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John Locke – Dois tratados sobre o governo

Livro II – Ensaio referente à verdadeira origem, extensão e finalidade do governo civil


Cap. II [Do estado de natureza]; 4 – Para compreender corretamente o poder político e derivá-
lo de sua origem, devemos considerar o estado em que todos os homens se encontram
naturalmente, que é um estado de perfeita liberdade para regular suas ações e dispor de suas
posses e de suas pessoas do modo como julgarem adequado, dentro dos limites da lei da natureza,
sem pedir permissão nem depender da vontade de nenhum outro homem.
Um estado também de igualdade, no qual todo poder e jurisdição é recíproco, ninguém tendo
mais do que outro, sendo totalmente evidente que criaturas da mesma espécie e classe, nascidas
indistintamente para todas as mesmas vantagens da natureza e para o uso das mesmas faculdades,
devem também ser iguais umas às outras, sem subordinação nem sujeição.
6 – O estado de natureza tem para governá-lo [o homem] uma lei da natureza, que obriga a
todos, e a razão, que é essa lei, ensina a todos os homens que a consultam que, sendo todos iguais
e independentes, nenhum deve causa dano a outro em sua vida, saúde, liberdade ou posses; [...]
quando sua preservação não está em jogo, deve tanto quanto puder preservar o resto da
humanidade e não tirar nem prejudicar a vida, a menos que para fazer justiça a um infrator, nem
prejudicar o que favorece a preservação da vida, da liberdade, da saúde, da integridade ou dos bens
de outrem.
7 – A execução da lei da natureza é posta, nesse estado, nas mãos de cada homem, com o
que cada um tem o direito de punir os transgressores dessa lei, em grau tal que impeça sua
violação.
Cap. V [Da propriedade], 23 – Deus, que deu o mundo aos homens em comum, também lhes
deu a razão para ser usada para sua melhor conveniência e proveito da vida. A terra e tudo que há
nela é dado aos homens para o sustento e conforto de sua existência. E, embora todos os frutos que
que ela produz naturalmente e os animais que alimenta pertençam à humanidade em comum...,
deve haver necessariamente um meio de apropriá-los, antes que possam ser de uso ou benéficos
para algum homem particular.
26 – Embora a terra e todas as criaturas inferiores sejam comuns a todos os homens, ainda
assim todo homem tem uma “propriedade” em sua própria “pessoa”. Ninguém tem direito algum
sobre ela a não ser ele mesmo. O “trabalho” de seu corpo e a “obra” de suas mãos, podemos dizer,
são propriedade dele. Então, tudo o que ele retire do estado que a natureza proporcionou,
misturando-o a seu trabalho e juntando-lhe algo que é seu, converte-se por isso em propriedade
sua.
Cap. VII [Da sociedade política ou civil], 87 – Somente haverá sociedade política onde cada
um dos membros renunciou a esse poder natural, entregando-o às mãos da comunidade em todos
os casos que não os impeçam de apelar por proteção à lei por ela estabelecida. E, estando excluído
o julgamento privado de cada membro individual, a comunidade passa a ser o árbitro e, pelo
entendimento de regras imparciais por meio de homens autorizados pela comunidade para sua
execução, decide todas as diferenças que possam ocorrer entre quaisquer membros dessa
sociedade com respeito a qualquer questão de direito, e pune as ofensas que algum membro tenha
cometido contra a sociedade com as penalidades que a lei estabeleceu; pelo que é fácil discernir
quem está e quem não está junto na sociedade política. Aqueles que estão unidos num único corpo
e têm uma lei comum estabelecida e uma judicatura à qual apelar, com autoridade para decidir as
controvérsias entre eles e punir os transgressores, estão em sociedade civil uns com os outros; mas
aqueles que não têm tal recurso comum, quero dizer, na Terra, ainda estão em estado de natureza,
sendo cada qual, onde não houver outro, o juiz por si mesmo e executor, o que constitui, como
demonstrei antes, o perfeito estado de natureza.
88 – [...] o Estado passa a ter o poder de atribuir a punição que segundo seu julgamento
caberá às várias transgressões cometidas entre os membros dessa sociedade, assim como tem o
poder de punir qualquer ofensa praticada contra um de seus membros dessa sociedade, tanto
quanto for possível. Embora, porém, cada homem que entrou na sociedade tenha renunciado a seu
poder de punir violações contra a lei da natureza, executando seu próprio julgamento das violações
ao legislativo em todos os casos em que pode apelar ao magistrado, cedeu ao Estado o direito de
empregar sua força para a execução dos julgamentos do Estado sempre que for chamado para tal,
julgamentos que, de fato, são os seus próprios, sendo pronunciados por ele mesmo ou por seu
representante. Temos aqui a origem dos poderes legislativo e executivo da sociedade civil, que
devem julgar, mediante leis estabelecidas, até que ponto as violações devem ser punidas quando
cometidas dentro do Estado.
89 – Porque a finalidade da sociedade civil é evitar e remediar aquelas inconveniências do
estado de natureza que necessariamente resultam do fato de cada um ser juiz em sua própria
causa, estabelecendo uma autoridade notória à qual cada membro dessa sociedade possa apelar no
caso de sofrer alguma injúria, ou de surgir alguma controvérsia, e à qual todos devem obedecer,
97 – E, desse modo, todo homem, ao concordar com outros em formar um corpo político sob
um governo, coloca-se sob a obrigação, perante todos os membros dessa sociedade, de submeter-
se à determinação da maioria e de acatar a decisão dela; caso contrário, esse pacto original, pelo
qual ele se incorpora com outros numa sociedade, nada significaria, e não seria pacto algum se ele
fosse deixado livre e sob nenhum outro vínculo a não ser aquele que tinha antes do estado de
natureza.
LOCKE, J. Segundo Tratado sobre o Governo Civil. Trad. Reinaldo Guarany. In. Os Grandes
Filósofos do Direito – Leituras escolhidas em direito. Org. Clarence Morris. São Paulo: Martins
Fontes, 2002. – Coleção justiça e direito