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Adolf Höfer; Oficial Alemão, 1913; Coleção particular


Kuroda Seiki; Maiko, c. 1900; Coleção particular
Arnold Böecklin; Autoretrato com a Morte, 1872; Altenationalgalerie, berlin
Ferdinand Hodler; Retrato de Berthe Jacques, 1894; Coleção A.Stoll

CIP-BRASIL. Catalogação na fonte


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
_______________________________________________________________

M256 5.ed. Mar de histórias : antologia do conto mundial: no limiar do século XX: volume 8 / Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira e Paulo Rónai (tradução e organização). – 5.ed. – Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2013.
(Mar de histórias ; 8)

Apêndice
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-209-3772-3

1. Antologias (Conto). I. Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda, 1910-1989. II. Rónai, Paulo, 1907-1992. III. Série.

CDD: 808.83
CDU: 82-3(082)
SUMÁRIO

Prefácio

MAR DE HISTÓRIAS
No limiar do século X

Arthur Schnitzler
O tenente Gustl

Francis Jammes
O Paraíso

Anatole France
Putois

Lafcadio Hearn
Yuki-Onna
Diplomacia

August Strindberg
O império milenar

Jules Lemaître
Muito tarde

O. Henry
O quarto mobiliado

Rafael Barrett
A mãe
A carteira

Coelho Neto
Os pombos

Ferenc Molnár
Conto de ninar
Arnold Bennett
O assassinato do mandarim

Ricarda Huch
O cantor

Javier de Viana
A carta da suicida

Zygmunt Niedzwiecki
O dote

Leonid Andreiev
O grande slam

Johannes Vilhelm Jensen


Na paz do Natal

Stephen Leacock
O destino terrível de Melpomenus Jones
A vingança do prestidigitador

Simões Lopes Neto


Trezentas onças

Ivan Čankar
A dessétitsa

Naoya Shiga
A morte da mulher do atirador de facas

Ernesto Montenegro
Por uma dúzia de ovos cozidos

APÊNDICES
Bibliografia de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Bibliografia de Paulo Rónai
Autores e obras presentes em Mar de histórias
Notas
PREFÁCIO

Inclui o presente volume duas dúzias de narrativas do começo deste século, de 1900 ao ano
fatídico de 1914, que de repente revelou aos olhos estupefatos da humanidade o ilusório
caráter do progresso em que o século anterior com tanta firmeza acreditava. E, ao relermos
as narrativas aqui reunidas segundo critérios estéticos, sem expressa intenção documentária,
verificamos com surpresa quantas delas, e precisamente das mais importantes, deixam
entrever os germes da crise que eclodiria dentro em pouco, envolvendo praticamente o mundo
inteiro.
Assim, através do incidente tragicômico do fanfarrão tenente Gustl, o vienense Arthur
Schnitzler mostra em que bases frágeis e absurdas repousava a moral pública da
aparentemente poderosa Monarquia Austro-Húngara. Sob o verniz da paz, os instintos de
ferocidade acham-se apenas sopitados, recorda o dinamarquês Johannes V. Jensen. O russo
Leonid Andreiev, no infindável jogo de cartas de um grupinho, pinta a inconsciência tranquila
das futuras vítimas da catástrofe.
Até as novelas históricas reforçam a impressão de insegurança. Ao evocar a atmosfera de
angústia do primeiro milênio, não quererá o sueco August Strindberg aludir às ameaças do
segundo? E, num episódio significativo da corte de Inocêncio X, a alemã Ricarda Huch nos faz
compreender a debilidade da justiça em todas as épocas.
Além desses autores, aparece um outro punhado de contistas europeus de grande
variedade. Em “Conto de ninar”, do húngaro Ferenc Molnár, conhecemos o núcleo do drama
Líliom, mundialmente famoso. Ivan Čankar traz-nos a história duma infância na Eslovênia;
Zygmunt Niedzwiecki, a de um casamento na Polônia. As letras inglesas são representadas
por Arnold Bennett, que, em “O assassinato do mandarim”, retoma velho tema internacional. A
imagem da novelística francesa nuança-se com mais três espécimes: um ingênuo, de Francis
Jammes; outro erudito, de Jules Lemaître; o terceiro céptico, de Anatole France.
O volume, porém, não se restringe à Europa. Da América do Sul, trabalhos do uruguaio
Javier de Viana e do chileno Ernesto Montenegro completam a famosa história de “Os
pombos”, de Coelho Neto. A crescente literatura norte-americana apresenta-nos em O. Henry
um requintador da mais elaborada forma do conto europeu. A Europa e a América reivindicam
o meteórico Rafael Barrett; a Europa e a Ásia, Lafcadio Hearn, naturalizado japonês. Ao lado
deste, Naoya Shiga familiariza-nos com o espírito analítico do Japão. Manda-nos o Canadá o
seu melhor humorista na pessoa de Stephen Leacock.
Como se vê, são, na maioria, autores desconhecidos entre nós. Ao fechar o volume, terá o
leitor adquirido novos amigos.

Novembro de 1984.
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Paulo Rónai
Mar de histórias
No limiar do século XX
ARTHUR SCHNITZLER

Arthur Schnitzler (1862-1931), o primeiro escritor austríaco propriamente dito incluído nesta
coletânea (pois Rilke, também de língua alemã, e também súdito da Monarquia Austro-
Húngara, nasceu em Praga, na antiga Boêmia), é um representante característico do espírito
da Viena finissecular. A capital da antiga Monarquia Austro-Húngara era uma das cidades mais
cosmopolitas do mundo, um centro intelectual e artístico de vida efervescente. Sua famosa
universidade, seus teatros, dos melhores da Europa, e até seus cafés, luxuosos e
confortáveis, onde se encontravam escritores, atores e artistas, davam-lhe um brilho que fazia
facilmente esquecer os mil problemas íntimos da monarquia, aglomerado de povos
heterogêneos agitados por tendências separatistas. A cordialidade do povo, a célebre
Gemütlichkeit, aliada a um sentimentalismo fácil e a boa dose de cinismo ou displicência em
face de problemas inadiáveis mas sempre adiados, formava o substrato desses dois produtos
vienenses universalmente apreciados que são a opereta e a valsa.
Foi nesse ambiente cintilante e febril que nasceu Arthur Schnitzler, filho de ilustre médico
israelita. Como o irmão, seguiu ele a carreira do pai, abriu consultório, e chegou a dirigir, de
1887 a 1894, a Internationale Klinische Rundschau, revista especializada para a qual escrevia
artigos sobre hipnotismo, telepatia, neurastenia e psicoterapia. Ao mesmo tempo colaborava
em jornais e revistas literárias usando o pseudônimo de “Anatol”, nome que deu ao
protagonista de uma série de curtas cenas, sua primeira produção teatral. A partir do êxito do
drama Namorico, consagrou-se cada vez mais à literatura, e escreveu grande número de
peças, romances e contos. Por volta de 1900, com Hermann Bahr, Hugo von Hofmannsthal e
outros, deu início ao movimento Jungwien (“Viena Jovem”), oposto ao pseudoclassicismo
vienense e ao naturalismo de Berlim.
A fama universal de Schnitzler provinha, antes de mais nada, de sua produção teatral. Sua
especialidade eram peças breves, de um ato, em que lograva condensar dramas inteiros.
Muitas vezes juntava de três a dez destas cenas, ligadas unicamente pela identidade do
protagonista, e que não chegam a soldar-se num enredo. Ainda hoje se lê com encanto a série
de cenas intituladas Anatol; em cada uma delas esse amável boêmio e viveur, teórico
inteligente da psicologia do amor, é confrontado com uma de suas sucessivas amantes, saindo
sempre derrotado. A Ronda, conjunto de dez diálogos, suscitou escândalo, processo e
acaloradas discussões da imprensa europeia. O primeiro desses diálogos travou-se entre uma
prostituta e um soldado; o segundo, entre o soldado e uma empregadinha; o terceiro, entre
esta e o filho do patrão; e assim por diante, até fechar-se a cadeia com uma palestra entre um
aristocrata e a prostituta do primeiro diálogo. Nesses dez colóquios, que servem todos de
prelúdio ao ato sexual, o autor conseguiu retratar de maneira admirável a linguagem dos
comparsas e seu comportamento amoroso, condicionado pela respectiva situação social. O
escândalo era devido à corajosa sátira à hipocrisia sexual do mundo burguês.
Dentre os numerosos romances de Schnitzler, assinalemos apenas O caminho para a
liberdade, com elementos autobiográficos e ampla discussão, pelas personagens, em parte
cristãs, em parte judias, do problema antissemítico.
Dos contos, de larga variedade, os melhores são também aqueles em que à crítica social
se junta a análise aguda de estados psicológicos, ou antes, psicopatológicos. As narrativas
fantásticas, a despeito de uma invenção muitas vezes fértil e surpreendente (“A estrangeira”,
“O diário de Redegonda”, “A morte de um solteirão”, “Flores” e até “O assassino”, que
antecede O imoralista, de Gide), parecem hoje envelhecidas; mas as novelas psicológicas, em
que o escritor nos apresenta oficiais, atrizes, boêmios, espécimes característicos da fauna
vienense, colocam-no para sempre entre os mestres do genêro.
“Jogo ao amanhecer” é a história alucinante de um tenentezinho à procura de certa
importância, e que resolve alcançá-la à mesa do jogo; as cartas trazem-lhe e tiram-lhe várias
vezes a fortuna desejada, e no fim, tendo jogado, numa sucessão de lances palpitantes, o que
tinha e o que não tinha, mata-se. Não menos patética e opressiva a atmosfera de “senhorita
Elza”, história duma linda moça da alta burguesia a quem a família pede que se venda para
pagar as dívidas do pai, e que, depois de forte conflito íntimo, vem a suicidar-se.
A forma dessa novela é a mesma que se apresenta a seguir: o monólogo imaginário do
protagonista ante uma sucessão de acontecimentos que culminam em uma crise. Esse
processo, precedente, de muito (“O tenente Gustl” é de 1900!), ao “monólogo íntimo” ou
stream of consciousness, considerado a grande inovação de Joyce, tem poderoso efeito nas
mãos de Schnitzler. Consegue ele torná-lo inteiramente natural, por se acharem as duas
personagens, a srta. Elza e o tenente Gustl, em estado de superexcitação, em que podem
perfeitamente considerar o desenrolar dos acontecimentos de que são o centro como se se
passassem com uma pessoa estranha. Empolgados pelo ritmo da narrativa, sentimo-nos
envolvidos pelo pesadelo que lhes cabe viver.
Não estão acordes os comentadores sobre o que se deve julgar a substância da novela.
Segundo Constanza d’Ancora,1 trata-se da “vitória do instinto de conservação sobre o senso
exaltado da honra”; Werner P. Friedrich 2 vê na obra apenas “os problemas tragicômicos de um
encantador representante da velha Viena imperial”.
A nós, que nada encontramos de encantador no tenente Gustl, parece-nos evidente que o
alcance da novela vai muito além dos maus momentos que o tenentezinho passou em
consequência do seu incidente com o sr. Habetswallner. A futilidade do mundo íntimo de Gustl,
toda a sua vida que lhe desfila ante os olhos naquela recordação alucinante, implica a
condenação de uma sociedade decadente e hipócrita, com seu sistema de castas, em que os
militares, dotados de uma moral à parte e de leis próprias, necessariamente hostilizavam e
desprezavam os civis. Nem de outro modo as altas autoridades da monarquia interpretaram a
novela, pois demitiram Schnitzler, sumariamente, do seu posto de médico militar, por haver
publicado “O tenente Gustl”.
Contrariamente ao costume adotado, mantivemos nesta versão a forma original dos nomes
das personagens, a começar pelo protagonista (Gustl = Gustavinho), por serem diminutivos
muito característicos do uso austríaco.3

O TENENTE GUSTL
Quanto tempo vai isto durar ainda? Tenho de consultar o relógio... talvez não convenha, num
concerto tão sério. Mas quem notará? Se alguém notar, é que está prestando tão pouca
atenção como eu, e não lhe devo considerações... Somente nove e um quarto? Tenho a
impressão de estar sentado aqui há três horas. Falta de costume, é isso... Que é que estão
cantando, mesmo? Vejamos o programa... Aqui está: oratório? Pois eu pensava que fosse
uma missa. Afinal de contas, o lugar dessas coisas é só na igreja. Numa igreja há também a
vantagem de a gente poder sair a qualquer momento. — Se ao menos estivesse sentado numa
ponta de fila! — Paciência, paciência! Até os oratórios têm fim. Talvez até seja belíssimo;
apenas, eu não estou muito bem-disposto. E por que o estaria? Pensar que vim aqui para me
divertir... Devia era ter dado o ingresso de presente ao Benedek, que acha graça nestas
coisas; por sinal, toca violino. Pois é, mas o Kopetzky ficaria ofendido. Afinal, ele foi muito
gentil; pelo menos teve a melhor das intenções. Um bom sujeito, esse Kopetzky! O único em
quem se pode confiar... Sua irmã está cantando aí, no meio dessas cem moças ou mais,
todas vestidas de preto: como reconhecê-la? Foi justamente por ela cantar que o Kopetzky
teve o ingresso... Mas então por que não veio ele próprio? — Aliás, elas cantam muito bem! É
de comover a gente, de verdade! Bravos! bravos!... Isto mesmo, vamos aplaudir com os
outros. O sujeito a meu lado está batendo palmas feito um louco: será que aprecia tanto
assim? — Aquela moça do camarote da frente é bem bonita. Estará olhando para mim ou para
aquele cavalheiro de barba loura?... Ah, um solo! Quem é? Contralto: srta. Walker; soprano:
srta. Michalek... Essa aí deve ser soprano... Faz um tempão que não vou à ópera. Na ópera
me divirto sempre, ainda que a peça seja cacete. Depois de amanhã poderia voltar, ouvir La
Traviata. Pois é, a menos que seja um cadáver! Bobagem, eu mesmo não creio em nada
disso. Espere, seu doutorzinho,4 vou-lhe tirar a vontade de fazer dessas observações: vou-lhe
cortar a ponta do nariz...
Se ao menos pudesse ver direito a moça do camarote! Bem que poderia pedir emprestado
o binóculo a este senhor a meu lado, porém ele é capaz de matar-me se o perturbar no seu
recolhimento... Em que parte do palco estará a irmã do Kopetzky? Serei capaz de reconhecê-
la? Vi-a, apenas, duas ou três vezes, a última no Clube Militar... Será que todas as cem são
moças direitas? Ora essa!... “Com participação do orfeão”... Orfeão, coisa esquisita. Na
realidade julgava que orfeão fosse outra coisa, parecida com as tais cantoras-bailarinas de
Viena; isto é, já sabia que era algo diferente!... Lindas recordações. Aquela noite, no Portão
Verde... Como é que ela se chamava, mesmo? Chegou a mandar-me um cartão-postal de
Belgrado... região bonita, aquela! Feliz é o Kopetzky, sentado há muito no restaurante a fumar
o seu charuto!...
Por que é que este sujeito não para de me fitar? Terá observado que eu estou
aborrecendo-me e pensando noutra coisa?... Aconselho-lhe que me faça uma cara menos
impertinente, senão teremos uma conversa logo depois, no saguão! — Já está olhando para o
outro lado... Curioso como todos eles têm medo do meu olhar... — “Você tem os olhos mais
bonitos que já vi!” — disse-me a Steffi5 há pouco tempo... Oh, Steffi, Steffi! No fundo, é por
causa dela que eu estou aqui e devo ouvir horas a fio toda esta lamentação! Essas perpétuas
contraordens da Steffi me estão amolando! Que bela noite poderíamos ter passado! Gostaria
de ler o bilhete que me escreveu: está aqui comigo. Mas, se puxar a carteira, este sujeito é
capaz de me matar! — Aliás, sei muito bem o que ela diz... não pode vir, porque tem de jantar
com “ele”... Mas como era gozado, há poucos dias, na Sociedade de Horticultura, ela com ele,
e eu e o Kopetzky sentados à frente... e ela a fazer-me com os olhinhos todos os sinais
combinados! Ele nada notou — parece incrível! Deve ser judeu. Claro, é empregado num
banco; e depois, aquele bigode preto... Ela diz que ele é tenente da reserva. Pois não lhe
recomendo vir fazer o estágio no meu regimento! Como pode haver, ainda, tantos oficiais
judeus? — então todo o antissemitismo não vale um caracol! Há pouco, na reunião, onde tive o
incidente com o doutorzinho, em casa dos Mannheimers... também estes devem ser judeus,
convertidos, é claro... mas ninguém diria — sobretudo a mulher, tão loura, um rosto tão lindo...
Enfim, era bem divertido aquilo: comida excelente, charutos de primeira qualidade... Pois é,
quem tem dinheiro...
Bravos, bravos! Desta vez estaremos realmente no fim? — Sim, todo o pessoal do palco
está-se levantando... belo espetáculo — imponente! — Órgão também?... Gosto muito de
órgão... Isto sim, ótimo! É verdade, a gente deveria frequentar concertos... Direi ao Kopetzky
que tudo foi ótimo... Será que ainda o encontro no café?... Mas para que voltar ao café? Para
ficar danado como ontem? Também, não era para menos: perder 160 florins duma assentada,
de maneira tão idiota! E quem ganhou tudo? O Ballert, justamente um que não precisa... Enfim,
é por culpa dele que vim assistir a este concerto estúpido... Pois é, não fosse ele, eu poderia
ter jogado hoje também, talvez até recuperado alguma coisa. Mas foi muito bom eu ter dado a
mim mesmo a minha palavra de honra que levaria um mês sem tocar em baralho... Mamãe é
que vai fazer uma daquelas caretas quando receber a minha carta! — Pior para ela: que
procure o titio; ele tem dinheiro que nem lixo, e umas centenas de florins a mais ou a menos
não lhe fazem diferença. Se pudesse conseguir dele uma mesada regular... Porém nada
disso: a gente tem de implorar cada kreutzer,6 e ainda por cima ouvir as queixas sobre a
colheita do ano passado, que “foi tão ruim!”... Deverei passar neste verão, também, 15 dias
em casa de titio? É uma caceteação mortal... Se ainda... como se chamava, mesmo?... É
estranho, não sou capaz de guardar nenhum nome!... Ah, sim: Etelka!... 7 Não entendia uma
palavra de alemão, mas não era preciso... para que tanta conversa? Sim, vai ser ótimo, 15
dias de ares da serra e 15 noites de Etelka ou de outra qualquer... Mas terei de passar oito
dias com papai e mamãe... No último Natal, mamãe não tinha boa aparência... Agora, contudo,
o desgosto já estará superado. Eu, no lugar dela, ficaria satisfeito de saber que papai está
aposentado. — A Clara acabará arranjando um marido... É só titio largar uns cobres, que
diabo... Vinte e oito anos ainda não são a velhice... A Steffi não deve ter menos. Mas é notável
como as mulheres sabem prolongar a juventude. Vejam só a Maretti, outro dia, em Madame
Sans-Gêne8 — ela deve ter seus 37 anos, no mínimo, e nem parece... Eu é que não diria não,
se... — Pena que ela não me haja perguntado...
Está fazendo um calor! e nada de este troço terminar. Não sei a que horas volverei ao ar
livre, darei uma voltinha pelo Ring...9 Preciso deitar-me cedo para amanhã e tarde estar bem-
disposto! Engraçado como penso pouco nesse negócio; não lhe dou a menor importância! A
primeira vez, no entanto, fiquei um pouco excitado. Não que houvesse tido medo, mas estive
nervoso a noite inteira... Verdade é que o tenente Bisanz era um adversário sério. — Porém
nada me aconteceu!... Lá se vai um ano e meio. Como o tempo corre depressa! E, se o Bisanz
nem me arranhou, não será o doutorzinho que me fará mal! Contudo, precisamente esses
esgrimistas não treinados são por vezes os mais perigosos. O Doschintzky me contou que um
sujeito que pegara da espada pela primeira vez na vida por um triz não o matou: pois o
Doschintzky é quem hoje ensina esgrima na Landwehr. 10 Está certo — mas já então saberia
ele tanto quanto sabe hoje?... O que importa é sangue-frio. Já nem sequer tenho raiva do
sujeito, mas foi um desaforo. Uma coisa incrível. Ele não se teria atrevido, na certa, se antes
não houvesse bebido champanha... Que insolência! Deve ser um socialista! Esses rábulas,
hoje em dia, são todos socialistas! Essa corja gostaria de acabar logo com o Exército inteiro;
porém os idiotas não perguntam quem os ajudará se os chineses vierem tomar conta disto
aqui. — De vez em quando a gente tem de exemplá-los. Fiz muito bem. Estou satisfeito por
não o ter largado após aquela observação. Ainda hoje, ao pensar nisto, sobe-me o sangue à
cabeça. Mas comportei-me otimamente: o próprio coronel acha que eu fui perfeito. O caso
poderá ser-me útil, até. Conheço mais de um que teria deixado o tipo escapar. O Müller, por
exemplo, esse mais uma vez teria sido “objetivo”, ou coisa que o valha. Pois com objetivismo
até hoje todos se saíram mal... — “Sr. tenente!”... A própria maneira de ele dizer — “Sr.
tenente!” — era um desaforo. — “O senhor terá de concordar comigo”... Mas como foi que
chegamos a esse ponto? Como foi que me deixei entrar em palestra com aquele socialista?
Como foi mesmo que a coisa principiou?... Parece-me que a morena que eu levara ao bar
também estava presente... e o rapaz que pinta quadros de caça — ora, como se chama?...
Palavra, a culpa de toda a história é dele! Foi ele quem começou a falar das manobras; então
o doutorzinho meteu o bedelho e disse alguma coisa, que não me agradou, sobre a mania de
brincar de guerra, ou coisa parecida — mas eu nessa altura não lhe pude dizer nada. Depois
se veio a falar nas escolas de cadetes... sim, isso mesmo... e eu fui contar uma festa
patriótica... e então o doutorzinho disse — não imediatamente, mas o ponto de partida foi a
festa: — “Sr. tenente, o senhor terá de concordar comigo em que nem todos os seus colegas
escolheram a carreira militar só para defender a pátria!” Que impertinência! Um sujeito como
aquele ter a coragem de dizer semelhante desaforo na cara de um oficial! Se pelo menos me
lembrasse da resposta que lhe dei!... Ah, sim, falei em gente que se mete em coisas que não
entende... Sim, foi isso... e depois veio alguém que desejava encerrar às boas a discussão, um
senhor de idade, com uma coriza terrível... Mas eu já estava danado da vida! O doutorzinho
dissera aquilo num tom que parecia referir-se a mim especialmente. Só faltava acrescentar
que eu fora expulso do ginásio e por essa razão me puseram na escola de cadetes... Essa
gente não nos pode compreender: são burros para isso... Quando me lembro da primeira vez
que vesti o uniforme... foi uma sensação que nem todos podem ter... Ou nas manobras do ano
passado — teria dado tudo para que as coisas de repente se tornassem sérias... O Mirovic
disse-me que sentira o mesmo... Depois, Sua Alteza passando revista à gente, e o coronel
discursando — quem num momento assim não sente o coração bater mais forte deve ser um
canalha... E então me aparece um sujeitinho desses que em toda a vida não fizeram outra
coisa a não ser ficar sentado atrás dos livros, e se permite uma observação impertinente!...
Espera um pouco, amigo... não descansarei senão depois de te pôr fora de combate...
Mas que é isto? Desta vez o fim deve estar perto. “Vós, ó anjos, louvai o Senhor”... Sim, é
o coro final... Lindo, não há dúvida. Lindíssimo! — Ia-me esquecendo inteiramente da pequena
que me fitava do camarote. Que fim levou?... Deve ter saído... Aquela outra também não me
parece nada feia... Que tolice não haver trazido o binóculo! O Brunnthaler, que não é tolo,
guarda o binóculo no café, junto da caixa; assim, não pode ficar desprevenido... Se pelo
menos aquela pequena da frente quisesse virar-se! Fica ali sentadinha todo o tempo, sem se
mexer. A velha ao lado dela deve ser a mamãe. — Por falar nisso, não seria tempo de eu
pensar seriamente em casar-me? O Guilherme, quando deu o salto, não tinha mais idade do
que eu agora. Nada mau ter sempre à mão uma mulherzinha bonita... Mas que coisa estúpida
a Steffi não estar disponível precisamente hoje! Ainda se eu soubesse onde ela se encontra,
poderia mais uma vez sentar-me à frente dela. Mas também se ele descobrisse tudo, que
complicação!... lá estaria eu com a Steffi às costas... Quando penso no que está custando ao
Fliesz a aventurazinha com a Winterfeld! E ela a enganá-lo com cada um! Isso vai acabar mal,
qualquer dia destes... Bravo, bravo! Terminou!... Como faz bem à gente poder mexer-se,
levantar-se... Ora!... Quanto tempo vai este aqui levar para guardar o binóculo?
— Perdão, o senhor me dá licença para sair?
Que aperto! É melhor deixar que o pessoal desfile... Que moça elegante... mas os
brilhantes serão verdadeiros?... Esta aqui é bonitinha... E como me olha!... Pois não, senhorita,
com muito prazer!... Porém esse nariz! — É uma judia... mais uma... É fantástico: também aqui
a metade são judeus... nem sequer um oratório se pode escutar em paz... Está bem, agora
entramos na corrente... Mas quem é o idiota que me está empurrando? Vou-lhe dar uma
lição... Ah, um senhor de idade!... Quem é que me está cumprimentando do outro lado?... Sim,
senhor, boa noite! Não tenho a menor ideia sobre quem será... O melhor seria ir jantar logo no
Leidinger... ou — quem sabe? — na Sociedade de Horticultura. Vai ver que a Steffi estará lá.
Por que não me escreveu, afinal de contas, para me dizer aonde iriam? Talvez ela mesma não
soubesse. No fundo é uma coisa terrível levar uma vida tão dependente... coitada da bichinha!
— Afinal, chegamos à saída... Vejam que beleza! E está só! Como me sorri! Segui-la não seria
má ideia!... Vai descendo as escadas... Oh, um major do 95... Retribui a continência com muita
gentileza... Assim, não fui o único oficial a assistir ao concerto... Que é feito da linda moça?...
Aí... junto ao corrimão... Esta é que não quero deixar escapar... Puxa, já tem um, a miserável!
Fez-se esperar por um cavalheiro, e ainda tem coragem de rir para mim! — Nenhuma delas
vale um tostão!... Meu Deus, que aperto no vestiário!... Esperemos antes um momento... Isto!
Será que o idiota do empregado vai tomar o meu número?
— Olá, olhe o 224! Está dependurado aí! O senhor não tem olhos? Está aí, dependurado!
Afinal, graças a Deus!... Com licença!...
Vejam este gordão que me entulha o vestiário todo...
— Com licença!...
— Paciência, paciência!
Que é que ele está dizendo?
— Um pouco de paciência!
Tenho de dar-lhe uma resposta...
— O senhor quer-me deixar passar?
— Ora, não vai chegar atrasado a lugar nenhum.
Que é que está dizendo? Está falando comigo? Esta é forte. Não tolero esse tom.
— Calma!
— Que é que o senhor quer dizer?
Mas que tom! Isto não é coisa que se aguente!
— Não empurre!
— Cale a boca, seu malcriado!
Não devia ter dito isto, fui forte demais... Bem, aconteceu!
— Como é?
Agora se voltou... Mas eu conheço este sujeito! — Com seiscentos diabos, é o padeiro que
vem sempre ao café... Que é que estará fazendo aqui? Deve ter uma filha ou outra parenta na
academia de canto... Mas que é isso? Que é que ele está fazendo? Parece-me até... por
minha alma, está segurando o punho da minha espada... Terá enlouquecido?...
— Olhe, seu...
— Sr. tenente, bico calado, ouviu?
Que é que ele está dizendo? Pelo amor de Deus, que ninguém tenha ouvido! Não, ele falou
baixinho... Mas por que não larga a minha espada? Caramba... Aqui é preciso cara feia... mas
não consigo tirar-lhe a mão do punho da espada... Nada de escândalos, agora... O major não
estará atrás de mim? Seria o cúmulo... Alguém terá notado que ele está com a mão no punho
da minha espada? Está-me falando! Que é que ele diz?
— Sr. tenente, se o senhor fizer o menor barulho, puxo-lhe a espada da bainha, quebro-a, e
mando os pedaços ao seu comandante. Ouviu, bobinho?
Que foi que ele disse? Parece-me que estou sonhando! Ele estará mesmo falando comigo?
Deveria responder-lhe... Mas o sujeito está levando a coisa a sério — está puxando de
verdade a minha espada. Por Deus — ele a puxa mesmo!... Estou sentindo o esforço que ele
faz. Que é que ele está dizendo? Pelo amor de Deus, nada de escândalos! — Que é que ele
está dizendo ainda?
— Mas não quero estragar-lhe a carreira... Por isso, fique bonzinho!... Assim mesmo... Não
tenha medo, ninguém ouviu nada... está tudo certo! E, para ninguém pensar que nós brigamos,
agora vou ser muito gentil com o senhor! — Muito prazer, sr. tenente, muita honra... até
amanhã, sr. tenente.
Santo Deus! sonhei tudo isso?... Ou ele me disse na realidade essas palavras?... Onde
está?... Lá vai ele... Deveria puxar a espada e chaciná-lo. — Santo Deus! será que ninguém
ouviu nada?... Não, ele falou baixinho, falou-me ao ouvido... Por que não o sigo para fazer-lhe
o crânio em pedaços?... Não é possível... devia tê-lo feito imediatamente... E por que não o
fiz?... Mas se não pude... ele segurava o punho da espada e é dez vezes mais forte do que
eu... Se lhe houvesse dito mais uma palavra, era capaz de me quebrar a espada... Devo
julgar-me satisfeito por ele não ter falado alto! Se alguém o tivesse ouvido, eu teria de estourar
os miolos stante pede...11 Talvez tenha sido apenas um sonho... Por que é que aquele
cavalheiro, perto da coluna, está olhando para mim — será que ouviu alguma coisa?... Vou
perguntar-lhe... Perguntar-lhe? — Estou mesmo louco! — Devo ter um aspecto esquisito! —
Será que se nota alguma coisa? — Devo estar pálido. — Onde está o miserável?... Devo
matá-lo!... Foi-se... O saguão já está quase vazio... E o meu capote?... Já o vesti, agora é que
vejo... Nem notei... Quem me terá ajudado a vesti-lo?... Este aqui... devo dar-lhe um níquel...
Isto!... Mas que é isso? É verdade? Alguém terá falado comigo dessa maneira? Alguém me
chamou bobinho? E eu não o trucidei de vez?... Mas se não foi possível... ele tem mãos de
ferro... eu ficava aí, imóvel, como que pregado... Não, devo ter perdido o juízo, senão o teria
pegado com a outra mão... Pois sim, mas ele teria puxado a minha espada para quebrá-la, e
tudo estaria acabado — tudo! E depois, quando ele se foi, já era tarde... e eu não poderia
atravessar-lhe o corpo pelas costas com a minha espada.
O quê! já estou na rua? Como foi que cheguei até aqui? — Como faz fresco... ah, o vento,
que bom que é... Quem é aquele na calçada da frente? Por que é que essa gente está
olhando para mim? Vão ver que ouviram alguma coisa... Não, ninguém pode ter ouvido nada...
bem sei, pois logo depois olhei em redor... Seja como for, ele falou; mesmo que ninguém tenha
ouvido, ele disse tudo aquilo. E eu fiquei lá feito um estafermo, ouvindo sem dizer nada, como
se alguém me houvesse dado uma cacetada na cabeça!... Ora, mas não podia dizer nada,
nem fazer nada; tomei a única atitude possível: fiquei de bico calado, sim, de bico calado!... É
horrível, é insuportável; devo matá-lo na primeira oportunidade... Dizer isso a mim! Um sujeito
desses, um cachorro, falar assim comigo! E ele me conhece... Com seiscentos mil diabos, ele
me conhece, sabe quem eu sou!... Pode contar a todo mundo o que me disse!... Mas não, ele
não fará isso; do contrário, não teria falado tão baixinho... ele quis apenas que só eu
ouvisse!... Porém quem me garante que ele não conta hoje ou amanhã à mulher, à filha, aos
seus conhecidos no café? — Ora essa, amanhã o verei de novo! Quando entrar no café, lá
estará ele sentado, como todos os dias, jogando a sua partida de tapper12 com o sr.
Schlesinger e com o dono da casa de flores artificiais... Não, não, não é coisa que se
suporte... Se o encontrar, vou fazê-lo em pedaços... Mas não, não o posso fazer... devia tê-lo
feito na hora, sim, na hora!... Pois é, se tivesse sido possível! Vou procurar o coronel e contar-
lhe o caso todo... sim, ao coronel... O coronel sempre tem sido muito amistoso comigo — e
vou dizer-lhe: — “Sr. coronel, informo-o com toda a obediência, 13 ele segurou o punha da
minha espada e não quis largá-lo; era como se eu estivesse desarmado...” Que vai dizer o
coronel? — Que é que ele vai dizer? — Mas só poderá dizer uma coisa: demissão —
demissão vergonhosa!... Quem estará passando do outro lado: uns voluntários?...14 Xi! de
noite parecem oficiais... estão fazendo continência! — Se soubessem — se soubessem!... Eis
o Café Hochleitner... Deve haver aqui alguns camaradas... talvez entre eles algum conhecido...
E se o contasse ao primeiro que chegasse, como coisa acontecida a outra pessoa?... Ora, já
estou completamente louco... Para onde estou correndo? Que é que estou fazendo na rua? —
Pois é, mas aonde havia de ir? Não queria ir ao Leidinger? Ah, ah, sentar-me no meio de
outras pessoas... acho que todos me olhariam... Está certo, porém alguma coisa deve
acontecer... Mas o quê?... Nada, nada — ninguém ouviu nada, ninguém sabe de nada... por
enquanto, ninguém sabe de nada... E se eu o fosse procurar agora na casa dele e implorar-lhe
que não contasse nada a ninguém?... Ai de mim, antes uma bala na cabeça!... Seria o
melhor!... O melhor? O melhor? — Mas se não há outro recurso... não há... Se consultasse o
coronel, ou o Kopetzky — ou o Blany — ou o Friedmair — todos diriam: — “Não lhe resta
outra solução!...” Deveria falar com Kopetzky?... Seria o mais razoável... também por causa
do negócio de amanhã... Pois é... o negócio de amanhã... às quatro da tarde, no quartel de
cavalaria... deverei bater-me amanhã, às quatro... e não posso bater-me nunca mais, pois
estou desqualificado...15 Tolice! Tolice! Ninguém sabe de nada, ninguém sabe de nada!... Há
por aí muita gente a quem sucederam coisas piores... Quanta coisa não se contou a respeito
do Deckener, quando teve aquele duelo à pistola com o Rederow... e o conselho de honra
autorizou o duelo... Mas que resolveria o conselho de honra no meu caso? — “Bobinho!” —
“Bobinho!...” — e eu feito um estafermo! Deus do Céu, tanto faz se outro sabe ou não!... eu
sei, e isto é que importa! Sinto que sou outro, já não sou o que fui há uma hora. — Sei que
estou desqualificado, e por isso devo estourar os miolos... Nunca mais na vida teria um minuto
tranquilo... sempre aquela ânsia, aquele medo de que alguém venha a saber, de um modo ou
de outro... e de que alguém venha a lançar-me na cara, um dia, o que aconteceu esta noite! —
Que homem feliz eu era há uma hora... Para que é que o Kopetzky tinha de me dar o ingresso
— e a Steffi fazer outro programa! — A vida da gente depende destas coincidências!... De
tarde, tudo estava ótimo, e agora sou um homem ao mar e devo estourar os miolos... Mas
para que correr assim? Não tenho nada urgente para fazer... Está tocando... Que horas são
mesmo?... 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11... onze horas... deveria ir jantar! Vamos, tenho de ir
a alguma parte... um botequim qualquer onde ninguém me conheça — afinal de contas, a gente
tem de comer, ainda que depois estoure os miolos... Ah, ah, a morte não é nenhuma
brincadeira de criança... quem foi mesmo que o disse?... Pouco importa...
Gostaria de saber quem vai sofrer mais com isso... Mamãe ou a Steffi?... a Steffi... ora
essa... ela não poderá mostrar nem sequer tristeza, senão “ele” a porá na rua... — Coitada! —
No regimento... ninguém terá a menor ideia da razão por que eu fiz isso... todos eles dariam
tratos à bola... por que é que o Gustl se terá matado? — Ninguém chegará a pensar que eu
tive de estourar os miolos porque um miserável padeiro, um sujeito reles, só porque por acaso
tem punhos mais fortes... não, esta história é estúpida demais! — Por causa disto um sujeito
como eu, moço, simpático, irá... Depois, na certa, todos dirão: — “Ele não devia ter feito uma
coisa destas por uma tolice; que pena!...” Mas, se consultasse agora fosse quem fosse, todos
me dariam a mesma resposta... e eu mesmo, se me pergunto... é de perder o juízo... Estamos
sem a menor proteção contra os civis... Há quem pense que a vantagem é toda nossa, porque
temos uma espada... depois, quando fazemos uso da arma, todos caem em cima de nós como
se fôssemos uns assassinos natos... O jornal trará também “Suicídio de um jovem oficial”...
Como é mesmo que eles costumam escrever?... “Por motivos ignorados, pôs termo à
existência”... Ah, ah!... “A família enlutada”... — Vejam só... parece-me estar contando uma
história para mim mesmo... mas é verdade... tenho de matar-me, não há por onde — não
posso esperar que amanhã o Kopetzky e o Blany venham devolver-me o mandato e dizer-me
que não podem ser meus padrinhos! E eu seria sem dúvida um patife se exigisse deles tal
coisa... Um homem como eu, que se deixa tratar de bobinho sem reagir... amanhã todos hão
de saber disso... sou mesmo tolo em imaginar que um sujeito desses não conte o caso a
terceiros... vai contá-lo, sim, por toda parte... a mulher dele já sabe de tudo... amanhã todo o
café há de sabê-lo... os garçons... o sr. Schlesinger — a moça da caixa. — E, ainda que ele
esteja decidido a não falar nisso, falará depois de amanhã... se não depois de amanhã, então
daqui a uma semana... Ainda que esta noite ele tivesse um derrame, eu ficaria sabendo... eu
saberia o que aconteceu há pouco... eu não sou homem para continuar a andar de uniforme e
espada com a lembrança de semelhante humilhação!... Deve fazê-lo, e acabou-se! — Que há
de mais nisso? — Amanhã de tarde o doutorzinho poderia trucidar-me... já se viram casos
assim... o Bauer, coitado, foi-se de meningite em três dias... e o Brenitsch caiu do cavalo e
quebrou o pescoço... e, por fim de contas, tudo somado, a mim não me resta outra saída...
não, de modo algum! — Há pessoas que não levariam a coisa tão a sério... meu Deus, há de
tudo neste mundo!... O Ringeimer, um açougueiro, deu-lhe uma bofetada ao apanhá-lo com a
mulher... pois ele demitiu-se e foi viver lá para a roça, e casou-se... E haver mulheres capazes
de casar com um sujeito assim! — Por minha vida, não lhe daria a mão, se voltasse a Viena...
Pois bem, Gustl, você ouviu: — acabou-se, você está liquidado! Ponto final, e não se fala mais
nisso!... Isto mesmo, agora vejo que a coisa é das mais simples... Feitas as contas, estou
calmíssimo... Aliás, sempre soube: se um dia as coisas chegassem a tal ponto, estaria calmo,
calmíssimo... mas nunca pensei, na verdade, que chegasse a tal ponto, desta maneira... ter de
matar-me porque um desses... Talvez nem o tenha entendido bem... é possível que ele haja
dito uma coisa inteiramente diversa... Eu estava tonto com todo aquele berreiro e o calor...
quem sabe se não estava louco e tudo não passa de imaginação?... Imaginação, ah, ah,
imaginação! — Mas ainda estou ouvindo... ainda ressoa aos meus ouvidos... e ainda sinto nos
dedos o esforço que empreguei para tirar-lhe a mão do punho da espada... É um hércules, um
Jagendorfer,16 pois eu não sou nenhum fracote... em todo o regimento só o Franciski é mais
forte do que eu...
A ponte de Aspern... 17 até onde vou correr deste jeito? — Se continuar assim, à meia-noite
estarei em Kagran...18 Ah, ah! — Meu Deus, como nos sentíamos alegres em setembro
passado, quando nos apresentamos lá para retomar o serviço! Em duas horas estávamos em
Viena... mortos de cansaço ao chegarmos... dormi a tarde inteira como um gato, e à noite já
nos encontrávamos todos no Ronacher... 19 o Kopetzky, o Ladinser e... quem mais, meu Deus?
Ah, sim, o voluntário que durante a marcha nos tinha contado umas anedotas de judeus... Às
vezes são até uns rapazes simpáticos esses voluntários de um ano... mas não deveriam
chegar acima de subtenentes20 — senão a coisa não tem graça nenhuma! Nós outros nos
matamos anos a fio, e um rapazinho destes serve um ano e obtém a mesma patente que
nós... é uma injustiça! Mas que é que eu tenho com tudo isto? — Que me importam coisas
como esta? Um soldado raso, um rancheiro, vale agora mais do que eu... eu já nem existo...
estou liquidado... Perdida a honra, perdeu-se tudo!... Nada me resta fazer senão carregar o
revólver e... Gustl, Gustl, parece-me que você ainda não está querendo acreditar. Vamos,
pense bem... não há outro jeito... você pode dar tratos à bola como quiser: não há por onde!
— Agora é só comportar-se bem no último instante, ser um homem, um oficial, para que o
coronel diga: — “Era um rapaz direito, guardamos dele boa lembrança!...” Quantas
companhias devem mesmo comparecer no enterro de um tenente?... É uma coisa que eu
deveria saber... Ah, ah! mesmo que todo o batalhão desfile, ou até a guarnição inteira, e que
dê vinte salvas, nem por isso eu hei de acordar! — Ali, diante daquele café, estava sentado eu
no verão passado com o sr. von Engel, depois do steeplechase do Exército... Interessante,
nunca mais voltei a ver o homem... Por que é que tinha o olho esquerdo vendado? Sempre quis
perguntá-lo, mas não era conveniente... Eis aqui dois artilheiros... devem pensar que estou
seguindo esta mulher... Vamos ver como ela é... Que horror! — Só queria saber como
semelhante mulher consegue ganhar a vida... por mim, preferiria... É verdade que, na miséria,
o Diabo come moscas...21 em Przemysl... mas também tive um nojo tal que pensei nunca mais
tocar em mulher... Que horroroso tempo aqueles meses na Galícia... foi uma sorte termos
vindo a Viena. O Bokorny continua ainda em Sambor, e talvez fique lá mais dez anos, e lá
acabe ficando velho e grisalho... Pois é, mas, se eu também tivesse ficado lá, nada do que me
aconteceu hoje me haveria acontecido... e eu preferiria ficar velho e grisalho na Galícia para...
para quê? para quê, mesmo? — Mas que se passa comigo? — Terei enlouquecido para
esquecer aquilo constantemente? — Sim, por minha vida, esqueço-o a cada instante... porém
já se viu alguém que deve meter uma bala na cabeça dentro de poucas horas pensar numa
porção de coisas que já não lhe dizem respeito? Por minha vida, tenho a impressão de haver
tomado um pileque! Ah, ah, um lindo pileque! um pileque de morte, um pileque de suicídio! Ah,
estou fazendo pilhérias, esta é boa! — Sim, estou bem-disposto — isto deve nascer com a
gente... Palavra de honra, se o fosse contar a alguém, não me acreditariam. — Acho que, se
tivesse o troço comigo, agora daria um aperto no gatilho — num segundo tudo estaria
acabado... Nem todos têm esta sorte — há quem agonize meses a fio... a prima, coitada,
passou dois anos na cama sem poder mexer-se, com os sofrimentos mais atrozes — uma
lástima!... Não é melhor a gente tratar disso pessoalmente? É só atirar com cuidado, para
evitar o caiporismo daquele subtenente do ano passado... Pobre-diabo, não morreu, mas ficou
cego... Que fim terá levado? Onde estará vivendo? — Uma coisa horrível, andar para cá e
para lá nesse estado — isto é, ele nem anda, é conduzido por toda parte — um menino como
aquele, nem sequer vinte anos... acertou melhor na amante... ela morreu imediatamente...
Incríveis as tolices que levam a gente a matar-se! Antes de mais nada, como é que se chega a
sentir um ciúme daqueles?... Em toda a minha vida nada senti igual... A esta hora a Steffi está-
se divertindo na Sociedade de Horticultura; depois irá para casa com “ele”... Pouco me
importa! Um apartamento bem mobiliado, o dela — o banheirinho com a lâmpada vermelha. —
Quando entrou a última vez com o roupão de seda verde... o roupão, também não o verei
nunca mais — nem o roupão nem toda a Steffi... e nunca mais subirei as belas e largas
escadas da rua da Fundição... A srta. Steffi continuará a divertir-se como se nada houvesse
acontecido... nem sequer poderá contar a ninguém que o seu querido Gustl se matou... Mas
chorar, ela vai chorar — chorar, isto sim... Em geral, muita gente vai chorar... Mamãe, pelo
amor de Deus! — Não, nela não devo pensar. — Não, nela não se deve pensar,
absolutamente... Não se pensa no pessoal de lá de casa, ouviu, Seu Gustl? — nem um
pouquinho...
Nada mau, eis-me no Prater... 22 no meio da noite... De modo algum teria pensado, hoje de
manhã, que viria passear aqui... Que é que o guarda aí estará pensando?... Vamos adiante...
é lindo, aqui... De jantar já nem se fala... nem de café; o ar é agradável... e que calma... Pois
é, calma é que eu terei daqui a pouco, toda a calma que desejar. Ah, ah! perdi a respiração...
vim correndo como não se corre... devagar, Gustl, devagar, você não perde nada, você não
tem mais nada que fazer... — nada, absolutamente nada! — Estarei sentindo calafrios? — Há
de ser a emoção... e depois, não comi nada... Que cheiro estranho!... Alguma flor abrindo-se,
será possível?... Que dia é mesmo hoje? — quatro de abril... também, choveu muito nestes
últimos dias... porém as árvores ainda estão quase inteiramente nuas... e que escuridão, xi! é
de meter medo... Na verdade, só tive medo uma única vez na vida, quando rapazinho, lá na
floresta... já nem era tão pequeno assim... 14 ou 15 anos... Há quanto tempo? — nove anos...
é claro — aos 18 era subtenente, aos vinte era tenente... e no ano que vem... Que ano que
vem? Que quer dizer: o ano que vem? Que quer dizer: a semana que vem? Que quer dizer:
depois de amanhã?... Que é isto? Batendo os dentes? Alto! — Deixe bater um pouquinho... Sr.
tenente, estamos a sós, não temos de fazer fita para ninguém... mas é duro, é duro...
Sentemo-nos em um banco... Ah! aonde terei chegado? — Que escuridão! Essa coisa aí
atrás deve ser o segundo café... aí também estive uma vez no verão passado, quando a nossa
orquestra deu um concerto... estive com o Kopetzky e o Rüttner — havia mais alguns
camaradas... — Mas como me sinto cansado... cansado como se tivesse marchado dez
horas... Dormir aqui seria negócio. — Bonito! um tenente do Exército ao relento... Deveria
voltar para casa... mas que vou fazer em casa? Está certo, mas que é que estou fazendo no
Prater? — Preferiria nunca mais levantar-me — adormecer aqui e não acordar nunca mais...
seria cômodo! Não, sr. tenente, a coisa não vai ser tão cômoda assim... Mas como e quando?
— Agora, afinal, poderia examinar bem o caso... deve-se examinar tudo na vida... Vamos,
pois, examinar a situação... Como é? Mas, como o ar é bom, a gente deveria passear mais
vezes no Prater, de noite... Pois sim, tudo isso devia ter-me ocorrido antes; agora tudo
acabou: o Prater, o ar, os passeios... Então, que é que há? — Tiremos o boné, está-me
apertando o cérebro... nem posso pensar direito... Isto!... agora vamos juntar o que temos de
juízo, Seu Gustl... tomar as últimas decisões! Quer dizer que amanhã de manhã se liquida o
assunto... amanhã às sete horas... uma ótima hora! Ah, ah! — quer dizer que às oito, quando
as aulas começarem, estará tudo acabado... mas o Kopetzky nem poderá dar aula, de tão
comovido... ou talvez ainda não saiba... não é preciso que se ouça o tiro... Ao Max Lippay
também só encontraram de tarde: ele se matara de manhã e, no entanto, ninguém ouvira
nada... Mas que tenho eu que ver com a aula do Kopetzky?... Ah! — então às sete horas! —
Muito bem... e depois?... Depois, já não há nada para ser resolvido. Fecho-me no quarto, dou
um tiro em mim mesmo, e acabou-se! Segunda-feira o ent... Sei de um que vai ficar feliz: o
doutorzinho... “O duelo não pode realizar-se por causa do suicídio de uma das partes”... E os
Mannheimers, que irão dizer? — Quanto a ele, não vai ligar muita importância... porém ela, tão
lourinha, tão bonita... tenho para mim que, com ela, havia algo que fazer... Sim, parece-me,
com ela eu teria tido êxito, bastava fazer um esforçozinho... teria sido outra coisa que não a
Steffi, essa mulher à toa... O fato é que não se deve ser preguiçoso... era preciso namorar,
mandar flores, conversar... não é só dizer: — “Amanhã te espero no quartel!...” Sim, uma
mulher honesta como ela é teria sido alguma coisa... A mulher do meu capitão em Przemysl,
essa não era honesta... juraria que não: o Libitzky e o Wermutek e aquele tenente de cara
feia, todos a possuíram... Mas a sra. Mannheimer... essa sim, seria outra coisa... seria uma
companheira... poderia ter-me transformado: com ela uma pessoa adquiria outro jeito — e
acabava sentindo respeito a si própria. — Agora, sempre com essas mulheres... e eu comecei
tão cedo! — era ainda um rapazinho quando obtive a primeira licença e fui para casa de papai,
em Graz... O Riedl estava lá também — era uma tcheca... devia ter o dobro da minha idade —
só me recolhi de madrugada... Com que olhos papai me encarou... e a Clara, então... Diante
dela é que senti mais vergonha... Nessa altura ela estava noiva... por que, afinal de contas, a
coisa não deu em nada? Para ser franco, não me preocupei muito com isso... Coitadinha,
também nunca teve sorte — e agora ainda vai perder o único irmão... Pois é, nunca mais você
me verá, Clara — acabou-se! Você pensava, maninha, quando me levou ao trem no dia de
ano-bom, que nunca mais me veria? — e mamãe... meu Deus, mamãe... nela não devo
pensar... se penso nela, sou capaz de cometer uma vileza... Ah... se pudesse primeiro dar
uma voltinha até a casa deles... dizer-lhes que tive uma licença de um dia... ver, mais uma vez,
papai, mamãe, a Clara, antes de acabar com tudo... Pois é, partiria no primeiro trem, às sete:
à uma estava em Graz... Bom dia, mamãe... alô, Clara? Então, como vão todos?... Não foi
uma surpresa!... Mas poderiam notar alguma coisa... Mesmo que os outros não notassem, a
Clara na certa... É tão inteligente... Que boa carta me escreveu ainda há pouco! e eu nem lhe
respondi — vive dando-me bons conselhos... uma criança boa que só ela... Quem sabe se
tudo não haveria sido diferente caso eu tivesse ficado com os meus! Teria estudado Economia,
entraria na firma do titio... todos queriam assim, quando ainda eu era menino... Agora estaria
casado, com uma moça carinhosa, simpática... talvez com a Ana, que gostava tanto de mim...
ainda a última vez que estive em casa pude notá-lo, apesar de ela já estar casada, com dois
filhos... vi pela maneira como me olhou... E chamando-me ainda “Gustl”, como dantes... Essa é
que vai tomar um susto quando souber do fim que tive — mas o marido lhe dirá: — “Eu sabia
— um tratante como ele não poderia acabar de outro modo!” — Todos pensarão que foram
dívidas que me levaram a esse gesto... pois não há nada disso, tudo está pago... apenas os
últimos 160 florins — mas estes, amanhã os tenho. Mais uma coisa para não esquecer... O
Ballert terá de receber os 160... devo anotá-lo antes do tiro... É horrível!... E se fugisse de vez
— para a América, onde ninguém me conhece... Na América ninguém sabe o que sucedeu aqui
ontem à noite... lá ninguém cuida disso... Há pouco, os jornais falaram num Conde Runge; ele
teve de se sumir por causa de um caso meio sujo, e agora é dono de um hotel, ali, e não liga a
mínima importância a tudo o que houve... Daqui a alguns anos a gente poderia até voltar... não
a Viena, é claro... nem a Graz... mas à fazenda, por exemplo... e mamãe, papai e a Clara
ficariam mil vezes mais satisfeitos, contanto que eu vivesse... Os demais, que me importam?
Qual deles me quer bem? — O Diabo os leve a todos, a não ser o Kopetzky... ele é o único...
E foi precisamente ele quem me deu o ingresso... o ingresso que originou tudo isso... Se não
fosse o ingresso, não teria ido ao concerto, e nada disso teria acontecido... Tudo isso o
quê?... Parece-me que foi há séculos, e mal devem ter passado duas horas... Há duas horas
alguém me chamou “bobinho” e quis quebrar a minha espada... Por Deus, vão ver que ainda
pego a soluçar em plena noite! Por que aconteceu tudo isto? Por que não esperei um bocado
mais, até que não houvesse mais ninguém no vestiário? E por que cargas-d’água fui dizer-lhe:
— “Cale a boca, seu malcriado!”? Como é que isso me escapou? Em geral sou um homem
cortês... nem sequer com um menino me permito ser grosseiro... mas estava nervoso, é claro
— todas essas coisas que se juntaram... o azar no jogo, e as evasivas contínuas da Steffi — e
o duelo de amanhã de tarde — também, dormi pouco nestes últimos tempos — e a canseira
no quartel — a gente acaba não aguentando tanta coisa!... Mais dia, menos dia, ia adoecer —
terminava pedindo licença... Agora já não é preciso — vem uma licença longa — isenta de
taxas — ah, ah!...
Quanto tempo vou ainda ficar aqui sentado? Deve passar de meia-noite... não ouvi tocar há
pouco? — Que é isto... um carro? A esta hora? É um fiacre, já sei... Essa gente é que não
perde tempo... talvez seja o Ballert com a Berta... mas por que seria precisamente o Ballert?
— Vá, malandro! — Carro bonito era aquele de Sua Alteza em Przemysl... que tomava cada
vez que descia à cidade para ver a Rosenberg... Sua Alteza era de uma simplicidade! — um
verdadeiro camarada, tratava a todos por você... Belos tempos aqueles... isto é... uma região
horrorosa... um verão de se morrer de calor... três casos de insolação numa só tarde, inclusive
o meu caporal — um homem tão capaz... De tarde a gente se atirava despida sobre a cama.
— Certa vez o Wiener entrou de repente no meu quarto: eu devia estar sonhando, levanto-me
e puxo a espada posta a meu lado... deve ter sido um espetáculo... o Wiener riu a não poder
mais — esse já é, a estas horas, capitão de cavalaria... Que pena eu não ter escolhido a
cavalaria... porém o velho não quis — seria um divertimento caro — e agora tanto faz... Mas
por quê? — Ah, sim, agora me lembro: tenho de morrer, por isso é que nada me importa —
tenho de morrer.... Mas como? — Olhe, Gustl, você veio de casa pensado, em plena noite, até
o Prater, onde não o incomoda vivalma — aqui você pode examinar com calma toda a
situação... Esse negócio de ir à América, de pedir demissão, não passa de rematada tolice,
pois você é tolo demais para empreender qualquer coisa — e, ainda que chegasse aos cem
anos, ao pensar que um sujeito lhe quis quebrar a espada e lhe chamou bobinho e você ficou
parado aí imóvel, sem tugir nem mugir... — não, aqui não há nada que examinar — o que se
passou passou — pensar em mamãe e Clara é outra tolice — elas acabarão conformando-se
— a gente se conforma com tudo... Como chorou mamãe quando lhe morreu o irmão — e ao
cabo de quatro semanas mal pensava nele... ia ao cemitério, primeiro uma vez por semana,
depois uma vez por mês — e agora só vai no dia de Finados. — O meu dia de Finados é
amanhã — 5 de abril. — Será que me transladam para Graz? Ah, ah! os vermes de Graz vão-
se regozijar! — Mas isso não me interessa: os outros que resolvam o caso... Isto mesmo: que
é que me interessa neste mundo?... Ah, sim, os 160 florins para o Ballert — e é só — não há
outras providências que tomar. — Escrever cartas? Para quê? A quem? — Despedir-me? —
Com os diabos, quando a gente se mata o caso é bastante claro! — Dá para os outros
compreenderem que a gente se despediu... Se eles soubessem como me importa pouco toda
esta história, não teriam pena de mim — e, em verdade, a perda não será grande... De mais a
mais, que foi que a vida me deu? — Só uma coisa eu teria experimentado com prazer: uma
guerra — mas por essa poderia esperar sentado... Tudo o mais já conheço de sobra... Que
uma jovem dessas se chame Steffi ou Kunigunde não faz diferença. — As operetas mais
bonitas, conheço-as todas — já ouvi 12 vezes o Lohengrin — e esta noite até assisti a um
oratório — e um padeiro me chamou bobinho — por minha vida, é mais que suficiente! Nem
sequer tenho curiosidade de saber mais coisas... — Vamos, pois, para casa, devagar, bem
devagar... Não tenho pressa... — Mais uns minutos de descanso aqui, num banco do Prater —
ao relento. — Na cama é que não me deito nunca mais — tenho tempo bastante para dormir.
— Oh, este ar! — Vou sentir falta dele...
Que é que há? — Olá, Johann, traga-me um copo de água fresca... O quê?... Onde...
Estou sonhando?... A minha cabeça... com os diabos... Fischamend... 23 Não posso abrir os
olhos! — Estou vestido! — Onde é que estou sentado, afinal? — Deus do Céu, adormeci!
Como é possível: já está amanhecendo! — Quanto tempo haverei dormido? — Devo consultar
o relógio... Não vejo nada!... Onde terei botado os fósforos?... Será que um acende, afinal?...
Três horas da manhã... e às quatro da tarde deverei bater-me; bater-me, não — devo é
estourar os miolos! — Quanto ao duelo, nada feito: tenho de matar-me porque um padeiro me
chamou bobinho... Será verdade? — Estou com a cabeça que não aguento... o pescoço, sinto-
o seguro como num torno — nem me posso mexer — e tenho o pé direito entorpecido. —
Vamos, levantemo-nos!... Melhorou! — Está nascendo o dia... E este ar... como quando
estava num posto avançado e acampava na floresta... Era outro despertar — tinha então outro
dia à frente... Parece-me que ainda não posso acreditar bem na coisa. — Eis a estrada,
cinzenta, vazia — a esta hora não deve haver ninguém no Prater a não ser eu. — Uma vez já
estive aqui às quatro da manhã, com o Pausinger — demos um passeio — eu montando o
cavalo do Capitão Mirovic e o Pausinger no seu próprio rocim. — Foi no ano passado, em
maio — com tudo já florescendo, tudo já verde. — Agora tudo está despido — mas a
primavera não tardará — daqui a poucos dias está aqui. — Junquilhos, violetas — que pena eu
não aproveitar nada disso! — qualquer velhaco gozará a primavera, e eu tenho de morrer! Que
miséria! Os outros vão sentar-se à mesa na taverna para jantar, como se nada houvesse
acontecido — como todos nós estivemos sentados na taverna na tarde do dia em que saiu o
enterro do Lippay... E o Lippay era tão querido... no regimento gostavam dele mais que de
mim — não vejo por que não iriam à taverna no dia em que eu dou o fora. — Está fazendo
calor — muito mais do que ontem — e este perfume — devem ser as flores que brotam...
Será que a Steffi vai trazer-me flores? — Qual flores, nem por sonho! Quando muito, vai ao
enterro... Se fosse a Adélia! Há uns dois anos que já não penso nela... nunca em minha vida vi
uma mulher chorar assim... Bem examinadas as coisas, foi a minha aventura mais bonita... Tão
modesta, tão despretensiosa... — essa gostava de mim, juro. — Era bem diferente da Steffi...
Mas por que foi mesmo que a deixei?... Que tolice! Fartei-me dela, só isso... Sair todas as
noites com a mesma mulher... E depois, tive medo de não poder livrar-me dela — uma
choramingas como nunca vi. — Que estará ela fazendo agora? Ora essa, que há de fazer? —
Deve ter outro amiguinho... O negócio com a Steffi é, naturalmente, bem mais cômodo — a
gente se vê apenas de vez em quando — todas as desvantagens são para o outro, ao passo
que eu gozo todas as vantagens... Mas também, nestas circunstâncias, não se lhe pode exigir
que venha ao enterro... Aliás, quem vai a um enterro senão obrigado? Talvez o Kopetzky e
mais ninguém! — Coisa triste não se ter ninguém...
Ora, que tolice! então papai e mamãe e a Clara... Está certo, sou o filho, sou o irmão...
mas que outra ligação existe entre nós? Gostam de mim — mas que sabem a meu respeito?
Que faço o meu serviço, jogo cartas e ando atrás de moças... e depois? — Que às vezes
tenho horror de mim mesmo, isso nunca lhes escrevi — parece que eu mesmo não o tinha
percebido bem. Ora, Gustl, você tem cada uma! Só falta agora você começar a chorar... xi!
Passo de ganso... isto! Quer vá para um encontro amoroso, ao serviço ou à guerra... quem foi
mesmo que o disse?... ah, sim, o major Lederer, na cantina, quando lhe contaram como o
Wingleder empalidecera antes de seu primeiro duelo — e chegara a vomitar... Sim: quer vá a
um encontro amoroso ou à morte certa, o verdadeiro oficial não deixa transparecer nada no
rosto, nem no andar! Então, Gustl! foi o Major Lederer quem o disse! ah, ah!
Cada vez mais claro o dia... a gente poderia ler... Que assobios são estes?... Ah, sim,
aquilo na frente é a Estação do Norte... a Coluna de Tegethoff... 24 nunca me pareceu tão alta
assim... uns carros... Mas em toda a rua só vejo uns garis... os meus últimos garis — ah! dá-
me uma vontade de rir cada vez que penso nisto... nem posso compreender... Ou serão todos
assim quando sabem com certeza absoluta que... Três e meia no relógio da Estação... agora
é só saber se me mato às sete da cidade ou às sete da Estação... Às sete... por que
precisamente às sete?... Como se não pudesse ser de outro jeito... Estou com fome — juro,
estou com fome — não é de estranhar... há quanto tempo não como nada... Desde — desde
as seis da tarde de ontem, no café... sim! Foi quando o Kopetzky me deu o ingresso — tomei
uma média e dois pãezinhos, nada mais. — Que dirá o padeiro ao saber da notícia?... cão
danado! — Esse saberá o que houve — esse vai compreender de chofre — esse
compreenderá o que quer dizer “um oficial”! — Um sujeito desses pode levar uma surra em
plena rua sem que nada lhe aconteça: agora, nós outros somos insultados sem testemunhas e
isso basta para estarmos liquidados... Se pelo menos um tal vagabundo pudesse bater-
se...25 mas não, nesse caso teria mais cuidado, não se arriscaria... E o sujeito continua a viver,
tranquilo e feliz, enquanto eu — preciso rebentar! — Afinal de contas, ele me matou... Pois é,
Gustl, repare bem: — é ele quem mata você! Mas as coisas não ficarão nisso, não! — De
modo nenhum! Vou escrever uma carta ao Kopetzky, para contar-lhe tudo... ou melhor:
escrevo ao coronel, faço um relatório ao comando, como uma nota de serviço... Então você
pensa que uma coisa assim pode ficar em segredo? — Está enganado — o caso vai ser
registrado pela lembrança eterna, e então quero ver se você ainda terá coragem de pôr os
pés no café. — Ah! — “quero ver”, esta é boa!... Há muitas outras coisas que eu queria ver,
mas infelizmente não será possível — acabou-se!
Agora é que o Johann entra no meu quarto e nota que o sr. tenente não dormiu em casa.
Vai imaginar toda espécie de coisas; mas que o sr. tenente passou a noite no Prater, isso é
que nunca lhe passará pela cabeça... Ah, o 44! estão marchando para o tiro — deixemo-lo
passar... sim, postemo-nos aqui... Ali em frente, abre-se uma janela — que mocinha bonita! —
eu, se fosse à janela, botaria pelo menos um lenço no pescoço... Foi no domingo a última vez
que... Nunca pensei que a Steffi seria a última. — Por Deus, é o único prazer de verdade...
Sim, o sr. coronel virá duas horas depois, lépido, a cavalo... boa vida, a de vocês — sim,
estão olhando para a direita!26 — Está certo... Se soubessem como não ligo a vocês! — Ora
bolas! o Katzer... desde quando serve no 44? — servus, servus!27 — Está fazendo uma
careta! Por que estará tocando à frente? — Meu caro, a sua cabeça não me interessa nada...
Ah, é isso! Não, querido, você está enganado: passei a noite no Prater... o resto você lerá nos
jornais da tarde. — “Não é possível!” — dirá. — “Ainda pela manhã, quando fomos ao tiro, eu
o encontrei na entrada do Prater!” — A quem irão dar o meu pelotão? — Ao Walterer? —
Será engraçado — um sujeito sem o menor garbo, que deveria ser sapateiro em vez de
oficial... Como, o Sol está-se levantando? Vai ser um dia bonito — um verdadeiro dia de
primavera... Com todos os diabos, pensar que este cocheiro ainda estará vivo às oito, e eu... e
depois? Era só o que faltava — perder a linha no último instante por causa de um cocheiro de
fiacre... De onde me vem de repente este doido bater do coração? — Será por causa
daquilo?... Não é, não... é porque estou em jejum. — Ora, Gustl, seja sincero consigo mesmo:
— você tem medo porque nunca experimentou a coisa... Mas tudo isso não lhe servirá de
nada, o medo até hoje não ajudou a ninguém... cada um tem de passar por isso, um mais
cedo, outro mais tarde, e você é dos que vão mais cedo, ponto final... Você nunca foi grande
coisa, mas pelo menos na última vez comporte-se direito! — Pronto, agora é só examinar o
caso — mas examinar o quê?... Estou aqui a querer sempre examinar coisas, quando não há
nada para examinar... o troço está na gaveta do criado-mudo, está carregado, é só puxar o
gatilho — não é nenhum bicho de sete cabeças!
Esta já vai à loja... coitadinha! a Adélia trabalhava também numa loja — algumas vezes fui
buscá-la... Quando trabalham numa loja, não acabam como mulheres da vida... Se a Steffi me
ouvisse, eu preferiria que ela fosse modista ou coisa que o valha... Como é que ela saberá da
coisa? — Pelo jornal!... Vai-se aborrecer por não receber um bilhete... Mas estou ficando
louco... Que me importa que ela se aborreça ou não?... Quanto tempo haverá durado esta
história toda?... De janeiro para cá?... Não, deve ter começado antes do Natal... pois eu
trouxe-lhe de Graz uns bombons, e no dia de ano-bom ela me escreveu uma cartinha... Aí
está, as cartas que tenho em casa. — Não haverá alguma que eu deva queimar?... Sim, a do
Fallsteiner — se alguém a achar, o rapaz poderá passar um mau quarto de hora... E eu com
isso? — Mas vamos, o esforço não é grande... apenas, não posso procurar agora esse
papel... Melhor deitar fogo a todo o papelório... A quem interessa? Um punhado de papéis
sujos, e nada mais. — Os poucos livros que tenho, poderia dá-los ao Blany. — Através da
noite e do gelo... que pena não poder chegar ao fim... aliás, ultimamente eu tenho tido pouco
tempo para ler... Uma voz de órgão — ah, sim, vem da igreja... é a primeira missa — faz um
tempão que não assisto a nenhuma... a última foi em fevereiro, quando me destacaram para
aquela igreja com o meu pelotão... Mas essa não vale — tinha de tomar conta dos meus
homens, ver se se comportavam direito e com devoção... — Entrar na igreja, que tal?... no fim,
pode ser que haja algo de verdade naquilo... — Bem, hoje, depois do almoço, saberei de
tudo... “Depois do almoço” está ótimo!... Então, que é que se faz, vamos entrar ou não? —
Para mamãe, seria talvez um conforto, se soubesse!... A Clara liga menos... Bom, entremos...
mal é que não pode fazer.
Órgão — canto — hum! — que é isto? — Estou-me sentindo tonto... — Ó Deus, Deus,
Deus! se tivesse alguém com quem trocar antes duas palavras! — Uma coisa como a
confissão! O padre é que escancarava os olhos se eu lhe dissesse no fim: — “Até amanhã,
reverendíssimo; agora vou matar-me!...” — Dá-me vontade de me deitar no pavimento de
pedra e berrar... Não, não é coisa que se faça! Mas chorar, por vezes, faz tanto bem...
Sentemo-nos um instante — mas cuidado para não dormir, como lá no Prater!... — O pessoal
que tem religião sempre se sai melhor nestas coisas... Vejam só, agora são as mãos que
pegam a tremer!... Se as coisas continuarem assim, acabarei com tamanho nojo de mim que
me matarei de tanto asco! — Olhem essa velhinha — para que reza ainda?... Que tal se a
gente lhe dissesse: — “A senhora veja se me inclui também... não aprendi bem como se faz
isso...” Ah! parece-me que morrer nos torna tolos! — Vamos embora! — Que é que esta
melodia me lembra? — Meu Deus, é a da noite de ontem! — Vamos, fora daqui, não
aguento!... Psiu! nada de barulho, nada de arrastar a espada — não se perturba a devoção
dos outros — isto! — ao ar livre é sempre melhor... Mais luz... Está-se aproximando cada vez
mais — ter acabado, eis o que eu queria! — devia tê-lo feito imediatamente — no Prater... a
gente nunca deveria sair sem revólver... Se o tivesse comigo ontem à noite... caramba! —
Poderia ir tomar um lanche no café... Estou com uma fome... Antes achei sempre esquisito que
os condenados ainda quisessem tomar na manhã do último dia o seu café e fumar o seu
charutozinho... Com os diabos, não tenho fumado, nem um charuto sequer! falta de vontade de
fumar! — E agora, é engraçado, gostaria de entrar no meu café... Sim, já está aberto, e a
esta hora não pode haver ali nenhum colega — e mesmo que haja... terei dado simplesmente
uma demonstração de sangue-frio. “Às seis estava lanchando no café, e às sete deu um tiro
na cabeça”... Sinto-me de novo inteiramente calmo... andar é tão agradável... e o melhor é que
ninguém me força a fazer o que eu fizer. — Se quisesse, ainda poderia mandar esta tarecada
toda às favas... América!... Que é “tarecada”? Que quer dizer esta palavra? Parece-me que
estou com insolação!... Alto lá! estarei tão calmo por imaginar que não estou obrigado a fazer
a coisa?... Sim, estou obrigado, estou! Não, obrigado não estou, mas quero fazê-la! — Então,
você pode imaginar, Gustl, largar o uniforme e dar um sumiço? Aquele cão danado se riria de
mim — e o próprio Kopetzky não me daria mais a mão... Devo ter o rosto como fogo. — O
guarda está-me fazendo continência... devo responder-lhe... “Servus!” — Cumprimentei-o até
com servus!... Um pobre-diabo destes fica satisfeito com isso... O fato é que ninguém pode
queixar-se de mim a esse respeito — fora do serviço sempre tenho sido camarada. — Quando
das manobras, dei Britânicas28 aos suboficiais da companhia; certa vez ouvi alguém, nos
exercícios de manejo de armas, praguejar atrás de mim contra aquela maldita perda de
tempo, e eu não o mandei denunciar-se — disse-lhe apenas: — “Ó Fulano, tenha cuidado —
outro poderia ouvi-lo e você estaria frito!” O pátio da Burg...29 Quem fará sentinela hoje? — Os
bosníacos — têm linda aparência — o tenente-coronel disse ainda há pouco: —“Quando, em
1878,30 estivemos na Bósnia, ninguém pensaria que eles iam submeter-se assim!”... Caramba,
teria gostado de tomar parte num passeio desses! — Todos estão-se levantando do banco. —
“Servus, servus!” — É um azar nada disso caber à gente. — Como era mais bonito cair no
campo de honra, pela pátria, e não assim... Sim, doutorzinho, o senhor sai-se bem desta!...
Será que alguém não poderia encarregar-se deste caso por mim? — Por minha alma, deveria
pedir ao Kopetzky ou ao Wymetal que se batessem com o sujeito em meu lugar... Pois é, não
vai safar-se com essa facilidade! — Ora essa! Pouco se me dá do que acontecer depois! Se
nunca mais vou sabê-lo! — As árvores estão com brotos... Certo dia, abordei uma moça no
Parque Municipal — estava vestida de vermelho — morava na rua Strozzi — depois foi o
Rochlitz que tomou conta dela... Talvez a tenha ainda hoje, mas nunca mais falou nela —
estará envergonhado?... A esta hora a Steffi ainda está dormindo... — é tão engraçadinha
quando dorme... como se não soubesse contar até cinco! — É verdade que todas têm esse ar
inocente quando dormem! — Deveria, apesar de tudo, escrever-lhe um bilhete... por que não?
Todos escrevem cartas, antes de fazer isso. — Deveria também escrever à Clara, para ela
consolar papai e mamãe — e mais essas coisas que é costume dizer em tais cartas! e ao
Kopetzky também... Por minha vida, tenho a impressão de que a coisa seria bem mais fácil se
a gente pudesse dar adeus a algumas pessoas... E o relatório para o comando — e os 160
florins do Ballert... na verdade, ainda há muito que fazer... Afinal, ninguém me manda fazer a
coisa às sete... das oito da manhã em diante ainda há bastante tempo para a gente ficar
morto a vida toda!... A vida toda, pois sim... a morte toda — é isto, e não há por onde...
Eis-me no Ring — alguns passos mais, e estarei no café... dir-se-ia que me estou
alegrando com a ideia do lanche... é incrível! — Depois do lanche acendo um charuto, volto
para casa e escrevo... É isto, antes de mais nada faço o relatório para o comando; depois, a
carta à Clara — a carta ao Kopetzky, o bilhete à Steffi... Que é que vou dizer a essa
patusca?... “Minha filha, você na certa não imaginava”... Bobagem! — “Minha filha, eu lhe
agradeço”... — “Minha filha, antes de sair deste mundo, não posso deixar de”... Escrever
cartas nunca foi o meu forte... “Minha filha, receba o último adeus do seu Gustl”... — Ela vai
abrir uns olhos! Que sorte eu não estar apaixonado por ela... deve ser triste a gente ter
alguém e depois... Ora, Gustl, vamos e venhamos: ainda assim, é triste... Pois é, depois da
Steffi viriam outras, até vir uma que valesse a pena — uma mocinha de boa família, com
caução31 — seria bonito... — À Clara devo explicar direitinho que não foi possível encontrar
outra solução... “Conto com o seu perdão, querida mana, e peço-lhe que console os meus
queridos pais. Sei que lhes causei mais de uma preocupação e os fiz sofrer muito; mas, creia-
me, vocês me foram sempre muito caros, e espero que você ainda encontre a felicidade,
minha querida Clara, e não esqueça de todo o seu irmão infeliz”... Não, prefiro não lhe
escrever nada... Do contrário, eu mesmo começo a chorar... só ao pensar nisto sinto os olhos
arderem... Quando muito, escreverei ao Kopetzky. — Um adeus de camarada, e ele que
transmita aos outros... Já são seis horas? — Não: falta um quarto. — Mas que rostinho
bonito!... a menina de olhos pretos que tantas vezes encontrei na rua Floriani! — que dirá ela
de tudo isso? — Ora, nem sabe quem sou — vai ficar admirada, apenas, de não me encontrar
mais... Anteontem tinha resolvido abordá-la no primeiro encontro. — Como tem sido coquete...
tão mocinha — e no fim vão ver que ainda era inocente... Pois é, Gustl! O que você pode obter
hoje, não o deixe para amanhã!... Eis um moço que também não deve ter fechado os olhos a
noite toda. — Agora, ele vai para casa e se deita — tal qual eu! — Ah, ah! agora é que as
coisas vão ficar pretas, Gustl!... Pois é, se não fossem estes arrepios, seria simples demais
— e, feitas as contas, devo reconhecer, não me estou portando nada mal... É agora, onde?
Cheguei ao café... ainda estão varrendo... não faz mal, vamos entrando...
Ali atrás fica a mesa da partida de tarok...32 é incrível que o sujeito que costuma ficar
sentado perto da parede seja o mesmo que me... — Por enquanto, não há ninguém... Que é
do garçom?... Olá! Lá vem ele da cozinha... está enfiando a casaca... Não valia a pena!... isto
é, para mim... pois, quanto a ele, ainda terá de servir a muita gente, hoje!
— Bom dia, sr. tenente!
— Bom dia.
— Tão cedo hoje, sr. tenente?
— Deixe o capote — não tenho muito tempo, posso guardá-lo.
— Que é que o sr. tenente deseja?
— Uma média com nata.
Eis os jornais...33 já os de hoje?... Será que já dão alguma notícia?... De quê, meu Deus?
— Estarei procurando no jornal a notícia do meu suicídio? Ah, ah! — Por que é que fiquei em
pé?... Vamos, sentemo-nos à janela... Ele já pôs a média na mesa... Fechemos a cortina; não
gosto que me olhem da rua... É verdade que por enquanto não passa vivalma... Como está
gostoso o café! Um lanche é sempre um lanche!... Sou outro homem — toda a estupidez
provém de não haver jantado... Mas que é que ele quer ainda? — Ah, sim, trouxe os
pãezinhos...
— O sr. tenente já ouviu?
— O quê?
Pelo amor de Deus, será que ele já sabe alguma coisa?... Tolice, é impossível!
— O sr. Habetswallner...
Como? É o nome do padeiro... Que é que ele vai me dizer agora?... Será que já passou por
aqui? Ou terá passado ontem à noite e contado tudo... Por que não continua?... Mas não, está
falando...
— ...teve um derrame à meia-noite.
— O quê?...
Não devo gritar assim... cuidado para que não notem nada... mas talvez esteja sonhando...
devo perguntar mais uma vez...
— Quem teve um derrame?
Ótimo! — falei como quem não quer nada!
— O padeiro, sr. tenente!... O sr. tenente deve conhecê-lo... aquele senhor gordo que
jogava a sua partida todas as tardes ao lado da mesa dos senhores oficiais... com o sr.
Schlesinger e o sr. Wasner, da loja de flores artificiais, em frente.
Estou acordado — não há dúvida —, e, no entanto, ainda não o posso crer — devo
perguntar-lhe mais uma vez... mas com um ar inocente...
— Teve um derrame?... Mas como? Como é que você sabe?
— Mas, sr. tenente, quem havia de saber antes de nós? — os pãezinhos que o sr. tenente
está comendo vêm da padaria do sr. Habetswallner. O rapazinho que nos traz o pão às quatro
e meia foi quem contou.
Santo Deus, não devo trair-me... tenho ganas de gritar... de rir... de dar um beijo no
Rudolf... Mas devo ainda perguntar uma coisa!... Ter um derrame não quer dizer: estar
morto... Devo perguntar se está bem morto... mas com toda a calma, pois que é que eu tenho
com o padeiro? — devo olhar para o jornal enquanto o interrogo...
— Morreu?
— É lógico, sr. tenente; morreu num instante.
Magnífico, magnífico! — Tudo isto aconteceu porque eu entrei na igreja...
— De noite esteve no teatro; caiu quando subia a escada — o porteiro ouviu o baque...
levaram-no para o apartamento dele, mas, quando o médico chegou, já fazia tempo que ele
estava morto.
— Que coisa triste! um homem na força da idade!
Falei num tom ótimo — ninguém poderia notar coisa alguma... e devo conter-me, realmente,
para não soltar gritos nem dar pulos na mesa do bilhar...
— Pois é, sr. tenente, que coisa triste: uma pessoa tão boa, freguês da casa há vinte anos
— um amigo do patrão! E a senhora, coitada...
Não me lembro de ter sentido alegria semelhante em toda a vida... Está morto... morto!
Ninguém sabe de nada, isto é, não houve nada! — E que felicidade eu ter vindo ao café... ter-
me-ia matado à toa — parece um arranjo do destino... Que é do Rudolf? Está falando com o
faxineiro. — Quer dizer que está morto — morto — mal posso acreditar! Gostaria de ir à casa
dele para ver. — É capaz de ter sido a raiva, malcontida, que o matou... Bem, para mim, tanto
faz! O que importa é que está morto e eu posso viver, e o mundo me pertence de novo!... E
agora estou molhando no café o pãozinho cozido pelo sr. Habetswallner! Gostei muito, sr.
Habetswallner, excelente! Bem, agora vamos fumar um charuto...
— Rudolf! Ó Rudolf! Deixe o faxineiro em paz!
— Às ordens, sr. tenente!
— Um Trabuco...34
Como estou satisfeito!... Que vamos fazer agora? Sim, que vamos fazer agora?... Alguma
coisa deve acontecer, senão eu mesmo vou ter um derrame, de tanta alegria!... Num quarto de
hora estarei no quartel e mando o Johann dar-me uma esfregadela com água fria!... às sete e
meia, manejo de armas; às nove e meia, exercícios. — E vou escrever à Steffi: tenho de estar
disponível hoje à noite, custe o que custar! E às quatro da tarde... espere, doutorzinho,
espere! Estou muito bem-disposto... Vou fazer o senhor em pedacinhos!
FRANCIS JAMMES

Poeta ainda quando escreve em prosa, era Francis Jammes (1868-1938) escrevente de
cartório na província do Béarne (França) quando o seu volume de Versos, em 1890, chamou a
atenção de Stéphane Mallarmé e de André Gide. Deste último se tornou amigo e
correspondente, e acompanhou-o na sua viagem ao norte da África. Em Um dia, do Ângelus
da Aurora ao Ângelus do anoitecer, e O luto das prímulas, ele “faz ouvir uma voz poética
muito pessoal, na qual o provincialismo, o arcaísmo e a nostalgia dos países longínquos se
combinam em doce harmonia”.35 Publicou também romances — Claire d’Ellébeuse e O
romance da lebre (1903) — e “prosas” — O poeta rústico e O bom Deus entre as
crianças —, cujo tom ingênuo o aparenta com Rilke.36 Em 1905 se converteu ao cristianismo, e
daí por diante sua obra, em especial os volumes de versos Clareiras do céu e Geórgicas
cristãs, assume coloração profundamente religiosa.37 Com todas as ressalvas que lhe faz, a
crítica não consegue julgá-lo sem muita ternura. “Ao naturalismo dessa obra — observa P.H.
Simon38 — falta às vezes o natural, sua simplicidade é, com frequência, uma afetação de ser
simples, mas o seu sabor poético é inesquecível”, fazendo eco a este julgamento anterior de
Daniel Mornet: “Pode o leitor às vezes sorrir de certas ingenuidades que parecem um tanto
calculadas, mas Francis Jammes reencontra fontes vivas e frescas da poesia.”39 Também
publicou Memórias.

O PARAÍSO
O poeta fitou os seus amigos, seus pais, o padre, o médico, o cãozinho, presentes no quarto,
e morreu.
Num pedaço de papel escreveram-lhe o nome e a idade: tinha 18 anos.
Beijando-o na fronte, os amigos e os pais sentiram que ele tinha frio, mas o poeta não lhes
sentiu os lábios, porque estava no Céu. E não perguntou a si mesmo, tal como fizera quando
estava na Terra, se o Céu era deste ou daquele modo. Desde que lá se encontrava, não
necessitava de outra coisa.
A mãe e o pai, que tinham, possivelmente, morrido antes dele, vieram ao seu encontro. Não
choravam, nem ele também, pois entre os três jamais houvera separação.
Disse-lhe a mãe:
— Põe o vinho a esfriar, vamos jantar daqui a pouco, em companhia de Deus, sob o
caramanchão do jardim do Paraíso.
E o pai:
— Vai ali colher frutos. Nenhum deles é venenoso. As árvores tos darão espontaneamente,
sem que sofram com isto suas folhas ou seus ramos: elas são inesgotáveis.
Encheu-se de alegria o poeta ao ver que tinha de obedecer a seus pais. Quando voltou do
pomar e mergulhou na água as garrafas de vinho, viu sua velha cadela, morta antes dele,
aproximar-se de manso, meneando a cauda. Lambeu-lhe as mãos e acariciou-o. Perto dela
havia todos os animais que ele mais amara na Terra: um gatinho ruivo, dois gatinhos cinzentos,
duas gatinhas brancas, um pisco, dois peixes vermelhos.
E ele viu a mesa posta, à qual estavam sentados Deus, o pai e a mãe, uma bela moça a
quem ele amara neste mundo e que o tinha acompanhado ao Céu, conquanto não houvesse
morrido.
Notou que o jardim do Paraíso não era outro senão o de sua casa natal, jardim que está
situado na Terra, nos altos Pireneus, repleto de lírios, de romãzeiras e de couves.
Deus depusera no chão sua bengala e seu chapéu. Achava-se vestido como os pobres das
estradas, os que trazem um pedaço de pão num alforje, e que os juízes fazem deter à porta
das cidades e meter na prisão, por não saberem assinar o nome.
Tinha a barba e os cabelos brancos como a luz do dia, e os olhos profundos e negros como
a noite. Disse, com doçura na voz:
— Que os anjos venham e nos sirvam, pois que a sua felicidade é servir.
Então, de todos os recantos do pomar celeste viram-se acorrer legiões. Eram os servos
fiéis que, na Terra, tinham amado o poeta e a sua família. Lá estava o velho João, que se
afogara buscando salvar um menino; a velha Maria, que morrera de insolação; lá estava
Pedro, o capenga, Joana e mais outra Joana.
E o poeta levantou-se em homenagem a eles, dizendo-lhes:
— Sentai-vos a meu lado, deveis estar perto de Deus.
E Deus sorriu, sabendo-lhes de antemão a resposta:
— Nossa felicidade é servir; por isso estamos perto de Deus. Não serves, tu mesmo, a teu
pai e tua mãe? Não servem eles, por sua vez, àquele que nos serve?
E, de repente, o poeta viu que, tendo a mesa crescido, a ele sentavam novos hóspedes.
Era o pai e a mãe de sua mãe e de seu pai, e as gerações que os haviam antecedido.
Caiu a tarde. Os mais velhos dormitaram. O poeta e sua amada se amaram. Porém Deus,
que lhes tinha acolhido, prosseguiu seu caminho, tal como os pobres das estradas, aqueles
que trazem um pedaço de pão num alforje, e que os juízes fazem deter à porta das cidades e
meter na prisão, porque não sabem assinar o nome.
ANATOLE FRANCE

Talvez seja Anatole France (1844-1924) — pseudônimo de François Anatole Thibault — o


escritor francês mais querido pelo público brasileiro, tradicionalmente imbuído de amor às
letras francesas.
A vida desse autor decorreu toda no mundo dos livros, nua de grandes acontecimentos.
Filho de um livreiro parisiense, logo depois de bacharelar-se começou a trabalhar numa
editora. Seus livros de estreia são um volume de versos e um drama. Vêm depois os
romances Jocasta e o gato magro, O crime de Silvestre Bonnard, O livro do meu amigo, no
qual já reponta um mestre na prosa francesa. Bibliotecário do Senado, casado, pai de um filho,
parecia estar com a existência toda organizada quando um profundo desentendimento com a
mulher lhe põe fim à vida familiar. Procura esquecer o desmoronamento do lar na longa paixão
que o ligará à sra. Caillavet, inspiradora e amiga. Enquanto continua a lançar, com êxito
crescente, suas obras de ficção, acompanha a produção alheia com apaixonado interesse e
faz-se crítico do diário Le Temps . Firmada a sua posição dentro da literatura, demite-se do
lugar no Senado, e de 1890 em diante vive unicamente da pena. Verdadeiro ídolo do público
francês e internacional, eleito para a Academia Francesa em 1896, publica de ano em ano
seus romances e contos, e, mais perto da morte, alguns volumes de reminiscências, como
Pedrinho e A vida em flor. Entre as viagens que lhe permitiram medir sua extraordinária
popularidade no estrangeiro, lembremos a que fez ao Brasil, onde a Academia Brasileira de
Letras o recebeu em sessão memorável, com uma saudação de Rui Barbosa. “Acontece que,
pela sua posição, pelo próprio peso e sentido de sua obra, pela plenitude de cultura que
representava a sua síntese de Alexandria e de Paris, France apareceu como o símbolo, o
paládio do saber, da memória, da tradição, daquilo que se chama comumente de
civilização.”40 Compreende-se, pois, a ansiedade com que as fases de sua agonia, em 1924,
foram acompanhadas pelos leitores do mundo inteiro, enlutados pela morte do “bom Mestre”.
Em seus livros, seja qual for o gênero a que pertençam, o escritor foi sobretudo um
agitador de ideias. “A arte de Anatole France é, antes de mais nada, uma estética da
inteligência.”41 Os magnos problemas do seu tempo, e até de todos os tempos, invadem-lhe a
obra, ora analisados pelo próprio escritor, ora — e é este o caso mais frequente — discutidos
pelas personagens. Vistos à luz de seu cepticismo, devassados pela sua ironia, os ideais e
esperanças da humanidade desmoronam-se como vãs ilusões. A história revela-se um tecido
de lendas ajeitadas à conveniência de causas escusas; a religião, uma invenção de ingênuos
inquinada pela hipocrisia e entremeada de interesses materiais; a justiça, uma sucessão de
erros legalizados a serviço do mais forte; o patriotismo, um disfarce ou um véu; a ciência, um
tatear no escuro.
Se esse pessimismo não leva o pensador a uma total negação, é graças ao prazer sensual
que lhe inspira a beleza sob qualquer forma. As alegrias íntimas da existência, que a fazem
saborear e esquecer ao mesmo tempo, o amor, a amizade, a natureza com suas paisagens
humanizadas pela civilização, a boa mesa, os bons livros, mantêm-no distante de um niilismo
desesperado. E o paladar o transformaria em mero epicurista, se a inteligência e o coração
não lhe fizessem ver que o seu ideal de vida deixa sem solução os problemas da maioria. Ora,
ele despreza os homens, mas “despreza-os com ternura”.42 Daí a sua oscilação entre as
atitudes de duas personagens suas reflexos de tendências pessoais: o jovial Abade Coignard,
tipo de gozador amável, espirituoso e cínico do século XVIII, e o sr. Bergeret, universitário do
século XIX, pensador honesto, comedido e ríspido, à procura da verdade para sua
tranquilidade íntima. Com o tempo, foi se identificando cada vez mais com Bergeret, de quem
fez seu porta-voz na campanha pela reabilitação de Dreyfus,43 e, no fim da vida, chegou a
ultrapassá-lo, exibindo simpatias pela causa comunista,44 inconciliáveis com a tolerância
burguesa e intelectual do digno professor de latim. Mas em todos os seus livros, nos mais
líricos e nos mais cáusticos, nos mais conservadores como nos mais revolucionários, há um
equilíbrio e uma serenidade tipicamente seus, causa de admiração para a maioria, de irritação
para os espíritos inquietos. Queixa-se André Gide 45 de não encontrar nele o tremor, que é, na
palavra de Goethe, o que há de melhor no homem. Não peçamos a France o que ele não nos
pode dar. As ideias que expõe com tanta finura não são novas; o enredo dos seus romances,
que se leem com delícia, é frouxo; suas personagens são pálidas, brotadas antes de outros
livros que da realidade. “Anatole France não criou quase nada, senão certa dose de beleza. E
isto é suficiente.”46 Essa beleza reside quase toda no estilo, “plástico sem esforço, sedutor
sem coquetismo, harmonioso, moderado, conforme em tudo à tradição clássica mais
pura”,47 estilo que redime a imperfeição de quase todos os seus romances e faz de muitos de
seus contos, reunidos nos volumes Crainquebille e O estojo de nácar, peças imortais do
gênero.
Contentemo-nos em citar os seus três contos mais conhecidos: “O jogral de Nossa
Senhora”, talvez a adaptação moderna mais linda de uma lenda antiga (pois este céptico, autor
de Taís, era um admirável reanimador de lendas ingênuas); “O procurador da Judeia”, retrato
de Pôncio Pilatos velho, totalmente esquecido do processo de Jesus, e onde a ironia quase
imperceptível do contista abre vastas perspectivas sobre a relatividade dos fatos históricos; e
“Crainquebille” (antes uma novela), em que a condenação por engano de um pobre verdureiro
a alguns dias de prisão revela as falhas monstruosas da justiça humana.
“Putois”,48 que escolhemos, pertence a um tipo de conto diferente de cada um dos já
citados. Mais que conto independente, poder-se-ia considerar uma cena da História
contemporânea (composta nominalmente de quatro romances, mas na realidade uma série de
episódios mal-ligados pela presença das mesmas personagens), a obra mais importante do
autor, em que deu uma imagem anedótica, fragmentária, mas prodigiosamente fiel, da
sociedade francesa do fim do século XIX. Sob forma de conversação entre o sr. Bergeret,
protagonista desta obra, e sua irmã Zoé, apresenta o escritor a gênese de um ser fantástico
gerado unicamente pelo poder da palavra.49 O leitor inteligente verificará sem dificuldade que a
história do grotesco indivíduo chamado à vida pela imaginação dos Bergeret sugere
conclusões acerca da origem de mitos de alcance incomparavelmente maior.

PUTOIS
A George Brandes

I
— Aquele jardim da nossa infância — disse o sr. Bergeret —, aquele jardim que a gente
percorria todo em vinte passos, foi para nós um mundo imenso, cheio de sorrisos e
assombros.
— Luciano, lembras-te de Putois? — perguntou Zoé sorrindo à sua maneira, com os lábios
cerrados e o nariz sobre o trabalho de agulha.
— Se me lembro de Putois!... De todas as figuras que me passaram diante dos olhos
quando eu era menino, a de Putois é a que se manteve mais viva na minha lembrança. Tenho
presentes à memória todos os traços de sua fisionomia e do seu caráter. Ele tinha o crânio
pontudo...
— A fronte baixa — acrescentou a srta. Zoé.
E o irmão e a irmã puseram-se a recitar, alternadamente, em voz monótona, com uma
gravidade extravagante, os artigos de uma espécie de identificação:
— A fronte baixa.
— Os olhos garços.
— O olhar fugidio.
— Um pé de galinha nas frontes.
— As maçãs salientes, vermelhas e brilhantes.
— As orelhas não tinham dobras.
— Os traços do rosto eram desprovidos de qualquer expressão.
— Só as mãos, sempre a se moverem, traíam-lhe o pensamento.
— Magro, um tanto arqueado, aparentemente débil...
— Era, na realidade, de uma força fora do comum.
— Dobrava com facilidade uma moeda de cem soldos entre o indicador e o polegar.
— Que era enorme.
— Tinha a voz arrastada...
— E a palavra melosa.
De súbito o sr. Bergeret exclamou vivamente:
— Zoé! esquecemos “os cabelos amarelos e o pelo ralo”. Recomecemos.
Paulina, que escutara com surpresa essa estranha recitação, perguntou ao pai e à tia como
haviam eles conseguido decorar aquele trecho de prosa, e por que o recitavam como ladainha.
O sr. Bergeret respondeu com gravidade:
— Paulina, o que acabas de ouvir é um texto consagrado, direi até litúrgico, para uso da
família Bergeret. É bom que ele te seja transmitido, a fim de que não pereça comigo e tua tia.
Teu avô, minha filha, teu avô Elói Bergeret, que ninguém conseguia divertir com tolices,
estimava esse trecho, sobretudo em razão de sua origem. Intitulou-o: “A anatomia de Putois”.
E costumava dizer que preferia, sob certos aspectos, a anatomia de Putois à anatomia de
Quaresmeprenant.50 — “Se a descrição feita por Xenômanes — dizia ele — é mais sábia e
mais rica em termos raros e preciosos, a descrição de Putois leva-lhe grande vantagem pela
clareza das ideias e limpidez do estilo.” Ele fazia esse julgamento porque o dr. Ledouble, de
Tours, ainda não explicara os capítulos 30, 31 e 32 do quarto livro de Rabelais.
— Não compreendo bem — disse Paulina.
— É porque não conheces Putois, minha filha. Deves saber que Putois foi a figura mais
familiar à minha infância e à de tua tia Zoé. Em casa de teu avô Bergeret falava-se
continuamente de Putois. Cada um, por sua vez, acreditava vê-lo.
Paulina indagou:
— Quem era Putois?
Em lugar de responder, o sr. Bergeret começou a rir, e a srta. Bergeret também riu, de
lábios cerrados.
Paulina movia o olhar de um para outro. Achava estranho que a tia risse com tanto gosto, e
ainda mais estranho que ela risse de acordo e em simpatia com o irmão. Era, em verdade,
singular, pois irmão e irmã não possuíam a mesma feição de espírito.
— Papai, diga-me quem era Putois. Já que deseja que eu o saiba, diga-me.
— Putois, minha filha, era jardineiro. Filho de respeitáveis agricultores artesianos,
estabeleceu-se com uma pepineira em Saint-Omer. Porém não agradou à sua clientela e fez
maus negócios. Tendo deixado esse meio de vida, vivia de ganhos diários. Aqueles que lhe
davam trabalho nem sempre tiveram motivo de satisfação com ele.
A estas palavras, a srta. Bergeret, ainda a rir:
— Deves-te recordar, Luciano: quando nosso pai não encontrava em sua secretária a tinta,
as penas, o lacre, a tesoura, dizia: — “Desconfio que Putois passou por aqui.”
— Ah! — disse o sr. Bergeret — Putois não tinha boa reputação.
— É só isso? — perguntou Paulina.
— Não, minha filha, não é só isso. Putois teve uma coisa de notável: era-nos conhecido,
familiar, e, no entanto...
— ...não existia — concluiu Zoé.
O sr. Bergeret fitou a irmã com ar de censura:
— Que palavra, Zoé! E para que romper assim o encanto? Putois não existia... Atreves-te a
dizê-lo, Zoé? Zoé, serias capaz de prová-lo? Para afirmar que Putois não existiu, que nunca
houve Putois, consideraste bem as condições da existência e os modos do ser? Putois existia,
minha irmã. Mas é certo que era de uma existência particular.
— Cada vez compreendo menos — declarou Paulina, desanimada.
— A verdade te surgirá claramente agora mesmo, minha filha. Fica sabendo que Putois
nasceu já de idade madura. Eu ainda era menino, tua tia, já mocinha. Habitávamos uma
casinha num subúrbio de Saint-Omer. Ali nossos pais levavam uma vida retirada e tranquila,
até que foram descobertos por uma velha dama de Saint-Omer, a sra. Cornouiller, que vivia
em sua quinta de Monplaisir, a cinco léguas da cidade, e que se verificou ser tia-avó de minha
mãe. Usava desse direito de parentesco para exigir que papai e mamãe fossem todos os
domingos jantar em Monplaisir, onde se entediavam a valer. Dizia ser de boa praxe jantar em
família aos domingos, e que só as pessoas malnascidas não observavam esse uso antigo.
Meu pai chorava de tédio em Monplaisir. Dava pena ver-lhe o desespero. Mas a sra.
Cornouiller não o via. Ela não via nada. Minha mãe se mostrava mais corajosa. Sofria tanto
quanto meu pai, talvez mais, e no entanto sorria.
— As mulheres nasceram para sofrer — observou Zoé.
— Zoé, tudo o que vive no mundo está destinado ao sofrimento. Em vão nossos pais
recusavam esses funestos convites. A carruagem da sra. Cornouiller vinha buscá-los todos os
domingos, pela tarde. Tinha-se de ir a Monplaisir. Uma obrigação à qual era absolutamente
proibido escapar. Uma ordem estabelecida, que só a revolta podia transgredir. Meu pai
terminou revoltando-se, e jurou não aceitar mais um convite, sequer, da sra. Cornouiller,
deixando a mamãe o cuidado de encontrar para essas recusas pretextos decentes e razões
variadas, coisa de que ninguém era menos capaz do que ela. Nossa mãe não sabia fingir.
— Dize antes, Luciano, que ela não queria. Ela poderia mentir como as outras.
— O certo é que, quando tinha boas razões, preferia dá-las a inventar razões más.
Lembras-te de que um dia lhe aconteceu dizer, à mesa: — “Felizmente Zoé está de
coqueluche: passaremos muito tempo sem ir a Monplaisir.”
— E era verdade! — exclamou Zoé.
— Tu saraste, Zoé. E a sra. Cornouiller disse um dia a nossa mãe: — “Minha queridinha,
espero que venha domingo com seu marido jantar em Monplaisir.” Nossa mãe, expressamente
encarregada pelo esposo de apresentar à sra. Cornouiller um razoável motivo de recusa,
imaginou, em tais apuros, uma razão que não era verdadeira: — “Sinto muito, minha cara
senhora. Mas será impossível. Domingo eu espero o jardineiro.”
“Ouvindo isto, a sra. Cornouiller olhou, pela janela do salão, o jardinzinho inculto, onde os
evônimos e os lilases davam a impressão perfeita de desconhecer a podadeira e continuar a
desconhecê-la pelo resto da vida: — ‘Espera o jardineiro?! Para quê?’ — ‘Para trabalhar no
jardim.’
“E minha mãe, tendo voltado involuntariamente os olhos para aquele quadrilátero de ervas
nativas e plantas meio agrestes, a que ela acabava de chamar jardim, reconheceu, espantada,
a inverossimilhança da sua invenção. — ‘Esse homem — disse a sra. Cornouiller — poderá
muito bem vir trabalhar em seu... jardim segunda ou terça-feira. Aliás, será melhor. Não se
deve trabalhar nos domingos.’ — ‘Mas durante a semana ele está ocupado.’
“Tenho observado com frequência que as razões mais absurdas e mais extravagantemente
ridículas são as menos combatidas: elas desconcertam o adversário. A sra. Cornouiller insistiu,
porém menos do que seria de esperar de pessoa tão pouco disposta a desistir de uma
opinião. Erguendo-se de sua poltrona, perguntou: — ‘Como se chama o seu jardineiro, minha
filhinha?’ — ‘Putois’ — respondeu mamãe sem hesitar.
“Putois estava batizado. Desde então passou ele a existir. A sra. Cornouiller foi-se embora
rosnando: — ‘Putois... Esse nome não me parece estranho. Putois? Putois! conheço-o muito
bem. Mas não me recordo... Onde mora ele?’ — ‘Ele vive de ganhos. Quando a gente precisa
dele, manda-lhe recado a uma casa, a outra...’ — ‘Ah! eu bem que estava pensando: um
indolente, um vagabundo... um pobre-diabo. Desconfie dele, minha filhinha.’
“Daí por diante, Putois tinha um caráter.”

II
Havendo chegado os Srs. Goubin e João Marteau, tratou o sr. Bergeret de pô-los cientes da
conversação:
— Falávamos daquele que um dia minha mãe fez nascer jardineiro em Saint-Omer, e a
quem deu nome. Desde então ele atuou.
— Caro mestre, poderia repetir? — pediu o sr. Goubin limpando o vidro do seu lornhão.
— Com muito gosto — respondeu o sr. Bergeret. — Não havia jardineiro. O jardineiro não
existia. Minha mãe disse: — “Espero o jardineiro”. E logo o jardineiro existiu. E atuou.
— Caro mestre — perguntou o sr. Goubin —, como é que ele atuou, se não existia?
— Ele tinha uma espécie de existência — respondeu o sr. Bergeret.
— O senhor quer dizer uma existência imaginária — replicou desdenhoso o sr. Goubin.
— Então não é nada, uma existência imaginária? — bradou o mestre. — E as personagens
míticas não são capazes de atuar sobre os homens? Reflita acerca da mitologia, sr. Goubin, e
verá que não são seres reais, porém seres imaginários, os que exercem sobre as almas a
ação mais profunda e mais duradoura. Por toda parte e em todos os tempos, seres que não
têm mais realidade que Putois inspiraram aos povos o ódio e o amor, o terror e a esperança,
aconselharam crimes, receberam oferendas, fizeram os costumes e as leis. Sr. Goubin, reflita
sobre a eterna mitologia. Putois é uma personagem mítica — das mais obscuras, concordo, e
da mais baixa espécie. O grosseiro sátiro, sentado outrora à mesa de nossos camponeses do
Norte, foi julgado digno de figurar num quadro de Jordaens51 e numa fábula de La Fontaine.52 O
peludo filho de Sycorax53 penetrou no mundo sublime de Shakespeare. Putois, menos feliz,
será sempre desprezado pelos artistas e pelos poetas. Falta-lhe a grandeza e a
extravagância, o estilo e o caráter. Nasceu de espíritos muito racionais, entre pessoas que
sabiam ler e escrever e não possuíam essa imaginação encantadora que semeia as fábulas.
Julgo, senhores, haver dito o bastante para fazer-lhes conhecer a verdadeira natureza de
Putois.
— Eu a concebo — disse o sr. Goubin.
E o sr. Bergeret continuou:
— Putois era. Posso afirmá-lo. Ele era. Meditem sobre isto, senhores, e se convencerão de
que ser não implica de modo algum a substância e significa somente o liame do atributo ao
sujeito; exprime apenas uma relação.
— Sem dúvida — disse João Marteau —, mas ser sem atributos equivale a não ser. Não
me lembro quem foi que disse outrora: — “Eu sou aquele que é.”54 Perdoe a falha de minha
memória. Não é possível a gente lembrar-se de tudo. Mas o desconhecido que assim falou
cometeu uma rara imprudência. Dando a entender, por essa afirmação irrefletida, que era
desprovido de atributos e privado de todas as relações, ele proclamou que não existia e
suprimiu-se a si próprio, inconsideradamente. Aposto que ninguém ouviu mais falar dele.
— Perdeu a aposta — replicou o sr. Bergeret. — Ele corrigiu o mau efeito daquela frase
egoísta aplicando a si mesmo cargas de adjetivos, e falou-se muito dele, as mais das vezes
sem nenhum bom senso.
— Não compreendo — afirmou o sr. Goubin.
— Não é necessário compreender — respondeu João Marteau.
E pediu ao sr. Bergeret que falasse de Putois.
— O senhor mostra-se muito amável fazendo-me este pedido — disse o mestre.
“Putois nasceu na segunda metade do século XIX, em Saint-Omer. Antes houvesse nascido
alguns séculos atrás na floresta das Ardenas 55 ou na floresta de Brocéliande.56 Teria sido,
então, um mau espírito de singular finura.”
— Uma xícara de chá, sr. Goubin — disse Paulina.
— Então Putois era um mau espírito? — quis saber João Marteau.
— Ele era mau — retorquiu o sr. Bergeret —, era-o de certo modo, mas não o era de
maneira absoluta. Dá-se com ele o que se dá com os diabos que se diz serem muito malignos,
porém nos quais descobrimos boas qualidades quando com eles privamos. E sinto-me
inclinado a crer que se faz injustiça a Putois. A sra. Cornouiller, que, prevenida contra ele,
passara logo a imaginá-lo um indolente, um bêbado e um ladrão, refletiu que, se minha mãe lhe
dava trabalho, ela que não era rica, era porque ele se contentava com pouco, e logo pensou
se não seria vantajoso substituir por ele o seu jardineiro, que tinha melhor renome, porém mais
exigências. Estava começando a época de podar os teixos. Considerou que, se a sra. Elói
Bergeret, que era pobre, não dava grande coisa a Putois, ela, que era rica, daria menos ainda,
pois é de praxe os ricos pagarem menos que os pobres. E já via os seus teixos talhados à
feição de muralhas, de bolas e pirâmides, sem que ela com isso tivesse grande despesa. —
“Ficarei atenta — disse consigo — para que Putois não mate tempo e não me roube. Nada
arrisco e só terei vantagem. Às vezes esses vagabundos trabalham com mais habilidade que
os operários decentes.” Decidindo-se a fazer a experiência, falou à minha mãe: — “Filhinha,
mande-me Putois. Eu lhe darei trabalho em Monplaisir.” Minha mãe disse que sim, e cumpriria
a promessa com muito gosto. Na verdade, porém, não era possível. A sra. Cornouiller esperou
Putois em Monplaisir, e esperou em vão. Era obstinada nas suas ideias e constante nos seus
projetos. Quando tornou a ver minha mãe, queixou-se de não ter notícias de Putois: —
“Filhinha, você não lhe disse que eu o estava esperando?” — “Disse, mas ele é estranho,
esquisito...” — “Oh! conheço bem essa espécie de gente. Conheço de cor e salteado esse seu
Putois. Mas não há operário tão maluco a ponto de não querer trabalhar em Monplaisir. Minha
casa é conhecida, penso eu. Putois atenderá com presteza ao meu chamado, filhinha. Diga-me
apenas onde ele mora; irei pessoalmente buscá-lo.” Minha mãe respondeu-lhe que não sabia
onde morava Putois, que ele não tinha domicílio, era um pobre-diabo, sem eira nem beira. —
“Nunca mais o vi, senhora. Creio que anda escondido.” Podia responder melhor?
“Todavia, a sra. Cornouiller não a escutou sem certa desconfiança; imaginou que minha
mãe estivesse a sequestrar Putois, subtraindo-o às procuras, no receio de perdê-lo ou de o
tornar mais exigente. E julgo-a, decerto, excessivamente egoísta. Numerosos julgamentos
aceitos pelo mundo inteiro, e que a história consagrou, são tão bem fundados quanto esse.”
— E no entanto é verdade — disse Paulina.
— Que é que é verdade? — perguntou Zoé, meio sonolenta.
— Que os julgamentos da história muitas vezes são falsos. Recordo-me, papai, que tu
disseste um dia: — “A sra. Roland 57 era bastante ingênua em apelar para a imparcial
posteridade e não se capacitar de que, se os seus contemporâneos eram boas biscas,
também a sua posteridade seria composta de boas biscas.”
— Paulina — perguntou severamente a srta. Zoé —, que tem que ver a história de Putois
com o que nos acaba de dizer?
— Tem muito, minha tia.
— Não percebo.
O sr. Bergeret, que não era inimigo das digressões, respondeu à filha:
— Se todas as injustiças fossem afinal reparadas neste mundo, não se teria imaginado
outro para essas reparações. Como queres que a posteridade julgue equidosamente todos os
mortos? Como os interrogar na sombra em que se refugiam? Desde que se pudesse ser justo
para com eles, seriam esquecidos. Mas pode-se jamais ser justo? E que é a justiça? A sra.
Cornouiller, pelo menos, viu-se obrigada a reconhecer, com o decorrer do tempo, que minha
mãe não a enganava e que Putois era inencontrável.
“No entanto, não desistiu de o descobrir. Perguntou a todos os parentes, amigos, vizinhos,
criados, fornecedores, se conheciam Putois. Apenas dois ou três responderam que nunca
tinham ouvido falar nele. Na maior parte, acreditavam tê-lo visto. — ‘Esse nome não me é
estranho — disse a cozinheira —, mas não há jeito de ligar o nome à pessoa.’ — ‘Putois!
conheço-o perfeitamente — afirmou o cantoneiro coçando a orelha —, mas não sei lhe dizer
quem é.’ A informação mais precisa partiu do sr. Blaise, recebedor do registro, que declarou
haver encarregado Putois de cortar madeira em seu quintal, de 19 a 23 de outubro, no ano do
Cometa.
“Certa manhã, a sra. Cornouiller entrou ofegante no gabinente de meu pai: — ‘Acabo de ver
Putois.’ — ‘Ah!’ — ‘Eu o vi.’ — ‘Viu mesmo?’ — ‘Tenho certeza. Ele ia passando junto ao muro
do sr. Tenchant. Depois dobrou na rua das Abadessas, caminhando depressa. Perdi-o de
vista.’ — ‘Era realmente ele?’ — ‘Sem dúvida alguma. Um homem de seus cinquenta anos,
magro, curvo, com um ar de vagabundo, uma blusa suja.’ — ‘Realmente — disse meu pai —
essa descrição pode ajustar-se a Putois.’ — ‘O senhor está vendo! Aliás, eu o chamei. Gritei:
— Putois — e ele virou-se.’ — ‘É o meio que os investigadores empregam para se certificarem
da identidade dos malfeitores de quem andam à procura.’ — ‘Se eu lhe dizia que era ele! Bem
que eu soube descobrir o seu Putois! Pois lhe digo: é um homem de má aparência. O senhor e
sua mulher foram muito imprudentes em empregá-lo em sua casa. Eu entendo bem de
fisionomias, e, embora não o tenha visto senão de costas, juraria que é um ladrão, e talvez um
assassino. Não tem dobras nas orelhas, e isto é um sinal que não engana.’ — ‘Ah! a senhora
notou que ele não tem dobras nas orelhas?’ — ‘Nada me escapa. Sr. Bergeret, se o senhor
não quer ser assassinado, com sua mulher e seus filhos, não deixe mais Putois entrar em sua
casa. Um conselho: mande substituir todas as fechaduras.’
“Ora, alguns dias depois, aconteceu que roubaram três melões da horta da sra. Cornouiller.
Não tendo sido encontrado o ladrão, ela suspeitou de Putois. Os gendarmes foram chamados
a Monplaisir, e suas averiguações confirmaram as suspeitas da sra. Cornouiller. Bandos de
larápios devastavam, por esse tempo, os jardins da região. Desta vez, porém, o roubo parecia
praticado por um só indivíduo, e com habilidade singular. Nenhum vestígio de arrombamento,
nenhum rasto na terra úmida. O ladrão não podia ser outro senão Putois. Era a opinião do
subdelegado, que estava bem informado a respeito de Putois e se empenhava em deitar a
mão a esse tipo.
“O Diário de Saint-Omer consagrou um artigo aos três melões da sra. Cornouiller e
estampou, de acordo com informações fornecidas na cidade, um retrato de Putois. Dizia o
jornal: ‘Ele tem a fronte baixa, olhos garços, olhar fugidio, um pé de galinha nas fontes, as
maçãs salientes, vermelhas e brilhantes. As orelhas não têm dobras. Magro, um tanto
arqueado, aparentemente débil, é, na realidade, de uma força fora do comum: dobra
facilmente uma moeda de cem soldos entre o indicador e o polegar.’
“Era com justas razões, afirmava o jornal, que se lhe atribuía uma longa série de roubos
levados a efeito com habilidade surpreendente.
“Putois ocupava a atenção da cidade inteira. Um dia, soube-se que ele fora detido e
aprisionado. Logo se reconheceu, no entanto, que o homem que fora preso como se fosse
Putois era um negociante de almanaques chamado Rigobert. Como não se conseguisse apurar
coisa alguma contra ele, soltaram-no ao cabo de 14 meses de prisão preventiva. E Putois
continuava inencontrável. A sra. Cornouiller foi vítima de novo roubo, mais audacioso que o
primeiro. Tiraram-lhe do aparador três colherinhas de prata.
“Ela viu nisso o dedo de Putois, mandou pôr um cadeado na porta de seu quarto, e não
dormiu mais.”

III
Pelas dez horas da noite — Paulina já se recolhera —, a srta. Bergeret disse ao irmão:
— Não te esqueças de contar como Putois seduziu a cozinheira da sra. Cornouiller.
— Estava pensando nisso, minha irmã — respondeu o sr. Bergeret. — Omiti-lo seria perder
o melhor da história. Mas deve-se fazer tudo com ordem. Putois foi meticulosamente
procurado pela justiça, que não o encontrou. Quando se soube que ele era inencontrável, cada
um empenhou o seu amor-próprio em encontrá-lo; as pessoas astutas alcançaram êxito nessa
empresa. E, como havia muitas pessoas astutas em Saint-Omer e pelos arredores, Putois era
visto ao mesmo tempo nas ruas, nos campos e nos bosques. Assim, foi acrescentado um
traço ao seu caráter. Concederam-lhe esse dom de ubiquidade próprio de tantos heróis
populares. Um ser capaz de percorrer num momento longas distâncias, e que de repente se
mostra no lugar onde menos era esperado, naturalmente causa espanto. Putois foi o terror de
Saint-Omer. A sra. Cornouiller, persuadida de que Putois lhe roubara três melões e três
colherinhas, vivia cheia de susto, entrincheirada em Monplaisir. Os ferrolhos, as grades e as
fechaduras não lhe davam segurança. Para ela, Putois era um ser espantosamente sutil, que
atravessava as portas. Um incidente doméstico veio redobrar-lhe o terror. Sua cozinheira fora
seduzida, e chegou um momento em que já não pôde ocultar o seu erro. Porém recusou-se
obstinadamente a declarar o nome do sedutor.
— Ela chamava-se Gudule — disse a srta. Zoé.
— Chamava-se Gudule, e julgavam-na protegida contra os perigos do amor por uma barba
que tinha no queixo, longa e bifurcada. Uma barba repentina protegeu a virgindade daquela
santa filha de rei que Praga venera. Uma barba que já não era adolescente não bastou para
defender a virtude de Gudule. A sra. Cornouiller fez tudo para que Gudule designasse o
homem que, tendo abusado dela, a deixava depois em situação difícil. Gudule derretia-se em
pranto e guardava silêncio. Preces, ameaças, não surtiram nenhum efeito. A sra. Cornouiller
procedeu a longo e minucioso inquérito. Interrogou habilmente os vizinhos, vizinhas e
fornecedores, o jardineiro, o cantoneiro, os gendarmes; nada que a pusesse na pista do
culpado. Tentou de novo obter de Gudule confissões completas: — “No seu próprio interesse,
Gudule, diga-me quem é.” Gudule continuava muda. Súbito, um raio de luz atravessou o
espírito da sra. Cornouiller: — “É Putois!” A cozinheira chorou e não respondeu. — “É Putois!
Como é que não adivinhei logo? É Putois! Coitada! coitada! coitada!”
“E a sra. Cornouiller ficou persuadida de que Putois fizera um filho em sua cozinheira. Toda
a gente em Saint-Omer, desde o presidente do Tribunal até o cãozinho do acendedor de
lampiões, conhecia Gudule e sua cesta. À notícia de que Putois seduzira Gudule, a cidade
encheu-se de surpresa, admiração e alegria. Putois foi celebrado como autor de grandes
façanhas e o namorado das 11 mil virgens. Atribuíram-lhe, em face de indícios frívolos, a
paternidade de cinco ou seis crianças que vieram ao mundo naquele ano, e que antes não
tivessem vindo, para o prazer que as esperava aqui e a alegria que davam a suas mães.
Apontavam-se, entre outras, a criada do sr. Maréchal, dono do botequim Ao Ponto de Reunião
dos Pescadores, uma entregadora de pão e a corcundinha do Pont-Biquet, as quais, por
haverem escutado Putois, tinham sido acrescidas de um bebê. — ‘Que monstro!’ —
exclamavam as comadres.
“E Putois, invisível sátiro, ameaçava de irreparáveis acidentes todas as jovens de uma
cidade onde, segundo os velhos, sempre as moças haviam sido sossegadas.
“Assim difundido pela cidade e pelas vizinhanças, continuava ele preso à nossa casa por mil
vínculos sutis. Passava-nos diante da porta, e acredita-se que por vezes escalava o muro do
nosso jardim. Nunca o viam de frente. Mas a todo instante lhe reconhecíamos a sombra, a voz,
os vestígios dos passos. Mais de uma vez julgamos vê-lo de costas, ao lusco-fusco, na
esquina de uma rua. Comigo e minha irmã, ele mudava um pouco de aspecto. Continuava mau
e nocivo, mas tornava-se pueril e muito ingênuo. Fazia-se menos real e, ouso dizê-lo, mais
poético. Entrava no singelo ciclo das tradições infantis. Transformava-se no Papão, no Pai
Fouettard58 e no vendedor de areia que fecha, ao anoitecer, os olhos das crianças. Não era
esse duende que emaranha, pela noite, na estrebaria, a cauda dos potros. Menos rústico e
menos encantador, mas igualmente travesso e cândido, fazia bigodes de tinta nas bonecas de
minha irmã. Na cama, antes de adormecer, o escutávamos: ele miava nos tetos com os gatos,
latia com os cães, enchia de gemidos as chaminés das lareiras e imitava na rua os cantos dos
bêbados retardatários.
“O que nos tornava Putois presente e familiar, o que nele nos interessava, era que a sua
lembrança estava associada a todos os objetos que nos rodeavam. As bonecas de Zoé, os
meus cadernos de estudante, cujas páginas ele tantas vezes baralhara e garatujara, o muro do
jardim sobre o qual nós tínhamos visto brilhar, na sombra, os seus olhos vermelhos, o vaso de
faiança azul que numa noite de inverno ele partira, a menos que fosse a geada; as árvores, as
ruas, os bancos, tudo nos lembrava Putois, o nosso Putois, o Putois dos meninos, um ser local
e mítico. Ele não igualava, em graça e em poesia, o mais bronco egipã, o fauno mais grosseiro
da Sicília ou da Tessália. Mas, ainda assim, era um semideus.
“Para nosso pai, ele possuía um caráter bem diverso: era emblemático e filosófico. Nosso
pai tinha grande piedade dos homens. Não os acreditava muito racionais; os erros humanos,
quando não eram cruéis, divertiam-no e faziam-no sorrir. A crença em Putois interessava-o
como um resumo e compêndio de todas as crenças humanas. Irônico e zombeteiro, falava de
Putois como de um ente real. E algumas vezes o fazia com tal insistência, e frisava as
cirscunstâncias com tal exatidão, que minha mãe, tomada de surpresa, lhe dizia cheia de
candura: — ‘Até parece que você fala a sério, homem: no entanto, bem sabe...’
“Ele respondia gravemente: — ‘Toda Saint-Omer acredita na existência de Putois. Seria eu
um bom cidadão se a negasse? A gente deve pensar duas vezes antes de suprimir um artigo
de fé comum.’
“Só um espírito absolutamente honesto possui semelhantes escrúpulos. No fundo, meu pai
era gassendista.59 Harmonizava o seu sentimento particular com o sentimento público, crendo,
como a gente de Saint-Omer, na existência de Putois, mas não admitindo sua intervenção
direta no roubo dos melões e na sedução das cozinheiras. Em suma: como bom filho de Saint-
Omer, ele professava a crença na existência de um Putois, e dispensava Putois para explicar
os acontecimentos que ocorriam na cidade. De sorte que, neste ponto como em outro
qualquer, foi ele um cavalheiro e um homem de espírito firme.
“Quanto a nossa mãe, censurava-se um pouco a si mesma pelo nascimento de Putois, e
não sem motivo. Porque, ao cabo de contas, Putois nascera de uma mentira de nossa mãe,
como Calibã da mentira do poeta. Sem dúvida as culpas não eram iguais, e minha mãe era
mais inocente que Shakespeare. No entanto ela vivia espantada e confusa de ver sua mentira
tão pequenina crescer desmesuradamente, e sua leve impostura alcançar tão prodigioso êxito,
êxito que não parava, que se estendia sobre uma cidade inteira e ameaçava estender-se sobre
o mundo. Um dia ela até empalideceu, julgando que ia ver sua própria mentira erguer-se diante
dela. Nesse dia, uma sua criada, nova na casa e na região, veio-lhe dizer que um homem
desejava vê-la, dizia ter necessidade de falar-lhe. — ‘Que homem é esse?’ — ‘Um homem de
blusa. Tem o jeito de um trabalhador do campo.’ — ‘Ele disse o nome?’ — ‘Sim, senhora.’ —
‘Então! como se chama?’ — ‘Putois.’ — ‘Ele disse que se chamava?...’ — ‘Putois, sim,
senhora.’ — ‘Ele está aqui?...’ — ‘Sim, senhora. Está esperando na cozinha.’ — ‘Você o viu?’
— ‘Sim, senhora.’ — ‘Que é que ele deseja?’ — ‘Ele não me disse. Só quer dizer à senhora.’
— ‘Vá saber o que ele quer.’
“Quando a criada tornou à cozinha, Putois já não se achava lá. Esse encontro da criada
forasteira e de Putois nunca ficou esclarecido. Mas eu creio que desde aquele dia minha mãe
começou a crer que Putois podia perfeitamente existir, e que era perfeitamente possível que
ela não tivesse mentido.”
LAFCADIO HEARN

Entra Lafcadio Hearn (1850-1904) nesta coleção de contos não como um dos grandes
cultivadores originais do gênero, mas como intermediário excepcional que, graças a uma
identificação sem precedentes com a alma japonesa, permitiu ao Ocidente formar ideia fiel a
respeito da civilização e da literatura de sua pátria adotiva.
Filho de um cirurgião-mor irlandês e de uma grega, nasceu em 1850 na Grécia, na ilha de
Leucádia, que lhe deu o nome. Teve educação sensivelmente irregular, que contribuiu para
reforçar-lhe as tendências inatas de boêmio. Independente dos pais desde cedo, ei-lo aos 19
anos a romper todos os laços com a velha Europa a fim de buscar fortuna nos Estados
Unidos. Depois de exercer uma série de profissões humildes, consegue ingressar no
jornalismo; aos poucos faz nome e se vê encarregado de missões de certa importância. Nesse
ínterim casa com uma mulher de cor, divorcia-se dela algum tempo depois. Harper’s
Magazine manda-o como correspondente às Índias Ocidentais, onde, cativado pela cintilação
dos trópicos, permanece dois anos; em 1891 é enviado ao Japão.
Desta vez encontrou o peregrino a sua verdadeira pátria. As primeiras cartas que de lá
escreve revelam o seu profundo encanto. Descobre com entusiasmo “a simples e pobre
humanidade desse país”, junto da qual “os bárbaros somos nós”.60 Gostaria de reencarnar-se
nalgum bebê nipônico para sentir e ver o mundo de modo tão lindo como o vê o espírito
japonês.
Mas para compreender esse espírito é indispensável o conhecimento da língua, e isto
requer um estudo de vários anos. Harper’s Magazine não lho concederá: dentro em pouco,
Hearn perde o seu lugar de correspondente. Começa então a ensinar inglês em várias escolas,
e afinal é nomeado professor da Universidade de Tóquio. O segredo do Japão o espanta e o
atrai cada vez mais. Casa-se com uma japonesa, converte-se ao budismo e naturaliza-se
japonês, adotando o nome de Yakumo Koizumi. Depois disso o governo japonês lhe teria
dispensado menos consideração e até reduzido o ordenado. Em consequência de uma
doença, chegou a perder a cátedra; mas nesse momento já os seus livros acerca do Japão lhe
haviam granjeado renome universal e assegurado um meio de vida. Morreu em 1904, sem ter
voltado à Europa nem à América.
Entre as obras anteriores à viagem ao Japão, publicou Lafcadio Hearn vários volumes de
contos e livros de viagem, baseados nas experiências de sua permanência nas Antilhas. Em
verdade, não há grande diferença entre as duas espécies de livros: mesmo nas obras de
ficção, como Contos dos trópicos, acumula o autor informações etnográficas e observações de
cientista, transcreve quadras populares, registra superstições; por outro lado, entremeia os
relatórios de viagem, como Uma viagem de verão nos trópicos, com anedotas, histórias,
episódios. Toda essa mistura é deliciosamente pessoal, graças à capacidade de perceber em
tudo os pormenores pitorescos e significativos, a uma forte sensibilidade poética e a um estilo
atraente pela sua naturalidade.
Os livros acerca do Japão — Um olhar sobre o Japão
desconhecido, Kokoro, Respingando nos campos de Buda, Contos de fadas do
Japão, Kotto, Kwaidan etc. — desenvolvem o mesmo gênero e constituem um tesouro da
literatura oral e escrita, das lendas e tradições do povo japonês. Se considerarmos que
“qualquer de suas frases comuns, traduzida em linguagem ocidental, forma um disparate
desesperador”,61 melhor poderemos avaliar o mérito dessas obras a um tempo deliciosas e
instrutivas, em que um poeta e um erudito se juntam para nos revelar o âmago de uma
civilização até então inacessível.
Kwaidan (ou “Contos fantásticos”), de onde tiramos o conto seguinte, é uma das coletâneas
mais famosas de Hearn. Nela reuniu histórias de fantasmas extraídas em parte de antigos
livros japoneses, em parte colhidas por ele mesmo em suas viagens. A primeira que
transcrevemos aqui62 foi-lhe contada por um fazendeiro de Tohofu, Nixitamagori, na província
de Musaxi, como lenda de sua aldeia natal.
O último livro de Lafcadio Hearn, de publicação póstuma — Japão — Uma tentativa de
interpretação —, é de caráter nitidamente sociológico. Nele, o autor, assustado pela rápida
transformação, a que assistiu, do Japão feudal e patriarcal em potência industrial e militar,
aconselhava à sua pátria adotiva um absoluto isolamento e uma hostilidade aberta às
influências e aos investimentos estrangeiros, para que se pudessem conservar as antigas
características da civilização japonesa, reputada por ele infinitamente superior à civilização
cristã.

YUKI-ONNA
Em certa aldeia da província de Musaxi viviam dois lenhadores, Mosaku e Minokichi. No tempo
em que se passa esta história, era Mosaku um velho, e Minokichi, seu aprendiz, um rapaz de
18 anos. Todos os dias iam juntos a uma floresta distante da aldeia cerca de cinco milhas. No
caminho, tinham de numa barca atravessar um rio largo em lugar onde já várias vezes se
haviam construído pontes, carregadas pelas sucessivas inundações, pois nenhuma ponte
comum pode resistir à corrente quando o rio sobe.
Uma noite muito fria, Mosaku e Minokichi, ao regressarem, foram surpreendidos por grande
tempestade de neve. Chegando ao ponto da barca, verificaram que o barqueiro já tinha partido
e deixara a embarcação na outra margem. Não era dia para nadar, e os lenhadores foram
abrigar-se na cabana do barqueiro, julgando-se felizes por terem onde se pôr a salvo. A
cabana, em que mal caberiam duas esteiras, tinha apenas uma porta, e nenhuma janela; não
havia braseiro nem lugar para acender fogo. Mosaku e Minokichi prenderam a porta e
deitaram-se, cobertos com suas capas de palha. A princípio não sentiram muito frio e
pensaram que a tempestade passaria logo.
O ancião adormeceu quase imediatamente, mas o rapaz ficou muito tempo acordado,
escutando as rajadas horríveis do vento e as pancadas da neve de encontro à porta. O rio
rugia, e a cabana balançava e rangia como um junco sobre o mar. Tempestade medonha. O ar
esfriava cada vez mais. Minokichi estremecia debaixo da sua capa, mas afinal, apesar do frio,
também adormeceu.
Foi acordado pela neve a cair-lhe no rosto. A porta havia sido arrombada e, à luz da neve,
o lenhador via dentro da cabana uma mulher, toda vestida de branco. Debruçada sobre
Mosaku, soprava nele, e o seu sopro parecia uma brilhante fumaça branca. Voltou-se para
Minokichi e sobre ele se curvou também. O moço procurou gritar, mas teve a impressão de
estar sem voz. A mulher branca se inclinava cada vez mais para ele, até que o seu rosto quase
tocou o do rapaz. Achou-a muito bela, conquanto seus olhos lhe metessem medo. Por alguns
instantes ela o fitou; depois, cochichou-lhe num sorriso:
— Queria tratá-lo como ao outro, mas não posso deixar de ter pena de você, tão jovem.
Você é um belo rapaz, Minokichi, e não quero fazer-lhe mal agora. Mas, se um dia contar a
quem quer que seja, mesmo a sua própria mãe, o que viu esta noite, eu hei de sabê-lo, e
então o matarei... Não se esqueça das minhas palavras.
Nisto, voltou-se e transpôs a porta. Pôde então o jovem mexer-se, levantou-se de um pulo e
olhou para fora. Da mulher não se via nem sombra, e a tempestade empurrava furiosamente a
neve para dentro da cabana. Minokichi fechou a porta e segurou-a, enconstando-lhe algumas
achas de lenha. Teria sido o vento que a abrira? Por um momento julgou haver sonhado e
tomado a claridade da neve por uma figura de mulher, mas não podia estar seguro disso.
Chamou por Mosaku. Assustou-se, porque o velho não lhe respondia. Estendeu a mão na
obscuridade para tocar o rosto do companheiro. Sentiu-o gelado! Mosaku estava morto...
Ao amanhecer, o temporal tinha passado. Quando o barqueiro voltou à sua cabana, pouco
após o nascer do Sol, encontrou Minokichi deitado sem sentidos ao lado do cadáver frio de
Mosaku. Graças aos cuidados que lhe prodigalizaram, tornou a si o jovem pouco depois, mas
ficou doente por muito tempo em consequência do frio apanhado naquela noite horrível.
Assustara-se muito com a morte do velho, mas não contou nada a ninguém sobre a aparição
da mulher de branco. Apenas recobrou a saúde, voltou a exercer a profissão, indo todos os
dias pela manhã à floresta e volvendo ao anoitecer com o seu feixe de lenha, que depois
vendia com o auxílio da mãe.
Certa noite do inverno seguinte, ao regressar para casa, passou por uma mulher que ia pelo
mesmo caminho. Era jovem, alta e delgada, de boa aparência, e respondeu ao cumprimento
de Minokichi com uma voz tão agradável como o canto de um pássaro. Ele foi caminhando ao
lado dela, e os dois entraram a conversar. A menina disse que se chamava O-Yuki, 63 perdera
os pais havia pouco, e ia para Iedo, onde tinha alguns parentes pobres, que podiam ajudá-la a
colocar-se como empregada. Sentiu-se Minokichi atraído pela forasteira. Quanto mais a
olhava, mais bonita lhe parecia. Perguntou-lhe se tinha noivo, e ela respondeu, a rir, que estava
livre. Depois, por sua vez, ela perguntou a Minokichi se era casado ou estava comprometido.
Disse-lhe o rapaz que, embora tivesse de tomar conta apenas da velha mãe, a possibilidade
de levar para casa uma “nora honrada” ainda não tinha sido objeto de estudo, por ser ele muito
jovem. Depois de tais confidências, os dois andaram muito sem trocar uma palavra, mas,
como diz o provérbio, Ki ga aréba, mé mo kuchihodo ni mono wo iu, “Quando o desejo está
presente, os olhos podem dizer tanto quanto a boca.” Ao chegarem à aldeia, já estavam
gostando muito um do outro, e então Minokichi convidou O-Yuki a descansar um instante em
sua casa. Teve a moça uma hesitação pudica, mas terminou aceitando. A mãe do lenhador
acolheu-a hospitaleira e preparou-lhe um prato quente. A moça portou-se de maneira tão
delicada que a mãe de Minokichi se lhe afeiçoou de pronto e a persuadiu a adiar sua viagem
para Iedo. A consequência natural de tudo isso foi que O-Yuki nunca chegou a Iedo.
Permaneceu ali, na casa, como “nora honrada”.

Foi uma nora excelente. Quando, uns cinco anos mais adiante, a mãe de Minokichi morreu,
suas últimas palavras foram de afeição e louvor para a esposa do filho. O-Yuki deu a Minokichi
dez filhos, entre meninos e meninas, todos lindos e de tez bonita.
Os moradores do lugar julgavam O-Yuki um ser estranho, de natureza diferente. A maioria
das camponesas envelhecem depressa, mas O-Yuki, mesmo depois de ter dez filhos,
continuava fresca e bela como no dia em que aparecera pela primeira vez na aldeia.

Uma noite, depois que as crianças foram dormir, O-Yuki estava cosendo à luz de uma lanterna
de papel, enquanto Minokichi a contemplava.
— Vendo-a coser aqui — disse-lhe ele —, com esta luz a alumiar-lhe o rosto, lembro-me de
uma coisa estranha que me aconteceu quando eu tinha 18 anos. Foi quando eu vi alguém tão
branca e linda como você é agora... sim, parecia-se muito com você...
Sem levantar os olhos do seu trabalho, disse O-Yuki:
— Fale-me dela. Onde foi que a viu?
Então Minokichi lhe falou daquela noite horrível na cabana do barqueiro, e da Mulher Branca
que se inclinara sobre ele sorrindo e sussurrando, e da morte silenciosa do velho Mosaku.
— Em sonho ou na realidade — concluiu —, foi essa a única vez em que vi um ser tão belo
quanto você. Naturalmente não era um ser humano... e me assustou muito, muito mesmo...
mas era tão branca! De fato, nunca eu soube ao certo se aquilo foi apenas um sonho, ou se foi
realmente a Mulher da Neve...
O-Yuki atirou ao chão a costura, investiu sobre Minokichi e gritou-lhe no rosto:
— Fui eu... eu... eu! Foi O-Yuki! E disse-lhe então que o mataria se dissesse uma palavra
sobre tudo isso! Se não fossem estas crianças que dormem aqui, matá-lo-ia agora mesmo! E
de agora em diante deverá cuidar delas muito bem; pois, se um dia tiverem motivo de queixa
de você, tratá-lo-ei como merece.
À medida que gritava, sua voz tornava-se fina como o sibilar do vento; depois, ela se fundiu
numa brilhante névoa branca, que se ergueu em espirais até as vigas do teto e, num
estremecimento, desapareceu pela chaminé... Nunca mais a viram.

DIPLOMACIA

Fora ordenado que a execução se realizasse no jardim do yashiki.64 Assim, levaram o homem
para ali, com os braços atados atrás das costas, e fizeram-no ajoelhar num largo espaço
arenoso, cruzado por uma fila de tobiishi ou alpondras, como ainda se veem em jardins
japoneses que imitam paisagens. Criados traziam água em baldes e sacos cheios de seixos, e
amontoaram os sacos em redor do homem ajoelhado, de jeito que o impedissem de fazer
qualquer movimento. Veio o chefe e examinou os preparativos. Encontrando tudo em ordem,
não fez nenhuma observação.
De repente, o condenado clamou:
— Honrado senhor, o crime pelo qual fui condenado, não o tinha eu cometido
propositadamente. Ele fora devido unicamente à minha extrema estupidez. Tendo nascido
estúpido, por motivo do meu carma, nem sempre pude abster-me de errar. Porém matar um
homem por causa de sua estupidez é injustiça, e essa injustiça será castigada. Tão certo
quanto me matardes, serei vingado; do ressentimento que em mim provocais nascerá a
vingança; e o mal será pago com o mal.
Sendo alguém morto enquanto prova ressentimento forte, sua alma pode efetivamente
vingar-se do matador. Sabendo isso, o samurai respondeu com muita cortesia, quase com
carinho:
— Permitir-vos-emos que nos assusteis quanto quiserdes, mas só depois de vossa morte.
É, porém, difícil supor que realmente creiais no que dizeis. Quereis dar-nos um sinal qualquer
de vosso fundo ressentimento depois de terdes a cabeça cortada?
— Quero fazê-lo, decerto — respondeu o homem.
— Muito bem — disse o samurai, puxando da comprida espada. — Agora vou cortar-vos a
cabeça. Exatamente à vossa frente há uma alpondra. Depois de terdes a cabeça decepada,
procurai morder a pedra. Se vosso espírito irado conseguir levar-vos a isso, talvez algum
dentre nós se assuste... Quereis tentar morder a alpondra?
— Vou mordê-la — gritou o outro, iradíssimo. — Vou mordê-la! Vou mor...
Nisto houve um lampejo, um assobio, uma pancada, um baque: o corpo atado curvou-se
sobre os sacos, dois esguichos de sangue jorraram do pescoço cortado, e a cabeça rolou na
areia. Rolou pesadamente até a alpondra; depois, num pulo súbito, dentou a aresta superior
da pedra, grudou-se a ela por um instante num esforço desesperado, e recaiu inerte.
Ninguém falou, mas os criados olharam horrorizados para o seu chefe. Ostentava ele
indiferença total. Limitou-se a estender a espada para o criado mais próximo, o qual, com uma
concha de madeira, derramou água na lâmina, da ponta ao cabo, e depois enxugou
cuidadosamente o aço com folhas de papel de seda... E assim a parte cerimonial do incidente
estava acabada.
Meses depois, os criados e os assistentes do carrasco viviam ainda num medo incessante,
receando uma visita espectral. Nenhum deles duvidava de que a vingança prometida viria
efetivamente, e o seu terror constante fazia com que vissem e ouvissem coisas que não
existiam. O som do vento no bambual metia-lhes medo, e até as sombras vacilantes no jardim
assustavam-nos. Afinal, depois de comum deliberação foram pedir ao seu chefe a realização
de um serviço de ségaki65 para apaziguar o espírito ressentido.
— É inteiramente desnecessário — disse o samurai, quando o seu principal assistente lhe
comunicou o desejo de todos. — Compreendo que o desejo de vingança de um moribundo
possa meter medo. Nesse caso, porém, não há motivo para tal.
O assistente encarou o patrão com um olhar suplicante, sem ter a coragem de perguntar o
motivo de confidência tão surpreendente.
— Oh, o motivo é bastante simples — declarou o samurai, lendo no rosto de seu auxiliar a
dúvida não expressa. — Somente a última intenção daquele camarada podia ser perigosa; pois
bem, ao desafiá-lo a dar-me o sinal, desviei-lhe o espírito do desejo da vingança. Morreu com
o firme propósito de morder a alpondra, e foi capaz de executar esse desejo, porém nada
mais. Todo o resto ele deve ter esquecido... Não deveis, portanto, preocupar-vos mais com
este caso.
Com efeito, o morto não lhes deu nenhum incômodo. Não aconteceu absolutamente nada.
AUGUST STRINDBERG

Foi durante o século XIX que as literaturas escandinavas, ultrapassando as fronteiras


nacionais, adquiriram significação europeia. Mas, quando já a Dinamarca se orgulhava de
nomes como Andersen, 66 Kierkegaard, Jacobsen67 e Brandes, e a Noruega se gloriava das
obras de Ibsen e Bjørnson,68 a Suécia não produzira ainda nenhum escritor verdadeiramente
grande. O público sueco aguardava ansioso o aparecimento de um escritor genial, que desse
voz à sua nação no concerto das literaturas europeias. Chegou realmente o gênio, conquanto
muito mais supernacional do que qualquer dos autores acima enumerados, na pessoa de
August Strindberg (1849-1912), que não tardou a concentrar sobre si o interesse do mundo
culto.69
O pai do escritor, merceeiro falido e, depois, agente de uma companhia de navegação,
mantivera ligação com uma criada de bar, de quem houve dois filhos antes de se resolver a
desposá-la. O terceiro filho, August, nasceu dois meses depois do casamento. A lembrança
dessas circunstâncias, assim como das lutas que desde cedo teve de enfrentar, da solidão
que lhe coube após a morte da mãe e o segundo casamento do pai, das humilhações e dos
malogros (exagerados por uma sensibilidade doentia) que sofreu numa série de profissões e
empregos antes de fazer nome nas letras, encheu-o de amargura e de ódio, criando-lhe uns
complexos dolorosos, facilmente verificáveis em quase todas as suas obras.
O sucesso de escândalo de O quarto vermelho (1897), romance que marca o início do
naturalismo na Suécia e oferece um quadro impiedoso dos ambientes literários e teatrias de
Estocolmo, torna conhecido de um dia para o outro o escritor, cujos trabalhos anteriores, de
menor importância, haviam passado despercebidos. Aos ataques a crítica responde Strindberg
com ensaios raivosos, nos quais dá nome aos bois e atrai um sem-número de inimigos. Posto
não lhe falte a adesão entusiástica de muitos escritores moços, a vida na Suécia faz-se-lhe
impossível, e se expatria, para residir primeiro na França e depois na Suíça. Nesse ínterim já
publicara Destinos e aventuras suecas, narrativas do passado de sua pátria; no exílio,
continua escrevendo contos; edita Novelas suíças (vivamente influenciadas pelas ideias de
Rousseau), e Casados, série de episódios matrimoniais relatados com ironia brutal, nos quais
se empenha em despojar as relações sexuais de todo halo romântico e em ridicularizar o
movimento feminista. Um dos contos do volume encerra violenta contestação à tese de Casa
de bonecas, o famoso drama de Ibsen; outro motiva denúncia por blasfêmia e provoca
processo, o qual, apesar da absolvição de Strindberg, influiu desfavoravelmente no seu
equilíbrio íntimo e o levou a conceber verdadeira conspiração contra ele dirigida.
Desde esse momento, quase todas as obras do autor, pela incompreensão, pela solidão,
pelo insucesso de três casamentos seguidos, refletem um ódio irracional e incontível à mulher,
em quem ele vê o inimigo natural do homem, e que lhe entrava as tentativas de ascensão.
Alternativamente atraído e repelido pela eterna adversária, narra as etapas da luta, com
sinceridade cruel, nos volumes de sua vasta autobiografia, iniciada em 1886 com O filho da
criada, e terminada com o volume Só, em 1903. Flagelando-se sem piedade, revela nessa
obra única as experiências dolorosas e contraditórias que marcaram o seu caminho: ateu,
naturalista e socialista, depois nietzschiano, em seguida anarquista, caiu numa fase de
misticismo medieval, que o fez consagrar anos da existência ao ocultismo, à alquimia e à
magia, e o levou à beira de um completo desequilíbrio mental. Este último período é contado
em Inferno e lendas, diários notáveis pela arte lúcida com que ele registra as próprias
alucinações.
Cada vez mais só e mais estranho, chegando ao paroxismo da misoginia e da mania de
perseguição, faz representar nos palcos europeus uma série de peças relativas à eterna luta
dos sexos: senhorita Júlia, O pai e dança da morte; mas “todos os dramas de Strindberg nada
são, comparados ao que foi a sua vida”.70 Seu último romance, Bandeiras negras, é um ato de
vingança absurdo, em que furioso se volve contra os próprios amigos e discípulos, todos
quantos o ajudaram e prestigiaram, assacando-lhes infâmias gratuitas. O que resgata, porém,
seus livros mais desordenados é a vibração inegável e inexplicável do gênio, o estilo fremente
e de alto valor estético de suas páginas.
Compara-se com frequência Strindberg a Rousseau, com quem tem em comum o interesse
doentio pelo próprio eu, a necessidade íntima de se confessar e o caráter apologético da
confissão, a deformação dos fatos nela relatados a despeito do grande esforço de
sinceridade. Mas Strindberg é uma alma bem mais instintiva e elementar, com as paixões e os
impulsos do homem primitivo; toda a sua obra é um grito de revolta contra a sociedade, as
instituições, a civilização.
Enorme, essa obra: na grande edição definitiva abrange mais de cem tomos, em que há
peças (45 ao todo), romances, contos, poemas, trabalhos científicos, diários, autobiografia,
artigos de polêmica etc. Dos contos, que perfazem muitos volumes, o mais conhecido é
“Outono”, história melancólica de um casal embrutecido por dez anos de rotina matrimonial e
em quem uma separação casual pelo prazo de um mês acorda a paixão sopitada; entram os
dois a trocar missivas de amor, mas, quando se reencontram, o presente mata o passado e a
paixão renascida extingue-se brutalmente. Quase todos os contos “modernos” de Strindberg
são análises psicológicas, cheias de notações finas, mas de uma tristeza desalentadora. Mais
de um nos prende pela originalidade da técnica; citemos “Meia folha de papel”: uma olhada
aos números de telefones anotados na lista apensa ao aparelho evoca, ao inquilino que se
muda da casa onde morou dois anos, todas as vicissitudes desse tempo, antes sugeridas que
contadas.
Se preferimos reproduzir aqui um dos muitos contos históricos do autor, é que eles
constituem em gênero à parte, a “miniatura histórica”, cujos espécimes valem sobretudo como
engenhosas construções artísticas e não como reconstruções fiéis do passado. A maioria
deles se refere à história sueca e são inacessíveis ao leitor estrangeiro; há, porém, uma série
consagrada à história universal, na qual o narrador se propõe focalizar momentos cruciantes
dos tempos idos, invocando-lhes o espírito em conversações imaginárias. “Strindberg
historiador — afirma um de seus críticos — comete os erros mais grosseiros, mas acontece-
lhe descobrir muitas vezes o que os especialistas não viram. Nisso intervém uma faculdade que
ele possui no mais alto grau, a imaginação criadora, que é ainda um dom do homem
primitivo.”71
Num desses quadros vemos o jovem Lutero, ainda monge agostiniano, chegar a Roma no
dia em que ali é instalada a famosa estátua antiga de Laocoonte e seus filhos, trazida por um
papa renascentista; noutro, ouvimos Virgílio e Horácio comentarem o assassinato de César.
Assistimos à troca de impressões de dois convidados estrangeiros às núpcias de Átila, assim
como a uma palestra do pai do Menino Jesus com um romano que lhe prediz a vinda de uma
nova era por obra exclusiva de Augusto. São, como se vê, fantasias originais e sugestivas, que
talvez provoquem o sorriso dos historiadores de profissão, mas perturbarão e farão sonhar o
leitor de cultura média.72

O IMPÉRIO MILENAR
No ano de 998 Roma havia-se tornado um império alemão, e o imperador dos alemães era um
romano. Oto III,73 criado pela mãe grega, Teófano, dela herdara o gosto dos países
meridionais, e passava a maior parte do tempo em seu palácio em Monte Aventino, onde se
estabeleceu com fausto imperial, alimentando o plano de transformar Roma na capital do
Reich alemão. A essa altura tinha vinte anos, era ambicioso, fantasista, piedoso e cruel.
Durante uma sua ausência o antigo espírito cívico de Roma despertou. O nobre senador
Crescêncio74 fez-se tribuno do povo, libertou dos alemães a cidade, expulsou o papa Gregório
V, substituindo-o por João XVI.
Então o Imperador volveu a Roma a toda a pressa, mandou prender Crescêncio com o seu
papa, e fez representar pelos romanos um drama realista, como só os antepassados daquele
povo tinham visto igual.
O Bairro Leonino, que abrangia a colina do Vaticano com a mais antiga Igreja de são Pedro
e um dos palácios pontificiais, estava ligado à cidade pela Ponte Élia ou de Adriano. À cabeça
da ponte, à margem direita, via-se o túmulo de Adriano, edifício com aspecto de torre onde se
enterraram os imperadores até Caracala.75 Ao tomarem Roma, os godos transformaram-no
em fortaleza, e como tal permaneceu muito tempo.
Naquele memorável dia do ano de 998 os romanos amanheceram com o espetáculo de 12
grandes cruzes de madeira cravadas no terrapleno de Adriano. Bem no alto, o arcanjo Miguel,
ali colocado, desde muito, por Gregório, o Grande,76 brandia a espada nua.
O povo formigava na Ponte Élia para assistir ao espetáculo. Havia na multidão, lado a lado,
um mercador francês e um peregrino godo, chegados do Oeste pelo Bairro Leonino.
Já o Sol se levantava, e os raios faziam rutilar a espada do arcanjo.
— Que cruzes são aquelas? — perguntou o peregrino, sombreando os olhos com as mãos.
— São 12. Terão sido erguidas para os 12 apóstolos?
— Não, há muito que eles deixaram de sofrer... aliás, o Imperador, tão piedoso, não irá
crucificar de novo os discípulos do Senhor.
— Piedoso, o Imperador! Este saxão... nem aos godos, nem aos longobardos, nem aos
francos coube o domínio de Roma, mas a estes saxões oriundos da raça maldita de Carlos
Magno pensava ter extirpado da Terra. 77 Mandou dez mil deles à Gália, um presente de dez
mil feras para o inimigo, e fez decapitar quatro mil e quinhentos num só dia, sem passar, por
isso, nem uma noite em claro... São realmente admiráveis os caminhos da Providência!
— Os últimos às vezes vêm a ser os primeiros...
— Pelo amor de Jesus, nosso Salvador: alguma coisa se mexe, nas cruzes! Estás vendo?
— Por Deus! Vejo, mas não quero ver! São homens crucificados!
Havia dois romanos ao lado dos forasteiros.
— Estás vingado, Armínio!78 — disse um deles.
— Então Armínio era saxão? — pergunta o outro.
— Sem dúvida, pois morava no Hartz.79
— De fato, faz mil anos que Tusnelda 80 desfilou aqui no triunfo de Germânico, trazendo no
ventre seu filho nascituro. Quem diria que são necessários mil anos para se cumprir uma
vingança!
— Mil anos são apenas como um dia! Mas esses nossos irmãos na cruz não serão mártires
da liberdade romana?
— Decerto que o são, e dos nossos direitos! Mas quiseram os deuses que desta vez não
tivessem razão.
De repente, a cena mudou. Ao pé da fortaleza uma tropa de soldados fendia a multidão.
Atrás deles, montado num burro, vinha o pontífice João XVI.81 Tinha o nariz e as orelhas
cortados, e os olhos furados. Espetáculo doloroso, ao qual uma bexiga de porco, ligada à
cabeça do infeliz e agitada pelo vento, acrescentava uma nota hedionda.
Os presentes olhavam a tremer, sem falar. Ao cabo de contas, quem lá ia era o vigário de
Cristo, um sucessor de são Pedro, ainda que não fosse um mártir da fé.
Achava-se na ponte um siciliano, ao lado de um judeu. Era maometano, pois a ilha de Sicília
desde uns duzentos anos estava nas mãos dos mouros.
— Este homem deve sofrer por seus antepassados! — disse o judeu. — É isto que os
cristãos professam: a satisfação vicária.82
— Sempre houve sofrimento — retorquiu o mouro —, e, por mim, decerto, não chorarei por
se ter acabado esta pornocracia, e de tal maneira. Nestes cem anos, têm os papas vivido
como canibais. Lembras-te de Sérgio III,83 que vivia com a meretriz Teodora e as filhas desta?
E as relações de João X84 com a mãe e a filha Marósia, a qual primeiro estrangulou o próprio
irmão para depois sufocar o pontífice com uma almofada? E João XII,85 que tinha 19 anos ao
ser proclamado papa? Começou o pontificado deixando-se corromper, e numa estrebaria
ordenou bispo a um menino de dez anos! E o incesto que cometia com a concubina do próprio
pai? Transformou o Vaticano simplesmente em bordel, jogava cartas, bebia, jurava por Júpiter
e Vênus... Deves sabê-lo!
— Sim — retrucou o judeu —, os cristãos vivem na geena depois que abandonaram o único
Deus verdadeiro. Estes insensatos roubaram-nos a promessa do Messias, mas nós ainda
temos a de Abraão. Roma é agora um hospício, a Alemanha, uma carniçaria, a França, um
lupanar! Seja como for, é divertido ver como eles se matam uns aos outros.
Foi sentar-se no peitoril da ponte para melhor ver o que acontecia.
Entre os dois patriotas que se retorciam nas cruzes como vermes no anzol apareceram
cinco homens vestidos de vermelho, que se puseram a aparelhar um estrado.
— Carrascos nos túmulos dos Césares! — exclamou o judeu. — Quanto a mim, nada tenho
contra Crescêncio. É um fidalgo que lutou pela sua pátria. Mas sempre é um cristão de menos.
— Os cristãos têm sempre duas maneiras de explicar por que se sofre: quando o homem é
inocente, a tortura é apenas uma prova; quando culpado, então é o destino que merece... Eis
aí Crescêncio!
O último cidadão de Roma foi conduzido ao estrado. A sua cabeça caiu, e, com isto, Roma
era alemã, ou a Alemanha romana. Até 1806.86
Na tarde do mesmo dia ocorreu a nomeação do novo papa, pois de eleição realmente não
se tratava. Gerbert,87 de Auvergne, ascendia ao trono pontificial com o nome de Silvestre II.
Sabendo-se odiado pelos romanos, não se atrevia o Imperador a sair do seu palácio do
Aventino.
Numa pequena cela, no aclive do monte, lá onde morara o seu amigo recém-assassinado, o
missionário e mártir Adalberto 88 de Praga, o monarca fechou-se com seu mestre, o novo
pontífice, Silvestre II. Esse francês estudara em Córdova, na universidade criada pelos califas,
onde se aprendia a ciência árabe, mas com base na sabedoria grega e hindu; lecionou
filosofia, matemática, astronímia e química em Reims, foi abade em Bobbio, arcebispo de
Reims e de Ravena, e, depois de ter-se levantado, em vários concílios, contra a decadência
do pontificado, acabou papa alemão em Roma.
A indignação popular consequente à execução de Crescêncio forçou-o a buscar asilo no
Aventino junto ao seu discípulo, o Imperador. E da cela do pequeno convento ao lado da
capela de Adalberto dirigia os destinos da Europa, consagrando os momentos de lazer a
estudos principalmente de astronomia e química, o que lhe granjeou fama de nigromante.
Mergulhado em seus pensamentos, trabalhava uma noite à escrivaninha inundada de cartas
quando de súbito entrou o Imperador sem se ter feito anunciar. Era um adolescente
rapidamente crescido, vestido de traje muito insólito, uma dalmática ornada com imagens do
livro do Apocalipse89 — a fera, a meretriz, o livro selado e outras da mesma espécie.
— Venho falar-te — disse. — Não posso dormir.
— Que aconteceu, meu filho?
— Chegaram cartas, advertências, sonhos.
— Conta!
— Já sei: ouvir-me-ás sem me acreditar, quando eu disser a verdade. Estás com medo de
toda ideia nova...
— Que há de novo debaixo do Sol? Pois se até a respeito da nossa santa doutrina diz
Agostinho, pai da Igreja: “O que em nossos dias se chama cristianismo já existiu entre os
antigos e em todos os tempos, desde o nascimento do gênero humano até o de Cristo. Então
começaram a chamar cristianismo à verdadeira religião, aquela que já existia. As verdades de
Cristo não diferem das antigas; apenas estão mais desenvolvidas!”
— Cala-te, herege! Não sabes o que está acontecendo pelo mundo afora.
— Conta-me, então.
— De vários países chegaram peregrinos, que relatam sinais, histórias e milagres. Assim,
no Sul da França grassa a peste e a carestia, e nos açougues se vende carne humana; na
Alemanha viu-se no céu uma vergasta de ferro chamejante; aqui na Itália recomeçaram
aquelas romarias sem fim. Em Jerusalém foi saqueada a igreja do Santo Sepulcro e erguido o
templo do “Grande Impostor”.90 Todo o povo, toda a cristandade treme, pois viu nos indignos
papas dos últimos cem anos, eleitos por meretrizes, outras tantas encarnações do Anticristo.
Os emissários de Cristo são assassinados; meu amigo Adalberto, lá na Polônia, foi o último.
Os pagãos retomaram todas as conquistas de Cristo na Ásia e na África. O povo do Impostor
ocupa a Espanha, a Sicília, Nápoles, e ameaça a própria Roma. Tudo isto só pode significar
uma coisa: que estão chegando o julgamento e o fim do mundo, anunciados no Apocalipse.
— Ah, lá volta a velha fábula!
— A fábula? “Vai-te, Satanás, pois a ti não te agradam as coisas de Deus, senão somente
as dos homens.”
— Chamas-me Satanás?
— Sim, pois que negas a palavra. Ou não está escrito no Apocalipse de João: “E, ao
cumprirem-se mil anos, Satanás libertar-se-á de sua prisão, e sairá, seduzirá os gentios das
quatro extremidades da Terra, a Gog e a Magog...”? 91 Vê os povos do Norte que ocupam
agora a Inglaterra, a Normandia, a Sicília, tantas terras... Não é Teodora a grande prostituta
da Babilônia? Não é o impostor Maomé a Besta?
— Espera, meu filho, deixa-me citar outro versículo do mesmo capítulo. Aí podes ler,
imediatamente antes: “Quem participar da primeira ressurreição reinará mil anos com Cristo.”
Assim, o império milenar vai apenas, agora, ter começo, e por conseguinte não pode acabar.
— Acabaria o antigo para começar o novo?
— Isto mesmo! Acabou o antigo reino escuro; estamos diante da segunda volta de Cristo à
Terra! Se aguardares no silêncio da esperança, hás de ver o advento do novo reino.
— Não acredito uma palavra de quanto dizes. Estamos assistindo ao último ano do milênio.
Vou retirar-me à solidão e esperar em jejum, reza e penitência o dia do Senhor e a vinda de
meu Salvador. Hei de rezar por ti, meu pai, mas os nossos caminhos hoje se separam, e nunca
mais me tornarás a ver!
Foi-se o imperador. Silvestre ficou sozinho.
— “Veremos! — disse consigo. — Entretanto, tratemos de liquidar os nossos assuntos
seculares!”
Desdobrou um mapa do mundo então conhecido. Com um pedaço de gesso vermelho
repartia em cruzes e coroas, principalmente nas regiões do Norte; em cima de Jerusalém
desenhou uma lança com uma bandeira.
O ano de 999 aproximava-se do fim, e a cristandade vivia numa ânsia mortal. Em Roma e
nos arredores toda a vida cessara. Os campos, não semeados, cobriam-se de mato; o
comércio paralisara-se, as lojas estavam fechadas. Quem possuía alguma coisa, dava-a de
mão beijada, e não encontrava facilmente quem a quisesse receber. Permaneceram abertas
as igrejas dia e noite durante três meses, e todos os dias eram como os domingos, até porque
todos usavam seus melhores trajes, já que não tinha sentido poupá-los; toda a gente, aliás,
queria estar bem-vestida ao receber o Salvador que havia de vir.
O Natal foi festejado com particular devoção. Vivia-se em pacata concórdia. A guarda da
cidade nada tinha que fazer, pois o temor do que ia suceder mantinha a disciplina e a ordem.
Dormia-se de portas abertas. Ninguém ousava roubar ou enganar — nem era necessário, pois
bastava pedir para obter de presente tudo quanto se quisesse. Os padeiros distribuíam de
graça o pão, os estalajadeiros abriam crédito ilimitado. Não se cobravam as dívidas. As igrejas
viviam cheias; confissões e absolvições, missas e comunhões não paravam.
Chegou a véspera do Ano-Novo. Divergiam as opiniões quanto à natureza da catástrofe:
uns a previam sob forma de terremoto; outros, sob forma de dilúvio. Quase toda a população
vivia ao relento, uns na planície, outros na colina, todos com os olhos constantemente volvidos
para o céu.
Desde o amanhecer o Campo Márcio92 transbordava de gente. Em volta de uma pilha de
lenha formou-se um grupo, fazendo roda a um louco que discursava com as mãos cheias de
papéis e pergaminhos.
Era um burguês abastado que passara três meses em exercício de penitência e agora,
semelhante a um esqueleto, se preparava para escapar à ira vindoura. Amontoara ali uma
pilha de lenha seca, que trouxera nos braços a pretexto de aquecer todos os carregadores e
todas as bestas de carga. Como ninguém se preocupasse com o que os outros faziam,
deixaram-no à vontade.
Subiu ele a um antigo púlpito arruinado e entrou a falar, depois de haver ateado fogo à pilha
de lenha:
— Em nome de Deus eterno! Assim como eu hei de queimar estes títulos de dívida, assim
risque o Senhor minhas culpas do livro da vida. Por todos os sofrimentos que causei aos
outros, quero, agora, sofrer, eu mesmo. Fogo purificador, queima o meu corpo miserável com
todos os seus pecados; labaredas que subis, deixai-me acompanhar-vos! Senhor Jesus,
recebe a minha alma!
Deu um pulo do alto do púlpito, caiu no meio das chamas, e ali ficou de joelhos, mãos
postas, até expirar sufocado.
No Foro via-se um homem trabalhar com um maço num montão de cascalho que o devia
soterrar.
— “Dizei aos montes: cobri-nos!” — cantava ele.
Da Ponte Sublícia um jovem casal saltou ao rio, estreitados num abraço que a morte nas
ondas não podia desfazer.
Ao meio-dia abriram-se as prisões e os condenados saíram, acolhidos como mártires e
heróis. Levaram-nos às casas dos nobres, mandaram-nos sentar às mesas, e senadores com
suas esposas lavaram-lhes os pés.
— Somos todos pecadores — diziam — e nada temos de que nos possamos orgulhar.
Estes presos sofreram o seu castigo, enquanto nós andávamos soltos.
Desde os primeiros dias do cristianismo, nunca o amor ao próximo e a caridade se
manifestaram com tanto brilho.
Quiseram os doentes dos hospitais sair ao ar livre, e suas camas foram levadas às praças
e ruas. Tudo o que vivia queria estar debaixo do céu; as famílias arrastavam seus móveis para
a rua.
Soltaram-se os pássaros das gaiolas, os cavalos das estrebarias. Estes primeiro correram
à toa pelas ruas da cidade, mas, ao chegarem-lhe às portas, farejaram o ar puro e tomaram o
caminho da Campanha93 em busca de lugares verdes; alguns, contudo, ficaram na cidade, e
deitavam-se nas ruas, onde as crianças lhes trepavam às costas.
De todos os seres, eram as crianças os únicos que não tinham medo. Saltavam e
brincavam como sempre, alegres com a liberdade insólita. Ninguém as podia conter. Como não
entendiam de que se tratava, não se lhes dava da mudança e prosseguiam seus brinquedos.
Chegou a noite, e a ânsia culminou. Viam-se senhores e escravos abraçando-se a chorar,
aqueles confessando a sua dureza, estes a sua desonestidade. Velhos desafetos, ao
encontrarem-se nas ruas, davam-se as mãos e, conduzindo-se uns aos outros como crianças,
percorriam a cidade entoando hinos.
Parecia a idade de ouro, ou ainda o império milenar, tal qual o sonhavam os pais da Igreja.
O ar estava doce como num dia de primavera, o céu permaneceu claro até meio-dia, quase se
cobriu de nuvens.
Ninguém comia, ninguém bebia; todos tomavam banho e se vestiam como para uma festa.
À tarde, procissões de sacerdotes e monges atravessaram a cidade, cantando ladainhas, que
o povo acompanhava. — “Kyrie Eleison — ressoava por toda a cidade. — Senhor, tende
piedade de nós! Cristo tende piedade de nós!”
Roma inteira preparava-se para sua própria execução.

Havia, no entanto, um bando de descrentes e depravados que não esperavam nada de novo.
Reuniram-se nas catacumbas e nas ruínas, e ali celebraram orgias e bacanais.
Nas ruínas da casa de ouro de Nero94 os libertinos e as meretrizes da cidade organizaram
um simpósio de grande estilo. No meio da sala ardia um fogo rodeado de mesas e bancos.
Comidas e bebidas abundavam: bastava procurá-las na despensa e na adega. Havia música,
cantos e danças, e nos intervalos os convivas se divertiam a contemplar os morcegos e
corujas que se atiravam ao fogo, assando-se vivos.
Era uma alegria ruidosa, mas não sem constrangimento. Nem faltavam, tampouco, as
profecias e as observações de sabor filosófico:
— O Juízo Final não é para hoje — opinou um moço que podia ser um descendente do
próprio Nero.
— E, ainda que o seja, a morte nunca será para nós mais desagradável do que o foi a vida.
— Eu sempre achei que vivíamos no Inferno. Dores de cabeça toda manhã, dívidas e
vergonhas, de vez em quando um bocado de prisão...
— O Imperador está sentando numa gruta ao pé do Soracte, nu...
— “Vides ut alta stet nive candidum Soracte?”95
— “Enquanto falamos, foge-nos a vida invejosa! Aproveita o dia de hoje; não te fies,
absolutamente, no de amanhã.”96
— Quanto ao papa, vai celebrar a missa da meia-noite! Ele que não acredita em nada
disso...
— Mas deve fazer boa cara e mostrar que acredita...
— De uma eu sei que esta noite não irá à missa...
— Já sei: é a bela Estefânia,97 a viúva de Crescêncio...
— Está velando, como a vingança.
— Na verdade, que é que esses teutos vêm fazer em Roma? Gostaria que o dono desta
casa dourada ressuscitasse. Foi ele o último romano!
— Pelo menos, tratava os seus inimigos como devia. Um homem que não temia coisa
alguma do Céu ou da Terra, nem sequer o raio. Certa vez caiu-lhe um raio na sala de jantar,
enquanto estava à mesa. Sabeis o que disse? “Prosit!”98 — e levantou o copo.
Nesse instante uma pedra da abóbada, aquecida, desprendeu-se e caiu no fogo,
levantando uma porção de faíscas. Através do buraco produzido pela queda da pedra o vento
da noite penetrou, soprando fumaça no rosto dos comensais. No começo acharam o incidente
divertido, mas pouco depois se viram obrigados a retirar-se dali.
— Vamos sair para ver o fim do mundo! — gritou um dos rapazes.
Logo se formou um cortejo de bacantes e mênades, encabeçados por um odre cheio de
vinho, acompanhado de flautistas, e todos os convivas com copos na mão.
Na antiga Basílica de são Pedro, diante do altar, celebrava o pontífice uma missa calada de
meia-noite.
A igreja estava repleta de fiéis ajoelhados. Tão profundo era o silêncio que se ouvia o ruge-
ruge das mangas da camisa branca do oficiante ao erguer o cálice.
Mas, ao mesmo tempo, ouvia-se outra voz, que parecia medir os últimos minutos do
milênio. Soava como o bater do pulso aos ouvidos do febricitante, com o mesmo número de
pancadas. Com efeito, pela porta aberta da sacristia entrava o tique-taque tranquilo e seguro
do grande relógio ali pendurado.
Sem dúvida o pontífice, homem não menos tranquilo, mandara deixar aberta aquela porta
para no grande momento obter o maior efeito. Tinha mortalmente pálido de emoção o rosto,
mas não se mexia, nem lhe tremiam as mãos.
Terminara a missa; houve um silêncio de cemitério. Os fiéis aguardavam que o servo de
Deus que oficiara pronunciasse algumas palavras de consolação. Ele, no entanto,
aparentemente mergulhado na prece, não disse palavra.
O relógio tiquetaqueava, o povo suspirava, porém nada aconteceu. Como crianças
apavoradas com a treva, homens e mulheres fitavam os olhos no chão, sem se atreverem a
levantá-los. Um suor de agonia molhava as frontes geladas; os joelhos entorpecidos doíam ou
perdiam a sensibilidade, qual se estivessem separados dos corpos.
De repente, o relógio cessou de tiquetaquear.
Faltaria corda ao mecanismo? Ou era aquilo um sinal? Ia tudo parar, o próprio tempo
acabava? Seria o começo da eternidade?
Ouviram-se na multidão alguns gritos sufocados, e o baque de vários corpos, mortos de
terror.
Mas o relógio entrou a bater: uma, duas, três, quatro... A duodécima pancada soou, soara,
repercutira. Seguiu-se novo silêncio de morte.
Voltou-se então Silvestre e, com orgulhoso sorriso de vencedor, estendeu as mãos em ato
de bênção. No mesmo instante, todos os sinos da torre puseram-se a repicar com jubiloso
alvoroço, e da tribuna do órgão um coro de vozes jovens e altas desferiu voo, algo incerto a
princípio, mas logo depois cada vez mais firme, mais claro:
— “Te Deum laudamus!”99
A essas a comunidade juntou a sua voz, mas foram precisos alguns minutos para as
espinhas entorpecidas se reendireitarem e os sobreviventes superarem o horror causado pela
vista dos cadáveres das vítimas do medo.
Terminado o hino, caíram os assistentes uns nos braços dos outros, choraram e riram
como alienados e trocaram beijos de paz.
Assim acabou o primeiro milênio após o nascimento de Cristo.
Em Paterno, lugarejo ao pé do Soracte, o Imperador passou a semana de Natal e a última
do ano no jejum mais rigoroso e em exercícios de penitência. Quando, porém, chegou o dia de
Ano-Bom sem que nada mudasse, retornou a Roma para ir ter com Silvestre e cuidar do
futuro.
O velho amigo e mestre acolheu o Imperador com um sorriso que foi compreendido;
contudo, o monarca ainda estava de tal maneira dominado pelo medo que não ousou mostrar-
se zangado.
— É tempo de voltares à Terra, filho meu — advertiu Silvestre —, e de cuidares dos teus
interesses temporais.
— Está certo. Mas primeiro tenho de cumprir os dois votos que fiz nos momentos de
angústia.
— Pois cumpre-os!
— Visitarei o túmulo de meu amigo Adalberto, em Gnesen, e depois o de Carlos Magno,
em Aquisgrano.
— Visita-os, mas ao mesmo tempo não te esqueças de certas tarefas que te confio para a
viagem.

Decorreram dois anos. Um dia de janeiro, foi o pontífice Silvestre II chamado a Paterno, o
lugarejo ao pé do Soracte, onde o Imperador lutava com uma doença.
Ao penetrar no quarto do enfermo, o papa encontrou-o sentado no leito, porém com
aspecto de causar dó:
— Estás doente. É do corpo ou da alma?
— Estou cansado.
— Já? Com 22 anos?
— Estou desalentado.
— Desalentado apesar de teres visto o mundo despertar de um pesadelo! Ingrato, pensa
em tudo o que nos trouxeram estes dois anos, quantos triunfos para Cristo, que parece haver
realmente ressurgido. Deixa-me lembrá-los! A Boêmia recebeu um príncipe e extirpou o
paganismo,100 a Áustria101 uniu-se para construir um Estado danubiano; o húngaro
descrente102 deixou-se batizar e sob o nome de Estêvão aceitou a coroa de nossas próprias
mãos; Boleslau103 da Polônia ganhou também a coroa e um arcebispo; o novo reino dos russos
converteu-se à fé, e Vladimiro104 proteger-nos-á contra os mouros em decadência, como
contra os seldtchucos ou turcos em ascensão; Haroldo105 da Dinamarca e Olavo da
Suécia106 reforçaram o cristianismo; o mesmo fez Olavo Tryggveson107 na Noruega, na
Islândia, nas Ilhas Faroer, em Xetlândia, e na Groenlândia; o dinamarquês Tveskagg ganhou a
Bretanha para nós. Na França, acha-se estabelecido o piedoso Roberto II,108 da nova dinastia
dos Capetos, mas de origem saxônica como a tua. Na Espanha, os Estados do Norte — Leão,
Castela, Navarra — acabam de unir-se e afastarão de nós os mouros de Córdova. Tudo isto
aconteceu em cinco anos, sob a égide de Roma! Não significam esses acontecimentos a
ressurreição do Cristo? Compreendes, enfim, o que a Providência quer dizer com as palavras:
o império milenar? Talvez os que viverem daqui a mil anos vejam os frutos amadurecidos; nós
vemos apenas a florescência. Não é, decerto, um paraíso, mas sempre é melhor do que
antes, quando no Norte e no Oeste não tínhamos senão feras. E todos vêm a Roma em busca
de sua coroa e de seu pálio. Meu Imperador, és o senhor dos povos!
— Eu? Não és tu que dominas os espíritos? Por mim, aliás, já não quero reinar.
— Não acredito. Por que então escolheste uma rainha?
— Quem será?
— Dizem — e tu conheces este boato tão bem como eu — que é a viúva de Crescêncio, a
bela Estefânia. Eu nada tenho que ver com isto; lembro-te apenas a palavra de Salomão:
“Toma cuidado com os teus inimigos, mas não menos com teus amigos.”
O Imperador fez menção de se defender, mas não pôde. A conversa terminou aí.

Ao cabo de poucos dias Oto III estava morto, envenenado, segundo se diz, desta ou daquela
maneira, pela bela Estefânia. Um ano depois morria Silvestre II.
JULES LEMAÎTRE

Nascido e morto na região do Loiret, na França, Jules Lemaître (1853-1914), depois de


estudar num seminário, passou pela École Normale Supérieure de Paris. Foi crítico dos mais
acatados de seu tempo, e, junto com Anatole France, defendeu os direitos da crítica
impressionista. Cultivou, também, outros gêneros literários: “Poeta, sem se pôr na primeira fila,
autor dramático, a quem não faltou nem a figura nem a emoção, mas a força, contista
delicioso, fez sua crítica beneficiar-se de seus dons de invenção poética e de criação
dramática.”109
O que deixou de mais importante são seus folhetins críticos, reunidos nos oito volumes de
Os contemporâneos e nos 11 de Impressões de teatro. Publicou, ainda, valiosas monografias
sobre Rousseau, Racine, Fénelon e Chateaubriand. Já nessas obras aparece a visão
conservadora que dele fez um dos chefes do movimento nacionalista e monárquico.
A página reproduzida aqui é uma boa amostra de seu volume de contos históricos À
margem dos livros antigos.110

M UITO TARDE
Havia outrora, em certa cidade da Índia, um faquir muito santo, chamado Turiri, que desde a
adolescência se dedicara a dominar a carne, a fim de entrar vivo na paz do Nirvana. Um dia,
porém, tendo lido obras estrangeiras, reconheceu a inutilidade da sua empresa e deixou de
crer no que ensina o Buda. Chegou ao ponto de escrever livros em que demonstrava que Buda
não fizera milagres e não era Deus. Mas, ao mesmo tempo, professava uma sabedoria tão
serena e tão alta, e havia tanta graça nos seus escritos, que chegou a fazer, na cidade e em
todo o reino, grande número de discípulos e admiradores.
Entretanto continuava a viver em castidade, para que ninguém pudesse dizer que renunciara
às suas primeiras crenças levado pela atração dos prazeres inferiores. À medida, porém, que
avançava em anos, parecia consagrar às mulheres um grande amor, e delas falava sem
necessidade em todos os seus livros, como se elas o preocupassem muito vivamente. E
escrevia a seu respeito coisas tão doces, tão cariciosas e delicadas, que todos aqueles que o
liam ficavam tomados de encanto, perturbados até o mais íntimo do coração.
Ora, certo dia, uma viúva de trinta anos, Maia, linda, inteligente e rica, teve este
pensamento:
“Se Turiri fala assim das mulheres, é decerto porque se arrepende de não as haver
conhecido na mocidade. Desejaria conhecê-las agora; mas não ousa fazê-lo, ou por timidez,
ou porque sua vida passada e sua grande situação o obrigam a persistir, por dignidade, na
amarga continência. Pois bem, eu irei, e entregar-me-ei secretamente a ele. Se já lhe falta a
mocidade e a beleza do corpo, tem ele a bondade, tem o espírito, tem o prestígio da glória e
do gênio, e não me custará muito ser a sua iniciadora. Enfim, lastimo-o, e quero que ele
conheça, através de mim, o que quase nenhum dos outros homens ignora.”
Maia vestiu-se de gazes leves e perfumou-se com esmero. Ao cair da noite foi à casa de
Turiri, sentou-se junto dele, e o interrogou acerca de alguns pontos de filosofia. Falando-lhe,
encostava-se ao faquir, embriagava-o com seu hálito, e, por fim, envolvendo-lhe o pescoço
entre os braços nus:
— Eu sei — disse — o mal de que sofreis: tomai-me.
Turiri afastou-se docemente:
— Estais enganada.
Pela janela aberta, que dava para o campo, divisava-se, aos derradeiros clarões
crepusculares, uma pastora de 15 anos, loura e rosada, que ia tocando seus carneiros.
Apontou-a Turiri a Maia e, com grande tristeza:
— Quisera eu ter vinte anos e ser amado por uma criança como aquela. E eis o que vós
não me podeis dar, nem vós nem ninguém.
E, indo Maia a sair, aturdida, ouviu Turiri murmurar uma das frases do seu último livro:
— Alguma coisa te faltará eternamente; eternamente chorarás a tua virgindade.
O. HENRY

O gênero conto ganhou nos Estados Unidos, de um cinquenta anos para cá, popularidade
imensa. Cada uma das numerosas revistas consome meia centena de contos anualmente, e
paga-os bem; as de maior tiragem compram um conto, de vez em quando, por preço superior
ao que bons romancistas de outros países ganham em toda a vida. Não é, pois, de
surpreender que haja manuais sobre a maneira de escrever contos, cursos para futuros
contistas e certo número de receitas para o gênero de maior cotação no mercado.
Na maioria dos casos, tais receitas derivam do estudo dos volumes de O. Henry, cujas
narrativas representam melhor tipo ideal exigido pelos leitores e pelos diretores dos grandes
magazines: o conto “que proporciona o máximo de sensações e de surpresa dentro do mínimo
de tempo”.111
O. Henry (1862-1910), pseudônimo de William Sidney Porter, nasceu em Greensboro, na
Carolina do Norte. Aos três anos perdeu a mãe; o pai, médico interessado em invenções das
mais fantásticas (entre elas o perpetuum mobile), pouco se ocupou com o filho, confiando-o à
tia, diretora de uma escola primária. Foi ela quem despertou no sobrinho o interesse pela
literatura.
Ajudante de farmacêutico aos 15 anos, aos vinte William transferiu-se para o Texas à
procura de melhor clima. Em Austin, empregou-se no First National Bank, casou-se e, nas
horas vagas, fazia caricaturas e crônicas para os jornais. Contratado pelo Daily Post, de
Houston, optou definitivamente pelo jornalismo. Já estava trabalhando desde um ano antes
nesse novo posto, muito de seu agrado, quando é judiciariamente intimado a voltar a Austin
para defender-se da acusação de apropriação indébita de mil e poucos dólares, no tempo em
que era caixa do First National Bank. Parece que a falta era devido à desorganização desse
instituto e não à desonestidade de O. Henry, de todo inocente segundo uns, culpado apenas
de desordem segundo outros.112 Mas o infeliz perdeu a cabeça e, em vez de voltar para
Austin, onde poderia ter logrado absolvição, embarcou para Honduras e lá permaneceu mais
de um ano. A notícia da doença da mulher fê-lo voltar; chegou a tempo de assistir-lhe à
agonia. Julgado logo depois, foi condenado (sobretudo por motivo de sua fuga) a cinco anos
de cárcere, pena que o seu procedimento exemplar reduziu de um terço. Na prisão continuou a
escrever, sob o pseudônimo adotado anteriormente à condenação, suas histórias, cada vez
mais aceitas pelo público. Saiu do presídio humilhado, mas com a experiência do sofrimento.
Passou os oito últimos anos de vida em Nova Iorque, continuando a produzir contos em ritmo
intenso, mais de um por semana. Em 1905 publicou a primeira coletânea de tais narrativas,
seguida de outras numa sucessão rápida. Ao morrer, a tiragem de seus livros excedia quatro
milhões de exemplares.
As três grandes experiências da vida de O. Henry foram o exílio voluntário em Honduras, o
encarceramento e os anos passados em Nova Iorque. As reminiscências do desterro
alimentam o volume Couves e reis, romance de construção frouxa, formado por uma série de
contos, e no qual a vida pitoresca das repúblicas centro-americanas é relatada com bom
humor. Seu contato com o crime e a miséria o levou a tratar com frequência da vida dos
pobres, dos malandros e dos bandidos, cuja linguagem reproduz com fidelidade e ternura. Foi
também o primeiro a aproveitar plenamente o material romanesco da metrópole de Nova
Iorque, nos contos de Os quatro milhões (número dos habitantes da capital na época) e em
muitos outros.
É hoje muito discutido o valor artístico dos contos de O. Henry. “Tem narrativas e trechos
em que a vida cotidiana e terra a terra do americano médio é bem observada e reproduzida
com exatidão; mas, pelo desfecho sensacional que lhes dá para orná-las de um atrativo que
não teriam naturalmente, seus quadros perdem a realidade e acabam sendo tão pouco
verdadeiros como os de Bret Harte.113 Suas personagens são apenas tipos, símbolos ou
caricaturas.”114 Segundo outro crítico, “quanto aos seus ingredientes, é melhor não os
examinar muito de perto — mas os contos são quase sempre divertidos, o que era, afinal de
contas, o principal intuito do autor”.115
Suas características são — além do desenlace imprevisto — o abuso da antítese, dos
efeitos de surpresa e das construções engenhosas, a acumulação de reminiscências
mitológicas, bíblicas e literárias, misturadas a comparações vulgares ou cômicas. Muitas vezes
o golpe é assestado no leitor desde o título, que lhe submete a imaginação a verdadeiro
rodopio. “O loto e a garrafa”, “A vitrola e a marmelada”, “O califa, cupido e o relógio” são
algumas amostras deste processo, nem sempre de gosto seguro. O estilo, barroco e
heterogêneo, cheio de imagens rebuscadas, expressões disparatadas, termos giriescos,
trocadilhos e assonâncias,116 tem um cunho pessoal, dificilmente imitável. Sem embargo de
todos estes excessos, certos contos de O. Henry ainda se leem sempre com agrado. De
nossa parte, preferimos, ao lado do que segue,117 “Uma reportagem municipal”, na qual o
autor, com técnica notável, conta um assassinato presenciado por ele numa cidadezinha, bem-
desenhada em poucos traços, para demonstrar quanto é falsa a acusação de monotonia
assacada à vida provinciana. Recentemente o cinema — com o título de O. Henry’s full
house — apresentou uma adaptação de quatro contos seus, entre eles “A dádiva dos Magos”,
um dos mais famosos e mais típicos, se não dos melhores: nesse episódio, o marido e a
mulher pobres vendem o que têm de mais precioso — ele o relógio, ela os cabelos — a fim de
comprar presentes de Natal um para o outro: pentes para ela, uma corrente de relógio para
ele.
O QUARTO MOBILIADO
Inquieta, instável e fugaz, como o próprio Tempo — assim é uma considerável massa da
população do bairro de tijolos vermelhos do baixo West Side. Sem possuir um lar, tem
centenas de lares. Vagueia de um quarto mobiliado para outro, povo eterno de emigrantes —
emigrantes de casa, de coração, de espírito. Cantam “Lar, doce lar” em ragtime,118 carregam
consigo seus lares numa caixa de gravatas; sua parreira enrosca-se em volta de um chapéu de
palha, sua figueira é uma planta de borracha.
Por isso as casas desse bairro, depois de terem visto mil inquilinos, devem de ter mil
histórias para contar, tediosas, sem dúvida, na maioria; mas seria de estranhar não houvesse
pelo menos um ou dois fantasmas no rasto de tantas almas penadas.
Certo dia, após o entardecer, um rapaz percorria aquelas casas vermelhas meio
desmoronadas, tocando uma campainha após a outra. Ao chegar ao duodécimo portão, depôs
a maleta na escada e tirou a poeira da fita do chapéu e da testa. A campainha soou
tenuemente, lá longe, em algum fundo remoto e vazio.
Ao portão daquela casa, a duodécima cuja campainha ele tocou, surgiu a porteira, cuja
aparência lembrava algum verme nocivo empanturrado por haver devorado a sua noz até a
casca, e que lhe procurasse encher o vácuo de inquilinos comestíveis.
Perguntou-lhe o rapaz se tinha um quarto para alugar.
— Pode entrar — disse a porteira, cuja voz veio de uma garganta que parecia forrada de
pelica. — No terceiro, o quarto dos fundos está desocupado há uma semana. O senhor quer
ver?
O moço acompanhou-a escada acima. Uma luz fraca, de origem indeterminada, atenuava
as trevas dos corredores. Avançaram, sem fazer ruído, sobre um tapete que o próprio tear
haveria renegado. Parecia ter-se tornado vegetal, ter degenerado, naquela atmosfera rançosa
e impermeável ao sol, num líquen viçoso ou num musgo exuberante que invadisse a escada
aos pedaços, dando a quem pisava a sensação viscosa de alguma matéria orgânica. A cada
volta da escada viam-se, na parede, nichos vazios. Talvez outrora guardassem plantas: então
elas haviam morrido no ar viciado, infeto; ou, porventura, estátuas de santos, e então não era
difícil imaginar uma legião de demônios e diabretes que as houvessem arrastado pelas trevas
para a maldita profundeza de algum abismo mobiliado.
— O quarto é este — disse a porteira, de dentro de sua garganta forrada. — Um belo
quarto. É raro ficar vazio. No verão passado tive aqui pessoas distintas; não davam incômodo
algum, e pagavam adiantado, na hora. A privada fica no fundo do corredor. Sprowls e Mooney
ocuparam este quarto durante três meses. Os dois executavam um número numa revista. Miss
B’retta Sprowls... o senhor deve ter ouvido falar... Eram só nomes de teatro, naturalmente... A
certidão de casamento estava exposta ali, em moldura, acima do toucador. O gás é aqui.
Como o senhor vê, há muito lugar para guardar coisas. É um quarto de que todos gostam.
Nunca fica desocupado por muito tempo.
— A senhora tem gente de teatro morando aqui? — perguntou o rapaz.
— Eles vão e vêm. Boa parte dos meus inquilinos é gente ligada a teatro. Sim, senhor, isto
aqui é o bairro teatral. Mas gente de teatro não para em lugar nenhum. Alguns passam por
aqui. Sim, senhor, eles vão e vêm.
O rapaz alugou o quarto, pagando adiantado uma semana. Estava cansado — disse — e
queria instalar-se imediatamente. Foi contando o dinheiro e passando-o à mão da mulher. O
quarto estava pronto — declarou ela depois: toalhas, água, tudo preparado. No momento em
que a dona da casa ia sair ele pronunciou, pela milésima vez, a pergunta que trazia na ponta
da língua:
— Uma moça... a srta. Vashner... a srta. Heloísa Vashner... a senhora por acaso não se
lembra deste nome entre os seus locatários? Cantora de um desses teatros, provavelmente.
Uma bela moça, esbelta, de estatura média, cabelos dum ouro avermelhado, e uma
manchazinha escura perto da sobrancelha esquerda.
— Não, não me lembro desse nome. Essa gente de teatro muda de nome tão facilmente
como de quarto. Eles vão e vêm. Não, senhor, dessa eu não me lembro.
Não, sempre não. Cinco meses de pesquisa incessante, e sempre aquela inevitável
negativa. Quantos dias gastara em interrogar empresários, agentes teatrais, escolas e
orquestras, quantas noites em percorrer os teatros, desde os que contratam as maiores
estrelas até music-halls de tão baixa categoria que receava encontrar o que mais desejava!
Ele, que a amara melhor que todos, procurava descobri-la. Estava certo de que, desde o seu
desaparecimento, a grande cidade cercada de água a tinha guardado em alguma parte; porém
a cidade semelhava uma praia monstruosa de areia movediça, sem alicerces, cujas parcelas
se mexiam sem descontinuar; os grânulos que hoje estavam em cima, estariam amanhã
enterrados no lodo e na lama.
O quarto mobiliado acolheu o seu novo hóspede com um rápido acendo de pseudo-
hospitalidade, uma saudação héctica, macilenta e negligente como o sorriso enganador de
uma aventureira. A cintilação reverberada dos móveis decaídos, do estofo de brocado roto de
um canapé e duas cadeiras, do espelho barato, com um pé de largura, colocado entre as duas
janelas, de uma ou duas molduras douradas, e de uma armação de cama, de bronze, a um
canto, anunciava um conforto sofisticado.
O hóspede encostava-se, inerte, a uma cadeira, enquanto o quarto, numa língua confusa
como se fosse um apartamento de Babel, tentou conversar com ele sobre seus inquilinos
precedentes.
Um tapete multicolor, semelhante a uma ilhota retangular dos trópicos, coberta de flores
brilhantes, jazia cingido pelo encapelado mar de uma esteira sórdida. Na parede forrada de
papel vistoso exibiam-se os quadros que perseguem os sem-lar de uma casa para outra: Os
amantes huguenotes, A primeira rusga, A merenda nupcial , Psique ao pé da fonte. Os
contornos castamente severos do pano da lareira estavam ingloriamente velados por uma
cortina petulante, licenciosamente puxada de lado como os cintos do ballet das Amazonas.
Sobre ela se viam alguns destroços melancólicos rejeitados pelos náufragos do quarto quando
um navio feliz os levava a novo porto: um ou dois vazios insignificantes, retratos de atrizes, um
frasco de remédio, cartas extraviadas de um baralho.
Um por um, assim como se vão decifrando os caracteres de um criptograma, assim os
pequenos sinais deixados pela procissão de hóspedes do quarto mobiliado iam adquirindo
sentido. O trecho gasto no tapete em frente do toucador contava que entre eles houvera
mulheres graciosas. Na parede, finas impressões digitais falavam de pequenos prisioneiros
buscando o seu caminho para o sol e o ar. Difusa mancha, cujas ramificações evocavam uma
bomba rebentada, mostrava onde se despedaçara um copo ou uma garrafa arremessada à
parede com seu conteúdo. Através do vidro do espelho, um diamante garatujara em letras
hesitantes o nome de “Maria”. Dir-se-ia que a sucessão dos habitantes do quarto mobiliado
fora acometida de loucura, talvez exasperada pela fria garridice do lugar, e sobre ele
descarregara as suas paixões. Os móveis estavam estraçalhados e contundidos; deformado
por lhe haverem sido rebentadas as molas, o canapé lembrava um monstro horrível, morto
durante um acesso de convulsões atrozes. Alguma poderosa sublevação arrancara grande
pedaço de mármore do pano da lareira. Cada prancha do soalho tinha a sua linguagem e
gritava sua agonia individual. Parecia incrível tivesse o quarto sido alvo de tanta malícia e
perversidade por parte de seres que durante algum tempo lhe chamaram o seu lar; no entanto,
talvez fosse o instinto familiar, inconscientemente sobrevivo, e o ressentimento raivoso contra
os falsos deuses familiares, que lhes houvessem acendido a ira. A gente pode varrer, adornar
e amar uma cabana, desde que seja sua.
Sentado na cadeira, deixava o jovem inquilino que tais pensamentos lhe passassem, com
pés de lã, pelo espírito, enquanto sons de pensão e perfumes de pensão começavam a
penetrar no quarto. Chegou-lhe aos ouvidos, de um quarto ao lado, uma risada frouxa
malcontida; de outros, o monólogo de uma mulher rabugenta, um ruído de dados, um acalento
e um soluço triste; em outro, acima, um banjo retinia com animação. Algures, batiam-se
portas; de quando em quando, troavam trens; miava um gato desesperado, num muro atrás do
prédio. E ele respirava o hálito da casa, antes um sabor úmido que um cheiro, um eflúvio frio e
bolorento, como que vindo de uma caverna subterrânea de mistura com exalações de linóleo e
de madeiramento podre e bichado.
Depois, de súbito, enquanto ele repousava, o quarto encheu-se de um perfume adocicado e
forte de resedá. Veio como uma lufada de vento, com tal certeza, fragrância e intensidade que
por um triz não parecia uma visita viva. E o rapaz perguntou alto:
— Que é, querida?
Como se alguém o tivesse chamado, levantou-se de um salto e olhou em redor. O rico
perfume prendia-se-lhe, envolvia-o. Com todos os sentidos excitados e confusos, estendia as
mãos para ele. Era possível ser chamado peremptoriamente por um perfume? Fora um som,
decerto. Não fora um som que o tocara, que o acariciara?
— Ela esteve neste quarto! — gritou.
E correu para agarrar um sinal daquilo, pois — tinha certeza — reconheceria a menor coisa
que lhe houvesse pertencido ou que ela houvesse tocado. Esse envolvente perfume de resedá,
o cheiro que ela amara e de que se apropriara, de onde vinha?
O quarto fora arrumado sem muito zelo. Sobre o pano barato do toucador havia meia dúzia
de grampos de cabelo, esses discretos e indistinguíveis amigos da mulher, de gênero feminino,
modo infinito e tempo indeterminado, dos quais ele nem tomou conhecimento, consciente de
sua triunfante falta de identidade. Revolvendo as gavetas do toucador, descobriu um velho
lenço pequenino, rasgado. Apertou-o contra o rosto. Exalava o lenço um perfume acre e
insolente de heliotrópio; arremessou-o no chão. Em outra gaveta encontrou botões esquisitos,
um programa de teatro, o cartão de um penhorista, duas flores de malvaísco perdidas, um
livro acerca da interpretação dos sonhos. Na última, uma fita de cetim preto, para cabelos de
mulher, que o deteve, vacilante entre gelo e fogo. Mas a fita de cetim preto era também um
adorno comum, impessoal, reservado, da feminilidade, e que não conta histórias.
Então revistou o quarto como um cão no rastro da caça, roçando as paredes, examinando
os vestígios que as saliências da esteira lhe deixaram nas mãos e nos joelhos, esquadrinhando
o pano da lareira e as mesas, as cortinas e as tapeçarias, a escrivaninha capenga do canto, à
cata de um sinal visível — incapaz de perceber que ela estava ali à volta, ao lado, dentro e
acima dele, agarrando-se-lhe, implorando-o, chamando-o com tamanho desespero através dos
sentidos mais sutis que até os mais rudes perceberam o apelo. Mais uma vez ele respondeu
em voz alta:
— Sim, querida!
E com os olhos alucinados voltou-se de repente, fixando o vácuo, pois ainda não podia
discernir formas e cores e amor e braços estendidos no perfume de resedá. Santo Deus! de
onde vinha aquele perfume, e desde quando perfumes tinham voz para chamar? E continuou
tateando.
Perscrutou fendas e cantos, e encontrou cigarros e rolhas, pelos quais passou com mudo
desdém. Mas encontrou também, numa dobra de esteira, um charuto meio consumido, e
esmagou-o sob o tacão com vigorosa praga. Vasculhou o quarto de uma extremidade à outra.
Achou pequenas lembranças, tristes e ignóbeis, de mais de um inquilino peripatético; mas
daquela a quem ele procurava, e que podia ter morado ali, e cujo espírito parecia ali pairar,
não encontrou o menor vestígio.
Lembrou-se, então, da porteira.
Desceu a correr do quarto mal-assombrado e bateu a uma porta por cuja fenda saía um
pouco de luz. A porteira apareceu. Ele perguntou-lhe, refreando ao máximo a excitação:
— A senhora pode-me dizer quem ocupou o meu quarto antes de mim?
— Sim, senhor. Posso-lhe dizer mais uma vez. Foram Sprowls e Mooney, como já disse.
Srta. B’retta Sprowls era o seu nome de guerra, porém ela era sinhá Mooney. A minha casa é
bem conhecida como casa de respeito. A certidão de casamento, emoldurada, estava
pendurada num prego acima do...
— Que espécie de mulher era Miss Sprowls — quero dizer, de que aparência?
— Bem, uma senhora de cabelos pretos pequena e gorda, com uma cara cômica. Eles
saíram há uma semana, na terça-feira.
— E antes deles?
— Bem, antes foi um senhor só que trabalhava nos transportes. Saiu devendo uma semana.
Antes dele foi sinhá Crowder e seus dois filhos, que ficaram quatro meses; antes deles, o
velho sr. Doyle, cuja conta era paga pelos filhos. Isto já vai a um ano, como o senhor vê; mais
longe, não me lembro mais.
Ele agradeceu e arrastou-se para o seu quarto. O quarto estava morto. A essência que o
tinha animado fora-se embora. O perfume de resedá partira. Em seu lugar havia outra vez o
velho cheiro cediço de móveis bolorentos, uma atmosfera de armazém.
O refluxo de sua esperança esgotara-lhe a fé. Sentou-se, olhando fixo para a luz amarela e
sibilante do gás. Pouco depois, dirigiu-se à cama e principiou a rasgar os lençóis em pedaços.
Com a lâmina do canivete fincou-os em todas as frinchas à volta das janelas e da porta.
Quando tudo estava bem fechado, apagou a luz, novamente abriu o gás e deitou-se na cama,
agradecido.
Aquela noite era a vez de a sra. McCool ir buscar cerveja com a caneca. Foi, e veio sentar-se
ao lado da sra. Purdy num desses retiros subterrâneos onde as porteiras costumam reunir-se
e onde o remorso raramente morre.
— Esta tarde aluguei o quarto do fundo do terceiro a um rapaz — disse a sra. Purdy
através de um leve círculo de espuma. — Ele foi deitar-se há duas horas.
— Alugou mesmo? — perguntou a sra. McCool com intensa admiração. — A senhora é um
assombro, para alugar quartos como este. Será que disse a ele? — concluiu num cochicho
rouco, cheio de mistério.
— A gente mobília os quartos é para alugá-los — afirmou a sra. Purdy em seu tom mais
forrado. — Eu não lhe disse nada, sra. McCool.
— A senhora tem razão. A gente vive é de alugar quartos. A senhora tem mesmo o senso
do negócio. Há muita gente por aí que recusa um quarto se lhe dizem que um suicida morreu
na cama.
— Como diz a senhora, a gente tem de cuidar da vida — observou a sra. Purdy.
— Ora se tem! Faz hoje exatamente uma semana que a ajudei a arrumar o quarto de fundo
do terceiro. Que bonita moça aquela que se matou com gás! Tinha um lindo rostinho, não é,
sra. Purdy?
— Poderia dizer-se que ela era bonita — observou a sra. Purdy concordando, mas não sem
reservas — se não fosse aquela mancha que tinha perto da sobrancelha esquerda. Encha o
copo mais uma vez, sra. McCool.
RAFAEL BARRETT

Figura estranha e misteriosa a deste escritor espanhol (1877-1910) desconhecido dos


historiadores da literatura. Seu nome não vem no Diccionario de literatura española da Revista
de Occidente, nem no Ensayo de um Diccionario de la literatura, de F.C. Sainz de Robles,
ambas obras novas, amplas e bem documentadas. A gigantesca Enciclopedia universal
ilustrada da Espasa Calpe consagra-lhe, num cantinho do Apêndice, umas linhas incertas,
fazendo-o morrer em 1924 em vez de 1910, e dando-o como escritor uruguaio (mas em vão o
procuraríamos no Diccionario uruguayo de biografías, 1810-1940, de José Fernández
Saldaña). A edição argentina de suas obras completas, 119 que deixa muito a desejar, não lhe
traz a biografia; apenas uns testemunhos de pessoas que o conheceram nalguma das fases
agitadas de sua vida breve, ou mal o entreviram em algum de seus grandes momentos febris.
Respigando com cuidado nesses depoimentos, verifica-se que nada se sabe acerca de sua
origem, seus pais, seus estudos. Consta, apenas, que fez parte da alegre mocidade da Madri
do fim do século, levando vida folgada e boêmia, até o dia em que, por haver açoitado
publicamente um aristocrata de grande prestígio, de cujas calúnias infamantes pretendia
vingar-se, viu-se desqualificado por um tribunal de honra e forçado a desaparecer da Espanha.
Quando, ao cabo de algum tempo, emerge na América do Sul, é outro homem; apóstolo e
agitador de ideias meio socialistas, meio anarquistas, colabora nos jornais de vários países,
sobretudo La Razón, de Montevidéu. As moralidades atuais, que ali publicou anonimamente,
granjearam-lhe renome e a amizade de José Enrique Rodó. Não parou, contudo, no Uruguai:
foi à Argentina, de onde o expulsaram em consequência dos artigos da série intitulada “O
terror argentino”; foi ao Paraguai, onde se casou e de onde o proscreveram por causa de
outros artigos, que formam os volumes A dor paraguaia e O que são os ervais. Ignoram-se as
outras vicissitudes de sua existência atribulada. Sabemos apenas que em toda essa fase sul-
americana o antigo membro da alta-roda madrilena lutou com sérias dificuldades financeiras,
sustentando-se unicamente com os parcos proventos de sua profissão de jornalista. Era um
homem puro, idealista obstinado. Passou os últimos anos da vida tuberculoso e morreu moço
na França, aonde fora, graças ao auxílio de Rodó e outros amigos, à busca de saúde.
Na obra de Barrett figura um volume de Contos breves, com o subtítulo Do natural. São
relatos de poucas páginas, intencionalmente brutais e cruéis de um pathos sombrio e por
vezes demasiado retórico, mas, ainda assim, de inegável força dramática.
A MÃE
Longa noite de inverno. E a mulher gritava sem parar, retorcendo o corpo magro, mordendo os
lençóis sujos. Uma velha, vizinha sua na pequena água-furtada, teimava em fazê-la engolir
alguns tragos de um vinho espesso e azul. A chama da lâmpada morria lentamente.
O papel das paredes, apodrecido pela água, descolava-se em grandes farrapos, oscilantes
à aragem noturna. Ao pé da janela dormia a máquina de costura, com o trabalho ainda preso
entre os dentes. Extinguiu-se o lume, e a mulher, sob os dedos trêmulos da velha, continuou
gritando na sombra.
Deu à luz pela madrugada. Agora sentia-se invadida por estranho e profundo bem-estar. As
lágrimas caíam-lhe dos olhos entrecerrados. Estava sozinha com o filho. Porque aquele
embrulhozinho de carne tenra e cálida, colado à sua pele, era seu filho...
Amanhecia. Um clarão lívido veio manchar a miserável habitação. Lá fora, a tristeza do
vento e da chuva. A mulher olhou para o menino, que lançava o seu gemido novo e abria e
aproximava a boca, a boca vermelha, larga ventosa sedenta de vida e dor. E então a mãe
sentiu uma imensa ternura subir-lhe à garganta. Em vez de dar o seio ao filho, deu-lhe as
mãos, suas descarnadas mãos de operária; agarrou o pescoço frágil e apertou. Apertou
generosamente, amorosamente, implacavelmente. Apertou até o fim.

A CARTEIRA
O homem entrou, lastimável. Trazia o chapéu numa das mãos e a carteira na outra. O senhor,
sem se levantar da mesa, exclamou vivamente:
— Ah! é a minha carteira. Onde a encontrou?
— Na esquina da rua Sarandi. Junto da calçada.
E, com um gesto ao mesmo tempo satisfeito e servil, entregou o objeto.
— Leu o meu endereço nos cartões de visita, não é?
— Sim, senhor. Veja se falta alguma coisa...
O senhor revistou minuciosamente os papéis. As marcas dos dedos sujos o irritaram: —
“Como é que você amarrotou tudo!” Depois, com indiferença, contou o dinheiro: 1.230; sim,
não faltava nada.
Entretanto o desgraçado, em pé, olhava os móveis, as cortinas... Que luxo! Que eram os
1.200 pesos na carteira ao pé daqueles finos mármores que erguiam sua imóvel graça
luminosa, daqueles bronzes encrespados e densos que reluziam na penumbra dos tapetes? O
favor prestado decrescia. E o trabalhador fatigado considerava que ele e a sua honradez
valiam pouco ali naquela sala. Aquelas frágeis estátuas não lhe transmitiam uma impressão de
arte, mas de força. E confiava que fosse, então, uma força amiga. Lá fora chovia, fazia frio,
estava escuro. E dentro a chama da enorme lareira espalhava um doce e hospitaleiro calor. O
servo que vivia numa toca e muitas vezes passara fome acabava de prestar um serviço ao
dono de tantos tesouros... mas os sapatos rotos e enlameados manchavam a alcatifa.
— Que é que está esperando? — perguntou o senhor, impaciente.
O operário empalideceu.
— A gorjeta, não é verdade?
— Senhor, minha mulher está doente. Dê-me o que quiser.
— Você é honrado pela gorjeta, como os demais. Uns pedem o céu, e você o que pede?
Cinquenta pesos, ou antes, a quebra, os duzentos e trinta?
— Eu...
— Quanto lhe devo ceder do meu dinheiro? Cinco por cento, dez? Devo-lhe alguma coisa?
Responda! Que parte de sua fortuna devem os ricos aos pobres? Nunca fez a si mesmo essa
pergunta? Se lhe devo alguma coisa, por que não o tomou? Fale!
— O senhor não me deve nada...
— E, no entanto, você esperava um pedaço de pão, um osso para roer. Não: você é um
herói; ama a miséria, despreza o dinheiro. Os heróis não mendigam gorjetas. Belo herói, que
não se atreve a fitar-me de frente nem a sentar-se diante do viciado! Eu adoro os vícios;
comer calhandras, importadas da Europa, trufas, foie gras, beber Sauternes, Pommardi e
Mumm — compreende? — adoro entreabrir as mais deliciosas coxas de mulher com que você
nunca sonhou, e pendurar nas paredes do meu quarto pinturas que valem o resto da casa. Eu
não minto como você; digo claramente o que me agrada, o que conquistei. E não o conquistei
devolvendo carteiras e pedindo esmolas.
O senhor se divertia excessivamente. O operário pôs-se a tremer.
— O honrado espera a gorjeta. Espera-a da minha bondade, isto é, da minha covardia. Eu
não sou daqueles que soltam cem pesos para se consolarem de ter um milhão. Não lhe darei
nem um centavo. Honrado, você? É desprezível e perverso. Honrado, você, que teve na mão a
saúde de sua mulher, a alegria de seus filhos, e veio entregá-las a mim?
O operário viu nos olhos azuis do senhor algo glacial e triste: a verdade; e continuou a
tremer. O senhor tirou as cédulas da carteira e atirou-as ao fogo. Arderam, e de repente o
operário ardeu também. Agarrou o capitalista pelo pescoço e tratou de atirá-lo ao chão para
pisá-lo. Mas não o conseguiu: o inimigo estava bem-alimentado e fazia muita esgrima no clube;
o infeliz intruso foi dominado e suspenso no ar, escorraçado do aposento, precipitado de
escadas abaixo, jogado à rua, onde chovia, onde fazia frio e caía a noite...
E o senhor sorriu, pensando que por alguns minutos convertera um escravo abjeto em
homem, ele que estava tão habituado ao fenômeno oposto.
COELHO NETO

Um volume de suas obras editadas no Porto por Lello & Irmão traz a relação das obras de
Coelho Neto (1864-1934) publicadas por essa casa até 1928: são 102 volumes, sem contar
mais cinco que se achavam no prelo! Pois esta lista enorme não esgota a atividade inteira do
escritor, a qual, segundo depoimento de seu filho, Paulo Coelho Neto, engloba 120 livros,
repartidos por trinta gêneros, divulgados em 12 idiomas.120
Tais números fazem supor que Coelho Neto desfrutava popularidade extraordinária. E, em
verdade, foi escritor dos mais prestigiosos da época, eleito e reeleito príncipe dos prosadores
brasileiros, alvo de muitas homenagens e honrarias, acadêmico. Chegou a presidir a Academia
e a ser por ela indicado ao prêmio Nobel.
Mas nem por isso se julgue lhe tenha sido fácil a vida. Nascido em Caxias (Maranhão), filho
dum negociante português e duma índia, aos seis anos se mudou com a família para o Rio de
Janeiro. Fez parte de seus estudos secundários no Colégio Pedro II. Dos superiores, não
concluiu nem o de Medicina, no Rio, nem o de Direito, em São Paulo, onde abraçou o
jornalismo e se envolveu intensamente na campanha abolicionista. Sem deixar a imprensa, foi
professor e deputado em três legislaturas. Dos 14 filhos que teve, sete morreram crianças; o
que o magoou mais fundo foi a perda dum filho aos 24 anos, perda que o levou a escrever o
Mano.
Sua vasta popularidade parece explicar-se pela completa identificação com os gostos de
uma época que, sob o aspecto literário, não eram os melhores. Sentimental à procura de
emoções fáceis, encantado com a sonoridade das palavras, o empolado e brilhante do fraseio,
acessível ao mórbido e ao patético, o público reconhecia em Coelho Neto essas
características como outras tantas qualidades. Mas, com a mudança da moda, a admiração
dos leitores pegou a decrescer. O fenômeno tornou-se patente a começar de 1922, quando o
movimento modernista descobriu no escritor o alvo preferido de seus ataques.
Sílvio Romero o elogia por ter “feição própria na imaginativa, na facilidade de escrever, na
abundância do vocabulário, no colorido das tintas”;121 os novos, porém, preferiam repetir a
dura frase de José Veríssimo: “Uma complicação toda literária, sem nenhuma ou quase
nenhuma complexidade intelectual.”122 Daí se chegou a uma negação total da obra do autor tão
festejado. Mas, com o tempo, surgiu uma visão mais equilibrada, cujo representante principal
foi Brito Broca. “Em suma, dando-se um balanço na obra do romancista, submetendo-a, com
certo rigor, a um crivo eliminatório — escreve ele — o que resta é o bastante para lhe garantir
um lugar de relevo no ficcionismo brasileiro.”123 Nesse resto o crítico arrola os romances A
conquista, Miragem, O morto (que interessam sobretudo pelo que têm de documentário no
tocante à Abolição, à Proclamação da República, à Revolta da Esquadra), e a narrativa
psicológica Turbilhão, além de O rei negro, relato brutal da vingança de um escravo no filho do
patrão que lhe seduziu a noiva, e alguns contos, em especial “Os pombos”, “Firmo, o vaqueiro”
e “Os velhos”, páginas em que não deixamos de sentir “o encanto de uma visão feérica do
nosso sertão”.124 Selecionamos o primeiro, característico da maneira do autor pela escolha do
ambiente e do assunto, pelo pathos doentio, pela plasticidade do estilo. Nem falta nele um dos
motivos dolorosos mais frequentes na ficção netiana: a perda de um filho e o desespero dos
pais.125

OS POMBOS
Quando Joana apareceu à porta bocejando, fatigada da longa noite passada em claro, à
cabeceira do filho, Tibúrcio, de pé no terreiro, firmado à enxada, olhava o pombal alvoroçado.
O Sol começava a subir dourando as folhas úmidas; à beira do córrego esvoaçavam rolas e
os sanhaços faziam alegre algazarra nos ramos altos das árvores das cercanias.
O caboclo, imóvel, não tirava os olhos do pombal que ficava à sombra de copada
mangueira. Por vezes franzia a fronte queimada acusando a luta íntima, graves preocupações
que lhe trabalhavam o espírito. Um pombo abalava, outro, logo outro — ele voltava a cabeça,
seguia-os até perdê-los de vista e tornava à contemplação melancólica.
As aves iam e vinham, entravam, saíam agitadas, arrulhando alto; esvoaçavam em redor da
habitação, pousavam nas árvores, no sapê da cabana, baixavam a terra inquietas, fazendo
roda, arrufadas.
Algumas pareciam orientar-se buscando rumo — alongavam os olhos pelo claro espaço,
aprofundando a vista nos horizontes remotos; outras voavam, descreviam grandes voltas e
regressavam ao pombal. Juntavam-se em rebuliço turturinando, como se discutissem,
combinassem a abalada.
Algumas, indecisas, abriam as asas ameaçando o voo, mas logo as fechavam; outras
arrojavam-se, mas retrocediam sem ânimo e o rumor crescia, na atropelada excitação da faina
da partida.
O caboclo não se arredava, olhando. Ele bem sabia que era a vida de seu filho que ali
estava em jogo, pendente da resolução das aves. “Quando os pombos desertam, a desgraça
vem logo.”
Vendo-o, Joana perguntou:
— Que é?
O caboclo coçou a cabeça sem responder. Ela insistiu:
— Que é, Tibúrcio?
— A mode que os pombo ’tão arribando, Joana.
A cabocla sorriu tristemente:
— Uai — só agora é qu’ocê’tá dando por isso? Desde que ele caiu de cama. Eu não quis
falar, mas bem que eu ’tava vendo.
O caboclo pôs a enxada ao ombro e foi-se lentamente a caminho da roça, por entre o
capim molhado que exalava um cheiro picante.
Galinhas cacarejavam ocultas nas ervas altas e um fio d’água, que derivava fino e suave,
lampejava aqui, ali, nas abertas do mato. Tibúrcio, sempre de cabeça baixa, enxada ao ombro,
seguia impressionado com a repentina migração das aves.
Era o anúncio fatal. Ele bem ouvira a coruja noites e noites seguidas; não fizera caso —
tudo ia bem: o pequeno com saúde, eles sempre robustos. Mas ali estava a confirmação do
aviso — a fuga dos pombos; todos criados por ele, lá iam, abandonavam-no pressentindo a
chegada da morte.
Voltou-se, levantou o olhar — as aves esvoaçavam descrevendo círculos e Joana lá estava
na soleira da cabana, encostada ao umbral, braços cruzados, a cabeça pendida, decerto
chorando, coitada!
Revoltou-se com uma surda explosão de ódio contra as aves ingratas. Nunca tivera
coragem de matar uma só e vivia sempre a consertar o pombal, mais uma coisa, mais outra,
pensando em aumentá-lo para novos casais. E o filho? Não era ele quem pilhava o milho para
os borrachos? quem sempre andava pela mangueira, de ramo em ramo, a ver se havia alguma
fenda no pombal por onde a chuva penetrasse? Quem sabe se era porque não o viam que os
pombos abandonavam a casa?
Encolheu o ombro e seguiu, mato dentro. Ao atravessar a estiva, o coração bateu-lhe com
força, na emoção dum presságio. Parou. A água rebalsada refletia-o imóvel e ele olhava sem
ver a sua imagem, pensando no pequeno que delirava, ardendo em febre.
Enveredou pela roça. O milharal apendoado era tão alto que o homem desaparecia
seguindo os carreiros cobertos de folhas secas. Pomas de terra fofa encobriam formigueiros
que ele sempre arrasava nos dias tranquilos. Nem deu por elas. Seguia. Papagaios fugiam
chalrando, com as verdes asas luzindo ao Sol; gafanhotos enormes saltavam nas folhas. Por
vezes um calango rastejava ligeiro.
Havia um ranchinho de palha — era ali que o filho costumava ficar arranjando suas
arapucas; ainda lá estava um feixe de taquaras, mas a erva começava a invadir o abrigo
abandonado... também ia já para um mês que o pequeno ali não aparecia. Quando chegou ao
mandiocal, sentou-se alquebrado — a enxada pesava-lhe ao ombro como uma carga, as
pernas afrouxavam, todo o corpo ressentia-se de fadiga como se ele chegasse de estirada
viagem. Sentou-se num cômoro e pôs-se a riscar a terra com um graveto, pensando.
Às vezes parecia-lhe ouvir a voz da mulher ecoando; levantava a cabeça e, atento,
sobressaltado, ficava à escuta. Só ouvia o crepitar das folhas balançadas pela viração e o zizio
dos insetos ao Sol. A terra transpirava, um vapor diáfano subia tremulamente do solo
aquecido, as folhas pendiam lânguidas e no céu, dum azul intenso, passavam urubus
vagarosos demandando as malhadas longínquas.
De repente um pombo atravessou os ares, outro, outro logo depois. Tibúrcio pôs-se de pé
olhando — lá iam eles, lá iam! Asas estalaram — eram outros. Aqueles não tornariam mais,
nunca mais! fugiam espavoridos, sentindo a morte que devia vir perto.
Lançou um olhar largo em volta e só viu a verdura farta ondulando à brisa, sob a claridade
cálida. Devia ter levado o filho à vila logo que ele caiu doente; mas quem podia contar com
aquilo? De repente um febrão, delírio... Que fazer? Levantou os olhos para o céu e ficou
contemplando o azul luminoso. Mais um pombo passou. Meneou a cabeça desanimado e,
atirando um murro à coxa, pôs a enxada ao ombro e deu volta tornando a casa. Quando Joana
o descobriu no terreiro, como se adivinhasse o seu pensamento, disse:
— Foi mesmo melhor você voltar, meu velho. Eu aqui sozinha nem sei que hei de fazer.
Ele olhou o pombal — estava deserto, em silêncio.
Ao cair da tarde sentou-se no limiar da cabana e, fumando, ficou à espera dos pombos. As
cigarras cantavam, todos os pássaros, que tinham os seus ninhos nas árvores próximas,
recolhiam e, como ainda havia luz, deixavam-se ficar nos ramos desferindo os últimos galreios.
O céu empalidecia, nublava-se de leve o fundo campo triste. A aragem da tarde espalhava
o suave aroma das açucenas que abriam. Perto um cão ladrava, a espaços; por vezes um
lento mugido entristecia o silêncio. Tibúrcio não tirava os olhos do pombal senão para os
alongar pelo espaço, procurando descobrir uma das aves. Talvez tornassem.
Onde achariam elas melhor abrigo? A floresta era arriscada e pombos de casa não fazem
vida no mato. Que outro pombal os teria atraído? Se ele houvesse seguido a direção do voo...
Alguns tinham tomado para os lados dos campos, outros haviam endireitado para a serra. E
não voltavam.
Começava a escurecer. Joana acendeu a candeia. Já os sapos coaxavam nos aguaçais.
Uma estrela luziu no céu. Tibúrcio fitou nela os olhos e pôs-se a rezar baixinho. O silêncio era
apenas interrompido pelo burburinho d’água do córrego que rolava perto, nos fundos da
cabana, saltando, escachoando em pedrouços. Tibúrcio suspirou e ergueu-se, encostou-se ao
umbral sem ânimo de entrar. Joana chegou-se à porta.
— Então?...
— No mesmo... Agora nem água. Qual!
Ele desceu o degrau de madeira, chamou-a e caminharam vagarosamente no terreiro que
começava a clarear. Junto à mangueira, justamente sob o pombal, pararam e o caboclo,
baixinho, como se receasse ser ouvido pelo filho, perguntou:
— Joana, você não sabe reza nenhuma para isso?
E mostrou o pombal deserto.
— Nhá Lina é que sabe.
— E chama?
— Diz que sim.
Tibúrcio ficou a pensar. Súbito, levantando resolutamente a cabeça, disse em voz firme:
— Eu vou lá.
— Agora?
— Então... Você não diz que chama?
— Eu nunca vi, Tibúrcio. Dizem.
— Você não quer.
— Eu? eu não. Só o que acho é que é muito tarde. Você já viu como ele está? não dá
acordo de nada. Eu ando, falo, viro e mexo no quarto e ele... nem como coisa. Ali só Deus!
A voz ia-se-lhe travando na garganta; de repente desatou a chorar. Tibúrcio afastou-se,
pôs-se a andar vagamente no terreiro. A Lua subia, os campos alvejavam e as sombras das
árvores, muito negras, tisnavam a claridade.
— Tem paciência, minha velha. A gente fez tudo.
Os grilos cantavam estrídulos; um caburé passou com um grito rascante. O caboclo
murmurou: “Já sei.” De repente Joana estremeceu, voltou-se hirta para a cabana, por cuja
porta escancarada saía ao terreiro um raio de luz lívida e, depois de olhar um momento, como
assombrada, partiu de arranco.
Tibúrcio, imóvel, sem compreender o que fizera a mulher, esperava vê-la reaparecer
tranquila quando um grito lancinante atravessou o silêncio. O caboclo arrojou-se para a
cabana, foi direto ao quarto que uma lamparina alumiava: a mulher, de joelhos junto ao catre,
debruçada sobre o filho, soluçava desesperadamente.
— Que é, Joana?
Ela rouquejou atirando os braços sobre o corpo da criança.
— Acabou! Vê...
Ele inclinou-se: o seu rosto roçou por uma face que ardia, a sua mão trêmula pôs-se a
apalpar um corpo abrasado, sentindo o peito magro ripado pelas costelas, o ventre fundo.
— Vê o coração, Tibúrcio.
Ele apenas disse:
— Acabou.
A mulher ergueu-se de ímpeto, desfigurada, com os cabelos desgrenhados, os olhos
flamejantes; quis falar, estendeu os braços para o marido, mas caiu molemente numa canastra
e, dobrando-se toda, rompeu a chorar, redizendo o nome do filho com a ternura a coar-se
pelos soluços:
— Meu Luís! Meu Luisinho! Tão vivo, minha Nossa Senhora!
Tibúrcio afastou-se e, na sala, diante da mesa em que jazia a candeia, parou com o olhar
perdido, os lábios trêmulos e as lágrimas rolando em grossas gotas ao longo da face ossuda.
Joana rompeu do quarto cambaleando como ébria e, vendo-o, atirou-se-lhe nos braços; ele
amparou-a sem dizer palavra e, abraçados, ficaram largo tempo de pé na estreita sala
obscura onde os grilos cantavam.
Joana tornou para o quarto. Tibúrcio ficou encostado à mesa, de olhos fitos na luz da
candeia, que oscilava com o vento. O luar entrava alvo, caleando as paredes. Ele moveu-se
com arrancado suspiro, foi até a porta, sentou-se na soleira, acendeu o cachimbo e quedou-se
olhando o campo iluminado. De repente pareceu-lhe ouvir arrulhos — levantou a cabeça,
olhando. As estrelas cintilavam na altura, a copa das árvores reluzia ao luar. Seria ilusão?
Encolheu-se e, imóvel, atento, ficou à escuta: os arrulhos continuavam. Ergueu-se
impetuosamente e caminhou direto ao pombal, colando-se ao tronco da mangueira. Seriam os
pombos que voltavam depois da passagem da Morte? Respondendo à sua ideia, pôs-se a
resmungar enfurecido:
— Agora é tarde! Agora é tarde, malditos!
Um ruflo d’asas, turturinos meigos, pios partiram do pombal. Não havia dúvida. O rosto
contraiu-se-lhe em ríctus. Adiantou-se e, do meio do terreiro, olhou o pombal, caminhando
resolutamente para a cabana.
Joana soluçava. Ele apanhou a candeia, dirigiu-se à cozinha e, vendo o machado a um
canto, tomou-o, sempre resmungando. Voltou ao terreiro e, sob a mangueira, arregaçando as
mangas da camisa grossa, brandiu o machado.
Ao primeiro golpe no poste que sustentava o pombal as aves calaram-se. Tibúrcio
redobrava de esforço, arquejando. A um estalo seco afastou-se, mas a construção continuava
de pé, resistindo. Encostou o machado ao tronco e, agarrando-se aos galos, guindou-se, foi
marinhando pela árvore acima, e, firmando-se numa forquilha, atirou um pontapé à grande
caixa que rapidamente pendeu, ruiu, com estrondo no terreiro.
Dois pombos voaram assustados, estonteados, incertos na claridade noturna, e pousaram
no teto da palhoça.
O caboclo escorregou ligeiro pelo tronco e viu dois pequenos corpos que piavam,
oscilavam, arrastavam-se — eram dois borrachos. Agachou-se, tomou-os nas mãos, pôs-se a
mirá-los: eram hediondos, ainda implumes, tendo apenas uma leve penugem sobre as nervuras
do corpo engelhado e mole. O caboclo virando-os, revirando-os nas mãos encoscoradas,
sentia-lhes os ossos frágeis, e os animais debatiam-se movendo o coto das asas, esticavam o
pescoço, piavam.
Rilhando os dentes, foi-os espremendo, esmagando — os ossos tenros estalavam como
gravetos, o sangue espirrou, escorreu-lhe por entre os grossos dedos, pelos punhos.
Em ímpeto de fúria arremessou-os ao chão, eles bateram fofos como frutos podres que se
esborrachassem e o caboclo espezinhou-os com rugidos surdos. Os pais arrulhavam aflitos na
palha da cabana, indo e vindo.
Joana, abraçada ao filho, soluçava quando Tibúrcio entrou no quarto. Quedou diante do
catre, a olhar. Subitamente a mulher estremeceu e, levantando-se de salto, agarrou o braço do
marido, os olhos muito abertos, a boca em hiato, a cabeça inclinada como a ouvir vozes,
rumores longínquos.
— Que é, Joana? Que é qu’ocê tem?
Ela murmurou apavorada:
— Os pombos, meu velho. Ocê não tá ouvindo?
Eram os arrulhos tristes que vinham de cima da casa.
— Estão voltando. Quem sabe?! ele ainda está quente...
E havia uma esperança imensa no coração dolorido da cabocla. Tibúrcio encolheu os
ombros:
— É choro deles. Estão chorando como nós. É um casal que ficou por causa dos filhos. Eu
derrubei o pombal, matei os borrachos. Olha — e mostrou as mãos ensanguentadas. Eles
voaram, estão em cima da casa. Você quer ver?
Foi saindo; ela acompanhou-o. Desceram ao terreiro. Tibúrcio mostrou o pombal tombado,
depois apanhou os esmagados corpos dos borrachos.
— Olha aqui...
Joana olhava sem dizer palavra. Cessara de chorar, espantada, mirando o marido cujos
olhos acesos fulguravam. Ele derreou o busto e atirou o primeiro borracho ao sapé, rugindo: “É
bom?!”; atirou o segundo: “É bom?!” Os pombos abalaram espavoridos, perderam-se nas
galhadas negras. “É bom?!” Joana não tirava os olhos do marido, muda, aterrada, vendo-o
chorar aos arrancos, a olhar as mãos espalmadas, tintas de sangue.
— Vamos, meu velho. Foi a vontade de Deus. Está no Céu.
E vagarosamente o foi levando.
Entraram e, diante do catre em que jazia o filho morto, as lágrimas romperam dos olhos de
ambos e sobre o teto da palhoça os pombos, que haviam tornado, arrulhavam doridamente.
FERENC MOLNÁR

Representante típico desse espírito de Budapeste que ele mesmo ajudou a cristalizar, Ferenc
Molnár estreou com A cidade faminta, romance de que a própria capital é protagonista. Um
budapestense torna-se, pelo casamento com uma milionária americana, dono de fabulosa
fortuna. (O assunto, mais de cinquenta anos depois, foi retomado por outro autor e deu o best-
seller internacional Aventura em Budapeste, de Ferenc Körmendi.) Observador agudo e
malicioso, mas não isento de sentimentalismo e ternura, Molnár manteve essas características
noutros romances, cujo cenário (um cenário ativo, se podemos dizer) é sempre a sua cidade
natal: História de um barco sem dono, drama de uma adolescente desenvolvido na feérica Ilha
Margarida; André, biografia de um moço de Budapeste que afunda numa paixão fatal,
enquanto a parceira só procurava passatempo e aventura; e o melhor de todos, o imortal livro
juvenil Os meninos da rua Paulo,126 descrição épica das lutas de dois grupos de crianças por
um terreno baldio, onde brincam.
Em seus volumes de contos (Crianças, O gigante, Pequeno tríptico) mostra, ainda, de
preferência, quadros e episódios de Budapeste; neles, tipos colhidos ao natural travam
diálogos reproduzidos com alucinante exatidão.
Vários desses tipos e cenas reclamam dramatização, de tão teatrais. Foi esta a sorte do
conto seguinte,127 germe do drama mundialmente famoso Líliom, vida e morte de um
malandro (Lenda de Arrabalde), que, depois de conquistar as melhores plateias do Velho e
Novo Mundo, passou ao cinema numa adaptação igualmente vitoriosa e teve uma reprise
triunfal num dos teatros de Nova Iorque, sob o título de Carrossel.
Outras peças do dramaturgo — O Diabo, O lobo, O cisne (este último filmado há anos com
Grace Kelly) — tiveram êxito não menos retumbante. Todo um grupo ( O guarda
imperial, Prelúdio a “Rei Lear”, Farsa no castelo) tem como personagens atores e versa
sobre a natureza do teatro e da ilusão por ele criada, lembrando certos dramas de Pirandello
(menos a profundeza metafísica). Em todas se apresenta Molnár como mestre de técnica da
cena e do diálogo, vivaz, divertido, cintilante; quase sempre suscita risos e lágrimas ao mesmo
tempo, resolvendo a tensão, mais de uma vez fortíssima, por um tranquilizador happy ending.
Desviado, pelos próprios êxitos, dos problemas palpitantes da época, Molnár preferiu ser um
divertidor, quando poderia ter sido um crítico. É verdade, porém, que diverte com muito
espírito e comove sem perturbar.
Homem de intensa vida social, um dos festejados donos da vida da Budapeste do começo
do século, aplaudido em todas as capitais da Europa, Molnár decerto não teria imaginado o
fim de sua existência, tão diferente do meio. Fugindo ao nazismo, estabeleceu-se em Nova
Iorque, onde passou os últimos anos de sua vida num isolamento quase completo, entregue às
suas reminiscências, que relatou nalguns livros comoventes (mas bem inferiores pela falta de
verve e de arte), e trabalhando num grande drama (que não pôde acabar) sobre a vida de
Jesus. Talvez nele tivesse dado o que os aplausos do público nunca lhe deixaram tempo para
transmitir: a mensagem que este conto, o romance Os meninos da rua Paulo e mais algumas
páginas de sua estreia faziam prever.128

CONTO DE NINAR
(Este é um conto para viúvas adormecerem os filhinhos e também para os bons filhos
adormecerem os velhos pais cansados. Deve ser narrado sem pausas, continuamente, a
princípio com vivacidade, como se fosse coisa verdadeira, depois cada vez mais baixinho e
mais devagar, para que, ao chegar-se ao fim, a pessoa a quem o narrem esteja dormindo.)

I
Numa barraca do Parque de Diversões havia um homem esquisito. Chamava-se Závoczki.
Esse Závoczki era um malandro de marca maior, ofendia todo o mundo, batia em muita gente,
a algumas pessoas até feria à faca, roubava, pilhava, trapaceava, mas nem por isso deixava
de ser um ótimo rapaz, a quem a mulher amava muito. Era esta uma empregadinha que até os
17 anos servira numa casa judia quando, no Parque, num domingo de folga, conheceu
Závoczki, que usava calça de duas cores, sendo uma das pernas amarela e a outra vermelha.
Závoczki trazia nos cabelos uma pena de pinto, atada por um barbante, cuja extremidade lhe
chegava ao bolso. Závoczki puxava o barbante, e a pena de pinto começava a mexer-se na
cabeça. Riam todos a valer, e as criadas mais bonitinhas tomavam o carrossel em que
Závoczki fazia essa brincadeira. Foi lá que a empregadinha conheceu Závoczki, com quem
passou o dia inteiro, e, embora tivesse que voltar para casa até às 10 da noite, não voltou nem
sequer às 11: permaneceu no Parque toda a noite, e no dia seguinte já não teve coragem de
voltar. Daí em diante ficou com o rapaz da pena de pinto, nunca mais se empregou, e mostrou-
se tão boa e tão meiga, e era uma empregadinha tão bonitinha, que Závoczki a levou para o
cartório e casou com ela.
Pois esse rapaz era o pior velhaco de todo o Parque. Ora fazia de pelotiqueiro diante de
alguma barraca; ora passava meses a jogar cartas, enganando parceiros. Praticado algum
roubo, não trabalhava enquanto lhe sobrava dinheiro. Às vezes o trancafiavam por alguns dias
no xadrez. Então a mulher passava dia e noite chorando, e, posto soubesse que o marido não
podia sair da cadeia, preparava-lhe a cama para poder pensar que ele retornaria dentro em
pouco. Závoczki, por sua vez, continuava impertinente, mesmo na prisão, e por isso o metiam
numa solitária. Nessas ocasiões a coitadinha chorava muito e dizia: — “Como sou infeliz! Como
sou desgraçada!”
Faltava dinheiro em casa e Závoczki ficava envergonhado com a falta de dinheiro. Doía-lhe
o coração ao ver a linda criadinha de rosto branco jantar apenas côdea de pão, mas, para que
a mulher não o percebesse, gritava-lhe com maus modos:
— Não há dinheiro que chegue para você, mulher de uma figa!
Então a de rosto branco encarava-o triste e quase chorava. Závoczki erguia o punho:
— Não chore, senão lhe quebro a cara!
Saía, fechava a porta com estrondo, escondia-se no quintal e levava a noite chorando
amargamente. Mas a de rosto branco não se atrevia a chorar nem sequer quando sozinha,
porque o da pena de pinto lhe havia proibido chorar e porque as mulheres sabem reprimir o
choro. Pois é. Durante o dia os dois pensavam um no outro, porém Závoczki não dizia uma
palavra a esse respeito; apenas dava uma surra no porteiro ou esfaqueava, pelas costas,
algum guarda, e depois azulava. Era homem de rompantes, um malandro definitivamente
perdido, bom para a forca desde muito tempo.
Um sábado de chuva, Závoczki, sentado à beira dum fosso da Hermina-ut, jogava cartas
com outro malandro. Chovia, a tarde ia caindo, mal se viam as cartas, cujos desenhos
coloridos a chuva, aliás, já tinha lavado. Tudo isso pouco importaria a Závoczki, que conhecia
as cartas pelas costas, mas fez que o outro cavalheiro interrompesse a partida.
— Obrigado, cavalheiro — disse.
E saiu do fosso.
— Isso não é coisa que se faça! — berrou Závaczki. — Não adiantaram nada as minhas
trapaças: você me ganhou todo o dinheiro, os três haci que eu tinha. Vamos continuar!
O outro, porém, alegou que chovia e que estava muito escuro. No dia seguinte estaria
pronto para a desforra. E retirou-se rápido como uma flecha, com os pés nus a patinhar no
lodo.
Então Závoczki pegou da faca de cozinha e foi andando. Andou até além da Francia-ut, lá
onde fica a linha da Real Estrada de Ferro Húngara. Por ali é que costumava passar o sr.
Linzmann, caixa do curtume, que toda noite de sábado levava a féria aos operários. Závoczki
agachou-se junto ao leito da Real Estrada de Ferro Húngara à espera do sr. Linzmann, para
esfaqueá-lo e tomar-lhe o dinheiro. Esperou em vão: o sr. Linzmann já tinha levado o dinheiro e
até já voltara à cidade com a pasta vazia. Závoczki perdera a oportunidade. Por aí se vê o
efeito nefasto do jogo: faz a gente descuidar-se dos negócios mais importantes.
Então Závoczki trepou nos dormentes da Real Estrada de Ferro Húngara. Duas lágrimas lhe
escorreram pelo rosto sujo, empalideceu, sorriu, gritou: — “Zeller Júlia! Zeller Júlia” [era o
nome da mulher], empunhou bem, com as duas mãos, a faca de cozinha, voltou-a contra si
mesmo e enterrou-a no coração. Morreu imediatamente e foi rolar ao pé da linha da Real
Estrada de Ferro Húngara, com um baralho sujo e três peloticas brancas no bolso, a pena de
pinto nos cabelos, e nos lábios o nome da empregadinha mansa: Zeller Júlia! Zeller Júlia!
II
Závoczki foi enterrado na vala comum. O arcebispo de Esztergom não se deu o incômodo de
pronunciar a oração fúnebre. Quem se incomodou foi a mulher, que lá estava numa roupinha
preta que ela mesma fizera durante a noite. Todo o mundo no edifício consolou a Júlia de rosto
branco, dizendo-lhe: — “Deus é grande, livra de seus carrascos as empregadinhas
maltratadas, você ainda é moça, Deus lhe dê descanso, assim é muito melhor. Deus é grande,
você ainda é moça.” Júlia acenava com a cabeça, com os seus olhos tristes dava razão aos
vizinhos, dizia até: — “Obrigada, senhora porteira, a senhora é muito bondosa, sra. Braun,
obrigada, sra. Stufenberger, todas são muito boas comigo, obrigada, sra. Braun.” Chegou a
dizer: — “O senhor tem razão, sr. Comissário: assim é muito melhor. Deus dê paz ao finado.”
Pois Júlia tinha vergonha de confessar ao comissário que sem nenhum motivo especial se
podia gostar de um gatuno como Závoczki, mesmo depois da morte, o que é realmente uma
vergonha. E já no dia seguinte ao do enterro pegou a fazer uma roupinha de criança, pois
esperava um bebê para o mês.
Quanto a Závoczki, puseram-no de tarde na terra gratuita, mas só ficou ali até a noite.
Quem conhece as leis sabe que à porta da delegacia todas as noites aparece um carro verde
para levar ao xadrez os indivíduos que os guardas zelosos recolhem durante o dia. Da mesma
forma, um grande carro verde aparece todas as noites no cemitério para levar os malandros
que se mataram com as próprias mãos. Estes não vão para o Inferno, vão primeiro ao
Purgatório. Lá, examinam-lhes o caso, como foi, o que houve. No fim de tudo, mais de um
acaba sendo encaminhado ao Paraíso.
Pois Závoczki foi também embarcado no carro verde junto com os demais, a grande faca
no coração. Ao lado dele havia um homem molhado: estava molhado por se ter atirado ao
Danúbio. À sua frente, uma mulher com uma corda no pescoço: era uma pobre senhora que se
tinha enforcado. Nos outros não se via nada. Em cada um deles havia umas balinhas que
tinham atirado contra si mesmos. O carro ia sacolejando, enfiou pela Kereszturi-ut, dali virou,
rumo ao xadrez, na noite escura. Assim até o romper da aurora, quando os cavalos
principiaram a correr, depois a galopar desesperadamente. Závoczki espiou por um buraco e
viu o carro descendo, por uma estrada muito larga, a algum vale envolvido em névoa cor-de-
rosa. Agora o carro voava, as rodas andavam no ar, cidades e aldeias passavam, mas tudo
isso já não doía a Závoczki. A faca cravada no coração já o tornava insensível a qualquer dor.
O carro parou. Os ocupantes desceram um após outro, e foram levados pelos guardas a
uma grande repartição. Tinha de esperar na antessala, onde não era permitido fumar; apesar
disso, o ar cheirava a fumaça e muitos cuspiam. Veio um contínuo de óculos, chamou-os um
por um. Por fim, chegou a vez de Závoczki; aproximou-se da mesa de um delegado.
— Como se chama? — perguntou-lhe este, sem tirar os olhos do grande papel em cujas
divisões escrevia.
— Závoczki Endre.
— Idade?
— Trinta e dois.
— Natural de...?
Závoczki não respondeu. O delegado, sem encará-lo, perguntou-lhe:
— Lugar ignorado?
Závoczki acenou com a cabeça. Aí o delegado levantou os olhos:
— O senhor tem o direito de voltar por um dia para ver se esqueceu alguma coisa na Terra.
Quem morre de morte natural, como convém, não volta, pois não deixou nada inacabado. Mas
quem se suicida não morre de causa natural, e às vezes esquece alguma coisa, causando,
com isso, dor a alguém na Terra. Fale.
E encarou-o com severidade, como se costuma encarar os suicidas. Závoczki respondeu:
— Esqueci-me de esperar o meu filho que estava por nascer. Depois me arrependi de não
o ter esperado, pois gostaria de vê-lo; mas agora é tarde. É uma coisa triste, mas eu sou
bicho macho: o que está feito, está feito; prefiro ficar.
Encheu o peito de ar e desafiou o funcionário com um olhar atrevido. Seus olhos cintilavam
como a faca de cozinha que trazia fincada no peito.
— Levem ao xadrez este tratante sem entranhas! — berrou o delegado.
E os guardas pegaram Závoczki e o empurraram para o xadrez, e Závoczki riu deles
durante o caminho todo, e abanou a cabeça dizendo:
— Vocês são uns tiras ordinários, vocês não prestam, seus tiras de uma figa!
Nisto, os guardas deram uns pontapés em Závoczki, enquanto um deles segurava o cabo
da faca para que não lhe caísse do coração.

III
Závoczki passou 16 anos no fogo do Purgatório. É uma grande mentira dizer que o fogo do
Purgatório queima. O fogo do Purgatório não passa de uma luz rósea muito forte, na qual a
gente permanece sentada anos a fio até que se limpe dos pecados. Com o tempo Závoczki se
acostumou com toda aquela luz e teve a impressão de ter-se limpado bastante. Começou a
tecer planos, porque o seu coração se purgara e gostaria de ver o filho, sobre o qual nem
sabia nem se era menino ou menina. Assim, quando, certa vez, o delegado passou pelo fogo
cor-de-rosa e perguntou a todos se não tinham alguma queixa contra os empregados, Závoczki
pediu licença:
— Por favor, sr. Delegado: será que ainda tenho o direito de voltar à Terra por um dia, para
apanhar uma coisa que esqueci?
— Sim, tem direito — disse o delegado com brandura, pois tratam-se com cortesia aqueles
que passaram muito tempo no fogo. — Faça seu pedido.
No dia seguinte, Závoczki foi fazer o pedido. O delegado entregou-lhe um papelzinho pelo
qual lhe concediam 24 horas de licença. Levaram-no à adega, e tiraram-lhe do coração a faca,
em troca da qual lhe deram uma ficha que ele teve de guardar no bolso. E foi-se, andou,
andou, até que chegou à fábrica de juta de Ujpest. Lá, perguntou com bons modos onde
morava a viúva Závoczki, operária da fábrica. Indicaram-lhe o endereço, e ele se dirigiu para
lá.
Residia a mulher numa dessas casinhas de operário que formam grupos de seis, todas
iguais. Era domingo, de manhã, um domingo de sol. Ela continuava a mesma empregadinha de
rosto branco, apenas um pouco envelhecida. Závoczki viu-a, porque ela estava sentada à
janela, cosendo. Havia na janela dois vasos de flores vermelhas muito comuns e uma
cortinazinha, que não o impediam, porém, de ver a mulher. Tinha esta um ar manso e grave.
Závoczki bateu. A porta abriu-se e apareceu na soleira uma menina. Podia ter os seus 16
anos. Imediatamente Závoczki reconheceu nela a sua filha. Severa, a menina perguntou-lhe:
— Que é que o senhor deseja?
Ele cobriu com a mão esquerda o lugar do coração, para que a mocinha não visse o buraco
aberto pela faca no paletó. Agora bem que podia voltar, pois vira a filha. Mas era preciso dizer
alguma coisa: a menina perguntara-lhe o que desejava. Então botou a mão direita no bolso
para tirar as três peloticas com que sabia fazer mágicas tão engraçadas:
— Eu sei fazer uma porção de mágicas...
E fez uma careta para ver a filha rir. Mas a filha não riu. Era severa e grave como a mãe.
— Vá embora — disse-lhe ela.
E ia pegar na maçaneta para fechar a porta na cara daquele mendigo. Tinha a mãozinha
branca, de dedos finos. Nesse momento sentiu Závoczki renascer-lhe toda a cólera que o fogo
levara 16 anos a extinguir. A amargura subiu-lhe que nem um mar crescido, e ele deu uma
pancada na branca mãozinha que ia fechar-lhe a porta na cara para sempre. A menina
encarou-o, voltou a pegar a maçaneta e fechou o portão. A chave rodou na fechadura.
Závoczki ficou do lado de fora. Sua cólera se aplacara, e ele sentiu-se muitíssimo
envergonhado por haver batido na filha. Perplexo, olhou para todos os lados e sentiu uma dor
no coração. Depois virou-se e entrou a caminhar. Ele mesmo não sabia para onde ir. Porém os
mortos, mesmo querendo, não sabem ir para outro lugar senão de novo para a morte.
Era alta a noite quando chegou ao grande edifício de onde saíra. Lá o pessoal já sabia de
tudo. O porteiro acolheu-o com um trejeito. Závoczki baixou a cabeça e, mudo, subiu ao
primeiro andar, onde tinha de apresentar-se. Já o delegado o esperava. Tomaram-lhe a ficha
e, em troca, devolveram-lhe o facão, com um berro:
— Você é mesmo o pior dos patifes. Volta do outro mundo para dar uma surra na filha.
Ele não respondeu uma palavra sequer. Apenas, quando lhe repuseram a faca no coração,
soltou um suspiro muito grande. Pegaram-no, atiraram-no para o Inferno. Assim passou ele do
fogo cor-de-rosa para o fogo vermelho, onde ficará ardendo até o fim dos tempos, uivando de
dor.
Termina aqui a história de Závoczki.
Quanto à filha, voltou para o quarto, a ter com a mãe.
— Foi um mendigo maltrapilho — disse. — Ele me fez uma careta muito feia, e eu quis
fechar-lhe a porta na cara. Nos olhos dele havia um fogo terrível. Os olhos choravam, o rosto
ria. Eu quis fechar o portão na cara dele, mas não vê que ele me dá uma pancada na mão!
Uma pancada grande, que fez barulho.
A mulher olhou para o chão como se procurasse alguma coisa, e perguntou com a voz
trêmula:
— E depois?
— Depois foi-se embora. Mas eu ainda estou tremendo. Ele me deu uma pancada na mão,
mas não doeu. Foi como se alguém me houvesse tocado com ternura. A pancada daquela mão
calosa, grosseira, era como o toque de uns lábios, de um coração.
— Sei — disse a mulher baixinho, e continuou a coser.
E nunca mais falaram naquilo, e viveram até morrer, e o conto acaba aqui. Dorme, filhinha.
ARNOLD BENNETT

Enoch Arnold Bennett (1867-1931), filho de um solicitador, enveredou na profissão do pai, mas
o interesse pelas letras fê-lo dentro em pouco abandonar o cartório. Seguindo o exemplo de
Balzac,129 outro escrevente malogrado, principiou escrevendo obras populares sem valor
literário — romances em folhetins para jornais americanos —, que ele mesmo desprezava,
mas que serviam para assegurar-lhe a independência material, necessária à produção de
obras de mais alta qualidade. Levou muito tempo, no entanto, para alcançar o primeiro grande
êxito: a publicação da História de velhas, em 1908, deu-lhe súbita evidência e conquistou-lhe
vasto público. Desde então publicou um romance após o outro, com regularidade que a certos
críticos parecia algo comercial, incompatível com a noção tradicional de inspiração. Como que
prevendo esta censura, a ela de antemão respondera Bennett num trecho de seu diário,
datado de 1897:
“Não posso conceber um escritor escrevendo, como os Goncourt pretendiam ter escrito,
‘para a posteridade’. Um artista trabalha apenas para satisfazer-se a si mesmo, e não para
obter aplauso e apreço de seus semelhantes vivos ou ainda não nascidos. Para mim, a
imortalidade não vale um caracol. Eu mesmo devo ser meu próprio juiz mais justo e de cuja
sentença não pode haver apelação; e, uma vez contentado esse juiz — certo ou errado, pouco
importa —, estarei satisfeito como artista. Como homem, ficaria aborrecido se não
conseguisse ganhar bastante dinheiro e a estima das pessoas inteligentes.”130
Quando da publicação daquele romance, Bennett vivia em Paris, onde passou dez anos,
havendo desposado uma francesa. Voltou à Inglaterra em 1911, comprou uma boa casa de
campo, que mandou adaptar a seu gosto, um belo iate, e em começos de 1914 estabeleceu-
se em Essex, para levar ali o resto de sua vida numa calma prosperidade. A guerra
transtornou esse plano. Convocado pelo Ministério da Informação — chegou a ser diretor de
uma de suas repartições —, Bennett desempenhou intensa e cansativa atividade durante todo
o tempo do conflito. Alguns atribuem ao esgotamento e ao ceticismo daí resultantes o declínio,
após 1918, de sua atividade literária, devido, segundo outros, à superprodução.
Discípulo dos grandes romancistas franceses, de quem aprendeu quase tudo, menos a
dramaticidade e a intensidade (seus caracteres ficam “tão pequenos como os seres humanos
na vida real, o que, mesmo no romance realista, deve ser considerado uma deficiência, pois
nesse gênero os caracteres de Balzac e Dostoiévski131 têm proporções superiores ao
natural”),132 Bennett contempla a vida com extraordinária capacidade de observação e forte
espírito crítico, aliados a um delicioso sense of humour e uma compreensiva indulgência.
“Sabia rir das fraquezas, por exemplo, dos habitantes das Cinco Cidades, mas o seu riso nada
tinha de cruel.”133
Essas Cinco Cidades — Burslem, Hanley, Stock, Tunstall e Longton — são as de sua terra
natal, o distrito chamado The Potteries, por causa da importante indústria de louças, cenário
de suas melhores obras: os romances História de velhas, Ana das Cinco Cidades, A carta, e
as coletâneas de histórias curtas Contos das Cinco Cidades, O sorriso macabro das Cinco
Cidades e O matador das Cinco Cidades. Nelas descreve admiravelmente a opulenta
burguesia dessa região (a qual, ocupando o centro do país, é em geral considerada, em
conjunto, como típica da Inglaterra), seus hobbies, sua teimosia, suas maneiras pouco
requintadas mas cordiais, sua hospitalidade, seu amor à casa, sua energia de trabalho.
As mesmas personagens voltam, por vezes, em várias dessas narrativas; o casal
Cheswardine e seu amigo Woodruff, por exemplo, figuram em pelo menos quatro contos. A
mais bem-caracterizada das três figuras é a linda Vera, profundamente feminina, fútil e
inconsequente. Para completar-lhe o retrato, Bennett lembrou-se, no conto seguinte, de utilizar
um dos motivos mais antigos da literatura, o problema da consciência, o qual, oriundo dos
ensaios morais de Platão e Cícero, reaparece em muitas obras de ficção dos dois últimos
séculos. O herói vê-se na impossibilidade de executar, pelo simples pensamento, um
assassínio, e de herdar as riquezas do assassinado: como se portará? A questão, formulada
modernamente por Chateaubriand, obteve a forma pitoresca do “dilema do mandarim”134 em O
pai Goriot, de Balzac, e daí se irradiou para diversas literaturas, inspirando obras tão
diferentes quanto O mandarim, de Eça de Queirós, e Crime e castigo, de Dostoiévski.135

O ASSASSINATO DO MANDARIM

I
— Como é que vocês encaram o assassinato? — perguntou a sra. Cheswardine entrando na
grande sala com o lanche numa bandeja.
— Ponha-o aqui — disse o marido, referindo-se ao lanche e indicando uma mesinha da qual
dois pés estavam sobre o tapete da chaminé e dois no chão.
— Esse avental lhe assenta às mil maravilhas — murmurou Woodruff, o amigo da família,
enquanto estendia as longas pernas sobre o guarda-fogo, mais ainda que Cheswardine.
Ocupavam os dois homens cada um uma poltrona, aos dois lados da lareira; eram ambos
muito altos e tinham quarenta anos.
A sra. Cheswardine, com um gesto infinitamente gracioso, colocou a bandeja na mesinha,
sentou-se numa cadeira que parecia a sobrinha-neta engatinhadora das duas poltronas e
nervosamente alisou o avental.
De fato, o avental assentava-lhe às mil maravilhas. É espantoso, delicioso, adorável o efeito
de um lindo aventalzinho caseiro posto de repente em cima de um vestido requintado e
custoso, em especial quando debaixo dele a gente pode ouvir o ruge-ruge de uma saia de
seda e, mais em especial ainda, quando o aventalzinho é alisado por dedos ornados de anéis.
Todo homem sabe disso. Toda mulher sabe disso. A sra. Cheswardine sabia disso. Em tais
assuntos a sra. Cheswardine sabia exatamente o que fazia. Quando o marido, após uma volta
no clube, trazia Woodruff para casa, a hora avançada da noite, ficava encantada em preparar
com as próprias mãos — pois os criados já dormiam — um lanchezinho para eles. Sanduíches
de tomates, por exemplo, maravilhosamente fininhos, com champanha ou Bass.136 Os homens
naturalmente preferiam Bass; mas se a sra. Cheswardine se lembrava de tomar um gole de
champanha do copo do esposo, a Bass não aparecia.
Essa noite era a vez do champanha. Woodruff abriu-o, como sempre acontecia, e sem
querer deixou cair algumas gotas sobre a lareira, como fazia quase sempre. Homens afáveis,
desajeitados e pacientes raro chegam à perfeição na arte de abrir champanha.
A sra. Cheswardine bateu impaciente no chão com os pés calçados de chinelos cor-de-
rosa.
— Você está muito nervosa hoje — disse Woodruff rindo — e transmitiu-me o seu
nervosismo.
Afinal conseguiu despejar um pouco de champanha num copo.
— Não estou, não — replicou a sra. Cheswardine.
— Sim, Vera, você está — insistiu Woodruff, calmo.
Ela sorriu. O emprego desse nome elegante, que vagamente evocava arquiduquesas
russas, exercia sobre ela estranho efeito, sobretudo nos lábios de Woodruff. Orgulhava-se do
nome, e do sobrenome também, um dos mais antigos das Cinco Cidades. As duas sílabas de
Vera acalmavam-na invariavelmente, como um sortilégio. Tanto Woodruff como Cheswardine
chamavam-lhe Vera desde que a tinham conhecido; e agora tinha ela trinta anos. Haviam os
três vivido em três casas diferentes, na extremidade superior da rua Trafalgar,
Bursley.137 Quem por ela se apaixonou primeiro, quando ela andava nos seus 18 anos, foi
Woodruff, mas o namoro não deu resultado. Era Woodruff um rapaz de cabelos castanhos,
bonito apesar de desajeitado, mas não compreendeu que a veneração a distância não era o
melhor método para conquistar uma moça de grandes olhos e ávida de emoções.
Cheswardine, que usava barba preta, acercou-se da bichinha com toda a simplicidade e
desposou-a sem mais nem menos. Ela caiu-lhe sobre os ombros, palpitante, como uma
pomba. Adorava-o, temia-o, arrulhava-lhe, importunava-o, e sabia existirem no seu espírito
abismos que ela nunca sondaria. Woodruff, o melhor dos homens, continuou amando-a com
resignação e, por enquanto, filosoficamente, e encontrava sua maior alegria precisamente
nesses lanches. O arranjo convinha a Vera; e, quanto ao marido e ao admirador
desesperançado, sempre foram amigos íntimos.
— Perguntei-lhes como vocês encaravam o assassinato — disse Vera secamente —, mas
parece que...
— Perguntou mesmo? — disse Woodruff como a desculpar-se. — Para mim, assassinar
não é coisa tão impossível como parece. Qualquer pessoa pode cometer um assassinato.
— Você então quer defender Harrisford? Está ouvindo o que ele diz, Estêvão?
Naquele mês de novembro as Cinco Cidades viviam agitadas pelos assassinatos notórios e
terríveis de Harrisford. Os habitantes liam e falavam de assassinatos, sonhavam com
assassinatos; semanas a fio tomavam assassinato em todas as refeições.
— Ele não quer absolutamente defender Harrisford — disse Cheswardine com ar de
superioridade masculina —, e é claro que cada um pode cometer um assassinato. Até eu
poderia.
— Ora, Estêvão! Você está horrível!
— Até você poderia! — exclamou Woodruff olhando para Vera.
— Como, Carlinhos! Só a vista do sangue...
— Nem sempre há sangue — sentenciou o marido, oracular.
— Escute — respondeu Woodruff, que lia livros de toda espécie e gostava de especulação
filosófica. — Faça de conta que, apenas pela imaginação, pela simples força do desejo,
pudesse um inglês matar um mandarim na China e tornar-se rico pelo resto de sua vida sem
ninguém saber nada disso! Quantos mandarins julga você que ficariam na China ao cabo de
uma semana?
— Diga, antes, ao cabo de 24 horas — corrigiu Cheswardine com ar lúgubre.
— Nenhum — concluiu Woodruff.
— O que vocês dizem é absurdo — objetou Vera, perturbada.
Quando aqueles dois pegavam a filosofar, sempre a acabavam perturbando. Detestava ver
a vida a uma luz estranha. Detestava pensar.
— Não tem nada de absurdo — prosseguiu Woodruff. — Queremos mostrar, tão só, que o
que impede as matanças por atacado não é o que há de perverso no assassinato, porém o
medo de ser descoberto, o escândalo, a vista do cadáver, e assim por diante.
Vera estremeceu.
— Aliás, nem tenho certeza — prosseguiu Woodruff — de que o assassinato seja uma
perversão muito maior que muitas outras.
— A usura, por exemplo — atalhou Cheswardine.
— Ou a bigamia — disse Woodruff.
— Mas um inglês nunca poderia matar um mandarim na China só pela força do desejo —
ponderou Vera levantando os olhos.
— Quem sabe? — perguntou Woodruff com sua voz paciente. — Quem sabe? Você se
lembra do que lhe contei na semana passada sobre a transmissão do pensamento? Li-o no
Borderland.
Vera teve a sensação de faltar-lhe o chão firme sob os pés e ficou irritada por afundar num
pântano.
— Acho isso simplesmente uma tolice — retrucou. — Não, obrigada.
Estas últimas palavras foram dirigidas ao marido, que lhe estendia o copo.
Cheswardine aproximou-lhe o copo ainda mais dos lábios.
— Eu disse “Não, obrigada!” — repetiu ela com secura.
— Apenas um pouquinho — insistiu ele.
— Não estou com sede.
— Então é melhor você ir dormir.
Era bem dele esse hábito de mandá-la dormir ab-ruptamente, e Vera não se desgostava
com isso. Tinha, porém, várias maneiras de ir. Dessa vez, era a de uma arquiduquesa.

II
Ao afirmar que Vera estava muito nervosa naquela noite, Woodruff tinha acertado. Tinha, de
fato. E nem o marido nem ele sabiam o por quê.
O motivo estava intimamente ligado a uma questão de vestuário.
Vera casara-se havia dez anos. Mas ninguém o suporia ao ver-lhe a silhueta de mocinha e
os gestos de pássaro. Compreende-se: era a única criança em casa. Queixava-se
amargamente, muitas vezes, da ausência de descendentes que honrassem o nome de
Cheswardine. Invejava às outras mulheres os seus bebês, era louca por bebês e não se
cansava de repetir que, na sua opinião, o objetivo da existência de uma mulher eram os bebês.
Pertencia à espécie de mulher que olha uma catedral como um lugar especialmente construído
para a gente sentar-se lá e sonhar suaves sonhos domésticos; a espécie de mulher que adora
a música tão só porque faz sonhar. E as cismas de Vera, frequentes, se prendiam sobretudo a
bebês. Como, porém, os bebês se divertiam em descer pelas chaminés de todas as demais
casas de Bursley e evitar a sua, buscava consolação nos vestidos e tirava de si mesma o
melhor partido. E era um ótimo melhor partido. Tinha uma silhueta quase a mais perfeita
possível, e, depois, havia aqueles lindos olhos impressionáveis e aquela palpitação de pomba
e um encanto sempre diferente nos gestos. Vera tornara-se a mulher que melhor se vestia em
Bursley, o que é alguma coisa. O marido era rico, com rendas crescentes, embora
naturalmente, como fabricante de louças e filho e neto de fabricantes de louças, se associasse
com toda a alma à lamentação, muito difundida nas Cinco Cidades, de que “da louça não se
tirava mais nada”. Gostava de ter uma esposa bem-vestida e concedia-lhe uma mesada
incrível, cuja importância as amigas de Vera sussurravam com respeitoso terror: cem libras
por ano, que lhe dava em prestações trimestrais, em cheque. Era o seu sistema.
Pois bem: na noite seguinte ia realizar-se um baile, promovido pelas sócias do Hóquei Clube
Feminino (ou pelo menos aquelas que ainda não haviam sido estropiadas para o resto da vida
pela prática desse nobre passatempo). Vera fazia parte do Hóquei Clube (num sentido
puramente ornamental) e conseguira para o baile um vestido destinado a consagrar em
definitivo a sua reputação de espelho das elegâncias. A saia tinha... não: vejam as colunas do
Fanal de Staffordshire de 9 de novembro de 1901. O que havia de desagradável é que ao
vestido faltava, para o toque final, uma determinada coisa, e essa determinada coisa estava
separada de Vera pela vitrina da famosa loja de Brunt, em Hanbridge.138
Poderia Vera resolver o caso sem aquilo. Mesmo sem aquilo o vestido seria brilhante.
Porém Vera tinha visto aquilo e queria-o.
Custava um guinéu.139
Bem — dirão vocês —, que é um guinéu para uma criatura elegante que tem cem libras por
ano? Ela que vá e compre o artigo. Mas o fato é que ela só tinha de seu seis xelins e sete
pence. (E ainda faltavam seis semanas para o Natal.) Esbanjara — com aquela alma que
pairava acima das contingências materiais — 25 libras, e mais que 25 libras, desde 29 de
setembro! Bem! — dirão vocês —, e comprar fiado? Não, isto nunca. O gigante Estêvão
proibira-lhe absoluta e terminantemente comprar fiado fosse o que fosse. Ela o temia sabendo
exatamente até onde se podia ir em relação a ele. O marido era grande e terrível. Bem —
dirão ainda —, por que não obteria ela de Estêvão um soberano140 ou mais por meio de
carícias e lisonjas? Impossível. Vera tinha as suas cem libras anuais com a tácita condição de
que nunca seriam antecipadas nem ultrapassadas. Bem — insinuarão discretamente —, há
certos expedientes conhecidos das donas de casa... Psiu! Ela já lançara mão de todos. Os
seis xelins e sete pence não eram apenas o que lhe sobrara de seu orçamento de vestuário;
eram o que lhe sobrara de seu orçamento alimentar até a próxima segunda-feira.
Daí o seu nervosismo.
Lá jazia a pobre desgraçada, com um tirano inconsciente — o marido — a roncar a seu
lado, acordada, numa grande desolação, à luz da lamparina, no amplo e luxuoso quarto de
dormir — três criados dormindo em cima, champanha na adega, peles no armário, um colar
precioso a cingir-lhe o pescoço naquele mesmo instante, um grande piano na sala, cavalos na
coudelaria, um urso empalhado no hall — e a sua existência perdera o sentido por falta de 14
xelins e cinco pence! E não tinha com quem se abrir. Como é verdade que a alma humana é
solitária, que a única verdadeira riqueza é a satisfação, e que para sermos felizes devemos ser
bons!
Foi a essa altura do seu desespero que pensou nos mandarins. Ou melhor — para sermos
francos —, estava pensando neles desde que fora dormir. Podia haver algo de verdadeiro
naquela teoria dos mandarins... Segundo dizia Carlinhos, aconteciam neste mundo tantas
coisas estranhas e inexplicáveis! Fenômenos ocultos e astrais, coisas do subconsciente, ondas
de pensamento... Tais expressões e muitas outras lhe ocorreram enquanto procurava evocar
aquela conversação perturbadora. Talvez houvesse... podia-se lá saber!
De repente lembrou-se dos bolsos do marido, cheios de moedas de prata e ouro, de
cédulas. Visão tantalizadora! Ela não podia roubar. Depois — se ele despertasse?
E voltou aos mandarins. E encontrava-se num estado-de-espírito-das-duas-da-manhã.
Façamos de conta que o truque funcione mesmo. (Era naturalmente muito supersticiosa, como
todos nós.) Começou a refletir a sério sobre a China. Ocorreu-lhe ter ouvido que os mandarins
da China eram muito corruptos; que humilhavam os pobres e submetiam a torturas vítimas
inocentes; que eram, numa palavra, pessoas criminosas e horríveis, canalhas indignos de
perdão. Em seguida, pensou nas partes mais remotas da China, lugares onde os europeus
ainda não tinham conseguido penetrar. Devia haver, sem a menor dúvida, em algum recanto
desses lugares, algum mandarim insignificante, cuja morte seria, para o seu distrito, verdadeira
bênção. Matá-lo constituiria um ato de humanidade. Provavelmente um mandarim solteiro, a
quem nenhum parente choraria; ou então um mandarim com muitas mulheres, cuja poligamia
repugnante merecia severo castigo! Um velho mandarim à beira do túmulo; ou, então, um
jovem no limiar de uma série de infâmias!
— “Sou uma grandíssima tola” — disse com os seus botões. — “No entanto, se
houvesse nisto alguma verdade... E eu preciso, preciso ter aquilo para o meu vestido!”
Olhou de novo para os contornos imprecisos do terno do marido, atirado a esmo sobre o
sofá. Mas não! Não podia descer ao roubo!
Assim, ela, deitada na cama, matou um mandarim! não um mandarim determinado, mas um
mandarim vago, o mandarim mais conveniente e apropriado em quaisquer circunstâncias.
Desejou-lhe a sangue-frio a morte ante a probabilidade mínima de adquirir riquezas, ou melhor,
porque lhe faltavam 14 xelins e cinco pence para ser perfeitamente brilhante no baile.
De manhã, ao despertar — o marido já saíra para a fábrica —, lembrou-se das tolices que
pensara durante a noite. Não se sentia triste por haver desejado a morte de um semelhante.
Absolutamente não. Sentia-se triste por se ter convencido, à fria luz do dia, de que o
“sortilégio” não produziria efeito. Carlinhos tinha cada ideia ridícula, absurda! Não! Ela devia
resignar-se a vestir um traje de baile imperfeito, e tudo isso por falta de 14 xelins e cinco
pence. E cada vez ficava mais nervosa.
Tão nervosa estava que, indo abrir a gaveta de seu toucador na qual o marido, prudente e
minuncioso, a obrigava a fechar à chave todas as noites seus anéis e broches, abriu uma
gaveta errada, uma gaveta vazia e não trancada, que não usava nunca. E vejam só! A gaveta
vazia não estava vazia. Havia no meio dela um soberano.
A descoberta sobressaltou-a, pois logo relacionou, naturalmente, com o mandarim.
Mas como? Isso, afinal de contas, era impossível!
E voltou a si. Que ideia absurda! Uma simples coincidência, e nada mais! Aliás, apenas um
soberano! Não bastava. Carlinhos dissera: “Rico por toda a vida.” Aquele soberano devia ter
estado ali meses a fio, esquecido.
Nem por isso deixava de ser um soberano. Apanhou-o, abençoou a Providência, mandou
chamar o dog-cart141 e fez-se levar direto à Brunt. A determinada coisa que ela adquiriu era um
cinto de prata extremamente fino, estreito e elegante — uma maravilha por aquele preço e o
adorno ideal para a sua admirável saia de musselina branca. Comprou-o e deixou a loja.
E, ao sair da loja, viu um pequeno jornaleiro a estender-lhe a edição matutina do Fanal. Lia-
se no cabeçalho, em letras garrafais: “Morte de Li Hung Chang”. Não é exagero dizer que por
um nada não desmaiou. Só pelo exercício do forte autodomínio de que só as mulheres são
capazes se absteve a desabar sobre o peito fardado de azul de Adams, o cocheiro dos
Cheswardine.
Comprou o Fanal com bem estudada calma, abriu-o, e leu: “Última hora. Pequim. Li Hung
Chang, o conhecido estadista chinês, morreu às duas da manhã. Reuters.”
III
Naquela tarde Vera se encontrava deitada no sofá, que mandara colocar diante da lareira, no
salão. Vestia o seu penteador mais penugento e mais lânguido. Havia no apartamento um
perfume de água-de-colônia. Vera estava com dor de cabeça, uma dor de cabeça oficial, em
grande estilo. Estêvão teve de almoçar sozinho. Fora-lhe comunicado que, segundo todas as
probabilidades, a esposa sofredora não se sentia com disposição de ir ao baile, ao que ele
respondera com um grunhido. Entretanto, a dor de cabeça de Vera era extremamente
verdadeira e ela se achava deveras transtornada.
A morte de Li Hung Chang pesava-lhe na consciência. O ocultismo não precisava de outra
confirmação, pois o caso já não podia ser mera coincidência. Ela sempre soubera que o
ocultismo, supernaturalismo, as pretensas superstições e outras coisas assim tinham algo de
verdadeiro. Mas nunca pensara em comprovar a sua crença pela prática de um ato tão
homicida. Era detestável que Carlinhos houvesse mencionado uma coisa dessas. Ele não tinha
o direito de brincar com fogo. E, quanto a seu marido, só muito imperfeitamente as palavras
poderiam exprimir o ressentimento que ele lhe causava. Uma vergonha que uma mulher de sua
condição social se visse reduzida a seis xelins e sete pence. Decerto Estêvão esperava que
ela frequentasse uma casa de penhores. Bem que mereceria encontrá-la saindo de uma porta
com as três bolas de cobre.142 Não era única e exclusivamente para ele que ela se vestia?
Para si mesma é que não era. Tinha o espírito ocupado em coisas mais altas, aspirações
impossíveis. Ele, porém, gostava de vestidos bonitos, e ela devia satisfazê-lo. Esforçava-se
por satisfazê-lo em tudo, vivia para ele, sacrificava-se-lhe por inteiro. E que recebia em
compensação? Nada! Nada! Nada! Todos os homens eram egoístas, e as mulheres eram as
suas vítimas... Aqueles brutais princípios contra compras a crédito, e tudo mais... O que os
homens tinham de pior era não compreenderem nada.
Derramou mais água-de-colônia na fronte e apoiou-se num dos cotovelos. No mármore da
lareira estava o pacote de papel que continha o cinto de prata, preço da morte de Li. Tinha
ganas de arremessá-lo ao fogo, e só a ideia de que o fogo não o queimaria a impediu de
praticar esse ato selvagem. Também essa história de ocultismo não estava lá muito certa.
Ganhar um miserável soberano pelo assassinato do maior homem de Estado do hemisfério
oriental era simplesmente grotesco. De mais a mais, em verdade ela não quisera privar a
China de um homem notável. Estipulara explicitamente um mandarim inferior e insignificante,
um que se pudesse dispensar e que fosse desconhecido da Reuters. Deveria ter procurado o
verbete “China” no Instituto Wedgwood143 e escolhido um mandarim definido, com residência
definida. Poderia alguém supô-la capaz de empreender deliberadamente um assassinato
desses?
No tocante à desproporção entre o seu ato e a remuneração material, talvez ela mesma
tivesse culpa, pois desejara apenas aquilo. Tão ocupado andava o seu cérebro com a ideia do
cinto que só desejara o suficiente para comprá-lo. Mas, quem sabe, talvez ainda lhe fosse
chegar uma grande riqueza. Talvez algo acontecesse naquela mesma noite. Seria melhor. Mas
seria mesmo? Por mais rica que ela se tornasse, Estêvão tomaria friamente conta de sua
riqueza para lha ministrar em doses ínfimas e impor-lhe regras no gastá-las. Além disso,
Carlinhos suspeitaria de seu crime. Carlinhos compreendia-a, e lia-lhe os pensamentos muito
melhor que Estêvão. Jamais alcançaria esconder a verdade. A conversação, a morte de Li
dentro de duas horas e logo depois uma grande fortuna vinda às suas mãos — tudo isso faria
com que Carlos juntasse os fatos e tirasse a conclusão, adivinhando-lhe o vergonhoso
segredo.
Assim como assim, as perspectivas eram das mais negras.
Nisto adormeceu.
Ao acordar, horas após, ouviu a voz de Estêvão chamando-a. Na realidade fora essa voz
que a despertara. O quarto estava escuro.
— Ó Vera — perguntava em tom baixo e levemente hostil —, você retirou um soberano da
gaveta vazia do seu toucador?
— Não — respondeu ela de pronto, sem refletir.
— Ah! — observou o marido num tom refletido — eu sabia que tinha razão.
Parou um instante e acrescentou com secura:
— Se você não está melhor, deveria deitar-se.
E deixou-a, fechando a porta com um barulho que denotava certa indiferença à dor de
cabeça da esposa.
Vera levantou-se de um salto. Seu primeiro sentimento foi de gratidão por aquele breve
colóquio ter-se realizado no escuro. Então o marido estava ciente da existência do soberano!
O soberano não estava escondido; provavelmente havia sido Estêvão quem o pusera ali. Mas
o que pretendia ele dizer quando afirmara saber que tinha razão?
Acendeu o gás e mirou-se no espelho. Notou que já não lhe doía a cabeça e procurou
arrumar as ideias.
— Que é isso? — disse outra voz, à porta.
Vera olhou instantaneamente em redor, com um sentimento de culpa.
Era Carlinhos:
— Estêvão telefonou-me para dizer que você não se sentia bem e não iria ao baile. Por isso
resolvi dar um pulo até aqui e fazer um inquérito. Esperava encontrá-la de cama, em
companhia pelo menos de uma enfermeira e um ou dois médicos. Mas que é isso, afinal?
— Nada — respondeu ela. — Apenas uma dor de cabeça, que já passou.
E postou-se diante da lareira, para que Carlinhos não visse o pacote branco.
— Ótimo — disse Carlinhos.
Houve uma pausa.
— Que coisa estranha a morte de Li Hung Chang esta noite, logo depois de termos
conversado sobre os mandarins! — disse Vera.
Não conseguia evitar o assunto, que a atraía como uma serpente; aproximava-se dele,
apesar de seu ardente desejo de fugir-lhe.
— É mesmo — concordou Carlinhos. — Mas você deve saber que Li não era um mandarim.
Aliás, não morreu depois que falamos em mandarins. Morreu antes.
— Como? O jornal não diz que ele morreu às duas da manhã?
— Duas da manhã em Pequim — respondeu Carlinhos. — Não se esqueça de que a hora
em Pequim precede a nossa de várias horas. Pequim fica muito mais a leste.
— Oh! — exclamou a mulher.
Estêvão entrou, com ar perplexo:
— Ah! É você, Carlinhos?
— Ela não está nada agonizante — disse este.
E voltando-se para Vera:
— Enfim, você vai ao baile, não é?
— Escute, Vera — interrompeu Estêvão —, um de nós dois tem de ter uma conversa com
Marta. Sempre suspeitei dessa rapariga. Veja: deixei de propósito um soberano em uma
gaveta hoje de manhã, e à hora do lanche já não estava lá. Seria melhor que ela desse já o
fora. Naturalmente não vou recorrer à polícia.
— Marta! — exclamou Vera. — Que é que você está pensando, Estêvão? Gostaria que
você deixasse as empregadas por minha conta. Se pensa que pode dar conta da casa nas
horas vagas, é só tentar. Mas depois não me culpe pelas consequências.
Centelhas de triunfo iluminaram-lhe os olhos.
— Mas eu lhe digo...
— Bobagem — interrompeu Vera. — Fui eu que tirei o soberano. Encontrei-o, tirei-o e, só
para castigar você, gastei-o. Não é nada gentil preparar armadilhas para a criadagem.
— Então por que me disse há pouco que não tinha tirado? — perguntou Estêvão de mau
humor.
— Não me sentia com disposição para discutir com você.
— Você sarou com uma rapidez extraordinária — observou Estêvão em tom rabugento.
— Bem, se você quer fazer uma cena em presença de estranhos (pobre Carlinhos... um
estranho, ele!), vou-me deitar de novo.
Estêvão sabia quando estava vencido.
Ela foi ao baile do Hóquei, apesar de tudo. Ela e Estêvão e Carlos e a irmã deste, moça de
17 anos, todos foram juntos, de carruagem, até à Prefeitura. A moça admirou
extraordinariamente o cinto de Vera e se pôs a sonhar com o dia em que também ela seria
uma esposa cativante e encantadora como Vera — numa palavra, uma senhora da sociedade,
idolatrada por homens graves e barbados. Pois ambos estavam experimentando a magia do
irremediável encanto de Vera, caprichoso, surpreendente, exasperador, indefinível,
indispensável às suas existências.
— “Estúpidas superstições!” — pensou Vera. — “O que vale é que nunca acreditei de
verdade naquilo.”
E baixou os olhos para se regozijar com o espetáculo do cinto.
RICARDA HUCH

Considerada a maior figura feminina das letras alemãs,144 Ricarda Huch (1864-1947) é
desconhecida no Brasil, apesar de ligada ao nosso país por laços familiares. Com efeito, a sua
família, de prósperos comerciantes de Braunschweig, possuía uma firma em Porto Alegre,
onde Richard Huch, pai da escritora, passou vários anos. Chegou ele a naturalizar-se
brasileiro, e seu filho mais velho, Rudolf, nasceu no Rio Grande do Sul. Quando, porém,
Ricarda viu a luz, a família já tinha voltado a Braunschweig, onde ela se criou num ambiente
opulento de burguesia próspera, em uma bela casa cercada de jardim e completada por uma
rica biblioteca. O pai, homem culto, que lia Rabelais e Camões no original, manteve suas
ligações com o Brasil, onde ainda voltou em 1886, um ano antes de sua morte.
Ricarda teve esmerada educação, primeiro em casa, depois no melhor colégio da cidade,
onde se fez notar pela inteligência precoce e pelo talento poético. Terminados os estudos,
várias circunstâncias a obrigaram a deixar a cidade natal. A situação dos pais tinha piorado;
em Braunschweig ainda não havia para mulheres possibilidade de estudos superiores; e,
sobretudo, uma paixão violenta, surgida entre ela e o cunhado, dr. Richard Huch (que era
também seu primo), tornou tensas as relações entre ela e o resto da família. Foi essa paixão,
que a dominaria por longos anos, que lhe inspirou estes versos patéticos:

Quando já não nos amarmos como nos amamos,


Se tu me abandonares e se eu te abandonar,
Não mais crerei em deus algum, chame-se como se chame,
Em nenhuma de suas palavras que estejam escritas,
Não mais crerei em símbolos, nem os astros,
Em nenhum juramento feito por lábios humanos.
Ah, o próprio coração só ouvirei de longe,
Como se ouve a pega martelar na floresta145

Forte era também a paixão do cunhado, porém não a ponto de fazê-lo abandonar mulher e
filhos. Nesse impasse, Ricarda decidiu expatriar-se. Inscreve-se na Universidade de Zurique,
onde será uma das primeiras mulheres a doutorar-se. Na Suíça, escreve o primeiro volume de
versos, os primeiros contos e o primeiro romance, assim como o esboço do seu grande ensaio
sobre O romantismo, que, terminado em 1908, marcaria a sua posição neorromântica ao lado
de Stefan George, Hugo von Hoffmansthal, Christian Morgenstern e Rainer Maria
Rilke.146 Nesse trabalho, o romantismo era “representado como uma síntese de todas as
verdadeiras forças produtoras. Com isso, é evidente, opunha-se às pressuposições
naturalistas de progresso, ciência e democracia”.147
É ainda na Suíça que obtém seus primeiros empregos de bibliotecária e professora. Chega
a solicitar a cidadania suíça, que lhe é negada, por motivos burocráticos.
Já quase de todo enraizada, assusta-se com a perspectiva de uma vida estacionária, e ao
cabo de dez anos, em 1896, regressa à Alemanha. Alguns anos ensina, ainda, num colégio de
Bremen, mas volta-se cada vez mais para a carreira literária. É quando, ao lado de contos
históricos, publica um grande estudo sobre Gottfried Keller.148
Reata-se o namoro, e Ricarda e o namorado resolvem romper com a família e recomeçar a
vida no estrangeiro. Mas o dr. Richard, no último instante, não cumpre o prometido, e pela
segunda vez prefere permanecer junto à esposa. Duro golpe para a escritora, a quem só o
apoio de algumas amigas dedicadas salvou de mergulhar no desespero. Procura o
esquecimento em viagens. Em Viena conhece o médico italiano dr. Ermanno Ceconi, com
quem se casa em 1898 e de quem tem uma filha no ano seguinte. Em companhia do marido,
percorre a Itália, que a encanta, e tenta fixar-se em Trieste. A essa altura, porém, a escritora,
já bem conhecida, sente a necessidade de fixar-se em terra alemã, e o casal se estabelece
em Munique, em condições nada fáceis.
Outra reviravolta muda inesperadamente a vida de Ricarda. A irmã Lilly, tendo criado as
filhas, resolve viver com elas e oferece a separação ao marido para que este, afinal, possa
entregar-se ao seu grande amor. Ricarda também se separa do marido. Os dois amantes se
unem, por fim, em Braunschweig, ela com 43 anos, ele com 57. Mas a união almejada por
tantos anos se desfaz em pouco tempo. Em 1911 o dr. Richard pede o divórcio para casar
com outra mulher, lançando Ricarda numa grave crise existencial. Passará ela anos a fio em
amarga solidão, e, não conseguindo viver só de literatura, aluga quartos de seu apartamento.
Mas, pelo menos, está em companhia da filha idolatrada, de quem o segundo casamento a
separara. Em 1918, o dr. Ceconi, que tampouco encontrou a felicidade no segundo
casamento, volta a Ricarda, e daí por diante viverão os dois relativamente felizes mediante um
modus vivendi bem estranho, passando a mulher metade do ano em Pádua com o marido e
metade em Munique sozinha.
Nesse ínterim crescera a fama da escritora, em parte graças à sua ficção — contos e
romances —, em parte a obras relativas à Guerra dos Trinta Anos e às campanhas de
Garibaldi. Após a morte de Ceconi, morará com a filha casada e o genro, professor
universitário, sucessivamente em Berlim, Friburgo, Iena e Frankfurt. Seu sexagésimo e seu
septuagésimo aniversários valeram-lhe grandes homenagens. Quando atingiu o octogésimo
ano, o governo nacional-socialista, então no poder, tudo fez para obter-lhe a adesão, porém
ela resistiu a todas as seduções. Foi essa atitude que a fez eleger-se presidente do Primeiro
Congresso de Escritores Alemães depois da guerra, em 1947, a que sobreviveu apenas um
mês.
Importante também como historiadora, nas letras o nome de Ricarda Huch conserva-se,
sobretudo, pelos romances (Recordações de Rudolf Ursleu Jr., Vita somnium breve e O caso
deruga) e pelas novelas, nas quais é sempre manifesto o seu interesse pelo passado. Elas se
caracterizam pelo amor ao detalhe, pelo esmero do estilo e por um pessimismo sereno e
irônico. Muitas vezes o tratamento do assunto é intencionalmente antiético: assim na “Biografia
do santo Wonnebald Puck”, refinado patife que logra enganar o mundo inteiro, ou em “O último
verão”, história dum jovem anarquista russo que se introduz como preceptor na casa do chefe
de polícia, onde se faz estimar de todos, mas nem por isso desiste de fazer explodir uma
máquina infernal. Mas talvez a mais perfeita de todas seja “O cantor”, onde mais se admira a
capacidade de reconstruir a atmosfera de uma época. Comparando-a à narrativa de Paul
Heyse149 A imperatriz de spinetta, compreenderemos por que este era um escritor favorito da
corte, enquanto Ricarda, preferida da elite intelectual, teve de lutar a vida inteira com
dificuldades.

O CANTOR
Pelos amplos e ressoantes corredores da Prisão de São Calisto passavam, numa quente
manhã de primavera, o cardeal Mazzamori e o maestro da capela pontifical, d. Horácio, que
fazia remontar a sua árvore genealógica ao famoso poeta romano,150 ambos favoritos do papa
Inocêncio X.151 Iam visitar um jovem inculpado de assassinato e ameaçado de perder a vida,
que fora recomendado ao cardeal pela amante, a linda d. Olímpia. Esta dama, a quem o
casamento com um Ottobuoni tirara da pequena burguesia, não perdera o contato com a sua
modesta família, e cultivava-o sobretudo ao sentir-se descontente e oprimida em seu novo
ambiente. Agora, quando uma de suas tias lhe veio implorar que salvasse a vida ameaçada do
único filho, o que não lhe devia ser difícil, graças à sua amizade com o cardeal Mazzamori, foi
a jovem tomada não só de compaixão, mas de profundo respeito à mulher, que, atravessada
pelas dores mortais da maternidade, parecia cumprir um destino sagrado, ao passo que ela
nunca tivera filhos, não observara a fidelidade conjugal e sentia extinguir-se o prazer que lhe
dava a ligação com o prelado. Não pudera este desatender-lhe a ordem, dada em palavras
ásperas, posto lhe parecesse nula a possibilidade de resolver o caso com a sua intervenção.
Com efeito, o jovem Lanceloto (era este o nome do primo de Olímpia), como herdeiro do
pai, um comerciante, tornara-se credor de um parente do papa e, por incumbência da mãe,
depois de várias advertências malogradas, fora em pessoa à casa do devedor exigir-lhe o
pagamento. Como o fidalgo simplesmente se recusasse a cumprir a sua obrigação, ou até a
negasse, surgiu uma discussão violenta, no decorrer da qual o nepote chamou alguns criados e
lhes ordenou que prendessem o credor impertinente e pela janela o atirassem à rua. Irritado
ao extremo, enquanto procurava defender-se dos homens que brutalmente o agrediam,
Lanceloto feriu de morte um deles. Por mais que o fidalgo tivesse motivo de ocultar o
incidente, recorreu à justiça para livrar-se de uma vez por todas do credor importuno, e, por
felicidade sua, concorreram várias circunstâncias para prevenir os juízes contra o acusado.
Entre os papéis de Lanceloto foi encontrada, envolta com diversos escritos filosóficos de
leitura proibida, uma sátira contra o papa, e, por mais gentil e sensível que fosse, a vários
aspectos, Inocêncio X, até os seus mais chegados favoritos haviam de cair-lhe de pronto no
desagrado se se atrevessem a defender um chiste contra ele dirigido. Queria que todos lhe
respeitassem especialmente a fraqueza de se considerar poeta, e nada o impediria de tomar
por assassino e herético o indivíduo que parodiara com muito espírito e rodeios cômicos as
suas odes sáficas, forma de que o pontífice revestia, de preferência, os desabafos de sua
alma cristã.
O poema intitulava-se “A sereia romana” e continha mais ou menos o seguinte: “Não
navegues perto da costa romana, ó Ulisses; ou, se o fizeres, não deixes de tapar os ouvidos
com cera para não ouvires o canto do papa. Se o ouvisses, serias tomado de tamanho tremor
que não mais poderias dirigir o teu navio e naufragarias miseravelmente.” Seria loucura
interessar-se pelo impudente que, além de copiar e deixar encontrar em sua casa tamanha
impertinência, ainda por cima confessara a autoria dela.
Em tais condições, o cardeal avançava com ar apreensivo ao lado de seu amigo Horácio,
explicando-lhe suas aflições e seus receios:
— Só posso achar simpático o interesse que Olímpia demonstra por sua tia, embora eu
tenha de sofrer com isso. A sua compaixão para com os parentes a torna inacessível às
minhas aspirações, que, à vista de seu ar sombrio, mal tenho coragem de externar. Como é
fácil a virtude tornar-se inimiga da felicidade, e como é difícil, portanto, a gente tornar-se
amiga da virtude! Não posso imaginar nenhuma solução feliz deste caso, pois me é impossível
mexer num processo que já trouxe à luz um sem-número de loucuras do acusado; por outro
lado, Olímpia, que não tem quem a aconselhe, faz depender da salvação desse jovem a sua
ternura para comigo.
Horácio reconheceu tratar-se de assunto delicado e acrescentou não saber como felicitar-
se bastante por estar isento, graças à sua disposição, da nefasta influência das mulheres.
— No meu entender — concluiu —, as alegrias que nos pode oferecer o outro sexo não
contrapesam as contrariedades e decepções decorrentes do comércio com ele.
Em vez de resposta, o cardeal soltou um suspiro. Aliás, o carcereiro, que os precedia,
acabara de parar ante uma das muitas portas que davam para o corredor, e com um aceno
lhes fez compreender que tinham chegado ao objetivo de sua visita.
À entrada dos visitantes, o prisioneiro ergueu-se no seu catre, encarou-os perplexo e
maldisposto, levantou-se de um pulo e, depois de cumprimentar cortesmente, explicou-lhes que
estivera dormindo e não se lembrara logo da sua situação.
— A bondosa natureza — disse a sorrir — presenteou-me com um sono profundo, o que
me permite matar o tempo, pois não me concedem a oportunidade de passá-lo de maneira
agradável em trabalho ou qualquer outra diversão.
— A capacidade de dormir é sinal de boa consciência — observou o cardeal.
— Tenho-a excelente — respondeu o jovem. — Queria ver o saco de farinha que se
deixasse maltratar por desonestos patifes sem se defender. Pudesse a minha língua ser tão
inocente quanto as minhas mãos! Porém é feita de tal maneira que exprime tudo quanto me
passa pelo cérebro, como se fosse uma campainha que a língua dos pensamentos tocasse
constantemente. Assim, vem a manifestar-se muita ideia que incomoda os outros. Se cada um
exprimisse o que pensa, teria tantos companheiros que seria impossível encarcerá-los ou
decapitá-los todos.
— Não falais propriamente como um pecador arrependido — disse d. Horácio com
manifesta simpatia pelo belo rapaz, cujo temperamento alegre não parecia se haver alterado
na triste situação em que se encontrava.
— Que quereis, senhor? — replicou ele em tom confidencial. — Nenhum assassinato
cometi; deveria estar contrito por haver refletido, na medida do meu entendimento, sobre o
milagre da existência, ou talvez por ter feito uma insignificante brincadeira com Sua Santidade?
Acontece-me até dizer impertinências a respeito dos poderes celestiais, ainda mais
respeitáveis que o papa, sem por isso me acusar de nenhum crime. Que prejuízo poderá
sofrer Sua Magnificência por um verme da terra, quase invisível a seus olhos, estar mexendo
com ele? Não passo de um pobre-diabo a quem facilmente se pode tirar a vida e a honra; mas
nem por isso me inspiram raiva os juízes que me tratam dia a dia como um arruaceiro
sanguinário e um rebelde.
O cardeal, que nesse ínterim contemplou com certo embaraço as unhas limpas, disse
tomando expressão séria:
— A justiça do Santo Padre é garantia de que não vos acontecerá nenhum mal, se
efetivamente sois tão inocente como pretendeis. Se não tivésseis perdido, por vossa leviana
petulância, o direito à clemência, recomendar-vos-ia atirardes-vos aos pés de Sua Santidade
com o vosso pedido.
Como tardasse o mancebo a responder, Horácio acrescentou em tom de benévola
persuasão:
— Estaríeis disposto a renegar, pelo menos, a poesia infame que o Diabo vos inspirou?
— Por que não? — respondeu Lanceloto. — Renegaria até todas as poesias de Sua
Santidade, se pudesse.
D. Horácio não pôde conter o riso. O cardeal, porém, sentiu-se pouco levado à alegria, pois
a consciência da sua incômoda situação não deixava de crescer.
Ao começar a compreender que a visita era motivada por certo interesse pela sua
libertação, o pobre jovem teve as faces pálidas algo coradas pela esperança, e sua atitude,
pouco antes tão serena, tornou-se de inquietação malcontida. Com os olhos a errar de um
visitante para outro, perguntou-lhes se não seria mais eficiente ir sua mãe implorar clemência
ao papa. Ela faria todo o possível para salvá-lo e restituí-lo a si. Era, sem dúvida, por
intervenção dela que os dois senhores o vinham visitar com tamanha benevolência.
O cardeal concordou com um balançar de cabeça e observou que o amor daquela pobre
mulher ao filho não diminuíra, apesar da aflição que este lhe causara.
— Não por minha culpa — disse Lanceloto com tom franco e amável. — Mas, ainda que eu
fosse o mais culpado entre os homens, nunca duvidaria do amor de minha mãe. Ela me
carrega ainda no coração, como outrora me carregou no ventre, e dali nem Deus Todo-
Poderoso poderia arrancar-me.
Enquanto assim falava, seus olhos se umedeceram, tornando-se mais brilhantes e mais
escuros, e os dois visitantes notaram que estes olhos era extraordinariamente apertados e
longos, como pintores antigos costumavam pintar os olhos dos querubins e dos santos
glorificados. O que eles tinham de espiritualmente vago, de suavemente brincalhão, talvez
resultasse de as pequenas pupilas não oferecerem esconderijo às paixões terrestres e
aparentarem só poder refletir de longe a turba instável e multicolor das coisas deste mundo.
Nesse ínterim, o olhar agudo de Lanceloto percebeu que, em verdade, os dois senhores
não tinham vindo prestar-lhe qualquer auxílio efetivo, e a onda alegre da esperança retraiu-se.
Se os dois senhores — disse depois de uma pausa — quisessem encarregar-se duma
incumbência junto a sua mãe, pedir-lhes-ia que lhe levassem um anel de seus cabelos,
lembrança que lhe seria tão cara como um pedaço vivo de seu corpo. Não dispondo, porém,
de faca nem de qualquer instrumento cortante, sem o auxílio dos cavalheiros não podia cortar
nenhuma parcela do cabelo.
O cardeal puxou da larga manga uma caixinha de esmalte ornada de pedras preciosas, na
qual trazia um espelhinho, uma tesoura, um pedacinho de cera, uma lima para unhas e outros
objetozinhos semelhantes, abriu-a e olhou para ela irresoluto. Enquanto hesitava, d. Horácio
apoderou-se da tesoura e curvou-se sobre a cabeça do jovem para operar o corte necessário,
ao passo que sua mão acariciava os cabelos castanhos algo encaracolados.
O espetáculo recordou ao cardeal que a infeliz mulher lhe dissera, chorando, na
inconsciência de sua dor: — “Ele ainda é uma criança! Tem cachinhos como uma criança!” — e
sentiu-se penalizado em extremo por comprovar com os próprios olhos o que havia de verdade
na queixa. Depois de leve pigarro, prometeu cuidar de que aquela lembrança chegasse às
mãos da mãe do preso e disse que estava disposto a fazer alguma coisa para aliviar a
situação deste. Teria ele algum desejo no tocante à comida? Ou que outro serviço lhe poderia
prestar?
Quanto à comida — respondeu Lanceloto —, era-lhe mandada pela mãe, e esta lhe enviava
mais gulodices do que ele podia comer. Livros, por exemplo um volume de versos, lhe
agradariam; mas o que preferiria era ter um companheiro com quem pudesse conversar e
divertir-se. Esta palavra lembrou-lhe que até então ele mesmo não divertira muito os seus
visitantes, um dos quais, o cardeal, se mostrava muito abatido e acabrunhado pelo ambiente
contristador, e iniciou uma alegre tagarelice, enquanto os olhos apertados deixavam entrever a
inocente malícia de um menino travesso. Contou traquinadas da escola de religiosos que
frequentara, casos de professores e de certo abade que o tomara por um jovem santo e
esperava vê-lo voltar como noviço. Visitara diversas vezes o bom homem, e sentira-se bem no
convento; mas não suportava aquela solidão por muito tempo, não tinha outra diversão a não
ser contemplar o tumulto da vida, e, quanto maior era a confusão em seu redor, tanto mais o
seu espírito se sentia tranquilo, à vontade.
Naturalmente a cela estreita não era para ele a residência mais adequada — opinou
Horácio compassivo. Porém, o jovem respondeu que a coisa não era tão ruim como parecia. A
sua janela dava sobre o pátio, onde os condenados à prisão eram admitidos em determinadas
horas, e onde conversavam, riam, vozeavam, brigavam, como se fosse na feira de animais da
Praça Navona. Podia também dormir, e, de mais a mais, numa das celas próximas se
encontrava outro preso ainda não julgado, cuja voz era tão bonita que, ao ouvi-lo cantar, a
gente podia imaginar-se já no Paraíso.
Houve uma pausa, e o cardeal aproveitou-a para perguntar a Lanceloto o que pensava em
matéria de religião. Estaria preparado para a outra vida, ou desejava que um padre
compreensivo o reforçasse na santa fé?
O mancebo sacudiu a cabeça, rindo.
— Há momentos — disse — em que a fé me leva até à presença de Deus, e há horas em
que duvido e penso, até que os meus pensamentos se chocam de encontro a um portão
escuro que não podem forçar. Nenhum sacerdote é capaz de alterar isto, nem eu o queria. O
lugar destinado à minha alma dentro do vasto Universo, hei de alcançá-lo; Deus não concedeu
a uma mula o instinto de encontrar de noite o caminho certo e a um gato o de chegar à casa a
que pertence? Não tenham Vossas Senhorias preocupações por minha causa, nem minha mãe
há de afligir-se. Caso deva morrer, terei de atravessar algumas horas amargas, que passarão
tão depressa como outras que já atravessei. Mas, depois, que sensação deliciosa se Deus me
permitir a participação na perfeição celeste! Então os meus olhos refeitos, onipresentes e
oniscientes, olharão lá de cima para as perturbações dos homens, seus desesperos e seu
ranger de dentes, e rirei ao pensar que já fiz parte desse mundo, fui condenado à morte e
mandado ao cadafalso por pobres animais destinados ao matadouro.
Enquanto assim falava, a boca juvenil e úmida sorria, com uma graça que nem se podia
chamar saudosa, tão desembaraçada era.
Quando os dois senhores deixaram a cela e o carcereiro fechou atrás deles a porta,
despediram-no com um aceno e foram seguindo vagarosamente pelo corredor. O cardeal
assoava-se com um lenço e disse que era grande lástima que um jovem daqueles acabasse
tão mal. Mas que se havia de fazer? Ao cabo de contas, um assassinato não podia ficar
impune. Para um caso daqueles não havia solução.
— Um moço amabilíssimo — disse d. Horácio meditativo — e que, afinal, parece não haver
cometido nada grave. Tenho vontade de interessar-me por ele e arrancá-lo às garras desse
maldito tribunal, caso encontre para isso um meio razoável.
— Por mim, não tenho coragem de mostrar-me aos olhos de Olímpia sem levar-lhe alguma
esperança — replicou o cardeal, aflito. — Pior ainda se me lembro da mãe! Nunca mais hei de
esquecer essa mulher, que dava a impressão de ter vivido e sofrido mil anos. Parecia uma
pedra desfeita pelo tempo, e, quando começava a chorar e a gritar, era como se uma
montanha se pusesse a caminhar e lançar fogo.
— Ora — disse d. Horácio —, eu a teria imaginado uma mulher graciosa, de lábios suaves
e olhos tenros.
Sem responder, o cardeal continuou as suas considerações:
— Qualquer coisa que a gente lhe dissesse, ela gritava: — “O meu filho que dei à luz!
Minha ave-do-paraíso! Alma da minha alma! Filho das minhas entranhas! Ele é meu, tenho de
reavê-lo!” — como se estes fossem argumentos com que se conseguisse alguma coisa.
— Todas as mulheres são assim — volveu d. Horácio. — Opõem o próprio capricho à
necessidade mais evidente, e não se deixam convencer pela razão.
O cardeal balançou aprobativamente a cabeça e, a propósito de caprichos, entrou a
queixar-se, em alusões veladas, da versatilidade que nos últimos tempos se apoderara de d.
Olímpia com a força de uma doença, quando até então sempre se mostrara amorosa e de boa
paz, como um anjo. O que antes a divertia, agora já não lhe agradava; entregava-se à solidão
e a torvos pensamentos, e o desespero daquela tia infeliz agravava-lhe a melancolia. Se o
processo do rapaz não chegasse a bom termo, ela o tornaria responsável, como se ele tivesse
o poder de impedi-lo; assim, antolhava um futuro pouco agradável. Nesse caso — opinava d.
Horácio —, o melhor seria evitar essa dama versátil e procurar companhia mais cômoda;
porém o cardeal respondeu que ela lhe prestara serviços, e, agora que a via enferma e
necessitada de assistência, julgava de seu dever não abandoná-la. Disse tais palavras
envergonhado, pois sentia que o amigo considerava as suas razões meras evasivas, e a ele
um tolo apaixonado.
Enquanto os dois amigos, absortos pela conversa, davam voltas no largo corredor
ressoante, de paredes nuas, súbito ouviram o canto de uma voz de homem e, surpreendidos
pela sua magnificência, estacaram. Era uma canção popular cantada com tamanha força e
segurança como se viesse do palco de um grande teatro, e com tamanha paixão como se
tivesse em mira seduzir uma moça. Mazzamori e Horácio entreolharam-se corando de
admiração e prazer, e, quando o cantor fez suceder uma cadência à conclusão de uma
estrofe, prenderam a respiração, ansiosos de ver se aquele trilo vertiginoso chegaria ao fim
com igual felicidade.
Durante o canto, o soldado que estava de sentinela aproximou-se e fez menção de impor
silêncio ao cantor, conforme o regulamento da prisão, mas, a um aceno dos dois fidalgos, de
bom grado se retirou. Mal terminada a canção, estes o chamaram para pedir-lhe informações
acerca daquele fenômeno milagroso. Disse-lhes o soldado que o cantor era um campônio,
processado por quádruplo assassinato, um velhaco bruto e perverso que só abria a boca para
praguejar; entretanto, a vontade impenetrável do Altíssimo houvera por bem dotá-lo de uma
voz tão esplêndida que nenhum dos anjos dos exércitos celestes podia superá-la. Ninguém se
animava a abafar semelhante milagre da natureza, e o deixavam cantar, com anuência do
diretor da prisão, o qual, ao passar por ali, mais de uma vez tinha parado, ele mesmo, para
ouvir aquele canto.
D. Horácio perguntou se não seria possível obrigar o homem a continuar. Respondeu-lhe o
soldado negativamente: bastava que lho pedissem, para ele não o fazer, pois era desconfiado
e de má índole. Às vezes passava o dia sem abrir a boca, e outras vezes cantava horas a fio,
tudo dependendo de sua disposição.
— Não me posso resolver a sair daqui sem tê-lo ouvido mais uma vez — disse d. Horácio
—, senão amanhã poderia crer que fui vítima da minha imaginação.
Mostrou-se o cardeal também ansioso de voltar a saborear aquele prazer. Estavam os dois
ponderando se não deviam tentar persuadir o preso a recomeçar, quando o canto novamente
ressoou, encantando-os como dantes.
— Um tenor como este nunca tive na minha capela — observou d. Horácio.
O cardeal deu-lhe razão. Embora o cantor não tivesse a incomparável cultura vocal do
famoso Mignotta — nem aquela perfeição na arrancada e aquela uniformidade da voz no
crescendo e no decrescendo do tom —, em força, flexibilidade e doçura deixava todos atrás
de si.
— Não me recusaria a ficar imóvel num pé só durante uma hora inteira para poder assistir a
um concerto destes.
— Meu amigo — respondeu-lhe d. Horácio —, não posso ter sossego enquanto não
conseguir informes mais amplos a respeito deste homem. Acompanhe-me agora mesmo ao
gabinete do diretor para tomarmos as medidas necessárias a fim de nos apoderarmos de
tamanha preciosidade.
O diretor confirmou a informação do soldado e completou-a dizendo tratar-se de um
assassínio quádruplo, cometido por vingança e totalmente elucidado. O criminoso, de nome
Ronco, tinha o hábito de ordenhar de noite as vacas de um vizinho. Um rapazote, filho dum
rendeiro das vizinhanças, desvendou o mistério e pôs de sobreaviso o camponês prejudicado.
Ronco manteve-se tranquilo por algum tempo, como se a coisa não passasse de brincadeira e
dispensasse qualquer comentário. Ao cabo de oito dias, no entanto, matou friamente, à faca,
não apenas o rapazinho que o denunciara, senão também os pais e a velha avó, habitantes,
todos, da mesma choupana. O crime provocara indignação geral; o homem merecera a morte,
e a ela não escaparia; a ele mesmo pouco lhe importaria aquilo, pois era tão bruto que mal
podia distinguir entre vida e morte.
A d. Horácio pareceu estranha a explicação. Era de supor que entre as duas famílias
houvesse alguma velha pendência, como em geral acontecia em casos de vingança como
aquele. Além do quê, o homem devia ser irrefletido e sensível. Ele mesmo gostaria de ter uma
conversa com o preso para descobrir a verdade.
Com um encolher de ombros, o diretor contraveio que os senhores juízes já se haviam
molestado com o caso muito mais do que merecia aquela fera, mas nem por isso se recusava
a atender ao pedido de Suas Excelências, aconselhando-lhes, porém, não se aventurarem à
cela sem um guarda, que de um tipo daqueles tudo se poderia esperar.
Teria o cardeal aceito o conselho com prazer, mas Horácio deu uma risada e, endireitando
o busto vigoroso e enchendo de ar o largo peito, disse que não lhe faltava coragem para
enfrentar um campônio que comera milho a vida inteira.
Na realidade, não foi medo o que se apoderou do maestro ao defrontar-se com o monstro,
que os esquadrinhou com um rápido olhar cheio de ódio desconfiado e voltou a fitar o ar diante
de si com os olhos sem expressão: sentiu-se presa de involuntário horror à ideia do mau-
olhado que ele lhes podia deitar. Segundo um plano previamente concertado, o cardeal pôs-se
a falar, depois de havê-lo tentado várias vezes, e disse que os dois estavam verificando as
condições existentes nos cárceres; que vinham saber se o preso tinha alguma reclamação, se
estava disposto a receber a visita de um padre, se estava inclinado a prestar novo
depoimento, ou se desejava desafogar o seu arrependimento em presença de pessoa
revestida de autoridade espiritual e digna da maior confiança.
O discurso cuidadosamente preparado do cardeal não mereceu da parte de Ronco outra
resposta senão um rosnar furioso, enquanto o seu polegar indicava a porta aos visitantes. Mas
o cardeal voltou à carga e lembrou que ele, Ronco, era acusado de um crime tão monstruoso
quanto inexplicável; talvez pudesse alegar alguma circunstância capaz de comprovar-lhe a
inocência ou diminuir-lhe a culpabilidade, e que porventura não lhe houvesse ocorrido declarar
aos juízes, por confusão ou por vergonha. O Santo Padre encontrava mais alegria em salvar
um inocente do que em punir um culpado, e estendia a sua clemência até aqueles que se
tinham visto arrastados a algum ato criminoso por irreflexão, iracúndia ou instigação do Diabo.
— Raios partam o chiqueiro do papa! — sibilou Ronco entre dentes, indicando a porta com
um olhar feroz.
Sem querer, o cardeal recuou um passo, como se desejasse pôr-se fora do alcance de tais
blasfêmias.
D. Horácio, sentindo a necessidade de ajudar o amigo, disse por sua vez:
— Nem o Santo Padre nem os seus servidores te querem mal, amigo, como pareces supor.
Não estaríamos aqui se quiséssemos a tua morte, que, aliás, bem parece teres merecido.
Deus, em sua onisciência, quis dotar-te de uma bela voz, distinguindo-te, assim, dos outros,
com sua vontade impenetrável. Não nos poderias dar outra amostra da arte maravilhosa que
possuis e que demonstra residir em ti maior parcela de divino do que teus atos, tuas palavras
e teu aspecto fariam crer?
Ou por entender essas palavras como zombaria, ou por considerar toda a conversa uma
importunação, Ronco berrou com incontida fúria:
— Fora daqui, tratantes! Do contrário, vou cantar-vos alguma coisa que vos fará estourar
os miolos!
O convite vinha acompanhado de gestos tão ameaçadores que os dois fidalgos acharam
melhor não insistir mais e retirarem-se. Ronco marcou o seu triunfo com uma desdenhosa
cusparada pelas costas deles.
De tão assustado, o cardeal Mazzamori não pôde prosseguir: encostou-se à primeira janela
do corredor para respirar e recompor-se um pouco.
— Que fera! — observou Horácio. — Temos de reconhecer que nossos campônios mal
passam de animais, e tratá-los em consequência.
— O homem tem a fisionomia de um lobo — acrescentou o cardeal —, e aposto que tem a
dentadura de um lobo. Parece mesmo necessário que a humanidade fique livre de semelhante
energúmeno.
Suas últimas palavras foram abafadas pela voz de Ronco, o qual, por teima, ou porque,
apesar de tudo, os elogios dos dois fidalgos o houvessem lisonjeado, voltara a cantar.
— Divino, divino! — cochichou d. Horácio. — Esta maravilhosa voz não pode ser destruída
sem mais nem menos. Não pouparei esforços nem despesas a fim de salvá-la para mim.
O cardeal ouvia atento, fechadas as pálpebras, de sob as quais brotavam lágrimas.
— Uma harmonia destas sair da garganta do Inferno! — suspirou. — Ó segredos do Todo-
Poderoso! Cada som é puro, brando e claro, como uma gota de orvalho que de manhã oscila
num botão de flor. Que não dirá Sua Santidade ao ouvir este canto!
Os dois senhores deixaram excitados a prisão e fizeram-se conduzir, na liteira que os
esperava, ao palácio do cardeal, a fim de combinarem as providências que se deveriam tomar,
pois estavam os dois de acordo em que aquela ave rara tinha de ser adquirida para a capela
pontifícia, fosse como fosse. Após se haverem refeito das variadas e violentas emoções da
manhã com um copo de bom vinho num aposento confortável, de paredes cobertas com lindos
tapetes de Arezzo, não se lhes afigurou impossível conseguir que o tribunal absolvesse o
precioso Ronco. Vieram a saber que a defesa do criminoso fora confiada a um certo
Guidobaldo, com quem resolveram entrar quanto antes em entendimento. D. Horácio já lhe
fora apresentado numa casa de amigos e entretivera-se gostosamente com ele, embora o
advogado fosse livre-pensador e inimigo do clero. Como, porém, não manifestasse suas ideias
a não ser quando necessário, respeitasse irrepreensivelmente as exterioridades da religião
enquanto se sabia observado, e fosse um companheiro alegre e hábil, até pessoas da Igreja
podiam apreciar-lhe o bom senso livre de preconceitos e os dotes intelectuais, satisfeitas de
manter com ele boas relações. Deu-se a feliz coincidência de o advogado, precisamente
naquele tempo, achar-se com desejo de comprar uma casa de campo, cujo extenso jardim
subia pela vertente do Janículo, sem poder ou querer pagar o preço elevado que lhe pediam:
assim apareceu a desejada oportunidade de conciliar por meio de um favor aquele homem tão
necessário. Apressaram-se os dois amigos, pois, em procurar naquele mesmo dia o causídico,
e, alegando as suas relações com d. Horácio, pediram-lhe que consentisse em adiantar a
importância de que necessitava para a compra da casa de campo. Esperavam, destarte —
explicou d. Horácio —, merecer em troca bom acolhimento de sua parte, se o que lhe iam
pedir fosse compatível com a sua honra e outras considerações. Depois desse preâmbulo, o
maestro contou a descoberta que acabava de fazer na prisão, falou da paixão de Sua
Santidade pela música, especialmente pela música cantada, e do seu desejo de adquirir um
elemento tão raro como aquele para a capela pontifícia, tanto mais quanto ao mesmo tempo
se salvaria uma vida humana, encaminhada a uma carreira mais útil e talvez gloriosa.
O advogado respondeu que já ouvira falar na bela voz de Ronco, mas não se interessava
particularmente pelo assunto; teria, contudo, prazer em contribuir para dar uma alegria ao
Santo Padre, além do que fazia parte do seu ofício defender criminosos e, se possível, salvá-
los. Todavia, no caso em apreço, a coisa era difícil, por se tratar de um réu convicto e
confesso, além de incapaz, por demasiado estúpido e rude, de tomar ou sustentar qualquer
providência destinada a salvá-lo, se é que tais providências podiam ser inventadas. Depois de
breve meditação, acrescentou que, ao cabo de contas, querendo-se firmemente, não era
impossível encontrar algum caminho; mais de um já fora absolvido, embora tão merecedor de
morte como o perverso Ronco; quanto ao presidente do tribunal, monsenhor Aluísio, sabia-se
que o seu voto estava à venda, embora por preço elevado, ao passo que o do seu assistente
leigo se obtinha por meio de uma gorjeta. Havia, porém, d. Petrônio, homem inacessível, cuja
única vaidade e paixão consistia na própria incorruptibilidade: bancava sempre o moralista e
velava zelosamente por que nada desairoso se processasse com a sua colaboração. Caso se
aproximassem dele com quaisquer propostas amistosas, estava tudo de antemão perdido;
cumpria, pois, contorná-lo ou burlá-lo, mas para isso tinham de excogitar um plano. Outro
estorvo: o processo encontrava-se em pleno andamento, faltando apenas uma audiência, e,
como o caso era líquido, o julgamento não se faria esperar. Fosse como fosse, animou os dois
solicitantes, dizendo-lhes que muitas vezes a noite era boa conselheira, e sugeriu-lhes que, por
enquanto, se pusessem em contato com o presidente do tribunal, falassem-lhe com toda a
franqueza e lhe dessem a entender que o papa estava a par de seus esforços, o que não
deixaria de influir-lhe decisivamente na atitude.
Era monsenhor Aluísio amante do fausto e da alegria, sabia viver e deixava os outros
viverem, contanto que tivessem dinheiro à larga, que só a falta deste lhe podia perturbar
demoradamente o bom humor. Ao compreender que o cardeal e o maestro pretendiam
assegurar-lhe um considerável afluxo do precioso metal, acolheu-os com hospitalidade
rumorosa e brilhante, fê-los passar pelas salas luxuosamente mobiliadas de sua residência,
mostrou-lhes a sua coleção de porcelanas chinesas e prometeu-lhes atender, no que
dependesse dele, sem escrúpulos mesquinhos, a uma solicitação tão razoável e inócua; mas,
tal como fizera o advogado, lembrou o incorruptível d. Petrônio, o qual, com sua extravagante
vaidade, anularia todos os esforços tendentes a deixar escapar o pobre pecador.
— Na minha opinião — concluiu jovialmente —, a justiça está nas mãos de Deus, que nem
sempre acha oportuno esclarecer-nos. Como é curta a corrente de causas e efeitos que nos é
dado entrever! Pronunciamos uma sentença conforme a nossa própria miopia e julgamos ter
feito algo de grande quando mandamos enforcar algum ladrão ou salteador. Quantas vezes
este oculta no peito um coração manso, sendo bom pai ou amigo leal, ao passo que sua
pretensa vítima talvez traga no fundo da alma, lá onde não penetra nenhum olhar mortal, as
cores do Inferno! Mas o nosso excelente Petrônio só compreende a letra da lei e pensa
melhorar o Universo aplicando os artigos à risca.
Após haverem examinado e rejeitado várias ideias que lhes ocorreram em vista da solução
desejada, separaram-se os três senhores sem terem tomado nenhuma decisão, e temerosos
de ver, a despeito de todos os esforços, o cantor escapar-lhes. Porém, a altas horas da noite
d. Horácio recebeu do presidente uma carta, cuja substância se resumia nisto: ocorrera-lhe de
repente um recurso estranho, mas perfeitamente exequível. Bastava fazer crer a d. Petrônio
que os juízes e o advogado estavam subornados para levarem ao patíbulo a Ronco, camponês
rude, mas de boa índole, e que não passava de vítima de intrigas maldosas. Caso o advogado
concordasse e todos representassem bem os seus papéis, era de esperar que d. Petrônio se
empenhasse em salvar a pretensa inocência, de modo que aos demais, depois de relutarem
por algum tempo, só restaria ceder — em benefício próprio.
Não tardaram os interessados a pôr-se de acordo. O cardeal Mazzamori e d. Horácio não
poupavam dinheiro, convencidos como se achavam de que o Santo Padre lhes compensaria
largamente os gastos com a preparação de tão exímio cantor. O advogado tomou a si avisar
d. Petrônio, por uma carta anônima, do abuso que se ia cometer contra um camponês
desprotegido; além disso, espalhou a notícia da compra de casa que acabara de efetuar, e,
em presença dos juízes reunidos no tribunal, aceitou os parabéns do presidente esfregando as
mãos de satisfação. Este acrescentou ter em mente proporcionar a si mesmo, ele também,
uma pequena alegria. O embaixador francês, chamado de volta pelo seu rei e prestes a deixar
Roma, estava querendo vender um coche dourado e quatro cavalos, e ele já lhe fizera uma
oferta, mas ainda não sabia se esta seria aceita. Sorrindo, cochichou a importância ao
advogado, fazendo que essa comunicação parecesse acrescida ao acaso da conversa, e de
caráter confidencial. D. Petrônio, que observava com atenção os senhores, não deixou de
relacionar aquela dissipação tão repentina com a vergonhosa injustiça que, segundo a carta
recebida, eles estavam dispostos a perpetrar. Para não ter mais dúvida, ele próprio
encaminhou a conversação para o processo de Ronco e disse que esperava levá-lo a cabo
naquele mesmo dia, pois num caso líquido como aquele devia-se evitar qualquer perda de
tempo. O presidente concordou, e o advogado, com ironia amável e jocosa, declarou saber
que ia desiludir os senhores juízes, os quais haviam de gostar de uma longa demonstração de
seus dotes oratórios; tinha, porém, decidido que dessa vez se limitaria a pedir uma sentença
clemente, pois não queria enlamear-se com a defesa de tão perverso criminoso.
— Isto é bem diferente do que o senhor afirmou antes — observou gravemente d. Petrônio.
— Segundo nos disse, o motivo que teria levado Ronco ao assassinato é insignificante demais
para explicar semelhante atrocidade, e um criminoso comum procuraria negar o crime para
salvar a própria vida; conviria, pois, examinar se aquele camponês evidentemente meio
embrutecido não é um instrumento de poderosos, ocultos nos bastidores com seus objetivos e
seus expedientes.
— Por aí os senhores podem ver — replicou o advogado fingindo um sorriso tolhido — até
onde deixei levar-me pelo zelo profissional. Mas agora me parece preferível não ultrapassar os
limites da cortesia que devo a pessoas que facilmente compreenderão quão pouco interessa a
poderosos o extermínio de uma família de rendeiros inocentes, ou mesmo a execução de
um Ronco, e que as minhas palavras anteriores não passavam de um desses rodeios e
hipóteses que um causídico experimentado deve ter sempre a seu dispor.
— O senhor, meu caro d. Petrônio — acrescentou risonho o presidente —, suspeita de
injustiças por toda parte, porque o seu generoso impulso de proteger perseguidos procura um
campo de ação. Pois bem, a perversidade é menos interessante do que lhe parece. Não se vê
todos os dias a ralé brigar e entrematar-se? Não precisamos inventar fábulas para explicá-lo.
Nessa altura, d. Petrônio, a quem nada ofendia mais do que o não ser levado a sério,
empreendeu um ataque direto, procurando constantemente dar a impressão de um espírito
calmo e inacessível a influências. Pouco importava o destino de Ronco, retorquiu; sobre isso
não havia dúvida. Quase não passava dum animal, cujo sentimento de humanidade fora
perturbado pela estupidez ou pela rudeza. Não se devia crer que ele tivesse a menor
compaixão do réu; era melhor para todos, inclusive para ele mesmo, entregar a alma a Deus.
Tais considerações, contudo, não bastavam a detê-lo na investigação da verdade e na
aplicação da lei. Pois tratava-se unicamente de lei e de justiça, e não do bem-estar de
acusados ou de acusadores, e menos ainda de seu próprio interesse. Nada queria saber a
respeito de Ronco, não se indignava se ele tinha mulher e filhos, parentes ou amigos. Tal
procedimento podia parecer estranho na época atual, mas por isso mesmo ele não adotaria
outro. Sem dúvida, nunca chegaria a comprar propriedades, ou constituir coleções de objetos
de arte, e talvez nem praticasse o bem; bastava-lhe ter servido com desinteresse a verdade e
a justiça, como era de sua obrigação.
Os adversários responderam um tanto irritados, e a conversa degenerou em briga, que
ainda não terminara no momento em que Ronco foi apresentado ao tribunal. Nunca este se vira
tão solicitado como dessa vez, pois a cada pergunta do presidente fez d. Petrônio suceder
outra pergunta, formulada de modo diverso e destinada a desvendar a verdade, até então
manhosamente escondida. Entrementes o bruto notou que alguma alta personalidade
começara a interessar-se pela sua causa, mais ainda, a trabalhar pela sua absolvição, e a
sua tão propalada estupidez e rudeza não o impediu de considerar esse aspecto como
agradável, nem de auxiliar seus aliados na medida em que os podia compreender. De quando
em quando percebia tão bem o sentido das perguntas cruzadas que lhes dava respostas
diametralmente contrárias a seus depoimentos anteriores, suscitando medonha confusão no
processo, tão claro até então. Sempre que isto acontecia, d. Petrônio lançava um olhar grave
e apaixonadamente inquiridor aos seus adversários, os quais, aparentemente cada vez mais
enleados, se excitavam e investiam contra o acusado com veemência e em tom quase
ameaçador, com o que o punham num estado de alma favorável a seus planos. Com efeito,
Ronco principiou a considerar-se pessoa importante, e, se antes já se sentira satisfeito
consigo mesmo e com o seu crime horrível, acabou crendo que não precisava aguentar
desaforos daquele tribunal fanfarrão, que de modo algum era melhor do que ele, e tinha
provavelmente menos cérebro. Sem fazer declarações em que a acusação pudesse escudar-
se, confirmava o que d. Petrônio se empenhava em lhe insinuar, a saber, que não praticara o
crime por iniciativa própria, mas fora instigado, ou melhor, forçado, a praticá-lo, sem que lhe
fosse possível dizer por quem. Concluiu declarando que podiam condená-lo à morte, não se
importava; porém era inocente, muito menos assassino do que aqueles que o levariam à forca.
Os conspiradores, porém, não se deram logo por vencidos; pelo contrário, fingiam querer
condenar Ronco a todo custo e censuraram d. Petrônio por haver aberto uma portinha à
raposa caída já na armadilha e por havê-los feito desnecessariamente perder tempo com uma
causa ruim e de pouca monta. Com isso o excitaram cada vez mais e o fizeram resolver que
levaria a verdade a triunfar, por mais esforços e aborrecimentos que isto lhe custasse.
Quis o acaso que d. Petrônio conseguisse desvendar uma circunstância até então
desconhecida: tanto o assassino quanto o assassinado eram donos de terras livres e, anos
antes, tinham estado em litígio com o senhor que lhas arrendara, por este querer reduzi-los a
rendeiros de uma dependência total. O juiz não teve mais dúvidas sobre que o senhor em
apreço, um Aldobrandini, procurara livrar-se ao mesmo tempo dos dois homens, bastante
audaciosos para enfrentá-lo, e para isso os instigara um contra o outro. Se renunciou a
desmascarar o culpado, foi porque este, poderoso, astuto e circunspecto como era, não se
deixaria prender; mas, pelo menos, quis arrancar-lhe a vítima por menos que esta lhe
merecesse compaixão.
Nesse ínterim, tivera d. Horácio um entendimento definitivo com Ronco, o qual, depois de
muita persuasão, se declarou pronto a entrar ao serviço do Santo Padre na qualidade de
cantor, caso fosse absolvido. Daí em diante pôde desempenhar ainda melhor o seu papel, e
mostrou-se cada dia mais insolente, a ponto que o tribunal inteiro esperou ansioso o momento
de se ver livre do seu protegido. Assim, de todos os lados reinaram alegria e satisfação iguais
quando se verificou a absolvição, conquanto o presidente e o advogado ocultassem os seus
verdadeiros sentimentos sob o disfarce de uma raiva e humilhação fingidas, para tanto melhor
se divertirem quando se encontrassem a sós.
Apenas o cardeal Mazzamori teve de passar maus quartos de hora, pois o mau humor de
sua amada crescia cada vez mais, desde quando ele não lhe resolvera o caso do jovem primo.
Por mais que o prelado jurasse haver tentado tudo o imaginável para salvá-lo, em vão, visto
que a justiça tinha de seguir o seu curso, e afirmasse estar tão aflito quanto ela, Olímpia
teimava em repetir que ele não fizera o menor esforço, porque a amava de um amor egoístico,
empenhado só em gozar, e não em agir ou em fazer sacrifícios; e castigou-o com uma tristeza
que nada conseguia dissipar. A desolação de sua pobre tia — dizia ela — abrira-lhe de
repente os olhos para a miséria da vida, de sorte que já não podia distrair-se com diversões
terrenas e só achava consolação na entrega de si mesma a Deus. De fato, tornava-se difícil
encontrá-la em casa: vestida de luto, percorria as igrejas e desfazia-se em lágrimas ante este
ou aquele altar. Se excepcionalmente recebia o seu amigo, exigia que lhe falasse de assuntos
espirituais, e, como ele não soubesse atendê-la nesse terreno, acusava-o, com grande
amargura, de não entender do próprio ofício e não passar de um hipócrita e um impostor.
Sentia-se profundamente infeliz e frustrada em tudo aquilo que antes lhe dera equilíbrio e
conteúdo à existência. O marido, de quem estava separada desde muito, parecia-lhe, no
fundo, bem mais aceitável do que o cardeal, sobretudo porque não pretendia passar por
melhor do que realmente era. Evocando o tempo em que Mazzamori lhe conquistara o
coração, já não via em todas as cenas ocorridas entre eles o encanto da poesia que
anteriormente as abrilhantara a seus olhos. Que haveria em tudo aquilo de diferente ou de
superior ao que se observava todos os dias e em todos os lugares, provocando, não raro,
risota e nojo? Por mais que se esforçasse para encontrar no cardeal qualidades excepcionais,
a sua consciência lho apresentava como um monstro impudico igual aos demais homens, e até
pior, pois a sua condição de eclesiástico o tornava também um mentiroso hipócrita. Preferiria
nunca mais o rever, e se, no entanto, o convidava ou recebia de vez em quando, era sobretudo
para que ele ouvisse o que ela pensava a seu respeito e como se sentia desventurada.
Por grave desventura do prelado, o sombrio humor da linda Olímpia tornava-a, a seus
olhos, muito mais amável que antes. Seu espiritualizado olhar atraía-o mais do que outrora,
quando ardia de sensualidade, e aquela mágoa humilde, que o deveria ter afastado,
provocava-lhe, junto com a compaixão e a admiração, sentimentos de amor sincero. Quanto
ela lhe parecia mais bela e mais sublime depois que não precisava dele! Ao observar com que
brandura e compreensão tratava pessoas pobres — pois agora ela buscava ocasiões de fazer
bem a necessitados —, ao ouvir com que bom senso e franqueza Olímpia se manifestava a
respeito de todos os assuntos e situações da vida, ela parecia-lhe como que renascida, fora
de seu alcance, e tanto mais desejável. Forcejava por acompanhá-la em seus novos
pensamentos, mas não colhia senão aspereza e derrisão. Todas essas tentativas, que, em vez
de atingirem o alvo, não passavam de transbordamentos de paixão, Olímpia julgava-as
ridículas e até repelentes, e só serviam para lhe reforçar a impressão de que o amante era um
vulgar hipócrita.
Na esperança de reter a beldade que lhe escapava e de reviver-lhe um pouco a curiosidade
profana, o cardeal falou-lhe no cantor admirável que seu amigo d. Horácio acabava de
conhecer e de conquistar para o serviço do papa. O artista — contava — era perseguido por
um destino adverso, e fora descoberto por d. Horácio em circunstâncias das mais esquisitas,
que ele mesmo ignorava. O certo era que o homem possuía a voz mais esplêndida de quantas
já encantaram um ouvido italiano, e que havia de aperfeiçoar-se ainda, graças ao rigoroso
aprendizado a que ia ser submetida. Os meios necessários para isso eram-lhe fornecidos por
ele mesmo e pelo maestro, que o cantor fora reduzido à miséria pelas referidas adversidades;
mas não se arrependiam do sacrifício, pois cada tom saído daquela abençoada garganta era
ouro mais legítimo do que o que os dois haviam despendido em benefício dela. Caso Olímpia
quisesse ouvi-lo, estava pronto a organizar, para isso, uma festa em sua própria casa.
Olímpia, contudo, de tão entregue a pensamentos melancólicos, não permitia a si mesma
quaisquer distrações; tudo quanto a desviasse deles desagradava-lhe, só lhe agradava o que
os confirmasse. Gostava de canto bonito — dizia —, mas parecia-lhe caro demais se tinha de
ouvi-lo na presença de outros, sobretudo no meio do aparato da sociedade. Se, porém, o
cantor pudesse visitá-la e exibir-lhe a sua arte sem lhe perturbar a meditação solitária, talvez
encontrasse prazer em ouvi-lo. Satisfazer tal desejo estava, por enquanto, fora do alcance do
cardeal, que não sabia se Ronco, tornado cobiçoso e insolente, se acharia disposto a exibir-se
sem mais nem menos, especialmente sem a perspectiva de um lucro considerável, e, por outro
lado, não se atrevia a responsabilizar-se pelo procedimento do seu protegido quando este
ficasse a sós com uma dama, sem ser observado e vigiado. Assim, para apresentar o
fenômeno a Olímpia, tinha de esperar uma oportunidade; esta chegou quando o maestro, que
ensinava a Ronco, lhe achou a voz tão disciplinada que nada mais obstava à sua apresentação
na corte.
Para o concerto, que devia realizar-se nos aposentos do papa, este convidou reduzido
número de íntimos, amigos da música, entre os quais não podia faltar o cardeal Mazzamori, de
tão grande mérito da descoberta. Também se lhe concedeu de bom grado a autorização de
trazer a sua amiga Olímpia, a qual, apesar dos pesares, não ousou recusar um convite da
Santa Sé. Verdade é que escolheu um traje escuro e simples e um penteado que em nada
lembravam a maneira suntuosa por que antes costumava aparecer, e manteve-se modesta e
quase envergonhada no segundo plano; mas não pôde impedir, com tudo isso, que a sua carne
deliciosa brilhasse ainda mais amável na sombra.
Era o papa Inocêncio um ancião distinto, de fisionomia graciosa, olhos algo indecisos, nariz
aquilino, lábios finos e em geral sorridentes. Respondia depressa às homenagens dos
convidados, dizendo um gracejo a cada um, mas notava-se que a esperada exibição o tornava
impaciente. Um minuto depois da hora marcada para a chegada do cantor, observava-se-lhe
em volta dos olhos um tremor nervoso, e o cardeal levou ansiosamente os olhos do luxuoso
relógio de chaminé à porta de duas folhas, soltando um suspiro de alívio quando esta se abriu.
Entrou d. Horácio, e pediu licença para introduzir o cantor. Este, durante o tempo de seu
preparo, adotara como diretriz de suas futuras atitudes, simples mas oportuníssimas,
empenhar-se unicamente em conseguir o aplauso do papa. Animado por semelhante propósito,
os olhos fixos com agressiva insistência no augusto objetivo, foi direto prostrar-se aos pés do
ancião, beijou-os, e permaneceu nessa postura, com os braços cruzados no peito. Essa
demonstração ingênua de fervorosa devoção comoveu Inocêncio a tal ponto que, sem querer,
tocou a fronte do cantor com os lábios e suas largas espáduas com as mãos, cumprimentou-o
com palavras animadoras e o convidou a levantar-se e a sentar-se. O ancião quase chegou a
temer que a emoção de quem se encontrava pela primeira vez na sua presença pudesse tirar
ao artista a força da voz. Verificou-se, porém, que aquele homem robusto unia ao fervor o
desembaraço de uma criança: os primeiros sons, sem que o mais leve tremor os perturbasse,
rolaram pela sala como grandes e brilhantes pérolas. Em obediência a uma ordem de d.
Horácio, Ronco entoou primeiro a canção popular que o maestro e o cardeal lhe tinham ouvido
no cárcere, e que, por si só, como coisa insólita e estranha, suscitou profunda impressão.
Dir-se-ia que a varinha de um mágico tocara o coração dos ouvintes; no espírito de cada
um emergiam sonhos queridos, momentos raros evocados ou almejados, exalando um perfume
suave como não se percebe na realidade amesquinhadora. Olímpia sentiu-se tomada de uma
dor poderosa, mas que não era oprimente como aquela a que se entregava desde meses com
alternado ímpeto, e sim penetrante e agradável, tal uma força que a erguesse acima da vida
vulgar. Ocorreu-lhe o que fora quando menina, o que esperara do futuro e o que desejara
cumprir e conseguir, e, a um só tempo, com a compreensão aterradora de como se desviara
do seu objetivo, julgou perceber que tão somente dela dependia voltar a ser a alma pura, forte
e risonha de outrora. Sem deixar de se arrepender de suas relações com o cardeal,
censurava-se de havê-lo tratado com dureza, porquanto ela havia pecado como ele e, por
outro lado, ele não podia tirar-lhe a possibilidade de se redimir do erro em que a precipitara e
de subir para a luz. Julgou um milagre o encontrar-se, malgrado toda a sua resistência, junto
àquele homem cuja voz lhe dava tamanha consolação e que, por isso, quase se lhe afigurou
um enviado do próprio Deus. Do cantinho onde se sentara pôde tranquila admirar-lhe a
estatura heroica e a fisionomia sombria, cuja ferocidade a fez estremecer.
Os cuidados extremos que Ronco aceitava, desde muito tempo, de seus protetores,
tinham-no embelezado apenas da maneira por que um lobo sarnento e faminto pode tornar-se
farto; mas isso não bastava para exercer em todos impressão poderosa e deslumbrante. Era
geral o entusiasmo, mas ninguém disputou ao Santo Padre o direito de manifestá-lo primeiro.
O pequeno ancião ouvia com as faces coradas, meneava a cabeça e chegava a interromper o
canto com exclamações de enlevo como — “Ah! Que empostação! Que suavidade! Que
invenção!” — enquanto as cadências prorrompiam daquela boca tal como de uma cornucópia.
A admiração de Olímpia cresceu ao notar esta que o cantor não lançava um olhar sequer aos
ouvintes e ainda menos ao canto onde ela estava; parecia encontrar-se ali unicamente para o
Santo Padre e esperar-lhe os acenos para cantar ou calar-se, semelhante a um arcanjo que,
em pleno fasto, aguardasse humilde as ordens do Senhor dos Exércitos.
Somente quando os circunstantes se levantaram e se dispersaram caiu sobre ela um olhar
do cantor, que parecia exprimir, mais que indiferença, profundo desprezo. Daí deduziu Olímpia
que ele sabia de suas relações com o cardeal Mazzamori, pensava que tais relações
continuavam, e por isso a tomava por uma mulher perdida, o que, aliás, não deixava de ser.
Na realidade, Ronco não tinha reparado em Olímpia, nem em qualquer das mulheres
presentes, primeiro por estar preocupado exclusivamente com o aplauso do papa, e depois
porque as damas da alta sociedade ainda não lhe aguçavam o apetite. Mas aos poucos
principiou a abrir os olhos, e não lhe passou despercebida a veneração com que a bela
Olímpia o contemplava. Muito o lisonjeava ser preferido pela amante do cardeal Mazzamori a
esse homem respeitado, influente, amável e culto, tanto mais quanto sentia vivo impulso de
ofendê-lo. À medida que se reforçava sua posição junto ao papa e na corte, os dois senhores
que tão bem conheciam o seu passado tornavam-se-lhe insuportáveis, de tal maneira que
concebeu a ideia de, na primeira oportunidade, afastá-los de Roma.
Nos primeiros dias seguintes ao concerto, o cardeal sentia-se feliz com o êxito, pois a
mulher amada parecia ter-se feito branda e acessível. Qual não foi sua decepção quando ela
lhe comunicou, ainda que em palavras amistosas, estar inflexivelmente decidida a romper
qualquer contato com ele, pois queria começar vida nova, uma vida mais pura em Deus!
Ao ver que se malogravam todas as tentativas de afastá-la desse propósito, o prelado
resignou-se; e já formulava o plano de imitar-lhe o exemplo, a fim de voltar a encontrá-la, pelo
menos, nas regiões da renúncia, quando gracejos de conhecidos lhe chamaram a atenção para
os fios de afeto que se estavam tecendo entre o cantor e a penitente. Convencido embora de
que os sentimentos de Olímpia não passavam de exaltação de uma alma impressionável por
uma voz em que se manifestava algo divino, duvidou, e com razão, de que o violento camponês
fosse capaz de semelhante elevação de sentimentos, julgando-o, pelo contrário, inclinado a
arrastar a mulher para o abismo de sua luxúria.
Tal suspeita se transformou em certeza ao saber que o cantor pedira e obtivera, havia dias,
licença para descansar a sua voz nalgum lugar à beira-mar ou na montanha, coisa que os
médicos julgavam de absoluta necessidade. Fora de si, o cardeal correu ao papa a fim de
esclarecê-lo sobre o perigo que, a seu ver, ameaçava uma nobre amiga sua, e sobre a
maneira hedionda por que se ia abusar da bondade do generoso príncipe da Igreja.
Mal o ancião percebeu tratar-se de um ataque ao seu favorito, os lábios se lhe contraíram
num gesto de enfado. Ele mesmo sofria com a ideia da próxima ausência de Ronco, e,
contudo, atendera ao pedido deste, dando assim um exemplo de abnegação. Então não podia
permitir àquele engenhoso feiticeiro nem sequer uma aventurazinha para desafogar-se? Ele
mesmo tinha sido jovem um dia! E como aquele homem ardente, abrasador, pródigo,
necessitava, bem mais do que outro qualquer, de refazer suas forças, que depois o
beneficiariam a ele próprio, ao papa, e a todos aqueles que o ouvissem! Ao recordar-se de
como aquela figura leonina se lhe prosternara aos pés no primeiro encontro, com os braços
cruzados sobre o peito, novas lágrimas lhe afloraram aos olhos. Desde então o cantor nunca
se desviou daquele devotamento cavalheiresco e ingênuo. Embora de temperamento
impetuoso e espírito soberbo no comércio com os outros, a quem surpreendia frequentemente
com os seus rompantes e a sua grosseria, jamais se aproximava dele, do Santo Padre, do
anciãozinho gracioso, sem inteira submissão, aceitando-lhe todas as censuras com modéstia e
paciência e proclamando, de cada vez, a supremacia de seu julgamento, como que
diretamente emanado de Deus, e ao qual ele se curvava com obediência e prazer
manifestamente iguais.
Encostando-se em sua cadeira, Inocêncio encarou o cardeal com surpresa e pediu-lhe que
explicasse os motivos de seu interesse pela licença e pela viagem do cantor. Corando
levemente, o cardeal advertiu que talvez o Santo Padre ignorasse que Ronco pretendia fazer a
excursão em companhia de uma dama de quem, segundo estava informado, não era nem
marido nem parente.
— E daí? — perguntou o papa com frieza. — Será que o senhor nunca empreendeu viagem
em companhia de damas de quem não fosse parente? E, se o senhor, um eclesiástico, um
servo de Deus, não o fez, por que haveria de negar essa liberdade a um cantor?
O cardeal tremia de perplexidade, angústia e desilusão.
— Perdoe-me Vossa Magnificência — replicou — se a minha preocupação com a sorte de
uma senhora que me é cara, e por cuja salvação eu me comprometera a zelar, me levou longe
demais.
Sem lhe dar tempo para continuar, o papa o interrompeu:
— Está certo! Mas deixe que as mulheres de maior idade se defendam a si mesmas, se é
que necessitam de proteção, ou a desejam. Por mim, sempre adotei como norma dar
liberdade de ação aos meus súditos em assuntos de família, pois é nesse ponto que a
soberania poderia transformar-se em tirania.
Depois desta chamada à ordem, viu-se o cardeal despedido de maneira não inclemente.
Numa próxima recepção, o Santo Padre até o distinguiu com palavras amáveis; quando,
porém, ao cabo de alguns dias, o cardeal foi colocado à frente de uma missão enviada ao
Japão para converter fiéis, viu nisto mais um sinal da vontade que tinha o pontífice de afastá-lo
do que um testemunho de sua especial estima.
Estava tão firmemente convencido da própria incapacidade para semelhante tarefa que se
atreveu a submeter ao papa as suas apreensões a tal respeito; mas este o tranquilizou,
elogiando-lhe os multíplices talentos, que, postos a serviço de um zelo sagrado, não
conheceriam obstáculos, e fazendo-lhe entrever, como o maior prêmio a seu alcance, a coroa
do martírio.
Manteve-se d. Horácio na sua posição por algum tempo mais, porém a pertinácia de Ronco
terminou vencendo-o também, pois por meio de atos de insubordinação e de ofensas
incessantes o levou a queixar-se dele ao Santo Padre. Como este o desatendesse e, até, lhe
recomendasse não contrariar tão magnífico artista, ornamento da corte pontifícia, o maestro
exclamou num acesso de cólera:
— Como? Hei de me deixar escarnecer injustamente por esse animal, que retirei do lodo?
Essas palavras impensadas fizeram-no perder por inteiro o favor do amo. Com efeito:
quando procurou justificar as expressões injuriosas, lembrou-se de que não podia revelar a
verdadeira origem de suas relações com Ronco sem se expor a interpretações perigosas; e,
como não encontrasse desculpas para o seu procedimento, deu a impressão, por menos que o
quisesse, de um caluniador tagarela ou de um irrefreável cabeça de vento. Os seus amigos
acharam que devia considerar como favor e sorte a decisão do papa de mandá-lo para a
pequena corte de Luca, onde podia levar uma existência decerto mesquinha, mas pelo menos
não exposta a necessidades e perigos.
Destino a um tempo melhor e pior coube a seu amigo o cardeal Mazzamori; o qual, ainda
que houvesse de enfrentar mais de uma vez privações e perigo de morte, encontrou, nos
intervalos, momentos de uma felicidade até então ignota, quando sobre o seu passado amável
e triste as numerosas impressões estranhas colhidas em seu exílio atiravam um véu multicor,
que o tornava indeciso. Mais de uma vez, ao perambular, em estranha solidão, pela margem
do oceano, entre as gigantescas árvores sem nome e bichos que o roçavam esgueirando-se
do crepúsculo, um brilho encantador do céu lembrava-lhe, não sabia por quê, os apertados e
oblongos olhos de querubim daquele jovem Lanceloto, que haviam de contemplar livres, das
esferas do Paraíso, a Terra abandonada. Talvez estivesse ele sorrindo da confusão em que
nós outros, pobres tolos, andamos envolvidos, a não ser que, cansado desde muito tempo
daquele espetáculo, tivesse voltado a olhar para os mistérios revelados do governo do mundo.
Por momentos, no coração do cardeal a saudade das praias douradas da Itália, que o
espreitava quando estava só, calava-se, e então entrevia, num tímido desejo, a coroa do
martírio que sua obra entre os pagãos perversos lhe poderia valer, e que, segura por mãos
invisíveis, talvez já pairasse acima da cabeça.
JAVIER DE VIANA

Não tem sido fácil, dentro da literatura hispano-americana, delimitar com segurança a
contribuição de cada país. Em parte, porque as grandes divisões regionais não correspondem
com precisão às fronteiras nacionais; em parte, por haver sido frequente escritores desses
países viverem fora da pátria, ou como exilados políticos, ou atraídos pelos grandes centros
de cultura. Até hoje, a grande maioria das editoras da América espanhola está concentrada na
Argentina e no México. Talvez seja mais prático admitir a existência duma vasta literatura
hispano-americana, surgida a um só tempo em diferentes centros, em torno de alguns motivos
e temas principais, tais como as guerras de independência, as lutas contra tiranias locais, a
marginalização do índio, as pelejas dos gaúchos. Assim, quando em poucas palavras
apontamos a evolução literária de um desses Estados (no caso vertente, o Uruguai), fazemo-lo
sob reserva de suas ligações com o conjunto das letras continentais, especialmente as
argentinas.
Como a argentina, é a literatura uruguaia dominada, no início, pela poesia gauchesca. O
poema épico Tabaré, de Juan Zorrilla de San Martín, considerado epopeia nacional, é um
produto do romantismo indianista. Os romances de Eduardo Acevedo Díaz relatam a luta pela
independência nacional. No lirismo, depois de Julio Herrera e Reissig, impuseram-se Delmira
Agustini e Juana de Ibarbourou. Em Ariel, ensaio de repercussão continental, José Enrique
Rodó fez-se defensor de uma democracia idealista e esteticista. Nos romances de Carlos
Reyles, o naturalismo faz-se uruguaio.
A essa última corrente se filiou também Javier de Viana (1868-1926). Filho de estanceiro,
foi criador de vacas e ovelhas, tropeiro e até contrabandista; tentando a política, não passou
nunca de candidato a deputado, graças, diz ele, tanto à sensatez de seus eleitores quanto à
sua íntima despreocupação pelo ofício de fazedor de leis.152 Mas foi sobretudo jornalista, a
quem a combatividade proporcionou não poucos dissabores. Além de vários volumes de
contos e novelas, escreveu também para o teatro.
Conquanto fiel ao ambiente dos pampas, Viana já não vê no gaúcho o herói em que o
transformaram os românticos. Enxergava-lhe os defeitos: a embriaguez, a ociosidade, a
violência e a avareza. É um contista nato, que, com um realismo temperado de humor, narra
casos ou episódios campestres, que não raro se aparentam, pelo assunto, aos relatos dos
nossos regionalistas. Assim, “A benzedura”, em que relata o salvamento, por um curandeiro,
de um peão mordido de cobra; ou “Justiça humana”, em que o marido manso e humilde,
desafiado pela fala da própria mulher (“Que desgraça quando numa casa não há um homem!”),
vira sanguinário e mata de tocaia o seu desafeto; ou “É preciso ser justo”, em que Dom
Mateus, que não entende a oposição da esposa ao casamento da filha com o capataz,
descobre a este e à mulher em colóquio amoroso e se aproveita da descoberta para forçar o
casamento. Enquanto a maioria dos contos se resume numa simples anedota, as novelas
chegam a apresentar retratos psicológicos, como “Os amores de Bento Sagrera”, onde um
estanceiro conta, com requintes de cínica hipocrisia e aparentemente revoltado pela crueldade
do capanga, a morte da amante tramada por ele.

A CARTA DA SUICIDA
Corridos todos os trâmites, enterrada a defunta, o juiz de paz entregou a Torquato a carta que
ela deixara para ele, seu noivo.
Torquato recebeu o papel, girou-o entre os dedos caloso, tornou a girá-lo e terminou
dobrando-o pelo meio e guardando-o no bolso interno do casaco.
Embora estivesse escurecendo, não houvesse almoçado, e seu rancho ficasse longe e fora
de mão, cavalgou seu animal e trotou em direção à pulperia153 de d. Manuel.
Ali, a sós com o dono da taberna, puxou da carta, mostrou-a e disse em tom de súplica
solene:
— Venho aqui para que me leia isto.
D. Manuel — um galego atarracado, muito ancho com os quatro ou cinco mil pesos que lhe
congestionavam as artérias de labrego — botou os óculos, rasgou o sobrescrito e, após um
momento de afanoso exame, confessou com raiva:
— Não entendo estas garatujas!
Resignado, Torquato guardou a carta, cavalgou e seguiu a trote para o seu rancho, longe,
muito longe. A noite era escura; mas Torquato e o seu oveiro 154 sabiam orientar-se de olhos
fechados. A noite era fria; mas Torquato e o seu oveiro tinham a pele curtida, capaz de resistir
a todos os rigores do clima: geada, sol, chuva, granizo... que novidade tinham para ele?
Chegou o camponês ao seu rancho, que, pequeno, essa noite lhe pareceu imenso. Jogou o
poncho em cima do catre e se deitou sem despir-se. Como não tinha fechado a porta, quedou-
se olhando para fora, para o negrume sem limite, abertos os olhos que o sono não queria
cerrar.
Quando a aurora lançou um bafejo purpúreo no interior do rancho, estirou-se na cama. Ao
retomar o poncho, encontrou-o roto, como se o houvesse estado escarvando um animal de
grandes unhas.
Foram as rosetas de suas esporas em tremor nervoso ou foi algum bicho que penetrara de
noite, protegido pelas sombras e aproveitando a porta aberta de par em par?
Não o sabia, não tentava sabê-lo, incapaz de raciocínios na semi-inconsciência em que o
tinha submergido o acontecimento trágico da véspera, e na ansiedade, que o atenazava, de
saber o que diziam as palavras sem voz da morta, guardadas ali, debaixo de um sobrescrito,
junto ao seu coração, num envelope amarrotado.
Saiu, sentou-se nas raízes do umbu, tomou a carta e deixou-se estar contemplando-a
demoradamente, estudando com minúcia extrema cada um daqueles sinais, para ele
misteriosos, indecifráveis, incompreensíveis.
O Sol ia subindo, iluminando, aquecendo. Os casais de brasinos,155 suros156 e
reiunos157 davam voltas, em silêncio, a farejar, a mirar o dono com olhares que pareciam dizer:
— Hoje também não carneamos, patrão?
E o oveiro, amarrado à soga, estranhando não o tivessem ainda soltado, rodava em torno
da estaca, detinha-se, fitava o dono, com as orelhas caídas, a cabeça baixa, como
pressentindo uma desgraça.
Entretanto, Torquato lia, sim, lia: as cifras misteriosas se aclaravam, formando palavras,
formando orações. Por intercessão de uma força misteriosa, ele, que nem conhecia o O por
ser redondo, decifrava a carta da noiva morta. A princípio duvidou, julgando-se presa de um
delíro; mas ali estava o rancho, o umbu, os cães a seu lado, o oveiro na soga, o campo, as
leiteiras na planície, as ovelhas na lomba...;158 achava-se bem desperto.
Lia. E lia o seguinte:
“Meu queridinho: Te escrevo esta para te desejar saúde, que a minha era boa, com a graça
de Deus... até agora que...”
Aqui havia algo confuso, muito confuso, talvez um borrão. E continuava:
“Eu te quero muito e só a você, e como não deixam eu casar com você eu me...”
Nesse lugar negrejava outro borrão; era claro: “eu me mato... E adeusinho, meu queridinho
do meu coração, e me perdoe que eu lhe faça sofrer e reze pela alma da sua pobrezinha. —
Petrona”.
É isso mesmo; assim era a carta. Torquato não sabia ler, mas adivinhava. Seu carinho fazia
um milagre.
Ladraram os cães. O camponês levantou a cabeça. D. Jerônimo, seu vizinho, aproximou-se
dele:
— Bom dia, amigo.
— Bom dia. Se apeie.
— Eu sube que o amigo anda de asa caída, vim me oferecer... sirvo... no que mandar.
— Sabe ler, d. Jerônimo?
— Sim, sei ler.
— Pegue, leia.
E, estendendo-lhe a carta, acrescentou, com certa expressão de orgulho:
— Veja lá o que é que me diz a pequena.
O vizinho leu, balançou a cabeça e disse:
— Que se há de fazer, amigo? As mulheres são assim.
— Assim, como? — replicou o moço com violência.
— Ora, assim, sujas como um pesa-papéis e falsas que nem botas de pulperia.
Ao ouvir Torquato essas palavras, seu rosto ficou branco e rígido como um campo coberto
de neve. Sua mão, que tremia, pousou no braço do amigo, e, com uma voz que em vão
procurava fingir serena, interrogou:
— Você leu?
— Claro que li.
— Quer-me fazer o favor de ler alto?
— Se lhe interessa!... “Meu queridinho...”
— Isso... é isso mesmo...
— “Meu queridinho: Te escrevo esta para te desejar saúde, que a minha era boa, com a
graça de Deus, até agora que...”
— Claro! O mesmo que eu li... Continue, companheiro!
— “...eu tenho que me matar...”
— Não há um grande borrão aí?
— Há, e grande.
— É isso, o borrão!... pobrezinha!...
— “...eu tenho que me matar porque...”
— Veja, isso é o que mais me interessa, leia devagarzinho, não se apresse...
— “...porque, você sabe, meu queridinho... eu tive uma desgraça com o Sinforoso, o
sargento, e ele não quer casar comigo e diz que se eu caso contigo vai te contar tudo, meu
queridinho querido...”
Torquato deu um pulo, agarrou violentamente o amigo por um braço e gritou:
— Isso é mentira, isso não pode ser... assim! Leia de novo, por favor!
Tornou d. Jerônimo a ler o parágrafo, e o camponesinho tornou a reclamar:
— Mas diz assim mesmo?... Olhe bem... a letra é ruim, pode ser que se engane!...
— Não, meu filho! É assim mesmo!... Paciência!
— Continue.
— “Como eu sei que o sargento Sinforoso é um desalmado, e eu sei que você, meu
queridinho querido, é muito bom, te recomendo antes de morrer, porque vou me matar, que
cuides da criaturinha que está com Nhá Francisquinha, a do Rincão do Espinilho. E te manda
um beijo a tua fiel — Petrona.”
Frio, subitamente reservado, Torquato disse:
— Acabou?
— Acabou, amigo.
— E tem bem certeza que ela diz isso... que eu... tome conta... do pequeno?
— Sim, sim, ela diz.
— Bom, amigo, muito obrigado.
— Não precisa de nada?
— De nada.
— Então, adeusinho, e seja forte.
— Ora, amigo, ora! Eu nasci na margem, na água onde se criam vimes e sarandis; eu nasci
terra adentro; no pampa, onde vivem os nhanduvais duros e com espinhos... Adeus, patrício!
Apertaram-se as mãos, d. Jerônimo cavalgou e partiu. O oveiro continuava dando voltas em
torno da estaca, impaciente. Os cães se espojavam rosnando com rosnados que queriam
dizer: —“Também hoje não carneamos?”
Após um momento de reflexão, Torquato encaminhou-se ao lugar onde estava amarrado o
seu cavalo. Quis desatar o maneador, e não conseguiu; tentou arrancar a estaca, e não pôde;
tirou o facão, cortou a guasca, deixou o oveiro livre. Sempre acompanhado pelos cães, foi até
à cozinha. Pendia dum gancho um pernil de ovelha, negro, seco. Despendurou-o e o atirou aos
brasinos. Mais de cinco minutos permaneceu imóvel, olhos no chão, empunhando a faca. De
repente gritou:
— Mulher... pasto e banhado que não se alimenta... sol de outono que não dá calor...
mulher! O pequeno fica aos meus cuidados... Bem!
E, assobiando uma vidalita159 muito melancólica, pôs-se a afiar a faca na pedra que havia
junto do fogão. Depois, provou no dedo o fio, achou-o a gosto, e disse apenas:
— Bem.
ZYGMUNT NIEDZWIECKI

Depois de Boleslaw Prus,160 a literatura polonesa aparece aqui representada por um autor de
porte menor, Zygmunt Niedzwiecki (1865-1918), cujo conto nos interessa menos pela sua
contribuição pessoal ao gênero que como exemplo da influência maupassantiana161 fora da
França. Um dos adeptos mais importantes do naturalismo na Polônia, de 1892 em diante
publicou O sol, No lar, O pecado, O afogado e outros volumes de contos; suas narrativas
lembram Maupassant pela concisão, pela ironia e pelo objetivismo da narração, assim como
por certa predileção por assuntos então considerados escabrosos.162

O DOTE
Mal eu havia transposto a soleira, e do espelho — no qual se mirava uma mulherzinha a pôr o
seu chapéu de primavera — uma voz se fez ouvir:
— É inútil!... É inútil!... Estou de saída.
Tomei a coisa por um gracejo, julgando que ela quisesse brincar com um velho conhecido,
nada mais. Persuadido de que, tendo encontrado aberta a porta do apartamento, aí
encontraria, também abertos para mim, os seus braços, fui dar um beijo no pescoço de Fela,
no lugar onde umas mechas claras e sedosas, frisando-se atrás da orelha, costumam tornar
tão atraente a nuca de certas louras.
No entanto, com as mãos levantadas à orla do chapéu, olhos fitos no espelho, ela declarou-
me sem rodeios que para aquele dia eu nada tinha que esperar...
Não gosto de ser alvo de tais pirraças onde estou viciado com um acolhimento sempre
muito caloroso e onde costumo ditar as minhas vontades. Por isso não escondi o meu mau
humor.
Então ela recorreu a afagos e, assumindo os seus ares mais lisonjeiros, pediu-me que a
compreendesse: tratava-se apenas daquele dia, de uma única vez... Nunca mais!...
— Está bem; mas por quê?
Hesitou em responder. Mas, vendo que eu fazia finca-pé, decidiu revelar-me o seu segredo:
preparava-se para um encontro com o noivo a fim de tratarem de negócios.
Não pude conter o riso:
— Com quem? Você tem tantos...
Mostrou-se ofendida. Dando expressão muito séria à carinha frívola, aproximou-se de mim
e, tirando-a do dedo, me mostrou uma aliança, uma aliança de verdade, com uma data
gravada por dentro...
Considerei o objeto, balançando a cabeça, e devolvi-o à dona. Afinal de contas, casos
como aquele eram possíveis; elas também...
— Vejam só! Então é coisa séria? Até agora você não me falou nisso...
— Ora! A gente só falava em tolices...
Era verdade! E que tolices! É que eu não acreditava que se pudesse falar noutras coisas,
ali.
— E quando vai ser? — perguntei.
— Daqui a um ano, mais ou menos...
— Só?
— Você compreende, ainda não tenho todo o dinheiro...
— Que dinheiro?
— O meu dote! — respondeu-me num tom de solenidade brincalhona, sublinhando
fortemente a palavra.
— Onde diabo você vai buscar esse dote?
Ela avançou o queixo e, com um malicioso piscar de olhos, cochichou entre os dentes, num
sorriso:
— Com vocês!
— Ora essa!
— Pois é! Há dois anos que estou acumulando.
— E você ainda pensa em acumular? Durante um ano?
— Foi o que combinei.
— Com quem?
— Com o meu noivo, é claro.
— Como? Então ele sabe de tudo?
— Naturalmente que sabe de tudo.
Eu arregalava os olhos, espantado: primeiro, com aquela estouvada, com que se podia
brincar tão loucamente — como se ela não quisesse outra coisa senão essas brincadeiras —,
e que no entanto sabia, ao mesmo tempo, pensar com tamanha seriedade no seu futuro;
depois, com o canalha que arranjava dessa maneira uma esposa e um dote...
Excitado pela curiosidade, pus-me a interrogá-la. Sentamo-nos.
O homem era garçom de um restaurante. Amigo de infância, vizinho de quintal, depois
adorador, talvez o primeiro amante, por ora noivo, marido dentro de um ano. Isentos de
ilusões, tinham combinado friamente como arranjariam a vida... Pensavam em abrir um café,
porque ele “entendia do negócio” e “sabia como tratar a freguesia”, e ela... afinal, tampouco
podia queixar-se de falta de êxito. Já tinham escolhido o local (mas isso, por enquanto, era
segredo!), calculado a renda e as despesas, tudo previsto, arrumado tudo. Cada dia trazia
alguma coisa para o futuro; cada dia tornava a felicidade deles mais próxima...
— Um ano, apenas um ano, e enfim serei uma mulher honesta! — concluiu num assomo de
alegria sonhadora e sublinhando esse “enfim” que desafiava toda lógica, com tamanho ardor
que fiquei estupefato.
— Mas para tornar-se uma mulher honesta ainda terá de lutar um ano inteiro? — aventurei.
Subitamente preocupada, ela suspirou:
— Sim! Um ano inteiro!
E beijou-me.
De repente se afastou de mim, apurou o ouvido em direção à porta e cochichou:
— É ele...
Compreendi de quem se tratava. Uma espécie de pudor, de que eu não me suporia capaz
em lugar semelhante, um movimento de reserva tão inesperada levou-me à porta, à segunda
porta, naturalmente, indispensável em aposentos daquela espécie.
Surpreendida, ela perguntou-me o que eu pretendia fazer.
— Ir-me embora — respondi, procurando com os olhos o chapéu, sem conseguir localizá-lo
— para que ele não me encontre aqui.
— Mas que diferença faz?
— Ora, ele poderia ficar aborrecido. E você também, quem sabe?
— Pelo contrário! Ele verá que eu não me passo para qualquer um!
Fiquei. Aliás, não podia fazer outra coisa, pois não encontrava o chapéu.
Mal acabara ela de falar, abriu-se a porta e — surpresa encantadora! — surgiu o rosto
afável e bonacheirão de um garçom que às vezes me servia no café, um rosto de bom rapaz,
que atraía de pronto a simpatia.
Com um desembaraço invejável, um sorriso nos lábios — que se acentuou ao ver-me —,
aproximou-se de nós, beijou a mão da bem-amada, fez-me daquelas saudações ensaiadas e
profissionais que diariamente distribuía aos milhares.
Encantando por me encontrar, perguntou como eu ia, lamentou não ter-me visto no café,
desde algum tempo, e, tal como ao balcão, esfregando as mãos como no trabalho — mas
ainda com mais segurança aqui, onde se sentia mais à vontade —, pôs-se a fazer-me as
honras da casa assim como se faz em relação a visitas de categoria que se acolhem com
satisfação.
Ela, sempre amiga das formalidades — o que era, aliás, mais um dos seus encantos —,
achou conveniente apresentá-lo:
— Meu noivo.
Havia no seu tom algo solene, que me conquistou.
Tagarelamos sobre coisas diversas. Os dois se dirigiam a mim, levando-me a tomar parte
na palestra e lançando-me olhares de cálida simpatia. A atmosfera fazia-se amigável a ponto
que eu entrevia o instante em que o noivo, tomando-me do braço, me levaria ao sofá ou me
ofereceria um cigarro. Fiz menção de sair e tentei recuperar o chapéu.
Dele não vi, porém, nenhum vestígio. Onde diabo poderia ter-se escondido?
Notaram os dois o meu embaraço, e ela disse:
— Deve ter rolado para debaixo do sofá.
O noivo apressou-se em meter a cabeça debaixo do móvel.
— Será que caiu atrás de uma poltrona?
Não; lá também não estava.
Seguiu-se uma busca geral. Arredavam-se móveis, procurava-se em todos os cantos,
repetia-se dez vezes a mesma diligência.
Nada! Uma pedra atirada na água não teria desaparecido melhor.
Inesperadamente, um grito de alegria! Ele o encontrara.
O chapéu achava-se no peitoril da janela, escondido pela cortina que eu, ao entrar,
abaixara com as minhas próprias mãos, porque em certos momentos gosto de penumbra...
Olhei furtivamente para o homem, a ver se ele compreendera e se ficara aflito.
Nada disso. Com a manga do paletó alisava o chapéu e — com a mais trocista das
desenvolturas — declarou que era frequente os chapéus desaparecerem dessa maneira.
Tive de apertar a mão que me estendia a dona da casa e dizer a ambos “até logo”. Depois
do quê, e com uma saudação de perfeita civilidade, ele me pôs na mão a minha bengala,
apressou-se em abrir a porta e, ali, curvado em dois, enquanto eu transpunha a soleira,
pronunciou em voz baixa a fórmula de despedida:
— Recomendo-me à sua benevolência.
LEONID ANDREIEV

Conteporâneo de Gorki,163 teve Leonid Andreiev (1871-1919) tanto êxito e fama quanto ele.
Seus contos de estreia foram entusiasticamente saudados por Tolstói, 164 suas novelas e peças
transpuseram num instante as fronteiras da Rússia. Posto durante anos fosse porta-voz da
jovem geração revolucionária e apóstolo do pacifismo, não se deu bem com o regime
bolchevista; exilado desde 1917, passou a fase final da existência na Finlândia, onde se
suicidou em 1919.
Durante a sua vida não lhe contestaram a categoria de grande escritor. Em toda a Europa o
classificavam na plêiade de gênios com que a literatura russa de 1850 em diante surpreendia e
conquistava o mundo ocidental. Se alguns contemporâneos percebiam o que havia de
exagerado em semelhante julgamento (Tchekov, por exemplo, embora reconhecendo-lhe o
talento, lamentava-lhe a falta de simplicidade e comparava o seu canto ao de um rouxinol
mecânico)165, tais reservas em nada lhe diminuíram a popularidade.
O eclipse começou alguns anos depois de sua morte. Os críticos descobriram que Andreiev
não tinha personalidade própria e se entregava com excessiva facilidade a influências boas e
más, fazendo muitas concessões ao gosto do dia.166 Acusavam-no também de só usar
quadros duas cores, o negro carregado e o vermelho berrante, com ausência absoluta de
matizes, e de procurar unicamente brutais efeitos de cartaz.167
Sabemos que tais opiniões já passaram em julgado — e, no entanto, a releitura dos
volumes, já difíceis de encontrar, do escritor outrora famoso, muito nos empolgou, levando-nos
à convicção de que não se lhe pode negar lugar importante na história do conto. Esse
“matemático do horror”, como lhe chamou Vladimir Pozner, 168 atingiu a perfeição num gênero
especialmente seu, o pesadelo. A herança do naturalismo europeu e as tradições do
desespero russo, unidas à sua imaginação mórbida e fértil e a um pessimismo que os
acontecimentos da época não deixavam de justificar, fizeram de sua obra um monumento de
niilismo estético. Até de seus trabalhos humorísticos emana uma tristeza profunda, e poucas
obras literárias darão sensação tão pungente da inutilidade da existência e do poder devorador
do tempo como o conto adiante reproduzido.169
Desoladora é a impressão produzida por quase todos os seus contos. Um casal de
namorados moços passeia num bosque, despreocupado e feliz, quando uns vagabundos os
assaltam, abatem o rapaz e estupram a menina (“O abismo”); dois doentes agonizam num
hospital, e um deles não suspeita a gravidade do seu estado, mas o outro lhe diz por maldade
e depois morre (“Era uma vez”); um revolucionário procurado pela polícia se refugia num
prostíbulo, e no contato com uma das mulheres perde subitamente a fé em seus ideais, ao
passo que esses, aureolados pela perseguição, contagiam a moça, presa logo depois
juntamente com o seu visitante (“Nas trevas”); envenenado pela leitura maldigerida de
Nietzsche, um estudante medíocre suicida-se (“A história de Sérgio Petrovitch”); um aprendiz
de barbeiro, depois de passar, pela primeira vez na vida, uma semana feliz no campo,
descobre todo o horror de sua existência na loja imunda, para onde volta (“Petk no campo”);
um pope vê que sua filha é infeliz, mas aguarda que ela se lhe confesse, enquanto ela espera
que o pai a venha consolar e acaba matando-se (“O silêncio”): eis aí os assuntos de alguns
dos contos mais típicos, outras tantas visões de um universo sem sentido, em que o destino se
diverte em atormentar criaturas apalermadas e indefesas. Além de homens, mais de uma vez
Andreiev introduz diabos em suas histórias — demônios antropomorfos, condenados à
existência humana. Um desses é protagonista de “A conversão do Diabo”, novela de
extraordinária beleza; outra figura na última obra do escritor, O diário de Satanás.
Andreiev é também autor de várias peças de um simbolismo hoje superado: A vida do
homem, Anátema, Sua majestade a fome.

O GRANDE SLAM
Jogavam vint170 três vezes por semana, às terças, quintas e sábados. O domingo seria
também muito apropriado, mas, levando-se em conta a eventualidade de visitas ou de idas ao
teatro, cumpria mantê-lo livre, razão por que era considerado um dos dias mais aborrecidos da
semana. No verão, aliás, jogavam mesmo aos domingos, numa casa de campo. Constituíam-
se os pares da seguinte maneira: o gordo e pletórico Masslenikov jogava com Jacó Ivanovitch,
e Eupráxia Vassilievna com o seu rezingueiro irmão Procópio Vassilievicth.
Tal distribuição fora decidida havia muito tempo — uns seis anos —, em obediência ao
desejo de Eupráxia Vassilievna. Na verdade, nem ela nem o irmão estavam interessados em
jogar em pares opostos, pois o ganho de um significava sempre a perda do outro, de modo
que, somadas as coisas, não podiam eles nem ganhar nem perder... Embora, porém, o jogo
fosse modesto e nem Eupráxia Vassilievna nem o irmão precisassem de dinheiro, não podiam
achar prazer em jogar por jogar e ficavam satisfeitos cada vez que ganhavam. Costumava ela
guardar o lucro na caixinha, e dava-lhe muito mais valor do que às cédulas de cem rublos que
lhe custava o apartamento e as despesas da casa.
Geralmente se reuniam em casa de Procópio Vassilievitch. Morava este com a irmã num
apartamento grande e tinham como companheiro único um enorme gato branco, mas que em
geral dormia, numa poltrona; assim, não lhes faltava a calma indispensável àquele
passatempo.
O irmão de Eupráxia Vassilievna era viúvo. Perdera a mulher no segundo ano do casamento
e tivera de passar dois meses num sanatório para doenças nervosas. Quanto a ela, ficou
solteirona, conquanto houvesse tido outrora um romance com um estudante... Ninguém sabia
disso, e ela mesma parecia haver esquecido o motivo por que não casara com ele; mas todos
os anos, quando saía o apelo habitual para auxílios a estudantes pobres, mandava ela ao
comitê, escrupulosamente, uma nota de cem rublos, como dádiva “de uma desconhecida”.
Andava em 43 anos, e era a figura mais moça entre os jogadores.
A princípio, quando se formavam os pares, o mais velho, Masslenikov, ficava muito
insatisfeito. Indignava-o ter de jogar sempre com Jacó Ivanovitch, pois isto significava renunciar
de vez ao sonho de um grande slam. Aliás, os dois parceiros não convinham um ao outro de
maneira alguma. Era Jacó Ivanovitch um homem velho, pequeno e seco, que de verão e de
inverno trazia roupas forradas de algodão, e andava sempre taciturno e de cara amarrada.
Chegava invariavelmente às oito, nem um minuto mais cedo ou mais tarde, e pegava logo do
creiom: então num de seus dedos ressequidos se percebia um anel de brilhantes. Porém o que
mais desgostava a Masslenikov no seu parceiro era que este no princípio do jogo nunca
declarava mais de quatro vazas, ainda quando tinham uma boa mão e o game era certo. Certa
vez chegou a acontecer que Jacó Ivanovitch, sem declarar o seu jogo, saiu com o dois e foi
até o ás, fazendo todas as vazas até a décima terceira. Masslenikov atirou as próprias cartas
à mesa, enraivecido; o velhinho recolheu-as com toda a calma e anotou o número de pontos
necessários para quatro vazas.
— Mas por que é que o senhor não declarou o grande slam? — exclamou Nicolau
Dmitrievicth.
(Era este o nome de Masslenikov.)
— Nunca declaro mais de quatro vazas — replicou ele com secura.
E em tom didático:
— Pois nunca se sabe o que pode suceder.
E jamais Nicolau Dmitrievitch conseguiu abrir-lhe os olhos. Ele, por sua vez, continuava
sempre arriscando e, como as cartas não lhe vinham favoráveis, perdia sempre. Nem por isso
desanimava: esperava compensar a perda no próximo jogo. Aos poucos acabaram
acostumando-se um aos hábitos do outro e não se incomodando com eles. Nicolau Dmitrievitch
continuava a arriscar, o velhinho a anotar calmamente a perda e a principiar o seu jogo, como
dantes, declarando quatro vazas.
Assim jogavam eles no verão e no inverno, na primavera e no outono. Inerte, o mundo
carregava tranquilo o jugo de sua existência infindável, ora embebida em sangue, ora regada
de lágrimas, prosseguindo seu caminho entre os gemidos dos enfermos, dos famintos e dos
ofendidos.
De vez em quando algum eco, débil, desse mundo agitado e para eles totalmente
desconhecido era-lhes trazido por Nicolau Dmitrievitch; às vezes ele chegava atrasado e só
entrava quando os demais já se achavam sentados à mesa, onde as cartas formavam sobre a
toalha verde um leque cor-de-rosa. Nicolau Dmitrievitch, com as faces rubras, trazendo
consigo um odor de ar fresco, apressava-se em ocupar o seu lugar em frente de Jacó
Ivanovitch, desculpava-se e dizia:
— Quanta gente passeando nos bulevares! E aparecem cada vez mais pessoas!
Eupráxia Vassilievna, sentindo-se obrigada a fazer vista grossa às excentricidades dos seus
hóspedes, era a única a responder, enquanto o velhinho, calado e casmurro, preparava o
creiom, e o irmão da dona da casa cuidava do chá:
— Deve ser... O dia está mesmo bonito. Mas não é hora de começarmos?
E começavam.
A alta sala, onde os brancos móveis estofados e as cortinas abafavam qualquer barulho,
tornava-se cada vez mais silenciosa. A empregada passava imperceptivelmente sobre o tapete
fofo, servindo a todos chá quente em copos. Ouvia-se o crepitar de suas saias engomadas, o
ranger do creiom e o suspiro de Nicolau Dmitrievitch ao anotar uma multa. Para ele se
preparava um chá fraco, em mesinha especial; gostava de bebê-lo num pires e de comer uns
doces ao mesmo tempo.
No inverno, Nicolau Dmitrievitch contava que tinha feito um frio de dez graus durante o dia, e
agora subira a vinte; e no verão observava:
— Agora mesmo um bando de gente foi dar uma volta ao bosque, com cestinhas nas mãos.
Eupráxia Vassilievna, por cortesia, olhava para o céu (durante o verão jogavam na varanda)
e, conquanto não tivesse a menor nuvem, lançava:
— Tomara que não chova.
E o velho Jacó Ivanovitch espalhava as cartas com solenidade e, enquanto tirava um dois,
dizia consigo que Nicolau Dmitrievitch era homem de uma frivolidade incorrigível.
Durante certo período, Masslenikov perturbava muito os seus parceiros. Ao entrar,
pronunciava duas ou três frases acerca de Dreyfus.171
— As coisas andam malparadas para Dreyfus — declarava com tristeza.
Outras vezes, contava com expressão risonha que a sentença injusta ia ser anulada. Por
vezes chegava a trazer jornais e lia alguns tópicos, sempre dos relativos ao Caso.
— Já os lemos — dizia Jacó Ivanovitch com secura.
Mas o parceiro não o ouvia e continuava lendo os tópicos que lhe pareciam importantes e
interessantes. Certo dia chegou a provocar uma discussão, pois Eupráxia Vassilievna não
admitia a ordem observada no inquérito e exigia libertação imediata de Dreyfus, ao passo que
seu irmão e Jacó Ivanovitch sustentavam ser necessário cumprirem-se certas
formalidades antes que tal acontecesse. Foi Jacó Ivanovitch quem pôs as coisas nos eixos.
Apontando para a mesa, perguntou:
— Não seria tempo de começarmos?
Atrelaram-se à tarefa, e daí em diante podia Nicolau Dmitrievitch dizer a respeito de
Dreyfus o que entendesse: opunham-lhe um silêncio impassível.
Assim jogavam eles no inverno e no verão, no outono e na primavera.
Aconteciam também coisas engraçadas: por exemplo, o irmão de Eupráxia Vassilievna
esquecia o que sua parceira dissera sobre a mão dela, e certa vez até não fez uma vaza
sequer, quando estava absolutamente seguro de fazer cinco!
Em tais casos, Nicolau Dimitrievitch ria com estrépito, exagerando a importância da perda.
O velhinho, por seu lado, dizia com um sorriso:
— Se o senhor tivesse declarado apenas quatro, não teria agora que anotar nenhuma
perda.
Sempre que Eupráxia Vassilievna fazia uma declaração alta, uma certa agitação se
apoderava de todos os jogadores. Ela corava e perturbava-se, não sabia que cartas tirar e
olhava para o irmão taciturno; os dois outros homens, a quem sua tão feminina falta de jeito
inspirava uma simpatia cavalheiresca, estimulavam-na com sorrisos indulgentes e aguardavam
pacientes que ela fizesse o seu jogo.
Em geral, jogavam com seriedade e atenção. Desde muito as cartas haviam deixado de
ser, a seus olhos simples, matéria inanimada: cada naipe, cada carta tinha a sua
individualidade e vivia uma vida própria. Gostavam de alguns naipes e aborreciam-se com
outros: uns davam sorte, outros azar. Havia um sem-número de combinações múltiplas, não
sujeitas a qualquer análise ou regra, e que no entanto pareciam obedecer a certa regularidade
determinante da vida das cartas independentemente da dos jogadores. Procuravam estes
alcançar os seus objetivos por intermédio delas; as cartas, porém, agiam como bem
entendiam, como se tivessem vontade, gosto, simpatias e caprichos próprios. As copas
preferiam Jacó Ivanovitch, enquanto Eupráxia Vassilievna vivia com as mãos cheias de
espadas, embora as detestasse. Não raro tinham elas as suas extravagâncias, e Jacó
Ivanovitch não sabia como livrar-se das espadas, ao passo que Eupráxia Vassilievna,
satisfeitíssima com a afluência das copas, declarava jogos altos e, contudo, perdia
regularmente. Em tais ocasiões as cartas pareciam rir-se dela.
Quanto a Nicolau Dmitrievitch, vinham-lhe os naipes igualmente distribuídos, mas nenhum
lhe ficava na mão por muito tempo. Todas as suas cartas lembravam hóspedes de um hotel
que vão e vêm sem se preocupar com o lugar onde hão de passar alguns dias. De vez em
quando, durante noites a fio, não tirava senão dois ou três, que se apresentavam com um ar
impertinente e irônico... Nicolau Dmitrievitch estava convencido de que só não lograva fazer um
grande slam porque as cartas lhe conheciam essa ambição e o evitavam de propósito, para
irritá-lo. Fingia absoluta indiferença à mão que tinha, e procurava demorar o mais possível a
descobrir as cartas. Nem assim lograva enganá-las com frequência: geralmente lhe haviam
penetrado o desígnio, e, quando descobria a sua mão, três seis o encaravam com escárnio, e
o rei de espadas, que elas arrastavam em sua companhia, dava-lhe um sorriso cerimonioso.
Eupráxia Vassilievna era quem menos compreendia o caráter místico das cartas. Jacó
Ivanovitch impusera-se, havia muito, em relação a elas, uma calma filosófica, e elas já não lhe
causavam admiração nem desgosto; tinha, aliás, uma arma certíssima contra elas: aquele seu
método de nunca declarar mais de quatro vazas.
Só mesmo Nicolau Dmitrievitch não alcançava reconciliar-se com os caprichos das cartas,
sua ironia e sua inconstância. Ao deitar-se imaginava como declararia um grande slam em
sem-trunfos, o que nesse momento lhe parecia exequível e muito simples. Primeiro devia vir
um ás, depois um rei, depois outro ás. Mas, no dia seguinte, quando esperançoso voltava a
jogar, lá estavam os diabos dos seis a encará-lo, com o riso de escárnio. Havia naquilo algo
malicioso e fatal. E assim, aos poucos, o grande slam em sem-trunfos tornava-se o maior
desejo, o sonho da vida de Nicolau Dmitrievitch.
Nesse ínterim, registraram-se alguns outros acontecimentos não relacionados com o jogo: o
grande gato branco de Eupráxia Vassilievna morreu e, com autorização do proprietário foi
enterrado no quintal, debaixo da tília. Certa vez, Nicolau Dmitrievitch não apareceu durante 15
dias, e seus parceiros não sabiam que pensar e fazer, pois o vint com três jogadores era
contrário a todos os seus hábitos e lhes parecia tedioso. As próprias cartas tinham consciência
disso, e apresentaram-se nas combinações mais estranhas.
Quando, por fim, Nicolau Dmitrievitch reapareceu, suas faces róseas, que tão singularmente
contrastavam com os cabelos grisalhos, haviam-se tornado pálidas, e ele mesmo dava a
impressão de ter diminuído. Contou que o filho fora preso por causa de alguma irregularidade
e levado a São Petersburgo. Surpresa geral: ninguém sabia sequer que Masslenikov tivesse
um filho; possivelmente já falara nele uma que outra vez, mas todos já se haviam desde muito
esquecido disso. Não tardou que ele faltasse de novo, precisamente num sábado, e nesse dia
o jogo se prolongou até muito tarde; e os parceiros, surpresos pela segunda vez, vieram a
saber que ele estava sofrendo do coração havia longo tempo e naquele sábado o acometera
um forte ataque.
Depois, tudo voltou aos eixos e o jogo tornou-se até mais sério e interessante, pois Nicolau
Dmitrievitch passou a ocupar-se menos com coisas de importância secundária. Ouvia-se
apenas o crepitar das saias engomadas da empregada, enquanto as cartas acetinadas
deslizavam em silêncio das mãos dos jogadores e levavam sua existência misteriosa,
independente da dos homens que as manejavam. Para com Nicolau Dmitrievitch continuavam
indiferentes, e algumas vezes até maliciosas e sarcásticas. Havia nisto algo de fatal.
Uma quinta-feira, 26 de novembro, verificou-se, entretanto, insólita mudança na atitude das
cartas. Logo no princípio do jogo obteve Nicolau Dmitrievitch os três maiores trunfos e
conseguiu fazer um pequeno slam por ter inesperadamente descoberto na mão do parceiro um
ás que este havia escondido. Depois, durante algum tempo, só apareceram os seis do
costume, mas sumiram-se de pronto e cederam o lugar a naipes completos, que surgiam em
ordem rigorosa, como se cada um deles quisesse assistir à alegria de Nicolau Dmitrievitch.
Este declarou mão após mão, para espanto de todos, inclusive do calmo Jacó Ivanovitch. A
excitação de Nicolau Dmitrievitch, cujas mãos gordas transpiravam e deixavam cair as cartas,
comunicava-se aos outros.
— O senhor está com sorte hoje — resmungou o irmão de Eupráxia Vassilievna.
Receava ele uma sorte demasiado grande, pois esta frequentemente era seguida de azar
não menor. Eupráxia Vassilievna, porém, satisfeita de ver afinal boas cartas na mão de Nicolau
Dmitrievitch, retorquiu a seu irmão, cuspindo três vezes para o lado a fim de esconjurar
qualquer desgraça:
— Ora, que é que tem isso de extraordinário? As cartas vêm como calha; permita Deus que
tudo continue assim.
As próprias cartas, por algum tempo, pareciam indecisas... Apareceram alguns dois com
um ar embaraçado, mas logo em seguida, com rapidez ainda maior, tornaram a apresentar-se
ases, reis e damas.
Nicolau Dmitrievitch mal teve tempo de juntar as suas cartas e fazer suas declarações; já
duas vezes distribuíra as cartas erradamente e tivera de dá-las de novo. Com tudo isso, a
sorte o protegeu em todas as mãos, embora Jacó Ivanovitch teimasse em não declarar os
seus ases. Em face de tão radical mudança de fortuna, a surpresa deste se transformou em
desconfiança e o confirmou na sua sua inabalável decisão de nunca declarar mais de quatro
vazas.
Nicolau Dmitrievitch zangou-se, ficou vermelho e começou a arfar. Sem refletir sequer sobre
o seu jogo, fez logo declarações altas, convencido de que o baralho lhe daria todas as cartas
de que precisava.
Quando, após nova distribuição, feita pelo resmungão Procópio Vassilievitch, Masslenikov
descobriu as próprias cartas, pôs-se-lhe o coração a bater com força, e, depois, parou quase
inteiramente. O mundo escureceu-se-lhe diante dos olhos, e seu corpo oscilou. Tinha 12 vazas
na mão: paus e copas do ás até o dez, e o ás e o rei de ouros. Se ainda lograsse tirar o ás
de espadas, poderia declarar o grande slam em sem-trunfos.
— Dois sem-trunfos — principiou, dominando a voz a custo.
— Três em espadas — contraveio Eupráxia Vassilievna, que também se achava
excitadíssima: tinha todas as espadas, do rei para baixo.
— Quatro em copas — declarou secamente Jacó Ivanovitch.
Nicolau Dmitrievitch aumentou logo o próprio jogo, anunciando um pequeno slam.
Mas Eupráxia Vassilievna, na sua excitação, não quis ceder, conquanto compreendesse que
não aguentaria o jogo, e declarou um grande slam em espadas.
O outro refletiu um instante; depois, com muita solenidade, que velava algum medo,
declarou:
— Grande slam em sem-trunfos!
Jogava Nicolau Dmitrievitch um grande slam em sem-trunfos! Ficaram todos assombrados,
e o irmão da dona da casa chegou a exclamar:
— Alto lá!
Nicolau Dmitrievitch estendeu a mão para o baralho; seu corpo balanceou de novo, e
derrubou um castiçal, que Eupráxia Vassilievna conseguiu apanhar antes que caísse ao chão.
Largadas as cartas na mesa, permaneceu sentado ainda um minuto, reto e imóvel; depois,
agitando as mãos como que à busca de ar, tombou vagarosamente para o lado esquerdo. Na
queda, derrubou a mesinha com a xícara de chá e bateu com todo o peso do corpo nas
pernas do móvel.
Chamado com toda a pressa possível, o médico só pôde atestar que Nicolau Dmitrievitch
morrera de colapso cardíaco e, para consolação dos sobreviventes, explicou-lhes que uma
morte daquelas era isenta de dor. Deitaram o morto num sofá turco, no mesmo quarto onde
tinham jogado. Coberto com um lençol, Nicolau Dmitrievitch afigurava-se enorme e temível. Um
dos pés, virado para dentro, ficou fora do lençol e parecia já não lhe pertencer, dir-se-ia o pé
de outra pessoa; à sola da bota, ainda nova e preta na parte central, tinha-se colado um
papelzinho de embrulhar chocolate. A mesa de jogo ficara como estava, com as cartas em
desordem; só as de Nicolau Dmitrievitch formavam um montinho à parte, assim como ele as
deixara.
Jacó Ivanovitch pôs-se a andar pelo quarto a passos miúdos e incertos, buscando não olhar
para o morto e não pisar fora do tapete para não fazer barulho com os saltos das botas.
Depois de ter passado algumas vezes pela mesa, deteve-se, pegou cuidadosamente as cartas
de Nicolau Dmitrievitch, examinou-as e recolocou-as no móvel. Em seguida, descobriu o
baralho. No meio deste se encontrava o ás de espadas, o mesmo de que Nicolau Dmitrievitch
necessitava para o grande slam.
Deu mais algumas voltas e, dirigindo-se ao quarto contíguo, apertou mais o paletó forrado
de algodão e entrou a chorar. Fechando os olhos, procurou evocar o rosto de Nicolau
Dmitrievitch como este era em vida quando ganhava e ria. Sentiu uma dor particularmente
grande ao pensar na leviandade de Nicolau Dmitrievitch, assim como no seu desejo perpétuo
de declarar um grande slam.
Desilaram-lhe pela imaginação todos os acontecimentos da tarde, desde as cinco vazas em
ouros que morto declarara até a afluência ininterrupta de cartas felizes, sinal evidente de
alguma desgraça. E agora Nicolau Dmitrievitch estava morto — morto precisamente quando
poderia ter jogado um grande slam.
Uma ideia, terrível em sua simplicidade, aflorou-lhe à mente num relance e o sobressaltou.
Olhando para todos os lados, como se a ideia não lhe tivesse surgido espontaneamente, mas
lhe fosse sussurrada por alguém, Jacó Ivanovitch disse alto:
— Mas então ele nunca mais saberá que no baralho estava o ás e que tinha portanto na
mão, certo, um grande slam! Nunca mais!
E pareceu a Jacó Ivanovitch, que até então jamais compreendera a significação da morte
— agora, porém, a compreendia: era algo absurdo, horrível, irreparável. Nunca mais ele
saberia! Ainda que Jacó Ivanovitch lho gritasse aos ouvidos, mostrando-lhe as cartas, nunca
mais Nicolau Dmitrievitch o ouviria e nada ficaria sabendo, porque já não havia Nicolau
Dmitrievitch. Mais um movimento, mais um instante apenas daquilo que se chama vida, e
Nicolau Dmitrievitch veria o ás e saberia, na certa, que tinha um grande slam... Agora, porém,
tudo estava acabado; ele não sabia, e não saberia nunca.
— “Nunca” — disse consigo acentuando as sílabas para se convencer a si mesmo de que a
palavra existia e tinha um sentido. Sim, existia e tinha um sentido, mas um sentido tão terrível e
tão amargo que Jacó Ivanovitch caiu numa cadeira e voltou a chorar. Chorou de compaixão do
morto, que não o saberia nunca, de si próprio e de todos os demais, pois a mesma coisa
absurda e horrível o esperava a ele e a todos os vivos. Chorou e imaginariamente jogou toda a
mão de Nicolau Dmitrievitch, fazendo vaza após vaza até a décima terceira, calculando quanto
deveria anotar e refletindo que isto também Nicolau Dmitrievitch nunca saberia. Pela primeira e
última vez Jacó Ivanovitch abriu mão de seus princípios e, em homenagem à amizade, jogou
um grande slam em sem-trunfos.
— Ah, o senhor está aqui, Jacó Ivanovitch? — perguntou Eupráxia Vassilievna entrando no
quarto, e, deixando-se cair numa cadeira ao lado dele, desatou a chorar. — Que coisa
horrível!
Olharam-se os dois e continuaram a chorar, sentindo que no quarto ao lado jazia um
cadáver, frio, pesado e mudo.
— A senhora já mandou alguém à casa dele dar o aviso? — disse Jacó Ivanovitch
assoando-se longa e ruidosamente.
— Sim, meu irmão e Ana já foram. Mas não sei como vão encontrar a casa, pois não
sabemos o endereço.
— Então não morava mais no apartamento do ano passado? — indagou Jacó Ivanovitch
distraído.
— Não, já se tinha mudado de lá. Ana diz que ele costumava pedir ao cocheiro do fiacre
que o levasse para a Praça Novinski.
O velhinho tentou confortá-la:
— De qualquer maneira, vão encontrar-lhe a casa, com auxílio da polícia. Parece-me que
era casado, não é?
Eupráxia Vassilievna olhou pensativa para Jacó Ivanovitch e não respondeu nada. Ele teve a
impressão de ler nos olhos dela a mesma ideia que lhe acudia à mente. Assoou-se de novo,
pôs o lenço no bolso do paletó e, franzindo interrogativamente as sobrancelhas:
— Mas onde encontraremos agora um quarto parceiro?
Porém Eupráxia Vassilievna, mergulhada em pensamentos de dona de casa, já não o ouvia.
Decorrido um momento de silêncio, perguntou-lhe:
— E o senhor, Jacó Ivanovitch, ainda mora no mesmo lugar?
JOHANNES VILHELM JENSEN

Os contos de Andersen, 172 Jacobsen173 e Bang,174 em volumes anteriores desta coletânea, já


revelaram que a pequena Dinamarca é país de grandes contistas. Apresentamos, agora, mais
um grande narrador da mesma nacionalidade: Johannes Vilhelm Jensen (1873-1950), o
“Kipling175 dinamarquês”, neto de camponeses e filho de veterinário, nascido no Himmerland, no
noroeste da Jutlândia, então uma região selvagem e pantanosa. Começou a estudar medicina,
mas não chegou a formar-se, e desde cedo se consagrou de todo à literatura. Encontrou
fontes inesgotáveis nas lembranças de sua mocidade provinciana e de suas viagens pelo
mundo inteiro e nos seus estudos de arqueologia e antropologia.
Em sua obra, abundante, distingue-se a vasta produção de contos, que se costuma dividir
em três grupos: Histórias do Himmerland (três volumes, de 1898 a 1910), Novelas
exóticas (três volumes, de 1907 a 1917) e Mitos (nove volumes, de 1907 a 1944).
As Histórias do Himmerland, das quais o conto aqui inserido representa uma
amostra,176 são narrativas vigorosas da vida dos camposeses e de sua dura luta com os
elementos, nos quais o trágico e o cômico se misturam, ricas em observações folclóricas e
descrições de paisagens. Nelas se admiram, no mesmo grau, a psicologia das personagens
primárias e a representação matizada da natureza inclemente. Uma das mais poderosas, “A
última viagem de Kristen”, narra o transporte, do asilo na cidade à aldeia natal, do cadáver de
uma pobre mulher do povo, cuja história sem acontecimentos é narrada nas entrelinhas, como
que acessoriamente, enquanto o autor insiste nos pormenores da penosa expedição pelas
estradas cobertas de neve e os participantes são castigados pelo vento e pelo frio.
Jensen “tinha um profundo respeito pelos camponeses da Jutlândia, por ver neles uma raça
ancestral, dura e resistente: eram pessoas simples, não obstante dotadas de sabedoria e de
uma grande fome de conhecimento”.177
No fim da vida, o escritor ainda volveu, em imaginação, ao seu querido Himmerland, na
magnífica novela Jörgine, história duma pobre moça da região do pantanal que, após uma
mocidade sofrida, chega ao cobiçado estado de camponesa. Em segundo plano, assistimos à
evolução da sociedade jutlandesa, da qual já desapareceram a pobreza e as diferenças de
classe.
Mais famosas ainda são as Novelas exóticas, em que Jensen evoca, com extraordinária
força, figuras e episódios observados em suas peregrinações pelo mundo. “A mãe” é o retrato
de uma inglesa histérica, cedo envelhecida nos trópicos, que periodicamente revive e
representa a morte dos filhos, vítimas do clima e da falta de cuidados médicos. “O cule”
familiariza-nos com o primário mundo íntimo de um puxador de riquixá. Em “Os vigaristas”
assistimos, em Nova Iorque, a uma tentativa emocionante de depenar uma vítima numa
taverna suspeita. Em “A monção” acompanhamos a luta mortal entre um caubói e um búfalo
fugido, incentivada pela promessa de um prêmio. Há em todas essas narrativas aquela tensão
gradativa que só encontramos nas obras dos maiores contadores de histórias, tais como
Somerset Maugham ou Stefan Zweig.
Já os “mitos”, de nome algo arbitrário e definição impossível, englobam meditações,
crônicas, reportagens, descrições, conversas, relatos.
Entre as demais obras do autor, lembremos o grande romance histórico A queda do rei, o
romance pseudocientífico Mme. d’Ora e o romance policial A roda. Merecem lembrança,
ainda, suas poesias, que com muito vigor e exuberância exaltam a natureza primitiva e os
instintos, e também as conquistas da técnica. Embora ele se confesse um discípulo de
Andersen, seus inspiradores principais eram Walt Whitman, Kipling e Bjørnson, 178 e, sobretudo,
Darwin, cuja doutrina influiu profundamente em sua filosofia. Estudioso apaixonado da antiga
poesia escandinava, Jensen adaptou ao dinamarquês moderno algumas sagas antigas da
Islândia.
A filosofia de Jensen, algo incoerente e nebulosa, cristaliza-se em torno de conceitos de
sangue e raça; ela impregna o seu grande ciclo de seis romances pré-históricos, A grande
viagem, onde apresenta, com imaginação exaltada, a evolução da humanidade, cujos
propulsores teriam sido os nórdicos, desde os tempos mais remotos até Colombo, em quem
ele via um viking de cabelos louros.
Essa mesma imaginação prejudica muitas de suas obras teóricas, entre elas A Renascença
gótica, O mundo novo e Estágios do espírito. Ele era “um narrador antes que um pensador.
Pequeno é o valor intrínseco de seus ensaios antropológicos, porém eles significariam muito
para as novas gerações entre 1920 e 1930. De mais a mais, oferecem uma chave para o
mundo de ideias”.179
Em 1944, Johannes Vilhelm Jensen obteve o prêmio Nobel.

NA PAZ DO NATAL
Hoje em dia reina a paz na Jutlândia, e por volta do Natal, então, nem se fala, há paz até em
demasia. Outrora, porém — ainda nem se passaram duas gerações —, o Natal era o tempo
em que se sagrava a paz para o ano inteiro, quando não era lá muito grande a segurança
naquelas paragens. Coisa esquisita, pois, que precisamente a época do Natal naqueles dias
remotos fosse tão inquieta, não é mesmo? Sempre se contam novas histórias de antigos
rancores explodindo em luta aberta, de ajustes de contas entre inimigos mortais, de atrozes
delitos, e sempre o caso se deu na noite de Natal ou no segundo dia de Natal, no interior da
própria igreja! Uns, parece, queriam aproveitar a ocasião em que todos pensavem em paz e
de nenhum mal suspeitavam, e outros tomavam a paz à força quando esta lhes era negada
por bem, garantiam a própria paz do Natal à custa de sangue e violências.
Morava na chanerca de Sønderup, um homem conhecido por Tørve Christen. O povo temia-
o, embora nada tivesse ele de mau e fosse até um pobretão, homem direito, porém modesto,
que nada tinha de seu além do miserável casebre onde vivia, em pleno tojal. Ganhava para o
sustento trabalhando como jornaleiro. Mas Tørve Christen era assassino. Matara o Klinkmand
numa noite de Natal. Fora absolvido, sim, e até unanimamente, mas o nimbo de respeitoso
silêncio continuou a cingir-lhe o nome, e ficou, para o resto de seus dias. Havia sangue
naquelas mãos...
O Klinkmand era um gatuno, um forçado, filho da região. Até hoje muitos sabem contar de
suas tropelias. Dizem que fez parte de famoso bando de facínoras. Assim, apesar de ter sido
um indivíduo reles, um malfeitor, temido por todos, na fama que deixou permanece algo do
ardor cruento de antanho. O povo daquele tempo divertia-se à custa dele; era um safado, que
muitas vezes praticava os piores crimes só por capricho. Havia nele chocarrice. Parece ter
sido um desses sujeitos malucos, como de vez em quando aparecem, que, afinal de contas,
são apenas talentos pervertidos e extraviados. Andavam de boca em boca histórias sem conta
a respeito do Klinkmand. Sua principal habilidade era evadir-se da casa de correção. Inventava
os mais incríveis expedientes, não havia como segurá-lo. Segundo a tradição, tinha ele mãos e
pés muito pequenos, fora do comum, conseguindo tirar as algemas sem o carcereiro dar por
isso. Fossem lá quais fossem as suas artes e as novas astúcias que lhe ocorriam, o caso é
que regularmente todos os anos o homem andava solto na região. Sua mulher e sua filha
moravam num barraco na charneca de Sønderup. Não longe dali ficava a casa de Tørve
Christen.
Abria-se entre as duas famílias verdadeiro abismo social, conquanto suas condições
materiais fossem mais ou menos as mesmas, a saber, viviam ambas na miséria. A isto se
juntava um ódio pessoal, alimentado durante muitos anos, sobretudo por parte do Klinkmand.
Era quase possível compreendê-lo. Quando, ano após ano, sofrendo o diabo, conseguia
evadir-se das grades, com os cachorros nos calcanhares, como bicho do mato, a primeira
coisa que via ao chegar em casa era a casinha pobre, mas pura e inocente, de Tørve Christen.
Ali morava o apóstolo pobretão, que por toda a eternidade se recusava a entrar em conflito
com a gente remediada, sempre modesto e irrepreensível, sem se meter com ninguém, quieto
e retraído, nunca se deixando abalar em seu desprezo à gente desonesta. Enquanto Tørve
Christen arcava, firme, na cavadeira, penando no seu caco de terra ruim, os três filhos que
arranjara corriam, desajeitados, em roda do casebre, como anjos de Deus. O Klinkmand
quase não tinha mão em si, num desejo louco de pichar o desgraçado e atear-lhe fogo no
cocuruto, de transformá-lo em santo e tocha ao mesmo tempo. Cada vez que estava em casa,
tratava de provocar Tørve Christen, desafiava-o a brigar. Mas o homenzinho, prudente e
arredio, se acautelava e não mostrava o menor desejo de medir forças com Klinkmand em
qualquer terreno. Por último, já era tanto por causa de Tørve Christen como pela família que o
Klinkmand ansiava por voltar para casa. Odiava-o e queria liquidá-lo. Assim chegou o dia em
que perdeu o domínio de si mesmo.
Na antevéspera de Natal, dia cinzento e tristonho, um susto abalou Sønderup até os
alicerces. Meio esquadrão de dragões de Randers atravessou a aldeia quando ninguém
suspeitava qualquer coisa de mau. Estava escurecendo, a simples e doce paz do Natal já
pairava sobre as casas. Todos os sons foram cedendo lugar ao bulício íntimo, cauteloso, que
partia, a medo, das casas onde morrera qualquer pensamento ligado ao mundo lá de fora. Foi
então, em pleno silêncio, que entrou em disparada na cidade o numeroso bando de
cavalarianos, de uniforme azul, capacetes e frios sabres. Em desabrido galope, espalhando
lama e jatos de neve derretida, a visão tremenda emergiu das brumas do inverno. Os velhos
sentiram bambear os joelhos, de susto. Recordavam outro Natal, já lá iam muitos anos, em
que tinham visto dragões em Sønderup. O próprio delegado e quatro outros homens haviam
saído ao campo, onde já então morava gente à toa; ali, durante muito tempo, um homem, sua
mulher e dois filhos percorriam à noite o pasto, tosando as ovelhas alheias e tornando, em
geral, insegura a região. Ora, o povo de Sønderup decidira passar um Natal tranquilo, livre
daquela praga. Para tanto, alguns homens penetraram na choupana e eliminaram a
machadadas os quatro moradores. Mas fora um engano. Como não podiam alegar terem
agido em legítima defesa, cinco deles foram executados em desforra.
No entanto, logo se soube o que os dragões vinham fazer. O Klinkmand escapara
novamente, e em circunstâncias mais graves que das outras vezes. Dera no carcereiro um
soco, ao qual este não sobrevivera. Por isso estavam os soldados empenhadíssimos em
prender o malfeitor, imaginando poder apanhá-lo no seio da família na noite do Natal.
Chegados à charneca, os dragões se dividiram, reunindo-se de novo em torno da casa do
Klinkmand e fechando-a rapidamente num cerco. Porém o homem lá não estava. Rebuscaram
e examinaram o casebre até à cumeeira, interrogaram a mulher e a filha, viraram cada palha,
mas não encontraram o Klinkmand. Nada conseguindo, tornaram a cavalgar e se retiraram. Foi
quando o homem saiu de um buraco aberto no chão de terra batida, onde estivera bem
escondido sob uma cobertura de turfa triturada. Era mesmo finório demais.
Duas horas depois os sinos da igreja de Sønderup badalaram, anunciando o início da
sagrada festa de Natal. A escuridão era a um tempo silenciosa e sonora. No alto da torre, o
sino tinha a palavra, mas apenas tartamudeava com voz pesarosa dentro da noite hibernal que
envolvia a cidadezinha, encolhida e medrosa, abandonada na vazia vastidão do campo. O
vento ia e vinha, a água do degelo infiltrava-se por toda parte e gotejava na neve depositada
no fundo das valas. O sino da igreja falava, ora fatigado, ora animando-se, disposto a cantar,
ora abatido, ora alegre, com altos e baixos, como fala um homem idoso e experiente. Por
último, também ele emudeceu, após insistir em alguns sons entrecortados, que se foram
espaçando até pairarem no ar, isolados, como a voz de um homem velho, muito velho.
Clareou-se o firmamento noturno, as estrelas se acenderam na profundeza do espaço e
ficaram cintilando, miúdas e frias. Espalharam-se pela terra os estalidos do gelo, o rumor da
água que escorria e gotejava foi-se extinguindo. Com o avançar da noite, o frio aumentava. Por
fim, também o tímido ruído da água no gelo cessou de vez, com uns derradeiros, débeis
queixumes. Veio o grande sono e o frio intenso, vieram geadas, duras e persistentes.
A essa hora toda a gente já estava em casa. Apenas um homem de Sønderup, que por
necessidade andara longe da vila, veio atravessando a charneca, dentro da noite. Quase
morreu de susto ao dar de cara com o Klinkmand, que vinha vindo com uma lata de piche na
mão.
— Boa noite — disse o Klinkmand, aparentemente muito bem-humorado. — Não tenhas
medo, Knudzinho: não te quero fazer nenhum mal. Eu vou só até lá embaixo, tocar fogo nos
cabelos de Tørve Christen. Vai com Deus! Boas festas!
Na casa de Tørve Christen o Natal começara. Manifestava-se pelo silêncio cada vez maior.
A mulher arrumara a casa como se fosse receber visitas. Uma por uma, as três crianças
tiveram de passar um mau quarto de hora em frente à tripeça com a bacia de água e sabão.
Jeppe e Laurine, os dois mais velhos, deixaram-se lavar com grande heroísmo, pois
compreendiam o profundo significado da noite santa que se aproximava. Jeppe tinha cinco
anos e Laurine quatro, e já sabiam muita coisa. Tinham estado uma vez em Sønderup, onde
foram vistos a passear de mãos dadas. Era o acontecimento mais grandioso de toda a sua
vida. Haviam contemplado a cerca de grades do cemitério, e demais mistérios da cidade;
tinham visto um grande e longo jardim onde se erguia uma árvore com grossas peras, um
cercado cheio de patos correndo, desajeitados, perto de uma casa de luxo; e, após haverem
respirado o ar de fora do portão do presbitério e vislumbrado, lá para dentro, estranhas
plantas com flores nas claras janelas, tornaram a sair da cidade, de mãos dadas, chegando
em casa ao anoitecer. Karen Marie tinha apenas dois anos, era muito pequenina em tudo, e
por isso chorava ao ser lavada. Jeppe e Laurine estavam muito acima dela, em todos os
sentidos. Tinham a experiência que se adquire lá fora, no mundo por onde já haviam andado.
Conheciam as plantas e moscas da charneca. Sabiam apreciar o valor do junco e das
sementes lisas do capim, das pedrinhas vermelhas, redondas, e dos cacos coloridos. Colhiam
frutinhas do campo, com que brincavam de vaquinhas, faziam bolos de barro no quintal e
punham gravetos a navegar numa poça d’água. Durante o longo verão brincavam fora de casa,
no caminho, onde, nos sulcos das rodas dos carros, a fina areia preta, aquecida pelo sol, lhes
corria entre os dedinhos dos pés. Mas agora o inverno os aprisionara por uma eternidade.
Podiam estender as mãos enregeladas para aparar a água das goteiras e tinham provado a
água amargosa que escorria pelas vidraças quando principiava o degelo. A cama-banco abaixo
da janela era o seu retiro de inverno: à noite, recebia-os num abraço quente e amigo; e eles
passavam o dia no assento polido pelo uso. Guardavam no peitoril da janela os bens de
Jeppe, preciosidades achadas na terra, pedras bonitas e coisas semelhantes, e os tesouros
de Laurine, fios de lã e papel de embrulho colorido. Karen Marie, muito pequena, nada
possuía, coitadinha.
As crianças estavam lavadas, penteadas e vestidas, com suas blusas bonitas, e a mãe
começou a arrumar a mesa, coberta de toalha branca. Tinham de ficar muito bem-
comportadinhas, muito mesmo, para não transtornarem nada. O mingau, naquele dia bem
branco, mais fino e mais caro que o mingau de cevada de todos os dias, fazia bolhas na
panela, muito gordo, e dizia “puuhh”, como se esforçando por ficar gostoso. A mãe andava
muito quieta e meiga. Quando Tørve Christen voltou do trabalho e curvou a figura alta e
arqueada sob o teto baixo, viu seus três rebentos sentados, enfileirados na cama-banco do
outro lado da alva mesa, três pequeninos pares de tamancos, três carinhas festivas, coradas,
limpas, cheirando a sabão, três topetes amarelos aparecendo no aposento mal-iluminado.
O silêncio baixou sobre a choupana. Enquanto se aprontava a comida, os três pequenos
podiam ver que o pai se lavava, sim, lavava até a cabeça: ele também sofria em homenagem à
solenidade, consagrava-se para a hora indescritível que vinha aí. Em seguida comeram,
primeiro o mingau gostoso, depois toucinho frito e batatas. Sentiam-se muito satisfeitos.
Algures, lá no alto ou cá embaixo, alguma coisa acontecera que atingia a todos, de maneira
que havia luz em todas as casas, até nas mais humildes e acanhadas. O quinhão de Tørve
Christen eram três crianças com olhos claros de diamantes sentadas no banco, cada uma com
o seu pedaço de toucinho a escorrer gordura nos dedinhos, comendo com vontade. O
aposento foi-se tornando quente e agradável. A mulher guardava uma surpresa atrás da
portinha fechada do forno, onde se ouvia uma coisa qualquer dar estalidos e ferver. A vela de
sebo da mesa espalhava luz dourada no aposento, saturado de honesta paz.
Súbito, partiu-se uma vidraça. Os cacos caíram nos cabelos de Laurine. A mulher irrompeu
num grito de aflição. Tørve Christen ergueu os olhos e, através da vidraça quebrada, viu brilhar
a lâmina de uma pá de cavar turfa. Pôs-se de pé, seu rosto malbarbeado estava pálido. De
fora veio a voz alta do Klinkmand, sua voz de todos os dias:
— Agora Satanás vai-te pichar, seu beato são Bonifácio...
Já muito antes Tørve Christen mandara fazer uma lança, pois o Klinkmand o ameaçara de
morte. Tirou-a de detrás de um barrote e encaminhou-se para a porta.
O encontro realizou-se no quartinho da frente. O Klinkmand conseguiu abrir a porta e quis
entrar, mas Tørve Christen ameaçou-o com a lança através da porta aberta. O Klinkmand
atirou-lhe uma torrente de impropérios, mas não logrou atingi-lo com a pá. Por algum tempo a
coisa ficou por isso mesmo. Senão quando, o Klinkmand, pequeno e ligeiro, viu um bom
momento e desferiu um golpe contra Christen com a pá afiada. Era um golpe de matar, e
Tørve Christen, homem pesado e lerdo, mal e mal pôde livrar-se. Apesar de tudo, ainda não
queria acreditar que o negócio era mesmo sério. Pegou a tremer.
— Olha lá, hem! — disse chorando.
E, como o Klinkmand se dispusesse a dar outro golpe, tornou, alarmado, a preveni-lo:
— Cuidado! Olha que eu te mato!
— Vê lá se tens coragem para isso, seu profeta! — chasqueou o Klinkmand.
Bravateava, mas havia em seus olhos estranho calor, e gaguejava, sem conseguir falar
direito. Repentinamente, calou-se e, em vez de continuar insultando com a boca suja, foi-
se aproximando cada vez mais, atento, ameaçando com a pá. Então Tørve Christen
compreendeu a extensão do perigo. Em sua cabeça tudo começou a girar e a zunir. O claro
céu de geada lá fora; a porta, sitiada por um malfeitor sedento de sangue; o quarto, atrás
dele, num turbilhão de pavor e gritos de criança — tudo girava, tudo fervia dentro dele. Com
uma careta de carniceiro, o Klinkmand de repente se mexeu e deu um salto à frente. Mas
Tørve Christen curvou-se com todo o peso e varou o adversário com a lança, de lado a lado,
bem no peito. O sangue jorrou do coração do Klinkmand como uma sopa quente, espirrando
ao longo do cabo da lança, e salpicou as mãos de Christen. Depois de curta mas violenta
agonia, durante a qual, deitado de costas, urrava como um carneiro, agarrava o cabo da lança
com as mãos e tentava alcançar com os pés o ferro cortante, o Klinkmand estava morto.
Quando tudo acabou, Christen soluçou e enxugou as lágrimas. Depois de refletir um
momento, arrastou o cadáver a certa distância de casa, antes de ir ter com os seus. Uma hora
após estava na sala do delegado, apresentando-se à justiça. Foi preso e levado à cidade,
mas, depois do interrogatório, soltaram-no.
STEPHEN LEACOCK

Com um território pouco menor que o da Europa e uma população menor que a da Espanha, o
Canadá não tem ainda uma literatura própria. “Para sustentar uma grande literatura deve haver
uma coesão proporcional e progressiva, e para acelerá-la o Canadá precisa de mais
canadenses.” Segundo o mesmo observador, “em face da necessidade urgente de utilizar os
seus recursos materiais e construir suas cidades, o Canadá tem-se contentado, até agora, de
importar cultura pronta, de fontes acessíveis e baratas”.180 Outro analista atribui a falta de uma
literatura nacional à ausência de uma personalidade nacional. “Podemos arriscar um paradoxo:
o escritor canadense que criar uma obra que reflita essa falta de personalidade terá realizado
uma obra de personalidade nacional; é precisamente esse incaracterístico da nação que por
enquanto constitui sinal característico.”181
Mas, se ainda não se pode falar de uma literatura canadense, há escritores canadenses, e
dois deles, um escrevendo em francês e outro em inglês, já alcançaram notoriedade mundial.
O romance Maria Chapdelaine, de Louis Hérmon, acha-se traduzido numa dúzia de idiomas;
os contos de Stephen Leacock (1869-1944) já provocaram gargalhadas em todos os recantos
da Terra. Pertencem eles a um gênero todo especial: o do sketch de poucas páginas, muitas
vezes sem enredo, e que desenvolve uma ideia engraçada, escarnece de um lugar-comum,
apresenta um tipo cômico. Os assuntos focalizados com traços incisivos por Leacock são de
um ridículo universal: a maneira de se tornar milionário, de viver cem anos, de evitar o
casamento, de contar o enredo de um livro, de colecionar, de tratar com poetas, médicos e
loucos, de se defender contra companhias de seguros, bancos e amigos da onça, eis alguns
dos “temas” que nas mãos de outro escritor dariam pouco, ou nada, mas dos quais Leacock
tira efeitos cômicos irresistíveis. As páginas escolhidas 182 são bem características de sua
maneira, tão simples que parecem de imitação extremamente fácil.
A ausência de cor local caracteriza até livros como o divertido Sketches de uma
cidadezinha à luz do sol, composto de uma série de episódios acontecidos num lugarejo
fictício do Canadá, onde a imaginação dos habitantes procura remediar a modorra de sua
existência insípida. Na verdade, a cidadezinha de Mariposa poderia igualmente existir, e até
existe em muitos exemplares, no Brasil, na Itália, na Alemanha, em qualquer parte; daí talvez a
repercussão que esse livro e os outros livrinhos alegres de Leacock — Lapsos
literários, Contos sem sentido, Atrás do além, Os Hohenzollerns na América, Humor, Sua
teoria e técnica etc. — encontram nos leitores, qualquer que seja o país a que pertençam.
Quanto à pessoa do autor, lembre-se que nasceu na Inglaterra, donde emigrou com os
pais, ainda criança, para o Canadá. Formado em 1891 pela Universidade de Toronto, doutor
em filosofia em 1903, veio a obter na Universidade McGill a cadeira de economia política, que
ocupou durante muitos anos. Escreveu várias obras dessa especialidade, mas a sua fama
alcançou-a como humorista, a tal ponto que, segundo conhecida anedota, um de seus
numerosos fãs chegou a ler metade dos seus Elementos de economia política soltando
gargalhadas homéricas, quando percebeu, com espanto, tratar-se de coisa séria. Leacock
pretende183 que suas monografias científicas lhe exigiram menos trabalho e esforço do que os
sketches. “Pessoalmente — afirma — preferiria ter escrito Alice no País das Maravilhas184 a
ser autor de toda a Enciclopédia britânica.”

O DESTINO TERRÍVEL DE M ELPOMENUS JONES


Certas pessoas — não você nem eu, pois nós nunca ficamos embaraçados —, mas certas
pessoas encontram séria dificuldade em se despedirem quando fazem uma visita ou vão
passar a noite em casa de amigos. Ao aproximar-se o momento em que se sente na obrigação
de ir-se embora, a visita levanta-se e diz: — “Bem, parece-me que...” Então os da casa
replicam: — “Ora, será que você tem mesmo de ir? É tão cedo ainda!” — ao que segue uma
luta lamentável.
Dos casos dessa espécie, o mais triste que conheci foi o do meu pobre amigo Melpomenus
Jones, cura de profissão, uma simpatia de rapaz, com 23 anos apenas! Ele simplesmente não
conseguia se separar das pessoas. Se a excessiva modéstia não lhe permitia dizer uma
mentira, era, por outro lado, tão religioso que seria incapaz de querer aparentar rudeza.
Aconteceu que foi visitar uns amigos na primeira tarde das suas férias de verão. As seis
próximas semanas pertenciam-lhe inteiramente, nada tinha que fazer. Conversou um bocado,
bebeu dois copos de chá e, num esforço, disse de repente:
— Bem, parece-me que...
Mas a dona da casa:
— Ora, sr. Jones! não poderia ficar mais um pouco?
Jones nunca mentia:
— Sim... em todo caso... é... posso.
— Então fique, por favor.
Ficou. Bebeu 11 xícaras de chá! Ao cair da noite, levantou-se de novo.
— Bem, agora — lançou com timidez —, parece-me realmente que...
— O senhor deve mesmo ir? — perguntou polidamente a senhora. — Pensei que talvez
pudesse ficar para o jantar...
— Bem, para dizer a verdade, poderia, se...
— Então fique, por favor; estou certa de que o meu marido vai ficar satisfeitíssimo.
— Pois não! — assentiu com voz fraca. — Ficarei.
E mergulhou na poltrona, farto de chá e miserável.
Papai chegou. Jantaram. Durante a refeição pensava Jones constantemente em ir embora
às oito e trinta. A família toda cismava sobre se o sr. Jones era idiota e estava de mau humor,
ou se apenas era idiota.
Depois do jantar, mamãe tentou fazê-lo sair e mostrou-lhe umas fotografias. Mostrou-lhe
todo o museu da família, várias dúzias — fotografias do tio de papai, e da mulher, e do irmão
de mamãe, e do filhinho, e uma fotografia extraordinariamente interessante do amigo do tio de
papai em uniforme de Bengala, e outra, formidável, do cachorro do sócio de vovô, e uma
terceira, levadíssima, de papai fantasiado de Diabo num baile de máscaras.
Às oito e trinta, Jones tinha examinado 71 fotografias. Restavam ainda 69. Jones levantou-
se:
— Agora devo dar-lhes boa-noite.
— Dar boa-noite! — exclamaram. — Por quê? São apenas oito e meia! O senhor tem
alguma coisa que fazer?
— Nada — admitiu Jones.
E resmungou algo sobre seis semanas de férias, com um sorriso infeliz.
Naquele instante verificou-se que o filho dileto da família, um menino tão engraçadinho,
escondera o chapéu do sr. Jones; então papai disse que ele devia ficar mesmo e convidou-o
para dar umas cachimbadas e dois dedos de prosa. Papai tomou o cachimbo e entregou a
prosa a Jones, que ficou. A cada momento pensava em dar o pulo, mas não havia jeito. Então
papai começou a fartar-se de Jones, e agitou-se na cadeira, e disse, enfim, com chistosa
ironia, que talvez fosse melhor Jones passar a noite ali; podiam oferecer-lhe uma cama de
vento. Jones interpretou mal o sentido dessas palavras, agradeceu-as com lágrimas nos olhos,
e papai deitou Jones no quarto de hóspedes e amaldiçoou-o cordialmente.
No dia seguinte, depois do café, papai saiu a tratar de seus negócios na cidade e deixou
Jones, esmagado pela dor, brincando com o bebê. Estava com os nervos em péssimo estado.
Durante o dia inteiro pretendeu ir-se embora, mas a coisa tomara conta dele, e em verdade
não pôde. Ao voltar, à noite, papai ficou surpreendido e aflito de ainda encontrar Jones em
casa. Imaginou enxotá-lo com uma gracinha e disse-lhe que cobraria o aluguel, ah, ah! O infeliz
jovem fitou-o com um olhar desvairado, apertou-lhe a mão calorosamente, pagou-lhe o aluguel
de um mês adiantado, caiu em si e pegou a soluçar como uma criança.
Nos dias seguintes mostrou-se mal-humorado e inabordável. Não saía da sala de visitas, e
a falta de ar e de exercícios entrou a exercer em sua saúde um efeito triste. Levava o tempo a
beber chá e a olhar fotografias. Horas e horas passava contemplando o retrato do amigo do
tio de papai em uniforme de Bengala, falando-lhe, às vezes, e invectivando-o com amargura.
Sua inteligência declinava a olhos vistos.
Veio a crise, por fim. Desceram-no pelas escadas, num delírio de febre raivosa. A doença
que sobreveio era terrível. Não reconhecia ninguém, nem sequer o amigo do tio de papai em
seu uniforme de Bengala. Algumas vezes sentava-se na cama e gritava, chorando:
— Mais uma xícara de chá e mais fotografias! Mais fotografias! Ah! ah!
Finalmente, após um mês de agonia, no último dia de suas férias, morreu.
Contam que, ao chegar o último instante, sentou-se no leito com um lindo sorriso de
confiança a brilhar-lhe nos lábios e disse:
— Bem, os anjos estão me chamando. Infelizmente, tenho de ir mesmo. Boa noite!
E a saída da alma de sua prisão foi tão rápida como o passar de um gato perseguido por
um interstício de cerca.

A VINGANÇA DO PRESTIDIGITADOR

— Agora, senhoras e senhores — disse o mágico —, tendo-lhes mostrado que este pano está
absolutamente vazio, passo a retirar dele um aquário de peixes dourados. Pronto!
Em torno dele, a assistência comentava:
— Que maravilha! Como será que ele faz?
Mas o Homem Sabido da cadeira da frente disse, num cochicho audível, às pessoas do
lado:
— Ele o tinha escondido na manga.
Então a assistência fez ao Homem Sabido, com a cabeça, um sinal de concordância
inteligente e disse:
— Claro!
E todos cochicharam pelo salão:
— Ele o tinha escondido na manga.
— Agora, a minha mágica — disse o prestidigitador — são as famosas argolas
hindustânicas. Observem que as argolas estão, evidentemente, separadas; um sopro, e ei-las
juntas (tlim, tlim, tlim)... Presto!
Houve um murmúrio geral de estupefação, até que se ouviu o Homem Sabido murmurar:
— Ele devia ter outras argolas escondidas na manga.
Outra vez todos concordaram com a cabeça e cochicharam:
— As argolas estavam na manga dele.
O semblante do mágico anuviou-se, com um franzir de sobrancelhas.
— Agora — continuou — vou-lhes mostrar uma mágica bem divertida, que me permite
retirar de um chapéu qualquer quantidade de ovos. Um dos cavalheiros aqui presentes poderia
ter a gentileza de emprestar-me o seu chapéu? Ah, muito obrigado... Presto!
Extraiu 17 ovos, e durante 35 segundos a assistência começou a pensar que ele era
maravilhoso. E então o Homem Sabido cochichou pelo banco da frente:
— Ele tem uma galinha escondida na manga.
E todo mundo cochichou adiante a novidade:
— Ele tem uma porção de galinhas escondidas na manga.
A mágica dos ovos foi um desastre.
E o espetáculo continuou mais ou menos assim. Pelos cochichos do Homem Sabido
percebeu-se que o mágico devia ter escondido na manga, além das argolinhas e peixes,
diversos baralhos, um pão, um berço de boneca, um porquinho-da-índia vivo, uma moeda de
cinquenta centavos e uma cadeira de balanço.
A reputação do mágico descera rapidamente abaixo de zero. Pelo fim da noite ele
reanimou-se para um esforço final:
— Minhas senhoras e meus senhores, para terminar, apresentarei uma formosa mágica
japonesa, recentemente inventada pelos habitantes de Tipperary. O cavalheiro aí — continuou,
dirigindo-se ao Homem Sabido —, o cavalheiro quer ter a bondade de entregar-me o seu
relógio de ouro?
O relógio foi-lhe entregue.
— O cavalheiro me autoriza a colocá-lo neste almofariz e a despedaçá-lo? — perguntou,
fulo de raiva.
O Homem Sabido disse que sim com a cabeça, e sorriu.
O mágico atirou o relógio no almofariz e agarrou um malho que se achava em cima da
mesa. Ouviu-se um barulho de algo esmagado com violência.
— Ele o escondeu na manga — cochichou o Homem Sabido.
— Agora, cavalheiro — continuou o mágico —, permite-me tomar o seu lenço e esburacá-
lo? Obrigado. Vejam, senhoras e senhores, não há engano possível; todos estão vendo os
buracos.
O Homem Sabido estava radiante. Desta vez o mistério real da coisa fascinava-o.
— E agora, cavalheiro, quer ter a bondade de passar-me o seu chapéu de seda e permitir-
me dançar em cima dele? Obrigado.
O mágico fez alguns passes rápidos, desta vez com os pés, e exibiu o chapéu,
irreconhecível de tão amassado.
— E agora, cavalheiro, quer ter a bondade de retirar seu colarinho de celuloide e permitir-
me queimá-lo com a vela? Obrigado, cavalheiro. E permite-me espatifar os seus óculos com o
meu martelo? Obrigado.
Por essas alturas as feições do Homem Sabido estavam tomando uma expressão de
perplexidade.
— Não compreendo este negócio — cochichou. — Não consigo entendê-lo nem um
pouquinho.
Fez-se um grande silêncio no auditório. Então o mágico se empertigou em toda a sua
estatura e, com um olhar fulminante para o Homem Sabido, concluiu:
— Senhoras e senhores, queiram observar que, com a permissão deste cavalheiro,
quebrei-lhe o relógio, queimei-lhe o colarinho, espatifei-lhe os óculos e dancei-lhe em cima do
chapéu. Se ele me permitir, ainda, pintar-lhe o sobretudo de listras verdes e dar-lhe um nó nos
suspensórios, ficarei encantado em poder divertir os meus espectadores. Caso contrário, está
terminado o espetáculo.
E, envolto numa explosão de música da orquestra, caiu o pano, e a assistência dispersou-
se, convencida de que há algumas mágicas, pelo menos, que não dependem da manga do
mágico.
SIMÕES LOPES NETO

Depois de frequentar, no Rio, o Colégio Abílio, Simões Lopes Neto (1865-1916) cursou a
Escola de Medicina, abandonando os estudos no terceiro ano, forçado pela moléstia de que
viria a falecer. De regresso a Pelotas — tinha então 22 anos — dedicou-se ao comércio e às
letras. Foi catedrático da Escola do Comércio, conselheiro municipal, despachante-geral da
Alfândega, sócio fundador da Biblioteca Pública Pelotense, fundador da União Gaúcha, diretor
do Correio Mercantil, secretário de A Opinião Pública e colaborador de vários outros jornais.
Contista e folclorista, deixou obra notável. No conto, é de justiça considerá-lo um mestre, igual
aos maiores da nossa língua: pela imaginação viva, pela agudeza da observação, pelo
pitoresco, pela força poética, pela vida de que sabe animar as suas figuras e, como assinala
Augusto Meyer, pelo “equilíbrio perfeito entre as fontes da inspiração e o sabor da linguagem”.
“Assim, por exemplo”, prossegue Meyer, “a admirável descrição do crespúsculo em ‘Trezentas
onças’, a única paisagem, no sentido descritivo, que encontramos em todos os volumes dos
Contos gauchescos, considerados o tom e vocabulário, pertence exclusivamente ao homem
que escreve e não ao homem que está contando a história”.185

T REZENTAS ONÇAS
— Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca
empanzinada de onças de ouro, vim varar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da
estância da Coronilha, onde devia pousar.
Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado186 da troteada.
— Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela mesma reboleira187 de mato, que está nos
vendo, na beira do passo, desencilhei; e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o
chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda.188
Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o
pedregulho, tive ganas de me banhar; até para quebrar a lombeira189 e fui-me à água que nem
capincho!
Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes; e sempre puxei
umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha para um bom nado.
E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, encilhei o zaino e montei.
Daquela vereda andei como três léguas, chegando à estância cedo ainda, obra assim de
braça e meia de sol.
— Ah!... esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino, 190 um
cusco191 mui esperto e boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-lhe para acompanhar-
me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta,192 a não ser comigo. E nas
viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios.
Por sinal que uma noite...
Mas isso é outra cousa; vamos ao caso.
Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada e latia e
corria para trás, e olhava-me, olhava-me, e latia de novo e troteava um pouco mais sobre o
rastro — parecia que o bichinho estava me chamando!... Mas como eu ia, ele tornava a
alcançar-me, para daí a pouco recomeçar.
— Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando botei o pé em terra na ramada da estância, ao
tempo que dava as — boas-tardes! — ao dono da casa, aguentei um tirão seco no coração...
não senti na cintura o peso da guaiaca!
Tinha perdido trezentas onças 193 de ouro que levava para pagamento de gados que ia
levantar.
E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois uns coriscos tirante a roxo...
depois tudo me ficou cinzento, para escuro...
Eu era mui pobre — e ainda hoje, é como vancê sabe... —; estava começando a vida, e o
dinheiro era do meu patrão, um charqueador, sujeito de contas mui limpas e brabo como uma
manga194 de pedras...
Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:
— Então, patrício? está doente?
— Obrigado! Não, senhor, respondi, não é doença; é que sucedeu-me uma desgraça: perdi
uma dinheirama do meu patrão...
— A la fresca!...195
— É verdade... antes morresse que isto! Que vai ele pensar agora de mim...
— É uma dos diabos, é... Mas não se acoquine,196 homem!
Nisto o cusco brasino deu uns pulos ao focinho do cavalo, como querendo lambê-lo, e logo
correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir...

Ah!... E num repente lembrei-me muito bem de tudo. Parecia que estava vendo o lugar da
sesteada, o banho, a arrumação das roupas nuns galhos de sarandi e, em cima de uma pedra,
a guaiaca, e por cima dela o cinto das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei uma
última tragada, antes de entrar na água, e que deixei espetada num espinho, ainda fumegando,
soltando uma fitinha de fumaça azul que subia, fininha e direita, no ar sem vento...; tudo, vi
tudo.
Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E o remédio era um só: tocar a meia rédea,
antes que outros andantes passassem.
Num vu estava a cavalo; e mal isto, o cachorrito pegou a retouçar, numa alegria, ganindo —
Deus me perdoe! — que até parecia falar!
E dei de rédea, dobrando o cotovelo do cercado.
Ali logo frenteei uma comitiva de tropeiros, com grande cavalhada por diante, e que por
certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada nos tocamos todos na aba do sombreiro; uns
quantos vinham de balandrau enfiado. Sempre me deu uma coraçonada para fazer umas
perguntas... mas engoli a língua.
Amaguei o corpo e, pinicando de esporas, toquei a galope largo.
O cachorrinho ia ganiçando, ao lado, na sombra do cavalo, já mui comprida.

A estrada estendia-se deserta; à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista,


serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que
iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita, o sol, muito baixo, vermelho-dourado,
entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas.
Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma que outra perdiz, sorrateira, piava de
manso por entre os pastos maduros; e longe, entre o resto da luz que fugia de um lado e a
noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a brancura de um joão-grande, voando, sereno,
quase sem mover as asas, como numa despedida triste, em que a gente também não sacode
os braços...
Foi caindo uma aragem fresca e um silêncio grande, em tudo.
O zaino era um pingaço de lei; e o cachorrinho, agora sossegado, meio de banda, de língua
de fora e de rabo em pé, troteava miúdo e ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas
do flete197 levantavam.
E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão afogueado, como de incêndio num pajonal;
depois o lusco-fusco; depois, cerrou a noite escura; depois, no céu, só estrelas... só estrelas...
O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem por cima
da minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão vivas, tão alinhadas, pareciam me
acompanhar... Lembrei-me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me da
minha mãe, do meu pai, que também as viram, quando eram crianças, e que já conheceram
pelo seu nome de Marias, as Três-Marias. — Amigo! Vancê é moço, passa a sua vida rindo...
Deus o conserve!... sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração
pena...
— Há que tempos eu não chorava!... Pois me vieram lágrimas..., devagarinho, como
gateando, subiram... tremiam sobre as pestanas, luziam um tempinho... e ainda quentes, no
arranco do galope lá caíam elas na polvadeira da estrada, como um pingo d’água perdido, que
nem mosca nem formiga daria com ele!...
Por entre as minhas lágrimas, como um sol cortando um chuvisqueiro, passou-me na
lembrança a toada dum verso lá dos meus pagos:

Quem canta refresca a alma,


Cantar adoça o sofrer;
Quem canta zomba da morte:
Cantar ajuda a viver!...

Mas que cantar, podia eu!...


O zaino respirou forte e sentou, trocando a orelha, farejando no escuro: o bagual tinha
reconhecido o lugar, estava no passo.
Senti o cachorrinho respirando, como assoleado. Apeei-me.
Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia respeito... que medo, não,
que não entra em peito de gaúcho.
Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando no
escuro. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a pedra
onde tinha posto a guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os lados, mais pra lá, mais
prá cá...; nada! nada!...
Então, senti frio dentro da alma... o meu patrão ia dizer que eu ia lá perder as onças!...
Qual! Ladrão, ladrão é que era!...
E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me para não sofrer a
vergonha daquela suposição.
É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!
Tirei a pistola do cinto; amartilhei o gatilho... benzi-me, e encostei no ouvido o cano, grosso
e frio, carregado de bala...
— Ah! patrício! Deus existe!...
No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o
cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino
relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de
um grilo retinia ali perto, num oco de pau!... — Patrício! não me avexo duma heresia; mas era
Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos
arredarem de mim a má tenção...
O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a
liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...
Eh-pucha! patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu,
dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho198 ao sol, num descampado, no pino
do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...
E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio,199 bati o
isqueiro e comecei a pitar.

E fui pensando. Tinha, por minha culpa, exclusivamente por minha culpa, tinha perdido as
trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia como explicar o sucedido, comigo,
acostumado a bem cuidar das cousas. Agora... era vender o campito, a ponta de gado manso
— tirando umas leiteiras para as crianças e a junta dos jaguanés lavradores —, vender a
tropilha dos colorados... e pronto! Isso havia de chegar, folgado; e caso mermasse a conta...
enfim, havia se ver o jeito a dar... Porém matar-se um homem, assim no mais... e chefe de
família... isso, não!
E d’espacito vim subindo a barranca; assim que me sentiu, o zaino escarceou, mastigando o
freio.
Desmaneei-o, apresilhei o cabresto; o pingo agarrou a volta e eu montei, aliviado.
O cusco escaramuçou, contente; a trote e galope voltei para a estância.
Ao dobrar a esquina do cercado, enxerguei luz na casa; a cachorrada saiu logo, acuando. O
zaino relinchou alegremente, sentindo os companheiros; do potreiro outros relinchos vieram.
Apeei-me no galopão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se rebolcou, com ganas.
Então fui para dentro: na porta dei o — Louvado seja Jesus Cristo; boa noite! — e entrei, e
comigo, rente, o cusco. Na sala do estancieiro havia uns quantos paisanos; era a comitiva que
chegava quando eu saía; corria o amargo.200

Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca na


ressolana,201 estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com as trezentas onças, dentro.
— Louvado seja Jesu-Cristo, patrício! Boa noite! Entonces, que tal le foi de susto?...
E houve uma risada grande de gente boa.
Eu também fiquei-me rindo, olhando para a guaiaca e para o guaipeva,202 arrolhadito aos
meus pés...
IVAN ČANKAR

Com um conto de Ivan Čankar (1878-1918) entra nesta antologia a literatura de mais um
pequeno povo da Europa Central, o esloveno, pertencente à raça eslava, de religião católica e
alfabeto latino. Submetidos até 1918 à dominação austríaca, os eslovenos, por efeito do
desmoronamento da monarquia austro-húngara, formaram, junto com os sérvios, os croatas e
os montenegrinos, a atual Iugoslávia, de que continuam a ser uma das quatro nações
constitutivas.203
Filho de um pobre alfaiate, Čankar perdeu cedo o pai; mantido pela mãe pobre — a quem
sempre conservou verdadeira adoração —, teve infância e mocidade difíceis. Concluindo o
curso secundário em Liubliana, foi, em 1898, estudar filologia românica e eslava em Viena,
sem chegar a formar-se. Permaneceu, porém, muito tempo na capital da Monarquia, onde
travou contato com os meios intelectuais, mantendo-se com trabalhos literários e jornalísticos,
numa existência de boêmio. Em 1909 tornou a Liubliana, onde permaneceu até à morte.
Primeiro escritor profissional de toda a literatura iugoslava, levou Čankar a dura vida dos
pioneiros. Seu primeiro livro de poesias, Erotika (1899), teve a má sorte de desagradar ao
bispo de Liubliana, que, não conseguindo proibição policial, comprou toda a edição e queimou-
a. Durante a vida aparentemente desordenada e desperdiçada, procurou conscientemente o
seu caminho de escritor, estudando as grandes literaturas europeias e buscando os meios de
melhorar o destino de seu povo. Hostilizado pelos compatriotas como socialista e anarquista, e
pelos austríacos como nacionalista subversivo, embora não tomasse parte nas conspirações
que visavam à libertação dos eslovenos, foi molestado e preso pela polícia austríaca. Morreu
tuberculoso, sem chegar a ver a independência de sua nação.
Dramaturgo e poeta, crítico e tradutor, Čankar é antes de tudo contista; com os seus
contos é que depois da morte transpôs as estreitas fronteiras da Eslovênia, sendo traduzido
em muitas línguas. Suas obras neste gênero assinalaram-se por um misto peculiar de
elementos nacionais e pessoais: ao tom saboroso do conto popular e ao seu rico tesouro de
tradições religiosas, étnicas, históricas, alia-se a amargura do proletário revoltado, a
desesperada ternura do intelectual pelos irmãos pobres, inconscientes e indefesos. À medida
que lhe amadurecia a personalidade artística, ampliava-se-lhe o panorama. “Čankar, que veio
de sufocantes estreitezas provincianas, evolvera, através de um pan-eslavismo de matiz
socialista, para um universalismo de amor que o torna compreensível a todos.”204
Em O criado Jernei e a sua justiça, a mais famosa das novelas do “Gorki esloveno”, conta-
nos, com extraordinária força poética, o calvário de um velho criado a quem o filho do patrão
despede após a morte deste. Convencido de ter direito ao patrimônio que ajudou a criar, o
ancião recorre ao juiz da aldeia, ao padre, aos tribunais, ao rei; vendo-se humilhadamente
repelido por toda parte, o infeliz retorna à sua aldeia, incendeia a casa dos patrões e é
linchado pelos outros criados. “Feliz a geração à qual a essência da justiça divina e do amor do
próximo é ensinada num escrito tão admirável, de força quase bíblica.”205
Noutra história, toda embebida de elementos folclóricos, O vadio Marko e o rei Matias,
narra o contista episódios da vida do vagabundo Marko, simpático e irresponsável, beberrão e
preguiçoso, cheio de boas intenções e falto de energia, amante da música e da vida
independente, o qual, numa espécie de sebastianismo, parte à procura do lendário rei
Matias206 para que este traga de volta a idade áurea.
É fácil reconhecer na personalidade de Marko um símbolo de todo o povo esloveno, ao qual
o escritor satiriza e exalta ao mesmo tempo, com clarividente mordacidade e instintiva
ternura.207

A DESSÉTITSA
Às vezes nossa alma se faz escura e tristonha, oprimida por inexplicável melancolia, que nos
tira toda a força, toda a esperança. As amarguras da vida cotidiana, inesperadamente,
tornam-se fortes, insuportáveis; aparece a consciência, batendo no coração a marteladas... e
então todos os pecados, até os mais insignificantes, já desde muito esquecidos, surgem,
negros, diante dos olhos. Para que viver mais? Parece que tudo está perdido, tudo, tudo... E a
nossa mão procura temerosa outra mão, os nossos olhos giram, tímidos, à procura de um
aceno amigo.
Não é somente o homem que tem atrás de si uma longa caminhada e à sua frente a morte
e a sepultura quem passa por esses momentos. Numa bela manhã sentimos na alma um sopro
gelado, e todos os pensamentos rolam por terra, como se fossem de pedra. Ouvimos o bater
de um dedo durante uma alegre ceia, em companhia barulhenta; nossa mão, que segurava o
copo, esmorece... os olhos ficam esbugalhados, o sorriso congela-se nos lábios... Até a
criança, por vezes, de repente, no meio de suas brincadeiras, solta um grito, põe-se a tremer
e, presa de medo inexplicável, corre ao abraço da mãe.
Tinha eu 13 ou 14 anos; era aluno do terceiro ano ginasial. Certa manhã de outono, acordei
cedo. O quarto ainda estava escuro. Era grande o aposento, mas nesse dia me pareceu
apertado e estreito, sobrecarregado, atravancado, como em dia de mudança. Ao longo da
parede havia quatro camas; entre elas, estantes para livros, grandes caixotes de madeira,
armários para roupa, e, no meio disso, uma grande mesa redonda, coberta de livros e
cadernos. Na escuridão, todas estas coisas se afiguravam estranhas, tortas, de formas
imprecisas, e davam a impressão de miséria e tristeza inexplicáveis. Nas outras camas jaziam
os meus colegas, dormindo um sono matinal de pedra, com as faces suadas e quentes, a
boca entreaberta. Eram mais velhos que eu, e, embora morássemos e dormíssemos no
mesmo quarto havia dois anos, não me consideravam como verdadeiro amigo; olhavam-me
com desprezo, nem sei bem por quê. Filhos de camponeses, eram fortes, barulhentos e
alegres, ao passo que eu me sentia vazio e amargo até o fundo da alma, o que talvez se
percebesse na minha voz e nos meus olhos.
A chuva tamborilava na janela, muito docemente, como se alguém batesse de leve com os
dedos; chovia já desde uma semana, em fios finos e longos; uma chuva que entristecia e
entorpecia, afugentando do espírito os quadros alegres e despertando outros, esquecidos,
envoltos em vestes cinzentas. No aposento pairava um ar pesado e sufocante, um cheiro a
mofo, a corpos suarentos e mal-lavados, um bafo pestilencial de inferno.
Tudo isto eu vi e senti num mesmo instante, e uma dor amarga e impiedosa me fez
estremecer. Na atmosfera envenenada do quarto, entrevi o objetivo da minha existência. Toda
a minha vida, desde as primeiras recordações tristes até o fim, lá longe, no futuro sem
esperanças, eu a via claro naquele momento. Tão apavorado fiquei que só a custo conseguia
respirar. Estava deitado, inteiramente imóvel, com os olhos cravados na penumbra. Sentia-me
como num sonho em que, num abrir e fechar de olhos, a pessoa atravessa voando anos e
decênios e vê como num único quadro, numa única moldura, milhares de personagens, qual se
proviessem da eternidade. Retornam todas as horas amargas, e o coração se enche de uma
angústia dez vezes maior que dantes. As recordações vão longe, abrem-se as cortinas.
Recordava-me de todos os acontecimentos: de quando comecei a andar, trajando uma longa
saia desajeitada; das noites em que adormecia com lágrimas nos olhos; das auroras em que
despertava sem querer abrir os olhos para não ver o amanhecer, para nunca mais o olhar.
Minha timidez transformava-se em desespero, num medo sem palavras diante da vida;
reconhecia o caminho que me levava impiedoso para um precipício, para o fundo de um
abismo, sem salvação possível. Não podia gemer, nem gritar. Uma força implacável me
apertava o coração. Nisto a dona da pensão entrou no quarto:
— Levantem-se, meninos!
Era grande e gorda, com um sorriso obeso. Eu tinha medo dela como de uma bandida;
provavelmente ela o percebia, pois não gostava de mim. Naquela manhã parecia-me ainda
mais pavorosa, enorme como uma floresta, escura e estranha; tremi quando me olhou com os
olhos pequeninos e cinzentos, e levantei-me sem demora.
Enquanto me vestia, experimentava frio e fome; mas não havia café para mim. Havia para
os outros três, e o aroma da bebida quente chegava, apetecível, da cozinha. Eu contara aos
meus que me davam café todas as manhãs, ali na rua de são Pedro, mas não era verdade.
Quanto me doía ver na mesa as xícaras grandes e cheias, das quais se levantava a fumaça
quente e adocicada! Ao lado de cada xícara havia um pedaço de pão branco, com a crosta
amarela, bem-tostada, e que estalava entre os dentes.
— “Aonde ir, que fazer agora?” — perguntei a mim mesmo.
Em casa não podia nem queria ficar; preferia a sepultura, à meia-noite! Mas a chuva batia
nas janelas; e, saindo à rua, por meia hora que fosse, molhar-me-ia até a pele, e todos
saberiam como me sentia. Tinha medo da escola. Aprender não me preocupava, mas tudo na
escola me inspirava repugnância. Ficava diante do mestre como um criminoso perante o juiz.
Sobracei os livros e saí. A umidade molhou-me logo os pés, e estremeci de frio. Batia-me
no rosto a chuva, tive de abrigar os livros por baixo do paletó. As ruas estavam tristes,
cinzentas; as casas, a gente, os pensamentos, o mundo, cinzentos; o calçamento,
escorregadio; as ruas, lamacentas e alagadas. Quando passava algum carro, espirrava lama
para os dois lados, e os transeuntes recuavam. Não se via o céu, uma neblina plúmbea caía
sobre os telhados. Todas as pessoas que eu encontrava estavam molhadas, esquisitas, e, ao
cruzarem-se, olhavam para o chão como se por trás da fronte escondessem pensamentos
obscuros, preocupações feias.
Não segui direto para a escola, pois ainda era cedo. Andei pelas ruas, sem fixar a atenção
em nada. Por vezes, das padarias abertas vinha o cheiro dos pãezinhos quentes, frescos e
redondos, daqueles de um amarelo dourado que se desfazem na boca. A chuva caía
vagarosa; pingava água das extremidades das calhas, inundavam-se as ruas, de lado a lado; a
cada passo ouvia um borbulhar, e a água entrava-me nos sapatos até os dedos.
Era o edifício da escola muito alto e solene. Fiquei parado diante dele, feito um mendigo à
porta de um castelo. As janelas olhavam com grave severidade, como os mestres. Ao entrar,
baixei a cabeça como deprimido por um pesadelo, tal como quem entrasse num templo
inimigo, com as mãos amarradas às costas, inteiramente miserável e humilhado. Os pés me
pesavam. Subi devagar as escadas, cabisbaixo, a passos de velho.
Na sala de aula sentia-se grande calor, mas que cheirava mal e me incomodava como as
imposições de silêncio do mestre. Quem chegasse à presença daqueles bancos enfileirados
subitamente deixava de ser homem e passava a ser um aluno, um número no livro de
chamada; a tristeza aperta-lhe o coração, esmaga-lhe a alma, fá-lo cabecear e põe-se a
refletir sobre quando nasceu Klopstock.208
Achava-me alheio a tudo, nem sabia quem era o professor e de que falava. Dizia comigo
mesmo todo o tempo: — “Acabem com isso, que não tem sentido nenhum... acabem já!”
Sentado perto de mim, um amigo meu, gordo, filho do dono de um botequim de Liubliana,
comia sem parar. Escondia-se por trás das costas largas do colega sentado à sua frente e
comia. Nédio, bochechas grossas e maldosas, olhos de avarento, mãos adiposas e
gordurosas; e comia, comia, comia... Eu tinha o peito vazio e triste, a língua dura.
Às dez horas, durante o intervalo, todos se levantaram e saíram para a portaria, a comprar
salsichas, ou foram brincar no quintal da escola. Eu não sabia para onde ir. Doía-me o
coração, pois estava sozinho, absolutamente só, e, conquanto fosse ainda uma criança, tinha
ímpetos de exclamar: — “Meu Deus, deixa-me morrer!”
Nisto me apareceu um colega e disse-me:
— Olhe, tem carta para você!
Verdade: no quadro-negro vi escrito o meu nome. Dirigi-me, a passos pesados e cansados,
à portaria.
Ao receber a carta, as mãos tremiam-me, e, para que nenhum olho indigno visse aquela
missiva sagrada, escondi-me ao pé da janela. As letras queridas, toscas e grandes, me
revelavam a mão de mamãe. Abri o envelope devagarinho, com uma sensação estranha, a um
tempo alegre e penosa. Na carta, voltavam as mesmas letras grandes e toscas: “Filho
querido!” Mamãe aprendera a escrever com os filhos, para não se envergonhar. Quando abri a
carta, algo ressoou no chão; abaixei-me e apanhei-o: era uma dessétitsa.
Era uma daquelas moedas de prata de dez dinares, fininhas e redondas, que há muito
tempo já não existem! Ao pegá-la, senti um bem-estar celeste. Tudo em mim tremia, palpitava,
agitava-se, como uma flâmula de amor. Vi a mão querida, enrugada, a colocar no sobrescrito
a sua última moeda. Era a última, bem o sabia eu, embora ela não mo houvesse escrito.
Escondi-me, longe, num cantinho, para ninguém me ver. Do coração, do peito, de todo o
meu corpo, brotaram lágrimas, e tremia como se estivesse febril. Quando, porém, pouco
depois, subi a escada para voltar à aula, tudo, em mim, se iluminou. Naqueles longes, minha
mãe adivinhara a minha dor e, com um sorriso, voltava-se para mim. E, num milagre do Céu,
as nuvens tinham desaparecido e um raio alegre de sol penetrou na sala.
Mamãe já não existe. Tampouco existem aquelas velhas moedas de dez dinares. E agora
os dias correm obscuros e desertos, até o anoitecer.
NAOYA SHIGA

O aparecimento do primeiro autor japonês nesta coletânea motiva algumas considerações


acerca da literatura no Japão. Note-se logo, porém, que só com reservas se pode aplicar a
palavra literatura às produções intelectuais japonesas anteriores a 1868, de tal maneira elas
diferem daquelas que nós assim entendemos habitualmente. Ela se compôe, em grande parte,
de obras de erudição, históricas, genealógicas e teológicas, assim como de miscelâneas e
diários íntimos. A poesia, lírica toda ela, é submetida a regras tão severas e estreitas que,
perto delas, as do nosso soneto parecem licenças. As do haicai, composição concisa sem
rimas nem ritmo, sempre de 17 palavras, que envolve obrigatoriamente jogos de palavras e
figuras, já tiveram entre nós bastante divulgação. Lembremos, porém, que a obra-prima de
outro gênero lírico, a imayuota, ostenta o mérito, muito exaltado, de achar-se composta de 47
caracteres da escrita silábica, sem que nenhum deles se repita! A forma tradicional da
narrativa em prosa, o monogatari, constitui-se de episódios soltos, intercalados de
meditações, enumerações, reminiscências, descrições, e poucas semelhanças tem com o
nosso romance. Aliás, a antiga sociedade japonesa, com suas tradições guerreiras, seu rude
código de honra, o bushido, e, na outra extremidade, os requintes infinitamente delicados da
cerimônia do chá, só oferece analogias vaguíssimas com as sociedades ocidentais.
Todos os tratadistas dividem essa literatura em sete períodos de extensão desigual. Sem
contar o período arcaico (das origens a 710 d.C.), no qual foram introduzidos o budismo e a
escrita ideográfica chinesa, são: o período de Nara (710-784), dos primeiros livros em
japonês; o de Heian (a futura Quioto, 784-1185), era clássica das letras japonesas que viu
surgir o longo O romance de Genji, espelho da vida e dos costumes da corte por volta do ano
1000; os de Kamakura (1185-1332), de Nambokucho (1332-1392) e de Muromachi (1392-
1603), este último época de esplendor do haicai e de um tipo de drama religioso, o nô; o de
Edo (a futura Tóquio, de 1603 a 1868), durante o qual se esboça luta intensa entre os
“eruditos em chinês” e os “eruditos em japonês”, se fixa a gramática japonesa e surge um
público ávido sobretudo de histórias de amor extremamente licenciosas, enquanto o teatro
atrai pelos kabukis, peças profanas, em que pela primeira vez aparecem mulheres.
A partir da visita do comodoro norte-americano Percy, em 1853, cessou o isolamento do
Japão, abriram-se os portos aos navios ocidentais e saíram jornais de feições europeias. De
1868 em diante, quando começa o período moderno das letras, assiste-se a uma verdadeira
invasão da literatura ocidental, tanto em textos originais como em traduções. É a introdução,
ao mesmo tempo, de todas as escolas, todas as tendências, todos os gêneros. Essa irrupção,
no momento em que o problema da língua e da escrita estava longe de ser resolvido, deu
origem a uma produção imensa e caótica.
“A língua atual”, escrevia em 1910 um dos melhores conhecedores europeus do Japão,
“estorvada por inúmeras palavras chinesas, não faz pressagiar a aparição próxima dum estilo
artístico, a menos que os japoneses se decidam, segundo o conselho de seus maiores sábios,
a rejeitar sua escrita absurda e a adotar um sistema fonético que forçava o retorno à pura
língua nacional”.209
Entretanto, a escrita não foi modificada e a produção não para de crescer. “Não é em
cinquenta anos”, escreve outro entendido, “que as forças espirituais de uma nação podem
fazer tábua rasa de uma herança de mais de 13 séculos e pretender apresentar criações
originais. Por mais louváveis que tenham sido as tentativas de vazar em forma indígena o
pensamento da Europa e da América, não tiveram alhures a atração e o interesse que o
público japonês lhes manifestara”.210
Com efeito, ao lermos um romance japonês moderno, sentimo-nos, em geral, atrapalhados
como em presença de uma pessoa que veste trajes feitos para outra, trajes às vezes
elegantes, mas que não assentam.
Um dos introdutores mais prestigiosos das correntes ocidentais na literatura nipônica foi
Naoya Shiga. Nascido em 1888, de família de prósperos comerciantes, descendente de
samurais, perdeu a mãe quando tinha 12 anos. Estudou literatura inglesa e depois literatura
japonesa, na Universidade de Tóquio, mas não concluiu o curso. Sua recusa a empregar-se no
comércio e sua decisão de consagrar-se à literatura levaram-no a um longo conflito com o pai,
que se opôs a seu casamento e chegou a vedar a inumação das cinzas da primeira filha do
casal, morta de doença, no jazigo familiar. Shiga teve participação intensa na organização da
literatura, fazendo parte do grupo e do jornal Shirikaba (“Vidoeiro branco”), mas escreveu
relativamente pouco. Alguns anos depois da briga, reconciliou-se com o pai. Morreu em 1971.
Encontramos esses dados no prefácio à tradução inglesa do romance O caminho pela
noite negra,211 cujo assunto em grande parte é tirado da vida do próprio Shiga, embora com a
alteração de vários dados importantes. É a história de um escritor neurótico e de seus
fracassos de ordem sentimental, que nos deixa algo insatisfeitos pela falta de ligação orgânica
entre as partes. Elementos essenciais da ação são frisados de leve em poucas palavras,
enquanto a narrativa se afoga numa multidão de episódios e pormenores acessórios.
Dir-se-ia que o escritor se sentia mais à vontade na história curta, como o faz supor o conto
a seguir, merecidamente famoso em todo o Japão. Parece que a análise levada a excessos de
minúcia, que o caracteriza, é ainda uma herança do período clássico.212

A MORTE DA MULHER DO ATIRADOR DE FACAS


Para espanto de todos, o jovem prestidigitador chinês Han cortou a carótida da mulher com
uma de suas pesadas facas durante um espetáculo. A jovem senhora morreu ali mesmo, e ele
foi preso em seguida.
No lugar do acontecimento estavam o diretor do teatro, o assistente chinês de Han, o
apresentador e mais de trezentos espectadores. Havia também um policial, postado por trás
da assistência. Não obstante a presença de todas essas testemunhas, era um completo
mistério se a morte fora intencional ou acidental.
O número de Han se produzia do seguinte modo: sua mulher ficava em frente de uma tábua
mais ou menos do tamanho de uma porta, e ele, duma distância de cerca de quatro
jardas,213 atirava seus facões de modo que se cravassem na tábua formando o contorno do
corpo com uma distância de duas polegadas da mulher. Quando cada uma das facas partia de
sua mão, ele soltava uma exclamação em staccato,214 como para ressaltar sua atuação.

O juiz encarregado interrogou primeiro o diretor do teatro:


— O senhor diria que esse número é muito difícil?
— Não, Excelência, não é nada difícil para uma pessoa experiente. Mas para fazê-lo direito
é preciso estar com os nervos firmes e a concentração perfeita.
— Compreendo. Então, aceitando que o acontecido foi um acidente, seria o tipo do
acidente improvável?
— Na verdade, Excelência, é. Se os acidentes não fossem tão improváveis, eu nunca
permitiria esse número em meu teatro.
— Bem, então o senhor acha que foi de propósito...
— Não, Excelência, não acho. E pela simples razão de que um número desta espécie,
executado a uma distância de 12 pés,215 requer não apenas habilidade, mas, ao mesmo
tempo, um certo... digamos, um certo senso de intuição. É verdade que nós todos sempre
pensamos que um erro fosse impossível; porém, depois do que aconteceu, devemos admitir
que sempre houve a possibilidade dum erro.
— Então, que é que o senhor acha? Foi erro ou propósito?
— Isso é que eu não sei dizer, Excelência.
O juiz sentiu-se desorientado. Era um caso evidente de homicídio; mas impossível afirmar
se fora homicídio involuntário ou premeditado. Se tinha sido assassinato, fora, sem dúvida,
muito inteligente — pensou o juiz.
Em seguida, decidiu interrogar o assistente chinês, que desde muitos anos trabalhava com
Han:
— Como se comportava Han normalmente?
— Foi sempre muito correto, Excelência: não jogava, não bebia, nem vivia atrás de
mulheres. Além do mais, no ano passado converteu-se ao catolicismo. Estudava inglês, e nas
horas vagas sempre parecia estar lendo seleções de sermões — a Bíblia e coisas desse
gênero.
— E a conduta de sua mulher?
— Também muito correta, Excelência. Como sabe V. Exa., nem sempre os artistas
ambulantes são as pessoas mais decentes. A sra. Han era uma mulherzinha bem bonita, e de
vez em quando lhe faziam propostas, porém ela nunca deu a menor atenção a essas coisas.
— E qual era o tipo de temperamento dos dois?
— Bondosos e gentis, Excelência. Eram extremamente bons para com todos os amigos e
conhecidos, e nunca discutiam com ninguém. Mas — parou e refletiu um instante antes de
continuar —, Excelência, temo que, se eu lhe contar isto, Han venha a ser prejudicado. Mas,
para dizer a verdade, essas duas pessoas, tão bondosas e desprendidas para com os outros,
eram surpreendentemente cruéis uma com a outra.
— Por quê?
— Não sei, Excelência.
— E sempre foi assim, desde que os conheceu?
— Não, Excelência. Há uns dois anos a sra. Han ficou grávida. A criança nasceu antes do
tempo e morreu uns três dias depois. Isso determinou uma mudança em suas relações.
Começaram a ter brigas terríveis pelas coisas mais fúteis, e o rosto de Han ficava branco feito
papel. Ele sempre terminava calando-se de repente. Nem uma vez levantou a mão, ou fez
coisa parecida, contra ela — acho que isso era contrário aos seus princípios. Mas, quando se
olhava para ele, Excelência, podia-se ver a raiva terrível nos seus olhos! Dava medo, às vezes!
Certo dia perguntei a Han por que não se separava da mulher, dado que as coisas iam tão mal
entre os dois. Bem, ele me respondeu que não tinha um motivo real para divórcio, apesar de
seu amor por ela haver morrido. Naturalmente ela sentia isso e aos poucos também deixou de
amá-lo. Ele mesmo me contou tudo isso. Acho que a razão por que deu para ler a Bíblia e
todos aqueles sermões foi o desejo de acalmar a violência no seu coração e defender-se de
odiar a mulher, a quem não tinha por que odiar. A sra. Han era, em verdade, uma mulher
impressionante. Estava desde quase três anos com Han, e percorreu com ele todo o país
como artista ambulante. Se ela deixasse Han e voltasse para sua terra, não creio que se
casasse facilmente. Quantos homens acreditariam numa mulher que tivesse passado todo
aquele tempo viajando? Acho que foi por isso que ela ficou com Han, embora se dessem tão
mal.
— E o que acha realmente dessa morte?
— Quer saber, Excelência, se eu acho se foi acidental ou proposital?
— Sim, senhor.
— Bem, Excelência, tenho pensado nela, de todos os pontos de vista, desde o dia em que
aconteceu. Quanto mais penso menos sei o que dizer. Conversei a respeito do caso com o
apresentador, e ele também diz que não compreende o que aconteceu.
— Muito bem. Mas diga-me uma coisa: no momento exato em que se deu o fato, ocorreu-
lhe imaginar se era acidental ou propositado?
— Sim, senhor, ocorreu. Pensei, pensei: afinal de contas, ele a matou.
— De propósito, então.
— Sim, Excelência. Entretanto, o apresentador do número diz que pensou assim: “A mão
de Han escorregou!”
— Bem, porém, ele não conhecia, como é o seu caso, as relações cotidianas dos dois.
— Isto pode ser, Excelência. Mas, em seguida, fiquei pensando se não seria exatamente
porque eu sabia o que havia entre os dois que pensei: “Afinal de contas, ele a matou.”
— Qual foi, no momento, a reação de Han?
— Gritou: “Ah!” Logo que o escutei, olhei para cima e vi o sangue esguichando do pescoço
da mulher. Por alguns segundos ela se conservou em pé, depois os joelhos pareceram dobrar
sob o seu peso, e o corpo oscilou para a frente. Ao cair a faca, ela foi ao chão, como um
fardo. Naturalmente nada havia que pudéssemos fazer; ficamos sentados, petrificados,
fitando-a... Quanto a Han, na verdade não posso descrever-lhe as reações, pois não estava
olhando para ele. Só quando o pensamento me atingiu: — “Afinal de contas, ele a matou” —, é
que olhei para ele. Tinha o rosto branco como o de um morto e os olhos fechados. O
encarregado desceu a cortina. Quando levantaram o corpo da sra. Han, já ela estava morta.
Então Han caiu de joelhos e por um longo espaço rezou em silêncio.
— Ele parecia estar muito perturbado?
— Sim, Excelência, estava muito perturbado.
— Muito bem. Se eu tiver mais alguma coisa para lhe perguntar, mandarei chamá-lo.
O juiz dispensou o auxiliar chinês e convocou a depor o próprio Han. O rosto inteligente do
prestidigitador estava contraído e pálido; podia-se afirmar desde logo que se achava em
estado de exaustão nervosa.
— Já interroguei o diretor do teatro e seu auxiliar — disse o juiz quando Han tomou o seu
lugar no banco das testemunhas. — Agora, proponho-me interrogá-lo.
Han baixou a cabeça.
— Você nunca amou sua mulher? — perguntou o juiz.
— Desde o dia de nosso casamento até que a criança nasceu, eu amei-a de todo o
coração.
— E por que é que o nascimento da criança mudou as coisas?
— Porque eu sabia que não era minha.
— Sabe quem era o outro homem?
— Tinha fortes desconfianças. Acho que era o primo de minha mulher.
— Você o conhecia pessoalmente?
— Era um amigo íntimo. Foi ele quem primeiro sugeriu que nós nos casássemos. Foi ele
quem me instigou a casar com ela.
— Presumo que as relações entre eles se deram antes do casamento.
— É verdade. A criança nasceu oito meses depois que nos casamos.
— Segundo o seu auxiliar, foi um nascimento prematuro.
— Foi o que eu disse a todo mundo.
— A criança morreu logo depois de nascer, não é verdade? Qual foi a causa da morte?
— Foi sufocada pelo seio da mãe.
— Sua mulher o fez de propósito?
— Ela disse que foi acidente.
O juiz mantinha-se calado e olhava fixo para o rosto de Han. Han levantou a cabeça, mas
conservou os olhos abaixados enquanto esperava a pergunta seguinte. O juiz continuou:
— Sua mulher confessou a você essa ligação?
— Não confessou, nem eu nunca lhe perguntei nada. A morte da criança parecia uma
desforra de tudo, e decidi ser o mais generoso possível, mas...
— Mas afinal não lhe foi possível ser generoso?
— Não foi. Não pude deixar de pensar que a morte da criança fora uma desforra
insuficiente. Quando eu estava longe de minha mulher, conseguia raciocinar calmamente, mas,
logo que a via, algo se passava no meu íntimo. Se eu via o seu corpo, a irritação tomava conta
de mim.
— Não lhe ocorreu o divórcio?
— Muitas vezes pensei que gostaria de me divorciar, mas nunca disse nada a minha
mulher. Ela costumava dizer que, se eu a deixasse, deixaria de existir.
— Ela o amava?
— Ela não me amava.
— Então por que dizia tais coisas?
— Acho que se referia aos meios materiais de existência. Sua casa tinha sido arruinada
pelo irmão mais velho, e ela sabia que nenhum homem sério quereria casar com uma mulher
que fora esposa de um prestidigitador ambulante. E, por outro lado, seus pés eram pequenos
demais para lhe permitirem fazer qualquer trabalho comum.
— Que tipo de relações físicas tinham vocês?
— Acho que as mesmas que a maioria dos casais.
— Sua mulher tinha algum afeto a você?
— Não creio que ela me tivesse nenhum afeto. Na realidade, acho que era muito penoso
para ela viver comigo como minha mulher. Contudo, ela o suportava. Suportava com um grau
de paciência quase inacreditável para um homem. Costumava observar-me com um olhar frio e
cruel, enquanto minha vida se reduzia a pedaços. Não demonstrava nenhum pingo de simpatia
quando me via lutando penosamente para fugir em busca de uma existência melhor, mais
razoável.
— Por que não teve uma atitude decisiva — não procurou ter uma explicação com ela, ou
até deixá-la, se fosse necessário?
— Porque a minha cabeça estava cheia de toda espécie de ideais.
— Que ideais?
— Queria-me conduzir com minha mulher de tal modo que do meu lado não houvesse erro...
Mas, no fim, não deu certo.
— Você nunca pensou em matá-la?
Han não respondeu, e o juiz repetiu a pergunta. Após longa pausa, Han respondeu:
— Antes de me haver ocorrido a ideia de matá-la, eu costumava pensar que seria uma boa
coisa se ela morresse.
— Bem, neste caso, se não fosse contra a lei, você não acha que poderia tê-la matado?
— Eu não estava pensando em termos de lei, senhor. Não seria isso o que me impediria. O
caso é que eu era fraco. Ao mesmo tempo, eu tinha o dominante desejo de entrar num modo
de vida mais correto.
— Contudo, você pensou em matá-la, não pensou? Quero dizer, mais tarde?
— Nunca me decidi a isso. Mas, sim, é verdade que pensei nisto uma vez.
— Quanto tempo antes do que sucedeu?
— Na noite anterior... Ou talvez na própria manhã.
— Vocês tinham discutido?
— Sim, senhor.
— Sobre o quê?
— Sobre uma coisa tão insignificante que nem sei se vale a pena mencionar.
— Procure contar-me.
— Foi uma questão de comida. Eu fico meio irritado quando passo certo tempo sem comer.
Bem, naquela tarde minha mulher tinha ficado zanzando e o jantar não estava pronto na hora.
Fiquei zangadíssimo.
— Ficou mais violento que de costume?
— Não, mas depois continuei irritado, o que não era comum. Acho que foi porque eu me
havia preocupado demais, durante as últimas semanas, em melhorar o tipo de vida que levava,
e compreendera que nada podia fazer. Fui para a cama, e não consegui dormir. Todo tipo de
pensamentos perturbadores vinham-me à cabeça... Comecei a perceber que, fizesse o que
fizesse, nunca seria capaz de conseguir as coisas que realmente queria — que, por mais que
eu tentasse, não conseguiria nunca fugir aos aspectos odiosos da minha vida atual. Esse
estado de coisas triste e desesperador parecia estar ligado ao meu casamento. Desejava com
desespero encontrar uma fresta de luz que me guiasse na minha escuridão, porém mesmo
esse desejo aos poucos se extinguia. A esperança de fugir ainda bruxuleava e crepitava em
mim, e eu sabia que, se nunca se extinguisse, eu seria, para todos os efeitos, um homem
morto.
“E então o horrível pensamento começou a me rondar: — ‘Se ao menos ela morresse! Se
ao menos ela morresse! Por que é que eu não a matava? A essa altura, já a consequência
prática de tal crime nada significava para mim. Sem dúvida eu iria para a prisão, mas a vida na
prisão não poderia ser pior — seria até melhor — do que semelhante existência. E, contudo,
eu tinha o sentimento de que matar minha mulher não resolveria nada. Seria uma evasão,
como o suicídio. — Devo continuar os meus dias sofrendo — disse a mim mesmo —; não há
como evitar.’Aquilo se tornara a minha verdadeira vida: sofrer.
“Enquanto minha mente percorria tais caminhos, eu quase esqueci que a causa dos meus
sofrimentos estava ali ao meu lado. Inteiramente exausto, continuava incapaz de dormir. Caí
num estado confuso de estupefação, e, enquanto a minha torturada mente se tornava
entorpecida, a ideia de matar a minha mulher aos poucos se apagou. Então fui tomado pelo
sentimento de tristeza e de vazio que segue a um pesadelo. Pensei em todas as minhas belas
resoluções para uma vida melhor e compreendi que o meu coração era fraco demais para
consegui-lo. Quando, enfim, a madrugada surgiu, vi que minha mulher também não tinha
dormido...”
— Quando se levantaram, procederam normalmente um com o outro?
— Não trocamos uma única palavra.
— Mas por que não pensou em deixá-la quando as coisas chegaram a esse ponto?
— Quer dizer, Excelência, que isso teria sido uma solução para o meu problema? Não, não,
seria uma saída! Como eu lhe disse, estava determinado a agir com minha mulher de modo
que não houvesse nenhuma culpa do meu lado.
Han fitou seriamente o juiz, que assentiu com a cabeça como se o convidasse a prosseguir.
— No dia seguinte eu estava fisicamente exausto, e tinha, é natural, os nervos em trapos.
Era para mim uma agonia ficar parado, e, apenas me vesti, abandonei a casa e fiquei
vagueando a esmo pelas partes desertas da cidade. A cada passo me voltava o pensamento
de que eu devia fazer alguma coisa para dar solução à minha vida, mas a ideia de matar não
me voltou mais. O certo é que havia um abismo entre os meus pensamentos de assassinato
da noite anterior e qualquer decisão efetiva de cometer um crime. Em verdade, nem sequer
pensei no espetáculo da noite! Se tivesse, decerto haveria decidido deixar de lado o número
de atirar facas. Havia dezenas de outros números que o poderiam ter substituído.
“Bem, chegou a noite, e enfim chegou a nossa vez de aparecer no palco. Eu não tinha o
menor pressentimento de que alguma coisa fora do normal fosse acontecer. Segundo a praxe,
mostrei aos espectadores como as minhas facas estavam amoladas picando pedaços de
papel e atirando algumas delas nas tábuas do chão. Chegou a vez de minha mulher aparecer,
bastante maquilada e vestindo um primoroso traje chinês; depois de saudar os espectadores
com o seu encantador sorriso, tomou seu lugar na frente da tábua. Eu peguei uma das facas e
coloquei-me a certa distância dela.
“Foi então que os nossos olhos se encontraram pela primeira vez desde a noite anterior. De
pronto compreendi o risco de haver escolhido exatamente aquele número para o espetáculo
daquela noite! Claro que eu teria de ser senhor dos meus nervos, porém a exaustão que me
penetrava na medula dos ossos o impedia. Senti que já não podia confiar no meu próprio
braço. Para me acalmar, fechei os olhos por um momento e senti que todo o corpo me tremia.
“Tinha chegado a hora! Apontei minha primeira faca acima de sua cabeça; ela fincou-se
exatamente uma polegada acima do habitual. Minha esposa levantou os braços, e preparei-me
para atirar as duas facas seguintes sob cada um deles. Quando a primeira deixou a ponta de
meus dedos, senti como se alguma coisa a segurasse; já não tinha a consciência de ser capaz
de determinar o destino exato das minhas facas. Agora, seria realmente pura sorte a faca
atingir o ponto pretendido; cada um dos meus movimentos se tornara premeditado e
consciente.
“Atirei uma faca à esquerda do pescoço de minha mulher, e já ia atirar outra à direita,
quando percebi uma estranha expressão nos olhos dela. Parecia tomada de um acesso de
medo! Teria ela o pressentimento de que a faca, que numa questão de segundos seria
arremessada na sua direção, iria alojar-se na garganta? Senti-me tonto, como se fosse
desmaiar. Expulsando deliberadamente a faca da minha mão, eu a bem dizer apontei-a para o
espaço.”
O juiz permanecia calado, fitando Han penetrantemente.
— Num abrir e fechar de olhos me veio o pensamento: — “Eu a matei” — disse Han de
chofre.
— De propósito?
— Sim. De repente notei que a tinha matado de propósito.
— Ouvi dizer que depois disso você se ajoelhou ao lado do corpo de sua mulher e orou em
silêncio.
— Sim, senhor. Isto foi um plano habilidoso que me ocorreu. Percebi que todos me
conheciam como um crente do cristianismo. Mas, enquanto eu fingia rezar, estava, na
realidade, era calculando que atitude adotaria.
— De modo que você estava absolutamente convencido de tê-la matado de propósito?
— Estava. Mas logo percebi que seria capaz de fingir que fora acidente.
— E por que pensa que foi de propósito?
— Perdi toda a capacidade de raciocinar.
— Achou que conseguiria dar a impressão de que foi acidente?
— Achei, apesar de que, quando pensei no caso, em seguida fiquei com a pele arrepiada.
Fingi do modo mais convincente possível estar abalado pela dor, mas, se houvesse ali alguém
verdadeiramente perspicaz, não tardaria a notar que eu estava apenas representando. Pois
bem, naquela noite decidi que não havia nenhuma razão para eu não ser absolvido; disse a
mim mesmo, com muita calma, que não havia nem sombra de uma prova material contra mim.
Sem dúvida, todo o mundo sabia como eu me dava mal com minha mulher, mas, se persistisse
em dizer que fora um acidente, ninguém poderia provar o contrário. Recordando tudo quanto
se passara, eu via que a morte de minha mulher poderia ser explicada bem razoavelmente
como acidental. E então estranha pergunta me veio à cabeça: por que eu mesmo acreditava
que não fora acidente? Na noite anterior eu tinha pensado em matá-la, mas não seria
exatamente isso que agora me fazia pensar no meu ato como coisa deliberada? Aos poucos
cheguei ao ponto de eu mesmo não saber o que de fato acontecera! Senti-me então muito feliz
— quase insuportavelmente feliz. Queria gritar a plenos pulmões.
— Por que conseguira considerar o fato um acidente?
— Não, isto eu não posso dizer. Porque já não tinha a menor ideia sobre se fora ou não
intencional. Então decidi que o melhor meio de me inocentar seria confessar tudo. Em vez de
enganar a mim mesmo e a todos dizendo que fora acidente, por que não ser completamente
honesto e dizer que não sabia o que acontecera? Não posso afirmar que tenha sido um
engano; por outro lado, não posso admitir que tenha sido intencional. Na realidade, não posso
confessar-me “culpado” nem “inocente”.
Han calou-se. O juiz, por sua vez, também permaneceu calado um longo momento antes de
murmurar, pensativo:
— Acho que me disse a verdade. Quero fazer-lhe mais uma pergunta: não sente a menor
tristeza com a morte de sua mulher?
— Absolutamente não! Mesmo quando, no passado, eu odiava minha mulher com mais
rancor, nunca teria imaginado sentir tal felicidade ao falar de sua morte.
— Muito bem — disse o juiz. — Pode sair.
Han abaixou silenciosamente a cabeça e deixou a sala. Com estranha emoção o juiz pegou
a pena. No documento que estava à sua frente, na mesa, escreveu: “Inocente”.
ERNESTO MONTENEGRO

O chileno Ernesto Montenegro (1885-1969) aos vinte anos se mudou de San Felipe para
Valparaíso, onde trabalhou como revisor de provas, depois como jornalista. Colaborou em La
Prensa, La Nación (de Buenos Aires), The New York Times, The New York Herald Tribune
e The New York Evening Post. Em 1929, fez, partindo dos Estados Unidos, uma viagem à
Europa, para conhecer sobretudo a Espanha, a Itália e a França. Regressando ao Chile em
1930, pouco depois começou a trabalhar como redator em La Nación, de Santiago, e
publicou Os contos de meu tio ventura, de fundo folclórico. Numerosos trabalhos seus, em
prosa e verso, andam, talvez ainda hoje, dispersos pelos jornais.
Infelizmente não nos foi dado conhecer outras produções do autor, a não ser a que
reproduzimos aqui.216

POR UMA DÚZIA DE OVOS COZIDOS


Era uma vez um homem, pobre a mais não poder, que resolveu ir às minas tentar a sorte,
deixando o quase nada que lhe restava em casa para o sustento da mulher e dos filhinhos.
Andou, andou, e lá um belo dia chegou a um povoado, onde teve de fazer das tripas coração
para não pedir alguma coisa com que não o deixassem cair de fome; mas, finalmente, bateu à
última porta, onde estava uma mulher sozinha ao pé do braseiro com o seu gato e as suas
galinhas.
— A necessidade, patroazinha, me obriga a lhe pedir que me arranje pelo menos alguns
ovinhos, que quando eu voltar das minas lhe pagarei bem-pagos.
Naquele tempo os ovos eram tão baratos que muitas vezes nem valia a pena ir buscá-los
nos chocos; e como a dona da casa tinha o tacho fervendo para tomar o seu mate, tirou um
punhado na canastra e, ainda por cima, botou-os a cozinhar, enquanto rezava três credos.
Foi-se o mineiro muito agradecido com a sua dúzia de ovos, e graças a eles conseguiu
chegar até à Descobridora, onde diziam que se estava juntando dinheiro que não era
brinquedo.
Decorridos uns dez anos, o mineiro viu que já estava rico e era tempo de voltar para a sua
terra e socorrer a família. Porém não se esqueceu de passar no povoado para cumprir a
promessa feita à mulher das galinhas. Em frente à casa parou a tropinha de burros que vinha
tocando.
Tá, tá, tá.
— Não me conhece mais, avozinha? Não se recorda do que lhe prometeu aquele pobre que
passou por aqui nas casas, e a quem você deu uma dúzia de ovos? Pois bem: uma destas
cargas de prata é para você; escolha a que mais lhe agradar.
E aí despejou umas tantas pratas no chão.
A velha já estava com a vista fraca, e muito dura de ouvido. Mas, como sucede a tantos
outros, com a idade tinha ficado avarenta:
— Como é, moço? Tudo que esses burros levam é prata? E você foi ganhar toda essa
prata depois que me pediu fiado os ovos? Hum...
A velha não se podia conformar que lhe dessem uma carga, somente uma, quando os
burros eram tantos! Não tivesse ela bom coração, e boa minazinha ele teria encontrado!
— Quanto tempo diz que faz que lhe vendi esses ovos?
— Dez anos, pelo menos. Foi antes do Grande Tremor de Terra.
Com uma cara muito azeda, ela botou-se para o homem:
— Então, caro senhor, toda essa prata é minha! Homessa! Já se viu maior desfaçatez:
querer-me contentar com uma carguinha, quando, se em vez de lhe dar ovos, eu os tivesse
posto a chocar, quantas dúzias de milhares de ovos e de pintos imagina que eu teria agora?
Não, senhor, não me venha com espertezas. Então porque vê a gente vestida de lã, pensa que
está tratando com ovelha? Ajude-me a botar esses burros no curral, vamos!
E empurrão pra cá, bordoada pra lá, fez entrar os burros e trancou a porta.
O mineiro, que era uma pobre alma, não sabia que fazer com o diabo daquela velha. Deitar-
lhe abaixo a porta, quando nem ao menos os cães o conheciam, talvez fosse pior — refletiu.
Voltando para o centro do povoado, a passos lentos, de cabeça baixa, ouviu alguém lhe
perguntar:
— Então, amigo, que foi que perdeu?
Era um homenzinho de fraque cor de chumbo e nariz muito vermelho que andava com o
chapéu sobre os olhos e meio como se estivesse tocado.
Num instante o mineiro lhe contou o que se passava.
— Não se aborreça, amigo velho. Olhe, eu sou advogado diplomado e lhe prometo que
amanhã ganhamos a questão. Providencie para que mandem à velha uma citação lá para as
duas da tarde e me espere no tribunal.
E tirou-lhe o último peso que lhe restava, “para completar o pileque”.
No outro dia, já a velha estava em presença do juiz, e do rábula nem sinal.
— Que faz o seu advogado que não vem? — disse, de muito má cara, o juiz ao pobre
mineiro. — Fique sabendo que, se ele não chegar a tempo, eu o condeno, inclusive nas custas.
Estão batendo as duas horas, quando entra o rábula, muito vermelho, com o nariz que nem
um pimentão.
— V. Sa. me perdoe o atraso — disse ele ao juiz —, mas com a pressa que tinha em
cozinhar uma cevada para semeá-la...
— Vá contar essa história a sua avó! — gritou-lhe o juiz, dando na mesa uma pancada, que
por pouco não a partiu. — Além de se fazer esperar, o cavalheirinho, ainda por cima, vem rir
nas bochechas da gente! Onde já se viu alguém pôr a cozer a semente antes de semeá-la?
— Estranho que V. Sa. se aborreça comigo porque lhe digo que estava cozinhando uma
cevada para semeá-la, e deixe que esta mulher venha contar-lhe que podia ter tirado milhares
de ovos e pintos de uma dúzia de ovos cozidos que deu, há dez anos, a este bom homem.
— Como? Estavam cozidos os ovos, senhora? Jure dizer a verdade! — gritou-lhe o juiz.
— Tal como diz Vossemecê. Melhor ainda: cozidinhos.
— Então, moço, pague seu real e meio a esta velha desavergonhada, e leve a sua prata,
que muito lhe custou a ganhar — disse o juiz ao mineiro.
O mineiro deu uma carga de prata ao rábula por lhe haver defendido tão bem a questão e
foi com os seus burrinhos para casa, muito contente da vida.
Apêndices
BIBLIOGRAFIA DE AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA
FERREIRA (OU AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA)

LIVROS
Dois mundos (contos). (Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.) Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1942. (V. O chapéu de meu pai.)
Mar de histórias: antologia do conto mundial. (Em colaboração com Paulo Rónai.) Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1945. vol. I; 1951: vol. II; 1958: vol. III; 1963: vol. IV.
Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1989. vol. V; 1989: vol. VI; 1990: vol. VII; 1989: vol.
VIII; 1991: vol. IX; 1989: vol. X; 1999: vol. I, vol. II, vol. III, vol. IV, vol. V, vol. VI, vol. VII, vol.
VIII, vol. IX, vol. X (4a ed.).
Contos gauchescos e lendas do Sul, de Simões Lopes Neto. (Edição crítica, com amplo
estudo sobre a linguagem e o estilo do autor e variantes, notas e glossário.) Porto Alegre:
Editora Globo, 1949.
O romance brasileiro (de 1752 a 1930). (Colaboração, notas, revisão e um estudo sobre
Teixeira e Sousa.) Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1952.
Apresentação de Vitorino Nemésio (plaquete). Lisboa, 1953.
Roteiro literário do Brasil e de Portugal: antologia da língua portuguesa. (Em colaboração
com Álvaro Lins.) Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1956.
Território lírico (ensaios). Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1958.
Enriqueça o seu vocabulário. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984. (Em 4a ed.,
revista e ampliada.)
Discurso de posse na Academia. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1964.
Vocabulário ortográfico brasileiro. Rio de Janeiro: Editorial Bruguera, 1969.
Discursos de posse e de recepção (na Academia Brasileira de Letras, recebendo Marques
Rebelo). (Separata.) Rio de Janeiro, 1972.
Discursos de posse e de recepção (na Academia Brasileira de Letras, recebendo Ciro dos
Anjos). (Separata.) Rio de Janeiro, 1972.
O chapéu de meu pai. (3a ed., revista e reduzida, de Dois mundos.) Brasília: Editora
Brasília, 1974.
Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1986. (Em 2a ed., revista e ampliada, em 36a reimpressão, 1997.)
Minidicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1977.
(2a ed., 1990.)
Dicionário Aurélio básico da língua portuguesa (publicado anteriormente com o título de
Médio dicionário Aurélio). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980. (6a ed., 1991.)
Seleta em prosa e verso. (Organização, estudo e notas do prof. Paulo Rónai.) Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1979.
Dicionário Aurélio escolar da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1988.
Dicionário Aurélio infantil da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1996. (1a ed., em 4a reimpressão.)
Microdicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1992.

T RADUÇÕES
Os gazéis, de Hafiz. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1944.
O jardim das rosas, de Saadi. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1944.
As pombas dos minaretes, de Franz Toussaint. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio
Editora, 1945.
Vinho, vida e amor, de Hafiz e Saadi. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1946.
Poemas de amor, de Amaru. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1949.
Pequenos poemas em prosa, de Charles Baudelaire. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 1976. (Em 4a ed., revista.)
Meu coração desnudado, de Charles Baudelaire. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1981.
O caminho da perdição, de Upton Sinclair (em colaboração com Olívia Krähenbühl). Rio de
Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1943.
Amor e psique, de Lúcio Apuleio (em colaboração com Paulo Rónai). Rio de Janeiro:
Editora Civilização Brasileira, 1956.
Sete lendas, de Gottfried Keller (em colaboração com Paulo Rónai). Rio de Janeiro: Editora
Civilização Brasileira, 1956.
Servidão e grandeza militares, de Alfred de Vigny (em colaboração com Paulo Rónai). Rio
de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1960. (Em 3a ed.)
Grandes vozes líricas hispano-americanas (seleção e tradução). Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 1990.
BIBLIOGRAFIA DE PAULO RÓNAI

LIVROS (COM EXCEÇÃO DOS DIDÁTICOS)


Mar de histórias: antologia do conto mundial. V. a bibliografia de Aurélio Buarque de
Holanda Ferreira.
Balzac e a comédia humana (ensaios). (Prêmio Sílvio Romero da Academia Brasileira de
Letras.) Porto Alegre: Livraria do Globo, 1947; 2 a ed., revista e ampliada: 1957. (Coleção
Tucano).
Escola de tradutores (ensaios). Rio de Janeiro: “Cadernos de Cultura”. Ministério da
Educação, 1952; 2a ed., ampliada: Rio de Janeiro: Livraria São José, 1956; 4a ed., revista e
ampliada: Rio de Janeiro: Educom, 1976; 5a ed., revista e ampliada; Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 1987; 6a ed., revista e ampliada: 1989.
Um romance de Balzac: a pele de Onagro (tese de concurso). Rio de Janeiro: Editora A
Noite, 1952.
Roteiro do conto húngaro (seleção, tradução e notas). Rio de Janeiro: “Cadernos de
Cultura”, Ministério da Educação e Cultura, 1954.
Como aprendi o português, e outras aventuras (ensaios). Rio de Janeiro: Instituto Nacional
do Livro, 1956; 2a ed., revista: Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1975.
Antologia do conto húngaro (seleção, tradução, introdução e notas). (Revisão de Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira, prefácio de João Guimarães Rosa.) Rio de Janeiro: Editora
Civilização Brasileira, 1957; 2a ed.: 1958; 3a ed.: Editora Artenova, 1975; 4 a ed.: Topbooks,
1998.
Encontros com o Brasil (ensaios). Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1958.
Contos húngaros (seleção, tradução, apresentação e notas biográficas). Rio de Janeiro:
Biblioteca Universal Popular, 1964.
Homens contra Babel (ensaios). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. Tradução alemã:
Der Kampf gegen Babel oder das Abenteuer der Universalsprachen. München: Ehrenwirth,
1969. Tradução japonesa: Babelu e no chosen. Tokio: Yamamoto Shoten, 1973.
A vida de Balzac. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967.
Introdução a Balzac. Rio de Janeiro: Colégio Pedro II, 1967.
Guia prático da tradução francesa. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967; 2a ed.,
revista e ampliada: Rio de Janeiro: Educom, 1975; 3a ed., revista e ampliada: Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira, 1983.
Babel & antibabel (ensaios). São Paulo: Editora Perspectiva, 1970. (Coleção Debates).
A tradução vivida (ensaios). Rio de Janeiro: Educom, 1976; 2a ed., revista e ampliada: Rio
de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981; 3a ed.: 1990.
Dicionário francês-português (com o vocabulário francês vivo). Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 1979.
Não perca o seu latim: coletânea de palavras e frases latinas frequentemente citadas —
provérbios, ditados, máximas, lemas, divisas, inscrições, locuções —, traduzidas, explicadas
e abonadas, e seguidas de uma sucinta gramática latina. (Em colaboração com Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira.) Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980; 2a ed., revista e
ampliada: 1980; 3a ed., revista e ampliada: 1984; 8a ed.: 1996.
Latin és Mosoly (“Latim e sorriso”. Seleção de ensaios extraídos dos volumes Como
aprendi o português, Encontros com o Brasil e Escola de tradutores, em tradução húngara.)
Budapest: Europa Könyvkiado, 1980.
O teatro de Molière. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.
Dicionário universal Nova Fronteira de citações. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1985; 2a ed., revista e ampliada: 1985; 4a ed.: 1991.
Dicionário francês-português, português-francês. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1989.
Pois é. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990.

T RADUÇÕES
O romance das vitaminas, de Estêvão Fazekas. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1942.
Mémoires d’un sergent de la milice, de Manuel Antônio de Almeida. Rio de Janeiro:
Atlântica Editora, 1944.
Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár. (Revisão de Aurélio Buarque de Holanda.)
São Paulo: Editora Saraiva, 1952. Numerosas reedições pelas Edições de Ouro, Rio de
Janeiro.
Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. Porto Alegre: Editora Globo, 1953.
Uma noite estranha, de Alexandre Török. (Revisão de Aurélio Buarque de Holanda.) Rio de
Janeiro: Ministério da Educação, 1957.
Amor e psique, Lúcio Apuleio. V. a bibliografia de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Sete lendas, de Gottfried Keller. V. a bibliografia de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Servidão e grandeza militares, de Alfred de Vigny. V. a bibliografia de Aurélio Buarque de
Holanda Ferreira.
A tradução científica e técnica, de Jean Maillot. Brasília: Editora Universidade de Brasília,
1975.
A tragédia do homem, de Imre Madách. (Em colaboração com Geir Campos.) Ilustrações
do conde Mihály Zichy. Rio de Janeiro: Salamandra/Núcleo Editorial da Uerj, 1980, 1a e 2a eds.

ORGANIZAÇÃO DE EDIÇÃO
A comédia humana, de Balzac, vols. I-XVII (organização, introdução, notas). Porto Alegre:
Editora Globo, 1945-1955. Reedição pela Editora Artenova S.A., Rio de Janeiro, em 1976, de
Eugênia Grandet e A mulher de trinta anos.
Coleção dos prêmios Nobel de Literatura, vols. I-LXIV. Rio de Janeiro: editoras Delta e
Opera Mundi, 1964-1974.
Obras de Viana Moog. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1966. 10 vols.
Biblioteca do estudioso. São Paulo: Editora Lisa, 1969-1973. 8 vols.
Biografias literárias, de R. Magalhães Jr. São Paulo: Editora Lisa, 1971. 10 vols.
Coleção Brasil Moço. (Seletas de autores brasileiros contemporâneos. Direção geral e
organização dos volumes referentes a João Guimarães Rosa, Menotti del Picchia e Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira.) Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, de 1971 em
diante. 25 vols.
AUTORES E OBRAS PRESENTES
EM MAR DE HISTÓRIAS

HISTÓRIAS ANÔNIMAS
A história de Rampsinitos (conto egípcio), vol. 1
A história de Sansão (Velho Testamento), vol. 1
A história de Xahriyar e de Xah-Zeman (Mil e uma noites), vol. 1
A mulher forte/A conversa dos espíritos (Talmude), vol. 1
A parábola dos trabalhadores/A parábola do semeador (Novo Testamento), vol. 1
Aqui se conta de um fidalgo que o imperador mandou enforcar/De um sábio grego que era
retido em prisão; como julgou de um corcel (Novellino), vol. 1
A rata transformada em menina (Calila e Dimna), vol. 1
História da donzela de pau e de seus adoradores (O livro do papagaio), vol. 2
O homem de meia-idade/Face-de-Espelho (lendas do budismo chinês), vol. 1
O primeiro impulso (conto persa), vol. 5
O rei que perdeu o corpo por haver pronunciado palavras imprudentes (Pantchatantra), vol. 1

AUTOR/HISTÓRIA
AKUTAGAWA, Ryonosuke. Num bosque, vol. 9
ALARCÓN, Pedro Antonio de. A buena-dicha, vol. 3
ALLAIS, Alphonse. Um caso que parece pouco banal, vol. 6
ALMEIDA, Fialho de. O filho, vol. 6
ALPHONSI, Petrus (Disciplina clerical). Da cadelinha lacrimejante/Da serpente de ouro, vol. 1
ANDERSEN, Hans Christian. A sombra, vol. 3
ANDERSON, Sherwood. A força de Deus, vol. 10
ANDREIEV, Leonid. O grande slam, vol. 8
ANGOULÊME, Marguerite d’ (Heptameron). A rainha de Nápoles vingou-se do mal que lhe
fazia o rei Afonso, seu marido, com um gentil-homem de cuja mulher ele era amante; e
durou essa amizade toda a vida, sem que dela jamais o rei tivesse nenhuma suspeita, vol. 2
APULEIO. Amor e psique, vol. 1
ARÈNE, Paul. O meu amigo Naz, vol. 6
ARINOS, Afonso. Assombramento, vol. 7
ARTSIBACHEV, Mikhail. O toro de madeira, vol. 9
ASSIS, Machado de. O empréstimo/O espelho/Singular ocorrência/Entre santos, vol. 5
ASSIS, são Francisco de (I Fioretti). De como frei Genebro cortou uma perna a um porco,
somente para dá-la a um enfermo, vol. 1
AVERTCHENKO, Arkadi. O crime da atriz Mariskin, vol. 9
AYALA, Ramón Pérez de. Pai e filho, vol. 9
AZEVEDO, Álvares de. Solfieri, vol. 4
AZEVEDO, Artur. Plebiscito, vol. 6

BALZAC, Honoré de. Estudo de mulher, vol. 3


BANDELLO, Matteo (Novelas). A admirável peça pregada por uma fidalga a dois barões do
reino de Hungria, vol. 2
BANG, Hermann. Irene Holm, vol. 5
BARBEY D’AUREVILLY. O mais belo amor de d. João, vol. 4
BARRETT, Rafael. A mãe/A carteira, vol. 8
BAUDELAIRE, Charles. Morte heroica, vol. 4
BÉCQUER, Gustavo Adolfo. O miserere, vol. 4
BENNETT, Arnold. O assassinato do mandarim, vol. 8
BERNARDES, padre Manuel (Nova floresta). Lenda dos bailarins, vol. 2
BJØRNSON, Bjørnstjerne. O ninho das águias, vol. 4
BLAUMANIS, Rudolfs. Na sombra da morte, vol. 7
BLOY, Léon. A tisana, vol. 6
BOCCACCIO, Giovanni (Decameron). Por meio do conto dos três anéis o judeu
Melquisedeque afasta um grande perigo que Saladino lhe havia preparado/A pretexto de
confissão, e de puríssima consciência, uma dama enamorada de um jovem induz ingênuo
frade, sem que este o perceba, a ajudá-la na realização completa de seus desejos/Com um
banquete de galinhas e algumas palavras graciosas a marquesa de Montferrato reprime
insensato amor do rei de França, vol. 1
BONTEMPELLI, Massimo. O colecionador, vol. 9
BRACCIOLINI, Poggio (Facécias). Como um defunto, levado vivo ao túmulo, se pôs a falar e
provocou o riso, vol. 1
BRATESCU-VOINESTI, Ion Alexandru. Nicolauzinho mentira, vol. 10
BUSKEN-HUET, Conrad. Gitje, vol. 4
BUYSSE, Cyriel. O sr. Jocquier e a sua namorada, vol. 5

CAMPOS, José Antonio. Os três corvos, vol. 4


ČANKAR, Ivan. A dessétitsa, vol. 8
ČAPEK, Karel. A demonstração do prof. Rouss/O imperador Diocleciano, vol. 10
ČAPEK, Karel e Josef. A ilha, vol. 10
CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de (Novelas exemplares). Rinconete e Cortadillo, vol. 2
CHESTERTON, G.K. O homem na galeria, vol. 9
CLARÍN. Conto futuro, vol. 6
COELHO NETO. Os pombos, vol. 8
COLETTE. A parada/A mão, vol. 9
COLL, Pedro Emilio. O dente quebrado, vol. 10
COLLINS, William Wilkie. Uma cama terrivelmente esquisita, vol. 4
CONRAD, Joseph. Por causa dos dólares, vol. 9
COUPERUS, Louis. O binóculo, vol. 10
COURTELINE, Georges. O cavalheiro que achou um relógio, vol. 6

D’ANNUNZIO, Gabriele. O fim da Cândia, vol. 5


DARÍO, Rubén. As perdas de João Bom/O pesadelo de Honório, vol. 7
DAUDET, Alphonse. Os velhos/As empadas, vol. 4
DEFOE, Daniel (História política do diabo). O Diabo e o relojoeiro, vol. 2
DELEDDA, Grazia. Um homem e uma mulher, vol. 10
DICKENS, Charles. Horácio Sparkins, vol. 3
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Uma árvore de Natal e um casamento, vol. 3
DOYLE, Arthur Conan. O amanuense de corretor, vol. 6
DRACHMANN, Holger. A história de um lava-praias, vol. 7
DUHAMEL, Georges. A dama de verde, vol. 9
DURAN-REYNALDS, Eudald. Os adiantos, vol. 9

EPHTALIOTES, Argyres. O fantasma, vol. 7


ESOPO (das Fábulas). A raposa/A doninha/O macaco e o delfim/Os lobos e os cordeiros/O
lobo e o grou/O lenhador e Hermes, vol. 1

FICALHO, conde de. A caçada do malhadeiro, vol. 5


FIRENZUOLA, Agnolo (Novelas). De dois amigos, um se apaixona por uma viúva, que lhe
rouba o que ele tem e depois o repele; o qual, ajudado pelo amigo, reconquista a
benevolência dela; e, enquanto ela folga com um novo amante, ele a ambos mata; e,
condenado à morte, é libertado por intermédio do amigo, vol. 2
FLAUBERT, Gustave. Uma alma simples, vol. 4
FOGAZZARO, Antonio. Eden Anto, vol. 5
FRANCE, Anatole. Putois, vol. 8

GALLEGOS, Rómulo. O crepúsculo do diabo, vol. 10


GALSWORTHY, John. A criança do pesadelo, vol. 9
GARCÍA CALDERÓN, Ventura. O alfinete/A múmia, vol. 10
GOGOL, Nicolai. Diário de um louco, vol. 3
GORKI, Maxim. O cã e seu filho/Vinte e seis e uma, vol. 6

HALLSTRÖM, Per. Amor, vol. 7


HARDY, Thomas. O hussardo melancólico da Legião Alemã, vol. 6
HARTE, Bret. A sorte do acampamento uivante, vol. 4
HAWTHORNE, Nathaniel. Davi Swan, vol. 3
HEARN, Lafcadio. Yuki-Onna/Diplomacia, vol. 8
HEBEL, Johann Peter (O cofrezinho de joias do amigo de Casa Renano). Encontro
inesperado, vol. 2
HENRY, O. O quarto mobiliado, vol. 8
HERCULANO, Alexandre. A dama pé-de-cabra, vol. 3
HERNÁNDEZ CATÁ, Afonso. A galeguinha, vol. 10
HERÓDOTO (das Histórias). O anel de Polícrates, vol. 1
HEYSE, Paul. A imperatriz de Spinetta, vol. 5
HOFFMANN, E.T.A. Haimatocare, vol. 3
HUCH, Ricarda. O cantor, vol. 8
HUXLEY, Aldous. Freiras ao almoço, vol. 10

IRVING, Washington. Rip Van Winkle, vol. 2

JACOB, Max. Conselhos de uma mãe à sua filha, vol. 10


JACOBSEN, Jens Peter. Um tiro no nevoeiro, vol. 4
JAMES, Henry. Brooksmith, vol. 6
JAMMES, Francis. O Paraíso, vol. 8
JENSEN, Johannes V. Na paz do Natal, vol. 8
JEROME, Jerome K. O homem distraído, vol. 6
JÓKAI, Mór. Divertimento forçado, vol. 5
JOYCE, James. Compensações, vol. 9
JUAN MANUEL, Don (O conde Lucanor). Do que aconteceu a um rei com os trapaceiros que
fizeram o estofo, vol. 1

KAFKA, Franz. Perante a justiça/Mensagem imperial/Um faquir, vol. 10


KELLER, Gottfried. Espelho, o Gatinho, vol. 4
KIPLING, Rudyard. O homem que quis ser rei, vol. 6
KLEIST, Heinrich von. O terremoto do Chile, vol. 2
KOROLENKO, Vladimir. O sonho de Makar, vol. 5
KOSZTOLÁNYI, Dezsö. Auréola cinzenta, vol. 10

LAGERLÖF, Selma. O ninho das alvéloas/Os dois irmãos, vol. 6


LARBAUD, Valery. O trinchante, vol. 9
LARDNER, Ring. Jantar, vol. 10
LAWRENCE, D.H. A passagem, por favor, vol. 10
LEACOCK, Stephen. O destino terrível de Melpomenus Jones/A vingança do prestidigitador,
vol. 8
LEMAÎTRE, Jules. Muito tarde, vol. 8
LIMA BARRETO, Afonso Henriques. O homem que sabia javanês, vol. 10
LIRA, Carmen. O bobo das adivinhas, vol. 10
L’ISLE ADAM, Villiers de. A tortura da esperança, vol. 5
LOPES NETO, Simões João. Trezentas onças, vol. 8
LUCIANO (Diálogos). Diálogo de Hermes e Apolo/Diálogo de Trifena e Cármides, vol. 1
LU-HSIN. A aldeia de meus ancestrais, vol. 10
MACHIAVELLI, Niccolo (Maquiavel). Belfagor. Novela agradabilíssima, vol. 2
MAISTRE, Xavier de. O leproso da cidade de Aosta, vol. 2
MANSFIELD, Katherine. A vida de tia Parker/Feuille d’album, vol. 10
MAUPASSANT, Guy de. Dois amigos/As joias/A felicidade, vol. 4
MELANDER, Otto (Joco-Seria). A mulher e o cachorro, vol. 2
MÉRIMÉE, Prosper. A Vênus de Ille, vol. 3
MIKSZÁTH, Kálmán. A mosca verde e o esquilo amarelo, vol. 7
MOLNÁR, Ferenc. Conto de ninar, vol. 8
MONTEIRO LOBATO, José Bento. O comprador de fazendas, vol. 10
MONTENEGRO, Ernesto. Por uma dúzia de ovos cozidos, vol. 8
MORIER, James. A cabeça cozida, vol. 3
MULTATULI. A história do cavouqueiro japonês/Providência/Começou assim, vol. 4
MUSSET, Alfred de. Mimi Pinson, vol. 4

NARAYANA (Hitopadexa). O mofino brâmane e a escudela de farinha/O rato e o eremita, vol.


1
NERUDA, Jan. Hastrman/O vampiro, vol. 4
NERVAL, Gérard de. A mão encantada, vol. 3
NIEDZWIECKI, Zygmunt. O dote, vol. 8

PALMA, Ricardo. A camisa de Margarida, vol. 5


PANZINI, Alfredo. O rato de biblioteca, vol. 10
PARDO BAZÁN, Emilia. Oito nozes, vol. 7
PEREZ, Jizchok Leib. Neilo no inferno, vol. 7
PERIERS, Bonaventure des (Novas recreações ou colóquios alegres). Do mancebo que fez
valer o belo latim que seu cura lhe havia ensinado, vol. 2
PERRAULT, Charles (Histórias de Mamãe Gansa). O Barba-Azul, vol. 2
PETRÔNIO (Satiricon). A matrona de Éfeso, vol. 1
PIRANDELLO, Luigi. A tragédia de uma personagem/No hotel morreu um fulano, vol. 9
POE, Edgar Allan. O homem da multidão/A carta furtada, vol. 3
PRUS, Boleslaw. O realejo, vol. 7
PUCHKIN, Alexandre. O tiro, vol. 3
PU-SUNG-LING. A filha do mandarim Tseng/Choei-yun, vol. 2

QUEIRÓS, Eça de. José Matias, vol. 5


QUEVEDO Y VILLEGAS, Francisco Gómez de (Os sonhos). O alguazil endemoninhado, vol. 2

RIBEIRO, João. São Boemundo, vol. 10


RILKE, Rainer Maria. O mendigo e a donzela orgulhosa, vol. 7
RIVA PALACIO, Vicente. As mulas de Sua Excelência, vol. 7

SAADI (Gulistan). Amor, vol. 1


SACCHETTI, Franco (Trecentonovelle). Um cego de Orvieto, a quem não faltam os olhos do
espírito, sendo-lhe roubados cem florins, tanto faz com o engenho que aquele que lhos tirou
lhos repõe de onde lhos levou, vol. 1
SADE, Marquês de. Fingimento feliz, vol. 2
SAKI. A porta aberta/O contador de histórias, vol. 9
SCHNITZLER, Arthur. O tenente Gustl, vol. 8
SCHWOB, Marcel. Lucrécio, poeta, vol. 7
SHIGA, Naoya. A morte da mulher do atirador de facas, vol. 8
SILLANPÄÄ, Frans Eemil. Os hóspedes do São João, vol. 10
SILVA, Rebelo da. Última corrida de touros em Salvaterra, vol. 4
SILVEIRA, Valdomiro. Camunhengue, vol. 9
SÖDERBERG, Hjalmar. A capa de peles, vol. 7
SOMADEVA (Kathâsaritsâgara). Eu quero o ladrão, vol. 1
SOREL, Charles (A casa dos jogos). História daquele que se fez mudo para obedecer à sua
dama e afinal a desposou, vol. 2
STENDHAL. O cofre e o fantasma, vol. 3
STRAPAROLA, Gianfrancesco (Noites divertidas). Dom Pompório, monge, é denunciado ao
abade pela sua exagerada gula; e criticando o abade com uma fábula, livra-se da censura,
vol. 2
STRINDBERG, August. O império milenar, vol. 8
SUDERMANN, Hermann. A viagem a Tilsit, vol. 9

TAGORE, Rabindranath. O homem de Cabul, vol. 9


TCHEKOV, Anton. Cronologia viva/Angústia/O marido, vol. 5
TOLSTÓI, Lev. Os três anciãos/Depois do baile, vol. 5
TRANCOSO, Gonçalo Fernandes (Contos e histórias de proveito e exemplo). Do que
acontece a quem quebranta os mandamentos de seu pai, e o proveito que vem de dar
esmola, e o dano que sucede aos ingratos. Trata de um velho e seu filho/Que, ainda que
nos vejamos em grandes estados, não nos ensoberbeçamos; antes tenhamos os olhos
onde nascemos para merecer depois a vir a ser grandes senhores, como aconteceu a esta
marquesa de que é o conto seguinte, vol. 2
TURGUÊNIEV, Ivan. Mumu, vol. 3
TWAIN, Mark. O homem que corrompeu Hadleyburg, vol. 7

UNAMUNO, Miguel de. O semelhante, vol. 9

VALERA, Juan. Quem não te conhecer que te compre/O cozinheiro do arcebispo, vol. 7
VERGA, Giovanni. A loba, vol. 5
VIANA, Javier de. A carta da suicida, vol. 8
VOLTAIRE. Mêmnon ou a sabedoria humana, vol. 2
VORAGINE, Jacobus de. A lenda de são Barlaão e são Josafá/A lenda de são Julião, o
Hospitaleiro, vol. 1
WILDE, Oscar. A esfinge sem segredo/O príncipe feliz/O fautor do bem, vol. 5

ZEROMSKI, Stefan. Mau-olhado, vol. 10


ZWEIG, Stefan. Um episódio do lago de Genebra, vol. 9
EDITORAS RESPONSÁVEIS
Janaína Senna
Maria Cristina Antonio Jeronimo

PRODUÇÃO
Adriana Torres
Ana Carla Sousa

PRODUÇÃO EDITORIAL
Gabriel Machado

REVISÃO
Flávia Midori
Frederico Hartje

DIAGRAMAÇÃO
DTPhoenix Editorial
NOTAS

1 No DIZIONARIOLetterario Bompiani delle Opere e dei Personaggi. Milano: Bompiani, 1949. vol. II. s.v. “Tenentino Gustavo”.
2 An Outline History of German Literature. New York: Barnes & Noble Inc., 1948. p. 225.
3 Texto que usamos: SCHNITZLER, Arthur. Gesammelte Werke, Erzählende Schriften. Berlin: S. Fischer Verlag, s/d. vol. I.
4 Como adiante se verá, esse “doutorzinho” não é nenhum médico, mas um bacharel em Direito ou um advogado.
5 Steffi: diminutivo de Stephanie (Estefânia).
6 Kreutzer: moeda de cobre, centésima parte do florim.
7 Etelka: nome húngaro de mulher.
8 Madame Sans-Gêne: peça de Sardou e Moreau (1893), representada em Viena com grande êxito.
9 Ring: nome dado aos bulevares de Viena.
10 Landw ehr: um dos três exércitos da Monarquia, cujos soldados eram recrutados unicamente na Áustria. (Os outros dois eram o Honvédség, recrutado só na Hungria, e
o Exército Comum.)
11 Stante pede(em latim, no texto): imediatamente.
12 Tapper: jogo de cartas, chamado também tarok.
13 Informo-o com toda a obediência: fórmula regulamentar para dirigir-se a um superior.
14 Voluntário: nos exércitos austro-húngaros, recruta que tinha instrução secundária ou superior, e que por isso gozava de certos privilégios.
15 Segundo o código de honra, não podia bater-se em duelo a pessoa que não tivesse vingado imediatamente um insulto.
16 Jagendorfer: campeão austríaco de luta greco-romana.
17 Aspern: um dos subúrbios de Viena.
18 Kagran: aldeia situada a uns cinquenta quilômetros de Viena.
19 Ronacher: famoso café-concerto de Viena.
20 Nos exércitos austro-húngaros, os “voluntários” (ver nota 14) podiam chegar a oficiais.
21 Na miséria, o diabo come moscas: provérbio austríaco.
22 Prater: grande jardim público de Viena, com cafés, restaurantes, parque de diversões etc.
23 Fischamend: aldeia da Áustria, na linha Viena-Bratislava.
24 Coluna de Tegethoff: monumento comemorativo do almirante austríaco Wilhelmvon Tegethoff (1827-1871), vencedor dos dinamarqueses em Helgoland e dos italianos na
batalha de Lissa.
25 Pelo código de honra já citado, nem a todos se permitia tomar satisfação pelas armas. Aos comerciantes, aos operários, aos empregados inferiores era negado este
privilégio.
26 Estão olhando para a direita. Quando se faz continência a alguém, olha-se para o lado dessa pessoa.
27 “Servus!”: saudação (de origem latina) usada na Monarquia entre pessoas da mesma categoria social e que se tratam por “tu”.
28 Britânica: marca de charuto.
29 Burg: o palácio imperial.
30 1878: foi nesse ano que a Monarquia anexou a Bósnia, região que hoje é um país independente.
31 Caução: os oficiais de patente baixa só podiam casar mediante uma caução ou depósito em dinheiro, feito, em geral, pela família da noiva.
32 Tarok: o mesmo que tapper. (Cf. nota 12.)
33 Nos cafés de Viena os fregueses tinham à sua disposição todos os jornais do dia.
34 Trabuco: certa marca de charuto.
35 BOURIN, A.; ROUSSELOT, J. Dictionnaire de la littérature française contemporaine. Paris: Larousse, 1966. p. 139.
36 A respeito de Rilke, v. Mar de histórias, vol. 7.
37 Histoire de la littérature française au XXesiècle. Paris: Armand Colin, 1957. vol. I. p. 64.
38 Histoire de la littérature et de la pensée françaises contemporaines(1870-1927). Paris: Larousse, 1927. p. 60.
39 Texto de que nos servimos: JAMMES, Francis. Le Roman du lièvre. 70.ª ed. Paris: Mercure de France, 1946.
40 THIBAUDET, Albert. Histoire de la littérature française(de 1789 à nos jours). Rio de Janeiro: Americ Edit., s/d. vol. II. p. 174.
41 LEVAILLANT, Jean (Org.). Pages choisies d’Anatole France. Paris: Hachette, 1954. p. 8.
42 FRANCE, Anatole. Les Opinions de M. Jérôme Coignard. Paris: Calmann-Lévy, s/d. p. 17.
43 Acerca do Caso Dreyfus, ver a nota 9 da p. 224.
44 Simpatias que não impediram o reacionário Maurras de tentar, pouco antes da morte de Anatole France, a quem admirava, a sua encampação. Cf. MAURRAS, Charles.
Anatole France, politique et poète. Paris: Librairie Plon, 1924.
45 GIDE, André. Nouveaux prétextes. Paris: N.R.F., 1947. p. 147.
46 MORNET, Daniel. Histoire de la littérature et de la pensée françaises contemporaines(1870-1927). Paris: Larousse, 1928. p. 175.
47 LANSON, Gustave. Histoire de la littérature française, remaniée et complétée pour la période1850-1950 par Paul Tuffrau. Paris: Hachette, 1951. p. 1093.
48 Texto que utilizamos: FRANCE, Anatole.Crainquebille, Putois, Riquet et plusieurs autres récits profitables. Paris: Calmann-Lévy, s/d.
49 É possível que Putois deva a sua origem a uma fantasia de Gustave Flaubert, que dotou o seu ambiente familiar de uma criatura imaginária, o Garçom, igualmente capaz
de todas as estripulias. (Cf. THIBAUDET, Albert. Gustave Flaubert. Paris: Plon, s/d. p. 13, 16.)
50 Quaresmeprenant: Xenômanes, personagem do escritor Frances Rabelais (cerca de 1494-1553), descreve a Pantagruel, em Gargântua e Pantagruel, os costumes e
vestes de Quaresmeprenant, rei da ilha de Tapinois, mas não chega a descrever-lhe a figura, como lhe pede aquele.
51 Jordaens: Jacques Jordaens, pintor flamengo (1593-1678). O quadro a que se refere o autor é, certamente, O sátiro e o camponês.
52 La Fontaine: Jean de la Fontaine, o mais célebre dos fabulistas franceses (1621-1695). A fábula a que alude Anatole France é “O sátiro e o caminhante”.
53 O peludo filho de Sycorax: Calibã, personagem fantástica de A tempestade, de William Shakespeare (1564-1616).
54 “Eu sou aquele que é”: alusão às palavras de Deus a Moisés: “Eu sou o que sou” (Êxodo 3, 14).
55 Ardenas: vasta floresta do planalto do mesmo nome, a qual foi, na literatura medieval, cenário de numerosas lendas.
56 Brocéliande: grande floresta da Bretanha, onde os romances da Távola Redonda fazem viver o feiticeiro Merlin.
57 Sra. Roland: em solteira, Manon Phlipon, esposa de Roland de la Platière, ministro do Interior da França durante a Revolução Francesa, em 1792; o seu famoso salão,
frequentado pelos girondinos, desempenhou grande papel político; executada no período do Terror.
58 Père Fouettard: “Pai Chicoteador”, bicho-papão que se diz acompanhar o Papai Noel e com que se faz medo às crianças.
59 Gassendista: adepto do filósofo francês Pierre Gassendi (1592-1655), discípulo moderno do epicurismo, e conhecido pela controvérsia que teve com Descartes, na qual
opôs à evidência racional a evidência das percepções e dos dados da consciência.
60 HEARN, Lafcadio. Lettres japonaises. Tradução de Marc Logé. Paris: Mercure de France, 1929. p. 11.
61 HEARN, Lafcadio. Japan — An Attempt at Interpretation. New York: The Macmillan Company, 1924. p. 14.
62 Texto que usamos: HEARN, Lafcadio. Kwaidan,Stories and Studies of Strange Things.London: Jonathan Cape, s/d.
63 O-Yuki: nome não muito raro, que significa “neve”
64 Yashiki(em japonês, no texto): casa de samurai.
65 Ségaki (em japonês, no texto): oração expiatória budista em prol da alma inquieta de um pecador.
66 Acerca de Andersen, v. Mar de histórias, vol. 3.
67 Acerca de Jacobsen, v. Mar de histórias, vol. 4.
68 Acerca de Bjørnson, v. Mar de histórias, vol. 4.
69
70 DANIEL-ROPS, H.Carte d’Europe. Paris: Perrin & Cie., 1928. p. 6.
71 SCHÜCK, Henrik. Histoire de la littérature suédoise. Tradução de Lucien Maury. Paris: Ernest Leroux, 1923. p. 386.
72 Texto que usamos: STRINDBERG, August. Historische miniatüren. Tradução de Emil Schering. (Edição alemã organizada pelo próprio escritor.) München: Bei Georg
Müller, 1918.
73 Oto III (980-1002): filho de Oto II, imperador da Alemanha de 983 a 1002; pretendeu a restituição do Império Romano à sua grandeza antiga. Em 996 nomeou papa um
parente, sob o nome de Gregório V. A oposição de Crescêncio a tal nomeação levou-o a marchar sobre Roma e a empossar o seu candidato pela força.
74 Crescêncio: Giovanni Crescenzio, patrício romano, membro de ilustre família que durante o século X desempenhava papel dominante na Cidade Eterna. Cônsul durante a
menoridade de Oto III, exerceu praticamente todo o poder, nomeando e derrubando pontífices, até que o seu conflito com o imperador lhe custou o cargo e a vida.
75 Caracala: imperador romano, assassinado em 217 d.C.
76 Gregório, o Grande (ou Gregório I): papa de 590 a 604.
77 Um dos principais objetivos políticos de Carlos Magno era a submissão e a conversão dos saxões, a quem guerreou por 32 anos, com mais de vinte expedições. Em 782,
após a chacina de um exército franco pelos saxões, mandou executar 4.500 deles em Verder.
78 Armínio (16 a.C.-21 d.C.): chefe da tribo dos cheruscos, considerado na Alemanha como herói nacional por haver desbaratado as legiões de Varo em 9 d.C. Derrotado a
custo pelos romanos, conseguiu escapar-lhes, mas caiu vítima das guerras intestinas das tribos germânicas.
79 Hartz: maciço de montanhas da Alemanha, entre o Hanôver e Brunsw ick, na margem direita do Weser.
80 Tusnelda: esposa de Armínio. Apesar de o pai havê-la separado do marido após a derrota deste, foi arrastada a Roma em 17 d.C. para, com o filhinho Tumelico,
abrilhantar o triunfo de Germânico.
81 João XVI: antipapa em 997, oposto a Gregório V por Crescêncio.
82 Satisfação vicária: satisfação oferecida a Deus por Jesus Cristo, substituindo-se este à humanidade para resgatar-lhe os pecados.
83 Sérgio III: pontífice de 904 a 911, a quem se atribui a reconstrução do Latrão. É fama que teve comércio com Teodora, esposa de Teofilacto, e amante de Alberico,
marquês de Toscana, assim como de um eclesiástico, de quem ela faria o papa João X. Os historiadores, embora verberando a dissolução dessa mulher, reconhecem-
lhe visão política e energia masculina. Sua filha Marósia obteve influência igual por meios semelhantes: o papa João XI teria sido filho dela e de Sérgio III.
84 João X (860-929): papa eleito em 914 por influência de Teodora e deposto em 928 por um motim insuflado pela filha desta; morreu assassinado no cárcere.
85 João XII (937-964): feito papa com apenas 19 anos de idade, foi quem coroou Oto I imperador romano. Acusado de todos os vícios, foi deposto em 963 por um concílio,
que o substituiu por Leão VIII. Entretanto, apoiado pelo imperador, conseguiu voltar ao Vaticano, onde exerceu as represálias mais cruéis contra os partidários de seu
rival.
86 1806: data que marca o fim do Santo Império Romano, pela renúncia de Francisco II, imperador da Áustria, vencido por Napoleão.
87 Gerbert(940-1003): beneditino educado no mosteiro de Aurillac, e depois em Córdova, onde se iniciou no estudo da matemática e da cosmografia, então ciências árabes.
Abade de Bobbio em 983, arcebispo de Ravena em 997, foi eleito papa em 999, tomando o nome de Silvestre II. Considerado feiticeiro pelos contemporâneos, por causa
da extensão extraordinária de seus conhecimentos, soube impor aos príncipes cristãos a autoridade da Santa Sé e fez respeitar a trégua de Deus.
88 Adalberto: bispo de Praga em 982, morto em 997 pelos prussianos, aos quais pregava o Evangelho.
89 Apocalipse (palavra grega que significa “revelação”): o últmo livro do Novo Testamento, da autoria de são João Evangelista, de caráter simbólico e místico, e composto
de sete visões.
90 O “Grande Impostor”: Maomé.
91 Gog e Magog: nomes que aparecem em vários trechos da Bíblia, designando ora um rei e seu país, ora os poderes do Mal.
92 Campo Márcio: em Roma, planície à margem esquerda do Tibre, lugar onde se realizavam comícios políticos e exercícios militares; também passeio preferido dos
romanos.
93 Campanha: região da Itália meridional, cuja cidade principal é Cápua.
94 A casa de ouro de Nero: construída em 65 d.C., ricamente ornada, tornou-se, após o grande incêndio de Roma, sinônimo do que há de mais luxuoso em matéria de
palácios principescos. Dela existe uma descrição devida a Plínio.
95 “Vides ut alta stet nive candidum Soracte?” (em latim, no texto): “Vês como se ergue o Soracte, branco de alta neve?”, primeiras palavras de uma ode de Horácio, no fim
da qual o poeta exorta um amigo a gozar a vida enquanto é moço.
96 Palavras finais de outra ode de Horácio com a mesma conclusão.
97 Estefânia: viúva de Crescêncio (v. nota 9), decapitado por ordem do imperador Oto III. Segundo a tradição, ter-se-ia entregado a este, para depois envenená-lo.
98 “Prosit!” (em latim, no texto): “À nossa saúde!”
99 “Te Deum laudamus” (em latim): “Louvamos-te, Deus”. Primeiras palavras de um cântico latino de ação de graças.
100Provável alusão à vitória de Oto II, imperador da Alemanha, sobre Boleslau II, que lutou em vão pela independência da Boêmia.
101De 994 a 1018 a Áustria se encontrava sob o domínio do margrave Henrique I.
102O húngaro descrente: Estêvão I, ou Santo Estêvão (996-1038); na realidade já era filho de pais batizados. Duque da Hungria após a morte do pai, Géza (997), reprimiu
uma rebelião pagã e assumiu o título de rei, confirmado em 1001 por Silvestre II, que lhe mandou a coroa.
103Boleslau: Boleslau I, rei da Polônia de 992 a 1025, considerado o verdadeiro fundador do Estado polaco.
104Vladimiro: Vladimiro I, ou Vladimiro, o Grande (956-1015), Duque de Kiev; batizado na véspera de seu casamento com a filha do imperador de Bizâncio, aceitou o
cristianismo ortodoxo para todo o seu povo em 989.
105Haroldo, Dente Azul (936-986): rei da Dinamarca, batizado em 960; tentou converter o seu país ao cristianismo, mas foi expulso pelo próprio filho, chefe dos pagãos.
106Olavo da Suécia (965-1022): Olavo Skoetkonung, rei da Suécia, batizado, provavelmente, por São Sigfrid. Foi o primeiro rei do seu país que permaneceu cristão até o fim
da vida.
107Olavo Tryggveson (969-1000): rei da Noruega de 995 a 1000. Logo depois de sagrado, iniciou a conversão de seu país; construiu as primeiras igrejas cristãs.
108Roberto II, ou Roberto, o Piedoso (970-1031): rei de França a partir de 996. Apesar de sua piedade, sofreu o anátema da Igreja por haver desposado em segundas
núpcias a própria prima, Berta de Borgonha, de quem teve de separar-se.
109LANSON, G. Histoire de la littèrature française, remaniée et complétée pour la période 1850-1950 par Paul Tuffrau. Paris: Hachette, 1952. p. 1191.
110Texto que utilizamos: En marge des vieux livres.
111MICHAUD, Régis. Littérature américaine. Paris: Kra, 1926. p. 134.
112Essa discrepância em relação ao fato mais trágico da vida de O. Henry pode verificar-se nos dois prefácios da edição Collins deCabbages and Kings/ The Four Million/
The Trimmed Lamp(London, 1954), devidos, respectivamente, a H.d.R. e a Woodrow Wyatt.
113Acerca de Bret Harte, v. Mar de histórias, vol. 4.
114CAHEN, Jacques-Fernand. La Littérature américaine. Paris: Presses Universitaires de France, 1950. p. 49.
115CURNOUS, John (Ed). American Short Stories of the Nineteenth Century. London: Dent, 1930. p. XI.
116Eis um exemplo desse estilo: “The words-of-three-letters lesson in the old blue spelling book begins with Piggy’s biography. He was fat; he had the soul of a rat, the
habits of a bat and the magnanimity of a cat...”
117Texto que utilizamos: v. nota 2.
118Estilo de jazz caracterizado por um ritmo elaboradamente sincopado.
119Obras completas de Rafael Barrett. Buenos Aires: Editorial Americalee, 1943 (de onde se tiraram os contos seguintes).
120No prefácio e nas notas biográficas de COELHO NETO. Páginas escolhidas. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1957.
121ROMERO, Sílvio. História da literatura brasileira. 3.ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1943. vol. V. p. 434.
122Citado por Brito Broca no estudo “Coelho Neto”, em HOLANDA, Aurélio Buarque de (Coord.). O romance brasileiro. Rio de Janeiro: Editora O Cruzeiro, 1952. p. 225.
123Ibid., p. 242.
124Ibid., p. 234.
125Edição utilizada: Treva. 3.ª ed. Porto: Livraria Chardron, 1924.
126A tradução portuguesa deste livro, feita por nós e publicada pela primeira vez em 1952, em São Paulo, pela Editora Saraiva, em suas numerosas reedições pelas Edições
de Ouro, traz um prefácio a respeito do autor.
127Acerca de Molnár teatrólogo, v. o ensaio: O drama que poderia ter sido. In: RÓNAI, Paulo. Como aprendi o português, e outras aventuras. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Editora
Artenova, 1975.
128Texto que utilizamos: Az Érdekes Ujság Dekameronja. Budapest, I, 1913.
129Acerca de Balzac, v. Mar de histórias, vol. 3.
130Apud SWINNERTON, Frank. The Georgian Literary Scene. London: J. M. Dent & Sons, 1946. p. 135.
131Acerca de Dostoiévski, v. Mar de histórias, vol. 3.
132SWINNERTON, op. cit., p. 141.
133SWINNERTON, Frank. Arnold Bennett. London: Longmans, Green & Co., 1950. p. 23.
134Sobre o “dilema do mandarim”, v. RÓNAI, Paulo. Balzac e A comédia humana.2.ª ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1947. p. 39 e segs.
135Texto que usamos: BENNETT, Arnold. The Grim Smile of the Five Towns. Harmondsw orth: Penguin Books, 1946.
136Bass: marca de cerveja.
137Bursley: uma das Cinco Cidades, cujos nomes, como vemos, o escritor disfarça.
138Hanbridge: outra das Cinco Cidades.
139Guinéu: moeda de cálculo inglesa, do valor de 21 xelins. Para compreender melhor a história, lembre-se de que uma libra tinha 20 xelins, e um xelim, 12 pence.
140Soberano: moeda de ouro que vale uma libra.
141Dog-cart: carruagem leve, puxada por um cavalo.
142Três bolas de cobre, em vez de tabuleta, indicam, na Inglaterra, as casas de penhores.
143O Instituto Wedgw ood (ou simplesmente Wedgw ood) era o centro cultural de Bursley, ao mesmo tempo museu, biblioteca pública, escola de arte e local de vários
cursos.
144FRIEDERICH, W. P. An Outline History of German Literature. New York: Barnes & Noble, 1948. p. 215.
145HOPPE, Else.Ricarda Huch: Weg Persönlichkeit Werk. Stuttgart: Dr. Riederer Verlag, 1951. p. 100.
146A respeito de Rilke, v. Mar de histórias, vol. 7.
147THEODOR, Erw in. A literatura alemã. São Paulo: T.A. Queirós, 1980.
148A respeito de Keller, v. Mar de histórias, vol. 4.
149A respeito de Heyse, v. Mar de histórias, vol. 5.
150O famoso poeta romano: Quinto Horácio Flaco (65 a.C.-8 a.C.), lírico latino, autor de odes, epodos, Sátiras e epístolas.
151Inocêncio X (1574-1655): papa eleito em 1644.
152Trecho de sua autobiografia, citado em: RELA, Walter (Org.). Cuentos uruguayos magistrales. Buenos Aires: Editorial Plus Ultra, 1980. p. 43. Tiramos o texto seguinte
desse livro.
153Pulperia: taverna, venda no campo.
154Oveiro: cavalo que tem malhas no corpo.
155Brasino: animal de pelo avermelhado com listas pretas ou muito escuras.
156Suro (ou suru): diz-se do animal sem cauda ou que só tem o coto da cauda.
157Reiuno: diz-se do cavalo feio e de má qualidade.
158Lomba: declividade dos pequenos morros e das coxilhas baixas.
159Vidalita: canção popular platina, amorosa e tristonha.
160Acerca de Boleslaw Prus, v. Mar de histórias, vol. 7.
161Acerca de Maupassant, v. Mar de histórias, vol. 4.
162Texto que se utilizou: La Nouvelle classique polonaise. Varsovie: Editions Polonia, 1959. p. 231.
163Acerca de Gorki, v. Mar de histórias, vol. 6.
164Acerca de Tolstói, v. Mar de histórias, vol. 5.
165Correspondance Gorki-Tchékhov. Apresentação de Jean Perus. Paris: Bernard Grasset, 1947. p. 160. — Sobre Tchekov, v. Mar de histórias, vol. 5.
166HOFMANN, M.Histoire de la littérature russe. Paris: Les Éditions du Chêne, 1946. p. 240.
167MIRSKY, Prince D.S. Modern Russian Literature. London: Oxford University Press, 1925. p. 98.
168Apud CAVALCANTI, Valdemar. Os russos antigos e modernos. Rio de Janeiro: Comp. Editora Leitura, 1944. p. 20. (Coleção Contos do Mundo)
169Para a tradução utilizou-se uma versão alemã: Ausgewählte Erzählungen von Leonid Andreief: Die Lüge. Tradução de Nadja Hornstein. Leipzig: Verlag Heirich Minden,
s/d. Esta foi conferida com duas outras: uma, inglesa (Short Stories by Russian Authors. Tradução de R.S. Tow nsend. London: Dent, 1943 [Everyman’s Library]); outra,
francesa, (ANDREIEV, Leonid. Le Gouffre. Tradução de S. Persky. Paris: Perrin et Cie., 1921).
170Vint: jogo de cartas parecido com o bridge-leilão, jogado na Rússia até que este lhe tomou o lugar.
171Dreyfus: o capitão francês Alfred Dreyfus, condenado injustamente, em 1894, pela entrega de documentos secretos à Alemanha, e degredado para a ilha do Diabo, em
Caiena, Guiana Francesa. Parentes eamigos seus, não se conformando com a injustiça, alertaram a opinião pública contra a sentença, baseada em documentos
forjados. Por muito tempo o Estado-Maior francês dificultou a elucidação do escândalo, a pretexto de salvaguardar a honra do Exército, mas, na realidade, encobrindo os
verdadeiros culpados, o Coronel Henry e o Capitão Esterházy. Tinham estes inventado a acusação para dissimular seus próprios crimes, e escolheram para sua vítima o
israelita Dreyfus a fim de se beneficiarem do apoio de forte movimento antissemítico. O Caso (l’Affaire) dividiu a sociedade francesa em dois campos antagônicos e
suscitou grave crise política. Os intrépidos defensores do oficial inocente, entre eles Zola e Clemenceau, levaram anos para conseguir uma revisão do processo; mas,
por fim, Dreyfus foi reabilitado, em 1906.
172Sobre Andersen, v. Mar de histórias, vol. 3.
173Sobre Jacobsen, v. Mar de histórias, vol. 4.
174Acerca de Bang, v. Mar de histórias, vol. 5.
175Sobre Kipling, v. Mar de histórias, vol. 6.
176Original usado: Himmerlandshistorier. Kjøbenhave: Gyldendal, 1910. A tradução é de Guttorm Hansen.
177JANSEN, F. J. Billeskov; WAGNER, R. Panorama da literatura dinamarquesa. Rio de Janeiro: Nórdica, 1981. p. 361.
178Acerca de Bjørnson, v. Mar de histórias, vol. 4.
179MITCHELL, P. M. A History of Danish Literature. Copenhagen: Gyldendal, 1952. p. 223.
180Prefácio de GUSTAFSON, Ralph. Canadian Accent — A collection of stories and poems by contemporary writers of Canada. Harmondsw orth: Penguin Books, 1944.
181EDEL, Leon.The Questions of Canadian Identity. In: Ibid., p. 70.
182Extraídas de Literary Lapses. Harmondsw orth: Penguin Books, 1939.
183No prefácio de Sunshine Sketches of a Little Town. Toronto: Wm. Collins Sons & Co., 1942.
184Alice no País das Maravilhas: famoso livro infantil de Lew is Carroll.
185Prefácio ao volume Contos gauchescos e lendas do Sul. Porto Alegre: Livraria Globo, 1949. Edição crítica com introdução, variantes, notas e glossário por Aurélio
Buarque de Holanda, que reúne as obras mais importantes do autor e da qual extraímos o conto seguinte.
186Abombado: esfolado, cansado.
187Reboleira: capão, moita.
188Morruda: grande.
189Lombeira: noleza do corpo.
190Brasino: animal de pelo avermelhado com listras pretas ou muito escuras.
191Cusco: cão pequeno de raça ordinária.
192Fazia cara-volta: dava meia-volta.
193Onça: antiga moeda de ouro.
194Manga: grupo, montão.
195A la fresca: exclamação de espanto.
196Não se acoquine: não se preocupe.
197Flete: cavalo bom e de bela estampa.
198Espinilho: árvore de flor vermelha.
199Baio: cigarro de palha.
200O amargo: o metro.
201Ressolana: soalheira muito forte.
202Guaipeva: o mesmo que cusco.
203Esta introdução, como as demais deste volume, foi escrita pelos organizadores da edição antes da divisão da Iugoslávia — e da independência da Eslovênia —, ocorrida
em 1991. (N. do E.)
204CARPEAUX, Otto Maria. Um eslavo. In: O Jornal. Rio de Janeiro, 21 dez. 1949.
205Agoston Pavel, no prefácio à tradução húngara da novela a seguir: ČANKAR, Ivan. Jernej Szolgalegény és az Ö Igazsága. Budapest: Nyugat, 1937. p. 11.
206Matias Corvino (1443-1490), de origem eslava, foi um grande rei da Hungria, capitão valoroso, legislador, protetor das letras. É lembrado até hoje com saudade por vários
povos do vale danubiano, saudade lapidarmente resumida no provérbio húngaro: “Morreu o rei Matias, foi-se a justiça.”
207Texto utilizado: ČANKAR, Ivan. Izabrana Proza. Beograd: Iugoslovenska Kniga, 1951.
208Klopstock: Friedrich Klopstock (1724-1803), poeta alemão, autor da Mesíada.
209Introdução de REVON, Michel. Anthologie de la littérature japonaise. Paris: Librairie Delagrave, 1919. p. 19.
210TOUSSAINT, François. Littérature japonaise. In: Encyclopédie de la Pléiade: Histoire des littératures. Paris: Gallimard. v. I. p. 1418.
211SHIGA, Naoya.A Dark Night’s Passing. Tradução de Edw in McClellan. Tokyo: Kodansha International Ltd., 1978.
212Texto utilizado: MILTON, Daniel L.; CLIFFORD, William.A Treasury of Modern Asian Stories. New York: A Mentor Book, 1961.
213Jarda: unidade de comprimento do sistema inglês, equivalente a 91,4 cm.
214Staccato: interrupção do som obtida através de um toque seco e breve.
215Pé: unidade de medida linear anglo-saxônica, que equivale a cerca de 30,48 cm.
216O texto que utilizamos: CASTRO, Raúl Silva (Org.). Los cuentistas chilenos: antología general desde los orígenes hasta nuestros días. Estudo preliminar e notas de Raúl
Silva Castro. Santiago de Chile: Edición Zig-Zag, 1970.

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