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Plutão na compreensão da morte

Daniel Pires Rodrigues Nunes, Felipe Reis Santos Gomes de Paiva


e Renata Romano Barros da Silva

Pacientes terminais e profissionais da área de saúde precisam aprender a lidar


com a morte. Um caminho para isso é o conhecimento da função de Plutão no
mapa individual e dos mitos associados a este planeta.

Com o título original de O conhecimento astrológico de Plutão como ferramenta de


compreensão dos processos tanatológicos individuais, este texto coletivo foi
apresentado como trabalho acadêmico no curso de Naturologia Aplicada da
Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), que funciona no município de
Palhoça, na região da Grande Florianópolis, em Santa Catarina.
Este estudo tem por objetivo demonstrar como o conhecimento astrológico
relacionado a Plutão, que envolve sua mitologia e sua relação dentro do horóscopo
pessoal, pode ser útil na compreensão particular dos processos tanatológicos
individuais, podendo iluminar tanto a visão do Naturólogo quanto a do interagente
que está vivenciando seu processo interior de transformação.
Para desenvolvê-lo, os estudantes da Unisul tomaram como referência alguns
conhecidos trabalhos de Astrologia Psicológica, especialmente de Liz Greene, Dane
Rudhyar, Pere Puisggròs, Howard Sasportas e Marion March & Joan McEvers.

Introdução

Admitindo que a Naturologia pretende uma visão holística do mundo, onde a natureza está
intrínseca em sua constituição, podemos dizer que esta também preconiza uma visão
cosmológica. A natureza apresenta um movimento do próprio modo de viver do homem,
relacionando corpo, mente e espírito e seus movimentos equilibradores. Uma das mais
antigas ciências do homem, a astrologia, abarca símbolos arquetípicos [1] provenientes de
mitos [2] universais, que assumem poderes profundos e determinantes em fatos da vida
humana. O conhecimento astrológico nos coloca diante de nossa própria dinâmica
holográfica interior, visto que somos um fractal do cosmos (RUDHYAR 1990). Além disso, é
igualmente importante o estudo da tanatologia, a ciência da morte e do morrer, fato este
que permeia todo instante de nossas vidas.

Pretendemos, portanto, inter-relacionar estas três ciências humanas em torno de um ponto


em comum: a morte. Vamos analisá-la sob os diversos pontos de vista que nos permitirão
abordá-la numa visão mais integradora e positiva diante de um processo terapêutico
naturológico.

NOTAS
[1] Para Jung (2000), arquétipo “(...) significa nada menos do que a presença, em cada psique, de disposições
vivas inconscientes, nem por isso menos ativas, de formas ou idéias em sentido platônico que instintivamente
pré-formam e influenciam seu pensar, sentir e agir”. Trata-se de possibilidades herdadas da imaginação
humana inatas ao ser que permeiam todo o conhecimento e seus diversos níveis de consciência, formando o
inconsciente coletivo.
[2] Ver capítulo sobre mitologia no mesmo artigo.

Mitologia

Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significação,


através dos tempos. Todos nós precisamos contar nossa história, compreender
nossa história. Todos nós precisamos compreender a morte e enfrentar a morte,
e todos nós precisamos de ajuda em nossa passagem do nascimento à vida e
depois à morte. Precisamos que a vida tenha significação, precisamos tocar o
eterno, compreender o misterioso, descobrir o que somos (CAMPBELL 1998: 5).

Segundo Campbell (1949), o mito é uma abertura secreta através da qual as inexauríveis
energias do cosmos penetram nas manifestações culturais do homem. Uma das maiores
funções do mito é a mística, que significa:

vivenciar o espanto diante do mistério. Os mitos abrem o mundo para a


dimensão do mistério, para a consciência do mistério que subjaz a todas as
formas. Se o mistério se manifestar através de todas as coisas, o universo se
tornará, por assim dizer, uma pintura sagrada. Você está sempre se dirigindo ao
mistério transcendente, através das suas circunstâncias da sua vida verdadeira
(CAMPBELL 1998: 32).

Segundo Puiggros (1988), referindo-se a


mitologia grega, quando Saturno (Cronos) foi destronado houve a repartição do mundo entre
seus filhos Plutão (Hades), Netuno (Poseidon) e Júpiter (Zeus), que receberam,
respectivamente, o reino dos infernos, dos mares e dos céus. Para chegar à morada de
Plutão, os mortos atravessam dois rios, o Aqueronte e o Estige, cujo barqueiro, Caronte
(satélite de Plutão), é o guia [imagem à direita]. Este traslado exige um preço, e os que não
podem pagar são rechaçados. Ao chegar ao outro lado, os passageiros eram entregues a
Mercúrio (Hermes), o mensageiro dos Deuses, que os conduzia para o tribunal composto por
três juízes: Minos, Eaco e Radamanto, compondo a justiça de Plutão. Após o purgatório, sai a
sentença: alguns vão para os campos Elíseos (céu) e outros vão para o Tártaro (inferno). O
inferno é uma cidade fortificada guardada por um tríplice muro de ferro e rodeado por um rio
de fogo, chamado Flégeton. Neste rio são encontradas três fúrias infernais: Alecto, Megera e
Tisífone, que nunca dormem. Ainda existe o cão Cérbero, o guardião de três cabeças, que
tem como função proteger o reino e não deixar que ninguém saia.

Devido a sua incontestável feiúra e dureza de caráter, Hades foi recusado como marido por
todas as deusas. Cansado desta situação, subiu em seu carro puxado por três cavalos negros
e foi visitar a ilha de Silícia. Vênus (Afrodite), a deusa do amor, percebeu sua presença e
pediu ao Cupido (Eros) que, com suas flechas, ferisse o coração de Hades. Este enamorou-se
por Perséfone, filha de Ceres (Deméter) e Júpiter (Zeus), raptando-a para seu reino. Ao dar-
se conta do sumiço de sua filha, procurou-a por todos os cantos do planeta, sem encontrá-la.
Soube, pela ninfa Aretusa, aquela que corre por cima e por baixo da terra, que Perséfone se
encontrava no reino dos infernos. Ao receber esta notícia, Ceres vestiu-se de luto e fechou-
se numa caverna. Recorreu a Zeus, pedindo-lhe justiça, e este consentiu na volta de
Perséfone, desde que esta não houvesse comido nada no inferno. Esta porém, certa vez,
passeando por estes jardins, comeu sete sementes de romã, tornando a volta à Terra
impossível. À força de rogos de Ceres, Zeus ordenou que sua filha morasse seis meses com o
marido e seis meses com a mãe (PUIGGROS 1988).

Este mito nos mostra as diversas facetas arquetípicas de Plutão. Primeiramente, temos a
relação com a mudança das estações, os ciclos de semeadura e colheita. Nos meses de
outono e inverno, Perséfone vai para o inferno e Ceres fecha-se numa caverna, o frio chega;
enquanto nos meses de primavera e verão, Perséfone retorna do inferno para ficar com a
mãe e o calor chega, tudo floresce. O que seria do mundo se não houvesse renovação?
Significa, portanto, a força vital, a fecundação e a purificação. Esta seiva que nutre está
sujeita à alternância entre vida e morte, em outras palavras, apresenta uma possibilidade de
transcender a realidade atual e atingir uma outra melhor. É a possibilidade de morrer em
determinada situação, de acabar com um estado definido e passar a outro novo – ação
plutoniana (PUIGGROS 1988). A parte que morreu jamais retornará, mesmo que a vida
retorne revigorada em uma nova forma (GREENE 1990). Para isso, a pessoa precisa se
despojar de suas vestes, critérios e valores. Plutão destrói, aniquila e desintegra tudo aquilo
que não é útil, deixando-nos no vazio mais absoluto, para podermos enfrentar com êxito a
nova situação. Por isso, representa a expansão de consciência, como sendo a última
apresentação de nossa concepção de verdade. Plutão aparece como o limite do sistema solar
ordenado e, portanto, está mais próximo do caos, do mistério e do oculto (PUIGGROS 1988).

Os romanos atribuíram-lhe o nome de Plutão, que significa “riquezas”, por se tratar de um


depósito ou lugar (inconsciente), desde que corretamente utilizado, que oferece extrema
abundância. O eufemismo deste nome era usado para ocultar as profundezas assustadoras
do Hades. Transformação também é um eufemismo. Sua sonoridade muitas vezes tenta
suavizar o prognóstico que augura a crise e o sofrimento, e a compaixão nada mais será do
que o espelhamento na incipiente desintegração ou perda do outro. Para se lidar com Plutão,
deve-se ter confiança no destino, pois o discernimento não pode poupar o sofrimento, mas
pode evitar o sofrimento irracional (GREENE 1990).

A energia representada por Plutão rege os extremos. Quando é canalizada para a parte do
espírito, a força plutoniana amplia a consciência do indivíduo de forma lenta e imperceptível,
tal como a aurora do novo dia. Quando é canalizada para o material, a semente plutoniana
trabalha sob a terra, silenciosa e incessante, e, de repente, irrompe na superfície, como um
terremoto ou vulcão, que nos colhe desprevenidos (PUIGGROS 1988). Depois de muito
adormecida, esta energia pode irromper com tamanha força, trazendo uma grande
destruição, física ou psíquica. É na reconstrução desta vítima do destino que se encontram as
riquezas de Hades (GREENE 1990). Isso enfatiza a sua relação com o subconsciente que, no
caso, age como uma ponte entre o mundo espiritual e o material (MARCH & McEVERS 1981).
Partindo do princípio de que um determinado problema só existe em decorrência de um nível
de consciência, quanto mais nos elevamos espiritualmente, menos problemas materiais
temos em nossas vidas.
Cada coisa viva contém a inevitável semente da
morte. Hades não pode ser visto pelos homens, pois usa um elmo que o torna invisível. Esta
é a conexão oculta. Em qualquer ato criativo, seja um pensamento, sentimento, inspiração,
relacionamento, etc., ele está lá, oculto, como a morte que ainda não pode ser percebida
(GREENE 1990). Portanto, a crise plutoniana pode levar-nos a conectar com o nosso lado
obscuro, bárbaro, não-civilizado ou, se bem trabalhado, evidenciar uma sabedoria oculta.
Acarreta, portanto, a gradual libertação, por bem ou por mal, dos vínculos da matéria que
deixam de ser úteis para o espírito. São poderes de transformação para a vida que levam à
obtenção de um maior controle sobre si mesmo. Sua forma de ‘criação’, diferentemente do
Sol, consiste em destruir – metamorfose do denso em sutil – conduzindo ao desenvolvimento
dos múltiplos estados do ser. Através de Plutão adquirimos sabedoria, mas para isso é
preciso descer ao inframundo e ressuscitar, como no mito (PUIGGROS 1988).

Hades, quando sobe ao mundo da superfície, é persistentemente mostrado representando


um tema: o estupro. Perséfone foi uma de suas vítimas, e sua inocência virginal atraiu o
desejo do senhor do inferno. Assim, onde Plutão estiver, haverá a possibilidade de uma
intrusão na consciência, com um sentimento de penetração violenta, indesejada, porém
inevitável. No mundo da primeira infância, inocente e protegido, a criança tem muito da
pureza virginal de Perséfone e, por se tratar de um estado psicológico, muitas pessoas
permanecem com suas consciências como um solo ainda não fecundado por um longo
período. Nossa cultura não nos oferece mais os rituais de passagem e somos agora
responsáveis por aceitar sozinhos o estupro de Hades. Perséfone, pura e virginal, colhe a
estranha flor da morte plantada por Hades, que prenunciou a abertura da terra e a chegada
do senhor das trevas (GREENE 1990).

O mito sumeriano de Eresquigal


o transmutados, as idéias menos elevadas – tudo o que nos impele para baixo, que nos vincula à Terra. A matéria que oculta o espí
aralelamente as chaves da caminhada espiritual. Antes que se ultrapasse a porta que conduz a outro reino, é necessário defrontar-s
confronto sem estar preparado, sucumbe ao animal que traz dentro de si. Há apenas duas opções: ou se atinge outro nível, de pur

izada à esquerda]quem rege o reino dos mortos. Namtar (que significa “destino”) é um de seus servos. O mito sugere que Plutão te
cesse àquela região. Inanna foi levada nua de joelhos, enquanto suas roupas e insígnias reais foram ritualmente rasgadas em cada
a definir a identidade e o “pôr-se de joelhos” em sinal de humilhação, em aceitação de algo maior que a própria pessoa (GREENE 19

déia e hebraica. Nestas culturas, o Escorpião era representado pela serpente, cujo símbolo está fortemente enraizado na psique hum
o-o a viver em ciclos constantes. A serpente é também o símbolo da sabedoria da própria Terra, move-se junto ao solo e ouve o se
to para o bem quanto para o mal (GREENE 1994).

eno círculo de amigos de confiança. Geralmente, não ataca outros animais, apenas se for cutucado - esse é o senso de justiça que a
e destruir por suas próprias mãos – literal ou psicologicamente – a se submeter ao ultimato ou controle de alguém. “Antes reinar no

o para matar a Hidra de Lerna, uma besta parecida com uma serpente que tem nove cabeças, cada uma dotada de dentes com ven
ão suporta a luz. Ele se ajoelha e levanta a criatura até a luz do sol, que atordoada se contorce e começa a morrer. Ainda resta um

úme, vingança, sexualidade frustrada, inveja, raiva. Escorpião é um signo de desejo intenso, e as muitas cabeças de Hidra podem s
levados à luz. E, mesmo quando vencidos é bom lembrar que uma cabeça é imortal, ou seja, para o Escorpião, todo ser humano ca

mento, morte, poder e transformação, tanto num nível individual quanto coletivo, físico quanto psicológico, são as formas de se vive
e constelaria temas como culpa, ressentimento, desejo de controle ou de vingança (CUNNINGHAM 1986).
o ajudam muito a resolver este problema, tornando-se enigmáticos e misteriosos sempre que se sentem inseguros. Como qualquer signo de Água, Escorpião
dade voraz de relacionamento. Escorpião não é solitário em seu coração, ansiando, na verdade, por uma união verdadeiramente profunda e íntima, mas, pelo
ndo a ele as reações viscerais e violentas. Todos os indivíduos carregam dentro de si um lado sombrio, e é Escorpião que não consegue deixar de percebê-lo a
le não admite a preguiça e a fraqueza. Escorpião sabe que tem poderes para sair de qualquer enrascada em que tenha se metido, acreditando que os outros
.
ue ocorre o compartilhamento de valores, recursos, necessidades biológicas e emoções, todos num nível bastante profundo, que permite o aparecimento de d
ra a superfície problemas não resolvidos relacionados aos vínculos da infância com a mãe ou pai, que podem tanto ser vivenciados de uma forma interior, com
desta energia, normalmente experimentada através de explosões irracionais de raiva, inveja, ódio, ou através de perdas e sofrimentos externos, podendo ch

vérbios (signos) em áreas específicas de experiência (casas).


ser harmônicos (30º, 60º e 120º), desarmônicos (45º, 90º, 135º e 180º) ou neutros (0º e 150º), que modelariam a relação entre os dois elementos envolvi
mplesmente necessários a essa estrutura evolutiva.

respectivamente o espírito, a consciência e a matéria. Pode ser interpretado de duas formas: a vinda do espírito, penetrando a con
intransponível de nossa consciência atual, sendo o último círculo conhecido, o rio circular que as almas dos mortos atravessam ante

guardião, Plutão é assustador. Porém, reflete apenas nossos pecados ancestrais, nossos fracassos, medos e culpa, em geral bem oc

om o tempo, seu impacto é profundo e de longo alcance. Devido a esta distância, também existe a dificuldade em significar Plutão n
ompletada. A posição por signo de Plutão assinala o tipo de experiência geral de toda a humanidade, não indicando de modo algum
xo de seus sentimentos. Esta posição mostra o ponto fraco, ainda não conhecido pelo eu consciente. Deveríamos permitir que sua e

ção está ligada ao nível de profundidade em que este estiver agindo, e nem todos os elementos importantes se manifestam no plan
o, os aspectos podem tanto ser vivenciados como condicionamentos praticamente insuperáveis, quanto como guias para novas opo

Mercúrio, Vênus e Marte), assinalam a parte simbolizada pelo planeta aspectado, em que esse fenômeno se realiza e onde deve aco
a pessoa deverá fazer um exame honesto de si mesma para identificar estes impulsos (PUIGGROS 1988).

te em contato com Plutão. O “mau aspecto” não saberá dosar a quantidade de energia, podendo trazer rompantes plutonianos à co

anifestações mais complicadas costumam estar presente quando existem aspectos difíceis envolvendo um Plutão forte. Assim, o con
mação (CUNNINGHAM 1986). Este processo é caracterizado pela não-identificação, atributo genuíno de um escorpiano, que, quand
traz a repetição e a obsessão. Onde fomos traídos, esperamos a traição e escolheremos as situações que nos levarão a ela (CUNNI
esta obsessão seriam as disputas por poder relacionadas à casa ou a aspectos de Plutão (CUNNINGHAM 1986).

e indivíduo não realizar o confronto com a verdade, destilará seu veneno em direção aos outros de diversas formas. Ele se torna, as
adilhas emocionais da passionalidade podem representar um amplo espectro de causas, que normalmente são encontradas na infân
em alimento para a forma na qual a criança irá um dia experimentar a intimidade. Pode acontecer de se encontrar celibatários que
M 1986).

pião seria:

e Saturno.

ASTROLOGIA NA UNIVERSIDADE
Plutão na compreensão da morte
Daniel Pires Rodrigues Nunes, Felipe Reis Santos Gomes de Paiva
e Renata Romano Barros da Silva

Início do artigo | Parte 3

O Plutoniano

Tudo começa com os pais, que podem colocar ênfase nas questões escorpianas do filho e,
para que o filho vença, terá de perder, pois o fracasso seria perversamente uma vitória
moral. No esforço para vencer, seria dominado pelo poder que mais deseja controlar. É
somente quando a área de Plutão é curada que se pode desfrutar do poder criativo oferecido
(CUNNINGHAM 1986).
Podem os pais também trazer-lhe a sensação de que nunca atingiria nada em relação a esta
casa, forçando o filho a fracassar consistentemente, trazendo o constrangimento para o
progenitor como uma forma de vingança. Assim, a frase “está vendo mãe, você estava
certa!” pode estar camuflada por um sentimento de desprezo ou ser dita explicitamente
acompanhada de um sorriso lúgubre (CUNNINGHAM 1986).

Quando se fala em dificuldades ou obsessões sexuais relacionadas a Plutão, está se falando


sobre jogos de poder e não de sexo em si. A sexualidade é extremamente poderosa
(CUNNINGHAM 1986).

Castaneda (1968) fala das palavras de Dom Juan sobre os quatro estágios enfrentados pelo
homem no seu desenvolvimento espiritual, onde o poder estaria no penúltimo estágio, sendo
um estágio onde poucos não sucumbem às oferendas advindas do seu uso.

Quanto às características negativas de Plutão, é um processo que deflagra o que é


necessário a fim de reduzir ao essencial o que quer que tenha atingido o fim de um ciclo,
podendo, neste fim, ocorrer o processo inverso de reintegração como parte de um ciclo
maior. Isto evidencia a possibilidade de renascimento que Plutão nos traz. Porém, quando
visto por olhos de compreensão limitada é interpretado somente como um processo de
morte (RUDHYAR 1991).

Os plutonianos com inclinações


negativas são geralmente resguardados, nunca revelando sobre si mesmos, mas sabendo
tudo sobre os outros. Podem ser amargos e ressentidos, presos ao passado. Também podem
assumir uma postura extrovertida, entretanto com um tom de morbidez nas suas palavras
ou atitudes. Suas roupas costumam ser escuras e sua aparência tende a expressar o tom
carregado de sua energia (CUNNINGHAM 1986).

Por saber o que se passa nas profundezas do outro, podem se fazer passar por conselheiros,
fazendo pessoas acreditarem que estão em apuros sem sua ajuda. Este tipo de manipulação
costuma trazer o sentimento de culpa ao outro quando este não faz o que o plutoniano quer.
Isto é muito encontrado nas mulheres, onde o controle é obtido através da manipulação,
chantagem emocional, “ajuda” e culpa. Desta forma, a dependência cultivada num
relacionamento faz o outro ficar desesperado quando a relação termina. Certamente esta
escolha não foi consciente. A criança plutoniana tende a projetar sua energia no ambiente e,
assim, passa a ter de lidar com abandono, ressentimento, culpa, morte, segredos, sexo ou
vingança. Estas situações são o substrato que possibilita a criação dos mecanismos de
defesa do arquétipo escorpiano. Uma morte em família faria a criança plutoniana absorver a
tristeza do luto (CUNNINGHAM 1986).
Uma das formas de se cultivar a personalidade plutoniana negativa vem através dos
segredos de família. Pessoas doentes física ou mentalmente, alcoólatras, dependentes,
problemas sexuais - todos estimulando a criança a cultivar os seus próprios segredos para
não ser rejeitada pelo que existe de “terrível” dento dela. Estes segredos exercem um
grande poder sobre as pessoas e só deixarão de exercê-lo quando forem revelados. Um dos
grandes segredos dos plutonianos são suas emoções, o que faz deles pessoas solitárias,
mesmo cercadas de outras pessoas. Escondem suas emoções para não serem traídos por
elas (CUNNINGHAM 1986).

Uma das características de Plutão que muitos desconhecem é a pureza. Este símbolo dá a
Plutão a força de impulsionar, e até mesmo de compelir, qualquer organismo vivo e qualquer
ser humano a abandonar tudo aquilo que não seja parte de sua natureza essencial. Com isto,
se torna fortemente catártico, limpando e purificando nosso ego das amarras da futilidade
(RUDHYAR 1991). Como o próprio autor esclarece: “Destrói impiedosamente todo o encanto,
descondicionando-nos e deixando-nos expostos e vulneráveis, mas – caso tudo dê certo –
simples e purificados”.

A criança plutoniana, ao perceber o que está acontecendo, tem que aprender, a duras penas,
como sair da linha de tiro, pois será punida se mostrar o que está vendo. Assim, monitora as
ameaças para saber como se manter no escuro seguro. Mesmo fora do alerta vermelho,
longe da família, o radar continua funcionando e as pessoas são flagradas, ao mentirem
sobre seus sentimentos, gerando mais desconfiança, pois a criança não consegue entender
que elas estão mentindo para si mesmas. A consciência da mentira e de se ser diferente gera
um sentimento doloroso (CUNNINGHAM 1986).

Terapias de grupo podem ajudar os plutonianos a se reconhecerem (normalmente com


relutância) como seres humanos normais, que seus segredos estão dentro de muitas
pessoas, mesmo os mais obscuros (CUNNINGHAM 1986).

Uma das formas básicas de o plutoniano lidar com relacionamentos íntimos acontece em dois
momentos polares: “até que a morte nos separe” e “já me queimei antes”. Quando
apaixona-se pela primeira vez, descobre rapidamente que pode viver para sempre com o
outro, tamanha é a profundidade e rapidez de sua avaliação (mesmo que totalmente
enganado, devido às suas projeções). A sua certeza e intensidade de paixão acabam por
assustar e afastar o outro, que ainda não teve tempo para descobrir a mesma coisa
(CUNNINGHAM 1986).

Outro fato comum nos relacionamentos escorpianos, principalmente com Lua em Escorpião
ou fazendo aspecto com Plutão, é a manipulação inconsciente, onde o outro fica tão preso às
amarras emocionais que se torna vítima dos poderes de Hécate, agindo como um animal
desesperado quando o plutoniano abandona a relação (CUNNINGHAM 1986).

Este planeta também pode ser simbolizado pela “pérola de alto preço”, que, para ser
descoberta, exige que o mergulhador enfrente as profundezas marinhas do inconsciente,
desenvolvendo sua capacidade respiratória – símbolo do aspecto mais essencial ao processo
de realização espiritual. Estas pérolas são produzidas pelas ostras após a introdução de
alguma substância irritante em seu interior, desencadeando a transmutação de algo negativo
e degenerativo para algo regenerativo (RUDHYAR 1991). Este simbolismo elucida
perfeitamente o processo de aprendizado gerado por este planeta, que nos mostra, por meio
de alguma manifestação “impura” de nossa personalidade, o que deve ser transmutado.
“O sofrimento é necessário para que seja
experimentado um certo grau de transmutação e transubstanciação; mas tudo depende da
atitude para com o sofrimento e a dor. A tragédia deve ser aceita. Deve ser compreendida; e
compreender não significa apenas “submeter-se” e suportar todo o fardo do que se
compreende, sentindo assim todo o seu peso e conteúdo; mas também tornar-se consciente
do porquê do fardo colocado sobre seus ombros – o propósito desse fardo e da experiência
dentro do amplo ciclo da existência, e se possível da existência da humanidade e do mundo”
(RUDHYAR 1991:71).

No nível mais elevado, Plutão concentra as energias galácticas sobre a humanidade por meio
de indivíduos prontos a assumir firmemente seu papel de destino; neste sentido, a ação de
Plutão é “vertical” e não “horizontal”, representando a Mente cósmica totalmente impessoal
– a mente que lida com princípios e arquétipos universais, a mente holística. Seu
aprendizado básico é a depreciação e abandono de tudo o que constitua uma manifestação
superficial. Esta pode ser interpretada pelos padrões de comportamentos e sentimentos
repetitivos encontrados no âmbito sociocultural (RUDHYAR 1991).

Por ser profundo, Plutão inevitavelmente nos coloca frente ao nosso centro, conduzindo-nos
à realidade da consciência cósmica. Esta profundeza nos leva a confrontar as manifestações
da vida superficial [8], bem como com a verdadeira experiência humana, tanto quanto
possa suportar nossas condições mentais, afetivas e espirituais (RUDHYAR 1991).

NOTAS
[8] Padrões de comportamentos e sentimentos socioculturais que muitas vezes nos restringem, impedindo que
nos expressemos verdadeiramente (RUDHYAR 1991).

Tanatologia

A morte é nossa eterna companheira. Está sempre à nossa esquerda, à distância


de um braço. (...) Como é que alguém pode sentir-se tão importante quando
sabe que a morte está no seu encalço? (...) Você perderá uma quantidade de
mesquinhez se sua morte lhe fizer um gesto, ou se a vir de relance, ou se, ao
menos, tiver a sensação de que sua companheira está ali, vigiando-o. (...) A
morte é a única conselheira sábia que possuímos. (...) Não há necessidade de
ver sua morte, basta sentir a presença dela em volta de você. (...) Pode tocá-lo
a qualquer momento, de modo que você não tem realmente tempo para
pensamentos nem estados de espírito bestas. Nenhum de nós tem tempo para
isso. (...) Num mundo em que a morte é o caçador, não há tempo para remorsos
nem dúvidas. Só há tempo para decisões. (CASTANEDA 1972: 46-47).

Segundo Kübler-Ross (1998), o medo


da morte acompanhou o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, numa tentativa
de prolongar a vida a qualquer custo. Isto acontece devido à impotência da humanidade
perante o processo de morte, que é inevitável. Acarreta, portanto, uma multiplicidade de
problemas físicos, emocionais e espirituais que nos trazem a necessidade de compreender e
lidar com as questões acerca da morte. O tabu está instalado: o tema é evitado, mascarado
e repreendido, onde a humanidade vivencia apenas o lado sombrio e mórbido de todo o
contexto envolvido.

Quanto mais avançamos na ciência da razão, mais parece que tememos e negamos a
realidade da morte, que precisa ser entendida de forma mais abrangente, vinculando
aspectos intuitivos e emocionais. Há muitas razões para se fugir de encarar a morte, e entre
elas estão a tristeza e a solidão (KÜBLER-ROSS 1998). Pode-se relacionar isto com a
qualidade plutoniana de mostrar a complexidade de ter que resolver os problemas sozinhos e
sem ajuda (MARCH & McEVERS 1981). Por não conseguir controlá-la nem prevê-la, o homem
acaba armando-se até mesmo inconscientemente a fim de escapar da morte, achando que é
imortal. Kübler-Ross cita um homem condenado pela leucemia: “Não posso morrer agora.
Não pode ser vontade de Deus (...)”.

Kübler-Ross analisa a morte em cinco estágios: negação, raiva, negociação, depressão e


aceitação. Ao se deparar com um processo de morte, a primeira reação de um indivíduo é
negar o fato que lhe acomete. A raiva vem em seguida, como uma reação mais agressiva
resultante da persistência do fator desequilibrante, na tentativa de repeli-lo. A negociação é
o começo do diálogo propriamente dito, por meio de acordos. “Se Deus decidiu levar-me
deste mundo e não atendeu a meus apelos cheios de ira, talvez seja mais condescendente se
eu apelar com calma” (KÜBLER-ROSS 1998). O próximo passo é caracterizado pela
depressão, quando o indivíduo se dá conta das perdas que acarretam este morrer. E, por
fim, ocorre a rendição por completo, onde aprende a lição incutida neste processo, em outras
palavras, se liberta de suas defesas egóicas e ocorre a plena aceitação da morte.
Portanto, seria interessante fazer um esforço para encarar a nossa própria morte, analisando
as ansiedades que permeiam esta vivência, podendo assim ajudar o próximo a compreender
melhor esta nova visão sobre o morrer (KÜBLER-ROSS 1998).

Conclusão

“Enquanto os indivíduos se orgulharem por serem diferentes dos demais e se identificarem


exclusivamente com suas diferenças, não haverá paz na terra. A paz e a união só
acontecerão quando as pessoas se conhecerem em primeiro lugar como seres humanos e
depois como indivíduos; quando se dispuserem a consagrar seus dons e habilidades diversas
ao bem da humanidade; quando as personalidades egocêntricas da nossa época perceberem,
para usar as belas palavras de St. Exupéry em seu Vôo para Arras, que “o indivíduo é um
caminho; mas o que importa é o Homem que escolhe esse caminho”... As raízes do
individual mergulham na humanidade comum ao homem, quer ele o admita ou não, quer
goste ou não... Por trás da sua vontade e poder está a grande corrente da evolução humana,
a qual prossegue majestosa e finda por cumprir seu objetivo intrínseco – apenas modificado,
retardado ou acelerado pela vontade individual de homens distanciados. Não resta dúvida de
que o indivíduo é a floração desta evolução humana; sem dúvida, o grande gênio eleva-se
como luz-guia e criador. Mas em que consiste este poder dentro dele?... O poder jorra
constantemente da humanidade comum e das estruturas comuns que (o indivíduo)
compartilha com todos os homens (RUDHYAR 1991: 74)”.

Quando o primeiro raio de sol surge a leste, a natureza já se mostra de braços abertos,
colhendo o calor para iniciar o movimento do dia. Cada uma das formas de vida faz aquilo
que pode e deve ser feito com aquilo de que dispõe – nada mais, nada menos. Ao fim do dia,
à medida que a noite se aproxima, todos os seres que naturalmente encerrariam suas
atividades o fazem sem qualquer resistência. Alguma forma de consciência neles sabe que
fizeram não apenas o que era necessário, mas também possível, e que aproveitarão a noite
da mesma forma. Uma árvore jamais pensa que está absorvendo a luz do sol para produzir
melhores frutos amanhã – ela faz o que é para fazer com aquilo que lhe é oferecido.

A aceitação pode ser observada em toda a natureza, e o homem poderia, cada vez mais, se
apropriar desta qualidade. Deixar-se morrer é uma grande demonstração de aceitação.
Entretanto foi concedida ao homem a capacidade de ser o observador. Não basta deixar-se
morrer. Agora é preciso também observar, para que, desta forma, não nos comportarmos
como mariposas que se lançam cegas a morrer em luzes incandescentes.

Dentro da estrutura psíquica do homem existem inúmeras possibilidades tanatológicas que


se constelam diferentemente em cada indivíduo e, quando se diz que um trabalho
terapêutico visa a auxiliar este indivíduo em seu processo único de transformação, cabe ao
terapeuta, ou naturólogo, identificar a dimensão anímica que se encontra frente ao abismo
inevitável para que, assim, possa saber como servir de guia a quem lhe pede ajuda.

É neste ponto que este estudo tentou mostrar como o conhecimento astrológico,
principalmente no que diz respeito a Plutão e Escorpião, pode fornecer os parâmetros que
ampliariam o olhar do naturólogo em relação ao interagente, tanto na direção do que está
sendo vivenciado, quanto no que diz respeito ao horizonte de possibilidades que se
encontrariam encortinadas pela agonia que a consciência humana tende tanto a cultivar, por
não mais saber viver os ciclos da natureza com aceitação.

Diálogo entre Plutão e o Homem

Plutão vem sorrateiro, cauteloso e invisível. Irrompe da terra sem pronunciações e aborda o
ser de forma inesperada, avassaladora e poderosa. Toca o mais profundo e sensível do
espírito humano, que agoniza e reage defensivamente negando a relação:
- Não sei quem você é! Quero que se afaste de mim. A minha vida já é plena sem ti, deves
ter se confundido!

Plutão, nutrido de inesgotável força, insiste em conviver com o homem:

- Quero que saiba que venho para te ajudar! Que, apesar da dor, venho para mostrar-lhe o
caminho de uma boa vida. E, quer se lembre ou não, sou seu amigo de longas datas, não se
lembras?

O homem, aturdido pelos afazeres do cotidiano, não se


conforma e extravasa toda a sua raiva:

- Não, não me lembro! Diga logo: o que queres de mim?! Por que me fazes sofrer?!

- Não há necessidade de lutar comigo! Só peço que te escute, que perceba no seu íntimo o
que o impede de realmente ser quem é. Assim, poderá crescer transcendendo suas próprias
limitações – disse Plutão.

Imerso em pensamentos, o homem se deu conta de que realmente não havia necessidade de
lutar contra Plutão, visto que estaria presente ao seu lado por toda a sua vida. Acalmou-se e
respondeu oferecendo-lhe um acordo:

- Tudo bem, sejamos amigos. Mas para isso, quero esclarecer uma coisa: irei atendê-lo o
máximo que eu puder, mas quero que me sejas bondoso e cauteloso.

Plutão esclarece:

- Serei seu melhor amigo. Contudo, isso só depende de você! Se me compreenderes por
inteiro, a jornada jamais perderá seu rumo. Lembre-se: tudo que morre, vive! E tudo o que
vive deve morrer!

Percebendo o tamanho da responsabilidade a que estava sendo submetido, o homem


sucumbe a uma ligeira depressão. Isso significava, entre outras coisas, diluir o ego, tornar-
se humilde perante a grandeza da vida e da morte. Por fim aceitou: um momento de
profundo silêncio se estabeleceu. A morte invadiu todo o seu ser num duradouro arrepio.

Referências

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SASPORTAS, Howard. As doze casas: Uma interpretação dos planetas e dos


signos através das casas. São Paulo: Pensamento, 1996. 361p.

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de Paiva e Renata Romano Barros da Silva.