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O HOMEM CORDIAL E SUA DESCENDÊNCIA FASCISTA

É suspeito aferrar-se ao sentimento e ao coração contra a


racionalidade pensada, contra o direito, o dever e a lei. Suspeito
porque no sentimento o que há de adicional é somente a subjetividade
particular, a futilidade e o arbítrio. Só egoístas, maus e mal
intencionados prendem-se ao particular.
Os que se sentem injustiçados por não terem os seus caprichos
atendidos são a corporificação da injustiça.

HEGEL, Enciclopédia das ciências filosóficas III

Quem não conhece os escritos políticos de Hegel, dos quais a Filosofia do direito é
a expressão máxima, está condenado a interpretar de modo cordial, ou subjetivo, o
conceito de homem cordial que Sérgio Buarque de Holanda expôs em Raízes do
Brasil. Este tem sido há mais de 80 anos o destino predominante de uma reflexão
crítica extremamente esclarecedora da situação política brasileira, tendo por objeto
as diversas frações das nossas classes dominantes, desde os tempos coloniais
absoluta e definitivamente incapacitadas para a democracia e a liberdade. Não por
acaso, o destino de livro treslido foi pautado pela recepção inepta de primeira hora
por parte dos intelectuais católicos, com Tristão de Ataíde à frente.

Cerca de 20 anos depois da Revolução Francesa, mais ou menos resignado com a


constatação de que a burguesia alemã não cumpriria, ao contrário da francesa e da
inglesa, a tarefa histórica de conquistar a sua própria liberdade (em relação às
heranças do feudalismo), Hegel formulou as proposições básicas de que Sérgio
Buarque de Holanda se apropriou para elaborar seu conceito de homem cordial. A
principal delas diz respeito às diferentes relações que a sociedade pode ter com o
Estado, dependendo das origens deste último. No caso dos gregos e dos romanos
da Antiguidade, o Estado foi produto das energias dos cidadãos e como tal era
reconhecido: obra deles próprios. Já em países que foram colonizados (como a
região da Europamedieval onde hoje se situa a Alemanha e o Brasil da época
moderna) não existem cidadãos. Nestes casos, o Estado é uma instância exterior
que domina o conjunto da sociedade e esta, por sua vez, é constituída não por
cidadãos, mas por súditos. Para quem não se lembra, a palavra súdito significa
subjugado, submetido; portanto são homens que desconhecem a liberdade e a
confundem com mandos e desmandos.Não são livres, mesmo que tenham escravos.
Para o Estado colonizador, o bem supremo do súdito é ser-lhe útil. O bem supremo
deste súdito, na vida política, é o ganho, a autopreservação, o privilégio, e
eventualmente a vaidade. Aqui grassa o interesse individual; não existe a
experiência da liberdade, da criação de leis a serem livremente obedecidas. Súditos
não sabem que a liberdade verdadeira é política, só existe onde for conquistada e
atende pelo nome de democracia.

Não custa nada insistir: súditos não são cidadãos, mesmo que sejam senhores de
escravos, pois estão, assim como os seus escravos, a serviço de um Estado que lhes
é exterior e os domina. Ignorando a experiência e o conceito de liberdade, súditos
reduzem o seu alcance à liberdade individual e subjetiva, que Hegel (seguindo a
lição de Kant) definiu como arbítrio ou capricho. O professor Fernando Novais
avançou mais alguns passos na caracterização das razões materiais da
esquizofrenia sociopolítica dos súditos de Portugal no Brasil: senhores de terras
doadas pela Coroa; senhores de escravos comprados; aristocratas privilegiados
pelo rei, ou vassalos, e ao mesmo tempoburgueses que produzem para o mercado e
nele se abastecem da mercadoria que assegura a sua condição de senhor. Mas não
nos precipitemos1.

A grande contribuição de Kant para o debate alemão sobre liberdade no plano


político está justamente na definição de liberdade como direito e arbítrio como
privilégio. Não-cidadãos reivindicam privilégios em nome da liberdade, tanto mais
ambicionados quanto mais exclusivos. Cidadãos reivindicam direitos, que são, por
definição, universais. Para distinguir privilégio de direito, Kant formulou seu
famoso “imperativo categórico”, que é tão simples quanto impossível de ser
entendido pelos caçadores de privilégios, mesmo os imaginários: antes de fazer
alguma reivindicação, devo me perguntar se ela pode ser universalmente estendida
a toda a humanidade, nem mais nem menos, pois é isto que significa universal no
sentido rigoroso. Se a resposta for afirmativa, estou reivindicando um direito; se
negativa, é um privilégio. É muito simples:se estiver reivindicando um direito, devo
inclusive lutar por ele; se for privilégio, estarei me comportando como súdito
mesquinho e não como cidadão. Quem disputa privilégios não é livre, pois ou a
liberdade épara todos ou se está reivindicando privilégio e privilégio é arbítrio,ou a
liberdade usurpada por poucos.

Para ilustrar a diferença entre a consciência da própria liberdade que tinha o


cidadão grego e a inconsciência da servidão por parte dos alemães, Hegel
poderiater sugerido a leitura da Constituição de Atenas, de Aristóteles. Este livro
mostra, melhor que a República de Platão, como fazia parte do cotidiano do
cidadão ateniense a conversa sobre seu próprio Estado, sua história, suas
constituições e leis vigentes2. Para contrastar com esta realidade, contemporânea

1Quem se interesse pelos pormenores da reflexão de Fernando Novais, pode ler com extremo
proveito o ensaio “Condições de privacidade na Colônia”, presente no volume Aproximações,
publicado em 2005 pela editora Cosac Naify. A dialética aqui referida está na página 216.
2Entre outros textos, na História da filosofia Hegel avisa que não tem cabimento cobrar de

Aristóteles o fato de em seu tempo haver escravos em Atenas, pois só na época moderna surgiram a
das tragédias gregas, Sófocles expõe na tragédia Antígone a dificuldade de
submissão às leis por parte dos sobreviventes e defensores da realidade superada
pela existência do Estado. Esta personagem representa, segundo Hegel na Filosofia
do direito, as forças e valores de um passado no qual reinava o poder absoluto e
arbitrário das famílias. Em nome destes valores e descumprindo a lei vigente,
Antígone faz as honras fúnebres a um irmão que morreu em guerra contra seu
próprio Estado (ainda por cima aliando-se a inimigos externos; seria preciso
acrescentar que em países como o Brasil até hoje artistas e público se identificam
com Antígone em nome do “amor fraterno” e contra o Estado “autoritário”?)3.

Sem ignorar os riscos de incompreensão que corria, Sérgio Buarque de Holanda


usou o exemplo (Antígone) e o argumento de Hegel para caracterizar o homem
cordial: é um súdito, ignorante do que seja liberdade, cidadania e esfera pública em
país que se dizia República. Ainda nos tempos coloniais, objetivamente a serviço do
rei (de Portugal, no caso do Brasil), este súdito se considerava senhor absoluto de
gentes e terras. Era inclusive chefe militar, privilégio que só perdeu quando o
Estado Português se transferiu para cá, mas que mesmo assim permaneceu
exercendo com os seus exércitos de jagunços que entraram pelo século XX afora – e
seus herdeiros continuam barbarizando até hoje. É este o homem cordial, e não o
povo brasileiro, como queriam os Tristões de Ataíde, Cassianos Ricardos e demais
simpatizantes, inclusive Gilberto Freyre. O povo brasileiro sempre foi e continua
sendo vítima dos desmandos destes súditos ou vassalos que apoiavam (e apoiam)
seus atos em argumentos irracionais, como são os do “coração”, no caso de
sentimentos benevolentes, ou do fígado, no caso dos ódios e vendetas. A própria
“indignação moral” faz parte deste jogo hipócrita e sentimentaloide.Este tipo de
argumentação é hipócrita porque os mais mesquinhos interesses costumam estar
mascarados sob alegações sentimentais. Nas palavras de Hegel: “o hipócrita
propriamente dito tem consciência da diferença entre o que diz e o que pensa ou
sente”.

Sendo um fato objetivo que dispensa demonstração a ausência quase completa de


Kant e Hegel no pensamento brasileiro (mesmo à esquerda), não é de admirar que

experiência eo conceito de liberdade a que se refere. Trata-se agora, e antes de mais nada, de
entender que o homem é livre em-e-para-si. Este conhecimento só foi possível com a ciência
moderna, que passou a explicar o universo e a pensar por conta própria, isto é, com autonomia, sem
depender da religião e da teologia. O primeiro capítulo desta história foi escrito por Descartes, que
inclusive explicou ser a própria fé produto da razão e por isso até hoje é demonizado pela Igreja
Católica e seus teólogos que passam por filósofos, inclusive Heidegger.
3 As teses de Hegel são desenvolvidas por Engels no livro A origem da família, da propriedade

privada e do Estado. Mas o argumento de Engels avança por assim dizer recuando, pois seu
exemplo é ainda mais eloquente, retirado que foi da tragédia de ÉsquiloSete contra Tebas.Aqui se
trata do mesmo assunto mas fica mais claro o papel de “traidor da pátria” desempenhado pelo
irmão de Antígone.A obra de Ésquilo foi encenada em 467 AEC e a de Sófocles é de cerca de 441
AEC.
a leitura de Raízes do Brasil seja ela mesma predominantemente cordial, isto é,
arbitrária e sentimental, pois sem o imperativo categórico, tal como formulado por
Kant, e sem a crítica à subjetividade sentimental, arbitrária, hipócrita e
anticidadãelaborada por Hegel, desaparece o terreno teórico onde Sérgio Buarque
enraíza o homem cordial na versão brasileira. Isto sem falar nas exigências
mínimas, estabelecidas pela ciência moderna, para o debate a sério das teorias.

O capítulo do diálogo Hegel-Buarque de Holandapode ser encerrado com uma


deliberada mistura das suas vozes: onde não há liberdade política não pode haver
interesse pelo Estado, porque só temos interesse por aquilo em que atuamos e em
suadefesa. Na ausência da cidadania,ou da esfera pública que assegure o livre
debate das ideias, o objetivo da vida passa a ser meramente ganhar o pão de cada
dia, com maior ou menor grau de conforto ou luxo. O interesse pelo Estado passa a
ser meramente egoísta: fica confinado à esperança de que sua continuidade
assegure a realização dos nossos objetivos mesquinhos ou mesmo que os realize
por nós. Cria-se um estado de espírito favorável a qualquer religião que promova a
passividade a virtude suprema e transforme o autodesprezo e a condição de
desgraçado em motivo de glória e orgulho. Lutar e morrer por um direito
pressupõe apoiar esse direito. É uma disposição estranha numa sociedade
oprimida, em que até a propriedade é um favor.4

Passemos a palavra ao Sérgio Buarque de Raízes do Brasil. As citações serão


seguidas das páginas da edição comemorativa do 80.º aniversário de publicação
desta obra5 e, quando estiverem sem aspas, correspondem a textos adaptados.

A grande herança dos tempos coloniais é a família patriarcal. Esta “fornecia a ideia
mais normal do poder, da respeitabilidade, da obediência e da coesão entre os
homens. Como resultado, temos o predomínio, na vida social, dos sentimentos
próprios à comunidade doméstica, naturalmente particularista e antipolítica; uma
invasão do público pelo privado, do Estado pela família” (133). Com o predomínio
do poder da família patriarcal herdada da colônia, fica explicada a nossa
impossibilidade de termos um Estado democrático (193).

A justificação para esta anomalia (do ponto de vista da cidadania, da liberdade ou


da democracia) provém do século XIX, mas deita raízes na teologia.Trata-se da
“tese romântica de que o Estado é uma evolução da família. A verdade histórica
demonstra o oposto, a saber, que o Estado é uma transgressão da ordem
doméstica e familiar. No Estado, o indivíduo se torna cidadão, contribuinte, eleitor,
elegível, recrutável e responsável perante as leis da Cidade. [...] O Estado é o

4 Para os que estendem a cordialidade genérica ao povo brasileiro, vale a pena lembrar que a falta de
propriedade e de poder que define os pobres faz toda a diferença.
5 Cf. BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. Raízes do Brasil. Edição crítica. São Paulo: Companhia das

Letras, 2016.
triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato
sobre o corpóreo. A ordem familiar é abolida pelo Estado” (245). Restou à família
(moderna) o execrável papel de escola de inadaptados, sociopatas e psicopatas. É
ela a esfera dos “laços de sangue e do coração”, de onde provém o homem cordial,
incapaz de ultrapassar os limites mesquinhos da vida privada (251-256).

Foram estes homens cordiais, também conhecidos como “filhos-família”, os que


nos tempos do Império e da República Velha desempenharam o desprezível papel
de funcionários patrimonialistas no Estado brasileiro. Entendiam funções,
empregos e benefícios como privilégios, como assuntos do seu interesse particular
(252). Se o comportamento atravessou o século XX, cabe aos historiadores e
sociólogos explicarem a patologia. Quem sabe ficaremos devendo esta explicação a
algum bom leitor de Sérgio Buarque que se disponha a fazer a pesquisa empírica e
documental.

Especificando mais um pouco, o indivíduo cordial se afirma como indiferente à lei


geral sempre que esta contrarie suas afinidades emotivas. Seu interesse está
sempre voltado para si mesmo, para aquilo que o distingue dos demais, do resto do
mundo (273).E o intelectual cordial, por sua vez, é este indivíduo por assim dizer
voltado para o trabalho cerebral que apresenta, se não todas, algumas das seguintes
marcas: presunção de que talento é de nascença e espontâneo porque trabalho e
estudo são ofícios vis; voluntário alheamento do mundo circundante; crença
mágica no poder das ideias (280); concepção de saber como instrumento para
elevar seu portador acima dos comuns mortais; cultivo do saber para o
autoenaltecimento; prática daerudição sobretudo formal; citar em língua estranha
para deslumbrar o leitor, como se exibisse uma coleção de pedras preciosas;
prestigiar teorias com endosso de nomes estrangeiros e difíceis; concepção
simplificada do mundo para colocar tudo ao alcance de raciocínios preguiçosos
(288). Os fascistas, como expressão mais radical do tipo,são “ignorantes e
idiossincráticos” (329). Mas, acrescentemos, entre o homem cordial e o fascista há
algumas mediações, das quais a mais importante, dado o seu peso material, são as
forças de proteção e segurança da propriedade privada – exército, polícias e
milícias – das quais provém o seu contingente armado.

Como já está em Sérgio Buarque de Holanda o alerta para a ampla caracterização


de um tipo sociológicoque vai do latifundiárioaos fascistas, vale a pena encerrar
este capítulo passando a palavra a Brecht,o alemão que,como Sérgio Buarque,teve a
experiênciada fera rosnando em seus calcanhares: “É hipócrita toda manifestação
contra o fascismo que evite mencionar as relações sociais das quais ele resulta (...).
Os que não querem renunciar à propriedade privada dos meios de produção, longe
de se livrar do fascismo, terão necessidade dos seus serviços. A cara do fascismo é a
da escroqueria vulgar, a mais cínica corrupção, a mais brutal covardia. Antes de
sair de cena, a burguesia assume a aparência mais repugnante”6.

Iná Camargo Costa

Texto anterior (https://outraspalavras.net/brasil/polemica-em-defesa-sergio-


buarque/):

Polêmica: em defesa de Sérgio Buarque


POR
INÁ CAMARGO COSTA
– ON 17/04/2018CATEGORIAS: BRASIL, DESTAQUES, ECONOMIA

A pretexto de atacar conservadorismo, Jessé de Souza investe contra intelectuais que ajudaram a construir
pensamento crítico brasileiro. Ignorância? Ou simples desejo de espalhafato?

Por Iná Camargo Costa

Este texto vai se restringir ao delineamento de um aspecto da identidade intelectual, o do desempenho


linguístico, do mais recente detrator da obra de Sérgio Buarque de Holanda, seguindo o próprio exemplo deste
Mestre. Inspirado em Mário de Andrade, Sérgio Buarque sempre teve muita paciência com os jovens
candidatos a crítico, mesmo os que não exibissem nenhuma disposição mental para argumentar. Mas sempre
exigiu de todos um mínimo de qualificação que, uma vez inalcançado, dava lugar a pronta e enérgica
descompostura. Foi o caso de um candidato a crítico literário e especialista em literatura francesa que leu um

6Brecht, Bertolt. (Ensaios sobre o fascismo, 1933-1939) in Écrits sur la politique et la société. Paris:
L’Arche, 1970, p. 146.
verso em francês com a palavra “sol” (solo, terra, chão) e a traduziu por sol, o astro-rei, que em francês é
“soleil”. Podemos imaginar a quantidade de erros em cascata produzidos por esta leitura inepta, de cujos
pormenores nosso crítico poupou os seus leitores.

O que poderia aparecer aqui como argumentum ad hominem, na verdade é apenas empenho em definir os
termos e razões de um impossível debate. Estamos falando de um bacharel em direito pela UNB que se
doutorou em sociologia por Heidelberg. Atualmente é professor na Universidade Federal do ABC, mas já foi
presidente do IPEA nos anos de 2015 e 2016. Seu autor mais apreciado e estudado é Max Weber, sendo
também adepto sem restrições da teoria sociológica de Pierre Bourdieu (inclusive no quesito interpretação de
Max Weber). Declara-se, sem rodeios, anticomunista e antissocialista por adesão ao assim chamado
capitalismo regulamentado, que conheceu pessoalmente quando de seu doutorado, nos anos de 1980, na então
República Federal da Alemanha, em Heidelberg [1]. Declara-se impressionado com o capitalismo
regulamentado pelo fato do seguro-saúde de um reles bolsista (não seria da Fundação Konrad Adenauer?) de
pós-graduação ter direito de atendimento pelo mesmo médico do presidente da Mercedes-Benz! Finalmente,
o detrator da “inteligência brasileira” se apoia, em tópicos de filosofia e metafísica, no teólogo canadense
Charles Taylor. Todas estas informações estão disponíveis no livro A elite do atraso, sua mais recente
publicação. Mas uma interpretação minimamente informada já esclarece um tópico omitido: trata-se de
adepto do atualmente chamado comunitarismo, que em política equivale a um centrismo radical (nem liberal
nem marxista), atualiza a Doutrina Social da Igreja lançada no fim do século XIX com a encíclica Rerum
Novarum (1891) e recentemente foi re-re-re-requentada pela Centesimo anno (1991) de João Paulo II. A
marca central deste discurso dito centrista é dedicação (discursiva) total aos pobres, miseráveis, excluídos,
etc., que nosso autor promoveu (ou degradou) a ralé dos novos escravos no caso Brasil.

Originalmente este trabalho pretendia ser apenas uma exposição didática do conceito de “homem cordial”,
metodicamente treslido desde quando o livro Raízes do Brasil foi publicado em 1936, a começar pelos
intelectuais católicos do tipo Tristão de Ataíde e Cassiano Ricardo. Mas um show de intelectualidade cordial
protagonizado por autor e leitores do livro A elite do atraso, no carnaval de 2018, motivou a mudança de
planos. Explico-me: o desfile da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti produziu da parte deles uma resposta
típica de quem não conhece ou não gosta de carnaval, nem sabe como se produz um desfile, mas leu o livro.
Imediatamente surgiu entre eles a lenda urbana de que o carnavalesco da Tuiuti se baseara nele, que
entretanto foi publicado em setembro de 2017. Seu autor, nitidamente envaidecido pela reação de seu fã-
clube, aderiu sem qualquer precaução à tese e tratou de dar entrevistas a respeito, sem esconder que promovia
a própria obra. Mas bastaria que algum daqueles entusiasmados se desse ao trabalho de consultar o site da
Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA) para verificar que o título não consta da
bibliografia que acompanha a sinopse do enredo da Tuiuti, ou que algum conhecedor do mundo do samba os
avisasse que em setembro, quando o livro saiu, o desfile já estava em fase de finalização, com coreografias
em ensaios finais, as alegorias quase prontas, todas as fantasias definidas, bem como a sequência das alas e
das alegorias e assim por diante. Diante deste espetáculo constrangedor, aceitamos o risco de produzir um
simples esboço de caracterização do autor daquele livro. A fonte de todas as informações que seguem, não
custa repetir, é o próprio livro.

O curioso desempenho linguístico do detrator da inteligência brasileira em geral vai do lugar-comum ao


chocante. Neste último caso, encontra-se a exumação sem o menor senso crítico de parte da expressão
extremamente grosseira criada pelo jornalista Nelson Rodrigues – complexo de vira-lata –, promovendo-a a
conceito também impensado em se tratando de autoproclamado defensor dos nossos fracos e oprimidos. Não
lhe ocorreu nem por um minuto que, sem falar no sentido original – vira-lata designa cachorros sem
“pedigree” –, quando referida a pessoas e teorias, a palavra tem um evidente conteúdo racista? Enquanto o
jornalista carioca (assumidamente preconceituoso do chapéu aos sapatos) designava uma espécie de complexo
de inferioridade relacionado ao futebol (depois da célebre derrota de 1950 para a seleção do Uruguai), o nosso
diatribista, com o adjetivo e seus derivados como “vira-latice” e “vira-latismo”, tenta dar foro de discurso
científico a uma expressão que até o racista Nina Rodrigues repeliria horrorizado.

De matriz mais profunda e verdadeiramente popular é o emprego insistente do adjetivo “fajuto” que, embora
nossos dicionários apresentem como de etimologia ignorada, tem grande possibilidade de ser uma importação
do lunfardo argentino. Basta conhecer as acepções de “falluto” (pronuncia-se fajuto): falso, desleal, hipócrita,
pérfido, traidor e desonesto, para estabelecer os laços fonético e semântico de família. Segundo os dicionários
da língua portuguesa, a palavra significa simplesmente mal feito, mas como consequência pode significar
falso ou, pior, falsificado (no caso de alguma bebida), como no lunfardo. Se era de falsificação que o autor
queria falar, por que não empregou as palavras comuns do discurso científico: falacioso, falaz (mentiroso),
simplesmente falso, ou mesmo falsificado? O emprego de palavras como “fajuto” é forte indicativo da
definição de um público leitor: aquele mesmo que foi tão duramente criticado, a saber, a classe média que,
conforme caracterizada no livro, é igualmente grosseira e superficialmente alfabetizada, além de odiar os
pobres sem sentimento de culpa. Se nossa hipótese etimológica estiver correta, eis que estamos diante de um
caso de burla involuntária: a desqualificação do trabalho intelectual em termos conhecidos por uma certa
classe média que odeia pobres e no entanto, por simples ignorância, fala a língua do submundo do tango e da
prostituição portenhos… (eis uma situação bem divertida para apreciadores de um gênero que também se
caracterizou como “burlón y compadrito”…).

E já que resvalamos para o terreno da galhofa, não custa destacar mais uma desatenção linguística do nosso
cientista social, especialmente preocupado com o “estado atual dos conhecimentos científicos”. Em seu livro
(que cobra de Raymundo Faoro atenção para “filigranas conceituais” e se apresenta como empenhado no
combate a “ideias velhas”) topamos com o emprego da expressão “o sol nasce” por mais de uma vez. Se nos
lembrarmos de que até a Igreja Católica já reconheceu que estava errada na condenação do heliocentrismo de
Galileu (é verdade que só em 1992), está mais do que na hora de encontrar expressão mais adequada do que
esta, de teor geocêntrico, para designar fenômenos naturais como alvorecer, luz do dia e outros, mesmo por
parte de escritores católicos.

Indício de pouco interesse por literatura, nosso autor usa sem saber a expressão “escravos de todas as cores”
criada por seu inimigo-mor – Sérgio Buarque de Holanda – no prólogo de uma peça para teatro de revista
chamada Antinous. A intenção naquele trabalho era indicar que, ao contrário do discurso oficial, a escravidão
persistia no Brasil dos anos de 1920 e não se restringia mais aos negros. A diferença é que o trabalho de
Sérgio Buarque era um experimento literário modernista (publicado na revista Estética, da qual era um dos
editores).

Pela insistência em usar palavras como demonizar, sacralizar, divinizar, satanizar e conexas do léxico cristão
(católico), o autor dá consistência à hipótese de sua adesão irrestrita à doutrina social da Igreja, já referida.
Esta hipótese também se fortalece na explicitação exaustivamente insistente do interesse (promovido a
sociológico) pelos excluídos, desvalidos, etc., que no discurso da Centesimus annus já tinha sido promovida a
“opção preferencial pelos pobres”. A novidade no livro é a sua promoção a única e original explicação para os
males atuais do Brasil enquanto “permanência da escravidão” em formas ainda mais perversas (o Autor diria
satânicas) do que as do tempo da escravidão propriamente dita, por não ser reconhecida como tal.

Até aqui tratamos de explicitar alguns aspectos do desempenho linguístico do nosso autor, mas talvez as
omissões sejam ainda mais eloquentes para a caracterização do seu perfil intelectual. Muitas vezes o que não
é dito ajuda a compreender inconsequências, contradições e petições de princípio, entre outras inconsistências
verificáveis no que está escrito.

De todas as omissões, a mais clamorosa – em se tratando de bacharel em direito – é a supressão (afirmada


várias vezes) do Estado português na condução dos negócios da colônia brasileira por métodos
necessariamente patrimonialistas, na medida em que os patriarcas, de que Gilberto Freyre tratou e que aqui se
instalaram, estavam a serviço do rei, o detentor do patrimônio colonial como um todo. Uma vez suprimida
esta determinação maior, ficam sem esclarecimento as razões da adoção do trabalho escravo – primeiro dos
nativos e depois dos africanos –, impensável sem a monocultura adotada por decisão do rei, como se a
escravidão tivesse surgido do nada e no entanto ela é promovida a única explicação legítima para os nossos
males.
Uma consequência da supressão do Estado português na definição dos nossos negócios coloniais, é a
concomitante supressão do papel da Igreja, que abençoou e promoveu de modo empenhadíssimo genocídios e
escravidões (chegando a definir nativos e africanos como não-gente), para não dizer nada de sua efetiva
participação em todos os demais crimes da colonização, incluindo o tráfico de nativos da América do Sul para
as Antilhas e de africanos para o Brasil (São Paulo de Luanda era um entreposto de embarque de africanos
escravizados sob o controle dos jesuítas).

Uma terceira consequência da omissão do papel do Estado na configuração do Brasil contemporâneo leva
nosso autor (um bacharel em direito!) a simplesmente ignorar uma das funções do Ministério Público tal
como definida na Constituição “cidadã” (Art. 129, III): promover o inquérito civil e a ação civil pública, para
a proteção do patrimônio público e social. Desta função decorre que a investigação de atos de corrupção, que
impliquem danos ao patrimônio público, seja por parte de agentes públicos, seja por parte de agentes
privados, é dever daqueles funcionários públicos, constitucionalmente definido, e seguramente não depende
de adesão a esta ou aquela teoria de explicação do país, como quer o nosso autor em tom ezequiélico, que só
faltou chamar a Universidade de São Paulo de prostituta de estrada [2], responsabilizando-a até mesmo por
alimentar o discurso da grande mídia em sua campanha antipetista e antipobres de um modo geral. E, dada a
sua insistência em vincular Sérgio Buarque e Raymundo Faoro ao papel desprezível que atribui à USP na
produção da “justificativa ideológica” para o conservadorismo das elites brasileiras, não custa nada lembrar
que, quando escreveu Raízes do Brasil, Sérgio Buarque ainda morava e era professor no Rio de Janeiro e que,
quando escreveu Os donos do poder, o gaúcho Raymundo Faoro também morava no Rio. (Mas estes são
apenas detalhes geográficos sem maior importância).

Quanto aos desmandos de uma operação como a Lava Jato, com a intenção de evitar inferências apressadas,
convém dar um esclarecimento preliminar, a ser desenvolvido oportunamente: entender que os funcionários
do Ministério Público e do Judiciário têm o dever constitucionalmente definido de proteger o patrimônio
público dos ataques por parte dos inúmeros candidatos a seus assaltantes das esferas pública e privada, não
corresponde a aceitar como legítimos (nem mesmo como legais) os atos praticados ao arrepio da lei, da justiça
e dos códigos penal e de processo penal vigentes. Aliás, a maioria dos atos aplaudidos pela mídia também
pode ser descrita com apoio em Sérgio Buarque: seus praticantes são funcionários que tratam o Estado como
se fosse coisa sua e seus atos se transformaram em questão pessoal. Em vez de justiça, dedicam-se a uma
variante nacional da vendeta, como se estivéssemos em plena Idade Média. Este tipo de anomalia no exercício
das funções públicas também concorre para a caracterização do homem cordial.

Para encerrar o capítulo das omissões, que está longe de ter sido exaustivo, o autor promete mais de uma vez
expor o “conceito” de escravidão e não o faz, bem como o de “estoque cultural”, ainda que este último
provenha da teoria de Pierre Bourdieu e o livro se demore na exposição de outros aspectos da teoria das trocas
simbólicas do sociólogo francês.

Como esta amostra já contém material suficiente para exemplificar algumas das proposições presentes no
excerto do livro Raízes do Brasil que introduz a figura do “intelectual cordial”, passemos a palavra ao Mestre:
“a personalidade individual dificilmente suporta ser comandada por um sistema exigente e disciplinador. É
frequente, entre os brasileiros que se presumem intelectuais, a facilidade com que se alimentam, ao mesmo
tempo, de doutrinas dos mais variados matizes e com que sustentam, simultaneamente, as convicções mais
díspares. Basta que tais doutrinas e convicções se possam impor à imaginação por uma roupagem vistosa:
palavras bonitas ou argumentos sedutores. A contradição que porventura possa existir entre elas parece-lhes
tão pouco chocante, que alguns se alarmariam e se revoltariam sinceramente quando não achássemos legítima
sua capacidade de aceitá-las com o mesmo entusiasmo.” (Raízes do Brasil. Capítulo 6, “Novos tempos”).

Voltaremos a estes dois assuntos (intelectual cordial e A elite do atraso) em outra oportunidade. Como diriam
os nossos juízes do STF, ainda não está na hora de entrar no mérito da questão…

_____________________

[1] Não custa informar que, embora seu orçamento conte com amplos fundos públicos, a Universidade de
Heidelberg é administrada por jesuítas, como a nossa PUC-Rio.

[2] Aos não familiarizados com o tom dos profetas do Antigo Testamento, apresentamos alguns excertos das
invectivas de Ezequiel: “Não será como antes: os humildes serão exaltados e os exaltados serão humilhados”
(21: 26); “O povo da terra pratica extorsão e comete roubos; oprime os pobres e necessitados” (22: 29); “Ela
se entregou como prostituta a toda a elite dos assírios” (23: 7); “Que agora a usem como prostituta, pois isso é
tudo o que ela é” (23: 43).