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Falar Verdade a Mentir Auto da Barca do Inferno Textos de Caráter Biográfico / Autobiográfico Artigo de Apreciação Crítica

Texto expositivo-argumentativo Luís Vaz de Camões Padre António Vieira Romantismo Frei Luís de Sousa - "Quem és tu?"

Auto da Barca do Inferno

Auto da Barca do Inferno é um auto que nos diz que, após a morte, vamos parar a um rio que havemos de atravessar.
Gil Vicente inspirou-se na lenda de Caronte, da antiguidade clássica. Na mitologia
grega, Caronte é o barqueiro do Hades, que carrega as almas dos recém-mortos sobre as
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águas dos rios Estige e Aqueronte, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos.
Uma moeda para pagá-lo pelo trajeto, geralmente um óbolo era por vezes colocado dentro Pe
ou sobre a boca dos cadáveres, de acordo com a tradição funerária da Grécia Antiga.
Gil Vicente, neste auto substituiu Caronte por dois barqueiros (Diabo e Anjo) e o
NÚMERO TOTAL DE VISUALIZ
destino final (Infernos) pelo Inferno ou Paraíso. DE PÁGINA
Gil Vicente, ao criticar os costumes, hábitos e vícios da sociedade, queria transmitir
uma moral a toda a sociedade; pretendia que toda a sociedade, ao ver a peça, se risse, 59,487
mas ,em simultâneo, criticava os '' podres '' da sociedade daquele tempo.
Ocorreu um erro LINKS
Estrutura neste
O auto não tem uma estrutura definida, não estando dividido em atos ou cenas, por isso para facilitar a sua leitura divide- Agrupam
dispositivo
de Escol
se o auto em cenas à maneira clássica, de cada vez que entra uma nova personagem. Gomes T
CONTRIBUIDOR Armamar
ES Biblioteca
Personagens Escolar d
Rosa M.
As personagens desta obra são divididas em dois grupos: as personagens alegóricas e as personagens–tipo. Armamar
Neves
Dicionári
Fernanda
Terminoló
No primeiro grupo inserem-se o Anjo e o Diabo, representando respetivamente o Bem e o Mal, o Céu e o Inferno. Ao longo Neri
para con
de toda a obra estas personagens são como que os «juízes» do julgamento das almas, tendo em conta os seus pecados e
Fernando em linha
vida terrena. Reis
Estudar n
Célita Leitão foi tão fá
No segundo grupo inserem-se todas as restantes personagens do Auto, nomeadamente o Fidalgo, o Onzeneiro, o
Sapateiro, o Parvo (Joane), o Frade, a Alcoviteira, o Judeu, o Corregedor e o Procurador e os Quatro Cavaleiros.
ARQUIVO
Fazendo uma análise das personagens, cada uma representa uma classe social, ou uma determinada profissão ou BLOGUE
mesmo um credo. À medida que estas personagens vão surgindo vemos que todas trazem elementos simbólicos, que
Fevereiro
representam a sua vida terrena e demonstram que não têm qualquer arrependimento dos seus pecados.
(2)
Abril 201
Humor
Surgem ao longo do auto três tipos de cómico: o de carácter, o de situação e o de linguagem.
O cómico de carácter é aquele que é demonstrado pela personalidade da personagem, de que é exemplo o Parvo, que
devido à sua pobreza de espírito não mede as suas palavras, não podendo ser responsabilizado pelos seus erros.
O cómico de situação é o criado à volta de certa situação, de que é bom exemplo a cena do Fidalgo, em que este é
gozado pelo Diabo, e o seu orgulho é pisado.
Por fim, o cómico de linguagem é aquele que é proferido por certa personagem, de que são bons exemplos as falas do
Diabo.

Argumento
Este auto considerado por Gil Vicente como sendo um auto de moralidade (Peça de carácter didático-moral onde as personagens
encarnam vícios ou virtudes com o objetivo de moralizar a sociedade) inicia com uma dedicatória à Rainha D. Leonor (presença do mecenatismo),
recorrendo a captatio benevolentiae (Expressão da retórica latina que significa literalmente “conquista da benevolência”, muito difundida em todas as
literaturas , quando um escritor quer ganhar a simpatia de alguém, interpelando-o no sentido de receber louvor e solidariedade para a causa que está a ser
defendida).
Feito o elogio à Rainha, Gil Vicente apresenta o argumento da peça: quando morremos (“no ponto que acabamos de espirar”), as
nossas almas dirigem-se a um rio, que tem de ser atravessado para atingirmos o nosso destino final (Inferno ou Paraíso). No cais,
para atravessar o rio, encontram-se dois barcos com os respetivos barqueiros, um deles passa para o paraíso e o outro para o
inferno.

O primeiro a chegar é um fidalgo, a seguir: um onzeneiro, um parvo, um sapateiro, um frade, uma alcoviteira, um judeu,
um juiz, um procurador, um enforcado e quatro cavaleiros.
O seu percurso em cena é praticamente idêntico em quase todas as personagens. Um a um dirigem-se à barca do Diabo,
carregando com eles os seus pecados (signos não verbais ou símbolos cénicos). Perguntam para onde vai a barca, mas ao saber que
vai para o inferno ficam apavorados e dizem-se dignos do Céu. Aproximam-se, então, do Anjo, que os condena ao inferno
pelos seus pecados.
O Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, o Frade (e sua amante), a Alcoviteira (Brísida Vaz) o Judeu, o Corregedor (juiz), o
Procurador e o Enforcado são todos condenados ao inferno pelos seus pecados. Apenas o Parvo é absolvido pelo Anjo. Os
Cavaleiros nem sequer são acusados, pois deram a vida a lutar pela Igreja.

FIDALGO
O primeiro a embarcar é um Fidalgo que vem acompanhado por um Pajem, que lhe leva o
manto e uma cadeira. O Diabo, mal vê o Fidalgo, diz-lhe para entrar na sua barca. Este dirige
a palavra ao Diabo, perguntando-lhe para onde ia aquela barca. O Diabo responde que o seu
destino era o Inferno. O Fidalgo resolve então ser irónico e diz que as roupas do Diabo
pareciam de uma mulher e que sua barca era horrível. O Diabo não gostou da provocação e
disse-lhe que aquela barca era a ideal para tão nobre senhor. O Fidalgo, admirado, diz ao
Diabo que deixou quem rezasse por ele, portanto, o inferno não será a sua paragem, mas
acaba por saber que o seu pai também já encontrara abrigo naquela barca.
O Fidalgo tenta entrar noutra barca e, por isso, resolve dirigir-se à barca do Anjo. Começa
por perguntar ao Anjo, para onde é a viagem e que aquela é a barca que procura, mas é
impedido de entrar, devido à sua tirania, pois aquela barca era demasiado pequena para tão
grande fidalgo, ou seja, não havia ali espaço para todas os pecados que cometera em vida. O Fidalgo demonstra não querer
perceber tais verdades e começa a elogiar o Anjo. Mas o Anjo nem o quer ouvir.

Assim, o Fidalgo, desolado, vai para a barca do Inferno. Porém, e antes disso, pede ao Diabo que o deixe tornar a ver a
sua amada, que se queria matar por ele. O Diabo diz-lhe que a mulher que ele tanto amava o enganava e que tudo que ela lhe
escrevia era mentira Também a sua esposa dava já graças a Deus por ele ter morrido, o melhor era, portanto, embarcar logo,
pois ainda viria mais gente. O Diabo manda o Pajem, que estava junto ao Fidalgo, ir embora, pois ainda não era sua hora.

Tipo: Nobreza (representa os seus vícios, tirania, vaidade, arrogância e presunção)


Referência ao pai de Don Anrique porque é uma denuncia social, porque também o pai do Fidalgo já tinha entrado na
Barca do Inferno, isto é, toda a classe nobre tinha os mesmos pecados

Adereços que o caracterizam:


- pajem: desprezo pelos mais pobres
- manto: vaidoso
- cadeira: julgava-se importante e poderoso

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- Barca do Inferno é desagradável (“cortiço”) - ter levado uma vida de prazeres, sem se
- tem alguém na Terra a rezar por ele importar com ninguém
- é “fidalgo de solar” e por isso deve entrar na - ter sido tirano para com o povo
barca do Céu - ser muito vaidoso
- é nobre e importante - desprezava o povo

Momentos psicológicos da personagem:


- ao princípio o Fidalgo está sereno e seguro que irá para o Paraíso.
- dirige-se à barca do Anjo, arrogante, e fica irritado porque ele não lhe responde e mostra-se arrependido e desanimado
por ter confiado no seu “Estado”.
- no fim dirige-se ao Diabo, mais humilde, pedindo-lhe que o deixe regressar à Terra para ir ter com a amante.

Caracterização da personagem:
Direta - nobre (fidalgo de solar)
Indireta - vaidoso, presunçoso do seu estado social
- o seu longo manto e o criado que carrega a cadeira representam bem a sua vaidade e ostentação
- a forma como reage perante o Diabo e o Anjo revelam a sua arrogância (de quem está habituado a mandar e a
ter tudo)
- a sua conversa com o Diabo revela-nos que além da sua mulher tinha uma amante, mas que ambas o
enganavam

Tipo(s) de cómico usado(s):


de situação - quando trata o Diabo por Senhora
de linguagem – utilização da ironia

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


- os nobres viviam como queriam (vida de luxúria)
- os nobres pensavam que bastava rezar e ir à missa para ir para o Céu
- características dadas às mulheres desse tempo: mentirosas; infiéis; falsas

ONZENEIRO
Logo a seguir, vem um Onzeneiro que pergunta ao Diabo para onde vai aquela barca. O Diabo diz-lhe para
entrar e pergunta-lhe o que o levou a demorar tanto. O Onzeneiro queixa-se de que morreu de forma
imprevista, enquanto andava a recolher o dinheiro, e que nem dinheiro tinha para pagar ao barqueiro.
Não querendo entrar na barca do Diabo, resolve dirigir-se à barca do Anjo, a quem pergunta se podia
embarcar. O Anjo diz-lhe que não entraria naquela barca por ter sido ganancioso.
De volta à barca do Diabo, o Onzeneiro pede para regressar ao mundo dos vivos para ir buscar dinheiro
pois pensava que o Anjo não o teria deixado entrar pelo facto de o bolsão ir vazio.
O Onzeneiro acaba por entrar na barca do Inferno.

Tipo: Burguesia

Adereços que o caracterizam:


- bolsão: representa a ganância pelo dinheiro

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- ter morrido sem esperar - Anjo: acusa-o de levar um bolsão cheio de
- não ter tido tempo de “apanhar” mais dinheiro dinheiro e o coração cheio de pecados, cheio de
(esta queixa mostra que para esta personagem amor pelo dinheiro
o dinheiro era importante) - ser avarento
- jura ter o bolsão vazio
- precisa de ir à Terra para ir buscar mais
dinheiro (para comprar o Paraíso)

Momentos psicológicos da personagem:


- ao princípio o Onzeneiro está confiante em como irá para o Paraíso, pois pensaria poder comprar a passagem
- no fim dirige-se ao Diabo, pedindo-lhe que o deixe regressar à Terra para ir buscar dinheiro e finalmente reconhece os
seus erros (“quem me cegou”)

Caracterização da personagem:
Indireta – ganancioso, confiante da sua capacidade financeira

Tipo(s) de cómico usado(s):


de situação - quando tenta utilizar o dinheiro para comprar a passagem
- quando não percebe o Anjo e pensa que este lhe está a exigir o dinheiro
de linguagem – utilização da ironia

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


- havia quem pensasse que o dinheiro podia comprar e resolver tudo.

JOANNE, O PARVO
Aproxima-se, agora, do cais um Parvo, que pergunta se aquela barca era a dos tolos. O Diabo afirmou
que era aquela a sua barca. Entretanto, o Diabo perguntou-lhe de que é que ele tinha morrido. Nesse
momento, o Parvo dirige uma série de insultos ao Diabo e tenta, de seguida, embarcar na barca da Glória. O
Anjo disse-lhe que se ele quisesse, poderia entrar, pois durante a sua vida os erros que cometeu não foram
por malícia. Contudo, teria entretanto de esperar fora da barca.

Tipo: Povo (uma pessoa pobre de espírito)

Adereços que o caracterizam:


- não traz porque os símbolos cénicos estão relacionados com a vida terrena e os pecados cometidos e o Parvo não tem
qualquer tipo de pecados.

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- Anjo: - tudo o que fez foi sem maldade Não há.
- é simples

Momentos psicológicos da personagem:


- apresenta-se ao Diabo com “Eu sou”
- com simplicidade, ingenuidade e graça, autocaracteriza-se ao Diabo como “tolo”
- queixa-se de ter morrido
- as suas atitudes ao longo da cena são descontraídas, o que irrita o Diabo que o quer na sua barca
- insulta o Diabo
- apresenta-se ao Anjo com “Samica alguém” e este diz-lhe que entrará na sua barca, porque tudo o que fez foi sem
maldade

Caracterização da personagem:
Direta – “Samica alguém”
Indireta – tolo, descarado

Tipo(s) de cómico usado(s):


de situação - quando insulta o Diabo (inversão dos papéis)
de caráter –o modo desbragado do parvo
de linguagem – utilização da ironia e do calão

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


- a importância das coisas simples: “Quem és tu? / Samica alguém”:

Esta cena tem uma intenção lúdica, fazendo divertir quem está a assistir a esta peça, mas também tem uma intenção de
crítica dizendo que as pessoas simples são mais merecedoras do Paraíso.
O Parvo é convertido numa éspecie de comentador independente da acção, pondo à mostra, com os seus disparates, o
ridículo das personagens convencidas do seu papel.
Em Gil Vicente, a função do Parvo não é apresentar-se a si próprio, nunca sendo observado pelo interesse que em si
mesmo possa oferecer, mas tem como função criar efeitos cómicos, irresponsáveis.
Durante a peça do Auto da Barca do Inferno, interfere diversas vezes, sendo constante característica o uso do calão, que
tanto é injurioso como otimista, fazendo de si um ser louco, completamente à parte, liberto de regras e constrangimentos, em
que a ordem não exerce qualquer tipo de poder.

SAPATEIRO
Um Sapateiro, com o seu avental e carregado de formas, é a personagem seguinte.
Dirige-se à barca a do Diabo. Este fica espantado com a carga que o Sapateiro traz: pecados e formas.
O Sapateiro diz ao Diabo que não entraria ali, pois enquanto viveu sempre se confessou, foi à missa e
rezou pelos mortos. O Diabo desmascara-o e diz-lhe que não vale a pena continuar a utilizar aquele tipo de
argumentos, acusando-o de praticar religião sem fé.
O Sapateiro, incrédulo, dirige-se à barca da Glória, mas o Anjo diz-lhe que a carga que trazia não caberia
na sua barca e que a do Inferno era o único destino para ele. Vendo que não conseguira o pretendido, o
Sapateiro dirige-se à barca do Inferno, onde entra.

Tipo: Povo (artesão)

Adereços que o caracterizam:


- avental: simboliza a profissão
- carregado se formas de sapatos: simbolizam a sua profissão e vem carregado pelos seus pecados

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- fez todas as práticas religiosas: rezava, ia à missa, do Diabo:
adorava os santos e levava-lhes oferendas - Explorou o povo com o seu trabalho
- morreu confessado e comungado - roubou o povo durante 30 anos
- ia à missa e logo a seguir ia roubar, ou seja,
praticava a religião de forma incorrecta
- morreu excomungado
- calou dois mil enganos
do Anjo:
- Não viveu direito nem honestamente
- roubou o seu povo
- a cárrega embaraça-o, ou seja, o pecado impediu-
o de se salvar

Momentos psicológicos da personagem:


- ao princípio está confiante em como irá para o Paraíso, pois era bastante religioso
- no fim dirige-se ao Diabo e reconhece os seus erros

Caracterização da personagem:
- Direta: aldrabão, ladrão, desonesto, malcriado
- Indireta: pecador, excomungado, autoconfiante , explorador

Tipo(s) de cómico usado(s):


- Cómico de linguagem: "quatro formigas cagadas que podem bem ir i chantadas." (calão)

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


Forma superficial de como os católicos praticavam a religião (julgavam que as rezas, missas, comunhões, tinham mais
valor que praticar o bem)

FRADE
Um Frade entra em cena acompanhado de uma moça, trazendo numa mão um pequeno
escudo e uma espada na outra, um capacete debaixo do capuz, a cantarolar uma música e a
dançar. Diz ao Diabo ser da corte. O Diabo não lhe prestou qualquer atenção e perguntou-lhe
se a moça que ele trazia era sua e se no convento não o censuravam por isso. O Frade
respondeu-lhe que no convento todos eram tão pecadores quanto ele, mas ao tomar
consciência do rumo daquela barca tenta entender as razões que o encaminhavam para o
Inferno e não para o céu, já que era um frade. O Diabo diz-lhe que o comportamento
evidenciado durante toda a vida abrira caminho para esta paragem.
O Frade não se conforma e resolve, juntamente com a moça, ir ao batel do Céu,
encontram-se com o Parvo, que os convence do seu destino: o inferno.
O Frade dirigiu-se, de novo à barca do Inferno e aí embarca com a moça que o
acompanhava.

Tipo: Clero (mundano)

Adereços que o caracterizam:


Amante (Florença) – Não cumpre o celibato
Espada, escudo, casco – Guerra;
Hábito de frade, cruz – Religião e fé.
Cantiga cortesã – Vida cortesã

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- ser Frade - era mundano
- rezou muito - não respeitou os votos de castidade e de pobreza
- ser cortesão
- saber lutar
O Frade não nega as acusações feitas, pois pensa que o facto de ser Frade e o seu hábito o vão salvar dos seus pecados

Momentos psicológicos da personagem:


- Apresenta-se como cortesão, o que revela que ele frequentava a corte e os seus prazeres (era um frade mundano)
- Usa o facto de ser Frade naquele tempo (pretende mostrar que o clero se mostrava superior, poderia fazer o que
quisesse sem ser condenado)
- aceita a sentença porque se o Anjo se recusa a falar com ele é porque todos os seus pecados foram graves

Caracterização
Direta - O Frade autocaracteriza-se como “cortesão”, ou seja, alguém que está familiarizado com os hábitos da corte. Mais
tarde, assume-se como “namorado” e “dado a virtude” e que tem “tanto salmo rezado”.
Assim, desde logo esta personagem assume, de forma direta, uma vida dupla como frade, que usa hábito e reza orações e
que também é da corte, que namora, canta, esgrima e toca viola.
Indireta - As suas atitudes, também certificam que é um padre pecador, que levava uma vida boémia, em vez de se dedicar
afincadamente ao serviço que prestava a Deus e em auxílio de quem precisasse.
Mostra que é obstinado quando se nega a entrar na Barca do Inferno, convencido de que as suas rezas e o simples hábito
de Frade lhe garantirão um outro destino. Do mesmo modo, também não aceita que Florença entre nessa barca, o que pode
denunciar que o Frade não estava ainda consciente de ter vivido uma vida de pecado.

Tipo(s) de cómico usado(s):


de linguagem - “Devoto padre marido”;
de situação - a entrada do frade em cena com a moça pela mão
de carácter - pensava que a relação proibida com a moça seria perdoada pelas suas muitas rezas.

Intencionalidade do nome dado por Gil Vicente à companheira do Frade:


A intencionalidade do nome dado por Gil Vicente à companheira do Frade (Florença), é que Florença representa uma cidade italiana considerada
o berço do Renascimento; além disso essa cidade foi governada pela família Médici, protectora dos judeus, iniciando uma longa relação da família
com a comunidade judaica, que se tornaria comprometedora com a inquisição.

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


- desajuste entre a vida religiosa e a vida que ele levava ( vida mundana)
- os símbolos representavam a vida de prazeres que ele levava, o que o afastava do seu dever à crítica religiosa

- “Diabo-(...) E não os punham lá grosa / no vosso convento santo?


revela que:
- Frade- E eles faziam outro tanto!”
- havia uma quebra de votos de castidade ao hábito comum entre eles
- esta afirmação alarga a crítica a toda a classe social, pois o Frade é uma personagem tipo, representando
toda uma classe social

ALCOVITEIRA
A Alcoviteira, Brízida Vaz, chega ao cais relatando o que trazia e afirmando que iria para o
Paraíso pois tinha sofrido em vida e feito muito pelas moças, mas o Diabo contestava e dizia-lhe que
aquela barca era a que lhe estava destinada.
Brízida vai implorar ao Anjo que a deixe entrar na sua barca, pois ela não queria arder no fogo
do inferno, dizendo que tinha o mesmo mérito que o de um apóstolo. O Anjo disse-lhe que se fosse
embora e que não o importunasse mais.
Triste por não poder ir para o Paraíso, Brízida vai caminhando em direcção ao batel do Inferno
onde entra, já que era o único meio possível para seguir a sua viagem.

Tipo: Povo (alcoviteira)

Adereços que a caracterizam:


- seiscentos virgos postiços (hímenes das virgens)
- três arcas de feitiços
- três armários de mentir
- joias de vestir
- guarda-roupa
- casa movediça
- estrado de cortiça
- dois coxins
(todos estes símbolos representavam a sua atividade de alcoviteira ligada à prostituição)

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- diz que já sofreu muito (era uma mártir, levou - viveu uma má vida (prostituição)
açoites) - a hipocrisia
- que arranjou muitas “meninas” para elementos do
clero
- levava bofé; era perfeita como os apóstolos e
anjos e fez coisas muito divinas; salvou todas as
suas meninas

Momentos psicológicos da personagem:


- chegando ao cais na barca do Inferno, recusa-se a entrar sem o Fidalgo, provavelmente eram conhecidos
- diz que não é a barca do Diabo que procura
- está sempre confiante de que vai entrar na barca do Anjo
- defende-se dizendo que sofreu muito, como ninguém, que arranjou muitas “meninas” para elementos do clero e que está
orgulhosa por ter arranjado “dono” para todas as suas “meninas”
- quando vai à barca do Anjo muda completamente a sua atitude, usando mais o vocabulário de cariz religioso e tentando
seduzir o Anjo e fazer-se de boa pessoa

Caracterização:
Direta - "som apostolada, angelada e martelada"
Indireta - Brísida era mentirosa (“três almários de mentir”), mexeriqueira (“cinco cofres de enleos”), ladra (“alguns frutos
alheos”), cínica (“trago eu muita bofé”), convencida (“e eu vou pera o paraíso”), enganadora (“barqueiro mano meus olhos”).

Tipo(s) de cómico usado(s):


de linguagem - "barqueiro mano, meus olhos"; "cuidais que trago piolhos?"
de carácter - "eu som apostolada...fiz cousas mui divinas".

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


Crítica individualizada ou crítica de outros sectores da sociedade: - Gil Vicente faz crítica às alcoviteiras. Critica as outras
classes, nomeadamente o Clero.

JUDEU
Logo após o embarque de Brísida Vaz, vem um Judeu, carregando um bode (fazia parte dos rituais
de sacrifício da religião hebraica).
Chegado ao batel dos danados, chama o marinheiro e pergunta-lhe a quem pertence aquela barca.
O Diabo questiona se o bode também era para entrar junto com o Judeu, que afirma que sim, mas o
Diabo impede essa entrada, pois ele não levava caprinos para o Inferno.
O Judeu resolve pagar alguns tostões ao Diabo, para que ele permita a entrada do bode. Vendo
que não consegue, roga-lhe várias pragas, apenas pelo facto do Diabo não fazer a sua vontade.
O Parvo, para troçar do Judeu, perguntou se ele tinha roubado a cabra.
Em nenhum momento, o Judeu tenta entrar na barca do Anjo.
O Diabo ordena o fim daquela discussão e ordena ao Judeu que entre.

Tipo: Judeu

Percurso cénico:
O Judeu tenta entrar na Barca do Inferno mas não consegue. O Diabo acaba por permitir que se desloque a reboque na
Barca do Inferno.

Adereços que o caracterizam:


Bode – salvação dos pecados, purificação, o que explica o apego do Judeu ao seu símbolo, mesmo depois da morte.
(Símbolo da religião judaica).

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- Não tem argumentos de defesa pois como é De acusação do Diabo e do Parvo:
judeu não crê na religião católica e não acredita que - Violação de sepulturas cristãs;
possa ter salvação. - Consumo de carne em dias de jejum.

Momentos psicológicos da personagem:


Logo que chega ao cais o Judeu dirige-se para a barca do Inferno porque:
- sabe que não será aceite na barca do Anjo, já que em vida nunca foi aceite nos lugares dos Cristãos
- os Judeus eram muito mal vistos na época e nem poderia admitir a hipótese de entrar na barca do Anjo
Para entrar na Barca do Inferno ele usa o dinheiro. Ele usa o dinheiro porque era uma forma de mostrar que os Judeus
tinham grande poder económico e que estavam ligados ao dinheiro.

O Judeu recusa deixar o bode em terra, porque quer ser reconhecido como Judeu

Caracterização:
Indirecta – fanatismo religioso (não queria largar o bode), ladrão, má pessoa, avarento.

Tipo(s) de cómico usado(s):


de linguagem - utiliza o registo de língua popular nos insultos ao parvo e ao Diabo
de carácter - o seu apego ao bode
de situação - aparece com o bode às costas e termina a reboque da Barca do Inferno

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


Em termos de contexto histórico,
- revela que os Cristãos odiavam os Judeus
- acusavam-nos de enriquecer à custa de roubos de Natureza diversa
- acusavam-nos de ofender a religião católica, cometendo diversas profanações

CORREGEDOR
Depois do Judeu ter embarcado, veio um Corregedor, carregado de feitos. Quando chegou ao batel do
Inferno, com sua vara na mão, chamou o barqueiro, pensando ser servido. O barqueiro, ao vê-lo, fica feliz, pois
esta seria mais uma alma que ele conduziria para o fogo ardente do Inferno.
O Corregedor era um dos eleitos para a sua barca, porque durante toda a sua vida foi um juiz corrupto,
que aceitava perdizes como suborno. O Diabo começa a falar em latim com o Corregedor, pois era usado pela
Justiça e pela Igreja, e era considerada uma língua culta. Os dois começam a discutir em latim, o Corregedor
por se achar superior ao Diabo quer também demonstrar-lhe que, pelo facto de ser um juiz prestigiado, não
poderia entrar em tal barca. O Diabo vai perguntando sobre todas as suas falcatruas, cita, inclusive, a sua
mulher, que aceitava suborno dos judeus, mas o Corregedor garantiu que nisso ele não estava envolvido,
esses eram os pecados de sua mulher e não os seus.

Tipo: Juiz corrupto

Adereços que o caracterizam:


Vara e processos (julgamentos mal efectuados, parcialidade)

PROCURADOR
Enquanto o Corregedor estava nesta conversa com o Arrais do Inferno, chegou um Procurador, carregando
vários livros. Depara-se com o Corregedor e, espantado por encontrá-lo ali, questiona-o para onde ia, mas o
Diabo responde pelo Corregedor e diz: para o Inferno e que também era bom ele ir entrando logo.

Tipo:Funcionário da Coroa corrupto

Adereços que o caracterizam:


Livros jurídicos - os processos judiciais representavam a injustiça, o suborno, a corrupção

O Corregedor e o Procurador não queriam entrar na barca, pois diziam-se homens de fé, sabedores da existência de
outra barca em melhores condições que os conduziria para um lugar mais ameno - o Céu.
Quando chegam ao batel divino, o Anjo e o Parvo mostram-lhes que as suas ações os impediam de entrar na barca da
Glória, pois tinham feito mal e era agora altura de pagar, com a ida das suas almas para o Inferno.
Desistindo de ir para o paraíso, os dois entram no batel dos condenados e deparam-se com Brísida Vaz, que fica
satisfeita com esta entrada, pois enquanto viveu foi muito castigada pela Justiça.

Gil Vicente julgou em simultâneo o Corregedor e o Procurador porque:


- ambos faziam parte da justiça (havia cumplicidade entre a justiça e os assuntos do Rei)
- ambos eram corruptos)
A confissão para eles:
- não era importante: só se confessavam em situações de risco e não diziam a verdade

Corregedor:

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


A principal e quase única acusação que o Diabo
- não tem ar de quem se deixa subornar lança ao Corregedor é a de não ter sido imparcial
- apenas o rei tem mais poder que ele (utilização nas suas sentenças,deixando-se corromper por
do seu estatuto social) dádivas recebidas até de Judeus
- era a sua mulher que aceitava os subornos - julgou com malícia (enriqueceu com o trabalho
dos lavradores ingénuos)
- confessou-se mas mentiu
O Anjo acusa-o
- de vir carregado, sendo filho da ciência
O Parvo acusa-o de:
- roubar coelhos e perdizes
- profanar nos campanários: levava a religião de
uma forma superficial
- de vir carregado, sendo filho da ciência

Procurador:

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- não tem tempo de se confessar O Anjo acusa-o
- de vir carregado, sendo filho da ciência
O Parvo acusa-o de:
- roubar coelhos e perdizes
- profanar nos campanários: levava a religião de
uma forma superficial

Momentos psicológicos das personagens:


A forma de como o Corregedor inicia diálogo com o Diabo aproxima-se da forma com o Fidalgo também o fez, isto é,
utilizando o estatuto social.
O Corregedor usa muito o Latim porque é uma língua muito usada em direito e o Diabo responde-lhe em Latim Macarrónico
para mostrar que essa linguagem não servia de nada, que poderiam sobre falar bem Latim mas não sabiam aplicar as leis.
O Corregedor pergunta se o poder do barqueiro infernal é maior do que o do próprio Rei porque ele na Terra tinha um
grande poder e não admitia que mandassem nele.
Quando o Corregedor e o Procurador se aproximam do Anjo, ele fica irritado e roga-lhes uma praga (atitude nada normal do
Anjo).
No Inferno o Corregedor dialoga com Brízida Vaz porque já se conheceriam da vida terrena.

Caracterização:
Indirecta – a referência às perdizes aludia ao carácter corrupto das personagens.

Tipo(s) de cómico usado(s):


de linguagem – utilização do latim macarrónico (O Corregedor usa muito o Latim porque era uma língua muito usada em Direito)
de carácter - a sua mania de superioridade

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


Denúncia da justiça corrompida que se deixava comprar e espoliava o que podia.
Gil Vicente contrapõe a justiça humana, corrupta, à justiça divina, que repõe a verdade, sendo intransigente e imparcial. O
juiz do tribunal terreno torna-se réu no tribunal divino.
A forma como é praticada a religião revela hipocrisia, falsidade e interesse.

ENFORCADO
Após a entrada destes dois oficiais da justiça vem um homem que morreu enforcado que, ao chegar ao
batel dos mal-aventurados, começou a conversar com o Diabo. Tentou explicar que não iria no batel do Inferno,
pois já tinha sido perdoado por Deus ao morrer enforcado acreditando no que lhe dissera Garcia Moniz). O
Diabo diz-lhe que está enganado e predestinado a arder no fogo infernal.
Desistindo de tentar fugir ao seu destino, acaba por obedecer às ordens do Diabo para ajudar a empurrar
a barca e a remar, pois o momento da partida aproximava-se.

Tipo: Povo (criminoso condenado)

Adereços que o caracterizam:


O único símbolo cénico é o baraço (ou corda), que simboliza o suicídio.

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- ele havia sido perdoado por Deus ao morrer - o crime que cometeu
enforcado (assim lho dissera Garcia Moniz) - ser ingénuo
- já tinha sofrido o castigo na prisão

Momentos psicológicos da personagem:


- confiança na palavra de Garcia Moniz, purgatório era o Limoeiro, o baraço era santo, as orações feitas no momento de
execução

Caracterização:
Direta: - “ Bem-aventurado”.
Indirecta: -ingénuo,confiante na palavra dos outros,facilmente influenciável.

Tipo(s) de cómico usado(s):


de carácter - a ingenuidade da personagem (que contrasta com o facto de ele ser um ladrão)

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


Os costumes censurados são o engano dos mais fracos por pessoas com responsabilidade (Garcia Gil, Mestre da Balança
da Moeda de Lisboa); a doutrina, ou seja, o sistema.
A intenção critica de Gil Vicente: ao escolher esta personagem Gil Vicente foi denunciar as falsas doutrinas que invertem
os valores da conduta social.

QUATRO CAVALEIROS
Depois disso, vieram quatro Cavaleiros cantando, cada um trazia a Cruz de Cristo, para
demonstrar a sua fé, pois tinham lutado numa Cruzada contra os Muçulmanos, no norte da
África.
Ao passarem na frente da barca do Inferno, cantando, segurando as suas espadas e
escudos, o Diabo não resiste e diz-lhes para entrarem, mas um deles responde-lhe que quem
morre por Jesus Cristo não entra em tal barca.
Tornaram a prosseguir, cantarolando, em direcção à barca da Glória, sendo muito bem
recebidos pelo Anjo que já estava à sua espera há muito tempo
Sendo assim, os quatro Cavaleiros embarcaram para o Paraíso, já que morreram pela expansão da fé e por isso estavam
isentos de qualquer pecado.

Tipo: Cruzados

Adereços que os caracterizam:


Cruz de Cristo que simboliza a fé católica dos cavaleiros, as espadas e os escudos, que simbolizam a apologia da
Reconquista e da Expansão da Fé Cristã

Argumentos de Defesa: Argumentos de acusação:


- dizem que morreram a lutar contra os Não há.
mouros em nome de Cristo

Os cavaleiros não foram acusados pelo Diabo porque:


- merecem entrar na barca do Anjo
- morreram a lutar pela fé cristã, contra os infiéis, o que os livrou de todos os pecados
- esta cena revela a mentalidade medieval de defesa do espírito da cruzada

Momentos psicológicos da personagem:


Quando chegam ao cais chegam a cantar. Essa cantiga mostra aos mortais que esta vida é uma passagem e que terão
de passar sempre naquele cais onde serão julgados.

Nessa cantiga está contida a moralidade da peça porque:


- fala da transitoriadade da vida
- fala da inavitabilidade do destino final
- fala do destino final que está de acordo com aquilo que foi feito na vida Terrena

Caracterização:
Ao contrário do que acontece com as outras personagens, nada nos é dito sobre a sua vida ou morte, a não ser
“morremos nas Partes de Além[…] pelejando por Cristo” .

Crítica de Gil Vicente nesta cena:


Na cantiga cantada pelos quatro Cavaleiros está condensada a moralidade da peça, reflexo da ideia que a Igreja tinha
sobre a vida e o mundo.
Gil Vicente pretende transmitir que quem faz o bem na Terra e espalhou a fé cristã é recompensado no Céu e quem
acredita em Deus, quando morrer terá uma “vida” calma e tranquila.

A moralidade está condensada nos seguintes versos: “Vigiai – vos, pescadores, que depois da sepultura neste rio está a
ventura de prazeres ou dolores. Gil Vicente com estes versos, pretendia transmitir que depois da '' vida terrestre '', cada
pessoa era recompensada ou '' amaldiçoada '' conforme a sua vida na terra.

CLASSIFICAÇÃO DA OBRA
A obra é um auto de moralidade, porque revela os vícios, os defeitos e os costumes da época de Quinhentos,
criticando-os de modo a moralizar a sociedade.

ASSUNTO
O auto apresenta a dualidade BEM / MAL, simbolizada pelas personagens alegóricas, ANJO e DIABO, as quais se
encontram na respectiva barca, atracada no cais. Aqui surgem várias almas que, através do diálogo com o Anjo e/ou o Diabo,
expõem a sua vida, carregada de vícios, o que as leva à condenação.

SIMBOLOGIA DO CENÁRIO:
· Cais - representa o tribunal no qual somos julgados segundo o nosso comportamento enquanto vivos.
· Barcas - simbolizam a partida para o outro mundo;
· Rio - simboliza a divisão e a transição entre este mundo e o outro.

PERSONAGENS

Alegóricas- Anjo / Diabo:

Semelhanças Diferenças
- São personagens alegóricas; Diabo: espera um grande número de passageiros,
- Nenhum tenta recuperar as personagens que entram por isso enfeita a barca:
em cena; - “Põe bandeiras, que é festa”;
- Ambos avaliam o tipo de vida das personagens, Anjo: Confiante de que não terá muita gente:
realçando os aspectos negativos (na generalidade); - “(…) veremos se vem alguém/ merecedor de tal
- Ambos têm uma única função: condenar (Diabo) ou bem (…);
salvar (Anjo).
Diabo: linguagem irónica, zombeteira, crítica,
agressiva;
Anjo: sóbrio na linguagem e nos gestos;

Diabo: Lembra às personagens que o destino já se


encontra traçado, referindo os seus vícios;
Anjo: o julgamento é definitivo.

Personagens-tipo:

Semelhanças Diferenças
- Grande apego aos bens materiais e ao seu tipo de - Percurso cénico;
vida (excepções:Parvo, Cavaleiros); - Representatividade dos símbolos.
- Não existe um arrependimento real, embora, por
vezes, haja uma tomada de consciência do erro;
- Visão deturpada da religião;
- Fazem-se acompanhar de símbolos cénicos
(excepção: Parvo).

TEMPO:
Situando-se num plano extra terreno, a acção não apresenta uma evolução cronológica.

CRÍTICA:
Nesta peça, Gil Vicente denuncia os vícios da sociedade portuguesa quinhentista, segundo o lema latino ridendo
castigat mores, isto é, a rir se corrigem os costumes.

Assim, são criticados:


· A falsa prática religiosa; · A vaidade;
· A corrupção da justiça; · Desregramento sexual;
· O judaísmo; · A ostentação;
Desprezo pelos
· A exploração; · humildes;
· A ignorância e a
· A tirania, credulidade;
· A ganância; · A frivolidade.

ESTRUTURA EXTERNA:
Os textos dramáticos organizam-se, habitualmente, em actos que contêm diversas cenas. Tal não acontece no Auto da
Barca do Inferno, embora não seja difícil dividir em cenas esta peça de Gil Vicente.
A peça é constituída por oitavas, com versos em redondilha maior, seguindo o esquema rimático abbaacca.

ESTRUTURA INTERNA:
Cada cena, excepto a inicial, apresenta as três partes clássicas:
· Exposição: breve apresentação da personagem;
· Conflito: interrogatório feito pelo Diabo e pelo Anjo;
· Desenlace: atribuição da sentença.

O CÓMICO:
Cómico de carácter:
· A loucura de Joane e a inconsciência dos seus actos e das suas palavras.
· Um frade dançarino e enamorado (desajuste entre o que a personagem deveria ser e a realidade)
Cómico de linguagem:
· Uso do calão
· Frases desconexas proferidas por Joane
· As respostas absurdas de Joane
· Ironia
· Latim macarrónico
· Falas de Brísida Vaz
Cómico de situação:
· O Fidalgo que entra em cena presunçoso e seguro da sua salvação
· Surpresa do Onzeneiro ao ver o Fidalgo na Barca do Inferno
· Um frade que canta, dança e se faz acompanhar de uma moça
· Lição de esgrima que o Frade dá ao Diabo
· Encontro do Corregedor com Brísida Vaz na Barca do Inferno
LINGUAGEM:
A linguagem apresenta-se como um meio caracterizador das personagens, dos estatutos, das profissões, dos vícios,
dos destinos, etc.
Assim, Joane utiliza uma linguagem indecorosa, injuriosa, rude e agressiva; a do Sapateiro é desbragada e rude,
registando-se a presença de alguns tecnicismos (“badana”, “cordovão”, etc.); o interesse que o Frade demonstra pela
esgrima está patente nos termos técnicos a que recorre com frequência; a Alcoviteira apresenta uma linguagem ambígua e
deturpada, invertendo o sentido das palavras que se encontram nos textos religiosos; o Judeu recorre ao calão; o Corregedor
usa o latim.
A linguagem transmite ainda o tom irónico e gozador do Diabo, contrapondo-o ao ar calmo e sério do Anjo.
Como recursos estilísticos, há que realçar a ironia, o eufemismo e o recurso a trocadilhos.

Aspetos medievais e renascentistas da obra:

Aspetos Medievais Aspectos Renascentistas


· Inexistência de uma Divisão externa (actos e · Existência de uma exposição, de um conflito e de
cenas) da peça; um desenlace;
· Uso da redondilha maior; · Dimensão crítica da peça.
· Conceção religiosa da vida humana (ideia do Juízo
Final).

Personagem Signo Não Verbal Simbologia Acusação

Defesa

Sobranceria e Diabo +chama “poderoso” no sentido + Deixa na outra vida quem


tirania, Fidalgo de pessoa de elevada categoria reze sempre por ele
representa quantos social que zomba de tudo + é fidalgo de solar, de
na Corte e no Reino + viveu a seu belo prazer ascendência nobre
a cadeira, o exploravam e + também o seu pai está no + quer tornar à outra vida
FIDALGO
manto e o moço sacrificavam o povo Inferno para ver a dama querida (amante)
humilde. Anjo + chama de tirano, vaidoso + quer tornar à outra vida
+ acusa de arrogante, para ver a mulher que se quer
opressor dos pobres a quem matar por desgosto
despreza
avareza e da Diabo +chama “parente” + faleceu há pouco tempo,
exploração + insinua o abuso na utilização quer procurar outro batel
saco das do dinheiro + quer tornar ao outro mundo
ONZENEIRO
moedas Anjo + O BOLSÃO OCUPA TODO para buscar mais dinheiro,
O NAVIO (A AVAREZA ENTRARA (compreendeu que o Anjo assim o
NO FUNDO DO CORAÇÃO) exigira)
Invoca-se a verdade do Evangelho: «Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles Anjo - Em tudo o que fez,
PARVO
é o Reino dos Céus». O Parvo aparece como acusador das faltas cometidas por quem, tendo agiu sem malícia
(JOANE)
juízo perfeito, se esqueceu das boas normas da justiça e da verdade.
ganância, falta Diabo + faz notar a carga que ele + morreu confessado
de solidariedade do traz + ouviu muitas missas
Sapateiro para com + morreu excomungado + fazia dádivas aos santos e
os outros elementos + roubou, durante trinta anos, mandava rezar pelos finados
do povo e não o povo com o seu ofício
as formas dos
SAPATEIRO arrependimento dos + ouvia missas, mas depois
sapatos e o avental
seus pecados roubava
+ explorou os seus clientes
Anjo + A CARGA EMBARAÇA-O
+ roubava descaradamente
(“rouba de praça”)
corrupção +faz notar a presença da + o hábito
moral vida cortesã, Diabo moça + invoca o facto de ser um
vive contra as regras + não temeu o Inferno padre namorado e dado a virtude
de celibato, sendo enquanto vivia + rezou muitos salmos
ainda um + chama-o de “gentil padre
Moça, broquel,
FRADE espadachim e mundanal”, de “devoto padre
espada e casco
bailarino de respeito marido”
+ faz notar os dotes de
espadachim do frade
PARVO +FAZ NOTAR A PRESENÇA
DA MOÇA
Utensílios o proxenetismo Diabo +apenas a convida + é uma mártir
para o desempenho e a imoralidade Anjo + RECUSA QUALQUER + foi por várias vezes
ALCOVITEIRA da sua profissão CONVERSA espancada
+ criava e convertia as
meninas para ...
diferença entre Diabo +não encontra pecados + não apresenta argumentos,
a sua religião e a Parvo + COMIA CARNE NOS DIAS tentando apenas comprar a
Bode religião cristã PROIBIDOS PELA IGREJA E passagem para si e para o seu
JUDEU
PRATICAVA, SEM VERGONHA, bode, na Barca do Inferno
OUTROS ACTOS CONTRÁRIOS À
RELIGIÃO CRISTÃ.
Diabo +chama “amador de perdiz” + invoca o seu estatuto de
(corrupto) e descorregedor corregedor / juíz
+ aceitou roubos (foi corrupto) + só aceita ser julgado por
+ a mulher apresentava-se um poder maior (rei)
Feitos
Responsáveis com presentes dos judeus + invoca o nome de Deus
CORREGEDOR (processos
pela justiça, + sugou o sangue dos + afirma sempre ter agido
judiciais )
simbolizam ingénuos lavradores com justiça e imparcialidade
precisamente o Anjo + para filho da ciência, do + os pecados são de sua
comtrário e ainda a rigor, vem muito carregado mulher
extorsão + é corrupto
Diabo + apenas o convida + quer um barco condizente
com o seu estatuto
PROCURADOR Livros Anjo + para filho da ciência, do + nunca pensou que iria
rigor, vem muito carregado morrer tão cedo, pelo que não se
+ é corrupto confessou
À luz da igreja Diabo + não faz grandes acusações, + pensava que morrendo
só Deus poder tirar a pois o maior crime que terá enforcado ficaria santo e os seus
O baraço que
ENFORCADO vida a um ser cometido terá sido o suicídio delitos perdoados
traz ao pescoço
humano + O peso da opinião de
Garcia Moniz na sua conduta.
“quem morre Diabo + mostra-se surpreendido + “quem morre por Jesus
QUATRO
Cruz em tal peleja merece Anjo + “quem morre em tal peleja merece o Paraíso2
CAVALEIROS
paz eterna.” merece paz eterna.”

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