UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS – UNISINOS UNIDADE ACADÊMICA DE GRADUAÇÃO CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE HISTÓRIA - LICENCIATURA

MARLI PEREIRA MARQUES

SINAIS CULTURAIS AÇORIANOS EM TAQUARI

SÃO LEOPOLDO 2010

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Marli Pereira Marques

SINAIS CULTURAIS AÇORIANOS EM TAQUARI

Trabalho de Conclusão apresentado como requisito parcial para a obtenção do título Licenciada em História, pelo Curso de História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Orientadora: Profa Drª Eloisa Capovila Ramos

São Leopoldo 2010

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AGRADECIMENTOS

Ao longo da minha formação no Curso de Licenciada em História foram muitas as pessoas que me apoiaram de uma forma ou de outra. Minha inspiração para fazer o curso partiu da convivência com um amigo, Gerson Severo, na época estudante de História pela Unisinos. Demonstrava saber muito sobre História, então desejei saber tanto quanto ele. Assim Eduardo Martins, hoje meu grande amigo, apaixonado por História, incentivou e apoiou minha vontade e busca, influenciando a escolha do Curso na Unisinos, apoiando-me ao longo de todo o curso. Eduardo e Gerson, obrigada por serem meus amigos e pela oportunidade de ter aprendido muito com esta amizade, pelo apoio intelectual. A minha família, Pais e irmãos, cunhados, cunhada, e sobrinhos e sobrinhas, agradeçolhes também de coração, pois em muitos momentos foram meu suporte, onde busquei apoio emocional e que hoje demonstram entender muito bem minha busca ao falarem sobre História comigo. Agradeço também à Professora Maria Aparecida Marques da Rocha e ao Senhor Jacinto Schneider funcionários da Universidade, que entenderam minha necessidade e mantiveram a bolsa de estudos até o final do Curso. À Professora Eloisa Capovila Ramos, que aceitou meu convite e orientou minha pesquisa com muito profissionalismo, indicando bibliografias distintas. Em todos os encontros, com muita descontração, mas também seriedade, revisou minha escrita com riqueza de detalhes. Aos Professores que, ao longo do Curso, em sala de aula me ensinaram a discernir o aprendizado que promove mudanças para a vida toda. Através de grandes leituras indicadas por eles consegui vencer o desafio a que me propus: o de saber mais. Aos entrevistados, Sr. Balduino Goerck, Bruna dos Santos, Augusto Becker e Srª Aurora Reis Palagi, por terem atendido minhas solicitações, nas entrevistas pessoais, na cidade ou por e-mail, com muita simpatia, atenção e esmero. São eles moradores e responsáveis pela preservação da identidade cultural açoriana de Taquari. Esta pesquisa dependeu muito da vontade deles em me atender; Obrigada! O apoio dos entrevistados foi fundamental para a pesquisa. Às demais pessoas cujos nomes não foram citados: amigos, colegas de aula e parentes que ao longo do Curso me disseram palavras de apoio e incentivo. A todos os funcionários e funcionárias da UNISINOS, que em algum momento atenderam minhas solicitações acadêmicas. Obrigada! É assim, com o apoio de todos, que vou construindo minha história de vida.

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RESUMO

Trata-se esta pesquisa de uma investigação sobre os sinais do patrimônio cultural material e imaterial que constitui a herança da migração açoriana na cidade de Taquari. Para sua realização foram verificados os sinais que existiram, os que ainda existem e foram ressignificados e também identificado, ou não, o sentimento de pertencimento dos cidadãos taquarienses a suas origens açorianas. Ao entrevistar moradores da cidade envolvidos com a preservação cultural foi constatado que as marcas ou sinais culturais deixados pelos migrantes, como festas religiosas, arquitetura, construção ou pavimentação de ruas e culinária, entre outros aspectos, ainda existem como patrimônio histórico cultural. Os sinais culturais que já não são visíveis ficaram no imaginário das pessoas e em documentos que comprovam sua existência em um passado distante. Foi identificado, sobretudo, que ainda hoje os cidadãos de Taquari mantêm intercâmbio cultural com as Ilhas dos Açores. Dos sinais culturais que comprovam a descendência açoriana, o intercâmbio cultural entre grupos de dança dá visibilidade à cidade e confirma sua certidão de nascimento de origem açoriana. Palavras-chave: açorianos. Cultura. Patrimônio. Sinais. Taquari.

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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1 – Reconstituição histórica do Município de Taquari . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 FIGURA 2 – Mapa de Taquari . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 FIGURA 3 – Presépio vivo: Natal Açoriano em Terra Gaúcha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 FIGURA 4 – Representação da chegada dos açorianos pela Lagoa Armênia . . . . . . . . . . . 24 FIGURA 5 - Imagem do Terno de Reis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 FIGURA 6 – Grupo de Dança Raízes em apresentação no Festival Internacional . . . . . . . 29 FIGURA 7 – Grupo de Danças Raízes em apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 FIGURA 8 – Membros do Grupo de Dança Raízes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . FIGURA 9 – Sala Açoriana com a imagem do Presidente das Ilhas dos Açores em visita a Taquari . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

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FIGURA 10 – Casa Costa e Silva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 FIGURA 11 – Capela do Espírito Santo, destruída há 30 anos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 FIGURA 12 – Imagem da Capela do Divino atual em outras cidades do Brasil . . . . . . . . . 37 FIGURA 13 – Bandeira do Divino . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 2 AÇORIANOS EM TAQUARI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 2.1 SINAIS CULTURAIS AÇORIANOS EM TAQUARI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 2.2 SINAIS CULTURAIS QUE EXISTEM E FORAM RESSIGNIFICADOS . . . . . . . . . 20 2.3 O TERNO DE REIS NO NATAL AÇORIANO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 2.4 A IRMANDADE SÃO JOSÉ DE TAQUARI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 2.5 GRUPO DE DANÇA RAÍZES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 2.6 ESPAÇO CULTURAL DA CIDADE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 3 SINAIS CULTURAIS QUE NÃO EXISTEM MAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 3.1 A FESTA E O TEMPLO DE DIVINO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 3.2 OUTRAS COMEMORAÇÕES RELIGIOSAS QUE NÃO EXISTEM MAIS . . . . . . . 38 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40 REFERÊNCIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 ANEXO – DEPOIMENTOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46

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1 INTRODUÇÃO

A cidade de Taquari foi fundada em 1765, por José Custódio de Sá e Faria, então Governador do Rio Grande de São Pedro, hoje Rio Grande do Sul, para organizar os casais açorianos que migraram das Ilhas dos Açores a fim de povoar o Sul do Brasil. Ao estabelecer os casais, o Governador criou o passo do Rio Tebiquary, resolvendo também a insegurança em que se encontrava a região devido às invasões espanholas. Partiu-se desse fato e de suas consequências para construir a pesquisa. A presente pesquisa pretende investigar os Sinais do Patrimônio cultural material e imaterial que constituem a herança da migração açoriana na cidade de Taquari, verificando os sinais que existiram, os que ainda existem e foram ressignificados e também identificar, ou não, o sentimento de pertencimento dos cidadãos taquarienses a suas origens açorianas. Temse como objetivo identificar as marcas ou sinais culturais trazidos por esses migrantes, como as festas religiosas, a arquitetura, a construção ou pavimentação de ruas, a culinária, o imaginário e, sobretudo, as relações que os cidadãos de Taquari mantêm, ainda hoje, com as Ilhas dos Açores e o significado dessas relações para a cultura local. Os casais açorianos destinados a se estabelecer na região trouxeram consigo um jeito de ser e de pensar que se expressou nas vestimentas, na culinária, na arquitetura, na religiosidade e no saber-fazer. Todas essas manifestações tornaram-se marcas ou sinais culturais que hoje são considerados o patrimônio cultural material e imaterial da cidade de Taquari e vinculam os taquarienses ao sentimento de pertencimento à cultura das Ilhas dos Açores, contribuindo para a formação da identidade local. Este será o foco principal da pesquisa. Tendo em vista a necessidade de preservar o patrimônio histórico material e imaterial como identidade cultural açoriana em Taquari, a pesquisa sobre as marcas ou sinais culturais trazidos pelos açorianos na época da migração será centrada em identificar quais são estes sinais. Sendo assim, ela será desenvolvida através de entrevistas com moradores de Taquari envolvidos na preservação do patrimônio cultural da cidade a fim de identificar as marcas culturais açorianas que existiram, ou ainda existem e foram ressignificadas, assim como resgatar a memória e conhecer o que os faz se sentirem ainda descendentes de açorianos. Considera-se que manter viva a memória cultural de uma cidade é também a forma de manter o sentimento de pertencimento a um grupo. Significa dizer que a memória cultural é como uma certidão de nascimento, porque dá identidade, diz quem o indivíduo é.

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Além disso, esta acadêmica foi movida a pesquisar sobre a migração açoriana em Taquari devido à busca por suas origens, por ser sua naturalidade de um município próximo que sofreu influência açoriana em vários aspectos culturais, e também em vista da formação acadêmica como Licenciada em História. Neste sentido, a pesquisa possibilita o entendimento sobre as características culturais que se manifestam nos hábitos e costumes diários das pessoas e sobre o sentimento de pertencimento às origens açorianas. Através da memória e da história oral foi possível confirmar a escassez da pesquisa na região sobre esses assuntos, tendo em vista que os alemães vieram depois que os açorianos se estabeleceram em Taquari, e a influência da colonização alemã certamente ressignificou muito do que existia da cultura das Ilhas dos Açores. Pelas entrevistas com moradores da cidade de Taquari foi resgatado, através da memória e da história oral contida em seus depoimentos, o significado de ser descendente açoriano, e também ficaram conhecidos os sinais culturais que ainda são preservados.

Memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas (LE GOFF, 2003, p. 419)

O processo da memória possibilita ao homem intervir na ordenação dos vestígios do passado que lhe são significativos, assim como fazer uma releitura deles. Neste sentido, evidenciou-se que os entrevistados envolvidos na pesquisa tentam resgatar sua identidade cultural ao confirmarem que se empenham na preservação do patrimônio cultural por se sentirem descendentes de açorianos. Da mesma forma o fazem aqueles que se envolvem no trabalho da preservação, ou pela escrita das memórias da cidade ou pela simpatia desses taquarienses e seu jeito de ser açoriano. Este trabalho constitui-se de três capítulos, sendo o primeiro a introdução, que traz uma contextualização sobre a presença açoriana no Rio Grande do Sul, mostrando a trajetória dos casais que chegaram a algumas regiões do Brasil. No segundo capítulo apresentam-se os açorianos em Taquari, fazendo uma abordagem geral sobre a chegada dos açorianos como primeiros povoadores e seu estabelecimento na região, criando, assim, a primeira cidade açoriana do Brasil. Os subitens referem-se aos sinais culturais trazidos pelos açorianos. Neles são destacadas as festas, em uma contextualização bibliográfica, tendo em vista os sinais culturais açorianos atrelados a festas e comemorações. Entre elas destaca-se o Natal açoriano, um evento criado com o fim de resgatar parte da

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cultura açoriana através da apresentação de danças típicas, e a representação da chegada dos açorianos pelo Grupo de Danças Raízes, além do Terno de Reis, uma festa típica desses migrantes. Traz-se, ainda, a Irmandade São José, a mais antiga herança cultural açoriana que vem se ressignificando através dos tempos como identidade cultural de Taquari. Nas entrevistas, os moradores mostraram seu esforço para manter vivos os sinais,1 e também revelaram o motivo de se sentirem descendentes de açorianos. O Terno de Reis e o Grupo de Danças Raízes destacam-se entre os sinais culturais identificados na pesquisa porque participam do Natal Açoriano. O primeiro é um evento trazido pelos colonizadores que vem se mantendo ao longo do tempo, com uma roupagem moderna, e o segundo é iniciativa de um grupo de moradores que trabalham na preservação da identidade cultural da cidade Fala-se sobre a arquitetura característica das Ilhas dos Açores. No decorrer da pesquisa foi constatado que muito já se perdeu por falta de incentivo à preservação do patrimônio cultural material de Taquari. O que ainda está de pé são prédios tombados como patrimônio cultural, entre os quais se destacam a Casa Costa de Silva, cujo estilo arquitetônico se identifica com o barroco colonial, também encontrado nas Ilhas dos Açores, e outras construções históricas que remetem ao mundo açoriano que se estabeleceu em Taquari. O terceiro capítulo do trabalho aborda os sinais culturais açorianos que já não existem na cidade de Taquari, entre os quais se destaca a Irmandade, a Festa, o Templo do Divino e seus símbolos, que não existem mais desde 1941, e também os ditos populares e crenças em bruxarias. Em um de seus subitens abordam-se outras festas religiosas, como a de Corpus Christi e a dos Navegantes, que, assim como os sinais culturais destacados, também não sobreviveram. Como metodologia utilizou-se a da história oral, através de entrevistas com moradores da cidade. No entanto, tendo em vista a necessidade de delimitar esta busca no espaço e no tempo, a atividade foi restrita à área urbana do município. Reconstituir o passado é motivo de orgulho para os taquarienses entrevistados e, pela memória atuante da vida cotidiana, é possível integrar o passado e o presente. Na pesquisa buscou-se esta interação a fim de reconhecer a identidade cultural local. Também se trabalha com o conceito da cultura, definida como “um conjunto de sistemas simbólicos, sendo os símbolos forma de relação entre o indivíduo e a realidade, conforme códigos tradicionais socialmente aceitos” (MELLO E SOUZA, 1994, p. 16)
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Sinais: pistas talvez infinitesimais permitem captar uma realidade mais profunda de outra forma inatingível (GINZBURG, 1989, p. 150).

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Tendo em vista que a pesquisa será centrada nos sinais culturais da cidade de Taquari, corrobora-se o entendimento desta autora quando destaca que:

Esses sistemas simbólicos têm que ser compreendidos, decodificados por todos os que participam das manifestações culturais por eles orientadas, e para isso devem se expressar através de uma linguagem comum para que haja comunicação e entendimento (MELLO E SOUZA, op. cit)

O patrimônio cultural2 material com o qual se trabalha na pesquisa pode ser identificado na arquitetura açoriana que está tombada na cidade e em outros objetos pessoais, como roupas, ornamentos, ferramentas e armas. O patrimônio imaterial, mais subjetivo, está presente no saber fazer as festas, no jeito de ser açoriano, nas receitas da culinária preparada para as festas e nas músicas cantadas, tocadas e dançadas. Segundo Ataídes, Machado e Souza, “o patrimônio é constituído, então, de bens materiais e não-materiais, enfim, de tudo que se refere à identidade, à ação, à memória de uma sociedade” (1997, p. 23). Com base nas pesquisas historiográficas de tradicionais estudiosos sul-rio-grandenses, a chegada dos casais açorianos ao Rio Grande do Sul data de 1737, com a fundação de Rio Grande e a instalação do forte de Jesus, Maria e José. Os casais teriam vindo da Colônia do Sacramento à procura de segurança e tranquilidade, fugindo dos conflitos permanentes da região do Prata, e teriam chegado ao Rio de Janeiro entre os anos de 1715 e 1728 sem autorização para emigrar, sendo enviados posteriormente pelo Governo à Colônia do Sacramento, mas buscavam um local menos belicoso para se estabelecer. Borges Fortes (1978) destaca a existência de documentos oficiais que comprovam a vinda dos açorianos ao Rio de Janeiro, sendo posteriormente enviados para a região do Prata e ao Rio Grande de São Pedro. Entre eles, tem-se a carta do Rei D. João V enviada ao Governador do Rio de Janeiro, que data de 7 de outubro de 1716 e informa sobre a vinda de 60 casais para povoar a nova Colônia. Conforme Borges Fortes, “Silva Paes planejara de forma decisiva sua grandiosa obra política de ocupação do Continente do Rio Grande” (1978, op. cit.), aliciando povoadores para a Região Sul com a promessa de que seria implantada a soberania da Coroa portuguesa na região até então disputada com os espanhóis. Devido a esta promessa, em 16 de abril de 1738 o governo de Lisboa aprovou as despesas feitas pelo governo do Rio de Janeiro para estabelecer casais no Rio Grande. As terras foram distribuídas em forma de datas por André
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Patrimônio cultural: “Agrupados em bens naturais pertencentes à natureza, bens de ordem material são coisas, objetos, construções; bens de ordem intelectual são os saberes do homem; os bens de ordem emocional representam sentimentos de ordem individuais e coletivos, são diversas manifestações folclóricas, cívicas, religiosas e artísticas” (ATAÍDES; MACHADO; SOUZA, 1997, p.23)

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Ribeiro Coutinho, que substituíra Silva Paes, dando início ao projeto de povoamento e colonização a fim de definir as fronteiras dos territórios que foram apropriados pela Coroa Portuguesa e agora deveriam ser protegidas das invasões castelhanas. Borges Fortes (1978) reporta a chegada dos casais açorianos no ano de 1742, conforme pesquisas baseadas nas crônicas registradas no Anuário de 1906. Segundo cronistas da época, antes de 1742 a região onde hoje se encontra Porto Alegre era habitada por selvagens, que não constituíam uma população permanente, e com a chegada dos ilhéus portugueses – os casais açorianos – foi se organizando o povoamento da região com interferência do Governo local, conforme regras estabelecidas pela Coroa portuguesa. Entre os autores não há um registro exato sobre a data da chegada dos açorianos ao Rio Grande do Sul devido à dificuldade de se organizar uma relação dos primeiros casais açorianos. O povoamento da região do Sul do Brasil se deu através do Edital de 31 de agosto de 1746, baixado por D. João V, mandando transportar até 4.000 casais das Ilhas para se estabelecerem no Sul do Brasil. Os casais das Ilhas dos Açores eram recrutados com promessa de que receberiam terras, ferramentas e sementes para o cultivo da terra. Franzen (2003) aponta o ano de 1751 como o momento da chegada desses casais ao Rio Grande do Sul. Ramos e Graebin também se manifestam com esta opinião. Segundo Borges Fortes (1978), é necessário esclarecer que casais de número, ou casais d’El Rei, são aqueles que vieram com Feliciano Velho Oldenberg e também aqueles que se formaram no Brasil pelas ligações matrimoniais realizadas entre os descendentes daquelas famílias. Ao consolidarem o casamento, os filhos de casais açorianos que contraíssem matrimônio dentro de um ano após terem chegado aos lugares destinados receberiam as mesmas vantagens de um quarto de légua em quadro de terreno, ferramentas e sementes, da mesma forma como teriam sido dadas a seus pais. A presença açoriana no Sul do Brasil influenciou na formação e consolidação das fronteiras, e também na constituição da sociedade, e suas características sobreviveram à influência de outras culturas, como a alemã e a italiana. Os sinais culturais tornaram-se uma marca registrada nas cidades e nas pessoas, possivelmente por terem sido as primeiras influências que chegaram – sendo também transformadas pelo meio cultural que já havia aqui. Segundo Neis (1975), os açorianos trouxeram bravura e honradez em seu jeito de ser, sendo verdadeiros exemplos de moralidade, respeito religioso, patriotismo e generosidade. Eram alegres, expansivos e vigorosos, também sóbrios e criativos, além de se mostrarem soldados destemidos. Vieram os ilhéus para o Rio Grande do Sul por serem considerados bons soldados e excelentes agricultores. Como já foi apontado, os ilhéus chegaram ao

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Continente de São Pedro por volta de 1752 em um grupo de 181 famílias com 833 pessoas que, segundo Borges Fortes (1978, p.61), se estabeleceram no Rio Grande, em Viamão e no Estreito. Ao mesmo tempo em que os açorianos chegavam, Portugal e Espanha tinham acordado entre si as delimitações dos territórios, sendo a Colônia do Sacramento entregue pelo Governo português ao Governo espanhol, que em troca daria a Portugal as terras ao norte do Ibicuí, onde os Jesuítas espanhóis haviam criado suas Missões. Tais terras eram habitadas pelos Guarani, que foram expulsos, juntamente com seus mentores jesuítas, para dar lugar aos lusitanos que chegariam posteriormente a fim de atender o projeto de povoação das terras do Sul, sob o comando do representante do Governo português, Gomes Freire de Andrade, que viera pessoalmente do Rio de Janeiro para fazer as negociações de paz, junto com o Marquês de Valdelyrios, representante do Governo espanhol. Com a demarcação de limites surgiram os primeiros povoamentos, destacando-se a Capela Grande de Viamão, Rio Grande de São Pedro e Santo Antonio da Patrulha. A vinda dos casais açorianos para o Rio Grande do sul estava não só atrelada à política de povoamento planejada pelo Governo português, mas também à série de problemas enfrentados pelas Ilhas dos Açores. Dentre os problemas destacam-se o superpovoamento das Ilhas, em alguns momentos o perigo de terremotos por se localizarem em uma região propicia aos abalos sísmicos, as tempestades que assolaram a produção agrícola e a falta de recursos para a recuperação da vida produtiva e o sustento das famílias. Esses motivos levaram o Rei de Portugal a elaborar o Edital em 1476 pelo qual transportaria as famílias que se interessassem em vir para o Sul do Brasil. No documento, as famílias açorianas tiveram a promessa de receber terra e instrumentos agrícolas. Foi estabelecida a idade máxima de 40 anos para os homens e de 30 anos para as mulheres que emigrassem, pois a intenção era ampliar o número de habitantes com os casais, que poderiam ter filhos ou já tinham filhos pequenos. Podem ser destacados inúmeros motivos que influenciaram a vinda dos açorianos para o Brasil. Sendo assim, Meneses defende: “No século XVIII cresce a busca do Brasil por gentes das Ilhas dos Açores. Este fenômeno decorre do surto de exploração metalífera e do propósito oficial de consolidação do domínio português em novos campos de disputa” (1979, p. 20). O historiador defende, ainda, que “a variante demográfica não constitui, entretanto, uma causa decisiva do transporte de açorianos para o Brasil meridional em meados do século XVIII” (Ibid.) E prossegue:

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Aliás, duvidamos do sobrepovoamento insular propalado pela bibliografia, considerando o sentido dos indícios coevos, que até aludem à falta de gente. Com efeito, logo no princípio da década de 1750, após a realização dos primeiros embarques, anotamos a escassez de candidatos, que obriga a troca do alistamento voluntário de casais pelo recrutamento compulsivo de marginais (MENESES, 1979, p. 29 e 30).

A determinação da idade dos açorianos foi atrelada também ao fato de serem pessoas na faixa etária produtiva, já que, chegando aqui, receberiam terras em forma de datas, com local e tamanho da propriedade também estabelecido pelo governo – além de recursos para a cultura da terra, como enxadas, foices e sementes. Entretanto, a promessa foi maior do que a doação real, no início, tendo em vista que os açorianos chegaram aqui e encontraram tudo por fazer. Essas dificuldades provocavam mais sofrimentos aos recém-chegados, pois esperavam melhores condições de assentamento, além de problemas relacionados com a guerra guaranítica com o passar do tempo, algumas regiões apresentavam má localização e, com isso, o povoamento não prosperava. A partir do recebimento da terra, a situação dos açorianos mudou e com ela o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. Os sul-rio-grandenses compuseram sua identidade cultural a partir da influência dos que chegaram aqui no século XVIII, e também com fragmentos da cultura que havia anteriormente. São elementos que formam o cerne cultural de uma nação, encarregando-se de transformar os sinais culturais de cada região em elementos identitários. Através de seus atos, os açorianos construíram um novo mundo e marcaram sua identidade local superando todos os obstáculos que se apresentaram ao longo da jornada. Em dezembro de 1751, quando chegaram ao Rio Grande do Sul, portanto, os casais de número, açorianos, deixaram suas marcas na formação étnica da população sul-rio-grandense e também seu modo de ser e sua cultura, e hoje esses sinais são considerados um patrimônio cultural desse grupo.
A influência açoriana é percebida no folclore (danças, costumes, tradições, terno de Reis, na época de Natal), hoje mais explorado em face do turismo (festivais de música, especialmente nas cidades do Litoral Norte, que têm origem açoriana, daqueles que fugiram do Sul em face da invasão castelhana de 1763 ou que migraram de Santa Catarina) [...] (FRANZEN, 2003, p. 03).

A influência cultural açoriana também está presente em outras marcas ou sinais culturais, como nas festas religiosas, na culinária, no imaginário,3 nas relações sociais e

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Imaginário: engloba todas as traduções mentais de uma realidade exterior percebida (LE GOFF, 1994, p. 11).

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também na arquitetura e na construção, como afirma Franzen, “...na arquitetura das cidades onde sua presença foi marcante (Rio Pardo, Triunfo, Taquari, Santo Antonio), nos costumes, tradições, mitos, na religião (o culto do Espírito Santo) [...]” (2003, p. 04). Dentre as contribuições culturais açorianas na formação da sociedade sul-riograndense é importante lembrar que o casamento foi incentivado pelo Governo a fim de organizar os assentamentos através da concessão de benefícios aos casais que se formavam aqui, constituindo famílias descendentes dos casais vindos das Ilhas dos Açores. O casamento é uma cerimônia instituída em todas as sociedades e constitui a celebração de um ritual abençoado pela Igreja e comemorado com festas entre os convidados. Em muitas ocasiões, serve como um acordo econômico e político entre as famílias envolvidas. Além de ser uma maneira de organizar a sociedade através de registros matrimoniais, contribui com os registros estatísticos e com o controle da Igreja sobre a população e sua movimentação. Historiadores sul-rio-grandenses traçaram, a partir do século XX, um retrato ideal sobre este colono, descrevendo-o, segundo Franzen (2003), como exemplo de moralidade, respeito religioso, honra, bravura, patriotismo, trabalhador, generoso, alegre, expansivo, vigoroso, sóbrio, caritativo e soldado destemido. Não simpatizava com a vida militar, mas, estando no campo de batalha, era fiel e disciplinado. Muitas dessas qualidades foram atribuídas ao fato de terem vindo em casais, alguns já com famílias constituídas, o que conferiu um caráter especial ao jeito de ser açoriano sul-riograndense que se refletiu na formação do caráter do “gaúcho”. Suas contribuições são bem descritas pelo historiador Guilhermino Cesar quando diz: “Mas, quer de um, quer de outro modo, foi o açorita quem deu colorido específico ao municipalismo rio-grandense, à vida do burgo, às festas religiosas, à arquitetura bem portuguesa das primeiras construções urbanas” (1956, p. 112). Este influência cultural foi determinante para o surgimento das freguesias que se constituíram em espaços urbanos, sendo Taquari, a primeira cidade planejada para o assentamento dos casais açorianos.

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2 AÇORIANOS EM TAQUARI

Segundo Borges Fortes (1978), Taquari foi comprovadamente a primeira cidade açoriana fundada no Rio Grande de São Pedro. Teve como fundador José Custódio de Sá e Faria. Em 13 de maio de 1765 o Bispo Dom Frei Antonio do Desterro, da Ordem de São Bento do Rio de Janeiro, criou a Freguesia de São José de Taquari, a fim de atender moradores às margens do mesmo rio. Balém (1949) informa que já em 1o de maio de 1764 o Bispo concedera aos moradores da margem do rio Taquari o privilégio de uma Capela Curada. Esta Freguesia, conforme o autor, foi constituída principalmente de colonos portugueses vindos diretamente do Arquipélago das Ilhas dos Açores – eram os casais d’El Rei –, os quais deveriam povoar Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, como já apontado anteriormente. Diante do impasse entre os Governos de Portugal e Espanha sobre o acordo de troca dos territórios ao Norte do Ibicuí, denominados Os Sete Povos das Missões e Colônia do Sacramento, os casais vindos a partir de 1752 viviam em péssimas condições por estarem localizados provisoriamente ao longo dos rios, aguardando terras prometidas e sem recursos espirituais. Recém-vindos das Ilhas, chegavam em sumacas que, procedentes de Rio Grande, atracavam no Porto de São Francisco dos Casais, hoje Porto Alegre, e procuravam se estabelecer ao longo dos rios Jacuí e seus afluentes à espera das terras prometidas. A situação precária se agravou com invasão da Vila de São Pedro do Rio Grande, por espanhóis comandados pelo General Pedro Ceballos, em 1763. Com a delicada situação, o Coronel José Custódio de Sá Faria, sob as ordens do Vice-Rei do Rio de Janeiro, assumiu como Governador do Rio Grande de São Pedro e imediatamente tomou as devidas precauções contra possíveis invasões pelo Oeste, levantando edificações e reforçando guardas dos passos dos rios Jacuí e Taquari. Em tão belicoso momento, José Custódio de Sá e Faria tinha como obrigações acudir os colonos na defesa contra as invasões e atender as necessidades dos habitantes e fugitivos, proporcionando-lhes melhores condições de assentamento com moradias e provisões para seu sustento na agricultura.
Sobre a fundação da Vila de São José de Taquari, o mesmo Coronel José Custódio de Sá e Faria, da Capela de Viamão, onde era a sede do governo, deixou-nos uma carta datada de janeiro de 1768 e dirigida ao conde de Azambuja, então novo vicerei e capitão-general do Estado do Brasil, conforme se lê no volume 31, na parte primeira, da revista do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, às páginas 285 e 286 (BALÉM, 1949, p. 19).

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FIGURA 1 – Reconstituição histórica do Município de Taquari
Fonte: Balém, 1949, p. 94.

O Governador José Custódio de Sá e Faria teve a incumbência de localizar os casais açorianos no Passo do Rio Taquari, e seu substituto, o Governador José Marcelino de Figueiredo, foi responsável pela regularização da situação legal dos casais vindos das Ilhas, que receberam a demarcação definitiva em datas certas e regulares. Quase toda a população que vivia às margens do rio Taquari eram os 60 casais que, segundo os registros paroquiais da Paróquia São José de Taquari, vieram das Ilhas: da Ilha Terceira, da Ilha da Graciosa, da Ilha

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do Fayal e da Ilha de São Jorge. Nos registros paroquiais estão identificadas as famílias e as respectivas Ilhas4 de onde vieram. A demarcação da Freguesia de Taquari, cujo território pertencia à Freguesia de Triunfo foi elevada à categoria de vila “pela Lei 160, de 4 de julho de 1849, sancionada pelo Presidente da Província, Tenente-Coronel Francisco José de Souza Soares de Andrea” (Ibid., p. 101), dando origem também ao Município de Taquari.

FIGURA 2 – Mapa do município de Taquari
Fonte: Balém, 1949, p. 101.

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Ilhas dos Açores: “O grupo das Açores se estende sobre uma faixa de cem léguas marítimas, mais ou menos, de S. E. para O. NO., entre 36º5045’ de Latitude Norte de 27º e 33º40’ de Longitude Oeste do meridiano de Paris” (BALÉM, 1949, p.31).

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A partir desta data os limites de seu território foram diversas vezes remarcados devido à criação de novos municípios que faziam parte dele: Lajeado, Estrela, Venâncio Aires, General Câmara e Triunfo. Entre estes, “o primeiro território desanexado de Taquari foi a Colônia Monte Alverne, da Freguesia de Santo Amaro para a Freguesia de São João Batista de Santa Cruz, no município de Rio Pardo” (BALÉM, 1949, p. 101). Consolidada a Freguesia de Taquari, floresceram as irmandades que se já faziam presentes desde a vinda dos primeiros casais açorianos, dentre as quais se destacam as Irmandades do Santíssimo Sacramento e de São José, que tinham a incumbência do culto religioso. Havia também a Irmandade de São Miguel, que cuidava das almas dos falecidos da paróquia, e as Irmandades do Rosário e de São Benedito, para os negros. Cada uma era supervisionada por Bispo ou Padres e confirmados nas Leis Provinciais. Havia ainda a Irmandade do Divino, considerada a mais popular da Freguesia, que promovia as festas do Divino. Desde a fundação da Paróquia, os casais açorianos solenizavam com grande pompa e aparato externo a festa do Espírito Santo, com faziam em sua pátria. A festa ocorria uma vez por ano, sendo escolhido-sorteado o encarregado de organizar as comemorações e era chamado de Rei, sendo mais tarde, após a independência, denominado Imperador com diversos mordomos. Eram personagens desta festa “os mordomos, o interno, encarregado das coisas da Igreja, e o externo, que cuidavam dos folguedos populares. Havia ainda um alferes da bandeira, pajens e um capitão do mastro” (Ibid., p. 105). A bandeira do Divino era o símbolo mais importante desta Irmandade. Ela era feita em tecido de seda vermelha, encimada por uma pomba ricamente bordada na cor prata, que representava o Divino Espírito Santo. No alto pendiam muitas fitas coloridas. Ao contrário da Irmandade São José, que hoje ainda é muito forte, a Irmandade do Divino já não existe e a Igreja se desfez, em 1941, das alfaias de prata, da coroa do Imperador e do cetro para, com a venda, fazer reparos no templo, que foi vendido e destruído, e já não existe há 30 anos. Segundo Santos, os nomes dos primeiros açorianos que chegaram ao povoado de Taquari, conforme registros da Paróquia de São José de Taquari, são:

Da Ilha Faial: Dorneles, Garcez, Souza, Pereira de Faria, Rodrigues, Antonio de Vargas, Salvador e Francisco Rosa. Da Ilha São Jorge: Teixeira Fagundes, Silvério, Jacinto, Chaves Valadão e Teixeira de Quadros. Da Ilha Terceira: Rodrigues, Cardoso, Dias, Faleiros, Rosa e Ferreira. Da Ilha Graciosa: Quadros (1994, p. 21).

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2.1 SINAIS CULTURAIS AÇORIANOS EM TAQUARI

Ao se fazer uma análise sobre festas e ritos, foi constatado que elas estão presentes nas sociedades desde antes da época Medieval. Neste período, a Corte era o espaço onde ocorriam festas organizadas pelos imperadores e reis. Segundo Gomes (1996), são eventos marcados por sua natureza relativamente gratuita,5 que são as festas, que se caracterizavam por apresentar seus quadros de condutas imprevistas, isto é, momentos coletivos dotados de uma pluralidade de sentidos onde pode ocorrer a contestação, a efervescência das atitudes, ou mesmo a procura do nonsense. As sociedades de todos os tempos são movidas por festas e ritos que embalam sonhos e desejos de reconhecimento e visibilidade, de se sentir pertencente a um grupo, a uma sociedade, a uma cultura. A festa pode, ao mesmo tempo, uniformizar diferentes pessoas em torno de um objetivo comum; por outro lado, pode destacar as diferenças sociais, pois depende de como são organizadas e para que fim.

No Brasil, a partir dos anos 70, toma corpo um terceiro conjunto de estudos sobre as festas brasileiras nos âmbitos da sociologia, da antropologia, da literatura e da crítica de arte, e que tiveram forte impacto no campo historiográfico, inspirando a nova história cultural brasileira a partir de meados dos anos 80 (JANCSON; KANTOR, 2001, p. 08).

As festas podem ser populares, religiosas ou pagãs, particulares, formais ou informais, e ainda assim cada uma delas, na particularidade, é organizada com o objetivo de unir as pessoas, demonstrando certa uniformidade entre os diferentes. Gomes (1996) individualiza a festa no contexto português com a presença do rito,6 numa leitura que pretende reconstituir as crenças e as práticas à luz da cultura da época para, através disso, tornar a análise sobre a festa mais rica e complexa. As pesquisas historiográficas ainda não conseguiram definir o que é uma festa, mas apontam características de ser um evento organizado por determinados grupos que possuem uma “estrutura social de produção” (GUARINELLO, 2001, p. 971). É um evento planejado minuciosamente, conforme as regras específicas de cada uma, formando uma estrutura em que cada pessoa envolvida assume um papel de maior ou menor responsabilidade.

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Faziam-se investimentos para a organização da Festa, mas era gratuita para as pessoas que a frequentavam. Rito: espetacularidade e mobilização popular (CATROGA, 2005).

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A festa é uma expressão ativa que interrompe o tempo social e interfere no cotidiano de cada um, pois produz a “suspensão temporária das atividades diárias” (GUARINELLO, 2001, p. 971). Ela deve ser organizada a partir de um objeto focal, conforme o desejo dos organizadores e do se quer mostrar. Neste sentido, pode ser profana, religiosa ou popular, a fim de agregar os participantes. É um espaço de produção social, tanto material como comunicativo. “A festa é, num sentido bem amplo, produção de memória e, portanto, de identidade no tempo e no espaço social”, segundo o autor (op. cit., p. 972). Neste sentido, ao analisar a existência da Festa de São José de Taquari, o Natal Açoriano e o Terno de Reis, constata-se que todas estão inseridas no contexto da sociedade que as produz, mantendo o objetivo principal de atender aos anseios do espírito ao representar a religiosidade e a diversão da população que assiste às apresentações. Nesta manifestação verifica-se a preservação da memória cultural açoriana, representada em forma de teatro sobre os açorianos que chegaram no século XVIII pelo rio Taquari. Nos diversos meios onde ocorre, a festa reflete, com efeito, em seu processo e em sua configuração, determinados contextos, conforme Silva (1996), e preenche determinadas funções sociais e culturais. Entre outras manifestações religiosas, segundo Foster (1972, p. 180 apud SILVA, 1996), a festa não surgia apenas nem tanto como momento de catarse e libertação, nem como mecanismo de convergência e redistribuição do excedente, mas como expressão espaçotemporal dos processos de reclassificação e integração social, inclusive de hegemonização, polarização ou rivalidade dos protagonistas individuais ou coletivos aí envolvidos. As festas religiosas caracterizam-se pela presença e controle da própria Igreja, que se colocava no controle decidindo sobre questões que atenderiam ou representavam mais a religiosidade e restringindo representações consideradas pagãs. Em Taquari, o Natal açoriano é o maior evento – e o que está mais ligado à colonização açoriana por ser uma festa religiosa – em que a cidade cultiva as tradições representando a vinda dos casais açorianos de barco pela Lagoa. É uma festa que quer mostrar a identidade da cidade, com uma mistura de tradições e religião que formam um espetáculo, envolvendo todos os participantes no contexto cultural do evento. Por ser promovida em dezembro, tem a presença muito forte do espírito natalino que envolve a todos. Em Taquari, particularmente, o envolvimento está também voltado à preservação da memória da cidade. Entre as representações nesta festa religiosa e cultural está também o Terno de Reis, uma festa luso-açoriana que corrobora a visibilidade da manifestação de pertencimento.

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O Terno de Reis caracteriza-se por ocorrer em 6 de janeiro, ligado às comemorações natalinas. É cantado a partir de temas sobre o nascimento de Jesus, sendo também uma festa voltada para a religiosidade. Conforme a análise bibliográfica do que é uma festa, comparando com as manifestações culturais açorianas em Taquari, pode-se afirmar que uma festa carrega muitos significados: alegria, aglomeração, comemoração, catarse, organização, demonstração de poder e, sobretudo, preservação da identidade local. As festas de tradição açoriana mostram o desejo da sociedade taquariense de manter vivas as origens da cidade na representação da vinda dos açorianos, nas danças folclóricas, nos trajes típicos, no canto e na música do Terno de Reis. A representação é uma forma teatral de manter viva a identidade cultural da cidade entre as pessoas que a organizam, que fazem a apresentação e, sobretudo, a população local que assiste ao evento e aos visitantes. São ritos que se tornam marcas culturais açorianas em Taquari, não deixando dúvidas sobre sua descendência. É como se fosse o registro de nascimento da cidade e das pessoas que a habitam. Ao preservarem seu patrimônio imaterial – a festa, o fazer a festa, o jeito, a alegria, a simpatia, o desejo de não ser esquecido – os taquarienses também preservam seu patrimônio material – a arquitetura, a Lagoa e as praças onde os eventos são organizados.

2.2 SINAIS CULTURAIS QUE EXISTEM E FORAM RESIGNIFICADOS

Neste item se investiga, através de entrevistas, os sinais do patrimônio cultural deixados pelos açorianos em Taquari. Nos depoimentos vieram à tona as recordações dos vestígios significativos que fazem os taquarienses se sentirem descendentes de açorianos. Nas entrevistas ocorreu “uma atualização mais ou menos mecânica dos vestígios da memória” (LE GOFF, 2003 p. 420). Segundo este autor, “o comportamento narrativo se caracteriza, antes de mais nada, por sua função social, pois se trata de comunicação a outrem de uma informação, na ausência do acontecimento” (Ibid.). A entrevista é o recurso pelo qual se acessa a memória, e pelas recordações se faz uma releitura dos vestígios do passado. Nesta busca tem-se a palavra falada, a oralidade. Assim, Ferreira e Amado destacam:

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Os relatos orais sobre o passado englobam explicitamente a experiência subjetiva. Isso já foi considerado uma limitação, mas hoje é reconhecido como uma das principais virtudes da história oral: fatos pinçados aqui e ali nas histórias de vida dão ensejo a percepções de como um modo de entender o passado é constituído, processado e integrado à vida de uma pessoa (Ferreira & Amado,2002, p. 156).

Os depoimentos orais mostram o quanto o patrimônio cultural açoriano está enraizado na cidade e na memória dos entrevistados. Isto é, sobretudo, a identidade cultural e o sentimento de pertencimento às origens. É também o patrimônio cultural constituído de bens materiais e não materiais, enfim, é tudo o que se refere à identidade, à ação e à memória de uma sociedade. Ao investigar sobre a existência de sinais culturais trazidos pelos açorianos para a cidade de Taquari, constatou-se, através dos depoimentos de pessoas que trabalham na preservação da identidade cultural da cidade, que os entrevistados se sentem descendentes de açorianos, inseridos em um contexto em que se busca a preservação do patrimônio histórico cultural. Destaca-se a influencia dos açorianos na arquitetura e nas festas, a exemplo do Natal Açoriano em Terra Gaúcha, do qual faz parte o Terno de Reis e suas cantigas, e da Festa de São José, padroeiro da cidade, mantidas através do esforço de sua Irmandade. Em seu depoimento, Bruna Santos, diretora do Museu Costa e Silva, diz:

Tem muita coisa. Taquari foi à primeira cidade organizada pelo Governo português e ainda existe muito da cultura, como as festas religiosas. A identidade está presente em tudo. Temos o Natal Açoriano em Terra Gaúcha, que não deixa de ser uma festa religiosa. Temos a Festa de São José, e em 2005, na gestão da Secretária de Educação Nilda Rita, foi incorporado o Tapete de Corpus Christi. Isto está bem enraizado na identidade da cidade (ENTREVISTADA).

Bruna declara-se descendente de açorianos, pois seus ancestrais teriam vindo com os primeiros casais, mas sua família hoje sente esta descendência bem distante. A cidade busca agora o envolvimento de todos na preservação de sua identidade cultural, mostrando aos estudantes, através de palestras nas escolas, que sua origem não deve ser esquecida e que ser descendente de açorianos é também ser pertencente ao grupo que fundou a cidade. A maneira de manter os estudantes, jovens e adultos, envolvidos na preservação da cultura, se faz através dos grupos de dança, que mantém intercâmbio cultural com as Ilhas dos Açores. Para participar do grupo e se tornar um dançarino açoriano, o candidato deve estudar sobre a história das roupas e das danças, envolvendo-se no evento e tendo pleno conhecimento dessa cultura. O Natal Açoriano é outra festa que envolve a religião, o teatro e a dança, pois representa o nascimento de Jesus, como evento comemorado em todos os países ocidentais de

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religião católica cristã. Hoje o Natal Açoriano é representado no teatro e há a representação da Sagrada Família, o presépio vivo e personagens (como os casais açorianos) que chegam de barco pela lagoa Armênia.7 Todos os personagens são representados pelos moradores da cidade.

FIGURA 3 – Presépio vivo: Natal Açoriano em Terra Gaúcha
Fonte: TAQUARI, RS. Prefeitura Municipal, s.d.

A festa, que hoje acontece ao redor da Lagoa Armênia, teve início na Igreja de São José com a intenção comemorar o Natal. Tornou-se, entretanto, muito significativa ao ser representada com pessoas vestidas de açorianos. Este fato emocionou os espectadores por ser a representação das origens da própria cidade. A partir desta demonstração de emoção, a Festa Natalina tornou-se um evento cultural muito significativo por ser criada na cidade em um contexto moderno, com elementos que fazem os espectadores viajar no tempo, criando em sua mente a imagem do que foi a vinda dos casais açorianos há mais de dois séculos. Outra tradição cultural trazida pelos açorianos é a da Irmandade São José, padroeiro da cidade. Ela mantém a Igreja, e sua festa é o maior evento da região, com duração de nove dias, conforme informações obtidas na entrevista com o Prof. Balduino Goerck:
A Irmandade de São José da qual eu faço parte né e ela já completou 206 anos desde 1804 e até hoje ela existe, inclusive eu estou encarregado de elaborar o novo estatuto pra adaptar as condições atuais, por que quando ela foi criada, ela foi criada para atender o enterro dos pobres. Naquele tempo era o seguinte, o velório era em casa, o médico era de família, não existia esta situação como hoje do Governo patrocinar a
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Segundo informações obtidas de Augusto Becker, taquariense entrevistado na pesquisa, Armênia é o nome da proprietária de uma antiga olaria que existiu no local.

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saúde, tudo era particular. Então estas pessoas carentes, os pobres não tinham nem como fazer um enterro, né. Então a irmandade fazia isso aí era um dos objetivos principais de se atender esta parte carente, podes ver o atendimento da Santa Casa em Porto Alegre, quando ela foi criada, foi criado um depósito de doentes, não um hospital em si, né, hoje é o que é. A Irmandade São José também vai se adaptar à situação atual e para isso serão definidos novos objetivos principais. A Festa de São José, padroeiro do município, é a maior festa social religiosa da região. Ela tem nove dias, todas as noites tem novena, e no último dia é aquela procissão, então fecha os festejos, mas isso é uma característica totalmente açoriana (ENTREVISTADO).

O Prof. Balduino Goerck reside em Taquari por opção.8 É descendente de alemães, mas se identificou com a cidade e a simpatia de seus habitantes, pois se sentiu muito bem recebido e percebeu na simpatia dos taquarienses uma característica açoriana que pôde comparar com a frieza dos descendentes alemães. A receptividade açoriana está presente em cada cidadão taquariense, sendo demonstrada no entusiasmo de falar sobre sua identidade cultural. Hoje, o professor se identifica muito com a cidade e se envolve em sua preservação cultural, quer fazendo parte da Irmandade de São José, quer se envolvendo na publicação de suas memórias em livros com o objetivo de contribuir para a preservação cultural de Taquari. Também quer contar memórias para deixar para seus netos o registro de sua vivência como testemunha de muitas mudanças na cidade.

2.3 O TERNO DE REIS NO NATAL AÇORIANO

O Natal Açoriano em Terra Gaúcha, evento organizado na cidade de Taquari do qual já se falou, é o que mais se identifica com a colonização açoriana. É uma festa religiosa que também cultiva as tradições luso-açorianas. A festa mostra a identidade cultural da cidade através de uma mistura de tradições, pois apresentam o presépio vivo e a chegada dos colonizadores açorianos de barco, pela lagoa. Então se misturam religião e história através do teatro, formando um espetáculo na cidade. Em seu depoimento, Bruna conta que o Natal Açoriano em Terra Gaúcha é um espetáculo que surgiu com o objetivo de revitalizar a origem açoriana da cidade, pois Taquari é uma cidade açoriana na essência, na arquitetura e na culinária. As pessoas identificam-se como descendentes açorianos e toda a história é açoriana, apesar de ter havido outras influências culturais mais tarde, com a chegada dos imigrantes alemães e italianos. Mas a açoriana e a mais forte; é a que identifica a cidade.
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Este entrevistado é natural de Santa Cruz do Sul, RS.

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Quando foi criada a Sala Açoriana, em 1991, da qual sou diretora, eles queriam fazer um calendário sobre a tradição açoriana na cidade. Nesta época se aproximava o Natal, era necessário criar um evento para comemorá-lo, e então foi decidido fazer um presépio vivo na Igreja Matriz, a mais antiga da cidade. Acompanharam o presépio algumas pessoas vestidas com roupas típicas açorianas, e a representação comoveu muitas pessoas por ser diferente de tudo o que se fazia na cidade (ENTREVISTADA BRUNA).

FIGURA 4 – Representação da chegada dos açorianos pela Lagoa Armênia
Fonte: Arquivo do Instituto Cultural Raízes de Taquari

A idealizadora do evento foi a Profa Helena, que organizou o teatro da Escola Pereira Coruja, e mais tarde foi incorporado ao evento o Grupo de Dança Raízes. Nesta representação, as pessoas envolvidas na área da Cultura viram naquele evento natalino uma grande força de identidade, cultura e turismo para a cidade. Em 1991, o evento passou a ser realizado ao redor da lagoa Armênia. Nesta festa criada com o objetivo de comemorar o Natal, o evento torna-se símbolo cultural da cidade por se identificar e revitalizar, através das representações, a identidade cultural açoriana tendo em seu formato a representação do Grupo Raízes como açorianos chegando de barco na Lagoa Armênia, como chegaram pelo rio Taquari. No entanto, também se faz a apresentação do Terno de Reis, festa tipicamente açoriana da comemoração do Natal. Percebe-se que a revitalização da cultura açoriana em Taquari se dá através de dois eventos criados há 19 anos que integram com o Terno de Reis, presente na cidade desde o início de sua formação, mas ressignificado pela necessidade de preservá-lo atendendo aos olhares e desejos dos tempos modernos, sem se perder no tempo e no espaço.

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Os Ternos de Reis em Taquari são tradição desde o início da povoação açoriana em 1764. A introdução deste evento, na cidade e em grande parte do Rio Grande, é obra dos açorianos que antigamente se reuniam em pequenos grupos, com gaita,9 violão e violino às vezes um surdo10 e também pandeiro,11 em visita às casas de amigos e parentes a fim de comemorar o nascimento de Jesus. As músicas e tons variam conforme o grupo. Dizem que o tom correto é (Mi+). O grupo é dividido entre os que cantam e os que respondem o verso. Também há a pessoa exclusiva para fazer e lançar o verso. O tema é, ou deveria ser, o anúncio do nascimento de Jesus Cristo. Hoje os Ternos foram ressignificados e não obedecem ao mesmo tema. Eles mesclam com outros assuntos da atualidade e do lugar onde se apresentam. Veja-se a letra da música cantada no Terno de Reis, uma composição do grupo Os Mirins:

Congada Meu senhor dono da casa, Meu senhor dono da casa os três reis que vão chegando... Esta canção quem cantava era o meu velho pai Com terno marchando até hoje ainda sai De dezembro a janeiro parando no dia seis Cantando de porta em porta a fada dos santos reis Já que o senhor abriu a porta, Já que o senhor abriu a porta e está nos escutando Pedimos sua licença, ai, Pedimos sua licença, ai pra poder entrar cantando, ai. E na frente do presépio contemplando o salvador Improvisavam seus versos com carinho e muito amor. Falavam de sua fé de ternura e querer bem Parece que Jesus Cristo estava cantando também. Vamos parar de cantar, ai, Vamos parar de cantar, ai para este povo estimado, ai, Entregando sua família, ai, Entregando sua família para o meu Jesus amar Nosso terno vai embora (OS MIRINS, 26 jun. 2009).

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Gaita ou Acordeão: o primeiro acordeão que chegou ao Brasil era chamado de concertina (acordeão cromático de botão com 120 baixos). Os primeiros gêneros (fado, valsa, polca, bugiu, caijun etc.) retratavam o folclore dos imigrantes portugueses, alemães, italianos, franceses e espanhóis. (ACORDEÃO, [s.d.]). 10 Surdo - instrumento de percussão. 11 Pandeiro: no Brasil, o pandeiro entrou por via portuguesa (origem provável é árabe). O negro aproveitou o pandeiro para utilizá-lo em seus folguedos. Era usado para acompanhar as procissões religiosas, Fez parte da primeira procissão que se realizou no Brasil, em 13 de junho de 1549, na Bahia, comemorando a festa de Corpus Christi. Feito de couro de cabra e madeira, de forma arredondada, é o som cadenciado do pandeiro que acompanha o som do berimbau, dando "molejo" ao som da roda. Ao tocador de pandeiro é permitido executar floreios e viradas para enfeitar a música. (PANDEIRO, [s.d.]).

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Em seu formato mais original, o Terno de Reis é uma festa natalina formada por homens que se reuniam para tocar e cantar na janela de uma determinada casa da vizinhança. Os donos da casa eram acordados pela cantoria e recebiam o grupo, retribuindo a visita com um grande jantar. Hoje, em Taquari, o Terno de Reis ocorre em dezembro na programação do Natal Açoriano em Terra Gaúcha, que em 2010 completará sua 19a edição, e desde a primeira edição foi representado na programação o folclore de Ternos de Reis, que é encerrado no dia 6 de janeiro, o Dia de Reis, na Praça da Lagoa Armênia, no centro da cidade.

FIGURA 5 – Imagem do Terno de Reis
Fonte: Imagens, [s.d.].

Em um formato diferente, hoje é apresentado no palco principal com duração de 15 minutos, em seguida saem em visita à vizinhança, neste caso representada pelas árvores ao redor da lagoa, adotadas e decoradas pelas empresas locais. As empresas envolvidas com o evento recebem os grupos de Terno de Reis em instalações no local da festa e servem diversos tipos de comidas e bebidas. Os grupos de Terno de Reis tocam e cantam ao redor das árvores decoradas como se estivessem fazendo a festa na janela das casas. Iniciam a visita saudando os anfitriões e, ao final da visita, se despendem sempre cantando. São 15 grupos que se reúnem representando a cidade, o interior e outros municípios. Destacam-se os municípios de Triunfo, Tabaí, Paverama, Canoas, Montenegro e Guaíba, além dos grupos visitantes. O Terno de Reis é composto por seis pessoas, homens, um deles bota o verso e os outros respondem. A letra das músicas é criada de improviso, iniciando com uma saudação para a família que os recebe, e continuam cantando em homenagem ao nascimento de Jesus, incluindo também mensagens que atentam para assuntos atuais que dizem respeito às comunidades representadas pelos grupos, assim como a característica da cidade que promove o evento.

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O Terno de Reis é também uma festa popular que está dentro da festa O Natal Açoriano em Terra Gaúcha, e ambos representam o estado de espírito de quem participa, “unindo diversão e alegria com um comportamento coletivo” (GUARINELLO, 2001, p. 969). Neste caso, a festa é o caminho por onde as pessoas buscam, através da memória, a preservação de sua identidade cultural, unindo pessoas distintas num objetivo comum, formando uma “unidade entre os participantes” (Ibid., p. 972). “A festa é produto da realidade social e, como tal, expressa ativamente essa realidade, seus conflitos, suas tensões, suas censuras, ao mesmo tempo em que atua sobre eles” (Id.) A diversidade dos participantes do Terno de Reis e das pessoas que vão à festa prestigiar as apresentações promove uma riqueza de culturas, inseridas numa sociedade que, através das gerações, tem buscado mostrar seu jeito de ser descendente de açorianos. Segundo Augusto, “em Taquari procura-se incentivar essa tradição, que em muitos lugares já desapareceu. Mesmo assim, ao longo do tempo já diminuiu bastante, sendo ainda sustentada pelos mais velhos” (ENTREVISTADO).

2.4 A IRMANDADE SÃO JOSÉ DE TAQUARI

Entre os sinais culturais açorianos preservados na cidade de Taquari há a Irmandade de São José, que completou 206 anos (desde 1804) e até hoje existe, sendo considerada pelos moradores a maior festa religiosa da região. “A Festa de São José, padroeiro do município, creio eu que a maior festa social religiosa da região”, confirma o Prof. Goerck, conforme transcrição em item anterior. “As comemorações ocorrem durante nove dias, todas as noites tem novena, e no último dia é aquela procissão, então fecha os festejos. É uma característica totalmente açoriana”, informa o entrevistado. E salienta: “Inclusive eu estou encarregado de elaborar o novo estatuto para adaptar às condições atuais, porque quando ela foi criada para atender o enterro dos pobres, [...] os carentes não tinham recursos para fazer um enterro”. Atender aos necessitados era um dos objetivos principais da Irmandade, que hoje percebe a necessidade se adaptar à situação atual, por isso seu Estatuto deve ser revisado e atualizado para nele inserir seus objetivos principais a partir de agora. A Irmandade São José veio com os açorianos nos primórdios da povoação e criação do assentamento dos casais, que nesse período precisavam de amparo espiritual – era formada somente por homens e ainda hoje permanece com a atuação somente de homens, pois não

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chegaram a um consenso sobre o papel da mulher na Irmandade. Tempos atrás, inclusive, já houve um movimento das mulheres a fim de participarem mais; entretanto, ficaram sem força e nada foi mudando na formação da Irmandade. A solicitação das mulheres que queriam participar esbarrou no Estatuto, que previa a participação somente dos homens, e pergunta: O que as mulheres vão fazer? Qual seria o papel a ser desempenhado pela mulher? A atuação da mulher fica restrita ao grupo de orações da família e atuação nas Pastorais da Saúde. São diversas pastorais que têm a participação das mulheres. A mulher não participa da Irmandade, nas decisões e organizações das festas. Ela desempenha um papel de apoio sem contribuir nas decisões e na revisão dos estatutos.
Leilões também faziam parte das festividades em homenagem a São José. Nesta festa de São José, as moças e os moços tinham oportunidade de iniciar uma aproximação, podendo daí acontecer o namoro, pois era costume o uso de Telegramas. Os organizadores desta festa, a Irmandade de São José, determinavam encarregados de vender pequenas folhas de papel onde se poderiam escrever recadinhos endereçados a determinada pessoa, sendo este logo enviado e respondido (SANTOS, 1994, p. 33).

A Irmandade de São José é também um sinal cultural açoriano que se ressignifica a fim de acompanhar as mudanças dos tempos modernos, buscando atender aos anseios e desejos daqueles que dela participam ou por ela são atendidos. É possível que em sua trajetória deixe de exercer um papel que já não é tão indispensável, para se dedicar a novos papéis que os dias atuais exigem.

2.5 GRUPO DE DANÇA RAÍZES

Hoje, o Grupo de Dança Raízes latinas e sul-rio-grandenses, criado pelo Instituto Cultural e Artístico Raízes, da cidade de Taquari, participa de intercâmbio com grupos de dança das Ilhas dos Açores. Conforme Aurora, em seu depoimento, o Grupo de Danças Raízes iniciou sua formação em 1996 com a finalidade de proporcionar às crianças e aos jovens o envolvimento em atividades que propiciem o desenvolvimento físico, intelectual e espiritual, num processo criativo, proporcionando a integração na sociedade, desenvolvendo o espírito de grupo, a autoestima e a realização pessoal. Seus componentes pesquisam e divulgam o folclore gaúcho, nacional e internacional. Possui um grande repertório de danças e canções, todas caracterizadas por excelentes figurinos, com trajes de época.

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Este é o depoimento de Aurora:

O Instituto Cultural e Artístico Raízes iniciou sua formação em 1996 com a finalidade de proporcionar às crianças e jovens o envolvimento em atividades que propiciem o desenvolvimento físico, intelectual e espiritual, num processo criativo, proporcionando a integração na sociedade, desenvolvendo o espírito de grupo, a autoestima e a realização pessoal. O Raízes pesquisa e divulga o folclore gaúcho, nacional e internacional, possuindo um grande repertório de danças e canções, todas caracterizadas por excelentes figurinos, com trajes de época. Este grupo vem se destacando pelos diversos municípios onde se apresenta divulgando o nome de Taquari, além de festivais como o da Ilha Terceira dos Açores (Portugal 2000, Festival Internacional), Festival de Danças do Mercosul em Bento Gonçalves (2002, 2003 e 2004), Festival Porto Alegre em Dança (2009) e outros... O Grupo de Danças Raízes latinas e sul-rio-grandenses realiza anualmente um Festival de Danças e Ritmos, além de participar do Natal Açoriano em Terra Gaúcha. Em 2005 realizou o Projeto Raízes a Energia da Arte, apoiado pela CERTAJA, que visou proporcionar atividades gratuitas para a comunidade, através de oficinas de dança, teatro, música e artesanato. Em 2006 contou sua história em um espetáculo denominado Raízes e o Tempo: 10 anos de existência. Em 2007 dedicou-se à dança de salão apresentando o show Salão de Danças Raízes. Em 2008 realizou o VIII Festival Integrado de Música e Dança, desenvolvendo várias oficinas com alunos da rede de ensino. Em 2009 recebeu convite para representar o RS/Brasil no Festival Internacional de Folclore em Portugal/Espanha, no mês de julho, e passou a se denominar Instituto Cultural e Artístico Raízes.

FIGURA 6 – Grupo de Dança Raízes em apresentação no Festival Internacional
Fonte: Arquivo do Instituto Cultural Raízes de Taquari

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Destacando-se pelos diversos municípios onde se apresenta, o Raízes divulga o nome da cidade de Taquari. Além disso, participou de Festivais como o da Ilha Terceira dos Açores, em Portugal, que ocorreu em 2000, no Festival Internacional. Participou também do Festival de Danças do Mercosul em Bento Gonçalves, que ocorreu em 2002, 2003 e 2004, e ainda do Festival Porto Alegre em Dança, em 2009, entre outros eventos. Entre os programas culturais, o Grupo de Danças Raízes latinas e sul-rio-grandenses realiza anualmente um Festival de Danças e Ritmos, e participa também do Natal Açoriano em Terra Gaúcha, que ocorre em Taquari no mês de dezembro.

FIGURA 7 – Grupo de Danças Raízes em apresentação
Fonte: Arquivo do Instituto Cultural Raízes de Taquari

O Grupo de Dança Raízes mantêm um cronograma de atividades anual que mostra o quanto seu trabalho é dinâmico e voltado à integração da comunidade que o assiste, assim como à preservação da autoestima e da cidadania de seus participantes. Fazer parte do grupo é também promover a revitalização cultural de Taquari e conhecer suas origens através da história, já que para participar do Grupo o candidato deve estudar sobre os açorianos, conhecer os trajes típicos. Deve estar inserido no contexto histórico do que vai representar. Em 2005, o Grupo realizou o Projeto Raízes, a Energia da Arte, apoiado pela CERTAJA, proporcionando atividades gratuitas para a comunidade através de oficinas de dança, teatro, música e artesanato. Em 2006 contou sua história em um espetáculo denominado Raízes e o Tempo: 10 anos de existência. Em 2007 dedicou-se à dança de salão apresentando o show Salão de Danças Raízes. Em 2008 realizou o VIII Festival Integrado de Música e Dança, desenvolvendo várias oficinas com alunos da rede de ensino.

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Em 2009 recebeu convite para representar o RS/Brasil no Festival Internacional de Folclore em Portugal/Espanha, no mês de julho, e passou a se denominar Instituto Cultural e Artístico Raízes.

FIGURA 8 – Membros do Grupo de Dança Raízes
Fonte: Arquivo do Instituto Cultural Raízes de Taquari

2.6 ESPAÇO CULTURAL DA CIDADE

O Museu Costa e Silva, uma homenagem ao ex-presidente do Brasil, é o espaço cultural da cidade de Taquari onde foram buscados os recursos para a pesquisa. O Marechal Artur da Costa e Silva nasceu em Taquari, a 3 de outubro de 1899, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de dezembro de 1969. Hoje a casa onde nasceu foi restaurada e tombada como patrimônio cultural da cidade. É uma arquitetura açoriana e foi escolhida para abrigar a Biblioteca Pública e duas Salas Açorianas com pertences dos açorianos, como roupas, objetos pessoais, espadas, fotos do Presidente das Ilhas dos Açores e literatura sobre os açorianos no Sul do Brasil. O Museu Costa e Silva foi também o local de encontro com os entrevistados.

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FIGURA 9 – Sala Açoriana com a imagem do Presidente das Ilhas dos Açores em visita a Taquari
Fonte: arquivo pessoal

A arquitetura da cidade tombada como patrimônio histórico ainda existe, mas muito se perdeu com o tempo, por falta de incentivo à preservação do patrimônio. Apesar disso, ainda se reconhece a identidade muito forte da arquitetura construída pelos açorianos. A casa que abriga o Museu Costa e Silva é de arquitetura açoriana tombada como patrimônio cultural da cidade. Em seu aspecto visual, percebe-se que foi construída muito próxima à rua, sem jardim na frente, pois à época os jardins eram internos.

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Santos destaca que “o estilo arquitetônico trazido das Ilhas dos Açores se manifesta, também, na construção da Igreja Matriz São José, tanto externa como internamente” (1994, p. 36). A historiadora destaca ainda que, apesar de pouco ter restado da arquitetura dos primeiros povoados, “o que ainda existe são prédios em péssimo estado de conservação. Apesar disto, encontram-se traços típicos da arquitetura açoriana em alguns poucos prédios, numa demonstração de que o legado arquitetônico dos açorianos não se perdeu totalmente” (Ibid).

FIGURA 10 – Casa Costa e Silva
Fonte: arquivo pessoal

Com o passar do tempo, muito se perdeu da arquitetura original, que se caracterizava pelo estilo colonial barroco característico das Ilhas dos Açores. Os açorianos com maior poder econômico construíam sobrados com varandas protegidas por grades de ferro com desenhos floridos. A arquitetura açoriana representa o patrimônio cultural material que dá identidade à cidade, assim como o patrimônio cultural imaterial.

O patrimônio cultural é constituído de bens culturais, que são a produção dos homens nos seus aspectos emocional, intelectual e material e todas as coisas que existem na natureza. Tudo o que permite ao homem conhecer a si mesmo e ao mundo que o rodeia pode ser chamado de bem cultural (ATAÍDES; MACHADO; SOUZA, 1997, p. 23).

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Identifica-se como patrimônio cultural imaterial o jeito de ser açoriano, que se destaca como gentil, calmo e receptivo. Outra evidência deste patrimônio são o fazer a festa, as receitas típicas oferecidas nos eventos religiosos, a culinária que, segundo os entrevistados, ainda se faz na cidade, além dos festejos e ritos que demonstram o quanto os taquarienses preservam a religiosidade com as festas e as danças. A fim de reunir os vestígios culturais que constroem a identidade e a memória dos taquarienses, em 1989 foi criado o Departamento Cultural, pela Associação Comercial e Industrial de Taquari (ACIT), a fim de abrigar a Sala Açoriana João Bosco Mota Amaral. “Esta iniciativa está conveniada com o Instituto Cultural Português de Porto Alegre e o Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas” (SANTOS, 1994, p. 61). O Museu Costa e Silva é a memória palpável, não subjetiva, que guarda a identidade cultural de Taquari, mas também permite o acesso a todos os que desejam conhecer a História que se refere aos açorianos, fundadores da cidade de Taquari.

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3 SINAIS CULTURAIS QUE NÃO EXISTEM MAIS

Entre os sinais culturais açorianos investigados na pesquisa, constatou-se que o Prof. Goerck não tem conhecimento relativo às crenças na bruxaria, em crianças embruxadas e ditos populares açorianos. Segundo ele, “não existe mais nada”. O entrevistado observa que o açoriano tem uma tendência maior para o espiritismo, mais do que o alemão, mas não encontra hoje em dia sinal algum dessas crenças: “Pode ver uma cidade açoriana, vejo que em Taquari existem vários templos, o alemão não tem isso”. Em sua vivência como morador da cidade e descendente de alemães, o entrevistado diz não perceber que as influências culturais alemãs tenham se sobreposto à influência açoriana, dando a entender que o alemão é muito apegado ao trabalho, preferindo suas coisas. A entrevistada Bruna dos Santos também diz não ter conhecimento sobre a crença em bruxarias, mas conhece e fala ditos populares, como a frase “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Confirma que usou esta frase em sua faixa de vestibular, mas não citou outros ditos populares açorianos de seu conhecimento.

3.1 A FESTA E O TEMPLO DE DIVINO

Não há uma definição exata sobre o período em que a Festa do Divino teria chegado ao Brasil. Ela pode ter chegado por volta do século XVI, segundo Araújo (2004). Entretanto, as pesquisas indicam referências às comemorações a partir de 1700, sendo trazidas pelos ilhéus para a Matriz de Santo Antonio de Além Carmo da Bahia: “Na cidade de Guaratinguetá (SP), no livro Tombo da Matriz, há referência à festa, folha nº 5, ano de 1761” (Ibid., p. 420). “Pesquisadores encontraram registros mais antigos, datados de 1738” (Id.), comprovando a existência das comemorações na Freguesia de Nossa Senhora de Nazaré, em Minas Gerais. Diante disso, constata-se que encontrar registros mais precisos sobre o evento não é tarefa fácil, por se tratar de uma festa popular sem a pretensão de que tudo ficasse registrado.

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FIGURA 11 – Capela do Espírito Santo, destruída há 30 anos. Localizava-se em frente à praça da Igreja Matriz em Taquari
Fonte: Balem, 1949, p. 67.

Da mesma forma ocorre em Taquari, onde a Festa do Divino e a Irmandade já não existem desde 1941, e seus símbolos não foram preservados como patrimônio cultural. Os jovens que tinham 20 anos à época estariam com mais de 60 anos hoje, e as pessoas que organizavam a festa eram mais velhas; com isso, não é possível entrevistar pessoas que tenham participado da organização do evento como festeiros ou que tenha representado um personagem na procissão do Divino. Hoje, na cidade de Taquari, a Festa do Divino existe na memória das pessoas que trabalham na preservação da cultura açoriana e de historiadores que procuram preservá-la na literatura como um sinal cultural da colonização açoriana.

Desde a fundação da paróquia, os casais açorianos solenizavam com grande pompa e aparato externo a Festa do Espírito Santo, como soíam fazê-lo em sua pátria e para cá trouxeram seus usos. Todos os anos sorteavam um encarregado para organizar a festa, denominando-o Rei, que mais tarde passou a chamar-se, depois da Independência, Imperador com diversos mordomos, e do interno, encarregado das coisas da Igreja, e o externo, que tratava dos folguedos populares, um alferes da bandeira, págens (sic), capitão do mastro, etc. A bandeira de seda encarnada, ricamente bordada, encimada por uma pomba de prata que representava o Divino Espírito Santo, do alto pendiam inúmeras fitas (BALÉM, 1949, p. 105 e 106).

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A Igreja do Divino foi destruída há 30 anos, e hoje no local existe uma revenda de motos. O proprietário que comprou o prédio não se comprometeu em preservá-lo como patrimônio açoriano. Contudo, hoje em dia a Festa do Divino não tem o significado que teve na época da colonização - os moradores da cidade de Taquari não a veem com o mesmo significado de antes, e recuperá-la seria difícil, segundo Augusto Becker,12 morador da cidade, apesar de haver a intenção, pois os taquarienses já não se identificam com o que existia naquela época. Segundo a moradora Bruna Santos,13 a Igreja do Divino foi trazida para o Brasil para que os negros escravos pudessem assistir à missa, pois eram proibidos de entrar na Igreja São José, que era frequentada por brancos.

FIGURA 12 – Imagem da Capela do Divino atual em outras cidades do Brasil
Fonte: LondrinaTur, [s.d.].

“A Irmandade do Divino foi a mais popular em Taquari. O cortejo saía da Capela do Divino, percorrendo os arredores” (SANTOS, 1994, p. 32). Na festa eram leiloados diversos objetos, inclusive pão em formato de uma parte do corpo humano (pé, mão etc.) que teria sido curada pelas promessas feitas por devotos. Nilda Rita Santos é historiadora e reside na cidade de Taquari. Em sua pesquisa constata que nas Festas do Divino um grupo de negros, com vestes vermelhas, empunhando em estandarte, dançava pelas ruas ou em frente à Capela do Divino, do prédio da Administração e ao redor da praça central. Eles eram chamados de Quecumbis. A Irmandade do Divino, assim como a Festa e o Templo, ainda hoje existem em algumas regiões do Brasil, mais especificamente em Mogi das Cruzes, SP, no Maranhão e em Santa Catarina.
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Augusto Becker é funcionário público à frente dos eventos culturais da cidade. Bruna é estudante de História e Diretora do Museu Costa e Silva.

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Segundo Bruna:
Em Taquari ela não se mantém; temos outras festas religiosas, como a Festa de São José, muito popular na cidade, que fica vários dias ocorrendo na cidade e é muito parecida com a do Divino, que ocorria. Aqui em Taquari tinha várias irmandades, tinha a do Divino, a São José, várias irmandades (ENTREVISTADA)

FIGURA 13 – Bandeira do Divino
Fonte: Imagens, [s.d.].

A mais forte hoje é a de São José, e infelizmente a do Divino não existe mais. Com isso, confirma-se que a Festa do Divino, assim como a Irmandade e o Templo, deixaram de existir na cidade porque, para os moradores, deixou de ser um evento cultural religioso significativo e deu espaço a outras festas, como a Festa de São José, considerada um dos maiores eventos religiosos preservados como herança açoriana na cidade de Taquari. A maior atração social da cidade eram as festas religiosas, que oportunizaram às pessoas sair de casa e encontrar amigos, sempre demonstrando religiosidade e fé. Entretanto, a cidade mantinha uma rígida divisão das classes sociais, de forma que as famílias selecionavam suas amizades de acordo com o status social.

3.2 OUTRAS COMEMORAÇÕES RELIGIOSAS QUE NÃO EXISTEM MAIS

A Festa dos Navegantes e a Festa de Corpus Christi fazem parte da herança cultural açoriana que não existe mais em Taquari, pois são eventos que deixaram de ter um significado importante para os taquarienses assim como a Festa do Divino.

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Outras festas religiosas eram realizadas com muita pompa, como a Festa dos Navegantes, demonstração de fé e espírito marinheiro herdado dos Açores. Nesta oportunidade, a “Praia”, local próximo ao rio, se revestia de rara beleza. Festa de Corpus Christi, outra grande demonstração da religiosidade, era marcada pela procissão que acontecia pelas ruas cobertas de folhas e pétalas de flores na frente das casas por onde passava (SANTOS, 1994, p. 34).

A historiadora destaca ainda que “as casas eram enfeitadas nas janelas com colchas finas coloridas, com flores e imagens de santos, além de outros objetos ornamentais” (Ibid.). A religiosidade constante na vida dos taquarienses era demonstrada nas festas com a participação das pessoas em todos os atos da Igreja, e também faziam essas comemorações em suas próprias casas. As famílias, por mais humildes, costumavam ter seu próprio oratório e imagens de santos em casa. A união era uma demonstração de fé e igualdade: todos unidos em torno de um objetivo comum, as comemorações religiosas. Mas no cotidiano as diferenças sociais vinham à tona e “as famílias continuavam mantendo suas necessidades selecionadas de acordo com o status adquirido, principalmente cultural” (Id., p. 34). Ao fazer as entrevistas, entrevistadora e entrevistados vivenciaram momentos de emoção demonstrada em seus olhos e nas palavras escritas por eles ao enviarem por e-mail as informações solicitadas. Entre outras manifestações, a emoção é também um sentimento de pertencimento à cultura açoriana, assim como o jeito de ser açoriano e o orgulho de cada um ao falar da cidade tendo-a como referência pessoal. O sentimento demonstrado faz de cada um dos entrevistados uma pessoa com vontade de investir sempre na preservação da identidade açoriana de Taquari. Identifica-se, sobretudo, que os cidadãos de Taquari mantêm intercâmbio cultural com as Ilhas dos Açores, ainda hoje. Entre os sinais culturais que comprovam a descendência açoriana, o intercâmbio cultural entre os grupos de dança dá visibilidade à cidade e confirma sua certidão de nascimento de origem açoriana.

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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização desta pesquisa foi um grande aprendizado, pois ao fazer a investigação dos sinais culturais em Taquari, a que me propus, pude conhecer melhor a identidade cultural da cidade. Por ser uma cidade conhecida desde a infância, não imaginava a riqueza cultural que lá existe e o empenho de algumas pessoas para manter esta riqueza viva na memória de todos e também acessível aos que buscam conhecê-la. Foi um privilégio fazer a pesquisa e vivenciar momentos de emoção demonstrada nos olhos dos entrevistados e nas palavras escritas por eles ao enviarem por e-mail as informações solicitadas. O aprendizado adquirido foi intenso, desde a angústia que se fez presente e a sensação de que não seria possível chegar a estas considerações finais, sobretudo o aprendizado acadêmico, através das leituras e da confrontação de bibliografia, até o conhecimento do contexto histórico do Rio Grande do Sul e a formação da cidade de Taquari, defendida pela historiografia como a primeira cidade açoriana, entendida como espaço urbano. Esta busca permitiu entender sua característica como uma cidade do interior do Estado, e das pessoas que moram lá com peculiaridades distintas de outras próximas que tiveram outras influências culturais em sua formação. Esta peculiaridade hoje pode ser entendida como o jeito açoriano, receptivo e atencioso, que pude comprovar ao buscar os recursos que possibilitaram a pesquisa, e que se distingue dos vizinhos, com influência da presença alemã. Destacado por um dos entrevistados, este sinal cultural imaterial está no imaginário das pessoas que conseguem fazer esta distinção. Comprou-se o sentimento de pertencimento dos entrevistados, que deram uma noção de que os moradores da cidade também se identificam com esta cultura. Tal noção poderá ser mais esclarecida ou comprovada se for possível ampliar o trabalho realizado em outro momento, a fim de envolver nas entrevistas outros moradores que poderão dar seu parecer. No contexto histórico citado acima, destaca-se a importância de se entender também as relações de povoamento e, sobretudo, os interesses econômicos de Portugal em relação ao Brasil à época do povoamento açoriano. Neste sentido, foi necessário fazer um recorte no espaço, delimitando as regiões estudadas – as Ilhas dos Açores em Portugal e a cidade de Taquari no Brasil –, centrando as pesquisa na parte urbana do município. O recorte no tempo foi mais amplo, partindo de noções do que a cidade é no tempo presente, e se realizou uma retrospectiva ao passado, aos primórdios do tempo onde tudo começou.

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Partir do tempo presente em busca do passado a fim de entender a identidade cultural da cidade com suas características hoje é, contudo, a volta às origens que somente pode ser feita através da história e da memória como ferramentas de busca. Sendo assim, pode-se concluir que a origem da cidade de Taquari se encontra ao fim e ao cabo nas Ilhas dos Açores. O que ficou desse patrimônio açoriano em Taquari aparece hoje tanto nas festas natalinas quanto na dança do Grupo Raízes.

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TESCHAUER, Carlos S. J. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Selbach de J. R. da Fonseca, 1921. Vol. II.

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ANEXO - DEPOIMENTOS

Aurora Reis Palagi por e-mail. Estou te encaminhando algumas fotos do Natal Açoriano parece que ha um equivoco quanto ao nome do grupo. Nós participamos junto com Pereira Coruja que faz a Encenação do presépio. O Raízes faz a parte de danças(folclore). Instituto Cultural e Artístico Raízes 1* HISTÓRICO Iniciou sua formação em 1996, tendo a finalidade de proporcionar as crianças e jovens o envolvimento em atividades que propiciem o desenvolvimento físico, intelectual e espiritual, num processo criativo, proporcionando a integração na sociedade, desenvolvendo o espírito de grupo, a auto-estima e realização pessoal. O Raízes pesquisa e divulga o Folclore Gaúcho, Nacional e Internacional, possuindo um grande repertório de danças e canções, todas caracterizadas por excelentes figurinos, com trajes de época. Este grupo vem se destacando pelos diversos municípios onde se apresenta divulgando o nome de Taquari. Além de Festivais como o da Ilha Terceira dos Açores (Portugal 2000, Festival Internacional), Festival de Danças do MERCOSUL em Bento Gonçalves (2002, 2003 e 2004), Festival Porto Alegre em Dança (2009) e outros... O Grupo de Danças Raízes Latinas e sul-rio-grandenses realiza anualmente um Festival de Danças e Ritmos, além de participar do Natal Açoriano em Terra Gaúcha. Em 2005 realizou o Projeto Raízes a Energia da Arte, apoiado pela CERTAJA, que visou proporcionar atividades gratuitas para a comunidade, através de oficinas de dança, teatro, música e artesanato. Em 2006 contou sua história em um espetáculo denominado “Raízes e o Tempo” 10 anos de existência. Em 2007 dedicou-se a dança de salão apresentando o show: “Salão de Danças Raízes” .em 2008 realizou o VIII Festival Integrado de Música e Dança, desenvolvendo varias oficinas com alunos da rede de ensino.Em 2009 recebeu convite para representar o RS/Brasil no Festival Internacional de Folclore em Portugal / Espanha, no mês de julho.Passou a denominar-se Instituto Cultural e Artístico Raízes. Email: instituto.cult.art.raizes@hotmail.com *no Orkut tem bastante fotos

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Aurora Reis Palagi Augusto Becker – Terno de Reis

OI Augusto, Gostaria que enviasse por email informações sobre o Terno de Reis que ocorre em Taquari, tudo sobre a organização, o evento em si, desde os grupos que participam, as músicas cantadas e tocadas, os instrumentos e como ocorre o evento. Podes me escrever sobre o Terno de Reis como se tivesse falando comigo, não precisa elaborar uma texto. Se poderes mandar nesta semana ficarei muito agradecida. Preciso também combinar um dia e horário para entrevistá-lo na cidade, podes me dizer quando fica bom pra ti?

Aguardo o seu contato.

atenciosamente.

Marli.

Oi Marli! Tudo bem?

Os Ternos de Reis em Taquari são tradição desde o início da nossa povoação em 1764. A introdução em Taquari e em grande parte do Rio Grande, é obra dos açorianos. Antigamente as pessoas se reuniam em pequenos grupos, com gaita, violão, as vezes um "Surdo",(instrumento de percussão) e também pandeiro, para visitas em casas de amigos e parentes. O período é pós natal até o dia 06 de janeiro. As músicas e tons, variam de grupo. Dizem que o tom correto é (Mi+). O grupo é dividido entre os que cantam e os que respondem o verso. Também existe aquela pessoa exclusiva para fazer e lançar o verso. O tema é, ou deveria ser "o anúncio do nascimento de Jesus Cristo. Hoje os Ternos já não obedecem totalmente este tema, mesclando com outros assuntos da atualidade e do lugar onde se apresentam. O "Natal Açoriano em Terra Gaúcha" vai neste ano para a 19ª edição, e, desde o primeiro sempre tem em sua a programação o folclore de Ternos de Reis como encerramento do evento. Acontece na noite de 06 de janeiro na Praça da Lagoa Armênia no centro de Taquari. Normalmente reunem-se em torno de 15 Ternos da cidade, interior e outros

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municípios como: Triunfo; Tabaí: Paverama; Canoas; Montenegro;Guaíba e outros que nos visitam. Eles sempre têm um tempo determinado para apresentação no palco principal (15min) e após saem em visitas ( representadas pelas árvores da Praça) em torno da lagoa, onde as empresas que adotam as árvores os recebem, servindo diversos tipos de comida e bebidas, enquanto eles tocam e cantam. A visita começa com a saudação do Terno e mais tarde com a despedida, (tudo cantado). Em Taquari, procura-se incentivar essa tradição que em muitos lugares já desapareceu. Mesmo assim, ao longo do tempo já diminuiu bastante, sendo ainda sustentado "pelos mais velhos". Marli... espero ter contribuído um pouco para o teu trabalho. O meu tempo anda muito curto pois estou preparando o lançamento do meu sétimo livro que acontecerá no próximo dia 27 deste mês, mas se precisares de mim, vou fazer o possível para não te decepcionar. Um grande abraço. Augusto Em 10/05/2010 20:22, Marli Pereira Marques < marlip774@gmail.com > escreveu: - Mostrar texto das mensagens anteriores -

Bruna dos Santos Estudante de história Diretora do museu Costa e Silva brunahistória@gmail.com) És descendente de açorianos? A Minha família é a família Pizzaro, primeiros açorianos a colonizar a cidade. A família tem herança portuguesa, uma descendência mais distante.

O que Taquari tem ainda da descendência açoriana, o que tu percebes que ainda existe daquela época? Tem muita coisa. Taquari foi a primeira cidade organizada pelo Governo Português e ainda existe muito da cultura, como as festas religiosas, a identidade está presente em tudo, temos o Natal açoriano em terra gaucha, que não deixa de ser uma festa religiosa, temos a Festa de São José, e em 2005,na gestão da secretária de educação Nilda Rita foi incorporado o Tapete de Corpos Christi. Isto está bem enraizado na identidade da cidade.

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Tu podes me especificar quais as festas que ainda são consideradas de origem açoriana? Assim..Tu falou da São José, existe alguma outra que se liga a colonização? O Natal açoriano é o nosso maior evento e é o que está mais ligado a colonização açoriana. Por que além de ser uma festa religiosa, é uma festa que a cidade cultiva as tradições. É a identidade da cidade, como uma mistura de tradições. Agente faz o presépio, faz chegada dos colonizadores de barco pela Lagoa então assim, eles se misturam religião com o espetáculo na cidade é maravilhoso. O Natal açoriano, como é que é trajetória dele, ele veio com a colonização ou surgiu depois? Ele surgiu depois. A cidade é uma cidade açoriana na essência, na Arquitetura, na culinária, né, é uma cidade açoriana na essência, o povo se identifica. Toda a história é açoriana, não que não tenha tido outra colonização na cidade. Agente teve influencia alemã, italiana, mas a açoriana e a mais forte, é a que identifica a cidade, é tudo,é a que identifica a cidade. Então o que aconteceu, quando foi criada a Sala Açoriana, em 1991 da qual sou diretora, eles queriam fazer um calendário sobre a tradição açoriana na cidade. Então o que, que aconteceu, era Natal agente precisava de um evento natalino, eles resolveram fazer um presépio vivo na Igreja Matriz, a Igreja mais antiga, então junto com este presépio foi colocado algumas pessoas vestidas de açorianos. Isso comoveu muitas pessoas, isso foi algo muito diferente. Quem idealizou o evento foi a Tia Helena, ela que organizou o Teatro da Escola Pereira Coruja, né, logo depois foi incorporado o grupo de dança açoriana na representação né, deste presépio e aí começou, muitas pessoas envolvidas na área da cultura viram aquele pequeno evento natalino uma grande força de identidade, cultura, turismo pra cidade. Eles tiraram da Igreja, levaram pra Lagoa Armênia que é até hoje com algumas modificações, desde 1991 com o mesmo objetivo. E a Festa do Divino, a Festa do Divino em algumas regiões do Brasil ela ainda se mantém, e em Taquari? Tu tens conhecimento? Não, em Taquari ela não se mantém agente tem outras festas religiosas, coma Festa de São José é uma festa muito popular na cidade, fica vários dias ocorrendo na cidade e é muito parecida com do Divino, que ocorria. Aqui em Taquari tinha várias irmandades, tinha a do Divino, a São José, várias irmandades. A mais forte hoje é a de São José, infelizmente a do Divino não existe mais. O que ficou da culinária relacionadas as festas ou da própria colonização? O que ficou?

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Relacionada as festas, faziam pão de diversos formatos na Festa do Divino e ainda fazem na Festa de São José. Fazem o cortejo, como faziam na do Divino são muito semelhantes apesar serem festas diferentes. Ficou um pouquinho ainda, agente cultiva este tipo de coisa. Então em relação as danças e cantigas açorianas hoje? Existe uma identidade muito forte, então tem a Escola Pereira Coruja que a maior escola da cidade e ela possui um grupo de dança. Ela usa roupas que a Sala Açoriana empresta. Assim agente cultiva cantigas açorianas como o Fado, cantigas de roda, é tudo isso, hoje agente tem o grupo de dança do Instituto cultural Raízes, agente trabalha muito, já foram pra Portugal tanto o Grupo Raízes quanto o grupo açoriano. Então isso se faz presente desde muito tempo. Eu fiquei dez anos participando eu quando era pequena eu já participava das cantigas açorianas me apresentava e acha o máximo. Não por nada que hoje estou a frente do museu já tenho toda uma história. Daquelas danças que conheceste tem alguma delas que não fazem mais? Todas permanecem. Podes me dizer o nome de algumas? Deixa eu lembrar por que faz tempo. Tem a chimarrita, O pai do Ladrão que é muito característico, tu envolve o público. Estas danças acontecem em grupo, não em dupla? Não, são casais não necessariamente homem e mulher, são casais que dançam, então tu vai lá né, tem toda uma estrutura por trás. Tu tem que estudar a história da cidade, tu tem que estudar a história da roupa, né então não é só ir lá dançar, cidade se preocupa com conhecimento histórico. Se tu conversar hoje com um dançarino do Grupo de dança ele vai te contar a história da roupa. Ele vai saber que roupa está usando, isso todo mundo tem uma preocupação muito grande. Foi que começou a surgir o meu interesse por história, através do grupo de dança. Bom o Terno de Reis também é considerado um evento açoriano, foi trazidos pelos colonizadores? Ele existiu naquela época, até quando existiu, tu tens conhecimento sobre ele? Se deixou de existir, quando voltou a ter Eu não tenho muito conhecimento sobre o Terno de Reis. Pelo menos desde o cinco anos participo dos eventos culturais eu lembro do Terno de Reis. Quem pode te falar sobre o Terno de Reis é o Augusto Becker, como já te falei, porque ele organiza o evento há mais de vinte anos, então te indico ele pra te falar melhor sobre o Terno pra eu não te passar nenhuma informação errada ou equivocada né.

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Toda colonização tem a crença e mitos: que mitos tu conheces, que veio junto com os açorianos? Existia uma crença sobre a bruxaria, sobre crianças embruxadas? OU até ditos populares, tens conhecimento de alguma questão sobre isso? Ditos populares, olha o que aparece muito em faixas de vestibular aqui á aquele “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” que é completamente açoriano. Na minha faixa de vestibular tinha, na faixa de vestibular do meu namorado. Isso eu posso te falar que tem.

Sobre a revitalização da cultura açoriana, tu já me falou um pouco que existe sim. .....da Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura, posso te falar. Há uma verba cultura, sou funcionária da cultura. Então o que acontece, ano passado agente começou um projeto muito grande aqui na Casa, muita gente achou que não ia dar certo. Agente fez um projeto não de revitalização da Casa, mas da Cultura Açoriana, então ano passado eu fiz palestras sem cobrar em todas as escolas, destinadas a identidade da cultura açoriana. Então o que eu fiz, eu fiz uma parceria com uma fotógrafa da cidade e criei algo que as pessoas se identificassem. Muita gente não gosta de história, não gosta de data, não gosta de ler. Fiz um trabalho com imagem, levei pra educação infantil, ensino médio, técnico, eja, tudo com foto da cidade de antes e depois. Então foi um projeto que agente fez com a Secretaria de Educação e Cultura, com a Prefeitura, justamente pra fazer este resgate da cultura açoriana. Agente tem também a semana luso, em abril é destinado um dia da semana para a cultura açoriana, com as Casas açorianas de todo o Rio Grande do Sul. Ano passado fizemos uma semana de evento e contamos com o apoio de toda a população, graças a Deus e eu consegui trazer aqui pra dentro da Casa 80% dos políticos da cidade, na por que eu queria o que, primeiro mostrar pras pessoas que estão no poder público pra estas pessoas transmitam pras outras o que agente ta fazendo e a nossa intenção e deu bastante certo. Então este idéia deu certo? Deu certo, eu queria que as pessoas se identificasse mais com o que tava um pouquinho esquecido. O professor Balduino escreveu um livro ano passado magnífico. Então dentro deste projeto agente abriu a casa. Então o que que acontece, agente levou pra fora, nossa cultura tava um pouquinho esquecida, mas a gente levou pra fora. Agora dia 20 de abril vamos a Assembléia Legislativa lavar um pouquinho da nossa cultura, para o Memorial do RS, levamos a outros municípios. Ano passado fiz um Café açoriano pras autoridades da Assembléia. Isso mostra a cultura do município pra outras pessoas e isso faz também com que agente aqui da cidade, ó é verdade, nossa cidade tem identidade, tem cultura, né então, é este realmente o objetivo. Mostrar tudo de bonito que tem, toda a cultura que tem.

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Tu tens conhecimento do local da cidade aonde os açorianos chegaram? A fim, onde os açorianos iniciaram a cidade? Sim, sim. Até tem um trabalho que a Nilda Rita fez, muito legal, muito bonito com o Instituto Português, e ela vai por indicação ao Rio e fui com ela e fiquei imaginando. Posso te acompanhar lá quando tu vir outra vez. Por que o que que acontece, lá no Rio eles fizeram casas de barro quando veio a enchente, né Professor., o professor sabe, veio a primeiro enchente, né o que que aconteceu as casas de barro,né foram destruídas.

Então professor Balduino Goerck Sim, por exemplo, a Irmandade de São José da qual eu faço parte né. Ela já completou 206 anos desde 1804 e até hoje ela existe, inclusive eu estou encarregado de elaborar o novo estatuto pra adaptar as condições atuais, por que quando ela foi criada, ela foi criada para atender o enterro dos pobres, naquele tempo era o seguinte, o velório era em casa, o médico era de família, não existia esta situação como hoje do Governo patrocinar a saúde, tudo era particular, então estas pessoas carentes, os pobres não tinham nem fazer um enterro, né. Então a irmandade fazia isso aí era um dos objetivos principais de se atender esta parte carente, podes ver o atendimento da Santa Casa em Porto Alegre, quando ela foi criada, foi criado um depósito de doentes, não um hospital em si, né, hoje é o que é. A irmandade São José também vai se adaptar a situação atual, Vamos ver quais serão seus objetivos principais. A Festa de São José, padroeiro do município creio eu que a maior festa social religiosa da região. Ela tem nove dias, todas às noites têm novena e no ultimo dia é aquela procissão, então fecha os festejos, mas isso é uma característica totalmente açoriana. E hoje em dia a Irmandade ainda é formada só por homens, ou as mulheres participam mais? É só dos homens, inclusive já houve um movimento assim, mas pouca. Uma solicitação, assim as mulheres queriam participar e novamente o caso dos estatutos, o que que as mulheres vão fazer. Nós temos essa outra, como é que é, essas que usam a fita, elas tem grupo de orações da família, isso ainda existe, mas não características só dos açorianos, já tinha na colônia alemã. Então nós perguntamos o que essas mulheres vão fazer e a Igreja Católica tem as pastorais da saúde, diversas pastorais que tem a participação das mulheres. Sobre a identidade açoriana na sua experiência de vida e como historiador, o que senhor tem a me dizer. Sou descendente de alemão, falo alemão, gosto de ir à Paverama (Município com características alemãs. Quando eu vim pra ca, percebi que as pessoas tem uma característica

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mais amável, o alemão já é mais dureza, ele mais firme e o açoriano não, o açoriano. Eu fui professor, então eu tinha muitas alunas e eu senti assim, na minha vida, uma bondade extrema, não uma preocupação com o já e isto é uma característica bem bacana em Taquari, por não voltei pras minhas origens. Em ralação havia crenças na bruxaria, crianças embruxadas e ditos açorianos. O Senhor tem conhecimento de alguma coisa que ainda tenha se mantido? Não, não existe mais nada. Até me parece pela minha observação, o açoriano tem uma tendência maior para o espiritismo, o alemão não tem isso ai. Pode ver uma cidade açoriana, vejo que Taquari existem vários templos, pode o alemão não tem isso. E na sua vivência na cidade assim, o que o Senhor percebeu de mudanças. Teve a influência açoriana depois a alemã, no que a cultura alemã se sobrepôs a açoriana? Como por exemplo, no que a herança cultural açoriana cedeu espaço para a alemã? Não isso não houve, aVolgswagen, não houve isso ai, o alemão quando chega ele vai trabalhar, ele se dedica horas e horas, o açoriano já não é tão apegado neste sentido, ele gosta de ter as coisas dele, mas não é aquele apego as coisas, o alemão já mais apegado a querer conquistar, o açoriano é mais laith.

O Senhor acompanha o Terno de Reis que apresenta hoje no Natal açoriano? Eu acompanhei, ele é diferente do alemão na nossa região, não sei como interpretar, mas é uma coisa que ainda existe. Na terra onde eu morava, lá tem termo de reis, mas é diferente. O Terno de Reis é mais açoriano ou mais alemão? Como é que o senhor percebe? Não ele é mais açoriano, eu nem digo que é açoriano, mas não é alemão, inclusive a maioria era da raça negra, que fazia o Terno, inclusive o próprio cantar, o alemão e mais da valsa. Contatos: balduinogoerck111@ibest.com.br