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MARCELO MAIA GOMES- 1091671

Graduação em Filosofia

A MENTE COMO OBJETO DE ESTUDO NA FILOSOFIA

Orientador:

Professor Antônio Soares Geraldo

Centro Universitário Claretiano

BELO HORIZONTE

2014
A MENTE COMO OBJETO DE ESTUDO NA FILOSOFIA

Introdução:
Este projeto propõe investigar o problema da mente na Filosofia, bem
como sua transformação em objeto de estudo a partir do advento da ciência
moderna. Quais são as confluências no estudo da mente entre filósofos,
psicólogos, psiquiatras e neurologistas? Qual o diálogo possível de se
estabelecer entre essas diversas abordagens sobre o mesmo objeto, qual seja,
a mente?

A partir de uma pesquisa de revisão bibliográfica, busca-se identificar e


analisar as várias concepções sobre a psiquê em distintos momentos do
pensamento ocidental, discutindo as concepções de diversos pensadores
sobre a mente. Tomando como ponto de partida as tradições antigas,
sobretudo a grega, procura-se demonstrar as formas de interpretação da mente
e seus desdobramentos em outros campos do saber que se configuraram ao
longo da história ocidental, a exemplo da Mitologia, Religião, Filosofia,
Psicologia, Psiquiatria, Psicanálise e Neurologia.

Objetiva-se demonstrar como a mente é interpretada de diferentes


formas e por difererentes campos do conhecimento até a época
contemporânea, sobretudo a contribuição da Filosofia como precursora de toda
a discussão existente até hoje sobre a psiquê humana.

Resumo:

Palavras-Chave: mente,alma, loucura, psicologia, psicanálise

Metodologia:

A MENTE E SEUS PROBLEMAS NA MITOLOGIA

A mente vem sendo um objeto de especulação desde os primórdios da


humanidade. Muito antes do surgimento do raciocínio lógico na Grécia e do
desenvolvimento do pensamento oriental, o homem já procurava explicar a
questão mente-corpo, quer seja através de um senso comum bem superficial,
quer seja através de crenças, muitas vezes surgidas devido a falta de
conhecimento do homem sobre si mesmo e da natureza que o cerca.

Na antiguidade, duas mitologias se destacam, influenciando outros


povos e, ainda hoje sendo objeto de estudo para vários ramos do
conhecimento; a grega, expressa nos poemas épicos de Homero e de Hesíodo
e, a indiana, apresentada em suas escrituras sagradas.

Da mesma forma em que tentava explicar o que era a mente, as


mitologias desses dois povos (gregos e indianos) também se preocupavam em
dar respostas para os problemas comportamentais dos homens.

Os Vedas, como são chamados os escritos sagrados indianos, há


milhares de anos, identificavam a natureza humana como mente e corpo. De
acordo com o pensamento indiano, o ser humano não tem conhecimento de
sua própria natureza e se julga incompleto, o que causa uma série de desejos.
O “eu”, que é a mente ignora que já é completo e fica em busca de peças para
um quebra-cabeça que já está montado. E é essa busca que vai causar os
problemas da mente. O ser humano começa a se sentir frustrado, confuso e
irritado, pois procura completar o que já está completado. A partir daí, passa a
criar um mundo além que possa lhe dar esse “complemento”. A criação mental
desse mundo é a base do pensamento mitológico e religioso.

Na mitologia e na religião, o homem se encontra e passa a acreditar que


só será completo através de sua servidão aos deuses e demais seres
sobrenaturais. Um dos motivos do ser humano se sentir incompleto é o seu
caráter especulativo. Por não encontrar respostas no mundo visível, ele as cria
no mundo alegórico. A mente mitológica e religiosa soluciona todas as
questões e preenche o “buraco” que o homem acredita existir em si.

O Mahabarata visto por alguns autores como o texto sagrado de maior


importância no hinduísmo, ao contrário dos Vedas, fundamenta-se na mitologia
para elucidar as questões humanas. O bem e o mal se personificam na forma
de deuses e demônios, respectivamente. Nessa perspectiva, o louco é aquele
que está completamente afastado dos seres benignos e dominado pelos seres
malignos e, a cura está na servidão a Brahma (Criador) e na busca pela
libertação de sua mente do mundo físico para o espiritual.

Na Grécia, Homero também possuía essa visão transcendental sobre


mente e corpo. Após a morte, a alma se liberta do mundo físico para o mundo
espiritual.

[...] mas a alma humana, uma vez escapada do encerro


dos dentes, não mais se deixa prender, sem podermos,
de novo, ganhá-la.” (Homero.Ilíada IX, 408-409)

Nos textos homéricos, na Grécia, os problemas mentais resultam da ira


divina. O homem, por não aceitar seu destino é punido por Zeus ou por outras
divindades subalternas. Para os gregos, neste período, a cultura e a sociedade
eram definidas pelos deuses e todos aqueles que agiam de modo diferente dos
costumes da maioria, eram considerados como loucos.
No período posterior, o dos poetas trágicos, a loucura deixa de ser um
fenômeno mítico e ganha uma conotação mais humana, sendo a consequência
de certas paixões extremas. Os problemas da mente são causados por
conflitos: entre paixão e normas sociais; razão versus instinto; desejo versus
vergonha; amores conflitantes versus ódio e afeto. A cura para os transtornos
está na moderação, na prudência e na temperança.

Paralelamente a essa concepção dos trágicos, Hipócrates formula uma


concepção natural dos problemas mentais. Para o “pai da medicina”, a loucura
está relacionada a desequilíbrios da natureza e não do espírito. Ou seja, o
problema está no cérebro e não na alma. A loucura começa a ser totalmente
“desmitologizada”, dando lugar a uma perspectiva mais materialista e humana.

A MENTE APÓS O SURGIMENTO DA FILOSOFIA

A partir do desenvolvimento do pensamento lógico na Grécia, as


questões sobre a mente e seus problemas passam a serem tratadas de uma
forma mais racional e menos alegórica e supersticiosa, pelos pré-socráticos,
sofistas e pensadores do período clássico, entre os quais se destacam
Sócrates, Platão e Aristóteles.

A alma ou a mente, para Platão,é uma substância independente do


corpo, eterna e se une a ele acidental e temporariamente. Não é apenas o
princípio da vida, mas também princípio do conhecimento. Em Fédon, um de
seus dialógos, assim,o filósofo define a alma e expõe a diferença entre ela e o
corpo.

A alma se assemelha ao que é divino,imortal,dotado de


capacidade de pensar, ao que tem uma forma única,ao
que é indissolúvel e possui sempre do mesmo modo
identidade. O corpo,pelo contrário,equipara-se ao que é
humano,mortal,multiforme,desprovido inteligência,ao
que está sujeito a se decompor,e que jamais
permanece idêntico.(Platão, Fédon,80b,1969)

Para explicar,os problemas da mente, Platão usa dois tipos de


argumento: o místico e, Fedro e o humanista e racional em Timeu.

Em “Fedro”, Sócrates classifica quatro tipos de loucura: a profética, que


era um meio dos deuses se comunicarem com os homens, possuindo o corpo
de um deles; o Oráculo. A ritual, na qual o louco se conduz ao transe, através
de danças e rituais, sendo possuído por uma força exterior. Havia também, a
loucura amorosa, produzida por Afrodite e a poética, produzida pelas musas.

No que diz respeito ao delírio,dividimo-lo em quatro


espécies,cada uma das quais provém de um deus
determinado: o sopro divinatório de Apolo, a inspiração mística
de Dionísio, a impressão poética das Musas e, enfim , a
inspiração amorosa de Afrodite e de Eros.(Platão,
Fedro,2000,p.100b)

Em Timeu, Platão define a doença da alma como demência, e que há


dois tipos de demência: a loucura e a ignorância e as causas da loucura são os
prazeres e as dores em excesso.
Temos que admitir que a doença da alma
é a demência, e há dois géneros de demência: a loucura
e a ignorância. A todas a impressões que alguém sofra e
que englobem uma das duas devemos chamar “doença”.
Devemos também estabelecer que os prazeres e as dores
em excesso são as mais graves das doenças para a
alma.(Platão,Timeu,2001,p.199)

Um homem muito contente quer a todo custo possuir algo, enquanto


aquele que sofre pelas dores se esforça para fugir do que lhe provoca o
sofrimento. Ambas, as situações reduzem a capacidade de raciocínio do ser
humano. A cura, tanto para a loucura quanto para a ignorância, está no
movimento simultâneo da alma e do corpo. Para, que esse movimento ocorra,
o filósofo recomenda:

Há uma só salvação para


estas duas doenças: não movimentar a alma sem o
corpo nem o corpo sem a alma, para que, defendendose
um ao outro, mantenham equilíbrio e saúde. Por
isso, o matemático ou qualquer outra pessoa que se
dedique intensamente a uma actividade intelectual
deve compensá-la com o movimento do seu corpo,
associando-lhe ginástica; em sentido inverso, aquele
que molda o corpo cuidadosamente deve compensar
com os movimentos da alma, servindo-se da música
e de tudo quanto diz respeito à filosofia, se espera
que se diga, com justiça e correctamente, que é
simultaneamente belo e bom.(Platão,Timeu,2001,p.203)

Essa interação entre o natural e o sobrenatural para responder as


questões sobre a mente e seus problemas, vai estar presente nas explorações
e estudos do psiquiatra e psicoterapeuta, Carl Jung, um dos mais influentes do
século XX.

Aristóteles( Estagira, 384 a.C - Atenas, 322 a.C.),ao contrário de seu


mestre Platão, considerava que a alma não pode existir sem uma base material
e, por isso, deixa de existir quando o corpo é destruído. Segundo o estagiritra,
a psique (alma, mente) é um princípio unificador não eliminável da matéria.
Sendo assim, para este filósofo que pode ser considerado o verdadeiro pai da
psicologia, os problemas da mente estão relacionados ao corpo. A melancolia,
segundo Aristóteles, está relacionada a causas físicas, causada por um
excesso de bílis negra, seguindo a Teoria dos Humores Hipocráticas, que
defende a ideia de que essa substância natural predomina nos seres
melancólicos.
Em “Problema XXX”, o discípulo de Platão associa o estado depressivo
à genialidade e à criatividade, e cita exemplos. Ele escreve:

Por que todos os homens que foram excepcionais no que concerne à


filosofia, à política, à poesia ou às artes aparecem como seres
melancólicos (melancholikoí), ao ponto de serem tomados pelas
enfermidades oriundas da bílis negra - como o que se diz de Hércules
nos [mitos] heróicos? Pois este parecia ser desta natureza,e é por este
motivo que os antigos designaram doença sagrada as enfermidades
dos epilépticos. A ékstasis para com seus filhos e a eclosão de úlceras
antes da [sua] desaparição no poeta tornam isto evidente; pois isto
ocorre aos muitos [acometidos] pela bílis negra.Também aconteceu de
estas úlceras acometerem Lisandro, o lacedemônio, antes de sua
morte. Ainda há [os mitos] a respeito de Ájax e Bellerofonte: dos quais
um tornou-se completamente ekstátikos, enquanto o outro buscava
lugares ermos, por isto Homero compôs assim:.Mas, depois que ele
[Bellerofonte] tornou-se odiado por todos os deuses, vagou sozinho
pela plana Aléia, roendo seu coraçã e alijando o caminho dos
homens.E, dentre os heróis, muitos outros parecem sofrer o mesmo
mal que esses. Entre os mais recentes, Empédocles, Platão e Sócrates
e muitos outros dentre os ilustres. E, ainda, a maior parte dos que se
ocupam da poesia.( Aristóteles. Problema XXX- parágrafos 953a 10 -
955b 40)

No Período Helenístico, posterior ao Clássico, a Filosofia epicurista


mantem a concepção aristotelica do homem como uma unidade formada de
corpo e mente. Epicuro(Samos, 341 a.C — Atenas,271 ou 270 a.C.), tambem
como Aristoteles defendia a destruição da alma,após a morte do corpo. Sendo,
a alma ligada ao corpo, as doenças mentais, também vão estar associadas ao
físico. Essas doenças são causadas pela busca incansável do homem em
satisfazer seus desejos não naturais e não necessários, causados pelo
orgulho,vaidade e inveja. A cura para os problemas da mente está na reflexão
e eliminação dos desejos desnecessarios, o que levará o homem a buscar a
saúde física e a serenidade exterior.

A DISCUSSÃO SOBRE A ALMA NA IDADE MÉDIA

Na Idade Média, com a expansão do Cristianismo pela Europa, a


discussão mente-corpo volta a ser abordada sob uma perspectiva espiritual.
Neste período, ocorre um intenso sincretismo entre Filosofia e Religião, e os
filósofos medievais usam argumentos que misturam fé e razão para explicar a
realidade. Dentre esses pensadores, dois se destacaram; o bispo Agostinho de
Hipona (354 d.C--430 d.C.)mais conhecido como Santo Agostinho e o frade
dominicano, Tomás de Aquino( 1225--1274).

Santo Agostinho, baseando-se no Cristianismo defende que o homem é


composto de alma e corpo, sendo o último regido pela primeira. A alma é uma
substância racional, imortal e imaterial ,foi criada por Deus e, como Platão, o
bispo de Hipona defende que todo conhecimento nasce com alma e o homem
ao aprender algo está, na verdade, recordando o que sempre soube.

Enquanto Santo Agostinho tem seus argumentos baseado no dualismo e


no racionalismo platônico para explicar a alma, Santo Tomás de Aquino,no
século XIII, retoma a concepção aristotélica de que corpo e alma estão unidos.
No entanto, o frade dominicano acredita na imortalidade da alma, ao contrario
do filósofo estagirita e assim como Agostinho, Aquino acredita que a alma
humana deve estar conectada a Deus para alcançar a redenção. Porém, o
frade discorda do bispo de Hipona que se baseia no inatismo de Platão. Para
Tomás de Aquino, a alma obtém o conhecimento de Deus através da
experiência sensível entre o homem e a realidade concreta que o rodeia.

É bom frisar que, na Idade Média, o termo alma era mais utilizado que
mente , devido a supremacia da igreja nesse periodo. Para muitos,alma e
mente eram duas coisas distintas e o próprio Tomás de Aquino levantou essa
questão. Em “Sobre a Mente,Na Qual Está a Imagem Da Trindade Divina”, a
décima das “Questões Discutidas Sobre a Verdade”, Tomás de Aquino parte da
questão: a mente é a própria essência da alma ou uma de suas potências?

Independente se alma e mente é ou não a mesma substância, os


problemas que as acometiam eram considerados e tratados sob uma
perspectiva religiosa e sobrenatural. A Filosofia dessa época, muito pouco
abordou os problemas da mente e quando fazia, baseava-se na religião e nas
superstições que predonimavam na Europa.

Apenas no Período Renascentista, que marca o final da Idade Média e o


início da Idade Moderna, as questões sobre a mente voltarão a serem tratadas
sob um ponto de vista mais humanistas, embora boa parte dos filósofos deste
período estivessem ainda ligados ao misticismo religioso cristão.
Paracelso( 1493-1541) considerado por alguns estudiosos como o primeiro
psicoterapeuta da história, defendia a doença mental como uma perturbação
interna do corpo, que está ligado à alma. Sendo assim, os problemas da mente
devem ser tratados com métodos físicos e espirituais.

A FILOSOFIA ILUMINISTA E AS BASES PARA A PSICANÁLISE

Na Idade Moderna, mais precisamente no século XVII, René Descartes


(1596-1650) considerado o primeiro filósofo moderno, influenciará o
pensamento em diversas áreas do conhecimento, através de seu racionalismo
moderno.
A filosofia cartesiana por ter como principal especulação a formação do
conhecimento, irá contribuir bastante para as ciências posteriores que tratarão
da mente e seus problemas. Para o francês, a mente é de natureza imaterial
e,por isso, separada do mundo físico e para ser estudada deve se separar as
reações físicas das emocionais. No entanto, a mente influencia o corpo e por
ele é influenciada. Por exemplo, quando a mente intenciona uma ação, os
músculos se preparam para executar tal ação. Da mesma forma, quando o
corpo recebe um estímulo, a mente o capta, interpretando-o e determinando a
resposta adequada. Essa interação mente-corpo, segundo Descartes, ocorre
em um ponto exato e este ponto é o cérebro. Através dessa observação do
filósofo francês, as questões relacionadas á mente vão se distanciando cada
vez mais do misticismo religioso predominante desde a era medieval e vão
retomando o raciocínio lógico iniciado pelos gregos no período clássico e
avançando para uma ciência mais objetiva.
Outro filósofo racionalista que contribuirá para o desenvolvimento das
ciências da mente é Leibniz( 1646-1716). A sua resposta a Locke, sua
abordagem do problema mente-corpo e sua monadologia1 são de grande
importância para a Psicologia.
Apesar de concordar com o empirismo de Locke, discordava da
metáfora do inglês da mente como uma folha em branco, propondo que a
mente fosse vista como análoga ao mármore com veios. O escultor pode dar
várias formas a um bloco de mármore, mas o modo como os veios se dispõem
nesse bloco limita o número de formas possíveis. Do mesmo modo, a mente
possui propriedades inatas que determinam os limites e a forma dos efeitos da
natureza. As propriedades inatas, como a razão, permitem que o indivíduo
chegue ao que Leibniz chamou de “verdades necessárias”, provadas pela
razão e pela lógica, e não pela experiência direta.
Na questão mente-corpo, Leibniz não aceitava a noção cartesiana, que
defendia a influência direta e mútua e, no lugar disso, propôs o Paralelismo
Psicofísico, dizendo que mente e corpo, funcionam paralelamente em harmonia
preestabelecida por Deus. Mas, apesar desta concordância, eles funcionam
independentemente um do outro, o que implica no estudo separado dos
eventos físicos(biológicos) e mentais(psicológicos). Com essa teoria, o alemão
fornece uma base filosófica para que a psicologia se tornasse uma ciência à
parte da fisiologia. A monadologia leibniziana, também, influenciará bastante a
psicologia moderna no final do século XIX e início do século XX., incluindo as
teorias de Freud.
Contraponto ao racionalismo, neste mesmo período da Filosofia, está a
doutrina do empirismo, definida explicitamente pelo filósofo inglês John Locke
(1632-1704), que rejeitava a doutrina das ideias inatas e afirmava que todas as
nossas ideias tinham origem no que era percebido pelos sentidos. Sua filosofia
sobre a mente é constantemente citada como base para as concepções
modernas de identidade e do “Eu”. Para ele, a mente é como uma cera
passiva, sem conteúdo algum , e as sensações são as responsáveis pelos
dados que ali são impressos. Posteriormente, em Freud, a teoria da formação
do Ego, baseada no empirismo de Locke dirá que o “Eu” se desenvolve sob a
influência do mundo exterior. Ou seja, o homem não nasce com sua identidade
e personalidade formadas,mas a formação destas ocorrerá a partir do contato
com o mundo que o cerca.
Outro filósofo que tratará da questão do Eu, é o também empirista David
Hume( 1711-1776), que questionou como esse Eu pode ser substância(aquilo
que é estável, imutável, sempre idêntico a si mesmo) se o que percebe dele
são apenas impressões e ideias em constante mudança. As impressões são as
sensações básicas, os dados não processados da experiência. As ideias são
cópias vagas das impressões. Portanto as idéias derivam das impressões que
se vivencia. E não há idéias inatas. Não há um “Eu” metafísico e sim uma
natureza humana, que não é substância.Essa natureza refere-se às maneiras
pelas quais as idéias são natural e espontaneamente associadas pela mente.
As ideias dos empiristas Locke e Hume, dos racionalistas Descartes e
Leibniz e de vários outros pensadores da Idade Moderna, principalmente
aqueles do movimento chamado Iluminismo no século XVII, influenciarão,
posteriormente, nos séculos XIX e XX, a psicologia moderna de nomes como
Wilhelm Wundt e Willian James, psiquiatras como Philipe Pinel e Willian Cullen
e serão a base para o surgimento da psicanálise, representada por Sigmund
Freud e Carl Jung.

FILOSOFIA E PSICOLOGIA MODERNA

Em meados do século XIX, os problemas e temas relacionados à mente


deixam de ser estudados apenas por filósofos e começam a ser investigados
também por fisiologistas e neurofisiologistas. A partir dessa época, começa a
ser demonstrado que o pensamento, as percepções e os sentimentos
humanos eram produtos do sistema nervoso central e que qualquer problema
da mente está relacionado ao cérebro. É o início da chamada Psicologia
Moderna. Pouco mais adiante, no final desse mesmo século, surge a
Psicanálise, desenvolvida por Sigmund Freud (1856-1939) e que tinha como
objetivo inicial compreender natureza das doenças nervosas funcionais. Para
isso, a Psicanálise investiga os processos mentais usando procedimentos
quase inacessíveis por outras ciências, criando métodos para tratar os
distúrbios neuróticos.
A diferença entre Psicologia e Psicanálise está no fato de a primeira se
preocupar em observar o comportamento humano, enquanto a segunda se
preocupa em investigar as causas deste comportamento. No entanto, as duas
junto com a psiquiatria e a neurologia baseiam se na informação de que a
relação entre mente e físico acontece no cérebro, assim como defendeu
Descartes no século XVII.
Tanto a Psicologia Moderna quanto á Psicanálise tem em sua história
nomes de filósofos ou estudiosos da mente que sofreram influência da Filosofia
em seus trabalhos.
Há bastante relação entre as obras de Nietzsche e Freud, nas quais seis
se destacam: a ênfase nos aspectos inconsciente da vida psíquica, a ideia de
que esses aspectos inconscientes se manifestam nos sonhos, a discussão de
relações dinâmicas e econômicas entre impulsos psicossomáticos, o uso
metafórico do termo químico “sublimação” para descrever uma forma
redirecionamento desses impulsos, a dinâmica da resistência e da repressão e
enfim a descrição da gênese da consciência moral, essa bem mais explícita,
comparando Genealogia da Moral de Nietzsche e O Mal-Estar na Civilização
de Freud, como pode se notar nos trechos abaixos, retirados dessas duas
obras:
Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se
para dentro – isto é o que chamointeriorização do homem; é
assim que no homem cresce o que depois se denomina sua
“alma”. Todo o mundo interior, originalmente delgado, como
que comprimido entre duas membranas, foi se expandindo e se
estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na
medida em que o homem foi inibido em sua a descarga para
fora. Aqueles terríveis bastiões com que a organização do
Estado se protegia dos velhos instintos de liberdade – os
castigos, sobretudo, estão entre esses bastiões – fizeram com
que todos aqueles instintos do homem selvagem, livre e errante
se voltassem para trás, contra o próprio homem (Nietzsche,
Genealogia da Moral).

De que meio se vale a cultura para inibir, tornar inofensiva,


talvez eliminar a agressividade que a defronta? (...) O que
sucede nele [o indivíduo], que torna inofensivo o seu prazer na
agressão? (...) A agressividade é introjetada, internalizada, mas
é propriamente mandada de volta para o lugar de onde veio, ou
seja, ou seja, é dirigida para o próprio Eu. Lá é acolhida por
uma parte do Eu que se contrapõe ao resto como Super-eu e
que, como “consciência”, dispõe-se a exercer contra o Eu a
mesma severa agressividade que o Eu gostaria de satisfazer
em outros indivíduos estranhos. À tensão entre o rigoroso
Super-eu e o Eu a ele submetido chamamos consciência de
culpa; ela se manifesta como necessidade de punição”* (Freud
4, 2, p. 92/250).

Embora Freud tenha afirmado várias vezes que não lia Nietzsche,pois
este o bloqueava, não há como negar a influência do primeiro sobre o segundo.
Se não houve essa influência direta, o pai da Psicanálise,ao menos, teve
contato com pessoas que conheceram o “homem que matou Deus”, como Lou
Andreas-Salome e Carl Jung.
Carl Jung(1875—1961), discípulo de Freud, também teve em sua obra
diversas influências de filósofos como Parmênides,Platão,Aristóteles, Santo
Agostinho, Descartes, Locke, Schopenhauer e Nietzsche,entre outros. Com
tantas influências,muitas divergentes umas das outras, o trabalho do psiquiatra
e psicoterapeuta suiço era uma mescla de racionalismo, empirismo,ciência,
religião, razão,misticismo e metafísica. Sua teoria sobre o inconsciente coletivo
está muito próxima das teses de Parmênides sobre o Ser, e da Teoria das
Ideias, de Platão. Sua paixão pelo ocultismo e metafísica foi a principal causa
de sua ruptura com Freud, ateu e materialista.
No decorrer do século XX, vários filósofos continuarão a investigar as
questões da mente, como Jean Paul Sartre, Daniel Dennet, e Michel Foucault,
tendo este tratado em suas obras de problemas comportamentais como a
loucura e a delinquência, criticando as clínicas psiquiatras e as penitenciárias).
Conclusão:
Referências Bibliográficas:

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DAVID HUME (Disponível em https://psicologado.com/psicologia-geral/historia-


da-psicologia/david-hume Acesso em 16 de outubro de 2014 ás 21:04)

PSICANÁLISE (Disponível em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Psican%C3%A1lise#Defini.C3.A7.C3.A3o Acesso
em 17 de outubro de 2014 ás 23:04)

INCONSCIENTE COLETIVO (Disponível em


http://pt.wikipedia.org/wiki/Inconsciente_coletivo Acesso em 18 de outubro de
2014 ás 10:00)