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Dados ntrncinais eCatalogarto na Pui to (CH) Camara Bronte io, rt) ‘ed, Mart za Darazo Aono sete aaa, S Paps 212 (Sue Praen 2 Reimpresséo 2013 Probar a Tern el ao paral (ara do cote com 981008. bio sade 8 aso Batre (dn Orotos Reprogatecs (ABDF) DIREOS RESERVADOS PARA ALINGUA PORTUGUESA: ‘Gun. Comaccha Uvara@ Ear Lia ~Paprus Ears br Gates Perna 2) CED o0 05 - Vito Fora (1) S724 Camprae~ Seo Palo rat Erma etree papivs.com bt war pats ont SUMARIO INTRODUCAO, PARTET FUNDAMENTOS DA PESQUISA ETNOGRAFICA A ABORDAGEM QUALITATIVA DE PESQUISA Ratees historicas e fundamentos da abordagem qualitativa 16 Sobre o conceito de pesquisa qualitativa 2 Para além da dicotomia qualitativo-quantitativo DIFERENTES TIPOS DE PESQUISA QUALITATIVA Pesquisa do tipo etmografico 2 Estudo de caso 30 Pesquisagao ETNOGRAFIA E 0 ESTUDO DA PRATICA ESCOLAR COTIDIANA, 0 tracado histérico da emografia em educacao 36 Razées para o uso da einografia no estudo da pritica escolar cotidiana 4a Dimensdes no estudo da pritica escolar cotidiana 2 Principais problemas nos estudos sobre 1 prética escolar cotidiana Parece que o desconhecimento ou uma visio equivocada do Papel da teoria na pesquisa tem sido responsével pela fragilidade de um ‘bom ntimero de estudos etnogrificos da drea de educacao. E urgente que se corrija esse desvio, para que ndo se comprometa toda uma linha de trabalhos que tém efetivamente trazido importantes contribuigdes para 0 conhecimento da pratica escolar cotidiana e para o seu redimensionamento, Além da falta de clareza sobre os principios basicos da etnografia € de uma visio equivocada sobre 0 papel da teoria na pesquisa, outro problema identificado nos estudos etnogrdficos da frea de educagio é a ificuldade de lidar com a complexa questio objetividade-participagio. ‘Na maior parte das vezes, o pesquisador investiga uma situago que Ihe € muito familiar e no raramente colhe dados no préprio local de trabalho, na escola em que atua. Um grande risco em ambos 0s casos, mas muito maior no segundo por motivos Sbvios, uma confusio entre sujeito € objeto do estudo, entre opinides preexistentes e revelagdes evidenciadas pelo estudo. O grande desafio nesses casos saber traba- thar © envolvimento ¢ a subjetividade, mantendo o necessério distancia- mento que requer um trabalho cientifico. Distanciamento que nao. é sin6nimo de neutralidade, mas que preserva o rigor. Uma das formas de lidar com essa questio tem sido 0 estranhamento — um esforco siste- mético de anélise de uma situagio familiar como se fosse estranha, ‘Trata-se de saber lidar com percepedes e opinides ja formadas, recons- truindo-as em novas bases, levando em conta, sim, as experiéncias pessoas, mas filtrando-as com apoio do referencial teérico e de prove- dimentos metodol6gicos especificos, como por exemplo a triangulagao, Nesses casos, 0 pesquisador busca uma diversidade de sujeitos (pais, alunos, professores, técnicos e, em cada um desses grupos, posigdes diferenciadas), uma variedade de fontes de informagées (entrevistas, observagdes, depoimentos escritos e orais, documentos) ¢ diferentes Perspectivas de interpretagao dos dados (psicol6gica, pedagégica, socio- \6gica, antropol6gica, lingufstica, politica, filoséfica, hist6rica). Esses cuiidados metodolégicos e um forte apoio do referencial tedrico podem ajudar a manter o distanciamento, diminuindo os problemas apontados. 4 O ESTUDO DE CASO ETNOGRAFICO Este capitulo analisa as possibilidades e os limites da metodologia de estudo de caso etnogréfico para uma investigagio sistemética das situag6es do cotidiano escolar. Muito embora se fale especificamente do estudo de caso, a maior parte das reflexes aplica-se aos estudos etno- graficos em geral. As razdes para a escolha da metodologia de estudo de caso sio apresentadas na primeira parte do capitulo: estudo aprofundado de uma unidade em sua complexidade e em seu dinamismo proprio, fornecendo informagdes relevantes para tomada de decisio. Em seguida so apontadas algumas de suas vantagens e limitagdes. Se, por um lado, 0 estudo de caso etnogrifico possibilita uma visio profunda e ao mesmo tempo ampla e integrada de uma unidade comple- Xa, por outro lado demanda um trabalho de campo intenso e prolongado, (© que requer tempo € recursos por parte do pesquisador. Se permite a descoberta de aspectos novos ou pouco conhecidos do problema estuda- do, exige uma base teérica consistente, bom preparo e disposigao pes- soal do pesquisador para enfrentar o desconhecido, para se movimentar sem regras fixas nem critérios muito definidos. Na terceira parte do capitulo so discutidas questées de validade, fidedignidade e generalizacio nos estudos de caso etnogriticos. ‘Na iltima parte do capitulo sao mencionadas as qualidades ou 08 requisitos esperados de um pesquisador que opte por esse tipo de investigacao. Quando ¢ para que usar 0 estudo de caso emogréfico A principal critica que ouvimos nos dias de hoje sobre a pesquisa educacional, diz Stake (1988), € que ela, em geral, mostra diferengas no significativas entre um grupo experimental e um grupo de controle. Algumas dessas criticas vao além, afirmando que, mesmo que se chegas- se a diferencas significativas, os resultados da pesquisa no teriam nenhuma relevancia para os problemas da educagio. E proprio Stake argument: os estudos de caso pouco tém a dizer a respeito das diferen- ¢¢as significativas, mas respondem muito bem as questées sobre a rele- Vincia dos resultados da pesquisa, pois os estudos de caso sio extrema- ‘mente diteis para conhecer os problemas e ajudar a entender a dinimica da pritica educativa. E ele mesmo acrescenta: “Um estudo de caso que retrate um problema educacional em toda a sua complexidade individual e social é uma descoberta preciosa” (p. 254). A decisdo sobre quando e para que se deve usar 0 estudo de caso etnogrifico © nio outra estratégia de pesquisa depende naturalmente daquilo que o pesquisador quer saber, isto é, do problema que ele definiu € das quest6es as quais ele quer responder. Segundo Stake (1985), a decisao de realizar, ou nio, um estudo de aso etnogréfico € muito mais epistemolégica do que metodolégica, E ele explica: se o pesquisador quiser investigar a relagio formal entre varidveis, apresentar generalizagdes ou testar teorias, entio ele deve 50 procurar outras estratégias de pesquisa. Mas se ele quiser entender um caso particular levando em conta seu contexto e sua complexidade, entio a metodologia do estudo de caso se faz ideal. Kenny e Grotelueschen (1980) estabelecem alguns critérios para que se decida quando é pertinente usar 0 estudo de caso. Primeiramente, afirmam eles, deve-se verificar se “os objetivos desejados ou planejados focalizam resultados humanistas ou diferengas culturais e nao resultados comportamentais ou diferengas individuais” (p. 3). Em segundo lugar, dizem eles, quando as informagdes dadas pelos participantes nao forem julgadas pela sua veracidade ou falsidade mas “forem sujeitas ao escru- tinio com base na credibilidade” (p. 4). O terceiro critério por eles enfatizado € a singularidade da situagao: a unidade vai ser escolhida porque representa por si s6 um caso digno de ser estudado, seja porque € representativo de muitos outros casos, seja porque & completamente distinto de outros casos. ‘As caracteristicas selecionadas por Merriam (1988) para definir 0 estudo de caso também podem servir de critério para determinar quando se deve ou nao utilizar essa metodologia. Segundo ela, “os estudos de ‘caso buscam 0 conhecimento do particular, sio descritivos, indutivos buscam a totalidade. Além disso eles esto mais preocupados com a compreensio € a descrigaio do proceso do que com os resultados ‘comportamentais” (p. 31). A preocupag’o com o proceso, segundo ela, envolve, por um lado, a descricao do contexto e da populagio em estudo ¢, por outro lado, a tentativa de verificar como evoluiu o evento, projeto ‘ou programa estudado. Para Yin (1988) deve ser dada preferéncia & metodologia de estudo de caso quando: (1) as perguntas da pesquisa forem do tipo “como” e “por qué”; (2) quando o pesquisador tiver pouco controle sobre aquilo que acontece ou que pode acontecer; ¢ (3) quando 0 foco de interesse for um fendmeno contemporneo que esteja ocorrendo numa situagdo de vida real. Sintetizando ideias de varios outros autores, podemos dizer que 0 estudo de caso etnogritfico deve ser usado: (1) quando se esta interessado SI ‘numa instincia em particular, isto é, numa determinada instituiglo, zuma pessoa ou num especifico programa ou curriculo; (2) quando se deseja conhecer profundamente essa instancia particularem sua comple- xidade ¢ em sua totalidade; (3) quando se estiver mais interessado naquilo que esté ocorrendo e no como esta ocorrendo do que nos seus resultados; (4) quando se busca descobrir novas hipsteses tedricas, Novas relagdes, novos conceitos sobre um determinado fendmeno: ¢ (5) quando se quer retratar o dinamismo de uma situagio numa forma muito prdxima do seu acontecer natural. Vantagens ¢ limites do estudo de caso etogrifico Quando se vai tomar a decisio sobre se é adequado ou nao utilizar 4 abordagem do estudo de caso, podem-se examinar suas vantagens e Jimitagdes como um critétio adicional a tal decisio. E evidente que a escolha de uma determinada forma de Pesquisa depende antes de tudo da natureza do problema que se quer investigar ¢ ‘das questdes especificas que esto sendo formuladas. No entanto, é ttl onderar as qualidades e os limites de uma metodologia para que se saiba ‘mais claramente 0 que esté sendo ganho ¢ 0 que esté sendo sacrificado, Uma das vantagzens do estudo de caso geralmente mencionadas é 8 possibilidade de fornecer uma visio profunda e a0 mesmo tempo ampla e integrada de uma unidade social complexa, composta de milti- Plas varidveis. Para fazer esse tipo de anélise, no entanto, o pesquisador necessita investir muito tempo ¢ recursos, seja no trabalho de campo, seja na interpretago e no relato dos dados. Outra vantagem também associada ao estudo de caso é sua capa Cidade de retratar situagdes vivas do dia a dia escolar, sem prejuizo de sua complexidade ¢ de sua dindmica natural. Isso vai exigir um longo Periodo de permanéncia em campo e uma boa aceitago pelos partici- antes, 0 que requer tempo dispontvel e muita sensibilidade no contato € ‘nas relagdes de campo. Mesmo se atendidas tais condigdes, hé ainda o risco 52 de que 0 pesquisador fique mais atento ao pitoresco, ao inusitado, aquilo que mais se destaca, perdendo-se nas minticias do dia a dia e deixando de lado as questées mais amplas, as explicagdes mais profundas, 0 que comprometeria bastante a validade do relato. Os estudos de caso também sio valorizados pela sua capacidade heuristica, isto 6, por oferecer insights e conhecimentos que clarifiquem ao leitor os varios sentidos do fendmeno estudado, levando-o a descobrir hovas significagdes, a estabelecer novas relagdes, ampliando suas expe- riéneias. Esses insights podem vir a se tornar hip6teses que sirvam para cestruturar futuras pesquisas, 0 que torna 0 estudo de caso especialmente relevante na construgao de novas teorias e no avango do conhecimento na fea. Se por um lado é extremamente positive que 0 estudo de caso tenha uma preocupagaio especial com 0 leitor, dando elementos para que este use sua experigneia vicarial, ampliando ou confirmando sua com- preensio do fenémeno, por outro lado essa preocupagio levada ao extremo pode levar © pesquisador a eximir-se de um posicionamento sobre o problema estudado. Hé certos autores que defendem essa postu- ra, mas no meu ponto de vista seria uma irresponsabilidade e um descompromisso imperdodveis. J4 que o pesquisador detém as informa- Ges coletadas que the possibilitam, sem duivida, tomar um posiciona- mento sobre caso, ele tem obrigagdo de divulgar seus pontos de vista sob pena de estar assumindo uma postura de neutralidade incompativel com esse tipo de pesquisa. ‘A vantagem de que no estudo de caso 0 pesquisador nao parte de um esquema tedrico fechado, que limite suas interpretagdes e impega a descoberta de novas relagdes, também apresenta uma contraface que precisa ser aqui mencionada. Muitas vezes os estudos de caso tém sido conduzidos dentro de uma linha essencialmente descritiva que Lijphart (1971) chama de “ateériea”. Segundo esse autor, eles sio “inteiramente descritivos e se desenvolvem num vacuum te6rico, nao séo nem guiados Por hipéteses nem motivados por um desejo de formular hipsteses gerais” (p. 691). Embora esses estudos descritivos possam ser especial- ‘mente titeis em dreas onde hé escasso conhecimento e pouca pesquisa, eles correm o risco de niio acrescentar muito ao que ja se conhece. Por outro lado, ao se proporem seguir um esquema aberto e flexivel, muitos estudos de caso acabam se perdendo na acumulagéo infinita de dados ou ‘numa andlise superficial e inconsistente Outra qualidade usualmente atribuida ao estudo de caso é 0 seu Potencial de contribui¢io aos problemas da pritica educacional. Focali- zando uma instancia em particular ¢ iluminando suas méiltiplas dimen- SOes, assim como seu movimento natural, os estudos de caso podem fornecer informagées valiosas para medidas de natureza pritica e para decisdes politicas. E preciso, no entanto, niio esquecer que da mesma forma que eles podem ajudar a implementar mudangas que para certas Pessoas significam melhoria ¢ aperfeigoamento, para outras podem significar prejuizo e retrocesso. ‘Um outro ponto importante quando se trata das contribuigdes do estudo de caso é sua forte dependéncia da capacidade, da sensibilidade € do preparo do pesquisador. Ser o principal instrumento de coleta ¢ anilise dos dados tem suas vantagens porque quanto maior a experiéncia € quanto mais agugada sua sensibilidade, mais bem elaborado seri 0 estudo. No entanto, ha que se considerar que nem sempre o pesquisador domina de forma razoavel o instrumental teérico-metodolégico neces- ‘rio para o desenvolvimento de um bom trabalho. Além disso, as formas de anilise dos dados e de elaboracao do relatério final nao esto absolu- tamente prontas em roteiros para serem seguidos, havendo necessidade de que 0 pesquisador se baseie em seus proprios talentos, sua criativida- de e suas habilidades pessoais. Outro aspecto bastante importante na consideragio dos estudos de caso etnograficos sto os problemas éticos geralmente presentes nesse tipo de pesquisa. Um pesquisador sem muitos escripulos éticos pode selecionar € apresentar somente aquelas informagées que Ihe forem convenientes. Relacionadas a essa existem outras questdes éticas que 34 dizem respeito & revelagio de dados que podem afetar negativamente a vida ou comprometer 0 futuro da instituigao, da pessoa ou do programa estudado, ou ainda podem trazer implicagdes de natureza administrativa num sentido nem sempre desejavel. Validade, fidedignidade e generalizacdo no estudo de caso etnogréfico Finalmente hé ainda problemas relacionados & validade, a fidedig- nidade e & generalizagio nos estudos de caso. Em seu debate com 0 professor Stake, Ludke (1983) levanta a seguinte questéio: Como € possi- vel, dentro das condigdes de trabalho do pesquisador brasileiro —que em geral desenvolve suas atividades de pesquisa em paralelo a uma série de outras atividades, administrativas, docentes, culturais —, realizar um tipo de estudo que requer permanéncia longa e concentrada em campo e uma intensa imerso nos dados? Como conciliar as exigéncias da pritica da pesquisa com as demandas da atividade profissional didria? Parece que encontramos aqui um dilema. Desse dilema, no entanto, partilham outros pesquisadores, de contextos bem desenvolvidos, como é comentado por Robert Walker em um interessante artigo sobre a teoria, a ética e os procedimentos do estudo de caso em educagao (Walker 1980). Discutin- do formas alternativas de resolver o impasse, ele sugere que o pesquisador educacional desenvolva o trabalho num perfodo condensado de tempo, ‘mas procure, deliberadamente, captar e relatar pontos de vista de diferen- tes grupos relacionados ao caso sob investigagi0. Segundo © autor, 0 estudo de caso deve ser um retrato vivo da situagio investigada, tomada em suas miiltiplas dimensées e em sua complexidade propria. O pesqui- sador tem, assim, uma certa obrigagio de apresentar as interpretagées diferentes que diferentes grupos ou individuos t¢m sobre uma mesma situagio © deve fazé-lo de tal forma que possibilite uma variedade de interpretagdes por parte do leitor. Outra exigéncia seria a explicitagdo dos métodos e procedimentos usados pelo pesquisador de modo que, se 0s prOprios informantes quisessem continuar o estudo, saberiam que cami- rnho seguir. O processo de investigagdo deve envolver, ainda, segundo Walker, uma constante negociagio entre o pesquisador e os informantes a sobre aquilo que € relatado, As negociagdes nesse caso dizem respeito & acuidade ¢ a relevancia daquilo que é selecionado para apresentago, assim como sobre 0 contetido das informagGes, isto é, o que pode ou nao © 0 que deve ou nao ser tomado piblico. E evidente que um trabatho de campo concentrado no tempo s6 vai agravar as criticas geralmente feitas a0 estudo de caso, principalmen- te sobre a validade ¢ a fidedignidade dos dados. Pode-se, contudo, Tesponder a essas criticas lembrando que nesse tipo de pesquisa os conceitos de validade ¢ fidedignidade nao devem ser vistos do mesmo modo que no modelo cientifico convencional. O conceito usual de fidedignidade envolve 0 confronto ou a relagio entre os eventos ¢ a sua Fepresentagiio, de modo que diferentes pesquisadores possam chegar as ‘mesmas representagGes dos mesmos eventos. No estudo de caso etno- réfico esse tipo de problema se coloca de maneira bem diferente, que © que se pretende € apresentar, com base nos dados obtidos ¢ no Posicionamento do pesquisador, uma das possfveis verses do caso, deixando-se aberta a possibilidade para outras leituras/versbes acaso existentes. Nao se parte do pressuposto de que a reconstrugdo do real feita pelo pesquisador seja a tnica ou a correta; aceita-se que os leitores ossam desenvolver as suas representagdes do real e que essas possam ser to significativas quanto a do pesquisador. A.questiio da validade torna-se grave se nio é possivel permanecer Por um perfodo de tempo longo no campo, quando 0 pesquisador teria portunidade de corrigir falsas impresses ou esclarecer interpretagées duvidosas. Judith Dawson (1982) discute especificamente a questio da validade na pesquisa qualitativa e sugere uma série de procedimentos Para aumentar a probabilidade de que os dados relatados tenham valida- de, Entre outras, ela sugere que o trabalho de pesquisa seja desenvolvido Por um grupo de pesquisadores que atuem ao mesmo tempo como autores € como avaliadores criticos do processo, diminuindo as chances de reforgar posigdes e concepgdes preconcebidas. Além disso, ela reco- menda o emprego de diferentes métodos de coleta de dados, obtidos por intermédio de uma variedade de informantes, em uma diversidade de 56 situagGes e a subsequente triangulago das informagdes obtidas. Sugere também a focalizago progressiva do estudo, isto é, de uma posigo mais aberta no inicio da pesquisa vio sendo definidos, ao longo do processo, aqueles aspectos especfficos que serio aprofundados na coleta © na anélise de dados. ‘Uma das implicages de realizar o trabalho de campo num periodo concentrado de tempo € que 0 pesquisador tenderé a complementar os dados de observagio com os de entrevista. J4 que hi a preocupagdo de retratar a situago pesquisada em suas méltiplas dimensdes, ele vai buscar nos informantes a variedade de significados que eles atribuem a essa situagdo. Para realmente obter os dados necessérios, ele terd, sem diivida, ue garantir aos informantes o sigilo das informagées e provavelmente 0 controle sobre 0 contetido e a publicagdo dos dados. Garantir 0 sigilo muito provavelmente significard obteng’o de dados mais fidedignos, jé que se mantém 0 informante sob protegdo, A garantia de controle do contetido € da divulgagio dos dados pelo informante, no entanto, pode significar mutilago de parte substantiva do estudo. Eis af uma questio ética bastante delicada, Creio que a melhor maneira de enfrenté-la é discutir prds e contras tanto entre os membros da equipe de pesquisadores {quanto entre esses ¢ os informantes. A palavra-chave é negociagio. Quanto a generalizagio, Stake (1978) considera que os estudos de caso podem fornecer experiéncia vicdria ¢ tornam-se, assim, uma fonte de generalizagao naturalistica. O conhecimento em profundidade de um caso, segundo ele, pode ajudar-nos a entender outros casos. A generali- zagio naturalistica se dé no mbito do leitor que, com base nas descrigées feitas pelo autor do estudo e na sua propria experiéncia, fard associ € relagdes com outros casos, generalizando seus conhecimentos. Lincoln e Guba (1985) usam 0 conceito de transferéncia em lugar de generalizagao. Eles partem do principio de que os resultados da pesquisa so sempre hipsteses provisGrias, e afirmam que a transferén- cia € uma fungio direta da similaridade entre dois contextos. Seo contexto “A” ¢ 0 “B” so suficientemente congruentes, dizem eles, entio as hipéteses de um contexto podem se aplicar ao outro. E acrescentam: niio se pode falar em transferéncia com base apenas no contexto de um estudo. No maximo, 0 pesquisador pode fornecer informages bem detalhadas do contexto em estudo de modo que o leitor tenha base suficiente para fazer julgamento da possibilidade de transferéncia para outro contexto, Essa base suficiente de informagdes os autores identi cam como a “descrigio densa”. Outros autores sugerem a agregaciio de dados de diferentes estu- dos, surveys de estudos de casos, realizacio de miitiplos estudos em diferentes regides ¢ contextos ¢ posterior comparacao de seus resultados. ‘Mesmo variando as estratégias, ha alguns pontos de consenso: ) a generalizacao no sentido de leis que se aplicam universalmen- tendo éum objetivo da abordagem qualitativa de pesquisa. Alguns dit {que esse niio é um objetivo itil em qualquer tipo de pesquisa, ») a ideia da generalizacao € aceita por todos no sentido de que os dados de um estudo possam ser titeis para compreender os dados de outro estudo, ©) adescri¢do densa € considerada vital quando se pretende fazer comparagao ou transferéncia de uma situagao para outra, A andlise de similaridades © diferengas torna possfvel julgar em que medida os resultados de um estudo podem ser considerados hipéteses sobre o que ode ocorrer ou niio em outras situagGes. Qualidades do pesquisador Além de se informar sobre as situagdes em que o estudo de caso etnogrifico é adequado, analisar suas vantagens ¢ limitagdes, considerar Seu potencial de validade, fidedignidade e generalizagio, o pesquisador Precisa também conhecer as caracteristicas e habilidades pessoais que Serdio necessérias para o desenvolvimento de um bom estudo de caso, 58 Alguns podem pensar que esse é um tipo de pesquisa mais simples € mais facil do que outros, mas na verdade pode ser exatamente 0 contrdrio. Yin (1988), por exemplo, acredita que “as demandas do estudo de caso sob o ponto de vista intelectual, pessoal e emocional so maiores do que as de qualquer outra estratégia de pesquisa” (p. 56). Algumas pessoas se sentiro mais A vontade diante do design aberto ¢ flexivel da abordagem qualitativa, outras preferirdo esquemas mais estruturados e menos ambiguos de trabalho. F por isso que cada um deve considerar, de antemao, se possui as qualidades © habilidades exigidas ou se est disposto a desenvolvé-las. Como no estudo de caso etnogritfico o pesquisador é o principal instrumento de coleta e andlise de dados, havers momentos em que sia condigdo humana seré altamente vantajosa, permitindo reagir imediata- mente, fazer corregées, descobrir novos horizontes. Da mesma maneira, como um instrumento humano, ele pode cometer erros, perder oportuni- dades, envolver-se demais em certas situagdes ou com certas pessoas. Saber lidar, pois, com os prés ¢ contras de sua condigio humana é 0 Principio geral inicial que o pesquisador deverd enfrentar. Diferentes autores apresentam diferentes listas de qualidades ideais para um pesquisador que deseja realizar um estudo de caso “qualitativo”. Merriam (1988) selecionou trés que nos pareceram bem abrangentes e que passaremos a comentar. Para desenvolver um estudo de caso “qualitativo”, o pesquisador precisa antes de tudo ter uma enorme folerdncia @ ambiguidade, isto €, saber conviver com as dividas e incertezas que sio inerentes a essa abordagem de pesquisa. Ele tem que aceitar um esquema de trabalho aberto € flexivel, em que as decisdes so tomadas na medida e no ‘momento em que se fazem necessdrias. Nao existem normas prontas sobre como proceder em cada situacao especifica, e os critérios para seguir essa ou aquela diregao so geralmente muito pouco dbvios. Existem sugestées gerais na literatura e a experiéncia de outros pesquisadores que sempre podem ser titeis, mas de qualquer maneira hé uma série de definigdes que dependem de cada situagdo em particular. Decidir o que constitui realmente 0 caso, como os dados serio coletados, quem seré entrevistado ou observado, que documentos sero analisados € uma atividade que pode ser apenas esbogada num primeiro momento, ‘mas terd que ser repensada, redefinida, modificada ao longo da pesquisa. Ela dependeri de como vio ser os contatos iniciais do pesquisador, de sua forma de entrada em campo, de sua aceitacdo ou nfo, de sua interagao ‘com os participantes e s6 entio é que poderd ir sendo mais especificada. Além dessa flexibilidade no proprio esquema de trabalho, as decisdes sobre como analisar e apresentar os dados também nao podem ser predeterminadas, a no ser em linhas bem gerais. E com base na forma como a pesquisa vai se desenvolvendo ¢ em decorréncia dela. que essas decisdes viio ficando mais claras, E justamente essa estrutura flexivel e aberta que torna o estudo de ‘caso atrativo para muitos, principalmente para aqueles que se sentem A yontade diante do novo, do imprevisto, que gostam de trabalhar em condigdes pouco estruturadas ¢ que aceitam 0 desafio do incerto, do impreciso. Da mesma maneira, 0 convivio com um esquema muito aberto de trabalho pode evar outros a se sentirem inseguros © até desestimulados. Assim, o que pode ser uma aventura fascinante para alguns pode também ser uma experiéneia desastrosa para outros. Sensibilidade é outra caracterfstica frequentemente mencionada quando se fala nas qualidades necessdrias ao pesquisador que escolhe a abordagem qualitativa. Ele precisa usar a sua sensibilidade especialmen- te no periodo de coleta de dados, quando deve estar atento as varidveis relacionadas ao ambiente fisico, as pessoas, aos comportamentos, a todo contexto que estd sendo estudado, Além disso ele também vai ter que ecorrer As suas intuigdes, percepedes e emocdes para explorar o méxi- mo possivel os dados que for obtendo. Mais ainda, ele terd que manter. uma constante atitude de vigilancia para detectar e avaliar 0 peso de suas preferéncias pessoais, filosdficas, religiosas e politicas, no decorrer de ‘oda investigagio, 6 uso da sensibilidade na fase de coleta significa, por um lado, saber ver mais do que 0 6bvio, 0 aparente. Significa tentar capturar 0 sentido dos gestos, das expresses nao verbais, das cores, dos sons e usar cessas informagdes para prosseguir ou nfo nas observagdes, para apro- fundar ou niio um determinado ponto eritico, para fazer ou ndo certas erguntas numa entrevista, para solicitar ou nio determinados documen- tos, para selecionar ou no novos informantes. Por outro lado, o pesqui- sador vai precisar usar seus sentidos, suas intuigdes, percepgdes e expe- riéncias para decidir quando iniciar 0 trabalho de campo, quando torné- Jo mais — ou menos — intenso e quando encerrar a coleta de dados, A sensibilidade também vai ser um importante ingrediente no ‘momento da anélise dos dados, jé que © pesquisador nao dispée de um conjunto de procedimentos padronizados para serem seguidos passo a asso. Ele vai ter, sim, que se valer basicamente de sua intuicdo, de sua ctiatividade e de sua experiéncia pessoal quando tiver que olhar para 0 ‘material coletado para tentar apreender os contetidos, os significados, as ‘mensagens implicitas e explicitas, os valores, os sentimentos ¢ as repre- sentagdes nele contidos. Isso vai acontecer durante 0 perfodo mais sistematico da andlise (j4 que esta ocorre em todo o desenrolar do estudo). Nesse momento o pesquisador vai fazer uma “leitura’” interpre- tativa dos dados, recorrendo sem dtivida aos pressupostos tedricos do estudo, mas também as suas intuigdes, aos seus sentimentos, enfim A sua sensibilidade. E esse movimento de vaivém da empiria para a teoria, € novamente para a empiria, que vai tornando possivel a descoberta de novos conhecimentos. ‘Como no estudo de caso o instrumento principal é o pesquisador, lum ser humano, as observagdes € andlises serdo filtradas pelos seus Pontos de vista filos6ficos, politicos, ideolégicos. E nao poderia ser diferente. Quando comega um trabalho de pesquisa, pesquisador nio pode deixar de lado os seus valores, as suas crengas ¢ 0s seus principios, No entanto, ele deve estar ciente detes e deve ser sensivel a como eles afetam ou podem afetar os dados. Ele precisa, em primeiro lugar, saber ‘dentificd-los para revelé-1os ao leitor. Ele pode, em segundo lugar, usar algumas medidas para controli-los, usando, por exemplo, a triangulagao de fontes, de informantes, de perspectivas tedricas. No entanto, o melhor remédio para controlar as tendenciosidades, segundo Guba e Lincoln (1981), “€ ter clareza sobre como elas dirigem ¢ modelam aquilo que ‘ouvimos, como elas afetam a nossa forma de reproduzir a realidade dos informantes e como elas transformam a verdade em coisa falsa” (p. 148), Além de ser tolerante as ambiguidades e ser uma pessoa sensivel, © pesquisador precisa também, de acordo com Merriam (1988), ser ‘comunicativo. E ela explica: “Uma pessoa comunicativa é empética com 0s informantes, estabelece rapport, faz boas perguntas ¢ ouve atenta- mente” (p. 39). A empatia vem sendo apontada ha muito como uma caracteristica essencial dos pesquisadores que realizam trabalho de campo. Ela se cconstitui num dos prineipios bésicos da fenomenologia, que esté nas ratzes dos estudos qualitativos. Segundo esse prinefpio, o observador deve tentar se colocar no lugar do outro para tentar entender melhor o que esté dizendo, sentindo, pensando. Ela 6, portanto, um importante componente has situagGes em que o pesquisador interage com os sujeitos para obter os dados que Ihe permitirio compreender melhor fendmeno em estudo. Se a empatia vai ser muito «til nas conversas e nas negociagdes iniciais que dardo acesso ao trabalho de campo, ela vai ser ainda mais fundamental nas entrevistas que serdo feitas durante o estudo. A obten- ‘sao de dados relevantes, significativos depende muito do tipo de rapport estabelecido pelo entrevistador. Se hé um clima de confianga, as infor- ‘mages fluirdo mais naturalmente € com isso o entrevistador se sentir mais & vontade para ir mais a fundo num determinado aspecto, tocar em uestOes mais delicadas e explorar pontos de vista controvertidos. Para que seja criado esse ambiente de acolhimento por parte do entrevistador, ele precisa ser, sobretudo, uma pessoa que saiba ouvir. Ele precisa ouvir com atengio aquilo que esté sendo dito, precisa ser pacien- tecomas pausas, com as explicagdes complexas, coma falta de preciso, ‘Mas, por outro lado, ele precisa também saber usar bem o seu tempo e 0 62 do informante e entio ser capaz de interromper na hora em que for hecessério, fazer novas perguntas, refrasear uma questio etc. Ele preci- sa, também, tentar ouvir com atengdo as opinides, os argumentos, os pontos de vista que divergem dos seus prprios, jé que 0 estudo de caso deve procurar representar as diferentes perspectivas dos diferentes gru- Pos que tém algum envolvimento com o caso analisado.. Finalmente, ha uma habilidade que nao foi enfatizada por Merriam (1988) e que também é mencionada muito rapidamente em outras publi- cages, mas a que eu gostaria de dar especial destaque, que é a habilidade de expressao escrita. Muitas vezes, o trabalho de | ‘campo é conduzido com todo cuidado, os dados obtidos sao ricos, significativos, mas o pesquisa- dor niio consegue montar 0 caso, ou seja, no consegue por em palavras aquilo que observou, ouviu e sentiu. Algumas vezes essa dificuldade corre pela massa enorme de dados acumulados ou por outras razées roprias & metodologia de coleta e andlise, mas muito frequentemente ela decorre de uma grande dificuldade de lidar com a palavra escrita. (O que se pode fazer quando isso acontece? Existem, naturalmen- te, outras formas de apresentagiio do caso, como o desenho, a fotografia, a hist6ria em quadrinhos, 0 video, mas muitas vezes 0 relato escrito torna-se indispensdvel. Nesses casos 0 que pode ser feito é, em primeiro ugar, reservar bastante tempo para a elaboraco do relatério, Além disso € preciso ser bastante persistente, ndo hesitando em fazer uma, duas ou até dez verses do caso até que realmente se consiga expressar a riqueza, a.complexidade e o movimento do que foi observado, ouvido, partilhado. E evidente que, quando o trabalho de pesquisa € realizado em ‘equipe, ‘essa fase torna-se menos penosa, porque os diversos membros do grupo podem colaborar mais ativamente com seus talentos ¢ suas habilidades pessoais, fazendo com que o resultado possa ser atingido em menos tempo e sem tanta dificuldade. A grande questo que aparece ao final dessa discussio é a seguin- te: Em que medida essas habilidades podem ser ensinadas ou aprendi- das? Alguns autores, como Yin (1988), recomendam que haja um perio- do de treinamento para os novos pesquisadores. Outros, como Merriam (1988), consideram que, quando essas caracteristicas estdo presentes de alguma forma na personalidade do individuo, elas podem ser desenvol- vidas. Ela também actedita que quase todo mundo pode aperfeigoar as stias habilidades de comunicagio. Guba e Lincoln (1981) também acham que 0 pesquisador pode aperfeigoar essas habilidades expondo-se a situagdes que the permitam ganhar experiéncia e principalmente traba- Ihando com um pesquisador experiente. Com base na minha experiéncia de pesquisa eu diria que as dificuldades com a expressio escrita sio um forte condicionante na escolha da estratégia do estudo de caso etnogrifico, E preciso que as varias condigées anteriormente mencionadas — como um longo periodo para elaboragio do relat6rio, persisténcia, ajuda de outros colegas, supervisio de um pesquisador mais experiente —estejam presentes para que essa dificuldade possa ser superada. Acredito, no entanto, que existe uma forma muito efetiva de propiciar o desenvolvimento dessas habilidades: o trabalho coletivo de pesquisa. Tanto na minha propria formagdo de pesquisadora quanto nos varios grupos que formei ao longo de minha carreira universitéria, pude testemunhar a enorme contribuigao do trabalho conjunto, seja para consolidar uma linha de pesquisa, seja para estimular € desenvolver habilidades ¢ atitudes necessérias ao trabalho de investigagao.