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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS

Centro de Ciências Humanas – CCH


Pró-Reitoria de Pós-Graduação
Programa de Pós-Graduação em História

Imagens dos Terreiros: Representações da trajetória dos cultos de Matriz Africana


de Montes Claros na década de 1960 por meio da Fotografia

Mestrando: José Vinícius Peres Silva

Montes Claros, Agosto de 2017


Apresentação do Tema

As construções e significados que produzimos sobre o "outro" dizem respeito


sobre os nossos repertórios individuais e coletivos. Enxergamos o "diferente" e o
"distante" a partir das nossas próprias vivências que condicionam a forma como
qualificamos aquilo que não é habitual ao nosso mundo. Desta forma, ao perceber
cotidianos divergentes, produzimos manifestações e linguagens que representam certa
visão específica que condicionam e produzem significados sobre esse outro, situações
que estiveram muito mais ligados ao local de fala do produtor do que daquele que se
fala.
Parte dessas construções que fazemos refletem nas representações que criamos a
partir das ideias formuladas sobre esse diferente. Nesse sentido, as religiões no Brasil
são um grande exemplo sobre essa situação. Principalmente as religiões de Matriz
Africana que na sua história esteve vinculada a ambientes pouco abertos a cotidiano das
pessoas e que muitas vezes eram perseguidas ou negligenciadas pela sociedade.
Contudo, o que estamos interessados nesse estudo é encontrar justamente essas
construções e ou representações que se fizeram deste diferente, ou seja, das religiões de
Matriz Africana, como é o caso do Candomblé e a Umbanda. Partiremos desse ponto
para entender principalmente uma instância vinculada ao mundo visual. As imagens que
foram produzidas sobre esse tipo de prática religiosa foram muito importantes para criar
um modo de apresentação do povo desta religião para a sociedade.
Desta forma, a presente pesquisa visa compreender as representações e
construções que as fotografias produziram sobre as religiões de Matriz Africana,
Candomblé e Umbanda, na cidade de Montes Claros. Uma reportagem veiculada na
revista Encontro no ano de 1962 é o nosso ponto de partida para essa compreensão,
utilizando ainda uma comparação com os registros fotográficos pessoais do povo do
terreiro sobre essa mesma época apontada. A comparação será necessária, pois
acreditamos que a diversificação de fontes dentro do contexto de estudos com a
fotografia faz-se necessária.
Dentro da proposta iremos nos ate a dois terreiros importantes na cidade de
Montes Claros daquele período, um de Umbanda, liderado pelo Pai de Santo José
Fernandes e outro de Candomblé, fundado por Teresino sendo retratados pela
publicação. Essa duas figuras são importantes dentro da memória dos praticantes dessa
religião na região do Norte de Minas Gerais, sendo considerados de acordo com Ângela
Cristina Borges, na sua Tese de Doutorado “Tambores do Sertão” 1 como “grandes”
nomes na propagação desses cultos na região do Norte de Minas.
A relação histórica entre as religiões de matriz africana a imprensa e a fotografia
aparecem desde o ano de 1951, em uma então reportagem da revista O Cruzeiro2. Esta
publicação trouxe a matéria intitulada As noivas dos deuses sanguinários assinada pelo
repórter Arlindo Silva, com fotografias de José Araújo Medeiros. Nela, abordava-se um
terreiro de Candomblé em Salvador, Bahia onde foram realizadas cerimônias de
iniciação na religião. Foram apresentadas 38 fotografias que retratavam a rotina do
terreiro, rituais e sacrifícios sendo atos que até então eram inéditos para o
fotojornalismo brasileiro da época.
A reportagem é o objeto central da obra do antropólogo Fernando de Tacca em
seu trabalho intitulado Imagens do sagrado: entre Paris Match e o Cruzeiro 3 conforme
ele retratava a revista O cruzeiro pretendia opor a outra publicação realizada por um
periódico francês do mesmo ano. A revista Paris Match 4 foi o modelo para tal crítica
onde uma que também abordava a mesma temática, mas de uma forma sensacionalista
que causou certa polêmica entre os intelectuais e o interior do próprio candomblé, mas
fazendo sucesso junto ao grande público.

1
BORGES, Ângela Cristina Marques. Tambores do Sertão: Diferença Colonial e Interculturalidade:
entreliçamento entre Umbanda/Quimbanda e Candomblé Angola no Norte de Minas Gerais. Tese de
Doutorado, 2012 .PUC-SP

2
O Cruzeiro ou simplesmente Cruzeiro foi uma revista semanal ilustrada brasileira, lançada no Rio de
Janeiro, em 10 de novembro de 1928, editada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Carlos
Malheiro Dias foi seu diretor no período de 1928 a 1933, sendo sucedido por Antônio Accioly Neto[1] e
depois por José Amádio que, em 1960 imprimiu um novo design editorial que ficou conhecido como
"bossa nova". Foi a principal revista ilustrada brasileira da primeira metade do século XX. Deixou de
circular em julho de 1975.

3
TACCA, Fernando de. O Cruzeiro versus Paris Match e Life Magazine: um jogo espetacular. 2009.

4
Paris Match é o nome de uma revista francesa de atualidades, de periodicidade semanal, fundada em
1949 e célebre pelo seu lema "lepoidsdesmots, lechocdesphotos" ("o peso das palavras, o choque das
imagens," em tradução literal). Desde janeiro de 2008 apresenta um outro mote: "a vida é uma história
verdadeira", de forma a inscrever o jornal num contato mais pessoal com os leitores.
Segundo Tacca, as duas publicações romperam com o silêncio acerca desse
ritual sagrado, mostrando cenas e cenários da religião que caracterizaram um ambiente
"preservado" de registros fotográficos. As fotografias deixaram de modo geral encurtar
o distanciamento com o qual a sociedade da época olhava para os cultos do candomblé e
seus adeptos. De qualquer forma, as reportagens envolveram uma polêmica disputa por
espaço jornalístico, valendo-se, principalmente, do ineditismo das imagens dos rituais
secretos de iniciação dos praticantes do candomblé.
Por meio da visibilidade em que essas fotografias tiveram, fundava-se, segundo
Ana Paula Goulart Ribeiro5, uma "escola de fotojornalismo baseada na importância da
imagem como notícia" (pg. 23), com ênfase na qualidade técnica, propiciada pelas
novas câmeras de médio formato, priorizando assim o registro documental. Ribeiro
ainda coloca a diferenciação em que as fotografia produzidas pelo O Cruzeiro sobre a
Paris Match, destacando-se o papel inovador e certa brasilidade nos conteúdo foto
jornalísticos que ainda eram pouco conhecido entre os leitores do período.
Nesta perspectiva, a imprensa brasileira aumentou gradativamente seus
noticiários e reportagens que abordavam as religiões de matriz africana. Conforme a
obra de Ribeiro (2000) entre 1951 e 1962, rituais de Umbanda e Candomblé foram tema
de pelo menos seis reportagens que iam de simples folclore à editoria de polícia com
tratamento sensacionalista e editorial pejorativo.
A fotografia enquanto fonte é a ideia central da tese de doutorado de Marta
Emísia Jacinto Barbosa6. A obra aborda a realidade em que o fotojornalismo do século
XIX trouxe para a visão estereotipada do Ceará e os seus problemas com a seca. As
fotos feitas nos anos de 1877-1878 por José de Patrocínio para a revista O Besouro, com
o objetivo de informar a realidade da fome e seca em que a então província passava na
época. Trazendo um conteúdo de fotografias e xilogravuras de conteúdo forte, como
pessoas esqueléticas e visivelmente doentes e beirando à morte, essas imagens foram
importantes para perpetuar um estado de calamidade do local, que perdurou durante
todo século XX.
A condição em que as imagens da seca eram publicadas no corpo do jornal e
revista estudados por Barbosa (2004) foi um importante meio para refletir como a

5
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Imprensa e História no Rio de Janeiro dos Anos 50. Rio de Janeiro: 2000.
335 p. Tese (Doutorado em Comunicação) – Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro. 2000.
6
BARBOSA, Marta Emísia Jacinto. “Os Famintos do Ceará”. In. FENELON, Déa Ribeiro; MACIEL, Laura
Antunes; ALMEIDA, Paulo Roberto de; KHOURY, Yara Aun (Orgs.). Muitas Memórias, Outras Histórias.
fotografia tem um peso no noticiário e como sua disposição institui visões e percepções
de mundo para seu interlocutor. A imagem para ela é tratada como uma "Prática social"
que propõe meios para legitimar certas realidades que muitas vezes não existiram mais
que foram necessárias para o produtor da obra, que no caso é o fotografo.
Em Retratos de Família, Mírian Moreira Leite7 apresenta o resultado de uma
reflexão de estudos sobre as potencialidades e limitações da leitura da imagem e
fotografia. Demonstrando um caráter sociológico, antropológico e histórico que a
imagem pode assumir dentro da perspectiva das ciências humanas. Para tanto, a autora
se baseia, fundamentalmente, em uma coleção de retratos de família de álbuns cedidos
por descendentes de imigrantes de várias origens. São famílias italianas, alemãs,
portuguesas, judias, russas, espanholas e japonesas que acabaram por se reunir na
cidade de São Paulo no início do século XX. A essas retratos foram acrescentados
fotografias de famílias de acervos públicos e o publicados de revistas e almanaques.
A partir desse momento o Candomblé e os cultos de Matriz Africana foram
apresentados sobre um meio que propiciava uma visibilidade dentro do contexto
nacional devido às fotografias realizadas por José Medeiros. Não obstante, as rotinas
dos terreiros ganharam força dentro dos noticiários brasileiros do período,
proporcionando uma maior aceitação dessas temáticas nas páginas dos periódicos.
Desta forma, propomos trabalhar sobre um olhar historiográfico a partir de outra
reportagem que trata da mesma temática em uma revista regional ilustrada da época. A
revista Encontro8 de Montes Claros, Minas Gerais, mais de uma década depois após,
veiculou uma matéria com o título Nos Terreiros de Umbanda e Candomblé- Mistério e
Pomba dos ritos fetichistas realizada pelo jornalista Haroldo Lívio, com fotografias de
Rilson Santos e Waldevino Fátimo. Dentro desse contexto, dois pais de Santo, José
Fernandes da Umbanda e Pai Teresino do Candomblé, destacaram-se como os sujeitos
retratados nessa reportagem.

Objetivos

Essa pesquisa tem por objetivo analisar as representações sociais dos cultos
religiosos de Matriz Africana nas fotografias produzidas sobre os terreiros dos Pais de

7
LEITE, Miriam Moreira. Retratos de família: leitura da fotografia histórica. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1993.
8
Revista ilustra que fez existiu na década de 1960 na cidade de Montes Claros em Minas Gerais sob a
direção de Konstantinchristoff, Lúcio Bemquerer e Waldir Senna Batista.
Santo José Fernandes e Teresino. Abordaremos as ideias veiculadas na reportagem Nos
Terreiros de Umbanda e Candomblé- Mistério e Pomba dos ritos fetichistas da revista
Encontro do ano 1962 em Montes Claros, Minas Gerais. Preconiza, ainda, relacionar
possíveis comparações, analogias e diferenças entre a publicação e os álbuns de
fotografia familiares e frequentadores dos terreiros dos pais de santo abordados por essa
matéria. A partir disso, utilizam-se ainda como os seguintes objetivos específicos:

 Relacionar o conteúdo da reportagem das duas revistas pesquisadas com o


fotojornalismo produzido na época;
 Especificar a realidade e práticas dos cultos religiosos retratados pela revista;
 Listar no conteúdo das fotografias, os locais em que foram feitas e os papéis dos
indivíduos presentes nelas;
 Compreender a relação dos fotógrafos que produziram o conteúdo com os
terreiros onde foram feitas as imagens;
 Descrever um percurso sócio histórico dos terreiros de candomblé e umbanda
retratados pelas imagens.
Fontes

Foram feitas 14 fotografias veiculadas no corpo da reportagem estudada as quais


trouxeram a rotina e cotidiano dos cultos de Matriz Africana em Montes Claros daquele
período. A matéria estudada possui uma divisão específica de Candomblé e Umbanda,
já que as imagens estão articuladas a pequenos textos que apresentam cada um dos dois
terreiros visitados pelos fotógrafos e jornalistas que trabalharam nesta produção.
Manteremos uma forma de diálogo com a publicação da revista Encontro e as
imagens realizadas pelos familiares e frequentadores dos dois terreiros na década de
1960. Essas imagens foram encontradas em álbuns de família e negativos do período
mantidos por um descendente dos pais de santo que serão estudados. Um processo
comparação será necessário, pois acreditamos que a diversificação de fontes dentro do
contexto de estudos com a fotografia faz-se fundamental neste momento.

Referencial teórico metodológico


O universo das representações sociais a partir de uma interpretação histórica
pode ser interpretada por meio das contribuições da Nova história cultural, que ditou
uma nova forma de identificar as relações dos sujeito históricos com o universo no qual
eles circulam. Desta forma, pensar nas representações suscita dentro do ambiente da
cultura um grau maior de compreensão.
Compreender o mundo a partir de uma lógica da cultura nos leva a reflexões que
suscitam várias interpretações e conhecimentos. Desta forma ideias e conceitos sobre
esses assuntos não foram criações imediatas, mas um processo onde foram moldados,
gestados e pensados. Ainda que esses conceitos, relativos ao universo da história e da
cultura, são parâmetros para o cotidiano dos historiadores, eles não podem ser usados
como uma definição concreta. O homem, as pessoas e por consequência a sociedade são
subjetivas e dinâmicas ocasionando por parte do historiador uma necessidade de recriar
e dinamizar o uso dos conceitos no seu ofício.
Sendo assim, podemos perceber que o processo das produções de conceitos e
conhecimentos da história e da cultura passou por uma mudança a partir de novas ideias
e questões relativas ao tempo no qual os próprios historiadores viveram. Conforme
Sandra Jatahy Pensavento9, grandes questionamentos sobre a conceituação da ciência
histórica e sua utilidade foram discutidos e reelaborados por vários estudiosos que
modificaram algumas das definições antigas sobre o conhecimento que se tinha.
Os objetivos que a história teria e sua conceituação foi muito bem proposta e
questionados em suas descrições sobre esse conhecimento. No decorrer do século XX a
historiografia foi alterada e renovada no sentido de permitir uma variedade de fontes, de
pensamentos e interpretações do passado que não eram levadas em consideração por
historiadores do passado.
Se a cultura é um utensílio importante dentro da sociedade e o seu caráter é
definidor, as suas interpretações são vastas. Desta forma, é sobre a ótica da cultura que
propomos uma possibilidade de articulação com os estudos a religião e da visualidade.
Trabalhar com cultura e principalmente religião e visualidade é um trabalho que
exige uma gama de diversificações que vão além das perspectivas da própria história.
Para isso é necessário um trabalho onde a interdisciplinaridade seja abarcada e utilizada
a fim de algumas compreensões. Com relação à isso, Peter Burke10 aponta as analises
que a antropologia contribuíram para essa temática.

9
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultutal. 2º Ed.reimp-Belo Horizonte: Autêntica, 2005
10
BURKE, P. História y teoria social. 1. ed. Buenos Aires: Amorrortu, 2007. 320
Desta forma Burke, verificou um contraste muito acentuado entre a
"antropologia social" britânica e a antropologia cultural norte americana. Onde os
britânicos ressaltavam as instituições sociais, os norte-americanos deram destaque aos
"padrões de cultura", ou em outras palavras aspectos simbólicos e expressivos do
comportamento humano.
Esta diferencia de interpretações dos aspectos culturais dizem respeito as
diferencias de preocupações que podem ser vinculados as formações dessas duas
metodologias. Conforme Burke sugere, enquanto a inglesa tem influencia de processos
materiais do marxismo e estruturalismo, já as analises dos norte-americanos procuram
versões mais subjetivas e simbólicas dos fatos.
Uma das possibilidades de articulação é com a obra do antropólogo Clifford
Gerrtz, onde o interesse em sistemas de significados são muito presentes. Essa forma de
interpretação deu todo sentido às analises de questões culturais religiosas, pois é a partir
das culturas e suas práticas específicas, seus rituais e como eles são vistos à partir de um
ótica da própria comunidade que são importantes para a compreensão. Desta forma, por
conta da antropologia interpretativa lidar com História das Religiões numa perspectiva
cultural significa, em primeiro lugar, abrir mão de um conceito restrito de religião.
Nas sociedades monoteístas, Conforme Belloti11 p.5 “religião significa acreditar
em Deus ou num sagrado”, identificado por vários lugares e por vários símbolos como
templos, igrejas, catedrais, sinagogas, mesquitas, cruzes, crucifixos, imagens e
esculturas de santos. São religiões que, além de possuírem uma origem comum,
possuem lugares de poder definidos. Porém, para os historiadores das religiões, é
necessário adotar um conceito de religião mais amplo, que possibilite o estudo de
diferentes tradições e manifestações religiosas sem que se projete sobre elas os símbolos
e discursos da tradição ocidental judaico-cristã. E nem que se enxergue uma "essência"
primordial que ligaria todas as "religiões" de todos os tempos e lugares.
Além disso, um conceito amplo de religião permitiria o estudo de assuntos
ignorados pela História eclesiástica e pela História das ideias, como as manifestações
populares e as religiosidades de pessoas não filiadas a nenhuma instituição religiosa.
Esse conceito existe e é bastante utilizado pelos historiadores, por influência da

11
BELLOTTI, Karina Kosicki. Mídia, Religião e História Cultural. Revista de Estudos da Religião Nº 4 / 2004
/ pp. 96-115
Antropologia “religião é um sistema comum de crenças e práticas relativas a seres
sobre-humanos dentro de universos históricos e culturais específicos”.
Na nossa sociedade ocidental, tem-se a ideia de que a "essência" da religião
estaria expressa na sistematização teológica. Porém, se pensarmos em religião como um
sistema de crenças e práticas, constatou que religião não é somente Teologia, pois é
necessário compreender as relações de poder que definem o que é correto e o que é
errado dentro de uma tradição institucionalizada.
Essas discussões são necessárias entender certos pontos e diálogos que o
cotidiano das religiões foi importante dentro desse aspecto central. Mas, sobretudo a
isso podemos identificar outros conceitos que possibilitam outras discussões e caminhos
para o estudo dos aspectos da religião, como é o caso da visualidade.
Propomos então uma interdisciplinaridade com a psicologia social, onde as
ideias de representação coletivas foram importantes para definir algumas ponderações
no contexto de estudos com a religião dentro do universo da história. A contribuição da
Psicologia Social é analisada aqui a partir dos estudar as representações sociais
coletivas.
O conceito de representação coletiva nasceu na sociologia, nos estudos de
Durkheim. Foi empregado na elaboração de uma teoria da religião, da magia e do
pensamento mítico. Conforme Serge Moscovici12, O sociólogo argumentou que esses
fenômenos coletivos não podem ser explicados em termos de indivíduo, pois ele não
pode inventar uma língua ou uma religião. Esses fenômenos são produto de uma
comunidade, ou de um povo.
A teoria das representações sociais pode ser considerada como uma forma
sociológica de Psicologia Social. A expressão usada por Moscovici, em seu estudo
sobre a representação social da psicanálise. O autor apresenta um estudo onde tenta
compreender de que forma a psicanálise, ao sair dos grupos fechados e especializados,
adquire uma nova significação pelos grupos populares. O autor ainda nos informa sobre
o cotidiano das representações como;
"As representações sociais são entidades quase tangíveis. Elas
circulam, se entrecruzam e se cristalizam continuamente, através
duma palavra, dum gesto, ou duma reunião, em nosso mundo
cotidiano. Elas impregnam a maioria de nossas relações estabelecidas,
os objetos que nós produzimos ou consumimos e as comunicações que
estabelecemos. Nós sabemos que elas correspondem dum lado, à

12
Serge MOSCOVICI. Representações sociais: investigações em psicologia social. Rio de Janeiro, Vozes,
2003. 404
substância simbólica que entra na sua elaboração e, por outro lado, à
prática especifica que produz essa substância, do mesmo modo como
a ciência ou o mito correspondem a uma prática científica ou mítica.
Mas se a realidade das representações é fácil de ser compreendido, o
conceito não o é. Há muitas boas razões pelas quais isso é assim. Na
sua maioria, elas são históricas e é por isso que nós devemos
encarregar os historiadores da tarefa de descobri-las. As razões não
históricas podem todas ser reduzidas a uma única: sua posição
“mista”, no cruzamento entre uma série de conceitos sociológicos e
uma série de conceitos psicológicos. É nessa encruzilhada que nós
temos de nos situar. O caminho, certamente, pode representar algo
pedante quanto a isso, mas nós não podemos ver outra maneira de
libertar tal conceito de seu glorioso passado, de revitalizá-lo e de
compreender sua especificidade (1961/1976: 40-41)"pg 7

Para Moscovici a o estudo das representações sociais dentro de uma metodologia


científica foi sua crítica aos pressupostos positivistas e funcionalistas das demais teorias
que não explicavam a realidade em outras dimensões, como é o caso da dimensão
histórico-crítica.
Essa contribuição é percebida na obra de Roger Chartier 13 , que utilizou o
conceito das representações sociais sob uma ótica da história. O conceito proposto por
Chartier tem em seu âmbito a proposta da prática social que tornou esse conceito da
psicologia mais próximo das interpretações históricas. Conforme José D'Assunção
Barros14;
Uma das contribuições decisivas de Roger Chartier para a História
Cultural, tal como assinala , está relacionada à elaboração das noções
complementares de “práticas” e “representações”. De acordo com este
horizonte teórico, a Cultura (ou as diversas formações culturais)
poderia ser examinada no âmbito produzido pela relação interativa
entre estes dois pólos. Assim, "tanto os objetos culturais seriam
produzidos 'entre práticas e representações', como os sujeitos
produtores e receptores de cultura circulariam entre estes dois pólos,
que de certo modo corresponderiam respectivamente aos ‘modos de
fazer’ e aos ‘modos de ver’". Por fim, uma terceira noção importante
desenvolvida por Roger Chartier de modo a trazer consistência a uma
Nova História Cultural, foi o conceito de "apropriação".
(BARROS,2005)

O conceito é importante para perceber que, sobretudo em aspectos religiosos


referentes a culturas que fogem das grandes religiões cristãs bem como as práticas
religiosas referentes às comunidades e povos marginalizados também tiveram uma

13
Para tal, ler CHARTIER, Roger. O Mundo como Representação. In: CHARTIER, Roger. À beira da falésia:
a história entre incertezas e inquietudes. Porto Alegre: UFRGS, 2002. p.61-78
14
BARROS, José D’Assunção. A Nova História Cultural – considerações sobre o seu universo conceitual e
seus diálogos com outros campos históricos. periodicos.pucminas
forma de manifestar suas crenças e utilizá-las como modo de vida de certa época. Desta
forma representação é usado para compreender como em determinado época certo modo
de vida religiosa foi posta e dada a ler por certas outras pessoas que representaram.
Apesar das limitações enquanto investigadores do passado, o historiador da
cultura não deve se descuidar nem dos questionamentos teóricos, nem das evidências
que ajudam a constituir o relato histórico. Conforme Peter Burke (2012), a perspectiva
dialógica que o historiador desenvolve contempla as duas coisas, num esforço de
produzir conhecimento histórico crítico e responsável. Ou seja, não se pode escrever
"qualquer coisa" sobre o passado, já que a abordagem do documento como texto não
exime o historiador de uma análise cuidadosa.
Desta forma, podemos utilizar deste caminho para pensar o cotidiano da imagem dentro
de uma análise histórica no âmbito da cultura. Considerando que, nosso trabalho com fotografia
na década de 60 deve ser ressaltado questões de grande relevância. Estamos inseridos em um
mundo onde o visual é parte de uma instancia determinante do nosso cotidiano. Todas as
sociedades humanas sempre se comunicaram, e se expressaram por meio de imagens,
todavia, em nossa sociedade contemporânea é inquestionável o fato de ter a imagem,
suplantado outras formas de comunicação e representação, permitindo-nos compreender
e expressar emoções, sentimentos e desejos. Sendo assim, a possibilidade de pensar a
história e a cultura por meio da visualidade é fundamental para perceber como as
interações sociais são produzidas e debruçadas.
Atribuímos inúmeros significados às imagens produzidas pelas sociedades,
embora toda imagem traga consigo referências de significações anteriores. Imagens são
antes de tudo ideias, nós lhes atribuímos significados que foram construídos e muitas
vezes pensados e moldados para transmitir um discurso ou pensamento específico. Por
meio disso, a imagem já produzida também ganha novos significados de acordo com
suas formas de apresentação, sua circulação e seu ambiente onde são divulgados e
demonstrados para o mundo.
Entendemos que, para pensar em visualidade como proposta nos estudos de
história visual, o conceito de Representações sociais funcionaria como instrumental
teórico importante. Depurar as representações sociais atribuídas às imagens é um
exercício no qual o historiador deverá ter em vista o longo processo de criação,
circulação e difusão desses produtos.
Elaboradas para funcionarem como um jogo de espelhos, a fotografia, sucinta a
ilusão de substituta da própria realidade. As imagens não são dadas, meras evidências
indiciárias, mas construções imaginárias. Elas não se reduzem a evidências
documentais, objetivas. Elas simbolizações construídas histórica e socialmente. Vistas
por esse ângulo, o que importa resgatar ou discutir é o modo como uma imagem
idealiza, metaforizam, constrói um campo de significação Conforme Mauro Guilherme
Pinheiro Koury15 .
“A imagem significa, ao mesmo tempo, o olhar do criador e o olhar do
espectador, e a interpretação é a resultante desta interdependência, ou
desta ambiguidade de olhares, associada ou não a um terceiro olhar
que busca compreender os mecanismos sociais que desconstroem e
reconstroem as informações transmitidas pelo intercruzamento dos
diversos olhares”

Desse modo, podemos perceber na fotografia não somente como documento,


mas um grande porcentual de pesquisa. Igualmente, a fotografia para Ana Maria
Mauad 16 deve submeter-se a críticas para que posteriormente ela possa vir a ser
organizada numa ordem cronológica. A essa ordem nos ateremos na produção da
pesquisa, obedecendo a um ideal significativo que siga um critério de seleção, a fim de
que se evite a mistura da fotografia, visto que, ainda conforme Mauad, seu objeto que é
a foto em si, deve ser trabalhado e estudado separadamente, garantindo, pois a
individualidade do objeto fotográfico a ser estudado, que tanto pode ser um álbum, uma
foto ou no caso uma revista ilustrada, para que em seguida possa-se estudar a parte
material.
A partir destes pontos, organizaremos consoante Mauad traz no seu texto, (1996)
roteiros de análise no intuito de decompor a imagem fotográfica em unidades,
guardando a devida distinção entre forma, conteúdo e expressão. Essa proposta é
adaptada para a nossa realidade da pesquisa. É possível destacarem-se itens como a
revista nas quais as fotografias foram publicadas, agência produtora da fotografia, ano,
local retratado, tema retratado, pessoas retratadas, objetos retratados, atributo das
pessoas, atributo da paisagem, tempo retratado e fotógrafos que produziram o material.
Pretendemos, assim, analisar as fotografias das duas revistas dentro do contexto
em que foram veiculadas, nesse ínterim, dentro da reportagem, bem como de forma
isolada. Para isso, é necessário utilizar as imagens que não apareceram no corpo da
reportagem e que será foco ao longo da pesquisa.

15
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. (1998), “Fotografia e a questão da indiferença”, in _________
(org.), Imagens & ciências sociais, João Pessoa, Editora Universitá- ria, pp. 67-86.
16
MAUAD, Ana M. “Prática fotográfica e a experiência histórica – um balanço de tendências e posições
em debate”, In Revista Interim, n.10, 2011.
Considerando todo percurso que foi dialogado aqui, as definições e conceitos
que possibilitam uma analise cultural da religião foram colocadas de acordo com
parâmetros para serem seguido. São métodos e técnicas que muitas vezes não definem
por completo ou parcialmente as temáticas e produções do trabalho de história.
Contudo, o conceito não corresponde aos objetivos completos da pesquisa. A sociedade
em sua grande complexidade exige uma análise muito minuciosa e cuidadosa. Pois os
comportamentos humanos não são homogêneos e nem coerentes. As pessoas são
diversificadas e mudam constantemente de formas de viver.

Sobre esta perspectiva, as religiões também podem ser analisadas dessa forma. A
quantidade de variedade e diversidade que as práticas religiosas apresentam é um alerta
para entender a complexidade de suas estruturas. Se tratando de cultura, as
manifestações também são diferentes. Os grandes agrupamentos cristãos por muito
tempo definiram e se situaram enquanto o único caminho de religião dos indivíduos.
Acontece que vários cultos foram marginalizados por algumas dessas grandes religiões,
desta forma a variedade é importante, pois o conceito e os métodos utilizados devem
abarcar todas essas diversidade.