinha
observou que a fundição simulava um parto. Nesse contexto, o uso da pemba parecer ser
bastante alusivo porque garantia um bom resultado ao trabalho, assim como seu uso nas
mulheres das linhagens Ambundas lhes conferiria fertilidade.
Nesta fundição da década de 50 do século XX, o processo completo levou
aproximadamente 11 horas porque, durante a fundição, o mestre fundidor, que era filho do
soba, procedeu a uma série de ritos além do descrito acima: vestiu-se de roupas especiais
(“uma pele de corça”), disse preces “sobre o local de entrada do ar”, invocando “os avós e os
tios, que foram sucessivamente mestres do ofício, pedindo-lhes a sua boa graça para que a
fundição resultasse perfeita”; entre outras cerimônias36.
A documentação consultada, para o século XVIII, composta basicamente por
fontes administrativas, registra que o ritmo de trabalho dos ferreiros Ambundos era um
empecilho à “indústria” e indicativo de “preguiça”; o fato de produzirem poucas quantidades
de ferro era considerado falta do “espírito do lucro” e o uso de suas ferramentas e técnicas
locais foi visto como algo “tosco” e “bárbaro”. Um exemplo é a descrição feita pelo
governador Antonio de Vasconcelos, em 1759:
“como eles [ferreiros e fundidores] naturalmente são preguiçosos e de pouca
indústria operam só o preciso segundo as encomendas com desperdício de
infinitos tempo[s] por falta de instrumentos, contentando-se de um pedaço
de pele de cabrito por fole e de uma pedra para botarem o ferro enquanto não
têm algum bocado que lhes sirva de malho”37.

Como aprendemos com o soba fundidor Cokwe, o ritmo de trabalho de qualquer


ofício tradicional na África obedecia ao tempo dos rituais necessários para obter a aprovação
dos antepassados e, no caso, ter uma boa fundição. As técnicas Ambundas foram

34
Joseph C. Miller, Poder político e parentesco, p. 47.
35
Entre os Cokwe. José Redinha, Campanha etnográ fica ao Tchiboco (Alto-Tchicapa), 2v, Lisboa: Companhia
de Diamantes de Angola; Museu do Dundo, 1953-1955. Apud José Bacellar Bebiano, Museu do Dundo: notas
sobre a siderurgia dos indígenas de Angola e de outras regiões africanas. Lisboa: Publicações culturais da
Companhia de Diamantes de Angola, 1960, p. 36-43.
36
Idem, p. 37.
37
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
secretário de Estado da Marinha e Ultramar. São Paulo de Assunção, 18 de janeiro de 1759. BNP 8553, F 6362.
Outro exemplo, falando mais especificamente da questão econômica: “Pelo contrário sucede aqui, onde a
pobreza dos negros, a sua preguiça e a falta de indústria com um total desprezo de possuir riquezas faz que seja
verdadeiramente impossível que eles apeteçam pelo espírito do lucro, dilatar o serviço, e as utilidades do ferro”.
Carta de Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de
Estado da Marinha e Ultramar. São Paulo de Assunção, 25 de novembro de 1768. AHA - Governo. Ofícios para
o Reino. Códice nº 3, fls. 287v-288v.
219

subestimadas pelas autoridades coloniais. Collen Kriger demonstrou que, utilizando os


instrumentos à primeira vista rústicos como os descritos acima, os fundidores e ferreiros da
África Central desenvolveram técnicas sofisticadas de produção de ferro, controlando por
meio de um delicado equilíbrio a quantidade de ar insuflada no forno pelos foles. Assim, os
fundidores conseguiam determinar a qualidade do ferro que produziam, sua ductilidade,
fusibilidade e maleabilidade.
A “Casa da Fundição dos Pretos” funcionava pelos métodos locais de fundição de
ferro. Quando o intendente da fábrica recebeu do governador a encomenda de 150 quintais de
ferro (nove toneladas), ele arregimentou 138 trabalhadores especializados entre fundidores,
ferreiros e tocadores de foles. Essas pessoas trabalharam em grupos de três “diariamente”
durante “mais de cinco meses” para alcançar a meta estabelecida pelo governador38. Os fornos
dos fundidores produziam juntos em média de duas a duas arrobas e meia de ferro (30 a 45
kg) por dia e 10 forjas de ferreiros que transformavam a massa de ferro fundido em
“barretas”39.
Para essa produção, o funcionário da fábrica anotou que, a cada dia, se gastava na
fábrica 50 cargas de mina. Como o minério40 era garimpado à distância de três léguas
(aproximadamente 15 km) do local da fábrica e carregado por 50 trabalhadores, só se fazia
uma viagem por dia41. Só nos trabalhos que descrevemos aqui, estavam empregadas 188
pessoas diariamente - apenas na produção de ferro.
Além disso, cada uma das 46 forjas gastava por dia três sacos de carvão, num total
diário de 138 sacos42. Então, ainda havia aqueles que cortavam a lenha, fabricavam o carvão,
e o conduziam até a fábrica. O número de trabalhadores envolvidos com as atividades que
subsidiavam a fundição devia ser ainda maior.
Conhecemos os nomes de seis “fundidores pretos” que trabalharam na casa de
fundição: Pedro Manoel, Damião Antonio, Sebastião Antonio, Cristóvão João, Ismão

38
É mais provável que em 150 dias tenha-se produzido 1 quintal por dia (60 kg), entrando na média do
governador de 30 a 40 quintais por mês. Carta de José Francisco Pacheco. Fábrica da Nova Oeiras, cinco de
março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D. 28.
39
Idem.
40
Diversos tipos de minérios de ferro eram encontrados nessa região. “Em Angola de maneira geral tem sido
aproveitada a limonite (ferro hidratado) dos pântanos, conhecida localmente pelos europeus pela designação
imprópria de ‘piritas’. Em Massangano, extraía-se o minério (magnetite) de areias aluvionárias. Na região de
Zenza de Itombe, próximo do Dondo, os fundidores aproveitavam o minério de Embassa (magnetite)”.
Lembramos que Nova Oeiras se localizava na Ilamba Alta, atual província do Dondo. José Bacellar Bebiano,
Museu do Dundo: notas sobre a siderurgia dos indígenas de Angola e de outras regiões africanas, p. 23.
41
Carta de José Francisco Pacheco. Fábrica da Nova Oeiras, cinco de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 52, D.
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado da Marinha e Ultramar. São
Paulo de Assunção de Luanda, seis de maio de 1769. IEB/USP, Al – 082- 156.
42
Um carvoeiro com seis ajudantes produzia 500 fangas de carvão em 40 dias. Se considerarmos que a medida
indique alqueires em litros, seria algo em torno de 645 l de carvão.
220

Sebastião e João André. Pelos nomes, eram batizados e vassalos da Coroa portuguesa. Foram
chamados para que se averiguasse o quanto seu método rendia em ferro. Pedro Manoel, o
fundidor com que começamos essa tese, com seus dois “servidores” tocadores de foles, usou
60 libras de “mina bruta”, ou seja, em média 28kg do minério garimpado nos montes
circunvizinhos à fábrica. Pedro construiu seu forno e com a ajuda dos tocadores de foles
começou a fundir a mina. No primeiro dia, após a fundição, restaram 40 libras, no segundo 20
libras, cerca de nove quilos de ferro. Portanto, foram feitas duas fundições para se obter o
ferro. Esses 9kg de massa de ferro seguiram para a forja do ferreiro que “apurando”, retirando
as escórias, também com a ajuda de dois assistentes, reduziu o ferro a uma barrinha de quatro
libras e meia (2kg) 43.
Todos os outros fundidores seguiram o mesmo método e chegaram a resultados
parecidos, variando entre quatro e quatro libras e meia de ferro. Fundidores, tocadores de
foles e o ferreiro que fabricou as barrinhas receberam $80 rs por dia, no total de 3$200 rs.
Foram produzidos 12 kg de ferro a partir de 168 kg de mina bruta em 48 horas.
Para o governador, essa quantidade de ferro era muito pouca, ele queria
rendimentos maiores como os que os biscainhos alcançavam em suas ferrarias hidráulicas44. A
questão é que na Biscaia se trabalhava dia e noite, durante seis dias da semana; os
trabalhadores chegavam a dormir nas ferrarias.
Na Ilamba, o ofício de ferreiro parece ter sido exclusivamente masculino. Antonio
Salinas Benevides citou, em 1800, que os ferreiros no Golungo Alto deixavam suas mulheres
cultivando os campos e se retiravam para fundir o ferro. O isolamento e a exclusão da mulher
eram características frequentes deste ofício na África Central e Ocidental. Eugene Herbert
considera que os tabus em torno da presença feminina no momento da fundição devem ser
compreendidos em termos de controle social da sexualidade e da reprodução45. Também
temos de considerar, como lembra Collen Kriger, que os rituais, os segredos, a exclusão de
terminados grupos dos ofícios do ferro e do fogo se relacionam a estratégias dos próprios
artesãos em manter o controle sob uma atividade que, como vimos, lhes proporcionava
privilégios – sociais, econômicos e políticos46. Portanto, o ritmo e a ideia da casa de fundição
era uma intromissão em uma prática fechada e sacralizada.

43
Certidão de José Francisco Pacheco, inspetor das obras da fábrica, sobre o estado da fábrica de ferro. São
Paulo de Assunção de Luanda Luanda, 13 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D. 28.
44
No item “Da Biscaia” neste capítulo, discorremos sobre o cotidiano em uma ferraria hidráulica.
45
Carta de Antonio Salinas de Benavides. São Paulo de Assunção de Luanda, 15de novembro de 1800. Arquivos
de Angola, v. IV, nº 52, 1939, p. 323. Eugenia W. Herbert, Iron, Gender and Power. Rituals of Transformation
in African Societies, p. 96.
46
Collen E. Kriger, Pride of men. Ironworking in 19th century, West Central Africa, p. 57.
221

Kriger aponta que, na África Central, a fundição ocorria na estação seca (no caso,
no cacimbo, entre março e agosto) porque as árvores e o minério em pedra ou terra ficavam
encharcados durante as chuvas, o que reduzia a qualidade do carvão vegetal e, assim, do ferro
que seria fundido. Encontramos duas menções sobre isso nas fontes. O governador Sousa
Coutinho mandou fazer a “Casa da Fundição dos Pretos”, um lugar coberto, para que eles
pudessem trabalhar em todas as estações do ano, prevenindo “as desculpas que as chuvas dão
lugar embaraçando [atrapalhando] o trabalho dos ferreiros”47. Além disso, em uma de suas
cartas, ele comenta que na Ilamba não se conseguia recrutar todos os ferreiros e fundidores, já
que alguns ficavam na localidade para fundir o ferro nos “meses do cacimbo”48. Logo, nas
aldeias os ferreiros trabalhavam em estações específicas e, na casa de fundição, operavam
fornos o ano inteiro.
Se a casa de fundição já trazia problemas para as dinâmicas internas do ofício, a
ferraria hidráulica, então, mudava completamente a relação dos ferreiros e fundidores
Ambundos com sua prática. Muitos deles se tornavam dispensáveis, já que em uma ferraria
hidráulica era preciso apenas cerca de seis funcionários entre mestres fundidores e ferreiros
para fazer a fábrica funcionar e produzir de 40 a 50 toneladas de ferro anuais. A “Casas de
Fundição dos Pretos” produzia algo em torno de 18t por ano e empregava 138 ferreiros e
fundidores. Se Nova Oeiras funcionasse como uma ferraria movida por rodas d’água se
tornaria uma ameaça à sobrevivência de um ofício e de todo prestígio e significado social que
o cercava dentro e fora da fábrica. Pedro Manoel e seus colegas de ofício, o soba fundidor,
bem como os rebeldes “negros ferreiros e fundidores” de Ambaca percebiam as intenções do
governador, mesmo que desconhecessem a Biscaia, e não devem ter apreciado a ideia.
Na Biscaia, as associações de ofício de ferreiros e fundidores se recusaram a
aderir à fundição em alto-fornos porque isso ameaçava sua sobrevivência enquanto mister.
Por que, com os Ambundos, que percebiam todas essas mudanças e tentativas de
interferência, seria diferente? Dito isso, a hipótese de que podem ter tentado sabotar por
dentro o projeto colonial torna-se mais plausível.
A fábrica queria impor um ritmo pautado por concepções europeias de trabalho e
de ofício. Essas duas percepções chocavam-se em Nova Oeiras, não apenas em termos de
visões de mundo opostas, mas também entre as pessoas representantes destes sistemas de
pensamento. Esse é o contexto que permite entender outros motivos para as constantes fugas,

47
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte, intendente geral da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção de
Luanda, 10 de dezembro de 1766. BNP, C 8742, F6364.
48
Carta de FISC para Francisco Matoso de Andrade, capitão-mor de Ambaca. São Paulo de Assunção, 25 de
maio de 1767. BNP, C 8742, F 6364.
222

para as pancadas, para o fato dos Ambundos serem considerados preguiçosos e indolentes
pelos governadores. Os confrontos emergem da situação colonial. O governador Ilustrado
incluía o “outro” africano no estatuto jurídico de “pessoa miserável” – são frequentes as
alusões aos “miseráveis negros”, às “gentes pobres” – desprovido de meios para aproveitar os
recursos naturais e tecnológicos a seu dispor e, carentes, portanto, da tutela colonial. Esse tipo
de justificativa foi criado porque os Ambundos, em certa medida, não eram vistos como
sujeitos históricos possuidores da mesma complexidade dos europeus e, por isso mesmo,
dotados de conhecimentos, cultura e linguagem igualmente multifacetados49. Era essa visão de
mundo que não permitia que os administradores coloniais percebessem a contradição em
considerar “miseráveis e sem arte” técnicos metalúrgicos capazes de produzir de “40 e 50
quintais de ferro” por mês apenas com seus “pequenos foles”50.
Sousa Coutinho não subestimava apenas a capacidade dos Ambundos em
subverter o significado de Nova Oeiras: ele não levava em conta que, com instrumentos
rústicos, fossem tão ou mais capazes de produzir ferro e aço de alta qualidade que qualquer
europeu. Para entender o equívoco do governador, é preciso conhecer alguns detalhes das
técnicas metalúrgicas usadas pelos centro africanos e sua potencialidade.
Pode não parecer à primeira vista, mas os ritos e as cerimônias, a aplicação de
plantas durante a fundição e o ritmo dos foles têm muito a ver com conhecimentos químicos,
apesar de transcender essa função técnica51. O minério de ferro, encontrado na natureza,
precisa passar pela fundição para se transformar em metal. As etapas do trabalho com o ferro
podem ser divididas, de modo geral, em garimpar o minério, fabricar combustíveis (no caso,
carvão vegetal), construir o forno de fundição, fundir o mineral, e, por fim, forjar a bola de
ferro obtida, produzindo barras, utensílios e objetos acabados. Durante a fundição, dentro do
forno, o minério passa por reações químicas em virtude de seu aquecimento, que pode ser a
temperaturas acima ou abaixo do ponto de fusão do metal (no caso do ferro 1.538ºC).
Nos alto-fornos industriais, o produto desta operação é o ferro gusa líquido com
teor de ferro da ordem de 95% que pode ser prontamente utilizado em diferentes moldes. Nas

49
Achile Mbembe, A crítica da razão negra. Tradução de Marta Lança. Lisboa: Antígona, p. 191; Georges
Balandier, A Situação Colonial: Abordagem Teórica [1951]. Cadernos Ceru, série 2, v. 25, n. 1, junho de 2014.
50
Carta de Francisco Inocêncio de Souza Coutinho, governador do reino de Angola, a Francisco Xavier de
Mendonça Furtado, secretário de Estado da Marinha e Ultramar, informando sobre o estabelecimento da real
fábrica do ferro. São Paulo de Assunção de Luanda, 29 de dezembro de 1766.RJIHGB/ PADAB DVD10,20
DSC00396.
51
Essa ideia ocorreu a Jacob Bronowski. Após analisar fundições de ferro na África Subsaariana, ele disse:
“quando não se tem linguagem escrita, não se tem nada que possa ser chamado de fórmula química, então deve-
se ter uma cerimônia precisa que corrija a sequência de operações para torná-la exata e memorável”. Jacob
Bronowski, The Ascent of Man. London: BBC, 1973, p. 171.
223

fundições africanas descritas na documentação de Nova Oeiras, o ferro era obtido em estado
sólido em um método conhecido como redução direta, ou seja, pela redução dos óxidos de
ferro em ferro metálico em temperaturas abaixo do ponto de fusão. O combustível utilizado
era predominantemente o carvão vegetal, que fornece o calor e que, combinado ao oxigênio
durante a combustão, produz o monóxido de carbono. Este, por sua vez, reduz os óxidos de
ferro produzindo o ferro metálico e o dióxido de carbono. O monóxido de carbono é muito
importante nesse processo, “pois proporciona uma atmosfera de redução para a fundição de
minério de ferro e, limitando a quantidade de suprimento de ar ao forno, as fundições podem
criar mais monóxido de carbono e, portanto, uma área de trabalho maior no forno”52.
Dito de outra forma, a quantidade maior ou menor de moléculas de carbono
combinada com o ferro resulta em metais com diferentes propriedades. O ferro com baixas
quantidade de carbono é mais maleável; “ferro com moderado conteúdo de carbono (aço) é
durável e resistente; ferro fundido com alta concentração de carbono pode ser quebradiço e
muito difícil de forjar”53. Dessa forma, a fundição de ferro em estado sólido “envolve um
equilíbrio delicado de importantes fatores: o suprimento de ar e a temperatura”54, ambos
controlados pelos artesãos do ferro. O resultado final da fundição é uma massa de ferro com
impurezas, chamada de bloom, que, após o martelamento manual ou mecânico na bigorna,
permite a confecção de produtos.
É preciso relativizar alguns aspectos técnicos descritos até aqui. Como Collen
Kriger acertadamente apontou, os alto-fornos desenvolvidos na Europa não são mais
sofisticados e desenvolvidos tecnicamente que os fornos baixos utilizados na África. O
modelo de forno baixo ficou conhecido como bloomery e se acreditou durante muito tempo
que não era possível atingir altas temperaturas com ele. A premissa era que as temperaturas de
fusão de alguns metais seriam alcançadas apenas nos alto-fornos. Na verdade, esses pequenos
fornos são capazes não só de atingir, mas manter altas temperaturas. Em baixos fornos
experimentais, foram alcançadas temperaturas em torno de 1.600ºC. O objetivo dos
fundidores africanos não era simplesmente atingir altas temperaturas, antes o desafio era
manter a temperatura controlada – em torno de 1.200ºC e 1.300ºC – assim, a “atmosfera de
redução” do forno era suficiente para criar um ferro fundido com “grande resistência à tração

52
Collen E. Kriger, Pride of men. Ironworking in 19th century, West Central Africa, p. 7. Ver também: Anicleide
Zequini, Arqueologia de uma fábrica de ferro: Morro de Araçoiaba, séculos XVI-XVIII, São Paulo: Tese
(Doutorado em Arqueologia) – USP, 2006, pp. 63 e 64.
53
Collen E. Kriger, Pride of men. Ironworking in 19th century, West Central Africa, p. 33 e 34
54
Idem, p. 88.
224

e relativamente baixo teor de carbono”. Ou seja, “um material que poderia convenientemente
ser transformado pelo ferreiro em variados tipos de produtos”55.
Além disso, as escórias contidas no ferro bloomery possibilitam uma maior
fusibilidade, fazendo com que pedaços de ferro possam ser soldados sem a necessidade de
agente fundente. Isso faz com que os utensílios fabricados com este ferro sejam facilmente
consertados, reformulados e afiados. A partir dessa informação é interessante reler alguns
comentários de Sousa Coutinho sobre o ferro produzido pelos Ambundos. O governador
considerava este metal superior “a todos quanto há para instrumentos de corte”, sendo que as
ferramentas produzidas com ele não cediam à longa “duração” e nem aos diferentes usos, ou
“empréstimos”, como ele anotou56. Todas as características que descrevemos acima.
Os requisitos mínimos para construir um forno bloomery são: um forno com o
feitio de uma bacia cavado no chão, que pode ser feito de argila, um ou mais tubos condutores
através do qual o ar é impelido para dentro do forno e os foles para o suprimento de ar.
Paredes podem ser construídas em volta do forno com muitos metros de altura; há uma grande
variabilidade de formatos de fornos. O que possibilita que um forno produza mais ferro que
outro não é a sua altura ou profundidade, tanto é assim que diferentes fundições em um
mesmo forno podem produzir resultados muito discrepantes. “Para avaliar a capacidade
potencial de um forno, isto é, o tamanho da massa de ferro produzida ou o bloom que poderia
produzir, deve-se ser capaz de medir o tamanho potencial da área de trabalho do forno”57, a
área com monóxido de carbono. Para fabricar mais bloom, é preciso aumentar a área de
produção do monóxido de carbono, o que pode ser feito alocando tubos condutores de ar em
diferentes ângulos entre si58.
José Álvares Maciel escreveu o mais completo relato sobre todos os detalhes
envolvidos no processo de fundição de ferro em Nova Oeiras. Nele encontramos todos os
elementos técnicos descritos até aqui. O mineralogista visitou a região da Ilamba (então
chamada de Trombeta) sucessivas vezes, entre 1795 a 1800, e fez desenhos e anotações a
partir da observação de fundidores e ferreiros locais. Maciel era um importante naturalista,

55
Ibidem.
56
Carta de FISC para Francisco Ferreira Guimarães. São Paulo de Assunção de Luanda, 13 de fevereiro de 1768.
AHA, Códice 79, fl. 78v – 80.
57
Collen E. Kriger, Pride of men. Ironworking in 19th century, West Central Africa, p. 63.
58
Em um forno com apenas um tubo condutor para suprimento de ar, o monóxido de carbono seria criado
próximo à boca do tudo. Aumentando o número de tubos, seria possível aumentar a área de produção de
monóxido de carbono e, assim, aumentar a massa esponjosa de ferro resultante. Idem. Ibidem.
225

graduado na Faculdade de Filosofia Natural da Universidade de Coimbra, com vasta


experiência em estudos mineralógicos59.
Na “Notícia da Fábrica de Ferro de Nova Oeiras do Reino de Angola”, ele
identifica as ferramentas e todo o processo de obtenção do ferro60. Duas figuras seguem
anexas a este documento e descrevem dois processos de fundição.

Figuras 15 e 16: A fundição de ferro em Nova Oeiras, 1797.

“A = É o forno da fundição, para pôr o


ferro em barra, ao depois de fundido da
pedra fica debaixo do carvão para se
fundir.
B = É a parede do forno, com cacos de
telha engradados.
C = O fumo que sai dos buracos da parede.
D= É o tubo de barro por onde sopram os
foles.
F= O couro dos mesmos.
G= paus com que tocam os foles.
Esta fundição se fazem breve tempo, e
levará pouco mais de uma hora a fundir”.
Fonte: Notícia da Fábrica de Ferro da
Nova Oeiras do Reino de Angola. São
Paulo de Assunção de Luanda, 15 de
dezembro de 1797, [p. 8]. AHTC, Erário
Régio, 4196.

59
Brasílico, foi condenado por envolvimento na Inconfidência Mineira e deportado para Angola. Robson Jorge
de Araújo, José Álvares Maciel: o químico inconfidente. Disponível em:
https://bibliotecaquimicaufmg2010.files.wordpress.com/2012/02/josc3a9-c3a1lvares-maciel.doc. Acesso em:
02/2013.
60
José Álvares Maciel, Notícia da Fábrica de Ferro da Nova Oeiras do Reino de Angola. São Paulo de
Assunção de Luanda, 15 de dezembro 1797. AHTC, Erário Régio, 4196.
226

“A- É um molho de mabú*, ou palha e que se põem no meio


do forno.
B - É o ferro coberto de carvão que se põe nos lados da
mesma palha, cuja também é coberta do mesmo carvão, e a
proporção do que vai ardendo se vai metendo o tubo de barro.
E- igualmente chegando os foles. F - chegando o tubo à
pedra. I- já está o ferro fundido da pedra.
C- É a parede do forno com cacos de telha engradados.
D- É o fumo que sai pelos buracos da mesma parede.
G- É o couro dos foles.
H- É o pau com que se toca os foles.

Esta fundição é da própria pedra do ferro, e nela meti duas


arrobas e 6 libras de ferro em pedra, e em 4 horas vi fundir
até [o manuscrito não traz o valor] libras de ferro”.

*Grupo de papiros, suas hastes. In: Antonio de Assis Júnior,


Dicionário kimbundu-português, linguístico, botânico,
histórico e corográfico. Seguido de um índice alfabético dos
nomes próprios. Luanda: Argente, Santos e Comp.
Lda., [s.d.], p. 271.
Fonte: Notícia da Fábrica de Ferro da Nova Oeiras do
Reino de Angola. São Paulo de Assunção de Luanda, 15 de
dezembro 1797, [p. 9]. AHTC, Erário Régio, 4196.

José Álvares Maciel explicou como os fundidores locais faziam o ferro bloomery.
Começou descrevendo as ferramentas: o forno tinha menos “de um pé até um pé e meio de
diâmetro” e oito polegadas de altura (aproximadamente 20 cm). Suas paredes eram feitas de
pequenos pedaços “de telha ou panelas” e por isso tinham algumas aberturas. Sua forma era a
de uma bacia, feita fora do chão. Os foles, logo acima, tinham forma de um tambor de
madeira que na parte superior traziam bem atada uma pele de cabra ou carneiro, formando um
pequeno balão fechado. No topo dos tambores foram introduzidas varetas por meio das quais
com um movimento rápido de vaivém se conseguia controlar a entrada de ar no forno. A
“longa”61 (sic), era um tubo de barro que tinha o mesmo comprimento do diâmetro do forno.
Seria o tubo condutor através do qual o ar era insuflado para dentro do forno, também
chamado de porta-vento ou alcaraviz (algaraviz), que poderia ser feito de barro ou madeira. A
quantidade e a disposição das longas eram importantes no processo da fundição porque

61
Não encontramos a palavra lunga nos dicionários de kimbundu e kikongo com quaisquer referências à
fundição (longa ou lunga). Recorremos novamente à ideia de que é uma palavra próxima à raiz -lungu que
estaria relacionada aos fornos de fundição.
227

resultariam em maior ou menor quantidade de ar no forno (aumentando ou diminuindo a área


de monóxido de carbono), por conseguinte, levariam a uma maior produção de ferro62.
O feixe de mabú que chamavam de “tábua”, do comprimento do diâmetro do
forno e de forma cilíndrica, era colocado deitado dentro do forno para que, depois de
queimado, abrisse caminho para a longa, que ia se aproximando da parede oposto do forno
enquanto a mina se fundia. O mabú, como explicamos na legenda da imagem, é a haste do
papiro, o Cyperuspapyrus63, e é rica em sílica. Estudos sobre os processos de fundição de
ferro realizados em Nsukka, Nigéria, mostram a utilização da sílica como fluxo (agente
químico de limpeza, agente purificador) para diminuir o ponto de fusão da ganga (impurezas
contidas nos minérios) e extrair mais ferro do minério64. O feixe de palha poderia estar ali
apenas para aquecer o forno para a fundição e abrir caminho para a longa, contudo aventamos
que o uso de mabú tinha por objetivo aumentar e incrementar o ferro produzido.
Depois de colocarem o carvão na parte de baixo do forno, onde há uma pequena
abertura (para onde escorrerá o ferro fundido), inseriam a mina triturada junto com o carvão
quebrado grosseiramente. A “boca da longa” era então colocada na cabeça do cilindro de
palha e o ferro era fundido no forno com o suplemento de ar fornecido pelos foles manuais.
Esta operação poderia levar uma hora na primeira figura, que conta com três trabalhadores e
representa uma fundição de ferro em barra (seria um processo de refundição), e quatro na
segunda, em que aparecem apenas dois e a fundição é do minério de ferro.
Álvares Maciel não levou em conta outras etapas da fundição: tempo para
construir o forno, o garimpo nas serras de onde tiravam a rocha rica em ferro, o tempo para
triturar essas pedras, cortar árvores, preparar o carvão vegetal. Nem computou o trabalho
depois da fundição, quando o ferreiro em sua forja por meio do martelamento remove a maior
parte das escórias, deixando o metal pronto para a confecção de uma grande variedade de
utensílios. De toda forma, o que Collen Kriger aponta é que o tipo de fundição bloomery não
requer altos investimentos de energia, minério e combustível, e todos os recursos necessários

62
“Na distribuição e colocação dos porta-ventos pretende-se evitar posições diametralmente opostas que possam
provocar embates de ar que anulem a sua ação”. José Bacellar Bebiano, Museu do Dundo: notas sobre a
siderurgia dos indígenas de Angola e de outras regiões africanas, p. 28.
63
“Existem corpos de sílica de inúmeros formatos e tamanhos nas gramíneas e palmeiras e extensiva taxonomia
é feita a partir deles”. “Cyperuspapyrus (Cyperaceae) – Caule: silhueta triangular, estômatos paracíticos, corpos
de sílica cônicos nas células da epiderme acima dos feixes de fibras da hipoderme, rede de parênquima com
grandes espaços de ar, feixes vasculares espalhados no parênquima”. David F.Cutler, Ted Botha, Dennis Wm
Stevenson. Anatomia vegetal: uma abordagem aplicada. Porto Alegre: Artmed, 2011, p. 115 e 209.
64
Edwin Eme Okafor, “Twenty-five Centuries of Bloomery Iron Smelting in Nigeria”. Hamady Bocoum (ed.).
The Origins of Iron Metallurgy in Africa. New light on its antiquity: West and Central Africa. Paris: UNESCO,
2004, p. 45-46. Foram encontrados traços de papiros em escórias analisadas por arqueólogos no reino de
Buganda, atual Uganda, na região dos Grandes Lagos. Louise Iles, “The Use of Plants in Iron
Production”. Archaeology of African Plant Use, v. 61, 2013, p. 267.
228

para realizá-lo podiam ser encontrados em abundância em toda a região da Ilamba65. Os foles
eram operados manualmente e o minério era de fácil acesso e recorrente nesta área.
Os agentes coloniais não compreendiam os motivos de os ferreiros e fundidores
Ambundos produzirem poucas quantidades de metal e assim seguirem um ritmo de trabalho
que era oposto ao “espírito do lucro”66. O que o governador e os funcionários desconheciam
era que os artesãos locais detinham um saber antigo de controle dos recursos naturais a seu
dispor e de uma técnica apropriada a eles. Controlavam os saberes do ferro e do fogo, sabiam
quanto de ar os foles deveriam insuflar, quando parar, quando abastecer o forno de mina
triturada, quando de carvão. Tal saber se relacionava à responsabilidade dos homens de ofício
tradicionais em preservar o equilíbrio entre as forças da natureza, mas não só. A conotação
mágico-religiosa atribuída ao ofício tinha implicações práticas.
Por exemplo, para fazer o carvão vegetal, os fundidores selecionavam as madeiras
mais apropriadas, para produzir carvão de melhor qualidade. Segundo os funcionários da
fábrica, os centro-africanos não sabiam como fazê-lo de “madeiras grossas”, desperdiçavam
assim a o que consideravam ser a “melhor madeira”; os Ambundos valiam-se apenas das
“ramas”67. Paradoxalmente, um ano antes disso, Sousa Coutinho deu instruções para que se
fizessem “os cortes como os negros praticam”; isso porque “por este método estão no ano
sucessivo capazes de dar tanta as mesmas árvores e matos que a deram neste”68. Talvez os
carvoeiros locais se valessem da técnica do árbol tras mocho, tal como os ferreiros
biscainhos: preservavam o tronco das árvores, podando apenas os ramos para aumentar o
tempo de vida da planta e o número de podas. Além disso, as árvores apropriadas para a
fundição eram árvores de crescimento lento na região; elas demoravam cerca de 20 anos para
chegar ao estágio em que podiam ser utilizadas69. O corte em larga escala de madeira levaria
esse recurso à escassez, por isso ele deveria ser usado com parcimônia. De todo modo, para os

65
Collen E. Kriger, Pride of men. Ironworking in 19th century, West Central Africa, p. 59.
66
Carta de Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de
Estado da Marinha e Ultramar. São Paulo de Assunção, 25 de novembro de 1768. AHA - Governo. Ofícios para
o Reino. Códice nº 3, fls. 287v-288v.
67
Carta de Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente geral das fábricas de ferro, para FISC. São Paulo de
Assunção de Luanda, 24 de julho de 1768. IHGB/ PADAB, DVD10,22 DSC00189.
68
“Instrução que deve guardar Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, servindo o emprego de intendente geral da
fábrica do ferro, e que executarão também os capitães-mores, como intendentes particulares na parte que lhes é
respectiva” (FISC). São Paulo de Assunção de Luanda, 12 de janeiro de 1767. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 73.
69
“De importância ecológica considerável é o fato de que as espécies de árvores que são adequadas para o
carvão também tendem a ser de crescimento lento. Por exemplo, a substituição das duas árvores Burkea africana
exigirá mais de vinte anos de crescimento”. Candice L. Goucher, “Iron is Iron 'Til it is Rust: Trade and Ecology
in the Decline of West African Iron-Smelting”. The Journal of African History, v. 22, n. 2, 1981, p. 181. Em
Angola, essa espécie de árvore é conhecida como Carapingau ou ainda Pau ferro.
229

portugueses era preciso instruí-los a não repetir este tipo de poda, que para os carvoeiros
brancos era pouco eficaz.
O mais interessante é que o olhar preconceituoso da ideologia colonial resultava
em prejuízos econômicos para os próprios agentes coloniais. Explico. O inspetor das obras da
fábrica informou que as barrinhas produzidas por fundidores e ferreiros Ambundos passavam
por um segundo processo de refinamento, na forja de ferreiros brancos, “para melhor apurar”
porque, segundo o funcionário, o ferro produzido tinha muitas escórias. Durante essa
operação, a produção diária chegava a diminuir uma arroba (15 kg)70. Lembrando que o
objetivo do artesão africano em produzir um ferro com mais escórias era garantir mais
fusibilidade, percebemos como a iniciativa colonial não tinha os conhecimentos técnicos
necessários para de fato aproveitar os saberes dos Ambundos: na forja dos ferreiros brancos
ficava muito do que garantia a qualidade do ferro local.

A leitura das anotações das autoridades ultramarinas e de José Álvares Maciel


mostra que a tecnologia Ambunda de produção de ferro foi minuciosamente analisada. Neste
sentido, Nova Oeiras é diferente das fábricas de Mont-Désir, da Île de France, e de quaisquer
outras que temos notícia. Se nas Maurícias a empresa foi relegada à iniciativa de um
particular que, com técnicas europeias de fundição, recorreu à mão de obra escrava, em
Angola, Sousa Coutinho insistia que esse empreendimento deveria ser administrado pela
Fazenda Real, recorrendo às habilidades dos ferreiros e fundidores locais, ainda que fosse
preciso ensinar-lhes como aumentar os rendimentos da produção.
Os “negros práticos”, como eram chamados os ferreiros e fundidores locais, e os
sobas e makota a que estavam submetidos, interpretavam as iniciativas régias de outro modo.
A intromissão de sertanejos e naturalistas em uma atividade que guardava elementos sagrados
e a constante exploração de suas habilidades em Nova Oeiras, impondo-lhes um ritmo e
condições de trabalho extenuantes confrontava modos de ser e de fazer dos Ambundos. Como
as fontes permitem entrever, as fugas dos trabalhadores e a resistência dos sobas em continuar
a enviar seus “filhos” indicam que os centro-africanos não pretendiam colaborar com uma
fábrica que só lhes trazia prejuízos. Toda a diligência de Sousa Coutinho para mostrar como
seus projetos podiam trazer prosperidade para a região se mostrou ineficaz. O processo não
foi linear, mas ao longo do tempo os trabalhadores e seus régulos decidiram que o negócio
não lhes interessava. Para os chefes locais, Nova Oeiras significava a perda de trabalhadores

70
Carta de José Francisco Pacheco. Fábrica da Nova Oeiras, cinco de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 57, D.
28.
230

especializados, dos lucros do comércio de ferro e mais uma fonte de subtração de seus
dependentes e, para os ferreiros, no mínimo o fim de um ofício tradicional que lhes conferia
prestígio social e ascensão econômica.
Neste complexo e violento embate de interesses, a rápida morte de grande parte
dos peritos europeus que poderiam potencializar os conhecimentos africanos e transformar
Nova Oeiras em uma ferraria hidráulica primeiramente, depois uma fábrica tal como a das
Maurícias com alto-fornos, não permitiu que as técnicas europeias fixassem raízes em
Angola. Contudo, responsabilizar o clima hostil e as doenças ou a má administração dos
funcionários régios pela permanência do uso da tecnologia africana retiraria completamente a
agência dos ferreiros e da elite política da Ilamba do processo histórico. Ao seu modo, os
centro-africanos recusaram o experimento industrial português. Pensar de outra forma
reiteraria versões eurocêntricas dessa história, pois não perceberíamos o argumento mais
importante desenvolvido aqui: a tecnologia da Ilamba não deixou de ser utilizada na fábrica,
devido a sua excelência. Mesmo valendo-se de expressões preconceituosas para caracterizar o
trabalho africano tais como “imperfeito” ou com “defeito”, e julgar as ferramentas simples
que empregavam como exemplo de “ignorância” e “pobreza”, o governador ilustrado
reconheceu seu mérito. Em 1768, em carta para o Morgado de Mateus disse:
“muito melhores tenho eu inumeráveis negros, que não só fazem há quatro
anos subsistir este reino sem ferro da Europa, mas me tem aprontado muitos
centos de quintais que mandei a Sua Majestade”71.

Pensar nas contribuições científicas africanas, como a metalurgia, nos permite


“descolonizar” a história das ciências ou o campo de estudos conhecido como história
intelectual ou ainda a história dos conceitos e dos discursos72. É possível reconhecer isso,
hoje, porque estudiosos começaram a se perguntar sobre as potencialidades do ferro africano.
Todos os aspectos técnicos que Collen Kriger esmiúça magistralmente foram descobertos a
partir da década de 1970. Até então, o “modelo pirotécnico”, baseado no entendimento que a
metalurgia se desenvolvia à medida que os fornos atingiam maiores temperaturas, vigorou.
Quando os arqueólogos começaram a fazer experiências em fornos baixos para testar

71
Carta de FISC para Luis Antonio de Sousa, Morgado de Mateus, governador de São Paulo. São Paulo de
Assunção de Luanda, 30 de novembro de 1768. ANTT, Projeto reencontro Morgado Mateus mf. 12.
72
Nancy Rose Hunt, “The Affective, the Intellectual, and Gender History”. In: Journal of African History 55, 3,
2014, p. 331–345. Alguns estudos sobre o tema: V. Y. Mudimbe, The Invention of Africa. Bloomington: Indiana
UP, 1988; Ngugiwa Thiong’o, Something Torn and New: An African Renaissance. New York: Basic Civitas,
2009; Frederick Cooper, Africa in the World: Capitalism, Empire, Nation-State. Cambridge, MA: Harvard UP,
2014.
231

temperaturas é que começaram as descobrir sobre as potencialidades desses fornos e do ferro


produzido por ele.
Quero dizer com isso que não apenas Sousa Coutinho esteve imerso em
preconceitos que separavam o mundo “primitivo”, “lento”, “tradicional”, do “dinâmico”,
“moderno”, “civilizado”. A perspectiva colonial perdurou na ciência e na história até muito
pouco tempo, sendo questionada principalmente a partir das independências dos países
africanos. No caso do presente estudo, enquanto olharmos somente para o monumento de
pedra e cal da Real Fábrica de Ferro de Nova Oeiras, continuaremos a repetir o gesto colonial
que tentou encobrir73 a experiência e a história dinâmica dos ofícios do ferro entre os
Ambundos, continuaremos a negligenciar a existência da “Casa da Fundição dos Pretos”, das
minas de Samba-Quiba, de Mabangu kya Tambwa, de Ngongue a Kamukala e seu
protagonismo.
Incorporar conhecimentos e tradições africanas foi uma prática comum dos
colonizadores e alguns estudos têm se voltado para a conformação de saberes nos circuitos
coloniais, principalmente no que concerne às tradições médicas. Se nas primeiras tentativas os
europeus tentaram tratar as doenças com que se deparavam na África de acordo com sua
tradição, com o passar do passar do tempo e depois de observar os tratamentos médicos
locais, adotaram o conhecimento local para enfrentar doenças desconhecidas, em um
ambiente pouco familiar. Cirurgiões, físicos-mores, viajantes e naturalistas observavam os
chamados “pretos sangradores”, os curandeiros, e aprendiam sobre as ervas e “todos os
elementos que nas sociedades africanas aplicam-se na cura de males devidos às sarnas, aos
bichos do pé, às boubas e ao escorbuto”74.
Em Moçambique, as práticas de cura africanas se somaram às europeias e
asiáticas, incluindo as matrizes muçulmanas e hindus. Por meio da análise da história do Real
Hospital da Ilha de Moçambique, que remonta ao início do século XVI, Eugenia Rodrigues
mostrou como essas influências se faziam presentes ali. As referências sobre os saberes dos
cirurgiões e físicos locais indicam que praticavam a “medicina doméstica” de Moçambique,

73
Enrique Dussel, 1492: el encubrimiento del otro. La Paz: Plural, 1994.
74
Maria Cristina Cortez Wissenbach, “Ares e azares da aventura ultramarina: matéria médica, saberes endógenos
e transmissão nos circuitos do Atlântico luso-afro-americano”. In: Leila MezanAlgranti, Ana Paula Megiani
(Org.). O império por escrito: formas de transmissão da cultura letrada no mundo ibérico séculos XVI-XIX. São
Paulo: Alameda, 2009, p. 375-394. Ver também: Cristiana Bastos; Renilda Barreto (Org.). A circulação do
conhecimento: medicina, redes e impérios. Lisboa: ICS, 2011.
232

exercida por goeses e africanos escravizados e livres. Sua botica continha medicamentos de
origem europeia, mas também guardava drogas das medicinas indianas de Goa75.
A historiografia sobre as influências africanas na cultura e nos conhecimentos
americanos é mais abrangente. Judith Carney e Richard Rosomoff escreveram um livro denso
de informações sobre plantas, hábitos alimentares, técnicas de cultivo originários da África
Ocidental e trazidos por africanos e seus descendentes para a América. Uma abordagem
multidisciplinar, baseada na arqueologia, na etnografia e na história oral, em que os autores
argumentam que os escravos não forneceram aos seus senhores apenas o trabalho manual,
mas sobretudo o intelectual. Graças aos canteiros em que cultivavam as sementes que traziam
da África e suas habilidades culinárias, a comida se tornou um poderoso veículo para
preservar e criar memórias na diáspora. Além disso, os ingredientes africanos passaram a
constituir a base da alimentação americana76.
Por tudo isso, a fábrica de ferro na Ilamba e a contribuição dos Ambundos não
podem ser excluídos dos estudos mineralógicos e científicos que estiveram em expansão na
segunda metade do século XVIII, no contexto das políticas pombalinas de fomento às
manufaturas.

4.2. Da Biscaia

De forma paradoxal, o ferro produzido pelos artesãos Ambundos foi


constantemente elogiado pelas autoridades coloniais, mas as técnicas usadas pelos fundidores
e ferreiros locais foram consideradas ineficazes porque não produziam grandes quantidades.
Quando Sousa Coutinho solicitou que se empregassem ferreiros biscainhos, ele os escolheu
porque sua técnica, muito próxima a dos centro-africanos, sabia corrigir esse “defeito” das
pequenas fundições locais. A grande diferença entre o método biscainho e o africano era o
tamanho dos foles, movidos pela força hidráulica. Os usados na Espanha eram maiores e por
isso permitiam aumentar a quantidade da produção77.
A comparação do governo de Luanda das técnicas utilizadas por fundidores e
ferreiros da Ilamba com as empregadas pelos trabalhadores biscainhos não é fortuita. Sousa
75
Eugénia Rodrigues, “Moçambique e o Índico: a circulação de saberes e práticas de cura”. MÉTIS: história &
cultura, v. 10, n. 19, 2012, p. 32.
76
Judith A. Carney, Richard Nicholas Rosomoff, In the Shadow of Slavery: Africa's Botanical Legacy in the
Atlantic World. Berkeley, Los Angeles, and London: University of California Press, 2009.
77
“Este mesmo método é o dos negros do país, e só diverso nas quantidades, por cuja causa, logo que estes
souberem fazer porções grandes com foles maiores do que os seus atuais, se multiplica consideravelmente o
proveito da fábrica”. Carta para Francisco Xavier de Mendonça Furtado. São Paulo de Assunção, 20 de janeiro
de 1769, IEB/ AL – 082 -142.
233

Coutinho com certeza procurou se informar sobre as tecnologias siderúrgicas disponíveis à


época e aquela mais adequada às técnicas locais. As ferrarias hidráulicas da Biscaia eram
famosas pela produção de um ferro de alta qualidade, que até fins do século XVIII foi um dos
principais artigos de exportação espanhol, junto ao comércio de lã. Foi principalmente neste
período que o ferro biscainho perdeu mercado para o fabricado na Suécia, na Rússia, e na
Inglaterra, com a disseminação da fundição com o carvão coque78. Contudo, como lembra
Chris Evans, ao mesmo tempo em que não se deve subestimar a produção africana de ferro,
superestimar a europeia também não é correto. A fabricação de ferro em alto-fornos se limitou
a uma pequena região nos Alpes Austríacos, o ferro forjado, sobretudo o “ferro de viagem”
feito sob medida para os mercados da África Ocidental dominavam o mercado, na Europa79.
Na Biscaia, o uso da energia hidráulica como propulsora de grandes foles e
malhos tornou esses mecanismos mais potentes e eficazes, reduzindo o trabalho daqueles que
tangiam os foles e do ferreiro que martelava a massa pastosa para retirar as escórias. Além
disso, o novo maquinário melhorou consideravelmente o rendimento da produção. Ademais, o
processo químico era igual ao dos centro-africanos, ou seja, a redução direta do óxido de ferro
tendo como combustível o carvão vegetal80.
Como Sousa Coutinho queria aumentar o rendimento da fábrica, a ferraria
hidráulica lhe pareceu a alternativa mais adequada. Os recursos necessários estavam ao seu
alcance e o processo técnico muito se assemelhava ao dos ferreiros e fundidores locais.
Segundo seus planos, as similitudes facilitariam a aprendizagem dos centro-africanos da nova
tecnologia que prometia maior produtividade81. No âmbito da fábrica, em dezembro de 1768,

78
Com a coqueificação do carvão mineral (1709), no norte da Europa, a fundição do ferro passou a ocorrer nos
alto-fornos construídos de alvenaria e que usavam como combustível o carvão coque. Em 1735, Abraham Derby
foi o primeiro a operar um alto-forno empregando, exclusivamente, o carvão coque. Com a substituição do
carvão vegetal, o ônus da devastação das florestas não seria mais um obstáculo ao desenvolvimento da siderurgia
europeia. Joaquín de Almunia y de León, Antigua indústria del hierro en Vizcaya. Bilbao: Caja de Ahorros
Vizcaina, 1975, p. 3-5.
79
Chris Evans, “Guinea Rods’ and ‘Voyage Iron’: metals in the Atlantic slave trade, their European origins and
African impacts”. Economic History Society annual conference, 2015, p. 1-15.
80
Embora na Espanha tenham sido instalados altos fornos a carvão vegetal antes de altos fornos a carvão coque,
foi somente no século XIX que esta tecnologia passou a ser empregada nas fábricas espanholas. Até então, as
ferrarias hidráulicas continuaram a ter proeminência na região, fabricando ferro pelo método de redução direta.
Os primeiros altos fornos à carvão vegetal (redução indireta) da Espanha se localizaram na Cantábria, em 1628-
29. O investimento em altos fornos era proveniente da própria Coroa espanhola, que tinha por finalidade
incrementar a indústria bélica. Pedro Arroyo Valiente, Manuel Cordera Millan. Ferrerias em Cantabria.
Manufacturas de ayer, patrimônio de hoy. Santander: Associación de Amigos de la Ferrerpia de Cades, 1993, p.
12-19. Joaquín de Almunia y de León, Antigua indústria del hierro en Vizcaya, p. 15-35.
81
O governador de Angola demonstrava seu conhecimento das técnicas para produzir ferro na região da Biscaia.
Francisco Coutinho discorre sobre o quanto as técnicas e fábricas eram difundidas nessa localidade: “porque na
Biscaia basta que um morador faça uma fábrica destas para que o seu vizinho cobice outra e que assim se
estendem por toda a província”. Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado. São Paulo de
Assunção de Luanda, 25 de novembro de 1768. IEB/ Al – 082- 109.
234

para o governador “o mais importante negócio” consistia em “ensinar desde logo os negros
fundidores a trabalharem com foles grandes em maiores quantidades, para este fim é preciso
que os mestres desde logo os ensinem”82. Os mestres a que se referiu eram os biscainhos que
nesta época foram contratados para trabalhar em Nova Oeiras. Fazia parte dos projetos do
administrador ilustrado tornar Nova Oeiras uma grande oficina, onde os trabalhadores locais
fossem capacitados a operar o maquinário hidráulico. Essa seria uma forma de reduzir as
despesas com a mão de obra especializada estrangeira.
A fábrica de ferro de Nova Oeiras foi, então, planejada segundo os modelos das
ferrarias biscainhas. Como apresentamos no segundo capítulo, o terreno foi escolhido pela
proximidade dos rios Luinha (que foi represado) e Lukala, de bosques e de minério de ferro,
tudo o necessário para a instalação da ferraria.
A migração de trabalhadores especializados da Biscaia para orientar a condução
de fundições e ensinar suas técnicas não era uma novidade para os portugueses. Fundidores do
norte da Espanha já vinham trabalhando nas ferrarias e minas do Pireneu, tanto na vertente
espanhola quanto na francesa e em Portugal, desde a Baixa Idade Média83.

Na Biscaia, foi nas minas de Somorrostro que a extração de minério de ferro se


desenvolveu de forma mais intensa e continuada. O minério era comercializado via mar ao
longo da Costa Cantábrica e por terra para o interior da Biscaia, norte de Álava e Burgos. O
trabalho nas minas era sazonal, começava na primavera, alcançando a maior produtividade no
verão e terminava no outono. No século XVIII, durante esses seis meses, nos quais se
trabalhava uma média de 140 dias, eram empregadas 420 pessoas que mineravam por quatro
horas por dia, sem contar o tempo de viagem até as minas (uma média de seis horas de
percurso). Além disso, de 400 a 500 trabalhadores transportavam o minério dos montes até o
lugar de embarque, utilizando mulas e carros de bois. Cerca de 1.000 marinheiros eram
empregados nas embarcações que conduziam o minério via mar. Logo, por volta de 2.000
trabalhadores, em sua maioria camponeses, estavam envolvidos na extração e traslado do
mineral84.
Outra etapa importante para a fundição do ferro era o corte de árvores e preparo
do carvão vegetal. O combustível poderia escassear e por isso a resposta técnica para a

82
Carta de Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho para o capitão José Francisco Pacheco. São Paulo de
Assunção de Luanda, três de dezembro de 1768. IEB/USP – Col. ML, 83
83
Rafael Uriarte Ayo. “Minería y empresa siderúrgica em la economia vizcaína pré-industrial (s. XVI-XVIII)”.
XI Congreso Internacional de la AEHE, Madrid, 2014, nota 3, p. 2.
84
Idem, p. 8.
235

questão foi uma forma específica de poda (árbol trasmocho) que, como vimos, permitia a
extração regular de lenha, sem a necessidade derrubar as árvores. O tronco central da árvore
jovem era cortado a uma altura de cerca de dois metros do solo, favorecendo o
desenvolvimento de ramos laterais que eram utilizados na fabricação do carvão. Esta também
era uma atividade sazonal, o corte era feito no inverno para que na primavera e durante o
verão se fabricasse o carvão. Nesse período, os dias eram mais longos e havia menos risco de
temporais. Rafael Ayo aponta que embora não se possa quantificar, a carvoaria
provavelmente era a atividade florestal em maior expansão na Biscaia e na qual se empregava
o maior número de trabalhadores, em sua maioria camponeses85.
A partir da segunda metade do século XVII e ao longo do século XVIII,
desapareceu a diferenciação entre uma ferraria maior, onde se obtinha o ferro bruto ou
transformado em barras, e outra menor, em que o ferro se tornava mais elaborado ou era
transformado em produtos. A nova ferraria que integrava essas duas etapas passou a ser
chamada ferrería tiradera, ou seja, a partir do mineral se obtinha ferros comerciáveis (em
espanhol, se tiraba el hierro, por isso o nome tiradera). A ferraria biscainha ocupava de
quatro a cinco operários, um mestre forjador (um ferreiro especializado em “puxar” o ferro e
dar o primeiro acabamento forjado à peça)86, dois fundidores e um aprendiz. Um
administrador que morava próximo à ferraria era o responsável pelo funcionamento da
instalação, seu financiamento, contratação de oficiais, aquisição de minério e combustível,
resolução de conflitos entre outros afazeres.
Neste espaço se trabalhava dia e noite, durante seis dias da semana. Os artesãos
comiam e dormiam na ferraria. A remuneração variava de acordo com a quantidade de ferro
produzido, dando-se uma gratificação por cada quintal; o mestre tirador recebia mais que
fundidores e esses mais que os aprendizes, que eram pagos com um par de sapatos ou algum

85
Idem, p. 12.
86
Nas ferrarias de Taramundi e Los Oscos (Astúrias), por exemplo, a organização técnica do trabalho se dividia
em cinco oficiais: um aroza, um tirador, dois fundidores e um tazador. O chefe da equipe era o aroza, um termo
que em basco quer dizer encarregado ou capataz da ferraria, “um ferreiro com amplos conhecimentos na matéria
que havia adquirido diretamente de outro aroza e que ia ampliando à base da experiência conhecimentos que
guardava zelosamente até o momento de transmiti-los a seu sucessor”. Era o oficial com maior remuneração na
ferraria. Logo após ele, na estrutura hierárquica, se encontravam os fundidores, que controlavam a redução do
minério no forno, os carregamentos de minério e carvão, distribuindo corretamente para um maior rendimento,
além de controlar o trabalho dos foles. “No mesmo nível laboral e econômico se encontrava o tirador, um
ferreiro especializado que se encarregava de puxar o ferro” e dar o primeiro acabamento forjado à peça. Esse
seria o trabalho mais penoso, pois trabalhava junto ao calor do forno, batendo as massas de ferro que a cada
quatro horas saíam do forno. O mais baixo oficial na ferrária era o tazador, que triturava o minério até ficar do
tamanho de uma avelã antes de ser colocado no forno, além de servir de criado aos outros oficiais auxiliando nas
mais variadas tarefas, por isso era na maioria das vezes um jovem aprendiz. Pablo Quintana Lopes, La labranza
y transformación artesanal del hierro en Taramundi y Los Oscos. Siglos XVI-XVIII. Aportación a su
conocimento. Taramundi: Associación “Os Castros”, 2005, Tomo I, p. 142 e 143.
236

valor em dinheiro. Diferentes demandas faziam com que as estruturas do maquinário


variassem consideravelmente, o que trazia diferentes resultados em termos de produção. O
processo dependia da quantidade de água nos rios (que variava conforme os períodos de
estiagem), da disponibilidade de matérias primas, da capacidade de manutenção e conserto
das máquinas, da situação do mercado. Justamente por isso era incomum que a ferraria
funcionasse ininterruptamente durante todo o ano. Em fins do século XVIII, uma ferraria
produzia em torno de 40 a 50 toneladas por ano. Em 1784, havia cerca de 140 dessas fábricas
na Biscaia87.
O estabelecimento fabril contava com um edifício de pedra que abrigava em seu
interior o maquinário e o forno de redução. No exterior a principal infraestrutura era a
hidráulica, destinada a captar e distribuir a água necessária para o funcionamento da fábrica: a
represa que interceptava a água de um rio e a desviava por um canal até o reservatório (o
banzado) da ferraria que ficava abaixo das rodas hidráulicas. As barragens eram construídas
distantes da fábrica para que se obtivesse a altura de queda d’água necessária para as
dimensões da instalação. A construção de Nova Oeiras seguiu esse modelo. Lá a represa foi
construída em cantaria, que proporcionava melhor vedação. O canal foi feito em arcos que,
segundo Villarreal, representava uma melhoria técnica já que economizava materiais de
construção e garantia maior segurança ao edifício88.
As divisões internas poderiam ser muitas, mas se enquadravam num conjunto
principal: em uma das repartições se encontrava o mecanismo do malho e o forno baixo
(chamado de la fragua); do outro lado do muro onde estava o forno (o muro bergamazo
também conhecido como parede de forja), localizavam-se os foles e sua aparelhagem. Outros
espaços no mesmo prédio eram destinados a guardar o carvão, armazenar o minério, além de
servir de dormitório para os trabalhadores.
As figuras a seguir apresentam plantas detalhadas do interior das ferrarias e da
casa de fundição, em que os fundidores e ferreiros controlavam por meio de alavancas o
funcionamento das rodas hidráulicas que movia os grandes foles e o malho, além de
trabalharem na forja na transformação do ferro obtido em barras (como vemos na figura 10).

87
Idem, p. 23. “De acordo com dados estimados para distintas zonas do território (1827), o produto semanal
oscilava sobre no mínimo de 2.562 kg nas ferrarias de Marquina e no máximo de 3.345 kg em Valmaseda e
Trucíos”.
88
P. B. Villarreal de Berriz, Máquinas hidráulicos de molinos y herrerías y governo de los árboles y montes de
Vizcaya. San Sebastian: Sociedade Guipuzcoana de Ediciones y Publicaciones de la Real Sociedade
Vascongadas de Amigos del País y Caja de Ahorros Municipal de San Sebastian, 1973, s/p.
237

Figura 17: Interior de uma Ferraria Hidráulica

1. Armazém de ferro.
2. Dormitório dos oficiais
3. Banzado (reservatório de água abaixo das rodas).
4. Barquinera (o mecanismo dos grandes foles movidos
pela roda d’água).
5. Malho movido pela roda d’água.
6. Forno.
7. Lenheira e tazadera (onde se quebrava o minério em
pedaços pequenos para introduzi-lo no forno).
8. Carvoaria.
9. Transbordo do banzado.
10. Descarte/esgoto.
11. Escada de aceso ao banzado.

Fonte: Ferrería de Sargadelos. Distribuición em planta de uma


ferrería de finalesdelsiglo XVIII y comienzosdel XIX. Dibujo
de J. pena tomado de Clodio Gonzáles Pérez. A produción
tradicional do ferro em Galicia.As grandes ferrerías da
província de Lugo. Lugo: Diputación Provincial de Lugo,
1992. Apud Pablo Quintana Lopes, La labranza y
transformación artesanal delhierroenTaramundi y Los Oscos,
p. 146.

Figuras 18 e 19: Detalhes do interior da casa de fundição

Muro Bergamazo

Roda hidráulica
Roda hidráulica

Forno

Malho

Malho
Forno

Foles
238

Fontes: Discposición interior de uma ferraría hidráulica. Pedro Arroyo Valiente, Manuel CorderaMillan.
Ferrerias em Cantabria. Manufacturas de ayer, patrimônio de hoy, p. 13.
Parte de la “Casa de Ferrería” que aloja la maquinaria. Carlos Fernández García, Ferrerías y mazos entre
elríoXunco y elNavia. EscuelaUniversitaria de Arquitectos técnicos de LA CORUÑA, s/d. Apud Pablo Quintana
Lopes, La labranza y transformación artesanal delhierroenTaramundi y Los Oscos, p. 148.

Figuras 20 e 21: As rodas d’água que moviam o malho (à esquerda) e os foles (à direita).

Malho
Forno Foles

Fonte: C. Ceballos Cuerno, Las grandes familias de ferrones de Cantabriaen De peñas al mar. Santander:
Sociedad e institucionesen la Cantabria Moderna, 1999.

Os foles geralmente eram feitos de couro e madeira e com o passar do tempo


surgiram modelos só em madeira, constituídos por gavetas interligadas que permitiam a
captação e expulsão do ar comprimido entre elas. Em Nova Oeiras, os foles projetados pelos
ferreiros biscainhos foram planejados para ser de couro e madeira, mas nunca foram feitos89.
O malho era acionado por cames90; o representado na figura acima e nas plantas
de Nova Oeiras91 é o martillo de cola. Esse era o tipo de malho mais usado no norte da
Espanha. A expressão “martelo de cauda” se explica porque a repercussão das cames se
efetuava sobre o extremo posterior do eixo ou cabo do malho. O movimento levantava a
cabeça do malho que caia devido ao seu peso sobre a bigorna, onde o ferro era forjado. As

89
Em janeiro de 1769, o intendente recebeu a ordem para manter conservados “todos os instrumentos da Fábrica
de forma que se não encham de ferrugem e se não percam os couros que foram para os foles grandes”. Carta de
FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente da fábrica de ferro. São Paulo de Assunção de
Luanda, 29 de janeiro de 1769. IEB/ USP, AL-083-214.
90
Uma came (ou camo) é um elemento mecânico usado para acionar outro elemento, chamado seguidor, por
meio de contato direto.
91
Em Nova Oeiras, o malho foi construído assim: “os cepos em que anda o cabo do malho tem três palmos
[0,66 m] de grosso em quadro, e debaixo da terra os mesmos palmos que o outro, com igual segurança de
socalco [plataforma] e paredes; que o cabo do malho tem 24 palmos de comprido (5,28m), e quatro (0,88m) em
quadro, de grossura na parte do eixo, acabando em seis (1,32m) de circunferência”. Termo de juramento feito
pelo provedor da Fazenda Real Manuel Cunha e Sousa, José Francisco Pacheco, Antonio de Bessa Teixeira,
Antonio Ribeiro Cardoso. São Paulo de Assunção de Luanda, 17 de novembro de 1770. ANTT, Condes de
Linhares, mç. 51, doc. 1, fl. 198. Considerando 1 palmo= 0,22m.
239

cabeças dos malhos pesavam de 50 a 350 kg, golpeando a massa de ferro com uma frequência
de 120 golpes por minuto – quando a elevação era de 48 cm – até 300 golpes por minuto, com
elevação de 15 cm92.
O modelo descrito até aqui é o que encontramos nas plantas da fábrica de Nova
Oeiras elaboradas pelos engenheiros militares Manuel Antonio Tavares, João Manoel de
Lopes e Miguel Blasco, conforme mostramos no segundo capítulo. De acordo com o plano
ideal, os responsáveis pelas plantas e construção da fábrica seriam os quatro mestres
biscainhos contratados para este fim. No contrato que firmaram com o secretário de Estado
dos Negócios da Marinha e Domínios do Ultramar português, os biscainhos se
comprometeram a dar as “instruções necessárias para o edifício do laboratório, fábrica, de
fábricas de ferraria”93.
O alto custo com o salário e sustento dos mestres se justificava pelo fato de que
uma vez construída a fábrica e formados novos mestres, os biscainhos já não seriam
necessários. A ideia de Sousa Coutinho era a de que os centro-africanos instruídos nas novas
técnicas seriam uma mão de obra qualificada e barata, compensando os custos com os
primeiros investimentos. Na verdade, o governador tinha por objetivo formar tanto os brancos
de Nova Oeiras quanto os “negros do país” em todos os ofícios mecânicos – pedreiros,
carpinteiros, ferreiros, fundidores – porque não havia muitos desses artesãos em Angola e os
poucos existentes residiam em Luanda. Sobre as técnicas de ferraria, os mestres estrangeiros
deveriam instruir os “negros fundidores”, uma vez que eles já tinham conhecimento
acumulado sobre o assunto. Os jingangula e pulungus seriam mais aptos a aprender o novo
método para que, “com diferentes forjas e maiores foles”, se pudesse aumentar a produção de
ferro94. A ideia de tornar Nova Oeiras uma oficina também está impressa nas condições de
contratação dos espanhóis, já que, nas negociações, eles se obrigavam a ensinar “com toda
aplicação e sem ocultar nada de nossa arte àqueles aprendizes que se nos apresentarem”.
Pediam em contrapartida que tivessem à sua disposição carvão, lenha, minério e todos os
“materiais oportunos”, malho maior e demais ferramentas95. O plano era “fazer sempre

92
Pedro Arroyo Valiente, Manuel Cordera Millan. Ferrerias em Cantabria. Manufacturas de ayer, patrimônio
de hoy, p. 34.
93
Condições do contrato firmado entre Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado dos
Negócios da Marinha e Domínios do Ultramar, e Joseph Manuel de Echevarria, Francisco Xavier de Zuluaga,
Francisco de Echenique e Joseph de Retolaza. Lisboa, 30 de abril de 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 15.
94
Carta de FISC para Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente da fábrica de ferro. São Paulo de
Assunção de Luanda, 31 de outubro de 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 15.
95
Idem.
240

sucessivamente muitos homens capazes, não só para substituir comodamente os atuais, mas
para que se possam multiplicar com o tempo muitas fábricas”96.
Os mestres da Biscaia prepararam todo o material necessário para as instalações
que construiriam em Nova Oeiras, e insistiram em levar utensílios, inclusive algumas barras
de ferro importadas da Suécia e da própria Biscaia. A relação das ferramentas transportadas
na charrua Nossa Senhora das Mercês de José da Silveira, em 1768,97 é interessante:

“1 bigorna
1 fole
1 malho
1 martelo
1 forno
1 argola de ferro
1 manipulo de ferro
1 veio para o eixo
2 canos para os foles
2 grampos para os foles
4 braçadeiras para os foles
1 prancheta para os foles
8 pranchas de ferro abauladas (sic)
3 pranchas para o sangradouro das forjas
2 pranchas grossas com seus entalhos
3 pranchas compridas e direitas
1 marreta
2 chapas de cobre para o algaraviz da forja que pesam 3 arrobas e seis arráteis
10 caixotes com as ferragens
1 caixote em que vai o aço
foles novos”

A lista contém vários utensílios relacionados apenas a foles – pranchas de


madeira, canos, braçadeiras, grampos; os grandes foles das ferrarias hidráulicas exigiam peças
específicas que provavelmente os mestres teriam mais dificuldade de fabricar em Angola.
Levaram também chapas de cobre para confecção do algaraviz da forja, ou seja, o tubo ao fim
do fole que o ligava com a forja. As ferramentas dão a impressão de que os mestres
biscainhos tinham algum conhecimento prévio de técnicas africanas. É provável que, assim
como Sousa Coutinho conhecia as técnicas e o valor do ferro biscainho, no Norte da Espanha
chegassem notícias dos fundidores africanos.
Na inspeção feita pelos biscainhos em Nova Oeiras, eles decidiram fazer a represa
no rio Luinha, limparam a estrada e marcaram o rio com estacas que serviram de direção para
construir o açude. Sobre o fornecimento de madeira para o carvão, disseram que enquanto “o
mundo fosse mundo” haveria matos para explorar naquela localidade, principalmente ao

96
Portaria sobre os jornais pagos aos trabalhadores de Nova Oeiras. São Paulo de Assunção de Luanda, 29 de
outubro de 1769. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 15.
97
Relação das ferramentas conduzidas por José da Silveira, mestre da charrua Nossa Senhora das Mercês, para a
fábrica de ferro no Reino de Angola. Lisboa, 29 de abril de 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 15.
241

longo da lagoa do Engolome. Também examinaram as cinco minas de ferro e se


maravilharam com os morros de rochas ricas em minério de ferro98.
No primeiro experimento de fundição de ferro, os mestres fundiram três libras em
três horas, gastando “a quarta parte da pedra que cada negro gasta em um forno que faz” e de
carvão um terço. O intendente pediu que os mestres realizassem a experiência na frente dos
ferreiros e fundidores locais para que eles fossem convencidos de que os novos métodos
traziam melhores rendimentos. Levando-se em conta que os fundidores centro-africanos
fundiam em quatro horas aproximadamente 2 libras de ferro, a diferença não era tão grande
quanto o funcionário da fábrica afirmou99. Mas o esforço dos biscainhos parecia avultado aos
olhos dos colonizadores.
Apesar das sucessivas ordens para que os biscainhos se dedicassem a ensinar os
fundidores locais sua técnica com grandes foles, o tempo em que sobreviveram não foi
bastante para que o processo de ensino-aprendizagem resultasse. A partir de então, a
esperança do sucesso da fábrica repousou nos conhecimentos dos poucos “ferreiros brancos”
que puderam aprender parcamente ao assistir a única fundição feita pelos biscainhos100.
Mesmo assim, de algum modo seu conhecimento frutificou. As descrições e
plantas das instalações da fábrica elaboradas pelos biscainhos foram o ponto de partida para a
construção de Nova Oeiras. Os engenheiros formados na Aula de Geometria e Fortificação de
Luanda finalizaram os projetos; trabalharam em Nova Oeiras os engenheiros Manuel Antonio
Tavares, Luís Candido Cordeiro, João Pedro Miguéis, Antonio de Bessa Teixeira e seu irmão
Joaquim de Bessa Teixeira, que também foi inspetor das obras reais da ferraria.

4.3. De Figueiró dos Vinhos

Depois da morte dos biscainhos, como vimos, vieram os mestres da ferraria


portuguesa de Foz de Alge, da freguesia de Figueiró dos Vinhos. Assim que chegaram a

98
Carta de Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente da fábrica de ferro, para FISC. Nova Oeiras, 15 de
novembro de 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 38. Carta de Feliciano Pinto da Costa para FISC. Nova Oeiras,
20 de novembro de 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 15. Carta de FISC para Francisco Xavier Mendonça
Furtado, secretário de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, três de
dezembro de 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 15. Certidão do escrivão da Real Fábrica do Ferro de Nova
Oeiras Hipólito Fernandes Pinto. Real Fábrica do Ferro da Nova Oeiras, 21 do mês de novembro de 1768.
IEB/USP, AL-083-206.
99
Carta de Antonio Anselmo Duarte de Siqueira, intendente da fábrica de ferro, para FISC. Nova Oeiras, 21 de
novembro de 1768. AHU_CU_001, Cx. 52, Doc. 38.
100
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e
Domínios Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, seis de março de 1769. AHU_CU_001, Cx. 53, Doc.
18.
242

Luanda, foram submetidos à primeira prova: fundir o minério de ferro local. Tiveram de
construir um forno que se acomodasse aos foles de mão usados pelos centro-africanos, “cujo
sopre sempre é incerto”. Apesar das dificuldades conseguiram reduzir o ferro que se “liquidou
perfeitamente101”. Da segunda vez que repetiram a experiência, o governador chegou à
conclusão de que os mestres de Figueiró não conseguiam fundir o ferro com os foles de mão
já que nas ferrarias de Tomar os foles eram imensos e movidos por rodas d’água. Quando os
portugueses tentaram imitar os africanos, falharam completamente pois não sabiam usar as
ferramentas locais. Sousa Coutinho também temia enviá-los para Nova Oeiras, onde poderiam
construir uma ferraria hidráulica, porque receava que falecessem como os biscainhos102.
Ainda que admitisse que cada mina exigia um conhecimento específico, Sousa
Coutinho acreditava que um mestre mais experiente encararia o desafio e, por meio de
experimentos, conseguiria seu objetivo. O propósito do governador era que os fundidores de
Figueiró ensinassem os locais a fundir em maiores quantidades, ele queria uma técnica que os
habilitasse a isso com o uso dos foles de mão – “conformar o forno aos pequenos foles”. De
acordo com os preceitos técnicos que descrevemos aqui, aumentar a produção sem aumentar
as instalações, especialmente o tamanho dos foles, não era tarefa fácil. Há de se considerar
que os refinadores e latoeiros portugueses não sabiam muito sobre as instalações de uma
fábrica, conhecimento que seu diretor, José Le Vache, com certeza dominava, porém ele havia
ficado em Portugal. Além disso, os ferreiros de Figueiró liquidavam o ferro, isso significa que
eles usavam uma tecnologia diferente da ferraria hidráulica biscainha e dos baixos fornos
centro-africanos. Nas ferrarias da Foz de Alge, um alto-forno era usado para obter o ferro em
estado líquido, enquanto outro o refinava.
A história da ferraria da Foz de Alge, situada sobre a ribeira de Alge, se divide em
duas etapas: a primeira remete ao início do século XVII e se estende até 1761, quando foi
fechada por Pombal, e a segunda no reinado de D. Maria I, quando foi reaberta sob a direção
de José Bonifácio de Andrada e Silva e funcionou até 1834. O modelo para a sua construção
no Seiscentos foram as ferrarias biscainhas; tanto é assim que em uma das plantas da ferraria
vem assinalado: “desenho que mostra a ordem das ferrarias e engenhos na forma que se usa
no Reino da Biscaia pelo qual se vê o que se há de fazer e a ordem que se deve ter nas ditas
ferrarias que sua majestade pretende fazer neste reino junto a Vila de Tomar” (essa é o título
da figura abaixo). A diferença entre as plantas de ferraria hidráulica já analisadas e o que se

101
Idem.
102
Carta de FISC para Martinho de Melo e Castro, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios
Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 20 de setembro de 1771. BNP, C 8553, F6362.
243

construiu em Figueiró é que ali se instalou um alto-forno que usava como combustível o
carvão vegetal e, justamente por isso, o ferro precisava ser refundido em um forno de refino.
Isso explica por que, na figura abaixo, vemos dois fornos sendo insuflados pelos grandes foles
movidos pela força hidráulica.

Figura 22: Planta da Ferraria de Figueiró (c.a. 1624)

Desenho que mostra a ordem das ferrarias e engenhos na forma que se usa no Reino da Biscaia: pelo qual se vê o
que se há de fazer e a ordem que se deve ter nas ditas ferrarias que sua majestade pretende fazer neste reino junto
a Vila de Tomar e pelo alfabeto se declara cada coisa per si bem distintamente. Legenda: “A – Casa das ferrarias
onde hão de [lavrar] os engenhos; B – Tercena para recolhimento do carvão; C – Rodas e eixos dos engenhos; D
– Tanque d’água; E – Agulheiros por onde há de ir a água das rodas”. Assinada pelo arquiteto Diogo Marques
Lucas.
Fonte: “Desenho que mostra a ordem das ferrarias ....”. [Reino] [s.n.], [ca.1624].- 1 planta : papel, color., ms. ;
42,4 x 56,3 cm. AHU_CARTm_076_D.1.Apud: Luiza da Fonseca, “As ferrarias de Tomar”. In: Quarto
congresso, 1940, p. 351.

A inspiração na tecnologia biscainha não se fez presente apenas nas fábricas de


Foz de Alge e Machuca. No que diz respeito à tecnologia metalúrgica, a parceria entre
portugueses e biscainhos é de longa data. O mais antigo empreendimento português desse
tipo, as Ferrarias del Rey em Barbacena, de 1487, tinha como referência as ferrarias da
Biscaia. Mais que isso, foram conduzidas por espanhóis. A preponderância dos mestres
biscainhos manteve-se em Barcarena durante todo o século XVI, sucessivamente, assumiram
244

a direção produtiva das ferrarias: Rodrigo Manhoz, Baltazar Manhoz (ou Manhorca),
Cristóvão de Manhorca103.
Ainda assim, a influência biscainha não foi a única em Foz de Alge, já que a
ferraria foi dirigida pelos franceses Francisco e Pedro Dufour, pai e filho, em fins do século
XVII. Desde então, muitos artesãos dessa procedência foram contratados, Joseph Le Vache é
apenas mais um exemplo em uma longa lista: Estevão Levoim, mestre fundidor, Martim
Vernete, mestre refinador, Clodo Miguel, mestre forjador, Estevão Matheus, todos franceses e
contratados em 1670104. Portanto, as técnicas nessa fábrica eram oriundas de variadas
matrizes de conhecimento, além de que evidentemente os artesãos ali aprimoraram e
desenvolveram seus próprios métodos. Em Foz de Alge, o interesse em importar técnicos
franceses pode ser explicado pelo uso do alto-forno que era muito mais comum na Suécia e na
Inglaterra que na Biscaia, até fins do século XVIII.
O alto-forno operando com o carvão vegetal foi uma consequência do uso de foles
maiores dos engenhos hidráulicos. O aumento da eficácia dos foles permitiu ampliar o
tamanho dos fornos que fundiam completamente o ferro, liquefazendo-o, e também
incrementavam a produção. Entretanto, uma grande quantidade de impurezas se somava ao
ferro líquido tornando-o quebradiço. Para utilizar esse ferro era necessário submetê-lo a uma
segunda operação de fundição, de modo a refiná-lo – o que explica o forno de refino. Do
refinamento, obtém-se o ferro líquido já adequado para a fabricação de peças com moldes
(armas, balas de canhão, sinos de igreja, grades); utensílios que nem sempre era possível
confeccionar usando a massa de ferro forjado que resultava dos fornos baixos. Mesmo assim,
os alto-fornos não substituíram as ferrarias porque o ferro obtido nelas era competitivo devido
a algumas de suas propriedades, como uma maior maleabilidade. No norte da Espanha, essa
tecnologia chegou por volta de 1628-29, porém as ferrarias hidráulicas que usavam fornos
baixos eram as mais utilizadas tanto por uma resistência das agremiações de ferreiros
espanhóis à introdução do novo sistema quanto porque os engenhos demandavam mais carvão
e, portanto, mais bosques e a Península Ibérica apresentava poucas reservas vegetais105.
Além disso, ao pensar nos artesãos franceses em Foz de Alge, vale lembrar que a
importância da perícia de um artesão não se limita ao fato de possuir os conhecimentos
103
José Luís Gomes e João Luís Cardoso, “As Ferrarias Del Rey, Fábrica Da Pólvora De Barcarena. Resultados
Da Intervenção Arqueológica Realizada Em 2009”. Estudos Arqueológicos De Oeiras, 18, 2010/2011, p. 147-
173.
104
Miguel Ângelo Portela, “A superintendência dos tenentes de artilharia Francisco Dufour e Pedro Dufour nas
Reais Ferrarias da Foz de Alge e Machuca”. In: Anais do XXI Colóquio de História Militar, Lisboa, 2012, p.
517.
105
Pedro Arroyo Valiente, Manuel Cordera Millan. Ferrerias em Cantabria. Manufacturas de ayer, patrimônio
de hoy, p. 17.
245

necessários para operar um alto-forno. O trabalho dos metais envolvia uma grande variedade
de habilidades, não sendo fortuita a divisão entre ferreiro, fundidor, refinador, cuteleiro,
latoeiro. Com o passar do tempo, a diversificação dos ofícios acompanhou o avanço
tecnológico, dando origem a novas divisões profissionais, o que demandava trabalhadores
especializados na modelagem com ferro líquido, na aplicação de moldes de barro, por
exemplo.
Sem dúvida, Pedro Simões, Manuel Simões, Manuel Nunes, Julião Miguel,
Francisco Lourenço, Manuel dos Santos, Manuel José Ferraz eram profissionais
imprescindíveis em Figueiró dos Vinhos e se empenharam em aprender como fundir o
minério de ferro da região da Ilamba. Não foram bem-sucedidos primeiramente porque cada
minério, por sua diversa constituição química, demanda um saber específico, adquirido com o
tempo por meio de experimentos. E é provável que trabalhassem há muitos anos na ferraria
hidráulica de Foz de Alge, que não requeria qualquer compreensão dos métodos de fundição
em fornos baixos106.

4.4 Desencontro de conhecimentos.

Diante das tentativas frustradas de enraizar na Ilamba uma técnica que permitisse
a maior produção de ferro, Sousa Coutinho reuniu os engenheiros formados por ele na Aula
de Geometria de Luanda, todos os materiais bibliográficos que tinha compilado e estudou a
melhor maneira de construir um forno de fundição. Em outubro de 1771, um forno de
experiência foi edificado próximo a Fortaleza de Penedo, em Luanda, e nele Sousa Coutinho
conseguiu fundir completamente o ferro: “correu o ferro”, em suas palavras107. Um dos livros
consultados foi o tomo sete da “Enciclopédia”, que continha os verbetes “forja – artes
mecânicas”. A cópia foi enviada junto com as ferramentas e os trabalhadores em 1771 e, entre
os conteúdos, há orientações para os carvoeiros, fundidores, malhadores; instruções sobre

106
Catálogo cronológico de todas as ordens régias que existem na Secretaria do Estado do Reino de Angola. São
Paulo de Assunção de Luanda, 18 de junho de 1777. AN (RJ), Códice 543.
107
Em carta ao morgado de Mateus, o governador disse: “Porque chegando aqui oito fundidores muito rústicos e
muito ignorantes e querendo eu não só experimentá-los nesta cidade, mas fazer que a sua habilidade se
comunicasse aos naturais e naturalizados e sendo para isso necessário para fazer um forno pequeno que fosse
conforme aos foles de mão, não se acertou na primeira nem na segunda vez este defeito visível e claro pela sua
dificuldade não entrou naquelas cabeças, atribuindo-o a má qualidade do ferro, que não há melhor. Considere V.
Exa. em que aflição eu me veria estando feita a fábrica com excessivas despesas e trabalho desprezei os homens
e voltei-me para os livros, imediatamente quis a Providência que se acertasse a Fundição com um maravilhoso
efeito mostrando o ferro a sua bondade, e ficando confundindo os supostos Mestres”. Carta de FISC a Luis
Antonio de Sousa, morgado de Mateus, governador de São Paulo. São Paulo de Assunção de Luanda, nove de
outubro de 1771. BNP, C 8744, F 6443, fl. 156v.
246

como “ordenar e buscar as minas”; sobre as “reservas d’água e gasto dela”; sobre as lenhas,
foles, fornos108.
Àquela altura, o único empecilho que restava era encontrar uma pedra de cadinho
que suportasse as altas temperaturas do forno. Seguindo as orientações dos fundidores de
Figueiró, Coutinho mandou buscá-las em Figueiró e em Belas, Portugal. Também procurou
por elas em Angola e chegou a fazer experimentos com algumas pedras “encarnadas”
encontradas em Cambambe, sem sucesso. Não há notícia de que o alto-forno construído em
Nova Oeiras tenha fundido um grama sequer de ferro109. Pesquisas arqueológicas poderão
preencher as lacunas das fontes manuscritas.
Em 1770, quando os engenheiros e o mestre de obra deram seu parecer sobre
como deixaram a fábrica, advertiram que, embora tivessem preparado todos os materiais
necessários, os foles não foram construídos porque não havia mestres que soubessem como
confeccioná-los110.
Em 1773, quando já estava longe de Luanda, mas ainda defendia a ideia da fábrica
de ferro, Sousa Coutinho considerava que tanto os mestres portugueses quanto Pirson, o
francês, deveriam ser despedidos por não servirem para o serviço. Insistia ser necessário
encontrar um mestre hábil que fosse capaz de inventar um mecanismo para aumentar a
quantidade de ferro produzida segundo o método centro-africano. Feito isso, de acordo com
os planos do governador, os ferreiros e fundidores da Ilamba aprenderiam a nova técnica e
deveriam trabalhar em suas casas e ir vender o ferro na Fábrica Real. Assim, calculava ele,
surgiriam algo em torno de 400 pequenas fábricas. Nova Oeiras, a Fábrica Real, deveria
trabalhar só pelo método francês que liquidava o ferro. Dessa forma, os portugueses teriam

108
Carta de Martinho de Melo e Castro, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e dos Domínios
Ultramarinos, para FISC. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, 25 de março de 1771. AHU, Códice 472 - fl. 160-
283.
109
Carta de FISC para Martinho de Melo e Castro, secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios
Ultramarinos. São Paulo de Assunção de Luanda, 29 de novembro de 1771. AHU_CU_001, Cx. 55, D. 84. Carta
de FISC para José Tomás Vieira, capitão-mor de Cambambe. São Paulo de Assunção de Luanda, 25 de
novembro de 1771. BNP, C 8744, F6443. Em 1772, Pedro Schiappa Pietra, mestre genovês que trabalhava da
Fábrica de Serralheria de Lisboa enviou as pedras para Angola. Carta de Pedro Schiappa Pietra, Mestre da
Fábrica de Serralheria de Lisboa, para FISC. Lisboa, 24 de abril de 1772. AHU_CU_001, Cx. 56, D. 32.
110
“Porque ainda não estão feitos por se achar melhor e mais conveniente se reservassem para quando vierem
mestres, se fazerem à medida, e satisfação deles; porém que na mesma casa em que hão de servir fica pronto
tudo o que para eles é necessário, como são: oito pranchões, a saber, quatro de cinco palmos de largo, e vinte e
seis de comprido, e quase um de grosso, e quatro da mesma grossura, e comprimento, e de três palmos e meio de
largo, couros prontos, pregos, taxas, barbantes. E logo que chegarem os ditos mestres, se farão a seu contento no
tempo de oito dias. Que também não estava feito o ferro imediato à boca dos foles, pela mesma razão de se achar
mais conveniente se reservasse para ser feito pela disposição e gênio dos mestres, que nele hão de trabalhar;
porém que esta obra se pode fazer no mesmo tempo dos foles, e acabar muito antes deles”. Termo de juramento
feito pelo provedor da Fazenda Real Manuel Cunha e Sousa, José Francisco Pacheco, Antonio de Bessa Teixeira,
Antonio Ribeiro Cardoso. São Paulo de Assunção de Luanda, 17 de novembro de 1770. ANTT, Condes de
Linhares, mç. 51, doc. 1, fl. 198.
247

ferro das duas qualidades: o forjado ou batido, das pequenas fábricas, e o ferro fundido,
obtido em estado líquido, da Fábrica Real111.
O que une os artífices que compõem este capítulo são seus conhecimentos
específicos tanto no que diz respeito a técnicas construtivas, como no caso da cantaria, quanto
naquilo que interessava mais de perto para uma fábrica de ferro, os experimentos
metalúrgicos. Os trabalhadores da povoação e fábrica de ferro de Nova Oeiras conheciam os
segredos do trabalho com o ferro; todos, brasílicos, africanos, portugueses, espanhóis,
franceses, conheciam alguma etapa do processo de fundição e forja. Detinham saberes
adquiridos em um processo de ensino-aprendizagem que remete à prática tradicional de um
ofício, a anos de experiência e contato com o conhecimento de outros mestres. Representantes
de diversas matrizes culturais, os artesãos eram preciosos porque conheciam o segredo de
transformar minério em ferro, que era desconhecido pelos mais ilustrados nobres em Angola,
entre eles o governador Sousa Coutinho. Mesmo quando o governador, como alguém
pertencente às artes liberais, recorreu aos livros e conseguiu liquefazer o ferro, sua façanha
durou pouco, pois faltou o cadinho feito de pedra apropriada, lavrada por um canteiro. A
pedra foi mandada de Portugal e ainda assim a fábrica de ferro nunca chegou a funcionar
porque faltavam mestres hábeis que soubessem colocar os engenhos e o forno em
funcionamento.
O argumento que defendemos é simples: mais que trabalhadores manuais, esses
artesãos foram os químicos e mineralogistas de Nova Oeiras. Até meados do século XVIII, os
mestres de ofício em suas oficinas e em sua prática diária controlavam os saberes necessários
à metalurgia. É preciso destacar sua contribuição intelectual, ainda que para o século XVIII
essa seja uma ideia anacrônica, pois as artes mecânicas estavam distantes das liberais e o
conhecimento prático não era considerado imprescindível para os acadêmicos. Tanto era
assim que somente no século das Luzes o laboratório se transformou em um local de prática
acadêmica e surgiram disciplinas de química associadas ao ensino da metalurgia, da
tecnologia, da cameralística e às escolas de minas. Antes disso, o estudo da química esteve
muito mais relacionado à medicina, à farmácia e à botânica do que à mineralogia112.

111
Carta de FISC sem destinatário. São Paulo de Assunção de Luanda, 16 de setembro de 1773. BNP, C 8553,
F6362.
112
Juergen Heinrich Maar, “Aspectos históricos do ensino superior de química”. In: Scientiæ Studia, v. 2, n. 1,
2004, p. 33-84. “A cameralística era uma disciplina introduzida nas universidades alemãs em 1727 (Halle e
Frankfurt/Oder) e criada para aqueles que se destinavam ao serviço público, ensinando desde aspectos de
administração e economia até artes e ofícios e outros assuntos de interesse do futuro administrador”. Juergen
Heinrich Maar, “Glauber, Thurneisser e outros. Tecnologia química e química fina, conceitos não tão novos
assim”. Química Nova, 23, n.5, 2000, p. 710.
248

Para Elena Faus, “uma multidão anônima de indivíduos talentosos” foi


responsável pelos avanços técnicos da fundição de ferro até o século XIX. Artesãos como os
muitos que passaram por essas páginas são os protagonistas da história da tecnologia (parte
deles já não mais tão anônima para a história). O seu método era o da práxis, do ensaio e
erro113. Guardavam seus saberes a sete chaves, a religiosidade e o segredo não eram
exclusivos dos centro-africanos. Quando o mineralogista Maciel assumiu a direção dos
estudos mineralógicos em Angola, anotou: “entre os mestres da Europa que não têm estudos
são estas coisas do maior segredo, passando como patrimônio de pais a filhos”114.
O segredo que cercava o ofício pode ter sido uma das razões por que não
conseguimos identificar nenhuma interação, particularmente na troca de conhecimentos
técnicos, entre artífices de diferentes origens, embora Nova Oeiras tenha sido cenário de um
grande trânsito de pessoas. Como já dito, existia a preocupação de transformar Nova Oeiras
em uma oficina de preparo e formação dos ferreiros e fundidores locais nas técnicas europeias
de fundição. Ainda que nem todos os europeus tenham falecido, não nos parece que
efetivamente eles tenham se dedicado ao ensino dos trabalhadores locais. Os biscainhos,
devido às doenças e diante das recusas de seus pedidos para voltarem para a Espanha, não se
disponibilizaram em formar técnicos que no lugar deles operassem os engenhos hidráulicos.
Quando lhes perguntaram por que não ensinavam ao menos os ferreiros brancos, responderam
que eles “traziam camisas de punho que não serviam para tal oficina”. De fato, os biscainhos
utilizavam uma roupa especial para o trabalho na forja; contudo sua explicação foi uma
resposta brusca para aqueles que não permitiam seu regresso para a Biscaia115.
Como lembra Juliana da Silva, os ferreiros centro-africanos passaram a incorporar
ferramentas europeias ao longo do tempo. De acordo com o comerciante Antonio Silva Porto
(1817-1890), em um relato de 1884, os ferreiros do Bié usavam limas importadas. Não temos
informações semelhantes para Nova Oeiras. Entre 1768 e 1804, malhos, bigornas, folhes,
martelos e muitos outros tipos de ferramentas europeias ligadas à ferraria foram remetidas
para a fábrica. É possível destacar a hipótese de que esses instrumentos tenham sido
manipulados pelos jingangula e pulungus tanto para facilitar a fabricação de objetos

113
Elena Faus, La labranza del hierro em el Pais Vasco. Bilbao: Servicio Editorial Universidad del Pais Vasco,
2000, p. 51.
114
Carta de José Álvares Maciel e Miguel Antonio de Melo, governador de Angola. São Paulo de Assunção de
Luanda, 31 de março de 1800. In: Arquivos de Angola, v. IV, nº 52 a 54, 1939, p. 300-306.
115
Carta de Joaquim de Bessa Teixeira, intendente geral da fábrica de ferro, para FISC. São Paulo de Assunção
de Luanda, 27 de dezembro de 1768. Arquivos de Angola, 2ª serie, v. X, n. 39-42, 1953. Os ferreiros e
fundidores das ferrarias biscainhas trajavam uma longa veste talar de tecido grosso chamadas “obreras” e para
proteger a cabeça do calor, um chapéu de abas largas. Joaquín de Almunia y de León, Antigua indústria del
hierro en Vizcaya, p. 10.
249

específicos e otimizar o processo de trabalho, quanto para incluir um símbolo de distinção


social, como ocorria com outros utensílios europeus116. Um registro do naturalista Maciel
pode nos ajudar a pensar em na recusa das ferramentas estrangeiras, ao menos quanto aos
foles maiores. O químico inconfidente observou que seria preciso usar malhos grandes
proporcionais aos foles porque os pequenos macetes usados pelos ferreiros Ambundos não
eram apropriados para forjar grandes quantidades de ferro. Se os ferreiros locais tentassem
usar seus macetes em quantidades maiores de metal queimariam as mãos117. Essas
ferramentas pesadas eram um risco a mais de acidente e um empecilho à itinerância do ofício.
Fora da fábrica, o que observamos é a emergência de ofícios mais especializados
entre os africanos e seus descendentes: cuteleiros, espingardeiros, latoeiros. A convivência
com reinóis, degredados, brasílicos de variados ofícios levou ao aprendizado de outras
funções. Por exemplo, a constante penúria e ruína dos armamentos das milícias obrigava a
procura por quem soubesse consertar as armas. Esse era o caso de um dos dependentes do
Ndembu Kabuku118, seu “sobrinho” Antonio Francisco da Silva era um “excelente serralheiro
e espingardeiro”, que poderia fazer consertos119. Os armamentos europeus também eram
símbolo de prestígio entre os africanos, que inventaram novas formas de consertá-los e usá-
los, inclusive, produziam balas de ferro, que eram mais leves que as chumbo120.
Dentro da fábrica, modo geral, a própria divisão espacial do trabalho na fábrica,
separando a “Casa da Máquina” com os engenhos e rodas d’água da “Casa de Fundição dos
Pretos”, não contribuía para uma troca de saberes. Tanto os biscainhos quanto os ferreiros de
Figueiró assistiram ao menos a uma fundição dos Ambundos que, por sua vez, foram
advertidos a também observar os métodos europeus para aprendê-los. Tirando essas
observações, os impactos do encontro de saberes nos escapam. O que é evidente é que para
maioria dos trabalhadores de Nova Oeiras essa foi uma experiência marcada pela violência e
pela morte: para os europeus a ameaça era o clima e as doenças tropicais, para os africanos as
péssimas condições de vida e de trabalho.
Os europeus tiveram quase como destino certo a morte, principalmente os que
chegaram nas estações chuvosas. O médico contemporâneo José Pinto de Azeredo disse que

116
Juliana Ribeiro da Silva, Homens de ferro. Os ferreiros na África-central no século XIX, p. 155. “Espólio de
Silva Porto”, 10 de julho de 1884. SGL, Cx. 1, Cad. 4, p. 6.
117
Carta de José Álvares Maciel para Miguel Antonio de Melo, governador de Angola. São Paulo de Assunção
de Luanda, primeiro de novembro de 1799. AHU_CU_001, Cx. 93A, D. 1.
118
Pode ser um erro do governador e na verdade se tratar do soba Kabuku Kambilu.
119
Carta de Luiz da Motta Feo Torres, governador de Angola, para Joaquim Germano de Andrade, capitão-mor
de Ambaca. São Paulo de Assunção de Luanda, três de dezembro de 1818. AHA, Códice 93, A - 20 – 3.
120
Juliana Ribeiro da Silva, Homens de ferro, p. 181.
250

um ditado comum era: “Quando chove há muito mantimento, mas não há quem o coma”121.
Vítimas de varíola, febres, malária, doenças intestinais, os europeus tinham dificuldade de se
instalar em Angola, principalmente nos sertões.
Para os Ambundos, a apropriação do conhecimento também foi sinônimo de
perseguição e escravização, além das pancadas que sofriam na fábrica. Na “Resposta que um
sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”, encontramos uma citação
que mostra como o número dos fundidores e ferreiros diminuiu depois da implantação das
fábricas de ferro: “os muitos negros ferreiros, já não são tantos que o seu governador [Sousa
Coutinho] consumiu grande parte deles entre mortos e fugidos”122. No entanto, essa mão de
obra vinha sendo explorada antes do governo de Sousa Coutinho. Muitos dos trabalhadores
especializados que moravam na Ambaca eram na verdade naturais da Ilamba e para ali teriam
migrado devido a fomes em sua terra natal123.
A procura por esses trabalhadores especializados no decorrer da ocupação
portuguesa deve tê-los afugentado para o interior. Isso porque em 1762, ferreiros ou
fundidores da Ilamba foram capturados e remetidos para Lisboa para que sua tecnologia de
mineração do ferro fosse estudada na metrópole124. Em julho do mesmo ano, o governador
Vasconcelos disse que não enviaria “mais negros práticos (...) porque como viram embarcar
os primeiros, todos anda[va]m alvoraçados”125. Os trabalhadores seguiam para Lisboa junto
com amostras do ferro por ele produzidos, como se eles próprios fossem amostras de um
conhecimento a ser explorado126.
Como bem apontou Mariana Candido, as fomes, secas e demais desastres naturais
que aparecem nas fontes portuguesas precisam ser analisados como consequência de ações

121
José Pinto de Azeredo, Ensaios sobre algumas enfermidades de Angola [1799]. Antonio Braz de Oliveira e
Manuel Silvério Marques (ed.). Lisboa: Edições Colibri, 2003, p. 49.
122
Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”, s.l, s.d. BNP,
Reservados, MSS Caixa 246, n. 22.
123
“Da mesma maneira me consta que por toda essa jurisdição se acham espalhados muitos ferreiros, e
fundidores naturais da mesma Ilamba, que por causa de fomes saíram das suas terras e foram para essas”. Carta
de FISC para Francisco Matoso de Andrade, capitão-mor de Ambaca. São Paulo de Assunção de Luanda, quatro
de janeiro de 1767. BNP, C – 8742, F – 6364.
124
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 9 de maio de 1762. BNP, C
8553, F6362.
125
Carta de Antonio de Vasconcelos, governador de Angola, para Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, 10 de julho de 1762.
AHU_CU_001, Cx. 45, D. 68.
126
Ângela Barreto sintetiza bem esse interesse de inventariar técnicas e minerais: “a vontade de ter um império
sobre o mundo requeria conhecer esse mundo sobre o qual se queria exercer o imperium”. Ângela Barreto
Xavier, “O orientalismo católico. Rotinas do saber na Goa da época moderna”. In: Conferência no Simpósio
Internacional Novos Mundos – Neue Welten. Portugal e a época dos Descobrimentos. Berlim: Deutsches
Historisches Museum, 2006, p. 4.
251

humanas e não como simples ciclos ecológicos127. Neste caso, as fomes que fizeram os
ferreiros fugirem da Ilamba parecem estar relacionadas ao aprisionamento destes
trabalhadores para serem enviados para Lisboa. Afinal, a ampliação do controle e da
exploração do território e gentes coloniais passava pela apropriação de conhecimentos,
técnicas e tradições, como a análise das fontes acima evidencia.
Quando chegaram em Lisboa, os ferreiros centro-africanos que sobreviveram à
viagem não fundiram as amostras do ferro da Ilamba. Na Corte, a experiência não resultou no
muito elogiado metal centro-africano, a despeito de os portugueses tentarem reproduzir
exatamente o cenário de Angola: o minério da Ilamba, os ferreiros locais e as ferramentas de
seu cotidiano “uns pequenos foles de cabra e uma bigorna proporcionada a sua pobreza e
ignorância”128. Podemos imaginar que os artesãos africanos não foram bem-sucedidos porque
não tinham acesso aos materiais necessários para construir o forno e para bom andamento da
fundição (a argila, o próprio mabú, o carvão produzido em Angola), ou que eram apenas
aprendizes ou até mesmo que não quiseram colaborar com os europeus. Certo é que mesmo
permeados de preconceitos sobre as ferramentas e técnicas centro-africanas, as autoridades
régias procuraram extrair dos artífices seus métodos e segredos metalúrgicos. Se o soba
Mbangu kya Tambwa permaneceu três anos na prisão sem revelar o caminho das minas de
ouro, os fundidores da Ilamba podem ter se valido da mesma estratégia, já que o segredo era
uma das obrigações de seu ofício. No fim, os europeus se valeram da ciência dos que
pretendiam conquistar, neste caso, para explorar as riquezas minerais do Reino de Angola. E
os fundidores e ferreiros poderiam eles mesmos acabar nas algemas que fabricavam.

127
Mariana P. Candido, An African Slaving Port and the Atlantic World. Benguela and its hinterland. New
York: Cambridge University Press, 2013, p. 275.
128
Carta de FISC para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, secretário de Estado da Marinha e Ultramar. São
Paulo de Assunção de Luanda, 18 de dezembro de 1765. AHU_CU_001, Cx. 49, D. 71.
252

CAPÍTULO 5. SUCESSOS E FRACASSOS.

5.1 “Trovoadas secas”.

Com a saída de Sousa Coutinho do governo de Angola, a fábrica de Nova Oeiras


passou a ser responsabilidade de seu sucessor, Antonio de Lencastre (1772-1776). Seu
governo tem sido interpretado como um retrocesso, “de retorno a anteriores formas de
domínio, muito ligadas à guerra punitiva e ao tráfico de escravos”. Porém, Catarina Santos
considera que essa noção de ruptura com a administração anterior se aplica mais diretamente
a alguns assuntos, como a fábrica de ferro; no mais, há uma continuidade nas diretrizes
governativas, como o incentivo ao povoamento branco1.
Após consultar funcionários da fábrica, mestres fundidores e engenheiros que
tentaram implantar a fundição usando um alto-forno, o novo governador não considerou a
fábrica de ferro uma empreitada próspera e adequada para as paisagens da Ilamba. O principal
motivo da recusa de Lencastre era o custo da produção de ferro, que poderia chegar a 45$000
rs por quintal, onerando demasiadamente a Fazenda Real. De acordo com as contas de
Lencastre, o que encarecia o ferro eram os jornais dos trabalhadores empregados nos mais
variados serviços da fábrica, por mais diminutos que fossem: em conjunto, eles representavam
uma quantia alta demais para ser paga pelos cofres públicos. Por isso, suspendeu todo o
trabalho da fábrica e não enviou para Nova Oeiras as pedras e aparelhos que tinham sido

1
Catarina Madeira Santos, Um governo "polido" para Angola. Reconfigurar dispositivos de domínio (1750-
c.1800). Tese (Doutorado em História), Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova
de Lisboa, 2005, p. 89.
253

remetidos de Lisboa com a finalidade de dar continuidade aos planos de Francisco de Sousa
Coutinho2.
Para fundamentar sua opinião sobre Nova Oeiras, no início de 1773, Lencastre
encomendou muitos pareceres, relatórios contábeis e experiências de fundição.
Primeiramente, usou o forno construído por seu antecessor que se localizava próximo à
Fortaleza de Penedo e era do tipo francês. Foram duas tentativas frustradas, que custaram
171$330 rs à Fazenda Real. O valor foi despendido com canteiros, pedreiros, mestres
fundidores, ferreiros brancos e “pretos”, cabouqueiros, serventes que assistiam à obra, lenha e
carvão para o forno. Os ferreiros e fundidores, engenheiros e funcionários da fábrica não
conseguiram operá-lo, “reduzindo a escórias toda esta fornada, sem que delas [das “pedras de
ferro”] se liquidasse parte alguma de ferro”3.
A seguir, passou à construção de fornos baixos para aplicar o método biscainho. O
pagamento dos trabalhadores e técnicos era também o fator que encarecia a produção; no caso
a despesa foi de 91$500 rs, dos quais 67$200 rs foram apenas para o pagamento dos
fundidores. O custo do ferro produzido ali foi de 28$900 rs por arrátel (450g), conseguindo-se
obter somente um pouco mais de 3 libras.
As experiências com fornos europeus não foram exitosas, mas ele apostou na
prática dos artesãos centro-africanos. Convocou seis fundidores locais. A despesa média em
cada fundição foi de $533rs, quantia bem inferior que a dos experimentos anteriores porque o
jornal dos trabalhadores africanos também era menor. Mas, como a produção em si, em
termos de quantidade, não era significativa, somente de quatro a quatro libras e meia por
fornada, Lencastre não via a técnica dos Ambundos como lucrativa.
Para confeccionar o citado forno francês, Sousa Coutinho no fim de seu governo
solicitou a ajuda dos engenheiros militares que formou na Aula de Geometria de Luanda, no
caso Luis Candido Cordeiro e João Pedro Miguéis. Lencastre os convocou para darem o seu
parecer. Os engenheiros disseram que não tinham conhecimento especifico suficiente para
avaliar as causas dos sucessos ou fracassos de cada fundição, se limitaram a conferir uma
narração sucinta das experiências que presenciaram.
Em termos de lucros, a conta que Lencastre não fez é a mais simples. Como a
leitura do gráfico das despesas da fábrica, no capítulo 3, evidencia, os maiores gastos durante
todos os anos de funcionamento de Nova Oeiras foram despendidos com jornais comuns, ou

2
Carta de Antonio de Lencastre para Martinho de Melo, secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São
Paulo de Assunção de Luanda, 31 de março de 1773. AHU_CU_001, Cx. 52, D. 28.
3
Idem.
254

seja, com aqueles que construíram o edifício da fábrica. A fábrica de pedra e cal era o
prejuízo, além de ser improdutiva; em contraposição a “Casa da Fundição dos Pretos” era
barata e lucrativa porque explorava mão de obra local especializada que fabricava excelente
ferro.
Manoel Antonio Tavares e José Francisco Pacheco, antigos administradores da
fábrica também foram chamados para apresentar pareceres sobre a qualidade das minas de
ferro. Lencastre queria saber se concordavam com as explicações dadas pelos mestres
fundidores brancos deque naquelas minas se encontravam apenas limitadas partículas de
ferro, não sendo possível extrair do minério maiores quantidades de metal. O inspetor das
obras da fábrica, José Pacheco, descreveu o que testemunhou no cotidiano de Nova Oeiras, os
maus-tratos, as mortes frequentes, as péssimas condições para o desenvolvimento da
agricultura – terrenos com muitas pedras ou pequenos demais - e a pouca quantidade de ferro
ali produzida4.
O então sargento-mor Manoel Tavares respondeu que as muitas experiências
metalúrgicas não produziam metal suficiente para tornar a empresa lucrativa e que o carvão
gasto valia muito mais que o ferro que se extraía. Por essa razão, conformava-se com a
opinião dos mestres, que por sua vez culpavam a pobreza das minas e às invisíveis partículas
de ferro. Manoel Tavares foi, portanto, o único a dizer com todas as letras que considerava a
fábrica inviável, os outros se limitaram a apresentar descrições dos serviços prestados.
Munido dos pareceres, Lencastre formou sua opinião, ao menos foi isso que disse
quando escreveu para o secretário do Ultramar, Martinho de Melo e Castro. Porém, não nos
parece que foi o que realmente aconteceu. O esforço em produzir documentos comprobatórios
do fracasso de Nova Oeiras não foi apenas uma iniciativa administrativa, que buscava
otimizar as receitas e despesas da Fazenda Real do Reino de Angola. Os relatórios foram uma
estratégia política para legitimar uma decisão tomada por razões que pouco tinham a ver com
as finanças do reino, como podemos perceber pela repercussão dessas notícias em Angola e
na Corte.
Em fevereiro de 1773, José Plácido Correia de Brito, escrivão da Fazenda Real,
escreveu para Francisco de Sousa Coutinho explicando as razões que levaram Manoel
Antonio Tavares, cuja carreira se consolidara sob a proteção do ex-governador, a se voltar
contra ele5. De acordo com Correia de Brito, Manoel Tavares sofreu pressões do novo

4
Idem.
5
Carta de José Plácido Correia de Brito, escrivão da Fazenda Real, para FISC, ex-governador de Angola. São
Paulo de Assunção de Luanda, 11 de fevereiro de 1773. ANTT, Condes de Linhares, mç. 44, doc. 100.
255

governador para confirmar a opinião dos mestres fundidores. Chegou a dizer: “vossa
excelência [Francisco de Sousa Coutinho] está lá e ele [Manoel Antonio Tavares] cá debaixo
das ordens de quem pode dar cabo dele em poucos dias”. Outra ameaça foi a prisão –o
“senhor general” o “mandaria para um presídio carregado de ferros”6.
Houve conflito entre interesses divergentes durante a produção dos relatórios
sobre a fábrica; embates entre quem os escrevia, funcionários coloniais e a autoridade régia
maior em Angola naquele momento, o governador, que encomendou os documentos. O
primeiro parecer de Tavares transcrito por José Plácido tinha caráter meramente descritivo,
como os demais e, tal como os engenheiros, ele disse que não era fundidor e por isso não
podia dar a palavra final sobre as técnicas empregadas em Oeiras. Correia Brito nos contou
como o governador pressionou e obrigou o antigo administrador da fábrica para que mudasse
seu parecer. De fato, nos anexos à carta de Lencastre, Manoel Tavares mudou o texto,
ratificando a versão do fracasso da fábrica.
Para atenuar a fúria de Sousa Coutinho, inconformado com a traição de Tavares,
José Plácido lhe enviou o que seria a primeira resposta de Manoel Tavares à portaria do novo
governador que, como dizíamos é muito diferente da versão que seguiu anexa à
correspondência de Antonio de Lencastre. No original, Tavares reiterava que nem os mestres
fundidores que estavam em Nova Oeiras, nem ele e os outros engenheiros militares eram
práticos metalúrgicos. Os mestres que restaram após as deserções e sucessivas mortes “nunca
trabalharam em fundição de ferro, e que o ofício de uns é refinar, e o de outros de fundir
sinos”. Por isso, ele não podia ratificar seus pareceres, pois foram produzidos por imperitos.
As experiências conduzidas pelos engenheiros e por Tavares se baseavam nos
cadernos em francês sobre forjas e fornos deixados por Sousa Coutinho. Para justificar sua
inaptidão para resolver o problema e argumentar que somente fundidores práticos conheciam
os segredos da fundição, Tavares recorreu a esses livros e parafraseou uma passagem:

“Não se deve julgar por estranho que uma mina sendo rica produza pouco
ferro; o que sucede se a obra não for construída pelas regras da Arte, se o
vento soprar muito obliqua ou horizontalmente; se a chaminé ou cavidade
interior não tiver as dimensões necessárias; se o fundidor não souber a sua
Arte e bastantes atenções que contribuem muito para o maior ou menor
produto. Encontro mais abaixo que ainda que em 24 horas um forno pode
dar por produto 7.500, 6.000, 4.000 e ainda 3.500 libras, contudo se o
fundidor for ignorante com a mesma quantidade de carvão com que no

6
Idem.
256

referido tempo teria fundido as ditas quantidades, não conseguirá mais de


1.500 ou 2.000”[grifo do documento]7.

Manoel Tavares atestou o que temos dito repetidamente: o principal motivo para
Nova Oeiras não ter se tornado uma grande fábrica de exportação de ferro foi a ausência de
fundidores que, dominando as técnicas de transformação do minério, quisessem colaborar
com os planos coloniais. Os centro-africanos tinham conhecimento suficiente sobre os
processos de fundição, mas continuaram a usar suas técnicas de exploração das minas e
fabricação de objetos e, no máximo, adotaram algumas ferramentas estrangeiras. Essa era uma
tática bem-sucedida para manter sob controle o comércio de ferro e um ofício muito
importante para aquelas sociedades. Os europeus que também eram mestres fundidores
haviam morrido, e os que permaneceram vivos não eram peritos o bastante para fundar a
fábrica. A morte dos técnicos europeus foi um dos fatores decisivos para a dependência
portuguesa dos conhecimentos metalúrgicos centro-africanos.
A narrativa das relações pessoais e políticas que envolvem a produção dos
relatórios de Lencastre sobre a fábrica mostra o quão frágeis são suas explicações, o quanto
tentou conferir uma aparência de imparcialidade e idoneidade administrativa para uma
questão que simples: não havia mão de obra qualificada entre os agentes públicos e os mestres
portugueses, em Angola, que efetivasse os planos da elite administrativa. Por outro lado, se
isso poderia ser resolvido com a remessa de novos mestres, Lencastre estava dizendo
explicitamente que não se lançaria àquela aventura como seu antecessor. Para entender a
posição do novo governador, é preciso retomar algumas informações analisadas no terceiro
capítulo, especialmente no que se refere à maneira como a fábrica de ferro não era bem quista
por outros súditos da Coroa portuguesa.
Como vimos, os negociantes do sertão, os capitães-mores e os traficantes de
escravos viram a mão de obra que antes lhes servia das mais variadas formas ser direcionada
para Nova Oeiras. Os inúmeros conflitos que Nova Oeiras suscitou trouxeram à luz o modo
como os “filhos capazes” dos sobas eram explorados por esses agentes coloniais e o quanto a
interrupção abrupta do fornecimento sem limites de trabalhadores lhes fez falta. Os traficantes
de Ambaca chegaram a reclamar que a concentração de ferreiros em Nova Oeiras resultava
em menos libambos disponíveis para o tráfico. Assim, não foi só a escassez de pessoas à sua
disposição que os incomodava, mas também a carestia de ferro. Logo, as principais

7
Idem.
257

personagens representantes do poder colonial no hinterland de Luanda não apoiavam a


iniciativa do governo de Angola8.
Quando Sousa Coutinho, o grande incentivador do projeto deixou a governadoria,
Nova Oeiras perdeu seu pilar de sustentação. O plano da Real Fábrica de Nova Oeiras foi
abandonado e jamais chegaria a se consolidar novamente. Na engenharia política do governo
de Lencastre, a fábrica não teve lugar. Muito provavelmente cedeu às pressões dos capitães-
mores, dos negociantes e de outros funcionários públicos.
Um exemplo do peso das decisões políticas para o sucesso ou fracasso da fábrica
de ferro é justamente o documento “Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de
Angola, sobre a Fábrica do Ferro”9. Trata-se de uma carta anônima encontrada na
correspondência de Antonio de Lencastre sem data ou local de escrita. Em uma nota posterior
indica-se uma provável autoria: seria o coronel do regimento da infantaria João Monteiro de
Moraes, chefe de uma das principais famílias luso-africanas de Luanda, que fez parte de um
governo interino após a morte do governador José Gonçalo da Câmara (1779-1782) e que,
segundo Antonio Brásio, teria sido autor de uma das versões do “Catálogo dos Governadores
do Reino de Angola”, crônicas que foram recorrentes nesta porção do Império português10.
Elias Alexandre da Silva Correia o descreve como “assaz instruído em Belas Letras”. O conde
da Cunha o considerava “suficientemente instruído, assim na sua profissão militar, como na
lição das belas letras que escreve muito bem e sabe o que diz, que é de um procedimento o
mais exemplar”. Monteiro de Moraes é o autor de um longo texto sobre as práticas médicas
africanas, Produtos medicinais de que usam os habitantes da África Ocidental,
principalmente os de Angola e seus sertões (1784)11. Enfim, o coronel foi uma das figuras
emblemáticas da elite de Luanda e, devido sua formação e tendência literária, poderia
realmente ser o autor da citada “Resposta”.

8
O governador de Angola Miguel Antonio de Melo, em 1801, chegou à mesma conclusão a respeito de Nova
Oeiras: “os negociantes e moradores deste reino são pelo comum tais que nunca ajudam a causa pública, antes se
esforçam por impedir e arruinar tudo quanto é de público interesse como por infinitos fatos sucedidos em
diversos tempos se acha verificado”. Carta de Miguel Antonio de Melo para Rodrigo de Sousa Coutinho,
secretário de Estado da Marinha e do Ultramar. São Paulo de Assunção de Luanda, três de abril de 1801.
Arquivos de Angola, v. IV, n. 52-54, 1939, p. 253.
9
“Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”, s/l, s/d. BNP, MSS, Cx.
246, n. 22.
10
Antonio Brásio (org.), Monumenta Missionária Africana. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1973, p. 576.
Catálogo dos Governadores do Reino de Angola; com huma previa noticia do principio da sua conquista, e do
que nella obrarão os governadores dignos de memória. Lisboa: Academia Real das Sciencias, 1826. Outra
versão do catálogo dos governadores foi escrita por Manoel Antonio Tavares. John K. Thornton, Joseph C.
Miller, “A crónica como fonte, história e hagiografia; o Catálogo dos Governadores de Angola”. Revista
Internacional de Estudos Africanos. Lisboa, n. 12-13, jan./dez. 1990, p. 9-55
11
Catarina Madeira Santos, Um governo "polido" para Angola, p. 318.
258

No entanto, o manuscrito faz duras críticas ao governador Francisco de Sousa


Coutinho - o que aparentemente não condiz com o histórico das relações ente este último e a
família do coronel Moraes. Seu filho, Joaquim Monteiro de Moraes, foi um dos engenheiros
formados pela Aula de Geometria e Fortificação, depois lente na mesma aula, além de ter sido
responsável por uma série de tarefas administrativas sob a liderança de Sousa Coutinho, sendo
um dos homens de confiança do governador. Para Francisco de Sousa Coutinho, o coronel
Monteiro Moraes era o “único apoio da verdade e do zelo no real serviço nesta terra”12.
Apesar disso, é muito provável que João Monteiro tenha sido o autor do
manuscrito em questão. Essa é uma informação que pode ser depreendida da leitura de uma
carta particular de José Plácido Correia de Brito para Sousa Coutinho. Sem mencionar o nome
de Monteiro de Moraes, se referindo apenas ao “coronel”, ao “tenente coronel” ou ainda ao
“seu amado coronel”, o escrivão da Fazenda Real o responsabiliza pelo abandono de Nova
Oeiras. Segundo Brito, o coronel “depravado de língua” era “o mais ingrato” de todos, pois
convencera o novo governador de que a fábrica deveria ser abandonada e que nunca tinha sido
favorável ao projeto13. Não é difícil concluir que um manuscrito anônimo difamatório que
fosse amplamente divulgado só poderia contribuir para o objetivo de dissuadir quaisquer
iniciativas de retomar a fábrica. Correia de Brito não explicou por que Monteiro de Moraes se
voltou contra a empreitada que havia sido a menina dos olhos de Sousa Coutinho. Uma
hipótese é que Moraes esperou Sousa Coutinho deixar o governo para fazer suas críticas sem
receber represálias. Na “Resposta”, a personagem que escreve diz ter esperado cinco anos
para produzir aquele texto. É provável também que, assim como Nova Oeiras tenha
atrapalhado os negócios de outros agentes públicos, pelas razões já mencionadas, também
trouxesse prejuízos ao coronel. Na primeira oportunidade que teve, usou sua influência e
prestígio para arruinar definitivamente o empreendimento industrial.
A “Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola sobre a fábrica do
ferro” é um pasquim, ou seja, um manuscrito anônimo com finalidade satírica ou de encômio,
muito comum nessa época. Os pasquins seguiam uma “tradição discursiva de insultar e
criticar autoridades”14 própria dos recursos retóricos setecentistas. O objetivo desses textos

12
Ofício de FISC. São Paulo de Assunção Luanda, 25 de janeiro de 1764. Filmoteca Ultramarina Portuguesa, R-
5-3-17, AL, M-99, Papéis vários sobre Angola, fl. 90. Apud Catarina Madeira Santos, Um governo "polido" para
Angola, p. 318.
13
Carta de José Plácido Correia de Brito, escrivão da Fazenda Real, para FISC, ex-governador de Angola. São
Paulo de Assunção de Luanda, 11 de fevereiro de 1773. ANTT, Condes de Linhares, mç. 44, doc. 100.
14
Luiz Carlos Villalta,“As origens intelectuais e políticas da Inconfidência Mineira”. In: M. E. L. de Resende; L.
C.Villalta (org.). As Minas Setecentistas 2.Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007. p.579-580.
259

era defender o que se julgava ser a correção da boa ordem política, do “bem comum”, pois no
conjunto das letras coloniais, a sátira é “guerra caritativa: fere para curar”15.
No caso, Monteiro de Moraes queria mostrar que Nova Oeiras era uma obra
contrária ao bem comum, “desde o seu princípio repugnante e duvidosa”, fruto de devaneios
de um “um famoso herói de caraminholas” e que por isso deveria ser fechada. O “sujeito do
Brasil” arrazoava que, com o governo de Sousa Coutinho “imprudentemente se alter[ara] toda
aquela boa ordem com que se governava”16. O texto literário simula uma resposta de “um
sujeito do Brasil” a uma carta que ele teria recebido cinco anos antes, de alguém de Angola,
sobre a fábrica de ferro. A carta é um diálogo em que o primeiro cita, comenta e critica
excertos escritos por seu interlocutor, que era um defensor das ideias de Francisco de Sousa
Coutinho e da fábrica de ferro. Sem mencionar o nome do governador, Moraes o elegeu como
a autoridade satirizada, personagem caricatural, exagerando na descrição de seus caracteres:
“agora acabou vossa mercê de pintar com todas as suas cores, o verdadeiro caráter de seu
governador: muito prometer, muito fingir, muita aparência fantástica”17.
Por ser elaborada a partir de uma série de convenções retóricas do século XVIII, a
sátira não tinha compromisso de retratar a realidade. Entretanto, a leitura desse texto permite
conhecer elementos importantes da política, economia e sociedade do Reino de Angola. Os
autores coloniais apropriavam-se do referencial colonial e o “transformam, citam, estilizam e
parodiam”18. Sem essa referência, os próprios jogos retóricos não seriam compreensíveis.
Além disso, fica bastante evidente que o autor do documento estava a par dos acontecimentos
que se seguiram à construção e manutenção de Nova Oeiras, pois detalha situações muito
específicas19. Nesse sentido, também é de se notar a forte ligação com o Brasil, já que o
personagem do remetente é de terras brasílicas e conhecia intimamente fatos que ocorreram
no interior de Angola.
O conteúdo da carta se divide em capítulos que abordam temas relacionados à
viabilidade e aos impactos da instalação de Nova Oeiras na região da Ilamba, enumerados
assim:
15
João Adolfo Hansen, A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, 2a edição, São Paulo:
Ateliê Editorial; Campinas: Editora da Unicamp, 2004, p. 48.
16
“Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”.
17
“Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”. Sobre os códigos
retóricos próprios da sátira que condicionam a construção de personagens caricaturais como a do governador, as
“exagerações dos traços tipificadores do satirizado devem dar prazer ao público que nelas encontra, além do
prazer de reconhecer a deformação na caricatura, também o prazer de reconhecer um desempenho adequado da
técnica da fantasia poética”. Idem, ibidem, p. 54.
18
João Adolfo Hansen, “Letras coloniais e historiografia literária”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 18, 2006, p. 24.
19
Cita por exemplo que o custo do ferro de Nova Oeiras era de 45 mil ou 46 mil réis. Somente alguém muito
próximo do circuito da correspondência entre governadores e Corte poderia ter essa informação.
260

“se será útil esta fábrica, se poderá durar sem opressão dos negros; porque
preços poderá sair para fazer conta; que gente branca será necessária para o
seu serviço; a forma porque pode subsistir-se em um clima tão enfermo; que
conduções tem, qual a riqueza, abundância, ou qualidade da Mina; a força ou
duração das lenhas”20.

A enunciação dos assuntos apontando os muitos empecilhos a serem vencidos já


sinaliza o teor pessimista do restante da carta. Entre os muitos textos laudatórios sobre Sousa
Coutinho, que se auto intitulou o “administrador filósofo”, essa fonte destoa do conjunto e nos
concede uma nova perspectiva de como seu governo foi visto por alguns de seus
contemporâneos. As críticas revelam o cotidiano de exploração do trabalho dos Ambundos na
fábrica; os altos gastos da Fazenda Real com salários, equipamentos, mantimentos; as
doenças, mortes e dificuldades de se viver na Ilamba. Estes são temas que temos discutido
nesta tese com base em outras fontes, mas a interpretação crítica da “Resposta” sintetiza uma
visão do cotidiano em Nova Oeiras: “Este seu governador, não contente com exaurir o Erário
Régio de Angola, também pretendia esgotar o reino de vassalos; é forte furor de matar!”
Um ponto recorrente no texto é a análise sobre a qualidade das minas e montes de
minério. O opositor do governador considerava que o minério não poderia dar maiores
quantidades de ferro e essa era a causa dos sucessivos fracassos nas experiências de fundição.
Contudo, como não tinha condições de fazer uma avaliação mais precisa, concluía que se
deveria testar novamente as amostras enviadas para Lisboa. A questão da inadequação técnica
dos ferreiros que estavam em Nova Oeiras não é levantada e nenhuma opinião sobre isso é
expressa. O foco central das críticas é o comportamento do governador, que é visto como
hiperbólico: suas promessas em relação à fábrica eram “trovoadas secas” que só assustavam
os ouvidos.
Por fim, um último aspecto merece destaque, a discussão sobre se Angola era ou
não país para fábricas. O defensor de Nova Oeiras dizia que a região da Ilamba reunia as duas
principais prerrogativas para abrigar uma fábrica: ali se encontravam todas as qualidades
naturais necessárias e existia mão de obra especializada para levar o empreendimento adiante,
sem prejudicar as demais atividades econômicas da colônia, nomeadamente o comércio de
escravos. Um dos personagens diz:

“Não me cansarei em provar que há muito ferro, que há muita lenha e que
há muitos negros ferreiros, costumados a este penoso trabalho, porque isto é
público e constante, direi só os meios porque se pode dar a precisa atividade

20
“Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”.
261

aos negros, mostrando que se eles não forem deste modo empregados, não
farão nenhuma utilidade ao rei e ao povo”21.

A opinião do crítico de Sousa Coutinho é completamente distinta. Respondeu ao


trecho acima categoricamente: “Angola não é país para fábricas, e muito menos para a de
ferro pois de nenhuma forma podem concorrer para ela as qualidades da Natureza e da Arte,
que vossa mercê insinua”. Sobre emprego de ferreiros Ambundos emenda: “também os
muitos negros ferreiros já não são tantos que o seu governador consumiu grande parte deles
entre mortos e fugidos”. A “Resposta” deixa patente que, para seu autor, não era possível
estabelecer fundições de ferro lucrativas em Angola porque as minas eram improdutivas e não
havia esforço técnico que pudesse transpor essa barreira natural. Fora isso, a fábrica levava o
reino à ruína, porque concentrava mão de obra que poderia ser utilizada em outras atividades,
como o comércio. E, neste quesito, o principal comércio do Reino de Angola era o tráfico de
escravos.
O projeto pombalino para Angola era tornar este reino mais que uma feitoria, uma
colônia com povoações civis, para usar uma expressão do próprio conde de Oeiras, que não
tivesse como função privilegiada a exportação de escravos, mas que contasse com uma
economia diversificada, com a promoção da agricultura, o estabelecimento de manufaturas e a
exploração da natureza com fins comerciais. Essas diretrizes deviam ser seguidas pelos
governadores de Angola que, por mais que desfrutassem de certa autonomia, tinham uma
referência e um programa a cumprir. Este quadro mais geral da administração colonial é
importante porque, nas fontes analisadas, percebe-se que as ideias do reformismo ilustrado
português dependiam do apoio de uma vasta rede política para se efetivarem. Elas partiam dos
gabinetes da metrópole, passavam pelas elites locais nas colônias, especialmente por figuras
como João Monteiro de Moraes, até chegar aos capitães-mores dos presídios do interior
distante do Reino de Angola.
O que nos parece é que Nova Oeiras não encontrou a necessária colaboração de
pessoas que eram pontos chave para que os planos pudessem ser realizados no Reino de
Angola: os comerciantes, os capitães-mores e a elite política local. E esse também foi um
fator importante para a sua ruína. A recusa em dar continuidade ao projeto se torna evidente
no pasquim de Monteiro Moraes, pois o opositor do “administrador filósofo” disse: “Angola
não é país para fábricas”.

21
“Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”.
262

Pode-se dizer que a rejeição a Nova Oeiras representava a negação de todo o


programa pombalino de fomento a manufaturas em Angola? A fábrica de ferro não pode ser
analisada isoladamente, outras empresas foram planejadas, como as fábricas de cal e o
incentivo à exploração ao salitre e enxofre, em Benguela. Nenhuma delas alcançou os
resultados esperados. Esse é um assunto que merece um exame em pormenor, ressaltando as
inciativas particulares e os eventuais conflitos com a Fazenda Real. Por ora, não temos
elementos para aprofundar a análise, porém há indícios que apontam para resistências às
mudanças trazidas por Sousa Coutinho. E isso nos leva a uma questão central: até que ponto
os súditos da Coroa portuguesa estavam dispostos a fazer de Angola uma colônia de
povoações civis, a investir em outros ramos que não o tráfico de escravos, negócio ao qual
estavam direta ou indiretamente ligados e era a razão de suas fortunas? Ao que parece, os
moradores ilustres de Luanda não foram convencidos pela retórica do “administrador
filósofo”. Na sátira de Monteiro Moraes, essas contradições e tensões ficam nítidas: seu texto
se constrói pela oposição entre, de um lado, o defensor das reformas ilustradas, e de outro,
uma cabeça que não compreende a necessidade de tais mudanças. Vejamos um exemplo.
O apologista de Nova Oeiras considerava uma fábrica de ferro em Angola “um
extraordinário acontecimento” porque enfim um “governador hábil e vigilante” havia atentado
para os “tesouros que a natureza lhe oferecia em montes de ferro”. Algo até então impensado
para aquela conquista porque se julgava erroneamente que “as forças daquela vasta e útil
região” se resumiam a fornecer “os negros necessários” para “as enganadoras minas do ouro e
aos engenhos de açúcar do Brasil”. De acordo com esse pensamento, Sousa Coutinho era o
arguto administrador que levaria Angola ao mesmo estatuto do Brasil, deixando sua função de
mera feitoria fornecedora de escravos para a outra margem do Atlântico.
Para o “sujeito do Brasil”, essa lógica não fazia qualquer sentido. Para ele,
fornecedor de escravos era função que deveria ser louvada, juntamente com a exportação de
marfim. Na verdade, as conquistas da África Ocidental já davam o que poderiam dar, não
havia mais o que explorar:
“Que homem ainda sem juízo se atreveu até agora a dizer que as produções
das conquistas da África devem prevalecer ao ouro, e engenhos de açúcar do
Brasil? E que homem de mais medíocre entendimento deixa de conhecer que
a África Ocidental dá toda quanta utilidade de si pode dar, além de seu
estimável marfim, em fornecer escravos necessários para os utilíssimos
serviços das minas, engenhos e agriculturas do Brasil?”22

22
“Resposta que um sujeito do Brasil deu ao outro de Angola, sobre a Fábrica do Ferro”.
263

De certa forma, Sousa Coutinho tentou negociar com essas forças políticas
conflitantes, assim como utilizou estratégias para convencer as autoridades africanas. Tanto é
assim que, frequentemente, enfatizava a necessidade de não subtrair a força de trabalho e o
ferro da agricultura, nem desviar os carregadores das atividades que eram indispensáveis para
quaisquer expedições nos sertões e, principalmente, para o tráfico de escravos. Não poderia
faltar ferro e ferreiros para as ferramentas agrícolas e para os libambos23. Tais medidas
destinavam-se a evitar o confronto com pessoas importantes nos sertões do Reino de Angola,
de quem procurava conquistar apoio. As elites locais, tais como a família Monteiro, tinham
uma forte ligação com o tráfico de escravos, como lembram Thornton e Miller:
“estes ‘portugueses’ angolanos ou luso-africanos, eram comerciantes de
escravos, contrabandistas, ocupavam cargos médios e baixos na burocracia
civil, militar e eclesiástica da colônia, e constituíam o equivalente mais
próximo de uma aristocracia agrária local”24.

Por fim, a “Resposta” é um documento interessante que permite pensar a


reinvenção ou subversão das ideias e projetos engendrados no centro do império ao chegarem
nas áreas coloniais. Sua análise possibilita reconstruir sob que circunstâncias as decisões
administrativas foram tomadas no Reino de Angola. Quando a historiografia cita a decisão do
governador Antonio de Lencastre de fechar Nova Oeiras, o faz como se essa escolha
decorresse apenas de sua vontade política ou do rigor da apuração contábil dos prejuízos
financeiros que a fábrica trouxera25. A personagem de João Monteiro de Moraes, seus
esforços para influenciar o governador e seu pasquim satírico não são levados em conta. No
entanto, elas documentam uma dinâmica interna ao universo colonial que não pode ser
deixada de lado na análise.
O breve exercício que fizemos aqui de procurar entender as lógicas locais que
guiavam os acordos políticos revela como são complexas as motivações para o abandono dos
planos de desenvolver a indústria do ferro em Angola, e como havia limites para a ação dos
governadores, que tinham que lidar com os interesses de outros súditos da Coroa portuguesa.
Deles dependia em grande parte a efetivação dos planos coloniais. No fim do seu governo,
Sousa Coutinho considerava que esse tipo de empreitada era “extravagante”, dependia de

23
Carta de FISC para Francisco Matoso de Andrade, capitão-mor de Ambaca. São Paulo de Assunção de
Luanda, 25 de maio de 1767.BNP, C – 8742, F – 6364, fl. 182v.
24
John K. Thornton; Joseph C. Miller, “A crônica como fonte, história e hagiografia; o Catálogo dos
Governadores de Angola”, Revista Internacional de Estudos Africanos, n. 12-13, 1990, p. 15.
25
Ana Madalena Trigo de Sousa, D. Francisco de Sousa Coutinho em Angola: Reinterpretação de um Governo
1764-1772. Dissertação (Mestrado em História). Funchal / Lisboa: Universidade de Nova Lisboa, 1996, p. 102.
Catarina Madeira Santos, Um governo "polido" para Angola, p. 533.
264

muitos braços, e estava além de seu alcance, da estrutura colonial ali montada e do pouco
tempo que passou em Angola: “semelhantes obras não são para governadores que acabam,
são para o rei, que sempre vive, e que pode domar a preguiça, a ignorância, e a preocupação
dos povos e dos governadores”26.
Como isso não aconteceu, ao findar seu governo, foi substituído por um
administrador refratário a suas ideias. Com apoio das forças que havia se oposto a Sousa
Coutinho e sem condições de enfrentar a resistência dos centro-africanos em manter seus
“segredos”, Antonio de Lencastre fechou a fábrica de ferro em Nova Oeiras: suspendeu os
jornais, mandou que se deportasse os mestres europeus que ali se encontravam, abandonou o
edifício.

5.2. Outras paisagens, mesmas questões.

Em junho de 1767, o governador de Angola pediu a seu cunhado, Luis Antonio de


Sousa Botelho de Mourão, morgado de Mateus, governador da capitania de São Paulo (1765-
1775)27, que lhe enviasse uma descrição pormenorizada da fábrica de ferro que “se fazia em
São Paulo”: “se fica distante do mar, que mestres tem, que número de gente trabalha, quanto
ferro dá por dia, e porque preço sai”28. Os edifícios da Fábrica de Ferro de Ipanema foram
estabelecidos apenas em 1811. Contudo, as informações e as pesquisas sobre a mineração do
ferro no morro da Araçoiaba (Iperó-SP) remontam ao século XVI e uma fábrica de ferro
funcionou ali em meados do século XVIII, durante a gestão de Luis Antonio de Sousa, que
considerava a fundição de ferro uma das principais preocupações de seu governo.
Naquela ocasião, o morgado de Mateus pediu as plantas de Nova Oeiras, para que
à luz delas pudesse estabelecer a fábrica no Morro da Araçoiaba29. Os aparentados
funcionários régios trocavam experiências para dar seguimento às diretrizes de implantação
de manufaturas nas áreas coloniais, promovidas pelo conde de Oeiras. Na correspondência
entre os dois governadores o tema aparece com frequência. Eles discutem informações
26
Carta de FISC para Luis Antonio de Sousa, governador de São Paulo. São Paulo de Assunção de Luanda,
quatro de maio de 1770. BNP, C – 8743, F – 6377.
27
Assim como Sousa Coutinho, o morgado de Mateus recebeu instruções do conde Oeiras sobre como deveria
administrar a capitania. As pautas se repetem: “Estas foram (...) as coordenadas de sua administração durante os
dez anos que durou: exploração territorial, povoamento e urbanização, fomento econômico, fortalecimento
militar e organização burocrático-administrativa”. Heloísa Liberalli Bellotto, Autoridade e conflito no Brasil
colonial: o governo do morgado de Mateus em São Paulo (1765-1775). 2ª ed. São Paulo: Alameda, 2007, p. 88.
28
Carta de FISC para Luis Antonio de Sousa, govenador da capitania de São Paulo. São Paulo de Assunção de
Luanda, quatro de maio de 1770. ANTT, Projeto Reencontro Morgado Mateus, mf. 12.
29
Carta de FISC para Luis Antonio de Sousa, govenador da capitania de São Paulo. São Paulo de Assunção de
Luanda, quatro de maio de 1770. BNP, C - 8743, F - 6377.
265

técnicas sobre a fundição e até mesmo a possibilidade de contratação conjunta e intercâmbio


de trabalhadores especializados, mestres fundidores, ferreiros, forjadores.
Estes não foram os únicos casos envolvendo o desenvolvimento de manufaturas,