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A instituição da microbiologia

ARTIGO ARTICLE
e a história da saúde pública no Brasil

Microbiology as an institution
and the history of public health in Brazil

Jaime Larry Benchimol 1

Abstract This article deals with the institution Resumo Este artigo analisa a instituição da
of microbiology and its consequences to Brazil- microbiologia e suas conseqüências para a saú-
ian public health during the last quarter of the de pública brasileira durante o último quarto
XIXth century and the beginning of the XXth do século XIX e o começo do atual. O autor
century. The author examines the work done by examina o trabalho realizado pela Escola Tro-
members of Escola Tropicalista Baiana and picalista Baiana, a trajetória de outra geração
then by several constituents of another genera- de médicos que, no Rio de Janeiro e em São
tion of physicians who, in Rio de Janeiro and Paulo, investigaram a febre amarela e outras
São Paulo, researched yellow fever and other doenças à luz da teoria dos germes, procurando
diseases from the perspective of the germ theory, descobrir tanto o seu micróbio específico como
trying to discover both its specific microbe as imunobiológicos e tratamentos eficazes. O arti-
well as effective therapeutic and immunobio- go examina também a transição da problemá-
logical treatments to those diseases. The article tica etiológica para a do meio de transmissão
also examines the transition of the etiologic is- da febre amarela e da malária, correlacionan-
sue to the question of the means of transmission do-as com o amadurecimento do pasteurianis-
not only of yellow fever but also of malaria, cor- mo e da Medicina Tropical. A adoção da teoria
relating it with the coming of age both of Pas- de Finlay no Brasil e as campanhas sanitárias
teurianism and Tropical Medicine. The adop- bem-sucedidas que Oswaldo Cruz empreendeu
tion of Finlay’s theory in Brazil and the success- no Rio de Janeiro, enquanto a cidade era remo-
ful campaigns led by Oswaldo Cruz in Rio de delada de acordo com o molde “haussmaniano”,
Janeiro, while the Brazilian capital was re- inauguram um nova era em que o Instituto Os-
shaped in accordance to a ‘haussmannian’ waldo Cruz e outras instituições biomédicas lo-
mould, initiates a new era in which Instituto gram desenvolver dinâmicos programas de pes-
Oswaldo Cruz and other medical institutions quisa em estreita sintonia com a bacteriologia e
develop dynamic research programs in close medicina tropical européia e norte-americana.
syntony with European and North American Palavras-chave Bacteriologia; Medicina Tro-
Bacteriology and tropical medicine. pical; Febre Amarela; História da Saúde Públi-
1 Casa de Oswaldo Cruz, Key words Bacteriology; Tropical Medicine; ca; Instituto Oswaldo Cruz
Fundação Oswaldo Cruz, Yellow Fever; History of Public Health; Institu-
av. Brasil 4.365,
Manguinhos, 21045-900
to Oswaldo Cruz
Rio de Janeiro, RJ
jben@openlink.com.br
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Benchimol, J. L.

Introdução zes ou astros já apagados no atual firmamento


das idéias e instituições científicas, verificamos
O objetivo deste artigo é analisar o modo co- que sua existência foi essencial para a gênese
mo se deu a instituição da microbiologia no das que ainda brilham.
Brasil e suas implicações para a história da
saúde pública, em fins do século XIX e início
do atual. Parto da Escola Tropicalista Baiana e Escola Tropicalista Baiana
chego à instituição criada por Oswaldo Cruz,
que alguns chamam de Escola de Manguinhos. O nome Escola Tropicalista Baiana foi cunha-
Muita gente ainda crê que a medicina científi- do em 1952, por Coni, para designar um grupo
ca brasileira começou aí. Até então, teriam rei- de médicos que se organizou em torno de um
nado as crenças errôneas da higiene dos mias- periódico fundado em 1866, a Gazeta Médica
mas, combatidas solitariamente por Adolfo da Bahia (1866-1915), à margem da Faculdade
Lutz e Vital Brazil no Instituto Bacteriológico de Medicina existente na antiga capital do Bra-
criado, pouco tempo antes, em São Paulo. Com sil colônia. Coni buscava os precursores do co-
a fundação do instituto que viria a receber o nhecimento médico vigente à sua época e, por
nome de Oswaldo Cruz e sua ascensão à chefia isso, destacou só os trabalhos “bem-sucedidos”
da saúde pública, esta teria abraçado definiti- daquele grupo relacionando certas doenças a
vamente a teoria microbiana e adquirido a ca- vermes e micróbios.1
pacidade de exercer, enfim, ações eficazes. De Peard (1996, 1992) mostrou que os tropica-
acordo com esta representação, o grupo baia- listas permaneceram na fronteira entre o para-
no figura, lá atrás, como um lampejo efêmero digma miasmático/ambientalista e a teoria dos
de inteligência e antevisão, logo submergido germes. Preocupada em refutar o preconceito
pelo senso comum conservador e atrasado. historiográfico de que a medicina brasileira era
A problemática da medicina pasteuriana no imitação da européia, enfatizou, sobretudo, o
Brasil tem de retroceder pelo menos uma gera- afã do grupo de produzir investigações origi-
ção se quisermos dimensionar o sentido real- nais sobre as patologias nativas daquela região
mente inovador das iniciativas de Oswaldo da “zona tórrida”, bem como suas posições in-
Cruz e seus coetâneos. Mas só conseguiremos dependentes face à medicina acadêmica euro-
enxergar a rica dinâmica da experimentação péia e ao establishment médico local.
médica no período decorrido entre as escolas Mais recentemente, Edler (1999) desenhou
da Bahia e de Manguinhos se abandonarmos as as ramificações institucionais e cognitivas da
dicotomias êxito-fracasso, verdade-erro como geografia médica no período, mostrando que os
critérios para a seleção de atores e “actantes” baianos eram parte de um empreendimento
(Latour, 1987) dignos de serem estudados. A global, e que o fermento experimental agia,
regra consiste em estar atento a quaisquer mi- também, no Rio de Janeiro, no âmbito de insti-
cróbios, laboratórios, vacinas que tenham aflo- tuições não tão conservadoras quanto faziam
rado no período. Devemos examinar essas cria- crer Coni e Peard.
ções com os olhos de seus criadores, como a- Entre os tropicalistas baianos sobressaíram
postas incertas que podiam dar certo. É essen- três médicos estrangeiros. Otto Wucherer (1820-
cial abstrair o veredicto proferido mais tarde 1875), nascido em Portugal, de pais alemães,
para acompanhar seu devir e aquilatar a distân- graduou-se em Tübingen, em 1841, trabalhou
cia que percorreram, as implicações que tiveram como assistente no Hospital de São Bartolomeu,
para o curso de ação e as idéias de outros atores, em Londres, regressando em seguida ao Brasil,
em outros domínios da vida social, assim como em 1843, para assumir a posição de médico da
a natureza e a abrangência das controvérsias que comunidade alemã de Salvador. No mesmo ano,
causaram durante o seu tempo de vigência. o escocês John L. Paterson (1820-1882), forma-
Quando mergulhamos nas fontes do século do em Aberdeen (1841), tornou-se o médico da
XIX com o espírito assim desarmado, afloram comunidade britânica naquela cidade. Fez fre-
e avultam em nosso campo visual personagens qüentes viagens à Inglaterra e Escócia e traba-
e eventos que tiveram ressonância considerável lhou com Lister, em Edimburgo, em 1869. O
em seu tempo, não obstante figurem nas fontes português José Francisco da Silva Lima (1826-
secundárias de passagem, em um parágrafo ou 1910) graduou-se na capital baiana, em 1851,
em uma simples nota de rodapé. Seguindo-se mas fez também diversas viagens à Europa, nos
as trajetórias destas estrelas anãs, estrelas fuga- anos seguintes.
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Em 1865, começaram a reunir-se informal- tas e condutas médicas e higiênicas racionais. A
mente para debater questões médicas, e logo busca de patologias e, por conseqüência, de
fundariam o periódico que Silva Lima editaria uma medicina nacional implicava a refutação
por muito tempo. A Santa Casa de Misericór- da crença de que os trópicos eram irremedia-
dia foi o teatro das investigações clínicas, ana- velmente malsãos, degenerativos, impermeá-
tomopatológicas e microscópicas feitas pelos veis à civilização européia.
integrantes do grupo. Wucherer, Paterson e Sil- Edler (1999) rejeita a suposta irredutibilida-
va Lima congregaram estudantes e médicos de entre os modelos de conhecimento dos mé-
mais jovens, alguns dos quais iriam se tornar dicos da Bahia e do Rio de Janeiro. Mostra que
atores políticos importantes nos movimentos estes estavam imbuídos da mesma preocupa-
abolicionista e republicano. ção em criar um conhecimento original sobre
As idéias liberais e cientificistas, e o interes- as doenças da nação recém-constituída. Por in-
se pelo positivismo e o evolucionismo compar- termédio das sociedades e periódicos que ha-
tilhados pelo grupo estavam se difundindo en- viam criado, defendiam, também, a necessida-
tre as camadas médias emergentes em Salvador de de investigar as patologias nativas e tinham
e em outros centros urbanos do império escra- a mesma preocupação de reabilitar a imagem e
vocrata. Segundo Peard, foi o novo modelo ci- as perspectivas daquele Império encravado nos
entífico, que deslocava a atenção do meio am- trópicos.3
biente para etiologias parasitárias específicas, Justamente com este espírito, José Maria da
que deu uma “clara e poderosa” identidade aos Cruz Jobim (1841) elaborara o trabalho sobre
tropicalistas baianos. Essa identidade adveio, as doenças que mais afligiam os escravos e in-
principalmente, das investigações de Wuche- digentes do Rio de Janeiro.4 Entre elas, sobres-
rer,2 relacionadas à ancilostomíase e à filariose. saía uma vulgarmente conhecida por opilação,
Como mostrou Edler, os tropicalistas fa- cansaço, caquexia africana e, na literatura es-
ziam parte de uma rede informal de médicos trangeira, tropical chlorosis, mal de coeur etc. À
geograficamente isolados nos domínios colo- luz do paradigma climatológico, combinando
niais europeus, com interesse crescente pelo abordagens sofisticadas para a época (topogra-
papel dos parasitos como produtores de doen- fia médica, estatística, anatomia patológica,
ças. Correspondiam-se, trocavam espécimes, exame dos componentes químicos do sangue),
mantinham-se ao corrente dos estudos de cada descreveu a doença que chamou hipoemia in-
um por intermédio de periódicos, livros e en- tertropical, já que sua lesão característica era a
contros ocasionais durante as viagens à Euro- anemia, ou a “inferioridade... do sangue, pró-
pa. Os baianos interagiam com Davaine, Theo- pria dos países que ficam entre os trópicos”. Se-
dor Bilharz, Wilhelm Griesinger, Rudolph Leuc- gundo Edler, a nova entidade mórbida teve
khart, Spencer T. Cobbold, Le Roy Mericourt, acolhida na rede hegemonizada pela geografia
Joseph Bancroft, Patrick Manson, nomes, en- médica francesa graças, sobretudo, à repercus-
fim, que meio século depois iriam compor o são do livro publicado em Paris, em 1844, por
panteão da parasitologia e da medicina tropi- José Francisco Xavier Sigaud: Du climat et des
cal. A Gazeta Médica da Bahia dava muito mais maladies du Brésil ou statistique médicale de cet
importância aos trabalhos desses pesquisado- empire. Esse livro enfeixava os resultados da
res ainda desconhecidos do que aos expoentes prática científica coletiva desenvolvida em
da medicina acadêmica européia. quinze anos de atividades da Academia de Me-
Peard enfatiza o antagonismo entre os inte- dicina do Rio de Janeiro.
grantes baianos desta rede e os médicos da ca- Baseando-se no trabalho de Jobim, Otto
pital do império, encastelados na Academia e Wucherer diagnosticou, em 1865, um caso adi-
na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. antado de hipoemia em um escravo, que fale-
Enquanto estes encaravam o progresso como ceu em seguida. Na autópsia, encontrou vermes
imitação da ciência e das instituições euro- da espécie Anchylostomum duodenale, identifi-
péias, os tropicalistas baianos investigavam a cados por Angelo Dubini em 1838. Theodor Bi-
singularidade das doenças nos trópicos, a in- lharz e Wilhelm Griesinger haviam estabeleci-
fluência do clima sobre as raças e sobre a gera- do em 1853 a relação causal entre este parasita
ção ou multiplicação de miasmas e germes. e a clorose egípcia ou anemia perniciosa do
Queriam saber se os europeus podiam se acli- Egito. Wucherer, que conhecia a obra de Grie-
matar nesse ambiente adverso e se era possível singer, concluiu em 1866 que a hipoemia e a
neutralizá-lo com políticas sociais progressis- clorose do Egito eram uma mesma doença.5
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Benchimol, J. L.

As investigações sobre ela prosseguiram na fato de serem destituídos de meios para aban-
Bahia e no Rio de Janeiro após a morte prema- doná-lo o levaram a deduzir a intervenção de
tura de Wucherer, em 1873, limitando-se os um animal sugador de sangue. Chegou assim
seus autores a negar ou confirmar a etiologia ao mosquito Culex, a espécie mais comum nas
parasitária, a explorar lesões anatomopatológi- regiões onde reinava a filariose. Em 1879 com-
cas e a propor novos tratamentos (Edler, 1999). provou que as microfilárias eram adaptadas
As questões fundamentais relativas à biologia e aos hábitos noturnos do mosquito: cumprindo
aos hábitos do parasito seriam retomadas, num uma “lei de periodicidade”, invadiam a circula-
patamar muito mais sofisticado, em meados ção periférica ao cair da tarde e refluíam du-
dos anos 1880, por outra cria da ciência alemã, rante o dia. Dissecando o Culex em períodos
Adolfo Lutz, autor de trabalho fundamental so- sucessivos, reconstituiu a metamorfose do em-
bre o ankylostoma duodenal e ankylostomiase.6 brião em larva e, em seguida, na forma adulta
Outra contribuição duradoura dos tropica- da Filaria sanguinis hominis, já equipada para
listas baianos foram os estudos sobre o verme abandonar seu hospedeiro e levar vida inde-
da hemato-chyluria, que ajudaram a dar forma pendente. Na época, supunha-se que a fêmea
a um dos pilares da medicina tropical inglesa. do mosquito, após realizar a refeição de san-
A doença, caracterizada pela emissão de urinas gue, se retirava para as vizinhanças da água, di-
sangrentas ou lactosas, fora descrita em 1812, geria, punha ovos e morria. Segundo Manson,
em Topographie Médicale de L’Ile de France por as filárias começavam vida independente na
um certo doutor Chapotin. Em 1866, Griesin- água e, por intermédio dela, infectavam o ho-
ger pediu a Wucherer que investigasse pacien- mem. Fechavam o ciclo se acasalando e repro-
tes hematúricos para confirmar, no Brasil, a duzindo nos vasos linfáticos deste (Delaporte,
descoberta do Distomum hematobium feita por 1989, Busvine, 1993).
Billarz, no Egito, em 1851. As amostras de san- A descoberta de Manson consagrou um no-
gue examinadas por Wucherer nada revelaram, vo modelo de experiência e reformulou uma
mas em coágulos da urina encontrou, não o série de questões no campo da patologia. Elas
verme descrito por Bilharz, mas sim embriões requeriam novos saberes e dinâmicas de pes-
de um nematóide desconhecido. quisa para dar conta dos complexos ciclos de
Em 1872, em Calcutá, Timothy Lewis (1841- vida dos parasitos patogênicos, envolvendo
1886) localizou esse nematóide no sangue de mudança de hospedeiros e numerosas adapta-
hematúricos, denominando-o Filaria sanguinis ções e metamorfoses nos organismos parasita-
hominis. Ele foi o primeiro a sustentar a hipó- dos e no meio externo.
tese da identidade entre a hemato-chyluria e a As contribuições brasileiras a esse progra-
elefantíase dos árabes, ao constatar, no ano se- ma seriam dominadas pelas pesquisas embrio-
guinte, a presença dos mesmos entozoários no lógicas e patogênicas de Júlio de Moura e Pe-
sangue, na urina e na linfa extraída de tumores dro Severiano de Magalhães e as experiências
elefantóides. Os primeiros espécimes do verme terapêuticas com eletricidade de Moncorvo de
adulto apareceram três anos depois, num ab- Figueiredo e Silva Araújo.8 Destaco principal-
cesso linfático examinado por Bancroft na Aus- mente os trabalhos de Adolfo Lutz, o mais pre-
trália (Edler, 1999).7 parado para implementar o modelo mansonia-
Patrick Manson concatenou essas observa- no em áreas ainda não exploradas pelos hel-
ções e desvendou boa parte do ciclo da filária mintologistas brasileiros, inclusive no campo
em 1877-1878. A própria idéia de que os frag- da veterinária.
mentos conhecidos pertenciam a um ciclo foi Segundo Peard, os tropicalistas baianos dei-
deduzida a partir da constatação de que os va- xaram de existir, como grupo, em meados da dé-
sos de um cão podiam conter milhões de em- cada de 1880, quando foram absorvidos pelo
briões, os quais, se atingissem ali a forma adul- establishment médico e pelas lutas políticas que
ta, alcançariam peso agregado superior ao do resultaram na extinção da escravidão (1888),
próprio hospedeiro. Morrendo este, morreriam na queda da monarquia (1889) e na consolida-
os parasitas antes de dar a luz a uma segunda ção da República. Eles não teriam conseguido
geração, e a espécie se extinguiria. Aquela ano- institucionalizar seu precoce programa de pes-
malia nas leis da natureza só podia ser evitada quisas de maneira a formar discípulos que con-
admitindo-se que os embriões abandonavam o tinuassem sua obra. Edler documenta a ascen-
hospedeiro e se desenvolviam fora dele. A pre- são profissional dos principais integrantes do
sença dos embriões no sistema circulatório e o grupo, sobretudo daqueles que se transferiram
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para o Rio de Janeiro. Mostra que permanece- cilato de soda, um antisséptico e antipirético
ram envolvidos com as pesquisas em parasito- que a indústria alemã fabricava em grande
logia helmíntica nos anos 1880 e 1890 e que, à quantidade. As controvérsias a respeito do ger-
frente de periódicos, de cadeiras na faculdade e me e do germicida envolveram médicos con-
de cargos políticos e honoríficos puderam, sim, vencidos de que a febre amarela era produto de
influenciar a nova geração de médicos forma- miasmas, de algum outro envenenamento quí-
dos na última década do século. mico ou ainda de fermentos inanimados; alo-
Peard vê quase total descontinuidade entre patas e homeopatas que propunham tratamen-
a Escola Tropicalista e a que Oswaldo Cruz cri- tos rivais; doentes que os endossavam ou criti-
aria vinte anos depois; Edler vê um remanso de cavam; e cronistas que escreviam com muito
consagrações institucionais interligando as du- humor sobre as experiências feitas pelos médi-
as. Eu pretendo mostrar, agora, que nesse inter- cos na capital brasileira.
valo transcorreu um processo denso e confliti- No primeiro semestre de 1883, Domingos
vo, envolvendo novos atores e interesses, novas Freire desenvolveu a vacina contra a febre ama-
doenças e dinâmicas de pesquisa. rela, com o Cryptococcus xanthogenicus, uma
planta microscópica cuja virulência atenuou
por meio de técnicas recém-concebidas por
Os caçadores do micróbio Pasteur.10 Circunstâncias inesperadas conduzi-
da febre amarela ram Freire à presidência da Junta Central de
Higiene Pública, em fins de 1883, tornando, as-
Seu mais controvertido ator foi, com certeza, sim, mais fácil a difusão de sua vacina pelos
Domingos José Freire.9 Tendo iniciado a car- cortiços do Rio de Janeiro. A surpreendente re-
reira médica como cirurgião na Guerra do Pa- ceptividade que teve primeiro entre os imi-
raguai (1864-1870), obteve depois a cátedra de grantes e depois entre os nativos deveu-se ao
química orgânica na Faculdade de Medicina do medo que a febre amarela inspirava e, também,
Rio de Janeiro. Viajou, então, para a Europa e ao apoio dos republicanos e abolicionistas aos
durante o tempo em que lá permaneceu (1874- quais Freire era ligado. Nas imprensas médica e
1876) enviou à Congregação da Faculdade qua- leiga e na Academia Imperial de Medicina hou-
tro relatórios contendo um inventário arguto ve reações contraditórias, especialmente depois
dos progressos em curso na química, biologia e que a vacina recebeu o apoio tácito de d. Pedro
medicina, bem como um mapeamento deta- II e a entusiástica adesão de um “discípulo” de
lhado do ensino médico nos locais que visitou Pasteur, Claude Rebourgeon, veterinário fran-
(Bélgica, Viena, Paris, a Alemanha, a Suíça e a cês contratado pelo governo brasileiro para ini-
Rússia). Os relatórios revelavam perfeita sinto- ciar aqui a produção da vacina animal contra a
nia com o espírito que presidiu a reforma do varíola. Em 1884, Rebourgeon apresentou a
ensino médico na capital do Império (1880- descoberta de Freire às academias de Medicina
1889): ênfase na ciência experimental e no en- e das Ciências de Paris, onde obteve reações fa-
sino prático em laboratório. Além de ser um voráveis de parte de personagens importantes
dos mentores intelectuais da reforma, Freire da medicina francesa, como Vulpian e Bou-
integrou a comissão incumbida de redigir a lei ley.11
que a instituiu. Dos vários laboratórios criados Pelo menos 12.329 imigrantes e nativos do
então, o que deu a floração experimental mais Rio de Janeiro e de outras cidades foram ino-
exuberante foi o seu, o de química orgânica. culados com a vacina de Freire entre 1883 e
“Ano de mangas, ano de febre amarela”, 1894. Durante todos esses anos, ele publicou
costumavam dizer os cariocas, expressando em estatísticas bastante sofisticadas em compara-
linguagem coloquial a relação que os médicos ção com os métodos quantitativos usados na
estabeleciam entre calor, umidade e epidemias. época para aferir a eficácia de outros profiláti-
Em dezembro de 1879, quando as ruas e casas cos. Isso ajuda a explicar o alcance e longevida-
do Rio de Janeiro reverberavam o sol incle- de dessa vacina. Igualmente importante foi a
mente da “estação calmosa” ou submergiam expansão da trama de relações pessoais e insti-
debaixo de suas chuvas torrenciais, Freire a- tucionais que enredavam Freire a outros caça-
nunciou pelos jornais a descoberta de germes dores de micróbios, associações médicas e cien-
que julgava serem os causadores da febre ama- tíficas, autores de tratados sistematizando re-
rela. Propôs, também, um remédio mais eficaz sultados alcançados pela microbiologia, inte-
contra a doença: injeções subcutâneas de sali- resses coloniais e comerciais etc. O mexicano
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Benchimol, J. L.

Manoel Carmona y Valle era o mais notório ri- tudo, outras fontes mostram que Sternberg
val do bacteriologista brasileiro. O micrococcus conduziu de forma muito inábil sua investiga-
tetragenus de Finlay foi concebido como alter- ção no Rio de Janeiro, ajudando a robustecer o
nativa à alga de Freire, e eles se corresponde- prestígio de Domingos Freire junto aos nacio-
ram à época em que o cubano usava mosquitos nalistas, positivistas e republicanos.
infectados em amarelentos como imunizantes Contudo, o apogeu de sua carreira profis-
vivos contra a doença. A vacina de Freire alcan- sional engendraria uma contradição fatal. À
çou Porto Rico, Jamaica, as Guianas e outras medida que as camadas médias urbanas ade-
colônias da França (ver a esse respeito Benchi- riam entusiasticamente à vacina, mais vulnerá-
mol, 1999). vel ela se tornava às críticas dos adversários, já
Em sua segunda viagem à Europa (1886- que se ampliava a defasagem entre a população
1887), Freire submeteu duas comunicações à vacinada – nativos, negros e imigrantes já “acli-
Academia de Ciências de Paris, em co-autoria matados”, considerados imunes à doença – e a
com Rebourgeon e um pesquisador do Museu população dos suscetíveis à febre amarela,
de História Natural daquela cidade, Paul Gi- constituída principalmente pelos imigrantes
bier. Foi recebido também na Sociedade de recém-chegados. As mudanças na composição
Biologia, na Academia de Medicina e na Socie- social dos vacinados estão relacionadas às mu-
dade de Terapêutica Dosimétrica. Estes e ou- danças na forma pela qual a vacina se difundia.
tros fatos ocorridos em Paris repercutiram com Num momento de crescente pessimismo em
força na capital brasileira e, ao regressar a ela, relação aos remédios para a febre amarela, e de
Freire foi recebido como o herói da “ciência na- ceticismo quanto à viabilidade do saneamento
cional” por estudantes e professores das escolas do Rio de Janeiro, a vacina de Domingos Freire
técnicas e superiores do Rio de Janeiro, Minas se tornava componente muito bem-vindo na
Gerais e São Paulo, jornalistas de diversos pe- relação dos clínicos com seus pacientes, e dos
riódicos, ativistas dos clubes republicanos e so- estabelecimentos filantrópicos com seus desti-
ciedades abolicionistas. Semanas depois, viaja- tuídos. A deposição do monarca e a proclama-
va para Washington, para participar do IX ção da República aconteceram em meio a uma
Congresso Médico Internacional, que aprovou epidemia, e enquanto o novo governo negocia-
resolução recomendando sua vacina à atenção va a federalização e a descentralização dos ser-
de todos os países afetados pela febre amarela.12 viços de saúde, a vacina de Freire converteu-se
Freire empataria o capital simbólico auferi- em instituição governamental.
do nessas viagens nas polêmicas que iria susten- No Brasil, seu principal competidor era
tar na década de 1890, período durante o qual João Batista de Lacerda, um médico que deixou
as expectativas despertadas entre personalida- registro mais duradouro e positivo na historio-
des e instituições estrangeiras retrocederam grafia por conta de suas pesquisas em fisiologia
para o silêncio complacente ou a condenação e antropologia. Sua vida profissional transcor-
formal. A vazante começou com a conversão de reu quase integralmente no Museu Nacional do
Paul Gibier à hipótese sustentada por Koch e Le Rio de Janeiro, de que foi diretor por longo
Dantec, de que a febre amarela era causada por tempo (1895-1915). Lacerda e Freire iniciaram
um bacilo similar ao do cólera. George Stern- as investigações sobre a febre amarela simulta-
berg, presidente da American Public Health As- neamente, no verão de 1879-1880, mas o pri-
sociation e, mais tarde, Surgeon General dos meiro logo conquistou notoriedade em virtude
Estados Unidos, produziu então o mais consis- de outra pesquisa: em 1881 anunciou que as
tente e demolidor inquérito sobre as teorias e injeções de permanganato de potássio consti-
vacinas em voga no continente, ao mesmo tem- tuíam antídoto eficaz contra a peçonha das co-
po em que buscava evidências em favor do ba- bras (e possivelmente, também, contra os “ví-
cilo X, o suposto agente da febre amarela.13 Se- rus”, isto é, os venenos então associados à febre
gundo os autores que escreveram sobre a histó- amarela e outras doenças). O fato é que duas
ria da doença, este relatório foi aceito pela co- ou três décadas depois, custaria grande traba-
munidade científica internacional como prova lho ao Instituto Butantã desalojar o antídoto
definitiva de que os sul-americanos haviam de Lacerda, amplamente utilizado pelos clíni-
fracassado em suas tentativas de isolar o micró- cos brasileiros, em proveito dos soros antiofídi-
bio e produzir uma vacina eficaz. Até o Institu- cos desenvolvidos por Vital Brazil.14
to Pasteur, que mantivera prudente reserva, Em 1883, quando Freire ultimava a prepa-
corroborou o inquérito norte-americano. Con- ração da vacina contra a febre amarela, Lacerda
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incriminou outro micróbio como o verdadeiro também o ponto de vista daquele estranho uni-
agente da doença. Seu Fungus febris flavae e mi- verso de seres vivos.
crorganismos similares descritos na época ti- Naqueles mesmo anos, em meio a desafios
nham uma característica em comum: o poli- sanitários sem precedentes enfrentados pela
morfismo, isto é, a capacidade de mudar de sociedade brasileira, uma nova geração de bac-
forma e função por influência do meio, sobre- teriologistas despontou em conflito aberto com
tudo dos fatores climáticos. Zoólogos, botâni- os mestres que a haviam introduzido à teoria
cos e bacteriologistas tinham opiniões confli- dos germes. Francisco Fajardo, Eduardo Cha-
tantes a esse respeito. Pasteur e Koch, por e- pot Prévost, Carlos Seidl, Oswaldo Cruz e ou-
xemplo, consideravam o polimorfismo incom- tros jovens médicos haviam passado pelo labo-
patível com a especificidade etiológica e com ratório de Freire. Os “discípulos” colidiram com
procedimentos experimentais rigorosos, mas ele quando seus amigos republicanos, agora no
outros investigadores de renome reconheciam poder, o nomearam diretor do Instituto Bacte-
esta propriedade nos fungos, algas e bactérias riológico Domingos Freire, instituição federal
que estudavam. A questão tinha a ver com os que tinha atribuições tão amplas quanto aque-
debates sobre a evolução e, também, com os las conferidas pelo governo de São Paulo ao
problemas relacionados à classificação dos “in- Instituto Bacteriológico criado concomitante-
finitamente pequenos”. Ela era ainda precária, e mente naquele estado (Benchimol, 1999). São
o termo genérico “micróbio” fora cunhado re- conhecidas as polêmicas que seu diretor, Adol-
centemente com o propósito, justamente, de fo Lutz,15 travou com os clínicos locais a pro-
contornar as confusas categorias taxonômicas pósito de febres que estes chamavam por diver-
usadas nos textos científicos da época, prejudi- sos nomes, atribuindo-as às condições telúricas
cando a discussão da teoria dos germes entre locais, e que Lutz diagnosticava como febre ti-
os não-especialistas. fóide, baseando-se na identificação do bacilo
Além de estabelecer uma problemática re- de Eberth. As chamadas febres paulistas leva-
lação de continuidade entre os paradigmas am- ram-no a empreender o primeiro inquérito
bientalista e pasteuriano, o polimorfismo legi- epidemiológico sobre a malária em São Paulo.
timava o argumento de que a febre amarela era Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, Francisco
um campo de investigações acessível apenas a Fajardo e o grupo de jovens bacteriologistas de
cientistas americanos, pois só aí, nesse meio que fazia parte isolavam e estudavam o hema-
particular, a doença e seu agente se manifesta- tozoário de Laveran. Pois bem, o primeiro tra-
vam com as características típicas. O polimor- balho original publicado pelo Instituto Bacte-
fismo foi o cimento utilizado por Lacerda para riológico Domingos Freire colocou-o também
compor sua mais abrangente teoria sobre “O no centro dessa controvérsia. No interior de São
micróbio patogênico da febre amarela”, apre- Paulo, Freire identificou a “febre biliosa dos paí-
sentada à Academia Nacional de Medicina e ao ses quentes”. Classificou-a como manifestação
Congresso Médico Pan-Americano em 1892- específica da malária causada pelo bacilo que
1893, à época em que George Sternberg divulga- encontrou nos líquidos orgânicos dos doentes,
va os resultados finais de seu inquérito. A tábu- bacilo muito similar àquele descrito por Klebs e
la rasa criada pelo norte-americano no campo Tommasi-Crudeli (B. malariae, 1878), os dois
então atulhado de fungos e algas abria caminho principais adversários de Laveran. Fajardo e
aos bacilos que iriam competir pela condição seu grupo trocavam cartas e preparados bioló-
de agente causal da febre amarela. O panteísmo gicos com o bacteriologista francês e com Ca-
microbiano de Lacerda operava em sentido milo Golgi. Com auxílio deles, refutaram enfa-
contrário: todas as descrições produzidas até ticamente o argumento de Freire, calcado em
então davam conta apenas de diferentes fases Boudin e em outras autoridades da geografia
ou formas de um fungo proteiforme, apto a fa- médica francesa, segundo o qual a diversidade
zer face ao novo ciclo da revolução pasteuriana. de climas acarretava diversidade de “espécies
Os trabalhos de Sternberg e Lacerda mos- infecciosas” e, conseqüentemente, de microrga-
tram que as técnicas da bacteriologia, os ins- nismos patogênicos, uma “lei biológica” que
trumentos e conceitos utilizados na exploração excluiria a suposta universalidade do hemato-
do mundo microbiano estavam progredindo zoário de Laveran e da própria malária.16
rápido à medida que os anos 1880 cediam lu- Este foi apenas um dos episódios do confli-
gar aos 1890. Isso ajudava a erodir teorias esta- tivo processo transcorrido nos anos 1890, en-
belecidas, a mudar não apenas a visão mas volvendo diversos atores sociais em desacordo
272
Benchimol, J. L.

sobre o diagnóstico, a profilaxia e tratamento ativação ou inatividade dos germes do cólera e


de doenças que grassavam epidemicamente nos de outras doenças exercia considerável influên-
centros urbanos do sudeste já convulsionados cia não apenas sobre a questão das diarréias do
pelo colapso da escravidão, a enxurrada imi- vale do Paraíba como sobre a compreensão da
gratória, as turbulências políticas subseqüentes febre amarela, já que permitia explicar o cará-
à proclamação da República e as turbulências ter sazonal e a especificidade geográfica da
econômicas associadas às crises do café e a nos- doença. Tanto é assim que o saneamento do so-
sa revolução industrial “retardatária”. lo e a drenagem do subsolo do Rio de Janeiro
Outro episódio já bem documentado pela tinham constituído as medidas mais urgentes
historiografia foi a chegada da peste bubônica dentre aquelas votadas no Segundo Congresso
a Santos, em 1899, e as controvérsias suscitadas Nacional de Medicina e Cirurgia, em 1889, pa-
pelo diagnóstico feito por Lutz, Vital Brazil, ra anular as epidemias da capital brasileira. E
Chapot-Prévost e Oswaldo Cruz e contestado em 1892, Floriano Peixoto tentara contratar
pelos clínicos e comerciantes daquela movi- Pettenkoffer ou outro especialista estrangeiro
mentada cidade portuária. Daí resultariam a para que arrancasse a febre amarela do solo do
criação dos institutos soroterápicos de Butantã Rio de Janeiro.17
e de Manguinhos. O primeiro, chefiado por Vi- Novas descobertas incriminando bacilos
tal Brazil, logo iria se desprender do Bacterio- como os agentes da doença e propondo, agora,
lógico de São Paulo, singularizando-se pelos profiláticos similares ao soro antidiftérico re-
trabalhos fundamentais na área do ofidismo. cém-desenvolvido por Bhering and Roux aflo-
Oswaldo Cruz assumiria a direção técnica do raram dois anos após a crise do cólera. A mais
Instituto Soroterápico Federal, inaugurado em importante foi obra de Giuseppe Sanarelli, um
julho de 1900, e em seguida, com afastamento experiente bacteriologista italiano que traba-
do Barão de Pedro Afonso, a direção plena da lhara com Golgi em Pavia, e Metchnikoff, no
instituição que o levaria à chefia da saúde pú- Instituto Pasteur, antes de ser contratado para
blica em 1903 (Benchimol & Teixeira, 1993). implantar a higiene experimental Montevidéu.
Mas sua primeira prova de fogo ocorreu Com o auxílio dos jovens bacteriologistas do
antes, com a epidemia de cólera que irrompeu Rio de Janeiro, pôs-se imediatamente no encal-
em 1894-1895, por detrás das defesas sanitárias ço do germe da febre amarela e em concorrida
litorâneas da República, no vale do rio Paraíba, conferência na capital uruguaia, em junho de
a coluna vertebral da economia cafeeira. Os- 1897, anunciou a descoberta do bacilo icterói-
waldo Cruz, Francisco Fajardo e Chapot-Pré- de. Meses depois, iniciou os testes de campo de
vost, nos laboratórios que mantinham em suas um soro curativo em São Paulo. Seus lances rá-
próprias residências, e os bacteriologistas de pidos obrigaram diversos outros bacteriologis-
São Paulo, no laboratório público, desempe- tas brasileiros a destamparem os resultados
nharam papel crucial na campanha capitanea- parciais ou finais alcançados no mesmo terri-
da pelo órgão federal de saúde, o efêmero Ins- tório de pesquisa.18
tituto Sanitário Federal. Os laudos produzidos A opinião pública do Rio de Janeiro e de
naqueles laboratórios, identificando a presença outras cidades vitimadas pela febre amarela já
do bacilo vírgula nos doentes do vale do Paraí- assimilara a noção de que ela era ocasionada
ba, municiaram o rigoroso programa de desin- por um dos micróbios inscritos na agenda do
fecções, isolamento e quarentenas implemen- debate científico ou, quem sabe, não descober-
tado em cidades, portos e estações ferroviárias to ainda. O relativo consenso fundamentado na
do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. teoria mismática a respeito do que se devia fa-
Como chefe de um instituto também ofi- zer para higienizar portos como o Rio de Janei-
cial, Domingos Freire apoiou os adversários do ro deu lugar a um impasse e a candentes con-
cólera e da intervenção federal. Com o seu lau- trovérsias sobre os elos que deviam ser rompi-
do, respaldou os clínicos interioranos que diag- dos na cadeia da insalubridade urbana. As es-
nosticavam diarréias determinadas por fatores colhas variavam conforme os habitats e neces-
locais, contestando a presença do bacilo de sidades específicas de cada germe incriminado,
Koch ou mesmo sua condição de agente espe- e o ponto de vista dos vários atores sociais in-
cífico do cólera. O principal oponente de Koch teressados na reforma do espaço urbano.
na Europa era Max von Pettenkoffer. A teoria A nova safra de germes da febre amarela foi
do higienista bávaro sobre o papel crucial das recebida com exasperação pelas categorias so-
condições climáticas e, sobretudo, telúricas na ciais e profissionais que pressionavam pelo tão
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esperado saneamento do Rio de Janeiro. A in- Os estudos sobre o plasmódio feitos por
capacidade dos médicos de decidirem, intra- Laveran, Golgi e outros investigadores (ver no-
muros e interpares, quem havia encontrado o ta 16) deixaram em aberto dois problemas: a
meio de desatar o nó górdio da saúde pública natureza de formas dotadas de filamentos mó-
brasileira levou, inclusive, à proposição, no veis encontradas no sangue extravasado que,
Congresso e na imprensa, de tribunais onde a para uns, eram corpos em vias de desintegra-
questão pudesse ser dirimida.19 Mas não foram ção, para outros, um novo estágio de desenvol-
os procedimentos de validação acadêmicos que vimento do parasito; o segundo problema era
puserem fim às controvérsias sobre a etiologia o modo de propagação da malária. Embora se
e profilaxia da febre amarela. Foi um desloca- conseguisse induzi-la pela inoculação do san-
mento radical na abordagem e enfrentamento gue de doentes, a doença não parecia ser conta-
da doença, que levou a nova geração de bacte- giosa. Uns afirmavam que os parasitos eram in-
riologistas para o proscênio da saúde pública, geridos com a água estagnada ou inalados com
sob a liderança de Oswaldo Cruz. as poeiras dos pântanos; outros acreditavam
que os parasitos existentes nos pântanos infec-
tavam os mosquitos e, estes, o homem. Em
Da etiologia à transmissão 1894, Manson articulou os dois problemas en-
da febre amarela carando os filamentos móveis como parte de
um ciclo análogo ao das filárias. Daí derivou
As narrativas sobre a vitória da medicina cien- um programa de pesquisa que consistia em en-
tífica sobre a febre amarela privilegiam ora os contrar a espécie adequada, fazer o inseto picar
Estados Unidos ora Cuba, conforme o valor doentes e examinar as metamorfoses do para-
atribuído a dois episódios: a formulação da hi- sito em seu estômago para ver se repetia o ciclo
pótese da transmissão pelo mosquito por Car- da filária. No verão de 1897, Ronald Ross des-
los Juan Finlay, em 1880-1881, ou sua demons- cobriu células pigmentadas na parede estoma-
tração pela equipe chefiada por Walter Reed, cal de mosquitos alimentados com sangue de
em 1900. Uma questão crucial colocada pelos doentes quatro ou cinco dias antes. Na mesma
autores é porque decorreram vinte anos entre época, MacCallum verificou que estas células
um e outro episódio, se a verificação da trans- tinham a ver com a reprodução do parasito: no
missão pelo mosquito não requereu mais do corvo, apresentavam-se sob duas formas, uma
que algumas semanas para se efetuar. masculina (corpos hialinos), a outra feminina
Para Nancy Stepan (1978), os ingredientes (corpos granulosos). Manson sugeriu que Ross
essenciais da teoria já estavam dados. O inter- investigasse o paludismo aviário. Para rastrear
regno se deve a obstáculos sociais e políticos: o o desenvolvimento e a posição final das células
desinteresse da metrópole espanhola pela ciên- pigmentadas no mosquito, Ross executou deli-
cia, o ceticismo decorrente da convicção de que cadas dissecações, verificando que até o oitavo
a doença estava enraizada no solo cubano; a dia as células aumentavam de tamanho, depois
prolongada guerra de independência e a ocu- se abriam e liberavam os corpos filiformes. Por
pação de Cuba pelos Estados Unidos. fim, surpreendeu-os nas glândulas salivares do
Para François Delaporte (1989), Finlay e os inseto (Delaporte, 1989, Hughes, 1977).
norte-americanos tinham idéias diferentes so- As pesquisas bacteriológicas realizadas por
bre o mosquito: para o primeiro, era um meio Finlay após a proposição da teoria da transmis-
mecânico de transmissão; para os segundos, são da febre amarela pelo mosquito o levaram
um hospedeiro intermediário vinculado a um ao mesmo beco sem saída onde se acotovela-
processo biológico mais complexo. A decisão vam Domingos Freire e outros caçadores de
de Finlay de tomar o mosquito como objeto de micróbios e vacinas. Mas uma vez demonstra-
estudo e o tempo descontínuo decorrido entre do que o mosquito era o hospedeiro interme-
a proposição e a confirmação de sua teoria são diário do parasito da malária, tornava-se inevi-
enigmas cuja explicação se encontra na medi- tável a suposição de que cumprisse idêntico pa-
cina tropical inglesa, nas relações de filiação pel na primeira doença (cujo diagnóstico clíni-
conceitual que ligam o médico cubano a Patrick co, diga-se de passagem, freqüentemente se
Manson, e Walter Reed a Ronald Ross. A hipó- confundia com o da malária).
tese de Finlay ficou no limbo durante vinte De fato, desde o começo dos anos 1890, fo-
anos porque este foi o tempo necessário para se ram se multiplicando na imprensa médica e
esclarecer o modo de transmissão da malária. leiga do Rio de Janeiro os dados e especulações
274
Benchimol, J. L.

sobre o papel dos insetos na transmissão de Em 1900, Walter Myers e Herbert E. Durham,
doenças, inclusive a febre amarela. Eles eram médicos da recém-fundada Liverpool School
vistos não tanto como hospedeiros de parasitos of Tropical Medicine, iniciaram uma expedição
mas principalmente como agentes mecânicos ao Brasil para investigar a febre amarela. O en-
de transmissão de germes. Suspeitavam-se de contro com os médicos norte-americanos e cu-
mosquitos, percevejos, pulgas, carrapatos e, so- banos, em junho, foi uma escala da viagem que
bretudo, das moscas que, passivamente, trans- resultou na implantação de um laboratório
portavam os micróbios até os alimentos e daí à que funcionou intermitentemente na Amazô-
boca, a “porta de entrada” do organismo hu- nia até a década de 1930.21 Durham e Myers
mano. O fato de serem insetos tão comuns nas (1900) traziam uma hipótese genérica – a
cidades parece haver facilitado sua incorpora- transmissão da febre amarela por um inseto
ção ao imaginário coletivo como fonte de peri- hospedeiro –, que ganhou maior consistência
go, zunindo na atmosfera ainda enevoada por com as informações recolhidas em Cuba. No
miasmas. Da forma mais imprevista elas pou- artigo que publicaram em setembro, expressa-
saram na última teoria etiológica da febre ama- ram seu ceticismo em relação ao bacilo de Sa-
rela concebida por João Batista de Lacerda, às narelli, elogiaram as idéias de Finlay e demar-
vésperas já da entronização da teoria de Finlay caram incógnitas que deixavam entrever os
pela saúde pública.20 contornos do vetor animado da febre amarela.
A impressão que nos dão os artigos escri- Se os norte-americanos não tivessem envereda-
tos a esse respeito é que as partes componentes do por este caminho, talvez a teoria de Finlay
das teorias microbianas eram como que “iman- houvesse sido confirmada pelos ingleses, no
tadas” pelo campo de força da medicina tropi- norte do Brasil.
cal. Novos elos vivos eram encaixados nos cons- Em agosto de 1900, Lazear iniciou as expe-
tructos elaborados para explicar a transforma- riências com os mosquitos fornecidos por Fin-
ção extra-corporal do micróbio da febre ama- lay, enquanto Carrol e Agramonte se dedica-
rela. Nas teorias existentes, o meio exterior era vam à refutação do bacilo de Sanarelli, que ha-
um agente compósito, orgânico e inorgânico, via sido confirmado por médicos do Marine
urbano e litorâneo, quente e úmido, onde os Hospital Service. Em setembro, Lazear faleceu
fungos, algas e bacilos necessariamente cum- em conseqüência de uma picada acidental.
priam parte de seu ciclo vital antes de adquiri- Walter Reed redigiu às pressas a Nota prelimi-
rem a capacidade de infeccionar os homens, nar, apresentada no mês seguinte à 28a reunião
apenas em certas estações do ano e em certas da American Public Health Association, em In-
regiões geográficas. As teias que percorriam, dianápolis. E tomou a si a tarefa de fornecer a
interligando solo, água, ar, alimentos, navios, confirmação dos trabalhos de Lazear através de
casas e homens, acolhiam com dificuldade os uma série de experiências destinadas a provar
insetos postos em evidência pela medicina tro- que o mosquito era o hospedeiro intermediá-
pical. rio do “parasito” da febre amarela; que o ar não
As experiências realizadas em Cuba, em transmitia a doença; e que os fomites não eram
1900, formam, sem dúvida, um divisor de águas contagiosos. Em seguida, a comissão norte-
na história da febre amarela. Se não sepulta- americana retomou as experiências relaciona-
ram, de imediato, os germes já incriminados, das ao agente etiológico, mas se deparou com
afastaram a saúde pública das intermináveis ambiente já desfavorável à utilização de cobaias
controvérsias sobre a etiologia da doença, via- humanas. Foi isso, assegura Lowy, que a impe-
bilizando ações capazes, por um tempo, de neu- diu de provar que o agente era um “vírus filtrá-
tralizar as epidemias nos núcleos urbanos lito- vel”.22
râneos da América. Os resultados foram apresentados, oficial-
Stepan (1978) mostra que os norte-ameri- mente, ao 3o Congresso Pan-Americano reali-
canos só se renderam à teoria de Finlay quando zado em Havana, em fevereiro de 1901, ao mes-
ficou patente sua incapacidade de lidar com a mo tempo em que William Gorgas dava início
febre amarela em Cuba. Parece ter sido impor- à campanha contra o mosquito naquela cida-
tante, também, a confluência, naquela ilha, dos de. Já a partir de janeiro de 1901, as comissões
médicos norte-americanos, voltados para um sanitárias que atuavam no interior de São Pau-
programa de pesquisas bacteriológicas, com os lo incorporaram o combate ao mosquito ao re-
ingleses, que exploravam a fértil problemática pertório híbrido de ações destinadas a anular
dos vetores biológicos de doenças. tanto o contágio como a infecção da febre ama-
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Ciência & Saúde Coletiva, 5(2):265-292, 2000


rela. Em Ribeirão Preto (1903), abandonaram- entre os quais se incluíam, diga-se de passa-
se as desinfecções, prevalecendo a “teoria hava- gem, alguns antigos tropicalistas baianos.
nesa” como diretriz soberana, ao mesmo tem- A verdade é que as teses da comissão Reed
po em que Emílio Ribas, diretor do Serviço Sa- ainda estavam sub judice. A marinha norte-
nitário de São Paulo, e Adolfo Lutz, diretor de americana tinha enviado os drs. J. Rosenau, H.
seu Instituto Bacteriológico, reencenavam as B. Parker e G. Beyer a Vera Cruz, no México. De
experiências dos norte-americanos para neu- acordo com artigo publicado no começo de
tralizar as reações dos médicos alinhados com 1901, em The Lancet e na Revista Medica de S.
a teoria de Sanarelli. A primeira série de expe- Paulo, Durham e Myers, os médicos de Liver-
riências estendeu-se de dezembro de 1902 a ja- pool estacionados em Belém, tinham descarta-
neiro de 1903; a segunda, de abril a maio desse do os protozoários como agentes da febre ama-
mesmo ano (Ribas, 1903; Cerqueira, 1954). rela, encontrando só bacilos nos órgãos de ama-
Para Nuno de Andrade (1902), diretor-ge- relentos mortos (ver também Gouveia, 1901).
ral de Saúde Pública, a descoberta de Finlay Os mais importantes aliados dos “exclusivistas”
acrescentava apenas um elemento novo à pro- norte-americanos e brasileiros foram os três
filaxia da febre amarela. Seus defensores res- pesquisadores do Instituto Pasteur de Paris que
tringiam ao homem e ao mosquito todos os desembarcaram no Rio de Janeiro em novem-
fios do problema. “Confesso que a hipótese da bro de 1901. Durante os quatro anos de perma-
inexistência do germe da febre amarela no nência na cidade, Émile Roux, Paul-Louis Si-
meio externo me perturba seriamente,” – de- mond e A. Tourelli Salimbeni (que se retirou
clarou Andrade – “porque os documentos cien- mais cedo por motivos de saúde) puderam ob-
tíficos e a nossa própria observação têm amon- servar de perto os fatos biológicos e sociais pro-
toado um mundo de fatos que serão totalmen- duzidos na cidade que serviu como o primeiro
te inexplicáveis se as deduções da profilaxia grande laboratório coletivo para o teste de uma
americana forem aceitas na íntegra.” Ele apon- campanha calcada na teoria culicideana, sob
tava experiências que não tinham sido feitas condições políticas que não eram as da ocupa-
para excluir percursos alternativos do germe, ção militar.24
para anular a possibilidade de que os mosqui-
tos sãos se infectassem nos objetos contamina-
dos ou para verificar as propriedades infectan- Oswaldo Cruz
tes dos dejetos do Stegomyia. A indeterminação
do micróbio deixava a teoria havanesa exposta Em l903, Francisco de Paula Rodrigues Alves,
a outras dúvidas perturbadoras. O sangue inje- um grande fazendeiro de café paulista, tornou-
tado podia transmitir a doença imediatamente, se o quarto presidente da República brasileira
mas sugado pelo mosquito, só depois de doze (1903-1906). Como presidente de São Paulo
dias. Isso era explicado por meio de uma ana- (1900-1902), apoiara as medidas adotadas por
logia com as transformações sofridas pelo pa- Ribas e Lutz em prol da teoria de Finlay. Rodri-
rasita da malária no Anopheles. O fato de serem gues Alves assumiu a presidência do Brasil nu-
os mosquitos vetores de ambos os germes não ma conjuntura econômica favorável, o que lhe
implicava a identidade de seus ciclos vitais. Nu- permitiu converter o saneamento da capital fe-
no de Andrade considerava fato provado a deral em ponto básico de seu programa de go-
transmissão da febre amarela pelo Stegomyia, verno. O engenheiro Francisco Pereira Passos
mas as deduções profiláticas lhe pareciam arbi- foi nomeado prefeito do Rio de Janeiro com
trárias, e a guerra ao mosquito em Cuba, mera poderes excepcionais, inclusive o legislativo
“obra de remate” das medidas sanitárias que as municipal suspenso para que colocasse em
autoridades militares tinha executado antes. marcha a reforma urbana inspirada naquela
Esse foi o cerne do confronto que se deu no que Haussmann executara em Paris quatro dé-
V Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, cadas antes (Benchimol, 1992). O saneamento
realizado no Rio de Janeiro, em meados de ficou a cargo de Oswaldo Cruz, que assumiu a
1903.23 Os partidários da teoria havanesa, lide- direção da Saúde Pública com o compromisso
rados por Oswaldo Cruz, chamados de “exclu- de derrotar a febre amarela, a varíola e a peste
sivistas”, tudo fizeram para obter o aval da cor- bubônica.
poração médica à nova estratégia de combate à Gostaria de chamar atenção para um aspec-
febre amarela, com a exclusão da antiga, enfren- to contraditório da relação entre esses persona-
tando cerrada oposição dos “não convencidos”, gens que habitualmente são encarados como
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Benchimol, J. L.

faces de uma mesma moeda. Os componentes entulhos, suprimissem porões e impermeabili-


do plano de remodelação urbana começaram a zassem o solo. A compra de ratos pela Saúde
ser projetados em meados dos anos 1870, senão Pública gerou ativa indústria de captura e até
antes, fundamentando-se na higiene dos mias- criação dessa exótica mercadoria.
mas, que tinha como característica a desmedida O combate à varíola dependia da vacina.
ambição: cada doença a vencer requeria bata- Seu uso já fora declarado obrigatório no século
lhas num leque muito amplo de frentes, contra XIX por leis nunca cumpridas. Em junho de
as forças da natureza, a topografia das cidades 1904, Oswaldo Cruz apresentou ao Congresso
e os mais variados aspectos da vida econômica projeto de lei reinstaurando a obrigatoriedade
e social. Parafraseando Latour (1986, 1984), o da vacinação e revacinação em todo o país, com
pasteuriano Oswaldo Cruz, de posse do micró- cláusulas rigorosas que incluíam multas aos re-
bio ou hospedeiro específico a cada doença, pô- fratários e a exigência de atestado para matrí-
de assinalar as batalhas prioritárias, “os pontos culas em escolas, acesso a empregos públicos,
de passagem obrigatórios”, capazes de conduzir casamentos, viagens etc.
as hostes da higiene às vitórias que tanto alme- Recrudesceu, então, a oposição ao governo,
javam. Pereira Passos, os engenheiros do gover- tendo como alvos tanto o “general mata-mos-
no e, de resto, o senso comum predominante quitos” como o “bota-abaixo”. Os debates exal-
continuavam a usar o velho discurso da higie- tados no Congresso eram acompanhados por
ne para justificar as intervenções no espaço ur- intensa agitação nas ruas promovida pelo Apos-
bano, ao passo que Oswaldo Cruz elegia um tolado Positivista, por oficiais descontentes do
número limitado de doenças, focalizava os ve- exército, monarquistas e líderes operários, que
tores da febre amarela e peste bubônica e dava acabaram se aglutinando na Liga contra a Vaci-
ênfase à vacina, que não fugia à imagem de um na Obrigatória. A lei foi aprovada em 31 de ou-
ponteiro direcionado para o flanco específico tubro; quando os jornais publicaram, em 9 de
da varíola. Estas setas conferiram nitidez às a- novembro, o esboço do decreto que ia regula-
ções de suas brigadas sanitárias no contexto ca- mentar o “Código de Torturas”, a Revolta da
ótico, tumultuário, do “embelezamento” do Rio Vacina paralisou a cidade por mais de uma se-
de Janeiro. Conseguimos discernir as estraté- mana (Sevcenko, 1984; Chalhoub, 1996; Car-
gias próprias à saúde pública por sobre ou em valho, 1987).
meio à ofensiva comandada pelos engenheiros
contra muitos dos alvos que a higiene viera in-
criminando no século passado. Ao combater a A metamorfose
febre amarela em Belém do Pará, em 1909, Os- do Instituto Soroterápico
waldo Cruz não precisaria mexer no casco an-
tigo da cidade. Ao assumir a direção da Saúde Pública, Oswal-
No Rio de Janeiro, sua principal campanha do Cruz propôs ao Congresso que o Instituto
começou com a criação do Serviço de Profilaxia Soroterápico Federal fosse transformado “num
Específica da Febre Amarela, em abril de 1903. Instituto para estudo das doenças infecciosas
A cidade foi repartida em 10 distritos, com pes- tropicais, segundo as linhas do Instituto Pas-
soal médico próprio. A seção encarregada dos teur de Paris” (Benchimol, 1990). A proposta
mapas e das estatísticas epidemiológicas forne- foi vetada, mas isso não impediu que ele pro-
cia coordenadas às brigadas de mata-mosqui- porcionasse a Manguinhos as condições técni-
tos, que percorriam as ruas neutralizando de- cas e materiais para que rapidamente sobrepu-
pósitos de larvas. A seção de isolamento e ex- jasse sua conformação original. À revelia do le-
purgo desinfetava, com enxofre e piretro, as ca- gislativo, com verbas de sua Diretoria, iniciou a
sas situadas na zona dos focos, providenciando edificação de um conjunto arquitetônico sofis-
o isolamento domiciliar dos doentes mais abas- ticado para abrigar novos laboratórios, novas
tados e a remoção dos pobres para hospitais linhas de pesquisa, a fabricação de mais soros e
públicos. vacinas e ainda o ensino da microbiologia.
As pessoas vitimadas pela peste e outras O quadro funcional do instituto restringia-
doenças contagiosas eram conduzidas, com se ao diretor, a dois chefes de serviço e dois au-
seus pertences, para o Desinfetório Central e, xiliares estudantes. Desde o início, Manguinhos
em seguida, isoladas. O esforço de desratizar a foi procurado por doutorandos que não en-
cidade redundou em milhares de intimações a contravam na Faculdade de Medicina do Rio
proprietários de imóveis para que removessem de Janeiro as condições adequadas para desen-
277

Ciência & Saúde Coletiva, 5(2):265-292, 2000


volver trabalhos nas novas disciplinas da medi- sa doença, o assunto de sua tese de doutora-
cina experimental. O afluxo de estudantes cres- mento.
ceu durante as campanhas sanitárias. Alguns O ambiente de trabalho naquele lugar afas-
iriam integrar-se a Manguinhos, trabalhando tado da zona urbana diferia muito da ambiên-
como “freqüentadores voluntários” por longo cia belicosa em que se davam as demolições e
tempo, até serem incorporados a seu quadro campanhas sanitárias. Os pesquisadores preci-
funcional. A maioria seguiria a clínica, cirur- savam atender às demandas da saúde pública,
gia, ou veterinária, ou engrossaria o contingen- mas tinham liberdade para escolher os seus ob-
te de sanitaristas do Rio de Janeiro e de Estados jetos de pesquisa. Oswaldo Cruz queria que os
onde os serviços de saúde pública ainda eram integrantes de seu “jardim de infância da ciên-
embrionários. cia” – a expressão é dele –, todos com menos de
Não havia especializações definidas entre trinta anos de idade, adquirissem confiança em
os pesquisadores nem separação entre as roti- si mesmos para desenvolver trabalhos próprios
nas de pesquisa, ensino e fabricação de produ- e originais.26 Uma vez por semana, reuniam-se
tos biológicos. Em fins de 1906, por exemplo, para debater as novidades veiculadas nos pe-
Figueiredo de Vasconcelos, o mais antigo dos riódicos científicos estrangeiros. Os artigos e-
dois chefes de serviço, cuidava da preparação ram resumidos e comentados conforme as vo-
do soro e da vacina contra a peste, junto com cações manifestadas pelos membros daquela
Ezequiel Dias. Preparava, também, a maleína e pequena comunidade, que buscava a sintonia
estudava o mormo e a transmissão da espirilo- com o que se estava fazendo nas fronteiras da
se das galinhas por percevejos. Henrique da microbiologia e da medicina tropical. Em seus
Rocha Lima, o outro chefe de serviço, chegara relatórios, Oswaldo Cruz defendia o alarga-
há pouco da Alemanha, onde havia se especia- mento das atividades praticadas no Instituto,
lizado em bacteriologia e anatomia patológica. externando posição contrária ao imediatismo e
Trouxera culturas bacterianas, cortes e blocos utilitarismo que haviam sempre caracterizado
histopatológicos, que constituíram o núcleo a visão do Estado e dos grupos dirigentes sobre
original das coleções de Manguinhos. Além de o papel da ciência na saúde. Como mostra
investigar a anatomia patológica da febre ama- Nancy Stepan (1976), esse condicionamento
rela, estruturou o curso de especialização, com que Oswaldo Cruz procurava contornar iria,
lições teóricas e práticas em bacteriologia, pa- em breve, provocar o colapso do Instituto Bac-
rasitologia, anatomia e histologia patológicas. teriológico de São Paulo.
Cardoso Fontes era responsável pela conserva- As fronteiras de Manguinhos dilatavam-se
ção das culturas microbianas e pelo preparo em três planos distintos. Fabricação de produ-
das tuberculinas (para uso terapêutico no ho- tos biológicos, pesquisa e ensino – vertentes
mem e diagnóstico de bovinos). Henrique Ara- peculiares ao Instituto Pasteur de Paris – defi-
gão fazia o diagnóstico da peste, preparava so- nem, ainda hoje, o perfil do grande conglome-
ro anti-estreptocócico, estudava a piroplasmo- rado que é a Fundação Oswaldo Cruz. Doenças
se eqüina e se dedicava à classificação sistemá- humanas, animais e, em menor escala, vegetais
tica de uma família de carrapatos, os ixodídeos. enfeixavam investigações que punham a insti-
Alcides Godoy preparava os soros antidiftérico tuição em contato com diferentes “clientes” e
e antitetânico e fazia a dosagem do antipestoso. comunidades de pesquisa, reforçando suas ba-
Estava em vias de obter a primeira descoberta ses sociais de sustentação. A dilatação de fron-
“sensacional” de Manguinhos, a vacina contra teiras tinha também conotação geopolítica, co-
o carbúnculo sintomático, ou peste da man- mo para os institutos europeus que atuavam
queira, uma epizootia que dizimava de 40 a nas possessões coloniais africanas e asiáticas.
80% dos bezerros em vários estados brasilei- Com freqüência cada vez maior, os cientistas
ros.25 Artur Neiva e Carlos Chagas eram os úni- de Manguinhos iriam se embrenhar pelos ser-
cos que não estavam ligados à rotina da pro- tões do Brasil para estudar e combater doenças,
dução; o primeiro fazia sistemática de mosqui- principalmente a malária. Ao colocarem sua
tos e experiências com espectrofotometria. expertise a serviço de ferrovias, hidrelétricas,
Chagas, que iniciara os estudos sobre a hema- obras de infra-estrutura, empreendimentos
tologia e o parasito da malária no laboratório agropecuários ou extrativos, iriam se deparar
de Francisco Fajardo, na Santa Casa de Miseri- com problemas teóricos e práticos diferentes
córdia, estudava a vida e os hábitos dos culicí- daqueles vivenciados nos centros urbanos. Te-
deos, especialmente quanto à transmissão des- riam oportunidade de estudar patologias pou-
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Benchimol, J. L.

co ou nada conhecidas, e de recolher materiais A presença das missões francesa e alemã


biológicos que dariam grande amplitude às co- (Otto & Neumann, 1904) no Rio de Janeiro de-
leções biológicas do instituto e aos horizontes ra ao instituto alguma visibilidade internacio-
da medicina tropical no Brasil. nal. Também foi importante a preocupação de
À medida que se aproximava o fim do go- seus pesquisadores de publicar em periódicos
verno Rodrigues Alves, uma grande euforia ia respeitados e de remeter materiais relacionados
se apoderando da opinião pública. As estatísti- às doenças tropicais a instituições como o Mu-
cas comprovavam o êxito das campanhas con- seu Britânico, o Instituto de Higiene de Heidel-
tra a febre amarela e a peste bubônica. As novas berg e o de Moléstias Infecciosas de Berlim, as
avenidas e os palacetes edificados às suas mar- Escolas de Medicina Tropical de Hamburgo,
gens davam a impressão de que o Rio, enfim, Londres e Liverpool e o Instituto Pasteur de Pa-
civilizava-se. A rude plebe que animara a revol- ris. Este, por diversas vezes, foi chamado a cer-
ta da vacina fora subjugada e expulsa das áreas tificar a qualidade dos soros e vacinas de Man-
renovadas, e boa parte dos adversários da re- guinhos. Os contatos com as instituições da
forma e saneamento urbanos se rendia à retó- Alemanha foram reforçados por Rocha Lima,
rica triunfante da “regeneração” do Brasil. Ape- quando ele visitou pela segunda vez aquele
sar do prestígio de Oswaldo Cruz, que lhe va- país, em 1906, para estudar as inovações técni-
leu, inclusive, a confirmação no cargo de dire- cas a introduzir em Manguinhos e inaugurar, a
tor da Saúde Pública no governo subseqüente convite de Fischer, a seção de estudos da peste
de Afonso Pena (1906-1909), Manguinhos en- no Instituto de Higiene de Berlim. Sua presen-
contrava-se numa posição bastante frágil do ça naquela cidade foi decisiva para o sucesso al-
ponto de vista institucional, por haver extrava- cançado pela mostra brasileira, assim como pa-
sado, sem respaldo jurídico, o arcabouço pri- ra o estreitamento subseqüente dos laços com
mitivo do Instituto Soroterápico. os cientistas alemães.27
Sua transformação em Instituto de Medici- A mostra brasileira reunia mapas, estatísti-
na Experimental foi novamente pedida ao Con- cas, fotografias e maquetes documentando a
gresso, em junho de 1906. O projeto foi ataca- campanha contra a febre amarela no Rio de Ja-
do na Câmara dos Deputados e no Senado, e es- neiro e os prédios em construção em Mangui-
teve a pique de naufragar sob o peso de emen- nhos. Exibia também amostras de soros e vaci-
das e substitutivos que o desfiguravam comple- nas, uma coleção de mosquitos e outros insetos
tamente. A oposição vinha sobretudo de repre- brasileiros, peças anatomopatológicas com as
sentantes das oligarquias, que consideravam lesões da febre amarela e da peste bubônica. Foi
um desperdício os investimentos em ciência e muito bem recebida a comunicação de Henri-
nas luxuosas instalações de Manguinhos; seto- que Aragão (1907) “Sobre o ciclo evolutivo do
res mercantis que não queriam o controle da halterídio do pombo”, que elucidava parte ain-
fabricação de produtos biológicos por uma ins- da desconhecida da evolução desse parasito,
tituição estatal, e políticos ligados à corporação com importantes implicações para o estudo da
médica que não viam com bons olhos o ensino malária.
numa instituição independente da Faculdade A medalha de ouro conquistada em Berlim
de Medicina. Em larga medida, a batalha foi teve enorme repercussão no Brasil. O governo,
vencida num teatro distante da capital brasilei- que acabara de mandar para a Europa uma “co-
ra. A Diretoria e o Instituto chefiados por Os- missão de propaganda”, resolveu utilizar Os-
waldo Cruz foram as únicas instituições sul- waldo Cruz em missões diplomáticas destina-
americanas a participarem do XIV Congresso das a atrair imigrantes e capitais. Tal como a-
Internacional de Higiene e Demografia, e da contecera com Domingos Freire, vinte anos an-
Exposição de Higiene anexa a ele, em Berlim, tes, uma recepção apoteótica foi preparada no
em setembro de 1907. A ida a Berlim era parte Rio de Janeiro para receber o herói nacional
da estratégia de estreitamento dos laços com que fizera a Europa se curvar ante o Brasil. E a
instituições científicas européias e, de acordo “ciência” converteu-se em importante ingre-
com Oswaldo Cruz, Manguinhos possuía, en- diente dos discursos com que as elites celebra-
tão, mais prestígio no exterior do que no Bra- vam o novo cenário urbano onde desempenha-
sil, “onde apenas uma parte da classe médica o vam seus papéis de figurantes da cultura e civi-
conhece e é completamente desconhecido en- lização européias. O Rio de Janeiro, que se tor-
tre os leigos, mesmo os mais cultos de nossa so- nara a “Paris das Américas”, possuía, outra vez,
ciedade” (Cruz, 1906). um “Pasteur” para canonizar.28
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Manguinhos em seu novo a malária impedia o prolongamento dos trilhos
arcabouço institucional da Estrada de Ferro Central do Brasil. Lá as in-
vestigações de Chagas tomaram rumo impre-
Ainda em Paris, Oswaldo Cruz redigiu o regu- visto: sua atenção foi despertada para um inse-
lamento do Instituto de Patologia Experimen- to hematófago que proliferava nas paredes de
tal, criado em dezembro de 1907, e rebatizado pau-a-pique das casas, saindo à noite para su-
de Instituto Oswaldo Cruz em março de 1908. gar o sangue de seus moradores e de animais
O regulamento sacramentava o tripé pesquisa, domésticos. Atacava de preferência o rosto hu-
produção e ensino e retirava o instituto do or- mano, razão pela qual o chamavam de “barbei-
ganograma da Diretoria Geral de Saúde Públi- ro”. Em março de 1909, Chagas completou a
ca, subordinando-o diretamente ao ministro descoberta de uma nova doença tropical, ao
da Justiça. Graças a isso, não houve desconti- encontrar no sangue de uma criança doente o
nuidade em sua trajetória quando Oswaldo protozoário cujas formas viera rastreando no
Cruz deixou a direção da Saúde Pública em organismo do transmissor e em outros hospe-
1909. Igualmente importante foi a autorização deiros vertebrados.
para que auferisse rendas próprias com a ven- O Instituto Pasteur acabara de fundar a fi-
da de serviços e produtos biológicos. Isso per- lial de Brazzaville (1906), capital da África
mitiu enfrentar em condições mais vantajosas Equatorial Francesa (atual República do Con-
que outras instituições do Estado a tradicional go), com o objetivo de estudar outra tripanos-
penúria de recursos públicos para a saúde e a somíase humana, a doença do sono transmiti-
ciência. da pela mosca tse-tse, e as tripanossomíases
Em 1906, foi inaugurada a primeira filial, animais.
em Belo Horizonte, a recém-fundada capital Com o apoio dos pesquisadores de Man-
do Estado de Minas Gerais. 29 No mesmo ano, guinhos, Chagas desenvolveu um trabalho
Carlos Chagas executou a primeira campanha completo sobre a doença produzida pelo Tri-
antipalúdica, em Itatinga, interior de São Pau- panossoma cruzi, que ficaria internacionalmen-
lo, onde se construía uma hidrelétrica. Os tra- te conhecida como Doença de Chagas. Estuda-
balhos de saneamento eram impraticáveis ali. ram os hábitos do barbeiro e das populações
As medidas preventivas foram então direciona- que atacava, a biologia do tripanossoma e seu
das para os alojamentos dos operários e técni- ciclo em ambos os organismos infectados, os
cos (Chagas, 1905). O uso de telas e mosquitei- sinais clínicos e as lesões orgânicas que singu-
ros, a ingestão compulsória de quinina, o reco- larizavam a doença até então confundida com
lhimento obrigatório antes do crepúsculo, o a malária ou a ancilostomíase.
isolamento dos portadores de gametas e a de- A descoberta simultânea de nova espécie de
sinfecção sistemática com piretro foram as protozoário e nova doença foi a peça de resis-
principais medidas da chamada profilaxia quí- tência na Exposição Internacional de Higiene
mica e mecânica. A desinfecção domiciliária realizada em Dresden, em junho de 1911. No
apoiava-se na observação de que os mosquitos, ano seguinte, Chagas obteve o prêmio Schau-
depois de se alimentarem com o sangue dos dinn, conferido pelo Instituto Naval de Medi-
doentes, adquiriam tamanho peso que perdiam cina de Hamburgo, por uma comissão que reu-
alcance de vôo, permanecendo no interior dos nia a nata da microbiologia e da medicina tro-
alojamentos até digerirem o sangue sugado.30 pical.32
Em 1907, Carlos Chagas e Artur Neiva exe- Sua descoberta consolidou a protozoologia
cutaram a profilaxia da malária na Baixada como uma das mais importantes áreas de pes-
Fluminense, onde se fazia a captação de águas quisa do Instituto Oswaldo Cruz. Ela se deveu
para o abastecimento do Rio de Janeiro. Neiva ao talento de Chagas e, também, a certas quali-
(1910), que já tinha publicado trabalhos sobre dades daquele coletivo, que havia acumulado
a sistemática, os hábitos e a biologia dos anofe- quantidade expressiva de trabalhos relaciona-
linos transmissores da malária, comprovou ali dos à profilaxia da malária, à evolução de para-
que as doses de quinina preconizadas não ape- sitos em seus hospedeiros, à sistemática e bio-
nas eram insuficientes como faziam surgir ra- logia de insetos transmissores de doenças hu-
ças resistentes do plasmódio.31 manas e animais. Ao dilatar suas atividades,
Em 1908, ele atuou em outras localidades Manguinhos preparara pesquisadores versáteis,
do país, ao passo que Chagas seguia, com Beli- com cultura científica, bem adestrados tanto
sário Pena, para o norte de Minas Gerais, onde nas técnicas bacteriológicas como naquela es-
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Benchimol, J. L.

trutura mansoniana de experiência concebida terpretação foi estendida em seguida a outras


durante os estudos sobre a filariose e o impalu- doenças, como a peste bovina e o herpes-zoster.
dismo. Nesse período, estudava-se outra categoria de
A partir de 1908, prevaleceu no Instituto agentes patogênicos, os “vírus filtráveis” ou “ul-
Oswaldo Cruz a orientação de formar especia- tramicroscópicos”, tão pequenos que atravessa-
listas, mas sem a polivalência, que perdurou, vam os filtros mais cerrados e ficavam fora do
não teria sido possível consolidar a rede de alcance dos microscópios mais possantes. O in-
alianças, as condições de trabalho e as habilida- teresse por eles fora estimulado pela descober-
des técnicas e teóricas que viabilizaram a Doen- ta feita por Friedrich Loeffler e Paul Frosch, em
ça de Chagas e a safra subseqüente de estudos março de 1898, de que o agente da febre aftosa
originais sobre a patologia brasileira. tinha estas características. Sanarelli fora um dos
O salto de quantidade deveu-se à qualidade pioneiros no estudo dos “vírus”, conceito que
dos cientistas incorporados após o regulamen- começava a ganhar sua acepção moderna, ten-
to de 1908, que ampliou o quadro de pessoal e do descrito as propriedades do agente invisível
permitiu a contratação de um contingente su- da mixomatose dos coelhos.
plementar de técnicos e pesquisadores pagos No começo do século atual, os corpos de
com as rendas próprias, em particular aquela inclusão viral tornaram-se objeto de grande
proveniente da venda da vacina contra a peste debate entre os microbiologistas. “Constituíam
da manqueira. a evidência visível da presença do vírus ou
Entre 1909 e 1910, os membros da primeira eram protozoários em um estágio intracelular
equipe fizeram estágios e estudos de aperfei- de seu ciclo de vida? Ou, ainda, simplesmente,
çoamento na Europa e nos Estados Unidos. Em um material de reação celular?” Para Prowazek,
julho de 1908, dois professores da Escola de autor da teoria dos “clamidozoários” (do grego,
Medicina Tropical de Hamburgo fizeram o ca- clamys, ‘manto’, animais providos de manto), as
minho inverso. Stanislas von Prowazek, suces- inclusões eram microorganismos filtráveis que
sor de Schaudinn e G. Giemsa, inventor do mé- se desenvolviam intracelularmente e que eram
todo de coloração mais utilizado para a obser- envolvidos num manto formado por material
vação de hematozoários, foram contratados de reação celular. Inseguro, ainda, quanto à sua
por seis meses para dar cursos e publicar os re- classificação, considerava-os mais próximos
sultados de suas pesquisas, em primeira mão, dos protozoários do que das bactérias. (Hug-
nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, re- hes, 1977). Foi sob esta perspectiva que abor-
cém-inauguradas. Prowazek estudou com Ara- dou, com Henrique Aragão, a problemática da
gão a etiologia da varíola. Fizeram uma desco- varíola, durante a epidemia ocorrida no Rio de
berta que se revelaria falsa depois, mas que Janeiro em 1908.
causou um bocado de sensação na época (Ara- Em maio do ano seguinte, o Instituto Os-
gão & Prowazek, 1908, 1909). Teriam consegui- waldo Cruz recebeu, por seis meses também,
do observar o germe da doença, ainda invisível Max Hartmann, do Instituto de Moléstias In-
para os microbiologistas que admitiam, então, fecciosas de Berlim. Ele participou da sistema-
duas hipóteses: a de ser ele um protozoário ou tização dos aspectos parasitários e anatomopa-
um “vírus filtrável”. tológicos da Doença de Chagas. Giemsa esteve
O episódio merece uma explicação. Na dé- de novo em Manguinhos em 1912, estudando
cada de 1890, estruturas observadas no interior com Cardoso Fontes e Godoy os parasitos de
das células de indivíduos acometidos por certas peixes e plâncton recolhidos na baía de Guana-
doenças passaram a ser interpretadas como es- bara.33 Naquele ano, veio Hermann Duerck,
tágios no ciclo de vida de protozoários. Bem docente de anatomia patológica da Universida-
tarde se verificou que estes “corpos de inclusão de de Iena.
viral” são formados pela associação de um vírus Novos pesquisadores brasileiros ingressa-
com o material que a célula hospedeira produz ram no Instituto Oswaldo Cruz nesse mesmo
em reação à sua presença. Em 1893, Giuseppe período. Em 1909, Gaspar Viana substituiu Ro-
Guarnieri descreveu estas estruturas em células cha Lima na área de anatomia patológica. Além
encontradas nas lesões da varíola e da doença de descobrir o valor do tártaro emético no tra-
da vacina. Supôs que fossem estágios do ciclo tamento das leishmanioses, do granuloma ve-
do protozoário causador da doença, e o classi- néreo e da esquistossomose, investigou a evo-
ficou entre os esporozoários com os nomes de lução do tripanossoma cruzi nos tecidos do ho-
Cytoryctes variolae e Cytoryctes vaccinae. Tal in- mem e dos animais, a blastomicose e outras mi-
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coses, classificou como leishmaniose a úlcera ciedade agrária recém-saída da escravidão
de Bauru e as “úlceras bravas” do Amazonas. (Benchimol, 1989).
A tradição helmintológica foi retomada por A energia cinética daquela instituição que
José Gomes de Faria, que inventariou diversas se transformava elevou-se com os dois feitos
espécies novas de trematódeos, publicando, em quase simultâneos a que nos referimos. Em 22
1910, a descoberta do Ancylostoma braziliense. de abril de 1909, Oswaldo Cruz comunicou à
A principal aquisição foi Adolfo Lutz, que Academia Nacional de Medicina a descoberta
deixou o Instituto Bacteriológico de São Paulo da nova doença tropical; em 9 de julho, a su-
em 1908. Ele daria grande impulso à zoologia, posta descoberta do micróbio da varíola. Logo
botânica e micologia médicas, e publicaria tra- em seguida, Rocha Lima, o seu lugar-tenente,
balhos fundamentais sobre o ciclo de vida do viajou para a Alemanha para assumir o posto
Schistosoma manson. de assistente-chefe no Instituto de Patologia de
Os ventos sopravam a favor daqueles médi- Iena, a convite de Hermann Düerck. Oito me-
cos que haviam optado pelo laboratório em de- ses depois, ingressaria no famoso Tropeninsti-
trimento da clínica, socialmente mais valoriza- tut, o Instituto de Medicina Tropical de Ham-
da. Contudo, não foi nada tranqüilo o término burgo (Lacaz, 1966).
dos anos aventurosos em que a pequena e Antes de sua partida, já se discutia quem iria
aguerrida equipe de Oswaldo Cruz pusera todo sucedê-lo. Chagas era o mais talentoso para Os-
o seu entusiasmo na tarefa de erguer Mangui- waldo Cruz, e Aragão, para Rocha Lima. Por
nhos de seu precário casulo original. As exigên- força do prestígio deste e da dualidade de lide-
cias de uma instituição mais madura e compe- ranças que prevalecera até então, o novo chefe
titiva, e as próprias estratégias individuais de de serviço já era visto como provável sucessor
reconhecimento profissional corroeram rapi- de Oswaldo Cruz. Se vingasse a lógica burocrá-
damente os ideais e sentimentos que haviam tica de outras instituições públicas, o critério
compartilhado. O conflito estalou em 1910, seria a antiguidade. A decisão de colocá-la em
quando foi feito o concurso para preencher a segundo plano feriu um terceiro alinhamento
vaga desocupada por Rocha Lima. de interesses, que unia Cardoso Fontes, um dos
O enquadramento dos pesquisadores no mais antigos assistentes, a Figueiredo de Vas-
quadro funcional regulamentado em 1908 não concellos, o sucessor “natural” de Oswaldo
foi problemático. Rocha Lima e Figueiredo de Cruz por tempo de serviço e idade. Tanto para
Vasconcelos foram reconhecidos como chefes Rocha Lima como para Oswaldo Cruz, o crité-
de serviço, e as vagas de assistentes foram ocu- rio devia ser a competência. Mas como aferi-
padas por Cardoso Fontes, Godoy, Neiva, Cha- la? Para o primeiro, pela lógica que presidira o
gas, Aragão e Ezequiel Dias. Os pesquisadores crescimento de Manguinhos: o novo chefe de
absorvidos pela “verba da manqueira” foram, serviço devia ser o pesquisador mais polivalen-
oficiosamente, enquadrados nas mesmas cate- te, o mais dedicado às múltiplas atividades do
gorias. instituto. Oswaldo Cruz propôs um concurso,
Já existiam relações de hierarquia no Insti- hierarquizando as competências principalmen-
tuto, mas eram contrabalançadas pelo caráter te pela qualidade e quantidade de trabalhos pu-
informal e voluntário das funções desempe- blicados, o que Rocha Lima considerou “imo-
nhadas, pela divisão de trabalho igualitária, a ral e prejudicial”.34
ausência de especializações e a solidariedade As regras foram ditadas aos candidatos na-
face aos infortúnios e agruras materiais. Com turais, os seis assistentes de Manguinhos que,
as novas regras aprovadas em 1908 e a inaugu- por ordem de antiguidade, eram Ezequiel Dias
ração das modernas instalações, por volta de e Cardoso Fontes; Alcides Godoy; Henrique
1910, a hierarquia passou a ter caráter formal, Aragão e Carlos Chagas; por último Arthur
passou a se expressar em desníveis salariais, na Neiva. Junto com o diretor e o chefe de serviço
estratificação de atribuições, poderes e compe- remanescente, eles se avaliaram uns aos outros.
tências, no uso de laboratórios desigualmente A delegação ao próprio corpo técnico da res-
equipados e na rotinização de uma série de há- ponsabilidade de selecionar o novo chefe de
bitos que fariam surgir das entranhas da comu- serviço valorizava a autonomia do instituto,
nidade primitiva um novo microcosmo, onde que, por longo tempo, conseguiu se manter fo-
se combinavam, de maneira sui generis, o rigor ra do alcance do clientelismo do Estado brasi-
e o formalismo prussianos com a cordialidade leiro, sob uma dinastia endógena de dirigentes
e as relações de dependência típicas de uma so- vitalícios ou quase. Os três primeiros coloca-
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Benchimol, J. L.

dos – Carlos Chagas, Cardoso Fontes e Henri- campanha contra a febre amarela contratada
que Aragão – foram, nesta mesma ordem, os pelo governador do Pará. No princípio de 1911,
três diretores do Instituto após a morte de Os- foi contratado pela Light and Power para ins-
waldo Cruz.35 pecionar a usina que a empresa canadense
Em novembro de 1909, meses depois de construía em Ribeirão das Lajes, no Estado do
anunciar a descoberta de Chagas, ele deixou a Rio de Janeiro, e dar seu parecer sobre as acu-
direção da Saúde Pública numa conjuntura po- sações de que a “represa da morte” era respon-
lítica tumultuada pela morte de Afonso Pena, a sável pela grave epidemia de malária que gras-
interinidade do vice-presidente Nilo Peçanha e sava em localidades vizinhas.
a campanha presidencial polarizada entre o “ci- Em 1912, construiu em Manguinhos um
vilista” Rui Barbosa e o marechal Hermes da hospital onde se pudesse estudar os casos clíni-
Fonseca. Embora fosse um ídolo nacional, Os- cos mais interessantes recolhidos no interior do
waldo Cruz não tinha conseguido realizar ne- Brasil. A intenção de Oswaldo Cruz era enviar
nhuma das metas propostas para o seu segun- pesquisadores e “abarracamentos hospitalares
do mandato. A campanha contra a tuberculose móveis” a diversas regiões do país para mapear
esvaíra-se por falta de recursos e apoio políti- a distribuição geográfica da Doença de Chagas.
co; a regulamentação da lei da vacina obrigató- As circunstâncias favoreceram seu plano. As
ria continuava a ser protelada, apesar da epide- plantações de seringueiras organizadas pelos
mia de 1908, a mais grave das que já tinham ingleses no Ceilão, Malásia, Sumatra, Java e
ocorrido no Rio de Janeiro. As oligarquias esta- Bornéus estavam em vias de suplantar a indús-
duais, respaldadas na constituição federalista, tria extrativista da borracha brasileira. Em ja-
bloqueavam qualquer ação sanitária do gover- neiro de 1912, o Congresso, tardiamente, apro-
no central, não obstante a febre amarela gras- vou o Plano de Defesa da Borracha com o in-
sasse em muitas cidades do Norte e Nordeste do tuito de modernizar não apenas a extração, be-
Brasil, pondo em risco o que fora feito na capi- neficiamento e comercialização do produto co-
tal. Os próprios serviços federais comandados mo o processo de trabalho, através de medidas
por Oswaldo Cruz continuavam a ser prorro- que reduzissem “o coeficiente de mortalidade
gados pelo Congresso, ano a ano, sempre em absurdamente elevado” (Albuquerque et al.,
bases provisórias.36 1991).
À margem, então, do órgão federal de saú- De outubro de 1912 a março de 1913, Car-
de pública, os cientistas-sanitaristas de Man- los Chagas, Pacheco Leão, João Pedro de Albu-
guinhos executariam suas ações mais espetacu- querque e um fotógrafo percorreram grande
lares no interior do Brasil, financiadas por con- parte do arcabouço fluvial do extrativismo a-
tratos privados, inclusive com órgãos do gover- mazônico a bordo de um pequeno vapor equi-
no (Albuquerque et al., 1991). pado com o necessário para os estudos que
Em 1910, o próprio Oswaldo Cruz desin- tencionavam fazer. Nos seringais e povoados
cumbiu-se de duas missões. A primeira foi a que apareciam, a longos intervalos, na espessa
serviço de um ousado empreendimento na sel- muralha formada pela selva foram acolhidos
va amazônica, a Estrada de Ferro Madeira-Ma- com espanto pelos moradores que, quase sem-
moré, conhecida como “ferrovia do diabo”, pe- pre, viam pela primeira vez um médico do lito-
la fama que tinha de consumir a vida de um ral. Aí eles fizeram exames clínicos, registraram
operário para cada dormente assentado (Fer- a história das epidemias e as práticas curativas
reira, s.d.). Em maio, fora inaugurado o pri- locais; revolveram entranhas de insetos, peixes
meiro trecho, com 90 quilômetros, que exigi- e animais em busca de parasitos; armazenaram
ram a mobilização de 88.000 trabalhadores de plantas medicinais, inventariaram população,
outros países ou recrutados entre os nordesti- topografia e tudo quanto fosse necessário para
nos expulsos pela seca para a Amazônia. No re- aferir a salubridade da região (Cruz, 1913).
latório entregue à companhia, em setembro, Na mesma época, outras expedições do Ins-
Oswaldo Cruz (1910) enfatizou a gravidade do tituto Oswaldo Cruz percorriam o centro e o
beribéri e da pneumonia, direcionando, po- nordeste do Brasil. Entre setembro de 1911 e
rém, as propostas profiláticas para a malária, fevereiro de 1912, Astrogildo Machado e Antô-
que atacava de 80 a 90% do pessoal. Em outu- nio Martins visitaram os vales do São Francisco
bro de 1910, Oswaldo Cruz desembarcou em e Tocantins com as turmas da E. F. Central do
Belém com médicos que haviam liderado suas Brasil, que estudavam o traçado de uma linha
brigadas de mata-mosquitos para executar a ligando Minas Gerais ao Pará. Três outras equi-
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pes atuaram a serviço da Inspetoria de Obras “valorização do homem e da terra”, e sob a lide-
contra as Secas, um órgão do governo criado rança de Carlos Chagas, o sucessor de Oswaldo
em 1909 para implementar ambicioso progra- Cruz na direção do Instituto de 1918 até sua
ma de estudos que orientasse a reconstituição morte, em 1934, e Belisário Pena, que se desta-
de florestas, a abertura de estradas e ferrovias, a caria como incansável publicista à frente da Li-
perfuração de poços e construção de açudes na ga Pró-Saneamento (Lima & Britto, 1996; Li-
região árida do Nordeste. ma, 1999; Britto, 1995).
A expedição de Adolfo Lutz e Astrogildo
Machado visitou, entre abril e junho de 1912, o
vale do rio São Francisco (Lutz & Machado, Conclusão
1915). A de João Pedro de Albuquerque e Go-
mes de Faria atravessou, de março a julho, os De acordo com Salomon-Bayet (1986), a revo-
Estados do Ceará e Piauí. De março a outubro lução pasteuriana exauriu-se nesses anos. Du-
de 1912, Artur Neiva e Belisário Pena percorre- rante a Primeira Guerra Mundial, realizou o
ram a cavalo ou em lombo de mula sete mil feito de minimizar a devastação das doenças
quilômetros pelos Estados da Bahia, Pernam- infecciosas, deixando os exércitos entregues só
buco, Piauí e Goiás (Penna & Neiva, 1916). ao morticínio das armas, mas foi desarmada
A débâcle da borracha amazônica foi irre- pela pandemia da gripe espanhola, que ceifou
versível, e a velha República dos coronéis não pelo menos 21 milhões de vidas, impunemen-
quis enfrentar a secular tragédia das secas nor- te, em 1989 (Crosby, 1989; Brito, 1997). O sal-
destinas. Nesse sentido, as comissões médico- do trágico de óbitos no Brasil pôs a nu a inca-
sanitárias foram improfícuas. Mas se mostra- pacidade dos médicos de lidarem com aquela
ram importantes sob outros aspectos. Aos la- espécie de inimigo ainda invisível aos micro-
boratórios do Instituto Oswaldo Cruz propor- biologistas e explicitou a precariedade dos ser-
cionaram um conjunto valiosíssimo de obser- viços sanitários e hospitalares, agravando a in-
vações e materiais concernentes às patologias satisfação contra as oligarquias que tratavam
brasileiras. Esses insumos alimentariam estu- com tanto descaso a saúde coletiva.
dos aplicados à medicina e saúde pública, e O resultado mais imediato da crise foi a
criariam, também, condições para a autonomi- criação do Departamento Nacional de Saúde
zação de dinâmicas de pesquisa básica em sin- Pública, em 1920-1922. Seu raio de ação, pela
tonia com especialidades que começavam a se primeira vez, foi além das campanhas contra
definir mais claramente no âmbito da zoologia epidemias em algumas poucas cidades litorâ-
e botânica médicas. Os relatórios escritos pelos neas. Iniciaram-se ações mais prolongadas, de
cientistas, ricos em observações sociológicas e caráter curativo e preventivo, contra doenças
antropológicas, e a extraordinária documenta- endêmicas nas zonas rurais e suburbanas (Hoch-
ção fotográfica que produziram constituem o man, 1998; Castro Santos, 1987). As insurrei-
primeiro inventário moderno sobre as condi- ções tenentistas, os movimentos pela reforma
ções de saúde e vida das populações rurais do de outras esferas da vida social, as cisões intra-
Brasil. Ele teve grande repercussão junto aos oligárquicas desaguaram na Revolução de 1930
intelectuais e às elites das cidades litorâneas, e na criação de um Ministério da Educação e
municiando os debates acerca da questão na- Saúde Pública, que iria, finalmente, transfor-
cional, que começava a ser redimensionada nos mar a saúde em objeto de políticas de alcance
termos da visão dualista, de longa persistência nacional, com a ajuda da Fundação Rockefel-
no pensamento social brasileiro. A exaltação ler, poderoso enclave, com atribuições e prer-
ufanista da “civilização” do Brasil, insuflada rogativas que rivalizavam com as do próprio
após a remodelação urbana do Rio de Janeiro, Estado no tocante à saúde pública.
desmoronou com as corrosivas revelações so- Muito do que havia parecido sólido come-
bre aquele “outro” Brasil, miserável e doente. çaria então a se desmanchar para dar lugar a
Quando Oswaldo Cruz faleceu, em 11 de dinâmicas que os historiadores ainda conhe-
fevereiro de 1917, Manguinhos era uma insti- cem mal.
tuição consolidada dentro e fora do país. Era As habilidades que haviam formado o per-
também o centro de gravidade de uma comba- fil multivalente dos cientistas de Manguinhos
tiva geração de sanitaristas que iria protagoni- transformaram-se em esferas profissionais au-
zar vigoroso movimento pela modernização tônomas. As novas oportunidades econômicas
dos serviços sanitários do país, sob o lema da que se abriam à ciência de laboratório coloca-
284
Benchimol, J. L.

ram-nos face ao dilema de se dedicarem exclu- as grandes empresas, as associações de classe e


sivamente à pesquisa em instituição pública ou outros componentes da sociedade civil colabo-
a atividades mais rendosas em laboratórios pri- raram ativamente no esforço de mobilizar a
vados. A crescente radicalização dos movimen- população contra os alvos que a saúde pública
tos políticos e ideológicos no país interferiria desejava atingir.
nas relações internas à instituição, que sofreria A capital brasileira tinha se modificado.
duro golpe com supressão de sua autonomia Oswaldo Cruz combatera a febre amarela no
administrativa e financeira pelo ministro Gus- miolo do Rio de Janeiro, que abrigava, então,
tavo Capanema, no Estado Novo. cerca de 800 mil habitantes. Em 1928-1929, a
A febre amarela, o fio condutor da narrativa cidade, remaquilada pelos sucessores de Perei-
que nos trouxe até aqui, é ainda a pedra de to- ra Passos, possuía mais de um milhão e meio
que que usaremos para avaliar a transitoriedade de habitantes, grande parte dos quais habitava
do que parecia aquisição sólida e definitiva. os subúrbios que constituíram o teatro dos
Como vimos, a transmissão “exclusiva” da principais entreveros com a febre amarela. En-
doença pelo Stegomyia fasciata (depois chama- tre as duas conjunturas, as relações entre urba-
do de Aedes aegypti) foi o divisor de águas en- no e rural, centro e periferia tinham sofrido
tre a era dos que se tinham desencaminhado na disjunções fundamentais que afetavam toda a
busca do micróbio e a era de Oswaldo Cruz, problemática da saúde pública no país.
que se converteu no mito da ciência brasileira Para os médicos da virada do século, a fe-
em larga medida graças ao experimento bem- bre amarela era um mal associado aos navios,
sucedido que conduziu na cidade do Rio de Ja- aos imigrantes europeus, às cidades portuárias,
neiro para provar a validade da teoria de Fin- às baixadas litorâneas, quentes e úmidas, que
lay. O saneamento e embelezamento da “cabe- formavam o habitat dos miasmas, depois dos
ça urbana” do país consolidaram o regime oli- fungos, algas e bacilos, por último do Aedes ae-
gárquico, alavancaram a modernização conser- gipty. Em 1928-1929, o “lugar” da doença se
vadora desejada pelos grupos do Sudeste liga- deslocou para a periferia suburbana, para os
dos à economia cafeeira e formaram o lastro migrantes nativos e as pobres povoações inte-
das representações ideológicas com que eles rioranas de onde provinham. A geografia e epi-
sustentaram sua hegemonia frente a outras fra- demiologia da febre amarela expressava, agora,
ções das classes dominantes e às classes subal- um novo padrão de acumulação de capital, no-
ternas. vas relações entre cidade e campo.
O regresso da febre amarela ao Rio de Ja- As certezas sustentadas de forma inflexível
neiro, em 1928-1929, foi encarada como um por Oswaldo no Congresso Médico de 1903
dos derradeiros sintomas da incompetência das desabaram no vale do Canaã, no interior do
oligarquias para gerir os destinos da nação. No Espírito Santo, em dezembro de 1930, quando
começo do século, Oswaldo Cruz contara com os sanitaristas da Rockefeller confirmaram a
as condições políticas e jurídicas necessárias suspeita de que a febre amarela possuía um ou
para implementar um modelo profilático dra- mais vetores indeterminados e tinha conexão
coniano. Não obstante procurasse angariar o com o trabalho dos homens que se infectavam
consenso dos médicos e da população, as cam- nas matas. A partir de 1931, o Serviço de Febre
panhas contra a febre amarela, varíola e bubô- Amarela instalou postos de viscerotomia em
nica foram executada na marra, com os instru- todo o país e iniciou estudos sobre a distribui-
mentos de coação que o regime lhe proporcio- ção da imunidade à febre amarela por meio da
nara. Os conflitos suscitados pelo saneamento “prova de proteção” (Franco, 1969). As necróp-
e reforma urbana foram subjugados e estigma- sias parciais feitas nos “caipiras” e as provas de
tizados como manifestações de atraso colonial imunidade efetuadas por técnicos em laborató-
e incultura científica. Na epidemia de 1928- rios citadinos foram as bússolas do grande in-
1929, Clementino Fraga, diretor do Departa- quérito que se prolongou até 1935. O novo ma-
mento Nacional de Saúde Pública, reativou pa epidemiológico que emergiu desse inquéri-
parte daqueles dispositivos de origem militar to inverteu os termos da equação sustentada
que formavam o travejamento das campanhas por Oswaldo Cruz: a febre amarela silvestre era
sanitárias, mas sem dispor mais das condições a modalidade comum da doença, e a urbana,
políticas e ideológicas que favoreceram seu uso. apenas uma manifestação anormal, que tende-
Uma primeira avaliação das notícias publica- ria a se extinguir quando se exaurisse a massa
das na imprensa mostra que, pela primeira vez, de indivíduos não imunes.
285

Ciência & Saúde Coletiva, 5(2):265-292, 2000


Esta, porém, já é outra história que foge ao
escopo do presente artigo, uma história absolu-
tamente atual que segue se desenrolando nas
páginas dos jornais e no cotidiano de todos nós.

Notas
1 Coni (1952) identifica três fases na evolução da medici- aspectos histórico e geográfico, morfológico e biológico,
na brasileira, personificadas por Piso, médico holandês, clínico e patogênico, terapêutico e profilático. A doença
da Corte de Nassau; Wucherer, fundador da Escola Tro- ganhara relevância maior para os europeus ao provocar a
picalista Baiana, e Oswaldo Cruz. Quadros similares fo- morte de dezenas de operários na perfuração do túnel de
ram propostos por Santos Filho (1991), Nava (1947) e São Gotardo, entre a fronteira italiana e os Alpes suíços
Bacellar (1963). (1880-1882). Lutz mostrou que o parasito encontrado no
Brasil diferia do europeu. Posteriormente ele foi descrito
2 O único com formação consistente em parasitologia por C. Wardell Stiles como espécie à parte (Necator ame-
helmíntica, Wucherer estudou também a febre amarela, a ricanus). A esse respeito ver Foster (1965); Comissão do
tuberculose, o cólera e o ofidismo. Contrapondo-se à Centenário de Adolfo Lutz (1956), Neiva (1941). Este tra-
crença de médicos brasileiros e europeus de que a tuber- balho traz em apêndice bibliografia organizada por Her-
culose não descia abaixo do Equador, sustentou a tese de man Lent em 1935. Ver ainda Deane (1955).
que a doença estava se tornando um flagelo tropical. O
beribéri foi estudado por Silva Lima e Pacífico Pereira 7 Segundo Edler, o trabalho de Lewis, publicado no Lan-
(1846-1922). Este último chegou a aventar uma etiologia cet em 1873, foi imediatamente resumido pela Revista
microbiana, mas João Batista de Lacerda, do Rio de Ja- Médica (1873). Em visita ao hospital de Nettley, na Ingla-
neiro, anunciaria antes a descoberta do suposto bacilo do terra, Silva Lima confirmou a identidade das fïlárias en-
beribéri (1883). Peard (1992). viadas por Lewis com aquelas descritas por Wucherer.

3 O mesmo ponto de vista orienta os trabalhos de Ferrei- 8 Edler relaciona os trabalhos publicados pelos médicos
ra (1999, 1996). As ambivalências do processo de cons- da Bahia e do Rio de Janeiro em periódicos locais e nos
trução da identidade nacional foram exemplarmente Archives de Medicine Navale, confirmando ou completan-
analisados por Süssekind (1990) e Ventura (1991). do as descobertas de Wucherer e dos médicos ingleses,
franceses e alemães. Mostra que dos 35 artigos sobre pa-
4 Sobre este médico formado em Paris (1802-1878), se- togenia e terapêutica verminótica publicados entre 1873
guidor entusiasta de Broussais, ver Edler (op. cit.) e Fer- e I890, em quatro periódicos médicos (Revista Médica,
nandes (1982). Progresso Médico, Gazeta Médica Brazileira e União Médi-
ca), nove referiam-se à hipoemia e 26 à hemato-chyluria
5 Seu mérito foi, assim, o de ter feito a primeira confir- ou elefantíase dos árabes; quatro outros tratavam de ti-
mação dos estudos de Griesinger, sem excluir a climato- pos diferentes de helmintíase (Edler, 1999).
logia médica. Edler mostra que, ao elaborar o diagnósti-
co do escravo hipoêmico, descartou outro tipo de ane- 9 As trajetórias de Freire, João Batista de Lacerda e outros
mia, a cachexia palustre, baseando-se no fato de ele não bacteriologistas atuantes no último quarto do século XIX
residir em lugar sujeito a miasmas. Ao estabelecer a etio- são analisadas, em detalhe, em Benchimol (1999). Ver-
logia verminótica da hipoemia, Wucherer também se ba- sões mais resumidas encontram-se em Benchimol (1996,
seou no fato de muitos curandeiros africanos tratarem- 1995). Sobre a reforma do ensino médico, ver Edler,
na com leite da gameleira, vegetal classificado como an- (1996, 1992) e Santos Filho (1991).
thelmíntico por von Martius em Systema Materiae Medi-
cae Vegetabilis Brasiliensis. Wucherer explicou o modo de 10 Excetuando-se a vacina anti-variólica, não havia ainda
infecção (ingestão dos ovos dos vermes com alimentos outro profilático dessa natureza para doenças humanas.
sólidos ou água) por analogia com outros casos descritos O médico espanhol Jaime Ferrán desenvolveria vacina
por Davaine em Traité des entozoaires (1860). Ver Edler igualmente controvertida contra o cólera em 1883-1885
(1999) e Farley (1991). (Bornside, 1991). As realizações de Pasteur nessa área res-
tringiam-se ainda às vacinas contra o cólera das galinhas
6 Os seus estudos foram publicados com o título “Ueber (1880) e o antraz ou carbúnculo hemático (1881). Seu in-
Ankylostoma duodenale und Ankylostomiasis”, na cole- gresso nas patologias humanas, com a vacina anti-rábica,
ção de lições de clínica médica de Volkman, editada em envolveria complexas injunções sociotécnicas superadas
Leipzig (1885). Os artigos foram depois publicados no 1o só em 1886, como mostram, entre outros, Debré (1995);
e 2o volumes de O Brazil médico e na Gazeta Médica da Salomon-Bayet (1986); Dagognet (1967) e Delaunay
Bahia (1887, 1888). Foram reunidos em A opilação ou (s.d.). A técnica usada na produção da vacina anticarbun-
hypoemia intertropical e sua origem, ou Ankylostoma duo- culosa e o “teatro da prova” montado por Pasteur em
denale e Ankylostomiase (Rio de Janeiro, Typ. Machado, Poully-le-Fort para demonstrar sua eficácia exerceram
1888). O helminto e a doença eram examinados sob os forte influência sobre Freire e outros convertidos ao pas-
286
Benchimol, J. L.

teurianismo e à conseqüente busca de vacinas. Ver a esse sem deixar de publicar em revistas alemãs artigos sobre
respeito Latour (apud Salomon-Bayet, 1986). parasitos do homem e de animais e sobre a ancilostomía-
se, a hepatite amebiana e a lepra. Trabalhou com o der-
11 A comunicação intitulava-se “Pathologie expérimen- matologista Paul Gerson Unna, em Hamburgo e, por in-
tale – Le microbe de la fièvre jaune. Inoculation préventi- dicação deste, dirigiu o leprosário da ilha Molucai, no
ve. Note de MM. D. Freire et Rebourgeon, présenté para Havaí, de novembro de 1889 a julho de 1892. Lá se casou
M. Bouley”. Comptes Rendus des Séances de l’Academie des com a enfermeira inglesa, Amy Fowler, e iniciou os estu-
Sciences, t. XCIX, séance du Lundi 10/11/1884, no 19, p. dos sobre moluscos que mais tarde seriam de grande pro-
806. A tentativa feita por Pasteur em 1881 para identificar veito para as suas pesquisas sobre a esquistossomose man-
o micróbio da febre amarela foi malsucedida, como mos- sônica. De início, foi sub-diretor do Instituto Bacterioló-
tra Vallery-Radot (1951). Igualmente frustrados foram os gico fundado em São Paulo, em julho de 1892, mas em
esforços feitos por d. Pedro II para convencê-lo a vir ao março de 1893 assumiu a direção abandonada por Felix
Brasil para decifrar aqui, conclusivamente, a etiologia e le Dantec, que regressou à França com os materiais que
prevenção da doença. A questão é analisada em Benchi- recolhera para estudar a febre amarela. Ver a esse respeito
mol (1999). Parte da correspondência entre Pasteur e d. Corrêa (1992), Silva (1992,) e Lacaz (1966).
Pedro II acha-se em Vallery-Radot (1930). As cartas aí re-
produzidas e outras encontram-se no Museu Imperial, 16 Em 1880, na Argélia, Charles Louis Alphonse Laveran
Setor de Documentação e Referência, Arquivo da Casa descobriu nos glóbulos sangüíneos de doentes o hemato-
Imperial (Petrópolis). Sobre as relações de d. Pedro II e zoário que causava a malária (Plasmodium). Apesar de a
Pasteur, ver também Franco (1969); sobre a história da disenteria e a surra (doença animal) terem sido relacio-
vacina anti-variólica no Brasil, Fernandes (1999). nadas também a protozoários, não havia provas conclu-
sivas de que esses animais unicelulares causassem doença
12 As comunicações apresentadas em Paris foram: “Thé- humana importante. A demonstração de uma etiologia
rapeutique. Résultats obtenus par l’inoculation préventi- dessa natureza era dificultada pela complexidade dos ci-
ve du virus atténué de la fièvre jaune, à Rio de Janeiro. clos de vida dos animais deste sub-reino, a ausência de
(En collaboration avec mm. Gibier et C. Rebourgeon)”, um sistema de classificação preciso e a dificuldade de se
Comptes Rendus des Séances de l’Academie des Sciences, obterem meios artificiais para seu cultivo. Nos anos se-
avr. 1887, t. 104, pp. 1.020-1.022; e “Médecine expérimen- guintes, Camillo Golgi e outros investigadores elucida-
tale. Du microbe de la fièvre jaune et de son atténuation”. ram o ciclo de reprodução vegetativa das células; sua
Deuxième note de mm. Domingos Freire, Paul Gibier, multiplicação no sangue por esporulação e a relação dis-
Claude Rebourgeon”, Comptes Rendus Hebdomanaires des so com o aparecimento da febre; a presença de três varie-
Séances de l’Academie des Sciences, 21.3.1887, t. 104, pp. dades do parasito no organismo humano, responsáveis
858-860; “Conférence sur la fièvre jaune, prononcée de- pelas febres quartã, terçã e irregular ou perniciosa. O tra-
vant la Société de Thérapeutique Dosimétrique de Paris”, balho que Freire publicou em 1892 intitulava-se Sur l’ori-
Repertoire Universel de Médicine Dosimétrique. Paris, mai. gine bactérienne de fièvre bilieuse des pays chauds (1892).
1887. A comunicação lida em 7 de setembro, na 15a seção O primeiro trabalho de Fajardo sobre malária, em frontal
do Congresso de Washington (Public and International desacordo com Freire, chamava-se “O micróbio da malá-
Hygiene), intitulava-se “Vaccination avec la culture atté- ria” (1892-1893). A controvérsia está documentada em
nuée du microbe de la fièvre jaune”. Foi resumida em Me- Benchimol (1999). Sobre as pesquisas e controvérsias in-
dical News (17.9.1887, v. 51, pp. 330-334), no Jornal do ternacionais relacionadas à malária ver Busvine (1993) e
Commercio, O Paiz e Gazeta de Noticias (22-23.8.1899) e Harrison (1978).
Brazil-Medico (no 33, 1.9.1899, p. 319). Freire escreveu
mais de uma centena de trabalhos sobre química, medici- 17 Foram sondados também o engenheiro sanitário in-
na e saúde pública, sob forma de relatórios, compêndios, glês Edmund Alexander Parkes; Émille Duclaux, sucessor
livros, monografias e comunicações. Boa parte dessa pro- de Pasteur; Rubner, diretor do Instituto de Higiene de
dução está relacionada em Benchimol (1999). Berlim e Friedrich Löffler, descobridor do bacilo da dif-
teria. Segundo a boden theorie (teoria do solo) de Petten-
13 United States Marine Hospital Service. Report on the koffer, para que ocorresse uma epidemia eram necessá-
Etiology and Prevention of Yellow Fever by George M. rios quatro fatores: além do germe específico, determina-
Sternberg, Lieut. Colonel and Surgeon, U. S. Army. (Was- das condições relativas ao lugar, ao tempo e aos indiví-
hington, Government Printing Office, 1890). Publicado a duos. Por si só, o germe não causava a doença, o que ex-
pedido da Secretaria do Tesouro, de acordo com o Ato do cluía o contágio direto. A suscetibilidade individual era
Congresso aprovado no dia 3 de março de 1887. importante, mas ela e o germe, sozinhos, tampouco en-
gendravam a doença. As condições de tempo e lugar
14 Lacerda relata parte de sua trajetória na instituição eram indispensáveis para explicar tanto os acometimen-
nos Fastos do Museu Nacional (1905). A melhor fonte tos como as imunidades, i.e., o fato de certos períodos e
bio-bibliográfica ainda é a coletânea publicada pelo Mu- lugares permanecerem refratários à doença. As variáveis
seu Nacional em 1951. Ela omite, no entanto, os traba- sazonais e locais agiam sobre o germe, que amadurecia e
lhos sobre a febre amarela e outras frentes da bacteriolo- se transformava em matéria infectante. O cadinho da
gia, que são analisados em Benchimol (1999). transformação, análoga à que convertia a semente em
planta, era o solo. Para os partidários de Pettenkoffer no
15 Nascido no Rio de Janeiro, em 1855, de pais suíços, Rio de Janeiro, a equação correta da insalubridade urba-
Lutz diplomou-se em medicina em Berna, em 1879, de- na era “pântano abafado” + matéria orgânica em putrefa-
pois freqüentou importantes laboratórios na França, Ale- ção + oscilações do lençol d’água subterrâneo = epide-
manha e Inglaterra onde conheceu Lister e Pasteur. De mias. Sobre esse assunto ver Benchimol (1999) e Hume
1882 a 1886 exerceu a clínica no interior de São Paulo, (1925).
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Ciência & Saúde Coletiva, 5(2):265-292, 2000


18 A conferência foi publicada em O Paiz (10.6.1897) e 21 Myers faleceu em Belém, em 29/1/1901, vítima da
condensada em O Brazil-Médico (22.6.1897). Sanarelli doença que fora estudar. Outro investigador de Liverpool
submeteu duas comunicações aos Annales de L’Institut encerrou a carreira ali. Harold Howard Shearme Wolfers-
Pasteur (1897). Foram publicadas também nos Annaes tan Thomas morreu em Manaus, em 8/5/1931, depois de
da Academia de Medicina do Rio de Janeiro (1897). As ex- passar vinte anos no “The Yellow Fever Research Labora-
periências com o soro foram relatadas em conferência tory”. Antes disso, estudara tripanossomíases na África,
na Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em verificando, em 1904, o valor terapêutico do atoxyl, pri-
8/3/1898. Seguindo os seus passos, Wolf Havelburg apre- meira substância capaz de inibir a ação dessa espécie de
sentou seus resultados ao Instituto Pasteur e em confe- protozoário em animais. Em abril de 1905, junto com o
rência no Rio de Janeiro. Os resultados de outros con- Anton Breinl, iniciou a 15a expedição ultramarina da Es-
correntes, como Chapot-Prévost, Johannes Paulser e João cola de Liverpool. Ao chegarem à Amazônia contraíram a
Batista de Lacerda, e as controvérsias suscitadas por estes febre amarela. Breinl regressou à Inglaterra; Thomas ali
trabalhos acham-se em Benchimol (1999). Neste am- permaneceu até 1909. Reabriu o laboratório em 1910 e só
biente competitivo, o alinhamento mais conspícuo opu- saiu de lá mais uma vez, para obter fundos de pesquisa e
nha Sanarelli e Freire, que também proferiu concorrida contratar três assistentes que trabalharam com ele entre
conferência na Faculdade de Medicina para contestar o 1920 e 1923: Miller (1998), Smith (1993) e Benchimol
italiano. (1999).

19 Em maio de 1897, às vésperas da conferência de Sana- 22 Apesar de haver demonstrado que o soro filtrado de
relli, o deputado Serzedelo Corrêa, da bancada paraense, um doente podia contaminar um voluntário saudável,
propôs à Câmara a instituição do “Prêmio Pasteur”, a ser pelos critérios estabelecidos por Loeffler e Frosch, só a
concedido a quem apresentasse parecer favorável e unâni- transmissão em série provaria que o agente etiológico era
me da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, do Insti- um vírus ultramicroscópico. A transmissão isolada não
tuto Koch de Berlim e do Instituto Pasteur de Paris. (Con- excluía a possibilidade de que a doença fosse induzida pe-
gresso Nacional, Annaes da Câmara dos Deputados, 1897, lo veneno secretado por uma bactéria (Löwy, 1990,
vol. 1, pp. 354-357). Em junho, o deputado Alcindo Gua- 1991). A etiologia viral só foi estabelecida em 1927, por
nabara apresentou projeto alternativo: o governo nomea- três investigadores da Fundação Rockefeller, Adrian Stoc-
ria uma comissão com profissionais de reconhecida com- kes, Johannes A. Bauer e N. Paul Hudson, que consegui-
petência para estudar a vacina de Freire. Se verificasse que ram infectar macacos Rhesus (gênero Macaca), na África
era eficaz, ele receberia o prêmio. Se concluísse que não ocidental francesa. Sobre as transformações sofridas pelo
era inteiramente satisfatória, mas estava em vias de sê-lo, conceito de “vírus”, ver Hughes (1977).
o executivo lhe forneceria o que necessitasse para com-
pletar a instalação de seu Instituto Bacteriológico, e lhe 23 Participaram 192 médicos, dos quais 149 eram da ca-
pagaria até trinta e seis contos anualmente, a título de pital (77,20%), 13 de São Paulo (6,74%) e 6 da Bahia
subvenção, durante cinco anos. Na última hipótese, a va- (3,11%) e 12,95%, de outros estados. Os itens que enca-
cinação pública seria suspensa até que novo exame a beçavam a agenda do Congresso diziam respeito à febre
aprovasse. (Congresso Nacional. Annaes da Câmara dos amarela. Os outros eram: formas clínicas mais freqüentes
Deputados, 1897, vol. 1, pp. 400-401). A esse respeito ver de paludismo no Rio; profilaxia da malária; concomitân-
Benchimol (1999). cia da caquexia palustre e ancilostomíase; das manifesta-
ções mais freqüentes da filariose no Rio; patogenia da di-
20 A transmissão da filária pelo Culex, do hematozoário senteria; tratamento e profilaxia do beribéri; permanên-
da febre do Texas por carrapatos e do protozoário da na- cia da peste no Rio; causas das nefrites nesta cidade; com-
gana, outra doença de bovinos e equinos, pela mosca tsé- paração da tuberculose no Brasil e em outros países; le-
tsé fora divulgada no Brasil antes da descoberta de Ross e gislação sobre exercício da medicina e da farmácia no
Grassi, em 1897. Em 1898, podia-se ler nos jornais que os Brasil; codificação das leis sanitárias no Brasil.
insetos disseminavam os micróbios do carbúnculo, da of-
talmia do Egito, do botão de Biskara, do piã (bouba) e do 24 Os cientistas do Instituto Pasteur produziram quatro
mormo. Yersin teria verificado que moscas mortas carre- relatórios que foram publicados nos Annales de L’Institut
gavam o bacilo da peste e podiam, portanto, infectar as Pasteur (1903, 1906). Foram publicados em O Brazil-Me-
águas de beber. E Joly confirmara que depositavam os ba- dico (1903) e na Revista Medica de S. Paulo (1904, 1906).
cilos da tuberculose nos alimentos e bebidas, carregan- Escreveram também sobre a espirilose das galinhas
do-os consigo mesmo depois de mortas e dessecadas, (1903) e febre amarela e malária em Vera Cruz (1906).
idéia já sustentada por Utinguassú e Araújo Goes, na
Academia de Medicina, em outubro de 1885. Ver a esse 25 A epizootia fora estudada por João Batista de Lacerda,
respeito, Benchimol (1999). Na conferência de Montevi- que chegou a preparar e distribuir uma vacina contra a
déu, Sanarelli (1897) formulou a hipótese de que existiria doença no Museu Nacional. Depois da vacina contra o
um mofo com poder “específico” de estimular o desen- carbúnculo sintomático, outros produtos veterinários fo-
volvimento das colônias do bacilo icteróide nas regiões ram desenvolvidos em Manguinhos: as vacinas contra o
onde a febre amarela era endêmica. Lacerda (1900) apre- carbúnculo verdadeiro e a diarréia dos bezerros ou pneu-
sentou então o aspergillus icteroide: seus esporos seriam moenterite e o Protosan, empregado contra o “mal das
as “muletas” com que o bacilo deixava as atmosferas con- cadeiras”, uma doença de cavalos. Entre 1907 e 1918, a
finadas para proliferar à distância. Ao mecanismo de pro- pauta industrial evoluiu de 11 para 26 produtos. Ezequiel
pagação acrescentou em seguida as moscas, por haver en- Dias (Dias, 1918) calculava em 3.932:031$701 o valor em
contrado suas dejeções misturadas às colônias de bolor e moeda corrente de toda a produção até 1918. A maior
bacilos (Benchimol, 1999). parte dos soros e vacinas era fornecida gratuitamente a
hospitais e serviços sanitários. Além das vantagens eco-
288
Benchimol, J. L.

nômicas para o Estado, Dias ressaltava a vitória “moral” 31 As intervenções no meio ambiente contra os vetores
que significara a completa substituição da importação de alados da malária já incluíam o emprego de peixes para
imunoterápicos (Benchimol, 1990). destruir as larvas do anófele. Esse artifício seria depois
utilizado pela Fundação Rockefeller para destruir as do
26 Um detalhe que ilustra o desejo de Oswaldo Cruz de Aedes aegypti, o transmissor da febre amarela (Chagas Fi-
distanciar-se da “tradição” bacteriológica inaugurada pe- lho, 1993).
la geração anterior encontra-se no depoimento de Eze-
quiel Dias sobre a entrevista que precedeu a sua admis- 32 Encontram-se as referências mais importantes sobre a
são no Instituto. A pergunta decisiva teria sido: “O Se- descoberta de Chagas, o relato de sua trajetória científica
nhor conhece alguma coisa de bacteriologia?” Ao contrá- e sua produção científica na magnífica biblioteca virtual
rio do que imaginava o assustado acadêmico, seu “não” residente em http://www.prossiga.br/chagas/. O Prêmio
lhe abriu as portas do emprego. Mais tarde, escutou de Schaudinn, destinado ao autor da mais importante des-
Oswaldo Cruz a explicação: “porque se você soubesse al- coberta na área em que atuava o descobridor Treponema
guma coisa da matéria, devia ser muito pouco, só servin- pallidum, morto prematuramente em 1906, era conferido
do para lhe dar presunção, e, portanto, dificultar o seu por um júri em que predominavam cientistas da França,
aprendizado. E eu prefiro certos ignorantes.” (Dias, Alemanha, Inglaterra e Itália: Blanchard, Laveran, Metch-
1918). nikoff, Roux, Celli, Golgi e Grassi, Koch, Ehrlich, Von
Hertwig e Boetschli; Patrick Manson, Nutall, Ray Lankas-
27 Em carta ao biógrafo Salles Guerra (1940), Oswaldo ter, Ronald Ross. Vinham em seguida o Japão (Kitasato e
Cruz escreveu: o Rocha Lima, com as excelentes relações Ishikawa); Áustria (A. von Heider e Paultauf ); Rússia
que tem aqui, obteve-nos os melhores lugares e fez uma pro- (Shewiakoff e Wladimoroff) e Estados Unidos (G. Novy
paganda lenta pela palavra e, sobretudo, com o exemplo de e E. B. Wilson). Portugal era representado pelo alemão
trabalho... Nosso material era, graças ao trabalho de Vas- Kopke, organizador da Escola de Medicina Tropical de
concellos, da melhor qualidade.... Colocamo-nos, o Rocha Lisboa, e o Brasil, por Oswaldo Cruz, graças aos trabalhos
Lima e eu, ao lado da Exposição e, como cicerones interes- expostos em Berlim, em 1907.
sados informávamos aos visitantes de tudo... O Instituto foi
se levantando a olhos vistos... O Rubner, presidente do Júri, 33 O conjunto arquitetônico original de Manguinhos in-
tinha sido professor do Rocha Lima e... influiu com sua au- cluía um aquário, com piscinas para cultura de animais
toridade sobre os demais juízes.... Assim foi ganha a bata- de água doce e salgada, esta em comunicação direta com o
lha... E eu, em tudo isso, representei papel de “medalhão”, mar. Foi uma construção precursora em seu gênero, pre-
colhendo os frutos sazonados e saborosos da sementeira fei- cedida apenas pelo aquário de água salgada, o primeiro
ta por aqueles cujos nomes foram esquecidos. da América do Sul, instalado por Pereira Passos no Pas-
seio Público, em 1904, e demolido em 1938. O de Man-
28 A decisão de regressar ao Brasil incógnito forneceu a guinhos, veio abaixo em 1945, por ocasião da abertura da
chave para compor a imagem ideal do “sábio”: diferente- avenida Brasil, que interrompeu sua ligação com o mar.
mente de Freire, exibido e vaidoso, este era retraído, aves- Entre 1913 e 1918, Aristides Marques da Cunha e Olym-
so a manifestações públicas. Além de cumprir as missões pio da Fonseca Filho publicaram os primeiros estudos
de que o encarregou o ministro das Relações Exteriores, sistemáticos sobre o plâncton da costa Atlântica, efetua-
Oswaldo Cruz visitou o Instituto Pasteur e o Instituto de dos na Estação Biológica da Marinha, na Praia Vermelha.
Pesquisas Médicas fundado por Rockefeller em Nova Em 1916, quando ela foi desativada, parte de seu acervo e
York. Entrevistou-se com Theodore Roosevelt, dando-lhe pessoal foi transferida para a Ilha do Pinheiro, no Institu-
garantias de que a esquadra norte-americana, em mano- to Oswaldo Cruz, possibilitando a continuação deste pro-
bras de guerra, poderia desembarcar seus tripulantes no grama de pesquisas que hoje é revalorizado pelos estudio-
Rio de Janeiro, sem temer a febre amarela. Participou, em sos da ecologia (Benchimol, 1990; Fonseca Filho, 1974).
seguida, da Convenção Sanitária realizada no México, em
dezembro de 1907, na qual os governos da América Cen- 34 Carta de Rocha Lima a Neiva, Moses e Farias (c. 1910).
tral subscreveram, como queria a Casa Branca, o com- Arquivo Arthur Neiva. Correspondências. Fundação Getú-
promisso de criarem legislações e serviços para erradicar lio Vargas/CPDOC. Sobre o concurso e seus desdobramen-
a febre amarela de seus territórios. tos, ver Benchimol & Teixeira (1993); Chagas Filho (1993).

29 Em agosto de 1914, Neiva viajou para o Rio Grande 35 A seleção levou em conta também a antigüidade e os
do Sul para tratar da fundação de mais uma filial em Pe- serviços prestados ao Instituto. Os trabalhos publicados
lotas, por solicitação dos pecuaristas e das autoridades foram hierarquizados em três categorias. Os que se limi-
locais. Outra, de existência efêmera, foi inaugurada em tavam a descrever espécies sem estudos biológicos e ex-
São Luiz, no Maranhão, em 1919. Em 1936, a filial minei- perimentais, as notas preliminares e as sínteses e resenhas
ra seria transferida para a administração estadual, com a sem contribuição pessoal valiam de 1 a 3 pontos. As teses
denominação de Instituto Biológico Ezequiel Dias, crian- de doutoramento feitas no Instituto, os trabalhos origi-
do-se em compensação o Instituto de Patologia Experi- nais com contribuição experimental e os de sistemática
mental do Norte, com sede em Belém, custeado pelo Es- com biologia das espécies descritas valiam de 4 a 6 pon-
tado do Pará e dirigido por Evandro Chagas, filho de tos. Por fim, de 7 a 9, valiam os “trabalhos de alto valor
Carlos Chagas. científico que apresentem descobertas importantes ou
métodos novos de grande valor prático”. Nos trabalhos de
30 Segundo Chagas Filho (1993), a importância da teoria colaboração cada autor auferia metade dos pontos, e aos
domiciliária só foi reconhecida no Congresso Internacio- totais apurados para cada candidato seriam acrescenta-
nal de Malariologia, realizado em 1923, em Roma, e só ad- dos “o número de anos de serviços oficiais prestados ao
quiriu plena eficácia quando se generalizou o uso do DDT. Instituto, assim como as comissões exercidas” (1 ponto
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cada ano e cada comissão). O livro em que estão enca- 1910. O novo governo enfrentou diversas crises: a revolta
dernados os documentos relativos ao concurso é uma pe- da Armada, liderada por João Cândido, no Rio de Janei-
ça documental interessantíssima (Carlos Chagas – Docu- ro, e a guerra do Contestado, movimento camponês che-
mentos. Arquivo Carlos Chagas. COC). Revelam a com- fiado pelo líder messiânico João Maria nos sertões do Pa-
plexa engenharia subjacente aos critérios de avaliação raná e Santa Catarina; crise econômica precipitada pela
que acabaram por predominar na seleção do novo chefe débâcle da borracha e a negociação da moratória com os
de serviço. credores da dívida externa do país; e crise política, defla-
grada pelas chamadas “salvações” que destronaram vários
36 A chefia da DGSP passou a outro pesquisador de coronéis, para entregar as máquinas estaduais a outras
Manguinhos, Figueiredo de Vasconcelos, que se demitiu frações oligárquicas alinhadas a Pinheiro Machado, líder
pouco tempo depois em protesto contra a política de saú- político gaúcho que desfrutou de grande influência até
de de Hermes da Fonseca, eleito presidente em março de ser assassinado em 1915.

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