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DOSTOÏEVSKI: A DUPLICIDADE N A ESTRUTURA NARRATIVA D E

O DUPLO *

Sigrid Rénaux **

Introdução

T. 1 Proposição
Este trabalho pretende examinar e considerar, tendo como embasa-
mento teórico os estudos de Mikhail Bakhtine e Leonid Grossman, a estrutura
narrativa de O Duplo, *** a fim de demonstrar que a "forma" deste ro-
mance, que Dostoïevski considerou "fracassada", é na realidade um reflexo
do conteúdo bifurcado, isto é, a duplicidade ou fragmentação da estrutura
corresponderia ao esfacelamento ou bifurcação do conteúdo, através do des-
dobramento da personalidade da personagem principal. A análise será com-
pletada com uma tentativa de encaixar parte do simbolismo da narrativa
não explorado completamente por Bakhtine e Grossman, no contexto de du-
plicidade da estrutura, como sugestão para uma futura pesquisa do simbo-
lismo em outras obras de Dostoïevski.
Assim, após o levantamento de elementos ao nível da narrativa, tentar-
-se-á articulação deles, para chegar a uma interpretação da obra que se
coadune com o mundo imaginário de Dostoïevski, e com a visão polivalente
que ele nos deu da sua e da nossa realidade.

1.2. O tema de O Duplo na literatura e sua influência sobre Dostoïevski
O conceito da existência de um "duplo", de uma réplica exata mas ge-
ralmente invisível de cada homem, pássaro ou animal, é uma superstição
muito antiga e difundida. Na crença popular pensava-se que a alma pudesse
sc separar por um certo tempo do corpo, ou acompanhá-lo como sombra.

* Trabalho final apresentado ao professor de Teoria literária. Dr. Boris Schnai-
derman, na disciplina Análise das Estruturas Narrativas dos Contos de Dos-
toïevski! no Curso de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo e que me-
receu conceito A. Junho 1975.
*• Sigrid Paula Maria Lange Scherrer Rénaux — Mestre em Estudos Anglo-Ame-
ricanos pela Universidade de São Paulo (1974) com a Dissertação Word, Image
and Symbol in H.D.'s Early Nature Poetry. Publica na revista Letras desde
1971. Auxiliar de Ensino de Língua e Literatura Inglesa na Universidade Fe-
deral do Paraná.
•** Todas as referências a O Duplo na análise foram tiradas da edição brasileira
da Obra Completa de Dostoïevski, v. 1. Tradução de Natália Nunes. Rio,
Aguilar, 1963.

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AJîm disso, o aparecimento de nosso " d u p l o " ou aparição seria sinal de nos-
sa morte próxima. Toda duplicação, segundo Juan E d u a r d o Cirlot. 1 diz res-
peito ao binàrio, à dualidade, à contraposição e equilíbrio ativo de forças, e
as imagens duplas simbolizariam esta situação.

0 tema do "duplo", de u m herói incompleto e de seu duplo catalítico
aparece freqüentemente na literatura, desde a lenda de Anfitrião, tratada p o r
Molière e Kleist, através dos românticos E . T . A . H o f f m a n n em Die Elixiere
des Teufels (1815) e E . A . P o e em William Wilson (1839) e T h e M a n of the
C r o w d (1840), até chegarmos em Dostoïevski, no qual o conceito do "duplo"
como alter ego ou contraparte moral é quase que u m a constante em sua
ficção, a partir de O Duplo (1846): segundo René Wellek, 2 falando do r o -
mantismo alemão, foi das melhores obras dc Tieck, Brentano, A r m i m e H o f f -
mann que se revela a experiencia "dass die Welt einem doppelten Boden
besitzt: die Furcht, dass der Mensch finsteren Kraeften, dem Schicksal, dem
Zufall, der Dunkelheit eines unbegreiflichen Geheimnisses Ohnmaechtig ausge-
liefert ist". E mais recentemente, o tema é tratado simbolicamente em The
Secret Sharer (1909) p o r Joseph Conrad, entre outras obras.
Mas para compreendermos as particularidades de composição em Dos-
toïevski, é necessário, de acordo com Bakhtine,3 analisarmos a história dos
gêneros: na Antigidade Clássica, surgiram gêneros caracterizados pela alian-
ça do "sério-cômico", como o Dialogo Socrático, A Sátira Menipéia, e outros,
em oposição à epopéia, à tragédia e à história. Estes gêneros novos têm u m
liame profundo com o folclore do carnaval, o que determina suas caracterís-
ticas fundamentais, colocando a palavra e a imagem numa relação particular
com a realidade. A importância do cômico-sério antigo na evolução d o f u -
turo romance europeu é que este tem três raízes: a epopéia, a retórica e o
carnaval, e é no domínio do sério-oômico que está a origem dos ramos da
terceira corrente romanesca, que leva à o b r a de Dostoievski. O Diálogo S o -
crático e a Sátira Menipéia são os dois gêneros cômico-sérios principais
da literatura carnavalizada, e é entre as particularidades da Sátira Menipéia
(dadas pelos antigos), que encontramos a experimentação moral e psicoloógi-
ca. e a representação de estados psíquicos inabituais: demência, desdobra-
mentos da personalidade, sonhos extravagantes, paixões loucas, suicidios, etc.
Estes destroem a unidade épica e trágica d o homem: a personagem cessa de
coincidir consigo mesma e esta destruição do acabamento do homem é f a -
vorecida por u m a atitude dialógica diante de si próprio. Dostoievski, descre-
vendo o desdobramento, também conserva sempre ao lado da tragédia um
elemento cômico (como em O D u p l o ) .

1 CIRLOT, Juan Eduardo. Diccionario de símbolos. Barcelora, Labos, 1969.
p. 180.
2 W E L L E K , René. Konfrontationen». Vergleichende Studien zur Romantik.
Frankfurt, Suhrkamp, 1964. p. 24.
3 BAKHTINE, Mikhail. La poétique do Dostoievski. Paris, Seuil, 1970. p.
145-237. (Capítulo sobre As particularidadse de composição e gênero nas obras de
Dostoievski).

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Bakhtine observa porém que Dostoïevski não se inspira direta ou cons-
cientemente na Sátira Menipéia, apesar de acharmos em sua obra todas as
particularidade dela; ele apenas pegou a corrente que atravessava sua épo-
ca. pois a Menipéia está presente não na memória subjetiva de Dostoïevski,
mas na memória objetiva do gênero que ele empregava. Dostoïevski inclusive
ultrapassa os autores da Menipéia antiga, pois esta ignorava a polifonia,
preparando-lhe apenas o caminho, com o Diálogo Socrático.
Continuando sua análise diacrònica, Bakhtine explica como se deu o de-
senvolvimento posterior da Menipéia na Idade Média, Renascença e Epoca
Moderna, sempre renovada p o r métodos artísticos e correntes literárias d i -
ferentes. A carnavalização, então, atingiu Dostoïevski como tradição de gê-
nero literário, cuja fonte não literária, o carnaval, pode nem ter sido p e r -
cebida. A fonte principal da carnavalização para a literatura dos séculos
X V I I , X V I I I e X I X encontrava-se nos autores da Renascença — Boccaccio.
Rabelais, Shakespeare, Cervantes — como nos romances picarescos, pois os
escritores destas épocas tiraram muito da literatura carnavalizada da Anti-
güidade e Idade Média. Dostoïevski assimilou a carnavalização através destas
diversas fontes, mais profundamente porém, através de Balzac. Sand, Hugo,
carnavalização que se traduz por sua ambivalência. De Sterne e Dickens.
Dostoïevski herdou uma mistura de carnavalização e sentimentalismo; de
Poe e Hoffmann, carnavalização e ideologia romântica. Sofre, além disso,
influência de Gogol e Pushkin. Conclui Bakhtine que na obra de Dostoïevski
a tradição carnavalesca renasce também de modo pessoal, combinada com
outros momentos artísticos e servindo a outros fins, ligada como está a to-
das as particularidades do romance polifónico.

Já para Grosman. 4 os sósias — junto com os pensadores e sonhadores,
jovens ultrajadas, devassos, palhaços voluntários, os puros e os justos — são
um dos Leitmotifs da poética de Dostoïevski, que definem as figuras e d r a -
mas da sociedade humana por ele criada. Repetições temáticas atravessam
toda sua obra e seu interesse pelos fenômenos de dupla personalidade, m a -
nias e hipnotismo inaugura-se exatamente com Goliádkin, personagem cen-
tral de O Duplo ( O Sósia, em Grossman). P o r outro lado, como a f i r m a Gross-
man, o principio da iluminação bilateral do tema principal mantém-se domi-
r a n t e em Dostoïevski, 5 relacionando-se com os fenômenos do aparecimento
de "sósias" que exercem função importante quanto às idéias, psicologia e
composição. E essa bifurcação do tema principal seria u m processo artístico
aprendido na música. lembrando o " j o g o de dois espelhos face a face, e
que enviam um para o outro a mesma imagem". 6 É a idéia também do
"punctum contra punctum", tão cara a Dostoïevski, ou seja, da apresentação

4 GROSSMAN, Leonid. Dostoievski artista. Rio de Janeiro, Civilização Bra-
sileira, 1967. p. 136-7.
5 Ibid., p. 34.

G Ibid., p. 32.

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de duas narrativas paralelas, "competindo em tensão de paixões e intensidade
de sofrimento". ?
Se, portanto, as fontes do "duplo" na literatura remontam até a Anti-
güidade Clássica e Dostoievski as absorveu subjetivamente através de sua vasta
leitura de escritores renascentistas e românticos, como afirma Bakhtine por
um lado, e Grossman por outro, que o leitmotif do "duplo" exerce função
Importante entre as leis básicas de composição Dostoievski, é evidente que
deva ser dada a O Duplo, obra em que aparece pela primeira vez a bifurca-
çãò da consciência cm Dostoievski, uma leitura mais em profundidade, obra
básica que é para a compreensão dos grandes romances posteriores: o tema
do "sub-solo espiritual" em O Duplo é

prenuncio daquela decadência que matizou claramente as obras
do romancista que envelhecia. Os sofrimentos patológicos das per-
sonagens, dominadas pela fragmentação do pensamento, possuídas
de uma excitabilidade doentia [ . . . ] que perdem o juízo [ . . . ] que
se inclinam para as alucinações e as idéias fixas e, por fim per-
dem o dom do pensamento lógico e a unidade do discurso-8

são fenômenos todos magistralmente expressos em Os Demônios e Os
Irmãos Karamazov.
Poderíamos ainda mencionar, como complementação, a opinião de Arnold
Hauser, para quem a psicologia moderna começa com a descrição da
discórdia interior da alma, e a expressão mais palpável da discordância do
espírito consigo pròprio é a idéia do "double". Dostoievski, segundo Hauser,
descobriu "o princípio capital da psicologia moderna: a ambivalência dos
sentimentos e a mùltipla natureza de todas as atividades espirituais" e esta
desintegração, "que consiste não só na incoerência dos elementos da alma hu-
mana, mas também no seu constante deslocamento e transformação, reva-
lorização e reinterpretação", são uma conseqüência da luta contra o ro-
mantismo e da oscilação entre as atitudes romântica e não-romântica- 9

1.3 Histórico de O Duplo:

O Duplo foi publicado em primeiro de fevereiro de 1846, nos Anais da
Pátria, duas semanas após a publicação de Gente Pobre. Segundo Rafael Can-
sinos Assens, no prólogo da edição espanhola do romance, to Dostoievski, no
intervalo entre Gente Pobre e O Duplo, havia se inimizado com Bielinski e
deixado de ser o jovem gênio que se acreditava. Suas exibições nos salões
literários lhe foram fatais, afastando-lhe todas as simpatias. Dostoievski foge
das pessoas, sente-se repelido e se afasta, se perde durante temporadas in-

7 GROSSMAN, p. 31.
8 Ibid., p. '109.
9 HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. São Paulo, Mestre
Jou, 1972. v. 2, p. 1025-6.
10 DOSTOIEVSKI, Fiodos M. Obras completas. Madrid, Aguilar, 1953. v. 1,
p. 207.

3 5 0 Letras, Curitiba 125): 347 - 400, fui. 1976

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teiras, vai por essas ruas "falando sozinho", como diz sua filha. Nestas con-
dições escreve O Duplo, esta estranha novela, na qual se unem u m "sangran-
te" realismo psicológico com as fantásticas penumbras dos Contos de H o f f -
mann.
Se bem que Dostoïevski na época acalentasse grandes esperanças em r e -
lação a O Duplo, como escrevera ao irmão ("Goliadkine vai b e m encami-
nhado. Será a minha obra p r i m a " " ) j á e m dezesseis de novembro de 1845.
e seus primeiros capítulos terem produzido extraordinária impressão nos
amigos, ele estragou a idéia baudelairiana de que "em cada homem há dois
postulantes simultâneos, um voltado a Deus e outro p a r a Satanás", segundo
Henri Troyat, porque não soube dominar a influência de Gogol, do qual
ressaltam frases inteiras em O Duplo 1 2 . Porisso, mesmo Dostoïevski esfor-
çando-se por apagar os vestígios gogolianos, não foi suficiente para salvar
O Duplo, que ficou sempre u m romance " à maneira de", embora genial. W
E a segunda reação ao romance foi a crítica de que se tratava de u m a
obra "estranha", que não correspondia à expectativa criada pela sua p r i -
meira obra, nãò só pelo fato de não haver mais romance social ( e m voga
na Rússia na época) como também pelo fato de Dostoievski aproveitar nes-
ta novela o "desdobramento patológico da personalidade" 1 4 aplicado à tec-
nica de ficção literária. Bielinski, o maior crítico russo da época, achava
O Duplo

long-winded, lacking in measure, unclear in point of view, and,
most important, 'fantastic': [ . . . ] The fantastic in our time can
have a place only in an insane asylum, and not in our literature;
it has a place in the art of the doctor, but not in the art of a poet,

a c r e s c e n t a n d o que "there should be nothing dark and unclear in art".«
E, como observa E d w a r d Wasiolek a respeito, Bielinski estava certo: a arte
deveria ser sempre clara, mas o que é claro para u m a época pode não o ser
para outra. O que Bielinski considerava claro, não era o que Dostoievski
considerava c l a r o . «
Mas de acordo com Leonid Grossman, Dostoievski escutou as críticas de
Bielinski sobre os defeitos de forma e falta de medida, que demonstravam
quanto seu talento era grande, e ele estava até de acordo com a opinião de
Bielinski, segundo a qual a forma de O Duplo não havia logrado e deveria
ser refundida. 1 7 Dostoievski mesmo escreve em 1859 (treze anos após ter
escrito ao irmão como ficara afligido pela idéia de haver iludido a expectativa

11 TROYAT, Henri. A vida de Dostoievski. Lisboa, Estúdios Cor, 1958. p. 94.
12 I b i d . , P. 97-
13 I b i d . , p. 98.
14 DOSTOÏEVSKI, Fiodor M. Obra completa. Rio de Janeiro, Aguila^, 1963.
v 1. p. 285.
15 WASIOLEK, Edward. Dostoevsky, the major fiction. Cambridge, MIT Press,
1964. p. 5.
16 I b i d . , p. 5.
17 GROSSMAN, Lénide. Dostoïevski. Moscou, Ed. du Progrès, 1970. p. 66.

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34. mesmo trinta anos após a publicação de O Duplo. Tem-se sem- pre uma representação de fatos e ocorrências autênticos [ . Dostoievski tinha uma elevada opinião da idéia do conto. Dostoievski do público e falhado numa obra que podia ser grandiosa. Dimitri. Dostoievski artista. 20 Estes dois inseparáveis argumentos do romance. 22 Em O Duplo. 3 5 2 letras. como ele mesmo dissera. 13 CHIZHEVSKY.RENAUX. o que torna sua vida infernal e o faz adoecer de desespêro): "Pourquoi perdre une idée remarquable. na qual "dois temas opostos fundem-se". Englewood Cliíís.1 O plano do sonho e da realidade e as "duas narrativas" de Dostoievski Em seu capítulo sobre as Leis de Composição de Dostoievski. Curitiba 1251: 347 — 400. 31-2. sobre ocorrências da vida real. 20 GROSSMAN. Cada narrativa está ligada orgà- nicamente a outra e completa-a por contraste [ . 113. cm 1846. . ] in- terrompidos por 'não sei que outra narrativa'. narrativa "contrastante e unitária ao mesmo tempo". fatos criminais. percebemos uma narrativa 18 GROSSMAN. 21 Ibid. . que O Duplo foi um fracasso completo.-ed. p. que o conto não saiu. Dostoevsky: a collection oí critical essays. . são básicos para a compreensão de O Duplo. ] . 34. 19 Análise de O Duplo I I . 1 A Duplicidade na estrutura: II. conduzindo-nos ao verdadeiro cen- tro da visão religiosa e ética de Dostoievski. Daí provém a ação dramática dupla ou múltipla dos romances de D o s t o i e v s k i . p. un type d'une portée sociale immen- se que j'ai été le premier à découvrir et dont j'ai été l'annonciateur".. 3. em 1877. que espanta pela intensidade do sofrimento [ . . Ele admite no Diário de um Escritor. 1. p. 1976 . sentindo-se enjoado de Goliádkin. J. . isto é.. é uma resposta aos mais profundos problemas espirituais do século X I X e que ela ainda está viva na filosofia de nossa própria época. que recorre através de suas obras em várias metamorfoses. The theme of the double in Dostoevsky In: WELLEK René. ] . 1962. 22 ibid. não havia achado a forma e dominado a'estória. esta "iluminação bila- teral do tema principal". Chizhevsky conclui que esta idéia do duplo. Grossman comenta que a lei da epopéia dostoievskiana é sempre construída sobre dados exatos. p. . acontecimentos políticos e toda espécie de documentos humanos. Mas chamou atenção para a idéia do "duplo": "A idéia era muito brilhante e eu nunca propus nada mais sério em literatura". 67. S. is Segundo Dmitri Chizhevsky. Ver também p. p. 21 já mencionada. Dos- toievski apenas. ful. Prentice Hall. dos quais se destacam tumultuosos os extraordinários dramas individuais das personagens. N .

lúgubre. o "reino fantástico" dos sonhos deveria ser bem dife- rente daquele ambiente que o cerca como se fosse u m rosto conhecido. u m leve prenuncio de u m outro argumento se mistura à ambigüidade de planos. ou antes. 23 Cf. 287) lembra à personagem principal. como alguém que não sabe b e m se ainda dorme ou se j á está acordado. . S. Olha à sua volta numa grande inquietação. antigo protetor de Goliádkin. ao passo que. 288). se j á está rodeado do mundo real ou se continua a sonhar" ( p . de que "não estava efetivamente em ne- nhum reino fantástico mas em São Petersburgo [ . no escuro e ao frio. em que o herói também animiza as casas de São Peters- burgo. quando obrigam Goliádkin a sair da festa de aniversário de Klara Olsúfievna. mas continua deitado. o que é corroborado pelo " a r soturno". não só quanto ao tema. lhe enterram o chapéu quase até os olhos. RENAUX. Quer gritar mas verifica que j á está n o pátio ( p . entre sonhar e acordar — é a "situação excepcional" da Menipéia — é estabelecida desde o primeiro parágrafo: Goliádkin acorda às oito. como também quanto aos planos. e vê-se na entrada. de sonho. as cadeiras. referindo-se à luz cinzenta de outono. como a cômoda. o divã e as roupas despidas na véspera o olhavam "como se fossem uns rostos conhecidos". A dualidade entre sonho e realidade é novamente estabelecida no final do capítulo IV. 1). outra que o agarra pelas costas e que ambas o obrigam a sair dali. que "corriam tt cumprimentá-lo" (p. Curitiba 125): 347 . nos seus próprios aposentos". . Quer falar. Tropeça. 642 da Obra completa. Sorri. 1976 353 . 312). Por outro lado. ] n a Rua Chestilavótch- naia no quarto andar de uma grande casa. letras. a mesa. parece-lhe que cai num abismo. para Goliádkin. quando este encontra seu duplo pela primeira vez. 400. parece premunizar algo ameaçador. 23 do mesmo m o d o como o "simpático" maço de notas o encarava com "amabilidade e aprovação" (p. apenas maquinalmente. desconhecido ainda. no cais do Fontanka. inconscientemente. "sem fazer u m movimento. 287). que correm juntos: U m a ambivalência entre elementos fantásticos e elementos reais. "Insidiosamente". Esta ambigüidade de planos atinge o climax no capítulo V. Noites brancas. e finalmente. filha do conselheiro de Estado Bieriendiév. Goliádkin. refletida como u m espelho. Sente que lhe vestem o casaco. Nota que o fazem caminhar em direção à porta. dá dois passos em frente. jul. já com u m a orientação para a incipiente loucura de Goliádkin. enriquecendo-os: a luz cinzenta que entra pela janela embaciada. é a realidade mesquinha de São Petersburgo. na escada. e para a qual ele não havia sido convidado: Sente que subitamente há u m a m ã o que lhe pega no braço. fazer alguma c o i s a . Dostoïevski bifurcada. v. . "insidiosamente" e com " a r soturno" ( p . j á não quer fazer nada. estremece dos pés à cabeça e. . no meio de uma tempes- tade: Subitamente. da luz: o que poderia realmente ser descrito como u m a cena f a n - tástica. As "impressões habituais" que ele em breve volta a sentir são de que tanto as paredes de seu pequeno quarto cobertas de pó.

. Este segundo e terceiro encontros com o duplo na mesma noite transtor- nam tanto Goliádkin que este se põe a correr. como diz M . estugando cada vez mais o passo e esforçando-se p o r não pensar em nada. a cabeça entontecida. 316). . S. N a d a avista de extraordinário e. em toda a sua crueza. . apoiando-se tal como ele à amurada do cais e. . 24 HOFMANN.1 C o m o u m espelho. as aventuras inve- rossímeis daquela noite terrível. N e m vivalma. de súbito. olhando mais u m a vez à sua volta ( p . desgraçado.RENAUX. Ele. Agora ela se move mais u m a vez. p o r entre os g e m i - dos do vento e o barulho da tempestáde. 1976 . M. pois sentia-se como alguém que está suspenso sobre u m abismo e vê a terra esboroar-se a seus pés. 317-318). E. . os rins f a - tigados. — Que teria sido? Estaria sonhando? — diz. nem sequer mesmo p a r a despregar os olhos do abismo escancarado. referindo-se a o encontro de Goliádkin com seu duplo. a uns vinte passos. a u m passageiro delírio de imaginação. [ . [ . ] P o r outro lado o senhor Goliádkin sentia os m e m b r o s quebrados. quando G o - liádkin se encontra com seu duplo pela segunda vez: " M a s afinal que vem a ser isto? — pensou. Curitiba 125): 347 . entre sanidade e loucura é levada ao extremo. Histoire de la littérature russe. ] era tudo tão estranho. 400. Ainda há pouco a terra tremia. "cet événement invraisemblable est présenté avec la ligne qui sé- pare la réalité du délire d'un fou". Mas é perto d o final do mesmo capítulo que a ambigüidade entre o f a n - tástico e o real. e u m grande resfriado testemunhava-lhe a veracidade de todos os incidentes do seu passeio noturno ( p . a o acordar. 2 . transtornado — E s t a - rei doido?" Voltou-se e continuou a caminhar. Hoffmann. . fende-se e arrasta-o p a r a a morte. a silhueta negra dum h o - m e m avançava rapidamente [ . E as p a - lavras que proferiu diziam-lhe intimamente respeito. coisa estranha! — q u e esse alguém se lhe dirigiu e lhe falou com uma voz rápida e sacudida. c o n t u d o . abreviando p o r ini- ciativa própria o momento de sua perdição ( p . Soltou então u m grito de es- panto e horror ( p . surgiram ao mesmo tempo na sua imaginação. Este o atrai e ele se precipita. todas as extraordinárias aventuras da véspera. Payot. . . Acabou p o r fechar os olhos. não tem força nem presença de espírito para recuar. 3 5 4 letras. Mas. tão incompreensível. pareceu-lhe que alguém estava ali. 313). . n a - quele momento. Jul. 315). c o n t u d o . o real continua se refletindo no fantástico e vice-versa. sem perceber p o r onde p a s - sava. Paris. que toda aquela história lhe parecia inacreditá- vel. Dostoïevski mas não vê ninguém. a u m obscurecimento momentâneo do espírito. p. N a sua frente. 506. através dos capítulos subseqüentes: no segundo dia. chegou de novo aos seus ouvidos u m ruído de passos próximos. ] . Estremeceu e abriu os olhos. a seu lado. 1934. não muito clara. . O senhor Goliádkin estava inclinado a atribuir tudo a u m sonho.

. como também do consciente e inconsciente: Tüdo isto.s e que a ambigüidade é levada a o próprio plano do tempo. maquinalmente. horrível. . £ Goliádkin continua suas meditações: Estarei sonhando ou não? [ . ] Ë h o j e ou ontem? [ . era já demais. como a cama em que dormia tinha desaperecido! ( p . A saida do escritório. porém. 321). S. O senhor Goliádkin sentia-se no extremo de suas forças. ( p . se me aparecesse. que as coisas não estavam indo b e m e que o destino lhe preparava ainda qualquer surpresa desagradável" (p. deixou-o "perplexo". de que "seria b e m desagradável [. ¡ul. um furúnculo ou qualquer outra coisa aborrecida" (p. Aquele silêncio extraordinário chegava a assustá-lo. Todavia.. era o próprio senhor Goliádkin ( p . a sua vergonha. . e s p e r a . ao sentir o Senhor Goliádkin " d e m o d o impreciso. Depois volta a si e dá conta que arrasta a pena sobre o papel. . . Parecia-lhe f o r a do senso comum. ao encontrar o duplo. 287) é refletida mais uma vez aqui. A seu lado cami- n h a . Fecha os olhos durante u m minuto. Letras. O fato de seus colegas não terem percebido nada. para e treme como u m a folha ao vento. 400. 382). . Os pensamentos atravessavam o cérebro do senhor Goliádkin como relâmpagos. . lembrou-se do que se passara e franziu as sobrancelhas. N ã o . 1976 355 . . N o início do terceiro dia (cap. 320). [ .. V ê . o pesadêlo da véspera. inconscientemente ( p . M a s qual não foi o seu espanto! N ã o só o hóspede j á não estava n o quarto. o n - tem. 325). acentua-se o esfacelamento da li- nha divisória entre loucura e sanidade. Eu. infelizmente não era u m sonho. . Tinha razão. estava idiota de todo — pensou ele ao levantar-se e olhando a cama do hóspede. Goliádkin encontrava novamente seu d u - plo que senta à frente de sua própria mesa de trabalho. ] . O homem que estava sentado na sua frente era o seu terror. o outro senhor Goliádkin [ . 320). p o r exemplo. E a premunição do primeiro capítulo. entre fantástico e real: Goliádkin acordou. ] Estarei dormindo ou sonhando? O senhor Goliádkin beliscou-se para cer- tificar-se de que estava acordado. . ] Acaba p o r duvidar da sua própria existência ( p . de enlouquecer. não foi uma ilusão. Olha a medo para a direita. ao ir à repartição. . . Se se tivesse enganado! T o m a a abrir os olhos. Parecia-lhe que estavam a assá-lo a fogo lento. V I I I ) . Curitiba (251: 347 . Entretanto.] se hoje qualquer coisa corresse mal. Dostoïevski Mais tarde. Não. RENAUX. 332). a ambigüidade entre ilusão e realidade é novamente estabelecida: De repente o senhor Goliádkin cala-se. o caso era b e m claro. Mais: era estranho. Durante minutos perde os sentidos e a memória.

p a r a dirigir e concentrar o pensamento e p a r a refletir na sua situação a sangue frio. 349). Andriéi Filípovitch. Goliádkin deixa-se cair n u m a cadeira e pensa: Tudo isto é inacreditável! [ . N ã o percebo nada! T u d o isto é inverossímil ( p . De repente os olhos f i x a - ram-se num ponto com atenção. ao ser recusado p o r este a ouvir seus protestos. cada vez mais repugnante e com u m a r mais atravido. Curitiba (25): 347 . (quarto dia). . . o sonho é tão real que a linha de separação entre realidade. Não. Perseguem o senhor Goliádkin 356 Letras. 337). havia j á dois dias. em que. dando vgltas sobre voltas. Já tarde na mesma noite (cap. . com ênfase sobre o plano onírico: Toda a noite. primeiro. de seu duplo com "expressão tracista" n o rosto. U m a nova luz irrompia através do nevoeiro espesso q u e o rodeava. estendeu a m ã o com u m a estranha mistura de esperança e de medo. Houve então u m a intensificação no processo alucinação — realidade. que fazia mudar a opinião dos outros.lEHAtlX. gemendo' e dormindo alguns minutos p a r a acordar logo em seguida. ] N ã o é possível . só p a r a ver surgir outros d u - plos em sua volta. Começava a compreender. dar volta ao quarto p a r a esclarecer e reunir as idéias dispersas. d u r o c implacável. u m pouco adiante. às duas da manhã e. . G o - liádkin acorda. pesadelo e loucura novamente se esvanece: Sem poder mais. Goliádkin volta ao quarto. mas u m a carta autêntica que lhe era dirigida ( p . . Temendo u m a ilusão ou u m a alucinação. M a s voltou a cair sem forças sobre o di- vã. o verdadeiro senhor Goliádkin lan- ça-se contra ele. e. se b e m que. M a s a cada passo que dá. E u devo ter sonhado. Está sentado no divã. fui. 351). ( p . não compreende os acontecimentos ao ver o duplo usurpar seu lugar junto ao chefe. desprezado e enxotado. após ter lido a carta de Vakramáiev. Mantém-se o mesmo "suspense" no início do capítulo X . . arrependido de tê-la enviado. de m o d o que. Tentou erguer-se. S. E as imagens se repetem em sonho: de seu chefe. o senhor Goliádkin ficou durante algum tempo i m ó v e r so"bre o divã. cada vez que o seu pé toca no asfalto do passeio surge debaixo da terra u m novo senhor Goliádkin. Fui eu quem julgou que era outra p e s s o a . Todos estes Goliádkini se põem a correr uns atrás dos outros como u m b a n d o de patos. após haver discutido com seu criado Pietruchka p o r causa de u m a carta a Vakramáiev. 350). 1976 . pesadêlos horríveis. 400. após haver dormido u m pouco. Aqui. I X ) . e de u m a festa na alta roda. sensações de- sagradáveis oprimiam-no de m o d o angustioso ( p . Dostoievski De novo na repartição. Goliádkin lança-se à perseguição de seu duplo. imóvel e apavorado. esteve numa semi-sonolência. não era nenhuma ilusão nem nenhum logro. desesperado. todos os apreciavam até aparecer o duplo. Recordações confusas. à sorte. Fui eu com certeza quem foi ao gabinete do ministro'.

364). e a cada solavanco ele saltava e corria o risco de quebrar a cabeça. N ã o se via n a - da. exausto. pela presença do elemento onírico: O carro levava vertiginosamente os dois silenciosos inimigos. e se nega a deixá-lo ver Sua Excelência. Mas a realidade é de novo embaralhada quando os sonhos se tornam reais: no' mesmo capitulo. Andriéi Filípovitch m i r a Goliádkin " d e s - denhosamente" ( p . mesureiro. que sentira algo semelhante. ] teria sido suficiente para. Apesar disso tinha a impressão de <jue u m simples mosquito [ . que eça inverossímil e que de nada valia protestar. E a realidade da cena é mais u m a vez tornada ambivalente. com u m simples toque de asas. no meio dos funcionários que. . o caos em que mergulhará é novamente iluminado por u m a nova luz. ( p . Procurava lembrar-se se não f o r a na véspera. Tolhido e gelado de medo. após ter falado com Anton Antonovitch. . trepando no carro em q u e este se encontrava. E ainda p o r cima o tempo estava horrível [ . sorrindo e caçoando como acontecera na véspera" ( p . e. "com grande espanto. . ( p . ¡ul. . quando este lhe quer explicar a perfídia do duplo. como no primeiro sonho. U m a força estranha i m - pelia-o para a frente mas j á não tinha ânimo p a r a caminhar e os pés'recusavam-se-lhe a andar ( p . à tarde. Apertou-se com força de encontro ao seu adversário e quis gritar. con- cluiu que aquela aventura não era real. talvez em sonhos. . D o mesmo modo. mas sentiu que a realidade não era mais a g r a d á v e l . a realidade de São Petersburgo é tão desa- gradável também quanto o reino fantástico dos sonhos. Goliádkin mais u m a vez corre atrás dc seu inimigo e o apanha. 363). tendo terminado o serviço. 364). se dirigiam para a saída". 359): "Isto era sem tirar nem p o r o que se passara no sonho d o senhor Goliádkin Senior" ( p . 368). U m guarda diante de tal escândalo. Por u m instante esqueceu tudo. que j á náo pode respirar. Dostoïevski Senior. S. M a s os gritos não lhe saiam dos l á b i o s . RENAUX. que era "terrível" e da qual " e m e r - giam fatos que nunca lhe haviam passado pela cabeça". Curitiba (251: 347 . 400. na repartição. O ini- migo não se dava p o r vencido e procurava precipitá-lo na lama. . O Senhor Goliádkin acordou. que se insinua aos outros. ] O Senhor Goliádkin tinha a impressão de j á ter vivido estes instantes. 353). Goliádkin acompanha os movimentos do duplo. . . [ . quebrá-lo ao meio. O caminho era mau. ] . Como na cena inicial do conto. com seu " a r brejeiro. sal- utante. E Goliádkin acorda com u m grito. vê-se forçado a agarrá-los pela gola e a conduzi-los a o calabouço mais próximo. Recebe carta de Pissarienko. Tinha chegado a esta conclusão quando u m solavanco maior o chamou à realidade ( p . O senhor Goliádkin mal podia respirar.. 361). A impressão que tinha não era de angústia. . Letras. Goliádkin se lança em sua perseguição: Fua loucura o faz sentir " u m a energia desusada" ( p . . Após a cena no café com o duplo. percebeu então que se encontrava no vestiário dos escritórios. São j á tão numerosos q u e en- chem toda a capital. Sentia-se fatigado. mas de verdadeira agonia. Resolvido a apanhar o inimigo. 1976 357 . 350).. Mais t a r - de.

[ . seu terceiro sonho se torna u m pesadelo na realidade ao ser conduzido p a r a a festa na casa de Olsuf Ivánovitch pelo duplo: Ê acolhido o "melhor possível" p o r Olsuf I v á - novitch. Percebeu vagamente que vinha muita gente atrás dele [ .. [ . N ã o era Krestian Ivánovitch. ] julgou que ia desmaiar de medo. era de fato Krestian Ivánovitch. p ô r o peito ao léu. a o p e r - ceber que todos lhe davam passagem. Quando vol- tou a si [ . S. Curitiba 125): 347 . 4D0. pelo muito que havia chorado? Até mesmo naquele momento lágrimas escaldantes lhe corriam ainda pelas f a - ces g e l a d a s . cobri-lo de neve. n o final do conto. olhavam-no na penumbra do carro e refletiam u m a alegria diabólica e de mau presságio. . E. jul. e a cena da carruagem será vivida mais u m a vez. Todos aqueles olhos em cima dele o oprimiam e e s m a g a v a m . finalmente. como também presente. [ .RENAUX. Acabou p o r perder os sentidos. Pensou que a imperturbável dignidade de Andriéi Filípovitch c o - movera a todos até às lágrimas. . o sangua parecia ferver-lhe na cabeça. . L o g o que voltou a si. . O plano do real e do fantástico novamente correm paralelos. passado e futuro se misturam. Sentia-se abafar. que estalava. Dostoïevski Observa-se aqui como não apenas os planos do real e do fantástico c a - minham juntos. no pátio da casa de Olsuf Ivánovitch. " ( p . Ou não estaria ele próprio sendo vítima de u m a ilusão. Custava-lhe respirar. deu conta de que se movia no meio dum largo círculo de convidados ( p . ensurdece- dor. Quem seria então? E r a ele? Ele? Sim. Sente-se perdido. Goliádkin c conduzido pelo médico Krestian Rutenspitz a u m a carruagem. perdeu a noção dos fatos e o sentido das realidades. . 385). . inun- dá-lo de água fria. está pensando n o duplo ou 3 5 8 letras. . b r i - lhantes como duas brasas. pois a cena da tempestade j á vivera antes. . . Segue-se outra crise. teria querido desabotoar-se. ] . lembrava-se de acontecimentos esquecidos havia muito" ( p . como tam- bém nos de K l a r a e Vladimir Siemônovitch. "repetido como u m eco de m a u agouro" pelos que o rodeavam. após se ouvir u m grito terrível. p a - recia que abafava. A loucura de Goliádkin se acentua. que o leva a u m manicômio: O senhor Goliádkin sentia u m a dor estranha no coração. faziam-se comentários. 380). 388). . falava-se. Dois olhos. o olhavam com u m a curiosidade estra- nha e u m a simpatia misteriosa e incompreensível. desta vez "de espanto e de mêdo". ] cochichava-se. . e Goliádkin percebe u m a lágrima em seus olhos. ao procurar S u a Excelência em seu gabinete: não distingue objetos de pessoas. A ambivalência final se dá quando. 384). ] Depois de súbito. não o antigo mas u m outro Krestian Ivánovitch. 1976 .. . E a dualidade ilusão-realidade transforma-se em realidade-pesadêlo. que agora lhe parecia terrível ( p . .. ] . pois não distinguimos se Goliádkin ao se referir a "Ele".. ao perceber que perdera a carta que recebera de K l a r a Olsúfievna: "Vinham-lhe à idéia caras estranhas. aniquilado. .

E a cena final acaba com Goliádkin repetindo "Ai dele! Já há muito pressentia que. a sanidade. desde el punto de vista literário. 207.. 2 7 Esta linha de composição em degraus elevaria então o entrecho "até a sua conclusão definitiva. teríamos o seguinte modelo: 1-° dia cap. 1976 359 . ¡ul." ambigüizando mais u m a vez os planos do presente. p. das duas nar- rativas. 25 Esta experimentação psicológica. atravessando-a do começo a o fim. como uma das características da Menipéia e eia é uma das causas da bifurcação da narrativa. Dostoievski artista. o sonho ou a loucura e o acordar. em virtude da explosão de u m a nova ocorrência incomum. 62. em que Dostoievski. v. 400. cap. paralela à primeira. intercepta- da pelas verticais dos episódios tumultuosos. comete tolices. 1.. con lo que se enriquece doblemente el interés del relato- El drama puede desarrolar-se en la realidad exterior o en le cere- bro perturbado del señor Golidkin. passado e futuro. 25 GROSSMAN. Letras. Como diz o próprio Dostoievski. é u m dos elementos de composição básicos nesta obra. Isto é confirmado por Rafael Cansinos Assens no prólogo da edição espanhola de O Duplo. como j á mencionado. 27 GROSSMAN. . Curitiba (251: 347 . Concluindo. 36. menos trágicamente bufo. com representação de esta- dos psíqicos incomuns. mantiene la ambigüedad del proceso novelesco entre lo objetivo-real y lo ideal- -subjetivo. não é recebido na festa de OIsuf Iv. o fantástico e o real. i Goliádkin finge não ser ele cap. como u m a horizontal do entrecho em desenvolvimento. muy acertadamente. 26 Grossman apresenta esta lei de composição de Dostoievski. constitui às vezes para mim a própria essên- cia do real". aquilo que a maioria chama de quase fantàstico e excepcional. Aplican- do esta linha de composição em degraus a O Duplo. I I I — Goliádkin é caçoado pelos colegas. sin que p o r eso resulte menos impressio- nante. RENAUX. " . . na catástrofe final e na catarse concludente". é incluída por Bakhtinc. mais tarde ou mais cedo. em breve também se precipitará para o alto. e que parecem transportá-la para u m novo plano. p. isto havia de acontecer. y de ambas maneras puede considerar-lo el lector. onde a linha do argumento. Dostoïevski no novo Krestian Ivanovitch. é expulso. que erguem a ação para a altura. Obras completas. p. S. 26 DOSTOIEVSKI. vimos como a superposição dos dois planos da narrativa. li Goliádkin confessa ao médico ter inimigos cap. Dostoievski artista. I V — Goliádkin vai à festa.

Guia prático de análise literária. após travarem amizade. I I . 2* dia cap.RENAUX. Carta de Vakramáiev "aparece" à frente de Goliádkin. I X — Goliádkin e duplo no restaurante. na taberna. 108. Goliádkin o per- segue. cap. V I — Goliádkin e duplo na repartição. cap. Curitiba (25): 347 . se o quarto de Goliádkin é um "prolongamento" de sua própria personalidade. 4. lutam na carruagem. S. ri- diculariza-o perante os colegas. X I I I — Goliádkin aguarda no pátio de Olsuf Iv. Ê ridicularizado na repartição e desprezado pelo chefe. São Paulo. ¡al. Goliádkin expulso da casa do ministro cap. . V I I I — Duplo apossa-se dos papéis de Goliádkin na repartição. X I I — Pietruchka o abandona.' dia cap.2 A topografia cênica como projeção da personagem e local de conflito Para Massaud Moisés. o espaço exerce ambas as funções. não é pano de fundo. . se a tempestade na noite de seu encontro com o duplo parece contribuir para o seu próprio aniquilamento. Lê carta de Klara. 1970. 400. duplo o acompanha até sua casa cap. este lhe prega uma peça. a geografia do conto deve estar diretamente relacionada com o drama que lhe serve de motivo: a paisagem vale como uma es- pécie de projeção das personagens ou o local ideal para o con- flito [ . V — Goliádkin "aniquilado" encontra seu duplo na ponte. Cultrix. é levado à festa pelo duplo.28 Em O Duplo. X — Goliádkin tem pesadelos. 360 Letras. pois. pelo médico. Massaud. Dostoïevski cap. 3-° dia cap.. X I — Ridicularizado pelo duplo no restaurante. 15/6 . despeja remédio no chão. cap. 1. mas algo como personagem inerte. p. V I I — Duplo dorme lá. todos os outros cenários servem de local para conflitos in- ternos — na mente de Goliádjcin — e externos — com as outras perso- nagens. e de lá ao manicômio. interiorizada e possuidora de força dramática. em meio à tempestade. ] . 28 MOISES.

tire-me d a - • Iff qui.. como também em Gente Pobre. 3 0 que elevam a narrativa. como também o seu rosto gasto com o quarto cheio de pó. da personagem: o pó das paredes e a luz cinzenta que entra pela janela embaciada. S. contribuindo também para seu desvendamento psicológico. RENAUX. de olhos semicerrados. u m tanto jjasto [ . ] daqueles que passam despercebidos". Dostoïevski Dostoievski escolhe como panorama da ação. fui. repassado de imenso sentido interior c de desenvolvimento incessante". pois no pequeno corredor que dava para a entrada da casa. . Letras. 288). é animizado. Mais tarde. 30 Ibid. os outros escutavam. decaído. 1576 3 6 1 . as reuniões incomuns com complicações i m - previstas. 317). d o mesmo modo como os móveis e o maço de notas. E o samovar. É o fundo realista. 287) que o cerca. que além de ser o ambiente real em que vive o pequeno funcionário de u m a repartição pública. "usado". murmurando a Goliádkin ' c o m o calor de sua estranha fala: — 'Estou pronto. o quarto torna-se mais uma vez local de conflito. . fazendo-nos associar os v i - dros embaciados da janela com seu rosto de olhos semicerrados. Goliádkin dá com "o criado rodeado de outra criadagem e de espectadores de acaso. São os seguintes os locais principais do con- to. assim como o espelho no qual Goliádkin se olha ao sair da cama reflete "seu rosto ensonado. 288). que não deixam entrar luz.. Além dessa função. Teriam sido as palavras de Pietruchka ou esta a s - sembléia imprevista que desagradaram ao senhor Goliádkin? (p.. Curitiba 125): 347 . como j á mencionado. ao sentar-se nela e o cumprimentar: Goliádkin pára no meio do quarto. uma das características de composição de Dostoievski são os con- claves. e sua função: 1) O quarto de Goliádkin: Tanto o ambiente e até os objetos que cercam Goliádkin projetam o aspecto gasto. Segundo Grossman. A cor verde s u j o das paredes aparece também nas ramagens de seu divã turco e em seus próprios trajes: a :carteira verde j á usada" em que guarda u m "maço de notas verdes" ( p . é também u m "símbolo vivo. o quarto também serve como local para conflito. pois o duplo "usurpa" seus aposentos e sua cama. retratam a "realidade mesquinha" ( p . 38. projetando ao mesmo tempo a descon- fiança dé Goliádkin. sobre o qual. p. sua mania de perseguição em relação aos outros. as cenas tumultuosas. a Petersburgo de meados do século X I X . 400. após seu encontro com o duplo. quando este o precede aos seus aposentos. 157. ele constrói a fantástica luta interior~de sua p e r - sonagem principal. Dostoievski artista. Mas esta visão panorâmica de São Petersburgo. . "como se u m raio o tivesse fulminado" ( p . Pietruchka falava. meu amigo. 29 GROSSMAN. p. 29 esta visão é fragmentada numa série de "close-ups" que nos dão a trajetória do herói.

na noite seguinte. S. Deves também recordar-me! ( p . — 31 B A K H T I N E . p. m a r o t o . Ë aqui também que surge o "manuscrito alheio". como também lança luz so- bre o futuro: Goliádkin nunca poderá deixar de recordá-lo. p. pois Goliádkin. 32 Ibid. 19/6 . ao acordar no meio da noite. após o convite de Goliádkin. na terceira noite. ao cair o chapéu de Goliádkin a o chão. M o i - sés. Curitiba (25): 347 . 'Patife. parece querer sumir. trocam confidencias. E u jamais te olvidaria! Venha lá o que vier. G o - liádkin convida o duplo a dormir em sua casa. é aqui usada com finalidade cômica: Nesse momento a vela apagou-se. Outra cena carnavalesca se segue a esta.RENAUX. 170. 362 Letras. efeitos de "iluminação rembrandtiana. 330) Esta quadra. o quarto serve até como local de unifica- ção de Goliádkin e seu duplo. ambos se precipitam p a r a o apanhar. O quarto de Goliádkin. ¡ul. Dostoievski artista. pois. e f u - mam. vai ao quarto de Pietruchka (como extensão de seu próprio quarto) acordá-lo. com seu duplo sentido de amizade e traição. da luta de luz e sombra" 33 são ainda conseguidos quando Goliádkin ilumina com u m a vela c hóspede que dormia em seu quarto. . ' — gritava o senhor Goliádkin sacudindo-o. 33 GROSSMAN. bebem. O "travestissement" do duplo. numa "cama improvisada s o - b r e duas cadeiras grandes" ( p . é o duplo que escreve u m a " q u a d r a muito sentimental" a Goliádkin: Se tu viesses a olvidar-me. 330). após o que duplo "limpa-lhe o p ó com todo o cuidado" ( p . e a mesma iluminação que acima exercia função reveladora do drama de Goliádkin. 176. ilumina não só a personalidade do duplo. que. interrompem a ação aprofundando a caracterização da personagem. o duplo o acompanha à sua casa e jantam juntos.31 apontamentos da personagem. cdhalha.. Aqui. Mais tarde. torna-se o lugar do "contato livre e familiar" 22 entre ambos. refletindo seu estado de espírito. pois é p o r causa do duplo que ele acabará num manicômio. Esta mesma iluminação lúgubre é explorada mais u m a vez q u a n - do Goliádkin volta. além das duas funções mencionadas p o r M . Por outro lado. encolhe-se. 400. . . D u - rante estes dez minutos Pietruchka voltou a a d o r m e c e r . concentrando assim. 326). é completado pelos seus gestos "carnavalescos": puxa o colete. 346). a luz dançava nas paredes" ( p . pois. O quarto. Dostoïevski Entretanto. pois são grandes demais. portanto. exausto e confuso pela humilhação que havia sofrido na repartição: " a vela ardia tristemente. toda a parca iluminação no rosto de seu duplo enquanto o resto do aposento permanece r o escuro. que p a - rece vestir "roupas alheias". . Passaram dez minutos antes que o senhor Goliádkin encontrasse outra vela e a acendesse. também serve de local de cena carnavalesca entre ambos. p. pérfido e insinuante. segundo Grossman. 159.

p. 1976 363 . de pessoas que não têm embrulhadas nem d u p l o s . Os aposentos de Goliádkin servem ainda de local de crise entre Goliádkin c Pietruchka. como j á visto acima. . As duas últimas cenas passadas em sua casa j á fazem parte praticamente do dénouement do conto. demitindo-o. lugar onde aparecem. pois o "lugar" do desenrolar do carnaval seria a praça pública mas também as casas. Dostoïevski 'Levantas-te ou não? Acordas ou não?' Ao cabo de u m a meia hora de esforços. . a cada passo que dá. 34 e a carnavalização. PENAUX. ¡ul. onde teriam lugar o contato livre e familiar e também as en. nada mais são do que reflexos de cenas que j á acontece- ram ou que Goliádkin j á previra que iriam acontecer. Se no quarto de Goliádkin tivemos j á u m esboço de carnavalização. ao escrever: " O u o senhor ou eu. 348) — Goliádkin é "destronizado" como patrão pelo criado — como também são cenário da descoberta e do envio de mais "manuscritos alheios": a carta que Goliádkin subitamente vê em seu quarto.e destronizações públicas. ( p p . em conseqüência de todos estes acontecimentos. Finalmente. n o se- gundo é caçoado pelo duplo em público e no terceiro é humilhado e "destro- nizado" pelo duplo numa festa. a carta que envia ao duplo ao acordar. Mas Pietruchka estava a cair de b ê b a d o e mal se ti- nha nas pernas". é realmente na r e p a r - tição que esta característica toma vulto. que desconhecíamos. de três horríveis p e - sadelos que Goliádkin tem. tenta descobrir algo de novo no rosto deles: 34 BAKHTINE. projetando a mania de perseguição ? as reações patológicas de Goliádkin. . N o primeiro é desprezado pelo chefe. no caso da repartição em que trabalha Goliádkin. Ambos não pode ser. inicia-se quando Goliádkin. a transposição do carnaval na literatura através da Menipéia é u m dos con- ceitos-chave na obra de Dostoievski. . na mesma noite. Esta a m - bivalência do local de ação. 2) A repartição A repartição também exerce a dupla função de local de conflito e de cenas carnavalescas: segundo Bakhtine. 169. na repartição. o quarto é local. Ambas novamente esclarecem a situação pectivas sobre a vida passada do herói. 400. . somente demonstra o paroxismo. 354). enxotado. como j á mencionado. e u m a outra. Pietruchka indo embora e Goliádkin ouvindo a discussão das vizinhas embai- xo com Pietruchka. evi- tando provocações com colegas. Letras. abrindo ao mesmo tempo novas p e r s - de Goliádkin e respondida à altura. ] estou à sua disposição para um duelo à pistola" ( p . . até que. " ( p . em relação ao duplo. a extrema intensidade a que chegaram os sentimentos de Goliád- kin. . 347). sentado junto ao chefe Anton Antônovitch. [ . novos d u p l o s . 351-3). Curitiba (25): 347 . E o " m a n u s - crito alheio". quando este lhe diz que vai " p a r a casa de gente de juízo. corre à rua. S. o carnaval exerceu influência determinante sobre a literatura e os diferentes gêneros. como mencionado acima. o senhor Goliádkin conseguiu acordá-lo e arrasta-lo para f o r a . . isto é. pois o mandato que recebe do chefe. intensifica o pro- cesso alucinação-realidade. e que. ( p .

Goliádkin acaba p o r vir a si e compreen- de que "está perdido. N o dia seguinte. jul. caretas e piparotes — gestos carnavalescos — para [íaúdio dos colegas que os rodeiam. fechando-lhe a saída. 336). Precipita-se em direção ao gabinete do diretor.. 1976 . a repartição é o local da usurpação dos papéis que Goliádkin deveria entregar ao chefe Andriéi Filípovitch. pelo duplo: fingindo querer tirar u m b o r r ã o numa folha. com o canivete na mão. 3 6 4 Letras. pois "tudo parecia agora defi- nitivamente perdido" ( p . deseja tima solução. Curitiba (25): 347 — 400. a alternância estonteadora de acontecimentos fulminantes que entram em acordo e se despencam sobre a personagem — mais u m a das características de composi- ção de Dostoievski. Goliádkin então "apóia-se tremendo de encontro a um poste de luz". mas este consegue escapar. os funcionários mais novos rodeiam Goliádkin.RENAUX. Então. Ê a crise. N o quarto dia. 42. segundo Grossman — começa a se derramar sobre G o - liádkin: além de o duplo ter recebido as honras pelo trabalho e Andriéi Filí- povitch não querer ouvir Goliádkin. mas é tarde. 338). A "maldita cornucòpia". " A porta da sala vizinha" rangeu de leve. timidamente. sua "destroni- zação" perante o Ministro já havia ocorrido. como a anunciar que ia dar passagem a u m a personagem insignificante. a ação de velocidade desabalada. como se se preparasse p a r a r a p a r alguma coisa ( p . Dostoïevski "Procura u m a ligação estreita entre os acontecimentos da véspera e as ati- tudes de hoje". Desta vez. e destronizante e de crise para Goliádkin. pegando u m " d r ó j k i " e desaparecendo de sua vista. que se deixou escarnecer e insultar em público" ( p . 39. senta-se em frente de Goliádkin. O senhor Goliádkin ficou pregado n o lugar. dá-se novo conclave n a repartição: à h o r a da saída. a reunião incomum com complicações i m - previstas. mesmo "desfavorável" ( p . S. é o princípio de construção do "simplório ludibriado" de que se vale Dostoievski. 36 Ibid. enrolou-o. N a saída da repartição há outro momento decisivo: Goliádkin agarra o duplo no último degrau da escada. 340). que deu cabo de sua reputação. pois este acontecimento inesperado faz Goliádkin sentir-se no extremo de suas forças. p . Esta nova crise eleva a ação. o duplo agarrou tf papel que o chefe pedira mas em vez de o r a p a r com o canivete. 319). que não dera por nada. aniquilado. meteu-o debaixo do braço e em duas passadas estava junto de Andriei Filípovitch. Dostoievski artista. p. seu sósia conversa com todos e desafia Goliádkin com palavras. um "acontecimento inesperado" dá cabo dele: apa- 35 GROSSMAN. como no sonho que tivera. enquanto este enterra " a cabeça nos papéis". desonrado. a cena tumultuosa. enquanto o duplo desa- parece "no compartimento vizinho". E o duplo aparece à sua mesa. dá novamente com o duplo " n u m vão duma p o r t a " na lepartição. espantando-se com o fato dc ninguém parecer ter dado pela semelhança entre ambos. 3 6 nesta cena que é ao mesmo tempo entronizante e c a r - navalizante para o duplo.

354). Entretanto. interpcla-o sobre as novidades de "den- tro" da repartição. a cornucòpia continua vertendo seus infortúnios sobre o pobre Go- liádkin: crises. como um procedimento para reunir pessoas de diferentes níveis sociais (aqui. que sobe rapidamente a escada de novo. jul. assim como sua programação que não obedece a nenhum esquema rígido (improvisa-se um pequeno baile. pois anfitrião e chefes con- fraternizam com os convidados subalternos. o luxo. após o jantar). em que Dostoievski foge da realidade "mesquinha" (para Goliádkin) de São Petersburgo. 358). "fingindo não o ver" ( p . apresentando um mundo de fantasia. Um pouco depois. seu velho amigo- Assim. de onde pode observar os outros sem ser observado. Fala-se francês. pois "o esplendor. 306). A Arvore de Natal e um Ca- samento. abrançando a todos e por fim estendendo a mão a Goliádkin. as esposas dos funcionários "pa- recem mais fadas do que mulheres" e eles próprios estão "transformados agora em brilhantes homens de salão" ( p . humilhação e entronização de seu sósia. ele também se introduz na entrada. 304) mais do que um jantar. o russo é usado só para cumprimentos e apenas na sala de fumar se permitem "frases familiares". chamando-o "com um ar misterioso para um canto retirado. Dostoievski rece o duplo. cuja filha. A aniversariante é "a rainha da festa" e as "conveniências" são esquecidas — Anton Antônovitch "cacarejou como um galo e recitou versos Letras. fazia anos. pela fresta da "muralha" que o escon- dia. Goliádkin mete o nariz. risos. não só a repartição como até a entrada serve de local de conflito e projeção da personagem: Goliádkin ama os lugares escondidos. destronização. mas ao ouvir passos descendo a escada se "es- conde atrás do fogão" (p. é um procedimento típico dos contos de Dostoievski. enquanto os funcionários se mos- tram indignados e descontentes com Goliádkin. há felicitações. Não falta a abundância a esta festa. em que a taça de vinho "parece cheia com um nectar divino" (p. ataca Goliádkin de "nosso Faublas russo". em que todos estão nivelados como convidados do conselheiro Bieriendiéiev (antigo protetor de Goliádkin). como em Uma Anedota Ordinária. cospe nela e limpa-a com o lenço. S. atrás de um grande fogão de ferro" (p. Curitiba 1251: 347 . Este decide falar ao chefe. pois o duplo retira com insolen- cia sua mão da de Goliádkin. 357): é o duplo passando. RENAUX. abra- ços. beijos. Nada falta a mais este elemento da Menipéia: a descrição da festa faz deste acontecimento um "festim real" (p. em que há brindes. como no sonho. discursos. Assim escondidos. a etiqueta davam ao cenário um ar babilònico". e outros. todos se comunicam neste espetáculo sincrético. Após isso. instantes solenes. Andriei Filípovitch recusa e Goliádkin é desprezado pe- la terceira vez. os chefes e os funcionários mais categorizados"). Temos então outra cena de carnavalização. Klara. a amabilidade das senhoras é extrema. 305). mas. Além disso. 3) O salão de festas na casa do conselheiro de Estado Blerlendlélev: A festa. 1976 355 . £ novamente o "conclave" para Grossman e a "utopia social" para Bakhtine. é acusado por Anton Antônovitch. 400. Ao ver o escriturário Os- táfiev entrar no vestíbulo.

400. 311). mas não consegue. Os convidados o olham. no meio dos restos e da louça s u j a . Curitiba (251: 347 . onde permanece. até se encontrar diante de Klara. cada vez que está numa situação crítica (assim como se encafua " n o lugar mais escondido da carruagem" quando seus colegas de repartição o vêem em semelhante coche. quase atirou a o chão. como diz Grossmann: é o conclave e a cena carnavalesca. É u m a cena de "travestissement". p a r a a qual não havia sido convidado. Duas senhoras de idade que ele. que é hora de "confundir os seus inimi- gos": p o r alguns instantes sente-se entronizado pelas palavras solenes que pronuncia. o criado tenta afastá-lo com u m recado. passeando na Avenida Litiéinaia ( p . 307). o mundo da realidade mesquinha. E Goliádkin se encontra "quase lá" ( p . Goliádkin é esque- cido e. . o que abala a estrutura do conto. durante quase três horas. ele não dá conta de nada e avança. Jul. Este mundo utópico da festa poderia ser contraposto. Dostoievski muito engraçados" ( p . 1976 . A confusão é terrível" ( p . soltam gritinhos e lamenta- ções. derruba-se tudo ditado pela desigualdade social. Enquanto espera. S. outro dos ritos 3 6 6 letras. e de lá para a sala de jantar e salão de baile. Todos se agrupam em sua volta. projetando assim a situação lastimável em que G o - liádkin se encontra em relação aos convidados da festa. juntos. e também de comicidade. E a festa de aniversário. Goliádkin é agarrado pelas costas e obrigado a sair dali. que servira de local de "utopia social". empurrando um criado. há u m a revira- volta na situação. como o nível da fantasia. transforma-se em local de conclave para o escândalo e crise. dando encontrões. mas Goliádkin sente que se trata de u m "momento decisivo". de destroniza- ções: Goliádkin é desdenhado p o r todos. escondido p o r u m armá- rio enorme e p o r u m biombo velho. numa situação " a mais estranha possível": está no patamar da escada de serviço da casa de Olsuf Ivánovitch: [ . a o recuar. Goliádkin passa de u m a para a outra sala e "cai como uma b o m b a na sala dc baile" ( p .s e novo círculo à sua volta (destronização). Quer "meter-se num buraco". cambaleia e nova cena cômica se segue: " F o r m a . se b e m que "tudo se passa entre pessoas b e m educadas" (p. observa os acontecimentos como u m espec- tador indiferente. mas o instante solene é novamente diminuído. mas Goliádkin consegue chegar a u m canto. Goliádkin resolve entrar p a r a a copa. 306) e a aniversariante o beija após seu discurso —.RENAUX. dando cotoveladas. o que é corroborado p o r toda a descrição da festa acima. A conduta excêntrica de Goliádkin transforma-se em elemento cômico e a festa torna-se lugar de transformações bruscas. . quando tenta dançar com Klara. Mas do vestíbulo onde se encontrava. ] metido num cantinho frio e sombrio. pisando n o vestido de u m a se- nhora. 290): sua presença torna-se motivo de escândalo na festa. Este espaço oferece novo contraste com o brilho e o esplendor da festa. quando a orquestra entoa u m a polca. 311-312). riem e cochicham. 308): como só tem olhos p a r a K l a r a Olsúfievna. ao quarto de Goliádkin.

p. 400. lhe enterram o chapéu quase até aos olhos. . a última destronização de Goliádkin. S. tam- bém o gabinete do ministro é local de cenas de destronização e conclave. Letras. sem visão nítida das coisas. como local de crise e de escândalo. quando o duplo. p. fui. 161. A destronização é completada com a entrada de Goliád- kin na carruagem. todos querem levá-lo na direção de Olsuf Ivánovitch. a série estonteante f i - nal dos acontecimentos fulminantes que acaba de se despencar sobre Goliád- kin: as salas estão apinhadas de convidados. pedindo-lhe demissão e que o defenda do inimigo. Curitiba (251: 347 . "brilhantemente iluminada". a participação de todas as v o - zes". na escada" ( p . iluminando o senhor Goliádkin e Krestian Ivánovitch". ao ver o ministro virar a cabeça. RENAUX. Dostoievski artista. "lembra os tutti num coral. ( p . entra no gabinete do ministro. " a vergonha e o desespero apossaram-se dele" 37 BAKHTINE. 312). en- quanto " o duplo. Goliádkin. 387). . isto é. tira u m a vela das mãos dum criado. 37 que se segue: "Sente que lhe vestem o casaco. até que alguém chega. ] . todos se levantam e Goliádkin e seu duplo são colocados u m em frente do outro: é o clímax final do romance. que leva Goliádkin consigo. 386) lhe dá u m b e i j o "sonoro e pérfido". serviria. estava uma multidão de pessoas. pelos gestos carnava- lescos do duplo. 1976 3 6 7 . mas também do ambiente "onde estiverà enclausurado" com a rua. ajudado por Krestian Ivánovitch e Andriei Filípovitch. no escuro e ao frio. p a r a elevar a ação para o clímax. e vê-se na entrada. 174. após ter sido primeiro recusado pelo criado. p a r a Grossman. e finalmente. dá-se outro acon- tecimento inesperado: a porta d o salão se a b r e e aparece o doutor Krestian Rutenspitz. até ser quase empurrado ao compartimento vizinho. 39 BAKHTINE. na ponte. Ë o f i m de seu sonho de ascensão social. A casa do ministro: como o havia sido a casa de Olsuf Ivánovitch. A festa então. caminha para a frente. 38 é também a "maldita cornucòpia" em ação. caracterizado mais u m a vez pelo contraste da festa brilhante e alegre com o corredor escuro e frio em que é lançado. Após esta "confrontação" — mais u m a das características da Menipéia 39 — esta a p r e - sentação das últimas palavras e ações decisivas do homem.T o - dos que o rodeavam esperavam u m "acontecimento extraordinário". para o encontro de todas as personagens. covarde como de costume. 44. "com u m sorriso m a u nos lábios" e " u m a intenção malévola" no olhar ( p . empurrou-o p o r detrás" — a tragédia é novamente abaixada ao nível d a comédia. onde encontra " a r e liberdade". abre caminho entre os convidados. que. Goliádkin.. p. 386) Os convidados se p r e - cipitam atrás de Goliádkin e do médico e até na escadaria. que é o encontro de Goliádkin com seu duplo.. Dostoïevski secundários do carnaval. Este mesmo salão de Olsuf Ivánovitch também serve de local para a catástrofe conclusiva. 38 GROSSMAN. enquanto seu sósia "avança saltitante. Mas. Parecia que todos aguardavam qual- quer coisa" ( p . enquanto Olsuf Ivánovitch " p r e - sidia à cena do patamar de cima [ .

52. 377).n o e o duplo vem correndo. olhava p o r sua vez este m o - vimento. encharcado e fraco. assim como a entrada da repartição havia servido de local de espera. « processo sutil em que as frases centrais do material vocabular parecem fulminar o inimigo no momento do combate: aqui. ( p . E. de esconderijo para observar os outros. dos restos e da louça s u j a de cozinha" ( p . N ã o era o mesmo "cantinho de entrada da casa" do princípio do conto. Outra vez atrás da pilha de madeira. 377). p. tenta sentar-se " n u m cepo grosso que estava junto de um montão de cavacos". Curitiba (25): 347 — 400. e a entrada da casa de Olsuf Iváno- vitch também exerceu função semelhante. outra cena de "travestissement" ocorre. que "aparece no meio da porta. Estava transtornado. E o conclave se encerra com u m "torneio o r a l " . Dostoievski artisia. A r - rancou o sobretudo das mãos d u m criado e — brincadeira dispara- tada! — meteu-lho pela cabeça abaixo. Quando percebeu que estavam à procura dele. conduzí-lo escada acima. "aos pulinhos". Excelência — disse ele. mas era impossível. como Gross- man chama a culminação do drama que se funde com o epílogo: Goliádkin. o pátio da casa de Ivánovitch é local da espera da "catástrofe conclusiva" vista acima. morto de medo.m e licença que lhe pergunte [ . após u m movimento geral. Estendia o pescoço p a r a u m e outro lado. contudo. abaixando novamente a tragicidade do aconteci- mento ao nível do cômico: O sobretudo. no gabinete d o ministro. jul.RENAUX. interessado. procurando " u m canto cômodo onde p u - desse esconder-se à vontade". 378). . 378-9). "entre u m armário e u m velho biombo. 383). Aguardando o desenrolar dos acontecimentos. o herói se dirige ao ministro. após p a g a r o cocheiro que esperava p o r ele há tanto tempo. 368 Letras. percebe " u m a estranha agitação" na casa: Todos procuravam olhar para o pátio. 40 GROSSMAN. mas depois decide voltar s trás. S. . C h a m a m . E o duplo. com o seu "covarde gêmeo" à frente. tendo o cuidado de não sair da sombra projetada pela pilha de lenha ( p . como j á acontecera u m a outra vez" ( p . em qual- quer buraco". 376). no meio do lixo. que o senhor Goliádkin supusera ser u m espelho. 376). indicando-lhe o caminho. apontava para seu infame sósia que a n - dava de volta do ministro" ( p . avança e o interpela: " D ê . o senhor Goliádkin. o senhor Goliádkin ouviu distin- tamente os dois criados rindo ( p . Escondido atrás da pilha de lenha. . Enquanto procurava libertar-se. Goliádkin também corre embora. 1976 . E na antecámara. ] diante de q u e m t que o senhor julga que está falando? Diante de quem está o senhor? E m casa de quem?" E Goliádkin é empurrado "brandamente". acusando o duplo: " É u m homem vulgar e corrompido. Dostoïevski ( p . após a entrada de Krestian Rutenspitz e d o duplo. . corajosamente. do meu melhor amigo! O sobretudo do meu melhor amigo! — disse o infame com voz de falsete. o s o b r e t u d o . e que " a sombra o tinha traído e não o cobria j á p o r completo" quis esconder-se "entre os cavacos.

RENAUX. A função da noite de tempestade no cenário serviria pois. ] " (P. não muito clara". . T o d o o cenário parece se erguer contra ele. ] . acrescido d o seu desejo de " m o r r e r " . O vento soprava nas ruas desertas. toda a agitação difícil de exprimir. . . Goliádkin põe-se novamente a caminho. 314). e Goliádkin avista à sua frente "um transeunte. O estampido de um canhão avisa que as águas do N i e v a tinham subido. perto da ponte Ismaílov. c o m o o fizeram seus "inimigos" na festa: Estava uma noite medonha. a f i m . que o acontecimento que eleva ao m á x i m o a narrativa tem lugar: o encontro de Goliádkin com o duplo. 312-313). da tempestade prestes a desencadear-se no céu de n o v e m - b r o de São Petersburgo. ( p . 9. perseguem o senhor Goliádkin. . . a ponte Ismailov e a Rua Chestilavótch- naia e até o presente" ( p . ] Pa- recia que a esta hora. mas " s ó não pode desembaraçar-se dos seus estranhos sentimentos". letras. na noite de tempestade: Após sua destronização na festa de Klara Olsúfievna. tão atormentado. ] A neve. Se- g u n d o . a chuva. « N o primeiro encontro. Curitiba 1251: 347 . 400. . 312).313). . A neve aumenta. . 1976 3 6 9 . p. "reduzir-se a p ó " : tudo lhe é indiferente. . não se distingue nada. uma noite de n o v e m b r o úmida e bru- mosa. na amurada d o cais do Fontanka. e com um tempo assim. Goliádkin " c o - meça a andar sempre em frente. ] Chovia e nevava ao mesmo tempo. batia nos candeeiros d o cais que respondiam a estes asso- bios c o m um ranger agudo e lamentoso. j á tão aca- brunhado com os seus próprios desgostos. tão fatigado e fraco que esquece tudo. .de que tivesse um dia e uma noite de amargura. ] . que v e m na sua direção" ( p . [ . está "tão desesperado. S. apoiando-se tal c o m o ele à amurada d o cais [ . . ninguém poderia an- dar nas ruas. sem nunca mais se v o l t a r " ( p . ] a ritualistic giving of his distasteful traits to another". Ele quer outra vez "esconder-se de si próprio". [ . naquele momento. pelo escândalo na festa. " f u g i n d o aos seus inimigos e p e r - seguidores" . Edward Wasiolek. ¡ul. [ . . . toda de chuva e de neve [ . só se ouve o lúgubre chiar dos candeeiros e a canção do vento. para revelar a aniquilaçâo física do herói pelas forças da natureza o perseguindo. É neste cenário adverso de uma noite de tempestade. "mais lúgubre" ainda. Goliádkin tem a impressão de que "alguém esta- va ali. como se fossem agulhas e alfinetes aos milhares. c o m o conseqüência d e sua persona- lidade desdobrada patológicamente. talvez al- gum retardatário. 313). a água caía e m j o r r o s quase horizontais [ . . [ . . "he purges himself b y [ . ] Todos os elemen- tos se unem contra o senhor Goliádkin c o m o se estivessem de a c o r - d o com os seus inimigos. Chega ao cais d o Fontanka. tão perturbado. falando-lhe com " v o z rápida e sacudida. erguia acima das cadeias da ponte a água negra do Fon- tanka. assim c o m o ele já havia sido aniquilado mentalmente. a seu lado. Empurrada pelo vento. Dostoïevski 4) O cais do Fontanka e a ponte Ismailov. . desembaraça-se da neve na sua roupa. Batia e chicoteava o rosto do infeliz senhor G o - liádkin. 41 WASIOLEK.

. a e n . . S.s e ) e m cada u m de seus duplos p a r a se r e n o v a r ( s e p u r i f i c a r e se u l t r a p a s s a r ) " . c o m o d u p l o p e n e t r a n d o nos a p o - sentos de Goliádkin. " e n t r e os g e m i d o s d o v e n t o e o barulho da tempestade".l o d e t e r . . . n u m a das beiras d o p a s s e i o " sugerindo assim u m a p o s i ç ã o de i n f e r i o r i d a d e e m r e l a ç ã o a o d u p l o . O e f e i t o d e luz e s o m b r a d e q u e f a l a v a Grossman é aqui a p r o v e i t a d o ao m á x i m o . 176. .RENAUX. Depois. tal c o m o u m c a t a v e n t o q u e g i r a e m t o r n o de u m eixo . G o l i á d k i n t r e m e n d o . de o n d e se despenha. desapareceu sob o teto aboba- d a d o " . Dostoievski artista. Goliádltin passa duas horas p a r a d o na e n t r a d a d e s e r v i ç o d o s Bieriendiéiev. [ . 400. <3 5) As escadas: Grossman c o m e n t a c o m o a arquitetura t a m b é m f o r n e c i a a Dostoievski " o b j e t o s concretos p a r a u m d e s v e n d a m e n t o p s i c o l ó g i c o semelhante da i m a - gem objeto" e como a escada a p a r e c e c o m o u m s í m b o l o d o sobressalto. depois v o l t o u . da p e r p l e x i d a d e e dos p r e s s e n t i m e n t o s sombrios. p. suspirando.s e a c o r r e r p o r diversas ruas. 15. " p á r a diante da casa de Goliádkin e após t o c a r a campainha. " a c a b o u p o r se sentar. 315). 43 Cf. " s o b a luz d o c a n d e e i r o mais p r ó x i m o . 3 7 0 Letras. o u v e passos e avista à sua f r e n t e " a silhueta negra d u m h o m e m " q u e avançava r a p i d a m e n t e . V a i a g o r a j á na R u a Chestilavótchnaia" ( p . q u e "seguia o m e s m o c a m i n h o e c o r r i a à sua f r e n t e . 44 GROSSMAN.s e c o m o p u x a d o p o r u m cordão. o transeunte desaparece " n a espessura da n e v e . na escura n o i t e d e t e m - pestade. ] p e l o passeio d o F o n t a n k a " ( p . p. p a r a o l h a r pelas costas a tal pessoa q u e a c a b a v a d e passar p o r e l e . .e destronização — " o herói m o r r e n e g a . c o m o c a m p o d e ação de cenas penosas e de s o f r i m e n t o s t r e m e n d o s . q u e lhe p a r e c e m u m " l a b i r i n t o " até q u e avista n o v a m e n t e o desconhe- cido. p õ e . 157. p e l a sua a m b i g ü i d a d e : é o nascimento c a m o r t e . n u m a t o que n ã o deixa de estar l i g a d o à carnavalização. o o n f o r m e lhe parece. É a destronização que se completa. M a s Goliádkin. m a i s u m a vez. n u m a b i s m o . 1976 . 316). depois é expulso d o b a i l e p a r a a f r í g i d a escadaria d e gala. V o l t o u . alguns passos m a i s a d i a n t e .s e b r u s c a m e n t e p a r a trás. A p ó s seu afastamento. que o iluminava c o m p l e t a m e n t e " . p o i s Goliádkin. m a s de repente. É neste m o v i m e n t o cruzado q u e se o p e r a entre os dois passantes q u e se daria a transmutação do Goliádkin I e m G o l i á d k i n I I . p a r o u a s s o m b r a d o c o m o se u m r a i o l h e tivesse c a i d o e m c i m a . 4 2 D e - pois. Dostoïevski O transeunte se a p r o x i m a e G o l i á d k i n cruza c o m ele. 4 4 42 BAKHTINE. p.s e a uns dez passos dele. . a o se lançar e m sua perseguição f á . Curitiba (25): 347 . ¡ul. .

que lhe batia sempre com muita f o r ç a quando subia qual- quer outra escada que não fosse a sua" ( p . Mas Goliádkin sobe de novo a escada " d e u m p u l o " ( p . Estava vermelho c o m o um camarão ( p . Andriéi Filípovitch. ao encontrar lá dois de seus colegas de repartição. deseja manter "uma certa distância" (p 300) deles e por f i m assume um "ar importante ao se despedir deles. onde. compõe a roupa maquinalmente. pois. Dostoievski Mas a escada também p r o j e t a a personalidade de Goliádkin. sua dificuldade em relacionar-se còm os outros. Ê novamente o elemento cômico ao lado da tragédia e esta nova crise leva Goliádkin a se humilhar perante os outros fregueses: " O senhor Goliádkin estava perplexo. Ë a conseqüência de sua "infração". Já havia gente em volta do senhor Goliádkin. pálido. S. a si e à carruagem" ( p . sua vaidade. " c a m p o de ação de cenas penosas". mas de repente compreende o enigma. Goliádkin quer "meter-se num buraco. Tirou um rublo do bolso. um preâmbulo à destronização que se seguirá. começa a subir a escada" ( p . 303) e o chefe corre a fechar a porta atrás de si. Goliádkin "sai d o coche. N a porta "que Goliádkin supunha ser um espelho" e m sua frente. 298). ao procurar o médico no começo d o iomance. que "parecia prestes a cair s. Goliádkin con- segue a custo convencê-lo a explicarem-se mutuamente a situação. "sorria e esfregava alegremente as mãos" ( p . na hora de pagar o empregado lhe diz que comera onze. ao penetrar realmente na festa. Goliádkin acaba pagando. estava o duplo. para pedir um jantar. 400. pois.o- bre ele". Após haver sido "destronizado" pelo duplo na repartição. jul. esconder-se c o m o um rato. 307): ela seria o obstáculo à sua ascensão social e p o r isso mesmo. Curitiba (251: 347 . Após descer correndo a escada. 304). serve também para p r o j e t a r a ânsia de ascensão social de Goliádkin ( p . Goliádkin vai a um bar de aparência modesta. entre os quais seu chefe. sobe os degraus do patamar. Goliádkin encara seu chefe. mas de que ele mal tinha ouvido falar". 300). o mesmo lestaúrante onde tinha estado a descansar enquanto esperava pela hora d o jantar de Olsuf Ivánovitch é cenário de outro escândalo: após haver comido um bolo. ao alto. é a primeira destro- nização. co- mendo o décimo bolo. Parecia obra de feitiçaria! Entretanto o vendedor esperava. quando não há mais necessidade de aparentar. 6) Restaurante: O restaurante "muito conhecido da Perspectiva Niévski. alheado. 1976 3 7 1 . Opostamente. N o v a m e n t e embaixo. RENAUX. e c o m uma leve tremura nos joelhos. 343). ao descer as escadas à saída do consultório. numa ruazinha estreita. após fingir amizade e m relação a Goliádkin. Mais tarde. E após o duplo haver usurpado seus papéis na repartição. Espantado. tira o chapéu. Goliádkin "sobe a escada procurando conter as pulsações d o coração. o Letras. 281). A o ir à casa de Olsúf Ivánovitch. pois Goliádkin é afastado p e l o criado para dar passagem a dois convidados. fica perturbado. Dirigem- -se a um café deserto.

sua ânsia em aparentar ser rico e importante. sem perceber que " o desarranjo da roupa. tecidos. mudo. apertando-lhe "desdenhosamente" dois dedos e repetindo " a intolerável graçola daquela manhã". 367). 1976 . c o m surpresa geral e também dele próprio. . Esta combinação de cenas penosas c o m gestos carnavalescos. Curitiba (251: 347 . quando Goliádkin. "Já tinha m e t i d o n o bolso o lenço c o m que limpara os dedos. . S. as palavras soltas" ( p . mudando cons- tantemente de idéia e prometendo sempre voltar mais tarde para pagar.RENAUX. 299) p r o j e t a m sua vaidade. n o m e s m o dia. decorada de estranhos brasões". c o m o também de local d e 3 7 2 Letras. o caminhar desordenado através da sala. ( p . pois entra nelas fazendo de conta que irá c o m p r a r mais do que realmente precisa. 7) Lojas: As diversas lojas que Goliádkin visita n o início do conto. v e n d o f u g i r os dois clientes. pois eles representam o caminho à ascenção social. Mas. Os objetos que escolhe. Dão sente nada. pergunta ao empregado: "Quanto d e v o ? " e " à sua volta todos começa- ram a rir. Imóvel. têm apenas a função de realçar a inconsistência de Goliádkin. n o cenário. 400. que tirou d o bolso mas u m frasco que continha um medicamento receitado quatro dias antes p o r Krestian Ivánovitch. " ( p . tão evi- dente acima. ( p . serve tanto c o m o m e i o d e p r o j e ç ã o da vaidade d e Goliádkin pois no p r i m e i r o dia Goliádkin vai passar pela Perspectiva Niévski numa "carruagem azul. . é mais uma vez projetada. cheia d e guizos a tilintar e c o m Pietruchka na parte de trás ( p . não v ê n a d a . até o mesmo e m p r e g a d o " . colocando-se sob sua proteção. 8) Carruagem: A carruagem. há grande m o v i m e n t o e con- fusão na sala e Goliádkin c mais uma vez humilhado n o local onde havia sido causa de escândalo: "Alguns agarram-no p o r um b r a ç o . quando Goliádkin vai a uma taberna: lê a carta que K l a r a Olsúfievna lhe enviara. "um estojo de barba de prata". O senhor Goliádkin compreendeu que acabaca de dizer um grande disparate. m e i o de locomoção empregado p o r Goliádkin a partir d o início do conto. 368). Procurou o lenço para f a z e r qualquer coisa. E o elemento cômico in- tervém. lui. 369) chamam a atenção dos presentes e todos o obser- v a m " d e um m o d o pouco tranqüilizador" ( p . " u m serviço de chá completo". 389). *-. "pôs-se a gritar e a tocar a campainha c o m t o - da a f o r ç a " . . quando o senhor Goliádkin número um se pôs a p e r - seguir na sala vizinha o seu figadal e covarde i n i m i g o " . Dostoïevski duplo despede-se.¿indo d o lugar. ao cair-lhe o frasco das mãos e quebrar-se. E a alemã. vendo à sua f r e n t e uma mesa que não havia sido tirada. E. sai da l o j a empurrando todos que o querem r e t e r " . não f o i u m lenço. "uma mobília de seis peças" e "algumas outras coisas úteis o g r a c i o s a s . sua visível comoção. 370). P o r fim. os gestos.

é o cenário p r o p í c i o p a r a o a p a r e c i m e n t o d o d u p l o . ] P o r fim o senhor Goliádkin conseguiu t r e p a r p a r a o c a r r o . . e que são sintomáticos d e seu d e s e j o de sumir. S. Os dois lutam. c o m o e m outros ambientes estranhos. lojas. " o senhor Goliádkin. através da r e p a r t i ç ã o . b u - racos e outros e s c o n d e r i j o s o n d e Goliádkin s e m p r e d e s e j a se meter. e Goliádkin é a f a s t a d o da sociedade p o r r o m p e r de c e r t o m o d o . de se ani- q u i l a r . j u n t o c o m K r e s t i a n Ivánovitch. os dois lugares e x t r e m o s n o e s p a ç o d o r o m a n c e a festa e os buracos. seriam a p r o j e ç ã o dos dois sentimentos opostos q u e d o m i n a m em letras. a harmonia universal da m e s m a . Goliádkin s o f r e uma mudança e m sua atitude e desata a c h o r a r . r o l o u " n o p á t i o de Olsúf I v á n o v i t c h . Curitiba 1251: 347 . além dessas duas funções. ful. que p r o c u r a o m é d i c o para p e d i r sua a j u d a contra os " i n i m i g o s " q u e q u e - r e m liquidá-lo ( p . caiu d o còche. e finalmente aos cantos.s e b e m ao c a r r o e c o r r e u na rua p r o c u r a n d o subir. Quando " u m solavanco m a i o r o chamou à realidade". c o m o u m saco de farinha. F a c e a f a c e c o m o seu inimigo. E mais d o q u e m e r e c e " ( p . p o d e r í a m o s d i z e r q u e há u m a espécie d e g r a d a ç ã o descen- dente na g e o g r a f i a espacial d o romance. " a s p i r o u o ar p u r o c o m u m a sensação de l i b e r d a d e " ( p . aqueci- m e n t o e tudo q u e é p r e c i s o . C o n c l u i n d o . 292). pois o m é d i c o não f i c a convencido pelas palavras de Goliádkin e a o despedf-lo c o m u m a receita. é t a m b é m o m e i o de trans- p o r t e que afasta Goliádkin da sociedade. 400. Dostoievski conflito. RENAUX. o q u e o o u t r o Goliádkin tentava i m p e d i r c o m energia. E a carruagem. quando Goliádkin persegue o d u p l o após este o t e r h u m i l h a d o n o café: A g a r r o u . A ponte. e m que. 295). c o m as costas d e encontro às costas d o cocheiro. restaurante. p r o l o n g a m e n t o de sua p r ó p r i a personalidade. pois ao sair d o consultório. é o local da cena f i n a l d o r o m a n c e . r e c e b e i n f o r m a ç õ e s s o b r e u m a n o v a m o r a d i a — o m a n i c ô m i o : " O senhor v a i ter casa d e graça c o m luz. pela sua ambivalência c o m o local de passagem. 197Í 3 7 3 . Mas esta c o n f i s s ã o t r a n s f o r m a a consulta e m cena penosa. o local das grandes destronizações e cenas carnavalescas. . ( p . até c h e g a r m o s a o seu quarto. Esta cena penosa n o consultório f a z c o m q u e Goliádkin. 368). c o m o t a m b é m nos esclarece quanto aos p r o b l e m a s pessoais de Goliádkin. Assim. se sinta enclausurado. 398). 9) O consultório de Krestian Iv&novitch: T e m apenas a f u n ç ã o d e m o s t r a r a f a l t a de habilidade d e Goliádkin e m relacionar-se c o m os outros. p o i s ele " f i c a v a s e m p r e atrapalhado q u a n d o era n e c e s s á r i o dirigir-se a alguém para qualquer assunto pessoal" ( p . 388). nos m o - mentos de crise. c o m o locais de outras cenas d e c o n f l i t o e n t r e Goliádkin sozinho ou e m companhia d o duplo. q u e se inicia c o m o a m b i e n t e d e festas. os j o e l h o s d e encontro aos j o e l h o s d o insolentei conseguira a g a r - r a r c o m a m ã o direita a gola d e p e l e d o casaco d o outro. [ . p o r é m Goliádkin leva a p i o r . p o r sua vez. O c o n f l i t o é resolvido.

. usadas p a r a c r i a r "suspense". ] n i n g u é m p o d e r i a andar nas ruas. I I . H i s t ó r i a s e anedotas encaixadas t a m b é m i n t e r r o m p e m a o r d e m da história. 304 s s ) . . I á k o v P i e t r o v i t c h G o l i á d k i n [ . escondido. Cap. . . 1976 . . 312 s s . T. E r a m quase dez e m e i a . . .s e as notas d u m a q u a - drilha f r a n c e s a [ . . [ . . . a m b o s conseqüência d e sua p e r s o n a l i d a d e bifurcada. i s t o é. Se. I I I : E s t a m a n h ã deixou n o senhor G o l i á d k i n a i m p r e s s ã o de u m terrível c a o s . ] ( p . Seuil. . Passam tantas coisas pela cabeça dum h o - m e m q u e espera p e r t o de três horas n u m v e s t í b u l o o b s c u r o e f r i o [ . ] C o m o e r a m só três horas e u m q u a r t o [ . p. M a s é na l i n e a r i d a d e e circularidade d o t e m p o q u e i r e m o s n o s concentrar. elementos básicos que são. 1972. V : S o a v a m e i a . ] . saltos d o p r e s e n t e da n a r r a - tiva a o passado e futuro. n a estrutura d o r o m a n c e : 1) O t e m p o d o discurso linear o u c r o n o l ó g i c o : O t e m p o c r o n o l ó g i c o é m i n u c i o s a m e n t e m a r c a d o p e l o ficcionista. . . ] . q u e a n o - ta a sucessão d e horas. ( p . . . . . .n o i t e e m t o d o s os r e l ó g i o s das t o r r e s de P e t e r s - b u r g o [ . . Dostoïevski Goliádkin: seu sonho de ascensão social e seu d e s e j o d e desaparecer. . ] O t e m p o f u g i a . às n o v e e m e i a e m ponto. S e g u n d o d i a : cap. 291). N e s t e m o m e n t o b e b e o c a f é [ .. . c o m o t a m b é m p e l a mistura dos planos d o real e d o f a n t á s t i c o vistos a c i m a . ] . . ] . . . ] D u r a n t e dois m i n u t o s continuou d e i - t a d o [ . ] ( p . . . . . o u v i r a m .RENAUX. E n t r e t a n t o j u r a a si p r ó p r i o que n ã o passará daquela noite. Curitiba 125): 347 . c o m o t a m b é m c o m i c i d a - de. 401. Espera. . Cap. ( p . . 317 s s j Cap. Paris. ] A história d o senhor Goliádkin Júnior d u r o u três ou q u a t r o h o r a s . . ] O r e l ó g i o da t o r r e deu três b a d a l a d a s . . C a p . ] Depois de todas as v o l t a s daquela mannã. ] . Cap. o senhor G o l i á d k i n a c o r d a v a na sua c a m a [ . . o d o a n i v e r s á r i o de K l a r a Olsúfievna [ . . 1. . 299-300). Dictionnaire encyclopédique des sciences du langage. J. p e l o seu estatuto d e clichê.3 A dupla p r o j e ç ã o d o t e m p o d a h i s t ó r i a s o b r e o t e m p o d e escritura: a linearidade e circularidade d o e l e m e n t o t e m p o r a l . [ . dias e até m i n u t o s e m q u e a f a b u l a ç ã o se passa: P r i m e i r o d i a : cap I : P o r v o l t a das o i t o da manhã. I V : E r a u m dia solene. 287). [ . . ( p . . . jul. . a c o p a estivesse vazia [ . Segundo Ducrot e T o d o r o v « " o p a r a l e l i s m o i d e a l m e n t e existente e n t r e o t e m p o da história e o t e m p o da e s c r i t u r a " é constantemente r o m p i d o e m O D u p l o : há s e m p r e inversões temporais. ) . [ . durante uns minutos. S. ] . 400. p o r m e i o das p r e m u n i ç õ e s e sonhos d e Goliádkin. durante três h o r a s . & TODOROV. . . Já há u m q u a r t o de h o r a que estava à espera d e l e . I I : N a m a n h ã de h o j e ( K r c s t i a n I v á n o v i t c h ) está e m casa [ . . Parecia q u e a esta h o r a [ . ( p . 45 DUCROT. ] acordou. J . V I : N o dia seguinte às o i t o horas e m ponto. 3 7 4 Letras. ] . . pela suspensão da ação. V I I : H o j e toda a gente s o f r e u q u a l q u e r s o r t i l è g i o ! [ . tinha c o m p r a d o apenas duas coisas [ .

( p . [ . . . ] . . . ] A o c a b o de u m a meia h o r a de e s f o r ç o s [ . . . . Esta minuciosidade de detalhes n o t e m p o linear é contraposta ao t e m p o psicológico ou circular. . ] Que horas serão? D e v e m ser n o v e . . jul. ] f o i até a repartição. ] " E s p e r a . [ . 326 ss. ] U m f r a s c o q u e continha u m m e d i c a m e n t o r e c e i t a d o q u a t r o dias antes [ . . ] O t e m p o estava m e d o n h o [ . . . . . " C o m m i l diabos. . . ] Eu o contratei p a r a a noite i n t e i r a . .m e h o j e às n o v e horas e m p o n t o [ . ] Quando entrou na sala de trabalho j á o dia declinava [ . ] . ] " A h Q u e m m e d e r a que chegue o dia de amanhã e que t u d o se esclareça!" ( p . são duas ou três h o r a s . S ã o horas de ir para o serviço. ] T o d a a n o i t e esteve n u m a semi-sonolência [ . ] U m a n o v a luz i r r o m - pia através d o n e v o e i r o espesso q u e o rodeava.[ . [ . [ . ] 0 hóspede da véspera- [ . [ . m e n c i o n a d a acima. 1976 3 7 5 . ] R e a l m e n t e o r e l ó g i o m a r c a v a u m a hora. ] d o qual ainda na véspera pensava q u e p o d e r i a v i r a ser seu m e l h o r a m i g o [ . . . c o m o d i z e m Ducrot e T o d o r o v . [ . . ] . 378 s s ) . . . C o m e ç a v a a escurecer. [ . . . [ . ( p . ] E r a m n o v e e m e i a . . 364 ss. a p r o x i m a d a m e n t e . S. ] S ã o n o v e m e n o s u m q u a r t o . o r e l ó g i o só bate u m a pancada. . à h o - ra f a t a l da meia-noite. RENAUX. 332 ss. . . [ . ] • O que o a t o r m e n t a v a deste m o d o era a r e c o r d a ç ã o d o q u e o c o r r e r a na véspera e m casa d e Olsúf I v á n o v i t c h ( p . quando c o m e ç a r a o seu i n f o r t ú n i o . ] c o m o naquela inesquecível noite. . . [ . . 371 ss. . X I : A noite permanecia ú m i d a e escura c o m o b r e u . P o r f i m soaram as q u a t r o ( p . p o r q u e j á era m u i t o t a r d e . . . X : Passou u m a n o i t e péssima e n ã o d o r m i u cinco minutos. . [ . . . p õ e e m e v i - 46 DUCROT & TODOROV Letres. [ . ] ( p . e esta repetição de uma parte d o texto. . . .). C a p . . [ . [ . ] E r a m j á n o v e horas.X I I : Pietruchka passou silenciosamente p a r a o o u t r o l a d o d o tabique e declarou c o m toda a independência q u e devia f a l t a r p o u c o p a r a as oito. . . c o n es- p o n d e a u m o u t r o d e s d o b r a m e n t o de u m acontecimento n o t e m p o da escri- t u r a ^ : então a dupla p r o j e ç ã o d o t e m p o . . . que se o p e r a na m e n t e d e Goliádkin. . [ . . tinha passado duas horas [ . . ] . ] " q u e diabo de idéia esta de m e p ô r a discutir c o m ele a m e i o da noite? — disse c o m u m t r e m o r doentio.). Curitiba 125): 347 . [ . . . . . às duas e m p o n t o " . c o m o de costume. 340 ss. V i l i : N o dia seguinte o senhor Goliádkin a c o r - dou. C a p . ] Ainda é p r e c i s o e s - p e r a r m u i t o t e m p o ? ( p . . ] O dia ia j á alto e m u i t o claro. X I I I : [ . . . . " O r e l ó g i o p o r detrás d o b i o m b o d e u duas pancadas.400. Cap. . ] ele se sentia m u i t o tentado p e l o cantinho de e n - trada da casa d e Olsúf Ivánovitch. . . .). ] L o g o q u e o nosso herói t e r m i n o u este bilhete. . o n d e j á quase n o p r i n c i p i o desta verídica história. ] Passaram dez minutos antes q u e o senhor Goliádkin encontrasse o u t r a vela e a acendesse.) Quarto dia: cap. ] Deu então c o m a m ã o na carta que o escriturário lhe entregou peía manhã [ . havia j á dois dias. ] • A s horas i a m passando lentamente. . .). . ] Daqui a nada são o i t o horas. ] E r a j á m u i t o tarde quan- d o acordou. [ . m a s s e m decidir-se a entrar. E havia j á duas horas q u e o senhor Goliádkin esperava n o p á t i o d e Olsuf I v á n o v i t c h . . . O r e l ó g i o m a r c a v a três horas e meia. Dostoïevski t . ] C o m g r a n d e a d m i r a ç ã o sua. . . E n - tregar-me-ei à tua proteção. . [ . . T e r c e i r o dia: c a p . [ . . . às o i t o h o r a s [ . Cap. [ . 351 s s ) . . . . . . O senhor Goliádkin sentia-se de excelente h u m o r [ . I X : Caminha durante m e i a hora. .

] de m o d o impreciso. . os seus receios" ( p . jul. 50 E. 4 8 falando. pensar: "Estarei so- nhando ou não? [ . meu caro Iákov Pietróvitch. Goliádkin de certo m o d o antecipa o final da narrativa: a premonição de que algo está iminente. ] • Felizmente. mas também a latente loucura de Goliádkin. . presente. Dostoïevski dência não só ambivalência entre sonho e realidade.RENAUX. 288). — Já o fez. p o r enquanto tudo está correndo bem. . " E s t e animal. 15. novamente " o senhor Goliádkin sentia [ . . após a aventuras da noite anterior. S. 1976 . sentia. tanto mais que choramingas j á és tu. Goliádkin murmura para si mesmo. p. os seus pressentimentos e . " E o t e m p o linear é r o m p i d o ao Goliádkin. 3 7 6 Letras. sugerido pela descrição d o ar soturno e isidioso da luz que entra pela janela embaciada. O caráter fragmentário d o t e m p o psicológico seria pois. A premonição dessas palavras não deixa de ser algo irônica. . 317). encontrar de novo o desconhecido" ( p . o senhor Goliádkin sabia j á há muito tempo que alguma coisa se preparava lá longe. " T i n h a um pressentimento d e que ali as coisas não iriam correr b e m . que as ooisas não estavam indo b e m e que o destino 47 Cf. tenho a certeza. . sorrindo: "Estás bêbado b o j e . se nos lembrarmos da futura aparição d o duplo. E mais adiante: " O senhor Goliádkin sabia agora. 316). 14. 8. . ao a l o j a r o duplo em sua ca- sa. " 4 ? Esta premonição de algo ominoso continua quando Goliádkin vê Pietruch- ka no m e i o de uma assembléia de criados. Quando este aparece pela primeira vez. Mas o que?" ( p . . . Apostaria e m c o m o m e trocou p o r um copeque" ( p . Que queres que te faça?" ( p . . p. . Goliádkin r e f l e t e sobre a veracidade ou não d o acontecido. meu grande patife! Agora ris-te. p. . p. 9. muito b e m a t é . amanhã hás de chorar. mas c o m qualquer finalidade" ( p . é corrobo- rada pelas palavras de Goliádkin "Seria b e m desagradável [ . certamente. a o encontrar o duplo na sua cama. 49 Cf. estava absolutamente convencido de que nova desgraça o esperava e que ele ia. 314). . após o aparecimento inesperado d o duplo na repartição. 318). Já na manhã d o terceiro dia. 50 Cf. 331). 400. passado e f u t u r o se c o n - fundem. p o r cin- c o réis seria capaz de vender a alma d o parceiro. Talvez não seja p o r acaso que passa p o r aqui. E. Goliádkin pensa: " T a l v e z este transeunte seja um enviado d o Destino. Curitiba 125): 347 . na casa dos outros. . 48 Cf. e m cuja mente. sem dúvida alguma. "Aliás. 2) O tempo circular ou psicológico: Desde o p r i m e i r o capítulo. T a m b é m receava ir à repartição. sobretudo a d o patrão — pensou ele. 4fl "todos os seus pressentimentos se tornavam realidade. a p r o j e ç ã o do caráter fragmentado e b i f u r c a d o do herói. ] se h o j e qualquer coisa corresse mal [ . N o segundo dia. ] Ë h o j e ou ontem?".

Oh! E u dario o d e d o de boa vontade. ficando tu ape- nas c o m u m d e d o a menos'. 51 e . . jul. após haver passado a noite e m sua casa. é o p r i m i d o p o r "recordações confusas. Que o diabo o leve! ( p . os limites entre real e fantástico e entre presente. ] as coisas estão ficando pretas. . 358-9). p. 350). 341). ] : 'Goliádkin. N a repartição. após uma noite péssima. "iminente e desagradável" está para acontecer. Estamos portanto sendo constantemente lembrados d e que algo futuro. passado e f u t u r o se esvanecem. Quer dizer que está encarregado de uma missão especial! Ë isso". e que também havia rodeado sua oessoa ao encontrar o duplo na ponte e até penetrado e m seu quarto. A o terminar a leitura da carta. 348). Dostoïevski lhe preparava ainda qualquer surpresa desagradável". pesadelos horríveis. S. RENAUX. " ( p . na repartição quando o duplo finge não reconhecê-lo. dá-nos um dedo da tua m ã o direita e f i c a m o s quites. 9. 334). . o que produziria uma ligação do f i m c o m o começo d o romance. no quarto dia: o duplo sobe rapidamente as escadas da repartição e Goliádkin pensa: " M a u sinal [ . ( p . . 62 Goliádkin pensa: " E u tinha um pressenti- mento disto [ . o malandrini! Ë preciso trazê-lo debaixo de o l h o . . mas por que m e escreve ele esta carta? [ . " ( p .m e [ . Letras. p. quando estas premunições e sonhos se realizam. A c o m - preensão de seus pressentimentos v e m c o m a realização dos mesmos e o "nevoeiro espesso que rodeava suas idéias. de pessoas que não têm embrulhadas nem d u p l o s . mas não da maneira c o m o Goliádkin imagina. 53 Cf. . p. que. ] A h ! Quem m e dera que chegue o dia de amanhã e que tudo se esclareça!" ( p . 9. . T u d o será realmente es- clarecido "amanhã". 350). Mas. 349). c o m " o mau aspecto que as coisas estavam tomando" ( p . Os "maus sinais" se sucedem. 10. " ( p . serão posteriormente projetados na nar- rativa de m o d o tão hábil. . Ah! meu Deus!" ( p . A dupla projeção do t e m p o é mais uma v e z observada quando Goliádkin. Goliádkin chega até a imaginar um p a c t o c o m forças desconhecidas para se livrar d o duplo: Se algum mágico viesse d i z e r . Após Pietruchka ter entregue a carta a o funcionário Vakramáicv e dizer que iria "para casa de gente d e juízo. Goliádkin repete: " E u pressentia tudo isto. . . sensações desagradáveis": 53 estes sonhos premunitórios mistura- dos com pesadelos e lembranças. ] e adivinho tudo que esta carta c o n t é m . Goliádkin murmura: "Já há m u i t o que o pressentia. Goliádkin sente 51 Cf. 400. Goliádkin f i c a profundamente abalado. além d e termos a dupla p r o j e ç ã o d o tempo da história sobre o da narrativa. 349). . E Goliádkin continua a pensar sobre o seu duplo: " É capaz d e dar cabo d o meu nome. ao v e r a carta de Vakramáiev em seu q u a r t o . . no início da narrativa. 1976 3 7 7 . 52 cr. 342). . c o m o j á mencionado. sem dizer uma p a l a v r a . Curitiba (25): 347 . este nevoeiro é iluminado p o r "uma nova luz" ( p . . . o outro Goliádkin desaparecerá e seremos felizes. .

É o seu segundo sonho. p e ç o . " u m b o m chefe deve intervir numa circunstância destas [ . 3 7 8 letras. refletindo sua angústia inte- rior: " E u pensava que seria uma atitude s o b r e .5 5 Mais tarde. 25. sensatamente. 56 Cf. ao derrubar o medicamento receitado p o r K r e s - tian Ivánovitch 56 e a o ver o " a r sinistro" d o "líquido repugnante e vermelho escuro". c o m o também sua resposta ao porteiro que lhe traz um sobrescrito oficial. Eu considero o meu chefe c o m o um pai. que lhe confio a minha vida e que m e retirarei da vida pública!" ( p . S. . p. outra vez prognostica algo que virá acontecer. p. Cada um segue seu caminho e não se sabe quando nos voltaremos a encontrar" ( p . . Dostoïevski que os colegas o olhavam d e m o d o estranho: " E r a mau sinal. . 376). c o m a neve a cair. 377) c esta mesma repetição em relação ao passado se dá quando ele espera duas horas no pátio d e Olsuf Ivánovitch. p e . Goliádkin enfrenta u m t e m p o medonho. em sua casa: "Já sei. . " ( p . .. 374). enquanto o leitor saberá que Goliádkin será levado embora. Dir-lhe- -ei que o estimo c o m o se fosse meu pai e c o m o o melhor dos chefes. preparava-se para não prestar atenção ao falo. as lembranças de Goliádkin também p r o j e t a m duplamente o tempo da história sobre o da narrativa: ao ir à rua Liticinaia. . . p. é aquela que ele já há muito tempo " p r e s s e n t i a " . 10. ] £ o f i c i a l . 54 e . . seu p r i - m e i r o sonho se realiza: c o m um olhar frio. 1976 . . que se torna realidade. ] . 370). quando um acontecimento inesperado o aniquilou de repente e deu cabo dele" ( p . . . . " ( p . 370). Andriéi Filípovitch nega-lhe acesso ao ministro. . 57 A o tentar raciocinar sobre sua situação. d o qual ele não está consciente: " E u t a m b é m vou p a r t i r . O senhor Go- liádkin sentiu-o e. Será uma boa a ç ã o . quando começara o seu infortúnio" ( p . 26. pois Goliádkin pensa e m sua f u g a c o m Klara. Quando o encaminham para f o r a d o gabinete da casa de Sua Excelência. jul. . 374) é lançada novamente na escritura de m o d o fragmentado. " c o m o naquela noite inesquecível. Goliádkin pensa: " F o i exatamente c o m o e m casa de Olsuf I v á n o v i t c h " ( p .m e . na taberna. rar.l h o . . . Palavras de mau agouro. 57 Cf. . Da mesma maneira c o m o suas premonições. pois. . n o f i m d o conto. mas não c o m o ele o imagina: " A d m i t a m o s que as coisas se 54 Cl. Sua intenção de se lançar aos pés de Sua Excelência e pedir sua ajuda. Goliádkin põe-se a tremer e pensa: " A minha v i d a está em p e r i g o " ( p . 359). Suas palavras de despedida a Pietruchka contêm alusões a seu futuro. Curitiba (251: 347 . à hora fatal da meia-noite. p. P r o j e t a . São palavras trágicas e irônicas. j á sei tudo [ . "onde já quase n o princípio desta verídica história. de sua "destronização" pelo duplo. a u m m a n i c ô m i o . que o insulta c o m gestos carnavalescos no m e i o de seus colegas. p o r outro lado. 372). 10. 55 Cf.RENAUX. Mas a " p r o t e ç ã o " que ele vai receber. . tinha passado duas horas". logo após ter sido caluniado pelo duplo. a c h o . 400.

58 Cf. 38S). Goliádkin pensa: "parece exatamente aquilo que se passa nu- m a família quando um dos seus membros vai partir para uma viagem lon- g í n q u a . através da repetição de uma parte do texto que corresponde 'a um outro desdobramento de um acontecimento no t e m p o da escritura. apinhado de convidados. 380). 12. L e v a d o pelo duplo para dentro do salão d o Olsúf Ivánovitch.4 A polifonia no f o c o narrativo Para Bakhtine. mais tarde ou mais cedo.". São palavras que irão se concretizar daqui a pouco. . I I .. 59 Cf. 347 . todos parecendo esperar " u m acontecimento ex- traordinário". É o que lhe dirá o médico. 383). . ] É mais do que merece. A narrativa deixa de ser linear para tornar-se circular. ."58 Um pouco antes da cena decisiva em casa de Olsúf Ivánovitch. Letras. Seria apenas um hóspede" ( p . rodeado pelos con- vidados. mas que são todas sujeitos.. . isto havia de acontecer. 388): e " o senhor Goliádkin deu um grito e pôs as mãos na cabeça. 28. Goliádkin uulra vez decide que a partir deste m o m e n t o podia considerar-se alheio a tudo que acontecesse". O pouco dinheiro que tenho ainda m e chegaria p o r algum t e m - p o . pois a pre- monição de Goliádkin une o f i m ao c o m e ç o da história. . p. 1976 3 7 9 . Antes do " b e i j o de Judas" que o duplo lhe dá. 385).. junto c o m a carnavalização. O conceito de polifonia também abrange a pluralidade das idéias. E. "julgou v e r uma multidão numerosa de Goliádkini absolutamente iguais. Curitiba 1251'.59 Deste modo. Basta-me-ia um pequeno quarto. Finalmente. . apresenta-se a dupla p r o j e ç ã o d o tempo da história sobre o t e m p o da es- critura. Só falta as pessoas levantarem-se e r e z a r e m . 386). após o escândalo final. Goliádkin pede ao sósia que o socorra e não o aban- done neste momento crítico em que "ia começar uma vida n o v a " ( p . Goliádkin é levado pelo m é d i c o ao manicômio. RENAUX. p. Já não terei Pietruchka e passaria m u i t o b e m sem ele. . . De agora em diante. suas ações são ainda mais sem nexo. S. 1. meia dúzia de m ó v e i s . Dostoïevski compunham. E a porta d o salão se abre. ( p . a polifonia ou dialogismo. 386): é uma parte d o pesadelo que Goliádkin tivera. em estado de se responderem recipro- camente. onde vai ter "mais d o que m e r e c e . na cena final: " O senhor vai ter casa de graça [ . em silêncio solene. . " ( p . " ( p . Goliádkin sente-se gelar ao v e r o recém-chegado: " M a s não tinha ele previsto já tudo isto? N ã o o tinha pressentido?" ( p . são dois traços fundamentais na obra de Dostoievski: trata-se da pluralidade dc vozes e visões. A i delel Já há muito pres- sentia que. jul. inseparáveis das vozes que as p o r t a m . enquanto as partes centrais são também projetadas duplamente pela ambivalência d o presente. 400. que f o r ç a v a m u m ruído a p o r - ta da sala" ( p . passado e futuro e pela ambivalência sonho-realidade. da qual nenhuma é o b j e t o de definição psicológica ou so- ciológica.

. a n a r r a t i v a d o n a r r a d o r e o discurso d o duplo [ .O r e s u l t a d o é u m a estrutura b i v o c a l q u e b r a d a [ . Seria p e l o j a n t a r q u e h a v i a d e c o m e ç a r o m e u p o e m a " ( p . de elegância. o f a t o d e o n a r r a d o r f a l a r n ã o apenas da p e r s o n a g e m . N ã o se trata ainda d e p o l i f o n i a . d e si e da n a r r a t i v a : " S e e u f o s s e p o e t a c o m o H o m e r o ou Púchkin — t a l e n t o m e n o r q u e o deles n ã o bastava — d e s e j a - ria pintar. P o d e r í a m o s ainda a c r e s c e n t a r à análise d e B a k h t i n e s o b r e o f o c o n a r - rativo. " l e récit à la t r o i s i è m e p e r s o n n e [ . c o m o u m a t r o c a i n t e r i o r continua e n t r e duas vozes. ] n ' e m p ê c h e ni la f o r t e p r e s e n c e du narrateur. n i l e c a r a c t è r e l i m i t é d e sa connaissance sur les m o t i v a t i o n s d u h é r o s " . " M a s — o h l e i t o r ! — t i v e j á ochasião d e d i z e r q u e a m i n h a pena n ã o é capaz de u m tal e s f o r ç o . I á k o v P i e t r ó v i t c h Goliádkin. I s t o concorda perfeitamente c o m a magistral análise q u e B a k h t i n e nos f a z do " e s t a t u t o d o n a r r a d o r " e m O D u p l o : so a n a r r a t i v a é d i a l o g i c a m e n t e v i r a d a p a r a o p r ó p r i o Goliádkin. m a s invertidas: a réplica d o outro absorveu a d o herói [ . . . ] • T a m b é m n a estrutura desta n a r r a t i v a c o m duas v o z e s q u e i n t e r f e r e m . q u e se t r a n s f o r m a i m p e n c e p t i v e l m e n t e e m discurso d o p r ó p r i o G o l i á d k i n [ . ] . passam p o r t r ê s v o z e s e t ê m u m t i m b r e d i f e r e n t e e m cada u m a delas [ . de b r i l h o . Dostoïevski É essa p o l i f o n i a q u e p r o v o c a u m a f o c a g e m bilateral da narrativa. idéia e f e n ô m e n o . c o m o segue: 1) O n a r r a d o r f a l a d e p e r s o n a g e m : " P o r v o l t a das o i t o d a manhã. s e g u n d o T o d o r o v . T i n h a dormido durante m u i t o t e m p o " (p. . p. ] . ] . S. sc c m O Duplo. Cada m o m e n t o essencial se situa na i n t e r s e c ç ã o d e três v o z e s : o discurso d i r e t o d e Goliádkin. . 2) O n a r r a d o r f a l a a o leitor. de si e ao leitor. ] e as f r o n t e i r a s m o v e d i ç a s e n t r e a n a r r a t i v a e a p a l a v r a d o h e r ó i a p o n t a m todas p a r a a n a r r a t i v a c o m o o p r o l o n - g a m e n t o d i r e t o da segunda v o z d e G o l i á d k i n [ .. . . m a s t a m b é m da p r ó p r i a narrativa. a c o r d o u . d e alegria. E l a s c a n t a m a m e s m a coisa. " < P i 306). n o q u a d r o d e u m a consciência d e c o m p o s t a . . aliás m o d e s t o n a r r a d o r das aventuras d o senhor G o l i á d k i n — curiosas n o seu g ê - nero. 287). . jul. pois. . 1976 . Curitiba 1251: 347 . ] . o narrador i m p r i m e às p a l a v r a s de G o l i á d k i n u m a e n t o n a ç ã o z o m b e t e i r a e r e p r o v a d o r a . Entretanto. 400. este dia triun- f a l . se b e m q u e d o p o n t o de vista f o r m a l a narrativa e s t e j a dirigida ao l e i t o r [ . . ] . . n o t a m o s o c r u z a m e n t o d e duas réplicas. . V o l t e m o s antes ao senhor G o - 60 BAKHTINE. p o i s a m e s m a p a l a v r a . d e a m a b i b l i d a d e e d e j ú b i l o . m a s c o m sua p r ó p r i a p a r t i t u r a . . . lá isso é c e r t o ! — c o m o p o d e r i a eu e x p r i m i r esta a m á l g a m a s u r p r e e n - dente d e beleza. 282-6. a n a r r a t i v a é conduzida na t e r c e i r a pessoa. . p o r isso v o u p a r a r .. . m a s j á n ã o é m a i s u m h o m o f o n i a . A o b r a inteira está assim construída. " A m i n h a p e n a n ã o basta p a r a p i n t a r c o m o devia o b a i l e q u e a e x t r a o r - dinária gentileza d o v e l h o d o n o d a casa i m p r o v i s o u . . . f u n c i o n á r i o n u m a r e p a r t i ç ã o pública. ni la r é d u c t i o n d e la distance e n t r e lui e t les personnages. o h l e i t o r e s ! — c o m c o r e s brilhantes e m hábil pincel. 3 8 0 Letras. ela ressoa e m seus o u v i d o s c o m o a v o z z o m b a t e i r a d o outro. 305). RENAUX. C o m o p o d e r i a eu.

307). " o desgraçado senhor G o l i á d k i n S ê n i o r " . 292. 1976 3 8 1 . da história. a situação e m q u e se encontra o h e r ó i desta verídica história" ( p . tinha passado duas h o r a s [ . ele l e v a sua n a r r a t i v a sem a m í n i m a distância s o b r e o f u n d o " .] "O ho- nestíssimo senhor G o l i á d k i n " .. " M a s a f i n a l n ã o m e disse — como t e m passado? — insiste c o m v o z m e l o s a o d e s c o n c e r t a n t e sósia d o nosso h e r ó i " ( p .. Letras. ú n i c o h e r ó i desta n o v e l a v e r í d i c a . 366). Seu n a r r a d o r está na p r o x i m i d a d e i m e d i a t a d o herói e d o a c o n t e c i m e n t o corrente. ] " ( p . jul. 306). . 345). . a sutil p a s s a g e m da n a r r a t i v a e m t e r c e i r a p a r a a p r i m e i r a pessoa: "Contudo. . o b s e r v a ps acontecimentos c o m o u m e s p e c t a d o r i n d i f e r e n t e . 307). a si e à n a r r a t i v a : " A n a r - r a ç ã o d e Dostoievski está s e m p r e p r i v a d a d e p e r s p e c t i v a . "A b e m dizer. . 387). . " o honestíssimo senhor G o l i á d k i n " . o re- gresso de P i e t r u c h k a " (p. a o m e s m o t e m p o p a r o d i a n d o o herói. 352). . p. S. através da b i v o c a l i d a d e da f a l a d o h e r ó i : 61 BAKHTINE.. " o nosso d e s g r a ç a d o h e r ó i " . " O p o b r e senhor Goliádkin" [. m e u s senhores. " E s t e senhor t e m cabeleira p o s t i ç a — pensa o n o s s o h e r ó i " ( p . ] E n q u a n t o es- p e r a . O b s e r v a m o s aqui. 400. P o r q u e n ã o entra? B a s t a r . 310) " O nosso h e r ó i dispôs-se a e s p e r a r tranquilamente. Dostoievski liádkin. E n t ã o o n d e está ele afinal? Coisa estranha! E s t á n o p a t a m a r da escada d e s e r v i ç o d a casa d e Olsuf I v á n o v i t c h . A situação e m q u e se encontra é a m a i s estranha p o s s í v e l " ( p . m e u s s e n h o r e s " .i a d a r u m passo. durante duas horas. c o m o diz B a k h - tine. 374). Observa e nada mais.. a intenção p a r ò d i c a é c l a r a m e n t e p e r c e b i d a . ( p . ele se sentia m u i t o t e n t a d o p e l o cantinho de entrada da casa de Olsuf I v á n o v i t c h . si A l é m disso.s e e n t ã o c o m o há u m a f r o n t e i r a r e a l m e n t e m o v e d i ç a . [ . t r e m e n d o c o m o u m g a t o q u e tives- s e m m e r g u l h a d o e m água f r i a — s e é l í c i t a tal c o m p a r a ç ã o ! — ins- talou-se n o c a r r o ( p . da narrativa. v a i talvez e n t r a r daqui a pouco". p o d i a e n t r a r . 378). d e si c a o leitor. o n d e j á quase n o p r i n c í p i o desta v e r i d i c a história. Curitiba (25): 347 .l h e . " E i s aqui. " o h e r ó i " . O d e s g r a ç a d o s e n h o r G o l i á d k i n S ê n i o r olhou p e l a ú l t i m a v e z a q u e - la g e n t e e as coisas e m v o l t a e. V ê . ( p . e n t r e o n a r r a d o r f a l a n d o da p e r s o n a g e m . RENAUX. M a s é r e a l m e n t e n o estatuto da p e r s o n a g e m q u e v e m o s a p o l i f o n i a e m t o d o o seu alcance. pela g r a d a ç ã o nos a d j e t i v o s usados p a r a d e s c r e v e r o herói: " o s e n h o r G o l i á d k i n " . " N ã o se p o d e pensar e m v i a j a r c o m u m t e m p o destes — dizia p a r a si o nosso desgraçado h e r ó i " (p. " o p o b r e senhor G o l i á d k i n " .

c o m o se tais idéias f o s s e m r e a l m e n t e as suas. basta-nos apenas m e n c i o n a r m a i s alguns itens e m r e l a ç ã o à f u n ç ã o b i v o c a l da f a l a e m Goliádkin. c o m traços específicos. e consi- derada p o r S a p i r c o m o " u m a espécie de g e s t o " que t o m a p a r t e n o " j o g o u : í m i c o t o t a l " da comunicação. Curitiba (251: 347 . m a s isto t o m a a f o r m a de " n ó s m e s m o s " . Rio de Janeiro. O h e r ó i q u e r f a z e r t u d o sozinho. 1976 . até d o m i n a r a d o h e r ó i . 400. é e m v o z baixa: " S e r i a b e m desagradável — disse baixinho para si p r ó p r i o — " (p. Dostoïevski I I . 63 S a p i r t a m b é m a f i r m a q u e " h á na v o z d o in- d i v í d u o u m quê de i n d i c a t i v o da sua p e r s o n a l i d a d e " e q u e a v o z " é d e certa m a n e i r a u m índice s i m b ó l i c o da p e r s o n a l i d a d e t o t a l " e " e m grande parte u m a s i m b o l i z a ç ã o inconsciente da atitude g e r a l da pessoa"^-' A p l i c a n d o estes conceitos à v o z de G o l i á d k i n e de seu duplo. 62 BAKHTINE. 63 SAPIR. 66. 1. s e r v e apenas p a r a atualizar o c o n f l i t o i n - t e r i o r q u e é o v e r d a d e i r o assunto da n o v e l a ) . que n o c o m e ç o d e sua " u s u r p a ç ã o " fala e m v o z baixa. m a s e a p a l a v r a d i v e r g e n t e b i v o c a l que p r e d o m i n a . p. p a r a p e r c e b e r o contraste: A p r i m e i r a v e z que o u v i m o s G o l i á d k i n falar. Basta c o m p a r a r m o s as v o z e s de ambos. " t u e e u " . c o m o p r o j e ç ã o d e sua p e r s o n a l i d a d e d e s d o b r a d a : Ë básico. p o i s o a c o n t e c i m e n t o real n ã o é descrito. p a r a c o m p r e e n d e r m o s o estatuto da p e r s o n a g e m . 0 d i á l o g o p e r m i t e substituir a v o z de o u t r e m p e l a sua p r ó p r i a v o z . Acadêmica. c o m o o p r ó p r i o Goliádkin. c o m o o nível i n f e r i o r e m a i s f u n d a m e n t a l da fala.5 O estatuto da p e r s o n a g e m : 1. 287). 3 ) a submissão a o u t r e m . analisarmos a v o z d e Goliádkin. 68-9. 2) ao lado da i n d i f e r e n ç a simulada. Lingüística como ciencia. a p a l a v r a interiormente dialogizada e a p a l a v r a d o o u t r o r e f r a t a d a . 3 8 2 letras. o b s e r v a B a k h t i n e q u e elas p e r t e n c e m a categorias variadas. m a s esta segunda v o z de Goliádkin. T o d a s estas v o z e s m a n t ê m relações complexas.RENAUX. a o p a s s o q u e g r a - d a t i v a m e n t e sua v o z vai f i c a n d o m a i s f o r t e . n o t a m o s q u e há u m a g r a d a ç ã o ascendente na v o z do duplo. n ã o chega a se f u n - d i r c o m sua p r i m e i r a voz. c o m o se esta a f i r m a ç ã o a v o z baixa fosse necessária para convencê-lo interiormente de que tudo estava bem. A palavra blvocal "divergente" de Goliádkin F a l a n d o dos d i f e r e n t e s tipos de p a l a v r a s na p r o s a d e Dostoievski. 1969. f o r n e c e n d o m a t é r i a p a r a u m a intriga. S. p. f i c a r invisível. Edward. p r o c u r a n d o c o n v e n c e r a si m e s m o e t a m b é m a o u - t r e m . surpreendendo a alternância b r u s - ca d e d i f e r e n t e s tipos de palavras-62 Já h a v e n d o B a k h t i n e e x p l o r a d o a p a l a v r a n o m o n ó l o g o d o h e r ó i e a p a l a v r a d i v e r g e n t e e m O D u p l o ( c u j o s p o n t o s principais s e r i a m : 1) o dis- curso de G o l i á d k i n p r o c u r a f i n g i r sua inteira independência e m r e l a ç ã o à p a l a v r a d e o u t r e m . f e c h a d a e satisfeita. jul.. 264. hesitante e t í m i d a . v e m a v o n t a d e de se esconder. p. 61 Ibid.

m e que os nossos caminhos são d i f e r e n t e s . que ficava sempre atrapalhado quando era necessário dirigir-se a alguém para qualquer assunto pessoal. jul. a o que Goliádkin murmura: " T e m o s r o v a história!" Posteriormente. pois o duplo. A o encontrar o duplo pela primeira vez. RENAUX. 332). perde a v o z e vice-versa. S. que vai aos poucos se desintegrando c o m as diversas "destronizações" q u e vai sofrendo: ao se queixar a Anton Antônovitch sobre a chegada d o duplo na repartição. pergunta a Goliádkin " Q u e deseja d e m i m " . parece que o herói f a z u m e s f o r ç o e. . após haver falado ao duplo num " m u r m ú r i o " . " u m pouco estupefato e u m tanto assustado". . d e - pois. após o " d e s a f í o " d o duplo ao lhe perguntar " D o r m i u b e m esta noite?" ( p . murmura " e n t r e dentes palavras ininteligíveis" ( p . Mas j á no p r ó x i m o encontro na repartição. 313). este lhe fala " c o m u m a v o z l á p i d a e sacudida. . constituía sempre para ele u m v e r d a - deiro obstáculo. não compreende nada. a v o z de Goliádkin diminui e au- menta e m função do p o d e r d e sua personalidade. enquanto o duplo. Goliádkin lhe fala c o m voz fraca: "Senhor — disse p o r f i m o senhor Goliádkin c o m u m a voz fraca que parecia um m u r - múrio e sem ousar olhar para o a m i g o — p a r e c e . I n v e r t e m . depois m e poderá f a l a r ! " ( p . balbucía umas palavras ininteligíveis. incipiente. a atitude d o duplo mudou. " ( p . quisesse ter a bondade de o u v i r . . o duplo lhe responde: "Desculpe-me. 326). 1976 3 8 3 . . c o m o sua própria voz. Mas imediatamente o duplo readquire sua anterior as- cendência sobre Goliádkin. quando esta enfraquece. 26. não muito clara" ( p . E. através da ironia: 65 Cf. . e depois. a o que o herói responde: " S e ainda tem um resto de vergonha. 65 também para essa ocasião não tinha preparado a primeira frase. " ( p . a \oz de Goliádkin " m a l se ouvia" ao perguntar a Pietruchka: " O n d e está ele? Onde está?". Letras. espero que o senhor se l e m b r e de nossas relações de o n t e m " ( p .s e aqui p o r um instante os papéis. 292). este readquire um p o u c o sua f o r ç a e agarra o duplo pela gola d o casaco. Curitiba 125): 347 . " . quando o duplo se aproxima dele. ainda tímido. 340). gagueja e chora. o que. Após o duplo ter d o r m i d o em sua casa e sumido na manhã seguinte. após u m curto s i - lêncio. "apontando para o lugar onde na véspera o hóspede se tinha deitado" ( p . p. 325). . Fica muito atrapalhado. certamente palavras de desculpa. puxa uma cadeira e senta-se" (p. 337) e após o beliscão e piparotes que ele dá e m Goliádkin. . pede-lhe desculpas pela sua "ousadia" e diz: " S e o senhor I á k o v P i e t r ó v i t c h . 333). Dostoïevski i A o vestir as botas novas. na saída. ao ser interpelado p o r Goliádkin. Curiosamente. e. Neste m e s m o episódio. à saída da repartição. " c o m voz fraca". Goliádkin fala sempre baixo e atrapalha-se ao ter de f a l a r c o m al- guém que não seja seu criado: O senhor Goliádkin. acrescenta " e m t o m severo": "Julgo que n ã o é preciso dizer mais n a d a .m e . c o m o não sabe o que há de dizer. 289). em circunstâncias tais. 400.

Mas. D o r m i bem. meus Deus! E o endereço? Com os diabos! Deu-te?" ( p . Seu duplo o domina completamente agora. Mas f a ç o questão dizer-lhe que o senhor se vai dar m a l c o m a sua b r i n c a d e i r a . "baixando u m pouco a v o z " : " c l a r o que seria m u i t o m e l h o r que nada disto tivesse aconteci- do. à saída da taberna e m que se encontrava p o u c o d e p o i s . p õ e ainda mais e m contraste sua voz normalmente fraca e entrecortada: " P a t i f e — gritou o senhor Goliádkin. . espero q u e . o duplo e Goliádkin se desa- f i a m mutuamente. cavalheiro. 364). O m e s m o acontece ao res- ponder à confissão d e Pietruchka d e que iria para casa de pessoas " q u e não têm embrulhadas nem duplos". " ( p . . Os gritos que dirige a Pietruchka. lhe responde " e m voz quase inaudível": "Ah. . G o - liádkin assustado. o " t o m conciliador" de Goliádkin se transforma aos poucos numa v o z "cada vez mais f r a c a " ( p . 361). . . . d o r m i . diz u m pouco depois a seu a m i g o . ao ouvir Pietruchka lhe explicar o que Vakramáiev lhe havia dito. Dostoïevski Ah. mas é o duplo que leva a melhor: 66 Cí. 3 8 4 letras. — Quem lhe disse isso? Isso é os meus inimigos d i z e m ! . " . vai p e r - dendo sua auto-confiança. A mesma variação observamos também ao Goliádkin se dirigir "resolu- tamente. queres dar cabo de m i m ? " ( p . ( p . — respondeu c o m v o z entrecortada o outro senhor Goliádkin. o rosto tornou-se v e r m e l h o e duas lágrimas apareceram a brilhar-lhe nas pes- tanas": " E s p e r o — disse baixinho e c o m v o z trêmula — espero que a o menos o senhor. ( p . S. 367). — Porcalhão. jul. Sua voz também é "hesitante" ao perguntar a o empregado quanto devia. 1976 . esca- pando-se das mãos d o verdadeiro senhor Goliádkin. quando este não acorda. à p e r - gunta feita " c o m voz melosa" pelo "desconcertante sósia d o nosso herói". Goliádkin diz. A o dialogarem francamente n o café. _ A o pensar consigo m e s m o sobre sua situação. até que " a v o z d o senhor Goliádkin tremeu. c o m " u m a v o z que m a l se o u v i a " : " V a i dor- mir. RENAUX. espantado da sua própria c o r a g e m " ao chefe Andriéi Filípovitch. 66 Ë também " f r a c a e triste" a sua voz a o receber o sobrescrito oficial que lhe comunicava sua demissão d o emprego: "Já sei. Amanhã conversaremos" ( p . 370). Aos poucos. dizendo-lhe "Cavalheiro. j á sei t u d o " ( p . para pedir-lhe licença para f a l a r c o m Sua Excelência. . 366) e. ó t i m o ! E então? Dormiu b e m ? A raiva paralisou p o r um m o m e n t o a língua d o senhor Giliádkin. Anton Antônovitch queira ouvir-me e julgar o meu caso". m a r o t o . 340). À saída da repartição. N o encontro final e m casa d o ministro. 347). 342). p. . 400. que não houvesse gêmeos n e n h u n s . 25. Curitiba (251: 347 . . 348). G o - liádkin o persegue. não espere coisa nenhuma" ( p . . a o que o duplo responde: " N ã o . Goliádkin responde " e m v o z baixa": " D e v e z e m quando tenho tosse" ( p . 348).

Letras. jul. p r o j e t a r i a m a m a i o r ou m e n o r ascendência da personalidade de um sobre a d o outro. 300) "idiota". Curitiba (251: 347 . p o r - calhão" ( p . 357). . 308) " O melhor é esperar e s o f r e r " ( p . após a "destroni- z a ç ã o " de Goliádkin. T í m i d a e entrecortada é a voz de Goliádkin ao se despedir de todos. c o m o "linguagem ou estilo elevado". RENAUX. — Assim. o duplo é " o m a - landro". e os clichês funcionam "às avessas" para ele. a p é r f i d a voz d o duplo soa c o m o "falsete". . o s o b r e t u d o . 387). 347). " A g o r a ris-te. seu chefe é um " u r s o " ( p . " A natureza assim quis e sabe o que f a z " ( p . p o - deriam ser contrapostos à "linguagem l i v r e e familiar o u estilo b a i x o " — outra característica da Menipcia — de q u e Goliádkin f a z uso. os jesuítas eram "uns perfeitos cretinos. "Oh. 1976 3 8 5 . Que fossem todos a o dia- b o ! " ( p . a gradação das vozes observada em Goliádkin e e m seu duplo. e m Goliádkin. pois o duplo sentido dos clichês. E. mete-lhe o sobretudo pela cabeça abaixo: " O sobretudo. ] nas minhas relações o f i c i a i s " ( p . 388). . 330). é chamada de o " d i a b o da v e l h a " ( p . a natureza h u m a n a ! . 377). 298). " p a r v o " ( p . 331). Dostoïevski O seu ar resoluto. o limite entre m o n ó l o g o e diálogo. Poderíamos ainda mencionar os clichês que Goliádkin emprega. " m a l a n d r o " ( p . etc. 307). "tremendo e procurando. 307). amanhã hás de c h o r a r " ( p . antes de entrar na carruagem que o levará a o m a n i c ô m i o : " E s p e r o não ter f e i t o nada d e censurável [ . canalha. quando. 324). 340). . desfazendo-os: o m é d i c o é u m " m e d i c a s t r o " . parodiando a v o z de G o - liádkin. principalmente a o se i e f e r i r aos superiores. — Dê-me licença que lhe pergunte — disse. pela sua submissão e humil- dade. 400. c o m o ' Quem sabe esperar alcança sempre o que d e s e j a " ( p . S. 328) por ter se preocupado c o m o duplo. 377). . entre pensar e falar e m voz baixa. pois além d e enfatizarem a falta d e origina- lidade de idéias e m Goliádkin. " i m b e - cil". dona da pensão onde ele morara. Estes clichês. "Contanto que não incomode ninguém" ( p . Estas frases estereotipadas também exercem dupla função. dirigindo-se agora a o seu rival — diante de quem é que o senhor julga que está f a - lando? Diante de quem está o senhor? E m casa de quem? O senhor Goliádkin Júnior estava v e r m e l h o de c o m o ç ã o e tre- m i a de indignação e de cólera. c o m o t a m - b é m o é a o dirigir-se a Krestian Ivánovitch na carruagem: " . ' S a i r e i vencedor pela resignação" ( p . I v â n Semiônovitch é um " m a c a c o velho". " O descaramento não aproveita a ninguém". . p o r outro lado. m o s t r a m t a m b é m o lado paródico dessas a f i r - mações. Tinha lágrima nos olhos ( p . enquanto a velha alemã. . os seus gestos. d o m e u m e l h o r a m i g o ! " ( p . p r o v o c a r a piedade d o terrível Krestian I v á n o v i t c h " ( p . o " f a l s á r i o " e até a si p r ó p r i o Goliádkin acusa d e " i m b e c i l " ( p . 324). tudo nele significava que se sentia senhor dos seus direitos. . e m relação a o p r ó p r i o Goliádkin é evidente. 324). além de " m a r o t o " e "beberrão". Pietruchka é um "patife. C o m o somos covardes! T e r m e d o é a nossa sina" ( p . eu creio que não f i z mal nenhum". e Vakramáiev ë "estúpido" e " b u r r o " ( p . 356). além de ambigiiízarem.

RENAUX. q u e o h e r ó i se r e v e l a a nós e m toda sua c o m p l e x i d a d e . m a i s o f a t o de estar descalço ( p . 314). c o m o ele m e s m o o diz ( " s o u u m h o m e m igual aos o u t r o s " p . 295). 292).l o a a l g u é m que. jul. porque é através da fala. que n ã o usa " m á s c a r a s " ( p . c o m galões dourados. p. Curitiba (25): 347 — 400. 289). c o m u m " c o u p d'oeil d e côté". — c o m o dos c o n v i d a d o s na festa de Olsuf I v á n o v i t c h ( " E s - te senhor t e m c a b e l e i r a p o s t i ç a " ( p . bonita. elas t a m b é m o são na b o c a de Pietruchka. S. 1976 . a l é m das b o t a s novas ( p . A caraavalizaçfio na máscara de Goliádkin e d o duplo À aparência f í s i c a d e G o l i á d k i n . a l é m dos c o m e n t a d o s p o r B a k t i n e s e r v i r i a m pois. p. T a m b é m as ridicularizações q u e G o l i á d - kin f a z dos o u t r o s . 14. r e v e l a m sua v a i d a d e e m q u e r e r ser m a i s d o q u e os o u t r o s . O d u p l o p o r sua vez. u m a g r a v a t a de seda f u r t a c o r e s e a f l a m e n t e casaca d e seu u n i - f o r m e . c o r r e t o . Pietruchka. 68 ainda f a l t a a c r e s - centar seus " o l h o s c i n z e n t o s " q u e b r i l h a m de m a n e i r a estranha ao f a l a r c o m K r e s t i a n I v á n o v i t c h ( p . chapéu de p l u m a s e espada na cinta. G o l i á d k i n se considera "um homem igual aos outros" ( p . 292 e 313). 288-9). e m tudo i d ê n t i c o a G o l i á d k i n (p. contrasta c o m sua c o r e c o m seus guizos e brazões. 295). t a m b é m está f a n t a s i a d o d o s pés à cabeça. sua c a l v i c i e e sua m i o p i a . A c a r r u a g e m azul de q u e a m b o s se s e r v e m . honesto. c o m o aspjecto c o l o r i d o dos t r a j e s de ambos. não tendo 67 GROSSMAN. q u e " n ã o p r o c u r a f a z e r m a l a n i n g u é m " ( p . p a r a i) à P e r s p e c t i v a N i é v s k i . Dostoievski P o r o u t r o lado. que s e m - pre repete as ordens d o p a t r ã o . se as p a l a v r a s de G o l i á d k i n s ã o ironizadas na b o c a d o d u p l o e na p r ó p r i a narrativa. 317). G r o s s m a n t a m b é m c o m e n t a que D o s t o i é v s k i introduziu o " d i á l o g o i n t e r i o r " n o r o m a n c e e x a t a m e n t e p a r a r e v e l a r a " b i - f u r c a ç ã o da consciência. Dostoievski artista. q u e n ã o lhe p e r m i t e o l h a r ao l o n g e ( p . p o r sua vez. Seu " t r a v e s t i s s e m e n t " é c o m p l e t o . a f r a g m e n t a ç ã o da p e r s o n a g e m p r i n c i p a l " . seus t r a j e s entretanto. 301). -Éstes poucos e l e m e n t o s que f a z e m p a r t e da p a l a v r a b i v o c a l " d i v e r g e n t e " na n a r r a t i v a de O Duplo. desde as calças quase novas. a l é m de seu andar l e v e m e n t e ritmado. 52. S e estes traços r e a l m e n t e n ã o p o d e r i a m f a z e r d e l e a l g u é m q u e se sobressaísse dos demais. 68 Cí. 3 8 6 Letras. u m a camisa c o m b o t õ e s dourados. 2. E n f i m . c o m u m a l i b r é m u i t o m a i o r d o q u e sua altura. 325). da qual " o r o s t o ensoñado. para revelar a íntima relação entre palavra-personagem. "simples. 310) — p o d e r i a m ser contrapostas à sua própria ridicularização na f r e n t e dos outros. também usa roupas grandes demais: " P o d i a . c o r d i a l " ( p . u m c o l ê t e d e f l o r i n h a s de c o r cla- ra.c e r r a d o s " j á f o r a m c o m e n t a d o s . e " e s t a f o r m a rebuscada d e auto-análise" j á é estabelecida p e l o " s i s t e m a estilístico de O sósia". c o m o B a k t i n e chama a p a l a v r a de o u t r e m r e f l e t i d a . cada v e z q u e d e v e t o m a r u m a atitude ou se i m p o r . através das diversas categorias de palavras.s e c o m p a r á . u m t a n t o g a s t o " e os " o l h o s s e m i .

A o encarar o médico. tanto os colegas na repartição. Andriéi Filípovitch. o olhava t a m b é m . 400. Depois deu-se u m a esquisita mudança na atitude d o senhor Goliádkin. deveria ter-se " m o s t r a d o natural. 288). quase c o m o se estivesse hipnotizando-o pela reação que o médico tem: Krestian Ivánovitch parecia pregado na cadeira. sempre que observa- do. Sua indecisão t o m a . vestisse as de outra pessoa: as mangas são compridas de- mais. Durante momentos ficaram os dois silenciosos. Gosta d e observar os outros "disfarçadamente". que p o r sua vez. 290) iniciando assim um processo de desagregação da personalidade que atinge seu ápice ao encontrar seu duplo. a mesma aparência. Ambos t ê m o m e s m o nome.s e de novo aparente quando hesita diante da casa do médico. 291).m e a conhecer ou f a ç o de conta que não sou eu?" ( p . insignificante. Goliádkin. olha- va c o m uns olhos muito espantados o cliente. Sua conduta inconseqüente é também aparente na inconsistência de seus gestos: lança olhares provocantes aos outros. 290). trabalham na mesma repar- tição. os d o duplo •J são propositadamente: Goliádkin vai "descalço e c o m a roupa c o m que tinha d o r m i d o " até a janela de seu quarto. enquanto vai " e m pontas de pés" à mesa para exa- minar seu tesouro. p r ó p r i o das pessoas duma certa condição" ( p . sem deixarem de se f i t a r . ¡út. não são de Petersburgo. procura sumir-se" ( p . os lábios se agitam e os músculos e traços d o rosto se movem. " D e v o cumprimentar ou não? D o u . encolhe-se. paródico. opera-se uma estranha transformação nele. d e repente. a semelhança física entre ambos não é corroborada pelas suas personalidades: enquanto Goliádkin é submisso. Dostoievski roupas próprias. Se os gestos de Goliádkin são "carnavalescos" " m a l g r é soi". . Estupefato. imóveis. ter t o m a d o o ~ a r superior e desempoeirado. Arrepende-se d o que fez. . P o r fim o m é d i c o ergueu-se puxando d e l e v e o paletó d o senhor Goliádkin. covarde. " ( p . na escada da casa de Olsuf Ivánovitch: Letras. ainda pensa: " N ã o seria melhor deixar para amanhã? N ã o é absolutamente necessário que seja b o j e . Os lábios c o - meçaram a tremer-lhe. falso. q u e contrastam c o m sua afe- tada humildade. a cintura fica-lhe muito acima. desatou a chorar ( p . Curitiba 125): 347 . tão bem escondido " n o cantinho" da gaveta. de não ter cumprimentado o chefe. S. 287). ao observar Pie- truchka. o queixo a m e x e r e. Puxa constantemente o colete que está curto. Entretanto. para v e r o que estava aconte- cendo no pátio ( p . seu duplo é exatamente seu contrário — bajulador. Seus gestos constantemente contradizem suas idéias. e m e s m o ao puxar o cordão da campainha. 1976 387 . malévolo. 295). se b e m que honestíssimo e bom. RENAUX. c o m o ele p r ó p r i o sempre queria se esconder ( p . passeando de car- í u a g e m . quanto em casa. substitui seu ar de alegria p o r um aspecto compenetrado e grave (290) e sua indecisão é revelada ao ser reconhecido p e l o chefe. ao fingir 1er papéis. 326). seus olhos brilham. A l g o semelhante ocorre ao Goliádkin f i t a r seu chefe.

p o r "duas ou três v e z e s a aba d o casaco d o d e s c o n h e c i d o " lhe roça o nariz ao e n t r a r e m sua casa ( p . 71 Ci. 301-2) c o n t r a s t a m c o m sua v e r m e l h i d ã o . 400. assim c o m o " a q u e l e s olhares d a r d e - j a n t e s que. d o alto. Q u e b r a . q u a n d o este d o r m e e m sua casa.s e desta m a n e i r a o m o n o l ó g i c o da narrativa. e n - q u a n t o sua f a l t a de destreza a o t e n t a r d a n ç a r c o m K l a r a Olsúfievna. é " c a r n a v a l e s c o " p o r p r e m e d i t a ç ã o : os beliscões..s e a pó.s e . jul.s e n u m buraco. p. r e f l e t e - -se nos m o v i m e n t o s d o duplo. " Q u e f i g u r a t r i s t e ! P a r e c e u m m e n d i g o ! " ( p . p a r e c i a prestes a cair s o b r e e l e . 386) nos lábios d o d u p l o e é m a i s uma v e z p a r o d i a d o n o " s o r r i s o m a l d i s s i m u l a d o " d e P i e t r u c h k a ( p . p. 386). . 3 8 8 lelras. f a z c o m q u e a personalidade deste ú l t i m o v á se desintegrando. 27. O duplo. " ( p . Parecia q u e d e u m m o m e n t o p a r a o o u t r o se i a p ô r a d a n ç a r . a o contrário. c o m o a f a s t a m e n t o d e G o l i á d k i n da s o c i e d a d e : nada lhe sobrou. 37. D e u m pulo. o " b e i j o d e Judas" q u e l h e dá. segundo acreditava. 309). p o i s n o final d o r o m a n c e a u s u r - p a ç ã o do d u p l o c o m p l e t a . 24. A n d r i é i F i l í p o v i t c h olhou à sua v o l t a c o m inquietação. 303). d e u u m p a s s o p a r a a f r e n t e e A n d r i é i F i l í p o v i t c h r e c u o u . o casaco q u e ele l h e m e t e cabeça abaixo. Dostoievski O senhor G o l i á d k i n continuava e m b a i x o . Curitiba 125): 347 . S e G o l i á d k i n " e n t e r r a o chapéu até as o r e l h a s " q u a n d o o d u p l o o encara. o u s e j a . de r e d u z i r . t r a n s f o r m a n d o n o v a m e n t e a tragédia e m p a r ó d i a da tragédia. 162. O " s o r r i s o s a t i s f e i t o " d e G o l i á d k i n é r e f l e t i d o c-bliquamente c o m o " s o r r i s o m a u " ( p . seu olhar baixo. E as p a l a v r a s de G o l i á d k i n a r e s p e i t o d e seu duplo. Lembremo-nos também de que o hipnotismo é explorado por Dostoievski. o senhor G o l i á d k i n t o r n o u a subir a escada. sua atitude canhestra a o tentar f a l a r e m p ú b l i c o ( p . até e l e ser " a n i q u i l a d o pelos i n i m i g o s " . Dostoievski artista) 70 Cf. 71 tudo r e v e l a a intenção m a l é v o l a d o senhor G o l i á d k i n n ú m e r o I I e m r e l a ç ã o a o senhor G o l i á d k i n n ú m e r o I . a t r a v é s da a m b i g ü i - dade q u e a c a m a v a l i z a ç ã o traz a todas as ações d o h e r ó i e d e seu duplo. a q u e c i m e n t o e t u d o 69 Cf. a f a m i l i a r i d a d e c o m q u e trata Goliádkin. 1976 . S.RENAUX. c o m luz. 70 q u a n d o as coisas n ã o l h e c o r r e m b e m . q u e " d a v a passinhos p o r e n t r e os g r u p o s das pessoas. A n d r i é i F i l í p o v i t c h c o r r e u a t o d a pressa e f e c h o u a p o r t a atrás d e si ( p . d e esconder-se a si p r ó p r i o . . e m c o m é d i a . junto com os fenômenos de dupla persona- lidade e manias. Assim. conorme diz GROSSMAN. os e m p u r r õ e s p o r detrás. j á p o r duas vezes o t i n h a m s a l v o " ( p . na escada. O senhor G o l i á d k i n subiu dois d e g r a u s . a n ã o ser t e r " c a s a d e graça. as ações antitéticas m a s c o m p l e m e n t a r e s d e Goliádkin d e " s e r c o m o os o u t r o s " e a o m e s m o t e m p o suas a m b i ç õ e s sociais. T o d a s as a ç õ e s e g e s t o s d o duplo são a m p l i f i c a d o s e distorcidos p a r o d i c a m e n t e . em O Sósia (p. 332) são dirigidas a si m e s m o . 6» Seu " a r i m p o r t a n t e " a o e n c o n t r a r colegas contrasta c o m seu d e s e j o de m e t e r . e m r e l a ç ã o a Goliádkin. p. piparotes. assim c o m o o f o r a m suas p a l a v r a s . sua v a i d a d e que é p r o j e t a d a n o d u p l o — ele é t u d o q u e G o l i á d k i n gostaria d e ser — e r e f l e t i d a d e v o l t a a t r a v é s deste. Quase s e m d a r p o r isso. Seu chefe. 317). até ser v e n c i d a p e l a d o duplo. 288). e m Goliádkin.

A o ser expulso da f e s t a e d e s c o b r i r q u e n ã o consegue t e r sucesso social e que a g r a t i f i c a ç ã o de seu e g o a m b i c i o s o n ã o é m a i s possível. u m hipócrita. gestos. se p a r a T e m i r a Pachmuss a v a i d a d e n ã o r e a l i z a d a seria a causa p r i m e i r a p a r a o a p a r e c i m e n t o d o duplo. Temira. ações e desejos. Summer 1963. II. S e g u n d o T e m i r a Pachmuss. ¡ut. A c r e d i t a m o s p o d e r i r u m p o u c o m a i s além. c o m o t a m b é m a r e v e l a r a m os o u t r o s aspectos da n a r r a t i v a . S. O d u p l o é u m intriguista. t e n t a n d o a p r o x i m a r o s i m b o l i s m o i n e r e n t e a t o d o s os o b j e t o s . como estado de máxima destruição. l e v a n d o e m consideração a ambivalência c o m q u e o p r ó p r i o Dostoiéski m a r c o u a p e r s o - nalidade f r a g m e n t a d a d e seu h e r ó i . u m a i n c a r n a ç ã o d e t u d o q u e G o l i á d k i n n ã o se p e r m i t e s e r . está até p r e p a r a d o a d e g r a d a r . 173-4. c u j a s " a m b i ç õ e s e s e n t i m e n t o s " são calcados e d e s p r e z a d o s p o r todos. l i s o n j a e a i n j ú r i a . 388). c u j o sentido negativo relacionado com morte. t e r m i n a c o m G o l i á d k i n t r a n s f o r m a d o n u m " p o b r e d i a b o " .2. v e m o s m a i s u m a v e z c o m o o estatuto da p e r s o n a g e m . 1976 3 8 9 . c o n s e g u e sair d o d i l e m a r e c u s a n d o c o n s i d e r a r a v a i d a d e c o m o sendo sua. a c h a m o s q u e esta i n t e r p r e t a ç ã o se- ria u m p o u c o simplista. é re- 72 FACHMUSS.2 A duplicidade e seus d e r i v a d o s n o s i m b o l i s m o d e O D u p l o : II. 400. — e q u e coaduna p e r f e i t a m e n t e d e n t r o d o e s q u e m a d e c a r n a v a l i z a ç ã o d e B a k h t i - ne ( a s i m a g e n s carnavalescas t ê m n a t u r e z a a m b i v a l e n t e . a h i s t ó r i a que. r e v e l a p e r f e i t a m e n t e a p e r s o n a l i d a - de f r a g m e n t a d a d o herói. l e v a d o ao d e s e s p ê r o e finalmente l e v a d o a u m asilo d e l o u c o s . ten- d o d e escolher e n t r e apatia ou suicídio. o q u e é u m t o r m e n t o p a r a o e g o d e G o l i á d k i n .l h e sob a f o r m a de u m o u t r o ser q u e se levanta contra e l e . i n t r i g a s e a f e t a ç ã o de prendas sociais.1 No cenário: O quarto de Goliádkin é caracterizado como cheio de pó. c o m o n o s c o n t o s d e f a d a s . a j u v e n t u d e e a decrepitude. Madison. Curitiba 125): 347 . Letras. a b o b a g e m e a sabedoria 73). E. ( p . Mas o d u p l o é o m a i s f o r t e e G o l i á d k i n é d e r r o t a d o . u m carreirista s e m escrúpulos. v ê s e r e m f ú t e i s seus e s f o r ç o s d e b a j u l a ç ã o . E l e luta c o m o d u p l o e t e n t a apaziguá-lo. RENAUX. a t r a - vés da f u n ç ã o b i v o c a l da f a l a e através d a m á s c a r a d e Goliádkin. Assim. c o m sua aparência física. o a l t o e o baixo.s e ante o duplo. reunindo os dois p o l o s da m u d a n ç a e da crise: o n a s c i m e n t o e a m o r t e . p. Goliádkin. a f a c e e o verso. 7(2):143-4. elas são s e m p r e duplas. 339). 73 BAKHTINE. a b e n ç ã o e a maldição. The Slavic and East European Journal. — d o c o n t e x t o d e duplicidade e f r a g m e n t a ç ã o da estrutura. D o s t o i é v s k i desenvolve o tema da vaidade c m O D u p l o c o m o " a n e v i l m a n i f e s t a t i o n o f man's a n i m a l s e l f " e Goliádkin. The theme oí vanity in Dostoievsky* works. E l e n ã o consegue r e f r e a r seus d e s e j o s d e igualar seus superiores e estes d e s e j o s a p a r e c e m . Dostoïevski q u e é p r e c i s o " ( p . d e v e r i a ter t e r m i n a d o c o m tun " t o d o s v i v i a m c o n t e n t e s e felizes". p a r a c h e g a r m o s a u m a i n t e r - pretação de O Duplo um pouco mais aprofundada. se b e m q u e p e r f e i t a m e n t e aceitável. p a r a Goliádkin. c u j a única a m b i ç ã o é ser a c e i t o e a d m i r a d o p o r colegas e superiores. 72 Finalizando.

associados c o m o estào aos buracos e à v o n t a d e d e s u m i r d e G o l i á d k i n . a r e p a r t i ç ã o e a f e s t a ( i n f e r n o . c o m a r insidioso. ' o local o n d e G o l i á d k i n se encontra c o r r e n t e m e n t e : à entrada da festa. é s í m b o l o da m u l t i p l i c i d a d e da alma. U m b r a l : s í m b o l o d e transição. d o escritório. C o n s i d e r a n d o p o r t a n t o a casa. C o m o o eco. nos f a z e m r e l a c i o n á . 160): o a m b i e n t e m e s q u i n h o de G o l i á d k i n c o r r e s p o n d e r i a a u m a situação n ã o d e s e j a d a ( i n - f e r n o ) . c o m o u m a lâmina que r e p r o d u z as i m a g e n s e as c o n t é m e a b - s o r v e . 1976 390 . que separa d o i s m u n d o s .s e . a r e p a r t i ç ã o a o lugar o n d e ele atua ( t e r r a ) e a f e s t a seria a s u b l i m a - r ã o d e t o d o s seus d e s e j o s ( c é u ) . e m f o r m a de cerca. A escada. terra e c é u ) .i a a t é relacionar os três n í - veis céu. ela f i g u r a a ruptura d e nível q u e f a z p o s s í v e l o p a s s o d e u m m u n d o a o u t r o . os c r i a d o s na casa de Olsuf . o q u e eqüivaleria. ligados pela escada.l a a u m dos s i m b o l i s m o s desta c o r ambitendente. nas n o t a s e até na libré alugada de Pietruchka. associada a o pó. pois a transposição d o u m b r a l lhe traz humilhações e d i f i c u l d a d e s . Dostoïevski alçado ainda m a i s pela pouca luz ( f o r ç a espiritual. 343 e 376)". S. e m q u e o h e r ó i é p r o v o c a d o e p o s t o à p r o v a ( p . c o m o q u a r t o . e n g l o b a idéias d e ascensão e c o m u n i c a ç ã o e n t r e os d i v e r s o s níveis d e v e r t i c a l i d a d e e. Goliádkin s e m p r e espera d o l a d o d e f o r a .RENAUX. nas r a m a g e n s d o divã. deste m o d o p r o j e t a n d o a d i f i - culdade d e c o m u n i c a ç ã o q u e ele t e m p a r a c o m os o u t r o s e a d i f i c u l d a d e de " s u b i r " social e p r o f i s s i o n a l m e n t e . Goliádkin. u m a " m u r a l h a " q u e o p r o t e j a . A l é m disso. v ê . P o r t a s e espelhos: G o l i á d k i n diversas vezes v ê o duplo " n o m e i o da porta que supunha ser u m e s p e l h o ( p . a m o r a d i a de Goliádkin c o m o i d e n t i f i c a d a c o m seu c o r p o e espírito. A s s i m t a m b é m os cantos. O espelho. a o " f a n t á s t i c o " . a imobilidade. c r i a d o r a ) q u e p e n e t r a p e - las janelas embaciadas.s e a estreita r e l a ç ã o e n t r e a m b o s : G o l i á d k i n f i s i c a m e n t e g a s t o e m e n t a l m e n t e e m estado de d e s a g r e - g a ç ã o e seus aposentos e m p o e i r a d o s e s o m b r i o s . c o m o s í m b o l o Ja i m a g i n a ç ã o ou da consciência. a c o m u n i c a ç ã o e n t r e céu. M u r o : s í m b o l o da i m p o s s i b i l i d a d e d e transir a o e x t e r i o r . q u e é a c o r da v e g e t a ç ã o m a s t a m - b é m dos c a d á v e r e s . a fim d e o b s e r v a r os outros. c o m o j á m e n c i o n a d o . na c a r t e i r a usada. da casa d o m é d i c o . é s í m b o l o dos g ê m e o s — tese a antítese — e a p a r e c e e m m i t o s c o m o porta pela qual a a l m a se p o d e dissociar e " p a s s a r " a o o u t r o lado. de sua m o b i l i d a d e c a d a p t a ç ã o aos o b j e t o s q u e a v i s i t a m e r e t ê m seu interesse. Curitiba (251: 347 . s e m q u e s e j a v i s t o . é também visto c o m sentimento Ambivalente. O s espelhos 390 Letras. A incidência de c o r v e r d e nas p a r e d e s sujas. e x e r c e m p a p e l i m p o r t a n t e na caracterização de G o l i á d k i n . c o m sentido psicológico. j á t ã o b e m caracterizada p o r G r o s s m a n c o m o local d e cenas penosas. P o d e r . d o m i n i s t r o . E assim c o m o os dragões e deidades g u a r d a m o umbral. assegurando-nos u m v a l o r p r i m o r d i a l d o ser. capacitada p a r a r e p r o d u z i r r e f l e x o s d o m u n d o v i s í v e l e m sua realidade formal. G o l i á d k i n s e m p r e t e v e d i f i c u l d a d e e m subir q u a l q u e r escada " q u e n á o f o s s e a sua". p a r a B a c h e l a r d são o m a i s s ó r d i d o dos refúgios. que. terra e i n f e r n o . jul. 400. na Menipéia. p r o - cura s e m p r e u m lugar escondido. terra e i n f e r n o . t e m c a r á t e r de p r o t e ç ã o .: d o m i n i s t r o recusam a entrada de G o l i á d k i n . n o conto.

em casa d o ministro. que o senhor Goliádkin supusera ser um espelho. V I ) . e da porta. local em que Goliádkin parece sempre que vai cair. local de sua luta c o m o duplo. a inteligência e vontade. . apoiado à amurada e m i r a n d o nas águas negras d o r i o . no restaurante. " s e m se v o l t a r " ( p . se identifica c o m o país dos mortos. refletindo seu aspecto físico e sua alma (ensonado. Mais tarde corre a toda velocidade. há uma relação simbólica d o c a r r o c o m o ser humano. ou sobre o qual se sente suspenso. equivale. 400. p o r definição. do duplo. o corpo e o pensamento relativo a coisas terrestres. c o m o que atraído p e l o duplo. de aniquilamento. c o m o j á acontecera uma outra vez. que o atira f o r a dela. a mudança ou o d e s e j o de mudança. apareceu o tal [ . sente-se co- m o alguém "sobre quem. O estranho é o eixo e m t o r - no d o qual Goliádkin gira. após a chegada do duplo ( c a p . pois. Esta ambigüidade espelho-porta. . O abismo. S. de desaparecer. umbral). o que novamente está relacionado c o m o desejo dc morrer. é a m o r t e . O passo da ponte é a transição de um estado a outro. mas t a m b é m é. épocas da vida. estados d o ser. A ponte simboliza sempre o trespasse de um estado a outro. evidenciam claramente a relação d o espelho. c o m o vimos. 376). 316). 1976 3 9 1 . pela sua dualidade c o m o símbolo de profundidade c d o inferior. RENAUX. de Goliádkin. a o inconsciente: Goliádkin é o b r i g a d o a se voltar. p r o j e t a n d o o d e s e j o de m u - dança. uma relação entre a carruagem c o m o ser hu- mano. Este simbolismo coaduna-se perfeita- mente c o m o uso que Dostoiévski dá à ponte no conto. p o r uma brincadeira de mau gosto. outros tivesses fixado u m espelho". "parece-lhe que cai num abismo". "na porta que dava para a sala vizinha que o nosso herói supunha ser um espe- lho [ . na repartição. e olha "pelas costas" tal pessoa. pois a transmutação j á se deu. Goliádkin passa a ser passageiro passivo. 316) mas j á é tarde. associando o sentido do p r i m e i r o c o m o do segundo. ¡ul. ] estava um h o m e m " ( p . ( p o r t a c o - mo lugar de trânsito. "sente-se suspenso sobre um a b i s m o " ( p . 343): o duplo . se no começo Goliádkin é o " d o n o " dela. "destro- nizando-o". realmente. . c o m o r e f l e x o da alma — o duplo. olhos semi-cerrados). Haveria então. 316). "a terra se fende e o arrasta para a m o r t e " ( p . idem. v e m o s a pluri-significação que o espelho adquire: no quarto de Goliádkin. conduzido agora pelo m é d i c o Krestian Ivánovitch. Curitiba 1251: 347 . finalmente. Dostoïevski também são símbolos mágicos da m e m ó r i a inconsciente. segundo Jung. n o restaurante ( c a p . ] " ( p . o condutor representa o "si m e s m o " da psicologia junr guiaria. além da ambigüidade que os símbolos dão à narrativa. após sua derrota p e l o duplo na carruagem. mas a "outra margem". Carruagem: assim c o m o c o m a casa. I I I ) . local c o m o é d o p r i m e i r o encontro d e Goliádkin c o m seu duplo. o carro. A car- ruagem representa para Goliádkin um m e i o de ascensão social. . enquanto os cavalos são as forças vitais e as rédeas. é o m e i o de transporte que o leva ao m a n i c ô m i o . em diversos níveis. c o m o lugar de passagem — para o duplo. enquanto o m o v i m e n t o para trás após a passagem . entre fantasia e realidade. " n o meio da porta. Aplicando-se estes conceitos a o romance. Letras. E i x o : lugar de confrontação dos contrários.

fui. a água ( m o r t e e dissolução mas também renascimento e nova circulação). horário habitual de o senhor Goliádkin levantar. na tempestuosa e fatídica noite de seu p r i m e i r o encontro c o m o duplo.3 Nos elementos: A fúria dos elementos que se abate sobre Goliádkin. pois. A neve o c o b r e inteiro. esta preo- cupação de Dostoiévski e m relatar o t e m p o em minutos» horas e dias t a m - b é m poderia ser relacionada com o simbolismo das horas. 11. E o r i o sobre o qual Goliádkin se debruça. também tem aqui uma cono- 3 9 2 Letras. alia-se aos elementos. p o r ter o m e s m o sentido d o negro e da m o r t e . c o m o símbo- l o de generação. associados c o m o estão c o m os males de novembro. virtualidade e semente: é ela que v ê nascer o duplo. têm todos aqui uma conotação negativa. publicação. d o negativo-positivo). S. e vê m o r r e r Goliádkin. hora de encontro c o m o duplo. c o m o princípio passivo e d o Inconsciente. criadora c o m o tudo que v e m d o céu. seria o símbolo da roda ou d o circulo .RENAUX. A chuva c o m seu sentido de fertilização. fusão da água e d o ar. s í m b o l o ambivalente de fertilidade e d o transcurso irreversível. a neve. além d e revelar o estado de ânimo de Goliádkin e imitar a perseguição de seus "inimigos". na cena mencionada. ainda poderia ser examinada sob seu aspecto simbólico. c o m o t a m b é m da oposição de dois mun- dos. fase d o pôr-do-sol e da morte. sua situação é sem perspectiva d e melhora. 1976 . "batendo e chacoteando o rosto de Goliád- kin c o m o agulhas". Já a estação outonal. mas não seus sentimentos d e amargura: igualmente. Contrastando c o m o simbolismo da meia noite. associada c o m o triunfo da escuridão e dissolução. é u m símbolo dual e ambivalente. c o m o su- blimação da terra. engendrando as ocasiões de ação humana. levando ao abandono e a o esqueci- mento. com doenças e frio. pelo seu estado prévio ao preparar o dia. concorrem para que a f o r ç a dos elementos seja ainda mais evidenciada. Dostoievski 11. fazendo c o m que Goliádkin não enxergue dois passos à sua f r e n t e . eqüivaleria ao momento e m que Goliádkin age realmente. e seu sentido de fertilidade. O o i t o então. Curitiba (25): 347 . e m que se sente disposto a enfrentar a realidade.2. mais a escuridão da noite ( s í m b o l o da inversão vida-morte.A t e m - pestade. aparição-desaparição. Assim. o vento soprando nas ruas desertas e erguendo a água negra d o rio. c o m seu sentido de m o r t e e diluição. A noite. as o i t o horas da manhã.2.2 N o tempo cronológico: Assim c o m o as horas marcadas servem para contrastar o caos da realidade de Goliádkin c o m a regularidade d o passar d o tempo. ele a sacode. o v e n t a de p o d e r fecundador e renovador da vida. a meia noite. assim c o m o o ar " ú m i d o e ene- v o a d o " . relacionada c o m o caído d o céu. A bruma. 400. está prestes a inundar. expressariam as forças cós- micas.ligado a o espaço e ao t e m p o .

f o i após o d u p l o u s u r p á . G o l i á d k i n é corpulento. m i s t u r a d e t u d o q u e t e v e f o r m a e a perdeu. o sapato e a p e g a d a t ê m u m s i g n i f i c a d o f u n e r á r i o — o m o r i b u n d o " v a i e m b o r a " . ] t e m a t é u m a t o n a l i d a d e obsessiva e m Dostoiévski". m a s ainda continua s e n d o o 74 Todas as referências a simbolismo foram achadas no Diccionário de símbolos. m i s t u r a de dois e l e m e n t o s d o s quais u m é s e m p r e o a t i v o . já mencionado. "para u m dia e n o i t e de a m a r g u r a " . 75 BACHELARD. signo d e l i b e r d a d e e n t r e os antigos: os e s c r a v o s i a m de pés nús. c a l v o ( s í m b o l o da e s t e r i l i d a d e d o a n c i ã o ) . e m í o p e ( o s o l h o s expressam a n o r m a l i d a d e f í s i c a e seu equivalente espiritual: portanto. S. o u antes. está relacionada c o m todas as t r a n s f o r m a ç õ e s . q u e t ê m a l g o d e m i s t e r i o s o e v e r g o n h o s o .'5 A l a m a c o b r e " o s sapatos. . de Juan Eduardo CIRLOT. II. e m conseqüência d a q u e d a q u e l e v a r a da c a r r u a g e m e m q u e lutara c o m o d u p l o : c o m o a n e v e q u e o c o b r i a na n o i t e d e seu e n c o n t r o c o m o duplo. P o r o u t r o lado. t e m u m a c o n o t a ç ã o s i m b ó l i c a c o m o p é c o m o s í m b o l o da alma. Dostoïevski t a ç ã o negativa. 76 d i z e n d o q u e " e s t e p o r m e n o r d e p r e o c u p a ç ã o c o m o calçado. p. Paris.s e u m " e s c r a v o " .n e g r o ) . v. F i n a l m e n t e a lama. i s t o é. p. 1948. RENAUX. p o r q u e o a m b í g u o se p r o d u z n o m o m e n t o e m q u e a l g o se m o d i f i c a p a r a ser o u t r a coisa. 1976 3 9 3 . A m á s c a r a q u e ele a f i r m a n ã o usar. 132. c o m o calçado. c u j o s olhos cinzas s i m b o l i z a r i a m o p r o c e s s o d e desas- s i m i l a ç ã o e d e assimilação ( s i m b o l i s m o d o b r a n c o . e n - c a r a d a c o m o p r e d o m i n â n c i a d o e l e m e n t o terra. as v i s t o - sas b o t a s n o v a s q u e G o l i á d k i n calça e p o s t e r i o r m e n t e p e r d e n a t e m p e s t a d e í>ão. Obra completa. J. O f a t o d e G o l i á d k i n i r descalço à j a n e l a de seu q u a r t o . de a c o r d o c o m o está c o m o s i n i m i g o s de Goliádkin. ¡ul. La terre et les revêries de la volonté. 1. s i m b o l i z a r i a u m a luta e n t r e a água dissolvente e a t e r r a absorvente. s i m b o l i z a r i a a dissolução da p e r s o n a l i d a d e d e Goliádkin. Letras. f i s i c a m e n t e c senhor G o l i á d k i n t a m b é m m o r r e . t e n - d o p o r t a n t o u m a c o n o t a ç ã o paródica. 76 DOSTOIEVSKI. a l é m d e g e s t o carnavalesco. ao s e r a f a s t a d o d a s o c i e d a d e . E r e a l m e n t e . . Corti. t o d o o c o r p o d o l a d o e s q u e r d o " ( p . da p o e i r a q u e f o m o s e à q u a l r e t o r n a m o s . Curitiba 1251: 347 . Gaston.2. a i n d a p o d e r í a m o s e x a m i n a r alguns as- p e c t o s q u e d e c e r t a f o r m a e n r i q u e c e r i a m o s e n f ì d o total d a p e r s o n a g e m . as calças. c o m as botas. encarada c o m o m i s - tura de t u d o q u e t e v e f o r m a e a p e r d e u ( ( p r e d o m i n â n c i a d o e l e m e n t o á g u a ) . p o r s e r o s u p o r t e d o c o r p o . t a m b é m o pé. o e s f a c e l a m e n t o da p e r s o n a l i d a d e d e G o l i á d k i n se r e f l e t i r i a até e m seu aspecto físico). e n q u a n t o que. c o m as solas das b o t a s [ .4 N a pessoa e n o t r a j e d e G o l i á d k i n : A l é m d o r e l a c i o n a m e n t o d e d i v e r s o s s í m b o l o s c o m a carnavalização. a lama.l o q u e G o l i á d k i n p e r d e suas galochas e t o r n a . 130. N a t á l i a N u n e s t a m b é m se r e f e r e a o calçado. c u j a r o u p a ainda estava rasgada. 370) d e Goliádkin. 400. seria a d e s a g r e g a ç ã o n a a r - g i l a original. s e g u n d o Bachelard.

. o p r i m i t i v o 77 GROSSMAN. q u e realiza seu s o - n h o de ascensão às avessas. . segundo G r o s s - m a n " a p a r e c e d e s c r i t o n ã o só a n í m i c a m e n t e n o p r i m e i r o capitulons l e m - b r a n d o pela sua d e s c r i ç ã o o pulsar d e s o r d e n a d o de u m coração. S. 295-6). S e m p r e r e p e t e : " [ . 3 9 4 Letras. a m á s c a r a p r o j e t a r i a a ironia d e uma m e t a m o r f o s e a que G o l i á d k i n aspira — a ascensão social — m a s q u e a o m e s m o t e m p o r e p e l e e n ã o sabe usar. M a s a m e t a m o r f o s e o c o r r e . 78 Cf. é s í m b o l o de luz espiritual.1976 .s e a b a f a r . m a s t a m b é m c o m o moedas. c o b r i . A s s i m c o m o a dança ( i m a g e m c o r p o r i z a d a d e u m processo. c o m o a l â m p a d a . q u e G o l i á d k i n c a r r e g a ao e x a m i n a r o d u p l o d o r m i n d o . s o b r e - natural. ] U m a i m p o r t â n c i a destas p o d e l e v a r u m a pessoa m u i t o l o n g e " ( p . Dostoievski artista. Dostoïevski q u e e r a . Daí a máscara. " n ã o m e a g r a d a usar máscara [ . c o m o " i m a g e m . p o r q u e as m e t a m o r f o s e s t ê m q u e ocultar seu caráter mágico. p o r o p e i t o a o Iéu. e os apenas escolhidos. P o d e r í a m o s ainda incluir aqui. . c o m o p a r t e da c a m a v a l i z a ç ã o . A l é m disso. e m d e m ô n i o ) q u e G o l i á d k i n não consegue realizar. c o m o extensão. " h á homens que n ã o g o s t a m d e r o d e i o s e q u e só p õ e m máscara p a r a i r aos bailes". q u e G o l i á d k i n f u m a c o m o duplo. c o m o expressão d e p o d e r . diz Goliádkin. 294). pois r e a l m e n t e é o instante e m que a m b o s t r a - v a m amizade. p. fui. . c m r e f e r ê n c i a ao duplo. Os o b j e t o s c o m p r a d o s p o r Goliádkin. A dança natu- l a l m e n t e está ligada a o s i m b o l i s m o da festa. pois t r o p e ç a e cai. " ( p . c o m o é d r a - m a t i z a d o n o v a m e n t e na cena final. a l e g r e m e n t e . tanto na máscara teatral c o m na r e l i g i o s a . Curitiba (251: 347 . .l h e na cabeça. ( p . ] q u a n d o a máscara de certas pessoas t i v e r c a í d o e tudo s e j a v i s í v e l . O c a c h i m b o . c o m o s e n d o o d u p l o n e g a t i v o d o c o r p o . O candelabro. pois toda dança é p a n t o m i m a de m e t a m o r f o s e e p o r isso r e q u e r a máscara. a máscara constitui uma i m a g e m e t e m o u t r o sentido s i m b ó l i c o que d e r i v a d o f i g u r a d o de tal m a n e i r a .l o de neve. c o m o j á m e n c i o n a d o . d e s t r o n i z a n d o G o l i á d k i n . 388). O s a m o v a r . se b e m q u e p o r p o u c o t e m p o : é o " c a c h i m b o da p a z " .l o de água f r i a ( p . . s e m ele o d e s e j a r : sua duplicação e m G o l i á d k i n I I . q u e estalava. seria u m f a t o r de unificação. o sangue p a r e c i a f e r v e r . 288). S e n t i a . j u n t a m e n t e c o m os rublos q u e g u a r d a t ã o c u i d a d o s a m e n t e . ] " ( p . 301). 400. o s i m b o l i s m o da s o m b r a . 155. os rublos t e r i a m c e r t o s e n t i d o talismànico. m a s e l e m e s - m o gostaria d e ser d i f e r e n t e . c o m o a m b i e n t e f e é r i c o . s ã o s í m b o l o s n ã o apenas de abundância. . c o m o i m a g e m d o f o g o . n a cena f i n a l d o conto. 14. e m casa d e Olsuf I v á n o v i t c h é o d u p l o q u e assumiu este papel e ilumina o caminho para G o l i á d k i n e o m é d i c o .o b j e t o q u e p e n e t r a na a ç ã o " . É " u m a quantia interessante! [ . e m q u e o c o r a ç ã o de Goliádkin é d e s c r i t o c o m as m e s m a s palavras: O senhor G o l i á d k i n sentia uma d o r estranha n o c o r a ç ã o . isto é. . p. c o n v e r t e n d o o b a i l a r i n o e m deus. G o l i á d k i n o d e i a máscaras ( t r a n s f o r m a ç õ e s ) . e m c o n t r a p o s i ç ã o à r e a l i d a d e de Goliádkin.RENAUX. inun- d á . t e r i a q u e r i d o desabotoar-se.

p õ e as mãos no espaldar de duas cadeiras. ] saltitando c o m o um sorriso que era uma saudação a todos" ( p . Goliádkin e o duplo são " g ê m e o s c o m o duas gotas de água". são representados pelo branco e n e g r o . 1976 3 9 5 . 386) na casa de Olsuf I v á - novitch. V a k r a m á i e v na carta pede a Goliádkin lhe pagar dois rublos que lhe deve. quando as forças são iguais. símbolo da natureza em sua necessidade d e transformação binària e contraditória. c o m o irmãos". percorre toda a narrativa. é sua própria sombra. é o seu duplo. Sua Excelên- cia passa duas vezes pela seção. cies aparecem igualmente c o m o inimigos mortais. Os gêmeos. Curitiba (25): 347 . Goliádkin passa duas soras no pátio de Olsuf Ivánovitch. relacinado também c o m o simbolismo dos gêmeos e d o duplo. ao acordar Goliádkin ouve o relógio bater duas pancadas. a c a - ma do duplo são duas cadeiras grandes. o duplo lhe dá dois piparotes na cara. jul. E. v a i a uma taberna a dois passos dali. o duplo q u e r falar a Goliádkin c o m o se fossem dois camaradas. Goliádkin paga as duas despesas à dona d o restaurante. a casa d o diretor é a dois passos dali. a silhueta negra dum h o m e m avançava rapidamente" ( p . "atacando-o" c o m sua troça. . conflito. isto é. c o m o i m a g e m de ruptura.5 N o "duplo": O S i m b o l i s m o d o número dois. deu para v e r as coisas em duplo" diz Antônovitch a Goliádkin) a multiplicidade d o mesmo. sonha-se que u m a multidão de o b j e t o s ou pessoas apresentam os mesmos traços. o que alude à secreta e terrível unidade de Letras. Goliádkin experimenta duas sensações: feliz e cansado. en- quanto o outro é a porção mortal. uns vinte passos. antes de morrer. etc. quando este mostra seu " r i s o tracista". Goliádkin pede dois jantares. e o sentido simbólico mais geral dos gêmeos é que um significa a p o r ç ã o eterna d o homem. N o excepcional. A duplicidade ( " m i n h a tia. é símbolo característico patológico: lembramo-nos c o m o G o - liádkin sonha com muitos Goliádkini e q u e na cena final v ê "uma multidão numerosa d e Goliádkini absolutamente iguais" ( p . 400. 315). Goliádkin passa p o r duas filas d e observadores. o duplo aperta desdenhosamente dois dedos d a m ã o de Goliádkin. derruba duas vendedeiras na ponte. contra- -posição. RENAUX. Esta "silhueta negra" que Goliádkin vê. reflexo. II. c o m o eco. K l a r a se entregar à proteção de Goliádkin à duas horas. dissocia- ção. 359): o sorriso transforma-se p o r m e i o dos "dentes". Goliádkin acha que Pietruchka vai levar duas horas para entregar a carta. a alma.2. mostra " o s dentes T . S. . re- cua dois passos quando derruba o remédio. Praticamente todos o s o b j e t o s referidos são duplos: Pietruchka v ê dois Goliádkin. e m rela- ção ao duplo. através d o sorriso conquista os colegas e su- periores e ao m e s m o t e m p o irrita a Goliádkin. separação. Mas c o m o também simbolizam os p r i n - cípios contrapostos do b e m e d ó mal ( o q u e é c o r r o b o r a d o p o r H e n r i T r o y a t ) . e m arma d e ataque e ex- pressão da atividade. Dostoievski considera sua sombra ou sua imagem na água ou num espelho c o m o sua alma ou uma parte vital de si m e s m o : " N a sua frente. Goliádkin e duplo v ã o v i v e r "juntos c o m o peixes na água.

c o m o todo sistema binàrio. de magia. Esta interpretação poderia ser corroborada pelo elevado n ú m e r o de vezes e m que Goliádkin se r e f e r e à feitiçaria. à feiticeira maldita. S. quando o frasco cai e quebra. de sortilègio. c o m o o gigante e o bruxo. desagregação. confissão ou poema petersburguense? C o m o j á vimos. desde o início. assim c o m o também a f o r m a fragmentada da narrativa é u m r e f l e x o d o m e s m o conteúdo b i f u r c a d o . Outros sintomas de sacrifício seriam o sangue que Goliádkin. mas que no final se amblgüiza com o duplo. a ferida ( o furúnculo). Assim. também o r e m é d i o que o m é d i c o lhe receitara — a poção mágica que de certo m o d o evitaria o sacrifício de Goliádkin. o dedo da m ã o direita que Goliádkin cederia de b o m grado a u m mágico. e o dualismo. é necessário ainda tratarmos dos subtítulos d o r o - mance a f i m de articularmos todos os elementos levantados. o duplo "renascendo" em seu lugar. é sacrificado. que. CONCLUSÃO O Duplo. parecia quase ter começado a p ô r p e l o nariz.2. A du- plicação numericamente corresponde a o número dois. através dos d i f e - rentes elementos da narrativa. Goliádkin tendo obtido a poção mágica m a s não fazendo uso dela. ful. ao c o n - flito. c o m igual significado de san- gue. mas este a derrama — e sua c o r vermelha. imitação.6 N a fábula: A título de experiência. personificam o pai terrível ( é o aspecto d o médico. O es- 3 9 6 Letras. Curitiba (251: 347 . que Goliádkin prognostica que possa lhe aparecer.s e desta maneira c o m o Dostoiévski. se i d e n - tificam ao sangue: símbolo p e r f e i t o do sacrifício. na primeira cena. Portanto. o feiticeiro. o m é d i c o seria o "confessor". c o m seus olhos brilhantes que. para concluir. a veneno. 400. 1976 . Ë " o líquido repugnante e v e r m e l h o escuro" que aparece sob seus olhos. c o m o se ele m e s m o acreditasse estar sendo v í t i m a de um sortilègio. se transformam e m " d o i s olhos brilhan- tes c o m o duas brasas" refletindo "uma alegria diabólica e de m a u pressári- g i o " ) . — V ê . a mágico. inconscientemente é evidente — c o m o também a Menipéia não estava presente na m e m ó r i a subjetiva dele — conseguiu f o r m a r de certo m o d o u m todo simbólico relacionado c o m duplicidade. A angústia que acompanha este símbolo p r o v é m da psicologia da " r e - p e t i ç ã o " e d o f a t o de que neste mundo a diversificação parece ser lei. a o estar apoiado na amurada do cais. Dostoïevski tudo. Assim.RENAUX. pois o d o m aplaca as p o - tências e aparta os castigos maiores. para se salvar. poderíamos ainda encaixar parte d o simbo- lismo do romance num contexto de feitiçaria. e portanto. para f a z e r desaparecer seu duplo. luta de contrários e dissolução. Mas. além de considerar a obra c o m o "estranha". na cena final. os contemporâneos d e Dostoievski v i r a m e m O Duplo uma imitação de Gogol. II. apresenta a inimizade dos dois princípios em luta. integrando-os no contexto da fábula.

Perspectiva. . 82 p a r a q u e m " o p r i n c í p i o q u e r e g e o a p r o v e i t a m e n t o d o real é o da m o d i f i c a ç ã o . f a l a r á dela c o m o " c o n f i s s ã o " . SO TROYAT. . 1976 3 9 7 .s e de " t r a d i ç ã o l i t e r á r i a " imagina- m o s u m a linha reta. s e j a p o r d e f o r m a ç ã o de pequenas sementes sugestivas. P o r o u t r o lado. Dostoevskij und Gogol. 13-4. E e r a na v e r d a d e u m a c o n f i s s ã o . n u m c o n t e x t o m a i s a m p l o . p. Dostoievski critor. p. 1. jul. 4. e v i d e n t e m e n t e : " L e D o u b l e est la p r e - m i è r e confession d r a m a t i s é e dans l ' o e u v r e d e D o s t o i e v s k i " . d e n t r o d o c o n - t e x t o de duplicidade. Já p a r a Grossman. o m u n d a n o . ] Esse d e s g r a ç a d o q u e e n t r a n o salão d e A n - d r é F i l í p o v i t c h [ . . D o s t o i e v s k i t e m c o m o b a s e d o seu m é t o d o c r i a d o r o p r i n c í p i o t r í p l i c e da n o v a e p o p é i a : o f u n d o realista c o m p l e t a d o c o m o des- v e n d a m e n t o das tensões e d r a m a s sociais e individuais. c o m o D o s t o i e v s k i o designa? É ainda D o s t o i e v s k i . v. si D o s t o i e v s k i v i a e m O D u p l o u m a ' ' c o n f i s s ã o " n ã o n o sentido pessoal. p o r A n t o n i o Cândido. e m r e l a ç ã o a a m b o s . As p e r s o n a g e n s " n ã o c o r r e s p o n d e m a pessoas vivas. p o r t a n t o d e u m a luta e m r e l a ç ã o a u m r e p r e - sentante m a i s j o v e m l i g a d o a o m a i s v e l h o . zur Theorie der Parodie. 279. S. In: .l h e o sub-título " P o e m a Petersburguense". c o m o t a m b é m n ã o p e r c e b e r a m . c o n f o r m e c i t a - do. M a i s tarde. O r o m a n - cista é incapaz de r e p r o d u z i r a v i d a . Curitiba (251: 347 . c o m o a f i r m a Bakhtine. München. Dostoievski artista. . o f a l s o Goliádkine. d á . ] n ã o será o p r ó p r i o a u t o r n o m a i s d e n s o dos cenáculos literários? E n ã o é D o s t o i e v s k i que p e n s a m o s q u a n d o G o l i á d k i n e se escapa da casa iluminada [ . 1972 . a n o v a lógica de m o t i v a ç ã o que c o n t r a d i z i a a t r a d i ç ã o da n o v e l a social v i g e n t e na é p o c a . como afirma Troyat: 80 Esta longa n a r r a t i v a D o s t o i e v s k i intitulou-a " p o e m a " . m a s n a s c e m d e l a s " . D o s t o i e v s k i p a r t e o s t e n s i v a m e n t e de Gogol. .TEXTE der russischen Formalisten. Fink. 83 79 TYNJANOV. 6 . s e j a na c o l e t i v i d a d e dos g r u p o s " . São Paulo. . d e u m a r e p u l s ã o de u m d e t e r m i n a d o p o n t o . RENAUX. e x a m i n a d o ? Conforme Yuri Tynianov. p o i s a m a i o r i a n ã o a havia ainda percebido. s e j a na singularidade d o s indivíduos. 400. Jurij. 301. Ver também p. Observa T y n i a n o v t a m b é m q u e na é p o c a de D o s t o i e v s k i só poucos criticos f a l a v a m e m luta.79 f a l a n d o . ] ? E o o u t r o . pois. e m a i s t a r d e a c h a m a d e " c o n f i s s ã o " . s e j a p o r acréscimo. m a s trata-se antes d e u m a partida. 95. de f r a g m e n t a ç ã o . p o r sua v e z . m a s d e v e m o s f a l a r antes de estilização e p a r ó d i a do q u e d e i m i t a ç ã o . 82 A PERSONAGEM de ficção. 81 BAKHTINE. p. O d o s ê x i - tos brilhantes. . Letras. o " u s u r p a - d o r " . q u e o s seus c o n t e m p o r â n e o s n ã o s o u b e r a m d i s c e r n i r s o b a anedota h o f f m a n n e s c a t . 1969. m a i s a luta i n t e r i o r e as m e d i t a ç õ e s de indivíduos levados a o desespero e condenados à destrui- ção. " Entretanto. P a r a T y n i a n o v . C o m o p o d e r e m o s classificá-la. O D u p l o t a m b é m n ã o é apenas i m i t a ç ã o m a i s " c o n f i s s ã o " . . p. Esta a f i r m a ç ã o é c o r r o b o r a d a . 67. 83 GROSSMAN.

p o r o u t r o lado.n o s u m p o u c o m a i s n o sub-título " P o e m a Petersburguense". che- g a r a u m a conclusão d e f i n i t i v a p a r a c l a s s i f i c a r O Duplo. diz o p r ó p r i o Dostoievski. e m q u e o m o n o l ó g i c o n ã o e s t e j a f r a g m e n t a d o . l e v a n d o e m consi- d e r a ç ã o n ã o só os e l e m e n t o s a u f e r i d o s p o r D o s t o i e v s k i de t o d a u m a tradi- ção literária. até sua conclusão. t r a n s f o r m a n d o assim. a t r a v é s d o d u a l i s m o q u e i m p r e g n a toda a narrativa. 23. SI GROSSMAN. c o m o o p r ó p r i o a u t o r diz. o q u e t o r n a O D u p l o ainda m a i s " m u l t i v o c a l e d i s c o r d a n t e " . p. se b e m que " m o d i f i c a d o s " . pois. t a m b é m é crítica social a o p e q u e n o f u n c i o n á r i o de S ã o P e t e r s b u r g o . c o m o diz T y n i a - nov. n ã o há cena. p. desde as características da M e n i p é i a e da carnavalização l i t e - rária. 294. f a z c o m q u e Dostoievski d e f i n a scu g é n e r o l i t e r a r i o c o m o s u b . RENAUX. f u s ã o d e e p o p é i a c o m poesia e d r a m a . na tentativa de unir e p o p é i a c o m poesia e drama. S. 85 Ibid. I s t o tudo é apresentado então. u m d e s d o b r a m e n t o e m r e l a ç ã o a o t í t u l o O Duplo. segun- d o Bakhtme-86 A c r e d i t a m o s que n o e l e m e n t o p a r ò d i c o possa ser e n c o n t r a d o u m d o s pontos d e articulação d e t o d o s os e l e m e n t o s l e v a n t a d o s neste c o n t e x t o d e duplicidade. " p r e s e n t e na m e m ó r i a o b j e t i v a d o g ê n e r o que ele e m p r e g a v a " . t a m b é m não p o d e m d e i - x a r d e ser considerados.s e o t r á g i c o c o m acen- tos cômicos. d e n t r o dessas v o z e s o u v e . Os e l e m e n t o s "confessionais". D o s - toievski está t a m b é m m a n t e n d o uma m u l t i p l i c i d a d e d e níveis. Poderíamos ainda a c r e s c e n t a r a este t o d o u m a intenção paródica. p o d e r í a m o s d i z e r q u e o p r ó - p r i o sub-título cria u m a ambigüidade. p o r q u e a o b r a a l é m de ser t u d o isto.t í t u l o d e " p o e - m a " : 8 4 " O p o e m a está p r o n t o e f o i c r i a d o antes de t u d o o mais. Dostoïevski E esta c o m p l e x a estrutura interior. de f r a g m e n t a ç ã o . através dos d i v e r s o s níveis a b o r d a d o s da narrativa. na n a r r a t i v a " S e r i a p e l o j a n t a r q u e h a v e r i a d e c o m e ç a r o m e u p o e m a " ( p . G o g o l . n ã o consegue a c o m p a n h a r esta m u d a n ç a e sente o esface- l a m e n t o de sua p e r s o n a l i d a d e . até uma " l u t a " m a i s aberta e m relação a o seu antecessor d i r e - to. p. 3 9 8 Letras. q u e n u m m u n d o c a ó t i c o e m q u e a a m b i ç ã o p r o f i s s i o n a l e a l i s o n j a t o m a r a m o lugar da p r i m i t i v a h o n e s t i d a d e e simplicidade. p o i s se a obra é u m p o e m a p e l a m u l t i p l i c i d a d e de níveis e p e l a p o l i f o n i a de v o z e s e visões. desde o t í t u l o da obra. ss A t r a v é s de todas estas a f i r m a ç õ e s . 22. 305). c o m o mencionado. c o m o s e m p r e d e v e o c o r r e r c o m u m r o m a n c i s t a " . a paródia dc uma tragédia e m u m a c o m é d i a . Dostoievski artista. e o c ô m i c o c o m r e f l e x o s trágicos. não há g e s t o ou p e n s a m e n t o e m O Duplo. D e t e n d o .s e c o m o é d i f í c i l realmente. 400. q u e p o r sua vez confirma e projeta a polifonia e multivocidade do todo. n u m c o n t e x t o paròdico. t o r n a n d o p o i s inseparáveis f o r m a e c o n t e ú d o . SG BAKHTINE.. Curitiba (251: 347 . v ê . ful. c m q u e n ã o p e n e t r e a carnavalização. 1976 . T o d o s os e l e m e n t o s levantados conseguem se articular d e n t r o deste c o n t e x t o dc duplicidade.

MOISÉS. 2. Paris J. A PERSONAGEM de ficção. TEXTE der russischen Formalisten. 495 p. Seuil. 125 p. v. 1934 . Dostoïevski. Dostoevsky. 539 p. 248 p. Ed. 1958 . Paris. 1970 . Suhrkamp. 1964. Civilização Brasileira. 1970 . Madrid. • . 1953. HAUSER. Corti. 694 p. 470 p. Cultrix. Diccionário de símbolos. CIRLOT. Gaston. Dictionnaire encyclopédique des sciences du langage. Cambridge. Edward. Temira. GROSSMAN Léonide. 1967 . A vida de Dostoïevski. v. Paris. René ed. 274 p. 180 p. 184 p. 1969. 1963. Obra completa. 471 p. 347 p. Paris. Arnold. Prentice Hall. v. c a ó t i c o e p o l i f ó n i c o q u e nos rodeia. História social da literatura o da arte. Lingüística como ciência Rio de Janeiro. 1. HOFMANN M. e m q u e d e m o n s t r a m o s c o m o n ã o p o d e m o s considerar a o b r a c o m o " f r a c a s s a d a " . du Progrès.J. Acadêmica. BAKHTINE. Moscou. Frankfurt. Letras. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BACHELARD. Aguilar. La terre et les reverles de la volonté. Barcelona Labor. Massaud. the major fiction. 1. München. 1969 . Lisboa Estúdios Cor. & TODOROV. SAPIR. Mikhail. Rio de Janeiro. 1972 . 1964. t r a n s f o r m a m O D u p l o r e a l m e n t e e m p o n t o d e p a r t i d a p a r a u m estudo m a i s p r o f u n d o da o b r a desse escritor. Henri. Curitiba (251:: 347 . 407 p. a collection of critical essays. Dostoïevski T e n t a m o s pois. 203 p. DOSTOIEVSKI. 1970 . 1976 399' . The Slavic and East European Journal. Payot. aliado à sua v i s ã o p a r t i c u l a r e p r o f u n d a da natureza humana. La poétique de Dostoïevski. Vergleichende Studien zur Romantik. São Paulo. M I T Press. T. 7(2):142-59. . São Paulo. jul. Konfrontationen. 1972. 1972. REHAUX. 284 p. Fiodor M. 1948. Edward. Juan Eduardo. . WASIOLEK. 1962. Englewood-Cliffs. 1969. p o i s a riqueza d e m a t e r i a l e x p l o r a d o p o r Dostoievski. q u e c a p t o u t ã o d r a - m a t i c a m e n t e o m u n d o f r a g m e n t a d o . Perspectiva. Fink. The theme og vanity in Dostoevsky's works. DUCROT. Mestre Jou. Madison. WELLEK. Dostoievski artista. f a z e r u m a leitura d e O Duplo. Guia prático de análise literária. Seuil. Rio de Janeiro. São Paulo. Summer 1963. Dostoevsky. Histoire de la littérature russe. S.. PACHMUSS. J. Obras completas. Aguilar. 1. 400. TROYAT. v. N.

of speech. the polyphony. S. Conclui-se c o m uma interpretação que se coaduna c o m a visão polivalente que Dostoievski nos dá de sua e de nossa realidade. time. Curitiba (251: 347 . procura m o s t r a r c o m a duplicidade na f o r m a deste r o - mance corresponderia a uma duplicidade de conteúdo: assim. Summary This analysis o f Dostoevski's T h e Double is based on Mikhail Bakhtine and Leonid Grossman and it tries t o show h o w the duplicity of f o r m in this n o - vel corresponds to a duplicity of subject matter: in this way. symbolism.RENAUX. all help t o p r o j e c t the double nature o f the m a i n cha- racter. 4 0 0 Letras. o dualismo entre sonho e realidade. 400. serviriam para p r o j e t a r o desdobramento da p e r - sonagem principal. W e conclude w i t h an interpretation that c o n f o r m s to the polyvalent vision that Dostoevsky has given us of his and of o u r reality. the duality between dream and reality. Dostoïevski Resumo Esta análise de O Duplo de Dostoievski baseada e m Mikhail Bakhtire e Leonid Grossman. 1976 . ful. a polifonia d o f o c o narrativo. simbolismo. espaço e outros elementos. tempo. space and other elements.