afirmação num lance final

luiz b.l.orlandi e __ anulada a flor __ eis-nos de volta à planta pelo fruto (Orides Fontela)

A morte de Gilles Deleuze será certamente objeto de explicações e interpretações bem ou mal intencionadas, pois há sempre a tentação de anularmos, através de modelos explicativos ou interpretativos, toda estranheza, todo acontecimento capaz de fugir à nossa imediata compreensão. De outro lado, encontra-se uma dupla indiferença banhada em senso comum: aquela, óbvia, reiterada pelo chamado público em geral, o público visado por uma comunicabilidade jamais pretendida pelo filósofo; ou, então, a indiferença erigida por imbecis letrados, ressentidos contra as ‘modas parisienses’, presunçosos incapazes de se emocionarem com essa morte, assim como nunca se deram conta do quão inovadora chegou a ser a vida criativa agora extinta. Pois bem, se não posso explicar e nem interpretar essa morte, se me parece suspeita de psicologismo até mesmo a bela intenção de compreendê-la, por que, afinal, aceito falar alguma coisa a seu respeito, evitando tanto a desprezível indiferença quanto o comentário estudioso sobre pontos vários da obra, trabalho este ao qual, bem ou mal, venho me dedicando há muitos anos, mas cuja retomada, aqui, não julgo pertinente? Por que minha atenção não consegue desviar-se da contemplação dessa morte? Primeiro, por amizade. Não a amizade pessoal, tecida, aquecida ou esquecida na convivência, mas amizade arduamente construída em torno dos conceitos, estes “cantos” filosóficos, estes orídicos-frutos, com o perdão da analogia, através dos quais se torna possível o meu retorno à planta, mesmo depois de anulada a flor. Em segundo lugar, não posso desviar-me da contemplação dessa morte, porque “contemplar é questionar”, dizia e continuará dizendo para sempre Deleuze.

como a de saber (com suas formas de dizibilidade e visibilidade). esta singular morte de Deleuze. recordar. dominante no século XIX. a marca da permanência” do problemático “acima de toda resposta. Assim. Pois bem. antes de tudo. a de poder (entendido como multiplicidade de relações de forças afetantes e afetadas) e a de subjetivação ( com a idéia de um dentro do pensamento como dobra do fora). poderia ela. ao longo das quais ela foi referida ora ao “conceito-homem” ora aos “homens-existentes”. a morte do homem diz respeito não ao homem-existente e nem ao conceito-homem. mais uma vez. ao “negativo de oposição” e ao “negativo de limitação”. Deleuze trata desse tema depois de marcar. se “toda afirmação se alimenta” do enlace do problemático e da diferença. como a idéia de morte do homem foi maltratada por incompreensões e besteiras. a forma derradeira do problemático. a noção de problemático é justamente aquela entretida por Deleuze no seu esforço por evitar a redução da morte à “negação”. estar participando de alguma afirmação? Onde buscar algo porventura afirmado na efetuação dessa “dilacerante proposta” de um “‘separar-se de si mesmo’”? Esta separação fora tematizada por Michel Foucault no Uso dos prazeres e é retomada por Deleuze num trágico entrosamento de conceito e vida . associemos a morte de Deleuze ao tema foucauldiano da “morte do homem”. e se a morte é a forma derradeira do problemático. levando em conta a elaboração conceitual de Foucault em torno das noções apontadas acima. A morte. a forma-Homem. pressupondo-se a veracidade de sua ocorrência? Experimentemos uma resposta a partir da obra: aproveitando a referência a Foucault. a forma-Homem estaria sendo submetida agora a processos de dissolução. Ora. Historicamente posterior à “formaDeus”. mas à mutação da “forma-Homem”. Onde buscar esse algo porventura afirmado num derradeiro lançar-se à deformação e à desfiguração. diz ele.As contemplações já são “questões” capazes de nos contrair na oscilação de campos problemáticos transmutantes da vida. supunha as relações entre as forças-no- . “é. mas no homem. dominante no classicismo dos séculos XVII e XVIII. Ora. querer”) e as “forças do fora”. a relevância filosófica de conceitos implicados em certas noções foucauldianas. o Onde? e o Quando?” . Enquanto a forma-Deus. Deleuze sentese na obrigação de torná-la mais precisa. tais como as de “imaginar. compunha-se das relações das forças-no-homem com as “forças de elevação ao infinito” . conceber. a fonte dos problemas e das questões. Tais processos são os de “composição” entre as “forças no homem” (não do.

isto sim.homem e as “forças do finito” (da “Vida. Por essa razão. assim como pelos “contornos de frases na literatura moderna” etc . os lugares ainda disponíveis à vida em seu corpo orgânico. A morte é “feita” de uma multiplicidade de mortes acumulativas. exemplificada pelas “cadeias do código genético”. A mutação da forma corresponde. Este termo é reservado a “toda situação de forças em que um número finito de componentes produz uma diversidade praticamente ilimitada de combinações”. As forças do fora já não são aquelas capazes de abrir a ingênua elevação ao infinito. Se estamos assistindo ao “advento de uma nova forma”. relendo idéias de Bichat retomadas por Foucault. um conjunto de blocos de morte. mas já não são também aquelas exclusivamente marcantes de nossa finitude. apesar da singularidade que a distingue da idéia de mutação da forma-Homem. a variações nesse enrolamento de forças. mas de “Sobredobra”. da Linguagem”). como diz Merleau-Ponty. pelo menos. Esses blocos disputavam. do Trabalho. isto contraria a concepção clássica da morte como “instante decisivo ou acontecimento indivisível”. a ser “pior que as duas precedentes” . Pode ser. diz ele. não mais de “dobra” ou “redobra”. A morte. Já dominado por uma “multiplicidade de mortes parciais e singulares”. Façamos. Deleuze espera que a nova forma não venha. então. à morte enquanto tal. portanto. parece-me. Como se nota. uma situação. justamente. é “coextensiva à vida”. num conclusivo anti-edipianismo. Sim. agora referido à morte do homem. qual seria ela? “super-homem” (o da tradição nietzscheana) seria um termo competente para nomear esse novo “composto formal das forças” em jogo?. reencontramos o problema da afirmação. donde a pergunta: “quais seriam as forças em jogo com as quais as forças-no-homem estariam hoje em relação?”. implicaria uma afirmação agenciável com essa mutação? Essa afirmação não diz respeito. As novas forças do fora estariam configurando. um “finito-ilimitado”. entendida como mutação da forma-Homem. nem mesmo esse corpo orgânico poderia ser mais o alvo de uma radical afirmação. a morte do homem (enquanto mutação da forma-Homem em conseqüência da variação na composição de forças) é “muito menos que o desaparecimento dos homens existentes e muito mais que a mudança de um conceito”. . vitoriosos. porque as novas forças do fora talvez possam propiciar às forças-nohomem linhas ilimitadas de afirmação. uma pergunta experimental: em quê a morte do homem-existente-Deleuze. pelas “potencialidades do silício nas máquinas de terceira geração”. Deleuze lançou para o exterior de sua morada.

o que leva a pensar que o seu organicídio talvez tenha comportado a radical afirmação de algo a ser determinado. Ele foi levado a afirmar a intensidade de um corpo-semórgãos vibrando em sua dança final. idealista. Com efeito. chegando até mesmo à morte deste. à filosófica aversão deleuzeana a essa imagem de filósofo. Deleuze afirmou o último universo de intensidades em cujos fluxos ele pode ainda viver. condenado a beber a cicuta. em sua viagem definitiva. o último corpo-sem-órgãos que ele foi ainda capaz de criar para si. entreviu na própria morte de Sócrates. esse corpo debilitado ganhou ainda forças que o fizeram participar da afirmação de uma imanência que o transcende. que se explicita como “movimento de se voltar para o princípio do alto do qual ele procede” . não tinha tempo para esperar uma tal legalização. Mas quando a vida do corpo orgânico tornou-se ela própria tão incapaz. talvez tenha podido vivenciar alguma afirmação num último instante de recolhimento. Deleuze substituiu a noção para-freudiana de instinto de morte pelo conceito esquizoanalítico de corpo sem órgãos. portanto. E quando um corpo orgânico aproxima-se do terrível QUANDO em que ele já não poderá abrir lugares minimamente potentes para aconchegar e reverberar uma vibração de vida digna de ser vivida? Sócrates. ao escrever sobre “imagens de filósofos”. E mais: seu suicídio parece escapar do tipo “suicídio depressivo”. batalhando como pode. a impossibilidade factual de dar ao corpo orgânico uma morte legal e serena deve ser unida. este personagem conceitual que encarna a primeira das três grandes imagens. vai tomando lugares no “cortejo de um ‘Morre-se’” . é ainda negado o direito a uma morte serena. A um corpo na iminência de sua desorganização é ainda negada a eutanásia. obedecendo a um movimento conceitual favorável à expansão de vida não fascista. além do que. Deleuze riria dessa observação. em seu último relance. Então. este tipo que ele. uma velha tarefa ganha toda sua urgência: a tarefa de “conceber a morte” . sua filosofia é a menos propensa a fazer uma linha de fuga depender diretamente de um amparo legal. de direito. parece-me. aquela. quando a prudência não se aplica ou já não pode ser aplicada. Ao longo de sua obra. O “Corpo sem . de fato. afirmou.e esta. Esse tipo de acontecimento escapa à reflexão dos que pensam de modo insuficiente a idéia segundo a qual a referência a si nunca é facultativa e reduzem o corpo-sem-órgãos a um ente linguageiro. em seu irrepetível êxtase. tal estilo reflexivo ignora as linhas de transversalidade graças às quais corpos-sem-órgãos afluem e refluem às expensas do corpo orgânico. pois ele.

230-235. . o derradeiro corpo-sem-órgãos “já está a caminho”. cantos que variam a partir de um “grito”. DELEUZE. da “imagem do pensamento”. aos quais retorno como a um fluxo de pensamento capaz de me arrancar de uma estagnante saudade. Idem. 1988. em O Estado de São Paulo””. São Paulo. Ao contemplar essa morte. ou seja. Assim fazendo. átomos da flor. . Deleuze uniu. Mas percebo também a precariedade desta minha manifestação: não estaria eu.). ou desde que “os perde” . da planta e dos frutos ainda explodirão na boca dos reativistas. Cadernos de Subjetividade. Paris. esses esportes nos quais o sujeito se erige não como “ponto de origem” ou de “apoio” de um movimento mas como flexível “inserção numa onda preexistente”.168. pág. nº 15. Foucault. G.96. agora nas entrelinhas de seus escritos. ibidem. PUF. págs. DELEUZE. . [Como artigo em revista]. ao contemplar esse lançar-se para fora. portanto. julgo ser perfeitamente possível ter ele sorrido ao deixar-se levar por essa vertiginosa fluência. Idem. pág. em Percurso – Revista de Psicanálise – São Paulo: Ano VIII. págs. de 1995. amigável. os conceitos são os “cantos” do filósofo. Minuit. 102. asa-delta etc. Paris. agenciou as restantes forças de seu corpo orgânico à força da gravidade. . . pp.órgãos”. Différence et répétition. . DELEUZE. Idem. pág. págs. ele reafirmou. os esportes do tipo pegar-a-onda. na contemplação da morte de Deleuze. “desde que o corpo se cansou dos órgãos e quer licenciá-los”. [Como artigo em revista]. 140-141.Afirmação num lance final”. . Paris. págs. .. Orlandi novembro de 1995 . São Paulo. p. Para afirmar seu último corpo-sem-órgãos. 2º sem. [Como artigo em jornal].”Afirmação num lance final”. nº especial. esta velha conhecida força-do-fora. 1990. Luiz B. sendo arrastado pela própria astúcia dos conceitos deleuzeanos? Como talvez seja isto que ele gostaria de ver acontecendo. G. Minuit.. . 1968. diz ele. 11/11/1995. . sua homenagem aos esportes teoricamente valorizados por sua filosofia. . Gilles. vejo uma risonha afirmação de vida intensiva e uma irônica vingança: dispersados pelo choque. Idem. Idem. Por essa razão suplementar. pp. Para Deleuze.131-134.L. 101-103. Pourparlers. 103. em Peter Pál Pelbart e Suely Rolnik (Org.”Afirmação num lance final”. entrevejo um segundo riso. junho de 1996.203. 138-140. D15.

pág.G. in L’Autre Journal. ibidem. No 8. 1969. pág. pág. São Paulo: Editora Perspectiva. Paris: PUF. G. 12. S. 131. e GUATTARI. G. (Eentrevista com A. . Dulaure e C. Deleuze. Minuit.DELEUZE. p152. . Félix. 1974. republicada em Pourparlers. br. Lógica do sentido. op. Idem. octobre 1985.Parnet. Fortes. pág. . PAGE PAGE 1 . 1980. Logique du sens.cit.165). de Luiz R. Paris..186. “Les intercesseurs”.DELEUZE. Mille Plateaux.. tr.

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