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DOSSIER

PERTURBAÇÕES DO SONO

Terapêutica
farmacológica da insónia
JOANA SERRA*

RESUMO
A insónia é uma queixa com múltiplas etiologias, apresentando diferentes graus de gravidade e de
duração. Uma cuidadosa avaliação é indispensável para garantir a selecção de um tratamento efec-
tivo. O tratamento farmacológico é uma das alternativas na abordagem terapêutica da insónia, intervir farmacologicamente pode ba-
sendo as drogas sedativo-hipnóticas dos medicamentos mais prescritos na prática médica. sear-se em diversas razões, que in-
Pela maior eficácia e perfil de efeitos secundários, os agonistas dos receptores benzodiazepínicos cluem não apenas a duração e a gravi-
ómega-1 são considerados os hipnóticos de primeira escolha. dade médica da insónia mas igualmen-
te as suas consequências a nível psico-
Palavras-chave: Insónia; Farmacoterapia; Sedativos; Hipnóticos lógico, emocional e social.
Como a maioria dos casos de insónia
são secundários a uma ou mais causas,
o tratamento dessas causas deve resol-
INTRODUÇÃO ver o sintoma de insónia.
Para o tratamento farmacológico da
«Nem papoila, nem mandrágora, insónia podem ser utilizados vários ti-
Nem todos os xaropes pos de fármacos: as benzodiazepinas,
soporíferos do mundo os barbitúricos (actualmente não utili-
Poderão devolver-te o doce sono, zados), os hipnóticos não benzodiazepí-
De que gozavas ontem.» nicos, os antidepressivos, os antipsicó-
ticos, entre outros.
W. Shakespeare; Os sedativos/hipnóticos são dos fár-
Otelo, Acto III, Cena iii macos mais comummente prescritos
na prática médica. A eficácia hipnótica
insónia é uma queixa extre- define-se como a capacidade de uma

A mamente comum. A insónia


transitória (< 2 semanas de
duração) afecta cerca de
80% da população, e a insónia crónica,
por volta de 15%.1
droga induzir e manter o sono em pes-
soas com queixas de insónia transitó-
ria ou crónica. Os hipnóticos promovem
o tratamento sintomático da insónia e
o seu uso clínico envolve sempre o ba-
A diversidade etiológica da insónia lanço risco-benefício. O aumento da
exige uma cuidadosa avaliação para ga- dose é o maior preditor de efeitos secun-
rantir a selecção de um tratamento efec- dários indesejáveis.
tivo. Na terapêutica da insónia há es- Várias características são de consi-
sencialmente dois tipos de abordagem: derar na escolha de um hipnótico: a ve-
a não farmacológica e a farmacológica. locidade de absorção, a rapidez da dis-
Estas duas alternativas terapêuticas, tribuição no corpo e sistema nervoso
frequentemente complementares, de- central (SNC), a afinidade por recepto-
pendem das características da insónia. res específicos do SNC, a duração da se-
Os tratamentos não farmacológicos mi-vida de eliminação e a velocidade de
comportam medidas que visam melho- transformação metabólica.
*Interna Complementar de rar a higiene do sono e técnicas terapêu- Em relação à duração da semi-vida,
Psiquiatria do Hospital Sobral Cid ticas específicas, nomeadamente com- os fármacos são classificados como de
Membro da Equipa do Laboratório
de Estudos de Patologia do Sono, portamentais, tendo revelado benefício semi-vida longa (associados a sedação
Centro Hospitalar de Coimbra terapêutico na insónia.2,3 A decisão de diurna e com menor risco de insónia re-

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bound) e de semi-vida curta (com me- ria que o químico europeu que fez a sín-
nor interferência na vigília diurna e psi- tese de um deles foi comemorar a sua
comotricidade, associados a maior ris- descoberta num bar. Lá encantou-se
co de ansiedade diurna e de insónia re- com uma «garçonette» que se chamava
bound). O perfil farmacocinético do fár- Bárbara. Num acesso de entusiasmo, o
maco deve ser adequado às caracte- cientista resolveu dar ao composto re-
rísticas da insónia, dos efeitos diurnos cém-descoberto o nome de barbitúrico.
e da resposta individual.4 Os barbitúricos foram amplamente
O tratamento farmacológico da insó- utilizados pelos seus efeitos sedativos
nia deve resolver a insónia de concilia- como hipnóticos até ao aparecimento
ção (reduzir a latência do sono) e/ou a das benzodiazepinas. Algumas celebri-
insónia de manutenção (diminuir o nú- dades como Elvis Presley, Marilyn Mon-
mero de despertares), respeitar a arqui- roe e Jim Morrison morreram por over-
tectura do sono e melhorar a qualida- doses de «comprimidos para dormir».
de de vida do paciente. Estes medicamentos apresentam po-
tencial risco de abuso e overdose.1 Ape-
sar da potente acção hipnótica, o uso
SEDATIVOS E HIPNÓTICOS dos barbitúricos foi abandonado devi-
do ao seu alto nível de toxicidade, à sua
O termo hipnótico deriva de «Hipnos», interacção com outros fármacos e ao
o antigo Deus grego do sono, que é re- seu elevado risco de desenvolver tole-
presentado em baixo-relevo, a transpor- rância e dependência.6,7
tar um ramo de papoilas, cujas semen- As benzodiazepinas foram, sem dú-
tes eram usadas para preparar as pri- vida, os hipnóticos mais longamente
meiras substâncias hipnóticas. Já utilizados a partir da década de 60. Do
durante a Idade Média, quando as se- ponto de vista histórico, o tratamento
nhoras da corte tinham dificuldades em da insónia ficou marcado pela introdu-
dormir, chupavam uma mecha de teci- ção do flurazepam, em 1970, e dos
do que tinha sido mergulhada num hipnóticos de semi-vida curta, como o
cocktail de sumo de papoilas e álcool. triazolam e o temazepam, na década de
Os antigos livros de Medicina relatam oitenta.2
que inúmeras plantas eram usadas pa- Estes fármacos actuam nos recepto-
ra facilitar o sono, desde as flores de ca- res GABAérgicos (sub-receptores óme-
momila à alface.5 ga 1, 2 e 3), sobretudo no tronco cere-
O primeiro hipnótico sintetizado foi bral, hipotálamo e tálamo. Ao ligarem-
o hidrato de cloral, em 1860. A sua ac- -se aos receptores, abrem o canal de clo-
ção parece depender do metabolito tri- ro, fazendo com que o neurónio fique
cloroestenol. Ainda hoje é utilizado para hiperpolarizado, inibindo o impulso
induzir o sono de crianças e idosos, para neuronal.
facilitar alguns procedimentos diag- Todas as benzodiazepinas apresen-
nósticos como tomografia, ressonância tam propriedades ansiolíticas, sedativo-
magnética e electroencefalografia. A in- hipnóticas e anticonvulsivantes, em or-
dução do sono demora cerca de trinta dem crescente com o aumento da dose
minutos e dura 1 a 2 horas. As suas e da sua concentração no cérebro.3
desvantagens são o gosto desagradá- Os hipnóticos benzodiazepínicos são
vel, a irritação gástrica, algumas reac- efectivos no tratamento da insónia a
ções alérgicas, o risco de ataxia, sínco- curto prazo; comparados com um pla-
pe e mal-estar.1,6 cebo, reduzem a latência ao sono, redu-
Os barbitúricos foram descobertos zem o número e a duração de desper-
no começo do século XX,7 e diz a histó- tares nocturnos e aumentam o tempo

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total de sono e sua eficiência.3 A selec- do número de fusos e de ritmos rápidos


ção de um determinado princípio activo alfa na actividade eléctrica cerebral. Os
depende, em parte, da natureza da insó- efeitos sobre o sono paradoxal tradu-
nia. Os fármacos com um índice de zem-se num aumento da latência e do
absorção rápido estão mais indicados número de ciclos, com redução da du-
para a insónia inicial de conciliação do ração total ao longo da noite, pelo que,
sono, enquanto que aqueles com uma o aumento do tempo total de sono é
acção mais lenta são mais efectivos para conseguido, principalmente, pela dimi-
os problemas de manutenção do sono nuição da latência e redução das reac-
(Quadro I). ções de alerta e despertar.4
Estudos poligráficos revelam que es- Efeitos adversos comuns são seda-
tes fármacos têm um efeito prejudicial ção matinal, perturbações mnésicas,
sobre o sono.2,4 O sono produzido é dife- principalmente a amnésia anterógrada,
rente do normal, marcado por redução sonolência excessiva, desatenção e
das fases 3 e 4 do sono lento profundo atraso no tempo de reacção.6 Devido à
(que pode persistir algum tempo após a sua acção relaxante muscular, as ben-
suspensão do fármaco, em especial os zodiazepinas podem agravar quadros
de semi-vida longa), redução da fase 1, de roncopatia e apneia do sono, com hi-
bem como o número de transições de poventilação e hipoxémia. Pode-se
fase. Verifica-se um aumento da fase 2, observar um aumento do número de

QUADRO I

FARMACOCINÉTICA DE BENZODIAZEPINAS E HIPNÓTICOS NÃO-BENZODIAZEPÍNICOS

Vida Média Metabolitos


Nome Genérico Início de Acção (horas) Activos
Benzodiazepinas ansiolíticas
Alprazolam Rápido a intermédio 12–15 Não
Clonazepam Lento 18–50 Não
Clorazepato Rápido 48 Sim
Diazepam Rápido 20–50 Sim
Estazolam Rápido 10–24 Não
Lorazepam Intermédio 10–20 Não
Oxazepam Intermédio a Lento 5–20 Não
Prazepam Lento 70 Sim
Temazepam Intermédio a Lento 9,5–12 Não
Hipnóticos Benzodiazepínicos
Triazolam Rápido 1,7–5 Não
Midazolam Rápido 1–4 Não
Loprazolam Rápido 5–8 Sim
Lormetazepam Rápido 12–20 Não
Flunitrazepam Rápido 19–22 Sim
Flurazepam Rápido 40–114 Sim
Quazepam Rápido 25–41 Sim
Hipnóticos não- Benzodiazepínicos
Zolpidem Rápido 1,5–4,5 Não
Zopiclone Rápido 3–6 Sim
Zaleplom Rápido 1 Não

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pesadelos, sonhos vividos, desinibição tos de escolha para a substituição de


comportamental e redução da libido. hipnóticos benzodiazepínicos (associa-
Para Morin,8 o uso de benzodiazepi- ção das duas classes durante 10 dias
nas está associado a vários fenómenos com redução gradual da dose de ben-
deletérios para a saúde do paciente, zodiazepina) e na insónia dos idosos.7
desde a deterioração do sono até à de- Nos casos de DPOC e apneia do sono
pendência do fármaco, cuja utilização com um quadro de insónia associado,
crónica agrava e promove a manuten- o zolpidem pode ser utilizado por não
ção da insónia. provocar depressão respiratória.7,9
Actualmente dá-se preferência a um O zolpidem tem a categoria B da FDA
novo grupo de hipnóticos, como o zol- sobre o risco do seu uso em mulheres
pidem, o zaleplom e o zoplicone,1,3,8 que grávidas.7
são agentes hipnóticos não benzodia-
zepínicos.
O zoplicone, uma ciclopirrolona, foi
OUTROS AGENTES SEDATIVOS
o primeiro hipnótico deste grupo a ser
lançado no mercado em 1987; o zolpi- Os antidepressivos com perfil sedati-
dem, uma imidazopiridina, em 1988; e vo, em doses baixas, podem ser úteis no
o zaleplom, uma pirazolopirimidina, em tratamento sintomático da insónia, e
2000. O zoplicone apresenta efeitos co- principalmente em pacientes com com-
laterais indesejáveis como gosto amar- ponente depressivo, devido à sua acção
go metálico e metabolitos activos.8 sedativa e antidepressiva.3
Estes fármacos foram desenvolvidos Podem ser utilizados a amitriptilina,
para se ligarem exclusivamente aos re- a mirtazapina, a maprotilina e o trazo-
ceptores benzodiazepínicos ómega-1 ou done.1,2,6 Estes fármacos reduzem a la-
BZ-1, relacionados com o sono, minimi- tência ao sono e aumentam a sua du-
zando o efeito ansiolítico, anticonvulsi- ração e eficiência. Já os antidepressivos
vante e relaxante muscular das benzo- inibidores da recaptação da serotonia
diazepinas.6,9 (SSRIs) e os inibidores da recaptação da
Apresentam excelente eficácia com serotonina e da noradrenalina (SNRIs)
efeitos secundários mínimos. O poten- agravam a insónia por estimularem os
cial de abuso destes fármacos é míni- receptores da serotonina tipo 2 (5-HT2)
mo; no entanto, qualquer indutor do que têm um efeito excitatório.1,2 A pa-
sono pode criar algum grau de depen- roxetina, um inibidor selectivo da re-
dência. Reacções idiossincrásicas de so- captação da serotonina, pode induzir
nolência diurna e amnésia anterógra- sedação em alguns pacientes.1
da foram reportadas em alguns pacien- O perfil farmacológico dos antide-
tes.1 pressivos não só está relacionado com
Estudos polissonográficos revelam a variabilidade de efeitos quanto à du-
diminuição da latência ao sono, aumen- ração e continuidade do sono, mas tam-
to do tempo total de sono e diminuição bém com a arquitectura do sono. Os
dos despertares.9 A alteração da estru- efeitos sobre o sono lento profundo são
tura do sono é mínima e o REM rebound igualmente variáveis. Alguns antide-
não foi associado a estes agentes.2,9 pressivos, como os tricíclicos, aumen-
O zolpidem tem sido o hipnótico pre- tam o sono lento profundo, mas há tri-
ferido no tratamento sintomático da in- cíclicos como a clomipramina e a imi-
sónia. O início de acção é rápido, sen- pramina que frequentemente produzem
do a sua semi-vida em média de 1,5 a o efeito contrário. Os inibidores da mo-
4,5 horas.8,9 no-amino-oxidades (IMAOs) não alte-
Estes fármacos são os medicamen- ram o sono lento profundo ou aumen-

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tam-no ligeiramente; a ausência de efei- sono e continua a alterar a arquitectu-


to é também evidenciada com vários ra do sono, causando sonolência diur-
SSRIs.2 na e fadiga. A abstinência leva à insó-
Independentemente das suas carac- nia grave com fragmentação do sono.6
terísticas químicas e farmacológicas, a Apesar da maioria dos hipnóticos se-
grande maioria dos antidepressivos rem eficazes a curto prazo, há que con-
exerce o mesmo tipo de efeito sobre o so- siderar várias limitações. Em primeiro
no REM.10 Verifica-se um efeito supres- lugar, há poucos estudos disponíveis
sor, traduzido por uma redução da per- acerca da sua eficácia a longo prazo.
centagem, geralmente associada a um Além disso, durante ou após a sua sus-
prolongamento da latência do sono pensão, verificam-se alterações nos es-
REM. Este efeito no sono paradoxal é tádios do sono, efeitos residuais diur-
considerado um sinal para prever uma nos, insónia rebound e dependência. A
boa resposta ao tratamento antidepres- maioria dos hipnóticos altera a arqui-
sivo. Na sequência da interrupção do tectura do sono; ainda que melhorem a
tratamento surge um aumento compen- eficácia na continuidade e duração do
satório do sono REM (REM rebound). 2 sono, frequentemente diminuem a sua
O uso de antipsicóticos deve ser re- qualidade.1,2,3,7
servado a doentes com indicação psi- A sedação diurna, a deterioração cog-
quiátrica para o tratamento com an- nitiva e psicomotora, assim como a «res-
tipsicóticos, ou excepcionalmente, em saca» da medicação, são efeitos secun-
formas graves de insónia, resistentes dários negativos que devem ser ponde-
aos tratamentos farmacológicos con- rados em relação aos benefícios iniciais
vencionais.2,4 no sono obtidos mediante farmacotera-
Outras substâncias podem ser utili- pia. As substâncias de efeito prolonga-
zadas no tratamento da insónia. A me- do produzem mais sonolência diurna e
latonina pode antecipar um sono mais maior redução do rendimento ao des-
consolidado,6,8 apesar dos dados de es- pertar que as de acção curta.3,6 Os pa-
tudos controlados sobre esta substân- cientes idosos que tomam fármacos de
cia serem limitados. A Food and Drug acção prolongada correm maior risco
Administration ainda não aprovou a me- de quedas que aqueles que tomam fár-
latonina para o tratamento da insó- macos de acção curta ou dos que não
nia,11,12 não havendo por isso garantias tomam medicação e os hipnóticos de rá-
quanto à eficácia dos produtos de ven- pida eliminação têm sido associados a
da livre, actualmente disponíveis no amnésia anterógrada.6
mercado. A valeriana pode ter efeito se- A tolerância é um outro aspecto a ter
dativo e ansiolítico.6,8 em atenção aquando da prescrição de
Um hipnótico muito popular, ainda qualquer hipnótico. Apesar da variabi-
hoje infelizmente utilizado, é o álcool. lidade individual, a maioria dos fárma-
Embora facilite o início do sono, frag- cos perde a sua efectividade a médio-
menta-o com despertares múltiplos, -longo prazo se utilizados continuamen-
principalmente durante o sono REM. O te. Desta forma, são necessárias doses
seu efeito persiste durante três a qua- mais elevadas para se conseguir qual-
tro horas, período em que aumenta o quer efeito terapêutico, até ao ponto em
sono de ondas lentas e reduz o sono que o paciente já alcançou a dose máxi-
REM. O REM rebound aparece na se- ma. Estudos demonstraram que a eficá-
gunda metade da noite. O sono torna- cia da maioria dos hipnóticos está limi-
-se fragmentado, agitado com pesade- tada a duas ou três semanas. Com a in-
los e sonhos desagradáveis. Com o uso terrupção do tratamento é frequente o
diário, o álcool perde o efeito indutor do aparecimento de insónia rebound e um

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agravamento nas queixas de má quali- O uso de hipnóticos deve ser sempre


dade do sono, efeitos mais evidenciados reduzido gradualmente e a dosagem di-
com fármacos de curta acção.3 Com fár- minuída lentamente em fases controla-
macos de acção mais prolongada, os das. Na maioria dos casos, a qualidade
efeitos da interrupção não são tão acen- do sono dos pacientes, no período final
tuados e surgem vários dias após a sus- de abstinência, é superior à de quando
pensão terapêutica, mas tipicamente tomavam hipnóticos para o tratamento
duram mais tempo. Em qualquer dos da insónia.3
casos, o fenómeno rebound tende a re- De acordo com Wheatley,4 o hipnóti-
forçar a crença no paciente com insónia co ideal deveria induzir o sono em cerca
de que não consegue dormir sem medi- de 30 minutos, promovendo um sono
cação, induzindo ao reinício da medica- «normal» (isto é, próximo dos padrões fi-
ção, geralmente em doses superiores e siológicos) durante 6 a 8 horas, com
farmacodependência (Figura 1). ausência de efeitos residuais na manhã
Segundo Kessler et al, 1 o uso de me- seguinte (Quadro 2).
dicação crónica com acção hipnótica A farmacoterapia está indicada em
está associado ao desenvolvimento de diversas situações clínicas nas quais
depressão e de distúrbios do sono por pode ser benéfico um curto período de
dependência de hipnóticos. Durante o medicação hipnótica para o tratamento
período de abstinência, o paciente sofre da insónia. Pode estar indicada, por
de perturbações do sono graves, sonhos exemplo, em casos de insónia aguda
assustadores e pesadelos, além do au- provocada por situações de stress; nas
mento da ansiedade durante o dia. perturbações do ritmo sono-vigília como

Medicação
para dormir

Tolerância

Reinício da
Insónia medicação

Dependência
Tolerância:
Suspensão: Diminuição da
Insónia efectividade
Rebound Vontade de
interromper a
Aumento da medicação
medicação
para dormir

Figura 1. O ciclo vicioso da insónia dependente de fármacos3

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QUADRO II são indubitáveis ao longo do tempo, de


forma exclusiva, ou em combinação
CARACTERÍSTICAS DO HIPNÓTICO IDEAL
com fármacos.1,3 De qualquer forma,
(SNC: SISTEMA NERVOSO CENTRAL)
para evitar a habituação à medicação,
HIPNÓTICO IDEAL esta só deveria ser usada durante um
Perfil Terapêutico curto período de tempo. Os consensos
Rápida indução do sono sobre hipnóticos recomendam um pe-
Produção de sono fisiológico ríodo máximo de três semanas de uso.6
Sem efeito sedativo residual Geralmente o tratamento da insónia
Sem insónia rebound associada a distúrbios psiquiátricos é o
Sem efeito sobre a memória ou psicomotores tratamento da alteração subjacente,
Melhoria da qualidade de vida pelo que podem ser utilizados antide-
pressivos nos casos de depressão, an-
Perfil Farmacocinético tipsicóticos nas perturbações psicóti-
Rápida absorção cas, etc.
Ligação ao receptor específico As benzodiazepinas estão contra-in-
Óptima semi-vida, duração óptima do efeito dicadas na gravidez, apneia do sono,
Sem metabolitos activos insuficiência respiratória grave, miaste-
nia gravis, drogodependências e em in-
Perfil Farmacodinâmico divíduos com trabalho nocturno com
Ausência de tolerância necessidade de estar alerta.6
Ausência de dependência física O uso clínico de hipnóticos na popula-
Ausência de depressão respiratória ou depressão do SNC ção geriátrica requer cuidados especiais.
Os idosos são mais sensíveis aos fárma-
cos e metabolizam-nos mais lentamente.
Desta forma, respondem a doses me-
o jet lag; quando a insónia é atribuída nores que as utilizadas nas pessoas mais
a patologia do sono subjacente (movi- jovens, e estão expostos aos efeitos tóxi-
mentos periódicos dos membros ou per- cos de fármacos com uma semi-vida
nas inquietas), a uma condição médica mais longa. Estes fármacos podem
aguda (dor), ou em determinadas alte- aumentar o risco de quedas em pacien-
rações psiquiátricas.3 tes com idade avançada, criar estados
Na insónia psicofisiológica de evolu- confusionais, deterioração cognitiva e
ção crónica pode considerar-se a admi- motora. Nestes pacientes evidenciam-se
nistração de fármacos hipnóticos como mais frequentemente efeitos residuais
apoio do tratamento principal dirigido diurnos da medicação, como a sonolên-
aos factores que o perpetuam. Este tra- cia ou diminuição do estado de alerta.3,9
tamento sintomático pode ser útil prin- As interacções farmacológicas entre
cipalmente na fase inicial da interven- múltiplos fármacos ou o não cumpri-
ção para quebrar o ciclo vicioso da in- mento terapêutico da prescrição estabe-
sónia, activação psicoemocional e novas lecida representam problemas poten-
alterações do sono.3 Geralmente, uma ciais adicionais, não só em idosos mas
terapêutica exclusivamente farmacoló- em todas as pessoas que tomam hipnó-
gica não é eficaz no tratamento da in- ticos.
sónia crónica. Alguns estudos compa-
rativos de terapias farmacológicas e
comportamentais indicam que, apesar
CONCLUSÃO
da terapêutica com fármacos produzir
resultados mais rapidamente, os bene- As perturbações do sono têm importan-
fícios de uma terapia comportamental tes consequências médicas, pessoais e

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sociais, pelo que a sua abordagem clíni- 3(3):118-25.


2. Pires AM, Cavaglia F, Arriaga F. Sono e in-
ca específica e cuidada é de extrema
sónia. Linda-a-Velha: Vale & Vale Editores; 2004.
importância para um diagnóstico cor- pp 33-48.
recto e na escolha do tratamento mais 3. Morin CM. Insomnio. Asistencia y tratami-
eficaz. ento psicológico. Barcelona: Ariel Psicologia; 1998.
A farmacoterapia é o método mais p. 149-66.
4. Rente P, Pimentel T. A patologia do sono. Lis-
frequentemente utilizado para tratar a
boa: Lidel; 2004. p. 148-57.
insónia; no entanto, pode conduzir ao 5. Lavie P. O mundo encantado do sono. Lis-
desenvolvimento de uma insónia iatro- boa: Climepsi Editores; 1998. p. 177-85.
génica. Destaca-se que o uso crónico de 6. Martinez D. Insónia na prática clínica. Por-
medicamentos condiciona o desenvolvi- to Alegre: Artmed Editora; 2005. p.189-216.
7. Estivill E, Bové A, García-Borreguero E, Ca-
mento de habilidades próprias adequa-
net T. Consenso sobre el tratamiento farmacoló-
das para lidar com a insónia. Desta for- gico del insomnio. Cádiz: ADIS; 2001. p. 3--33.
ma, nos doentes que necessitam de te- 8. Tufik S, Pinto LR. Como eu trato: insônia.
rapêutica crónica, devem seleccionar-se São Paulo: Shering- Plough; 2004. pp 2-8.
os fármacos de modo a minimizar os 9. Lahmeyer HW. Pharmacology of sleep. In:
Golbin AZ, Kravitz HM, Keith LG, editors. Sleep
seus efeitos secundários. No idoso, os
psychiatry. London: Taylor & Francis; 2004. p.
fármacos de longa duração de acção 361-78.
devem ser utilizados com cuidado. 10. Erman MK. Depression and insomnia. IN-
As medicações hipnóticas são úteis SOM 2003-2004 Winter; 2: 4-11.
e eficazes a curto prazo no tratamento 11. Dement WC, Vaughan C. The promise of
sleep: a pioneer in sleep medicine explores the vi-
da insónia, mas existem poucos dados
tal connection between health, hapiness, and a
sobre a sua eficácia em períodos mais good night’s sleep. New York: Dell Trade Paper-
longos. Os seus benefícios clínicos ini- back; 1999. p. 129-66.
ciais devem ser sempre avaliados com 12. Reite M, Ruddy J, Nagel K. Transtornos do
as eventuais sequelas diurnas e efeitos sono. 3a ed. Porto Alegre: Artmed Editora; 2004.
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a longo prazo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Endereço para correspondência


Joana Serra
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treatment of sleep disorders: an overview. Prim Centro Hospitalar de Coimbra
Care Companion. J Clin Psychiatry 2001 Jun; 3041-853 Coimbra

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