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ATUALIDADES EM QUÍMICA

H. Mercedes Villullas, Edson A. Ticianelli e Ernesto R. González

Uma das principais forças motivadoras da pesquisa científica e tecnológica é procurar soluções para os
problemas que afetam a sociedade, como, por exemplo, a geração de energia. Este artigo define o que são as
células a combustível, discute de forma resumida os princípios que determinam o seu funcionamento e apresenta
alguns dos mais recentes progressos nas suas aplicações.


Célula a combustível, geração de energia, células galvânicas

Recebido em 3/12/01, aceito em 22/4/02

28

A
produção de energia elétrica silenciosos que transformam energia e, assim, a reação total resulta
vem se tornando um dos química em energia elétrica sem causar
n2O + n1R → n2P1 + n1P2 (3)
aspectos mais cruciais da so- danos ao ambiente.
ciedade moderna. Quando se fala em De forma geral, as reações quími-
energia elétrica, costuma-se pensar Conversão eletroquímica de energia cas podem ou não ser espontâneas,
nas grandes hidrelétricas, que produ- Um sistema eletroquímico prático, dependendo da variação de energia de
zem milhares de megawatts, e nas na forma mais simples, é constituído Gibbs (∆G) associada à reação total
grandes redes de distribuição de ener- por dois eletrodos (condutores eletrô- de transformação de reagentes em
gia. Mas, igualmente importante é a nicos) e um eletrólito (condutor iônico) produtos. Os sistemas eletroquímicos
energia elétrica produzida por peque- e recebe a denomi- podem ser diferencia-
nas pilhas e baterias, que acionam nação de célula uni- Células (ou pilhas) a dos uns dos outros pe-
equipamentos portáteis, às vezes mui- tária (Figura 1). Em combustível são la forma que funcio-
to pequenos, como, por exemplo, os um dos eletrodos dispositivos silenciosos que nam. Quando a reação
relógios de pulso. (anodo) ocorre uma transformam energia total de um sistema ele-
O crescimento da produção de reação de oxidação, química em energia elétrica troquímico é espon-
energia elétrica ao longo dos tempos enquanto no outro sem causar danos ao tânea (∆G < 0), o sis-
tem auxiliado grandemente o pro- (catodo) ocorre uma ambiente tema pode proporcio-
gresso da humanidade, mas também reação de redução. nar trabalho elétrico útil
tem criado uma séria preocupação, O eletrólito participa no processo glo- transformando energia química em
mais evidente em anos recentes: o pre- bal fundamentalmente no transporte da energia elétrica, sendo denominado
juízo ao meio ambiente. carga elétrica no interior do sistema. célula galvânica. Em outras palavras,
Nos próximos anos, uma nova tec- As reações que ocorrem no sistema uma célula galvânica é um sistema ele-
nologia de geração limpa de energia elé- eletroquímico podem ser escritas, de troquímico que pode gerar energia
trica deve ganhar espaço para uso em forma genérica, elétrica útil por meio de uma reação
química que ocorre espontaneamente
veículos e estações geradoras de ener- O + n1e → P1 (processo de

gia em residências, hospitais e peque- no seu interior. O inverso dessa


redução, catodo) (1)
situação ocorre nas células eletrolí-
nas indústrias. É a tecnologia das células
ticas, onde a energia fornecida por uma
a combustível (também conhecidas co- R → P2 + n2e (processo de

fonte externa é utilizada para provocar
mo pilhas a combustível), dispositivos oxidação, anodo) (2)
uma transformação química não es-
pontânea (∆G > 0). A Tabela 1 apre-
A seção “Atualidades em Química” procura apresentar assuntos que mostrem como a química é uma ciência viva, seja com
relação a novas descobertas, seja no que diz respeito à sempre necessária revisão de conceitos.
senta uma comparação entre as

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lização.
A célula a combustível como siste-
ma de conversão de energia foi inven-
tada por sir William Grove no século
XIX. Na época, as fontes primárias de
energia eram abundantes, irrestritas e
baratas; portanto, não havia forças
motivadoras para um desenvolvimento
significativo das células a combustível.
Já no começo do século XX, a conver-
são de energia química em energia elé-
trica tornou-se mais importante devido
Figura 1: Representação esquemática da forma mais simples de um sistema eletroquímico ao aumento do uso da eletricidade,
prático, constituído por dois eletrodos (condutores eletrônicos) e um eletrólito (condutor mas as aplicações práticas das células
iônico). a combustível apareceram somente
nos últimos quarenta anos. Durante a
última década, entretanto, a tendência
características das células galvânicas como as pilhas e as baterias. A dife- a uma maior flexibilidade na geração
e das eletrolíticas. rença principal em relação às pilhas e de energia e o crescimento da popula-
As células galvânicas fornecem baterias é que, nas células a combus- ção mundial contribuíram para o au-
uma maneira segura e compacta para tível, os reagentes não estão contidos mento do interesse no desenvolvimen-
o armazenamento de energia química, no interior do sistema, mas sim arma- to de plantas geradoras de energia de
que pode ser liberada como energia zenados externamente. A célula a maior potência e descentralizadas.
elétrica de forma controlada; ou seja, combustível produz energia elétrica à Mais recentemente, a crescente
como uma corrente elétrica gerada por medida que os reagentes são intro- preocupação em relação ao impacto
uma diferença de potencial. Um grande duzidos no sistema. O negativo no ambiente
A célula a combustível 29
número de reações eletroquímicas combustível é oxidado da utilização de com-
pode ser usado em dispositivos prá- de forma contínua no como sistema de conversão bustíveis fósseis para
ticos, sendo que a escolha é influen- anodo, enquanto oxi- de energia foi inventada a geração de eletrici-
ciada pela disponibilidade e custo dos gênio é reduzido no por sir William Grove no dade e para a propul-
materiais, sua estabilidade, a tempe- catodo. Assim, a rea- século XIX. Na época, as são de veículos tem
ratura de operação, a energia total ar- ção que ocorre na cé- fontes primárias de energia sido o principal fator
mazenada por unidade de massa e lula a combustível é eram abundantes, irrestritas que influencia o de-
fatores relativos à segurança. As pilhas uma verdadeira rea- e baratas; esse fato não senvolvimento das
e as baterias que permitem o funcio- ção de combustão. A motivou o desenvolvimento células a combustível.
namento de muitos dos aparelhos utili- circulação de elétrons das células a combustível Essas células são dis-
zados no nosso dia-a-dia são células através do circuito ex- positivos de conver-
galvânicas e foram objeto de um artigo terno permite que se complete a são de energia limpos e podem ajudar
detalhado nesta revista (Bocchi et al., reação e produz o trabalho elétrico. a reduzir as emissões de poluentes na
2000). As células a combustível constituem atmosfera.
As células a combustível são tam- uma nova tecnologia que, após muitos
bém dispositivos de conversão de anos de pesquisa e desenvolvimento, Princípios básicos
energia química em energia elétrica, está atingindo a fase de comercia- As células a combustível são célu-
las galvânicas nas quais a energia de
Gibbs de uma reação química é trans-
Tabela 1: Comparação das células galvânicas e eletrolíticas. formada em energia elétrica (por meio
da geração de uma corrente).
Parâmetro Célula galvânica Célula eletrolítica Com a tecnologia atual, o único
Transformação química → elétrica elétrica → química combustível que proporciona correntes
de interesse prático é o hidrogênio,
Tendência termodinâmica espontânea não espontânea apesar de já existirem células que utili-
∆G <0 >0 zam diretamente metanol como com-
bustível. Mas, neste caso, as correntes
Polaridade dos eletrodos
obtidas ainda são relativamente baixas.
Anodo - + A estrutura básica de todas as cé-
Catodo + - lulas a combustível é semelhante: a cé-
lula unitária consiste em dois eletrodos
Tipo de célula auto-impulsionada impulsionada
porosos, cuja composição depende do

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tipo de célula, separados por um ele- (∆G0) de uma reação redox relaciona- brepotencial. Uma das causas do
trólito e conectados por meio de um se com a diferença de potencial da aparecimento do sobrepotencial é a
circuito externo. Os eletrodos são célula (∆Eo): velocidade finita das reações eletroquí-
expostos a um fluxo de gás (ou líquido) micas que ocorrem nos eletrodos; em
∆G0 = - nF∆E0 (7)
para suprir os reagentes (o combustível outras palavras, as reações eletroquí-
e o oxidante). Um esquema de uma sendo n o número de elétrons envol- micas levam um certo tempo para
célula a combustível hidrogênio/ vidos na reação, F a constante de Fara- ocorrer, não são instantâneas. Em meio
oxigênio é apresen- day e ∆E0 o potencial ácido, a contribuição ao sobrepotencial
tado na Figura 2. O As células a combustível termodinâmico de associada à cinética das reações é
hidrogênio gasoso (o são muito mais eficientes na equilíbrio (na ausência mais importante no catodo, devido à
combustível) penetra conversão em trabalho da de fluxo de corrente; cinética muito lenta da reação de re-
através da estrutura energia liberada na reação para reagentes e pro- dução de oxigênio. Desvios adicionais
porosa do anodo, dis- de combustão, porque não dutos em seus esta- são produzidos pela resistência interna
solve-se no eletrólito e são dispositivos térmicos dos-padrão). do sistema (principalmente devida à
reage nos sítios ativos Para a reação glo- resistência do eletrólito, dos eletrodos
da superfície do eletrodo, liberando bal dada pela equação (6) a 25 °C, ∆G0 e dos contatos elétricos) e pela veloci-
elétrons e formando prótons (H+). Os = -237 kJ/mol. Portanto, o potencial dade finita do transporte das espécies
elétrons liberados na oxidação do termodinâmico de equilíbrio da célula
reagentes (combustível e oxidante) no
hidrogênio chegam ao catodo por a combustível (para reagentes e
interior da célula.
meio do circuito externo e ali partici- produtos em seus estados-padrão) é
À medida que os potenciais dos
pam da reação de redução do oxigê-
eletrodos são afetados pela velocidade
nio. Os prótons formados no anodo (8) finita das reações, pelos componentes
são transportados ao catodo, onde
resistivos do sistema e pela velocidade
reagem formando o produto da reação
valor que corresponde à diferença dos finita do transporte de massa, a volta-
global da célula a combustível: água.
potenciais de equilíbrio do catodo (E0C) gem da célula a combustível desvia-
30 Em outras palavras, nessa célula a
e do anodo (E0A): se do valor ideal e diminui com o au-
combustível a reação que ocorre no
anodo é a oxidação de hidrogênio e a ∆E0 = E0C - E0A (9) mento da corrente. As variações de vol-
reação que ocorre no catodo é a redu- tagem com a corrente são mostradas
A voltagem da célula a combustível em forma esquemática na Figura 3.
ção de oxigênio, usualmente do ar. Em
corresponde à diferença de potencial
meio ácido as reações são: Eficiência
dos eletrodos (catodo e anodo). Essa
H2 → 2H++ 2e– (anodo) (4) voltagem, em condições de circuito Na geração termoelétrica, um com-
aberto, é igual ao valor do potencial ter- bustível é simplesmente queimado pa-
½O2 + 2H+ + 2e– → H2O (catodo) (5)
modinâmico de equilíbrio. Quando cir- ra produzir calor, que é usado para ge-
Conseqüentemente, a reação glo- cula uma corrente, o sistema realiza tra- rar o vapor que movimenta as turbinas
bal da célula a combustível é: balho elétrico e a voltagem da célula a que acionam os geradores elétricos. A
combustível desvia-se do potencial de eficiência global da conversão de
H2 + ½O2 → H2O (6)
equilíbrio. Esse desvio em relação ao energia química em trabalho foi melho-
A variação de energia de Gibbs valor de equilíbrio é denominado so- rada até alcançar valores próximos a
35%, mas não se esperam melhoras
significativas nesse processo. A per-
centagem de eficiência teórica das tur-
binas a vapor e de dispositivos simi-

Figura 3: Representação esquemática das


variações de voltagem com a corrente de
Figura 2: Esquema de uma célula a combustível hidrogênio/oxigênio. uma célula a combustível.

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lares é intrinsecamente limitada pela menores que as teóricas. Em condi- m/m). Essa célula opera a temperatu-
natureza do processo e pode ser cal- ções práticas de operação, a voltagem ras próximas a 80 °C. No estado atual
culada pela expressão da célula a combustível se aproxima de desenvolvimento, as células a com-
de 0,7 V, o que se traduz em uma bustível alcalinas são as que apresen-
(10) eficiência prática ao redor de 50%. tam os melhores desempenhos. Po-
Embora a alta eficiência das células rém, são afetadas pela contaminação
a combustível seja uma vantagem com CO2 atmosférico, que reage com
onde T1 é a temperatura (em kelvins) marcante em relação a outras formas o eletrólito formando carbonato.
do vapor que entra na turbina e T2 a de transformar energia química em Como se mostra na Figura 1, o ele-
temperatura do vapor que sai da energia elétrica, é importante salientar trólito em um sistema eletroquímico
turbina. Na prática, T1 e T2 são aproxi- outros aspectos posi- nem sempre é uma
madamente 800 K e 400 K, respec- tivos das células a solução eletrolítica,
tivamente. Portanto, a eficiência teórica combustível. O resul- A alta eficiência das células podendo também ser
máxima esperada é próxima a 50%. tado do funcionamen- a combustível é uma uma membrana con-
Efeitos no transporte de calor e atritos to da célula é a gera- vantagem marcante em dutora iônica. Esse é
mecânicos resultam em um valor de ção de eletricidade, relação a outras formas de o caso das denomina-
eficiência prática muito menor. água como produto e transformar energia química das células a combus-
Em contraste, as células a combus- calor gerado pela dis- em energia elétrica tível de eletrólito poli-
tível são muito mais eficientes na con- sipação do sistema. mérico sólido,ou
versão em trabalho da energia liberada Em muitos sistemas, o calor gerado PEFC (polymer electrolyte fuel cell), nas
na reação de combustão, porque não também pode ser aproveitado (a utili- quais o eletrólito é uma membrana
são dispositivos térmicos. A energia to- zação simultânea da eletricidade e do polimérica, como por exemplo Nafion®
tal liberada em uma reação química e calor produzidos pela célula se deno- (desenvolvida pela E.I. DuPont). A
o trabalho útil máximo que pode ser mina co-geração). Ou seja, as células membrana de Nafion® é um polímero
obtido relacionam-se à variação da a combustível são dispositivos gera- fluorado que contém grupos sulfônicos
entalpia (∆H) e à variação de energia dores de energia eficientes e essencial- fixados na cadeia polimérica. É quimi-
de Gibbs da reação (∆G), respectiva- 31
mente não poluentes. Portanto, podem camente inerte em meios oxidantes ou
mente: ser instaladas sem prejuízo ambiental redutores, e a alta condutividade que
∆H = energia total liberada em regiões com alta densidade popu- apresenta está associada ao trans-
∆G = trabalho útil máximo lacional, evitando-se o alto custo de porte de prótons. As PEFC geralmente
Portanto, a fração da energia quí- instalação de redes de transmissão em operam a temperaturas entre 85 °C e
mica dos reagentes que é transforma- longas distâncias. Além disso, as cé- 105 °C.
da em energia elétrica está dada pela lulas a combustível utilizam poucas par- Os três tipos de célula a combus-
relação tes móveis e, conseqüentemente, pro- tível descritos pertencem ao grupo das
(11) duzem também menor poluição so- células de baixa temperatura. Outras
nora. células operam a temperaturas eleva-
das. Nas denominadas células a com-
Ou seja, a eficiência termodinâmica Tipos de células bustível de óxido sólido, ou SOFC (solid
de conversão eletroquímica é A classificação das células a com- oxide fuel cell), o eletrólito é um óxido
bustível é feita, de forma geral, em fun- condutor de íons. O material utilizado
(12) ção do eletrólito que utilizam, mas elas usualmente é zircônia (ZrO2), ou um
também podem ser classificadas se- óxido misto contendo 90% de ZrO2 e
Para a célula a combustível H2/O2 gundo a temperatura de operação. 10% de Y2O3 (ítria). O portador de car-
tomada como exemplo a 25 °C, e con- Nas denominadas células a com- ga no eletrólito é o íon O2–. As SOFC
siderando a formação de água liquida, bustível de ácido fosfórico, também operam a temperaturas da ordem de
∆H0 = -286 kJ/mol, o que resulta em: conhecidas como PAFC (do inglês - 800 °C a 1.000 °C.
phosphoric acid fuel cell), o eletrólito é Um outro tipo de célula que opera
ácido fosfórico concentrado (90-100% a altas temperaturas é a chamada cé-
m/m). Essas células operam a tem- lula a combustível de carbonatos fun-
peraturas entre 160 °C e 220 °C. Com- didos, ou MCFC (molten carbonate fuel
paradas com outros tipos de células, cell), que opera entre 600 °C e 800 °C.
as células a combustível de ácido O eletrólito é uma mistura de carbona-
fosfórico são as que se encontram em tos de sódio, de lítio e potássio.
Nas situações práticas, quando cir- estado mais avançado de desenvolvi- Embora o principal combustível se-
cula corrente, a voltagem da célula a mento. Por outra parte, nas células a ja o hidrogênio, os problemas relativos
combustível é menor que o potencial combustível alcalinas, ou AFC (alkaline aos seus armazenamento e distri-
de equilíbrio termodinâmico (1,23 V), fuel cell), utiliza-se como eletrólito uma buição têm levado à procura de com-
resultando, portanto, em eficiências solução concentrada de KOH (30-50% bustíveis alternativos que facilitem a

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utilização nas células. Vários combus-
tíveis podem, em princípio, ser oxida-
dos no anodo, mas o metanol é atual-
mente a opção mais atrativa, porque
pode ser produzido a partir de gás nat-
ural ou de recursos renováveis, como
a biomassa, e porque se considera que
é possível adaptar a infra-estrutura exis-
tente para os combustíveis derivados
do petróleo para armazenar e distribuir
o metanol. A denominada célula a com-
bustível de metanol direto, ou DMFC
(direct methanol fuel cell), constitui uma
exceção à classificação das células ba-
seada no eletrólito que utilizam. Nesse Figura 4: Esquema de uma célula a combustível de metanol direto.
caso, a denominação da célula deve-
se ao fato de que o combustível
utilizado é metanol, que é introduzido cas ocorrem. Portanto esses materiais que nas células a combustível de car-
diretamente no anodo. A Figura 4 devem apresentar uma alta atividade bonatos fundidos utilizam-se ligas de
apresenta um esquema de uma célula eletrocatalítica, ou seja, devem favore- Ni (Ni-Al ou Ni-Cr) como anodos e NiO
a combustível de metanol direto. As cer a cinética das reações eletroquími- como catodo.
células a combustível de metanol direto cas parciais. Também é necessário que
são células baseadas na tecnologia sejam estáveis nas condições práticas Geradores e combustíveis
das PEFC, ou seja, o de operação. Um conjunto de várias células unitá-
eletrólito que usam é Embora o principal Os materiais utiliza- rias apropriadamente conectadas em
32 uma membrana, e combustível seja o dos dependem do tipo série constitui um gerador. Há dife-
operam a tempera- hidrogênio, os problemas de célula. Na atuali- rentes tipos de geradores, que podem
turas baixas, entre relativos aos seus dade, as células a ser classificados em sistemas diretos,
60 °C e 120 °C. armazenamento e combustível que ope- indiretos ou regenerativos. Nos siste-
A Tabela 2 resume distribuição têm levado à ram a baixas tempera- mas diretos, o combustível é introdu-
as características dos procura de combustíveis turas geralmente utili- zido na célula na mesma forma em que
diferentes tipos de alternativos que facilitem a zam anodos e catodos é armazenado, por exemplo hidrogênio
células a combustível. utilização nas células nos quais o material gasoso ou metanol líquido, e o produto
A natureza dos ativo é Pt na forma de de reação é descartado. Nos sistemas
materiais que constituem os eletrodos nanopartículas ancoradas sobre carbo- indiretos, um combustível como gás
das células a combustível é um detalhe no. As células a combustível de óxidos natural, etano, propano, metanol etc.
importante, porque é na superfície dos sólidos usam atualmente anodos de é transformado em hidrogênio antes de
eletrodos que as reações eletroquími- NiO e catodos de LaSrMnO3, enquanto ser introduzido na célula (Figura 5). Es-
sa transformação é usualmente reali-
zada por meio de um processo deno-
Tabela 2: Características dos diferentes tipos de células a combustível. minado reforma a vapor, no qual o
combustível reage com vapor de água
Tipo de célula Eletrólito e espécie que Temperatura de Reações
sobre um catalisador formando H2 e
transporta a carga operação / oC
CO2.
Ácido fosfórico H3PO4 (90-100%) 160-220 H2 → 2H+ + 2e– Os sistemas regenerativos são se-
(PAFC) (H+) 1/2O2 + 2H+ + 2e– → H2O melhantes aos sistemas diretos que
utilizam hidrogênio, mas o produto da
Alcalina (AFC) KOH (30-50%) <100 H2 + 2OH– → 2H2O + 2e–
(OH–) 1/2O2 + H2O + 2e– → 2OH–
reação da célula a combustível (água)
é reconvertido em hidrogênio (por mé-
Eletrólito polimérico membrana de 60-120 H2 → 2H+ + 2e– todos térmicos, fotoquímicos ou por
(PEFC) Nafion® (H+) 1/2O2 + 2H+ + 2e– → H2O eletrólise) para ser reutilizado na célula.
Metanol direto membrana de 60-120 CH3OH + H2O → CO2 + 6H+ + 6e– Os sistemas diretos são os mais con-
(DMFC) Nafion® (H+) 3/2O2 + 6H+ + 6e– → 3H2O venientes porque não envolvem siste-
Óxido sólido 2–
ZrO2 (O ) 800-1000 H2 + O → H2O + 2e
2– – mas auxiliares para o processamento
(SOFC) ½O2 + 2e → O
– 2– do combustível, que produzem uma di-
minuição da eficiência final do proces-
Carbonato fundido Li2CO3/ K2CO3 600-800 H2 + CO32– → H2O + CO2+ 2e–
so. Entretanto, nos sistemas indiretos,
(MCFC) (CO32–) 1/2O2 + CO2 + 2e– → CO32–
o calor gerado pela própria célula pode

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Quadro 1: O projeto brasileiro de bustível na RMSP. O projeto é financia- arte em células a combustível para
ônibus com células a combustível do pelo GEF (Global Environmental Fa- veículos, (ii) uma avaliação dos resul-
cility), divisão do Programa das Nações tados práticos obtidos com esses ôni-
A Região Metropolitana de São
Unidas para o Desenvolvimento bus, (iii) um estudo das fontes e dos
Paulo (RMSP) é um dos centros ur-
(PNUD), e pela Financiadora de Estu- métodos de produção, armazena-
banos mais poluídos do mundo, de-
dos e Projetos (FINEP). A coordena- mento e transporte do hidrogênio que
vido à densidade de veículos que ali
ção está a cargo da EMTU. Os objeti- será usado como combustível e (iv)
transitam. São 25 mil ônibus movidos vos do projeto são: um estudo da penetração dos ônibus
a diesel, o mais nocivo dos combus- • demonstrar a viabilidade de utili-
tíveis fósseis usados em veículos. com células a combustível na matriz
zar ônibus com células a combustível de transporte urbano na RMSP.
Assim, a RMSP é o cenário ideal para no trânsito urbano;
testar novas tecnologias de veículos A segunda fase está prestes a ser
• contribuir para a redução do cus- iniciada e envolve a implantação de
não poluentes. Esse aspecto tem sido to dos ônibus com células a combus-
reconhecido em outros países e, oito ônibus com células a combustível
tível por meio da produção massiva; no trânsito urbano da RMSP. Por tratar-
atualmente, existem demonstrações • implantar um programa de de-
de ônibus urbanos com células a se de um projeto de demonstração,
monstração que poderá ser exporta- não haverá desenvolvimento. Os ôni-
combustível rodando nas ruas de Chi- do para outros locais no mundo que
cago (Estados Unidos), Vancouver bus serão comprados, por meio de
sofrem severos problemas de poluição
(Canadá) e Sttutgart (Alemanha). Di- licitação internacional, de fornece-
urbana (Cidade do México, Tóquio
versas razões têm levado à preferên- dores que cumpram as exigências do
etc.).
cia por ônibus para projetos de de- programa. Considerando que os
O Programa está dividido em quatro
monstração: i) os ônibus têm um per- ônibus existentes podem ser conside-
fases:
curso fixo e conhecido, ii) todos os rados ainda protótipos, a implantação
1. estudo de viabilidade e oportu-
ônibus desse tipo podem ser abaste- dos oito ônibus será gradativa, em um
nidade;
cidos e revisados na mesma gara- 2. compra e implantação de 8 ôni- período de 2-3 anos. O projeto poderá
gem, iii) a divulgação do projeto e bus com células a combustível em cor- significar para o Brasil uma solução 33
seus benefícios ao público é mais di- redor urbano da RMSP; a médio prazo para os sérios proble-
reta etc. 3. extensão do programa de de- mas de poluição urbana em locais co-
No Brasil, formou-se um consór- monstração a 200 ônibus; mo a RMSP. Mais interessante ainda
cio, integrado pelo Ministério das Mi- 4. implantação de ônibus urbanos é o fato de que o Brasil conta com
nas e Energia (MME), pela Empresa com células a combustível em grande todas as condições para estabelecer
Metropolitana de Transportes Urba- escala. a médio-longo prazo uma capacita-
nos de São Paulo (EMTU) e pela Uni- A primeira fase (estudo de viabili- ção para fabricar ônibus com células
versidade de São Paulo (USP), para dade e oportunidade) já foi concluída. a combustível, o que poderá transfor-
implantar um programa de demons- Em grandes linhas, envolveu (i) um mar o país em um líder mundial no
tração de ônibus com células a com- estudo muito detalhado do estado da setor.

ser aproveitado no processamento do Gemini como fonte auxiliar de energia NASA passou a utilizar células a com-
combustível. e para a produção de água para consu- bustível alcalinas nos projetos seguin-
mo dos astronautas. As membranas tes. A partir de 1973, como conseqüên-
Aplicações poliméricas utilizadas na época não cia da crise do petróleo, surgiu um
Embora a célula a combustível co- eram suficientemente estáveis (a mem- grande interesse no desenvolvimento
mo dispositivo de conversão de ener- brana de Nafion® ainda não tinha sido de células a combustível para aplica-
gia química em energia elétrica tenha desenvolvida) e, por essa razão, a ções terrestres, e esse interesse tem
sido inventada no século XIX, as aplica-
ções práticas surgiram somente nos
últimos quarenta anos. As células a
combustível foram utilizadas com su-
cesso no programa espacial norte-
americano nos projetos Gemini, Apollo
e ônibus espacial. Nos veículos espa-
ciais, as células utilizam hidrogênio pu-
ro como combustível. As primeiras cé-
lulas a combustível utilizadas no pro-
grama espacial eram células de eletró-
lito polimérico. Um gerador com uma
potência de 1 kW foi utilizado no projeto Figura 5: Esquema de um sistema gerador indireto.

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crescido muito com o aumento da na Europa, no Japão e nos Estados eficientes e porque os produtos gera-
consciência em relação à proteção Unidos. As células a combustível de dos pelo funcionamento das células
ambiental. Atualmente, as células a eletrólito polimérico são consideradas que operam com hidrogênio são água
combustível estão começando a ser as mais adequadas para aplicações e calor, ou seja, são dispositivos essen-
utilizadas em aplicações estacionárias em veículos porque apresentam alta cialmente não contaminantes. Além
e para a propulsão de densidade de potên- disso, proporcionam flexibilidade e
veículos. As células a combustível cia, elevada eficiência diversas opções para inúmeras aplica-
As células a com- têm vantagens em na conversão de ener- ções estacionárias, para a propulsão
bustível são aptas comparação com outros gia, são compactas e de veículos e para aplicações portá-
para aplicações es- dispositivos de geração de leves e operam a baixa teis.
tacionárias devido à energia porque são mais temperatura. Entretan- Em todos os casos, deve-se lem-
elevada eficiência e à eficientes e porque os to, em termos de uma brar que um sistema gerador de ener-
possibilidade de ge- produtos gerados pelo possível infra-estrutura gia é mais do que um simples conjunto
ração de energia em funcionamento das células para a distribuição do de células a combustível. Para cada
locais remotos, onde que operam com combustível, os fabri- aplicação específica, é necessário
podem ser utilizados hidrogênio são água e cantes de veículos considerar diversos aspectos relacio-
combustíveis reno- calor, ou seja, são consideram que os
nados com a segurança e o conforto
váveis gerados local- dispositivos essencialmente combustíveis líquidos
do usuário, a potência adequada,
mente, como, por não contaminantes são uma melhor opção
tempo de resposta, tamanho etc.
exemplo, o etanol. para viabilizar a comer-
Tanto as células que operam a baixas cialização de automóveis elétricos a H. Mercedes Villullas, ex-docente da Universidade de
temperaturas quanto as que operam a curto prazo. O combustível considera- Córdoba, Argentina, é atualmente pesquisadora no
temperaturas altas podem ser utiliza- do por muitos fabricantes é o metanol, Departamento de Química da UFSCar. Edson A.
das em aplicações estacionárias. Uma que poderia ser reformado a hidrogê- Ticianelli é professor livre-docente do Departamento
de Fisico-Química do Instituto de Química de São
dessas aplicações são os sistemas pe- nio a bordo do próprio veículo ou utili- Carlos – USP. Ernesto R. Gonzalez (ernesto@iqsc.sc.
34 quenos e distribuídos de geração de zado diretamente. Embora o estado usp.br), é professor titular o Departamento de Fisico-
energia. Por exemplo, células a com- atual de desenvolvimento das células Química do Instituto de Química de São Carlos – USP.
bustível de eletrólito polimérico, de áci- a combustível de metanol direto para
do fosfórico ou de óxido sólido, combi- aplicações em transporte não esteja
nadas com um sistema adequado para tão avançado como no caso das Referência bibliográfica
o aproveitamento do calor, podem pro- células a combustível de eletrólito poli- BOCCHI, N.; FERRACIN, L.C. e BIAG-
porcionar toda a energia necessária mérico que operam com hidrogênio, os GIO, S.R. Pilhas e baterias: funciona-
para uma residência. O calor gerado progressos recentes em relação à den- mento e impacto ambiental. Química
pela célula pode ser utilizado para sidade de potência e ao tamanho indi- Nova na Escola, n. 11, p. 3-9, 2000.
aquecer a própria residência em zonas cam que as células a combustível de
Para saber mais
de temperaturas baixas e para o for- metanol direto podem ser uma tecnolo-
necimento de água quente. As células gia competitiva em veículos. L. CARRETTE; K.A. FIEDRICH e U.
a combustível já são produtos comer- As pesquisas e o desenvolvimento STIMMING. Fuel cells - Fundamentals
and applications. Fuel cells, v. 1, n. 1, p.
ciais para aplicações estacionárias, em tecnológico atuais na área das células
5, 2001.
particular as PAFC. a combustível também incluem o de- J. LARMINIE e A. DICKS. Fuel cell sys-
Os sistemas para propulsão de veí- senvolvimento de células pequenas tems explained. Nova Iorque: Wiley,
culos devem ser diferentes dos usados que possam, no futuro, ser utilizadas 2000.
em aplicações estacionárias, porque em aplicações portáteis. K. KORDESCH e G. SIMADER. Fuel
devem ser compatíveis com as restri- cells and their applications. Wiley-VCH,
ções de espaço no veículo e com a Considerações finais 1996.
necessidade de tempos de resposta As células a combustível são siste-
Na Internet
curtos. O desenvolvimento desses sis- mas de conversão de energia química
temas tem se acelerado muito nos últi- em energia elétrica que podem contri- -http://h2fuelcell.org
mos anos. Protótipos de automóveis buir de maneira muito significativa com -http://www.h2guide.de
-http://www.fuelcellpark.com
que funcionam com células a combus- a geração de energia. As células a
-http://www.ballard.com
tível de eletrólito polimérico e hidrogê- combustível têm vantagens em com- - http://www.enr.com
nio têm sido demonstrados recente- paração com outros dispositivos de ge- -http://www.HyWeb.de
mente por várias empresas fabricantes ração de energia porque são mais

Abstract: Fuel Cells: Clean Energy from Renewable Sources – One of the main forces motivating scientific and technological research is the search for solutions for the problems that affect society, as for
example energy generation. This paper defines what are fuel cells, discusses in a brief form the principles that determine their functioning and presents some of the most recent developments in their
applications.
Keywords: fuel cells, energy generation, galvanic cells

QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Células a combustível N° 15, MAIO 2002