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A CULTURA BRASILEIRA

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA CULTURA NO BRASIL

NOTA DOS EDITÔRES

Esta obra constitui o

tomo

1

do volume I

-

Introdução -

da Série

N acionai das publicações do Recen seamento Geral do Brasil, realizádo em 1.0 de setembro de 1940 .

Promovendo sua elaboração, em obediência a disposições 1e~ais, a Comissão Censitária Nacional considerou o objetivo de dar maior expl'essão aos resultados censitários, mediante o confronto dêstes com os antecedentes históricos da formação cultural do povo brasileiro.

A presente tiragem da publicação oficial, com um ou outro acresczmo e como edição do AutorJ pela qual responde a Companhia Edítôra N acionai, foi autorizada pelo Instituto Brasileiro de Goo~tafia e Estatística para atender à conveniência de proporcionar maior divulgação a uma obra de interêsse geral.

SUMÁRIO

,

SUMULA

INTRODUÇÃO

Parte Prime ira

OS FATÔRÉ$ DA

CULTURA

O

PAIS E

A RAÇA

AS FORMAÇÕES URBANAS -

-

O TRABALHO HUMANO A EVOLUÇÃO SOCIAL E POLíTICA

 

PSI COL OGIA

DO POVO BRASILEIRO

Parte Segunda

A

CULTURA

INSTlTUIÇõES E

CRENÇAS RELIGIOSAS -

A VIDA INTELECTUAL

AS PROFISSÕES LIBERAIS -

A VIDA LITERÁRIA -

A CULTURA CIENTlFICA

A CULTURA ARTíSTICA

Parte Terceira

A TRANSMISSÃO DA CULTURA

O SENTIDO DA EDUCAÇÃO ' COLONIAL

A

AS

ORIGENS

DAS

INSTITUIÇÕES

ESCOLARES

A DESCENTRALIZAÇÃO

E

A DUALIDADE DE SISTEMAS

RENOVAÇÃO E

A

UNIFICAÇÃ<!>

DO

SISTEMA

EDUCATIVO

O

ENSINO

GERAL

E

OS

ENSINOS

ESPECIAIS

BIDLIOGRAFIA GERAL - 1NDICE DE ASSUNTOS -

íNDICE DE NOMES íNDICE DE GRAVURAS

 

,

 

INDICE

 

Introdução

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1

O qu e se entende por cultura -

A variedade de sentidos que se

atribuem

a eS&a palavra- A concepção antropa16gjca de cultura-'- A compreensãQ, · sób &!ae térmo, dos elementos materiais e imateriais da civilização - A

concepção francesa de cultura -

A limitação da cultura aos elementos ima-

teriais -

As cottcepções , nacionalista e universalista, da cultura - Civi-

lização e cultura -

O ponto de vista em que me coloquei para estu_dàr a

cultura no Brasil - Os fatores culturais: físicos, raciais, técnicos e econômicOs, sociais e históricos - O conceito da civilização brasileira - ~ diversas manifestações d.a cultura .no Brasil - A educação, transmissão da cultura

  • - Uma obra de síntese -

As dificuldades de um. trabalho dessa natureza

-

"Uma bont de lifntese supõe anos de anlilise" -

A falta ou a ineufici~cia

de monogra;illlS especializadas - perfeita quanto poesivel.

A utilidade de uma visão de conjunto, tão

 

Parte

Primeira

 
 

Os fatôres da

cultura

 

Capitulo I

-

O

país

e

a

raça

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17

O meio

físico -

A

fisionomia geográfica e a ·extensão territorial do

 

pais - A opoeição das duas vertentes continentais - As duas ~andes

bacias hidrogréfici\S -

As distAncias e a divenridade dos quadros naturais

  • - O ambiente geom6rfico e climatérico - A flora e a fauna - Os recursos

minerais - O mar e a costa - Regiões de condensação e de dispersão -

 

Os rios de penetração

-

O

São Francisco, rio d;~ unidade nacional -

 

As

 

origens e a compoeição do povo brasileiro -

 

As nês raças que confluiram na

formação das pOpulações no Brasil - Os dados antropol6gi~s - A diJI tribuição das populações 3Ctentrionais e meridionais - O crescimento vege· tativo da população - As migrações internas - As imigrações - A mes- tiçagem - Seleção e peneiramento - Densidad e estática e dinâm ica - A distribuição da populaÇão por idades, sexos e raça s - O brasileiro.

..

Capítulo li

-

O

trabalho

humano

 

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39

O monopólio do pau de tinta- A agricultura e a vida rural -Os engenhos

q e

açúcar -

A

escravidão

regulamentada, técnica elementar e o

trabalho

barato -

de ~as

O descobrimento do ouro e -

e de Ma t o Grosso

as

entradas ao sertão -

-

As lavt'as

A caça ao índio

As invernadas d e Piauf,

Goiás e Rio Grande -

V e lhos e novos caminhos -

A grandeza do esfôrço

humano -

I.,imites geográficos e fronteiras econômicas -

O sertão ameri- As fazendas de café

cano e o sertão bras ileiro: semelhanças e diferenças -

Introdução

INTRODUÇÃO

O que se entende por cultura -

A variedãde de sentidos que se atribuem

a

e~a

palavra -

A

concepção antropológica de cultura -

A compreensão,

sob êsse têcmo, dos elementos materiais e imateriais da civilização -

A con-

cepção francesa de cultura -

A limitação da cultura aos elementos imateriai&

  • - As con.cepções nacionalista e universalista da . cultura - Civilização e cultura - O ponto de vista em que me coloquei para estudar a cultura no-

Brasíl -=- Os fatôres culturais: físicos, ra ciais, técnicos e econômicos, soéiai.s e

históricos -

O conceito da civilização brasileira -

As diversas manifestações

da cultura no Brasil -

A educação, transmí.ssão da cultura -

Uma obra de

smtese -

As dificuldades de um trabalho dessa natureza -

"Uma

hora de

:~futese supõe anos de análise" - A falta ou a inSuficiencia de monografias espe-

cializadas -

A utilidade de uma visão de conjunto, tão perfeita quanto possível .

As PALAVRAS também viajam, emigram freqüente~ente de um povo .n. para outro e, quando não ultrapassam as fronteiras de um Estado ou os limites da língua em que se form.aram, atravessam as classes e os grupos sociais, colorindo-se de "tonalidades distintas que nelas se fiXalll e acabam ,. por lhes aderir", e são provenientes ou da mentali dade particular dos grupos, ~existentes no interior de urna sociedãde, ou do gênio do povo a cuja língua ,se transferiram. Assim, enquanto a ação geral de uma sociedade tende a uni~ fotnPzar a Jíngua, modelando -a à sua imagem, a ação dos grupos particulares tende a diferenciá-la, ao menos quanto ao vocabulário . "Cada, ciência, arte, oficio, Cómpondo sua terminologia, marca com seu caráter as palavras da língua comum, . 1 O vocabulário de urna ciência constitui-se, pois, ora com neolo- gismos, isto é, com palavras criadas especialmente para designar idéias e n oções novas, ora pela introdução, na terminologia científica, de vocábulos verná- c ulos ou adventícios em circulação, tomados à língua éomurn, com sentidos determinados, Mas, como a significação de uma palavra de uoo corrente·, segundo observa A. MEILLET, definida pelo conjunto d e noções às quais a palavra se associou e as associa_ções diferem evidentemente ségllndo o grupo em que é ·empregada",z têrínos como civiliza&ão e cultura, ambos de crla,ção e de uso recente, transladados para o vocabulário especial, contin!J:arn a opor aos esforços dos homens de ciência, para lhes precisar o sentido, a riqueza das noções que evocam ou . a variedade de sentidos que comportam na língua geral. D as acepções diferent es, mais ou menos arbitrárias, Ôra restritas ora am- p1iadas, com que figuram, com nuanças diversas, em obras de caráter científico. -4 palavra civilização, cujo emprêgo, em texto francês, parece reinontat ao

_ J BUAL (MicBU)- &eoJ de a&mantiq -ue (Scieoce <IA=I aigpifications). 3(. fditioo, pAI• 285, Jlac:hette,

PuU.

'

! MltiLLaT (A . ) - Commettf Ie• mote chanJtmt de "ns . L'AunEe eocloiQ&ique, t. IX, 1905-1906,

p6p. 13-19 .

  • 2 A

CULTURA

BRASILEIRA

ano d e 1766 e que servia para marcar um estado contrário à barbárie, estabe· tecendo uma distinção entre povos policiados e povos selvagens, passou também a designar. na linguagem etnológica, em francês, como o têrmo cultura em

ingles, "o conjunto dos caracteres que apresenta aos olhos de um observador a vida coletiva de um grupo humano" 1 primitivo ou civilizado. Uma e outra ,

civili zação e cult ura, s no vocabulário etnol ógi co e

sociológico em que se in-

corporaram, serviam para designar du as noções diferentes qu e se defrontam,

disputando -se o predomínio.

De fato, para CLARK WISSLER , ' que empreendeu estabelece r um "sistema compreensivo dos processos de civilizaFão humana e d os fatõres que para ela contribuem", a cultura se apresenta como o mod o d e vida social, a parte do comportamento humano que, proveniente do meio exterior, mate ri a l, intelectual e hi stór ico, "faz dos indivíduos o que êles se tornam". O conceito de cultura, no sentido anglo-americano, amp1iou-s~ como o de civilização em francês, sando a abranger não s6 os elementos r>piritua is, mas todos os modos de vida e, portanto, tambêm as características' materiais ~a vida e da organização dos diferentes povos. Se ness!l acepção mais larga se compreen d em , sob o mesmo têrmo, tanto os produtos da atividade mental, moral, artística e científica, como as bares materiais da evolução social, todos os povos, d esde as sociedades pri- mitivas, de organização embrionária, até às sociedades m ais altamente evcr luidas , possuem ce rtamente uma cultura , na concepção antropol ógi ca adotada por WISSLER e outros antropólogos e etnólogos n orte -americanos. Mas essa concepção que estende o nome de cultura às bases materiais da sociedade e às suas técnicas, se logrou uma grande aceitação entre sllbios americanos, tem as suas origens na Inglaterra com os trabalhos de E. B. TYLoR, e da longa série de seus sucessore5. o antropólogo in glês, quinze anos antes, entendia por cultura de um povo "um complexo que compreende os conhecimentos, as crenças e as artes, a moral, as leis, os costumes e todos os demais h áb itos e aptidões (any capabilities and habits) adquiridos p elo homem na qualidade de membro de uma sociedade''. Pode parecer à primeira vista que n essa definição não se faz refe:-êocia, ao menos muito clara , ao elemento material ; mas se se C{)n· siderar que "costumes, artes e bábi~os" comportam certamente elementos materiais, será fáci l reconhecer que .a '"palavra assume em TYLOR, em que os americanos se inspiraram, o me&mo sentido lato de sua concepção antropo· '

lógica d e cultura.

pa~­

Assim , as duas admiráveis i nstitl.\1ções que são a seção antropológica do Museu da Universidade de Oxford, obra 1 considerável d e TYLOR e de A. BALFOUR, e mais tarde a do American Museum of Natural Hi story, com CLARK W I SSLER, chegaram, d epo is de longas pesquisas le debates, a estabelecer uma mise au poin t geral e ao mesmo tempo uma "análise mais aprofundada da noção de civili zação e do seu conteúdo". Uns e outros, da escola de antropologia cul- tural de O xford e do Museu Americano, abrangem , sob a d e n ominação de cul·

a Na Jfn&ua portug~:ba, a. oB~tidoo de uso corrente

al o oe mesmoe que lheo attib~ os diciODArios el e ~

que os c1idonirioe reciJtram pan~ •• duat palavra•,

O Vocab uJirio Portufub e lAtino d e

rr~.

R . BLUT&AV (Coúllbftt, 1712} e o Elucid5âo ele Vr.~1UIO ( 2.edição, IB 6S ) o1o r et)ttnm a pal4vra civiliu~o.

O Dieio n.frlo de Aln6Hlo M OlL'lt$ o.& SILVA, em que Ji figun o ~m o, an l m dtflne dvlliu~o: ••o .W ta·

..

n

mcnto. o procreuo e o deKt~VC>Iriroento do cotado social. que se nunlf~ na perlãçio das l, na bt'andura

doe C:Oiturocs, nas ~rraodcs obras aatcriaH e na cultura intdertW&I, rq)ratQtada oaa ci!nciae , nas lctraa e nu

atteeo " (8.ediçlo. 1890}. ~ quue idénties a d.eJinição d~ CA.I.I:I.U ÂUUT& {2.odl~ &C'WIIi&ada, I 92S I, evidente-

mente l ntpirlld.il ,

..

M oa AJs.

No Novo Dicionário da

Un,ua P o rlufufJa, C.l~DIDO D& FIOIIVltltDO, a

podei' de proc urar a coorlo!lo. tomou- vago e obscuro. "C irilinuso••, acf'extota M o RAIS. udi t

e

de um povo

que tendo debado 01

~tumcs birbo:ras,

se g~XTttnA por

leú",

-

o

que

rq:tld o

textualmente por

FT. DolllNOOI Vtuu

( Grande Dicionário Portu#ub. 1873) que consic"- a. d

olt

t tnooe d viUca~o e

cuJ.

tl&rL

Quanto •

cultura, além dos a=tidot c:ooaftae, aatulah, que

ela comporta (cultivo da tcn'e ,

daa plaotu ; ~~

de animais , etc.), todos &sts leskóiTalot, com u c:~o de VrrEaM» . r ctinnun. por palavms

olfen!ntcs, o aen tido fi~o. ebttrato. intd

-ctaal:

••e cultunl das letnu, du cl~ndat, dat bel&t•arta; inatroçllo

e edu

elo; a tado de qu= tem desenvolvimeato intel

R . Br

..UT&AV,

em 1712, ji rca,btrara c:om o seo

KOtid

mctal'6nco: "cultunl do ~eoho, das artes, du denciu".

  • 4 WIJI\.&11 (C.) -

Man and culJure in Alnorica.

Ncw Y ork, Lcmdoo, lilltTop, 1923.

INTRODUÇÃO

5

sociológica, em outros países, a começar pela França, "continua a ser no teste- munho de ARBousss: BASTJDE, o requinte da inte1igbtcia, a preocupação das belas -artes. Estima-se, o mais das vêzes, deva ser de3interessada, isto ~. não ter fins imediatos e estreitamente utilitários". E um certo desenvolvimento do estado intelectual , o gôsto e o interêsse pelas artes e o progresso das ciências, o que caracteriza a cultura , em qu~ não é di:ffcil reconhecer !ases elementos

essenciais: 1) o esfôrço pessoal e coletivo em prol da libertação do espírito; 2) o desioter&se, isto ~. por maiores que sejam as relações entre o útil e o belo, entre o útil e o verd adeiro, ela não visa diretamente fins utilitários; 3) o sen- tido de tradição humana que procura, consciente ou inconscientemente, como um ideal supremo, seja qual fôr a riqueza de seiva de que se alimentam as suas raízes mergulhadas no humus nacional . Conservadora e criadora de valores,

longe de

se confundir com a vida material, a técnica e

a eco nomia, é " um es -

fôrço de

int eligê ncia c de vontade para dominá-las e

dirigi -las"S e elevar-se

aos deuses, isto é, "até os valores impessoais e eternos que se encontram acima

dos homens e podem

vir

a

uni-tos um dia" .

Se, porém, nesse sentido abstrato, digamos intelectualista, se pode dizer que não há senão uma cultura hwrUm.a válida para tôdas as sociedades que atingiram um certo grau de desenvq~vimento, a cultura, ain da neste sentido restri to, está sempre ligada às tradições nacionais e tende a tomar aspectos e formas diversas ao pa ssar por meios diferentes. Ela será mesmo tanto mais autêntica e original quanto mais ricJ e substanciosa fôr a seiva que subir de suas raízes mergulhadas no humus nacional, mas não poderá desabrochar, como uma verdadeira flor de civiliza~o, se não se abrir, na plenitude de sua fôrça, para todos os tempos e para todos os povos. Essa "aliança da cultura e da civilização, batizada entre os povos latinos com o nome de humanismo", ~ que dá à palaVTa cultura, nas expressões de ARBoussE BASTmB, "o sentido maia completo , mais humano, mais fecundo". As concepções de cultura podem variar de uma nação a outra; e nas culturas nacionais podem entrar e efetiva- mente entram, em proporções variáveis, conforme as épocas e os povos, os ele· mentos da tradição nacional e os da tradição humana; mas à concepção uni- versalista não se opõe uma noção nacionalista de cultura, senão quando, em vez de uma fusão e de uma harmonia dêsses elementos, se estabelecer, ao con- trârio, um antagonismo de valores ou se instalar a idéia de superioridade dos elementos particulares, nacionais, sôbre os valores humanos e universais . lt o que se deu com o sentido que, a partir dos princípios do século XIX e sob a inspiração doa românticos, tomou na iAlemanh a, (e a guerra não fêz mais que realçar) a palaVTa Kultur, que emigrou da língua francesa e, esvaziando-se do sentido humano que ainda lhe davam os clássicos, passou a designar, como lembra E. TONNELAT, "uma cultural tipo, tanto mais exemplar, tanto mais própria a servir de rnodêlo às outras culturas nacionais, quanto mais forte- mente fôr escorada pelo poder do Estado e pelo da religião".9 De fato , "para os escritores da ~poca clássica (as palavras são ainda de ToNNKLAT) a palaVTa Kultur designava sobretudo a série de progressos, tanto materiais como in- telectuais e morais, realizados pela humanidade., considerada na sua totali- dade . Para seus sucessores, ao contrário, designa um conjunto de conquistas

l

 

I

P.

Burma -

Cultura m•tlria.

Qae f cultura,

"E.staclo ele Slo Paulo" , 21, julho,

1!135.

 

t

Tolmi1LA1' (E. ) -

Kultur.

Hittoirc du

mot,

Bvotutioa du HIU.

In "Civltlaatioo".

lA Mot

et

l'lcl6e. 2e. rue. Prcmi~c Semaloc lotcrtu~tioa.lc de SyDthbe. La RcDa!naócc dll Llmt, Paria.

INTRODUÇÃO

7

Ora, o ponto de vista em que nos colocamos para escrever esta obra, ~ o que nos fornece a concepção clãssica. francesa e alemã, de cultura, clara- mente enunciada por G . HUMBOLDT, quando estabeleceu a distinção entre cultura e civilização. Entendemos por cultura. com HUMBOLDT , esse estado moral, intelectual e artístico, "em que os homens souberam elevar-se acima das simples considerações de utilidade social. compreendendo o estudo desin- teressado das ciências e das artes". A vida da sociedade reduz ·se, certamente, a um sistema de funções que t.enden} à satisfação de suas necessidades funda - mentais, e entre as quais a funç.ão econômica visa atender às necessidades ma -

teriais e a função p olítica

(para darmos apenas dois exemplos) tem por run

"defender a existatlcia da sociedade, tomada como conjunto e também como reunião de grupos particulares", regulando as relações dos indivíduos e grupos entre si, e dêstes com o todo, Estado ou nação. Mas uma sociedade, se quer preservar a sua exist~ncia e a~egurar o seu progresso, longe de contentar·se com atender às exigências de sua vida material, tende a satiefazer às suas ne - cessidades espirituais, por uma elite incessantemente renovada, de indivld uos, sábios, pensadores e artistas que constituem uma certa formação social , acima das classes e fora d elas. Assim, "criar a atmosfera espiritual sem a qual a sociedade não poderia respirar, oslaços espirituais sem os quais ela não seria una, o tesouro dos bens espirituais ~ os quais não poderia subsistir, tal ~ precisamente, observa A.RNosT BLAHA, a tarefa da função intelectual". Essa função é, por conseguinte, uma função de produção, de circulação e de organi- zação no domínio espiritual: criadora de valores e de bens espirituais, com que instaura um domínio que é uma pátr:ia e um asilo para todos, a intelig~cia não s6 os distribui e se esforça por torná-los ace!Síveis a um maior número poss{vel, como empreende a organização da sociedade, segundo pontos de vista espirituais, "atingi ndo a sua mais .alta expressão quando empreende organizar a vida moral". A cultura, pois, nesse sentido restrito, e em tOdas as suas ma- nifestações, filos óficas e científicas, artísticas e literárias, sendo um esfOrço de criação, de critica e de aperfeiçoamento, como de difusão e de realização de ideais e valores espirituais, constitui a função mais nobre e mais fecunda da sociedade, como a expressão mais alta e mais pura da civilização. 12

Assim, limitado o conceito de cultura ou, por outras palavras, tomado bse têrmo no seu sentido clássico, o estudo q ue fazemos incide diretamente sõbre a produção, a conservação e o progresso dos valores intelectuais, das id êi as, da ciência e das artes, de tudo enfim que constitui um esfôrço para o domínio da vida material e para a libertação do espírito. E, como o nível social e espi- ritual dos intelectuais, sábios, pensadbres ~ artistas, não é sômente imputável a certas superioridades bio -psicológic:ae estritamente ligadas à natureza indi- vidu al, mas à intensidade de ação maio r o u meno r das influências civilizadoras, e em conseqüência, como não pode haver criação espiritual onde faltam estt- mulos à vida do espírito ou não são suficientemente apreciados os valores es- pirituais, o estudo da cultura, na variedade de suas formas, como na sua ex- tensão e na sua intensidade, é, por si mesmo, uma luz viva que se projeta sôbre a natureza , a fOrça e o grau de uma civilização. 2sse estudo que forma como que o cerne ou a medula da obra, é precedido de uma análise dos fatOres de tOda ordem que condicionam a produção dos fenômenos culturais, científicos e estéticos, e contribuem, portanto, para explicâ·los; e seguido de uma expo- sição das instituições educacionais, de ensino geral e especi.alizado, destinadas à transmissão metódica da cultura sob todos os seus aspectos. ~ esta, ao pa- recer, uma ordem lógica, psicológica e genética a um tempo; pois, se a cultura pressupõe e implica um complexo de condições que estabelecem o clima social

U

In

AlufotT Bt

..

YIA

(Bmo, Univenit6 Massvyk) -

Le probl~e de rlntelleotuel

Ioterutiooale de SoclolocJo", +4c. a!IJ>ir, o

..

Vfi·VIIl.-»fig. 361, ]uillct·Aout, 19315.

In "Roflle

  • 8 A

CULTURA

BRASILEIRA

e histó rico favorável ao florescimento das letras, ciblcias e artes, e cojo estudo

~ não sômente

útil , mas indispensável à

compreensã o dos fenômenos de cul-

tura, o sistema educativo que, em cada povo, se forma para conservar e trans- mitir o patrimônio cultural, constantemente renovado e enriquecido através de gerações sucessivas, tende a desenvolver-se e a complicar-se oa medida em

que aumentam as criações do espirito nos vârios donúnios da cultura e da ci- vilização . ~ preciso, para compreendê-la e explicá-la, situar a cultura nacional no seu quadro geográfico, social e histórico, acompanhá-la nas diferentes etapas de sua evolução, nas suas orientações e tendencias, para mostrar, em seguida, quais as instituições que se organizaram, prepostas ao fim de transmiti-la, sistematizada, de geração em geração para assegurar a sua continuidade no tempo, a sua unidade, a sua difusão e os seus progressos.

Antes de entrar, pois, no estudo da cultura prôpriamente dita que cons- titui a parte central do livro, pareceu -nos necessário proceder à análise das grandes influências que puderam agir sôbre a produção dos fatos de cultura, como sejam o meio físico e étnico (o país e a raça), o meio econômico, social e político, o meio urbano (tipos e vida das cidades) e a mentalidade particular do povo. determinada esta, por sua vez, por todos esses elementos que condi- cionaram a sua formação. Essas diversas ordens d e fenômenos podem tôdas , em proporções variáveis, ter uma determinada rela ção com os fatos culturais, não s6 por lhe fornecerem assuntos, mas, sobret ud o porque os provocam e orientam, agindo sôbre êles à maneira de causas ou de fat 6 r es, e podem ainda, quanto a certas categorias de fenômenos (econômicos, urbanos, espírito cole- tivo) sofrer contra-golpes e reações dos fatos de cultura e receber dêles um impulso determinado. ~ por isto que, em vez de os julgarmos como causas verdadeiras , preferimos considerá-los como um complexo de fatôre s ou de con - dições, sub!tituindo o conceito de causa pelo de correlação entre os fenômenos que constituem o objeto principal do estudo e os que os condicionam e con- tribuem para explicá -los. Uma desconfianç.a legitima, com que sempre nos resguardamos de conclusões apressadas e simplistas, no estudo de fenômenos sociais, não nos permitiu subordinar-nos a qualquer das teorias chamadas geo· mêtricas, que recorrem a uma causa única (o meio geogrãfico, a raça, o meio econômico, etc. )tS e que, na justa observação d e A. NICEFORO, "podem ter tôdas seu interêsse e sua importância, mas, não constitui cada uma delasj iso- la da das outras, senão uma interpretação, por assim dizer, monossilâbica, do fenômeno complexo que se trata de estudar" . Como quer que seja, analisar, de um lado, ésses fatôres (geográfico, r'cial, econômico, h istórico, etc.) que não s6 variam d e um povo para outro, mas se combinam div ersamente e em pro- porções d esiguais, e, de outro, a vida e a evolução próprias pe uma sociedade sob a pressão désses fatôres, e a influencia dessa sociedade sôbre o indivíduo a quem ela fornece seus quadros, sua organização e sua estrutura mental, é explicar como surgiram, em determin ado país, os fenômenos de cultura, as formas particulares que tomaram, e o ~entido e o ritmo d e sua evolução.

13 Sem deaccahccennas a.s ioflcb>ciu td1ricat, radah e ecoo6mlcu .&bre 01 comportam~toe doo

iodinduoe c, em con

..

:qO!aocia.

e6bre 0>c f•ms s~ . j ul&&llll» arb itr6ria e

tc:ndoeoclooa 1.6d• doutrha que atribui

primordial, "~ndo H.a aodlo vaga

ore ao melo CUltural. ore ra_ç.o, ora li estrutura ~ wna iafhaeoda

do homo ~e<>4raphi~u•, que poderia fazer ocorrer li icccrafi• 01 mesmo. en'OII que a do homo economicua

iac:itva a cometer, dun~nte mab de um s!culo, os te6ricoa da econ<>CIÜAI polttka".

Nlo aos

8Cdtável ,

~

ocm a doutrina do determinismo ~e<>çi!'JCO, nem a do detc:rminiomo ecoo6cnlco. Aa af'mDIIÇilea a.e RATnL .&bre

•• fon:naa tcrrltaria!J dot Esr

..

dos

e a.s evoluçõeo polt:icu que ~tam, "atl o al p&ra DDI lembrar, obaerv a

J . Letmlll. 01 perieot qoe b6 em querer- achar, ou condiçôcs DJtturab , causa de c:atrutur&J axhia def'Ulid.u e

crttaordll\lrlamente complexas para ,. deixarem enudar de wna maneira unilateral". A c«~CepÇ~o ratzdlana

da eocicdade a~otua dem.U, como uma ~

ucesainmeote paNí••· a loOublda da DJtture.ta .&bce o

homem, eem tratar da a~o, talvu mllis importanll:, aetc:ida pelo bomem .Obre o pr6pr1o mei o natural Demaie ,

pcii'C\Uita J , Loalllt, "um dot resaltados mais viafvc:U d• drilbaçlo alo~ a boraocendzaçlo cr~ ll: dn cu!·

twa

e

do.

ttoetoe. c essa

t

..

nd&lc:ia

cllo

E jlli

um obstáculo •

libenlade de asio dn lei1 oatan1i1 ?" ( Je&N

O . LOtlltlla, Do

quolquu th6ories g6ographiques

au point de ruo -'o l o Q/quo, In "Revue ln-tionale

de Sodaloaie",

47c. ann&, oe . I·ll, Janvier-FEvrier, 1939).

INTRODUÇAO

Mas, entt,e os fatôres que mais contribuem para a proqução dos fen6menos

de cultura, o

desenvolvimento das lcidades14 é um dos mais importantes, na

sua função de intensificar as energih.a co1etivas e de levar ao mais alto grau de desenvolvimento possível as capa~dad,es latentes e dispersas na população. As cidades, de fato , são poderosos i~tr\iipentos de seleção social. seja no sen- tido de l!ANSEN , para quem as cid4des· não fazem senão atrair, por uma se- leção mecânica, os melhores elementos do país, servindo para selecioná-los, sem contribuírem, no entanto, para fazerem o seu v~or; seja ·no ponto de vista de WEBER, que pensa, ao contrário, serem elas suscetíveis de tomar atuais os méritos que não seriam senão virtuais, superexcitando fôr_ças que, sem êsse estimulante, ficariam inativas e adormecidas, e produzindo essa superexci-

tação s6 pelo fato da concentração. Daí o estudo, que se nos afigura do maior interêsse, do desenvolvimento das gl-andes cidades e dos movimentos de con- centração urbana. Se o têrmo civil~ação, como obsetva R. LENOIR,1õ "cor- responde ao conjunto das obras por meio das quais os sêres humanos passam

da animalidade à humanidade, pode . parecer paradoxal

aplicá-lo às sociedades

ditas primitivas. Não parecem elas ter por principaí caráter o de não serem civis e não conhecerem as cidades no seio das quais se fixam e se tran&mitem os atos e os conhecimentos?" Existe,. de fato, uma ligação tão estreita entre civilização e vida urbana que , para designar aquêle fenômeno , é ao .têrmo civilis (de civis, cidadão; homo civilis, zôon politikón, de ARISTÓTELES), que se foi buscar a palavra civilização, já ~e uso corrente em várias línguas e susce- tfvel de marcar por si mesma a oposição, que remonta à antiguidade clássica, da cidade (civitas, pólts) e do campb · (rus, silva) . Não é sem razão que em- pregamos os tênnos civilit~s, urbanitas, civilidade, urbanidade, quando queremos exprimir doçura de costufnes, benevolência recíproca nas relações

humanas e , ao contrá;io? u~os a~. palavras rr:stic~s, silvaticus (homem do campo, das selvas, rustico, utculto ) , para destgtl}lTIDOS exatamente o oposto de polido, de civilizado. Em todo caso, se não se podem seifipre encontrar os elementos esp ecíficos de uma civilização nos caracteres das populações urbanas, não serão êstes "verdadeiros índices objetivos de uma civilização superior" ,

pela metamorfose que as cidades operam nas idéias e costumes e pelo estímulo poderoso que constitui para o florescimento das àr~es e das letras e para as criações do espírito, a superexcitaçãp produzida pelos fenômenos de concen-

tra!;:ão?

Nem tôdas as transformações qlile, sob a pressão da vida das cidades, se operam nas idéias e nos costumes, se podem certamente considerar corno um acréscimo de ~vilização, ao menos do ponto de vista moral, nem se deve con- fundir o fenômeno urbano, característico de tôda civilização, com o urbarúsmo que é um fenômeno relativamente novo. Certamente não procurar nas grandes cidades, a pureza, a frescura e a inocência dos costumes do campo, o encanto e a simplicidade das paisagens bucólicas, nem o vigor e a impetuosi- dade das fôrças instintivas concentradas na vida do sertão. Uma certa las- sidã,o de costumes, as perspectivas que se abrem à vida de prazeres e uma li- berdade, que é favorecida pelo entrecruzamento dos grupos sociais, e atinge freqüentemente aos excessos da licenciosidade e ~ demagogia, são outros tantos efeitos do fenômeno de concentração. Além disso, como as migrações interiores são o fator essencial do fenômeno, o progresso dos .grapdés centros se faz freqüentemente à çusta dos movimentos migratórios dos cru;hpos para as cidades, que se tornam às vêzes, nas civilízaçõ,es modernas, verdadeiras bombas de sucção aplicadas sôbre as populações rurais ao alcance da 1n{luência

14

atatlatlca.

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WJIJllllt

( ADNAltltltJl.tN) -

The

Oro wth oi Citíe s

Jn

the

nineteenth

Century .

A

a t ud:y IA

New York, MacmiUan, Londcm, King and Soo, 1899.

LaHOIJt {R.\YMOND) -

Lee Soci6t6e humaínea. Revue de SynthiUe h/atoríque, Dbmbre, 1924.

  • 10 A

CULTURA

BRASILEIRA

atrativa dos agrupamentos urbanos. T odos conhecemos a impetuosidade com q ue se lan çam ao prazer., numa espécie de embriaguez, as gerações j ovens, quando uma pequena cidade, cercada de campos, começa a trans formar-se, com a t~cnica mecânica e as aplicações das ciências à vida material, e a sua po- pul ação aumenta e se condensa, pela incorporação à velha cidade, de subúr- bios e distritos vizinhos, pela população que, vinda de fora, se acrescenta àquela q ue ai tinha as suas raízes. Mas não se pode contestar também que nas diferentes formas por que passaram os agrupamentos urbanos, da anti- guidade aos nossos dias, as cidades gregas ou romanas, da idade m ~dia e da re- nascença, e modernas, e.'terceram sempre um papel tão importante no desen- volvimento das artes, das letras e das ciências que não é possível separar a cultura da vida urbana. É , de fato, na vida coletiva, altamente concentrada, das cidades, q ue se desenvolve a f ôrça expansiva, criadora de energia do gênio ind ividual, e é neta que nature zas mais ricas e originais, se n ão têm a sua fonte d e inspiração, haurem sua energia e se u vigor, absorvendo por todos os poros um a r m ais intelectual , uma atmos fe ra mais carregada de estúnulos para as artes e as ciências.

Era preciso, em todo caso, fazer entrar a cultura brasileira não s6 nos quadros sociais, econômicos e políticos da história do país, estudando -lhe os fatôres e as condições especiais do meio, como no movimento geral da civili-

zação do ocidente, d e que a cultura nacional não é senão uma das formas par• ticulares. J â DURKHEIM ensinava, antes de M. MAuss, que, se h â fenômenos sociais estritamente ligados a um organismo social e poUtico determinado, a um povo ou a uma naç.ão, outros que "transcendem um territó rio nacional e se desenvolvem por períodos de tempo que ultrapassam a história de uma sociedade" .t6 ~sses fatos ou sistemas complexos e solidârios de fatos que, sem serem limitados a um organismo político determinado, são todavia locali- veis no tempo e no espaço , constituem, na lição de DURKBEIM , os fatos de civilização. S e, pois, uma civilização, - seja, no caso, a civilização mediter- rânea, - "constitui uma espécie de meio moral no qual são mergulhadas um

certo número d e nações e d e que

cada cultura nacional não é senão uma forma

particular", compreende-se quanto interessa, para a compreensão do fenô~ meno b rasilei r o, ligá-lo constantemen te à sua fonte fundamental ,- à ci - vilização ibérica e de um modo geral , à civilização ocid ental, e analisar os ca- racteres particulares que essa civi lização tomou no interior do país, sob a pr essão d e fatôres e de acOrdo com as condições diversas de nosso. evolão hiflt6rica e social. M as essa necessidade de , no estudo dir eto dos fenômenos de cultura, sempre ter presentes essas relações, ainda se manifesta com mais evidência , se considerarmos que , entre os fatos sociais mais aptos a internacionalizar-se, isto é, fatos de civilização, se encontram exatamente as belas -artes , as formas e oa ideais li terários e os conhecimento~ científicos. Assim, ligando a história da cultura brasileira, de um lad o, à d~s idéias que s 6bre ela influíram e , em geral , à evolução das grandes correntes religio sas, políticas e nlos6ficas do oci- dente, e, de outro, às condições especificas de nossa formação social , como o pais, a raça, e as formas d e estrutura social, econômica e política, poder-se-á compreender melhor as evoluções paralelas que se operaram, na Europa e no pais, sem grande separação da fonte comum, as formas especiais que a cultura tomou entre n6s, a facilidade com que se propagaram certas correntes de idéias, como as resistencias opostas P"' sociedade a outras manifestações e movi- mentos da cultura ocidental.

..

la

I n

18

DvaJaBna

L'AnnH, t. Xll,

(E,) -

Ci-.iliution~ -.t typtu do

Pari.t, Íaix Alcao.

ci.,ifi~tiont. N ote t ut la ootlon de civilla3 tion,

1909- 1912, pá,p. 46-50.

INTRODUÇAO

11

Pode-se notar, ao fazermos a síntese da cultura, no Brasil, depois de tra- çarmos, nas suas linhas essenciais, a evolução da sociedade brasileira , um fe-

n ômeno de d ecallaAe (cu lture

laA ) fortemente acentuado, entre a cultura e

a civilização. Qu e a civilização se apresenta, entre n6s, com os seus caracteres

fundamentais, não há sombra de dúvida. A doçura de

costumes, o r espeito à

pessoa humana, a tolerância e a hospitalidade, nas relações entre os cidadãos e em face do estrangeiro, o espírito de ordem e o culto da paz, o aperfeiçoa- mento constante da organização jurídica e da t écnica social e, mais recente- mente, o sentido do confôrto, desenvolvido com as aplicações das ciências à vida material, põem à evidência o grau de civilização que j á atingimos, e que, ainda comparado com os povos mais civilizados, s6 nos pode d esvanecer sob diversos aspectos. , entre os latinos, civilis tem uma significação moral:

polido, refinado, e, a êsse respeito, da tolerância, da polidez, e da di sti nção de maneiras, com um toque encantador de reserva e de r ecato, pode-se di zer que, entre nós, se desabrochou, na sua plenitude, a flor da civilização. E, dadas

as relações t ão íntimas entre a civilização e a cultura que uma não pode existir

sem outra, n ão

seria possível conceber um

tão alto grau de civilização mo ra l

com o despr êzo p elo espírito de cultura ou com a ausência de cultura que tem por função enobrecer e consolidar a civilização e manter a sociedade "no nível a que a eleva cada progresso de civilização". Tôda a parte do livro sôbre a cul- tura mostra qu e, d e fato , ela existe e jâ romp eu em algumas obras -tipo, lite- râri as e artísticas, com uma fôrça ou uma finura espiritual realmente digna de

nossa civilização. Mas não

é menos

certo que a cultura apresenta graves la -

cunas e , tanto pela qualidade como pelo volume, sobretudo do ponto de vista osófico e cientifico, não se desenvolveu no mesmo ritmo da civilização, apre- sentando -se ora senslvelmente retardada em relação a outros países de civili - zação comum , ora marcada pela s uperficialidad e e pelo diletantismo, artificial, e "desinteressada pela civilização em que floresceu" . N o entanto, à cultura, para empregar as expressões de P. ARBoUSSE BASTIDB, "ai~ de manter as conquistas da civilização, cabe ainda orientá-la e esclarec!-Ja, nem que seja tão sõmente no que diz respeito ao aperl'eiçoamento das técnicas''. Poi s, se pela civilização o home m dominou as coisas e a vida material, "pela cultura deve evitar (sobretudo numa época em que se grande importância à vida material) que as coisas obtenham uma desforra e venham a dominó -lo".

Ora, cada povo tem o seu temperamento e o seu gênio próprio que, elabo- rados através de séculos, são o produto do meio físico, dos elementos racia is, e do progr esso de sua evolução social, e se manifestam tanto na sua hist6da e n as suas in stituições, quanto na sua língua e na sua literat ura, nas suas obras de arte e d e pensamento. A cultura, nas suas múltiplas manifestações , sendo a expressão intelectual d e um povo, não s6 reflete as idéias dominant es em cada uma das fases de sua evolução histórica, e na civilização de cuja vida êle par- ticip&t como mergulha no domínio obscuro e fecundo em que se elabora a cons· cietlcia nacio nal. ,, P or mais poderosa que seja a originalidade que imprime à sua obra , literãiia ou artística, o gênio individual, nela se estampa, com maior

ou menor nitidez d e traços, a fisionomia espiritual e moral os seus ideais, :o seu caráter coletivo e as suas tendências , a

da n ação. M a s sociedade os ex-

prime, 'm elhor e mais profundamente do qne na filosolta , na arte e na litera- tura, pela educação que não sõmente constitui um dos aspectos mai s caracte- rísticos, mas é o próprio veículo d a cultura e da civilização. O estudo da edu- cação, desde as suas origens até o seu estado atual, nas suas formas estruturais, nos seus fins e nos seus processos, não podia. pois, deixar de fazer parte inte-

grante de uma obra que se tenha proposto dar uma visão de conjunto da cul-

tura nacional . S e se considerar, de fato, que a educação consiste, em sência, na transmissão de uma civilização, numa pressão exercida pelas gerações

sua es-

adultas sObre as gerações jovens, a íun de que estas recolham e realizem os

  • 14 A

CULTURA

BRASILEIRA

de estudos monogrâficos, perdem assim muito de sua fôrça explicativa e ficam

necessAriamente incompletas. P or mais

dificil que seja, é possfvel, não s6 pela

utilização dos materiais conhecidos, mas, com as impressões recolhidas da reflexão sôbre os fatos, traçar o quadro provisório da cultura no Brasil, sem dela fazer uma caricatura, tão do gôsto dos pessimistas que não situam o es- fôrço brasileiro no seu clima social e histórico, nem apresentar um retrato li- songeiro, que podia ser agradâvel à vaidade nacional, mas não serviria para nos abrir os olhos sôbre a realidade e conduzir-nos o esfOrço empreendido pela libertação do espírito. Assim uma tal obra seria desde logo uma "tomada de consci encia" de nós mesmos, desde que seriamente pensada, construída e do- cumentada; e, com todos os defeitos decorrentes da escassez de material do- cumentârio, em que se pudesse apoiar, teria realizado o seu destino se fõsse capaz de renovar o interêsse pelo assunto e de suscitar um dia a s1ntese ma- gistral que s6 se tomarã possível com o desenvolvimento dos trabalhos prepa- ratórios de erudição e de pesqui sas. J ã de um ponto de vista mais geral que abrange tOda a história d o país, escreveram j oÃo RIBEIRO, PANDIÁ CALÓGERAS e PEDRO CALMON, entre o utros, obras q u e, sem serem definitivas, constituem uma maneira de grande panorama histórico , em que, sob estilos diferentes, em um, de uma sobriedade elegante, em outro, de uma secura enérgica e no último, de uma poesia colorida, deram uma visão nova da história de nosso pais, num grande esfôrço para penetrar até o coração do mecanismo de nossas instituições sociais, poUticas e econômicas.

Ora, o objeto desta obra, reduzido ao estudo da cultura, é muito mais limitado; e, se jã foi possível uma vista de conjunto de nossa evolução histó - rica e social, podemos tentar apresentar a de nossa evolução cultural, susce· tível de ser dominada do mesmo ângulo de observação. É o que nos animou, sôbre a segurança de ser útil ao país, a escrever êste livro, tomando sôbre os ombros a tarefa que nos puseram sôbre êles, e que, por diftcil e árdua, sedes- tinava a outros mais resistentes. Certo, não podem faltar a quem se proponha traçar uma síntese, um horizonte histórico bastante largo, um sentido vigoroso dos grandes problemas e uma consciência profunda da complexidade e inter- dependência dos fenômenos sociais e, portanto, da ligação estreita dos fatos e das atividades especificamente culturais com os outros fenômenos sociais

de categorias diferentes

As diversas manifestações de cultura, de que teríamos

.. uma noção falsa se estudadas como se fôssem microcosmos isolados dentro do conjunto social, se ligaram sem cessar, nesta obra, à evolução das grandes co r- rentes políticas, econômicas, religiosas , , que nos diversos períodos da história ocidental e nacional , orien taram todo q país numa direção única o u p use r am em conflito algumas de suas partes. ~referimos sempre o fato huma n o com- plexo a qualquer fórmula rígida em que se procurasse aprisionar a r ealidade múltipla e viva; e, r epelindo todo do~atismo capaz de falsear a compreensão dos fatos, o nosso pensamento se orienta para uma interpretação dos movi- mentos culturais, estéticos e cientificos, muitas vêzes segura, à vista da documen- tação recolhida, e outras, hipotética, mas que não deixará de ser sugestiva, nas suas indicações. O espírito sintético e as idéias gerais dominam tôda a obra, deixando na sombra ou em segundo plano, a que os relegaram a sua pouca im- portância e repercussão, n .omes, fatos e obras sem um profundo sentido cul- tural , que teriam de figurar antes num trabalho analítico ou numa obra espe- cializada de grandes e pequenos quadr<>S histó ricos . "A posteridade abrevia, dizia admiràvelmente E. FAGUET; e está no seu direito, pois que escrevemos para ela; e é seu dever também, e, por menos que pareça, um dever piedoso,

pois não abrevia senão para não perder tudo ".

PARTE

J

Os Fat6re$ da Cultura

I

CAPíTULO

I

O

país

e

a

raça

O meio físico - A fisionomia geográfica e a extensão territorial do pais - A oposição das duas vertentes contittentais - A$ dUlls grandes bacias hidrO-

grttficas - As distAncias

e a ' divemdade dos

quadros naturais - O ambiettte

geom6rfico e climat&ico -

A flora

e

a

fauna -

Os recursos minerais -

O

rnar e

a

costa -

Regiões de condensação e de dispersão -

Os rios

de

pene -

tração -

O São Fr-ancisco, rio da unidade nacional -

lU

origens e

a com·

posição do povo brasileiro -

As tret raças que conflufram na fOI'tl)ação das

populações no Brasil - Os dados antropológicos - A distribuição das popu- lações setentrionais e meridionais - O crescimento vegetativo da população -

As

migrações

J)eneiramento -

internas -

As

imigrações -

Densidade estitica e dinâmica -

A mestiçagem - SeleÇão e A distribuição da populaçio

por idades, seltos e raças - O brasileiro.

S E EXAMINARMOS atentamente o mapa físico da América do Sul, a imagem impressionante que nos fica dêsse bloco continental no seu ,

conjunto, é a de um imenso maciço de terras que escorrem da cordilheira dos Andes para mergulharem no Atlântico. Os contrafortes andinos esten- dem~se de norte a sul, como uma barreira soberba de píncaros e planaltos qué ~ agigantam e descaem bruscamente e donde não corre um rio para o Pací- fico, enquanto, na vertente oriental, enormes massas de águas, do Amazonas ao norte e do Prata ao sul, e as do São Francisco e ·Paranaíba, entre aquelas duas bacias hidrográficas, rolam lenta ou impetuosamente para -o oceano Atlân- tico. Na vertente do Pacifico, predomina, agressiva, a linha vertical, com as

cumiadas e os picos dos Andes, entestando com as nuvens ; num contraste vio- lento com a paisagem oriental de terras altas, chapadas, chapadões e s erras, que, ondulando para leste, numa elevaç.ão média inferior a mil metros, se em- pinam a quase 3 mil metros, sàmente nas montanhas da cordilheira marítima (o -Itatiaia, na Mantiqueira e o P ico da B andei ra na Serra do Capara6, em Minas), para caírem, espreguiçando-se ao sul na vastidão intérmina dos campos e das planuras. Do lado do Pacífico, uma costa lisa, pobre de relevos e arti- culações, em oposição ,às baías, enseadas e ilhas das costas, pouco recortadas, mas ' hospitaleiras, banhadas pelas águas atlânticas. Mas, se voltarmos a atenção para o contin ente que nos fica fronteiro ao Atlântico Sul , as duas costas, africana e brasileira, não tardarão a parecer -nos tão concordantes nas linhas do seu contÕilto que não nos custaria a imaginar os dois continentes atuais

como o resultado · do esfacelamento de um mesmo bloco

antigo. O mundo

americano constitui, de fato, -q uantO: se pode julgar pelo estado atual da ci- ência,- os escombros de um antigo e imenso continente de que se desmem-

-2 -

JS

A

CULTURA

BRASlLEIRA

~----------------

braram a Austráli~. envolvida pelo Pacífico, as Índ ias sepa r adas pelo oceano Indico e, pelas águas atlânticas, a Africa e o continente sul-americano. Foi no início do período a que se o nome d e cenozóico, na história geológica que, aterrando-se os vales, inundando-se as terras baixas, e erguendo-se do nível do mar os And es, como OS- Alpes e o Himalaia, alEm de suas alturas atuais, tomou a terra a conítgUI'8ção que hoje apresenta nos seus principais d elinea- mentos e relevos.

Analisando esta concordância das costas do Atlân tico Su l, A . WEGBNBRt , como PICKERING , foi levado a admitir a existência d e uma antiga ligação ter-

restre entre o Brasil e a África e a supor que essas costas são os bordos de uma fratura ampliada, tendo a América sofrido uma translação igual à largura do Atlântiw. ~sses dois continentes, efetivamente reunidos até o cretáceo, se teriam deslocado para oeste , arrastados pela a traç ão solar, agi ndo sôbre os corpos viscosos à superfície da Terra. A América do Sul, para o a utor da teoria da'a tránsle,cões continentais, "deve ter sido contígua à África ao ponto de constituir com ela um bloco continental único. ~sse b loco se cindiu durante o cretáceo em duas p~es que se sepQIIàl'am, no curso dos t empos, como de-

rivam os pedaços de

um gêlo q u ebrando-se na á gua .

Os contornos dêsses dois

10los são ainda hoje notàvelmente semelhantes. Não é sõmente o grande co- tovelo saliente retangular que apresenta a costa br asileira, no cabo São Roque, que ~ reproduzido em sentido inverso pelo cotov!lo reentrante da costa afri. cana no Camerum: mas, para as regiões situadas no sul desses dois pontos, a cada saliência da costa brasileira corresponde uma parte reentrante seme- lhante da costa africana, da mesma maneira que a ca d a baía do lado brasileiro corresponde uma saliência do lado da África. Por ocasião do deslize das massas continentais! para o oeste, as duas Am éricas tiveram o se