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Sugestiva mensagem de força espiritual, fé, devoção e amor para a humanidade toda.

PREFÁCIO

Por Swami Vijoyananda

Neste segundo tomo nos aproximamos mais de Sri Sarada Devi, a Santa Mãe; suas conversações e suas
palavras nos farão sentir intimamente sua presença. As suas palavras, seus conselhos, esclarecem todas as
nossas perguntas e dúvidas. Cheias de ternura e vigor, suas conversações nos estimulam e atuam como um
verdadeiro incentivo. Lendo-as podemos sentir que a Mãe está conosco. Em seu coração sempre flui o divino amor;
uma gota desse amor é suficiente para nos purificar e nos livrar de todos os erros, equívocos, ignorância e
escravidão que nos somam às aparências que constituem o mundo.
Como todos os seres muito grandes no campo espiritual, como as Encarnações Divinas, a Mãe falou na
linguagem do povo, com toda simplicidade e recorrendo a simples relatos e parábolas. Não condenava ninguém;
era a figura da paciência e da simpatia cristalizadas, e milhares de pessoas, um grande número de mulheres entre
elas, acorreram a Santa Mãe. Todos encontraram a solução de seus problemas, o modo de corrigir seus erros e o
poder de abandonar os maus hábitos. Radicalmente mudados, progressivamente iluminados, cheios de novos
conceitos acerca do sentido da vida, com renovado ânimo para se dedicar a Deus, seus filhos se aproximaram mais
e mais dela e alguns, muito afortunados, durante sua própria vida, a reconheceram como Brahmashakti. Força do
Supremo ou Divindade em ação.
A respeito das Encarnações Divinas, existem duas classes de opiniões; uma, dos racionalistas e a outra, de
seus devotos. Rama, Krishna, Buddha, Jesus Cristo, Ramakrishna foram e são estimados e, às vezes, venerados
por pessoas que opinam que essas grandes personalidades, por seu próprio esforço humano, escalaram alturas
excepcionais; tiveram extraordinária compaixão e amor para com seus semelhantes; tinham poderes psíquicos
sobrenaturais, fizeram grandes milagres; fundaram escolas religiosas e conduziram a muitos para uma vida moral,
ética e espiritual. Mas, segundo os racionalistas, todos aqueles que são considerados como Encarnações Divinas
pelos devotos, eram positivamente, seres humanos. Mas mesmo alguns dos intelectuais que pretendem saber de
tudo, por seu prejuízo ou crença, opinam que, entre estes grandes, há algum melhor que outro, ou melhor que todos
os demais!
Os devotos, por sua vez, crêem que Deus descende. Movido pela compaixão, toma forma humana; fala
conosco; sofre na carne humana para o nosso bem e por sua vida exemplar, nos ensina como podemos vencer
todas as fraquezas e debilidades; como, pela dedicação a Ele, podemos superar o medo, a vida de apego e a
morte. Os devotos também têm suas razões e sua lógica, baseados em suas próprias experiências íntimas e que
estão mais além de todas essas conjecturas e deduções relativas, que somente procedem de dados parciais e
transitórios. Os verdadeiros devotos são pessoas de caráter; são verazes, intrépidos e firmes. Disse o devoto: como
enumeráveis mentiras ou mesmo verdades parciais jamais constroem a verdade, assim, milhões de opiniões
errôneas não podem elaborar o conhecimento real. Todo conhecimento que seja produto do contato de objetos ou
idéias com os órgãos dos sentidos, embora tenha eco em mentes e intelectos afins, é passageiro e mutável. Todo
conhecimento, exceto o proveniente da percepção direta, quando se realiza o conhecimento de um mesmo como
ser e eternamente relacionado com Deus, pertence à consciência do ego que, normalmente, parece uma bolsa de
“pequenos sujeitos” bem coloridos por distintas impressões. Nossa individualidade não pode ser homogênea e
íntegra; por isso, nosso racionalismo meramente intelectual, nunca está firme. Ademais, milhares de distintas ações
e milhões de idéias que vão e vem, fazendo-nos dançar constantemente, mantendo-nos em um estado de
perturbação, não nos facilita, em primeira instância, conhecer nossa natureza real, íntima e logo, poder alcançar a
capacidade de sentir que, embora tivessem formas densas de homens e depois de milhares de anos, contudo
aparecem por Sua própria inexplicável misericórdia, em forma sutil, Rama, Krishna, Buddha, Jesus Cristo e
Ramakrishna eram e são Encarnações Divinas; são as formas humanas mais puras que o único Deus tomou,
segundo a necessidade da época, para “restabelecer a Eterna Religião” de Amor Puro, Verdade e Universalismo.
Quem era Sri Sarada Devi? Minha primeira resposta é que cada leitor, depois de ler os dois tomos, o de sua
biografia e estas “Conversações”, e meditar sobre sua vida e seus ensinamentos, forme sua própria opinião. Agora,
direi minha opinião. Como não posso separar o sol de sua luz, a água de sua umidade, o fogo de seu poder de
queimar, assim eu não posso separar a Santa Mãe – a Divina Shakti – de Sri Ramakrishna – a Encarnação Divina.
Ouvi dos lábios do Swami Shivananda que, em certa ocasião, quando Sri Ramakrishna sabia que Seu corpo iria
durar pouco, chamou a Santa Mãe e lhe disse: “Deixo todos em tuas mãos”. A Mãe quis também deixar seu corpo,
mas Sri Ramakrishna insistiu, dizendo: “Desta vez, tens que trabalhar; o mundo necessita de ti”.
Do mesmo modo que as Encarnações Divinas, a Santa Mãe tinha o poder de outorgar a salvação. De
muitos de seus filhos ouvi que Santa Mãe, em diversas ocasiões dizia: “Todos os meus filhos serão salvos”.
Hoje, o mundo moral e espiritual tem, aparentemente, um aspecto muito pouco alentador. Parece que toda
a escória subiu à superfície e ocultou o puro, cristalino elixir da vida. Parece que o homem se esqueceu de amar a
Deus, a seu próximo, a verdade, a vida de pureza e dedicação ao Ideal. Mas tudo isso é mera aparência; uma série
de aparências como sombras que passam rapidamente.
Durante séculos o homem, em geral, foi perdendo a fé em si mesmo e o desejo de se conhecer
intimamente, tratando somente de se convencer que cada um é simplesmente a soma total das opiniões alheias. O
homem afundado na ignorância foi esquecendo que ele mesmo é a Felicidade; que sua natureza real é a plenitude
e buscava, por onde quer que fosse, migalhas de prazeres evanescentes. Esquecendo sua vida de “Ser” para levar
somente uma vida de “parecer” e, assim, ocultando seus naturais dons de amor, compaixão, inegoísmo, veracidade,
vida de controle e respeito, adquiriu e praticou: arrogância, afã de domínio, egotismo, hábito de mentir e propensão
a levar uma vida licenciosa.
Porém, o afã de continuar uma vida embasada no ensinamento de idéias relativas ou que não servem ao
verdadeiro progresso, amparado por falsos brilhos de luxo e comodidade, está caminhando para o fim. Sobretudo a
mulher está despertando e se livrando do efeito produzido pela falsa adoração à sua forma; ela quer ser respeitada.
Não somente deseja saber e participar de tudo o que está relacionado com os aspectos externos da vida, mas
também quer sentir que ela é um Ser e como tal, está eternamente conectada a Deus. Por seu próprio esforço e
dedicação, pelo discernimento puro entre o que é relativo e o Real, pelo amor limpo de apegos instintivos,
as shaktis de todas as partes do mundo, em lugar de seguir aceitando que sejam utilizadas, querem ser úteis para o
mundo inteiro.
Segundo meu modo de interpretar os feitos, o mundo necessitava de um exemplo vivente da mais pura
manifestação da mulher e, por isso, descendeu a Divindade e tomou a forma da Santa Mãe.
Todos os que lerem este livro, gozarão da viva bênção da Santa Mãe e, se puserem em prática seus
conselhos, ficarão transformados em seus filhos, em seres já próximos a alcançar sua libertação.
Swami Vijoyananda

Ramakrishna Ashrama
Gaspar Campos 1149
Bela Vista
Buenos Aires
República Argentina

INTRODUÇÃO A PRIMEIRA EDIÇÃO INGLESA

Publicada nos Estados Unidos da América do Norte

Nas páginas seguintes publicamos, pela primeira vez em inglês, a tradução das conversações da Sri
Sarada Devi, consorte de Sri Ramakrisna, conhecida entre os milhares de devotos do grande Mestre como a “Santa
Mãe”. É quase uma tradução literal de uma obra publicada em Bengali em dois volumes pelo Swami Arupananda,
que serviu e atendeu pessoalmente a Santa Mãe durante muitos anos. O conteúdo foi tomado de diários e relatos
de seus discípulos, sendo omitidas as partes que, provavelmente, seriam de pouco interesse para o leitor
não iniciado.(1)
(1) Tal como se publicam aqui, as conversações foram consideravelmente abreviadas, sem sacrificar nunca, o fundamental ou instrutivo.
A tradução começou há seis anos, a pedido de uma estudante norte-americana, que desejava conhecer as
atividades diárias dessa mulher hindu, a Santa Mãe, que havia tido tanta influência na vida espiritual de centenas
de saniasines(monges) da Ordem de Ramakrishna. Gradualmente outros estudantes, ao lerem o manuscrito,
mostraram o mesmo profundo interesse nessa vida singular e extraordinária de Sri Sarada Devi. Eles também
ficaram impressionados pela vida singela e natural daquela mulher que transformou seus atos diários em culto
devocional, que percebeu o Divino até nas tarefas rotineiras consideradas fastidiosas, que mostrou cuidadoso afã
de uma mãe para oferecer bem-estar aos que buscavam sua inesgotável ajuda no desenvolvimento espiritual e que
atraía a todos pelo magnetismo de sua imaculada pureza e esse seu amor que nunca buscou reciprocidade.
Sri Ramakrishna conferiu à Santa Mãe a mais alta dignidade ao considera-la como representante da última
palavra em perfeição da mulher hindu. Nascida em um plácido ambiente de uma aldeia da Índia e criada entre
aldeões comuns, que nada sabiam das artes da civilização moderna, no entanto foi considerada, durante sua vida,
como o protótipo acabado e perfeito da mulher da Índia. Pessoas de todas as esferas sociais a visitavam e se
sentiam felizes. Ela viajou muito e se encontrou com mulheres e homens com os quais a troca de idéias, pelo meio
direto de uma mesma linguagem, era impossível; no entanto, a aceitavam como guru (mestre espiritual), o qual
ensina mais que com palavras, por sua silenciosa influência. E ela não era um guru do tipo comum. Sua vida diária
se desenvolvia entre o cumprimento incessante de deveres, não só para com seus numerosos discípulos, mas
também para seus parentes; estes últimos faziam o quanto podiam para encher sua vida de dissabores. Como
exemplo, citaremos um desses parentes: sua sobrinha Radhu. Era uma deficiente mental a quem, apesar de seus
defeitos, a Santa Mãe aceitou humildemente como um benéfico dom de Deus. Podemos observar que, em meio a
todas essas provas e tribulações e também dos mal-estares próprios das doenças que sofreu nos últimos anos, ela
continuava firmemente estabelecida num estado de serenidade e contentamento, o que demonstra sua constante
comunhão com o manancial da felicidade interior.
Durante os anos em que cumpriu sua missão espiritual, mostrou tanta desenvoltura e naturalidade, força e
sabedoria, porque estes anos haviam sido precedidos por outros de austeras disciplinas espirituais cumpridas
durante a vida de Sri Ramakrishna e depois de seu desaparecimento. Ramakrishna, para ela, era Deus encarnado
em forma humana.
As conversações da Santa Mãe serão uma revelação para os leitores da Índia, assim como também para os
do Ocidente. Para a mulher hindu, sua vida sinalizou a derrota, a seguir em sua etapa atual, para alcançar, no
futuro, uma elevada posição dentro da sociedade. E a mulher de qualquer parte do mundo saberá que a Índia
respeitou sempre a mulher como manifestação da Divina Shakti (Energia Divina) e que o segredo de seu poder
reside em considerar todos os homens como seus próprios filhos, filhos cuja mais elevada homenagem a render à
mulher, é reconhecer nela sua divindade.
Pela contemplação da vida da Santa Mãe, a mulher ocidental aprenderá que, para ser igual ao homem e
ser por ele respeitada, não tem que imitar suas aventuras, nem competir cruamente em todas as atividades da vida.
Porque a mulher foi agraciada com certas qualidades inatas, que são sua herança divina. A doçura não denota falta
de coragem, nem a simplicidade, falta de sabedoria. Ela leva sua cruz, como a leva todo verdadeiro homem, para a
redenção de todos. Tanto o homem como a mulher, pelo cumprimento de seus respectivos deveres, alcançam a
mais alta perfeição. Todos os caminhos da vida desembocam no horizonte infinito da Divindade.
Swami Nikhilananda

Centro Ramakrishna – Vivekananda


Nova Yorque, EE. UU.
Fevereiro, 14 de 1939.

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO I

(Tirado das páginas de um diário escrito por uma discípula)

CASA DE UDBODHAN – KOLICATA (CALCUTÁ)

Janeiro de 1911
Numa sexta-feira pela manhã, Sriman K. veio a minha casa, no bairro de Patalgana, em Calcutá e disse-
me: “Amanhã à tarde iremos a Baghbazar para saudar a Santa Mãe. Prepare-se com tempo”. Finalmente, teria a
boa fortuna de prostrar-me aos pés da Santa Mãe! Tão grande era minha alegria, que quase não dormi durante toda
a noite. Fazia quatorze ou quinze anos que eu vivia em Calcutá. Depois de tanto tempo a Mãe, por sua graça, me
concedia a oportunidade de apresentar-lhe meus respeitos.
No dia seguinte à tarde, alugamos uma carruagem e fomos buscar Sumati na escola Brahmo para
senhoritas e nos dirigimos à casa da Santa Mãe, em Baghbazar. Seria difícil descrever a ansiedade e o fervor que
sentia durante esta peregrinação. Ela estava de pé na porta do templo de Baghbazar. Não tinha véu em sua
cabeça. Pela maneira de olhar, parecia que esperava alguém. Eu me prostrei a seus pés e ela, em seguida,
inquiriu Sumati acerca de mim. Sumati, que visitava a Santa Mãe desde algum tempo, me apresentou como sua
irmã mais velha. A Mãe, dirigindo-se a mim, disse: “Olha, filha, quantos incômodos me ocasionam esta gente daqui!
Minha cunhada e sua filha Radhu, estão com febre. Queres esperar um minuto? Vou lavar meu shari e volto”.
Esperamos e depois de alguns minutos, voltou. Logo me deu um punhado de doces e me disse que eu repartisse
com minha irmã. Como Sumati teria que voltar à escola, não ficamos mais tempo. Nos despedimos e a Mãe nos
disse: “Venham outra vez”. Esta entrevista de cinco minutos não pôde saciar esse desejo pouco comum nascido em
meu coração. De maneira que voltei ao meu lugar com a alma mais sedenta que antes.

12 de fevereiro de 1911
Hoje fui à Casa de Udbodhan e me inteirei que a Santa Mãe havia ido à casa de Balaram Bose. Ela
regressou logo. Tão logo a saudei, perguntou-me sorrindo: “Quem está te acompanhando hoje?”. Respondi: “Um de
meus sobrinhos”.
Mãe: Como te sentes hoje? Como está tua irmã? Deixaste passar muito tempo sem vir. Estava preocupada
contigo e pensei que poderias não estar bem.
Fiquei surpresa, porque ela havia me visto só uma vez, por uns poucos minutos; mas não nos havia
esquecido. Brotaram em meus olhos lágrimas de alegria.
A Mãe disse com grande ternura: “Tu estavas aqui e eu me sentia intranqüila na casa de Balaram”.
Eu estava muito emocionada. Minha irmã Sumati me havia dado dois gorros de lã para Radhu, a sobrinha
da Santa Mãe. Apesar do pouco valor, os entreguei e a Mãe ficou muito contente. Sentou-se na cama e me disse:
“Sente-se ao meu lado”. Assim eu fiz. Com muita ternura, a Mãe me disse: “Filha, parece como se já te tivesse visto
muitas vezes antes de agora e que nos conhecemos há muito tempo”. Respondi: “Não sei; eu estive aqui somente
uma vez, por uns poucos minutos”.
A Mãe sorriu e começou a elogiar muito minha devoção e sinceridade e a de minha irmã. Mas eu não sei
até que ponto mereço tais apreciações. Em pouco tempo, foram chegando muitas devotas. Com desejosos olhares,
contemplavam o rosto sorridente e compassivo da Santa Mãe. Eu nunca havia visto antes cena semelhante. Minha
mente estava deleitando-se em gozo espiritual, quando alguém me lembrou que havia chegado o coche que devia
levar-me de volta a minha casa. Em seguida, a Mãe levantou-se e me ofereceu prasad. Disse-me: “Come isto!”. Eu
sentia vergonha de comer sozinha, na presença de outras pessoas, mas a Mãe falou: “Por que vacilas? Toma estes
doces”. Eu tomei a oferenda em minhas mãos e, inclinando-me com reverência, me despedi. Ela me disse: “Vem
novamente. Podes descer só ou queres que te acompanhe?”. Acompanhou-me até a escada. Eu disse: “Posso
descer sozinha; não se incomode”. Ao despedir-se, a Mãe disse-me: “Vem outro dia, pela manhã”. Eu regressei
com uma sensação de plenitude e pensei: “Que maravilhoso amor!”.

14 de março de 1911
Ao prostrar-me hoje diante da Santa Mãe, ela disse-me: “Que bem fizeste em vir! Todo este tempo estive
pensando em ti. Por que não viestes nestes dias?”.
Devota: Não estava em Calcutá. Estive na casa de meu pai.
Mãe: Que se passa com Sumati? Faz tempo não aparece por aqui. Está muito ocupada com seus estudos?
Devota: Seu marido está ausente.
Mãe: Sumati vai a escola. Cumprem eles seus deveres para com o mundo?
Devota: Mãe, nós não sabemos o que é realmente o mundo e quais são seus deveres. Somente a senhora
sabe disso.
A Mãe sorriu e disse: “Que dia quente!”, e me deu um abano. Ah! Querida, tu comes muito depressa e vem
aqui correndo. Recosta-te agora ao meu lado”.
Puseram um colchão sobre o piso. Eu estava indecisa, mas a Mãe disse-me: “Por que titubeias? Recosta-
te! Faça o que te digo!”. Tive que faze-lo. Parecia que a Mãe estava para dormir e eu guardei silêncio. Chegaram
algumas devotas e duas monjas. Uma das monjas era mulher de idade e a outra, jovem. Com os olhos fechados, a
Mãe disse: “Quem chegou? Gauridasi?”. A moça jovem disse: “Como sabes, Mãe?”. A Mãe disse que o sentia.
Depois de uns minutos, sentou-se. A monja jovem disse: “Tivemos no Monastério de Belur. Swami Premananda nos
deu de comer magnificamente. Quando o swami está ali, ninguém nunca sai sem antes ter comido assim”. A Mãe
repreendeu suavemente a uma das devotas por não levar a sua frente a marca vermelha que toda mulher casada
deve levar enquanto vive com seu esposo (1).
(1) Esta distingue a mulher casada da solteira e a viúva.
Gauri-Ma, a quem a Mãe havia falado de mim, convidou-me a ir a sua escola, onde freqüentavam umas
sessenta mulheres. Perguntou-me se sabia costurar. Disse-lhe que sabia algo e me pediu que ensinasse o que
sabia às estudantes do ashrama.
Com permissão da Santa Mãe, certo dia visitei a escola de Gauri-Ma. Foi muito carinhosa comigo e pediu-
me que comparecesse a escola todos os dias, por uma ou duas horas, para ensinar as moças. Eu contestei: “É um
absurdo que eu possa fazer-me de professora, com minha pouca capacidade. Mas se a senhora insiste, posso
ensinar as meninas o alfabeto”. Gauri-Ma se manteve inflexível e tive que aceitar.
Um dia, na saída da escola da Gauri-Ma, fui ver a Santa Mãe. Era verão e sentia-me muito cansada. A Mãe
estava sentada em seu quarto, rodeada de um grupo de devotas. Logo que me prostrei ante ela, olhou-me e, em
seguida, tomou um pequeno abano que estava sobre o mosquiteiro. Começou a abanar-me e disse solicitamente:
“Tire a blusa e estarás mais fresca”. Que amor sem precedentes! Começou a acariciar-me diante de todas as
devotas. Senti vergonha. Todos os olhos estavam fixos em mim. Vendo sua preocupação, tive que tirar a blusa.
Pedi-lhe o abano, mas ela continuou abanando-me e disse com grande ternura: “Está bem. Refresca-te um pouco”.
Trouxe-me um copo d’água e alguns doces. Estava feliz a ver-me comer. Como o coche que me havia trazido da
escola estava me esperando, tive que me ir em seguida.

3 de agosto de 1911
Nesta manhã, fui cedo a Baghbazar. Tinha o desejo de receber neste dia a iniciação da Santa Mãe, de
maneira que levei algo como oferenda, com esse propósito. Gauri-Ma me indicou a oferenda que devia levar e me
acompanhou. Quando cheguei, vi que a Mãe estava absorta em adoração. Por sinais, indicou-me que me sentasse.
Quando terminou o culto, Gauri-Ma tocou no assunto de minha iniciação. Eu também havia falado do mesmo á
Mãe, em outra ocasião. Havia levado algumas bananas de boa qualidade; ao ver as frutas, mostrou-se satisfeita e
disse: “Ah! Vejo que trouxe muitas bananas”. Um dos monges presentes expressou seu desejo de comer uma.
Logo, ela disse: “Tomes esse tapete e sente-se a minha esquerda”. Eu repliquei: “Ainda não tomei meu banho no
Ganges”.
Mãe: “Não importa. É suficiente que hajas trocado tua roupa”.
Sentei-me ao seu lado. Meu coração batia aceleradamente. A Mãe pediu aos presentes que saíssem da
habitação e logo disse: “Agora, diga-me que mantram te foi revelado durante um sonho?”.
Devota: Devo dizer ou escrever?
Mãe: Podes dize-lo a mim...
No momento da iniciação, a Mãe explicou-me o significado do mantram que havia recebido nesse sonho.
No princípio, me pediu que repetisse o mantram e logo me deu um novo mantram. Sua instrução foi de que devia
repetir o primeiro mantram e depois, seguir com o segundo, a meditar.
Antes de explicar-me o mantram, vi que a Mãe ficou absorta em meditação por uns minutos. No momento
da iniciação, todo meu corpo começou a tremer e comecei a chorar sem motivo algum. A Mãe colocou a minha
frente uma grande marca vermelha, de pasta de sândalo. Dei-lhe umas poucas rúpias para as oferendas que se
faziam no templo e ela as entregou a Golap-Ma.
Notei que a Mãe apresentava um aspecto muito grave durante a meditação. Logo se levantou, deixando o
lugar do culto. Pediu-me que repetisse o mantram por certo tempo e que meditasse e orasse. Assim o fiz. Quando
me prostrei a seus pés, bendisse-me com essas palavras: “Que possa alcançar devoção a Deus!”. Mesmo agora
recordo aquelas palavras e rogo a ela: “Recorda tua bênção. Que não me veja privada de seus efeitos”.
A Santa Mãe ia tomar seu banho no Ganges. Golap-Ma a acompanhou. Eu também me uni a elas, levando
a toalha e o shari da Mãe. Chuviscava. Quando terminou seu banho, a Mãe deu ao sacerdote que estava
no ghat (escadas para descer ao rio ou tanques), uma moeda e uma manga (fruta). Ao oferecê-las, disse: “De dou
esta frutas, mas é o fruto dessa oferenda que você desfrutará”. Ah! O sacerdote dificilmente poderia imaginar quem
lhe havia feito a oferenda! Dificilmente compreenderia o significado dessas palavras! Tampouco nós podíamos
sabe-lo, pequenas criaturas que somos, atormentadas por milhões de pequenos desejos egoístas!
A Santa Mãe trocou-se e deu-me para levar sua roupa molhada. Golap-Ma caminhava adiante; a Santa
Mãe a seguia e eu ia atrás. A Mãe levava água do Ganges em uma pequena jarra e como oferenda, lançou um
pouco dela aos pés da cada baniano que beirava o caminho. Perto da torneira da cisterna, na andar térreo da casa,
havia um vaso cheio de água. A Mãe lavou seus pés com a água e disse-me: “Teus pés estão enlameados; lava-te”.
Como eu buscara água, disse-me: “Há água no vaso. Por que não a usas para lavar-te?”. “A água foi tocada pela
senhora, como posso usa-la?” – disse – não desejando faze-lo (1). “Borrife um pouco sobre tua cabeça” – replicou a
Mãe. Eu vacilei e disse: “Não posso usar essa água”. Levei outra jarra de água para a cisterna e lavei as mãos e os
pés. A Mãe me aguardou todo esse tempo. Logo subimos ao primeiro andar. Ela pôs alguns doces e frutas sobre as
folhas que haviam de vez em quando no prato e pediu-me que me sentasse ao seu lado. Com grande ternura me
pediu prasad, do qual também ela comeu.
(1) Segundo os costumes hindus, a água que foi tocada por alguém a quem se reverencia, não pode ser usada para lavar os pés.
Pouco a pouco foram chegando as devotas. Eu não as conhecia. Vinham almoçar com a Mãe e depois de se
fazer o culto, todas nos sentamos para comer. Também a Mãe ocupou seu lugar. Comeu três porções e me deu um
pouco de prasad, o qual também foi repartido entre as demais. Então a Mãe retornou a seu estado habitual,
mostrando-se novamente alegre. No momento da iniciação, sua disposição de ânimo havia sido completamente
diferente: grave e introspectiva. Parecia uma verdadeira deusa, disposta a conceder dons ou castigar a iniqüidade.
Eu tremia, sacudida por reverente temor. Mais tarde, em outras ocasiões, a vi dar iniciação a muitas devotas, mas
nunca a havia visto assumir um aspecto tão grave. Sorridente e alegre, a vi iniciar muitas pessoas, as quais também
se mostravam satisfeitas e felizes. Atormentada pela curiosidade, perguntei a algumas devotas como se mostrava a
Mãe durante a iniciação. Uma viúva de idade madura, disse-me uma vez: “Tal como a vemos sempre; não notei
diferença. Eu havia sido iniciada pelo guru de minha família. Logo ouvi falar da Santa Mãe e vim pedir sua iniciação.
Disse-me que repetisse dez vezes o mantram que havia recebido do preceptor de minha família. Logo me iniciou,
indicando-me que Sri Ramakrishna fosse meu guru e assinalando uma deidade, disse que era meu ishtam (aspecto
Ideal da Divindade). Seguidamente ensinou-me esta oração a Sri Ramakrishna: “Oh! Senhor, liberta-me de todos os
pecados cometidos nesta e em minhas vidas anteriores!...”, e outras orações deste gênero. Mas atualmente, estou
muito intranqüila. Pode-me explicar a senhora, a razão? Não posso repetir o mantram mais de meia hora; parece
que alguém me empurra do assento. Sente a senhora também a mesma coisa? No entanto, tenho o propósito de
falar sobre isso a Mãe. Mas não posso faze-lo. A senhora tem mais intimidade com ela. Acaso a Mãe me
enganou?”. Eu não tinha o desejo de conhecer todos os detalhes, mas a senhora disse tudo isso com muita
franqueza. Disse-lhe, então: “Abra seu coração à Mãe. No princípio, pode ser que sinta temor, mas pouco a pouco
sentirá mais confiança. Mesmo nós, no principio nos sentíamos muito cômodas na sua presença. Mas agora, ela se
põe tão séria que não podemos nos aproximar”.
Ao entardecer, uma a uma as devotas foram se despedindo da Mãe. Ela pediu às suas sobrinhas que
meditassem ou rezassem. Como não de decidiam, disse com desgosto: “Já escurece. Em vez de meditar, estão
tagarelando!”. Golap-Ma, Yoguin-Ma e outras devotas se prostraram a seus pés. Ela abençoou a todas, pondo suas
mãos sobre suas cabeças, tocando-lhes o manto ou beijando-os. Inclinou-se logo ante a imagem de Sri
Ramakrishna e sentou-se a meditar. Terminada a meditação, despedi-me dela e fui para casa.

Por alguns dias, não pude visitar a Santa Mãe, devido as inumeráveis tarefas que tinha que cumprir na
escola. Quando fui vê-la, em seguida começou a expressar seu amor de muitas maneiras. Bhudev estava lendo o
“Mahabharata”. Era só um menino e não sabia ler com fluidez. A Mãe tinha que atender a seus deveres. Já
escurecia. Disse a Budev, indicando a mim: “Dá o livro a ela. Lerá mais facilmente. A leitura não deve ser deixada
antes de terminar esse capitulo”. Era sua ordem, assim comecei a ler o ‘Mahabharata’. Nunca havia lido antes um
livro ante sua presença. No princípio, senti certa timidez, mas de qualquer modo terminei o capítulo. Juntando suas
mãos, a Mãe fez uma reverência ao livro. Fomos ao templo para tomar parte do culto vespertino. A Mãe se sentou
no lugar de costume e logo ficou absorta em meditação.
A Mãe completou seu yapam pronunciando o “nome de Deus” em voz alta e se prostrou ante a imagem de
Sri Ramakrishna. Logo deu a todas uma porção do prasad. Depois a conversa girou para o tema de nossos deveres
diários. Fazendo referência à vida muito ocupada que levou em Yairambati, a Mãe nos aconselhou que nos
mantivéssemos sempre ocupadas em um ou outro trabalho, porque isso dava saúde ao corpo e a mente.

Vivendo o bem mesmo no mal

Justamente em um terreno baldio que havia em frente à casa da Santa Mãe, viviam umas pessoas que
eram de outra parte da Índia, que não era de Bengala. Ganhavam sua vida fazendo duros trabalhos manuais. Um
deles tinha uma concubina. Viviam juntos. Certa vez, a concubina caiu seriamente enferma. Referindo-se a sua
enfermidade, a Santa Mãe disse: “Com quanta devoção ele cuidou dela! Nunca vi algo parecido. Demonstrou
verdadeiro espírito de serviço”. E seguiu falando, em tom elevado, da devoção deste homem.
Isto que havia acontecido com a concubina nos chocou e desgostou. Ah! Quão somos incapazes de
reconhecer a bondade, quando nos aparece velada com a aparência do mal!.
Uma pobre aldeã, que vivia em frente, foi ver a Santa Mãe, levando um filho doente em seus braços. Pediu-
lhe sua bênção e a Mãe mostrou uma grande compaixão por essa criança. Disse que logo se curaria e o abençoou.
Duas grandes romãs e uns ramos de uva haviam sido oferecidos ao templo. Todas essas frutas foram entregues a
pobre mulher, dizendo-lhe: “Dê a seu doentinho”. A mulher estava cheia de alegria ante a generosidade da Mãe e
se inclinou muitas vezes, saudando com reverência.

11 de fevereiro de 1912
Hoje, quando fui saudar a Santa Mãe, enquanto me sentei, começou a dizer-me com grande pesar: “Ai!
Guirish Babú está morto. Hoje faz quatro dias. Seus parentes me convidaram para ir a sua casa, mas é possível
para mim, voltar ali? Quanta fé e devoção tinha Guirish Babú em Sri Ramakrishna! Ouviu isto? Rogava a Sri
Ramakrishna que nascesse como filho dele e Thakur (Sri Ramakrishna) disse-lhe: ‘Por que hei de preocupar-me em
nascer como teu filho?’. Mas quem conhece, filha minha, os inescrutáveis modos de atuar do Senhor! Certo tempo
depois que Sri Ramakrishna deixou seu corpo, nasceu um filho de Guirish. Era um menino estranho de verdade!
Havia chegado a idade de quatro anos e nunca havia trocado uma palavra com ninguém. Só se fazia entender por
sinais. Seus pais consideravam que o filho era Sri Ramakrishna. Guardavam aparte tudo o que lhe pertencia: seus
vestidos, pratos, taças, vasos, etc. Nada, fora disto, ele usava!”.
“Um dia, o menino mostrava grande ansiedade por ver-me. Havia uma fotografia minha no primeiro andar
da casa. Levou ali a todos os da casa e dando um grito, apontou minha fotografia. No princípio, não
compreenderam o que queria. Logo me trouxeram ali. Embora fosse um menino de apenas quatro anos, prostrou-se
ante mim. Depois, sob a escada, aproximou-se de seu pai e ele disse: ‘Eu não posso, querido, ver a Santa Mãe. Eu
sou um grande pecador’. Mas o menino se mostrou inexorável; e Guirish teve que ceder. Tomou o menino em seus
braços e com o corpo tremendo de emoção e com lágrimas correndo por sua face, subiu e se prostrou diante se
mim, dizendo: ‘Mãe, esta criatura me fez ver seus santos pés!’. Mas, na idade de quatro anos, o menino morreu”.
“Certa vez, Guirish e sua esposa estavam tomando ar fresco no terraço de sua casa. Eu estava passando
uns dias na casa de Balaram. As duas casas estavam próximas. Naquele dia, eu também subi ao terraço. Não me
dei conta de que Guirish podia ver-me do seu terraço. Sua esposa lhe disse: ‘Olha, a Santa Mãe está passeando no
terraço daquela casa’. Imediatamente Guirish deu a volta e disse a sua esposa: ‘Não, não; eu não posso olhar a
Santa Mãe furtivamente. Meus olhos são viciosos!’. Em seguida deixou o terraço. Isto me contou a esposa”.

15 de junho de 1912
A Santa Mãe estava sentada em companhia de algumas devotas. Eu conhecia algumas entre elas. A Mãe
estava muito alegre em minha companhia. Deu-me as boas-vindas com um sorriso. Pedi a Gauri-Ma que trouxesse
os livros da biblioteca; um sobre a vida de Sister Nivédita e outro, com as conferências pronunciadas na Índia por
Swami Vivekananda. Eu desejava ler algo acerca da vida de Sister Nivédita. A Mãe assentiu e disse: “Por favor, leia
a vida de Sister Nivédita. Eu também recebi este livro há muitos dias, mas não o abri”. Sentia-me um pouco coibida
ao ter que ler diante de tanta gente. De minha parte, tinha muito desejo de ler a Mãe na parte da biografia, escrita
por Saralabala. Assim, cumpri com o agrado seu pedido. A Mãe e as outras devotas, começaram a escutar com
enlevada atenção. Seus olhos se umedeceram ao ouvir o que dizia acerca da maravilhosa devoção de Nivédita.
Pelas faces da Mãe, iam deslizando as lágrimas. Disse: “Quão sincera era a devoção de Nivédita! Sempre
considerava pouco tudo o que fazia para mim. No entanto, vinha ver-me todas as noites. Vendo que a luz feria
meus olhos, a suavizava, pondo um papel ao redor da lâmpada. Prostrava-se ante mim e muito ternamente, tirava o
pó de meus pés com seu lenço. Eu sentia que ela quase não ousava tocar meus pés”. A recordação de Nivédita
abriu a comporta de sua mente e logo a Mãe assumiu um aspecto grave.
As devotas presentes começaram a relatar suas reminiscências de Sister Nivédita. Durga-Didi disse: “Tem
sido um infortúnio para a Índia que ela tenha-se ido em tão precoce idade”. Outra disse: “Considerava a Índia como
sua própria pátria. Ela mesma disse isso muitas vezes. No dia de Sarasvati Puya, costumava caminhar descalça,
marcando sua frente com as sagradas cinzas do fogo aceso para o sacrifício”. Eu terminei a leitura. A Mãe, a
intervalos, expressava seu sentimento para com Sister Nivédita. No final, disse: “O intimo da alma percebe a
sinceridade do devoto”.
Já era hora para o culto vespertino. A Mãe trocou sua roupa e sentou-se sobre um tapete, diante da
imagem de Sri Ramakrishna. Com suas próprias mãos, havia feito guirlandas de flores para decorar a imagem.
Rash Behari, um jovembrahmachari, havia posto, perto das guirlandas, uns doces para serem ofertados. Sobre os
doces, juntaram-se formigas, que também subiram pelas guirlandas. A Mãe disse, rindo: “Olhem o que fez Rash
Behari! As formigas vão picar Sri Ramakrishna”. Tirou as formigas e, ternamente, adornou sua imagem com as
guirlandas. Vendo-a como decorava com flores o retrato de seu consorte diante de outras pessoas, Surabala, sua
cunhada, riu. Mais tarde distribuiu-se, entre todas, oprasad.
(1) Esta é a cunhada da Mãe, que era mentalmente insana e figura nestas conversações. No primeiro tomo, “Sri Sarada Devi – A Santa
Mãe”, que contém a biografia da Mãe, faz-se referencia a ela.

Sobre a educação e matrimônio das jovens.

Uma senhora, entre as presentes, disse: “Mãe, eu tenho cinco filhas e não posso encontrar maridos
convenientes para elas. Isso me tem preocupado”.
Mãe: Por que se aflige tanto pelo casamento delas? Se não podes achar bons maridos, pode manda-las à
escola de Sister Nivédita. Ali serão educadas, instruídas e se sentirão muito felizes.
Outra devota: Se a senhora tem fé na Santa Mãe, então faça o que ela lhe pede. Será para o teu bem. Se
segue seu conselho, não terá motivo de aflição.
Não é necessário dizer, a mãe das cinco moças dificilmente poderia apreciar o conselho.
Uma terceira devota: É muito difícil encontrar, hoje em dia, maridos que tenham os requisitos desejados.
Muitos jovens não querem casar-se.
Mãe: Sim, os rapazes aprenderão a discernir. Pouco a pouco se darão conta que a felicidade do mundo é
transitória. Quanto menos alguém se apega ao mundo, tanto mais se desfruta da paz mental.
Era já bastante tarde quando me despedi da Mãe, naquela noite.

Outro dia, fui a Beghbazar e encontrei a Mãe descansando depois do almoço. Imediatamente, como se
estivesse falando consigo mesma, disse: “Bem, todas as senhoras estão aqui. Mas onde está Sri Ramakrishna?”.
Eu disse, como uma resposta: “Não podemos nos encontrar com Ele nesta vida. Quem sabe em qual de nossas
vidas futuras o veremos? Porém, para nós, a maior fortuna que pudemos ter, foi ter tocado seus pés”. Sua breve
resposta foi: “Isso é realmente certo”. Fiquei surpresa, pois ela raramente falava dessa forma, ao referir-se a si
mesma.
Naquele tempo, dificilmente eu chegava a compreender que podia haver gente que necessitava confiar
seus segredos a Santa Mãe. Por isso, quando a encontrava em sua casa, a buscava por toda casa; não podia
esperar até que ela voltasse. Numa tarde, duas formosas jovens estavam fazendo certas confidências à Santa Mãe,
na galeria do lado norte de sua habitação, quando eu, que a procurava, repentinamente apareci ali. A Mãe lhes
dizia: “Depositem ante Sri Ramakrishna as aflições que magoam suas mentes. Contem a Ele todos os seus
pesares, com lágrimas nos olhos. Verão como Ele porá em vossos braços, o objeto desejado”. Compreendi, em
seguida, que estas senhoras imploravam sua bênção para ter filhos. Ao ver-me, ficaram desconcertadas. Meu
estado mental ficou ainda pior. Mas naquele dia aprendi uma grande lição. Fiz voto de que, daquele dia em diante,
nunca me apresentaria ante a Santa Mãe, sem adverti-la de minha chegada. Uns poucos meses
depois, vi novamente aquelas senhoras na casa da Santa Mãe. Alegrei-me de saber que o que elas esperavam, iria
cumprir-se em breve.
Gauri-Ma estava ali presente. A nosso pedido, nos falou de algumas lembranças suas de Sri Ramakrishna.
Disse: “Por longo tempo eu visitava Sri Ramakrishna, muito antes que Seus devotos chegassem a Ele. Vi Naren
(Swami Vivekananda) e Kali, quando eram muito jovens”. Estava entardecendo. A conversa teve que se abreviar.
Gauri-Ma se despediu da Santa Mãe. Eu também tive que ir. No momento de sair, a Mãe chamou-me na galeria e
deu-me prasad. Disse-me: “Volta. Tu nunca ficas aqui muito tempo. Vem uma manhã às sete horas e fica aqui para
almoçar”.

8 de setembro de 1912
Eu estava ocupada com certo trabalho na escola para moças de Gauri-Ma. Por essa razão, não podia ir ver
a Santa Mãe, apesar de meu desejo. Fui vê-la numa manhã cedo. Era um dia propício. Ela estava preparando-se
para tomar um banho no Ganges. Quando me viu, disse-me com evidente júbilo: “Alegra-me que tenhas vindo. Hoje
é o aniversário de Radhika. Este é um dia muito propício. Espera-me voltar do Ganges”. Eu expressei meu
desejo de acompanha-la e, primeiramente, ela assentiu. Estava chovendo e Golap-Ma se opôs firmemente que eu
fosse me molhar. A Mãe apoiou Golap-Ma, dizendo: “Espera aqui. Voltarei em seguida”. Notávamos que seu
comportamento era como de uma amável jovenzinha. Nunca fazia pressão para que seu ponto de vista
prevalecesse sobre o dos demais. Tão logo ela saiu a rua, deixou de chover. Quando voltou de seu banho, disse:
“Bom, já viram que a chuva parou quando pus os pés na rua. Tu desejavas acompanhar-me; eu pensei que lindo
teria sido, assim tu poderias contemplar o sagrado Ganges”. Para dizer a verdade, eu não tinha tanto desejo de ver
o Ganges como o de desfrutar de sua santa companhia, pois, envoltos como estamos em mil e um deveres
mundanos, apenas podemos achar o tempo necessário para visitá-la. E naqueles poucos dias em
que podemos, afortunadamente ir vê-la, não gostamos de ficar longe dela nem sequer um só minuto. Golap-Ma
ouviu as palavras da Santa Mãe e disse: “Que importa que ela não foi ver o Ganges? Só de tocar teus santos pés,
todos os desejos se cumprem”. Eu assenti com um gesto, a estas palavras. Mas, num instante, a Mãe replicou:
“Não digas isto! Ah” É a Mãe Ganges depois de tudo!”. A Mãe raramente, por suas palavras e ações, revelava sua
divina grandeza. Sempre agia de modo que as pessoas a considerassem como um ser humano comum,
semelhante aos demais. Só em muitas poucas ocasiões, concedia sua graça a alguns afortunados devotos,
revelando-lhes seu aspecto divino. Entrou em sua casa, sentou-se sobre a cama e disse: “Olha, terminei meu banho
no Ganges!”. Senti que ela havia chegado a conhecer meu mais íntimo desejo de adorar o loto de seus pés. Pensei,
em meu interior: “Tu és sempre pura. Não é necessário, para ti, banhar-se no Ganges para se purificar”. Quando
sentei-me a seus pés, com flores e a pasta de sândalo, disse-me: “Não ponhas folhas de tulasi, se trouxeste
algumas”. Adorei a seus pés, com flores e pasta de sândalo, prosternando-me. Depois ela começou a tomar seu
café-da-manhã. Fez-me sentar ao seu lado e com infinito amor, foi dando-me a metade de cada coisa que comia.
Comi o prasad com grande satisfação. Ao comer na folha que havia, às vezes, no prato, recordei o santo Durga
Charan Nag e disse a Santa Mãe: “A folha me faz recordar com freqüência a Nag Mahasaya”.
Mãe: Que maravilhosa devoção tinha! Olha esse prato de folha seca. Quem poderia comê-lo? Mas ele tinha
uma enorme devoção e comia a folha só porque havia tocado o prasad. Ah! Que expressão de divino amor tinha
seus olhos! Sempre avermelhados e umedecidos pelas lágrimas! Quando vinha aqui, apenas podia subir as
escadas. Pelas tremendas austeridades, seu corpo tremia como uma folha, e seu passo era vacilante. Nunca vi em
ninguém tamanha devoção.
Devota: Eu li em sua biografia que abandonou sua profissão de médico e que passava absorto dia e noite
meditando em Sri Ramakrishna. Um dia, o pai, com desgosto, lhe disse: “És tão indiferente pelo mundo que qual
será sua sorte? Não terás um pedaço de pano com que cobrir teu corpo? E para aplacar a fome, terás que comer
sapos!”. Havia um sapo morto no pátio. Nag Mahasaya desnudou-se, atirou ao lado sua roupa e comeu o sapo.
Logo disse a seu pai: “Foram cumpridos teus dois presságios. Desterra toda a ansiedade a respeito de comer e
vestir, e dedica teu pensamento a Deus”.
Mãe: Que maravilhosa devoção para com seu pai! Ele não via nenhuma diferença entre o puro e o impuro.
Isto demonstra sua elevada realização espiritual.
Devota: Certa vez, em um dia muito propício, voltou a sua casa depois de ter estado em Calcutá. O pai o
repreendeu, dizendo-lhe: “Tu estavas em Calcutá, perto do Ganges. Que insensatez de teu pai ter voltado a casa,
afastando-te do Ganges em um dia como este! Deverias ter ficado em Calcutá e ter-se banhado no rio sagrado”.
Mas aquele dia, justamente no momento mais propício, todos viram que o pátio começou a brotar água, como de
um manancial, inundando todas as coisas. Nag Mahasaya, louco de êxtase, exclamou: “Vem, Mãe Ganges!”, e
jogava água sobre sua cabeça. As pessoas da localidade se banharam naquela água e se sentiram como se
tivessem se banhado no Ganges.
Mãe: Na verdade, pela devoção até o impossível se faz possível. Uma vez, dei-lhe um pedaço
de tecido.Sempre costumava leva-lo atado ao redor da cabeça. Sua esposa também era muito boa e devota.
Durante o verão, veio ver-me. Ela é viva, todavia.
Chegaram algumas devotas e a conversa não pôde seguir. As devotas se prosternaram ante a Mãe. A Mãe
pediu-me que trouxesse alguns rolos de folhas de betel. Preparei dois e o entreguei; comeu um e me devolveu o
outro; e eu fui preparar o resto das folhas de betel. Depois de um instante, a Mãe com dois devotos vieram a casa
onde eu estava e começaram a me ajudar, terminando o trabalho muito rápido. A Mãe separou algumas folhas para
oferecer, mostrando-se muito feliz e dizendo: “Oh! Minhas boas meninas terminaram o trabalho tão rápido!”.
A Santa Mãe retirou-se da casa de Golap-Ma, no segundo andar. Fui ali uns minutos depois e vi que estava
descansando sobre o piso, com a cabeça apoiada no umbral. Por isso, não me atrevi a entrar. Ela olhou-me e disse:
“Entra, entra”. Levantou a cabeça e eu entrei, sentando-me ao seu lado; e logo comecei a abaná-la. Perguntou-me
várias coisas a respeito da escola de Gauri-Ma, que procurei responder adequadamente. Chegaram as devotas e
uma delas começou a arrumar os cabelos da Mãe, arrancando alguns dos cabelos grisalhos e atando-os em uma
ponta do vestido. Logo disse: “Os conservarei como recordação”. A Mãe se sentia um pouco desconsertada e disse
com certo vacilo: “Por que fazer isto? Tirou tantos cabelos!”. Depois subiu ao terraço para tomar sol e nós a
seguimos. Como havia muita roupa estendida no terraço, me pediu que as levasse para baixo.
Mais tarde, uma vez que havia terminado o culto, a Santa Mãe pediu-me que fizesse os preparativos
necessários para a comida do meio-dia. Na hora de comer, nos sentamos todas juntas. A Mãe comeu um ou dois
bocados. O prasad foi repartido entre nós. As duas senhoras mencionadas ficaram para almoçar; uma delas era
casada, porém já anciã e tinha visto Sri Ramakrishna. A outra era sua nora.
A anciã disse: “Sri Ramakrishna nos deu muitas instruções, mas muito poucas são as que pusemos em
prática. Se houvéssemos seguido seus conselhos, não teríamos sofrido tanto neste mundo. Estamos apegados ao
mundo e sempre corremos detrás de uma ou outra ação”.

Utilidade do trabalho

A Mãe acrescentou, dizendo: “Alguém deve fazer algo. Só por meio do trabalho, pode-se eliminar a ligação
do trabalho, e não o evitando. O desapego total vem mais tarde. Não se deve ficar inativo nem um momento
sequer”.
Depois do almoço, a Mãe recostou-se para descansar um pouco. Todas as devotas desejavam vivamente
prestar-lhe algum serviço pessoal. Mas ela lhes pediu que descansassem por alguns momentos. Mais tarde, as
devotas foram aos seus respectivos lugares para atender seus deveres. Eu fiquei ali com uma viúva anciã que havia
sido contemporânea de Sri Ramakrishna. Comecei a fazer massagem na Santa Mãe. Sentada a seu lado, a viúva ia
narrando algumas ocorrências de sua vida familiar. “Mãe – disse – a senhora escusa minhas faltas, no entanto,
minha família é tão exigente!”. Eu perguntei-lhe se havia visto Sri Ramakrishna. “Sim, querida – respondeu-me – eu
o vi”. Acrescentou: “Com freqüência visitava nossa casa. A Santa Mãe era muito jovem, então”.
Devota: Por favor, diga-nos algo de Sri Ramakrishna.
Senhora viúva: Oh, não! Peça a Mãe que nos diga algo Dele.

Recordando Sri Ramakrishna

A Mãe estava descansando com os olhos fechados, de modo que não disse nada. Mas depois de um
momento, ela disse: “Quem ora a Deus com desejo, O verá. Noutro dia, um dos nossos devotos, Tej Chandra,
faleceu. Quanta sinceridade tinha! Sri Ramakrishna costumava visitar sua casa. Uma vez alguém deu a Chandra
duzentas rúpias para que ele as guardasse. Enquanto viajava em um bonde, um ladrão lhe roubou todo o dinheiro.
Depois de certo tempo, ao dar-se conta do roubo, Tej Chandra começou a sofrer de uma terrível agonia mental.
Foi a margem do Ganges e implorou a Sri Ramakrishna, com lágrimas nos olhos: “Oh! Senhor, que fizeste
comigo?”. Não era abastado o bastante para repor essa soma de seu próprio bolso. Enquanto chorava, Sri
Ramakrishna apareceu diante dele e lhe disse: “Por que choras assim? O dinheiro está lá, debaixo daquele ladrilho
na margem do Ganges”. Em seguida, Tej Chandra levantou o ladrilho e encontrou um rolo de notas. Narrou
o ocorrido a Sarat (Swami Saradananda), que lhe disse: “És um afortunado, pois tiveste a visão de Ramakrishna
ainda agora. Nós, por outro lado, não O vemos”. Por que devem continuar a vê-lo? Já não viram o bastante e todos
seus desejos ficam satisfeitos. Aqueles que não o virem com os olhos físicos, estão mais ansiosos para alcançar
Sua visão. Quando Sri Ramakrishna vivia em Dakshinesvar, Rakhal e outros devotos eram então muito jovens. Um
dia Rakhal disse a Sri Ramakrishna que tinha muita fome. Sri Ramakrishna foi a margem do Ganges e começou a
gritar: “Oh! Gauridasi venha aqui! Meu Rakhal tem fome!”. Naquele tempo não havia em Dakshinesvar nenhum
armazém onde conseguir alimentos. Pouco mais tarde, chegou um bote que ancorou perto do templo. Saiu dele
Balaram Bose, Gauridasi e outros devotos, trazendo alguns doces. Sri Ramakrishna ficou muito contente e chamou
em voz alta a Rakhal. “Venha aqui. Trouxeram doces; disseste que tinhas fome”. Rakhal respondeu, zangado: “Por
que está anunciando minha fome em voz alta? “. Sri Ramakrishna disse: “Que mal há nisso? Tu tens fome e
necessitas comer algo”. Sri Ramakrishna tinha a natureza de um menino.
Bhudev, o sobrinho da Santa Mãe, acabara de chegar da escola. Tinha febre e a mãe pediu-me que
arrumasse a cama para ele. Enquanto isso, ela estava preparando-se para ir à casa de Balaram Babú, para ver se o
filho dele estava com disenteria. Quando foi concluído o culto da tarde, ofereceu-me prasad. Eu disse que comeria
logo e ela assentiu, pedindo a sua sobrinha Nalini, que me desse o prasad mais tarde. Vieram busca-la em um
coche. Pediu-me que esperasse até o seu regresso; Golap-Ma a acompanhou. Após uma hora, regressaram. A
Santa Mãe se alegrou ao me ver e disse-me? “Voltei logo por ti. Comeu o prasad?”. Ao negar, disse: “Nalini, por que
não lhe deste o prasad como eu havia lhe pedido?”.
Nalini: Me esqueci. Trarei em seguida.
Mãe: Não te preocupes, agora. Eu mesma o darei. (Dirigindo-se a mim). Por que não pediste o prasad?
Esta é a tua casa.
Devota: Não tinha muita fome, senão eu o teria pedido.
Depois de um momento, a Mãe trouxe uns doces que haviam sido ofertados no altar e me deu. Eu os comi
gostosamente. Prostrei-me ante ela e me despedi. Disse-me: “Vem outra vez, filha querida. Durga, Durga! Descerei
contigo ou podes ir só? Já é noite”. Respondi: “Posso ir só, Mãe”. Repetindo um “nome de Deus”, me acompanhou
até a escada. Disse-lhe: “Não se incomode mais”, acrescentando: “me será fácil encontrar o caminho”.

Era o dia de Akshaya Tritiya – um dia muito propício para os hindus. Fui visitar a Santa Mãe. A senhora
anciã com sua nora – de quem falei antes – também estavam ali. Como é costume nas festividades
religiosas, a senhora ofereceu a Santa Mãe algumas frutas e um cordão sagrado. A mãe a interrompeu, dizendo:
“Por que dá essas coisas a mim? As dê a Bhudev”. Logo, durante a conversação, dirigindo-se a nós, disse: “Neste
santo dia, os bendigo para que alcanceis a libertação nesta vida. Nascimento e morte são extremamente penosos.
Oxalá que não voltem mais a passar por eles!”.

Era o dia do festival do Carro Sagrado (festividade religiosa dos hindus, em que o Senhor Vishnu de
Yagannath era levado em procissão em um carro). As sete da manhã, fui ao ashrama de Gauri-Ma, que
havia convidado-me a almoçar. Meu desejo era ir à casa da Santa Mãe o mais rápido possível; mas terminamos de
almoçar perto das duas da tarde. Quando Gauri-Ma e eu chegamos a casa da Santa Mãe, eram já quatro horas. Ela
já havia terminado o culto da tarde, no templo. Nos prosternamos ante ela e Gauri-Ma disse-lhe algo ao ouvido.
Logo me uni a elas, depositando aos pés da Mãe um corte de seda que havia levado, e disse-lhe: “Mãe, a senhora
o usará?”. Respondeu sorridente: “Oh! Sim querida!”. Nesse momento chegaram alguns devotos para entregar suas
oferendas à Mãe e nós nos retiramos para a galeria. Um dos devotos havia trazido flores de hibisco, rosas, uma
guirlanda de jasmins, frutas e doces. Pus a oferenda a seus pés e comecei a adorar a Mãe. Oh! Como ficava plena
de gozo ao contemplar esse quadro! A Mãe estava sentada imóvel e um suave sorriso brincava em seus lábios. A
guirlanda de jasmins pendia graciosamente de seu colo e as flores eram os adornos de seus pés. Depois da
adoração, o devoto pegou um pouco de cada fruta e doce e rogou para que a mãe os comesse. Gauri-Ma, sorrindo,
disse: “Estás agora nas garras de um devoto difícil de se conformar. Deves comer um pouco de cada coisa”. A Mãe
também estava sorridente e disse: “Não tanto! Eu não posso comer tanto!”. Comeu um pouquinho de cada coisa e
logo o devoto tomou o prasad de sua mão e o tocou com sua frente. Seu rosto refletia uma indescritível felicidade e,
ao final, se prosternou ante a Mãe e saiu. A Mãe pegou a grinalda do colo e a deu para Gauri-Ma. As flores da
oferenda foram distribuídas entre as devotas.
Como já havia dito, era o dia do festival de Carro Sagrado. Bhudev improvisou um carro para a ocasião e
fizeram preparativos para levar nele a imagem de Sri Ramakrishna. Gauri-Ma tinha um compromisso importante na
escola e teve que ir embora. A Mãe disse: “Gauri-Ma dedica todas as suas energias para educar as moças de sua
escola e cuida delas quando estão doentes. Ela não tem família própria e todo seu carinho maternal acha sua causa
nessas meninas. Esta é sua ultima vida; por isso está passando por todas essas experiências”.
A imagem de Sri Ramakrishna foi levada no carro. Desde sua cama, a Mãe olhava absorta a imagem,
notando-se que estava muito feliz. O carro foi conduzido para baixo e a procissão percorreu as ruas e a margem do
Ganges, voltando ao anoitecer. As devotas levaram o carro para a galeria do primeiro andar. A Mãe, suas sobrinhas
e eu, nos unimos à comitiva. Quando a procissão ia pela rua, a Mãe havia observado: “Nem todos podem ir a Puri
para participar do festival do Carro (1).Aqueles que viram Sri Ramakrishna neste carro, realizaram a Deus”.
(1) É crença popular dos hindus que, vendo a imagem de Vishnu, em Puri, realiza a Deus .

Outubro de 1912
Um dia, durante a festividade de Durga-Puya, fui visitar a Santa Mãe. A encontrei muito ocupada. Mandou
buscar um devoto que vinha desde Ranchi e que trazia com ele muitas flores, frutas, um corte de tecido e uma
guirlanda de flores de linho. Pediu a Mãe que pusesse a guirlanda de flores no colo. Quando a colocou, Golap-Ma
repreendeu o devoto, porque o arame da guirlanda poderia ferir o colo da Mãe; porém, ela disse com ternura: “Não;
coloque a guirlanda sobre meu vestido”. Eu também havia levado algumas frutas e doces e a Mãe me pediu que as
ofertasse ao Senhor. Provou uma uva e disse que era muito doce.
A Mãe tinha posto um shari que eu havia dado uns dias antes e me disse: “Vê? Eu o usei e agora está
sujo”. Fiquei maravilhada e pensei quanta infinita ternura tinha a Mãe para comigo, que estava muito longe de ser
uma verdadeira devota.

A mulher deve cultivar a doçura

Nalini, sua sobrinha, estava mal-humorada. A Mãe a repreendeu e disse: “As mulheres não devem
incomodar-se tão facilmente. Devem praticar a doçura. Sua única proteção, na infância e puberdade, são os pais, e
na juventude, seus esposos. As mulheres geralmente são muito sensíveis. Uma simples palavra pode altera-las. E
as palavras são tão baratas, hoje em dia! Elas deveriam ter paciência, agüentar e dissimular os erros de seus pais e
esposos, apesar de quão penoso isto lhes possa parecer”.

Radhu estava sentada perto de nós, com seu vestido acima dos joelhos. A Mãe a repreendeu, dizendo-lhe:
“Minha querida, por que uma mulher deve subir seu vestido acima dos joelhos?”. E citou um verso: “Quando tens o
vestido por cima dos joelhos, é o mesmo que estar desnuda”.
Nesse momento, chegou a irmã de Chandra Babú. Durante a conversação, perguntou: “Vive o esposo da
Santa Mãe? São estes seus filhos e noras?”. Disse-lhe: “Que pergunta! A senhora não tem lido os ensinamentos de
Sri Ramakrishna? Ele sempre exortava as pessoas a renunciar à sexualidade e ao ouro”. A senhora ficou
desconcertada e disse: “Desculpe-me, eu os havia tomado por seus filhos”.
Estavam-se realizando cultos a Durga. A Mãe tinha diante de si uma trouxa de roupas novas e separou as
que estavam destinadas aos esposos de suas três sobrinhas. Logo pegou um vestido em suas mãos e disse: “G.
colocará esta roupa nova durante Durga Puya e irá ao Monastério de Belur”.
Depois da adoração do meio-dia, comemos nosso almoço e logo a Mãe foi descansar. Eu me sentei a seu
lado e me pus a abana-la; mas ela me disse com grande ternura: “Ali há um travesseiro; traga-o e recosta-te perto
de mim. Não é necessário que me abanes agora”. Eu não me decidia a usar seu travesseiro e trouxe outro dos pés
de Radhu. A Mãe, sorrindo, disse: “Esse travesseiro é da mãe de Radhu, que está louca. Armará um escândalo.
Usa meu travesseiro, esse não prejudicará a ninguém”. Logo, disse a Radhu: “Vem aqui e recosta-te ao lado de tua
irmã”.
A conversação derivou para o que havia dito anteriormente a irmã de Chandra Babú. A Mãe disse-me:
!Bem, tu poderias ter-lhe respondido, simplesmente, que o esposo está em seu templo e que todos nós somos Seus
filhos”. Eu acrescentei: “Todos os homens e mulheres do mundo são seus filhos!”. A Mãe, sorrindo, seguiu: “As
pessoas vêm aqui com muitos variados desejos egoístas. Alguém, por exemplo, vem com um pepino, o oferece a
Sri Ramakrishna e reza para que se cumpram seus desejos egoístas. Tal é a natureza da gente comum”.
Depois de um breve descanso, nos levantamos. Umas poucas devotas estavam na habitação contígua;
duas delas, vestidas de cor ocre, se prostraram diante da Santa Mãe. Haviam trazido alguns doces para a oferenda
e nos inteiramos que elas eram discípulas de Sri Narayan Paramahamsa, de Kalighat. Seu mestre estava, então,
realizando uma grande cerimônia religiosa.

Acerca da adoração das imagens

Uma das monjas perguntou: “Há algo de verdade na adoração das imagens? Nosso mestre não aprova. Ele
instrui a gente na adoração do fogo e do Sol”.
Mãe: Não deveria haver duvidas nas palavras de seu mestre. Se ouviram a opinião de seu mestre, por que
me perguntam sobre isto?.
Monja: Queremos saber sua opinião.
A Mãe se recusou a dar opinião alguma; mas a monja era tenaz e começou a pressiona-la para conseguir a
resposta. Por fim a Mãe disse: “Se seu mestre fosse uma alma iluminada, e eu peço perdão pela minha observação,
então não faria tal declaração. Desde tempos imemoriais, as pessoas rendem cultos às imagens e alcançam, desse
modo, o conhecimento espiritual. Quer negar este fato? Sri Ramakrishna nunca sustentou essas idéias paroquiais,
limitadas e unilaterais. Brahman (Deus) existe em todas as partes. Os profetas e as Encarnações Divinas nascem
para mostrar o caminho da extraviada humanidade, que se debate em sombras. Eles dão diferentes instruções, de
acordo com os diferentes temperamentos. Há muitos modos de realizar a verdade, por isso, têm um valor relativo
todas as instruções. Tomemos o exemplo de uma árvore. Há muitos pássaros em seus ramos. Têm diferentes
cores: branco, negro, amarelo, vermelho, etc. e seus cantos também são diferentes. Mas nós dizemos que esse
canto é o canto dos pássaros e rechaçamos todos os outros sons como tal”.
Depois de um tempo, as monjas desistiram de seu argumento. Logo pediram a direção da Santa Mãe em
Calcutá e expressaram seu desejo de voltar a vê-la. Depois que se foram, a Mãe disse: “Não fica bem que uma
mulher discuta dessa maneira. Nem um sábio pode realizar, intimamente, a natureza de Brahman por meio da
argumentação. Acaso Brahman é um objeto de discussão?”.
Uns dias depois, a Mãe foi para Benares, de modo que não poderia vê-la por algum tempo. Quando me
despedi, esteve muito carinhosa comigo e eu fiquei tão abrumada por seu amor que, durante essa noite, não troquei
palavras com ninguém.
31 de janeiro de 1913
A Santa Mãe regressou de Benares. Fui à sua casa uma manhã e a encontrei absorta em adoração. Depois
que terminou sua adoração, levantou-se de seu lugar e disse-me: “Alegra-me ver-te, filha minha. Estava pensando
em ti, temia não poder ver-te outra vez. Logo iremos para nossa casa, no campo”.

Educação da mulher

Estava muito avançada, a manhã. Radhu, sua sobrinha, estava pronta para ir à escola dos missionários
cristãos, que ficava na vizinhança. Chegou Golap-Ma e disse a Mãe: “Radhu já é uma menina grande. Por que deve
continuar indo à escola?”. Pediu a Radhu que não fosse. Esta começou a chorar e a Mãe disse: “Ela não é tão
grande; deixe-a ir a escola. Se for educada e aprender ofícios úteis na escola, poderá fazer muito bem aos outros.
Se casará em um povoado atrasado; com a educação não só ela melhorará, como poderá ajudar os demais”.
Assim, pois, permitiu que Radhu fosse à escola.

A Mãe de Annapurna trouxe consigo uma moça para que a Santa Mãe a iniciasse e disse: “Mãe, esta moça
pediu-me insistentemente que a trouxesse aqui para ser iniciada por ti. Eu não pude reusar-me, assim a trouxe”.
Mãe: Como posso inicia-la hoje? Já tomei o café da manhã. (1)
(1) É costume geral que o mestre dê a iniciação antes do desjejum.
Mãe de Annapurna: Mas a moça está em jejum. Não tem importância que tu hajas comido algo.
Mãe: Ela está na lista para a iniciação?
A Mãe assentiu. Depois que a iniciação havia sido concluída, a Mãe de Annapurna começou a falar da
moça, dizendo: “Não é uma moça comum. Depois de ler sobre Sri Ramakrishna, sentiu o veemente desejo de
praticar austeridades espirituais. Cortou os cabelos, vestiu-se como homem e empreendeu uma peregrinação.
Chegou até Baidyanath, a mais de trezentos quilômetros de Calcutá; entrou em um bosque e enquanto estava nele,
passou por ali o guru de sua mãe e perguntou por ela. E quando supôs saber onde se encontrava, informou ao pai;
enquanto isso a jovem ficou aos cuidados do guru. Tempo depois o pai veio e a levou para casa”.
A Mãe escutou em silêncio e logo disse: “Ah! Que devoção!”. Outras devotas que estavam presentes,
disseram: “Oh! Deus! Tão formosa moça! Como pode ter-se ido, por maior desejo que se tenha?”. Nalini disse: “Em
nosso povo, isso teria sido um motivo de escândalo”.
Depois do almoço, fomos todas descansar numa habitação contígua. A Mãe pediu a nova discípula que
também descansasse um pouco; porém, esta contestou que não tinha o costume de descansar durante o dia. Eu
lhe disse que devia obedecer a Santa Mãe e aceitou; mas depois de alguns minutos, deixou a cama e foi para a
galeria. A Santa Mãe observou: “Ela está muito intranqüila; por isso deixou o lar”. Logo perguntou a servente que a
acompanhava: “Em que ocupa seu marido? Por que não a tem perto dele?”. A mulher respondeu: “Ele ganha um
salário reduzido e, ademais, não tem nenhum parente. Não pode deixar a moça sozinha em casa. Por isso, ela vive
com seu pai. O marido visita a casa do sogro aos sábados e domingos”. A Mãe de Annapurna disse: “Ela disse ao
marido: tu não és meu marido. O Senhor do mundo é meu Senhor”. A Mãe permaneceu em silêncio.
As devotas estavam conversando na galeria em frente ao templo, que produzia muito ruído. A Mãe disse a
alguém: “Vai e diga que falem em voz baixa; estão incomodando a Swami Sarananda”. Eu estava só com a Mãe e
fiz algumas perguntas sobre as práticas espirituais.

Alguns ensinamentos espirituais

Disse-me: “Não faças nenhuma distinção entre Sri Ramakrishna e eu. Medita e ora no aspecto da
Divindade que tenha sido revelado a ti. A meditação começa no coração e termina na cabeça. Nem o mantram, nem
as escrituras ajudam muito; o bhakti ou devoção fazem tudo. Sri Ramakrishna é ambas as coisas: guru e Ishtam (1).
Ele é “tudo em tudo”.
(1) Guru: mestre espiritual. Ishtam: aspecto do nome da Divindade que o aspirante elege como ideal a realizar intimamente, em espírito, no
devocional.
A conversa recaiu depois sobre Gauri-Ma e sua discípula D. A Mãe elogiou muito a ambas, dizendo:
“Escuta, filha. Depois que tuas mentes ficarem insensíveis pela influência contaminadora do mundo, muitos tomam
logo o “nome de Deus”. Mas bendito é aquele que pode dedicar-se a Deus desde sua meninice. A jovem D. é pura
como uma flor. Gauridasi moldou com esmero, seu caráter. Os irmãos fizeram todo o possível para consertar seu
matrimônio; mas Gauridasi a levou de um lugar para outro, ocultando-na. Finalmente a levou a Puri, onde a jovem
intercambiou guirlandas com Yagannath, fazendo-se monja. Quer dizer que se casou com Yagannath, o Senhor do
Universo. Que moça tão bela e pura! Recebeu uma boa educação e ouvi dizer que está se preparando para fazer
um exame de sânscrito”. Também me inteirei de muitos incidentes que ocorrerem a Gauri-Ma em sua tenra idade e
pelo que cheguei a saber, ela teve uma vida tormentosa.
Um pouco mais tarde, chegaram umas quatro ou cinco devotas e ofereceram à Mãe cocos verdes e outras
frutas. Uma delas aproximou-se para tocar-lhe os pés. A Mãe disse: “Por favor, saúde-me de uma certa distância”.
Ofereceram-lhe algumas moedas, mas a Mãe advertiu que não deviam fazer esse tipo de oferta. Logo pediram
instruções espirituais. A Mãe respondeu com um sorriso: “Que ensinamentos posso dar-lhes? Já estão registradas
nos livros as palavras de Sri Ramakrishna. Se podeis seguir um só de seus ensinamentos, alcançarão tudo nesta
mesma vida”. Quando elas se foram, a Santa Mãe disse: “Onde está o discípulo apto para entender os
ensinamentos espirituais? Antes de nada, deve estar capacitado para isso; do contrário, os ensinamentos
espirituais são insubstanciais”.
A Mãe de Annapurna entrou na casa e disse: “Mãe, eu te vi em sonho e disseste que comesse
o prasad (1), o qual me curaria de minha enfermidade. Mas Sri Ramakrishna me havia proibido de tomar
o prasad de modo algum. Contudo, me alegraria que tu me desse um pouco de prasad”. A Mãe recusou, mas a
mulher começou a insistir.
(1) Alimento que se oferece a Deus; os devotos consideram purificador participar dele.
Mãe: Queres desobedecer a Sri Ramakrishna?
Mãe de Annapura: As palavras de Sri Ramakrishna tinham sua aplicação, mas eu fazia diferença entre tu e
Ele. Mas agora eu percebi a realidade de que ambos são idênticos. Assim, pois, faz-me o favor de dar-me de
teu prasad.
A Mãe teve que ceder. Pouco depois, nos despedimos.

Outro dia, quando fui ver a Santa Mãe, perguntou-me sobre meu marido. Disse-lhe que não estava muito
bem de saúde. Logo me pediu que escrevesse uma carta, que ela ditou-me. Depois do almoço, enquanto a Mãe
estava descansando, chegaram algumas devotas. Depois das saudações, uma delas disse: “Tenho uma linda
cabra que me dá quatro litros de leite por dia. Também tenho três passarinhos. Eu estou bastante velha e passo
quase todo o tempo com eles”. Em seguida, recordei as palavras de Sri Ramakrishna: “Mahamaya, o Supremo
Poder Cósmico Ilusionante, nos faz cuidar de um gato, e assim esquecemos de Deus. Deste modo, o mundo segue
o seu curso”. A Santa Mãe simplesmente assentia com a cabeça, às palavras das devotas. Ai, por amor a nós,
quantas angústias tinha que suportar! Nem sequer permitíamos que desfrutasse de algum descanso. A
incomodávamos continuamente com nosso inconsistente falatório. Ao entardecer, me despedi.

Sattwa, qualidade que conduz à renúncia

Certa noite, fui ver a Santa Mãe. Estava em sua cama; uma mulher a acompanhava. Ao ver-me, sentou-se
na cama para que eu pudesse saudá-la. Durante a conversação disse: “No momento da criação, as pessoas
nasciam com a qualidade sattwa (luz). Tinham sabedoria desde seu nascimento. Por isso, compreendiam e
realizavam, num instante, a condição transitória do mundo. Renunciavam ao mundo e praticavam austeridade.
Logo se libertavam. O Criador viu que o propósito de sua criação iria ser frustrado. Esses sábios que se libertavam,
não estavam aptos para participar do jogo do mundo. Então, Ele começou novamente a tarefa de criar, e mesclou
as qualidades rayas (atividade) e tamas (inércia), com sattva. Assim, pôde completar seu propósito”. Logo citou um
popular verso, referente ao tema da criação e disse: “Em nossa meninice, nos chegavam essas idéias por meio das
representações que faziam os povos. Mas agora é muito raro”. Algumas moças, parentes da Mãe, estavam lendo
em voz alta na peça contígua. A Mãe disse: “Escutem como lêem em voz alta! Esquecem que há muita gente no
andar térreo”.

As devotas estão sobre as regras da casa

Sua insana cunhada, a mãe de Radhu, entrou na casa e disse: “Lakshmimani (sobrinha de Sri
Ramakrishna) vai em peregrinação a Navadvip. Eu queria ir com ela, mas tu me impediste”. Dito isso, saiu
magoada. A Mãe disse: “Como podia lhe permitir ir com Lakshmi? Lakshmi é devota. Ela canta e dança com outros
devotos. Não observa a distinção de casta e come em companhia dos outros. Mas a mãe de Radhu não
compreende isso. Dificilmente poderia entender que os devotos não necessitam guardar regras de casta entre eles.
Assim que ela voltar eu criticarei a conduta de Lakshmi ante todos os demais. Tu conheces Lakshmi?”.
Devota: Não, Mãe.
Mãe: Ela vive em Dakshineswar. Vá visitá-la algum dia. Foste a Dakshineswar?
Devota: Sim, Mãe. Eu visitei o lugar algumas vezes, mas não sabia que Lakshmi vivia ali.
Mãe: Viste em Dakshineswar o Nahabat, onde eu vivia?
Devota: Sim, Mãe; eu o vi.
Mãe: Quando visitares o lugar de novo, entra na peça. Quando eu estava ali, todo meu mundo consistia
nessa pequena habitação... Assistiu os festejos que fazem no aniversário de Sri Ramakrishna, em Belur?
Devota: Não, Mãe. Nunca visitei o monastério de Belur. Eu ouvi dizer que os monges que vivem ali não
gostam de ver mulheres no monastério. Por isso, vacilei em ir.
Mãe: Vá alguma vez para assistir a celebração do aniversário de Sri Ramakrishna.

Era de tarde quando fui Baghbazar ver a Santa Mãe. Com ternura, disse-me que estendesse no chão um
pequeno tapete e trouxesse seu rosário. Logo caiu absorta em sua meditação. Perto da casa, cruzando a calçada,
havia um lugar aberto. Ali viviam alguns trabalhadores e suas famílias. Um dos homens começou a castigar
rudemente uma mulher que parecia ser sua esposa. Cacetadas e socos choviam sobre a infeliz mulher. Logo lhe
deu um pontapé com tal força, que a atirou longe, com uma criatura em seus braços. A Mãe não pode seguir com
sua meditação. Embora ela fosse extremamente humilde e, no geral, nunca falava em voz alta para não ser ouvida
no andar térreo, naquela oportunidade saiu ao balcão do primeiro andar e, apoiando-se nele, gritou forte, em tom
de cortante reprimenda: “Eh, malvado! Queres matar essa pobre mulher? Temo que já esteja morta!”. Apenas o
homem a olhou e ficou quieto como uma serpente diante de um encantador e soltou a mulher. Ante a simpatia da
Santa Mãe, a mulher irrompeu em fortes soluços. Ouvimos que toda sua falta havia sido em não preparar a tempo
a comida. Depois, o homem serenou e quis fazer as pazes com a mulher. Em vista disso. A Santa Mãe voltou a sua
casa.
Mais tarde ouviu-se da rua, a voz de um mendigo. Gritava: “Radha-Govinda! Glória a Deus! Sejam
compassivos com o cego!”. A Mãe disse: “Esse mendigo passa pela calçada quase todas as tardes. Antes gritava:
‘Sejam compassivos com este pobre cego!’ Mas um dia Golap-Ma disse-lhe: ‘Por favor, acrescenta Radha-Govinda
– nomes de Deus Pessoal – a teu pedido. Assim servirás o duplo propósito de repetir o santo nome e fazer com
que os chefes de família lembrem de Deus. Do contrário, dia e noite só estarás pensando em tua cegueira’. Desde
então o cego, enquanto vai percorrendo os diferentes lugares, repete em voz alta o nome de Deus. Golap-Ma lhe
deu um corte de tecido, mas ele também recebe outras esmolas”.

Como servir a Imagem Divina no templo

Fui a Baghbazar uma tarde e escutei a Santa Mãe que dizia: “Aos novos devotos, deve-se lhes conceder o
privilégio de servir no templo. Como é algo novo, põem muito zelo nisso e assim, fazem seu serviço ao Senhor
cuidadosamente. Os outros já estão cansados de faze-lo. O serviço, no real sentido da palavra, não é um mero
passatempo. Deve-se cuidar que o mesmo seja feito sem nenhuma falha. Mas, a verdade é que Deus conhece
nosso escasso juízo e, por isso, nos perdoa”. Uma devota estava perto da Mãe. Não sei se estas palavras foram
dirigidas a ela. A Mãe lhe estava pedindo que tivesse cuidado ao cortar e selecionar as flores e ao preparar a pasta
de sândalo para o culto, assim como também não tocasse nenhuma parte do corpo, vestido ou cabelo, enquanto
fazia o culto no templo. Acrescentou: “Deve-se atuar no templo com grande atenção. As oferendas e tudo o
demais, deve ser feito a seu devido tempo”.

Eram oito e meia da noite, quando cheguei ao lugar onde vivia a Santa Mãe. Absorta em sua meditação
estava na galeria do lado norte do templo. Esperamos um pouco em outra casa. A Mãe veio ali e, sorrindo disse:
“Me alegro de ver-te, filha minha”.
Devota: Mãe, trouxe comigo minha irmã. Já terminou o culto da tarde?
Mãe: Não. Agora pode assistir. Eu me unirei a vocês mais tarde.
O culto começou em seguida. Havia no templo muitas senhoras. Todas começaram a rezar. Quando
terminou o serviço, nos prosternamos ante a imagem e nos fomos à casa contígua para ficar com a Santa Mãe.
Enquanto estávamos nesse lugar, não queríamos perde-la de vista nem um só instante.

Como cantava Sri Ramakrishna

Depois de alguns minutos, a Mãe chegou. Uma senhora anciã tratava de aprender um cântico devocional
de outra. A Mãe observou: “Temo que ela não seja capaz de ensinar-lhe o cântico corretamente. Ah! Que grande
cantor era o Mestre! Sua voz era tão doce! Quando cantava, se identificava completamente em seu canto. Todavia
tenho Sua voz em meus ouvidos. Quando a recordo, todas as demais vozes me parecem opacas. Narem (Swami
Vivekananda) também tinha uma voz melodiosa. Antes de deixar Calcutá, veio me ver e cantou alguns cânticos. Ao
despedir-se, disse-me: ‘Mãe, se puder me converter em um homem, no verdadeiro sentido, voltarei a ver-te; do
contrário, adeus!’. Disse-lhe: ‘Que quer dizer, filho meu?’. Replicou: ‘Bem, por tua graça voltarei’. Guirish Babu
tinha, também, uma doce voz”.
Radhu entrou na peça e pediu a Santa Mãe que se recostasse com ela. A Mãe disse: “Vem e te recoste.
Estas devotas vieram de longe; desejo estar um pouco com elas”. Como Radhu insistia, eu disse: “Vamos todas a
teu dormitório; assim, poderás recostar-se”. A Mãe nos pediu que a seguíssemos. Recostou-se e começou a falar
de várias coisas. Eu a abanava. Depois de alguns minutos, disse-me: “Está fresco, agora. Não te incomodes mais”.
Fiz-lhe massagens nos pés. Uma senhora anciã começou a explicar a outra como eram os seis centros descritos
no raya yoga. Golap-Ma não lhe permitiu continuar, mas ela insistiu. Ao ouvir suas palavras, com um sorriso, a Mãe
disse-me: “Com sua própria mão, Sri Ramakrishna desenhou para mim a kundalini e os seis centros yóguicos”.
Perguntei se ela conservava o desenho. Respondeu: “Não, filha, eu o perdi. Eu não tinha, então, a menor idéia de
que nos visitariam tantos devotos”.

Os casados e a vida espiritual

Eram onze da noite; nos prosternamos ante ela e nos despedimos. A Mãe sentou-se sobre a cama e nos
abençoou. Chamando-me à parte, disse-me: “O progresso espiritual se faz mais fácil se, esposo e esposa,
concordam em seu modo de ver sobre as práticas espirituais”.

Reverência para com o guru

Um dia depois, quando visitei a Santa Mãe, a ouvi dizer: “Mesmo ao guru pode-se dizer o que é correto.
Está perfeitamente conforme as normas que o discípulo faça isso. Porém, o discípulo deve ter inalterável devoção
para com seu guru. A devoção ao guru, qualquer que seja o caráter desse, capacita o discípulo a alcançar a
liberdade. Olha a devoção que têm os discípulos de Sri Ramakrishna por seu Mestre. O amor para seu Mestre lhes
faz amar todas as coisas conectadas com a família de Sri Ramakrishna. Eles querem até o gato do povo onde Ele
nasceu”.
Novembro de 1913
Nós tínhamos muitas flores em nossa casa de Balligungui. A Santa Mãe gostava das flores. Um dia, cortei
uma boa quantidade delas e fui vê-la. Encontrei-a pronta para fazer o culto; arrumei as flores e ela sentou-se sobre
o tapete, diante da imagem. Esqueci de deixar de lado algumas flores para adorar os pés da Santa Mãe. Por isso,
estava aflita, pensando que esse dia não podia render-lhe culto. Mas, logo me dei conta que meu desejo havia se
antecipado a meu desejo. Depois que o culto foi terminado, disse: “Minha querida filha, essas flores que estão na
bandeja, separei-as para ti; traga-as aqui”. Nesse momento chegou um devoto que trazia uma grande quantidade
de frutas. A Mãe se alegrou muito ao vê-lo. Pôs uma pasta de sândalo a sua frente e tocou-lhe o manto com a mão,
fazendo o gesto de beija-lo. Nunca eu a tinha visto demonstrar, dessa maneira, seu amor a nenhum devoto
(homem). Logo me pediu que lhe desse algumas flores. Ele aceitou. Vi que todo seu corpo tremia de devocional
fervor. Com grande júbilo, fiz a oferenda das flores aos pés da Mãe. Depois se foi, após ter recebido o prasad.
A Mãe sentou-se e muito ternamente me convidou para me aproximar. Rendi culto a seus pés. Com grande
amor, pôs sua mão sobre minha cabeça e beijou-me. Eu me sentia profundamente tocada com sua bênção.
Depois de um tempo, sobre o terraço, a Mãe estava secando seu cabelo. Chamou-me para perto dela e me
disse: “Descobre tua cabeça e seca teu cabelo; do contrário, tua saúde pode ser afetada”. Golap-Ma veio pedir a
Santa Mãe que oferecesse comida ao templo e a Mãe desceu. Mais tarde fui também ao templo. Uma tímida jovem
esposa estava dizendo a Sri Ramakrishna, em voz baixa: “Vem agora; tua comida está pronta”. Logo foi ante a
imagem de Golapa (Krishna menino) e disse-lhe: “Oh! Meu Golapa! Venha comer”. Eu estava por detrás dela e, de
repente, viu-me e sorrindo, disse-me: “Estou os convidando para o almoço”. Dizendo estas palavras, a Santa Mãe
entrou na casa onde a comida estava sendo oferecida. Sua solicitude e devoção me fizeram sentir como se as
Divinas imagens escutassem suas palavras e a seguissem ao lugar da oferenda. Eu estava maravilhada, como
cravada no piso!

Nem mesmo as pequenas coisas devem ser mal gastas ou desperdiçadas

Quando terminou a oferenda, nos sentamos todas juntas para almoçar. Logo a Mãe pediu-me que
descansasse um momento. Chegou um homem com um cesto de frutas para serem oferecidas e perguntou aos
monges o que devia fazer com o cesto, já que estava vazio. Eles disseram que o jogasse fora. Nesse momento a
Mãe se levantou da cama, foi à galeria, olhou para a rua e disse-me: “Olha, lhe disseram que jogasse fora este
lindo cesto! Todos eles são monges e, por tanto, completamente desapegados; mas nós não podemos permitir tal
coisa. Poderíamos utilizar o cesto para colocar as verduras desperdiçadas”. Pediu a alguém para que fosse buscar
o cesto e o lavasse. O cesto foi, então, destinado a um futuro uso. Suas palavras foram uma lição para mim,
porém, somos demorados para aprender!

Cumpramos nossa dívida com todos

Na porta ouviu-se o pedido de um mendigo. Os monges sentiram-se molestados e disseram, com rudeza:
“Vá-se, não nos incomode agora”. A Mãe disse: “Ouviste suas palavras? Expulsaram esse pobre homem. Não
puderam sacudir sua preguiça e dar algo ao mendigo; só queria um punhado de arroz. E eles não puderam
se dar ao incômodo de cumprir tão insignificante ato. É justo privar um homem do que a ele devemos? Até às
vacas devemos estas folhas, cascas e demais sobras. Temos que coloca-las perto de sua boca”.

Depois de muitos dias, voltei a ver a Santa Mãe. Ela tinha isso ao seu povo natal e voltou a Calcutá no
outono, poucos dias antes da festividade de Durga Puya. A visitei a tarde e vi que uma mulher, ajoelhada a seus
pés com lágrimas nos olhos, pedia-lhe sua iniciação. A Mãe estava sentada em sua cama e recusou-se a aceitar o
rogo daquela mulher, dizendo-lhe: “Já te disse que não posso inicia-la agora; não me sinto bem”. A mulher insistia.
A Mãe se enfastiou e lhe disse: “A senhora considera a iniciação muito ligeiramente. Ficará satisfeita se receber
o mantram, mas nem remotamente pensa em suas conseqüências”. A mulher não cedia em seu empenho. Todos
os presentes de sentiam incomodados. A Santa Mãe, por fim, disse-lhe que voltasse outro dia. Então a mulher
rogou que pedisse a um dos monges que a iniciasse.
Mãe: Eles podem não me fazer caso.
Mulher: Que quer dizer, Mãe? Eles devem obedece-la.
Mãe: Nesse assunto, podem recusar-se a cumprir meu pedido.
Vendo que a mulher não cedia, a Mãe disse-lhe: “Bem, se eu pedir a Swami S., Ele a iniciará”. Porém, ela
começou novamente a insistir, dizendo: “Eu me sentiria feliz se a senhora me iniciasse. Certamente, se a senhora
quisesse, poderia cumprir meu desejo”. Tirou dez rúpias e lhe disse: “Com esse dinheiro, posso comprar o
necessário para a iniciação”. Todos nos sentimos mortificados por sua imprudência. Desta vez a Mãe zangou-se e
disse, com severidade: “O quê, a senhora quer tentar-me com dinheiro? Não pode a senhora seduzir-me com
essas moedas. Guarde-as”. Imediatamente a Mãe saiu da casa. Mas logo, ao ser pressionada de novo por esta
mulher, convidou a dar-lhe a iniciação no sagrado dia de Mahashtami (segundo dia do culto da Divina Mãe). A
mulher então se foi e a Mãe teve um pouco de tempo para falar comigo.

Fui visitar a Mãe depois de dois meses e meio. Ao ver-me, exclamou: “Oh! Faz quase um século que não te
vejo!”. Durante a conversação, perguntei-lhe sobre aquela mulher a quem havia concedido iniciar.
Mãe: Ela não pode vir no dia fixado. Eu havia lhe dito: “Agora estou doente; deixe que eu sare e então a
iniciarei”. Minhas palavras estavam certas. Não pôde vir no dia de Mahashtami porque ela também caiu enferma.
Veio aqui muitos dias depois e recebeu sua iniciação.
Devota: É verdade; as palavras que saem de tua boca não podem senão cumprir-se. Nós sofremos porque
vamos de encontro de teus desejos. Muitas vezes tu és condescendente com a as pessoas e lhes dá a iniciação
mesmo estando enferma e, assim, sofres muito mais, tomando sobre ti seu sofrimento.
Mãe: Sim, filha querida. Sri Ramakrishna também costumava dizer: “Se não fosse por isso, por que este
corpo haveria de sofrer?”. No dia seguinte fiquei com diarréia.
Minha cunhada estava comigo. Referindo-se a ela, a Mãe disse: “É uma moça muito boa e tranqüila. Há só
um prato de legumes. Se o mesmo não é saboroso, então a comida se perde”. Quis dizer que tendo eu uma só
cunhada na família, minha vida havia sido desafortunada se ela não fosse boa comigo.

Fevereiro de 1914
Fui a Baghbazar numa manhã, com uma cesta de flores, que ofereci a Santa Mãe. Ela estava muito
contente e começou a adornar com as flores, a imagem de Sri Ramakrishna. Algumas delas eram de cor azul.
Tomando-as em suas mãos, disse: “Ah! Que formosa cor! Havia em Dakshineswar uma menina que se chamava
Asha. Um dia, veio ao jardim do templo e arrancou uma flor vermelha de uma planta com folhas escuras. Oh! A
graça Divina! Que singular criação de Deus!”. Sri Ramakrishna a viu e disse: “Minha querida filha, que tens? Por
que estás chorando assim?”. Mas ela não podia pronunciar nenhuma palavra. Chorava incessantemente. Sri
Ramakrishna, por fim, conseguiu acalmá-la”.
A Santa Mãe estava em um estado de ânimo muito especial e disse: “Olhem estas flores de cor azul! Ah!
Que formoso adorno se pode fazer a Deus com flores tão belas!”. Dizendo isso, tomou várias delas e as ofereceu a
imagem de Sri Ramakrishna. Umas flores caíram a seus pés, antes de serem oferecidas. A Mãe exclamou: “Deus
meu! Como caíram a meus pés antes de serem oferecidas ao Senhor?”. Eu disse: “Isto é muito bonito!”. Então
pensei: “Para ti, Sri Ramakrishna será um ser muito grande, mas para nós não haverá nenhuma distinção entre tu e
ele”.
Entrou na casa uma senhora viúva. Perguntei a Santa Mãe sobre ela e me respondeu: “Foi iniciada por mim
a cerca de um mês. Havia aceitado outro guru antes. Mais tarde se deu conta que havia sido um erro e veio aqui
para ser iniciada. Não pude convence-la de que todos os mestres são os mesmos. O poder de Deus trabalha
através de todos eles”.

Recordando Sri Ramakrishna

À tarde, recaiu novamente a conversação sobre as flores. A Mãe disse: “Um dia, quando vivia em
Dakshineswar, fiz uma grande grinalda de sete fileiras com alguns jasmins e flores vermelhas. Mergulhei a
guirlanda na água de uma fonte de pedra e rapidamente os botões abriram-se totalmente. Levei a guirlanda ao
templo de Kali, para adornar com ela a imagem da Divina Mãe. Tiraram os ornamentos do corpo de Kali, deixando
só a guirlanda como adorno. Sri Ramakrishna foi ao templo. Num instante, entrou num extático modo de ver a
beleza de Kali, tão intensificada pela beleza das flores. Uma e outra vez, disse: “Ah! Estas flores ficam tão
formosas sobre a cor escura da Divina Mãe! Quem fez a guirlanda?”. Alguém mencionou meu nome. Sri
Ramakrishna disse: “Vá e a traga ao templo”. Ao chegar perto da escadaria, vi que havia ali alguns devotos.
Balaram Babú, Surem Babú e outros. Me senti sumamente coibida e tratei de me esconder. Amparei-me atrás de
Brinda, que era do pessoal de serviço e tive a intenção de subir ao templo pela escada da porta traseira.
Instantaneamente Sri Ramakrishna notou isto e me disse: “Não vás por aí. Essa escada não é segura. Noutro dia
uma pescadora, subindo por ela, resvalou. Houve um terrível golpe; teve fratura de ossos e morreu. Sobre pela
escada da frente”. Os devotos ouviram essas palavras e me abriram caminho. Entrei no templo e Sri Ramakrishna
começou a cantar com uma voz trêmula de amor e devoção.

A realização de Deus e a graça Divina

Entraram, então, outras devotas na casa e a conversação terminou. Para mim havia chegado a hora de me
despedir. Outra vez a Mãe começou a falar da realização de Deus. Disse: “Sabes, filha, o que parece? É como um
doce nas mãos de um menino. Alguns lhe pedem que ele o dê, mas ele não dá. Porém, com a maior soltura o
entrega a quem lhe cai nas graças. Um homem pratica austeridades durante toda sua vida para realizar Deus e
não O alcança; no entanto algum outro, talvez sem esforço algum, alcança sua realização. Isso depende da graça
de Deus. Ele outorga Sua graça a quem lhe agrada. A graça é a coisa mais importante”.

Ano 1917
Fui ver a Santa Mãe à tarde. Eu vivia, então, em nossa casa de Baghbazar e visitava a Mãe quase todos os
dias. Como a encontrei só, lhe contei um sonho. Disse: “Mãe, esta noite vi Sri Ramakrishna em um sonho. Tu
estavas, então, em Yairambati. Saudei-O e perguntei: ‘Onde está a Mãe?’ Disse-me: ‘Segue por essa calçada e
encontrarás uma cabana com um teto de palha. Ela está sentada sob o beiral em frente’”. A Mãe estava em sua
cama. Sentou e com grande entusiasmo disse-me: “Está certo. Teu sonho é verdadeiro”. Eu disse, surpresa:
“Então é exato? Tinha a idéia de que tua casa de Yairambati estava construída com ladrilhos. Mas no sonho vi o
piso de terra, o teto de palha, etc. e por isso pensei que meu sonho havia sido mera ilusão”.
No curso de uma conversa acerca das austeridades indicadas para a realização de Deus, disse: “Golap-Ma
e Yoguin-Ma dedicaram muito tempo na meditação e repetição do nome de Deus. Yoguin-Ma praticou austeridades
muito severas. Houve um tempo em que vivia só de leite e frutas. Mesmo agora, dedica a maior parte de seu tempo
às práticas espirituais. A mente de Golap-Ma dificilmente é afetada pelas coisas exteriores. Não vacila em comer
hortaliças cozidas, das que se compram no mercado e que uma viúva brahmin não deveria tocar”.
Foi decidido que naquela tarde, haveria cânticos em louvor à deusa Kali, na casa da santa Mãe. Os monges
do Monastério de Belur fariam parte da reunião. A música começou as oito e meia; muitas devotas foram à galeria
para ouvir. Eu estava fazendo massagens nos pés da Mãe, com azeite e podia ouvir os cânticos da sua habitação.
Muitas vezes antes tinha ouvido esses cânticos, mas naquele entardecer, cantados pelos devotos, tinham um novo
encanto. Estavam impregnados de força e emoção. Meus olhos se umedeceram. Nesses momentos a Santa Mãe
exclamava com entusiasmo: “Sri Ramakrishna costumava cantar esses cânticos!”. Começaram a cantar um cântico
que começava: “A abelha de minha mente fica fascinada pelos azuis lotos dos pés da Divina Mãe!”. A Santa Mãe
não pôde ficar por mais tempo encostada. Algumas lágrimas corriam por suas faces. Disse-me: “Vem, querida,
vamos à varanda”. Depois que terminaram os cânticos, saudei a Santa Mãe e regressei a minha casa.

22 de junho de 1918
Eram sete e meia: entardecia quando cheguei a casa da Santa Mãe. Fazia dois meses que ela havia
voltado de seu povo natal. Estava muito magra por haver sofrido longamente de impaludismo. Saudou-me com seu
habitual sorriso, dizendo: “É um dia muito quente; descanse um pouquinho e refresca-te. Que notícias têm de tua
irmã? Ela regressou a sua casa?”.
Devota: Sim, Mãe; quando eu parti, ela estava em casa.
Mãe: Leve-lhe este abajur a Radhu e logo unte meus ombros com este azeite medicinal. Tenho bolhas por
todo o corpo.
Quando comecei a passar o azeite, soou uma campainha anunciando o culto vespertino. A Santa Mãe
sentou-se na cama e saudou a Deus, juntando as mãos. As outras devotas foram ao templo para assistir o culto.

Significado do sofrimento

A Mãe disse: “Todos se lamentam dizendo: ‘Há tanto infortúnio no mundo!’. Temos rogado tanto a Deus e,
contudo, não tem fim nossos sofrimentos!. Porém, o sofrimento é só um dom de Deus. Ele é o símbolo de Sua
compaixão, não é assim?”.

Naquele dia, minha mente estava muito intranqüila. Acaso ela sabia e por isso me dirigiu estas palavras?
Logo falou: “Quem não teve pesares neste mundo?”. Brinde, a devota de Krishna, disse: ‘Quem disse que é
compassivo? Em tua encarnação de Rama, fizeste chorar a Sita durante toda a sua vida. E em tua
presente encarnação de Krishna, Radha verteu muitas lágrimas por amor a ti. Teus pais padeceram tremendas
angústias na prisão de Kamsa e choraram dia e noite pronunciando teu nome. Então, por que eu repito teu
nome? Porque teu nome tira totalmente o medo da morte’”.

Referindo-se a certa mulher, a Santa Mãe disse: “As pessoas com uma aparência assim, em geral, carecem
de bhakti, devoção a Deus. Isso eu ouvi de Sri Ramakrishna”.
Devota: Sim, Mãe, li no “Evangelho de Sri Ramakrishna” que as pessoas que não são francas, não podem
fazer real progresso espiritual.

Confissão e absolvição dos pecados

Mãe: Oh! Tu te referes ao que eu disse na casa de um devoto chamado Naren. Um homem tinha uma
concubina. Certa vez, a mulher foi ver Sri Ramakrishna e, arrependida, disse-lhe: “Esse homem me arruinou.
Ademais, roubou todo meu dinheiro e jóias”. Sri Ramakrishna era plenamente consciente e conhecia tudo o que se
abrigava profundamente na mente de todos. Contudo, gostava de escutar as coisas tal como lhe eram ditas. Disse
a mulher: “É verdade? No entanto, ele costumava nos dar elevadas práticas sobre devoção”. Então, Ele mencionou
aquelas coisas que nos atraem ao caminho espiritual. Ao final, a mulher confessou todos seus pecados e, assim,
ficou livre de seus maus efeitos.
Nalini: Como é possível, Mãe? Como é possível que alguém fique absolvido de seus pecados pelo simples
motivo de expressa-los de viva voz? É possível lavar o pecado dessa maneira?
Mãe: Por que não, filha querida? Sri Ramakrishna foi um ser perfeito. Certamente alguém pode livrar-se do
pecado se o confessa a alguém que seja como Ele. Escuta, se em certo lugar alguém fala da virtude e do vício,
aqueles que estão presentes devem ter sua parte de tais qualidades.
Nalini: Como é possível?
Mãe: Te explicarei. Imagine que um homem confessa-te seus vício e virtudes. Cada vez que tu pensar
neste homem, recordará seus atos virtuosos ou pecaminosos. E isto deixaria uma impressão em tua mente, não é
verdade, filha minha?

Novamente voltou-se a falar do sofrimento, aflição e infelicidades do ser humano. A Mãe disse: “Muita gente
vem aqui e me confia seus pesares. Eles dizem: ‘Não temos realizado a Deus, como podemos alcançar a paz?’.
Num instante surge em minha mente a idéia: ‘Por que eles falam assim? Então, sou eu um ser sobre-humano?
Nunca soube o que é o sofrimento. E a visão de Deus, poderia dizer, a tenho na palma de minha mão. Cada vez
que desejo, posso tê-la...’”.
Continuou dizendo: “O Evangelho de Sri Ramakrishna, escrito por M., é muito formoso. Isso se deve ao
fato de que foram anotadas as palavras exatas do Mestre. Quão doces são essas palavras! Ouvi que M. tem
suficiente material para editar quatro ou cinco volumes mais do que o já publicado. Mas já está velho e duvido que
possa cumprir a tarefa de colocar tudo isso no livro. Houve muito dinheiro com a venda do livro. Grande soma foi
depositada. Ele me deu mil rúpias para a construção de minha casa em Yairambati, incluindo outros gastos
ocasionais. Também me envia dez rúpias todos os meses; e quando estou em Calcutá, manda vinte ou mais.
Anteriormente só me dava duas rúpias por mês. Era, então, mestre da escola.
Devota: Ouvi que Guirish Babú, no começo, contribuiu com uma importante soma de dinheiro para a
manutenção dos monges.
Mãe: Não foi uma grande soma, Suresh Mitra é quem foi mais dadivoso em sua contribuição. Guirish
também dava dinheiro de vez em quando. Em uma ocasião, pagou todos os meus gastos por um ano e meio.
Como posso saber se foram feitas grandes contribuições? Nunca foi rico. A primeira parte de sua vida não foi muito
limpa; tinha más companhias e atuava no teatro. Mas era um homem que tinha uma fé maravilhosa. Por isso, teve
a graça de Sri Ramakrishna. Nesta encarnação, Sri Ramakrishna redimiu Gurish. Em cada Encarnação de Deus,
se destacam feitos similares. Gauranga salvou os irmãos Yagay e Madhai. Por outro lado, Sri Ramakrishna disse,
certa vez, que Guirish tinha intimamente alguns traços de Shiva. Que há no dinheiro, filha minha? Sri Ramakrishna
não podia toca-lo. Sua mão se contraía em um movimento de rechaço frente ao dinheiro. Ele disse: “Este mundo é
ilusório. Se fosse o contrário, eu cobriria teu Kamarpukur com lágrimas de ouro. Mas sei que o mundo é
impermanente. Só Deus é real”.
Maku, sua sobrinha, queixando-se disse: “Não posso conseguir um lugar estável para ficar!”. A Mãe
replicou: “Por que isso? Onde quer que vivas, deves sentir-te como em tua casa. Tu pensas que serás feliz no lugar
onde vive teu marido. Como isso é possível? Ele ganha muito pouco. Como poderás arrumar-te com seu pequeno
salário? Agora estás comigo; é o mesmo que tu estivesses na casa de teu pai. As moças casadas não
vivem, as vezes, com seus maridos. Não podes praticar um pouco de renúncia?”.
Logo eu falava com Yoguin-Ma, que estava perto da janela. A Mãe disse: “Entra. Agora é um pouco difícil
ver-te”. Yoguin-Ma sorriu e entrou na casa. Seu pé tocou meu corpo. Como ela fez o gesto de saudar-me juntando
as mãos, a interrompi e prosternei-me diante dela. “Que é isso, Yoguin-Ma – disse – eu não sou sequer digna de
tocar o pó de seus pés. Acaso deve saudar-me só porque seu pé tocou meu corpo?”. Em contestação, Yoguin-Ma
disse: “Por que não? Uma cobra sendo pequena ou grande é sempre uma cobra. Todas vocês são devotas e
merecem, por isso, nosso respeito”. Olhei para a Mãe. O mesmo sorriso compassivo iluminava seu rosto. Quando
me despedi dela, já era noite.

28 de julho de 1918
À tarde fui visitar a Mãe em sua casa de Baghbazar. Pouco antes do serviço vespertino, chegou uma viúva
anciã e saudou a Santa Mãe, colocando a cabeça sobre seus pés. A Mãe se aborreceu muito e disse: “Por que
toca meus pés com sua cabeça? Não estou bem de todo e isto me faz piorar”. Quando a viúva se foi, a Mãe lavou
seus pés.
Mais tarde, enquanto eu fazia massagens no corpo da Mãe com azeite medicinal, a conversação derivou
acerca do grande devoto Lalit Babú. Ele disse: “Certa vez estive gravemente enfermo. Mas ouvi dizer que se curou
pela tua graça”.
Mãe: Ele tinha muitos desejos insatisfeitos. Estava seriamente doente de hidropisia, a ponto de morrer.
Disse-me com lastimada voz: “Mãe, tenho um grande desejo de construir templos e hospitais em Kamarpukur e
Yairambati. Mas esse meu grande desejo não vai se cumprir”. Ah! Sri ramakrishna salvou sua vida, dessa vez!
Agora ele quer cumprir seus planos. Que o faça. Comprou um reservatório de água para mim”.

29 de julho de 1918

Acerca de Swami Premananda

Swami Premananda, um discípulo de Sri Ramakrishna, havia deixado seu corpo mortal durante a tarde. Ao
anoitecer, eu fui ver a Santa Mãe. A Mãe disse-me: “Vem, filha minha, sente-se. Esta tarde meu Baburam (Swami
Premananda) se foi. Estive chorando desde a manhã”. E outra vez começou a chorar. Continuando disse:
“Baburam era o mais querido de meu coração. A força, a devoção, a razão e todas as demais virtudes do
Monastério de Belur, estavam encarnadas nele. Era realmente a luz do Monastério. Sua mãe era uma mulher
pobre. Havia herdado a propriedade de seu pai e isto fez com que ficasse um pouco orgulhosa. Ela mesma me
confessou, dizendo: ‘Eu tinha alguns enfeites de ouro e pensava que o mundo era como um lodaçal’. Havia deixado
quatro meninos, pois o quinto morreu pouco antes dela morrer”.
Depois de um tempo, vi a Santa Mãe pôr sua cabeça aos pés do retrato de Sri Ramakrishna, que estava
pendurado na parede que dava para o sul, dizendo em um tom que partia o coração: “Senhor, levaste meu
Baburam”. Eu não pude conter minhas lágrimas.

30 de julho de 1918
Quando fui ver a Mãe, eram sete e meia da noite. Hoje também sua conversação versou sobre Swami
Premananda, que acabara de falecer. A Mãe disse: “Filha, no corpo de Baburam, depois de sua última doença, não
havia ficado nem carne, nem sangue. Era só um esqueleto”. Chandra Babú entrou no cômodo e disse à Mãe que
alguns devotos haviam dado madeira de sândalo, manteiga, flores, incenso, etc. pelo valor de quatrocentas ou
quinhentas rúpias, para a cremação do corpo do Swami. A Mãe disse: “Esse dinheiro é, na verdade, bendito. Eles o
gastaram para um devoto. Deus lhes deu abundantemente e lhes dará mais!”. Chandra Babú saiu da casa.

Contraste entre um grande ser e um homem comum

Ela continuou: “Escuta, filha, por mais espiritual que seja um homem, deve pagar sua taxa pelo uso do
corpo até o último centavo. Mas a diferença que há entre um grande ser e um homem comum é: este último,
quando tem que deixar o corpo, chora: em troca, o primeiro ri. A morte aparece para ele como um mero jogo.
Ah! Meu Baburan veio a Sri Ramakrishna quando era nada mais que um menino. Sri Ramakrishna
costumava divertir-se muito com os meninos. Narén (Swami Vivekananda) e Baburam costumavam jogar-se ao
chão, arrebentado-se de tanto rir. Um dia, quando vivíamos na quinta de Cossipore, enquanto subia uma escada
levando um cântaro cheio de leite, senti náuseas e o leite se derramou no chão. Narén e Baburam correram para
me ajudar. Eu havia torcido o tornozelo e meus pés estavam muito inflamados. Sri Ramakrishna se inteirou do
acidente e disse a Baburam: ‘Bem Baburam, estou agora metido numa bela trapalhada. Quem cozinhará? Quem
me dará de comer?’. Estava então com câncer na garganta e só podia comer pudim de sêmola. Eu o preparava e
dava para que comesse, em sua habitação, que estava no segundo andar da casa. Tinha eu, então, um aro em
meu nariz. Sri Ramakrishna para me indicar, tocou o nariz e fez um sinal de um aro, descrevendo um círculo com
seu dedo e acrescentou: ‘Baburam, podes coloca-la num cesto e traze-la sobre teus ombros aqui?’. Naren e
Baburam se puseram a rir. Assim, costumava fazer troça e pilhéria com eles. Depois de três dias, meus pés se
desincharam, então os meninos me ajudaram a subir a escada com a comida”.
“Baburam costumava dizer a sua mãe: ‘Quão pouco me queres! Acaso me amas como a Sri Ramkrishna?’.
‘Que besteira’ – contestava sua mãe – ‘Que quer dizer com isto? Sou sua mãe e não te quero?’. Tão profundo era
o amor de Sri Ramakrishna! Quando tinhas quatro anos, Baburam costumava dizer: ‘Eu não me casarei; antes
prefiro morrer’. Na época em que Sri Ramakrishna sofria de câncer na garganta e não podia engolir a comida, disse
um dia: ‘Comerei em meu corpo sutil por um milhão de bocas’. Baburam replicou: ‘Não me importa tuas milhões de
bocas, nem teu corpo sutil. O que me interessa é que comas por essa boca e que eu possa ver teu corpo denso’”.
“Sri Ramankrishna nuca aceitava ninguém com numerosos filhos. Um homem que havia gerado vinte e
cinco filhos! Que vergonha! Pode-se chamá-lo de homem? Não há nenhum controle de si mesmo? É uma
verdadeira besta!”.
Golap-Ma tinha disenteria. Hoje se sentia melhor. O médico disse que passaria uns três meses para que se
curasse completamente. A Santa Mãe disse: “A disenteria, quando há muita perda de sangue, não é uma doença
qualquer. Sri Ramakrishna sofria com freqüência dessa doença, especialmente durante as estações das chuvas.
Uma vez, Seu estado era muito sério e eu o atendia. Chegou a Dakshineswar uma mulher de Benares, que me
indicou um remédio; segui suas instruções e logo o Mestre se curou. A mulher desapareceu e nunca mais voltei a
vê-la. Ela, realmente, prestou-me uma grande ajuda. Quando fui a Benares, tratei de encontra-la, mas não
consegui. Temos notado que, freqüentemente, quando Sri Ramakrishna necessitava de algo, chegava alguém a
Dakshineswar sem ser chamado e logo desaparecia como por encanto”.
“Eu também sofri de disenteria, filha. Meu corpo ficou como um esqueleto. Eu estava perto do tanque e, um
dia, vi na água tudo o que ficara de meu corpo; eram somente ossos. Pensei: ‘Deus meu! De que me serve este
corpo? Deixa-me abandona-lo. Vou deixa-lo aqui!’. Nisso chegou uma mulher e me disse: ‘Olá, Mãe! Que estás
fazendo aqui? Vamos pra casa’. Então me levou pra casa”.
Já se havia feito noite quando despedi-me da Santa Mãe.

31 de julho de 1918

Os discípulos monásticos de Sri Ramakrishna

Hoje encontrei a Mãe sozinha e pude ter com ela uma longa conversa. Falamos principalmente dos
discípulos monásticos de Sri Ramakrishna. Embora a causa da morte de Swami Premananda, a Santa Mãe
estivera pensando continuamente nestes monges. Referindo-se a eles, disse: “Sri Ramakrishna aceitava Seus
discípulos só depois de um exame completo deles. Que vida austera levaram eles no Monastério de Baranagore,
depois que morreu Sri Ramakrishna! Mas Niranyan e outros chegaram ao ponto da iniciação, por não ingerir quase
nenhum alimento. Passavam todo seu tempo em meditação e oração. Um dia, falando entre eles, esses jovens
monges disseram: ‘Temos renunciado a tudo por Sri Ramakrishna. Vemos se Ele nos provêm de comida, se só
dependemos Dele. Não diremos nada de nossas necessidades. Não iremos mendigar!’. Cobrindo seus corpos com
seus mantos, se puseram a meditar. Passou o dia todo. Já era bem tarde da noite. Ouviu-se golpes na porta. Narén
levantou-se e disse a um dos monges: ‘Anda, veja quem chama a porta. Mas, antes, veja se não traz algo nas
mãos’. Que milagre! Ao abrir a porta, apareceu um homem que trazia uma deliciosa comida do templo de Gopala,
situado na margem do Ganges. Os monges estavam realmente contentes e ficaram convencidos da mão protetora
de Sri Ramakrishna. Nessa hora avançada da noite, ofereceram a comida a Sri Ramakrishna e participaram
desse prasad. Coisas semelhantes ocorreram mais de uma vez... agora os monges não passam por nenhuma
dessas dificuldades. Ah! Por que tremendas austeridades passaram Narén (Swami Vivekananda) e Baburam
(Swami Premananda)! Até meu Rakhal (Swami Brahmananda), que agora é presidente da Missão Ramakrishna,
muitos dias teve que limpar caçarolas e potes. Uma vez, Narén percorria o norte da Índia como monge errante.
Fazia dois dias que não conseguia nenhum alimento e se encontrava recostado debaixo de uma árvore. Veio para
perto um homem trazendo uma deliciosa comida e uma jarra de água e disse-lhe: ‘Aqui te trago prasad de Rama.
Por favor, aceite-o!’. Narén respondeu: ‘Você não me conhece, meu bom amigo. Deves estar errado. Talvez o
senhor tenha trazido esta comida para alguma outra pessoa’. Com maior humildade, o homem disse: ‘Não,
reverendo senhor: trouxe esta comida para o senhor’. Eu estava desfrutando de uma pequena sesta, quando me
apareceu um homem em sonho e disse-me: ‘Levanta-te agora. Lá em frente, debaixo de uma árvore, está
recostado um santo. Leva-lhe algo para comer’. Considerando tudo como um mero sonho, eu não fiz caso e voltei a
dormir. Outra vez sonhei com aquele homem que se aproximou e, dando-me um empurrão, disse: ‘Te pedi que te
levantasses e segues dormindo? Faz o que eu te ordenei sem demora!’. Então pensei que isso não era um mero
sonho. Era um mandato de Rama. É por isso que, obedecendo a sua ordem, te trouxe esta comida’. Narén
compreendeu que tudo se devia a graça de Sri Ramakrishna e aceitou alegremente a comida”.
“Algo similar ocorreu num outro dia. Narén andava pelos Himalaias; fazia três dias que não conseguia
nenhum alimento. Estava a ponto de cair extenuado, quando apareceu um faquir muçulmano e lhe deu um pepino.
Isso salvou sua vida, aquela vez. Quando voltou da América do Norte, Narén estava dando uma conferência em
Almora. Viu aquele muçulmano sentado a um canto. Narén foi em seguida até ele, tomou sua mão e levou-o para
sentar no centro da reunião. Todos ficaram surpresos. Narén disse: ‘Este cavalheiro, uma vez, salvou-me a vida’.
Logo narrou o ocorrido. Também deu ao faquir algum dinheiro. Mas esse, no princípio recusou, dizendo: ‘Que fiz
para o senhor ficar tão ansioso par dar-me um presente?’. Mas Narén insistiu e colocou o dinheiro em seu bolso”.
“Narén levou-me a Belur Math na primeira vez em que se celebrou a festividade de Durga. Por meu
intermédio, deu ao sacerdote vinte e cinco rúpias como honorários. Naquela magna ocasião, gastaram-se mil e
quatrocentas rúpias. Compareceu uma multidão e os monges trabalharam duramente. Narén disse-me: ‘Mãe,
concede-me que caia na cama com febre’. Tão logo acabou de dizer isso, teve um ataque febril e precisou deitar.
Eu pensei: ‘Que é isto? Como se curaráagora?’ Disse-me: ‘Não te preocupe, Mãe. Eu pedi esta febre e a razão é
esta: os rapazes estão trabalhando vigorosamente; mas se vir a mais ligeira falha, me zangarei e os repreenderei.
Quem sabe até lhes dê algumas palmadas. Isso seria tão penoso para eles como para mim. Por isso pensei que
seria melhor cair de cama com febre por certo tempo’. Quando terminaram os festejos, fui para ele e lhe disse:
‘Meu querido filho, já está concluída a tarefa; levante-se agora”. Narén disse que se sentia muito bem e deixou a
cama”.
“Narén levou também a sua mãe ao Monastério, durante Durga-Puya. Ela começou a colher na horta e
arrancou pimentões, berinjelas, etc. Talvez se sentisse orgulhosa, pensando que tudo aquilo era devido a seu filho
Narén. Ele foi onde ela estava e disse-lhe: ‘Que estás fazendo? Por que não vais ver a Santa Mãe? Só te pões a
cortar estas coisas e acaso pensas que é teu filho quem fez todo este trabalho. Não, mamãe, estás equivocada. É
Ele quem fez tudo isto. Narén não é nada’. Narén quis dizer que o Monastério havia sido fundado pela graça e Sri
Ramakrishna. Que grande devoção!... Meu Baburam se foi. Ai! Quem se encarregará da celebração de
Durga Puya este ano?”.

8 de junho de 1918
Quando fui ver a Santa Mãe, encontrei-a na galeria, absorta em meditação. Depois de certo tempo,
chegaram para oferecer-lhe seus respeitos, cinco ou seis mulheres. Entraram no templo e prosternaram-se ante a
imagem de Sri Ramakrishna. Nalini as apresentou; uma delas havia vindo a Calcutá para seguir um tratamento. O
médico havia diagnosticado um tumor no abdômen e teria que se operar. Estava excessivamente nervosa, com a
idéia da operação. A Santa Mãe não permitiu a nenhuma das mulheres que tocassem seus pés; mas a Mãe lhes
pediu com firmeza, que a saudassem de certa distância. Indicando a moça doente, disseram: “Abençoe-na para
que se cure e possa voltar aqui para oferecer-lhe seus respeitos”. A Mãe contestou, dizendo: “Inclinem-se diante de
Sri Ramakrishna e orem a Ele sinceramente. Ele é tudo”. A Mãe parecia estar inquieta. Logo disse: “Adeus, filhas;
está tarde para as senhoras”.
Depois que elas se foram, a Mãe disse: “Por favor, varram a casa e joguem de água do Ganges. Já é hora
de oferecer a comida ao Senhor”. Seu pedido foi cumprido de imediato.

Sofrimentos no ministério espiritual

Encostou-se na cama; alcançando-me um abano, me disse: “Filha, abane-me um pouco. Tenho todo o
corpo ardendo. Minhas saudações a vossa Calcutá! As pessoas vêm aqui e me mostram o catálogo de seus
pesares. Entre eles, há quem cometeu muitos atos pecaminosos. Há outros que conceberam vinte e cinco filhos e
choram porque dez deles estão mortos! São eles seres humanos? Não, são verdadeiras bestas! Nenhum domínio
de si mesmo! Sem controle de nenhuma espécie! Por isso, Sri Ramakrishna costumava dizer: ‘Um litro de leite
mesclado com cinco litros de água! É tão difícil engrossar este leite. Meus olhos estão inchados de tanto soprar o
fogo para que se mantenha aceso. É tão árdua a tarefa de engrossar este tipo de leite! Onde estão meus sinceros
filhos, prontos para renunciar a tudo por Deus? Que venham; quero falar com eles. Do contrário, a vida
é insuportável!’. São tão certas estas palavras e Sri Ramakrishna. Por favor, abane-me. Filha querida. Desde as
quatro da tarde tem estado gente aqui sem nenhuma interrupção. Não posso suportar o sofrimento de pessoas por
mais tempo”.
“Também veio hoje a esposa de Balaram. Ela é irmã de meu Baburam. Chorou amargamente por ele e
disse: ‘Era acaso um irmão como qualquer outro para mim? Ele é um verdadeiro Deus’”.
4 de agosto de 1918
Encontrei a Santa Mãe conversando com uma viúva, irmã do doutor B. Tinha ficado viúva muito jovem e
tinha algumas dificuldades a respeito da propriedade que seu marido havia deixado. Não conseguira a certificação
do testamento. Falaram dessas coisas e finalmente a Mãe disse à viúva: “Como a senhora não tem direito de
vender a propriedade, te aconselho que a dê para administrar a um homem de sua confiança. um homem com
mentalidade mundana nunca é de se confiar em assuntos de dinheiro. Mas não te aflija tanto, filha. Confie na
vontade de Deus; a senhora tem trilhado o caminho reto. O Senhor não a porá em nenhuma dificuldade. Adeus.
Escreva-me de vez em quando e apareça por aqui”.
Depois que saiu a viúva, veio Shymadas, um médico ayur-védico para ver Golap-Ma. A Mãe o atendeu por
um instante e quando ele de foi, disse-me: “Agora, cumpre com tua tarefa”. Comecei a untar seu corpo com azeite
medicinal e a Mãe disse: “A irmã de Guirisk Gossh queria-me muito. Separava um pouco de cada coisa que
cozinhava e o mandava aqui por uma mulher brahmin. Seu amor por mim era profundo. Havia se casado em uma
família aristocrática e era bastante rica. Mas seus parentes gastaram mal seu dinheiro. Atualmente, seu irmão
começou um negócio com mil rúpias. Ademais, ela gastou uma grande quantidade de dinheiro na enfermidade de
seu marido, que durou um ano. Em seu testamento ele expressou o desejo de deixar-me cem rúpias. Mas ela,
enquanto viveu, tinha vergonha de dar-me só essa quantidade. Pensou que era uma quantia tão insignificante!
Quando ela morreu, seu irmão veio aqui e me entregou o dinheiro. Ela tinha vindo me ver, pela última vez, no dia
de Durga Puya. Enquanto estava aqui, não se separou de mim nem um segundo. Eu tinha planejado ir a Benares
imediatamente depois de Durga Puya; por isso estava um pouco atarefada arrumando minhas coisas e tinha que ir
de uma a outra casa. Por fim, ela disse: ‘Posso ir-me agora?’. Eu estava um pouco distraída e contestei: ‘Sim, se
vá’. Ela desceu apressadamente as escadas. Em seguida a sua ida, disse a mim mesma: ‘Que tolice que fiz! Eu lhe
disse: se vá (1). Nunca disse isso antes para ninguém. E ai! Ela nunca mais voltou (2). Não sei porque saiu de
minha boca essa palavra”.
(1) É costume na Índia as pessoas dizerem quando se despedem: “Volte”, não “Se vá”.
(2) Faleceu nesta mesma noite.

A Mãe estava descansando. Radhu estava descansando a seu lado em outra cama e pedia-lhe com insistência
que lhe contasse um conto. A Mãe pediu que eu o contasse. Encontrei-me em um aperto; não sabia o que dizer.
Contei, por fim, um relato de Mirabhai, que termina com o verso: “Deus não pode ser realizado sem amor”, a Mãe
exclamou com grande emoção: “Sim, é muito certo. Nada pode ser alcançado sem um amor sincero”. Mas Radhu
não apreciou a maioria do relato. No fim, Sarala foi minha salvação. Contou um conto de hadas. Desse Radhu
gostou. Sarala era muito querida pela Santa Mãe. Ela cuidava de Golap-Ma. Depois de um tempo, saiu da
habitação. Radhu me pediu que lhe fizesse massagem nos pés. Mas, não estando de acordo com minha
massagem, disse-me que friccionasse com mais força. A Mãe me disse: “Sri Ramakrishna ensinou-me a arte e
fazer massagem. Dá-me tua mão”. Estendi minha mão e ela me ensinou como fazer a massagem, logo Radhu
dormiu. A Mãe disse-me: “Passa suavemente tuas mãos sobre meus pés. Os mosquitos estão me picando”. Ficou
quieta por um momento e logo disse: “Este é um mal ano para o Monastério de Belur. Foram-se Baburam,
Devavrata e Sachin”.
Eu tinha ouvido dizer que Swami Brahmananda tinha visto espíritos desencarnados no edifício de Udbodhan,
poucos dias antes da morte de Devavrata Maharaya e perguntei a Mãe sobre esse assunto. Ela disse-me: “Por
favor, fale em voz baixa, filha; do contrário, as pessoas que te ouvirem se assustarão. Sri Ramakrishna via com
freqüência muitos desses espíritos. Um dia, estava na quinta casa de Benipal, em companhia de Rakhal (Swami
Brahmananda). Enquanto passeava pelo jardim, um espírito se aproximou e disse-lhe: ‘Por que veio aqui? Não
podemos suportar tua presença; nos sentimos queimar. Deixa logo este lugar’. Como poderiam suportar Sua pureza
e fulgente santidade? Com um sorriso, Sri Ramkrishna deixou aquele lugar, mas não contou a ninguém o ocorrido”.
“Imediatamente depois da cena, pediu a alguém para chamar uma carruagem, embora já tivesse sido
anteriormente combinado que Sri Ramakrihna passaria a noite ali. Regressou a Dakshineswar. Eu ouvi o ruído da
carruagem, quando se aproximava do portão. Agucei o ouvido e escutei a voz de Sri Ramakrishna, que falava com
Rakhal. Me alarmei porque pensei: “Não sei se já havia tomado sua ceia. Se não havia ceado, onde conseguirei
comida a estas horas da noite?”. Eu sempre guardava algo na despensa para Ele, pelo menos sêmola. Ele
costumava pedir comida fora das horas habituais. Eu estava completamente segura que aquela noite não
regressaria, de maneira que minha despensa estava vazia. Todas as portas estavam fechadas, pois era uma hora
da manhã. Sri Ramakrishna golpeou com as mãos e começou a repetir os nomes de Deus. Alguém abriu a porta da
entrada. Eu pensei, com muita ansiedade, o que podia dar-lhe de comer, no caso de ter fome. Mas eu o ouvi gritar:
“Não te preocupes com a comida; eu já ceei”. Logo contou a Raklhal do espírito que lhe havia aparecido. Rakhal se
assustou e disse: “Deus meu! Que prudente foi ao não me contar enquanto estávamos na casa de Benipal, pois, do
contrário, teria batido os dentes de medo. Agora mesmo estou assustado”. A Mãe terminou o relato rindo
cordialmente.
Devota: Mãe, aqueles espíritos deviam ser tolos. Em vez de pedir a Sri Ramakrishna a libertação, pediram-Lhe
que se fosse.
Mãe: Sem dúvida, eles se libertariam. A presença do Mestre não pode ser em vão. Uma vez Narén libertou um
espírito desencarnado, em Madrás.
Narrei a Mãe um de meus sonhos. Disse; “Mãe, uma vez sonhei que ia por certo lugar, com meu marido.
Chegamos a um amplo rio, cuja margem oposta não se via. Enquanto caminhávamos por um caminho sombreado
ao longo do rio, uma trepadeira cor dourada envolveu de tal maneira meus braços, que não pude me safar. Então,
do outro lado do rio, em um bote, veio um jovem de pele escura e me disse: ‘Corta a trepadeira que te aprisionou e
então me leve a outra margem’. Eu cortei quase toda a trepadeira, exceto um de seus ramos, do qual não podia me
livrar. Entretanto, meu marido também desapareceu. Desesperada, disse ao rapaz: ‘não posso livrar-me deste
ramo. Deves me levar ao outro lado’. Dizendo isto, saltei do bote. Este se pôs em marcha e meu sonho se
desvaneceu’”.

Todas as coisas mundanas são ilusórias

A Mãe disse: “O rapaz que viste não é outro senão a Mahamaya, a grande Ilusionista cósmica. Ele te levou
para mais além das águas do mundo, nessa forma. Tudo, marido, esposa e até o corpo, são ilusórios. Esses são
os grilhões da ilusão. A menos que te libertes dessas ligações, nunca poderás cruzar a outra margem do mundo.
Até o apego ao corpo, a identificação do ser com o corpo, deve desaparecer. Que é este corpo, minha querida?
Não é mais do que três libras de cinzas, uma vez cremado. Por que deve ser motivo de tanta vaidade? Por mais
forte e formoso que seja o corpo, ao final consistirá nesses três punhados de cinzas. E todavia, as pessoas estão
tão apegadas a ele. Glorificado seja Deus!

O almiscareiro e a imanência de Deus

“Uma vez passei dois meses em Kailwar, no distrito de Arah. É um lugar muito santo. Estavam comigo
Golap-Ma, a esposa de Balaram e a mãe de Baburam. Na região, abundavam os almiscareiros. Um rebanho
costumava pastar perto e assumia forma de um triângulo. Tão logo nos viram, corriam como pássaros; pareciam
voar. Nunca tinha visto antes animal algum correr tão rápido. Sri Ramakrishna costumava dizer: ‘O almíscar se
forma sob do ventre do almiscareiro. Fascinado pelo perfume, corre daqui pra lá. Não sabe de onde vem a
fragrância. De mesma maneira, Deus reside no corpo humano, mas o homem não sabe. É por isso que busca a
felicidade por todas as partes, sem saber que a tem dentro de si mesmo’. Só Deus é real. Tudo o mais é enganoso.
Que dizes tu, filha minha?”.
A Santa Mãe tinha espinhas por todo o corpo. Disse-me: “Faz três ano que estou sofrendo disto. Não sei
pelos pecados de quem estou sofrendo neste corpo. De outra maneira, como é possível para mim ter enfermidade
alguma?”.

21 de agosto de 1016
Era de tarde quando fui ver a Santa Mãe. Estava recostada sobre uma esteira, estendida no chão.
Prosternei-me ante ela e disse-lhe: “Faz muito tempo que estou longe de meu lar, em Kalighat. Agora posso ir lá?”.
Mãe: Por que não ficas aqui uns dias mais? Uma vez que vás a Kalighat, não poderás vir aqui com
freqüência. O dia que tu não vens fico muito preocupada. Ontem não vieste e eu comecei a pensar que tu não
estavas bem. Se tu não viesses hoje, certamente haveria mandado alguém perguntar por ti. Mas se teu marido está
indisposto, e se credes que necessita de ti, então terás que ir a Kalighat.
Disse-lhe que não havia tal dificuldade; que a única coisa que temia, era a crítica das pessoas, por ficar
demasiado tempo na casa de minha irmã. A Mãe me pediu que não lhes fizesse caso e me aconselhou que ficasse
em Calcutá um mês mais.
Um brahmachari veio dizer a Santa Mãe que havia chegado uma devota que queria vê-la. A Mãe sentia-se
muito cansada e estava recostada. Disse: “Ai de mim, tenho que ver outra pessoa. Vou morrer!”. Sentou sobre a
cama e um momento depois, entrou uma senhora bem vestida que se inclinou e tocou os pés da Santa Mãe com a
cabeça.
“Por que tocas meus pés? Podia saudar-me de certa distância”, disse a Mãe. Logo lhe perguntou como se
sentia.
Devota: Mãe, a senhora sabe que meu marido está doente desde algum tempo.
Mãe: Sim, assim ouvi dizer. Como se encontra agora? Que enfermidade tem? Quem o trata?
Devota: Tem diabetes. Seus pés incham e os médicos dizem que é uma enfermidade perigosa. Mas eu não
faço caso dessas opiniões; a senhora deve cura-lo, Mãe. Por favor, diga-me que se curará.
Mãe: Eu não sei nada, filha. O Mestre é tudo. Se Ele quer, então teu marido ficará bem. Ora ao Mestre por
ele.
Devota: Agora me sinto muito feliz, Mãe. Sri Ramakrishna não pode nunca passar por alto tuas súplicas.
Começou a chorar, pondo sua cabeça aos pés da Santa Mãe.
A Mãe a consolou e lhe disse: “Reza ao Mestre. Ele curará teu marido. Qual é sua dieta agora?”.
Devota: Toma luchi e algumas outras coisas que foram prescritas pelo médico.
Logo se despediu da Santa mãe e foi ver Swami Saradananda.
“Dia e noite estou queimando-me com a dor e sofrimento das pessoas”, disse a Mãe; e tirou a roupa. Eu ia
unta-la com o azeite medicinal, quando entrou na casa uma parenta da senhora que acabara de sair. A mãe teve
que levantar-se de novo.
Quando a visitante se foi, a Santa Mãe voltou a deitar-se e disse: “Que entre qualquer pessoa. Não vou me
levantar mais para quem quer que venha. Que incômodo, filha, levantar-se uma e outra vez, com meus doloridos
pés! Ademais, devido a estas espinhas, tenho uma sensação de queimadura nas costas. Por favor, passe-me bem
o azeite”.
Enquanto eu a friccionava com o azeite, a Mãe se referiu a senhora que havia estado ali e disse: “Seu
marido está gravemente doente. Ela veio aqui rogar a Deus para sua melhora. Em vez de mostrar um espírito de
oração e penitência, cobre-se de perfumes. Isso cai bem a alguém que vem a um templo? Ah! Tal é a natureza de
nossa gente moderna!”.
Quando eu estava me despedindo, a Mãe disse a alguém que me desse prasad.

23 de agosto de 1918
Fui visitar a Mãe, à tarde. Referindo-se a uma devota, disse: “Ela impõe à sua nora uma disciplina
demasiado restrita. Não deveria chegar a tal extremo. Embora deva ter um olho posto nela, também deveria dar-lhe
certa liberdade. É só uma jovenzinha. Naturalmente gosta de desfrutar de algumas coisas lindas. Se ela se faz
muito severa, pode abandonar o lar e até chegar ao suicídio. Que faria ela, então?”. Olhando-me disse: “A moça
pintou um pouco os pés. É acaso um crime? Ai, nem sequer pode ver seu marido, porque se fez monge. Eu via
meu marido com meus próprios olhos; cuidava Dele e cozinhava para Ele e estava a Seu lado toda vez que me
permitia”.

Prática espiritual e realização de Deus

Outro dia, eu me encontrava na casa da Santa Mãe, quando chegou um monge que se prosternou ante ela
e disse: “Mãe, por que a mente, de vez em quando, fica inquieta? Por que não posso meditar constantemente em
ti? Muitos pensamentos inúteis perturbam minha mente. As coisas comuns, podemos tê-las em só deseja-las. Não
realizarei nunca ao Senhor? Mãe, diga-me, como posso alcançar a paz? Atualmente, raras vezes tenho alguma
visão. De que serve esta vida se não posso realizar Deus? Melhor seria morrer que levar uma vida tão inútil”.
Mãe: Por que falas assim, filho? Não permitas que essas idéias ocupem tua mente. Pode alguém ter todos
os dias a visão de Deus? Sri Ramakrishna costumava dizer: “Pode um pescador pescar uma grande carpa (peixe
de rio) cada vez que se senta para pescar? Põe tudo em ordem, tira o anzol e com seu caniço na mão, se
concentra. De vez em quando uma grande carpa fisga o anzol. Mas muitas vezes não pesca nada”. Não afrouxe
tuas práticas por essa razão. Aumenta oyapam (repetição do mantra).
Yoguin-Ma: Sim, está certo, o “Nome” é idêntico a Brahman. Embora a mente não se concentre a princípio,
no final terás êxito.
Monge: Por favor, Mãe, indique-me quantas vezes devo repetir o Santo Nome. Isso pode me ajudar a
alcançar a concentração.
Mãe: Dez mil vezes, até vinte mil; ou tantas vezes puder.
Monge: Mãe, um dia eu estava ajoelhado no templo, chorando, quando de repente te vi de pé ao meu lado.
Disseste-me: “Que queres?”. Respondi: “Quero tua graça, Mãe, como se a concedesse ao rei Suratha”. Logo
acrescentei: “Não Mãe, isso foi feito por ti como Durga (1). Não me interessa essa forma. Quero ver-te como és
agora”. Com um sorriso, desapareceste. Minha mente ficou mais inquieta e nada me satisfaz. Às vezes penso: “Se
não posso realizar a Mãe, então de que serve esta vida?”.
(1) Referência a um relato contido no “Devimahatmya” – um grande texto devocional do culto a Divina Mãe – no qual um rei de nome Suratha e
um mercador chamado Samadhi, ambos exilados de sua pátria e fora do lar, adoraram a Divina Mãe e receberam Sua graça.
Mãe: Por que estás tão inquieto, filho? Por que não te agarras firmemente ao que alcançaste? Lembre
sempre: “Se não tenho nada mais, pelo menos tenho a Mãe”. Recorda das palavras de Sri Ramakrishna? Ele disse
que se revelaria a todos os que tomam refúgio Nele, embora estivessem no último dia de suas vidas. Ele levará a
todos.
Monge: Tenho vivido como um grande devoto. Sua esposa é de família aristocrática e gasta muito dinheiro
comigo.
Mãe: Diga-lhe que não gaste tanto dinheiro contigo. O dinheiro dos devotos que vivem no mundo, se bem
beneficia os monges, só serve para que eles tenham albergue e comida durante os quatro meses que dura a
estação das chuvas. Durante esse tempo, há muita dificuldade para sair a mendigar.
O monge se prosternou ante a Mãe e saiu da casa.

3 de setembro de 1918

Recordações de Sri Ramakrishna

Fazia alguns dias que eu não andava muito bem de saúde. Quando me senti melhor, uma tarde fui visitar a
Santa Mãe. No curso da conversação, a Mãe começou a falar de Sri Ramakrishna.
Mãe: (dirigindo-se a mim). Que dia agradável passamos ontem! Sarala nos leu algo sobre Sri Ramakrishna.
Que formosas eram aquelas palavras! Como podíamos saber, então, o rumo que tomariam as coisas! Que grande
alma havia nascido! Quanta gente é iluminada por suas palavras! Ele foi a personificação da Bem-aventurança. As
vinte e quatro horas do dia eram dedicadas a música devocional, saudável alegria, risos, ensinamentos, formosos
relatos. Até onde eu recordo, nunca vi o Mestre incomodado por coisa alguma. Com freqüência dava-me conselhos,
ditos todos eles com belas palavras. Se eu soubesse escrever, os teria anotado. Bem, Sarala, leia algo hoje.
Sarala começou a ler algo do “Evangelho de Sri Ramakrishna”.
Mãe: Notem as palavras que dirigiu o Mestre ao pai de Rakhal: “Uma boa macieira só produz boas maçãs”.
Com estas palavras deixava satisfeito o pai de Rakhal (Swami Brahmananda). Quando ele vinha a Dakshineswar,
Sri Ramakrishna dava-lhe coisas deliciosas. Temia que o pai levasse o menino. Rakhal tinha madrasta. Quando
vinha o pai, o Mestre dizia a Rakhal: “Mostre-lhe tudo e seja muito atencioso com ele”.
Sarala estava agora lendo sobre Brinde, a servente. A Mãe disse: “Não era ela uma mulher dócil. Era
costume deixar de lado certa quantidade de luchis para seu desjejum. Chegava-se a notar sua falta, era
tremendamente abusada. Dizia: ‘Olhem e estes filhos de cavaleiros! Comeram também minha parte. Não tenho
sequer um pouco de doces para mim’. Sri Ramakrishna temia que as palavras da servente pudessem chegar aos
ouvidos dos jovens devotos. Uma manhã cedo, o Mestre veio a Nahabat e disse-me: ‘Bem, foi dado a outros
os luchis de Brinde. Prepare alguns para ela, pois, do contrário, começará a gritar. Deve-se evitar embrulhadas com
gente torcida’. Quando Brinde chegou, lhe disse: ‘Olhe Brinde, não há desjejum para ti hoje. Vou preparar-te
alguns luchis’. Ela respondeu: ‘Está bem, não se incomode; dê a mim os ingredientes’. Então lhe dei a farinha,
manteiga, batata e alguns vegetais”.
Depois de terminar o capítulo, Sarala foi atender Golap-Ma, que estava doente.

O ideal monástico

A Mãe começou a falar em voz baixa: “Vês este corpo humano? Hoje está e amanhã não estará. E este
mundo está cheio de miséria e sofrimento. Por que deve alguém se preocupar com um novo nascimento? O corpo
nunca fica livre de ser acompanhado de mal-estares! Outro dia Bilas disse-me: ‘Mãe, temos que estar sempre
alertas. Sempre temos temor de ter algum mal pensamento’. Isso é muito certo. Um monge é como um pano branco
recém lavado, enquanto que o chefe de família é como um pano negro. As manchas não se notam tanto no pano
negro; mas até uma só mancha de tinta se destaca notavelmente na roupa branca. Esta vida está sempre rodeada
de perigos. O mundo todo está submergido na sensualidade e no ouro. O monge deve praticar sempre
desapaixonamento e renúncia. Por isso Sri Ramakrishna dizia: ‘Um monge sempre deve estar alerta e ter cuidado’”.

Necessidade de autocontrole para os chefes de família

Entretanto, o Maharaya Harahar, entrou no templo para fazer a oferenda de comida à imagem. Referindo-se
a ele, a Mãe disse: “Olha esse jovem que renunciou ao mundo. Deixou tudo em nome de Sri Ramakrishna. Os
homens mundanos concebem filhos sem limite, como se esse fosse o único dever no mundo. Sri Ramakrishna
costumava dizer: ‘Depois de ter um ou dois filhos, deve-se praticar austeridade’. Ouvi dizer que os ingleses têm
filhos de acordo com o montante de seus bens. Depois do nascimento dos filhos que desejam ter, o marido e a
mulher vivem separados, ocupando-se cada um de suas tarefas. Por outro lado, olha a nossa raça!”.
A Mãe continuou, com um sorriso: “Ontem veio ver-me uma jovem. Tinha uma quantidade de filhos; uns
suspensos em suas costas e outros em seus braços. Apenas podia manejar todo o grupo. Pode imaginar o que
disse? Disse-me: ‘Mãe, não encontro nenhum deleite nesta vida mundana’. E eu respondi-lhe: ‘Como, filha? Tu tens
tantos pequeninos!’. Ela respondeu: ‘Já se acabou; não terei mais filhos’. Disse-lhe: ‘Seria bom que cumprisse tua
intenção’”. A Mãe começou a rir.
Devota: Bem, Mãe, de acordo com a concepção hindu, o marido é para nós, o mais adorado guru. As
escrituras dizem que o servindo, a esposa pode ir ao céu e até alcançar a união com Deus. Agora bem, se a
esposa, mesmo contra a vontade de seu marido, trata de praticar autocontrole por meio da oração e disciplina
espiritual, por isso, comete um pecado?
Mãe: Com toda segurança que não. Tudo o que fazes para a realização de Deus, não pode ter um mau
efeito. O autocontrole é absolutamente necessário. Todas as austeras disciplinas prescritas para as viúvas hindus,
são para ajuda-las a praticar o autocontrole.
Todos os atos de Sri Ramakrishna eram dirigidos somente a Deus. Uma vez fiz o Shodasi Puya, tomando-
me como objeto de adoração. Perguntei-lhe que devia fazer com os braceletes, as pulseiras, a roupa e outras
coisas usadas no culto. Depois de pensar um momento, disse-me que podia dar todas essas coisas à minha mãe.
Meu pai vivia, então. Sri Ramakrishna disse-me: “Quando lhe oferecer essas coisas, não pense que ela é um ser
humano comum. Pensa nela como sendo a personificação da Divina Mãe do universo”. Eu segui Suas palavras. Tal
era a natureza de Seu ensinamento.

4 de setembro de 1918
A Mãe estava sentada sobre o pequeno tapete que usava para meditar, passando o rosário. O culto
vespertino havia terminado. Entrou uma cunhada da Mãe e disse-lhe: “Por favor, tranqüiliza minha mente. Estou
cheia de preocupações. Não quero viver nenhum dia mais. Vou fazer meu testamento a teu favor. Depois de minha
morte, disporás de minha propriedade”. A Mãe riu-se e disse: “Quando vais morrer?”. De repente se pôs grave e a
repreendeu por suas tolas idéias que atribuiu a sua falta de juízo e vida ociosa.
Logo sorriu e olhando-me, disse: “Te dás conta, filha, do inescrutável jogo de Sri Ramakrishna? Olha os
meus parentes! Observa que más companhias me rodeiam! Uma já está louca e esta está à beira da loucura. E olha
a terceira! Com quanto afã tratei de educa-la, mas foi tudo inútil! Não tem o mais leve rasgo de sensatez. Olhe-a,
está ali na galeria, apoiando-se contra o balcão, esperando ansiosa pela volta do marido. Teme que o marido entre
nessa casa onde se ouve música. Dia e noite trata de tê-lo ao alcance da vista. Que desambientado apego! Nem
em sonhos me ocorreu pensar que seria tão apegada”.
A parente da mãe deixou o lugar com ar pesaroso e a Mãe recostou-se em sua cama.
Mãe: Filha minha, és muito afortunada ao haver nascido como ser humano. Tens intensa devoção a Deus.
Alguém deve fazer um grande esforço. Como pode alguém terminar algo sem esforço? Deves dedicar algum tempo
a oração, mesmo em meio as tuas muitas ocupações diárias. Quando vivia em Dakshineswar, eu tinha meus dias
sumamente ocupados, contudo eu tinha tempo para oração e meditação... Que essa cunhada minha, que se
queixa de mal-estar mental, faça como tu. Que se levante as três da manhã e sente-se a meditar na galeria, ao lado
de minha casa. Queria ver, então, se poderia seguir com seus transtornos mentais. Todavia não o fará; a única
coisa que faz é falar de seus males! Qual é seu sofrimento? Eu nunca conheci, filha, o que é mal-estar mental.
Porém agora estou sofrendo dia e noite, a causa de meus parentes. Foi um momento desafortunado quando esta
cunhada entrou nessa família; todos meus sofrimentos são devidos aos meus esforços para criar a sua filha Radhu.
Que se vão todas! Não quero mais nenhuma delas! Olha estas mulheres; nunca me dão ouvidos. Que mulheres
mais desobedientes!
Golap-Ma: Olhem como se enfeitam! Pensam que foi assim que conseguiram o amor de seus maridos.
Mãe: Ah! Com quanta delicadeza tratava-me Sri Ramakrishna! Nem uma só vez pronunciou uma palavra
que ferisse meus sentimentos. Costumava dizer-me: “Deve-se estar sempre ativo. Nunca se deve estar sem
trabalho. Quando alguém está ocioso, toda espécie de maus pensamentos surge na mente”.

Controle da mente e realização de Deus

Filha, esta mente é como um elefante selvagem. Ela vai aonde vai o vento, por isso deve-se discernir
continuamente. Deve-se trabalhar regiamente para alcançar a realização de Deus. Que maravilhoso estado mental
tinha nessa época! Alguém costumava tocar a flauta, à noite, em Dakshineswar. Ao ouvi-la, minha mente sentia
uma forte ansiedade de realizar a Deus. Eu pensava que a música vinha diretamente de Deus e entrava
em samadhi (êxtase; absorção espiritual). Experimentei também o mesmo êxtase em Belur. O lugar era, então,
muito tranqüilo e sentia-me constantemente em um estado meditativo. Por isso Naren (Swami Vivekananda) quis
construir ali uma casa para mim. O terreno onde foi construída essa casa foi cedido por Kedar Das. Mas agora o
preço da terra subiu muito e já é impossível comprar um lote. Tudo isto foi feito pela graça de Deus.
Nesse instante entraram no cômodo sua sobrinha Makú, com seu filho nos braços. Deixou o menino ali e
disse: “Mãe, que devo fazer? Não quer dormir nada”. A Mãe disse: “O menino tem a qualidade sattva (calma,
serenidade), por isso não dorme”.
A Mãe estava sofrendo terrivelmente pelas bolhas que tinha por todo seu corpo. A seu pedido, passei-lhe
azeite medicinal.

Um dia a Mãe estava sentada na galeria que dá ao norte, no primeiro andar de sua casa. Sofria muitíssimo
com as bolhas que não se iam desde há vários dias. Disse que isso ocorreu devido aos muitos devotos que a
tocavam e seus pecados eram transferidos a ela na forma de enfermidade. Logo a conversa versou sobre Sri
Ramakrishna.

Reminiscências de Sri Ramakrishna

Mãe: uma vez, quando Sri Ramakrishna estava doente, em Cossipore, passaram por ali muitos devotos que
levavam oferendas para a Mãe Kali, no templo de Dakshineswar. Ao inteirar-se de que Sri Ramakrishna estava
doente, ofereceramtudo o que trouxeram, ante uma fotografia de Sri Ramakrishna e compartilharam do prasad (1).
(1) Isso ocorreu em Cossipore. Alguns devotos levavam diferentes espécies de doces como oferenda a Mãe Kali. Mas, em vez e oferece-los à
Mãe Kali, em Dakshineswar, eles fizeram a oferenda ante uma fotografia do Mestre, no hall que tinha na casa e Cossipore.
Ao ouvir o ocorrido, o Mestre observou: “Todas essas coisas eram para a Mãe do universo, contudo, ofereceram-
nas aqui (referindo-se a Ele mesmo)”. Eu me assustei muito por isto e pensei: “Ele está sofrendo dessa perigosa
doença. Quem sabe o que pode suceder? Que calamidade! Por que eles oraram dessa maneira?”. (2) O Mestre
também se referiu repetidas vezes a este incidente. Depois, a avançada hora da noite, disse-me: “Verás, com o
passar do tempo, que serei adorado em cada lar. Verás como todos aceitarão a este (referindo-se a si mesmo). Isto,
com toda segurança, vai suceder-se”. Aquele foi o único dia em que, falando a respeito de si mesmo, o ouvi usar o
pronome na primeira pessoa. Nunca referiu a si mesmo como “eu” ou “meu”, senão que, indicando seu corpo, dizia:
“esta capa” ou “pertencente a isso”.
(2) É sacrílego oferecer a um homem o que é destinado a Deidade, pois se teme que isto possa acarretar alguns infortúnios. Sri Ramakrishna
parecia ter, também, o mesmo sentimento, no princípio, assumindo o aspecto do humilde devoto, mas a parte que segue, demonstra que a
adoração Dele não é incorreta, se há compreensão de Seu divino aspecto. Isto indica a variação que há nos estados de ânimo de um devoto e a
Divindade que há nele.
Depois que o Mestre deixou Seu corpo, houve uma discussão para determinar a quem deveria ser entregue
alguns de Seus bens de valor, como a manta de lã, o xale e outras coisas. No final, os devotos resolveram colocar
tudo em um baú e tê-los na sala da casa de Balaram Bose. Mas, filha, quem conhece a vontade do Mestre! Nessa
casa de Balaram, havia um servente que roubou a maior parte de suas coisas e as vendeu ou lhes deu outro
destino. Não foi prudente ele deixar ali tais coisas. Deveriam tê-las guardado em outro lugar da casa. O que ficou
dos bens do Mestre, guarda-se agora no Monastério de Belur.
Meu sogro (o pai de Sri Ramakrishna), era um brahmin muito piedoso e espiritual. Nunca aceitava
presentes de ninguém. Havia proibido sua gente que aceitasse presentes durante sua ausência. Mas enquanto isso
minha sogra, se as pessoas lhe presenteassem privadamente de algo, ela o cozinhava, oferecia-o à Deidade e logo
o repartia como prasad. Meu sogro se zangava, se chegava a saber. Ele sentia uma ardente devoção. Por isso é
que o Mestre nasceu nessa família.
Uma mulher chamada Hari Dasi, queria ir em peregrinação a Navadwepp; mas não chegou lá, pois se
deteve em Kamarpukur. Queria-me muito bem; era uma mulher de grande fé. Levava consigo um pouco de terra,
que tirou do lugar onde nasceu o Mestre e costumava dizer: “Este lugar é meu Navadweep. Gouranga mesmo
nasceu ali. Para que vou mais além”. Que tremenda fé!
Depois que Sri Ramakrishna deixou Seu corpo, um sadhu (monge) veio a Kamarpukur, desde Orissa. Eu
costumava dar-lhe arroz, lentilhas e outras coisas. Ia visitá-lo pela manhã e a tarde e perguntava-lhe: “Reverendo
senhor, como estás?”. Ah! Com que grande dificuldade construí uma cabana para ele! Todos os dias o céu se
cobria com nuvens e a cada momento parecia que ia descambar a chuva. Então, juntando as mãos, eu implorava:
“Oh! Senhor, espera um pouco; espera um pouco! Deixe-me terminar a choupana; e depois que chova
torrencialmente, se for preciso”. As pessoas do povoado me ajudaram, trazendo madeiras, palha e outros materiais.
De algum modo, a cabana foi terminada; mas, desafortunadamente, o sadhu faleceu alguns dias depois.
Sri Ramakrihna costumava dizer que Seu corpo tinha vindo de Gaia. Quando Sua mãe faleceu, pediu-me
que fosse a Gaia para oferecer pindam (tortas que se fazem por ocasião de funerais). Disse-lhe que não
correspondia a mim fazer os ritos, estando vivo o filho. O Mestre respondeu: “Não, não; tu tens o direito de fazer a
cerimônia. De nenhuma maneira devo ir a Gaia. Se for, acreditas que, depois, será possível retornar?”. (1) Por isso,
eu também pretendi que Ele fosse. Mais tarde eu fiz ali esse culto.
(1) Diz-se que o nascimento de Sri Ramakrishna foi anunciado ao Seu pai por uma visão da Deidade de Gaia que este teve e a qual antecipou
que Ele nasceria como seu filho. Daqui a associação espiritual que Ele tinha com Gaia o conquistaria a ir a esse lugar.

28 de setembro de 1918
Fui ver a Santa Mãe pela manhã e a encontrei preparando frutas para o culto. Assim queme viu, disse-me:
“Alegro-me muito vê-la aqui. Hoje é o dia de Boddhan (o dia anterior ao começo da festividade hindu de
Durga Puya)”. Eu havia esquecido por completo. Acrescentou: “Por favor, arrume estas flores para Sri Ramakrishna
e coloque deste lado a bandeja de frutas”. Cumpri seu pedido. Logo arrumei seu cabelo. Enquanto a penteava,
saíram alguns cabelos. A Mãe disse-me: “Aqui os tens; conserva-os”. Senti-me muito feliz. Eu tinha um forte desejo
de ter alguns de seus cabelos,
O célebre médico Shyamadas Kaviraga veio para examinar Radhu. Quando o exame terminou, a Mãe
disse a Radhu que se inclinasse diante do médico. Radhu assim o fez. Quando o médico saiu da casa, alguém
perguntou: “E médico é brahmin?”.
Mãe: Não, é vaisya (comerciante).
Devota: Por que então, disseste a Radhu que se inclinasse ente ele?
Mãe: Por que não? Este médico tem tanta sabedoria; é igual a um brahmin. Ante quem se deve alguém
inclinar, senão ante ele? Que dizes tu, filha?

30 de setembro de 1918
Era o segundo dia de mahastami (segundo dia de Durga Puya, considerado o mais propicio pelos hindus).
Minha irmã e eu chegamos ao edifício do Udbodhan de manhã cedo. Depois de um tempo, chegaram umas devotas
com flores. Renderam culto à Santa Mãe e foram tomar banho no Ganges. A Mãe perguntou-me: “Ficarás hoje? É
Mahastami, o segundo dia de Durga Puya”. Respondi afirmativamente. Um momento mais tarde, veio Sarat
Maharaya (Swami Saradananda) para saudar a Mãe. Nós fomos à outra habitação. A Mãe estava sentada sobre a
cama, com os pés apoiados no chão. Chegaram muitas devotas e se inclinaram ante ela.
Mais tarde fomos tomar nosso banho no Ganges, em companhia de Maku e outras mulheres, a Mãe disse
que tomaria seu banho em casa, porque o reumatismo a impedia de ir todos os dias ao Ganges. Quando voltamos,
encontramos muitas devotas rendendo culto a Santa Mãe. Muitas delas traziam tecidos novos como oferendas.
Depois da adoração, envolveram com os tecidos o corpo da Mãe, como se costumava fazer com a imagem de Kali,
em Kalighat. Logo a Mãe colocou os tecidos de lado, um por um. A algumas devotas ela dizia: “É um formoso corte
de tecido!”.
Entrou um brahmachari (aspirante espiritual) a anunciar que os devotos vinham saudar a Santa Mãe. Que
cena impressionante! Trazendo nas mãos flores, lotos abertos, folhas de bael, os devotos entraram um por um; e
depois de adorar e saudar a Mãe, saíram da mesma forma. Passou algum tempo dessa maneira. Vieram logo os
membros da família de Balaram e adoraram a Santa Mãe. Eu fui a última a entrar. Depois da adoração, envolvi seu
corpo com um tecido novo e disse em seguida: “Porei esse tecido porque hoje devo colocar algo novo”. Em seguida
se vestiu com o tecido que eu lhe havia dado. Isto encheu meus olhos de lágrimas. Depois de tudo, não era mais
que um corte de tecido ordinário. E haviam tecidos tão custosos! Eu era a filha pobre da Mãe. Seu excessivo afeto
para comigo deixou-me desconcertada. A Mãe disse: “Que lindo debrum tem este tecido!”.
Uma mulher vestida de cor ocre (cor usada pelos monges) rendeu culto à Santa Mãe e pôs duas rúpias a
seus pés. A Mãe disse: “Por favor, por que faz isso? A senhora leva o hábito ocre e tem um rosário
de rudraksa (certa semente)”. A Mãe lhe perguntou acerca de seu mestre espiritual. A mulher respondeu que não
havia sido iniciada. Disse a Mãe: “Sem iniciação e sem nenhuma realização espiritual, colocaste esse hábito
sagrado. Isso não é apropriado. O hábito ocre que colocou é algo muito sagrado. Eu estava a ponto de saudá-la
juntando minhas mãos. As pessoas se inclinaram a teus pés. Deves alcançar o poder de assimilar a honra que te
ronda”. A mulher disse: “Eu tinha o desejo de ser iniciada pela senhora”.
Mãe: Como é possível?
Mas a mulher insistiu. Golap-Ma a apoiou. A Mãe pareceu ceder um pouco a disse: “Vamos pensar nisso”.
Gauri-Ma veio com as meninas de seu ashrama. Todas renderam culto à Mãe, tomando prasad e se foram.
Depois de terminar o culto no templo, Bilas Maharaya veio e disse em voz baixa a Santa Mãe: “Não sei,
Mãe, se Ramakrishna aceitou a comida que foi oferecida hoje. Caiu-lhe em cima uma folha impura trazida pelo
vento. Por que ocorreu isto? Muitos devotos trazem oferendas de suas casas. Eu não sei o que aconteceu”. A Mãe
perguntou se havia borrifado água do Ganges. Ele respondeu afirmativamente e saiu. Me senti mentalmente
incomodada ao ouvir isto.
A adoração a Santa Mãe seguia fazendo-se da mesma maneira. Tão logo se tirava um montão de folhas e
folhas de bael, outra nova pilha se formava ao redor de seus pés.

Seu afeto para com os pobres


Era hora de fazer o culto do meio-dia, quando chegou um grupo de três homens e três mulheres para
saudar a Santa Mãe. Vinham de muito longe e eram muito pobres. Tudo o que tinham era um pedaço de pano com
que cada um estava vestido. Haviam mendigado sua passagem para chegar a Calcutá. Um do grupo – um homem
– teve um aparte coma Santa Mãe. Parecia que a conversa não ia ter fim. A Mãe devia ir ao templo para fazer o
culto e já passava da hora. Os de casa começaram a enfadar-se. Alguém disse ao devoto, com palavras que não
deixavam lugar para dúvidas: “Se tens algo mais a dizer, é melhor que desça e fale com os monges maiores”. Mas
a Mãe se manifestou com certa firmeza: “No importa que se faça tarde. Devo escutar o que eles têm para dizer-me”.
Continuou escutando o devoto com grande paciência. Em voz baixa lhe deu algumas instruções. Logo mandou
chamar também a esposa. Nós supomos que eles haviam tido alguma experiência em sonho. Depois de uma hora,
despediram-se da Santa Mãe. A Mãe disse: “Oh! Eles são muito pobres! Chegaram aqui com muita dificuldade!”.
Depois do culto do meio-dia, almoçamos. A Mãe tinha, agora, desejo de descansar e nós nos retiramos a
uma habitação contígua.
Eram já quatro horas da tarde. Depois de terminar o culto no templo, Rashbehari Maharaya disse: “Mãe,
uma senhora européia veio para saudar-te. Faz um longo tempo que está esperando”. A Mãe lhe disse para chamá-
la. Quando a senhora se inclinou para saúda-la, a Mãe apertou sua mão. Verifiquei, neste exemplo, as palavras de
Sri Ramakrishna de que as pessoas devem conduzir-se conforme a época e as circunstâncias. Logo a beijou,
tocando-lhe o queixo. A senhora, que sabia bengali, disse: “Espero que não tenha a incomodado com minha visita.
Para vê-la esperei um longo tempo embaixo. Estou passando por um mau momento. Minha única filha, uma menina
muito boa, está gravemente doente; por isso, vim aqui implorar sua ajuda e bênção. Conceda-lhe sua graça para
que se cure. É uma menina muito boa. Faço este elogio porque hoje em dia é pouco comum encontrar entre nós,
uma boa mulher. Eu posso afirmar que a maioria é maliciosa e de mau caráter; mas minha filha é de natureza muito
distinta. Por favor, tenha compaixão dela”.
Mãe: Orarei por sua filha. Se curará.
A dama européia se sentiu muito alentada com a afirmação que fizera a Santa Mãe e disse:
“Como a senhora disse que se curará, se curará. Não há nenhuma dúvida disso”. Pronunciou essas palavras três
vezes com grande fé e ênfase. A Mãe, com um gesto afetuoso, disse a Golap-Ma: “Dá-lhe, por favor, uma flor do
altar. Traz um loto”. Golap-Ma trouxe o loto, com uma folha do sagrado bael. A Mãe tomou o loto em suas mãos e
fechou os olhos por um momento. Logo dirigiu seus olhos a imagem de Sri Ramakrishna e entregou a flor à
senhora, dizendo: “Toque a cabeça de tua filha com ela”. A senhora aceitou a flor juntando as mãos e prostrando-se
ante a Mãe. Perguntou: “Que farei depois com a flor?”.
Golap-Ma: Quando secar, atire-a no Ganges.
Senhora: Não, não! Esta pertence a Deus. Não posso atira-la. Vou fazer uma bolsinha de pano novo e ali
guardar a flor. Todos os dias, tocarei com ela a cabeça e o corpo de minha filha.
Mãe: Muito bem, faça assim.
Senhora: Deus é a suprema Realidade. Ele existe. Quero contar-lhe algo. Uns dias atrás, em minha casa,
um filho meu caiu de cama, com febre. Com grande fervor, orei a Deus: “Oh! Senhor! Eu sinto que Tu existes, mas
quisera ter a demonstração disto”. Chorei e deixei meu lenço sobre a mesa. Depois de certo tempo, fiquei surpresa
ao encontrar três palitos no lenço. Toquei três vezes, suavemente, o corpo do bebê com os palitos. Rapidamente
desapareceu sua febre”.
Enquanto contava o ocorrido, profusas lágrimas corriam por suas faces. Logo acrescentou: “Eu tirei muito
de seu precioso tempo. Perdoa-me”. A Mãe disse: “Não, me é muito gratificante falar com a senhora. Volta aqui na
terça-feira”. Com uma reverência a senhora despediu-se da Mãe.
Quando fui visitar a Mãe uns dias depois, soube que a dama européia tinha vindo na terça-feira. A mãe lhe
demonstrara um especial carinho e a iniciou. Ademais, sua filha havia se curado.

24 de março de 1920
A Santa Mãe tinha estado em sua casa de Yairambati, seu povo natal. Voltou a Calcutá depois de um ano,
na primavera. Estava muito enfraquecida; tinha sofrido de impaludismo por um longo tempo. Prosternei-me ante ela
e me abençoou, pondo a mão sobre minha cabeça. Perguntou-me como eu estava. Dei-lhe um pouco de dinheiro
para seus gastos e ela o aceitou. Ao ver seu corpo tão enfraquecido, na pude articular palavras. Olhei seu rosto
com ansiedade e pensei: “Oh! Quão pouco brilho tem e que frágil está agora seu corpo!”. A servente de minha irmã
estava comigo e quis tocar os pés da Mãe; mas a Mãe lhe disse: “Pode saudar-me sem aproximar-se”. Saudou-a da
porta e foi-se.
A Mãe estava tão debilitada, que era penoso até a pronúncia de uma só palavra. Eu estava sentada no
chão. Subiu Rashbehari Maharaya e pediu-mr que não conversasse muito com ela. Mas de vez em quando a Mãe
me perguntava algumas coisas. Eu lhe dava respostas muito curtas. Logo veio Radhu, com seu filhinho. Eu tomei a
criança nos meus braços e dei-lhe algumas moedas, mas Radhu não quis que as aceitasse. A Mãe disse: “Que é
isso Radhu? Ela é tua irmã; por que o menino não deve aceitar o presente, quando ela o deu com tanto carinho?”. A
mãe aceitou o dinheiro. Ela sentia grande pena pelos sofrimentos do menino por causa da negligência da mãe e da
avó. Radhu protestou, empregando frases ofensivas. A Mãe disse: “É inútil falar com ela”, e ficou tranqüila. Sarala e
outras devotas vieram logo ver a Mãe. Conversou com elas da cama.

30 de março de 1920
Depois de cinco ou seis dias, voltei para saudar a Mãe. Fazia dois ou três dias que não tinha febre, mas
estava preocupada por causa de Radhu e sua inaptidão para cuidar do filho. Ademais, Radhu tinha uma mão
inchada por ter batido contra uma barra de ferro. Com a mão envolta em uma faixa suja molhada com óleo de
rícino, entrou na casa para consultar o doutor Kanyilal, que tinha vindo para examinar a Mãe.
Depois que a mão de Radhu foi enfaixada, a Mãe se encostou e me pediu que lhe massageasse os pés.
Enquanto lhe fazia massagens, disse-lhe se podia perguntar-lhe algo e se isso não lhe causaria incômodo.

Sobre práticas e experiências espirituais

Mãe: Não , não. Podes falar tudo o que queiras.


Contei-lhe uma experiência que havia tido e a Mãe falou: “Ah! Filha, pode alguém experimentar esse deleite
todos os dias? Tudo é real. Nada é falso. O Mestre é tudo. Ele é a prakriti (natureza psicofísica); Ele é o purusha (o
Ser). Por meio Dele, alcançarás tudo.
Discípula: Mãe, um dia, enquanto praticava yapam (repetição do mantram) com grande concentração,
passou muito tempo sem que eu o notasse. Logo tive que deixar a prática para atender a meus afazeres
domésticos, sem haver podidoterminar os demais detalhes das práticas espirituais que tu me indicaste. Cometi um
erro ao fazer isso?
Mãe: Não, não. Não há nada mal nisso.
Discípula: Alguém me disse que quando medita ao entardecer, ouve um som místico. Geralmente, sente-o
do lado direito; às vezes, quando a mente funciona em um plano mais baixo, o som também vem do lado esquerdo.
Mãe: (depois de pensar um momento). Na verdade, o som vem do lado direito. Só quando se tem
consciência do corpo, vem do lado esquerdo. Isto sucede quando o poder da kundalini foi despertado. O som que
vem do lado direito é real. Com o tempo, a mente mesma se converte em guru. Orar a Deus e meditar Nele mesmo
por dois minutos com completa concentração, é melhor que faze-lo durante longas horas sem concentração.
Para não fatiga-la, não me senti inclinada a perguntar à Mãe o significado da expressão “consciência do
corpo”.
Eu ia retira-me, mas a Mãe levantou a cabeça da almofada e disse: “Bem, filha, eu levantei a cabeça”.
Disse-o porque é costume não se inclinar ante uma pessoa que está deitada. Quando me inclinei, disse-me: “Volta.
Vem um pouco mais cedo, nesta tarde. Não podes terminar as tarefas domésticas um pouco antes e vir?”. Logo,
pronunciando o nome de Durga, como uma prece para mim, despediu-se. Até depois de haver deixado a galeria,
ouvia que ela seguia repetindo o nome de Durga em tom cheio de compaixão. Que amor sem limites! Enquanto
estamos ao seu lado, esquecemos todos os sofrimentos e pesares da vida mundana.

A enfermidade da Mãe não mostrava sinais de melhora. Seu corpo se punha cada vez mais fraco. Fui vê-
la, um dia, depois do almoço. A Mãe ia tomar seu banho a tarde. Pediu-me que a ajudasse a levantar-se e disse-
me: “Tenho febre com muita freqüência e o corpo está muito fraco”.

14 de março de 1920
O aratrika (culto) da tarde havia terminado. A Mãe tem febre. Rashbehari Maharaya untava-lhe as mãos e
o brahmachari Varoda fazia-lhe massagens nos pés. Estavam tomando-lhe a temperatura e a Mãe tinha os olhos
fechados. Eu estava a seu lado. A Mãe perguntou: “Quem está aí?”. Rashbehari Maharaya responde-lhe em voz
baixa. Ouvi que a temperatura era de 100º F.
A irmã Sudhira estava na festa que se dava às moças da Escola Nivédita, porque se iniciavam as aulas.
Sarala – a discípula que atendia a Santa Mãe – também havia ido lá. A Mãe pediu ao brahmachari Varoda
que fosse busca-la, porque devia dar de comer ao menino de Radhu. Embora não fosse hora de dar-lhe a comida,
como a criança chorava, Radhu queria que lhe desse de comer. A Mãe tratou de dissuadi-la. Disse-lhe: “Que
morras e eu acenderei tua pira funerária!”. Nós ficamos profundamente penalizados por ouvir isso. A Mãe estava tão
gravemente doente e Radhu, nesse momento, tratava-a dessa maneira! Mas esta seguia gritando mais coisas
injuriosas. Tal comportamento era freqüente da parte de Radhu. A Mãe, cuja paciência não tinha limites, sempre
agüentava uma queda de tal conduta. Mas desta vez, devido a sua prolongada doença, ela também se aborreceu
disse: “No futuro colherás o resultado de tudo isso! Verás em que triste condição estará depois de minha morte! Não
sei quantas pauladas e pontapés estão reservados para ti!”.
Isto pôs Radhu mais insolente e violenta. Depois de um momento, chegou Sarala e deu de comer ao
menino. As experiências daquele dia deixaram uma nuvem de tristeza sobre minha mente. A Mãe pediu-me que lhe
untasse os pés. Nesse momento entrou Rashbehari Maharaya e colocou o mosquiteiro sobre a cama da Mãe. Ao
deixa-la, de maneira a nos despedirmos, a Mãe disse-me; “Volte”. Este foi seu último afetuoso pedido e a última
palavra que eu ouvi de seus lábios.
Eu tive que ir a Kalighat naquele dia. Depois não tive oportunidade de vê-la, devido a doença de vários de
casa e outras dificuldades. Mas eu me mantinha regularmente informada de seu estado e sabia que piorava dia a
dia. Na primeira oportunidade fui vê-la, com o coração cheio de temor de que perderíamos muito logo o mais
precioso tesouro de nossa vida. Não obstante e mesmo perdida toda a esperança, eu seguia esperando algo.
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO II

(São páginas escolhidas do diário de um discípulo monástico)

YARAMBATI

Ano de 1909
O tio Varada disse-me: “A Mãe mandou-te chamar”.
Entrei em seu apartamento interior e vi que a Santa Mãe estava de pe na porta de sua habitação,
esperando-me. Quando a saudei, perguntou-me: “De onde vens?”. Eu disse o nome do distrito de meu povo natal.
Mãe: Suponho que agora estás lendo os ensinamentos do Mestre.
Eu não respondi a estas palavras. Ela falava comigo como se fôssemos conhecidos desde muito tempo
atrás. Ainda recordo sua terna e afetuosa olhada.
Mãe: Pertences à casta kayastha?
Discípulo: Sim.
Mãe: Quantos irmãos têm?
Discípulo: Quatro.
Mãe: Senta-te e come algo.
Dizendo isto, a Mãe estendeu um pequeno tapete sobre o piso da galeria e me deu uns luchis e doces que
haviam sido oferecidos no templo, na noite anterior.
No dia anterior, eu vim a pé desde Tarakeswar, passando a noite em uma aldeia de Deshra, ao noroeste de
Yairambati, na casa de um jovem que havia conhecido na estação de Haripal.
Quando terminei de comer, a Mãe disse-me: “Não te banhes agora; tu estás muito cansado!”.
Logo me deu uma folha de betel para mastigar.
Depois do culto do meio-dia, chamou-me novamente e serviu-me o almoço sobre uma folha de shal, na
galeria em frente a sua casa. Deu-me de comer com suas próprias mãos, dizendo-me: “Come bem e recorda, não
tenhas vergonha!”. Depois me deu uma folha de betel.
As três ou quatro horas da tarde, fui ver de novo a Mãe. Estava sentada no chão, com as pernas estiradas
para diante, preparando uma massa para fazer o pão. O forno estava num costado, ali perto. Dirigindo-me seu
bondoso olhar, disse-me: “Queres algo?”.
Discípulo: Quero falar contigo.
Mãe: De que queres falar? Senta-te aqui. (Me deu um assento).
Discípulo: Mãe, as pessoas dizem que nosso Mestre é Deus Eterno e Absoluto, que tu dizes?
Mãe: Sim, Ele é Deus Eterno e Absoluto, para mim.
Como ela disse “para mim”, eu acrescentei: “É certo que, para toda mulher, seu marido é Deus Eterno e
Absoluto. Não estou fazendo a pergunta neste sentido”.
Mãe: Sim, Ele é Deus Eterno e Absoluto para mim como esposo e também o é num sentido geral.
Então pensei que se Sri Ramakrishna é Deus Eterno, ela (a Santa Mãe) deve ser o Poder Divino, a Mãe do
Universo. Ela deve ser idêntica a Seu divino consorte, como Rama e Sita, Krishna e Radha. Eu tinha vindo ver a
Santa Mãe acariciando estas crenças em meu coração. Perguntei-lhe: “Se tal é o caso, então por que a vejo
preparando pão, como uma mulher comum? Isto é maia, não é assim?”.
Mãe: É seguro que isto é o jogo da maia! Do contrário, como cairia nesta situação? Mas Deus gosta de
desempenhar o papel do ser humano. Sri Ramakrishna nasceu como pastor e Rama com o filho de Dasaratha.
Discípulo: Às vezes recordas de tua natureza real?
Mãe: Sim, recordo de vez em quando. Nesse momento digo-me: “Que é isto que estou fazendo? Para que é
tudo isto? Logo me lembro da casa, dos outros edifícios, dos meninos e esqueço meu ser real”.
Eu visitava a Mãe quase todos os dias em sua casa. Ela conversava comigo desde a cama. Radhu estava
encostada a seu lado. O quarto estava apenas iluminado por uma lâmpada de azeite. Algumas vezes, uma servente
untava os pés da Mãe com azeite medicinal, para o reumatismo.
Um dia, no curso da conversação, disse-me: “Toda vez que penso num discípulo e tenho desejo de vê-lo,
ou vem aqui ou escreve-me uma carta. Tu deves ter vindo aqui impulsionado por algum sentimento. Quem sabe
tenhas em tua mente a idéia da Divina Mãe do Universo”.
Discípulo: És tu a Mãe de todos?
Mãe: Sim.
Discípulo: Até dos seres subumanos, pássaros e animais?
Mãe: Sim, destes também.
Discípulo: Então, por que eles têm que sofrer tanto?
Mãe: Nascendo como tais, devem passar por estas experiências.

Outra tarde tive com a Mãe a conversa que segue.


Mãe: Todos vocês vêm para mim porque são alguém meu, muito íntimo.
Discípulo: Então sou alguém muito intimo de ti?
Mãe: Sim, quem pode duvidar? Se duas pessoas são uma para a outra, ficam inseparavelmente
conectadas nos sucessivos ciclos do tempo.
Discípulo: Todos se dirigem a ti, tratando-te de apani (1), mas eu não posso faze-lo. Não posso usar esse
tratamento. Por isso, dirijo-me a ti usando tumi.
(1) Apani usa-se para dirigir-se a alguém superior, digno de respeito. Tumi se usa entre iguais e expressa carinho e intimidade. Tuí é usado para
tratar as pessoas inferiores, serventes, etc.
Mãe: Está muito bem. Isso demonstra uma relação íntima.
Durante a conversa, disse-lhe: “Tu deves ter-se feito responsável por aqueles a quem iniciou com o
sagrado mantram, então, por que quando te rogamos que possamos satisfazer algum desejo, tu dizes: ‘Falarei com
o Mestre disso’? Não podes encarregar-te de nossa responsabilidade?”
Mãe: Certamente, encarrego-me dessa responsabilidade.
Discípulo: Abençoa-me, Mãe, para que tenha pureza de mente e devoção a Deus. Mãe, eu tinha um
companheiro na escola; me sentiria feliz se pudesse sentir por Sri Ramakrishna a quarta parte do amor que tinha
por esse companheiro.
Mãe: Ah! O quanto isso é certo! Bem, falarei ao Mestre.
Discípulo: Por que só dizes que falarás ao Mestre? És distinta Dele? Meu desejo se cumprirá, com toda
segurança, só com tua bênção.
Mãe: Filho meu, se podes alcançar a o perfeito conhecimento com minha bênção, então, te bendigo com
todo meu coração e toda minha alma. É possível para o homem libertar-se das garras da maia sem ajuda? Foi por
isso que o Mestre praticou austeridades espirituais em grau máximo e ofereceu o se fruto para redenção da
humanidade.
Discípulo: Como pode alguém amar a Sri Ramakrishna sem vê-lo?
Mãe: Sim, é certo. Acaso pode alguém ter relação íntima com um ser de mero ar?
Discípulo: Quando terei a visão do Mestre?
Mãe: Certamente, o verás. A seu devido tempo, verás o Mestre.

Um dia a Mãe estava recostada, enquanto Kamini, a servente, lhe untava os joelhos com azeite anti-
reumático. A Mãe disse: “O corpo é uma coisa e a alma é outra. A alma penetra o corpo inteiro; por isso, tenho
sentido dor em minha perna. Se retirasse de minha mente o joelho, então não sentiria nenhuma dor”.

A iniciação é necessária

Referente a iniciação com mantram, disse-lhe: Mãe, que necessidade há de receber o mantram de um
mestre?”. Suponhamos que alguém não respeite seu mantram e simplesmente repita: ‘Mãe Kali, Mãe Kali’, não é o
suficiente?”.
Mãe: O mantram purifica o corpo. O homem se torna puro pela repetição do mantram de Deus. Escuta este
relato. Uma vez Nárada foi a Vaikunta ver o Senhor e teve uma longa conversa com Ele. Nessa ocasião, Nárada
não havia sido iniciado. Quando Nárada se foi, o Senhor disse a Lakshmi: “Purifica este lugar espargindo água”.
Perguntou Lakshmi: “Por que, Senhor? Nárada é teu grande devoto”. O Senhor disse: “Nárada, todavia, não
recebeu a iniciação. O corpo não pode purificar-se sem iniciação”.

Função da mente no desenvolvimento espiritual

Deve-se aceitar o mantram de um guru, ao menos para alcançar a purificação do corpo. Entre os
vaishnavas, quando o guru inicia o discípulo, lhe diz: “Agora tudo depende de tua mente”. Há um ditado assim: “O
mestre humano pronuncia o mantram ao ouvido, mas Deus revela secretamente seu espírito na alma humana”.
Tudo depende da mente. Nada pode ser alcançado sem pureza mental. Disse: “O aspirante pode ter recebido a
graça do guru, do Senhor e de outros devotos, mas ele cai em aflição se não tem ‘sua própria’ graça”. “Sua própria”
significa: a graça de sua mente. A mente do aspirante deve outorgar-lhe sua graça.
Continuando, a Santa Mãe disse: “Quando o Mestre morreu, eu também queria deixar meu corpo. Ele
apareceu ante mim e me disse: ‘Não, tu deves ficar aqui. Há muitas coisas por fazer’. Mas adiante, comprovei o
quanto isso era certo; eu tinha tantas coisas que fazer! O Mestre costumava dizer-me: ‘As pessoas de Calcutá
vivem como vermes que se arrastam na obscuridade. Tu os guiarás’. Ele disse que viveria trezentos anos em corpo
sutil, no coração dos devotos. Afora isso, disse que tinha muitos devotos entre as pessoas de raça branca”.
Como eu usava shari com bordas vermelhas e levava braceletes de ouro até depois do desaparecimento do
Mestre, tinha temor da crítica das pessoas (1). Mas, gradualmente, fui perdendo esse temor. Um dia, o Mestre
apareceu ante mim e pediu-me que lhe desse de comer kichuri. Eu o preparei e o ofereci ante Raghuvira (1) no
templo. Logo, mentalmente, dei de comer ao Mestre...”.
(1) Na Índia as viúvas se vestem com sharis brancos e no levam nenhum adorno. A Santa Mãe, no princípio, quis seguir este costume das
viúvas hindus, mas Sri Ramakrishna apareceu e disse que não fizesse isso porque Ele não havia morrido.
(1) Deidade tutelar da família de Sri Ramakrishna em Kamarpukur.
A Mãe disse, com relação a ela: “Balaram Babú só referia-se a mim como ‘a grande asceta’; ‘a encarnação da
paciência’. Pode chamar-se homem a quem não tem compaixão? Não é mais que uma verdadeira besta. Algumas
vezes a compaixão faz com que esqueça de mim mesma e, então, nem sequer recordo que eu sou”.
Naquele tempo, estava vivendo no mundo com meus parentes, mas mantinha um intenso desejo de abraçar
a vida monástica. Dizia a mim mesmo: “Tomara que no futuro me seja possível, por sua graça, chegar a ser monge
e viver perto dela”.
Quando eu estava em Yairambati, a mãe de Radhu, Surabala estava mentalmente alterada. Ela tinha
levado as jóias de Radhu à casa de seu pai e este, aproveitando-se de sua insanidade, as resgatou. Isto a fez mais
enlouquecida. Um dia foi chorar no templo de Simhavahini pelas jóias. Já anoitecia. A Mãe estava conversando
comigo, em sua casa, quando repentinamente disse-me: “Agora devo ir-me, filho. A louca da minha cunhada não
tem ninguém mais do que a mim para cuida-la. Está chorando ante a Deidade, por suas jóias”. Com estas palavras,
a Mãe deixou a habitação. Mas eu não havia ouvido o choro, nem era possível escutar nada a tal distância;
contudo, a Mãe havia reconhecido a voz. Regressou com a mãe de Radhu, que lhe disse: “Cunhada, tu
escondestes as jóias. Tu me as tirou”. A Mãe replicou: “Se estas jóias tivessem me pertencido, eu as teria tirado em
seguida, como quem tira excremento de corvo”. Referindo-se a mãe de Radhu, disse-me, rindo: “Guirish costumava
dizer que ela é minha companheira louca”.
No princípio, eu titubeava em chamar “Mãe” a Santa Mãe. Eu havia perdido minha mãe quando menino.
Uma manhã, a Santa Mãe deu-me um recado para certa pessoa. Quando eu estava para sair, disse-me: “Que vais
dizer-lhe?”. Eu respondi: “Que? Lhe direi: ‘Ela me pediu que dissesse a senhora, etc’”. A Santa Mãe me disse: “Não,
filho meu, diga-lhe: ‘A Mãe pediu-me que dissesse a senhora...’”. Ela dava ênfase à palavra Mãe.
Outra manhã, eu estava lendo na galeria para a Santa Mãe e algumas devotas, a vida de Sri Ramakrishna,
intitulada “Sri Ramakrishna Puthi”, escrita em verso. No capítulo sobre seu casamento com Sri Ramakrishna, o
autor fazia um grande elogio dela, a quem mencionava como a “Mãe do universo”. Enquanto eu lia essa passagem,
a Mãe deixou a galeria. Uns minutos antes, eu tinha lido algumas páginas do “evangelho de Sri Ramakrishna”, que
havia sido publicado em Udbodhan. Não havia mais ninguém presente. Lia a seguinte passagem:

Guirish: Tenho um desejo.


Mestre: Qual é?
Guirish: Quero amar a Deus sem motivo algum, só por amor a Ele.
Mestre: Essa espécie de amor só é possível nos iswarakotis (1). O homem comum não pode alcança-lo.
(1) Seres perfeitos desde seu nascimento, que só vêm a este mundo para fazer bem à humanidade.

Eu perguntei a Santa Mãe: “Que quis dizer com isso o Mestre?”.

O amor divino e os iswarakotis

Mãe: Que todos os desejos, para os iswarokotis, são satisfeitos em Deus (Purna-Kama). Portanto, não têm
nenhum desejo mundano. O amor, cujo único fim é o alcance do divino amor, não é possível enquanto perdure no
homem algum desejo.
Discípulo: Mãe, teus irmãos estão no nível dos iswarakotis?
Eu acreditava que como irmãos da Santa Mãe, eles deviam ter a mesma capacidade espiritual que os
discípulos monásticos de Sri Ramakrishna. Vi um simples gesto no olhar da Mãe, como se quisesse dizer: “Que
comparação! Que pode alguém alcançar somente por ser meu irmão! Ser discípulo do círculo íntimo do Mestre é
uma coisa tão diferente!”.
Certa manhã, vi a Santa Mãe ajudando a descascar arroz. Era essa uma tarefa que fazia quase todos os
dias. Perguntei-lhe: “Mãe, por que tens que trabalhar tão duramente?”. Respondeu: “Filho meu, eu tenho feito muito
mais que o necessário para que, assim, seja a minha vida um modelo”.
Uma noite. Todos dormiam na casa da Santa Mãe, quando chegou o marido de Nalini – uma sobrinha da
Mãe – que vinha inesperadamente, com um carro puxado por bois, com a intenção de levar Nalini para sua casa.
Nalini tinha vindo do lugar onde residia seu marido e não queria voltar a casa dele. Inteirando-se da intenção de seu
marido, fechou-se em sua habitação, ameaçando suicidar-se, se o marido a obrigasse a ir com ele. A Santa Mãe,
todavia, assegurou-lhe que não teria que voltar com seu marido e Nalini abriu a porta. Durante toda a noite, houve
confusão na família e a Santa Mãe ficou sentada na galeria até a madrugada, frente ao cômodo de Nalini. Ao
alvorecer, apagou a lâmpada e repetiu em voz baixa: “Ganga, Guita, Gayatrí, Bhagavata, Bhakta, Bhagavan,
Ramakrishna!”.
Um dia, a Santa Mãe mandou-me com um velho servente da família, à casa do pai de Pagli (sua cunhada
insana), para persuadi-lo a que fosse para Yairambati, devolver as jóias que havia tirado de sua filha. Depois de
muita insistência, nos acompanhou a Yairambati, mas sem levar as jóias. A Mãe rogou-lhe que as devolvesse, para
livrar Pagli de sua agonia mental; mas o cobiçoso brahmin fingiu-se se surdo à seus requerimentos.
Eu tinha intenção de voltar a minha casa um dia antes de Shivaratri, porque desejava assistir ao festejo que
se fazia em recordação ao nascimento de Sri Ramakrishna, em Belur. E que se celebrava dois dias depois de
Shivaratri. Fiz a Mãe conhecer minha intenção e ela pediu-me que antes fosse a Kamarpukur. Eu havia saído de
minha casa com um grande anseio de ver a Mãe e na minha pressa, havia esquecido de levar meu guarda-chuva e
um pedaço de pano para me trocar. A pedido da Mãe, aceitei visitar primeiro o lugar onde o Mestre havia nascido.
Deu-me um pano novo para cobrir-me e pediu-me que ficasse com ele.
Mãe: tens algum dinheiro contigo? Necessitarás para os gastos da viagem. Leva daqui o que te fará falta.
Discípulo: Tenho dinheiro. Não necessito que tu me dês nada.
Mãe: Escreva-me quando chegar em tua casa. Ah! Não pude dar de comer bem ao meu filho. Não pude
preparar-te nada de bom. Isto ocorreu pela grande confusão que houve na casa, devido a Nalini e Pagli.
Prosternei-me ante a Mãe e parti com lágrimas nos olhos. A Mãe nos acompanhou até certa distância e
ficou olhando-nos até desaparecermos de sua vista. Eu não podia evitar minhas lágrimas de devoção à ela, que
brotaram silenciosamente até que cheguei a Kamarpukur.
Depois de minha chegada a Kamarpukur, me foi mostrado a habitação onde havia vivido a Santa Mãe. Vi ali
uma fotografia dela, a qual acrescentou meu desejo de voltar a vê-la.
No dia seguinte, M. (autor do “Evangelho de Sri Ramakrishna”) e Praboth Babú, que iam a Yairambati,
visitar Kamarpukur, permaneceram neste último lugar umas poucas horas. A tarde chegou Lalit Babú, um discípulo
da Santa Mãe. Usava calça, uma larga toga e turbante. Como era difícil para mim ir só a Calcutá, alguns devotos
seguiram o que podiam em companhia de Latit Babú, depois que estes visitaram Yairambati. Assim que voltei a
Yairambati, disse a Mãe: “Estou outra vez aqui”. A Mãe mostrou-se encantada e disse: “Que bom! Poderás ir a
Calcutá com Lalit”.
Depois da celebração de Shivaratri, os devotos sentaram-se para comer. Foi-lhes servido algo
de prasad sobre folhas que faziam o papel de prato. Eu perguntei-lhes o que era, e disseram-me que era
o prasad da Santa Mãe. Eu também compartilhei este prasad. Mais tarde disse à Santa Mãe: “Todos eles
desfrutaram do prasad. Mas tu nunca lhe ofereceste a mim”. A Mãe disse: “Filho meu, tu nunca me pediu. Como
podia ser eu quem fizesse tal sugestão?”. Eu pensei: “Que grande humildade”.
No dia seguinte, Lalit Babú foi, em um palanquim, à casa do avô de Radhu, para recuperar suas jóias. Lalit
apresentou-se como um funcionário do governo, com uma carta escrita por uma suposta pessoa de alto cargo da
polícia de Calcutá. A Mãe pediu a M, que acompanhasse Lalit, temendo que esse, sendo um homem jovem,
pudesse usar uma linguagem ofensiva ao falar com o velho brahmin. Mas Lalit conseguiu trazer à tarde, para
Yairambati, o avô de Radhu com as jóias.
Às duas horas da manhã, nos inteiramos que a Santa Mãe estava desvelada. Estava muito nervosa e M. e
eu entramos em sua casa, enquanto os demais iam buscar alguns medicamentos. Perguntei a Mãe a causa de seu
mal estar. Disse: “Depois que eles partiram para trazer as jóias de Radhu, fiquei penalizada e temia que pudessem
insultar o velho brahmin. Isso me pôs nervosa”. Fiquei maravilhada ao ver a compaixão da Mãe pelo brahmin, que
era a causa de sua preocupação.
No dia seguinte, à tarde, parti com os outros para Calcutá. A Mãe, sobre mim, havia dito a Lalit: “Ele está
muito dedicado a Deus. Por favor, vai com ele”. Todos nos prosternamos ante a Mãe. Seus olhos se encheram de
lágrimas, lágrimas que seguiam deslizando-se enquanto nos acompanhava até o portão. Quando chegamos a
Vishnupur, no caminho para Calcutá, M., Praboth Babú e outros, foram visitar o templo de Mrinmayi, um aspecto da
Divina Mãe. Porém Lalit Babu e eu fomos diretamente à estação e tomamos o trem. M. mandou descermos, por
intermédio de Praboth, e que fôssemos visitar o templo, mas nós não tínhamos interesse em ver Mrinmayi (lit. cheia
de terra), porque havíamos visto a Chinmayi (a Divindade vivente que era a Santa Mãe). Cheguei a Belur Math e
depois de assistir a celebração do aniversário de Sri Ramakrishna, regressei a minha casa.

CALCUTÁ, EDIFÍCIO DE UDBODHAN

Ano de 1909
Durante o inverno, fui visitar a Santa Mãe em Calcutá, na casa de Balaram Babu. Mas, em minha segunda
visita, já havia se mudado para a sua nova casa, recém construída, em Calcutá (edifício de Udbodhan). Ao entrar,
encontrei o doutor Kanyilal lendo um diário. Disse-me: “A Mãe esteve com varíola e ainda não está de todo bem.
Poderá vê-la dentro de uma ou duas semanas”. Eu não havia me inteirado de sua doença. Swami Saradananda
disse-me: “Volte amanhã e poderás ver a Mãe. Poderás ficar para comer aqui”. Quando voltei, no dia seguinte, a
Mãe mostrou-me as marcas da varíola. Em sua maior parte, haviam desaparecido. Pela graça e intervenção de
Swami Saradananda, eu estava parando no monastério de Belur. Quando a Mãe soube, disse-me: “Está bem. Tens
sentido a atração da vida monástica. Vive no Monastério de Belur. Que possas alcançar amor pelo Mestre! Tens
minha bênção”.
De vez em quando eu ia levar leite a Mãe, desde Belur. Isso me dava, também, a oportunidade de estar
com ela. Um dia, quando levava o leite, a encontrei preparando folhas de betel, ajudada por sua sobrinha Nalini. Ao
ver-me, Nalini levantou-se para se retirar. A Mãe a deteve dizendo: “Não te vás. Ele é meu filho. Senta-te aqui”.
Durante a conversa, referiu-se aos parentes do marido de Maku (outra de suas sobrinhas). Disse: “Tenho que ter
muito cuidado com eles, pois, do contrário, sentem-se ofendidos e chiam. Mas vocês são meus filhos. Vocês ficam
satisfeitos com qualquer coisa que eu faça. Não se incomodam se não posso dar-lhes atenção sempre. Mas esses
parentes sentem-se ofendidos se não lhes dou o melhor, ou cometo o menor descuido em atende-los”.
Depois de um tempo, perguntei-lhe: “Mãe, como se consegue a pureza da mente e o desejo por Deus?”.
Mãe: Oh! Certamente tu terás essas coisas. Refugiando-se em Sri Ramakrishna, alcançarás tudo. Ora a
Ele, sinceramente.
Discípulo: Eu não sei faze-lo. Por favor, roga tu por mim.
Mãe: Sempre peço a Sri Ramakrishna que faça pura e santa tua mente.
Discípulo: Sim, Mãe, eu terei tudo só se tu rogar por mim.
Uns poucos meses depois, mandaram-me a Ghatal, não muito longe de Yairambati, para prestar ajuda as
pessoas da localidade, afetadas por uma inundação. Pedi três dias para ir visitar a Santa Mãe em Yairambati, por
ocasião da Yagaddhatri Puya. Atul vinha comigo. Era a primeira vez que ele ia visitar a Mãe. Passamos por
Kamarpukur e quando chegamos a Yairambati, Ashu Maharaya, que atendia a Santa Mãe, disse-nos: “Fizeram bem
em vir. A Mãe estava triste porque fazia tempo que não vinha nenhum devoto”. A Mãe nos perguntou se não
queríamos comer e nos deu de comer magnificamente. Na manhã seguinte, para prosseguir em nossa tarefa de
socorro, tivemos que voltar a Ghatal. Quando me despedi da Mãe, disse-lhe: “Virei outra vez”. Atul, como um
colegial, disse-me: “Por favor, lembre dele”.
Ao terminar o trabalho de socorro em Ghatal, voltei a Yairambati. Era inverno. Cheguei à tarde. A Santa
Mãe estava sentada na galeria, aplicando um remédio em sua perna. Sofria de dores reumáticas nos joelhos.
Discípulo: Que remédio é?
Mãe: Alguém me indicou essa folha. Passou o dia todo sem comer?
Discípulo: Não, não comi nada no caminho.
Mãe: Por que não compraste algo? Há armazéns no caminho.
Eu tinha somente uma rúpia e a havia guardado para fazer uma oferenda no monastério de Belur, mas não
fiz menção disso. A Mãe serviu-me comida quente, que comi com muita gana. Deu-me logo um cobertor e disse-me
que o usasse a noite. Perguntei-lhe: “De quem é esse cobertor?”. Respondeu: “É meu. Eu mesma o uso”.
No dia seguinte a Mãe recebeu uma carta de um de meus irmãos, em que lhe pediam para persuadir-me de
voltar ao lar. Embora curta, a carta estava escrita em bom estilo e exteriorizava nobres sentimentos. A Mãe disse:
“Ah! Que linda carta!”. Logo me disse: “Por que não voltas a teu lar? Vive no mundo, ganha dinheiro e forma tua
família”. Ela estava me provando. Eu disse-lhe: “Mas Mãe, não digas essas coisas, por favor”.

A renúncia e a realização de Deus

Comecei a chorar. Então ela disse-me, com muita ternura: “Filho meu, não chores. Tu és um Deus vivente.
Quem pode renunciar a tudo por amor a Deus? Mesmo os ditames do destino ficam cancelados, se não tomas
refúgio no Senhor. O destino apaga com sua própria mão o que está escrito para uma pessoa assim. Que acontece
ao homem quando realiza Deus? Acaso lhe crescem dois chifres? Não. O que sucede é que desenvolve o
discernimento entre o real e o irreal, alcança a consciência espiritual e vai mais além da vida e da morte. A Deus, se
realiza em espírito. De que outro modo pode alguém ver a Deus? Acaso Deus falou a alguém que carecia de fervor
extático? Alguém vê a Deus em visão espiritual, fala e entra em comunhão com Ele, em Espírito”.
Discípulo: Não, Mãe. Afora isso, há algo mais. Alguém alcança a visão direta do Espírito.
Mãe: Essa visão só Narendra (Swami Vivekananda) teve. O Mestre guardou a chave da libertação de
Narendra. Que outra coisa é a vida espiritual senão orar ao Mestre, repetir Seu nome e meditar Nele? (Com um
sorriso). E quanto ao Mestre, que outra coisa há depois Dele? Ele é eternamente o nosso mais íntimo, próprio e
real!
Discípulo: Mãe, faça-me realizar a coisa essencial, justamente isso: que Sri Ramakrishna é nosso!
Mãe: Devo te repetir? (Com firmeza). Tu realizarás isso; tenha absoluta certeza disso.

A razão e a realização de Deus

No dia seguinte, à tarde, estava conversando com a Mãe. Ela estava recostada em sua cama. A
conversação versou sobre a Vedanta. Eu disse-lhe: “Nada existe no mundo, exceto nome e forma. Não pode se
provar que a matéria existe. Em conseqüência, a conclusão é que os Deus e outras coisas deste estilo não
existem”.
Minha idéia era que mesmo pessoas como o Mestre e a Santa Mãe, eram ilusórias. Ela, em seguida, captou
meus pensamentos e disse: “Narendra uma vez me disse-me: ‘Mãe, o conhecimento que considera como irreal aos
pés do guru,é pura ignorância. Que validade tem o conhecimento, se sustém que o guru não é nada? Abandona
essas secas discussões, essa panela de grilhões da filosofia. Quem alcançou conhecer a Deus pela razão? Mesmo
Shiva e sábios como Suka e Vyasa eram, quando muito, como grandes formigas”.
Discípulo: Eu desejo conhecer. Alguma coisa entendo, também. Mas como pode alguém parar a razão?
Mãe: Até não alcançar o perfeito conhecimento, a razão não desaparece.

Yapam, controle dos sentidos e realização de Deus

Perguntei a Santa Mãe sobre o yapam e outras práticas espirituais. Disse-me: “Por meio das práticas
espirituais, se cortam os laços que atam ao passado karma. Mas, a realização de Deus não pode se alcançar sem o
amor estático (Prema bhakti) por Ele. Sabe qual é a importância real que tem o yapam e outra práticas
espirituais?; por eles se alcança o poder dos órgãos sensórios”.

Caridade

Referindo-se a Lalit Chatteryee, que tinha estado gravemente doente, a Mãe disse: “Lalit costumava
prestar-me grande ajuda econômica. Costumava levar-me em seu coche. Ele dá muito para os cultos que se fazem
nos templos de Kamarpukur e Yairambat. Meu Lalit tem um coração que vale um milhão de rúpias! Por que há
gente que é miserável, apesar de sua riqueza? Os ricos deveriam servir a Deus e a Seus devotos, facilitando o
dinheiro; e os pobres deveriam adorar a Deus, repetindo Seu nome”.

O amor extático e a realização de Deus

Com relação ao amor extático, a Mãe disse: “Credes que os pastores de Brindavam realizaram que Krishna
fora o mais precioso de seus corações, por meio do yapam e meditação? Eles realizaram pelo amor extático. Eles
costumavam dizer, como a um amigo íntimo: ‘Vem, oh Krishna! Come isto; toma aquilo!’”.
Discípulo: Como pode alguém sentir um intenso desejo por Deus, sem perceber a revelação de Seu amor?
Mãe: Sim, pode. Nisso consiste a graça de Deus.

YAIRAMBATI

Dezembro de 1909

Era cerca das nove horas da manhã. A Santa Mãe estava preparando folhas de betel, quando fui vê-la.
Num momento nos pusemos a conversar
Discípulo: Mãe, vejo e ouço tanto, contudo não posso reconhecer-te como minha “própria mãe”.
Mãe: Não obstante isso, se não fosse assim, filho, por que virias aqui tão freqüentemente? Conhecerá tua
“própria mãe” a seu devido tempo!
Depois de um momento, referindo-me a meus pais e irmãos, disse-lhe: “Meus pais me criaram. Eu não sei
onde eles estão agora (depois de sua morte) e como vivem. Abençoa meus irmãos para que tenham boas
tendências”.
Mãe: Acaso a maioria das pessoas sente a necessidade de amar a Deus? Há tenta gente nesta família;
crês que todos amam a Deus?
Depois de uns minutos, acrescentou: “Não te aflijas. Tu não estás casado. Que podes temer, alcançando
celibato? Onde quer que vás, serás livre”.
Discípulo: Mas Mãe, não tenho temor.
Mãe: Não, nada deves temer. Tudo depende da vontade do Mestre.
Discípulo: A mente é tudo. Se estiver em estado de pureza, não importa onde eu viva. Por favor, Mãe,
ajuda-me a para que minha mente permaneça sempre pura.
Mãe: Que assim seja!
Era o aniversário da Santa Mãe. Uns dias antes havia chegado a Yairambati, Preboth Babu, que deu cinco
rúpias aos irmãos da Santa Mãe, para fazer um culto especial em seu aniversário. A Mãe disse: “Não façam nada
especial hoje. Me vestirei com algo novo. Ao Mestre se fará uma oferenda de doces, da qual participarei depois. É
tudo o que se fará nesta ocasião”.
Depois da adoração no templo, a Santa Mãe sentou-se em sua cama, com os pés apoiados no chão. Havia
colocado um tecido novo. Praboth pôs em seus pés umas flores, como oferenda. Eu estava na galeria, perto da
porta. A Mãe disse-me: “Que? Não queres oferecer algumas flores? Aqui há, tome-as”. Então eu também depositei
flores a seus pés. Ao meio-dia, tivemos um esplendido almoço e logo Preboth saiu para Calcutá. Como eu estava
indisposto, fiquei em Yairambati.

Dezembro de 1909

Só os laços do amor podem atar a Deus

No curso da conversação, a Mãe disse: “Podes dizer-me se alguém pode atar a Deus? A mãe Yashoda
pode atar-se a Krishna, porque Ele Mesmo permitiu que ela o fizesse. Os pastores e as pastoras de Brindavan
também realizaram a Deus”.

Os desejos e as reencarnações

“Enquanto o homem tem desejos, não tem fim sua transmigração. Os desejos são os que fazem tomar um
corpo atrás do outro. Embora só tenha o desejo de comer um torrão de açúcar cândi, terá que renascer. Por isso,
em Belur Math, há variedade de comidas. O desejo pode ser comparado a uma diminuta semente. Dessa semente
do tamanho de um ponto, nasce uma árvore como o baniano. Enquanto alguém tem desejos, o renascimento é
inevitável. Poder-se-ia dizer que a alma individual deixa uma capa e entra em outra. Entre muitos homens só pode-
se encontrar um ou dois que estejam livres de todo desejo. Embora um homem tome um novo corpo, a causa de
seus desejos, não perde por completo a consciência espiritual, se tem a seu favor méritos adquiridos nas vidas
anteriores. Um sacerdote do templo de Govinda, em Brindavan, costumava dar à sua concubina a comida oferecida
a Deidade. Por causa desse pecado, depois da morte, entrou no corpo de um ghoul (o demônio que supõe-se que
se alimenta de cadáveres). Porém, ele também havia servido no templo. Como resultado de seu mérito, um dia
apareceu diante de todos em seu próprio corpo físico. Foi-lhe possível fazer isso por causa de suas boas ações
passadas. Disse as pessoas qual tinha sido a causa de seu baixo nascimento e, então, pediu: “Por favor, celebrem
um culto religioso com música, para a redenção do estado em que está minha alma atualmente. Isso me
libertará”.
Discípulo: é possível liberar-se de tais estados por meio de cerimônias religiosas e música?
Mãe: Sim. Isso é suficiente para os vaishnavas. Eles não fazem ritos funerários tais como o shraddha e
coisas desse gênero. Uma vez visitei a imagem de Yaggannath em Puri, durante o festival do Carro. Chorei pela
grande alegria que senti ao ver tanta gente contemplar a imagem. Disse a mim mesma: “Ah! Que bom, todos eles
se salvaram”. Porém, mais tarde compreendi que não era assim. Somente um ou dois que estavam absolutamente
livres de desejos, puderam alcançar sua salvação. Quando contei isso a Yoguin-Ma, ela corroborou, dizendo:
“Assim é, Mãe; só aquele que está livre de desejos alcança a libertação (mukti)”.

Uma manhã, enquanto tomava o café da manhã na galeria frente à casa da Santa Mãe, perguntei-lhe:
“Mãe, tenho que ser iniciado no sannyasa, se vivo em Belur Math?”.
Mãe: Sim, filho meu.
Discípulo: Mas Mãe, a vida monástica causa uma terrível vaidade.

A vida monástica e a vaidade

Mãe: Sim, isso é certo. Um monge pode tornar-se muito vazio. Pode pensar: “Vejam, ele me respeita. Não
se inclinam ante mim”. (Indicando seu shari branco) (1). Deveria-se viver melhor assim (querendo dizer; com
renúncia interior). Gaur Siromad tomou o voto monástico quando já era velho e seus organismos sensórios não
tinham mais poder. É possível, filho meu, liberta-se de toda sua vaidade; vaidade da beleza; vaidade da virtude:
vaidade do conhecimento e vaidade de uma vida santa?
(1) A cor branca é usada pelos chefes de família. A ocre, pelos monges.
A Santa Mãe me exortou a preparar-me para a vida de renúncia. Disse-me: “Vai a tua casa e diga a teus
irmãos, de uma vez por todas: ‘Não aceitarei nenhum emprego; não serei escravo de ninguém; como meu pai está
morto, não farei nada disso. Sejam vocês felizes cumprindo com seus deveres caseiros!’”.
ÀA tarde eu estava conversando com a Mãe.

Realização de Deus e graça Divina

Discípulo: Mãe, se alguém alcança a realização espiritual em qualquer momento que a graça de Deus
desce sobre ele, então, não há necessidade de esperar o momento propício.
Mãe: Isso é certo; porém a manga que amadurece fora de estação, pode ser tão doce como a que
amadurece no mês de yaistha, ou seja, durante a estação propícia? Os homens tratam de ter frutas fora de estação.
Hoje em dia se conseguem mangas até no mês de asvin (outono). O mesmo sucede com os esforços que se faz
para realizar a Deus. O mesmo com tuas práticas de yapam e austeridades nesta vida; na próxima vida, podes
intensificar teu desejo espiritual e na seguinte, avançarás ainda mais.
Referindo-se ao que também se pode conseguir na repentina realização espiritual, a Mãe disse: “Deus tem
a natureza de uma criança. Um homem não pede e, não obstante Ele dá; por outro lado, a outro que lhe pede, Deus
não dá. Tudo é seu capricho”.
Outro dia, enquanto a Mãe estava sentada na galeria, preparando folhas de betel, eu disse: “No futuro,
quanta gente praticará disciplinas espirituais para propiciar-te!”. A Mãe, com um sorriso acrescentou: “Que estás
dizendo! Todos diriam: ‘Ah! A Mãe tinha um reumatismo tal, que costumava mancar assim!’”.
Discípulo: Só tu podes dizer isso.
Mãe: É que é assim. Por isso o Mestre, quando estava doente em Cossipore, disse: “Aqueles que se
aproximam de mim com o intuito de tirar algum benefício terreno, desaparecem dizendo: ‘Ah! Ele é uma Encarnação
Divina! Como pode estar doente? Isto é tudo maia (significando que era um mero jogo). Mas os meus ‘íntimos’
estão sofrendo enormemente ao ver este mísero estado...’”.

CASA DE UDBODHAN, CALCUTÁ

Ano de 1909
No dia anterior ao de minha iniciação, disse a Santa Mãe: “Mãe, desejo ser iniciado”. A Mãe disse: “Não
tinhas sido iniciado? Acreditei que já tinhas a iniciação”. Depois da iniciação, me abençoou, dizendo-me: “Que teu
corpo e tua mente se purifiquem, repetindo o nome de Deus!”.

Prática do yapam com os dedos

Discípulo: Que necessidade há em repetir o mantram com os dedos? Não é suficiente repeti-los
mentalmente?
Mãe: Deus nos deu os dedos para que possam ser benditos com a repetição de Seu Nome com eles.
Deus e o problema do sofrimento

A Mãe estava conversando comigo, pela manhã.


Discípulo: Mãe, se existe algum ser chamado Deus, por que há tanta infelicidade e sofrimento no mundo?
Ele não vê isso? Não tem Ele poder para fazer com que desapareçam?
Mãe: A criação em si está plena de infelicidade e felicidade. Poderia alguém apreciar a felicidade, senão
existisse o infortúnio? Ademais, como é possível que todas as pessoas sejam felizes? Certa vez Sita disse a Rama:
“Por que não tiras o sofrimento e a infelicidade de todos seus súditos? Faz com que todos os habitantes de teu
reino sejam felizes. Se o quiser, é muito fácil faze-lo”. Rama contestou: “É possível que todas as pessoas sejam
felizes ao mesmo tempo?”. Sita replicou: “Por que não? Faz com que o tesouro real seja dado às pessoas, todo o
necessário para satisfazer suas necessidades”. Rama assentiu: “Muito bem; teu desejo será cumprido”. Rama
chamou Lakshmana e lhe disse: “Vem e anuncia em todo meu império, que cada habitante obterá todo o necessário
do tesouro real”. Os súditos de apresentaram ao palácio do rei e expuseram suas necessidades. O tesouro
começou a fluir sem limite algum. Quando todos começaram a passar prazerosamente seus dias, pela maia de
Rama, sucedeu que o teto do palácio, onde viviam Rama e Sita, começou a gotejar. Mandaram buscar obreiros
para que se concertasse o teto, mas, onde encontra-los? Em todo o reino, não havia nenhum obreiro. Por falta de
pedreiros, carpinteiros e variados artesãos, os edifícios começaram a necessitar de consertos, e todos os trabalhos
ficaram paralisados. Os súditos de Rama o fizeram conhecer suas dificuldades. Não encontrando outra solução,
Sita disse a Rama: “Não é possível suportar por mais tempo o incômodo do teto que goteja. Por favor, faça com que
as coisas voltem a ser como eram antes. Então, todos poderão conseguir obreiros. Agora compreendo
profundamente, que não é possível que todos sejam felizes ao mesmo tempo”. Rama disse: “Assim seja”.
Instantaneamente as coisas voltaram a ser como antes e se pode encontrar, novamente, os obreiros necessários.
Sita disse a Rama: “Senhor, esta criação é teu jogo maravilhoso”.
Ninguém pode sofrer todo o tempo. Ninguém passará todos os dias de sua vida sofrendo na terra. Cada
ação produz seu particular resultado e, cada um, de acordo com seus atos, terá correspondentes oportunidades.
Discípulo: Então, cada coisa é devido ao karma?
Mãe: Se não, qual outra causa? Não vês o lixeiro levar o tacho de lixo sobre sua cabeça?

O mistério do karma e da vontade divina

Discípulo: De onde vem o primeiro impulso para executar uma ação, boa ou má? Pode-se dizer, como
modo de explicação, que as inclinações desta vida são devidas às ações da vida passada e as inclinações da
passada procedem da anterior. Mas como foi o começo?
Mãe: Nada pode acontecer sem a vontade de Deus; nem sequer uma palha pode mover-se. Quando o
homem está passando por uma etapa boa, sente o desejo de contemplar a Deus. Mas quando passa por uma fase
desfavorável, encontra toda espécie de facilidades para concluir más ações. Cada coisa sucede a seu tempo,
conforme a vontade de Deus. Somente Deus é quem expressa Sua vontade, através das ações do homem. Como
poderia Naren (Swami Vivekananda), por si só, ter realizado toda a obra que fez? Teve êxito porque Deus atuou por
seu intermédio. O Mestre predetermina o que vai se realizar. Se alguém se entrega totalmente a Seus pés, então o
Mestre ajuda, para que todas as coisas se cumpram, realmente. Deve-se suportar tudo, porque nossas ocasiões
favoráveis estão determinadas por nossas ações (karmas). Ademais, as ações podem ser canceladas por ouras
ações.
Discípulo: Pode uma ação cancelar o efeito de outra ação?

As práticas espirituais podem atenuar o efeito de nossos pecados

Mãe: Por que não? Se fizeres uma boa ação, a mesma cancelará tua má ação passada. Os velhos pecados
podem ser anulados pela meditação, o yapam e o pensamento no espiritual.
Eu tinha ouvido que um rapaz, da rua Mizapur, estava possuído por um espírito. Alguns membros de
Udbodhan haviam-no visitado no dia anterior. Perguntei a Mãe: “Quanto tempo vive alguém como ‘espírito’?”.

A vida depois da morte

Mãe: Todos, com exceção das almas muito evoluídas, vivem como “espíritos” por um ano. Depois, em Gaia,
se oferecem água e alimento para a satisfação dos desencarnados e se realizam festivais religiosas. Por esse meio,
as almas desencarnadas libertam-se de seus corpos sutis. Vão a outros planos de existência e experimentam
prazer e dor; e no curso do tempo, voltam a nascer em um corpo humano, de acordo com seus desejos. Outros
alcançam a salvação nestes planos. Mas se uma pessoa tem algum ato meritório a seu favor, feito nesta vida, então
não perde por completo a sua consciência espiritual no corpo sutil (forma sutil como “espírito”).
Aqui a Mãe referiu-se, outra vez, ao sacerdote do templo de Govinda, em Briandavm.
Discípulo: É possível alcançar um plano mais elevado por meio da cerimônia sraddha, que se realiza para
os defuntos em Gaia?
Mãe: Sim, é possível. (1)
(1) A respeito, estou recordando outro acontecimento. A Santa Mãe estava em Benares. Eu havia partido, um ou dois dias antes, para Gaia, para
concluir o culto sraddha, oferecido a meus antepassados. Havia dito a Santa Mãe antes de partir: “Mãe, abençoa a meus antepassados para que
eles possam alcançar o céu”. Na mesma noite, do dia em que eu havia oferecido alimento e bebida em Gaia, como agradecimento a meus
antepassados, Bhudev, a sobrinha da Santa Mãe, que a acompanhava em Benares, teve um sonho na qual a Mãe estava praticando yapam,
rodeada de uma multidão que clamava: “Por favor, dá-me a salvação! Por favor, dá-me a salvação!”. A Mãe espargiu sobre ela a água bendita de
uma jarra e lhes disse: “Vão-se, já estão salvos!”. Então eles se foram, cheios de felicidade. Logo apareceu um homem. A Mãe disse: “Eu já não
posso permanecer neste lugar por muito tempo”. Mas ele rogou à Mãe por um longo tempo e no final, alcançou sua graça. No dia seguinte,
Bhudev narrou esse sonho à Santa Mãe e ela, como reposta, disse: “R. foi à Gaia para fazer a cerimônia sraddha, oferecida a seus
antepassados. Portanto, toda essa gente alcançou sua salvação”. Na realidade, ao oferecer as oblações a meus antepassados, com grande
sinceridade, ofereci também alimento, bebida a todos àqueles cujos nomes recordei naquele momento, e roguei pela salvação de todos eles.
Discípulo: Então, que necessidade há de fazer práticas espirituais?
Mãe: Essas almas desencarnadas, não há dúvida, alcançam estados mais elevados, que desfrutam por
algum tempo, mas depois voltam a nascer neste mundo, em conformidade com os desejos que acalentavam
anteriormente. Logo ao nascer no corpo humano, alguns alcançam a salvação nesta vida, enquanto outros tomam
formas inferiores, colhendo, assim, o resultado de seu karma. Este mundo se move como uma roda. Quando
alguém fica completamente livre de todos os desejos, nasce, realmente, pela última vez.
Discípulo: Te referiste às almas dos mortos que alcançam um estado divino; vão por si mesmo ou alguém
as guia?
Mãe: Não, vão por si só. O corpo sutil é como algo feito de ar.
Discípulo: Que acontece com aqueles para quem não se realiza a cerimônia sraddha, em Gaia?
Mãe: Vivem no corpo sutil até que alguém afortunado nasce em sua família e realiza o sraddha, em Gaia,
ou faz alguma outra cerimônia.
Discípulo: Ouvimos que há espíritos e fantasmas, são eles os servidores de Shiva, ou simples espíritos? Ou
são os espíritos dos mortos?
Mãe: São os espíritos dos mortos. Os acompanhantes de Shiva pertencem a um grupo especial. Deve-se
viver bem desperto. Cada ação produz seu resultado. Não é bom usar palavras ofensivas para os demais, ou ser
responsável por seus sofrimentos.
Discípulo: Mãe, uma macieira não produz mangas, e uma manga não dá o fruto da macieira. Cada qual tem
o resultado de seu próprio karma.

O estado de não-dualidade

Mãe: Tens razão, filho meu. Com o correr do tempo, ele chega a não sentir nem sequer a existência do
Deus Pessoal. Depois de alcançar a sabedoria, ele vê que todos os seres luminosos, de aspectos masculinos e
femininos, são todos maia (transitórios). Cada coisa vem à existência com o tempo e desaparece com o tempo.
Deus Pessoal e outras coisas desta espécie desaparecem, realmente, quando desponta o supremo conhecimento.
Então, o aspirante realiza que é a Mãe o único que penetra o universo. Então, tudo se torna uno. Esta é a simples
verdade.

A Mãe estava selecionando folhas de betel para fazer o culto diário. Mostrei-lhe uma de suas fotografias
que havia sido recentemente impressa e perguntei-lhe se estava bem parecida.
Mãe: Sim, é uma boa fotografia, mas eu não estava tão magra antes de tirar essa fotografia. Yoguin (Swami
Yogananda) estava muito doente nessa época e a grande preocupação que tinha por ele, me fez emagrecer. Eu me
sentia muito penalizada. Quando Yoguin piorava, eu chorava e ficava contente quando tinha alguma melhora. Esta
fotografia foi tirada pela senhora Sara Bull. No princípio, eu não queria, mas ela insistiu dizendo: “Mãe, levarei esta
fotografia para a América e a adorarei”. No fim, a fotografia foi tirada.
Discípulo: Mãe, essa fotografia de Sri Ramakrishna que tu tens, é muito boa. Ao olha-la, se o sente. Está
muito parecida com o Mestre?

Sri Ramakrishna adorando Sua própria fotografia

Mãe: Sim, esta fotografia é muito, muito boa. Pertenceu antes a um brahmin cozinheiro. Fizeram-se várias
cópias da primeira e o brahmin obteve uma delas. A fotografia era muito escura, como a imagem de Kali, por isso a
deram ao brahmin. Quando o brahmin ausentou-se de Dakshineswar, deram-na a mim. Eu a guardei com outras
imagens e a adorei. Eu vivia, então, no andar térreo de Nahabat. Um dia, o Mestre foi lá e, ao ver a fotografia, disse:
“Oh! Que é isto?”. Lakshmi e eu estávamos cozinhando, debaixo da escada. Logo vi o Mestre tomar com suas mãos
algumas flores e folhas de betel, destinadas ao culto e coloca-las como oferenda ante a fotografia. Ele adorou esta
fotografia. Esta é a mesma fotografia. Aquele brahmin nunca voltou; assim foi como ela ficou em meu poder.
Discípulo: Mãe, viste alguma vez se o rosto do Mestre estava pálido, durante o samadhi?
Mãe: Por que? Nunca o vi assim. Pelo contrário, sempre vi Seu rosto sorridente, quando estava em êxtase.
Discípulo: É possível sorrir em êxtase emotivo, mas, com respeito à fotografia em que está sentado, o
Mestre disse que haviam-na tirado durante um estado Seu muito elevado. É possível sorrir neste estado?
Mãe: Sim, eu o vi sorrir em todos os estados de samadhi.
Discípulo: Que cor tinha Sua pele?
Mãe: Tinha a cor do ouro; não se diferenciava da cor do amuleto de ouro que levava em Seu braço. Quando
eu o friccionava com azeite, via claramente que algo luminosos emanava de todo Seu corpo... Quando saía de Sua
casa, as pessoas formavam fila para vê-lo e diziam um para o outro: “Aí vem!”. Era bem robusto. As pessoas
olhavam-no enlevadas quando, com passo lento e firme, dirigia-se ao Ganges para tomar Seu banho.
Em Kamarpukur, cada vez que saía de Sua casa, homens e mulheres o olhavam com assombro. Um dia,
saiu para caminhar em direção ao canal chamado “Khal de Bhuti”. As mulheres que tinham ido buscar água,
ficaram boquiabertas e diziam: “Ah! Vem o Mestre!”. Sentindo-se incomoado, Sri Ramakrishna disse a Hriday: “Bem,
Hridu, dá-me um pano para cobrir minha cabaça”.
Nunca vi o Mestre triste. Estava satisfeito em companhia de todos, fosse um menino de cinco anos ou um
velho de avançada idade. Nunca o vi de mal-humor, filho meu. Ah! Que felizes foram esses dias! Quando
estávamos em Kamarpukur, levantava-se cedo e me dizia: “Hoje comerei tal hortaliça; cozinhe-a”. com as outras
mulheres da família, preparávamos a comida. Depois de poucos dias, disse-me: “Que está acontecendo? Apenas
me levanto e digo-me: ‘Que comerei, que comerei?’. Logo acrescentou: ‘Não tenho desejo de comer nada em
particular; comerei qualquer coisa que tu cozinhares para mim’”.
Quando sofria severos ataques de diarréia, ausentava-se de Kakshineswar e ia a Kamarpukur para sentir
alívio. Costumava dizer: “Meus intestinos estão cheios de excremento. Nunca terminam de sair!”. Sofrendo dessa
maneira, começou a sentir uma certa repulsa para Seu corpo, e desde então, não lhe prestava muita atenção...
Hoje em dia, tu vês muitos devotos por todas as partes. Há tanto alvoroço e animação! Mas, durante a
doença do Mestre, um de seus devotos se foi para nos trazer vinte rúpias. Havia feito uma coleta para poder
compensar os gastos do tratamento e para esse devoto, havia sido pedido essa contribuição. Agora, não é nada
difícil servir ao Mestre, pois embora o alimento seja oferecido a Ele, são os devotos, realmente, quem os come. Se
tu pedes ao Mestre para sentar, se sentará. Se quiseres que se encoste, ficará nesta posição. Depois de tudo,
agora é apenas uma fotografia!
O Mestre viu, numa visão, Balaram Babu com um turbante, saudando a imagem de Kali, com as mãos
juntas. Depois disso, Balaram sempre permanecia com as palmas das mãos juntas, quando estava na presença do
Mestre. Nunca o saudava tocando Seus pés. O Mestre, que penetrou em seu pensamento, disse-lhe, um dia: “Oh!
Balaram, sinto picadas nesse pe; quer ter a bondade de fazer-me uma massagem suave?”. Em seguida, Balaram
mandou buscar Naren (Swami Vivekananda) ou Rakhal (Swami Brahmananda), ou qualquer outro jovem discípulo
dos que atendiam o Mestre, e pediu que fizesse a massagem nos seus pés.
Discípulo: Uma vez Swami Brahmananda, a quem eu havia feito a pergunta, disse-me: “A cor da pele do
Mestre era como a minha (escura)”.
Mãe: Sim, tinha essa cor quando Rakhal e outros discípulos o conheceram. Então, o Mestre já havia
perdido Sua anterior boa saúde e Seu aspecto havia mudado. Poe exemplo, olha agora a cor de minha pele e qual
é minha saúde. Credes que ante eu era assim? Não; tinha um aspecto agradável, então. Não era grossa; contudo,
me pus assim...
Havia chegado a hora do culto. A Mãe foi ao templo e eu fui ao andar inferior. Quando terminou o culto, subi
para buscar o prasad para os devotos. Enquanto eu tirava as folhas com os doces e frutas, inadvertidamente toquei
com o cotovelo, os pés da Santa Mãe. “Ah!”, disse a Mãe e saudou-me, juntando as mãos. Eu disse: “Não é nada”.
Não satisfeita por haver inclinado ante mim, disse-me: “Vem, filho meu, vou dar-te um beijo”. Tocou meu queixo
com sua mão, beijando seus dedos e, com isso, ficou tranqüila. Assim respeitava seus discípulos como
manifestações de Deus e, ao mesmo tempo, mostrava seu afeto para com eles, como uma mãe faz com seus
próprios filhos.

29 de outubro de 1910

A presença do Mestre

Uma manhã cedo, eu estava sentado perto da cama da Mãe. Ela começou a falar-me do Mestre.
Discípulo: Vive na fotografia, realmente, o Mestre?
Mãe: Suponho que sim. O corpo e sua sombra são uma mesma coisa (1). E a fotografia que é, senão Sua
sombra?
(1) É por essa razão que não se caminha na sombra de uma pessoa maior. Certo dia, enquanto estava em Yairambat, eu regressava para casa,
depois de ter tomado meu banho. A Mãe também regressava do tanque. Eu me pus a seu lado e, de vez em quando, ia sob parte de sua
sombra. A Mãe pediu-me que me pusesse do outro lado. No princípio, eu não me tinha dado conta que ia caminhando sob sua sombra.
Discípulo: Vive em todas as Sua fotografias?
Mãe: Sim. Se orares constantemente ante sua fotografia, Ele se manifesta através dela. O lugar onde se
coloca Sua fotografia converte-se em um templo. Suponha que alguém adora o Mestre ali (indicando um terreno
situado ao lado norte de Udbodhan), então, esse lugar fica associado a Sua presença.
Discípulo: Bem, todos os lugares estão associados com boas ou más lembranças.
Mãe: Isto não é exatamente assim. O Mestre prestará especial atenção a tal ou qual lugar.
Discípulo: Participa o Mestre, realmente, da comida que tu lhe oferece?
Mãe: Sim.
Discípulo: Mas nós não notamos nada que pareça assim.

A deidade participa das oferendas.

Mãe: Uma luz sai de Seus olhos e “lambe” tudo o que constitui a oferenda. E que? Acaso o Mestre
necessita comer? Certamente não. Porém, come do que se oferece somente para agradar a Seus devotos. O
sagrado prasad purifica o coração. A mente se torna impura, se alguém come os alimentos sem antes oferece-los a
Deus (1).
(1) Um devoto havia aceitado da Santa Mãe o hábito ocre de monge. Durante alguns anos esteve doente e havia estado em vários lugares, para
mudar de clima. Mais tarde passou certo tempo em seu lar, em lugar de viver no monastério. Um dia foi a Yairambati e devolveu o hábito ocre a
Santa Mãe. Referindo-se a este incidente, a Mãe disse: “Ai! Sua mente se tornou impura, por estar comendo com gente de mentalidade
mundana”.
Discípulo: Assim o Mestre participa do alimento oferecido a Ele?
Mãe: Sim. No caso de certas oferendas, Ele come o oferecido; outras vezes, somente as olha. Considera
teu próprio caso. Não gostas de todos os pratos e em qualquer momento. Tampouco te agrada comer o que é
oferecido por uma pessoa qualquer. É assim. O amor a Deus depende inteiramente de nosso sentimento interior. O
amor a Deus é a coisa essencial.

Graça Divina; Deus e o mais íntimo de nós mesmos

Discípulo: Como se alcança o amor a Deus? Até o próprio filho, se é criado por algum outro, não reconhece
a sua própria mãe como mãe.
Mãe: Sim, é certo. A coisa absolutamente necessária é a graça de Deus. Deve-se orar para conseguir a
graça de Deus.
Discípulo: Como pode alguém falar de merecer ou não, a graça de Deus? A graça é a mesma para todos.
Mãe: Deve-se orar, sentado na margem de um rio. A seu devido tempo, cruzará o rio e será levado a outra
margem.
Discípulo: Cada coisa acontece no seu devido tempo, então, onde há lugar para a graça de Deus?
Mãe: Não sentas com o caniço na mão, se queres pescar?
Discípulo: Se Deus é o “mais íntimo” de nós mesmos, porque se deve sentar e esperar?
Mãe: É certo. Pode também ocorrer no momento menos esperado. Não vemos, hoje em dia, que as
pessoas conseguem mangas e outras frutas quando não é época? Quantas mangueiras dão frutos, até mesmo no
mês de bhadra!
Discípulo: Nossa limitação provém de que Deus nos conforma em nos dar o que desejamos. Mas, podemos
realizar a Ele como nosso mais íntimo? Deus é realmente nosso?
Mãe: Sim, Deus é o mais íntimo de nós mesmos. Nossa relação com Ele é eterna. Ele é o mais íntimo de
cada um. Se O realiza na proporção da intensidade do amor que se tem por Ele.
Discípulo: O sentimento intenso é como um sonho. Sonha-se o que pensa.
Mãe: Sim, é um sonho. O mundo inteiro é um sonho; mesmo este estado de vigília, é um sonho.
Discípulo: Não, isto não é um sonho, porque então haveria desaparecido em um abrir e fechar de olhos.
Este estado existe por muitos, muitos nascimentos.
Mãe: Não obstante ser assim, não é mais que um sonho. O que sonhaste a noite, não existe agora. (O
discípulo havia tido, na noite anterior, um sonho surpreendente). Um lavrador que havia perdido um filho sonhou,
durante a noite, que era rei e que tinha oito filhos. Quando despertou, disse à esposa: “Chorarei por meus oito
filhos, ou só por este?”.
Depois de haver argüido assim com a Mãe, disse-lhe: “Mãe, na verdade, não vou quebrar a cabeça sobre o
que acabo de te dizer. Tudo o que quero, é saber se existe alguém a quem possa chamar realmente meu”.
Mãe: Sim, esse Uno existe.
Discípulo: Se Ele realmente é “meu”, por que devo rogar-lhe para vê-lo? Sendo “muito íntimo”, viria a mim,
mesmo sem chamá-lo. Ele faz por nós coisas como as que fazem nossos pais?
Mãe: Sim, filho meu. Ele é quem toma a forma de nosso pai e de nossa mãe, e nos cria. Ele é como pai e
mãe, nos cuida. Do contrário, onde estarias agora? Teus pais te criaram e, afinal, se deram conta que tu não lhes
pertencias. Não viste o cuco crescer no ninho de um corvo?
Discípulo: Realizarei Deis como meu “ser íntimo”?
Mãe: Sim, seguramente que O realizarás. Qualquer coisa em que penses, a conseguirás. Não realizou a
Deus, Swamiyi? (Referência a Swami Vivekananda). Tu O realizarás, como Swamiyi.
Discípulo: Mãe, concede-me que nunca me domine o temor e diminua minha fé.
Mãe: Tal risco não existe para ti, uma vez que eu mesma tenho pescado o peixe.
Discípulo: Isso é bom. Todos podemos desfrutar dele.
Mãe: Sim, assim é. Alguém faz o molde e muitos outros fazem dele suas imagens.
Discípulo: Sim, nós conseguiremos tudo, se tu nos impulsionas. Tu não podes nos deixar de lado.
Mãe: O que eu quero para vós, isso o terão.

À tarde, chegou um devoto de Shillong. Tendo dúvidas sobre a natureza divina da Santa Mãe, havia feito
voto de não ir visitá-la, a menos que a visse em sonhos sete vezes. Como havia tido as visões a que se havia
proposto, foi a Yairambati para saudar a Mãe. Quando ia despedir-se, disse-lhe: “Mãe, agora me despedirei.
Necessito algo mais?”.
Mãe: Sim, seguramente; deves ter tua iniciação.
Devoto: Poderei tê-la em Baghbazar, Calcutá.
Mãe: É melhor que termines com isto, filho meu. Toma hoje tua iniciação.
Devoto: Mas, já comi o prasad.
Mãe: Isso não importa.
Depois da iniciação, o devoto despediu-se.
Pela manhã cedo, outro devoto, um jovem perturbado, tinha vindo importunar a Mãe para que o iniciasse
em sanniasa. Também pediu a Mãe que o tornasse “louco” e lhe conferisse imediatamente a visão do Mestre. A
Mãe, de algum modo o tranqüilizou, nesse momento, e mandou-lhe para sua casa. Porém, o estado mental do
perturbado devoto tornou-se pior, quando voltou ao lar. Estava muito inquieto e sentia-se incomodado, pensando
que a Santa Mãe sequer pudesse, com seu mero desejo, dar-lhe a visão de Sri Ramakrishna, já que havia
recusado a faze-lo. Em um estado mental muito irritado, voltou a Yairambati e disse-lhe: “Mãe, a senhora não me
fará ter a visão do Mestre?”. A Mãe disse-lhe: “Sim , o verá. Acalme-se, não te inquietes”. Mas ele não pode
agüentar mais e disse-lhe, com cólera na voz: “Estás me enganando. Aqui está o rosário que me deste. Tome-o,
não me interessa mais”. Dizendo isto, atirou-lhe o rosário. A Mãe disse: “Muito bem, fique para sempre como filho
de Sri Ramakrishna”. O jovem deixou o lugar neste momento.
Depois esse devoto ficou realmente louco. Começou a escrever cartas insultantes aos monges da Missão
Ramakrishna e não fez exceção, nesse sentido, nem à Santa Mãe.
Um dia, fazendo referência a esse devoto, perguntei à Santa Mãe: “Devolveu também o mantram? Ele tirou
o rosário mas, pode alguém devolver o mantram?”.
Mãe: é possível isso? A palavra mantram tem vida. Uma vez que se a recebe, pode ser devolvida?
Havendo sentido uma atração pelo guru, pode livrar-se dele? Algum dia, esse jovem voltará e cairá aos pés
daqueles a quem agora insulta.
Devoto: Por que acontecem tais coisas?
Mãe: Vemos que isso acontece. Um guru pode iniciar a muitos discípulos, mas podem todos eles ter a
mesma natureza íntima? A vida espiritual se manifesta em um devoto, conforme a sua íntima natureza. Ele disse-
me uma vez: “Mãe, faz-me ficar louco”. Eu respondi: “Por que? Por que queres enlouquecer, filho meu? Pode
alguém ficar louco, sem haver pecado nunca?”. Ele acrescentou: “Meu irmão mais jovem viu o Mestre. Concede-
me, também, uma visão Dele”. Eu lhe respondi: “Quem pode vê-lo com os olhos físicos? Mas alguém pode vê-lo
fechando os olhos. Teu irmão é um menino. Pode ter visto mentalmente, o Mestre, com os olhos fechados; mas ele
pensa que o viu com os olhos abertos”.
Pedi-lhe que persistisse na prática das disciplinas espirituais; que orasse ao Mestre e assim, também ele
teria Sua visão. O homem sabe, em sua própria mente, quanto avançou e que grau de conhecimento e consciência
de Deus alcançou. Sabe, no mais íntimo de seu ser, até que ponto realizou Deus. Ademais, quem foi capaz de ver
a Deus com os olhos físicos?
Aquele devoto, depois de ter recebido uma reprimenda em Udbodhan, costumava viver na margem do
Ganges. Algumas vezes, sentava-se na porta de Udbodhan e ali comia. Depois de algum tempo, foi levado à
presença da Mãe, com sua permissão. Ela tratou de tranqüiliza-lo de várias maneiras, e disse: “O mestre
costumava dizer: ‘No momento da morte, estarei ao lado dos que oraram em meu nome’. Estas são palavras
saídas de seus próprios lábios. Tu és meu filho, que podes temer? Por que te conduz como um louco? Isso é uma
afronta ao Mestre. As pessoas dirão que Seu devoto se torna louco. Podes portar-te de maneira tal, que
desacredites o nome do Mestre? Vai a tua casa e vive como os demais. Come e vive com eles. No momento de tua
morte, o Mestre se revelará a ti e te levará com Ele. Podes dizer-me se alguém teve a visão Dele com os olhos
físicos? Só Naren (Swami Vivekananda) o viu desse modo, e foi na América do Norte. Ele sentia-se possuído de
um intenso desejo. Naren costumava sentir, então, que o Mestre o tomava pelo braço. Porém, essa visão durou
somente uns poucos dias. Agora vai a tua casa e vive feliz. Por quantos sofrimentos passam as pessoas
mundanas! Noutro dia faleceu o filho de Ram. Tu, pelo menos, podes dormir com o coração tranqüilo”.
Com estas palavras consoladoras e as instruções da Santa Mãe, o devoto se apaziguou. Logo comeu seu
almoço em Udbodhan e voltou a seu povo natal. Gradualmente, foi recuperando seu estado mental normal.

YARAMBATI

26 de maio de 1911
A Santa Mãe, depois de terminar sua peregrinação a Rameswaram, voltou a Calcutá, onde ficou poucos
dias, indo depois a Yairambati. Uma tarde estava sentada na galeria de sua velha casa e perguntou-me sobre certo
monge.
Mãe: Que te disse?
Discípulo: Por dois ou três meses sentiu um ardente desejo de ver-te.
Mãe: Que estranho! Um sanniasin (monge) deve cortar todas as ligações da maia. Uma cadeia de ouro é
tão grilhão como a de ferro. Um sanniasin não deve enredar-se em forma alguma da maia. Por que ele diz
constantemente: “Oh! O amor da Mãe! O amor da Mãe! Eu não tenho seu amor?”. Que idéia! Não gosto dos
homens que se apóiam constantemente em mim. Além de tudo, ele tem forma de homem e eu não estou falando
sempre de Deus? Eu tenho que estar entre as mulheres. Ashu também costumava vir freqüentemente onde
eu estava, para fazer pasta de sândalo ou com algum outro pretexto. Um dia eu a adverti.

O desejo é a sustentação do corpo

Discípulo: Os sanniasines, que professam os ideais da Vedanta, podem alcançar o Nirvana?


Mãe: Seguramente. Cortando gradualmente as ligações da maia, eles realizarão o Nirvana e se
submergirão em Deus. Este corpo sim, sem dúvida, é o resultado visível dos desejos. O corpo não pode viver, a
menos que haja algum vestígio de desejo. Tudo chega a seu fim, quando o homem se liberta totalmente, dos
desejos.
Os filhos (os devotos) vêm aqui, recebem sua comida, passam deliciosamente o tempo e se vão. Uma vez
Hazra disse ao Mestre: “Por que tem o Senhor constante e ardente desejo de ver Naren (Swami Vivekananda) e
aos outros rapazes? Eles sentem-se felizes comendo, bebendo e jogando. Seria melhor que o Senhor fixasse sua
mente em Deus. Por que o Senhor deve apegar-se a eles?”. Ao ouvir estas palavras, o Mestre tirou por completo
da mente, Seus jovens discípulos e a submergiu no pensamento de Deus. Instantaneamente entrou
em samadhi; Sua barba e Seu cabelo puseram-se de pé, como a flor do kadamba. Imagine que espécie de homem
era o Mestre! Seu corpo ficou rígido, como se fosse uma estátua de madeira. Ramlal, que O atendia, disse,
repetidas vezes: “Por favor, volte a Teu estado anterior”. Por fim, a mente do Mestre desceu aos planos normais.
Era só por compaixão pelas pessoas, que o Mestre mantinha Sua mente no plano material.

O Nirvana e outros estados de salvação

No momento de sua morte, Yoguin (Swami Yogananda), desejava o Nirvana. Guirish Babu disse-lhe: “Olha,
Yoguin, não aceites o Nirvana. Não penses no Mestre como penetrando o universo inteiro, tendo por olhos o sol e a
lua. Pensa no Mestre como costumava ser conosco; pensando assim Nele, o verás como Ele”. As deidades e os
anjos, sejam o que forem, voltam a nascer nesta terra. Eles não podem nem comer, nem falar, em seus corpos
sutis.
Discípulo: Se não comem nem falam, então como passam os dias?
Mãe: Mergulhados na meditação, eles permanecem onde estão por séculos, semelhantes a estátuas de
madeira! Como as estátuas dos reis que vi em Rameswaran, que estavam ali de pé, com seus trajes reais! Quando
Deus necessita deles, os faz descer como um Yama-loka, Satia-loka e Dhruva-loka. O Mestre disse que havia feito
descer Narendra (Swami Vivekananda) do plano dos sete sábios (sapta-rishi). Certamente, Suas palavras são
palavras védicas. Elas somente expressam a verdade.
Discípulo: Então, também nós teremos que viver como imagens de madeira ou argila?
Mãe: Oh! Não! Vocês servirão ao Mestre. Há duas espécies de devotos. Uma espécie dedica-se a servir a
Deus, nesta terra; outro grupo mergulha na meditação durante séculos, como as imagens.

Os iswarokotis podem voltar do Nirvana

Discípulo: O Mestre costumava dizer que os iswarokotis podem descer à consciência do plano relativo, até
depois de ter alcançado o Nirvana; outros não podem faze-lo. Que significa isto?
Mãe: Os iswarokotis, mesmo depois de alcançar o Nirvana, podem retroagir sua mente e dirigi-la ao plano
da consciência ordinária.
Discípulo: A mente que se submergiu em Deus, como pode ser trazida novamente a este mundo? Quando
a água de uma jarra foi jogada em um lago, como pode voltar a separar-se?
Mãe: Nem todos podem fazer isso. Só os Paramahansas podem fazê-lo. Um hamsa (cisne mitológico),
pode separar o leite que havia sido misturado com a água e beber só o leite.

Os desejos e a salvação

Discípulo: Podem todos se libertar dos desejos?


Mãe: Se todos pudessem, então a criação chegaria a seu fim. A criação segue existindo, porque nem todos
podem estar livres de desejos. As pessoas com desejos voltam a nascer muitas vezes.
Discípulo: Que acontece com um homem que morre nas águas do Ganges?
Mãe: Somente pode libertar-se de nascer de novo, aquele que não tem o menor vestígio de desejo. Não há
nenhum outro modo de alcançar isso. Mesmo quando for este o último nascimento neste mundo, que outra coisa
poderia conquistar-se, que ficar livre de desejos?
Discípulo: Mãe, esta criação é infinita; quem poderia dizer o que está acontecendo num plano remoto?
Quem pode saber se habitam seres viventes em alguns desses inumeráveis planetas e estrelas?
Mãe: É possível somente a Deus ser onisciente no reino da maia. Talvez não haja nenhum ser vivente
nestas estrelas e planetas.

Um dia, durante a estação das chuvas do mesmo ano de 1911, Swami Saradananda, Yuguin-Ma e Golap-
Ma, foram para Kamarpukur, desde Yairambati. Yoguin-Ma tropeçou no caminho e se cortou em várias partes do
corpo e suas feridas sangravam. Eu retornei a Yairambati, a cabeça da comitiva e informei à Santa Mãe do
acidente. Ela observou com pesar: “Antes deles partirem, Golap-Ma disse: ‘Yoguin vai conosco; veremos quantas
vezes tropeça no caminho’. Yoguin caiu para que se cumprissem as palavras de Golap. Depois de tudo, essas
eram palavras de uma mulher espiritual. Ela pratica disciplinas espirituais. Por isso, suas palavras devem dar
frutos, daí que uma pessoas santa não deve dizer coisa alguma a ninguém”.

UDBODHAN, CALCUTÁ

16 janeiro de 1912

Aceleração da evolução espiritual


Pela manhã, estive com a Santa Mãe, em sua casa. Disse-lhe: “Mãe, uma vez Sri Chaitania bendisse a
Naraiani, dizendo-lhe: ‘Que possas ter devoção a Krishna!’. Estas palavras tiveram tão mágico efeito que a menina,
que só tinha três ou quatro anos, girou pelo chão exclamando: ‘Ah! Krishna! Oh! Krishna!’. Temos lido também em
relato a respeito de Nárada. Depois que ele realizou a Deus, um dia sentiu compaixão por uma formiga. Disse a si
mesmo: ‘Eu alcançai a perfeição pelo resultado de haver praticado austeridades durante muitas vidas humanas, e
esta pobre formiga terá que esperar tento tempo, antes que nasça como ser humano!’. Ternamente, bendisse a
formiga, dizendo-lhe: ‘Seja livre’. Imediatamente, a formiga tomou formas não humanas, tais como as de pássaros,
bestas, etc. e, gradualmente, chegou a tomar o corpo de um homem. Passou por muitas vidas humanas,
desfrutando das experiências associadas a elas e, passo a passo, dirigiu sua atenção às disciplinas espirituais.
Adorou a Deus e alcançou a salvação. Num abrir e fechar de olhos, Nárada viu todos os eventos dessas
inumeráveis vidas. Por tanto, alguém pode ter instantaneamente a libertação por meio da graça de uma grande
alma”.
Mãe: Sim, assim é.
Discípulo: Porém, também se ouve que alguém não pode conservar muito tempo seu corpo, se aceita o
fardo dos pecados de outros. Esse corpo, que poderia ter sido instrumento para salvar a muitos, se esgota pelo
amor de uma só pessoa pecadora.
Mãe: Isso também está certo. Ademais, uma alma grande perde, deste modo, seu poder. O poder de
austeridades e disciplinas espirituais, que podiam ter sido utilizado para a libertação de muitas almas individuais, se
gasta por amor a uma só pessoa. O Mestre costumava dizer: “Tenho todos estes males físicos porque tomei sobre
mim os pecados de Guirish”. Mas, agora, Guirish também está sofrendo”.
Discípulo: Mãe, um dia tive um sonho. Vi que um homem de cabelo emaranhado se apresentou ante ti e
insistia que fizesse algo por ele, de imediato. Havia sido anteriormente iniciado por ti, mas não praticava nenhuma
disciplina espiritual. Tu disseste: “Se faço algo por ele, então, não viverei; meu corpo perecerá num instante”. Com
toda a força que pode reunir, tratei de impedir-te que cedesse a compaixão, dizendo-te: “Por que deves fazer algo
por ele? Tens que alcançar tua própria salvação. Que pratique sádhanas (exercícios espirituais)”. Como insistisse
uma e outra vez, tu te sentiste incomodada e fizeste algo por ele, tocando-lhe o peito e o colo, sempre repetindo:
“Se faço algo por ele, não viverei; meu corpo perecerá imediatamente”. Então meu sonho acabou. Bem, é certo que
o poder de alguém fica limitado, quando nasce em um corpo físico?
Mãe: Sim, assim é. Muitas vezes, enfastiada com os insistentes pedidos de algumas pessoas, penso: “Já
que este corpo morrerá um dia, que caia nesse mesmo momento. Que tenha ele a salvação”.

Significado da realização de Deus

Discípulo: Mãe, a visão de Deus significa o alcance do conhecimento (gñana) e a consciência


espiritual (chaitania)? Ou significa algo mais?
Mãe: Que mais pode significar senão o alcance disso? Pode alguém dizer que no homem de realização, lhe
crescem dois chifres?
Discípulo: Muitos de teus devotos falam diferentemente da visão de Deus. Eles crêem que alguém vê a
Deus com os olhos físicos e fala com Ele.
Mãe: Sim, eles dizem: “Mostra-me o Pai”. Mas Ele (Sri Ramakrishna) não é pai de ninguém. Estas três
palavras: Guru, Mestre e Pai produziam, em seu ânimo, a pungente sensação de uma espinha. Por séculos e
séculos, quantos praticaram austeridades! Não obstante, não puderam realizar a Deus. E agora as pessoas não
querem praticar disciplinas espirituais e nem fazer austeridades, porém, é mister mostrar-lhes Deus de imediato! Eu
não posso faze-lo. Podes dizer-me se Ele (Sri Ramakrishna) mostrou Deus a alguém?

Deus tem a natureza de um menino

Discípulo: Mãe, temos ouvido que alguns buscam, mas não conseguem, enquanto que outros não buscam
e conseguem. Como se entende isto?
Mãe: Deus tem a natureza de um menino. Alguns pedem, mas Ele não os dá; no entanto dá a outros, sem
que tenham pedido. Talvez estes últimos tenham feito muitos atos meritórios em suas vidas passadas. Por isso, a
graça de Deus desce sobre eles.
Discípulo: Então, até na graça de Deus há discriminação.
Mãe: Sim, assim é. Todas as coisas dependem do karma (nossas ações passadas). Tão logo como
o karma se esgota, se realiza Deus. Esse é seu último nascimento.

Reconhecimento de que Deus é o “mais íntimo”

Discípulo: Admito que a cessação das ações (karma-kshaia), as disciplinas espirituais e o tempo, são
fatores que favorecem o alcance do conhecimento e consciência espiritual. Mas, se Deus é o “mais íntimo” de
nosso ser, então não pode revelar-se a Seus devotos por sua mera vontade?
Mãe: Muito bem, mas quem tem essa fé de que Deus é o “mais íntimo”? Todos se submetem a esta ou
aquela disciplina por que crêem que é seu dever faze-lo, mas, quantos buscam a Deus?
Discípulo: Uma vez, eu te disse que até o próprio filho não reconhece a sua mãe, se ela não lhe presta sua
atenção e lhe dá seu carinho.
Mãe: Sim, tu disseste algo muito certo. Como pode amar a alguém se não o conhece? Por isso, tu me vês;
eu sou tua mãe e tu és meu filho.

1º de fevereiro de 1912

A renúncia do Mestre

Era aproximadamente nove e meia da noite, quando fui visitar a Santa Mãe. Durante todo o dia não a tinha
visto.
Mãe: Onde estiveste durante o dia inteiro?
Discípulo: Estive no andar térreo, ocupado com as contas.
Mãe: Alguém que renuncia a este mundo pode ter gosto por essas coisas? Uma vez cometi um erro na
liquidação dos honorários do Mestre. Pedi-lhe que falasse disso ao administrador do templo. Respondeu-me: “Que
vergonha! Devo incomodar-me com as contas?”. Outra vez disse-me: “Aquele que toma o ‘nome de Deus’, nunca
sofre de miséria alguma. Nem falar em teu caso!”. Estas são Suas próprias palavras. A renúncia era sua qualidade
distinta.

9 de fevereiro de 1912

Estado espiritual de quem morre não consciente

Guirish Chandra havia morrido na noite anterior. Sobre isso perguntei à Santa Mãe: “Mãe, aqueles que
abandonam o corpo em um estado de inconsciência, alcançam depois um estado espiritual mais elevado?”.
Mãe: O pensamento que predomina na mente antes que se perca a consciência objetiva, é esse que
determina o curso da alma individual depois da morte.
Discípulo: Sim, isso é certo. Um pouco depois das seis da tarde, Guirish Babu exclamou: “Yai
Ramakrishna!”. (Glória a Ramakrishna) e perdeu, em seguida, a consciência sensória. Depois, não voltou a
recobra-la. Uns minutos antes, dizia constantemente: “Vamos, vamos!... Suspenda-me um pouco, filho meu!”. Eu
lhe disse: “Por que dizes: ‘Vamos, vamos!’. (1) Melhor seria que repetisse o nome de Sri Ramakrishna, que te faria
realmente bem”. Disse-lhe isto duas vezes e Guirish Babu acrescentou: “Acaso não sei disso”. Disse a mim
mesmo: “Agora vejo, és plenamente consciente em seu interior”.
(1) Guirish Babu tinha o intenso desejo de que o levassem a margem do Ganges, na hora de sua morte. Por isso se expressava assim.
Seu irmão disse: “Acaso meu irmão necessita do Ganges para o bem-estar de sua alma?”.
Mãe: Permaneceu mergulhado no pensamento que tinha em sua mente, quando caiu aparentemente
inconsciente. Eles (referindo-se os discípulos de Sri Ramakrishna), vieram Dele e voltarão a Ele. Todos eles vieram
Dele; de Seus braços, pés, cabelos, etc. Eles são Seus membros e partes Dele.

21 de fevereiro de 1912
Eram sete horas da manhã. A Mãe estava sentada no piso, perto de seu leito. Swami Nirbhaiananda, que
tinha ido em peregrinação para Dwaeaka, havia enviado a Mãe algo de prasad do templo de Dattatreia, que fica
nas serras de Guinar.
Mãe: Quem era Dattatreia?
Discípulo: Como Yada-Bharata e outros, ele foi um grande sábio, um iswarakoti.
Mãe: Como alguns dos filhos do Mestre?
Discípulo: Sim. Agora, como é que alguns aswarakotis, entre os discípulos do Mestre, estão mergulhados
na vida mundana, com esposas e filhos?
Mãe: Sim, eles estão vegetando, estancados aí. Purna foi forçado a se casar. Seus parentes ameaçaram-
no, dizendo-lhe: “Se vais vê-lo (referindo-se a Sri Ramakrishna), lhe atiraremos pedras e pedregulhos quando vier a
Calcutá”.
Discípulo: Bem, eles tiveram que se casar. Nag Mahasaya também se casou. Porém, ter filhos e levar uma
vida mundana!
Mãe: Talvez tivessem alguns desses desejos. Direi-te uma coisa: esta criação é algo sumamente completa.
O Mestre faz uma coisa por meio de um homem e outra coisa por intermédio de outro. Oh! É tão inescrutável! Mas
um chefe de família pode ser iswarakoti. Qual pode ser o risco?

Radhu estava com dores e febre. A Mãe, preocupada por ela, disse: “Ela pode ficar bem, agora que eu
estou viva, quem cuidará dela quando eu me for? Seguirá vivendo, então?”.
Discípulo: Que multidão de devotos durante todo o dia! Não te dão fôlego.
Mãe: Dia e noite digo ao Mestre: “Diminui esta corrente de gente. Deixa-me ter um pouco de descanso”.
Mas dificilmente o consigo. Ocorrerá igual agora, durante os poucos dias que deixarei este corpo. A mensagem do
Mestre está espalhada por todas as partes; por isso tanta gente vem aqui. Uma multidão como essa visitava o
Mestre durante Seus últimos dias. Trato de persuadir as pessoas, dizendo veementemente: “Tomem a iniciação do
preceptor da família de vocês (kula-guru). Eles esperam algo de vocês; eu nada espero”. Mas não querem deixar-
me. Começam a chorar e comovem meu coração. Bem, estou aproximando-me do fim; os poucos dias em que
viverei, serão passados desse modo.
Discípulo: Oh! Não, Mãe! Por que dizes isso? Tu estás bem, não tens nenhuma doença particular. Por que,
então, queres deixar este mundo? Nunca voltes a dizer isto.

Nesta época, a Mãe parecia muito triste e indiferente a todas as coisas.


Ao meio-dia, tinha vindo um homem muito veemente a ver a Santa Mãe, e havia feito um escândalo.
Referindo-se a isto, a Mãe disse: “O Mestre não deixava ninguém saber de minha existência; protegia-me sempre,
com infinito cuidado. Agora, as coisas foram a outro extremo; fazem propaganda de mim como em pleno mercado
e a rufar de tambores. M. é a raiz de tudo isto. As pessoas estão como fora de si, depois de terem lido ‘Kathamrita’
(O Evangelho de Sri Ramakrishna). Guirish Babu, pela força, exigia que o Mestre atendesse às suas demandas e
abusava disso. Agora, as pessoas estão fazendo a mesma coisa comigo. Por que me incomodam sempre aqui
perto da iniciação? Ali, no Monastério de Belur, estão meus filhos (referindo-se aos discípulos diretos do Mestre).
Na têm eles nenhum poder? Todos os mandam pra cá. Eu vou tão longe e chego a dizer as pessoas que estão
incorrendo em um grande pecado, se abandonam o preceptor familiar, mas, mesmo assim, não me deixam”.
Discípulo: Tu inicias aos devotos porque quer faze-lo.

Um verdadeiro guru só inicia por compaixão

Mãe: Não, não faço por compaixão. Eles não se vão. Choram. Sinto compaixão por eles. Por bondade, os
inicio. Fora isso, que ganho eu com isso? Quando inicio os devotos, tenho que carregar sobre mim seus pecados.
Então, penso: “Bem, este corpo, de um ou outro modo, terá que morrer; portanto, que eles realizem a Verdade”.

2 de maio de 1912
Discípulo: Mãe, eu sinto que a vida não tem propósito, a menos que se tenha a visão direta de Deus. Uma
vez, perguntei a um fakir muçulmano: “Um homem se senta, com o caniço de pescar, na margem de um lago ou
rio. Nunca vai pescar num charco pantanoso. Teria o senhor um vislumbre daquilo pelo qual se fez um mendicante
religioso?”.
Mãe: Que disse ele?
Discípulo: Que poderia dizer?
Mãe: (Depois de um momento). Falaste corretamente. É certo. Que benefício tem um homem, se não
alcança certa espécie de realização? Mas, se deveria seguir tendo fé nas coisas espirituais.

Ardente desejo por Deus

Discípulo: Noutro dia, Sarata Maharaya contou que Swami Vivekananda também o havia reprimido,
dizendo: “Suponha que em uma casa há uma barra de ouro e que numa outra contígua, haja um ladrão que
consegue vê-la. Só há um tabique que o impede de pegar o precioso metal. Em tal situação, é possível que durma?
Pensará continuamente no modo de apoderar-se do ouro. Da mesma maneira, se um homem está firmemente
convencido de que há tal coisa chamada Deus, como poderá, em algum momento, entrega-se a vida mundana?”.
Mãe: Isso é muito certo.
Discípulo: Mãe, se pode dizer qualquer coisa, mas renúncia e desapego, são as coisas principais. Nunca eu
os alcançarei?

A renúncia de Sri Ramakrishna

Mãe: Certamente o alcançarás. Tudo o conseguirás somente tomando refúgio no Mestre. Uma renúncia
sem igual, era Seu esplendor. Nós tomamos Seu nome, comemos e gozamos das coisas, porque Ele renunciou a
tudo. Como foi um homem de tão completa renúncia, as pessoas pensam que Seus devotos também devem ser
muito grandes.
Ah! Um dia veio a meus pezinhos, em Nahabat. Como costumava mastigar especiarias, lhe dei algumas
para que as saboreasse no momento e, também, lhe pus outras em um pacote, para que as levasse a Sua
habitação. Quando se foi, vi que, em lugar de dirigir-se a sua habitação, foi diretamente para o Ganges. Não via o
caminho; estava inconsciente. Ia repetindo: “Mãe, terei que me afogar!”. Fiquei presa de uma enorme angústia. As
águas do rio transbordavam. Era, então, uma jovenzinha e não saía de minha casa. Não via ninguém por perto. A
quem mandar em seu auxílio? Por fim, vi um brahmin do templo de Kali, que vinha em direção de minha casa. Fiz
com que ele avisasse Hriday, que estava comendo. Hriday deixou a comida e correu imediatamente para onde
estava o Mestre, o agarrou e o trouxe de volta a sua casa. Um momento mais e haveria desaparecido no Ganges!
Discípulo: Por que o Mestre ia para o rio?
Mãe: Porque pus em Suas mãos umas poucas especiarias, não pode encontrar o caminho. Um santo não
deve guardar nada. Sua renúncia era cem por cento completa. Uma vez, um sadhu vaishnava veio
ao Panchavati. No princípio, mostrou uma grande renúncia. Mas, no final, como uma ratazana, começou a juntar
várias coisas: potes, vasos, jarras, arroz, lentilhas, etc. O Mestre notou isso e observou: “Que coisa! Dessa vez, vai
direto à ruína!”. Estava sendo apanhado nas redes da maia. O Mestre lhe fez uma série advertência sobre a
renúncia e logo lhe pediu que deixasse o lugar. Depois, este se foi.
Um devoto veio saudar a Mãe. Quando ia despedir-se, a Mãe disse-lhe: “Eu uma vez fiquei decepcionada
ao mostrar meu afeto a Harish. Por isso, agora não demonstro a pessoas nenhuma meus sentimentos para com
elas”.

1º de março de 1912
À tarde, subi para o andar superior, para ler as cartas a Santa Mãe.
Discípulo: A filha de um devoto escreveu da casa de seu sogro, dizendo que desejava vir vê-la. Enviou-te
suas saudações. Pede, também, que tenhas cuidado de que os parentes de seu marido não se interem de que ela
te escreve.
Mãe: Então, não lhes conte nada. Por outro lado, quer que eu oculte isso de seus parentes. Eu não sei
julgar desse modo e às escondidas. Em Yairambati, Yogindra, o carteiro, me escrevia as cartas. Muitos se
queixavam, dizendo: o carteiro vê nossas cartas? Eles desagradavam-se que eu pedisse a um homem de modesta
posição, que escrevesse as cartas. Por que? Em mim não há segredo algum. Qualquer um que deseje, pode ver
minhas cartas.
Outro devoto inquiria a respeito de quando regressaria a Santa Mãe a Yaorambati. Perguntei-lhe: “Posso
dizer-lhe que estará de volta pra lá do outono, para a celebração de Yagaddhatri Puya?”.
Mãe: Oh! Não, não! Quem pode estar seguro disso? A respeito de onde estarei, isso fica inteiramente nas
mãos de Deus. O homem hoje é, amanhã não é.
Discípulo: Oh! Mãe! Por que tens que falar assim? Graças a tu estares viva, é que tanta gente pode vê-la e
conseguir a paz mental.
Mãe: Sim, é certo.
Discípulo: Vive, embora só seja por nós.
Com voz terna, trêmula pela emoção, ela disse: “Ah! Quanto carinho têm eles por mim! Eu também os
quero muito”. Umas lágrimas umedeceram seus olhos. O discípulo estava abanando-a e ela continuou, com uma
voz cheia de compaixão: “Filho meu, te bendigo com todo meu coração, para que vivas longo tempo,
consigas devoção e desfrutes da paz. A paz é a coisa principal. A única coisa que alguém necessita, é paz”.
Discípulo: Mãe, há uma idéia que constantemente surge em minha mente: por que não alcanço a visão do
Mestre? Sendo Ele o “nosso mais íntimo”, por que não se revela a nós? Mão pode faze-lo por Sua mera vontade?
Mãe: É certo. Quem pode dizer por que Ele não se revela, sendo que vocês sofrem tantas angústias e
pesares? Uma vez, uma esposa de Balaram estava doente. O Mestre disse-me: “Vai a Calcutá visitá-la”. Eu
contestei: “Como irei? Não há nenhum veículo aqui”. Com voz firme, o Mestre replicou: “Que? A família de Balaram
está passando por um momento tão angustioso e tu vacilas em ir? Terás que ir caminhando a Calcutá; vá a pé”. Por
fim, encontrou-se um palanquim e saí para Calcutá. Visitei a enferma duas vezes, em outra ocasião, fui a pé, desde
Shyampukur. Realmente, que seria do homem se Deus não o protegesse de suas tribulações?
Discípulo: Vejo que enquanto o homem vive no corpo físico, sofrimentos e pesares são inevitáveis. Eu não
peço ao Mestre que tire os sofrimentos, mas, Ele não pode revelar-se a nós, por meio de nossas preocupações e
sofrimentos?

A realização espiritual depende da vontade Divina

Mãe: Tens razão, filho meu! O filho único de Ram e neto de Balaram, morreu outro dia. A esposa e a mãe
de Ram vieram aqui, para buscar a paz mental. Tiveram algum alívio em sua enorme dor. Eu costumava falar
dessas coisas e Ele dizia: “Tenho milhões como eles. Cortarei meu cabrito pela cauda e pelo lombo e logo o
matarei. É minha benévola vontade”.
Discípulo: Não vê Ele nosso sofrimento?
Mãe: Mas Ele tem tantos como vocês! Costumava dizer-me: “É o oceano a consciência e a felicidade.
Quantas ondas aparecem e desaparecem! Não há fim, nem limite!”.
Discípulo: O homem da rua, em quem a consciência espiritual foi despertada parcialmente e deseja realizar
Deus, sofre muitíssimo se não vem a Ele. Só eles sabem o quanto sofrem!
Mãe: Ah! Quão certo é! As pessoas comuns são muito felizes. Comem, bebem e se divertem. Só os
devotos não acham o fim dos seus sofrimentos.
Discípulo: Ao ver o sofrimento dos devotos, não sofre?
Mãe: Por que haveria de sofrer? Aquele que criou o mundo, vela por todos.
Discípulo: Não desejas voltar a esta terra em forma humana, por amor aos devotos?

Significado dos sofrimentos do Mestre

Mãe: Oh! Há tanto sofrimento no corpo humano! Basta, basta! Não queria nascer de novo! Quando estava
doente, o Mestre expressou o desejo de comer a fruta amalaka. Durgacharan conseguiu algumas, depois de
procurar durante três dias, sem comer, nem dormir. O Mestre pediu-lhe que participasse de Sua comida e Ele
mesmo comeu um pouco de arroz, para que a comida se tornasse prasad. Eu disse ao Mestre: “Tu estás comendo
muito bem o arroz, por que então, comes só sêmola com leite?”. Respondeu: “Não, não; tenho que comer mais
disso durante os últimos dias de minha vida”. Era tão insuportável o sofrimento que sentia mesmo comendo sêmola!
De vez em quando a expulsava pelo nariz...
O Mestre disse: “Tenho sofrido por todos vós. Tenho colocado sobre mim, as infelicidades do mundo
inteiro”. O Mestre sofreu quando tomou sobre si, os pecados de Guirish.
Todos nossos sofrimentos ocorrem nesta terra. Há algo mais em outra parte? As pessoas sofrem
intermináveis padecimentos devido a seu egoísmo e, ao final, disse: “Eu não sou, eu não sou; só Tu és, oh Deus!
Só Tu és”.
Discípulo: Nos manterás sempre em tua mente, no futuro?
Mãe: Talvez não, depois que eu deixe este corpo e desfrute da divina felicidade. Filho, o tempo é a coisa
principal. Quem sabe o que sucederá com o correr do tempo?
Discípulo: Certamente, Mãe, todas as coisas ocorrem, sem dúvida, sob o domínio do tempo; mas também
há um dominador do tempo.
Mãe: Sim, é certo.
Discípulo: Trates de manter-te bem; então, todas as coisas irão bem.
Eram oito horas. A Mãe perguntou: “São oito horas? Talvez já seja. É a hora de fazer o culto no templo.
Tenho que ir-me, agora”.
Subi com a correspondência. Um de seus discípulos havia falecido em Benares. A Mãe olhou a notícia e
falou: “Algum dia, todos devemos morrer. Em vez de morrer perto de um lago ou uma laguna, ele morreu em
Benares!”.
Seus irmãos haviam escrito, pedindo-lhe dinheiro e contando-lhe suas questões familiares. Eu disse-lhe:
“Faz com que eles tenham abundante dinheiro. Pede isso ao Mestre. Faz que eles gozem da vida material até a
saciedade”.
Mãe: Ficarão saciados, algum dia? Nada os satisfaz; não, nem sequer quando têm de sobra. Acaso as
pessoas mundanas se saciam, alguma vez, dos gozos? Eles sempre estão prontos para contar seus pesares. É Kali
(um de seus irmãos) que sempre necessita de dinheiro. Agora Prasana (outro irmão) o imita. Baroda (um terceiro
irmão), nunca pede dinheiro. Disse ele: “De onde vais tirar dinheiro de minha irmã?”.
Discípulo: Que passa com a senhora insana (cunhada da Santa Mãe)? Também ela pede dinheiro?
Mãe: Não, ela não aceita até quando lhe é oferecido.
Discípulo: Mãe, por que nasceste nessa família?
Mãe: Por que não? Meu pai e minha mãe eram muito bons.

25 de junho de 1912
Era de manhã. A Mãe estava sentada na habitação contígua ao templo. Estávamos conversando.

Lugar que ocupa o trabalho na vida espiritual; justificativa das atividades da Ordem Ramakrishna

Discípulo: Alguns dizem que é bom para os sadhus (faz-se referência aos da Ordem Ramakrihna) trabalhar
em Sevashramas.(Lares de Serviço) e dispensários, ou ocupar-se da venda de livros, fazer contas, etc. O Mestre
ocupou-se, alguma vez, de tais atividades? Aos aspirantes que entram na Ordem com o desejo de realizar Deus,
lhes obrigam a fazer trabalhos desta espécie. Tudo o que deviam fazer, era ocupar-se do culto no templo e dedicar-
se à meditação, o yapam ou a música devocional. Outras atividades que não sejam essas, os enredam aos desejos
e os afastam de Deus.
Mãe: Não deves dar ouvidos a quem fala dessa maneira. Que farias dia e noite, se não te ocupasses de um
trabalho? Alguém pode praticar meditação e yapam durante as vinte e quatro horas do dia? Tu mencionaste o
Mestre. Teu caso era diferente. Mathur lhe administrava uma dieta adequada. Vós podeis ter o necessário para
comer, porque fazem algum trabalho. Do contrário, teriam que mendigar de porta em porta, algum bocado. Talvez
caíssem doentes. Ademais, onde há gente, hoje em dia, que dá esmola aos sadhus? Nunca tenhas em conta tais
palavras. As coisas seguirão como foram dispostas pelo Mestre. O monastério se regerá por normas. Os que não
podem ajustar-se a elas, se irão. Uma vez, Mani Mullik foi visitar um sadhu. Ao regressar, o Mestre lhe perguntou:
“Qual é tua impressão? Gostou?”. Mani disse: “Sim, vi o sadhu, mas...”. O Mestre inquiriu: “Mas o que?”.
Respondeu Mullik: “Todos querem dinheiro” O Mestre disse: “Quanto necessita um santo? Talvez uma moeda para
o tabaco ou gania. Isso é tudo. Vós necessitais manteiga, leite, colchões e outras coisas desse estilo; e
os sadhus só pedem algo para fumar. Não deveriam ter isso?”.
Discípulo: Os gozos provêm somente do desejo. Um homem pode viver numa mansão de quatro andares,
mas não desfrutar de coisa alguma, se realmente não sente desejo por elas. E outro homem pode viver debaixo de
uma árvore, mas se tem desejo, surgirão nele todos os gozos. O Mestre costumava dizer: “Uma pessoa pode não
ter parentes em parte alguma, mas a Mahamaia pode impulsiona-lo a cuidar de um gato e isso o faz mundana. Tal é
Seu jogo”.
Mãe: É certo. Tudo é devido ao desejo. Que ligação há para o homem que não tem desejo algum? Vês? Eu
vivo rodeada de todas estas coisas, mas não sinto nem mais um mínimo apego.
Discípulo: Certamente, tu podes não ter desejo algum. Por outro lado, quantos desejos insignificantes
surgem em nossas mentes! Como podemos nos livrar deles?

Os desejos são reais e aparentes

Mãe: Neste teu caso, esses não são verdadeiros desejos. Não são nada. São meras fantasias que
aparecem e desaparecem na mente. Quanto mais venham e se vão, melhor será para ti. (1).
(1) Um sanniasin perguntou uma vez a Santa Mãe: “Tenho estado praticando disciplinas religiosas, sem diminuir meu esforço. Mas, parece que
as impurezas da mente não decrescem”. A Mãe disse: “Tens enrolado um carretel de fios de distintas cores: vermelho, branco e negro. Ao
desenrola-los, os vê exatamente o mesmo que antes”. Há duas espécies de desejos: um, que estimula os gozos e outro, que acelera o
desapego. Embora exteriormente pareça que são iguais, seus efeitos são diferentes”.
Discípulo: Ontem pensei: como posso lutar contra minha mente, se Deus não me assegura sua proteção?
Assim como um desejo desaparece, outro surge.

O aspirante tem a proteção Divina

Mãe: No tanto que o ego existe, também subsistirão os desejos. Porém, os desejos não te causarão dano.
O Mestre será teu protetor. Seria um tremendo equívoco de Sua parte não protegesse aqueles que renunciaram a
tudo e se refugiam em Seus pés. Deves viver entregando-te inteiramente a Ele. Que Ele te faça bem ou te afunde;
que se cumpra a Sua vontade. Só tu deves fazer o que é correto e isso também estará de acordo ao poder que Ele
te deu.
Discípulo: Mãe, entreguei-me a Ele até na mais mínima coisa; porém, no instante seguinte, esse sentimento
desaparece. Qual será o caminho adequado para nós, se Ele não nos protege? Às vezes penso que só porque tu
vives, podemos falar-te das dificuldades e riscos que nos espreitam e alcançamos paz em só contemplar teu rosto.
Mas, quem nos protegerá quando tu nos deixar? Só nos sentiremos firmes se tu nos dás essa segurança.
Mãe: Não temas, filho meu. Tu não tens nada que temer. Tu não levas uma vida mundana com esposa e
filhos. Não terás nada disso. Por que deves temer? E, com o tempo, antes de minha morte, serás capaz de construir
sólidos cimentos para tua vida espiritual.
Discípulo: De que nos serviram as austeridades e o yapam, se Deus não pousa sobre nós, Seu benigno
olhar? Só estaremos protegidos se Ele nos proteger.
Mãe: Nada tens que temer. O Mestre certamente te protegerá. Não te aflijas.

7 de julho de 1912
Discípulo: Mãe, não estava decidido que tu irias a Puri, para o festival do Carro?
Mãe: É bom ir lá, quando há tanta aglomeração de pessoas? Talvez se produza uma epidemia de cólera,
então. O sacerdote Lakshmikanta disse: “Nesse momento, já todas as casas e habitações foram alugadas. Não há
lugar onde parar. Até as habitações pequenas foram alugadas por dez rúpias cada uma. Melhor é que venhas
durante os meses de inverno”.
Discípulo: Quantos templos; quantos deuses e deusas foram destruídos pelos muçulmanos! Algumas
imagens tiveram cortados os narizes e orelhas... Aí está o templo de Somanath, em Guyarat. Os sacerdotes, em
outras épocas, costumavam banhar diariamente a Deidade com água do Gangotri. Todos os dias as pessoas
levavam água em potes, desde os Himalayas. O sultão Mohammed destruiu a imagem e levou as portas do templo,
que eram de sândalo. Por que acontece isso?
Mãe: Os malvados não sentem a Divina presença na imagem. A Deidade desaparece, por assim dizer, ante
eles. Ele pode fazer tudo o que quiser, por Sua mera vontade. Isto também é um jogo de Deus.
Discípulo: O efeito do karma pode anular-se se alguém se desligar de seu resultado? As escrituras dizem
que só o pleno conhecimento pode destruir o karma. Contudo, deve-se colher o resultado do prarabdha
karma (correspondente à vida atual).

Os efeitos do karma são inevitáveis, porém, as práticas espirituais pode mitigá-los

Mãe: O karma é o único responsável de nossa felicidade ou infelicidade. Até o Mestre teve que sofrer o
efeito do karma. Uma vez, seu irmão mais velho que se achava preso de alta febre e delirava, foi tomar água. O
Mestre arrebatou o copo de sua mão, logo que havia tomado um gole. O irmão irritou-se e disse: “Não me deixas
tomar água. Tu sofrias da mesma maneira. Tu terás também uma dor assim, na garganta”. O Mestre disse-lhe:
“Irmão, eu não tive a intenção de ferir-te. Tu estás doente. A água te faria mal. Por isso eu tirei o copo de sua mão.
Por que me maldizer desta maneira?”. O enfermo respondeu, chorando: “Eu não sei, irmão. Essas palavras saíram
de minha boca e não posso senão produzir seu fruto”. Na época de sua doença, o Mestre disse-me: “Tenho esta
úlcera na garganta, por causa daquela maldição”. Disse-lhe, como resposta: “Se uma coisa semelhante pode te
acontecer, então, como pode viver um homem comum?”. O Mestre disse: “Meu irmão era um homem reto. Suas
palavras tinham que refletir a verdade. Porém, acaso pode cumprir-se assim as palavras de todos e cada um?”.
O resultado do karma é inevitável. Mas, repetindo em nome de Deus, pode-se diminuir sua intensidade. Se
estiveres destinado a receber uma ferida como a feita pelo relho de um arado, só terás a picada de uma agulha.
Grande parte do efeito do karma pode ser resistido com o yapam e as austeridades. Tal foi o caso de Sinatha. Ele
havia rendido culto a Deusa, matando cem mil cabras. Por causa dessa matança, o rei foi morto de uma estocada.
Porém, não teve que renascer cem mil vezes. Assim foi, porque havia adorado a Divina Mãe. A repetição do santo
“nome de Deus” diminui a intensidade dos efeitos kármicos.
Discípulo: Se for assim, então a lei do karma é suprema neste mundo. E então, por que alguém deve crer
em Deus? Os budistas aceitam a lei do karma, porém não a Deus.
Mãe: Queres tu dizer que não existem deidades tais como Kali, krishna, Durga e outras deste tipo?
Discípulo: O efeito do karma pode ser destruído pelas austeridades e o yapam?
Mãe: Por que não? É bom fazer o que é correto. Alguém se sente feliz fazendo o bem e sofre quando faz o
mal...
Discípulo: Muitos devotos costumavam visitar o Mestre, onde estão eles agora? Nenhum deles vêm te ver.
Mãe: Oh, eles estão levando uma vida feliz!
Discípulo: Quê? Vivem felizes?
Mãe: Tens razão. Como pode um homem ser feliz neste mundo, com esposas e filhos? Eles esqueceram-
se de si mesmos, mergulhados como estão, na “mulher e no ouro”. Neste mundo, tudo termina em sofrimento.
Discípulo: Ademais, a mente tem a tendência de ir para fora.
Mãe: Kali, a Mãe do Universo, é mãe de todos. É só Ela quem causa o bem e o mal. Todas as coisas
saíram de sua matriz. Há diferentes espécies de seres perfeitos. Os que são perfeitos desde o momento do
nascimento; os que alcançam a perfeição pelas práticas espirituais; os que se tornam perfeitos pela graça de
Mestre e os que voltam perfeitos repentinamente.
Discípulo: Que quer dizer com se fazem perfeitos repentinamente?
Mãe: É como se tornar rico de repente, ou herdar a fortuna de alguém.
Nesse momento, Nalini, a sobrinha da Santa Mãe, depois de ter se banhado no Ganges, entrava na peça.
Tendo encontrado o urinol sujo, a havia lavado e, por isso, tinha ido banhar-se no Ganges, para purificar-se. O
discípulo e a Mãe opinaram que tinha sido suficiente banhar-se sob a chuva.
Nalini: Como seria isso suficiente? Depois de limpar o urinol!

A pureza depende da mente

Mãe: Em que consiste a diferença? Tu não tocaste no excremento. E se houvesses tocado, que tem isso?
Em nossos intestinos há excremento. O Mestre costumava dizer: “Guarda arroz, especiarias, manteiga, queijo,
coisas deste gênero em alguma vasilha, por uns poucos dias e comprovarás que começam a feder. O excremento
humano não é mais que isso”. Ele fez certas práticas para elevar-se por sobre todo tipo de aborrecimentos.
Eu também tive que me purificar por haver tocado sujeiras em diversas ocasiões. Repetia o nome de
Govinda (um nome da Divindade) quantas vezes e me sentia purificada. A mente é tudo. É na mente que alguém se
sente puro ou impuro. Um homem, antes que nada, tem a idéia de culpa em sua própria mente e, só então, pode
ver os defeitos dos demais. Acaso acontece algo à outra pessoa, se tu enumeras suas faltas? Isso só prejudica a ti.
Eu nunca tenho em conta os defeitos dos demais. Esta tem sido minha atitude. Por isso, não vejo as faltas de
ninguém. Se uma pessoa me faz o mais insignificante serviço, só trato de recordar isso. Ver as faltas alheias!
Alguém nunca deveria fazer isso. Eu nunca faço. O perdão é tapasia (austeridade).
Discípulo: Swamiyi (Swami Vivekanada) costumava dizer: “Suponha que um ladrão entre em tua casa e
roube algo. Em seguida, a idéia ‘ladrão’ surge em tua mente. Mas um menino não tem tal idéia. Por isso, ele não vê
ninguém como ladrão”.
Mãe: Isso é muito certo. Aquele que tem a mente pura, vê a pureza em todas as coisas... Alguém pode
nascer com uma mente pura, se cumpriu muita austeridade e prática espiritual em suas vidas anteriores?
Discípulo: Mãe, minha mente não encontra gosto ao fazer yapam e outras práticas espirituais.
Mãe: (sorrindo) Por que? Nem um pouco sequer?
Discípulo: Faço yapam com pouca vontade. Em seguida, penso: Para que serve este murmurar entre
dentes? Se Deus existe, está presente; melhor tratar de meditar.
Mãe: E podes meditar?
Discípulo: Não, tampouco posso faze-lo. Compreendo todas as coisas, mas não posso pô-las em prática e
conseguir paz. Alguém conhece muito bem o caminho que vai a Dakshineswar, mas, nem por isso, somos
capazes de percorre-lo a pé!
Lalit Babu entrou na habitação e saudou a Mãe. Entabulou-se, entre elas, uma conversação, na qual o
discípulo intervia, de vez em quando.
Mãe: o Mestre costumava dizer: “O caminho é extremamente difícil; é como o fio de uma navalha”. (Depois
de uma pausa). Mas Ele os sustenta a todos em Seus braços, e cuida deles.
Lalit: o Mestre nos levará em Seu regaço, depois da morte, há algo grande nisso? Se só nos tomasse nos
braços, enquanto estamos neste corpo!
Mãe: Ele os sustenta em Seus braços, estando mesmo neste corpo. Ele está sobre suas cabeças. Na
verdade, é Quem os custodia.
Discípulo: Nos sustém, realmente? Estás dizendo a verdade?
Mãe: (com firmeza). Sim, é a pura verdade.
A Mãe terminou o culto da manhã e repartiu entre os devotos o prasad, sobre folhas de shal. Logo, varreu a
casa. Ao levantar a vassoura, picou o dedo mínimo com um alfinete. O dedo começou a sangrar, causando-lhe
grande sofrimento. Ao perceber, o discípulo foi em sua ajuda. Alguém sugeriu que se pusesse suco de lima. A Mãe
sentiu-se aliviada e disse: “É realmente meu filho”.

BANARAS (BENARES)

Novembro de 1912
Em uma ocasião em que a Santa Mãe visitou a cidade de Banaras, teve lugar a seguinte conversação:
Discípulo: Todos os peregrinos tocam a imagem de Visvanath (Shiva). Por isso, à noite a banham. Logo os
sacerdotes adoram a Deidade e lhe oferecem comida.
Mãe: Os sacerdotes permitem às pessoas tocar a imagem por sua cobiça de dinheiro. Por que devem tocar
a imagem? É suficiente que a olhem de certa distância. De outro modo, também as pessoas imorais a tocam.
Há algumas pessoas, cujo toque me produz uma sensação de queimadura no corpo. É tão dolorosa. Por
isso, tenho que lavar as mãos e os pés quando eles me tocam. Por sorte, a afluência de gente aqui é menor que em
Kolicata (Calcutá).
Discípulo: Aqui as pessoas podem ver-te só depois de conseguir a permissão dos Swamis maiores. Isso foi
decidido para diminuir a afluência.
Mãe: Quem se preocupa por manter uma corte, por assim dizer, nos diferentes lugares?
Sua lunática cunhada importunava a Mãe até em Banaras.
Mãe: Talvez eu tenha adorado a Shiva com folhas de bilva com espinhos. É por isso que tenho este
espinho em minha vida, em forma de cunhada.
Discípulo: Como é isso? Que mal há em oferecer a Shiva folhas de bilva com espinhos, sem sabe-lo?
Mãe: Não, não. É extremamente difícil adorar Shiva. Faz mal a pessoa que comete um erro, até
inconscientemente. Porém, o fato é que, aqueles que nascem pela última vez, sofrem, nesta vida, os efeitos
do karma passado.
Eu não recordo haver cometido nenhum pecado desde meu nascimento. Encontrei-me com o Mestre aos
cinco anos de idade. Eu pude não tê-lo compreendido, então, mas, indubitavelmente, Ele me tocou. Por que devo
sofrer tanto? Tocando o Mestre, todos os demais se libertaram da maia. Por que só eu tenho tantos enredos? Dia e
noite minha mente quer voar para o alto. Eu me forço a baixar, por compaixão às pessoas. Contudo, me
atormentam tanto!
Discípulo: Deixe que façam o que queiram. Tem paciência conosco. Uma pessoa que é consciente de si
mesma, não pode agastar-te.
Mãe: Tens razão, filho. Não há virtude maior que a paciência. Este é um corpo de carne e sangue. Algumas
vezes posso dizer algo em um momento de desgosto.
Logo, como falando consigo mesma, a Mãe acrescentou: “Aquele que adverte a tempo, é um verdadeiro
amigo. De que serve dizer: ‘Ah!’, quando o momento oportuno passou?”.

11 de dezembro de 1912
Enquanto estava em Banaras (Benares), a Mãe costumava escutar a leitura de “Kashi Khanda”. (1)
(1) Um relato de Shandra Purana (escritura religiosa hindu) que se refere especialmente a Banaras .
Uma tarde, depois que foi terminada a leitura, entrou em conversa com um discípulo.
Discípulo: Todos os que morrem em Banaras alcançam a libertação?
Mãe: As escrituras dizem que sim.
Discípulo: Qual é a experiência direta? O Mestre viu que Shiva mesmo sussurrava a palavra sagrada (Tarad
Brahma) aos ouvidos dos mortos.
Mãe: Eu não sei, filho; não vi nada disso.
Discípulo: Eu não posso acreditar, a menos que ouça algo de ti a respeito.
Mãe: Direi ao Mestre: “R, não quer acreditar. Por favor, mostre-me algo sobre isto”.
Eu me referi a destruição dos templos em muitos lugares da Índia, durante a invasão muçulmana, e disse:
“Houve tanta opressão! Que fez Deus para impedi-los?”.
Mãe: Deus tem infinita paciência. As pessoas adoram Shiva, jogando dia e noite jarras de água sobre a
cabeça da Deidade. Isso o afeta o mínimo? Ou adoram, cobrindo a imagem com tecidos. Mas, se sente Ele
incomodado por isso? A paciência de Deus não tem limites.

A morte em Banaras conduz à salvação

Na manhã seguinte a Santa Mãe disse a K. Marahaya: “A noite estava desperta em minha cama, quando,
de repente, vi a meu lado a imagem de Naraiana, do templo de Seth, em Brindavan. Tinha no colo uma guirlanda
de flores que chegava até os pés. Vi também o Mestre que estava de pé, com as palmas das mãos juntas,
frente a imagem. Pensei: ‘Como posso ver aqui o Mestre?’ . Disse-lhe: ‘R. não quer acreditar’. O Mestre disse:
‘Deve crer. Tudo isto é verdade’. Quis dizer que alguém que morre em Banaras, alcança a libertação. Essa imagem
de Naraiana disse-me outras coisas. Uma é: ‘Pode alguém alcançar o conhecimento da Realidade, a menos que
conheça a verdade sobre Deus?’. A outra coisa, não recordo”.
K. Maharaya: Por que o Mestre estava de pé ante a imagem de Naraiana e com as mãos juntas?
Mãe: Essa era Sua atitude característica. Ele era humilde ante todos.
Eu visitei a Mãe no dia seguinte e fazendo referência à conversa anterior, perguntei-lhe: “Por favor, diga-me
se morrendo em Banaras, alguém alcança a libertação. Que tu já viste?”.
Mãe: As escrituras dizem isto. Ademais, tanta gente vem aqui com essa fé! Que outra coisa pode acontecer
a uma pessoa que se refugiou no Senhor?
Discípulo: É certo que, desde cedo, aqueles que tomaram refúgio em Deus serão libertados. Mas tomemos
o caso de quem não se entregou a Deus, não são Seus devotos e pertencem a outras religiões, se libertarão
também eles se morrem em Banaras?
Mãe: Sim, eles também. Banaras está saturada com o espírito de Deus. Todos os seres viventes deste
lugar, até as traças e os insetos, estão cheios de consciência divina. Qualquer ser que morra aqui – seja devoto ou
ateu, ou pertença a qualquer outra religião, até um inseto ou uma traça – será libertado com toda a segurança;
Discípulo: Estás dizendo a verdade?
Mãe: Sim, é a verdade. De outra maneira, como se explicaria a glória deste santo lugar?
Havia ali uns doces que haviam sido oferecidos ao Senhor. Uma mosca, revolteando ao seu redor, pousou
finalmente, sobre meu braço. Indicando a mosca, disse: “Até esta mosca?”.
Mãe: Sim, até essa mosca. Todos os seres viventes deste lugar estão cheios do espírito de Deus. Bhudev
queria levar para sua casa duas mariposas que estavam em um ninho, sob a escada. Eu disse-lhe: “Não, não; não
deves levá-las. Elas são moradoras de Banaras”. Há umas mulheres de Bengala que estão vivendo em
Bengalítola. Acaso elas não sentem amor por seus lares e propriedades, por seus amigos e parentes? Mas vieram
aqui para que seu último suspiro seja exalado em Banaras. Elas carecem de apego e têm tanta sabedoria!
Discípulo: Vês? Quão espiritual é a gente desde Bengal!
Mãe: Sim, é certo. A gente de nosso distrito carece de sabedoria espiritual. Toma o caso do sogro de
Radhu. Sua família tem uma casa em Banaras. Contudo, os membros da família se assustam, só ao se mencionar
o nome de Banaras. Imaginarem que não vão morrer, se aferrarem-se a seu povo natal. Porém a morte nos
acompanha sempre, como nossa própria sombra.
Discípulo: Estás realmente dizendo a verdade, quando dizes que quem morre aqui, alcança sua libertação?
Mãe: (em forma determinante) Não posso jurar ante ti três vezes. Jurar uma só vez já é bastante mal. Jurar
três vezes! E aqui em Banaras!
Discípulo: (sorrindo) Faça com que eu morra em Banaras. Neste caso, onde estarás tu, e onde estarei eu?
Já não nos veremos.
Mãe: (sorrindo) Que bobagem! Dizer que não queres morrer em Banaras.
Discípulo: Mãe, ver é crer. Alguém crê em algo quando pode ser corroborado pela percepção direta.
Mãe: Que outra coisa pode fazer, se não crês nas palavras dos homens de alma elevada? Há algum outro
caminho, senão aquele percorrido pelos sábios espirituais, seres realizados e numerosos santos?
Discípulo: Nenhum outro há! Que outra coisa posso fazer, senão escutar a quem realizou a meta espiritual
por percepção direta? É por essa razão que te perguntei. Só te deixarei, quando me tenhas dado uma confirmação
direta.
Mãe: Por acaso importa a Deus, que tu acredites ou não? Até o sábio Sukadeva foi para Ele, em suma, uma
grande formiga. Ele é o infinito. Quanto podes tu compreender Dele? Nosso Mestre foi um homem de percepção
direta. Suas palavras são palavra dos Vedas. Se não acreditas em Suas palavras, que farás?
Discípulo: As escrituras diferem. Algumas dizem “isto” e outras “aquilo”. Qual delas devemos aceitar? É por
isso estou incomodando-lhe com perguntas.

Às vezes as escrituras não são seguras

Mãe: Sim, é certo. O almanaque faz anúncio de chuvas, mas não conseguirás nem uma gota de água
espremendo suas folhas. Ademais, as escrituras também estão cheias de coisas inúteis. Não se pode observar ao
pé da letra, os preceitos das escrituras. O Mestre costumava dizer: “A devoção (bhakti) que está cercada pelos
preceitos das escrituras, dificilmente justifica seu nome...”.

A verdade e a salvação

Neste koli yuga (época ou idade obscura), alcança-se a Deus aderindo-se, simplesmente, à Verdade. O
Mestre dizia: “Aquele que só diz a verdade, está sentado no regaço de Deus”. Quando o Mestre estava doente, em
Dakshineswar, eu fazia servir duas libras de leite para Ele, dizendo que era uma. Não queria que soubesse da
quantidade justa. Um dia chegou a sabe-lo e disse-me: “Que é isto? Adere-te a verdade. Tu vês, tenho dores
intestinais porque estou tomando muito leite”. Com grande surpresa notei que naquele mesmo dia, sofreu de
transtornos intestinais. Ele tinha todos os poderes, mas não ocorreu o mesmo conosco.
Discípulo: Ao fazer todas estas perguntas e falar desta maneira, não responde ao meu interesse particular.
Eu não me preocupo muito por mim. Meu sentimento sobre Ele é distinto. O que quero saber é isto: eu me dirijo a ti
como a minha mãe; és realmente minha mãe?
Mãe: Quem sou, então? Sim, sou tua própria mãe.
Discípulo: Tu podes dizer isso, mas eu não o vejo com clareza. Natural e espontaneamente, reconheço
como minha mãe, aquela que me deu o ser. Porém, posso pensar de ti da mesma maneira?
Mãe: Ah, está muito certo tudo isso!
Alguns momentos depois, acrescentou: “Filho meu, só Ele é nosso pai e mãe. Só Ele é pai e mãe”.

Dezembro de 1912
Discípulo: Que necessidade há de fazer tapasia (austeridade)?
Mãe: É muito necessário. Olha quanto jejum faz Yoguin mesmo agora. Ela pratica intensa austeridade.
Golap é uma adepta do yapam. Um dia, a mãe de Naren (Swami Vivekananda) veio visitar-me. Naren disse-lhe:
“Talvez tu tenhas praticado muitas austeridades, por isso tens Vivekananda como filho. Repita-as, e então, poderá
ter outro...”.
O Mestre praticou toda espécie de disciplinas espirituais. Disse: “Eu fiz o molde; vós, agora, podeis forjar a
imagem”.
Discípulo: Que significa forjar a imagem?
Budhev: Significa meditar no Mestre e modelar nossa vida conforme esse molde.
A glória da personalidade do Mestre

Mãe: Sim, ele compreendeu. Forjar a imagem significa meditar no Mestre; pensar nos variados episódios de
Sua vida. Meditando Nele, pode-se realizar todos os estados espirituais. Ele disse: “Quem me recorda, nunca
sofrerá por falta de alimento e de outras privações físicas”.
Maku: Ele mesmo disse isso?
Mãe: Sim, essas são justamente as palavras que saíram de Sua boca. Recordando-o, a pessoa se libera de
todo seu sofrimento. Não vês que todos Seus devotos são felizes? Em nenhuma parte encontrarás devotos como
os do Mestre. Aqui em Banaras eu vejo tantos santos, mas, podes indicar-me um que seja como Seus devotos?
Discípulo: Existe uma razão, Mãe. Próximos do Mestre, sentimos com se estivéssemos em pleno mercado.
Todos os detalhes do mercado estão ali; as pessoas se movem ao seu redor. Os devotos e discípulos íntimos do
Mestre vivem, todavia. Nós sentimos que O Mestre está, por assim dizer, muito perto de nós. Não foi muito longe.
Se o chamamos, nos responderá.
Mãe: Sim, muita gente tem Sua resposta.
Discípulo: Krishna, Rama e outros, os recordamos como pertencendo a uma época remota. Não estão
suficientemente próximos para responder a nosso chamado.
Mãe: Sim, é certo.
Referindo-se a quinta de Cossipore, o discípulo disse: “É um lugar sagrado. Agora vive ali um cavalheiro
europeu”.
Mãe: Na quinta de Cossipore, o Mestre passou os últimos dias de Sua vida. Esse lugar está associado a
tanta meditação, samadhi (a mais elevada absorção espiritual) e práticas de austeridades. Ali o Mestre entrou
em mahasamadhi. É um lugar saturado de intensa vibração espiritual. Meditando ali, realiza-se a Consciência
Divina. Esse lugar pode ser adquirido se o Mestre, em sonhos, dá mandato ao proprietário, para que o doe ao Math
de Belur.
A Mãe falou dos discípulos do Mestre. O discípulo falou: “Quem são estes discípulos do Mestre? Nós
não podemos reconhece-los”.
Mãe: Acaso eu não sei? Mas o certo é que, os que nasceram com o Mestre em Suas encarnações
anteriores, o acompanharam, também desta vez.
Discípulo: Eu não tenho desejos tais que como o de ver uma Deidade com quatro mãos, ou coisas desse
gênero. Estou completamente satisfeito com o que temos.
Mãe: Igual coisa passa a mim. Que conseguimos em ter essas visões sobrenaturais? Para nós, o Mestre
existe e Ele é tudo.

YAIRAMBATI

Março de 1913
Às quatro horas da tarde, chegaram o doutor Lalit, de Shiambazar, e Prabodh Babu. Saludarom e a Mãe e
logo teve lugar a seguinte conversação:
Lalit Babu: Mãe, que regras devemos observar a respeito do alimento?

Acerca do alimento puro e impuro

Mãe: Não se deve comer o que se oferece aos ritos funerários (cerimônia sraddha). Essa comida é
prejudicial à vida devocional. Sri Ramakrishna proibia de come-la. Por outro lado, ofereçam a Deus tudo o que
comem; não devem comer o alimento que não tenha sido ofertado. Tal como a comida, assim será o sangue. O
alimento puro produz sangue puro, mente pura e força. Na mente pura, nasce o amor extático (prema bhakti).
Lalit Babu: Mãe, nós somos chefes de família. Que devemos fazer durante a cerimônia sraddha cumprida
para nossos familiares?
Mãe: Assiste a cerimônia e preste ajuda a teus parentes, para que não se ofendam; mas trata de qualquer
modo, de não comer nesse dia. Se não podes fazer isso, coma e que se oferece a Vishnu, ou a outra deidade.
Prabodh Babu: Mais de uma vez, sobram alimentos da cerimônia sraddha, pode alguém cozinha-los e
come-los?
Mãe: Sim, pode faze-lo. Não te prejudicará, filho meu. Um homem do lar não pode evitar fazer isso.
Praboth Babu: Mãe, como o Mestre amava a renúncia, nós, quão pouco o praticamos!

O progresso espiritual é gradual

Mãe: Sim, mas pouco a pouco o conseguirão. Progrides um pouco, nesta vida, um pouco mais, na próxima
e assim como puderem. É só um corpo que muda. O atman é sempre o mesmo. “Renúncia da ‘sexualidade e do
ouro”. O Mestre disse uma vez: “Posso cobrir de ouro Kamarpukur, se assim desejar, somente pedindo a Mathur
que o faça. Mas, que bem isso fará? Tudo é transitório”. Referindo-se a alguns devotos, o Mestre assinalava: “Olhe,
não tem desejo por coisa alguma. Esta é sua última vida”.
Lalit e Prabuth Babu se prosternaram ante a Mãe e se foram.

Estão qualificados os sudras e as mulheres para levar vida monacal?


Falando de objeções que alguém havia feito sobre alguns dos discípulos de Sri Ramakrishna por
seus sudras (casta inferior) estar ou não qualificados para a sanniasa, de acordo com as regras ortodoxas, a Mãe
disse: “Os discípulos de Sri Ramakrishna são gñanis (conhecedores do Supremo) e, por tanto, sanniasines.
Um gñani pode ser um sanniasin. Vejam o caso de Gourdasi. Uma mulher não pode ser iniciada na sanniasa,
porém, é Gourdasi uma mulher? Ela é mais que um homem! Quantos homens se parecem com ela! Vejam tudo o
que ela fez; construiu uma escola, adquiriu cavalos, uma carruagem, etc. o Mestre disse: “Se uma mulher abraça
a sanniasa, não é, certamente, uma mulher, senão um verdadeiro homem!”. Ademais, Ele disse a Gourdasi: “Eu
estou vertendo água; tu prepararás a argila”.

28 de março de 1913
Era de manhã. A Mãe estava cortando kalmai e outra hortaliça. O discípulo, ao perguntar o que era,
respondeu: “É uma espécie de hortaliça. Krishna tinha a mesma cor”.
A Mãe de Radhu tinha colocado um vaso de água e uma planta (folhas que se utilizam para enfeite) na
galeria, para servir a comida a um de seus familiares. Um gato tomou água do vaso. A mãe de Radhu trocou a
água. O gato voltou a tomar da água e ela a trocou. Quando o gato tomou a água pela terceira vez, a mãe de
Radhu o perseguiu, gritando: “Tu, malvado, gato cara queimada, vou te matar!”. Fazia muito calor. A Mãe disse:
“Não, não. Não deves impedir que um animal com sede tome água. Ademais, o gato já tocou a água”. Ouvindo
isso, a mãe de Radhu gritou, muito irritada: “Não deves mostrar-se compassiva com o gato. Já tens sido muito
compassiva com os homens! Por que não guardas tua compaixão para com os homens?”.
A Mãe disse, em tom sério: “Desventurado aquele que não ganha minha compaixão. Não há ninguém, nem
sequer um inseto, por quem eu não sinta compaixão”.
À noite, a Mãe preparou “carry”, papas e algumas verduras. Quando serviu a comida para o discípulo,
disse: “Come isto e diga-me se gostas”.
Discípulo: Esta comida é para os doentes. Quem a preparou?
Mãe: Eu mesma.
Discípulo: Bem, poderia ser feita melhor. Não tem o sabor da que preparam no lugar de onde vim.
Mãe: Melhor seria que provasses o jogo.
Nalini: Tia, tu nunca pões pimentão no “carry”, como as pessoas podem gostar dele?
Mãe: (a Nalini) Não faças caso. (Dirigindo-se ao discípulo) A medida em que vais comendo, encontrarás
bom sabor.
Discípulo: Durante vários dias eu desejava provar os “carries” que tu preparavas; provei alguns, mas todos
têm o mesmo sabor.
Mãe: Muito bem, um dia vou cozinhar como fazem em teu povo. Deve dizer-me como prepara-los.
Seguramente que lhes põem uma grande quantidade de pimentão picante, não é assim?
Discípulo: Não tanto. Mas o “carry” não tem gosto ruim, só porque é picante.
Mãe: (a Nalini) Amanhã me traga um pouco de gram. Vou preparar uma sopa. Eu sabia cozinhar muito
bem, mas agora perdi o jeito. Em Kamarpukur, a mãe de Lakshmi e eu cozinhávamos juntas. Ela cozinhava muito
bem.

12 de maio de 1913

Radhu estava indisposta, achando-se de cama, com dores e febre. Sua mãe, que era uma mulher insana,
começou a aborrecer a Santa Mãe, dizendo: “Vais matar a minha filha com os remédios!”. Perdeu todo controle
sobre sua língua e a um momento, veio Baroda para leva-la a sua casa. A Mãe não podia mais suporta-la e lhe
disse algumas palavras cortantes. Logo, dirigindo-se ao discípulo, disse: “Eu tive um marido que nunca usou, em
seu tratamento comigo o “tu” (pronome que se usa com os inferiores)... E olha a mãe de Radhu! Como me insulta
dia e noite! Não sei que pecado cometi para merecer tudo isto. Talvez tenha adorado a Shiva com folha
de bilva com espinhos. O espinho, agora, converteu-se para mim neste espinho que é a mãe de Radhu”.

Não é bom morrer de uma doença pela qual não foi feita nenhuma penitência

Referindo-se à doença de Radhu, a Santa Mãe disse: “Minha mente não se sente atraída por Radhu nem
um pouco. Estou farta de sua enfermidade. Forçando-a, obrigo a minha mente a ocupar-se dela. Peço ao Mestre:
Oh, Senhor! Dirige um pouquinho minha mente para Radhu; do contrário, quem se ocupará dela?. Nunca vi uma
doença como a sua. Talvez na vida passada, tivesse morrido de uma doença pela qual não fez nenhuma
penitência. Se uma pessoa morre de uma doença particular, sem fazer a penitência necessária, na vida seguinte
volta a ter a mesma doença (1); mas esta regra não vale para os santos”.
(1) A idéia é que a doença tenha sua causa em um karma. No caso de ser a última doença, pode ser que alguém morra antes de haver
esgotado totalmente o karma e, então, tem que sofrer o resto desse karma na próxima vida, cujo sofrimento toma a forma da velha enfermidade.
Por isso é que se deve fazer penitência, caridade, adoração, etc., como expiação do próprio karma pecaminoso dessa última doença e, assim,
evitar o efeito desse karma.
Mãe de Kedar: O monge morre repetindo o nome de Deus, por isso, alcança a Deus.
Mãe: Sim, é certo. Noutro dia morreu um jovem em Kwalpara. Voltará a nascer? Não, esta foi sua última
vida.
Quando estava doente em Cossipore, o Mestre disse, um dia: “Os sacerdotes do templo de Kali talvez me
critiquem porque não faço nenhuma penitência”. Logo, disse a Ramlal: “Toma dez rúpias e vá a Dakshineswar.
Ofereça-as a Mãe Kali e logo as distribua entre os bhahmines e outros”. Um sadhu não tem obrigação de fazer
nenhum ritual. É por isso que o Mestre mandou a Ramlal para que oferecesse as moedas à Deidade eleita e logo
as distribuísse entre os brahmines e outros. Antigamente os ermitãos e os rishis, viviam nos bosques, como podiam
fazer penitências tais como o chandraiana? Eles ofereciam frutas ao Ideal Escolhido e logo distribuíam as mesmas,
entre os necessitados. Isso era suficiente.
Mãe de Radhu: Minha tia morreu de certa doença. Queres dizer que ela teve que nascer com a mesma
doença?
Mãe: Credes que tua tia voltou a nascer? Seguramente que nasceu de novo e herdou a mesma doença.
Com freqüência, uma pessoa nasce e morre repetidas vezes em uma mesma família, por causa de seu karma.

8 de junho de 1913

O Mestre com relação ao Ideal Escolhido

Pela manhã, depois de ter se banhado, Surendranath Bhanwick e o doutor Durga Prasad, foram saudar a
Santa Mãe. A Mãe os abençoou, pondo a mão sobre a cabeça e logo lhes pediu que se sentassem. Depois de
trocar algumas palavras, Surendra disse: “Mãe, ao fazer o culto ao Mestre, tenho dificuldade. Suponha que um
devoto tenha a crença de que seu Ishtam Devata (Deidade Escolhida) e o Mestre são a mesma coisa. O devoto
adora a Deusa, através da imagem do Mestre. Depois faz entrega do fruto do Yapam à imagem do Mestre,
pronunciando as palavras: ‘Oh, Grande Deusa, por tua graça, etc.’. Isto produz uma confusão em minha mente”. A
Mãe aclarou: “Não te preocupes, filho meu, Nosso Mestre é Mahesvara (Supremo Deus) e Mahesvari (Suprema
Deusa) também. Ele é a personificação de todas as deidades e de todas as sílabas místicas. Alguém pode adorar,
através Dele, a todos os Deuses e Deusas. Tu podes dirigir-se a Ele chamando-lhe Mahesvara e
também Mahesvari”.
Surendra: Mãe, eu não posso concentrar a mente na meditação, nem o mais breve tempo.

Olhar a fotografia do Mestre, se não puder concentrar

Mãe: Não importa tanto. Será suficiente olhar a fotografia do Mestre. Quando o Mestre estava doente em
Cossipore, Seus jovens discípulos se revezaram para atende-lo. Gopal estava ali, também. Um dia, em lugar de
servir o Mestre, foi meditar, permanecendo assim por longo tempo. Ao inteirar-se disso, Guirish Babu observou:
“Aquele em quem Ele medita com os olhos fechados, está sofrendo na cama; e coisa bastante curiosa, Gopal foi
meditar Nele”. Alguém foi buscar Gopal. O Mestre pediu-lhe que fizesse massagens nas pernas, dizendo-lhe: “Crês
que estou pedindo que me faças massagem nas pernas porque doem? Oh, não! Em tuas vidas
passadas fizeste muitos atos virtuosos, por isso aceito seus serviços”. Contempla a fotografia de Sri Ramakrishna;
isso será suficiente.
Surendra: Mãe, eu não consigo passar o rosário, regularmente, três vezes ao dia.
Mãe: Não te aflijas. Pensa no Mestre. Quando puderes, pratica o yapam; ao menos saúde mentalmente o
Mestre, não é assim?
Durga Babu: Mãe, não entendo bem que regras se devem seguir a respeito de sua própria comida.

Até onde se deve observar regras de pureza sobre a comida?

Mãe: E quanto à comida, o Mestre era muito singular em uma coisa. Proibia a todos os devotos comer das
oferendas feitas nas cerimônias de sraddha. Costumava dizer que esse alimento prejudicaria a devoção. Fora isto,
podes comer o que queiras; mas lembre do Mestre, quando o fazes.
Durga Babu? Mãe, enquanto cumpro com minhas tarefas no hospital, muitas vezes tenho sede e obrigo-me
a tomar água sem me dar conta do lugar ou das pessoas que me rodeiam. Qual tua opinião sobre isto?
Mãe: Que outra coisa pode fazer? Enquanto toma água, recorda o Mestre. Como é possível aos que tem
distintos e variados deveres a cumprir, observar as prescrições religiosas a respeito da comida? (1).
(1) Esta parte da conversa poderá ser entendida se levar em conta que as regras estabelecidas nas escrituras védicas, dão muita importância à
pureza da comida para os aspirantes espirituais. Sendo que as energias vitais do corpo são renovadas pelo alimento consumido e sendo que as
energias vitais condicionam o funcionamento da mente, o alimento que se ingere, tem seu efeito nesta. O alimento contaminado se torna
impuro, não só por razoes de higiene, mas também por suas qualidades e contatos. Certos elementos alimentícios estão proibidos por ter sido
obtido prejudicando outras criaturas, ou por experiências que se sabem, conduzem à excitação mental. O motivo e caráter do doador, assim
como da pessoa que o prepara, se diz que é o que faz impuro um alimento. Antigamente, estas normas éticas e espirituais, estavam petrificadas
nas rígidas regras da casta, como proibições. A Santa Mãe parecia não prestar demasiada atenção às regras da casta, porem aceitava a validez
dos princípios originais espirituais que há por detrás delas.
Suredra: Nós que somos do lar, vivemos com a família, entre muitos parentes. Algumas vezes, acontece
que enquanto a comida está cozinhando, alguém a prova; logo trazem-na a mim. Mas eu titubeio em oferecer essa
comida a Deus.
Mãe: Isso é inevitável, no caso dos homens do lar. Nós também temos que passar por situações similares.
Por exemplo, pode haver uma pessoa doente na família e parte da comida deve ser guardada para ela. Mas,
quando lhe trazem a comida no prato, recorda o Mestre, pensa que Ele é quem proporcionou o alimento e come-o.
Desta forma, não haverá nenhum efeito prejudicial ao desenvolvimento de tua devoção.
Surendra: Mãe, como pode descrever à senhora, minha condição mental? A senhora é uma guia interior: a
senhora sabe tudo. Passou por tantos sofrimentos durante os últimos anos, que a não ser pelas suas bênçãos, já
estaria morta nesta data.
Mãe: Sim, filho meu, não precisa falar-me dos sofrimentos nesta vida do mundo. Não tem limite. No teu
caso, são inevitáveis. Fixa em mim, filho, que espécie de vida tenho que levar pela vontade do Mestre! Quanto
tenho que sofrer por causa desta moça! (Referia-se a Radhu).
Surendra; Sim, Mãe; tua própria condição nos dá consolo e esperança. A senhora conhece os sofrimentos
deste mundo; por isso, podemos esperar sua compaixão.
Mãe: Não temas, filho. O Mestre está aqui. Só Ele os protegerá aqui e mais além!
Surendra: Mãe, nós vivemos tão longe. São reais os sonhos?
Mãe: Sim, são reais. Os sonhos referentes ao Mestre são reais. Mas, Ele proibiu que Seus devotos
o narrem até a Ele mesmo, os sonhos referentes a Sua pessoa.
Surendra: Mãe, nós não sabemos como era o Mestre. Não o vimos. Assim que, para nós, a senhora é o
Mestre e tudo o mais.
Mãe: Não temas nada, filho; o Mestre te cuidará. Ele te custodiará em todo lugar e te protegerá sempre.
Depois do almoço, os devotos despediram-se. O “tio Baroda” foi-se com eles. A Mãe os acompanhou um
trecho e ficou olhando-os, até que desaparecessem de vista.
Surendra era diretor de uma escola, em Ballaratangani. Alguns açougueiros do lugar tinham, por costume,
esfolar as vacas ainda vivas. Um dia, o esfolamento teve lugar frente à mesma escola. Surendra, os outros mestres
e os estudantes – hindus e muçulmanos – protestaram energicamente. Os açougueiros foram golpeados. Isto
causou certo mal-estar e Surendra foi ameaçado pelos açougueiros. Nessa época, vários estudantes da escola
foram a Yairambati, para receber a iniciação. Surendra mandou com eles uma carta para a Santa Mãe. Os
meninos narraram-lhe o incidente. Isso produziu uma grande sacudida na Santa Mãe, que disse: “Se não protestam
vocês por ato semelhante, quem o fará?”. De acordo com suas instruções, enviaram uma carta a Surendra, dando-
lhe ânimo e segurança, e pedindo-lhe que tomasse as medidas necessárias para evitar que se repetissem atos tão
cruéis. Pouco depois, a Mãe fez escrever a Surendra, dizendo: “Se Deus realmente existe, entoa, Ele desfará o
dano”. Passado certo tempo, promulgou-se uma lei e seu resultado foi que acabou a tão odiosa matança.

14 de julho de 1913
O discípulo e Makunda estavam almoçando na galeria da casa da Santa Mãe. Chegou Nalini, vestida de
branco. Acabara de tomar banho, porque um corvo a havia sujado com seu excremento.

A obsessão pela pureza é sinal de impureza mental

Mãe: Eu já sou velha, agora, mas nunca havia ouvido dizer que um corvo podia sujar-te dessa forma. Tua
mente é impura. Pode perder sua pureza da mente, sem grandes pecados? A irmã de Krishna Bose tinha
obsessões semelhantes. Quando se banhava no Ganges, perguntava às pessoas se a água cobria completamente
a cabeça. Isso é uma obsessão. Seu resultado é que a mente nunca se sente pura. Uma mente impura não se
torna pura tão facilmente. Quanto mais dás importância à obsessão, mais obsedado se está. É assim em todas as
coisas.
Discípulo: Vi Mahapurushyi (Swami Shivananda) tocar os cachorros e logo ir ao templo para adorar o
Mestre. Às vezes alguém vertia um pouco de água em suas mãos e ele salpicava o rosto com algumas gotas.
Naquele tempo, a água do Ganges ra usada para tudo.
Mãe: Eles são distintos. Quão pura é sua mente! É a mente de um sadhu. Eles são deuses, realmente, que
vivem nas margens do Ganges. Quem, senão os deuses, podem viver às margens do Ganges? Os pecados que se
cometem diariamente, são expiados tomando abluções no Ganges.
Nalini: Uma vez, Golap-Ma limpou o quarto de banho de Udbodhan e logo preparou algumas frutas para
serem oferecidas no templo. O a única coisa que fez foi trocar de roupa. Eu disse-lhe: “Que é isto, Golap-Didi? Vá
banhar-se no Ganges”. Golap-Ma contestou-me: “Por que não vais tu, se assim o deseja?”.
Mãe: Quão pura é a mente de Golap! É uma alma muito elevada! Por isso, não faz tanta discriminação
entre as coisas puras e impuras. Não se preocupa nada com as regras relativas a pureza exterior. Esta é sua
última vida. Para ter uma mente pura como a dela, tu necessitas se um corpo diferente. Há uma corrente de ar puro
em ambas as margens do Ganges, que abarca uns doze quilômetros em todo seu percurso. Esse ar é o corpo de
Naraiana. A mente se purifica como resultado de muitas austeridades. “Deus, que é a pureza mesma, se não pode
ser alcançada sem fazer austeridades”. Que acontece quando se realiza a Deus? Acaso crescem um par de
chifres? Não, sua mente purifica-se e por meio da mente pura, alcança o conhecimento real e o despertar
espiritual.
Discípulo: Há devotos que não praticam austeridades, mas que se entregam a Deus, alcançam eles esse
estado?

Entrega a Deus e disciplina espiritual

Mãe: O fato de entregarem a Deus e viverem depositando sua confiança Nele, é para eles uma disciplina
espiritual. Ah! Narendra (Swami Vivekananda) disse: “Deixe que tenha milhões de nascimentos, que posso
temer?”. É certo. Um homem de conhecimento pode ter temor de voltar a nascer? Ele não comete nenhum pecado.
Só o ignorante é quem está sempre embargado pelo medo. Só ele fica enredado no mundo e mancha-se com o
pecado. Por milhões de vidas, sofre incontáveis misérias e infinitos pesares, até que, no fim, busca a Deus.
Discípulo: Sim, pela experiência aprende-se as lições e logo se alcança o conhecimento puro.
Mãe: Sim, o terneirinho produz o som “humba, humba” (eu sou, eu sou). Produz o mesmo som quando sua
pele e entranhas são usadas como tambores. Mas, no final, quando cai nas mãos do tocador. Produz o som “tuku,
tuku” (és Tu, és Tu).

18 de setembro de 1913

Deus, o único descanso da vida

Em uma carta dirigida a um devoto, a Santa Mãe dizia: “Não há felicidade alguma na vida humana.
Verdadeiramente, o mundo está cheio de miséria. Aqui, a felicidade é somente uma palavra. Unicamente aquele
sobre quem desceu a graça do Mestre, O reconhece como Deus mesmo. E lembre, essa é a única felicidade”.

O dever do sanniasin
Um discípulo sanniasin visitou a Mãe em Yairambati e logo se foi a Rishikesh. Depois de alguns dias,
escreveu à Santa Mãe, dizendo: “Mãe, uma vez a senhora me disse que com o tempo, eu teria a visão do Mestre;
mas isso, todavia não aconteceu”. Depois de haver escutado o conteúdo da carta, a Mãe disse ao discípulo:
“Responde-lhe: ‘Sri Ramakrishna não tem ido a Rishikesh por amor a ti, ou simplesmente porque tu está ali”, sendo
um sanniasin, que outra coisa tens que fazer senão implorar a Deus? Por Sua própria vontade, Ele se revelará ao
devoto”.

Orar ao Senhor

Uma devota escreveu à Santa Mãe: “Mãe, eu sou muito jovem. Meus sogros não me permitem ir vê-la.
Como posso ir contra a vontade deles? Desejo que a senhora me dê sua bênção”. A Mãe pediu ao discípulo que
lhe respondesse: “Filha minha, não necessitas vir aqui. Ora ao Senhor, que está presente no universo todo. Ele
derramará abundantes bênçãos sobre ti”.

30 de setembro de 1918

Um devoto zangado com Deus

Era de manhã. A Mãe estava preparando as frutas para o culto. O discípulo lhe entregou uma carta de um
devoto que, ao escrever, parecia estar muito zangado com Deus. A Mãe ditou a resposta assim: “O Mestre
costumava dizer: ‘Sábios como Suka e Vyasa, em suma, eram grandes formigas! Deus tem esta infinita criação. Se
tu não oras a Deus, que pode importar a Ele? Há tanta gente que nem sequer pensa em Deus. Se tu não imploras
a Ele, és tu o infortunado. Assim é a Divina maia, que faz os homens esquecerem de Deus. Deus disse: ‘Eles estão
muito bem; que sigam assim’”.
Discípulo: Mãe, não é que a gente não quer ver a Deus. Se assim fosse, como surgirá em nossa mente tal
pergunta? O fato é que eles se sentem grandemente feridos porque Deus, a quem querem sentir como o mais
íntimo, se afasta deles. Buda, Chaitanya, Jesus e outros, fizeram tanto para assegurar o bem-estar de seus
devotos.
Mãe: Essa foi também a atitude de nosso Mestre. A mim, não me é sempre possível lembrar a todos os
devotos. Digo ao Mestre: “Oh Senhor! Abençoe a todos, onde quer que se encontrem. Eu não posso lembrar
de cada um”. E já vês, Ele está fazendo todas as coisas. Se não fosse assim, por que viria aqui tanta gente?
Discípulo: É certo; é fácil para o homem crer que Kali, Durga e outras deidades, são aspectos de Deus, mas
acaso ocorre o mesmo quando trata-se de aceitar o homem como Deus?
Mãe: Isso depende de Sua graça.

A graça de Deus comparada aos raios de sol

No dia seguinte, chegou um devoto. O discípulo disse à Mãe: “Mãe, este é o devoto que escreveu esta
carta”. A Mãe disse: “Sim? Vejo que és um bom rapaz”. Logo disse ao devoto: “Olha, a água, por sua própria
natureza, flui para baixo, mas os raios de sol a elevam para o céu; da mesma maneira, a natureza da mente é ir
para as coisas baixas, para os objetos de prazer; mas a graça de Deus pode fazer com que a mente se dirija para
objetivos mais elevados”.

Por que o homem não tem a visão de Deus

Às dez e meia da manhã, chegou um devoto chefe de família e saudou a Mãe. Disse: “Mãe, por que não
vejo o Mestre?”. A Mãe respondeu: “Segue rezando, sem perder o ânimo. Tudo ocorrerá com o tempo. Por quantos
séculos os munise rishis (santos e sábios) da antiguidade praticaram austeridades para realizar a Deus e tu crês
que vai realiza-lo com a rapidez de um relâmpago? Se não o consegues nesta vida, o conseguirás na próxima. E
não é na próxima, será na que seguirá a ela. É tão fácil realizar a Deus? Mas desta vez o Mestre mostrou um
caminho fácil; por isso, será possível para todos realizar a Deus”.
Quando o devoto se foi, a Mãe disse: “Ele está mergulhado na mundanidade. É pai de um montão de filhos
e no entanto, disse: ‘Por que não vejo o Mestre?’. Muitas mulheres costumavam ir ver o Mestre e lhe diziam: ‘Por
que não podemos concentrar nossa mente? Por que não podemos fixa-la em Deus?’, e coisas deste gênero. O
Mestre respondia: ‘Contudo tens as senhoras o odor da cama. Primeiro tirem esse odor. Por que se preocupam
agora com isso de realizar Deus? Tudo acontecerá com o correr do tempo. Nesta vida nos encontramos; na
próxima vida, voltaremos a nos encontrar e, então, alcançaram a meta’. É fácil ver uma pessoa enquanto vive. Eu
estou agora vivendo aqui, assim podem ver-me em só vir. Quão poucos têm, agora, a bem-aventurança de ver o
Mestre com os olhos físicos? Viyaia Goswami viu o Mestre, em Dacca. Sentiu Seu corpo. Por causa disso, o
Mestre observou: ‘Que meu espírito saia não é bom; talvez este corpo não dure por muitos dias mais’. Podes dizer-
me quem já viu Deus? O Mestre fez com que Naran (Swami Vivekananda) alcançasse a realização de Deus. Suka,
Vyasa e Shiva eram, em suma, grandes formigas; eles tiveram um vislumbre de Deus. Alguém pode ter uma visão
em sonho, mas ver a Deus em forma física, é uma boa ventura que ocorre muita raramente.

O yapam de um devoto de mente pura

“(Com ênfase) Por que não se pode meditar, se tem a mente pura? Por que não há de ver a Deus? Quando
uma alma individual pura faz yapam, sente como se o Santo Nome surgisse espontaneamente no íntimo de si
mesmo. Não faz nenhum esforço para repetir o nome. Deve-se praticar yapam e meditação com
regularidade, a horas fixas, sacudindo toda preguiça. Um dia, enquanto estava em Dakshineswar, sentia-me
indisposta e deixei a cama mais tarde que de costume. Naquele tempo, eu costumava levantar-me as três da
madrugada. No dia seguinte, despertei ainda mais tarde. Gradualmente notei que já não me sentia inclinada a
levantar-me cedo. Então disse-me: ‘Ah! por fim sou uma vítima da preguiça’. Comecei novamente a esforça-me
para deixar a cama cedo. Pouco a pouco, recuperei meu velho hábito. Nessas coisas, deve-se manter a prática
com invariável determinação.

A juventude é a época apropriada para as práticas espirituais

“As austeridades, a adoração, as peregrinações, o ganhar dinheiro, são coisas que devem ser feitas quando
se é jovem. Olha, eu fui a pé visitar muitos lugares como Banaras e Brindavan: mas agora, para dar uns poucos
passos, tenho que recorrer a um palanquim. Tenho que buscar apoio dos demais. E na velhice, o corpo perde seu
vigor. Não tem mais força. Também a mente perde sua fortaleza. Então, é possível fazer algo? Os
jovens sanniasines de nosso monastério, começam em precoce idade a dirigir a mente a Deus. A juventude é a
época apropriada. (Dirigindo-se ao discípulo). Filho meu, agora está na época em que deves praticar austeridades
e adoração a Deus. Depois será para ti possível praticar todas estas coisas? Tudo o que quiser alcançar, trata de
alcançar agora; esta é a época propícia”.
Discípulo: Afortunados são aqueles que agora recebem tuas bênçãos. Os que vêem depois, não terão esta
rara oportunidade.
Mãe: Que queres dizer? Queres dizer que eles não terão êxito? Deus existe sempre, em todas as partes. O
Mestre está sempre aí. Com Sua graça, terão êxito. Acaso as pessoas de outros países não estão fazendo
progressos espirituais?
Discípulo: A mente sente desejo quando a pessoa sabe que é amada, nos ama tu, realmente?
Mãe: Não vos amo? Eu amo até aqueles que só fazem uma pequena coisa por mim! E vós fazeis tanto! Ao
tocar qualquer coisa aqui, recordo-lhes. Penso com freqüência em todos os que estão comigo; e quanto aos que
vivem longe, digo ao Mestre: “Oh, Senhor! Protege-os. Nem sempre posso recorda-los”.

Outubro de 1918

O yapam faz firme a mente e a dirige para Deus

A Mãe estava sentada sobre a cama. O discípulo lia cartas dos devotos. Krisnalal Maharaya também estava
presente. As cartas continha, frases como esta: “A mente não pode ser concentrada”, etc. A Mãe escutou e logo,
com voz mais animada, disse: “A mente alcança firmeza se repetirem o ‘nome de Deus’ quinze ou vinte mil vezes
ao dia. Isto é verdadeiramente assim. Oh, Krishnalal, eu mesma experimentei! Que pratiquem primeiro; se
fracassarem, que se queixem. O yapamdeve se praticar com algo de devoção, mas não fazem assim. Eles não
querem fazer nada; só saber queixar-se, dizendo: ‘Por que não tenho êxito?’”.
Um devoto entrou na casa e perguntou a Mãe sobre a meditação e yapam. A Mãe disse: “A repetição do
Santo Nome uma quantidade de vezes já fixada, com a ajuda do rosário e levando a conta com os dedos, supõe-se
que dirige a mente para Deus. A tendência natural da mente é correr de um lado a outro. Por tais meios se atrai a
Deus. Se enquanto repetir-se o ‘nome e Deus’, se vir Sua forma ou se ficar absorto Nele, cessa o yapam. Pode-
se conseguir tudo, quando se tem êxito na meditação”.
‘A mente é, por natureza, inquieta; por isso, no princípio, quando se pratica meditação, deve-se tratar de
regularizar a respiração. Isso ajuda a acalmar a mente. Mas não se deve abusar, pois o resultado pode ser o
contrário e se produz cansaço ao cérebro. Podes falar da visão de Deus ou a meditação, mas lembre, a mente é
tudo. Alcança-se tudo quando se alcança a concentração da mente”
“É muito natural que o homem esqueça Deus. Por isso, toda vez que surge a necessidade, Deus se
encarna na terra e Ele mesmo faz sádhanas para mostrar, com o exemplo, o caminho. Esta vez, Ele dá, também, o
exemplo da renúncia”.

TERCEIRA PARTE

Capítulo III

(Páginas tomadas de diários de vários discípulos, monges e chefes de família)


As práticas espirituais em geral

Pranaiama, peregrinações e kundalini

As que seguem, são notas tomadas por um discípulo monástico.


Discípulo: Mãe, é bom praticar asanas (posturas yóguicas) e pranaiama (exercícios respiratórios)?
Mãe: Essas práticas conduzem à obtenção de poderes sobrenaturais, os quais desviam o homem do
caminho espiritual.
Discípulo: É bom ir de um lugar a outro, em peregrinação?
Mãe: Se a mente sente-se tranqüila em um só lugar, não há necessidade de ir em peregrinação.
Discípulo: A mim me resulta impossível meditar. Por favor, desperta minha kundalini.
Mãe: Se despertará com o tempo. Pratica yapam e meditação. Não se desperta por si só. Pela contínua
meditação, a mente alcança tal firmeza, que não te sentirás inclinado a deixar a prática. Quando a mente não está
em modo meditativo, não há forças. Em tal condição, saúda e levanta-te, deixando o lugar de meditação. A real
meditação é de natureza espontânea.

Distração mental e yapam

Discípulo: Mãe, por que a mente não quer concentrar-se? Quando trato de pensar em Deus, a mente é
atraída por outros objetos.
Mãe: É mal e a mente é atraída por objetos mundanos. Por “objetos mundanos” entende-se: dinheiro,
família, etc. Mas é coisa natural se pensas no trabalho em que se ocupa. Se não te é possível meditar,
pratica yapam. A realização chegará por meio do yapam. Se o estado meditativo chega, está bem, mas, de
nenhuma maneira, trates de alcançar pela força.

Lugar para fazer as práticas espirituais

Discípulo: É melhor fazer as práticas espirituais em um lugar solitário, que no monastério, em Banaras?
Mãe: Se praticas disciplinas espirituais por certo tempo em lugar solitário como Rishikesh, verás que tua
mente se fortalecerá e logo poderás viver em qualquer lugar, ou associado a qualquer pessoa, sem que isso te
afete o mínimo. Quando a planta é tenra, deve-se por uma cerca. Mas quando cresce, as cabras e as vacas já não
lhe causarão dano. A prática espiritual em lugar solitário é algo essencial. Ora a Deus com lágrimas nos olhos,
quando buscar inspiração, ou tenhas que enfrentar alguma dificuldade ou dúvida. O Senhor te tirará toda impureza,
acalmará tua angústia mental e te iluminará espiritualmente.

Trabalho e práticas espirituais

Discípulo: Eu sou demasiado fraco para cumprir as práticas espirituais. Tomo refúgio a teus pés. Faz o que
seja necessário para me levantar.
Juntando as mãos, a Mãe começou a rogar ao Mestre: “Que o Mestre preserve teu espírito de renúncia!”.
Logo acrescentou: “Ele te protege. Nada deves temer. Faz o trabalho do Mestre e também pratica disciplinas
espirituais. O trabalho ajuda a manter afastados da mente, os pensamentos e idéias inúteis. Estes surgem na
mente, se não tens nada para fazer”.

Práticas de asasnas e pranaiama

Discípulo: Tenho praticado asana (posturas) por alguns dias, para manter minha saúde em bom estado. As
posturas ajudam a digestão e também a prática da continência.
Mãe: Tem um pouco de cuidado. Se continuar com esses exercícios por um longo tempo, é possível que a
mente se incline para o corpo. Por outro lado, se deixas esses exercícios, pode afetar tua saúde. Por isso é que
tens que atuar com cautela.
Discípulo: Mas, pratico só por cinco ou dez minutos, para fazer uma boa digestão.
Mãe: Está bem. Preveni-te porque se fazes algum exercício e logo o deixa, isso pode, no fim, afetar tua
saúde. Bendigo-te, filho meu, para que possas alcançar a consciência de Deus.
Discípulo: Também estou praticando um pouco de pranaiama. Devo continuar com ela?
Mãe: Sim, podes praticar um pouco. Mas não vá ao excesso e esquentes teu cérebro e sistema nervoso. Se
a mente se acalma por si só, então, que necessidade há de pranaiama?
Discípulo: Nada alcançamos, Mãe, sem o despertar da kundalini.
Mãe: É certo, filho. Gradualmente a kundalini se despertará. Tu realizarás tudo repetindo o “nome de Deus”.
Até quando a mente não está quieta, podes sentar-te num lugar e repetir o Santo Nome um milhão de vezes. Antes
do despertar da kundalini, ouça o som anahata; mas nada pode ser alcançado sem a graça da Divina Mãe. As duas
ou três da manhã, estava pensando que talvez não fosse ter a visão de Shiva (1). Tu sabes que a imagem de Shiva,
do templo de Banaras, é muito pequena. Está debaixo d’água e coberta com flores e folhas de bilva. Dificilmente
pode-se ver a imagem. Tão logo como esta idéias surgiu em minha mente, vi claramente a imagem de Shiva, feita
de pedra de cor muito escura. Em seguida, tive a revelação de que era Visvanath mesmo a quem adoramos no
templo. Uma devota estava pondo sua mão sobre a imagem. Num instante, eu também pus a mão sobre a
imagem.
(1) A conversa teve lugar em Banaras.
Discípulo: Mãe, a imagem de pedra não nos satisfaz por muito tempo.
Mãe: Por que dizes isto, filho meu? Quantos pecadores desesperados vêm a Banaras e alcançam a
libertação, tocando a imagem de Shiva. E Ele, o grande Deus, carrega sobre seus ombros, sem queixa nenhuma,
os erros de todos.
Discípulo: Que espécie de lugar é adequado para as práticas espirituais e que é que devemos fazer com
eles?
Mãe: Para ti, o lugar é Banaras. Prática espiritual significa manter a mente fixa aos pés de Deus e
mergulha-la em Sua contemplação. Repete Seu Nome.
Discípulo: Qual é o fim a vida?

Objeto da vida

Mãe: Realizar a Deus e permanecer mergulhados em Sua contemplação. Sois vós sanniasines (monges) e
pertencem a Deus. Ele cuida de teu bem-estar espiritual, aqui e mais além. Por que, então, te deves afligir? É
possível estar na contemplação de Deus sempre? Por certo tempo, trabalha; em outros momentos, pensa em
Deus.
Discípulo: Mãe. Dá-me tua bênção para que eu possa ter profunda meditação e permanecer absorto no
pensamento de Deus.
A Mãe pôs sua mão sobre minha cabeça e me abençoou, dizendo: “Discerne sempre entre o real e o irreal”.
Discípulo: É fácil praticar teoricamente esse discernimento, mas o esquecemos quando chega o
momento de aplica-lo. E então quando nos falha. Concede-me força para que, nos momentos críticos, mantenha-
me no caminho reto.
Mãe: Filho meu, que Sri Ramakrishna te proteja sempre! Que possas alcançar o conhecimento e a
sabedoria!
Discípulo: Mãe, tantos dias se passaram e eu, contudo, não realizei nada.
Mãe: Deus mostrará Sua graça, tirando tua mente do reboliço e tumulto do mundo, mantendo-a fixa a Seus
pés. É isso pouca coisa? Swami Yogananda costumava dizer: “Pode ser que não possamos sempre praticar a
meditação e a oração, de acordo com o desejo de nosso coração; mas estamos livres das aflições do
mundo”. Fixe-te em mim; estou sofrendo muito por causa de Radhu”.
Discípulo: É meu desejo passar algum tempo fazendo práticas espirituais, na solidão de um local ermo.
Mãe: Muito bem. Esta é a época propícia. Estás na idade própria para praticar essas disciplinas. Dedica-te
às práticas, mas sempre seja cuidadoso com tua comida. Swami Yogananda praticou tremendas austeridades e
como resultado, sofreu muito e deixou seu corpo muito jovem.

O guru e Deus

Um dia, durante a conversação, uma mulher perguntou a Santa Mãe como ela devia considera-la. A Mãe
respondeu: “Podes pensar em mim como Radha, ou qualquer outra forma que seja agradável à tua mente. Será
suficiente, também, se me consideras com tua própria mãe”.

Visões e desenvolvimento espiritual

A discípula disse a Santa Mãe: “Muitas devotas têm visões, mas eu não tenho nenhuma”. A Mãe disse:
“Isso tem pouca importância”. Esta resposta encheu de esperança a mente da discípula. Perguntou a Mãe se ela
também teria um desenvolvimento espiritual. Contestou a Mãe, com ênfase: “Seguramente, o terás com o passar
do tempo”.

Culto e deveres

Em contestação a uma pergunta da discípula, referente ao culto do Mestre, disse-lhe: “Tu tens deveres do
lar para atender e não poderás ocupar-te do culto. Ora ao Mestre/ Ele fará tudo por ti. Ele é teu, o mesmo que a lua
é a “tia” de todas as crianças”.

Um discípulo perguntou, uma vez, à Mãe: “Mãe, que modo de vida devo levar?”.
Mãe: Leva a via como está fazendo até agora. Ora ardentemente a Deus e pensa constantemente Nele.

Caídas no caminho espiritual, egotismo e vontade Divina

Devoto: Mãe, entrou em mim o temor, ao ver que até pessoas altamente espirituais caem.
Mãe: Se estiveres em contínuo contato com os objetos que produzem prazer, há probabilidades de que
sucumbas à sua influência.
Devoto: Nada pode realizar o homem, com seu esforço individual. É Deus quem está fazendo todas as
coisas através dele.
Mãe: É certo. Mas está sempre consciente disso? Cegadas pelo egoísmo, as pessoas crêem que são
agentes independentes no que a ação refere-se. Elas não dependem de Deus. Deus protege àquele que confia
Nele.

Um discípulo monástico perguntou à Santa Mãe: “Mãe, alguém que foi abençoado, sendo tu seu guru,
acaso necessita de alguma disciplina espiritual?”.

Necessidade das disciplinas espirituais

Mãe: Isso é assim, mas o motivo real é isto; em um lugar, pode haver distintas espécies de comestíveis,
contudo, alguém deve cozinha-los. Aquele que cozinha logo, come cedo. Alguns comem pela manhã, outros à
tarde; a até há outros que jejuam, por ser demasiado preguiçoso para cozinhar.
Discípulo: Mãe, não compreendo o que queres dizer.
Mãe: Quanto mais intensamente uma pessoa pratica as disciplinas espirituais, tanto mais cedo alcança a
Deus. Mas, até sem praticar nenhuma disciplina, ao final, chegará a Ele, seguramente que chegará. Só que aquele
que passa seu tempo inutilmente, sem praticar oração e meditação, tardará muito para chegar. Tu renunciaste ao
mundo para praticar disciplinas espirituais. Como não pode dedicar-se a elas todo o tempo, é necessário que faças
algum trabalho, considerando-o como se o estivesse encarregado o Mestre. Para ti, uma vida muito austera não é
aconselhável. Tu sofres de cólicas. Deves cuidar de tua alimentação. Não é uma enfermidade fatal, mas é
dolorosa.

Conhecimento de Brahman

Certo dia, um discípulo perguntou à Mãe: “Mãe, como se alcança o conhecimento de Brahman? Deve
praticar-se passo a passo, ou vem espontaneamente?”. A Mãe respondeu: “O caminho que conduz a Brahman é
muito difícil. Ora ao Mestre e Ele te dará conhecimento de Brahman a seu devido tempo”.

Controle da mente

Em Koalpara, um discípulo disse à Santa Mãe: “Mãe, a mente é muito inquieta. De nenhum modo a posso
fixar”. Em resposta, a Mãe disse: “Como o vento dissipa as nuvens, assim o Nome de Deus destrói as nuvens da
mundanidade”. Nesse mesmo dia, a outro discípulo, que se queixou da debilidade da mente, a Santa Mãe disse:
“Pode alguém destruir o desejo, por completo? Um pouco fica, enquanto tens o corpo; mas, pode ser dominado do
mesmo modo que alguém que encontra o encantamento de uma serpente, por meio do pó encantado”.

Fé e erudição

Referindo-se a fé em Deus, a Santa Mãe uma vez falou: “Pode alguém alcançar a fé com mero estudo dos
livros? Demasiada leitura cria confusão. O Mestre dizia que a única coisa que se deveria aprender nas escrituras
é: somente Deus é real e o mundo é ilusório. Se eu te escrevesse uma carta, pedindo-te que me trouxesse certas
coisas, por quanto tempo necessitarias da carta? Até algum tempo, não conheces seu conteúdo. Mas uma vez que
saibas o que disse, necessitas da carta por mais tempo? Então, procurarás essas coisas e me as fará chegar.
Caso contrário, de que serviria ler e reler a carta, dia e noite?”.

Caminho para a libertação

Um dia, no curso da conversa, um discípulo disse à Mãe: “Não é possível cumprir coisa alguma na vida
mundana”. Em resposta, a Mãe disse: “Filho, o mundo é como um pântano profundo. Uma vez que o homem fica
atrapalhado com ela, lhe é muito difícil sair. Até Brahma e Vishnu perderam o juízo no mundo. Que não dizer dos
homens! Repete o ‘nome de Deus’. Se assim o fazes, Ele, algum dia, cortará tuas ligações. Filho meu, pode
alguém alcançar a libertação, a menos que Deus mesmo lhe tire os grilhões? Tem profunda fé em Deus. Considera
o Mestre teu refúgio, como as crianças fazem com seus pais”.

Submissão à vontade de Deus e progresso espiritual

Um dia, em Yairambati, um discípulo perguntou à Mãe: “Mãe, quando se estão debaixo de


um kalpataru (árvore fabulosa que satisfaz todos os desejos), todos dizem que devemos pedir algo. Que desejo
especial devem expressar os filhos ante a Mãe? A Mãe sabe o que é bom para seus filhos e sempre lhes dá aquilo
que é bom para eles. Como dizia Sri Ramakrishna: ‘A mãe cozinha para seus filhos diferentes pratos, de acordo
com o poder de digerir que tem cada um’. Mãe, faça-me o favor de dizer-me o que é mais benéfico para mim”.
Mãe: Quão pouca inteligência possui um homem! Pode precisar de uma coisa, mas pede outra. Começa a
modelar uma imagem de Shiva e termina fazendo a de um macaco. Por isso, o melhor é resignar todos os desejos
aos pés de Deus. Ele fará o que é melhor para nós. Mas, deve-se orar para alcançar devoção e desapego. Estes
não podem ser considerados como desejos.
Ausência de um fervoroso desejo na vida espiritual

Certo dia a Santa Mãe havia recebido muitas cartas dos devotos. Durante a tarde, o discípulo lia-lhe essas
cartas. Depois de escutar seu conteúdo, a Mãe disse: “Notastes quantos diferentes desejos tem sido expressados
por esses filhos? Alguns escrevem: ‘Temos praticado tanto yapam, meditação e oração, mas não estamos
conseguindo nada’. Por outro lado, outros escrevem sobre seus pesares e sofrimentos; sua pobreza e mal-estar no
mundo. Eu não posso escutar tudo isso. Sempre oro ao Mestre, dizendo: ‘Oh Senhor! Queiras Tu protege-los aqui
e mais além’. Eu, que sou tua mãe, que outra coisa posso rogar para eles? Mas, quantos são os que
verdadeiramente querem realizar a Deus? Onde encontramos esse desejo ardente? Eles, sem dúvida, declaram ter
grande devoção e desejo, mas sentem-se satisfeitos se conseguem mesmo que seja uma migalha de gozo. Dizem:
‘Ah, que bondoso é Deus!’. Alguns devotos escrevem-me perguntando sobre Radhu. Antes que qualquer coisa,
fazem menção a Radhu, para cumprir comigo. Ninguém a protegerá, depois que eu tenha fechado meus olhos para
sempre”.

Libertação e devoção

Um dia, o discípulo inquiriu a Mãe sobre mukti (libertação) e bhakti (o amor a Deus). A Mãe disse: “Quanto
à libertação, ela pode ser dada a qualquer momento, mas Deus não quer dar bhakti tão facilmente”. Pronunciou
estas palavras de um modo tal, que parecia que o dom da libertação estivesse na palma de sua mão. Mas,
imediatamente, mudou o tópico da conversa.

Desejo por realizar Deus

Uma manhã cedo, em Yairambati, um terneiro estava mugindo perto da casa da Santa Mãe. O haviam
separado da Mãe, que iam ordenhar. Ao ouvir os mugidos, a Mãe foi rapidamente para onde estava o terneiro,
dizendo: “Espera, eu te desamarro”. Dizendo isto, desamarrou o terneiro. O discípulo surpreendeu-se ao ver, nesse
momento, refletida no rosto da Mãe, a verdadeira ternura. Viu nela a verdadeira encarnação da compaixão. Ah! Se
nós pudéssemos clamar a Deus como esse terneiro! Certamente, Ele nos tiraria toda a ligação mundana.

TRABALHO E MEDITAÇAO

Deve-se combinar o trabalho com a meditação

A conversação prosseguiu até uma hora avançada da noite. Um discípulo disse à Mãe: “K. nos disse:
‘Trabalhem firme para cumprir com seus deveres e logo alcançarão todas as coisas, como foi ordenado por Deus’”.
A isto, a Santa Mãe disse: “Sem dúvida, devem cumprir com seus deveres. Isso mantém a mente em boa condição.
Mas também, é muito necessário praticar yapam, meditação e oração. Essas disciplinas devem ser praticadas, pelo
menos, pela manhã e a noite. Tal prática é como o timão de um barco. Quando alguém se senta à noite para orar,
pode recorda-se de todas as coisas boas ou más que fez no dia. Logo, pode comparar o estado mental desse dia,
com o do dia anterior. Depois, ao fazer o yapam, deve-se meditar no Ideal Escolhido. Durante a meditação,
primeiro pode-se penar no rosto do Ideal Escolhido, porém, deve-se meditar no corpo inteiro, dos pés à cabeça. A
menos que pratiques meditação de manhã e a noite, fora do trabalho, como poderás saber se fazes uma coisa
desejável ou indesejável?”.

Riscos de levar uma vida de exclusiva meditação

O discípulo disse: “Alguns dizem que não se alcança nada por meio do trabalho. Que se pode obter êxito na
vida espiritual pelo yapam e meditação”. Em resposta, a Mãe disse; “Como sabem eles o que traz o êxito e o que
não traz? É possível alcançar tudo porque se pratica yapam e meditação por uns poucos dias? Nada,
absolutamente, se alcança, a menos que Mahamaia (Ilusionista Cósmica) aclare o caminho. Noutro dia, notaste
que essa pessoa não estava bem da cabeça. Por ter se esforçado excessivamente na oração e meditação? A
inteligência do homem é muito precária. É como a rosca de um parafuso. Se o colocas mal, perde-se o juízo. Ou
então, é apanhado nas redes da Mahamaia e se acredita muito inteligente. Chega a sentir que assim está muito
bem. Mas se enroscar corretamente, segue-se o caminho reto e goza de paz e felicidade. Deve-se lembrar sempre
de Deus e pedir-lhe o reto entendimento. Quantos hão que podem meditar e praticar yapam o tempo todo? No
princípio, praticam com muito entusiasmo; porém, ficam constantemente sentados sobre o tapete no qual praticam,
seus cérebros se alteram, como no caso de N. Fazem-se vaidosos. Sofrem, também, de moléstias mentais,
pensando sobre diferentes temas. É muito melhor trabalhar, do que permitir à mente que vague de uma a outra
parte, pois quando a mente tem rédea solta, cria muita confusão. Meu Naren (Swami Vivekanada) pensou nestas
coisas e sabiamente fundou instituições onde as pessoas poderiam fazer trabalho desinteressado”. Referindo-se,
novamente, a N., a Mãe disse: “Vês como, por estar constantemente sentado no mesmo lugar, sua mente alterou-
se? Suas obsessões e raridades aumentam constantemente. Sempre se queixa de mal-estares mentais. Por que
tens que estar tão preocupado? Todas essas experiências não deveriam dar-lhe sensatez?”.

O trabalho é tão sagrado quanto a austeridade


Um discípulo, que vivia com a Santa Mãe e estava a seu serviço, encarregava-se sempre do culto na
capela e de outras tarefas. Inteirando-se de que alguns monges do monastério de Belur haviam decidido sair para
praticar tapasia(austeridades), disse à Mãe: “Creio que, para mim, não é bom ocupar-me de todas essas tarefas.
Desejo praticar austeridades. Por favor, dê-me tua permissão”. A Mãe disse: “Que é isso, filho meu? Tu estás
fazendo, agora, meu trabalho. Estás dedicando-te à obra do Mestre. É isto, de algum modo, menos espiritual que
as austeridades? Então, por que deves abandonar estas tarefas? Porém, se em qualquer momento, sentires uma
forte inclinação para praticar austeridades, podes ir e dedicar-te a isso por um mês ou dois”.

Adoração e yapam

Uma devota pediu a Santa Mãe que lhe ensinasse como fazer certa oferenda espiritual ao Mestre. A Mãe
disse: “Tu estás levando uma vida mundana. Não poderás ocupar-te do culto. Eu disse-te que repetisse Seu Nome.
Pratiques yapam. Por meio disso, realizarás tudo”.

Um devoto perguntou à Santa Mãe: “Serve de alguma coisa, repetir, simplesmente, Seu nome, sem intensa
devoção?”.

Como praticar o yapam

Mãe: Já sabia que se tu saltares a água, ou se alguém te empurrar, tua roupa se molhará, não é assim?
Medita todos os dias, embora tua mente não esteja desenvolvida. Por meio da meditação constante, alcançarás a
concentração da mente. Discerne sempre entre o relativo e o real. Toda vez que tua mente for atraída por algum
objeto, lembre que é algo transitório e trate de que a mente retorne ao pensamento de Deus. Um homem estava
pescando com seu caniço. Passou pelo lugar um grupo de pessoas, acompanhando a uns recém-casados e
tocando música. Porém, a atenção do pescador estava fixa na cortiça. A mente do aspirante espiritual deve ter a
mesma firmeza.

Um discípulo monástico disse à Santa Mãe: “Mãe, meu desejo é escolher um lugar onde possa praticar
disciplinas espirituais; mas não anda bem minha saúde”.

Repetir o mantram diariamente um número fixo de vezes

Mãe: Agora, por certo tempo, ocupa-te em algum trabalho e logo quando sentires uma forte inclinação para
praticar austeridades, poderás deixar o trabalho.
Discípulo: Pratico yapam, mas não posso concentrar minha mente.
Mãe: Repita o “nome de Deus”, sendo que a mente concentre-se ou não. Será bom para ti que possas
repetir diariamente, o Santo Nome um número fixo de vezes.
Discípulo: Mãe, terei que praticar o Santo Nome, mantendo em minha mente um número fixo de repetições?
Mãe: Se tu fazes a prática com a preocupação do número de repetições, tua mente poderá ficar
concentrada no número, somente; portanto, eu te aconselharia a repetir o “nome de Deus” sem ter tão preciso
quanto ao número.
Discípulo: Por que a mente não se absorve em Deus, quando repetimos Seu nome?

Concentração e yapam

Mãe: Isso acontecerá a seu devido tempo. Até quando a mente não está concentrada, não deixes de repetir
a fórmula sagrada. Repetindo o Nome, a mente ficará fixada por si só no ideal, como fica fixa a chama de uma vela
onde não há vento. É o vento que faz a chama vacilar. De igual modo, nossas fantasias e desejos fazem com que a
mente fique intranqüila. Ademais, a concentração pode retardar-se se a fórmula sagrada não é pronunciada
corretamente. Uma mulher tinha recebido de seu guru, a fórmula sagrada: “Rukmini-nathaia”. Como custava-
lhe pronunciar esta fórmula, para ela tão longa, só repetia: “Ruku, Ruku”. Por esta razão, durante alguns dias,não
fez nenhum progresso. Mas logo, pela graça de Deus, começou a pronunciar corretamente a fórmula sagrada.

Quando a Mãe esteve no monastério de Yagadamba, em Kwalpara, teve um devoto com a seguinte
conversação:
Devoto: É necessário lavar o rosto, como está prescrito, antes de repetir o sagrado “nome de Deus”?

Eficácia da repetição do Nome de Deus com concentração

Mãe: Sim, deve-se observar essas regras quando alguém se encontra em sua casa. Porém, estando na
rua, se pode fazer a repetição mentalmente.
Devoto: No segundo caso, devemos repetir só o “nome de Deus”, ou também a fórmula sagrada, recebida
do Mestre?
Mãe: Deves repetir, também, a fórmula sagrada. Ao repetir o “nome de Deus” uma vez, quando a mente
está concentrada, equivale a um milhão de repetições, quando a mente está afastada de Deus. Podes repetir o
Nome durante o dia inteiro; mas se a mente está em qualquer outra parte, isso não produz muito resultado. A
repetição deve ser acompanhada pela concentração. Só assim se alcança a graça de Deus.
Devoto: O que estou fazendo é suficiente para mim, ou devo fazer algo mais?
Mãe: Continua com o que está fazendo agora. Sri Ramakrishma já te aceitou entre os seus.
Devoto: Diz-se que se realiza a Deus suplicando a Ele sinceramente, por três dias. Eu tenho orado por um
tempo tão longo, então por que não alcanço nenhuma realização?
Mãe: Tudo virá com o tempo, filho meu. As palavras de Sri Ramakrishna, que são tão verdadeiras como as
palavras de Shiva, só podem cumprir-se. Dedica-te a Ele e refugia-te a Seus pés. É suficiente que lembres que há
alguém, chame de pai ou mãe, que sempre te está protegendo.
Devoto: Eu tenho absoluta fé em tuas palavras.

Um discípulo disse à Mãe: “Mãe, eu não posso contar com o rosário quando pratico yapam. Se meus dedos
se movem, minha língua guarda silêncio. Quando minhas mãos e língua estão ativas, minha mente não se
concentra”.
Mãe: Depois de algum tempo, verás que teus dedos e língua permanecerão inativos, mas a mente seguirá
pensando em Deus.

Fazer yapam contando com os dedos

Uma vez, um devoto esqueceu o modo de contar com os dedos, a repetição do mantram. Escreveu a um
discípulo da Mãe, para que perguntasse sobre isso. Sobre isso, a Mãe disse: “Que importa? Pode-se fazer de
qualquer maneira. O propósito de tudo isso, é dirigir a mente para Deus”.

O horário e a regularidade na prática espiritual

Referindo-se a meditação e o yapam, a Santa Mãe disse a um discípulo: “É muito necessário ter horas fixas
para estas coisas, porque não se pode dizer quando chega o momento favorável. Ninguém tem nenhum aviso de
antemão. Portanto, deve-se observar a regularidade, por mais carregado que estejas com os deveres a cumprir”.
Discípulo: Há períodos de doenças e também, momentos em que se está muito ocupado no trabalho. Por
isso, nem sempre é possível observar a regularidade a respeito do tempo.
Mãe: Não se pode ter controle sobre as enfermidades, mas em meio a mais intensa atividade, deve-se
recordar a Deus e saúda-lo.
Discípulo: Quais são as melhores horas?
Mãe: A conjunção do dia e da noite é o momento mais propício para orar a Deus. A noite desaparece e
aparece o dia; o dia desaparece, e começa a noite; essa é a conjunção do dia e da noite. A mente, naturalmente,
alcança a tranqüilidade nesses momentos.
A respeito da debilidade da mente, a Santa Mãe disse ao discípulo: “Filho meu, essa é a lei da natureza.
Não tens observado a lua cheia e a lua nova? De modo semelhante, a mente, algumas vezes, está dominada por
boas tendências ou por más tendências”.

O yapam, enquanto se viaja

Numa ocasião de festividade, um atleta estava fazendo várias demonstrações surpreendentes. Uma delas
consistia em fazer com que se rompesse uma enorme pedra colocada em seu peito. Enquanto as pedras se
rompiam com uma maça, ouviu-se a Mãe dizer: “Oh, Senhor! Salve-o!”. Quando terminou este ato, a Mãe
perguntou-me: “Filho meu, eles conhecem algum mantram, ou têm algum outro segredo?”.

O yapam e o progresso espiritual

Discípulo: Não, Mãe, não há nada desse gênero. É o resultado de uma contínua prática. Ouvi o relato de
que um homem, na América do Norte, costumava levar todos os dias um terneiro em seus braços, até o campo dos
pastores. Seguiu fazendo isso diariamente, até que o terneiro se converteu em um grande boi. Até depois de
grande, seguia levando-o com a mesma facilidade de quando era pequeno. Costumava ostentar sua façanha ante
todos. Estes são os resultados da prática;
Mãe: Assim é. Aí se vê o poder do hábito. Do mesmo modo o homem, por sua contínua prática de yapam,
alcança a realização.

GRAÇA DIVINA

Austeridade e graça Divina

Certo sanniasin da Ordem de Ramakrihna esteve praticando severas austeridades no ghat de Manikarnika,
em Banaras. Quando um discípulo da Mãe estava para sair para Kolicata, o monge disse: “Por favor, pergunte à
Mãe quando descerá sobre mim a graça de Deus”. Quando o discípulo comunicou isso à Mãe, com um tom sério,
disse: “Escreve-lhe que não existe tal regra de que a graça de Deus descerá sobre alguém, simplesmente porque
está praticando austeridades. Antigamente os rishis (sábios espirituais) praticaram austeridades por milhares de
anos, com a cabeça para baixo e os pés para cima e acendiam fogos ao seu redor. Mesmo assim, só alguns deles
receberam a graça de Deus”.

Deus não é algo que possa ser comprado

Um dia, disse um discípulo à Mãe, com muita ênfase: “Mãe, venho aqui com bastante freqüência e tenho
recebido sua graça. Mas por que não foi realizada alguma coisa? Sinto que sou o mesmo de antes”. A Mãe
respondeu: “Filho meu, suponha que estás dormindo e que alguém leva a cama para outra casa. Neste caso, te
darias conta, assim que despertasse, de ter sido levado a outro lugar? De nenhuma maneira. Só depois que passar
por completo tua sonolência, saberás que estás em uotro lugar”.

Certo dia um discípulo perguntou a Mãe, em Yairambati: “mãe, como se alcança a realização de Deus? A
adoração, o yapam, a meditação ajudam?”.
Mãe: Não, nada ajuda.
Discípulo: Então, como se alcança a visão de Deus?

Graça Divina e prática espiritual

Mãe: Só pela Sua graça. Mas deve-se praticar meditação e yapam. Isso tira as impurezas da mente. As
disciplinas espirituais devem ser praticadas. Assim como alguém pode sentir a fragrância de uma flor tocando-a, ou
consegue o perfume de sândalo esfregando o tronco de sua madeira com uma pedra, da mesma maneira se
alcança o despertar espiritual pensando constantemente em Deus. Mas tu podes realizar a Ele neste mesmo
instante, se consegues a indiferença (não ter desejo por coisa alguma).

Meditação, trabalho e graça Divina

Certa vez, em 1901, referindo-se às prédicas, a Santa Mãe disse a um discípulo monástico: “Senta-te a
meditar pela manhã e à noite. Mantém tua cabeça fresca e pratica meditação e oração. É muito difícil fazer isto.
Mais fácil é cavar a terra com uma pá”. Olhando a fotografia do Mestre, disse: “Nada poderás realizar sem a Sua
graça”. O discípulo disse-lhe que não podia meditar e orar com regularidade, por causa dos muitos deveres que
tinha que cumprir no ashrama. Em resposta, a Mãe disse: “Para quem são todos estes trabalhos? Todos
pertencem a Ele”. Continuando, a Mãe disse: “Mais tarde verás que a mente se converterá em teu guru e te
instruirá”.
Outro dia, a Santa Mãe disse: “Temos praticado tento yapam, temos seguido tantas disciplinas espirituais,
mas nenhuma dessas coisas tem utilidade alguma. Como pode alguém alcançar a libertação, a menos que
a Mahamaiadesembarace o caminho? Oh, homem, refugia-te em Deus! Refugia-te Nele! Unicamente então,
a Mahamaia te outorgará Sua graça e facilitará que sigas o caminho para a libertação”. Logo fez o seguinte relato,
pertencente à vida do Mestre, em Kamarpukur: “Era durante o mês de yaishta. À tarde, havia caído um forte
aguaceiro, inundando parte dos terrenos. O Mestre dirigia-se para o monte, evitando os charcos. Havia muitos
peixes e as pessoas os matavam com pedras. Um peixe começou a dar voltas ao redor dos pés do Mestre. Ao ver
isto, o Mestre disse às pessoas: ‘Por favor, não o matem. Vejam como se refugia a meus pés. Se alguém de vós
pode, que o leve ao tanque de Haldarpukur’. Então Ele mesmo agarrou o peixe e o levou ao tanque. Quando voltou
para casa, o Mestre contou o ocorrido e disse: ‘Unicamente se alguém toma refugio assim em Deus, estará salvo”.

A graça Divina no momento da morte

Um discípulo monge escreveu a Mãe uma carta cheia de desespero. Depois de ouvir o conteúdo, a Mãe
disse muito seriamente e com vigor: “Como é possível, acaso o nome do Mestre é uma coisa sem valor? Cedo ou
tarde aqueles que tem vindo aqui e pensam no Mestre, verão seguramente o Ideal Escolhido. Se isso não acontece
durante o período de sua vida, pelo menos terão uma visão Dele, um momento antes de morrer”.

VIDA DE PUREZA E RENÚNCIA

A glória da renúncia

Um jovem chamado Manasa foi ver a Santa Mãe com o desejo de receber dela a iniciação e o hábito ocre.
A Santa Mãe, de muito boa vontade, concedeu-lhe a que havia desejado. Isso o fez sentir-se muito feliz. Ao
entardecer, ele estava sentado na casa do tio Kali, cantando hinos a glória da Divina Mãe. A Santa Mãe gostava
muito desses cânticos. Estavam presentes Radhu, Maku, Nalini e uma das cunhadas da Mãe. Uma das cunhadas
observou: “Ela fez deste jovem um sadhu”. Maku disse: “É certo. Vejam o que fez nossa tia: que esses bons
rapazes abracem a vida monástica. Seus pais os criaram com tanto sacrifício! Todas suas esperanças estavam
depositadas em seus filhos! Agora, todas essas esperanças se despedaçaram. E o que poderá fazer este jovem,
agora? Ou irá a Rishikesh e mendigará sua comida, ou limpará as chagas e excrementos dos doentes em um
hospital, por que? Também é uma forma de religião casar-se e consolidar a vida do lar. Olha, tia, se tu
fazes sadhus estes jovens, a Mahamaia se zangará contigo. Se eles querem ser sadhus, que decidam por si
mesmos. Por que tem que ser tu o instrumento que os faz abraçar a vida monástica?”. Em resposta, a Santa Mãe
disse: “É que tu não consideras a estes jovens o que são, eles são ‘filhos divinos’. Viverão num mundo imaculado,
como essas flores, cujo perfume ninguém sentiu. Que pode ser mais belo que isso? Tu viste, por si mesma, que
espécie de felicidade pode dar a vida mundana. Em todo esse tempo, que aprendeste de mim? Por que tanta
atração pelo mundano? Por que tanta tendência para o animal? Não podes, nem sequer em sonho, conceber um
ideal puro de vida? Nem sequer agora podes viver com teu marido como irmão e irmã? Por que esse desejo de
levar uma vida de porcos? Esta miséria do mundo corrói até meus ossos”. Todos os presentes estavam muito
emocionados ao ouvir Santa Mãe. Continuando, ela acrescentou: “Uma pessoa que não está casada e leva uma
vida pura, avançará para Ele a passos largos, seja rogando ou não a Ele. Os demais, estando atados de pés e
mãos, acham difícil safar-se das ligações do mundo, mesmo quando tratam de pensar em Deus”.

Conselho da mãe de um monge

Um dia, a mãe de um monge pediu à Santa Mãe que convencesse seu filho a retornar para a vida do lar. A
Mãe disse: “É uma rara boa ventura ser a mãe de um monge. As pessoas não podem livrar-se sequer do apego
que sente por um objeto de bronze. É coisa mais fácil renunciar ao mundo? Tu és a mãe, por que tens que te
afligir? Embora teu filho seja agora um sadhu, ele cuidará de ti”.

Exortação a um aspirante indeciso

Um jovem discípulo da Mãe recebeu, inesperadamente, uma proposta de matrimônio da casa de um


homem muito rico. Oferecia-lhe uma grande soma de dinheiro, com o qual eliminaria para sempre toda a
necessidade financeira. O jovem, depois de graduar-se, havia sido nomeado diretor de uma escola. Sua mente não
estava de todo livre do desejo de gozo. Por isso, sondou a Santa Mãe para ver que opinião teria acerca do
matrimônio. Depois de ouvir tudo, a Mãe disse-lhe: “Filho meu, tu estás muito bem como estás. Por que desejas
queimar-se no fogo do mundano? Está fazendo uma boa obra. Com tua ajuda, muitos meninos estarão recebendo
educação. Sua associação contigo lhes beneficiará e serão bons homens; isso será também meritório para ti”.
Porém o jovem replicou: “Mãe, minha mente se intranqüiliza de vez em quando. Deseja fortemente os prazeres.
Isso me assusta”. A Mãe disse: “Não temas. Digo-te que nesta Koli Yuga (época sombria), o pecado mental não é
pecado. Tira de tua mente toda a preocupação sobre isso. Não tens porque temer”. Depois e ouvir tal afirmação da
Santa Mãe, o devoto nunca mais voltou a pensar em matrimônio, nem permitiu que sua mente se agitasse por
momentâneos impulsos.

Vida monástica e vida do lar

Uma devota disse-lhe: “Mãe, todos os teus filhos devem ser o mesmo, para ti. Porém, se um escreve
pedindo-te opinião sobre seu matrimonio, tu o permite casar-se; e, por outro lado, se outro deseja renunciar ao
mundo, tu lhes dá um tipo diferente de conselho, glorificando a vida de renúncia. Teu dever não é guiar a todos,
para o melhor caminho?”. A Mãe respondeu: “Imagine um homem que deseja intensamente os prazeres, crês que
me dará ouvidos se eu o proibir de satisfazer esse desejo? De outro modo, imagine outro homem que, como
resultado de muitos atos meritórios de vidas passadas, considera tudo isso como ardil da maia e Deus como a
única realidade. Não devo ajuda-lo um pouco? Há algum modo de pôr fim ao sofrimento desta vida do mundo?”.

A Santa Mãe disse a uma discípula, cujo filho recusava a casar-se: “Ah! Todos os rapazes, hoje em dia,
dizem que não querem casar-se. Mas, sabes? Só os que pertencem a um plano de existência muito elevado,
podem consagrar-se à vida monástica e libertar-se de todas as ligações. Por outro lado, há alguns que nasceram
para gostar um pouco da vida mundana. Eu digo que se deve discernir bem acerca do que há nos prazeres
mundanos. Mas, são uma coisa completamente diferente, os discípulos e companheiros do Mestre”.
Discípula: Mãe, ele (O filho da discípula) é teu próprio filho. Sua futura felicidade ou sofrimento depende de
ti. Faz o que quiseres com ele.

Matrimônio ou renúncia?

Mãe: Eu te digo que se case e satisfaça os gozos desta vida. Do contrário, não se sabe quando poderia cair
vítima de algum desejo insatisfeito. Mas tu podes estar segura disso: que enquanto ele permanecer sob a proteção
do Mestre, não escorregará nunca! Nesse sentido, não tens porque te preocupar nunca. Foi dado um mantram que
me comunicou o Mestre e por meio dele, pode-se alcançar a perfeição. O que mais pode afligir-te?

Elogio da renúncia interior

Um discípulo perguntou à Mãe: “O Mestre disse que os que o aceitassem como seu ideal espiritual, não
voltaria a nascer. Por outro lado, Swamiyi (Swami Vivekananda) disse que não há libertação possível sem ser
iniciado na sanniasa(vida monástica). Então, qual é a saída para os chefes de família?”.
Mãe: Sim, o que o Mestre disse é certo e é igualmente certo o que disse Swamiyi. Os chefes de família não
necessitam renunciar ao externo. Eles alcançarão espontaneamente a renúncia interior (1). Porém alguns
necessitam renunciar exteriormente. Por que tens temor? Entrega-te ao Mestre e recorda sempre que Ele está
contigo.
(1) O leitor deve considerar que esta conversação teve lugar quando viviam os grandes chefes de família que vieram com Sri
Ramakrishna, cujas vidas ficaram como arquétipos extraordinários de devoção e renúncia.

O IDEAL DA SANNIASA

Salvaguarda na vida do sanniasin

Em certa ocasião, a Mãe disse a um sadhu: “Sri Ramakrishna costumava dizer: ‘Oh sadhu, tem cuidado!’.
Os sadhus devem estar sempre alerta. O caminho de um sadhu é sempre escorregadio. Quando alguém caminha
por um solo escorregadio, deve faze-lo na ponta dos pés. Acaso, ao fazer-se monge, é como jogar uma parida de
naipes? Se tu tivesses desejado, poderias ter se casado e sido um chefe de família. Porém, agora que deixou de
lado essas intenções, não deves permitir que tua mente se ocupe dessas coisas. Não se come o que se cuspiu. O
hábito ocre protege o monge, como a coleira do cão, de todo perigo. Nada incomoda um cão que leva a coleira,
porque isso indica que tem dono. Todas as portas estão abertas para um sadhu. Tem entrada em todas as partes.
A mente tende naturalmente para as más ações. Está como sonolenta para fazer o bem. Antes, eu tinha por
costume levantar-me para meditar as três da madrugada. Um dia, não fiz desse modo, porque sentia-me
fisicamente indisposta. A falta de regularidade, nesse dia, teve como resultado que não seguisse essa rotina por
vários dias. Por isso, digo que a perseverança e a tenacidade são necessárias para alcançar êxito em toda boa
obra. Quando eu estava vivendo no nahabat de Dakshineswar, costumava rezar nas noites de lua cheia: ‘Oh,
Senhor! Até na lua há manchas. Faz que minha mente não tenha nenhuma mancha’”.

Livre de ciúmes e apego

Um monge deve estar acima do apego e dos ciúmes. Deve ser o mesmo em todas as circunstâncias. Sri
Ramakrishna dizia a Hriday: “Tu deves ser indulgente comigo e eu contigo, então, tudo ficará bem. De outro modo,
teremos que submeter nossas diferenças ao administrador do templo”.

Instrução e vida monástica

Conversando com a Mãe, K. disse: “Mãe, todos teus filhos são instruídos; mas eles (referindo-se aos que
viviam no ahsrama de Kwalpara) são teus filhos iletrados. Sarat Maharaya (Swami Saradananda), escreveu livros
sobre o Mestre e estes estão espalhando a mensagem e ensinamentos do Mestre por todas as partes. Teus outros
filhos dão conferências. Está se fazendo tanto para divulgar as idéias de Sri Ramakrishna!”. A Santa Mãe
respondeu: “Que queres dizer? Nosso Mestre não sabia muito por leituras ou escritos. Por seu intermédio, se fará
muita obra nesta parte do país. Desta vez o Mestre veio à Terra para libertar a todos, ricos e pobres, instruídos ou
não instruídos. A brisa malaya está soprando aqui. Aquele que despregue sua vela e se refugia no Mestre, será
bem-aventurado. Desta vez, todas as árvores e plantas, até os que têm muito pouco tronco, talvez excetuando o
bambu e os pastos, serão transformados em madeira de sândalo, ao toque desta brisa malaya. Por que deves
afligir-te? Vós todos são meu filhos. Porém, lembre isto: um sadhu com instrução, é como um elefante,
cujos colmillos estão forrados de ouro”. Depois desta conversa, a Mãe entrou no templo.

SOBRE O KARMA

Um discípulo perguntou à Santa Mãe: “Se Deus é nosso pai e mãe, por que nos faz cometer pecados?”.

Deus, karma e sofrimento

Mãe: Sem dúvida, é devido a Deus todas a criatura animada e inanimada; mas no mundo relativo, todos os
seres atuam e sofrem conforme o seu passado karma e tendências inatas. O sol, não há dúvida, é um só, mas
suas manifestações diferem segundo os objetos e os lugares...
Discípulo: Se tudo acontece pela vontade de Deus, por que Ele não tira a lei do karma?
Mãe: Sim, se Ele quiser, pode cortar o período da evolução. Mas nós não conhecemos Sua vontade. Até Sri
Ramakrishna teve que sofrer por causa desta lei de karma. Um dia, seu irmão mais velho, delirando de febre alta,
quis tomar água, que lhe foi proibida, quando o Mestre lhe tirou o copo da mão. Isso irritou seu irmão, que o
maldisse, dizendo: “Por não ter me deixado tomar água, tu não poderás comer coisa alguma em teus últimos dias”.
Sri Ramakrishna disse-lhe: “Irmão, o fiz somente pelo teu bem, e tu me amaldiçoou”. A isto, o irmão rompeu a
chorar e disse: “Querido irmão, eu não sei porque disse isso. Eu não sei porque essas palavras saíram da minha
boca”. E tu sabes, filho meu, que o Mestre, durante sua última doença, teve que sofrer o resultado se seu
passado karma. Não pode comer coisa alguma.
Devoto: Mãe, pode-se anular o efeito do karma prarabdha (1), repetindo o “nome de Deus”?
(1) O karma, o resultado das ações passadas e está dividido em três categorias: prarabdha, agami e sanchita. Aquele que já começou a dar
frutos, é o prarabdha; aquele que já está pronto para frutificar é agami; e sanchita é aquele armazenado ou em reserva. Ilustra-se com um
exemplo comum, a arte de atirar flechas com arco. Prarabdha, é semelhante a flecha que já deixou o arco; deve dar no branco. Agami é como a
flecha já colocada na corda do arco; está pronta para ser disparada, mas pode ser retida. E sanchita é como a flecha que está no estojo; está de
reserva.

Yapam e mitigação

Mãe: Deve-se sofrer ou desfrutar dos resultados do karma parabdha. Nada pode evita-lo. Mas o yapam, ou
repetição do “nome de Deus” diminui sua intensidade. Seria como o caso do homem que estava destinado a perder
uma perna, mas que, em troca, só sofre a picada de um espinho em um pé.

ACERCA DE SRI RAMAKRISHNA

Sua adesão à verdade

A Mãe disse, uma vez: “Quão consagrada estava a verdade do Mestre! Ai, nós não podemos seguir seu
exemplo!”. O Mestre costumava dizer que somente a verdade é tapasia (austeridade) e a Idade de Ferro (Koli
Yuga). Aderindo-se à verdade, se alcança Deus”.

Sua divindade

Referindo-se a Sri Ramakrishna, certa vez a Mãe disse a um devoto: “Real e verdadeiramente, Ele era Deus
mesmo. Tomou este corpo humano para tirar as aflições e sofrimentos dos demais. Andava disfarçado, como um
rei faz para percorrer a cidade. Desapareceu no momento em que foi reconhecido”.

A Mãe viveu por certo tempo em uma casa alugada em Bosepara, de Baghbazar, para tratar ali de Radhu.
Uma discípula estava com ela, para servi-la. Um dia, a Mãe pediu à discípula que fizesse a oferenda de alimento
ao Mestre, mas a discípula não conhecia o mantram adequado e os outros detalhes. Ela disse à Mãe: “Eu não sei
como fazer o oferecimento do alimento ao Mestre”.

Oferenda de alimento ao Mestre

Mãe: Olha, considere o Mestre como alguém muito íntimo e roga-lhe, dizendo: “Vem aqui, senta-te e come”.
Logo, imagina que Ele veio, sentou-se e está comendo. É realmente necessário um mantram para servir a comida
a uma pessoa de nossa intimidade? É como ter um familiar como hóspede. O Mestre aceitará tua adoração em
qualquer forma que a realizes. A Mãe, contudo, ensinou a discípula um mantram com o qual podia oferecer a
comida ao Mestre.

Oração ao Mestre

Para consolar a uma jovem mãe que havia perdido sua única filha, a Santa Mãe disse-lhe: “Filha minha, que
posso dizer-te? Ponho ante ti uma fotografia do Mestre e tenha a certeza de que Ele estará sempre contigo. Abre-
te teu angustiado coração. Deixa correr tuas lágrimas e reze com sinceridade: ‘Oh, Senhor! Leva-me ao teu lado e
concede-me paz mental!’. Fazendo isto constantemente, alcançará logo a paz mental. Tem devoção ao Mestre, e
cada vez que te afligires, conta tudo a Ele”.

Oração ao Mestre e alcance do amor extático

Uma tarde, a irmã Sudhira e uma jovem discípula estavam sentadas, em companhia da Mãe. A Mãe disse-
lhes: “Quem orou sinceramente ao Mestre mesmo uma só vez, não tem nada a temer. Orando-lhe constantemente,
por Sua graça, alcança-se o amor extático (prema bhakti). Este prema, filhas minhas, é o mais profundo, íntimo e
secreto da vida espiritual. As gopis de Brindavan o alcançaram. Elas não estavam conscientes de coisa alguma no
mundo, salvo de Krishna. Em uma parte do cântico de Nikalantha, diz-se: ‘Deve-se conservar com grande cuidado
esta preciosa jóia do prema’”. A Mãe cantou. Logo acrescentou: “Ah, quão doces são os cânticos de Nilakantha! O
Mestre gostava tanto! Quando o Mestre vivia em Dakshineswar, costumava ir ali Nilakantha, de vez em quando, e
cantava para Ele. Que felizes éramos ali! Quanta gente, de diferentes temperamentos, ia ver o Mestre!
Dakshineswar, naquele tempo, era para nós o manancial da felicidade.”.

Mantram e culto

Uma devota perguntou à Santa Mãe: “Mãe, muita gente adora a Shiva regularmente. Posso faze-
lo também?”. Em resposta, a Santa Mãe disse: “O mantram que te foi dado, contém tudo. Com este, podes adorar
Durga, Kali e a todos os deuses e deusas. Mas se não desejas, podes aprender o culto a Shiva. Tu não necessitas
faze-lo. Isso só aumentaria tuas preocupações”.
Alguém perguntou à Mãe como se deveria oferecer a comida a Sri Ramakrishna. Ela disse: “Não há
necessidade alguma de seguir rituais, quando se oferece comida ao Mestre. O mantram que foi recebido do
próprio guru é suficiente para tudo”.

CONSELHOS
A um jovem de inclinações espirituais

Um jovem, que era discípulo da Santa Mãe, havia ido vê-la durante sua última enfermidade. A Mãe
perguntou-lhe sobre a mãe e outros parentes do jovem e logo lhe disse que ela (a Santa Mãe) não viveria por muito
tempo mais. Com isto, o discípulo ficou muito aflito e expressou seu temor de ficar desamparado na vida, quando
ela lhe faltasse. Então a Mãe falou-lhe assim: “Lembra sempre que só Sri Ramakrishna é nosso protetor. Se
esqueceres isso, te encontrarás desorientado, como perdido em um labirinto. Sabes por que te perguntei hoje por
tua mãe e outros membros de tua família? Tempos atrás, inteirei-me, por intermédio de G., da morte de teu pai.
Então, perguntei se tua mãe tinha outros parentes e também se tinha meios e vida. Ademais, perguntei se
dependia de ti. Quando supus que ela podia arranjar-se sem ti, pensei: ‘Isso é bom. O rapaz tem inclinações
espirituais. Agora, pela graça e Sri Ramakrishna, não haverá nenhum obstáculo sério que te impeça levar a vida
espiritual’. Todo filho deve servir à sua mãe. Quanto mais vós, que têm vindo aqui para dedicar a vida ao serviço
dos demais. Se teu pai não tivesse deixado meios de vida a tua mãe, eu haveria pedido que ganhasse dinheiro e te
preocupasses em dar-lhe comodidade. Pela graça de Sri Ramakrishna, esse obstáculo foi tirado. Simplesmente
trata, agora, que o dinheiro deixado para ela, não seja desperdiçado. Faz algum arranjo a respeito e cuida dela o
tanto que possas. É pouco vantajosa essa situação, para ti? Pode-se ganhar dinheiro de modo estritamente
honesto. O dinheiro sempre mancha a mente. Por essa razão pedi que tu ajustes os assuntos pecuniários de tua
mãe o mais rápido possível. Tal é o fascínio do dinheiro, que se ocupas muito dele, te sentirás atraído. Podes
pensar que estás acima do dinheiro e que nunca sentirás nenhuma atração, porque já havias renunciado a ele.
Ademais, poderás pensar que em qualquer momento o podes deixar como reserva. Não, filho meu, nunca cobices
estes pensamentos em tua mente. Por meio de uma pequena escusa, entrará em tua mente e te sufocará, sem que
te dês conta. Especialmente sendo tu de Kolicata, sabes como o dinheiro pode arrastar as pessoas a uma vida
dissoluta. Arranja os assuntos de tua mãe o mais rápido possível e sai de Kolicata. Além disso, se tu podes
persuadir tua mãe a que vá a um lugar sagrado; os dois podem levar uma vida espiritual esquecendo as relações
mundanas. Agora, tua mãe está sacudida pela aflição. Creio que esse seria o melhor modo de arranjar as coisas.
Tua mãe já tem uma idade bastante avançada. Fala-lhe sempre de Deus. Cumprirás, realmente, com teu dever de
filho, se ajuda-la a escolher a melhor maneira de fazer sua última viagem. Tu crescerás, nutrindo-te em seu seio.
Quanto terás que sofrer, antes de chegar a ser um homem! Sabe que servi-la é o teu mais alto dever. Mas seria
diferente o assunto, se ela se opusesse à tua vida espiritual. Por que não a trazes aqui? Verei suas inclinações e
posso dar-lhe, em poucas palavras, se for necessário, algumas instruções. Mas, tem cuidado! Não te enredes no
mundo, com o pretexto de servir tua mãe. Depois de tudo, não se trata mais que assegurar o sustento e proteção
de uma viúva. Isso requer muito pouca coisa. Trata de arranjar os assuntos o quanto antes, embora seja à custa de
alguma perda. Sri Ramakrishna nunca pode suportar o toque do dinheiro. Todos vós se separastes do mundo
levando Seu nome nos lábios. Lembrem sempre Suas palavras. O dinheiro está na raiz de todos os desastres que
tu vês no mundo. O dinheiro pode ser o engodo que leva a mente a outras tentações. Tem cuidado!”.

A um jovem devoto chefe de família

Um jovem devoto chefe de família falou, certa vez, um tanto desrespeitosamente a um sanniasin. A Mãe, no
curso de uma conversa, disse ao devoto: “O Mestre é muito compassivo contigo. É por isso que tu sentes uma
espontânea atração por Ele desde sua meninice. Deves, no entanto, recordar umas poucas coisas e tratar de
coloca-las em prática durante tua vida. Tem cuidado com estas três coisas: primeiro, uma casa situada na margem
de um rio; a qualquer momento, o rio pode destruí-la e ser arrastada pela corrente; segundo, uma serpente; deves
cuidar muito quando vês uma, pois não há modo algum de saber quando saltará em ti e te picará; terceiro,
um sadhu; não saber tu que uma palavra ou um pensamento de um sadhu, pode causar dano a um chefe de
família? Cada vez que te encontras com um sadhu, deves ser respeitoso com ele. Não lhes deves ter falta de
respeito, com réplicas ou expressões de menosprezo”.
Ao longo de sua vida, o discípulo lembrou carinhosamente, destas palavras da Mãe.

A uma discípula viúva

A Santa Mãe disse a uma discípula, depois de inicia-la: “Olha, filha minha, no geral não dou iniciação a
nenhuma mulher imediatamente depois de haver perdido o esposo, mas fiz uma exceção em teu caso, porque tens
temperamento espiritual. Procura que eu não tenha que me arrepender. O Mestre sofre pelo pecado cometido pelo
discípulo. Repete sempre, com regularidade, a fórmula sagrada”.
Uma vez, estando a discípula por ir à casa do sogro, a Mãe lhe fez a seguinte advertência: “Não tenhas
familiaridade com ninguém. Não participes muito das obrigações sociais da família. Diz: ‘Oh mente! Sê fiel comigo
mesma. Não sejas inquisitiva acerca dos demais’. Aumenta gradualmente o tempo que dedicas aos ensinamentos
de Sri Ramakrishna”.
Outro dia em que estava só com a discípula, disse a Santa Mãe: “Nunca tenhas plena confiança em
nenhum homem; nem sequer com teu pai ou irmão. Muito menos com outros. Te repetirei: não confies em nenhum
homem, embora seja Deus mesmo quem se apresenta dessa forma”.
Alem disso, lhe proibiu de freqüentar o monastério e outros lugares onde viviam os monges. Disse-lhe: “Tu
podes ter má intenção, em tua mente. Tu os visita com pensamentos puros. Mas tua presença levanta algumas
idéias impuras em suas mentes, então, tu serás, em parte, responsável”. Proibiu-lhe de fazer peregrinações sem
discriminação de tempo e companhia. Pediu-lhe que se encarregasse de dar alimentos a uns poucos santos, se
dispusesse e recursos materiais. Sinalizando-lhe uma devota ali presente, disse-lhe: “Olha, ela aprendeu uma
grande lição, enquanto visitava um lugar sagrado”. Citando um cântico, disse: “As peregrinações e excursões são a
causa de sofrimentos. Oh, mente! Não te inquietes por essas coisas”. “Se sentes realmente desejo, podes alcançar
muito mais em tua casa, mesmo”.
Um dia em que algumas devotas estavam criticando uma certa pessoa, a Mãe disse à discípula: “Não
percas o respeito por ela. Lembre que foi ela quem te trouxe aqui pela primeira vez”.
A discípula queria adotar um menino. A Santa Mãe lhe fez notar sua própria dificuldade ao ter feito algo
semelhante, com respeito a Radhu e acrescentou: “Nunca dê um passo semelhante. Cumpre sempre com teu
dever para com os demais, mas teu amor, deve dá-lo somente a Deus. O amor humano sempre traz, com seu
despertar, indizíveis aflições”,

Elogio à modéstia da mulher

A Mãe sentia-se melhor com o tratamento do Dr. Syamdas Kaviraya. Em uma tarde, várias devotas foram
vê-la. Uma delas usava formosa roupa e adornos. Parecia estar muito intranqüila. Dirigindo-se às devotas, a Mãe
disse: “Sabem vós que o único adorno da mulher é seu incômodo? Quando é oferecido aos pés da divina imagem,
a flor sente-se mais bem-aventurada. De outro modo, é melhor para ela secar-se na planta. Causa-me muita pena
quando vejo um homem elegante e asseado fazer um ramalhete de flores e leva-lo ao nariz exclamando: ‘Ah! Que
delicioso perfume!’. Talvez no momento seguinte as atire ao chão e até chegue a pisoteá-las. Logo, nem sequer as
olhe”. (Mais tarde, se supôs que, a muito tempo atrás, o marido dessa mulher, tão especialmente adornada, a tinha
deixado e partido com rumo desconhecido).

PENSAMENTO SOBRE DIVERSOS TEMAS

Atos piedosos e época propícia

Uma vez um discípulo desejava fazer uma peregrinação a Banaras com sua mãe; mas ela não assentiu, porque
não era época propícia. O discípulo falou disso à Santa Mãe. Em resposta, disse-lhe: “Filho meu, eles dizem que
fazer peregrinações em tempo não propício, destrói o mérito de prévios atos piedosos. Mas, também é certo
que deva-se cumprir todas as intenções piedosas o mais rápido possível”.
O discípulo não pode alcançar o sentido dessas palavras que, aparentemente, tinham um duplo significado.
Vendo sua confusão, a Mãe aclarou: “Segundo a opinião de gente mundana, não é próprio visitar lugares sagrados
quando não é tempo propício. É certo que alguém pode deixar de lado uma intenção piedosa, levando em conta
que o tempo não seja propício, mas a morte não faz nenhuma distinção de tempo. Como ninguém sabe quando
vem a morte, deve-se levar a prática, todas as vezes que se apresente a oportunidade, as intenções piedosas, sem
esperar um tempo ou época em particular”.

Não se deve ter demasiada confiança

Um dia disse um discípulo à Mãe: “Mãe, nenhuma má idéia vem à minha mente”. Com um rápido gesto, ela
não o deixou prosseguir e disse: “Nunca digas isto. Não se deve dizer semelhante coisa”.

Acerca de um falso rumor, devoção, etc.

Nalini, que conversava com outras jovens, disse à Santa Mãe: “Bem, tia, que espécie de falso rumor
(apavada) é bom?”. A Mãe disse: “Como pode dizer de um falso rumor, que é bom ou mau?”. Logo, em uma breve
conversa, ela disse: “Mas eu penso que um falso rumor referente à riqueza é bom. Se alguém diz: ‘Tu és bem rico’,
se sentirá interiormente feliz mesmo estando abatido ou aflito”. Então, a Santa Mãe mudou o tema: “Bem, já temos
falado bastante disto. Podem dizer-me que é que alguém deve desejar de Deus?”.
Nalini: Por que, tia? Deve-se desejar o conhecimento divino, a devoção e outras coisas semelhantes que o
façam feliz no mundo.
Mãe: Dito em poucas palavras, o que se deve desejar de Deus é que se tire todo o desejo, porque o desejo
é o único que há na raiz de todo sofrimento. É a causa dos repetidos nascimentos e mortes. É o obstáculo que há
no caminho da libertação”.

Uma discípula ortodoxa disse uma vez à Santa Mãe: “Mãe, estou surpresa de ver que aqui as jovens viúvas
comem certos pratos proibidos da região onde eu moro. A sociedade se opõe a isso”.

Costumes sociais e aspirantes espirituais

Mãe: Tu vês que estas são normas sociais e que variam nas diferentes partes do país. Em minha região, às
jovens viúvas é permitida uma maior amplitude em questões de comida e adornos. Elas, naturalmente, desejam
essas coisas. Se não lhes é permitido comer aquilo que lhes trazem em público, o comerão às escondidas. No
caso mostra-se a elas, primeiro, certa brandura e gradualmente, que estão fazendo algo contra as prescrições
sociais. Assim, elas podem deixar de faze-lo espontaneamente... Porém, não permitas que tua mente agite-se por
detalhes triviais. Isso te fará esquecer o Mestre. Qualquer coisa que as pessoas digam, tu lembres o Mestre e faz o
que considera correto. O Mestre disse: “Olha as pessoas como um verme”. Mas isso não deve se aplicado a todos.
Só se aplica aos caluniadores e as pessoas de sórdidas tendências.

Na última vez que a Mãe esteve em Yairambati, a cozinheira, que era da casta brahmin, foi para ela uma
noite, perto das nove horas, dizendo: “Mãe, toquei num cachorro. Devo bahar-me”.

Pureza

A Mãe respondeu: “Já é muito tarde. É suficiente que laves as mãos e os pés e que troques o vestido”. A
cozinheira exclamou: “Oh, não basta!”. A Mãe disse-lhe: “Então, salpica um pouco de água do Ganges sobre teu
corpo”. Mas isso tampouco satisfez a cozinheira. No final, a Mãe disse: “Então, toque a mim”.

Observar cuidadosamente

Uma vez a Mãe disse: “Quando vais de um lugar a outro, observa as coisas ao teu redor e te mantenhas
informado do que acontece no lugar onde vives. Porém, tem teus lábios fechados”.

Enfrentando dificuldades

Certo dia a Mãe disse a um discípulo: “Olha, filho meu, não é possível ter a certeza de que tu nunca terás
que enfrentar certos riscos. Dificuldades sempre se apresentam, mas não perduram muito tempo. As verás passar
como a água debaixo da uma ponte”.

A santidade da cabeça

Certo dia Mini, o gato predileto de Radhu estava deitado num costado do pátio. Uma devota o acariciava
com o pé. Fazendo isto, pôs o pé sobre a cabeça do gato, então a Mãe disse: “Oh, filha minha, que estás fazendo!
A cabeça é o lugar do guru. Não se deve tocar a cabeça com o pé. Saúda o gato”. A devota disse: “Eu nunca
soube disso. Hoje aprendi uma lição”.

Falar de bom modo

Um dia, em Yairambati, alguém usou palavras duras enquanto falava com a insana mãe de Radhu. Ao ouvir
isso, a Mãe rebateu: “Não se deve ferir aos demais nem sequer com palavras. Não se deve falar, tampouco, sem
necessidade, de uma verdade desagradável. Se alguém se deixa levar pelo emprego de palavras grosseiras, até
mesmo o caráter se entorpece. Perde-se a sensibilidade e não se tem mais controle sobre o que se fala. O Mestre
costumava dizer: “Não deve-seperguntar a um aleijado como foi que ficou aleijado”.

Mostrando respeito a tudo

Uma manhã, enquanto a Mãe estava passando azeite pelo corpo, alguém estava varrendo o pátio. Depois
de terminar, atirou a vassoura a um lado. Vendo isto, a Mãe disse: “Que é isso? Por que atirou tão
descuidadamente a vassoura, depois se acabar o trabalho? O mesmo tempo se necessita para deixa-la com
cuidado a um canto, que atira-la assim. Não se deve tratar com aspereza coisa alguma, por mais insignificante que
seja. Se tu respeitas uma coisa, a coisa te respeitará. Acaso não vais necessitar de novo, da vassoura? Ademais, é
também uma parte da família. Deste ponto de vista, merece ser tratada com consideração. Sim, até uma vassoura
deve ser tratada com atenção. Até um trabalho insignificante deve ser cumprido cuidadosamente”.

Amor divino e amor humano

Uma devota falou à Santa Mãe sobe uma amiga cuja frieza no carinho a fez sofrer. A isto, a Mãe disse: “Se
amas a qualquer ser humano, terás que sofrer por eles. Bem-aventurado, realmente, é aquele que só ama a Deus.
Não há sofrimento algum no amor a Deus”.

Serviço aos grandes seres e seus riscos

Falando das transgressões em que incorrem os que servem aos grandes seres, a Santa Mãe disse: “Olha,
quando se serve a um grande ser, pode-se cometer um erro. Pode acontecer assim: enquanto ele desfruta do
privilégio de ocupar-se de tal serviço, cresce seu egotismo. Então deseja manejar, como a um boneco, a pessoa
que serve. Deseja ter e exercer influência em tudo o que faz: comer, sentar-se ou levantar-se. Perde o espírito de
serviço. Mas, por que deveria ser assim para aqueles que servem a seus superiores, esquecendo seu próprio bem-
estar e que consideram seu prazer e sofrimento como seu próprio? E vós falais da caída do servidor! Muitas
grandes almas se rodeiam de riqueza e esplendor. Isso atrai a muitos em ser seus servidores. Tais servidores se
enjoam do gozo de sua situação e assim, preparam o caminho de sua própria ruína. Digam-me, quantos são
capazes de servir, conhecendo o verdadeiro espírito de serviço!”.
Logo a Mãe ilustrou isso com uma parábola. Disse: “Quando a luz da lua cai sobre o lago, os peixinhos
saltam em jubiloso gozo, crendo que a lua refletida na água é um deles. Mas quando a lua se oculta, eles seguem
sendo com eram. Depois de desfrutar intensa alegria, caem num estado de depressão. Eles não podem
compreender o que passou”.

Sua responsabilidade como guia espiritual

Uma vez, um devoto, ao ouvir a Santa Mãe dizer que logo deixaria o corpo, sentiu-se sumamente
deprimido, pensando que ficaria desamparado depois que isso ocorresse. Para infundir-lhe ânimo, a Mãe disse-lhe:
“Crês que mesmo quando este corpo desaparecer, poderei ficar livre, a menos que cada um daqueles, cuja
responsabilidade tomei sobre mim, alcance sair do cativeiro? Tenho que viver constantemente com eles. Me foi
dado o peso por completo de todas as coisas, boas ou más, a respeito deles. É acaso pouca coisa dar a iniciação?
Que tremenda responsabilidade temos que aceitar! Quantas angústias temos que passar por eles! Tu mesmo
podes ver. Teu pai faleceu e isso me fez sentir, em seguida, grande preocupação por ti. Pensei: Como é que o
Mestre o põe a prova, outra vez? Oro constantemente para que possas sair logo dessas penosas provas. Por esta
razão tenho aconselhado tudo isto. Podes compreender todas as coisas que te digo? Se puderes, isso aliviaria
enormemente minha preocupação. Sri Ramakrishna está jogando com Seus diferentes filhos, de diversas
maneiras, mas sou eu quem deve suportar os impactos. Não posso deixar de lado, não mais, a quem aceitei como
meus próprios”.

ÍNDICE E GLOSSÁRIO
Pág.
Prefácio, por Swami Vijoyananda

INTRODUÇÃO A PRIMEIRA EDIÇAO EM INGLÊS, por Swami Nikhilananda

PRIMEIRA SÉRIE (tomado das páginas de um diário escrito por uma discípula)

SEGUNDA SÉRIE (são páginas escolhidas do diário de um discípulo monástico)

TERCEIRA SÉRIE (páginas tomadas de diários de vários discípulos, monges e chefes de família)

TEMAS VARIADOS PARA RECORDAR

Vendo o bem até no mal – Sobre a educação e o matrimônio das jovens – Utilidade do trabalho (atividade) –
Recordando Sri Ramakrishna – A mulher deve cultivar a doçura – Adoração das imagens – Educação da mulher –
Alguns ensinamentos espirituais – Sattwa (calma, pureza), qualidade que conduz à renúncia – A devotas estão
acima das regras de casta – Como servir a Imagem Divina no templo – Como cantava Sri Ramakrishna – Os
casados e a vida espiritual – Reverência para com o guru – Nem mesmo as pequenas coisas se devem gastar mal
ou desperdiçar – Cumpramos nossas dívidas com todos – A realização de Deus e a graça divina – Significado do
sofrimento - Confissão e absolvição de todos os pecados – Que há no dinheiro? – Sobre Swami Premananda –
Contraste entre um grande ser e um homem comum – Os discípulos monásticos de Sri Ramakrishna – Sofrimentos
no ministério espiritual – Espíritos desencarnados, sua libertação – Todas as coisas mundanas são ilusórias – O
almiscareiro e a imanência de Deus – Prática espiritual e realização de Deus – Como deve ajudar o devoto ao
monge – o ideal monástico – Necessidade de autocontrole para os chefes de família – Seus parentes e sua vida
familiar – Controle da mente e realização de Deus – Seu afeto para com os pobres – Sobre práticas e experiências
espirituais – A iniciação é necessária – Função da mente no desenvolvimento espiritual – o amor divino e os
iswarakotis – A renúncia e a realização de Deus – A razão e a realização de Deus – Yapam, controle dos sentidos
e realização de Deus – O amor extático e a realização de Deus – Caridade – Só os laços do amor podem ligar a
Deus – Os desejos e a reencarnação – a vida monástica e a vaidade – Realização de Deus e graça Divina – Deus
e o problema do sofrimento – Prática de yapam com os dedos – O mistério do Karma e a vontade Divina – As
práticas espirituais podem atenuar os efeitos de nossos pecados – A vida depois da morte – O estado de não-
dualidade – Sri Ramakrishna adorando sua própria fotografia – A presença do Mestre – A deidade participa das
oferendas – Graça Divina; Deus é o mais íntimo de nós mesmos – O desejo é o que sustenta o corpo – o Nirvana e
outros estados de salvação – Os iswaras podem voltar do Nirvana – Os desejos e a salvação - Aceleração da
evolução espiritual – Significado da realização de Deus – Reconhecimento de que Deus é “o mais íntimo” – A
Renúncia do Mestre – Estado espiritual dos que morrem não conscientes – Um chefe de família pode ser iswarakoti
– Um verdadeiro guru só inicia por compaixão – Ardente desejo por Deus – A renúncia de Sri Ramakrishna – A
realização espiritual depende da Vontade Divina – Significado dos sofrimentos do Mestre – Lugar que ocupa o
trabalho na vida espiritual; justificativa das atividades da Ordem de Ramakrishna – Os desejos são reais e
aparentes – o aspirante tem a proteção Divina – Os efeitos do karma são inevitáveis, mas as práticas espirituais
podem mitiga-los – A pureza depende da mente – A morte em Banaras (Benares) conduz à salvação – Às vezes as
escrituras não são guias seguros – A verdade e a salvação – A glória da personalidade do Mestre – Acerca do
alimento puro e impuro – O progresso espiritual é gradual – Estão qualificados os Sudras e as mulheres para levar
vida monacal? – Não é bom morrer de uma doença pela qual não se fez nenhuma penitência – O Mestre com
relação ao Ideal Escolhido – olhar a fotografia do Mestre se não se pode concentrar – Até onde se deve observar
as regras de pureza sobre a comida? – A obsessão sobre a pureza é sinal de impureza mental – Entrega a Deus e
disciplina espiritual – Deus, o único prazer da vida – O dever do sanniasin (monge) – Orar ao Senhor – Um devoto
zangado com Deus – A graça de Deus comparada aos raios do sol – Por que o homem não tem a visão de Deus –
O yapam (repetiçao do mantram) de um devoto de mente pura - A juventude é a época apropriada para as práticas
espirituais –o yapam faz firme a mente e a dirige para Deus.

AS PRÁTICAS ESPIRITUAIS EM GERAL

Pranaiama, peregrinações e kundalini – Distração mental e yapam – Lugar para fazer as práticas espirituais –
Trabalho e práticas espirituais - Práticas de asana (postura correta) e pranaiama (controle do prana por meio de
exercícios respiratórios) – Objeto da vida – o guru (guia espiritual) e Deus – Visões e desenvolvimento espiritual –
Culto e deveres – Caídas no caminho espiritual, egotismo e vontade Divina – Necessidade das disciplinas
espirituais – Conhecimento de Brahman – Controle da mente – Fé e erudição – Caminho para a libertação –
Submissão à vontade de Deus e progresso espiritual – Ausência de um fervoroso desejo na vida espiritual –
Libertação e devoção – Desejo por realizar a Deus.

TRABALHO E MEDITAÇÃO

Deve-se combinar o trabalho com a meditação – Riscos de levar uma vida de exclusiva meditação – O trabalho
(ação) é tão sagrado como a austeridade.

YAPAM

Adoração e yapam – Como praticar yapam – Repetir o mantram diariamente um número fixo de vezes –
Concentração e yapam – Eficácia da repetição do Nome de Deus com concentração – Fazer yapam contando com
os dedos – O horário e a regularidade da prática espiritual – O yapam enquanto se viaja – O yapam e o progresso
espiritual.

GRAÇA DIVINA

Austeridade e graça Divina – Deus não é algo que possa ser comprado – A graça Divina opera lentamente – Graça
Divina e prática espiritual – Meditação, trabalho e graça Divina – A graça Divina no momento de morrer

VIDA DE PUREZA E RENÚNCIA

A glória da renúncia – Conselho da mãe de um monge – Exortação a um aspirante indeciso – Vida monástica e
vida no lar – Matrimônio ou renúncia? – Elogio da renúncia interior.

O IDEAL DA SANNIASA

Salvaguarda na vida do sanniasin (monge) – Livre de ciúmes e apego – Instrução e vida monástica.

ACERCA DO KARMA

Deus, karma e sofrimento – Yapam e mitigação do karma

ACERCA DE SRI RAMAKRISHNA

Sua adesão à verdade – Sua Divindade – Oferenda de alimentos ao Mestre – oração ao Mestre – Oração ao
Mestre e alcance do amor extático – Mantram e culto.

CONSELHOS

A um jovem de inclinações espirituais – A um jovem devoto chefe de família – A uma discípula viúva – Elogio a
modéstia na mulher.
PENSAMENTOS SOBRE DIVERSOS TEMAS

Atos piedosos e épocas propícias – Não se deve ter demasiada confiança – Acerca de um falso rumor, devoção,
etc. - Costumes sociais e aspirantes espirituais – Pureza – Observar cuidadosamente - Enfrentando dificuldades –
A santidade da cabeça – Falar de bons modos – Mostrando respeito a tudo – Amor Divino e amor humano –
Serviço aos grandes seres e seus riscos – Sua responsabilidade como guia espiritual.