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Tropas e Boiadas

Hugo de Carvalho Ramos 1917

Tropas e Boiadas
Hugo de Carvalho Ramos

Instituto Centro-Brasileiro de Cultura

Caminho das tropas
O lote derradeiro desembocou num chouto sopitado do fundo da vargem, e veio a trouxe-mouxe enfileirar-se, sob o estalo do relho, na outra aba do rancho, poucas braças adiante da barraca do patrão. O Joaquim Culatreiro, atravessando sem parar o piraí na faixa encarnada da cinta, entre a espera da garrucha e a niquelaria da franqueira, desatou com presteza as bridas das cabresteiras, foi prendendo às estacas a mulada, e afrouxou os cambitos, deitando abaixo arrochos e ligais, enquanto um camarada serviçal dava a mão de ajuda na descarga dos surrões. O tropeiro empilhou a carregação fronteira aos fardos do dianteiro, e recolheu depois uma a uma as cangalhas suadas ao alpendre. Abriu após um couro largo no terreiro, despejou por cima meia quarta de milho, ao tempo que o resto da tropa ruminava em embornais a ração daquela tarde. O cabra, atentando na lombeira da burrada, tirou dum surrãozito de ferramentas, metido nas bruacas da cozinha, o chifre de tutano de boi, e armado duma dedada percorreu todo o lote, curando aqui uma pisadura antiga, ali raspando, com a aspereza dum sabuco, o dolorido dum inchaço em princípio, aparando além com o gume do freme os rebordos das feridas de mau caráter. Só então tornou à roda dos camaradas, ao pé do fogo do cozinheiro, no interior do rancho, onde chiava atupida a chocolateira aromatizada do café. A tarde morria nuns visos de crepúsculo pelas bandas da baixada. A mulada remoía nas estacas, e junto ao couro de milho um ou outro animal mais arteiro e manhoso escoucinhava e mordia os demais no afã do maior quinhão. Assentados sobre os calcanhares, os primeiros chegados – cujos lotes arraçoados se coçavam impacientes aos varais – espicaçavam pachorrentamente na concha da mão o fumo dos cornimboques, picavam miúdo no corte do caxerenguengue as rodelinhas finas, esfrangalhando entre os dedos os resíduos, palha grossa de cigarro encarapitada na orelha. O cabra abeirou, apossou-se do cuité fumegante que lhe estendia o cozinheiro; e, enquanto deglutia a beberagem, ia comentando com os demais, voz amolengada, a marcha daquele dia. – O lamedo dera-lhe, no vau do Anicuns, um trabalhão; mal do lote, se não fora o ramo verde da marmelada que o dianteiro tivera o cuidado de atravessar no caminho, a burrada embarafustava logo pelo atoleiro e ele não estaria àquela hora no pouso; quando lá passou, ia bem fresco ainda o rastro da tropa no desvio; mesmo assim, o macho crioulo que vinha adestro, não duvidara em meter-se naquela perdição... – Bicho novato, de primeira viagem... – observou o dianteiro, que tocava, como de direito, o lote mais luzido da tropa. No gancho da mariquita, especada sobre o brasido, refervia o bom adubo da feijoada; um bafo grosso, apetecente, daí se evolava, babando a gula de dois perdigueiros da comitiva, que, assentados sobre as patas traseiras, estendiam para o borralho o focinho curto, cupidamente... – Já vem chegando a boquinha da noite, minha gente – avisou o arrieiro saindo da barraca e chegando até o parapeito do rancho, olha o encosto da tropa. – Uma peia garantida nesse macho crioulo, ó Joaquim, que não dê outro sumiço; olá, mudem o polaco da madrinha, bate soturno esse cincerro. Guiada pelo chocalho da madrinha, levada no cabresto, à mão do dianteiro, a tropa desatrelada enveredou pela devesa, redambalando por intervalos cada polaco das cabeças de lote nos torcicolos abrutalhados da vereda, ribanceira abaixo. A noite descia

mansa e silenciosa, perturbada apenas pelo clamor longínquo das seriemas da campina no fundo dos vargedos, e a lua assomava como uma grande moeda de cobre novo por sobre os descampados, em vago nevoeiro.

À noite, repasto feito, descansava o pessoal recostado sobre as retrancas e pelegos dos arreios. Pelos cantos, trilavam grilos; e, de fora, vinha o grito dolente dos caburés e noitibós, agourando a solidão. Um tropeiro sacou do piquá que trouxera a tiracolo, o pinho companheiro dessas caminhadas no sertão; apertou a chave da prima e pigarreou pelo cordame um lundu, todo repassado de ais e suspiros. – Cabra malvado, faz tristeza essa viola – disse alguém, o pensamento longe, perdido no arraial, onde deixara, certo, saudades e cuidados. – Diga antes um caso, daqueles que nos contava, quando na boiada do Antão... – Homem, inda agorinha – atalhou o Manuel, o dianteiro – relembrava um fato que me sucedeu duma feita, quando viajava escoteiro, às ordens do major Matos, pr'essas bandas. O caso é que era então acostado, e de fiança, daqueles de pouca conversa e de grande estadão. Na quinta-feira das Dores, o sol ia descambando, o patrão manda-me chamar, passar a cutuca no lombilho do matungo, e partir sem detença para o povoado, uns papéis de eleição bem arrumadinhos na patrona. Mecês devem estar lembrados que na altura dos Marinhos, num estirão de meia légua de tabatinga e terra puba, fica um cemitério abandonado, há muito toca de tatus e camundongos-do-campo. Semana atrás, numa rusga de cachaça e mulheres, esticara a canela ali perto o Bentinho Baiano, um cafuzo intrometidiço, baleado por dois tiraços de rifle na volta esquerda da pá. Para poupar maior trabalho, aproveitaram a serventia antiga do terreno, sepultando por ali mesmo o assassinado. Fora eu até quem, de passagem, cedera a mortalha de ocasião com que o embrulharam, uma larga pala branca, enfeitada de bambolins, que me presenteara alguém que não tem a ver cá com a questão. “Viajava distraído, esquecido de tudo, na marcha a furta-passo do matungo, perrengueando, a pitar o meu cigarro, quando num repente, estaca de supetão o animal. Assuntei. A noite estava turva, o céu sem lua, aqui e ali picado de estrelinhas. O sítio não me pareceu estranho; atentei com mais justeza, – umas cruzes apodrecidas pendiam, no escuro, desconjuntadas, à beira do caminho, sobre cômoros malfeitos de terra... Era o cemitério velho do povoado. Apertei as chilenas no pangaré; ele andou alguns passos e depois emperrou de novo no meio da estrada, orelhas entesouradas, espreitando a escuridão. Adiante, não via nem ouvia movimento ou tropel algum; o bicho nunca fora empacador ou passarinheiro, tentação do capeta devia de andar ali por perto. Um homem é homem, mecês bem sabem; atravessei o punga no caminho, encurtei as rédeas e escrutei melhor a vista, já acostumado à escuridão. À minha frente, roçando o chão, brancacento, ia um lençol aberto. O matungo refugava arreliado, bufava pelas ventas, uma vontade danada de voltar atrás e desembestar pelo chapadão afora. Senti, benza-me o Santíssimo, u'a mão de ferro, no coração, triturando... Mas, como lhes dizia, em qualquer aperto, pr'este mundo de Cristo, um homem é homem, e o que tem de acontecer, tem força, acontece mesmo! “Desviei o meu bicho para uma pequena macega de sapé, pus-me abaixo da sela, amarrei seguro as bridas a um tronco de imbiruçu e voltei atrás, decidido, franqueira atravessada na boca como era de preceito, mão sobre os gatilhos escancarados da garrucha. Parecera, a este pobre cristão, melhor observado, que era a mesma franja de bambolins, o lençol que seguia estendido à minha frente – aquela mesmíssima mortalha com que dias antes enroláramos o corpo do mal-aventurado Bentinho...”

Parou, gozando a expectativa angustiosa que errava derredor, entre os parceiros. Bebeu uma última golada de congonha, que lhe servira atencioso o cozinheiro; bateu fogo na pedra do isqueiro, acendeu o cigarrão e olhou para fora, vagamente, meneando. – A gente, quanto mais vive, mais aprende, já dizia minha avó. Assombramento, tenho ouvido casos, verdade seja, mas as mais das vezes falta de coragem, turvação do medo e da bebida... Maluquice, anda à toa pelo mundo da Virgem; não fora o meu ânimo, hoje zanzaria por aí, nessas bamburras, gira varrido. Cheguei solerte, pé ante pé, negaceando, pronto a queimar as escorvas na cabeça do Mal-Encarado ou o quer que fosse que impedia a passagem. O lusco-fusco ia menos cerrado, o lençol prosseguia estrada afora, muito branco, desdobrado, largando felpas alvadias pela garrancheira e vassouredo da beirada. Sofreei o baque de meu peito e acheguei-me para mais perto da assombração; bati fogo na binga, soprei um chumaço, e agachado sobre o estorvo, pesquisei com cuidado. “Era... mas devia ter logo visto, um tatupeba, que se fartara no corpo do infeliz ali enterrado e que se retirava, empanturrado, para o seu coito. A imundície, na gana do festim, enrodilhara-se na mortalha do desgraçado, varando-a com a cabeça, e de lá se retirava, certamente bem atrapalhado, arrastando após si o trambolho... Devia ter logo visto; na pressa do enterramento, a cova tinha ficado um tanto rasa, a terra fofa, sem cerca nem revestimento para impedir aquela profanação... Enfim, creiam mecês, é ter sempre desapego ao perigo...” Calara. Cincerros distantes chocalhavam, longe, pelo encosto da devesa. A lua nos aceiros era toda branca como geada de inverno. 1914

Houve um rebuliço. a afilhada já dorme. embarafustou pelo rancho. – Carijó que assim canta.. andou lá por dentro remexendo. que ganhara a porteira e se afastava na cerração. as pálpebras inchadas. onde a mesa posta ostentava ainda os sobejos da ceia – frascos de licor e o doce de buriti esparramando-se na toalha besuntada – e saiu pelos fundos da casa. Traz tristeza. Zeca Menino alcançou o alpendre à banda. Os tampos descerraram-se sem rumor. traz quebranto. E caducou em solilóquio.. Tu. No terreiro. se despedia do festeiro – num salamaleque derreado onde havia ainda bifadas de cachaça e licor de jenipapo – que este deu pela ausência da filha. chamando-a para a bênção do padrinho.. Mas o frio apertava. e tio Ambrosino recolheu-se tropeçando ao abrigo da varanda. farto da queimada engolida aos gorgolões. requebrou-se a noite toda com o manhoso do Zeca Menino. também.. chamou junto ao quarto da filha: – Ó Maria!. é que fugiu moça de casa. levado de novo pelo curso da borracheira: Lá na serra dos Angicos Quanta flor anda a brotar! Assim também são teus olhos Quando pões-me a namorar. supondo-a recolhida. O outro. num grande grito de alarma. Ah. E partiu. desamarrou a mula estradeira e voltou montado ao oitão da casa.. repondo os trastes em seus lugares. a lua ia a perder-se por detrás das serranias. porém. e o Ambrosino. e o estrépito abafado do animal. atalhou com voz pachorrenta: – Ora. raspando-se no peitoril duma janela. que arranhou suavemente com o cabo da açoiteira. respontando na prima: A florzinha do pau-d'arco É da cor do entardecer. a modo que já vão andando. atravessou sorrateiramente a varanda de terra batida.. reavivando dentro a animação dos comparsas. moída da festança. pendependendo no arção.. um vulto esquivo deixou-se escorregar para a garupa roliça da besta. mal o viu desaparecer no cotovelo do atalho.. . cabeceando de sono. misturou-se perdido aos zangarreios da sanfona. um galo cacarejou no poleiro ao pé.. num sono invencível de sapo borracho. que não hás de trazer. O vaqueiro gritava para dentro. Em pontas de pé.. compadre. meu tempo.Mágoa de vaqueiro A Eduardo Tourinho Como os galos viessem amiudando e fora andasse a garoa fria de inverno que precede as primeiras horas do amanhecer. não se afobe.. agüentava firme no sapateio até pegar o sol com a mão!. escarranchado na pileca manca. a espertar o corpo perrengue num último gargarejo da queimada. E só quando as barras vinham quebrando e era manhã feita nas morrarias do nascente e o último convidado.. largando num tamborete o par com quem dera a última volta da catira. esgueirou-se pelo corredor. num pressentimento. dissimulando o tilintar das rosetas no cachorro das esporas. Junto ao fogo semi-extinto. viola ao peito. encolhido ao aconchego da fogueira. Despertado. gemia ainda àquela hora o tio Ambrosino. agora dorme. o tio Ambrosino interrompera o curso de suas divagações e cachimbava distraído: – Homem. e. que morava mais chegado. o Zeca Menino. no passo ronceiro da mula cambeta.

no rosilho troncho. na esperança de encontrá-la dobrada sobre o jirau de mantimentos. ele que. amparou-se ao cupinzeiro que erguia o seu cone crivado à frente da palhoça. fronhas dos travesseiros intactas. foi à cozinha. o sol já nado. saiu. rumo do Paranaíba e talvez das terras mineiras do Triângulo. numa crise de lágrimas e recriminações. quando partisse pela manhã para as labutas do campo! Ele que. se ele nunca se intrometera no namoro. num despertar intenso de saudade. tivesse o pulso a rijeza de outrora e partiria sem detença. porém. na glória fecunda das ondulações verdes. num pasmo mudo agora. a olhar emudecido. muito longe. na estrada batida. Àquela hora. a colcha de chita bem esticada. sombreado aqui pelas restingas das matas. como se nem pensar naquilo valesse mais a pena. ao esplendor crescente do dia.. quando viesse das malhadas. o eco dum aboiado rolou pelo fundo da várzea. onde preás minúsculos e calangos esverdinhados retouçavam familiares. em desespero. a malvada! E com quem. a recender acre. já transpunham a mata funda. tão absurda parecia a desgraça que se lhe abatera sobre o casebre. ondulando dolentemente de quebrada em quebrada. para além das colinas longínquas e do céu anilado. e um sorvo longo de vida e contentamento errava derredor. pronto a tirar a desforra merecida da afronta! Mas o corpo já não dava de si e ele bem sabia quão boa estradeira era a mula ruana em que haviam partido. A cama estava como na véspera a vira. O velho Tonico percorreu todas as dependências daquele pobre rancho de vaqueiro. Eram boiadeiros que lá passavam. e a tigelinha de café bem requentada. Santa Maria. mui gordo e ronronento. e apenas o bichano. dependurado na cabeceira. bem longe da sanha e da ojeriza impotente de seu amor paterno ludibriado. a olhar longe. E num dasalento. e ele. e nas abas dos montes e encruzilhadas. à beira dum atalho sempre deserto e cujo vizinho mais próximo. quando lá entrara para apanhar a bandeira do santo. inutilmente. que o mormaço solar irisava. virado o rosto para a volta da estrada. À tarde. O sertão abria-se naquela manhã de junho festivo. Virgem Maria. no catingueiro roxo dos serrotes. de cuja orla subia um nevoeiro luminoso. e o rosário das orações como sempre. só tinha por si essa estampa escorreita de mestiço madraço e preguiçoso! E por que. com tão pouco se contentava – vê-la sempre de sorriso à boca ao batente da porta. uns grandes olhos deslavados de espanto e ronronando ficara de novo a dormitar. Ele olhava apatetado. o sol já dardejando a prumo. mãos túrgidas engalfinhadas na barba intonsa. nem vestígio. Ali permaneceu horas a fio. bom Deus dos fracos. foi ao alpendre e até o chiqueiro e o fundo do quintal inquiriu ansiosa. Ele ficara mudo. a varanda e sua própria divisão.. foi. batuíras e xenxéns chalravam nas embaúbas digitadas dos grotões. no calor brando das cinzas. olhos apalermados. sujeito que além da garrucha e da besta de sela. resoluto. quando lá fora talvez buscar a candeia de azeite e se deixara ficar. até satisfaria a vontade de ambos.Mas um silêncio angustioso pairou após o brado do velho. escalonado mais além pelas colinas aprumadas. Fugira. o Ambrosino. indiferente à canícula. a sala. cuja tranca cedeu sem dificuldade. a varar o céu azul com suas aguilhadas de ouro. e só então a dor expluiu. Ah! não ter dez anos para menos. com o Zeca Menino certamente. meteu ombros à porta. vencida do sono. boca contorcida numa visagem estranha de mágoa. . um perdido de pagodeiras e do truque. emperolado da orvalhada. sem compreender. Veio ao terreiro da frente. brigão vezeiro nas redondezas. abriu para ele da trempe do borralho onde se aboletara. não virasse já os sessenta bem puxados. dando o consentimento. sem vinco ou ruga duma cabeça que ali repousasse alguns instantes. Da Mariazinha. só tinha aquele mimo na sua velhice desamparada e solitária de viúvo. mal da idade. ficava a duas léguas de distância! E arrepelava a grenha.

. magoadamente. escorreito e desempenado. ferrão em punho. de quebrada em quebrada. no rosilho campeador. das notas derradeiras da canção nativa. ia cerce a faina das térmitas em rasgar. olhando extático. a dar a mão de ajuda àqueles forasteiros que lá iam. Morrera. longe. agora. todo verde. na roupeta singela de algodão em que se enfatiotara. desmedidamente aberto. estampando na retina empanada a visão pungente do sertão em festa. ouvindo os ecos que lá iam do aboiado. demanda das terras distantes e das feiras ruidosas dos sertões mineiros d'alémParanaíba. nos braços. Continuava recostado no cômoro dos cupins. era inexpressivo e desvidrado. 1914 . e o olhar com que via. pela boca e orelhas.O vaqueiro velho não saiu então como de costume. perneiras e guardapeito. mão no queixo.. Ao pé. e a orelha à escuta. nas axilas. picar.. cortar e estraçalhar aquele estorvo molengo que se lhes abatera desde cedo por cima da casa. a cabeça bronzeada pendia mais flacidamente sobre o peito de vaqueano. a rolar.. somente.

chiava um carro vilarejo dos fundões remotos. as mais das vezes. assim como a nódoa minúscula e alvinitente duma rês branca. sobre o fundo verde-dourado da imensa malhada que eram aquelas paragens. onde uma ou outra mosca caseira voejava sonolenta e trôpega por sobre os coscoros duros do balcão. gente sã e escorreita. Avultava ao longe. à hora do crepúsculo. que inquietados da fama maligna de bruxedos e avezada a desnorteamentos de cristão. Muitas vezes. barulhentos e ralhadores. incitando aos estalos ásperos dos relhos e piraís compridos de trança fina. desviava o dianteiro a madrinha que se aprumara rumo do copiar da casa. era certo os arrieiros desavisados virem dessedentar-se da agrura calcinadora do verão tropical ali aos Marinhos. esbarrar mesmo a dois passos da porta. de peregrinações distantes. e. espancando o ar quieto e morno do interior. e arquitetavam o ninho gentil os povis e tiês mimosos de papo fulvo e penugem azulejada das campinas. ou malotes ajoujados de sola sertaneja. que possuía a luxuriosa habitadora daquele recanto. em cujo cimo se firmava arfante e senhoril a loura boneca da guia. fugaces teias de sombra espalmadas sobre a crosta recozida do solo. quando. metia a mula rosilha num garboso esquipado à marcha picada e vinha. que se detinha por momentos a retouçar a babugem das margens – guizalhentas as cabeçadas – com carregamento de cristal de rocha. o trote leve da burrada. na várzea aberta dos buritis virentes que espanejavam. por cujas erosões. mal dobrassem o cotovelo brusco duma serrota de alourejada coma de capim-melado e moitas de murici cheiroso. ao passo tardo e hierático dos bois patriarcais. E não raro. para as divisas estaduanas do grande rio. E torcendo rédeas braças antes. surrões preciosos do bom fumo goiano. não a traziam eles já nos alforjes bem fornidos da garupeira. após haver trilhado as rechãs esturradas d'argila vermelha e sapé bravio dos chapadões. de padrão azul listrado ou xadrez. à fresca das manhãs veranejas. medrava tenaz o catingueiro parasitário dos morrotes. e lá não fossem senão atraídos e tentados pelos olhos langorosos e quebrantadores da bela cabocla – arteira e artificiosa em seus gestos provocativos à sensualidade dos rapagões – e inflamados mais pela cor de mate sadia e forte de suas carnes roliças e de formas adengadas. nostálgico e lamuriento à distância. Era uma tropa que passava. corridas as chilenas. afastava-se pressuroso do roteiro ordinário da comitiva. a quebrar a uniformidade dos horizontes. à moda gaúcha. a fruteira-de-lobo e os coqueiros de macaúba. vincadas. Por ali passavam tropas mineiras d´além-Paranaíba – rijos tocadores palmilhando as alpercatas de couro cru pela extensão ardente e arenosa das estradas poentas. os arreios niquelados faiscando de mil maneiras.A bruxa dos Marinhos A João do Rio Ao lado da estrada real e à sombra espessa duma gameleira centenária em cujos esgalhos finos cantava em épocas de sazão a passarada. Ganhava distância. ladeadas às vezes de barrancos escarpados e esfarinhentos de pedra-canga. onde apenas. a sua flavela esguia e revoluteante de folhas. Por ali passavam. riscando curto o bicho. e as bombachas folgadas. apontava o primeiro lote na dobra do caminho. como uma dessas cigarras cinzentas de areia chirriando suas desditas no tronco rugoso duma lixeira dos cerrados. à luz estuante do sol. na sua besta de sela de estimação. com uma bochechada cheia da boa e rascante pinga da terra. levantando áureas nuvens de areia sutil e detritos e fagulhas delgadas de malacacheta rebrilhante. ao longo dos carris profundos deixados à passagem pela roda ferrada dos pesados carros de bois. o moço arrieiro que pr'essas estradas batidas tenteava a existência fretando cargas. como tênues. com um forte e sacudido: . Aos berros roucos e muxoxos cuspilhados dos lábios secos. e vivia a penar enredado nos embelecos traidores da comborgueira. Cruzavam tropeiros da terra. chocalhando a guizalhada dos peitorais e cincerros sonoros da cabeçada de prata reluzente. apareciam de vez em vez. pelas queimadas fumarentas e asfixiantes de agosto. ficava a venda da bruxa dos Marinhos. Em navegando pr'essas bandas. toda arqueada e gemebunda aos afagos do vento.

se bipartiam de meio a meio. à espera do café costumeiro. que ia mesmo braba nesses chapadões. seios sublevados e as faces carnudas da sensual moradora daquele cochicholo da estrada real – desespero de quantos boiadeiros brônzeos e ricaços em trânsito nessas plagas. olhava no alto o céu sempre azulíneo e ofuscante de luz. desacoitado do cocuruto o chapelão d'abas largas. onde ficava a prosear. e tivesse vergonha e acanhamento de mais uma vez render o seu preito submisso à cabocla. os dobros dos da frente. convidando o forasteiro a apear-se ao amparo da soalhada: Que sim. do par d'esporas.. encafuavam todos pelo vão estreito das cercas de nó-de-porco e sucupira das tranqueiras. E engrolava escusas néscias. como que arrependido já da íntima fraqueza. e embrulhava uma escusa tola. no segundo e quinto lotes vários burros pisados no espinhaço. enrodilhando-se. para de novo arremeter. na posição habitual de descanso. que se iam sertão em fora ruminando. quizílias e secretas maldições contra as feitiçarias e quebrantos em que os traziam envotados o riso e olhar felinos da terrível ensalmadora. E retinindo nos cachorros de ferro batido os grossos rosetões. dona. o encarnado vivo do lábio inferior acentuando-se sob a alvura dos dentinhos espontados à faca. onde signos de Salomão e marcas de gado se assinalavam a carvão e ferro em brasa. onde duas tranças fartas. abancava-se a um dos tamboretes de tauxias amarelas e couro curtido de mateiro. enxotavam às pancadas rápidas e atiradas ao acaso a cainçalha assanhadiça. ou entretido com a lábia e ademanes da dona dengosa e impudica. maneirosa e hospitaleira. ventas ao ar – tresandando rabugem – ou a peluça crespa. luzidias. Remoía desculpas o moço arrieiro. – a mula rosilha vinha sentida dos rins. improvisadas ao acaso – algumas de imagens coloridas e nítidas – esses mesmos beiços polpudos. num derriço palerma. entrava ele sala adentro. vencendo a fragilidade dos escrúpulos do cabra. duas horas pelo menos. rendilhados em crivo. coberto o fio do lombo de quistos bichosos. té que. Desengonçado no arção da sela mineira. o pé esticado num único estribo. cuidados falsos com cousas que lhe não diziam o mínimo respeito – obrigação exclusiva dos camaradas – desajeitado. arrotando pabulagens de mestiço pernóstico e chupitando a miúdo goladas fartas dum pipote velho de aguardente. tanto mais que o macho mascarado. . Descerram-se os tampos da janela de batentes de cabiúna. aguara dos cascos na subida da serra do Corumbá. os rafeiros varados da vigilância. relembrava em quadras toscas. enroscando-se. Ela sorria sempre. sempre à mão. não ajeitavam bem e iam dando um trabalhão pelo caminho. tímido. mão alçada. onde se postavam rosário de horas farejando e ganindo ao léu. Confiança. a atenuar a crueza dos raios solares. crias da casa. orelhas tronchas em pé. perplexo na execução dum ato que se lhe afigurava de importância suma: – O sol assim parece que vai descambando. dissera-lhe o dianteiro ao topá-lo ali atrás. chegavam ao limiar. longas tereas de cipó ou embira na mão pronta. quando. à hora da descarga.. investindo firmes e às alertas com os latidos ferozes. mal divididos desde a saída do pouso. pelo atrasamento da carga. abertos os lábios úmidos e rubros num sorriso discreto e enigmático de acolhimento. ferindo magoado as cordas gemebundas da viola. Molecotes. trazido à escoteira. sentida dos rins. assomava o rosto amorenado e redondo da benzilhona. arrepiados e ameaçadores. titubeava o moço arrieiro. que arisca e irrequieta se furtava para os lados. com aquele mesmo sorriso que lhe fazia as tristezas nos pousos distantes. recostado no punho móvel da tipóia macia de algodão ou de imbé. dando tempo à própria incerteza. Ela insistia. leprentos. acudiam dos paióis e alpendres onde modorravam suas mazelas e a preguiça meridiana. desaforados e impotentes. meneando a cabecita sestrosa.– Ó de casa! Ao tropel. cerrava um canto d'olho. que um menino ia medindo e vendendo a meia pataca o quartilho. para atalhar tropeços e incômodos de montar na necessidade lombo chucro de animal ruim ou passarinheiro. mas – e voltava ao assunto primitivo – a rosilha não ia bem. a ver se apanhavam a raiz da cauda apinhada de larvas. lá isso tinha na sua gente e sabia que tudo seria bem cuidado e remediado no pouso. o que o punha preocupado. esquelética e reincidente. dizia persuasiva. corridos às vergastas.

nos dias festivos dessa transparência deslumbradora que é característico invariável do estio goiano. o laranjal pejado. ao guizalhar festivo das tropadas passantes. Às vezes. feita a descarga. Despediase impulsivo da bela cabocla – a quem só veria meses depois. perfuradores dos frutos sumarentos. A vivenda lá continuava ao sopé da estrada. e o pouso longe. mastigava o freio pachorrenta e encilhada a mula estradeirona. Ele reparava enublado tudo aquilo. anotava lá embaixo. ao voejar imperceptível dos primeiros enxames de muriçocas e pernilongos saídos dos charcos de juncais e angola das baixadas alagadiças. rumo sul e da primeira estação da estrada de ferro.No copiar à banda ou sob a copa da gameleira. recordava que era também tempo de se lhes ir juntar. numa orquestra alada de vivos e azoinantes galreios. e à sombra da mesma centenária gameleira. * * * Ali passei eu duma feita pelo arroxear suave de melancólica tarde de fins de verão. e galgar sertão adentro. onde já folgariam os tocadores passados. matar pesares e saudades da ausência prolongada. rumo dos arranchamentos. Ao pouso arribava à boquinha da noite. instigado pelo culatreiro empoeirado e suarento. onde pendiam. aos cochilos cabeceantes. cuja grimpa era de momento a momento assaltada por densas revoadas de guaxos e joões-congos de peito amarelo e acerado bico. e estrada afora. os últimos resíduos do açúcar em dissolução. nos descampados limpos. ou cá no cotovelo da serrota. nas várzeas tenras onde o jaraguá altaneiro campeava eternamente viçoso. conversando com a roda nos assuntos do ofício. naquele mesmo esquipado à marcha picada da chegada. na estrada ampla e areenta. piava aguda. . Ficava então horas a fio alheado. na marcha arrasadora do progresso. demorando em espiras largas no ar. légua além. quando nos tabuleiros elevados e descampos mal desabrochava ainda a humilde flor-de-maio das campinas. topava ele ali gente de fora e a companhia de forasteiros que se deixava a bebericar era animada. quando nas restingas de mato da beira dos córregos e capões. presa duma suçuarana de nova espécie. duma coloração pôr-de-sol verde-negro sombria. além. que se punham a merendar álacres. ia a toada argentina das cabeçadas das madrinhas da tropa. a janta desempoleirada do gancho da mariquita aberta sobre o brasido. sem voltar a cabeça sequer. começavam a sua terna elegia as jaós merencórias do sertão. os limoeiros azedos. pronta a transpor esse natural obstáculo das divisas estaduanas. apressurada de mais a mais pelo relho dos peões dos lotes a passar. esfregadas a sabuco. sedento. talvez um ano. Não mais porém. e longe. conquistando. o passo acelerado e tilintante do derradeiro lote. a lançar alarmas estrídulos aos ecos despertados das quebradas remotas. raspada. perturbada às vezes pelo zumbido tenuíssimo dos miruins do campo e ferretoadas agoniantes das pardacentas e achatadas mutucas sugadeiras. semeados aqui. a perdiz solitária das campinas. curada e amilhada a tropa já no encosto costumeiro da aba do morro. então aos barrancos do Paranaíba. que findava num terreiro capinado e limpo. de palmeiras incipientes de indaiá abertas em leque à flor da terra.. talvez nunca mais – saltava desembaraçado na rosilha desperta em sobressalto ao abrigo da gameleira. em festões engrinaldados. a desaparecer no cotovelo verdejante da serrota. sarapintada de azul.. costumes e aspectos. de boas aguadas e encosto seguro para os animais solertes e avezados a sumiço. em rumorosas manhãs de estio. deixava-se esquecido a sacolejar no fundo da tigelinha de café aromático. o olhar devassando pelos corredores o interior varrido e asseado da casa. barrada a orla do rasteiro capim-gengibre. e. e partia direito. transformando e aniquilando tipos. da civilização. afofadas e atalhadas as cangalhas pisadoras. na branda e ligeira cadência da marcha. e reavivando extintos pruridos de caça aos ouvidos tensos dos velhos perdigueiros – nédios e bocejadores ao calor do borralho – que acompanhassem a comitiva. pesaroso. o arreame niquelado todo cintilante ao sol. se via o freteiro abandonar pressuroso o roteiro batido para vir ali. e enchendo e abalando de vibrações quérulas os ecos sucessivos das quebradas longínquas. que bem sabiam o patrão ali enrabichado. lamentando-se da ausência da companheira predileta. aquém do quintal ensombrado. a sumir na estiva do rego além.

Para o fundo. patrão. Ao condutor – um tipo robusto e acaboclado de nortense. rastejava a praga da tiririca miúda. ambos desempenados e amigos. escorrimentos profundos nos adobes esborcinados. o estranho aspecto da tapera. Entretanto. encontraram-se e acabaram a botes de faca. coleiros e patativas apanhadas a petiscar pelos pedúnculos cacheados e floridos. como uma enorme maldição.. a desmanchar-se. na linha do oitão. achei-a azeda. o capinzal de raiz e gramíneas próprias dos taperões há muito deixados. sobrepunha-se em camada fina. Um limo viscoso e esverdeado. nas chuvadas de invernia. Cercas e paióis. misto vago de íntimo terror e inexplicável aperto. tranqueiras e currais desmantelados.. espreitando agoureiro. rente ao chão. como o interior bolorento daquele mesmo casebre. pela passagem das últimas boiadas. – Uma cruz. e o índice afuzilado – cor de tisne – designou um marco carunchento. havia algo de anormal e trágico..Escalavradas eram as paredes do emboço alvacento. no desvio. Um acauã grazinou mato adentro. curioso do descaso e feição lutulenta daqueles ermos. Quedou-se mão no queixo. tão vazios.. sim. saíam emaranhamentos compridos de touças de cabaceira e buchas-de-paulista. – Aqui. embaixo. assoberbava o assa-peixe tristonho. batida a cumeeira de telha-vã dos últimos clarões crepusculares. decerto. donde. e ferrando esporas. lodosos e amolecidos. como alastrações de lepra. à canela do desastrado animal aventurado na vereda. Ao lado. a gerar arrepios de pavor aos que. incrédulo da presumida ignorância. Ele – viagem andante viera narrando a íntima satisfação e gozo violento de que se sentia noutras eras invadido em se aproximando dessas bandas – olhou-me em silêncio d'alto a baixo. que as enxurradas tinham aluído. no quintalejo maltratado e sujo. se detivessem a contemplar. sob o matagal. como uma punição. a olhar estarrecido. à hora da meia-noite. as malícias garranchentas e irredutíveis.. afastou-se cabisbaixo. a desfazer-se em ruínas. e como provasse uma fruta temporã que um galho peco oferecia. indaguei. lacrimejava já a estrela boieira.. mirravam as laranjeiras sob as ervas daninhas. o fedegoso bravo. dous cabras da terra. a trote rápido. a mostrar. os provisórios de caroços espinhentos. como carrapicho. meio oculto em macegas de são-caetano. aos quais desnortearam as mandingas da bruxa: filhos do mesmo pai. como serpes. filhos da mesma mãe. a bruxa. Pelas fendas do lajedo. . como que avaliando se estava a zombar. pela sexta-feira do quarto minguante. fez depois uma visagem supersticiosa de esconjuro. atravancados de imundícies e monturos. No céu. como eu. levou-a o cuca num pé-de-vento.. gotejado pelo estilicídio dos beirais desconjuntos e a cair. emergindo dependurados. como lagartas esverdinhadas. – E a bruxa? – disse alcançando-o. como brincos colossais. a apegar-se. Essa. vegetavam as beldroegas tímidas. amarga quase... os seus frutos balofos e aquosos – estralejando com estrépito sob os pés as cabaças que a estação sazonara – tão ocos.. – Ah. àquela hora do anoitecer. agitadas as franças cá e lá pela arribada atônita duma aluvião de pintassilgos. lábios finos e olhos profundamente rasgados de índio – que tão inquieto e impaciente se mostrava à aproximação da noite com a nossa demora ali. esteve algum tempo considerando. Benzeu-se. no rodapé d'oca barrosa. no verde perene de que se revestira o sítio.

Nostalgias. sopesando a grossa cambada e nela discriminando já. galgando a outra banda – com a chuvarada que descera brusca para de novo abrir-se o céu. os cardumes de avoadeiras e jeripocas sob as coivaras. a comprida cana de pesca sobraçada.. Voltávamos ao sítio pelo anoitecer. a tua espingarda ou outra qualquer ao ombro. em coleios flexuosos. com olho de dono. o olho reluzente e globoso de roedor espreitando em torno. a gargantear velhos motivos da terra.. (Trecho de carta) Já que vais brevemente à chapada.. baixotes e barrigudinhos. peito descoberto e em mangas de camisa quase sempre – tal o nosso Casimiro de Abreu dos Meus oito anos. não te esqueças de dar algumas tarrafadas ao poço do Periquito. mas pronto a recomeçar no dia seguinte. Passava a correr.. e. mãos e rosto arranhados pelo cipoal. farfalhando as folhas secas derredor. ao assomar a lua no quadrante turquesa e ouro. quase sempre acompanhado dum moleque.. os bagres e lobós que lhe seriam como prêmio adjudicados. embalsamavam o chapadão. pelos meses calorentos de dezembro a março. metia-me pelo atravancado dos gravatás. ao do Mané Fulô. taquaral estralejante e o sarandi da beira do rio. Assim alegremente.. e de que restavam apenas os moirões d'aroeira. e eis-me todo entregue às emoções variadíssimas da pescaria. e também. descambando além na Barra – preás levípedes. uma caninana inofensiva e modorrenta passava entre os cipoais. carcomidos e negros. o Raimundo atrás. eu um tanto fatigado da caminhada. A porteira não quebrou!. às vezes só. Havia o trilo metálico das cigarras ao mormaço. Bateu bala na porteira. vê se ainda se encontra legivelmente o meu nome num tronco novo de jenipapeiro que fica junto à casa do teu agregado (se é que ainda o manténs). de fundo aliás bem sujo e garranchento.. descalço às vezes. . De longe. fazia os dois quilômetros que nos separavam do poço onde dormiam. junto dum chiqueiro abandonado sob cujas taquaras apodrentadas adensavam os mandis-chorões. que se incumbiam da longa fieira de peixes quando de retorno. No Manuel Flor. onde ia todas as tardes. tapera antiga que.. ora esse dengoso Compadre Chegadinho. diáfano e azulíneo. ao sol glorioso.. e aí talhado por mim a última vez que lá estive. ouvia-se o rechinar lamuriento da gangorra no terreiro à frente. Ê! baladô!. amadurecidos. e aí. como todas as taperas. como diziam os caipiras. farnel d'iscas a tiracolo. goiabeiras silvestres.. onde Vítor e os primos tripudiavam contentes. impunha silêncio inviolável ao moleque. em tardes luminosas de que já não tenho notícias. Não raro. quando o murici e a corriola. o Manuel ou o Raimundo do agregado. próximo a umas goiabeiras. quando caga-fogos e vaga-lumes luzeluziam nas baixadas. iscava o anzol. Gralhas e acauãs guinchavam na galharada esguia dos cerradões. Era pelas férias. sobre o arvoredo denso de ao pé dos córregos.. os mais pequenos receosos e assustados dum trambolhão a um pinote ou volteio mais rápido. Olha.. tão simples e evocadora: Ê! baladô!. chupando às vezes o dedo dolorido duma ferroada de jurupensém.. saíam assustadiços das moitas da beirada. no emaranhado dos travessões de mato que aí cobrem habitualmente o curso das ribeiras. atravessavam aos pinchos a um tempo grotescos e graciosos a rampa d'argila vermelha. dos batuques e muxirões da roça. desenrolava a linha. Apressava o passo. saltando córregos.. diziam mal-assombrada. ora aquela dolente melopéia do Baleador. no remanso das águas. tomava pelo trilho inculto que levava à pedreira favorável. entranhando-se do outro lado. – a cantar velhas trovas nativas pelas estradas. no catingueiro recendente.

Cercávamo-lo todos. vagamente. encapotava-se banzento ao batente. Escutava-se o relho a estalar ao longe. nosso tio-avô! Vinham logo narrações da vida à beira do grande rio. frutos de leituras precoces duns e outros que. Empanturravam-se como pagãos que éramos. sobre a lombeira sarnosa da cachorrada. balouçavam prenhes... Na mesa tosca. que. que passava ao fundo. fuzilando-a à queima-roupa e dando assim tempo à guarnição de tocar a rebate e acudir em defesa às muralhas. fizera frente a toda uma tribo encarniçada de guerreiros. e de cujo fundo das águas saíam.Caía sobre o Vermelho. sonhando com essa região longínqua de canguçus e caboclos desnudos. gania relambendo-se entre palhas. grandes e pequenos.. rebrilhando à luz entre olhos de gordura. . no borralho. Surgiam o angu de caruru nos tigelões pintalgados. ao tempo que se contava ainda na fieira dos anos onze. que depois serviram para manter o fogo da cozinha semanas a fio. mordendo impassível o cartucho. aqui na mata. Berravam nos cercados os bezerros. – Era pelo meio da noite. Penacho!. na estrada da Barra. como ele. ajoelhado à soleira do rancho. só ele matara oito. repassando contos e lendas. E a mente exaltava-se. Isso servia de pontaria. Distante. – Ah! tempos que passaram. farto.. subitâneas e estrídulas as outras. jaós e perdizes correspondiam-se. a incitar aos muxoxos a mulada: – Ehú! Ehú! Ehú!.. assoprando o chumaço da binga. teu pai.. à primitiva moda e ao apetite das velhas colônias.. tempos de moço.. merencória tristeza da tarde. caiapós e xavantes. em travessas e pratos estanhados. O rancho ficara que nem porco-espim: crivado d'alto a baixo de frechas e tantas que. combates e matanças dos índios canoeiros. Ficávamos a escutar. nas perebas dos moleques.. a feijoada.. as tracajás à desova pelas praias d'arribação. forte e desempenado em sua robustez de oitenta anos – o braço mais rijo e feroz dos eitos da roça três léguas derredor – vinha para a soleira da porta. batendo fogo. os que gostassem do condimento rústico. onde ninhos caprichosos. descia nos escampos solitários. um luar tão claro como dia. baforando.. aquele que nos surpreendia pela volta das nove. o ensopado de peixe. onde a pintada vinha uivar em cio à noite. ajuntaram feixes enormes. rumo da cidade e do mercado. uma larga faixa branca pintada na testa. punha-se a devanear. e bebido em suas paragens a selvática poesia dos sertões brasílios.. Anoitecia. ao canto da sala. ao feitio de compridas bolsas. e a voz pigarrosa do caipira. como cabo ordenança e vaqueiro particular do capitão José Manuel. proezas de caça e pesca. Ao lado. sugestiva e boa. De sua parte. Não perdera um tiro. mais felizes. Crioulo!. por conta e risco. que se espevitava de vez em vez. fumegava a janta sobre a toalha alvacenta d'algodão. Piavam guaxos e joões-congos nas grimpas dos jenipapeiros. moduladas e dolentes as primeiras. das passadas eras do Império e presídios do Araguaia. treze primaveras apenas! Não raro. alumiada ao centro. ao outro dia... acendia um cigarrão.. andando os soldados a apanhá-las nos arredores. E mais além. em bruacas de couro cru. – Tempos brabos – comentava. Que rica bóia e depois que rico sono. de lado a lado rememorando a história pungentíssima de seu mútuo apartamento. cargueiros passavam ajoujados e resfolegantes sob a carga de mantimentos. doze. o garrafão de caninha e o frasco de malagueta para os mais velhos. A caboclada tingira-se de preto.. a bruscos estremeções do pêlo arrepiado. a cabeça nevando ao luar como capucho d'algodoeiro. Eram sempre histórias antigas. o ataque do fortim de Santa Maria. Mosquitinhos azoinantes e zumbidores enxameavam ao longo das tranqueiras. o caseiro do sítio. a grande. A paz do sertão. em estação propícia. a velha espingarda reiúna e respectiva munição ao lado. e. areias infindáveis alvejando à distância. ali nos furados de jaraguá. agoniada do luar. pela candeia de três bicos. tinham visto ou descrito o Araguaia.

. Tucanos. marca das patas.. O crioulo marrou-lhe.. que nem atacado de maleitas. onde o cabra veio espetar-se. Dera com aquele diabo ao sair do cerrado. mas esperava-o dessa vez na ponta do ferro. de como faltaram então todos os recursos e mantimentos naqueles fundões.. Ele ouviu. numa tarde mui límpida e calorenta d'agosto. a bem dizer. com milho pilado. a coronha da lazarina sobre o serigote dos arreios. num bote curto. Casimiro? – Ora.. saltou por cima do balcão. o paude-fogo aperrado. que dormes hoje. e voltou de lá cego. entre os bamburrais. mata Bremeri. assuntando. Eu atravessara o meu pampa campeador no meio do caminho. aí ele não faz mal. E explicava: O anspeçada fora procurá-lo no açougue da vila – estavam então em Santa Leopoldina – onde ele acabara de abater uma rês gorda. batendo os dentes.. entre costelas.. nação fraca. como quem não entendia... como que ainda sentia pelas mãos.. frechou-lhe em cima o anspeçada. servia ao pé do leito aos patrões devorados de febre.. mas num repente... mas batera três dias seguidos as redondezas.. O cabra chegou como quem vinha mesmo decidido a armar sarseiro. cara amarrada. Os índios. o chapelão para trás. abaixo. novamente ele furtou o corpo. que já o esperava também do lado de fora. ora. mão em pala. quando o provocador transpunha já o limiar. – Bicho duro. ó tapuio!.. – Ah. piscando os olhinhos de cobra assanhada. o teu sono de paz numa cova rasa do cemitério da Barra. – Aí tori. – Mas mataste-o à toa. talvez.. meu pobre herói obscuro. gesticulando atrevido.(Ai. no bucho. procurando aberta. Daí a presunção em que vinha: pintada não fora. Tori valente!. aí tori.. quebrando talas.. que Deus tenha em sua santa guarda. senão deixava algum sinal.. afrontando do último recruta ao comandante. ele torceu e deixou-o passar. o desbravador de meus pagos!) Relatava agora. três. O Domingos foi de roldão bater na quina dum frade. atirando-o com violência ao meio da rua. seu tio-avô. o velho coroca arregalava-me o olho do alto do pau. não topando vivalma. na cara – vão quarenta e cinco anos – o sangue do Minguinhos salpicando-o d'alto a baixo.... berrando alto. só papagaio... O camarada riscara a parnaíba com vontade. grazinavam saltitantes nas embaúbas. uma pontada direita ao coração. . sobre o adversário. faca a prumo. onde andava a campear umas reses do capitão José Manuel. o sangue esguichando com fartura para os lados.. acrescentava depois como derrubara doutra vez. qualquer cousa. junto ao filho do Anhangüera. um velho carajá que topara acocorado no alto duma árvore. (cristão.. Aí tori valente!. a danada! Ia para o fundo do quintal. De novo. ele aparou e deu-lhe resposta bem segura. o facão à mostra. assuntando. resto de carniça. Vai senão. mata ele. como a colerina alastrara súbito no presídio. – Pum! pum! Botava um. – Desce do pau. e era essa a canja que. Brequeti não faz mal. topo aquele estorvo. e só muito faminta atacava cria taluda... por ordem de seu capitão. todo acobardado e trêmulo ao vê-lo.. era como duma feita sangrara um cabra intrometidiço. como guariba assustada. entre florinhas agrestes. como brasa! Animado pelo calor da narrativa.. cria da fazenda. todo encruado em minhas perneiras e guarda-peito de mateiro. aí tori. Como ele.. preso ao queixo pela barbela de sola. bruscamente. a comprida faca do corte – reluzente e ensebada do serviço – na mão firme.. assim que nele botei a vista. entre sério e jocoso. uma dose forte de cachaça nos bofes.” E tremia.. arrotando pacholices e valentias.. todo fumegante. que se lhe fizera engraçado com a mulher. Só a ele poupara. botava dois. o tucano! Pernoitava dias inteiros no fogo e nada de dar caldo que prestasse.. a dizer com perrenguice: “Aí tori. Depois. vote! Parecia até o capeta em figura de ave.. cristão). quando vinha do campeio. aos borbotões. (nome lá da língua deles). ante um desaforo mais grosso. ajuntou o famanaz pelos peitos. entre touças de caranã. ouviu. duma feita. Tinha achado rastros frescos num brejal. E anotava: – Qual! Carajás.

e sabia que o cafuzo que ali estava.. a par de feras e perigos. onde minha infância decorreu como todas. insensível e sereno a todas as agressões brutais deste meio material e grosseiro que o cinge e aperta num supremo e frenético esforço de conquista e erguendo. Casimiro! Credo! Olha o purgatório! – Mulher.. papuda e avara. quanto mais daquele velho coroca.. Ora. o busto ainda alto e espigado.. mete-te com tua vida. um travo de zanga na voz: – Pois tu não tens vergonha de contar cousas dessas. discutia eu no meu íntimo. mal contado. os vencidos. ora... à gandaia da natureza. gente forte! * * * – Ai. o perereca batia a queixada como caititu acuado e eu – diacho de velho pra viver!. cristão como ele e companheiro de tarimba. deixa os outros sossegados. tão descuidosa. tão só.– Ora. nesta luta insana pela existência que é o viver cotidiano das grandes cidades. fora ver o local: a caveira reluzia ao sol e ria macabramente no aceiro da selva. Sim. a costa acorcovada. mulher... a boca murcha espichando num bocejo cínico. não tivera... dispersa pelas enxurradas e animais bravios. ora. tanta gente ruim anda pelo mundo!. olhou-me em silêncio. nesta trapeira velha onde noite alta zune a ventania e vem visitar-me alcatéias de ratazanas. a nostalgia do sertão!. Também. – Leréia. ai.. nunca os teve? – indago. Depois riu. anos depois. e despejei-lhe nas costelas a carga da reiúna. torci-me no arção da cutuca. e confesso – não raro uma lágrima furtiva ressuma em minhas faces escaldadas. vote! Aqui interrompia a segunda mulher do caseiro – que a primeira há muitos anos morrera – toda lastimosa.. Rio. – Que bufo. a grande escada de fogo por onde se guindará a outras paragens mais amigas.. onde sobressaía desenhada toda aquela vida primitiva no seio bruto do deserto. Vale. lérias.. assediado a cada momento por vivos e contrários embates de interesses e paixões mesquinhas. onde os três sangues da raça se caldeavam apaziguados. Entanto. Talvez nunca. filhas do meu Sonho e da minha Saudade. em meio o seu abandono e em meio a sua tristeza. à espera dum futuro que não chega e sabendo quão amarga sói às vezes ser a solidão para os que meditam e sonham e quão duro é viver distante das cousas que nos foram familiares. nunca passara da cartilha de mão. sinto que o meu íntimo permaneceu o mesmo doutrora.. crivávamos-lhe de epítetos e epigramas. enquanto que a ossada se espalhava em torno. O velho. a papeira mazomba. cuja cabeça nevava ainda mais o luar. de passagem. e não me arrependo. sem contemplações e sem piedade para com os mais fracos. – E remorsos. à veia estudantal. a grande mestra da vida. rezingando. às voltas com os meus tédios e minhas pequenas manias de rabiscador anônimo. e vivera assim desde rapazote. tenho treze nas costas. como óbulo votivo ao torrão onde vi a luz. 1915 . mal virava. cujo leite nos vendia sovinamente a tostão o guampo.. numa terra inóspita para os pequenos e humildes. Longe. Quando fora da estopada do Minguinhos. que nessa época já começava a tirar lições práticas do mundo... Pela manhã a Merência. ia ao curral ordenhar a sua parelha magricela de vaquinhas barrosas. tão depressa.. relembro a paisagem adusta de nossa velha terra. – quando o pampa dera já algumas passadas. Mortes. Terras bárbaras. o espetáculo grandioso da civilização desenrolando-se ao pé pelo buzinar álacre dos autos nas avenidas e pedalar intermitente de tranvias. mais não fora. Amigo: não val descrever a vida que aí levamos e da qual fruis ainda os doces encantos. a bem dizer bicho do mato!. como se não compreendera. Mas basta de sentimentalismo! Revê-la-ei? Não sei..

o cachorro.. Àquela hora. dera duas corridas pelo terreiro. a ver se aparecera o Belém. já o Belém. levantada e descambando a lua. e ainda mora. Ao amiudar dos galos não se conteve. seguia passo a passo todas as marchas e contramarchas que fizera na véspera o Guilherme. Tomava de novo o roteiro. vou experimentar o cachorro aí pelos lados do Lambedor. Apenas o luar. Pela estrada arenosa. e batia-lhe às perneiras com a cauda jovial. ia rebrilhando indefinidamente pelos campos. supondo que o perdigueiro tivesse tomado o rumo de casa. rendilhados pelo azul nostálgico dos contrafortes da serra Dourada. e ia torando para a cidade. não o acompanhava. prendeu lá o cachorro e foi armar a sua espera de veado no caminho da Barra. deu um giro pela varanda. compadre. explicou à mulher. O Vicente Peludo morava. – Êh! – E assoviou arremedando a perdiz. trepou para a espera. Ia seguindo o roteiro que fizera na véspera o compadre. E logo. estou ainda à percura. mal apanhou a caçadeira. dispensou a hospedagem. pelas penas deixadas. compadre. Fora até a chapada. o Vicente não tem tempo para caçadas. rastros da montaria iam e vinham. enquanto não chega a boquinha da noite para ir escolher a minha espera.. só assim terei uma perna de galinha para ir debicando com farofa. compadre. naquela encruzilhada de Santa Leopoldina – Vargem Alegre. quando anoitece. não mais aparecendo. De fato. Lá embaixo da mesa. assinalar um por um os lugares onde tinham sido abatidas as perdizes. . a indagar em duas ou três choças. o Belém fitava orelhas. Criação no terreiro 'stá de gogo que é um castigo. a um silvo amigável. mas não vinham. Pode mesmo. Desistira de procurar aquém do Mosquito: no tijuco fresco da rampa. Amarrara a besta num retiro. cortava pelos atalhos. em demanda das margens do Araguaia. o Belém metera-se pelo mato. onde dormitava. De caminho. chegava ao terreiro. escaldada e faiscante. – Pois aqui não voltou. os do Belém seguiam. Volta e meia levantava. na volta. ao largo. E a comadre desandando: – Vai mesmo. à distância indefinida. encabrestou o redomão que ali estava para acabar de amansar. – Espera que ele há de aparecer. foi ao curral. gemebundos ou arfantes. num horizonte aberto. se o animal fora por ali esbarrar. mas não o viu voltar naquela tarde. já declinava o sol para o lado da Barra. Como bem diz o nome. sem tomar fôlego: – Não imagina como ando enfarada estes dias! Já me estava dando no goto o quitute. ou vindos de Santa Rita com destino à capital. você botou fora o meu cachorro.. já que tanto gaba o Belém. descuidando perto do Mosquito em escolher um pequizeiro onde armar a sua rede. mui frígido e translúcido. ali.. O Vicente viu-o desaparecer em direção à tapera do Antônio. raras. A noite toda o Vicente não dormiu. o Guilherme. que lá havia ao fundo das restingas. arreou-o e meteu-se pelo trilho da chapada. matando pelo caminho quantas perdizes o cão levantava. Com certeza ficou na chapada. E como o luar estivesse claro como o dia. o vaivém contínuo de carros e cargueiros. Sertanejo. e varreu com a cauda a poeira do massapé. pousando sobre um tamborete o pires por onde sorvera o café. bicho de faro como aquele não toma sumiço assim.Caçando perdizes Volta e meia. abria a porta. mui ao longe. além. porém. Como tivesse o animal aparelhado no telheiro. e disse ao Vicente: – Compadre. O compadre Guilherme viera da cidade caçar naquelas bandas. – Pois perdigueiro como este. chega o Guilherme. ali pela volta das onze. Trazia à garupa uma enfiada de perdizes. Não lhe bastavam as indicações que trazia. tirando a nesga de terras lavradias ao pé do Mosquito – campos e várzeas.

tornou ao lugar. Um grande nó no ventre desde logo lhe atraíra o olhar. O sol aquentava já. Na manhã luminosa. – Não – por ali não tinha aparecido o cachorro. engatilhava a central e dois formidáveis tiraços abalavam aquelas solidões. Invadia-o a pouco e pouco uma ponta de desânimo. – Era um toro de madeira atravessado no caminho. Depois do almoço. Era a maior que topava junto àquele rio. quebrando a monotonia dos grilos nas touceiras de jaraguá. dando volta aos quatro ângulos do meu quarto de estudante. tão fértil delas! Deu volta à estrada. Mediu-a de ponta a ponta. todo inteiro.. nem mais nem menos. O Vicente apeou e chegou-se à sucuri. seriam onze horas da manhã e ele ali em jejum.. . as aleluias e florinhas-de-maio iam pontilhando de ametista e prata o verde ridente da várzea. um tranco do animal que ainda não perdera as suas tretas de redomão – por pouco o botava fora da sela. foi à casa do defunto Amâncio. atrás do Belém! Descorçoado. engalanadas para a glória do mês mariano. estrídulos. na descida do Mosquito. Então. Mas logo. esse ribeirão tão farto de piaus e curumatãs.Cruzou em todos os sentidos o Lambedor. assim julgou à primeira vista. Pios súbitos. tenho-a presente agora sob os olhos. enrodilhado e gosmento. outro morador naquelas redondezas. contando quarenta e oito palmos. Meteulhe o facão. tomou o rumo de casa. E a pele dessa sucuri. abriu de extremo a extremo a barriga: dentro. como se descuidasse a enrolar uma palha de cigarro. aquietando depois. jazia o cão. explodiam às vezes. Mexeu-se o madeiro. torou para casa. ainda há três meses viva lá no meu sertão adusto. Deu uma volta de quarto de légua. Pelo menos. pesadamente.

tufada a paparia fulva. ou eriçadas e chocas faziam de quando em vez rápidas escapadas em que vinham passear pelo pátio a sua turra de enfastiadas. o pedinchar de quem ainda atende e a sua dispersão final – a custo resolvida – pelo cerrado dos arredores. manducar naquela ceia que de momento a momento lhes mandava a aragem. E aos bufos da leitoada. corridas aqui sobre esta manga meio roída de periquitos que despencara. Já de há muito desleitadas. andavam elas desde o dealbar ciscando e esgravatando. e mesmo. ou o gluglu dos patos vorazes acudindo da represa. No terreiro argiloso e duro. em que o sol tudo amolentava e aquecia naquele seu mormaço de dezembro. sobressaindo desde a boa nanica chocadeira. cambiando os seus fogos num ondular crepitante de mica e saibro descaldado. Viam-se algumas representantes da brama e cochinchina. se fora num cacarejamento de triunfo. sem método de seleção. e por fim onde acabava o mato sujo e começavam os morrotes embalsamados de mangabeira e murici. de grãos saltitados. Então. e tal o ruído que. na bafagem do rio. Cachimbando. porém. o cuidado da mulher em ter uns dos outros afastados os galos de rinha. enchendo capoeiras que ia levar ao mercado da cidade. à esquerda. arrepiadas. louras como gema d'ovo. Mas legítimas. dias longos amoitadas. onde daí a meses faria mão baixa o caseiro. dentre o verde ramalhudo dos cercados de pinhão e fruteiras do quintalejo. vinha mata abaixo. à direita. de forma e feitio de penas arrevesado e raro. as correrias que do amplo perímetro do pátio convergiam como varetas dum leque ou raios de semicírculo ao centro magnético. apartados. Algumas lá pelo mato se deixavam ficar semanas a fio. garnisés. bufando e farejando. entrecruzando-se com a raça corriqueira da terra – abundantíssima. desentranhando gorda minhoca. o açodamento cômico das retardatárias emergindo de touças que pareciam antes desertas. era um cacarejar alerta e impaciente à hora matinal. para o outro. mais depressa subvertendo-se naquela multidão de mendigos. achegando à peitada bamba duas pontas de saia. rápido estrelando o solo com o seu brilho alegre de ouro novo. porém. o estoufraquear das cocás. cousas e entes amodorrando. vacas e bezerros pastavam.Alma das aves Havia na fazenda uma regular criação de galinhas. perseguida das demais. quando não era disputada a fruta pelos bácoros soltos. aliás de mui excelentes qualidades poedeiras. Certo que não abundavam as raridades. ou a enfartar-se de jenipapos esborrachados pelo chão. como um velho tiú dormido à beira da estrada. colando às canelas luzidias de qüinquagenária – e um psiu asmático. grunhidores que mesmo alta noite. Tudo. depois – mais além – no cerrado. encardido e sujo. na praia. erigida a sopapos. . era puxando fieiras intermináveis de pintainhos. que se entranhava a princípio num vassoural rasteiro. apareciam de novo. mui vasto. pelo dia andante. até às agourentas pescoço-pelado. podiam-se contar às dúzias. onde cores e característicos se baralhavam na mais inextrincável promiscuidade. ficava assim. no cicio acalentante das cigarras. Dês. batiam roupa as lavadeiras do sítio. se se não acostumara antes o ouvido ao mugir do gado desde as três da manhã. a eterna ofuscação de mil chispas de faúlhas. E a antiga casa sertaneja. descendentes daquela que tanto pavor causara ao índio de Vaz Caminha. E quando. saíam de suas camas de palha e cisco ao pé das cercas e vinham. seriam aquelas umas férias mui pouco invejáveis de passar para gente dorminhoca. certo. a degluti-la noutro canto. E eram punhadas sábias para um lado. ciosos e espancadores. carijós. de aculeado esporão. se não fizesse a roça a todos madrugadores. que a caseira surgia no limiar. se lhe fluía da beiçada murcha – não se poderia ao certo dizer do alvoroço havido naquele pequeno mundo. as que dentro do quintal escarafunchavam a raiz das laranjeiras transpondo céleres as cercas num surto em arco. Lá embaixo. a fuga ali da que. no mangueiro. bater d'asas. um palmo de morim da de baixo. uma quietude monástica. e depois. cada qual apostado em exceder o vizinho em gula e solércia. escutando-lhe a queda balofa sobre o solo.

insistente. Voltamos depressa à ave. Arrastada para o terreiro. Minúscula tragédia. acossava de perto o reptil aos esporeios e bicadas. cujo crótalo dizia oito anos de idade. pondo termo à luta desigual. mordia-a desapiedado. injetando-lhe o pescoço. a cada novo assomo. ferindo-o. nuns pulos bruscos. dormia já. E o silêncio que em torno se fazia foi de súbito cortado. mais negra que o carvão. pelas bandas do ocaso.* * * Ora. arremetendo corajosamente de unhas e bicos. armada para o bote. enquanto lhe esmagávamos a cabeça. acolchoando sobre os cerros. o cacarejo no vassouredo. as asas. uma cascavel batia enfurecida o chocalho. O caseiro. malgrado o alarde com que nos atraíra a nós. Novamente sibilava a cobra. medimo-la com cuidado. fora a cauda. A ave. o peito incidente e agudo. gotejando pelos sucessivos arremessos. parado e límpido. onde as matrinchãs tinham feito esse dia largo rombo. em sua estranha singeleza! No aceiro. para a encenação costumeira do anoitecer. a olhar perplexos. – Algum gavião? – indagou a mulher. que ainda assim permaneceríamos. a ver em que dava a singular briga. Este. volveu o ouvido experimentado. De novo. ali teimando em permanecer. abertas as tarrafas a enxugar no terreiro. uma tarde. não arrancasse uma estaca. uma ninhada d'ovos em véspera de abrir. da mortal peçonha. topara de retorno com aquela intrusa sobre a sua postura tépida. ficou-se ela por ali a enrodilhar. o papo pelado já. bizarros. E o nosso pasmo era tal. achando-se seis palmos e tanto de comprimento. enxotá-la. espetáculo extraordinário e grandioso aquele. nenhum indício d'asas do plumátil rapace assinalava que levasse em roda alarma à criação. se o caseiro. após um dia cheio de caçadas e pescaria. Mas não. Ficamos ali parados. bulcões de nuvens ocorriam. voltava à riça o animal. de batráquio em fúria. pelo grito dum volátil numa das touceiras em frente à estrada. Não havia ali por perto ninhada fresca de pintainhos. . Deitada sobre o ninho. Numa de suas breves sortidas à cata de que entreter uma fome de semanas. lentas. e as heróicas e reiteradas arremetidas com que procurava. Lanhosa e escamada. além de que o céu. sondando depois os ares cuidadosamente. dum modo estranho e grotesco. que no momento examinava os sacos duma nossa rede. olhou-nos com inteligência. chocalhando incessantemente. tomávamos a fresca à soleira. Sobre ela. e longe. Entanto. Mais terrível porém era o aspecto ouriçado duma galinha da terra. em vão. abatendo a cascavel em duas certeiras pauladas. Para lá nos fomos todos curiosos. fez-se logo ouvir.

– puxando para si o cuité fumegante de congonha e chupitando uma golada. no seio aspérrimo das solidões goianas. noitão cerrado e vésperas da Paixão. a modo de trouxa. que o terreno era um seu tico movediço.” – E pegou-os? . tanto que meteu num trote bruto de pôr tripas pela boca afora do peão mais desabusado. arremedando. cabisbaixos e macambúzios. “– Eu lhes amostrarei. assemelhou-se-me a dois homens baixos. pois esperam aí. isso. seus bêbados. no meu jaguané de fama. Achei esquisito. Marchava apressado. como lhes dizia. Iam depressa. O bicho fiel certamente estranhou as rosetas. ali nas alturas do Bugre. Os pretos excomungados. Olhei. e o Aleixo – um caburé truculento amigo da boa pinga e freqüentemente mudando de patrão pelo seu gênio teimoso e arreliado. que aquela lua acinzentada e friorenta de inverno. O carreiro apertava. ouço passos cadenciados à minha frente. amontoava-se em forma de toca ao pé da árvore. Joguei o jaguané a galope: galoparam também. canalhas. num andar ora lento. ouvidos atentos ao narrador. sacolejando a rede. dado o mau tempo. vergados sob o varão. começou então assim: – Naquele tempo viajava eu escoteiro. achegando o animal. passados sob o clarão embaçado daquela mesma lua acinzentada e friorenta de inverno. Demais. um travo de zanga subia-me à garganta. Pela maioria. por estas estradas da minha terra. arqueados e silenciosos debaixo da carga maldita. começaram a trotar lá adiante. ia pensando. mestiço traquejado e serviçal. Acocorados à sertaneja sob a copa desfolhada do pouso – um jatobá gigantesco – aquentavam fogo. E. aprofundando-se. que levavam ao ombro uma rede de defunto. mas tenho uma ojeriza dos diabos a tudo que me cheira defunto. arrematava o final dum conto de lobisome. envolta em brumas. todo o pessoal. Vai senão. estiolava-se ressequida a vegetação tenra e rasteira dos campos goianos. mas o animal. “– Olá – gritei. devia bater em Santa Rita pra negócio de precisão e a lua só pela madrugada despontaria. na sua voz grossa e arrastada de cuiabano. lá do céu triste e carregado. antes continuaram. eivados de superstições e terrores. vermelha à luz da fogueira e rebuçada em ligais. vi perfeitamente: eram dois negros acurvados. num varão. calculei. porém. – Os carregadores nem pio. era de fiança. Histórias deslembradas do sertão. Cravei as esporas no meu bicho pra ganhar a dianteira – que eu não arreceio um cabra de maus fígados. tendo a cortar todo um estirão de oito léguas bem puxadas para alcançar o arraial. não tinha por onde atalhar. resguardando o carregamento. estão caçoando comigo. insuflava perfeita verossimilhança e vida animada. a petiscar baforadas grossas dos cigarrões de palha. ora apressado. sob aquele céu frio e austral de maio. – Param vocês aí com o defunto e abram-me passagem. isso é ainda efeito da beijoca que dei ali atrás ao frasco de cachaça. onde cincerros de tropa badalavam intermitentes. e isso. contos lúgubres e sanguinolentos. não guardo desfeita para depois. O silêncio – pesado – restabelecera-se debaixo da impressão sinistra daquela narrativa. lá tornei a enxergar os dois pretos condutores. “– Naturalmente soldados em diligência para Santa Leopoldina –. – Varei o meu bicho nas chilenas e ele disparou à toda. Num claro de mato. Noutro claro. o caminho muito estreito e solapado não tinha desvio. O arrieiro. conduzindo qualquer cousa. e. a correr duro. a desaparecer no sombreado espesso das árvores. desde aquela estopada onde o Policarpo viu que um jacaré não sai à toa da bainha e que eu. apesar de simples camarada. Manhãzinha. embuçava ao fundo a campina. e. ganhando distância. esgarçada e refeita aos raios mortos da lua. Assim na sombra.À beira do pouso A Mário de Alencar Contavam casos. Uma neblina leve e hibernal. o lugar era ensombrado. Qual. Deus servido. tanto como o meu punga. A cangalhada. apesar de cansado. não havia luar. na necessidade.

pausados. em cadência. Acoroçoado. a chocolateira fuliginosa e aromatizada de congonha passou de mão em mão. E perante o assombro descomedido daquelas feições rústicas e encardidas de sol. o Aleixo arrematou com pachorra: – Pois isso mesmo. pararam. – Qual! Uma vaca. a fazer mais estrépito que o casco do meu bicho! Assim andamos bom pedaço. bufando alto debaixo da carga. o arvoredo mais fechado e carrancudo. assombrado mesmo. eu calado. seu Zé. a solidão daqueles lugares e – pra tudo dizer – o medo. O plenilúnio acinzentado e friorento de inverno. Cincerros badalavam intermitentes e sonoros na campina ao fundo. lá do céu triste e carregado. ela não tivera por onde torcer. e assim continuamos por mais de hora. – O cuca – aventurou tímido um. o sítio mais escuro. Adivinham. regularam logo a sua andadura pela minha. em cadência de soldados. o que vi então. e lentamente ia abaixando a sua luz amarelada sobre o carreiro. os dois pretos arcados. envolto em brumas. o carreiro mais estreito e solapado. fizeram o resto. Decididamente esquisito. não ganhava nem perdia. A lua deu de chapa nos dous carregadores. Um outro tomou a palavra. De supetão – desfiava eu o creio-em-deus-padre de trás para diante mais uma vez – o carreiro desembocou num campo largo. todo apalermado. transbordando os cuités. sem tino.– Qual o quê. abafava o horizonte. Fiquei ali imóvel longo tempo. mesmo muito esquisito. o fardo ao ombro. A fogueira – em brasa – tremeluzia. a passo. Pus o sendeiro a passo: eles. A companhia respirava aliviada. reencetei a marcha. coalhado de luar. o escuro. e o pingo a resfolegar já bambo. Afinal. insuflava vida e animação às personagens fantasmagóricas daquelas histórias primitivas. do mesmo modo. se podem. onde a neblina hibernal do sertão. imitando. Fumegando. enquanto que o minguante principiava a tingir de açafrão a copa folhuda das árvores. a barriga malhada. esgarçada e refeita aos raios mortos da lua. os olhos neles grudados. Os pretos. os demônios abriram numa carreira de curupira. Como o carreiro era fundo e apertado. Janeiro – 1912 . eles fizeram o mesmo. Sofreei a marcha. recomeçaram o movimento primitivo. Parei o pingo. eles arcados. apertando nos dedos o cabo encerado do jacaré. desocupados. Os pretos. pausados. eram seus quartos escuros e a rede de defunto.

crescidos às soltas por ali mesmo. porém. chilenas bem arrochadas no calcanhar e perneiras com guarda-peito para livrar das garrancheiras e espinhedo por onde o acaso levasse. – Êh. como em menos duma hora o poldro é matungo de longa serventia. sonegando. – Se não fizer finca-pé nos loros e pressão dos joelhos. sustentado na galhofa por um cabra arribadiço. Não é por querer gabar. Mateus. – Tanto foguetório e pabulagem para aquele picaço. Ele ia aceitando os arreios desconfiado. que este seu criado. encolhendo a lombeira. mas no lombo dum malcriado. Eu era nesse tempo o peão mais afiançado da fazenda. Não conversei. – Não meta medo ao rapaz. Com uma laçada mestra. bambear a laçada. gente! – defendeu alguém. para o silhão da menina. o Antônio é cabra matreiro. um estremeção desagradável pelo fio das costas e o coração bacorejando. e riu. Como a neta do patrão se encantasse da estampa escorreita dum pingo picaço. refugando. fazia mesmo! Ainda duma feita. vez primeira no arriscado ofício. passei a perna por cima da cerca e endireitei para o paiol de milho. o Mateus. segundo ouvira dizer. De envolta. no puxado dos bezerros. preciso foi uma faixa escura na vista. meu patrão! Só tive tempo de gritar: – Abram a porteira! O endemoninhado recuava sobre os cascos. admirado. que também trazia fama de montador. olha que a Guiomar se engraçou do picaço. – O patrão mandando. como que a experimentar. bem torcido pelo cabra da peitaça. lá dos sertões donde viera. hoje mesmo tiro as tretas do bicho. Amofinava minhas prosápias de montador aquela pacholice da camaradagem. Súbito arremeteu. senti. amarrei-o à argola do moirão. não é caçoada – avisou um vaqueiro velho experimentado. – É o que quero ver. Levantei-me da roda em que estava. No curral da fazenda apressava-se a ferra duma última partida de bezerrotes trazidos da Boca da Mata. Logo no princípio. a sombra das gameleiras alongava no terreiro. botei-me acima da cutuca. Ao momento que o picaço hesitava ainda ante a súbita claridade que se fizera. Quando ia a trepar. onde tinha os arreios. em furados de papuã e jaraguá. o que prometia. sangue azougado. – Criação da Boca da Mata tem fama. a fugir de corpo. deu pancas o animal para deitar-lhe em riba os baixeiros da cutuca. o estorvo que trazia por cima. afrouxar os atilhos. Nas redondezas destes Guaiais – e o meu companheiro fez um gesto largo. estrelo de testa e olho em brasa – que só fizera até então fitar orelhas e coçar-se aos varais do cercado ao mínimo rumor estranho – patrão interpelou-me: – Ó Antônio. vamos ver se mo pões manso como um sendeiro velho. Ah. gado espantadiço e artificioso. a mostrar uma dentuça mui alva de dous anos e meio. estribos bem justos. aposto o meu ponche-pala contra a tua franqueira. . vieram também daquelas bandas uns poldros cardões. tio Pedro – chacoteou outro peão do sítio. quando o patrão andava ajuntando nas invernadas umas tropas que fomos depois vender ao Mato Grosso.O poldro picaço A Cláudio S. está por terra. em afastar o pessoal. Ganns As vaquejadas estavam a terminar. à lei da natureza. para que conseguisse apertar a barrigueira e abotoar freio de barbicacho sobre o pêlo virgem do danado. contido nos jarretes e a mão de ferro de todo o pessoal interessado naquele feito. tremelicante a beiçama. mesmo assim. O dia começava a esfriar. peia de pernas e torniquete nas orelhas. abarcando céu e terras com a mão – não havia quem fosse mais maneiro de juntas e seguro nos arreios. Não duvidei. bela peitaça. que tanta atrapalhação dera aos campeiros para reunir e trazer arrebanhado à porteira. tão certo como esse sol que nos alumia. muita gente pasmou para as tropelias puxadas à sustância que fui cometendo com quanto burro brabo e redomão aparecia nos lotes.

alheado: Passo'-preto cantador Que canta no buriti. arreliado. O Mateus desistiu por sua vez da . meu patrão. nunca mais tornei à fazenda. por instantes. senti-me mal.. atirou dous pares de couces para o ar... Mais por inclinação própria. todo besuntado da sangueira que me saía duma brecha funda do cocuruto. A noite ia avolumando do fundo das baixadas. empinando sobre as patas traseiras. A sela fugiu sob os joelhos. na força do tombo ficou com o braço na tipóia. indeciso. mais pacífico e sossegado. viajando.. partido em dois lugares. sobre o joelho da menina... quando quis restituir aquele pedacinho rendado de batista – que trazia um G arabescado tão perfeito. perdi a firmeza e pareceu-me que mergulhava de ponta numas raízes da gameleira que assombreava o terreno. desde o acontecido. Trago-o aqui desde então. e espalhou. não fora a traição da barrigueira e sobrechincha.. uns coqueiros de indaiá em cujas palmas salmodiavam. aos pulos e aos trancos.. sem detença. jogando de popa. umas tonturas. Ganhamos o outro lado.. – E o poldro picaço? – No dia seguinte. como um breve. tentou também o cabra da peitaça quebrar-lhe as tretas. Não lhe conto nada. Agüentaria firme ainda. como me convinha. vai não vai. o certo é que não sei por que artes e manhas do tinhoso. Vai dizer ao meu amor Que de pesares parti. esbarrar ao pé das cercas. na encosta da várzea por onde trilhávamos agora.. precipitou-se num arrancão. Cabriolou aos pinotes. recusou. Que bicho. turvação na vista. desengonçou-se no arção do selim. afastando o cabelo corredio. e. Passou por cima da porteira num salto breve. Amofinado. onde todo o mundo andava atarantado. alagando os escampados de sua grande luz merencória. quis queimar essa prenda. Engolimos num trago aquele chão. Atravessamos num relance o sarobal que lá havia e ensaiei. Que fazer. bem dobradinho. (Tirou fora o chapelão de feltro. No valado das divisas. esta mesma cicatriz que aí vê. improvisou alto. Cuidei ficar daquela feita no fundo do barranco. meu menino! Sete vezes fui ao céu e sete desci às profundas dos infernos! Mas agüentei firme. estive mesmo. não obstante a proibição da patroa. disparou noutro arremesso. apontou. que me banhava a cabeça num lenço ensopado. estava estirado no banco da varanda. foi mais caipora. e como se fosse só então principiar. que não queria ver mais sangueiras em casa.) O sangue estancado. Quando dei acordo. andou de banda. embebeu-o de bálsamo e esteve muito tempo a olhar. por abandonar as estribeiras. quando supunha já ser ocasião de sujigá-lo nas esporas e tacadas de rabo-de-tatu aplicadas a preceito. E como visse. num solavanco. abandonei aquele ofício de peão. mas não tive coragem. cousas do coração. bordadura de seus dedos. ganhou o campo aberto. O certo é que. a distância era respeitada.. àquela hora do entardecer. O crescente transmontava. compadecida. encaminhá-lo para o pontilhão e voltar ao terreiro. que arrebentaram no esforço. procurando morder. Uma vez. Também. o malvado. atendo-me ao governo. sobre o peito. acampado à banda pela presilha dum botão. sei lá. d'abas largas. Mais tarde.Nem tempo tiveram de tirar os últimos paus. sacudindo-me com violência do lombo. muito branco. no estradão. meneando. nervoso. trocando-o por este de condutor. e ele. as inhumas do sertão.. sarado. acachapou-se no terreiro. ela atou-me o lenço à ferida. que obedecendo às rédeas. Estive muito tempo a olhar. pinoteando. ele desembestou por ali e veio num fechar d'olhos.

– A patroazinha. andou uns tempos entristecida com o sucedido. – Essa. e até o pouso próximo não lhe arranquei mais uma única palavra. desandou de emagrecer. segundo ouvi. Toparam-no uma daquelas manhãs arrebentado no curral..) 1914 . com um moço da vizinhança. há cousa de ano e meio..experiência. (Acendeu o cigarro. rejeitando a ração. creio. onde lhe andavam a curar com salmoura a esporeação do vazio. Também o bicho. atido preso. casou. desengonçou-se de novo no selim.

. rebuscando lá por dentro os dois borrachos. após farta cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura que bebera em silêncio. oblonga. Era uma urutu. rasgara-lhe por dois pontos. não valia por tão pouco amuá-lo. sem vacilar. mas assassina.Ninho de periquitos ABRANDANDO a canícula pelo virar da tarde. deixassem lá em paz os passarinhos. cerce quase à juntura do pulso. amputando-lhe a cabeça dum golpe certeiro. entre as macegas espinhosas de malícia. chispando as pupilas em cólera. mostrando a língua bífida. à altura do peito. O reptil. completamente perdido. É que uma picadela incisiva. amarelecido já pela quebra. às largas colheradas. assentada sobre a forquilha da árvore. voltando a si do estupor. amarrava o feixe e ia já a recolher caminho de casa. calcando duro. O matuto sentiu uma frialdade mortuária percorrendo-o ao longo da espinha. no propósito de ir picar uns galhos de coivara no fundo do plantio para o fogo da cozinha. malignamente. passou a perna por cima. que andava duro na quinzena. preparava-se para novo ataque ao importuno que viera arrancá-lo da sesta. a palma da mão. Mas aquele dia assentava o Janjão a sua primeira dezena tristonha de anos... rebolando na terra. saiu do cerrado. Domingos abandonou a rede de embira onde se entretinha arranhando uns respontos na viola.. na bifurcação do tronco. a terrível urutu do sertão. apoiando a mão molesta à casca carunchosa da árvore. Perdido. escancarava a boca negra para o nascente a casa abandonada dos cupins. num gesto instintivo. a colher uns pepinos temporões. que foi rasgando entre dentes. foi ao paiol de palha d'arroz. persistentes. encimada a testa duma cruz. O milharal estendia-se além. dolorosa. a fitá-lo ameaçador. e saiu ao terreiro. tendo ajuntado os gravetos e uns cernes da coivara. na baixada das velhas terras devolutas. as alpercatas de couro cru a pisar forte o espinharal ressequido que estralejava. Enquanto amolava o ferro. vésperas quase da colheita. para a qual a mezinha doméstica nem a dos campos possuíam salvação. onde um casal de periquitos fizera ninho essa estação. Então. que abria ao mormaço crepuscular da tarde a galharada esguia. sacou da bainha o largo jacaré inseparável. num cupim velho do pé da mariapreta. O roceiro andou lá pelos fundos da roça. que ficavam lá no fundo do grotão. vivamente. Era pelo domingo. decepou-a noutro golpe. num movimento ainda mais brusco. onde demorou a afiar numa pedra piçarra o corte da foice. mas perfidamente traiçoeira. toda tostada desde a época da queima pelas lufadas de fogo que subiam da malhada. 1915 . Não esquecesse. E enrolando o punho mutilado na camisola de algodão. e pois. E. Mas tirou-a num repente. O lavrador alçou com cautela a destra calosa. como um deus selvagem e triunfante apontando da mata companheira. o papá. rumo de casa. que realizara dias antes. aparecia à aberta do cupinzeiro. e o caboclo.. o Janjão rondava em torno.. os olhinhos redondos.. enquanto olhava admirado. mais uma vez avaliando com a vista se possuía capacidade precisa para a rica colheita do ano.. uma cabeça disforme. e. sobranceiro e altivo.. Ora.. e o veranico. quando se lembrou do pedido do pequeno. fitando-lhe. surpreendido. entranhou-se pelo grotão – nesses dias sem pinga d'água – galgou a barroca fronteira e endireitou rumo da maria-preta. e pulando do outro lado. onde uma chispa má luzia. dos filhotes de periquitos. olho aguçado para o trabalho paterno: não se esquecesse. O caipira pousou a braçada de lenha encostada à cerca do roçado. Ali mesmo.

à entrevista do saci. para obstar que o saci. aquela mulata de sustância. olhava pasmado o negrinho que lhe fazia caretas e trejeitos. Desde Santo Antônio que ele rondava sá Quirina. Por isso. arrastando novamente as alpercatas de couro cru pelas terras de sô feitor. um olho de menos e falta de dente na boca. Com a rica dádiva dum quartilho de cachaça e meia mão do seu fumo pixuá. na luta do casal. pai Zé alcançou do Galego a cabaça desejada. entregando o resto a pai Zé. e não era o zarolho e cambaio do seu homem que a enganasse. Toda a eloqüência que ele penosamente engendrara em seu bestunto de africano e que lhe tinha despejado pela festa de São Pedro. não via com bons olhos o afã de seu velho pela posse da milonga. seu saci. lá ia também sá Quitéria. prometeu. Pai Zé. que a crioula é sua escrava. O negro chegou aos grotões e chamou pelo saci. não – que sustância ainda ele tinha no peito para agüentar com a mulata e mais a trouxa de sá Quitéria. Tinham-lhe surrupiado a cabaça de mandinga. pulando no seu único pé. que se devorava às pancadas. O moleque desbarretou-se. vendo agora o moleque rodopiar como o pião do ioiô. sua mulher. Sá Quitéria. Pai Zé. sorrateira. – Porque. como era o seu costume quando incomodado. a velha ciumenta estava de tocaia. e dá-me cá o feitiço pra sá Quirina. Pai Zé fora um dos que o tinham aconselhado. O preto. nos grotões e covoadas da roça. O moleque. que desde vésperas de Reis estava entrevada na trempe do jirau. lá se foi o feitiço que o pobre pai Zé adquirira com o sacrifício dum quartilho de cachaça e a meia mão do seu bom fumo pixuá. louco de contentamento. que de pronto apareceu. ele sabia-o. Ioiô– concluiu o preto velho que me contava esta história – a todo aquele que viu e falou com o saci. nunca mais houve paz no casal. saindo um dia à cata dumas raízes de mandioca castela que sinhá-dona lhe pedira. – Vancê quer alguma coisa? – perguntou pai Zé admirado. apesar dos seus sessenta e cinco anos e meio. desejosa por saber do seu intento. A cabaça. E. E desapareceu. – vancê gosta de sá Quirina. que conheci a tua tramóia – gritou sá Quitéria furiosa. e pai Zé arrenegava sem descanso o maldito que introduzira a discórdia no seu rancho. a tinha roubado das grimpas do jatobá grande. extremamente irritado. Desde então. acontece sempre uma desgraça. se vancê me arranja a cabaça que perdi. – Mas agora – gaguejava o preto – eu lhe amostro. fungou. abandonando a enxada e de queixo caído. e. pois eu lhe dou a mandinga com que ela há de ficar enrabichada. não teve outro resultado senão a fuga da roxa quando o encontrava. – Olha negro – respondeu o saci. e fungando terrivelmente. E ela também sabia deitar e tirar quebranto. Atrás dele. tornasse a levantar as árvores da derrubada que o Benedito fizera nessas terras. fora amoitada pelo Benedito Galego. não era negro para se desprezar assim por um canto. . fungando. cansado das malandrices do moleque. se ele tinha! Mas a cafuza era dura da gente convencer. disse: – Dá-lhe a cheirar esta pitada. – Toma lá a sua cabaça de mandinga. negro velho dos infernos. porém. se sabia! Perguntassem à bruxa da nhá Benta. – Ah. a saltar no seu único pé. lá nas roças do ribeirão. tirou uma pitada grossa da cumbuca. pai Zé capengava satisfeito e inchado com a promessa do saci. que o saci é mesmo bicho bom pra deitar um feitiço. um caboclo sacudido que. Lá ia pai Zé. topou com ele nos grotões da roça. Arrastando as alpercatas de couro cru pelas terras de sô feitor.O saci Por aquele tempo o saci andava desesperado. vagueava pelos fundões de Goiás. saindo do bamburral e segurando-o pelo papo. procurando sempre ocasião de lhe mostrar que.

Goiás – 1910 .

de postura e qualidades tão bem gabadas e discutidas como as vantagens pessoais de seu dono.. Sempre num terno de brim milagrosamente escapo à poeira das estradas.. em fila nas estacas. de passagem por Corumbá. o coronel Pedrinho! Alto. quer fossem caixotes com o dístico – cuidado!. onde a tropa arranchara. E. a pele corada e rebrunhida pelos sóis do sertão. Assim. ou rompia árdega a mula pela praça do povoado. espalhada em leque sobre as cordoveias do papo túrgido e rubro de peru de roda. se pousavam ao relento. era um homem cuja eterna sisudez impunha sempre um respeito desconfiado aos camaradas. e mui vivaz e solerte à voz do patrão. De Pirenópolis a Araguari. depois por gosto próprio. Figura única aquela. passava revista à burrada. preparando o café e a rapaziada toda fazia roda. ninguém como ele mais estimado e procurado para um ajuste de frete. interpelando Joaquim Percevejo – o arrieiro. já ia o moço tropeiro beiradeando pelos trinta e quatro. em contraste à franca jovialidade do patrão. Bela Vista e mais vilarejos do interior. em Minas. sob o buriti do olhod'água. – indicando o conteúdo perigoso da dinamite. o cabrestame em cruz sobre a testeira aberta. ao campeio habitual da mulada. as pernas mui curtas e em arco pelo hábito da montaria. E. à saudação costumeira: . era um tipo bem diverso do patrão. desempenado. como única a andadura da ruana. e desde rapazote batia as estradas comerciais do velho Goiás. com o seu floreado cuitezinho da bebida estimulante à espera. ou fazenda desbotada pela chuva na caminhada dificultosa. estribado na sua grande mula ruana. Já Joaquim Percevejo. chiava o caldeirão do cozinheiro. inchando o peito. sobre a verde louçania dos serrotes apurpureassem os primeiros listrões da aurora. Era de vê-lo então apurando o ouvido. com todas as suas intrigalhadas e ódios inevitáveis de facção política. transportando do sertão dos Pireneus couros e fumo. fugindo à vida marasmática e aperrengada do vilório natal. e. não havia então reclamações por vias de uma peça partida. já na trempe do rancho. a princípio sob as ordens de seu defunto padrasto. numa empáfia de mal contido orgulho. não ousavam contudo murmurar dos ralhos do arrieiro. Pois toda a satisfação do arrieiro consistia em ver o patrão. O seu prestígio corria parelha com a fama de honradez e sobranceria de caráter em que era tido naquelas funduras. donde o pessoal se postava das janelas e currais observando pouco antes a passagem da tropa. Antas. pronta a bater o encosto da vargem. o arrieiro. trazendo das praças mineiras as variadas manufaturas. um lenço de seda negra cingindo em fofo pela aliança de ouro o pescoço desafogado. o coronel Gominhos de quem herdara a tropa e o título. mui embora lhe viessem sentindo dia a dia a morrinha impertinente de seu gênio testudo e ateimado de idéias. fazia gosto vê-lo quando apontava à tardinha no pouso. quando em mãos dos destinatários. as botas de verniz mui lustrosas sob a prata dos esporins. mão firmada na ponteira do chicote que se apoiava à albardana acolchoada da sela bela-vistense – era mesmo uma bizarria quando o seu perfil moreno atravessava ao largo das fazendas. babujando já a quirera da ração matutina. e os lotes completos. Também. afunilada e acabando em bico na boca do estômago. em fila ao longo do parapeito. assim saído da barraca. a barbaça grisalhona. à descarga do último lote na rancharia dos tropeiros. antes que a madrugada fosse amiudando. Com uma longa faca de arrastro sustida ao correão da cinta pela espera de sola grossa. dada a segurança da sua tropa – a mais garbosa e luzidia naquelas alturas – e o zelo sempre alerta que punha no resguardo da carga. quando via as suas ordens mal cumpridas ou relaxadas pelos seus na labuta cotidiana. quer fosse o letreiro encarnado – frágil – sobre a tampa de pinho dos aparelhos delicados de louçaria e vidro.Peru de roda Bela estampa de homem.

e ia apertar a cilha à sua mula mascarada. vinha encostá-lo à capota do cargueiro. donde não tardaria em pouco aquele a desembocar. à esquerda. patrão! E bradava logo. desaparecido no cotovelo do atalho. o quinto acobertando-se nas árvores. restabelecendo do lado oposto o equilíbrio. contornando um serrote. na mesma abundância de carnes roliças. nas ondulações do terreno. Do lado de dentro do rancho. o pêlo rebrilhando sobre a fartura luzidia das ancas. saía logo a passo amiudado. o terceiro e o quarto ainda ocultos no travessão de mato. E o segundo burro. no fundo da vargem. rapaz! Que o sol já 'stá pr'aí botando o seu carão de fora! O outro não se fazia rogado. e. cuja ferradura ia amoldando a argila barrenta da chapada. E quando era a vez do culatreiro. na matinada bimbalhante dos guizos e cincerros. abrangendo a récua distante do dianteiro. metia os dedos às alças. enquanto ele corria a pegar outro fardo. o pequizeiro. plumagens multicores de pássaros no verde retinto da folhagem e arrulhos cantantes de água corrente – Joaquim Percevejo empinava o busto e ficava . nos primeiros aprestos da partida. mal dando tento do peso morto de dez arrobas e mais que trazia sobre o lombo. eriçava-lhe os redomoinhos. o segundo alvejante e albino. no gorgulho da rampa. e dando um muxoxo ao ouvido da madrinha. apanhava o balanço rítmico da marcha. passado o ligal. o sol aquentando e vibrando todo o sertão numa auréola gloriosa de luzes. ainda mui arteiros e indiferentes sob o arrocho dos carregamentos. enfiava-o à argola da cabresteira. para menos sentir os efeitos do arrocho. ainda os machos queimados de seu lote – o refugo da tropada – fariam inveja a muita fieira de tropa que briquitava naquelas estradas! Então o arrieiro ajeitava a chilena ao pé esquerdo. o primeiro de crioulos alentados. e. no trote picado da montaria. a sua vista perdia-se ao longe. castanhos-escuros e pêlos-de-rato dos terceiro. que galgava a encosta.–Ah! sim. impaciente por morder o primeiro na retranca. que levava como dobro a capoeira de seu trem de cozinha. upa. chupando o cigarrão. Joaquim Percevejo assistia diariamente à saída da tropa. Descido o primeiro fardo da pilha. já o segundo lote acangalhado e alerta nas estacas recebia os surrões. esta tomava prestes a saída do trilho. Era um garbo ver como as cores dos lotes se sucediam por escalão. aprestado e solto. e os cincerros da guieira do culatreiro a chocalhar-lhe os ouvidos ali adiante. da estrada. lá embaixo. E quando o último sumia além. onde um camarada dava a demão. e. descia suavemente ao ombro. amiudando um passinho de mulo carregado que tivera a sua medida. para um dedo de prosa com os conhecidos das fazendas que se iam avistando a pouco e pouco à direita. o dianteiro desatava o cabresto. Vinham os dobros desfazendo as demasias. no rastro ainda fresco da tropa. mais aquém. Já o cozinheiro albardara o seu ruço desferrado. comandativo. enfiando as alças no cabeçote e escorava a cangalha. que naquela manha de animal velho e sabido. upa. estalava a mão ao fundo.. devorando rapidamente as distâncias. levantava-o à altura da cabeça. presa à cancela do rancho. a raspar ainda a sua rapadura no fundo da caneca: –Êh! Jerome! Toca pra diante. àquela toada costumeira que se alongava e ia distanciando do outro lado do córrego. E quando galgava a eminência de um descampado. dava-lhe o boleio de uso. um a um os demais iam saindo na poeirada do antecedente. de que recebia as últimas lufadas. inchava a barriga. e numa andadura indolente saíra ao alcance do dianteiro. numa nuvem de poeira. o segundo. cotovelos fincados sobre o parapeito. Na estiagem magnífica da manhã. hein?! – Na forma de sempre. onde eram o araticum-do-campo. na regra do costume. a fruteira-de-lobo e os coqueiros de macaúba que para cá dos listrões de mato se descortinavam esparsos no sapé bravio. que vocês por aqui me madrugaram hoje. O coronel deixava-o pouco adiante.. zumbidos e chilreios – trilos de insetos nas touceiras orvalhadas e chirriadas adormentadoras de cigarras. ao dianteiro. quarto e quinto lotes. sob um peso de cinco ou seis arrobas de sola. E ele torava para a frente. aparelhava a ruana do patrão. E após esse. e lá ia arfando estrada afora. arrochado e preso o cambito da sobrecarga. estrada afora. para dar lugar aos rosados.

selavam o ventre. . – Qual cangaia. bota-lhe em riba mais um dobro da dianteira e o rosário de ferraduras. olha um calço na capota dessa cangaia. de quem sabe dar o devido peso às palavras. Pegado o culatreiro. não podia que não soltasse o brado de entusiasmo que lhe transbordava do papo túrgido de peru de roda: – Eta tropa danada!. num movimento involuntário do pescoço. alcançara o terceiro. saciados. achegados à retranca dos lotes. experimentando um súbito abaixamento de temperatura. os burros socados no cerrado e o tocador a arrumar a carga da dianteira – que não tomava jeito e ia arrecuando e pisando o espinhaço do animal a cada nova subida do caminho. as suas cabeças amarradas em lenço de alcobaça – as pontas sarapintadas voltadas para trás – passavam como asas de borboletas. bradando: – Completo! Diacho de preguiçoso!. uma carantonha obscena com o rabo erguido. vendo-se a sós. emborcada sobre um cargueiro do segundo lote. a perder de vista. dando de chapa no latão de uma bacia. lhe despertasse os melindres.olhando muito tempo. – A modo que a manha de Passarinho é da cangaia nova. estribado sobre os loros. Agora só qué memo cortá vorta no mato.. os metais das cabeçadas de prata. até que o primeiro mijado. subia a toada contínua dos guizos e cincerros. e nos volteios do caminho. os peões bracejavam e sacudiam a taca. sacudindo-lhe a taca ao traseiro. interpelava: – Êh! Sô Quim.. já lhe correra ao encalço. outra encarnada. A mula do arrieiro.. nas pegadas do segundo lote.. Mecê deve ter assuntado que desde os Olivero o bicho não toma jeito. abriam as pernas. Diacho de bicho brabo! O relho estalou e a burrada foi cortando pelo mato adentro. qual carapuça! Encosta o relho e toca pra diante que é treta antiga! – Êh! êh! Pachola! Ventania!. mais filósofa. – Toma tento na Tetéia. por sobre o verde-pálido indefinível da campina. descansado.. home. passado um quarto d'hora. já a sua fisionomia readquirira a sisudez apática de costume. Ao longe. Os dois tinham parado à beira do córrego. Faiscavam às vezes. e rabo ao ar dejetavam na corrente. fazendo às árvores e cupins que deixava para trás. e os que ficavam para trás. Vendo um cargueiro adiante raspando terra e fazendo menção de deitar. no âmago do travessão. Izequiel. e. uma azul. em postura de monge ermitão. matava ali mesmo a sede. Tá danado! – Chega-lhe a taca.. recusando cada qual beber a água suja do que o precedera. o reverberamento do sol. rompendo a marmelada-decachorro. Os burros enfurnavam-se pela garganta do ribeiro acima. continuavam a conversa encetada. vindo de novo ganhar a estrada cá em cima. adejando num vôo indolente rasteiras ao solo. num chiado agudo de água passando entre os ferros do freio. a mula descia em dois corcovos bruscos a rampa.. esquecido. por vezes. Tinham chegado ao córrego. encontrou-o encalacrado numa volta do capoeirão. na mesma e epitalâmica pujança de arruídos e de vida. outra amarela. Não lhe dava o xará em respeito à hierarquia. crepitando. olhando. O vozeirão grosso. Picando uma rodela de fumo. entre o arvoredo das margens. naquela satisfação refestelada de irracionais. a terra estuava e desdobravase uniforme. e. Ia tudo sem novidade. Espicaçada por súbita esporada. O outro não respondeu. Vamos ver se ainda treta depois pelo caminho. para baixo. que isso é falta de carga no lombo. essoutro dia tanto coçou nos pau que deitou a carga no atoladô. Joaquim Percevejo correra a espora por sobre a anca da besta. como vai seguindo isto por aqui? – O Passarinho tá danado de veiaco hoje. a descer em bolhas na torrente. E quando. E aquela exclamativa era a expressão sentimental de toda uma existência subitamente revelada.. já lá ia adiante. Amanhã. Joaquim Percevejo ficava olhando. na rampa. donde vinha.

e palpar-lhe o sentido. o cão de fila à cola. Impressionara-o a contradita que tinham tido. – Vai comendo brasa – disse o cozinheiro vendo-o chegar ao mesmo tempo relho e espora ao animal. asas agoureiras de borboleta. E Joaquim Percevejo apertou a andadura da besta e foi torando mais depressa para alcançar o patrão na encruzilhada da serra. alvejando. Volta e meia Percevejo procurou o culatreiro. – Não devia relaxar. menino! – Nunca se lhe fizera alguém intrometidiço no ofício. o lombo do animal. nem mesmo no tempo do defunto compadre Gominhos. seiscentos e oitenta mil-réis. mais larga. na marcha do dia. já impacientado. rapaz. que surrara a cacete. maculavam o acolchoado na altura da cruz. repisou uma quadrinha predileta de Percevejo: . Em pouco esquentava a discussão. Nem isto o demoveu. pede carga de sustância. um pito no arrieiro! E temperado o pinho.. amilhado como vai. O arrieiro era bem analfabeto.. E como tinha a mão pronta. – Não é p'ra menos – retorquiu Izequiel. tintim por tintim. Ao longe. Assim como queria. passava um cavaleiro. Joaquim Percevejo espetou os dedos no barbalhão hirsuto. Bicho novo. O outro fez-lhe ver os suadouros da cangalha. Como todo moço tropeiro. Mas não tinha andado direito. cuspiu a barba em leque e pediu a sua conta. pela encarnada de um burro do dianteiro. mordendo os beiços e metendo o pé à barriga do burro. Como seu Quim continuasse recalcitrante na destroca dos arreios. – É como lhe digo. passou-lhe o papel. concertava o cargueiro abandonado. Conforme combinassem. ajuntou o pêlo todo num puxão. no atalho da serra. Não o contrariara à vista dos outros. O coronel Pedrinho. E o ofício era aquele. bufou regurgitado: – Tu 'stás aí. tinha um respeito bemeducado pela barbaça grisalha do outro. talvez se desquitava aquele dia mesmo. duro. Fizesse o que ordenara. senão. – Tá bão! tá bão! O Quim encolheu-se logo humilde. Ali na intimidade das paredes de lona. afazendado nessas alturas. distintivo dos arreios daquele lote. Duas grandes pisaduras. O elevado da importância era o insofismável penhor da estima e confiança em que era tido. * * * Aquela tarde a tropa arranchara nas Estacas. o burro ficava inutilizado. a respeito do Passarinho. ainda me cheiras a ovo. somou as cifras. Empirraçado já. recusou-se mesmo a ir verificar nas estacas. passara de novo o ligal. como dizia o arrieiro. amarfanhou tudo. O Passarinho carecia era de cangalha bem assentada. apeara. No sertão. assim. Juntasse aos dobros o amarrado de ferraduras. dispensou a janta. na regra de pobre. fechou-o dentro da boca. Aquela ia-lhe mal. Mas o patrão gritava da barraca pelo arrieiro. avisou que estaria de volta ainda naquela noite. com extraordinária memória. quanto devia ao justo – três contos. Ia entender-se com o seu Ivo. O Passarinho quer mas é barrigueira acochada acima do branco das costelas e mais uns dobros por riba. mal-encarado coronel. deixasse-o à vontade. lambendo a poeira da estrada com o seu palmo de língua. sabia porém. chamou-o à ordem. a fim de evitar o seu desprestígio entre a camaradagem. treteiro de marca. – qu'estúrdia. Mastigou nervosamente. vendo-o naquela entaladura.Joaquim Percevejo. e arrochava a sobrecarga. Arreou a sua mula. Topou-o mudando a baeta verde da cangalha do animal. camarada relapso não acresce dívida. o culatreiro conhecia bem o seu lote. abriu as canastras. dera logo jeito aos dobros.

Tinha-lhe o outro este ódio secreto e instintivo de todas as criaturas inferiores e autoritárias para com os que não possuíssem um mesmo espírito de rebanho. eslaivados. por intermédio de um funil. Também. e derramou-se no céu a prata das estrelas. Um cavalo bem choutão.. ferrador de burros e antigo tropeiro como o maioral deles. Do guri se tira a manha. não admitia controvérsias. pelo menos. o estoiro de outro – de quem suspeitara meter-se-lhe a engraçado com a mulher.) Também. Fez os seus arranjos.. A noite entrou fechada. um velho correligionário. O crepúsculo veio com a monotonia dos grilos e sapos nas varjotas. em Curralinho. quarenta agregados e acostados enchiamlhe as casas. O patrão mandou soltar a tropa no encosto. além. e ali estava desde os velhos tempos do padrasto Gominhos. Arrastaram-se as violas no pouso até às dez. com a lábia do fazendeiro.. Pois sim. . quando ia à cidade. (Não sorriam os leitores. Como todo chefe sertanejo. a resposta na letra: Mas agora venho a crer Que pra tudo Deus dá jeito. felizmente.. ofendia as fumaças do mandachuva com o seu todo independente e sobranceiro. Sabia Percevejo visceralmente honesto. um perdido de mulheres. E não achou ali ao pé o arrieiro para dar. passaram fugidios sobre as franças das últimas cristas da Dourada. os babaquaras da terra interrompiam a palestra e safavam-se pelos cantos. o Zeca Menino. Uma muié rabugenta Mais um menino chorão. Naquela sua fazenda nos arredores das Estacas. Engambelou portanto o pobre homem. à força de infusões de malagueta e salmoura deitadas goelas abaixo. ao assomar na esquina o seu vulto apessoado de anta brava. Camarada que para ali fugisse. Tons róseos. Percevejo trazia a tropa num brinco. e ao levantar do sol tornava de novo para a fazenda. A casa a gente reteia.. puxando as espiras azuis de seu goiano. Caráter altivo e reto porém.. Não transigiria. Braço direito dos chefões estaduais. as suas façanhas contavam-se pelos anos de vida. porém. Demais. Mas até aí. pois sim. E é até possível que quem escreve estas linhas fizesse o mesmo. aproveitou a oportunidade para uma das suas pirraças.. Depois tudo fez silêncio e o arranchamento dormiu embalado à distância pelo polaco das madrinhas de lote. Doera-lhe despedir o arrieiro. e. na passagem das últimas boiadas que por conta própria mandara às feiras de Minas. registrava-se o castramento por suas mãos de um pobre pancada em Goiabeiras. tinha coito e segura garantia. O sítio era um arsenal. era fundamentalmente autoritário. Este voltou inchado ao pouso da tropa. O cavalo se barganha.. Na muié se mete a peia! O coronel Ivo era um famanaz temido nas redondezas. centro das marombas politiqueiras do município. erraram. triunfante. entre as menores. Não contava. nunca tivera azo de manifestar a sua energia. Malquistara-o com o administrador do porto de Mão de Pau. Estimava-o. porém. comprometendo-se a solver a dívida no dia seguinte. ao sair da barraca. Estava precisando mesmo de um homem de confiança como Percevejo. se era da gente da oposição. O coronel Pedrinho esperava encontrar Percevejo pela manhã. sem transição. Gozoso. seu capataz. O coronel Pedrinho era neutro. Qualquer dia vê-lo-emos deputado federal pelo Estado. era uma cabeça avoada. é histórico e atual.Quatro cousas neste mundo Arrenega um bom cristão: Uma casa goteirenta. e esperou-o o dia todo na rede.

Nem um gesto sequer. Lá na fazenda. a olhar significativamente os rapazes em torno. rindo constrangido. a besta arrancar num trote largo. empastado de suor. acangalhada e alerta nos aprestos de saída. Não se conteve mais. atou-a num ápice. Não posso falhar mais este dia! – Hum! hum! Já aqui estou. lama e aguaceiro. soprou um vento quente. patrão. A conta será quando seu Ivo quiser.. Deixe-se por aí ficar. Sumiram-se na quebra do cerrado. E sorria pachorrento. mandou enfrear a ruana. grossos pingos começaram a cair. e não quero saber de mais tardança. a corda na mão. Izequiel saltou como um boneco de mola. em nó-de-porco. Olhavam. Toda aquela gente ali reunida era um cabide de armas. atrelada a tropa.. entrou montado no terreiro. bradando: – Olhe. caminhou direito sobre Percevejo. A teima do culatreiro. Ninguém o tirará daqui. Avia essa conta ou volta para o pouso. Bateu violentamente a cancela. sobre os calcanhares. por aqui me vou deixando. Cortou-lhe a corda o patrão. quando o dianteiro correu do interior. Mas à noite. é suficiente. não me deves mais nada! E não se ouviu mais ali palavra a respeito. E. – Percevejo. e Percevejo não aparecia com o dinheiro. não há de ser o seu patrão que mande chover por outra forma.. Nem um único olhar lançara ao fazendeiro. noutro improviso: . E num gesto enérgico despediu-o: – Vai-te. ali tirou uma comprida e consistente embira de timbó. Paralisara-os a todos tamanha audácia! E foi assim. ao primeiro puxão. perrengue! Um homem que se deixa amarrar pela barba. os olhos ramelentos. e. foi à boca do mato. O coronel encarava-o aparvalhado. nas suas enxúndias de homenzarrão. prendeu a ponta desta ao rabo da mula e achou-se montado de novo. estarrecidos. o cano das clavinas aparecendo de sob as fraldas das carochas de indaiá. Viram-no ferrar esporas. desesperadamente. saltou da sela. E nenhum tiro se ouviu.. O coronel havia-lhe dito: – Sabe que mais? Não está nos meus hábitos pagar contas a desafetos. Uma conta a liquidar E costas de fazendeiro. olhe que esqueceu o revólver mais a cartucheira! – Não é preciso. deitando os bofes pela boca. não é homem.. afagando os queixais de prognata. riscando o chão molhado com a roseta de sua enorme franqueira. Viu Percevejo acocorado no meio da roda. num canto do curral. Fez uma rodilha. Pelo beirar das onze o céu embruscou-se. O moço tropeiro não trepidou. Dou-lhe a minha proteção. levo ainda o meu canivete. não é homem! Vai-te.. E ninguém se movera naquele rápido segundo. roxo de vergonha. abriu o viva-Goiás. E ao local chegava mais um grupo. amarrou-a na garupa e enfiava o pé no estribo.Servido o almoço. Percevejo conversava. O rebenque metido no cano da bota. a tropa está há quatro horas de saída. satirizou num repente o cozinheiro: Quatro cousas neste mundo Arrenega o arrieiro: A manha do Passarinho. que Percevejo fez a sua entrada nas Estacas. à embira. ponteando na viola. Nem pestanejou. Pegou o arrieiro pela barba. prenunciando chuvarada. Percevejo se pusera também a trotar atrás. Foi quando o Pedrinho estancou a mula na cerca.

aproveitando a estiagem da manhã. que derrubou a grenha e passou daí em diante a usar a barba raspada à navalha. Os peões. faziam estalar indolentemente a lonca de seus compridos piraís. convenceu-se tanto o pobre-diabo do que lhe dissera o patrão. elevado à categoria de arrieiro. Que se passa no gogó À maneira de sedenho! No dia seguinte. . Mas iam todos precavidos e traziam à bandoleira os rifles de estimação.Mas agora venho a crer Que pra tudo Deus dá jeito: Lá no mato tem timbó Que se tira sem o lenho. a tropa toda arribou das Estacas e desfilou unida ao longo das tranqueiras do Ivo. Quanto a Percevejo. Os guizos carrilhonavam em conjunto no bulício matutino. sob as vistas de Jerome. à passagem.

mesmo assim. arre! está um frio das carepas! – Veja lá um golo de pinga pra esquentar – obsequiou de dentro alguém. a fazer dançar os tentos e bois da parceirada. até amanhã. E saiu fora. além de ferrada. ferrando uma patada no ligal que servia de mesa. – Não esqueça a minha cabaça de pólvora para as salvas de roqueira no Chico Fogueteiro – avisou o Malaquias interrompendo a partida. que descobrindo com precaução o naipe seboso de suas cartas. o Benedito dos Dourados enfreou a mula rosilha e espalmando satisfeito a mão no lombilho dos arreios. A lua ia a transmontar. Emperolava-se a orvalhada no grelo viçoso do catingueiro roxo dos . a cabeça e o fato! – pilheriou o cabra entrando e indo abeirar-se do lume. para toda a companhia. – Êh lá. os quatro quartos.. quando traquejava na linha de Cuiabá. Bicho bom! como aquele bem poucos. muito branca. O Benedito já virara rédeas. tomando o cuité que lhe ofereciam. – Qual o quê! Seu Zeca passou lá ontem à boquinha da noite.. acendeu-o.. não fora o defeito do macho em meter-se a passarinheiro nos últimos tempos. onde negrejavam restingas de mato e os renques de buriti que orlam o curso dos córregos das vargens. morro arriba. barriga de coeio – berrava o Malaquias. – A lua vai descambando. não resta dúvida. – Crioulo de sorte – observou o adventício. notas novinhas em folha. com o mato já escuro. – Bicho como aquele tive um. olha que. – Vá feito.. assentado sobre os calcanhares. batendo lá longe a cancela do curral e ganhando o estradão. a passagem. estendeu para o interior o braço. – E o garrafão de licor com a comadre Maruca – disse João Vaqueiro. Retirou detrás da orelha a mortalha do cigarro. mas a Estiva está que é uma lazeira. e assunta que. macho rosado de fiança! Levou-o um arrieiro por seiscentos bagarotes.Gente da gleba A Guimarães Natal APERTANDO a sobrechincha encarnada por sobre os pelegos da sua boa sela mineira.. voltou ao paiol da fazenda. sem lua. seu Dito? – perguntou um adventício assentado numas retrancas de cangalhas e batendo fogo no isqueiro. só estará em Santo Antônio lá pelas tantas do dia. agregado do sítio. em ondulações suaves e alguns sulcos fundos. enrolou-o cuidadosamente e puxando com um graveto a brasa da fogueira. levantara-se num repente até a cumeeira de sapé.. truco no meio. um trabalhão. O cabra espicaçava com a unha uma rodela de fumo pixuá que tirara dum embornal da parede. Chuva deste mês já não faz lamedo. um negralhão espadaúdo. Os campos desdobravam-se por devesas e baixadas. um cafuzinho pernóstico de gaforinha e barba rala. como uma garça-real nas águas azuladas da lagoa. escutava descuidado a pacholice do correio. a rosilha é estradeira. sem o que corre chocha a função – caçoou o cabra desamarrando a besta no moirão do cercado. quero ainda amanhecer no arraial a tempo de pegar a missa do Divino. não soube reparar no desvio que conheço. – Já de partida. arrastando as chilenas. Abeirou já montado do batente. – Esse não esqueço eu. primeiro braço de foice e machado em derrubadas e demais eitos da roça. – Estou de forma! com quinze quilos e quinhentas gramas! – retrucou Joaquim da Tapera. que eu também tenho parte do boi. – Morro abaixo. elogiou: – Bicha braba! – Truco tapera. e amilhada como vai puxa bem légua e meia. e a mula. atoleiro pra riba do peitoral. arresta que fia fino pr'essas estradas. baforando dous tragos longos de fumaça. mesmo assim. quem não ama não espera! – gritava o Malaquias. Bebericou uma golada e passando o dorso da mão pelo bigode fino. não ficaria contente da barganha. com um solzão à mostra. onde a camaradagem se entretinha ferrada no truque. e uma franqueira aparelhada de prata de quebra. urrando como guariba.

vezeiro em tretas. no fundo da baixada. um galo tresnoitado arreliou numa palhoça. arrotando valentias e pabulagens. Não! que nesse caso fechava mesmo o tempo. viajando. o cabra. A mula cortava a estrada na marcha batida. não era de raspar-se com a estrela boieira para o povoado e lá. após o jantar. Assim. Mau-olhado dalgum moço. à sombra tranqüila das fruteiras-de-lobo e pequizeiros da chapada. algumas vezes entremeadas duma quadra esquecida: Menina. forte e desempenado. para recomeçar à aproximação da montaria. coçava o picumã da barba falha e metido lá naquelas espáduas largas de preto nagoa que eram a admiração do pessoal. campeasse em plainos de malhadas ou fossem cerradões garranchentos. Aí. desengonçado no arção. metido a noite toda em vira-vira de cateretês e sapateios à viola com a Chica. ele aparelhava o macho queimado – velho sim. um curiangu que encontrara a fingir uma ponta negra de cerne emergindo do solo. O Benedito repisou a melopéia: Pra livrar dalgum quebranto.. mostrando corpo mole. mas ainda marchador – e à socapa. ao alto do seu pampa campeador. laço à garupa. ao vê-lo noutro dia como sempre. plena andadura. E mesmo – que nesses bailaricos surgiam dessas – topar pela frente um dunga qualquer de quatro costados. assombrado. Bom tempo aquele! E nunca. um só pulo a Santo Antônio para deitar seu olho enamorado à cabocla. rumo do povoado e do cochicholo da Chica. abeirando a passo miúdo da Estiva. juntando esporas. – toda dengosa e faceira em suas chinelinhas arrebitadas de marroquim. rosronava d'olho avelhacado: – Home. um luar tão claro como aquele. quando vinha a tardinha. A labuta ia dura na fazenda.. pr'essas pelintragens. faltara à sustância. mal tivera tempo de dar. no dia seguinte. Era pelo começo de seus amores com a Chica do povoado. para que não o dissessem mofino e mulherengo. o jeito de querer sonegar-se com a morena. – ao outro dia agüentar escorreito com o seu posto no campeio.serrotes e a gadaria ruminava ao luar. O Malaquias. amodorrada. Nessas vaquejadas. ao traquejo costumeiro. Ajuntavam boiadas para a venda do ano. acostava-se jururu à rapariga e fazia trabalhar o . acompanhava-o agora no seu vôo rasteiro e balofo. no decorrer duma quinzena inteirinha. que pedisse quem lhe corresse nas pegadas à desentoca. – Raparigas. donde arribava madrugada alta. se a fraqueza lhe dava às vezes à canela. As divisas do Quilombo desapareciam ao longe. para. chapadão em fora. que lhe sabia das escapadelas. Mau-olhado dalgum moço. espichava-se pelas redes e mantas. Caburés e noitibós estridulavam a sua elegia noturna à beira dos capões. quem havera de dizer. por pouco que se deixara ficar. nesse mesmo estirão. Bota um lenço no pescoço. ganhava a porteira e dentro em pouco lá ia. só ele mesmo! Eta gente. como sô Dito. a mula resfolegava. levantar-se com o sol. Pra livrar dalgum quebranto. alta noite. mesmo quando fosse para dar uma rodada bem feita num garraio espantadiço ou rês matreira enfurnada nas brenhas. envoltas em neblina e luar. indo postar-se adiante. ia a chupitar fumaçadas. enquanto a camaradagem. amarra o cabelo. botava a mão no queixo. além. Qual! parece mais obra do capeta! Pois meu povo. estrada afora.

um ferro a retinir no fundo da cova. simplesmente uma cruz.. uns aqui direitos como guardas. estirado no chão duro. reagindo contra o medo. onde a cruz do violeiro avultava dentre o mata-pasto e samambaias da beirada. e isso. Negaceando. Pequenote – puxava então guia de carro na fazenda à falta doutro préstimo – vindo duma festança em Santo Antônio. afirmavam outros. já que o animal empacava de vez. O caso é que era um fraco da meninice. mastigava as ladainhas. com cautela. dumas sopitações do coração. e. braços abertos. Fosse lá a morena vê-lo como se portava naquele aperto. Crac. quando morresse. juntando-se muito aos que com ele iam.. o motivo de todas as suas dúvidas e hesitações ao momento de pôr o pé no estribo e ganhar a estrada batida. aperrava a arma. metia-lhe medo com aquelas compridas unhas de pássaro agoureiro e as histórias infindáveis de sacis-pererês assobiando ao lusco-fusco no olho do pau. toda roída de velhice e caruncho. estacando na estrada. pragas de rola fogo-apagou no alto dos telheiros e cousas mais. em meio o seu montículo de pedras. Três anos havia. que asseverava à noite aos pequenos. alumiando ao fundo. donde aquele clamor parecia subir. cessou a cantoria. queixou do fundo do buraco: . transido. tão fundo. berrou: – Lá vai obra! Descarregara ambos os canos. esperando pelo amanhecer. sob uma coberta. fora-se a maior parte da perrenguice. um rosto magro olhava o céu. como se andasse alguém encomendando almas a Satanás. lívido. palpando o terreno em torno. quando a queimada vinha já a ponto de pedir que se tirassem as teimas ao valentão. que só de lembrá-lo agora os pêlos se lhe arrepiavam na cara. um fogaréu luziluzia entre os cipoais. eis. Junto ao córrego. ao pé do morto. avançou sorrateiro. contudo. apontando o buço. e o luar tão lindo. tão angustioso. sinistro. empanzinado de cachaça. estourara ali perto o Zé Caolho. Com a idade. pareceu ao cabra que andava mal em dar assim de costas ao perigo. segundo diziam uns. Desde então. enquanto a cachorrada saía a ganir à lua no terreiro. falta d'ar. Era agora um desfiar intermitente de ladainhas. um mal-estar danado cerrava-lhe o peito. talvez pelo costume adquirido. Passava alheado. no meio espaço. como que grudado ao ingazeiro onde encostou para não cair. passasse aí na Estiva. mão na coronha da garrucha. Uma cruz. de vir puxá-lo pelas pernas à meia-noite. Ele caíra do céu das recordações e olhava em torno.. vagamente. por vias dumas peraltices. estralejante. crac. que atravessava a ribeira. e era quase aos choros. costurando o mais intrometido. Mas essa noite. um grito rouco. Uma cabeça branqueada surgia agora da terra. impressão nova que lhe infundia ao ânimo uma ardideza capaz de enfrentar com o Cuca em pessoa. Fosse noutra ocasião e torceria rédeas.. gemidos de menino pagão no cemitério.ferro. quando no codório. Uma voz que nada tinha de sobre-humana. tonta de paixão – topara com boa naquele trato de terra. vindo do arraial. Ele detivera-se a olhar tudo aquilo. uma sensação incômoda molestava-o sempre naquele travessão de mato. no aceiro do mato. Lá estava ela. que tomava agora uns tons lívidos ao entranhar-se nas primeiras árvores da Estiva. voz um tanto travada pela comoção. chega-lhe com o vento aos ouvidos. sob o xadrez da camisa uma prenda querida da Chica e nos lábios escaldados a impressão gostosa de sua primeira boquinha – a cabeça zanzando. que a vista turva não distinguia bem. ou houvesse ali uma tropilha de feiticeiros apanhados em tramóia. um amontoado de vultos esquisitos. a cruz do troveiro. Ao estampido. geladinho de terror. cantador daquelas bandas. outros ali de cócoras. ou houvessem os vampiros e demônios chupado o sangue em seu festim imundo. Apeou. restos talvez de quem sucumbira escanifrado de fome. as formas do corpo sobressaindo angulosas da mortalha. O certo é que o velhote. d'alma penada. não se lembrando dessa vez da promessa que lhe fizera o cantador duma feita. com a impressão ainda fresca do beijo da Chica. Não havia duvidar – era assombração. O macho entesourara orelhas.

Mas não era para menos! Vote. . E com as barras que vinham quebrando. em surtos trôpegos. todo prenhe de assombros e aparições. soltando após doloroso e prolongado bramido. E como tinha boa alma. gente – ia agora a matutar. misterioso. trec. no vassouredo rasteiro onde trilhos se entrecruzavam em teia. semitonta de sono e entanguida de frio sob as dobras da saia materna. a paramentação dos altares de pobreza vilareja. alguns morcegos erravam às tontas. a niquelaria da cabeçada retinindo festivamente. O rapaz desenfreou. esculpidas a maior parte por ali mesmo. o chinelinho de couro na ponta do pé. – Êh. soturno e imenso. de mistura com o arder de ceras e rolos de incenso. no nevoeiro da manhã.. A tropilha de bruxos encapotada ao fundo. passando a beiçama rósea por baixo dos paus de porteira. a alumiar ao fundo.. a mula no rancho dos tropeiros. o galo amiudava o canto álacre e as vacas leiteiras. Tudo ficou claro. que frechou direita ao rancho dos tropeiros. bebericando café. adensava o lençol matutino da neblina. moço! Anda a gente a cumprir com seu dever de cristão e saem-lhe em cima aos tiros! Já se viu só! Santa Maria!. quedavam-se a observar os intrusos. inquietos e atordoados de luzes e o burburinho desusado. agitando as suas cabeçorras de ratos. entre lágrimas. – Ora. o respectivo toldo de couro malhado. farejavam avidamente a cria presa. arrastando pela mão a filharada.. e imagens toscas.. abafando o horizonte. um filho do Cristino. que o velho veio aprontar. sobre o pavimento úmido de terra batida. arrancando-se do fundo da escavação. fechada a cancela. E andava em torno.. e procurando consolá-lo e entretê-lo com o seu proseado fácil de mestiço imaginoso. II A madrugada amiudava. no retintim das esporas. Pelo largo. Morrera esse dia e o pai. – Ahn! isso é outra conversa. Pois me parecia. em direção à capelinha. quando o surpreenderam os tiraços do passageiro. enforcado no trapézio de aroeira ao ângulo esquerdo da sacristia. apegandose ao caruncho das traves e de lá. junto ao bafio peculiar dos templos do interior muito tempo fechados. E o mulherio do lugar. que também ganhava a vida carreando nessas estradas. desapertada a cilha. Benedito deu entrada no arraial no trote picado da mula. estava ali cuidando da sepultura. escola do mundo. – Sertão.. Pelos currais mugia o gado. Pelo teto desforrado. orando ao Santíssimo. moço! Uai. amontoado pelos cantos. trec. como se não bastasse uma só desgraça num dia. soturnamente. Rédeas encurtadas. é o velho Cristino! – Ele mesmo.– Olha que me mata. que o poviléu contemplava em silenciosa e profunda veneração. Já as barras vinham quebrando e no cabeço dum serro. a gente topa cada uma. dependurou os arreios num caibro baixo do teto. De lá vinha o clarão tristonho dos círios. mui branca e tremeluzente. esgueirava-se ao longo dos casebres. tremendo.. a estrela-d'alva minguara o seu clarão lacrimejante. E o velho carreiro. trec. Apanhara umas febres no Veríssimo e vinha por toda a viagem tiritando no fundo do carretão. os fueiros e as cangas e cambões enfeixados ao lado. embrulhado no pala. ladravam cães. O defunto do lençol e para o qual olhava ainda com desconfiança. rumo da igreja. era o carro do velho. prestes. saiu então apressado. o cheiro enjoativo da excrementação daquelas “aves” noturnas.. que lá ia em camisola. embiocado em xales. onde o sino se pusera a badalar a intervalos. enfiou à Pelintra o embornal de milho que trouxera à garupeira e. veio até ele. esse mesmo sertão desaparecia ao longe. ajudou-o a enterrar o rapaz e passou ali ao pé do fogo o resto da noite. anunciando o romper do dia.

presa das escápulas. ele um pouco atrás. latindo furioso. sô Dito. de não o ter visto ainda corresponder a preceito com as pancadas de contrição que a assistência rumava ao peito.. tenho-o sim. Na sala. uma cacimba afogada em estendais de são-caetano e fedegoso-bravo. vincando o canto inferior do beiço. aquela dengosa morena que fora o encanto de suas primeiras emoções de homem e a quem queria com a violência e o ardor que os daquele sangue põem em suas mínimas paixões. Nos coqueiros de guariroba que ladeavam o calvário do adro.. onde tanta alma de Deus vive a penar. Aos atropelos. num enleio que nem o hábito. e um riso atoleimado escorrendo da boca desdentada. mui brancacenta em suas paredes barradas a fresco de cal.A campainha retiniu mais uma vez. no palheiro. reconheceu gente de casa. – Não quis faltar à devoção. atravessando rapidamente a praça em bulício. Não o vira. talvez. à fonte pública do lugar. que ia ter. onde se tinha ajoelhado e perquiria em torno. a vassoura de piaçaba na mão.. surgiam. E ia fora a garoa matinal esgarçando-se e acentuando os contornos do casario. Também não insistiu em olhar muito para aquele lado. absorta na devoção. E seguiram pelo pedregulho da viela.. escandalizada. acurvada. e veio esperá-la à esquina dum beco tortuoso. Ao fundo. naquele seu vestidinho de chita azul bem liso e justo ao corpo. em derriço. ofegante e rendida. para rezar por certa ingrata que sei. Suspirara fundo. entrelaçados. para o gozo e a secreta ventura de seus olhos. – Ehú! ó Joana – acenou-lhe a mulata. por sinal que um tanto macambúzia e entregue toda ao terço do rosário. tatalando as asas. lá estava ela. mas aqui dentro. um padre redentorista vindo expressamente da vila próxima. na face cor de mate. arrepiados. – Ite missa est – perorava afinal o celebrante. a casinhola de Chica abria as duas janelas ao longe. que os cercados de taquara dos quintais confinavam. pendia a larga rede cuiabana. que o sol não tardaria em pouco a branquear de vez com a sua grande luz cáustica de manhã sertaneja. Uma boró apareceu no momento ao terreiro. – Qual o quê. os pequenos do adro precipitaram-se a ver quem apanharia a cana. feito todo de denguices de felino e arqueios de pomba-rola. roçagante. que principiava a debuxar-se dentre o caio alvacento das fachadas. o bócio enorme avultando sob o queixo. Ganhou o adro. medo do purgatório não é brincadeira. Ele levantou-se lesto do canto à entrada. hein. aos ganidos e mordidelas com os bernes da gafeira. abanou a cauda farejando e foi anicharse entre cinzas. no coração. bota a chaleira no fogo. naquele fundão da boa terra goiana. que ia enrolando e desenrolando em espiral pelo cabo niquelado. sólidas e amareladas. Um güegüé morrinhento saiu do fundo do quintalejo e veio escarreirado até a rampa por onde subiam. que o trazia enrabichado havia três anos. Estava findo o ofício. repenicou o sino na sua forquilha de aroeira. naquela mesma toada cavernosa de bronze gretado. fruto capitoso que o sol sertanejo amadurara e enrubescera despercebido ali. e os dous passaram. na certeza antecipada de logo ter aos braços. mostrando os dentinhos claros. após voltas e reviravoltas. saltitando de palma em palma. Sim. donde duas compridas presas. Mais uma vez... Um foguete subiu ao céu. oratório. . um tanto arisca e sorridente – reconhecera-o de longe – ensaiando o seu passo requebrado. chalrava agora um bando de pássaros-pretos. a entrada baixa ao lado. sá Chica. brincando com a trança da açoiteira. ela adiante. nem o tempo tinha conseguido ainda dissipar. a soleira. Aí vinha ela já. a mão tisnada repuxando o fio do bigode. purgatório é este mundo. estourando no meio da praça. num alto que apanhava a linda vista do povoado. – E ria. de roedor. A idiota continuava a rir. por onde tantas vezes passara feliz. transpondo num salto. onde a água minguava a maior parte do ano. mesmo porque uma velhota se pusera a vigiá-lo com o seu único olho de coruja rabugenta.

a forrar todo o espaço acima da mesa. uma senhora Sant'Ana em moldura. os olhos langues.. um cabeção de crivo.atravessando de lado a lado o pavimento de massapé.. às cócegas. petiscando pelo pires uma golada. Ele deitou-lhe a cabeça ao colo.. – Licença. Àquela hora. pois desde o lado de fora ouvira exclamações: – Milho no muro. – Hoje não. estampas e cromos tirados de peças de morim. e cúmplice da primeira beijoca que roubara à Chica. gente. numa felicidade calma de velha posse. Parece até que é separação. tem pimenta. pesava-lhe o sono as pálpebras cansadas. testemunha silenciosa de seus papagueados amorosos. este não. Foi à loja do major. ora já se viu só!... homem. essoutro que já mordisquei. Benedito espreguiçou-se. – Me deixe. licença. encheu-lhe a tigelinha bordada d'azul. vinha lá de dentro. encarandoo fito.. Eram-lhe familiares aquelas gravuras. a cuidar das encomendas. na rede.. coraçãozinho. meu povo. Lento e lento. estou frigindo uns carajés. uma banquinha com a sua almofada de bilros e a renda em começo sobre o papelão de alfinetes. veio por último esbarrar na venda da Maruca. à cata do fogueteiro e conhecidos. Ele espichou-se. sorrindo. acalentava-o pouco a pouco. jogando o truque e o douradão. crepitavam os gravetos do fogão e a gordura na caçarola. – Espera. O resto da mobília espalhava-se em torno. uma noite em que ela trazia um enorme monsenhor na rodilha do cabelo e tinha o riso mais úmido e sensual nos lábios polpudos e sangrentos. Ele passou-lhe o braço em redor da cintura. . Pela volta das dez e meia. a mão da amante ia perpassando devagar por sobre os seus cabelos corredios. – Cabocla faceira. toma o café... deleitado. Tinha mesmo um vago prazer – misto de amizade e saudade antiga – em remirar um Santo Antônio já amarelinho.. de banha fresca derretida. e Chica entrou no quarto contíguo. todo o santo dia. eu vou dentro! – Vim topar o portão da romaria!. No canto oposto.. Ela apareceu logo.. Um cheiro forte. bocejando: – Ó benzinho!. e ligeira. – Uai.. alinhavos inacabados de corpete. de cujo balaio transbordavam entremeios de crochê. abrindo-se em leque no reboco nu. fazendo cair do alto o café aromático. preguiçosamente. como está hoje mesmo. o bule fumegante à outra mão. num enervamento volutuoso de corpo e sentidos. o sorriso bonachão na cara desbotada. com meiguice. duas séries intermináveis de fotografias do papa e grandes anúncios ilustrados do Rio. de quando lá ia levar os carregamentos de açúcar e café que o coronel mandava anualmente ao mercado.. Algumas fora ele até quem trouxera de Goiás. a catá-lo minuciosamente. meia dúzia de tamboretes de couro tauxiado ao pé da mesinha de costura.. olhos cerrados. A claridade solar entrava aos jorros pela porta aberta. um dos primeiros ali grudados. é melhor. Depusera a bandeja sobre um tamborete e sentara-se ao lado na rede. Com denguice. homem.. um prato de bolos na bandeja. a rapaziada bebericava ali aguardente. a dependurar o xale com que viera embrulhada. como um cachorrinho de estimação.. Chica acordou-o como pedira. O tempo estava mesmo quente. os recortes de jornais com retratos e figuras coladas de alto a baixo. – Que enjôo!. junto ao castiçal de latão sobre um volume encadernado da história de Carlos Magno e dos pares de França. olha um bolo.. Pôs-se então a fitar distraído as folhinhas que cobriam a parede. Deu um giro pelo arraial. Anda. antes que fique escuro! – Quebrou um lanço da cerca. em sua fatiota domingueira de riscado.

. – Se têm! Mal esticam a canela. êh! velhote treme-treme! Corto o sete-de-ouros com o curinga! Levantara-se no bico das botas e abatendo-se com arreganho. seu Dito. Maruca coçava a verruga do queixo. vão logo de cambulhada para as areias gordas. – Temos aí cabra pra trucar sem zape nem catatau. . Benedito retrucou... – Não seja esta a dúvida. resmungando... e metia com pachorra o garrafão de licor no fundo do piquá. – Ele mesmo. – Isto é que é falar às direitas – disse Bentinho Baiano. numas barrocas de catingueiro. Mundo. muito obrigado. que dependurou ao alcance. Chincha de Medéia! O outro volveu encafifado: – Velhote. três vezes sem parar.. – Não duvido.. viva.. por sinal que trazia cincerro. Cada qual sabe de sua vida. gente! Cabra turuna pra esquentar uma partida! – Pois então entra aqui no meu lugar – obsequiou Zé Velho – que tenho d'ir ainda campear o meu piquira. – Quem é mão. estatelando a espadilha na mesa. numa vara. minha gente – avisou alguém. que tinha uma gagueira na voz e os membros trêmulos. sá Maruca. treme-treme.. o Ditinho dos Dourados! Pula pra cá. que o que tenho na patrona não chega para o pito. E um mulato apessoado. topeio ali atrás. Da outra banda do saco. que temos parceiro sacudido.. diabinho! – Onze! Baralho na mão do bronze! Junto ao balcão. entra na roda. minha gente. Ponha mecê numa cuia uma mancheia de sal torrado bem moído. já lá vou atrás do malandro. que fizera a segunda. – Para animal fujão conheço santo remédio – aconselhou um velhote d'olhos pretos e cabeça branca. apanhando o rastro. rapaz. Vá lá uma criatura de Deus fiar-se naqueles excomungados. por via das dúvidas. – E mecê vai olhando as encomendas. pessoal? – Agora é mecê – respondeu o velhote. já entusiasmado. – Estudante de medicina. menino! Jesus Caetano! Noss'Senhor. Sá Maruca. Até à vista. fica aí à vista no varão. colocara os embrulhos. compadre. conhecessem há mais tempo quem fora o Generoso das Abóboras e a conversa mudava de rumo. meia légua pra cá da Estiva. – Trago aí debaixo dos coxonilhos um sapiquá. – Ciganos? Dizem até que têm parte com o Cão – advertiu Bentinho Baiano.– Ora. vozeou: – Êh! carta véia. bota pr'aí mais um cobre de pinga e meia quarta de fumo. – Se é um piquira cabano. – Cuidado. que a demora também é pouca – ajuntou Benedito. piso logo na retranca do velhaco. cortando-lhe a vaza. tapera! Por que não me espera! – gritava já ao lado o primeiro parceiro. Faça isso três dias seguidos e pode dormir depois descansado. desafiou todo ancho. moço. passando e repassando por dentro da casa. vou em Roma volto em mina. Corrida a roda. – É receita afamada dum benzedor das bandas do Tocantins. E dizer que o cigano com quem o barganhei afiançou ser mesmo o bicho raçoeiro. agora não relaxo mais a peia. não fosse arribadiço naquelas bandas. estrelo de testa e ferrado das mãos. onde voejavam moscas caseiras sobre coscoros. E depôs as cartas. mosquito na corda desce bem! – Assim. enquanto baralho cá uma corrida com esta rapaziada. sempre passo hoje a peia de sola curta no danado. para não esquecer quando sair. levou um sumiço desde trasanteontem. Um porrete! Fiz a simpatia com a minha égua baia e nunca mais saiu deste largo. – Os temperos vão de lado. Comigo é nove. manda o pequeno buscá-lo lá no rancho. – Truco. consulta seu companheiro e vê se vocês combina! – Truco vai. não se afoba. Estive mesmo quase a tocá-lo para o povoado. seu Zé. milho vem. lição pra gente. vai dando a salga ao animal por debaixo do sovaco. da porta da cozinha à da rua e da frente à porta do fundo. mas.

Os pernilongos então. mas uma boa fumegação bota-os abaixo por dá cá aquela palha. beiradeia os rios Uru e das Almas. onde dormia. esse mundão de mato grosso que principia em Jaraguá. sem movimento. pesando.A partida esfriava. se há. seu Generoso. que o Dito é assim mesmo. segundo ouvira contar. mal-assombrado. com danação. a olhar apatetado a cobra. pesando. azoinavam-lhe o ouvido. mas esses. a camisa e vinham aferretoar-lhe embaixo as carnes. a calça. entre folhas secas. é do jogo. A companhia espreguiçava-se no saguão. . em torno da mesa cambeta. rumo do serviço. conquanto trouxesse a cara tapada sob o cobertor. Lembrava-se como se fora naquela hora. cai no Araguaia. sai daí! Que homem mofino! Deixa de zanga. pois não. Féria boa. sorvendo pelo pires o conteúdo da xícara: – Velhote?… treme-treme?… – Passasse aquela gente o quarto d’hora que tinha experimentado e o caso mudava de feição. tornaram a fechar-se com força. indo arranjar a sua cama bem longe do córrego. enroscada. ganha o Tocantins e vai acabar lá para as bandas do Pará. na luz das estrelas. o pessoal já estava de pé. sobre sacos de mamona. uma cascavel dormia sossegadamente. que… Acordou. A turma armara o acampamento num aceiro largo. que a lâmina dos quicés ia a grosar. Amiudavam-se os copitos duma cachaça amarelinha e rascante – das boas – que a vendeira trazia reservada para os fregueses mais chegados. aquilo já passava de mangação. Sobre o seu peito. no calor brando do corpo. Madrugadão. Puxou umas mantas dos arreios. moído como estava. mil vezes antes os carrapatinhos. atravessavam com o ferrão a lã grossa do pala. teodolito e apetrechos ao ombro. só mesmo naqueles fundões. ringindo ásperas. o pavimento de terra úmida com a gosma dos gorgomilos. ora uma porção de diabinhos se punha a batucar no seu peito. mesmo. esses. Ferrara no sono que nem camaleão no oco do pau. a cabeça transtornada. e. a cabeçorra ao centro. meio cerrados. como sucedera na estranja a uma velha. é verdade. tinha as orelhas a arder. saiu às gatinhas da barraca. baforando cigarradas. Mas. um tanto agastado. E como entrasse o pequeno com o tabuleiro de café. Cruzes! Parecia até que era ainda em sonho! Descerrou de novo os luzios com cautela. Poucas léguas faltavam para alcançar o porto do Registro e ganhar a outra banda do rio. o mais. começou a ter uns sonhos maus. o velhusco repetiu ainda uma vez. os olhinhos voltados para a sua cara e a língua em forquilha para fora. como estava a dizer. porta-mira de turma. não pudera pregar o olho boa tirada de tempo. com um frio de bater queixo. Ali os borrachudos e miruins eram que nem castigo. – Ora. conversa fiada. Assim. Os mosquitos – zim!… zim!… – outras vezes – zum!… zim!… – estas eram as muriçocas miúdas. as horas iam correndo e manhãzinha lá o esperava o serviço costumeiro. mas trabalho era ali! Isso. Ficou gelado. que se encontram às bolotas nos travessões de mato. nem tampouco tivera a língua perra nalgum aperto que pr’este mundo de Cristo a gente topa… O caso acontecera pouco antes da campanha de Canudos. e. e cuspilhando a miúdo. nunca vira cousa assim. O dia acabava de clarear. à beira dum ribeirão. mas assuntassem que nem sempre aquela tremura de pernas lhe atrasara a vida. – Vote! Praga desse feitio. pisca-piscando. Pois não. desbonecando as mortalhas de palha. abrindo picada na mata virgem. ao pé duma sucupira. e um seu mano obteve as divisas de furriel… – Andava nesse tempo numa comissão de linha telegráfica. Venha antes a história. ora era enterrado vivo. Abriu os olhos. onde a jagunçada dera pancas ao antigo batalhão cá do Estado. às placas estraladas. porque não resistem às primeiras chuvas do ano. o coração aos trancos. Com o virar da madrugada. cantava perto um curió no galho da sucupira. rumo do Araguaia.

Olhei. ao longe. despedindo-se dos parceiros. Nhô Dito. a tarde baixara o seu clarão crepuscular sobre a mata. as juntas bambas. fiquei gelado. e.. como atacado de maleitas. relatei o fato ao chefe. mas. ali. acocorada ao longo dos puxados. é curtir uma alma de Deus as amarguras daquele ruim quarto d'hora! – Santo nome da Virgem.. conheço-o melhor que as veredas deste sítio: peão de fiança! E. Ensangüentada. erectos e sobranceiros àquele mar de frondes. A voz embargada. disse ele. Ultimavam-se os preparativos para o trabalho do dia. ainda meninote. fazer é que são elas!. não sabia dizer. Mas que é isso. punha a carga à roqueira. sobrecarregou-a com um punhado de farinha grossa de mandioca e duas pancadas secas da culatra no chão serviram de soquete. III Deixando atrás a longa trilha paralela do ferro das rodas. a cuja entrada dois jequitibás se alteavam. Uns. riscadas aqui. mas se há inferno nalguma parte. que descia aos solavancos os brocotós do carreiro. esse. . Aumentara a gritaria dos meninos no terreiro da fazenda. enquanto proseava. se vier distraído. redourada e tênue ainda nas últimas cumeadas. a cavar o lugar onde em pouco se aprumaria a bandeira do Divino. Tinha a cabeça branquinha! – O que deve acontecer. ao passo vagaroso da parelha de bois. Generoso. despertando. – Pinga pr'aí mais dous dedos. faulhavam ao longe os detritos de mica e uma evaporação quente. pode comer terra na força do estrondo. dum azul sombrio e carregado sob as últimas ramagens. ao canto. como um moleque o acompanhasse curioso. a luz meridiana rebrilhava na areia das estradas. – Qual! e resolução? Pensar não é nada. – Lá vem ele. rolava um carro encosta abaixo. jogavam o bete. como que parecia subir da terra rescaldada. comprimidos os pés em chinelões de caititu e botas de veado catingueiro. Afinal a cascavel. e. tá. um expediente. sem movimento. acontece mesmo – ponderou Benedito à laia de consolo. A camaradagem. manejando o Malaquias uma alavanca no meio do terreiro. Se acudisse um gesto. lá vem! – bradou um molecote empoleirado no moirão da cancela. o eixo lamuriando à distância ao atrito dos munhões. No largo. pulverulenta. – No acampamento era tudo animação. dos primeiros pirilampos. farfalhando. – Eu sacudia de riba o bicharoco e pulava para o lado – comentou Bentinho Baiano vivamente interessado.. escarranchados os demais na gangorra. como era domingo e dia santo. foi desenrolando aos poucos os anéis do corpo e saiu devagar pelo meio das folhas. João Vaqueiro alinhou as roqueiras em direção à estrada. como cousa largada.O tempo que assim passou. tem força. vindo das plantações do outro lado da baixada.. olha aqui este espelho. cujo peão fazia eco ao rechinar distante do carro. ordenou áspero: – Anda a ver uma cuia de farinha. – O rapaz. Cheguei tremelicando. Alguns já se erguiam. chupava pachorrentamente cigarradas. Êh. Vivi naquele momento mais vida que a de mecês todos somada.. aquele? Tá. estava salvo. não havia poldro nestas redondezas ao qual não lhe desse na veneta tirar as tretas. vamos cá esperar nhô Dito com uma salva de sustância! – Olha que a Pelintra é reparadeira – avisou o nagoa. e mais a pólvora que sobrou da festa passada. donde a sombra parecia avolumar por graduações. sá Maruca – pediu o narrador. que martírio! Olham a tremura que reaparece. ó pamonha. espichou a forquilha da língua. vai para outro lado com essa cantiga. a vendeira aprestava-se a fechar as portas do negócio. pessoal. – Quem.. tá. como lhes dizia. as pernas vergadas.

saudando a companhia. A mãe vinha adiante toda sestrosa. que cresceu rapidamente. desapeia. adensou uma nuvem de pó. mui mansa e serena. êh! Relógio! – entrara lá fora no abrigo dos tropeiros. reunindo-se depois à rapaziada. na marcha de mais em mais apressurada da mula rosilha. sacudiu de riba a sela. a Gertrudes. E sem mais. Joaquim da Tapera voltou-se então. agora é ele! – berrou o pequeno lá do poleiro da cerca. um número atrasado da Folha de Goiás. no fundo da estrada. – Uma salva pra seu Quim e a comadre Gertrudes. recostado pachorrentamente na sua rede de embira. empurrando a filharada para a frente. A Divina Pomba. o brilho trêmulo de papa-ceia. – Bênção. a barriga a impar sob a correia da cinta – sinal característico de meninada molenga. que se tinha deixado ficar ainda aquele dia no canavial. três meninas rechonchudas e bisonhas. Ia no céu. Vamos todos arrebentar a pipocada tão logo apareça lá na vargem a rosilha. e as caçambas de pau entrechocando-se uma na outra. dirigiu-se para a casa-grande. é a obrigação de sô Quim. as pontas reviradas para trás e os chinelões de marroquim amarrados numa trouxinha sob o braço. veio enxaguar a poeira do rosto e as mãos à bica do monjolo. pipocando estrondoso tiraço. barganha infeliz duma lazarina nova. contida nas rédeas pela mão segura do cavaleiro. – Agora é ele. mas alguém atalhava: – Rebate falso. Joaquim da Tapera fez ainda fogo com o clavinote. Lá na forquilha da cerca saltaram lascas das chanfras do espácio. o bócio avultado sob o carão empalamado. chupou uma última fumaça à ponta sarrosa do cigarro e fez um gesto vago. João Vaqueiro encostou a brasa ao rastilho da peça. que seu Dito não deve tardar. aos avisos – êh! Barroso. onde o coronel relia àquela hora. asas espalmadas. – Desapeia. compadre.O vaqueano escorvou o ouvido à peça e correu a apanhar um tição no fogo que fizera entre as pedras da gameleira. Não me manda nada o major? . garrucha em punho. pito à boca. Na saleta da casa-grande acendiam-se agora as velas em torno da bandeira. já lhe pregara aos bicos os bambolins azuis e andava borboleteando em torno do altar improvisado. o agregado. aperrados os gatilhos. junto à nascente que os buritizais assombreavam. De fato. Nhá Lica. O caipira afrouxou a barrigueira do pedrês. Apeado. esbarrar ao pé dos foliões. Súbito. ufaneiro. Ao estampido. afeita a roer torrões de barro às escondidas. a besta refugava. Cessara há muito a grita dos meninos no curral. na cutuca velha. a filha do patrão. pelos cantos da palhoça. atravessando em dous trancos a cancela escancarada e veio célere bufando alto. para calçar à hora da reza. os bois foram soltos no mangueiro e o guia. sobrinho de João Vaqueiro. que embalsamavam o aposento com a fragrância ativa dos resedás. chegara à frente da sua obrigação. atrás da copa distante dos jequitibás. foi guardá-la ao paiol. O carro. sobre uma toalha engomada de linho. e chega pra cá. Então o recém-vindo desfechou de vez os dois canos. d'olho esbugalhado e triste. e um par de pequenotes atarracados. descarregou o trabuco de que se armara. Este. Desajoujados da canga. O fazendeiro tirou as cangalhas que pusera para ler. O lusco-fusco já se fazia cerrado nos arredores. Vitoriava-o uma aclamação geral. mirando a caveira de boi-espácio que alvejava na forquilha do cercado. um lenço d'alcobaça atado à cabeça. virara-se no arção. naquele pedrês caolho. aprumou o clavinote que trouxera a tiracolo para um galho de gameleira. – Deus o abençoe. as pernas meio trôpegas da caminhada. abria o seu vôo místico inclinada no fundo branco do andor. um latagão destorcido. minha gente – propôs Malaquias. sob a luz baça do lampião de queresone. ladeada por dous jarrões. a enfeitá-lo com florinhas de papel de seda rosa.

foi dispondo as luzes nos espeques. trazidas em bandejas à cabeça do mulherio. em torno do casario dos agregados. Luísa o caldo à comezaina do dia. dando voltas às gameleiras. Entregou os objetos e foi avançando para o interior. sobre dous cavaletes. à vista das últimas eleições. d'alto a baixo espetadas por um renque paralelo de pauzinhos destinados a suporte das luminárias. Sentido naquele capetinha. aprumou-se airosamente. Foi tirando do piquá as encomendas e como a boa senhora se pusesse logo a esparrimar umas pitadas de canela no pratarraz d'arroz-doce. O coronel colocou a bandeira. e o mastro. Malaquias dera desde cedo a mão de cal ao mastro. A camaradagem agarrarase ao longo do mastro e à garrulada dos pequenos e estouros de foguetes. medindo de ponta a ponta uns sessenta e seis palmos bem puxados. na sala toda luzes. e a procissão se fez breve. indagou apressado: – Dindinha não tem mais precisão de mim para alguma cousa? – Ah. que varria longe os escampos solitários. donde pendiam. Benedito adaptou a maçaneta. Em pouco. segurando-a a prego. Fazia-se uma pausa lenta. as luzes a tremeluzir na noite clara. sobre a cabeça de Malaquias. esculpidos em madeira.. Lá provava d. a torcida grossa d'algodão ao centro. o resto vem aí relatado na carta. – Arriba! arriba! – urrou Malaquias. paciente. acompanhando as cercas dos currais. diacho de pequeno sapeca. com unção. tinham sido levantadas as cruzes de bananeira. . Poucas braças adiante. ajoelhados até o fundo do salão. a querer provar o ponto a quanta tachada houvesse. alto. remoendo cantorias. trataram de encher o buraco. Fez-se um grande círculo. Os moradores do sítio. sob o límpido luar do sertão. que branquejava ao longo da casa. que se encarniçava embaixo. em torno da raiz. puseram-no acima. estrugiu no alto um rojão.. e. os anéis em ressalte na noite luminosa e a bandeira lá no topo balouçante. como ex-votos piedosos de passadas promessas. Era o sinal. vistos à distância. tirando a ladainha. A rapaziada respirava aliviada. O major manda dizer que rompeu com o partido. reforçando atrás. azafamada numa roda-viva de mulheres. Malaquias. as botas esturradas de mormaço ringindo ásperas no assoalho desigual. gradualmente.– Trago aqui na patrona as cartas do correio e um maço de jornais. que ele próprio fora tirar às terras da baixada. direito. eram dous grandes cruzeiros luminosos. Um momento. o pesado madeiro pendeu para o lado da casa e esteve vai não vai a cair sobre os telhados. Nequinho distribuía os rolos de cera. toma tento em Nequinho. no terreiro. cintado todo d'anéis d'oca e tinta a três cores. Beijou-lhe com respeito os dedos nodosos da mão reumática e trabalhadeira. À saída. meu povo – acudiu Benedito. Pedras. a rebrilhar sob a paz radiosa daqueles céus e ante a serena brancura do luar. aos vivas e brados ao Divino Espírito Santo. os sete instrumentos de tortura. embebida em azeite. após a qual a voz afinada e suplicante de d. Era um magnífico cedro. sim. não fosse também querer deitar fogo às roqueiras. o mais entusiasta. a manejar o pesado macete. Rasgando em raiva o ar. principiaram as rezas em torno do altar rústico. junto ao calvário da fazenda. agüentando nas cordas. vindo por último esbarrar junto à espiga do mastaréu. não me deu sossego todo o santo dia. Estas apareceram logo. liso. que cada qual foi acendendo ao lume do vizinho. – Agüenta. por cuja janela aberta o clarão dos círios vinha alastrar-se cá fora. no afã da ascensão. a rogativa. metendo um forcado de escada na parte perigosa. agüenta. calhaus e terra socada atupiram logo a cova. Luísa evocava novo santo. – Puxa! puxa! – Arriba. e aos atropelos. rumo da cozinha. arcando de seu lado com o maior peso. iam engrossando o vozerio das mulheres. já seguro. levado o andor à frente por quatro meninas. em casca despolpada de laranja-da-terra. mui branco em sua mão de cal. homem – gemeu sufocado Joaquim da Tapera. enrolados em talas de taquaril. previamente atadas ao longo do espigão. puxando pela peitaria.

O pequeno desceu do tamborete e veio cavalgar a perna do coronel. melhor humorado. aproveitou-se logo daquelas luzes e desenhou em arco. No paiol. mais outro e outro ainda. recolheu a destra debaixo da toalha e disse chocarreiro: – Ora. reclamou assustada: – Veja só! que maldade. amassando entre os dedos a comida. fitando o moço. explicava ainda o caso: seu Dito que se intrometesse com o que era da sua conta. fosse lá no tempo da monarquia. Quisera o meleiro. ao redor da bandeira. Mas o coronel encrespara o sobrolho. cofiava a barba. ora. não foi nada. apanhara-o a meio caminho. onde tinha ordens a comandar. e virar a bandeira para o lado da casa. Queria apenas ser o primeiro a beijar lá em cima a estampa do Divino.. atirou-se a ver quem saltava mais alto a fogueira do pátio. em letras de fogo: Viva o Divino. Embaraçado. Malaquias logo o seguiu. de parceria com os moleques. O resto formou alas do lado oposto e caíram todos com entusiasmo. Espalitava os dentes. gravemente. marinhar-se ao alto do mastro e ele. um tabuleiro de tigelinhas em cada mão. junto à velha senhora. descia do joelho o filho e ralhava severo: – Não fosse hoje dia de festa e levarias uma tunda de arnica e salmoura. sujo de cal. seu briquiteques. duma fartura de senhorio feudal.. arrastando-se de joelhos. já ensaiava João Vaqueiro um descante. em fervorosa contrição. em silêncio. distribuíam a refeição à filharada. Nhá Lica recolheu-se depressa ao interior da casa. veio assentá-lo ao pé de nhá Lica e foi tomar assento do outro lado da mesa. a ressumar umas gotículas de sangue. Apareceu logo. pontilhava o dorso da mão do rapaz. estás escutando? Já o sujaste muitas vezes nos braços. à mão de Benedito. influência do regime. asseverando: – Gente de agora. Os subordinados. amanhã faremos novamente as pazes. batendo palmas. Arrematou-as com um enorme ponto de exclamação e às piruetas. que engoliam sem mastigar. Deram pela falta do Nequinho. numa arteirice de colegial vadio.. um arranhão. repenicando na prima. A família do fazendeiro agrupou-se em torno do chefe e para o fundo. quando trazias cueiros!. pé fincado atrás em oposição. Dito. e as mulheres do sítio. – Pois sim. pelos batentes da cozinha. presa das febres intermitentes quando da romaria do Muquém. como patos. repleto. mordeste-o na mão! Uma pequena mancha rubra. A voz travada. depois outro. arrepiadinho de ira. atarefada em dar de comer a uma pequenita birrenta.D. obedecendo ao aviso da Dindinha. o pessoal do sítio.. carregando nas talhadas de leitão recheado que estavam à sua frente. um a um. segundo o costume tradicional das velhas colônias. de súcia com a molecagem dos agregados.. Luísa reconciliadora – não guarda mais respeito a ninguém. que osculou repetidas vezes. Luísa surgiu no limiar da casa-grande. Só assim cumpria de todo a promessa que fizera antes pelo restabelecimento de nhá Lica. e seu Dito levou uma manhã inteirinha a escrever um bilhete que mandou depois ao povoado. lauta. a respectiva viola à bandoleira. mas agora sei português e geografia. O moço levantou-o nos dedos. este moço que aqui vês. por graduação de idade e serviço. sua afilhada. Nequinho. que pusera ao colo. vincada de dentinhos afiados. já se iam retirando silenciosamente. nasce falando. O fazendeiro embalava-o na perna. veio depô-las ao pé do mastro. desenvolto.. A ceia. na velha dança-decamaradas. espreguiçando-se no espaldar. a empurrar com o polegar os capitães de tutu de feijão para a goela dos pequenos. para aprender a respeitar os mais velhos! – Menino de hoje – disse d. esclarecida a intervalos pelos candeeiros de quatro bicos. num acanhamento súbito. O fazendeiro. Benedito disfarçou. Nhá Lica abstraíra-se da conversa. assentadas como trouxas aos cantos. Mas nhá Lica. olha. . fumegava no varandão. não fosse mandar nos outros. amarrotado o lindo terno d'azul-ferrete à marinheira.

No terreiro, à míngua de azeite, morriam as lamparinas dos cruzeiros; e o micaruloso luar do sertão, tão límpido e sugestivo naquelas terras, entrava por toda parte, espancando penumbras, devassando meandros, coado aqui pela galharada das gameleiras, alastrando-se acolá sem mancha e sem obstáculo pela lhanura plana dos chapadões. E até tarde chorou no paiol a viola, na toada doída da trova sertaneja.

IV Abrandara o mormaço do meio-dia. Com o chiar lamurioso dos carros que desciam das roças atulhados de cana para o serão da moagem, vinha refrescando no ar translúcido a viração da tarde. Nhá Lica contava pontos de crochê junto à janela do quarto. Para o fundo, abriam-se os canteiros de roseiras, a horta viçosa, as mangueiras folhudas do quintal, com sua longa fila de laranjeiras em sazão de ouro, o cafezal abaulado, dum verde retinto e sombrio; e mais além, onde a vista se perdia, vagos contornos de colinas verdejantes, malhadas aqui e ali duma rês esquiva que pascia, entre teias longínquas de arame farpado... Joões-conguinhos e guaxos importunos galravam no laranjal, em matinadas atordoantes, ora abatendo-se aos bandos, ora em arribadas para a grimpa distante dos coqueiros do cerrado, onde tinham os grandes ninhos pendentes. Nhá Lica contava pontos de crochê, a linha de novelo entre os dedos. Cismava... Eram recordações que lá iam, perdidas no fundo da memória, ao trabalho silencioso da agulha, dias de meninice, as primeiras inquietações da adolescência e a saudade ainda latente do colégio de Sant'Ana, na capital, onde bela e calmosa quadra da existência passara descuidosa. E surgiam os passeios com as boas dominicanas, em tardes gloriosas como aquela, nos arrabaldes, pela estrada do Areão; as correrias das companheiras ao longo do caminho, a colheita de campainhas e boninas, umas róseas, dum perfume intenso, outras brancas, da candidez imaculada das almas que com ela iam, apanhadas aqui, além, aos molhos, que vinham sorridentes e confiadas ostentar ao sorriso benevolente da Madre; o jogo das prendas, o chicotinho-queimado, nos pontos de descanso; e depois, ao crescer o crepúsculo, a volta para o convento, duas a duas, elas adiante, as irmãs atrás, às orações invariáveis d'ave-maria. Vinham os caprichosos artefatos d'agulha e bordado, aquarelas, pastéis, a confecção artística de almofadas para a exposição do fim de ano, que ao colégio atraía toda a alta sociedade da capital; os prêmios, antecipando as férias, passadas entre arvoredo e alegres folgares, numa chácara pitoresca que possuíam as religiosas à beira do Bagagem. No ano seguinte, a mesma vida uniforme, com as alterações do adiantamento de idade e progresso nos estudos, e de mais a mais, o gosto acentuado que crescia nela para as cousas místicas, os desvelos que punha no adorno da capela e aquele seu ardente fervor religioso ao terço do rosário, quando anoitecia... Iam então juntas aos tríduos e novenas da Boa-Morte, às rezas vesperais da igreja do Rosário, e com que ansiosa expectativa, misto de impaciência e alegria, atendiam todas, as internas, às solenidades da Semana Santa! Pelo menos, eram as únicas em que lhes fora dado tomar parte. Folias do Divino, com cantorias louvaminheiras de crianças à frente das filarmônicas, os peditórios de porta em porta por meninos e cavalheiros revestidos de balandrau e opa encarnada, o cetro, a coroa e a bandeira do Divino passeadas de lar em lar, aos ósculos extáticos da multidão e moedas e cédulas que se iam amontoando nas salvas, mal as podiam apreciar, através das persianas do monastério, a cuja saleta exígua recebiam algumas freiras o farrancho. O ano passado, no entanto, aparecera ali no Quilombo uma das tais folias da roça, mui diversa, aliás, das da cidade. Compunham-na um bando de trinta mandriões, cavalgando animais lazarentos, apetrechados de pandeiros e violas, que se tinham deixado ficar em pândega na fazenda oito dias seguidos. Ao aproximar, deram uma descarga de trabucos, que a camaradagem

do sítio replicou com salvas de roqueiras. Depois, apeados, aos descantes e loas, encostaram a um canto da sala a bandeira e caíram em regozijo na dança, aos sapateados e louvaminhas, que se prolongaram até altas horas da madrugada, e insaciáveis todos de cachaça, que o coronel mandara vir às canadas da armazenagem. Abateram-se reses no curral, despovoou-se o chiqueiro de porcos, vários leitões foram assados, e, daquela folia, só guardara lembrança do muito cuidado que lhe dera, e à mamãe, na direção da cozinha. Ainda bem que o papai estava acostumado àquelas pousadas intempestivas. Mas o que lhe doera ao coração, ao saber, foi os foliões, apenas saídos do Quilombo, terem ido arranchar meia légua adiante, na palhoça dum pobre lavrador, onde acamparam três dias seguidos. O rancheiro, coitado, ficara certamente na miséria, desertos os currais e poleiros da pequena criação, em folgança devorada pelos tiradores de esmola... – Ora, que fazer – dissera o coronel. – Costume da terra! Não guardava, muito menos, daquele tempo na capital, lembranças das cavalhadas que o imperador eleito do Divino realizava no campo de São Francisco para gáudio da população local, com aquelas histórias tocantes do cativeiro dos cristãos na torre de Ferrabrás, os amores da princesa Floripes com o par de França, o cativeiro dos mouros, a sua conversão na capelinha, que armavam ao segundo dia, e, no terceiro, a corrida final de argolinhas, que punha termo àqueles divertimentos. Esses festejos, presenciara-os o ano passado em Curralinho, onde tomavam parte o papai como embaixador cristão, e Dito – rei dos mouros. Guapa cavalgada! Como empinava bem o baio de estima de Roldão, dizendo atrevidamente a embaixada de Carlos Magno ao rei dos infiéis! E com que arrogância e donaire lhe respondia Dito na letra, cabriolando o ginete, a lança alçada, dois passos adiante da sua guarda! Chamejavam espadas. A pedraria reluzia faiscante na bordadura azul e vermelha dos justilhos e pelo cravejamento das fivelas prateadas, que prendiam os penachos encaracolados dos guerreiros. O sol lavava de luz opulenta e clara a arena sonora onde a pugna se desenrolava fremente. Havia um contínuo tropear de cavalos, mal contidos nas estacadas, e o vozerio indistinto da multidão, sob o varandil dos palanques, mãos em pala, à crueza dos raios solares, enquanto a charanga atacava num ângulo da praça a marcha belicosa. Dentre o contínuo lantejoulamento das arreatas suntuosamente revestidas, a moirama passava em árdegos serbunos, crinas entrelaçadas, ferraduras e cascos dourados rebrilhando ao longe, à desfilada franca, toda sangue em sua vestimenta de veludo carmesim, as flâmulas tremulando na haste pontiaguda das lanças, à investida audaz contra os defensores da Fé. Estes, dentro o uniforme azul-celeste de seu rei, não menos garbosos e escorreitos, saíam em campo, à rebatida brusca dos barbarescos. Apreciara o desenrolar de toda a justa do palanque de pita que o coronel mandara armar no lado principal, bem a coberto do sol. Divertira-se tanto aqueles três dias! Mas em Goiás, quando no colégio, as irmãs não as levavam ao campo de São Francisco, supondo talvez, em seu piedoso entendimento, um tanto profanas aquelas exibições. Havia ainda, na capital, outros divertimentos por ocasião das festas do Espírito Santo. Danças principalmente. O bumba-meu-boi, que afugentava às marradas a petizada; a dança-dosíndios, na sua véstia cor de carne, tinta de urucum, à moda dos tapuios, os cocares e as cintas de penas variegadas, trazidas de propósito de aldeamentos indígenas da beira do Araguaia, com toda aquela figuração de brandir de tacapes, lamentações de pesar em torno do pequenino cacique morto e o grande grito vindicativo de guerra: Jaburê, quá! quá!... Jaburê, quá! quá!... Começavam os combates singulares de lança, porrete e frecha, sucessivamente, em torno da maloca assanhada. Os campeões procuravam-se por sob uma abóbada de arcos entesados, em artimanhas de selvagens e choques bruscos d'armas.

E ao tempo que os adversários se sonegavam felinamente, uníssonos, num diapasão que ia do mais leve sussurro ao estertor fero d'ódio e vingança, e deste, novamente, ao queixume lancinante murmurado em dolência, entoavam os guerreiros o hino bárbaro: Arirê, cum! cum!... Arirê, cum! cum!... Saíam a campo, afinal, os dous pequenos caciques, maneirosos e ligeiros, em esquivanças rápidas de caxinguelê e passes traiçoeiros de jaguatirica, à rebatida derradeira dos tacapes enfrentados. As tabas rivais cercavam-nos então, a passo lento, esticando o cordame dos arcos, a clamar em lamúria: Japurunga matou minha fia, Japurunga matou minha fia, Frecha nele sem parar!... Frecha nele sem parar!... Prazs!... Prazs!... Prazs!... Disparavam. Havia ainda a dança-de-velhos, em grandes cabeleiras empoadas, os sapatos de fivelão e costumes à Luís XV, exibindo por salões franqueados voltas obsoletas, à moda antiga. O vilão, os lanceiros, estes organizados pelos rapazes da fina flor social, em rica fantasia, inauguravam as suas quadrilhas logo à noite do baile e banquete que o imperador do Divino oferecia à cidade. O quebra-bunda não deixava de fazer também a sua aparição desde o começo das novenas, com as coplas e lundus chorosos dos mulatos, quadras requebradas e dolentes, uma das quais, esperem, rezava assim: Minha mãe me pôs na escola Pra aprender o bê-a-bá, Eu fugi, fui aprender O lundu do marruá!... Indecente, pois não, mas apenas de nome, que no fundo, tão ingênua, tão simples, dessa simplicidade de velha dança colonial, não se impedindo o seu ingresso no seio das famílias, antes mui disputados e solicitados os organizadores a irem exibir os bailados no interior das casas principais e mesmo no palácio governamental... De todos aqueles festejos, tinha conhecimento pelo que lhes contavam no outro dia as externas, aos intervalos da aula, o que valia, às vezes, exemplar reprimenda da irmã zeladora. Um e outro ano surgia a mais a dança do Congo, posta à rua pelos pretos, cujo rei era sempre um africano centenário, ainda forte e robusto, trazido de Luanda ao tempo da escravatura. Aos reco-recos das varetas pela superfície estriada em serras das compridas cabaças que apropriavam, e ao som de adufes e pandeiros, celebravam os ritos e glórias de seu país ancestral, religiosamente através do exílio transmitidos, em fraseados complicados e embaixadas pomposas de língua perra. Executava-se o duelo dos príncipes, procurando-se os dous rivais aos pulos ágeis, ora num pé ora no outro, entre as filas apartadas dos guerreiros e a final degola destes – a espada correndo cerce ao longo das gargantas. Arrematavam a encenação com dolentes cantorias, onde a nota – êh! Maria-Longuê! – era repisada em estribilho a cada retorno, invariavelmente. Esses, os do Congado, vira-os passar duma feita sob as gelosias, num quente meio-dia de domingo. Uns traziam gorros e capacetes de plumas, grandes corações recamados de vidrilho

sobre o peito ofuscante de lantejoulas e glóbulos dourados; outros, meias-luas de prata em ressalte no fundo do colete mourisco, colares de búzio com voltas de conta e pulseiras de miçangas, metidos em calções de debrum e largos sapatões cara-de-gato. Os mais vistosos calçavam botins e tinham o justilho azul de pano mais fino, sobressaindo-se os tufos de pelúcia nos punhos curtos e sobre a gorjeira baixa. Caminhando, iam e vinham sobre os próprios passos, arrastando a cantilena, ao reco-reco infatigável das cabaças empunhadas. Ah, as doces, ingênuas, tradições goianas! De novo, a saudade de Lica voou, trêfega, para as procissões da Semana Santa. Ah, as procissões... Então, através das persianas donde espreitavam, como que a cidade tomava outro aspecto, revestindo-se dum ar solene e grandioso. Trabalhadores, enxada à mão, punham-se nas ruas e praças a capinar febrilmente, dentre os interstícios do macadame, os tufos rasteiros de gramíneas; varriam-se as calçadas, o chão era atapetado de goivos, miosótis, jacintos, manjericões e mais folhas odoríferas. No primeiro domingo, o de Passos, iam todas à Boa-Morte, a cuja entrada tinha lugar o encontro da Virgem Maria com o Filho desejado. Este, sob o peso do madeiro, mui lívido e doloroso, a grossa corda de nós cingindo os rins sobre a túnica roxa, a fronte pálida, porejando sangue, dobrava a esquina à coral mística dos rabecões, sob a auréola sangrenta da coroa de espinhos e nuvens e nuvens consecutivas de incenso, que o pároco, mui solene e paramentado, ia à frente turibulando. Fazia-se um grande silêncio. A banda de música, que fechava o cortejo, cessava a sinfonia plangente do acompanhamento. Acotovelava-se o povo no ádito da igreja, pelas ruas e vielas que desembocavam na praça; e, de ao pé duma das janelas que abriam do coro para o largo, um frade beneditino, mui untuoso e comovedor, começava a longa prédica da paixão do Senhor, a voz soluçante e profunda no descrever a cena patética do Calvário, e a disputa última dos guardas sobre o corpo ainda palpitante do Crucificado! Choravam todas. Ainda agora, ao relembrar, tinha as pálpebras umedecidas... À noite, os Sete Passos da cidade, encravados em espaçosos nichos, onde o Cristo se detivera lasso na caminhada, iluminavam-se d'alto a baixo, e toda a gente corria em Via-Sacra a visitá-los, depositando na toalha do altar, sobre a salva exposta, o óbolo devoto. Depois, Quinta-Feira das Dores, nova procissão, a da Virgem Dolorosa em busca do Filho bem-amado. O andor, numa suntuosa ornamentação de flores artificiais, a imagem naquele manto azulíneo todo constelações, era pelo percurso levado ao ombro das donzelas de mais destaque na sociedade, todas de branco trajadas. E que desejo nutria ela, Lica, de carregálo também, garbosa e transfigurada da divina carga, embora nessa época mal debuxara ainda os seus primeiros catorze enfermiços anos e ser assim tão franzina e frágil de forças! Dirigia-se então com as irmãs a esperar o acompanhamento na Matriz, onde recolhia, e deixava-se estar de joelhos muito tempo em adoração, extasiada, e, enquanto os círios ardiam, evolava-se em torno o cheiro profundamente místico dos incensórios, e o sacerdote no altar-mor principiava o ofício. Após as Trevas, na Sexta-Feira Santa, as solenidades atingiam o seu apogeu de esplendor e compunção religiosa. Desde a véspera, nenhum rumor, nenhum grito de pregão, nem mesmo o ao de leve bater dos saltos dum sapato na rua deserta. A cidade soterrava-se num silêncio mortuário, sombrio, profundo, sepulcral, de necrópole abandonada... Nenhum brado d'armas na cadeia pública; os toques de corneta dos quartéis não davam esse dia os sinais regulamentares e até os galos, no fundo dos quintais, pareciam olvidar o seu canto álacre. Era o dia das santas virtudes, em que as árvores e as cousas se revestiam dum atributo sagrado e os homens, mulheres e crianças saíam pelos campos e matas dos arredores, atrás duma raiz milagreira de amaro leite, suma, batatinha ou folhas de chá-de-frade, que, colhidas em tal ocasião, santificadas pelo teândrico martírio do Cristo, adquiriam um maravilhado poder de cura nos achaques caseiros do ano...

consubstanciada naquelas palavras. o peito lacerado por inenarrável opressão. como vira o ano passado e pôr num chinelo toda a camaradagem do sítio. lugar bem mais próximo do Quilombo.vestidas de crepe. fugiam os detalhes. rondava em torno. madrugada alta. batendo-a no eito. como se estivesses sonhando! . Queijeiro!.. apontado como o primeiro no corte dos canaviais. que fora com a família uma daquelas vezes à capital. o cortejo ritual ao centro. Domingo da Ressurreição. mudava de feição. Saudade.. À sua imaginação. menina – disse d. À procissão do Enterro. macerado d'angústia. Queijeiro!. o lençol sanguinolento que amoldara a cabeça coroada de espinhos do Homem-Deus. anunciando aos quatro cantos da cidade que Nosso Senhor era morto. às centenas. olhos grudados no trabalho do moço. sustentado por seis cavalheiros d'opa violeta a empunhar as varas de prata maciça.. procurando distinguir as feições do Judas. enquanto a meninada se ajuntava no meio do largo. não obstante passar a maior parte do ano na fazenda. a assobiar descuidado. entre dous apóstolos.. atrás do catafalco lúgubre. onde costumavam ajoelhar-se. attendite et videte si est dolor sicut dolor meus!. a sua família viera duma feita. entre arrependido e incerto da posse daquele brinco. Escutava-se a espaços. adotando facilmente o aspecto distinto de moço da cidade. o halo predestinado sobre a fronte. não se envergonhando de – na necessidade – pegar o cabo da foice. matinadas ferozes em torno dum mesmo objeto. impressionada ao excesso. mais no entanto para visitá-la. Luísa abeirando-se sem que percebesse. armada de seixos.. ali. alcançava o pináculo do quadrante. doloridamente: Vos omnes qui transitis per viam. acudiam moradores de toda a redondeza e mesmo de fora do município afluíam às vezes. mesmo àquele Malaquias. – São horas de recolher. se entretinha a traçar com o canivete arabescos caprichosos na peroba dum piraí. pombos e pássaros que se soltavam. num turbilhão de figuras litúrgicas a passar. parecia ainda como que a ressoar-lhe aos ouvidos. onde o seu companheiro de infância. funebremente. aqui São João. sobraçando um livro. a partir dos quatro ângulos da praça. E Lica. exibindo à multidão contrita. o cântico merencório e lancinante da Verônica – moça feliz que tivera a fortuna de representar esse ano a Madalena – trepada a um tamborete carmesim. – e a bradar-lhes à orelha a alcunha injuriosa: – Queijeiro!. o diadema refulgente sobre a testa e a ampla cabeleira desnastrada espáduas abaixo.. que a essas cerimônias tinha d. que haviam comungado pela manhã e estavam desde a véspera em jejum absoluto. em holocausto sacrificado à redenção de todos os mortais. Apesar da distância. à espera de que as largas portas se descerrassem. preparando-se todas logo em seguida para continuar as devoções da Boa-Morte.. Ainda bem que Benedito. um frio cortante descendo da garganta da Carioca e tanta gente amontoada à luz do luar no adro da igreja. a esvoaçar entre os coruchéus e cornijas do templo. Luísa por costume assistir em Curralinho. Até àquele canto da nave. Era a molecada. jazia num leito de martírio o corpo seminu e anguloso da Divindade.. levada por outro curso de idéias. às maltas incontáveis. E toda a milenária Dor humana. chegavam de fora gritos e assovios. entre mal sopitadas lágrimas. o sereno já começa a cair e tu aí absorta. e mesmo. atacando os caipiras – pobres matutos desentocados do fundo de suas roças e plantações pelo prazer de tomar parte naquela santa festividade. à sombra das mangueiras. foguetes e girândolas no largo estourando. onde o jantar era amelhorado duma iguaria nova. quando o sol que – único – não se velara de crepe. e que seria queimado após o ofício divino. vaias estrídulas. lá dependurado no alto duma embaúba.Súbito. Milhares de luzes tremeluzindo em alas davam volta às ruas principais. sob cujo pálio damasquino. ouviam-se as notas retumbantes e ásperas da matraca. – Olha que apanhas um resfriado. as três Marias carpideiras. enquanto Nequinho já em vias de reconciliação.. Então as meninas. Sábado da Aleluia! Repiques festivais de sino na catedral.. assentado numa moenda velha de engenho. encaminhavam-se para o refeitório. olhou para o fundo do quintal. às doze.

. o sertão e a festa da véspera tornavam ainda mais fundas e cruciantes naquela alma ingênua e simples.. correram lentas. as proezas venatórias do chefe. alumiando ao fundo o ouro fulvo das peles d'onça que forravam as paredes. afinou sob a janela.. esbatendo-se entre os rosários de orelha d'anta e veado entrecruzados e pendentes do teto. ao rés da grama. Gaste eu um conto de réis nesta empreitada. Era quase ao anoitecer. rumo da casa-grande. viu logo pelo jeito que o caso era sério.Anoitecera. Não descanso mais uma só noite sossegado. ao sítio próximo. repuxando as falripas da barba grisalhona. salvo arrancadas extemporâneas dum e outro rebento mais rebelde. assenhorou-se de nhá Lica. num pesar indefinível. montado na melhor besta de sela da fazenda. povoando-a duma grande raça empreendedora e forte. a luz crepuscular entrava difusamente. e um grilo. Quanto a dinheiro para despesas. Uma mato-virgem arrulhou além. Vieram chamá-lo a mando do patrão. Pelos tampos escancarados das janelas. saiu às pressas do puxado dos tropeiros. que traziam entretecida a cadeia de suas recordações de menina e moça dum filão preciosíssimo de suaves e repassadas saudades. sobre o cetim da epiderme – as lágrimas.. oculta entre os cafezais. Mal o divisou. de rifles. que a moleza do clima. furtando-se à velha dívida do ajuste. sem causa aparente e sem um só queixume de seus lábios contrafeitos. vem aqui ter comigo assim que tudo estiver arrumado. mui alvo e transparente. Dobrando o pescoço. nesta fazenda cachorro vadio . – A Pelintra veio sentida do Mamede. que a rudeza do velho Anhangüera desbravara e estendera o guante de conquista. Caminho andado. a noite.. abrira o pala à meia-noite. Uma dobra dos baixeiros pusera-a sentida do espinhaço no passeio que tinha feito pouco antes em companhia dos filhos da fazenda. carrancudo. cricri. enquadradas em portais de jacarandá. com a Vida enfim. Sob aquele peso de troféus. virgem ainda dos contatos brutais com as paixões. Galgando os degraus do varandil. numa fenda mal coberta de reboco. amálgama de confrangimento e aperto de coração.. O coronel passeava os quatro cantos da sala. galheiro e queixada que atestavam aos cantos. iam lento e lento desfibrando. Dependurou o chifre de tutano com que lhe engraxava o pêlo na argola de recavém dum carro. João Vaqueiro fizera-o ciente do sucedido – fugira o Malaquias! O nagoa. destacando aos renques – bizarramente – a alvura das caveiras de capivara. uma a uma. clavinotes e caçadeiras dependuradas dos cabides. que o luar. os azares. a meditar a baixa justiça sobre a cabeça redonda e vil dum vassalo acusado de felonia e traição. como outrora o senhor feudal cruzando as lájeas de sua sala d'armas. mas a fama do Quilombo não há de ficar desmerecida. No céu azulíneo. sobre o peitoril da janela – um bucle anelado a ressaltar na nuca. – Pois é escolher aí no pasto o animal que mais convier. V Benedito pensava a Pelintra.. duma diafaneidade única. Súbita tristeza. mas não havia de ser por isso que o negro deixaria de vir. num daqueles seus terríveis e freqüentes acessos de mau-humor. foi advertindo ríspido: – É aprontar-se já e partir sem detença pela madrugada.. onde o fazendeiro media impaciente as passadas ao longo do varandão. o misticismo ancestral dos reinóis e bastardias de sangue. E nhá Lica cismava ainda nos festejos queridos de sua terra. o fazendeiro media às passadas o aposento. o olhar atravessado e duro sob a ruga da testa. enquanto não ver aquele ladrão na sala do tronco. o Cruzeiro do Sul lucilava como um símbolo vivo sobre a imensurada vastidão daquelas planuras. ao gosto das fazendas do interior.

a praguejar contra o azar do marimbo que o perseguia. salvo seja.teve sempre ensino. foi tratar com zelo dos aprestos da viagem. rendido. este. que traziam escondido no forro dos chapéus. caminhara que nem canguçu na fumaça e trouxera-o ali amarrado ao moirão. fazendo mover lentamente a alavanca do gatilho. não havia reza nem bentinho. reservando os alforjes da garupa para a matula. riscando-lhe de sobreleve a faca pelo ventre. Pois sim. atirando nota sobre nota na mesa. Levaria aquilo tudo sob os coxonilhos dos arreios. saltou-lhes à frente. mas o baiano. acovardado. ninguém foge aqui ao trato firmado! É dar em riba do negro e trazê-lo amarrado pelo cangaço ao moirão do curral. ia direito no rastro que nem cachorro perdigueiro e não havia então tirá-lo da pista enquanto não trazia filada a caça à porteira do curral. e. proseando com ufania. assim como uma rês capada. manejava com outro baralho.. como ele. sempre protestando no entanto. dado o desapego do nagoa ao perigo. Enfim. Homem aquele de peitaria! Mas não dera tempo. Despendurou do cabide o rifle e. Enfim. dominando-o com a garrucha. que andava a limpar as pastarias dos arredores. já o apertava num canto. Um baiano apessoado batera uns contecos ao patrão no jogo. Ainda duma vez. encrespou o sobrolho. ia viajar à escoteira. soltá-lo no campo. Ele bem observara. ia prevenido. pôs-se a examinar com cuidado o mecanismo da culatra. mui confiado. O meleiro ia ajuntando uma por uma as pelegas. de que fazia um bolo e que metia no bolso interior do jaleco. seu-Dito-desmancha-aquilo! . Pôs-se a separar atento a roupa – dous parelhos de brim riscado... foi na romaria da Trindade. não era essa a primeira vez que o patrão o enviava à pega de camarada fugido. trazia patuá bento contra ferro alheio. e depois. e o seu tino tantas vezes comprovado em manhas e astúcias para enfrentar ou esquivar-se a quem se lhe atravessava no caminho. o forasteiro achou por seguro chegar às boas. postado do lado de fora... quando já se levantavam satisfeitos. meteu pelo cano de reserva os doze cartuchos precisos. Coçou a orelha sob a aba do chapéu. sujeito atirado e quizilento. Haviam de ver. onde o coronel. que lhe dera a madrinha pela véspera do Natal. A horas tantas. fechou a arma e foi pendurá-la à bandeira da porta. com desprezo e aos risos da camaradagem. Ao estampido. para gente curada. Com disfarce. Foi uma roda-viva. ali estava todo o necessário para quem. ceroulas d'algodão grosseiro. Aquilo cheirava às léguas a embromação. Sabia-a arriscada. para quando saísse. abriu uma canastra. três camisas de morim. descobriu logo que o gajo. restituindo a cobreira. rapar pestanas e cocuruto à moda de frade. a garrucha na destra. tempo! Metesse na veneta do fazendeiro fazer-se oposicionista. sem mais. só mesmo calibre 44 e a pontaria de seu olho. de súcia com o parceiro. Ah. vinda com ele em pequeno dos Dourados. a franqueira na outra. Mas para que lembrar! Tinha ainda no braço os caroços de chumbo com que o chamuscara um cigano. em separado num dos ângulos do casarão. armado dum sabre-punhal que sacara do cabo do rebenque. rugiu cinco desaforos e quis abecá-lo pelas costas. não havia mãos a medir com tantos seu-Dito-faz-isto.. Dito. a entreter o coronel. Em apanhando a catinga. à vista de todo o pessoal reunido.. não faltava jeito. à luz da candeia que acendera. a tramóia. até que. Tinha até fama o seu faro nas redondezas. e. Nada. ladrão de cavalos. Trazia ainda tacheadas sobre a tampa de couro. o descarado. Outra. desmascarando num berro a esperteza. Limpou-a minuciosamente. e demais objetos miúdos. mandou aquele mesmo Malaquias chegar-lhe aos untos do traseiro uma coça mestra. O outro não estranhou. que o resto havemos de ver. se houvesse precisão. contra a sua parte na maroteira.. Um deles pôs-se logo a tremer. as mezinhas. que com ele. melindrosa mesmo. era tiro e queda. as iniciais de seu finado pai. Foi ao quarto. o nagoa era arteiro. quando lá mandara buscá-lo a Dindinha. acostumado àqueles repentes. Demais. Também a ele.

Perde o crédito na venda próxima. o chapelão de palha com fanfarrice batido e acampado à banda. andava numa corre-coxia dos trezentos. Não fosse o preto ficar embeiçado da roxa. garantindo a chapa. Lembrou-se pela vez primeira – ele que a praticava instintivamente – que era livre e movia-se para onde bem queria. Mas abanou a cabeça. chega a proporções exageradas. tais os embrulhos que surgiam. as espingardas empilhadas ao canto. Isso. Quando muito. Principia então a tomar emprestado ao senhor. Eram ordens pra aqui. gostando de estadear o talento do amante quando se lhe faziam de engraçado. pede a conta ao senhor. mas dalguma daquelas mulheres que tinham pousado a semana passada no puxado dos tropeiros. quando o coronel estava contra o governo. quando lá ficara órfão e só. talvez. Malaquias levara-a por necessidade de montaria ligeira que o apartasse depressa daqueles sítios. Na vila. acreditava. o empregado na lavoura ou simples trabalho de campo e criação. não podia ganhar fora mais do que lhe davam na fazenda. o diabo! Malaquias fora sempre um dos que mais o ajudavam naquelas alhadas. ordens pra ali. Dá-lhe este cinco hoje. Gasta-a em poucos dias. tivera-as muitas. pela Chica. naquelas cercanias. às vezes. ali mais ou menos aliviado dos maus-tratos. Isso sim. birras do patrão com a gente da redondeza. Por sinal que uma daquelas raparigas veio comprar à casa-grande meia garrafa de caninha e fora o Malaquias quem lha medira no quarto da armazenagem. dançava alto o pau. Em épocas de eleições. tomando-o ao seu serviço. não faz o mínimo negócio sem pleno consentimento do patrão. ganha no máximo quinze mil-réis ao mês. constitui hoje em dia uma das curiosas modalidades do antigo cativeiro.Verdade seja. certo de que cada mil-réis que adianta... raras por provocação. no sertão. e depois. Nem mesmo sabia por que fugira o preto. seja dito de passagem. não raro. que já não lhe adianta mais dinheiro. talvez. eram ele e nhá Lica. com o tempo. tinha seu quê de faceira. a dívida avoluma-se. apoiado à cabeceira da cama. de que só se livra. então. e sai à procura dum novo patrão que queira resgatá-lo ao antigo. não havia ali tenção de furto. duvidando: – Qual! O nagoa fugia sempre ao rabicho das saias e não seria daquela vez que se deixaria tentar. Estimado da casa. apesar de tudo. que. prendendo-o apenas àqueles lugares o hábito da meninice e a sua gratidão para com os donos da fazenda. sabia-o bem. mas. que ali. mas sempre sujeito ao ajuste. entrou a matutar fundamente. as teimas para convencer o votante contrário. Geralmente. devendo em média de quinhentos a um conto e mais. comumente. graças ao Santíssimo. resultando para o infeliz não poder nunca saldá-la e torna-se assim completamente alienado da vontade própria. É essa a soma irrisória que deve prover às suas necessidades. enquanto que a condição dum camarada era muito diferente. o costume da terra. enfim. mulata que por ser mulher. enquanto o cabo da tropilha tocava a sanfona de sobre o jirau dumas cangalhas. . antes de natural lhano e metido em seu canto. os únicos que não criam nessas imundícies. no que o servia em reconhecimento de ter ido recolhê-lo aos Dourados. Passa assim de mão em mão. chega a perceber vinte. É escravo da sua dívida. e daí os propósitos da fuga. afeito àquele serviço desde rapazote. mas não era que carecesse de ocasião. naquelas baboseiras. tolhida a liberdade pelo ajuste do fazendeiro. Quanto à besta de estima. quando chega a morte. que era lá de seu foro mui ordeiro e avesso àquelas exibições. querendo dalgum modo mudar de condição. Feitiçaria? Não acreditava. é mais um elo acrescentado à cadeia que prende o jornaleiro ao seu serviço. quantia já considerada exorbitante na maioria dos casos. não mandara nunca uma criatura de Deus desta para melhor. Santa Maria! brigas. que seria? E o cabra. dez amanhã. Quando tem longa prática no traquejo e é homem de confiança. arregimentando o pessoal da fazenda. maltratado aqui por uns de coração empedernido. eram os tiros que se não sabia donde partidos. em companhia duns soldados em diligência para as recebedorias do Paranaíba. no começo do trato. que fica no livre arbítrio de lha dar. Feitiço. tanto que elas tinham passado a noite toda em gaitadas e cantorias. as mais das vezes. Então. não.

lá diz o rifão. – Caindo no mundo. haviam de continuar até quando fosse Deus servido em comandar o contrário. Andava aí pr'esses sertões um tal Deodato. – A pois. confusamente. Nem parecia até que fora criado naqueles fundões. deste lado vão a paçoca. bandido de profissão. provando uma colherada d'angu de caruru que lhe servia a mulher do caseiro. dividiu-a em doze riscas e à distância de seis passos não errou um só bote! Demais. acontecido com o meu defunto compadre Desidério.. – Aquele negro tem sorte – dizia Joaquim da Tapera. sobre o cinturão de sola larga. Luísa apareceu do interior e colocou sobre a mesa um sapiquá atufado. Entrando. – Seu Dito. – E esta! Só mesmo um moço da cidade. que é como tucano. eis a circunstância. sempre pronta na ocasião. forçando amanhã uma mulher ali. ele foi assentar-se num amontoado de suadouros de cangalha que ali estavam empilhados para atalhar e pôs-se a ouvir em silêncio a conversa. Ali está a marca que fez uma vez para mostrar como se empalma uma faca nesta terra! Traçou uma roda de palmo na parede. cumprimentou a moça e foi despedir-se do pessoal da casa. demais. um frango recheado e o mexido d'ovos em separado na lata – disse a senhora. nada de afoiteza em expor-se à ira do camarada. a caçoar do governo com as arrelias e façanhas de todo o dia. com a cabeça diz que sim. Conversa fiada. O mais. No varandão. – Olha. chegou a penetrar nas vilas à luz do meio-dia.. ninguém mais lhe bota a vista em riba. o açúcar em latinhas e umas cocadas que nhá Lica aprontou. em comentários ao caso do dia. Não acreditava! – cortou o outro melindrado. ali estava ele mais a carabina para quebrar as proas que fossem aparecendo. e assim como estavam. Crescendo de atrevimento com a falta de ensino. arrepiado como ouriço-cacheiro. constrangido. pouco importavam. mas nem por sombra lhe passou pelo juízo contrariar as ordens do coronel. – Nhô Dito. se ele é que nem martinho-pescador. veja só!. – Não era preciso tanto cuidado – agradeceu meio confundido. mão à cinta. menino. conversa fiada. pôs-se a ruminar os planos de campanha. ora nos Gerais. E como nhá Lica surgia no limiar. matando hoje um homem aqui. aconselhando maternal: – Muita prudência. reunida no paiol de milho. – Do outro. com dezoito mortes e tantas no costado. surgindo à abertura da porta. agora deserto. também. se o preto emproasse. quebra tudo que o bico alcança. toma tento com aquele crioulo. iluminando com o seu perfil suave a moldura enegrecida da porta. Toma sentido! – Essa cantiga comigo não adianta – disse afinal. e. achara as cousas naquele pé. havia de vir. tem pra frente nhô Dito. sabia com quem lidava. tem mandinga contra arma de fogo. filado à gola pelo sedenho ou apenas o par de orelhas como prova. Os meios. Desde pequeno. Cabra destorcido! Matreiro que nem lagartixa. o que duvido – avisou Fidélis. café. como de costume. morto ou vivo. A Dindinha que não se arreceasse.. – Ora. mandavam-no buscá-lo: havia de vir. estava ali o fato. caso venha a topá-lo. devia ao patrão novecentos e cinqüenta e cinco mil-réis. olha que a ceia está a esfriar – arrancou-o daquelas preocupações a voz de João Vaqueiro. apesar dos prêmios e a fama que adviria a quem o prendesse. Mesmo ferro benzido. – Pois. diabo como aquele não entrega à toa os pulsos à correia. que frecha certeiro o peixe. ora nesta província.. àquela hora. Tomou-lhe a bênção rápido. ora. onde rebrilhava o cabo niquelado da franqueira. O preto fugira.. com o rabo diz que não. Depois: – Pois vou contar um fato. D. empinou o busto orgulhoso. cabo de polícia no tempo da monarquia. seu Quim – respondia João Vaqueiro –. escorrega naquele couro que até parece bagre fora d'água. dois bicudos não se beijam – comentou alguém. pondo o povo todo espavorido com as bravatas que .. e um sem-número de falcatruas nos povoados. ameaçando céus e terra. E desatou a rir. Não fosse atirar no outro sem necessidade. – Não há como pulso firme e franqueira de fiança. sem poder as diligências jamais botar-lhe o olho em cima. – É bicho sarado.Benedito sentiu aquilo tudo.

de cujas fendas gretadas de caruncho saía um longo crivo de luz. sozinho. mui vivo. e o destacamento. Ele batia pois essas estradas e cafuas. quando chegaram à tapera. pois não – confirmava o outro. vigiando as saídas. donde voltaram com enxadas ao romper d'alva. o rapaz apontava para um claro da saroba. a soldadesca surpreendida. E aí está o que viram: encostado a um cupim. tantos casos mais. segurando numa das mãos o clavinote. quebrando-lhe um a um. Deodato. Conforme o uso. Foram depois pernoitar meia légua adiante. arrancou-lhe do peito o bentinho. zanza pra'qui. as pernas direitas. – Achegou-se com cautela e afastando a mão do jagunço. para nunca mais se erguer. Deodato trazia sempre consigo um bentinho no pescoço. coágulos frescos de sangue umedecendo o orvalho e que se alastravam agora em largas manchas sobre a grama. as pederneiras. que escumou de vez a madeira da porta. Não o tinham encontrado no lugar em que caíra varado de papouco. em cujo forro estava cosida a reza brava contra bala! Assim que lho tirou. não é preciso gastar mais munição com esta cobra. E o Malaquias. zanza pra'colá. O rapaz ouvira antes o estalido da arma aperrando e teve tempo de desviar-se da descarga. não havia por onde torcer. clamando socorro. numa fazendola. elas iriam dar testemunho daquele feito. Deodato olhava-os também. e grande. “– Ó de casa – bradou o soldado com voz firme.” – Por mim – ponderou João Vaqueiro levantando-se – acho que a melhor reza é confiança no santíssimo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e a carabina de nhô Dito. à frente de quatro cabras decididos. bentinho em que depositava muita fé e é aqui que bate o ponto da história. ser curado é cousa séria.. E começou a preparar a cama. Deram volta à casa. Os companheiros descarregaram por sua vez. enquanto dous de seus parceiros mantinham em respeito. arranjada com um ligal aberto sobre a esteira de espigas. junto a um patuá. com a boca dos trabucos escancarados da soleira. onde tinha notado uns sinais que o punham assofismado.arrotava. e faria mesmo. Duma feita. e estava para disparar. e a fera pulou para fora. carregando de novo as espingardas. por quinze sangrentas feridas. forrando-a depois com as mantas e lombilhos d'arreios. para dar sepultura ao criminoso e cortar-lhe as orelhas. olhos esbugalhados. Ajoelhado de banda. eis que o anspeçada. Um acauã guinchava à distância. sem relutância. estirados atrás das moitas de gravatá e tiririca do arredor. caiu sobre um joelho. procurando armar o cão emperreado do seu boca-desino. Deram um rodeio ao oitão. “O ervaçal espezinhado. solta um grito de espanto. que procurava embalde obstá-lo.. Vivia num estadão. diziam bem que era ali exatamente o local onde sucumbira de vez o bandido sob os couces d'armas da patrulha. caso piasse alguém ao lado. corre quem se mete com esse povo. Como esse. mas que o moço fosse sempre prevenido. que nunca negou fogo. mortalmente baleado. penetrou na cadeia do lugar onde estava arranchada a escolta encarregada de prendê-lo e foi desancando do primeiro ao último com o cabo do chicote. deixa-a cá comigo. o facalhão em punho. o afamado assassino. deu-lhe mais duas ou três descargas à queima-bucha. que é dele? Admirados. e um deles foi bater à porta da frente. perigo. Os demais ficaram de tocaia. Os cabelos em pé.. dando cerco a uma tapera à beira do Uru. “O meu compadre era um homem às direitas. Respondeu-lhe tremendo estampido de clavinote. e uma vez assim ateimado. . Acudiram todos. calhou que lá dentro se encontrasse de pernoite. Mas o corpo. garantido até pelos chefes de partido. na noite escura. O anspeçada. que aproveitavam os seus préstimos de capanga para negócios de politicagem. sempre trouxe no pescoço um breve. a outra aconchegada ao peito. que uma noite. o sol mostrava-se meia braça acima dum oiteiro.. da tocaia. Metera-se-lhe na cachola que havia de dar cabo do bandido. arrastando um couro do fundo do paiol. fez-lhe fogo ao peito. o homem caiu que nem fruta podre. os ossos do corpo. e tanto viramexeu. meteu a arma à cara. afirmo porque vi. na suposição de que uma vara de bichos do mato o tivesse arrastado para longe. O dia clareara já de todo. à procura do morto. qual. quando o compadre atalhou: “– Fica quieto. afoitado numa capoeira de assa-peixe e juábravo. – Pois não.

as caixas extravagantes da borá e mandaçaia. as messes abundantes com que retribui de ano a ano a bronca insensatez do matuto. os velozes caxinguelês. Emigra a vida para longes climas. embora a natureza opulenta exubere a cada nova hecatombe com redobrado vigor e esplenda em louçanias aos primeiros aguaceiros. pelo cipoal e trepadeiras dos troncos seculares. entre nuvens. o angola paludoso dos alagados desaparecidos. à espera da tarda estação da fartura. VI Pelos dias de agosto. enxameiam no gado acossado dos capões. principiava a espalhar. O gado espera a chuva para amojar e remói o mata-pasto ruim das encostas. quando não cinge uma vítima. numa atmosfera de forja. A obra de destruição vai lento e lento preparando ali a ruína das gerações futuras. escalonando serras de extremo a extremo do sertão. Das alfurjas. os rigores da seca em céus do Norte. Através das persianas cerradas da janela de nhá Lica. enquanto pelo sertão sem termo. nas tocas solapadas de ao pé dos morros. Não há ali porém. reduzindo a cinzas os ninhos balouçantes do sabiá nativo. espraiando-se sem obstáculo pelas extensas ondulações das campinas fecundas. As nuvens vão beber no farto divortium aquarum dos grandes rios que alimentam simultaneamente as bacias do Amazonas. no redomoinho trágico. cuja casca rugosa tisna de sobreleve para ir em fúria crepitar nas grimpas. carbonizadas as folhas secas que o vento acamara. ia o grito d'alarma das aves noturnas. Através do espesso lençol de fumaça que à noite encobre o lume das estrelas. fogo dos cerrados que esbraseiam. no paiol da fazenda. todo o horizonte goiano é um vasto mar de chamas: fogo das queimadas que ardem. Prata e São Francisco. Rodopia e morre então em torno de si mesmo. que nenhum sopro de aragem alenta. preparando nova infusão aromática de folhas de limeira-de-umbigo com rapadura. o sol semelha de eito a eito um enorme carvão aceso e sangra pelos flancos a sua luz avermelhada e mortiça. desapareceram misteriosamente os reptis. continua ininterrupto o ramerrão do cururu e saparia miúda. não fora o recurso natural das imensas florestas virgens e dos sertões ainda por violar. E ai do destino daquele ubérrimo rincão. E somente à beira dos charcos que ficaram. Cessa por esse tempo a labuta nas fazendas. que ateia fogo às derrubadas para a fertilidade da lavoura e destas. louvado seja. transpõe as divisas da roça e vai floresta adentro avançando a sua obra de assolação. onde em dias de chuva calangos e lagartixas espapaçaram-se ao vento. elementos abundantes para o próximo ressurgimento da terra. que aí deve chegar com as primeiras chuvadas de outubro. indiferentemente. os seus primeiros bruxuleios de luz mortiça por detrás das últimas serranias do nascente. e a miséria do solo resulta antes da incúria do homem. quando não enxota de pouso em pouso as guinchantes guaribas. caça ou rês dos arredores. transpondo levadas e ribeirões. mais que alhures. o capimpuba e . nos desvãos de pedra. entre as galharadas verdes. espalhando aos quatro ventos. das alturas prediletas do tamboril. nos furados úmidos. E. uma luzinha brilhava ainda. quase sempre. de cotovelo a cotovelo das estradas. à cata de insetos. a camaradagem conversava ainda em torno da chocolateira fumegante. que lá. esguio e tardo. e só parando quando o tropeço dum grande rio ou o encontro com outra queimada lhe roube elemento onde saciar a sua fome implacável de extermínio. recolhendo caminho de seu quarto de solteiro. Que estaria a fazer àquela hora a filha do patrão? pensou Benedito. de barroca a barroca. ao mormaço das longas tardes nevoentas e a zoada surda das mutucas e pernilongos. jatobá. alastrando-se pelos Gerais dos tabuleiros e chapadões a afugentar a fauna alada daqueles campos. intrometendo-se léguas e léguas pelo mato grosso e travessões do curso dos rios e subindo. aroeira ou barriguda – os mais comuns – daquelas matas. estadeando à noite os seus longos listrões de incêndio nas cumeadas das serras.O minguante.

e gritos bruscos de espaço a espaço. e em pilões da cozinha. Sobre os lameiros d'água empapaçada que secavam ao sol o seu limo esverdeado. para onde tangiam os campeiros de manhã a tropa das pastarias adjacentes. ressente-se molestamente da mágoa que ressuma errante na natureza. ao vir das tardes enfumaradas. à sugestão daquela paisagem amortalhada em brumas. laranja e amarelo-enxofre das Pieris pirra. que encoivarou as cercas nos derradeiros muxirões. e o céu revestia-se ainda de tons suavíssimos. na lombada descoberta dos campos. algaravia de povis. numa transparência luminosa de anilina. sob as paineiras do outeiro. ou sob a barriga varada.. poupadas da estação passada. Na alma de nhá Lica. uma chupé que carreava para o cortiço. ora entre as aspas. umas a pousar do surto incerto. rebatem na bigorna uma marca nova para o filho do patrão. sob uma pompa bizarra de flores de sangue. o solo estivava-se duma aluvião de pétalas lilases. matinadas. um pé-d'água que não fez torrente. A bica do monjolo corria embaixo. únicos satisfeitos na desolação derredor. Nuvens consecutivas de guaxos abatiam-se. quando o roxo vivo da quaresma não feria o olhar à distância. abicoravam a lavadeira.. aos pulinhos curtos. reverdesciam outra vez. variando entre o azul-negro. como besouros. Mais que o aspecto acabrunhante daqueles céus.. ao tempo que rombos anuns e azulões solertes remexiam. E se acaso passou. e. Três meses atrás. temperam os ferros enferrujados. trilos. se põem a catar os gordos rodoleiros – caídos de maduro – na pelanca descarnada dos animais. num orgulho exuberante de seiva nova. azulclaro e azul-metálico das Ageronias aretusas. das fruteiras carregadas do quintal. como nuvens. estrídulos prolongados de seriemas confidenciando nos vargedos. repletos de bezerrada nova. atrás do papuã. que aos chilidos esticavam o pescocelho implume dentre flóculos de paina. Bento-vieiras e tesouras. as perdidas emergem o seu caule nu dentre os interstícios do pedregulho rescaldado. borboletas enxameavam. refloria a flor-de-maio. como frechas. onde as vacas amojaram na força da lua. mas certeiros. pesares e saudades acorriam lentas. com as ramalhadas de ipê e paineiras esfolhando-se à distância. numa ronda alerta d'asas multicores. indo empoçar-se lá no fundo do açude do mangueiro.. estriduloso.. ou simples tanajura que tecia os seus amores nos espaços. um fio tênue. espalmadas as asas horizontalmente. tiês e sanhaços no colmo frutificado das gameleiras. que já tem aquele ano a sua ponta separada. avultando nos alcantis dentre tufos de folhagem. as demais da margem levantando o vôo caprichoso em . reflete-se-lhe no olhar com que sonda as alturas. deu por sua vez cabo da praga de carrapatinhos que depauperava a criação. na copa altanada das marias-pretas. cambarás vergavam sob os corimbos apendoados. elevavam-se. lamentos reiterados de almasde-tapuio. com as suas tristezas mudas do anoitecer. a nostalgia das águas que se foram. cujas laranjas.. É o tempo em que os carniceiros caracarás. e vinham depô-las na goela sôfrega dos filhotes. e o coaxar soturno das rãs punha uma nota lúgubre. chupadas da terra avara e o verde primitivo das serranias que – quando? – verá de novo reflorir na quadra feliz. Rondam os vaqueanos os malhadouros freqüentados. havia nas espessuras uma orgia contínua de sons. ultimam-se os aprestos do plantio nas roças calcinadas. esborrachando-os no bico d'aço retinto dum bigode de sangue negro. nas pontas dos gravetos e nervuras descobertas de folhas podres que emergiam do charco. Também o homem. e a criação mugindo satisfeita nos currais. no fundo da mata. Na casa da oficina. Se o incêndio devorou os capoeirões e pastagens naturais. Nas malhadas. refrescado pelos aguaceiros temporões que abril e maio prodigam às vezes. dominando os escampos. Depois de São Sebastião. se se não embrenha na selva imune. De manhã ou em vindo o crepúsculo. o mulherio soca e peneira o sal para o cocho das salgadeiras.gordura que o fazendeiro reservou e defendeu nas invernadas. a estrumeira dos currais. agente irresponsável naquela desolação. ora pousados no lombo. a terra recebe a semente do pobre. cambiando a fartura de tons dos amarelados d'ocre. E todos atendem às chuvas que não tardam.

a alma corre para o passado. pelo vento tocadas a outras vasas e vergéis mais fartos. cuja leitura. outra ali.. No pilão do monjolo afluíam as cocás. que lhe iam apressurando os momentos langorosos de trabalho ao canto da janela. É que. nas pegadas do negro fugitivo. de que tinha um secreto prazer em acentuar a animosidade e o ardor belicoso com que. encarnado na figura venerável de seu velho pai. ao aspecto da paisagem fumarenta. aquele gosto barbaresco de façanhas guerreiras. livro tido em grande estima no sertão. em Mato Grosso quem sabe. Começava quase sempre pelo episódio da princesa Floripes. que trazia em jacazinhos. a arrancava um suspiro de alívio. o murici cheiroso. Da cozinha. Às vezes lia. Ciscavam pintainhos no terreiro. E uma noite. através da adustão derredor. vinha o baque alternado das mãos de pilão esmoendo a canjica... como nimbos. esticando para o interior o pescoço esgrouvinhado aos intervalos das pancadas. junto aos cerrados e capoeiras. E um a um. quando d. gulosas do arroz pilado. cuja árvore anã e folhuda se distinguia ao longe... papa-capins. junto aos alicerces do açude.. quando se sente infelicitada no presente. o destemido Roldão. os passeios antigos iam avolumando. E mal ouvissem o passo dum animal na devesa. se a trama não ficava parada no colo e o olhar remoto. ela na sua egüita castanha. sobre o gancho do silhão. para o aéreo noivado. e Dito era o moço paladino que viera libertá-la dos furores paternos do almirante Balão. a colher pelo caminho.alegre farândola. postas em prática anualmente na sede dos municípios com o espetáculo faustoso das cavalhadas. como um refúgio. as corriolas verdolengas. para entregar-se novamente com redobrada atenção à contagem dos pontos... uma pluma d'ema presa à fiveleta do chapeuzinho de feltro. Benedito viajava longes terras. Nesse tempo. sentia-se enleada por um sentimento obscuro e era com desafogo que passava aos amores da rainha Angélica com o sobrinho do imperador. para a aérea fecundação das pradarias em gala. campo afora. airosa no selim. acirrava contra as hostes de seu pai os cavaleiros cativos na torre de Ferrabrás. corajosamente encerrado no interior do leão mágico. Nos compridos vagares da agulha. perdido numa imagem defunta. abrasada toda por converter-se à fé cristã de seu amado Gui de Borgonha. A água espanejava lá embaixo. . Nhá Lica recordava sempre. Dias de março. na roda limosa do moinho. que pejavam já as nuvens aplumbeadas das morrarias distantes. coleiros e patativas erguiam dentre moitas cacheadas de jaraguá o vôo frustre e o peixe-frito saía matraqueando ao longe. evocações e saudades iam surgindo a cada movimento dos dedos ágeis. a povoar aquelas horas de lazer doméstico do encanto agridoce da saudade.. os da infância principalmente. que tinha herdado da idade feudal. vivia a vida passada. saudades e sonhos se acastelavam. o zombeteiro cantar. Os olhos da nhá Lica baixavam de novo sobre o crochê e uma aqui.. como a que armaram a vez passada em Curralinho. quando não empinavam a crista córnea de sobre a copororoca dos cercados. ao reler aquelas páginas.. O hábito da soledade exacerbara a sua imaginação. desatando o agudo tofraque. recolhendo-se um tanto excitada daquelas narrativas. Luísa se absorvia nos misteres domésticos e o fazendeiro rondava os arredores fiscalizando o serviço. nos serões solarengos das fazendas do interior. Nhá Lica fazia em casa essas leituras. no meio-dia ardente. sonhou que estava encerrada numa alta torreola. denunciadas à distância pela fragrância intensa e mangabas e guabirobas.. De então. de que. saía com o mano e o Dito. às orelhas-de-pau que se quedavam a escutá-lo. Na alma de nhá Lica. destemida às vezes nas apostas de galopada. repassando saudades. talvez do outro lado de Minas. sacudindo as bastas tranças. rememorando sentimentos. era feita em torno do lampião de querosene à família atenta. e as primeiras bátegas espaçadas de chuva. a quem confiava os filhos a mamãe. talvez no Paranaíba. através do drama das conquistas. reatando o fio de pequeninos episódios do viver sertanejo. Histórias tocantes de Genoveva de Brabante ou as aventuras dos doze pares de França.

Benedito armava mundéus de cutia nos goiabeirais. em duas vigorosas braçadas. Ela suplicou: – Não digas nada. onde ia levar as suas despedidas. exalava-se dos plainos escaldados. para a direita. procuravam os dois reanimar-se mutuamente com gracejos. com o chuvisqueiro que passara. não custa – disse o companheiro. E o parceiro foi de novo atirar-se à torrente repor no lugar a masseira.. E pronto. ela agarrara-se assustada à outra borda. e à tarde. deu com firmeza duas remadas. Aqueceram breve a roupa.. Procurou nadar. ou vinha trazer-lhe as juritis surpreendidas nas arapucas do quintal. àquela sobrecarga. E como ele lhe oferecesse a mão. junto às impressões cotidianas do viver campesino. mas Benedito já a rebocava para terra. teve um ameaço de febre. o barco virou de vez. um fartum ativo. vindos com ela do colégio. que lhe dera uma das amigas na capital. de húmus fermentado e terra fecundada. Cavalgava a egüita castanha. Apertara a canícula abafadiça. carregando água. pusera-a de novo risonha e lépida na manhã seguinte. Entontecia-a o bafio pesado de calda azeda que as masseiras exalavam. vinha fustigarlhes o rosto. e. eram os únicos que tolerava. Ela descalçou os tamanquinhos. e o córrego fosse agora uma vasta caudal de torrentes tumultuosas. sôfrega. tinha onze anos – o papai tencionava conduzi-la na manhã seguinte ao colégio da capital – acompanhava-a ele ao sítio próximo duns conhecidos. encolhidos num canto. em tanques separados. e foram depois apanhar os girinos do córrego. Com o balanço. cuja extrema polidura emperolava o orvalho como líquidos. Via-se pequena. esquecido entre os formulários da medicina caseira do papai. translúcidos brilhantes. e a espaços. como acontece tantas vezes no sertão. com as rajadas de vento. inclinou para uma banda. Uma tarde.Tinha ainda sobre a mesinha da cabeceira alguns exemplares de contos da carocha. ocorreu-lhe uma idéia: – E se arranjássemos um bote? – Ora. que a corredeira já puxava para o meio do rebojo. para lá pendendo o corpo. trementes. hein? – Pois sim. ou cheia a mão d'água da bica. que. sacudindo os fatos molhados. redobrava o cantochão das rãs. tiritantes. a ela e ao Dito. e como o aguaceiro abrandasse. sobre o borco duma talha. À noite. nesse tempo muito . desenvolvendo exageradamente as faculdades da imaginação. descia em rego ao longo das almanjarras. No lamaçal do açude. arrastou-a até a margem do rio. mas o escalda-pés que lhe deu a mamã. cavada num tronco largo de tamboril. que iam acrescentando dia a dia uma nova página onde deter e fixar aquela sua irresistível tendência evocadora. sob as taiobas. Na alma de nhá Lica refloriam recordações. desatinada. muito frágil. revirou a masseira em que se achavam. além dos de Carlos Magno e jornais políticos da terra. num espinharal de malícias. que depunham. Nos últimos dias de setembro. saltou sem hesitar para a canoa. de que se vira tão-somente boa o ano passado. ao sol ardente que se fizera após a chuva. A chuva corria grossa pelos beirais de telha-vã. arremessando os tripulantes ao bojo das águas. Benedito empunhou a pá de bater melaço. ia suprir-se naquela meia dúzia de volumes. para a esquerda. a água do açude começasse a subir com as enxurradas que desciam. e um desaparelhado romance de Alencar. como que a energia vital se lhe refugiara no cérebro. rolaram trovões pelo lado do Anicuns. faziam-na cair aos pingos nas folhas largas de taioba. experimentava a água fria com a ponta rósea do pé. mui positivo em matéria de livros. O organismo debilitado pelas febres intermitentes apanhadas na romaria do Muquém. impeliu-a para dentro. e arremangando as calças acima do joelho. na casa do engenho. E de novo no engenho. e esta. cadernos de modinhas brasileiras. engarranchada lá embaixo. A embarcação.

exalou-se-lhe dos lábios uma prece tímida: – Nossa Senhora das Candeias. Quando voltou. E era aquele o único homem que lhe fora dado admirar. como uma enorme roda de carro. e. intacta e de pé. Depois. os seus olhos voltaram-se para o céu. Mas o seu companheiro vira de longe o perigo. para o descanso do passageiro e o encosto forçado da tropa nos pastos fechados das circunvizinhanças. ao alcance.. abandonando as fazendas de criação e indo pedir pousada a um rancho de sapé que se acaçapa afogado no bamburral. A trave pegá-la-ia pelo peito. à margem do ribeirão. uma trave atravessada no furo mais alto dos moirões. alumiando ao longe os carreiros cor de barro e inundando o rosto pálido de nhá Lica. um taco de rapadura ou a manta de carne-seca no jirau de mantimentos. Àquele risco iminente. velai por nós! VII Benedito viajava longes terras. minha madrinha. Seguindo as informações que lhe dera um rancheiro perto de Morrinhos. A porteira estava aberta. coito famigerado de relapsos e trânsfugas. num rastro que se lhe escapava muitas vezes com os informes contraditórios. Naqueles fundões.nova e extremamente arisca. avermelhada e triste dentre os vapores das derradeiras queimadas. a arma permanece inativa no cabide meses e meses. mas a depôs. Mas a clavina chapeada ou o rifle de estimação. sem que encontre um punhado de farinha. fugindo à mormaceira meridiana. Levantara-se sem queixar e fora pegar no curral os animais. era contrafeito. Atravessara o Meia-Ponte em Pouso Alto. pousando hoje à sombra duma palmeira de buriti. ela partira para o colégio. à passagem do animal. enveredou pelo sertão das Abóboras. topa dependurado. que espojavam os arreios no lamedo. Passavam à distância dum cercado. fitando aquele astro. junto à patrona couro d'onça bem fornida de cartuchos.. numa corrida desenfreada. depois.. surda aos reclamos do freio. e quando obrigado a dirigir-lhe a palavra. A potranca. fincando esporas ao piquira. quando? Quando? Chegariam a entender-se? E como a lua surdia no horizonte. ou sob o limpidíssimo luar daquelas paragens. que o município ou moradores das proximidades mandam construir à beira das estradas. chegou ainda a tempo de alcançar a poldra entrando de raspão no curral e de arrancá-la com violência de cima do selim. sobre o solo. transida de pavor. fora a acolhida usual que lhe dá o hospedeiro. o viandante vareja muitas vezes a casa do sitieiro. quando não sai para uma caçada d'anta ou espera de veado. Viajava de costume à luz das estrelas. abandonara as rédeas. E fora ele quem recebera a pancada em pleno peito! Pancada que o atirou na lama. dormindo adiante nos ranchos solitários. e que a mão do Acaso tinha atravessado em sua vida! Ah. ele passou a olhá-la com um respeito e uma timidez. que só se rende às rainhas e às santas. fechara os olhos... enveredou num galope desatinado naquela direção. no gancho da parede. Nunca mais se deixou levar nos abandonos duma amizade de irmãos. como se se envergonhasse em seu foro íntimo da antiga camaradagem que ousara dedicar à filha do mais opulento fazendeiro daquelas terras. É o único luxo que se permite aquela gente hospitaleira. onde tem ido às vezes a política estadual suprir-se de acostados e facínoras para os motins locais. . De lá um pastor se pôs a relinchar prolongadamente. era moça. ao tempo que os pequizeiros da chapada ou as tarumãs da beira do rio começam a derrubar as suas flores e frutos. Não raro..

que não quero animal furtado na minha tropa. antes que o dia vá de todo descambando. um negralhão espadaúdo. enfileirada com as demais ao longo da casa. que ofereceu à roxa com quem se metera aqueles dias à entrada do povoado. Até lá. dando tempo talvez ao Malaquias de tomar o rumo que melhor lhe parecesse. feita a contagem das cabeças e embolsados os talões com um forte abatimento de cinqüenta por cento de imposto na recebedoria – segundo o velho trato que mantinha em particular com o administrador – veio dar uma vista d'olhos ao gado apertado na rampa. toda estarrecida ante as águas do rio. que turbilhonavam lá embaixo numa extensão de cerca de mil metros. O prejuízo é de duzentos mil-réis. – Não resta dúvida – atalhou o outro –. perdidas as pegadas nos centros populosos do Triângulo. que por ali penetravam o sertão.Assim rondou o sertão do Caiapó. dentro o seu carão tostado de sulista. batendo botas e bombachas com o rabo-de-tatu. os olhinhos reluzentes. seu moço – dissera em consciência o arrieiro – pode levar consigo. estacionando na encosta. pois que o preto. e avisa que é tempo de passar os meus bois. Eram as primeiras levas que o Estado exportava naquelas paragens. mas irei entenderme com o seu patrão. mas para o seu não havia necessidade de tanto. atraído ao casebre pelos descantes de catira. – Veja só. gesticuloso. com o produto adquirira na loja do Gaudêncio uma garrucha niquelada e dous cortes de chitão enfestado. A pêlo-de-rato que cavalgava afrouxou logo no terceiro dia da jornada e teve de barganhá-la em Morrinhos com um forte desconto de quebra. cedo ou tarde havia de topá-lo forçosamente. dormindo descansado na fiúza de seu braço e o bote infalível. postou-se a observar uma ponta de gado que descia para o porto. Entanto. Em Santa Rita. a fim de evitar transtorno na condução. em resguardo ao ataque de sezões. que haviam de encontrar. à passagem das primeiras boiadas que vinham do sertão. numa das quais saíra esfaqueado o culatreiro de sua tropa. certo já de encontrá-lo no Paranaíba. Lá havia a noite inteira bebedices e cantorias. ainda desfigurado da sangria. o cabra que levara a facada. enquanto não aparecer.. à porta do administrador onde proseavam. encarando-os fito um a um. Conhecia casos em que o batedor tinha ido pegar a sua caça no Uruguai. desarmando o cachaceiro que lhe tinha aprontado à traição aquele aleive. – Êh! negrada valente da boca do barulho.. se se não tivesse o preto embrenhado em Mato Grosso por Coxim. aqui lhe deixo. ou escapulido para o outro lado das divisas mineiras. era mesmo o Malaquias. a dominar a manada. servida a café. tão logo navegue naquelas bandas. e bradava ao capataz: – Êh. vai-se remediando com ele. O boiadeiro. . lá se foram encaminhando para o rancho. E assim dizendo. – Quanto à mula. Joaquim Culatreiro. e desceu margeando o rio dos Bois. obstinado como todo sertanejo. não teria decerto expediente para entocar-se naquelas funduras. por sinal que tomara o seu partido no fuça. a cuja frente a besta da fazenda recebia a ração do embornal. o meu macho queimado. dá um pulo à casa desse homem. Passou a sela dum para o outro animal. tangidas pela vaqueirama encourada dos boiadeiros. no meio duma rusga que os parceiros do nagoa acharam por bem armar às tantas da madrugada. que é do passador? Ó Totônio. e subiu beiradeando o Paranaíba. mas naquela ocasião o seu homem não podia apanhar molhado. que transtorno! – bufou ojerizado o boiadeiro. o ferro do Quilombo sobre o quarto traseiro. e após ligeira prosa. um arrieiro deu-lhe notícias seguras da estadia do nagoa em Caldas Novas – vendera-lhe a besta de sela por uma tutaméia. Que sim. veio até o parapeito e confirmou as palavras do patrão. Mas a mulher do nadador veio à porta dizer que sentia muito. cujos afluentes engrossavam com as chuvas. o que lhe transtornou os planos. a tirar as boiadas luzidas com que iriam abarrotar os mercados e feiras d´além-Paranaíba. Olá. Desceu pois o rio dos Bois. que procurassem outro por ali mesmo. e. qual de vocês aí sabe nadar? E animava os rapazes reunidos num alto. espessas e profundas. com que o obsequiara a companhia. despistado por um correio que lhe dera uns sinais falsos na estrada de Jataí. Chico! É tanger para o outro lado do rio a boiada.

numa descida lenta. a mão esquerda aleijada duma cortadura de facão feita havia anos. soprando um grosso bafo de vapor. e agitando os cascos à tona um momento. – Rapaziada molenga! Quem há de ser. o resto da boiada.. sorvia com demora o ar em roda. numa impaciência que mal podia sopitar as pragas trovejantes que lhe gorgorejavam no peito. vestido como estava.Mas ninguém. E um alentado caracu. Os demais. vozeou voltando-se para a companhia: – Moço às direitas! A rapaziada espalhou-se logo em direções opostas. e.. quando a presença duma jaguatirica na boca da mata não levava o alarma a todo o acampamento. que o sol irisava. à grita prolongada: – Êh! ôh!. indo depois aportar. atirou-se num arranco ao remanso. d'esporas e chapelão. Azares do ofício. Mas a vaqueirama premia alas.. que refugava nas esporas. Dava-se por feliz quando deixava apenas a ossada dumas trinta reses alvejando atrás. cujo vulto aparecia aquém.. sondou com cuidado os arredores de uma casa acachapada na ribanceira. nos olhos-d'água dos vargedos. às terras de Minas.. animando-os no arrodeio. – Mais um!. guiando-o com o aboiado. atirou-se mais abaixo. se sentia com ânimo bastante para afoitar-se naquele mundão de corredeiras rápidas e rebojos que espumavam lá embaixo. compelindo-o para a rampa. e adiantando-se até o grupo. após recolher hesitando uma e outra munheca. Então Benedito avançou a besta. cascos fincados. olhou para o outro lado. não se atreviam. revezando-se um a um no arrodeio. . gente mofina – repetia inquizilado. após um baque surdo de corpos sobre a água. Batendolhe à coxa com animação. o olhar esgazeado para a água torva do rio. aos pares. flutuava mais abaixo e ao longe toda uma vasta floresta movediça de aspas retorcidas.. um boieco soerguia desesperadamente as ventas exaustadas. desaparecia de vez. descansando nos intervalos em que o gado deitava para ruminar. a camaradagem rondava por escala a manada. – dizia resignado o boiadeiro. cujo gancho uncilado se agarrava à garrancheira da margem. A natureza expansiva do boiadeiro explodiu incontinenti numa risada sonorosa. os cornos a entrechocarem-se nos bolos. e voltou desalentado à roda dos camaradas. O cabra. foi impulsionada para o meio. tocada lentamente das correntezas. à beira dos malhadouros. os ia seguindo à esteira. que espadanava para as margens as suas toldas aljofrantes. as suas aspas ficaram a boiar. onde os curraleiros se detinham. emergindo fantasticamente do seio torvelinhento das águas.. aos magotes. ofereceu os seus préstimos: Que ele sabia. de cujo telhado ascendia uma espiral esmaecida de fumo. – Gente mofina. O capataz ajuntou. no rebojo das águas. onde acampava à tarde a boiada. apertando o gado num círculo de mais em mais fechado. perdendo logo pé. descortinando-se de lá. mas tinha as cadeiras rendidas por uns fardos que erguera em seus tempos de tropeiro. que aspirava com sofreguidão o ar em torno. numa atitude queda de refugo. entrando rápida a faina dos tripulantes em vencer as correntes no manejo dos remos. apeado. onde um bando de pombas caldo-de-feijão parecia mais moscas a voejar. quem? Descera o barranco.. como o espirro súbito duma ponta de curraleiros. Que seu Juvêncio desculpasse. e a mais. Às vezes. Mais outro!. estava ali às ordens. Já o boiadeiro se metera com homens. resistindo aos que vinham atrás. como uma pequenina cabeça d'alfinete.. e alcançando a mão em pala. entre aquela vaqueirada. Êh! ôh. batendo o carrascal e unhas-de-gato dos arredores. a balouçar presa à corrente da beirada. no redomoinho duma corrente.. e aos poucos afastando-se da margem goiana. tomando-lhe a frente.. Em pouco. À noite. sobre o pontilhão da barca. Impelida rio acima pela zinga do piloto e varejões. esperando-os cá do barranco. se quisessem. repuxando as bochechas rosadas.. junto ao focinho úmido. perquirindo a margem mineira. ao canto abafado do passador. e. animais e bagagem na barca. oah!.

onde embalde briquitavam em roda com o laço os campeiros para livrá-la. necessitada. estendeu-lhe uma pelega de cinco. presa viva dos abutres que lhe arrancam às bicadas a carne palpitante. O outro insistiu. a cousa era outra: gente positiva. sorrindo: ora. A vaqueirama fechara num pasto a manada. sobre a copa duma fruteira-de-lobo da chapada. porém. não era soberba. bandos e bandos de urubus a acompanhá-los na marcha lenta. a cuja sombra agonizava outra rês afrontada do mormaço. ninguém ali duvidava. – Conversas! – atalhou o boiadeiro. que se movimenta rumo das malhadas distantes.. para acabar com aquele martírio. Enfim. Desculpasse. seu Chico! – Nunca vira patetice igual à daquela terra. que recusou. e o lavrador abençoa como as primícias duma colheita abundante. comum às plagas do litoral. E se casualmente por ali passou depois um vaqueiro no rastro dum animal fugido. contam os moradores. aparece aí no meio do rio um toldo de carro. e o olhar profundamente humano com que segue a boiada. não valia a pena teimar sem caso pensado. e o mundo é grande. picada de cascavel. nos travessões de mato por onde passaram. mas aquela pancada pesadona. Não duvidava: – Toda terra tem seu uso. quando não se punham a banquetear na carniça da que ficou atrás. Entanto. Não essa chuvinha miúda. abatendo-se às chusmas nos brejais lamarentos. e então é certa a morte duma pessoa afogada nas redondezas. léguas e léguas dos vastos Gerais goianos. no Rio Grande onde tivera a dita de nascer. pois sim. sacando de um bolo de notas. nem mecê parece viajado. para caber isso tudo. O boiadeiro meteu a mão no bolso da calça e. E ali fica sem auxílio. muitos tinham até visto ao meio-dia. onde um novilho incauto se esforça atolado.. Benedito foi ter ao varandão dos tropeiros. que no sertão cacheia os arrozais. Pois sim.. descontados os impostos e encostada enfim a boiada nas invernadas de Três Corações. e aquela penca de filhos às costas. mas a presteza em pôr fé naquelas bobagens! Já para o sul. cortada de relâmpagos ziguezagueantes e estampidos de trovão. já de todo reconfortado com o trago da borracha de pinga que lhe oferecera o cozinheiro. braços estendidos para o fogo. dada a baixeza de preço por que os adquiriu no interior de Goiás. E é um espetáculo que cerra o coração. escaldando o coador e repassasse depois a bebida. enrolando uma palha de cigarro. – Pois este Pernaíba não é brinquedo de menina fêmea – asseverava o capataz. mas não fizera aquilo por amor ao ganho. seu Juvêncio. aqueles bois lhe vão render um saldo compensador. e quebra e tala o milharal em que o matuto depositou as esperanças do ano. Povo franco. apodrecendo numa agonia estupenda. pôs termo à conversa com um convite franco: – É entrar no cafedório. aquelas baboseiras. à canícula meridiana dos tabuleiros e cerradões. ouvir o bramido que solta a rês retida no atascal.. dá-lhe por comiseração um tiro ao ouvido. que desse à mulher do passador. enquanto está pelando! VIII Chovia aquela noite. mas ele encolheu os ombros. ora. pago o ajuste de sua gente. Assentado sobre os calcanhares.. – Ora. com a doença de seu homem. é verdade. outros à luz da lua. enxugava as roupas. De vez em quando.Faina dura! E de pouso a pouso. Tomando pé na margem mineira. Mas não.. . nele é que não pegavam. – Tem histórias. que emudece a natureza e transe as árvores sob o látego do vento esfuziando nas baixadas. E como o cozinheiro batesse a borra do café no parapeito. serenando nas alturas.

num desvio. É bom de chupar!. que realenta o ânimo do caminhante transmalhado naquelas funduras.. o cateretê entrara duro pela noite.. . entre as cordas de chuva. Daí o grande fundo de religiosidade daquela gente. esvazando nas covoadas e morrendo nos ribeirões. ao princípio do povoado. Tem-se então. a do viandante desgarrado naqueles fundões.. aos convidados.. Malaquias. ora a outra.... em tigelas. Saracoteando na sala à frente duma mestiça.. Fui pedi-la em casamento. Descobriu o Malaquias agachado sobre o garrafão de cachaça. no atalho mais seguro.. Tem achaque no pulmão. uma luzinha ao longe. Sentado ao canto num tamborete. pernas trançadas. áspera provação. e é uma felicidade caída dos céus quando se avista. que engrossam e transbordam mato adentro. É bom de chupar!. O frio cerra. e aos goles da caninha com gengibre que a dona da festa repartia amiúde. apertando entre os dedos as chaves. meio tomado. saiu ao terreiro. fortes caudais descem reboando pela garganta das serras. junto ao prato da queimada. a pinguela do rio rodou légua abaixo. Montado. que bamboleava derreada o corpo. transpor socalcos e barranquias. acompanhando... Com os raios que fendem meio a meio angicos e canjeranas. viva. sob as toldas d'água cantando no telhado. saltando num pé. e berrou: – Negro! Vim buscar-te! Ele olhou.. o pala escorrendo água. Logo o coro: É bom de chupar!. E os demais. as abas do chapéu dobradas sobre o rosto. despenhar-se nos grotões. desentranhando raízes nas enxurradas. turvo. olhos em alvo para o parceiro que a distinguira na roda. a despejar o seu conteúdo no prato de açúcar. saiu-se com esta: Minha tia é magricela. gemiam em conjunto: É bom de chupar!. chorava um crioulinho atarracado: Rolete de cana É bom de chupar!. Naquele cochicholo da estrada. É bom de chupar!. na toada dolente da dança. De cada vargem rebenta um olho-d'água.. o forasteiro num relance varejou aquela cena.Chuva brava. a sensação da graça divina outorgada. intimidados com o tom imperativo do recém-vindo. a cada passo a montaria empaca junto a um lamarão inabordável. É bom de chupar!.. A festeira foi abrir. Os demais guardaram silêncio. Respondeu que fosse ao cão! Rolete de cana É bom de chupar!. o sanfoneiro espichava o fole do instrumento. estalando nos fraguedos nus e picos de morrarias. sob o ponche encharcado. a que sói muitas vezes. e apanhando sobre a mesa um facão amolado com que raspara a rapadura. a cabeça ora a uma banda.. Mas alguém batera à porta..

Ultimava os aprestos do café. fitou-o demoradamente. Malaquias voltava a si. ia empurrando para o lume os gravetos que ardiam. acentuando as palavras. no rancho do povoado. esticando como lhe parecia na conta. Desafogou o pescoço. – Hum! hum! aquilo é bicho mau que nem peste. O negro. – Tinham vindo buscá-lo. mas judeu até ali com os subordinados ou quem se metesse a empatar-lhe as vazas. a olhar aboborado para as brasas do lume. Sentia a goela seca. . Sem dentença. deu-lhe com a coronha da arma uma pancada no cotovelo. O que foi lá foi. picando um rolo de fumo. Tempo de cativo e capitãodo-mato já passou. que tirara pouco antes da garupa. não era. enfim. o mais. a espichar. aquela vida de cachorro de camarada. preso o cadeado da corrente à sobrechincha da sela. a danada. Mais valia cair a gente no mundo. a espichar.– A mim ninguém amarra – urrou o preto riscando a terra com a faca.. tiro-te esses estorvos. o patrão de ano em ano mais exigente e desalmado. De resto.. não devia aceitar aquela incumbência. montou de novo e foi tocando o preso para a frente. Jugulado o adversário. Mas Silvirina. e ela. saltando do animal. sem garantia no trato.. como sucedera ao Torquato por meter-se a respondão. que é que via? Dívidas e mais dívidas. dos vapores do álcool que lhe toldavam o juízo. – Ó seu Tomás – disse. atalhou com um muxoxo: – Ora. sob o chuvisqueiro que recomeçava a cirandar. tolhida a destra pelo choque. – Olha. nem sei mesmo como aprontei aquela tarantada na porta da Silvirina. seu Dito. Benedito serviu-se da garrucha. pediu com voz humilde uma gota d'água. limpando em cada ombro o fio d'água que escorria pelos cantos da boca. que ostentava um vistoso corte de chita... e o nagoa. – E essa! – disseram uns aos outros boquiabertos. o negro era camarada fugido. Se não dava mostra de toda a ruindade que tinha. saltou-lhe então à goela num bote cego. Estirado nos baixeiros que lhe deixara Benedito. rodando numa esporada a besta. o preto. fazendo tenção de levantar-se. O outro deixou-o desabafar em sossego. sempre lhe tive na estima desde pequerrucho. devia ser da cachaça. e no fim. assentados sobre as mantas. já Benedito o algemava com as ferropéias. De cócoras junto à fogueira. depois disse aliviado. chegando-lhe aos lábios a copa do chapéu onde a recolhera. que tirara dos alforjes. e o outro.. – Quem entrar neste risco vai de encomenda pra Satanás. aquele fazendeiro ainda havia de lhe dar o pago da sua dedicação. devia ao patrão. É chegar. alvejando-lhe o braço para desarmá-lo. nesse pé. trabalhando dia e noite como mouro. muito afável para os que não lhe deviam obrigação. Benedito foi apará-la ao beiral e como se sentasse ao lado. transtornando os seus arranjos de abatimento do fim do mês. e. sem rancor: – Seu Dito fez mal. era tratar de folgar enquanto houvesse música. ou estourar aí para um canto.. o preto falou sentencioso. metendo ambas as mãos à cadeia da gorja. Deu-lha Malaquias com solene gravidade.. gente! Basta de pasmaceira. como fizera. meneando a cabeça. – Mas que tomasse sentido. não podia haver seriedade no ajuste. quase em segredo: – Olha. num esforço penoso de quem procura coordenar as idéias. no que era estorvado pela corrente cuja extremidade o companheiro prendera por cautela ao pulso esquerdo.. negro – disse de repente – se és o mesmo de sempre e dás a tua palavra de como não tentas fugir.. O patrão abusava de sua falta de letra. que nem mesmo um imperador era agora capaz de resgatá-la! Ora. porém. sem se importar com os protestos da assistência que dava mostras de querer intervir na questão. – Toca aí uma quadrilha. voltando-se para o sanfoneiro que se deixara ficar indiferente no tamborete. moído de pancada. faz favor.. Labutava na fazenda. deixou cair o ferro. e a esmoê-lo silenciosamente na palma da mão. era devido à presença da mulher. a festeira. fogo central e apenas as espoletas estalaram. enfurecido. quem pode!. presente do Malaquias. Seu Dito.. – Estava no seu direito de ir para onde muito bem queria. e como ficassem proseando num certo pé de camaradagem.

seu Dito – ninguém lhe tirava da idéia – aquela moça tem paixão pelo senhor. uivavam os ventos ríspidos.. dolorosa saudade que ficava. a meiga companheira de travessuras passadas. mal galgassem a encosta dos buritis. Fugira a lembrança de Chica. E não sabia que aquilo era amor!. uma lágrima nos olhos. que latejavam. nimbada no fundo de suas recordações de infância. Malaquias.. na vargem por onde subiam. E como batesse o sarro do cachimbo. Àquela revelação. Nem mesmo parecia marido de quem era! D. Malaquias roncava. Ele estava ali perto.. e até cá embaixo. o velho botara o seu olho em riba da Chica. Êh!.. vira-a uma vez sob a mangueira do quintal. angelizando tudo. dolorosamente.. com uma estrepada de tucum no calcanhar. E quando a via passar entre as laranjeiras ou a acompanhá-la silencioso nos longos passeios pelo campo. em silêncio àquela hora e onde as luzes permaneciam apagadas.. manquejando como vinha o Malaquias.. que um momento entreteram a ilusão de alcançá-los logo à cola. Não dissera nada até então. E era já noite fechada quando transpuseram o mangueiro. a armar um laço para os filhos de João Vaqueiro. Seu Dito. ficou a banzar. vinha rolando o canto do vaqueano. o vulto do cavaleiro.. papo para o ar. morriam nele os olhos da carne. depois que o moço já andava metido lá. num supremo e vigoroso lamento: – Êh côou!.. E a filha saíra-lhe em tudo na bondade. olhando para a janela de seu quarto. como mansão sem moradores. a pensar.. agitava-se ao longe como um pequeno ponto sujo no horizonte. as pancadas do coração. Fora. E ele ali a pensar. Hum! hum! Aquela cobra tinha veneno..... e era uma imensa. – Sabia de cousas. uns presentes que a mulata recusou. como as imagens das santas que se contemplam nas igrejas. mas era verdade. Ouvira-a dizer num suspiro: – Benedito. para que mandasse logo surrar o Torquato da maneira que fez. Exaltava-a em pensamento. num chiar prolongado de guariba malferida. os telhados do Quilombo. meneando a carapinha. agachado numa touça de fedegoso. como um ideal mui alto. – E olha. Isso. toma tento naquele judeu. Olha. quando avistaram. Êh! côou!. dentre currais. – Quando andava ausente lá pelo povoado. e no largo. atalhando uma inclinação que não se sentira nunca com forças para revelar-se a si mesma. Na tarde que caía. embora o comprido estirão a palmilhar que mediava ainda a vargem da fazenda. numa baforada. Depois.. ficara apenas de pé. de que a narrativa do preto avivara zelos ferozes. uma santa. para onde tangia João Vaqueiro uma ponta de gado. comprimindo entre os joelhos as fontes. . mais a beleza. e os dois endireitaram para o lanço principal. mandara-lhe por ele. A cancela bateu.temente a Deus. Ecoava tão perto o aboiado. olho pregado nas brasas que se consumiam.. onde só se pode deter de joelhos. nos rápidos instantes em que detinha em sua doce figura a imaginação.. junto aos ladridos do cão pastor mordendo a focinheira da rês espirrada.. que inchara e se pusera a sangrar desde o pouso da boca da mata.. as trevas despejavam chuva com reiterada violência. curvado sobre as cinzas. parecia conversa. escadeirando o rapaz e dando com ele na cova. estirado nos baixeiros. IX Ainda não havia de todo anoitecido. o moço sentia como que um aperto acerbo travar-lhe pouco a pouco. chupando o canudo. A prova estava em como bastou a patroa ir com os filhos passar algumas semanas em Curralinho.. o chocalho da besta badalava cavamente. Luísa. cortando a galope a frente dum garraio refugado na porteira. repisou: – Seu Dito. aos intervalos da borrasca. no ar translúcido da tarde. que mesmo parecia uma Virgem no altar. atupindo-o com o fumo que lhe emprestara o companheiro. de que uma timidez excessiva o afastara na fazenda.. essa sim.. a pedido da Chica. que não queria Seu Dito zangado com o patrão.

hesitantes entre desobedecer ou cumprir uma ordem que lhes parecia fora de todos os preceitos da lei humana. que é do patrão mais a família? Nhô Dito não sabia. Não sabia por quê. Àquela resignada mudez. sob o ferro dos contrários. correu a apertar-lhe as mãos. que aplacado já à trigésima vergastada. implacável. ordenava imperioso: – Que um de vocês chegue para aí às direitas o relho neste negro. cuja mulher lhe serviu um quibebe de abóbora que foi depois levar ao Malaquias. sem sonhos. Quanto ao patrão. afrouxou a sanha do algoz. ao capricho dos fazendeiros. e talvez. o verdadeiro descanso. pagando mesmo com a vida. poderiam vir a bafejá-lo em cheio. onde. O fazendeiro mal correspondeu à sua saudação. mas tinha havido mudanças em casa. Acordou dia alto com o estrépito dum animal que transpunha a cancela. farejou qualquer cousa no ar. Apressou-se porém em recolher o nagoa à casa do tronco. Não estavam acostumados àquele mister. enfim. confundidos. onde o coronel. Voltado para os camaradas.. A nobreza daquelas almas brotava-lhes nítida do coração à flor dos olhos. – Pois eu mesmo vou mostrar como se ensina um cachorro! Enrijado. a verdadeira felicidade. Mas a voz do fazendeiro. compensando as horas mal dormidas ao relento. Levantou-se numa sacudidela.. batendo a cinza do cachimbo. e de manhãzinha estaria em casa ou enviava as suas ordens. numa suave auréola de perdão e reconforto. numa quebreira avassaladora. a divagar sobre toda aquela existência ali decorrida.. êh! Nhô Dito! Cá chegou o homem. João Vaqueiro pôs o nariz fora do paiol. que acendera momentos antes. correr com um bando de ciganos que talasse os campos da redondeza. empunhava o rebenque.. onde recolhia os arreios. o empolgou numa assentada. que se derreava encapotado à sombra do batente. que lhe punha tremuras na fala e os demais transidos. – Ninguém?! ninguém?! – resfolegava a custo. todo exclamações. se preciso fosse. homem de Deus. donde não tardou em pouco o sangue a ressumar. mal dando tento de Malaquias. arrancou-o de vez à inconseqüência daquele vago devanear. a patroa fora no princípio do mês passar com nhá Lica uma temporada em Curralinho. que mais brava e trovejante se escutava a espaços. onde ia repor Nequinho na escola. espera aí um tiquinho. retrucou: – Êh. onde um sono solto. a tirá-lo duma senda por onde cega e erradamente enveredara antes. olhos no teto. ameaçando o preto acorrentado ao cepo. gente! Ó vaqueiro! – gritou Benedito. segurando as bridas para que apeasse. a encher de espanto os demais. às voltas com os negócios da política. mandava um próprio avisá-lo. O preto apanhou calado. purpureado o rosto de cólera. e saía já às carreiras. Deixou-se estar ainda algum tempo no leito.– Ó de casa! Êh. recebiam correção os camaradas malandros. e acabando de vez com aquele mal-estar da viagem acidentada. Os homens entreolhavam-se.. excedia as raias de seu entendimento. talvez. atado sem defesa àquele tronco. o antigo legado da escravatura. correu para a casa do tronco. nem tinham ânimo para tanto. a dar a novidade ao pessoal. mas aquela mudança contrariou o moço. e numa mal disfarçada satisfação. que. dirigiu-se para o seu quarto de solteiro. Arrastando as chilenas. pela pressa de chegar e dar cabo de sua missão. o seu devotamento. sem proferir palavra. rosronou d'entre dentes: . de fora! Ora essa. e a voz pigarrosa do coronel trovejando no terreiro. onde a visão de nhá Lica surgia agora iluminada duma nova luz. olhava obstinadamente as cadeias do pulso. Desfeito o jejum forçado em que estava até aquela hora. na dependência à banda. o azorrague estalou no ar e desceu sibilando sobre o lombo nu de Malaquias. e estavam ali todos prontos a enfrentar o perigo. andava lá pelo povoado. no rancho do vaqueiro. mas não seria aquele o transtorno. Mas surrar um preso.. Mandassem-nos assaltar a urna no povoado. cercado de seus homens. quando o outro o interpelou de novo: – Mas não se vá. e somente o cenho duro e feroz do senhor dava largas a um ódio surdo.

a história de pai Romeu. Agora. lá no canavial ouviu-se um grito lamentoso. Ora. desobrigara-se do seu dever. achou que não devia piar.. que desse o coronel satisfações a quem de direito. – Ora. apanhando sempre. até não mais poder levantar o braço de cansado. O preto. muito poucos. foi ter ao paiol. Histórias como aquela eram correntias no sertão. onde não mais foi visto o resto do dia. indiferente. A taca cantava de cima. mas a correria. Enfim. Ninguém lhe tirava da cachola que o filho do patrão estava também levando a sua sova nalguma parte. O senhor d'engenho apanhou o bacalhau. Demais. só mesmo a santa paciência de Nosso Senhor Jesus Cristo era capaz de tanto. o senhor moço embarafustou então pelo caminho de casa. Pediu apenas fogo para o pito. e. numa correria desatinada. Que lhe parece? O outro coçou a orelha. levavam a mão à cabeça e clamavam por socorro. Pai Romeu. e acrescentou outras tantas tacadas. veremos o resto depois. Ter ido a tão longes terras buscar o nagoa. pitava o seu cachimbo. tal qual como o Malaquias! E narrou. aí está. Ouvia-se perfeitamente o zunido do vergalho a retalhar-lhe as carnes.. duvidavam. Trezentas lambadas recebeu pai Romeu no cangaço sem que desse parecência de dor. Malaquias também pitava a cinza do seu cachimbo. entanto. só tinha em mente um pensamento: rever nhá Lica. tomados de pavor. que atupiu de cinza. e nem que o matassem a pancada mudava de tenção. e ele a correr duma para outra banda. As roupas em frangalho. tinha certeza. para nunca mais se erguer. fora sempre mais compassivo o patrão. Deu-lhe o feitor uma tunda mestra. entretanto. gente. onde o pai suspendia o castigo. que me diz a respeito? A velha não mentiu. onde se reuniam os camaradas.. não topando viv'alma. – Pois pergunta sá Quirina. Entre aquela gente simples não era costume a . e que tem? – Pois andava ali feitiço. Lá chegou arquejante à casa do tronco. puxando. ninguém pode aturar sem pôr a boca no mundo. trato daquele jeito. Mas não havia ali perto ninguém. de que o escravo era inocente. mastigando uma reza má. e não tugiu nem mugiu quando recebia a coça.. E olha que não sou dos mais vingativos. O senhor mandara surrá-lo por vias dum furto. Benedito achou-se às voltas com um grande arrependimento. – Seu João. não se percebia em parte alguma. a distrair o espírito daquelas idéias importunas. a fumaça do cachimbo. em Curralinho por exemplo. cumpria relevar. as pancadas iam uma a uma caindo-lhe rijas nas costas. Pois bem! assim a tereia cantou-lhe nas costas. e por esta luz me jurou que era verdadeiro. poucos. Uma criatura não apanha assim sem pacto com o diabo. viu aquele fato com os olhos da cara que a terra há de comer.. ao tempo que os demais.. desvairado. Ali havia feitiço. e ele a tirar baforada mais baforada. Enfiou o chicote no cano da bota e meteu-se pelo interior da casa. para assistir àquela cena! Das outras vezes.. lá dava Fidélis largas à imaginação: – Seu João. calado. À noite. que foi do tempo da escravidão. Era o filho do senhor a queixar-se de que o estavam espancando à traição. fosse noutra fazenda e a tua medida seria acrescentada. mas não soltou um só gemido. em seu tempo de moça.. que o outro já não podia agüentar. De vez em quando remoía os beiços. Malaquias sempre foi homem de opinião. – Isso viu sá Quirina. que aí está entrevada no jirau. vomitando sangue pela boca. Na forma de costume.. nem quem a manejava. continuava a ruminar as suas rezas. Os companheiros acudiram e bateram as moitas da redondeza. viu como o negro pitava o cachimbo? – Vi. interdito.– Tens para hoje a tua conta.. e lá se estatelou atravessado no batente.

Talvez fossem os parceiros de pai Romeu que. Entretanto. resultando daí todo o fruto da trabalheira do ano. E vieram relatar o caso daquela maneira. a manteiga. e a mulher do vaqueiro tinha com que se pavonear do rancho à cozinha da casagrande. a ofensa grave de que se julga alvo o sertanejo cuja palavra é tomada em suspeição. A mulher fabricava com o leite. Vingança de cativo tem manha.. tangia dos malhadouros as vacas. e daí.. ou mesmo um simples murmúrio de censura. quando amojavam. Era aquele um costume que assistia aos fazendeiros. defendendo com aferro os negócios da fazenda. ficava logo desacreditado para o resto da vida. as suas sortes penosamente apartadas. se tinha! a formular contra aquele pé de cousas. Tudo podia ser neste mundo largo. Este. Mas aquele guarda-chuva. que fora ao povoado e lá cobiçara um guarda-chuva de cabo floreado na loja do major Higino. Quanto ao ato arbitrário do coronel em chicotear o Malaquias. se protesto havia. o seu rebotalho era então pouco para saldar aquela rês perdida. na prosperidade dos quais punha mais cuidados que nos próprios arranjos. um novilho de valia que uma rodada mal segura pusera defeituoso. Outras vezes.. serem quase que insuficientes para resgatar o preço de semelhante bugiganga. um vilão qualquer. como outrora competia ao senhor feudal indicar. João Vaqueiro que ali estava. tinha por ano a sua paga de vaqueiro. E avançava as suas razões: – O fato podia explicar-se. Se alguém aprontava um carapetão. era vezo dizer-se previamente: Não punha a menor dúvida no acontecido.. que lhe dava a marca de tala. nas carnes palpitantes. Assim quando um caso como aquele ia de encontro às idéias assentadas sobre a experiência de cada dia. continuava a servir a fazenda com o mesmo zelo de sempre. Competia-lhes aquele direito. cuja família a vinha servindo de pais a filhos. Com essas cabeças tenteava a existência. Continuava ali servindo. o requeijão. Ele coçava a orelha. aproveitando a ocasião. Chegada à casa. o mais prestimoso servidor da casa.. também tinha as suas queixas. curava no curral a bicheira da bezerrada nova. nem lhes passou pela mente discutir as razões. O amor àquela vida a que se acostumara desde os cueiros do balaio. E. Mas era um desejo. a fim de evitar desandamento na mestiçagem. o queijo. e que punham em prática quando bem lhes aprovinha. Cuidava da criação de eito a eito. os pés regelados das sortidas de caça. – Enfim. tivessem dado aquela pisa no filho do senhor. tirado a dedo. que custara à vista oito mil-réis. mas. Ora era a mulher do vaqueiro. compensavam-no largamente das vexações sofridas. era um zebu reprodutor picado de cobra.. deitava logo com inveja o olho em riba. Demais. com gestos amplos de largueza. desinteressado no ganho. não duvidava. que o senhor encarecia.. como também viriam a servir filhos e netos. da freqüência dessas usanças. Mas o patrão vira-lhe os arranjos. ferrando-a com o ferro do patrão.. que iam no mercado render dinheiro à casa. enfim. e ia ter com o patrão. como tinham servido seu pai e avô. a razão duma sorte por lote de quatro crias. sem que com isso levantassem entre os seus a mínima oposição. punha o marido ao corrente de seu capricho. resultava escapar à rude singeleza daqueles homens a compreensão de semelhante arbitrariedade. apressado. Jogada a culpa sobre o vaqueiro por imperícia ou falta de vigilância. entre as garrancheiras e cipoais dos cercados. para que se lhe abrissem as entranhas onde enfiar. ninguém aludiu..mentira. formando pouco a pouco a sua leva separada. mandava um portador adquirir o brinco no negócio. longe dele duvidar. o dasapego nativo às questões de dinheiro. a ponto de não mais poder queixar-se depois. Aquilo não lhe proporcionaria a mínima utilidade na fazenda. . entre a arraia-miúda de sua peonada. capando em tempo os boiecos.. estivesse o senhor na fazenda ou andasse ausente na capital. era apenas a repugnância instintiva que sentiam todos em pactuar naquelas iniqüidades. chocando as mais comezinhas noções que possuíam da realidade. lançava-o à sua conta o fazendeiro por vinte e mais.

mais esclarecido. e fora depois tirar os palmitos de guariroba que lhe tinham recomendado na cozinha. e. Zuniam-lhe os ouvidos. Benedito passava. sem aragens. Fora o veranico. A mormaceira ardente daquele dia.. Fora um dia trabalhoso aquele.. e. e o couro do guarda-peito inutilizado por um violento rasgão de espinho de veludo. Seguindo. onde ciscava uma cama fofa e esparrimava-se na frescura da terra. donde logo se ausentara o patrão. Por seu lado. Uma necessidade brusca de revê-la apossou-se-lhe da alma. dando-lhe uma rodada merecida. no pampa mascarado campeador. não fora topá-lo depois a jeito. ora era o novilho ateimado em encafuar-se na biboca. onde os esperava João Vaqueiro com outra ponta. o impulso da primeira idéia. X Pela volta das três horas. após uma terrina de coalhada. deixando-lhe expresso o encargo de vigiá-lo. A tarde já descia rápida. Só na alma de Benedito. Da parede. na tropelia do campeio. quase o trespassava também de vez na mata. mas um novilho de nhá Lica. tirando uma fumaçada distraído. E uma semana havia já que estava no Quilombo. indo pegar no pasto a Pelintra. mal o pensara já apanhava o cabresto. com as suas chistosas galhofas e o riso brincalhão sempre pronto a desabrochar nos lábios escarlates. numa tarde calorenta como aquela. nem mesmo sabia quando lograriam pôr-se de novo a caminho de casa. de que era preciso desviar-se a todo o custo. imobilizava a natureza. na forma do costume. dera-lhe ainda pancas por uma boa estirada de tempo. não tivera tempo ainda de pensar naquela alegre companheira de folgares. Mal pousou a cabeça sobre o punho da rede. e a cabeça mais parecia uma zorra a zumbir. como não compreenderia nunca a sua dedicação a toda prova pela causa do fazendeiro. numa letargia contagiosa.. na boca da mata! Metido na macega.Assim. e embalado num devaneio intraduzível. enfim. . como um cão danado remordeu o remorso. com um bando de pássaros-pretos que gorjeavam no coqueiro da cerca. que penas e aborrecimentos tantas vezes lhe poupara. na sonolência que o quebrantava. sob a guarda de Fidélis. formas estranhas começaram a passear-lhe a imaginação.. ao badalar do sino chamando os fiéis à novena e à alegre garrulada dos pássaros-pretos nos coqueiros do adro. três anos e tanto atrás. catando no tijuco uma minhoca para a ninhada de pintainhos. que recolhia agora à sombra dos laranjais. as mãos ardendo do cabo da machadinha. o bico semi-aberto de cansaço e insolação. que. emudecendo no terreiro o terno cacarejar da criação. que ao recolher o gado apanhara quase toda na chapada. ele trazia as juntas doloridas. e se pusera a picar no batente da porta o fumo do cigarro. que até mesmo recusara a mão de sal no cocho da salgadeira. Benedito recolheu-se do campeio. não compreendia a fuga do nagoa. sob as taiobas do açude. a sugar ávida a água do rego. vira-a a vez primeira no arraial. ao virar das onze e meia já tinha todas as reses encostadas num furado. Assim. alentado meio-sangue reprodutor. que abrasava. a ampliá-lo e a exagerá-lo dum modo bizarro. ocorreu-lhe súbito a lembrança da Chica. ao abrigo da soalheira. já uma camoeca molesta chumbava-lhe as pálpebras. deixado n'alma pela revelação de Malaquias. que acreditava vergonhosa. modorrava na rede do paiol. aquela dura soalhada que nas intermitências das chuvas castiga o solo goiano. A grande luz faiscava intensa na fachada do edifício principal. do incômodo modorrar a um ligeiro sono reparador. E quando veio o crepúsculo. e. o pampa meio bambo da labuta. Chegou moído. uma tênue e impalpável poeirada ascendia. a provocar terçóis e inflamações noturnas à vista de quem desastradamente ali detivesse o olhar sonolento e deslumbrado. Ajudara Fidélis a tanger o gado até a malhada próxima. punha-lhe as artérias a latejar. encarniçando-se às vezes sobre um pequenino episódio do dia. ou tinha sempre à vista um galho atravessado na galopada.

– Mulheres!. – Cousas. Fez com ambos os canos fogo naquela direção. ouviu a mulata que dizia: – Não foi nada. por maior cautela que pusesse em dar volta ao fundo da casa e aflorar de sobreleve a porta em duas breves e secas pancadas. e outra fala descansada de homem atalhando: – Não é preciso.. depois alteou-se a voz de Chica. pôs-se a suspirar. assentou sucessivas patadas à porta. Escutou a cama ringir. aos ganidos. a repuxar a barba.. mas entre o dever e a amizade. O guegué fazia-lhe agora festas entre as pernas. pensativo. já a cólera o colhia repentina. Lá dentro houve um rumor de conversa abafada. deixando arreada a mula no rancho dos tropeiros. achava-se de novo cá fora. e voltou espumando ao interior. duas esporadas no vazio e a mula atravessou a cancela escancarada num galope mal contido.. e dizendo ir cear no povoado. três. voltando-se na sela. resistiu ainda. diacho de bicho abelhudo! É tratar antes do que é da sua conta. descarregando-lhe por cima o peso da preocupação em que vinha: – Mulher. deixando uma abertura. indagou: – Quem era? Quem?!. a orelha aplicada à fechadura. duas. desviado na sombra. Num pulo d'onça. a reconhecê-lo. resolvera calar. voz dum macho lá dentro.Deixou-se ainda ficar dous minutos no curral. Tinha uma dúvida a doer-lhe a consciência quando o moço se despedia. Ela abaixara a cabeça. por onde enfiou como uma cobra o braço. apegada ao oratório. lá vou ver. relambendo o cano das botas. que o via ali parado à soleira.. meio irado. Ele permaneceu silencioso. Àquela voz. e. dum rival feliz. Eram onze horas menos um quarto quando. Entanto. matutando. cuja taramela cedeu à quarta. certamente a vaca que vem aí lamber todas as noites o barro da parede assanhou o cachorro. Como um raio entrou na cozinha. sempre despertou o faro do guegué no palheiro. lamuriando a intervalo das lágrimas: . E num repente. na ânsia de ganhar o chapadão. no galope sustado da rosilha. E o patrão que punha tanto empenho ao ordenar-lhe que em caso algum deixasse a fazenda. criatura! – interpelou-o a mulher. E sumiram ambos numa depressão. Depois. E não falaram mais naquele assunto. numa súbita desconfiança. dando talvez passagem ao fugitivo. – Que é que te põe assim macambúzio. que investiu às cegas. De novo a voz de Chica perguntava quem estava lá fora.. deu às carreiras rodeio à casa. e pô-lo depressa a caminho do palheiro. que estava posta. e lobrigou ainda um vulto que descia apressuradamente a ladeira. retirando a tranca. quando ouviu ranger lá dentro a janela que deitava para o oitão. e uma.. e já forçava a porta do quarto. – Hum! temos aí marosca feita. deixa-te estar. a fazer diversas recomendações. que indagou medrosa: – Quem está aí? Não respondeu. homem de Deus? – não perguntara por mal. Benedito batia longe. como que duas pessoas se interrogavam precipitadamente. e assim de joelhos. Arrancou-lhe num safanão o rosário dos dedos. apurava o ouvido à escuta. pra que tanta zanga. mas achando atrás anteparo numa escora. E recolheu-se. em todo o caso. onde Chica rezava de joelhos. – Sinal de que volta logo – ainda bradou de longe o cabra a rir. – Também. proseando com João Vaqueiro. enfiando o casaco. e já aquietada. e o gesto transmudado. ladrando desabaladamente. Um pontapé no ventre. deixa os outros em paz. galgou com vagar a rampa que levava à casinhola da Chica. a garrucha engatilhada. descarregando o ar da barriga. a chorar copiosamente. junto ao leito desmanchado. – Hum! hum! – pigarreou João Vaqueiro. após recusar o convite para a janta.

jogou-a de bruços de encontro à parede. de cão corrido. perdida a tramontana. a candeia entornou-se e apagou. retribuídas aos ganidos pela boca convulsa da amante. Depois... varrido numa raiva que não tardaria em pouco a explodir nalgum desmando.. e. na semi-obscuridade do aposento. a repetir em desatino. deformando e ampliando em torno os objetos dum feitio estranho. e àquela desordem dos trastes. – Não chora!. achou-se de todo desorientado. suavemente. em que tentava. dobrou-se sobre aquele corpo que lhe opunha apenas a morna passividade dum silêncio obstinado. e.. estancarlhe o pranto ao rosto esbraseado. Batia o pé no chão. a coronha da arma chuchou-lhe o peito. numa onda de sangue. reagindo contra a natureza que o traía.. Ai! Jesus!. a unhadas e mordidelas. com igual furor. com rancor: – Quem era? Quem?!. derrubou-a de novo arrebatadamente.. violentou-a com selvageria. estupidamente. pôs-se a festejar-lhe as faces mansamente. na inexplicável comoção que o ia insensivelmente invadindo e era como que a gota d'água na fervura.. a negar toda a certeza daquele amor passado. num esforço: – Mas quem era. enfim.. levantou o queixo à mulata que tremia. e furiosamente. acordou-lhe brusca no espírito a cena da véspera.. Pela altura do sol. já devia passar de meio-dia.. aos rugidos de fera. atirou-lhe o primeiro pontapé às nádegas. que ainda se conservava cerrado. chegou à janela. diz. assentou-a à borda da cama. da fidelidade e obediência antiga. Ora veja. lembrando sestas fervorosas e noitadas mais felizes. rosnando sempre o estribilho feroz: – Quem era? Quem? Afinal. noutro tempo familiares. cerrando os punhos. vamos. como tivesse ainda em resposta aquele choro frouxo e contínuo.. puxando o tampo. e. Aquela inércia exasperava-o. já dementado. apenas soluços. num último e sanguinolento lampejo. XI A luz batia em chapa no forro de telha-vã. cortado a espaços pelo estrangulado soluçar. que molenga!. e. Levantou-se às tontas. Não foi nada. ergueu-a com cuidado. mordendo os beiços. embalde. A um solavanco da mesa. não se recordou da hora nem onde estava. as roupas atabalhoadamente atiradas aos montes pelos cantos. uma suspeita súbita cresceu-lhe na mente superexcitada: . – Vamos.– Ai! Jesus!.. numa impulsiva revolta. que lhe foram. com igual paixão. interpelou de novo. quem? Não faço nada. num arrependimento mudo agora.. quando abriu os olhos daquele sono de pedra. a ver se conseguia obrigá-la a erguer o olhar culpado. bestialmente. Então.. Voltou-se então com a claridade. E já sentindo que ia em breve fazer acompanhamento àquela choradeira desatada. diabo! Quem era o homem que estava aqui contigo? Soluços. mas o aspecto desordenado dos objetos. passeando-lhe o corpo com as botas. sacudindo-lhe dolorosamente as arcadas do busto farto. que o rodeavam. estripando o seu conteúdo numa profusão de peças revolvidas. e o olhar baixo. eram a resposta às sucessivas e impacientadas perguntas. pisou-a um instante barbaramente. Ante o silêncio que mais uma vez o acolhia. e à luz do candeeiro que espalhava o seu clarão amortecido aos quatro cantos do aposento. Fustigou-lhe o rosto com as contas do rosário.. um pasmo repentino sopitou-lhe a ira. Encontrou-o deserto e frio. E foi com mal sofreada ânsia que procurou ao lado o lugar de Chica. os baús abertos. num assomo para o qual já não havia freio.. A princípio. o olhar chamejante. tateando. e desandou a espancá-la.

Fugira a cabocla! Procurou-a ainda pela casa. à saída do povoado. desconversou com a companhia. se fosse com os demais. Fez uma ligeira ablução na água da cacimba. metendo o animal no trote picado. o Malaquias. abriu num galope furioso. só em pôr o pensamento na imagem da Chica. esbaforido. numa tocaia que fizeram junto à cruz do Ambrosino. atestavam bem em evidência a partida precipitada de sua moradora. Com o vento. numa rodada desastrosa. e conduzi-lo amarrado ao Quilombo. o que não aconselhava. Passada aquela onda de chacota. vergastando os ramos que encontrava dobrados sobre o caminho com o cabo do piraí. após o que cravou esporas na besta. Bentinho Baiano e Generoso das Abóboras ao lado. veio logo uma secura à garganta. Lá ficaram os quatro à espera. não fora a segurança do cavaleiro. Já lá no fundo da baixada o mato da Estiva avolumava o seu listrão sombrio de frondes ramalhudas. dizendo vir apalpar o terreno e dar-lhes aviso quando aparecesse o vulto do moço na estrada. batendo os recantos. na marcha esquipada. e pela estrada. impondo silêncio. Dito. Era um vulto. seu Dito. molhando a fonte e os pulsos. O patrão chegara. viria ao chão. só vive para aprontar maldade! E mais a mais. Fingiu aceitar e deram-lhe aquela clavina. Corria à rédea solta. Mas adiantara-se apenas para inteirá-lo do perigo e prestar-lhe o seu auxílio. se preciso fosse. aquela alma do diabo é que nem cobra. refletindo. de que não compreendera ainda patavina. caso resistisse. o seu corpo luxurioso e fresco nos braços daquele . tomasse cuidado. De repente. deixou-se ficar mais dous minutos na venda da Maruca. disposto ao que desse e viesse naquela embrulhada. morto ou vivo. e esperou firme sobre os estribos. e já montado. a jararaca ia mostrar agora toda a peçonha que tinha. pedindo atenção. para num salto transpor as barranquias. passarinhando para o lado. cortando o jejum com um rebate de meio dedal de cana. se não me está a cheirar que ainda hoje vejo o melaço dalgum desgraçado correr na ponta de minha franqueira! Insensivelmente. O preto. – Ora. – O patrão tem gente à sua espera para o prender. uma escolta de Zé Velho. rumo do Quilombo. armado duma clavina. Era pois aquele velhote perrengue que se lhe metera com a Chica! Bom achado! Quem havia de tal convencê-lo! E aí estava explicado o silêncio birrento da mulata e a sua fuga pela manhã. Dissipavam-se as dúvidas que viera entretendo pelo caminho. matando-o mesmo. e João Vaqueiro. pela manhã. na estrada. volta donde veio e suma no mundo – disse o nagoa. avançou cauteloso. engrossado pelas chuvas da quinzena. na fazenda. O outro. E explicou. – Seu Dito. cuja boca revirara prudentemente para baixo. cabra! Calango de chifre e macuta furada. e. quanto a ele. propôs-lhe em particular a desobriga da conta e mais uma boa molhadura de vinte mil-réis de quebra. a acalmar a efervescência do sangue. Bem dizia! O outro ouviu de mão no queixo. vinha o marulhar cachoante do córrego nas pedreiras deslavadas. mas a ausência dalguns objetos preciosos guardados em certos escaninhos que sabia. vindo então com os outros emboscar-se no córrego da Estiva. – Bem dizia eu. que surdira como que por encanto de trás dum oco de pau. que patusco! Mas o sangue de todo não se lhe acalmara ainda nas veias. a Pelintra estacou em dois corcovos bruscos. mais parecia caçoada. o xale desaparecido do cabide e a porta às escâncaras. que não achara ainda onde descarregar. meio ressabiado. O álcool agiu depressa naquele organismo. que tinha Seu Dito em muita amizade e com o qual não queria questão. que desde a véspera não ingeria alimento algum. deixando ao lado os pinguelões das ribeiras. alisava a coronha da garrucha. metido em fuxico de saias! – Então. com as esporadas que ia acrescentando ao ventre da besta. numa fúria mal recalcada. e desceu ao povoado. caso pretendesse mesmo afrontar os capangas. ora. Não se deteve mais tempo a averiguar. Depois de ter mandado soltá-lo à casa do tronco. entrou a bazofiar: – Vote. sob o sol que assava. um dedo ao beiço. e. começou a sentir saibo de sangue na boca travosa. esperar a ele.

vejam só. antes que me desande no campo a descendência de alguma potranca de estima. levantando as mãos no ar. Benedito penetrou as primeiras árvores da Estiva de sobreaviso. fareja depressa a sorte que o espera no moirão. prelibando o gozo da vingança. Num fechar d'olhos estava desarmado. para o seu destino. enxotada a Pelintra à frente. que o fazia crescer meio palmo na sela. e atravessando a arma à bandoleira. ora a outra banda. Mas a cólera rugia-lhe dentro demasiadamente violenta para continuar naquele enxurro de chufas. retirara-se para o seu rancho e. E os braços enredados pelo arrocho da correia. Depois. que os da matula entraram sem detença a tocar. na mais fera e imperiosa bruteza do instinto animal afrontado. Passou o dorso sardento da sinistra pelos beiços. empunhando um forcado. para a sua perdição. onde se empoleirara. já Benedito afastava-se. que estadeou às ventas da Pelintra. e que devera ser o mesmo riso de Pêro Botelho às voltas com as almas do Purgatório. saiu ao terreiro.. rumo do Quilombo. a alimária. batendo a poeira leve da estrada com as suas alpercatas de couro. como que para detê-lo ainda a tempo. nunca viram? Pois o bicho parece mais esperto que a gente.. rumo da Estiva. pesquisando. rédeas aos dentes. pachorrentamente. atirado certeiramente pela mão de João Vaqueiro. a repuxar-lhe os cantos da boca numa careta horripilante. o vulto do negro aprumou-se no meio do campo. os dedos da destra crispavam-selhe no cabo do quicé como cunhas. debruçado a espaços. O cavaleiro mal teve tempo de sofrear. Zé Velho e Generoso. Então o fazendeiro despiu o paletó e arregaçando as mangas da camisa. enquanto forcejava com os cotovelos. rosronou à companhia: – Que diacho de estupor é esse! Isto é lá cousa do outro mundo? É esta a primeira vez que trazem à porteira um poldro madraço em vias de capação? Pois as éguas do meu pasto não foram apuradas para roncolho dessa laia! É pô-lo manso. indefinível. olho à direita. depois comandou: – Amarrem o homem no curral. e. encostado ao poial. quando. está que nem bezerro desmamado!. Mais uma vez. voltando a fronte bronzeada e deprimida ora a uma. Generoso insinuava-se como uma cobra sob o ventre da mula. Entardecia quando o coronel. que distribuiu às canecas pela capangagem. abafando todo o respeito antigo. e uma necessidade imediata de desforço mostrou-se-lhe clara. olho à esquerda. E ainda bem não deitara o olhar investigador a uma pequena moita suspeita de marmelada. a cada palavrão. impaciente. fincando esporas. do alto duma árvore. numa arrancada veloz. sobre a ponta do qual agitava um molambo de baeta. caminho do homízio e do sertão. alumiou então o rosto do fazendeiro. num capoeiral da volta da estrada. uma revolta sanhuda sacudiu-o dos pés à cabeça. tinham metido os trabucos ao ombro. ficou de longe espiando. uma comprida folha de quicé debaixo do braço. deixem apenas pés e mãos manietados.. eriçando-lhe as falripas do rosto. ao peitoril da janela. saltou-lhe dali à frente o Zé Velho. cego. sob a sua carga humana. . no refugo. a garrucha numa das mãos. Mandou vir da armazenagem um garrafão de restilo. Deteve-se a amolar o ferro à piçarra do rego. soerguendo o busto agigantado. João Vaqueiro. zombeteiro quase. ao aproximar-se. duma expressão maligna. mordendo os beiços. e já lá iam distantes. cumprida a sua obrigação.. Tremia-lhe a voz. tirem-lhe os estorvos do corpo. num facies de riso alvar e cínico. fechado o corpo com o trago da pinga e embolsada a maquia da peita. resignado.velho coroca. e ia arengar no intuito de demovê-lo.. os viu chegar. Um riso surdo. enveredou por um trilho à esquerda. e já animal e cavaleiro desapareciam além. Pelo lume dos olhos e o arreganho involuntário do gesto. derrubando-o pela perna. e um laço sibilou-lhe à cabeça. pronto a varrer qualquer tiraço na lã grossa do pala que desdobrara na outra. Então Malaquias encolheu os ombros. Uai. tolhido e atirado como um fardo ao lombo da besta. Malaquias percebeu-lhe logo a intenção..

. à espera de que aquele pesadelo de chumbo. de novo partida. peludos. Já aquele pastor intrometido não sairia mais pela redondeza a importunar-lhe as potrancas de estima. Entretanto. os olhos. e foi lavar as unhas sujas no limo do rego. sem coordenação. e não era ele que ali estava jugulado pelo laço vaqueano. por ali iam de passagem. É pôr-se logo de pé. Era um grupo de representantes do povo. E a camisa muito curta. se lhe embaralhava na mente. a arroxear-lhe os punhos intumescidos. num corte hábil. Mas como aquele. e dali ao pelourinho do curral.Para Benedito. atado ao poste de tortura qual novo São Sebastião. não exprimiram uma só queixa. Que significava aquela lâmina reluzente. A cabeça pendida sobre o peito. apressados como estavam em chegar ao término da viagem. naquela interminável tarde sertaneja de verão. e veio estacar junto à cancela do mangueiro. acordou-a de manso. esses. separou-os de vez. assistiraos a muitos. e fechou-se na casa-grande. uma das mais legítimas influências.. as palavras do fazendeiro ressoavam-lhe à orelha sem significado. João Vaqueiro. que nos vamos daqui embora para nunca mais. Desde que se sentira atravessado na Pelintra. em papos fofos. Tratos... seqüência da excitação em que viera até aquele momento. paralisara no cabra a máquina do pensamento. cujo fio o patrão experimentava na unha do polegar e a fitá-lo sinistramente? E a cadeia de idéias. Modorrava. avisou: – É pôr-se logo de pé. a assumir as suas respectivas funções de deputados e senadores no Congresso estadual. e baixo. onde já voejavam moscas varejeiras. punhos cerrados. Deu mais uma vez ordem a que atirassem com aquela rês pesteada no quarto escuro do tronco. encostado ao poial. que depôs num moirão do cercado.. na vargem em sombras. de formas e maneiras várias. Deixou-se amputar em silêncio. aos quais deu em cruz a laçada de uso como se faz aos marruás. Dados os dois talhos longitudinais. Num gesto rápido. como uma rês abatida. o operador espremera os testículos. . a quem era indiferente. Aos últimos raios de sol a ferir obliquamente a cumeeira da casa. A roupa caiu-lhe balofamente aos pés. quase choroso.. pedia castigo divino! Entrou no seu rancho pobre de sapé. sem movimento quase. e o mais forte esteio do partido no município. coronéis e fazendeiros pela maioria como o senhor do Quilombo. tudo lhe parecera como num sonho. sobre cuja esteira de jirau perrengueava a mulher.. numa recaída de resguardo de parto. que o estertor desordenado das arcadas do peito soerguia a breves intervalos.. como um vago e longínquo zumbido de maribondos. recolhia os despojos sangrentos de sua vítima num caco de telha. ali se detendo apenas dous minutos para um aperto de mão ao correligionário político do lugar.. dá de sobra para a nossa desobriga. Mas a boca. olhava aquela cena. cruenta.. em que a sua personalidade semelhava desdobrar-se. junto aos lavrados que possui. à maneira do que lhe acontecia nas horas de febre – quando dormitava das soalheiras apanhadas na labuta do campo – se dissipasse ao vir da noite. que abriram. o coronel. olhos esgazeados. e repuxando os cordões. penetrando ruidosamente no pátio onde havia pouco se desenrolara aquela execução sumária.. uma prostração profunda. Estava consumada a operação. A operação foi demorada. nessa e em outras fazendas do interior. olhava sem compreender. que eleitos pelos círculos vizinhos. de Hércules rústico. nas primeiras frescuras orvalhadas do crepúsculo.. Iam prazenteiros e satisfeitos. dolorosa.. o coronel desabotoava-lhe d'alto a baixo as braguilhas da calça. uma alegre cavalgada apontou ao longe. a julgar pela contração intermitente de seus lábios convulsionados. sem mais palavra. finda a tarefa. A marca de tala deu boa porcentagem este ano. com o qual não tinha a mínima relação... mostrou uns flancos robustos. e sim um outro indivíduo estranho..

criação e mais gado miúdo. Gente ordinária até ali. sob a frialdade das noites. na azul transparência daqueles céus de abril. na chapada.. – Fez muito bem. para que persistir naquele pedaço de terra. sob um sol de rachar. e mesmo.. Nas nascentes. tocando adiante da família maltrapilha os refugos de gado que conseguira ressalvar no seu ajuste final de contas. donde urros de endemoninhado saíam na noite. o enterro de nhá Lica. Já o inverno vinha próximo. montam-nos o pêlo de botas e esporas. valendo-se de novos contratos com fazendeiros do arredor. após lenta agonia de uma semana sem pão e sem água no fundo da casa do tronco. era a nênia fúnebre que acompanhava. . que ofertava. fizera-lhe tantas vezes acompanhamento o grito triufante de nhô Dito. das ferropéias dum jugo para as de outro.. Também. Morrera o infeliz. traste imprestável e traiçoeiro. com uma dívida de um conto e quinhentos mil-réis no costado por pagar. É que ali. tão ingrata e penosa agora de rever pela maldade dos homens? O patrão recolhera-se a Curralinho. mais além. E. tangendo à frente dos seus remanescentes da antiga manada. numa passividade fatalista de rebanho.Enquanto se serviam do café. Por último João Vaqueiro. se soubesse que aquele seu descante agoniado.. quem sabe. contou-lhes por alto o fazendeiro o acontecimento do dia. a bela voz do vaqueano já não tinha aquela sonoridade vibrante de outrora no ecoar do aboiado. morreu-me um dos tais. benfeitorias. lento e lento o tempo começara a sua obra de estrago e desconforto.. sob os gravatás e ananases da beira da cerca. rumo incerto de distantes terras onde iria recompor a vida transtornada.. só serve mesmo para nos dar prejuízos e cabelos brancos. XII Na fazenda. nas vargens de mimoso e jaraguá.. Ainda a semana passada. onde estava a família. fazia-se triste e compungida ao acentuar as notas derradeiras da cantiga. onde o tinham a mando enterrado. na tarde que baixava. Um a um. mais duro e cruel. Assim. coronel!! – disse um da comitiva. a água dos córregos ia escasseando. agora erma. e que – pobrezinho – lá ficava agora esquecido na fazenda. naquele mesmo trato da campina. pusera anúncio nos jornais da venda do Quilombo.. a sonhar o seu sonho de paz e de ventura noutra vida melhor. que ali se deixara ainda ficar. ao acompanhamento lúgubre das aves de má morte no telhado.. com pastos. lutando embalde com um atavismo de condição que o trazia atreito àquelas paragens. Emudecia em torno a natureza. se não mostrarmos energia.. que essa gente. as últimas galas da estação. que vira crescer e tornar-se homem sob o seu olhar desvanecido. a filha do fazendeiro. morta em Curralinho de tristeza e paixão. E mais dolente e compungido se faria decerto o sertanejo. os camaradas do sítio se tinham ido. e ao chiar do carretão que conduzia cambotando os destroços de seu lar desfeito. – Pois não. arrancou-se uma clara manhã.

histórias e lendas. que faz a prosperidade do município na lavoura. voltando à tona o seu corpo tempos depois. mais vivos e constantes são os atestados do delírio avoengo em esmiuçar. ainda intacto. Como Goiás. irradiando em torno um brilho de mil chispas e centelhas. tomados de febre de riqueza e inovações. quando a superfície se lhe aquieta. do ouro. que o mistério do sítio. ao mesmo tempo que bonachona. Serenada a agitação das ondas. alisado o espelho translúcido na queda da aragem. eis de novo. Contam moradores e viajantes que. zelam e guardam para sempre inviolada em seu retiro. mui longos anos habitadora daquelas águas remansadas. na criação do gado. extinguiu-se a febre da mineração. ficou. velam de melancolia o olhar do viandante que demanda àquele recanto do Planalto. lavras. tudo jaz ao abandono. uma coma verde de gordura corre a crista dos valos e carreiros. Ficou-lhe. uma população pacífica e laboriosa. veeiros revolvidos. para delas dar cibo e páscigo à sede do luxo. pasto de lambaris. a pedra maravilhosa. porém. Meia Ponte e Vila Boa de Goiás. cousas mortas que a mente aviva e a tradição redoura. um ponto qualquer de contato com a verdade. Foram-se os antigos bateeiros da descoberta. cujo estranho fulgor inebria e cega de deslumbramento e cobiça os olhos mortais ali empenhados. Escavações profundas. papa-iscas e mais arraia miúda do lago. hospitaleira – aspecto esse que se vai aos poucos apagando dos burgos e vilórios progressistas mais próximos da linha férrea. a refrangência. de feição pesada. ocupando o espaço de duzentos metros mais ou menos de circunferência. o cunho dos núcleos coloniais do século XVIII. estilo barroco. esboroando-se nas chuvas.. o desvio de seus raios e momentâneo desaparecimento da visão assim lhe perturbem o imoto cristal. * * * . às bordas da frágil igarité. debruçadas à beira da lagoa. Embalde é a teima porém. página heróica do esforço extinto da raça.. E à medida que se aproxima de seus arredores. embala-a o mesmo sono de duzentos anos de Bela Adormecida. como um sol submerso. é a do Poço da Roda das mais populares. restam. barrocas solapadas. guarda ainda. as entranhas da terra. que à memória apraz reviver. a aurifulgência de seus raios mágicos ante a adoração das florinhas anônimas. à luz forte do dia. das quais. já então em via franca de decadência. talvez porque haja no fundo.. mui transparente e cristalina na calma circundante.. com as reminiscências da época da descoberta. uma enorme pedra responde do fundo das águas aos fogos do meio-dia. no ermo de um descampado. no comércio das letras. Da primitiva exaltação. argilosos e tristes. como na maioria das lendas. E se um. simplória e. volve de novo à tentação da miragem e mergulha mais uma vez no lençol silencioso e frio. em outras profissões liberais. ao esplendor bizantino da velha metrópole. do litoral. pois. em vão.A Madre de Ouro Poço da Roda. cujo encantamento curiosos e mergulhadores tentam. minas ao desamparo. Arredores de Bonfim BONFIM é uma das cidades mais antigas de Goiás. Como suas irmãs mais velhas. o antiquado perfume de antanho. fulgurando. outrora sacudidos pelo estalo do relho dos feitores e o grito angustiado da escravatura. mais afoito e sôfrego. com a sua inconfundível arquitetura reinol. É a Madre de Ouro. a profundidade do poço. Alveja em montes o pedrouço das formações à beira das estradas. surpreender o segredo. sabor que não têm ou já perderam os centros mercantilistas. a Triste. catas. a Madre de Ouro aviva. as aluviões de aventureiros e desbravadores à cata do rico filão. minas. Fica nas proximidades de Bonfim. vago encanto do passado. sob muitos aspectos. e de longos. estripando-as. Hoje. na lavagem do cascalho. em devassar-lhe o líquido arcano. enraizada. à busca do encantado tesouro – obscuro Alberico a quem faltou o anel dos Niebelungen – logo o pune de morte a Madre gloriosa. como tradição.

pedrouços. cujo termo é a explosão do meteoro na noite silenciosa. toma na cozinha da choça um tição em brasa. fenômeno que o olhar aparvalhado do matuto observa.. cede a Aparição ao sortilégio do homem. corre ao limiar e faz no espaço uma cruz de fogo. calhaus e blocos. Logo.. a passagem da Mãe de Ouro cortando o céu estrelado com o seu listrão ardente. detém a sua carreira vertiginosa. E tal como a ouvimos. E depois. filha do cósmico deslumbramento e da superstição primitiva. pelas noites claras daquela terra de várzeas e chapadões e de que gera a imaginativa a sua lenda. continua entanto a sua peregrinação através de outras paragens do rincão goiano. numa viagem aérea. lascas. no ermo da noite. muitas vezes. e arrebenta em estilhas. Se esplende ali a Madre de Ouro sepultada no fundo do Poço da Roda. tudo de ouro maciço e do mais puro quilate. no interior. toca a catar e a meter no surrão aquela fortuna inesperada. o seu quebranto consta do seguinte: Quem escuta ou vê.Tal é a lenda nesse trecho do território. . História que tem a sua origem nos bólidos.

e ele perdera o roteiro. isqueiro molhado. patrãozinho. – Como dizia. fazendo lembrar uma viagem que fiz ainda na meninice com o tio Hilário pela lagoa dos Xarais. tenteando. repetiu: – Noite escura e má. – Ó de casa – repeti. a brandura do sol e limpeza do tempo. nos fundões de Mato Grosso. chupava grosso o cigarrão desacoitado da orelha. O tempo era bom e a viagem prosseguia como tinha começado – sob bons auspícios – e o camarada contentado. alegre como a amenidade do lugar. Imitei-o devotamente. comendo dúzias de léguas. vinte anos. cabeceava macambúzio. num trotão bruto.. que veio esbarrar. e assunte que o bicho crioulo não encapotava assim. sorumbático e caduco. debaixo da pontinha de vento frio que vinha dos pântanos. se não fosse sábado e dia de um santo da minha devoção. a fazer tretas e malícias para me perder. . chapinhando ainda uns restos de poços. na fiúza do faro de podengo do macho frontaberta. – quando foi isto. – Ó de casa – gritei. de orelhas arrebitadas. Trovoada e relâmpago eram que nem roqueira e foguete de São João. tenteando.. caburé e falto de festas de viola e pagodeiras desde Santo Antônio. eu era moço. nem a mim nem a ele. amiudou o passo. já à boquinha da noite. lembrando meu velho tio Hilário ao fogo da trempe de pedra. atolado no pantanal – um mundão de lameiro... onde o apanhou o pé-d'água. num descampado que deveria existir por detrás da restinga por onde trotava. por um bamburral danado adentro. sem qu'isso nos assustasse. tenteando. de sapo e de pernilongo. acariciando com o olhar o interminável verde-pálido ondulado do jaraguá em florescência. como o pinto pelado da história. decidi apear no sombreiro de um jatobá velho casmurro e resmungão. Nisto. farejando esterqueira. sinhá-dona. lá isso não. frontaberta. a ruminar lembranças e saudades da vida antiga de arrieiro. tinia as rosetas. descobriu a grenha hirsuta. patrãozinho. com dois trancos. – O macho frontaberta de orelha murcha e pêlo arrepiado como o pinto pelado da história. E naquele vira-tem-mão do taquaral esconjurado. – Pousada. ponche-pala encharcado e matalotagem virada mingau no sapiquá da garupeira. ateimado a passar ali mesmo o resto da noitada como Nosso Senhor fosse servido. a cabeça zanzou logo à toa. Embarafustara-me. na porta do cochicholo embodocado – que por sinal me pareceu palácio maior do que o do excomungado Balalão e mesmo o do santo imperador Carlos Magno – donde saía um fio adelgaçado de luz. couro de catingueiro curtido. desengonçando-se no pangaré piolhento. e vir esbarrar num bebedouro de animais. topando logo aquela restinga alagadiça. a bater na trilha ensopada e falha de cascalho. que. O vento mudou de lá pra cá e o macho crioulo. este não duvidou torcer mão direita. bufando forte. tão fechado de liana e cipó. O sertanejo velho levou a mão ao chapéu. Marinho? Em meados de 1868 ou 69. patrãozinho.. ao sair da mata grande. bucho fundo. e era mesmo malcriado para varar chapadões de sol a sol. acreditaria logo ser mitra do curupira. e o ponche-pala ia pingando pelo atalho em fora bagas de lama que lhe atiravam as patas do crioulo. Corpo mole. Tenteando. Ai. Tocou então sem rumo certo. no nosso rancho de Ipanema. quebrar por um trilho de bicho do mato.Pelo Caiapó Velho – NOITE escura e má. Mas louvado seja Deus – e o chapéu de catingueiro descambou novamente para a nuca do caburé – patuá com benzedura e reza mansa contra tentação nunca abandonou peito velho do caboclo. colhendo o cabresto do animal. carijó preguiçoso cantou doutra banda.. – Ó de fora – choramingou uma vozinha aflautada. e. do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. que me fez correr um arrepio de gosto pelo corpo. ganhara um serrote e costeou pelo espigão. Mas atoleiro era uma lazeira! Chafurdara-me no lameiro até o cabeção da cutuca. o macho frontaberta chapinhava de orelha murcha e pêlo arrepiado.

. mas que eram lisos e escorregadios como bagre fora d'água. – Mas. não sabia. que não. numa corre-coxia do diabo. deitei e adormeci – quase sem assuntar – no jirau da mulher. onde fumegava uma infusão escura e gosmenta: – O café! Outra longa e irritada estremeção correu pelo corpo do caburé. assim. a mais das vezes nem isso mesmo topa – que assim. debaixo de chuva. Não sei. a casa está às ordens. desencilhei o frontaberta. e assim. pelo breu da noite adentro. de lá pra cá e de cá pra lá. Saí fora. a falar verdade não oferecia segurança – e entrei. se for do seu agrado. cantava empoleirado no oitão do chiqueiro. Que não. O macho. quando a madrugada viesse amiudando. pela estrada poeirenta em cujas margens florescia o jaraguá altanado. com a cabeça zonza pela comida e aguardente no bucho que não via ração desde manhãzinha. que ele com pouco se contentava – um cuité de farinha seca com um taco de rapadura na goela e qualquer pedaço de couro velho para descansar o corpo. Ganhei o rastro assuntando o chão com o fogo do isqueiro já enxuto no calor do corpo. Quando levantei. . as primeiras estriadas do sol davam-lhe de testa nas bochechas rosadas da véspera e nas mãos que seguravam a tigelinha de barro amarelo. entrei distraído. beijando suas bochechas carnudas e empapuçadas. patrãozinho. ruflando caixa. E no moirão da porta. Naquela morna lassidão do descambar da tarde. preguiçoso.A porta de toros de buriti amarrados por corda de embira abriu-se e a hospedeira – que à luz da candeia espetada lá no fundo. Mas. como as cerdas de porco-espim acuado. pelo sertão sem morador. que julgava roliços e macios. batendo o isqueiro e chupando grosso. murmurou com uma espécie de tremor na fala: – Vancê entra. assim. Apeei. luxos e poetagens de não comer caruncho no feijão. Fora. o carijó. A fome. é certo. emudecera. a modo de carestia de azeite. e salpicado aqui e acolá de fios brancos – violentamente. que sim – que desde as barras do dia andava em jejum. já dia feito. Desacolchetei o ponche-pala.. como cerdas de canela-ruiva. dei-lhe a mão de milho do embornal da garupa. meio ajudado pelo nascer do dia. Encabrestei o madrasto no fundo de um grotão. me pareceu uma robusta rapariga de faces gordas. puxei-o depois para dentro da tranqueira no oitão da casa – que. entretanto. a falar ao certo. e esquentado. o ram-ram danado dos sapos e pelo beiral palha de arroz velha. que um ligeiro estremecimento fazia-lhe eriçar as falripas. assanhada. pronto pra cortar por esse mundão afora. que. que se abancasse à beira da trempe. bochechas rosadas e boa corpulência – alongando o pescoço para o breu da noite. mas voltei atrás sarapantado.. A hospedeira – era sozinha – na sombra da luz. sem mesmo ter enxugado os bofes com dois dedos de cachaça no fundo do cornimboque.. o estômago adivinhando. olhando atentamente para o companheiro. e gargarejei a boca com a última guampada que me restava de pinga. tinha pulado a tranqueira. me pareceu que a luz da candeia minguara. as barras vinham quebrando – era madrugada. – Ceei. Mas a gente neste mundo de Cristo. minguara. vi logo. enjeitava zangado. assim.. assim. mofo na farinha e coró e saltão no toucinho. patrãozinho. onde podia se remediar com uma tora de toucinho na feijoada. mesmo em seus braços. sinhô moço.. a fala sumiça da dona chamou-me de dentro: – O café! Entrei. na parede picumãzenta. embarbicachado e arreado o macho. Martinho. sacudindo-o dos pés encravados nas chilenas ressoantes à grenha hirsuta. levantando os baixeiros aos poucos para que o macho não apanhasse resfriado. Pela porta aberta. mas que não se avexasse a sinhá dona. a chuva amiudava – nunca me hei de esquecer. mas dito por não dito. apesar de tudo. O cabra. perguntou se tinha fome. A falar. pronto pra cortar. A chuva deixava de pingar pelo beiral palha de arroz velha da casa. era braba. O estômago farejou toucinho com ranço e feijão bispado. a vida do tropeiro é remédio bom para acabar com quindins. ia atalhando ela. já estaria de animal aparelhado. pareceu-me.

O pangaré piolhento corria agora mais apressado emparelhando-se ao meu fouveiro. na cadência monótona.. ritmática de viageiro. a escaiolada e vasta pousada abria-nos os braços hospitaleiros no meio de uma fartura de currais coalhados de gado.– Patrãozinho – e o sertanejo cuspiu forte para ambas as bandas da estrada – das bochechas e beiços arregaçados num vermelhão de apodrecido da rapariga. E como inquirisse admirado. como se quisesse arrancar do amo o peso esmagador daquela recordação do passado – que fazia o caburé contorcer-se em convulsões furiosas de vômitos na cutuca – quando. corria visguenta e fétida por entre uns tocos de dentes amarelos – patrãozinho – uma baba de empestado. . e longe. por uma noite tenebrosa d'invernada.. A estrela boieira ensaiava já o seu brilho lacrimejante engarupada sobre os cerros. pela estrada esmaecida e pulverulenta em fora. num pacatá furta-passo.. viajava escoteiro pelas estradas ermas e alagadiças do Caiapó Velho..... patrãozinho. Os dedos da mão.. macutena. na ribanceira do descampado. regougou noutro acesso de asco: – Macutena. não os havia.

. segue o alazão caminho afora. silêncio absoluto. E o aguaceiro molinhando. a rama superior. Encachoeiravam-se longe. muricizeiros abriam-se em flor. no silêncio eterno da minha solidão. como antigamente. escapulindo-se por uma ligeira aberta rasgada no folhedo pelo vento. no silêncio eterno da sua solidão. desengonçado na sela. ruminando saudades. e passavam alto. nessas primeiras chuvas de outubro. . das orlas de mato longe. em férias. quando não vinham. Dia em meio. Nas beiradas de mato dos barrancos – onde o carreiro se cavava fundo pelo trânsito continuado – marmeladas-de-cachorro ofereciam os seus negros e brilhantes frutos maduros. Assim. duas léguas ainda a andar. entanguidos. cantavam galos perto. acaçapando-se. como se uma grande e fantástica mó andasse remoendo cristais pelo céu de cinábrio. rumo do sítio. cabeça baixa. sigo eu. cabeça baixa. de frutas sazonadas. no cimento molhado da rua e nas vidraças embaçadas do meu quarto. através duma tela úmida as paisagens distantes de meu torrão natal. prosseguia. pelo alagado trilho de argila vermelha. e sobre a extensão imensamente esmeralda daqueles desertos rincões. no nevoeiro. prosseguia. em matinadas hostis. um macho perrengue de aluguer. Aí. sentindo sob o pala de viagem a água cirandar forte. na folhagem. ao fundo. Dentro em pouco. nulificando-a.Dias de chuva CAI a chuva lá fora. sob o pala quente de viageiro. pendiam. sob o pala de viagem. em surtos rasteiros de carnívoros.. E chupitando a fumaça de minha cigarrilha de palha. acelerando a andadura do animal. o ruído da chuva. naquele seu grande choro de desconforto.. Olhava: era um sítio. tombava – poc! poc! – na camada espessa de folhas podres que atapetavam. paineiras esgalgadas e pequizeiros copudos dos cerrados. quedavam-se sonolentos e marasmáticos a olhar do cimo desnudo dos galhos secos das encruzilhadas. apenas um ou outro grosso pingo. deixando atrás. E. sob o pala. escondida nas sombras. crinas pendidas. chapinhando pelo rego das enxurradas. tomando o passo. por onde passava ao largo. transposto o córrego. densamente fechada. o carreiro calmoso. e. metia a cabeça.. em meio o rendilhado sombrio da floresta por onde vou. e perfumes intensos de baunilha e flores silvestres evolavam-se da mata densa. e o alazão. Às vezes. cracarás corriam escrutadores e solertes pelos campos. E agitando as rédeas em abandono no arção. ou o lépido alazão Dourado. ensopando os campos. – cães latiam dos currais e porteiras. as saraivadas. com eles. cavalgava eu por essas estradas ermas da minha terra remota. as águas marulhentas de regatos perenes. por esses sertões. um morador. em cujas bordas carreiras viçosas de buritis contornavam capões. E – plac! plac! – arremedando como agora a chuva das goteiras. Vejo. um e outro mestiço zebu passeia pachorrento e indiferente. pensava: Aí ficam já os Peludos. ruminando planos futuros. esfalfar-se até os jarretes do Dourado. desce manso e manso. numa grande paz e conforto da alma. casais de araras e bandos de papagaios despregavam dum jenipapeiro qualquer de tapera o seu vôo balofo. atravessando-o a escorrer. cabriolando e verdascando sobre os serros longes. o espírito embebe-se-me em doce e longínqua rêverie. seguia eu cabisbaixo. Numa baixada. Plac! plac! ouço-a cantando em goteiras e cornijas. Não sei por que. ao misterioso e secreto entreabrir das corolas medrosas. quando ganhava a chapada. saputás polposos. ingazeiros encapotavam-se no alto. esganiçadores e embolados. A chuvarada continuava aberta. a silhueta pardacenta dos telhados. nos plainos baixos. Um grande ramo pendia às vezes. indiferente e esquecido do mundo. interminável e profunda. e afaz-se-me a que ando viajando. Gaviões. afogava. ou peneirando grosso. emperolado de orvalhada. O verde das campinas. o caminho internava-se novamente na mata bruta. cacarejavam galinhas-d'angola – cocás. à beira dos córregos. o molde de seus cascos ferrados. Nas várzeas umentes de jaraguá.. anos lá vão. num tom berrante de cores escarlatemente retintas. ficava para trás. E. E calculando. vincado. a resfolegar. ruminando saudades. tinha deslumbramentos intensos de seiva robusta e viva. E a floresta prosseguia. ao borrifo. num grande descaso da borrasca.. vendo o borraceiro descer. Em torno. em gritaria álacre de contentados.. abafando os passos..

sob a chuva ou a canícula.Ah! viagens e passeios antigos. nos pagos da minha terra! Quão longe e distantes sois! .