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AS IMPLICAÇÕES

PRÁTICAS DO CONCEITO
DE DOENÇA MENTAL

ILMA APARECIDA GOULART DE SOUZA BRITTO

Resumo: o conceito de doença mental não nos reme-


te a uma descoberta da medicina, mas a uma realidade
constituída de inúmeros fatores. O problema da transfor-
mação de loucura em doença mental se impõe incisiva-
mente para aquele que não se exime em compreender os
diversos aspectos dessa construção. Considerando-se
práticas de exclusão e confinamento, buscou-se acom-
panhar a forma como essa temática se evidencia nas obras
de Foucault e Szasz.

Palavras-chave: doença mental, exclusão social, his-


tória de loucura

D
esde o Renascimento, o comportamento humano
tem se tornado matéria especulativa das religiões,
das filosofias e das ciências. Os comportamen-
tos-problema foram explicados de diferentes maneiras, em
diferentes momentos. O modo como as pessoas reagem
ao que estabelecem como anormalidade depende de seus
valores e suas suposições sobre o comportamento huma-
no. A falta de conhecimento sobre os determinantes do
comportamento produz soluções inadequadas até porque
o comportamento não é matéria de simples compreensão. 15
Nada seria mais central para o homem que o conhecimento de Nessa perspectiva, a questão era saber como e por que a lou-
suas próprias ações. cura em um dado momento foi problematizada por meio de uma
Coleman (1950) relata que nos primeiros escritos dos chine- certa prática institucional, e como é que um saber pode ser cons-
ses, egípcios, hebreus e gregos já havia a demonstração de que tituído por práticas discursivas e não-discursivas, em que o enun-
eles atribuíam aos comportamentos-problemas ações de demônios ciado era: o que a loucura colocava aos outros? No livro A história
que tomavam posse do indivíduo. Eram comuns crenças em bru- da loucura, pode-se observar que a loucura foi descrita, nos tra-
xaria, magia e feitiçaria. Essa posição deu origem a um grande balhos de Foucault (1961, 1978a), não como um dado, mas como
espaço para as concepções místicas sobre a complexidade do uma percepção. Foram as práticas em relação aos problemas
comportamento humano e abertura para o enquadramento, nes- comportamentais que construíram a loucura, e esta, por sua vez,
ta categoria, de um grande número de atividades de caráter ritual tomou possível a construção de um novo saber e de uma nova
ou curativo pré-cristão. prática. Este é um tema pertinente na medida em que a loucura
Tais concepções dos determinantes do comportamento huma- foi colocada, segundo os termos da complexidade das atividades
no também ditavam o tipo de tratamento aplicado. O tratamento humanas, em sua constituição. Foucault (1961, 1978a) descre-
mais usual era o exorcismo dos espíritos e demônios, preconizado veu as contingências históricas que possibilitaram as regras e as
pelo Malleus Maleficarum (O martelo das bruxas), que era o ma- práticas sociais que dizem respeito ao louco, transformado em
nual de caça às bruxas, utilizado pelos religiosos como guia técni- doente mental no interior da instituição psiquiátrica.
co de exorcismo. Assim, o manual igualava comportamento-pro- No Renascimento, o espaço dos problemas humanos era a
blema com possessão demoníaca e supunha-se que as pessoas com nau dos loucos, um barco que navegava ao longo dos rios e leva-
tais comportamentos fossem agentes do demônio — não meramente va a loucura de uma cidade para outra. Conseqüentemente, a nau
suas vítimas —, chamadas de bruxas. Essa posição era dominante. dos loucos já assinalava a exclusão da loucura, confiada aos ma-
Aquele que a contrariasse correria o risco de ser queimado vivo, tal rinheiros para, com certeza, evitar que eles ficassem vagando,
como acontecia com as pessoas rotuladas de bruxas. 7,3 indefinidamente, entre os muros da cidade. Para ser considerado
o
riD. louco era suficiente ser abandonado, miserável, pobre, não dese-
o.
fado pelos pais ou pela sociedade.
MICHEL FOUCAULT E A HISTÓRIA DA LOUCURA o
Em meados do século XVII, Foucault (1961, 1978) mostra
o N uma nova forma de perceber a loucura, que passou a ser adminis-
O filósofo historiador Michel Foucault descreveu as práti- trada por uma instituição criada por decreto de Luiz XIV, em
cas médicas, judiciárias e a sexualidade. Foi também teórico do Paris, a 27 de abril de 1656, intitulada Hospital Geral. É o mo-
confinamento, da normalização, da polftica, do controle social e mento da grande internação. Pode-se entender esse evento da nova
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da moral. Em suas obras evidenciam-se duas transformações na maneira de tratar os problemas humanos, na descrição da dúvida
ci. /
cultura ocidental. Uma dá-se em meados do século XVII e deter- - cartesiana: porque eu que penso, não posso estar louco, tendo em
Z.7) Descartes o grande marco filosófico; o momento em que a loucu-
mina o Renascimento e início do período Idade Clássica, que vai
até o final do século XVIII. No final deste e início do século .d ra vai ser excluída da razão, por ser a condição de impossibilida-
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XIX, dá-se uma nova transformação, que determina o fim da Ida- de do pensamento, ou seja, a desrazão.
'3
de Clássica e inicia a Modernidade. Fazendo uso do método ar- o Foucault (1961, 1978a) aponta para uma população hetero-
i
queológico, a questão para Foucault (1961, 1978a, 1987) era, com o gênea, com base nos registros das casas de internamento, perce-
base em um problema, perguntar se não seria possível fazer de 3e bidas pela Idade Clássica como possuidoras da desrazão: era o
outro modo. Assim, Foucault analisou as estruturas de poder que
158 regulam certas práticas, fazendo disso uma genealogia. í
21 vagabundo, o debochado, o enfermo, o espírito arruinado, o im-
ffil becil, o pródigo, o libertino, o filho ingrato, o mágico, o insano, o 159
herege, o criminoso, o blasfemador, a prostituta, o pai dissipador, Foucault (1961, 1978a) demonstra que a psiquiatria é uma ciên-
o suicida, o devasso, o homossexual, o ilusionista ou tudo isso cia recente e que o conceito de doença mental tem mais ou menos
numa única palavra: louco. Com essa percepção social, houve a duzentos anos, como também a intervenção da medicina com re-
divisão entre razão e desrazão, normal e anormal, sadio e mórbi- lação ao comportamento humano complexo, em vez de ser
do, que foram reduzidos à simples fórmula: serem internados. atemporal, é historicamente datada.
Examinando o interior do Hospital Geral, Foucault (1961, Comentando o trabalho de Foucault, Machado (1981) afir
1978a) mostra que nele encontrava-se a forma de como se estabe- ma que as condições de possibilidade histórica da psiquiatria,
lecia o exercício do poder naquela época. Em seu funcionamento, antes de serem teóricas, são institucionais, pois a prática asilar
o Hospital Geral era uma estrutura semi-jurídica, uma espécie de foi essencial para o seu surgimento. Desse modo, a produção teó-
entidade administrativa que, ao lado dos poderes já constituídos, e rica sobre a loucura pode ser considerada como o contrário de
além dos tribunais, decidia, julgava e executava, tornando-se um um conhecimento:
estranho poder entre a política e a justiça nos limites da lei.
A ordem era a repressão. E ali eram internados todos aqueles que O curioso e paradoxal, é que todo esse processo histórico se
apresentavam problemas para a sociedade. Alguns anos depois realiza com o objetivo de subordinar a loucura justamente à
de sua fundação, só o Hospital Geral de Paris tinha seiscentas razão e à verdade. Paradoxal porque é como se fosse preci-
pessoas e abrigava, aproximadamente, um por cento da popula- so uma suposta ciência para possibilitar o maior domínio
ção parisiense. A construção de hospitais gerais foi uma prática da razão sobre a loucura. De todo modo, o que demonstra
adotada na cultura ocidental. Foucault é que o saber sobre a loucura não é o itinerário da
No final do século XVIII, o internamento ganha o status de razão para a verdade, como é a ciência para a epistemolo-
instituição curativa, uma vez que se propõe a conduzir a loucura gia, mas a progressiva descaracterização e dominação da
à razão, ou seja, quando se passa a perceber a loucura como alie- loucura para sua, cada vez maior, integração à ordem da
nação. Assim, dar-se-á a ruptura definitiva com o modelo do razão. Eis o que é a história da loucura: a história da fabri-
Hospital Geral e o passo essencial para o surgimento do Asilo, cação de uma grande mentira (MACHADO, 1981, p. 95).
fazendo surgir o advento de uma nova modalidade da medicina.
A função médica nos asilos foi introduzida no dia 25 de agosto Foucault (1987, p.104) afirma que "faz a história do pre-
0
de 1793, com a entrada do médico francês Philippe Pinel para as ("1 sente". A história da loucura apresenta inúmeras ilustrações
enfermarias do Bicêtre, em Paris, onde começava a ser percebido .8 das práticas locais e regionais, com análises dos problemas no
que o comportamento-problema deveria ser tratado pela medici- presente que possibilitaram encontrar fatos arqueológicos em
na: assim, nasceu a psiquiatria e, com ela, o conceito de doença A relação à loucura desde a Renascença até à Modernidade.
mental. Esse fato passou .a ser considerado pela história como a A arma foi à crítica; a matéria foi à história. Foucault trabalhou
Primeira Revolução Psiquiátrica. - criticamente sobre o material histórico a ponto de perguntar se
O asilo, em sua estrutura e seus procedimentos, aparece como a única coisa a fazer, em face de loucura, seria excluí-la como
uma instituição integrante da ordem social. Assim como o gran- forma de desrazão, dar-lhe o rótulo de alienação e, logo depois,
E
de internamento foi um fato da Idade Clássica, o asilo é um fato transformá-la em doença mental.
do final do século XVIII, fazendo parte da nova forma com que a Foucault (1978b) demonstrou que essas práticas, instaura-
sociedade agora se expressa. A vida asilar permite o nascimento .8 das no começo do século XIX, definiram as condições de uma
daquela estrutura como um espaço onde se busca a origem da nova experiência da loucura, cujo estilo e postura foram inéditos
loucura nas causas orgânicas ou nas disposições hereditárias, fato l) diante das experiências anteriores. Pois, com esse novo estatuto
effi
160 que ainda continua sendo registrado nos dias atuais. Desse modo, fie da loucura, adquirido pelas transformações, tanto no nível do co-
nhecimento quanto da percepção, preparou o caminho para o de- foi acrescentado o recente critério da função corpórea; da
senvolvimento da psiquiatria. A loucura percebida como doença mesma forma que a primeira era detectada através da obser-
mental legitimou, posteriormente, um sistema de práticas organi- vação do corpo do paciente, a última era detectada pela ob-
zadas teoricamente em torno dela própria: organização da rede servação de seu comportamento. Portanto, se na medicina
médica, sistemas de profilaxia e detecção, forma de assistência, moderna nova doenças foram descobertas, na psiquiatria
distribuição dos cuidados, critérios de cura, definição da incapa- moderna elas foram inventadas (SZASZ, 1980, p. 234).
cidade civil do doente e de sua irresponsabilidade penal.
Szasz (1980) mostra-se insatisfeito com os fundamentos
médicos e com as descrições conceituais da psiquiatria. Esclare-
THOMAS SZASZ E O MITO DA DOENÇA MENTAL ce que, embora tais fundamentos não tenham origem recente,
pouco se fez para esclarecer o problema. Ao contrário, no con-
Szasz (1960; 1980) põe em dúvida a psiquiatria e o conceito texto psiquiátrico, é quase indelicado perguntar o que é uma do-
de doença mental criado por ela. Psiquiatra e professor de psiquia- ença mental. Em outros contextos, a doença mental é, com
tria da Universidade de Nova Iorque, Szasz é contra o corpo freqüência, considerada o que quer que os psiquiatras digam que
conceituai dessa ciência, esclarecendo que não há nem pode haver ela seja. Desse modo, a resposta à pergunta quem é mentalmente
doença mental. Os médicos, afirma ele, são treinados para tratar de doente responde-se que são aqueles que estão internados em hos-
doenças corporais e não de comportamentos-problemas. Mais do pitais psiquiátricos ou que consultam psiquiatras.
que isso, Szasz (1960; 1980) faz uma análise demolidora dos con- Embora diferentes entre si, os estudos de Foucault e Szasz
ceitos tradicionais da psicopatologia e não deixa dúvidas de que o inauguram a reflexão crítica das práticas psiquiátricas contem-
próprio conceito de doença mental é, simplesmente, um mito. porâneas, nas quais adjetivos como louco, alienado, doente men-
O que significa, hoje, rotular alguém de doente mental? Signi- tal são usados nas verbalizações das pessoas para designar aqueles
fica dizer que essa pessoa apresenta comportamentos complexos, que se comportam desadaptativamente. Assim, os comportamen-
o 0)
ra
estranhos ou que ferem alguma norma social estabelecida. Assim, tos fóbicos, os estados de ansiedade, o estado emocional negati-
O- O.
co w
é necessário compreender as práticas psiquiátricas atuais, conhe- vo, as dificuldades de adaptação, a delinqüência, a ação suicida,
cer como e o porquê do surgimento do conceito de doença mental o
o
o entre outros problemas humanos, foram classificados como do-
e a maneira que ele funciona nos dias de hoje. Szasz (1980) reco- C N. enças mentais Isso é problemático, pois a ciência do comporta-
N
nhece a utilidade do sentido histórico originado na identidade his- -o mento, ao se apresentar, já encontra seu lugar ocupado não com
tórica da medicina com a psiquiatria no século XIX. Porém, hoje, C‘i (Ni" critérios epistemológicos, e, mais grave que isso, com o compor-
na sua opinião, as classificações e rotulações da psiquiatria são tamento humano rotulado, estigmatizado, condenando pessoas
cientificamente inúteis e socialmente prejudiciais, uma vez que os
ir) LO com comportamentos-problemas, não considerando tais compor-
O.
diagnósticos médicos dão nomes às doenças genuínas e os diag= tamentos um mal biológico.
nósticos psiquiátricos estão estigmatizando rótulos: C7,
Temos em Foucault e Szasz a crítica atual do conceito de doen-
c E
ça mental. Esses autores procuram avançar teorizações quanto à prá-
É importante compreender claramente que a moderna psi- . (5 o tica da psiquiatria em relação à doença mental por uma perspectiva
quiatria — e a identificação das novas doenças psiquiátricas — histórica: na ciência, quanto ao método; na política, quanto às for-
não começou pela identificação de tais doenças através dos mas de, dominação, repressão e controle; e, na própria história, quan-
métodos estabelecidos pela patologia, mas pela criação de oo to à forma de interpretá-la pela reflexão filosófica e crítica.
um novo critério sobre o que constitui a doença: ao critério O
Contra a continuidade do conceito de doença mental, vimos
162 estabelecido de alteração detectável da estrutura corpórea í í que Foucault pergunta e narra o que era antes; mostra as transfor- 1

mações das práticas em relação à loucura, numa divisão histórica Quem poderia se opor, por exemplo, à possibilidade da hipótese or-
em três períodos: no Renascimento a loucura era exilada; na Época gânica como justificativa para a esquizofrenia, após a descoberta da
Clássica era enclausurada e na Modernidade é medicalizada. Szasz origem sifilítica da paresia, como orgânica, durante as décadas
pergunta e explica como a doença mental existe e é agora. Fou- formativas da psiquiatria? Szasz (1978) afirma que com a neuro-
cault narra o passado, Szasz explica o presente. Foucault des- sífilis como paradigma, a psiquiatria passou a fornecer o diagnósti-
mascara o gesto libertador de Pinel e destrói a postura ufanista co, estudar e tratar as doençaS mentais, isto é, a crença de processos
dos historiadores da psiquiatria. Szasz, porém, reconhece a utili- biológicos dentro da cabeça dos pacientes, manifestados em seus
dade histórica dessa postura. Foucault mostra as contradições e comportamentos-problemas.
A ciência busca relações ordenadas entre eventos r; tarais. Des-
irracionalidades produzidas pela família, pelos poderes jurídicos
se modo, as propostas científicas a respeito da esquizofrenia não são
e religiosos para justificar a dominação da loucura pela psiquia-
sustentadas por provas, pois a proposta de que a paralisia geral é
tria. Szasz, por outro lado, é contra qualquer tipo de intervenção
involuntária às pessoas e ao suposto doente mental. Declara-se uma infecção sifilítica é corroborada com a presença da bactéria
favorável à psiquiatria como uma ciência à qual as pessoas po- Treponema pallidum no cérebro. Na esquizofrenia a fisiopatologia é
dem recorrer, voluntariamente, para receberem uma ajuda que substituída por linguagem e história de vida. Assim, foi provado
que a paresia é a manifestação de uma doença e declarado que a
viabilize a resolução de seus problemas existenciais, por meio da
psicoterapia, com o consentimento declarado da pessoa. esquizofrenia é uma doença. O problema para a psiquiatria permane-
ce, isto é, a falta de comprovação empírica da hipótese orgânica.
É evidente que teoricamente Foucault e Szasz são muito dife-
Se a esquizofrenia afetasse o cérebro, não estaríamos diante de
rentes. Ambos trabalham com conceitos, perspectivas e pressupos-
tos diferentes. Entretanto, ambos procuram avançar teorizações uma doença cerebral? E se descreve delírios, alucinações, compor-
tamento ou discurso desorganizado e dificuldades emocionais,
quanto à prática psiquiátrica em relação ao doente mental median-
te perspectivas igualmente críticas. Diante disso, uma questão emer- estamos nos referindo, então, a comportamentos humanos com-
ge: feita a crítica teórica e política do conceito de doença mental, plexos e não a disfunções orgânicas.
Kraepelin (1979), um dos predecessores do sistema de diag-
qual é o resultado? Foucault fala como filósofo; Szasz fala como Q
psiquiatra. Seus objetivos são os mesmos? Será possível pensar nóstico nosológico na psiquiatria, afirmou, no início do século
numa prática nova com base em autores tão diferentes? XX, que, nos termos mais estritos, não se pode falar da mente
N adoecendo, afirmando serem os distúrbios nas bases físicas da
O problema etiológico das doenças mentais denota que se
quisermos compreender bem as razões e o alcance das afirma- f, vida mental que deveriam ocupar a maior atenção dos estudos a
serem desenvolvidos. Afirmou ainda que as lições para entender
ções psiquiátricas encontradas nos atuais compêndios de psiquia-
Z tal patologia deviam ser retiradas desse novo departamento da
tria, não poderemos nos esquecer, como afirma Pessoti (1996,
— medicina, já que a insanidade, em suas fôrmas mais brandas, acar-
p.9), que o "manicômio foi o núcleo gerador da psiquiatria como a retava o maior sofrimento que os médicos teriam que encontrar.
especialidade médica", isto é, o esquema gerador do desenvolvi- '07)
mento da psiquiatria foi a construção de lugares para internar e • Alertou que o número de loucos, naquele momento, na Alema-
lidar com a loucura. ro era de duzentos mil e que, aparentemente, aumentava com a
go mais infortunada rapidez. Tal fato, supunha, era uma conseqüên-
Ainda assim, mesmo com o 'resultado de seu complexo desen-
volvimento histórico, a psiquiatria tornou-se um ramo da medicina.
o cia da crescente degeneração da raça humana, ao lado do abuso
no do álcool e da infecção sifilítica. Intimidou, ao declarar que to-
Esse domínio foi sustentado pelos pressupostos orgânicos e, por meio
dos os insanos são perigosos, a seus vizinhos e, mais ainda, a eles
dele, a medicina psiquiátrica penetrava na área do comportamento
• mesmos. Desse modo, os comportamentos complexos foram ro-
humano, procurando construir seu próprio saber, no qual delimitaria
164 tulados de psicóticos, paranóicos. E como as pessoas que assim
suas práticas, tornando-as consistentes com a perspectiva médica.
se comportavam eram jovens, ele diagnosticou-as como portado- vários critérios diagnósticos para determinar a etiologia das
ras da dementia praecox (demência precoce). doenças mentais.
Em 1911, Bleuler propõe o termo esquizofrenia para descrever Rosenhan (1973) conseguiu internar oito pseudopacientes
classes de comportamentos as quais acreditava possuir uma base (quatro psicólogos, um psiquiatra, um pediatra, um pintor e uma
física. Acreditava que os mecanismos psíquicos eram uma certa pre- dona de casa) em diferentes hospitais psiquiátricos com a quei-
disposição do cérebro, e que a esquizofrenia era uma doença em xa de "ouvir vozes". Ao serem indagados sobre tais vozes, res-
processo, para a qual as explicações psicológicas eram insuficien- pondiam que elas não eram claras, mas pareciam algumas coisas
tes. Para as manifestações dos sinais de esquizofrenia, os sintomas como vazio, oco e pancada. Além disso, todas as outras infor-
pareciam indicar lesões fisiológicas. Em seu texto A fisiogênese e a mações dadas aos psiquiatras eram absolutamente verdadeiras.
psicogênese na esquizofrenia, Bleuler (1979) declara: Todos eles foram admitidos como pacientes e diagnosticados
como portadores de esquizofrenia. Uma vez admitidos, os
Muitos delírios de grandeza decorrem quando o processo pseudopacientes cessaram de simular quaisquer sintomas e com-
de pensamento tornou-se tão desintegrado ou, em geral, tão portaram-se normalmente. Mesmo assim permaneceram na ins-
ilógico que o paciente não nota mais as flagrantes contradi- tituição pelo período de sete a cinqüenta e dois dias e receberam,
ções com a realidade. Isso ocorre freqüentemente após anos ao todo, duas mil e cem pílulas de medicamentos.
de delírios de perseguição. Então ele é o imperador, Papa, O paradoxal, no entanto, foi que os outros pacientes logo
Cristo, ou mesmo o próprio Deus; ele não apenas está indo reconheceram os falsos pacientes, embora a equipe do hospital
fazer invenções, mas realmente as fez. Aqui, podemos niti- não os visse assim. Ao contrário, quando um dos pseudopacien-
damente perceber como o desenvolvimento psíquico dos de- tes — será que só estes seriam pseudopacientes? — sentou-se do
lírios depende do avanço da lesão primária. lado de fora da sala de refeições meia hora antes do almoço,
esse comportamento foi interpretado como a natureza aquisiti-
O fato é que até a presente data não foi provada a presença T, va oral da síndrome.
daquela lesão primária no cérebro das pessoas rotuladas de (.) Além de tudo isso, Rosenhan (1973) revelou a um dos hos-
(2.
esquizofrênicas. Algumas questões atravessam, portanto, as afir- pitais o que fizera e disse que repetiria a experiência nos próxi-
mações psiquiátricas sobre a natureza dessas definições, que não g mos três meses. Assim, sendo avisada quanto aos falsos pacientes,
são mais do que duas faces de uma mesma interrogação, que po- N nunca enviada, a equipe daquele hospital rotulou cento e noventa
dem ser aplicadas a uma ou a outra: o que é uma doença mental? e três pessoas como prováveis pseudopacientes.
Se esta se localiza no corpo, coloca-se de imediato a segunda c‘r
i. O trabalho conduzido pela psiquiatria, e que a sociedade re-
g. conhece como necessário, parece inadequado. Quando se obser-
interrogação: onde? Em algum órgão, numa parte escura e secre-
ta do cérebro, ou, então, disseminada por todo o organismo? Como
g.
onhece c
va o que realmente acontece no interior de um hospital
ri
pode a medicina, uma ciência empírica que realiza diagnósticos • psiquiátrico, encontram-se verdadeiros absurdos. As tentativas
com base em fatos laboratoriais, aceitar, em seus domínios, 'uma • de tratar a doença mental vão desde as idéias bizarras, porque
ciência que diagnostica doenças mentais, fatos não-físicos? Como .aï não definem se elas seriam causadas por alguma anormalidade
a
uma droga, uma substância física, pode melhorar a mente, agên- no cérebro dos pacientes, à prática de punições, eletrochoques,
cia não-física? ooi psicocirurgias ou uso e abuso de medicamentos. Estudos siste-
As tentativas de ajustar as práticas institucionais da doença 4 máticos sobre as etiologias dos transtornos mentais não-somente
mental ao modelo médico parecem deixar perplexos tanto os cri- têm falhado em dar as respostas para o problema, como há uma
ticos da psiquiatria quanto outros pesquisadores sociais interes- expectativa considerável de que o problema em si mesmo talvez
, 166 sados, mais especificamente, em acompanhar as implicações dos ainda não tenha sido formulado corretamente.
Quando nos voltamos para os achados laboratoriais associa- Embora a hipótese dopamínica da esquizofrenia tenha estimu-
dos apresentados no manual da última edição da Associação Amé- lado as pesquisas sobre a esquizofrenia por mais de duas décadas e
rica de Psiquiatria, o DSM-IV-TR (2002), deparamo-nos, de fato, continue sendo a hipótese neuroquímica principal, ela apresenta dois
com uma estranha situação: a psiquiatria é o tratamento das doen- problemas. Em primeiro lugar, os antagonistas da dopamina são efe-
ças mentais sem etiologias comprovadas. No entanto, após du- tivos para o tratamento de virtualmente qualquer paciente psicótico
zentos anos da formulação de seus princípios fundamentais, os e severamente agitado, não importando o diagnóstico. Não é possí-
debates ainda permanecem igualmente intensos e uma sensação vel, portanto, concluir que a hiperatividade dopaminérgica seja ex-
de mal-estar é compartilhada por seus especialistas. Szasz (1978, clusividade da esquizofrenia. Em segundo lugar, os dados
p. 31) afirma que eletrofisiológicos sugerem que os neurônios dopaminérgicos podem
aumentar sua taxa em resposta à exposição em longo prazo a drogas
a psiquiatria veio substituir o que antes era conhecido como antipsicóticas (KAPLAN; SADOCK; GREBB, 1997).
medicina de loucos, controlando não doenças, mas desvios; Anormalidades estruturais demonstradas através da tomografia
e nesta transformação pseudocientífica do médico alienista computadorizada no diagnóstico da esquizofrenia são limitadas,
em psiquiatra, a psiquiatria passou a ser — e é hoje aceita em isto é, os resultados — aumento dos ventrículos laterais e do tercei-
toda parte — o estudo 'cientifico' do mau comportamento e ro ventrículo, algum grau de redução do volume cortical — não são
sua administração médica. específicos dos processos patológicos da esquizofrenia. Os
ventrículos estão mais aumentados em pacientes que foram ex-
Esse fato é, no mínimo, estranho na história das ciências. postos aos neurolépticos ou à sua retirada (KAPLAN et a1., 1997).
Alguns elementos permitirãó melhor compreendê-lo. Por volta Também com o uso da imagem por ressonância magnética e com
da comemoração dos cem anos da psiquiatria, Kraepelin (apud a espectroscopia por ressonância magnética, entre outros, a situ-
SZASZ, 1978, p. 54), no início do século XX, sustentava: ação não é muito diferente, pois

A maioria das doenças mentais é hoje obscura. Mas nin- a inclusão de achados laboratoriais anormais encontrados
guém negará que novas pesquisas desvendarão novos fatos em grupos de indivíduos com esquizofrenia podem ser nar-
numa ciência tão jovem quanto a nossa; a esse respeito, as rados como uma complicação da esquizofrenia ou de seu I
doenças produzidas pelas sífilis constituem uma lição con- tratamento (DSM -IV-TR, 2002, p. 310).
creta. É lógico supor que teremos êxito na descoberta de
muitos outros tipos de insanidade mental que podem ser evi- Em 1991, o Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA
tados — talvez até curados — embora não disponhamos, atu- dedicou um número especial à esquizofrenia, a uma questão for-
almente, da mais tênue pista. mulada pelo próprio instituto, ou seja, se a esquizofrenia é causa-
da por um defeito químico. Em relação a isso, encontramos a
A hipótese fundamental da psiquiatria, no início deste sécu- seguinte resposta:
lo, foi que o trabalho científico empírico descobriria um diagnós-
tico laboratorial para a maioria das doenças mentais Todavia, a Apesar de não estar estabelecida ainda com certeza nenhu-
atribuição de uma fisiopatologia orgânica como etiologia para a ma causa neuroquímica para a esquizofrenia, o conhecimento
esquizofrenia não se sustenta até a presente data. Para básico sobre a química cerebral e sua relação com esta do-
comprends blma,coniderspxmlo,quehj ença está progredindo rapidamente. Há muito tempo se pensa
se investiga sobre as anormalidades no ,cérebro das pessoas que os neurotransmissores — substâncias que possibilitam a
168 diagnosticadas como esquizofrênicas. comunicação entre as células nervosas — intervem no desen-
volvimento da esquizofrenia. É possível que esta doença es- COLEMAN, J. C. Abnormal psychology and modern life. New York:
teja associada a algum desequilíbrio dos complexos inter- Applenton, 1950.
relacionados do cérebro. embora não tenhamos respostas DSM — IV — TR. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da
definitivas, esta área de pesquisa da esquizofrenia é muito Associação Americana de Psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2002.
ativa e promissora (INSM, 1991, p. 9). FOUCAULT, M. Historie de la folie à l'age classic. Paris: Plon, 1961.
FOUCAULT, M. A história da loucura. São Paulo: Perspectiva, 1978a.
Depois de quase um século, durante o qual a psiquiatria usou FOUCAULT, M. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo
'as terapias físicas — como o eletrochoque, o choque insulínico, a Brasileiro, 1978b.
lobotomia e, desde década de 1950, os neurolépticos — baseada
FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1987.
na crença de que a esquizofrenia se deve a uma falha neuro-
química, ela é apresentada para a psiquiatria contemporânea como INSM. Instituto Nacional de Saúde Mental (Usa)/Sociedade Brasileira de
Psiquiatria. Esquizofrenia: perguntas e respostas, 1991.
uma entidade médica cujos achados laboratoriais diagnósticos
ainda não foram identificados (DSM-IV-TR, 2002). KAPLAN, H. I; SADOCK, B. J.; GREBB, J. A. Compêndio de psiquiatria.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
Na história da psicologia, a tendência a falar em termos
mentalistas sempre precedeu o falar em termos de relações. Pou- KRAEPELIN, E. Psiquiatria clínica. In: MILLON, T. (Ed ). Teorias da
psicopatologia e da personalidade. Rio de Janeiro: Interamericana, 1979.
ca ênfase foi dada ao comportamento em si. Desse modo, o com-
portamento foi relegado à posição de um simples modo de MACHADO, R. R. Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Foucault.
Rio de Janeiro: Graal, 1981.
expressão da atividade mental ou a sintomas de uma perturbação
subjacente (SKINNER, 1976). Todavia, pode-se questionar: sin- REESE, H. Análise do comportamento humano. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978.
tomas do quê? Na medicina constata-se que uma pele ressequida ROSENHAN, D. L. On being sane in insane places. Science, n. 179, p. 250-
é um sintoma de dieta, de ingestão insuficiente de água ou de 258, 1973.
secreção endócrina. Tais eventos são observáveis e mensuráveis, ao SKINNER, B. E Ciência e comportamento humano. São Paulo: Edart, 1976.
podem ser manipulados e seus efeitos sobre a pele podem ser a SKINNER, B. F. O que é comportamento psicótico. In: MILLON, T. (Ed.). Teorias
observados. Não são construtor hipotéticos, inventados para ex- da psicopatologia e da personalidade. Rio de Janeiro: Interamericana, 1979.
plicar a existência do sintoma (REESE, 1978). o
o
o SZASZ, T. The myth of mental illness. American Psychology, n. 15, p. 113-
O que se observa na esquizofrenia são classes de comporta- (NI
118, 1960.
mentos-problemas que devem ser estudados por uma ciência natu- a
1:7 SZASZ, T. Esquizofrenia: o símbolo sagrado da psiquiatria. Rio de Janeiro:
ral do comportamento. Skinner (1979) afirma que o comportamento IcNT
t•-• Zahar, 1978.
do esquizofrênico é simplesmente parte e parcela do comporta- r.ir) SZASZ, T. O mito da doença mental. Rio de Janeiro: 2ahar, 1980.
mento humano e, assim, deve permanecer firmemente ao lado da
PESSOTI, I. O século dos manicômios. São Paulo: Editora 34, 1996.
ciência do comportamento, desde que se considere como objeto de
estudo a atividade do indivíduo como um todo em termos de even-
tos externos e internos que agem sobre ele. a Abstract: the concept of mental illness doesn't lead us to any discovery of
e
'5 medicine, but to a reality which is formed by different factors. The issue
of turning insanity into mental illness is addressed for that one who doesn't
Referências o avoid to understand the diverse aspect of this process. Considering
exclusion and confinement practices, it was aimed to understand the way
BLEULER, E. A fisiogênese e a psicogênese na esquizofrenia. In: MILLON, this issue is recognized by Foucault and Szasz.
T. (Ed.). Teorias da psicopatologia e personalidade. Rio de Janeiro:
170 Interamericana, 1979. Key words: mental illness, social exclusion, historical issue of insanity
ILMA APARECIDA GOULART DE SOUZA BRITTO
Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Professora no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia
da Universidade Católica de Goiás.'E-mail: ilmagoulart@brturbo.com

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