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CENTRO DE ESTUDOS C. G.

JUNG
PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOTERAPIA JUNGUIANA

TIPOLOGIA E RELAÇÕES HUMANAS

SALVADOR
2017
TIPOLOGIA E RELAÇÕES HUMANAS

Produção de texto acadêmico sobre tipologia pessoal


para avaliação da disciplina Tipologia e Relações
Humanas do Centro de Estudos Psiquê.

SALVADOR
2017
AVALIAÇÃO DA DISCIPLINA TIPOLOGIA E RELAÇÕES HUMANAS

1. INTRODUÇÃO

Em 1921, Jung trouxe uma contribuição fundamental para o entendimento da tipologia


humana ao escrever o seu livro “Tipos Psicológicos”, fruto de mais de 20 anos de suas
observações no exercício da Psiquiatria e da Psicologia Prática. Para Jung, “o tipo é um
exemplo ou modelo que reproduz de forma característica o caráter de uma espécie ou de uma
generalidade” (Jung, 1991, p. 493). Sendo assim, este modelo representa uma atitude geral
que se manifesta em muitas formas individuais.

Através da compreensão obtida pelo estudo clínico dos pacientes, Jung distinguiu dois
mecanismos básicos que determinam seu comportamento e suas atitudes: a introversão e a
extroversão. Entretanto, o que define o tipo psicológico é a predominância de um ou de outro,
influenciados pelas circunstâncias externas e pela disposição interna do indivíduo. Segundo
Jung, atitude é uma disposição da psique de agir ou reagir em determinada direção. Esse
modelo diz respeito ao movimento da energia psíquica e ao modo como cada individuo se
orienta no mundo, habitual ou preferencialmente (SHARP, 1990).

No extrovertido, o fluxo de energia consciente flui para o mundo externo e uma


contracorrente vem do objeto para o inconsciente e daí para o ego. Então, o que ocorre é uma
corrente consciente de energia do ego para o objeto, e uma inconsciente, de volta do objeto
para o sujeito. O contrário se dá com o introvertido, cujo fluxo de energia consciente flui do
objeto para o ego, o objeto sendo sentido como se impondo ao sujeito. Com isso, ele não se dá
conta do fluxo de energia inconsciente com o qual ele carrega o objeto externo.

O tipo extrovertido se caracteriza por ser mais social, afirmativo, expressivo, vive em
constante doação e intromissão em tudo. Já o tipo introvertido tem seu fluxo de energia,
interesse e atenção dirigidos para dentro, para o mundo interno. Em relação ao tipo
introvertido e extrovertido Jung diz: “um encarrega-se da reflexão; o outro, da iniciativa e da
ação prática” (Jung, 1971b: 47). O introvertido é espontaneamente muito preocupado em se
relacionar com aquilo que percebe, enquanto o extrovertido busca naturalmente meios de
expressão e comunicação com o que por ele é percebido.
Importante salientar que, toda pessoa possui os dois mecanismos, e mesmo que a
adaptação leve a preponderância de um movimento sobre o outro no que concerne a atitude
consciente, isso necessariamente corresponderá a uma atitude compensatória inconsciente.
Para Jung nenhum indivíduo é exclusivamente introvertido nem extrovertido: “ambas as
atitudes existem dentro dele, mas só uma delas foi desenvolvida como função de adaptação;
logo podemos supor que a extroversão cochila no fundo do introvertido, como uma larva, e
vice-versa” (Jung, 1971b: 48). Ou seja, a todo tipo mais declarado corresponde uma tendência
especial a compensar a unilateralidade do seu tipo, em virtude dessa compensação
aparecem os tipos secundários.

Das variadas atitudes possíveis encontradas na observação do fenômeno vivo, Jung


salienta quatro, são aquelas que se orientam pelas quatro funções psicológicas básicas:
pensamento, sentimento, intuição e sensação. As funções se hierarquizam em cada
personalidade pelo nível de diferenciação, num extremo, e de inconsciência, no outro, no
interior de cada uma das duplas ou polaridades. Quando uma dessas atitudes se torna habitual
pode-se falar em um tipo. Esses tipos podem ser divididos de acordo com a qualidade da
função psicológica em duas classes: racionais (pensamento e sentimento) e irracionais
(sensação e intuição).

Ao analisar as quatro funções durante o desenvolvimento psíquico, (Jung


1971) constatou que uma das funções se diferencia e se torna a função dominante ou a
principal, enquanto outra função se desenvolverá com menos intensidade, tornando-se
a função auxiliar da primeira. As outras duas funções, a terciária e a inferior não se
desenvolverão na consciência, permanecendo, assim, inconscientes. Jung chega a admitir que
a atividade dessas funções, quando se realiza em graus muito desiguais, possa causar
perturbações neuróticas. Assim, as duas atitudes básicas articulam-se às quatro funções de
relação com o mundo externo, caracterizando-se, o que se denomina atualmente, de Tipologia
Psicológica Junguiana.

2. TIPOLOGIA PESSOAL

A proposta deste trabalho é descrever as principais características do meu


Tipo Psicológico, seus aspectos negativos e positivos, assim como a caracterização de minha
função inferior e de como ela atua, baseado no resultado do teste aplicado em sala de aula.
Para identificação do meu tipo psicológico, foi utilizado o Questionário de Avaliação
Tipológica – QUATI – que é um teste situacional, composto por 93 questões divididas em seis
situações específicas (a festa, o trabalho, a viagem, o estudo, o lazer e pessoal). Nestas
questões há duas possibilidades de resposta a ou b, podendo ser escolhida somente uma. São
possíveis dezesseis tipos psicológicos como resultado deste teste, oito introvertidos e oito
extrovertidos, com as respectivas funções, principal e auxiliar (Zacharias 2003).

2.1 RESULTADO DO QUATI

O resultado do meu teste foi o tipo introvertido, com função principal intuição,
função auxiliar sentimento e função inferior sensação (I In St).

2.1.1 Função Principal (Intuição Introvertida)

A função intuição introvertida se volta para os objetos interiores que se comportam


para a consciência como se fossem exteriores, ou seja, o sujeito se volta para o conteúdo do
inconsciente, em última análise para os conteúdos do inconsciente coletivo. Assim como os
objetos exteriores, os objetos interiores não são, em sua essência, diretamente acessíveis.
Como disse Jung no Aion, o complexo do eu vive entre duas grandes obscuridades que não
pode conhecer completamente e nem em sua essência: o mundo dos objetos físicos e os
objetos interiores, os elementos do inconsciente. Possuem uma capacidade de apreensão da
realidade intimamente relacionada com tendências futuras, sua intuição se volta para um
campo subjetivo que muitas vezes identificamos como “espiritual”. São pessoas que passam
pela vida sem se apegar ao concreto, percebendo as tendências como “vontade divina”.

Os intuitivos introvertidos percebem com nitidez os processos de fundo da


consciência, todavia, essas imagens provenientes do inconsciente parecem existir por si
mesmas, sem relação com a pessoa que as contempla, este não chega a perceber que essas
imagens podem se referir a ele. Tendem a transitar entre essas imagens, correndo atrás de
todas as possibilidades inconscientes, sem estabelecer a conexão desses fenômenos consigo
mesmo. Confiam na intuição para lhes fornecer informações sobre o real significado dos
objetos, não dando importância ao que as outras pessoas possam pensar sobre o assunto.
O intuitivo introvertido, geralmente é sonhador, visionário e místico. O
aprofundamento da intuição leva naturalmente o indivíduo a um afastamento da realidade que
o torna um enigma até mesmo para aqueles que lhe são mais próximos. Esse tipo é encontrado
frequentemente em pessoas que vivem de modo excêntrico, que aderem a uma realidade
simbólica que se distancia da realidade prática e concreta dos fatos, a exemplo, dos profetas,
poetas, xamãs, artistas, líderes religiosos, entre outros.

São independentes e individuais, já que pautam sua vida a partir da inspiração que lhes
chega através da intuição. Esta característica de independência nem sempre é evidente à
primeira vista, já que elas dão muita importância à harmonia e à concórdia, o que faz com que
se esforcem muito para convencer os demais a aprovar e colaborar com seus projetos. Podem
demonstrar grande capacidade de liderança, especialmente quando estão se dedicando a dar
forma a uma visão intuitiva consciente, sua fé e entusiasmo muitas vezes convencem outras
pessoas a segui-los. O modo de liderança desse tipo passa pela conquista (e não pela
imposição) de outras pessoas para suas ideias. No campo profissional se interessam pelas
atividades que possam lidar com o ser humano, são atraídos para as áreas de aconselhamento,
artes, ensino, pesquisa, ciências, jornalismo, publicidade, marketing e qualquer outra área na
qual eles possam vivenciar as suas idéias e usar a intuição (ZACHARIAS, 1995).

2.1.2 Função Auxiliar (Sentimento)

Os indivíduos intuitivos introvertidos têm a capacidade de vislumbrar novas


possibilidades, o que os tornam inventivos e imaginativos. No entanto, é a função auxiliar
sentimento que dará forma às suas intuições através de ações eficientes no mundo. A função
sentimento irá prover padrões de julgamento para os lampejos intuitivos dessas pessoas. Sua
intuição poderá lhes sugerir novas abordagens para os problemas e o sentimento vai lhe
oferecer o entusiasmo necessário para pôr em movimento suas energias interiores. Quando um
intuitivo introvertido apresenta a função sentimento como auxiliar, “são individualistas e
independentes, esforçando-se para harmonizar o seu individualismo com o ambiente”
(ZACHARIAS, 1995).
2.1.3 Função inferior (Sensação Extrovertida)

No nível inconsciente, o tipo intuitivo introvertido reprime a sensação do objeto ao


máximo, por isso torna-se característico de seu inconsciente uma função sensação
extrovertida compensadora de caráter arcaico. A sensação inferior se caracteriza por uma
relação inadequada com o campo relacional próximo, imediato, podendo ser interior ou
exterior. No caso da sensação extrovertida, há uma tendência há um contato inadequado com
a realidade. A energia psíquica exigida pela função dominante rouba a energia da função
inferior, que acaba por cair no inconsciente, o que a torna propensa a ser ativada de um modo
artificial, provocando, assim, fantasias infantis e uma variedade de distúrbios da
personalidade. O individuo é visto como distraído, desatento, pois sua relação objetiva é
pouco desenvolvida. Perdem-se em cidades desconhecidas, podem atrasar-se nos
compromissos cotidianos e tendem a ser desorganizados.

São pessoas que demonstram grande dificuldade em controlar seus apetites, pois essa
função tem dificuldade de informar a si mesmo as necessidades do próprio corpo, sendo,
portanto, propensos a negligenciar as necessidades físicas. Além disso, pela falta de
concentração na situação externa e em observar fatos, suas lembranças dificilmente coincidem
com a realidade objetiva, sendo capazes de relatar absurdos e jurar que são verdadeiros. O
intuitivo introvertido pode também, ter problema na abordagem do sexo, porque este envolve
a sua função inferior.

O maior problema deles é dar forma à sua percepção. Eles podem tornar as suas vidas
simbólicas adaptadas ao sentido intuitivo e do eterno devir, porém inadaptadas à realidade
presente. No caso de uma unilateralidade extremada da função intuitiva, uma completa
subordinação à imagem interior, o inconsciente abandona seu caráter compensador e passa a
oposição aberta dando origem a sensações compulsivas que geram dependência do objeto
externo. “A vida não tem complacência para com a inferioridade da função inferior" (Von
Franz, 1990).

Sua neurose mais comum é uma neurose obsessiva, podendo apresentar hipocondria,
hipersensibilidade dos órgãos sensoriais e ligações compulsivas com objetos e pessoas. À
medida que uma pessoa atua de modo demasiadamente unilateral, a função inferior vai se
tornando primitiva e problemática, tanto para a própria pessoa como para os outros. É isso o
que geralmente acontece na "crise da meia-idade", quando aspectos da personalidade durante
muito tempo foram negligenciados, finalmente exigem um reconhecimento. Mas, como Von
Franz ressalta, uma crise dessa espécie poderá se transformar numa preciosa oportunidade.

No âmbito da função inferior, existe uma grande concentração de vida. Se,


no momento em que a funçã o superior estiver desgastada – podemos dizer
que começa a fazer barulho e perder ól eo como um carro velho – se as
pessoas conseguirem se voltar para a função inferior, elas redescob rirão um
novo potencial de vida (FRANZ & HILMAN, 1990).

Como a função inferior está sempre fora do domínio da consciência, devemos dar
espaço para experimentarmos o inconsciente através da função inferior, para não sermos
tomados por ela. O processo de assimilar a função inferior, "elevando-a" a um nível
consciente, será inevitavelmente acompanhado por uma "inferiorização" da função dominante
ou superior. No entanto, é recomendável que esse processo seja feito de maneira gradual,
passando antes pelas funções auxiliares.

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Descrição Geral dos Tipos. In: Tipos Psicológicos. 7 ed. Rio de Janeiro:
Vozes, 1991.

JUNG, CG. Aion — Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo. Petrópolis, Vozes, 1982.

SHARP, D. Tipos de Personalidade. São Paulo, Editora Cultrix, 1990.

SILVEIRA, Nise. Tipos Psicológicos. In: JUNG: vida e obra. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1994.

VON FRANZ, M. L. & HILMAN, J. A Tipologia de Jung. São Paulo, Editora Cultrix, 1990.

ZACHARIAS, José Jorge de Morais. QUATI: Questionário de Avaliação Tipológica. 5. ed.


São Paulo: Vetor, 2003.