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Sumário
Introdução.....................................................................................................................1
Capítulo I - Abordagens da Doença Mental..................................................................4
Capítulo II - A Psiquiatria - Abordagem médica da doença mental..............................6
Capítulo III - A Antipsiquiatria – Indagação e Revolução.............................................8
Capítulo IV - A Política das Relações Humanas.........................................................11
Capítulo V - Família, Esquizofrenia e Antipsiquiatria.................................................13
Capítulo VI - Teoria do Duplo Vínculo.........................................................................19
Conclusão...................................................................................................................29
Bibliografia..................................................................................................................30
1

FAMÍLIA E ESQUIZOFRENIA
Fabrício Darlan Viana

INTRODUÇÃO
O contato com o tema estudado deu-se ao acaso e, mesmo já tendo outros
temas em mente para a disciplina de T.C.C., como por exemplo A psicologia do
Marketing e A dependência psíquica na Internet - afinal a psicologia possibilita um
rico campo de estudo para seus pesquisadores - foi devido ao meu contato com a
Somaterapia, no final de 1997, que resolvi partir para outro objeto de estudo, tão
interessante quanto os demais.

Através de uma amiga, fui convidado pela Editora da Tribo para participar de
uma dinâmica de grupo denominada de Ludens. Durante o andamento da dinâmica,
um de seus coordenadores, Décio de Mello, começou uma explicação sobre como
era entendida a neurose segundo a visão reichiana, assim como nos outros
encontros. Ao me identificar com o trabalho, procurei pesquisar por conta própria as
razões filosóficas e científicas do Ludens e descobri que o mesmo se derivava de
uma espécie de terapia criada por Roberto Freire chamada de Somaterapia ou mais
conhecida simplesmente como Soma.

A Somaterapia de Roberto Freire é uma espécie de terapia em grupo que une


vários conhecimentos científicos, dentre eles a abordagem reichiana, a gestalt, a
antipsiquiatria e o anarquismo.

Como era costume sempre ter uma explicação de uma destas abordagens
pelos somaterapeutas (coordenadores do Soma), foi numa dessas que, não só eu,
mas muitos outros que estavam presentes se impressionaram. Tratava-se das
últimas descobertas dos antipsiquiatras sobre a origem da esquizofrenia na qual
Regina Garbellini comentava:

“(...) os antipsiquiatras conseguiram através de estudos, descobrir


que o problema da esquizofrenia, apesar de ter pequenas
probabilidades de ser genético, é, na maioria das vezes um
problema social, isto é, mais especificamente um problema de
comunicação (vínculos) entre o indivíduo e a sociedade (pegando
como o primeiro grupo social a Família). O que isto quer dizer? Isto
quer dizer que, um indivíduo ‘sadio’ que possui problemas de
comunicação, relação duplo vínculo na família tende a ter uma
comunicação patológica com o meio externo, tendendo a cortar
essa comunicação e a criar a sua própria realidade. Isto causa a
esquizofrenia. Seguindo esse pressuposto, o método de ‘cura’ seria
o de, primeiramente, restabelecer novamente a comunicação com
este indivíduo (...) Existe uma casa psiquiátrica na Itália (Basaglia) e
uma aqui em São Paulo (projeto Tam Tam) que já adota esta idéia e
trata os esquizofrênicos sob este enfoque. (...)”

Com base nesta fala, fiquei admirado em observar que a esquizofrenia


poderia ser vista por outro ângulo e não somente pela psicopatologia da abordagem
2

psiquiátrica com sua forma positivista e organicista de entender de maneira única e


exclusiva as enfermidades mentais.

Assim sendo, o duplo vínculo, assim como a antipsiquiatria em si, passaram a


ser meus principais objetos de estudo.

As formas de se entender as doenças mentais hoje em dia pela ciência ainda


são amplas e sempre estão em desenvolvimento. Nesta monografia, como o próprio
título, será dada ênfase exclusivamente para a abordagem da antipsiquiatria.

No início do trabalho é dada uma breve explicação sobre alguns temas que
se fazem necessários à compreensão da abordagem sistêmica da doença mental e
que compreende o estudo do duplo vínculo; logo, os primeiros capítulos são uma
espécie de introdução para se situar desde as várias abordagens sobre as doenças
mentais até se chegar à teoria do duplo vínculo propriamente dita. Para tanto, o tipo
de raciocínio, por estudar a pragmática da comunicação humana (em seus níveis
lógicos ou abstratos) é modificável no decorrer do trabalho. Devido a isso, acho
importante uma pequena síntese sobre cada capítulo apresentado a fim de ajudar
no entendimento do mesmo. Quando o texto parecer difícil e complicado, sugiro
uma releitura do pequeno trecho que, como se trata de um estudo bastante
complexo, nem sempre está em linguagem acessível para leigos.

No primeiro capítulo, apresentamos uma síntese das abordagens existentes


sobre a doença mental: suas ideologias, seus adeptos, como é vista a doença
mental e suas formas de tratamento.

No capítulo dois, como a antipsiquiatria é uma forma de se contrapor a


psiquiatria, nada mais justo do que explicar a psiquiatria sob o seu ponto de vista
organicista o que é uma das principais críticas da antipsiquiatria.

O terceiro capítulo, a antipsiquiatria, aborda quais são as principais críticas


dos antipsiquiatras; questionando a maneira de se fazer ciência e as formas em que
o indivíduo é estudado pela psiquiatria, assim como seus meios de tratamento.

Ao percebermos que não vivemos isolados e que o indivíduo deve ser


estudado dentro do seu contexto natural, o quarto capítulo vem nos falar do
funcionamento das relações humanas, desmembrando assim as relações políticas
(de poder) envolvidas na maioria delas.

Ao estudar a primeira instituição social na qual o indivíduo vivencia suas


primeiras experiências interpessoais, a Família, no quinto capítulo, é vista como
uma entidade que influencia e é influenciada pelo Estado, interferindo na dinâmica
de vida de seus membros. Neste capítulo, buscamos averiguar as relações de poder
existentes no interior da mesma e que, devido ao autoritarismo e a repressão,
transforma alguns de seus membros em marionetes, deixando-os assumir seu falso
eu e a sua futura condição de esquizofrênico.

Ao falar-se em diversas características da família no capítulo anterior, agora é


possível compreender melhor o duplo vínculo, como surge e como se desenvolve.
Este é o tema do capítulo 6 e que é dividido pelos sub-ítens:
3

A comunicação humana – Um pouco de sua teoria - Aqui é dada uma


pequena introdução sobre as bases da comunicação humana, mudando-se assim o
tipo de raciocínio percorrido durante o trabalho. Trata-se de um visão mais
sistemática, analógica e matemática da comunicação humana, indispensável para a
compreensão do duplo vínculo.

Comunicação Paradoxal – Introdução ao paradoxo - Apresenta uma breve


história sobre o paradoxo, o que é e quais são suas relações vistas sob o mesmo
tipo de raciocínio do item anterior. É uma explicação sobre o funcionamento do
duplo vínculo sob um método sistemático.

A prática do duplo vínculo - Aqui está, numa forma mais simples, como é o
funcionamento do duplo vínculo, como se dá e no que resulta.

Funcionamento do duplo vínculo - Para melhor entendimento e até a vivência


de uma mensagem paradoxal é que foi criado este sub-item.

Os ingredientes do duplo vínculo - Estes são os últimos estudos


apresentados e que dizem como é constituído um vínculo duplo, o que se faz
necessário para que ele exista.

A fabricação da loucura - Diz respeito aos sentimentos íntimos da criança que


são colocados em dúvida, fazendo ao final desde sub-item um apanhado geral que
encerra este trabalho.
4

CAPÍTULO I - ABORDAGENS DA DOENÇA MENTAL


A inclusão deste capítulo é interessante para que você, caro estudante, não
tenha uma visão restrita e limitada sobre as abordagens existentes para a
compreensão da mente humana e as suas patologias. Claro que neste trabalho,
como já foi citado na introdução, será enfocada quase que exclusivamente a
abordagem da Antipsiquiatria, mas para isto, será apresentada uma breve
referência a estas outras abordagens com a finalidade de proporcionar um maior
conhecimento sobre como a doença mental pode ser vista hoje.

1.1. Abordagem médica


Nesta abordagem encontra-se a crítica fundamental da antipsiquiatria,
portanto há um capítulo à parte para descrevê-la melhor. São partidários desta
abordagem os neurologistas e os psiquiatras organicistas. Para eles, as doenças
mentais são doenças do cérebro e o comportamento anormal resulta de uma
desordem biológica mais ou menos grave segundo a doença específica. Seus
métodos de tratamento mais usuais são tratamentos de choque, neurolépticos e
cirurgias cerebrais.

1.2. Abordagem psicanalítica


São partidários desta abordagem uma psiquiatria dinâmica e todos os que se
consideram freudianos. A definição de doença mental para eles é um estado de
perturbação afetiva ligado à história (infantil) do paciente. Logo, o comportamento é
um sintoma somático de problemas emocionais. Seu tratamento é realizado a partir
de psicoterapia, que permite ao paciente descobrir a origem de suas dificuldades.

1.3. Abordagem sistêmica


Esta é uma das três abordagens da antipsiquiatria que tenta compreender a
doença mental. São partidários certos psiquiatras e psicólogos que estudam a
patologia da comunicação humana proveniente da escola de Palo Alto. Para eles, a
doença mental é conseqüência de comunicações familiares ou microssociais
patogênicas.

O paciente reage com sintomas às manipulações de que é objeto. A terapia


coletiva é feita de maneira que a família ou o grupo tenha um melhor conhecimento
de seu funcionamento e possa modificá-lo.

1.4. Abordagem sacrificial


Esta abordagem também faz parte da antipsiquiatria, mas é centralizada
filosoficamente na existência do ser.
5

Essa visão aparece a partir do capítulo três por estar ligada à antipsiquiatria.
Seus partidários são psiquiatras e psicólogos (como Ronald Laing, Szasz etc.) que
dizem que o rótulo de doença mental tem por função estigmatizar e punir o
comportamento dos membros da sociedade que se desviam da norma. O paciente
passa a reagir com uma estratégia oblíqua à sua vitimização e à sua exclusão. Seu
tratamento seria o de não rotular o paciente. Tratá-lo como um indivíduo com
direitos e deveres e respeitar suas vontades.

1.5. Abordagem política


A abordagem política para se entender a doença mental também se encontra
a partir do capítulo três. São partidários desta abordagem psiquiatras e sociólogos
como Cooper, Basaglia, Jervis, Hollingshead, Redlich etc. Para eles a doença
mental é uma doença social ligada à opressão e à exploração do paciente. Seus
sintomas se dão através da reação de revolta ante uma situação considerada
insuportável pelo paciente. O tratamento seria o de lutar por uma sociedade mais
justa.

Como irão perceber futuramente, essas três últimas abordagens (sistêmica,


sacrificial e política) apesar de serem quase distintas, estão interligadas, pois
compõem a visão geral da antipsiquiatria.
6

CAPÍTULO II - A PSIQUIATRIA - ABORDAGEM MÉDICA DA DOENÇA


MENTAL
A Psiquiatria, especialidade da medicina, surgiu no início do século XIX
através de estudos das doenças mentais; procurando-se as causas neurológicas
das mesmas através dos estudos neuroanatofisiológicos. Isto se deu justamente na
época em que a medicina começara a entrar no sistema filosófico denominado
positivismo, que tem por tendência encarar a vida só pelo seu lado prático e útil. A
principal finalidade da Psiquiatria foi - e continua sendo - a de classificar as
doenças mentais elaborando assim conceitos, procedimentos e técnicas com
finalidades terapêuticas, até então inexistentes naquela época.

A base da ideologia da Psiquiatria, isto é, a sua abordagem frente à doença


mental se dá como a maioria dos psiquiatras organicistas pensam. Para eles,
segundo Wernicke: “toda doença mental é uma doença do cérebro” 1. Sendo assim,
sob um ponto de vista hipotético, acreditam que as doenças mentais são, de alguma
forma, resultantes de afecções somáticas sistêmicas ou cerebrais; ou, em outras
palavras, todas as doenças mentais para eles provêm simplesmente e de alguma
forma, do organismo. Para entendermos melhor de onde iniciou-se essa ideologia
organicista, temos que dar uma breve olhada na história da Psiquiatria, dar uma
olhada em suas origens:

A conjunção das informações de Bayle e de Founier é um marco na


história da psiquiatria. Os psiquiatras puderam, então, imaginar que,
em havendo uma origem específica para a paralisia geral
progressiva haveria também para outras patologias. Estava assim
lançada a primeira condição para o desenvolvimento da psiquiatria
clínica, com a possibilidade da delimitação das enfermidades
psíquicas, que passam a ser concebidas como unidades
independentes. 2

Portanto, a visão organicista da doença mental surgiu desde que Bayler,


juntamente com Fournier em 1979, classificou a primeira doença mental: a paralisia
geral progressiva, resultante da doença orgânica sífilis (doença venérea marcada
pela vergonha e por muito tempo considerada incurável). Partindo-se daí deduziu-
se que todas as doenças mentais haveriam de ter sua causa orgânica (como o que
aconteceu com a paralisia geral progressiva). A partir disso surgiram vários estudos
neuroanatofisiológicos das doenças mentais e, a fim de ordenar o caos existente na
atividade psiquiátrica até então, entre 1856 e 1926, o alemão E.Kraepelin
desenvolveu o conceito de unidade nosológica, isto é, um critério de classificação
das patologias mentais que tivessem causas comuns, sintomas semelhantes,
processo de desenvolvimento igual aos demais e achados anatomopatológicos
concordantes. Após esta sistematização nosológica de Kraepelin, diversos autores
contribuíram para a classificação das doenças mentais, mostrando assim não só o
lado bom do desenvolvimento da Psiquiatria, como também seu lado obscuro e
pouco percebido por muitos.

1
WERNICKE apud JACCARD, Roland. A loucura. São Paulo, Editora Zahar, 1981. pág. 54
2
GRANDINO, Adilson e NOGUEIRA, Durval. Conceito de Psiquiatria. São Paulo. Ed. Ática. 1985,
pág. 42
7

Alguns desses autores, numa obsessão classificatória e pessoal,


multiplicavam o número de tipos e subtipos das patologias já conhecidas. Segundo
a Revista da Folha de São Paulo, hoje em dia, no Diagnostic And Statistical Manual
of Mental Disorders existem mais de 300 distúrbios mentais registrados e, além
disso, psiquiatras norte-americanos estão discutindo a inclusão de mais de 50
novos tipos neste manual.

Um dos maiores críticos do manual de psiquiatria da atualidade é o sociólogo


Stuart Kirk, professor da Universidade da Califórnia. Ele diz que muitos destes
distúrbios são comportamentos que sempre existiram na sociedade e que seriam
considerados normais não fosse o interesse de alguns psiquiatras e da indústria
farmacêutica em medicalizar o maior número possível de atitudes que fogem
ligeiramente do padrão. É interessante ressaltar que a visão organicista na
Psiquiatria sobre a doença mental não é, segundo Christian Delacampagne em seu
ensaio Figures de l'oppression3 uma ideologia qualquer, nem um pólo - entre outros
- da pesquisa psicopatológica: ela é o pólo fundamental e a ideologia de base,
aquela a que a Psiquiatria sempre recorre. Além disso, ela ainda mantém a ficção
de que um dia será conhecida toda a química das psicoses. Com base nisto,
Manuel de Diéquez4 ressalta exatamente aquilo que a razão européia e a
Psiquiatria nela fundamentada têm absoluta necessidade: que a verdadeira fonte da
doença mental seja de ordem psicoquímica. Apesar de o assunto ser Psiquiatria,
apresenta-se uma das citações que Thomas Szasz, um dos maiores críticos da
visão psicoquímica da doença mental, colocou com sua forma sempre irônica de
escrever:

Quem acredita ser Jesus, ou quem acredita ter descoberto um


remédio contra o câncer (sem ser esse o caso), ou quem se
acredita perseguido pelos comunistas (sem ser esse o caso), terá
suas convicções, provavelmente, interpretadas como sintomas de
esquizofrenia. Mas, quem acreditar serem os judeus o povo eleito,
ou ser Jesus o filho de Deus, ou ser o comunismo a única forma de
governo científica e moralmente justa, terá suas convicções
interpretadas como o produto daquilo que é: judeu, cristão,
comunista. É por isso que acredito que só descobriremos as causas
químicas da esquizofrenia quando descobrirmos as causas químicas
do judaísmo, do cristianismo e do comunismo. Nem antes e nem
depois. 5

Mas enfim, sendo alimentados pelos resultados ora frágeis da neurologia, o


organicismo continua a se voltar hoje para as promessas - ainda mais abstratas - da
bioquímica e da genética molecular, com a finalidade de poder, através delas e
algum dia, compreender melhor as origens e os processos das doenças mentais.
Sendo assim, o psiquiatra continua ainda a ser um médico como os outros
mostrando que a doença mental é uma doença como as outras, isto é, uma doença
de base orgânica.

3
DELACAMPAGNE, Christian apud JACCARD, Roland. A loucura. São Paulo, Editora Zahar, 1981.
pág.55
4
DIÉQUEZ, Manuel de. apud JACCARD, Roland. A loucura. São Paulo, Editora Zahar, 1981. pág. 55
5
SZASZ, Thomas apud JACCARD, Roland. A loucura. São Paulo, Editora Zahar, 1981. pág. 56
8

CAPÍTULO III - A ANTIPSIQUIATRIA – INDAGAÇÃO E REVOLUÇÃO


Antes de mais nada, é bom verificarmos o que vem a ser e como surgiu o
termo Antipsiquiatria. A princípio, poderíamos começar pelo prefixo anti, que significa
alguma coisa que se contrapõe a outra, de oposição a algo; logo, antipsiquiatria,
grosso modo, seria algo que se contrapõe à Psiquiatria.

O termo antipsiquiatria foi utilizado pela primeira vez pelo psiquiatra sul-
africano David Cooper em seu livro “Psiquiatria e Antipsiquiatria”6, que com alguns
estudos de alguns especialistas e juntamente com o psiquiatra inglês Ronald Laing,
passou a discordar dos métodos de estudo e das ações da psiquiatria e da
psicologia tradicionais, questionando as premissas científicas e filosóficas de onde
partem quase todas as teorias psicológicas difundidas, propondo assim novos
pontos de partida.

Num dos livros pesquisados 7, há uma fábula, a dos cegos e do elefante que
dará uma base simples para se compreender melhor o questionamento da
antipsiquiatria sobre a psiquiatria e também sobre a própria psicologia.

Eram cinco cegos que não conheciam um elefante, não tinham a mínima idéia
de como seria e muito menos se esse era um animal. Sendo apresentados a ele,
com a finalidade de conhecê-lo, o primeiro cego apalpou suas patas e concluiu: o
elefante se assemelha a grossas colunas. O segundo pegou em sua tromba e por
ser maleável e comprida pensou ser ele muito parecido com uma cobra. O terceiro
cego, pegando a cauda, imaginou o elefante sendo algo parecido com um chicote.
O quarto, tateando suas presas, teve a imagem dele como um bastão maciço. O
ultimo cego, apalpando as orelhas, disse que o elefante era uma espécie de leque
maleável.

Como podem ver, o nosso conhecimento sobre as coisas depende muito da


forma como as pegamos, isto é, do nosso ângulo de visão e dos instrumentos que
temos à mão para estudá-los. Os cegos só tinham o tato para conhecer o animal e
cada um se utilizou desta forma para conhecer a realidade. Além de ser uma
maneira restrita de apreensão, usaram-na de forma parcelada, não percorrendo
todo o elefante.

A loucura, ou de uma forma mais genérica, a mente humana é parecida com o


nosso elefante. A crítica fundamental de Laing e Cooper coloca os psiquiatras e
psicólogos tradicionais na posição dos cegos, situados sobre uma maneira restrita
de entender o comportamento humano, tateando o seu objeto e traçando teorias e
métodos de ação sem perceber que estão abrangendo apenas uma parte do
fenômeno. Portanto, o tipo de raciocínio filosófico e científico tradicionalmente
usado pela psicologia fornece apenas uma visão fragmentada do que seja a mente
humana e seus desvios.

6
COOPER, David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. São Paulo, Editora Perspectiva, 1967
7
JUNIOR, João Francisco Duarte. A política da loucura – a antipsiquiatria.Campinas, Ed. Papirus,
1983.pág 9
9

Como se pode ver, a questão principal da antipsiquiatria reside na crítica a


uma determinada forma de se fazer ciência. Uma forma estreita de transformar a
loucura - uma maneira existencial de ser - numa doença. Para a psiquiatria
tradicional, estar louco e estar gripado são a mesma coisa, isto é, ambas são
doenças que se contrai, uma por vírus e a outra por causas mais ou menos
misteriosas. Mas ambas precisam de um tratamento, uma atuação sobre o corpo ou
sobre a mente a fim de fazê-los retornar à normalidade.

A antipsiquiatria tentou alterar este ponto de visão: a loucura não é uma


doença da mesma forma como entendemos as doenças físicas. Ela apenas parece
uma doença se olhada a partir de um esquema médico-nosológico, mas, se olhada
de outro ângulo ela será vista muito mais como um jeito diferente de ser, um jeito
não usual de estar no mundo.

Vamos supor agora que o cego que apalpou o elefante pela orelha resolveu
arrumar uma caixa, um alojamento para ele. Provavelmente ele arrumaria qualquer
caixa do tamanho da orelha e pensaria ser ela o lugar mais adequado para o
elefante morar. Fazendo uma analogia, para quem vê a loucura como uma doença
também precisa arrumar um tratamento para ela sob o seu ponto de vista, pensando
ser este o modo mais adequado para ela. Nisso se pergunta, qual é o tipo de
tratamento então utilizado pela psiquiatria? Eletrochoques, psicoterapias, drogas e
internamentos - tudo com o objetivo de curar a anomalia e de fazer o indivíduo
voltar à normalidade.

Se o cego fosse obrigado a fazer o elefante entrar na caixa, provavelmente


ele não se daria conta do erro que estaria fazendo. O mesmo ocorre com a
psiquiatria em estar colocando o louco dentro do seu método de tratamento, isto é,
forçando-o mesmo que para isso tenha que usar da violência, esquartejando as
partes de um indivíduo que deve ser visto como um todo. Estatisticamente, o
número de curas realizadas pela psiquiatria é insignificante e mesmo assim se
pergunta o porquê de, mesmo sendo insignificantes, a instituição psiquiátrica
ocupar um lugar hoje firme e robusto.

Para chegar nessa resposta temos que entrar num pensamento filosófico
mais geral e que norteia toda a crítica da antipsiquiatria: a consideração da política
e da economia que regem o mundo humano. Por isso que, mesmo os métodos de
tratamento psiquiátrico sendo tão ineficazes em termos de cura, continuam a ser
largamente usados. A instituição psiquiátrica dentro deste contexto atende os
objetivos políticos e econômicos bastante claros, isto é, ela atua como uma espécie
de polícia que pune e encarcera os indivíduos considerados improdutivos pelo
sistema capitalista-industrialista de nossas sociedades.

Tendo esta visão política - da forma mais genérica possível - de mundo, o


elefante não deve ser estudado apenas por uma de suas partes, mas sim como um
todo e, principalmente, deve-se estudar as relações que ele mantém com o seu
ambiente natural. Portanto, de nada vale fazer como a psicologia e a psiquiatria
tradicional em estar isolando o seu objeto de estudo, a mente humana, como sendo
uma coisa em si mesma, deixando de lado todo o envolvimento sócio-político-
econômico que o homem - dono desta mente - mantém com o mundo.

Para se conhecer realmente a mente humana, ela deve ser estudada dentro
do complexo jogo de relações que mantém com outros indivíduos, em seus
10

contextos sociais específicos. Afinal, nosso psiquismo é produto das relações que
mantemos com nosso meio sociocultural e nada mais plausível do que estudá-la
sobre esse enfoque. Partindo deste pensamento, a antipsiquiatria começou então a
estudar as relações do indivíduo com esse meio sociocultural, sendo este um dos
seus principais e mais importantes estudos.
11

CAPÍTULO IV - A POLÍTICA DAS RELAÇÕES HUMANAS


Como podemos perceber, a idéia central da antipsiquiatria é a de relação.
Não existem seres humanos isolados, não existe um ser-sem-relação mas sim um
ser-em-relação. Isto é uma prática inegável pois um indivíduo sempre está em
relação com os outros. A vida de um indivíduo se dá e se define a partir dos
relacionamentos que este mantém nos diferentes grupos sociais a que pertence.
Partindo dessa premissa básica, tudo o que acontece com uma pessoa não se
passa somente com ela, mas se estende àqueles aos quais ela está relacionada. Aí
se mantém firme a insistência da antipsiquiatria no caráter político da vida humana.

Quando se fala em política, muitos de vocês podem estar pensando em


vários partidos, candidatos a governadores falando em palanques, em comícios,
candidaturas, eleições, etc. Claro que isso é política, mas política não é só isso. Ao
insistir no caráter político da vida, os antipsiquiatras estão se referindo justamente
ao fato de que todos nós sempre buscamos a felicidade (amor, prazer, etc.), e que
esta busca passa, necessariamente, pelo outro. Logo, esse outro pode ser um
caminho ou uma barreira até essa tal felicidade que buscamos; ou ainda – o que é
mais comum – ser, ambiguamente, os dois (uma barreira e um caminho ao mesmo
tempo).

Para tanto, política na antipsiquiatria diz respeito ao desdobramento do poder


em quaisquer instituição social, desde as famílias (primeira instituição social) até
mesmo aos sindicatos e partidos, passando nesse meio termo pelas escolas,
empresas nas quais se trabalha, entre outras instituições (incluindo instituições
religiosas). Política diz respeito ao poder que temos sobre o próximo ou mesmo o
poder que o próximo tem sobre nós. Esse poder pode nascer de injunções
estabelecidas socialmente, formalmente ou o que é pior, pode nascer de simples
relações afetivas, a dois.

Para ficar mais fácil o entendimento, é fácil verificar o poder dentro das
relações humanas no nosso cotidiano (a política das relações). Um exemplo
clássico em nossa sociedade é o poder que o pai tem sobre o restante da família.
Se for perguntado a você, que está lendo esta monografia quem é o chefe da família
em sua casa provavelmente você irá responder que é (ou foi) seu pai. É um fator
cultural e bastante provável em nosso sistema o pai ser considerado o chefe da
família, o indivíduo dentro do grupo familiar que tem o poder sobre os outros.

Existem ainda muitos outros poderes: o poder que o homem mantém sobre as
mulheres (observável facilmente nas sociedades machistas), o poder do sacerdote
sobre o fiel, o poder do patrão sobre o empregado, do irmão mais velho sobre o
irmão mais novo, do professor sobre o aluno, enfim, uma infinidade de exemplos até
mesmo um bastante interessante e que merece profunda reflexão, o poder do
psicoterapeuta sobre o cliente.

Neste último é bom verificarmos que, até num processo psicoterapêutico, o


terapeuta também está incluído no universo relacional do indivíduo, valendo do
mesmo profunda atenção e consideração pois o núcleo do caso apresentado pelo
cliente pode estar justamente no seu relacionamento com o terapeuta.
12

Mas voltando para as relações (de poder) humanas, pode-se dizer que todas
as nossas relações são políticas, isto é, envolvem um jogo de poder, seja ele um
poder instituído socialmente ou um poder mais difuso, um poder afetivo – um poder
mais abstrato e quase que não perceptível. Sendo assim, as peculiaridades do
indivíduo não devem ser vistas como existindo apenas nele, mas sim como o
produto das relações que ele mantém com os outros. A maneira como ele existe,
seu jeito de ser se deriva dos relacionamentos (políticos) entre ele e os grupos
sociais a que ele pertence.

Portanto, podemos pensar que, o que realmente importa na antipsiquiatria


não são as características de um indivíduo isolado, mas como tais características
brotam de seus relacionamentos sociais.

Para se chegar a esses pensamentos, os fundadores e persecutores da


antipsiquiatria (Ronald Laing e David Cooper) estudaram pensamentos de outros
filósofos e cientistas. A fim de não sobrecarregar com muitas informações (a citação
de cada um deles) é de importância frisar que um destes maiores filósofos era o
francês Jean-Paul Sartre. Foi nele que Laing e Cooper articularam seus estudos
sobre o indivíduo – existencialismo – como o estudo mais geral das sociedades
humanas desenvolvido pelo marxismo.

Como se sabe, no marxismo procura-se determinar as relações político-


econômicas globais de uma sociedade, isto é, procura-se determinar as relações
econômicas e materiais que determinam as relações de poder numa sociedade. A
junção dos estudos de Sartre e do marxismo levou a antipsiquiatria a enfatizar as
relações humanas procurando compreendê-las desde as relações a dois, face-a-
face, até as relações mais gerais, entre entidades e instituições sociais mais
amplas. Mesmo porque é impossível separar o indivíduo de todo o contexto sócio-
político-econômico no qual ele vive.

Portanto e, resumidamente, numa busca de compreender melhor o


comportamento humano, a antipsiquiatria surgiu revolucionariamente com a
proposta de negar completamente tudo o que a psiquiatria coloca sobre a doença
mental, contrariando uma psicologia tradicional que toma o indivíduo em si mesmo,
isolado num contexto mais geral para tentar compreendê-lo em função do inter-
relacionamento social que ele mantém com o mundo; tentar compreendê-lo sob o
seu universo relacional, sob a política que se insere nas relações humanas.
13

CAPÍTULO V - FAMÍLIA, ESQUIZOFRENIA E ANTIPSIQUIATRIA


Para se estudar melhor a política das relações humanas, devemos estudar a
família como sendo a primeira instituição social que compõe o universo relacional
de um indivíduo. Como Danda Prado 8 diz em seu livro, cada ciência procura estudar
a família sob um aspecto diferente, logo é interessante ressaltar que neste trabalho
iremos estudar a família dentro de um contexto muito mais amplo; um contexto que
enfatiza o sistema político, econômico e social que, querendo ou não, acaba por
fazer parte das dinâmicas que constituem a estrutura familiar; em outras palavras,
neste trabalho a família passa a ser vista como um fenômeno microssocial e
micropolítico que influencia e é influenciada pelo sistema macrossocial e
macropolítico, neste último caso, o Estado.

Sendo estudada dessa forma, dentro do contexto cultural onde está inserida
a família, é possível analisar as ligações criadas e estabelecidas entre o Estado e o
indivíduo dentro da instituição familiar; um estudo abrangendo o conjunto das
relações interpessoais numa perspectiva mais social e abrangente.

Mas, antes disso, vamos procurar enfatizar o sistema de relações pessoais


existente no interior da família e que irá nos ajudar a compreender como um de
seus membros é conduzido à mais grave das doenças mentais: à loucura, ou mais
especificamente, à esquizofrenia. O estudo das relações interfamiliares facilitará, e
muito, a compreensão do duplo vínculo explicado no próximo capítulo.

Como visto no item anterior, nossas relações interpessoais são:

 sempre políticas e na família isto não poderia ser diferente, mesmo porque
 ela própria se estrutura em torno do poder: o poder assumido pelo chefe ou
 por aqueles que sustenta (economicamente) o grupo e que, numa visão mais
 ampla, tem o poder de dirigir o destino dos demais membros (mais
especificamente dos filhos) educando-os segundo regras por ele prescritas e
indicando-lhes o caminho a seguir.

Esse tipo de poder na família pode adquirir (e quase sempre adquire) um


caráter impositivo e ditatorial, onde determinados valores são impostos aos
dependentes (os mais fracos). Sendo assim, o chefe ou os chefes da família
decidem quase tudo sozinhos como por exemplo: desde o decote do vestido da
filha, a que horas ela deve voltar quando sair e até mesmo quais são as
companhias mais adequadas para ela. Em outras palavras, procura-se numa forma
totalitária, formar indivíduos através da imposição dos mínimos detalhes e valores,
que devem reger o comportamento dos membros do grupo.

Muitas vezes a imposição destes valores pode ser fortemente rígida e


autoritária negando assim qualquer traço de autonomia e individualidade dos
demais membros.

8
PRADO, Danda. O que é família. São Paulo: Brasiliense, 1981 (Primeiros Passos, 50).
14

Isto significa que, de certa forma, os filhos devem se tornar um produto dos
desejos dos pais, seguindo-lhes rigidamente as prescrições e evitando quaisquer
atitudes que fujam dos padrões por eles estabelecidos; impedindo assim seu
crescimento enquanto uma entidade autônoma, capaz de se escolher e escolher os
seus próprios caminhos e valores, passando a ser quem os outros querem que eles
sejam.

Ronald Laing passou a chamar essa condição de sistema de falso eu na qual


o indivíduo irá assumir determinadas maneiras de ser que estão em concordância
com aquilo que esperam dele, afastando de si outras possibilidades que possam
surgir de seus reais desejos.

Tendo em vista que o sistema familiar, nesse caso (e na maioria dos casos), é
rígido e repressor, punindo os desvios de seus membros, o indivíduo passa a
assumir-se como um personagem criado pelos outros. Para ser um bom filho e não
sofrer a repressão ele passa a se comportar segundo as normas que lhe foram
ditadas pelos outros, retirando de si próprio o centro de decisões a respeito da
própria vida; passando a assumir um falso eu, uma personalidade destinada a
satisfazer os desejos do grupo, mesmo que seja o contrário que ele próprio
escolheu para si.

Para a antipsiquiatria, esses falsos pressupostos e falsas atitudes geram a


esquizofrenia, geram um modelo não usual de ser, de existir no mundo. Dentro
desse contexto, podemos então perguntar por que dentro de uma família, mesmo
sendo rígida e repressora, apenas um dos indivíduos desse grupo é que se torna
um esquizofrênico e os demais não; por que apenas um deles é que se torna
diferente, esquisito, levando os outros a conduzirem-no a um tratamento.

Para responder esta questão podemos analisar a situação inversa, por que
um indivíduo não se torna um esquizofrênico.

Quando o sistema familiar não é repressor ao extremo, permitindo que o


indivíduo descubra, em outros grupos, outras maneiras de ser, existem grandes
probabilidades de ele tomar consciência do jogo em que está inserido. Existem
maiores possibilidades de perceber que ele pode assumir seus próprios valores,
desde que longe do sistema familiar impositivo. Sendo assim, ele passa então a
jogar, frente à família, o papel que dele esperam, comportando-se de maneira
autônoma longe dela. No geral, é isto que preserva nossa sanidade: a descoberta
das regras do grupo onde estamos e da nossa liberdade para manipulá-las em
nosso proveito (o que não ocorre no duplo vínculo, abordado mais adiante).

Sob esta ótica podemos dizer que nós aprendemos a ser quem os outros
querem que sejamos quando estamos junto a eles, sendo em outros lugares aquilo
que realmente somos ou queremos, exercendo assim nossa liberdade de nos
apresentarmos segundo o que as situações nos pedem. Mas, na família onde surge
o indivíduo esquizofrênico o sistema é tão opressor que não permite a mínima
variação da conduta de seus membros. O indivíduo esquizofrênico assume seu
falso eu vinte e quatro horas por dia, renegando completamente as suas aspirações
e paixões pessoais; deixando tudo aquilo que gostaria de ser ou fazer –que
contraria as normas familiares- num estado latente, negando seu eu autônomo.
15

Vivendo através do seu falso eu, o indivíduo começa a perceber-se como


estando cada vez mais distante de si próprio, distante de se tornar um ser
autônomo. Ele passa então a viver como uma espécie de personagem que, no
fundo, não quer ser. Isto acaba por gerar um conflito que, gradativamente, vai
assumindo proporções insuportáveis simplesmente pelo medo de contrariar as
normas familiares e sofrer uma maior repressão.

Neste conflito pode-se observar que existem dois eus, um é aquele que lhe é
imposto e o outro é aquele que ele aspira ser (mas que não é). De início é como se
essa divisão pudesse ser mantida, porém com o passar do tempo, o indivíduo
candidato à esquizofrenia percebe que na realidade ele não tem eu algum; percebe
que aquilo que ele interpreta não é ele mesmo e aquilo que ele deseja ser não pode
ser assumido: logo, ele não existe, passa a ser um simples boneco,
despersonalizado e obediente às vontades alheias.

Neste momento sua angústia torna-se insuportável e, na medida em que ele


se sente fragmentado, partido e carente de uma personalidade una podem surgir os
primeiros sintomas do comportamento esquizofrênico. Para Laing e Cooper, estes
comportamentos que ele passa a ter são uma forma de protesto à situação
opressora que lhe nega a individualidade. Este protesto não é um protesto comum,
é um protesto cheio de contradições, não declarado e nem admitido abertamente
pelo próprio indivíduo. Se por acaso ele conseguisse assumir-se e protestar
abertamente, estaria de certa forma, recuperando sua autonomia e sua
individualidade, mas, como tem medo de mais repressões, sua forma de protesto é
confusa, incongruente e visa inclusive mascarar o fato de que ele está se opondo
ao grupo, aceitando assim o rótulo que lhe é atribuído : esquizofrênico.

Neste estado, é muito mais fácil assumir-se como alguém doente, confuso,
carente de cuidados do que assumir-se como um opositor, alguém que nega as
regras familiares. A mesma condição acontece do outro lado, é muito mais fácil a
família assumir um filho doente do que um mau filho, sendo um consenso grupal a
possível insanidade mental deste indivíduo.

Como ele não sabe mais quem é e sendo visto como um desajustado, cada
vez mais passa a assumir o papel de louco, cada vez mais se afunda em suas
contradições e em sua fragmentação.

Partindo para um ponto de vista micropolítico, a instituição 9 familiar passa a


ser então um local onde as pessoas devem assumir papéis com scripts pré-fixados
independente de sua criação pessoal. Isto nos deixa uma expectativa de como
devem ser os comportamentos e as atitudes de seus membros, como devem ser os
comportamentos e as atitudes de um pai, de uma mãe ou mesmo de um filho,
submetendo-nos aos papéis pré-fixados pelo sistema maior (do Estado). Sendo
assim, .. “a família é especialista em estabelecer papéis para os seus membros,
mais do que criar condições para cada um assumir a sua identidade”10.

9
Entende-se por instituição um agrupamento humano no qual as pessoas são colocadas em
determinadas posições (ou em determinados papéis) que transcendem a sua intencionalidade
individual.
10
COOPER, David. A morte da Família. São Paulo, Editora Marins Fontes, 2º ed., 1986, pág. 26
16

Podemos dizer então que os relacionamentos interfamiliares ocorrem


segundo regras pré-estabelecidas tanto socialmente quanto particularmente (dentro
de cada família). Portanto a família passa a acatar as regras sociais maiores (do
Estado) e passa também a criar suas próprias regras.

Para entender melhor isso, é bom observar que numa estrutura ditatorial e
machista (como a nossa) , o poder de criar e acatar ou não tais regras é delegado
privilegiadamente ao homem, ao chefe da família. Cabe então a ele legislar e
promulgar as leis do grupo, bem como punir os que não as acatam. Aos poucos
esse poder vai se configurando, democraticamente (partindo da discussão das
regras), numa espécie de ditadura familiar que, se atingir uma ferocidade extrema,
poderá produzir indivíduos esquizofrenizados.

Observamos ainda que, a família brasileira atual (em especial) tende a gerar
pessoas altamente dependentes ao invés de formar indivíduos conscientes de sua
individualidade e responsabilidade para escolher seus próprios caminhos.

Os filhos então passam a ser educados para a submissão e não para a


autogestão. Devem se submeter às recomendações dos mais velhos, dos mais
experientes, já que não possuem a capacidade para serem responsáveis por si
próprios.

Esse tipo de submissão continua ainda na escola onde os alunos são


subordinados à autoridade dos mestres e diretores que também já decidiram por
eles o que e como deve ser seu aprendizado. Mas isso não para por aí, quando
Wilhelm Reich disse que “a família espelha e reproduz o Estado” 11 – em todos os
sentidos - é fácil observar que a submissão acompanha o indivíduo em toda a sua
vida, passando ainda por sua vida profissional e indo até mesmo na sua simples
ação como cidadão (na qual o Estado é que passa a decidir por ele).

A situação de dependência familiar é hoje tão extremada entre nós que os


pais não toleram que o indivíduo possa escolher não ser mais dependente deles.
No geral, isto é interpretado pela família como uma espécie de ato de rebeldia,
como uma negação da, como eles próprios dizem, felicidade que reina neste lar. Se
um filho resolve sair de casa e assumir sua vida própria os pais podem dizer: como
você pode fazer isso conosco? Mostrando assim seu egoísmo; ou melhor dizendo,
para eles não interessa se a atitude de sair de casa será ou não boa para o filho, o
que interessa realmente é que essa saída não será boa para eles.

David Cooper então passa a insistir na questão do amor. Segundo ele, o


amor dentro da família nuclear burguesa vem sendo vivido e entendido como
dependência e submissão e não como a capacidade para compreender, exaltar e
estimular a liberdade e individualidade do outro. Amar o filho deveria ser entendido
como um estímulo para que ele se torne uma personalidade independente, e não
como uma relação de posse, em que eu possuo o controle sobre sua vida.

11
REICH, Willhian apud FREIRE, Roberto. Soma – uma terapia anarquista. São Paulo, Ed.Sol e
Chuva, 1993, pág 36
17

Para se compreender melhor o conflito entre os papéis e valores impostos


aos filhos podemos notar que, o mesmo conflito parte de uma situação ambígua, ou
mesmo de uma ambivalência de sentimentos. Se de um lado a política familiar
impõe determinada forma de ser que não é desejada, por outro lado ela fornece
coisas boas como - por exemplo - um lar, dinheiro, proteção e amor. Mas, se não se
comportar direito como se é esperado, o indivíduo então perderá o seu amor e
proteção, tornando-se assim um mau filho. Por outro lado, se o indivíduo se
mantiver dentro dos limites que lhe foram impostos, deixará de vivenciar e
experienciar seus desejos, não se realizando como pessoa. Sendo este o núcleo do
conflito.

Para o indivíduo que experiencia tudo isso, não é tudo tão simples assim. Ele
se encontra muito confuso internamente, não sabendo mais distinguir com clareza o
que ele realmente acredita e aquilo que os outros querem que ele acredite.

Esta situação de ambivalência, na maioria das vezes, está ligada a uma coisa
chamada de sentimento de culpa; e que é o principal meio de controle familiar. É
através de sua implantação no indivíduo que se consegue conduzi-lo a uma forma
de introjetar os papéis e comportamentos prescritos. É mostrado ao indivíduo que
se ele não seguir as normas da dinâmica familiar estipulada ele poderá
desestruturar o restante da família. Alguns exemplos clássicos quanto a isso são
algumas das afirmações mais comuns que visam justamente a implantação da
culpa:

 Se você não se casar com esta moça eu sofrerei o resto da vida;


 Se você for morar sozinho seremos vistos por todos como uma família
desagregada, sem harmonia;
 Você não tem o direito de nos fazer sofrer se metendo nestes movimentos
estudantis, onde poderá ser preso.

Ou mesmo um exemplo mais trágico:

- Meu coração não irá agüentar; se você for estudar nesta cidade tão
distante, sofrerei um enfarte.

Provavelmente você já deve ter ouvido algo semelhante, mais conhecido


como chantagem emocional e que, como toda chantagem emocional, visa o controle
através da culpabilização do indivíduo.

Portanto podemos concluir que, essa é a política da família: ambígua e, na


maioria das vezes, contraditória.

Foram nestas contradições e ambigüidades que Laing e Cooper, para chegar


na maioria das críticas que resultaram na antipsiquiatria e que vimos até agora,
partiram de um estudo muito mais profundo e antigo denominado teoria do duplo
vínculo. Neste estudo, direcionado especificamente sobre a abordagem sistêmica
da doença mental (especificado no primeiro capítulo), demonstrava-se que na
família do indivíduo rotulado como esquizofrênico era freqüente o envio de
mensagens dúbias e de atitudes ambíguas.
18

Estudando a pragmática da comunicação humana dentro destas famílias,


perceberam que os pais geralmente dirigiam a seus filhos determinadas mensagens
com um duplo sentido, isto é, com sentidos opostos entre si. Estas mensagens,
dentro da situação de submissão e dependência e entre outros fatores que vimos
até agora, resultariam ao longo do tempo no falso eu descrito por Laing, num
indivíduo esquizofrenizado que cada vez mais se perde na sua própria
personalidade (personalidade esta que não existe).

Tendo então a psiquiatria com sua visão organicista da doença mental e a


antipsiquiatria indo contra essa visão entre outros fatores que vão contra a
psiquiatria de uma forma em geral, chegou-se à conclusão que o duplo vínculo seria
então um dos meios utilizados pela família, mesmo sem perceberem, que facilitaria
o controle dos filhos (ou de seus membros) e que numa situação mais crítica e,
recebendo constantemente esse tipo de vínculo duplo, resultaria então na
esquizofrenização de um de seus membros. Em outras palavras, poderíamos dizer
então que a origem da esquizofrenia se daria através de um erro na comunicação
existente no interior da família; não deixando um de seus membros exercer sua
individualidade, fazendo-o assumir assim seu falso eu.

O duplo vínculo então passou a ser a descoberta revolucionária mais


importante para a antipsiquiatria no que se refere a teorias sobre a origem da
esquizofrenia, a origem da mais importante e misteriosa doença mental.
19

CAPÍTULO VI - TEORIA DO DUPLO VÍNCULO


Uma das principais descobertas da antipsiquiatria foi perceber que os
desequilíbrios emocionais decorrem basicamente de distúrbios na comunicação
humana. Existe um defeito na forma de se comunicar e de se relacionar,
normalmente utilizado, que leva inicialmente à confusão e, conseqüentemente, à
desorganização do pensamento e perda da realidade. Isso muitas vezes acontece
desde a infância, quando a criança recebe um tipo de comunicação paradoxal,
chamada de duplo vínculo.12

A descoberta do duplo vínculo ou double bind surgiu em 1956, através de


estudos realizados pelo antropólogo Gregory Bateson no departamento de
sociologia e antropologia da Universidade de Stanford em Palo Alto (Califórnia).
Este estudo originou-se em 1952 quando Bateson juntamente com sua equipe,
decidiram estudar os intercâmbios familiares onde se encontrava inserido o
esquizofrênico, mais especificamente sobre suas formas de comunicação, gerando
assim, estudos mais profundos sobre a patologia da comunicação (neste caso, o
duplo vínculo) que era comum nessas famílias.

Esse estudo, denominado posteriormente como Toward a theory of


Schizophrenia (Por uma teoria da esquizofrenia) escrito em apenas 20 páginas foi
assinado por quatro grande nomes: Don D. Jackson, J. Haley, J.H.Weakland e
G.Bateson.

Ele nos mostra a intensidade das inter-relações, mesclando mensagens


complexas (verbais ou comportamentais) nos seus níveis lógicos, evidentes ou
mesmo mais abstratos (visível somente a um observador atento) que, querendo ou
não, passam a interferir no comportamento humano: esquizofrenizando ou não os
indivíduos dentro do seu universo interfamiliar.

Isto quer dizer que, dentre as famílias em que existia um esquizofrênico e que
foram estudadas, foi descoberto um tipo de comunicação paradoxal, um tipo de
comunicação ambígua e que, segundo observações, eram constantes na vida do
indivíduo esquizofrênico, passando ele próprio a viver nessa ambigüidade, ele
próprio a viver seu paradoxo.

6.1. A Comunicação Humana – Um pouco de sua teoria


A teoria do duplo vínculo está dentro da abordagem sistêmica da doença
mental, isto é, está dentro de uma abordagem que possui uma visão sistemática da
origem da esquizofrenia, tendo como base principal a comunicação humana.

Perguntando o porquê de se estudar a comunicação humana, cabe deixar


claro que a comunicação é uma condição estritamente necessária da vida humana e
da ordem social mais ampla.

12
FREIRE, Roberto e MATA, João da. Soma – Uma terapia anarquista. São Paulo, Ed. Sol e Chuva,
1993, pág 36
20

Desde o início de sua existência, um indivíduo se encontra envolvido num


complexo processo de aquisição de regras de comunicação, possuindo apenas uma
noção mínima daquilo em que consiste esse corpo de regras.

Muitas teorias da comunicação se restringem a estudar a comunicação como


um fenômeno unilateral, isto é, do elocutor para o ouvinte, esquecendo-se que a
comunicação se dá num processo muito mais complexo, num processo de interação.

A comunicação é, sem sombra de dúvidas, um dos primeiros fenômenos que


promove o relacionamento entre o indivíduo e o mundo. É a primeira condição
humana que estará sempre presente nas relações interpessoais do indivíduo
enquanto um ser que interage com seu meio social.

Apesar de mudarmos um pouco nossa linha de raciocínio apresentada desde


o início deste trabalho, é interessante agora darmos uma breve introdução sobre
como funciona, como se dá a comunicação em si, partindo para uma breve
introdução da teoria da comunicação sobre seu ponto de vista lógico, matemático e
sistêmico.

Observando a estrutura da comunicação humana, podemos dizer que a


mesma se dá basicamente através de três áreas: da sintaxe, da semântica e da
pragmática; e que estas três constituem o estudo da semiótica (teoria geral de
sinais e linguagens).

Destas três áreas, a sintaxe é a que abrange mais os problemas da


transmissão da informação. Preocupa-se com o problema de código, canais,
capacidade, ruído, redundância e outras propriedades estatísticas da linguagem.
Estes problemas são puramente sintáticos e não estão preocupados com o
significado dos símbolos das mensagens.

O significado das mensagens é o interesse principal da semântica. É


interessante observar que, mesmo que a transmissão semântica dos significados
pela sintaxe fosse perfeita, não adiantaria nada se tanto o emissor ou o receptor da
mensagem não conhecesse o significado da mensagem enviada. Daí podemos
compreender melhor a importância da semântica.

O último dos três é o seu aspecto pragmático (e o mais importante para nós).
Constitui-se no fato de que o comportamento humano é afetado pela comunicação.
Assim sendo, “os dados da pragmática são, não só as palavras, suas configurações
e significados, que constituem os dados da sintaxe e da semântica, mas também
seus concomitantes não-verbais e a linguagem do corpo.”13 A partir dessa fala,
podemos dizer que, todo comportamento, não só a fala, é comunicação; e que toda
a comunicação, não só através da fala, afeta o comportamento.

13
WATZLAWICK, Paul e BEAVIN, Janet H. e JACKSON, Don D. Pragmática da comunicação
humana: um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da interação. São Paulo, Ed.Cultrix, 1967,
pág 107
21

Resumidamente, a comunicação se processa então por três partes: Na


primeira é passada sinteticamente a informação (sintaxe), depois a informação é
decodificada através da sua significação (semântica) e, em último, ela passa a
afetar o comportamento (pragmática). Este seria o fluxo normal de uma
comunicação bem sucedida, derivando para a idéia que temos de relação ou
mesmo de interação.

O estudo da teoria do duplo vínculo nas famílias de esquizofrênicos constitui-


se então em um estudo do distúrbio do fluxo normal que a comunicação deveria ter,
isto é, a comunicação/mensagem passada é dúbia passando a pôr em dúvida toda a
complexidade da comunicação, deixando o fluxo normal da mensagem à mercê de
uma comunicação paradoxal.

6.1.1. Comunicação Paradoxal – Introdução ao Paradoxo


Historicamente, há mais de dois mil anos o paradoxo tem fascinado a mente
humana e somente agora com o desenvolvimento das áreas da lógica, matemática e
epistemologia – e que estão intimamente ligadas ao desenvolvimento da teoria da
prova, da teoria dos tipos lógicos e dos problemas de coerência, computabilidade,
determinabilidade e outros semelhantes – é que se abrangeu um estudo mais
detalhado sobre o paradoxo, demonstrando que existe algo em sua natureza que é
de importância pragmática (comportamental) e até existencial para todos nós.

A princípio, “o paradoxo pode ser definido como uma contradição que resulta
de uma dedução correta a partir de premissas coerentes”14; isto é, numa linguagem
mais fácil, o paradoxo é o que se diz de uma preposição ao mesmo tempo
verdadeira e falsa, ou que contraria o bom senso, ou ainda que vai de encontro à
oposição admitida e coerente. Essa definição pode ser enriquecida pela evocação
de idéias colaterais: sarcasmo, ironia, sofisma, antifrase, silogismo, antinomia, ou
ainda idéias próximas: má fé, contraverdade, falsidade, ambivalência, hipocrisia,
ambigüidade, lugar comum, farsa, etc. Isso concerne tanto à lógica quanto à moral.

Voltando-se para os sistemas lógicos e matemáticos, existem ainda três tipos


de paradoxos; cada um correspondendo às três áreas da teoria da comunicação
vista anteriormente (sintaxe, semântica e pragmática):

A primeira delas são as antinomias (paradoxo da sintaxe).

14
WATZLAWICK, Paul e BEAVIN, Janet H. e JACKSON, Don D. Pragmática da comunicação
humana: um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da interação. São Paulo, Ed.Cultrix, 1967,
pág 169
22

Para se entender melhor, uma antinomia se define como um enunciado que é


simultaneamente contraditório e demonstrável. Como por exemplo nesta fórmula:
temos dois enunciados, Ef que significa a negação do segundo, que é E v. Logo, os
dois podem ser combinados num terceiro enunciado, E k; formando-se assim uma
fórmula demonstrável do primeiro paradoxo: E k=Ef & Ev. Explicando melhor, as
Antinomias (Ek) são uma contradição formal, pois nada pode ser uma coisa e, ao
mesmo tempo, não ser uma coisa; nada pode ser verdadeiro e falso ao mesmo
tempo, em uma só afirmação.

O outro tipo de paradoxo é o que difere das antinomias num aspecto


importante: não ocorrem nos sistemas lógicos e matemáticos. Dão-se através de
algumas incoerências ocultas na estrutura de níveis do pensamento e da
linguagem. São mais conhecidos como antinomias semânticas. Paradoxos
existentes na decodificação das sintaxes. Paradoxos encontrados na significação
das mensagens.

Este paradoxo é a chave dos estudos da duplo vinculação. São paradoxos


que surgem nas interações em desenvolvimento e que passam a determinar os
comportamentos. São denominados de paradoxos pragmáticos.

Podemos observar então que, cada um dos processos básicos da


comunicação possui uma comunicação paradoxal:

 A sintaxe possui paradoxos lógico-matemáticos denominados antinomias.


 A semântica possui paradoxos denominados de antinomias semânticas
 A pragmática possui seus paradoxos pragmáticos

Isto é, resumidamente, existem disfunções (paradoxos) em cada um dos


níveis da comunicação, existem formas que dão sentido dúbio na forma que a
mensagem é transmitida (antinomia), na forma em que é entendida (antinomia
semântica) e na forma em que afeta o comportamento (paradoxo pragmático)

Esta seria a fórmula representativa de como ocorre a comunicação


paradoxal.
23

6.2. A prática do duplo vínculo


Voltando para uma linguagem mais simples, podemos dizer que o duplo
vínculo nada mais é que duas mensagens (uma em contraposição à outra) enviadas
simultaneamente que, se for utilizada sempre em uma criança (por exemplo), pode
conduzi-la à loucura. Trata-se de uma forma de negar e afirmar algo ao mesmo
tempo e transmitir isso através do mesmo canal de comunicação (pela fala) ou por
canais de comunicação diferentes (fala e expressões gestuais ou faciais).

Esse tipo de comunicação paradoxal utilizada na relação duplo-vinculadora


ocasionaria primeiramente uma confusão e, a partir daí seu uso contínuo poderia
levar até a loucura. É uma forma usada para confundir uma pessoa que recebe esse
tipo de mensagem, tornando-a fraca e dependente.

No entanto, a mais extraordinária e dramática descoberta da


antipsiquiatria foi constatar que o duplo vínculo só funciona quando
existe uma forte relação afetiva. Ela surge principalmente nas
relações familiares e amorosas. Assim, é o amor o instrumento
fundamental para a dominação e neurotização dos indivíduos na
vida burguesa. 15

Vejamos um exemplo de uma situação duplo-vinculadora: Uma garota de 19


anos deseja sair de casa e morar separada de seus pais. Ela quer apenas ampliar
sua liberdade sem que isso corte o relacionamento com a família. Num diálogo com
a mãe ela comunica sua decisão e recebe um duplo vínculo: a mãe lhe diz estar
feliz por sua filha resolver separar-se dela e, ao mesmo tempo, não consegue
conter as lágrimas ao afirmar isso. Na verdade, está dizendo em palavras ser
natural e saudável a independência da filha, mas afirma também pelas lágrimas que
isto a fará sofrer muito.

Embora não tenha realmente dito isso, foi comunicado que a independência
da filha provoca a infelicidade da mãe. Isso produz um forte sentimento de culpa na
filha que, em conseqüência, pode abdicar de seu desejo de liberdade e autonomia.
Nesse caso foram utilizados dois canais de comunicação (a fala e a expressão
facial) na mensagem duplo-vinculadora. Mas a mãe poderia ter utilizado também
(em outro exemplo) apenas um canal de comunicação: “Seu pai vai entender
também, como eu, o fato de você não querer mais morar conosco, mas fale com
cuidado, você sabe, ele já teve um infarto, ele gosta demais de você...”16.

De uma maneira ou de outra, a criança que foi sempre educada utilizando-se


o amor (através do vínculo duplo) como instrumento de dominação de seus desejos
próprios acaba tornando-se apática, impotente, incompetente ou mesmo louca,
assumindo assim seu falso eu, tornando-se uma esquizofrênica.

Neste exemplo houve uma comunicação paradoxal ou duplo-vinculadora,


pois não se utilizou uma linguagem direta, sincera e objetiva, afirmando um não ou
um sim definitivos.

15
FREIRE, Roberto e MATA, João da. Soma – Uma terapia anarquista. São Paulo, Vol.3, 2º ed. Sol e
Chuva. 1993, pág. 34
16
Idem, pág 34
24

Caso a mãe mostrasse sua opinião clara e sincera não teria sido tão grave,
pois haveria um impasse claro. O que prejudica a comunicação é o fato de existir
tanto uma como outra possibilidade numa só mensagem. Esse tipo de comunicação
paradoxal é constante no desenvolvimento de nossa sociedade burguesa
resultando-se assim na confusão que vai deformando, alterando a compreensão dos
fatores e modificando seus comportamentos. “Essa é a forma de comunicação
utilizada pela família da grande maioria das pessoas que se tornam neuróticas”17.

6.2.1. O funcionamento do duplo vínculo


Analisando o exemplo anterior, da filha que queria sair de casa, podemos
observar claramente a comunicação paradoxal através da teoria da comunicação. A
filha, ao receber a mensagem ambígua da mãe, que concorda (pela fala) e que não
concorda (pelo choro), através da antinomia (paradoxo da sintaxe), fica em dúvida
quanto ao entendimento da mensagem que recebeu (antinomia semântica) e que,
devido a isso é gerada uma confusão do que a mãe queria realmente dizer,
ocasionando um comportamento ambíguo: não realizando seus desejos e
satisfazendo o desejo de outros (paradoxo pragmático) ao mesmo tempo. Para
entender melhor como o paradoxo ou melhor, como a mensagem paradoxal gera
confusão em um indivíduo, podemos tentar compreender a seguinte mensagem
(como por exemplo):

Ao ler essa mensagem, a primeira coisa que vem à mente é uma certa
confusão. Depois de ler algumas vezes você pode até pensar que entendeu a
mensagem mas no fundo ainda ela está confusa pois, se eu minto e escrevi que
tudo o que escrevo é falso, eu minto ou eu não minto? E, se tudo o que eu escrevo
é falso e eu digo que estou mentindo, então tudo o que escrevo é ou não é falso?
Enfim, são duas mensagens em que uma contradiz a outra gerando confusão em
quem a recebe. Nesse caso em especial ainda, “os sentimentos do ego são postos
em questão pelos valores negativos das palavras mentir e falso”18

Sendo assim, podemos pensar que, uma criança que recebe sempre uma
mensagem duplo-vinculadora de seus pais, um ser que desde as origens do seu
desenvolvimento vive sempre numa confusão em seus processos cognitivos tende a
se desenvolver fora dos padrões considerados normais pela sociedade, tende a se
desenvolver em sua própria confusão através da confusão entre os planos verbais e
comportamentais da comunicação.

17
Ibidem, pág 35
18
BENOIT, Jean-Claude. Vínculos Duplos – Paradoxos familiares dos esquizofrênicos. São Paulo,
Zahar, 1982, pág. 10
25

6.2.2. Os Ingredientes do duplo vínculo


Bateson, Don Jackson, Haley e Weakland descreveram os ingredientes de
um vínculo duplo:

Trata-se sempre de relações entre duas ou mais pessoas, sendo uma delas a
vítima, aquela que é duplo vinculada.

Essa experiência se repete ao longo da existência da vítima. (não


ocasionando traumas específicos).

Emite-se uma injunção primária negativa, combinada de uma ameaça. Como


por exemplo: Não faça isso, caso contrário eu o punirei; ou Se você não fizer isso,
eu o punirei. Para o duplo vínculo ter seu efeito, sabe-se que as relações devem ter
carga afetiva, logo nesse exemplo é enfatizado o caráter punitivo da mensagem
apontando uma expressão de ódio ou da cólera, ou ainda “essa espécie de
abandono que decorre da expressão, por parte dos pais, de sua profunda
confusão”19

O quarto ingrediente é uma injunção secundária em conflito com a primeira.


Esta injunção encontra-se num nível de abstração mais elevado que a primeira por
constituir-se de uma antinomia. Muitas vezes torna-se difícil de descrevê-la pois
freqüentemente é transmitida através de uma forma paraverbal, como a modulação
da voz, dos gestos ou da postura. De uma forma ou de outra, ela acaba negando a
primeira. Ex: Não me encare como responsável por sua punição; ou Não leve em
conta minhas proibições.

O ingrediente mais importante está na injunção negativa terciária que proíbe


à vítima qualquer escapatória. Para a criança é impossível fugir da relação vital que
representam os adultos que a cercam. Por vezes, o bloqueio é substituído pela
ambigüidade.

O último aspecto é igualmente fundamental no estudo de situações


relacionais concretas. Qualquer reação desencadeada de um vínculo duplo gera
uma reação emocional (paradoxo pragmático). Sendo assim, os mesmos autores
ainda colocaram os três pontos principais que marcam esse tipo de situação:

A relação em questão é essencial, o que confere um valor vital à


compreensão correta da mensagem.

O protagonista que aplica o vínculo duplo emite duas espécies de


mensagens contraditórias.

A vítima se acha incapacitada de metacomunicar-se, de comentar ou de pedir


esclarecimentos quanto às mensagens recebidas.

19
BENOIT, Jean-Claude. Vínculos Duplos – Paradoxos familiares dos esquizofrênicos. São Paulo,
Zahar, 1982, pág. 24
26

Resultante destes ingredientes, surgiram dois postulados básicos: o primeiro


diz que a situação pode desempenhar um papel significativo na etiologia e nos
sintomas clínicos das esquizofrenias e a segunda diz que a primeira se constitui no
cerne da relação familiar, bem antes do aparecimento da doença.

Na relação do duplo vínculo com a esquizofrenia é interessante observarmos


que um sujeito que se vê confrontado com essas injunções paradoxais, quando a
revolta lhe é impossível e quando uma resposta lhe é exigida, o modo mais direto
de reação consiste na expressão metafórica, ou seja, simultaneamente, que possa
ser interpretada de maneiras múltiplas (antinomia semântica), resposta essa tão
paradoxal quanto a injunção paradoxal. Os sintomas de esquizofrenia então,
seguindo essa teoria sistêmica da doença mental são, da mesma forma, modos
diferentes de respostas analógicas ambíguas e de respostas sem respostas.

Sendo assim:

O esquizofrênico se identifica como um indivíduo não identificável. Suprime


não apenas o sentido das palavras e das frases nas trocas, mas também os sinais
comportamentais que indicam em que contexto afetivo se situam essas mensagens.
Pode até mesmo retirar-se por completo da relação, negando sua própria
presença20.

Encontramos assim as três grandes formas clínicas de esquizofrenia,


segundo o estudo da comunicação. Na forma paranóide, é solicitado ao imaginário
privado, contendo imagens, mitos e palavras que chegam até a criar uma ruptura
com o imaginário coletivo, apesar de manter o vínculo inicial com ele. Na
herbefrênica, a resposta afetiva a outrem é feita sob a forma da ambivalência,
mesclando-se a intensidade relacional com a frieza e a hipersensibilidade com a
habitual diferença. A catatônica, coloca o distúrbio das relações no nível
comportamental: um rosto que não reage ao contato, o retraimento e o mau humor
patológico, a rigidez cérea, etc.

6.2.3. Colocando um indivíduo no duplo vínculo


É fácil observar a manipulação constante da distância relacional nas famílias
em que há um esquizofrênico, basta analisar as condutas de aproximação e
afastamento das mesmas.

Vejamos um exemplo.

A mãe de um jovem esquizofrênico foi ao hospital visitar seu filho, que estava
em franca recuperação após um episódio psicótico agudo. O doente apareceu feliz
por reencontrar sua mãe. Acolheu-a com espontaneidade e colocou o braço ao
redor de seus ombros.

20
BENOIT, Jean-Claude. Vínculos Duplos – Paradoxos familiares dos esquizofrênicos. São Paulo,
Zahar, 1982, pág. 22
27

A mãe fez imediatamente um movimento de recuo. O doente retirou o braço e


disse-lhe a mãe: Você não gosta mais de mim? O doente ruborizou-se e ela
acrescentou: Querido, você não deve deixar-se incomodar e assustar tão facilmente
por seus sentimentos. O doente ficou mais um minuto com a mãe e, pouco depois,
agitou-se, agrediu um enfermeiro e precisou receber tratamento.

Analisando-se a situação podemos dizer que: a mãe apresenta um


comportamento afetivo positivo, uma oferta ou uma aproximação; a criança
responde, reduzindo a distância. A mãe exibe então, por um movimento de recuo,
seu temor de uma relação excessivamente íntima. Ao mesmo tempo destrói o
sentido de sua mensagem, seja negando o próprio afastamento, seja questionando
o gesto da criança em relação a ela e o sentido que poderia ter.

Logo, podemos dizer que, uma manipulação eficaz consiste não somente
duplo vincular mas também pôr em dúvida a experiência íntima da criança, como
por exemplo: Vá deitar-se, você está muito cansado. A mãe confunde os sinais de
sua própria fadiga por detrás de uma definição da vivência da criança, em nome do
afeto que lhe dedica. Esse tipo de mensagem ainda tem muitos outros exemplos,
tais como: Você realmente não pensa assim; ou Você me entende, não é?; ou ainda
Você não deve sentir vergonha. A ambigüidade de tais mensagens depende do tom,
do contexto, da rejeição dos comentários etc., ou seja, depende enfim da introdução
de diversas negações e denegações, desconfirmações e desqualificações em
mensagens de aparência simples.

“A criança cresce na impossibilidade de comunicar algo sobre a


comunicação, o que tem como resultado a incapacidade de
determinar o que as pessoas querem realmente dizer e a
incapacidade de exprimir o que ela própria quer dizer”21.

No caso do recebimento de um duplo vínculo, como já dito anteriormente, a


criança-vítima, por sua vez, adquiriria muito cedo um modo de comunicação
ambígua e passaria a aplicar também o duplo vínculo, isso, pensando em um nível
psicoterapêutico, poderia contribuir para a dificuldade da relação psicoteráptica com
o esquizofrênico, capaz de colocar seus terapeutas na incerteza das pseudo-
relações.
Colocando-se no ponto em que o duplo vínculo é recebido, como no exemplo do
triângulo anteriormente (eu minto; tudo o que escrevo é falso) ou em outra
mensagem dúbia qualquer, podemos dizer sem sombra de dúvidas que é impossível
responder a mensagens duplas e contraditórias, é impossível metacomunicar-se:

Sendo afetivamente importantes, essas mensagens recebidas


determinam uma sucessão de tensões: falha na análise lógica das
mensagens, confusão subjetiva e distúrbios do pensamento, fala ou
ações que manifestam o desarranjo. Isso cria uma resposta
incompleta ou globalmente inadequada, que irá determinar, em
contrapartida, uma resposta que a condene. 22

21
BENOIT, Jean-Claude. Vínculos Duplos – Paradoxos familiares dos esquizofrênicos. São Paulo,
Zahar, 1982, pág. 24
22
BENOIT, Jean-Claude. Vínculos Duplos – Paradoxos familiares dos esquizofrênicos. São Paulo,
Zahar, 1982, pág. 32
28

6.3. Duplo Vínculo e a fabricação da loucura – síntese


Podemos dizer então que a visão da origem da esquizofrenia da
antipsiquiatria vai contra a abordagem organicista da doença mental proposta desde
o princípio pela psiquiatria, colocando-se então o universo relacional do indivíduo
como uma de suas possíveis causas das enfermidades mentais.

Sendo assim, um indivíduo que é duplo vinculado durante sua vida inteira –
colocando sua existência em questão - e não tendo uma visão certa de seus
sentimentos e dos sentimentos dos outros, tende a ficar permanentemente confusa
ao ponto de se tornar louca ao longo de seu desenvolvimento.

O duplo vínculo existe hoje na maioria de nossas famílias e em nossas


relações, principalmente por estarmos vindo de um regime militar (aqui no Brasil)
chamado de ditadura e que, segundo João Francisco Duarte Junior 23 esse regime
acaba por influenciar a família que, por sua vez, também se torna ditadora. Algumas
é que são muito rígidas e repressoras e controlam a vida de seus filhos ao ponto
dos mesmos não saberem distinguir quem são ou o que os outros querem que eles
sejam. Sendo assim, na maioria dos casos, preferindo ser o que os pais querem que
eles sejam (deixando seus desejos de lado) a fim de não perderem o amor dos
mesmos e o que é pior, não serem punidos.

O duplo vínculo é passado de gerações a gerações quase que despercebido


pela própria família, segundo Roberto Freire 24, só se torna um duplo-vinculador um
indivíduo que foi duplo vínculado.

Mas, podemos analisar também outro lado desta patologia da comunicação


que, de certa forma, mostra que a ambigüidade algumas vezes também é
necessária: sem ela, a vida não seria mais que uma troca interminável de
mensagens estilizadas, um jogo repleto de regras rígidas, monótono e desprovido
de supresa e humor.

23
JUNIOR, João Francisco Duarte. A política da loucura – a antipsiquiatria.Campinas,
Ed.Papirus,1983.
24
FREIRE, Roberto e MATA, João da. Soma – Uma terapia anarquista. São Paulo, Ed. Sol e
Chuva,1993
29

CONCLUSÃO
A antipsiquiatria, apesar de sua forte crítica, não descarta a existência de
determinados desvios do comportmento ocasionados por problemas físicos
(orgânicos), como por exemplo as doenças mentais causadas pela epilepsia, pela
sífilis e pelos tumores no cérebro (entre outras). Minha conclusão a princípio é igual
a uma velha conclusão sobre uma antiga questão da psicologia: O que mais está
presente na constituição do indivíduo, sua hereditariedade ou o seu meio social? A
mesma coisa ocorre neste estudo, o que gera realmente a esquizofrenia, fatores
psicoquímicos (orgânicos) ou o meio social (duplo vínculo)? Em ambas as
respostas, podemos dizer hoje que, tanto uma como a outra são estudos
amplamente interessantes e discutíveis mas que devemos ter em mente ambas as
teorias. Isto é, tanto uma como a outra estão certas, logo poderíamos dizer que o
homem é constituido 50% através de sua hereditariedade e 50% constituído através
do seu meio social, assim como a origem da esquizofrenia pode ser 50% orgânica e
50% social.

Pra que esse estudo então? Bem, este estudo me proporcionou (e espero
que pra você também) uma maior atenção na comunicação humana. Hoje em dia é
fácil observar indivíduos do cotidiano que aplicam o duplo vínculo em outras
pessoas. Quantas vezes alguém lhe disse que está bem quando na verdade você
percebe no tom de voz que não está nada bem? Pois é, aí já se encontra um duplo
vínculo e que, se você tivesse um vínculo muito forte com essa pessoa a resposta
ambígua dela lhe seria preocupante. Ao questionar o porquê do estudo da
antipsiquiatria e do duplo vínculo dentro da Somaterapia de Roberto Freire,
descobri também que, o duplo vínculo é a principal arma de dominação nas
relações interpessoais e através das descobertas de seus mecanismos, na
descoberta de quem está ou não duplo vínculando é que se está livre desta
manipulação. O Soma ao trabalhar com indivíduos enfatiza a sinceridade nas
relações humanas, pois é muito melhor ser sincero, dizendo um não do que
transmitir uma mensagem dúbia (um sim e um não ao mesmo tempo, isto é, um sim
em forma de não e um não em forma de sim).

Pra finalizar, vale a pena dizer mais uma vez que, “(...) quando uma pessoa
recebe um duplo vínculo de outra sem que haja um componente afetivo, essa
comunicação não surte efeito. Ele só causa confusão e culpa quando existe a
ameaça subjetiva da retirada afetiva”25.

25
FREIRE, Roberto e MATA, João da. Soma – Uma terapia anarquista. São Paulo, Ed. Sol e Chuva.
1993. pág 35
30

BIBLIOGRAFIA
BENOIT, Jean-Claude. Vínculos Duplos – Paradoxos familiares dos esquizofrênicos.
São Paulo, Zahar, 1982

BOSSEUR, Chantal. Introdução à antipsiquiatria. Rio de Janeiro, Zahar, 1976

COOPER, David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. São Paulo, Editora Perspectiva, 1967

COOPER, David. A morte da Família. São Paulo, Editora Marins Fontes, 2º ed.,
1986

FALCÃO, Daniela. Tá todo mundo louco... São Paulo, Revista da Folha, ano 6, nº
299. 1998

FREIRE, Roberto e MATA, João da. Soma – Uma terapia anarquista. São Paulo.
Vol.3, 2º ed. Sol e Chuva. 1993

GRANDINO, Adilson e NOGUEIRA, Durval. Conceito de Psiquiatria. São Paulo,


ed.Ática, 1985

JACCARD, Roland. A loucura. São Paulo, 1º ed, Zahar Editores S.A., 1981.

JUNIOR, João Francisco Duarte. A política da loucura – a antipsiquiatria. Campinas,


ed.Papirus, 1983

PRADO, Danda. O que é família. São Paulo: Brasiliense, 1981 (Primeiros Passos,
50).

WATZLAWICK, Paul e BEAVIN, Janet H. e JACKSON, Don D. Pragmática da


comunicação humana: um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da
interação. São Paulo, Ed.Cultrix, 1967

Este documento se encontra impresso (na biblioteca UNICASTELO) e


assinado pela banca julgadora da Faculdade de Psicologia.