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Títulos de crédito e seus princípios:

Antes de apreciar as características do cheque faz-se necessário o


entendimento do conceito de crédito e títulos de crédito.
Desse modo, crédito pode ser definido como “crédito (creditum, credere), ato
de fé, confiança do credor de que irá receber uma prestação futura a ele
devida” (GONÇALVES, 2011, p.11)

Em nosso Código Civil de 2002 contamos com a definição de títulos de


crédito como dispõe o artigo 887: “Titulo de crédito é o documento necessário
para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado”
Já do ponto de vista da doutrina RAMOS (2009, p. 231) diz que:

O conceito de título de crédito unanimemente aceito pelos


doutrinadores é o dado por Cesare Vivante O grande jurista italiano
definiu título de crédito como o documento necessário ao exercício do
direito, literal e autônomo, nele mencionado O conceito de Vivante,
todavia, e o ideal porque nos remete, atraves das expressões
“necessário”, “literal” e “autonomo”, aos tres principios informadores
do regime juridico cambial: a) cartularidade; b) literalidade; c)
autonomia

Dessa forma, é possível entender que título de crédito nada mais é que
materialização (um documento) de uma obrigação pecuniária (crédito) entre o
credor e devedor.
Superado a abordagem conceitual, será analisado os três princípios dos
títulos de crédito: a cartularidade, a literalidade, bem como a autonomia
Quanto ao princípio da cartularidade, GONÇALVES ( 2011, p, 12) ensina que:

Esse requisito expressa, justamente, a materialização ou


incorporação do direito no título, documento, papel ou cártula (daí
onome do princípio) [..] Portanto, quem detém o título tem
legitimidade para exigir o cumprimento do crédito nele incorporado.
Sem ele, por consequência, o devedor não está obrigado, em
princípio, a cumprir com a obrigação, ainda que aquele que a esteja
exigindo seja seu legítimo credor. O direito não existe sem o
documento, não se transmite sem a sua respectiva transferência e
não pode ser exigido sem a sua exibição
Com base na afirmação do respectivo autor é possível concluir que o a
cartularidade é o documento físico denominado cártula onde se materializa
todo o direito e fornece legitimidade para o portador deste título exigir o
cumprimento do crédito nele incorporado.
No tocante do princípio da literalidade pode-se entender que:

A literalidade, em síntese, é o princípio que assegura às partes da


relação cambial exata correspondência entre o teor do título e o
direito que ele representa. [...] Perceba-se a importância do princípio
da literalidade para que os títulos de crédito cumpram de forma
segura a sua função precípua de circulação do crédito: como a
pessoa que recebe o título tem a certeza de que a partir de sua
simples leitura ficará ciente de toda a extensão do crédito que está
recebendo, sente-se segura a realizar a operação
(RAMOS, 2009, pg. 235).

Sendo assim, com base neste ensinamento, podemos exemplificar que


se em um título de crédito consta o valor de R$ 200,00 a ser pago pelo seu
emitente na data expressa no título, o portador só poderá receber do emitente
a quantia exata e na data, ambos determinados no próprio título.
Por fim, tem-se o princípio da autonomia em que COELHO (2011, pg.
268) relata que:

Pelo princípio da autonomia, entende‑se que as obrigações


representadas por um mesmo título de crédito são independentes
entre si. Se o comprador de um bem a prazo emite nota promissória
em favor do vendedor e este paga uma sua dívida, perante terceiro,
transferindo a este o crédito representado pela nota promissória,
em sendo restituído o bem, por vício redibitório, ao vendedor, não se
livrará o comprador de honrar o título no seu vencimento junto ao
terceiro portador. Deverá, ao contrário, pagá‑lo e, em seguida,
demandar ressarcimento perante o vendedor do negócio frustrado.

Diante o exposto, é possível concluir que tais princípios citados são


requisitos fundamentais para a existência dos títulos de crédito, bem como para
sua validade jurídica, pois garante para o credor, bem como para o devedor a
existência de um documento formal que comprova a existência da obrigação
pecuniária por eles assumida.
Características de cheque como títulos de crédito:
Para que se discorra sobre as características do cheque como título de
crédito, é necessário antes abordar seu histórico e conceito como forma de
pagamento.
Do ponto de vista histórico REQUIÃO (1995, p.386 apud SOBHIE e DIAS,
2013, p. 132)
Foi na Inglaterra, contudo, a partir do século XVII, que o cheque
tomou impulso, a ponto de vulgarmente imaginar-se tenha sido
criado pelo gênio mercantil dos ingleses, nos tempos modernos.
A partir daquela época passou a acentuar-se o seu uso, como
cheque-mandato, equiparando ou confundindo mesmo com a letra de
câmbio sacada contra banqueiro, substituindo a circulação da moeda.

Em uma definição sintetizada “cheque é uma ordem de pagamento à


vista, emitida contra um banco, em razão de provisão que o emitente possui
junto ao sacado, proveniente de contrato de depósito bancário ou abertura de
crédito” (COELHO, 2011, p. 310)

Para que o pagamento em cheque ocorra, é necessário três elementos


envolvidos: o sacador, o sacado e também o beneficiário.
É o que encontramos na Lei 7357/85, bem como na doutrina:

Logo em seu art. 1º, a Lei do Cheque estabelece os requisitos


essenciais desse titulo de credito, determinando que ele deve conter:
a) a expressão cheque (clausula cambiaria); b) uma ordem
incondicional de pagamento de quantia determinada; c) o nome da
instituição financeira contra quem foi emitido (sacado); d) a data do
saque; e) o lugar do saque ou a menção de um lugar junto ao nome
do emitente; f) a assinatura do proprio emitente (também chamado de
sacador),
(RAMOS 2009, p. 253)

Desse modo, o sacador (também denominado emitente ou subscritor) é


a pessoa física ou jurídica responsável pela emissão do cheque, ou seja que
dá a ordem de pagamento para que o banco ou instituição financeira (sacado)
pague a quantia em dinheiro (se for realizado o saque do cheque) ou então
credite o valor descrito no cheque ao beneficiário ou seja a quem está
portando o cheque.
Superado o entendimento a respeito sacado, sacador e beneficiário, é
relevante abordar sobre o prazo para pagamento do cheque que pode ser de
30 dias ou 60 dias como explica COELHO (2011, p, 316):
O cheque deve ser apresentado a pagamento no prazo definido em
lei, qual seja, em 30 dias da emissão se for cheque da mesma praça
e em 60 dias da emissão se for cheque de praças distintas.
Entende‑se por cheque da mesma praça, para fins de definição do
prazo de apresentação, aquele em que o local designado como
sendo o de emissão é o mesmo município onde se encontra a
agência pagadora do sacado, sendo de praças distintas aquele em
que não coincidem o município do local que consta como sendo de
emissão e o da agência pagadora (art. 11 da Res. BC n. 1.682/90).

Diante dos pressupostos básicos aqui analisados sobre o cheque e visto


que uma das características dos títulos de crédito é o princípio da autonomia,
assim GONÇALVES (2011, p, 79) explica que:
“O art. 17 da Lei n. 7.357/85 prevê que os cheques transmitem- -se por
endosso, que pode ser feito ao próprio sacador, ou a um terceiro, que poderá
novamente endossar o cheque, e, assim, sucessivamente.”
Portanto foi possível identificar que o cheque possui todos os
requisitos/princípios para ser um titulo de crédito, a cartularidade (sua forma já
é uma cártula) a literalidade (o sacado cumprirá os dados descritos na cártula)
bem como o princípio da autonomia, visto que o cheque poderá ser transmitido
a terceiros por endosso do portador.

O cheque “pré-datado” ou “pós-datado”, conceito e validade jurídica:


É sabido que é um costume da população o uso do cheque pré-datado
que também é chamado na visão dos doutrinadores de pós-datado.
Foi abordada nesta pesquisa que o cheque tem em sua natureza a ordem de
pagamento a vista, é o que vemos no Artigo 32 da Lei do cheque ( lei 7357/85):

Art . 32 O cheque é pagável à vista. Considera-se não-estrita


qualquer menção em contrário. Parágrafo único - O cheque
apresentado para pagamento antes do dia indicado como data de
emissão é pagável no dia da apresentação.
Assim, a pergunta que é preciso responder é se o cheque é ordem de
pagamento a vista, o pós-datado é aceito juridicamente? “Poderá o
beneficiário saca-lo ou deposita-lo antes da data do ‘pré-datado”?
COELHO (2011, p. 308) ensina que:

Um cheque pós‑datado é pagável em sua apresentação, à vista,


mesmo que esta se dê em data anterior àquela indicada como a de
sua emissão (art. 32, parágrafo único). O sacado de um cheque não
tem, em nenhuma hipótese, qualquer obrigação cambial. O credor do
cheque não pode responsabilizar o banco sacado pela inexistência ou
insuficiência de fundos disponíveis.

Desse modo, a titulo de exemplificação, um beneficiário portador de um


cheque pós-datado para 60 dias, poderá ir antes desse prazo ao banco para
saca-lo ou deposita-lo, visto que o sacado não tem nenhuma obrigação
cambial.
Porém, é fato que o pós-datado nada mais é que um acordo entre o sacador e
o beneficiário:

O cheque pós-datado e importante instrumento de concessão de


credito ao consumidor Embora a pós-datação não produza efeitos
perante o banco sacado, na hipótese de apresentação para
liquidação, ela representa um acordo entre tomador e emitente. A
apresentação precipitada do cheque significa o descumprimento do
acordo.
(COELHO, 2003 apud RIOS 2009, p. 259)

O Superior Tribunal de Justiça, com base no cheque pós-datado, aprovou a


súmula 370: “Caracteriza dano moral a apresentação antecipada de cheque
pré-datado - . Rel. Min. Fernando Gonçalves, em 16/2/2009.”

Sendo assim, diante da legislação e da doutrina aqui reunida é possível


concluir que o cheque pós datado é somente um acordo firmado entre o
emitente e o beneficiário, sendo que este acordo não produz efeito perante ao
banco sacado e que o beneficiário poderá descumprir este acordo solicitando o
saque ou depósito desse cheque antes da data prevista, porém poderá ser
responsabilizado a respeito deste descumprimento na esfera civil.
REFERÊNCIAS:

COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial : direito de empresa – 23.


ed. – São Paulo : Saraiva, 2011.
Gonçalves, Victor Eduardo Rios Títulos de crédito e contratos mercantis /. – 7.
ed. – São Paulo : Saraiva, 2011. – (Coleção sinopses jurídicas ; v. 22)

RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Curso de Direito Empresarial: o novo regime
jurídico-empresarial brasileiro. 2.ed. Salvador: Editora JusPodium, 2009.

SOBHIE, Amir Ayoub; DIAS, Everaldo Medeiros. A natureza jurídica do cheque


pós-datado. Revista Eletrônica de Iniciação Científica. Itajaí, encontro de
Ciências Sociais e Jurídicas da UNIVALI. v. 4, n.2, p. 129-147, 2º Trimestre de
2013. Disponível em: www.univali.br/ricc - ISSN 2236-5044