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TRÊS FELICIDADES E UM DESENGANO

:
A experiência dos beraderos de Sobradinho
em Serra do Ramalho - BA

Ely Souza Estrela

Doutorado em História

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
Fevereiro de 2004

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM HISTÓRIA

TRÊS FELICIDADES E UM DESENGANO:
A experiência dos beraderos de Sobradinho em Serra do Ramalho - BA
(Edição Revista)

Ely Souza Estrela

SÃO PAULO
FEVEREIRO DE 2004

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TRÊS FELICIDADES E UM DESENGANO:
A experiência dos beraderos de Sobradinho em Serra do Ramalho - BA

Ely Souza Estrela

Tese apresentada à Coordenação do Programa de Estudos Pós-Graduados do Departamento de
História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e à Banca examinadora como
exigência parcial para obtenção do título de Doutora em História. Orientadora: Profª. Drª.
Maria Odila Leite da Silva Dias.

Profa. Dra. Maria Odila Leite da Silva Dias
Departamento de História – PUC/SP

Profa. Dra.Stefania Fraga Canguçu Knotz
Departamento de História– PUC/SP

Profa. Dra. Maria Antonieta Martinez Antonacci
Departamento de História – PUC/SP

Profa. Dra. Margarida Maria Moura
Departamento de Antropologia - USP

Profa. Dra. Maria Regina Cunha de Toledo Sader
Departamento de Geografia – USP

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DEDICATÓRIA

Este trabalho é dedicado a três cavaleiros honrados:
Leonídio, Bento e Francisco. Eles partiram a galope,
deixando muitas lições e um vazio inestimável.

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RESUMO

A Represa de Sobradinho, localizada no curso do Sub-Médio do Rio São Francisco,
construída em princípios de 1970, atingiu uma população estimada em 72 mil pessoas,
submergindo inúmeros povoados e quatro sedes municipais: Pilão Arcado, Sento Sé,
Remanso e Casa Nova. Para relocar este contingente populacional, a Companhia Hidrelétrica
do São Francisco lançou mão de um ambicioso plano que se consubstanciaria no seguinte: a)
reconstrução das sedes municipais submersas; b) relocação de pequena parcela de famílias na
borda do futuro lago e; c) transferência de aproximadamente quatro mil famílias da zona rural
para o Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho, localizado no município de
Bom Jesus da Lapa.
Conquanto utilizasse métodos que combinavam as falsas promessas e as pressões, a
CHESF não logrou o intento de transferir as famílias da zona rural dos municípios submersos
para o Projeto Especial, sendo obrigada a criar (de forma bastante improvisada) na borda do
lago, vinte e sete “núcleos de reassentamento”, visando abrigar a maioria das famílias
atingidas.
O objetivo deste trabalho é deslindar as experiências e o imaginário criado e recriado
tanto pelas mil famílias dos povoados beraderos do município de Casa Nova, que foram
transferidas para o Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho e que ali
permaneceram, quanto por uma parcela da população que retornou à borda do lago —
denominada, pelos que ali permaneceram, de os arrependidos. Além de abordar as
experiências e o imaginário da referida população, procuro explicitar as bases nas quais se
assentava a chamada condição beradera de vida, evidenciando as tensões e os embates que
marcaram as relações entre os dois principais atores sociais que se encontraram, frente a
frente, em todo o processo de deslocamento compulsório e relocação, quais sejam: os
beraderos sanfranciscanos e o Estado.

namely the State and the Sanfranciscan beraderos. For as long as it based on duress and false promises. . the São Francisco Hydroelectric Company (herein CHESF) endeavored an ambitious plan. aiming at sheltering most families affected. (b) relocating a small number of families on the banks of the lake-to-be and (c) transferring approximately four thousand families from the rural zone to the Special Colonization Project on Serra do Ramalho. Sento Sé. It affected around 72 thousand people and submerged villages and four towns – Pilão Arcado. 6 ABSTRACT Located half-way down to the mouth of São Francisco River. it stresses the cultural dissonances and disparities that characterized the relationship between the two main social actors. the Sobradinho Dam was built in the early 1970s. in the town of Bom Jesus da Lapa. In order to resettle such a large number of people. This work aims at looking into the experiences and the fantasy conceived and re- conceived both by the thousand families in the beradero villages in Casa Nova town . The Company was then forced to improvise twenty-seven ‘resettling centers’ on the banks of the lake. Remanso and Casa Nova. Yet. It consisted in (a) rebuilding the submerged towns. The dissertation also seeks to explain what the beradero life was based on. CHESF did not succeed in transferring the families from the submerged towns onto the Special Project. who met face to face all throughout the compulsory displacement and relocating process.who were transferred to and stayed in the Special Colonization Project on Serra do Ramalho – and by part of the population who returned to the lake banks – called the ‘the sorry ones’ by those who remained there.

7 AGRADECIMENTOS Um trabalho de pesquisa que resulta em obra desta natureza exige. as sugestões sempre pertinentes e a colaboração prestimosa da minha orientadora Profa. Nesse percurso atrás de fontes (ou seriam miragens?) muitas vezes . Yara Ahun Khoury que no transcurso da qualificação se mostraram. além de pertinentes. Marta Emísia e Jussara Franca. várias vezes. a colaboração e a solidariedade de familiares. perigosas e pontuadas de armadilhas (tanto as federais quanto as estaduais). além de renúncia. com a companhia do pessoal do Grupo de Estudos do São Francisco do Laboratório de Geografia da USP. em especial. Entre os colegas da PUC fiz amizades. Foi nas reuniões das quartas-feiras no Núcleo que o pensamento de autores “herméticos” se tornaram mais compreensíveis e auxiliaram-me nessa árdua tarefa de compreender e interpretar aspectos da realidade dos beraderos sanfranciscanos. contando em uma outra. obrigando-me a consultar novas bibliografias e a perseguir novas fontes. atravessei algumas vezes parte do sertão baiano. através de estradas esburacadas. Dra. Com a sempre amiga Luciene Aguiar. Maria Antonieta Martinez Antonacci e da Profa. obrigou-me a faltar em inúmeras reuniões. tanto da Regina Sader como dos colegas do grupo de estudos acima referido. No trabalho de perseguição às variadas fontes aqui utilizadas. Além dos colegas da PUC. Maria Odila Leite da Silva Dias. em duas outras. contando com a estreita colaboração das colegas Ana Yara Paulino. Dra. fiz inúmeras viagens — uma delas sinistra e de triste memória —. As sugestões e colaborações da Profa. buscando nos “fiapos” das memórias dos entrevistados “vestígios” de suas ricas experiências. Os olhares de geógrafos. ao sertão. com a companhia da professora Regina Sader e. contei com a colaboração dos amigos do Núcleo do Imaginário do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. amigos e professores. A amizade com Ana Yara se tornou ainda mais intensa quando descobrimos laços afetivos que nos ligavam ao Recôncavo Baiano — meu berço e berço dos familiares de seu pai. No meu percurso estes elementos não faltaram. profícuas. Agradeço. A condição de neo-sampauleira: indo e voltando. Dra. Regina Ilka. abriu-me a vista para alguns aspectos das paisagens sanfranciscanas que até então não dera conta. Agradeço a Regina e aos colegas do grupo pelas prestimosas observações.

os inúmeros contatos estabelecidos. deslocou-se de Marília para dar-me apoio durante a impressão. empréstimo de livros e de equipamentos de informática. O amigo “juazeirense” Higino. a presença da Bia é marcante no trabalho. Neusa Mariano. Na fase final deste trabalho. participou com sugestões de toda a “tecitura” dos últimos “retoques” do mesmo. deixando-me em pânico e com a sensação de que os deuses conspiravam contra mim. Lembro também a contribuição da amiga Neli Fernandes Couto que. Na fase final deste trabalho. mostrou-se um leitor atento do material produzido. Roberto Caner. Aos amigos paulistas Sueli Castro. o papel que nas editoras é chamado de “produção”. além de dividir com a Belma a revisão de alguns capítulos e com o Higino a “produção” do texto. material de pesquisa. além de rever os possíveis erros ortográficos. devo salientar eles são de minha inteira responsabilidade e somente a mim podem ser cobradas e creditadas. dava sugestões e indicava material de pesquisa. às vezes. Nessa trajetória conheci muitas pessoas. consolidei amizades e fiz outras tantas. além da amizade sincera. Apesar de visto e revisto este trabalho deve apresentar falhas e lacunas. além de municiar-me (via e-mails) com as fugidias regras da ABNT. além de municiar-me com indicações bibliográficas. conhecei uma outra parte do “Brasil profundo” e minha experiência se tornou ainda mais rica e as “temporalidades plurais” muito mais concretas. Lembro-me. empréstimos de obras raras e de fazer a pesquisa na rede. Sinthia Batista. Desde a conclusão dos créditos. bem como a Joaquim Lisboa Neto. Foi Joaquim que me pôs em contato com o ex-presidente nacional do . Ugo Maia. Elas me ajudaram com total despretensão. Rafael Spinelli socorreu-me toda vez que o computador (emprestado de Conceição Cabrini) “emburrou”. Naquele período. a quem conheci nas asas do nosso querido e saudoso site Coqui. A amiga Belma Gumes agradeço a revisão sempre criteriosa das “minhas mal traçadas linhas”. da Casa de Cultura de Santa Maria da Vitória. E tudo fez e faz com um desprendimento e uma humildade típica dos sábios. Agradeço a Geraldo e Teco Bastos. A James Roberto Silva agradeço a formatação criteriosa do texto. e Conceição Cabrini agradeço. Os amigos Higino Canuto Neto e Maria Beatriz Ribeiro merecem atenção especial. Salete Magnoni. das conversas com o sempre instigante Thiago Allis. 8 fugidias. Na sua lida. abriu-me sua casa (colocando a minha disposição sua mesa farta) e criou inúmeras situações que favoreceram a discussão e a troca de informações sobre a temática em estudo. indicações bibliográficas. em especial. fazendo. de Bom Jesus da Lapa. A querida Vânia Bastos Lima fez a revisão da revisão.

E foi Geraldo Bastos que me pôs em contato com o ex-executor do INCRA José Ganen Marques. ele desempenhou o importante papel de segurança. Ambos colocaram a minha disposição material crucial para o entendimento do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. Fui recebida com o mesmo apreço pelos funcionários do INCRA de Bom Jesus da Lapa. Augusto César Rodrigues Mendes. bem como de seu processo de emancipação e “liquidação”. Por intermédio de Emiliano José. Guiomar Germani. a quem agradeço as informações sobre a polêmica extinção do órgão. José Carlos Arruti. Charles d’Almeida Santana e a professora Maria Rosário de Carvalho municiaram-me com indicações bibliográficas e indicaram-me centros de pesquisas que foram de grande utilidade para a realização deste trabalho. 9 INCRA. além de motorista. em Brasília contei com a colaboração do engenheiro agrônomo Célio Coelho das Neves e do responsável pelo setor de comunicação social do órgão Eliney Faulstich. dentro de suas possibilidades. o nosso único veículo para trabalho de campo. além do apoio dos colegas que votaram pela liberação da minha licença. Em Salvador. Agradeço também ao beradero/ribeirinho Raimundo Pinto a acolhida em sua casa em Petrolina e as inúmeras informações. Não posso esquecer a atenção do vereador de Casa Nova. os colegas Gilmário Moreira Brito. não posso deixar de agradecer ao amigo e motorista Sr. As sugestões em relação ao segundo capítulo foram de grande valia. algumas vezes. colaboraram com meu trabalho e disponibilizam. entrevistei o ex-governador Roberto Santos e o ex-superintendente do INCRA da Bahia. Os canais abertos por ambos foram fundamentais. inibiu ações que pudessem resultar em intimidações e hostilidades. A minha presença em Serra do Ramalho num carro oficial. devo agradecimentos aos diretores Paulo Moura e Eliane Brito Andrade. Na superintendência do INCRA em Salvador fui recebida com a mesma compreensão e tive acesso às plantas e aos mapas do Projeto. Sem que tivéssemos clara consciência. Ambos. justificando-se a cessão do veículo. certamente. Adão. Não posso esquecer os prestimosos “canais” abertos pelo deputado estadual e jornalista Emiliano José e pela professora de Geografia Humana da Universidade Federal da Bahia. No INCRA. Jackline e Marina Rocha. Foi por intermédio da professora Guiomar que travei contato com o professor João Saturnino. José Eduardo Nascimento que me ciceroneou nos povoados beraderos de Pau-a-Pique e Barra da Cruz. Nesse sentido. João Mendonça Amorim. Luiz Eduardo de Souza. Em Caetité. . Agradeço também a equipe da Comissão Pastoral da Terra da Bahia: Ruben de Siqueira.

Daniela. a partir da minha presença. Em Serra do Ramalho. Jandira Aguiar Ledo. sem contar um certo alheamento. em consonância com as exigências da atividade acadêmica. Eliane Brito de Andrade. Minhas lembranças estão como que povoadas pelas pessoas que conheci nessa experiência que tanto marcou minha vida e me fez conhecer um São Francisco contraditoriamente tão rico e tão pobre/tão longe e tão perto. de todos meus interesses. D. Na casa da mana Cida e do cunhado Anísio onde fui acolhida com generosidade e contei com um ambiente propício aos estudos. agradeço a gentileza e atenção. o descendente Tuxá que vive entre os Pankaru. Sem seus préstimos não teria cumprido os inúmeros e torturantes compromissos matinais. os meus irmãos Jorge e Marta e a cunhada Val a compreensão em relação as minhas longas ausências. da pequena Cleidicléia que. espontaneamente. À Janilda. À Gabriela agradeço. Aos irmãos “paulistas” Dina. Este momento também é de memória. Os almoços domingueiros — já institucionalizados como rituais de memoração e de experimentos gastronômicos —. todo momento. apenas. de Josias. Aguinalda Públio de Castro e Fernando Teixeira devem ser mencionados. Renato. foi solicitar os préstimos de um vizinho para nos ajudar a tirar da lama o carro atolado no “carreiro” que liga Serra do Ramalho ao Riacho Pitubas. cujo sonho é se aposentar como trabalhador rural e construir uma escola para homenagear sua professora de primeiras letras). 10 Aliás. para dividir conosco duas piranhas salgadas penduradas no seu “fumeiro”. Marco Aurélio e Rogério. Destaco os nomes de Luciene Aguiar. a nossa Travessia. a cessão de seu ateliê para que nele abrigasse meu espaço de estudo e de trabalho. pois. José e Roque agradeço o carinho e enorme atenção. de Pedro Bola. Marlene e Branquinha. contei com um grupo de amigos que cuidou. sobretudo. da senhora que nos convidou a almoçar com ela e os filhos. em Caetité. Marcelo. durante minha ausência. tendo. Raul. e Maria Eliza. não posso deixar de agradecer as “moças da pensão”. em relação a assuntos e questões que lhes eram e são caros. Lembro aqui as figuras de Orlando Pimenta. o esperançoso e . que sempre me recebiam com deferência e atenção. deram-me referências e repassaram-me artigos de jornais. Agradeço também a acolhida e a compreensão dos sobrinhos Gabriela. em especial. e aos cunhados Anísio. que me serviu de “despertadora oficial”. Marli. Zoraide de Oliveira e Silva e da figura sempre doce e amiga de D. Agradeço também ao Padre Bonfim e aos estudantes Lucélia Pardim. Agradeço a minha mãe Licinha. transformaram-se em momentos de ativação da memória familiar em relação. Zelina e Cida. de Zeca Marinheiro (um intelectual beradero.

Lembro o espetáculo religioso e cênico da Romaria da Terra e da Águas de Bom Jesus da Lapa. Catarina Capella providenciou. de Barra do Guaicuí (MG). espaço onde camponeses pobres. de Morro da Garça (MG). Luiz Flávio Cáppio. com certeza. de Getúlio Moura. de Barra (BA). informações junto ao Programa de Estudos-Pós Graduados do Departamento de História da PUC e. de Ana Simoa. . Por fim. em conseqüência. de Carinhanha (BA). Agradeço a deferência e a simpatia de todos os entrevistados — mesmo daqueles. tal a singularidade de suas experiências e de seus “muito falares e muito saberes”. de Barra (BA). 11 solidário ex-sem terra. através da rede. devo-lhe. de Serra do Ramalho. parecem personagem saídos de uma das obras de Guimarães Rosa. agradeço à CAPES a bolsa de estudos concedida e à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade do Estado da Bahia a atenção e a deferência. Quando o acesso à internet era coisa rara no nosso alto sertão. As últimas três figuras. de D. que a princípio se mantiveram desconfiados de minhas intenções. e de Abílio do Jegue. Saliento também o clima franciscano do Palácio Diocesano de Barra e da simpatia com que nos recebeu o bispo D. discutem e deploram as agressões sofridas pelo Velho Chico. mas também para que parte da história desse país tão plural e diverso se tornasse um pouco mais conhecido de todos nós. deram às suas experiências re- significações outras. Ao abrir o “novelo de suas memórias” à luz do entrecruzamento entre passado e presente. colaborando não só para que estas fossem socializadas. Periquita. Agradeço também aos meus ex-alunos (turma de 1999) pelas inúmeras indicações que fizeram antes mesmo que o projeto de tese fosse se delineando. a efetivação de minha inscrição no Programa. sem-terra e religiosos refletem suas experiências. Menção especial aos músicos da Banda de Pífano da Agrovila 7.

12 SIGLAS AI-5 – Ato Institucional n.Bahia ECT – Empresa de Correios e Telegráficos FETAEB – Federação dos Trabalhadores da Agricultura no Estado da Bahia FETAG – Federação dos Trabalhadores da Agricultura FPM – Fundo de Participação dos Municípios FSESP – Fundação de Serviços de Saúde Pública FUNAI – Fundação Nacional do Índio FUNRURAL – Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural IBAMA – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente . 5 ANCAR-BA – Associação Nacional de Crédito e Assistência Rural ANI – Associação Nacional do Índio AP – Ação Popular BIRD – Banco Interamericano de Desenvolvimento BNB – Banco Nacional do Brasil BNCC – Banco Nacional de Crédito Comercial BNH – Banco Nacional de Habitação CAR – Coordenadoria de Ação Regional CEAS – Centro de Estudos e Assistência Social CEEIVASF – Comitê Estadual de Estudos Integrados do Vale do São Francisco CEI – Centro de Estatística e Informações CESP – Centrais Elétricas de São Paulo CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco CIRA-SR – Cooperativa Integral de Reforma Agrária de Serra do Ramalho CIRES – Centro de Implantação do Reservatório de Sobradinho COBAL – Companhia Baiana de Alimentos CODEVASF – Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e Parnaíba CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito CPT – Comissão Pastoral da Terra CSB – Companhia do Sudoeste da Bahia DESENVALE – Empresa de Desenvolvimento do Vale do Paraguaçu ELETROBRAS – Centrais Elétricas Brasileiras EMATER-BA – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural .

13 INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária INTER – Instituto Jurídico de Terras ITESP – Instituto de Terras de São Paulo MAB – Movimento Nacional de Atingidos por Barragens MDB – Movimento Democrático Brasileiro MIRAD – Ministério do Desenvolvimento Agrário MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra PDRS – Programa de Desenvolvimento do Reservatório de Sobradinho PEC-SR – Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho STR – Sindicato de Trabalhadores Rurais SUCAM – Serviço de Combate à Malária TDA – Título da Dívida Agrária .

14 FIGURAS 1. Tabela com destino da população deslocada. p. 3. ilustrando meio de transporte. 4. Planta do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. 110. 158. 221. Fotografia de vista do povoado de Barra da Cruz. sinalizando depleção. 8. Detalhe de localização do povoado de Barra da Cruz. Fotografia de charrete. Fotografia da capela de Barra da Cruz. . p. p. 204. p. 5. 6. 7. p. Fotografia de casa em ruína na Agrovila 19. Fotografia de casa padronizada construída pelo INCRA. 183. p. 220. 9. p. Fotografia dos Pankaru “brincando” o Toré. p. 157. 10. p. Mapa do deslocamento de população da área da Represa de Sobradinho para Serra do Ramalho. 109 2.140. 187. p.

(Eudelina – Serra do Ramalho) . 15 Pensava: pra enchê essa barrage São Pedro tem que abri as bicas do céu. Não é que abriu! São Pedro acabou de amigagem com a CHESF.

............................ 63 Capítulo II .......................................................................... O sertão vai virar mar ........... 147 2........ 16 SUMÁRIO Apresentação........2................................................................................... O inferno vivido............................................................................................................ 86 3.......................................................................................... 90 4........................... 190 Capítulo IV......................... 127 Capítulo III ...................... 205 3............................................................................................... 114 6............. 226 Fontes .......... O difícil regresso.......................................................O mundo de ponta cabeça – o deslocamento compulsório .... 21 Capítulo I ....................................................5............................................................................................................... 84 1..................................................................................... A ordem é partir.......... 246 Relação de entrevistados ...........Depois do Redimunho – o desengano ............................................................................................................................. 194 1.................................................. 194 2. 251 ...... O paraíso planejado ........ A terra era a grané......... 45 1.... 103 5....................... Vida de catingueiro............ Cobrando as promessas .................................................. 52 3.................................................................................. 149 2......................... 159 2.... O INCRA tira o corpo fora .... 236 Referências ................... 220 Considerações finais ....................................... 45 2............................... 174 4.................................. 166 3.................... 84 2.............. Bairro rural versus Agrovila................................ 162 2...............................................................4.................................................................. Está na hora de limpar a área ....................................................................................................................................................................................... Fome e penúria.......... Caranguejando no rio......................... As três felicidades ........................3...................................... Válvula de escape do INCRA ......................................................................................Em busca da felicidade perdida – a reconstrução de Barra da Cruz......................................................................................................................................................................... 151 2....................................... O consolo é o rio..........O redimunho em ação – espanto e esperança ........................................................... Antes do inferno.......................................17 Introdução .............................Antes do Redimunho – As três felicidades ........................................................................................ 135 1........................................................... Fisgando o peixe ...............................1...... 135 2....................................... A dupla injustiça ............. Movidos pela paxão e pelo sonho......................................... em Serra do Ramalho... De ouvir dizer ...... 238 Bibliografia......................................................

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APRESENTAÇÃO

Meu primeiro contato com as agrovilas da Serra do Ramalho deu-se em 1997. Estava há
um ano em Caetité e pouco conhecia do seu entorno. Aproveitando a estada nesta cidade de
um amigo paulista, que viera ministrar curso no Departamento de Ciências Humanas —
Campus VI, da Universidade do Estado da Bahia — para o projeto de extensão do qual era
coordenadora, resolvi convidá-lo a dar um passeio ao santuário de Bom Jesus da Lapa,
distante aproximadamente 150 quilômetros de Caetité.
Frustrados diante da perspectiva de não comermos peixe à beira do São Francisco,
resolvemos dar um “pulinho” para almoçarmos em Santa Maria da Vitória — terra do escritor
Osório Alves de Castro —, situada à beira do Rio Corrente. Imbuídos do espírito de aventura
(Não era ele representante dos bandeirantes povoadores daquelas paragens?), ali, decidimos
voltar à Caetité fazendo um trajeto diferente do que havíamos percorrido. Ao invés de
voltarmos pela Rodovia Brasília-Ilhéus, pegamos uma vicinal que nos levou à Carinhanha,
localizada na confluência dos limites entre Bahia-Minas-Goiás; atravessaríamos o São
Francisco de balsa e, em Malhada, pegaríamos outra vicinal que nos levaria à Caetité. A
aventura durou muitas horas além do previsto e nos revelou um Vale do São Francisco
completamente diferente do imaginário que esboçamos, enquanto consultávamos o mapa
rodoviário da região.
A estrada que ligava Carinhanha à Rodovia Brasília-Ilhéus cortava uma área dividida
em lotes mais ou menos regulares completamente devastados, despontando da terra quase
limpa, vez ou outra, um teimoso juazeiro (Zizyphus Joaseiro) ou uma barriguda (Iriartea
Ventricosa) ainda acinzentada. Somente nas proximidades de Carinhanha, às vezes, surgia um
lote onde a mata parecia estar em processo de recomposição. Não fossem as primeiras chuvas
que faziam brotar a “babugem” e o capim, o espaço que se mostrava aos nossos olhos seria
ainda mais sombrio e desolador.
Porém, o que nos chamou mais a atenção foi que, mais ou menos a cada sete
quilômetros, deparávamos com um povoado, formado por casas bastante rústicas e de estilo
padronizado. Eram as agrovilas de Serra do Ramalho, espaço criado com a única função de
abrigar os deslocados de Sobradinho, mas que, devido à recusa de grande parcela destes em
ali se fixar, se tornara abrigo dos desprovidos de terra de vários recantos do Nordeste e do
Brasil.

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De volta a Caetité, contamos a aventura para colegas de trabalho que traçaram um perfil
das agrovilas nada alvissareiro. As agrovilas, segundo essas pessoas, eram um espaço “de
ninguém”, local onde vigoravam a marginalidade e a violência, sendo, portanto, evitadas por
todos que temiam pela sua integridade física.
Aliás, em Caetité e entorno todos os acontecimentos vistos como representativos de
modos não civilizados ou bizarros aconteceram “pelos lados de Serra do Ramalho”.
Fenômenos “fantásticos”, tais como crianças nascidas com duas cabeças, fetos com
características antropomorzóficas, mulheres com a barriga nas costas, teriam sido registrados
“pelas bandas de Serra do Ramalho”. Às vezes, a localidade era palco de fenômenos menos
fantásticos, mas pouco plausíveis. Durante uma aula que ministrei, abordando aspectos da
presença e da cultura indígena no Brasil, um dos alunos teimava em afirmar que “pelos lados
de Serra do Ramalho” havia índios “selvagens”; a contundência era tamanha, que mais um
pouco não afirmava tratar-se de índios antropófagos.
O imaginário construído pelos habitantes da região do entorno das agrovilas me chamou
a atenção, mas, naquele momento, estava por demais envolvida com a elaboração de minha
dissertação de mestrado — Os sampauleiros. Cotidiano e representações — e, embora as falas
sobre as agrovilas ficassem ecoando em minha cabeça, os compromissos com o trabalho
anterior falavam mais alto.
O segundo contato com as famigeradas agrovilas deu-se em 1999. Naquele ano
ministrava uma disciplina optativa abordando especificamente aspectos da presença
indígena nas Américas, quando um aluno trouxe novamente à baila a existência de um
agrupamento indígena na Agrovila 19, localizada no antigo Projeto Especial de Colonização
Serra do Ramalho. Diante da informação, resolvi estabelecer contato, visando levar a turma
para conhecer a comunidade indígena. Nessa agrovila, conheci não só os indígenas Pankaru1,
mas um pouco da história de outras agrovilas e da formação do município recém
desmembrrado de Bom Jesus da Lapa, ficando chocada com todo o processo de implantação
do Projeto e com o grau de abandono e de violência a que foram submetidos seus primeiros
moradores.

1
Esta comunidade acredita-se vinculada aos Pankararu e chegaram a Serra do Ramalho por volta da década de
50. Nos anos 80, a comunidade Pankaru da Agrovila 19 mudou seu nome deliberadamente, para diferenciar-se
dos Pankararu que vivem no Estado de Pernambuco. Segundo o cacique Alfredo José da Silva Pankaru, a
mudança se fez necessária porque os órgãos governamentais confundiam as duas comunidades. Desse modo, as
melhorias solicitadas pela comunidade da Agrovila 19 eram, muitas vezes, encaminhadas para os Pankararu de
Pernambuco, reconhecidas secularmente pelas autoridades constituídas.

19

Compreendi também a razão pela qual o imaginário cingido em relação a Serra do
Ramalho comportava a presença de índios selvagens. Antes da criação do Projeto Especial, a
área era formada de mata “fechada”, apresentando uma fauna bastante variada. A presença da
onça pintada na área, bem como nos municípios de Carinhanha, Malhada e Feira da Mata era
comentada em toda a região, atraindo caçadores de vários lugares. A título de curiosidade, na
entrada da cidade de Palmas de Monte Alto, localizada à margem direita do Vale do São
Francisco, encontra-se esculpida, provavelmente em gesso, uma enorme onça pintada,
rememoração dos tempos em que onças e caçadores se enfrentavam nas matas do médio São
Francisco.
Como veremos a seguir, a população de Serra do Ramalho é proveniente de vários
recantos do Nordeste. Dos primeiros contatos ficou evidenciado que não há uma uniformidade
de vozes no que tange ao modo de ver o projeto e de descrever a experiência do
deslocamento; pelo contrário, há em Serra do Ramalho uma polifonia, podendo se diferenciar
três grupos de vozes: a dos originários da área que ficou submersa pela Represa de
Sobradinho, a dos antigos moradores de Serra do Ramalho e a dos indivíduos que vieram de
outros recantos da Bahia, bem como do Nordeste.
Das tantas vozes — emanadas de indivíduos tão fortemente marcados pela experiência
dos deslocamentos —, a tese em curso se concentra, conforme salientarei na introdução,
especialmente nas emanadas dos indivíduos provenientes das áreas submersas pela Represa de
Sobradinho, ou seja, dos indivíduos que experienciaram o destorritorialização própria do
deslocamento compulsório, condição que deu ensejo à criação do Projeto Especial de
Colonização de Serra do Ramalho pelo governo federal. Atento-me para o cotidiano do
deslocamento, ressaltando, mais especificamente, as fricções e as tensões verificadas entre os
atingidos e os agentes do Estado no território recém criado para reassentá-los,manifestações
de que estes atores sociais, para além da questão social, viviam temporalidades diferenciadas,
portando, portanto, visões, atitudes, percepções e interesses bastante contrastantes.

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O redimunho mudou tudo
Tudo levou de roldão
Submergiu os lameiros
Separou pai e irmão
Trouxe desassossego
Pro nosso sertão.
(José Libório – Ibotirama)

]

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INTRODUÇÃO

O MUNDO DE PONTA-CABEÇA – O DESLOCAMENTO COMPULSÓRIO

O anúncio da construção da Represa de Sobradinho, em princípios de 1970, significou
para muitos sertanejos a possibilidade de confirmação da profecia de Antônio Conselheiro: “o
sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”2.
A abundância de água e a possibilidade de seu aproveitamento para irrigação, conforme
propagavam técnicos e políticos, traziam consigo, além do mais, a perspectiva de confirmação
de uma outra profecia também bastante conhecida dos sertanejos sanfranciscanos: a terra
prometida, onde jorraria, em abundância, leite e mel (Cunha, 1988, p. 194).
À medida que o projeto foi implementado, ganhando contornos mais definidos, os
riberinhos e beraderos das áreas atingidas confirmaram a percepção de que, longe da
realização da profecia, a construção da gigantesca e moderna obra apontava para a total
desorganização de seus meios de vida e de seus valores sócio-culturais.
No entanto, os órgãos governamentais argumentavam que a desorganização seria
passageira e, logo que os indivíduos deslocados se estabelecessem, a situação se configuraria
de outra forma, avizinhando-se perspectivas promissoras.
Desse modo, o Projeto Especial de Colonização de Bom Jesus da Lapa3 foi cercado de
enormes expectativas: políticos, burocratas e técnicos nele envolvidos, direta ou
indiretamente, propagandeavam seus benefícios. Nos discursos desses agentes
governamentais, o Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho tornar-se-ia uma
espécie de celeiro do Nordeste, gerando emprego e renda, não só para os reassentados como
também para os habitantes de toda a região. As práticas adotadas pelas agências
governamentais para arregimentar e cadastrar as famílias que seriam deslocadas para Serra do

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A forma de escrita acima faz parte do imaginário popular e se tornou consagrada; no entanto, na oratória de
Antônio Conselheiro, a profecia aparece de outro modo. Vejamos: “Em 1894 há de vir rebanhos de mil correndo
do centro da Praia para o certão então o certão virará Praia e a Praia virará certão.” Citado por Sérgio Guerra,
Universos em confrontos – Canudos X Belo Monte, 1999, p. 108.
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Logo após o remanejamento dos beraderos da área de Sobradinho, o Projeto passou a ser denominado de
Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho.

pressões e violência simbólica. de progresso e de desenvolvimento para o município. era visto com bons olhos. rapidamente. 5 As elites políticas de Bom Jesus da Lapa não se opunham à emancipação das agrovilas desde que o perímetro irrigado da CODEVASF – Projeto Formoso – ficasse dentro dos limites do município. as agrovilas de Serra do Ramalho representavam uma espécie de pesadelo do qual queriam distância. Outros recorreram aos meios mais inusitados para desfazer-se de suas parcelas: venderam-nas a preços muito abaixo do custo — desconsiderando suas benfeitorias — ou trocaram-nas por bens móveis. Cada novo vapor que chegava trazendo os expropriados e seus pertences. do Nordeste e até do Centro-Sul do país receberam lotes e se estabeleceram nas agrovilas ociosas. foram. as safras minguaram. o futuro celeiro do Nordeste apresentava um quadro desolador: a cooperativa faliu. Conforme salienta Geraldo Bastos4. 14/07/2000. o Projeto Serra do Ramalho entusiasmou a população de Bom Jesus da Lapa. Cadinho de indivíduos provenientes de diferentes pontos do Brasil. voltando às áreas de onde eram originários ou deslocando-se para São Paulo e Brasília. conforme salienta Bursztyn. . muitos reassentados abandonaram seus lotes. Em razão da crescente demanda. Apesar disso. Tendo isso em vista. pois sinalizavam a chegada de novos consumidores. a redirecionar sua política. tornando-se uma válvula de escape do INCRA. o projeto foi recebido pelos lapenses com bastante expectativa. pouco mais de um quarto das quatro mil famílias atingidas da zona rural deixaram as bordas do lago em formação. quando o movimento em favor da emancipação político-administrativa das agrovilas tomou corpo. com o correr dos anos. Embora recebido com reticência e certo estranhamento pela população beradera expropriada da terra e do rio. Devido a uma série de razões que serão explicitadas no corpo do trabalho. 22 Ramalho. de três ordens: promessas sedutoras. cada novo ônibus que cortava as estradas de chão ainda pouco curtidas pelo atrito dos veículos automotores. novas agrovilas foram criadas e o Projeto de Serra do Ramalho se “descaracterizou”. as autoridades do município de Bom Jesus da Lapa não se opuseram à emancipação das agrovilas5. 6/12/2002. o crédito foi suspenso. basicamente. desconforto e descrédito. Porém. A perspectiva de fracasso total do projeto levou o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INCRA). como veremos mais adiante. Afinal. 4 Entrevista concedida à autora em Bom Jesus da Lapa. passando o projeto a ser visto pela população de Bom Jesus da Lapa e do entorno com desconfiança. Entrevista de Antônio Ribeiro concedida à autora em Bom Jesus da Lapa. a irrigação (em área situada às margens do rio) fracassou. famílias de sem-terras vindas de diferentes pontos da Bahia. para aquelas autoridades e para grande parte da população daquele município.

por tudo quanto de “estranho” e “errado” acontecesse nas agrovilas.8 Estes eixos espaço-temporais. tornando ainda mais tensas as relações entre os agentes do Estado e os reassentados em Serra do Ramalho. recorrendo às dimensões espaço- tempo7 que saltam de suas narrativas. independentemente de sua procedência. por exemplo. bem como o título e todos os subtítulos foram realçados das falas dos entrevistados e são ilustrativos do rico imaginário que cerca a vida dos beraderos sanfranciscanos e o Projeto de Serra do Ramalho e suas famigeradas “grovilas”. sem perder de vista as peculiaridades e as nuanças da condição beradera de vida. Numa clara demonstração de “translação” de hierarquia. o hoje-aqui (Serra do Ramalho). de outro. O que as águas não cobriram: tempo. nos primeiros anos do Projeto. Nas agrovilas. 23 Para os moradores das agrovilas que ali se estabeleceram em primeiro lugar — os provenientes das áreas submersas pela Represa de Sobradinho —. (no que se refere à procedência de seus moradores): de um lado. que acreditam ter trazido dos barrancos sanfranciscanos. Na Agrovila 10. demais nordestinos que eram vistos como forasteiros6. os nativos de Serra do Ramalho desaprovavam o projeto e responsabilizavam os indivíduos de “fora”. o espaço-tempo ou tempo-espaço aparece intimamente relacionado à questão da compressão. 8 Essas dimensões estão presentes em todos as entrevistas. 1992. a dimensão espaço-tempo significa uma certa maneira de experienciar a realidade e o passado. espaço e memória. Este trabalho. o hoje-lá (Barra da Cruz) e o ontem-aqui (Serra do Ramalho). Mais que isso. os novos reassentados constituíram ameaça. 7 Em A condição pós-moderna. destacando as dissonâncias e desconpassos destes com os agentes do Estado. visa compreender a experiência do deslocamento compulsório dos antigos moradores da região de Sobradinho que se estabeleceram em Serra do Ramalho. os demais nordestinos aparecem como violentos e responsáveis pela desagregação de uma ambiência baseada na solidariedade e união. era notória uma forte divisão entre as famílias. baianos oriundos da região de Sobradinho e. as ruas são divididas. quais sejam: o ontem-lá (beira do Rio). de David Harvey (1994). de um lado moram paraibanos e de outro moram os pernambucanos. . digamos assim. Três felicidades e um desengano: a experiência dos beraderos de Sobradinho em Serra do Ramalho. aqui. As relações entre os atingidos e as agências do Estado envolvidos no processo de reassentamento suscitam uma série de questões e problemáticas que instigam à pesquisa. contudo elas ganharam contornos mais explícitos depois da leitura da dissertação de Ruben Alfredo de Siqueira. No imaginário dos indivíduos provenientes das áreas submersas pela Represa de Sobradinho. onde fatos e acontecimentos sempre são lembrados em referência a um espaço determinado. 6 Em algumas agrovilas há divisão entre os próprios “forasteiros”. criando-se um clima de desconfiança e animosidade entre eles.

discuto o contexto em que se deu a construção da Represa de Sobradinho. o deslocamento compulsório. fogem da linearidade da narrativa positivista. Antes do redimunho: as três felicidades.modificasse o regime do rio e o seu curso. busco interrogar a razão pela qual um grupo de beraderos aceitou a . por que não dizer. tendo por base a memória de um conjunto de indivíduos originários dos povoados de Intãs. como se expressavam alguns entrevistados. o espanto dos riberinhos e beraderos em relação aos desdobramentos da construção da Represa. Nesse capítulo. destacando a relação de dependência e a afetividade que o sanfranciscano nutria e nutre pelo rio. suas tradições. estão relacionadas à visão de riqueza e de fartura dos tempos vividos nas barrancas do São Francisco. a formação do convênio entre a CHESF e o INCRA. até o momento em que foram surpreendidos pela notícia do deslocamento compulsório. podendo ser lidos em qualquer ordem. os costumes e as formas de sociabilidade. O desengano refere-se à vida de reassentado no Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. todos localizados no município de Casa Nova. partindo de vozes diferenciadas. as indenizações. eles constituem maioria.a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF) . A escolha de indivíduos oriundos desses povoados se deu tão somente porque. Esmiuço a condição beradera de vida. dentre os moradores de Serra do Ramalho provenientes da região de Sobradinho. cruel. a formação dos povoados (bairros rurais). evidenciando as tensões entre o Estado (através das agencias governamentais) e os beraderos. No primeiro capítulo. Três felicidades e um desengano: a experiência dos beraderos de Sobradinho em Serra do Ramalho é uma tese que busca problematizar a experiência do deslocamento compulsório. em nada condizente com as promessas feitas pelos agentes governamentais e as prefigurações realizadas em torno do projeto. 24 As três felicidades ou as três vidas. No segundo capítulo. trazendo também à baila o imaginário construído e re-construído em relação ao espaço submerso pela construção da Represa de Sobradinho. sobretudo nos primeiros anos de sua implantação. bem como do local onde foram reassentados. discutindo as formas de propriedade fundiária predominantes na região. abordo a formação territorial da região de Sobradinho. Embora todos estejam enlaçados entre si. Este trabalho é constituído de quatro capítulos. O redimunho em ação: espanto e esperança. antes que as intervenções da “besta fera” . as tentativas de resistência. as primeiras reuniões com a “equipe social”. Bem-Bom. Barra da Cruz e Pau-a-Pique. quando as expectativas que cercavam a área se esboroaram diante de uma realidade dura e.

enquanto a maioria. destacando o sentido da palavra paxão e o papel desempenhado pelo sentimento no retorno dos chamados arrependidos. evidencio aspectos do cotidiano dos deslocados nas agrovilas. Em seguida. analiso as razões que levaram os beraderos — denominados pelos que permaneceram na borda do rio-lago de arrependidos — a partirem de Serra do Ramalho em direção às terras do antigo povoado de Barra da Cruz. reveladores da existência de culturas e temporalidades diferenciadas. com os agentes governamentais e com demais autoridades constituídas. no caso de Casa Nova. Exploro os fatores que levaram à reprovação do projeto e ao seu abandono por parte de muitos indivíduos que vieram da área de Sobradinho. salientando que. etc. sem perder de vista. Além de espacializar a Serra do Ramalho. procuro pôr em evidência aspectos de sua história. A busca da felicidade perdida – a reconstrução de Barra da Cruz. as relações com o gerente-executor. contudo. as reclamações. o que aconteceu com os povoados e onde foram reassentados seus moradores. . resultantes da resistência cotidiana e passiva empreendida por camponeses despossuídos de meios de vida. os agentes governamentais e a empresa planejadora do projeto. as disputas políticas que envolveram a Igreja. Em seguida. muito antes da implementação do Projeto. as reivindicações. 25 transferência para área distante da borda do futuro lago. Surpreendo também a experiência desses indivíduos nos primeiros dias na borda do lago. Exploro a resistência dos antigos moradores da Serra. os embates com os grileiros. pela figura do prefeito “biônico” Adolfo Viana. No último capítulo. No terceiro capítulo. bem como os choques entre os reassentados. se valeu de todos os meios para permanecer na borda do futuro rio-lago. deslindo a organização espacial do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho (PEC-SR) em seus pormenores. Evidencio as transformações por que passou o projeto. o Estado e as elites locais – representadas. num processo de resistência passiva. discuto as razões que levaram alguns reassentados a encaminhar o processo de emancipação do Projeto e a emancipação propriamente dita. destacando os descompassos e dissonâncias entre os reassentados. a região era habitada por indivíduos provenientes de diferentes lugares. intitulado Depois do redimunho: o desengano.

em nenhuma delas o historiador se preocupou em fazer uma abordagem teórica mais precisa do conceito por ele desenvolvido. Thompson refuta as determinações estruturais defendidas por Louis Althusser e. bem como de uma metodologia apropriada ao objeto de estudo. ao que se supõe. p. Isso compreende esclarecer as linhas de abordagens e o corpo conceitual com o qual se buscará interlocução no decorrer do trabalho. que corresponda às perspectivas e problemáticas evidenciadas. 26 Sobre conceitos. e essa experiência é determinante. Na primeira obra. no sentido de que exerce pressões sobre a consciência social existente. aqui. mais que isso. 1981. O que queremos dizer é que ocorrem mudanças no ser social que dão origem a experiência modificada. com a gênese de sua matéria-prima. eles próprios. 16). 21). p. o conceito de experiência — termo ausente — para usar suas palavras. Contudo. . constitui uma parte da matéria-prima oferecida aos processos do discurso científico da demonstração. linhas de abordagens e fontes É um imperativo do fazer acadêmico explicitar as referências teórico-metodológicas e as fontes utilizadas no desenvolvimento de um trabalho de pesquisa. A compreensão da experiência do deslocamento — as tensões e o embate envolvendo os atingidos e as agências do Estado — e também da apreensão do imaginário verificado entre os habitantes de Serra do Ramalho provenientes da área da Represa de Sobradinho exige diálogo com outras áreas das ciências humanas e a utilização de um corpo conceitual consistente. Primeiro convém discutir o conceito de experiência. A experiência. propõe novas questões e proporciona grande parte do material sobre o qual se desenvolvem os exercícios intelectuais mais elaborados. Ele aparece em duas das obras de Thompson: Miséria da Teoria e A formação da Classe trabalhadora na Inglaterra. seja oportuno lembrar as palavras de Hans Georg Gadamer:“é o objeto que determina o método apropriado para investigá-lo” (1998. desde que ela chegue a tempo (Thompson. Talvez. bem como as fontes utilizadas e onde elas foram encontradas. no centro da discussão do pensamento marxista. enceta. E mesmo alguns intelectuais atuantes sofreram.

antes de assumir qualquer outro prisma. a atividade social sistematizada. dissolução de culturas. os lazeres e o descanso. o cotidiano não é a vida do dia-a-dia? O que há de complexo nas atitudes e relações rotineiras dos indivíduos? Tanto quanto os outros conceitos. 18). 226). Neste trabalho. Desse modo. 17. a experiência se constitui enquanto consciência social9. enunciador da existência de múltiplas temporalidades. de estar inserido na realidade. E. também o pensamento é vivido – as pessoas podem. o intercâmbio e a purificação” (1992. p. ou como ciência. Miséria da teoria. 27 Nessa perspectiva. sugere: “mudanças. Uma primeira questão que se coloca é: que é o cotidiano? Nas palavras de Berger e Luckmann. das suas habilidades manuais e dos seus sentidos. viver as expectativas sociais ou sexuais que lhes são impostas pelas categorias conceptuais dominantes”. 1981. p. das contradições das sociedades modernas. possibilidades de novos modos de ser” (idem. por sua vez: assim como o ser é pensado. Afinal. seja de um indivíduo ou de um grupo social. ou lei.Thompson. rupturas. a muitos acontecimentos inter-relacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento” (Thompson. ao mesmo tempo. Ela se manifesta ou é construída no espaço da vida cotidiana. Maria Odila Leite da Silva Dias salienta que o “estudo do conceito de cotidiano abarca uma frente ampla de áreas multidisciplinares e envolve uma estratégia de questionamentos de crítica da cultura” (1998. revelando-se. consciência do ser/estar no mundo. 38). p. das rupturas e dos embates que marcaram o advento da modernidade.P. 9 “Evidentemente a consciência. p. dentro de limites. tenciono examinar questões pontuais relativas à enunciação do cotidiano que se apresentam úteis à pesquisa que busco desenvolver. comportamentos e atitudes. também. a vida cotidiana “é a realidade por excelência” (1985. Embora não se contraponha à concepção de Heller. A enunciação do significado de cotidiano à primeira vista parece um contra-senso. atua de volta sobre o ser. seja como cultura não autoconsciente. o cotidiano é. Enquanto lócus e expressão das fricções. a vida cotidiana requer do homem o funcionamento de todas as suas capacidades intelectuais. ou como mito. 224). 15). a autora ressalta que pensadores da contemporaneidade deixam entrever que o conceito em apreço. condição marcada por embate e fricções negadoras de estruturas que aprisionam os indivíduos no cotidiano. Ela é heterogênea e seus componentes orgânicos são:“a organização do trabalho e da vida privada. p. a palavra é polissêmica. O estudo do cotidiano — em uma perspectiva crítica. . ou ideologia articulada. Vislumbrando o conceito de cotidiano na perspectiva da crítica da cultura. compreendendo “uma resposta mental e emocional. p. o homem nasce já inserido na cotidianidade e ela é inexorável. 1981. englobando todas suas ações. Para Heller. o conceito privilegiado de crítica da cultura.

Se consideramos a memória um processo. mas amalgamadas em função do presente. partindo de nuanças e de pontos de vistas que privilegiam os sujeitos sociais relegados ao segundo plano ou silenciados da história. e nunca é tão camaleônica como quando parece permanecer igual (1997. Ainda que esta seja sempre moldada de diversas formas pelo meio social. lembrar as palavras de Raphael Samuel: [. Seguindo a trilha de Alessandro Portelli. de modo que longe de ser transmitida pelo modo intemporal da “tradição”. A propósito: A essencialidade do indivíduo é salientada pelo fato de a História Oral dizer respeito a versões do passado. de ações. sentidas e percebidas de modos diversos. Efetivar este diálogo implica reconhecer a memória como o “espaço” de confluências de experiências diversas. de opiniões. apresentando-se. portanto. neste trabalho procuro evitar o uso da expressão memória coletiva (1997. as paixões dominantes em seu tempo. digamos assim. à memória. do modo como os sujeitos sociais vivenciaram ou vivenciam aspectos da realidade e as expressam. abrindo vetores para a compreensão da realidade social na “contracorrente”. quase sempre. poderemos constatar que. ou seja. exige constante diálogo com a memória. Tem. 28 como salienta Maria Odila Leite da Silva Dias — expressa um modo de compreensão da realidade que rompe com os conceitos fechados. dispostos. de concepções. estampadas. através de atitudes. circularmente no tempo. 44). 16). digamos assim. à semelhança da . o imaginário social construído e reconstruído pelos atingidos da Represa de Sobradinho se constitui em importante fator de compreensão e de ressignificação de aspectos da experiência que vivenciaram. p. em última análise.. e não um depósito de dados. das relações friccionadas. o imaginário social é gestado nas relações cotidianas. Faz sentido. mas apenas os seres humanos são capazes de guardar lembranças. p. Entendido desse modo. de conhecimentos e de imagens. de narrativas. o ato e a arte de lembrar jamais deixam de ser profundamente pessoais. ela é progressivamente alterada de geração em geração.. racionalizantes e “voltados para o estudo das macroestruturas” (1998. de pensamentos. p. Ela porta a marca da experiência por maiores mediações que esta tenha sofrido. mudando de cor e de forma de acordo com o que emerge no momento. O trabalho de pesquisa que busca a apreensão da experiência e do imaginário social. 224). de visões. ou seja.] a memória é historicamente condicionada. Como a história. A memória pode existir em elaborações socialmente estruturadas. a memória é inerentemente revisionista. Expressão.

recente relatório do Banco Mundial calcula que as grandes barragens cuja construção se inicia a cada ano em todo o mundo deslocam compulsoriamente nada menos de 4 milhões de pessoas. segundo o mesmo relatório. tornando-se concreta apenas quando mentalizada ou verbalizada pelas pessoas. As entrevistas que tenho realizado com um conjunto expressivo de pessoas têm demonstrado a riqueza e variedade de interpretações de suas experiências. que ocorre em um meio social dinâmico. qual seja: “Toda estratégia capitalista de mobilidade é igualmente estratégia de mobilidade forçada. 1997. Para se ter uma idéia. Em vista disso. enquanto atingidas pela Represa de Sobradinho. fato que as empurrou à condição de deslocados compulsórios. 5). mas sem perder de vista a concepção de Jean-Paul Gaudemar. Porém. 17. as vivências. contraditórias ou sobrepostas. valendo-se de instrumentos socialmente criados e compartilhados.” Mobilidade do Trabalho e acumulação do capital. Lisboa. 119). A memória é um processo individual. entre 80 e 90 milhões de pessoas foram reassentados involuntariamente. geralmente. 16) Do ponto de vista de Portelli. acrescentam anualmente a este contingente mais de 6 milhões. (Vainer. p. utilizarei o termo deslocamento compulsório ou involuntário como fator de diferenciação de outras formas de mobilidade de população consagrada na literatura da temática. Grandes projetos urbanos e de vias de transporte. diferenciadas e com implicações distintas para os indivíduos ou grupos sociais que a compõem e a caracterizam” (Salim.. lembranças e recordações são experiências individuais. as recordações podem ser semelhantes. como as vozes — exatamente iguais. ou seja. 1996. Entre 1983 e 1993. convém lembrar as palavras de Abdelmalek Sayad :“a imigração é. p. a migração “tende a assumir feições próprias. Em linhas gerais. 15) Fenômeno social típico do mundo contemporâneo que ganha ressignificações diversas. a bem da verdade.. a memória é social. Embora a percepção da desterritorialização se coloque para além da questão espacial. p. mesmo aquelas socialmente compartilhadas. a mudança no espaço físico é sentida concretamente. ou. 1992. Portanto. Na perspectiva dos 10 Neste trabalho.)” (1998. por sua vez. 1977. os fluxos de população são divididos em dois grandes blocos: deslocamento ou migração e deslocamento compulsório ou involuntário10. . p. (Portelli. são vistas e sentidas de modo muito particular pelos indivíduos. 29 linguagem. as lembranças de duas pessoas são — assim como as impressões digitais. em primeiro lugar um deslocamento de pessoas no espaço e antes de mais nada no espaço físico (. em hipótese alguma. p.

e que derivam de processos sobre os quais eles têm pouca ou nenhuma influência. a migração está relacionada basicamente à mobilidade espacial. p. 5). 07). Iowa (USA). a migração “resulta de um ato de vontade do migrante”11 (Vainer. As vítimas desses deslocamentos são denominadas também em função da motivação: o termo refugiados refere-se aos perseguidos por problemas étnico- religiosos ou por conflitos político-militares e deslocados. São Paulo. como também não se estabelece distinção entre migração externa e migração interna. em todos os continentes. maio/agosto de 1996. Assim. agregando outros importantes fatores às suas causas. A compulsoriedade deriva do fato de que raras vezes ou nunca os deslocados têm a possibilidade efetiva de optar pela manutenção do status quo (Bartolomé. 30 estudos demográficos. Já. Apud Rebouças. Não se põem limitações com respeito à distância do deslocamento. p. que resultaram na construção de obras de infra-estrutura. na Índia. quando escreve: De uma maneira geral. Nesta perspectiva. Assim. Travessia. o deslocamento compulsório deve ser classificado em função de suas causas: decorrentes de conflitos militares ou de perseguições étnico-religiosas e decorrentes de projetos de infra-estrutura. para Cedar Rapids. A violência como fator migratório: silêncios teóricos e evidências históricas. define-se migração como mudança permanente ou semi-permanente de residência. Além da questão espacial. as Organizações das Nações Unidas (ONU) considera como definidor dos deslocamentos de população suas causas e suas motivações. . p. Não é outro o entendimento de Everett Lee. praticamente. p. 1986. O fenômeno dos deslocamentos compulsórios decorrentes da construção de barragens se faz presente. ou à natureza voluntária ou involuntária do ato. considera-se como ato migratório tanto um deslocamento que se processa de um departamento do lado direito do corredor para um departamento do lado esquerdo. os deslocamentos compulsórios são motivados por razões alheias aos grupos sociais que estão neles envolvidos. 99-100). embora seja natural que o início e as conseqüências desses dois deslocamentos apresentem diferenças imensas (1980. como um deslocamento de Bombaim.5-9. desterrados ou ainda desabrigados para os que perderam seu local de moradia e de reprodução social em função dos grandes projetos. 1997. n.25. Conforme dados do Banco Mundial — 11 Vainer questiona essa concepção de migração.

nas entrevistas eles nunca apareceram como sinônimos. o que mais marcou o empreendimento foi o acirramento da questão fundiária. A diferenciação entre os temos tornou-se clara. 1990. A propósito diz o autor: Em várias dessas situações. Tasmânia. a partir de rápida conversa mantida com o sociólogo “ribeirinho” Esmeraldo Lopes (Juazeiro. obtiveram o embargo pela via judicial (Sevá. deve ser pautada pelo respeito e pela valorização de termos êmicos. tira dele diretamente o seu sustento e mantém com o mesmo relações de afetividade. ex. em outros foi a resistência difusa e persistente às relações salariais e mercantis. dá sua localização e a estimativa da população atingida. os opositores conseguiram alterar o panorama eleitoral nacional. além de viver às margens do Rio São Francisco. A enunciação da experiência dos indivíduos. com comandos policiais destacados para intimidar e forçar a remoção dos moradores (p.9. da questão indígena.13 Os termos desabrigados. Esclarecido o que se entende por migração e sua diferenciação do chamado deslocamento compulsório é importante também historicizar os termos usados neste trabalho. janeiro/abril de 1990. . Houve vários casos de repressão violenta. 31 citados pouco acima por Vainer — o contingente deslocado pode atingir a marca de 4 milhões de pessoas por ano. n. Dentro desta perspectiva. Travessia. com base em relatos oficiais e em reportagens. os termos riberinhos e beraderos ou barranqueros serão fartamente utilizados para designar os habitantes do vale do Rio São Francisco. não se faça diferenciação entre os termos. vide: Intervenções e armadilhas de grande porte. a maioria não usa um qualificativo autodefinidor de 12 O quadro aponta 12 grandes “lagos”. num destes. auto-referenciais ou já assimilados. p. Em seu trabalho. 28/07/2003). No entanto. desterrados. independentemente do seu lugar social. o autor aponta que as problemáticas enfrentadas pelos atingidos em diversos lugares se assemelham em vários aspectos àquelas que veremos ao longo deste trabalho. na obra de Kariba). Filipinas. no Flanklin river. e depois. compôs um importante quadro dispondo de todos os “lagos” de hidrelétricas que atingiram os maiores contingentes humanos12. O primeiro será utilizado para designar todo habitante das localidades situadas às margens desse rio e os últimos serão utilizados para designar todo indivíduo que. p. Osvaldo Sevá. a resistência indígena se associou a um movimento guerrilheiro para bloquear o barramento do Chico river. conforme exposto mais adiante. 13 Embora na ampla literatura consultada. 10). em outro. Austrália. explicitando as razões de sua utilização. Mais detalhes.6. ilha de Luzon. deslocados ou ainda atingidos e expropriados são fartamente utilizados pelos estudiosos dos deslocamentos compulsórios e alguns já foram assimilados pelos beraderos.

de modo geral. é o foco deste estudo. da mesma forma. que deslocamentos compulsórios motivados pelas construção de barragens entraram na pauta das Ciências Sociais. Neste trabalho não pretendo lançar mão desse termo. a resistência passiva. termos comumente utilizados pelos agentes governamentais. . convém voltar o olhar sobre os estudos relacionados aos deslocamentos compulsórios e às problemáticas que eles encerram. a situação da população que. expropriados ou atingidos para denominar os indivíduos que perderam suas terras nas margens do Rio São Francisco antes da instalação em Serra do Ramalho. Penso que. Convém salientar que grande parte da literatura devotada à questão foi produzida no âmbito das empresas ou órgãos governamentais responsáveis pelas grandes obras de infra- estrutura. mas fez uma retirada. preferindo o emprego do substantivo retirada. todos os outros traduzem. os termos desterrados. obrigando esses mesmos agentes a buscarem alternativas mais adequadas aos seus interesses. quando em relação aos demais moradores de Serra do Ramalho provenientes de outros lugares. os três serão aqui utilizados. muitas vezes. O termo retirada será empregado quando se fizer referência à transferência da população. 32 sua condição. Explicitados os conceitos e os termos que servirão de ancoradouro da pesquisa intitulada Três felicidades e um desengano: a experiência dos beraderos de Sobradinho em Serra do Ramalho-Ba. evitando denominá-lo de beneficiário ou de colono. mesmo que precariamente. Prova disso é que pouco mais de mil famílias das quatro mil que os agentes governamentais tinham em vista reassentar em Serra do Ramalho. utilizarei o termo reassentado. alguns dos conceitos empregados se encontram em construção. Somente a partir da década de 1980. Em sendo assim. por mais que os agentes governamentais (INCRA e CHESF) tenham feito para fixar os desterrados ou expropriados de Sobradinho no Projeto de Colonização de Serra do Ramalho. nos termos colocados por James Scott —. Explicitando melhor: ele não é um retirante. Portanto. alguns dos parâmetros/linhas de abordagens são ainda incipientes. O processo de fixação das vítimas dos deslocamentos. é denominado de reassentamento involuntário. e deslocados ou beraderos deslocados quando se fizer referência a esses mesmos indivíduos. com exceção do primeiro qualificativo. conforme chama atenção Vainer (1988) e Rebouças (2000). Quando fizer referência a qualquer morador de Serra do Ramalho que recebeu título do INCRA. no limite. Penso que. se fixaram naquele espaço. Em geral. esta produção estava voltada para atender ao chamado “impacto ambiental”. estes resistiram — adotando.

sem dúvida. tornando-se um dos expoentes dessa linha de abordagem. empreenderam uma resistência cotidiana que resultou na permanência da maioria do grupo na borda do lago recém-criado. a pesquisa de Lídia Rebouças desponte também como expoente de um outro parâmetro de abordagem. Partindo do estudo da rede de relações sociais que surge a partir da intervenção do Estado no espaço regional. os “camponeses-ribeirinhos” de Sobradinho. de Guiomar Inez Germani. fazendo emergir as comunidades indígenas e quilombolas. filiam-se os trabalhos que pontuam a emergência de uma nova identidade política construída no interior do Movimento Nacional de Trabalhadores Atingidos por Barragem (MAB). Ainda outra linha de abordagem privilegia o estudo da estrutura fundiária. buscando acompanhar as mudanças sócio-espaciais empreendidas depois da construção da barragem. A perspectiva privilegia a análise das reivindicações empreendidas pelos atingidos. longe de se constituírem em vítimas passivas da ação de um Estado ditatorial. De acordo com Rebouças. a segunda linha de abordagem identificada sinaliza para a existência de diferenciações nas chamadas comunidades tradicionais. eis algumas das linhas e ou parâmetros que se fazem notar. dando ensejo à criação de mais de uma dezena de “núcleos de reassentamentos”. Certamente. o instigante trabalho de Ruben Alfredo de Siqueira intitulado Do que as águas não cobriram. privilegiando a memória dos atingidos. no qual o espaço é tomado como categoria norteadora do . Embora não seja citado e nem conste da bibliografia de Rebouças. O autor analisou e discutiu aspectos do confronto entre o Estado e os “camponeses-ribeirinhos” de Sobradinho. por exemplo. foi um dos pioneiros. A primeira linha de abordagem identificada privilegia o estudo das relações dos camponeses-ribeirinhos atingidos por barragens com as autoridades. 33 Diante disso. Na perspectiva de Siqueira. buscando reconstituir aspectos da condição de vida beradera. Nessa mesma linha. O trabalho Os expropriados de Itaipu. buscando descrever as formas de resistência. cabe perguntar: quais as linhas de abordagens e ou os parâmetros conceituais utilizados pelos estudos empreendidos no campo das ciências sociais sobre os atingidos de barragens? Seguindo as trilhas apontadas por Rebouças. de luta e quais suas diferenças em relação aos camponeses tradicionais. essa linha faz interface com as discussões sobre a transformação do campesinato em relação ao avanço do modo de produção capitalista no campo. apontando para uma transformação no modo de fazer política. inaugura outra linha de abordagem. Um estudo sobre o movimento dos camponeses atingidos pela Barragem de Sobradinho.

de Lídia Rebouças e O que as águas não cobriram. verificadas no Projeto Especial de Serra do Ramalho. com os trabalhos O planejado e o vivido. evidenciando a existência de diferentes temporalidades e de um imaginário em torno de um projeto de reassentamento. de Ruben Alfredo de Siqueira. a resistência passiva de que lançaram mão nas “grovilas da Lapa” e quando da reconstrução do povoado de Barra da Cruz. Consigna Ki-Zerbo que: Indubitavelmente a tradição oral é a fonte histórica mais íntima. mostra que a organização espacial proposta pelos agentes governamentais — assentada no lote/agrovila — subverte a organização anterior dos ribeirinhos. (. 34 convívio de diferentes ordens culturais. evidenciou-se que o confronto era anterior ao deslocamento e que os reassentados já tinham experenciado. reveladoras de dissonâncias e descompassos. mais suculenta e melhor nutrida pela seiva da autenticidade. A partir dela. Os projetos de reassentamento da CESP no Pontal de Paranapanema. Os projetos de reassentamento da CESP no Pontal de Paranapanema. A perspectiva de estudo de Rebouças. representadas. por acreditar no ineditismo das informações colhidas. maior dialogidade. mas porque a natureza das problemáticas levantadas assim o exige. como ressalta Verena Alberti. de outro. provocando da parte destes a rejeição e o abandono das agrovilas. através de Siqueira. . verifiquei que a rejeição ao espaço planejado não era um fato localizado em Serra do Ramalho. Firme no propósito de analisar as tensões envolvendo agentes do Estado e os atingidos. entretanto. muitas vezes. tampouco. em Casa Nova. mantendo. centrada em explorar as contradições entre o espaço planejado e o espaço vivido. p. O planejado e o vivido. de Lídia Rebouças. de um lado. mas uma constante em projetos de natureza semelhante. A escrita decanta.. em outros momentos e circunstâncias.. A leitura da obra de Lídia Rebouças também se evidenciou de suma importância. 18). neste trabalho procurei dialogar com as linhas de abordagens pontuadas acima.) Por mais útil que seja. A escolha desse recurso não se deu por causa de sua escassez. Ciente das palavras de Hans Georg Gadamer: “é preciso que cada qual esteja plenamente consciente do caráter particular de suas perspectivas” (1998. o que é escrito se congela e se disseca. exploradas neste trabalho. pôs em evidência que os agentes planejadores e os reassentados apresentavam diferentes percepções do espaço. nem. mostra com clareza a existência de diferenças no que tange à concepção do espaço e dos diversos modos de representá-lo e. pelos ribeirinhos/beradeiros e. para lembrar o conceito de Mikhaill Bakthin. pelos planejadores. mais que isso. As fontes orais foram imprescindíveis para o desenvolvimento da pesquisa.

a tradição oral ou a oralidade.. que se expressam através de uma matriz narrativa14 própria. de modo a formar um plantel de diferentes vozes. dirigentes políticos. . Implicam também. agentes pastorais. vivenciaram o reassentamento em bases que não lhes permitiram grande margem de manobra. 1970-1980. digamos assim. vivenciado pelos camponeses expropriados — sujeitos desta pesquisa —. Mesmo porque os indivíduos que se constituíram em foco e. parceiros deste trabalho. esquematiza e petrifica: a letra mata. pois. vem se constituindo em importante parceira da chamada história oral e em conseqüência da história social. A perspectiva era fazer um estudo vigoroso da experiência e do imaginário de indivíduos que. mas que.. dos temas. burocratas. Mas não são simples idéias: sua produção e reprodução dependem de lugares e práticas materiais de onde são emitidas. p. Santanna. A tradição reveste de carne e de cores irriga de sangue o esqueleto do passado (. são tributários de uma cultura tradicionalmente marcada pela oralidade (Brito. 1999. p. visando a certos interesses. 1997. o uso de determinadas categorias de nomeação e interpretação (das situações. para além do deslocamento compulsório. 40). “As matrizes discursivas devem ser. 35 disseca. Além de outros aspectos evidenciados no corpo da pesquisa. O número de entrevistados é muito amplo. a exploração dessa oralidade foi capaz de evidenciar a existência de uma consciência crítica da experiência do deslocamento compulsório. Ambas estão imbricadas e caso eu não lançasse mão das fontes orais este trabalho não teria sentido. dos atores) como na referência a determinados valores e objetivos. 20. religiosos.” Quando novos personagens entram em cena. Evidenciar essa matriz narrativa. 143. A existência dessa matriz mostra não só que as experiências são específicas. que ao final culpabiliza as agências governamentais por todas as mazelas acontecidas em suas vidas depois da retirada – do redimunho. não deve ser tomado como uma 14 Eder Sader usa o termo matrizes discursivas. 1988. mas também que os sujeitos sociais criam modos particulares de narrá-las e interpretá-las. que implicam diversas atribuições de significado. mesmo nessas condições. além dos atingidos. em decorrência.) (1982. procurei entrevistar grande número de pessoas que direta ou indiretamente estiveram envolvidas com o processo de construção da Barragem e do assentamento da população atingida: técnicos. p. ao mesmo tempo. 27) Tendo isso em vista. demostraram capacidade para subverter limites e determinações. entendidas como modos de abordagem da realidade. o que merece ser evidenciado e divulgado. fortemente marcada pela vitimização ou culpabilização. Experiências e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo. bem como antigos moradores de Serra do Ramalho e de Bom Jesus da Lapa.

. em relação. o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez (Portelli. Assim. Quem garantiria que os métodos arbitrários utilizados em todo o processo de construção da Represa. 31) Posto isso. ‘Parcialidade’ aqui permanece simultaneamente como ‘inconclusa’ e como ‘tomar partido’: a história oral nunca pode ser contada sem tomar partido. muitos deles corajosamente denunciados em artigos publicados pelo Caderno do Ceas16. quando as arbitrariedades cometidas pelos seus representantes guardavam frescor. sim. de 1976. n. Projeto História: Cultura e Representação. sobretudo.25-39. bem como em relação a aspectos da atualidade. Falar 15 Merecem lembrança as palavras de Alessandro Portelli : “A história oral não tem sujeito unificado: é contada de uma multiplicidade de pontos de vista. ] O único e precioso elemento que as fontes orais têm sobre o historiador. fazendo-se necessária.. a preservação da identidade das fontes. os expropriados de Sobradinho não se intimidam em falar da atuação das agências governamentais no processo que os levou à experiência do deslocamento compulsório. portanto. Algumas dessas pesquisas foram desenvolvidas nos estertores da ditadura militar. não seriam revigorados? Quem garantiria que os entrevistados. em muitos aspectos compartilho dela15 —. p. PUC-SP. Conquanto não solicitasse resguardo de suas identidades. Muitos são eloqüentes em culpar as agências governamentais por todos os desacertos que aconteceram em suas vidas depois do deslocamento compulsório. como um imperativo do fazer acadêmico. set. A medida é compreensível. Sobradinho: ‘um orgulho nacional’?. não sofreriam represálias e retaliações? Na atualidade. historiadores e ‘fontes’ estão dificilmente do mesmo ‘lado’. com exceção de três ex-funcionários da empresa Hidroservice.] Fontes orais contam-nos não apenas o que o povo fez. n. Caderno do Ceas. Salvador. observei reservas e silêncios. mas o que queria fazer. p. convém ressaltar outra particularidade: todos os pesquisadores que recorreram à história oral para estudar questões relacionadas à construção da Represa de Sobradinho não identificaram os entrevistados ou empregaram nomes fictícios. já que os ‘lados’ existem dentro do contador. A confrontação de suas diferentes parcialidades – confrontação como ‘conflito’ e confrontação como ‘busca pela unidade’ – é uma das coisas que faz a história oral interessante”. p. E não importa o que suas histórias e crenças pessoais possam ser.. nenhum entrevistado solicitou resguardo de sua identidade. deve ser tomado.45. A saber: A primeira coisa que torna a história oral diferente é que ela nos conta menos sobre eventos que sobre significados [. 16 Por exemplo: Paulo Marconi. ao papel desempenhado por figuras regionais ou locais de proeminência.39. O que faz a história oral diferente... e quem nenhuma outra fonte possui em medida igual é subjetividade do expositor [. alguns deles com pendência junto a CHESF. 1997. e a imparcialidade tradicionalmente reclamada pelos historiadores é substituída pela parcialidade do narrador. 36 ressalva às narrativas dos camponeses — pois. 1997.14./out.

traumática. traz incômodo. Mesmo em relação ao período delimitado. p. Poderíamos dizer que falam com as mãos e com os olhos. os participantes vêem-se agir e gozam desse espetáculo livre de sanções naturais (Zumthor. senão no mais sacral. devo reconhecer que seu estudo apresenta algumas limitações. desviam os olhos ou abaixam a cabeça. sinalizando que o assunto se encontra em zona perigosa. A narrativa da maioria dos entrevistados sempre foi carregada de emoção. Em geral. por motivos os mais variados. gera desconfiança e incertezas. . vivem em constante tensão. os beraderos falam de “portas travessas”. em meados de 1989. por uma razão ou outra.. negando o que acabaram de expressar. no sentido mais grave. desse termo. Quando determinados assuntos considerados tabus. José de Souza Martins afirma que os camponeses falam com as mãos (1985. Não é por outra razão que meu corte temporal em relação à experiência dos desterrados de Sobradinho compreende o deslocamento compulsório até a emancipação do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. 1993. faz-se necessário cautela no uso das falas e na caracterização dos entrevistados.. para além do conteúdo das narrativas. traumáticos os deslocamentos compulsórios provocam modificações nas formas de vida dos atingidos que vão muito além dos aspectos econômicos. toda a atenção deve estar concentrada na performance do indivíduo que fala. entram em pauta. 123).) Espelho. No caso de Sobradinho. sociais e culturais. A performance é jogo. A correspondência entre as mudanças provocadas pelo deslocamento e o redimunho não é uma simples metáfora. as perdas afetivas e as perturbações psicológicas deixaram marcas e são irreparáveis. Quando se sabe que muitos dos atores envolvidos — técnicos e membros das elites locais — vivem ou têm parentes na área. p. 240). Seria um despropósito que este trabalho resultasse em constrangimento para os entrevistados ou fosse usado para fins de interesse político pelas forças em confronto no município de Serra do Ramalho ou mesmo em Casa Nova. 37 sobre o presente. Tendo isso em vista. desdobramento do ato e dos atores: além de uma distância gerada por sua própria intenção (muitas vezes marcada por sinais codificados). provocando silêncio e desconfianças. sobretudo em municípios que. de denúncia. A implantação do Projeto Serra do Ramalho foi considerada. sombria que é de bom tom dele se distanciar. de indignação e de temores. (. por todos que vivenciaram o período.

Em Serra do Ramalho. jamais. Pelas mesmas razões. . O certo é que todo 17 Aqui talvez seja importante reproduzir as palavras de Ernesto De Martino: “Reabrir um diálogo entre dois mundos. porque de outro modo o padre nunca contaria a mim coisas que preciso saber. Projeto História. era a funcionária do INCRA a quem pediam lotes ou reclamavam contra as injustiças cometidas à época do reassentamento. Forma e significado na História Oral: a pesquisa como um experimento em igualdade. Mesmo informada da tensão existente na localidade. Para a população das comunidades rurais. Humilha- me tratar pessoas de minha própria idade. Em relação a esse aspecto diz Alessandro Portelli: “Entretanto. para quem e por quê” (2001. Quando sua identificação se fez necessária. Humilha-me quando eles me tomam – como tem acontecido – por um agente fiscal ou por um empresário de espetáculos teatrais viajando pela Lucânia em busca de músicos e cantores.22).7-24.13. os seres humanos. Não foi sem pesar (sentia-me humilhada e impotente) que me esforcei por desfazer as ilusões17. lancei mão de nomes fictícios. não achei conveniente trazer. Por razões óbvias.me papéis os mais variados. falarão sem tentar idealizar uma teoria sobre o que eles estão falando. não identificar os narradores. p. Humilha-me ser compelido em certas aldeias a evitar os comunistas locais. Para outros. 1997. pudesse reparar as perdas que sofreram no passado. que há muito deixaram de se comunicar. bem como não nomear os agentes governamentais ou membros das elites locais envolvidos no contexto de algumas falas. eu era a “reportista” que noticiaria a situação de penúria e violência a que estavam submetidos. maiores informações sobre os entrevistados nem identificá-los através de fotos. 38 Sensível ao silêncio e à performance da desconfiança e da indignação evidenciada em uma significativa parcela dos entrevistados. nas entrelinhas. Embora em cada agrovila a que chegava explicasse para as pessoas abordadas meu vínculo com a universidade e o interesse que me levava a entrevistá-las. Portanto. a categoria pesquisador não faz o menor sentido. em alguns momentos. é tarefa difícil e ocasiona humilhações veementes. A abordagem das pessoas e como elas receberam meu interesse pela sua experiência de vida merecem ser explicitados. Os entrevistados da sede do município de Casa Nova demonstraram. PUC-SP. minha presença estava ligada a interesses políticos que não sabiam ao certo precisar. Meus primeiros contatos em Serra do Ramalho ocorreram sem mediação de nenhuma ordem ou instituiçao. dissimular até mesmo com eles. quase de experimentação. atribuíram. incluindo ‘informantes nativos’.10. a esperança de que. como objeto de pesquisa científica. cidadãos de meu país. ora como agente da oposição. Para um. todos resistiam a ver- me como pesquisadora. resolvi.” Apud Alessandro Portelli. mantive a identidade de figuras públicas e de autoridades governamentais. n. em geral de baixa escolaridade. viajei várias vezes para Serra do Ramalho “com a cara e a coragem”. p. para o corpo do trabalho. sendo funcionária do INCRA. para um terceiro grupo. p. Ora era tomada como agente do prefeito.

. a zona rural do município. Salvador. a situação não parecia menos tensa. Os três povoados ficam situados no extremo do município. Na verdade os povoados. p. Pau-a-Pique e Barra da Cruz. Embora a incursão pelo município de Sobradinho tivesse sido bastante tranqüila. 18 Há um mapa que inclui todo o Médio e Baixo-Médio São Francisco no polígono das drogas. distantes mais de cem quilômetros de sua sede e só há comunicação segura entre eles em dias de feira. além de abrirem algumas portas. 22/6/2003. Em julho de 2000. sendo desaconselhável viajar pelos povoados desacompanhada e sem referências. A situação não era muito diferente da anterior e o trabalho não se mostrou satisfatório. embora ficasse restrita aos municípios do Baixo- Médio São Francisco. não acreditavam nos meus propósitos confessados. viajei para a sede do município. viajei para a região a fim de colher material e contatar indivíduos que viveram em Serra do Ramalho. originários de Serra do Ramalho. Em janeiro de 2001. que. Para minha surpresa. Estava por demais ansiosa para conhecer a experiência das pessoas que abandonaram Serra do Ramalho. Nos meses que antecederam ao termino da pesquisa. Em razão do clima eleitoral. militantes da Pastoral da Criança. conheci um grupo de estudantes do curso de Letras do Departamento de Ciências Humanas de Caetité. A empreitada se mostrou infrutífera. catequistas. conheci algumas lideranças comunitárias — professores. a investida combinada de forças do Exército e da Polícia Federal. Diante das dificuldades. nos núcleos construídos na beira do lago. segundo essas informações. Ainda assim. de Rita Conrado. tornaram minha presença no município menos insólita e descabida. tencionando fazer contatos na Agrovila 9. em razão da distância. viajei para Serra do Ramalho. embora situados no município de Casa Nova. mantém estreita relação com o chamado polígono da maconha18. estabeleci contato com o pároco local e. Tinha a intenção de colher entrevistas nos povoados de Bem-Bom. através dele. Na área da Represa de Sobradinho. em Juazeiro. 8. no fundo. mostrando-se simpáticas e solícitas. na sede do município. onde lecionei. pouco antes do início oficial da campanha para prefeito municipal. deixara certa apreensão na área. A Tarde. Recuei. 39 momento meus reais propósitos estavam sob suspeição. buscando. retornando a Serra do Ramalho em fevereiro de 2001. estão estreitamente vinculados à cidade de Remanso. etc. Um pouco antes de concluir o trabalho de campo. as desconfianças pareciam maiores que nas demais agrovilas. na matéria Cerco ao polígono da maconha. Assim. empreendida naquele ano. — que se revelaram mediadores. Mesmo as pessoas que me acolheram em suas casas. a reconstrução de seus antigos modos de vida. fui aconselhada a não visitar os povoados de Casa Nova.

Como eu insistisse. D. dentre os povoados do município de Casa Nova. Impressão ou não. o conteúdo das entrevistas é de uma riqueza incomensurável. viajei para Bem-Bom. acrescentando. Em 2003. Segundo informações. Recorri. que todas haviam mudado para Remanso. ciceroneada pelo vereador José Eduardo Nascimento da Cruz. Expliquei-lhe uma vez mais minhas motivações. ela não se encontrava no local. criada em 1938. munida das referências indicadas por uma agente da Comissão Pastoral da Terra. além de retornar aos povoados de Barra da Cruz e Pau-a-Pique. Pouco mais tarde. Bem-Bom é o que guarda maiores relações com o polígono da maconha. na localidade “respira-se um ar” de tensão e desconfiança. dando a impressão de que moravam longe. Infelizmente. parti. ela me levou à casa de um vizinho que era cunhado da proprietária da pensão. Infere-se dessa experiência que falar do passado. Em fevereiro de 2002. seja em Serra do Ramalho ou em Bem-Bom. Disse não se lembrar de ninguém no povoado que tivesse morado em Serra do Ramalho. voltei ao município e. A maioria das pessoas. falar do tempo da “Dona CHESF”. e por Gilmário Moreira Brito — pesquisador que esteve na área. e perguntou-me sobre a razão da minha curiosidade. Procurei-as. Miquelina veio se juntar ao irmão entrevistado e contou que o caçula da família tinha sido assassinado em Serra do Ramalho. Não obstante as desconfianças. Depois de entrevistar a primeira pessoa indicada. Parti para o povoado munida de uma única referência. ao auxilio da proprietária da pensão onde fiquei hospedada. do silêncio e do medo. certamente as conseqüências de minha . Ela me falou por alto onde se encontravam. então. logo após o sufocamento do Movimento de Pau-de-Colher19. gentilmente. melhor dizendo. começou a citar outros nomes. não é tão temeroso quanto abordar aspectos do passado mais recente. investigando o Movimento de Pau-de-Colher —. a seguir. o esposo de D. A forma como se deu meu acesso aos entrevistados em Bem-Bom merece esclarecimento. 40 recuei. fazendo apenas algumas entrevistas e consultando o acervo da biblioteca pública municipal. solicitei indicações de suas casas. Miquelina se mostrou bastante reticente. vive sob o signo da violência. Ela não se mostrou convencida. em locais inacessíveis. em ambos os lugares. Mesmo aqueles indivíduos que se mostraram ressabiados em relação ao meu interesse pelas suas experiências de vida — temendo. Disse-lhe que queria contatá-las e. para o povoado de Pau-a-Pique e de lá para Barra da Cruz. Embora fosse de uma simpatia a toda prova. Citou o nome de algumas pessoas.

. Aquela a gente ia batê nela de cansação [arbusto espinhoso que ao contato irrita a pele]. Fiquei na expectativa. não via e não vejo razão para determinar o número de entrevistas a serem coletadas. Pau de Colher na letra e na voz. tornaram-se receptivos e falantes. religiosa e de modos piedosos.. teria identificado uma ex-funcionária da antiga ANCAR-BA que trabalhava na Coordenadoria de Ação Regional (CAR). papéis não muito louváveis20. vocês não vão confiá na beira do rio. Cientes disso. disse. se ela aparecesse aqui. porque foi quem mais iludiu o . Tenho uma raiva daquela mulher. Para citar um exemplo. peremptoriamente. Qual não foi minha frustração. 1998. transferência para outros órgãos e ou localidades diferentes. 20 Vejamos a narrativa de uma entrevista tomada por Ruben de Siqueira: “Vicente (Grupo de Aldeia-Sento Sé) – Uma doutora C. mas. quando. que deu graças a Deus quando soube que um dos advogados. 41 presença na área —. ao sermos apresentadas. cito um fato que aconteceu no Centro Administrativo do Estado da Bahia. Não bastassem as dificuldades decorrentes de mortes. sem reservas.. não tive a mesma facilidade para contatar técnicos e membros da chamada equipe social da CHESF nem da Associação Nacional de Assistência Rural (ANCAR-BA). Aí. dos agentes pastorais e pesquisadores. fundamentalmente.. Para efeito de ilustração. A narrativa do professor Saturnino se revelou de grande importância para esta pesquisa. Passados trinta anos da construção da Represa de Sobradinho e de seus desdobramentos. Quando concluía este trabalho. no povoado de Pau-a-Pique. Não obstante a defesa da definição do número de entrevistas por alguns pesquisadores. de antemão. aposentadorias. através de um colega. Contudo. se ajoguemos lá pro seco (riem). porque trouxe à tona aspectos dos “bastidores” das agências governamentais envolvidas no projeto de construção da Represa de Sobradinho. Vocês vão plantá. responsáveis pelas questões relativas às indenizações. os ressentimentos ainda hoje registrados em relação a elas. qualquer vínculo no passado com o referido órgão. falô: ‘O. identificar essas pessoas foi tarefa das mais espinhosas. pronto. se encontrava em Recife “entravado numa cadeira de rodas”. tive contato com o professor João Saturnino — ex-membro da “equipe social” da ANCAR-BA. muitos desses funcionários buscam o anonimato e o silêncio. ela negou. não só porque corroborou aspectos da memória dos atingidos. a água sobe e desce. uma senhora já avançada em idade. da ótica dos beraderos. Um amigo. não. Importante é que o conjunto de entrevistas traga as informações mais variadas 19 Mais detalhes sobre o movimento de Pau de Colher. Daí. vide a obra de Gilmário Moreira Brito. por intermédio da professora Guiomar Germani. quando se sentiram mais ou menos seguros de que eu não tinha outro propósito senão saber do seu modo de vida na beira do Rio São Francisco e do deslocamento para Serra do Ramalho. essas pessoas desempenharam.

Sem dar maiores explicações. serem estimulados pela entrevistadora. não”. Não deixei de consultar também o disperso (mas variado) acervo das Casas de Cultura e bibliotecas públicas das mais longínquas localidades sanfranciscanas. consultei o acervo da Biblioteca Diocesana de Juazeiro. No processo de garimpagem das fontes escritas. a construção do “maior lago artificial do mundo”. da Bahia. 1992. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Universidade Federal da Bahia) e o acervo da Biblioteca do Museu Nacional. digamos assim. embora bastante reduzida em suas dimensões e campo de atuação. Consultei ampla literatura espalhada em bibliotecas de importantes centros acadêmicos (Universidade de São Paulo. habilidosos. relegando a segundo plano a situação dramática por que passava a população atingida. pessoal. Alguns entrevistados são “narradores natos”. Todas as fontes consultadas foram de suma importância. uma vez que enfatizavam. sem. da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Comissão Pastoral da Terra da Diocese de Bom Jesus da Lapa (localizada na cidade de Santa Maria da Vitória). praticamente. Pesquisei também a hemeroteca dos jornais Folha de São Paulo e A Tarde. Informada de que a Empresa Hidroservice. basicamente. Do que as águas não cobriram: um estudo sobre o movimento dos camponeses atingidos pela Barragem de Sobradinho. Foram coletadas aproximadamente sessenta e quatro entrevistas. embora se mostrassem habilidosos e falassem com desenvoltura. mas pouco mais de uma dezena foi utilizada exaustivamente neste trabalho. O conteúdo das entrevistas mais exaustivamente trabalhadas é extremamente rico. tiveram de ser estimulados. tive acesso a material bibliográfico e documental de importância. o gerente da empresa não autorizou a consulta. visando consultar seu rico acervo sobre o Projeto Sobradinho — como eram denominadas as intervenções na área da Represa. controlando. Comissão Pastoral da Terra da Bahia e Sergipe (CPT – Nordeste I). o curso da narrativa. 235. busquei contato com sua direção. . p. inclusive. outros. Convém salientar que as matérias e as reportagens jornalísticas apresentaram muitas limitações. não foi boa informante. contam suas experiências com riqueza de detalhes. Além das fontes orais. ainda mantinha escritório em São Paulo. 42 sobre os múltiplos aspectos das dimensões espaço-temporais de modo a se formar um painel de abordagens que nos permita compreender de forma detalhada as problemáticas evidenciadas. em consonância com o discurso oficial. Em vão. bem como a hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.

sendo recebida pessoalmente pelo seu coordenador José Teodomiro Araújo. intitulado Que Solução É Essa? O segundo é o artigo O Brasil real reconstituído. bem como os descompassos e dissonâncias verificados entre os agentes do Estado e os beraderos. as rupturas e as urdiduras colocadas em questão pela vida cotidiana das populações silenciadas. Especificamente sobre a questão. Bahia. Brasil (1964-1990). para a história social o desafio de continuar perseguido as nuanças. . que aliás tem um rico acervo sobre Sobradinho e Serra do Ramalho e também o acervo da Comitê Estadual de Estudos Integrados da Vale do São Francisco (CEEVASF). Experiência de colonização em Serra do Ramalho. defendida na Universidade Nacional de Brasília em 1982. de Marcel Bursztyn. O terceiro. entre as décadas de 40 e 50 do século passado e empreendido pelos governos militares. Ao tornar público aspectos da experiência dos atingidos da Represa de Sobradinho que foram transferidos pelo INCRA/CHESF para o Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. Conquanto exista material razoável sobre a construção da Represa de Sobradinho. este trabalho se propõe a contribuir para a reconstituição de importantes fatos que marcaram a história do sertão do São Francisco e também do “projeto desenvolvimentista” elaborado. colhendo material que atenderam as perspectivas encetadas pela minha temática/problemática. a literatura sobre o deslocamento da população da área da Represa para Serra do Ramalho é escassa. Estive também na biblioteca da CHESF em Paulo Afonso e no escritório da empresa em Salvador. as fricções. consiste na dissertação de mestrado de Brancolina Ferreira. abordando basicamente a estrutura fundiária da área do Projeto Especial de Colonização. 43 Consultei o acervo do INCRA em Brasília e Salvador. O primeiro trata-se do Relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) assinado por Tânia Cordeiro e apresentado apresentado no encontro da entidade realizado em Goiânia. tive acesso apenas a quatro trabalhos. Consultei a Biblioteca do SEI. grosso modo. apontando. O último que apresentou relação mais direta com a perspectiva que adotei nesta pesquisa é de autoria de Guiomar Germani intitulado Cuestón agraria y asentamiento de población en el área rural: La nueva cara de la lucha por la tierra. uma vez mais. Bahia. colhendo material que compreende desde relatórios e plantas a fitas de vídeo e folhetos. O Estado e a reprodução da pequena produção: reflexões em torno de um caso de colonização compulsória.

44 A felicidade era aqui. bem na berada do Rio Alvarina – Ibotirama .

Tal preferência deve-se a vários motivos entre os quais destaco os dois mais importantes. É a partir das categorias sócio-econômicas que emergem os qualificativos: camponês.. a categoria econômica pequena produção mercantil.] para designar as formas não capitalistas de produção na agricultura. pequena agricultura. pequena produção mercantil. uma vez que o termo camponês tem origem naquelas formações sociais européias correspondendo às suas especificidades.. em que pese polêmicas. adotando. 45 CAPÍTULO I ANTES DO REDIMUNHO – AS TRÊS FELICIDADES 1 . as categorias sócio-econômicas assumem denominações variadas: campesinato. sociais e culturais tão diferentes como o russo. Dependendo da linha à qual se filia o pesquisador/estudioso. em razão do reconhecimento de que o termo campesinato é estranho à “formação social brasileira”. o alemão. Ele explica: [. e o brasileiro do outro. de um lado. Em primeiro lugar. econômicos. para não confundir processos históricos. agricultor familiar ou simplesmente agricultor. o francês. No Brasil. para designar as relações sócio-econômicas verificadas no espaço sanfranciscano. Em segundo lugar. e não às da formação social brasileira. A discussão vem à baila somente por uma questão de operacionalidade. Em que categoria se pode inscrever os atingidos que viviam as margens do Rio São Francisco antes que fossem surpreendidos pela Barragem de Sobradinho? Ressaltando sua filiação ao eixo de análise dos processos econômicos das sociedades camponesas. ao invés do termo camponês ou produção camponesa preferimos a expressão pequena produção mercantil [grifos do original]. pequeno produtor rural. Paulo Sandroni o rejeita. estes são apreensíveis/operados através das categorias sócio-econômicas. Contudo. as categorias sócio-econômicas carecem de precisão e de aprofundamento. não é meu propósito focar as discussões orientadas para esta questão. a expressão pequena produção mercantil é mais apropriada por . De modo geral. agricultura familiar.As três felicidades O modus vivendi e o modus operandi do homem do campo constituem importante área/viés de estudos para as ciências sociais e econômicas.

Ghislaine Duque (1984). pelo fato de ter o controle da terra. como dispor dos excedentes (Cardoso. saberes. a categoria campesinato é ainda bastante fecunda. Moura salienta que o camponês integra-se à sociedade. o campesinato é marcado por práticas. 1979: 30). denominado de camponeses ou camponeses-ribeirinhos os agentes que são os sujeitos/objetos desta pesquisa. Frederico de Cavalcanti Freitas (1990) e Marco Antonio Ortega Berenguer (1984) adotam a categoria sócio-econômica campesinato. isto é. subordinando-se “à lógica econômica do capital industrial” (idem). Para a antropóloga. Ele luta por formas culturais e sociais próprias de organização. 46 enfatizar a determinação econômica dessa forma de produção. Ana Daou (1988). (Sandroni. possuir capital. b) trabalho predominantemente familiar (o que não exclui. vistas como estranhas pelos demais membros da sociedade que o envolve (Moura. o camponês guarda singularidades em relação a outros grupos sociais. A antropóloga agrega mais dois fatores diferenciadores do camponês em relação a outros grupos sociais. sua vinculação com a produção capitalista “latu sensu. p. Em suma. 4-5). . suas articulação com o mercado. o recurso à força de trabalho adicional). relações e concepções particulares. c) economia fundamentalmente de subsistência. p 8). muitas vezes. Lygia Sigaud (1987). 1986. 1982. sem excluir por isso a vinculação eventual ou permanente com o mercado. p. 20). nas decisões sobre o que plantar e de que maneira. Além do mais. seja mediante algum usufruto. de Margarida Maria Moura. trabalha para o capital. e portanto. constituindo-se em importante instrumento de análise das organizações e relações produzidas no campo. contudo. Também Ciro Flamarion Cardoso estuda o campesinato. Do que se pode depreender da obra Camponeses. traçando-lhe as principais características: a) acesso estável a terra. Ana Luiza Martins-Costa (1989). seja em forma de propriedade. mas não se confunde com o operário. Em relação ao último aspecto. Rubem de Siqueira (1992). não remunerando os auxiliares sob á ótica capitalista (1986. por ser o agente das discórdias no que toca ao papel desempenhado nas revoluções que implantaram ou derrubaram a ordem burguesa. por contar no trabalho com a ajuda da família. o camponês possui relação direta com a terra e é profundo conhecedor da natureza. sem. guardando com a ela relação de intimidade e de devotamento. sem ser nem se colocar como outro povo ou outra cultura. em certos casos. d) certo grau de autonomia na gestão das atividades agrícolas. ou seja.

Embora demonstre empatia pelos beraderos. pontuando. de outro. sem usufruir qualquer benefício de comunicações de massa. 36). Sandroni caracteriza a agricultura por eles praticada como “atrasada.. sua mentalidade não pode evoluir. sobretudo. seus contatos humanos restritos ao seu próprio nível. p. sem aspirações. Na concepção dos primeiros. em um saber fazer e num sentir muito específico. 47 Reconhecendo a vitalidade da categoria campesinato e da sua força histórica. tenuamente articulada com o mercado e em grande medida voltada para a subsistência dos produtores (. O modus vivendi do beradero estava referenciado não só em um fazer. ou seja. convém ressaltar o registro de duas visões bastante contrastivas e. conservando-se primitivo. Analfabeto. Transpondo o velho camponês para as barrancas sanfranciscanos. mas. p. enquanto evidenciadoras dos descompassos e das dissonâncias verificadas entre os sujeitos sociais das comunidades ditas tradicionais e “atrasadas” e os dos “adiantados” citadinos. . O beradero praticava plenamente o que hoje se convencionou chamar de pluriatividade. colocadas no plano da busca da satisfação das necessidades imediatas. conformado e dominado pelo pavor do desconhecido. Peltier de Queiroz assim descreve o barranqueiro sanfranciscano: [. conforme salienta Moura. dos próprios beraderos. Convém esmiuçar em que consistia o modo de vida beradero. eu tenho um grande afeto por ela” (1999.. neste trabalho opero com ela. contudo. ao mesmo tempo. exemplares. de baixa produtividade. todas elas operadas a partir do rio. 63).] é o homem totalmente condicionado ao rio que tudo lhe dá. a vida beradera era marcada pela carência e pelo isolamento.)” (1982. esmiuçar o seu modus vivendi.. de valores. De um lado. pois são suas águas que fecundam a terra ressequida. a singularidade das relações protagonizadas pelos beraderos no espaço sanfranciscano. certamente ele confessaria seu afeto e amor pelo Velho Chico. De antemão. com os vizinhos e nas feiras. Em que consiste essa singularidade? Ela reside em um modo de vida e em uma cultura profundamente marcadas por uma relação de dependência e de afetividade com o rio. Ele compreende um conjunto de práticas. Vive isolado e auto-suficiente. bem como sensações e percepções. temos a visão de especialistas e de técnicos e. sem poder aquisitivo. de relações sócio-econômicas e culturais. No mesmo diapasão e com a mesma empatia surpreendida em Sandroni.. Carlos Rodrigues Brandão surpreendeu em São Luiz do Paraitinga um camponês que lhe confessara ser “muito amoroso com a terra.

na verdade. por afeição — o VELHO CHICO. 108). 1987)21 As narrativas dos beraderos colocam-se em outra perspectiva. que o confortam. p. sem qualquer suporte na realidade da vida social. o beiradeiro é meio boêmio na maneira de enfrentar a sua desgraça. p. agarra-se ao rio. do ponto de vista capitalista. . construção esta montada a partir de sinais negativos escolhidos por oposição a um suposto cidadão de primeira categoria. pois. É partindo desse raciocínio que de suas narrativas despontam a afirmação de que a vida beradera era marcada pela fartura e pela abundância. recorro às praticas atrasadas de produção? O relevante é que gozo de autonomia e retiro dela tudo que preciso para a reprodução de minha sobrevivência”. Além de tudo. 1983. Se o peixe custa a beliscar o anzol.” Efeitos sociais de Grandes Projetos Hidrelétricos: As barragens de Sobradinho e Machadinho. sim. p. ligado aos meios de comunicação. “O ‘barranqueiro’ que aparece nessa carta de [Eunápio Peltier]. ele amarra a linha no dedão do pé e estira o corpo no barranco. com justa razão. profundamente sentimental para com o seu rio. 99/100. ambas contestadas pelas afirmativas de Wilson Lins que seguem: O beiradeiro tem a displicência sardônica dos que se cansaram de plantar para o rio comer. ressaltando aspectos que técnicos e especialistas negligenciam (apontando mais uma vez para o descompasso cultural): a natureza dadivosa do rio que tudo lhes oferece em abundância. que vivenciou a experiência do deslocamento compulsório da área de Sobradinho — como a desmentir as desairosas afirmativas de Lins —. é uma construção ideológica. Com a comida garantida pelo peixe próximo e nem sempre fácil de pescar. ou seja. também desenraizada do concreto da vida social. Tudo o que diz 21 Analisando a concepção dos beraderos expressa na carta de Peltier de Queiroz. 48 Assim. mas que continuam plantando (embora sem grandes esperanças) por não terem outra coisa a fazer. a rigor. Estes. 106). do cidadão urbano. “devotados à terra ingrata”. cultural e economicamente do resto do país (CEEIVASF. Aliás. um ser desvinculado. é como se dissessem de si e para si: “que me importa se. com enorme saudosismo. o escritor sanfranciscano não nutre pelos beraderos a mesma simpatia devotada aos “caatingueiros” e “brejeiros” (Lins. 1987. 9. a partir de um conjunto de sinais positivos que compõem a imagem. Lydia Sigaud afirma que ali o beradero é visto como cidadão de segunda categoria e percebido da mesma forma como o colonizador “civilizado” vê o “primitivo” das sociedades tribais. para tirar uma soneca enquanto o ‘dourado’ ou ‘caborje’ se decide a ser fisgado (1983. n. é. A vida nos antigos povoados beraderos é rememorada pela maioria dos entrevistados. voltado para os contatos diversificados. que lhe assegura a sobrevivência e às crenças. verdadeiros titãs dos inóspitos sertões do São Francisco. Socialmente. Comunicação. alfabetizado. Quando enaltecem a vida nas beradas sanfranciscanas.

Era três . a gente puxava pra vazante de lá. Fartura era muita. Fartura e ventura camponesa. .a gente tinha três felicidade”. ou pra beira do rio.. Cultivava nas ilhas. p.. A gente mesmo aqui mudava pra dentro da ilha. Esse tempo a gente não tava sentindo sede. 150). Felicidade. Avelina enumera as felicidades do beradero. Quondo acabava uma. Olhe. Para ela. Em entrevista marcada pela valorização da vida “livre e farta” nas barrancas sanfranciscanas. enfatizam os entrevistados. 26/11/2001. 1992. 2000. 49 respeito à experiência nas barrancas sanfranciscanas é supervalorizada e “cantada em prosa e verso”. em comparação ao inferno da vida cativa das agrovilas de Serra do Ramalho. aonde tinha água. O que as águas não cobriram. 1992. nos lameiro e nas catinga.22 Dentre os pontos que se afirmam com superioridade. .24 João Paulo. Siqueira. inexistia. A gente. que regulariza o fluxo do lago em razão de interesses energéticos. a fome. a gente tinha treis movimento de trabaio na vida da gente. 23 Expressão colhida da obra de Charles d’Almeida Santana. em contraposição à infelicidade da vida atual marcada pela dependência das chuvas (caso dos moradores de Serra do Ramalho) e da CHESF (caso dos habitantes da borda do lago). quando morava aqui. . Nunca faltava comida. destacam-se a disponibilidade de recursos naturais — “livre acesso” à terra e à água — e a abundância de víveres. em entrevista tomada por Ruben de Siqueira. tinha outra.A gente tinha três modo de cultivo. na medida em que desorganizou a base ecológica da relação entre o rio e o homem. 149.Como assim? Quais as felicidades? . essas eram em número de três. porque. vai no mesmo diapasão. Desse modo. parte de uma avaliação pontual negativa da situação presente e busca seu positivo contrário na situação passada” (Siqueira. p. 24 Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. Não é por outra razão que a maioria dos entrevistados associa a vida nos antigos povoados beraderos à felicidade. fazendo referência a três movimentos de trabalho. a gente tinha a roça da vazante e tinha a pesca na lagoa. quando caía mesmo a seca. diz Ruben de Siqueira: “Percebe-se uma tendência ao exagero da qualidade do antigo modo de vida. para sublinhar o contraste com a atual. campeando a fartura e a ventura camponesa23. tinha água. porque 22 A propósito da supervalorização da vida no espaço beradero. porque a gente quando era na seca. superestimar a perda com a barragem e incriminar os responsáveis”. A propósito diz Ruben de Siqueira:“Um levantamento feito em depoimentos como esses revela que a idealização do passado. na beira do rio. Felicidade que a barragem veio destruir e arrasar.

p. a pesca era atividade importante. A referência ao São Francisco como o Rio dos Currais perdurou para além do período colonial. compreendendo os lameiros e a catinga. o peixe ficava encantuado ali. Assunte bem. além das atividades agrícolas praticadas nos espaços de produção. tornando. . da mesma situação. porque o rio enchia e o peixe saía das lagoas e vinha pro alagadiço [. tá vendo. já tinha o da outra. 26/11/2001. em parte. a gente tinha aquelas barras. (Siqueira. cortando o sertão e abrindo as chamadas “estradas boiadeiras” (Rêgo. verdadeiro. sinalizando que. o lameiro e colhendo o que se tinha. trabaio de ilha. pode-se afirmar que. como tá qui olhando a roça. a gente. Voltando à felicidade dos beraderos. embora possa haver exagero e supervalorização em relação a um ou outro ponto de suas narrativas. um depois do outro. 50 tinha o lameiro. João Paulo diz: “Tinha.25 A percepção de Celito Kestering sobre as condições de vida da população na área atingida pela Represa de Itaparica é semelhante à apontada pelos beraderos de Sobradinho.. o conhecido aforismo: “no São Francisco o homem seguia o caminho do boi”.. depois que o rio vinha. a condição de vida beradera estava assentada também na “cultura do catado” e na pecuária extensiva — atividade econômica das mais importantes de toda a zona de catinga e responsável. 1945. p. talvez a mesma coisa: cê tinha a roça de sequeiro cheia de planta também. Além dos espaços de cultivo acima apontados e da atividade pesqueira. a gente pegava o tanto de aquilo e deixava ir embora pro rio. no que acabava a vazante. convém não negligenciar. dois na seca e um.] E quando o rio baixava. 130- 131). formando um dos tripés que compunham os “movimentos de trabalho” ou as “felicidades” do beradero do “Velho Chico”. A propósito: 25 Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. 1992.” (idem. e tinha a pesca do mesmo [grifos do original]. o entrevistado Quintiliano arremata: “a felicidade na bera do rio era muita. De tudo tinha um pouco e o de comê nunca fartava”. que se comê o ano todo.. ibidem). o peixe. não faltava trabaio. elas têm fundamento e refletem um sentimento real de perda. Complementando. E quando era no inverno. pela penetração do vale sanfranciscano.. Da narrativa de João Paulo depreende-se que. E tinha o que comê o ano todo. 210). a gente precisava de olhar lá.

mais especificamente. 51 Eu tive a felicidade de chegar na região do Vale do São Francisco antes da Barragem de Itaparica e vivi de perto toda a cultura do homem ribeirinho e de seu relacionamento com o rio. Enfim. como salienta o agente pastoral. Embora não . 152) . Não tinha dinheiro. sem “dinheiro”. Ancorada na percepção “tradicional das normas e obrigações sociais das funções econômicas”. ao sentido moral que elas poderiam ou não conter no espaço beradero.26 A narrativa de Celito Kestering coloca em evidência também um importante aspecto que convém ser ressaltado: a vida beradera era marcada por uma lógica diferenciada daquela valorizada pelos técnicos e por estudiosos que. porque conheço de perto a afinidade do homem com o rio. priorizam o viés das relações capitalistas de produção. digamos assim. com os agricultores e com os pequenos proprietários da margem do Rio São Francisco e digo a você que uma das experiências melhores que eu tive na vida — quando cheguei do Sul e entrei em contato com a comunidade sem ninguém de fora (Nós não viemos em equipe). veladamente ou não. em detrimento de relações outras. No artigo A Economia Moral Revisitada. não-econômicas e as relações de trocas marcadamente capitalistas. 2000. as quais consideradas em conjunto. portanto. podemos dizer que constituem a economia moral dos pobres (Thompson. Lá em Rodelas. p. os índios Tuxá. Várias vezes. foram dois anos de fartura. O pessoal dava a impressão de não ter nada. 26/7/2000. tinham o peixe. dava a impressão que o povo não tinha nada. a “economia moral” rejeitava o mercado. nutro simpatia pelo esforço de aproximação que Ruben de Siqueira fez entre a “economia moral”27 26 Entrevista concedia à autora em Sobradinho. ver uma vaquinha que ele tinha. eu convivi de perto com a Tribo Tuxá. tinham tudo. mais evidenciada quando são vitimados pelo deslocamento compulsório. mas tinha uma vida feliz e farta. eu conheci em Rodelas a fartura. tomar o leite de manhã cedo (misturado com farinha). Citando Thompson: “uma visão consistente tradicional das normas e obrigações sociais das funções econômicas peculiares a vários grupos na comunidade. Então. todo o relacionamento do homem com o rio. no que tange às evidências de relações não capitalistas e marcadas pela valorização da abundância. vejo proximidade à “economia moral”. 27 O conceito de “economia moral” surge no contexto dos estudos de Edward Thompson sobre os motins da fome na Inglaterra do século XVII e XVIII. revelando-se muito interessante na compreensão de um momento de transição entre relações de trocas. No que concerne à condição de vida beradera. Pelo que eu tenho conversado com o pessoal daqui. tinham mandioca. Não obstante a escassez de fontes no que tange às relações de trocas e. eu sei. mas o que eu vivi. Quando eu cheguei. eu acompanhei os agricultores na travessia do rio para a gente ir à ilha pegar capim. Embora “isolado” e vivendo nos limites de uma economia “tenuamente” ligada ao mercado. do sentido de reciprocidade e de uma visão paternalista. mas tinham manga. o homem beradero vivia a autonomia camponesa e tinha à “mão” todos os recursos naturais indispensáveis à sua sobrevivência. Então. a vida lá de Rodelas era idêntica à vida dos ribeirinhos aqui do São Francisco [Sobradinho]. Thompson conclama aos pesquisadores que operam com o conceito a esclarecê-lo e situá-lo. Eu vim sozinho e mergulhei na realidade do homem nordestino lá em Rodelas.

em relação ao sertão nordestino (Prado Jr. 1973. p.191)28. p. Andrade. ali. contudo. como veremos adiante.” A colonização e o povoamento do Vale do São Francisco têm merecido atenção de inúmeros estudiosos. 212). Sobre a busca de aproximações entre o conceito de “economia moral” e as relações de trocas verificadas entre as vítimas das secas no Nordeste.“A terra era a grané.. mas. Berenguer. destacando. aspectos relativos à tão decantada especificidade da estrutura fundiária tenha evidências de manifestações de negação do mercado no espaço beradero. Aqui ressalto as palavras de Frederico Cavalcanti de Freitas: “A relativa autonomia de que desfrutavam as comunidades ribeirinhas explica o porque de sua tênue vinculação com o mercado e conseqüentemente..) em seu significado original (oeconomia) como a organização adequada de uma família. Explicitando melhor. A desarticulação destas comunidades com os centros comerciais era de tal forma que até o momento que precede a construção da barragem. de “ética camponesa” (Siqueira. não se encontrava totalmente apartado do mercado. na justeza das relações de trocas e marcada pelo sentido de reciprocidade. 57. 1992. Significa dizer que o espaço para uma interpretação ‘moral’ a respeito das formas de produção da riqueza social e de seu mecanismo de distribuição – o mercado – está sempre aberto para aqueles que não se conformam aos modelos estabelecidos de (in)justiça social. Sobradinho: campesinato e poder local face à intervenção do Estado. à falta de melhor termo. o sistema de trocas era. em que cada parte está relacionada ao todo e cada membro reconhece as suas várias obrigações e deveres” (1998.. como expressão de uma resistência geral e plebéia aos avanços dos princípios da ‘economia de mercado’. recorro às palavras de Thompson: “(.” Neves. 1984). 1972. praticava relações de trocas que guardavam um sentido muito próximo à concepção de “economia moral”. Ainda que sobejem informações sobre a penetração e a incorporação do Vale do Velho Chico à colônia portuguesa e correndo o risco de ser redundante. o baixo índice de circulação de mercadorias. Saliento aqui o trabalho de Frederico Castro Neves: Economia moral versus moral econômica (ou : o que economicamente correto para os pobres?). 1998. permanece como categoria de análise cuja validade ultrapassa os limites da obra de Edward P. 1942. . 2 . O beradero sanfranciscano. p.. marcante. p. uma economia com baixa monetarização29. 28 Convém salientar que o esforço em buscar manifestações da existência de uma economia moral entre os camponeses pobres brasileiros vem se firmando nas últimas décadas. Economia moral versus moral econômica. diz o autor: “A ‘economia moral’. 52 e aquilo que denomina. 1966. constituindo-se em tema dos mais estudados. portanto. 29 A baixa monetarização da economia praticada entre os beraderos sanfraciscanos e a relativa autonomia dos mesmos chamaram a atenção de vários pesquisadores. não há dúvida de que relações não-econômicas não só eram correntes como valorizadas. convém situar alguns aspectos do processo de povoamento e colonização que hoje compreende a região de Sobradinho. Lins. baseada no forte sentido de comunitarismo. tomando-o de empréstimo a James Scott.. 30. Thompson e é permanentemente atualizada pelas transformações históricas. isto é. sendo a monetarização – índice de circulação de dinheiro – bastante reduzida”. 1990. Pierson.

Mariani. O povoamento da área onde estão localizados os municípios atingidos pela Represa de Sobradinho esteve ligado à expansão da pecuária extensiva e grande parte dela pertencia às sesmarias de Garcia Dias D’Ávila – Casa da Torre. durante os quais se formou uma estrutura fundiária bastante característica. Castelo Branco. uma vez que o dito acesso livre à terra consubstancia ou se circunscreve entre as chamadas felicidades do beradero. o vale era habitado por índios Gês. despovoadas e sem efetiva destinação econômica. p. Quando da penetração do vale do São Francisco. Desde marco inicial de ocupação da área. Queiroz. 53 do Médio ou do Baixo-Médio São Francisco — especificamente dos municípios de Casa Nova. 1988. as sesmarias quedaram abandonadas. p. Também no lado esquerdo do rio São Francisco. 20). Especificamente. Braga. Como conseqüência desta nova conjuntura de crise. 14). Remanso. O início da apropriação das terras da área do Reservatório deu-se entre 1628-1630. com as suas boiadas e as suas ambições. 55). Guedes de Brito — Casa da Ponte — e Domingos Sertão receberam extensos “tratos de terras”. Foram concessões de sesmarias a Francisco Dias de Ávilla. estendendo seus domínios em direção ao interior do Piauí e do Maranhão. no Baixo-Médio São . rompeu-se a unidade dominial primitiva. p. 55). (Ataíde. p. tais como Viana. Enquanto os três latifundiários monopolizaram o sertão e investiram na pecuária. essas sesmarias se fragmentaram e enormes quinhões de terras passaram às mãos de fazendeiros conhecidos na região. Morais Rêgo registra que os missionários encontraram à margem do São Francisco. decorreram séculos. Pilão Arcado e Sento Sé —. “Antes da chegada do homem branco. até a desapropriação e inundação da área pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco. 1988. os colonizadores portugueses encontraram vários grupos indígenas possivelmente vinculados ao tronco lingüístico macro- Gê. Além dos Gês. etc. tomada aos indígenas. 1983. houve período em que se formaram grandes blocos territoriais pertencentes a cada um. na área” (Ataíde. quando foram feitas as primeiras doações sesmariais na região sanfranciscanas. Sento Sé. próximo à região de Paulo Afonso. os Cariris (1945. após seu regresso da primeira bandeira à região. Terminada a euforia pecuarista. Tempos depois e por razões diferenciadas. expulsos pelos vitoriosos Tupis” (Lins.

Remanso. [. no Vale do Rio São Francisco. nas serras úmidas e nas beiras do rio. p.] Estas missões também serviram de repositórios da mão de obra que era utilizada nas épocas de expansão das necessidades de trabalhadores nas fazendas”. . trukás e xocós. através de seu aparelho burocrático/administrativo. em contraposição às fazendas que ocupavam as caatingas. as disputas pela posse da terra no Vale do São 30 “As ordens religiosas que. os colonizadores lançaram mão de aldeamentos capitaneados por missionários. as disputas de terras. aldeamentos indígenas para catequizá-los a ferro e fogo30. ainda hoje. entre outras. na maioria das vezes. Em diferentes momentos históricos as cidades de Pilão Arcado. franciscanos. visando tomar-lhes os pertences ou simplesmente arruiná-los economicamente (Lins. Assim formaram verdadeiros povoados dedicados a uma agricultura de subsistência. negros e indígenas. Para submeter os indígenas. 1945. Nas barrancas do Rio.. 29. 23). Estes povoados situavam-se. de poder político e de prestígio no vale passaram a envolver os potentados da região. Em momentos sucessivos. chefes políticos que não pensavam duas vezes antes de lançar mão da violência para aplicar a “justiça” e atacar os inimigos. pankarorôs ou pankarôs. juntamente com os fazendeiros de gado. p. O homem do interior sanfranciscano. p. Marco Antonio Ortega Berenguer. passou a marcar presença nas áreas mais recônditas do país. p. seus descendentes continuam resistindo às investidas dos regionais em relação ao domínio de suas exíguas terras. os tuxás. 1983. capuchinhos. a presença negra se fez mais ativa. Alguns desses grupos indígenas resistiram bravamente ao avanço do branco colonizador e. foram Carmelitas e Jesuítas. Constituiram-se nos promotores de combate ao nomadismo dos índios e dispuseram-se a catequisá-los. quando o Estado. 1984. 170). Do amalgamento entre brancos. 54 Francisco viviam os coroados ou acaroacis (extintos). Os casos de violência envolvendo fazendeiros no vale do São Francisco tornaram-se bastante conhecidos. o estabelecido junto aos currais. resultaria uma população predominantemente mestiça: o “curibeca” (filho de europeu e tupy) e o “caboclo”. Sento Sé e Carinhanha (todas na Bahia) foram palco de um sem número de conflitos envolvendo os coronéis. através dos negros quilombolas (Rêgo.. nasceu da fusão do branco colonizador e dos indígenas submissos. Nas beradas do São Francisco predomina uma população acaboclada e com fortes traços africanos. ou seja. Embora os conflitos entre os coronéis tenham declinado logo após a Revolução de 30. 79) As disputas envolvendo coronéis na região perduraram até meados da década de 30. fazendo valer o seu papel de mediador dos interesses de diferentes grupos sociais. criando-se uma “raça de mestiços fortes”. Após a submissão e o extermínio dos indígenas. na expressão de Lins (1983. carmelitas e jesuítas instalaram. Luz e Miséria. ocuparam os sertões interiores.

a catinga era considerada livre e. p. de 2003. a área localizada à margem esquerda do Rio São Francisco. suscitaram movimentos. Da narrativa do beradero depreende-se que no espaço sanfranciscano a terra só era considerada propriedade de alguém quando “apossada”. pelo Deputado Gonzaga Patriota. 384. O movimento foi derrotado no Congresso Nacional. ou seja. a região foi anexada à Província das Minas Gerais e. não tinha indivíduo que lhe mexesse. ganharia corpo através do movimento pela criação do estado do São Francisco. No que tange à especificidade da estrutura fundiária do Médio São Francisco. Os conflitos no Vale do São Francisco não envolveram tão somente personagens de carne e osso. em 1827. o “sertão tinha dono” (1999. à Bahia. (1987). ela pode ser sintetizada na assertiva de Antônio Guerreiro de Freitas: “apesar de livre”. sentindo-se distante e abandonada pela Bahia. ficô diferente. vista negativamente. Depois dessa tal Chesf. à Bahia. por um curto período. era “Um chãozão livre” onde se podia “deitar e rolar”. Essa percepção era mais apropriada em relação às áreas de catingas. Nos primórdios do período colonial. em 1824. na década de 80 do século passado. quando demarcada e explorada economicamente. 55 Francisco continuaram a manchar de sangue as águas do caudaloso rio. não. 34). passando depois ao domínio da Capitania de Pernambuco. 1983. tornando-se ainda mais violentas depois da construção da barragem como atestam Sigaud (1987) e Sigaud et al. Remanso) – Isso aqui era um chão livre. envolveram pessoas jurídicas. tirá um pau! (Siqueira. foi anexada. deitá aí e na hora que você bem pensasse. p. Recorro aos beraderos para esclarecer a aparente contradição. . 1992. mas a bandeira da emancipação da margem esquerda do São Francisco continua latente31. gerando com isso sentimento de perda e revolta entre os pernambucanos (Machado. Em represália à Confederação do Equador. pareceram não ter fim. Fulano. De outro lado. O mais recente. livrando de uma cobra e de uma raposa. a população da margem esquerda do São Francisco desenvolveu uma consciência separatista que. Era marcada. 61). cuja capital seria Barreiras. Antero (Igarapé.151-2). por intermédio de agregados. mas da Fazenda remanso podia se entra até pra tira um pau e hoje em dia você não vai tirá à força. em geral. Vá lá tira um pau lá nas terras do Sr. você podia andar aí. Do contrário. um chãozão livre e aí. vez ou outra é apresentado na Câmara Federal. Isso aqui era terra demarcada que num tinha marcação. Em geral. não era marcada. 31 O projeto para convocação de Plebiscito para a criação do Estado de São Francisco. foi apresentado através do Projeto de Decreto Legislativo n. o chamado Além São Francisco. p. do PSB do estado de Pernambuco.

ouvi. 33 Conversa informal mantida entre a autora e D.. mas os beraderos tinham acesso aos seus recursos. a palavra quer dizer que a área era de livre acesso. 14/7/2000. portanto. o sujeito fazia uma roça aqui. etc). Essa área que ela reconhecia não ter “dono”. o seguinte: “A catinga não tem dono”. Quintiliano – Era o seguinte: na catinga. colher o mel. não “apossada” de fato. exatamente sobre a posse de seu espaço de cultivo. inclusive. nas terras da catinga era a grané. em contraposição à área de brejo — que fazia questão de dizer que tinha “dono” — ficava. acessível a todos aqueles que quisessem dela tirar algum proveito (fazer uma roça temporária. Barra. Voltemos à narrativa de Antero: “Era marcada. na imensidão das fazendas — impossibilitando aos proprietários o seu controle —. a todos os brejeiros.era da gente. em resposta a minha pergunta sobre de quem era a área situada distante dali aproximadamente uns quinhentos metros. 56 portanto. 32 No contexto. tirar madeira. achava que as terras já tinha fracassado. parece consensual em todo lado baiano do vale do Médio São Francisco. à madeira. segundo afirmara anteriormente. em geral.. Periquita. distrito de Bonfim.. . ou seja. bem como pelas mediações estabelecidas dentro do quadro de relações clientelísticas e de compadrio. enquanto conversava com uma senhora de idade. A percepção generalizada de que a catinga era “livre e desimpedida” fundava-se (ou funda-se. de uso. Ely – Na catinga era da família? Quintiliano – Não. “não tinha dono”.. Fazia onde queria. Avelina – Na catinga. vigentes em todo o Médio são Francisco. controlado pelos fazendeiros. Falava eu vou fazer roça em tal lugar. acessível. mas da Fazenda remanso (sic) podia se entrar até pra tira um pau”... como no caso de Barra). à “grané”. servindo apenas como área de reserva de lenha e de caça. a área de catinga. Embora situada nos limites da suposta propriedade de um membro de conhecida família sanfranciscana. No povoado de Bonfim — um dos Distritos dos Brejos da Barra —. sendo tida e havida como “terra de ninguém”. dentro dos limites da propriedade dos Mariani33. Avelina – Era onde queria. ou seja. era livre.. O negócio lá era a grané32 D. D. Ele fazia uma roça lá e ficava aquilo mermo. entre outros fatores. porque não explorada. Avelina – Na catinga era da gente (com orgulho). A percepção de que a terra da catinga não tinha dono e que seu uso era garantido a qualquer um. A narrativa é clara: a Fazenda Remanso tinha “dono” e era demarcada.

dito de outro modo. p. 1992. achava que era o dono [grifos do original]. a mão de ferro do fazendeiro se fazia sentir. lançando mão do trabalho assalariado. Aqui era ele e o finado Zé Brabo. a percepção dos beraderos quando à “liberdade de acesso à terra” tinha certa razão de ser. ele mandava mete na cadeia. era o representante. convém ponderar que essa acessibilidade à terra de que tanto se gabam foreiros. e apurava a cera. Nesses casos.Aqui não tinha nada com Zé Brabo. visava estreitar laços políticos e relações de reciprocidades. Zé Brabo tomava terreno do mundo inteiro. não eram cercadas na sua totalidade. E achava que ele podia. sendo maior ou menor. Se o cara cortasse uma palha escondido. na hora. se ele quisesse botá o cara pra fora de lá dessa fazenda.. Zé Brabo era mais pra baixo. 57 Mas a liberalidade patronal tinha limites. Mas. A prática. as terras submersas pelo Lago de Sobradinho eram em sua maioria devolutas e mesmo as propriedades tituladas. bem como o “esquecimento” quanto às relações de agregacia — analisadas mais adiante —. não custa reiterar. Era ele quem mandava. proibindo-se sua exploração comercial.] E era ele quem fazia a colheita da palha todinha aí. em geral. conforme veremos em seguida... ela era sempre mediada pela ação dos grandes fazendeiros e “coronéis”. Geralmente. Quando tinha uma pessoa morando em qualquer lugar. desde que estes fossem limitados ao uso pessoal. fazia disco. Essas terra aqui até o extremo com Pilão Arcado tudo era do Pombo Castelo. Quando os recursos naturais se prestavam à exportação — caso da carnaúba — ou eram utilizadas como bem de valor de troca — caso das lagoas extremamente piscosas ou das minas de sal —. posseiros ou agregados se situava muito mais no nível das relações clientelísticas do que propriamente numa acessibilidade irrestrita. uso aqui tomando-a de empréstimo de inúmeros estudiosos do campesinato nordestino. 174). ele botava. ou do “cambão”34 — caso dos agregados — e da meação. [. um molho de palha. . Afinal. essas coisa. em decorrência dos laços estabelecidos com a elite política local. os fazendeiros fraqueavam aos seus clientes acesso livre às suas propriedades e aos recursos naturais nelas existentes. Não obstante os exageros em relação à liberalidade do fazendeiro e ou do “coronel”. a cera tinha grande utilidade. em geral. aqui ou em qualquer parte aí. a cera de carnaúba. Tudo era dele. na cidade.. todo lugar aí. os fazendeiros exploravam diretamente ou através de capatazes ou administradores os recursos naturais. 34 Em nenhum momento durante as entrevistas essa denominação foi citada. (Siqueira. aqui nessa terra.

três tipos de bens fundiários: fazendas com cadeia sucessória plena. Os latifundiários conheciam o tamanho das suas terras. envolvendo o coronel Flanklin Lins de Albuquerque e os Correia e pouco mais tarde entre o primeiro e Leobas França Antunes. explorando-a o máximo que suas condições econômicas permitissem. Esta categoria dominou. a acessibilidade à terra no Vale do São Francisco só era franqueada dentro de um quadro de relações que não punha em questão a estrutura fundiária da região. b) Os proprietários em condomínio: Estes podiam ser fruto de desmembramento das sesmarias. em geral. o questionamento à estrutura fundiária. de quadros pertencentes aos próprios fazendeiros ou lideranças emergentes (disputas por causa das “estremas” e de prestígio político. Estes cobravam pelo uso. Dividindo os exploradores das terras do São Francisco em categorias. além dos lameiros — faixa de vazante. em serviços gratuitos prestados pelo próprio lavrador. uma “renda” da terra que poderia ser em dinheiro. p. fazendas das quais existia apenas documentação referente ao direito de posse e outras que por não resguardarem titularidade. pela herança ou quaisquer outras formas. As disputas ocorridas em Pilão Arcado. ela reforçava as relações de poder e de mando dos latifundiários. segundo Yara Ataíde. o setor jurídico da CHESF discriminou. 58 Nesse sentido. Berenguer assim os classifica: a) Os latifúndios propriamente ditos: aqueles que. como pagamento pela ocupação de uma porção de terra. entre outros). no médio São Francisco vastas áreas até o sul do Piauí. ‘A propriedade em condomínio é resultado das partilhas de heranças nas velhas fazendas. não outro. por herança ou concessão. 1983. que se constituía basicamente. com a diferença de que desconheciam o tamanho da propriedade. Cercava quanta terra sua capacidade lhe permitisse trabalhar. (Ataíde. 1988. terras de domínio particular e área de domínio público. e em seus domínios aceitavam a presença de lavradores e demais trabalhadores da terra. em geral. são exemplares em relação a isso (Lins. 71). compreendiam. quando da desapropriação da área para a construção de Sobradinho. ou através de serviços gratuitos instituídos pelo chamado “cambão”. em espécie. ilhas e ilhotes. exploram a terra com as fazendas de gado. voltaram ao domínio público. partia. à falta de termo mais apropriado. no interior das catingas. os bens fundiários do Baixo-Médio São Francisco. p. digamos assim. Assim. destas últimas categorias. Exploravam a terra através das fazendas de gado. ou da compra de uma fazenda dessas por várias . mais que isso. pertencentes à União e chamadas áreas de Marinha —. 69-75). Baseado em critério de titularidade — consagrada no direito agrário brasileiro —. Nessa perspectiva.

002 ou CR$0.74) As áreas de domínio público constituíam fazendas localizadas no interior da catinga com testada ou não para o rio e as áreas de vazantes. Estas terras (ocupadas pelo posseiro aqui conceituado) são caracterizadas como devolutas. as primeiras eram exploradas em condomínio ou através de pequenas posses. 33-34) De acordo com Ataíde. As injunções políticas marcavam as relações entre os fiscais e os foreiros.’ c) foreiro: praticava a agricultura nas ilhas e locais úmidos. (Berenguer. sete com cadeia sucessória incompleta. 1988. este pagamento ser em dinheiro ou em espécie. Yara Dulce Bandeira de Ataíde. Onde estão os caatingueiros e ribeirinhos de Sobradinho?. 1988. as ilhas e ilhotes — juridicamente pertencentes à União. Em Tallowitz (1979) é o invasor de terras. 1954 e 1956. d) agregado: podia ser um proprietário em condomínio ou foreiro. A maioria dos proprietários em condomínio possuem tarefas que foram compradas na época pelo preço de CR$ 0. p. podendo. ou seja. conforme já salientado. Constitue-se naquele que paga uma quantia fixa pelo aproveitamento da terra de outro. Em geral. Ainda posseiros pode significar aquele que trabalha em terra alheia. 1953. Neste período o governo do Estado e o prestígio dos posseiros permitiram consumar-se este processo de legalização de glebas que então passaram a ter cadeia sucessória até à desapropriação. aquele que as ocupa sem autorização. por isso pagava uma renda (foro. e vinte e três possuíam documentação proveniente de uma cadeia sucessória relativamente curta e cuja origem “está na compra de título de glebas do Estado”35. num administrador com plenos direitos. conseqüentemente. f) Arrendatário: categoria mais recente.” . p. p.. 75. 005. 1984. Os lameiros eram cultivados em pequenas parcelas (variando de meio a três hectares) e transferidos de pai para filho. onde cada uma recebe um pedaço correspondente ao preço que pagou. 35 “As compras de glebas ao Estado se deram principalmente nos anos de 1944. usado como moeda de troca nas barganhas políticas e eleitorais. Com o seguinte estatuto: trinta e sete com cadeia sucessória plena. . estando condicionado à vinculação política e de clientela do pleiteante às autoridades locais. (Ataíde. Consta que nos municípios de Remanso e Sento Sé o acesso ao lote em área de vazante era. sem por isso pagar uma renda e sem o conhecimento do dono. As últimas. Tudo indica que em alguns municípios havia disputas pelas áreas dos lameiros e o acesso a eles dependia da mediação das elites políticas locais. 59 famílias. estavam sob o domínio das prefeituras municipais. inúmeras vezes. Em Andrade (1973) constitui-se no ocupante por concessão do dono. como mencionado acima. na região de Sobradinho havia noventa e cinco fazendas de origem sesmarial. as áreas de vazantes ou lameiros — compreendendo as margens férteis do rio. e) Posseiros: Categoria Difusa..

dirimidos pela “mão forte” do líder local37. ele necessariamente haveria de passar pela mediação do grande fazendeiro quando a ilha — local privilegiado dos lameiros — estivesse sob seu controle. desejosos em expandir seus cultivos. verificado em outros pontos do São Francisco começasse. 1987. Afinal. Marco Antonio Berenguer. grandes fazendeiros da região36. (Sigaud. a se tornar pronunciado. 37 Relato de Quintiliano. ao mesmo tempo. 60 Essas informações sinalizam que a política de açambarcamento de terras públicas por parte de fazendeiros começava a despontar na região. 219) De modo geral. as ilhas exploradas por particulares eram arrendadas a ceboleiros e agricultores um pouco mais capitalizados. muito bem indenizada pela CHESF. É provável que. estando então o camponês obrigado a um pagamento em dinheiro ou produto [grifos do original]. bem como outros problemas fundiários registrados nos municípios de Bom Jesus da Lapa. “tudo falta no sertão. Pau d’Arco e Parateca — situados nos municípios de Bom Jesus da Lapa e Malhada respectivamente — e. 29. Aliás. que a expropriação das terras de vazante em mãos desses camponeses seria muito provavelmente questão de tempo. Ilhas e ilhotes açambarcadas por particulares — grandes fazendeiros articulados aos grupos de poder — eram arrendadas. que foreiros perseguidos por razões de ordem política em Remanso ou Sento Sé recorriam aos Viana ou aos seus prepostos com a finalidade de ter acesso aos lameiros. aliás. Santa Maria da Vitória e Juazeiro. de outro. Luz e Miséria. . Se o acesso aos lameiros não estivesse mediatizado por uma relação de clientela com o Prefeito e seus fiscais.00. p. p. o açambarcamento de terras. os raros casos de desavenças e retaliações eram motivados por questões pessoais e. recebendo seus exploradores. os remanescentes dos mocambos de Rio das Rãs. p. Consta. e os de Pau d´Arco e Parateca se encontram em fase de reconhecimento. 50). de um lado. nos municípios em estudo. Às vezes. não custa lembrar que foi na década de 70 que começaram as disputas pelas ilhas e áreas de vazantes situadas no Vale do Alto-Médio São Francisco envolvendo. em geral. localizados naqueles municípios. indicando. Em Casa Nova. pelo que consta inexistiam injunções semelhantes às verificadas em outros municípios do Vale. onde um único grupo político dominava (secularmente) a administração municipal. o antigo mocambo de Rio das Rãs recebeu a titulação de suas terras. conforme citação abaixo. 1984. 38 Adolfo Viana era “proprietário” de uma ilha no município de Casa Nova. 1947.200. renda em dinheiro ou em produto38. 36 Recentemente. menos espaço” diziam os sertanejos (Zarur.000. O valor da indenização alcançou a cifra de CR$2.

61 eram arrendadas pelos preteridos ou excluídos da distribuição dos lameiros controlados pelas Prefeituras Municipais. 156). denominada de foro. Dificilmente uma proporção tão elevada do produto paga como renda. “era bobagem pouca”. 25/9/1999. assimilando-se mais a um caso de pequeno arrendamento em natura e evidentemente de caráter não capitalista (1982. Cada camponês recebia do ‘fiscal’ um ‘talão’ de pagamento correspondente a cada roça ocupada. mesmo nas ilhas de domínio particular. . Os ‘fiscais’ tinham autorização para ceder terras desocupadas a camponeses interessados. ilhotes e coroas”. É provável que a prática registrada acima pelo economista fosse mais comum em relação aos ceboleiros e ou agricultores capitalizados forâneos. uma vez que vários entrevistados reafirmam que o pagamento do “foro”. p. A propósito disse Geraldino: “nóis pagava um talãozinho assim. o “fiscal de ilha”. E aquilo tava bom. Não tinha dono não. isto é. 1989. vigorando entre a clientela do proprietário relações outras. que servia como recibo de quitação do “imposto” e comprovante da posse da roça” [grifos do original] (Martins-Costa. Não é por outra razão 39 Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. O pagamento do foro era anual e se dava entre os meses de dezembro e janeiro. De acordo com Sandroni. 53). uma taxinha. de modo geral. os fazendeiros cobravam foros superiores aos estipulados pelas Prefeituras Municipais: Um pequeno agricultor afirmava que o pagamento do foro aos fazendeiros era feito na base do “três por um”. poderia ser nas condições locais. fossem em decorrência de cheias. As áreas de vazantes sob domínio das prefeituras municipais eram controladas e fiscalizadas por um corpo de funcionários. “Os camponeses os chamavam simplesmente de “fiscais” ou ‘encarregados da Prefeitura’ . Quando as safras eram minguadas. em razão de disputas políticas como atestam entrevistados. bem como tomar aquelas roças não aproveitadas por uns para ceder a outros. fossem em decorrências de pragas ou ainda quando os produtos não obtinham “preço” no exíguo mercado regional. p. aceitava a renegociação do pagamento do foro. de cada três unidades do produto um era entregue ao “proprietário”. era da Marinha. denominados “administradores de ilhas. da prefeitura”39. Os entrevistados afirmam que o foro pago ao fiscal era pouco representativo no cômputo dos custos da pequena produção beradera. recebendo-o em produto ou acordando em recebê-lo na safra do ano seguinte.

entre as demais oligarquias dos municípios que tiveram partes de suas terras submersas e que. chamou a atenção para as diferenças em relação ao exercício do mando entre as elites de Casa Nova e Sento Sé. em entrevista. nomes tradicionais foram varridos do mapa político 40 Não podemos perder de vista que o poder público local “expressão da classe dominante”. 73. 62 que. p. a forma diferenciada de exercer o mando político das oligarquias dominantes em Casa Nova e das oligarquias dos demais municípios. de fato era a “grané”? Comumente. entre outros.106). de uma forma ou de outra. enquanto em alguns desses municípios. tendo em vista a exigüidade dos lotes propícios à agricultura e as disputas pelos lameiros mais bem situados40. A Represa de Sobradinho na concepção da Igreja. convém lembrar as palavras de Wilson Lins: “Ele sofre menos [o beradero] quando consegue um pedaço de terra numa ilha. da acessibilidade ao par rio/terra e que sua exploração supria suas necessidades básicas e garantia a decantada autonomia beradera. na distribuição das parcelas de terra e na cobrança do foro. consubstanciadas no açambarcamento dos melhores lotes e na “retenção” do pagamento do foro. entre eles. Estimo de suma importância analisar como se davam as formas de “acessibilidade à terra” nas barrancas do Rio São Francisco. controlava mais de 70% das terras agricultáveis da área. sobretudo nas “vazantes”. destacando. o agente pastoral que trabalhara na área. reafirmando que no município não havia conflito de terra e que todos gozavam. determinando suas formas de “ocupação por pequenos produtores mediante antigos laços de dominação”. p. Aqui. que vivenciaram a experiência da vida “cativa” nas Agrovilas de Serra do Ramalho. mas reputo da maior importância estudos voltados para apontar as diferenças existentes entre aspectos daqueles municípios. Margarete Silva. sobretudo quando este era pago em espécie. Mas as ilhas não chegam para todos” (1983. à falta de termo mais apropriado. consubstanciada. reafirmam a acessibilidade à terra. não obstante todo o desgaste provocado pelo deslocamento compulsório envolvendo de um lado a poderosa família e sua clientela. Em muitos aspectos elas são inquestionáveis. estudiosos apontam identidades entre os quatros municípios do vale do São Francisco que tiveram parte de suas áreas submersas pela Represa de Sobradinho. os antigos beraderos. por exemplo. Quais são suas principais características? Em que elas se diferenciavam das demais oligarquias sanfranciscanas? Sabemos que. em pleito eleitoral. Em outras palavras: convém perguntar se nas barrancas do Baixo- Médio São Francisco a terra era mesmo “a grané” e para quem a terra. Nas entrelinhas de algumas narrativas é possível deslindar ações de fiscais e chefetes locais — quem de fato exerciam o poder de mando nos pequenos povoados — que sugerem o jogo de interesses e as “espertezas”. Os antigos moradores de Casa Nova vão além. 2003. Aliás. . a oligarquia Viana foi a última a ser derrotada.

o vaqueiro é representado pelo laço. Atrás dessa figura genérica escondem-se três tipos sociais. o ser social em destaque é o beradero. Do “mar” passaram-se aos rios e assim deu-se a penetração e a conquista do Vale do São Francisco. d) moradia e ocupação desse território por várias gerações. o catingueiro é o ser social mais afamado e representado na figura de diversos emblemáticos personagens retratados nos romances Vidas Secas (Graciliano Ramos). ou seja. mas contentam-se de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos” (Salvador. p. de Terezinha Fraxe (2000). Abusando um pouco da metáfora do Frei Vicente. este agente social era (e é) o resultado do caranguejar dos primórdios de nossa colonização. o brejeiro e o beradero. Vejamos: “a) dependência e simbiose com a natureza. Grande sertão veredas (Guimarães Rosa) e o Quinze (Raquel de Queiroz). c) noção de território ou de espaço – o grupo social se reproduz econômica e socialmente. através dos ciclos naturais e dos recursos naturais renováveis. ainda que alguns desses membros possam ter migrado para centros urbanos e voltado para a terra de seus antepassados: e) importância das atividades de . Com exceção de uns poucos itens. as características peculiares apontadas pela autora do chamado campesinato das águas se aplica aos beraderos sanfranciscanos. exercendo influência política no município. tomei conhecimento da instigante obra Homens Anfíbios. a família Viana ainda é uma importante referência em Casa Nova. vez ou outra apareça na figura de um agregado ou de um vaqueiro. em muitos aspectos. o beradero vivia e reproduzia sua condição em dois espaços opostos e complementares entre sim (como chama atenção Martins- 41 Enquanto concluía este trabalho. 59). 3 . Basicamente. Todos os personagens destes romances são representativos da chamada cultura do couro. o homem–caranguejo41. Neste trabalho. Convém a partir daqui deslindar em que consistia o caranguejar no vale do São Francisco. 63 local — por exemplo os Sento Sé — . que se reflete na elaboração de estratégias de uso e manejo dos recursos naturais. 1982. o beradero pela rede ou pela canoa. Na literatura sertaneja. embora o catingueiro. a partir dos quais se constrói um modo de vida.Caranguejando no rio Censurando a negligência dos portugueses em relação ao efetivo domínio do Brasil interior. por exemplo. em questão. uma vez que todo seu modus vivendi se pautava na relação simbiótica e harmônica com o rio. não as aproveitam delas. b) conhecimento aprofundado da natureza e de seus ciclos. distintos: o catinguero. Esse conhecimento é transferido de geração em geração por via oral. Nascia o sertanejo. Frei Vicente do Salvador cunhou frase lapidar: [os portugueses] “sendo grandes conquistadores de terras. Essa relação era a base das “felicidades” às quais fazem referências os beraderos entrevistados. Simbolicamente.

além de contribuir para a cidadania (o batizado é a certidão de nascimento. mitos e rituais associados à caça. zinga. filhos de homens do mesmo ofício. q) a religião é um fator prepoderante para divisões sociais. todos da Fazenda de Fora). sobre os locais de cultivo da população ribeirinha dá conta de 40% dos 202 entrevistados cultivando somente as “ilhas”. substitui o civil). o casamento católico. Pesquisa realizada em 1973 pela Hidroservice. ou seja.6%. políticas e econômicas. com a qual impulsiona a embarcação. encontrei entre os entrevistados todas as categorias comumente presentes nas barrancas sanfranciscanas.5%) (Siqueira. Com exceção dos remeiros43 e subsistência. Mesmo assim. a saber: os lameiros e a catinga. conforme as chuvas e as “cheias”) eram utilizados por 98% dos camponeses (80. h) a tecnologia utilizada é relativamente simples. j) o trabalho com a terra é de policultivo de subsistência em sistemas agroflorestais. 5% com as “ilhas” e com a “caatinga” e 2. 63-64. 7% combinando “ilhas” e outros locais: “terra firme” e “caatinga” (5%). não tive acesso aos dados relacionados ao enquadramento dos beraderos no que tange às formas de apropriação da terra. A “terra firme” era procurada por 48. v. o engenheiro Halfed localizou no Rio São Francisco 334 ilhas. Infelizmente. p. p) os meios de produção fundamentais são a terra a e água.7%+14. os remeiros têm vida rude. 1992. a saber: posseiros. em geral. i) fraco poder político que. Desta forma. Os remeiros . p. n) há extensa e intensa divisão sexual e social do trabalho na família. o trabalho do remeiro consiste principalmente no manejo da vara. f) reduzida acumulação de capital: g) importância das simbologias. produção de valores de uso para si e valores de uso para outros (mercadoria).3% a combinavam com as “ilhas”. no entanto. Não custa reiterar: os lameiros eram constituídos das faixas de vazantes. m)a mão-de-obra utilizada nas diversas atividades do mundo econômico é quase exclusivamente familiar. Eram nesses dois espaços do vivido que toda a condição de vida beradera se organizava e era em ambos os espaços que homens e mulheres tiravam sua sobrevivência. 174). p. húmus trazido com o aluvião. 64 Costa). O homem no Vale do São Francisco. na grande maioria das vezes. nos quatro municípios.1.7% dos camponeses dependiam das “ilhas”. arrendatários e inúmeros agregados (com uma exceção. em geral. conforme veremos a seguir. r) a palavra estabelecida através de relações de compadrio transforma-se.8%+2. cultivavam no sequeiro e na vazante e muitos combinavam as duas atividades com a pesca. l) utilizam a técnica de pousio para a retroalimentação de seus solos. 26. 1972. excessivamente penoso. 42 De acordo com Donald Pierson. de impacto limitado sobre o meio ambiente. de pequenos agricultores ou de camaradas. reside nos grupos de poder dos centros urbanos.5% com a “caatinga”. ou seja. ilhotes e croas — todos fertilizados pelo remonte. em estado de direito e de fato”. 42. à pesca e a atividades extrativistas. 80. durante as cheias anuais. e 40. resultado da erosão das margens do rio e de seus afluentes. sendo que 14. se bem que no São Francisco não tanto quanto em outros rios do Brasil: aproveitam largamente a força do vento e não são freqüentes as cachoeiras. caminhando sobre os bordos. o) o trabalho artesanal é dominado pelo camponês e sua família até o produto final.8% dependiam somente dela. Conclue-se que os locais possíveis de cultivo “de vazante” (e/ou de “chuva”. foreiros. 43 Sobre os remeiros diz Morais Rêgo: “Recrutados entre os elementos mais humildes. das ilhas42. Foram unânimes em afirmar o uso dos espaços de trabalho e cultivo em obediência ao ciclo natural das “águas”.

práticos do rio. além de agricultor e pescador. era e é exímio artesão. Formam toda a população nômade. as barcas subsistiam. Administra a barca o encarregado. como meio de garantir a sobrevivência. p. que recebe o nome de barqueiro. criadores ou barqueiros amadores. 192. p. Quintiliano. fazendo a travessia entre Bem-Bom e os povoados beraderos das duas margens do rio. a perturbações mentais. eram seus proprietários. formam as tripulações das barcas. 44 Apesar da navegação a vapor. o leitor interessado deve recorrer à brilhante obra de Wilson Lins. p. alguns mais atilados que progrediram. explorava uma pequena barca. Os barqueiros. viajam operando mais por conta própria do que a frete.) Formam-se em certos trechos das vazantes dunas fluviais. O Médio São Francisco... os beraderos. inclusive. associavam à prática agrícola outras atividades. além de cultivar no sequeiro e na vazante — como disse com orgulho. que vagueia ao longo do rio e que se não pode mais acostumar à vida sedentária. essa categoria social-profissional foi extinta. menos humildes mais de origem análoga. devido a extensão do Lago e as maretas. Convém esclarecer que os barqueiros e proprietários das demais embarcações que singravam o São Francisco não foram indenizados nem tiveram suas perdas reparadas pela CHESF. Outros tantos somavam à condição de agricultores à de pequenos comerciantes. Nas vazantes traça-se uma rede hidrográfica complexa. O pai de Berneval. marinheiros e práticos. também. dando ensejo. conforme visto acima. De acordo com Morais Rêgo. chegando. Trafegam com longas paradas. rio abaixo aumentam extraordinariamente. às vezes seu proprietário. além de praticar a agricultura cativa enquanto agregada na Fazenda de Fora. observadas entre Barra do Rio Grande e Pilão Arcado. D. vendendo as mercadorias e comprando outras de produção local” (1945. 1983. Luiz Flores Morais Rêgo. Nas chamadas comunidades tradicionais. há os tripulantes dos vapores. 210). para os padrões locais — . pouco antes da submersão total da velha cidade. os barqueiros. . formando faixas raramente interrompidas. A princípio descontínuas e estreitas. produzia utensílios domésticos em madeira e fibras45. p. dirigida por mestres. Para obter mais detalhes sobre as barcas e os remeiros. diz Morais Rêgo: “Em geral. mortes súbitas e suicídios. Após a construção da Barragem de Sobradinho. Uma sociedade de pastores guerreiros. era marceneiro. Certos tributários perdem-se nesses meandros antes de encontrar o São Francisco(. de seis a mais de trinta homens. Ao lado do remeiro. a especialização não é fator de valorização e todos se orgulham de “tudo saber fazer um pouco”. 65 barqueiros44 — trabalhadores assalariados altamente especializados. as barcas casas de comércio ambulante. As barcas singravam o São Francisco transportando pessoas e alimentos. particularmente em Mocambo do Vento” (1945. Inedina. reafirmando sua condição de beradero liberto —. sustentando o tráfego fluvial. ipueras e lagos alinhados também paralelamente. O vale do São Francisco. inclusive sobre as carrancas. 1945. 88-97. 36). o fenômeno das vazantes do São Francisco se formava desde Pirapora se estendendo por quase todo o vale. os proprietários das embarcações. a trabalhar na Nova Sento Sé. A propósito. Geraldino. fato que provocou revolta. além de cultivar pequena gleba “herdada” de seus ancestrais nos limites da Fazenda de Fora. especialmente Sento Sé. resquício de inundações: canais paralelos ao rio. largas de muitos quilômetros.

da perdição. 66 Localizado em faixa semi-árida. o Vale do Médio São Francisco registra um regime de chuvas irregular. distante do rio poucas léguas. a cana- 45 Entrevista tomada pela autora em Serra do Ramalho. além da casa de farinha. e talvez o único fator de diferenciação entre eles e os demais criadores “fracos”. 1947. possuíam uma rústica engenhoca. Nas catingas. As lavouras cultivadas em ordem de importância eram: a mandioca. 34). localizada no interior do sertão. o milho o “feijão de corda”. conforme assinalado. que organizava todo o espaço regional. o beradero pratica a agricultura de sequeiro. quando para lá se dirigiam os atingidos46. a batata-doce. a caatinga era imaginada negativamente. 1992. apresentando isoietas que variam de 1. as precipitações ocorrem entre os meses de novembro e março e as cheias são registradas a partir dos meses de janeiro e fevereiro. quando o rio recebe grande carga de águas provenientes de suas cabeceiras. a catinga do beradero compreendia uma faixa de transição entre a várzea e a caatinga bruta. como desconhecida. como assinala Martins-Costa. ovinos. por conta da infertilidade dos solos. Nesse curto espaço chuvoso — “tempo das águas” — os beraderos voltavam-se para as catingas. A rigor. além de possuírem maior números de reses. 25/9/1999. da fome. é a mais seca da Bahia (compreendendo o Raso da Catarina). Na verdade. A região entre Juazeiro e Cabrobró. de outro” (Rêgo. além da pecuária extensiva. “Signo maior da negatividade da caatinga: o “lugar dos mortos”. compreendendo o gado bovino e as “miunças”: caprinos. Nas catingas. inaugurando o chamado período das secas (março/abril-outubro/novembro). portanto. Ela era vista negativamente pelo beradero. perigosa. “oficina”.200 a 600 milímetros (Zarur. era lá que estavam os cemitérios. pelo qual se devia . p. 46 Sobre a “negatividade” da caatinga diz a antropóloga Martins-Costa: “Apesar de tudo o que a caatinga podia oferecer na época do verde. a abóbora. suínos e galináceos de todas as espécies. mais do que negar a caatinga. ou seja. “Estas recebem vegetação peculiar e estão situadas entre as áreas de vazantes (as planícies) e os planaltos e as serras. registrando isoietas ainda mais baixas. Os agricultores “fortes”. sendo adentrada somente por pessoas especializadas — os vaqueiros. Em geral. p. Entre os meses de março e abril o rio vazava. p. o beradero cultivava várias espécies temporárias ou semi-permanentes. por exemplo — ou em tempos de “enchentes altas”. carroças e pequenas embarcações. 1945. tinham na “propriedade”. da falta de caminhos. a agricultura dependente das chuvas e é naquele espaço — em geral de acesso livre no imaginário beradero. de acordo com Jorge Zarur. Os poucos “criadores fortes” (Woortmann. 37). um rústico curral — símbolo. estava se afirmando o “princípio da beira”. da escassez de água. como visto — que ele criava o pequeno rebanho. carros de bois. 156) das localidades beraderas.

Ainda assim. como salienta Siqueira pouco adiante. 1972. o cultivo comercial da cebola foi introduzido no Vale pelo libanês Yorgy Nicola Khoury. ali mesmo. a cana-de-açúcar não se desenvolve nas áreas de vazante. Uma retirada insólita: a representação camponesa sobre a formação do lago de Sobradinho. “Participavam toda a parentalha e as famílias vizinhas. 59. . mas em áreas mais próximas à caatinga. 122). localizadas nos quintais das “casas de morada” de algum “agricultor forte”. inaugurava-se um novo ciclo de trabalho e de vida. especializada na fabricação da rapadura. cultivavam também o capim para o gado e para a reduzida alimária. restando-lhe pouco a fazer. p. por volta de abril/maio. se ligava “tenuamente” ao mercado exterior. que podiam emendar. v. hortaliças. Além da venda do peixe fresco. propriamente dito. usando expressão de Paulo Sandroni. o milho e o “feijão de arranca”. Quando o rio vazava. O homem no vale do são Francisco. leguminosas e a cebola48. além de propiciar a terra molhada e fértil. etc. “O plantio era feito de modo extremamente fácil: tão logo recuassem as águas. p. era por intermédio desses dois últimos produtos comerciais que o beradero. com “ajuda das águas” (Siqueira. 453. Atestam os entrevistados que o cultivo nos lameiros era atividade bastante fácil em comparação com o de sequeiro. com a própria “desmancha”. era um companheiro de trabalho à medida que ajudava no plantio e na colheita. procediam-se a“limpa” e a “queima” do mato e o solo estava pronto. todas as atividades eram feitas com a participação de membros da família nuclear e extensa e o beradero muitas vezes recorria ao adjutório. se não tivessem “casa de oficina” própria” (idem. constituindo-se em fonte de alimentos básicos na região (1947. 47 De acordo com Donald Pierson. buscar o mais possível estar próximo do rio. mais a salvo de suas enchentes [grifos do original]. Às vezes. Algumas faixas da catinga se prestavam para a agricultura comercial e era lá que se cultivavam pequenos roçados da mamona e do algodão arbóreo (uma das mais tradicionais atividades agrícolas de todo o semi-árido). Esta última de acordo com Zarur. Aos primeiros sinais do início do “tempo das águas”. Op. para o plantio da mandioca” (Siqueira. por exemplo. 457.123). 1989.2. 56). 67 de-açúcar47. o rio. ibidem).. p. p. arroz. Os beraderos acorriam aos lameiros e naqueles espaços cultivavam todo tipo de alimentos. começavam as atividades da “ranca da mandioca” de vazante. era o mais importante produto agrícola do Vale. 48 Ainda segundo Pieson. 1992. A fabricação da farinha de mandioca se dava nas “oficinas” ou nas “casas de farinhas”. cit. do melado e da aguardente. predominando a mandioca. 1992. Na concepção do beradero. A cana-de-açúcar era responsável pela montagem de uma indústria artesanal de base bastante rudimentar (as engenhocas). p. p.

despejando-as num “cocho”. de vergonha e de revolta. Como em outros locais. diversas famílias alugam uma casa de farinha ou “oficina de farinha”como é geralmente conhecida. Após a raspagem. são raspadas as peles dos tubérculos com a ajuda de um faca de cozinha. por compressão. A farinha tinha importância fundamental no cardápio do beradero. cujas “bocas” dão para a parte externa da casa. a massa era espalhada sobre a plataforma e mexida por um rodo para evitar sua queima. fator de humilhação. e uma mesa de madeira. A moenda inteira é chamada no local de “molinete” (idem. ou simplesmente como “couro”. uma prensa e um forno. um líquido ácido e. à qual é preso o eixo do cilindro e que apanha as raspas de mandioca à medida em que caem. trabalhando juntos na preparação do produto. Após a raspagem da mandioca. a “oficina” consiste principalmente de um ralador. os tubérculos eram lavados e posteriormente ralados num moinho rústico. Uma vez enxuta. e contra os quais os tubérculos são encostados para serem ralados enquanto o cilindro gira. seu proprietário pagava em espécie o aluguel da “oficina” ou a ajuda na “desmancha” a parentes e vizinhos. uma correia de couro. a farinha era tirada da plataforma. Antes de ensacar o produto. lançando as cascas em gamelas e cestos ou empilhadas no chão para servirem de alimentação ao gado. mediante a qual a força é transmitida da roda ao cilindro. em seguida. O produto nunca faltava na barrica de sua despensa. no qual serrinhas de metal são enroscadas paralelas ao eixo. p. 68 Em Pesqueira [Xique-Xique]. v. a massa era levada a uma prensa de madeira. fator determinante na rejeição a tudo quanto se relaciona às mudanças introduzidas na região depois da chegada à mesma da “besta fera” (CHESF) . Depois de empilhada a mandioca na oficina. A tarefa da raspagem da mandioca cabia às mulheres. que consistia de quatro partes: um cilindro de madeira de mais ou menos 6 centímetros de diâmetro com um perímetro de 2 centímetro de largura. com raios em cruz e uma manivela central. 1972. dependendo da quantidade de mandioca a ser beneficiada.2. A ‘desmancha” pode durar vários dias. expondo-se a polpa branca (Pierson. da qual se extraia. o produto tornou-se escasso. ibidem). de cerca de l metro e 20 centímetros de diâmetro. 526-527). sendo usado apenas a força braçal. Após o deslocamento compulsório do beradero. conhecida como “reio”. Suficientemente aquecida. Estas sentavam-se em esteiras estendidas no chão ou em bancos de madeiras. uma roda de madeira de grande tamanho. torrada numa plataforma de barro construída sobre um forno à lenha. fora do alcance de animais soltos.

eles montavam precários “ranchos” — feitos de barro e cobertos com palmas. dependiam da produção dos “lameiros” (Zarur. sem fins comerciais Atestam os vários pesquisadores da temática que muitas cidades da região. em parte. Encerrado o ciclo das pescarias. Os beraderos. Também na atividade pesqueira a prática era registrada. durante os períodos de estiagem. a localização de sua casa de morada (em . podiam cultivá-los pelo sistema do “talão” (idem. Dito de outro modo. As atividades nas ilhas e ilhotes exigiam das famílias beraderas o deslocamento temporário para suas margens. A transumância. os “cativos”. mas muito maiores e dotadas de conforto inexistentes nos ranchos sazonais). Não obstante a exigüidade dos lameiros. 1947. quando os atingidos se retiravam para os povoados situados mais no alto (caso de Barra da Cruz. apenas retomando suas atividades quando as águas abaixassem. os catingueiros retomavam o caminho da caatinga bruta. localizadas nos pequenos povoados ou em suas proximidades. para onde se deslocavam os atingidos dos povoados de Sento Sé) ou para a caatinga bruta. do sucesso da produção alcançada nos lameiros (1992. 1982). Faz sentido afirmar. levando consigo o gado e os poucos pertences que trouxeram na travessia. na berada do São Francisco era prática bastante arraigada. Fato que se repetira no ano seguinte. e mesmo os “agregados”. Durante meses arranchavam as margens das lagoas. a rigor. 124). Quando as primeiras chuvas caíam na terra árida. 1992. Nestes termos. Sandroni. viviam o constante ir-e-vir entre seus espaços de vida e de trabalho. p. p. retornavam às suas habitações (também bastante precárias aos olhos do forâneo. o chamado “comércio” (Sigaud. conforme veremos abaixo.132-3). Ali. sobretudo para matar a sede do gado e disputar com as criações dos beraderos o ralo capim das áreas de vazantes e ilhas. a qualidade de vida dos beraderos dependia. 25). E como chama atenção Rubem de Siqueira. geralmente. portanto. eles não estavam vedados a ninguém. 27-52. que o beradero vivia num espaço mutante ou temporário. o excedente sendo comercializado nas “feiras” e nos mercados das cidades mais próximas. A transumância beradera se repetia também durante as “enchentes altas”. em obediência ao ciclo das águas. digamos assim. Quando a seca se tornava inclemente. p. 69 “O objetivo principal da “roça de vazante” era garantir a subsistência familiar. 1987. Sigaud desautoriza tanto a CHESF como a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e Parnaíba (CODEVASF) quanto ambas as empresas acusam os beraderos de praticarem unicamente uma agricultura de subsistência. em geral folhas de carnaúba — onde viviam durante meses até a colheita da safra. os catingueiros acorriam aos lameiros. mas efetivo.

p. 26/1/2002. abaixo de Carinhanha. A atividade pesqueira não constituía tão somente uma dentre as felicidades dos beraderos. cit.127). 50 O direito brasileiro consagra que os recursos e os mananciais hídricos (lóticos – água corrente) pertencem aos estados e a união. eram chamadas de “mãe da pobreza”. Tudo era fruta típica da região”49. Estas últimas. a pesca era “decisiva em termos de sustento familiar dos mais pobres” (Siqueira. Atividade complementar para alguns. a prática pesqueira poderia se estender até meados de setembro/outubro. 70 períodos determinados do ano) era provisória. quando os beraderos se voltavam para o preparo das áreas de sequeiro. banana. tais como: manga. de acesso livre e irrestrito à população. A pesca é muito praticada ao logo da parte Média. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. araçá. uma vez que não tinha a principal fonte de vida: a água. cultivavam-se árvores frutíferas de variadas espécies. Diferentemente de Serra do Ramalho — como veremos em momento posterior — onde o “colono” não podia deixar as agrovilas.. mas era fator demonstrativo da especificidade da sua cultura e do seu caranguejar. pois o lote de trabalho não reunia as condições de efetividade da morada. algumas das quais originam-se os velhos canais 49 Relato de Constança. . para a atividade pesqueira praticada nas inúmeras lagoas50 piscosas. op. mairi. Pescava-se no rio durante as cheias e nas lagoas durante a seca. bem como os mais variados instrumentos de pesca. conforme veremos a seguir. 105. em várias localidades do Vale. etc. Em ambos os ecossistemas havia inúmeras espécies nativas à disposição de todos quantos quisessem coletá- las. Terezinha Fraxe. Quando as chuvas caíam em meados de novembro completava-se o ciclo que compunha as felicidades ligadas às atividades de subsistência nas beradas sanfranciscanas. sendo. jenipapo. p. tal o papel desempenhado no sustento de inúmeros sanfranciscanos. à espera das primeiras chuvas que ensejavam o plantio das culturas de sequeiro. Tanto nos lameiros como nas catingas. laranja. em seguida. tais como lagos e lagoas são passíveis de apropriação. portanto. voltando-se. Entre os meses de junho e julho colhiam (das vazantes) as primeiras safras das culturas de ciclo curto. oiti. tucum. 1992. em virtude da existência de numerosas lagoas e ipueiras na planície aluvional. mas nela ele vivia efetivamente. que a gente pegava cestos e mais cestos: crioli. Os beraderos utilizavam as mais variadas técnicas. pinha. Dependendo da piscosidade das lagoas. localizadas nas beradas do rio. As mais apreciadas pelos beraderas eram as espécies das vazantes: “A saudade que a gente sente até hoje das frutas que existiam nas vazantes. Já os ambientes aquáticos com características lênticas (água represada).

Quando as água abaixava. Aqui. O peixe é também pescado em grandes quantidades no próprio rio nas águas rasas próximas das grandes coroas ou bancos de areia. Quando pegava o peixe. v. as lagoas e a catinga. no município de Casa Nova. Janeiro. Mês de julho. abril. fevereiro. Eu tinha minhas redes também. Construído. era lá que se hospedava o fazendeiro. no seu instigante trabalho Uma retirada insólita. Por intermédio dos entrevistados. que vinha à fazenda. O peixe afastava para o fundo das lagoas. Martins-Costa. não. vou me deter nas “botada de rede” das lagoas da Fazenda de Fora. fui informada que edificação era muito bonita e muito bem mobiliada. Fazia uma espécie de barragem pra prender o peixe. 1972. De acordo com Manolo. o bangalô era símbolo de poder do fazendeiro. Todas elas constituem reservatórios naturais de água que o São Francisco lhes fornece nas cheias. Quando saia cá. Nas poucas vezes. quais sejam: áreas de vazantes. um baxão. agosto. março. Pegava um alagadiço. ficava num tabuleiro alto e tinha um bangalô muito bonito”52 e dotada de inúmeros recursos. a Fazenda de Fora “era muito bem feita. até entrar nas lagoas nossas. recorrendo às descrições da antropóloga Martins-Costa em alguns aspectos específicos. encontrando-se no seu interior os principais ecossistemas imprescindíveis à vida do sertanejo sanfranciscano. Era o seguinte. nós tomava. foi feita na terra. p. tinha uma barra que entrava em Remanso e vinha até aqui. pela natureza. nós tomava. Quando o rio enchia (dentro da fazenda tinha cinco lagoas) inundava as lagoas. novembro e dezembro. nas quais moram com as famílias durante semanas de cada vez. Ninguém mexia no peixe. maio. mas ia abaxando as água e quando começava o mês de julho. setembro e outubro. 382) As “botada de rede”51 são rememoradas pelos atingidos pela Represa de Sobradinho com entusiasmo e saudosismo. A lagoa não tinha defeito. fizemos assim uma tapagem para agarrar o peixe. Quando o rio enchia [em dezembro] parava tudo. bem como a caatinga bruta.2. Eu botava muitas 51 A “botada de rede” obedecia as regras estabelecidas por leis municipais e pelos proprietários das fazendas onde estavam localizadas as lagoas piscosas 52 Não temos informações ano em que o bangalô da Fazenda de Fora foi construído e qual o nome do seu construtor. em estilo assemelhado ao Art-Nouveau. mas não. ninguém botava rede. fazendo parte do imaginário de todos os funcionários e agregados da Fazenda de Fora. 71 do rio. As pescarias começava no mês de julho. descreve com riquezas de detalhes as pescarias nas lagoas do Saco e do Sem-Sem. Tinha uma barra funda que parece que foi feita por obra de homem. Quando o rio baxava. Descia a terra e nós tomava. localizada nas “extremas” com Remanso. nós começava as pescarias. . (Pierson. que o peixe queria sair. dava um quarto à fazenda. possivelmente. Nessas margens os pescadores itinerantes constroem às vezes rústicas choupanas cobertas de palha ou couro não curtido. em Itapera (ambas sob o domínio da Prefeitura Municipal de Sento Sé).

em relação ao pagamento da parte que lhes cabia em pescado. recolhiam a rede. todos os “corpo de rede” respeitavam o tradicional costume de dar peixes para as pessoas que estivessem na beirada da lagoa naquele momento. Tinha dia que pegava na rede de caroá 20 mil peixe. op. p. A pescaria tinha início quando os pecadores saíam com a rede num barco grande e a soltavam aos poucos. havia muita enrolação”. havia o “chefe de rede” ou arrais54. Cada vez que colocavam a rede era chamada de “botada” (ou “lanço”) de rede. cit. aparece a figura do “maiano”. nenhum dos entrevistados fez referência ao termo. Além do arrais. no caso das lagoas sob domínio público56. Os “maianos” ufanavam-se do número de peixe que haviam dado. (Martins- Costa..166) A percentagem que cabia a cada pescador estava de acordo com sua função no “corpo de rede”. mas pagava para a fazenda também. Em síntese. em Casa Nova. 26/1/2002. 23/05/2003. 56 Antônio salienta que não havia controle rigoroso por parte dos proprietários das lagoas nem muito menos das lagoas de domínio público. O pessoal de fora vinha assistir ao belo espetáculo dos pescadores puxarem a rede repleta de peixes. a partilha acontecia logo após a retirada do “quarto” do proprietário da lagoa ou do “fiscal”. o girandeiro. A primeira “botada” marcava o início das pescarias. diz Antônio Teixeira55. A “botada da rede” exigia a formação do “corpo de rede”. um homem mais velho e chefe de família. pois isto indicava indiretamente o sucesso e abundância de sua rede”.000 peixes. Os demais pescadores exerciam funções secundárias e eram chamados de ajudantes. 72 redes. p. Este era composto por um grupo de aproximadamente vinte homens. 54 No trabalho de Martins-Costa. Mais nós pegava”53. e era famosa pelo número de peixes que vinham presos em cada rede (os camponeses falam entusiasmados em até 15. 26/1/2002. Depois de “cercar”. “Era ele que comandava os lances”. Dentre os principais pescadores. (idem. Pegava peixe que era até um assombro. até “cercar”’uma determinada área de água. Nas primeiras “botadas”. geralmente. havia o piloto. 55 Entrevista concedida à autora em Casa Nova. Nas primeiras “botadas” era muito comum a distribuição de peixes às pessoas de fora que não participavam das pescarias. Era um assombro. Entrevista tomada pela autora em Pau-a- Pique. diz: “O pescador acabava pagando o quanto ele queria. e para ganhar peixes. Em geral. . o vareiro e o abaixador. O povo admirava. 1989. 169) 53 Entrevista concedida à autora em Casa Nova. “colhendo” o peixe.

(1989. recebiam. Ainda em relação à divisão do trabalho. em Casa Nova. As crianças um pouco maiores ajudavam as mães no “trato do peixe” ou exerciam atividades de caráter doméstico. às mulheres cabia trazer das casas de morada as “tralhas” necessárias à sobrevivência durante “a botada da rede”. localizado em Sento Sé. geralmente. cada “corpo de rede” ia até a lagoa limpar o local de sua futura rancharia. “Todo mundo fazia sua rancharia. compradores e atravessadores dividiam com os pescadores e suas respectivas famílias o mesmo espaço de “morada”. Como era habitual o deslocamento dos pescadores e de seus familiares para as margens das lagoas. Tendo em vista as narrativas dos entrevistados que vivenciaram a experiência das ‘botadas de rede”. imprescindíveis durante a permanência na beira das lagoas e no sucesso das pescarias. era especializada na fabricação da rede de caroá. 165) Enquanto os homens faziam a “botada da rede”. De acordo com Manolo. Os camponeses tendiam a escolher os mesmos locais dos anos anteriores. montando também sua rancharia na beira da lagoa. mantendo entre si relações de sociabilidade. A preferência era por sítios onde houvesse árvores frondosas. eram fabricadas (trançadas) artesanalmente da fibra de caroá. as mulheres limpavam e salgavam o peixe. sobre esteiras [grifos do original]. . 58 O relato de ambos foi tomado pela autora. pois dormiam ao relento. as mulheres especialmente contratadas para a limpeza dos peixes. Era muito bonito!”57 A mãe de Antonio e Constança58 comprava peixe para revender aos comerciantes de Juazeiro. em Casa Nova. Durante o preparo do local das rancharias. 73 A divisão sexual e social do trabalho durante “a botada de rede” era bastante pronunciada e acontecia mesmo antes das pescarias. Estas vendiam a parte que lhes cabia na beira da própria 57 Relato de Manolo. Tudo indica que esta prática era disseminada. às vezes em produto. trabalho feito. Entrevista conceida à autora. cabia aos homens limpar as beras das lagoas e fazer as “casas” improvisadas com palhas de carnaúba ou de couro cru. era necessário o preparo das rancharias. as redes. Antes do início da temporada de pesca. Segundo Manuel. pelos homens. p. dependendo do acordo pré-estabelecido. e. outro aspecto convém ser salientado. parte da população do povoado de Aldeia. À noite. Um dos principais instrumentos de trabalho dos pescadores. Assim. às vezes em dinheiro. as rancharias da Lagoa de Fora (Casa Nova) eram bastante semelhantes às da Lagoa do Sem-Sem e de Saco (ambas em Sento Sé) descritas por Martins-Costa. na berada da lagoa a gente via em toda rancharia uma fogueira. 26/1/2002. 23/5/2003.

honesto e digno. Apud Martins-Costa. Em seguida tudo era anotado para a prestação de contas ao fazendeiro. Até um período que não sabe precisar. Manolo conta também que durante as pescarias seu trabalho era redobrado. prensados e salgados na beira mesmo das lagoas. No município de Casa Nova. Enquanto os beraderos se dedicavam à criação de um pequeno rebanho — em geral nos lameiros e ilhas —. (Sandroni. uma vez cientes de suas obrigações de reciprocidades para com o fazendeiro. chegaram às beradas das lagoas cearenses e sergipanos em carros e equipados com “caixas de gelo”. razão pela qual eram chamados pelos demais beraderos de cativos. mais nos pequenos centros urbanos do que propriamente nas fazendas. a bem dizer ilimitada. 52) Proprietários absenteístas viviam nas cidades da região.) Vivendo. eram submetidos a algumas restrições. viviam dezenas de agregados que. o seu prestígio entre os membros da comunidade cresce paralelo ao número de cabeças de seus rebanhos e á extensão de seus latifúndios. um habitante das cidades marginais. O senhor de terras e de gado na região do Médio São Francisco é. O volume de peixe que a fazenda recebia. p. 1982. Sandroni constatou a existência de grandes propriedades “que se estendiam de uma ‘testada’ de vários quilômetros de rio para outras tantas no interior da caatinga”. uma das poucas propriedades tituladas em toda a região que daria lugar ao Lago de Sobradinho. No entanto. aos proprietários das redes ou aos inúmeros atravessadores. comprando o peixe fresco e remetendo-o aos centros consumidores de seus locais de origem. É comum a existência de fazendas que medem uma légua ao longo da margem do rio por uma extensão de fundo. . raramente eram molestados por estes. 133) Nesses latifúndios. (Macedo. Tempos depois.. Manolo diz que os peixes eram “tratados” (limpos). a pecuária extensiva era explorada pelos latifundiários. 1989. 74 lagoa. Cidadão respeitável. era muito grande. na capital do estado da Bahia ou até no Distrito Federal — como era o caso do proprietário da Fazenda de Fora —. segundo ele. em geral. secados. p. aliás. pois todo momento ficava recebendo dos “corpo de rede” a parte que cabia à fazenda. de vez que cercas não existem e as divisas são precárias (. que aportavam às lagoas provenientes de diferentes lugares. além do administrador da fazenda e dos vaqueiros. ficam entregues aos capatazes e vaqueiros. não obstante. Em Pau-a-Pique eram enfardados e vendidos para atravessadores provenientes de Juazeiro..

fato. manteiga de garrafa. 75 Em geral. pescados secos e cera da carnaúba) eram remetidos ao fazendeiro que vivia no Rio de Janeiro. mas sinaliza que os administradores e ou capatazes das fazendas dos inúmeros proprietários absenteístas sanfranciscanos tinham grande poder. Todo dinheiro que a gente recebia da renda da fazenda ponha no banco. assim. além de uma percetagem sobre as reses nascidas (ele não se lembrou da proporção) recebia quantia anual que também não soube precisar. que a senhora [dirigindo-se à entrevistadora] não queira nem saber de labutar com eles.”59 A título de pagamento. o papel de patrão. Eu mandava e desmandava na Fazenda. Era um homem que confiava na gente. Manolo menciona a bondade e a liberalidade do proprietário da referida Fazenda em relação aos seus funcionários e agregados. o proprietário absenteísta só aparecia na fazenda de ano em ano. às vezes. A gente prestava conta. Ele disse: “Eu comia por conta da Fazenda”. Mariani vivia no Rio de Janeiro: Tudo era comigo. E quando chegava achava tudo de acordo. Ele não mandava nada. eu tinha tudo dentro daquela fazenda: tinha peixe a vontade. aliás. tinha carne de boi. peles. Confessa também que. Freqüentemente. cujo proprietário A. O papel desempenhado por Manolo na Fazenda de Fora pode não ter sido padrão. E seu poder era tanto maior quanto mais confiança o fazendeiro neles depositasse. mais de uma centena de afilhados entre os antigos povoados de Pau-a-Pique e Bem-Bom. atestado por vários . Ambas eram complementadas pelos “muito direitos” que usufruía sobre os produtos explorados na Fazenda. Manolo. Somava a entrada e a saída. Em relação a esse aspecto diz Manolo — ex-administrador da Fazenda de Fora —. parcela dos pescados das inúmeras lagoas situadas nos limites da fazenda era revertida em seu favor e que tinha livre acesso à madeira e à lenha. exercendo. não precisava tomar dinheiro a ele. Ele vinha aqui uma vez por ano. não.” Tudo indica que somente os valores obtidos a partir do comércio dos produtos de exportação (gado em pé. O ex- administrador tinha enorme prestígio entre agregados e trabalhadores avulsos da Fazenda de Fora. atestado pelo fato de ter. Era uma gente tão boa. tinha carne de carneiro. além do leite que era dividido com os setes vaqueiros que a fazenda possuía. A fazenda tinha com que fazer dinheiro. Tinha queijo. tinha caça. Eu tenho saudade de me apartar dele. segundo afirma. tinha requeijão. depositava pra ele. toda relação com trabalhadores e agregados era mediada pelo administrador ou capataz.”Minha senhora.

conforme salientado. 76 ex-agregados da Fazenda de Fora entrevistados. Lygia Sigaud esclarece: “São assinaladas como indicativas da situação de cativo as proibições de construir casas com telhas. 60 Sobre as relações de agregacia ou de cativeiro na linguagem regional. da agricultura e da pesca. da maniçoba (Manihot glaziovii) e da mangabeira (Hancornia speciosa). na visão de hoje. e de vender a “propriedade” sem antes oferecê-la ao fazendeiro. . 219. enfim. como visto anteriormente — e de plantas silvestres e do mel de espécies variadas. o oposto da especialização: uma multiplicidade de produtos agrícolas.. o beneficiamento (salga de peixes) era atividade sempre presente (1999. Sigaud et al. De enorme importância comercial. aos agregados somente era permitida a construção de casas de pau-a-pique coberta de palha de carnaúba e a criação de umas poucas cabeças de gado bovino60. Daí receberem dos beraderos libertos a denominação de cativos. no que se refere aos pontos indicados. além do caroá (Neoglaziovia variegata) — fibra muita utilizada na fabricação artesanal de rede. a atividade do “catado” compreendia a exploração das palmáceas: carnaúba (Copernicia cerifera). livre. além da atividade extrativa. “a cultura do catado” guarda correspondência com as atividades coletoras. p. e de cercar de arames roças (que caracterizariam certamente benfeitorias). ela abrange um enorme leque de atividades. Estritamente entre as pessoas por mim entrevistadas. com destaque para a exploração da cera de carnaúba. diferenciando-se. Geraldino — também ex-agregado da mesma fazenda — chama atenção para um aspecto importante que marcava a relação de agregacia nos sertões sanfranciscanos: além da obrigação de prestarem o “cambão” e de jamais se negarem a trabalhar na extração da cera da carnaúba. No caso específico da área em estudo. Claro. Toda essa população vivendo. no caso. Na acepção de Antônio Guerreiro de Freitas. em várias localidades. uma pecuária de pequeno porte e seus derivados. sendo que. sem esquecer tudo que pescavam nos rios. Expropriação do campesinato e concentração de terras em Sobradinho 1987. Daí que se possa afirmar que o cativo só era percebido como tal em oposição à liberdade. a extração da cera da carnaúba e do látex das borrachas silvestres (maniçoba e mangabeira) eram atividades fortemente controladas pelos grandes fazendeiros e estes não tinham pejo em açambarcarem terras públicas 59 Relato de Manolo. p. O trabalho propriamente dito nas roças e a comercialização dos produtos era. portanto. dos que não se encontravam subordinados pela moradia no interior das fazendas”. assim como proibições de extrair madeira. Não menos importante para a felicidade beradera era a chamada “cultura do catado”. em torno do que eles próprios definiam como o “catado”. 63). Mas.

cai. não era permitida a recusa em extrair a cera da carnaúba. as expectativas costumeiras tornam-lhe difícil recusar auxiliar tal trabalho quando solicitado a tanto pelo fazendeiro. em parte. Aliás. Em diversas fazendas. Embora não seja sempre conveniente ao morador de uma fazenda de carnaúba trabalhar como “palheiro”. Tinha o ponto de secar. muitas das disputas verificadas no Vale do São Francisco. 225). e. Varona. em geral. aquele mundo de vara. A área de incidência da palmácea. 61 Até meados de 1970. a palha enganchava nos paus). . mas nascia também muita fruta. (1945. visando ampliarem seus negócios. p. a coleta da palha da carnaúba era uma ocupação temporária. pagando o “cambão”. o apanhador de palha ou “palheiro”. 309) Ao agregado. A palha. A cera era da palha. o capataz concorda em comprar aos trabalhadores. foram motivadas pelo controle das áreas de incidências desses importantes produtos comerciais. À semelhança da extração do caroá. 77 (desconsiderando direitos de posseiros) e ou de se estenderem até as “extremas” de outras fazendas. segundo Rêgo: “Limita-se o habitat da carnaubeira às vazantes e veredas da bacia média até a altura da Lapa”. Ele fornrce detalhes da pronunciada divisão sexual e social do trabalho existente nos carnaubais e como se dava a coleta e o processamento da palmácea. é geralmente pescador do rio ou da lagoa próxima ou lavrador de pequena roça durante a maior parte do ano. Caía muito mesmo. Mas reconhece que a renda da exploração do carnaubal61 era exclusivamente do proprietário. trabalhava em parte. tinha o molhador. poucas vezes recebia salários. p. a cera recolhida e a dar ao dono ou arrendatário da propriedade metade dos resultados. A palha tinha um cortado.2. Ela era verde e quando madura fica preta. botava um homem com uma vara alta. A carnauba era obra da natureza. especialmente no município de Pilão Arcado e arredores. na frente. Madurou. como é chamado. a bondade e a liberalidade do fazendeiro absenteísta. Chega ficava aquelas penca. Tinha um ajuntador que vinha atrás. 1972. como citado acima. tinha o desenganchador (porque às vezes. a meia. até de se admirar. a colheita da cera é contratada pelo dono com a pessoa que arranja um capataz para fiscalizar o processo. que molhava ela pra levar pro ponto de secar. O ex-administrador da Fazenda de Fora rememora a labuta na fazenda em termos bastante simpáticos. O gado comia as frutas. independente de qualquer alegação e este. ressaltando. uma vez mais. Em Pesqueira [Xique-Xique]. a cera da carnaúba atingiu altos preços no mercado internacional. (Pierson. por determinado preço. v. Na conformidade do sistema empregado.

que ficava com a narvalha pra cortar. cabia aos homens limpar a terra e fazer o plantio de algumas culturas. Os primeiros. Rasgava aquela palha bem fininha e batia no cacete. brilhava. Nas atividades agrícolas. retirando da mesma a cobiçada cera. Na extração da cera da carnaúba. As farinhadas e as pescarias constituíam momento de trabalho. quebrava. A cera de carnaúba era tão perfeita que tem ela aqui guardada. Era um mundo de gente. 78 todo forrado na áreia. cuidar do rebanho e tirar o leite. cabendo às mulheres e às crianças a coleta das fibras. nas beradas sanfranciscnas a divisão do trabalho era presente em todas as atividades. Depois que secava. a divisão era mais acentuada: ao homem cabia o meneio do gado. Era tão maneirinho e fino que chega escorregava. Perdia o pó. cabendo ao homem a fabricação ou trançagem da rede. jogar assim. Tinha que carregar duas três palhas. Não estraga. As mulheres quando tava passando roupa pegava ela e passava na roupa pra dar o brilho. Pelo visto. não! Nós apurava aqui. Outra atividade tradicionalmente explorada na área em estudo era o cultivo do algodão. de fundo comercial. assoprar. Fazia o “bolo”. objeto de importância fundamental para a pesca artesanal. Uma palha não dava uma colher de pó. e não vinha cair nada. Nós fazia nuns tacho grande. Na pecuária. Ela já ia todo quebradinha no saco. tomando o caminho do exterior. cabendo às mulheres as tarefas relativas à colheita e ao armazenamento dos produtos. mulheres e crianças cortavam capim e preparavam a exígua forragem que mantinha de pé o rebanho enfraquecido. às mulheres e aos filhos menores cabiam as lides com as “miunças”. os homens se dedicavam ao corte da palha e mulheres e crianças enfeixavam-na. o produto beneficiado era enviado para Juazeiro e de lá seguia para Salvador. o caso do caroá. de folguedos e de intenso convívio social. Tinha um talhador. Botava no tacho pra derreter e depois coava pra tirar o bagaço da palha. 70 a 80 pessoas trabalhando. Nas atividades extrativas. branca. típica das beradas sanfranciscanos. branca. gerenciavam as atividades. Em três dias. mulheres e crianças trabalhavam naquele cultivo. além de cultivarem a terra. encontra ela perfeita. o pó. Tinha que tirar com o máximo de cuidado.62 Concluído o processo. As mulheres ficava branca. eram os raros momentos de lazer e de encontro dos jovens 62 Relato de Manuel. Era mais quente do que fogo. por exemplo. como visto acima. homens e mulheres cortavam a planta e teciam os fios. . Em suma. se carrregasse mais. ela tava fria. Era coisa muito pouca. O pó a senhora podia chegar com um saco de pó. E ali. geralmente. espalhava a [palha] no terreiro com o máximo de cuidado. em períodos de seca. A roupa ficava engomadinha. por exemplo. Três dias tava seca. 10. Homens. O vento carregava tudo e não caía nada no chão. derramava o pó.

e entre a casa e uma atividade como a pesca que assegura a manutenção da família. O caráter festivo das farinhadas e das pescarias atraía os jovens. Unidade de aglomeração mínima. essas atividades mobilizavam toda a comunidade. Os pais não deixavam as filhas freqüentar rancharias mais afastadas. digamos assim. p. e de relações de sociabilidades do beradero era o povoado ou a “currutela” (pequeno aglomerado urbano que reúne algumas poucas casas)65. 1992. oh! diá Agora de Deus amém. meu bem.” 65 Sobre esse aspecto diz Lygia Sigaud: “Nessas circunstâncias de inexistência de contigüidade física entre a casa e o roçado.123). capim lelê. 79 beraderos. Nesses momentos de trabalho e de convívio social (Siqueira. fofocas. oh! diá Agora vem Deus amém. 134). compreendendo a feira-livre semanal (onde os beraderos vendiam o pequeno excedente) e as chamadas vendas — estabelecimentos comerciais não especializados. 64 As relações de afetividade e os namoros nos espaços das rancharias também foram registrados por Martins- Costa (1989. 1992. Os namoros ocorriam preferencialmente entre participantes de rancharias próximas socialmente. jovens e velhos. p. piadas. oh! dia. Além do rio. venha ver quem está cantano Capim lelê meu bem. capim lelê. abrindo a possibilidade para que os espaços das “oficinas” e das lagoas funcionassem como locais do foot. contavam-se histórias assombrosas. o povoado aparece como a única referência espacial fixa que lhe assegura o sentimento de pertencimento o que o localiza . Enquanto os trabalhos varavam a noite. capim lelê. Capim lelê meu bem. que funcionavam como ponto de referência 63 Relato de Quintiliano. com festas e namoros. a aguardente e as cantorias “rolavam soltas”. típico das cidadezinhas provincianas.” 63 Enfim. capim lelê. os povoados beraderos eram (e são) por excelência. o espaço fixo de referência organizacional. oh! diá Pra que falar minha gente. dos futuros casais e de “velhos e velhas festeiras”. Eram nestes povoados que se encontrava a igreja — na qual se venerava o Santo Padroeiro — e um pequeno comércio. reafirmando relações de sociabilidade. o espaço do viver o tempo social e local da concentração das famílias dispersas entre as beradas e as catingas (Siqueira. recitavam-se versos e cantavam-se modinhas e cantigas de trabalho. bem como de namoro e de afetividade64. estreitando relações de parentesco e compadrio e se afirmando como momentos de entretenimentos de crianças. Eram nestes espaços que travavam contatos com agentes do Estado e experenciavam relações de sociabilidade das mais variadas.171): “ O tempo das rancharias era considerado um período de muita diversão. capim lelê. para deleite dos enamorados. p. chega colega pra cá Capim lelê meu bem. propiciando contato entre rapazes e moças casadoiras.

80 dos povoados sertanejos. mercadorias e as novidades dos centros regionais. chocalhos. percebe-se o desejo de salientar a grandiosidade de seu povoado e de frisar sua importância. panos de toucinho. inclusive. Cit. cascas de angico. Entretanto. E na beira da Barra da Cruz o rio era estreito. Porque o rio era bem largo. Do lado de lá. latas de banha. fardos de rapadura. sapatos pé-de-anjo.. garrafas vazias. enxergava as casas. Wilson Lins descreve com riqueza de detalhes e com uma ponta de humor o papel das vendas nos povoados sertanejos. mas depois. chinelos.114. você via aquele morrão bem alto. um mundo variado de mercadorias de todos os valores e de valor nenhum. realçando aspectos de sua pretérita riqueza e abundância. Op. Do outro lado do rio tinha uma ilha. sacos de sal. esteiras e chapéus de carnaúba. nem todas contendo banha. o povoado era dotado de uma escola de primeiras letras. o rio era estreito. passava os vapor. Eram neles que as inúmeras barcas aportavam. Ficava no alto (por isso. de fora a fora. antigamente. p. espelhos. a maioria talvez sem conteúdo algum. Você vinha das estradas nem enxergava as casas. Era um ilhote cercado de rio. latas de brilhantina Tentação e algumas caixas de sabonetes baratos (Apud Freitas. amarrados de peles silvestres. alpercatas. vista negativamente porque privada dos recursos disponíveis no antigo povoado. pacotes de cigarros mata-ratos.] rolos de fumo. e a gente ia trabalhar no ilhote. Nas prateleiras. apontando. mas quando chegava já para descer no morro. montes de cebolas. Nessa ilha dava tudo! Era o ilhote de Barra da Cruz. Além da igreja. às vezes. Tinha uns barquinho. Da Barra da Cruz a gente via no interior do espaço social. 63). As descrições dos povoados beraderos submersos pela Represa de Sobradinho pouco diferem do exposto acima. aliás. visando contrastar com a situação atual. p. O povoado é o local da casa. um dos poucos equipamentos sociais que marcava a presença do Estado naqueles povoados distantes e pobres. só passava barca. Pro lado de lá do ilhote tinha o rio grande [o canal do rio]. do diminuto mercado municipal — no caso em que o povoado era sede de distrito — da feira-livre semanal e das vendas. os produtos ali encontrados: [. enxadas. barras de sabão. A Barra da Cruz antiga tinha três linhas de casas. caixas de pentes. nas “enchentes altas” Barra da Cruz recebia os retirados das localidades atingidas). berando o rio. a sede para a qual converge a família (ou membros dela) após os deslocamentos e o local onde se encontram os parente mais próximos”. 1999. levando e trazendo passageiros. .. pilhas de resinas. nas entrelinhas das entrevistas. As casas ficava na baxa. mantas de jabá. O rio era largo. vidros de óleo “Dyrce”.

67 Relato de Nelo. trezentas pessoas. São Roque [8 de agosto]. poderiam permanecer em uma mesma 66 Relato de Apolônia. Entrevista concedida à autora. “Para a senhora ter uma idéia. explica a razão pela qual os moradores de Barra da Cruz foram em massa para as “Agrovilas da Lapa”. 68 Relato de Francelino. Francelino. até o dia amanhecer e não tinha briga. uma vez que na localidade. Dilson frisa que a vida na Barra da Cruz Velha era tão boa que até o peixe era mais gostoso. Podia juntar a multidão que ajuntasse. “Tinha 25 armazéns. criava o gado. resolveram partir para Serra do Ramalho. desgostosos. 24/5/2003. plantava um saco de “feijão de arranca” pegava vinte ou trinta saco. não! Aí era outra coisa. chama a atenção para a diversidade das relações de sociabilidade no povoado. tudo honesto. Dança de São Gonçalo. Tudo solto! Tinha tudo com fartura!”66 No mesmo diapasão. a turma dançava. comia. bebia. segundo Francelino. vixe! Era uma união que fazia gosto. via tudo lá. não havia desavença. em Barra da Cruz tinha 5 salões de festa. . Ao tomarem conhecimento de que a CHESF não reconstruiria os pequenos povoados. O peixe era danado de gostoso”. Nunca andou uma poliça em Barra da Cruz Velha porque todo mundo era reunido. salienta a grandiosidade e a diversidade do comércio do povoado. Na Barra da Cruz velha tinha uma festa — dia oito de dezembro. Naquele ilhote. A união dos habitantes do povoado. 81 as pranta. o comércio de Barra da Cruz só perdia para Remanso”. 24/5/2003. você plantava “feijão de arranca”. criava o animal. criava porco. você criava o bode. Não tinha negoço de veneno. os habitantes de Barra da Cruz. em Casa Nova. festa de Nossa Senhora da Conceição — que tinha vez de ajuntar duzentas. Nesses armazéns tinha de tudo. não havia briga. O povo era tudo unido. visando evidenciar a fartura e a abundância que havia no antigo povoado. Entrevista concedida à autora. Daqui pra cima.67 Enquanto Apolônia ressalta a fertilidade do solo do ilhote de Barra da Cruz. vendia de tudo. todo mundo era combinado”68. aglutinando-os em núcleos maiores. por outro lado. Era muita festa: São João [24 de junho]. não! Não tinha negoço de adubo. Nas festas. Era grande.” Também é ressaltada a união e a boa índole do povo. O comércio de Barra da Cruz atendia os povoados de Sento Sé e de toda essa bera de rio. Além do mais. “Nas vazantes tinha munchta fruita e o peixe que vivia naquela ipueira comia aquelas fruita e [o peixe] ficava mais gostoso. em Casa Nova. ao menos.

Uns poucos. mais ligadas aos parentes de Sento Sé mudaram-se para os núcleos estabelecidos naquele município. conforme veremos adiante. Francelino arremata: Barra da Cruz era muito considerada. seus laços de união e de sociabilidade. refazendo. Quondo a gente tava lutando par a construir a Nova Barra da Cruz. Em relação à união de Barra da Cruz. assim. Apolônia conclui: “Em Barra da Cruz tudo era parente. Adolfo Viana falou: ‘tem que construir Barra da Cruz porque Barra da Cruz nunca deu trabalho pra ninguém. . Em Barra da Cruz nunca teve poliça’. só havia duas famía: a famía Leite e a famía Café. Dr. Apelam ao passado — rememorando positivamente — para negar o presente considerado impróprio e visto sob o prisma da negatividade. de certo modo. retornaram quando da reconstrução da Nova Barra da Cruz. como veremos mais adiante. Por isso era tudo unido. tais como Pau-a-Pique e Bem-Bom. visando contrastar com o clima de disputa e violência que vivenciaram nas agrovilas de Serra do Ramalho. 82 agrovila. Algumas poucas famílias. Barra da Cruz tinha um povo bom e unido. inclusive.” Apolônia e Francelino — ambos representantes das famílias citadas — realçam a união existente no antigo povoado de Barra da Cruz. e mesmo nos núcleos criados pela CHESF na borda do Lago de Sobradinho.

83 O Apocalipse chegou Quem tem olho venha ver Montado na besta da CHESF Botando todo mundo pra correr (José Libório – Ibotirama) .

com 10.A-6. planejada desde meados da década de 40 do século passado. controlando um quadro energético compreendido pelo Complexo de Paulo Afonso (Paulo Afonso I. Para implementar uma política de expansão do setor elétrico do Nordeste. Salvador. Além do aumento da 69 Segundo Paolo Marconi. Gazeta Mercantil. p. Inicialmente concebida como uma obra regularizadora do rio São Francisco. Ernesto Geisel anunciou que o reservatório seria utilizado também para a produção de energia. com 4. o Brasil vivia a fase denominada de internacionalização da economia nacional e a construção da gigantesca obra estava em total consonância com os planos elaborados pelo governo militar de criar obras de infra-estrutura voltadas para a viabilização do projeto de “Brasil grande potência”.O sertão vai virar mar A construção da Represa de Sobradinho começou em meados de 1973. representa duas vezes e meia a Baía de Guanabara. depois de visitar a região do futuro Lago de Sobradinho. setembro/outubro de 1976. Caderno do Ceas.7 mil megawatts de potência. até Três Marias. a Represa de Sobradinho é considerada a maior do mundo em espelho d’água. o presidente Gal. emoção e ressentimento. o Projeto da Represa de Sobradinho se assemelha ao existente no rio Danúbio. visando principalmente ao abastecimento de água para a usina de Paulo Afonso. subsidiária da Centrais Elétricas Brasileiras (ELETROBRAS).CHESF. A CHESF é a maior geradora de energia do país. 70 Em 1973. 63. III e IV) e mais três grandes represas (Sobradinho. ainda suscitam — entre os atingidos — polêmica. a CHESF se propunha a aumentar o potencial energético da empresa. II. Sobradinho: “um orgulho nacional”?. “Sobradinho controla a energia e o fluxo de água para todas as outras barragens do São Francisco.500 quilômetros quadrados69 e 350 km de extensão70. reportagem de Roberta Lippi. Itaparica e Xingó). No período em que se deu a construção da represa. Para se ter idéia de sua dimensão. através da construção de uma usina hidrelétrica. sob a regência da Companhia Hidrelétrica do São Francisco . deixando um saldo de questões que. 84 CAPÍTULO II O REDIMUNHO EM AÇÃO – ESPANTO E ESPERANÇA 1 . n.45. 71 Limitações afetam assentamento. passados trinta anos. p. 6 e 7/9/1999. em Minas Gerais”71. localizado na Iugoslávia. .

criando pólos de desenvolvimento agrícola. a construção da represa atenderia aos vários projetos de irrigação que seriam implantados na região. Sento Sé. qual seja: O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Pilão Arcado e Remanso e desterrando. aproximadamente 70 mil pessoas. submergiu 26 povoados e quatro sedes municipais — antigas vilas tradicionais — como Casa Nova. Casa Nova. mas. Cercado de expectativas. não só fazer “o sertão virar mar”. em parte induzidas pelo aparato publicitário de que lançaram mão as agências responsáveis pela sua consecução. A formação do lago de Sobradinho provocou a submersão de ampla faixa de terra propícia à agricultura. diz que tudo vai mudar. dava adeus às velhas cidades sanfranciscanas. a continuidade da navegação das famosas gaiolas ou vapores do rio São Francisco. traduzindo também um sentimento de repreensão à ousadia do homem em “desfazer” a natureza no que se inclui. A música “Sobradinho”. segundo o projeto governamental. gerando. fazer “o mar virar sertão”. inclusive. dá no coração O medo que algum dia o mar também Vire sertão (bis) Adeus Remanso. O São Francisco lá pra cima da Bahia Diz que dia menos dia vai subir bem devagar E passo a passo vai cumprindo a profecia De um beato que dizia que o sertão ia alagar O sertão vai virar mar. de Sá e Guarabyra. em conseqüência. garantindo. 85 capacidade de energia para o Nordeste. Dá no coração O medo que algum dia o mar também Vire sertão Vai virar mar. sobretudo. Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o gaiola vai subir Vai ter barragens no salto do Sobradinho . o grande projeto fez assomar à memória popular a profecia do beato Antônio Conselheiro. O homem chega já desfaz a natureza Tira gente põe represa. Sento Sé. emprego e renda.

. Jovens entoavam a canção enquanto se despediam de suas casas e dos “lugares de memória” das cidades prestes a serem submersas pelo Lago de Sobradinho. A notiça foi chegando assim. A bem da verdade. 200). tornaram-se espécie de hino para os riberinhos e beraderos atingidos. além de ganharem projeção nacional. Era na área que os Tuxás cultivavam a terra e praticavam seus rituais identitários. . pedindo a São João (seu velho Ká73) proteção à Ilha da Viúva74. 73 Entidade Tuxá. no tempo e no espaço. nada sabiam a respeito dela. as primeiras notícias em relação ao projeto chegaram “meio atravessadas”. 24/1/2002. 86 O povo vai-se embora com medo de se afogar. não. de ouvi dizê. Nunca ninguém. suficiente para nós não as considerarmos. a fonte era desconhecida.. os versos acima. nenhum representante chegou assim pra falá a sério com a gente. (1992.. isto é. Consta que. os beraderos que teriam suas vidas “reviradas”. mas com consciência da distância. Era um boate. sequer imaginavam a possibilidade de que uma obra dessa natureza pudesse se realizar. música de Sá e Guarabyra. não”. localizada no Baixo-Medio São Francisco pertencente ao município de Rodelas. Eu merma dei risada..De ouvir dizer.75 72 Sobradinho. os Tuxás cantavam-na também. não havia no imaginário social camponês qualquer referência importante que tornasse possível uma compreensão efetiva do que seria de fato uma barragem. Encontramos referências esparsas à barragem de Três Marias. 74 Ilha de aproximadamente 50 hectares. quando Rodelas estava prestes a ser “afogada” pelo Lago de Itaparica. No entanto. outros ficaro com medo. O melhor de Sá e Guarabyra [CD]. p. por conta da grande represa.. em Casa Nova.Entrevista concedida à autora. Uns não creditava. Na tradição oral. 2 .72 Expressando sentimento de perda. Quando os riberinhos e beraderos da área de Sobradinho tomaram conhecimento da construção da represa? Como viram a “movimentação” da CHESF na região? Do que se pode depreender das entrevistas tomadas. espécie de mito fundador da comunidade indígena.. as informações eram passadas e repassadas através do “ouvir dizer”. A movimentação da CHESF na região de Sobradinho antecedeu à construção da barragem. Creditei nisso. Como bem salienta Ruben de Siqueira. 75 Relato de Alice.

era isso aí. Entrevista concedida à autora no Distrito de Canudos... na ameaça do barco afundar.. mas não diziam não. começou a correr a voz das ‘inundações’ E mesmo assim em Remanso ruas estão ficando desertas. Ia inundar onde a gente morava. junto com os chefes da CHESF. passava só botano os aparelho. Me disseram: “eles estão com a bandeira longe.”. Lá tinha um serrote muito grande e muito alto. né.. Andava uns home lá.) Como os ratos. tu que anda com essa turma aí tomando cerveja. Eles estavam medindo as terras era pra poder indenizar. em 1969.. Pergunta a eles pra que qui é que eles estão medindo essas terras”. 10/7/2002. Passava dois. né? Aí eles passava dois home. 42) Certo é que. Lá mais adiante tinha um negócio assim de metal.”76 Também outra entrevistada relata o quanto os beraderos ignoravam a razão da presença de homens estranhos na área futuramente submersa. (s. 87 Outro entrevistado disse: Ninguém sabia não. E a gente não sabia. ia todo mundo sair de lá.a. Aí depois que eles terminaram aí eles foram embora. Botava uns aparelho. Eu pergunto o chefe deles e diz que não sabe dizer. três dias lá na serra. E quando estourou. Eles sabiam.”77 As andanças de “estranhos” na região não eram vistas como bom sinal e algumas pessoas sentido-se ameaçadas adotaram a política da fuga como registra reportagem do Caderno do Ceas. Dona [dirigindo-se à entrevistadora]. anualmente. lá. Também o medo e a fuga estão começando também a contagiar o povo com menos recursos e menos esperança. moço”. p. Eu sei que eles sabia. eu não sei não. Não falava o qui era. Então a CHESF andava por lá e eu sempre andava pra qui. rapaz. eles dizem que não sabe. Que disse que ia surgir a Barragem. pra culá. sertanejos do interior fogem para as cidadezinhas beira-rio: de duzentas a trezentas famílias se refugiaram assim. . aí a gente soube. faltando menos de um ano para que se iniciasse o calendário das transferências — março de 1976 — e um pouco mais de um ano do início do represamento 76 Relato de Quintiliano. 77 Relato de Elvira. Foram embora. Eu perguntava: “Digo. eu não entendia o que era. “Oh! Tu.. (. Não falava. em Remanso depois que.. Barra. Eu pergunto pra eles. 1974.

Verdade questionável e improvável. entre 1973 e 1975. de qualquer modo. contudo. 88 do lago — fevereiro de 1977 —. estranheza e pela arbitrariedade. passando pelos bens passíveis de indenizações e possível fixação na borda do lago. Remanso e Sento Sé dirigiram ofício ao Centro de Implantação do Reservatório de Sobradinho — CIRES e à Superintendência do INCRA. ganhado foro de verdade. 78 “Apenas em março de 1975. 1975. Casa Nova e Remanso ao Cires. ficaram restritos às elites políticas da região. Apenas em abril o presidente da República concordou com a criação de grupo de trabalho. depreende-se também que a mesma cumpriu à risca o calendário da obra. os beraderos atingidos pela Represa de Sobradinho não sabiam com precisão o rumo a ser tomado e a maioria ignorava detalhes relacionados às indenizações e a possível fixação na borda do Lago78. 1-2). fazendo-a a “toque de caixa” e a reboque do enchimento do lago. os trabalhos de transferência da população atingida. A partir dos trabalhos da “equipe social”. quando o planejamento para a construção da barragem já contava quatro anos. Tomando-se o oficio do Sindicato como parâmetro. Tallowitz. além de marcada pelas dissonâncias e descompassos foi marcada pela desconfiança. deixando claro que ainda havia muitas pendências em relação à transferência e ao processo de indenização em curso (Ofício do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Juazeiro. p. Exatamente um mês depois de ter recebido o oficio (18/71975). montando escritórios na sede do Município de Casa Nova. negligenciando. os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Casa Nova. tudo indica que as informações relacionadas à construção da barragem e aos planos de transferência da população. 1979. 66 . ganhado os noticiários e tomando foros de verdade. a notícia chegou aos povoados distantes dos demais municípios atingidos. Quando os boatos e o “diz-que-diz” tomaram vultos. A relação entre ambos. Juzeiro. abragendo desde data e plano de transferência da população da zona rural. solicitando esclarecimentos em relação a dezoito pontos. e as obras haviam iniciado há dois. p. explicava a movimentação de homens e equipamentos estranhos na região. mas que. Da resposta da Companhia. indivíduos culturalmente diferentes e vivenciando temporalidades também distintas se encontraram frente a frente. contemplando todos os pontos. que deveria coordenar a participação dos diversos órgãos responsáveis pelo relocamento”. Somente quando as equipes de trabalho das agências governamentais responsáveis pelo cadastramento e indenizações dos expropriados se estabeleceram na região. a CHESF o respondeu. que foi publicado o primeiro plano de relocamento definitivo.

em Barra. E aí o que é certo é que nóis nunca acreditava naquilo. (1989. Nunca foram procurados por agentes da CHESF e nunca pleitearam indenização.. particularmente de suas grandes enchentes — denominadas de enchentes altas. 89 De acordo com Ruben de Siqueira. digamos assim. p. 58. as motivações da construção da obra e seus efeitos encontravam-se numa dimensão. Nada disso se verificou em Sobradinho. tomando como exemplo o povoado de Itapera. Segundo Rosa Pereira. 7) No meu entendimento. José Rodrigues dizia claramente que os camponeses não agissem sob pressões e que só mudassem depois que a CHESF resolvesse a questão dos núcleos de reassentamento. não. Estudando a “representação camponesa” sobre os “eventos inéditos da barragem”. Remanso) – “(. algumas das informações contidas em notas de rodapé da obra Uma retirada insólita: a representação camponesa sobre a formação do Lago de Sobradinho. localizado no município de Sento Sé. Para os beraderos. O povo achava: ‘nada. seria um erro estendê-la a todos os beraderos que experienciaram o deslocamento compulsório na região de Sobradinho. p. Aliás. 1992. após a informação de que a barragem seria construída. p. lugar onde botaram esses piquete assim de cimento.” Ruben de Siqueira. 81 Não podemos esquecer também a resistência da Igreja. D. O papel da Igreja na resistência de Sobradinho. ao ser anunciada como uma subida excepcional das águas. O que as águas não cobriram. num primeiro momento. a representação camponesa da “enchente alta” apresenta limitações. aí nestas bocas de carrero. de autoria de Martins-Costa. 201. foi assimilada ao esquema interpretativo dos camponeses a respeito dos movimentos do rio. imediatamente. os beraderos ainda duvidavam de que a mobilização fosse protagonizada em função da construção da barragem. .. atritam com a concepção que 79 Vejamos uma fala tomada por Ruben de Siqueira: Alcidio (Igarapé. Do contrário. Martins-Costa defende ponto de vista que carece de uma análise mais acurada: A tese que apresentei aqui é de que a formação do lago. só teria força explicativa num contexto em que o cronograma e as condições da relocação fossem aprovados pelos interessados81. porque o povo via eles andar a cavalo. inapreensível. como explicar a partida de mais de mil expropriados para Serra do Ramalho? E de tantos outros beraderos que partiram quando os primeiros sinais de que as águas subiriam e de que o “lago afogaria o rio” ganhavam concretude?80 Em segundo lugar. mesmo depois dos primeiros contatos com os técnicos das agências governamentais envolvidas com o Projeto Sobradinho. aqui eles tão como nóis aqui porque acha que tem um grande mineral’.) a gente dizia que eles – a gente não acreditava – eles queriam era tomar os local da gente. 80 Em entrevista concedida à autora. em 12/7/2002. Acreditavam que a estatal cobiçava suas terras porque em seu subsolo havia mineral79. Em primeiro lugar. Eles viam na mobilização da CHESF interesses escusos. Elvira confessou que se mudou com a família da beira do São Francisco. 1988.

favoravelmente aos interesses das elites regionais. convém atentar para as palavras de João Saturnino. ex-coordenador da equipe social da ANCAR-BA: Dizer que a população não queria sair é complicado. 4/11/2003. a representação de “enchente alta” é demonstrativa das “improvisações e das reelaborações” de que lançaram mãos os camponeses para situarem.A ordem é partir. Numa inequívoca demonstração de desinformação.” Margarete P. no âmbito de suas experiências. em encontro com a Comissão Parlamentar da Bacia do São Francisco. a Câmara Municipal de Remanso “vetou” por unanimidade o projeto governamental (OESP. 3 . Remanso e Casa Nova. a construção da barragem. o governador da Bahia Antônio Carlos Magalhães posicionou-se. A população resistiu em cima da indefinição da CHESF em encontrar um lugar digno.. as elites políticas e econômicas locais e regionais das áreas atingidas viveram em compasso de espera. . da diminuição do repasse da cota do Fundo de Participação dos Municípios83. Ela iria para qualquer lugar às margens do São Francisco. a reação dessas elites à construção do futuro lago foi marcada pela ambigüidade e pelo jogo de interesses. bem como os efeitos que essa construção provocaria em suas vidas. 83 Vejamos: “Os prefeitos de Sento Sé. 74. da diminuição de tributos e. p. 90 norteia a obra. o cheiro da sua história. segundo Burzstyn.82 De qualquer modo. municípios que seriam inundados em conseqüência da obra. 1975). tendo como presidente o deputado Lomanto Jr. 82 A entrevista concedida à autora em Salvador. da Silva. As elites políticas temiam perda de poder. Embora homem de total confiança do regime militar.. (ARENA-BA). À parte fatos pitorescos. manifestaram preocupação quanto à situação em que se encontrava a área. pelo menos. diante da perspectiva da transferência de sua clientela. especialmente. porque a população dizia que não queria sair do espaço sanfranciscano. 2002. Ademais. Pilão Arcado. Logo após decreto presidencial dando conta da construção da Represa de Sobradinho. Eles não queriam sair era para outro lugar que não tivesse. A construção da Barragem de Sobradinho a partir da Diocese de Juazeiro: 1962-1982.

foi construída uma estrada de 84 km. considerada imprescindível e estratégica. 85 Segundo Margarete Silva.. quando o Ministério das Minas e Energia anunciou a transferência da CHESF do Rio de Janeiro. em relação à construção da Represa de Sobradinho. não disponho de outros dados comprobatórios da posição contrária do governador Antônio Carlos Magalhães à construção da grande obra de infra-estrutura84. 4/11/2003. o governo do estado da Bahia. o grupo “autêntico” do MDB movimentou-se no sentido de promover a “CPI das enchentes”.” Ciente das desconfianças das elites locais e das possíveis resistências. 86 Entrevista tomada pela autora. muito mais em decorrência da disputa travada entre políticos arenistas da Bahia e de Pernambuco pelo controle da CHESF. Não se obteve do governo do estado da Bahia nenhum sinal de boa vontade em relação à população (. Aliás. e utilizando recursos das frentes de trabalho dos flagelados da seca. asfaltada. encaminhou ofício ao Presidente da República e ao Ministro das Minas e Energia Shigeaki Ueki. a disputa envolveu a Associação Comercial. ligando Casa Nova a Sobradinho. . no período que compreende o pagamento das indenizações à transferência. fato que dificultaria enormemente a remoção (Burzstyn.. apresentando os motivos da procedência do estabelecimento da empresa entre os baianos. “A Associação comercial da Bahia. em Salvador. Além da afirmação de Burzstyn. era como se aquela catástrofe não estivesse ocorrendo em seu território. propriamente. Entrevista tomada pela autora em Salvador. travou-se entre políticos arenistas baianos e pernambucanos disputa pelo controle da estatal. deixando a população à sua própria sorte87. em segundo lugar. Ainda segundo a autora. conforme salienta João Saturnino86. 2003. nem mesmo a diminuta bancada baiana do Movimento Democrático Brasileiro — MDB — na Câmara Federal ousava questionar a importância do empreendimento. além de políticos e da imprensa. por sua vez. 91 Dois fatos o atestam: em primeiro lugar. Provavelmente. pela oposição à construção de uma obra85. Em face desse consenso e utilizando-se da justificativa de que não tinha prerrogativa para se imiscuir em empreendimento da esfera federal. p. o governo estadual baixou uma lei proibindo o transporte de animais por rodovia. 29/9/2003. como forma de pressão contra o enchimento do lago. as autoridades governamentais responsáveis pelo grande projeto empreenderam uma política de acomodação 84 O ex-governador Roberto Santos diz desconhecer qualquer atitude do senador Antônio Carlos Magalhães nesse sentido e reputa sua nomeação à presidência da ELETROBRÁS como forma de acomodação das diversas facções arenistas. Em relação a esse aspecto. em área prevista para inundação. silenciou-se. 1988: 23). Nessa perspectiva. havia. do que.” A construção da Barragem de Sobradinho a partir da Diocese de Juazeiro: 1962-1982. Somente após as grandes cheias de 1979/1980. os atos acima referidos foram suscitados. João Saturnino afirma: “O governo da Bahia não tomou nenhuma providência. amplo consenso entre as elites políticas e o governo em Brasília.). quando já se preparava a transferência da população. 70.

representando ponto de inflexão nas relações entre a empresa responsável pela construção de Sobradinho e as elites políticas da área do futuro lago90. claramente. Era uma população inteiramente desprovida de interesse político. a CHESF empreendeu. 87 De fato essa foi a justificativa do ex-governador Roberto Santos. Magalhães assumirá a ELETROBRÁS. 89 Diante da surpresa de sua nomeação. mas através da contratação de seus serviços no campo jurídico. A nomeação do ex-governador para presidir a estatal. No momento das desapropriações — ápice dos choques de interesses nos quais se encontravam envolvidas a CHESF e as elites políticas e econômicas da região do Lago Sobradinho —. no lugar do engenheiro Mário Penna Bhering. que não se limitou ao atendimento de suas demandas (muitas vezes contrárias aos interesses da maioria dos desapropriados).” A fala foi reproduzida da matéria: Antônio C. Shigeaki Ueki. 7/11/1975. embora causasse surpresa89. . médico. João Saturnino complementa: “Elas não tinham compromisso algum com a população que estava sendo transferida. à qual estava subordinada a CHESF. estas elites. Paulo. após a nomeação de Antônio Carlos Magalhães para a presidência da ELETROBRÁS. A CHESF visava deixar claro que sua atuação na região em nada feria aos interesses das elites. o ministro das Minas e Energia. comercial e de construção civil. foi bem recebida pelos meios políticos baianos. De olho no futuro. embora discordasse da transferência de sua clientela eleitoral. José Mascarenhas. Antônio Carlos Magalhães não se fez de rogado e explicou: “É verdade que tive um ótimo secretário de Energia. Para Siqueira. A maioria da população nem era eleitora. uma política de cooptação das elites locais da área de Sobradinho. Junto aos beraderos — principais prejudicados com a transferência — a estatal soube capitalizar a expressiva oferta de emprego — guardadas as proporções locais — acarretada tanto pela construção da obra como pela reconstrução das cidades que seriam submersas. valorizando suas propriedades e criando oportunidades de negócios rentáveis.” O apoio às investidas da CHESF por parte das elites políticas locais era tanto maior quanto fosse a possibilidade dos ganhos que pudessem auferir. 92 e cooptação das mais bem sucedidas. 88 Antônio Carlos Magalhães foi nomeado presidente da ELETROBRÁS em 7/11/1975. trazendo investimentos. Coincidência ou não. as elites políticas dos municípios atingidos apoiaram a CHESF porque todas queriam manter seus esquemas de poder. nomeou para a presidência da Eletrobrás. mas tomo a mim alguns dos seus méritos. em entrevista à autora. Era analfabeta. permanecendo no cargo até meados de junho de 1978. publicada no jornal Folha de S. o médico Antônio Carlos Magalhães88.

tornou-se inquestionável. através de um articulado circuito de controle e mandonismo. foi ambíguo. Malgrado algumas dissonâncias91. na medida em que amenizou “o sentimento de derrota” dos políticos baianos. p. em geral causadas pelos choques pontuais e pelo jogo de interesses. sobretudo depois da nomeação do ex-governador Antônio Carlos Magalhães para a presidência da ELETROBRÁS. grupo familiar mais conectado aos poderes nas diferentes esferas. afundando fundões e rasos. foram francamente favoráveis aos interesses da estatal. Qualquer que tenha sido a posição dessas elites em relação ao processo ocorrido em Sobradinho. a nomeação do ex-governador para a presidência da ELETROBRÁS deve ser entendida dentro do contexto de disputa pelo controle da CHESF. a família Viana teria se posicionado contra a transferência da população.71). Essa ambigüidade foi registrada tanto pelos atingidos como pelos técnicos e talvez tenha sido por esta razão que o município tenha sido escolhido como o centro das operações da “equipe social”. Em Sento Sé — município com maior número de atingidos —. Inclusive. A posição da família Viana em relação ao Projeto Sobradinho será abordada mais adiante. bem como à população. . 93 em geral. Em Casa Nova. O mesmo ocorreu em Pilão Arcado — o município com menor número de camponeses deslocados. p. digamos assim. redefinindo seu papel como mediadora entre a população e o Estado. o poder se encontrava mais partilhado e a intervenção das elites (Braga. os carnaubais que me criaram e educaram vão pubar debaixo d’água. 58). o apoio das elites políticas à atuação da CHESF na região de Sobradinho. a poderosa família (que agregou ao seu nome o topônimo do lugar) assumiu claramente apoio à Chesf. Em Remanso. trazendo para beira d’água caatinga e cerrados que só conheciam cacimbas e caldeirões e morriam de sede quando as chuvas não chegavam. as lideranças políticas do município — como o prefeito nomeado João Ribeiro do Vale e os Queiroz — foram dos que mais lucraram com a barragem. na percepção da população atingida. não custa reafirmar. 91 Na percepção de alguns dos deslocados de Casa Nova. Vou ficar sem as terras que meu pai deixou. Vejamos o que escreveu um de seus mais ilustres representantes: Serão quatro mil e quinhentos quilômetros quadrados de água funda. abandonando a posição clientelística que sempre assumira em relação à população. os sítios de minhas reinações de menino sumirão no imenso 90 Para Margarete Silva (op. o papel dos Viana. conforme veremos adiante. Rosal. Castro) aparecia mais imprecisa e indefinida. esta afetou suas imagens.. No entanto. cit. Ruben Siqueira registra que encontrou reclamações entre os camponeses contra a omissão da prefeitura em não defendê-los e o grande benefício que a barragem foi para os ricos (1992.

Do mesmo modo. numa pasta onde havia jornais e trabalhos escolares. não me será difícil imaginar a satisfação do meu amigo Wanderlin Braga. saindo para ganhar a vida em outras terras. ouvindo os navios apitando no cais de Tapúio. que corresponde ao território da minha querência. Sejamos sábios. ficará na recordação. vai. Segundo estou sabendo. Com isso não estou querendo dizer que a barragem vá transformar aquilo num céu aberto. mas. vendo o aguaçal chegar no Campo Grande. agora. a transformação que se operará na vida de toda aquela gente. onde na certa. quase mar para salvar o Rio e o Povo. seja na Barriguda. Tudo vai sumir de minhas vistas. a alegria do povo de Casa Verde e Penasco. Que venha o grande Lago. que por ter de ser força. não é só destemer: é sabedoria e muita. que durará apenas o tempo que eu durar. vejo. passará para o campo da lenda. 1976.”92 92 Wilson Lins. Não digo. Destemer do que tem de ser. O negócio é desapear e caminhar de passo firme para o futuro. a parte mais larga do lagamar será onde hoje é Pilão Arcado. Pilão Arcado. sem dispor de poder divinatório. O que a água e a energia trarão de benefício para o que restar daquilo que um dia foi Pilão Arcado compensará de sobra o perdido. onde certamente será construída a nova sede de Pilão Arcado. pois. as ruazinhas da vila em que nasci e as fazendas em que minha família ia passar o “Verde”. Essa crônica foi encontrada pela autora deste trabalho (mimeografada) na Biblioteca Pública de Sobradinho. destemendo o futuro. Só não sei é se Honorato Viana vai concordar com a mudança de Casa Nova para Lagoa do Alegre. ainda assim estarei feliz. Empolgado com as entrevistas maravilhosas de um futuro que posso quase tocar com as mãos. daqui. Do que tenho certeza é que o jovem Deputado Jairo Sento Sé vai fazer força para a nova sede do Município de que lhe veio o nome. mas dói muito mais saber que todos ali são tão pobres. Do cenário em que se movimentaram os heróis de minha infância. me darei por bem pago. mais tarde convertidos em personagens dos meus romances. mas que tudo vai melhorar muito. Com a barragem. Antevendo. ainda assim. será edificada a nova Remanso. 94 mar saído das mãos do homem. os que ficaram talvez não tenham mais motivos para sair. Reconheço que dói ver a terra onde a gente tem o umbigo enterrado desaparecer da terra. . por menos que paguem o que eu perder. forcejo afastar do pensamento coisas que a saudade teima em desocultar. Daí porque não vejo razão para temores ou sobressaltos e muito menos para tristeza. que já sou capaz de dizer como as coisas se passarão. Os lucros do prejuízo. que acabam não agüentando mais tanta pobreza. E tenho tanta fé em que isso aconteça. depois. pois uma nova vida virá para minha gente. passadas as trovoadas. mas. que eu estava por dentro das transas. para que não digam. que é mais importante que as lembranças que ficarão a me unhar por dentro. e os que saíram talvez tenham oportunidade de voltar. não ficará sobra ou rastro.

Com razão. que prenunciam a resistência a deixar ‘a beira do rio’” (idem. Morreu porque não acreditou nessa barragem. mas não quis mudar. tiravam o sono de muitos beraderos-foreiros. 95 Evidenciadora do entusiasmo das elites locais pelo projeto. sobretudo. “Entre a população que seria afetada. à medida que a notícia se espalha. Em que medida a incredulidade dos beraderos teria funcionado como arma de resistência? O que parecia aos olhos dos agentes governamentais ignorância e atraso nada mais era que uma forma original de resistir. As dúvidas e incertezas em torno do assunto pairavam no ar e. Entrevista concedida à autora em Juazeiro. resultando em quebra de valores. o “afogamento do rio pelo lago”. certamente. De outro lado. por mais que se gabassem de possuir status social e cultural superior ao do catingueiro (Siqueira. a longa citação revela também. jamais conceberam que a natureza. 12/2/2001. então curso. 156). fosse drasticamente modificada. Entretanto. no que toca à escolha das novas sedes municipais. À medida que os trabalhos da construção avançavam e as desapropriações começaram a ser efetivadas. 93 Relato de Marina. p. que o poder de mando dessas mesmas elites fora preservado. A alteração do leito natural do rio. “a cheia que vem de baixo”. tudo isso representou uma “violência simbólica” das mais marcantes.93 Os beraderos. Afinal. começam reações de descrença e ceticismo. com mais dificuldade na zona rural. Um rapaz morreu. esse tipo de reação tinha um limite. p. no Brasil nenhuma lei amparava as vítimas dos deslocamentos compulsórios destituídas de título de propriedade ou determinava o seu reassentamento. Preferiu morrer. a população da zona rural das áreas atingidas pela Represa de Sobradinho reagiu ao deslocamento compulsório com um misto de incredulidade e desconforto. crenças e concepções. Instalou-se entre os beraderos o desassossego e a angústia. Morreu uma família. . 56). um dia. Como seria a vida dali em diante? As informações eram desencontradas. 1992. Minha mãe dizia assim: Quem já viu nas coisas de Deus ninguém mexer? Quem vai mexer no rio nunca? Ninguém acreditava. passaram da incredulidade à insegurança.

Primeiro. 1987. os órgãos responsáveis pelo deslocamento indenizavam as benfeitorias dos expropriados destituídos de título de propriedade e estes se deslocavam. publicada em junho de 1990. em dois sentidos: a) para a realização de estudos referentes ao impacto ambiental da área atingida. implementação e avaliação desses projetos. p. passaram a condicionar a liberação de recursos à formulação de planos sociais que incorporassem a participação da população a nível da concepção. as agências de financiamento multilaterais. o qual consistiu num roteiro básico para os estudos ambientais. essas agências passaram a pressionar os órgãos responsáveis pelos deslocamentos compulsórios. 23). deixando a área livre para ação desses órgãos. Esta exigência foi motivada por avaliações feitas pelas equipes técnicas de órgãos nacionais e internacionais. 96 Freqüentemente. 22). p. já se encontra um capítulo que descreve o reassentamento como uma das alternativas destinadas de forma preferencial ‘aos segmentos populacionais formados pelos não-proprietários e pelos proprietários que usualmente encontram dificuldades maiores em recompor sua base produtiva” (Apud Rebouças. 2000. No caso específico da Represa de Sobradinho. . Neste sentido. tais como o Banco Mundial. a situação em Sobradinho se encaminharia de forma completamente diferente da que vinha ocorrendo no país. somente a partir de 1986 a ELETROBRÁS publicaria o Manual de Estudo e Efeitos Ambientais dos Sistemas Elétricos. na segunda versão deste Plano Diretor. que constataram a existência de grandes distorções na implementação dos programas de atendimento aos pequenos produtores da Região Nordeste (Machado. b) para reconhecer os direitos dos desterrados despossuídos de títulos de propriedade que viviam na área atingida. No mesmo ano também foi publicado o Plano Diretor para Proteção e Melhoria do Meio Ambiente Obras e Serviços do Setor Elétrico onde se encontra a primeira referência ao reassentamento de populações. para Ghislaine Duqué.94 Por razões as mais diversas. Conforme assinala Lídia Rebouças. Em linhas gerais. A evolução desta política repercutiu em considerações cada vez mais detalhadas sobre o tratamento a ser dado a essas populações.

o Movimento foi duramente reprimido pela forças policiais baianas. tendo. especificamente em Casa Nova. ligado. aridez das terras e vultoso contingente humano — pobre e subdesenvolvido — apresenta-se um profundo problema social que está a exigir uma consideração toda especial quanto à assistência que 94 Mais detalhes sobre o Manual. enviou carta ao presidente da CHESF chamando a atenção para a necessidade de se dar tratamento especial à população da área da futura Represa. entre os anos de 1934 e 1938. o baixo valor dos bens. seus prefeitos nomeados. Temia-se que a população adotasse uma postura mais aguerrida e que um movimento de resistência mais efetivo fosse deflagrado. capitaneado pelo Padre Cícero Romão Batista. pela extensão. Decreto- Lei n. 33). por sua vez. portanto. nos trabalhos de desapropriação. 97 foi precisamente a pobreza da região (Sobradinho). declarava os quatro municípios atingidos pela futura Barragem de Sobradinho área de Segurança Nacional. Ceará. daí por diante. 1989. quando chegaram a Sobradinho os técnicos encarregados da implantação do projeto.. Pairava. Em 1938. Pilão Arcado. em face desse temor. a desocupação de uma área dessas implica. A ausência de medidas especiais teria causado verdadeiras comoções sociais (1986. que levaram a CHESF a assumir um programa de reinstalação dos transferidos. engenheiro Eunápio Peltier de Queiroz. o espectro do Movimento de Pau de Colher ocorrido naquele município. ao movimento de Juazeiro do Norte. tendo algumas de suas lideranças presas e banidas do convívio social. A construção do Social pelas águas: notas sobre o Manual de Impactos Ambientais da ELETROBRÁS. e. De maneira geral.316 publicado em março. O Movimento de “Pau de Colher” ou dos “Caceteiros”. bem como das autoridades regionais. Prática do regime de exceção e. Em Sobradinho. apenas. o Diretor de Construções da CHESF. possivelmente. das indenizações. como chamam alguns dos indivíduos de quem colhi entrevistas. em 1974. O direito de voto para prefeito nos municípios de Sento Sé. O temor de comoções sociais alimentava o imaginário dos agentes governamentais envolvidos na execução do Projeto Sobradinho. . esse movimento guardava estreitas relações com o ciclo “messiânico” de Caldeirão Grande. gerando pânico e repulsa dos grupos dominantes locais. Segundo especialistas. apresentava similitudes ao Movimento de Antônio Conselheiro. Em 1972. 1. p. consultar trabalho de Ana Luisa Martins-Costa et al. Casa Nova e Remanso só seria restabelecido em 1985.

(Souza. Depois de parecer negativo do INCRA. 98 deve ser dada às populações atingidas. em relação à futura borda do lago. visando desenvolver projetos de agricultura irrigada com colonos provenientes de outras localidades. exatamente. Além do mais. 1987. distante do Rio São Francisco mais de 6 quilômetros! . fiando-se nos pareceres técnicos. somente a população das áreas da caatinga. Não podemos esquecer também que o Banco Mundial. p. a estatal. a população beradeira seria deslocada para área localizada a 700 quilômetros de seu local de origem. Dada sua magnitude. cobiçava essas áreas. Assim. afirmou que não haveria deslocamento compulsório para a área situada fora dos limites dos municípios atingidos. inclusive. pois acreditava que os posseiros recém-expropriados não tinham aptidão para prática da agricultura irrigada. se adaptaria à vida ali. Temendo resistências. p. 55)95. 27). os órgãos governamentais explicam a “inaptidão” dos beraderos para a agricultura comercial como decorrência do “atavismo” dessas populações. p. voltada à exportação (Machado. a estatal passou a descartar qualquer possibilidade de assentamento na borda do futuro lago. inclusive. a CHESF se comprometia a relocar a população da zona rural. 95 De acordo com Celito Kestering. havia se manifestado contra “a solução borda do lago”. além da reconstrução das sedes dos municípios submersos. entre os Vales dos Rios Verde e Jacaré. 96 O Projeto caatingueiro foi criado dentro do pressuposto de que. Chegou-se a cogitar. situadas dentro da cota máxima estabelecida pela CHESF. agente financiador do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF). a suspensão do projeto piloto implementado pelo convênio INCRA/CHESF no município de Casa Nova. transcende dos poderes e atribuições da Companhia. que visava atender aos catingueiros que viviam em área situada dentro da cota máxima estabelecida96. 6) Desse modo. indisponibilidade de terras para todos e a má qualidade do solo. inicialmente. na borda do futuro lago. A remoção dos beraderos para locais distantes da borda do lago era justificada pelo INCRA/CHESF em função de questões técnicas: problemas de segurança. 1988. faixas dela se tornariam áreas bastantes valorizadas e a companhia não via com bons olhos distribuí-las para antigos posseiros. ao nosso ver. 1981. A argumentação da Companhia não convenceu e foi duramente questionada. Faixa das mais férteis da região sanfranciscano (Pereira. Tal fato provocou. Em que pese às restrições técnicas apregoadas pelos agentes sociais do convênio INCRA/CHESF. a instalação dos deslocados em região situada entre os municípios de Sento Sé e Xique-Xique.

por vezes. para James Scott. daqueles destituídos de meios e instrumentos capazes de fazer valer. Amparado em ampla literatura sociológica e antropológica. 1992. é distinguido da CHESF — esta. principalmente o reassentamento na região. 1992. nos termos definido por James Scott. “amplia os limites do possível e traz nova visibilidade da (e para a) ação social e política” (Siqueira. a “besta-fera”. pois. envolvendo os atingidos. Embora incrédulos e atônitos. ela passou a ser condenada e compensações passaram a ser reivindicadas com determinação. referindo-se ao monstro do Apocalipse — e até visto como aquele que poderia salvá-los. do seu ponto de vista. firma-se como a ação política dos agentes sociais que se encontram “pulverizados ao longo da zona rural e enfrentando ainda mais obstáculos para a ação coletiva e organizada” (2002. não é sempre percebido pelos camponeses como tal. destoando da maioria dos estudiosos que se debruçaram sobre os impactos sociais de Sobradinho. Do primeiro. sim. ressaltam-se atitudes de conformismo e resistência. por exemplo. O Estado. como eles a chamavam. no conceito de resistência cotidiana. 264). Longe de se constituir em ação pré-política ou política em caráter embrionário. Do estudo da subjetividade. p. a resistência cotidiana camponesa. a situação das indenizações e à atuação de várias autoridades: representantes locais. (Siqueira. O pesquisador estuda a reação dos beraderos face à atuação da CHESF. Ancorado em Kerkvliet. p. Instrumento de pressão e de recusa. a resistência cotidiana camponesa é a arma dos fracos. Ruben Siqueira vai buscar. o mesmo. governo e a própria CHESF. 11). real promotor da barragem e da completa expropriação de suas bases de vida. Ruben de Siqueira defende ponto de vista intrigante. Do segundo prisma. a partir de dois prismas: a subjetividade e a ação. em . p. São prevenções e ambigüidade como estas. marcou o ponto de inflexão da posição dos beraderos. a interpretação para o que houve na região de Sobradinho. 42) A reação dos riberinhos e beraderos em relação à construção da represa e ao deslocamento compulsório tem gerado controvérsias entre os pesquisadores da temática. que ensejaram o confronto que ditou os rumos dos acontecimentos em Sobradinho. revelam-se as concepções de “(i) legitimidade” e “(in) justiça”. 99 Tudo indica que o momento em que a estatal decidiu que não haveria reassentamento na borda do futuro lago. de ambos os lados. não deixaram de questionar a ação da estatal. Para os camponeses. reclamando a relocação nos municípios de origem. destacam-se. à medida que foram compreendendo a dimensão da mudança operada pela barragem em suas vidas.

os atingidos. miúdo. entrecruzam-se revelando estratégias de sobrevivências. Silva.. em condições adversas. Thomas Murphy (primeiro bispo de Juazeiro) em relação à construção da Barragem de Sobradinho.”Op. de Pilão Arcado (Pereira. Para Siqueira. Em outros termos: “um sem querer querendo”. op. o camponês. João Mayers. Continuar sobrevivendo ali exige continuar resistindo” (Siqueira. e Margarete Silva. fazendo-se de desentendido. op. antagônicas e assimétricas. 97 A propósito. 61. para os camponeses – porém. Resultado: na borda do lago foram criados. Machado. cit. às pressas. a posição da Igreja em relação à construção da barragem e seus desdobramentos merecem esclarecimento à parte. Tanto na área de Sobradinho quanto em Serra do Ramalho. Embate surdo e raramente explicitado entre forças. Na perspectiva de Siqueira. Elas marcaram a relação desses sujeitos com o Estado. diz Ruben de Siqueira: “Em Sobradinho. As atitudes de resistência e inconformismo dos riberinhos e beraderos contaram com total estímulo e apoio da Igreja Católica98. 1988: 32. os impostos. então. mas foi se fazendo no conflito. lembrando verso de famoso poeta. Mas o confronto se deu com o Estado – o promotor da Barragem – a CHESF. os beraderos empreenderam uma resistência “surda”. 1992. p. eles próprios. p. de um modo surpreendente e inesperado para o Estado. mesmo a custo de conformidade relativa com as precárias condições de infra- estrutura. mas constante. dissimulado. puderam ser observadas atitudes tais como as descritas envolvendo os riberinhos e os beraderos deslocados de Sobradinho. a instituição mudou radicalmente de posição. através de seu representante imediato — CHESF. Pode se dizer. Ela assume um caráter passivo. não desencadearam ações organizadas. fato que produziu uma história que não estava pré-estabelecida. 98 Mais detalhes sobre a posição de D. caracterizando-se como “a luta prosaica. seus interesses e demandas. 2002. sorrateiro. em geral. para auferir pequenos ganhos políticos. 1992. Consta que um dos primeiros religiosos a se levantarem contra a forma como a CHESF e sua equipe social atuavam na região foi o padre. 280). os alugueis e os lucros” (idem). vide as obras de Rosa Pereira. p. sobretudo no que diz respeito às indenizações e ao processo de relocação. vinte e cinco ‘núcleos rurais de assentamentos’ e “inventadas” pelos beraderos dezenas de localidades. 85. 1988. resiste. cit. conformismo e resistência são faces da mesma moeda. Nesse caso. Siqueira: 1992. 100 termos formais. para expressar ressentimento e ou vingar-se de seus opressores. . ‘não estavam preparados para enfrentar’ o modo do outro. cada um a seu modo. cit. p. 39. de ingênuo. “um jogo de gato e rato”.. entre camponeses e aqueles que querem extrair deles trabalho e alimentos. que Estado e camponeses. Aliás. passando a questionar a atuação da CHESF. elas “são fruto desta resistência ‘surda’ (às alegações oficiais). p. Inicialmente favorável ao projeto. de ignorante. diga-se de passagem — pela CHESF. mas efetiva97. colocando- se em defesa dos deslocados.

mas também uma importante mediadora. no mesmo diapasão. transmitidos pela Rádio Emissora Rural — A voz do São Francisco (propriedade da Diocese de Petrolina) — e do Boletim Caminhar Juntos. 38) A decepção do bispo em relação ao fracasso da Comissão (que passou a presidir). muito rapidamente. Tudo indica que a reação do novo bispo não se dava tão somente pela desumanidade como se processava a transferência. p. lançou mão dos programas radiofônicos. 1987. esse modelo destruía a “ética da subsistência camponesa” e tudo quanto a ela estava relacionado. vigários e agentes pastorais dos municípios atingidos. Contudo. Além do contato pessoal. 1988. em 1975. a Igreja utilizou de todos os meios disponíveis. No intuito de debater os rumos da política de desapropriação e relocação foi criada. os riberinhos e beraderos expropriados tiveram na Igreja Católica não somente uma aliada das mais comprometidas e atuantes. marcaria o ponto de inflexão de sua atuação na região. José Rodrigues de Souza. ao INCRA e ao Governo do Estado”. “mostra sua confiança em que os representantes eleitos pelo povo ou notoriamente reconhecidos como os Viana. Os prefeitos e vereadores estavam terminando seus mandatos. mas também. A partir de 1975. A formação da comissão por D. 63). essa ilusão se desfaz. conforme ressalta João Saturnino. sem dúvida. em suma. em 76 (sic) a região foi declarada como área de segurança e os novos prefeitos biônicos não representavam as populações e nada fizeram. p. porque o religioso percebia que o modelo de desenvolvimento que se visava implantar destruía as bases da pequena agricultura e. (1988. iriam se mobilizar em defesa de seus representados como seu papel poderia indicar. “Essa comissão realizou uma série de reuniões e elaborou um memorial do qual constavam as reivindicações mais urgentes da população. José Rodrigues de Souza. uma comissão constituída de prefeitos. por iniciativa da Igreja Católica. como chamou atenção Luiz Eduardo de Souza em entrevista. (Machado. 101 22). já que tinham todo o cuidado para não desagradar o governo militar autoritário”. Este documento foi encaminhado à CHESF. publicado a partir de março de 1976 (Pereira. as relações sociais e culturais típicas das sociedades camponesas tradicionais. A partir daquele momento. p. 39). No entanto. o apoio da Igreja às reivindicações dos riberinhos e beraderos se tornou mais efetivo depois da chegada a Juazeiro do Bispo Diocesano D. que detinham o poder em Casa Nova. o bispo teve claro que não . Para tanto. conforme salienta Rosa Maria Pereira.

Cardeal Primaz do Brasil]”. 99 Em entrevista a Frederico Cavalcanti de Freitas. o ex-prefeito de Remanso. “o trabalho dele teve uma função que muita gente desconhece. explicou os motivos pelos quais ela não se efetivou: “Na elaboração desse entendimento (com a CHESF) havia uma cláusula em que tudo aquilo em que a comissão tomasse a deliberação de fazer. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. 100 Na percepção de um dos arrependidos das agrovilas. a Pastoral da Família e a Pastoral da Terra. 119. do lugar que era para dizer. “estabelecendo três metas prioritárias: a Pastoral da Mudança (das quatro cidades e dos núcleos rurais). Não sei como não o mataram. E ele teve o apoio de D. Passados quase trinta anos dos eventos da Barragem de Sobradinho. Ele levantou as questões a nível nacional. 63). Ele foi ouvido a nível nacional e internacional. José Rodrigues. D. porque bulia com a política nacional. talvez se explique porque. Em 1976. a Diocese de Juazeiro realizou o primeiro Plano Pastoral Orgânico. Ele foi muito perseguido. 1990. Então. vislumbrando que o enfrentamento com o Estado dar-se-ia única e exclusivamente a partir da mobilização da população atingida99. mas ele nunca se acovardou. ninguém falava sobre a população. José Rodrigues de Souza só fazia brigar. Sobre isso afirma João Saturnino: O bispo teve um papel importantíssimo. Carlos Dias Ribeiro. o trabalho dele foi muito mais extra-área. jogar uma pessoa contra outra. Porque o grande problema da condução desse trabalho era a ausência total de voz. O bispo anterior era meditativo e de repente chega D. 102 poderia contar com as elites regionais e locais. seriam ouvidos os prefeitos da cidade para se tomar essa deliberação. 26/05/2003. a enunciação do reconhecimento se faz mais presente entre os que permaneceram ou entre aqueles que retornaram das agrovilas de Serra do Ramalho100. em nomes das cidades. p. quando ele entra no circuito é um choque para a sociedade regional inteira. conforme salienta João Saturnino. 1987. mas porque ele não deixou de fazer e dizer aquilo que era necessário dizer. digamos assim. p. O bispo de Juazeiro não concordou. O esmaecimento na memória dos entrevistados da resistência de D. Não é porque ele fizesse o que ele queria fazer. Não havia nenhum sinal de defesa dos direitos da população. Foi um choque total e absoluto a presença dele. De qualquer modo e por razões óbvias. José. José Rodrigues de Souza e de seus agentes pastorais no processo de conscientização e resistência à transferência não me pareceu muito evidenciado entre a maioria dos entrevistados.” (Machado. o reconhecimento dos atingidos em relação à participação do bispo D. Devia tomar as próprias deliberações em nome dos próprios prefeitos.” Sobradinho: campesinato e poder local face à intervenção do Estado. sem consulta-los. . Não havia voz. Avelar [Brandão Vilela. à época da formação da comissão.

não [refere-se ao termo de adesão à transferência para Serra do Ramalho]. desde que a CHESF assumiu o compromisso de reassentar os beraderos. Cego de tudo. 34) 4 . Desamparado de tudo. Eu mermo não tinha assinado. bem como deslocar e alojar a população que habitava as sedes dos municípios que seriam submersos. sob os auspícios do Ministério das Minas e Energia (através da ELETROBRÁS) e do Ministério do Interior. o governo federal mobilizou o Instituto de Colonização e Reforma Agrária — INCRA e a Associação Nacional de Crédito e Assistência Rural da Bahia .A dupla injustiça Para proceder aos trabalhos de cadastramento. 101 Quando as resistências se fizeram notar. guverno. De qualquer modo. conforme salienta Ghislaine Duqué. ao INCRA caberia a desapropriação das propriedades que abrigariam a população . o INCRA e a ANCAR-BA. Prefetcho.2% em regiões afastadas. com apoio mínimo da CHESF: foi a opção da grande maioria (69. não. Quonde ele chegou.ANCAR-BA (empresa pára- estatal). José pra abrí o olho da pobreza. Pelo convênio. atendendo número limitado de pessoas. três alternativas foram colocadas: 1) reinstalação de forma precária na borda do lago. esta solução própria foi escolhida por 19. a estatal voltou atrás.2% das famílias. 6% das famílias. não. Não tinha D. a disgraceira tava feita. p. Assim. sendo 18% nos municípios vizinhos e 1. indenização e arregimentação dos expropriados que seriam transferidos da área da Barragem de Sobradinho. haveria uma divisão de atribuições: caberia à CHESF a responsabilidade de indenizar os proprietários e as benfeitorias dos posseiros e foreiros das áreas atingidas. ninguém defendeu nóis. nasceu o convênio firmado entre a CHESF. 3) reinstalação em qualquer outra região do país. 103 Bem dizê. 8%). em 1975. 2) um projeto de colonização do INCRA: foi a opção de 8. especialmente São Paulo. afirmando que havia condições de criação de “núcleos de reassentamentos” na borda do lago. (1984. a gente era cego.

op. Esse foi um dos pontos mais traumáticos vivenciados pelos expropriados. Identificados os atingidos pela barragem. Os proprietários titulados seriam indenizados com possibilidades imediatas de reorganizar suas vidas.”102 À equipe social caberia o processo de arregimentação e de deslocamento dos expropriados.1989. mas aqui vou me ocupar tão somente dos beraderos que constituem os sujeitos sociais desta pesquisa.. Estabelecida a cota. p. Extraído de Jucá. Uma das primeiras medidas adotadas pelas companhias hidrelétricas. 269. 24/01/2002 e 26/05/2003. 1982. que em princípio deveriam reparar as perdas dos desapropriados e possibilitar-lhes o recomeço da vida. cit. citado por Martins- Costa. encarregada de realizar as indenizações”. conforme salientado anteriormente. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. 1994.284. Dentro do organograma da CHESF. A forma autoritária como se procedeu às indenizações e a arbitrariedade dos valores suscitaram sentimentos de “(i) legitimidade” e “(in) justiça”. 45). p. às voltas com a construção de barragens. dando ensejo ao pagamento das indenizações. No interior deste Centro havia também a Divisão de Desapropriação”. a ficha cadastral foi aplicada entre todos os moradores dentro da cota estipulada (392 m3). O pagamento das indenizações estava a cargo do setor jurídico da CHESF. E os foreiros-posseiros-beraderos? Estes se surpreenderam com a informação de que não teriam suas terras de trabalho indenizadas. . 104 das zonas rurais e o reassentamento dos expropriados. Receberiam apenas indenizações adstritas às benfeitorias. acompanhados de uma equipe de auxiliares de campo (recrutados entre os “moradores da área”. esta equipe fazia parte da “Divisão de Relocação de Populações” do “Centro de Implantação do Reservatório de Sobradinho” (CIRES). à ANCAR-BA caberia cadastrar e dar apoio material aos desapropriados. Levantamentos elaborados por técnicos do INCRA evidenciaram que somente 13% das áreas submersas eram tituladas (Siqueira. No caso da Barragem de Sobradinho. 102 “Na ‘equipe social’ da CHESF trabalhavam profissionais da área social (assistentes sociais em sua maioria). 139). é a delimitação da cota máxima da área que será atingida. p. os órgãos governamentais envolvidos no processo de sua construção empreenderam as desapropriações. Todos afirmam que as ações 101 Relato de Francelino. p. “as indenizações. A ficha cadastral permite identificar os “beneficiários” das ações indenizatórias e os indivíduos que serão relocados em outros espaços. faz-se o cadastramento das famílias residentes nos seus limites e que seriam expropriadas da terra e da água. Desse modo. O corpo de funcionários dos três órgãos governamentais encarregados dessas tarefas foi denominado de “equipe de ação comunitária” ou de “equipe social. tornaram-se mais um fator de espoliação dos camponeses” (1992. conforme salienta Ruben de Siqueira. situado na localidade de Sobradinho (atual sede do município).

pressionando de certa forma a população de Marcos a aceitar o preço ofertado. Os entrevistados pintam-no como um homem insensível. No aludido ofício dirigido à CIRES pelos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Juazeiro. p. confecção de cercas. a rigor. 7). etc. muitas vezes. segundo Sigaud. No entanto. até hoje há pendências judiciais em relação à questão. Casa Nova e Remanso há referência aos “desacertos” relacionados às indenizações praticados por um funcionário da “equipe social” de pré-nome Gabriel. p. incompletas e desconcertadas ações reparatórias anunciadas por ela e tantas vezes cobradas pelos atingidos eram concessões. uma vez que não estava obrigada por lei a implementá-las. na moradia e na relação com o rio. Rubem de Siqueira escreveu: . Vê-se aí que a estatal não se sentia obrigada a reparar os danos que causava ao modo de vida dos beraderos. devendo-se tanto à arbitrariedade dos encarregados quanto à resistência dos indenizados. situação que feria. e a bem da verdade. nega-se a fazer a requerida avaliação. o código de ética dos camponeses. A propósito. Canuto” [Carlos Antônio Neto Canuto]. as insignificantes. 1975. notifica seu desligamento dos quadros da “equipe social e escreve: “O ex- servidor Gabriel tentou prejudicar a CHESF ao realizar levantamento cadastrais de forma não correta. 47). 1975.. que somente os ricos foram beneficiados. o que evidencia os interesses da CHESF em sanar o problema e fazer pelos desapropriados mais do que. p. que não media esforços para fazê-los aceitar as baixas indenizações. Para efeito de ilustração. estaria obrigada” (idem). da humilhação e de constrangimentos. desmatamento no lote. segundo os entrevistados. 105 indenizatórias não transcorreram de modo transparente. era “Dr. alegando urgência na desocupação da área” (Chesf. a estatal faria nova reavaliação dos bens indenizados (Sindicatos. alegando: “No tocante aos pagamentos feitos não vemos porque se fazer reavaliações. 3). A população de Marcos está recebendo o apoio necessário à transferência e fixação no local que escolheu (Zabelê). perguntava-se se. as variações das avaliações de um mesmo bem chegaram a atingir mil por cento (1986. em decorrência do reconhecimento da CHESF das práticas desse funcionário. Na resposta ao ofício. Os olhos da estatal. Em seguida. A lembrança do nome do advogado é carregada de ressentimentos. quando lhes impunha o deslocamento compulsório e a mudança repentina nos ritmos de trabalho. a estatal reconhece as ações danosas do dito funcionário. lançando mão da violência simbólica. Sento Sé. O responsável pelo setor de indenização. A CHESF está colaborando na construção de nova moradia.

durante a construção da Represa de Pedra do Cavalo – localizada no Recôncavo Baiano – técnicos da DESENVALE usavam helicóptero da empresa para “almoçar moqueca de camarão” em Ilhéus. como a CHESF podia mostrar-se tão “somítica” quando se tratava de atender justas demandas? Aos olhos de indivíduos simples. Mas não gostei. em Sobradinho. roça na ilha. tinha o direito de fazê. segundo o ex- funcionário da ANCAR-BA — João Saturnino —. Eu ia. A “economia” da Assistência Jurídica da CHESF foi tão exacerbada. cit. não fazia nem a metade do que eu tinha. o importante é frisar que na percepção dos atingidos entrevistados. qué dizê. disse ‘oi. injusta e cruel. que. as indenizações não ofereceram aos camponeses oportunidade de refazerem seus meios de vida. 22/05/2003. A. região Sul da Bahia. Prá incluir já esses trem eu recebi carta de dotô Canuto. Quando da derradeira veiz que eu fui. chegava lá. utilizando-se de um aparato funcional e técnico monumental ou nababesco. Constituíram-se numa segunda espoliação e em clara manifestação de esbulho. Mais detalhes. . Não salvô nadinha. 66-72. O fato ganhou ares de escândalo quando se descobriu que carros a serviço da CHESF. Além do mais. cit. 106 Osvaldo — Itapera-Sento Sé: Eu pru mode indenizá uma casa e duas roça ou três que eu tinha lá (um lameiro. roça no ilhote. evidencia o fato.103 (1992. Aí o Z. que geraram falatórios nas cidades da área da Represa de Sobradinho.. p. Fui informada que. pegue. (acompanhante) disse ‘vá. Verdadeira ou não a afirmação. para usar expressão de João Saturnino104. Para ele. 288) interpreta a atitude do entrevistado como “excesso de decência diante de um gesto incorreto e desrespeitoso” do representante da estatal. o esbanjamento e as atitudes perdulárias. Recebi três cartas. desistia. os recursos da rubrica indenização teriam sobrado. pegô o dinheiro e jogô no bolso de minha camisa. p. né. eram encontrados estacionados nos motéis das cidades de Juazeiro e Petrolina. o fato demonstra “o abismo moral que separava um velho camponês de um funcionário da CHESF cuja tarefa de ‘remoção de entraves’ implicava em desconsiderar as pessoas. O esbanjamento parecia ser a tônica em empreendimentos dessa natureza. op. não. porque a CHESF se estabeleceu na região. Tal fato chocou os atingidos destituídos 103 Ruben de Siqueira (op.” 104 A construção das Vilas de Sant’Ana e de São Francisco. casa. entre as chefias da CHESF. Segundo ele. em suas andanças pelas áreas do futuro lago.. 288) Nessas circunstâncias. Mas. num diga mais nada’. eram tão pronunciadas. tanto os funcionários das altas esferas como os técnicos demonstravam. eu achei feio tirá o dinheiro e jogá lá em riba dele. 105 Ramualdo é natural de Casa Nova e trabalhou numa empresa contratada pela CHESF para empreender a transferência da população rural do município de Sento Sé. Entrevista concedida à autora em Petrolina. Empresa rica. ele pegô dinheiro. não dava certo. vide Paulo Marconi. essas atitudes eram tomadas como agressões. a estatal era “somítica”. vinha embora. de Sobradinho. né. nos fins de semanas. Num fiz porque achei feio fazê. não possuir limites em termos de atitudes perdulárias e de ostentação105. cinco roça). leve seu dinheiro’. sobretudo. eles me botaro sete mil. O sentimento de espoliação tornou-se ainda mais pronunciado. Se fosse fazê. nóis ia negociá. p.

Seus clientes jamais souberam da vitória em relação à “questão” que moveram. não ofereceram muitas chances de reação aos camponeses. moveu e ganhou processos contra a empresa expropriadora. Era pegar ou largar. suor e sangue dos trabalhadores. acho conveniente não citá- los. O esbulho não partia unicamente da CHESF. Em 2001. 291).” Boletim Caminhar Juntos. Vejamos: “Aliás. José Rodrigues de Souza respondeu de modo meio atravessado: “Esse fulano é célebre” (entrevista concedida à autora em Juazeiro. Numa situação extrema como esta. Um deles afirmou que teve familiares enganados pelo advogado. 107 de meios de fazer valer seus interesses. por ocasião das mudanças da Barragem de Sobradinho e das enchentes de 79 e 80. outras que não as aproveitadas. Disse também que um dos parentes só recebeu o valor da indenização muito tempo depois. quando roubaram indenizações dos trabalhadores. evidenciando uma disputa política entre forças desiguais. quando o esbulho foi descoberto. 78. Definidora da política energética do país e controladora da CHESF. procurei o acusado. como classificam as indenizações. Perguntado sobre as acusações. a presidência da ELETROBRÁS. Com esse dinheiro. isso não é novidade em Casa Nova. utilizando-se do prestígio da “grei”. 28/7/2003). fui informada de que se encontrava enfermo e impossibilitado de falar. D. os limites entre conformidade e conformismo e resistência acabam se cruzando. o Informativo da Diocese denunciou os esbulhos perpetrados pelas elites de Casa Nova contra os expropriados. provocando-lhes sentimento de ressentimento e de revolta. abril de 1983. por intermédio de sua esposa. o advogado embolsava boa parte dos valores. construíram ricas mansões na cidade. Em torno dos valores das indenizações. Alguns ainda conseguiram criar um meio termo. No auge da disputa política travada entre o Bispo de Juazeiro e a família Viana. nas condições emergenciais em que se deram. . repassando-lhes apenas “a mixaria” inicialmente proposta pela estatal106. como podemos verificar anteriormente. No Arquivo da Diocese existem documentos que denunciam falsificações de assinaturas e coisas semelhantes. Consta que um advogado provisionado — membro de tradicional família de Casa Nova —. 106 As acusações partiram de dois entrevistados. Embora os entrevistados não tenham solicitado a omissão de seus nomes. p. durante todo o processo que compreende construção até a inauguração da Barragem de Sobradinho. o Estado e os beraderos se defrontaram. Há denúncias de que membros das elites locais se locupletaram. 8. procurou desvincular-se das ações consideradas negativas e prejudiciais aos interesses dos atingidos. Muito a propósito diz Ruben de Siqueira: As indenizações. mas a maioria teve que pegar a ‘mixaria’. p. manifestações de conformismo e de resistência assomaram. (1992. n.

000 18º 46º 44º 42º ESPÍRITO SANTO 38º Sentido do deslocamento da população Fonte: SEI . Estrela Organizaç ão e desenho: Sinthia Cristina Batista Maio 2001 . 700.Superintendência de Estudos Econômicos e Soc iais da Bahia Dados fornec idos por Ely S. 108 Tabela com destino da população PERNAMBUCO PIAUÍ ALAGOAS 10º SOBRADINHO O SC SERGIPE CI AN FR TOCANTINS O SÃ 12º O RI OCEANO ATLÂNTICO GOIÁS SERRA DO RAMALHO 14º 16º MINAS GERAIS N 1: 2.

p. A propósito: Tinha uma briga terrível e aí passou até para o nível pessoal. . essa posição foi adotada porque a ELETROBRÁS não fazia parte do universo de referência dos beraderos. a CHESF. 01/10/2003. O que esse homem [João Paulo] disse D.”107 A posição da Igreja obedeceu a razões estratégicas? Para Rosa Pereira (1988. José Rodrigues de Souza negou que a Igreja tivesse adotado tal posição “de caso pensado”. percebe-se que a ELETROBRÁS se colocava como uma espécie de mediadora em relação aos interesses divergentes. 1988.. a Igreja Católica. bem como pelo Ministério das Minas e Energia. elegendo sua subsidiária. por exemplo. Essa posição tornou-se ainda mais evidenciada. defendendo ponto de vista semelhante ao da autora citada. polarizava. Vejamos: 107 Relato de Luiz Eduardo de Souza. Com poder de execução. 109 No silêncio dos beraderos entrevistados e nas entrelinhas dos discursos dos técnicos bem como nas matérias publicadas no Boletim Caminhar Juntos. Era a voz de quem estava reclamando e a voz de quem estava executando. Por exemplo. e sobre ela concentrou-se toda a revolta e indignação popular. devido ao fato de todo o processo de expropriação em curso ter sido encaminhado pela CHESF esta apareceu sempre como responsável pelo sofrimento do povo. É inegável que a polarização verificada entre a posição do bispo e a do chefe de obras da CHESF — não faltando. José quebrou o pau com essa pessoa (. o engenheiro da Chesf. Em entrevista. Entrevista concedida à autora em Salvador. p. João Paulo Aguiar Maranhão e o bispo passaram a se digladiar em torno do encaminhamento dado ao processo de transferência da população atingida. personificando na figura do algoz. 107). desconsiderou o papel da ELETROBRÁS. 107).). acusações pessoais — desviou a atenção do papel desempenhado pela ELETROBRÁS. 1988. quando o chefe de obras da CHESF. como já mostrou Duqué em seus vários trabalhos (Pereira. D. Conquanto conhecesse a hierarquia do setor energético. envolvendo os beraderos e a CHESF. por meio de seus agentes pastorais. inclusive. Dr. Eles [o bispo e o engenheiro] polarizavam. como o centro do confronto que opôs camponeses e o Estado (Pereira. Cabe aqui observar que.. João Paulo.107). José e o que D. p.

Tantas cartas iam para ele e ele malcriado comigo. ao qual a CHESF — a “besta fera” como era chamada na época da barragem — estava subordinada. Então. João Paulo [Maranhão Aguiar]..Primeiro o Peltier [Eunápio de Queiroz]. agentes pastorais e líderes comunitários recorriam à ELETROBRÁS. deixaram de colocar a ELETROBRÁS no centro do conflito.. e o órgão. As indenizações eram pequenas porque eles mandavam pouco dinheiro. não tinha intenção de tirar Antônio Carlos Magalhães fora nem trazê-lo para cá. porque a ELETROBRÁS estava lá por cima. Quando as reivindicações levadas à CHESF não tinham eco. imediato. trazendo a estatal para o campo de referência dos expropriados..) Mas o adversário da gente. se colocava no papel de mediadora dos interesses conflitantes. . os empréstimos. entretanto. tinha autoridade sobre a CHESF. depois o João Paulo. 110 D. José Rodrigues de Souza — O que a gente tinha na frente. José Rodrigues — Não. O bispo atacava a CHESF. Então. claro que eu precisava defender a CHESF. quem estava construindo a Barragem de Sobradinho era o Dr. Aí cada vez que a gente atacava a CHESF. José são claras nesse sentido: O que a gente fez foi sensibilizá-lo [Antônio Carlos Magalhães] para o Projeto Sobradinho. Hoje em dia. era com a CHESF.. A CHESF era representada por Dr.. o enfrentameto da gente não era com a ELETROBRÁS. O inimigo da gente era a CHESF. não foi a ELETROBRÁS. Ele é que era. não era a ELETROBRÁS lá no Rio de Janeiro. Eu sabia que a CHESF fazia isso por determinação do governo militar. a CHESF não era capaz de 108 Entrevista concedida à autora em Juazeiro. Assim. (. 28/7/2003. essas coisas todas vinham para a CHESF. ele entendeu. Depois. não! A ELETROBRÁS era uma instância mais longe. convém ressaltar que.. Eu era responsável pela CHESF. A CHESF foi que construiu a Barragem de Sobradinho. envolvendo a estatal e milhares de riberinhos e beraderos. Ely — Mas todas as diretrizes não vinham da ELETROBRÁS? D. João Paulo ficava furioso e escrevia aquelas cartas mal criadas para a gente. As palavras de D. então.108 Está fora de dúvida questionar o papel do bispo de Juazeiros e dos agentes pastorais que deram assessoria aos atingidos. era a CHESF. eu fiquei sabendo que ele disse assim: “Eu precisava agir daquele jeito com o bispo porque ele atacava a CHESF. João Paulo. o bispo e seus agentes pastorais “morderam a isca” colocada pela ELETROBRÁS. ao focarem a CHESF como adversário principal.

em virtude da publicação da cartilha. nomes de políticos e de técnicos que. p.. cujas sedes e povoados foram (ou estão sendo) inundados pelas águas da Barragem de Sobradinho. 71). pela qual a Diocese visava a formação política de seus fiéis com vistas às eleições de 1982 (Silva. a CHESF. o nome do atual senador Antônio Carlos Magalhães é a ele relacionado111. a sua subsidiária. O governador da Bahia Antônio Carlos Magalhães a denominou de Cartilha do Demônio. sendo rebatida pelos políticos arenistas. o bispo. de outro. se mostrou bastante eficaz. Sr. expressas tantas vezes pelo bispo. além de traçar um quadro geral da problemática enfrentada pela população atingida. Muitos dos indivíduos entrevistados se lembraram de siglas. p. conclama Antônio Carlos Magalhães a adotar medidas que visassem minimizar o sofrimento da população de Sobradinho. Mas o rompimento definitivo entre o bispo D. José Rodrigues. Presidente da Eletrobrás.p. Antônio Carlos Magalhães. Ao despedirmo-nos.. op. era a CHESF. Margarete Silva. Mas o adversário da gente. de um lado.) Como estávamos naquela tarde. 2) Que nas futuras Barragens e (na Bahia a próxima é de Itaparica) se evitasse todo esse drama ou tragédia que estamos vivendo na região de Sobradinho. na véspera da Assembléia da Diocese. os enviados da Eletrobrás tiveram oportunidade de conversar com os Vigários dos 4 Municípios. Paulo: “Adeus viola. 109)110. em nenhum momento. Na missiva. os expropriados de Sobradinho. dar-se-ia em 1981. fui procurado por 3 representantes da Eletrobrás (. e. está . cit. 111 A “popularidade” das figuras envolvidas na construção da Represa de Sobradinho pode ser comprovada através deste pequeno fragmento de cordel publicado em matéria d’ O Estado de S. 111 fazer coisa melhor. tiveram participação no “redimunho” que transtornou as suas vidas. 110. lembro de que lhes pedi duas coisas: 1) Medidas urgentes para atender a essas populações. intitulada Política: A luta de um povo. a gente apelou para lá. 110 A cartilha teve ampla repercussão na imprensa. imediato. (Silva. O distanciamento da ELETROBRÁS do foco de confronto. 2002.109 Margarete Silva publicou importante correspondência enviada à presidência da ELETROBRÁS por D. envolvendo. 2002. José e o então governador da Bahia. p. no entanto. Assunto: Sobrevivência das populações transferidas por causa da Barragem de Sobradinho. Em 19 de agosto p. Somente após a ELETROBRÁS elaborar o Programa de Desenvolvimento do Reservatório de Sobradinho (PDRS). ocorrem choques entre a estatal e a Diocese de Juazeiro. justamente para atender as reivindicações da população atingida da borda do lago. Exmo. 109 Idem. direta ou indiretamente.

que. reclamam o cumprimento das promessas. portanto. Tardan un buen tiempo hasta percibir que todo es “harina del mismo saco. A propósito da posição contraditória com que os camponeses vêem o Estado em situação de confronto com seus agentes. Eunápio aproveitou”. A afirmação acima está em consonância com palavras do próprio bispo D. reafirmam a confiança nas autoridades. 112 Embora tivesse solicitado. José Rodrigues de Souza. a Igreja não deixava de relacioná-las à estrutura opressora maior. (1993. chegando a hora / Preparem-se grã-finos para dar o fora / Tem que aceitar a coisa. solicitando sua intermediação e denunciando as atitudes arbitrárias e danosos aos seus interesses por parte de funcionários do Estado. São Paulo. afirma Guiomar Germani: “Es el Estado como constructor que les trae perjuicios y es el Estado como protector que les defiende contra la Empresa. ele disse “a ditadura aparecia. p. o arquivo particular de D. de Bom Jesus da Lapa e. Nas correspondências ou abaixo-assinados. com intimidade. José Rodrigues112. Situadas num plano muito acima do povo. entretanto. Nós denunciávamos a ditadura. qual seja. as autoridades constituídas não são más. como veremos mais adiante. ” De qualquer modo. ‘Garrasta fez o decreto. 112 Luiz Eduardo de Souza. In: Sobradinho. não tive acesso ao acervo particular do bispo. 562) Em relação ao caso em tela. ressaltando. solicitam melhorias e. a água que o sertão não queria. Nesse sentido. ao tempo em que denunciava as arbitrariedades da CHESF em Sobradinho. 11/05/1975. desconhecem o seu sofrimento. o regime. onde um cantador diz. mesmo sem querer / Tem que agüentar a força de Eunápio Peltier”. guardam inúmeras correspondências dirigidas pelos camponesas às autoridades constituídas. agente pastoral que atuou na região naquele momento. reconhece que os órgãos gestores da política energética do país foram ignorados pela Diocese. Nos momentos de tensão. As mazelas que os vitimam são provocadas pela ação de funcionários insensíveis e inescrupulosos. . consubstanciada no poder militar. denunciam as exorbitâncias e as arbitrariedades cometidas por funcionários do governo. OESP. Complementando: “Peltier também virou poesia em Remanso. a posição da Igreja mostrou-se em consonância com concepção bastante arraigada nos meios camponeses. os arquivos das CPT Regional. às vezes. recorrem às altas autoridades. segundo consta.

Donald Pierson observara: “O prefeito. sem abrir mão das pressões.. os beraderos de Sobradinho sofreram na pele todo o clima de silenciamento e de arbitrariedades implantado no país. Nas comunidades tradicionais. baseado na propaganda e em promessas mirabolantes. os beraderos sanfranciscanos sequer tinham noção do que representava o regime militar e pouco sabiam sobre as práticas da ditadura. em numerosos casos. com riquezas de detalhes. 268) Nessa perspectiva. p. cit. há registros de violência perpetrada pela Polícia Militar da Bahia dirigida contra os peões de obra em São Joaquim – também conhecido como o “Cai Duro” –. os órgãos governamentais envolvidos no chamado Projeto Sobradinho mobilizaram dezenas de assistentes sociais e técnicos — a famigerada “equipe social” — que implantaram um arrojado plano de convencimento. a partir da edição do Ato Institucional n. p. op. dizia o pessoal da CHESF).. segundo a qual. Reconhecer tal fato nos obriga a rever concepção bastante difundida nos meios acadêmicos. D. e os vereadores. detentores do poder municipal. realizada pela Câmara Federal em 7/5/1981. Toda relação com o Estado e ou seus agentes se dá pela mediação desses “coronéis” ou “chefetes”. as arbitrariedades são narradas em profusão. No depoimento do Bispo de Juazeiro. ou principal administrador do município. ou legisladores locais. Para “limpar a área da barragem" e para que o Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho fosse implementado. à Comissão Parlamentar de Inquérito das Enchentes do São Francisco. Marconi. 5113. Embora não tenham sofrido a força brutal dos órgãos de repressão — não há registros de violência física entre os desapropriados —. Fisgando o peixe. limitando-se ao exercício do voto (no caso dos “alfabetizados”).” (1972. do constrangimento e da “violência simbólica”. os únicos servidores que a maioria dos moradores conhecem ou com quem têm relações políticas pessoais. “encabrestados” ao chefe político local. usavam freqüentes vezes de pressões e ameaças ao povo: ‘Ou aceita essa indenização ou perderá 113 No entanto. 113 5. em geral. Na pressa de convencerem as pessoas a deixarem a região (‘limpar a área’. José Rodrigues de Souza. em conformidade com as normas fixadas pelas agências financiadoras. 63. . em geral.. somente membros das classes médias e setores operários mais organizados sofreram as agruras do regime militar. a participação política dos estratos sociais mais baixos é bastante restrita. bairro dos mais pobres de Sobradinho (sede do Projeto). são as principais. Em importante pesquisa desenvolvida sobre o Vale do São Francisco.

Essas reuniões. 1981. Poder e participação política no campo. de modo geral. 1992. receberam sete mil cruzeiros a título de auxílio para construção de suas casas. Assim. todos os expropriados foram convocados. com variações periódicas de vários quilômetros. não haveria vazante. a “solução borda do lago” apresentava três limitações: os lotes seriam exíguos e pouco férteis. A “equipe social” tudo fazia para que os beraderos expropriados se cadastrassem no Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. conforme padrões a serem estabelecidos em bases “ad-loc”.. virão os tratores da CHESF”.. . Para que o intento surtisse efeito. 2002. virá o Exército. Apud Ferreira. Machado. Silva. além da parca indenização. 114 tudo debaixo d’ água’. e a documentação oficial a respeito é clara. Na concepção dos técnicos. no período noturno. ‘Se vocês não quiserem sair. 1980. e a instabilidade do nível das águas. e Siqueira. A propósito: Foi previsto. a sobrevivência na borda seria muito difícil. A construção da Barragem de Sobradinho a partir da Diocese de Juazeiro. Mais detalhes. Nessa perspectiva. 9). criando um clima de tensão e de medo entre os beraderos. que ‘possivelmente à parcela mais pobre e de mais baixo nível educacional. aconteceram entre 1974 e 1975. nas escolas ou nas capelas dos povoados. de uma campanha de descrédito da chamada “solução borda do lago” — que acabara se impondo —. exigindo enorme sacrifício dos reassentados. meto-lhe o pé na b. Desse modo. para reuniões com a “equipe social”. p. Primeiro. foi desencadeada intensa propaganda negativa do meio físico da borda do futuro lago. Depois de cadastrados. a construção das casas e as mudanças ficariam a cargo deles próprios. aventou-se a possibilidade de que as camadas mais pobres dentre os desapropriados fossem relocadas na borda do futuro lago. pois já se encontravam adaptados. 7). o INCRA oferecerá possibilidade de localização nas margens do reservatório. O que as águas não cobriram. que viessem a se estabelecer na borda do lago. Desse modo. p. A dimensão social dos impactos da construção do reservatório de Sobradinho. pois a baixa qualidade dos solos à margem do reservatório. assistência e auxílio: estes só teriam direito à indenização dos bens114.. além das pressões e da propaganda. lançou mão. Em segundo lugar. a CHESF propagandeava que não se comprometia a dar aos reassentados. 1984. torna difícil a ocupação das margens propriamente ditas (Relatório INCRA. somente os catingueiros poderiam permanecer na área. 1987. através de carros de som. “Se você não derruba a cerca. o cultivo seria de sequeiro. (Souza. O descrédito se consubstanciou através de duas frentes. vide trabalhos de Barros. 114 A maioria dos indivíduos que permaneceram.

115 Em contraposição. não tive acesso ao material. encontrei. de modo geral. 1988. localizado em Santa Maria da Vitória. mostrando as vantagens de Serra do Ramalho. desconhecidos da população expropriada. os expropriados teriam inúmeras vantagens. o governo Federal decidiu fazer a Barragem de Sobradinho. o governo está oferecendo em Bom Jesus da Lapa. digamos assim.. Além dos mapas e plantas da área onde ficava o Projeto.. Vejamos a apresentação: Como todo mundo sabe.. A projeção das imagens. op. Por intermédio de um morador de Barra da Cruz. luz. o INCRA desmataria 2 ha de cada lote. uma área com terras boas e onde 115 O trabalho de “motivação” desenvolvido pela equipe social junto aos desterrados durou 5 meses. um beradero teria dito: “Eu quero saber em que terra dá tomate desse tamanho?”. suscitou entre os camponeses claros exemplos de descompasso cultural. os moradores teriam área para comércio além de outras vantagens. Segundo informação. 116 Os diapostivos eram desconhecidos dos camponeses. numa das sessões..).. as mulheres teriam trabalho (. como veremos adiante. tive acesso a um outro folheto (incompleto) de propaganda do qual o INCRA lançou mão.] os colonos teriam assistência médica. As imagens “desfocadas” provocavam incredulidade dos camponeses.. que. estradas (.. dois dos folhetos utilizados para efeito de propaganda e informação aos futuros “colonos” pelo INCRA e pela EMATER-BA. Embora tenha recebido informações do setor de comunicação social do INCRA de que os referidos slides se encontram na sede do órgão. no acervo da CPT da Diocese de Bom Jesus da Lapa.. 29. todas as agrovilas teriam posto da COBAL.. Apud Bursztyn. o projeto teria uma área de irrigação para ser utilizada coletivamente. p. 24) Nas reuniões de esclarecimentos e arregimentação promovidas nos povoados115. cooperativa. assistência técnica (. ou não se realizaram ou foram implementadas precariamente e em forma de conta-gotas: [.). Isso tem prejudicado a produção de energia elétrica de Paulo Afonso. o Rio São Francisco está diminuindo suas águas de ano prá ano. igreja. cit. Contudo. os agentes governamentais lançaram mão de todos os recursos técnicos disponíveis na época para apresentar o Projeto de Colonização de Serra do Ramalho. em Brasília. cada colono teria direito a um salário mínimo durante um ano. ao ver projetada na parede a imagem de um enorme tomate. Rosa Viana Pereira. p. financiamento do Banco do Brasil para lavoura. todas agrovilas teriam água. . transporte. apresentaram slides116 e folhetos explicativos. Para aumentar a reserva de energia. (CPT. salão social.). nas agrovilas. Em troca de sua roça e da terra onde você mora atualmente.

117 Ainda que resistissem à idéia de deixar a “beira do rio”. nóis ficamos entusiasmado. uma advertência: Assunte bem Sua escolha vai facilitar as providências para a mudança de sua família e de todos seus pertences.” No verso. E vimos pra cá. No verso. 6ª Seus vizinhos. 118 D. poderão continuar juntos também na Agrovila se a mudança for feita no mesmo tempo. Depois veio os home do INCRA e mostrou pra nóis filme. município de Casa Nova e atual moradora de Serra do Ramalho: Não alembro muito bem quande falaram que a gente tinha que mudar. onde vai achar água pra encher tudo isso? Foi enchendo e nóis tivemos que sair. aquela mata fechada. Filmou tudo. Mostrou a terra pra gente. 25/9/1999. desenho de um caminhão carregando uma mudança: “5ª na mudança para o projeto da Lapa você pode levar a família. . Tudo ilusão”. Procure os técnicos da CHESF.118 117 O folheto foi impresso em meio ofício e dividido em pontos ou itens. motor. Dizia que a terra era muito boa e tudo irrigado. animais de estimação. vai ter também as seguintes vantagens. as vantagens do projeto alardeadas pela equipe social provocaram impacto nos expropriados. Nóis pensava: o rio tá tão longe. Por fim. desenho de uma escritura: 1ª Ser proprietário de um lote que tem em média vinte hectares. Quande nóis viu aquelas árvres grande. mais nóis não acreditava que o rio ia encher. toda a mobília. criação e benfeitorias. para aumentar sua produção. ANCAR-BA e INCRA e diga sua decisão. 3ª O título de propriedade lhe dá direito a receber financiamento do Banco. Ninguém melhor para falar disso do que Eudelina. amigos e parentes que moram juntos hoje. Todos os itens continham gravuras. Eudelina. 116 chove muito mais do que aqui. o criatório. aquelas barriguda bonita. Falaram. Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. Se você preferir mudar-se para a Lapa. barcos e colheitas das roças. para plantação e uma área para criação na solta. ex-agregada da Fazenda de Fora. situada no povoado de Bem- Bom.

baixa densidade demográfica. vim porque parece que fui enfetiçado. A terra era boa. Bom Jesus da Lapa era e é uma referência no imaginário sertanejo. Fizero a cama..”120 Não bastassem as promessas. às vezes. 117 Com expressividade — num jeito todo característico de rememorar o passado119 —. não. só faltou o noivo. Além do mais. A mata lá você enxerga. Apolônia salienta que a única coisa sobre a qual “achou vantagem nas agrovilas” . um pau por dentro do outro.) Porque aqui na nossa região [refere-se a Casa Nova] um pau é torto. Apolônia usou uma figura de linguagem também bastante interessante.. Aliás. Moça... cheio de galhos. 25 hectares (nos folhetos publicitários se falava em 60 tarefas). trançando.foi a mata: Madeira boa.. espinhento.. 120 Entrevista concedida à autora em Barra da Cruz. os de Serra do Ramalho teriam direito ao módulo rural regional. p. 24/5/2003.. Mais não pense que queria vim. é que sai as galhas. Aqueles que veio[refere-se à “equipe de visitação”] botaram coisa na cabeça da gente... Enquanto os beraderos instalados nos “núcleos de reassentamento”. pela equipe interministerial. não. Ele lá. reunida em Paulo Afonso (1975).“Lá tudo era vantagem. performance se refere de modo imediato a um acontecimento oral e gestual”. sem testada para o lago. foi aquela propaganda.. capacidade de irrigação e fertilidade do solo.. não. Eu mesmo não queria vim não. Quintiliano disse que a “equipe social” prometia aos expropriados “o céu e as estrelas”. 45. mais não veio não. A escolha da área localizada no município de Bom Jesus da Lapa para instalação do Projeto Especial de Colonização. a “equipe social” explorou ao máximo aquilo que para ela se constituía em trunfos do projeto. situados na borda do lago. mais eles não veio. Muita terra e aquilo enchia os olhos dos homens. Os mais explorados eram a titulação e o tamanho dos lotes rurais. Ela é a terra dos milagres e da remissão. A exuberante vegetação do lugar. isto é. a mata era uma beleza. receberiam lotes de exígua extensão. Voltou. se comparada à área da Represa de Sobradinho. baseou-se nos seguintes fatores: grande área não titulada.Serra do Ramalho . A madeira toda linhera que é uma maravilha (. só faz a copa lá no fim. pois sua exuberância sinalizava fertilidade e abundância. também foi explorada. Para 119 Aqui cabe citar as palavras de Paul Zumthor: “no uso mais geral.. A letra e a voz: a literatura medieval. . 1993.121 A mata impressionou os beraderos recém-chegados.

é provável que D. As “visitas” se realizaram depois da partida de algumas levas — quando inúmeros cadastrados relutavam em partir. Ciente disso. Independente de onde teria partido a iniciativa da visita. 122 Em entrevista à autora. Confie nele e nos homens Que agora estão governando E observe este ditado Tudo que fica parado Depressa vai se acabando (A/D. Entre os entrevistados. Em meados de 1976. Na resposta ao oficio enviado pelos Sindicatos de Trabalhadores Rurais. a percepção dos atingidos em relação aos membros da “equipe de visitação” merece discussão. Entrevista concedida à autora em Serra do Ramlho. os agentes sociais utilizaram o imaginário popular relacionado ao santuário como fator de cooptação dos beraderos. mas o ponto alto é entre os meses de julho e outubro. desempregados. funcionários públicos. Esses indivíduos disseram que a perspectiva de assentamento “perto da gruta do monge” foi bem recebida. do sertão da Bahia e do norte de Minas Gerais. 3). As romarias acontecem durante todo o ano. etc. rendeiros. EMATER-BA. 118 o santuário de Bom Jesus acorrem romeiros de todos os recantos do semi-árido — especialmente. 57-58). Cientes disso. Estrofe de um dos folhetos editado pela EMATER-BA (conveniada com o INCRA) com fins publicitários atesta a afirmação: Lá está o Bom Jesus Milagroso lhe esperando. p. vaqueiros. José Rodrigues de Souza ao recomendar os interessados visitação às Agrovilas estivesse cobrando a promessa da estatal. limitando-se. a sugerir aos atingidos que solicitassem à “equipe social” da CHESF meios de promoverem visitas ao local do projeto122. Não se sabe ao certo quantas “equipes de visitação” partiram da área de Sobradinho para Serra do 121 Quintiliano. José Rodrigues de Souza visitou suas “ovelhas dispersadas” e não emitiu parecer sobre as agrovilas. a Chesf fez referência a possibilidade de visitação ao local no qual estavam sendo implantadas as agrovilas. o bispo disse não se lembrar do fato. pobres e de baixa escolaridade (pequenos proprietários. encontramos uns poucos que estiveram na Lapa em romarias antes do projeto. Os romeiros são pessoas simples. dia de Bom Jesus. realizada em 28/7/2003. donas de casa. 16/7/2000.). p. Em 6 de agosto. segundo Rosa Pereira (1988. registra-se maior número de romeiros na Lapa. ambulantes. pequenos comerciantes. que enfrentam grandes dificuldades para visitar o santuário e cumprir suas promessas. D. s/d. .

quando era pra vim. Fica evidenciado. . 119 Ramalho. Fica evidente também que na percepção dos entrevistados os indivíduos que participaram da comitiva de visitação ao projeto ou se deixaram ludibriar ou agiram de má fé. lá pra quem gosta de roça. os agentes governamentais lançaram mão de vários mecanismos de cooptação dos membros da comissão. pois não tencionava deixar a atividade. Chegava lá. Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. que era pra levar notícia pros outros. durante a visitação. eletricista. Então tenho um irmão em Sobradinho. não consumou seu intento porque o gerente-executor teria deixado claro que o forte do projeto seria a agricultura. nas narrativas acima colocadas. não. recebero dinheiro pra enganar a gente124. era churrasco. têm-se informações de que foram cercadas de pompas e cuidados. Eu disse. que a CHESF manobrou as comissões e desvirtuou o seu papel. participando da rede de “enganação” criada pela CHESF com o fito de “limpar a área”. No modo de dizer deles. De cada lugar pegava dois. 124 Relato de Quintiliano. Era o céu. A última narrativa não deixa dúvida quanto ao comportamento dos “visitadores”: foram subornados pela equipe social. Aos visitantes não faltaram “mimos” e gentilezas. D. Como era criador. tinha pegado essa oportunidade e tinha vindo. Teve gente que veio de avião. Segundo Elpídio. Devagar. era refigerante. 123 Relato de Elpídio. Pra mim. diga uma coisa: que você acha de lá? Ele disse: ‘Meu irmão. nega ter sido subornado ou ter sofrido pressão da CHESF para emitir opinião favorável ao projeto. procurei ele: — Francisco.123 Um outro entrevistado disse: Porque. Era comida. E os que vieram fazer a pesquisa. Me enrolou. 16/7/2000. Prometia o céu. se desinteressou daquele projeto. Quando cheguei aqui. lá eu creio que é bom e coisa e tal’. parece que era um negócio de uma malandragem. se eu soubesse disso. só contava vantage. meu irmão (ele até já aposentou). olhar. Disse que de fato gostou de Serra do Ramalho e que chegou a pensar em se deslocar para lá. Um fazendeiro “forte” de Pau-a-Pique. o projeto era um paraíso. moça [dirigindo-se à entrevistadora] . Ah! eles tratava todo mundo muitcho bem. Não tinha vindo pra qui. ôxi. nenhum veio. membro de uma “comissão de visitação”. vinha passear. Faltaram com a verdade.

Numa manhã.. sua narrativa assume um certo “ar” de ambigüidade. definição em relação ao seu futuro. rebate a suspeita de que os “visitadores” teriam sido subornados. ‘Vamos ficar por aqui’. todos cadastrados —. rapaz! Como é que tá a coisa aqui?’ — ‘Não gostei. quando a "equipe de visitação" conversou com alguns de seus moradores. imediatamente.. as coisas estava. Depreende-se que a decisão de Manolo não dependia somente das condições oferecidas num ou noutro lugar.. Disse que não partiu porque a “retirada” das “criações” na Fazenda de Fora o prendeu em Pau-a-Pique: Eu estava na função da retirada. Eu ia sair. a quem servia há mais de trinta anos. ele voltou logo. que a iniciativa da viagem partiu dos próprios interessados — com exceção dele. Digo não vou. viu que era renda pouca. Por sinal. resolveu mandar vender o resto do gado. cabendo a CHESF..” E confessa logo em seguida que. deixando entrever que a equipe social não tinha interesse em que permanecessem muito tempo no local. “Quando completou a indenização. Aí foi acabando a história.” Manolo disse que nunca se iludiu com o “falatório” da equipe social. de forma bastante tranqüila. Tá aí em Pau-a- Pique. em minhas mãos. Depois foi que viu que era muito longe. era aquele Pequenito. Digo: ‘hei. “Cheguei numa casa. embora fosse extremamente ligado às barrancas do São Francisco. Reconhece. inclusive. falou que não partiria da borda do futuro lago. Deus é o mesmo Deus. Justamente. a decisão dependia das condições oferecidas por ambos os lugares que acabaram se afirmando como opções. ressaltando. Ressalta. não!’. tinha um rapaz sentado na calçada. ex-administrador da Fazenda de Fora.” Como o fazendeiro demorasse em tomar . Só esse. largar. houve visita à Agrovila 5. chegou no ponto final.. Às vezes. não!’ Ele disse: ‘Não achei muito bom. que também não era contra as agrovilas. 120 Manolo. a única habitada à época. revelando que. unicamente.mandar dizer ao homem (proprietário da fazenda) que viesse do Rio de Janeiro naquele aperto? Que que ele ia dizer? Que era covardia minha (. vou ficar é por aqui.) Eu disse: não vou pra lugar nenhum. Ele esperava por parte do fazendeiro. nas outras casas. naquele momento. abaixo de Deus. bancar a gasolina. partir ou permanecer não era questão fechada. não. ao chegar da “visita” às agrovilas.. ainda ficou um restinho de gado por aqui. também participou de uma das “equipes de visitação” e. no entanto. o povo tudo satisfeito. que a visita foi muito rápida. Ele diz que todas as pessoas com quem conversou mostraram-se satisfeitas e somente uma desaprovou o projeto.

. área de pouco mais de quatro mil hectares. que se acabava. de uma forma ou de outra. mantinha vínculos e interesses com a CHESF e seus funcionários. Alberico relata que as assistentes sociais abordavam as crianças nas ruas. não se poderia esperar que chegasse ao povoado desaprovando o projeto. O pessoal ficava na rua. em função da amizade que estabeleceu com funcionários da CHESF. mas não há dúvidas quanto à cooptação dos “visitadores”. tornou-se fornecedor de material à empreiteira que trabalhava na construção das casas.” Relato de Osvaldo. conforme ver-se-á mais adiante. A “equipe social” buscava cooptar todas as pessoas que. foi a partir daí que desistiu da ida para as agrovilas e não a partir da conversa com o gerente-executor. no sentido de aceitar a opção Serra do Ramalho. puxavam conversas. não. onde vive ainda hoje. pudessem influenciar os atingidos. não. Embora diga ter sido muito prejudicado pela construção da Barragem. mas quando recebeu. Dione passava. Considerado no povoado “criador forte” e correligionário da família Viana. conforme atesta matéria publicada no informativo Diocesano Caminhar Juntos: 125 Membros da equipe social se mostravam bastante “populares”.’ O pessoal sorria. evidencia certa condescendência em relação a esse projeto. Quando começaram as obras de construção do Novo Pau-a-Pique. Ela dizia: ‘Pau não é aí. a título de indenização. distribuíam balas e lhes falavam das melhorias oferecidas pelas Agrovilas. conforme confessou mais tarde. Eles diziam: ‘É mermo. As crianças não ficaram imunes ao trabalho de cooptação. José não ter se posicionado em relação ao projeto durante visita a Bom Jesus da Lapa e de ter sugerido as “visitações”. Alguns membros da “equipe social” se hospedaram lá. debaixo de uns tamboril grande que tinha no Pau-a-Pique véio. era comerciante. Assim. 121 uma posição e a partida para as agrovilas fora descartada. recebia em sua casa todas as autoridades e agentes governamentais que chegavam a Pau-a-Pique. Vejamos: “Tinha uma por nome Dione. para não divergir de membros de sua comitiva que se mostraram fascinados pelo mesmo. motivada. conforme Rosa Pereira. Na verdade. Um gritava: ‘É pau’. mas nóis não vai pra lá. Nesse caso. O fato de D. Entrevista tomada pela autora em Casa Nova. 25/1/2002. uma vez que perdeu o estreito vínculo comercial estabelecido com a população de povoados situados no município de Sento Sé — na margem oposta a Pau-a-Pique —. pau vai ser nas agrovilas’. dividiam com eles a mesa de bar e compartilhavam de seus jogos e brincadeiras. os agentes pastorais e o próprio bispo não estiveram imunes a ele. Josuel obteve alguns benefícios. talvez. O exemplo de Josevaldo parece claro. A questão do suborno está fora de propósito. pensou em morar em Pau-a-Pique. Mantinham com os atingidos relações amistosas: comiam em suas casas. Embora resistissem ao processo de transferência. Além de criador. Vínculos tão estreitos que uma assistente social da equipe teria desaconselhado sua partida para Serra do Ramalho125. jogando baraio. Essa era muito engraçada. construiu casa na borda do lago.

122 D. Celebrou-se a Divina Eucaristia. toda mulher é assim. Em que medida a apreciação favorável do projeto pelas “comissões de visitação” não resultou da consciência de que. os poucos lotes agricultáveis situados na borda do lago seriam distribuídos por sorteio. Depreende-se da entrevista que os beraderos. O certo é que. Temendo não serem sorteados. Maria Gorete são Anjos Bons das Agrovilas. foi uma alegria. mormente de Casa Nova e Sento Sé. Rodrigues que tanto batalha por elas. O encontro com D. Curso pré-escolar. visitou as agrovilas. a “equipe social” não só contou com o silêncio e. Agrovila n. Cada Agrovila está provida de água (. 9/1976)126. nada! Entonces quis garantir o meu. temendo ficar sem lote na borda do lago. procurando minorar o sofrimento dos sanfranciscanos exilados. Merenda. por duas vezes. Boileau e esposa – D. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. Cada Agrovila terá sua capela (Boletim Caminhar Juntos. 127 Relato de Elpídio. acompanhada ao violão pelo “Prefeito” um jovem pára frente. COBAL. onde residem suas ovelhas dispersadas pela Barragem de Sobradinho. Participação festiva de todos. agarraram o Projeto Serra do Ramalho como única alternativa de sobrevivência. De acordo com os critérios estabelecidos pela CHESF. Chafarizes. mais terras sobrariam para elas? Essa também pode ser uma outra razão para explicar o silêncio da maioria das elites políticas locais em relação à partida de sua clientela para área distante do futuro lago. recebeu bem a gente e ela ficou encantada com o Boileau. em Juazeiro.) Escolas funcionando.. 1 – 550 pessoas. Presença simpática da Assistente Social e de outro dinâmico Técnico. n. no intento de “limpar a área”. Foi um prazer ver nossos pimpolhos com uma canecona onde mergulhava a carinha inteira. As casas dispõem de uma área que permitirá pomar e horta. ao que perderam suas terras. primeiras séries. cristãmente. José diz que durante a visita ouviu inúmeras queixas dos reassentados e responsabiliza a Irmã Celeste pelo conteúdo da matéria. que resultou na divisão de algumas 126 Em entrevista concedida à autora. né?”127. ela se impressionou porque o Boileau tratou. Ia confiar em sorte grande. O INCRA tem-se revelado humano e justo. “Irmã Celeste. Lavanderias.. muitos desapropriados desesperados se cadastraram no Projeto Serra do Ramalho. 5. D. . Rodrigues. A propósito disse um entrevistado: “Era pru sorteio. Mas não era meu pensamento”. Dizia que era na sorte grande. durante sua estadia em Bom Jesus da Lapa. como soube muito bem explorar as contradições e limitações das opções oferecidas ou criadas pelos beraderos. de modo a produzir entre eles uma disputa surda. D. Uma outra questão merece ser salientada. quanto menos pessoas ficassem na borda do lago. 28/7/2003. Têm-se doado. a conivência declarada das elites políticas locais. durante a qual se realizou o primeiro casamento na história da nova cidade (sic). 22/1/2002. às vezes. Abraços e lágrimas.

envolvendo diferentes atores sociais128. pelo menos no plano dos discursos houve. conflitos e disputas. contassem com ela. Ele confessou também que os funcionários da estatal não gostaram de seu discurso. o diretor da EMATER-BA. se os deslocados quisessem voltar. os técnicos envolvidos no processo de arregimentação e deslocamento eram colocados em situação embaraçosa e estavam sob forte pressão. Rio de Janeiro.” João Santana. a mudança para terras mais férteis (Sobradinho – A nova era do Velho Chico – Final). Nós descobrimos que ele estava falando a verdade. 31/01/1977. Por quê? Rosa Pereira insinua que a posição dos Viana teria motivado uma contra-reação da ANCAR-BA. Por uma questão de oportunismo ou para não ferir sutilezas. Nesse sentido. durante todo o transcurso da construção da Represa de Sobradinho. na medida em que o órgão escolheu. base eleitoral do clã. Em matéria publicada no O Globo. Há informações também de que havia entre eles divergências. só que antes tinha mandado a mulher sair de casa em casa pra convencer as outras a não aceitarem de forma alguma a transferência – conta Magalhães. O Globo. Wandilson confessou que. Conquanto resistissem à idéia de deixar a “beira do rio”. entre os reassentados em Serra do Ramalho. aproximadamente dois mil beraderos foram cadastrados (fisgados pela equipe social). Cícero Magalhães. conforme veremos adiante. De qualquer modo. Depreende-se de algumas narrativas que indivíduos que exerciam nos pequenos povoados papel de liderança. Ele negou que estivesse agindo assim e disse que apenas estava aconselhando os lavradores a ouvirem suas mulheres antes de decidir se mudarem. de boa fé ou não. pois temiam que a partida da “leva” não se concretizasse. iniciativas em relação às expectativas do projeto. a maioria é formada por naturais do município de Casa Nova. houve tensões — nem sempre explicitadas —. muitas vezes. O fato evidencia ainda que. o fato evidencia que. João Saturnino disse desconhecer a existência de divergências entre os 128 No entanto. João Saturnino. Todos os pesquisadores da Represa de Sobradinho fizeram menção à posição hostil dos Viana em relação à transferência da sua clientela. silenciando. . no entanto. para convencer os deslocados que estavam de partida para Serra do Ramalho a seguirem viagem. tomaram. convém salientar que muitos dos desencontros e dissonâncias verificados entre a “equipe social” e os beraderos atingidos devem ser creditados às atitudes e às ações da primeira. Vejamos: “. resultando em embaraços para a equipe social. o município de Casa Nova para sediar os trabalhos de convencimento e arregimentação dos atingidos. disse-lhes que a CHESF garantia que. a “equipe social” não rebatia tais iniciativas. mas que silenciaram. a todo o momento.Nós procuramos um deles para saber qual a razão disso tudo. fato negado pelo ex-técnico da ANCAR-BA. reclama da campanha “sistemática” movida contra as agrovilas pelos “chefes políticos interessados em manter os agricultores sob sua dependência”. tensões e até hostilidades. 123 comunidades. Agrovilas. justamente. entre a equipe social e membros da baixa elite política local.

Essa entrevista foi registrada em caderno de campo. conforme denúncia de D. 130 O ex-superintendente do Incra Regional da Bahia.” Em seguida reconhece que os funcionários graduados da CHESF nutriam. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. 31/01/1977. sim. 124 técnicos. houve pressões para que técnicos fossem desligados e que. em decorrência talvez das pressões e da labuta em condições tão impactantes. Alguns situavam-se no campo da esquerda e uns poucos nutriam simpatias ou militavam na Ação Popular (AP)130. falavam aos desapropriados da possibilidade de o Exército passar a atuar na região de Sobradinho. Diz ainda que. Ela teria dito: “É lamentável que nem mesmo a tendência básica de quem mora nos povoados rurais que é de se agregar existe aqui. registraram-se. Sigaud et al. José Carlos Arruti insinou vinculação de técnicos com posições de esquerda. Afinal. mas confessa ter visto sentimento de angústia. Expropriação do campesinato e concentração de terras em Sobradinho. 1987. mas durante a execução do Projeto. forçando a população a abandonar rapidamente a área. em tom de ameaça. em alguns momentos. São Paulo. Esses aspectos aparentemente insignificantes. 6) 129 Lygia Sigaud afirma que os técnicos da equipe social desempenharam papéis contraditórios em todo o processo de deslocamento dos atingidos pela Represa de Sobradinho. 106. sabiam dos seus limites e até onde podiam divergir e mostrar-se angustiados com os rumos do projeto em curso. “infinitivamente melhor” que a permanência na borda do lago. não estavam blefando. Quando alguns técnicos. p. entre os técnicos. pelo menos. Havia uma máscara de legalização do processo como um todo. “Nós acreditávamos que ele podia ser diferente. nas condições colocadas pela CHESF. conforme salienta João Saturnino. . agindo como aliados. uma vez que ora. reservas e críticas em relação às agrovilas. José Rodrigues. a assistente social do INCRA não poupa crítica às agrovilas. O fato mostra que a “equipe social” não era um corpo homogêneo e que havia. divergências entre eles. são muito importantes quando se trata de uma população transferida. não explicitadas. em razão do tratamento que era dispensado à população. sem dúvida. três membros da “equipe social” solicitaram desligamento por apresentarem sintomas de depressão. graças à ação dos advogados. Exatamente por isso. pois ele se mostrava.. À parte divergências em relação à forma como a transferência estava sendo executada. funcionavam como braço repressivo da CHESF. enorme desconfiança. ora. em razão da repressão imposta pela ditadura militar129. revelavam-lhes informações sigilosas. os técnicos eram entusiastas do Projeto de Serra do Ramalho e acreditavam em sua viabilidade. vivia-se sob regime de exceção. p. Ciências Sociais hoje. em relação aos técnicos da ANCAR-BA e do INCRA. Tudo parecia que era legal.” (Santana. Em matéria publicada pelo O Globo. 22/1/2002.

o mais importante aliado dos Viana em Pau-a-Pique. desse modo. a decisão da partida. Adolfo Viana. Quintiliano disse que Hipólito Rodrigues. governadores e senadores nomeados pelo regime militar (Depois do “Pacote de Abril”). Confessa que tinha dúvida em relação à agrovila. Os que partiriam para Serra do Ramalho diziam que os optantes pela “solução borda do lago” iriam passar fome. como foi muito criticado por familiares e amigos. 131 Denominação dada pela imprensa e políticos de oposição aos prefeitos. 125 Na percepção das pessoas que entrevistei a posição de que os Viana eram contra a transferência não parece muito clara. Fica evidenciado. o enfrentamento direto com a CHESF e. . Os beraderos tinham código de ética a que. mesmo numa situação excepcional. As rixas e animosidades serviram para reforçar. mas não se posicionava francamente. por sua vez. Todo mundo sabia. Ficava feio. estabeleceu-se. Esses discursos faziam parte da propaganda e da contra- propaganda empreendidas pelos atores em disputa. “Já tinha assinado. o prefeito de Casa Nova disse-lhe que não se opôs à partida dos correligionários porque “uma andorinha não faz verão”. Que home era eu? Não garanto a palavra?” Mesmo contrariado partiu para as agrovilas. Tudo indica que a família. após o regresso dos arrependidos das agrovilas. Nos meses em que se processavam as lidas para a transferência. tendo um dos seus membros. não mobilizou suas forças. As tensões se evidenciaram também entre os próprios expropriados. e Apolônia afirma que. mas que. né? Já tinha assinado o documento. não ultrapassou os limites do campo verbal. em conseqüência. em 1978. evitando. um clima de rixa e animosidade. É provável que a animosidade verificada entre os dois grupos tenha se processado a partir da assimilação dos discursos representativos dos campos de relações conflituosas. que. embora contrária à transferência. Explicitando melhor: Isidoro conta que ficou desgostoso com o clima que se criou entre os desapropriados. o confronto social de indivíduos marcados por valores diferentes. não se sentia à vontade para voltar atrás em sua decisão. entre alguns “contendores”. uma vez mais. sido nomeado prefeito “biônico”131 do município. era contra o projeto. A posição dos Viana ficou no limite da ambigüidade. envolvendo não só os próprios expropriados e a “equipe social”. segundo consta. Para ele era uma desonra faltar com a palavra dada. mas também agentes pastorais e membros das elites locais. os que permaneceriam diziam que os optantes pelo Projeto Serra do Ramalho iriam viver no “cativeiro”. entre os que partiriam e os que permaneceriam na borda do lago. com o governo federal. não deixaram de recorrer.

20). gerando. Martins-Costa.. pois. mas um pouco mais de mil. uma vez fracassado o empreendimento. Tal atitude é considerada perigosa e arriscada. . no caso de fracasso. 126 6 . Tudo indica que por volta de duas mil pessoas se cadastraram.. como era denominado na época) só se viabilizou mediante a utilização de práticas que. De modo geral. permanecendo os demais para. O primeiro executor do Projeto. muitas famílias aparentadas. é controverso. p. não soube precisar o número exato de famílias que recebeu em Serra do Ramalho. não me parece que tenham predominado entre elas o mesmo fato verificado em Itapera. Convém ressaltar outro aspecto que me parece da maior importância. bem como de famílias que efetivamente partiram para Serra do Ramalho. assim. Bursztyn (1988) contabiliza em mil e seiscentas. viabilizador das manifestações de solidariedade e acolhimento tão característicos das comunidades “tradicionais”. mil e vinte e nove. Conquanto encontrasse. Rubem de Siqueira (1992). receber de volta os que partiram. As “retiradas” estavam vinculadas não só à proximidade do início do enchimento do lago (início de 1977). estudando a comunidade de Itapera. como vimos acima. As três primeiras agrovilas foram construídas no primeiro trimestre de 1976. mas também à construção das agrovilas. A primeira leva de “arretirados” partiu em março de 1976. O modo de vida camponês está assentado na parentela e nas relações de solidariedade. dando-lhes apoio e sustentação. não terão ponto de apoio. mas o relatório do INCRA afirma que foram um mil e quatrocentas (1994. mil e treze. Se o membro ou pequeno grupo que partiu é bem sucedido em sua empreitada. 1999. manda buscar os que permaneceram. Boileau Dantas Vanderley132. Rejeitada pelos beraderos. Os efeitos de tais práticas não eram sentidos/percebidos uniformemente pelos vários membros das famílias133. em Sítio do Mato. partiram para as agrovilas. em Serra do Ramalho. divisão entre elas. a transferência para o Projeto Serra do Ramalho (Bom Jesus da Lapa. quando membros das comunidades “tradicionais” se deslocam. combinaram a persuasão/cooptação. diz que a unidade básica de retirada foi o “agrupamento familiar”. não o fazem todos ao mesmo tempo. 132 Entrevista concedida à autora. efetivamente. O número de famílias cadastradas. Sandroni (1982). Conforme ressalta Eunice Durham. 133 Aqui cabe lembrar as palavras de Maurice Halbwachs (1990) de que a memória individual é um ponto de vista da memória coletiva. nessas comunidades é comum a partida de um membro ou de um pequeno grupo.Está na hora de limpar a área.

todas as despesas corriam por conta da CHESF.”134 Alvino complementa: Eu sou uma pessoa que pra chorar. “Até o gado chorou . com raríssimas exceções. Tudo indica que ele sofreria novo golpe. receberam apoio e solidariedade dos que permaneceram. com a manutenção de uma posição na sociedade rural para a qual possa voltar. ficavam “encostados” em suas casas. Também em Sobradinho a experiência foi verificada. conforme veremos no último capítulo. Conforme a promessa. caprinos e galináceos partiram nos vapores junto com a mudança. Quando muitos dos que partiram para as agrovilas retornaram. em caso de insucesso. a migração sucessiva dos membros do grupo oferece a vantagem indiscutível de garantir a posição anterior enquanto se tenta estabelecer uma nova posição (Durham. A criação também foi levada. o gado abriu a 134 Relato de Joselito. . preferencialmente. Somente os jumentos foram abandonados.. 127 O migrante possui também consciência do elemento de risco que a migração acarreta. entre os transferidos. as migrações efetuam-se. o embarque da alimária era marcado pelo choro e pela emoção. Mulheres e crianças corriam de um lado para outro arrumando os baús com roupas e utensílios domésticos. o sistema de parentela dominante nas comunidades tradicionais sofreu forte abalo. De qualquer modo. os homens corriam atrás das ferramentas e instrumentos de pesca. As mudanças seguiram nos vapores ou caminhões especialmente contratados para essa finalidade. Os povoados foram tomados pela agitação. Por isso mesmo. p. voltando a seus locais de origem ou partindo para São Paulo ou para as cidades satélites do Distrito Federal. À semelhança da partida das pessoas. resultando na divisão de muitas famílias. Em termos de família. Bovinos. quando muitos reassentados deixaram Serra do Ramalho. O gado parecia que sabia que ia embora. Também nas casas havia azáfama. Muitos morreram afogados quando as águas subiram. a família conjugal. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. ou seja. predominando.. 1973. Os dias que antecederam a viagem dos arretirados merecem ser seguidos de perto. 24/1/2002. 131). Mais na hora que o vapor saiu com um bando de gado dentro e o rebocador funcionou.

que numa linguagem de Cordel condenou a tristeza: No entanto. Elas eram divididas pela “equipe social” em “levas”. A propósito: À primeira vista. berrando. será um dos primeiros povoados a desaparecer submersos pelas águas do São Francisco quando a barragem de Sobradinho fechar as comportas em fevereiro de 1977. muitas famílias viajaram em ônibus especialmente contratados pela CHESF. ao contrário da maioria dos habitantes da futura bacia de inundação de Sobradinho. levando baús velhos. E fez as despedidas em nome dos 900 habitantes de Intãs: Aqui vou terminar Dando adeus a meu lugar Vamos embora pra agrovila Movimento encontrar Na Intãzinha boa nunca mais eu vou voltar” (O Globo. mais 277 animais. nas margens do São Francisco. . Intãs. a 120 km de Casa Nova. Rosalina Borges. havia resignação e esperança: Não sei pra que tanto choro Todos têm que viajar A hora já está chegada ninguém pode mais ficar Uns que ficam também vão E lá vão se encontrar. 128 boca. se revela bastante otimista e se manifesta maciçamente favorável a ir viver no projeto de colonização do Vale do Rio Corrente em Bom Jesus da Lapa. parece que foi bombardeado. o povoado de Intãs. Parece que o gado conheceu que ia viajano. Na última Segunda-feira. Sua população. rádios de pilhas e outros pertences. 4/4/1976). As ruas de barro batido estão esburacadas. Além dos vapores ou “gaiolas”. camas. A emoção geral no momento da partida foi traduzida numa poesia da mulher do principal comerciante local. chorou ele [o cunhado] e mais outos que inha junto. A primeira leva partiu em 28 de março de 1976. as casas destruídas e seus últimos habitantes excessivamente concentrados na tarefa de arrumar as malas e procurar o gado disperso pela caatinga para partir o mais rápido possível. Chorou eu. saindo do povoado de Intãs. de 45 anos. as primeiras 30 famílias subiram o rio no desconfortável vapor São Salvador.

sempre repetindo aquela bobagem que ele morria mais num vinha para a cidade e eu sempre dizendo: Zé. Disse que subiu numa cadeira e fez um discurso. Em uma das “levas”. já na véspera de a gente se mudar. Mesmo na hora da partida. Solicitado pela CHESF. A equipe social havia contratado um restaurante especialmente para servir comida aos deslocados. A propósito: 135 Entrevista concedida à autora em Casa Nova. Zé era homem de palavra (..” O aposentado Wandilson135 conta fato bastante significativo do clima em que se deu a partida para Serra do Ramalho. ia um rapaz. Jornal da Bahia.)”. 129 Ao contrário da animação registrada pela reportagem de O Globo em Intãs. as tensões entre técnicos e os deslocados afloravam. eles recusaram. Os fatos rememorados por Wandilson devem ser registrados porque expressam com clareza os descompassos existentes entre indivíduos tão culturalmente diferentes. feijão. João Saturnino é bastante claro: “A população partia para Serra do Ramalho empurrada. 136 Aconteceram casos de resistência ainda mais drásticos: “Quem matou Zé foi a tristeza. Falou que eles estavam certos. nos demais povoados pairava no “ar” um clima de relutância.. Assim que o ônibus entrou na sede do município. . Não bastasse o ambiente diferente e requintado para os padrões dos beraderos. ele tomou veneno e morreu. a todo o momento e em vários campos. O fato revela que. mais uma vez. Tibério Canuto. não faziam parte de seus cardápios. quando a água já estava perto de nossa roça. registraram-se casos de desistência. mas que ao final todos comeram e partiram menos tensos. o rapaz se jogou da janela do veículo e correu em direção ao mato136. Wandilson. A história do Brasil é rica em evidências de tais fatos. 5. A equipe social não entendeu a razão da recusa e ele. A “leva” chegou a Petrolina no horário do almoço. seu ex-agregado. acompanhou a “leva” até Petrolina. O Desespero de quem não sabe viver longe do rio. Nesse momento. os alimentos eram estranhos para eles. Assim que viram os alimentos. assumiu o papel de mediador. evidenciando estranhamentos culturais que sempre marcaram as relações entre grupos urbanos e rurais no Brasil. Com o passar dos dias ele ia ficando cada vez mais triste. Salvador. 17/3/1977. houve tumulto no ônibus e muitos passageiros quiseram desistir. A equipe responsável pela “leva” recorreu a seus préstimos para acalmar os ânimos e ele acabou se tornando uma espécie de mediador. Essa entrevista foi registrada em caderno de campo. Afirma também que houve um grande corre-corre na cidade para arranjar arroz. farinha e “carne dura” ou peixe para aquele número de pessoas. p. num diz besteira. Aí. 22/1/2002. composta de cinco ônibus. que a comida era uma “porcaria” e que o restaurante iria providenciar outros “de comer”. Em relação a esse aspecto. fato que exigia da equipe social medidas enérgicas.

os peões rebeldes bradavam: “Abaixo o espinafre. No dia seguinte. Temendo que o desencontro se repetisse a equipe social da CHESF. Embora se mostrassem esperançosos em relação ao futuro em Serra do Ramalho. Belterra e Fordlândia eram empreendimentos norte-americanos modelos para a região. quando legiões de sertanejos se alistavam no DNOCS para não sucumbir à fome. os peões ali protagonizaram um quebra-quebra que ficou conhecido como a “Rebelião de Fordlândia”. em relação à alimentação oferecida pela CHESF em Petrolina. se esmerou em atender o gosto alimentar da população e problemas não foram mais registrados. Ford”. a relação do sertanejo com os poderes públicos são marcadas por tensões. Não fosse a mediação do escrivão. Moog escreveu: O quebra-quebra durante a noite ajudou a serená-los. Os funcionários tinham salários garantidos e confortos até então impensáveis na Amazônia. No entanto. à chegada do destacamento militar de Belém. p. Afinal. Continuando. ao invés de gritarem “abaixo Mr. poderia ter se transformado em quebra- quebra de conseqüências imprevisíveis. a maioria dos cadastrados relutava em partir. em meados de 1930. Os caboclos estavam cheios de espinafre cozido e de comida bem vitaminada. Assim já era demais. Então um vivente não tem direito de vez em quando a uma boa feijoada com parati? E não tem direito a uma bebedeirazinha de cachaça. Eles queriam carne sêca e de vez em quando uma feijoada. 130 O certo é que. Fazem parte da tradição escravista brasileira a eterna vigilância e a punição exemplar para com os pobres. 64) 137 No que se refere apenas ao campo gastronômico. nas demais paradas. Quanto a cornflakles. cito aqui a experiência de Fordlândia. D. Vianna Moog relatou que a rebelião parecia tratar de algo pessoal contra o marinheiro Popeye. 2003. Com graça e humor. (Braga. historicamente. Adalgiza conta que partiu de Pau- 137 O massacre de Canudos perpetrado pelas forças militares. p. em 1897. nem podiam mais olhar para espinafre. a iminência da viagem criava tensão e doenças repentinas. talvez seja o caso mais conhecido. O braço forte do Estado sempre se fez presente nas frentes de serviço. a resistência dos beraderos deslocados. Enough is enough (1966. nem era bom falar. é que se ficou sabendo do que se tratava. Encravadas na Amazônia. 25). tudo os prendia à terra natal. Assim. pois. . Chega de Espinafre”.

138 Todos têm queixa do INCRA em relação à mudança. os deslocados não eram recebidos com a mesma consideração. 138 Entrevista concedida à autora em Casa Nova.. Ela disse: ‘Olha. D. Eu não conhecia essa. bastante doente. .. Ali. sentou lá na rabeira do ônibus. Todos reclamaram dos prejuízos com a mudança. em 1976. Francelino disse que teve enorme prejuízo na mudança. ‘Senhora pode. Aonde não der pra ela viajar tem que internar ela aí.. João Emiliano. Fátima. Os pertences. quando eu cheguei ali.. fazer que nem Luiz Gonzaga. Tinha tudo. Aí ela falou: . Disseram que o órgão não cuidou de seus pertences. se não der pra seguir viagem. em Petrolina. E vi aquela mulherão. Eu tinha visto falar que abaixo de Deus a mandachuva era uma Dra. 131 a-Pique. fala sobre o estado da esposa durante a partida: Quintiliano — Eu cheguei lá na praça. você vá nesse ônibus.. se a questão é essa. a senhora é a dra... Fátima? Sou eu mesma. Você vai se responsabilizar. O esposo. panela em outro. Avelina — Tinha remédio. até tinha biritado ali.. uma viagem dessa. Falou com o Dr. Quintiliano — Aí. Falei pra ela: Por gentileza. “Eu estava boa e de repente caí de cama”. Saco de farinha aberto. Contudo.. Tava no vapor e peguei o bichinho em Barra.. Ela era uma senhora de idade. você dê por vista uma cigana.. não. quando não eram extraviados. Não. Qualquer coisa tem de perguntar à senhora como é que vai? Por esse motivo. fica lá com o esposo dela e os filhos. Júlio: ‘Vamos entrar nesse ônibus aqui. Peguei as coisa espaiada.. fui pegar ele na Barra. O grito.. 24/01/2002. Era o prenúncio do inferno. chegavam avariados ou em mau estado. O Dr..’ Fiquei conversando com ela. Até um cachorro de estimação tinha sumido.. pode pegar esse ônibus aí..sabe o que acontece? É que eu vou aí com uma mulher muito doente. tava lá. tava dois ônibus assim. Tudo lá. chegando a Serra do Ramalho. Júlio. nem se responsabilizou pelas perdas. roupa num canto. a partida das “levas” era cercada de cuidados e de atenção.. você interna ela. vai aí. Ela disse: ‘Ela está aí no ônibus?’ ‘Está’. Abaixo de Bom Jesus da Lapa. Sabe. redundando em enormes prejuízos. ‘Então vamos entrar. Ela disse: ‘Era só isso moço?’ Eu disse: ‘Era só isso’.ela não vai muito bem. O rapaz disse: Óh. Me informaram. Uma cigana. Essa é quem manda em todos. vi aquela mulher diferente.. Eu entrei com ela doente (com ênfase) . acompanhe essa senhora até Petrolina. eu falei pra ela assim..‘Pois.

p. 132 E esse povo foi assim Na região instalado. Sem a assistência devida Ou o necessário cuidado. Gerando uma insegurança Que não deu bom resultado (Marcus Haurélio Fernandes Farias. 11) . Até onde nós iremos? s/d.

o Projeto Especial de Serra do Ramalho conheceu vários gerentes. 139 Até a emancipação. como desentendimento entre o INCRA e a CHESF. chegou. 133 CAPÍTULO III DEPOIS DO REDIMUNHO – O DESENGANO 1 . 37). a minúcia das fiscalizações. o colono. p. . a ingerência constante do BIRD pondo em dúvida a capacidade de gerenciamento do INCRA. segundo um modelo rígido. o adiamento da transferência para março de 1976 (Cordeiro.. o mais sério deles. sobrando tempo insuficiente para tarefas essenciais de incentivo e apoio à produção. Esta concepção autoritária e rígida levou os agentes de execução a se desgastarem na fiscalização dos detalhes. através de gerentes-executores139: O projeto foi pensado de forma autoritária.executores e tudo indica que a ocupação do cargo deu ensejo a disputas políticas entre facções do grupo dominante. desanimavam qualquer iniciativa. 1984. p. dono formal de sua terra. ‘uma série de problemas. O atraso das obras do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho se deu porque uma das empresas que perdera a concorrência recorreu da decisão.O paraíso planejado.. em 1989. Os “núcleos de reassentamento” localizados nas bordas do Lago de Sobradinho e o Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho — foco de meu interesse — foram concebidos pela empresa particular de engenharia e planejamento Hidroservice e implantadas pelo INCRA. Do ponto de vista da questão fundiária. A morosidade das decisões burocráticas. quase em concomitância com o enchimento do lago (conforme visto no capítulo II). imposto nas suas formas de aplicação de cima para baixo e executado sem nenhuma flexibilidade. O impasse do julgamento da concorrência causou. 18). trazendo aos expropriados insegurança e medo em relação ao futuro. segundo afirma o INCRA. em vários casos a depender do técnico de forma mais estreita que um morador de seu patrão. A construção dos diferentes “núcleos” e do “Projeto Especial” se deu depois do início das obras da Represa. As sugestões populares foram quase todas rechaçadas. 1982. Daí a queixa geral: É o ‘cativero’ (Duqué.

Da sua elaboração participaram engenheiros civis e agrônomos. Contudo. esses projetos “civilizatórios” se consubstanciaram numa organização espacial que privilegiou o urbano e as relações de sociabilidade ali dominantes. Na verdade. posto de saúde. cabia à empresa fiscalizá-lo em todas as suas etapas. Lídia Rebouças afirma: “A concepção básica e original desses programas de reassentamento compreende um lote para o desenvolvimento de atividade econômica. esses projetos “civilizatórios” parecem querer fazer a quadratura do círculo. costumes. a rejeição à organização espacial dada pela agrovila parece ter sido bastante contundente.” Rebouças. por trás das inovações havia um projeto “civilizatório” que as Companhias Hidrelétricas e os demais órgãos implementadores de políticas de “desenvolvimento” julgaram necessário pôr em prática. constituindo-se. projetada na agrovila. como veremos adiante. Eis portanto o projeto civilizatório: zonas exclusivas e homogêneas de atividade: a concentração da função de trabalho à função de moradia. Numa perspectiva. p. capela e área de lazer. através da absorção de novos hábitos. é alterado em função das variáveis e imprevistos que vão surgindo ao longo da implantação do projeto. Em geral. Esse modelo ideal. 110). . na maioria das vezes. O projeto foi pensado nos mínimos detalhes e. trazia algumas inovações. participação de um novo contexto de Organização Social ( Ferreira.. p. moradia. eletrificação. isto é. 1980. e quase sempre trouxeram problemas aos “beneficiários”. escola. a desenvolver um novo sistema de produção que seria o de comercialização [grifos do original]. valores. a população deveria passar de uma cultura exclusivamente de sobrevivência. 71. op. cisterna de água e esgoto. 76)140. cit. Automaticamente passaria por um processo de assimilação. conforme salienta Lídia Rebouças. 140 Explicitando um pouco mais. em conseqüência. uma cooperativa. Implantados de cima para baixo. complementar a de Rebouças (2000). 134 Além de elaborar o Projeto. 2000. num engodo. sendo. Brancolina Ferreira defende que a implantação do Projeto de Colonização de Serra Ramalho visava à reprodução da pequena produção mercantil. Instalados em agrovilas e recebendo lotes de 20 ha de área. sistema viário que permita a circulação para e por todos os lotes. vamos dizer assim. a instituição de um novo tipo de organização residencial e a imposição de um novo sistema de circulação de tráfego (Rebouças. p. No caso do Projeto de Colonização de Serra do Ramalho. rejeitados no todo ou em parte.

obedecendo a um plano de urbanismo-rural ancorado na divisão lote/agrovila. Aliás. em parte.”141 Desse modo. O Projeto foi criado. como ainda foi promovido todo um trabalho de estímulo e motivação para que a população optasse por tal projeto. cujo comportamento eles só compreendem parcialmente (Scudder. várias tentativas de ordenação do espaço rural foram empreendidas. reveladores das dissonâncias e dos descompassos entre riberinhos/beraderos e esses agentes. o INCRA criou e desenvolveu projetos de diversas modalidades. porque. Apud Martins-Costa. . Não só não se estabeleceram critérios. em 08/2001. p. 57). 135 No discurso técnico. não levaria em consideração critérios de seleção comumente adotados pelo órgão. distinto dos demais programas de colonização do INCRA. em outras ações. A entrevista foi conceidida à autora em São Paulo. com o projeto “civilizatório” se pretendia a satisfação dos “beneficiários” e a “elevação de sua condição de vida. o projeto proporcionaria aos reassentados tudo aquilo de que não dispunham nos seus antigos povoados. Pretendo apenas pôr em evidência alguns de seus aspectos. 141 Entrevista de funcionário da Empresa Hidroservice que participou da elaboração e fiscalização do Projeto. O Projeto de Colonização de Serra do Ramalho tinha um caráter especial. essa realidade é por demais recorrente em situações dessa natureza. O que caracterizava o Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho? Por que ele era especial? Para desempenhar seu papel de órgão gestor e implementador da política fundiária do governo federal. p. visto que esta se opunha à mudança (Machado. 1989. sendo uma alternativa de realocar famílias que compulsoriamente deveriam sair da zona rural dos municípios a serem inundados. 1987. 227). Não é minha intenção neste trabalho duvidar da boa fé dos agentes governamentais implementadores do Projeto. claramente explicitados nas entrevistas. Durante o período Vargas. às premissas essencialmente diferentes dos técnicos ditando aos relocados. A criação de núcleos coloniais no Brasil remonta ao Império. que foi um fator dos mais ilustrativos dos descompassos entre os agentes planejadores do Estado e os beraderos sanfranciscanos. Certamente o alto índice de fracasso de esquemas de reassentamento em todo o mundo pode ser atribuído. nem tampouco dos funcionários da empresa envolvida na sua concepção e fiscalização. Na República.

10. o órgão descobriu que uma grande parcela das terras localizadas na área que abrigaria o núcleo de colonização. durante o processo de desapropriação. 3. a organização espacial dada através de agrovilas sofreu influência do modelo adotado nas vilas militares do Norte do Brasil. os 257 mil hectares desapropriados pelo INCRA144 — formando uma espécie de trapézio — foram divididos em quatro eixos latitudinais. essa forma de organização espacial se consolidou e vem sendo implantada em quase todos os assentamentos espalhados pelo país e em projetos da CODEVASF e do DNOCS142. 16. Experiências e memória dos colonos do perímetro irrigado de Morada Nova – CE. A construção das demais agrovilas se deu. 7 e 9 . 11. prioritária para efeito de reforma agrária. 1996. A despeito das críticas. 2003. Contudo. as: 19 e 20. Durante os governos militares. Ainda no eixo 4. 4. 16 de novembro de 1994. 13. 8. 17. encontra-se a agrovila 23. o INCRA admitiu: 142 Mais detalhes sobre Projetos do DNOCS. Do contrário. tornando-se. 6. 16 e 23 estão localizadas no município de Carinhanha. de 25 de abril de 1975. Em São Paulo. 15. Bom Jesus da Lapa. as: 2. O Eixo 1 abriga as agrovilas: 1. portanto. Capivari (Campinas) e Bela Vista (Jaú) tornaram-se importantes referências no que diz respeito à tentativa de organização espacial da pequena produção camponesa. Relatório da Comissão Pastoral da Terra de Bom Jesus da Lapa sobre o PEC . 143 Em entrevista à revista Caros Amigos. como veremos adiante. mas encravada no sopé do lado oriental da Serra. 144 Decreto n. pensada nos moldes capitalista. Diante desse quadro. 18. O Eixo 2. . 104-105). 5. Tradição camponesa e modernização. vide Ana Maria de Fátima Afonso Braga. somente 16 agrovilas seriam construídas.658. João Pedro Stédile defende a construção de agrovilas nos assentametnos. de maio de 2000.Serra do Ramalho. a cada 6 ou 7 quilômetros construiu-se uma agrovila. O Eixo 4. seria injusto afirmar que a escolha desse tipo de organização espacial se dá tão somente por causa de razões econômicas. p. 21 e 22. porque. O Eixo 3 abriga as de números: 12. segundo técnicos do INCRA. 14. sua adoção é justificada em virtude de razões orçamentárias. não era titulada. do que se pode depreender de entrevista colhida por Lídia Rebouças. os núcleos coloniais instalados nas Fazendas Santa Helena (Marília). Em relatório. Mas. 136 foram instaladas na Amazônia duas colônias agrícolas: a Colônia Agrícola Nacional do Amazonas e a Colônia Agrícola Nacional do Pará (Cabrera. Pelo projeto original. 75. As Agrovilas 15. como explicar o fato de lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra — MST defenderem esse tipo de organização143? Em linhas gerais. o INCRA passou a utilizar o Projeto Serra do Ramalho como válvula de escape dos problemas fundiários de vários pontos do país.

137 No decorrer de implantação da organização fundiária. o núcleo básico de primeira categoria e o núcleo básico de segunda categoria. porém não ocupadas pelo Projeto formavam a chamada área de expansão ou reserva técnica (localizadas a sudeste da Serra). (Relatório INCRA. As terras desapropriadas. p. . para dar condições de assentamento a novos beneficiários da Reforma Agrária. por falta da consolidação dos trabalhos topográficos inclusive das áreas de reservas técnicas. as agrovilas seriam divididas em três tipos. que vinha a procura da nova Fronteira Agrícola. o número de loteamentos rurais e urbanos foi ampliado. Haveria um núcleo principal. A partir de 1987. De acordo com o plano original. 1994. a Administração do PEC/SR perdeu o controle das ocupações. 12).

138 Planta 2 Agrovilas Serra do Ramalho (intercalar Xerox) .

quando da criação do município de Serra do Ramalho. as agrovilas abrigariam o comércio. os reassentados receberam dois hectares de terreno desmatados145. uma unidade sanitária e um edifício de administração. que. a loja da Companhia Baiana de Alimentos (COBAL). pouco férteis. Em relação aos equipamentos comunitários. além de abrigar todos esses serviços. Por isso. ou seja. 139 O núcleo principal seria a sede do Projeto. Mais tarde. A divisão dos lotes obedecia ao módulo rural da região. Dos 20 hectares. além de ser um centro agro-industrial. obrigatoriamente. paulatinamente. algumas casas de colonos. foram. um parque agro-industrial e a sede da Cooperativa Integral de Reforma Agrária (CIRA) Por possuir infra-estrutura administrativa. o Projeto implantou duas novidades: a construção de lavanderias e refeitórios públicos em todas as agrovilas. até hoje esse povoado é conhecido como “A Setenta”. 1982. E o núcleo básico de segunda categoria seria essencialmente residencial. . correspondendo a um núcleo habitacional com atividades urbanas. vinte e cinco hectares. As áreas impróprias para agricultura seriam. os habitantes de Canabrava. os serviços públicos. a aludida agrovila. cada agrovila ocupava área de aproximadamente quatro lotes. Somente os terrenos irregulares. cada família recebeu um lote urbano com uma casa na agrovila. tornou-se sua sede. diga-se de passagem. Em princípios de 1980. Além do lote rural — onde se concentraria a atividade produtiva —. em média 70 hectares para cada um. sofreu várias modificações. onde se concentrariam as residências da maior parte dos funcionários. 145 A esse respeito os números são controversos. a promessa era de dois hectares derrubados. num processo de resistência que será relatado mais adiante. além de concentrar as casas dos colonos. p. A área da reserva coletiva era proporcional à do lote. De acordo com documento da Comissão Pastoral da Terra. sendo 20 nas glebas e cinco na área das reservas. ao que parece. Ainda de acordo com a planta original. p. 21). Pelo projeto. receberam lote acima do módulo rural. O núcleo básico de primeira categoria teria de especial um ginásio. Alguns entrevistados falam em três e outros falam em dois. Das edificações restam apenas as ruínas. abandonados pelos moradores. No plano de construção. comunitários e religiosos. possuindo. transformadas em áreas de reserva. toda a parte administrativa do Projeto. 6). os equipamentos perderam a sua função e. alagadiços e com afloramentos rochosos possuíam extensão acima do padrão. a Agrovila 9 sediaria a administração do projeto. com escola e um posto de saúde (Cordeiro. mas no folheto Vá viver com sua família nas Agrovilas em Bom Jesus da Lapa há referência a 6 hectares (s/d.

depois de idas e vindas. . o tanque de lavar roupa. Além do banheiro. meio acinzentados. A planta das agrovilas e a presença do INCRA. além da indenização em dinheiro (da terra e das benfeitorias). um lote. De acordo com o projeto original. receberam. 140 aproximadamente. Além disso. os pequenos. Em geral. o banheiro era separado da casa. uma escola ou árvores de grande porte. lotes e casas nas agrovilas determinadas pelo INCRA. a pocilga e árvores. Os posseiros e agregados que atenderam aos critérios estabelecidos pelo INCRA receberam indenizações pelas benfeitorias e. cujos lotes ficam muito distantes da agrovila. igualmente. As casas foram construídas de blocos largos. utilizadas para matar a sede da alimária e banhar os animais de tração. nos moldes em que estavam acostumados nas barrancas do Rio São Francisco. em tom de queixa. havia uma “puxada”. Todas as ruas guardam distância razoável umas das outras. como veremos a seguir. A maioria alegava. mamoeiro. seriam perfurados poços semi- artesianos. mangueira. Quase todas as casas foram pintadas de cal branca. pastam a pequena criação e os animais de tração dos habitantes. através dos gerentes-executores. Os grandes proprietários situados na área foram indenizados. duzentas e cinqüenta casas. mais tarde seria transformada em cozinha. Entre uma rua e outra. A concentração da água nas agrovilas deu-lhe funcionalidade e provocaria a fixação dos relocados. Em algumas agrovilas existem aguadas. o quintal abrigava (ou abriga) também a caixa d’água. em todas as agrovilas. uma igreja. dispostas em ruas paralelas e perpendiculares ao eixo de sua localização. uma vez que seus povoados seriam desativados. que os beneficiados com o projeto foram os “rendeiros” e “agregados”. e possuíam um estilo padronizado com três cômodos: uma sala e dois quartos. A desapropriação e a padronização dos lotes geraram descontentamento entre os pequenos proprietários e posseiros que viviam em Serra do Ramalho. bem como casa na agrovila. Para o abastecimento dos colonos. Nas áreas não construídas. que. tais como pinheira. o galinheiro. laranjeira. existem áreas coletivas que podem ser ocupadas por um campo de futebol. o modelo lote-agrovila seria dominante. não sendo permitida nenhuma outra forma de organização espacial. etc. cabaceira. geravam temores entre os “nativos”. Os moradores oriundos da região de Sobradinho não consideram a área dos lotes urbanos extensa o bastante para abrigar a casa e o quintal.

14/6/1988. onde fala do Projeto de Assentamento Rápido ‘Canabrava’ — resolução do Conselho Diretor do INCRA n. 251. poços artesianos. etc.Como no referido PEC/SR de Canabrava. reivindicando dos órgãos competentes a regularização da permanência na área. uma vez que a prática da pecuária extensiva era desaconselhada.Regularização de nossa permanência na área. mas reivindicamos as estruturas mínimas para a nossa vida: estradas e vicinais. grupos de sem-terra provenientes de municípios do entorno (571 famílias) e. As áreas de propriedade coletiva tinham duas finalidades: a preservação ambiental e a criação extensiva. Na Reserva de Expansão — originalmente reserva coletiva —. posto de saúde e COBAL. dos lotes. especuladores. além dos antigos desapropriados da área. A propósito. inclusive. reassentamento rápido em lotes de 70 has. 2. enganando companheiros ingênuos com vendas de lotes e exploração. além de área reservada 146 Vejamos: “Alertamos para a presença de proprietários e até de fazendeiros na área. conforme denúncia do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carinhanha146. escolas. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Comissão Representativa da Reserva possuem o levantamento deste pessoal não necessitado. de 13. 1988. poderiam ser identificados. não vemos possibilidade de vida digna sem um mínimo de 70 hectares de terra para cada família. as reservas e a fazenda coletiva foram ocupadas por indivíduos das mais variadas procedências. Carinhanha. p. havia duas grandes áreas de reserva (uma era coletiva). presente na área. portanto. 734/MEAF/0586/2. Neste sertão seco. .820). “adotou-se um conceito inovador. sem irrigação. A chamada Reserva de Expansão estava localizada no município de Carinhanha e a chamada Fazenda CSB (área destinada à criação extensiva dos primeiros reassentados) ficava situada em Bom Jesus da Lapa (próxima à BR 349/Brasília-Ilhéus).09. semelhantemente à vizinha área de Canabrava (Ver Ofício n. lagoas. cito duas de suas reivindicações: 1. As famílias sem-terra viviam nas mais precárias condições. alagadiços. com a divisão.). Solicitamos. mas breve possível.” Documento redigido pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carinhanha e dirigido ao MIRAD no Estado da Bahia. 2. localizada entre os municípios de Carinhanha e Serra do Ramalho. o Projeto apresentava outra novidade: em vez de cada lote preservar um certo percentual de mata. que dava como coletiva a área de reserva” (Bursztyn. para negociações ou por ambição. localizadas às margens do Rio São Francisco e inúmeras pequenas reservas situadas nos interstícios das agrovilas (pedreiras. dispensamos a construção de casas (não queremos Agrovilas). Em meados de 1980. p. quatro “reservas extrativistas”. Além da fazenda coletiva. alguns fazendo desmatamento indiscriminado ou especulando com os terrenos. 30). 141 No que tange à organização espacial.

p. . Sua administração estava a cargo do gerente-executor. Uma parcela da Reserva Oeste é disputada por um fazendeiro que se diz proprietário de parte da área e uma família também da região (Relatório do INCRA. Alberico tem péssimas lembranças de Serra do Ramalho. Em termos administrativos. 1) A área da antiga fazenda coletiva (aproximadamente 16. tais como Speritendência de Combate à Malária (SUCAM).000 hectares) e a Reserva Oeste também foram ocupadas. p. A maioria dos entrevistados que vive ou viveu em Serra do Ramalho não se recorda da existência de subprefeitos no Projeto. poderá criar. Ele diz que saiu da 147 Tudo indica que o descontrole sobre a área do projeto se tornou mais pronunciado logo após a controversa extinção do INCRA em 1987. COBAL. Emprea de Terra (EMATER-BA). p. Apenas um entrevistado fez menção à existência de representante do executor na agrovila em que morava. durou pouco tempo. espécie de subprefeito. etc. levando ao gerente-executor suas demandas e reivindicações. o Projeto trazia também uma inovação. se vingou. 1994. nomeado pelo INCRA. Ao executor cabia coordenar as atividades de todas as instituições que atuariam na área. Tudo indica que a inovação não vingou e. ouvidos os interessados [grifos do original] (Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carinhanha. Fumdação Nacional de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL). por sem-terras oriundos da região. a CPT levantava a questão. não restou ao INCRA outra alternativa senão aceitar as evidências. 142 a lugares de Culto e diversões. em três núcleos habitacionais de seis hectares cada um. Alberico disse que o papel desempenhado por esse indivíduo nada tinha a ver com as atribuições de um subprefeito. situados em locais escolhidos pela comissão dos Moradores da reserva. foco de tensões entre os posseiros da região e os primeiros reassentados que receberam o título provisório com a parcela adstrita à reserva. sugerindo ao INCRA indenizar os “colonos” que perderam a área adstrita à reserva coletiva (Santos. em meados de 1980. o gerente-executor e os prefeitos municipais. em vez de representar os moradores da agrovila. 1998. 14-15). este era “dedo-duro” e “capanga” dos funcionários do INCRA. futuramente. Fundação de Serviço de Saúde Pública (FSESP). Também cabia ao gerente-executor escolher entre os técnicos agrícolas ou sociólogos um representante. 1).147 O parcelamento da Reserva de Expansão (área coletiva). que faria a mediação entre os reassentados. Morador em Casa Nova. Em tom de reprovação. 1988. com certeza. Não dispondo de meios e de vontade política para coibir a ocupação. Em fins de 1980.

Tendo em vista que a Agrovila 5 . em abaixo-assinado dirigido ao presidente da República Ernesto Geisel. Ela fez referência a um “prefeito para frente”. funcionário de nível técnico que resolve os problemas da comunidade. entre outras arbitrariedades. adotadas pela maioria dos executores. reassentados nas agrovilas reclamam. Não é despropositado acreditar que as exorbitâncias tenham sido as principais responsáveis pelos primeiros casos de violência que têm marcado a história de Serra do Ramalho.150 A precariedade da vida em Serra do Ramalho. mas. No abaixo-assinado acima referido. em 14/02/1978 e se encontra arquivada na Biblioteca Diocesana de Juazeiro. . a experiência das sub-prefeituras funcionou149 e tudo indica que subprefeitos e funcionários ligados ao INCRA cometeram exorbitâncias. 150 O abaixo-assinado foi enviado de Juazeiro. depois que liderou reclamações sobre a falta d’água na agrovila148. desde sua criação até a atualidade151. a instalação da rede de energia elétrica e o abastecimento d’água. entre outras coisas. fugitivo porque o “homem do executor” passou a provocá- lo e ameaçá-lo de morte. criando margem para as práticas clientelísticas e de mandonismo.. do pouco caso com que eram tratados pelos “Prefeitos das Agrovilas”.. Um ano depois. 143 Agrovila 5. um subprefeito. cerceamento de acesso às autoridades e subtração de documentos. praticando desmandos. publicação da Diocese de Juazeiro. 6/12/2002 e 7/12/2002. sim. reconhece que houve casos de violências. Para manutenção das agrovilas. os reassentados. 148 Orindo. nos primeiros anos do Projeto. colocou os reassentados numa posição de total dependência em relação ao executor. mas nega envolvimento de funcionários do órgão148. Durante a implantação das primeiras agrovilas. denunciavam. As arbitrariedades e as práticas clientelísticas. além de reclamarem de questões técnicas relativas ao projeto. Ao segundo cabia a implantação e execução do Projeto. 149 Convém recuperar a matéria do Boletim Caminhar Juntos. A propósito: [.] nota-se um grande controle do Incra sobre a vida dos colonos: Cada agrovila é administrada por um “prefeitinho”. 31/01/1977). abriram precedentes para que funcionários do INCRA ou de prestadoras de serviços se arvorassem em “autoridades”. técnico agrícola que trabalhou no INCRA em princípios da década de 1980. em princípios de 1980. chegando a baixar normas de comportamento: nas agrovilas é taxativamente proibida a entrada e o uso de bebida alcoólica” (Santana. À primeira cabia a abertura de estradas. a CHESF e o INCRA dividiram atribuições. Entrevista concedida à autora em Bom Jesus da Lapa.sede do Projeto à época da visitação da comitiva do bispo - pertencia ao município de Bom Jesus da Lapa não poderia ter um prefeito.

A Tarde. Segundo amostragem realizada junto a onze das vinte e três agrovilas de Serra do Ramalho pela CPT. 25/08/2001. p. não procuravam o órgão gestor. sua própria administração. . Do contrário. partindo de mãos abanando. de Santa Maria da Vitória. De acordo com o Projeto. A Tarde. 24/08/2001. sem juros e sem correção monetária. o “beneficiário” receberia o título definitivo. 151 Mais detalhes. quando o registro do título contasse mais de cinco anos e quando o projeto fosse emancipado. sendo razão de reclamação dos entrevistados. Em meados de 1980. em cinco anos. os entrevistados pouco se recordam da atuação da Prefeitura Municipal na área. as atribuições da Prefeitura Municipal e do gerente-executor foram norteadas pelo princípio da complementariedade. 1994. Salvador.152 Embora o Projeto de Colonização de Serra do Ramalho tivesse caráter especial. Tendo isso em vista. O proprietário só poderia vender o lote quando pagasse integralmente o valor do débito ao INCRA. Salvador. Para não ferir os interesses das elites políticas do município. tais como saúde e educação. por Levi Vasconcelos. em 1994. sessenta e um por cento dos reassentados não possuíam título definitivo do lote (Relatório da CPT. 144 O Projeto trazia outra particularidade. através do gerente-executor. sendo denunciado pelo jornal O posseiro. não foram cumpridos integralmente. p. A venda do lote somente seria permitida mediante o atendimento de certos requisitos. o lote voltaria às mãos do INCRA e o “colono” teria direito somente à indenização das benfeitorias que tivesse feito e à restituição da quantia paga ao órgão. vide as matérias: Serra do Ramalho vive clima de terror. as agrovilas tinham. Embora tenha informações de que o município de Bom Jesus da Lapa teria recebido aporte de recursos para dar sustentação ao Projeto. Quitado o carnê. mediante repasse de verba do órgão. p. 3). mas os salários dos professores eram pagos pela Prefeitura. 5. Embora formalmente vinculadas ao município de Bom Jesus da Lapa. os deslocados compulsórios não foram dispensados do pagamento das “benfeitorias” usufruídas. 5 e Comissão apura crimes em Serra do Ramalho. A título de exemplo: as escolas eram mantidas pelo INCRA. O valor total dos “benefícios” seria pago em parcela única ou num prazo de dez anos. visando oferecer à população serviços básicos. os “beneficiários” receberiam o título provisório e o carnê de pagamento. o atraso no pagamento dos salários dos professores era uma constante. muitos dos que desistiram do projeto. Muitos dos convênios firmados entre a Prefeitura e o INCRA.

400 famílias das 1. o que você tá achano? — (Digo) Meu cunhado. ela atrita com a opinião das “equipes de visitação” e também com a impressão da comitiva de D. “O impacto sentido pelas primeiras famílias vindas de Sobradinho foi enorme. 1988. os 152 O posseiro. um cunhado meu. a memória dos entrevistados em relação ao projeto registra que ele foi cercado de expectativas não cumpridas. 154 Relato de Quintiliano.O inferno vivido. Santa Maria da Vitória. modificam-se ao longo do tempo”. Aqui talvez seja oportuno lembrar opinião de Braga. irmão dela [apontando para a esposa]: — Ei. As primeiras famílias chegaram ao Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho em março de 1976. Em julho do mesmo ano chegou a segunda leva.. você bem não chega. 20)153. (Braga. 1994. disse Quitiliano: Chegou aí. Quer tenha se modificado ao longo do tempo ou não. de modo que. Barra da Cruz e dos povoados dos demais municípios que tiveram suas terras submersas pela Represa. Quando o ônibus chegou na cantina. — Ei. qual seja. p. Parece que a decepção era a tônica entre as pessoas que se instalaram em Serra do Ramalho nos seus primeiros dias. não tou achando nada. setembro de 1983.. mesmo não sendo o caso. Pau-a-Pique. Rapaz. estavam instaladas em Serra do Ramalho 1. p. Assim. As primeiras eram provenientes do povoado de Intãs e foram instaladas na Agrovila 5. . Isso aqui é divagar. 153 Ambos os dados são controversos. 24) A propósito.78). José Rodrigues de Souza. duas horas da tarde..154 Muitos entrevistados expressaram sentimentos semelhantes aos externados por Quintiliano. não diga uma coisa dessas. Eu vi o ambiente. 145 2 . que. não. Eu disse: isso aqui não dá pra mim. “a memória tem a capacidade de atualizar os acontecimentos a partir de alguns pontos de referência ao indivíduo. Nos meses subseqüentes chegaram várias outras levas. meu cunhado. Depois chegaram várias famílias oriundas de Bem-Bom.600 cadastradas (Relatório INCRA.. — (Digo) Não tou achando nada. Muito do que havia sido prometido não foi encontrado por ocasião da chegada no PEC-SR”. ao final de 1978. rapaz. Contudo. 2003. p. (Bursztyn. não tou gostando não.

Entrevista concedida à autora em Casa Nova. 23/1/2002.. eu cheguei gordo e saí magro. Passaram a sobreviver com os parcos recursos que trouxeram ou com o auxilio que recebiam dos parentes que se encontravam em São Paulo. solicitaram ao órgão ajuda de custo. cheguei vestido e saí nu. mas não esclarece se todos . A empresa se comprometeu a pagar a ajuda por um período de dez meses. Matéria de O Globo confirma o pagamento de um “salário auxílio” no valor de 564. quando chegaram à Serra do 155 Entrevista concedida à autora em Casa Nova. depois que acabaram os parcos recursos trazidos de Casa Nova. Disse que. o INCRA franqueou o acesso ao refeitório somente nos três primeiros dias subseqüentes à chegada. outros partiram para São Paulo e os mais depauperados recorreram. segundo consta.”155 Alvino também lembrou das dificuldades que enfrentou nas Agrovilas. de tu vou embora. Alguns passaram a vender a força de trabalho nos municípios de Bom Jesus da Lapa e Santa Maria da Vitória. Por isso. a chegada dos deslocados coincidiu com o fim das chuvas. Várias foram as razões para os desentendimentos e atritos. 24/01/2002. de tu não tenho saudade.” 156 Os deslocados que chegaram a partir de julho. sobrevivia da prática da pesca nas lagoas situadas próximas às margens do Rio São Francisco (em disputa com os “nativos”) e da caça. A desorganização do modo de vida nos anos que antecederam a partida causou prejuízos significativos à população deslocada. como na região de Sobradinho. Desse modo. A indenização mal deu para suprir as necessidades básicas durante uns poucos meses. Alguns entrevistados afirmam que nunca receberam tal verba. à mendicância. Não gosto nem de lembrar. afirma. Funcionários do INCRA afirmam que ela foi extensiva a todos os reassentados. 156 Relato de Alvino. os deslocados tiveram que sobreviver às suas custas. mesclando humor e indignação: “Tomei raiva da Agrovila. portanto não havia condições de “tocar roça”.. contaram com auxílio da CHESF157. “O pessoal chegava — me dá uma colher de café pra mim. Contrariando as promessas. Devido à demora na entrega de suas casas pela construtora encarregada das obras. Assim. 146 choques entre os reassentados e as autoridades responsáveis pela gerência e execução do Projeto tornaram-se inevitáveis. 157 A informação quanto ao pagamento da verba de manutenção pela CHESF é controversa.) Adeus. agrovila ingrata.. permaneceram em seus povoados muito além do prazo fixado pela “equipe social” para seu deslocamento. No Oeste baiano. o período chuvoso compreende os meses de outubro/novembro a fevereiro/março. muitos vieram de seus povoados sem recursos para garantir a sobrevivência. Depois disso. Nós começamos a mendingar lá na agrovilia.(. Os indivíduos que chegaram nas primeiras levas sofreram muitas privações.. outros afirmam que ela só foi paga por pouco meses. Assim. segundo Alberico. Para finalizar.00 (provavelmente cruzeiros).

Agrovilas: a mudança para terras mais férteis. A mata segurava um pouquinho. transformado em caatingueiro. o rio estava longe. mas nunca passaram necessidades porque o rio amenizava os seus efeitos. O Globo. Impossibilitados de continuarem exercendo a atividade pesqueira. . João Santana. sem as condições de readaptação humana e material para lidar com esta nova realidade. Esse fato gerou descontentamento entre os “beneficiários”. cit. Rio de Janeiro. a CHESF cortou o auxílio aos deslocados no oitavo mês. 114)159. pela inundação) e só não se tornaram inadimplentes. distantes aproximadamente sete quilômetros. trazidas pelos agricultores e plantadas sem cuidado.” (1987. p. 31/01/1977. Por outro lado. Em Serra do Ramalho. 147 Ramalho. A distância do rio incomodava bastante os deslocados de Sobradinho. Não custa lembrar que as agrovilas mais próximas do Rio são as situadas no Eixo 1. a seca era inclemente. Nas palavras de Machado: “O beiradeiro viu-se. encontrava-se muito mais distante do que quiseram acreditar. A estiagem impressionou a população recém-chegada. como por exemplo. chefe da equipe técnica do INCRA em Serra do Ramalho. 158 Relato de Quintiliano. classificada por Brancolina Ferreira como pouco “ortodoxa”. o engenheiro agrônomo. Tudo isturricado. A seca era braba e cadê o rio?158 ” Nos povoados de onde vieram. por tinham direito a ela. 6. 50).1 . “Tava tudo seco. Pela primeira vez sofreram quebra de produção (inicialmente pela seca. qual seja. locado em terras estranhas e que não eram suas. coisa que eles nunca haviam feito antes. A frustração da safra de certa forma foi boa porque permitiu o aprendizado de novas técnicas. os que não recebiam a ajuda de custo se sentiram injustiçados e passaram a reivindicá-la também. porque o INCRA adotou medida. ainda recebiam um “salário auxílio”.. em seguida. da noite para o dia. Pela primeira vez essa população teve a noção do que era viver na catinga. Sem dar maiores explicações.” Santana. a ser pago pelo colono à época da titulação” (1980. Muitos deram aos instrumentos de pesca finalidades outras. 159 Demonstrando total insensibilidade em relação ao sofrimento da população. p. a aplicação de inseticidas para debelar a praga da lagarta.Vida de catingueiro Acresce que 1976 foi um ano particularmente seco. op. 2. os beraderos que em suas comunidades viviam basicamente da pesca se sentiram frustrados e ludibriados. incorporando esse montante ao valor do lote. declarou à imprensa: -“Eram sementes de baixa qualidade. já nos primeiros meses. “pagou ao Banco do Brasil e lançou o débito às respectivas contas dos parceleiros. p.

as agrovilas não contavam — a maioria não conta até hoje — com “água doce”. várias vezes. as queixas redundavam em discussões e desavenças. carregando baldes confeccionados a partir de pneus usados e latas de flandres. Além do mais. que ali aconteceram fatos inusitados. 42. 1982. os reassentados recorriam às 160 Os galinheiros cobertos com redes foram estampados na matéria Colonos baianos ainda não se adaptaram às agrovilas. p. Paulo. Citando: O problema de água é tão grave que na agrovila 11. Muitas vezes. de que tanto reclamam os entrevistados. Quando cheguemos. temendo o pior. 48). às vezes. outras vezes. junho de 1976. 161 Relato de Eudelina. meses para tomarem providências e as tensões eram latentes. em 1979. (Cordeiro. 25/09/1999. Embora muitos reconheçam ter permanecido nas agrovilas pelo fato de ali haver água. “Essa água matou muita gente. O Estado de S. jogou álcool em todo o corpo e colocou fogo. ficando em estado grave. houve uma mortandade danada. Era uma bicha danada e na metade faltava água. As mulheres levantavam cedo para apanhar a água e muitas vezes nem todas eram atendidas. 148 exemplo. Os responsáveis pela manutenção levavam dias e. as canoas viraram depósitos de grãos e as redes de pesca foram aproveitadas para fazer galinheiros160. era comum faltar água. em outra agrovila. porque a mãe não conseguiu um copo de água para salvá-la. A água era pouca. a qualidade do líquido era e é considerada duvidosa. Às vezes. Alvino conta que. . “Pesada”. Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. por causa da falta de água.”161 Não bastasse a péssima qualidade.”162 Para não morrerem de sede. Nos dias em que a água corria nos chafarizes eram comuns longas filas constituídas por mulheres e crianças. uma criança morreu entalada com farinha. que chegou a tentar o suicídio. segundo entrevistas. Nesse mesmo ano. “partiu para briga” e que essa só não se consumava porque os funcionários do INCRA se escondiam. p. “As vez a gente ficava muntcho tempo na fila. 162 Idem. Tão pesada que. forma no fundo das vasilhas uma espécie de crosta branca. O abastecimento de água era tão precário nas agrovilas. uma mulher ficou tão desesperada pela falta de água. eram as bombas que apresentavam defeito. criancinha e adulto. de Pedro Formigli. Todos reclamam da água: água “saloba”. os poços não tinham vazão para suprir as necessidades da população. e só depois de muito tempo se recuperou.

No caso específico dos expropriados de Sobradinho. 2. e também aos novos estudos de movimentos sociais. quanto concreto. apanhada nas lagoas ou aguadas próximas ao Velho Chico.2 . Nos limites deste trabalho. sendo razoavelmente cara para os padrões locais. como veremos adiante.Bairro Rural versus Agrovilas Independentemente de sua motivação. material-político e ou econômico. p. alguns aspectos do modo de vida do beradero antes da construção da Represa de Sobradinho apareceram e se mostraram bastante contrastantes com o modo de vida dos reassentados das agrovilas de Serra do Ramalho. identidades. De acordo com Rogério Hasbaert Costa. com a destruição de símbolos. todas as bases materiais. 149 aguadas situadas muito longe das agrovilas onde moravam ou compravam água em tonéis provenientes da Lapa. conceito caro à geografia. Ficou evidenciada a existência de duas unidades sociais de aglomeração — denominadas várias vezes de organização espacial — claramente opostas. a água chega em vasilhames de plástico. pela destruição de antigos laços/fronteiras econômico-políticos de integração” (1993. mas todos os moradores exibem ao visitante a “água doce” que se contrapõe à “água salgada” sugada dos poços tubulares ou semi-artesianos abertos pelo INCRA ou por eles próprios. Quem era esse sujeito social? Essa é uma questão das mais importantes que pretendo abordar aqui. o processo de desterritorialização pode ser tanto simbólico. No primeiro capítulo discorri sobre alguns . Ainda hoje. diga-se de passagem. Assim. ainda hoje se faz notar. as relações e os referenciais simbólicos nos quais estava assentado o modo de vida do beradero sanfranciscano foram brutalmente destruídos. marcos históricos. sinalizando um processo de desterritorialização e desenraizamento bastante pronunciado e que. o deslocamento compulsório sempre resulta na perda de importantes referenciais espaciais e sociais dos atingidos. 16). uma nova atividade surgiu em Serra do Ramalho: a venda de “água doce”. nas quais viviam e vivem os sujeitos da pesquisa que desenvolvi. redundando na desterritorialização.

as reciprocidades prescritas pelo parentesco de sangue e por aliança podem cobrir uma região mais extensa. é espaço de sociabilidades e repositório de relações de parentesco e de identidade cultural muito particular. Em linhas gerais. essas unidades são mais freqüentemente denominadas de bairros rurais. O bairro rural tem suas bases físicas em uma área de habitat disperso. há diferenças de posições sociais. além de local de concentração da maioria dos serviços básicos requeridos por camponeses. mas se estendia por espaços mais amplos. Povoados (Nordeste). Essa organização espacial mínima. 2000. Neste contexto. Maria Isaura Pereira de Queiroz e Lia Fukui. 150 aspectos dos povoados beraderos sanfranciscanos. os parentes. a vizinhança. Desta organização espacial fazem parte elementos chaves. facilitando os deslocamentos e as migrações. (Rebouças. quando opostas aos espaços planejados. convém retomar algumas questões demonstrativas dos contrastes entre as duas organizações acima apontadas. conforme salientam Antônio Cândido. A . para usar expressão consagrada na literatura de matriz sociológica.149). de modo geral. a rede viária. De modo geral. nos vários recantos do interior do país. mas não chegam a formar grupos ou status hierarquicamente muito separados. O grupo é internamente pouco diferenciado. Na literatura sociológica. possui um patrimônio onde as famílias fixam residência. A textura do bairro rural. p. O núcleo em geral é formado de uma igreja e uma praça. destacando. essas unidades de aglomeração são construídas socialmente e ganham um caráter de espontaneidade. O casamento entre parentes não ficava circunscrito ao bairro. sem querer ser repetitiva. dispondo de um núcleo que serve de fixação à população. depois da construção da represa: as agrovilas ou “núcleos de reassentamento”. antes da construção da represa: os povoados ou bairros rurais. linhas (Sul) e bairros rurais (São Paulo) são alguns dos nomes que adquirem. as unidades sociais mínimas de aglomeração. garantindo às famílias um apoio fora do próprio bairro que habitam. formam redes que abarcam áreas mais ou menos vastas. o seu povoamento e as interligações das parentelas. intermediária entre o grupo familiar e outras formas mais complexas de povoamento e solidariedade social. sobretudo sua forte identidade territorial e cultural. empobrecidos. do ponto de vista hierárquico. mas neste momento. Maria Isaura Pereira de Queiroz chama atenção para um aspecto importante do bairro rural: a pouca diferenciação social existente entre seus moradores. O bairro rural é uma unidade social mínima. tais como: o rio.

pela população. os povoados de Bem- Bom. carecendo de estudos mais acurados. Os pesquisadores que se debruçaram sobre essa forma de organização espacial. Pau-a-Pique. Segundo. Primeiro. Em Serra do Ramalho a ação dos gerentes- executores foi sentida. guardavam as características semelhantes às apontadas acima. ser tutelada. com bastante reserva. em diferentes períodos. Em geral. portanto. centrada na técnica e nos conhecimentos científicos. do meu ponto de vista. Intãs e Barra da Cruz. ela resulta de uma intervenção do Estado. Os problemas dos perímetros. são atribuídos à incapacidade de adaptação e . compreendendo reciprocidades e o desfrute de um cabedal cultural comum criado e recriado nas relações de trabalho e em anos de convivência. experiência mais vasta de vida e de trabalho. relações de parentesco com determinados indivíduos mais prestigiosos. Fatores como idade. As agrovilas têm uma história bastante diferente da do bairro rural. que a via como um cativeiro. essa intervenção é provocada em função de grandes projetos considerados necessários à modernização. segundo essa concepção. de tecnologias e de controle (político-administrativo). 151 diferença de posições sociais não parece determinada pela posse de bens. a população reassentada na agrovila é considerada atrasada e vista com desprezo pelas agências governamentais. baseia-se na tentativa de destruição de todo seu sustentáculo de vida. ela é fruto de um planejamento que não leva em conta o modo de vida da população. devendo. para forçá-la à modernização. algumas características básicas. Do que pude depreender das entrevistas tomadas aos beraderos. contudo. mostraram claramente que os bairros rurais eram relativamente dinâmicos e estavam ligados às redes mais complexas de trocas. que o bairro rural é um espaço isolado e excluído das relações de mercado (estão integrados às redes). Não se pode pensar. de conhecimentos. muito ao contrário. As relações forjadas no espaço do bairro rural são muito fortes. 198). assim como iniciativa e empreendimentos importantes em setores básicos para a vida social local (como a adoção de um novo tipo de cultivo) dão status proeminente ao indivíduo (1976. relegando assim o fator econômico para o segundo plano. Assim. bem como todas as demais unidades sociais localizadas às margens do Rio São Francisco atingidas pela Represa de Sobradinho. p. Essa organização espacial apresenta. O modelo traz embutida uma concepção de cultura camponesa que deve ser substituída por outra cultura.

cultivando seus lameiros. pescando. De modo geral. e. moça. No caso específico de Serra do Ramalho. 152 resistência ao novo por parte do colono. ex- 163 Para Raffestin é da natureza do Estado. Segundo essa análise. É um inferno. Não tinha disunião. não faltam razões para isso. p. Tudo ficou de cabeça pra baixo. Inedina.” (1993. Em Bem-Bom era diferente. criando seus pequenos animais. As famia era mais unida. não. Representa uma ação costumeira que se estabelece no cotidiano desses agentes sociais (Pereira. e se constitui num repositório de lembranças e esperanças. em detrimento do vivido. sentimentos que são relacionados com o modo particular de perceber o espaço como um símbolo. a rejeição ao projeto parece ser algo dado. 35). o camponês é um objeto a ser trabalhado e modificado para que o empreendimento do Estado seja compensado com boas safras para o mercado (Braga.164 Devido às características da experiência de parte da população reassentada no Projeto de Colonização de Serra do Ramalho. Filhos crescem nos quintais das casas. se morrem. são enterrados nos mesmos quintais.22) 164 Relato de Elpídio. os descompassos e as dissonâncias entre os agentes governamentais e os assentados ou reassentados são notórios. enfim. É preciso reeducá-lo. mas no mundo da técnica. Em primeiro lugar. não. p. Aqui virou um inferno. resultando na rejeição do projeto. Revirou tudo. Ninguém reconhece parente. todos os beraderos gostariam de ter permanecido na borda do lago. Afinal. enquadrá-lo. . revela um total descompasso entre o planejado e o vivido163. Todos alegam estar insatisfeitos e reclamam do abandono e do descaso a que foram submetidos pelo INCRA e dizem sentir muitas saudades do local de origem. Essa atitude está contida no imaginário do homem do campo. mantendo suas relações de sociabilidade no espaço onde nasceram. Mudou. Os parente se dava. 2003. dos inseticidas e herbicidas. digamos assim. p. “prilegiar o concebido. 1993. A terra é mais do que um meio de produção: ela expressa laços afetivos. 15). não só no espaço do perímetro. O camponês não constrói o seu modo de vida somente pelo que e como produz para sua sobrevivência.

Roubo de gado teve muntcho. 102). manifesta-se no abandono da agrovila. embora temporária. 18). Para ela. os deslocados da área da Represa de Sobradinho não se conformavam com a separação entre o local de trabalho/produção e o local de moradia. conforme visto anteriormente. 1993. desta idéia de casa enquanto um lugar separado da roça. Agrovila não presta. Mais se tivesse água. p. . cit. nunca. era efetiva.. O bandido vem. todos os entrevistados argumentam que as casas deveriam ser construídas nos lotes e reclamam da distância que devem percorrer para trabalhar165. Isso tudo aqui não ficou vazio por que não tinha água. p. 9/1999. com centro comercial. pega o gado. centro comunitário. não casa apenas no sentido de espaço físico. simbolizada pela existência do lote agrícola e do lote residencial” (2003. não. o locus de morada dos beraderos estava situado nas áreas de vazantes e. leva. mesmo depois de passados vários anos da sua instalação. E tem lote longe. o local de produção e o local de moradia constituíam uma unidade indissociável. Na beirada do rio São Francisco. o local de moradia. Ainda hoje. não”166 Todos rechaçam o modelo lote/agrovila porque em seus locais de origem vigorava outra organização. Os 165 Lídia Rebouças (op. Ninguém tava aqui. confessa que não se deu bem nas grovilas e que com a mudança sua saúde ficou abalada. Não ocorria a obrigatoriedade do deslocamento diário ou a dupla moradia como se verifica em Serra do Ramalho. o agrupamento familiar se deslocava em bloco para outros pontos da berada do Rio e até mesmo para a caatinga bruta — no caso das enchentes altas. 153 moradora de Casa Nova. fato dos mais inusitados para a população rural. dependendo da estação. não. Lagoa São Paulo e Primavera – Pontal do Paranapanema – SP.. “A recusa por parte dos reassentados.. morada” (Pereira. p. 166 Relato de Lelo. Em geral. não correspondeu ao plano inicial da CESP de constituí-la enquanto unidade residencial do projeto. o local da moradia podia mudar. Contudo. a causa de seus males é a água. ele provoca “fratura entre a esfera doméstica e o âmbito do trabalho. O modelo lote/agrovila cria a separação entre o local de produção/local de moradia. Depreende-se de suas entrevistas que o modelo de organização baseado no lote/agrovila revela total desconhecimento do modo de vida camponês/beradero. escola. mas ela era efetiva. Notadamente. posto de saúde e unidade administrativa do reassentamento”.66) registra a mesma insatisfação entre os reassentados de Rosanela. E o dono? Em casa dormindo feito trouxa. “A vida cotidiana do sertanejo é organizada em volta e a partir da ‘casa’. Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. mas no sentido de ‘oikos’. Para usar expressão de Braga. que. Morar longe da roça! Quem já viu isso? Doidice maior num vi.

esse é o meio de transporte comum em todos os assentamentos baseados no mesmo modelo implantado em Serra do Ramalho. ao roubo das criações e de outros bens. Entrevista conceidida à autora em Serra do Ramalho. o número de charretes é tão significativo que está a exigir a instalação de semáforos. nos seus primeiros anos. Diretora do Instituto de Terras do Estado de São Paulo. 24/2/2001. visando atender os reassentados. O vento derrubou a casa. Muitchos fez. Todos reclamam que falta espaço para a criação de pequenos animais e que os porcos e as galinhas são criados presos. portanto. fora do alcance da vista de seus proprietários. A disposição do lote urbano também gerava e gera ainda descontentamentos entre os reassentados. Por isso. Quem tem condição faz a casinha no meio do lote. 154 moradores do projeto responsabilizam o modelo (lote/agrovila) por todos os problemas de delinqüência e violência que afirmam ter ocorrido em Serra do Ramalho.”167 Para minorar a insatisfação dos moradores. de modo a não ciscarem as pequenas roças ou hortas dos seus proprietários e vizinhos. . a Cooperativa Integral de Reforma Agrária de Serra do Ramalho (CIRA) dos produtores de Serra do Ramalho buscou. 167 Relato de Quintiliano. ao fato das casas estarem situadas longe dos lotes. agora nem tic nem tac. Ainda hoje. Eu fiz tamém. Nas estradas. quais sejam: comprar tonéis para pegar água no Rio São Francisco ou trazê-la das agrovilas e construir uma casa. crédito para a compra de carroças e charretes. 168 Aliás. Segundo Tânia Andrade. Aqui tá divagá. lá.. a primeira medida dos moradores que apresentam uma pequena melhoria de condição de vida. Eu digo. Botou telha baixa. minha casinha. vemos galinhas pulando com suas “peias”.. Aí. O menino tirou a telha. através do Banco do Brasil. em Promissão (onde estão assentados integrantes do MST).. as charretes são o meio de transporte mais utilizado pelos habitantes de Serra do Ramalho168. é dotar o lote rural de condições de morada efetiva. o gado pisava nas telhas.. quebrou tudo. Atribuem à insegurança.

deixa aos critérios dos futuros assentados a escolha do modelo de organização espacial a ser adotado. Reclamam que a área dos quintais é insuficiente para suas necessidades. o ITESP. segundo ela. na Universidade de São Paulo. Todos rejeitam a proximidade das casas umas das outras. 12/9/1999. diretora do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (ITESP). Em razão disso. Tudo apertado. realizada em setembro de 2000. “Não dá para criar nada. 155 Figura 3 – Charrete (foto: Ely Estrela) Meio de transporte muito usado em Serra do Ramalho. . de acordo com Tânia Andrade170. Há reclamações generalizadas contra os vizinhos. Embora todos demonstrem cuidados especiais com suas crias e bens. há acusações de roubos e furtos.Seção de São Paulo. Quem vai confiar em vizinho? Essa grovila é uma maldição. A diretora do ITESP disse que a justificativa utilizada pelos futuros assentados para a escolha do modelo de agrovila ou do modelo que 169 Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. Um cativeiro. 170 Palestra proferida na ANPUH . Reivindicam cercas.”169 Aliás. as reclamações em relação aos vizinhos são muito comuns nos assentamentos.

os Pankaru ainda resguardam certos traços do nomadismo de seus ancestrais. Assim. Ao retornarem à Agrovila. Trypanosoma Cruzi. de uma série construída pelo INCRA. no caso do inseto. Em outros termos: a escolha da agrovila é a favor do vizinho e a escolha da construção da casa no lote é contra o vizinho. a rejeição se consubstanciou através do desmonte quase que completo da Agrovila 19171. Após o estabelecimento na Agrovila 19. Aqueles que dispunham de meios já o fizeram. abandonaram suas casas. Entre os índios Pankaru. encontram-nas ocupadas por sem-terra. 156 privilegia a casa no lote é sempre o mesmo: o vizinho. e é ainda. entre 1984/85. responsável pela morte de 171 O assunto é controverso. Figura 4 . Obtive informações de que o desmonte das casas teria ocorrido num confronto entre os Pankaru e os sem-terra que ocuparam a Agrovila.Construção padronizada (foto: Luciene Aguiar) Casa localizada na Agrovila 15. As reservas em relação ao Projeto se consubstanciavam através da construção de uma nova casa. a meta de todo reassentado era. Algumas casas foram derrubadas e as telhas de tantas outras transferidas para os ranchos construídos na aldeia. que ainda se encontra nos padrões originais. Consta que o retorno dos índios à Agrovila 19 ocorreu quando descobriram que na aldeia havia um foco de barbeiro (Triatoma infestans. conforme visto pouco acima. Estava . Embora em contato com regionais há muitos anos. dotar o seu lote de água e fazer seu “ranchinho”. no caso do protozoário).

3 . Vejamos: “Durante o trabalho de campo verificou-se que os contratos de financiamento assinados estavam sendo descumpridos por ambas as partes. por parte dos Pankaru. as safras eram muito boas. As terras das agrovilas se mostraram aptas para a cultura do algodão e. Para a autora. percentual de 38. em parte. Boheman) destruiu a cotonicultura — e os reassentados de Serra do Ramalho tiveram que reorganizar de outro modo a garantia da sobrevivência. os reassentados de Sobradinho que. houve total rejeição à moradia na Agrovila. 172 Brancolina Ferreira estima. para os anos de 1976/79. durante todo o processo de deslocamento.” 2. de modo que. os Pankaru vivem entre a Aldeia Vargem Alegre (único local onde praticam o Toré) e a Agrovila 19. Em meados de 1980. o crédito passou a se tornar mais escasso.Cobrando as promessas Em fins de 1976 — depois de um longo período de seca —. estabelecido o conflito. meio atônitos em relação ao que lhes acontecia. Por outro lado. revelaram-se indignados e começaram a reivindicar que o INCRA cumprisse as promessas. 4%. somente dez por cento dos reassentados foram beneficiados com crédito bancário172 (Cordeiro. Logo após. p. de taipa ou adobe —. 157 algumas pessoas. Reivindicavam créditos. 10). 1982. segundo entrevistas. Mas o boom algodoeiro da região estava chegando ao fim. Num processo em que guardam o antigo costume do nomadismo. se mostraram. entre 1978/1979. Freqüentemente o . uma política de irrigação e a venda a prazo no posto da COBAL. a liberação dos recursos estava vinculada ao plantio de culturas comerciais. em parte. por razões de ordem técnica. Vejamos o que disse sobre essas casas Alvino: “Casa não! Tapera. as casas de alvenaria construídas nas agrovilas foram reprovadas. Do meu ponto de vista. Os “colonos” reclamavam da disposição espacial da construção e do aperto dos cômodos. o Banco do Brasil liberou o crédito para a derrubada da mata para o plantio e para compra de uma charrete. vieram as chuvas e não havia recursos para “tocar a roça” e comprar sementes. em geral. A bem da verdade. os problemas com financiamentos eram de ordens as mais variadas. Diante dessa depauperação. por causa da inadimplência. independentemente da razão. segundo dados da CPT. a praga do bicudo (Anthonomus Grandis. tais como o algodão e mamona. Consideradas pelos técnicos como superiores às moradias dos beraderos — em geral.

os preços eram rebaixados. Plantei dois sacos. 112-113. acompanhamento de mercado e procedimentos semelhantes. sem uma gerência comercial. “Não adiantava plantar as semente da cooperativa. De forma velada. A cooperativa contava com uma diretoria executiva formada por “colonos”. Podia também ocorrer (e ocorreu) situações nas quais o técnico rural. conforme relatórios do próprio governo. a cooperativa existente nas agrovilas não vem exercendo com eficácia sua função de facilitar a comercialização para os produtores. Um da cooperativa. em princípio. era dirigida pelo delegado do INCRA. representado pelas indústrias. deveu-se à impossibilidade de que tivesse a destinação pretendida. mas.” 173 Além do mais. Até o momento. 158 A cooperativa prometida pelo INCRA foi criada.1980-.” O Estado e a reprodução da pequena produção: reflexões em torno de um caso de colonização compulsória. p. por exemplo. Não prestava. pois os colonos não têm mecanismos para intervir decididamente nos rumos da cooperativa que. intermediários e supermercados (1982. na prática. deixam entrever que tais fatos ocorriam por má gestão e corrupção. comercial ou industrial. Vejamos o que diz o jornalista Emiliano José na apresentação do relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) assinado por Tânia Cordeiro: Do outro lado. portanto o montante de recursos aprovados para esse fim não pôde ser utilizado. Também aqui revelam-se os fortes traços de autoritarismo do projeto. outro que comprei na Lapa. como falta de insumos que pudessem ser adquiridos (no ano em questão . deixavam de elaborar o laudo necessário. que sobretudo por dificuldades de locomoção. segundo entrevistas. a cooperativa não tem significado qualquer barreira ou proteção à ação do capital privado. o aconselhava a não retirar uma ou mais parcelas do crédito já liberado. mas esta logo se revelaria fonte de inúmeros problemas: os preços eram mais elevados do que os dos produtos vendidos no mercado e os produtos eram de péssima qualidade. A cooperativa. E até mesmo as vendas da cooperativa vêm se dando de forma amadorística. 1988. 173 Relato de Quintiliano. ou porque o Banco demorasse na liberação das parcelas de recursos. falta de inseticidas. . ou porque a finalização (saque) do contrato dependesse de parecer dos técnicos rurais que atuavam no projeto e. 11). houve. deveria ser dirigida por eles próprios. p. que deveria ser um fato de diminuição dos preços. vendo que o colono não iria conseguir realizar a produção. Não sou bobo. indicado pelo gerente- mutuário (o colono) deixava de cumprir sua parte do contrato. Todos os entrevistados têm queixas da cooperativa. O da cooperativa não nasceu nada. quando os cooperados levavam à Cooperativa Agrícola (CIRA-SR) os seus produtos. acaba regulando os seus preços pelos dos intermediários. Outro fator que contribuiu para que o crédito concedido deixasse de ser utilizado.

sentiam-se decepcionados e recuavam. outras perspectivas se abriram para a atuação do INCRA em Serra do Ramalho. funcionários comissionados do INCRA e envolvido no Projeto. 30). Em 1985. a cooperativa sofreu intervenção do governo federal. uma coisa assim. ex-superintendente do INCRA da Bahia. Em obediência ao projeto de descentralização que se visava implementar nas gestões de Nelson Ribeiro e Dante de Oliveira. o relato foi registrado em Caderno de Campo em 10/11/2003. para pagar os débitos. Eu estava quase saindo de lá. Boileau Dantas Vanderlei. visando atender aos reclamos da população.executor atribui sua exogenaraçao à divergências políticas com as principais lideranças políticas da Bahia à época. tantas horas pra gente. seu patrimônio. para gáudio de seus críticos.. No processo de fatiamento dos cargos na Bahia.. p. constabilizava duas fazendas (uma na Serra Solta e outra próxima à Agrovila 9).. “a bem do serviço público”. somente os moradores das Agrovilas 3. da Serra do Ramalho quando conseguimos. milhares de rezes e uma serraria174. os técnicos tentaram criar associações de moradores em todas as agrovilas176. Tinha lugar que era de lascar. sobretudo. No prédio da antiga CIRA encontra-se. Cadê o cara do contato. acreditando na perspectiva de que receberiam recursos. grande parcela dos reassentados não deu respaldo à iniciativa. coube aos grupos situados mais à esquerda do espectro político baiano a superintendência do órgão. Tudo indica que a iniciativa do INCRA em exonerar o primeiro gerente-executor. Você marcava uma reunião com o pessoal. sendo fechada. 176 Relato de José Carlos Arruti. conforme chama atenção um entrevistado. fazer uma reunião. em 24/11/2001. Insolvente. finalmente. 159 executor. No mesmo ano.. segundo entrevistados. De acordo com Joaquim Lisboa Neto177. o ex. funcionários do INCRA e comissionados identificados com a direção do órgão passaram a atuar em Serra do Ramalho. quando informados de que o processo era encaminhado de outro modo. tal? 174 Em entrevista concedida à autora. Assim. está relacionada. Ele complementa: Na 5 (Agrovila). em 1985. Pontualmente a gente chegava lá. para construir essa associação deu trabalho demais. a ex- cooperativa teve seus bens penhorados e levados a hasta pública. à má gestão da cooperativa175. Cadê o povo? Ninguém. 177 Entrevista concedida à autora em Santa Maria da Vitória. por exemplo. 10 e 15 (esta última a mais envolvida) se mobilizaram para a criação das associações. o ex-gerente executor do Projeto Especial de Colonização Serra do Ramalho. . não confirmou os dados. o único hospital de Serra do Ramalho. entendeu? Tal dia. 175 Perguntado sobre o assunto. conforme relatório do INCRA (1994. Além da sede. Por razões as mais diversas. em seguida. atualmente. Muitos iam às primeiras reuniões. Única autoridade pública a não gravar entrevista. com a chamada “Nova República”.

p. Não bastasse. de 21 de outubro de 1987 – extingue o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. p. provocando dessa forma um descontrole de suas atividades. de 23 de outubro de 1987. solapava a todo o momento a criação das associações. o controle das ocupações (1998. (1994. 160 O cara foi caçar. emperrada. desde sua exoneração dos quadros do INCRA. que vivia na região e que. o ex-executor. buscando a mediação desses políticos. Foi na Lapa. como Prisco Viana. 2.363. fato que pouco depois se consubstanciou. . 5/12/2002. principalmente no Programa de Assentamento. ele afirma que a iniciativa foi boicotada por políticos da região. As pressões. Vejamos relatório do INCRA: Com a extinção do INCRA por força do Decreto Lei n. perdendo. A gente via que tinha alguma coisa ali. contava com prestígio junto aos reassentados. acusando os funcionários envolvidos no movimento de comunistas. 179 Os dados conflitam com a seguinte informação enviada via e-mail por João Mendonça Amorim. 12). o Projeto de Serra do Ramalho tornou-se acéfalo. e com o Decreto 99. visando minar a iniciativa. ignorava a associação. cria o Instituto Jurídico de Terras Rurais (INTER). segundo o relatório de liqüidação do Projeto. como veremos logo adiante. A partir da extinção temporária do INCRA. 178 As informações foram confirmadas pelo ex-executor José Ganen Marques. de 20 de junho de 1990.363. eram tão fortes que o próprio gerente-executor. em que colocou todos os servidores do Projeto em disponibilidade179. 21-22) Estavam dadas as condições para a mobilização em favor da emancipação do Projeto. o PEC-SR ficou totalmente desativado. 2. Entrevista concedida à autora em Bom Jesus da Lapa. Por força desses atos. ex-presidente do INCRA (gestão Collor de Mello): Decreto-Lei n. Nestor Duarte e Raimundo Sobreira178. muitas vezes. Além das dificuldades para sensibilizar os reassentados.332.

além das culturas comerciais — algodão e mamona —. tudo que plantava dava. abóbora e legumes. das agrovilas mais próximas do leito do rio. 2. Não adiantava. uma experiência de irrigação. Além do mais. o óleo era caro e a gente não tinha pra quem vender a cebola. Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. o projeto só atendia os moradores das agrovilas situadas no eixo ímpar. além de hortaliças e leguminosas. Mais detalhes. segundo consta. Fracassada a incipiente experiência de irrigação. Entende?[dirigirindo-se à entrevistadora] Perdemos a produção. isto é. o seguro do Proagro funcionou como “anistia”. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. Um barro esquisito. vide Ferreira. muitos afirmam que não foram beneficiados. o cultivo se mostrou bastante produtivo. embora o governo tivesse prometido “anistia”182 aos atingidos. Alguns entrevistados decidiram deixar Serra do Ramalho e partir de volta para a região da borda do lago depois de perderem tudo na cheia de 1979. O maquinário do projeto (bombas e canos) foi apropriado por moradores e. “Terra boa.4 . em uma faixa de alguns quilômetros situada na beira do Rio. Muitos entrevistados dizem que a terra de Serra do Ramalho era muito boa para o cultivo. A cheia de 1979. 182 Na percepção de um entrevistado. o INCRA criou. 181 Relato de Geraldino. plantavam milho.181. 161 2. 25/9/1999. mas depois a terra se esgotou e a experiência foi abandonada. cit. Assim. . Decreto-Legislativo no 2.. 25/1/2002. p. exatamente durante o governo Sarney. Em Casa Nova já tinha os comprador certo. 114. Por causa da distância dos lotes.Válvula de escape do INCRA Em comparação a 1976. Nos primeiros anos. não molhava. que extingue o INCRA e cria o INTER. Vejamos: O INCRA deu a terra pra gente cultivar irrigado. feijão (de “arranca” e de “corda”). os reassentados envolvidos voltaram ao cultivo de “sequeiro”. Deu muito. a sra. vendidos posteriormente. prejudicou por demais os reassentados. A terra colou e a água não entrava na terra. de 29 de março de 1989 – rejeita texto do Decreto-Lei n. somente aplicada anos mais tarde.”180. Nos primeiros anos. Para atender os reclamos dos deslocados. plantemos cebola. aqui não. além de inaugurar um ciclo de estiagens que duraria até 1983. Todos os entrevistados afirmam que a perda da safra foi de cem por cento e. 1977 foi considerado um ano relativamente farto. 180 Relato de Osmundo. Ali. plantaram feijão e cebola.363/87. op. Depois a terra colou. Dexemos de plantar.

1982. focos de descontentamentos relacionados. p. a se apresentar como importante mecanismo de descompressão de conflitos sociais localizados em distintos pontos do território nacional. p. o INCRA identificou. em relatório citado por Brancolina Ferreira. os trabalhadores rurais sem-terra do acampamento Encruzilhada Natalino183. Diante de um projeto de tal magnitude e com tanta capacidade ociosa. em princípios da década de 80 do século passado. foi tomada a decisão de se assentar ao Projeto Serra do Ramalho famílias selecionadas em outras regiões que não na área de inundação da barragem. Nesta mesma ocasião foi também decidido que o INCRA deveria diminuir o ritmo de construção das agrovilas (Apud Cordeiro. Em seguida. Concomitantemente. Diante da iminência do fracasso total do Projeto. campanha de propaganda e arregimentação de “colonos”. 26-27). (Bursztyn. para os sem-terra de vários pontos do país. chamando os sem-terra ou pequenos proprietários a se cadastrarem para receber um lote em Serra do Ramalho. 2). 162 Além da frustração das safras em decorrência das cheias. em meados de 1980. quando da implantação das agrovilas (1980. o INCRA passou a utilizar a estrutura disponível para solucionar focos de tensão em outros pontos do país. abrindo-as. ao não cumprimento das promessas feitas pelo convênio INCRA/CHESF. tinha sido expulso da Reserva Indígena de Nonoai. 1994. o INCRA empreendeu. p. receberam a proposta de se deslocarem para Serra do Ramalho. O executor utilizava as rádios dos municípios vizinhos e carros de som. o INCRA rapidamente redirecionou o papel das agrovilas. nos municípios do entorno de Serra do Ramalho. uma cartilha intitulada “Vá viver melhor com sua família nas Agrovilas de Bom Jesus da Lapa “(Relatório da CPT. p. No relatório de transferência o INCRA afirma: No final de 1977. sobretudo. basta dizer que. Para efeito de ilustração. 37). chegaram outros trabalhadores sem-terra da Reserva e de . O projeto Serra do Ramalho passaria. 1988. Assim. então. após diversas reuniões do Grupo Interministerial do PEC-Serra do Ramalho e vencidas as objeções do Banco Mundial. em 1980. 25). em 1977. Rio Grande do Sul. o órgão passou a usar as agrovilas de Serra do Ramalho como válvula de escape dos problemas fundiários de todo o país. lançando. 183 O primeiro trabalhador sem-terra a montar acampamento na Encruzilhada Natalino.

1994. chegaram os deslocados da Represa de Itaipu e até brasiguaios. Mais detalhes. p. mas agregados nas fazendas de seus familiares. segundo relatório elaborado pela CPT. desmobilizando e expulsando os trabalhadores sem-terra. que informava a insustentabilidade do projeto. A formação do MST no Brasil. pouco a pouco foram desistindo e por fim nenhuma família aceitou ir para a Bahia. em Roraima. 2000. p. “O INCRA chamado a intervir. 55. chegou a afirmar que o lugar era bom. Enquanto os trabalhadores sem-terra do acampamento Encruzilhada Natalino não se deixaram enganar e continuaram reivindicando assentamento no Rio Grande do Sul. desterrados de certos pontos do Nordeste caíram no canto da sereia e pleitearam lote em Serra do Ramalho. conhecida como a agrovila dos gaúchos ou sulistas. tiveram seus contratos rescindidos e sofreram ameaças de expulsão. Insinuam que estes eram protegidos do executor. os interventores conseguiram reunir 87 famílias tendentes a aceitarem a proposta do governo. Em seguida. 184 O famigerado major Sebastião Curió foi deslocado pelos órgãos de repressão para intervir no acampamento Encruzilhada Natalino. não eram só protegidos do executor Boileau Dantas Wanderley. Propôs levar uma comissão de sem-terra para conhecer o projeto Serra do Ramalho. Na polêmica. Mato Grosso e Bahia. Pelo contrato de arrendamento. Às agrovilas chegaram 365 famílias provenientes do Mato Grosso do Sul. Montou uma grande barraca onde mostrava slides e filmes acerca dos projetos de colonização no Acre. De outros pontos da região.” Fernandes. Chegando numa agrovila do projeto. devolveriam a terra com pasto formado. Todos foram reassentados na Agrovila 15. alguns entrevistados dizem que os primeiros nordestinos a chegarem às agrovilas foram os paraibanos. os paraibanos a quem se referem os entrevistados. vide Bernardo Mançano Fernandes. p. op. Eram arrendatárias nos municípios de Eldorado e Mundo Novo. 58-9)185. na Bahia. a transferência de parte das famílias expulsas para o PEC — Serra do Ramalho” (Ferreira. Vieram dois aviões Búfalo da Força Aérea e transportaram os colonos para a área. quando a comitiva começou a lavar as mãos acabou a água. 2000. Passados dois anos. De volta. Contudo.21). permeados de reprovações e queixas. Na verdade. p. a maior parte da comissão declarou que o projeto era inviável porque o solo era muito arenoso e pela falta de água (Fernandes. localizados na região de Dourados (Relatório. E não tinha mais água. 185 O autor continua: “Uma pequena parte que Curió tentou convencer. 38). foram recepcionados com uma churrascada. 59. . 1980. ao final de 5 anos. p.. Entre sussurros. cit. 163 A missão Curió184 era desmanchar o acampamento e levar as famílias para os projetos de colonização. quando tomaram conhecimento da cooptação e por causa de um dossiê da CPT baiana. Contudo. ofereceu como uma das soluções compensatórias.

localizado na região de Barreiras.186 A propaganda atingiu uma dimensão tal. 11/9/1981. 14/07/2000. todos eram baianos ou nordestinos que viviam em área de conflitos ou deslocados compulsórios em decorrência de projetos de obras de infra-estrutura no Centro-Sul. D. se acham abrigadas debaixo de árvores na localidade do Projeto das Agrovilas 18. depois de entrevistar alguns gaúchos. . 19. o INCRA desejava mostrar aos demais assentados como cultivar. muitos retornaram aos seus locais de origem. Na carta dirigida ao Padre. reafirma sua condição de trabalhadora (valor muito caro aos camponeses) e esclarece os motivos do despejo. foi que. Estes acamparam na sede do Projeto e. que Serra do Ramalho recebeu milhares de sem-terra de todas as regiões da Bahia. depreende-se que receberam tratamento especial de técnicos do INCRA.. 18. provindas de várias regiões. 22 e 23. ocuparam casas em várias Agrovilas: 16. o Bispo da Diocese de Bom Jesus da Lapa descreve a triste situação em que vivia essa população: Chegando ao meu conhecimento que mais de 250 famílias. exceções à parte. 20. na verdade baiano de Macaúbas (região da Chapada Diamantina). o deslocamento dos colonos sulistas para Serra do Ramalho tinha uma função educativa (mais uma vez vem à tona o projeto "civilizatório"): através da experiência desses “colonos”. 188 Nenhum relatório do INCRA menciona as famílias do Projeto São Desidério. ao Bispo e ao Papa. 187 Carta do Bispo Diocesano de Bom Jesus da Lapa. A carta não foi datada.]187 Famílias despejadas (por falta de pagamento) do Projeto São Desidério. 1.. alcançando alta produtividade e rentabilidade. Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. a senhora discorre sobre as condições em que viviam no Projeto São Desidério. 19. também acorreram a Serra do Ramalho. p. ao Presidente do BNH. neste município de Bom Jesus da Lapa. A impressão que tive. A única fonte que comprova o fato é uma carta dirigida ao Bispo de Bom Jesus da Lapa por Irani Rodrigues Porto. 186 Zelito Baiano. Segundo fez entender o entrevistado. sendo reassentadas na Agrovila 10188. José Nicomedes Grossi. Bom Jesus da Lapa. 164 acordo com as entrevistas. diante da lentidão do INCRA em selecionar as famílias. Através de entrevista colhida junto a um dos colonos sulistas. moradora da Agrovila 10. sem condições de construir casas para sua residência e nem mesmo para alimentar os seus familiares [. 20 e 21. Em carta dirigida ao presidente do BNH. além de pedir auxílio.

o Projeto Serra do Ramalho era duplamente rejeitado. Eu peguei a dar o soro. entre 1980 e 1983. Os expropriados que se encontravam na área da Barragem se recusavam a deixar a área e muitos dos reassentados em Serra do Ramalho abandonaram-no. 165 2. Relatório INCRA. quando o soro acabou. aí nos fomos pra 9 (agrovila n. Os efeitos da seca em Serra do Ramalho foram dramáticos. tô avisando. porque não leva essa menina pra morrer em casa mesmo?’ Eu digo: ‘quer dizer que você não vai passar remédio nenhum para ela? Ele disse: ‘leva pra casa. Quando eu cheguei lá. aí ele falou assim: ‘Você. tornou a piorar novamente. p. Por que é que vocês todos de lá só correm pra aqui?’ Aí eu disse: ‘eu vim porque o senhor tá prá atender. não. Aí. Aí a menina foi adoecendo. porque eu não tô pra tá levando expremento de doutor. registraram-se 45 mortes. só caldo de arroz. E quando pegava na lagoa muitas vez vinha pedaço de peixe podre dentro daquela água pra dar praquele menino.. . Nasceu em Pernambuco. porque nem tinha dinheiro prá pagar a consulta e nem tem carro. não. Tornei a levar pra lá. proque não tinha outra. ela chegou sadia.. Aí ele foi. vítimas da fome e da desnutrição. Mas nós tinha que levar. Aí trouxe pra casa e quando cheguei em casa também falei: ‘bem. Aí quando foi um dia eu disse: vou fazer uma consulta. Eu vim prá qui porque eu não posso ir pra Lapa. nós fomo pra um doutor. De acordo com estimativas. morreram em todo o Nordeste mais de um milhão de pessoas. E passou um vidro de ambracinto prá menina. adoecendo. 20. 1994. A propósito: A menina começou com desinteria.5 . Somente na Agrovila 13. Nós veio pra aqui. leva pra casa”. Tinha que beber e fazer comida daquela mesmo. Tinha que dar mesmo. 9). Aí ele disse: ‘não vou passar remédio pra vocês. passou dois litro de soro prá dar à menina. eu não vinha aqui não’. um baixinho gordo. Estima-se que. a menina tava muito molinha. e eu não ia daqui pra Lapa a pé. Quando chegou lá. metade dos deslocados que vieram de Sobradinho voltou para a área da Represa189. 189 O INCRA admite a partida de 599 (quinhentas e noventa e nove) famílias. Passou somente o soro. pra aquela 9 eu não levo mais doente meu. todas as crianças tinham entre zero e três anos. Aí trouxe pra casa e comecei a dá o ambracinto pra ela e nada dela melhorar. num período de três meses. Tinha mais ou menos uns cinco anos. Ele passou que não era prá dar leite.Fome e penúria Enquanto a propaganda ganhava corpo. e quando a gente cheguemos aqui essa água era muito doentia. Após as cheias vieram anos de seca e de penúria. se eu pudesse ir pra Lapa.

Tudo de uma doença só (D. a menina morreu. morador da agrovila 5 (O Globo. a boca da menina estorou todinha. ficaram meses sem energia elétrica. Acho que eles não ligam é justamente pra estourar este prazo — afirma José Ribeiro Santos. 166 Começou com febre. Isto é meu direito porque pelo plano nós temos dois anos de energia grátis.. os deslocados de Sobradinho usufruíram. Expropriados de suas terras para que nelas fosse construída a principal fonte geradora de energia de todo o Nordeste. além de precário. Somente a Agrovila 5 — sede provisória do Projeto nos primeiros anos — tinha um prédio escolar voltado para atender as séries iniciais. intransitável. somente um ônibus velho e mal conservado fazia a ligação entre as agrovilas do eixo par e a sede do município de Bom Jesus da Lapa. era de chão.. de uma filha minha morreu outra. p. Os meios de transportes eram precários. Quando chegaram à Serra do Ramalho. Convém salientar que. As casas que têm luz é porque os moradores puxaram ‘um gato’ da rede e eles mesmos fizeram a ligação. Também as casas dos deslocados de Itaipu. quando se dirigiam a Bom Jesus da Lapa. conforme entrevistas de vários reassentados. Ainda hoje são mal conservadas e. esburacada e. 13/03/1978). Apud CPT/CEPAC/IBASE. tudo estava por fazer em Serra do Ramalho. intransitáveis. muito precariamente. as mortes estão relacionadas à subnutrição e à falta de atendimento médico. instalados na Agrovila 15. Morreu 42 ou 43. . As vicinais ligando as agrovilas ao lote rural estavam começando a ser abertas. s/d. Provavelmente. cortando o eixo par. A estrada que liga Bom Jesus da Lapa a Carinhanha. a situação não era muito diferente. os benefícios da energia elétrica. Terezinha. Ao contrário das promessas da CHESF/INCRA. vomitando. Em relação às escolas. durante os meses chuvosos. daquela mulher vizinha morreu outra. Nos primeiros anos. o serviço médico nas agrovilas só era oferecido à população depois de atendidos os funcionários ligados ao INCRA. Quando foi com 63 dias. o meu mesmo morreu uma. 28). Os habitantes das agrovilas situadas nos demais eixos. E não tinha doença não. andavam quilômetros a pé ou de charrete para pegar o ônibus. em alguns trechos. os deslocados perceberam que a promessa de que seus filhos teriam escola custaria algum tempo. Eu levei a menina bem sabida. Eu passei seis meses pedindo pra companhia fazer a ligação e como não fizeram eu liguei.

Dizem que se valeram da mata. era permitido aos reassentados colocar na “manga” (pasto) somente 12 cabeças de gado e 36 cabeças de criação de pequeno porte. Se não fosse a venda da madeira. comeram madeira branca. conforme visto anteriormente. na “manga” onde as parcas cabeças de gado do cunhado ficavam. Logo o órgão se renderia às evidências e não criou empecilho às “subversões” dos reassentados. ignoraram as determinações do INCRA. como Apolônia. Em princípio. 30). Consta que a madeira utilizada na construção do Hotel Méditerranée. a maioria frisa que não trouxe criações de seus locais de origem e a única entrevistada que disse ter trazido criações — Apolônia — assinala que não procurou a Fazenda porque seu lote era “empastado”. Os poucos entrevistados que se recordam da situação disseram que havia reclamações quanto ao trato do gado e ao sumiço das reses. Alguns reassentados lançaram mão desse recurso. teria sido retirada de Serra do Ramalho (Bursztyn. p. Bastante . abundância de mel no local. A derrubada da mata que recobria o lote rural foi indiscriminada e chama a atenção de todos que trafegam nos limites dos municípios de Serra do Ramalho e Carinhanha. Sobre isso Geraldino disse: “Os colonos comeram aroeira.” Até fins de 1980. nem todos os moradores precisavam extrair a madeira para sobreviver. os caminhões partiam de Serra do Ramalho lotados de madeira-de-lei para Salvador e várias outras regiões do estado da Bahia e de Minas Gerais. Os reassentados atribuem o fato às dificuldades que enfrentaram nos primeiros anos do Projeto. outra ameaça pairava sobre a mata virgem. 1988. Outros não foram para a agrovila senão para extrair a madeira e repassar o lote a preço irrisório. para matar a fome. Não bastasse. portanto. Madeireiros instigavam os reassentados à derrubada da mata e consta que funcionários do Incra do alto escalão negociavam com madeira no Projeto. 167 Outro ponto que evidencia as dissonâncias existentes entre os reassentados e os planejadores das Agrovilas foi a implantação da fazenda para pecuária (ex-Fazenda CSB). mas Aurino lembra que. e criaram seu “gadim” no próprio lote. Derrubaram a mata pra comer. retirando a madeira de lei. Os entrevistados não recordam se a fazenda oferecia condições adequadas para o pastoreio. Na região a presença da abelha oropa era uma constante. havia curral e um vaqueiro para cuidar das criações. Outros. havendo. localizado na Ilha de Itaparica. comeram cedro. os criadores retiraram o gado das fazendas e passaram a criá-lo nos lotes rurais. como cedro e aroeira. muitos tinha morrido era de fome. Em conseqüência. Entretanto. temerosos de que seus vizinhos o fizessem na calada da noite.

..... não fosse o gado magro a lamber o capim ressequido (que desponta da terra árida). Por isso.... muitos reassentados lançavam mão do fogo.. Às vezes. Vejamos... Concomitante à derrubada das matas dos lotes rurais........... A oropa fez um estrago que já não posso me lembrar Quem quiser saber mais Vá a ela perguntar.... Ela disse : Corra pra donde tá sua muié Zé Martin saiu doido.......... “Adalgiza....... Encontrou a Adalgiza.. me acuda”..... de cabeça acima... 168 comum nos primeiros anos do Projeto... Logo derrubaram as matas e Serra do Ramalho perdeu praticamente toda sua cobertura vegetal.. A falta de água e a constância do fogo davam o tom do Projeto... sinais das queimadas.. Ela respondeu: Tire logo a camisa. Os lotes que formam as agrovilas mais parecem desertos cingidos de carvão.. a europa ou oropa ainda atormenta o cotidiano da população de Serra do Ramalho.... . Era comum perderem o controle. a queimada era provocada por um vizinho ou um estranho qualquer que adentrava o lote para retirar o mel antes que seu proprietário o fizesse. ....... queimando todo o lote. as áreas de reservas foram ocupadas por sem-terra e especuladores vindos de diferentes pontos da região.. não haveria naquelas paragens nenhum sinal de vida. O ano jubileu já entrou quente Os meninos assanharam a oropa Ela apareceu mordendo gente O pobre do meu cunhado tava fazendo a barba No prego foi o primeiro que entrou Engoliu tanta oropa que o figo estourou A oropa agarrou um cabra Ele ficou gritando ói A Dudu abriu a porta pra ver quem é Era Zé Martin gritando socorro..........190 Para colher os favos de mel... 190 Trova de autoria de Elpídio..... No período da seca — março a outubro — os lotes ficam desolados. chamando a atenção de todos quantos passem na região. conforme salientado anteriormente.. nada mais resta da mata fechada da Serra do Ramalho... declamada em entrevista à autora......

propriedades com mais de mil hectares. fica evidenciada nos versos que seguem: O Projeto Especial. O “cativeiro”. feito para colonização Quem mora neste Projeto só passa Precisão Recebe uma casa fechada Com suas chaves na mão Recebe um lote medido Que é para servir de prisão Não tendo para onde fugir O seu destino é sumir ou ir Para debaixo do chão (Marciano de Souza Alcântara – Agrovila 6 – Rua M – No. em Santa Maria da Vitória. Entre os reassentados as relações não eram menos tensas. na área do antigo projeto. através do crédito. em Serra do Ramalho. 169 Cada dia mais as relações entre reassentados e os agentes do INCRA se tornavam tensas. vivendo temporalidades e culturas diferenciadas. para usar expressão de Lídia Rebouças. De forma geral. Obtive informações de que há. mas do gerente do banco que. fazendo acorrer às agrovilas aventureiros e despossuídos de toda estirpe. se observa uma reconcentração da propriedade da terra. A percepção de que em Serra do Ramalho a vida era o “cativeiro”. do qual reclamam com tanta veemência os deslocados. . 41191) . era representado não só pela figura do gerente-executor. Desse modo. Nos primeiros anos do Projeto. Assim. Serra do Ramalho ficou conhecida no seu entorno como terra da violência e do medo. muitos fortemente marcados pela experiência da desterritorialização e do desenraizamento. os deslocados de Sobradinho se incomodavam com a presença ostensiva do Estado em seu cotidiano. Os descompassos entre o planejado e o vivido. O certo é que hoje. 191 Versos encontrados pela autora no arquivo da CPT. o contato com o Estado era mediado pelos grupos dominantes locais. determinava o que deveriam plantar e do técnico agrícola que dizia como fazer. provocaram inúmeros conflitos envolvendo os reassentados. A chegada de indivíduos provenientes de vários pontos do país. o abandono de lotes foi maciço e as notícias de lotes repassados por preços irrisórios ou trocados por bens móveis correram a região. deu margem à criação de um clima de desconfiança e temor entre os reassentados. nos seus povoados. além das dissonâncias. Regional de Bom Jesus da Lapa.

quis tirar o corpo fora. elas são religiosamente lidas pelos funcionários da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) e. coladas e enviadas ao destinatário192 Descontentes com o destino das agrovilas... foi ino...... Avelina — Parou..... n. 170 Nas entrelinhas das entrevistas.. Eu não gosto daqui. Quintiliano — “Pode me acreditar que desse tempo para cá. que lá.. agora.... A propósito: Outro exemplo: uma moça de aproximadamente 18 anos nos revelou que quando vai colocar cartas no correio de Bom Jesus da Lapa... reforçando a idéia de “cativeiro”. Avelina. Quintiliano — Não gosto. Sei que. sei que... Avelina — Ele não gosta daqui. Ambos deixaram expresso. que até hoje.. Quintiliano — Não.... D. com muita contundência... é pra baixo”.. Quando acordou. muitos tinham e têm vontade de vender os pertences e voltar para seus locais de origem. 192 Agrovilas – Ali onde miséria pouca é bobagem... ano I.. tá entendendo? E porque tá vindo um alagoano. Sabe porque eu brigo com ela? É porque eu cheguei. Você achano quem compre pode vender.. agora é tarde.. . só depois deste nojento ritual ser cumprido.. O posseiro. janeiro de 1979.. chamei ela: “Vamo vender isso aqui. Agora é tempo. o desejo de vender o lote e partir. mais tarde você quer vender e não acha quem compra... ninguém quer de maneira alguma.. Você vende o lote. falei pra ela: nem eu sou culpado nem você é culpada. Agora.. não faltavam razões para isso.. vende a casa..... O negócio foi arrochando. Digo... Só culpa eu. quem vai comprar? Ninguém compra. .. Mais tarde você quer vender e não pode. depreende-se que os agentes do INCRA adotaram uma política que combinava coação e favor.... Foi ino. agora não vende mais não (com tristeza). a correspondência dos “colonos” era previamente lida pelos funcionários dos correios. falei pra moça. D.... A título de exemplo. um pessoal de Mato Grosso. Isso aqui é igual rabo de cavalo.. 5.. Sabe por que eu culpo ela? Não é porque a gente veio pra qui...... ninguém quer não... Avelina — Aqui não se vende mais lote! Parou.. Santa Maria da Vitória. p. Digo agora é tarde... vamos sair fora. E de fato. o tempo era aquele. Segundo denúncia publicada no Boletim O posseiro.... Eu digo...... Como eu acabei de dizer... Não gosto daqui. usarei as falas de Quintiliano e D.. Quintiliano — Ainda aconteceu de gente da Lapa comprar aqui lote e casa.... vende tudo.. Ela percebeu. compra não. reportagem de Joaquim Lisboa Neto... zero. Eu digo e outra: o tempo de vender isso aqui é agora.

no povoado beradero “era que se tinha vida boa”.. Mas pra vender.. que me tirou a faca da goela. tá ligado e o outro eu dou de presente. Todo mundo diz que é um ótimo lote. O povo vive aqui da aposentadoria e do cafezim que os filhos manda de São Paulo. vocês tudo conhece. aquela casinha de farinha. Se nós. Primeiro. — Digo: Não. a casa tá grande. Lá tem dois motor. Não sei como vai ser agora.. Qui depois desse negócio... Eu digo... caso retornassem à borda do lago. Eu deixo tudo e vou me embora. agora não vende mais não. As poucas aguadas não são tão piscosas e. se eu achar quem compra.... 171 Gente de fora não quer mais não! Quer sair. um dia lá na Associação. Adeus Madalena! Se você quiser deixar tudo aí pra algum filho tomar conta ou deixar aí à toa.. tá entendeno? Agora é tarde.... [desligado]. — Mais da casa de farinha você vai tirar o motor? — Disse: Não. Não sei de quê vamo viver. Pode acreditar que até essa data nunca ninguém veio me falar nada. Se pedir três mil reais. negativo... em Casa Nova. aquele quintalzinho d’ eu botar o animal. Eles admiraram.. residência. se você quiser fazer como eu disse pra Sobreira [referindo-se ao ex-Superitendente do Incra da Bahia].... não..... além disso. Digo. Eu tou dando por cinco mil.. Para ele. oh!: sabe o que acontece? Eu tô vendendo o meu lote.. Teve gente que perguntou: você não tá ficando doido. não vende.. a pesca era farta e eles faziam irrigação. Não.. lá de cima...... Tá ficando doido”. não. Ela disse: “Rapaz...... eu vendo.. O IBAMA está apertando.. Nas agrovilas tudo é diferente. Aquele que está encostado eu dou de presente o amigo que me comprar.... Segundo. de capim de corte. nós vende”. Digo: óia. A comadre mesmo [aponta para a comadre que se encontra um pouco afastada do grupo] quem sustenta é a filha que vive em São Paulo. com a casa. Eu tô é certo. Quintiliano — Teve gente que reformou a casa... ainda: “Moço. Geraldino também faz restrições ao Projeto e diz sentir saudades de Bem-Bom... em razão da ameaça de que.. tem um ligado e outro assim. os que tá. havia lagoas.. tem uma área de pasto. de pasto. ...... digo: “Oh! Falando daqui. os indivíduos provenientes da área de Sobradinho que vivem em Serra do Ramalho têm razões de sobra para se sentirem ludibriados pela CHESF e demais agências governamentais envolvidas no Projeto Sobradinho... não teriam . tá entendeno? O que tá ligado.. Lá perto do cemitério eu tenho outra roça. o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) proíbe a pesca. agora não vende mais não. Depois da palestra aí. Tou doido é porque não acho quem compre”. Não acha... não? Eu digo: não.. não acha.. Aliás. em razão das promessas sedutoras.

Dentre os patrimônios serranos. localizado na região econômica do Médio São Francisco. o advogado do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Maria da Vitória Eugênio Lyra foi assassinado a mando de grileiros. Esse projeto era nosso. “Eles nos enganou. Em 1976. Os desgraçados nos enganou e deu tudo para o povo da Lapa. essa área vivenciou expressivos conflitos de terra. 194 O “Projeto Formoso” compreende área de 22 mil hectares e fica localizado no município de Bom Jesus da Lapa. Eles errou. o Perrímetro Irrigado. 193 Relato de Quintilhiano. em princípios de 1980. vide: As repercussões espaciais das políticas de irrigação no vale do São Fransisco: uma análise do Perímetro Irrigado Formoso no município de Bom Jesus da Lapa. em meados de 1970. Concebido antes da implantação das Agrovilas. em 1987. pratica-se no projeto a agricultura irrigada. e vários povoados espalhados em duas áreas distintas: a beira do rio São Francisco e a região serrana. voltada para a produção de frutas. Santa Maria da Vitória. Por último. deveria ter sido nas agrovilas. Mais detalhes. Ele foi uma construção do INCRA. em Serra do Ramalho Antes do Projeto Especial de Colonização não havia o território de Serra do Ramalho. Coribe e Santana)195. atendendo basicamente os habitantes da micro-região de Bom Jesus da Lapa e Santa Maria da Vitória.. tiveram conhecimento do reassentamento em Barra da Cruz da população que retornou de Serra do Ramalho. . em 1985. Inferências apontam para a existência de mais ou menos 6 mil pessoas. o projeto Formoso atendeu a demanda por terras de pequenos agricultores e sem-terras dos municípios localizados em seu entorno (Bom Jesus da Lapa.. envolvendo grileiros e posseiros. 172 direito à terra: mais tarde.”193 Criado pela CODEVASF194. errou. Entrevista concedida à autora em Serra do Ramalho. Primeiro o A. Instalado às margens do Rio Corrente. em razão da implantação do Projeto Formoso às margens do Rio Corrente. encravado na confluência dos Estados da Bahia/MinasGerais e Goiás. depois o H. 195 Zona de fronteira. Patrimônios são áreas doadas ou apropriadas em nome das paróquias. Não temos informações sobre o número de habitantes de Serra do Ramalho antes do Projeto. especialmente banana. segundo Agripino Coelho Neto... O projeto Formoso era nosso. O que havia era um acidente geográfico — formado de serras de baixa altitude —. 24/04/2000. concentradas principalmente nos povoados dispersos na beirada do Rio. foi implantado em duas fases. 3 . Agripino Coelho Neto.Antes do inferno. Deles originam-se várias vilas e sedes municipais. destacava-se o povoado denominado de Ramalho196.

p. o cedro. sendo considerada como menos árida. Cerrado e Vegetação Hidrófila (Relatório do INCRA. 197 A região é semi-árida. ali. e 40 quilômetros de Bom Jesus da Lapa. a aroeira. tais como o ipê. toda a margem esquerda do São Francisco — o chamado Além São Francisco — que vai do Rio Carinhanha ao município de Casa Nova. . 2003. feijão. Formoso e Corrente.199 Em relação às localidades rio abaixo. Serra do Ramalho dista de Salvador 845 quilômetros. possuindo um reduto198 de mata virgem contendo espécies nobres. Relictos. 1994. s/d..26). aproximadamente. 1972. A Agrovila 9. milho.. dista. etc. etc.” Empresa Hidroservice. redutos e refúgios. 7) — . p. ao qual recorria grande parte dos flagelados das constantes secas que acometiam o Nordeste200. sede do Projeto. A altitude é de apenas 400 metros. algodão. pertencia à Província de Pernambuco. gado era pouco. Antes da criação e implementação do Projeto. p. 200 Bem antes da instalação do Projeto.1. 88. Do Povoado do Ramalho nasceria a denominação Serra do Ramalho197. a região era praticamente toda ocupada por uma vegetação complexa — “Mata Caatingada”. sete quilômetros do Rio São Francisco. meu amigo. s/d. 196 O povoado está localizado próximo ao Loteamento Roberto e não foi atingido pelo Projeto Especial de Colonização Serra do Ramalho. eles montaram uma aldeia: começou com uma aldeia de índios (Souza. o clima era (ainda é?) ameno e apresenta alta precipitação (Pierson. é tão antigo quanto a cidade de Carinhanha! O Manuel Nunes Viana chegou aqui escorraçando os índios e eles foram encostar no Ramalho. Todo mundo engordava porcada. 1975. Carinhanha. vide: Aziz Ab’Saber. 173 O Ramalho. Além dos rios perenes — São Francisco. As coordenadas geográficas são: a) latitude: 13o37 e b) longitude: 43o34. 199 Constatou-se. p. Estudo de viabilidade do Projeto de Colonização de Bom Jesus da Lapa. a carne. No passado. leite. na encosta da Serra corriam riachos e córregos intermitentes. v. 198 Mais detalhes sobre o conceito de reduto. 145-146. p. feijão de corda. Projeto Sobradinho. s/e. dificuldade para comercializar o gado. recoberta por matas frondosas e ricas em espécies animais. a região era vista pelas populações sertanejas como uma espécie de oásis. pela pesquisa do Consórcio. A região de Serra do Ramalho teve seu povoamento ligado à expansão bandeirante. (Souza. No passado. Toda uma região de muita fartura: mamona.49). 150). mas alguns dos moradores da área foram deslocados para a Agrovila 17. com índice pluviométrico superior a 800 mm. Souza identificou em Serra do Ramalho várias pessoas nascidas no Estado de Pernambuco e em vários pontos da Bahia. que mais de 70% da área de todas as propriedades permanecem cobertas por matas. A terra era fértil para lavoura e pastos para o gado. p. havia muita dificuldade para fazer manga: muita onça.

Vieram fugindo da seca. Na região empreendeu feroz caçada aos índios e foi dali que partiu em direção às Minas Gerais para enfrentar os paulistas. é só caçar (Souza s/d. da criação de gado e das atividades mineradoras. uma ‘verdadeira colônia de São Paulo’. p. onde as famílias paulistas amplamente dispersas se reuniam. p. quando foi fazer a casa. Esses sarcófagos e esses ossos a gente ainda encontra enterrado por aí. p. Olímpio. até hoje.52-53). No meio da rua. depois. enterrado nesses matos. Em princípios do século XVIII refere-se que havia arraiais fortificados em Manga. vindo de suas fazendas de criação (Pierson. Eu vi uma panela toda pinicadinha de unha. A produção estava ligada à pecuária extensiva e pertenceu ao antigo Morgadio de Guedes de Brito — Casa da Ponte. tem muito escrito de índio. Manuel Nunes Viana. vieram rompendo de pé e esbarraram na Gameleira dos Cocos. nas palavras de João Mendes de Almeida. Todavia. assim. na verdade. as migrações para a área de Carinhanha e Juazeiro finalmente chegaram a tal ponto que este trecho veio a ser. Deve ter muita coisa de índio escondido lá dentro. encostaram os três na Sambaíba de Carinhanha. 34).1. de vez em quando. 1972. cheio de ossos de gente: os índios enterravam os seus mortos assim: separavam as juntas todas e entulhavam dentro de um pote. na chamada Guerra dos Emboabas. primeiro. na serra. prato. o povoamento efetivo esteve ligado à migração de flagelados da seca vindos da Serra Geral e da Chapada Diamantina. Estes três companheiros faziam parte do êxodo de retirantes de lá de fora: Joaquim vinha de São Sebastião do Rio do Pires. 174 Ainda outros paulistas se fixaram no Médio São Francisco e. A história oral registra a presença de indígenas na região: “Aqui tinha muito índio também. a gente encontra escritos e desenhos nas pedras das grunas. tudo de barro cozido. muito bonita: era uma aldeia deles. ninguém nunca conseguiu quebrar pra ver. da sede e da fome. tem uma gruna com a porta fechada com uma parede de barro. s/d. Santa Rita (hoje Carinhanha) e Barra. . pote. depois eles sumiram pro alto da serra. tirou um pote de terra. foram sumindo pra fora. Ali pro lado do Morro Redondo. v. 280). Antônio Pina e João Rodrigues da Mata saíram de Paramirim. nós já achou panela. Os índios povoaram aqui e. cheia de escritos nessa porta. vivia em Carinhanha. cachimbo. Os índios moravam qui. O procurador da herdeira da sesmaria Joana da Silva Guedes de Brito. (Souza.

Josefino Moreira. o “primitivo” atestava apenas que Fulano ou Beltrano havia comprado determinado valor em dinheiro de terra. preferindo fugir ou suicidar a se entregarem à escravidão dos brancos portugueses. 175 É difícil precisar os grupos indígenas que viveram na Serra. Não é possível remontar. Serra do Ramalho. demarcação de seus limites. cit. antes da desapropriação da área. documento lavrado em cartório atestando a compra da posse na área da fazenda. A propósito. Há registros. João Messias. Tudo indica que algumas áreas caíram em comisso. aqui. ali. que a intervenção do INCRA minorou. no município de Montalvânia (1994. 19% são agregados. mas também dava azo à grilagem. p. isto é. Empresa Hidroservice.. Leônidas e Clemente Araújo de Castro. se refugiaram os caiapós. da existência de grandes fazendas de gado e engenhos na área. entretanto. na maioria dos casos. A propósito da utilização do “primitivo” e da grilagem em Serra do Ramalho. Em todas havia a presença de posseiros e agregados201. Era muito comum se falar que o Fulano de Tal comprou 100 ou 200 mil réis de terra em tal ou qual fazenda. estes tinham o “primitivo”. . comprando um primitivo do Véio Miguel e herdando outro do sogro. Às vezes. contudo. bem como os Rodelas resistiram bravamente e não se renderam. A região que compreende Carinhanha. sem que a área fosse declarada e sem que houvesse. p. segundo atestam vários entrevistados. Os casos de violência envolvendo fazendeiros no vale do São Francisco tornaram-se bastante conhecidos. revelou “que 38% dos agricultores são posseiros. da margem esquerda. Santa Maria da Vitória e Correntina foi palco de um sem número de conflitos envolvendo os coronéis João Duque. 88. Souza escreveu: José Caetano adquiriu sua terra. 24% são proprietários. 97). 31). op. 1996. Eles se embrenharam pelas matas adentro e para o alto da Serra do Ramalho e da Serra do Parrela. Lançar mão do “primitivo” tornou-se arma comum para os posseiros reivindicarem seus direitos seculares. as disputas de terras. isto é. 17% são simples ocupantes e 2% não declararam sua condição”. de poder político e de prestígio no vale do São Francisco passaram a envolver os potentados da região. Há registros de que. voltaram ao domínio do Estado em virtude de os concessionários não terem cumprido as condições da doação (Silva. escreveu Souza e Almeida: Os caiapós. A área adquirida nem sempre era medida e demarcada. Após a submissão e o extermínio dos indígenas. O primitivo era um 201 Levantamento executado pelo INCRA. Em suma. a história da propriedade da terra na região depois da fragmentação da sesmaria da família Guedes de Brito.

conseguiram permanecer em suas terras. buscaram a mediação de políticos e. vendia a ‘valuação’ e não dava baixa e ia vendendo a mesma terra. Este sistema facilitou e estimulou a grilagem: a pessoa de má fé conseguia um documento falso de um primitivo. adquiria a posse e a propriedade da terra e podia registrar o primitivo. predominantemente. à FETAG. por fim. utilizavam os vapores que aportavam em Sítio do Mato e Carinhanha. ao bispo D. apareceram no povoado representantes do suposto proprietário das terras ali situadas. Tomo II). numa Fazenda Geral. Não era difícil conseguir estes documentos falsos: os cartórios. protegendo e se vendendo aos grileiros ( s/d. Pagando o valor da ‘valuação’. 1972. com um primitivo na mão. Coribe e Feira da Mata era erma. e ia expulsar posseiros em vários lugares. quando fizesse o rolamento. p. Recorreram a abaixo-assinado. só a posse de um pedaço de terra qualquer. Serra do Ramalho. Recentemente. naquela fazenda. comprado ao dono da terra. 108). outras vezes. a população de Rio das Rãs 202 Mais detalhes sobre a existência de remanescestes de quilombos no Alto-Médio São Francisco. José Nicomedes Grossi. conseguia um documento falso. como de tantos outros localizados na região de Serra do Ramalho e Carinhanha. para trabalhar como uma espécie de agregado. e de José Evangelista de Souza & João Carlos Deschamps . Os beraderos e riberinhos usavam as barcas movidas a remo e vela. Cada réis ou cruzeiros de primitivo de terra. Os habitantes de Canabrava reagiram. a justiça. a região que hoje compreende os municípios de Carinhanha. a população é. ligando Carinhanha a Santa Maria da Vitória. freqüentemente usada para coito de bandidos e jagunços dos coronéis. Primeiro compravam apenas o primitivo em réis. correspondia a uma quantidade de hectares. cruzeiros. reclamando direitos. A população do povoado de Canabrava. 1998. ou seja. mestiça. O isolamento era quase total. quando partiam para os centros maiores. p. 12. na fazenda. O suposto proprietário da área era de Belo Horizonte e contou com o apoio da polícia de Carinhanha. 176 direito de posse. Os povoados de Rio das Rãs. media e demarcava. Na região em apreço. No passado. a polícia davam guarida a esta corrupção. toco da Escritura original era a Escritura oficial de uma Fazenda Geral. estes primitivos todos entravam na ‘valuação’. virava proprietário de muitas terras. Eles queriam abrir uma picada e cercar a área. sentiu de perto a ação de grileiros. Com exceção da estrada de tropas que cortava Serra do Ramalho. de Valdélio Santos Silva. numa Fazenda determinada. com fortes traços africanos. Parateca e outros da margem direita são constituídos por remanescentes de quilombolas202. inexistiam vias de comunicação terrestre (Pierson. Pouco antes da movimentação do INCRA na região. vide: Do Pau Preto a Rio das Rãs. Pau d’Arco. muitas posses roubadas.

Como em todo o sertão nordestino o rebanho é criado solto. p. habitadas pela parentela. 29/07/2005. além das culturas tradicionais de sequeiro como milho. Em geral. mandioca. de acordo com Marcel Bursztyn. além da venda e de uma pequena capela. ou de palha. Os serranos viviam basicamente da agricultura de sequeiro (milho. Ângelo Calmon de Sá (então Ministro da Indústria e Comércio) e o General Guilherme Fonseca (cujas terras estavam em nome de terceiros). mamona e algodão) e da criação de pequenos rebanhos — bovinos e caprinos. Essa população praticava a policultura consorciada a outras atividades. há remanescentes de quilombolas nos povoados de Barra do Parateca e Boa Vista e acredita-se que também no povoado de Canabrava203. 23). Só os dois primeiros afirmavam possuir 180. feijão e mandioca. Entrevista concedida à autora em Guanambi. as cercas são utilizadas para delimitar o espaço da roça. tinham uma situação jurídica pouco clara. 177 teve suas terras tituladas. Em 1975. se concentravam nas mãos de poucos proprietários e aproximadamente mil posseiros. como eram denominados na região os diminutos núcleos urbanos. em geral. entre a Serra do Ramalho e o Rio São Francisco. Um modelo de resistência negra. Quando. Quase todas eram construídas em adobe ou pau-a-pique e cobertas de telhas fabricadas nas olarias da própria região. 1988. fabricados pelos usuários com artefatos produzidos ou extraídos na própria região. em geral. feijão. Os beraderos viviam da pequena produção agrícola de vazante e da pesca artesanal. O mucambo do Rio da Rãs. compreendiam umas casas dispersas. Tanto o mobiliário quanto o vestuário eram rústicos. mas a titulação encontrava-se em situação irregular: o primeiro só dispunha de documentação referente a 17. 1994 e Comunidades rurais negras: Rio das Rãs – Bahia. Os patrimônios. Almeida.000 ha (Bursztyn. frutas e legumes.000 ha. a população dos demais povoados ainda luta pelo reconhecimento de seus direitos sobre a terra onde viviam seus antepassados. . em 1975. s/d. 203 Relato de Graça. as terras situadas nos municípios de Bom Jesus da Lapa e Carinhanha. Os habitantes dos brejos. plantavam também arroz. Na margem esquerda. de caráter religioso.000 ha e o segundo. A área incluída naquele primeiro município era dominada por três proprietários: Luís Viana Filho (então Presidente do Senado Federal). a 5. as terras de Serra do Ramalho. Era na sede do povoado que os padres procediam à “desobriga” e os fiéis promoviam festa. o INCRA procedeu à desapropriação da área para criação do Projeto Especial de Colonização.

órgão responsável pela destinação da população transferida de Sobradinho” ( 1988. apelos à Justiça e um ato criminoso. a atuação do INCRA esteve na mira dos políticos arenistas. Lígia Sigaud informa que. disse desconhecer o ato criminoso mencionado pelo pesquisador. houve uma proposta “no sentido que se encontrasse uma forma de liquidar os Títulos da Dívida Agrária dos proprietários a serem desapropriados na área do Projeto de Colonização de Serra do Ramalho. BNB e BNCC. “O cartório de registro de terras de Bom Jesus da Lapa foi incendiado. 1988. 285) O drama de Sobradinho atingiu em cheio os habitantes da Serra. 30/04/1975. 23). “visto que o órgão já se emitiu na posse de algumas propriedades e seus titulares ainda não foram. Para a população que vivia em Serra do Ramalho. atualmente. Dois de seus funcionários negaram-na. em discurso na Assembléia Legislativa da Bahia. ao menos.. os dias subseqüentes à desapropriação foram de incertezas e angústia. Mas a documentação perdida havia sido previamente microfilmada pelo INCRA. é por si só bastante significativa das predisposições dos que detinham o poder. mas a possibilidade de resgate da TDAs ser levantadas no interior do aparelho de Estado. o INCRA começou a agir na área. Em relação às pressões políticas. Durante todo o processo de desapropriação. Após a publicação da lei de desapropriação. seriam utilizados recursos dos bancos do Brasil. dentro do próprio Grupo Interministerial. um clima de insegurança e desestímulo” — e cobrou aceleração do processo indenizatório. A queima do cartório não foi confirmada por nenhum entrevistado. A procuradora do Incra à época — Dra. 5). 178 Ainda de acordo com Bursztyn. situados nas diferentes esferas de poder. p. e. destruindo-se os livros sem que o prédio fosse queimado. gerou pressões políticas. o processo de desapropriação foi difícil. assim. rebateu alegação do INCRA de que todas as propriedades da área desapropriada do futuro Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho eram cadastradas como latifúndios por extensão ou exploração. exigindo dos moradores o documento . o deputado Manuel de Almeida Passos Filho. Os funcionários do órgão se embrenhavam nos povoados. Acusou o órgão de prejudicar os fazendeiros — “que perderam anos de trabalho e vivem. p. Regina Calhau — em conversa informal com a autora. as presseos são evidentes.” (Sigaud et al. Não se sabe se o fato ocorreu. para contornar suas resistências. não podem dispor dos recursos necessários para adquirir outras terras em que abriguem seus animais” (A Tarde. Para tanto. Para se ter idéia. No entanto. Os pequenos proprietários e posseiros foram tomados de surpresa e de desespero. p. citados pela justiça federal.

pois os originários de Sobradinho que tinham essa idade receberam casas na agrovila. 179 da terra. Durante o processo desapropriatório. os expropriados de Serra do Ramalho tinham que retirar a importância na sede do INCRA. Na oportunidade. o INCRA só reconhecia a “quinzenária”. honorários de mais de quinze por cento do valor recebido. 204 Entrevista concedida à autora em Carinhanha. muitas vezes. Desse modo. eram avaliadas apenas as benfeitorias. que receberam os valores em seus povoados. agregados e posseiros expropriados que poderiam ser reassentados nas agrovilas. A medida era discriminatória. Inconformados. permitindo-se apenas o plantio de lavouras de ciclo curto. 15). uns poucos desapropriados recorreram à justiça. tendo que pagar. Os camponeses expropriados dizem que os valores que receberam a título de indenização eram muito baixos e que suas propriedades e benfeitorias foram subavaliadas. a partir daquele momento. a medida visava deter a ação dos grileiros na área. Os mesmos métodos aplicados em Sobradinho foram reeditados pelos técnicos do INCRA em Serra do Ramalho. a importância que receberiam dava tão somente para o translado a Salvador. Mas as indenizações só começaram a ser pagas em 1977. os títulos de propriedade registrados em cartório há mais de quinze anos. Segundo Nengo Xique-Xique204. p. estavam proibidos de cultivarem roças. Certamente. De acordo com o relatório da CPT. Um deles era que só seriam aceitos como “colonos” os indivíduos que tivessem idade inferior a 59 anos. 1982. o INCRA deixou claro para os pequenos proprietários. o INCRA alegava que o projeto era do governo e que não tinha recursos para pagar altas indenizações. . desde que obedecidos alguns critérios. todos reclamaram das perdas e das mudanças operadas em seu cotidiano pelo Projeto. isto é. localizada na capital baiana. Tal fato gerou descontentamento entre os expropriados. às vezes. Por que os expropriados de Serra do Ramalho não teriam os mesmos direitos? Era o que perguntavam todos. de fazerem novas benfeitorias. 14/02/2001. (Cordeiro. examinavam-no e chamavam o proprietário para a medição. Ao contrário dos deslocados de Sobradinho. quando as primeiras agrovilas já estavam sendo ocupadas pela população de Sobradinho. Quando os moradores não apresentavam o documento de propriedade da terra. os técnicos do órgão avisavam aos desapropriados que. intimidando os desapropriados a não reclamarem das avaliações. pois.

e os habitantes do povoado de Canabrava. É isso que se depreende da fala de Nengo Xique-Xique do povoado de Canabrava: [. resolvendo permanecer nos seus locais de moradia e aguardar posição do INCRA quanto ao local de reassentamento. passaram a reivindicar a permanência no local. 206 Nos anos 80. . uma postura um pouco mais organizada e aguerrida: os indígenas Pankaru206. Duas comunidades assumiram. situadas próximas de seus povoados. por exemplo. de posse das exíguas indenizações. p. s/d. A pequena comunidade Pankaru localizada na Agrovila 19 compreende um conjunto de 14 famílias. em áreas que. visando beneficiar- se das mudanças que o projeto promoveria na região.. uma parcela se rendeu às evidências. indivíduos reassentados de procedências as mais diversas ocuparam as áreas de reserva e ainda hoje vivem às margens do Rio São Francisco. 2). a partir da implantação do Projeto. reconhecidos secularmente pelas autoridades constituídas. a mudança se fez necessária porque os órgãos governamentais confundiam as duas comunidades. insuficiente para qualquer aquisição na região.] aquele comentário do projeto. vamos dizer assim. a comunidade Pankaru da Agrovila 19 mudou seu nome deliberadamente. Tendo isso em vista. As reservas em relação à mudança para as agrovilas aumentaram.. resistiram a toda investida do INCRA e só mudaram para as Agrovilas 8 e 9 depois de muitas idas e vindas. segundo diziam os técnicos.”205 Na medida em que o tempo foi passando. ia dar irrigração pra todo mundo. O entusiasmo parecia maior em relação ao projeto de irrigação e à concessão de crédito agrícola prometidos pelos agentes governamentais. por exemplo. encaminhadas para os Pankararu de Pernambuco. Pouco mais tarde. em reservas extrativistas. que reclamavam a demarcação de área em Serra do Ramalho. Outras mantinham expectativas favoráveis em relação ao Projeto. 180 Diante dessas medidas. Percebendo que o valor da indenização era irrisório e. Desse modo. o desencanto em relação ao Projeto chegou aos povoados. que o projeto vinha. Os primeiros a empreenderem resistência foram os habitantes dos povoados situados à beira do Rio São Francisco. Aí a gente ficamos naquela. aproximadamente 60 pessoas. as melhorias solicitadas pela comunidade da Agrovila 19 eram. Acreditavam que sua implantação resultaria em benefícios.. para diferenciar-se dos Pankararu que vivem no Estado de Pernambuco. Segundo o cacique Alfredo José da Silva Pankaru. visando refazer suas vidas. os desapropriados de Canabrava. Os habitantes de Campinhos. se transformariam. muitas vezes. ia beneficiar. situado às margens da nascente do Riacho das Pitubas (ANAI. e é a mais pobre dentre todas de um projeto que se 205 Relato de Nengo Xique-Xique. A população serrana reivindicava a mudança para as Agrovilas 15 e 16. Mas o órgão havia destinado as duas agrovilas para os colonos sulistas. portanto. mas ficamos aqui na ponta da área. partiram para São Paulo e Goiás. algumas famílias.

A escola para os primeiros ciclos do ensino fundamental se encontra em fase de construção. Raimundo Bonfim) Índios brincando o Toré. distante aproximadamente seis km da Agrovila 19. em que pese as inúmeras solicitações da Associação da Aldeia Vargem Alegre. as condições de vida eram ainda mais precárias: as casas eram de pau-a-pique e não havia escolas. os índios continuam vivendo entre a nova aldeia e a Agrovila 19. . tornam-se intransitáveis. que sempre rejeitaram a vida na Agrovila. O fornecimento de água é precário e as estradas vicinais. Figura 5 – Toré (foto: Pe. Além delas. As casas são de alvenaria e têm três cômodos. de escola de ensino médio nem de transporte regular. 181 acredita fracassado. o ritual do Toré é um dos poucos elementos da cultura indígena ancestral mantida pelos Pankaru. No entanto. no período das chuvas (outubro/novembro a fevereiro/março). até 2003 não tinha instalado energia elétrica nas casas. pois a Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia. Na antiga aldeia. Ela não é servida de Posto de Saúde. em 1999. a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) construiu um conjunto de casas em área localizada "na boca da mata". É também a que menos dispõe de equipamentos urbanos. Acatando reivindicação dos índios. Com longo histórico de contato. foram construídos uma pequena Igreja e um Posto de Saúde.

Na primeira década do século XX. recentemente falecido (2002). . 182 Remontar aos primeiros contatos dos atuais Pankaru com membros da sociedade não- indígena é tarefa das mais difíceis. visando atender os interesses e as conveniências do grupo. Em princípios de 1950. adolescente. Assim. uma alagoana que conhecera na Paraíba. deixou o Lero — povoado onde teria nascido —. região do agreste pernambucano. os constantes deslocamentos do patriarca marcaram a resistência e a luta pela territorialização. Alguns anos mais tarde. travou contato com os Pankararu da Aldeia de Brejo dos Padres. 9/1999 e 13/3/2003. Em seguida. segundo consta. Grupo étnico recentemente diferenciado. partiu para trabalhar na Usina Hidrelétrica de Correntina-Bahia.PE. localizado a seis léguas de Salambaia. Na representação dos Pankaru. sobretudo quando não se sabe sequer a qual tronco lingüístico eram filiados. e documentos históricos versando sobre aspectos da história do grupo são desconhecidos. eram aceitos como 'parentes' pelos índios locais". A representação da história contemporânea dos Pankaru é marcada por descontinuidades. como vigilante. Segundo entrevista do atual cacique207. p. a etnogênese da comunidade Pankaru está fortemente entrelaçada à saga do patriarca e pajé Apolônio. De acordo com o antropólogo José Augusto Laranjeira Sampaio (1992. Maria. Serra do Ramalho. a saga do pajé Apolônio teria começado muito cedo. 3-9). Encantado com a existência de mata fechada na região da Serra do Ramalho. os Pankaru ainda não contam com estudos etnográficos. elaborações e reelaborações empreendidas pelo pajé Apolônio e sua família. De inequívoca origem indígena. decidiu fixar residência nas proximidades da área indígena onde deixava a família enquanto prosseguia suas viagens. já casado com D. entre os séculos XVII e XVIII. 207 Entrevista concedida à autora na Agrovila 19. Apolônio desentendeu-se com o cacique Pankararu e partiu em direção a Paulo Afonso-Bahia. forjando a identidade familiar e grupal. trabalhou na localidade nas obras da Usina Hidrelétrica construída pela CHESF. visando ali se estabelecer. Depois de perambular por vários municípios de diferentes estados do Nordeste. É provável que a família do ex-pajé Apolônio Kinane seja proveniente dos aldeamentos indígenas patrocinados pelas sucessivas missões religiosas instaladas no Vale do Baixo e Médio São Francisco. município de Tacaratu .

que sabia viver nas proximidades da Serra do Ramalho. levaram presos o patriarca Apolônio. 209 Somente depois da contenda com os indígenas e da presença da Polícia Federal na área. a viagem de Paulo Afonso à Serra do Ramalho foi penosa e durou vários meses. pois. o fazendeiro utilizou a polícia militar da Bahia para expulsar os indígenas. Apolônio Kinane adentrou a mata à procura de uma comunidade indígena denominada Morubeca. já instalado na área. ficando a salvo das violências dos brancos. Conforme vimos. 13/3/2003. 183 retornou. A medida se fazia necessária por causa da desapropriação não só da área da Barragem de Sobradinho. o forasteiro ameaçava derrubar e queimar suas benfeitorias. bem como os poucos posseiros que viviam na área. Antônio Cordeiro. publicado em 1973. Segundo uma de suas filhas208. um filho e dois genros para a delegacia de Bom Jesus da 208 Entrevista concedida à autora na Agrovila 19 Serra do Ramalho. . o Oeste e o extremo sudoeste da Bahia tornar-se-iam palcos da ação de inúmeros grileiros. Haviam sido expulsos por grileiros. em fins dos anos 50. foi o patriarca Apolônio quem descobriu minério na Serra Solta (fluorita). os grileiros começaram a atuar na região. Alguns anos depois. contando com a conivência das autoridades de Bom Jesus da Lapa. em território goiano. Em princípios de 1970. s/d. As terras ocupadas pela família do patriarca Apolônio passaram a ser reivindicadas por um forasteiro que se dizia herdeiro das mesmas. o fazendeiro teria provado a existência da cadeia dominial das terras que reivindicava como suas. Instalou-se em Serra do Ramalho um clima de terror. ganhando as picadas e estabelecendo-se segundo consta. decreto presidencial. os indígenas procurados já não se encontravam no local. Depois de adentrarem a casa da família Kinane. ou seja.209 Articulado com as autoridades de Bom Jesus da Lapa. o forasteiro “vendeu a questão”. p. No imaginário indígena. 2. declarava a região do Médio São Francisco prioritária para desapropriação. No imaginário Pankaru. Quando chegaram à região. área na qual havia se estabelecido. Este passou a atormentar o indígena e sua família. imediatamente. tentando expulsar a população local desprovida de título de propriedade. FUNAI. A chegada dos Pankaru na Serra do Ramalho coincidiu com a exploração de minérios na região. a Paulo Afonso para buscar a família. Diante da possibilidade de serem indenizados. visando expulsar os posseiros. mas também da área onde seria reassentada a população desabrigada. município de Bom Jesus da Lapa-BA. recebendo em recompensa do prefeito municipal de Bom Jesus da Lapa. passou as terras a um fazendeiro da Bahia. com a qual acreditava ter laços de parentesco.

visando enfrentar o fazendeiro e novas hostilidades foram registradas. Entretanto. em uma área praticamente isolada e bastante dispersa que tinha por núcleo urbano o pequeno povoado de Canabrava. O contato com o órgão. segundo o atual cacique. localizado no município de Carinhanha. 184 Lapa. todas aparentadas entre si. uma vez que o primeiro órgão. Em meados de 1975. os prisioneiros foram levados para a sede da fazenda do postulante e torturados pelos seus capangas com a complacência dos policiais. no meio do caminho. encontrava-se em implantação na área o Projeto Especial de Serra do Ramalho. os direitos dos Pankaru foram reconhecidos. cuja finalidade precípua. Nesse entremeio. sugerindo à FUNAI “remoção dos índios ou a sua emancipação para que tenham direitos ao assentamento de acordo com o disposto no Estatuto da Terra”. Ainda hoje a área é disputada pelos indígenas e por um não-índio que afirma ter o título de propriedade do lote. Informados de seus direitos em relação às terras de seus ancestrais. mudou a perspectiva de vida de seu povo. num sistema de . levando consigo telhas e blocos. Os Pankaru exigiram a intervenção do INCRA. Sem-terras provenientes de vários pontos da Bahia tentaram invadi-las. De acordo com a filha do velho pajé. A história da resistência dos habitantes do povoado de Canabrava. Os índios resistiram e. Porém não receberam a área reivindicada. os indígenas resolveram partir para Brasília à procura da FUNAI. o órgão não foi capaz de impedir que os "colonos" destruíssem as casas. homologada em 1991. viviam por volta de 196 famílias. INCRA e FUNAI entraram em negociação para o reconhecimento do direito à terra dos Pankaru. era reassentar os expropriados da área da Barragem de Sobradinho. No entanto tudo conspirava contra a permanência dos indígenas em Serra do Ramalho. tornando suas terras ainda mais cobiçadas pelos grileiros/fazendeiros ávidos em embolsar os valores da indenização. apresenta alguns pontos de semelhança com a dos Pankaru. Diante de tamanha violência. depois de idas e vindas. como visto acima. e um lote urbano de três hectares localizado na Agrovila 19. Coube-lhes aproximadamente mil hectares. Como os Pankaru resistissem à fixação na Agrovila 19. algumas casas ficaram por um tempo desocupadas. mantinha-se firme no propósito de ceder apenas vinte hectares a cada família assentada. No núcleo urbano viviam aproximadamente 24 ou 25 famílias. onde foram construídas 50 casas. retornaram à região de Serra do Ramalho.

A propósito: Aí a gente ficamos. havia um pequeno grupo escolar e uma capela. As instituições colocaram à disposição dos desapropriados recursos humanos e materiais para que levassem adiante a reivindicação da permanência em Canabrava210. Enquanto os funcionários do INCRA implantavam nas agrovilas o regime do “cativeiro”. porque a gente 210 Durante o processo de resistência. Canabrava. os expropriados contaram com apoio do advogado da CPT. da CPT e da Diocese de Bom Jesus da Lapa. Figura 6 . além da venda.. permaneceu. os habitantes de Canabrava tomaram uma decisão: não aceitariam as medidas do governo. As reivindicações foram legitimadas e estimuladas pela ação do pároco de Carinhanha. localizado quase no sopé da Serra. A gente. O costume era criar uma vaca. Eles reivindicavam lotes rurais acima do módulo rural e sua permanência no povoado. Devido a nossos costumes. criar de tudo para ajudar nossa sobrevivência na roça. 185 relações de parentela. .Casa em ruína (foto: Luciene Aguiar) Casa localizada na Agrovila 19. No pequeno núcleo urbano localizado próximo à nascente do Riacho das Pitubas. conforme relatos de entrevistados. provavelmente. achamos por bem que não era viável pra nós aquilo. Enquanto vários povoados foram abandonados. Veno a continuidade da agrovila e o desenvolvimento.. em razão de conflito envolvendo sem-terra e indígenas. destelhada...

Então aquilo deve. porque foram estas causas tenho mais cinco meses perdidos de dezembro de 1977 a 1978. Aí foi clariando pra nós assim o nosso direito. Ministro Nascimento e Silva venho saber se o direito do velho que tem 67 anos de idade não tem direito de receber abono? Da idade conforme os outros tiveram e estão tendo. né? Porque um sujeito do Paraná com outro do Pernambuco. da violência simbólica e da intimidação dos aposentados. do Norte. contudo os cortes e atrasos no pagamento da aposentadoria rural eram freqüentes em Serra do Ramalho. Mas eu fui sonegado e não tive esse direito. Em carta dirigida ao ministro da Previdência Nascimento e Silva. acho que os modos são totalmente diferentes.. do Sul. E aí a gente foi. E por estar faltando à administração e falta de justiça neste progeto localizado neste município de Bom Jesus da Lapa e todos os velhos 211 Relato de Nengo Xique-Xique. a CPT. este o motivo que os desapropriados da Barragem de Sobradinho estão voltando.. que desagradou muito nós que era daqui da região... lançou mão de pressões. E ficamos aqui assim naquela enrola pra fazer a agrovila. o reassentado Moisés Evangelista da Silva reclamava do corte de sua aposentadoria e pedia explicação: Sr. Aí foi quando apareceu aqui na área o sindicato dos trabalhadores rurais e outras entidades. com certeza. 186 na roça tem de sobreviver de tudo. se organizamos.. vocês não põe roça. . Foi. Nós pegamos uma área de 14 mil hectares. Isso foi trazeno assim aquela preocupação pra nós.. mês de novo sem receber. porque isso também já tinha sete anos que nós já tinha sido desapropriado. Embora se arvorasse em todo poderoso. O direito que tive foi quatro carnês em branco e está guardando para saber se está certo e depois da vossa resposta. não é possível dizer. eles vinha e falava — Olha. que nós já tinha direito de reivindicar um. fizemos reuniões com o pessoal que abrangeu essa área. de botar roça. Quando veio esse pessoal. Primeiro. .. né? E fumos vendo aquilo. Pesso resposta e justiça porque aqui tudo que o governo manda não se recebe nada. nas época de plantar. achano que. se o executor tinha ou não poderes para promover tais fatos. aí foi falano que a gente já tinha aqueles anos.211 O INCRA rechaçou as reivindicações e o gerente-executor utilizou todos os meios para dissuadir os moradores de Canabrava de suas reivindicações. Aí nós foi nessa. Aí o pessoal foi desanimano. mais uma terra.. não combinou com os modos de viver.. Venho saber se estar tendo sabotage ou não. todo ano vinha um diretor do INCRA aí da 9. porque vem gente de todos os lados. Só foi recebido de maio até novembro de 1978 e para já está com dois meses. no período da implantação do Projeto. Outra. não pode plantar planta permanente..

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estão nessa situação triste. Pesso justiça se eu e os outros velhos que
estão sentindo esta falta de justiça. Sem mais de seu desamparo.

Em seguida, o ex-executor tentou aliciar a principal liderança do movimento de
resistência. Quem relata o fato é Nengo Xique-Xique:

Chegaram a mim oferecer cem hectaras para mim abrir fora. O pessoal
lá deles. Ofereceram aqui dentro de casa. Aqui...Não foi propriamente
Mandou uma pessoa. (...) ‘Diz que lhe dá cem hectaras para você
deixar fazer as agrovilas.’ Disse: Eu aceito. Só quero que o senhor me
dê a forma deu sair com meus parceiros, porque vocês vai embora e eu
vou ficar conviveno com o pessoal que vai ficar contra mim. Como é
que eu vou conviver com esse povo? Com meus irmãos, com o
pessoal que é meu amigo? Depois, como é que vou viver com eles até
o fim da vida? Se o senhor me der a norma, eu aceito.

Uma parcela dos habitantes estava firme no propósito de não deixar o povoado. Diante
disso, o gerente-executor não recuou, propondo a construção de uma agrovila justamente em
Canabrava. A proposta foi recusada. A notícia de que o INCRA iria começar os trabalhos de
abertura da agrovila no povoado se espalhou e a resistência foi preparada. Souza retrata com
leveza e humor o acontecimento que provocou o recuo do INCRA e marcou a vitória dos
habitantes de Canabrava:

A Canabrava deve desaparecer para dar lugar a uma Agrovila. Os
tratores vão chegar para derrubar as casas e as árvores. Todos devem
desocupar a área... Está determinado o despejo. A comunidade
também toma sua decisão oficial: Todas as mulheres e crianças vão
ocupar pacificamente a ponte de Canabrava. É o único caminho por
onde o trator pode entrar. O trator pode entrar, mas vai ter de passar
por cima de nossas mulheres e de nossas crianças. Homem enfrentar
homem dá violência; mas trator e homem em cima de crianças e
mulheres é covardia!
O cenário está feito: a ponte tomada — todas as mulheres com seus
filhos! Os homens estão entrincheirados, na espreita. Muita tensão na
Canabrava. Angústia! Vontade de correr! Desespero e medo! Prá, prá,
prá, Porarara, pá, papá... Surge, no meio do mato fechado, um trator
do INCRA, roncando o seu ronco maldito. Está na hora! É hora!
Mulheres vão compondo e pondo os nomes... são os santos de sua
especial devoção. Acossado, faz meia volta e desaparece, novamente,
no meio da floresta. Some tal qual a brisa do vento. Não deixa nem
saudade! Mas até quando? (Souza, 1991, p. 64).

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A primeira reunião teria ocorrido em Brasília, contando com a presença do presidente do
órgão, Paulo e Yokota, e de dois representantes da comunidade: Nengo Xique e Graça212.
Logo após, segundo Graça, houve outra em Bom Jesus da Lapa, na qual estiveram presentes
funcionários graduados do Incra, 14 representantes da comunidade de Canabrava e o bispo da
Diocese – D. José Nicomedes Grossi. A reunião teria durado cinco horas e os funcionários do
Incra tinham a intenção de quebrar a resistência de Canabrava. “Era não, não e não”.
Continuando, Graça afirma:
Nada de mais terra... Agrovila mermo e não tinha outro jeito...O Incra não podia
quebrar [os princípios do Projeto] Ai eu falei para as pessoas, eles veio para
negociar e a gente não vai aceitar [... ] Foi debate... Pressão... Teve homem que até
chorou. Só quem resistiu fui eu e uma outra mulher, que foi a Vitalina [nome
fictício)[...] E o povo ficou entristecendo, começaram a chorar. Pedimos
recreamento [...] Quando eu vi que não dava negociação, disse se vocês quiser bem,
se não quiser nos vamos ficar lá, dividir e reassentar todo mundo [...] Quem vai
impedir? Foi aí que eles deram negociação. Negociação essa que foi um tanto de
porém [...] Não dava infra-estrutura...Não dava isso e não dava aquilo... No grupo
mesmo tinha gente que não se enquadrava. [...] Ai eu comecei a dizer: Vamos ficar
firme.. Disse que [...] Ai que deu a negociação. Mas até a negociação... Mas até
cortar a terra, fazer a divisão...De quinze em quinze dias, vinha gente do Incra para
renegociar. Eles queriam pegar uma parte do Riacho para outra Agrovila [...]. 213

A vitória dos moradores do povoado era incontestável, uma vez que o Incra havia aberto
negociação, mas a luta estava longe do fim. Somente em meados de 1985 os moradores de
Canabrava sentiram-se plenamentes vitoriosos. Durante a chamada Nova República,
receberam lotes três vezes maiores que o módulo rural e o direito de permanecerem em seu
povoado (denominado de Reassentamento Rápido). Fechado o acordo entre os moradores e o
INCRA, o órgão incumbiu os beneficiários da tarefa de demarcar os lotes. Este foi o ponto,
segundo padre Getúlio Grossi214, mas delicado de todo o momento vivido pela comunidade.
Mas, segundo o ex-pároco de Carinhanha, os envolvidos agiram com sabedoria e os lotes
foram demarcados sem que houvesse nenhum registro de tensão entre os moroadores de
Canabrava. Todos receberam seus lotes e, inclusive, alguns dos desapropriados que haviam

212
Nome fictício.
213
Entrevista concedida à autora em Guanambi, 2005.
214
Entrevista concedida à autora em Carinhanha, em 2005.

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partido e retornado, foram contemplados nos mesmos moldes observados em relação aos que
tinham permanecido.
Numa perspectiva de reforçar os antigos laços de solidariedade, uma parcela dos
moradores de Canabrava firmou um acordo rezando a indivisibilidade dos lotes e a proibição
de sua venda para pessoas que não tivessem laços com a comunidade.
No povoado, o INCRA construiu uma escola e um posto da COBAL; o último, depois
da “liquidação” do Projeto, passou às mãos da Associação de Moradores.
Somente em 1992, os moradores de Canabrava receberam o título provisório e o carnê
para pagamento do lote. Segundo Nengo Xique-Xique, a maioria pagou o lote sem grandes
problemas, uma vez que os valores não foram considerados altos, contudo, em relatório do
INCRA, de 1994, há referência ao atraso de pagamento das prestações por parte de muitos
“beneficiários”.215
Embora em todo processo sejam ressaltados momentos de união e de sabedoria entre os
moradores do povoado, cabe salientar que a “chegada do estranho” não passou incólume em
Canabrava, registrando-se mal estar e acirramento das disputas entre alguns dos membros da
comunidade, nas palavras de Nengo Xique-Xique, malquerença” e discórdia. As marcas do
estranhamento, segundo o padre Getúlio Grossi, podem ser vislumbradas, entre outras coisas,
pela existência de duas Associações de Moradores no diminuto povoado.

4 - O INCRA “tira o corpo fora”...

Nem bem o Projeto fora implementado, os reassentados começaram a falar em sua
emancipação. Em 1978, diante da desistência de tantos “beneficiários” e de tantas
reclamações, a Hidroservice foi chamada ao Projeto Especial de Colonização Serra do
Ramalho para examinar as causas de sua rejeição. Infelizmente, não tive acesso ao relatório
da empresa. Mas, segundo entrevista de um técnico que participou da equipe de avaliação, os
“colonos” reclamavam a emancipação das Agrovilas, pois queriam vender os lotes e ir
embora. Não há informações sobre a dimensão do movimento. Os reassentados entrevistados
disseram ter ouvido um “barulho” sobre o assunto, mas não se recordam no que este consistia.

215
Relatório publicado em 1994 pela Comissão constituída pelo INCRA com a finalidade de proceder aos
levantamentos necessários para a efetivação da emancipação fundiária do PEC-SR. Relatório da Comissão
Coordenada por Marcos Correia Lins, Brasília, dezembro de 1994, p. 41.

190

De qualquer modo, para que a emancipação acontecesse, um longo caminho haveria de
ser trilhado. De acordo com a legislação em vigor, a emancipação só deveria ser solicitada dez
anos após a implantação do Projeto. Além disso, duas condições básicas deveriam ser
atendidas: um terço dos “colonos” deveria ter o domínio legítimo dos lotes rurais e a
comunidade deveria estar há mais de cinco anos economicamente apta216. Naquele momento,
as agrovilas de Serra do Ramalho não preenchiam nenhuma dessas condições217. Além do
impedimento legal, duas questões, do que pude inferir das entrevistas, incomodavam os
reassentados. Primeiro: em se efetivando a emancipação, os poucos serviços e benefícios
prestados pelo órgão federal seriam mantidos? Segundo: qual a vantagem de ser emancipado e
ficar dependente, em todos os aspectos, de Bom Jesus da Lapa? Com certeza as dúvidas dos
reassentados eram manipuladas pelos funcionários do INCRA e o movimento emancipatório
foi levado, até 1988, em “banho-maria”, para usar expressão de um entrevistado.
Desde início da década de 1980, o INCRA vinha pouco a pouco fugindo de suas
responsabilidades em relação ao Projeto. As promessas foram completamente esquecidas.
Para usar expressão de um reassentado: devagar, devagar, o INCRA estava tirando o corpo
fora. Para alguns, o fato representava alívio, significava a “libertação do cativeiro”. Para
outros era o descompromisso total. O descaso do INCRA, do ponto de vista dos reassentados,
era tão grande, que, em 1981, durante estada do presidente João Batista Figueiredo em Bom
Jesus da Lapa, lhe entregaram um abaixo assinado com mil trezentas e oitenta e cinco
assinaturas, reclamando melhorias para o Projeto.
A extinção do INCRA, em 1987, abriu novas perspectivas para a emancipação. Logo
após a promulgação da Constituição de 1988, os interessados na emancipação voltaram a se
movimentar. Em 8 de janeiro de 1989 realizou-se o plebiscito. Consta que a maioria da
população de Serra do Ramalho não se envolveu na campanha pela emancipação. O quórum
foi baixíssimo e a vitória do sim foi recebida sem grande entusiasmo.
O movimento emancipatório era liderado pelo ex-executor, Boileau Dantas Vanderley,
que, desde sua exoneração dos quadros do INCRA, vivia em Bom Jesus da Lapa, desfrutando
de prestígio junto aos reassentados. A criação do novo município representava a possibilidade

216
De acordo com relatório da CPT, os “colonos” estariam aptos quando tivessem uma renda estimada de dois
salários mínimos.
217
Em documento dirigido à Procuradoria da República na Bahia, a CPT, além de mostrar desagrado em relação
à emancipação do Projeto Serra do Ramalho (naqule momento estava prestes a se efetivar a chamada
emancipação fundiária, etapa que antecede à liquidação do projeto), afirma que esta aconteceu de “forma forjada
e manipulada para satisfazer interesses políticos pessoais”. Carta assinada por Ir. Miríam Inês Bersch, da
Comissão Pastoral da Terra. Bom Jesus da Lapa, 25 de junho de 1984.

191

dele tornar-se seu primeiro prefeito, fato que se confirmou quando da realização da eleição no
recém-criado município.
A população e as principais lideranças políticas de Bom Jesus da Lapa não se opuseram
à emancipação e o novo município foi criado em 13 de junho de 1989, sendo formado por 20
agrovilas, com sede na Agrovila 9. Contudo, até princípios de 1998, Serra do Ramalho viveu
um período de transição. Vejamos o que diz a respeito relatório da CPT de Bom Jesus da
Lapa: “O impasse está criado, a população de Serra do Ramalho possui duas condições e duas
administrações: a do INCRA e a da Prefeitura, não sabendo, na maior parte dos casos, a quem
recorrer (1994, p. 4).
Enquanto o INCRA não empreendesse a emancipação fundiária do projeto, a dupla
administração continuaria em curso. Em 1994, o INCRA nomeou comissão com essa
finalidade. A comissão procedeu à titulação (“resolutiva”) de mais de dois mil lotes e
discriminou os bens pertencentes ao INCRA. Em 1998, a presidência do órgão nomeou
Comissão, coordenada pelo engenheiro agrônomo Célio Coelho das Neves, com a finalidade
de proceder a liqüidação do Projeto, ou seja, de dar destinação aos bens discriminados e de
passar à prefeitura os ônus do órgão.
Em 1998, o INCRA concluía sua saída do PEC/SR, deixando, entretanto, antigas
pendências. Dentre elas, a mais importante é a não regularização das ocupações existentes nas
ex-reservas. Em relação à questão, a Comissão instituída em 1994 propôs, no seu relatório,
uma série de medidas, que nunca foram levadas a efeito (1994, p.33-41).
Não bastassem as pendências relativas à questão fundiária, o novo município se
coloca entre os mais pobres da Bahia e tem registrado altos índices de violência, fato que
chamou a atenção, inclusive, da Comissão de Direitos Humanos, da Câmara Federal.

virou essa disgraceira Alvarina – Ibotirama . 192 Depois que o São Francisco morreu afogado.

sem roças para trabalhar e sem casas para morar. Em relatório. se encontravam arranchadas na borda do lago. que só permite a entrada das pessoas à noite devido a quintura. A vida nas barrancas sanfranciscanas passou a ser superestimada e. foi pra São Paulo. foi pra Brasília. A percepção de que. o retorno tornou-se um imperativo... nas Agrovilas. morando em barracas de lona. 20). muitos indivíduos sequer comunicavam ao INCRA a partida. o INCRA afirma que. Em dezembro de 1979. é que a diáspora envolveu maior número de pessoas e que o número do INCRA não reflete a realidade. 193 CAPÍTULO IV EM BUSCA DA FELICIDADE PERDIDA. Foi pra bera do rio. reproduzido. foi geral. o modo de vida beradero não teria condições de ser. levou à rejeição do projeto e a grande maioria dos reassentados não pensaram em outra coisa senão abandonar as agrovilas. “Dona [dirigindo-se a entrevistadora]. sem alimentos e sem condições de comprá-los.Movidos pela paxão e pelo sonho. O abandono [das agrovilas] foi geral. dependendo que as autoridades 218 Relato de Isidoro. p. 12/7/2002. em área próxima ao antigo povoado de Barra da Cruz. A RECONSTRUÇÃO DE BARRA DA CRUZ 1 . provenientes do Projeto de Serra do Ramalho. Gente mudou pra tudo quanto é canto. Barra da Cruz e Pau-a-Pique.”218 Do montante apontado pelo INCRA. 599 pessoas originárias da área de Sobradinho deixaram as agrovilas (1994. tanto em Serra do Ramalho como nos “núcleos” de Bem-Bom. viramo tudo filho de marreca. Depois da barragem não tivemo mais sossego. Era preciso buscar a felicidade perdida. apenas comendo do peixe e a farinha e tomando chá de raiz para substituir o café e o leite das crianças. não. nos primeiros anos do projeto. “vivendo em condições sub-humanas. Impossibilitados da venda dos lotes e cientes de que não teriam as benfeitorias indenizadas. Entrevista concedida à autora em Ibotirama. quantas famílias retornaram aos seus locais de origem? Não há informações. o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Casa Nova lançou uma Nota dando conta de que 74 famílias. minimamente. . A percepção dos entrevistados. para grande parcela.

por causa do clima. 25/5/2003. quando teria começado a segunda diáspora dos atingidos de Sobradinho. Ele se lembra também de Silvestre. . 221 Idem. partiu da Fazenda de Fora (Pau-a-Pique) para a Agrovila 5 acompanhada da mãe idosa e de vários filhos. Cremilda (a segunda esposa) intervém e passa a contar aspectos da experiência de dois meses vivenciados nas agrovilas220. partindo em direção ao rio prestes a ser afogado pelo lago. O sentimento de isolamento em relação ao rio era recorrente entre os reassentados. 222 Entrevista concedida à autora em Casa Nova. apanhou os filhos e partiu para Pau-a-Pique de “mãos abanando”. ela conta: “Minha mãe estranhou muntcho a grovilha. a única pessoa de quem ouviu reprovação ao projeto quando esteve em “visitação” à Agrovila 5. tempo suficiente para perceber que não podia viver longe do “rio”222. Viúva.”221 Antes que a mãe morresse de tristeza e saudade. Ela se apaixonou. Mas temos informações de que o abandono das agrovilas começou a ocorrer antes mesmo que a retirada de toda a população atingida fosse concluída. as crianças adoeceram e a mãe de Cremilda não suportava a distância do rio. A família não se adaptou. Este. 220 Entrevista concedida à autora em Casa Nova. 23/5/2003. assim. parada na beira da porta.219 A “Nota” não diz. antes mesmo que a família cumprisse a determinação de partir na próxima leva para a ele se juntar. tentou fugir do ônibus pouco antes que este “arrancasse” em direção ao projeto. Ficava. conforme vimos anteriormente. Um deles foi Pequenito. tomavam- no. que. encontrava-se seu ex-agregado. “assuntavam o movimento” e quando o “vapor” descarregava mais uma leva — dos seus companheiros de infortúnio —. 07/12/1979. Sentiu a falta do rio. enfim toda infra-estrutura que um povoado precisa”. É difícil denominar os primeiros arretirados das agrovilas. Alguns beraderos deslocados chegavam no vapor “São Salvador” ou nos ônibus — especialmente contratados para o transporte dos arretirados —. 194 tomem providências de distribuir lotes e a construção das casas. pitando. tomando a direção de Pau- a-Pique. assegura Wandilson. pitando e procurando o Rio com os olhos. Por fim. Dentre eles. Manolo tem boa memória e lembra-se de várias pessoas que regressaram a Pau-a- Pique logo após a partida. escolas. exatamente. ex- vaqueiro da Fazenda de Fora. entre adolescentes e crianças. Ele conta que tomou a decisão de retornar a Bem-Bom porque a 219 Nota do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Casa Nova. A experiência de Paulo nas agrovilas durou onze meses. abandonou as agrovilas. Antes que Manolo cite outros nomes e se lembre de outras experiências. posto de saúde.

que. Alvino conta que foi para à agrovila “injuriado” e que lá. aproximadamente. dois anos (1976-1978). tornando-se. Paulo recrimina também a qualidade da água. imagine- se. aquela indiota. contava sua experiência em Serra do Ramalho. um outro entrevistado. Reclamou da distância do rio — fato que impossibilitava o exercício de sua profissão —. em seguida. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. O papel do INCRA eu tenho. localizada num dos pontos mais próximos do Rio São Francisco – no eixo ímpar –. então. segundo afirma. daí as constantes referências ao “cativeiro das agrovilas”. Manduca concorda com a narrativa do amigo Alvino. não pensava em partir. ouvindo referência às agrovilas. . a menina fazia o xixi no cimento e quando secava. despertava tal sentimento. em companhia da mãe que era viúva — ex-agregada da Fazenda de Fora. não se adaptou. parecia que tinha derramado uma tapioca ali. sua esposa tomou a palavra223: “Levei uma menina de dois anos. Pescador. porque pode um dia precisar. Como se a agrovila fosse uma entidade dotada de consciência..” As experiências de estranhamento e de desenraizamento nas agrovilas são sucessivas. da água “saloba” e das práticas injustas da cooperativa. apesar da “ingratidão” da agrovila. distantes do rio aproximadamente 22 km. Enquanto Berneval. Quer dizer que eu não sou dono?”225 Através de acenos com a cabeça. embora labutasse por. fugiu para Bom Jesus da Lapa e. 195 Agrovila 3 ficava num “deserto. Ora. O caso de Alberico me pareceu bastante ilustrativo dos sentimentos dos arrepedidos em relação à experiência de Serra do Ramalho. o que não sentiam as pessoas reassentadas no eixo par. Devido à falta de água e de infra-estrutura. que contratou. “marcado pelo executor”. por várias vezes. enfrentou os funcionários do INCRA. Era um sal derramado assim. sua mãe adentrou a sala e. Não vendi nada. Por fim diz: “Deixei. um pistoleiro do sul da Bahia para executá-lo. Ele contou que foi para as agrovilas muito jovem. Paulo arremata: “Foi aí que me avexei e disse: ‘vou embora. de uma má consciência. Ressalta. 25/5/2003. em virtude disso. Numa festa sofreu uma emboscada. 23/01/2002. denomina-a de “ingrata” e de “nojenta”224.. Nesse ponto. Ela não se adaptou e apaxonada só falava em voltar para a beira do “rio”. Eu não largo. Sentindo que a ameaça era séria e que corria risco de morte. 224 O mesmo sentimento foi verificado em outra oportunidade. a agrovila só pode ser comparável a uma penitenciária. A decisão só foi consumada por causa da esposa. Ali permaneceu durante quatro anos. Deixei tudo e vim embora. 223 Relato de Maria da Lapa. contudo. sem rio”.” 225 Entrevista concedidda à autora em Casa Nova. se a Agrovila 3. Para ele. melhor dizendo. partiu para Pau-a-Pique. ”. eu tenho. interveio: “agrovila.

196

Evidencia-se, a partir do enunciado, que as mulheres tiveram papel determinante na
decisão do retorno ao local de origem. Aliás, Berneval afirma que as resistências em relação à
transferência para as agrovilas partiram, especialmente, das mulheres e dos idosos. Os mais
velhos resistem ao distanciamento de seus lugares de memórias, aos lugares onde vivenciaram
experiências significantes, além do mais, lamentam as perdas materiais e simbólicas e vêem
com pessimismo a possibilidade de recomeçar a vida em outro local (Scheren-Warren, 1990,
31),
No tocante às mulheres, as experiências de Possidônia e Apolônia parecem
226
reveladoras .
Possidônia227 foi reassentada com família na Agrovila 5. Durante dois anos em que ali
viveu, a família passou inúmeros apuros e, segundo ela, só não passou fome porque o esposo
vendia sua força de trabalho na Artex, empresa localizada em Santa Maria da Vitória. Ela
confessa que esteve à beira da loucura e que todos os dias rezava para São Sebastião tirá-la
das agrovilas. Como o marido relutasse em partir, disse para si: “Marido não é filho, é
companheiro, não nasceu com você”; vendeu as coisas e partiu “num carro cheio de
cavalos”. No Novo Pau-a-Pique também enfrentou muitas dificuldades e de um jeito bem
humorado descreve a situação de penúria que enfrentou e a solidariedade do comerciante que
lhe vendia a prazo:

Agradeço a Deus e a São Sebastião,
Agradeço o Valdir que me forneceu feijão.
A manteiga e o macarrão,
Essa eu não falo, não.
Tem também o arroz, a farinha, o fósforo e o sabão.

A experiência de Apolônia se revela ainda mais dramática. Ela partiu para as agrovilas
com o esposo e os filhos saindo da adolescência. Suas queixas não são muito diferentes das
dos demais arrependidos. Estranhou a falta do rio, a água salgada e o clima do lugar. Depois
de ter perdido o pai e dois cunhados — ambos vítima de infarto228 — que permaneceram na
região do lago, se apaxonou e logo adoeceu. “Eu tive uma crise de nervos muito forte,
esmagreci, só vivia doente. Eu fiquei magrinha! Todo mundo diz: essa vai morrer.” Para

226
Entrevista concedida à autora em Casa Nova, 24/5/2003.
227
Entrevista tomada através de notas pela autora em Casa Nova, 24/1/2002.
228
Em período anterior ao deslocamento, de acordo com entrevistados, foram registrados muitos casos de ataque
cardíaco, de suicídios e de loucura entre a população de Sobradinho. Mais detalhes vide depoimento do bispo de
Juazeiro, D. José Rodrigues de Souza à CPI das enchentes.

197

completar, descobriu que o filho estava envolvido com más companhias e que usava drogas.
“Descobri que meu filho andava numa caravana de amigos que fumava drogas.” Depois disso,
confessa que se descontrolou e só pensava em ir embora. Ela conta que, saturada das falsas
promessas e das mentiras do pessoal do INCRA, brigou com o executor.

Briguei. Eu fiquei tão assim... da cabeça que, um dia, eu briguei foi
com ele. Eu xinguei ele, na porta do carro dele, na frente de Zé Abea.
Lá na Agrovila 5. Xinguei ele, eu disse tanta coisa a ele. Que era de
uma maneira, quando ele chegava num lugar que, as vez, eu chegava,
ele entrava no carro e aqui oh...Entrava dentro do carro. Ele me
chamava “A Doida”. Era “A Doida”. Eu xinguei ele, xinguei,
xinguei... Na frente de Zé Abea.

Após o entrevero com o executor, Apolônia se sentiu ainda mais apaxonada e sua
permanência na agrovila tornou-se insustentável. Não restava outra alternativa a não ser
retornar à região de origem, como veremos adiante. Ainda hoje ela guarda ressentimentos em
relação à transferência. “Eu sou revoltada de uma medida que, se eu fosse uma pessoa que
tivesse qualquer outra instrução, qualquer outra mente ou se eu fosse um homem, eu não sei
nem o que seria com a minha vida.” Dando vazão à revolta, diz que em Barra da Cruz era de
uma família de condição e que, além do mais, tinha saúde, assinalando também que a retirada
para a agrovila destruiu a sua vida.

Destruiu minha vida totalmente. Eu tenho paxão. Sou revoltada
de uma maneira que todo mundo... chegamos já tá com quê?
Acho que já tamos com quê vinte anos que chegamos aqui, todo
mundo vem, até carro, ônibus de Feira de Santana visitar esse
morro, essa praia... mais eu nunca vou. Nunca mesmo. Nunca vou
lá porque me sinto revoltada. O que fizero com a gente sem a
gente esperar, sem a gente merecer ter um sofrimento através
daquilo que era da gente. A gente tinha aquele prazer, aquele
costume...aquele modo de viver, né?”

Apolônia ainda hoje sente-se apaxonada. Na acepção da região, a expressão paxão
remete ao sentido de pathos, significando, portanto, tristeza, melancolia, sofrimento, saudade,
mágoa e estranhamento. O sentimento pode provocar doenças e levar o apaxonado à morte e
ao suicídio. Entre os velhos transferidos muitos foram os apaxonados. “Muntchos velhos

198

dessa antiga Fazenda de Fora morreu em Serra do Ramalho. Dizem: foi a água. Nada! Morreu
foi de paxão.”229
A saudade do local de origem, o desejo de permanecer junto aos seus, a consciência de
que não tinha cabimento abandonar os seus mortos, tudo isso funcionou como elemento de
apelo ao retorno. A vida caótica nas agrovilas despertou os sentimentos de saudade, de paxão
e também do sonho de regressar à beira do “rio”.
Alvarina diz que todas as noites sonhava com o “velho” Bem-Bom230. “Eu tava na
bera do rio e uma voz me chamava.” Ela não discernia a voz recorrente que a chamava de
volta ao local de origem, mas tem uma interpretação: era o próprio rio que reclamava o seu
retorno. Ela justificou:

O rio tombém tava sofreno tudinho, né? Ele tava desgostoso.
Demudano. Me chamava. Aí, nós arretiremos novamente. Cheguemo
em Bem-Bom. Ele tava que era um mundão de água. Não era o
mermo, não! Me desgostei tanto que anté hoje não pisei meus pé mais
lá. O rio não é mais o mermo. Lá pra baixo, o rio morreu, né?”

Depreende-se da narrativa que o rio não era visto e sentido somente como um recurso
natural; o homem na convivência simbiótica com o rio acabou por revesti-lo de humanidade,
por conseguinte este, na sua concepção, passa a sofrer as vicissitudes operadas pela mudança
em seu “ser”, melhor dizendo, em seu leito, bem como em seu entorno.231 Não é por outra
razão que o rio é chamado de pai da pobreza e carinhosamente de Velho Chico.
Francelino confessa também que sonhava muito com a velha Barra da Cruz e que a
decisão de deixar as agrovilas foi tomada depois de um sonho.

Sonhava muito com os antigos. Um dia eu tava deitado na agrovila e
sonhei com meu pai e os três irmão dele. Vi meu pai. Com os três
irmãos. Chegou os quatro juntos. Eu não conheci os irmãos dele, não!
Meu pai falou: ‘Meu filho, quedê o povo daqui?’ Digo: ‘Meu pai, tudo
foi arretirado. Foi tudo embora.’ Ele disse: ‘Eles foram embora, mas

229
Entrevista conceidida à autora em Casa Nova, 23/5/2003
230
Entrevista concedida à autora em Ibotirama, 12/7/2002.
231
A humanidade do rio está expressa na crença popular e nas lendas que correm sobre o Velho Chico. A
propósito recorro a Wilson Lins: “Segundo a crença popular, à meia-noite o rio dorme. Dorme pouco, dorme por
um espaço de tempo que os relógios não marcam, mas o certo é que dorme. Durante o sono do rio tudo pára: a
correnteza fica estagnada, as cachoeiras deixam de cair, e a própria Paulo Afonso fica num instantâneo
fotográfico, imóvel, silenciosa. Enquanto o rio dorme ninguém deve mexer na água, para não acorda-lo. Acordar
o rio faz mal, provoca castigos da Mãe-d’Água”. O Médio São Francisco. Uma sociedade de pastores
guerreiros, 1983, p. 102.

199

nós somo quatro irmão, tamos juntim e vocês tudo arretirado.’
Conheci ele. Tinha morrido todos quatro.232

Embora no sonho a figura do pai não tenha ordenado a partida, entendeu a “conversa”
como um chamado e decidiu deixar as agrovilas, para ele era um imperativo reconstruir a
Barra da Cruz e ficar próximo de seus mortos.
Quando se deu a partida? Em relação a esse ponto, as entrevistas são pouco
esclarecedoras. Os entrevistados não lembram, efetivamente, quando deixaram as agrovilas.
Francelino diz que, após o retorno, visitou a sepultura do pai no cemitério de Barra da Cruz,
indicando que a localidade ainda não havia sido totalmente submersa. Será que partiu antes do
enchimento total do Lago? O fato é improvável, pois ninguém se lembra da sua presença na
região antes do acampamento no Leite. Além do mais, como frisa Camilo, o cemitério da
velha Barra da Cruz ficava num dos pontos mais altos da localidade, podendo ainda hoje ser
divisado do novo povoado. Portanto, o fato não pode ser utilizado como baliza cronológica
para a partida de Francelino de Serra do Ramalho.
As justificativas para o abandono das agrovilas são recorrentes: inadaptação, violência,
sensação de “cativeiro” e paxão provocada, principalmente, pela falta do rio, todas
relacionadas à situação interna do Projeto Especial de Colonização Serra do Ramalho. Há,
contudo, fatores externos que ajudam a esclarecer a diáspora dos arrependidos.
Depois das grandes cheias de 1979-1980, as notícias que chegavam dos “núcleos de
reassentamentos” localizados na borda do lago eram animadoras, atraindo parcela dos
arrependidos. A abundância de peixe, nos primeiros anos de inundação da Barragem de
Sobradinho, encheu os olhos dos atingidos e, sem dúvida, amenizou a penúria nos primeiros
anos na borda do Lago233. O agente pastoral Luiz Eduardo de Souza lembra que em Barra da
Cruz, por exemplo, a vida dos arrependidos das agrovilas, enquanto estavam acampados à
espera de auxílio da CHESF para a reconstrução do povoado, assentava-se unicamente na
atividade pesqueira. Embora faça ressalva ao drama vivenciado pela população atingida, ele
fala com certo entusiasmo daquele momento: “... o lago dando peixe que era uma coisa louca!
O que descia de atravessador do Piauí e de Fortaleza!. Eram caminhões de peixe e eram
peixes grandes! Com a subida do lago foi uma fertilidade, uma coisa de doido! Os homens

232
Entrevista tomada pela autora em Casa Nova, 25/1/2002.
233
“Quando a barragem foi fechada, aconteceu o “milagre dos peixes”. O lago chegou a produzir 40.000
toneladas/ano. O milagre atraiu milhares de pescadores de todo o Nordeste, além da população relocada pela
barragem, que insistiu em permanecer na borda do lago. A pesca foi farta, indisciplinada e predatória.” Roberto

200

viviam pescando e fazendo redes. Era uma fartura!”234. Aliás, a Nota do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Casa Nova, conforme vimos nas páginas iniciais deste capítulo, faz
referência ao peixe como única proteína acessível à população de Barra da Cruz.
Um pouco depois começaram a ecoar vozes dando conta da implementação do Projeto
Sobradinho235, que visava atender à população dos “núcleos de reassentamento” localizados
na borda do lago. Embora o projeto tenha sido implementado tardiamente e com dificuldades,
sem dúvida, trouxe esperanças e corroborou a perspectiva de que a vida na beira do lago não
só era viável, como era muito mais promissora que a vida nas agrovilas, atraindo a população
descontente de Serra do Ramalho.
Osmundo, por exemplo, partiu para Pau-a-Pique, muito mais pela expectativa favorável
que se criou nos “núcleos” na beira do lago, em relação à abundância da pesca, do que
propriamente pela impossibilidade de sobrevivência em Serra do Ramalho.
Embora exercesse a pesca como atividade econômica principal, Osmundo disse ter se
adaptado à agricultura de “sequeiro” praticada em Serra do Ramalho. Aliás, ele é um dos
poucos entrevistados que elogiaram as agrovilas. Para ele a terra de Serra do Ramalho era
muito boa e fértil; disse que, nos tempos chuvosos, tinham muita fartura. Havendo disposição
para o trabalho, família numerosa, crédito e abundância de chuva, a vida em Serra do
Ramalho seria farta e próspera, assinala.
As sucessivas cartas dirigidas de Pau-a-Pique revelavam que o lago não era tão
ameaçador quanto apregoavam os agentes da CHESF e que a vida ali não poderia ser inferior
à vida nas catingas das agrovilas. Osmundo retornou para realizar o sonho da mãe, qual seja,
ver toda a família reunida na borda do lago, buscando refazer a condição de beradera de vida.
Vivendo entre Pau-a-Pique e São Paulo, Heleno não reclamou das condições de vida em
Serra do Ramalho236. A todo o momento assinala que ali se deu muito bem. Sua experiência é
singular, demonstrativa da intensa mobilidade do trabalho no Brasil, verificadas nas últimas
décadas. Muito jovem, Heleno partiu para São Paulo em companhia dos irmãos. Pouco antes
de a família ser transferida, retornou a Pau-a-Pique e trabalhou numa “firma” prestadora de
serviço à CHESF, de modo que, quando partiu para as agrovilas, levou um “dinheirinho”. Em

Malvezzi, Projeto de linha: a experiência dos pescadores do Lago de Sobradinho, Caderno do Ceas, Salvador,
n.157, 1995, p. 77. A abundância de peixe resultou da decomposição de matéria orgânica dentro do lago.
234
Entrevista concedida à autora em Salvador, 1/9/2003.
235
Inicialmente, o Projeto Sobradinho foi implementado pela ELETROBRÁS, passando, em 1981, à CHESF.
Em 1982, o governo do Estado da Bahia assumiu o Projeto, passando-o à CAR Em síntese, o Projeto visava
reestruturar o processo produtivo na área da barragem. A ênfase do Projeto era o desenvolvimento da pesca e da
agricultura irrigada. Eduardo Machado, Poder e Participação política, 1987, p. 83-105.

temendo represálias dos envolvidos. aplicou sua parte num pequeno comércio. referiu-se a um “movimento” que vitimou o seu irmão237. diz que se dava demais com o executor e com as autoridades de Bom Jesus da Lapa. . André — ex-prefeito de Bom Jesus da Lapa — que foi meu padrinho de casamento. resolveu deixar o local. pois dois anos depois. na Agrovila três foi na casa de Zé Moura. como nele foram encontrados. mas. até que retornaram para as agrovilas.” Por que Heleno partiu das agrovilas e vive vagando entre São Paulo e Pau-a-Pique? Ele não respondeu a pergunta de imediato. Na vila que eu morava. não eram mesmo animadoras. pouco depois. “Eu comprei muita madeira.. casado com uma cunhada minha.. Após ser informado de que todos os envolvidos no assassinato do 236 Entrevista concedida à autora em Casa Nova. Na borda do lago. contou que o irmão foi assassinado em Serra do Ramalho e ele. vendeu às pressas todos os pertences e partiu para São Paulo. Após o retorno. devolveu o terreno e foi embora para Minas Gerais. “Na época. Quando Jonas retornou às agrovilas. Depois que a conversa fluiu. Então. a comerciar com algodão e madeira. foi nomeada mais minha família. Inclusive. Entrementes. tinha um comércio. A partir desse novo fato. juntou-se ao filho e ambos partiram com destino a Pau-a-Pique. Em relação às autoridades. as condições de vida nas agrovilas. o arrendatário. Heleno não teve dúvida. Heleno não tem queixas. 201 Serra do Ramalho. Além disso. dois corpos carbonizados. Como o pai dividisse com os filhos o dinheiro da indenização recebida da CHESF. começou a trabalhar com beneficiamento de arroz. pelo contrário. e na Agrovila sete foi na minha casa. intenso “movimento”. Jonas — o pai de Heleno — deixou a família e partiu em direção a São Paulo. na localidade havia segundo Heleno. retomou o comércio e prosperou. tinha dia que eu vendia quatro caminhões de madeira.” Por fim disse: Eu gostava das agrovilas demais. Na Agrovila cinco foi colocado na casa do meu cunhado. 24/5/2003. trabalhou como motorista na “Beta” e depois em uma firma de terraplenagem. Dei-me bem. Inicialmente. quem deu todas essas informações lá foi o Dr. eu era uma pessoa que mais representava. em razão da chegada de novos “colonos” e de peões das firmas de construção civil. arrendou o lote. quando chegou à época do telefone. “apavorado” — sem sequer colher a safra do algodão —. permaneceram um ano “se batendo”. nos primeiros anos.

O negócio é trabalhar com irrigação. recentemente. Quantos deixaram as agrovilas motivados pelo sonho de refazer sua condição de beraderos? Quantos permaneceram na borda do lago recém-criado? Quantos helenos se encontram como “filhos de marreca”? Esta expressão é bastante utilizada pelos beraderos para designar a pessoa que não tem parada238. na entrevista o fato só foi retomado muito depois. Heleno sonha com outra oportunidade. Heleno tentou se fixar uma vez mais nas agrovilas. não deixar nenhuma terrinha na raiz e jogar para que ele realmente morra. ganhar um dinheiro. Luiz Flávio Cáppio relata que. Tenho vontade de plantar cebola. Relato de João. Entrevista concedida à autora em Casa Nova. arrancar assim do chão. não tem nada. Eu gosto de roça. Na mesa do cidadão tudo que tem vem da roça. 24/5/2003. D. Heleno passa metade do ano em São Paulo e a outra metade cultivando cebola em terra arrendada nas “vazantes” de Pau-a-Pique. o terreno é bom e o cabra pode ganhar dinheiro. bispo de Barra.”239 Passados quase trinta anos da primeira diáspora. perdendo dinheiro com plantação de cebola. verdura — comida. muitos beraderos vivem a desterritorialização concretizada na vida errante e miserável em povoados e cidades sanfranciscanas. mesmo o produto industrializado vem da roça. em um 237 Embora o assassinato do irmão de Hélio tenha vindo à baila quando ele foi apresentado à entrevistadora por José da Cruz. 239 Entrevista concedida à autora em Barra. “Teve época deu mandar uma carreta e um caminhão para São Paulo de cebola e depois receber o telefonema que a cebola não tinha preço ou vendia de um real [o saco] ou jogava no rio Tietê. É bicho que só anda em rebanho”.” Atualmente. também recorreu a uma metáfora para descrever a situação dos atingidos de Sobradinho:“Foi a mesma coisa como pegar um capim. . Eu tenho vontade de trabalhar com irrigação. Luiz Flávio Cáppio. 12/7/2002. D. Anda de um canto pra outo. se inscrever. Eu tenho vontade de trabalhar em outro projeto. 202 irmão foram mortos. Com expressividade. Lugar assim aonde o INCRA chega. sacudir bem. tentando. por várias vezes. não sabe? Porque onde o INCRA se estabelece tem oportunidade da pessoa se estender. sem sucesso. 238 “Marreca não tem parada. De acompanhar o INCRA. mas não foi bem sucedido. encontrou. tomate. Assim foi feito com as populações beiradeiras ao longo do lago. em projetos de colonização do INCRA. Ainda jovem e tendo claro que não tem vez no mercado formal de trabalho.

Além de São Paulo. várias famílias que alegavam ter perdido seus meios de vida com a retirada motivada pela construção da Represa de Sobradinho. p. a diáspora dos beraderos e riberinhos parece sem fim.19) faz referência à presença de retirados das agrovilas. João Saturnino reproduziu em sua entrevista uma imagem bastante significativa do sentimento de perda e de desenraizamento provocados pela construção da barragem à população beradera. alguns deles tinham. procurando em outras paragens a sobrevivência. passado pelas agrovilas. expressa por uma moradora de uma das áreas “pára-rural” de Casa Nova: “Professor.” Detalhe de mapa em que figura o povoado de Barra da Cruz. Goiânia e Brasília são os lugares mais procurados. muitos deixaram de viver de “déu em déu” pelas barrancas do São Francisco. 203 acampamento de sem-terras localizado no município de Ibotirama. 1998. Desiludidos. às margens da Represa de Sobradinho (sem escala) . inclusive. Após a construção do Reservatório de Sobradinho. eu ainda estou caminhando e não cheguei em lugar nenhum. entre membros do MST acampados nas cercanias de Brasília. O relatório da comissão de liqüidação do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho (Relatório do INCRA.

conforme veremos a seguir. ou seja. foram criadas em virtude das pressões exercidas pelos indivíduos que retornaram de Serra do Ramalho (Berenguer.. 1984.. uma vez concretizada. conforme veremos adiante. Muitos sequer avisavam ao INCRA a desistência. Contudo. para a .O difícil regresso. a preferência das famílias por qualquer das alternativas. Os poucos moradores de ambos os povoados que permaneceram foram relocados em outros “núcleos”. Aliás. para a CHESF. os arretirados contaram com o apoio da CHESF e do INCRA. Afinal. grande parcela. De fato. E onde quer que tenham se estabelecido. p. Em decorrência da total desorganização de seus meios de vida nos anos anteriores à transferência e da penúria experienciada nas agrovilas. 11). do que à produção de cebola — ainda hoje recebe indivíduos de Serra do Ramalho. A partida das agrovilas se deu de modo completamente diferente. Eles fogem da “violência” e procuram melhores condições de vida. se encontra no “núcleo” de Barra da Cruz. localizados em Pau-a-Pique ou em Sento Sé. o apoio da CHESF. a maioria dos arrependidos abandonou o projeto. assinalam os moradores do vizinho Pau-a-Pique. Em se mantendo no regresso a proporção da partida. contando somente com a “cara e a coragem”. com certeza. para usar expressão de um entrevistado. segundo informações. Os povoados de Barra da Cruz e Intãs não foram reconstruídos. p. Nos povoados de Bem-Bom e Pau-a-Pique há referências de que muitas pessoas regressaram das agrovilas. Bem–Bom — em decorrência muito mais de suas relações com o polígono da maconha. Há informações de que as quadras situadas nas periferias das sedes dos municípios de Sento Sé e Casa Nova. Consigna Abdelmalek Sayad que nenhuma migração se assemelha a outra (2000. como já pontuado. só ocorreu mediante pressões e muitas idas e vindas. 95) ou que optaram pela propalada “solução própria”. embora reclamem das condições da partida para Serra do Ramalho e dos prejuízos relacionados à mudança. denominadas de áreas de expansão. a maioria se encontra no município de Casa Nova. devido ao “forte” fluxo comercial ali verificado. 204 2 . era geralmente considerada irrevogável. É difícil informar o número dos arrependidos das agrovilas que se encontram na borda do Lago de Sobradinho e dar a localização de cada um deles. Grande parcela ainda se encontra nos povoados.

por exemplo. Manolo. Em Pau-a- Pique. sua responsabilidade em relação às famílias relocadas cessava a partir do momento em que elas mudavam pela primeira vez. 3). A experiência do retorno e a luta para permanecer na borda do lago merecem ser acompanhadas de perto. fato que nunca se concretizou.” Viúva e vivendo em situação de penúria. se “encostou”241 na casa da família da esposa. procurando o pessoal da estatal para solicitar um lote. Ciente das alegações da CHESF de que os arretirados não tinham direito de mais nada pleitear. 241 Na acepção de Aurélio Viana. se “bateno”. Paulo vive da pesca e da fabricação artesanal de redes. 240 Entrevista concedida à autora Casa Nova. Estes se desfaziam dos bens com enormes perdas. p. com um numeroso contingente de famílias que retornou do projeto de colonização. abandonada pelo primeiro “beneficiário”. Como o lote não poderia ser vendido. A casa onde mora foi construída com recursos próprios em um terreno do sogro. o termo “encostado” designa o filho casado. com quem. 1984. Em geral. 25/5/2003. localizada em área um pouco distante do ”núcleo”.” Ele respondeu: “Vou nada. Ainda no Bem-Bom “velho”. ficou em Bem-Bom. contando unicamente com os préstimos da esposa do administrador da Fazenda de Fora. Paulo contou com o apoio do sogro240. Cremilda abandonou o lote e empreendeu o retorno. Depois da experiência. o que se deu. com a promessa de que seria ressarcida logo depois. Isso significava que qualquer nova transferência teria que se realizar às próprias custas dos que o desejassem. Paulo disse que deixou a mandioca plantada para a irmã. uma vez . Foi ele quem enviou recursos para a partida. passavam as benfeitorias por valores subestimados. Arranque a mandioca. empreendeu enorme luta para obter um “lugarzinho” na borda do futuro lago. 205 Chesf. aliás. Depois de algum tempo recebeu carta dizendo: “Venha arrancar sua mandioca se não ela vai virar jacaré. Embora sofra de epilepsia. mulher. “Ganhou uma terrinha de sequeiro”. Os mais prejudicados foram os arrependidos “afobados”. Para retornar ao Bem-Bom. pouco tempo depois de ter sido para lá transferido (Barros. “criou coragem”. irmão ou genro do proprietário ou posseiro do lote em que fixa residência. casou-se tempos depois. Os demais pertences eram vendidos a preços irrisórios ou trocadas com desvantagem. próximo a um lixão. a situação do “encostado” é considerada transitória. durante meses. A amiga enviou o dinheiro necessário para a mudança. Alguns deixavam as roças e benfeitorias aos cuidados dos parentes e nem por isso deixaram de registrar perdas.

não apenas na expropriação do lameiro. Como visto anteriormente. em função do próprio modus operandi do aparelho de Estado (1987. e. com suas limitações. há outro fato a ser considerado: na oportunidade. uma vez mais. envolvendo vários atores sociais. a mãe tuberculosa. mostra que a CHESF. com exceção de Barra da Cruz. sem estar contida nas intenções desse projeto. Meses mais tarde. do ponto de vista dos camponeses. a prática do “largar ou pegar”. sobretudo dos indivíduos oriundos de Barra da Cruz. 278). Não é por outra razão que os arrependidos estabelecidos na sede do município de Casa Nova vivem nas quadras mais distantes do centro e que tantos outros foram “agraciados” com lotes distantes da sede dos povoados ou em locais impróprios para a agricultura. deixando para trás. pois partiu para as agrovilas sem ao menos receber a indenização a que o indivíduo aguarda o acesso ao lote. valendo. p. aos arrependidos era praticamente impossível o acesso à borda do lago. Alberico frisa que sua família foi duplamente prejudicada. Faz-se necessário dizer que após a formação do lago. inclusive daqueles que haviam partido. A resistência silenciosa. a segunda. portanto. Mais detalhes: Aurélio Viana. 206 A experiência de Paulo e de tantos outros arrependidos das agrovilas. Desse modo. colocava-se em evidência. mas uma concessão. não custa salientar. Outro caso interessante é o de Alberico. os poucos casos registrados. Organização social e ação política do campesinato: o caso da “invasão” da Fazenda Anoni. acabando por atender algumas de suas demandas. o qual previa a inundação das ilhas e das terras de aluvião e portanto a liquidação da agricultura de vazante. mas nada levou. tornando-se fator importante para a permanência na beira do lago. 1989. p. ocorreram mediante compra de terceiros ou através do acionamento de relações de parentesco e ou compadrio. por exemplo. Se a primeira já vinha contida no bojo do próprio projeto de geração de energia. mas também na expropriação das possibilidades de acesso à água. em que pese a resistência em considerar como legítimas as reivindicações dos arrependidos. inclusive. as áreas localizadas próximas à sua borda tornaram-se valorizadíssimas. A respeito escreveu Lygia Sigaud: Neste trabalho se procurou demonstrar como a intervenção do Estado através da CHESF na região de Sobradinho resultou. partiu fugido e nada levou de Serra do Ramalho. dele decorreu. a mãe foi se juntar a ele. Em relação à experiência de Paulo. gerado disputas e conflitos. teve que se render às evidências. 7. . a estatal deixava claro ao “beneficiário” que o “benefício” não era um direito. Aliás.

passando a cultivá-lo. No meu pensar.” Outro caso interessante é o de Osmundo. Embora recebesse sucessivas cartas da mãe dizendo que na borda do Lago era possível viver da pesca. Reputa sua situação à falta de sorte. Eu tinha compromisso no banco. mas não tive dinheiro pra botar o motor. ficou “encostado” na casa de uma prima e logo depois foi para a casa de outro parente. decidiu pela partida. 207 que tinha direito. verificado logo depois das enchentes de 1979/80. né? Se eles deram a outro. conseguiu fazer sua própria casa sem ajuda alguma da CHESF. Após o boom da pesca. durante alguns anos. Segundo ele. Com muito custo. morria afogado. O motor eu botei foi aqui. Sobretudo por causa das maretas — ondas “gigantescas” para os padrões fluviais —. por fim. Vendeu três cabeças de gado e uma “venda”. tentando viabilizar a troca do seu lote por um outro situado mais próximo à agrovila onde morava. Somente com a quebra da safra do algodão verificada depois da grande cheia de 1979. recebendo apenas parte do valor pleiteado a título de indenização. Ao retornar a Casa Nova.” Depois de sucessivos fracassos como 242 Relato de Alberico. procurou o INCRA. Deixei tudo lá e os outro tomaram conta. à infelicidade e. mas não saía. relutava em partir. “Eu fui em Bom Jesus da Lapa e mandei fazer uma canoa. foi sustentado pelas filhas que viviam em São Paulo. Diz que nunca se "aprumou" em Casa Nova e que até hoje “está quebrando cabeça”. Mas deixei roça. “Vivia me bateno com um barco e não tirava nada para viver”. a roça também não oferecia condições de sobrevivência. Na borda do lago recém-formado. .. nem a casa eu vendi. No “núcleo”.” Como o devedor não lhe pagava. “Abandonei tudo. Não sendo atendido. mas. nunca recebeu o valor acordado.. entrou na justiça contra a CHESF. “Minha fia que pagava a conta pra mim nas vendas pra mim comê. a pesca na área de Represa tornou-se muito diferente daquela praticada antes de sua construção. desistiu e partiu com a mulher e os onze filhos em direção ao novo Pau-a-Pique em uma “C10” fretada. eles cobrassem. Desempregado e chefe de numerosa família242. começou a se preparar para a partida. Alberico se revela extremamente angustiado. O pequeno comércio foi vendido com o compromisso de que seria pago em seis dias. passando a exigir infra-estrutura e barcos maiores243. Enquanto esperava o acerto de contas. pensou na possibilidade da partida. comprou um pequeno lote. eu deixei com que pagar. Antes que fizesse a opção definitiva. conclui: “se eu pudesse voltar atrás. Osmundo disse que passou grande penúria. eu não saía. Impossibilitado de praticar a pesca dentro das novas condições. segundo ele.” Mais adiante disse que vendeu alguns pertences.

ou em Marrecas.133. Partiu “com uma mão na frente e outra atrás”. escutava o programa de rádio de D. afirma ele. Eduardo Paes Machado (op. “vendeu a terrinha” e. por exemplo) onde as classes são bem definidas. Em Pau-a-Pique. Existem áreas no Vale (Penedo. n. Francelino é outro indivíduo que retornou de Serra do Ramalho. com a ajuda das filhas. traz listagem de todos os grandes conflitos registrados na área de Sobradinho da construção da barragem até a data de sua publicação. A grilagem de terra na borda do lago recém-criado. frisa Osmundo. onde. 71. tornou-se prática disseminada. a profundidade e a vegetação submersa. é duvidoso que o conceito de “classe” seja de qualquer maneira um instrumento analítico útil. 247 O artigo. 244 Esse fato mais uma vez confirma que Francisco deve ter chegado à borda do lago pouco antes dele atingir a cota máxima. . Sem local para se “encostar”. Não fosse “a galota (calote) que o povo passa”. trabalho e organização. Desceu em Sento Sé e levou um choque com a imensidão do rio-lago. saiu das agrovilas determinado a arranchar na borda do lago. recebeu a confirmação de que as terras pertencentes ao povoado submerso tinham sido griladas pelos fazendeiros da região246. mais uma vez. vive de um pequeno comércio instalado. cit. p. 1951). Pescadores do Lago de Sobradinho: cotidiano. líderes e liderados 243 Além das maretas. p. conforme verificaram nossos pesquisadores. em Serra do Ramalho. conseguiu adquirir um barco equipado com freezer — um pouco mais adequado às condições da pesca no lago. 245 Em que medida. O propósito era ocupar a área que restara da antiga Barra da Cruz. sendo responsável pela concentração fundiária verificada na área e focos de grandes conflitos. Na localidade fretou uma canoa e partiu em direção a Pau-a-Pique244. envolvendo fazendeiros e antigos expropriados da barragem247 .50) aponta as distâncias. uma vez que o povoado de Barra da Cruz não fora reconstruído e não queria ficar em Sento Sé. Em Bom Jesus da Lapa comprou um pedaço de lona e partiu no vapor “São Salvador”. ao passo que há muitas outras onde. conforme consigna Lígia Sigaud et al (1987). com a ajuda das filhas que trabalham em São Paulo. os “propósitos” do narrador não são construções elaboradas a posteriori? 246 Francelino afirmou que já sabia da grilagem porque. estipulada pelos técnicos. sobreviveria do mercadinho com folga. reerguer o povoado e reconstituir a condição de vida beradera245. Hoje não mais pratica a pesca. maio-junho de 1991. em São Paulo (ver Pierson. como em Cruz das Almas. sem indicação de autoria. onde se encontravam vários parentes. Donald Pierson reconhece que: Há uma estrutura de classes claramente definida na maioria (mas não em todas) as comunidades brasileiras. José Rodrigues de Souza. 208 agricultor.. Caderno do Ceas.

Pelo menos essa impressão era consubstanciada pela pobreza uniforme de todas as casas. Mais detalhes: Norberto Bobbio et al. Nelo. 249 Sobre a pouca diferenciaçao social nos povoados beraderos. foram diluídas com o passar do tempo ou. amealhando área no antigo povoado de Barra da Cruz. em determinado momento. justamente. as diferenciações sociais aparecem claramente. pobreza). ainda. Em algumas comunidades. a pequena distinção entre um grupo e outro é assinalada através da qualificação “forte” ou “fraco”. O funcionário público. fazendo sentido.1. Quando existem. indicando que as disputas não deixaram marcas ou. eram considerados “criadores fortes” em comparação com a maioria dos arrependidos das agrovilas e faziam “figura de rico”.3. com distinção. Quando cheguei ao povoado de Pau-a-Pique em companhia do vereador José Eduardo. em Pau-a- Pique. . 209 pertencem a uma classe única. Possivelmente. conseqüentemente. 1972. Instigado pelos companheiros de luta. incluindo grande número de vilarejos. escreveu Tallowitz: “Em relação à posse da terra e riqueza (ou seja. o tabelião ou o juiz de paz eram vistos como pessoas de prestígio e. não parecia haver grandes diferenças entre os habitantes de Itapera. Nos povoados beraderos do São Francisco onde a terra praticamente não era titulada e os indivíduos pertenciam. No mais. criadores “fortes” e “fracos”. talvez. há fazendeiros “fortes” e “fracos”. p. os nomes de Francelino e Apolônia e foi entre as casas 248 Aqui é oportuno lembrar o conceito de grupos de status de Max Weber. se deixaram. as divisões sociais não são muito pronunciadas. A título de exemplo.. Nestes. Nas sedes municipais do vale sanfranciscano. estão assentadas na titularidade da terra e na articulação aos esquemas de poder local ou regional. em geral. 34). p. temendo desgostar o padrinho. um dos “grileiros” me indicou. A título de exemplo. todos mantêm relações de amizade ente si. fraquejou. bem como em todos os vastos Gerais e em numerosas outra áreas rurais do Vale. Assim. o líder local — Hipólito Rodrigues — representante dos Viana. 456). mas o mesmo não se pode dizer em relação aos pequenos povoados. outro arrependido250. esmaecidas em função das relações de parentesco ou compadrio. depois se mostrou um dos mais envolvidos na retomada. no período em estudo. para usar expressão da região. ao mesmo grupo de parentesco e compadrio. 172-173. 250 Consta inclusive que. comerciantes “fortes” e “fracos”. Dicionário de Política. (v. como bem assinalou Woortmann (1994). afirmar que ela se dava mais pelo prestígio248 do que pela condição econômica. a diferenciação era tênue. era escrivão. p. e pelas informações a respeito do foro e criatório” (1979. v. grosso modo. Passados mais de 25 anos da retomada. pouco se diferenciavam dos outros habitantes de Pau-a-Pique ou Barra da Cruz249. um dos “grileiros” era sobrinho de Francelino e padrinho de Nelo. os homens que se arvoraram no direito de reparar as perdas sofridas com a submersão de suas terras e as parcas indenizações. 1994.

como Camilo e Alvino. “Coberto de telha. conforme assinala. tão precária. localidade pertencente ao povoado e situada na catinga. 210 desta e do arrependido Camilo que fui apresentada a outro “grileiro” que conversava condialmente com o último. Algumas famílias estavam acampadas em barracos de lona e outras em minúsculos ranchos de barro.” Quando tiveram a percepção de que. antes de se estabelecer em Barra da Cruz. Nelo e Maria Prestiosa. pouco depois.. perambulando em barracas pela catinga ou em outras cidades na borda do lago. razão pela qual. Ele disse: “Nós pensava que a água não ia sair de lá nunca.. Quem primeiro arranchou no “Leite”? Há controvérsias e até mesmo Francelino. Voltemos à diáspora de Francelino. se mudou para Barra da Cruz. buscando na borda do lago recém-criado a garantia da sustentabilidade. A única coisa da qual tem certeza é que. foi para Sento Sé251. juntaram-se a elas outras famílias. Inicialmente. Na verdade. já se encontravam arranchados outros arrependidos. em área da antiga Barra da Cruz. com a chegada da seca. O primeiro. embora o “Leite” ficasse situado na catinga. José. Tinha um buraco. Ela tenta lembrar alguns nomes: “Era eu. a maioria dos homens dormia em redes “armadas” embaixo de árvores. um “braço” do lago recém-formado chegava bem próximo do povoado. não se recorda. se encontrava cercada. ele se dirigiu para o “Leite”. A maioria dos arrependidos chegava ao acampamento desacompanhado. que se tornou uma espécie de depositário da memória do grupo. fossem eles de lona ou de barro. Tinha um morador que fazia uma teiinha. era sufocante e precária e os acampados estavam submetidos a todo tipo de risco. que “à boca da noite era invadida pelos porcos”. . De acordo com Camilo. Ciente de que a beira do lago. a área havia sido desmatada e os lotes demarcados.” Mais tarde. cobras e escorpiões eram encontrados e mortos dentro das precárias habitações. quantas famílias se encontravam acampadas? Apolônia acredita que eram aproximadamente dez. inclusive uma ou outra que já se encontrava na área. mas dava”. o número de famílias acampadas em Barra da Cruz era pequeno. quando ali chegou. Sob os auspícios da Prefeitura Municipal de Casa Nova. Um barreiro. correndo riscos os mais variados. dava umas teiinhas fraca. a perspectiva de saída foi aventada. A vida nos barracos. João. e o segundo se instalou em Pau-a-Pique numa casa alugada. Devido ao “aperto” dos barracos. suprindo-o de água. a água iria faltar. Às vezes. onde tinha familiares. Os homens deixavam nas agrovilas mulheres e filhos. informa Apolônia. conforme chama atenção Luiz Eduardo.

A diáspora de Mateus continuou logo após a reconstrução de Barra da Cruz. para um garimpo localizado em Santa Terezinha de Goiás. um dia lá de noite reunimo o pessoal. Teve péssima impressão da localidade.. Era nosso. trabalhando como mestre de obras na reconstrução de Pau-a-Pique. Reunimo lá pra gente invadir isso aqui. conseguiu amealhar recursos suficientes para ampliar a casa que deixou em Casa Nova e montar um pequeno comércio. mostrando-se. 24/05/2003. jogou duro e nós tombém jogamo duro. Na localidade não viu também meio de vida. os arrependidos enfrentariam condições de extrema penúria. Aí. Tivemos uma sugestão. 124). para auxiliar as famílias de Barra da Cruz”. como veremos adiante. abandonou o novo “núcleo” e partiu para Casa Nova. 2002. Para ajudá-los. . Para Camilo a idéia de retomar a área pertencente a Barra da Cruz ganhou corpo depois que Mateus chegou ao povoado e observou que a presença da água no “Leite” era 251 Entrevista concedida à autora em Casa Nova. Aí troxeram a justiça. “O STR de Casa Nova deflagrou uma Campanha de Cooperação e Solidariedade junto ao outros STRs. É onde nós está trabalhano. invadimo. Ele saiu de Barra da Cruz em direção às agrovilas. Falemo: ‘daqui nós sai só os pedaço. Nós temos o direito’. e nós fraquinho. Um pouco mais tarde foi para Juazeiro. do qual até hoje tira o sustento da família. permanecendo na casa do sogro. essa parte do serrote pra cima. razão pela qual não chegou a tomar posse do lote. Nesse momento. Abrimos o arame. Certo dia. os acampados estavam na beira do fogo no seu barraco e tiveram a idéia de retomar a área da antiga Barra da Cruz.. Aí nós reunimo um dia de noite. A experiência de Mateus é das mais reveladoras do périplo de alguns arrependidos antes de empreenderem a retomada de Barra da Cruz. p. (Silva. abandonou as agrovilas e retornou à área da represa. 211 Enquanto Barra da Cruz não entrasse no circuito da pesca e esta não se efetivasse como a principal atividade econômica da região da borda do lago. Tendo o local se revelado impróprio para a agricultura. em seguida. Nesse garimpo. provavelmente em 1977. Informado do acampamento no “Leite”. eles se reuniram cheio de dinheiro. eles foram pra justiça. morava em uma casa alugada. partindo. Aí. resolveu também participar. Dois meses depois. Contaram também com a ajuda da Diocese e da Prefeitura Municipal. tudo mundo sem condições de mexer. retornando ao Pau-a-Pique em seguida. Quando a justiça chegou. uma das mais importantes lideranças. aí nós saltamos o arame. lembrou Apolônia.

evidenciando tensões e disputas na borda do lago recém-criado.. Quem avadiro foi vocês. mas que tinham o intuito de voltar para seu local de origem. Dê no que der. Em grupo.. Nós não avadimo. Discernir os grupos de apoio e as redes de solidariedade de cada um dos atores envolvidos no conflito não parece muito difícil. Nós daqui não sai. com todas as demarches.. cortemo o arame e logo assim desmatamo umas três tarefa de terra. o bispo D. nós daqui nós não sai. seu sogro. romperam a cerca e começaram a desmatar a área. jogaro duro.” Segundo Mateus.. Informados de que “suas” terras foram invadidas. Não tem nada com cadeia. os "grileiros". utilizaram de todos os meios para persuadir os “invasores” a recuar. José . digamos assim.” Depois da observação. reunidos em volta da trempe no barraco de Apolônia. todos os acampados do “Leite” se deslocaram para a área desmatada. Ele instalou sua pequena barraca de lona preta debaixo de um pé de juazeiro. Porque isso era nosso e vocês avadiro. É mais uma vez Apolônia quem narrou os fatos: “Eles chegaro. A invasão que os arrependidos fizeram à área grilada pelos fazendeiros de Pau−a−Pique ocorreu numa manhã.. cheguemo lá. Em questão de dias chegaram novos chefes de famílias. apoiados pelos funcionários da CHESF. Aí prometero. o modo de vida anteriormente dominante. A “invasão” da área e a instalação do acampamento geraram conflito entre os expropriados “fracos” e “fortes”. antes do sair do sol. Foi uma farra. afinal a posse da terra na borda do rio-lago era o único modo de viabilizarem. os acampados. vocês vão matar o filho de vocês de sede. buscando apoios e solidariedades. 212 temporária. fizero medo de cadeia. os arranchados não se deixaram intimidar e responderam às ameaças com firmeza. Matias lembra a experiência: “Foi uma frota de home. de imediato. Em seguida.” Já experimentados em suas andanças pelas agrovilas. Começava a construção da Nova Barra da Cruz.. Matemo bem uns seis cascavel enrolado nos troncos da catinga de porco. nem que morra. alguns que não partiram. Mateus teria dito: “Rapaz. tomaram a decisão de enfrentar os “grileiros” para retomar as terras do antigo povoado e reconstruir Barra da Cruz. o primeiro a arranchar na borda do lago foi Minervino. o apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e da Igreja Católica. inclusive. nós tamos trabalhano no que é nosso e daqui nós não sai. Relatou Apolônia: “Nós só sai daqui aos pedaço. Nossa cadeia.” Ambos os lados se mobilizaram. Na memória dos entrevistados. Consta que os acampados receberam. Segundo Camilo.

bem como de relembrar o esbulho a que foram submetidos pelas principais lideranças políticas do município. D. ele não só era a autoridade máxima do município. consta que os funcionários da CHESF. 8. Em depoimento à CPI das Enchentes na Câmara Federal. mas diante da determinação dos arrependidos. Adolfo Viana acenou com apoio aos grileiros. . pois já está loteado e cercado. 254 O papel desempenhado pela correligionária de Adolfo Viana no processo de distribuição de lotes em Barra da Cruz veio à tona na entrevista de Luiz Eduardo de Souza. 213 Rodrigues de Souza esteve pessoalmente em Barra da Cruz. bem como das melhorias prometidas. levou ao descontentamento dos acampados. afinal. na medida em que se colocou como mediador das demandas dos acampados junto à CHESF. gerando reclamações dos indivíduos que se sentiam prejudicados. Adolfo Viana se mostrou bastante hábil. 252 A passagem desse funcionário por Pau-a-Pique tornou-se de triste memória. colocando sua correligionária de pré nome Marieta253 como a distribuidora dos lotes. num primeiro momento. 1981. como o representante incontestável de sua principal força política.” D. rezando missa embaixo de um pé de juazeiro. capitalizando o conflito. Petrópolis. José Rodrigues de Souza. Em carta dirigida ao bispo. mas o agente pastoral não se recordava do seu nome. o grande mediador do conflito foi o prefeito Adolfo Viana. 253 Depois que o nome da professora Marieta veio à baila. procurei contatá-la. buscou a acomodação dos interesses em disputa. contudo não lembram exatamente em que ano isso teria ocorrido. O silêncio em relação ao fato talvez se explique em razão da disposição de não trazer à tona disputas e conflitos vividos pelos arrempendidos no passado. sendo informada de que já havia falecido. Fazendo jus ao papel de chefe carismático. Depoimento na CPI das Enchentes do Rio São Francisco. Interessante é que nenhum dos entrevistados fez menção ao papel desempenhado pela Marieta. Os métodos arbitrários utilizados pela professora Marieta em relação à distribuição dos lotes criaram um clima de disputas e conflitos entre os acampados. Na percepção de alguns entrevistados. Ele complementa: “Essa mulher tinha um papel importante”254. De outro lado. tomaram partido em favor dos grileiros e utilizaram de vários meios para que voltassem ao acampamento do “Leite”. Contudo. o chefe político tomou as rédeas do processo de assentamento. diga-se de passagem — e aos grileiros prometeu a indenização de suas “benfeitorias”. vozes. Aos antigos usuários da área em litígio assentiu o assentamento na borda do lago — em área muito menor que a pleiteada. Após a celebração do acordo. A lentidão no processo de assentamento e da construção das casas. o seu apoio foi reivindicado por ambos os lados. recorda Luiz Eduardo. lotados em Casa Nova — Francelino fez referência especialmente a um tal de Marcos252 —. José Rodrigues de Souza atribui-lhe o seguinte diálogo com o desalojado de nome Ezequiel: “Você não receberá lote: o seu lote é o cemitério. Aliás. p.

como salientado mais anteriormente. 107). A presença do agente pastoral em Barra da Cruz não foi bem recebida pelas elites locais e abriu mais uma frente de disputa entre o bispo e o prefeito “biônico” Adolfo Viana. O bispo atendeu prontamente à solicitação do missivista. além de representar a Comissão Pastoral da Terra em Barra da Cruz. A partir deste fato. 255 O caso da Agroindústria Camaragibe se tornou bastante conhecido da imprensa. O auxílio da advogada não se consumou. Angélica Carneiro. O apoio da Diocese aos acampados de Barra da Cruz se traduziu em várias frentes. a família Viana manda em Casa Nova durante cem anos e nós vamos acabar com a família Viana em Casa Nova.” Entrevista concedida à autora em Juazeiro. Em entrevista. o bispo disse que. 28/7/2003.” (Silva. . entretanto. a disputa entre o bispo e os Viana ganhou enorme proporção. Nós lutamos por uma área para contruir as casas e ganhamos da CHESF. Segue na íntegra a carta de Mateus: Don José Rodrigue Venho pedir em nome de aproximadamente 60 famílias no qual segue este levantamento que nos fizemos de 31 famílias. E nós estamos aqui no Serrote debaixo de lonas. Até potógro [topógrafo] que prometeram pra lotear a área não dão mais. com grande dificulidade. e debaixo de pé pau passando fome e necessidade. o grupo Camaragibe. Governador. destacando-se na memória dos arrependidos. p. enorme área no povoado de Riacho Grande. durante a primeira visita do Papa ao Brasil (1980). representava o Pólo Sindical — Sindicatos de Trabalhadores Rurais de Juazeiro. para o acompanhamento do caso e a presença no local do agente pastoral Edu — Luiz Eduardo de Souza. em conluio com membros da família Viana. 2002. a disponibilização de uma advogada. como declinou sua profissão. Marina (conversa mantida em Salvador em 2/9/2003) confirmou os dados e não só deu o nome da envolvida. Com recursos do Pró-Álcool. cujo auge se deu durante o famigerado caso da “Agroindústria Camarajibe”255. Luiz Eduardo. Sento Sé e Remanso —. O prefeito pagou a nos para desmatar a área e uma estrada para o local. Acionada. Casa Nova. 214 Mateus descreve a situação em que viviam as famílias acampadas em Barra da Cruz e os impasses criados pela prefeitura. tinha o intuito de instalar no município de Casa Nova projeto de extração de álcool. esteve com o governador Antônio Carlos Magalhães e lhe disse com todas as letras: “Sr. Dra. assumiu a tarefa de fazer a mediação com a CHESF. que segue junto com esta carta. colocando-se como uma espécie de animador do movimento dos acampados. Consta que o principal chefe político de Casa Nova lançou mão de vários meios para afastar a Igreja de Barra da Cruz. e disseram agora não pode fazer mais nada. uma vez que o prefeito Adolfo Viana. sediado no Rio de Janeiro. grilando.

problema de telhado.. botei no carro próximo a um pé de pau.. Entrei. Ela era uma referência do poder local (. ao mesmo tempo. Era um verdadeiro juiz. reforçando o que ela tinha feito. para vir aqui para encaminhar. o prefeito. pessoal. E assim foi. Dr. O sentido da reunião era encaminhar os problemas. com riqueza de detalhes. encaminhando. Adolfo Viana. Tinha uma mulher em Pau-a- Pique que era justamente a representante do poder local dos Viana. parece que nós marcamos reuniões ao mesmo tempo. desapareceu. que fazia um jogo com esse pessoal na concessão de lotes. Quando eu olho dentro da sala da casa onde seria a reunião. 215 Luiz Eduardo contou. E o pessoal naquele silêncio. E aí começou a tal da reunião. na sala à luz de um lampião.’ Aí a coisa mais impressionante. a pessoa falava e ele tinha que encaminhar. quais os problemas que tinham. Todo mundo parado.’ Eu estava com a reunião marcada para noite de um dia da vida qualquer. para desmoralizar o trabalho da gente. Ele fazia o acerto.. ele tinha que resolver. o montante. A voz da comunidade sumiu. peguei uma lâmpada. qual era o valor. Nesse mesmo dia. Na hora e acertava. Ele assume a reunião como prefeito da cidade e aí eu fiquei assim só olhando. pelo amor de Deus! Cadê o povo que disse que tinha problema de lote? de casa? Tem que falar. Dr. ‘Nós vamos chamar essa mulher para ela vir aqui. resolvendo problemas que ela tinha criado. já que ela quem está respondendo. Inclusive. Lembro-me que certa vez marcamos uma reunião. a chuva chegando e eles com as casas descobertas.. Adolfo estava lá. Eu entrei com problemas lá de casa.’ Então. um fato marcante registrado no povoado. Ele chamava a mulher e junto.) Tinha gente que tinha recebido um lote. sugiro que a gente vá lá pra fora porque aqui dentro não vai dar. Dr. Não era dinheiro da prefeitura. O povo está todo lá fora. enquanto retornava a Pau-a-Pique asseclas do prefeito tentaram interceptar o veículo do agente pastoral. Vamos dizer que tinha gente que tinha perdido a plantação porque ela tinha cedido o lote para um outro. só para mostrar. A tal da mulher estava lá. com problemas de lotes porque a CHESF não dava os lotes. a comunidade estava num silêncio danado. ‘Boa noite. assentindo suas prerrogativas e decisões praticamente sem questionamentos. Quando eu cheguei lá. Este fato dá a verdadeira dimensão da forma como atuava o chefe político de Casa Nova e como sua clientela política se mostrava paralisada em sua presença. fato que se repetiu em outra ocasião. não é? Como é que a gente vai fazer? Então. aí chegou um outro e essa mulher tinha dado para um outro. tudo bem? Então. Eu olhei para ver se tinha morrido gente. . mas. assumindo que era com o dinheiro dele. Eu falei: ‘Gente. Eu olhei: ‘O que é que está acontecendo?’ Uma pessoa falou: ‘Ele está esperando você’. Adolfo.

Edu. mas que o acordo com o prefeito não pode ser desrespeitado e a presença do agente pastoral na comunidade. Você e toda turma a Diocese.257 Vemos através do bilhete que o papel desempenhado pelo agente pastoral é reconhecido como meritório. as pressões do prefeito Adolfo Viana sobre a população das áreas onde ainda se registravam disputas e conflitos (por exemplo. verbalizando suas principais reivindicações e queixas. naquele momento. Secularmente. 216 Em 1981. Logo após Doutor Adolfo e o Coló esteve. e só romperam o silêncio. nos nem sabemos o que escrever. Queridos amigos Edu! Bom dia! Escrevo-lhe estas poucas linhas mandando-lhe agradecer por tudo que você fez por nós. mediante instigações do agente pastoral. Ademais. e se eles não der nós estamos agora agradecemos 1º a Deus do ceu e 2º a vocês. cedendo às pressões dos potentados locais. 257 A carta foi assinada com o nome completo da destinatária e datada em Barra da Cruz. já bastante desgastadas em relação aos seus clientes e antigos correligionários. Expressão clara disto é a carta enviada a Luiz Eduardo por Apolônia. Caros amigos. A experiência de enfrentamento diante do Estado e de seus propostos vivenciada por muitos deles em Serra do Ramalho não se revelou suficiente o bastante para romper com anos de submissão aos ditames das elites políticas de Casa Nova. Mil vezes obrigado. a CPT resolveu fazer um documentário256 denunciando os problemas criados pela Barragem de Sobradinho e evidenciando também a grilagem de terra na área. 1981. 29/8/1981. Se eles der tudo bem. Tudo indica que após as filmagens. a principal liderança da Nova Barra da Cruz. vocês vir pos está tudo como nós queria. ao reconhecer legitimidade às reivindicações dos 256 Dá pra entender? Documentário produzido pelo Setor de Comunicação Social da Arquidiocese do Rio de Janeiro sob patrocínio da CPT. Não é por outra razão que se intimidaram diante do chefe político Adolfo Viana na reunião narrada pouco acima por Luiz Eduardo de Souza. a população de Barra da Cruz sentiu-se acuada. Fiquemos muito satisfeito por você ter vindo aqui. A desenvoltura da CPT na região incomodava as elites locais. Nós Qui estamos orando por vocês nos achamos que só nossas orações está lhe alimentando. . Aqui fica nossos agradecimos. não precisa. Vamos terminar pois alegria Qui para nós é demais. aqui e conversamos muito ele disse que vai mandar cubrir todas as casas e também construir o grupo escolar. Barra da Cruz e Riacho Grande) se tornaram mais intensas. Obrigado Edu. aguarde porque eles prometeram mais ninguem sabe se vão dar. presas às relações clientelísticas e temendo represálias. se constituía em ameaça à realização das promessas.

visando à abertura de novas negociações e a obtenção dos pequenos ganhos políticos prometidos. nem sei como ele fez isso. Ele tinha que despistar porque na comunidade havia um temor. Vejamos: “Nós não fomos ouvidos. um estava vigiando o outro. Havia todo um processo de dominação. Luiz Eduardo resolveu não mais atuar em Barra da Cruz. nenhum dos entrevistados fez menção à carta enviada ao agente pastoral. 71. Ele o chamou para dentro da catinga e entregou-lhe a carta cercada de cuidados. não! Pelo contrário. reata antigas relações de reciprocidades com seus liderados.’ E deixamos o 258 Em entrevista concedida a Freitas. foi interceptado por um membro da comunidade. de combatermos a barragem no tempo de Geisel que se dizia que ‘já tinha abertura’. Guardemos as palavras de Apolônia: “Edu. nós fomos proibidos de falar. Será que a iniciativa da entrega dessa correspondência foi um ato unilateral de Apolônia ou partiu do conjunto dos acampados? Não temos informação260. 217 arrependidos. e estes. Num certo dia de 1981. Experiências e memórias dos colonos do perímetro irrigado de Morada Nova – CE”.. Era proibido. busquei contato com Apolônia.” A partir do momento em que recebeu a carta. embora reconhecendo o papel do agente pastoral. eu entendi tudo. se o contrato for novamente rompido.. sendo informada de que ela se encontrava em tratamento de saúde em local ignorado. O que sabemos. o tradicional chefe político Adolfo Viana.” Tradição camponesa e modernização. Não. poderão buscar a aliança que acabam de recusar. desgastado em todo processo de transferência em decorrência do seu silêncio258. 2003. Era para não criar animosidade. aguarde porque eles prometeram mais ninguém sabe se vão dar”. não custa lembrar. ao menos temporariamente. mas cobrar direitos considerados legítimos. Prova cabal de que a memória é. Reconhecidos os direitos. é que a pressão sobre a comunidade se revelara tão intensa que sua presença deveria ser evitada na comunidade. Ele diz: “Eu li a carta e disse: ‘Meu amigo. Tanto que nós não podíamos nos pronunciar sobre a barragem. era proibido nós nos manifestarmos. O bilhete revela também que a resistência camponesa cotidiana tem limites. Da mesma forma que “esqueceram” a atuação da professora Maria no processo de reassentamento em Barra da Cruz. recuam. Animosidade já existia. No caso em questão. 260 Depois da entrevista do agente pastoral Luiz Eduardo de Souza. Luiz Eduardo não se recorda de quem teria sido o emissário da carta. Infere-se que. Luiz Eduardo conta: “Era um temor! Ele disse que tinha vindo com a havaiana virada para que seu rastro não fosse reconhecido. por informação do próprio Luiz Eduardo. Diziam que no tempo do Médice (sic) quando houve mais rigidez. o chefe político justifica o silêncio em razão da imposição da ditadura militar. quando se dirigia para mais uma reunião no povoado. os arrependidos não tencionavam desafiar o poder de mando do antigo chefe político. p. não podem deixar de prestar-lhe solidariedade. .” 259 Ana Braga diria de outro modo: “É o presente filtrando o que deve ser lembrado. seletiva e sempre filtrada em razão de aspectos do presente259.

tem percepção ainda mais aguda. onde cortou ali naquele serrote e essa área ficava aberta pra o pessoal morar. Aí o pessoal mandaro duas mulheres. 218 trabalho para não atrapalhar o processo. tanto é. Mateus chamou a atenção para outro aspecto importante. que indenizava e combinou com eles que indenizava essa parte. Nesse caso não custa lembrar que. Depois de uma carta dessa. O apoio repentino do prefeito à reconstrução de Barra da Cruz deu-se pelo temor de perder ainda mais a clientela e para refazer antigos laços de solidariedade e proteção rompidos durante o processo de retirada. entre os grileiros e os acampados. Elas fizeram um levantamento das famílias que estava lá. para a maioria dos entrevistados. Ainda na percepção de Mateus. a oligarquia Viana só foi derrotada em Casa Nova. né?” . nas constantes viagens que fez a Sobradinho para reivindicar junto à CHESF projeto de reassentamento. Aí nós vem lutando até hoje. sob os auspícios do prefeito. José Rodrigues de Souza do caso e de obter dividendos políticos. foi bastante prejudicial aos últimos. eles tomaro a frente e não deixaro D. Fui atendido. a reconstrução de Barra da Cruz só foi possível porque contaram com o apoio e a mediação do prefeito Adolfo Viana. em 1992. bem atendido pelo pessoal. E aí. Anotou mais alguém que tava pra vim. recebendo em troca uma nesga de terra situada entre dois “serrotes”. Mateus. José Rodrigues. nós não temos nada para fazer lá. Foi aí que nós saímos de lá do lugar onde estava desmatano e mudemo pra o lado de baixo. Eu fui pra lá. eu falei para a CPT: “Nesse momento. eles têm clara a percepção de que o apoio do prefeito foi motivado pelo interesse de afastar o bispo D. a acomodação patrocinada. sentiu disposição da estatal em atendê-los. que estes ficaram no “Leite” durante vários meses sem que a CHESF fosse acionada para resolver a situação. Ele disse que. o Dr. José Rodrigues fazer. uma das principais lideranças do movimento de reconstrução de Barra da Cruz. apesar da cerrada oposição da Igreja Católica. completamente imprópria para a agricultura. uma vez que estes deixaram o local que haviam desmatado inicialmente. com a eleição de Orlando Xavier. Ele disse: “Eu estava arranjando as coisas diretamente da CHESF. Vejamos narrativa de Apolônia: A turma de Casa Nova foi político com D. Contudo. O que ele queria fazer. o prefeito Adolfo Viana nunca esteve ao lado dos arrachados. recorda. Para ele. Adolfo chegou e disse que não.” Passados mais de vinte anos.

219

A partir do momento em que a prefeitura se imiscuiu nas conversações, colocando-se
como mediadora e defensora dos acampados, a estatal se afastou do caso, deixando aos
cuidados da prefeitura a reconstrução do povoado, fato, aliás, bastante reprovado por Mateus.
Em que medida a reprovação não se coloca numa perspectiva a posteriori? Dito de outro
modo, como compreender que a CHESF tão desgastada em todo processo de “limpeza da área
da barragem” tenha em tão pouco tempo se reabilitado, digamos assim, aos olhos dos
deslocados? A disposição da CHESF em atender aos arranchados de Barra da Cruz, pelo
menos na percepção de Mateus, sinalizava talvez que os ventos da abertura democrática
chegavam à estatal, como também podia sinalizar que ela havia apreendido o sentido da
resistência surda dos atingidos, buscando, de certo modo, uma contemporização das suas
demandas e reivindicações. De qualquer modo, a cooptação dos arrependidos e o afastamento
da Igreja levaram à desmobilização e, segundo ele, a Nova Barra da Cruz foi reconstruída
lentamente e em condições bastante desfavoráveis, fatores que inviabilizaram a vida no
“núcleo”, levando parcela dos arrependidos a se deslocarem para outros lugares. O descaso
dos dirigentes públicos em relação à população beradera era (e é) tão pronunciado que o
povoado de Barra da Cruz só receberia energia elétrica em meados de 1984.

3 - O consolo é o “rio”...

A Nova Barra da Cruz consiste em um pequeno “núcleo” com duas linhas de
aproximadamente 90 casas. Uma linha de casas se encontra voltada para o lago e a outra para
a estrada de chão que dá acesso ao povoado. As pequenas casas se assemelham às das
agrovilas de Serra do Ramalho; quase todas possuem três cômodos e uma “puxada”.

O “núcleo” urbano ocupa área de quatrocentos metros de frente por mil de fundo, e,
além das casas, existe uma Igreja, voltada para o lago, uma escola, um bar e um mercadinho.
As casas foram construídas muito lentamente, fato que, como vimos, gerou reclamações e
negociações envolvendo a comunidade e a prefeitura. A demora na construção das casas se
deu, conforme salientaram os entrevistados, porque a prefeitura se comprometeu a bancar
somente os blocos, cabendo aos acampados a compra do madeiramento, das telhas e as
despesas com a mão-de-obra. Como a maioria não tinha condições de arcar com estas
despesas, faziam as casas por etapas, na medida de suas possibilidades. Acresce também que
o administrador da obra, nomeado pelo prefeito Adolfo Viana, muitas vezes não cumpria sua

220

parte, fato, aliás, que motiva a suspeita de que este teria se locupletado, desviando os recursos
dirigidos para a edificação das habitações, razão pela qual se explica a precariedade das
construções e a demora de sua construção.

Figura 9 - Vista do povoado (foto: Luciene Aguiar)

Linha de casas localizadas em frente ao lago de Sobradinho, em Barra da Cruz.

Figura 10 - Capelinha de Barra da Cruz (foto: Luciene Aguiar)

Depois da negociação aludida na carta de Apolônia dirigida ao agente pastoral, a
prefeitura arcou com as despesas do madeiramento e cobertura das casas e o “núcleo”

221

adquiriu as feições, digamos assim, atuais. Mas ainda hoje encontram-se no povoado muitas
casas feitas com madeira de carnaúba, considerada inadequada e de qualidade inferior pelos
seus habitantes. Quando da divisão da área, coube a cada família acampada
(aproximadamente 80) um lote de apenas 25 metros de testada para o lago. O lote é
extremamente exíguo e insuficiente para a subsistência de sua população. Daí, como chama
atenção Lygia Sigaud et al, verificar-se entre os jovens em idade de constituir família em
Barra da Cruz, indignação diante da impossibilidade de se instalarem na borda, porque todas
as terras já estavam tomadas, o que os obrigava a viver apenas da pesca” (1987, p. 240).
Todos os moradores de Barra da Cruz entrevistados desconhecem a metragem total da
área. Impossibilitados de praticar a agricultura irrigada, os habitantes da borda do lago
desprezam a área da catinga. Em geral, esta sequer é medida. Assim, o limite do lote pode ser
a roça de um catingueiro ou seu pequeno criatório. Existem, atualmente, em Barra da Cruz
três projetos de fruticultura irrigada, além do cultivo de cebola; a área de catinga está
praticamente toda ocupada.
A Nova Barra da Cruz é o mais pobre dentre os “núcleos” que se localizam às margens
do lago e boa parcela dos arrependidos já não se encontram no local. Partiram em busca de
melhores condições de vida.
Os habitantes idosos de Barra da Cruz vivem da aposentadoria rural e os poucos
jovens que permanecem no povoado vendem a força de trabalho nos três projetos de cultivo
irrigado situados próximos dali. Em razão da depleção261, a prática agrícola é restrita e a feira
inexistente. Os moradores do pequeno “núcleo” se abastecem em Pau-a-Pique, distante dali
mais de 15 quilômetros de estrada de chão.
Embora o município de Casa Nova desponte como o maior produtor de caprinos do
estado da Bahia, em Barra da Cruz, diferentemente dos demais povoados do município, a
criação se resume a umas poucas cabeças. É sinal de que o antigo fundo de reserva camponês
(Garcia Jr., 1983), após as sucessivas expropriações, foi praticamente dizimado da paisagem
do povoado, sem contar que a exigüidade dos lotes não favorece a criação de animais,
tradicionalmente, criados à solta.
Os lotes, como referido acima, estão localizados num “areão”, impróprio para a
agricultura de subsistência.

261
Termo utilizado pelos técnicos para denominar a área do lago incluída na cota que, periodicamente, fica
descoberta. O beradero continua a denominar o fenômeno de vazante.

222

Nas condições atuais, a agricultura de vazante é profundamente
precária, uma vez que a antiga periodicidade desta é agora
condicionada às demandas energéticas. Por outro lado, a vazante atual
não deixa descobertos solos tão férteis como os deixados pelo rio.
(Machado, 1987, p. 74)

Nos primeiros cinco anos de formação do povoado, assinalou Mateus, a situação ainda era
mais precária, pois inexistia a “vazante” hoje verificada. Paulo Sandroni (1982, p. 70) e Ligia
Sigaud (1987) chamaram a atenção para a não diferenciação entre o lote de sequeiro e aquele
com testada para o lago. A propósito assinala a antropóloga:

O “lote de borda”, apesar de possuir uma testada para o lago, continua
ocupando um solo de caatinga, e nele não se forma lameiro. Isso
porque não basta estar junto à água, o que no passado assegurava a
renovação permanente da terra, provocada pela lama trazida pelo rio
em suas enchentes anuais, processo esse que o lago não reproduz.
Como estão situadas acima da cota máxima de segurança de
reservatório (392,5 metros), os “lotes de borda” nunca são cobertos
pela água, salvo em enchentes excepcionais, quando o nível do lago
escapa do controle da administração da barragem. (Sigaud, 1987, p.
234).

Tal situação vem se revertendo nos últimos anos, como reconhece a própria Lygia
Sigaud em outro artigo:

Embora em nada se assemelhem aos lameiros [grifo do original] do
passado, pois não são fertilizados pelo húmus e nem descobertos com
a mesma regularidade (já que a vazante não depende dos movimentos
naturais do rio), tais terrenos são valorizados em função da sua
umidade e porque representam de fato uma ampliação do estoque de
terras disponíveis para além do lote. (1992, p. 26).

Por isso, os habitantes de Barra da Cruz cultivam a cebola e, às vezes, retiram do exíguo lote
“boas safras”
A abundância de peixe dos primeiros anos da formação do lago é coisa do passado. “O
milagre foi ilusório. A sobrepesca, a pesca predatória, as mudanças no ecossistema
rapidamente fizeram baixar a produção, atingindo seu nível mais baixo em 1987, com apenas
3.500 toneladas.” (Malvezzi et al., 1995, p. 73). Nas condições atuais, a pesca no lago requer
infra-estrutura inacessível aos indivíduos que por tantos anos sofreram expropriações
sucessivas. O projeto Sobradinho, que, de certo modo, teria motivado a vinda de uma parcela
dos arrependidos, foi mais uma promessa não cumprida.

223

Em suma, a Represa de Sobradinho

desarticulou ecossistemas que eram responsáveis pelo equilíbrio de
todo o vale. As enchentes, que antes eram anunciadoras de fertilidade,
sendo recebidas com alegria pelos ribeirinhos, hoje são vistas como
calamidades. Suas proporções, época das ocorrências e duração são
sempre imprevisíveis. Além disso, não depositam mais o húmus
renovador da fertilidade e sim uma areia que empobrece
progressivamente o solo. (Machado, 1987, p. 49).

Até o acesso à água tornou-se problemático, uma vez que os projetos de agricultura
irrigada descarregam no lago grande volume de efluentes com agrotóxico e como este não
apresenta vazão suficiente para “limpar” a água, fica acumulado, tornando-a imprestável para
o consumo humano262. Não é por outra razão que os habitantes de Barra da Cruz dizem que a
vida beradera depois da barragem é praticamente impossível, sinalizando uma ponta de
frustração em relação ao retorno, confessando que a única coisa a dar-lhes alento e consolo,
no pequeno “núcleo”, é a proximidade do rio-lago. Independentemente das motivações, essa
percepção confirma as sábias palavras de Abdelmalek Sayad, quando escreveu:

Em verdade, a nostalgia não é o mal do retorno, pois, uma vez
realizado, descobre-se que ele não é a solução: não existe
verdadeiramente retorno (ao idêntico). Se de um lado, pode-se sempre
voltar ao ponto de partida, o espaço se presta bem a esse ir e vir, de
outro lado, não se pode voltar ao tempo da partida, tornar-se
novamente aquele que se era nesse momento, nem reencontrar na
mesma situação, os lugares e os homens que se deixou, tal qual se os
deixou (Sayad, 2000, p. 12).

Ainda que reconheçam as dificuldades, no que tange à reprodução da condição
beradera de vida, todos os arrependidos afirmam que a vida na borda do lago de Sobradinho
é superior à vida “cativa” dos colonos nas catingas das agrovilas263.

262
O problema parece mais pronunciado no “núcleo” de Bem-Bom, uma vez que ali, a cebola é cultivada em
moldes mais “desenvolvidos’ e com a utilização de técnicas mais “avançadas. A proprietária da pensão em que
estive hospedada no “núcleo” confessou-me que todos os dias manda buscar em Remanso, mediante pagamento,
a água para consumo da família e da clientela, tal o nível de contaminação da água da borda do lago na
localidade.
263
Vejamos: “P - Por que o pessoal volta?
Flávio (Pau-a-Pique, Casa Nova) – É que lá tudo é difícil. [...] ele volta para aqui porque aqui, com toda
ruindade, ainda é melhor que lá . Porque aqui tem água boa, tem o peixe. Lá das agrovilas para ir pro rio e mais
ou menos uns 18 quilômetros.” Rubem Siqueira, O que as águas não cobriram, 1992, p. 279.

mas alcançou a positividade política da co-determinação do seu destino. convém lembrar as palavras de Ruben de Siqueira: Em Sobradinho. é quem começa. Aqui o que dá vida é o rio. mas não a precedência histórica. se quiser ter um peixe pra matar a fome. tem que andar não sei quantos quilômetros. 41) . a permanência na beira do rio-lago confirma a assertiva. é bem aí. Para usar uma metáfora — tão ao gosto das comunidades ditas tradicionais —. se quiser pegar uma piaba de peixe. mas o Estado não ganhou de goleada como querem nos fazer acreditar as perspectivas pessimistas. como também a recusa às imposições do Estado “demiurgo” e autoritário. Pega a conta de comer.”264 A valorização da permanência junto ao rio-lago denota não só importância da reprodução da condição de vida beradera. em amplo sentido. sinalizando ainda mais: no confronto entre camponeses e o Estado (através da CHESF) vigorou em amplo sentido a falsa acomodação e a resistência silenciosa. Nesse sentido. mormente dos arrependidos que retornaram à região do lago de Sobradinho. 264 Apolônia. o agir do Estado tem a antecedência cronológica. mas não quem tem a determinação exclusiva do real acontecido e vivido. O modo como os camponeses reagiram não foi um mero “sofrer”. 224 Pelo menos aqui na hora da precisão. E lá [nas agrovilas]. Entrevista conceidida à autora em Casa Nova. o jogo entre os dois contendores não terminou em empate. Não obstante todo autoritarismo do Estado militarista. 1992. 24/05/2003. a força da memória camponesa suscitada e transformada pelos fatos e o poder de suas estruturas sócio-culturais específicas atuaram como base de sentimentos morais. que motivaram atitudes caracterizadas por relativa autonomia (Siqueira. Em que pese todas as vicissitudes. p. . isto é.

visando a relocação do grande contingente populacional que seria deslocado. Remanso e Casa Nova. Foreiros. p. Além de deslocar 70 mil pessoas. pela dependência harmoniosa e simbiótica entre o homem e o Rio São Francisco. meeiros e arrendatários. A estatal. certamente. Portanto. Seus efeitos foram muito perversos para a população deslocada da área submersa. marcada. b) relocação de uma pequena parcela de famílias na borda do futuro lago. lançou mão de um ambicioso plano que compreenderia: a) reconstrução das sedes municipais submersas. desde o primeiro contato com a “Dona CHESF”. para alimentar a Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso. a grande obra desorganizou e destruiu a condição de vida beradera. 225 CONSIDERAÇÕES FINAIS Isso tudo se passou conosco. tiveram suas vidas subvertidas nos novos espaços para os quais foram empurrados. (Memória Asteca da Conquista – Portilla Leon. Nas margens do Velho Chico. foram tantas as tristezas e tantas as “disinsortes” sofridas e percebidas pelos atingidos. submergindo inúmeros povoados e quatro sedes municipais: Pilão Arcado. Sento Sé. todos vivendo relações de sociabilidades muito próxima àquela que Thompson denomina de economia moral. Afinal. as palavras da epígrafe dita há aproximadamente quinhentos anos. o enlace entre cultura e natureza marcava uma das condições de vida do beradero. atendendo aos ditames da expansão capitalista. a Represa de Sobradinho (“o maior largo artificial do mundo”) se constituiu em uma das tantas obras de caráter desenvolvimentista levadas a cabo pelos governos militares na perspectiva do que se chamava à época “Brasil Grande Potência”. Nós vimos. 41) Construída. posseiros. por um estupefato indígena Mexica ou Maia bem que poderiam ter sido proferida por uma dos tantos beraderos expulsos pela Represa de Sobradinho. como visto nos capítulos precedentes. inicialmente. agregados. c) transferência e relocação de aproximadamente quatro mil . Elas poderiam ter saído da boca do melancólico e angustiado Alberico ou da apaxonada Apolônia. estamos estupefatos: com essa triste e lamentosa sorte nos vimos angustiados. 1985. em convênio com o INCRA.

seguindo à risca as leis agrárias. Apesar de utilizar métodos que combinavam as promessas. Essa última opção foi denominada de “solução própria”. Na verdade. A CHESF e o INCRA alegavam que por questões técnicas: problemas de segurança. Ademais. José Rodrigues de Souza. de modo a forçar os beraderos a optarem pelo Projeto Serra do Ramalho. No entanto. uma vez que a maioria dos atingidos permaneceu na borda do lago. José Rodrigues de Souza — a população beradera adotou uma estratégia. Além da escolha do local para o reassentamento. combinava a resistência e o conformismo. conforme salientado.400 famílias partiram — “empurradas” ou “iludidas” pela equipe social do convênio INCRA/CHESF/ANCAR-BA — e se instalaram nas primeiras . transformaram-se numa segunda espoliação e em clara manifestação de esbulho. a CHESF não logrou o intento de transferir o número de famílias estimadas da zona rural dos municípios submersos para o Projeto Especial. localizado no município de Bom Jesus da Lapa. má qualidade do solo e inexistência de vazante. mediante pagamento da indenização e de um “auxílio” em dinheiro. visando reassentá-los. diga-se de passagem. um dos maiores focos de tensão entre os agentes do Estado e a população atingida. Aproveitando-se das informações desencontradas e das improvisações dos agentes governamentais. o reassentamento na borda do lago era inviável. do ponto de vista dos atingidos. De fato. ao invés de se constituírem em oportunidade de reconstrução do seu modo de vida. A resistência cotidiana camponesa resultou. bem como da tenaz resistência da Igreja Católica — através do bispo diocesano D. indisponibilidade de terras para todos. O Projeto fora pensado e implementado com a finalidade de impor aos atingidos um “projeto civilizatório” que consistiu na valorização dos aglomerados urbanos e na pequena produção mercantil. a estatal não reconheceu o direito dos beraderos sobre “suas” terras de trabalho. pressões e a violência simbólica. foi a questão das indenizações. Desse modo. e d) partida para onde a família escolhesse. que como chama atenção Ruben de Siqueira. as indenizações. vinte e cinco “núcleos de reassentamentos”. digamos assim. os valores pagos eram estabelecidos a partir de critérios arbitrários que os atingidos desconheciam. havia por trás da argumentação uma campanha de descrédito da chamada “solução borda do lago” — que acabara se impondo —. obrigando a CHESF a criar de forma bastante improvisada. 226 famílias da zona rural para o Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. vitoriosa. este foi o capítulo mais infame de todo o processo “de limpeza da área” da barragem. Segundo D. da dubiedade e do “jogo de interesse” dos políticos locais e regionais. pagando-lhes apenas as “benfeitorias”. aproximadamente 1. às margens da represa.

o Projeto trazia também uma inovação: sua administração estava a cargo do gerente-executor. distante da área a ser submersa mais de 700 quilômetros. em muitas outras comunidades rurais das regiões mais desenvolvidas do país. inicialmente. 227 agrovilas do Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho. quando o discurso do Estado Mínino ainda não estava explicitado. ficam distante do mesmo aproximadamente sete quilômetros. as agrovilas não contavam com “água doce”. mas ocorria na prática pelo descaso e pela omissão. No Projeto Especial. A organização espacial do Projeto Especial era dada através da criação das agrovilas. a figura do executor foi se desgastando e suas atribuições foram questionadas. A proximidade do rio era uma das felicidades do beradero sanfranciscano. por exemplo? (Braga. dos chamados perímetros irrigados tradicionais implantados e sob controle do DNOCS no Ceará. nomeado pelo INCRA. os lotes urbanos e os lotes de trabalho eram muito distantes uns dos outros. Não fosse assim como explicar a tentativa de emancipação. Notadamente. De acordo com a propaganda da “equipe social”. de morte. nas agrovilas os expropriados teriam acesso ao crédito rural e várias outras melhorias. as agrovilas mais próximas do Rio São Francisco. aquelas situadas no eixo 1. Não bastasse. Estas. obrigando aos “colonos” recorreram a inúmeras peripécias para cultivá-los e cuidar de seus pertences. segundo consta. além dos lotes de trabalho. Em geral. os lotes urbanos (de morada). Em conseqüência de todos os fatores arrolados. O fato. Outro fator de descontentamento era a distância entre as agrovilas e o rio. os deslocados da área da Represa de Sobradinho não se conformavam com a separação entre o local de trabalho/produção e o local de moradia. 2003. ganhou corpo no Governo Sarney. localizado no município de Bom Jesus da Lapa. quiçá. bem como a equipamentos urbanos inexistentes em suas comunidades de origem e. as agrovilas passaram ser rejeitadas pelos reassentados oriundos de Sobradinho e a ser vistas sob o signo da desconfiança e do estigma do “cativeiro”. A inconstância da distribuição de água e o uso de água “saloba” e “pesada” provocaram entre os reassentados muitos casos de doenças infecciosas e. pouco a pouco. Em termos administrativos. levado em “banho maria’ pelos agentes do Incra. Inicialmente visto como o um típico “coronel”. 77) . Ainda hoje. todos os entrevistados argumentam que as casas deveriam ser construídas nos lotes e reclamam da distância que devem percorrer para trabalhar. A emancipaçao prevista foi antecipada. à falta de melhor termo. eram unidades territoriais que compreenderam. no mesmo período.

O desengano verificado entre os expropriados de Sobradinho atingiu também a população nativa. esteve na cabeça de técnicos e políticos. além de casas na Agrovila 19. a partir de 1977-78. De “paraíso” dos técnicos e agentes governamentais. sólo es nuestro lo que perdimos [. certamente. violência. 1998. Entre o Estado e camponeses. Aqui cabe lembrar as estrofes de um poema de Jorge Luiz Borges: “[. A maioria dos reassentados oriundos da área de Sobradinho não pensaram em outra coisa senão deixar as agrovilas. fazendo acorrer às agrovilas. os últimos sempre se valiam de atitudes que combinavam a resistência e o conformismo. totalizando 23 unidades de aglomeração. Os moradores de Canabrava permaneceram na área recebendo lotes bem acima do módulo rural e os indígenas. o Projeto ganhou novos contornos e ao invés da construção de 16 agrovilas. redirecionou-o. a vida nas barrancas sanfranciscanas passou a ser superestimada e. Nas demandas verificadas entre os agentes do Estado e os expropriados/atingidos. p. porque não lembrar. as agrovilas passaram a ser vistas pela maioria dos reassentados como o “inferno”. Dentro do quadro de rejeição ao Projeto. Tendo em vista a recusa do Projeto pela população de Sobradinho. Em razão disso. O espectro de Canudos. o INCRA construiu mais sete. sensação de “cativeiro” e paxão provocada. Contestado e Caldeirão Grande e. Focos de tantos conflitos envolvendo esta categoria social e o Estado brasileiro.” (Apud Pimentel Filho. As justificativas para o abandono do espaço são recorrentes: inadaptação. reproduzido. aventureiros e despossuídos de toda espécie. 207). para grande parcela. Os índios Pankaru e os moradores dos povoados de Boa Vista e de Canabrava resistiram aos ditamos do INCRA e tiveram. receberam área coletiva demarcada.. minimamente. . Nos primeiros anos do Projeto. O paraíso perdido deveria ser reecontrado ou reconstruído.. A percepção de que. Pau de Colher. levou à rejeição do Projeto Especial.. abrindo-o aos sem-terra de vários pontos do país. o abandono de lotes foi maciço e as notícias de lotes repassados por preços irrisórios ou trocados por bens móveis correram a região. nas agrovilas a sobrevivência estava comprometida e de que o modo de vida beradero não teria condições de ser ali. sendo por todos rejeitadas. o INCRA. pela falta do rio e pela saudade da condição beradera de vida. principalmente.] No hay otros paraísos que los paraísos perdidos. o retorno tornou-se um imperativo. Uma ou outra atitude se impunha conforme a conveniência e a oportunidade. 228 As experiências de estranhamento e de desenraizamento nas agrovilas são sucessivas.. suas reivindicações atendidas.] Sólo el que ha muerto es nuestro. mais uma vez evidenciaram-se vieses contrastantes. parcialmente.

direta e indiretamente os grandes fazendeiros foram os grandes benefiários pela construção da Represa. o hoje-aqui (nas agrovilas). Foi nesse contexto que se deu a reconstrução. as críticas ao princípio de não aplicabilidade das indenizações às terras não tituladas é uma falsa questão. não poderia deixar de fazer algumas questões. os descontentamentos e os reclamos dos atingidos devem ser vistos sob quatro prismas. Não desconsiderando o sentimento dos atingidos e reconhecendo que. evidenciar o imaginário criado e recriado em relação aos espaços-tempos por eles vivenciados. quase seiscentos beraderos arrependidos voltaram à região do lago. através de suas experiências as fricções e as tensões com o Estado. a transferência da população insentou-lhes de. para usar uma vez mais a expressão de Lídia Rebouças. Contudo. 229 De acordo com dados do INCRA. inicialmente à revelia da CHESF e das autoridades municipais — e em seguida com o apoio de ambos. mais dia menos dia. faz sentido interrogar: em que medida a indenização de pequenas parcelas de terra de trabalho alteraria a vida dos atingidos pós-barragem? Nessa perspectiva. somente as demandas dos grandes fazendeiros foram levadas a efeito pela CHESF265. Não bastassem as polpudas indenizações recebidas. . evidenciado na introdução: a) foi acompanhar a diáspora dos atingidos. do “núcleo” de Barra da Cruz. no que tange à falta de políticas compensatórias voltadas para atender os atingidos de Sobradinho. apontando os descompassos e as dissonâncias entre o planejado e o vivido. Tampouco tenho o interesse aqui em polemizar. convém não negligenciar que. preconizadas pelo Estatuto da Terra. O que faltou ao Projeto? Qual a razão de sua rejeição? Penso que quando recorri às dimensões tempo-espaciais: o ontem-lá (na berada do São Francisco). b) deslindar. de fato. explorando as experiências cotidianas de sujeitos sociais vivendo em momentos específicos papéis sociais alternados — beraderos/atingidos/reassentados/arrempedidos — aproximei-me da questão. Meu propósito. sejam consensuais. e o hoje-lá (em Barra da Cruz). O que quero dizer é o seguinte: esses sujeitos sociais singulares não tiveram seus espaços de vida e suas temporalidades respeitadas. o ontem-aqui (em Serra do Ramalho antes das agrovilas). 265 Embora as reclamações contra a CHESF. c) analisar o cotidiano a população reassentada nas “Agrovilas da Lapa”. Em nenhum momento neste trabalho procurei fazer um balanço do Projeto Especial de Serra do Ramalho. nem tampouco fazer o “jogo dos penalizados com os atingidos de Sobradinho”. cumprirem obrigações legais em relações ao sistema de agregacia. Do meu ponto de vista.

nutrissem simpatia pelos beraderos e pudessem ser situados politicamnte no espectro da esquerda. Não é por outra razão que o presente passou a ser visto pelo aspecto da negatividade e o passado tornou-se idílico. sob pressão — nos termos da resistência cotidiana camponesa — e pela metade. Caldeirão Grande. Com isso estão sempre a afirmar a condição beradera de vida e a negar a vida de “cativo” ou de “filho de marreca” do pós-barragem. Sobejam referências de que tudo era feito sob o signo da improvisção. incompletas e inconstantes. o país vivia sob a ditadura militar e tudo quanto se relacionou a Sobradinho — deslocamento e o reassentamento—. Aqueles mais atinados em relação à história da região. as políticas que poderíamos chamar de compensatórias e ou reparatórias foram insuficientes. tomado como inimigo — e por razoes que fugiam a seu campo de percepção. Tanto na borda do lago quanto em Serra do Ramalho. sufocado em Casa Nova em 1938. por si só a compulsoriedade do deslocamento gera tensões. deu-se de forma autoritária e sob o signo do medo. elas não foram devidamente planejadas e poucas tiveram alcance prático. Ninguém sai do solo onde nasceu e “enterrou o umbigo” sem que não esteja partido. do deslocamento e reassentamento pairou sob a cabeça de técnicos e políticos — conscientemente ou não — o espectros de Canudos. no qual o espaço beradero — e sua vida farta e abundante — é contraposto ao espaço planejado. vigorou da parte da CHESF e do INCRA total descompromisso com o prometido. Vistas como favor pela CHESF. desconforto. A desqualificação do modo de vida do campesinato é própria da sociedade urbano-industrial e é histórica no Brasil. inseguranças e reclamos. quando partiu atendendo interesses de um Estado distante. Contestado. Segundo. . Convém não esquecer que durante todo o processo de construção da Barragem de Sobradinho. conforme já aludido — total desrespeito e desqualificação do modo de vida do beradero e dos seus valores morais e culturais. Quarto. Típico da atuação do Estado que não tinha e (não tem) o combate à pobreza como foco. Terceiro. muito mais quando não estava nos planos fazê-lo. especialmente. O pouco que foi implementado era feito a muito custo. lembravam do Movimento Pau de Colher ou dos “Cacifeiros” — denominação regional —. dando ensejo à criação e recriação de um imaginário. vigorou entre os agentes do Estado — por mais que muitos deles fossem bem intencionados. certamente. 230 Primeiro. “cativo” e à vida errante. inconstante — em geral.

caberia aos órgãos de planejamento do Estado e ao setor social do governo federal e estadual intervirem no Projeto de modo a dar-lhe continuidade e promover políticas públicas voltadas para o atendimento dos atingidos. não é um órgão social. a política de ter que “limpar a área”. a CHESF e o INCRA desconsideraram esses indivíduos. CHESF e o governo do estado da Bahia celebraram convênio. Ela não tinha e não tem experiência no tocante às questões de cunho social. dando ensejo à implementação do Programa Especial do Lago de Sobradinho. 1987. p. firmando-se como fator de reparação e compensação para uma população traumatizada e que sofrera enormes perdas. o governo da Bahia tinha muito a fazer. No entanto. 105) O Programa carece . Retomando suas palavras: “ (. agiram com subserviência. não custa reiterar. afirmando que a ditadura impedia qualquer manifestação contrária à construção da Represa e ao deslocamento compulsório nos termos colocados pela CHESF. No pós-barragem.)”. destaca João Saturnino. adotando a política do rolo compressor.. Tanto os políticos situacionistas quanto a diminuta bancada oposicionista.. o Programa foi gerido pela CAR. numa faixa que compreendia dez quilômetros da borda do Lago (Machado. um importante membro da elite da região de Sobradinho justificava o silêncio. Somente em 1982. O professor João Saturnino: traduziu em poucas palavras a concepção que norteava os agentes do Estado. o governo do Estado continuou ignorando a população atingida. a política “do largar ou pegar”. E conforme salienta um ex-presidente do INCRA. Em entrevista a Frederico Neves. quando os ventos da abertura política se faziam sentir.. Implementado. conforme salienta João Saturnino. levou o governo do estado da Bahia a não se responsabilizar pelos projetos de reassentamento da população de Sobradinho. “Eles pensavam o seguinte: se é para pobre pode ser de qualquer jeito”. que buscou a participação popular — via Associações existentes na região. 231 Na verdade. Esta subserviência. “lavando as mãos”. Até quando? Pesquisadores chamaram atenção para o silêncio das autoridades públicas baianas em relação ao processo ocorrido em Sobradinho. Essa também foi a justificativa do ex-governador Roberto Santos para o imobilismo de seu governo diante do que acontecia em Sobradinho. Assim. Sobretudo quando se tem em vista que a CHESF. voltado sobretudo para atender a população fixada na borda do lago..(. embora tivesse responsabilidade sobre o que estava acontecendo em Sobradinho e Serra do Ramalho. essa política continua em vigor.) era como se aquela catástrofe não estivesse ocorrendo em seu território. muitas delas criadas no bojo das tensões com as agências do Estado — e implementou ações no sentido de oferecer infra-estrutura à atividade pesqueira e à agropecuária. dizem.

na maioria das vezes. somente os “ricos” ganharam com a presença da CHESF na área. no entanto. Em decorrência da modernização conservadora da agricultura e do Estatuto da Terra. A “limpeza da área” para dar lugar ao maior lago artificial do mundo não trouxe-lhes custos nem desgastes políticos como sói acontecer em momentos de tensão. A partir da intervenção do Estado. a atuação da CHESF antecipou o processo e a estatal tomou para si o ônus de sua promoção. a Amazônia e o sertão nordestino eram palcos. Camponeses pobres são . Vamos chamar aqui atenção para mais outro benefício que não foi abordado por nenhum outro pesquisador. em diferentes áreas. o rio tido e havido como pai da pobreza. Em relação à posição dúbia e. O mirabolante projeto de transposição de suas águas reafirma o intento. 232 de maiores estudos. O pagamento das pequenas — mais prestimosas — benfeitorias das áreas que cultivavam foram assumidas pela CHESF. que não vem ao caso aqui levantar. a expulsão e a expropriação do campesinato despontavam no Vale do São Francisco. os fazendeiros da região foram desobrigados a pagar indenizações e ou direitos trabalhistas de antigos funcionários ou de expulsá-los como estava ocorrendo em outros pontos do Vale. Espelhados no exemplo da CHESF ou aproveitando-se da atuação desta na região. tiveram suas terras não submersas valorizadas e firmaram. no período em apreço. vem perdendo sua importância social e tornando-se um Rio para o capital. seu proprietário só pagou a indenização ao administrador Manolo. Não custa recuperar que a Agrovila 15 foi ocupada por agregados das fazendas da família do primeiro executor do Projeto. subservientes das principais lideranças polícias dos municípios submersos. vários fazendeiros lançaram mão da expulsão de posseiro e agregados sem que tivessem custos algum. por razões as mais diversas. Desde a atuação da CHESF no Vale do São Francisco. Receberam “gordas” indenizações. Tomando como exemplo a Fazenda de Fora. dentre outros. bem como de outras áreas de expansão do capital. envolvendo posseiros/agregados e fazendeiros. agregados e demais funcionários da Fazenda nada receberam. Na percepção dos atingidos. Especificamente na área de Sobradinho. Posseiros. não surtiram os efeitos desejados e as associações sofreram processo de burocratização. quando da desapropriação da área. Assim. contratos de “prestações de serviços”. de conflitos envolvendo posseiros/agregados versus agentes do capital e grileiros/jagunços. convém não esquecer que foram os beneficiários imediatos da intervenção do Estado na região. convém salientar que suas ações. Convém ressaltar que Serra do Ramalho serviu de válvula de escape aos fazendeiros de outras regiões.

de Alvino. A “limpeza da área” que a CHESF protagonizou em 1970 perversamente continuou. como fato de rejeição das agrovilas. inclusive. um caráter político — fato que chamou a atenção. aliás. Parece-me urgente estudar as motivações da “violência” nas agrovilas. Neste trabalho apareceram apenas os casos dos assassinatos do irmão de Heleno e do irmão de Paulo. Pesquisadores têm chamado atenção para o fato de que os projetos modernizadores e racionalizadores. Fato. somente para ficar entre os entrevistados. de Mateus. implantados sob o crivo do capital. além do mais. A experiência de Alberico. geram mais mobilidade que fixação. foram jogados pelos quatro cantos do país. no fluxo e na relação com o rio. De onde vieram de fato? Por que vieram? Como . inclusive da Comissão de Direitos Humanos. Desterritorializados. tornam-se presa fácil do capital. colocando-se. O caso de Sobradinho comprova a assertiva. gostaria de salientar que a literatura sobre a temática Sobradinho é muito ampla. 233 expulsos do Vale e o agronegócio se instala com sua lógica racionalizadora e agressora de tudo quanto se pode associar a uma relação pautada no intrincamento cultura natureza. tornaram-se “filho de marreca”. sazonalmente partem para o corte da cana no Mato Grosso do Sul. desprovidos de meios de vida. Luiz Flávio Cáppio: arrancados como mato. A experiência desses indivíduos é muita rica. Em busca de sua sobrevivência. resultando na realização. uma vez que traz inscrita nas suas histórias de vida trajetória de sucessivas migrações. em saberes e práticas ditadas no manejo. de audiência pública na localidade. mas que há poucos estudos sobre Serra do Ramalho e as tantas questões que o Projeto incita. resta perguntar: desenvolvimento para quê? Para quem? Ao finalizar este trabalho. Seletivo. sintetizam as andanças “de deu em deu” destes corpos que a cada dia vendem mais barato sua força de trabalho. rumando para onde o capital lhes aponta garantia mínima de sobrevivência. de Heleno e dos indígenas Pankaru. voltados às áreas rurais. que. o capital impõe um padrão do trabalhador exigido. sacudidos pela raiz. Recuperemos as palavras de D. Diante disso. da Câmara Federal. Sacudidos. mas nas entrelinhas das narrativas há inúmeros sinais de que a violência era generalizada. em 2004. seja por outras ações do Estado seja pela ação deste em conluio com o agronegócio. que parece recorrente em assentamentos em áreas de fronteira ou de expansão agrícola. a violência assumiu. Depois da emancipação do Projeto e da criação do município de Serra do Ramalho. muitos atingidos vivem a diáspora sem fim. A presença dos gaúchos ou sulistas em Serra do Ramalho merece também ser estudada. ou seja.

os estudiosos e todos aqueles que têm o poder de decisão percebam o que os sonhos dos atingidos/beraderos revelam. a cooperativa. inclusive. evidenciando. endividada. Este trabalho é também um apelo para que a sociedade. promovendo oportunidades para que os sujeitos sociais marcados pelo estigma do silenciamento expressem sentimentos. faliu. a partir da memória dos atingidos — através. a situação dos assentados nas chamadas reservas que se encontram em situação irregular. Quantas ocupações irregulares existem ainda em Serra do Ramalho? Quem são os ocupantes das reservas extrativistas situadas às margens do São Francisco? Outra questão que desponta é o processo de liquidação da Cira. Na negatividade do presente e na positividade do passado encontram-se o prenúncio do sonhado. desafia a história social a continuar buscando os caminhos da multidisciplinaridade. 234 foram seus primeiros dias em Serra do Ramalho? É verdadeira a afirmação de que receberam tratamento especial? Estão adaptados ou não? Outra questão se afigura importante: há fortes indícios de reconcentração da propriedade da terra em Serra do Ramalho. as fricções envolvendo os atingidos/reassentados e os agentes do Estado. mas. O sonhado? Este trabalho buscou reconstituir um pouco do acontecido em Sobradinho/Serra do Ramalho. Em decorrência da má gestão e da corrupção. conforme alegam os entrevistados. . sobretudo. Quais as perdas dos associados? Qual o destino de seus bens? Procedem as críticas dos reassentados em relação à apropriação dos seus bens pelos dirigentes e funcionários do INCRA? Longe de buscar encerrar a questão do deslocamento compulsório da população de Sobradinho. Portelli chama atenção para o fato de que a memória traz no seu bojo não só o acontecido. visando apurar. especialmente. este trabalho perseguiu a experiência dos expropriados em Serra do Ramalho. da utilização de fontes orais —. também. se procedem ou não as acusações do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Carinhanha quanto à vinculação de assentados com grileiros da região. “verdades” e percepções. Isso se sustenta? Quem comprou terra em Serra do Ramalho? Quais as atividades produtivas desses lotes? Qual o seu montante? Parece-me urgente estudar. sobretudo o que poderia ter acontecido. O deslindamento dessas questões.

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251 RELAÇÃO DOS ENTREVISTADOS Nome Moradia Condição profissional Estado civil Alvino Casa Nova Pescador/aposentado Casado Alberico Casa Nova Motorista desempregado Casado Avelina Serra do Ramalho Aposentada Casada Alfredo José Serra do Ramalho Aposentado Casado Alice Barra da Cruz Aposentada Casada Alvarina Ibotirama Aposentada Casada Antônio Ribeiro Bom Jesus da Lapa Advogado/assessor jurídico Casado da PMSR Antônio Pau-a-Pique Aposentado Casado Elpídio Serra do Ramalho Aposentado Casado Aurelino Serra do Ramalho Aposentado Casado Bernardina Serra do Ramalho Aposentada Viúva Berneval Bem-Bom Pescador casado .

Casado coordenador da ANCAR-Ba Zelito Baiano Serra do Ramalho Aposentado/Vigia Casado José Carlos Arruti Salvador Economista/Ex. Nova Aposentado Casado Geraldo Bastos Bom Jesus da Lapa Comerciante/professor Casado Geraldino Serra do Ramalho Aposentado Casado Gilberto Serra do Ramalho Aposentado Casado Gertrudes Pau-a-Pique Aposentada Casada Gregório Serra do Ramalho Aposentado Casado Heleno Pau-a-Pique Agricultor Casado Inedina Serra do Ramalho Aposentada Viúva Isidoro Ibotirama Aposentdo Casado Joaquim Santa Mª da Vitória Diretor do Centro Cultural Casado Serra do Ramalho Aposentado Casado Quintiliano Serra do Ramalho Aposentado Viúvo Jose Roberto Barra da Cruz Aposentado Casado João Saturnino Salvador Professor/sociólogo/ex. Marques Bom Jesus da Lapa Professor/Ex-executor Viúvo Lelo Serra do Ramalho Aposentado Casado Josuel Pau-a-Pique Aposentado Casado José R. de Souza Juazeiro Bispo de Juazeiro Solteiro Wandilson Casa Nova Aposentado Casado Josias Serra do Ramalho Chefe do posto indígena Casado . Casado Superitendente do INCRA José G. 252 Boileau Dantas Sítio do Mato Ex-executor do Incra Casado Wanderley Camilo Barra da Cruz Agricultor Casado Celito Kesterning Sobradinho Professor/assessor da Casado Prefeitura Constança Pau-a-Pique/Casa Nova Professora Casada Elvira Pau-a –Pique Aposentada Casada Eudelina Serra do Ramalho Aposentada Casada Francelino Barra da Cruz/C.

253 Luiz E. Hidroservice 3 São Paulo Agrônomo - . Hidroservice 2 São Paulo Agrônomo - F. Souza Salvador Agente pastoral/sociologo casado Luiz F. Hidroservice 1 São Paulo Agrônomo - F. Nova Aposentada Casada Possidônia Pau-a-Pique aposentada casada Marina Juazeiro Assistente Social/CPT Casada Mateus Casa Nova Pedreiro/comerciante casado Nengo Xique-Xique Carinhanha Agricultor/aposentado Casado Nelo Barra da Cruz Agricultor casado Orindo Bom Jesus da Lapa Técnico agrícola Casado Osório Serra do Ramalho Aposentado Casado Osmundo Pau-a-Pique/Casa Nova Pequeno comerciante Casado Paulo Remanso Agricultor/CPT Casado Pedro Vicente Bem-Bom pescador Casado Romualdo Petrolona Bancário Casado Raimundo Primo Feira da Mata Agricultor/sindicalista Separado Roberto Santos Salvador Professor/ex-governador Casado Zaqueu Serra do Ramalho Agricultor Casado Técnico do Incra Bom Jesus da Lapa Agrimensor Casado F. Cáppio Barra Bispo de Barra Solteiro Manolo Casa Nova Pescador/aposentado Casado Apolônia Barra da Cruz/C.

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