You are on page 1of 12

Heuresis.

Revista Electrónica de Investigación


Curricular y Educativa.

Vol.1, n2, 1998

http://www2.uca.es/HEURESIS
ISSN: 1137-8573

1
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

A origem da investigação-ação está


localizada nos trabalhos de LEWIN (1946 e
1952), com dinâmica de grupos, no sentido
de integrar as minorias, especialmente
étnicas, à sociedade nos Estados Unidos da
América. Ao mesmo tempo, procurava
INVESTIGAÇÃO-AÇÃO1 estabelecer as bases para a cientificidade
EDUCACIONAL: POSSIBILIDADES das ciências sociais, a partir de um trabalho
CRÍTICAS E empírico.
EMANCIPATÓRIAS NA PRÁTICA
EDUCATIVA No trabalho de LEWIN (1946), podem ser
percebidos os primeiros passos da
construção de uma nova concepção de
investigação que, sem desprezar a
objetividade e a validade do conhecimento,
procura firmar um novo status para as
ciências sociais. Convém, entretanto,
destacar que a proposta lewiniana não
carrega um componente emancipatório,
mais tarde desenvolvido por outras
vertentes da investigação-ação.

Pelo contrário, deixa ler nas entrelinhas de


Claiton José Grabauska seu texto uma preocupação mais próxima
e da integração de determinados sujeitos (no
Fábio da Purificação de Bastos caso, das minorias étnicas dos U.S.A.) ao
UFSM/CE/MEN/PPGE contexto social. Pode-se objetar, porém,
Campus Universitário, Bairro de Camobi que sua preocupação está em modificar
Santa Maria, RS, Brasil determinada situação, o que é correto.
CEP: 97105-900, Fone(Fax): 055 2208010 Muito provavelmente, por estas razões,
ou 055 2208023 suas preocupações e estratégias são
e-mail: retomados, posteriormente, em uma nova
fbastos@ce.ufsm.br perspectiva, mais radicalmente preocupada
claitong@ce.ufsm.br com a emancipação.

Entretanto, uma elaboração que permanece


utilizada até hoje, nos trabalhos de
investigação-ação, inclusive os que se filiam
a uma perspectiva emancipatória, é a
espiral auto-reflexiva: "A administração
1Os termos investigação-ação e pesquisa-ação são
social racional avança, portanto, numa
utilizados como sinônimos. No Brasil, a última
denominação é a mais usual; entretanto, prefere-se, espiral de fases, cada uma das quais
aqui, utilizar a expressão investigação-ação em compõem um ciclo de planejamento, ação e
função de esta captar melhor a profundidade desta averiguação de fatos referentes ao resultado
concepção de prática e investigação educacional.
Manteve-se, nas citações, a expressão utilizada da ação" (LEWIN, 1946:22).
pelos autores.

2
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

segundo, em que, transformada a realidade


COSTA (1991), traça uma breve história da opressora, esta pedagogia deixa de ser do
investigação-ação e assim descreve as oprimido e passa a ser a pedagogia dos
preocupações de LEWIN (1946): homens em processo de permanente
libertação"(1983b:44).
"Considerava [Lewin] que era possível
captar as leis gerais da vida dos grupos Importantíssimo no processo de
através de uma cuidados observação e transformação da realidade, ou na
reflexão sobre os processos de mudança libertação, para utilizar a conceitualização
social comunitária. Usava o termo freireana, é o papel desempenhado pela
pesquisa-ação para descrever um processo prática dos sujeitos. Prática que não deve
de investigação que se move numa ser confundida com ativismo, mas que deve
permanente espiral de ação-reflexão" servir de guia para o conhecimento e
(COSTA, 1991:48). possível transformação da realidade. Desta
forma, a partir de sua prática como
COSTA (1991) localiza em FREIRE educador, FREIRE (1983b) vai traçar um
(1983a,b,c) , com o "pensar sempre na dos princípios básicos de uma concepção
prática", e na Escola de Frankfurt, educacional libertadora, a qual iria subsidiar
principalmente por meio do conceito de a investigação-ação:
práxis, como duas das principais vertentes
que fundamentam uma nova maneira de se "Foi nesta prática de mais de dez anos que
realizar a investigação-ação. Escapando da ele [Freire] aprendeu a ser educador e
adaptação das minorias à sociedade, desvelou um princípio básico de sua teoria
pretendida por LEWIN (1946), a e prática educacional, ao qual permaneceu
investigação-ação começa a adquirir uma fiel - 'pensar sempre na prática' "(COSTA,
intencionalidade claramente emancipatória, 1991:48).
via o reconhecimento da dimensão política
da educação e da investigação educacional. COSTA (1991) destaca duas obras de
FREIRE (1983a,b) como exercendo papel
Estes dois aspectos - a dimensão política e importante no redimensionamento da
a intencionalidade emancipatória - colocam investigação-ação:
a possibilidade de tornar os professores em
geral e ainda mediados pela análise das suas "Este primeiro livro [EDUCAÇÃO
práticas pedagógicas, profissionais com COMO PRÁTICA DA LIBERDADE],
mais poder - "empowerment" - para agir no que depois é seguido pela obra
sentido da transformação, tanto destas PEDAGOGIA DO OPRIMIDO, repercute
mesmas práticas, como da sociedade mais no Estados Unidos e na Europa e, de certa
ampla. Esta noção encontra paralelos com o forma, inaugura o caráter político-
que foi expresso por FREIRE (1983b): emancipatório com que a pesquisa-ação em
educação passa a ser utilizada em vários
"A pedagogia do oprimido, como pedagogia países" (COSTA,1991:48).
humanista e libertadora, terá dois
momentos distintos. O primeiro, em que os É importante ressaltar a centralidade da
oprimidos vão desvelando o mundo da noção de diálogo no pensamento de
opressão e vão comprometendo-se na FREIRE (1983b). Diálogo que tem como
práxis, com a sua transformação; o premissa o conhecimento sobre o objeto em

3
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

questão; não é possível, desta forma, trabalho é: a educação preconizada por


dialogar sobre o que não se conhece, o que FREIRE (1983a,b,c) pode ser entendido
configura invasão cultural: como um programa de investigação
educacional com potencial para comportar
"Não fazemos esta afirmação a educação formal?
ingenuamente. Já temos afirmado que a
educação reflete a estrutura do Poder, daí, a Ao analisar suas obras, como um programa
dificuldade que tem um educador dialógico de investigação, buscamos explicitar qual o
de atuar coerentemente numa estrutura que entendimento que temos do que significa
nega o diálogo. Algo fundamental, porém, fazer educação na prática. A abordagem foi
pode ser feito: dialogar sobre a negação do feita em termos de uma teoria da ação,
próprio diálogo" (1983b:71; rodapé). deixando claro que se trata de um fazer
específico, que exige procedimentos e
Assim, para que exista a educação atitudes frente ao mundo exterior e que se
libertadora, o educador-educando necessita distingue da atividade diária dos seres
investigar a realidade do educando- humanos.
educador, para, do universo temático desta
realidade, conceber os temas geradores que, Baseados em FREIRE (1983b),
codificados e descodificados, podem levar pretendemos mostrar que sua pedagogia
este último a uma compreensão mais dialógica é uma teoria da ação -- em
refinada de sua situação. Tal compreensão educação -- diferente das ciências naturais2.
possibilitaria enxergar determinada Ao resgatar a obra desse importante
situação-limite como um inédito viável. educador brasileiro, passamos a entendê-la
como um programa de investigação
Realmente, FREIRE (1983b) coloca uma educacional dialógica. Dessa forma, não se
questão totalmente original a respeito da trata de teorizar sobre os seus
prática educativa; não como algo a ser fundamentos, mas sim de explicitar suas
"doado" por quem sabe a quem não sabe; características epistemológicas e
mas, sim, como uma forma de os seres metodológicas que têm suportado nesses
humanos se apropriarem, conscientemente, níveis nossos propósitos, enquanto
de sua realidade para, assim, terem investigadores ativos, atuantes na área da
condições de transformá-la. educação.

A necessidade de que o educador-educando Em outras palavras, pretendemos mostrar


se coloque como um investigador também que a concepção educacional dialógica
é um aspecto que reforça uma mudança na freireana, além de poder comportar um
própria epistemologia do conhecimento programa de investigação, pode demarcar
pedagógico, descentrando o ato educativo, razoavelmente bem as diferentes
ou, mais do que isto, procurando torná-lo concepções de conhecimento -- na prática
um ato de comunicação em comunhão, onde
os homens, em conjunto, constroem seu
conhecimento e, por sua práxis, podem 2 Nosso intuito é delimitar especificamente os
lutar para "Ser Mais". campos de atuação das ciências naturais e da
educação, do ponto de vista epistemológico e
metodológico. Para tanto, as análises tecidas daqui
Neste contexto de investigação científica para frente estarão baseadas principalmente nas obras
um questionamento que baliza o presente de DUHEM, POPPER, KUHN, LAKATOS,
LAUDAN e FEYERABEND.

4
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

educacional -- dos pontos de vista dominante ou exclusiva no campo da


epistemológico e metodológico. investigação-ação, como alerta CARR
(1989). Por um lado, a investigação-ação é
Esta preocupação demarcatória começa a se utilizada como mero instrumento de
delinear também em ELLIOT (1978), que resolução de problemas da prática, sem
localiza a investigação-ação como uma conseguir constituir um corpo teórico mais
maneira viável de gerar novos radicalmente oposto ao positivismo. Esta
conhecimentos a partir da compreensão que maneira de interpretar a investigação-ação,
os sujeitos (no caso, os professores) têm de em última instância, descaracteriza-a como
sua situação, refletindo sobre ela, com a concepção alternativa de investigação ao
finalidade de transformá-la. positivismo.

Neste sentido, ELLIOT (1978) destaca a Por outro lado, existe a manifesta
importância, na investigação-ação, de preocupação de que ela se constitua
aspectos que não estavam presentes claramente em concepção, e não, apenas,
claramente na obra de LEWIN (1946). em um modo de operar a investigação. Para
Entre estes aspectos, é de especial tanto, CARR (1989) destaca, por exemplo,
importância a vivência de situações de o auto-conhecimento reflexivamente
diálogo como ferramenta constitutiva do adquirido como categoria epistemológica:
processo de investigação, a "imersão" do
investigador na realidade dos participantes, "Uma medida da extensão em que o
bem como a rede de acordos éticos que positivismo atingiu sua intenção é seu
deve haver entre os sujeitos que vivem o sucesso em negar o auto-conhecimento
processo: reflexivamente adquirido como uma
categoria epistemológica válida. Outro é seu
"Os participantes devem ter livre acesso sucesso em excluir todas aquelas formas de
aos dados, interpretações e apontamentos teorização social e educacional que recusam
do pesquisador, e 'o pesquisador' deve ter se auto-confinar na experiência 'como ela é',
livre acesso a 'o que está acontecendo' e mas, ao invés disto, insistem que a
sobre as interpretações que os experiência é sempre condicionada por
participantes têm disso. Por isto que a interpretações filosóficas e compreensão
investigação-ação não pode se estabelecer histórica" (CARR,1989: 88).
adequadamente na ausência da confiança,
estabelecida pela fidelidade a um rede ética CARR e KEMMIS (1986) vão adiante ao
mutuamente pactuada, a qual governa a apontar as potencialidades da investigação-
coleta, o uso e a difusão dos dados" ação, não esquecendo, porém, de mostrar
(ELLIOT, 1978:357). seus limites caso seja pensada dentro da
racionalidade positivista. Neste sentido, ela
A partir destes pressupostos, a pode não ultrapassar o mero ativismo. Se,
investigação-ação, incorporando algumas porém, for pensada num contexto que leve
das concepções de FREIRE (1983a,b,c), em conta as determinações históricas e os
inscreve-se em uma nova dimensão, condicionantes filosóficos, a investigação-
nitidamente interessada em emancipação ação estará se constituindo em uma
dos seres humanos e francamente favorável concepção de investigação ancorada na
à transformação da realidade. No entanto, racionalidade emancipatória. Desta forma,
esta vertente parece não se firmar como poderá realizar aqueles ideais de liberdade

5
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

de pensamento e de ação a partir das diferenciada daquela preconizada pelo


leituras que os sujeitos fazem de sua positivismo. Entretanto, que não
própria realidade. desconsidera a necessidade de objetividade,
fidedignidade, rigor e validade.
Assim planejada e praticada, a
investigação-ação, como concepção de Porém, como na raiz da concepção de
investigação, pode auxiliar os seres investigação-ação estes critérios não se
humanos a interpretar a realidade a partir filiam às teorias tradicionais, mas, sim, à
de suas próprias práticas, concepções e teoria crítica de matriz frankfurtiana, os
valores. Aí está um potencial significados destes termos têm de ser
transformador bastante grande. Caso compreendidos no âmbito desta. Portanto,
contrário, estará se repetindo o mesmo erro não se trata de construir um conhecimento
do passado, ao se deixar que outros, as educacional "factual", como nas ciências
classes dirigentes, façam as leituras do naturais. Trata-se, sim, de construir um
mundo e as transmitam como sendo a conhecimento educacional crítico,
verdade. transformador e emancipatório.

Neste sentido, é que coloca-se a Esta possibilidade não é entrevista pela


necessidade de que seja superada a noção maneira como THIOLLENT (1986)
de "investigação-ação", tal como apresenta a investigação-ação: restringindo-
apresentada por THIOLLENT (1984 e a a uma técnica, ou método, de investigação
1986), ou seja, que rompamos com o e desprezando-a como uma nova concepção
“fantasma de Thiollent”, enquanto de investigação educacional; assim,
disposição quase hegemônica nos cursos de potencial elemento de transformação das
formação de investigadores educacionais de práticas e refinamento das teorias
focar a questão metodológica de tal educacionais, aspectos que caminham
concepção de investigação. Esta juntos -- e que efetivamente podem mudar
necessidade faz-se premente por dois o quadro da realidade educacional, no plano
motivos: o primeiro, em função da concreto e real da sala de aula --, embora
"tradição" criada por THIOLLENT (1986) nem sempre isto seja reconhecido.
a respeito do que seja investigação-ação - Portanto, a discussão apresentada aponta
tradição que limita o escopo e as para o seguinte questionamento:
potencialidades desta concepção de investigação-ação: técnica ou concepção de
investigação para a educação; em segundo investigação?
lugar, justifica-se por já se encontrar na
literatura nacional da área educacional (por A obra de THIOLLENT (1986),
exemplo, DE BASTOS, 1995 ; MION, especialmente esta, tem um mérito
1996, SOUZA, 1996) e na internacional indiscutível: caso um leigo em investigação-
(FELDMANN 1994), construções teóricas ação tomasse seu livro, teria um guia
- com sua gênese na prática educacional e, excelente de como realizar uma investigação
portanto, práxis - que permitem por em em seus moldes. Está ali toda a estrutura,
relevo a possibilidade desta concepção de os "passos" a serem seguidos, as estratégias
investigação educacional se constituir como de como proceder para se efetivar uma
uma alternativa aos investigadores da área investigação-ação. Não uma investigação-
da educação em geral. Investigação ação educacional. Nem muito menos uma
educacional que deve ser radicalmente

6
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

investigação-ação educacional emancipa- significativamente na exploração da


tória. investigação-ação como possibilidade de
emancipação. Em CARR (1989), por
Coloca várias questões importantes, como exemplo, existe a manifesta preocupação de
a "divulgação" dos resultados e as que ela se constitua claramente em
possibilidades epistemológicas, num certo concepção, e não, apenas, em uma
sentido, deste "tipo" de investigação. modalidade de investigação. Para tanto,
Portanto, se um leigo tomasse sua obra e se destaca, por exemplo, o auto-conhecimento
dispusesse a praticar uma investigação reflexivamente adquirido como categoria
nesta modalidade, correria o sério risco de epistemológica. Vai adiante ao apontar as
conseguir, nas ciências sociais, o que potencialidades da investigação-ação, não
durante séculos tentou-se realizar nas esquecendo, porém, de mostrar seus
ciências naturais: atingir o status da limites, caso seja pensada dentro da
neutralidade científica! racionalidade positivista. Neste sentido, ela
pode não ultrapassar o mero ativismo. Se,
Tentaremos justificar a afirmativa do contudo, for desenvolvida num contexto
parágrafo anterior. Em primeiro lugar, histórico determinado, a investigação-ação
tomada historicamente, a referida obra é poderá se constituir em um programa de
posterior a várias outras que tratam do investigação ancorado na racionalidade
mesmo tema (o próprio DE BASTOS emancipatória. Desta forma, poderemos
(1995) menciona SAUL (1971), para ficar efetivar o projeto de liberdade, no plano da
no Brasil). Portanto, teria condições de reflexão-ação, a partir das visões de mundo
colocar a investigação-ação não como uma que os sujeitos fazem de sua própria
mera técnica - o que não diz literalmente -, realidade vivida.
mas que, implicitamente, advoga - de
investigação em ciência social, mas como Desta forma, se for planejada, vivida, auto-
uma concepção de investigação: refletida e refletida - colaborativamente -, a
investigação-ação educacional, como
"... a pesquisa-ação não é considerada como concepção de investigação científica, pode
metodologia. Trata-se de um método, ou de potencializar os seres humanos a
uma estratégia de pesquisa agregando vários interpretar a realidade a partir de suas
métodos ou técnicas de pesquisa social, próprias práticas, concepções e valores,
com os quais se estabelece uma estrutura projetando novas ações. Aí está um
coletiva, participativa e ativa ao nível de potencial transformador bastante grande,
captação de informação. A metodologia das frente a uma realidade educacional, como a
ciências sociais considera a pesquisa-ação brasileira. Rejeitar as possibilidades de a
como qualquer outro método. Isto quer investigação-ação se constituir em uma
dizer que ela a toma como objeto para concepção mais ampla, de emancipação, é,
analisar suas qualidades, potencialidades, no mínimo, rejeitar a possibilidade de os
limitações e distorções" (THIOLLENT, seres humanos, nas suas vidas particulares,
1986:25). mirarem-se na própria humanidade. De
onde vêm as idéias? De cima, dos
Embora cite as três racionalidades que iluminados por deus (= mercado), ou das
orientam o conhecimento humano - a tensões enfrentadas pelos indivíduos com
técnica, a prática e a emancipatória - os seus iguais e diferentes, lutando por
THIOLLENT (1986) não avança construir seus significados? Portanto, o que

7
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

estamos delineando desemboca na seguinte que em "método", como diz THIOLLENT


problemática: temos, então, dois pólos da (1986). Deriva desta noção sua maneira de
investigação-ação? encarar a investigação-ação como pouco
mais do que estratégia de investigação. Os
THIOLLENT (1986) admite que a ilusão fundamentos de uma nova concepção de
de participar é quase a mesma coisa que investigação passam ao largo de seu olhar.
participar. Explicitamente, sua colocação da Como podemos separar, se queremos ser
diferença entre investigadores, de um lado, investigadores ativos-críticos, investigador
e participantes, de outro, recorrente em de participante? Esta separação, aliás, pode
suas obras (THIOLLENT, 1984 e 1986), impedir que os “participantes” possam
corrobora o que foi escrito acima. Mesmo transformar sua realidade na direção da
que tente relativizar as diferenças entre os libertação, e confundam a “maquiagem” de
saberes de um e outro, não é radical o uma realidade opressora com uma alteração
suficiente para romper com a dicotomia qualitativa desta realidade, o que é
entre os que, a priori, sabem e os que têm contraditório com uma concepção de
algo a aprender, apenas, com aqueles. educação que se quer crítica e
Fornece um guia de investigação dentro das emancipadora.
ciências sociais, para quem quiser utilizar a
investigação-ação. Reside, aí, outro Desta forma, a consideração de uma
problema que vemos em seus escritos: sua diferença no status de investigadores e
noção de diálogo está bastante afastada participantes carrega em si a perpetuação
daquele de FREIRE (1983b), parecendo de uma situação de opressão. É necessário
querer igualar diálogo a conversa. A ultrapassar esta dicotomia para vivenciar a
hierarquia de saberes é extremamente investigação-ação numa concepção
marcante em sua obra. Depreende-se, daí, emancipadora. Para tanto, o diálogo
uma marcada característica da investigação- constitui-se como elemento fundamental,
ação filiada à racionalidade técnica: que pode romper esta relação hierárquica e
dominadora (FREIRE,1983b). Neste
"Qual é o principal fundamento da visão sentido, não causa espanto que
técnica de pesquisa-ação? É a incorporação THIOLLENT (1986) restrinja as
de todas aquelas teorias e modelos de possibilidades da investigação-ação a um
inovação que recorrem a formas técnicas de campo "etéreo" entre o macro e o micro
racionalização. Entendem a mudança social. Embora defenda a cientificidade das
educativa como um procedimento racional ciências sociais, limita, ao mesmo tempo, a
para desenvolver instrumentalmente possibilidade que estas a alcancem. Ora,
estratégias efetivas para conseguir são os grupos, as "pequenas coletividades",
resultados específicos na aprendizagem e os lugares em que o indivíduo se produz ser
nos objetivos educacionais" (DE BASTOS, humano, e onde os seres humanos
1995:67 - grifos do autor). produzem a sociedade ( como "um todo").
Neste sentido, despreza o potencial
DE BASTOS (1995) parte da concepção científico que advoga para as "ciências
dialógica freireana em sua análise. Seus sociais" a partir de uma investigação
avanços feitos demonstram as empírica baseada na investigação-ação:
possibilidades práticas de que a
investigação-ação educacional se constitua "Tal como a entendemos, a pesquisa-ação
em uma concepção de investigação, mais do não trata de psicologia individual e,

8
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

também, não é adequada ao enfoque calcadas no discurso cientificista, que


macrossocial. Nas condições atuais, como apregoa soluções meramente técnicas para
proposta bastante limitada, não se qualquer problema. Desta forma, a crítica
conhecem exemplos de pesquisa-ação ao ideológica das situações de opressão de
nível da sociedade como um todo. É apenas muitos por poucos é uma tarefa a ser
um instrumento de trabalho e de realizada para transformar tal situação.
investigação com grupos, instituições, Justamente, o não reconhecimento deste
coletividades de pequeno ou médio porte" ponto retira o potencial transformador, na
(THIOLLENT, 1986:8). direção da emancipação, da investigação-
ação. Esta dimensão tem ocasionado a
Concepção versus método; sem dúvida, a confusão entre a investigação-ação
primeira assertiva oferece maiores divulgada por THIOLLENT (1986),
possibilidades para se pensar em práticas marcadamente técnica, e a investigação-
emancipatórias no campo educacional - e ação emancipatória (CARR e KEMMIS
em outros campos. A limitação desta visão 1986).
está justamente neste ponto - não
considerar as potencialidades de uma nova A leitura de sua obra principal
concepção, mas ao contrário, inserir a (Metodologia da Pesquisa-Ação) tem
investigação-ação como estratégia de servido de base para a crítica da
investigação dentro de uma concepção já investigação-ação, no sentido de considerá-
dada. la limitada quanto às possibilidades de
transformação social (por exemplo,
Outro aspecto que precisa ser destacado é a SANTIAGO, 1996). Desta maneira, seria
relação educação e sociedade. Para conveniente, neste momento histórico
transformar a realidade, visando à considerar os avanços da investigação-ação
emancipação, é preciso ousar, desafiar as emancipatória, comprometida em libertar o
concepções dominantes, as quais ser humano das práticas sociais injustas,
perpetuam a miséria, a injustiça e a opressoras e que levam à irracionalidade
desigualdade. Neste sentido, uma ação (CARR e KEMMIS, 1986; CARR,1989;
educacional que pretende avançar para além DE BASTOS, 1995), quando projetamos
da racionalidade técnica, não pode limitar- delinear as bases de um programa de
se a olhar para a relação educação e investigação educacional; assim, poderia ser
sociedade de forma não problemática, como afastado o “fantasma de Thiollent” e a
se a escola estivesse aí apenas para investigação-ação educacional seria
transmitir saberes acumulados e formar compreendida na perspectiva apontada, ou
mão-de-obra “qualificada”. Faz-se seja, comprometida com a libertação e a
necessário, assim, enxergar tal de relação de emancipação dos envolvidos no processo
forma problemática (KEMMIS, 1988). Isto educacional. Neste sentido, dois pontos
significa reconhecer os limites que são criticados nesta concepção tecnicista de
impostos às práticas transformadoras, na investigação-ação e que, no nosso
escola, pela tentativa das classes dirigentes entendimento, têm o potencial de serem
em obscurecerem a realidade, com a desenvolvidos ao analisarmos a obra aqui
finalidade de se manterem em posição de em estudo. São eles: 1) a (im)possibilidade
privilégio. Significa, portanto, desvelar as de a investigação-ação dar conta de
relações opressoras de poder, denunciar o explicações ao nível macro na sociedade e;
autoritarismo e a burocracia das relações 2) a dificuldade de mudanças na educação

9
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

formal em virtude das barreiras tem um potencial explicativo sobre a


institucionais. realidade seria negar a própria racionalidade
humana e, portanto, negar a necessidade
Em relação ao primeiro aspecto, creditamos que os seres humanos têm de ser educados.
as críticas à falta de compreensão de Entretanto, mesmo as melhores teorias não
educadores e investigadores identificados são a realidade, apenas tentam representá-
com a visão de investigação educacional las e, quiçá, explicá-la. O potencial da
interpretativa e técnica (os quais são a investigação-ação emancipatória em dar
grande maioria) em aceitarem como legítima conta da realidade macrossocial consiste,
a categoria de auto-reflexão crítica como justamente, em que ela dá poder aos
epistemológica. Trata-se, pois, de negar a indivíduos de realizarem a ligação entre o
subjetividade como elemento constitutivo que eles vivem e no que acreditam e no que
do próprio processo de conhecer a lhes é dito ou imposto. Nesta direção, a
realidade. Mais além, tal reconhecimento auto-reflexão crítica e as posteriores
poderia colocar por terra alguns dos ícones reflexões coletivas podem dar conta da
da investigação positivista, como a miríade de interpretações, significados e
necessidade de mensuração e quantificação disputas ideológicas que perpassam os
dos dados, objetivando, num primeiro microcosmos de cada sociedade, fornecendo
momento, a realidade e, muitas vezes, uma explicação coerente sobre a realidade
chegando ao extremo de coisificá-la. Não se concreta de indivíduos e grupos sociais.
trata, entretanto, de negar o papel de
quantificação. Quanto ao segundo aspecto - a dificuldade
de mudanças educativas nas instituições -, a
Porém, em função da complexidade dos investigação-ação emancipatória também
processos sociais, uma visão que teime em aponta caminhos promissores. Duas
congelá-los, analisando-os como fotografias dificuldades, porém, precisam ser
meramente, deixa escapar sua fluidez, sua superadas. A primeira diz respeito, como
dinâmica de se constituição em processo, bem apontam os dois autores (CARR e
nas lutas ideológicas e disputas por KEMMIS, 1986) ora em discussão, à
significado. Neste sentido, a concepção de separação entre teoria e prática na
investigação-ação emancipatória aponta um educação. É necessário que professores
caminho bastante promissor para novos deixem de se enxergar como meros
entendimentos da sociedade. Não mais um executores de tarefas - assumindo a
entendimento "padrão", imposto; mas, sim, ideologia tecnicista - e tomem para si a
diversos entendimentos possíveis, tarefa de redimensionar suas práticas a
construídos na interação de pessoas ou partir de um "olhar de dentro", o que tem
grupos que se debruçam sobre suas relação com a auto-reflexão crítica.
realidades concretas com a intenção de
compreendê-las e transformá-las. A segunda dificuldade refere-se à
concepção de cidadania compartilhada por
No entanto, deve-se evitar a simplificação e estes profissionais, na maioria dos casos.
o reducionismo típicos do pós- Muito mais como um cumprimento de
modernismo. Não se pretende afirmar, ou normas, cidadania é a abertura de vias de
reconhecer, que não existem verdades além participação nas diversas instâncias sociais.
daquelas do indivíduo na constituição de É, enfim, "aprender a dizer a sua palavra".
seu discurso. Negar que "grandes teorias" Desta forma, a investigação-ação

10
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

emancipatória pode fornecer o arcabouço as intenções deste. Ao investigarem suas


teórico-prático para as transformações na práticas, os professores podem explicitar o
educação e nas demais práticas sociais. É que se encontra "escondido" - no que se
preciso, entretanto, que professores, refere à ideologia, aos valores, às
investigadores educacionais e estudantes, concepções de educação, sociedade, ciência;
além de outras pessoas envolvidas com a desta forma, podem, intencionalmente, por
educação, reconheçam-se mutuamente meio de mudanças nos currículos, modificar
como sujeitos e agentes das mudanças tais concepções e, por extensão, contribuir
desejadas, negociando os significados que para transformar a sociedade.
querem dar a sua vida e às suas práticas.
Ainda, a constituição de comunidades de
O que por sua vez, implicaria em mudanças professores, como investigadores críticos
curriculares (ANGULO, 1990). Neste de suas práticas, contribui para a
sentido, também, a perspectiva de construção de uma ciência educacional
investigação-ação tecnicista ora apreciada - crítica, que pode se estabelecer como marco
visão acima apresentada -- é, para dizer o de enfrentamento às concepções técnicas
mínimo, equivocada. Em primeiro lugar, ao da educação.
relegar a especialistas -- os investigadores -
a construção de currículos escolares, retira-
se poder dos professores - os participantes BIBLIOGRAFÍA.
- sobre seu próprio trabalho; ao mesmo
tempo, corre-se o risco de um ANGULO, J. F. “Investigación-acción y
uniformização de conhecimentos, a qual dá curriculum: una nueva perspectiva en
pouco vazão às particularidades de diversas la investigación educativa”.
comunidades. Reproduz-se, em uma escala Investigación en la Escuela, n°11: 39-
macro-educativa, a concepção bancária de 49, Sevilla, 1990.
educação (FREIRE, 1983b), em que uns CARR, W e KEMMIS, S. Becoming
poucos sabem (especialistas), enquanto a Critical: Education, knowledge and
maioria deve receber os depósitos da action research, Brighton, UK:Falmer
sabedoria daqueles. Press, 1986.
CARR, W. “Action Research: ten years
ANGULO (1990), baseado em CARR e on”. Journal of Curriculum Studies,
KEMMIS (1986), propõe a investigação- vol.21, n°1:85-90, 1989.
ação sobre o currículo como forma de COSTA, M. C. V. “A caminho de uma
constituir comunidades de investigadores pesquisa-ação crítica”. Educação e
ativos-críticos; isto é, os professores Realidade, vol. 16, N° 2, Porto Alegre,
devem se tornar investigadores de suas dez/91.
próprias práticas. É esta investigação que DE BASTOS, F. da P. Pesquisa-ação
pode garantir o desenvolvimento dos emancipatória e prática educacional
empreendimentos curriculares. Isto porque dialógica em ciências naturais.
o que está escrito (a grade curricular) não é, FEUSP, 1995, Tese de Doutorado.
necessariamente, o que vai se materializar ELLIOTT, J. “What is Action Research in
nas práticas educativas. Os professores, em Schools?” Journal of Curriculum
geral, carregam consigo crenças, ideologias, Studies, vol.10, No.4:355-357, 1978.
sistemas de valores que, ao interagirem com
o que está explícito no currículo, modificam

11
HEURESIS. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, Vol.1, n2, 1998
http://www2.uca.es/HEURESIS

FELDMANN, A. “Erzerberger’s dilemma: MION, R. A. Processo reflexivo e


validity in action research and science pesquisa-ação: apontamentos sobre
teacher’s need to know”. Science uma prática educacional dialógica em
Education, 78(1), 83-101, 1994. física. PPGE/UFSM, 1996,
FREIRE, P. Ação Cultural para a Dissertação de Mestrado.
Liberdade e outros escritos. Rio de SANTIAGO, S. H.M. “Pesquisa-ação e
Janeiro, Paz e Terra, 1982. pesquisa participante: uma atualização
FREIRE, P. Educação como Prática da do confronto”. Serviço Social e
Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, Sociedade, São Paulo, ano 17, Nº 5,
1983a. agosto de 1996, 134-152.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio SAUL, A. M. Modelo da Pesquisa em
de Janeiro, Paz e Terra, 1983b. Ação Aplicado ao Treinamento de
FREIRE, P. Extensão ou Comunicação? Professores. São Paulo, PUC/SP,
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983c. dissertação de mestrado, 1971.
LEWIN, K. “Action research and minority SOUZA, C. A. Formação Educacional
problems”. Journal of Social Issues, 2, Permanente em Ciências Naturais e
34-46, 1946. Pesquisa-ação na Escola Funda-
LEWIN, K. Group decisions and social mental. Dissertação de Mestrado.
change. in SWANSON, G. E., Florianópolis. UFSC/CED, 1996
NEWCOMB, T. M. and HARTLEY, F. THIOLLENT, M. Notas para o Debate
E. Readings in Social Psychology, New sobre pesquisa-ação. In: BRANDÃO,
York, 1952. C. R. (Org.). Repensando a Pesquisa
KEMMIS, S. El curriculum: mas alla de Participante. Brasiliense, São Paulo,
la teoría de la reprodución. Madridi, 1984.
Editora Morata, 1988. THIOLLENT, M . Metodologia da
pesquisa-ação. São Paulo, Cortez, 1986.

12