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PRIVATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

E GESTÃO DA BARBÁRIE
crítica da forma do direito

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Carolina de Roig Catini

PRIVATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO
E GESTÃO DA BARBÁRIE
crítica da forma do direito

2ª edição

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“A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado
de exceção em que vivemos é na verdade a regra geral.
Precisamos construir um conceito de história que cor-
responda a essa verdade”

Walter Benjamin,
Teses sobre o conceito de história

Introdução
Ao comentar as propostas educativas de um militante de
um partido revolucionário, Walter Benjamin (1973) constata
a impossibilidade de popularizar e socializar conhecimentos
científicos por meio de tal prática, no início do século XX.
Segundo seu ponto de vista, não haveria solução para tal
problema enquanto se seguisse tratando educandos e edu-
candas como público em vez de serem considerados a partir
da condição de classe. Pois daquela maneira a prática educa-
tiva não se cindira somente das necessidades concretas que
relações sociais específicas impõem às trabalhadoras, traba-
lhadores e seus filhos e filhas, mas também se distanciou
“das tarefas do materialismo histórico”. Isto é, a ação educa-
tiva perde sua capacidade de marcar os processos formativos
num sentido crítico e revolucionário quando se desenvolve
tendo como pressuposto a mesma relação que o Estado capi-
talista confere aos cidadãos.
Sabe-se que as ações revolucionárias da classe trabalha-
dora não estão em alta no presente e, com isso, também está
em baixa a radicalidade do pensamento crítico proporciona-
do pela ação política anticapitalista de confronto e contesta-
ção. Mas o espanto ou a objeção que causa a simples distin-

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ção feita por Benjamin nos dias de hoje nos leva a questionar
o processo que levou ao abandono, mesmo dentre as pers-
pectivas que se pretendem críticas, da admissão das contra-
dições imanentes a categorias como “público” e “cidadania”,
como se o Estado pudesse configurar-se como oposição ao
Capital ou agenciar processos de “emancipação”.
Ao contrário de expectativas de transformações sociais
substanciais por grandes revoluções, vivemos momento re-
verso no que se refere à possibilidade de colocar fim aos pro-
cessos de exploração, alienação e dominação. Num momento
de esmagamento das lutas sociais, em que a avalanche de
“perda de direitos” sociais, sintetizadas pelas “Reformas”
(ou anti-reformas) em curso no Brasil e em diversos outros
países, escancaram o poder do capital e do Estado em detri-
mento dos trabalhadores e trabalhadoras, torna-se funda-
mental olhar criticamente para o processo histórico de mu-
danças concretas nas formas sociais que nos trouxeram até
aqui. Sem isso, é grande o risco de obscurecer e espetaculari-
zar os fenômenos atuais, como se fosse possível gerar novas
relações “desde cima”, de uma hora para a outra, pela força
dos decretos e reformas sem sustentáculos materiais. Se con-
siderarmos verdadeira a noção de que as mudanças nas for-
mas sociais encontram sustentação em processos históricos e
que, portanto, a situação atual é produto do desenvolvimen-
to capitalista e de suas crises, não seria possível desconside-
rar que, no Brasil contemporâneo, ela também é fruto de um
tipo de conformismo conciliatório, que logrou a naturaliza-
ção de uma ação política pseudo-reformista, subordinada
aos preceitos fundamentais do neoliberalismo.
À luz das contribuições da crítica marxista do direito,
esse breve ensaio pretende apresentar uma interpretação
do processo de privatização dos direitos sociais e algumas
de suas consequências, partindo, sobretudo, da forma do

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direito à educação, como um caso exemplar. Elementos pre-
sentes na obra de Marx, Pachukanis e alguns de seus inter-
pretes iluminam pontos cegos acerca das contradições que
permanecem na ordem do dia nas relações sociais hegemô-
nicas, como as relações entre direito público e direito priva-
do, e entre Estado e sociedade civil, contribuindo para a
compreensão crítica de nosso tempo. A redução dos direi-
tos e a redução do caráter público dos serviços estatais fa-
zem do Estado um Estado mínimo? As mudanças em curso
se referem a um enfraquecimento do Estado como se apre-
senta na leitura de muitas teses críticas do neoliberalismo?
Ou sua simbiose com o mercado altera sua forma e o forta-
lece? Qual a configuração material da forma do direito que
está se desenhando nas relações educativas? Que tipo de
relações com os direitos são reconfigurados com a privati-
zação? Quais as contradições da luta por direitos no atual
contexto? As reformas legislativas e institucionais modifi-
cam as relações materiais ou elas se consolidam na prática
antes de ganharem formas jurídicas?
Tendo como pressuposto a crítica da economia política
empreendida por Marx, Pachukanis faz a exposição do direi-
to como forma derivada da mercadoria, a forma mais ele-
mentar de relação social no capitalismo e, com isso, nos apre-
senta os profundos nexos do direito e do Estado com o
capital. Seja a partir da crítica da dogmática normativa, seja
no combate à construção hipotética de um socialismo jurídi-
co, Pachukanis expõe o fetiche que adere à forma do direito.
Há quase um século o próprio autor admitia o caráter inicial
da crítica da ideologia jurídica e a necessidade de avançar
por meio de outras análises e proposições críticas no decor-
rer da Revolução Russa. E, no entanto, retrocedemos.
Os retrocessos teóricos nos parecem ser consequências da
nossa “era de expectativas decrescentes” (ARANTES, 2014)
em relação à experiência histórica. Apesar de a perda dos di-

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reitos atuais causar horror pela legalização da violência con-
tra trabalhadores e trabalhadoras, que tem significado na
prática, não causa espanto aos que vivenciam o processo his-
tórico com a percepção de que civilização e barbárie são dois
lados da mesma moeda num modo de vida presidido pelo
Capital. Se a crise econômica descortina e amplia a barbárie,
ela não é novidade, funciona a moto perpétuo e torna ainda
mais urgente admitir que nunca foi um direito assegurado
pela lei que impediu o desenvolvimento da necessidade de
acumulação capitalista, com a violência que lhe é inerente. A
produção de massas expropriadas das próprias condições de
sobrevivência é condição do progresso capitalista. “De tem-
pos em tempos, vem uma crise”, que empurra milhares de
trabalhadores e trabalhadoras para uma queda na “escuri-
dão da miséria”, como diz Rosa Luxemburgo, e “eles caem
silenciosamente como um sedimento que se deposita no fun-
do da sociedade, elementos usados, inúteis, dos quais o capi-
tal não pode retirar mais nenhuma seiva, lixo humano que é
varrido com vassoura de ferro: contra eles ergue-se o braço
da lei, da fome e do frio” (2006, p. 68-69).
Enfim, se é verdade que “nossa cabeça pensa onde nossos
pés pisam”, também é verdade que não podemos abrir mão
da história e do conhecimento produzido nos tempos em que
a ação revolucionária forjou “momentos de perigo”. Momen-
tos em que a classe se constituiu como força capaz de esboçar
outra forma de vida, desvendando as mistificações das for-
mas capitalistas. Momentos nos quais se colocou o “risco” de
criar condições para sua própria emancipação ou para se tor-
nar, uma vez mais, instrumento de desenvolvimento das re-
lações burguesas1.

1 Menção à Tese 6 sobre o conceito de história. Conferir em BENJAMIN,


W. Teses sobre o conceito de história. IN: Magia e técnica, arte e política:
ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1996.

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1. Entre o direito público e o direito privado, o
direito à privatização

“...no fundo é, portanto, como todo direito, o di-


reito da desigualdade”

Marx, Crítica do Programa de Gotha

Ao longo das últimas décadas foram vários os momentos


em que se evidenciou a degeneração da capacidade de repro-
dução ampliada do capital em escala global, sobretudo por
meio da profusão de bolhas financeiras e de crises econômi-
cas, e em particular da crise mundial de 2007-2008. Os limites
à acumulação de capital, fruto de tendências profundas,
como a de substituição de força de trabalho por máquinas (o
“aumento da composição orgânica do capital”), e a conse-
quente tendência à queda da taxa de lucro, efetivada nas úl-
timas décadas, explica tanto a crescente busca por ganhos
monetários nos mercados financeiros (a produção desmedi-
da de capital fictício), quanto o acirramento de práticas pre-
datórias que Harvey (2004) denomina “acumulação por es-
poliação”. Trata-se da expropriação violenta que se expressa
pelo militarismo e pelas “guerras de rapina”, pela redução
das cargas tributárias sobre o grande capital, pela subsunção
de toda forma de produção à acumulação capitalista, pelo
cercamento dos conhecimentos técnicos, científicos e cultu-
rais pelas patentes, pelas privatizações de recursos naturais,
de empresas e serviços estatais, pelo aumento do desempre-
go e aumento da exploração por meio da ampliação da jorna-
da de trabalho, da intensificação do trabalho e da repressão
salarial, o que inclui a eliminação de salário indireto pago
por meio das políticas sociais (NAKATANI e MOURA, 2017).
Tudo isso concorre para uma concentração e centralização de
capitais que coloca nas mãos de grandes conglomerados em-

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presariais o controle da produção e reprodução de diversos
momentos da vida social, incluindo a educação.
Desde que a Organização Mundial do Comércio (OMC)
passou a classificar a educação como um bem de serviço e
aplicar normas à sua comercialização, tornou-se recorrente
que constem nos rankings das empresas mais lucrativas do
Brasil alguns dos grandes conglomerados de serviços edu-
cacionais, como a Kroton2. A maior empresa educacional do
país associa estratégias de fusão de empresas privadas de
ensino, abertura de capitais aos investidores e programas de
responsabilidade social voltados para a gestão de políticas
públicas de educação. Pela compra de empresas de ensino
superior, como a da rede Anhanguera, garantiu para si a fa-
tia do bolo dos extraordinários lucros que este setor aboca-
nhou nos últimos anos, com a garantia de repasse de recur-
sos estatais pelos programas de concessão de bolsas e de
financiamento estudantil. Na educação básica, a Kroton atua
por meio de sua própria rede de escolas, pela implementa-
ção de sistemas de gestão em outras escolas privadas e pú-
blicas, e por programas como a Aliança Brasileira pela Edu-
cação (ABE). A ABE pretende criar e fomentar programas de
parcerias das redes públicas com setor privado em todo ter-
ritório nacional, por meio do compartilhamento “de proje-
tos de sucesso”, baseando-se em pilares como a “pacifica-
ção” das escolas, a motivação dos alunos e dos professores,
a melhoria dos indicadores de aprendizagem e a interação
entre “família e escola”. Não é por acaso que apresenta a
rede pública em seu site como o “maior mercado de Educa-
ção Básica da América Latina” e que a “paixão por educar”
é o slogan da empresa.

2 Dados disponíveis em http://www.valor.com.br/valor1000/2016/


ranking1000maiores/maiores_lucros_liquidos.

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Em 2014, 40% do faturamento da Kroton eram provenien-
tes dos recursos federais destinados ao financiamento do
acesso ao ensino superior privado e no ano passado (2016)
sua receita ultrapassava os 5 bilhões de reais, com mais de
um milhão de estudantes no país. Embora essa configuração
esteja se alterando por conta dos cortes de recursos públicos
destinados a programas tidos como “sociais”, e com o incre-
mento de financiamentos estudantis privados, o empresaria-
do acumulou muito capital por meio do repasse direto de
verbas públicas e com a isenção fiscal das instituições que
aderiram ao programa. Mas a garantia do acesso ao ensino
superior por meio de bolsas e programas de financiamento
pagos com recursos públicos é apenas uma modalidade dos
processos de privatização da educação.
Se no ensino superior no Brasil sempre prevaleceu a rede
privada, e hoje a oferta de vagas no ensino público não che-
gue a 15% do total, nos outros níveis de ensino, nas quais a
oferta pública sempre prevaleceu, está havendo também
uma profusão de processos de privatização. Essa tendência
não é nova e sempre houve modelos híbridos de gestão e fi-
nanciamento na história das instituições escolares brasilei-
ras, que se multiplicaram desde os anos 1990. Hoje, no entan-
to, há uma aceleração dos processos como se houvesse uma
compressão espaço-temporal, em que pululam fórmulas
simbióticas entre o público e o privado. Tais processos são
diversos e seus componentes devem ser estudados em suas
diferenciações, mas carregam o mesmo sentido de privatiza-
ção das relações sociais educativas, que tem se configurado
como a passagem do controle da gestão, dos contratos de tra-
balho, dos conteúdos, dos recursos didáticos, enfim, de toda
a organização do processo pedagógico para a mãos de em-
presas privadas, isto é, do próprio capital.
Depois de décadas de sucateamento da rede de educação
estatal – diga-se de passagem, provocada pelo próprio Esta-

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do e usada como justificativa para comprovar a superiorida-
de da “eficiência” privada – até mesmo o crescimento da
privatização direta se tornou possível: pois do total de 48,8
milhões de matrículas na educação básica em 2016, quase
um quinto está hoje na rede privada, tendo crescido em 2,4
milhões de vagas nos últimos 8 anos. Na educação infantil
40% das vagas são na rede privada direta. Nesta porcenta-
gem, no entanto, estão excluídas milhares de crianças que
são atendidas por organizações sociais privadas que tercei-
rizam serviços de creches e centros de educação, mas que
continuam sendo consideradas públicas pelas estatísticas,
por serem financiadas com recursos estatais. A ausência da
relação monetária com as famílias que conseguem vagas
para seus filhos e filhas acaba por escamotear a forma de tal
processo de privatização. E como o atendimento na educa-
ção infantil é descentralizado pelo atendimento municipali-
zado, é difícil mensurar a dimensão dessa privatização.
Apenas a título de exemplo, em 2015 havia 1766 centros de
educação infantil em São Paulo, dentre os quais somente 361
são diretamente públicos e todos os outros fazem “parce-
rias” com instituições privadas por meio de repasse de re-
cursos públicos3. Elas não privatizam apenas a gestão, mas
também o contrato de trabalho das educadoras e o projeto
pedagógico; e, sendo boa parte das instituições privadas que
terceirizam este serviço entidades religiosas, tornou-se co-
mum introduzir no cotidiano das crianças conteúdos católi-
cos ou evangélicos. No ensino fundamental e médio são di-

3 Vale mencionar que as educadoras das creches com gestão privatizada


ganham a metade do salário das educadoras de creches públicas, trabalhan-
do 40 horas semanais, em contraposição às 30 horas de trabalho das funcio-
nárias do município, dentre vários outros aspectos que se referem à precari-
zação do trabalho terceirizado. Conferir em NASCIMENTO e SILVA, 2015.

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versos e difusos os modelos, por enquanto. Da adoção de
escolas por padrinhos ricos, até a prestação de consultorias
privadas para fazer a gestão das secretarias de educação pú-
blicas, passa por diversos tipos de parcerias com empresas
ou institutos privados como a Oi, a Samsung, a fundação
Educar DPaschoal, o Instituto Ayrton Senna, etc.; contrata-
ção de institutos privados para a formação continuada de
docentes; programas de livros didáticos de editoras como a
Abril; compra de “pacotes pedagógicos” de escolas priva-
das, que incluem as apostilas, softwares de gestão e um ser-
viço de acompanhamento e orientação que as empresas
prestam dentro da rede pública, e por aí vai.
Em especial a Reforma do Ensino Médio em implanta-
ção, tendo sido organizada e formulada por institutos em-
presariais como do Unibanco, Itaú ou “movimento” Todos
pela Educação – uma reunião de empresários que estabele-
cem já inúmeras parcerias e cada vez mais dão as cartas da
educação pública –, indica a implementação de formas mais
consistentes de gestão e prestação de serviços privados tam-
bém neste nível. Seria possível listar mais exemplos de pri-
vatização da educação e dessa mutação mais agressiva na
forma de o direito se efetivar, mas estes bastam para iniciar
nosso estudo sobre o significado da privatização.
Em 1924, em meio a intensas mudanças sociais e disputas
em torno dos rumos do processo revolucionário russo, Pa-
chukanis apresenta seus estudos críticos do Direito como
forma histórica que apenas se desenvolve no capitalismo.
Uma de suas importantes conclusões é a de que “os direitos
públicos subjetivos surgem como algo efêmero, privado de raízes
genuínas, sob constante dúvida” (2017, p. 131, grifos meus). É
como se o pleno desenvolvimento da economia impusesse
consequências drásticas sobre a forma de organização políti-
ca, uma vez que as barreiras que o capital coloca para seu

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próprio avanço e que, muitas vezes, aparecem na forma da
crise econômica, impusesse a prevalência do direito privado,
que apresenta forma mais adequada às exigências da circula-
ção e constante transmutações na forma do capital. Ainda
que Pachukanis estivesse equivocado sobre a efemeridade
do direito público, seus estudos sugerem importantes ele-
mentos para o estudo do caráter histórico das formas sociais
e, consequentemente, da presença atuante da tendência de
privatização dos direitos sociais.
De acordo com o autor, há uma dificuldade em delinear
empiricamente a fronteira entre direito público e direito
privado que está presente até mesmo nos termos formais
das “doutrinas” do Direito, que apresentam com objetivi-
dade e clareza os direitos civis – ou direitos privados – nos
quais “o pensamento jurídico se move de maneira mais li-
vre e confiante” (PACHUKANIS, 2017, p. 104), enquanto
“as teorias do direito público são ricas em construções for-
çadas, artificiais e monstruosamente unilaterais” (PACHU-
KANIS, 2017, p. 131).
É fato que a forma do direito aparece “nos seus pares de
opostos: direito objetivo, direito subjetivo; direito público, di-
reito privado”, que constituem a sociedade capitalista4 (PA-
CHUKANIS, 2017, p. 80), e que tais antagonismos se desen-
volvem dentro do universalismo da forma do direito. Os
estudos sobre as formas do direito, no entanto, não podem se
deter sobre a aparência de tal condição universal, já que sua
“base real” “não é constituída pelas relações denominadas de
direito público” (PACHUKANIS, 2017, p. 82, grifos do autor).

4 “Somente a sociedade burguesa-capitalista cria todas as condições ne-


cessárias para que o elemento jurídico nas relações sociais alcance plena de-
terminação” (PACHUKANIS, 2017, p. 80).

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Vejamos. Para que o direito à educação seja efetivado, o
Estado estabelece a obrigatoriedade do ensino de crianças e
jovens, fazendo com que o acesso à forma escolar seja um
ponto de partida comum a todas as classes sociais. Mas ao
decretar que um dos princípios da educação nacional é a
“coexistência de instituições públicas e privadas de ensino” o
Estado reconhece a necessidade de gratuidade pela imensa
massa da população trabalhadora, sem, no entanto, cercear a
possibilidade de que a educação seja uma mercadoria lucra-
tiva, na forma da venda do serviço de ensino. Mais do que
isso, o Estado deixa de criar redes próprias para incentivar o
crescimento de redes lucrativas de ensino, sejam elas me-
gaempresas, sejam Organizações Sociais ou Organizações
Não-Governamentais que terceirizam os serviços por meio
de convênios e outras formas de “parcerias” e prestam servi-
ço, mediante repasse de recursos estatais.
Assim, o Estado contribui para universalizar o acesso ao
direito à educação pela forma escolar, ao mesmo tempo em
que permite uma diferenciação das classes pela qualidade e
forma distinta das ofertas de serviço educativo. Universali-
za-se uma forma, sem eliminar a distinção dos conteúdos ou
mesmo o esvaziamento dos conteúdos, uma vez que passa-
mos a considerar o direito pelo acesso à forma e não à forma-
ção. “Longe de anular essas diferenças fáticas”, nos diz Marx,
o Estado “existe sob o pressuposto delas” e sua universalida-
de se efetiva a partir da oposição aos elementos particulares
(MARX, 2010, p. 40), ainda que o Estado proclame “cada
membro do povo” como “participante igualitário na sobera-
nia nacional” (MARX, 2010, p 40)5. De modo algum, portan-

5 “O Estado anula à sua maneira a diferenciação por nascimento, esta-


mento, formação e atividade laboral ao declarar nascimento, estamento, for-
mação e atividade laboral como diferenças apolíticas, ao proclamar cada

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to, isso significa que a atuação do Estado se volte para uma
anulação das desigualdades concretas: elas são pressupostos
do Estado, cuja forma política é constituída por oposição às
diferenças da vida material. “Isso mesmo! Só assim, pela via
dos elementos particulares, é que o Estado se constitui en-
quanto universalidade” (MARX, 2010, p. 40).
Para resolver o antagonismo entre o público e o privado,
Pachukanis remete à Questão Judaica, obra na qual Marx
apresentou a duplicidade entre o cidadão e o indivíduo
egoísta, isto é, a partir da aparente contradição entre interes-
ses públicos ou “comuns” e intereses privados. Diante da
cisão que se apresenta entre a vida privada e a política se
opõem indivíduos como cidadãos iguais, dotados de uma
universalidade irreal; e o indivíduo que compõe a sociedade
civil, na qual se expõe a desigualdade de suas condições de
classe e, portanto, entre diferentes interesses privados. Neste
jogo, seria como se o indivíduo privado prevalecesse, apare-
cendo como forma autêntica, enquanto o homem político, o
cidadão, restasse como forma artificial, abstrata. A cidada-
nia, como forma política, nas palavras de Marx, é rebaixada
“à condição de mero meio” para a conservação dos direitos
privados, e o cidadão à condição de “serviçal” do indivíduo
privado (MARX, 2010, p. 50), o que torna a própria vida po-
lítica um simples meio, cujo fim é a sociedade burguesa
(MARX, 2010, p. 51).

membro do povo, sem consideração dessas diferenças, como participante


igualitário da soberania nacional, ao tratar todos os elementos da vida real
de um povo a partir do ponto de vista do Estado. Não obstante, o Estado
permite que a propriedade privada, a formação, a atividade laboral atue à
maneira delas, isto é, como propriedade privada, como formação, como ati-
vidade laboral, e tornem efetiva a sua essência particular. Longe de anular
essas diferenças fáticas, ele existe tão somente sob o pressuposto delas, ele só
se percebe como Estado político e a sua universalidade só torna efetiva em
oposição a esses elementos próprios dele” (MARX, 2010, 39-40).

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Deste modo, a qualificação jurídica formal dos indiví-
duos pela cidadania permite que a igualdade efetivamente
se realize em alguns momentos da vida política, por exem-
plo, na consideração dos chamados direitos universais, em
alguns deveres perante o Estado, na disposição individual e
equivalente de participar das eleições, etc. Não obstante, a
qualificação real dos indivíduos na sociedade civil continua
existindo e os conflitos entre interesses particulares se mani-
festam conferindo suas determinações e prevalecendo sobre
os interesses públicos. O momento da igualdade entre cida-
dãos se efetiva e constitui a universalidade estatal, porque o
cidadão é “o indivíduo despojado de seus liames de classe”
(NAVES, 2000, p. 82), embora a abstração formal de sua si-
tuação concreta de classe não impeça que elas presidam as
decisões políticas6.
Em parte, essa capacidade de igualação emana do poder
do Estado e de suas leis. Não obstante – e isso é fundamental
– a possibilidade do aparecimento do momento da igualda-
de na política não surge das leis; antes, as leis refletem de
maneira ideológica relações que de fato sustentam a vida so-
cial sob a forma do capital. A relação entre produção, circula-
ção e consumo indica a dependência recíproca de cada um
desses momentos para definição de cada categoria, numa
relação em que cada uma delas é meio para a outra (MARX,
2011). Deste modo, se nas relações de produção se coloca
uma dependência da circulação para sua realização, contra-

6 “Pois bem, se o Estado é a esfera de existência exclusiva da política –


lugar de representação dos interesses gerais -, e se a sociedade civil é o lugar
onde habitam os interesses particulares, o acesso à esfera do Estado só pode
ser franqueado pelos indivíduos despojados de sua condição de classe –
posto que pertencer a uma classe social não pode ser reconhecido pelo Esta-
do -, e qualificados por uma determinação jurídica: o acesso ao Estado só é
permitido aos indivíduos na condição de cidadãos” (NAVES, 2000, p. 82).

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ditoriamente também na produção – na qual a relação fun-
dante é a desigualdade entre trabalhadores e capitalistas –
está incluída a igualdade como momento de sua relação.
Sabe-se que a troca capitalista pressupõe uma equação que
iguala os objetos intercambiáveis e que no caso das trocas
entre produtos do trabalho este elemento é o trabalho. É o
fato de serem produto do trabalho humano que confere ao
momento da troca uma necessária redução das característi-
cas de cada trabalho concreto à “simples gelatina de trabalho
humano indiferenciado” (MARX, 1996, p. 168), à condição
trabalho abstrato. Neste processo, a abstração é real: a ativi-
dade concreta de trabalho é realmente abstraída de suas rela-
ções e condições materiais no momento da troca.
Mais do que isso, a força de trabalho é incluída na produ-
ção como coisa que, durante determinada quantidade de
tempo, não pertence ao trabalhador, pois “o processo de tra-
balho é um processo entre coisas que o capitalista comprou,
entre coisas que lhe pertencem” (MARX, 1996, p.304). O tra-
balho é subordinado ao capital que contrata a força de traba-
lho, detém os meios de produção, matérias primas e a pro-
priedade dos produtos de trabalho. A força de trabalho é
incluída como fator de produção porque toma a forma de
mercadoria no capitalismo. Ao comprá-la, o capitalista ad-
quire o direito de utilizá-la no interior do processo de traba-
lho, durante determinada jornada de trabalho.
Por isso, Marx considera que a “exploração da força de
trabalho é o primeiro direito humano do capital” (MARX,
1996, p. 405), sendo a coisificação da relação entre as pessoas
um índice da barbárie constante da relação capitalista. O
modo de produção capitalista generaliza uma forma de rela-
ção social reificada, em que os objetos dos quais somos pro-
prietários determinam nossa posição enquanto sujeitos. Se
ela nos diferencia por comprarmos ou vendermos força de

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trabalho, ela nos iguala por sermos todos proprietários de
alguma mercadoria. Essa é a “base real” da universalidade
capitalista, e é da abstração real e da qualificação como equi-
valentes exigida pela troca de mercadorias, que provém a
categoria sujeito do direito: “a categoria do sujeito de direitos
abstrai-se dos atos da troca no mercado” (PACHUKANIS,
2017, p.145). Evidentemente a teoria dogmática jurídica a
apresenta como uma abstração mental e não real, como se
fosse uma categoria que em nada diz respeito à abstração
real dos sujeitos no capitalismo. Mas o segredo da forma do
direito está na equivalência entre desiguais. Desta forma, a
relação de igualdade afirma-se e nega-se a um só tempo e só
existe diante de tal relação de oposição: na esfera da circula-
ção se efetiva a igualdade entre proprietários de mercadorias
desiguais. Mais uma vez, o momento de igualdade é verda-
deiro e se manifesta na prática: dialeticamente a igualdade
“não é aparência ilusória da desigualdade verdadeira; é sua
forma de aparecimento” (GRESPAN, 2002, p. 46).
A igualdade é, portanto, momento da desigualdade. Na
produção, momento da desigualdade da relação entre capi-
tal e trabalho, eles se igualam pela forma: o capital inclui o
trabalho numa relação presidida por ele, privando-o das pro-
priedades do produto de sua própria atividade. Assim, o ca-
pital inclui o seu oposto, o trabalho, subsumindo-o à sua pró-
pria forma: rebaixando-o à forma de capital variável, o que
resulta na tendência à subsunção das relações sociais à tota-
lidade formal do capital, um sujeito que não é pleno, já que
sua substância, o trabalho abstrato, permanece-lhe exterior
(GRESPAN, 2002). A totalidade do capital em relação ao tra-
balho é formal, e não poderia ser completa, sob risco de eli-
minação do trabalho, fonte de toda valorização do valor, pela
extração de mais valia. Como forma histórica que é, transfor-
mam-se também meios de exploração do trabalho para im-
pedir que o revolucionamento constante nas relações de pro-

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dução advindas do incremento de maquinaria elimine por
completo a introdução de força de trabalho vivo na produ-
ção. Neste sentido é que o capital é totalitário e totalizante,
pois a forma do capital, cuja figura mais simples é a forma
mercadoria, é o protótipo de todas as relações sociais capita-
listas, subsumindo o conteúdo das relações sociais à sua tota-
lidade formal, estabelecendo nexos sociais a partir das for-
mas sociais, que subsume conteúdos particulares.
A universalidade da forma cidadania é, na verdade, uma
transmutação política da forma econômica do sujeito do di-
reito, pois ela abstrai a desigualdade de nossas proprieda-
des privadas, admitindo nossa equivalência enquanto pro-
prietários. “Os direitos públicos subjetivos são, afinal”, nas
palavras de Pachukanis, “os mesmos direitos privados (e,
por conseguinte, também os interesses privados) reavivados
e um pouco transformados, que invadem a esfera em que
deveria dominar um interesse geral impessoal, refletido nas
normas de direito objetivo” (PACHUKANIS, 2017, p. 131).
O direito privado tende a predominar sobre o direito públi-
co, uma vez que este último se define em oposição ao direito
privado, mas numa oposição frágil, isto é, “o próprio concei-
to de direito público pode ser desenvolvido somente nesse
seu movimento, em que ele como que se aparta constante-
mente do direito privado, tentando definir-se como contra-
posição deste último, e depois novamente retorna a ele,
como se este fosse seu centro de gravidade” (PACHUKANIS,
2017, p. 134, grifos nossos). No fundo, portanto, ambas as
categorias – cidadania e sujeito do direito - derivam da for-
ma mercadoria que preside as relações, mas é no sujeito do
direito que fica mais evidente a reificação da relação social,
uma vez que se trata da nossa condição de sujeito apenas em
oposição ao objeto que detemos, em relação à mercadoria da
qual somos proprietários. Nas palavras de Pachukanis:

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“A relação mercantil revela a contraposição do su-
jeito e do objeto em um sentido jurídico particular. O
objeto é a mercadoria, o sujeito é o possuidor da mer-
cadoria, que dispõe da mercadoria nos atos de aqui-
sição e alienação. É precisamente no acordo de troca
que o sujeito se manifesta pela primeira vez na pleni-
tude de suas determinações” (PACHUKANIS, 2017,
p. 145-146).

O sujeito do direito deve levar seu objeto no mercado


para se realizar enquanto mercadoria, “ele deve ser ao mes-
mo tempo mercador e mercadoria na feira ladra da liberda-
de” (EDELMAN, 1976, p. 96), e o faz vendendo sua força de
trabalho ao capitalista, que “adquire o direito de servir-se
dela” (MARX, 1996, p. 99). Em síntese, o sujeito de direito
“existe apenas a título de representante da mercadoria que ele pos-
sui” (EDELMAN, 1976, p. 95, grifos do autor), da sua força
de trabalho, de seus atributos, colocados em relação com o
capital como trabalho vivo.
Assim, “o fetichismo da mercadoria completa-se com o
fetichismo jurídico” (PACHUKANIS, 2017, p. 146), pois do
mesmo modo que o fetiche da mercadoria adere às relações
sociais (MARX, 1996), os indivíduos se revestem de direitos
enquanto proprietários privados de mercadorias (GRES-
PAN, 2002). O direito é coisa externa que, no entanto, apare-
ce como qualidade dos sujeitos, como coisa que detemos
subjetivamente. Sua forma mística se dá porque ele aparece
como forma autônoma, normativa e reguladora das relações
sociais, fruto do trabalho de abstração de juristas e não das
relações sociais concretas e suas abstrações reais.
Na medida em que o sujeito só existe em oposição ao ob-
jeto, na relação mercantil, ou na esfera da circulação, ele ga-
nha o direito de alienar sua mercadoria ou apropriar-se da
mercadoria alheia. De um lado, “ao comprar a força de traba-
lho do operário e ao pagá-la pelo seu valor, o capitalista ad-

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quire, como qualquer outro comprador, o direito de consu-
mir ou usar a mercadoria comprada” (MARX, 1996, p. 99). Já
o trabalhador, “ao vender a sua força de trabalho”, nos diz
Marx, “cede ao capitalista o direito de empregar essa força,
porém dentro de certos limites racionais. Vende a sua força
de trabalho para conservá-la ilesa, salvo o natural desgaste,
porém não para destruí-la” (MARX, 1996, p. 109). Assim, fica
clara a relação direta entre o direito e a circulação de merca-
dorias: “‘o fim em si’ para a ordem jurídica é somente a circu-
lação de mercadorias” (PACHUKANIS, 2017, p. 128):

“o Direito, ao fixar a circulação, mais não faz do


que promulgar os decretos dos direitos do homem e
do cidadão; que ele escreve sobre o frontispício do
valor de troca os sinais da propriedade, da liberdade
e da igualdade, mas que estes sinais, no secreto ‘em
qualquer parte’ se leem como exploração, escravatu-
ra, desigualdade, egoísmo sagrado” (EDELMAN,
1972, p. 17)

O Estado não admite uma interpretação jurídica, pois ele


é a própria “raison d’etat”, e seu poder “como fiador da troca
mercantil, não somente pode ser expresso nos termos do di-
reito, como se apresenta ele mesmo como direito e somente
direito, ou seja, confunde-se inteiramente com a norma obje-
tiva abstrata”, deste modo, ele não é um reflexo da forma de
vida, mas “um reflexo ideológico, ou seja, deturpado, da rea-
lidade” (PACHUKANIS, 2017, p. 168-169). Não é por acaso
que Marx chama a esfera da circulação de mercadorias o ver-
dadeiro éden dos direitos do homem7.

7 “...a esfera da circulação ou do intercâmbio de mercadorias, dentro de


cujos limites se movimentam compra e venda de força de trabalho, era de
fato um verdadeiro éden dos direitos naturais do homem. O que aqui reina
é unicamente Liberdade, Igualdade, Propriedade e Bentham. Liberdade!

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O Estado, portanto, assegura direitos a ambas as partes no
caso de litígio – relação fundante do direito, que “traz à vida
a forma jurídica, a superestrutura jurídica”8. Deste modo,
“atuando como fiador dessas relações, o poder torna-se um
poder social, público, um poder que persegue o interesse
impessoal, da ordem”. (PACHUKANIS, 2017, p. 168). Ao
oferecer segurança para as partes opostas diante de um con-
trato jurídico o Estado ganha essa característica de posicio-
nar-se como elemento neutro, como operacionalizador, fis-
calizador, legislador, como responsável pelos tribunais, etc.,
como se não fosse uma organização de classe, mas como se fosse

Pois comprador e vendedor de uma mercadoria, por exemplo, da força de


trabalho, são determinados apenas por sua livre-vontade. Contratam como
pessoas livres, juridicamente iguais. O contrato é o resultado final, no qual
suas vontades se dão uma expressão jurídica em comum. Igualdade! Pois
eles se relacionam um com o outro apenas como possuidores de mercado-
rias e trocam equivalente por equivalente. Propriedade! Pois cada um dis-
põe apenas sobre o seu. Bentham! Pois cada um dos dois só cuida de si
mesmo. O único poder que os junta e leva a um relacionamento é o proveito
próprio, a vantagem particular, os seus interesses privados. E justamente
porque cada um só cuida de si e nenhum do outro, realizam todos, em de-
corrência de uma harmonia preestabelecida das coisas ou sob os auspícios
de uma previdência toda esperta, tão somente a obra de sua vantagem mú-
tua, do bem comum, do interesse geral” (MARX, 1996, p. 280).
8 “É precisamente o litígio, o choque de interesses, que traz à vida a
forma jurídica, a superestrutura jurídica. O tribunal, mesmo em sua forma
mais primitiva, é a superestrutura jurídica por excelência. Por meio do pro-
cesso judicial, o jurídico abstrai-se do econômico e surge como elemento
autônomo. Historicamente, o direito começou com o litígio, ou seja, com a
ação, e apenas depois abarcou as relações precedentes, puramente econô-
micas e de fato que, dessa forma, já desde o início adquiriram um aspecto
dual: econômico-jurídico. A jurisprudência dogmática se esquece dessa su-
cessão e começa logo do resultado pronto, das normas abstratas com que o
Estado, por assim dizer, preenche todo espaço, dota de qualidades jurídicas
todos os atos que nele acontecem. [...]. O poder do Estado traz para a estru-
tura jurídica clareza e estabilidade, mas ele não cria suas premissas, que
estão arraigadas nas relações materiais, ou seja, de produção” (PACHUKA-
NIS, 2017, p. 121).

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“público”, voltado aos interesses gerais, mediador dos con-
flitos sociais.
Daí retiramos algumas ponderações importantes para
nosso estudo. Em primeiro lugar, que nenhum Estado pode
prescindir da forma do direito, ou da Justiça, mesmo nos mo-
mentos de crise, desemprego, de espoliação da massa de tra-
balhadores e trabalhadoras, como o momento atual, uma vez
que o direito não é apenas o que o Estado concede como ser-
viços sociais que contribuem para amenizar as necessidades
de reprodução de trabalhadores e trabalhadora por meio da
saúde, educação, assistência social, segurança e medidas de
proteção ao trabalho9. Por mais que o Estado possa decretar
diminuição de direitos ou operacionalizá-los privatizando-
-os, a partir da mediação com o capital, o papel de regular a
circulação implica na sua manutenção como o que legaliza
novas situações criadas pela necessidade de exploração do
trabalho. Prova disso está na reação do Presidente do Tribu-
nal Superior do Trabalho, o conservador Ives Gandra Mar-
tins Filho diante da posição de Rodrigo Maia, presidente da
Câmara do Senado brasileiro, que considera que há um “ex-
cesso de regras no mercado de trabalho”:

“Diante da declaração do Excelentíssimo Presi-


dente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, a
quem admiro e estimo, de que a Justiça do Trabalho
não deveria existir, em face da irresponsabilidade de
suas decisões, não posso deixar de discordar de Sua
Excelência.
A tendência mundial é a da especialização dos
ramos do Judiciário, e a Justiça do Trabalho tem pres-

9 Trata-se basicamente de uma redução dos custos de reprodução da


força de trabalho, na forma de gastos estatais financiados pela tributação
sobre salários, lucros e outras formas de rendimento, ou seja, pela mais-valia
extraída do conjunto dos trabalhadores.

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tado relevantíssimos serviços à sociedade, pacificando
greves e conflitos sociais com sua vocação conciliatória.
Não é demais lembrar que não se pode julgar e con-
denar qualquer instituição pelos eventuais excessos
de alguns de seus integrantes, pois com eles não se
confunde e, se assim fosse, nenhuma mereceria exis-
tir” (grifos nossos)10.

Mais de uma vez, na história da luta de classes, a expro-


priação “contribuiu a uma nova distribuição da proprieda-
de”, como diz Pachukanis, “mas essas comoções, por mais
desagradáveis que sejam para as classes e grupos que as so-
frem, não abalaram a própria fundação da propriedade pri-
vada”, que permanecerá sendo o “nexo econômico” das so-
ciedades capitalistas (2017, p. 153):

“A propriedade capitalista é, em essência, a liber-


dade de transformação do capital de uma forma em
outra e de sua transferência de uma esfera a outra,
com o objetivo de obtenção da máxima renda sem
trabalho. Essa liberdade de dispor da propriedade é
inconcebível sem a existência dos indivíduos priva-
dos da propriedade, ou seja, dos proletários. A forma
jurídica da propriedade não se encontra em contradi-
ção alguma com o fato da expropriação da proprie-
dade de um número significativo de cidadãos. Pois a
qualidade de ser sujeito de direitos é uma qualidade
puramente formal. Ela qualifica as pessoas como pu-
ramente ‘dignas’ de propriedade, mas nem de longe
faz delas proprietárias. A dialética da propriedade
capitalista está magnificamente retratada n’O Capital
de Marx, tanto onde ela decorre das forma ‘ imutá-
veis’ do direito, como onde rompe por meio da vio-
lência direta (período de acumulação primitiva)”
(PACHUKANIS, 2017, p. 157).

10 Conferir em http://g1.globo.com/politica/noticia/para-maia-refor-
ma-trabalhista-e-timida-e-justica-do-trabalho-nao-deveria-existir.ghtml.

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Então, em segundo lugar, se considerarmos que a “base
real” da qual provém a universalidade capitalista se mantém
– a propriedade privada - o que se impõe para a compreen-
são das mutações das formas sociais é o estudo das mudan-
ças nas formas de exploração do trabalho que alteram a cir-
culação e, portanto, o direito. Como o “Estado detém o
monopólio do funcionamento do direito”, como provoca
Edelman (1976, p. 175), temos que nos perguntar se ele é pú-
blico, privado ou a “condição de toda distinção” (EDEL-
MAN, 1976, p. 187). Mais do que isso, parece que teríamos
que captar o movimento de privatização dos direitos no bojo
da privatização do próprio Estado, uma vez que a forma so-
cial do direito, ou a “superestrutura jurídica”, como diz Pa-
chukanis, “encontra-se em contato tão íntimo com a base,
que elas são ‘as mesmas relações de produção expressas pela
dominação política’” (2017, p. 117).

2. Direito, Trabalho e Educação

“Entre direitos iguais decide a força”

Marx, O Capital

Vimos que as relações concretas precedem as relações


contratuais presentes nas leis e que os direitos sociais não são
coisas que os trabalhadores e trabalhadoras detêm, mas pro-
priedade do Estado, e sua existência responde a demandas
da própria acumulação, mas também como reação às lutas
sociais. Algumas vezes na história, tais lutas se colocaram
como ameaça à continuidade do progresso histórico captura-
do pelo capital, e o ajuste na correlação de disputas entre as
classes foi permeado pela concessão de formas estatais de
condições mais favoráveis para a produção e reprodução da
classe trabalhadora. Como diz Walter Benjamin em seu estu-

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do sobre o direito, nos momentos em que o conflito entre ca-
pital e trabalho aparece na forma de luta de classes, o Estado
estabelece limites e “o adversário não é simplesmente aniqui-
lado, mas concedem-se direitos a ele, mesmo quando o ven-
cedor dispõe do amplo poder” (BENJAMIN, 1986, p. 172).
Não seria possível analisar a privatização do direito à
educação somente a partir de uma interpretação unilateral
do empresariado, com seus grandes conglomerados, dispu-
tando a entrada na “esfera pública” da educação, uma vez
que o Estado tem sido o agenciador dos processos de articu-
lação que incentivou e fortaleceu a simbiose entre setores,
criando sistemas híbridos a partir de repasses de verba pú-
blica proveniente da arrecadação de impostos, da abertura
de canais de participação do empresariado nas políticas edu-
cacionais, e de uma série de medidas que agigantou o poder
do capital não apenas sobre a educação, mas diante do pró-
prio conflito entre capital e trabalho. Vale dizer aqui, apenas
de passagem, que processos de privatização semelhantes aos
processos educativos estão mais avançados nos setores de
transporte, habitação, cultura, saúde, assistência e previdên-
cia social.
Disso precisamos retirar consequências para a crítica da
privatização dos direitos sociais, sendo uma delas relaciona-
da à impossibilidade de considerar que o Estado se enfraque-
ceu transferindo serviços antes considerados públicos para a
gestão ou execução de empresas privadas, ou reduzindo di-
reitos e medidas de proteção ao trabalho, como concluíram
muitos críticos das políticas neoliberais. Nenhum Estado fra-
co conseguiria impor reformas e ajustes fiscais tais quais es-
tão se realizando agora. Se a sua mudança de forma significa
uma redução do direito público, significa, ao mesmo tempo,
uma nova capacidade de ação que parte da fusão estatal com
o empresariado. Como o Estado articula-se com as relações
concretas de produção, as associações que se apresentam nas

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formas de gerir serviços, apresentam-se também no interior
do aparato estatal11, sedimentando a fusão de interesses eco-
nômicos e políticos:

“A organização do Estado está ligada às organiza-


ções monopolistas do capital financeiro, ela se propõe
toda uma série de tarefas econômicas, e isso exige um
novo tipo de funcionário público, ligado da maneira
mais intima aos círculos de negócios de bancos e fi-
nanças e que sabe trabalhar de modo eficiente. Se na
época do capitalismo industrial o burocrata ideal era
visto somente como guardião das condições formais
de circulação, agora se exigia dele que fosse um orga-
nizador, que pudesse resolver as tarefas econômicas
que se entrelaçavam da maneira mais íntima com as
tarefas políticas” (PACHUKANIS, 2017, p.311).

A cada momento histórico de desenvolvimento capitalis-


ta, portanto, o sujeito do direito está posto de determinada
maneira pelas relações de produção e circulação em que está
inserido, podendo circular de modo mais ou menos livre e
mais ou menos assistido do ponto de vista dos direitos em

11 Pachukanis, ao comentar as críticas dos países capitalistas à Revolução


Russa, analisa a necessidade de separar a burocratização do Estado soviético
do ponto de vista externo e interno ao processo revolucionário. Naquele mo-
mento, do ponto de vista de um país capitalista toda organização da produ-
ção poderia parecer burocratização, dado que os capitalistas queriam o má-
ximo de distância do Estado para proteger “seus direitos de proprietário
privado”, contra “intromissões que podem ocorrer em virtude de conces-
sões à pressão da classe trabalhadora, por exemplo, no sentido de legislação
social etc.” (2017, p. 314). Hoje, no entanto, o movimento é contrário a ponto
de João Paulo Lemann, empresário mais rico do Brasil, que atua em diversos
setores e que é dono de grande Fundação Educacional - a Fundação Lemann
- , declarar que sua meta atual é que um de seus pupilos chegue a presidên-
cia do país, e que considera um equívoco ter passado toda sua vida distante
dos negócios estatais. Notícia disponível em http://www.istoedinheiro.
com.br/noticias/negocios/20160808/lemann-quer-fazer-futuro-presiden-
te-brasil/400453

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cada conjuntura12. Na década de 1920, Pachukanis falava das
sociedades de ações, nas quais o capitalista individual não
teria mais “dominação jurídica sobre o capital”, tendo se tor-
nado, como investidor, apenas o “titular de determinada
cota de renda sem trabalho” (PACHUKANIS, 2017, p. 158).
Assim, não é exatamente sua posição como proprietário pri-
vado que determina as mudanças na circulação e, no caso,
não estamos pensando na circulação da força de trabalho
mediada por novas formas contratuais, mas a posição dos
sujeitos jurídicos como representantes de determinada massa
de capital ou de nenhum capital: a “forma juridicamente dis-

12 “O capitalismo monopolista cria as premissas de um sistema econômi-


co totalmente diferente, sob o qual o movimento da produção ou da repro-
dução social se realiza não por meio de acordos isolados entre unidades
econômicas autônomas, mas com o auxílio de uma organização centralizada
e planificada. Essa organização é criada por trustes, consórcios e outras
uniões monopolistas. O resultado dessas tendências é a fusão, observada
durante a guerra, das organizações capitalistas privadas e estatais em um só
sistema poderoso de capitalismo de Estado burguês. Essa transfiguração do
tecido jurídico na prática não poderia deixar de refletir-se na teoria. Na au-
rora de seu desenvolvimento, o capitalismo industrial conferiu uma auréola
ao princípio da subjetividade jurídica, exaltando-o como qualidade absoluta
da personalidade humana. Agora começam a concebê-lo apenas como uma
definição técnica, que proporciona certa conveniência para a ‘delimitação de
riscos e possibilidades’, ou simplesmente declaram ser uma hipótese espe-
culativa, desprovida de qualquer fundamento real. Uma vez que essa cor-
rente direcionou seus ataques contra o individualismo jurídico, ela granjeou
a simpatia de alguns de nossos marxistas, que entenderam ter diante de si os
elementos de uma nova teoria ‘social’ do direito, que correspondia aos inte-
resses do proletariado. Fica evidente que tal avaliação é testemunha de uma
abordagem puramente formal da questão. Isso sem falar que as teorias men-
cionadas não contribuem em nada para uma verdadeira compreensão socio-
lógica das categorias individualistas do direito burguês, mas elas tampouco
criticam esse individualismo do ponto de vista de uma compreensão prole-
tária do socialismo, e sim do ponto de vista da ditadura do capital financei-
ro. O sentido social dessas doutrinas consiste na apologia do Estado impe-
rialista moderno e dos métodos a que ele recorreu, em particular durante a
última guerra” (PACHUKANIS, 2017, p. 159-160).

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tinta da propriedade privada já não reflete a posição das coi-
sas, pois, com o auxílio dos métodos de participação e con-
trole, as dominações de fato vão muito além dos limites
puramente jurídicos” (PACHUKANIS, 2017, p. 159).
Ao sujeito de direito que apenas detém a força de traba-
lho como mercadoria, o mundo dos empresários e investido-
res hoje se apresenta como espaço de oferta cada vez mais
escassa de trabalho, para o qual se exige alto grau de escola-
ridade para os trabalhos dos mais simples, como reflexo da
competitividade entre os próprios trabalhadores e não pela
complexidade demandada pela atividade. Reforçado pela
diminuição brutal da necessidade de trabalhadores na in-
dústria, incluindo a agroindústria, com o incremento de ma-
quinaria, há muito tempo vemos o desenvolvimento de um
enorme ramo de serviços que apresenta flexibilidade e agili-
dade nas inovações de gestão e contratos de trabalho cada
vez mais precarizados. Desde o crescimento das terceiriza-
ções, aos métodos mais recentes, seja pela “uberização”13 do
trabalho, seja pelo modelo inglês de “contrato de zero hora”
(zero hour contract), seja pelo “trabalho a  voucher” (ANTU-
NES, 2017), os modelos de contratos intermitentes que du-
ram apenas o tempo da prestação de serviço estão dando
forma jurídica a um tipo de exploração do trabalho que está
em curso há muito tempo, com desenvolvimento em ritmo
crescente há pelos menos três décadas. De modo geral, os
empregos são oferecidos por transnacionais, por meio de
empresas que terceirizam serviços e que muitas vezes efeti-
vam o contrato e a gestão do emprego da força de trabalho
pela mediação de aplicativos, isto é, softwares desenvolvidos
para mecanizar o trabalho de gestão e subordinar os empre-

13 Conferir mais detalhes do processo de uberização do trabalho em ABÍ-


LIO, L.C e MACHADO, R., 2017.

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gados, deixando a exploração mais impessoal e indireta.
Como os trabalhos são muito mal remunerados, os trabalha-
dores e trabalhadoras submetidos à tal relação ficam o tempo
todo disponíveis, sem que esse tempo seja pago, e prolon-
gam suas jornadas o quanto podem, chegando a extrapolar a
jornada média de um trabalhador no início da Revolução
Industrial. Além desse incremento para modernização do
trabalho precarizado e ampliação na competitividade em
torno dessas vagas, o incentivo ao “autoempreendedoris-
mo”, leva à criação de empresas individuais para prestação
de serviços por meio de contratos virtuais, a prestação de
serviços por meio de editais públicos ou privados, e diversas
outras saídas encontradas num mar de trabalhadores desem-
pregados, ávidos por encontrarem forma de empregar sua
força de trabalho, o que implica num alto grau de engaja-
mento para a própria exploração. Quase todas elas necessi-
tam que o trabalhador ou trabalhadora se torne uma pessoa
jurídica14, isto é, torne-se “parte” ou representante legal para
os contratos de trabalho de sua própria exploração, indivi-
dualizando e fragmentando cada vez mais a representação
nos casos de litígio ou de abusos.
Neste mundo, que é o mundo da grande maioria de tra-
balhadores e trabalhadoras, não existem contratos perma-
nentes, carteira de trabalho, previdência social e direitos tra-
balhistas há muito tempo. As reformas trabalhistas e a lei das
terceirizações legalizam essa situação, expandindo o alcance
da subsunção do trabalho às necessidades do capital, em que

14 Existem diversas figuras para as pessoas jurídicas legalizarem a pres-


tação de seus serviços individuais, conhecido como a “pejotização” dos tra-
balhadores e trabalhadoras, ou em pequenas sociedades de direito privado,
como a MEI (Microempreendedor individual), ME (Microempresa), a EIRE-
LI (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada), EPP (Empresas Pe-
queno Porte), LTDA (Sociedade limitada), e a S.A (Sociedade Anônima).

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não há fronteiras espaciais para a subordinação, que pode
ser meramente virtual, nem separação estrita entre tempo de
trabalho e tempo de não trabalho, pois todo o tempo fica à
mercê de ser ou não preenchido por tarefas alheias aos traba-
lhadores e trabalhadoras, com atividades simples e sem sig-
nificado para além de suprir as necessidades do estômago.
Uma das provas que evidenciam a preponderância da força
das necessidades de acumulação capitalista sobre a legisla-
ção é a presença forte da terceirização das atividades fim nas
empresas públicas ou privadas, pois sua proibição “não im-
pediu a criação de trabalhadores e trabalhadoras de primeira
e segunda categoria, num quadro de desrespeito à legislação
trabalhista, criando uma vulnerabilidade social e política que
coloca em risco a relação de emprego, como elemento básico
dos contratos formais” (ANTUNES e DRUCK, 2015). Com as
reformas, o Estado assegura os mecanismos contratuais en-
tre partes que têm interesses antagônicos, e tal oposição se
acirra com a desmedida do poder do capital sobre o trabalho,
agora legalizado ou em vias de legalização.
Mesmo que considerássemos que a forma do direito e,
portanto, os direitos sociais nada têm a ver com a circulação
da força de trabalho seria impossível não pensar que o direi-
to à educação se altera diante dessa precarização que deman-
da de cada um de nós o autoengajamento para nossa própria
exploração, desmedida no tempo e no espaço, que nos impe-
le a deixar todo o tempo de vida disponível, sem que haja
poder extraeconômico nos coagindo, a não ser a força da
ideologia do empreendedorismo, do “indivíduo empresa-
rial”, que difunde o autoengajamento que a exploração im-
põe atualmente, e para a qual a mídia e a educação cumprem
importante papel (DARDOT e LAVAL, 2016).
O serviço educativo escolar e não escolar são responsá-
veis pela formação dessa força de trabalho, mas além disso, a

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própria educação é um imenso e lucrativo mercado, que em-
prega trabalho cada vez mais precarizado de docentes, edu-
cadoras e educadores e, sem adentrar essa dimensão é im-
possível compreender a privatização do direito à educação.
A Reforma do Ensino Médio é um exemplo que sintetiza
as contradições do direito à educação. Esse nível de forma-
ção teve uma expansão massificada a partir dos anos 1990,
sob responsabilidade das redes estaduais e compreende os
três anos finais da educação básica. Basicamente, a Reforma
do Ensino aprovada este ano ampliará o tempo da jornada
diária obrigatória de 5 para 7 horas, implementando educa-
ção de tempo integral. Paradoxalmente à ampliação do tem-
po, reduz a menos de 40% o conteúdo obrigatório e diversifi-
ca o atendimento pela possibilidade de “escolha” dos
estudantes por cinco “percursos curriculares”15 (KUEZNER,
2017). São obrigatórias as disciplinas de português e mate-
mática e o estudante pode cursar até dois “percursos”, com-
preendendo duas áreas temáticas, embora à escola seja obri-
gatório o oferecimento de vaga para todos estudantes em
apenas um dos “percursos”. A diversificação na qualidade
do atendimento em cada escola se amplia ainda mais porque
a formação profissional pode validar créditos cursados de
modo presencial ou à distância com instituições que firmam
convênios com a rede estadual, e o tempo integral de qual-
quer uma das escolas pode ser preenchido de maneiras di-
versas: com aulas ministradas por docentes, oficinas ofereci-
das por educadoras ou educadores, ou toda sorte de
atividade que pode inspirar projetos de organizações sociais,
institutos ou fundações privadas organizadas pela sociedade

15 Os “percursos” estão agrupados da seguinte maneira: linguagens e


suas tecnologias; matemáticas e suas tecnologias; ciências da natureza e
suas tecnologias; ciências humanas e sociais aplicadas; e formação técnica
e profissional.

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civil a atuarem dentro das escolas. Na grande maioria dos
casos, por certo será preenchido com trabalho precário. Os
docentes, que são funcionários públicos já são bastante pre-
carizados, com salários baixos e em sua grande maioria com
contratos temporários e precários, com a nova lei poderão
ser descartados em função da possibilidade de contratar
qualquer pessoa, com ou sem formação, que demonstre “no-
tório saber” para ensinar alguma coisa.
Vejamos. A extensão do tempo e a diminuição de conteú-
do escolar revelam muitas coisas, entre elas o fetichismo do
direito à educação que se expressa pelo direito à forma esco-
lar e não aos conteúdos educativos em si, o que é uma sub-
sunção do conteúdo à forma (CATINI, 2013). Nos tempos de
acumulação originária, a educação escolar ou nas organiza-
ções filantrópicas foi colocada a serviço da necessidade de
disciplinar o trabalhador livre, recém-saído das relações de
servidão ou escravidão16, a vender seu tempo de vida para a
valorização de Capital (THOMPSON, 1998). Em profunda
conexão com o modo de produção, o início da expansão da
escolarização massiva, para além de outras funções, volta-
va-se para o controle total e implementação do “uso econô-
mico” do tempo, precisamente marcado pelo tempo mensu-
rável e abstrato dos relógios, para a internalização do uso de

16 “Custou séculos para que o trabalhador ‘livre’, como resultado do


modo de produção capitalista desenvolvido, consentisse voluntariamente,
isto é, socialmente coagido, em vender todo o seu tempo ativo de sua vida,
até sua própria capacidade de trabalho, pelo preço de seus meios de subsis-
tência habituais, e seu direito à primogenitura por um prato de lentilhas. É
natural, portanto, que a prolongação da jornada de trabalho, que o capital
procura impor aos trabalhadores adultos por meio da força do Estado, da
metade do século XIV ao fim do século XVII, coincida aproximadamente
com a limitação do tempo de trabalho que, na segunda metade do século
XIX, é imposta pelo Estado, aqui e acolá, à transformação de sangue infantil
em capital” (MARX, 1996, p. 384).

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tempo pessoal em sincronia com o tempo social, isto é, do
tempo da produção, da venda de tempo de trabalho para o
capital. Assim, o tempo “vazio e homogêneo” (BENJAMIN,
1996) transforma-se em espaço preenchido por tarefas, e se
objetifica como coisa externa ao conteúdo presente nos pro-
cessos sociais (CATINI, 2013). Nos tempos atuais, de novas
expropriações e da acumulação por espoliação, em que a
produção capitalista demanda dedicação de tempo integral
para colocar a força de trabalho à venda por qualquer quan-
tidade de tempo, a educação de tempo integral disciplina os
trabalhadores e trabalhadoras a partir de um processo de
socialização estendido num tempo tutelado por demandas
alheias às suas necessidades, organizados pela flexibilidade
em relação aos conteúdos que se refere ao caráter flexível
imposto aos novos empreendedores de si mesmo, e pelo ca-
ráter híbrido das organizações estatais e empresas privadas
que controlam os processos formativos. Isso sem falar na
necessidade de deixar sob controle uma massa de jovens
sem emprego.
Em relação à diversificação do atendimento educativo
dentro da rede estadual, podemos dizer que ela corresponde
a uma diversificação do consumo (STREECK, 2017), mas so-
bretudo à passagem do direito universal, voltado para todos
os cidadãos, condizente com a figura preponderante do su-
jeito de direito do momento anterior do desenvolvimento
capitalista, para a organização dos “direitos focais”, voltados
a “públicos-alvo”, a determinados “nichos” de interesses
grupais, e pela organização fragmentada dos direitos pelo
próprio Estado, em conjunto com a sociedade civil. Assim
como empregar a força de trabalho hoje demanda autoenga-
jamento, a conquista de tais direitos também exige que os
cidadãos demonstrem “merecimento”, seja por identidade
aos grupos que lutam por direitos específicos – direito dos

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negros, direito das mulheres, direito das crianças em situa-
ção de vulnerabilidade social, etc. –, seja por demonstrar ca-
pacidade de cumprir com as contrapartidas exigidas pela
concessão dos “benefícios sociais”, muitas vezes concedidos
pela transferência de renda e direito ao consumo. Essa lógica
que organizou tal concessão nas últimas décadas em diver-
sos países associa a meritocracia – característica da competi-
tividade naturalizada do neoliberalismo, mas aqui relaciona-
da ao acesso ao direito social –, com um punitivismo que se
refere tanto aos mecanismos de controle criados pelos cadas-
tros sociais e às formas de exigir contrapartidas revestidas de
“empoderamento”, quanto ao corte da concessão dos direi-
tos, transformados em “benefícios”, nos casos de descumpri-
mento de contrapartidas. Estudos como os de Loïc Waquant
(2003), que analisa a criminalização da pobreza nos Estados
Unidos por meio de programas sociais e das “reformas” da
assistência social para vigiar e punir, ou de Marília Spósito
(2008), que pesquisou um programa assistencial de educação
terceirizada para jovens de periferia no Brasil revelam tais
mecanismos detalhadamente.
Tais direitos focalizados, voltados a grupos específicos,
são geridos no Brasil por organizações privadas da “socieda-
de civil organizada”, sobretudo desde a década de 1990,
quando o Estado passou a legalizar e criar novas figuras jurí-
dicas para as organizações não governamentais, a partir do
incentivo da criação de “serviços públicos não estatais”17,

17 Vale mencionar aqui que as reformas dos anos 1990 no Brasil caminha-
ram no sentido de modernizar a gestão pública (até então, se falava em ad-
ministração), voltada para a eficiência de seus serviços voltados para o cida-
dão, que no plano de governo FHC aparece como “‘cliente privilegiado’ dos
serviços prestados pelo Estado” (CARDOSO, 1995). Colocado em vigor, o
plano de reforma do Estado atrela a “avaliação sistemática, a recompensa

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que na verdade são estatais, mas não públicos. Num verda-
deiro “mercado da cidadania” (ARANTES, 2004), tais enti-
dades, fundações, institutos privados passaram a disputar
fundos públicos ou privados para gerenciar os direitos so-
ciais a partir de seus projetos privados, colocando em dispu-
ta também a fração de público que tem prioridade de atendi-
mento de acordo com os princípios de cada entidade,
subsumindo os direitos sociais a uma verdadeira lógica de
concorrência mercantil, com toda instabilidade decorrente
de tal lógica.
São essas as organizações convidadas a estabelecer parce-
rias nas escolas, privatizando os serviços educacionais, fun-
dindo o direito público e o direito privado. Desde seu nasci-
mento, tais organizações difundiram o trabalho precário, e
absorviam em 2005, segundo Neves (2005), “cerca de 14 mi-
lhões de trabalhadores informais” no Brasil, colocando em
prática novas formas de exploração de trabalho voltado para
prestação de serviços sociais (NEVES, 2005). Em mais de 70%
das instituições não havia nenhum contrato de emprego for-
mal no ano de 2010, apoiando-se completamente “em traba-
lho voluntário e prestação de serviços autônomos”, segundo
levantamento da ABONG (Associação Brasileira das ONGs).

pelo desempenho e a capacitação permanente”, aos princípios da orientação


para este cidadão, que deve ter acesso ao “controle dos resultados”, por
meio da “competição administrada” (PDRAE, p.24). E admite que “embora
o Estado ainda tenha um papel central na provisão e garantia de serviços
básicos – educação, saúde e infraestrutura”, considera que “não é óbvio que
deva ser o único provedor, ou mesmo, que deva ser provedor” (PDRAE).
Com isso, programava “transferir para o setor público não–estatal estes ser-
viços, através de um programa de ‘publicização’, transformando as atuais
fundações públicas em organizações sociais, ou seja, em entidades de direito
privado, sem fins lucrativos, que tenham autorização específica do poder
Legislativo para celebrar contrato de gestão com o Poder Executivo e assim
ter direito à dotação orçamentária” (PDRAE).

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Não deixa de ser paradoxal o fato de que boa parte das
organizações sociais se volte para a promoção e defesa de di-
reitos a partir de uma forma de engajamento quase militante,
mas que, a um só tempo, concretize a própria precarização do
trabalho e privatização dos direitos sociais. Note-se aqui a re-
levância da conjunção da materialidade do desemprego e da
extinção de direitos universais que conduz a um engajamen-
to por direitos mediados por organizações da sociedade civil,
operacionalizando exatamente os planos da reforma geren-
cial do Estado. Assim, parte da esquerda “democrática-popu-
lar” que buscava manter ou ampliar direitos organizou-se em
torno de instituições de direito privado e tornou-se a gestora
do projeto – de direita, diga-se de passagem - de “destituição
de direitos em nome dos direitos de última geração” (ARAN-
TES, 2004, p. 178), assumindo o papel de executar a “utopia
destrutiva de uma exploração sem limites” (idem, p. 181). A
proatividade em busca de direitos e de uma forma específica
de cidadania organizou-se materialmente por uma imensa
rede de trabalho precário na fusão de interesses do Estado e
da sociedade civil, no fundo, de interesses privados de cida-
dãos agrupados pelas suas próprias necessidades.
Considerando ainda que boa parte das organizações so-
ciais sempre promoveu atividades de caráter educativo, in-
dependentemente do setor de atuação, tendo criado um ver-
dadeiro sistema de educação não formal paralelo ao ensino
formal, e um know-how de como angariar fundos, estabelecer
“parcerias”, desenvolver projetos com metas bem definidas e
o máximo de “eficiência”, etc., criaram-se, durante as últimas
três décadas, bases sólidas para a privatização da educação18.

18 A denominação genérica de ONGs (organizações não governamen-


tais) serve para uma série de entidades de direito privado, que a partir dos
anos 1990 ganhou novas formas jurídicas. Com o desenvolvimento de tais

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Com a reforma do ensino em implementação aquelas são as
organizações que estão criando diversas formas de convênios
nas escolas, privatizando os serviços educacionais. Organi-
zações de todos os tamanhos e qualidades podem servir ao
projeto empresarial de educação estatal, ampliando o alcan-
ce dos experimentos que já estavam em curso para a educa-
ção de tempo integral, pela educação não formal que se so-
brepõe à jornada de escolarização formal, financiada pela
captação de recursos estatais ou de fundações e institutos de
grandes conglomerados empresariais. O Estado financia os
fundos dessas entidades privadas empresariais por meio da
isenção de impostos que deixa de arrecadar para transferir o
papel de executor de direitos sociais para as ações de “res-
ponsabilidade social”, ou seja, de um oferecimento direto
para uma terceirização do serviço, do direito público para o
direito privado. Por meio de editais e licitações tais entidades
subcontratam organizações da sociedade civil para execução
de serviços realizados pelo trabalho social precarizado. Mais
recentemente, essa relação educativa se desdobrou num
imenso crescimento de projetos, programas e cursos desen-
volvidos diretamente pelas organizações empresariais, em
redes próprias de formação que têm por “público alvo” os
sujeitos do direito à exploração. Mas também na parceria
imediata de tais organizações com a rede estatal, seja na ges-
tão do ensino, seja dentro das escolas. Cria-se, assim, uma
hierarquia de gestores de projetos sociais autonomizados
que conformam um sistema, uma forma educativa estatal-
-empresarial, cujo conteúdo político, social e econômico é
presidido pelos interesses privados. Deste modo, o conteúdo

formas e incorporação fundações empresariais que ganham isenções fiscais


para realizar suas ações de responsabilidade social para a cidadania, hoje
passaram a se reunir sob a sigla FASFIL: Fundações e Associações Sem Fins
Lucrativos.

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das relações educativas se subordina à formação para o em-
preendedorismo e produção de indivíduos competitivos
com “habilidades sócio-emocionais” e, assim, em nome da
formação de cidadãos, a formação é preenchida por exercí-
cios comportamentais e de autocontrole necessários à sujei-
ção das subjetividades ao imperativo da lógica dos resulta-
dos objetivos e heterônomos à organização da vida.
Antes da reforma ter início já havia experiências difusas
na educação básica de gestão compartilhada com organiza-
ções como o Instituto Oi e pela Fundação Pão de Açúcar,
para o preenchimento do tempo dos jovens com projetos
“empreendedores” (KRAWCZYK, 2015). As organizações
privadas fazem propostas pedagógicas, oferecem a infraes-
trutura e recursos, sendo que elas “são geridas conjuntamen-
te por um profissional da rede pública e um membro da ins-
tituição parceira”, e a ampliação dos horários é justificada
por demandas externas à educação, sobretudo assistencialis-
tas, porque permite que os jovens estejam “fora das ruas e
das drogas” (KRAWCZYK, 2015).
Ou seja, o processo de privatização também passa a con-
trolar todo um imenso mercado de trabalho educativo. O tra-
balho docente público, já bastante precarizado no bojo de um
longo processo de sucateamento dos serviços públicos, sofre
agora com propostas como a de contratos por uberização da
educação, também chamado de “professor delivery”, que
vem a incrementar a instabilidade de todos os docentes even-
tuais. Soma-se a isso a possibilidade de contratação por “notó-
rio saber”, ainda sem regulamentação contratual, do contrato
de funcionários de empresas “parceiras”, diretamente explo-
rados por elas para gerir os projetos no interior das redes esta-
duais, e do contrato de serviços de organizações da sociedade
civil para gerir ou a desenvolver projetos no interior da escola
de tempo integral. Caberia aqui o estudo sobre as relações de
trabalho educativo e possibilidade de tornar trabalhos antes

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improdutivos (trocados por renda pública), em trabalhos pro-
dutivos (que se troca por dinheiro como capital), diante de
nova forma de exploração híbrida, por agências privadas e
estatais, num estudo da movimentação financeira da terceiri-
zação dos serviços estatais19. Sobretudo se considerarmos a
crise da economia e o ajuste fiscal, com medidas que congela-
ram os gastos públicos, e que agravam a necessidade de anga-
riar financiadores externos e privados. Isso já está ocorrendo
com processos de apadrinhamento de escolas públicas por
empresários ou com a própria reforma do ensino médio, que
está sendo financiada pelo Banco Internacional para Recons-
trução e Desenvolvimento (BIRD) e pelo Banco Mundial (BM).
Edelman (1976) já observava, em relação aos serviços pú-
blicos, que o que ele denominava “neocapitalismo tecnocrá-
tico” estava indo “até o fim da lógica do sistema, até a con-
cepção americana segundo a qual o serviço público é afinal
de contas uma empresa como qualquer outra, sujeita à lei do
mercado, da rentabilidade e do lucro”. Deste modo,

“A partir do momento que o aparelho de Estado


se privatiza, assiste-se a uma contradição cada vez
mais aguda entre um aparelho que se diz ser apenas
político e que apesar disso se projeta no privado, por
definição apolítico para ele. O que, nomeadamente,
torna ainda mais ineficaz a noção de direito público
ou sujeito de direito privado, uma vez que a própria
natureza do Estado infirma esta categoria” (EDEL-
MAN, 1976, p.193).

Com isso, trata-se de observar que a privatização da edu-


cação não apenas coloca todo processo de formação de traba-

19 Considerando que a divisão entre trabalho produtivo ou improdutivo


não se refere à sua atividade concreta, mas à “sua forma social de organiza-
ção, de sua compatibilidade com as relações de produção características da
determinada ordem econômica da sociedade (RUBIN, 1980, p.280).

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lhadores e trabalhadoras sob a hegemonia do capital, que
passa a controlar currículos, resultados e a gestão dos siste-
mas de educação por meio de novas maneiras de expropria-
ção e concentração dos processos decisórios e dos meios de
trabalho nas mãos do setor privado, regido diretamente pe-
las leis da concorrência mercantil. A privatização da educa-
ção e de outros serviços sociais implica uma mudança de
categorias como a de cidadania, alterando na prática a rela-
ção entre os indivíduos e o Estado, ou entre aqueles e o que
seria considerado a esfera da política, uma vez que a media-
ção por entidades privadas concorre para uma despolitiza-
ção da posição do sujeito do direito. Coloca, assim, mais con-
tradições e elementos críticos nas lutas sociais por direitos e
cidadania, sobretudo pela imanência da forma do direito
com a circulação e exploração da força de trabalho como
mercadoria.

3. Para concluir

“Samba
Inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu.”

Nelson Sargento
Agoniza, mas não morre.

A forma de realização do trabalho e da cidadania se mo-


dificou radicalmente no curso de pelo menos três décadas,
seja pela precarização e terceirização que sedimentaram as

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relações de trabalho nos setores estatais ou privados, seja
pela privatização da gestão e forma de concessão dos direi-
tos sociais, mediados por entidades privadas. Ambos os
processos avançaram à força, na concretude das relações
materiais, antes de qualquer regulamentação jurídica na
forma da lei se colocar como norma universal, constituindo
formas de relação social que permeiam o cotidiano de imen-
sa parcela da população. Se as atuais reformas ou contra re-
formas ampliam o alcance para setores antes resguardados
da miséria social imposta por tais relações, elas não podem
ser consideradas instauradoras da novidade na gestão da
barbárie, já consolidada para milhões de desempregados,
subempregados, encarcerados, despejados, exterminados
etc., submetidos à toda ordem de violência estatal e empre-
sarial – ou a essa nova forma de Estado privatizado, fundido
simbioticamente com o poder econômico de grandes con-
glomerados empresariais.
Como diz Marx, “a reflexão sobre as formas de vida hu-
mana, e, portanto, também sua análise científica, segue so-
bretudo um caminho oposto ao desenvolvimento real. Co-
meça post festum e, por isso, com os resultados definitivos do
processo de desenvolvimento” (1996, p. 201). Mas isso expli-
ca somente em parte os porquês de as lutas sociais terem
sido, em grande medida, hegemonizadas pela canalização
dos esforços em torno de figuras póstumas de categorias que
se modificaram no percurso histórico. Talvez tenha sido um
dos ganhos do neoliberalismo e da tendência capitalista da
mercantilização de tudo, que as lutas tenham se centrado na
reivindicação de direitos, alçando o Estado à condição de
operacionalizador de uma democratização (ou massificação)
de bens e serviços, no interior de uma lógica de cidadania
consumista, como se isso representasse uma oposição à su-
bordinação ao capital. Ainda que circunscrita à noção ideoló-
gica da cidadania, e distante de uma conquista da classe tra-

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balhadora, essa lógica conformou toda uma euforia de
movimentos e organizações de esquerda hegemonizados
pela insígnia democrática-popular, que, num certo momento
de crescimento econômico e aumento da concessão privati-
zada de direitos, assumiu uma postura triunfalista das con-
quistas sociais, mesmo sustentando um reformismo fraco e
com a crise econômica diante da porta. Essa euforia certa-
mente está relacionada, no Brasil, com a mistificação que en-
volveu a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores,
que não vem ao caso discutir aqui. Na prática, a ampliação
da conquista de direitos focalizados significou a consolida-
ção de uma noção de progresso social pelo acúmulo de con-
cessões de direitos intermitentes, em conjunto com uma con-
denação de quaisquer outras formas de luta mais radicais
como ações “que faziam o jogo da direita” por colocar qual-
quer linha do projeto de “conciliação de classe” em jogo. Na
teoria, em grande medida, esse processo levou ao abandono
de uma análise dialética das contradições impostas pelas for-
mas do direito e da cidadania.
O apassivamento da luta de classes, em alguma medida,
deu-se pela decadência de formas de luta autônomas e não
amoldadas pelo reformismo, pela falta de experiências con-
cretas de enfretamento, que materialmente dilui a potência
de um conhecimento proveniente da prática cotidiana de or-
ganização e contestação. Mas também pela “ortodoxia de
manuais” que ainda centra forças numa imagem do operário
de dois séculos atrás como “sujeito revolucionário”, deixan-
do de lado de suas organizações as imensas massas de traba-
lhadores e trabalhadoras sendo terceirizados, precarizados e
desempregados, submetidos a toda forma de exploração
mais violenta do capital.
No confronto entre capital e trabalho, o primeiro foi mui-
to fortalecido pelos processos de privatização dos direitos
sociais e desorganização de processos de luta coletiva entre

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trabalhadores e trabalhadoras submetidos à exploração indi-
vidualizada e fragmentada. Nós nos distanciamos de apren-
dizados da teoria revolucionária e em grande medida acaba-
mos por “desistir do objetivo final”, como diz Rosa
Luxemburgo, “ao fazer da reforma social o fim da luta de
classes em vez de ser simplesmente um meio” (2011, p. 2).
Mais do que isso, ao nos conformarmos com certa forma de
militância dentro do Estado de Direito, perdemos uma di-
mensão que Marcio Naves destaca, citando a mensagem do
Comitê Central à Liga dos Comunistas em que Marx e Engels
defendem que a luta “precisa ser travada tanto no terreno da
legalidade burguesa, como no campo da ilegalidade”, sendo que
a ação ilegal “deve ser o aspecto dominante da luta, pois é ela que
vai garantir a independência organizativa e política dos tra-
balhadores” (NAVES, 2015, p. 169, grifos do autor).
As lutas, portanto, não podem abrir mão dos direitos so-
ciais, assim como não podemos abrir mão de qualquer outra
categoria capitalista nessa forma de vida totalizada pela for-
ma do capital: não podemos viver sem trabalho e salário,
sem comprar e vender e, portanto, sem direitos. Mas as lutas
precisam lidar com os direitos como o que eles de fato são:
formas externas e fetichistas, das quais nos revestimos en-
quanto sujeitos de direitos. O Estado, forma política do capi-
tal, que detém os meios de operacionalizá-los, tem agencia-
do novas ondas de privatizações de direitos e nos parece
urgente que se produza a partir disso uma atualização da
crítica radical ao reformismo e da gestão da barbárie, uma
vez que os antagonismos ficam mais evidenciados em mo-
mentos como o que vivemos, no qual o “‘Estado de Direito’
transformou-se numa sombra imaterial”, pois as circunstân-
cias históricas, mais uma vez, obrigaram “a burguesia a dei-
xar completamente de lado a máscara do Estado de direito e
revelar a essência do poder como violência organizada de
uma classe sobre a outra” (PACHUKANIS, 2017, p. 182).

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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Márcio Bilharinho Naves, Tarso de Melo, Oswaldo


Akamine Junior e Celso Kashiura Junior pelo convite para fazer
parte das Edições Lado Esquerdo com a presente publicação.
Agradeço a Márcio Naves em especial pela imensa generosidade,
pelo prazer do convívio e troca intelectual e sobretudo pela
introdução dos estudos de Pachukanis no Brasil, que marcou
a formação de diversos pesquisadores marxistas. Agradeço a
Gustavo Moura de Cavalcanti Mello e Renan Oliveira Santos pela
leitura cuidadosa, comentários e sugestões, e pela possibilidade de
diálogo intenso com estudantes, docentes, educadoras, educadores
e militantes dispostos a enfrentar as dificuldades de interpretação
de nosso tempo.

CAROLINA DE ROIG CATINI

Doutora e mestre na área de Educação pela Universidade de


São Paulo, é professora do departamento de Ciências Sociais da
Educação (DECISE) da Faculdade de Educação da Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP).

EDIÇÕES LADO ESQUERDO

Coordenação Celso Naoto Kashiura Jr. | Márcio Bilharinho Naves


| Oswaldo Akamine Jr. | Tarso de Melo Logo e capa Marina Zocca
Vilela Revisão Edmar Tetsuo Yuta Projeto gráfico Luzia Maninha |
Isabela Agrela Teles Veras Impressão Forma Certa | Março de 2018

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