Minha querida irmã.

Sua carta me diz de suas preocupações com a insipidez que você pensa seja minha vida. Pergunto-lhe então, quantas outras conhece você, plenas de sentido. A esta hora em que lhe escrevo, quantas pessoas estarão gastando o tempo de suas vidas impotentes esperando a morte de alguém que lhes é especialmente querido, quantas outras, mais mulheres do que homens, são abraçadas pela solidão e pelo abandono, enquanto esperam um parceiro que não vem, e amordaçadas em antigas mágoas, morrem no passado incapazes de ver o futuro. Sou apenas uma entre tantos. Imagine você que todo espaço e tempo se encontrem no ponto e momento únicos, e então descobrirá que a maioria de nós, seres humanos, tem uma vida nada mais do que inútil, tanto para nós quanto para os outros. A única coisa que me faz diferente de todos eles é que sou sua irmã, e isso é pouco para que eu me veja como quem merecesse alguma coisa a mais do que quaisquer dos outros e você se esquece de que, como todos, somos seres humanos, esmagados, desconhecidos, oprimidos, mas seres humanos, com todas as suas limitações, mas nem por isso menos ávidos de amor ou quando menos de compreensão. E até, na verdade, não posso dizer que minha vida tenha sido apenas isso. O isolamento foi sempre meu companheiro, mas justamente por isso pude ver os outros e, vendo-os nos mais diversos ângulos, a solidão que um dia me foi imposta, hoje se tornou uma opção irrevogável. Do meu caminho, algumas coisas serão difíceis à sua compreensão, já que a idade nos separa em vinte anos, e, nesse tempo, tanta coisa aconteceu e acontece, que o mundo que foi meu, não pode ser o mesmo que você conhece e experimenta. Os pais que eu tive já não foram os mesmos que você tem, e apesar disso, você é a mais próxima de minhas irmãs, não sei se por razões mais agradáveis, ou se apenas por que o tempo e o espaço nos separam de tal modo, que nenhuma de nós teve condições de descobrir que a outra não passava de uma estranha. Mal você chegou ao mundo de nossa casa, eu a deixei, certa de que ali não mais me cabia, e eu pensava que para você alguma coisa haveria de ser melhor de que o fora para mim, depurados que talvez houvéssemos sido todos, da maldade ou loucura que, me parece, nos acompanha desde sempre. Agora, contudo, percebo que o seu mundo não será melhor do que o meu, que essa maldade não é tão maldade, nem a loucura tão loucura. Hoje, eu diria, limitação tão

própria de todos nós, que se um dia dela nos livrássemos, não seriamos humanos e nem sobreviveríamos. O que lhe conto a respeito de nós não lhe deve causar angústia, mas lhe dará a humildade de perceber que sua família, que é também minha, não é mais nem melhor do que outras pois, na verdade, somos todos muito iguais, tão pequenas são as minúcias que nos fazem diferentes. Também não pense que somos piores do que os outros, por que deles sabemos muito pouco, já que nas raras vezes em que o dizem, nunca o fazem com verdade, por que em família somos sempre partes e, como partes, nos movem muitos interesses. Digo-lhe que entre nós houve sempre alguma forma de loucura e que porque a tínhamos como diferente das outras, dela guardamos muito segredo, um segredo talvez desnecessário, que eu lhe passo agora, para que ele não morra quando eu morrer e com ele você se prenda também à mesma corrente que me prendeu a mim e a Ester. E, quando muitos anos se passarem , que nele se acorrentem seus filhos e até mesmos os seus netos e uma história de melhoras e aperfeiçoamento se escreva. Então lhe contarei um passado que não é só meu e lhe peço desculpas por lhe dar uma verdade que é só minha, quando outros de nós teriam outras, todos dando razão a cada um, porque, quando ouvidos, todos temos nossas razões e nem podemos dizer que não somos bons, se somos antes de tudo impotentes. De começo, meu pai se levantava muito cedo e durante todo o dia plantava tudo o que nos iria alimentar a todos e até mesmo àqueles a quem, a preço de ouro, meu pai fornecia o que eles não quiseram ou não puderam plantar. Minha mãe usava sempre vestidos de cores apagadas, os cabelos cobertos com um lenço, o rosto vermelho do calor do forno ou do fogão, onde ela fazia a comida para os de casa e mesmo para os empregados. Se a escola nos impedia, ela mesma, um tabuleiro e muitas panelas na cabeça, levava a comida para os empregados, com os quais nunca podia falar, esta mais uma proibição de meu pai, um homem cheio de normas que deviam ser rigorosamente observadas por todos que dele dependiam. À tarde, no fim do dia, meu pai voltava para a casa cansado, o rosto queimado de sol, ainda que o chapéu de couro lhe tentasse proteger a cabeça, nos ombros a enxada, os pés descalços e na boca qualquer reclamação contra minha mãe, pelo que ela houvesse feito em desacordo com o que ele tinha como certo.

Minha mãe se desculpava, com palavras ou até com lágrimas, e então, ele, ciente de que o homem deve ser forte e a mulher fraca, tornava-se mais veemente em sua reprimenda e, não raro, lhe batia o rosto. Nós, crianças, Olga, Álvaro, Ester e eu, ainda bem pequenos uns, e outros não tão maiores, tínhamos os olhos abertos, vendo um grande medo, que não sabíamos exatamente de que. Minha mãe nos batia sempre, sem que ao menos soubéssemos por quê. Mas isto era para nós cada vez menos importante, acostumados que ficávamos a esta , e a muitas outras formas de violência. Quando meu pai comprou o sítio, e disto eu não me lembro, como presa à terra havia ficado Ana, de quem eu sempre ouvi dizer: "Ana é submissa, discreta e fiel. Ana é de confiança." A todo esses adjetivos hoje, muitas vezes, eu acrescento: "Ana é eterna", porque quando deixamos o sítio, ela ficou com os outros donos que vieram depois de nós e, até hoje, nunca soube se ela morreu. Minha mãe quase não falava quando Ana estava por perto e, aos poucos, cada um de nós, mesmo aqueles que chegaram depois, como Álvaro e Ester, ficávamos sempre quietos quando percebíamos a presença de Ana, Na verdade, nunca vimos, ouvimos ou tivemos noticia de que Ana falasse com meu pai, ele sempre sabia tudo que se passava em casa mesmo em sua ausência. Ana fazia os serviços silenciosa, mantendo nossas roupas bem passadas, guardando-as em nossos quartos onde sempre chegava de mansinho, e quando deixamos o sítio, meu pai sabia de tudo que lá se passava. Ana limpava o feijão, o café, rezava o terço, sempre em silencio, onde os outros falavam. Ana era imperceptível, jamais incômoda, diriam os outros. Pensávamos que a vida era sempre assim. Minha mãe era sempre resignada e, como se isso fosse uma virtude obrigatória, aos poucos no ensinava que este era o modo como devíamos ser todos, principalmente as mulheres. Nossa casa, por isso, era apenas um pouco triste, mas a repetição de tudo nos fez aos poucos acreditar que, em cada dia, o que importa é apenas estar vivo e que triste, amargo e violento são apenas adjetivos. E mesmo se a casa fosse muito desagradável, não fazia mal porque, com freqüência, minha mãe se cansava de nós, e tínhamos que sair para os campos ou montanhas, e

assim descobrimos os pássaros, as árvores e flores coloridas, não só de verde, como pensam muitos, mas de cores outras que enfeitam a terra quando o homem ainda não a tocou. Era bom ver os nossos pés e até mesmo nosso rosto, nosso corpo, que se nos mostravam no transparente das águas do rio. Nesse tempo, nosso espaço deixava de ser a pequenez da casa, para ser a grandeza da fazenda, que em nossa ignorância infantil imaginávamos ser tão grande quanto o mundo. Ana sabia o que minha mãe fazia em casa, o que fazíamos nós, em qualquer lugar, que estivéssemos. Ana , penso, era o olhar de Deus. Quando íamos aos campos, pensávamos que Ana não nos via e isso nos dava uma liberdade imensa, esse engano nos deixava felizes. Contaram-me, mais tarde, que Ana viera de outra fazenda e quando nós nos fomos ela permaneceu na fazenda, servindo naturalmente a outro senhor. Ana deve ser eterna e onde ela está o tempo pára. Ana ,creio, não se dava ao trabalho de pensar, ela simplesmente obedecia. Tudo melhorou um pouco quando, minha mãe ignorando e nós muito mais, meu pai conseguindo algum dinheiro, a custo de muito trabalho e de muitas irremediáveis privações, com ele nos comprou uma casa na cidade.. A casa da cidade era bonita e não menos espaçosa de que a do sitio e, com ela, em nossa vida, tudo o que os outros vêem, havia mudado. Vestíamos roupas novas, íamos à escola, mas em casa, meu pai e minha mãe eram os mesmos. Ele a agredia sempre e ela a nós, com palavras e castigos, e o medo que havíamos aprendido por causa d****? Minha mãe nos ensinava o que a ela haviam ensinado: "De coisas da família não se pode falar com ninguém.” Meu pai passava a maior parte do tempo no sítio e nossa liberdade se ampliou. Podíamos brincar na rua, minha mãe achava que isso era bom, porque a casa se mantinha limpa, sem muito trabalho, e, quando meu pai tivesse seus gestos de fúria, ninguém ficaria sabendo. No sítio esperava-se, mesmo na ausência de meu pai, que as coisas estariam sempre correndo bem. Ana estava lá e ela era uma empregada de confiança - havíamos aprendido isso. Na cidade pequena, éramos notados pelos nossos cabelos muito loiros e olhos azuis e ainda porque, muitas vezes, usávamos palavras que nos vieram de nossos avós e que fugiam ao vocabulário das outras crianças.

Foi por isso que , sem muita demora os outros nos chamavam de estrangeiros, palavra de sentidos muito variados, mas que na maioria das vezes nos dava a idéia de que ali éramos inferiores e intrusos, assim como me sinto até hoje, mesmo nos lugares, onde depois me dizem, as pessoas gostavam de mim. Desde cedo havíamos aprendido a falar a língua de nossos pais, mas ao mesmo tempo compreendemos que este saber deveria também ser mantido como um segredo de família, para que esquecessem todos que éramos estrangeiros, o que de certa forma, significava, usurpadores. As palavras têm para nós o valor que lhes damos, talvez seja só por isso que eu me sentia sempre incômoda quando, na escola, os meninos e mesmo a professora, faziam qualquer referência àqueles que, como meus pais, não foram aceitos ou que por quaisquer razões tiveram que deixar o país que, com direito, acreditavam era deles. Minha mãe continuava submissa e meu pai ainda cheio de autoridade, como um general, embora sua autoridade e seu poder não ultrapassassem os limites do que era seu, e seu era tão pouco. O tempo passou, meu pai não usava mais o chapéu, nos pés tinha botas, e a enxada, ainda não substituída pelo trator, não era pesada aos seus ombros: o trabalho a ser feito já estava praticamente a cargo de seus empregados. Nossa infância , ao contrário do que você possa imaginar, não era ruim. Éramos, ao tempo, Olga, Ester, Álvaro, e eu, e na cidade, onde meu pai aparecia muito raramente, nossa liberdade era quase como a de outras crianças. Podíamos brincar na rua, conversar com outras meninas, desde que não brincássemos em casa alheia e não trouxéssemos ninguém para brincar na casa que se dizia era nossa. Íamos todos à escola, minha mãe nos ajudava a estudar com o pouco que ela sabia, em nada lhe ajudando a língua estranha que conhecia, mas lhe valendo muito o esforço que sempre fez para aprender tudo o que pudesse ser aprendido. Nos finais de semana, tínhamos medo porque meu pai olhava os nossos cadernos e se não compreendia bem o que estava escrito, sabia pelos símbolos com que a professora os marcavam , se havíamos ou não sido bons alunos. Todos estudávamos muito, nem tanto porque aprender nos interessasse, mas acima de tudo para evitar que meu pai, no seu nervosismo, descesse sua mão pesada não apenas em minha mãe, mas agora também em nós.

Quando terminamos o primeiro curso, meu pai havia conseguido algum dinheiro, o que lhe permitiria expandir os seus negócios, e a nós nos propiciava continuar nossos estudos em uma escola particular, o que satisfazia a vaidade e até mesmo a forma de amor autoritário que meu pai nos dedicava. E nasceu o André. Olga, Ester e eu ficamos felizes com o irmãozinho, como ficaríamos se um brinquedo a mais nos fosse dado. E nesse dia, o primeiro de muitos outros, eu me senti mulher e oprimida, ouvindo meu pai cheio de grosseria, dizer à minha mãe que ela já estava velha e que precisava descobrir uma forma de não mais ter filhos. Meu pai dizia isso como se, sozinha, minha mãe fosse responsável pelo nascimento dos filhos, nos quais só ele tinha o direito de mandar. Faltou-me atenção para ouvir todas as palavras que minha mãe ouviu, mas, quando entrei em seu quarto, meu pai estava saindo, fazia barulho com suas botas, e minha mãe chorava em silêncio. Mas depois do André, ainda veio o Simão, e só muito depois dele, você. Quando meu pai completou trinta e quatro anos e eu dezesseis, esvaziaram-se-lhe os seus trabalhos e também os nossos, e ele se lembrou de que nos seus tempos de orfanato lhe haviam ensinado, ainda que não muito, a tocar violino. E ele, feliz no seu silêncio, já que raramente falava conosco, mandou que lhe trouxessem um, bonito, bem feito, a frente toda em madre pérola. Ele havia se esquecido de que o tempo lhe dera muito trabalho e não pensou que os dedos, tão rapidamente cansados, não serviam mais para coisa alguma que não fosse o reconhecidamente útil. Ele havia pensado, como também em relação a mim eu pensei , e este foi meu maior erro, que pudéssemos, em qualquer tempo, fazer coisas que não fizemos no tempo certo. Há um tempo para cada coisa. Há um tempo para ser feliz. Um tempo que não se prorroga. E foi quase com desespero que ele descobriu que o seu tempo para o violino estava morto e nenhum esforço poderia ressuscitá-lo. Muitos dias ele ficou num silêncio maior de que o de sempre. E passados esses dias, como se houvesse feito uma grande descoberta, comunicou a Olga que ela deveria freqüentar aulas de música, porque ela precisava aprender a tocar violino. E devia ser Olga a aprender música porque, sendo eu a mais velha, meu tempo deveria ser gasto em serviços domésticos, nos estudos, e em ajudar minha mãe. Meu

pai decidia o que cada um de nós devia fazer. A vida que ele - dizem - nos deu, continuava a ser propriedade dele, e ele nunca percebeu que éramos pessoas distintas. Olga não se interessava por música. Queria bonecas, para as quais desenhava e fazia lindos vestidos. Ela era bastante adulta para se interessar por bonecas, mas, na verdade, não eram elas que a interessavam, eram os vestidos que lhes desenhava e que, mais tarde, fizeram de minha irmã a estilista que hoje todos nós reconhecemos de grande valor. Olga se parecia com meu pai, era independente, fazia o que desejava, e sem medo disse a ele que jamais gastaria seu tempo com um instrumento que lhe parecia feito para depender de outros. E que eu me lembre, nem uma vez a vi tocar naquele instrumento. Mas porque Olga rejeitara a musica, já não era só minha mãe a suportar as agressões do meu pai. Minha irmã viera nisto se juntar a ela, e não muito depois, também o Álvaro, que meu pai entendia, devia, ainda nos seus doze anos, supervisionar os trabalhos da fazenda com a responsabilidade e a sabedoria de um adulto que ele não poderia ser. Meu irmão cometia distrações e erros no trabalho, alguns decorrentes de sua pouca idade, outros de insinuações maldosas dos empregados, que por não gostarem de meu pai, e não terem condições de enfrentá-lo, prejudicavam meu irmão, criança e frágil. E já cheio de medos. Olga e eu escapávamos do permanente mau humor de meu pai.: Ela por que nem sequer o escutava e não chorava se ele a maltratava, olhava-o cheia de ódio e talvez ele a temesse por isso. Eu também nunca o olhei de frente, sempre fui tão submissa que nasci escrava, mesmo daqueles que nunca pensaram em escravizar ninguém. Ester, desde esse tempo, tinha qualquer de coisa de invisível, como se não existisse. E foi ela que sem ordem expressa de ninguém disse a meu pai, não como um pedido de consentimento, mas como uma informação sem importância: "Então eu aprendo a tocar violino." Meu pai não fez comentários, nem ela por eles esperava. De inicio, o violino de Ester, ainda que terrivelmente mal tocado, trazia alguma coisa de alegre que, com o tempo aprendi, está sempre presente quando menina moça, esperança de mulher, acredita que está amando. Ester devia estar apaixonada. Ela era quase menina. De Olga, nesse assunto, nada se sabia; de mim nada se tinha a saber.

E o Álvaro? Você chegou a conhecê-lo? Algumas coisas agora se misturam em minha cabeça e eu nem sei em que ordem aconteceram, talvez porque eu quisesse que elas nem sequer houvessem acontecido. Álvaro veio logo depois de mim. Pouco mais de um ano nos separa no tempo. Tão pouco esteve conosco... Uma tarde, meu irmão chegava da escola e alguém havia falado a meu pai que bois de nossa fazenda haviam escapado do curral onde estavam e onde seriam mostrados a um eventual comprador. Meu irmão implorou a meu pai que não o obrigasse naquele dia a ir ver os bois, pois que o céu escuro prenunciava uma enorme tempestade. Meu irmão, como meu pai, sabia que entre nós as tempestades eram más, quando não trágicas. Mas meu pai não podia perder os seus bois - ele nunca se admitiu perdendo... Foi por isso, porque havia aprendido a obedecer que, naquela tarde escura, meu irmão criança foi recolher os bois, quando os empregados adultos se recolheram em suas casas. Imagino-o, a roupa que chuva colava o corpo, ele cansado e só, foi o alvo de um raio. Só um raio e o corpo de meu irmão nos foi trazido sem palavras. Porque naquela hora , as palavras não existiam e tudo era uma dor imensa. Minha mãe o rosto sem qualquer expressão passeou os seus olhos sobre nós e riu, um riso estranho como se ninguém lhe houvesse ensinado que naquele momento ela devia chorar. Ninguém entendeu o seu riso e como o médico também não o entendeu, disse ele que era melhor levá-la para um hospital, numa cidade distante, onde um médico especialista lhe faria entender que naquele momento, não se podia rir e que ela devia chorar. Foi assim que meu pai e o médico decidiram, minha mãe ficaria algum tempo , não se sabia quanto, longe de nós. Transformei-me de uma hora para outra em dona de casa e não raras vezes mãe. De Olga, para recomendar-lhe mais cuidado nas suas saídas, que, eu tinha certeza, se chegassem ao conhecimento de meu pai, a ela tanto quanto a mim, ele nos puniria. De André, porque se meu pai o visse brincando na rua, como o faziam todos os meninos de sua idade, meu pai se irritaria tanto e sobre nós cairia com todos os seus problemas e culpas. Só Ester não me preocupava., na cidade ela quase não saía de casa e, nos fins de semana, quando meu pai ficava entre nós, ela alegre ia para o sítio. Ninguém entendia o porque de seus passeios mas não fazíamos perguntas, porque para nós nos parecia claro que, lá, mais do que em qualquer outro lugar, Ester nada faria além daquilo que meu pai considerava certo. Sempre em silêncio, ela nunca reclamou da ausência de Álvaro e tocava, ainda sem o saber, o violino, que meu pai julgava que uma de nós devia tocar. Ele se tornara aos poucos sua companhia e dele ela nunca se afastou.

Por esse tempo, contudo, meu pai passou a chegar a casa mais tarde, tornou-se mais cuidadoso de sua aparência e, não raro, nos fins de semana nem sequer nos via., mesmo quando o sabíamos, ele estava na cidade. Isso aumentava a liberdade de Olga e, na certeza da ausência de meu pai, ela também desaparecia de casa, sem que ninguém pudesse dizer onde ela se encontrava. Num certo final de semana, quando Ester voltou do sítio, seu rosto parecia mais branco ela estava sem quaisquer palavras ou risos e foi a partir daí e desde então, que nunca mais se interessou pela escola ou por quaisquer outras coisas que não o seu violino: nunca mais voltou ao sítio e de suas razões não falou a ninguém. Marcou-se a data da vinda de minha mãe e meu Pai retardou o quanto pode o tempo de ir buscá-la. Quando ela chegou, ficamos felizes porque quase não havia envelhecido, seu rosto era o mesmo, apenas nunca mais riu, adquiriu o hábito de rezar e o fazia quase o dia inteiro. Sobrou-lhe tempo para, não sei se por querer ou por exigência de meu pai, nos dar mais dois irmãos, entre eles você, que do meu tempo se separa em tanto quanto em afeto se aproxima. Meu pai, apesar de tudo, continuou com suas saídas, e embora se manifestasse, na maioria das vezes, indiferente à minha mãe e a nós, deixava-nos a todos tranqüilos, já que não mais nos agrediu pelo menos com palavras. E isso nos bastava. Tornei-me amiga de minha mãe e muitas vezes, à tarde, nos assentávamos na varanda interna de nossa casa e ela me falava da cidade onde havia nascido, da fábrica de seu pai e da riqueza que haviam possuído e que perderam mesmo antes da guerra, pois que o ditador resolvera estatizar muitas propriedades particulares, no interesse do Estado. Contara-me que o seu país havia sido um dos perdedores da guerra, mas ainda que houvesse sido vitorioso, também ela percebia que na guerra, mesmo os vencedores sempre perdem e muito. Nesse tempo ela comentou comigo que estava sabendo de um suposto namoro de meu pai com a filha de um homem um tanto violento, destes para quem as filhas se destinam obrigatoriamente a um casamento na Igreja, ainda que fosse uma igreja qualquer, e minha mãe não sabia que algumas igrejas fazem um segundo casamento de homens já casados. Ester permanecia todo o tempo junto de nós, sem palavras e, creio, sem nos ouvir: ela tocava o seu violino. Não o tocava bem e nós suportávamos aquele som, mais agradável do que o silêncio que a transformava numa sombra, quase um fantasma de alguma emoção que nos era inteiramente desconhecida. Talvez uma lembrança da morte.

A ligação amorosa de meu pai com a moça que não conhecíamos, não me pareceu importante para minha mãe. O que ela temia era a violência com que o pai da moça poderia reagir, se soubesse de tudo que estava acontecendo e, até mesmo dos comentários que, naturalmente, a respeito se faziam. Ela temia pela vida de meu pai. Não sei se porque ele era o seu homem, ou se porque pai dos filhos que eram dela. Minha mãe me falou também do esforço que ela precisou fazer para descobrir, ainda criança, o país para onde seu pai havia fugido quando as perseguições do ditador o atingiram e, posteriormente, a terrível viagem que fizera para encontrá-lo, atravessando não poucas fronteiras, ouvindo como únicos ruídos os que lhe mandavam fuzis de inimigos. Quando me falava dessas coisas, ela adquiria uma tristeza sóbria que a fazia bonita, independentemente dos traços de seu rosto. Olga foi sempre muito diferente de mim. E não digo o mesmo a respeito de Ester porque esta foi ficando, a cada dia, diferente de si mesma, até que não se assemelhava a mais ninguém. Enquanto eu me prendia em casa, tendo ou não o que fazer, Olga voltava da escola por caminhos vários, e, muitas vezes, à noite, saía pela janela, fugindo de quem quer que fosse e, só muito tarde, chegava em casa. Ester voltava da escola correndo e se prendia no seu quarto tocando o violino. Sempre tive consciência de que gostaria de ter coragem de fazer o que Olga fazia; faltava-me coragem, porque eu sabia que os outros me viam com os mesmo olhos que eu podia me ver, uma pessoa sem atrativos de corpo ou de espírito, e talvez seja por isso que vida se esvai de mim e eu não faço nada para impedir que ela se vá. Do mesmo modo, não tenho pressa de que ela se acabe. O tempo é sempre o mesmo em qualquer tempo, mas, nós a cada momento somos um outro. Uma noite, quando Olga chegou e eu já ia muito longe a meus sonhos, ela me acordou, cheia de ódio, dizendo que meu pai a encontrara com um namorado, que até então eu não tinha certeza nem mesmo se ele existia, muito menos quem era. Mas não era isso o que no momento a preocupava. É que meu pai se fazia acompanhar também de sua namorada. Passamos o resto da noite em claro nos questionando sobre o que nos aconteceria no dia seguinte, quando meu pai não pudesse negar que todos nós sabíamos aquela verdade a todos tão evidente. No dia seguinte meu pai não apareceu em casa, o que na verdade acontecia sempre. No entanto, de surpresa, o que aconteceu foi que desta vez ele mandou um empregado

avisar que em razão do excesso de serviço não poderia vir. Disso, Olga e eu rimos. Havia alguma coisa de ridículo, não sei se nele ou em nós. Na semana seguinte, sem qualquer aviso, pouco depois do nosso jantar, onde o silêncio com esforço se rompia em nulidades, apareceu em nossa casa, vestido com certa elegância, um moço que, já me haviam dito, era um dos dentista da cidade. Meu pai o recebeu com um misto de surpresa e constrangimento, enquanto para mim ou para minha mãe ele não era mais do qualquer dos homens que, em razão de negócios, procuravam meu pai em nossa casa. Por que pensávamos que se tratava de negócios, minha mãe e eu nos afastamos, para retornarmos de novo à sala de visitas, a chamado de meu pai, que nos comunicava que aquele desconhecido desejava se casar com Olga. E se tornaria , sem que nós o houvéssemos escolhido, uma pessoa da família. Meu pai ordenou que minha mãe se assentasse a seu lado, prendeu suas mãos às dela, como se o amor entre eles fosse uma verdade constante, e como um perfeito cavalheiro, disse ao moço, que naquela hora eu soube chamar-se Leonardo, que ele não sabia ainda a opinião de minha mãe, mas que ele particularmente se sentia honrado de Olga ter despertado o interesse de um moço tão inteligente. Disse ainda que apesar de ele estar muito feliz com tudo aquilo e de ter certeza de que também minha mãe se alegrava com aquele casamento, mas que, em todo caso, a resposta cabia à minha irmã, pois que em tudo, ele sempre dera muita liberdade às suas filhas. E todas ficamos em silêncio, porque já havíamos aprendido que a respeito de certos assuntos não é apenas conveniente mas é absolutamente necessário que se minta. Olga apareceu na sala a chamado de meu pai e houve até um brinde. Depois rimos todos. Sempre, em família, existem muitas coisas de que se pode rir, embora nem sempre se possa dizer do que se ri. Ríamos talvez de todos nós, que como artistas havíamos improvisado no momento certo o papel que, sem quaisquer informações, tínhamos certeza era o que nos cabia. Leonardo, o noivo de minha irmã, era agradável, mas a esse tempo, eu já sabia que as pessoas inteligentes costumam ser agradáveis, mesmo não sendo boas, por isso não fiz qualquer avaliação a respeito do homem que seria meu cunhado. . Tratava-me bem e eu procurava ser do mesmo modo com ele, mantinha-me contudo distante, porque, aliás, muito raramente sou capaz de deixar de sê-lo. O casamento de minha irmã se deu logo depois do início de seu noivado, e meu pai fazia questão de falar sobre isso com as pessoas, talvez para que ao falarem do

casamento de minha irmã , não falassem de tantas outras coisas, que ele pretendia ficassem sempre em silêncio. O casamento de Olga foi cheio de pompas e nosso nome foi escrito num jornal da cidade pequena, na página onde costumam aparecer os nomes de outras pessoas, supostamente boas e honestas. Meu pai guardava silêncio a respeito da primeira vez que vira Leonardo, tornara-se gentil com ele, tanto quanto com minha irmã, como se desse modo lhes pedisse que nada falassem a respeito do que eles haviam visto. Leonardo disso não falou, e Olga também não falou coisa alguma com minha mãe nem com outras pessoas da cidade. Falou comigo e com Ester, e creio que esta não a ouvia, pois, em qualquer situação, Ester aprendera a substituir todas as palavras pelo som de seu violino, já mais velho e agora mais bem tocado. Passado o casamento, minha irmã e o marido estavam em viagem, quando numa noite, meu pai, no seu costumeiro atraso de todas as noites, veio para casa muito mais cedo e parecia acabrunhado. Minha mãe solícita lhe ofereceu um chá que ele, cheio de mau humor, não aceitou informando-lhe de que não se sentia bem e queria ficar só. Só, ele se queria sempre, mas que nessa noite, ele não queria apenas a solidão da ausência de palavras, queria mais do que isso, uma total ausência de pessoas. No dia seguinte, e em muitos outros que lhe vieram de imediato, meu pai levantava-se muito cedo e só voltava da fazenda quando todos já se haviam recolhido. Já não vestia roupas melhores à noite e tudo indicava que ele não queria ver a cidade e nem que a cidade o visse. Continuava assim e aos poucos foi se aproximando de minha mãe e até de mim, que não encontrávamos, nenhuma das duas, razão para que ele se houvesse transformado tanto. Meu pai tinha desde antes algum carinho por Ester e nunca percebeu que com o violino ela apenas tocava o sofrimento que não a deixaria nunca. Minha mãe e eu tínhamos poucas pessoas com quem falarmos, já que o período era de férias e eu nem mesmo via minhas colegas de classe. Entre nós no entanto, criávamos as duas, mil hipóteses, sobre o que acontecera e do que nada sabíamos. Mas adivinhávamos ou queríamos que estivesse envolvida a chamada namorada de meu pai. Não a conhecíamos, mas para ela desejávamos, ainda que não o falássemos, tristezas e tragédias. A única, talvez, em que não havíamos pensado, foi a que nos foi contada, não sei se de propósito ou se por acaso. A namorada de meu pai, que estivera com ele até o dia anterior, que dele exigia muitos presentes, mais caros até do que ele poderia dar se dispusesse de equilíbrio suficiente para saber o que devia fazer, havia se casado, com um dos empregados de um comerciante amigo de meu pai, muito mais

pobre mas muito mais jovem de que ele. Meu pai, penso, sentia-se ridículo diante da situação, e isso o magoava. Mas deve também lhe ter doído muito imaginar que as pessoas com quem ele se relacionava provavelmente sabiam de tudo e no entanto todos haviam permanecido em silêncio, como que aplaudindo a sua queda. Nunca se falou disso em casa, porque, em família e da família, o que menos se deve falar é das verdades mais amargas. Meu pai e minha mãe agora se davam bem: ela sem um sorriso, em silêncio e tantas vezes rezando, mas ele já lhe dirigia palavras, primeiro as que não eram de ordem, depois outras que eram de carinho e ela, agora, era quase feliz. Voltei a estudar. Com minha idade eu estava em atraso. André terminara o curso secundário que eu ainda fazia e, ele, sem qualquer atrevimento, mas como quem conhece de seus direitos, comunicou a meu pai que naquele ano se mudaria para uma cidade maior, já que pretendia continuar os seus estudos. Informou com independência que para isso não queria ajuda de meu pai, já que ao mesmo tempo, havia conseguido previamente um emprego capaz de custear-lhe as despesas. Meu pai não teve coragem de dizer nada a meu irmão, a quem ele sobrecarregava de trabalhos, por isso que meu irmão, como quem diz uma brincadeira, falou uma frase que no contexto dizia mais do que o que estava efetivamente dito: "Saio como um empregado que não pede qualquer indenização". Não esperava eu que palavras assim pudessem vir de meu irmão, ele que eu sempre me habituara a ver, tão grande, tão alto, o rosto meigo de criança num corpo de atleta, preocupado com coisas outras, que normalmente não preocupam a ninguém e que num dia, não muito longe, me perguntara se Deus existe? Quando André se despediu, no dia da partida meu pai foi carinhoso com minha mãe. Ela sofria porque o filho saía de casa para a procura de uma vida melhor, e nem se lembrava mais de que um dia ela também havia perdido a família e a pátria e para aqui viera, não buscando qualquer melhora mas simplesmente para sobreviver, não importava como. O tempo em que muitas coisas acontecem, muda em muito as pessoas. Meu pai ainda não era aquele homem que viria a ser, mas também não era o mesmo que eu havia tido pouco antes da morte de meu irmão. Nossa vida estava se tornando melhor, embora na verdade eu me sentisse muito mais só, do que enquanto vivíamos na fazenda. Minha irmã se casara, André deixara nossa casa, nunca recebíamos visitas e havíamos evitado quaisquer relacionamentos, porque nenhum de nós gostaria que as

pessoas soubessem o que se passava e o que já havia se passado em nossa casa. Agora que sabíamos que tudo se tornara tão público e nós apenas em nosso isolamento. Comecei a trabalhar numa escola onde me aceitaram como professora substituta. À noite meu pai ficava conosco, e como evitávamos quaisquer referências às suas aventuras e fracassos, muitas vezes nos surpreendíamos conversando amavelmente do modo como supomos, quase sempre erradamente, conversem os membros de todas as famílias. Meu pai nos contou que, quando criança, ele havia tido uma irmã que também se chamava Ester e, quando já se pensava que a guerra havia terminado, sua irmã brincava na rua com ele e outras crianças, quando tiros de fuzil foram contra eles disparados. Ela e todos os outros meninos morreram imediatamente, tendo ele se salvado porque, não tendo a família ,mais roupas com que se vestirem, sua mãe lhe havia colocado as roupas de um soldado, como tantos outros, morto nas imediações de sua casa. Roupas enormes e de um material estranho, antes vestidas por um provável inimigo, lhe haviam salvado a vida, esta que ele havia conseguido manter contra a fome, a miséria e o frio que a guerra tantas vezes lhe impôs. Minha mãe também me falou de como havia saído de seu país, escondendo-se durante o dia, no meio das árvores e rasgando seu corpo no arame farpado das fronteiras durante a noite até que, atingida por uma bala, foi recolhida por alguma organização internacional e viera parar aqui, um país a respeito do qual nunca lhe haviam falado e de cujo povo ela não conhecia sequer a língua. Ficou durante muitos anos entregue a religiosas de um colégio especial para moças ricas, e ela que também fora uma menina rica, agora não era mais que uma serviçal daquelas que poderiam ser suas companheiras. A pesar disso, ela era muito grata às religiosas que a receberam, porque com elas aprendeu a falar a nossa língua e pode estudar mesma forma que as demais alunas. Foi por esse tempo, depois das aventuras de meu pai, que minha mãe, cheia de silêncios e orações, ficou esperando o Simão, que entre os homens de nossa casa, seria o último de nossos irmãos, tão amado e benvindo por mim quanto haviam sido todos os outros. E quando pensávamos que nossa vida seria, de agora em diante, tranqüila, com algum dinheiro, meu pai menos severo com todos, tendo sido abandonado pela moça com quem se relacionava, meu novo irmãozinho sem qualquer problema de saúde, - uma tarde, um oficial de justiça nos trouxe a primeira de muitas cobranças que contra ele

começaram a chegar. Aos poucos meu pai começava a perder tudo que havia conseguido em tantos anos de trabalho. De tudo muito pouco lhe iria sobrar e, no entanto, com isso havíamos ficado tranqüilos, porque a pobreza era um mal que conhecíamos de muito, e não nos causava tanto medo quanto à violência que a cada dia se veste de roupas novas. André fora avisado a respeito da situação de meu pai, que era também nossa, porque tínhamos muita consciência de que em tudo dependíamos dele. Meu irmão nos viera ver e como um homem adulto tomou a frente de tudo. Todas as dívidas, estas maiores de que nossos bens, foram pagas. Meu irmão, gentil, pedia paciência aos credores, que muitas vezes falavam mal de meu pai, o pai de quem tínhamos tantas mágoas, mas que apesar disso, não sei se o amávamos mas pelo menos o compreendíamos com a maior ternura do mundo. André ouvia em silêncio, sem culpa, mas cheio de compaixão pelo homem forte que mais do que os próprios credores, ele havia podido sentir os erros. Foi doloroso ver sair de nossa casa, coisas de nosso uso pessoal, como faqueiros e porcelanas que nos dias de aniversário enfeitavam nossa mesa de jantar. Em poucos dias André se fez um homem, havia crescido tanto em todos os sentidos que meu pai, humilhado, se tornara menor de que o filho e dele pedia conselhos. André cheio de dignidade fazia tranqüilo a defesa de meu pai, diante daqueles que o acusavam. À noite falava-me de coisas que havia sabido durante o dia e, muitas vezes, cada um de nós percebia em silêncio, a noite insone que um e outro havíamos passado. Discutiu-se então se não seria melhor vendermos esse pouco que ainda nos restava e nos mudarmos para uma cidade grande, como aquela em que moravam Leonardo e Olga, e que era a mesma onde André continuava seus estudos e podia trabalhar. Uma cidade maior onde pudéssemos de novo e tão tarde, recomeçarmos a vida, onde nenhum rosto nos pudesse lembrar do que já havíamos passado. E não se pensou em como seria a vida de meu pai, já com mais de quarenta anos, quando não se tem mais tempo ou força para se começar a aprender um trabalho ou mesmo outra forma de se viver. Quanto à minha mãe, não me preocupei em que ela tivesse de deixar a nossa casa. Desde sempre eu me havia acostumado com a idéia de que minha mãe não precisava de nada para viver, e assim em qualquer lugar e em qualquer tempo, nada lhe seria diferente. Desde muito se estabeleceu que em nossas vidas há um tempo para cada

coisa e, passado esse tempo, nada mais temos a fazer, se não ensaiarmos para a morte, como se ela exigisse ou permitisse algum tipo de ensaio. Meu pai e muitos de nós sempre nos esquecemos do tempo e de que a vida não é muito mais de que simplesmente um tempo. André nos reuniu a todos, expôs suas idéias e assim se fez. Meu pai e minha mãe, silenciosos, aceitando tudo, como se não se tratasse de suas vidas. O que em minha mãe teria sido normal mesmo antes da morte de meu irmão, acostumada que sempre fora a aceitar que outros dissessem, não apenas sobre o que deveria ser a sua vida, mas até mesmo o modo como ela própria deveria ser. Na verdade, penso que minha mãe não se deu tempo de saber quem era ela mesma, sempre foi o que os outros esperavam que ela fosse. Mas meu pai, para aceitar tudo tão tranqüilamente devia estar se sentindo muito infeliz, já que tendo perdido dinheiro, havia perdido tudo que lhe parecera importante durante toda a vida e foi em troca disso que ele nos fizera tanto mal, até mesmo havia arriscado a vida de Álvaro, seu filho e nosso irmão. Só muito tempo depois comecei a notar que o seu sofrimento não vinha tanto de ter perdido o dinheiro, que sempre lhe fora importante. O que lhe fazia sofrer era a idéia de que ele havia sido um incapaz, tanto como muitos outros que ele, com desprezo, havia julgado o fossem Para ele, os perdedores são sempre incapazes e agora ele se sentia um deles. Ele me causou pena e só assim eu consegui descobrir que apesar de tudo eu o amava muito. Foi-lhe muito triste ver-se vivendo a custa dos filhos em quem ele nunca havia acreditado. Nascia nele um outro homem, magoado e triste, igual a muitos, capazes de chorar e até de compreender. Ele se tornou carinhoso com minha mãe e muitas vezes procurava ajudá-la nos serviços de casa. O dinheiro de que dispúnhamos não era mais de que o necessário para alugarmos uma pequena casa da periferia de uma cidade enorme, onde até a locomoção nos trazia dificuldade porque daquele lugar não conhecíamos coisa alguma. E foi nesse período difícil que meu baixo salário de professora era o maior rendimento da família, por que não podíamos pensar na ajuda de ninguém, o que seria desejável. Leonardo e Olga, que ao tempo tinham uma vida organizada, freqüentando um mundo que com justiça esperávamos que eles pudessem ter, não nos podiam ajudar. Andavam muito atarefados com seus negócios ou por qualquer outras coisas e com o tempo deixaram até de nos vir visitar. Algumas vezes Olga nos convidou para assistir desfiles de moda, numa loja que trazia o seu nome, mas em casa nos faltava tudo para

aceitar aqueles convites, até mesmo o conhecimento das normas que regiam as estruturas daquele seu mundo que não conhecíamos. Não tínhamos sequer roupas com as quais pudéssemos ir à casa de nossa irmã, ela também se sentia mal em nossa casa, onde nunca encontrava sequer onde se assentar, com seus vestidos sempre lindos e elegantes. A vida de Olga era de tal modo diferente da nossa que por muito tempo não tivemos outro recurso, se não nós nos afastarmos dela. André tinha um emprego muito simples e embora fosse de inteira confiança de seu patrão, ganhava muito pouco, porque o que se paga é o serviço, confiança não tem preço. Alguma ilusão me trouxe a idéia de que morar numa cidade grande pudesse mudar minha vida e, talvez, de repente eu pudesse encontrar um homem que gostasse de mim, tanto quanto eu era capaz de gostar de vocês. Isto foi por pouco tempo, porque depois me veio a descoberta de que eu não tinha preparo para enfrentar as limitações do ser humano que também são as minhas, e por isso outra coisa eu não poderia fazer, senão abraçar de frente a solidão que há muito tempo me vinha acompanhando. Meu pai conseguiu a custo um emprego de vigia. Era uma dor silenciosa, vê-lo, todas as tardes, agora com ternura, nem sei exatamente se o era, mas ele saía, de cabeça baixa, humilde mas aparentando alegria, levando a marmita e o agasalho para tomar conta de bens alheios, quando ele havia perdido todos os seus. Minha mãe ficava em casa, sem fazer nada, porque todas as coisas que ela poderia fazer implicavam em gastos e não tínhamos condições de gastar nada mais do que o absolutamente necessário. De todos, a única que ainda poderia aumentar sua renda era eu, e foi por isso que passei a dar aulas à noite numa escola pública, e procurei emprego em bancos, lojas, consultórios médicos, ou em qualquer lugar onde pudesse encontrar um trabalho honesto. Tudo era difícil, e justamente por que era difícil, compreendi que era preciso jogar com minha força inteira e que ela não poderia ser pouca. Perguntei a Ester se também ela não poderia fazer qualquer coisa que nos aumentasse o dinheiro tão pequeno. Mas ela me respondeu com negativa: "Não, eu não teria condições, meu pai exige que eu toque violino e uma filha não pode fazer outra coisa, se não a vontade do pai. Alem do mais, para fazer outra coisa, sempre se tem de falar e se os outros me escutam descobrem quem eu sou, e se soubessem quem eu sou e o que faço, eu me sentiria despida e morreria de vergonha, e vocês não teriam mais que

minha definitiva ausência". coisa alguma por ela

Ester não fez nada por nós e nós também não fizemos

Nesse tempo percebemos inertes que as poucas palavras que Ester nos dizia, eram para nós vazias de sentido. Seu mundo, tanto quanto o de Olga, era diferente do nosso. O mundo de Olga era feliz. Olga se dava bem com tudo que era aparente. Seu mundo estava nos olhos. O de Ester era impenetrável, não conseguíamos chegar a ele. Antes mesmo que você nascesse eu me tornara, além de professora, funcionária de um banco. No dia em que você nasceu eu não tive tempo de vê-la mas desde sempre eu senti que você seria para mim como uma filha e como tal desde então eu gostava de você, com um afeto maior do que se pode sentir por qualquer outra pessoa. Penso até que não era tanto por você, desculpe-me se o digo. O que me alegrava é que tanto minha mãe, quanto meu pai, e mesmo Simão, tão pequeno, vinham todos de um tempo que nos havia sido mau e escuro e, para mim, eu queria acreditar, você era um começo de um tempo que eu imaginava feliz. Não sei por que, mas era assim, cheio de alegrias, que eu via o tempo que seria seu, como se eu ainda pudesse ter um tempo. Nada ia bem, mas havia a esperança de um dia sermos felizes. Era, por certo, uma forma de sê-lo. E como é fácil amar a felicidade! Em você eu amava alguém como um refazer de uma geração que havia sido perdida. Veja você, perdidos foram os nossos dias até agora, e tenho certeza você se perguntará por que nos valia a pena viver. Sua chegada era uma vida nova que nos vinha, como a esperança, e era para nós, como se fora uma redenção. E na verdade não o deixou de ser. Veja: quando, às vezes, não havendo aula, eu chegava em casa antes de meu pai sair para o seu trabalho, sempre noturno, e o encontrava junto com minha mãe, ambos de joelhos no chão, fazendo brincadeiras infantis para você ainda muito criança, Simão, de não mais de cinco anos, era o adulto da casa, assentado em nosso pobre sofá, vendo a televisão em branco e preto que a muito custo, havíamos conseguido comprar. Tudo tão simples, mas a felicidade nunca me pareceu vir das coisas opulentas, que estão sempre apressadas, na busca do dinheiro ou do poder. Agora não buscávamos mais nada. Mas, foi exatamente num dia em que não houve aula que minha vida começou a mudar. Antes preciso lhe dizer que em meu trabalho no banco, como na escola, fiz algumas amizades, mais com mulheres do que com os homens, pois, dizem todos, homens e mulheres nunca são inteiramente amigos.

Eu não digo, não sei, nunca me provaram as fronteiras da amizade e eu ainda não havia descoberto os seus limites. Eram pessoas amigas, porque agradáveis e, até então, não me haviam parecido como de importância em minha vida, por isso antes não falei a respeito delas. Eram apenas agradáveis e interessantes, e sempre pensamos que as coisas agradáveis e interessantes, nunca são importantes. Na escola me pareciam amigas, quase todas, e dizíamos que aquele nobre trabalho era o mais adequado à mulher, sem mencionar jamais que aquele salário, sempre baixo, ajudava a alimentar nossa família. No entanto, ali, eu sempre soube, éramos o acabar de um tempo em que os homens encontravam sempre trabalho e à mulher se reservava a educação dos filhos. Dizíamos da nobreza do trabalho, mas o que ali nos mantinha não era qualquer ideal, era o dinheiro de um salário pequeno, complementando aquele de algum homem, que já não era suficiente, porque a guerra que longe acontecera trouxera seus sinais também aqui. Naquele tempo, mais do que hoje, sentíamo-nos envergonhadas de que os homens de nossas casas não fossem tão ricos que até nós, mulheres, simplesmente mulheres, precisássemos de trabalhar. O trabalho, muitas vezes, era ao tempo considerado desabonador para a mulher. O tempo tem sempre uma vergonha que lhe é própria. No Banco, pelo menos naquela agência, de mulheres trabalhávamos apenas Mariana, Laura e eu. Mariana era filha do bombeiro que em emergências prestava serviço ao Banco. Ele era um homem simples e entre os mais novos, que podiam todos ser seus filhos, gozava de prestigio, amizade e até de certo carinho, pelos cabelos brancos e o bom humor que sempre aparentava, quando todos sabiam que a vida não lhe fora nem um pouco pródiga. Casara-se com uma moça lindíssima que num acidente no hospital havia se tornado paraplégica quando lhes nascera o segundo filho, Otávio, o único irmão de Mariana. Desde então, o pai de Mariana, senhor Jacques, fora absolutamente dedicado aos filhos e à esposa, o que não lhe impediu de, muitas vezes, envolver-se em aventuras amorosas, que sempre se desfaziam no momento em que ele deixava claro, que em hipótese alguma alguém seria para ele mais importante do que seus filhos e sua mulher. Foi então, quando Mariana era ainda adolescente, que o pai conheceu Vânia, ainda bem jovem, que às vezes, por muito pouco, lhes servia de faxineira, quando os filhos eram pequenos ou quando Mariana se casou. E Vânia se apaixonou, nem tanto pelo

senhor Jacques, já envelhecido, mas pelo carinho que ele sempre tivera para com a mulher e os filhos. Uma vez Vânia dormiu com o senhor Jacques e depois disso foi tão fácil que ela dormiu com ele muitas outras noites e um dia, sem surpresa, se descobriu enfermeira da mulher de seu amante, morando todos na mesma casa. Tudo isso se tornou absolutamente público, mas devia parecer como se fosse o segredo a ser guardado respeitosamente por todos. Mariana me falava disso, como de uma dor compreendida. Lamentava pela mãe, que ela supunha , embora disso não falasse, devia sofrer, percebendo que o homem que fora seu, agora, em sua própria casa, tinha outra mulher, a quem, por certo, amava. Falava-me também de Vânia, carinhosa e dedicada com todos, inteligente, dotada de excelentes atributos. Mas isso não impedia que Mariana, como seria normal em qualquer filha, fosse capaz de gostar da amante de seu pai, ao mesmo tempo, porque Vânia era tão terna, não deixavam ambas de ser amigas. Fora justamente para fugir do ambiente incômodo de sua casa que Mariana se casou com um moço de família tão simples quanto a sua mas de uma bondade que, ela me dizia, não devia existir em nenhuma outra pessoa. Laura era diferente, vestia-se muito bem e vinha de uma família cuja posição social e financeira nos fazia interrogar sobre o que a levaria a aceitar o duro e não gratificante trabalho, que a ela não conferia nem dinheiro, nem honra maiores do que lhe haviam dado o próprio nascimento. Só depois me vieram dizer, mas nunca soube se era verdade, que o trabalho de Laura era servir a um dos diretores do banco, no que ele bem quisesse e justo até o prazo em que o seu pai conseguisse pagar diretamente ao diretor uma grande importância em dinheiro, que lhes rendera a propriedade da grande casa em que todos da família moravam. Laura era alegre e ria de tudo, nunca nos falava de seus pais nem de nossos patrões .Falava pouco de tudo e, só muito tarde eu vi , o pouco que a conhecia. (**parei aqui) Fazíamos contudo um trio, nos dávamos bem e éramos tratadas por todos , que como nós , ali trabalhavam, com um carinho especial. Talvez porque nossa falta de ambição e até mesmo uma certa mediocridade, garantia-lhes que não lhes faríamos concorrência, nem lhes ofuscaria o suposto brilho que muitos deles pretendiam ter. Foi exatamente naquela tarde, em que não havia aula, e então me era permitido sair com mais calma do Banco, que resolvemos as três a andar pelas ruas tranqüilas e desocupadas ou, por que não tomarmos um chá ou um café em qualquer lugar que o dinheiro de Mariana e o meu permitissem, já que o de Laura não tinha limitações.

Já havíamos atravessado algumas ruas, quando percebemos uma enorme fila de pessoas e um anúncio de que eram aqueles os últimos momentos em que se poderia comprar o bilhete do maior prêmio lotérico a ser pago até então. Não era tanto pela esperança de ganhar, mas pelo desejo de nos habilitarmos ao prêmio, e, pelo menos durante uma semana, termos muitas fantasias milionárias de que pudéssemos falar., do dinheiro que não tínhamos. Desistimos do chá ou café, compramos cartelas lotéricas, algumas individualmente, em nome de cada uma de nós, e muitas outras em comum. Não falamos muito do assunto , porque acostumadas com os números do banco, sabíamos que os apostadores eram muitos e na maioria das vezes habituais e nós fizéramos aquela compra única e além de tudo por acaso. Mas, sempre havia uma esperança, mesmo desafiando a lógica e o bom senso. Dois dias haviam se passado, quando, porque nossa casa não dispunha sequer de telefone, foi no telefone de uma vizinha, que, primeiro se ouviu a voz estranha do homem que me chamou. Era da casa Lotérica e me comunicava que, sozinha, eu havia ganhado o prêmio. Diria que não tive emoção. Senti um frio enorme. Soltei o telefone. Minhas mãos ampararam minha cabeça. Sai correndo e chorei. A vizinha não estava certa se a notícia me era agradável ou ruim, tinha certeza de que era extraordinária. Foi preciso alguns minutos para que eu pudesse dizer à minha mãe o que me havia acontecido' Pode ter sido uma brincadeira de alguém. Você não conhece a voz de qualquer pessoa na casa lotérica, e como ter certeza de que era de lá a voz que lhe falava." Disse minha mãe.Só hoje percebo que esta fala de minha mãe não foi diferente de todas as outras pois que em nenhum dia eu a senti capaz de imaginar que a mim me aconteceria alguma coisa que não fosse triste ou desastrosa. Minha mãe sempre me quis tão infeliz quanto ela não fora capaz de resignadamente deixar de ser. Apesar disso, quando me senti melhor, fui averiguar a possível verdade, que ainda não me fazia feliz nem triste, mas me deixava visivelmente ansiosa. As esperas são sempre muito demoradas e, minha timidez sempre as fez mais demoradas ainda, pois falta-me coragem para insistir em que as pessoas me atendam. Nunca fui capaz de me sentir a primeira. Quando o funcionário da casa se aproximou de mim, mostrei-lhe o bilhete e perguntei-lhe se alguém de lá me havia telefonado. A forma como o moço da loja convidou-me a que eu entrasse no escritório da casa, não me dizia se eu havia ganho o prêmio ou cometido um crime. No rosto não havia qualquer sinal de medo ou de susto ou entusiasmo, estava acostumado ao seu trabalho.

Assentaram-me. Literalmente assentaram-me numa cadeira e o rapaz anunciou a alguém que se encontrava em outra sala: "Senhor Antônio, a moça chegou". E foi então que um homem, já um tanto envelhecido, veio a mim sorrindo e disse: "Meus parabéns, senhorita,. não a imaginava tão jovem, nem tão bonita e agora tão rica. A senhora acaba de ganhar o maior prêmio que já se pagou neste país". Foi o primeiro homem a dizer-me que eu era bonita, eu, tão insignificante, que outros homens, talvez porque sempre apressados, contando o seu dinheiro ,ou procurando ganhá-lo creio, não me chegaram a ver. Senti que meu corpo inteiro estava trêmulo. Não de felicidade, mas de medo, insegurança, eu não sabia quais os encargos de uma pessoa rica, e o valor daquele prêmio, era uma fortuna, mais de vinte mil vezes o valor da casa em que morávamos e, na qual não havíamos podido sequer colocar os móveis tidos como indispensáveis. Ester e eu dormíamos na mesma cama, porque nos faria falta o dinheiro que fosse empregado na compra de outra, e nem havíamos percebido que não tínhamos uma geladeira, tão distante estava ela de nossos planos, pois que considerávamos imprescindível que vocês continuassem na escola e que lá suas roupas não mostrassem a todos que nossa pobreza era quase indigência. Também no banco eu tinha que me vestir razoavelmente. Olhei o homem de frente e comecei a rir, o mesmo riso de minha mãe quando Álvaro morreu. E até que o riso passasse, permaneci na loja, e os homens e as mulheres me ofereceram água, como se naquele momento, me fosse necessário beber um oceano. Quando saí à procura da instituição bancária pagadora dos prêmios, senti como se carregasse em meus ombros um peso enorme. Sem alegria, eu estava apenas atordoada. E nem ao menos tomei um taxi, recusei a companhia que a loja me oferecera, desci a rua a pé, como normalmente o faria. Entre as inúmeras questões que me poderiam ter sido apresentadas, a de maior vulto, para meu conturbado raciocínio, era a preocupação em decidir se eu tinha ou não condições de, naquele momento, me apresentar para receber o prêmio, pois que me faltaria tempo para isso. Meu horário era curto e eu me sentia, como sempre, na obrigação de me apresentar Pontualmente no meu trabalho, sem perceber sequer que o meu salário de bancária havia perdido para mim, a importância de imprescindível à sobrevivência minha e dos meus. O trabalho do banco era exaustivo, não representava nada além do salário, mas um salário que representava muito para nós. Ele nos matava a fome.

Apresentei-me para receber o prêmio, o que de imediato não foi possível, deveria voltar no dia seguinte. Atrasei a chegada ao serviço por minutos e disse ao meu chefe que estava com problemas. Não falei do dinheiro e tentei trabalhar, o que não me foi bem possível. Naquele dia, exatamente naquele dia, meu caixa deu diferença e tive de permanecer no banco até muito tarde. Perdi a hora de ir para a escola e por isso cheguei em casa mais cedo que de costume. A informação a respeito do meu dia, eu as passara as meus pais por telefone, ainda pelo telefone da vizinha, uma vez que, nem disso ,até aquele momento podíamos dispor. Minha mãe por sua vez comunicou o fato a Olga, e, em casa, já os encontrei a minha espera. Há tanto tempo eu não os via. Diziam sempre que andavam ocupados e não tinham tempo para ir a nossa casa e nem mesmo para nos receber. Leonardo me pareceu decepcionado, quando, no desenrolar da conversa, ele percebeu que nos meus planos, ele não se colocava como curador do dinheiro que eu ainda nem havia sequer recebido. Não vi qualquer razão para isto: tanto ele como Olga, apareciam por vezes, de um modo tão formal, que ainda que dele precisássemos, jamais teríamos tido coragem de ocupá-los para qualquer coisa. Se eu tivesse de cometer erros queria faze-los por mim e não seguindo o que dissessem os outros. Minha irmã e meu cunhado não se colocavam entre as pessoas que eu diria íntimas. Mesmo assim, não sei por que eles se fizeram mais presentes em nossa casa por algum tempo. Um tempo que coincidiu com aquele que eu gastei para decidir sobre as mudanças que o dinheiro, de certa forma, exigia que eu fizesse em minha vida. Só quando vi os números representativos da importância que se encontrava depositada num banco, em meu nome, percebi que eu me encontrava numa realidade para a qual não me sentia preparada. Já não era mais como o susto irreal que eu havia tido na casa lotérica. Era uma certeza. E foi como se o mundo houvesse se despencado sobre mim. Estive quase doente e o primeiro assessor que procurei foi um médico. Não me faltou consciência de que, mesmo diante das coisas boas , é necessário que se tenha prudência. Esta eu a tinha, o que me faltava era a confiança de que eu seria capaz de cuidar para que aquela fortuna não se fosse embora, em pouco tempo. Queria com aquele dinheiro nos garantir uma vida melhor, Alguns dias de ausência e voltei ao trabalho, e em nenhum deles, na escola ou no banco, ninguém sabia a razão porque eu desaparecera.

Ao fim do dia em que, em segredo ,eu pedira demissão do banco, convidei Mariana e Laura para sairmos juntas e tomarmos um chá ou café, como em outras vezes o havíamos feito. Assentadas na mesa de um bar, que hoje sei, era muito simples, mas que ao tempo era o melhor, que, eu imaginava poder entrar, contei-lhes, com serenidade que, eu havia ganhado o prêmio e, antes mesmo que eu dissesse que desejava dar a elas algum presente de valor adequado ao do prêmio que eu havia ganhado, em razão de termos estado juntas no momento em que comprei o bilhete, Laura me atacou com as palavras mais duras com que dispunha toda sua maldade e, que, eu ainda não havia sequer percebido. Entre muitas coisas, ela exigiu que eu lhe mostrasse o bilhete premiado, por que não era possível que, se havíamos concorrido as três com vários bilhetes conjuntos, porque justamente aquele único, que eu fizera sozinha, haveria de ser o premiado? Não fui capaz de responder-lhe que, obviamente, eu não poderia ter para isso uma resposta honesta, da mesma forma como não sabia porque, em muitas vezes muitas, a sorte me havia escolhido, para depositária de seu azar. Mostrei-lhe então o bilhete e não satisfeita, sei que, posteriormente, ela fora sem mim, à casa lotérica, para fazer a investigação, que lhe pareceu necessária. Mas, antes disso, ainda no bar e em voz alta, me disse que era mesmo provável que eu houvesse sido a premiada, porque a vida não costumava ser inteiramente ruim para uma única pessoa, e que eu era feia, deselegante e mau caráter, incapaz de amar a qualquer pessoa, tanto que ainda era solteira e, naturalmente, virgem, não por virtude mas por incapacidade de dividir com os outros qualquer prazer, e ao que ela sabia, ninguém até aquele momento ainda havia gostado de mim porque ninguém pode gostar de alguém tão incapaz de amar e disse ela eu não amava senão a mim mesma. Ouvi em silêncio suas acusações, mas as lágrimas que eu tentara sufocar, no susto de uma agressão, que eu julgava injusta, brotaram quentes de meus olhos, enquanto os olhos de todos, como holofotes imaginários, caíram sobre mim. Mariana permanecera em silêncio o que representou uma agressão para Laura, que contra ela voltou o seu ódio, dizendo-lhe que ela se casara com um idiota, apenas para cobrir um passado de libertinagem e vícios. Da vida pessoal de Mariana eu sabia muito pouco: era casada e não tinha filhos, mas me falava que gostaria de ter, para que pudesse perpetuar no tempo a dignignidade e tolerância do homem que era seu marido. Às vezes, ela me dizia, se eu morrer quero que ele se case com você, ele não devia ter se casado comigo. Não o mereço.

Nunca lhe fiz perguntas a respeito das razões porque ela pensava todas essas coisas, que poderiam estar envolvidas nessas frases que por não compreendê-las, eu as tinha como brincadeiras. Falava-me também do homem que ela amava e a mim me parecia evidente que este homem não poderia ser outro, se não o seu marido. As palavras, muitas vezes não nos são suficientes para compreendermos a extensão das verdades. Mariana era correta nos seus horários e compromissos, respeitava qualquer ser humano, sem quaisquer preconceitos e sempre estava do lado dos mais fracos, às vezes mesmo quando estes, por qualquer razão, lhe houvessem magoado. E até aquele dia eu não a havia imaginado capaz de qualquer violência. Era o meu tempo de surpresas. Ao ouvir Laura, Mariana se levantou de onde se assentara e, com força e vontade, bateu não uma, mas muitas vezes, no rosto de Laura. E foi um escândalo e o dono do bar nos convidou a nos retirarmos do local, onde, dissera ele, não eram benvindas pessoas de nosso nível. Faltava-nos, creio, a todas, a lucidez mínima necessária para que nos sentíssemos ao menos envergonhadas com aquele comportamento, que até então não havíamos tido coragem de ter. Estávamos em outro mundo. Em todas nós havia raiva, uma raiva que se sobrepunha a qualquer outro, dos sentimentos daqueles que, se não os temos, fazemos questão de nos portar, como se os tivéssemos. Quando nos afastamos, abracei Marrana ela me segurou carinhosamente os braços. Disse-lhe: "Até amanhã" e ela me respondeu: "Se ainda houver tempo". Deixei a rua. Em casa, meu pai questionava a origem do dinheiro que eu dizia ter ganho, argumentando que eu nunca lhe havia dito de meu habito de jogar, até porque, se lhe houvesse dito, ele não teria aceitado, porque o jogo é sempre o primeiro dos muitos erros que as mulheres costumam cometer. Para ele, era mais provável que o jogo houvesse sido inventado para cobrir um presente de um amante que naturalmente em segredo eu mantinha, até porque eu ganhava muito bem e o nosso padrão de vida era muito baixo. Pensei comigo diante daquelas insinuações, eu havia feito tanto esforço para que ele nem ao menos soubesse, quanto eu pagava pelo aluguel da nossa casa e pela escola, das crianças, meus irmãos, mas não meus filhos. Não, eu não poderia imaginar, que meu pai supusesse uma coisa dessas, por que disso, ele mesmo devia ter certeza, não havia qualquer indício. Eu nem sequer saía de casa, a não ser para o trabalho, porque desde os tempos em que Álvaro havia morrido, eu percebi que, minha mãe não devia ficar só por muito tempo. E eu tinha em mim sempre presente a preocupação de que Ester um dia se cansasse e definitivamente parasse de tocar o violino, porque todos, embora nunca o

disséssemos, sabíamos que ela era diferente da maioria das pessoas e um dia cansada de sua vida sem sentido, talvez quisesse assumir a morte que há muito tempo estava com ela. Nunca tivemos coragem de verbalizar o que pensávamos a esse respeito, mas todos éramos atentos a tudo que Ester fazia. Querendo, muito facilmente, se pode tirar a própria vida. Ester, na sua ausência de tudo, era uma demonstração de que há muito já havia renunciado ao viver. Não falávamos de Ester, porque se um dia ela se matasse, não teríamos verbalizado a omissão ,de nunca termos feito coisa alguma, para que ela se interessasse pela vida. Deixamos que tudo permanecesse quieto, para que de nada nos pudéssemos culpar. E nem pensávamos na imoralidade do silêncio. Ester tocava seu violino e nós a ouvíamos. Meu pai, mesmo enquanto Ester estava tocando seu instrumento, falava e falava todo o tempo do meu amante, que hoje eu sei, ele tinha certeza de que não existia. Minha mãe, pelo contrário, se tornara extremamente gentil, e a todo instante me falava de presentes que naturalmente eu lhe daria agora, ' porque as boas filhas dão presentes às suas mães, e eu não poderia deixar que os outros não me tivessem como boa filha.”- este era o argumento, de que eu não havia pensado , ela lançaria mão, para que eu fizesse por ela o possível e o impossível”. No seu quarto era normal que Ester estivesse só e continuasse a tocar o violino: era isso que ela sempre fazia. Minha mãe queria confortos e luxos que eu só conhecia pelo cinema e ela, eu não podia sequer imaginar que ela os conhecesse de qualquer lugar. Queria tudo de uma só vez, coisas até que se excluíam e que a ela seriam de todo inadequadas, ou até mesmo que meu pai não lhe permitiria que usasse e sei ela jamais o desobedeceria. Seus pedidos , hoje sei era um teste: Queria saber o quanto eu a amava. O que eu não consegui saber foram as razões porque ela fora sempre uma escrava tão fiel. Para o meu pai e apesar disso nunca teve coragem de reagir a ele, nem mesmo para defender os filhos que também eram dela. Ester não pedia coisa alguma, não sei se porque nada quisesse, porque julgasse que não o merecia ou se porque numa casa em que, todos estavam falando além dos limites, ela compreendesse que o limite do silêncio fosse a melhor forma de se expressar e permanecia alheia a tudo. Talvez não porque lhe fosse mais fácil, mas porque disso, ela não conseguisse mais fugir. A musica era triste , como são tristes os cantos dos exilados, aqueles que por qualquer razão , não são queridos em sua pátria ou em suas casas. E Ester continuava a tocar. Não parava nunca. Aquela noite, não consegui dormir e mal se havia feito dia, o telefone da vizinha me veio chamar outra vez. Era Paulo, um colega do banco que me informava, e o fez de modo gentil, e até com certo cuidado, me comunicava exatamente com as mesmas

palavras que lhe transcrevo: "Mariana sofreu um mal súbito e morreu ontem, no hospital. O corpo está no cemitério. O sepultamento será às dezesseis horas". Minha cabeça conheceu o caos do desespero e o mundo me pareceu em ebulição dentro de mim. Eu não podia suportar tanto. Fui ao cemitério. Lá não havia ninguém e, hospitais eram tantos, que sem um nome preciso, eu não encontraria, onde Mariana pudesse estar. Voltei para casa, meu pai falava muito, coisas que me agrediam e machucavam, como não me machucariam tanto, se eu ao menos pudesse acreditar , que ele mesmo admitia, que, no seu dizer, houvesse um mínimo de verdade. Não era possível que meu pai acreditasse nas coisas que ele me falava de mim e das varias maneiras como eu poderia ter conseguido aquele dinheiro. Quando pude pensar, muito mais tarde, vi que o meu pai me havia agredido tanto, apenas para agredir alguém que, sem esforço , havida conseguido , o que ele não conseguira em uma vida de trabalho. Meu dinheiro, vindo sem qualquer mérito pessoal, feria um homem ,que fracassara tendo trabalhado tanto...E isso ele não me fora capaz de perdoar. Meu desejo era isolar-me de tudo, mas ,não poderia deixar de ir ao sepultamento de Mariana, que até então, eu não tinha razões para deixar de acreditar, era minha melhor amiga. Só por isso estive presente naquele lugar, onde, a única pessoa de minha intimidade era exatamente aquela, de quem nem mesmo o corpo estava ainda presente. O corpo, que Paulo me dissera já estaria no cemitério, havia sido levado ao Instituto Médico Legal, porque os médicos, suspeitando de algum crime, haviam se recusado a atestar a causa da morte de Mariana. Quando a notícia de tal suspeita se passou entre aqueles que, como amigos da suposta vítima , estavam no cemitério, sussurros maldosos correram em todos os lábios e ninguém se lembrou com pena de que uma pessoa havia perdido a vida. Nem importa se ela fosse jovem ou não, alegre ou triste, Era uma vida, talvez pensasse todos, uma vida vele muito pouco, muitas vezes vivemos como se isso fosse verdade. O que a todos pareceu mais importante foi descobrir, qualquer forma de malícia, em que aquela morte poderia estar envolvida.

Ester tem razão, ela quase não fala, não se tem certeza de que ela ouve, está sempre só com o violino: Com ele muitas vezes, creio, impede que seus ouvidos ousam o que não lhe agrada ou convém.. Silenciosamente, de boca em boca, no mesmo sussurro maligno, nos veio a todos a notícia de que Marrana havia se matado. Não havia um criminoso: Havia uma dor. Era inexplicável, bem casada, vida tranqüila, sem grandes problemas ou tristezas, talvez a mais feliz de todos nós que estávamos ali, e no entanto, se matara. Sempre temos certeza de que a felicidade, como o sofrimento, estão em coisas visíveis. O velório não fora diferente dos outros e Paulo, o colega, que me telefonara para dar a notícia, era o único homem, além do marido, a prestar homenagens à morta, levandolhe uma braçada de flores. Laura não compareceu, o que para mim, era esperado. Cumprimentei Alberto, o marido, e ele se me mostrou inconsolável. Era provável que assim estivesse. Terminado o odioso cerimonial, voltei à minha casa, tão acompanhada de pensamentos que não sabia , exatamente , em que pensava. No dia seguinte, ainda atordoada, descobri que eu precisava fazer qualquer coisa, já que aquele dinheiro que a sorte me havia dado, eu era obrigada a usar, sob pena de grande censura. Perguntei a meu pai se ele gostaria de ter um sítio. Na sua idade, já me preocupava que ele passasse suas noites no trabalho, se não perigoso, no mínimo muito incômodo. Ele ficou maravilhado com a hipótese e até se esqueceu do amante que me havia imputado. Minha mãe também ficou feliz. Necessário seria, contudo, que tivéssemos uma casa na cidade, por que a mim, como a todos, a continuação de seus estudos, os de André e de Simão eram da maior importância e não poderiam de forma alguma ficar em segundo plano. Ninguém pensava em Ester, a quem nem mesmo todos os alvoroços de nossa casa poderiam tirá-la de seu violino. Todos percebíamos o que acontecia com ela, mas, era bem mais fácil continuar ouvindo o som da música que ela, sempre em silêncio, nos fazia ouvir. E nós falávamos daquele muito dinheiro, que nos era novidade. O silêncio e a música de Ester não nos importava. A eles estávamos habituados. Providenciei para que se comprasse tudo que a cada um satisfizesse. E isso me deu o prazer de saber que, por um tempo, eu os fiz muito felizes. Eles conseguiam ser felizes com as coisas que podem ser compradas e até se esqueciam das muitas outras que nos iriam faltar sempre. E Ester, o que poderia fazê-la feliz, ninguém o sabia e não havia perguntas a respeito.

Leonardo me propôs montarmos em sociedade uma clinica odontológica. Respondilhe apenas que sobre o assunto eu precisava de um tempo para pensar e que lhe daria a reposta o quanto antes. Convidaram- me ,ele e Olga para um jantar em sua casa, com seus amigos elegantes, onde a falta de habito com pessoas mais requintadas, ao invés de me fazer alegre, eu me havia sentido retraída e acuada. As humilhações porque eu havia passado, quando muito pobre, deixavam-me agora desconfiada de todos. E me faziam ver que eu valia menos do que o dinheiro, ganho sem mérito num jogo de loteria. Com esse dinheiro eu podia comprar o ingresso para um mundo ,onde antes eu não seria aceita e ,então pude isso nunca me fizera falta. Quando disse a Leonardo que eu não pretendia associar-me a ele e nem mesmo a Olga, que eu queria, com aquele dinheiro, sem fazer qualquer esforço para aumentálo, porque preocupações com o enriquecimento não seriam úteis ao que eu entendia por viver, meu cunhado e minha irmã consideraram que eu não era uma pessoa normal, devia ser portadora de uma deficiência ainda não detectada. E tomaram muitas horas do tempo que ,era meu e do que era deles, para convencer-me de que eu não estava pensando bem, já que meu pensamento era diferente do que pensavam eles. Nunca imaginei que há um pensamento certo e que existam normas para se pensar. Ester tocava o violino e sua música começava a ser realmente uma arte. Olga dizia-se encantada com a música tocada ela minha irmã e, às pessoas com quem convivia, falava de sua irmã concertista de fama internacional. Olga sabia que estava mentindo, mas não considerava adequado dizer que sua irmã fazia música para não ouvir palavras. Ester continuava no seu quarto, de onde não saíra desde que terminara o seu curso, o mesmo tempo em que meu pai tivera uma namorada, ou tanto tempo, ela ficara na fazenda com Ana e meu pai e, de onde voltara mais triste de que havia ficado quando Álvaro morreu. E agora eu começava a compreender o silêncio de Ester, e, entendia sua música, na medida em que, começava a não entender as pessoas. Uma vez pousando o violino sobre a cadeira ,minha irmã disse: "Preciso de música para transformar a minha realidade, muitas pessoa o conseguem normalmente e pensamos que elas nos mentem e talvez o façam, mas ,o que é verdade é que nós e os outros fugimos a toda hora da realidade que massacra a todo instante. Preciso de musica." Você se lembra de Ana ? Perguntou-me e em seguida ela mesma respondeu; "o corpo de Ana tinha cor de chocolate, seus cabelos eram pretos e muito

lisos, as mãos enormes me pareciam capazes de sem esforço, arrancar raízes de qualquer arvore, o nariz tão fino e grande que ainda hoje mesmo em outro rosto me faz medo”. Para mim Ana era uma imagem perdida e naquele momento, eu nem sequer me perguntei por que Ester ainda se lembrava dela... Tantas coisas passam por nós e não as percebemos. E minha irmã continuou a tocar o seu violino e as palavras lhe fugiram de novo e por muito tempo. A infelicidade de minha irmã talvez não nos fizesse muito mal, mas o conhecimento que os outros pudessem ter disso, nos era muitas vezes profundamente triste. Aos outros dizíamos que Ester era uma grande artista e todos concordavam conosco, Sabíamos todos que mentíamos e não pela primeira vez.. Mas antes mesmo que esses pensamentos me dominassem, o correio me trouxe uma carta. A letra era de Mariana. Ela estava morta há uma semana. Não era uma carta. Era um envelope e nele muitos papeis , deles o primeiro , um simples bilhete que tanto quanto os outros, guardei por tantos anos, sem nunca Ter tido necessidade de utilizá-los: “Abigail”, Desculpe-me se tomo a liberdade de pedir-lhe que fique com estes papéis. E que não quero de modo algum incriminar o Alberto. Ele é excepcionalmente bom para mim. Só utilize esses papéis em caso de absoluta premência, como na hipótese de alguém querer incriminá-lo, em razão do que farei. . Obrigada, Mariana Grampeadas caprichosamente me vinham outras cartas e escritos, todos com a mesma letra, a letra firme de Mariana, ela naturalmente muito frágil. Como os guardei comigo, transcrevo-os para você que, nem sequer sabe quem foi Mariana, tanto cada um de nós perde para os outros qualquer importância com o passar do tempo. Na verdade ela foi quase ninguém, foi apenas um ser humano, um pouco mais frágil e mais sofrida de que eu, igual a muitos que conhecemos. Os iguais valem pouco. Os diferentes, às vezes, não valem coisa alguma.

O valor do ser humano está nos adjetivos que o acrescem e imaginar a dor do outro é acima do que se pode como ser humano.. Ouço o violino de Ester e quando ela se interrompe e diz: "A média das pessoas faz o que todas fazem, fala o que todos falam, pensa o que todos pensam. Se não formos igual a todos não nos vêem, se formos diferentes nos discriminam, porque o outro será sempre distante como se não fosse um de nós.” Ouço o som do violino. É Ester que de novo se perde em sua música. Eu me aflijo. Não suporto mais. E peço e suplico por que não agüento. "Ester, por favor, deixe este violino". E ela nem sequer me ouve. Entre os papeis de Marrana havia um em que estava escrito: "Ontem á noite um homem assassinou uma velha senhora, jogando-a no poço de uma cisterna. Ela pediu socorro, mas não foi atendida, porque, disseram os vizinhos, fazia muito frio lá fora”. Várias crianças dormiam na rua e foram assassinadas por soldados, lhes garantiam a segurança. Eles estavam apenas se divertindo. Um dia matei um filho meu e eu o concebera por um prazer. "Paulo tenho vergonha de amar você. Alberto é tão bom. Queria que você me deixasse. Não sei se consigo afastar-me de você. Alberto é muito digno." "Minha mãe morreu ontem. Estava só em casa. Havíamos todos saído para irmos ao teatro. Quantas vezes deixei de atender a um necessitado alegando que precisava estar com ela." "Paulo eu não podia pensar que você me faria tanta falta” “Pedi-lhe que me deixasse, mas queria que você houvesse feito isso por mim e não porque me trocava por outra mulher”. Tenho ciúmes Paulo, por favor, volte. Ontem uma filha matou a própria mãe por causa de dinheiro. Não vou suportar, Paulo. Tive coragem de trair Alberto por sua causa e você me deixa, sem ao menos que é por causa de outra. Deve ser castigo e eu sei que o mereço. Alberto é tão bom. Abortei um filho de um homem que me amava. O tempo deve me ter feito perder algum dos papeis de Mariana. Ninguém procurou saber as razões por que ela se matou. Também eu, não o sei. Não fiz perguntas e existem tantas perguntas em todas as vidas, tantos silêncios propositados, quantos medos de respostas, que é melhor estarmos a esperar o tempo ,que nunca espera. .

Na época , li todos as anotações de Mariana e eu não sei hoje, como nunca soube ,porque ela se matou. Essa duvida incomoda-me e invento respostas, que sei não são verdadeiras e se contradizem, mas continuei por muito tempo indagando, em silêncio para que minhas indagações , não fossem perguntas nem respostas para os outros. E como ninguém nunca se interessou nem pelos papéis , nem pelo suicídio ,guardo numa gaveta o que disto me restou e os tenho comigo mesmo hoje, quando quase todos de nós, que éramos vivos naquele tempo, estamos mortos... muitas mortes existem. O banco, onde eu havia trabalhado , por quase dois anos, tomara conhecimento das razões ,porque eu havia pedido demissão, e o gerente da agencia, que até então nunca me havia sequer cumprimentado, telefonara à minha mãe, perguntando se eu poderia recebê-lo e quando. Minha mãe, ainda não afeita ao mundo de convenções, disse que eu sempre estava em casa à noite e que ele poderia vir quando quisesse. Chegou com gentilezas, elogioume o correto e perfeito serviço desenvolvido no banco ,e insistiu em que eu depositasse lá o dinheiro que eu havia ganho, ou fizesse ali algumas aplicações financeiras. Daí em diante comecei a sentir que me faziam todas as homenagens, que são oferecidas àqueles que dispõem de dinheiro. Vendedores de carros, motos e de muitas outras coisas que eu sequer me imaginava comprando, telefonaram-me tantas vezes que eu, sempre atendendo telefone para os outros, agora me via pedindo que, o atendessem para mim. Eu me sentia então extremamente só e cansada. Queria dormir, não à noite, mas por um tempo enorme, não sei se ao menos, pretendia alguma vez acordar. A dor que me abatia não era especificamente a morte de Mariana. Era mais a fragilidade de todos nós diante do que elegíamos como importante em nossa vida. Ariana tinha um pai que era tão bom, não era rica, mas não lhe faltavam as coisas materiais, que me parecessem necessárias, o trabalho não lhe era estafante, sabia-se amada pelo marido. E havia se matado. Aparentemente por que não tinha o amor de um homem em tudo tão igual a tantos ,de não muito valor . Não posso falar de Paulo, tão pouco me foi dado saber a respeito dele. Agora, o tempo me fez ver que, na verdade, Mariana não se matara apenas por isso, teria se matado por qualquer coisa. E que, antes de mim, ela havia podido perceber a falta de

sentido , que muitas vezes é o retrato de nossas vidas. Não se matara pelas coisas de que não dispunha, mas pelo desinteresse por outras que sempre tivera. Li as cartas, guardei-as, onde mais escondido poderia tê-las, e continuei minha vida. Nunca mais vi Alberto nem Paulo e eles não me foram nenhuma ausência: Agora era Olga que se voltava contra mim. Vinha à nossa casa muitas vezes para me dizer de sua certeza de que, em pouco tempo, eu estaria de novo vivendo a pobreza, que me fora sempre familiar. E para agredir-me dizia: Você nasceu pobre de dinheiro de ambições e de inteligência. Nem a sorte vai conseguir ajudar você, que não sabe viver se não entre os pequenos. Antes Olga sempre se dera bem comigo. Então ,compreendi que ela, como todos nós, tinha um limite que não podemos ultrapassar. Ela vivera sempre tendo tudo mais e melhor do que eu, e agora, em alguma coisa, eu me sobrepunha a ela. Fora isso ela não soube aceitar:seu limite fora ultrapassado e isso lhe era insuportável. Tenho certeza de que minha irmã era minha amiga, desde que em nada eu lhe fosse superior ou lhe apagasse o suposto brilho. Ela se dava mais valor a ela de que eu a mim, ou talvez realmente tivesse qualidades mais brilhantes que as minhas, tratava-me sempre como inferior, mas eu a admirava tanto, que isso me parecia normal. E porque agora me fazia isso? As magoas que me vieram desse tempo foram tão grandes, e quando tudo voltou ao normal eu me culpei tanto por não ter sido capaz de esquecê-las, que resolvi me recolher aqui, não sem antes fazer tudo que entendi devesse ser feito. Saíamos todas as manhãs à procura do sítio, onde seria bom que nossos pais passassem a morar. Na minha cabeça devia ser um lugar onde houvesse água corrente, e onde você e Simão que ainda marcavam tempo de infância, haveriam de ser felizes, brincando ao sol naquela água tão clara que eu lhes poderia ver 0s pãezinhos ágeis sobre as pedras, acreditando talvez que conseguiriam pegar peixes com as mãos. uma das lembrança felizes que a vida me deixou ter e que eu gostaria , vocês também a tivessem Meu pai, de quem eu não gostava tanto, mas de quem eu muitas vezes tive pena, com as mãos sujas de terra, plantando qualquer coisa, assistindo ao prazer do nascer, quando as plantas lhe parecessem brotar das próprias mãos. Meu pai, minha mãe, Olga e Leonardo faziam exigências quanto ao sítio que eu lhes devia dar, e, foram tantas que ao fim disse-lhes que eu achava melhor, não

acompanhar-lhes na procura e, quando encontrassem eles, o lugar que lhes parecesse conveniente, chamassem-me para que se fechasse o negócio, do qual eu estava disposta a pagar o preço. Só assim consegui resolver o problema. Creio, você também deve concordar em que o lugar é bonito e, lá as pessoas poderão se sentir bem, desde que assim se permitam. Da mesma forma, foi comprado o apartamento da cidade, mas, para me evitar maiores problemas, comprei só o apartamento que é de André. Dois terços de tudo que eu havia ganho, distribui com os nossos não me esquecendo mesmo nem de Leonardo e Olga, Ester sempre fora de tudo, como se não fora uma de nós. Sentia-me cansada e triste e imaginei que me seria conveniente uma pequena viagem, poucos dias, livre, pensava eu, do telefone. Depois descobri eu precisava me sentir livre das pessoas, delas eu me sentia cansada e foi bom que eu me ausentasse. Quando voltei, todos, já nos seus novos lugares, foram gentis comigo, mas, eu, sim, não havia sido capaz de esquecer nada do que me haviam dito e haviam feito e até mesmo as pequenas magoas de minha infância estavam comigo, em todos os lugares e foi por isso que, eu decidi me mudar não de casa mas de cidade, já que meu dinheiro e competência me eram insuficientes para mudar de país. Propus uma reunião de família, informei-lhes dos meus propósitos, sem contudo, perguntar-lhes o que deles pensavam; perguntei a Ester se ela gostaria de me acompanhar e ela me pareceu feliz com minha proposta. Nunca lhes falei o porquê de minha decisão e sobre ela nunca me perguntaram. Sem maiores demoras Ester e eu ficamos aqui ate quando ela se permitiu ficar. Ester era doente. Sabíamos disso. Pensávamos que sabíamos. Nosso apartamento era pequeno e nos comporta bem, você o viu e foi do meu querer a sua simplicidade que eu tenho como bonita. Vivíamos aqui, quando logo de começo disse a Ester que era de meu desejo fazê-la consultar um médico. E foi nesse dia que eu descobri que um mundo absurdo havia feito a vida de minha irmã: O violino mudo ao lado da poltrona em que ela se assentava era para mim uma pessoa viva a nos ouvir e Ester me disse: Não sei repetir e meu assombro alguma coisa pode aumentar, diminuir ou por qualquer modo adulterar a verdade, mas penso, foi isso que ela me contou: Doentes naquela casa eram todos vocês, não eu, porque não posso imaginar que lhes faltasse lucidez para perceber toda a loucura que entre nós permeava tudo: Não viram vocês que o tempo passou, transformando em ódio a possível migalha de amor que talvez nossos pais tenham um dia pensado que entre eles existissem?

Um dia, inocente das pessoas e dos sentimentos alheios, eu estava no sítio, e a noite por qualquer coisa eu tive medo, talvez algum barulho, alguma fala me assombrasse e então me levantei e fui ao quarto de meu pai. E na mesma cama os corpos juntos, meu pai, todo branco, como são aqueles que vêm de onde o sol não vai e Ana que trouxe na pele o sinal de que aqui sempre esteve e porque me assustei com o de todo inesperado, não pude conter o grito, nem eles me puderam dizer que em qualquer coisa eu me enganava. O dia seguinte, ao descer a escada que me levaria ao quarto de Ana, ou á cozinha, sem que pudesse eu imaginar de onde, senti suas mãos enormes pousadas no meu ombro e ela, a voz mansa e tranqüila disse-me: “Não é conveniente que você fale aos outros a respeito do que você viu ontem”. De tudo sua mãe foi a primeira a saber, mas, se outros souberem que ela o sabe, por orgulho , já que a respeito de decência não se pode falar, é certo que ela se sentirá na obrigação de se separar de seu pai e isso não será bom para nenhum de nós, nem mesmo para você. E seu pai não me deixará nunca porque eu sou a face que ele não quer mostrar: somos das pessoas que calculam, manipulam, dispõem dos outros e até de suas vidas , desde que isso se justifique pelos nossos interesses. Voltei da escada ao meu quarto, sem compreender a dimensão do que Ana me havia , e me tranquei só e só muito mais tarde meu pai me veio bater a porta. Ante a inutilidade de mantê-la fechada, fui obrigada a defrontar-me com o rosto de meu pai, mais abatido de que em todas as outras vezes em que assim eu o vi e ele me parecia gentil se não humilde quando me falou: _ O que você presenciou ontem não deve ser falado a ninguém e nunca: Ana é uma pessoa de que se deve cuidar: útil e perigosa, porque é perigosa e porque é útil ela me tem. Ana sabe demais e pode muito porque não tem escrúpulos. Preciso dela, preciso de sua sinceridade sempre e ninguém é tão sincero quanto uma amante apaixonada. Ana me terá sempre e sua mãe sabe disso. Foi inconscientemente que gritei a ele: Saia daqui. Vocês são todos mais canalhas de que eu daria conta de imaginar! E meu pai, certo que sendo sua filha, não poderia ser muito diferente dele aconselhou-me: "Amanhã, você terá pensado melhor e não fará senão o que você sabe que eu quero..." Quando a porta se fechou e me separou do mundo de Ana e de meu pai, eu filha dele pensei: “Será melhor que eu nunca fale disso a ninguém já que os envolvidos o sabem, mas em silencio, nunca mais deixarei que ele se esqueça de que eu sou testemunha de que ele é um homem a venda e era por isso que quando outros, com suas fraquezas me

assustavam eu não dizia nada eu apenas tocava o violino que ele tanto quis que alguém de nós soubesse tocar." "A mim, continuou Ester,” não me importava, se ele amava minha mãe, ninguém tem obrigação de amar ninguém, o que me dói e doeu, é que ele usava seu corpo, em pagamento a uma pessoa a quem ele temia porque sabia de seus possíveis erros.” Coberta de espanto, eu olhava minha irmã, e aparência tão meiga e tão fraca e sem perceber disse, sem saber para quem dizia: Não, não é possível.. e dirigindo-me a ela acrescentei: Você gastou sua vida, punindo alguém cujas angústias e ansiedades , você poderia ter conhecido? Você é mais doente do que eu pensava e abraçando-a, depois de tantos anos e tantas coisas , eu vi que não me restava mais de que chorar. Ela se levantou, tranquila como sempre havia sido e me trouxe água e depois disse :Ficarei com você por pouco tempo, peço-lhe que me ajude a sair daqui. O resto daquele dia e de muitos outros, foi de silêncio. Até que numa tarde ela me disse amanhã, vou-me embora. Não lhe pedi que ficasse, mas quando ela se foi, nos abraçamos quase em silencio e uma piedade imensa tomou conta de mim. Tempos depois um telefonema, gravado na secretária eletrônica, avisou-me de que numa casa de diversões eu poderia ver Ester. Fui vê-la e fui repetidas vezes: O rosto de minha irmã, se comove ao som da música que seus dedos tocam e ela se parece um anjo. Desde esse tempo, quando saio de casa sempre sei o que vou fazer e nunca saio inutilmente: Coloquei em minha casa, adornos pequenos e moveis delicados de modo que há em tudo a ternura que eu desejava Ter encontrado em todos os lugares. Na rua se alguém ainda me reconhece, falam-me de vocês e muitas vezes, respondem perguntas que eu não faço: por isso eu sei que André tem uma pequena indústria e que seus negócios vão bem e tem uma esposa, engenheira do mesmo modo que ele; Sei que Simão é medico, rico de conhecimentos não tanto de dinheiro e muito de bondade, dizem-me que seus filhos são lindos e inteligentes, a mulher simples e muito afável . De Olga me falam pouco e eu não preciso de saber muito. Agora você me diz que vai se casar e isso me faz feliz, porque todos aqueles que ficam sozinhos são infelizes não porque estejam sós , mas porque , ainda que não saibam , tiveram razões para assim se preferirem. Em casa e quase todo o tempo em que aqui me ponho, leio muitos livros, porque a mim me cansou a disputa em juntos se põem os seres humanos, na disputa por um

poder qualquer, cuja utilidade nenhum de nós conhece ao certo. E desconfiada até mesmo de mim , quantas vezes me pergunto , se meus livros não são também o caminho mais fácil , onde procuro algum poder, as palavras são tão poderosas que mesmo que você não acredite em todas as coisas que lhe escrevo, tenho certeza no mínimo , você terá duvidas e se perguntará porque eu lhe quis dizer tanto, depois de tanto tempo? Nem mesmo importo com aquilo em que se vai pensar, estou contente de ver que você foi capaz de acreditar em alguém, a ponto de com ele partilhar a sua vida, de você a imagem que tenho e de vê-la, tentando me encontrar no meio de tanta gente, a roupa despojada, seus cabelos oferecidos ao vento, toda você tão solta como se nunca tivesse tido medo nem desconfiança e peço a tudo que existe que a conserve assim tão jovem e a faça feliz, tão feliz quanto nunca poderá ser a sua irmã. Abigail.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful