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INFORME-NET DTA Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

Centro de Vigilância Epidemiológica - CVE

MANUAL DAS DOENÇAS TRANSMITIDAS POR ALIMENTOS

ALCALÓIDES PIRROLIZIDÍNICOS
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1. Descrição da doença - a intoxicação por alcalóides pirrolizidínicos é causada pelo


consumo de determinadas plantas que produzem essas substâncias tóxicas em seu processo
de biosíntese. Muitos dos casos, devido à toxicidade dos alcalóides, apresentam danos
moderados a severos no fígado. Sintomas gastrointestinais são normalmente os primeiros
sinais da intoxicação, e consistem predominantemente de dor abdominal com vômito e
desenvolvimento de ascite. A morte pode ocorrer de duas semanas até mais de dois anos
após o envenenamento, mas os pacientes podem recuperar-se completamente se o alcalóide
que penetrou no organismo, não foi de maneira contínua e os danos no fígado não foram
tão severos.

2. Nome da toxina – alcalóide pirrolizidínico, substância química não atropínica,


produzida por determinadas plantas venenosas.

3. Curso da doença e complicações - após a ingestão do alcalóide, e por um tempo


significativo, pode não haver evidência de toxicidade. A doença aguda pode ser comparada
à Síndrome de Budd – Chiari (trombose de veias hepáticas, deixando o fígado aumentado,
hipertensão portal e ascite). Sintomas clínicos incluem náusea e dor aguda epigástrica,
distensão abdominal aguda com dilatação proeminente de veias na parede abdominal e
evidente disfunção da bioquímica hepática. Febre e icterícia podem estar presentes. Em
alguns casos os pulmões podem ser afetados; edema pulmonar e derrames pleurais podem
ser observados. O dano pulmonar pode ser fatal. A doença crônica por ingestão de
pequenas porções por longos períodos pode causar fibrose no fígado e evoluir para cirrose,
a qual é indistingüível das cirroses por outras etiologias.

4. Diagnóstico da doença - diagnóstico clínico, testes bioquímicos do fígado e história


de ingestão. Danos no fígado pela ingestão dessas plantas podem ser confundidos como
devido à doenças como hepatites, câncer e outras que provocam cirrose.

5. Ocorrência – há no mundo, um número considerável de casos bem documentados de


envenenamento por essas substâncias. Muitos resultam de preparações medicinais de
remédios caseiros. Entretanto, intoxicações em animais costumam ocorrer em regiões de
seca prolongada, e onde as plantas que contêm esses alcalóides são mais comuns. O leite
dos animais, nessas regiões, pode estar contaminado com alcalóides, bem como, o mel de
abelhas que polinizam plantas tóxicas também pode conter tais substâncias. Surtos
envolvendo grandes grupos de pessoas foram registrados em alguns países onde os cereais
utilizados como alimento foram contaminados por alcalóides. As intoxicações relatadas
envolvem também o consumo de preparações de chás ou medicamentos caseiros com ervas
e os danos no fígado permanecem, em alguns casos, após cessada a ingestão, por mais 20
anos.

6. Susceptibilidade - todos os seres humanos são susceptíveis à hepatotoxicidade desses


alcalóides. Os remédios caseiros e o consumo de chás feitos com ervas em larga escala
podem ser um fator de risco e são a maior causa de envenenamento por alcalóides nos
EUA. Não há dados sistematizados sobre essas intoxicações por consumo rotineiro de
plantas com alcalóides pirrolizidínicos no Brasil, ainda que se saiba que as plantas
venenosas, em geral, sejam importantes causas de intoxicações acidentais, principalmente
em crianças.

7. Alimentos associados – as plantas mais freqüentemente implicadas nos


envenenamentos são membros da família das Boragináceas, Compositae e Leguminosae.
Um estudo no Brasil constituiu-se em alerta para o uso cada vez maior e perigoso desses
tipos de plantas como fitoterápicos comerciais ou remédios caseiros para todo o tipo de
males como úlceras gástricas, complicações renais, dores, etc., além de utilizações em
cosméticos, sabonetes, shampoos, desodorantes, etc.. Espécies do gênero Senecio
braziliensis (popular maria-mole ou flor das almas), do gênero Elpatorium laevigatum
(mata-pasto), Heliotropium índicum (crista de galo), Heliotropium transalpinum (bico de
corvo) e o Shymsitum oficinalis (confrei) são, entre outras plantas, utilizadas não apenas
como chás ou medicamentos caseiros, mas em saladas, em algumas regiões do país. É
freqüente o consumo de plantas com estas substâncias alcalóides, tais como a piperazina,
como medicamento, ou como alimento. Essas plantas têm sido consumidas como alimento,
com propósito medicamentoso ou ainda como contaminantes de outras safras de
agricultura. Safras de cereais ou forrageiras são algumas vezes contaminadas por
pirrolizidina, devido à algumas ervas daninhas ou pelos alcalóides encontrados no trigo ou
outros alimentos, incluído o leite de vacas que se alimentaram destas plantas. Algumas
plantas como as das famílias das Boragináceas, Compositae e determinadas leguminosas
contêm mais de 100 tipos de hepatotoxinas devido a pirrolizidina.

8. Análises dos Alimentos – os alcalóides podem ser identificados através da


cromatografia e espectrofotometria.

9. Medidas de prevenção – notificação dos casos envolvidos em surtos por alimentos


contaminados (Disque CVE - 0800 55 54 66) e educação da população sobre plantas
venenosas. Casos individuais podem ser notificados para os CEATOX, existentes em
diversas regiões do estado de São Paulo. Em São Paulo, o CEATOX HC/FMUSP pode ser
acessado pelo tel. 3069-8571 ou pelo e-mail: ceatox@icr.hcnet.usp.br

10. Bibliografia consultada ou links para saber mais sobre a doença

1. FDA/CFSAN Bad Bug Book – Pyrrolizidine Alkaloids. Disponível na URL:


http://www.cfsan.fda.gov/~mow/chap42.html
2. Jornal da Unicamp. Campinas, Jun 2001, Ano XV, No. 163 - comenta a tese de
Mendonça, CJS. Alcalóides pirrolizidínicos em plantas brasileiras de interesse alimentar e
medinal: identificação e toxicologia, apresentada à UNICAMP (Tese de doutorado), 2001.
URL: http://www..unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/jum2001/unihoje_ju163pag04.html

3. CDC/ MMWR - o CDC conta com uma lista de morbidade e mortalidade de casos
registrados que podem ser encontrados através do seu sistema de busca (search).

4. NIH/ Pub Med - o NIH/ Pub Med, no topo da página, permite acessar artigos sobre a
toxina no banco de dados da MEDLINE.

Texto organizado por Maria Lúcia Vieira da Silva César, estagiária SES/FUNDAP, do Programa de
Aprimoramento Profissional em Vigilância Epidemiológica das Doenças Transmitidas por
Alimentos, da Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar - CVE/SES-SP, ano 2003,
em outubro de 2003.