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A historiografia sobre a guerra na Grécia Antiga: dos “relatos-batalhas” à


abordagem histórico-cultural

Article · September 2010


DOI: 10.15848/hh.v0i5.177

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2 authors:

José Geraldo Costa Grillo Pedro Funari


Universidade Federal de São Paulo University of Campinas
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A historiografia sobre a guerra na Grécia Antiga:
dos “relatos-batalha” à abordagem histórico-cultural
A historiography on the war in ancient Greece: from the “account-
battles” to the historical-cultural approach
José Geraldo Costa Grillo
Professor Adjunto
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
jgcgrillo@yahoo.com.br
Estrada do Caminho Velho, 333
Guarulhos - SP
07252-312
Brasil
Pedro Paulo Abreu Funari
Professor Titular
Universidade de Campinas (Unicamp)
ppfunari@uol.com.br
Cidade Universitária Zeferino Vaz
Campinas - SP
13083-970
Brasil

Resumo
14
Os autores retomam os principais temas, abordagens e problemas da historiografia militar da
Grécia Antiga com a finalidade de mostrar que as pesquisas se direcionam para uma abordagem
cultural da guerra.

Palavras-chave
Grécia Antiga; Historiografia militar; Abordagem cultural.

Abstract
The authors revise the main issues, approaches and problems of military historiography of ancient
Greece in order to show that research are heading for a cultural approach to the war.

Keywords
Ancient Greece; Military historiography; Cultural approach.

Enviado em: 29/04/2010


Autores convidados

história da historiografia • ouro preto • número 05 • setembro • 2010 • 14-20


José Geraldo Costa Grillo & Pedro Paulo Abreu Funari

Introdução
Os temas, abordagens e problemas principais da historiografia militar da
Grécia antiga foram passados em revista por Raoul Lonis e Pierre Ducrey, em
artigos já clássicos. Lonis (1985) elaborou um boletim crítico sobre 260 obras
referentes à pesquisa realizada entre os anos 1968 e 1983, dividindo-as em
nove temas: obras gerais, épocas micênica e geométrica, forças e modos de
combate nas épocas arcaica e clássica, exércitos e finanças, os exércitos de
Atenas, Esparta, Macedônia e Tebas, Exército e cidade, direito de guerra e usos
da guerra, guerra e religião e guerra e paz.
O estado da arte efetuado por Lonis sobre a guerra na Grécia antiga
tornou-se modelar para as realizações posteriores; todavia, ainda que tenha
apontado implicações importantes como a relação do estabelecimento da falange
hoplítica e o surgimento da polis na época arcaica e o tema da mentalidade
guerreira na relação entre guerra e religião, ele não situou essas pesquisas no
conjunto das disciplinas envolvidas, sobretudo a história antiga e a arqueologia
clássica, e o desenvolvimento de suas teorias e metodologias.
Essa empresa foi levada a efeito por Ducrey (1997; 1999), que se propôs
a uma reflexão sobre a evolução da historiografia da guerra na Grécia antiga de
1945 até 1999, dedicado às orientações recentes da pesquisa nesse domínio.
Situando a história antiga no contexto maior da história geral, mostrou como
essa historiografia, agora pouco interessada em uma “história acontecimental”,
15 adotou uma nova orientação, trabalhando, ao menos na França, com os
conceitos de “longa duração” e de “mentalidades” da Escola dos Annales. Também
no mundo anglo-saxão, surgiram temas como relações de gênero, identidades,
subjetividades, o indivíduo, como atesta Harry Sidebottom (2004), Simon
Hornblower (2007) e Hans van Wees (2007).
À parte das reações de aceitação e de recusa que esses conceitos
provocam em certos âmbitos acadêmicos, esse novo olhar da historiografia
pôs em destaque, segundo Ducrey, dois elementos que nos interessam:
primeiramente, as guerras do presente deixaram marcas nas obras dos
historiadores militares atuais; segundo, o aspecto polivalente e universal do
tema da guerra. Não se pode ler um autor antigo como Tucídides sem relacionar
seus intérpretes, a cada momento da História, aos contextos e circunstâncias
de suas épocas (SILVA 2008). A historiografia sobre a guerra na Grécia antiga
também se caracterizou, nas últimas décadas, pelo uso tanto da tradição textual
e dos textos clássicos, como pela crescente valorização das evidências materiais.
À luz desses dados, retomamos parcialmente essa história com a finalidade
de mostrar que as pesquisas se direcionam para uma abordagem cultural da
guerra na Grécia antiga. A relação entre guerra e violência nessa historiografia
coloca em evidência o uso do conceito de “sensibilidades”, tão caro à história
cultural.

Guerra e violência na historiografia militar


A historiografia da guerra passou, no século XX, por uma transformação.

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A historiografia sobre a guerra na Grécia Antiga

Conforme Yvon Garlan (1999), essa mudança deveu-se a um olhar para o


mundo contemporâneo, um mundo marcado pela guerra, por conflitos
envolvendo libertações nacionais e causas sociais, pelo desenvolvimento das
forças de destruição, pela ameaça permanente de uma catástrofe nuclear. Essas
marcas levaram os historiadores a considerar seriamente o fato militar em
todas as suas implicações e a pensar a história de maneira diferente.
No caso da história militar grega, os historiadores abandonaram os métodos
descritivos e se voltaram para uma reflexão temática e problemática da guerra,
desembocando em uma sociologia da guerra. No final da Segunda Guerra
Mundial, Hilda Lockhart Lorimer (1947) deu o primeiro impulso rumo a uma
história sociológica da guerra na Grécia antiga, ao estabelecer relações entre
armamento e sociedade. Com isso, ela questionou a ideia, construída sobre as
fontes escritas, de que a evolução do armamento e das táticas de combate se
deu por uma “revolução dos hoplitas”, argumentando, sobretudo a partir dos
dados arqueológicos, ter havido, ao contrário, uma evolução relativamente lenta
do armamento e do modo de combate, conjugada com a das práticas sociais.
Logo depois, nos anos que se seguiram ao fim da guerra, André Aymard
(1967) realizou, na perspectiva teórica da escola historiográfica dos Annales,
seminários temáticos sobre os reféns, o saque, os mercenários, a vitória, a
derrota, e tantos outros que demonstravam uma sociologia da guerra na
Antiguidade Clássica. Ele formou toda uma geração de pesquisadores, que, a
partir dos anos sessenta, dedicaram-se, na linha de pesquisa aberta por ele, a
estudar não mais as guerras, mas a guerra, entendida agora como um fenômeno
16
social, econômico, religioso, cultural etc., em sua “longa duração”, isto é, sua
permanência na História (GARLAN 1999).
Significativas e marcantes, nessa direção, foram as conferências proferidas,
em 1965, no Centro Louis Gernet, em Paris, na França, dedicadas aos Problemas
da guerra na Grécia antiga, onde, sob a direção de Jean-Pierre Vernant, uma
grande equipe de especialistas dedicava-se a estudar a guerra, partilhando a
ideia de que, para os gregos da época clássica, a guerra era natural. Essa
concepção decorre do fato de que os gregos – organizados em pequenas
cidades, orgulhosas de sua independência e desejosas em afirmar sua supremacia
– viam, na guerra, a expressão normal da rivalidade que preside às relações
entre seus Estados, sendo que a paz, isto é, momentos de tréguas, se
inscreviam como tempos perdidos na trama dos conflitos. Adeptos de uma
abordagem antropológica e histórica, que buscava compreender as relações
entre guerra e sociedade, partilhavam da compreensão de que esta presença,
natural e necessária, da guerra não se constituía, na vida social grega, um
domínio à parte, com suas instituições, seus valores, sua ideologia, mas que,
antes, confundia-se com a vida comunitária do grupo, tal qual ela se exprime
nas estruturas do Estado. Portanto, a guerra não está apenas submissa à
cidade, a serviço da política, ela é a própria política, identificando-se, assim,
com a cidade, pois o papel do guerreiro coincide com o de cidadão, ou seja, ele
se manifesta como guerreiro, uma vez que ele é um agente político com o poder
de decidir as questões comuns do grupo (VERNANT 1999).

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José Geraldo Costa Grillo & Pedro Paulo Abreu Funari

Não foram somente as duas guerras mundiais que influenciaram a


historiografia militar; a permanência da guerra durante todo o século XX continuou
a exercer seu papel de produzir sensibilidades, de despertar novas percepções.
A Guerra do Vietnã levou o historiador militar britânico John Keegan (1999) a
estabelecer uma diferença entre a face da batalha para os estrategistas que a
planejam e para os soldados que a realizam, destacando seus efeitos sobre os
combatentes, provocando dramas, traumas e atitudes, inclusive, as cruéis,
violentas. Esse enfoque influenciou Victor Davis Hanson (1989), que abordou a
guerra na Grécia antiga de maneira “realista”, considerando-a tanto na perspectiva
do agressor como na do agredido. Todavia, foi sua proposta de que a guerra
grega antiga está na base do tipo de guerra praticada no mundo ocidental até
uma época recente, o que mais despertou os interesses.
Os estudos de Pedro Paulo Abreu Funari (2006; 2008) sobre a Guerra do
Peloponeso realizam-se nessa direção. Considerando o contexto histórico e
cultural do passado e do presente, ele demonstra tanto como essa guerra foi a
primeira a pôr em relação guerra e sistema político, isto é, o embate entre o
ideal democrático de liberdade de um lado e a tirania e a submissão de outro,
quanto os usos ideológicos que são feitos dela, desde a Antiguidade até os dias
atuais, por políticos e militares.
A guerra da Bósnia também trouxe consequências para a historiografia
militar. Esse foi um tempo em que a guerra esteve, de maneira especial, no foco
17 das atenções. É nesse momento crucial que se associa guerra e violência. Isso
não implica, porém, afirmar que a violência tenha passado completamente
despercebida da historiografia; significa simplesmente que uma sensibilidade,
recém surgida, modificou os olhares. Guerra e violência tornaram-se, nesse
contexto, indissociáveis, sendo esta última entendida como inerente à primeira,
como sua expressão essencial, e passaram, então, a ser abordadas de maneira
sistemática.
O primeiro esforço para entender essa relação deu-se nos Seminários
sobre Guerra e violência na sociedade grega, ocorridos, entre janeiro e março
de 1998, no Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Londres (VAN
WEES 2000). Alguns anos mais tarde, no Colóquio Internacional, A violência
nos mundos grego e romano, ocorrido, entre 2 e 4 de maio de 2002, na
Universidade de Paris I, Panthéon-Sorbonne, a violência foi posta em primeiro
plano e as análises se voltaram para sua representação nos mundos grego e
romano, com interesse especial nos discursos produzidos e nas normas que
estruturam os sistemas sociais (BERTRAND 2005).
Trata-se de uma nova maneira de ver a violência, derivada de uma nova
sensibilidade. Nicolas Richer exprime isso muito bem ao dizer que

estudar a violência, é preparar-se para conhecê-la, para reconhecê-la,


para identificar os contextos que favorecem suas manifestações. É
familiarizar-se intelectualmente com um fenômeno complexo, do qual, [...],
todos os seres humanos experimentam um dia ou outro, uma vez que,
verdadeiramente, nós nos tornamos extraordinariamente sensíveis a uma

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A historiografia sobre a guerra na Grécia Antiga

insegurança que, provavelmente, nunca foi tão impotente, em relação ao


número potencial crescente de vítimas e de outros atos de violência
(RICHTER 2005, p. 8).

No que se refere ao mundo grego, André Bernand (1999) entende ter a


violência se dado de maneira onipresente na civilização grega, e que essa
violência exprimia-se pelo espírito de vingança. A aprendizagem da violência
pelos gregos veio, primeiramente, da necessidade de enfrentar as brutalidades
da natureza que os cerca – solo árido, inundações, tempestades, terremotos,
epidemias, feras selvagens –; depois, de Homero ao dar-lhes os primeiros
exemplos literários de violência, a Ilíada e a Odisseia; mas, também, dos autores
trágicos, que representaram inúmeras vezes em suas tragédias, o crime reagindo
ao crime, a vingança em resposta a uma agressão, mostrando ser a vingança
uma constante na história grega.
Essas transformações ocorridas na historiografia militar permitem que
temas já estudados sejam abordados de outra perspectiva, ou seja, a partir da
relação entre guerra e violência, produzindo, consequentemente, novos
resultados.
José Geraldo Costa Grillo (2008), por exemplo, analisa o tema da Ira de
Aquiles, tal qual manifestada em seu tratamento do cadáver de Heitor,
primeiramente, conforme sua descrição na Ilíada e, depois, a partir de sua
representação nos vasos áticos. Com isso, mostra que o mesmo foi
diversamente compreendido pelos gregos antigos, evidenciando diferentes 18
sensibilidades à guerra, em geral, e à violência, em particular, e,
consequentemente, identidades diversas.

Considerações finais
O estudo da guerra na Grécia antiga passou por mudanças substanciais
nas últimas décadas. As narrativas interessadas na reconstrução dos
acontecimentos, tais como teriam propriamente acontecido, foram sendo
concorrenciadas por preocupações com as circunstâncias e contextos de
produção das interpretações pela historiografia moderna. Em seguida, os textos
clássicos foram, cada vez mais, relacionados a evidências iconográficas e
materiais, de modo a compor um quadro mais complexo e menos unilateral
dos conflitos. À luz das discussões epistemológicas pós-modernas (FUNARI e
SILVA 2009), temas como violência, sexualidade e identidades, inseriram-se no
amplo campo da cultura grega antiga. Renovado, o interesse pela guerra na
Grécia antiga só tem aumentado.

Agradecimentos
Agradecemos a Harry Sidebottom e Glaydson José da Silva. Mencionamos
o apoio institucional do Grupo de Pesquisa Arqueologia Histórica da Unicamp,
da FAPESP e do CNPq. A responsabilidade pelas ideias restringe-se aos autores.

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José Geraldo Costa Grillo & Pedro Paulo Abreu Funari

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