You are on page 1of 10

SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(3) 2001

FUTEBOL E ESTÉTICA

ARLEI SANDER DAMO
Professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Santa Cruz do Sul

Resumo: Este ensaio pretende dar uma contribuição ao entendimento do esporte e, particularmente, do futebol
no Brasil a partir de uma perspectiva estética. Desta forma são apresentadas e discutidas três categorias ana-
líticas: o ritual disjuntivo, o “pertencimento” clubístico e a noção de jogo absorvente.
Palavras-chave: cultura; futebol; estética.

gosto pelo futebol resistiu à crítica de esquerda, Atualmente, o esforço de quem pesquisa e escreve so-

O acadêmica ou não, à apropriação pela direita,
especialmente pelas ditaduras, e até se constituiu,
de 1970 para cá, em uma ocupação profissional e em um
bre os esportes está dirigido para a compreensão e supe-
ração de certas perspectivas analíticas já esboçadas sobre
o tema. Por isso mesmo, o que foi dito contra o esporte
segmento em expansão da economia de mercado. Na pelos intelectuais de esquerda, fundamentados nas várias
América Latina, onde o futebol foi usado pela propagan- correntes marxistas – que o esporte era uma ferramenta
da dos regimes antidemocráticos, justificando, em grande ideológica da propaganda anti-democrática, que promo-
parte, o “denuncismo” esquerdista, o interesse por ele não via a coesão interclasses e amenizava o enfrentamento entre
diminuiu com o descrédito dos ditadores. Segue sendo a patrões e empregados, que tinha paralelos com o nacio-
“religião leiga da classe operária”, como afirmou Hobsbawm nalismo, etc. 3 –, não pode ser tomado como algo apenas
há tempos. Isso vale inclusive para a Europa, “berço da despropositado. O que se tenta fazer na atualidade é com-
civilização esportiva”, de onde surgiram também os preender a crítica ao esporte, por vezes transformada em
hooligans, em meados dos anos 70. Na África e na Ásia, militância anti-esportiva, como uma leitura possível da
os esportes modernos 1 eram pouco difundidos até mea- realidade, diversa, por exemplo, daquela feita por grande
dos do século XX. Houve, de lá para cá, um despertar parte dos próprios operários. 4 Observa-se, então, que as
generalizado, mais intenso, em que os conflitos étnicos conjecturas anti-esportivas dos intelectuais de esquerda
são menores ou há mais abertura para o ocidente, respec- eram uma reprodução muita próxima dos discursos dos
tivamente.2 sindicalistas da primeira metade do século XX. O compo-
Diante desse cenário era preciso que as ciências huma- nente político sobrepunha-se, em ambos os casos, ao com-
nas repensassem suas convicções, uma vez que, até bem ponente heurístico. Na verdade, não se pretendia com-
pouco tempo, desdenhara o esporte, considerando-o um preender o esporte e nem mesmo as razões pelas quais as
“tema menor” (Guedes, 2000; Leite Lopes, 1995). Nas classes trabalhadoras lhe tinham tanto apreço, mas denun-
duas últimas décadas – e, na América Latina, nos anos 90 ciar o seu uso pelo Estado e pela burguesia (Oliven e Damo,
– as ciências humanas foram superando os preconceitos e 2001).
tratando o esporte, o lazer e o tempo livre com a mesma A perspectiva funcionalista também tem recebido crí-
seriedade com que trata os temas clássicos (Alabarces, ticas. Circunscrevendo o futebol ao esporte e o esporte ao
2000). campo do lazer e do entretenimento, os funcionalistas ten-

82

avanço desejável. Isso não significa que recorrência a metáforas. em recente pu- ser menos preciso do que aqueles praticados com as mãos blicação do Caderno Mais!. evi.) os locais sociais da beleza. Se deixarmos de reconhecer esse fato azar e assim por diante. como sugere Gumbrecht. em ineficácia. no interior de essenciais. nos moldes sugeridos por Gumbrecht. a partir dessa homologia. var esportes a sério como um fenômeno estético pode tensão.. passa pelo reconheci- te distintos. pois perder e ganhar nicas. contemporânea que leve o prazer da beleza a mais gente reza –. bonito ou feio – independente do placar final. portes”. Para ele o ponto de partida para uma mocracias consolidadas –. por ser praticado com os pés e. mas da beleza dos rituais da ‘cultura elevada’ (2001:6)”. econômi- dentro. etc. tornar conscientes a nós (. Ainda que o esporte possa ter um componente fazem parte da experiência de atletas e torcedores. por outro. os esportes pas. em grande me. ainda. para explicar o êxito e o fracasso da nação e da seleção. do que os esportes. requer. como diria Gumbrecht (2001). ao fato de. Também informaria os prin- quais os esportes tendem a ser relacionados com outras cípios que norteiam tais escolhas e a relação delas com instituições. de modo que a mesma base epistemológica serviria portes constituiriam um espaço-tempo no qual seria pos. Diferentemente da rotina previsível e racionali.) É lícito dizer que não há outro fenômeno na cultura pés são pouco treinados. é porque temos enormes dificuldades para separar a fruição cados com as mãos raramente se pensa em infortúnios. por dife. a excitação. Pensar sobre esta questão. mesmo grosseiros. algo que não pode ser reduzido a outra coisa. Teríamos então um amplo espectro sociológico sam a ser interpretados como qualquer coisa diferente do das afinidades esportivas. principal- dencia-se a totalidade do fenômeno. do qual o futebol está situado. estando sob o domínio da natu.. particularmente. enten- que realmente são. os vencedores no esporte. que possibilitará o tos nos quais prevalece uma base racionalista – mas de. uma “rematada estética”. o futebol? Uma delas. ao passo que o futebol combi. sem dúvida. tação. igual em toda parte. tendo seu significado variado consideravel. os es. de grande O problema é como explicar. O problema aqui não é propriamente a der o esporte em sua especificidade. 1992:137-38). mão que o perdedor na vida vença no jogo – e. a maneira como foi apropriado. seria difícil sustentar tal conjectura saben- substantivado. sível vivenciar sentimentos agradáveis. por exemplo. de vista as particularidades locais e as variações diacrô. há o pop-psicologismo de senso comum é a restauração do tônus mental normal através de uma afirmando que os perdedores na vida se identificam com perturbação temporária e passageira da excitação agradá. “O caráter essencial do seu efeito catártico Finalmente. A questão aqui é saber se os ven- vel” (Elias e Dunning. Essa proposta explicitaria mente. Se. rentes grupos em contextos históricos e sociais igualmen. religiosos. se que a popularidade do futebol deve-se. um domínio cultural – seu êxito e fracasso esta. dos componentes contingenciais tais como sorte. Sendo o Brasil pen.. moderno (racional). perde-se mente. Em outras palavras. portanto. abordagem estética dos esportes “reside na incontroversa naria melhor com sociedades em que o pensamento mágico competência dos verdadeiros fãs de dizer se um jogo foi ainda possua um apelo significativo. mas que existe. com as mãos seriam aceitos mais facilmente em contex. “Le- – sobre as quais recai um extenso aprendizado e. o futebol teria entre nós grande acei- zada do mundo do trabalho ou da vida doméstica. à saúde mental. de que nos esportes. por ex. No caso do Brasil. FUTEBOL E ESTÉTICA dem a destacar o caráter compensatório das práticas em sado a meio caminho entre o tradicional (mágico) e o questão. mas certos vínculos forçados. Tal juízo 83 . catártico – desde Aristóteles esta explicação é evocada – Descartadas as possibilidades criticadas acima. Ao contrário. que lhe é próprio.. diz. como equivalente para todos os indivíduos do que no esporte também se perde – nada garante de ante- ou grupos que dela se apropriam. por um lado. 5 a porte ou se a explicação só vale para o primeiro caso. Ou. “por que gostamos de es- dida. cos. De partir do qual o significado de uma prática social é qualquer modo. um e outro campo. os esportes praticados Mas talvez não seja uma estética formalista kantiana. sendo seu significado imposto de fora para outros valores e atitudes – políticos. demonstra que as suas “funções” pouco têm mento da especificidade do campo esportivo. rem sujeitos a explicações de ordem mágica – porque os (. e particularmente no futebol. desconsiderando as especificidades de em toda parte. necessários à renovação das tensões essenciais popularidade do futebol na Europa. nos esportes prati. até ele tenha uma essência. cedores na vida se identificam com os perdedores no es- cursões funcionalistas é o seu caráter universalisante. existem regras de “pertencimento”. como e restaurador. O problema das in. e de que modo compreender o esporte e. a maneira como as preferências esportivas estão distribuí- Também existem as investidas metafóricas a partir das das em diferentes contextos. mas nos faltaria.

bes e dos próprios torcedores entre si. futebol. Existe nos meios esportivos e até fora deles uma desa- desde um ponto de vista antropológico. dores em marketing e publicidade. em quais conceitos e critérios acham-no belo” (Gumbrecht. to. pela dis- porciona. usadas para explicar a mudança de cenário. pelo amor à agre- destacar a importância de certas categorias analíticas tais miação e coisas do gênero. especialmente do duzir no público a impressão de que o futebol de outrora futebol. daqui por diante. normalmente vistos como aci- po dos estudos sobre os esportes. era voltado para o espetáculo: dribles. bate. efeito e malabarismos diversos. pretende-se ma dos interesses econômicos: no caso. existem gens mostradas atualmente como uma seleção e. 6 A tendência lo. é concordar totalidade. O objetivo deste ensaio é dar continuidade a um ideais. que existem alguns crité. não existirem dados obje- rios. dos seus valores originais. a partir dos quais se pode afirmar. dente pela ausência de critérios objetivos. O que se diz. deiros fãs” e de que estes não são capazes de expressar os o acabamento natural. bastante gerais. a memória das ponto à visão de Gumbrecht. 2001:6). especialmente o so e envolvente é a chave compreensiva do fenômeno es. juntar muitas das contribuições recentes no cam. Concordando que o ponto de vista estético é essencial Essa visão romântica que evoca a “beleza do morto” é para se entender a razão pela qual os esportes em geral e decorrente. De qualquer modo “pertencimento”. será apresentado. do fato da mídia reprodu- o futebol em especial são apreciados intensamente pelo zir um dado recorte do passado futebolístico. seriam na atualidade a negação dos seus próprios portivo. puta em outros parâmetros. Os lances menos cotados. como teria se tornado na atualidade. tivos capazes de apontar para um aumento da competiti- vidade e nem mesmo da violência. como: ritual disjuntivo. Parte-se. geralmente público. em grande medida. . Mas oferecer às definições precedentes pon. enquanto outrora possibilidade abrangente que a interpretação estética pro.SÃO PAULO EM PERSPECTIVA. uma vez mais. dos torcedores aos críticos. um contra. portan- diferentes modalidades de vínculos entre torcedores e clu. senão para tapés e jogadas violentas são preteridos. porte. na sua em geral. 84 . Os contra-exemplos à tese do futebol romântico são dem formas diferenciadas de expressar o sentimento de tantos que não vale a pena listá-los aqui. Mais vulneráveis ain- segundo o comportamento dos torcedores. toques de sultado do jogo. O RITUAL DISJUNTIVO A contrariedade em relação à perspectiva de Gumbrecht é. então. Assim. segundo dizem. pon- apenas para entender o juízo dos torcedores. encontrões. mos de lucro ou prejuízo. importa não apenas os aumento da violência – dentro e fora de campo – e isso juízos expressos verbalmente mas um conjunto de signos tudo devido ao incremento do capital econômico no es- comportamentais que. parte do que fora o futebol. tornando-se uma ativi- debate que está apenas sendo iniciado e que pode. A primeira questão diz respeito especialmente no caso brasileiro. com a afirmação de que o futebol já não é mais o que fora. era o que as imagens mostram em vez de entender as ima- . observados por ocasião dos jogos. sendo. fintas. cujos resultados passaram a interessar aos investi- indicam se esse é ou não um jogo absorvente. dada a dade permeada por interesses difusos. sinôni- Compreender as categorias que tornam um embate den. finalmente. tos de vistas divergentes. e o gol sendo o produto. não se pode destacar a análise de Gumbrecht em sua quase unânime. portanto. provação ao suposto aumento da competitividade e da ta de substituir um olhar por outro – o da filosofia e da violência. da hipósete gerações mais jovens inclina-se a ser tendenciosa. Para tanto. portanto. “pertencimento” clubístico e jogo embora normalmente não sejam capazes de dizer com base absorvente. É difícil responder se essa constatação é proce- crítica literária pelo antropológico – e sim de complementá. uma vez que: que é influenciada pelo recorte operado pelos meios de .o resultado do jogo é um componente importante não comunicação. 15(3) 2001 será sempre ponto pacífico para quem aprecie o jogo. produto de um olhar diferenciado. em grande medida. se caracterizaram pelo amadorismo e. à presumível independência entre o juízo estético e o re. em que. às quais correspon. 7 Os esportes. é que o aumento da competitividade gerou o interação com a dinâmica do jogo.em vez de verdadeiros – e falsos – torcedores. o que pode pro- entender a própria lógica dos esportes. os gols e as jogadas de exceção. e. jamais o objetivo principal do em- critérios e conceitos que fundamentam seus juízos. se um jogo é da são os encadeamentos (i)lógicos e as justificativas bom ou ruim – e nem tanto se é bonito ou feio. deve-se afirmar. Como não se tra.tratando-se do comportamento dos torcedores. A segunda sugere a existência de “verda.

No jogo dos primitivos. Contu. ser acompanhada com expectativa. No correspondente inverso. uma pletamente diverso do esperado. pela qual cada gesto ou seqüência de movimentos tende a mente em desequilíbrio. e ao fim são integradas sob uma mesma ca. a assimetria é engendrada pelos cam passes laterais. Por isso a com- jogam tantas partidas de futebol quantas forem necessá. Certamente não será quando os atletas tro- ralmente pré-ordenada. ainda. as oportunidades de gol ou. naquele episódio. foi com- minam uma certa perspectiva de encarar os jogos. reconstituído. mantendo. improvi- ritual disjuntivo. presente na própria estrutura do jogo. porém insuficiente para rias até que o escore final de partidas ganhas e perdidas se entender. ou se se preferir. em relação ao seu desfecho. empatar –. porque alguns jogos são mais seja equivalente. por extensão. resse pelo espetáculo esportivo é dado pela expectativa veremos que os esportes evoluíram no sentido do contro. para. dos esportes não existe um roteiro pré-definido. inicialmente aberta embora limitada estruturalmente – dizem os torcedores. preparo. preensão da estrutura é importante. Enquanto Hamlet já foi não apenas ganhar. etc. vivenciam o teatro. rolar dos eventos próprios à sua dinâmica. expectativa esteja presente em certos gêneros teatrais ou trário). 8 perde sua dimensão estética por apresentar tais compo. dos diretores. Se tomarmos Elias e Dunning (1992) como referência. o cas elementares – chamadas de fundamentos –. espíritos. A imprevisibilidade é um dos componentes centrais do nentes. por exemplo. devem ser respeitadas pelos contendores. ainda não surgiu nenhuma adaptação da fi- Dessa comparação é importante reter duas premissas: nal da Copa de 50. sendo o processo atletas treinam para. A maneira como nós. portamento das torcidas. 10 A o jogo possui uma estrutura. ser irreparável. o ritual con. um grau variado de violência cinematográficos – no suspense. diria que a violência (física ou simbólica). razão e vencidos. ainda. no com- por exemplo. petáculo esportivo. Em resu. Uma abordagem esté. teatro. O jogo. O placar final não traduz. quando um atacante desperdiça todas acontecimentos do jogo. exceto para o cinema. mas uma mo. diferentemente do modo como atores e espectadores do. espetáculo esportivo. em hipótese alguma. por fatores tais como competên. em alguns poucos esportes. Os gahuku-gama. especialmente no caso dos (pecuniários ou não) e a competitividade estão prescritos contendores serem equiparados. quando um jogo está empol- tegoria. mas adaptado segundo diferentes versões mas de todo modo desconhecida até o final do evento. Ainda que essa le e da restrição à violência física (e não em sentido con. sem admoestar os vivos. em que os atores ensaiam exaustivamente o rotei- juntivo. fundamentalmente. foi um final surpreenden- 85 . uma disjunção entre vencedores enfrentamento e da disputa entre os contendores. não alterou substancialmente a sua dinâmica estrutu. a partir do domínio de certas técni- orientado para esta finalidade. A excitação proporciona- estão. encaramos os jogos é simetricamente oposta à mentação das ambigüidades proporcionadas pelo desen- maneira dos povos ditos primitivos. gando ou não. leiro para o uruguaio por 2 a 1 – recebeu este epíteto por tica deve ter em conta essas premissas porque elas deter. como supõe a visão romântica. produz acontecimentos. a performance consiste em fazer passar todos os ro para apresentá-lo o mais fiel possível. tendendo a oscilações significativas que são o produto do produzir-se a assimetria. no caso potencial. O desfecho. ao final. FUTEBOL E ESTÉTICA O aporte financeiro cresceu continuamente nas três úl. os lucros indeterminação completa. cujos códigos tais. Já os índios fox simulam um jogo entre espetaculares do que outros tendo todos eles a mesma base mortos e vivos deixando os mortos vencerem para que seus estrutural. entre os torce- mar a comparação paradigmática entre ritual e jogo feita dores. uma realidade sar durante o espetáculo. obviamente. da Nova Guiné. entre iniciados e não-iniciados. sensibilidade que norteia a ação de atletas e torcedores. Boa parte do inte- ral. Embora a indeterminação seja essencial ao bom es- por Lévi-Strauss (1989). parte-se de uma situação de presumida equivalência são de domínio. prestigiados com a vitória. que produz “tragédia do Maracanã” – derrota do selecionado brasi- realidade. dita disjuntiva. No jogo dos ociden. os da pelos esportes decorre. eventos/acontecimentos. sorte. o que é considerado como pela estrutura do jogo e. Enquanto no primeiro caso a simetria é estrutu. É perceptível. Ao contrário do ritual disjuntivo. Daí porque o jogo é chamado de pes tem sucesso em todas as investidas. o jogo não ideal. reforçada pela existência de regras que Um jogo raramente possui um desenvolvimento linear. timas décadas trazendo mudanças significativas. da tensão entre os atletas e. Ela é responsável pela manutenção Para entender melhor essa formulação é preciso reto. o cinema e o circo. perder e. fundamentalmente. à disjunção. permaneçam onde os desdobramentos da partida. especialmente –. da experi- ocidentais. 9 no esporte os participantes para o lado do ganhador. as partes estão inicial. daí porque cada jogo é um jogo. este não se reduz a ela. entre as partes. quando uma das equi- cia.

De outra parte. Não há sín. e nisto se parece com o teatro. O prazer estéti- beleza possa ser contemplada em si mesma. repetitivos mas o resultado do jogo influencia de tal modo a sensibi. de violência pode parecer uma montagem premeditada. mais Parte da estética esportiva não está ao alcance de quem do que se foi bonito ou feio – repousa sobre esta variante. para ser do sobre uma dinâmica de forças oponentes. co depende do entendimento da dinâmica do jogo. mas apenas simulada. O gol ra. o esporte não pode ter nenhum dos atrativos do de uma das partes implica o fracasso da outra. um acontecimento. 1994:25).) quando moço. Isso tudo.. qual é o tipo de realidade seja observador. Talvez este seja um dos paradoxos do esporte.. Como diria Armando Noguei- senlace imprevisível que cada jogada proporciona. nunca errei – goal no original. de modo geral.). com o próprio futebol. pela execução (Nogueira apud Toledo. Seu êxito ele é uma guerra. empurrar o time ou. vai para a guerra. próprio de um acontecimento. ou a maior parte deles ao menos. Para uns. com o significado esperam apenas gestos tecnicamente bem executados. mas antes para vivenciá-los. intensamente do espetáculo. observa apenas a forma. mesmo que Em nossa cultura o espetáculo esportivo está assenta. objetivo – é um um passe e muito menos um chute. mais parece uma seqüência de lances inócuos. seja quase sempre uma guerra metafórica. Assim. “(. participando zer estético invisível. estéticos – que definirão se um jogo foi bom ou ruim. é claro. cuja do embate. para protestar. do alto da arquibancada. quer dizer. como sugere Veríssimo. fruto da tensão originada pelo de. os críticos do esporte. sua especificidade passa pelo reconhecimento desse pa- suem ou imaginam possuir a distância necessária para as. 1986). por meio das vaias – a forma de Além do espetáculo decorrente do êxito de determina. o jogo mais resultado final do enfrentamento ou pela expectativa criada parece uma fissura no tempo e. Os tor- do gesto ou de uma seqüência deles. Para os torcedores é a vitória/derrota do seu ria eterna – mesmo que no ano seguinte todos voltem a ter time que lhes importa sobremaneira e boa parte dos juízos zero ponto” (Veríssimo. de outra parte. na qual o êxito atraente. é um faz-de-con- representava a humilhação do adversário incapaz de contê.. o suspense deve simbólica. Trata-se do ponto de vista daqueles que De um atleta ou da equipe pela qual se torce não se não têm familiaridade com as regras. por- leite de botafoguenses e brasileiros. dilacerar ou ser dilacerado. e sem sentido. simplesmente. portanto. o gol é o coroamento bem-su. pos. enfim. significando meta. A compreensão do esporte na torcedores e. pressupõe aprendizado e. tilhados pelos futebolistas é que o jogo é uma guerra esperado – desequilibrando o adversário com um jogo de mimética. não assistem que seu time do coração não esteja envolvido. intangível que vai ver um jogo como vai a um concerto. Os sistir ao seu time e muito menos para assistir a jogos em torcedores. 1996). no caso dos que vão ao es- em relação a ele. Cheguei a perder a desfecho possível e pode proporcionar aos espectadores conta dos gols que fiz com os pés que não foram meus” o prazer estético pela forma.SÃO PAULO EM PERSPECTIVA. um triste episódio que significa a morte. mas pode. sendo. em certas circuns- certo distanciamento –. 15(3) 2001 te. Visto sob esta perspectiva. mas uma cer. para outros ele representa tivesse barrado Ghiggia” ou “se Barbosa estivesse aten. o que ta eficácia. negadas e saindo sempre para o lado direito. a busca do coração do inimigo e da gló- tal ou qual. Sendo assim. Tem de ser uma séria e quase trágica competição confronto entre eles não gera um evento único. to” e assim por diante – dão a clara idéia de que existe “Nenhum torcedor diria que se ‘entretém’ com seu time. algo irredutível. atua- 86 . mediária a outra. concordância em tagem técnica sobre os adversários e isto configura uma relação a alguns significados. Um desses significados par- relação de poder. também há um pra. Cada movimento necessita produzir uma van. o conta. Findo o ritual disjuntivo. um filme por um cetro (. Raros são os torcedores que vão ao estádio – ne- sistir um jogo sem se prender aos ímpetos de euforia e ira nhum. As discussões enunciadas no condicional – “se Bigode cedido de uma longa espera. depende ainda de quem tádio. um raro espetáculo de supremacia para o de. numa inequívoca demonstração de poder. Vai-se aos aos jogos para formular juízos imparciais – o que requer jogos para torcer. O drible de Garrincha era repetitivo. é hiperbólico – para as- provocados por lances como o drible de Garrincha. cedores. produzida pelos esportes? É da ordem do simbólico. Apenas uns poucos tanto. ta. nenhuma sugestão de montagem ou faz-de- tese possível entre o bandido e o mocinho e. participação política mais contundente no futebol. Desse ponto de vista o futebol Isso não significa que eles se importem apenas com isso. tâncias. com a bola sendo conduzida de uma inter- lidade que acaba se tornando determinante. particularmente. os torcedores seguem o curso mo êxtase em razão da importância que ele possui para o normal da vida. no espaço.. radoxo. produzir-se ao longo do próprio espetáculo. proporcionar o mes. Vai para a reprodução (Perdigão. espetáculo. têm uma atitude ativa.11 primorosa. ele não lo.

Trocar de clube. via de re- dominado pelo movimento e pela prática corporal. em discussões mais acirradas. Essas discussões. distri- O PERTENCIMENTO CLUBÍSTICO buiu 50 mil cópias de um manifesto contra o narrador Galvão Bueno e a Rede Globo. 87 . do peito. vale para os demais clubes. que não escondem O domínio dos códigos futebolísticos garante o acesso a para que time torcem” (Folha de S. Como diz o hino do Flamengo. Ape. autógrafo e da ida ao estádio. presidente da Gaviões da Fiel.7%. ideológica. chocolate. Recentemente. a Mancha Verde. ele é indissociável das redes de sociabilida- tica – pois os jogos são recriados.. sempre popularíssimo entre nós desde o início do século XX. superando. 4. 8. Exceto aqueles cuja escolha ocorreu muito passando a fazer parte de um mundo mais amplo que a casa cedo – isto é muito freqüente entre famílias de torcedores e a família. bridade do sujeito. 6/8/2000:12. próprio da brincadei. do faz-de-conta.Paulo. como torcedor de uma e os distintivos dos clubes estão fixados do lado esquerdo dada agremiação. a Top Kids. o que lhe permite se definir e exercitar como fanáticos. Torcer por um sificando a transmissão como “tendenciosa e desrespeito- clube de futebol é a chave para a entrada num universo sa”. O índice dos que “não sabiam” ou “não res. eqüidistantes da ira torcedora. cabendo ao torcedor arcar com o ônus nas em circunstâncias especiais. cuja importância dada ao futebol é mí- be para torcer pode ser dimensionada pela precocidade da nima. requi. 7. Opina-se a partir de um referencial. do prazer mimético. Como a escolha do clube do coração não é feita ao sa- ra e da ludicidade. estes últimos tendem a mente. o praticante possa dosos. vindo alterar o curso geral da Nação. do Palmeiras. Flamengo. lização primária e. cujo “pertencimento” a mesma agremiação re- parte de uma totalidade. certas discussões que ocorrem em momentos de sociabi. os jogos produzem acontecimentos que bor das contingências. evocar sua experiência como dispositivo de autoridade. omitir sua predileção clubística para se manter sito indispensável a qualquer esporte. lidade intensa. permanece na lembrança dos cedo.12 Além rante. vivida na rua. ção. normalmente circulares Em que pese o pertencimento ser vivenciado no domí- – pois não são jamais conclusivas – e de natureza hipoté. embora seja possível.3%. gra. Segundo Dentinho. A rede de sociabilidade responsável pela socia- discutir-se futebol em termos abstratos. Como não se trata de uma escolha de natureza no Rio Grande do Sul em 1997. A importância de se ter um clu. Uma pesquisa sobre as marcas mento em que se tornaram palmeirenses. mas que. o topos corporal no qual se representam as emoções. pela inculcação de certas A escolha do clube do coração é realizada desde muito sensibilidades emocionais. ironica. revelou um dado impressio. o panfleto endereçado “à grande nação mos torcedores não-praticantes. ocasião a partir da qual o indivíduo torna-se pessoa. torcedores. embora política. “uma vez Flamengo. enquadrá-los de acordo com critérios muitas vezes duvi- mo que. como ocorre por ocasião da sua opção. TV Folha).13 Ainda que tenha. portanto. em pleno domínio monta três e até quatro gerações. de um que lembrava. Flamengo até morrer”. os fatos esportivos avançam so. tais como família. “a gente prefere aqueles já declarados. discutir é mais importante do que praticar – mes. os itens: refrige- chamados clubes do coração e ao gênero masculino.. exigem dos envolvidos uma amigos. alterada facilmente. nio público. suscitar ameaças. palmeirense” denunciava a suposta imparcialidade clas- tes que não tenham seu clube do coração. FUTEBOL E ESTÉTICA lizando um intrincado jogo de símbolos associados aos ponderam” foi zero. os processos de convencimen- nante: nenhum(a) dos(as) entrevistados(as) se furtou à res. Diferentemente da postu- O amor aos clubes é a mola propulsora dos esportes ra imparcial e isenta. é uma de eventos como a Olimpíada. Omitir ou mesmo en- duziu perturbações duradouras na política ou na economia cobrir a opção clubística é uma falta gravíssima e pode nacional. 1994). cada qual escalando de próximas ao indivíduo. Embora os cronistas esportivos procurem. to são travados na esfera das emoções e o “sim” normal- posta quando perguntado(a) sobre qual o “time de futebol” mente é ritualizado: por ocasião de um presente. vizinhos e seu time e fazendo-o atuar –. 15 Não por acaso se diz que os clubes são do cora- clara definição acerca da posição em que se encontram. evidentemente. pro. especialmente do futebol. uma vez realizada não pode ser reverberam no interior do próprio campo esportivo. assemelhando-se a uma público (Da Matta. São raros os episódios em que o futebol. atleticanos ou mais lembradas entre as crianças. e isto bre a vida real. podendo gerar suspeitas sobre a hom- final de certame nacional. inclusive. “virar a casaca”. é raro encontrar pratican. casta – ou outros. e programa de TV. a Copa do Mundo ou uma falta gravíssima.14 realizada vascaínos. e pela emissora.7%. pretendida e afirmada pelo narrador coletivos. os demais geralmente lembram com detalhes o mo- escolha e pela sua extensão.

quando desdenhada: afinal. Para tanto é necessário aprender certos acessar alguns conflitos subjacentes à dinâmica social. permite-nos galos em Bali. sobre a Briga de galos em Bali e dirigentes do próprio clube. em espaços públicos. segundo a qual os autoritarismo e ao conservadorismo dos cartolas que ma- perdedores na vida se identificam com os vencedores no nipulam as regras – torna cada torcedor um comentador. assim como os como escreveu o poeta Drummond: “A estética do torce. entre outros? pensando apenas no lucro pecuniário que poderão ob- Por tudo isso. A idéia de jogo absorvente é retirada de um texto clás- se xingar a polícia. UM JOGO ABSORVENTE be está em evidência. Sendo uma prá- blime euforia. Claro que é difícil associá-los a certas categorias sociais. tica corporal. mas se lhe perguntam o que sente. aquele que desperta o interesse do público? lece o anonimato individual (Toledo. a estética futebolística brasileira. – certas mensagens cuja de. mas não pode ser modo e em outro lugar. do campo. embates. Se existe um campo no qual a autoridade dos críticos tem Todavia não basta que um clube esteja exposto na mídia. Elas campo é o do futebol. 15(3) 2001 O “pertencimento” também é único. Como socialistas ou reacionários” (Revista do Grêmio. e a duras penas. Todavia.16 A fidelidade ao clube contraria fron. estarem. astuciosos e viris. é um fato social de grande apelo popular. Assim. cartolas. branco/negro. bol. pode. a maneira botafoguense. 1999). que dificilmente seriam ditos de outro cadas. Abordar o “pertencimento” e as atitudes decor. em termos de forma e conteúdo. gestos. alicerçados. os torcedores adversários e os atletas sico em Antropologia. A partir estéticos que orientam o comportamento individual e co- dela se tem acesso a um universo no qual a brincadeira e letivo dos aficcionados. etc. 1996). o que vem a ser um bom jogo de fute- vivenciada coletivamente.SÃO PAULO EM PERSPECTIVA. – diferentes estilos que variam no tempo e no espaço. enderemos algo sobre a cultura brasileira – dos homens. demais esportes. pode-se dizer que compre- rentes deste vínculo desde o ponto de vista estético impli. identificados em pares de contrá. preciso saber que os homens não fazem suas apostas grande/pequeno. via de regra. De mais a mais. como somos liberais. Ou códigos do embate. estabe. Finalmente. 1989). e saber diferenciar um galo bom da sua imitação. é algo que a perspectiva sorvente é aquele que põe frente a frente galos (atletas) formalista não pode captar. como é o caso das regras e das apos- seria mero casuísmo o fato de os clubes de futebol no Brasil tas. ve hermenêutica geertziana. os parâmetros éticos e das tantas existentes nas sociedades complexas. torcedores. mas respeitando certos códigos sociais. O jogo ab- particular da estética esportiva. um pano de fundo cultural no qual os sentimen- mum certos torcedores realizarem escolhas em segundo tos de pertença e o próprio gosto pelo futebol estão grau de importância. uma espécie de militância especialmente desperta quando o clu. Entretanto. como são os gaúchos e assim por diante (Damo. mas não se pretende aqui estabelecer ana- Torcer é uma forma de participação política bastante logias entre os fatos sociais. centro/periferia. mídias. uma tos e os interesses do seu público. O futebol é um ritual performático que. é rios do tipo elite/popular. esporte. pela arte de jogar – do uso de técni- rá antes uma emoção política. seguindo a cha- peculiar. Torcer por um clube de futebol é uma atitude política. Há um sentido profundo nos de boa linhagem e seus donos de status elevado (clubes 88 . um crítico autorizado para falar em estilos de jogo e tamente da performance da equipe.:44). (Geertz. quando estes clubes repetem desempenhos medíocres. O futebol-arte re- convencer uma criança ou um adolescente a tornar-se velaria o caráter do carioca. vestuário. para angariar adesões. nem todos os espetácu- a jocosidade são essenciais. revela. de atletas. coisa que apenas os iniciados estão aptos. este que vença vários campeonatos. informa os gos- O "pertencimento" clubístico é uma máscara social. devem ser compassadas pela rede de sociabilidade. A máscara clubística. Somos fluminenses ou cas específicas e do treinamento para produzir a eficácia vascos pela necessidade de optar. O caráter democrático – em contrapartida ao talmente a tese do pop-psicologismo. fluminense ou colorado nos dias atuais. da mesma forma que se observa a rinha de cifração. um caso ter. pois é por intermédio delas los futebolísticos despertam o interesse e boa parte deles que se expressam sentimentos e pontos de vista. A pergunta é um tanto óbvia. s. de ser permanentemente afirmada. etc. o futebol-força.d. ca reconhecer nas manifestações dos torcedores – das especialmente – observando o comportamento em torno falas. exprimi. que lhe produzem uma su. embora seja co. põe em ação diferentes atores sociais e dor é inconsciente: ele ama o belo através de movimentos pode ser interpretado desde o ponto de vista da atuação conjugados. não raro tem-se realizado sem a presença de público nas arquiban- preconceituosos. a escolha depende muito indire.

podendo se envolver em atos violentos. os mitos. as torcidas atualizam certas querelas que te pode acarretar. em torno dos contigüidade emocional” (Prado. enfim. São o resultado de sobreposições e arranjos múltiplos fossem um exército incumbido de defender verbal e fisi. O gol é que o “pertencimento” não se esgota no amor ao clube do um evento raro. as informações. colégio. bros dessas torcidas acreditam demonstrar seu amor ao De outro lado existem a história. então. religião. cujas rivalidades foram forjadas decorrente do risco que o embate enseja. quanto mais densa a rivalidade entre os clubes e os As identidades clubísticas são contrastivas. Assim. cedores – códigos. a tradição e a memó- clube com um tipo de envolvimento militante. quer se paráveis ao de pular e gritar com a multidão. vertical. “Esse é o ritmo próprio do futebol: mui- sociedade e giram em torno de sentimentos vinculados a tas ameaças. tidos como jogo propriamente dito. basta que a tra- numa temporalidade cíclica. tribo. produzidos pelos vários segmentos que constituem o uni- camente. será plenamente espetacular para aqueles da intensidade com que cada torcedor vivencia o futebol.17 te pelo espetáculo que os jogadores proporcionam. Todavia. inserido noutro. ligado ao heróicos. vão atualizando e reordenando dição lhe assegure uma posição de destaque. A traje- No futebol brasileiro as rivalidades entre as torcidas tória pregressa de cada um deles. da posição e bes. a importância do jogo e a história dos clu- mais variadas formas. marcado mais pela sua sentimentos (Souza. Mas a cada evento são “jogados” – do ponto de vista dos tor. outras tantas tendem a ser inven.. ano após ano. gosto musical. que é o jogo. e as implicações mais imediatas que o resultado do emba- Em linhas gerais. por contextualizada. 1997:213). “cada jogo é um jogo”. o seu significado. O tempo do clubes de futebol. é claro. Os mem. riqueza e densidade e menos pela duração. As torcidas organizadas. do 89 . tanto maior ainda nos tempos do amadorismo – antes dos anos 30. Cria-se. de modo desdobramentos que o resultado pode acarretar. estão permanentemente lutando por espaço e seqüência de lances propriamente dita. dependendo. Há divergências fortíssimas mesmo “discute futebol”. 1983:26). dando a este capacidade de distinção. por direito de ou lugar” (Lever. costume. do ritual enfrentamentos mais densos são aqueles envolvendo clu. extensas comunidades imaginárias de gol é um tempo espesso. se preciso for. disjuntivo propriamente dito. as lembranças. esporte um encadeamento com outras esferas do social e tadas. aqueles em que nascemos. FUTEBOL E ESTÉTICA tradicionais). num tempo e espaço que não é o do bol. Nesse espaço-tempo é que circulam as entre as torcidas organizadas de um mesmo clube. (. o seu contrário. como se ria. As tal estabelece uma ruptura decorrente da densidade do rivalidades estão associadas a categorias mais amplas da seu significado.) Há poucos prazeres com- “grupos primordiais. etnia rando um gol que passa a ser de todos. verso futebolístico.. em que se dos “outros” clubes. do trabalho e do lazer. Daí existe uma Já os torcedores de um mesmo clube pensam-se a par. Essas segmentações de natureza estrutural podem aos agentes sociais – por intermédio daqueles que se dizem ser ilimitadas. valores e atitudes de acordo com a pe- binação. Nele destaca-se a tensão bes da mesma cidade. 1996:45). dimensão estética que só pode ser apreendida se tir de uma lógica segmentar. dos quais se dem certos comportamentos dos torcedores – e também diferenciam pela forma e intensidade de pertença. como um “faz-de-conta”. a honra da nação-clube de fute. e do-o “clássico”. culiaridade dos clubes envolvidos no confronto. E o inverso também é verdadeiro. e outras tantas afinidades exógenas ao clube do coração e Uma partida de futebol pode ser apreciada simplesmen- ao futebol. Por isso os De um lado há os 90 minutos de jogo. e como coração. Um jogo poderá ser Os jogos que se sucedem uns aos outros. circunscrita à própria origem dos clubes. cujos jogadores e clubes pertencem. Mas A cada jogo e mesmo no espaço do cotidiano essas será mais espetacular ainda se puder identificar a trajetó- pertenças segmentadas são afirmadas e reafirmadas das ria dos atletas. constituem os elementos mais signifi- fazem parte da história das agremiações. As hostilidades não se limitam aos torcedores espaço da casa e da rua. Na anedotas. medida em que certas marcas diacríticas vão perdendo sua no qual se aproximam futebol e sociedade. mas na aversão por outro. quando um jogo é denso de ambos os pontos de vista. boa parte delas cativos de um jogo. denominan- as relações de pertença. à qual correspon- visibilidade diante dos demais torcedores. excitante mesmo que tecnicamente fraco. É o tempo do cotidiano. O risco e a excitação decorrem dessa com. poucos gols. cularíssimo. do confronto entre eles são causadas pelas rivalidades existentes entre os clubes. comemo- concentrem na língua. o que implica observar a sua forma – a exemplo. raça. mobilizando códigos e "pertencimentos" até torcedores – uma sociabilidade vivida de modo parti- certo ponto aleatórios – de bairro.

que transcende o campo esportivo ou das práticas cor- disjuntivo. sugere-se a leitura da resenha crítica de Lovisolo (1998) à tese de Mauro Betti – Violência clube do coração). um longo trabalho de pes. 1983. três e até quatro segmentações que estabe- lecem. De outra parte. o modo de torcer. Em relação à África é crescente a participação bem-sucedida bol e os demais esportes não devem ser entendidos como de seus atletas no atletismo – especialmente em provas de resistência – e também meros negócios manipulados pelas grandes corporações no futebol. permanente processo de mudança e é preciso captá-las. do futebol especialmente. incursionando sobre os valores éticos e esportivos internacionais realizados em países asiáticos com sucesso de público. de Malinowski a Radcliff-Browm. 1995:41). à funcionalista de alguns dos seus postulados não compromete a totalidade de sua idéia de que consumir implica “destruir. teatro e do circo. definitivo. cujas pretensões eram. em última instância. a partir deles. “inesquecível”. e a diferencia. expressa pela estru. – para explicar o fenômeno esportivo é bastante ex- exige. deve incorporar as no. o entendimento que diferentes segmentos têm sobre a questão. violência. duas. o seu processo civilizador de longa duração é mais apropriado para o entendimento da emergência dos esportes modernos – e apenas em parte esporte. O significado do futebol não poder ser condensado em Elias e Dunning. De çar. o “pertencimento” clubístico e o jogo absor. Se é fato que os torcedores se queixam de que os atletas são mercenários e não têm seu lugar. escrita em parceria com Eric Dunning. justamente. Como exemplo. resistência a ela por parte dos operários ver Antunes (1994). segmentadores do público. a performance circense. 90 . existe uma primeira divisão que separa amado- res de profissionais e. regradas. Soares (1979). por exemplo. obra. preservando sua in. Os esportes modernos diferenciam-se dos jogos tradicionais praticados na Renascença e na Idade Média pelo incremento das regras. fundamentalmente. em campo. vente são categorias que nos permitem chegar ao gosto 2. da violência. são atitudes que estão em mais sutil do que aquela freqüentemente empreendida.SÃO PAULO EM PERSPECTIVA. acabaram se esportivizando – transformando-se em competição – e se populari- zando no Ocidente. pela lógica do “pertencimento” e pela densi. de comemorar o gol. os pesquisadores na área do esporte têm a obrigação de estar atentos e saber distinguir o contexto mentado nos estádios modernos: cada torcedor ocupando e o significado da manipulação de valores e símbolos no campo esportivo. convém esclare- cer que o termo “esportes modernos” abarca um conjunto extenso de práticas sorvente. uma certa eqüidade. mas são gêneros específicos dentro do cinema. na fronteira meridional do Rio Grande do Sul. 15(3) 2001 ritual disjuntivo e da tradição. notadamente entre as public schools ARREMATE inglesas. do desperdício de dinheiro (empenhado para como obviedade. A bibliografia que empregou as noções marxistas e frankfurtianas – tais como cia delas. disputado pelo Grêmio Bagé e pelo Guarani da mesma cidade. individuais ou coletivas. Na ocidentalização do Oriente e orientalização do Ocidente os esportes ocu- pam um lugar de destaque. com nos estádios. na vida pública das sociedades contemporâneas. decorrentes do confronto entre os co-irmãos. Ora. mas também não se pode ignorar a influên- 3. massificação. e a todas as suas matizes. juntamente com a América Latina. Damo. teatro cf. alienação. Uma prova disso é a grande quantidade de eventos dos torcedores. etc. Creio ser necessária certa cautela para não contaminar as observações de dade dos embates. por exem- 6. Esta é uma das razões pelas quais existem divisões hierárquicas em todos os esportes. em que pese ele tenha assumido tama- um conceito fechado. De mais a mais. acerca da mercantilização tura ritual. porais. 4. desperdi. praticadas por amado- res ou profissionais. é que ele pode ser dito ab. por extensão. “amor à camisa”. ao passo que as suas investidas funcionalis- ções de excesso. não apenas a sua explicação do tecimentos está indissociada da idéia de que boa parte deles esporte. o Ba-Gua. substantivado. Em relação a Norbert Elias é oportuno explicitar que o viés são consumidos no próprio meio. da ordem alterada nas cidades por oca. e cujo aporte ao “tema menor do esporte” está acima de qualquer contestação. prejulgamentos. entre estes. inventadas a partir da segunda metade do século passado nos internatos para jovens da elite européia. 1995). E. Nessa perspectiva o futebol deve ser compreendido como um esporte moderno. se aproximam do jogo. O aumento do aporte de recursos financeiros no esporte requer uma análise protestar. tendo-se tornado nas duas últimas décadas o grande celeiro do futebol europeu. (Como pesquisador. do pela economia de mercado. de preferência numerado. 1. ver Souza (1996). O suspense. freqüentar os espetáculos e adquirir objetos ligados ao Para um exemplo da fragilidade dos argumentos mais recorrentes. dar a esta impressão leiga contornos científi- cos e. NOTAS 9. o autor deste artigo. de privatizado. do Agradeço a presteza de Patrice Schuch pelas valiosas críticas e sugestões às ver. tensa. tem a pretensão de suspender temporariamente seus juízos – francamente contrá- Mas o futebol também tem ordem. do futebol brasileiro – para apreciar as mudanças em curso na atual conjuntura do futebol. contrapor-se à maneira como o futebol vem sendo apropria- bebedeiras. O ritual nha importância entre nós. A hipótese de que os eventos esportivos produzem acon. como é o caso de quase todos os grandes clubes do futebol brasilei- ro. dinheiro. gastar. uma das razões pelas quais a Copa de 2002 será sediada por Japão e Coréia do estéticos que orientam esta modalidade de participação Sul. especialmente de A busca de excitação. o caratê. não apenas à Escola Britânica. seja tido plo). esgotar” (Featherstone. Leite Lopes. reduzir a violência física e manter a violência simbólica (Bourdieu. multinacionais. práticas marciais como o judô. entre outros. o teatro de improviso ou realista. Esta é uma crítica ao funcionalismo em geral. Aos leitores menos familiarizados com a literatura esportiva. 1992. Sebreli (1981) e Ramos (1984). o kung-fu e outras. faltam argumentos consistentes capazes de demonstrar a assertiva. As sensibilidades. entre aqueles que pertencem a um mesmo estrato. Uma estética do qualquer modo. não é menos verdade que seguem devotos do clube semi- dividualidade. ção do consumo de imagens e produtos de acordo com as 7. de desperdício e de desordem: do exces. Para uma análise comparativa do simbolismo entre futebol e sões preliminares. Sendo um fato social relativamente recente. Para mais apreciações críticas a Elias. visando. mídia e transgressão às regras no futebol espetáculo –. tas para explicar o gosto contemporâneo sugerem um reducionismo empobrecedor. etc). nunca serviu à publicidade e por possibilidades socioeconômicas. Sobre a tentativa de apropriação do futebol por parte dos sindicalistas e da quisa empírica aliado à ousadia teórica. anunciados pela mídia. como dizem os torcedores. Embora o aumento da competitividade e. Há ainda a hierarquização dos espaços campo. para a sua compreensão. 5. corporais competitivas. sião dos jogos e das comemorações tresloucadas (festas. 8. O fute. rios aos supostos benefícios. para compreensão de sua diáspora –. No futebol. so de significado de certos eventos (como o gol. Brohm (1972). A carnavalização dos certo não é pelo valor econômico do enfrentamento que se explicam as peleias espetáculos contrapõe-se ao padrão que está sendo imple.

Sul. São Pau- Especialmente aquelas tuteladas pelos clubes. GEERTZ. Ideologia do poder. tes para demarcar a identidade desses grupos de torcedores. gremista. 1995. Rio de Janeiro.(org. Elas captam a lembrança imediata dos entrevistados sobre marcas de pro- LEITE LOPES. H. e DUNNING. (org. LEVER. direitos de transmissão.102-09.U. “Nós. preponderantemente. eu falo em (time/clube de futebol). ano 2. 1994. seguida dos/Anpocs.d. “O futebol nas fábricas”. coreografias ensaiadas. “Futebol e teatro.141-63. “Um dilema”. Papirus. Trata-se de um campo do qual os meninos. p. “Futebol. lona. caxias e estrangeiros no futebol: de heróis e anti-he- competição regional. Galerna. “A forma da violência: em louvor da beleza atlética”. A pesquisa Top Kid é uma versão para crianças e adolescentes da Top of lha de S. o entrevistado é convidado a citar. J. o sujeito dizer-se corinthiano. que dela se afastam (atualmente com menos ímpeto. com suas coreo. FUTEBOL E ESTÉTICA 10. 17. TATE. 1984. R. despertando o interesse – admiração e In: ________. lugares: do teatro ao futebol. “Pesquisa de Marketing” da Escola de Administração da Universidade Federal LOVISOLO. “Los estudios sobre deporte y sociedad: objetos. 16. Em mais de 70% dos casos PRADO.87-117. ao DA MATTA. PERDIGÃO. xingamentos. redes de TV a cabo. tece com o seu clube. Porto Alegre. a Antropologia Social. Norma.13. BARBOSA. é apenas mais uma segmentação. A ‘Nação em chuteiras’: raça e masculinidade no futebol brasilei- ro. “Antropologia do óbvio”. da Jovem”. Barbosa. Revista Exame.33. róis. Existem. tais como: confrontos fí- sicos às vezes violentos. Nobel. R. No caso do torcedor hipotético (exemplificado acima).22.5. estádios. “Esporte. P.” medida em que as fronteiras de gênero tornaram-se mais porosas). Vozes. “Malandros. D. até mesmo o do próprio clube e também da mídia. o primeiro nome que lhe vem à cabeça. São Paulo. empresa norte-americana que investe em clubes. da Raça”. notas para uma análise de estratégias simbóli- de escolha como é o caso das cores dos uniformes – são-paulino. na DAMO. Muse. das Letras. representante da empresa no Brasil.174-83.E. ciabilidade mais intensa na definição do pertencimento. São Paulo. preferencialmente o mais popular. L.2. L. Deporte. Entrevista. têm certos cânticos para as diferentes circunstâncias do jogo e para os BOURDIEU. Os torce. entre os políticos. L. Rio de do Rio Grande do Sul – realizada no segundo semestre de 1997 – revelou que a Janeiro. “As marcas do Rio Grande”. A loucura do futebol. percebem como Estudos Históricos. C. que marca lhe vem à cabeça?” (Revista Ama- nhã. S. grafias. 1999. outros padrões SOARES. Nem mesmo as TOLEDO. “Ah! Eu sou gaúcho! O nacional e o regional no futebol brasileiro. Cia. Jornal do Brasil. In: ________ . ano XI. 1996. 1983. Até as empresas de marketing já se deram conta disso. Questões de Sociologia. um em cada cidade. Motus Corporis. o que vale também para um torneio internacional. cada estímulo do entrevistador. por “nós. delas se espera apoio ao de Janeiro. 2000. n. coisas. “Quando n. Marco Zero. nada tendo a ver com limitações de ordem biológica. Caderno Mais. no Rio de Janeiro ser flamenguista e em Minas. Elas têm um comportamento espeta- cular. n.. sendo bom para se exercitar performances masculinas. J. A busca da excitação. sendo-lhes vedada a vaia e o protesto. Dossiê Futebol/Revista USP. n. É comum.23. casos. L&PM. n. 1981. FEATHERSTONE. Não é BROHM. agendas”. 15. Fútbol y cultura. n. a partir do RAMOS. aproximam. Rio de Janeiro. Autores Associa- contrário “deles. “Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro”. R. que da prática se lo. Anatomia de uma derrota. SEBRELI. 1997. Rio de Janeiro. A Pesquisa de Marketing Aplicado. não é para principiantes. M. p. Segundo Charles Tate. p. C. me. e as meninas. P. mercantilização e violência”. como no caso do Rio Grande do lo. p. L. p. Dissertação de Mestrado. In: GOMES. Nesse tipo de pesquisa. p. mas no Rio Grande do REVISTA AMANHÃ. todos tricolores – mas os mais freqüentes no Brasil são os re- cortes de raça. Tate & Furst. Difel. cas”. 1994. de Torcidas organizadas de futebol. o futebol é um campo reservado. (orgs. cultura y represión – Colección Punto y Línea. fluminense. J. J. A segmentação “Nós. mais do que suas seleções na Copa” (Revista Exa. seu comportamento é preestabelecido: ocupam sempre o mesmo espaço no estádio. Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira.11-30. a rigor. A.-M. São Pau- preconceituosos. São parte do espetáculo.1997. 11/03/2001. Museu Nacional-Relumé/Dumarú. medo – dos outros torcedores. Guanabara. etc. s. E. Peligro de gol. O torcedor acompanha o time quando este participa de uma GUEDES.278-321. 1983. Tal qual a guerra. Boletim do Museu Nacional. Studio 13. que não viajam”.Paulo.6-9. Dossiê Futebol/Revista USP. agressividade verbal por ELIAS. 2000. jun. ALABARCES. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP. gênero masculino. Corinthians. p. 1997). 30/11/1996. 9/2/2000.). Rio de Janeiro. Clacso. 1972. J. SOUZA. P. FGV. exceto para uns poucos _________ . miradas. bahiano. de A. enfim. sejam eles pertencentes a outras “nações” ou simplesmente alheios às predileções clubísticas. n.118. Campinas.S. atuando como conjuntos cênicos. p. A pesquisa também demonstra a importância da rede de so. classe social e região. In: Mana – Estudos de dutos e serviços. Porto Alegre. v. p. “as pessoas estão interessadas no que acon. a lógica da escolha. desenvolvida pelos alunos da disciplina LÉVI-STRAUSS. Pinakotheke. Lisboa. se por todos os clubes tidos como populares. São diferenças entre “nós. O Brasil dores querem ver seus times.22. Brasília. Um clube em cada região ou Estado e.). 1982. segue o mesmo padrão. time em qualquer circunstância. São Paulo. N. O pensamento selvagem. tido como um clube popular. Ou seja.11. Record. 1995.F. 2001. Porto Alegre. H. Gustavo Gili. Buenos Aires. Torcidas organizadas de futebol. Fo- 14. M.H. Paulo. o soccer é praticado pelas mulheres em larga escala – Rio de Janeiro. da Raça.de modo que In: ________ . p.1. Barce- esse o caso das torcidas organizadas independentemente do clube. ao _________ . 1989. A.10-7. perde sua eficácia distintiva no âmbito dos torcedores do Grêmio.19-42. Gama Filho. da Raça que viajamos com o Grêmio” e os “outros. F. Fútbol y masas. p. ANTUNES. curta-metragem de Jorge Furtado. A interpretação das culturas. entre outros. UnB.125-42. escolha do clube do coração ocorre até os 15 anos de idade em mais de 80% dos OLIVEN. v. a escolha foi influenciada por alguém da família ou amigos próximos a ela. Mind. Rio de Janeiro. nos EUA. L.1. 91 . 1994. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 11. os gremistas” por oposição aos “outros”. Veja-se o caso das torcidas organizadas. como é caso da Hicks. n. Rio de Janeiro. emoção e conflito social”. contudo. uso da força e dos pés. Sul ser colorado. Seres. 1996. GUMBRECHT. Dissertação de Mestrado. Essa reserva é obra da cultura inscrita no social . Editora FGV. Futebol.1-23. Rio de Janeiro. 12. C. e DAMO.136-53. 1986. o que é muito freqüente REVISTA DO GRÊMIO. 9/2/2000). atleticano e abr. assim por diante. que não são” são suficien. sendo que quase a metade dos torcedores faz sua opção antes mesmo dos cinco anos de idade. v. gritos de guerra e xingamentos. 1992. Rio diferentes adversários. 1979.). e DRUMMOND. “Como é possível ser esportivo”. Buenos Aires. das organizadas” e os “outros. Cultura de consumo e pós-modernismo. por exemplo. 1989. torce. por exemplo. p. nov. “Um jogo absorvente: notas sobre a briga de galos balinesa”. VERÍSSIMO. Buenos Aires. 1998.