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uçp Á tom o

DIRETOR GERAL
Wilon Mazalla Jr.
COORDENAÇÃO EDITORIAL
Willian F. Mighton
COORDENAÇÃO DE REVISÃO E COPYDESK
Helena Moysés
REVISÃO DE TEXTOS
Giovana Aparecida Tartari
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Adriane Bergantin da Silva
Camila Lagoeiro
Fabio Diego da Silva
Gisele de Cássia Ribeiro Amaral
Tatiane de Lima
CAPA
Ivan Grilo

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Libânio, Marcelo
Fundamentos de qualidade e tratamento de água/
Marcelo Libânio. - - Campinas, SP: Editora Átomo, 2010.
3a Edição

Bibliografia

1. Água 2. Água - Estação de


tratamento - Equipamento e acessórios 3. Águas
naturais - Purificação 4. Água - Controle de
qualidade I. Título.

05-6323 CDD-628.1

índices para Catálogo Sistemático

1. Água: Tratamento: Controle de qualidade:


Tecnologia: Engenharia sanitária 628.1

ISBN 978-85-7670-165-1

Todos os direitos reservados à

_ r

Editora Atomo
Rua Tiradentes, 1053 - Guanabara - Campinas-SP
CEP 13023-191 - PABX: (19) 3232.9340 e 3232.0047
www.atomoealinea.com.br

Impresso no Brasil
Editora
Á to m o

CONSELHO EDITORIAL
Área | Química

Aécio Pereira Chagas


Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

Célio Pasquini
Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

Flávio Leite
T & E Analítica

Mário Sérgio Galhiane


Universidade Estadual Paulista - UNESP

Pedro Faria
Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

Ricardo Ferreira
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

Robson Fernandes de Farias


Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
A o meu querido tio (Rubens LiSânio, que desempenha há tanto tempo
e com tanto desvefo um papeíque taívez não Che couBesse.

A Leonardo Rarma e (Bernardo Macedo, amigos exemplares!,


peta ventura de uma convivência já tocada pehos anos.

A A n a Rereza e Mariana. IncondicionaCmente.


Não há como deixar de reconhecer a importância das diversas pesquisas desenvolvidas
sob a chancela de órgãos como Fundunesp, Fapemig, Finep, Capes e CNPq, cujos
principais resultados foram, com êxito variável, transpostos para as páginas deste livro. Da
mesma forma, o papel dos diversos alunos de graduação e pós com os quais tenho tido a
satisfação de trabalhar. Destes, em especial, Maria de Lourdes Fernandes Neto e Vanessa
Cristina Lopes. A primeira pela leitura aguda dos capítulos relacionados à qualidade de
água, a segunda pelas diversas figuras que se espraiam pelas páginas do livro. A ambas
pela atenção e delicadeza.
Por fim, agradecimento especial aos colegas do Departamento de Engenharia Hidráulica
e Recursos Hídricos da UFMG pelo constante apoio e acolhimento ao longo de mais de
uma década de convívio tão profícuo quanto prazeroso.
[...] Tudo o que quiserem, porque a terra que andamos puxados pelos pés,
querendo deitar raízes, homens-árvore como no m ito de Dafne, é a das serras
em forma das chaminés, lanças, seios, anátemas, agulhas, manoplas, ereções,
castelos, torreões, navios - azuladas pela manhã, quando emergem do m ar
de bruma dos vaiados, refulgentes ao sol do meio-dia e recortando-se sobre
os tons de cobre, ouro e púrpura do entre dia-e-noite. Serras, serras, picos...
Curral, Piedade, Rol a-Moça, Caraça, Itacolomi, Vertentes, Mantiqueira. Serras
de cujas encostas descem os rios que vão ao São Francisco e Paraíba para
soltar no Atlântico o nosso sangue mineral. Rios encachoeirados, rápidos
ou lentos, turvos ou claros, limosos, vermelhos, lamacentos, verdes, cheios
de ferrugem e de ouro em pó. Rios, rios, ribeirões... Sapucaí, Paraopeba,
Arrudas, Santa Bárbara, Carmo, .Grande, Rio das Velhas, Rio das Mortes...
Rios que levam até o mar o sabor de Belo Horizonte, Caeté, Sabará, O u ro
Preto, Mariana, Congonhas do Campo, Santa Bárbara do M ato Dentro. Rios
que pela vida subterrânea dos lençóis d ’água drenam do solo das igrejas e da
te rra dos cemitérios a substância calcária de meus parentes - porque deles há
sempre um esqueleto em cada cripta ou cada campo santo - contido naquele
círculo que começa e acaba em Queluz, tendo Rio Acima com o centro do seu
raio. Essas áreas não posso chamar de pátria, porque não as amo civicamente.
O meu sentimento é mais inevitável, mais profundo e mais alto porque vem
da inseparabilidade, do entranhamento, da unidade e da consubstanciação.
Sobretudo, da poesia... Assim, onde é que já se viu um pouco d'água am ar o
resto da água? Se tudo é água...

Pedro Nava - Baú de Ossos


r •
Sumário

Apresentação à 3a Edição.............................................. ....................................... ......... .........13

Introdução.............................. 15
Conceito e histórico.............................................................................................. 15
Disponibilidade hídrica............. ...........16
Propriedades das águas naturais......................................... ............................................. 19

Características das Aguas Naturais.................................................... 25


Características físicas............................ 25
Características químicas.......................................................................................... 42
Características biológicas.......................................... ................. .............. ......................63
Características radioativas............................................................................ 78

índices de Qualidade de A g u a................................................................................................. 79


Metodologia Delphi..................................................................................................•-.......80
índice de qualidade de ág u a........................................................................ ......................80
índice de qualidade de água bruta....................................................... ............................. 84

A Evolução dos Padrões de Potabilidade................................................................................91


Histórico.......................... 91
Evolução dos padrões de potabilidade americanos.........................................................92
Evolução dos padrões de potabilidade nacionais.......................... 93
Tendências ...................................... .....98

C vüíA uv 33
Poluição e Contaminação de M ananciais............................................................... .......107
Conceito.... ......................... 107
Tipos de captação e seus efeitos sobre a qualidade de água....................................... -111
Alterações nas características das águas superficiais................................. H6
Alterações nas características das águas subterrâneas.................................................. 123
Proteção de mananciais...... ............................................................................... ••••••....... 129
Tecnologias de Tratamento ............ .................................... .......... . .135
Fatores intervenientes na definição da tecnologia de tratamento. .135
Tecnologias de tratamento........... ................................................ . .146

Coagulação....................................................................................... ...... .153


Histórico e conceito..... ................................................... ............... .153
Mecanismos de coagulação.......................... .............. ................... .157
Fatores intervenientes na coagulação............................................ .162
Unidades de mistura rápida......... ............... .................................. .196

Floculação.............................................................................................. .209
Considerações iniciais................ .................................................... .209
Mecanismos de transporte e intervenientes na floculação.......... .211
Mecanismos de agregação e ruptura dos flocos............................ .216
Fatores intervenientes na floculação............................................. .221
Tipos de unidades de floculação..................................................... .237

TTo 7v
Decantação............................................................................................. .257
Conceito e histórico......................................................................... .257
Distribuição de água floculada........................................................ .258
Sedimentação de partículas discretas............................................ .262
Sedimentação de partículas floculentas......................................... .269
Tipos de unidades de decantação................................................... .270
Resíduos gerados nas unidades de decantação.............................. .302

Cm? tule. Vj
Filtração .................................................................................................. .309
Conceito e histórico.... ..................................................................... .309
Mecanismos intervenientes na filtração......................................... .311
' Meio filtrante..................................................................................... .318
Tipos de filtros empregados no tratamento de água..... ................ .332
Sistemas de drenagem, camada-suporte e calhas de coleta......... .359
Aspectos operacionais dos filtros rápidos...................................... .365
Sistemas de controle de filtros......................................................... .378

Adequação e Otimização de Estações.................................................. .385


Introdução.......................................................................................... .385
Diagramas de coagulação................................................................ .387
Ensaios de tratabilidade para estações existentes................. ........ .391
Ensaios de tratabilidade para estações por construir..................... .401
Procedimentos para realização dos ensaios em reatores estáticos .406
Avaliação do desempenho das unidades filtrantes........................ .408
Filtração em Membrana.................................................................................... .....................411
Introdução........................................................................................................................... 411
Histórico..... ....................................................................................... 413
Aplicação e tipos de membranas.................... 414
Custos dos sistemas de filtração em m em brana........................................... 417
Eficiência da tecnologia de filtração em membranas.......................................... 419

Capitulo 13
Desinfecção..............................................................................................................................421
Conceito e histórico.......................................................................................................... 421
Processos e mecanismos de desinfecção................ 423
Fatores intervenientes na eficiência da desinfecção...................................................... 424
Desinfecção com compostos de cloro.... ........... 427
Desinfetantes alternativos ao cloro........................ 436

Fluoretação.............. 445
Conceito......................... 445
Histórico.................................................. 445
Atuação preventiva do flúor............................................................................................. 447
Fluoretação no B rasil................................. 449
Compostos de flúor................................................................................................ 450
Aplicação do flúor............................................................................................................. 451
Custo da fluoretação..........................................................................................................453

Corrosividade e Agressividade.............................................................................................. 455


Aloísio de Araújo Prince
Introdução........................................................................................................................... 455
Relevância..........................................................................................................................456
Corrosão metálica.............................................................................................................. 457
Agressão a concreto..........................................................................................................465
Métodos de combate à corrosão.......................................... 466
Condicionamento quím ico............................................................................................... 469

Teste para Determinar o Estágio de Saturação


de Carbonato de Cálcio de uma Água (Teste de Mármore)................................................477

Referências..................................... 479
A presentação à 3 a Edição

É difícil precisar quando a motivação para escrever este livro manifestou-se pela primeira vez.
Talvez tenha surgido de forma ainda tênue quando ministrei, em nível de graduação na Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, disciplina relacionada ao tema no final da década de 1980.
Alguns anos depois o mesmo se deu na Universidade Estadual Paulista (Faculdade de Engenharia
de Ilha Solteira). A partir de 1994, passei a ministrá-la com maior frequência no contexto do curso
de Especialização em Engenharia Sanitária e pouco depois, de forma perene, no bojo do Programa
de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG. Tive também
oportunidade de ministrar diversos cursos de curta duração em vários estados do Brasil, experiência
que ajudou a consolidar o desejo de produzir uma obra que contribuísse para disseminação dos
conceitos relacionados a tão importante tema.
O discreto êxito das duas edições anteriores motivou-me, nesta 3a edição, a ampliar o espectro
de abrangência da obra. Assim, como resultado de pesquisas que tive a satisfação de coordenar nos
últimos anos, foram inseridos dois capítulos versando sobre indicadores de qualidade de água e filtração
em membrana como emergente tecnologia de tratamento. Os demais capítulos expandidos centram-se
nos aspectos fundamentais relacionados às características das águas naturais, enfatizando também a
poluição de mananciais passíveis de serem empregados para abastecimento. Os principais processos
e operações unitárias intrínsecos às tecnologias de tratamento mais extensivamente utilizadas ou que
cujas características favoreçam seu emprego no País são abordados nos capítulos subsequentes. Destes,
apenas a flotação por ar dissolvido não foi contemplada, de uso restrito ainda no País, embora em
algumas estações na Região Sudeste esta operação unitária faça-se presente com resultados variáveis.
Cabe destacar que o Capítulo 15 foi elaborado pelo engenheiro Aloísio Prince e os capítulos
9 e 12 contaram, respectivamente, com a colaboração dos engenheiros Nelson Guimarães e Alisson
Bragança. O livro destina-se a profissionais e estudantes (em nível de graduação e pós), apresentando
os fundamentos teóricos das etapas do tratamento e diversos exemplos de cálculo. Cálculos adicionais
dos parâmetros hidráulicos inerentes às tecnologias de potabilização podem ser realizados por meio de
software disponível no endereço www. ehr.ufmg.br.
Por fim, resolvi incluir no início de cada capítulo verbetes hídrico-literários, incomuns em obra
que mais das ciências exatas se aproxima, e que talvez - também pela significativa presença do maior
ícone das nossas letras - possam se constituir deste texto a sua melhor parte.
Introdução

Um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio. Porque


o homem nunca é o mesmo. £ nunca é o mesmo rio.

Heráclito de Éfeso (470 d.C.)

Conceito e histórico

A água ocupa aproximadamente 75 % da superfície da Terra e é o constituinte inorgânico mais


abundante na matéria viva, integrando aproximadamente dois terços do corpo humano e atingindo
até 98 % para certos animais aquáticos, legumes, frutas e verduras. Constitui-se também no solvente
universal da maioria das substâncias, modificando-as e modificando-se em função destas. Diversas
características das águas naturais advêm desta capacidade de dissolução, diferenciando-as pelas
características do solo da bacia hidrográfica. Como consequência, o corpo d’água, rio ou lago sempre
inclui a bacia hidrográfica que, por sua vez, imprimir-lhe-á muitas das suas características no que
tange à geologia, à pedologia, à morfologia, à hidrologia, à vegetação, ao clima predominante e,
principalmente, às atividades antrópicas nela desenvolvidas.
Aliada à mencionada capacidade de dissolução, a água atua como meio de transporte - em
escoamento superficial e subterrâneo - permitindo que as características de um mesmo curso d ’água
alterem-se temporal e espacialmente. Por fim, as características das águas naturais influenciam e são
também influenciadas pelo metabolismo dos organismos aquáticos, conferindo estreita interação entre
estes e o meio ambiente, base da ciência denominada Ecologia.1
A relação do ser humano com os corpos d ’água data de tempos imemoriais. Estima-se que
há 10000 anos, com a revolução da agricultura, o ser humano tenha começado a abandonar a caça
como principal fonte de sustento e iniciaram-se as primeiras culturas e a criação dos rebanhos.
Como consequência, renunciou-se progressivamente ao nomadismo, que caracterizava as primeiras
comunidades, e a busca por fontes de abastecimento culminou com o estabelecimento dos primeiros
povoados às margens dos cursos d’água, provavelmente na região da Mesopotâmia (Iraque). A partir
daí delineou-se clara identificação dos primeiros povoados, e posteriormente das primeiras cidades,

1. Termo de origem grega - íóikos' (casa) + ‘ lógos ’ (arte, ciência) - que designa a ciência que estuda as relações
dos seres vivos entre si ou com o meio ambiente.
com o curso d ’água que as margeia, muitas vezes emprestando-lhes o próprio nome. Consolidaram-se
associações de, por exemplo, Viena e Budapeste ao Danúbio, Londres ao Tâmisa, Paris ao Sena, Roma
ao Tíbere, entre outras tantas.

Disponibilidade hídrica
Estima-se entre 1,36 x 109 a 1,46 x 109 km3 o volume de água no Planeta e aproximadamente
97 % correspondem aos mares, oceanos e lagos de água salgada (Von Sperling, 2006). Ainda que
a dessalinização como tecnologia de potabilização tenda a crescer, a água doce disponível, via de
regra, constitui-se na alternativa de abastecimento mais facilmente acessível às populações. No Brasil,
por exemplo, a parcela habitada do arquipélago de Fernando de Noronha/Pe é abastecida durante o
período de escassez de chuvas por meio de uma unidade de dessalinização de osmose inversa, bem
como diversas comunidades de pequeno porte no interior da Região Nordeste. Em nível mundial,
diversas cidades - Riad (Arábia Saudita), Barcelona (Espanha), Cingapura, entre outras - são parcial
ou totalmente abastecidas por meio de captação de água do mar.
Todavia, a parcela mais significativa da água doce, disponível nas calotas polares, é praticamen­
te inaproveitável para fins de abastecimento para a quase totalidade da população terrestre, conforme
evidenciado na figura 1.1.

Figura 1.1. Distribuição percentual da água doce disponível na Terra.


Fonte: Borghetti et al. (2004 apud Di Bernardo; Paz. 2009a).

Dos percentuais apresentados na figura 1.1, destaca-se a ínfima parcela referente aos cursos
d ’água que se constituem usualmente na principal alternativa ao abastecimento de comunidades
de médio e grande porte e, paradoxalmente, no principal corpo receptor ao lançamento de esgotos
domésticos e industriais.
A parcela referente às águas superficiais distribui-se entre os cinco continentes conforme denota
a figura 1.2.

Figura 1.2. Distribuição das águas superficiais entre os continentes.


Fonte: Borghetti et al. (2004 apud Di Bernardo; Paz, 2009a).

Os percentuais discriminados na figura 1.2 evidenciam o porquê de parcela significativa dos


^ ^^ países europeus ser majoritariamente abastecida, por vezes na totalidade como Lituânia e Dinamarca,

por meio de aquíferos subterrâneos e a situação frequentemente dramática vivenciada pela população
africana, estimada, em 2006, superior a 350 milhões de pessoas.
O percentual das águas superficiais localizado nas Américas apresentado na figura 1.3
testifica o papel de relevo do Brasil no contexto mundial, representando algo como 13 % das
reservas mundiais.

Figura 1.3. Distribuição (%) da disponibilidade hídrica nas Américas.


Fonte: Von Sperling (2006).

Todavia, ao relacionar a disponibilidade hídrica à população do país, o Brasil cai para o 9o lugar
em virtude da magnitude da população comparada à de outros países, conforme evidencia a figura 1.5.

Disponibilidade hídrica per capita (mil m3/hab.ano)

Figura 1.4. Relação dos nove países com maior disponibilidade hídrica per capita do planeta.

Uma segunda constatação que emerge da figura 1.4 se reporta à relevância das Américas
na disponibilidade hídrica do globo, uma vez que seis dos nove países listados se localizam neste
Continente.
Associada à disponibilidade hídrica apresentada na figura 1.2 insere-se o consumo de água nos
continentes conforme mostra a figura 1.5.

Figura 1.5. Distribuição do consumo de água nos continentes.


Fonte: Borghetti et ai. (2004 apud Di Bernardo; Paz, 2009a).
C A PÍ TU L O 01

17
Com base nos percentuais apresentados na figura 1.5 aflora a constatação do elevado consumo
per capita2 nos Estados Unidos, pois este país representa algo como 4,8 % da população mundial e
71 % da população da América do Norte3. Corrobora esta afirmativa, inferência elaborada com fyase
em dados de 1996 nos Estados Unidos, que apontou cota per capita média nos 51 estados americanos.
Os valores extremos variaram de 494 L/hab.dia, no estado de Maine na Costa Leste, atingindo até
1230 L/hab.dia no desértico estado de Nevada na Costa Oeste, conforme apresentado na figura 1.6.
Vale enfatizar que os valores listados na figura 1.6 referem-se tão somente ao abastecimento doméstico
e industrial, não contemplando o consumo com irrigação.

Figura 1.6. Consumo per capita de abastecimento doméstico e industrial em alguns estados dos EUA, referentes
a 1996.
Fonte: AWWA (1998).

Em nível mundial, do volume total utilizado para consumo humano, o abastecimento responde
pela menor parcela (10 %) quando cotejada ao uso agrícola (69 %) e industrial (21 %). No Brasil, tais
percentuais apresentam-se ligeiramente distintos conforme mostra a figura 1.7.

Figura 1.7. Consumo de água por setor em nível nacional.

Embora dotado de significante disponibilidade hídrica comparada à da maioria dos países, o


Brasil apresenta expressiva desuniformidade na distribuição no que tange às regiões mais populosas.
A quase totalidade da população brasileira (95 %) habita as quatro regiões que respondem por
aproximadamente 27 % da disponibilidade hídrica superficial do País. A classificação da disponibili­
dade per capita em nível dos estados brasileiros apresenta-se conforme evidenciado pela tabela 1.1.

2. Volume de água diário, requerido por indivíduo, usualmente expresso em L/hab.dia. Esse valor é adotado, nos
projetos de sistemas de abastecimento de água, para satisfazer ao consumo doméstico, ao consumo comercial
e industrial, ao consumo público e às perdas.
3. Estimativa elaborada baseada em populações de 420 milhões e 6,3 bilhões de pessoas para os EUA e o Planeta,
respectivamente.
CA PITULO 01
1 Q
AO ..... ' ■' ' ■ ■- ' ‘ -................. ............................................................................... . .....
Tabela 1.1. Classificação da disponibilidade hídrica per capita dos
estados da Federação.
. Situação Estado
Abundância > 20.000 m 3/hab.ano Roraima
Amazonas
Amapá
Acre
Mato Grosso
Pará
Tocantins
Rondônia
Goiás
Mato Grosso do Sui
Rio Grande do Sui
Muito rico > 10.000 m3/hab.ano Maranhão
Santa Catarina
Paraná
Minas Gerais
Rico > 5000 m3/hab.ano Piauí
Espírito Santo
Situação correta > 2500 m3/hab.ano Bahia
São Pauio
Pobre < 2500 m3/hab.ano Ceará
Rio de Janeiro
Rio Grande do Norte
Distrito Federal
Alagoas
Sergipe
Situação crítica < 1500 m3/hab.ano Paraíba
Pernambuco

Esta constatação evidencia-se mais significativamente pelo fato dos mananciais das regiões
Sudeste e Sul, em especial, serem os mais fortemente impactados pelo lançamento dos despejos
domésticos e industriais, tendendo a tomar progressivamente mais conflituosa a questão da prioridade
de uso dos recursos hídricos. Em semelhante contexto, o consumo regional de água divide-se conforme
a figura 1.8.

Figura 1.8. Consumo de água (%) nas cinco regiões brasileiras.

Propriedades das águas naturais


Importante distinção deve ser feita entre as propriedades e as características (físicas,
químicas, biológicas e radioativas) das águas naturais. As propriedades da água - ou, por definição,
característica do que é próprio - constituem-se no que lhe é inerente e a distingue dos demais fluidos.
CA PÍ TU LO 01
Já as características diferenciam as águas naturais entre si, podendo se manifestar em uma ou outra
circunstância. Por exemplo, para o abastecimento público, a estrutura de captação haverá de influenciar
nas características da água bruta, mas não interfere nas suas propriedades. Vale também mencionar
que uma importante característica das águas, a temperatura, influenciará em algumas das Suas
propriedades. Neste aspecto, há controvérsia se a temperatura seria uma propriedade ou característica
física. Optou-se pela última pela importância no tratamento e pela mencionada influência em algumas
das propriedades das águas naturais, além do fato da temperatura não a diferenciar dos demais fluidos.
\
Calor específico
O calor específico é a quantidade de energia requerida, por unidade de massa, para elevar a
temperatura de um fluido ou substância e, neste contexto, uma caloria (cal) é a energia requerida para
elevar em 1,0 °C a temperatura de um grama de água. O elevado calor específico da água (1,0 cal/g °C),
superado apenas pelo hidrogênio líquido e amoníaco, permite absorver grande quantidade de calor sem
apresentar significativa variação de temperatura. Esta propriedade adquire crucial importância para a
biota do meio aquático e também para o abastecimento público, pois significativa amplitude térmica
do ar atmosférico manifesta-se em muito menor magnitude em termos da alteração da temperatura da
água.
Ilustra esta assertiva o fato de serem raros os casos de congelamento da água nas redes de
distribuição nos países frios, mesmo para temperaturas do ar inferiores a 30 °C negativos. No contexto
nacional, a recorrente limitação de algumas tecnologias ou etapas da potabilização raramente se
manifesta no Brasil (reápectivamente, a filtração lenta e a coagulação), onde temperaturas médias
mensais das águas naturais inferiores a 15 °C somente ocorrem em algumas cidades serranas das
regiões Sul e Sudeste.

Massa específica, densidade e peso específico


Define-se massa específica4 (kg/m3) como o quociente entre a massa e o volume de um fluido
ou de determinada substância, diferindo do conceito de densidade. Este adimensional refere-se à razão
entre a massa específica do líquido ou sólido e a da água a 4 °C, e, para os gases, considera-se como
referência a massa específica do ar atmosférico a 0 °C. Associa-se também ao conceito de massa
específica, o peso específico (N/m3) como o produto desta e a aceleração da gravidade.
Interessante particularidade da água manifesta-se em relação à massa específica, quando comparada
aos demais líquidos, por apresentar o valor máximo a 4 °C (1000 kg/m3), ao passo que para os demais
tal ocorre na temperatura de congelamento. À temperatura de 20 °C, usual na maioria dos sistemas de
abastecimento do. País, a massa específica da água é 998 kg/m3 e o peso específico 9789 N/m3.
A variação da massa específica da água com a temperatura assegura a manutenção da vida
aquática e a constância do próprio abastecimento de água em diversos países; do hemisfério norte nos
quais os invernos são muito rigorosos. Por ser mais densa a 4 °C do que a 0 °C, para temperaturas
negativas a água termina por ocupar as camadas profundas de rios e lagos, permitindo que a superfície
do corpo hídrico se congele. Desta forma, garante-se a preservação da comunidade aquática e a
perenidade no abastecimento durante este período do ano.
Conforme a tabela 1.2 a seguir mostra, as maiores variações na densidade da água verificam-
-se para temperaturas superiores a 20 °C. Por exemplo, a diferença de densidade da água entre as
temperaturas de 24 e 25 °C é 26 vezes maior da observada no intervalo de 4 a 5 °C. Esta propriedade

4. Utilizar-se-á sempre o Sistema Internacional (SI) como referência para as unidades das propriedades das
águas naturais.
CAPÍTULO 01

22
assegura a estratificação de corpos d’água, principalmente lagos e represas. Dependendo da magnitude
da diferença de temperatura, e de densidade, formam-se três camadas distintas, denominadas epilímnio,
metalímnio e hipolímnio. A primeira camada superficial de maior temperatura e menor densidade, uma
camada intermediária - na qual ocorre queda acentuada da temperatura - e a terceira ao fundo de
menor temperatura e maior densidade.
Evidentemente que quanto menor temperatura externa menor também será a diferença de
densidade ao longo da profundidade e, portanto, menos significativa a estratificação térmica do
corpo d ’água. Desta forma, nos períodos mais frios do ano a densidade tenderá a apresentar menor
variação ao longo da profundidade e nestas circunstâncias pode ocorrer o fenômeno do turn over,
inversão térmica ou virada do lago ou reservatório, caso a ação dos ventos favoreça a circulação
da água no seu interior. Quando da virada do reservatório, pode ocorrer o revolvimento do fundo
e significativa alteração nas características da água bruta com efeitos negativos na eficiência do
tratamento. Captações realizadas em reservatórios de acumulação, comumente apresentam torres de
tomada que permitem a captação da água bruta a distintas profundidades da coluna d’água, visando
a minimizar tais efeitos. A estratificação voltará a se estabelecer com aumento da temperatura da
superfície.
Esta propriedade da água, denominada anomalia térmica, decorre das variações na estrutura
molecular da água com a temperatura. Na forma de gelo, a água apresenta estrutura tetraédrica ou
cristalina, caracterizada pela existência de espaços vazios. A medida que a temperatura se eleva,
a água assume gradativamente a estrutura conhecida como compacta, na qual as moléculas estão
acondicionadas sem espaços vazios. Isto significa que com o incremento de temperatura valendo-se do
congelamento, a água vai se tomando progressivamente mais densa. Em contrapartida, este aumento
da temperatura provoca a expansão molecular nos corpos. Desta forma, dois fenômenos contrapõem-
-se quando ocorre um aumento de temperatura. Por um lado a densidade aumenta, em razão de
alterações na estrutura molecular, e ao mesmo tempo diminui, em decorrência da expansão molecular.
A superposição destes dois fenômenos conduz à obtenção do mencionado ponto de densidade máxima
a 4 °C, reduzindo-se posteriormente com o aumento da temperatura (Von Sperling, 2006).

Viscosidade dinâmica
Aviscosidade dinâmica ou absoluta (Pa.s) de um líquido traduz a sua resistência ao escoamento
(ou ao deslocamento no interior da massa líquida), e o quociente entre esta e a massa específica
denomina-se viscosidade cinemática (m2/s). Entre os líquidos, a água apresenta viscosidade baixa,
superior apenas a do benzeno e da gasolina. A viscosidade dos líquidos é inversamente proporcional
à temperatura, pois, com o aumento desta reduz-se a coesão entre as moléculas e consequentemente
a resistência ao escoamento. Interessante constatar que para os gases, como as forças de coesão são
muito menores, a viscosidade é diretamente proporcional à temperatura (Streeter; Wylie, 1981).
Da mesma forma, para temperatura de 20 °C, a água apresenta viscosidade dinâmica de 10"3 Pa.s e
viscosidade cinemática de 10'6 m2/s.
Para o ambiente aquático esta propriedade interfere na sobrevivência de diversos organismos,
como algumas espécies de algas que não apresentam movimentação própria, sendo assim forçadas a
viver próximas à superfície, utilizando-se da viscosidade da água como meio de sustentação. Durante
os períodos mais quentes do ano, com a redução da viscosidade, estes organismos tendem a se
aprofundar na coluna d’água, onde há menor disponibilidade de luz e oxigênio. Na potabilização, em
contrapartida, o aumento da temperatura da água e consequente redução da viscosidade favorecem a
sedimentação de partículas, embora o aporte à estação de tratamento tenda a se elevar em virtude da
concomitância das precipitações com o período mais quente do ano.
C A PÍ TU L O 01
Pressão de vapor
A evaporação sucede-se quando as moléculas de água escapam através da superfície líquida.
Em ambiente fechado, o equilíbrio é atingido quando o número de moléculas que deixam a superfície
iguala-se ao número de moléculas de vapor que se condensam ao atingir a superfície livre. Neste
contexto, denomina-se pressão de vapor à pressão exercida no espaço pelas moléculas de vapor. A
magnitude desta pressão é governada pela pressão reinante e pela temperatura, de forma que quando a
pressão acima da superfície líquida iguala-se à pressão de vapor o líquido entra em ebulição, mesmo
à temperatura ambiente.
As mencionadas propriedades da água estão listadas na tabela 1.2 em função da tempe­
ratura.

Tabela 1.2. Propriedades físicas da água no Sistema Internacional de Unidades.


Viscosidade V is c o s id a d e P ressã o de
Temperatura Massa E sp e c ífic a Peso E sp e c ífic o
Dinâmica Cinemática Vapor
(°C) (kg/m 3) (N/m3)
(IO '3 Pa.s) (1 0 6 m 2/s) (Pa)
0 999,9 9805 1,79 1,79 611
5 1000,0 9805 1,52 1,52 873
10 999,7 9803 1,31 1,31 1266
15 999,1 9798 1,14 1,14 1707
20 998,2 9789 1,01 1,01 2335
25 997,1 9779 0,89 0,90 3169
30 995,7 9767 0,80 0,80 4238
35 994,j 9752 0,72 0,73 5621
40 992,2 9737 0,66 0,66 7377
45 990,2 9720 0,60 0,61 9584
50 988,1 9697 0,55 0,56 12331
55 985,7 9679 0,51 0,51 15745
60 983,2 9658 0,47 0,48 19924
65 980,6 9635 0,44 0,44 25015
70 977,8 9600 0,41 0,42 31166
75 974,9 9589 0,38 0,39 35563
80 971,8 9557 0,36 0,37 47372
85 968,6 9529 0,34 0,35 57820
90 965,3 9499 0,32 0,33 70132
95 961,9 9469 0,30 0,31 84552
100 . 958,4 9438 0,28 0,30 101357

Tensão superficial
Na interface entre um líquido e um gás, ou dois líquidos imiscíveis, desenvolve-se uma
fina película em virtude das forças de atração entre as moléculas do líquido abaixo da superfície.
Como consequência, da mesma forma que a viscosidade, a tensão superficial da água é inversamente
proporcional à temperatura. Exemplo clássico refere-se à colocação de um pequeno alfinete sobre a
superfície da água e constata-se que esta fina película suportará seu peso.
Esta propriedade permite que diversos pequenos organismos possam sobreviver na interface
água-ar atmosférico e desempenham importante papel na cadeia trófica do ambiente aquático. Além
do efeito da temperatura, a tensão superficial da água pode ser afetada pelo lançamento de despejos
contendo sabões e detergentes que causará o desequilíbrio deste ecossistema.
Condutividade térmica
A condutividade térmica de fluido constitui-se no coeficiente de transferência de calor em
função do gradiente de velocidade, ou em outras palavras, é a capacidade de um fluido ou substância
transmitir a energia térmica por meio das colisões moleculares. Diferentemente do calor específico, a
água apresenta baixa condutividade térmica e a difusão de calor na massa líquida somente ocorre por
convecção graças a variação da densidade (massa específica) com a temperatura na coluna d ’água.

Capacidade de dissolução
Conforme salientado, as águas naturais apresentam capacidade de dissolução de grande
diversidade de substâncias químicas e gases. A solubilidade das primeiras é significativamente
influenciada pelo aumento da temperatura e redução do pH do ambiente aquático. A solubilidade dos
gases na água, e a concentração por consequência, depende da denominada pressão parcial do gás e
esta da temperatura.
A relevância das substâncias dissolvidas presentes nas águas naturais relacionar-se-á com o
tipo de uso e com as atividades desenvolvidas na bacia hidrográfica. Para fins de consumo humano, os
compostos orgânicos têm adquirido progressivamente maior relevância pela dificuldade na remoção
nas estações de tratamento, pela perspectiva de conferir odor e sabor à água tratada - favorecendo a
rejeição da comunidade abastecida - e pela formação de subprodutos da desinfecção com compostos
de cloro.
No Brasil, principalmente pa região central do estado de Minas Gerais, os compostos de
ferro e manganês representam outra importante característica, pois, quando se apresentam na forma
dissolvida (Fe+2 e Mn+2) podem não ser adequadamente removidos no tratamento e, ao se oxidarem
na rede de distribuição (Fe+3 e Mn+4), conferir cor à água de consumo. Corpos d ’água em regiões de
garimpo ou sujeitos ao lançamento de efluentes industriais tendem a apresentar concentração mais
significativa de metais pesados - sobretudo, mercúrio, chumbo e cromo. Finalmente, vale mencionar
os compostos de fósforo e nitrogênio (amônia, nitrito, nitrato) - originários do arraste de fertilizantes
de solos agriculturáveis ou do lançamento de despejos - responsáveis pela eutrofização de lagos e
reservatórios, bem como alguns ânions (carbonatos, bicarbonatos, cloretos e sulfatos) responsáveis
pela alcalinidade e dureza das águas naturais.
Em relação aos gases dissolvidos nas águas naturais, evidente importância recai para o oxigênio
dissolvido (OD) pelo fundamental papel na manutenção da diversidade do ecossistema aquático.
Embora existam organismos anaeróbios, capazes de utilizar o oxigênio contido em compostos
como sulfatos (S 0 4'2) e nitratos (N 03~), a diversidade da biota de um ecossistema é assegurada pela
concentração de OD. Reforça esta assertiva o fato da respiração anaeróbia favorecer a emanação de
gases mal cheirosos como sulfeto de hidrogênio (H2S) e metano (CH4).
C aracterísticas das Águas Naturais

[...] Como os rios não dormem. 0 rio não quer ir a nenhuma parte, ele
quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo. [...] Rebebe o encharcar
dos brejos, verde a verde, veredas, marimbús, a sombra separado dos
buritizais, ele. Recolhe e semeia areias.

Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas (1956)

s características físicas, químicas, biológicas e radiológicas das águas naturais traduzem uma
série de processos que ocorrem no corpo hídrico e na bacia hidrográfica, como consequência
das mencionadas capacidades de dissolução de ampla gama de substâncias e de transporte
pelo escoamento superficial e subterrâneo. Nas características físicas, químicas e biológicas listadas
nos tópicos a seguir, far-se-á menção aos padrões de potabilidade nacional (Ministério da Saúde,
2004), americano (AWWA - American Water Works Association, 2006) e da Organização Mundial de
Saúde (OMS) (World Health Organization, 2004).

Características físicas
As características físicas das águas de abastecimento encerram comumente o impacto de
imediato ao consumidor, podendo, com alguma frequência, concorrer para recusa da água distribuída
pela concessionária. Quando tal se sucede, a opção de abastecimento recai para fonte alternativa, não
necessariamente segura. Esta percepção imediata abarca os sentidos da visão (turbidez e cor), paladar
e olfato (sabor e odor).

Temperatura
A temperatura da água e dos fluidos em geral, indica a magnitude da energia cinética do
movimento aleatório das moléculas e sintetiza o fenômeno de transferência de calor à massa líquida.
As forças de coesão intermolecular são de natureza eletrostática e, em princípio, independentes da
temperatura. Caso seja fornecida energia em forma de calor (aquecimento) à massa líquida, atingir-
-se-á estado no qual as forças inerciais das moléculas em movimento serão de mesma magnitude às de
coesão intermolecular. O novo aumento da temperatura fará com que ocorra a expansão e mudança de
estado para gás ou vapor.
A temperatura é diretamente proporcional (i) à velocidade das reações químicas - qpe
praticamente dobra para elevação de 10 °C na temperatura das águas (ii) à solubilidade das substânciàs,
(iii) à concentração do oxigênio dissolvido, (iv) ao metabolismo dos organismos presentes no ambiente
aquático, (v) à formação de subprodutos da desinfecção, (vi) ao recrudescimento microbiológicç e
(vii) à taxa de corrosão nas tubulações integrantes dos sistemas de abastecimento (Dezuane, 1997).
A alteração da temperatura das águas naturais decorre em especial da insolação, esta influen­
ciada significativamente pelo clima e latitude, e, quando de origem antrópica, do lançamento de
despejos industriais - em especial originários de indústrias de bebidas - e/ou de águas de refrigeração
de máquinas e caldeiras.
Para fins de tratabilidade, esta característica representa vantagem ainda maior para os países
tropicais, nos quais as variações de temperatura da água são menos significativas. A etapa de coagulação,
presente na quase totalidade das tecnologias de tratamento, realiza-se de forma menos exitosa a baixas
temperaturas. No Brasil, à exceção de alguns mananciais das regiões Sul e Sudeste, nos quais a temperatura
da água em períodos de inverno pode baixar a valores entre 5 e 15 °C - atingindo, em alguns casos
excepcionais, até o ponto de congelamento -, as médias diárias das águas naturais afluentes às estações
de tratamento nas demais regiões do País raramente apresentam-se inferiores a 18 °C. Em contrapartida,
diversos países do hemisfério norte apresentam amplitude térmica anual frequentemente superior a
20 °C. Estas assertivas são ilustradas pela figura 2.1, na qual se apresentam as médias aritméticas mensais
de 2004 da temperatura da água bmta afluente a uma estação de tratamento de água no estado de Minas
Gerais (latitude 18S) e a outra na província de Alberta no Canadá (latitude 54N).

O ETA Brasil

□ ETA Canadá

Meses (2004)

Figura 2.1. Médias aritméticas mensais da temperatura da água bmta em duas estações no Brasil e Canadá.

Na figura 2.1 evidencia-se a significativa menor variação da temperatura da água em países


tropicais, no caso praticamente restrita ao intervalo de 20 a 25 °C, ao passo que na estação canadense, a
temperatura da água bruta apresenta-se inferior a 1 °C em cinco meses do ano, superando 15 °C apenas
durante os três meses de verão.
A associação com águas naturais correntes favorece a maior aceitabilidade do consumidor a
águas de baixa temperatura. O controle da temperatura da água natural inviabiliza-se e águas com
temperatura elevada tendem a ser rejeitadas pela população em termos de consumo, também pela maior
percepção gustativa do ser humano nestas condições aos problemas de odor e sabor. Adicionalmente,
temperaturas mais altas tendem a favorecer a dissolução de uma mirí ade de constituintes inorgânicos
e compostos orgânicos passíveis de conferir às águas tais características.
Aguas subterrâneas captadas a grandes profundidades, frequentemente necessitam de unidades
de resfriamento a fim de adequá-las ao abastecimento, como ocorre em diversas cidades do interior do
CA PÍTULO 02
estado de São Paulo. Para os sistemas de maior porte, é comum a conjunção de captações superficiais e
subterrâneas, com a mistura ocorrendo na própria rede de distribuição. Com incremento do consumo de
água envasada, mineral ou não, sobretudo nas classes economicamente mais abastadas, tem-se verificado
menor rejeição do consumidor a águas de temperatura elevada, por reduzir o gasto doméstico de energia
elétrica durante os banhos e por tomar a lavagem dos utensílios de cozinha menos dispendiosa.
Em virtude dos insignificantes efeitos à saúde e extrema dificuldade de alteração na temperatura
da água para abastecimento de maiores populações, os padrões de potabilidade brasileiro e da OMS
não estabelecem temperatura máxima para água de consumo, limitada em 15 °C no padrão canadense
e americano.

Cor
A cor da água é produzida pela reflexão da luz em partículas minúsculas, denominadas
coloides, finamente dispersas de origem predominantemente orgânica e dimensão inferior a 10 pm,
relacionando-se com a concentração de carbono orgânico presente no ambiente aquático. Pode também
ser resultado da presença de compostos de ferro e manganês ou do lançamento de diversos tipos de
resíduos industriais. Quando a cor se manifesta em águas subterrâneas, via de regra é resultado da
presença destes compostos de ferro e manganês.
Os compostos orgânicos que conferem cor às águas naturais são provenientes basicamente de
duas fontes:
i) em maior magnitude, da decomposição de matéria orgânica de origem predominantemente
vegetal e do metabolismo de microrganismos presentes no solo;
ii) de atividades antrópicas, tais como, descargas de efluentes domésticos ou industriais,
lixiviação de vias urbanas e solos agriculturáveis.

Corrobora afirmativa anterior, levantamento realizado no rio Mississipi (EUA) em 1977


apontando percentual da ordem de 80 % da matéria orgânica presente em virtude das substâncias
húmicas de origem natural e elevado peso molecular, para apenas 15 % oriunda das atividades
antrópicas. A prevalência das primeiras manifestava-se nas concentrações referenciadas em mg/L, ao
passo que a matéria orgânica de origem antrópica em pg/L (Cohn; Cox.; Berger, 1999).
Confere-se a genérica denominação de substâncias húmicas ao conjunto de compostos orgânicos
de elevado peso molecular, de origem predominantemente vegetal e de dimensões coloidais, cuja
constituição em média apresenta 87 % de ácidos fúlvicos, 11 % de ácidos himatomelânicos e apenas
2 % de ácidos húmicos, propriamente ditos. A supremacia dos primeiros, de cor amarela característica
e menor peso molecular comparado aos demais, justifica-se por se constituir na fração mais solúvel do
húmus natural dos solos (Branco, 1986).
Para efeito de caracterização de águas para abastecimento, distingue-se a cor aparente, na
qual se consideram as partículas suspensas, da cor verdadeira. A determinação da segunda realiza-se
após centrifugação (a 3500 rpm por 30 min) ou filtração da amostra em filtro de papel para remoção
das partículas suspensas. A determinação da intensidade da cor da água é realizada comparando-se a
amostra com um padrão de cobalto-platina, sendo o resultado apresentado em unidades de cor (uC) ou
unidade Hazen (uH).
Desta forma, visando a facilitar a determinação da cor verdadeira, para sete amostras de
águas naturais, com turbidez variando de 2,1 a 44 uT e cor aparente de 50 a 120 uH, foram realizadas
determinações deste parâmetro após filtração em filtros de café (número 102) comumente encontrados
no mercado e em filtros Whatman 40, o segundo de custo muito superior. Não foi detectada diferença
significativa nos valores obtidos para cor verdadeira, indicando a possibilidade do uso do filtro de café
para tais determinações na rotina de operação das estações de tratamento de água (Leal; Libânio, 2002).
Embora teores mais significativos de cor concorram para dificultar a manutenção da concentração
residual do cloro nas redes de distribuição - além de favorecer a formação de subprodutos motivos
eminentemente estéticos justificam o limite de 15 uH estabelecido pela Portaria 518 e pelo padrão
americano.5 Valores acima do qual comumente são mais facilmente perceptíveis ao olho humano,
concorrendo para rejeição da água fornecida pela concessionária pela população abastecida. Aguas
com teores superiores a 100 uH, usualmente apresentam coloração semelhante ao chá e, salvo situações
extremas de escassez, são plenamente rejeitadas pelo consumidor.
A cor verdadeira constitui-se em importante indicador da concentração de matéria orgânica
presente nas águas naturais, embora não haja menção a este parâmetro para água tratada no atual
Padrão de Potabilidade. Além da cor verdadeira, a inferência da concentração de matéria orgânica
pode ser efetuada por meio da determinação do carbono orgânico total (COT), do oxigênio consumido,
da demanda (bio)química de oxigênio - dois últimos raramente empregados em estações de tratamento
de água - e da absorbância por raios ultravioleta6 a comprimentos de onda de 254 nm. Todavia, a cor
ainda é monitorada na maioria das estações de tratamento do País por meio do emprego do disco
comparador e, nos sistemas de maior porte, por espectrofotometria. Apesar da obsolescência e da
imprecisão intrínseca decorrente da habilidade do operador da estação de tratamento, a confiabilidade
do método de comparação visual é corroborada pelo Standard Methods. Recomenda-se que tal
determinação deva ser realizada conjuntamente à do pH, pois a menores valores de pH associam-se
maior intensidade da cor verdadeira.
As águas naturais apresentam, em geral, cor verdadeira variando de 0 a 200 uH, e valores
inferiores a 10 uH são praticamente imperceptíveis. Corpos d ’água de cor naturalmente escura ocorrem
em regiões ricas em vegetação e, consequentemente, de solos menos erodíveis. Neste contexto, o Rio
Negro, afluente do Rio Amazonas, constitui-se exemplo paradigmático cujo nome alude à cor escura
causada pela presença de produtos de decomposição vegetal e pigmentos de origem bacteriana. O
intemacionalmente famoso encontro das águas reporta-se ao evidente contraste das águas escuras do
primeiro com as turvas do segundo, conforme denota a figura 2.2.

Figura 2.2. Encontro das águas entre o Rio Negro e o Rio Amazonas (Foto: Márcio B. Baptista, 2002).

A importância da cor como parâmetro de qualidade de água adquiriu maior evidência após a
confirmação, no início da década de 1970, da perspectiva de formação de produtos potencialmente

5. A Organização Mundial da Saúde não estabelece limite (denominado valor-guia) para cor. Recomenda o
mesmo valor (15 uH) e estabelece máximo admissível de 50 uH.
6. É frequente no meio científico, menção à concentração de matéria orgânica em termos da adsorbância
específica (SUVA - Specific Ultraviolet Light Asorbance) que consiste na razão entre a absorbância
determinada a 254 nm e o carbono orgânico dissolvido (L/mg-m). Este por sua vez é a fração dissolvida do
COT após filtração em membrana de 0,45 um.
CAPITULO 02

28 ■ ■ ' ■ . ■
cancerígenos (trihalometanos - THM) como consequência da cloração de águas coloridas com a
finalidade de abastecimento. Vale ressaltar que os THM não são os únicos subprodutos da desinfecção,
mas, especialmente, verifica-se maior prevalência na formação de espécies halogenadas do que de
outros subprodutos, e seus efeitos na saúde têm sido avaliados há mais de três décadas, a despeito da
amplitude de variação deste parâmetro nos diversos países.
Conforme mencionado, a matéria orgânica presente nas águas naturais é composta de substâncias
húmicas e não húmicas. As primeiras referem-se ao mencionado conjunto de compostos orgânicos
de dimensões coloidais e de origem predominantemente vegetal cuja constituição média congrega
ácidos fúlvicos, em maior monta, e ácidos húmicos, propriamente ditos. Já proteínas, carboidratos,
algas e seus produtos metabólicos, aminoácidos, ácidos carboxílicos e hidrocarbonetos, em especial,
constituem as substâncias não húmicas. Há controvérsia acerca da parcela predominante na matéria
orgânica, embora as substâncias húmicas tendam a prevalecer em mananciais menos impactados por
atividades antrópicas ou nos quais não se verificam florações de algas.
A distinção da parcela concernente aos ácidos fúlvicos na matéria orgânica natural ganhou
projeção no meio científico pela menor susceptibilidade destes à coagulação. Por outro lado, os ácidos
húmicos, de maior peso molecular, apresentam capacidade de ao complexarem traços de metais, como
ferro por exemplo, contribuir ainda mais significativamente para cor das águas naturais e, embora mais
facilmente removidos na coagulação, formam maiores concentrações de THM e ácidos haloacéticos
(AHA) (Shomey; Freeman, 2004). Nesta perspectiva, o emprego de diversos processos oxidativos -
ozônio, ultravioleta, peróxido de hidrogênio, isoladamente ou série - tende a reduzir o peso molecular
destas substâncias tomando-as menos reativas com o cloro e reduzindo a coloração da água tratada
(Owen; Amy; Chowdhury, 1993).
A presença de matéria orgânica, além de fomentar a formação de subprodutos, pode conferir
odor e sabor às águas, interferir na remoção de ferro e manganês e propiciar condições para o
recmdescimento de microrganismos na rede de distribuição. Já há alguns anos, pesquisadores
têm investigado os fatores intervenientes no crescimento dos biofilmes nas redes de distribuição,
concluindo que o mesmo ocorre quando a matéria orgânica e os sedimentos acumulam-se nas redes
e a temperatura da água eleva-se. Atribui-se à parcela não húmica da matéria orgânica papel mais
relevante no desenvolvimento destes biofilmes. Fatores hidráulicos e ambientais - tais como pH,
temperatura e pluviosidade, além da presença de resíduos de desinfetantes, a corrosão e a acumulação
de sedimentos - têm sido relacionados ao crescimento de bactérias nas águas de abastecimento.

Turbidez, sólidos suspensos e contagem de partículas


Estes três parâmetros, em última instância, referem-se predominantemente à mesma carac­
terística, qual seja, a concentração de partículas suspensas e coloidais presentes na massa líquida e
apresentam significados semelhantes em termos de qualidade de água, embora apenas a turbidez se
insira nos padrões de potabilidade nacional e internacional. Comumente, respondem pela turbidez das
águas naturais, fragmentos de argila, silte, plâncton, microrganismos, e matéria orgânica e inorgânica
particulada. Ainda que com menor frequência, a turbidez pode também ser causada pela precipitação de
carbonato de cálcio para águas duras, de óxido de ferro e de compostos de alumínio em águas tratadas.
A determinação da turbidez adquiriu primazia como parâmetro de monitoramento do afluente
e efluente da quase totalidade das estações de tratamento de água do Planeta pela simplicidade e
rapidez da determinação, além do significativo menor custo do equipamento envolvido comparado aos
necessários à determinação de sólidos suspensos e da contagem de partículas.
A turbidez como característica física acaba por se constituir em uma inferência da concentração
de partículas suspensas na água obtida por meio da passagem de um feixe de luz através da amostra,
sendo expressa por meio de unidades de turbidez (uT), também denominadas unidades nefelométricas
de turbidez (UNT) ou, em tempos idos, unidades Jackson. A despeito da miríade de materiais que
confere turbidez às águas, a prevalência das partículas de silte e argila testifica-se pelo fato de 1,0 uT
representar 1,0 mg S i02/L.
Originalmente, constituía-se em um parâmetro de natureza limnológica por meio do qual se
inferia a profundidade de penetração da luz no corpo d ’água (Burlingame; Pickel; Roman, 1998).
Posteriormente, segundo American Public Health Association, a turbidez passou a ser definida
como expressão da propriedade óptica que fa z a luz ser dispersa ou absorvida em vez de ser
transmitida em linha reta através da amostra. Portanto, águas de mesma intensidade de turbidez
podem apresentar partículas suspensas com características diferentes - em termos de tamanho,
composição e forma - , de modo que os tipos de partículas hão de interferir na transmissão da luz
(APHA; AWWA; WEF, 2005).
O princípio básico do funcionamento dos equipamentos de determinação nefelométrica
de turbidez consiste em um detector disposto a um determinado ângulo em relação ao raio de luz
incidente. A posterior detecção da luz refletida pelas partículas suspensas e coloidais é convertida em
sinal elétrico e registrada no painel do equipamento. Para o ângulo de 90°, o equipamento denomina-
-se nefelômetro ou turbidímetro, e a técnica de determinação nefelometria. Aliado às características
das partículas suspensas, o comprimento de onda da luz incidente interfere na transmitância da luz.
Além disso, outros fatores podem afetar os valores de turbidez medidos por diferentes equipamentos.
Destacam-se o tipo de lâmpada, as lentes, as células para amostragem, a deterioração e a mencionada
orientação da fonte de luz e do detector, o número de detectores, a limpeza interna do medidor, a
susceptibilidade a vibrações e a interferências eletrônicas, e a capacidade de fornecer estabilidade nas
leituras.
Neste contexto, alguns fabricantes têm procurado aprimorar a qualidade e a precisão de seus
equipamentos, dotando-os de múltiplos detectores que compensam a interferência de fatores como a
cor na amostra, flutuações de desvio de luz, entre outros fatores (Hach; Vanous; Heer, 1989).
A turbidez natural das águas superficiais está geralmente compreendida na faixa de 3 a 500 uT,
e inferior a 1,0 uT para águas subterrâneas com significativa frequência decorrente da presença de ferro
e manganês como também ocorre para a cor. Em lagos e represas, onde a velocidade de escoamento
da água é menor, a turbidez tende a ser bastante baixa, com muita frequência inferior a 10 uT. Além da
ocorrência de origem natural, a turbidez da água pode também ser causada por lançamentos de esgotos
domésticos ou industriais.
No Brasil, a turbidez dos corpos d’água é particularmente elevada em regiões com solos
erodíveis, onde as precipitações podem carrear partículas de argila, silte, areia, fragmentos de rocha
e óxidos metálicos do solo. Grande parte das águas de rios brasileiros é naturalmente turva em
decorrência das características geológicas das bacias de drenagem, dos índices pluviométricos e do uso
de práticas agrícolas muitas vezes inadequadas. Por outro lado, regiões de clima frio menos susceptíveis
a precipitações intensas apresentam águas naturais de turbidez significativamente mais baixa.
Esta discrepância confirma-se na análise das figuras 2.3 e 2.4 nas quais estão apresentadas
as médias mensais da turbidez da água bruta afluente a duas estações de tratamento no Brasil e no
Canadá, respectivamente. Na figura 2.3 reporta-se à média geométrica mensal dos dados diários de
turbidez da água bruta no período 1997-2000 afluente a uma estação de médio porte na Região Sudeste
do País (vazão média de 145 L/s), ao passo que a figura 2.4 refere-se à média aritmética no período
2002-2004 para uma das estações da cidade de Edmonton (vazão média de 1,7 m3/s) na província
de Alberta (Canadá). Cabe ressaltar que ambas captações realizam-se diretamente no curso d ’água
sem qualquer estrutura que minimize o aporte de sólidos às estações e a segunda unidade localiza-se
praticamente na região central da cidade.
CA PITULO 02

3 ® ................... ■ ........................... ■• ...................................................................... .....................................................


Meses
Figura 2.3. Média geométrica mensal da turbidez da água bruta afluente a uma estação de médio porte brasileira.

Figura 2.4. Média aritmética mensal da turbidez da água bruta afluente a uma estação de grande porte canadense.

A magnitude dos valores de turbidez para estação brasileira manifesta-se pelo próprio emprego
da média geométrica como medida de tendência central, menos susceptível à influência de valores
extremamente elevados que a média aritmética, e motivou a elaboração da figura 2.5. A significativa
variação da turbidez da água bruta ao longo do período amostrado para estação brasileira motivou
realização de uma análise de consistência dos dados, tendo sido detectado em períodos esparsos a
improvável repetição de elevados valores de turbidez da água bruta, cujo descarte ou inserção, não
comprometería o resultado das análises estatísticas realizadas em virtude do tamanho da amostra. A
definição dos intervalos desiguais de frequência relativa estabelecidos para os valores da turbidez
da água bruta, embora inusuais, objetivou inferir o tempo de funcionamento da estação para o qual
tecnologia de potabilização mais simples pudesse ser empregada (Viana; Libânio, 2002).
Enquanto a turbidez da água bruta afluente à estação canadense foi determinada por meio
de equipamento de escoamento contínuo - inferindo-se a cada hora os valores máximo, mínimo e
médio - , na estação brasileira a análise realizava-se por meio de equipamento de bancada. Para a
segunda, ainda que possam ter ocorrido variações significativas entre duas análises sucessivas desta
característica física, a magnitude do universo amostrai (mais de 34 mil resultados) permite associar os
valores de turbidez ao tempo de funcionamento da estação. Desta forma, pode-se afirmar que em mais
de,26 % do tempo de funcionamento da estação afluiu a mesma água com turbidez superior a 200 uT
e, no período chuvoso, frequentemente valores superiores a 1000 uT. Paradoxalmente, verificaram-se
apenas 60 eventos pontuais desta natureza na estação canadense (turbidez superior a 200 uT) e em
apenas três vezes este parâmetro superou 1000 uT quando do início do degelo.
C A P Í T U L O 02
30,00 i r 120

26,26
- 100

0,00 0
0<x<5 5 < x < 15 15 < x < 50 50 < x < 200 >200
Turbidez da água bruta (uT)

Figura 2.5. Frequências relativas simples e acumulada dos valores de turbidez da água bruta afluente a uma
estação de médio porte brasileira.

Para fins de potabilidade, a turbidez da água filtrada vem progressivamente consolidando-se


em todo Planeta como um dos principais parâmetros na avaliação do desempenho das estações de
tratamento, transcendendo o aspecto estético a ela associado. Há muito no meio técnico consolidou-se
a premissa da maior eficiência da desinfecção, independente do desinfetante empregado, para águas
com turbidez baixa, em virtude da proteção conferida aos microrganismos pelas partículas suspensas
na massa líquida, por vezes denominada efeito-escudo. Em outro contexto, as partículas suspensas
podem ser capazes de adsorver substâncias tóxicas, tais como agrotóxicos organoclorados e outros
compostos orgânicos, e sua remoção reduziría de roldão a concentração destes compostos.
Esta assertiva comprova-se pelo padrão de potabilidade estabelecido pela Portaria 518, embora
águas com turbidez inferior a 5,0 uT, comumente não cause rejeição pela população abastecida.
Consoante com padrões internacionais, esta Portaria estabelece para águas de consumo humano, limite
máximo permissível de 1,0 uT7 no efluente da estação de tratamento - recomendando enfaticamente
valores inferiores a 0,5 uT em 95 % das amostras mensais -, essencialmente objetivando assegurar o
êxito das etapas de clarificação na remoção física e da desinfecção nâ inativação de patogênicos mais
resistentes. Limites ainda mais restritivos são empregados nos E U A -jam ais exceder 1,0 uT e 0,3 uT
em 95 % das amostras em um dado mês - e províncias do Canadá, embora o padrão neste país também
seja 1,0 uT. Contudo, diversos estados americanos e províncias canadenses adotaram voluntariamente
limite de 0,1 uT. Por fim, embora a OMS não estabeleça valor limite em termos de risco à saúde (o
valor de 5,0 uT é mencionado em termos de aceitabilidade pelo consumidor), há recomendação de se
produzir água tratada com turbidez média inferior a 0,1 uT, como forma de avaliação da performance
do tratamento e visando à otimização da desinfecção.
O emprego da turbidez como parâmetro indicador da eficiência do tratamento encontra respaldo
em recentes estudos associando a remoção desta característica física à de cistos e oocistos de protozoários.
Nesta perspectiva, as normas mundiais para água de consumo têm-se tomado progressivamente mais
restritivas para os limites da turbidez da água filtrada.
A afirmativa anterior é corroborada por pesquisa (Patania et al., 1995), avaliando a remoção
de cistos e oocistos de protozoários, Giardia muris e Cryptosporidium parvum, realizada em diversas
unidades-piloto, totalizando 105 pontos de amostragem, em três estados americanos - Oregon,

7. A Portaria 518 estabelece que até 5 % das amostras do efluente da estação de tratamento podem apresentar
turbidez superior a 1,0 uT assegurando-se o valor máximo permissível de 5,0 uT na rede de distribuição.
CAPÍTULO 02
Washington e Califórnia empregando águas naturais com turbidez inferior a 10 uT. Embora os
resultados apontassem baixa correlação entre a remoção de turbidez e a d e protozoários, a elevação
de 0,1 a 0,3 uT da turbidez da água filtrada esteve associada à redução de 1,0 log8 na remoção destes
microrganismos.
Também com intuito de inferir a concentração de partículas nas águas naturais, a partir da década
de 1990 inseriu-se na rotina das estações de tratamento dos EUA e Canadá a contagem de partículas
(n°/mL). O fundamento do emprego dos contadores de partículas calca-se na bidimensionalidade
desta medida, ao passo que a determinação da turbidez - como o próprio princípio de funcionamento
dos turbidímetros evidencia - ê uma medida unidimensional do grau de transparência da água.
Esta determinação objetiva associar a remoção de partículas de determinada faixa de tamanho à
de microrganismos patogênicos, uma vez que os contadores são capazes de detectar alterações na
concentração de partículas não detectáveis pelos turbidímetros, especialmente para valores de turbidez
inferiores a 0,1 uT.
Exemplo do emprego dos contadores de partículas visou a avaliar a ocorrência de cistos de
Giardia e oocistos de Crypto na água tratada em estudo realizado em 66 estações de tratamento
localizadas em 14 estados dos EUA e uma província do Canadá. Em relação à água bruta, detectou-
-se a presença dos mesmos, respectivamente, em 81 e 87 % das amostras oriundas de mananciais
superficiais. A ocorrência de cistos e oocistos destes protozoários foi verificada em 39 % das amostras
dos efluentes de estações de tratamento de água cuja turbidez média era de 0,19 uT. Em 78 % dos
casos de detecção dos protozoários os efluentes apresentavam turbidez inferior a 0,5 uT. Embora as
estações envolvidas nesta pesquisa apresentassem efluentes com turbidez média de mesma magnitude,
a contagem do número de partículas apontou diferenças de até 1000 vezes (LeChevallier; Norton,
1997). Esta constatação também aflorou em pesquisa anterior utilizando contadores de partículas e
turbidímetro de escoamento contínuo para o monitoramento da água filtrada. Verificou-se que variações
de 0,01 uT redundavam em alterações da ordem de 550 partículas/mL com dimensão superior a 0,7 pm
(Hargesheimer; Lewis; Yentsch, 1992).
Uma vez que a maioria dos equipamentos detecta somente partículas maiores que 1 pm, esta
contagem acaba centrando-se sobretudo nas partículas suspensas causadoras de turbidez. Desta forma,
há significativa correlação entre a determinação de turbidez e a contagem de partículas, em especial
para águas com turbidez superior a 0,1 uT. Tal correlação confirmou-se no mencionado estudo durante
o monitoramento de 220 h da água filtrada com turbidez de 0,07 a 0,15 uT, apresentando coeficiente
de determinação (R2) de 0,985.
O emprego dós contadores de partículas de escoamento contínuo, para águas com turbidez
consistentemente inferior a 0,1 uT, foi objeto de avaliação em outra estação de tratamento de grande
porte da província de Alberta (Canadá). Neste estudo, diferentemente dos citados, objetivava-se aferir
o resultado das alterações nas dosagens de produtos químicos valendo-se da contagem de partículas da
água filtrada com dimensão maior ou igual a 2 pm, compatível à de cistos e oocistos de protozoários.
Aplicaram-se dosagens de sulfato de 5, 6, 8 e 10 mg/L, e comprovou-se a maior acurácia da contagem
de partículas em relação à determinação da turbidez na detecção de pequenas variações nas dosagens
de coagulantes. A avaliação norteou-se nas análises de frequência acumulada de partículas detectadas
nos efluentes dos filtros, culminando - após definição da melhor dosagem - com sensível redução do
aporte de partículas na água filtrada (Hargesheimer et a l, 1998).
No Brasil o custo destes equipamentos praticamente os tem restringido às instituições de
pesquisa e em raríssimas estações de tratamento de sistemas de maior porte estes se fazem presentes.

8. Há mais de uma década verifica-se a tendência de se reportar à redução de microrganismos em unidades


logarítmicas, ou seja, 1 log corresponde a uma eficiência de 90 %, 2 log a 99 %, e assim sucessivamente.
C A PI TU L O 02

33
Desta maneira, comparação entre o contador de partículas e o turbidímetro de bancada foi objeto
de estudo englobando água bruta natural, decantada e filtrada em unidade-piloto instalada em uma
estação de tratamento de água. Para as 90 amostras, a concentração de partículas - nesta pesquisa
atipicamente referenciada em cm3/L - reportava-se o número de partículas ao diâmetro médio de caia
uma das oito faixas de tamanho variando de 2 a 350 pm. Os resultados evidenciaram significativa
correlação entre os dois parâmetros para água bmta e com menor significância para as águas decantada
e filtrada, conforme evidencia a figura 2.6 (Pádua; Di Bernardo, 2001).

Concentração de partículas (cm3/L)


Figura 2.6. Relação entre a turbidez e volume médio de partículas para as águas bruta (a) e filtrada (b).

A diferença significativa entre os dois coeficientes de determinação apontam para dois cenários.
O primeiro evidencia a menor relevância do emprego dos contadores de partículas no monitoramento
de água bruta, pois, a determinação da turbidez fornece informação expedita e fidedigna acerca da
concentração de sólidos suspensos. Por outro lado, para os efluentes das estações de tratamento a
contagem de partículas guarda maior especificidade, pois águas de turbidez de mesma magnitude podem
apresentar predominância de tamanhos de partículas que tomem a desinfecção mais ou menos eficiente.
Tal se deve ao mencionado efeito-escudo que protege os microrganismos da ação do desinfetante. Para
valores praticamente equânimes de turbidez, a predominância de partículas cujas dimensões superam
à dos microrganismos patogênicos tenderá a tomar a desinfecção por agente químico menos efetiva.
É intrínseca a correlação entre a turbidez e a concentração de sólidos suspensos, como parcela
dos sólidos totais cuja distribuição é apresentada na figura 2.7.

Sedimentáveis
Em suspensão
Não sedimentáveis

Sólidos totais <

Voláteis
Dissolvidos
Fixos

Figura 2.7. Distribuição genérica dos sólidos presentes nas águas naturais.

As frações de sólidos podem ser assim definidas (Piveli; Kato, 2006):


• sólidos totais constituem nos resíduos após evaporação em banho-maria e posterior secagem
a 103-105 °C;
• sólidos suspensos constituem-se a porção em massa com dimensões superior a 1,2 pm,
retida após filtração;
• sólidos voláteis é a porção dos sólidos totais, dissolvidos ou suspensos que se volatiliza
após calcinação a 550-600 °C, por 15 min para sólidos suspensos ou 60 min para sólidos
totais e dissolvidos;
CA PÍTULO 02
A
o i)^
• sólidos fixos, analogamente, constituem-se a porção dos sólidos totais, dissolvidos ou suspensos
que resta após calcinação a 550-600 °C, por 15 min para sólidos suspensos ou 60 min para
sólidos totais e dissolvidos;
• sólidos sedimentáveis é a porção de sólidos suspensos que se sedimenta quando mantida em
repouso em cone Imhoff de um litro durante uma hora.

A parcela dissolvida dos sólidos haverá de conferir em especial cor verdadeira às águas naturais e
o padrão de potabilidade estabelecido pela Portaria 518 reporta-se à concentração máxima de 1000 mg/L
(como sólidos dissolvidos totais). A correlação entre a turbidez e a concentração de sólidos suspensos
pôde ser demonstrada valendo-se do monitoramento da água bruta afluente a uma unidade-piloto de
filtração lenta, conforme mostra a figura 2.8.

A correlação entre sólidos suspensos para com a turbidez e a cor aparente foi objeto de uma
avaliação mais abrangente contemplando 18 anos de dados operacionais (1980-97) de duas estações
de tratamento responsáveis pelo abastecimento de Vitória e Cariacica (ES) com base no mesmo curso
d’água. A amostra constou de 312 determinações de sólidos totais e a análise balizou-se em quatro
cenários: considerando todos os dados, e separando-os em dias de chuva, sem chuva e por faixas de
concentração de sólidos suspensos. Os resultados para os três primeiros cenários estão apresentados na
tabela 2.1, destacando-se os valores mais elevados do coeficiente de detenninação para cada cenário
em função do tipo de modelo de regressão empregado (Piccolo; Pinto; Teixeira, 1999).

Tabela 2.1. Valores de R2 valendo-se dos diferentes tipos de regressão e três cenários de análise.
Todos os dados Dados com chuva Dados sem chuva
R e g re ssã o
55 x C. A 55x Turb. 55 xC. A 55 x iu r b . 55 x C. A 5 5 x Turb.
Linear 0,7837 0,7970 0,8669 0,8859 0,3516 0,4041
Potência • 0,6531 0,7464 0,8138 0,8627 0,4035 0,5231
Exponencial 0,5779 0,5819 0,5996 0,5848 0,4363 0,5329
Obs.: SS - sólidos em suspensão (mg/L); C. A. - cor aparente (uC); Turb. - turbidez (uT).

Como seria de esperar, os coeficientes de determinação para regressão linear foram significativos
tanto para cor aparente quanto para turbidez, e de mesma magnitude, para a totalidade dos dados e para
os coletados em dias com chuva.
Ao analisar os dados gerados em dias sem chuva, a correlação para com a cor aparente foi mais
pronunciadamente inferior à da turbidez, pois, a parcela dos sólidos dissolvidos - não contemplada na
análise de sólidos suspensos - contribuiu mais significativamente para aquele parâmetro. As baixas
C A P ÍT U L O 02

35
correlações também para a turbidez podem ser explicadas pelo emprego de apenas uma estação pluvio-
métrica, podendo chuvas não detectadas por esta estação terem contribuído para a maior dispersão dos
resultados.
Os resultados da correlação por faixa de de concentração de sólidos suspensos são apresentados
na tabela 2.2.

Tabela 2.2. Valores de R2por faixa de valores de sólidos suspensos.


SS < 30 mg/L 31 m g/L < S5 < 69 mg/L 70 m g/L < SS <28s mg/L
Regressão
S 5 x '€ A 55 x Turb. 55 x C. A. 55 x Turb. : 55 xC . A 55 x Turb.
Linear 0,5372 0,8194 0,2272 0,1664 0,8803 0,9618
Potência 0,5725 0,8374 0,1664 0,1335 0,7905 0,8811
Exponencial 0,3517 0,6520 0,1921 0,1645 0,8955 0,9675

Os resultados da tabela 2.2 confirmam a estreita correlação entre os parâmetros avaliados para
os valores mais elevados de sólidos suspensos, correspondendo aos períodos de precipitação o maior
carreamento de partículas ao corpo d’água. E, como não podia deixar de ser, sempre que a correlação
mostrou-se mais significativa, o coeficiente de determinação foi superior para turbidez.
A determinação da concentração de sólidos, nos seus diversos matizes, não é comumente
realizada nas estações de tratamento em virtude da morosidade das análises, aos equipamentos
necessários e à menor precisão pra menores concentrações, sendo substituídas pelas análises de cor,
aparente e verdadeira, e turbidez.
Por fim, outro parâmetro diretamente associado à turbidez é a transparência, utilizada sobretudo
no caso de lagos e represas, parâmetro obtido mergulhando-se na água um disco de 20 a 30 cm de
diâmetro9 e anotando-se a profundidade de desaparecimento. Lagos turvos apresentam transparências
reduzidas, da ordem de poucos centímetros até um metro, ao passo que em lagos cristalinos, a trans­
parência pode atingir algumas dezenas de metros.
A estimativa da profundidade atingida pela luz, denominada zona fótica e de crucial importância
para o desenvolvimento da comunidade fitoplanctônica, dá-se considerando aproximadamente o triplo
da profundidade de desaparecimento do disco.

Sabor e odor
A conceituação de sabor envolve uma interação de gosto - salgado, doce, azedo e amargo -
com o odor, sendo portanto imensuráveis. Apesar de sensações distintas, usualmente são referenciadas
conjuntamente. Embora possam existir odores agradáveis, de ervas ou de terra, frequentemente
associa-se o odor nas águas de consumo sob o ponto de vista negativo. Sua origem está associada
tanto à presença de diversas substâncias químicas ou gases dissolvidos10, algumas das quais utilizadas
no próprio tratamento como o cloro e, mais raramente, o ozônio.
As manifestações de odor e sabor apresentam causas distintas para águas superficiais e subterrâneas.
Para as primeiras, compostos orgânicos resultantes do metabolismo de alguns microrganismos - em
especial algas, cianobactérias e actinomicetos11-, decomposição de folhas e plantas aquáticas, lançamento

9. Disco de Secei, denominação em homenagem a seu inventor, naturalista italiano.


10. Gás carbônico, oxigênio, nitrogênio, amônia, sulfeto de hidrogênio e, em menor frequência, metano
constituem-se os gases mais usualmente encontrados nas águas naturais, alguns dos quais passíveis de
conferir odor e sabor. Os três primeiros perfazem a quase totalidade da composição do ar atmosférico e os
demais decorrem da decomposição da matéria orgânica presente pela ação das bactérias.
11. Bactérias filamentosas comumente presentes no solo que apresentam odor característico de terra e capazes de
produzir os compostos denominados Geosmina e 2-metilisobomeol (MIB).
de efluentes industriais e lixiviação de solos agriculturáveis habitualmente constituem-se nas principais
causas de sabor e odor nas águas superficiais.
Diferentemente, para as águas subterrâneas odor e sabor advêm usualmente de fenômenos
naturais, ainda que as ações antrópicas possam agudizar tais características. Em primeira instância,
destaca-se a ação bacteriana na decomposição anaeróbia de enxofre orgânico, sulfatos e sulfitos
gerando ácido sulfídrico - produzindo odor característico de ovo podre - e na redução de compostos
de ferro e manganês (a ser detalhado em item subsequente). Inserem-se também nesta vertente, a
dissolução de sais e minerais pa percolação da água através de solos e rochas, a intrusão de água
do mar - usual nas regiões costeiras, especialmente onde se aduz vazão superior à capacidade do
aquífero, elevando a concentração de cloretos - e, mais recentemente de característica eminentemente
antrópica, a percolação do lixiviado de aterros sanitários (Montgomery, 2005).
Diversos compostos podem conferir sabor e odor às águas e mesmo não causando dano à
saúde fazem com que estas águas sejam prontamente rejeitadas pela população, situação que se não
manifesta quando da presença de metais pesados, com maior frequência mais deletérios à saúde
humana. Adicionalmente, sabor e odor podem estar também associados:
• a compostos orgânicos aromáticos, majoritariamente presentes em efluentes industriais,
como fenóis e nitrofenóis;
• ao crescimento microbiano, e subsequente subprodutos do metabolismo, nas redes de
distribuição;
• a concentrações significativas de cloro residual e resultante reação com compostos orgânicos
e/ou microrganismos na rede de distribuição.

' A importância do sabor e odor testifica-se na significativa possibilidade da mencionada rejeição


pela população abastecida conduzir ao consumo e uso de outra fonte de qualidade duvidosa, mas
insípida e inodora. No famoso surto de cólera ocorrido em Londres em meados do século XIX - que se
constituiu em um marco para epidemiologia pela confirmação da cólera como doença de transmissão
hídrica - , a população abastecia-se da água contaminada do poço no distrito de Broad Street devido ao
seu gosto agradável. Mesmo moradores residentes próximos a outras fontes de abastecimento optavam
pelo poço contaminado (Olcun, 1996).
Dentre os compostos orgânicos naturais responsáveis por conferir odor e sabor às águas de
consumo, destacam-se MIB (2-metilisobomeol) e geosmina - compostos produzidos por algas,
cianobactérias e actinomicetos -, não associados a efeitos deletérios à saúde e passíveis de serem
percebidos a concentrações inferiores a 5 ng/L. Além de naturalmente produzidos no ambiente, estes
compostos apresentam padrão variável de ocorrência e difícil remediação com as tecnologias usuais
de tratamento, recaindo quase que via de regra para adsorção com carvão ativado, tomando-se a
principal causa de reclamações de odor e sabor na América do Norte (AWWA - American Water Works
Association, 2002).
No Brasil, a quase totalidade das estações de tratamento de água encontra-se impossibilitada
de realizar análises de MIB e geosmina, com o controle centrado nos microrganismos responsáveis
por sua geração. Tal fato deve-se ao elevado custo das técnicas analíticas para sua identificação e
quantificação (cromatografia gasosa acoplada a espectrofotômetro de massa) que requerem corpo
técnico treinado e altamente especializado.
Como consequência da contaminação dos aquíferos freáticos por postos de gasolina, recen­
temente o composto MTBE (metil terciário butil éter) inseriu-se no rol dos causadores de odor às
águas. Trata-se de um aditivo misturado à gasolina objetivando reduzir a geração de gases nos motores
a combustão. Assim como MIB e geosmina, o composto MTBE não é adequadamente removido pelas
tecnologias usuais de potabilização, cuja solução também normalmente conduz à aplicação de carvão
ativado.
Para consumo humano e usos mais nobres os padrões de potabilidade exigem que a ágga
seja insípida e completamente inodora. Todavia, mesmo em nível internacional, não há metodologia
estabelecida bem como padrões de qualidade aptos a se inserir na rotina operacional das estações de
tratamento para detecção de odor e sabor nas águas de abastecimento. Desta forma, o controle de odor
e sabor nas estações de tratamento brasileiras, e em significativa maioria dos países, realiza-se de
forma absolutamente pmpírica calcado na “suposta” sensibilidade dos responsáveis pela operação em
perceber alterações de sabor e odor na água de consumo. Ilustra esta afirmativa, estação de tratamento
de médio porte no estado de Minas Gerais, vazão média afluente da ordem de 400 L/s, dotada de
operação altamente qualificada na qual a dosagem de carbono ativado em pó era alterada com base
no odor percebido pelo responsável pela operação. A concentração algal e a pré-cloração na unidade
de captação favoreciam a presença de compostos orgânicos, cuja remoção era otimizada por meio de
aplicação de carvão ativado em pó, aplicado em dosagens de 5 a 10 mg/L na entrada da estação de
tratamento.
Além da mencionada dificuldade de monitoramento destes compostos orgânicos, a intan-
gibilidade da aferição de sabor e odor tem motivado o desenvolvimento de técnicas alternativas, tais
como Painel Sensorial e Número Limiar de Odor12. O último fundamenta-se em sucessivas diluições
da amostra de água de consumo. Desta forma, às amostras cujo odor somente é perceptível sem a
diluição da amostra atribui-se número 1, ao passo que àquelas cujos odores continuam a se manifestar
após cinco diluições recebem valor 5.
Enquanto a maioria dos parâmetros de qualidade de água encontra-se com os valores máximos
permissíveis estabelecidos, as análises de sabor e odor apresentam dificuldade intrínseca relacionada
à variedade de compostos químicos que não causam malefícios à saúde, mas que se constituem, junto
com as características concernentes ao aspecto visual da água (cor e turbidez), nas reclamações mais
recorrentes dos consumidores. Esta relevância das características da água que aguçam os sentidos
da visão (cor e turbidez) e do paladar e olfato (sabor e odor) manifestou-se claramente em amplo
levantamento realizado em 2000 contemplando 160 sistemas de abastecimento de água americanos
e canadenses. Neste levantamento foram listadas as reclamações mais frequentes dos consumidores,
cujos resultados estão apresentados na figura 2.9.

Outros - 5%
3% - Cloro Residual
Cor e Turbidez - 43% 5% - Análise Bacteriológica

44% - Sabor e Odor

Figura 2.9. Principais reclamações dos consumidores em sistemas americanos e canadenses.

Evidencia-se pela figura 2.9 que 87 % das reclamações advieram do aspecto visual (43 %), e
gustativo e olfativo (44 %), e as próprias reclamações acerca de cloro residual poderiam ser inseridas
também como problemas de odor e sabor.

12. Técnicas desenvolvidas nos EUA denominadas, respectivamente, Flavor Profile Analysis e Threshold Odor
Number.
Levantamento mais amplo realizado em 1989, contemplando 377 sistemas de estados ameri­
canos e da província de Alberta (Canadá), com vazão variando de 308 L/s a 66 m3/s (média de 530 L/s)
e população média abastecida de 220 mil pessoas, apontou que os problemas de odor e sabor são
mais pronunciados nos sistemas que utilizam água superficial. Estimou-se o dispêndio recursos para
o controle de sabor e odor como da ordem de 4,5 % do orçamento dos sistemas de abastecimento
(Suffet et al., 1996).
Dos sistemas cujos responsáveis que responderam o questionário,13 16 % avaliaram como
sérios os problemas de sabor e odor, de ocorrência sazonal e significativamente relacionados à rede
de distribuição e à concentração do cloro residual. Como seria de se esperar, as causas prováveis dos
eventos de odor e sabor eram de distintos matizes e intrinsecamente relacionados ao tipo de manancial,
conforme denota a figura 2.10.

Compostos orgânicos sintéticos th H Superficial


Esgotos domésticos e industriais
□ Subterrâneo
Bactéria
Inversão térmica
Decaimento de vegetação
«o
O Compostos inorgânicos
Plâncton
Desinfetante
Rede de distribuição

0 5 10 15 20 25 30 35 40
Respostas (%)

Figura 2.10. Principais causas prováveis dos eventos de sabor e odor nos 377 sistemas amostrados em função do
tipo de manancial.

Apesar de algumas respostas algo imprecisas - por exemplo, é pouco crível como a inversão
térmica14 em um reservatório possa afetar significativamente a qualidade da água subterrânea - , análise
da figura 2.10 evidencia o menor número de causas prováveis dos eventos de sabor e odor para os
mananciais subterrâneos, pois 91 % das respostas referem-se a tão somente três causas mencionadas
pelos responsáveis. Em contrapartida, a inequívoca maior susceptibilidade dos mananciais superficiais
à poluição, tanto pontual como difusa, traduziu-se por distribuição mais uniforme das respostas com
pelo menos seis causas mais significativas.
Dos sistemas que utilizavam somente água superficial - perfazendo 45 % da amostra - 54 %
reportaram-se a problemas de odor e sabor de intensidade semelhante à verificada em 25 % dos
sistemas que utilizavam somente águas subterrâneas (20 % do universo amostrai15), conforme mostra
a figura 2.11.

13. O questionário foi enviado aos responsáveis pela operação de 826 sistemas, dos quais 426 de grande porte e
200 de pequeno e médio porte.
14. Nas regiões de clima temperado, o degelo da camada superficial do lago ou reservatório no início da primavera
favprece a elevação da temperatura e ao atingir 4 °C, condição de máxima densidade (ou massa específica),
esta parcela de água toma-se mais pesada e desce em direção ao fundo revolvendo as camadas mais profundas,
justificando a denominação spring turnover. Nas regiões tropicais, em algumas épocas do ano, o resfriamento
da camada superficial no final do dia pode resultar em semelhante fenômeno.
15. O restante do universo amostrãl compunha-se de sistemas de abastecimento que adquiriam água valendo-se
de outros ou que utilizavam concomitantemente mananciais superficiais e subterrâneos.
C A PÍ TU L O 02
Figura 2.11. Grau severidade dos eventos de odor e sabor em função do tipo de manancial.

Na mesma vertente, a duração dos episódios de distribuição de água com odor e sabor, quando
do uso de mananciais superficiais, foi significativamente superior (figura 2.12).

semana semanas semanas

Figura 2.12. Duração dos episódios de odor e sabor em função do tipo de manancial.

Por fim, o levantamento contemplou avaliação da sazonalidade dos episódios de geração de


odor e sabor. Como seria de esperar, para os sistemas abastecidos por mananciais de superfície, 75 %
dos episódios ocorreram durante a estação chuvosa, primavera e verão, na qual o carreamento de
substâncias passíveis de conferir odor e sabor às águas de consumo toma-se mais significativo e o
florescimento algal mais proeminente pela elevação da temperatura e da insolação. Esta supremacia
foi menos pronunciada para os mananciais subterrâneos (55 % dos episódios), menos susceptíveis às
variações sazonais de qualidade de água.
A mencionada técnica do Painel Sensorial foi aplicada em estudo realizado em dois dos
sistemas de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, Guarapiranga e Alto Tietê, que
atendem população da ordem de seis milhões de pessoas à vazão média em tomo de 14 e 10 m3/s,
respectivamente. Em ambos sistemas, cujas captações realizam-se por meio de reservatórios de
acumulação, havia registros de ocasionais problemas de sabor e odor causados pela presença de
MIB e geosmina na água tratada. O painel foi composto por gmpos de quatro ou cinco técnicos da
concessionária e utilizou-se a Roda de Sabor e Odor16 desenvolvida no final dos anos 80 pela American
Water Works Association para avaliação das análises sensoriais. A intensidade de sabor e odor foi
avaliada numericamente por meio de escala contendo sete níveis de percepção: isento (0), limiar (2),
fraco (4), fraco a moderado (6), moderado (8), moderado a forte (10) e forte (12). O estudo visou a
correlacionar as concentrações de MIB e geosmina na água tratada, à percepção dos painelistas e às
reclamações dos usuários.

16. Técnica de análise sensorial na qual se listam em uma carteia circular 13 distintas percepções de sabor e odor,
de terra/mofo a sensação táctil, passando por clorado, peixe, salgado e amargo.
CAPÍ TUL O 02
A pesquisa apontou, valendo-se do histórico de reclamações dos consumidores, maior tolerância
a concentrações de MIB, que no sistema Guarapiranga atingiram de 300 a 500 ng/L. Segundo os
autores, tal constatação pode estar relacionada ao longo tempo (15 anos) que a população é abastecida
com água com concentrações variáveis deste composto orgânico - acostumando-se aos odores
característicos mais facilmente assimiláveis -, e pela sua presença em concentrações ainda mais
elevadas em ampla gama de alimentos, como batata, beterraba e cenoura. De forma geral, recomenda-
-se a análise sensorial como alternativa viável, sobretudo após se efetuar a descloração da amostra,
na previsão de odores relacionqdos a MIB e geosmina, cujas manifestações foram posteriormente
confirmadas pela determinação das concentrações destes composto (Ferreira Filho; Alves, 2006).

Condutividade elétrica
A condutividade elétrica ou condutância específica indica a capacidade da água natural de
transmitir a corrente elétrica em função da presença de substâncias dissolvidas que se dissociam em
ânions e cátions - usualmente íons de ferro e manganês, além de K+, CF, Na+, Ca+2, Mg+2 sendo, por
consequência, diretamente proporcional à concentração iônica. Soluções nas quais se faz presente a
maioria dos compostos inorgânicos apresentam condutividade elevada e, em contrapartida, compostos
orgânicos que não se dissociam em soluções aquosas, quando presentes reduzem a transmissão da
corrente elétrica.
A condutividade elétrica da água relaciona a resistência elétrica ao comprimento e é expressa
comumente em pS/cm (microSiemens) - já o foi em mho/cm17. A correlação entre esta característica
física e a concentração de cátions e ânions comprova-se pela figura 2.13. Nesta figura, apresenta-se
a correlação entre as médias da condutividade elétrica e do somatório das concentrações dos cinco
mencionados cátions e ânions18 registrada no monitoramento de cinco corpos d’água da Região
Amazônica. As médias apresentadas na figura 2.13 referem-se a aproximadamente 25 determinações
para cada parâmetro (Tundisi; Tundisi, 2008).

Figura 2.13. Correlação entre condutividade elétrica e o somatório da concentração dos cátions mais comumente
presentes nas águas naturais.

Como consequência da intrínseca relação exemplificada na figura 2.13, a condutividade elétrica


vincula-se ao teor de salinidade, característica relevante para muitos mananciais subterrâneos e águas
superficiais próximas ao litoral passíveis de intrusão de água salgada. Este parâmetro também se mostra
relevante em regiões susceptíveis a elevadas taxas de evaporação e baixa intensidade pluviométrica,
por vezes apresentando balanço hídrico negativo, como alguns países e estados da Região Nordeste.

17. Como medidas da condutividade, 1,0 ju,S/cm = 1,0 pmho/cm e 1 mS/cm = 10 pmho/cm.
18. As concentrações de ferro e manganês nos cinco corpos d’água (dois rios e três reservatórios) eram desprezíveis
comparadas à dos mencionados ânions e cátions. C A P ÍT U L O 02

J,1
Águas naturais apresentam usualmente condutividade elétrica inferior a 100 pS/cm, podendo atingir
1000 pS/cm em corpos d’água receptores de elevadas cargas de efluentes domésticos e industriais.
Embora não seja um parâmetro integrante do padrão de potabilidade brasileiro, e também ppr
isto, somente monitorado nas estações de maior porte, constitui-se importante indicador de eventual
lançamento de efluentes por relacionar-se à concentração de sólidos totais dissolvidos (STD). A
correlação entre estes parâmetros manifesta-se diferentemente para cada corpo d ’água. Em certo
contexto, para lagos e represas, após estabelecida esta correlação, o monitoramento da concentração
de sólidos dissolvidos - cuja determinação é muito mais morosa - efetua-se por meio da determina­
ção da condutividade elétrica. Em soluções mais diluídas esta relação aproxima-se de algo como
STD = 0,5 CE . Todavia, em soluções mais concentradas (STD > 1000 mg/L e CE > 2000 pS/cm)
a proximidade entre os íons presentes reduz a capacidade do meio de transmitir a corrente elétrica.
Para soluções ainda mais concentradas a relação aproxima-se de STD = 0,9 CE. Desta forma, tais
variações no coeficiente de correlação linear recomendam manter a individualidade de cada corpo
d'água ou, em outras palavras, determinar o coeficiente de correlação entre a condutividade elétrica
e a concentração de sólidos totais dissolvidos especificamente para cada corpo d ’água, seja aquífero,
lago, rio ou reservatório.

Características químicas

pH
O potencial hidrogeniônico (pH) consiste na concentração dos íons H+ nas águas e representa
a intensidade das condições ácidas ou alcalinas do ambiente aquático. No valor do pH, aliada
à dissociação da molécula de água, incorpora-se o hidrogênio resultante da dissociação de ácidos
orgânicos naturais ou inorgânicos presentes em efluentes industriais (Piveli; Kato, 2006).
O pH talvez se constitua no parâmetro de maior frequência de monitoramento na rotina
operacional das estações de tratamento de água pela interferência em diversos processos, e operações
unitárias inerentes à potabilização, da aplicação dos coagulantes ao processo de desinfecção química.
Este monitoramento sucede-se por meio potenciométrico em equipamento denominadopotenciômetro
ou, mais vulgarmente, pHmetro, em unidades de bancada ou de escoamento contínuo.
A dissociação da molécula de água dá-se por meio da equação 2.1.

H20 ^ H+ + OH- (2.1)

A constante de equilíbrio desta dissociação é:

[H"] [OIT]
' H20 (2.2)

Como o valor da concentração molar da água é 55,6 mol/L19 e a nova constante de equilíbrio
(Kw) a 25 °C vale IO 14. Desta forma, tem-se:

Kw = [ET] [OH ] (2.3)

As concentrações dos íons H+ em soluções aquosas fazem com que tenha que se lidar com
valores muito baixos que, paradoxalmente, correspondem a intervalos muito significativos de diferença

19. Massa de 1,0 L de água (1000 g) dividido pelo respectivo peso molecular (18 g).
de concentrações. O problema foi contornado extraindo-se o logaritmo na base 10 e empregando
posteriormente escala anti-logarítmica20:

pH = - log [H+] (2.4)

pH + pOH = 14 (2.5)

Desta forma, à temperatura de 25 °C, valores de pH inferiores a 7 indicam condições ácidas


e superiores condições alcalinas da água natural. Vale mencionar que o valor de Kw vincula-se à
temperatura, alterando o ponto de neutralidade da água natural, elevando-o para temperaturas mais
altas e reduzindo-o para mais baixas.
O pH influi no grau de solubilidade de diversas substâncias, e como consequência na intensidade
da cor, na distribuição das formas livre e ionizada de diversos compostos químicos, definindo também
o potencial de toxicidade de vários elementos.
As águas naturais de superfície apresentam pH variando de 6,0 a 8,5, intervalo adequado à
manutenção da vida aquática, embora a prevalência de concentração significativa de matéria orgânica,
manifestada na intensidade da cor verdadeira, concorra para valores abaixo de cinco, como do
mencionado Rio Negro utilizado no abastecimento de Manaus (AM). Alterações podem ser decorrentes
da atividade algal - fotossíntese e respiração -, da dissolução de rochas e do lançamento de despejos
domésticos e industriais. Mais raramente, em regiões industrializadas, pode ocorrer abaixamento do
pH motivado por chuva ácida devido à complexação de poluentes gasosos ao vapor d’água presente
na atmosfera.
A relevância do pH manifesta-se em diversas vertentes na potabilização das águas de consumo
humano:
• na desinfecção com compostos de cloro, pois a formação do ácido hipocloroso (HOC1),
significativamente mais eficiente na inativação dos microrganismos, é governada pelo pH21;
• na coagulação com sais de ferro e alumínio que se vincula a uma faixa de variação do pH na
qual o processo consubstancia-se, usualmente mais ampla para os primeiros e mais restrita
para os segundos;
• no controle da corrosão nas adutoras e redes de distribuição;
• na formação de subprodutos de trihalometanos, mais pronunciada a valores mais elevados
de pH;
• no abrandamento de águas de dureza mais significativa.

O valor do pH da água de consumo não apresenta efeito digno de nota sobre a saúde humana e
diversas bebidas e frutas22 com valores significativamente mais baixos de pH são usualmente ingeridas.
Desta forma, os padrões de potabilidade nacional e da OMS estabelecem amplo intervalo para pH da
água tratada (6,0 a 9,5) objetivando minimizar as perspectivas de corrosão (para os valores muito
baixos) oü incmstação (para os elevados) nas redes de distribuição.

20. Escala anti-logarítmica para a determinação do pH foi proposta em 1909 pelo químico dinamarquês Sõren
Peter Sõrensen (1868).
21. A recomendação da Portaria 518 de realizar a desinfecção com compostos de cloro em pH inferior a 8,0 fia-se
nesta premissa.
22. Exemplifica a assertiva anterior a faixa de valores de pH para refrigerantes (2,0 - 4,0) e maçãs (2,9 - 3,3),
além do fato da urina (4,8 a 8,4) indicar a tolerância do organismo humano a expressivas variações de pH.
C A P ÍT U L O 02

43
Alcalinidade
A alcalinidade das águas naturais traduz a capacidade de neutralizar ácidos (os íons H+) ou a
capacidade de minimizar variações significativas de pH (tamponamento), constituindo-se especialmente
de bicarbonatos (H C 03~), carbonatos (C 03~2) e hidróxidos (OH ). Napotabilização das águas para consumo
humano, a alcalinidade adquire função primordial no êxito do processo de coagulação minimizando a
redução muito significativa do pH após a dispersão do coagulante.
As três formas da alcalinidade manifestam-se em função do pH. Para águas com pH entre
4,4 e 8,3 a alcalinidade será em virtude apenas de bicarbonatos, pH entre 8,3 e 9,4 a carbonatos e
bicarbonatos, e para pH maior que 9,4 a hidróxidos e carbonatos. Desta forma, para a maioria das
águas naturais de superfície, a alcalinidade decorre apenas de bicarbonatos, em especial, de cálcio e
magnésio.
A prevalência dos bicarbonatos justifica-se pela reação do gás carbônico presente nas águas
superficiais - resultante da incorporação da atmosfera e/ou oxidação da matéria orgânica - com os
minerais do solo, de acordo com a equação 2.6:

C 0 2 + CaC03 + H20 Ca(HC03)2 (2.6)

A alcalinidade é determinada por titulação com ácido sulfurico ou outro ácido forte e expressa
em termos de mg/L de C aC 03, não apresentando significado sanitário e, desta forma, não sendo
contemplada pelo padrão de potabilidade. Aguas naturais de origem superficial no Brasil apresentam
alcalinidade comumente inferior a 100 mg/L de CaC03. Valores mais elevados de alcalinidade
nos corpos d’água estão associados a processos de decomposição da matéria orgânica, à atividade
respiratória de microrganismos, com liberação e dissolução do gás carbônico (C 0 2) na água, e ao
lançamento de efluentes industriais.
Os valores de alcalinidade, pouco pronunciados nos mananciais superficiais brasileiros,
toma-se comum no processo de potabilização o emprego de alcalinizante, visando a evitar redução
muito significativa do pH na coagulação e recebendo vulgarmente a denominação de cal primária.
A aplicação ao final do tratamento, usualmente após a desinfecção, com a denominação de cal
secundária, objetiva desenvolver uma película nas adutoras e redes de distribuição reduzindo os
problemas de corrosão.

Acidez
Em contraposição à alcalinidade, a acidez é a característica química de neutralizar bases e
também evitar alterações bmscas no pH, graças, especialmente, a concentração de gases dissolvidos
como C 0 2 e H2S ou de ácidos húmicos, fúlvicos e himatomelânicos. Pode ter origem natural -
pela absorção da atmosfera e decomposição da matéria orgânica - ou antrópica, pelo lançamento
de despejos industriais e lixiviação do solo de áreas de mineração. Similarmente em relação
à alcalinidade, a distribuição das formas de acidez efetua-se em função do pH. Para águas com
pH inferior a 4,5 a acidez decorre de ácidos minerais fortes - geralmehte resultantes de despejos
industriais -, pH entre 4,5 e 8,2 indica acidez devido ao C 0 2 e para pH maior que 8,2 indica ausência
de C 0 2 livre.
A acidez é expressa da mesma forma que a alcalinidade (mg/L de C aC 03) e também não tem
significado sanitário, podendo fomentar a rejeição da população abastecida quando a acidez mineral
for mais pronunciada. Sua significância prende-se à perspectiva de corrosão das adutoras e das redes
de distribuição.
Dureza
A dureza indica a concentração de cátions multivalentes em solução na água, sobretudo de
cálcio (Ca+2) e magnésio (Mg+2), e em menor magnitude alumínio (Al+3), ferro (Fe+2), manganês (Mn+2)
e estrôncio (Sr+2), e se manifesta pela resistência à reação de saponificação. Esta característica química
acaba por refletir a natureza geológica da bacia hidrográfica, sendo mais evidente nas regiões de
formação calcárea e menos significativa em zonas de terrenos arenosos ou argilosos. A água de chuva
em contato com o solo tem sua concentração de gás carbônico elevada e por conseguinte seu poder de
dissolução das formações calcáreas.
A dureza pode ser classificada como dureza carbonato ou dureza não carbonato, dependendo
do ânion com o qual está associada. A primeira é sensível ao calor, precipitando o carbonato ao aumento
significativo de temperatura - usual de ocorrer quando a água atravessa, por exemplo, a resistência
dos chuveiros domiciliares - e por esta razão recebe a denominação de dureza não perm anente.
Semelhante mecanismo verifica-se no abrandamento de águas duras por meio do emprego de cal
visando a favorecer a precipitação do carbonato de cálcio, conforme enunciam as equações 2.7 e 2.8.

Ca++ + 2 HCOf + Ca(OH)2 -> 2 CaC03| + C 0 2| + H20 (2.7)

Ca++ + 2 HCOf + Ca(OH)2 4 2 CaC03| + 2 H20 (2.8)

A dureza carbonato corresponde à alcalinidade, estando portanto em condições de indicar a


capacidade de tamponamento da água natural. Em contrapartida, a dureza não carbonato, também
denominada perm anente, não pode ser reduzida por ebulição e resulta da presença de íons metálicos
divalentes ligados a sulfatos, cloretos ou nitratos, podendo ser determinada pela diferença entre a
dureza total e a alcalinidade da água.
A dureza é expressa em mg/L de equivalente em carbonato de cálcio (CaC03) e, ainda que com
alguma imprecisão em virtude da perceptibilidade variável da população abastecida, em função deste
parâmetro a água pode ser classificada em:
• mole ou branda: < 50 mg/L de C aC 03;
• dureza moderada: entre 50 e 150 mg/L de CaC03;
• dura: entre 150 e 300 mg/L de C aC 03;
• muito dura: > 300 mg/L de C aC 03.

Em relação à classificação anterior, convém ressaltar que os padrões de potabilidade brasileiro,


americano e da OMS estabelecem o limite de 500 mg/L CaC03, idêntico ao adotado no Canadá
(Sum m ary o f G uidelines f o r Canadian D rin kin g Water Quality, 2004). Em relação ao último, há
menções de que, embora dureza até 200 mg/L C aC 03 possa ser tolerada, intervalo de 80 a 100 mg/L
C aC 03 apresenta maior aceitabilidade pela população abastecida. De fato, no Brasil verifica-se
maior consumo de água mineral pela parcela mais abastada da população abastecida quando a água
distribuída apresenta dureza superior a 100 mg/L. Diversas cidades do interior do estado de São Paulo,
abastecidas por águas subterrâneas, confirmam esta assertiva.
Contudo, a aceitabilidade e a perceptibilidade do consumidor para com águas de dureza mais
significativa apresentam significativo grau de subjetividade. Avaliação realizada com o corpo de
funcionários de uma companhia estadual de saneamento avaliou a aceitabilidade da água com distintos
valores de dureza. Em primeira instância a população amostrada (188 pessoas) foi orientada a escolher
a água que melhor lhe apetecesse. Os resultados desta avaliação são apresentados na figura 2.14
(Von Sperling, 2004).
501

Dureza (mg/L CaC03)

Figura 2.14. Percentual de aceitabilidade de distintos teores de dureza para população amostrada.

Evidencia-se pela figura 2.14 que de fato mais de 40 % dos integrantes do universo amostrai
prefeririam a água com menor dureza, mas ocorreu distribuição relativamente uniforme para o restante
no que tange à aceitabilidade mesmo para valores elevados.
Posteriormente, avaliou-se a perceptibilidade da população amostrada a distintos valores de
dureza. Nesta etapa, os participantes foram instados a identificar a água com maior teor de dureza e os
resultados estão apresentados na figura 2.15.

Dureza (mg/L CaC03)

Figura 2.15. Percentual de perceptibilidade da dureza na população amostrada.

Da mesma forma, a água com menor dureza foi facilmente identificada pela quase totalidade da
população. Contudo, dureza superior a 100 mg/L CaC03 pareceu conferir a mesma sensação de gosto
pela distribuição aproximadamente uniforme das respostas.
Conforme mencionado, frequentemente a dureza tem origem natural pela dissolução de rochas
calcáreas, ricas em cálcio e magnésio e, em menor monta, decorrente do lançamento de efluentes
industriais. No Brasil, salvo algumas exceções como a Região Norte do estado de Minas Gerais, as águas
superficiais são brandas ou moderadamente duras (valores comumente inferiores a 100 mg/L CaC03),
com teores significativos de dureza ocorrendo mais usualmente para águas subterrâneas. Objetivando
novamente comparar os valores médios mensais de dureza de dois mananciais superficiais, no Brasil
(Minas Gerais) e Canadá (Alberta), foi elaborada a figura 2.16, na qual se evidencia significativa
diferença para os valores da dureza da água bmta afluente às respectivas estações de tratamento
durante o ano de 2004.
A dureza não apresenta significado sanitário e seu inconveniente é de natureza econômica por
reduzir a formação de espuma, elevando o consumo de sabões e xampus, e a salientada perspectiva
de poder provocar incmstações nas tubulações de água quente, caldeiras e aquecedores, em virtude
da precipitação do carbonato a temperaturas mais elevadas. Não há ainda comprovação científica
que relacione o consumo de água com maior teor de dureza ao aparecimento de pedras nos rins na
população abastecida. Em contrapartida, há indícios de que as doenças cardiovasculares manifestam-
CA PÍTULO 02 n
-se com menor intensidade em regiões nas quais a população abastece-se com águas de dureza mais
acentuada.

Meses
Figura 2.16. Médias mensais da dureza da água bruta afluente a estações no Brasil e Canadá.

Oxigênio Dissolvido
Ainda que uma afirmativa peremptória possa não se aplicar em alguma situação particular,
a concentração de oxigênio dissolvido (OD) é reconhecidamente o parâmetro mais importante para
expressar a qualidade de um ambiente aquático. Na rotina operacional das estações de tratamento, o OD
não se constitui parâmetro usual de controle, pois, a própria escolha do manancial para abastecimento,
comumente recaindo para ambientes menos impactados, já subliminarmente o considerou como
parâmetro relevante.
Usualmente refere-se à concentração de OD como percentual da concentração de saturação,
pois os valores absolutos podem não necessariamente traduzir as condições do corpo d ’água. A
concentração de OD à saturação é diretamente proporcional à pressão atmosférica - ou inversamente à
altitude - e indiretamente proporcional à temperatura. Assim, a concentração de OD à saturação traduz
a concentração teórica máxima àquela temperatura e pressão atmosférica. Neste contexto, regiões ao
nível do mar tenderíam a apresentar maiores concentrações de OD quando comparadas às verificadas
nas regiões montanhosas. Ao nível do mar e à temperatura de 20 °C, a concentração de OD à saturação
é 9,17 mg/L. Também a salinidade exerce fator limitante à concentração de OD, ou seja, a água do mar
nas mesmas condições de pressão atmosférica e temperatura apresentará menor concentração de OD
quando comparada à água doce. As concentrações de OD à saturação ao nível do mar em função da
temperatura e da concentração de cloretos são apresentadas na figura 2.17.

Figura 2.17. Concentração de OD à saturação ao nível do mar em função da temperatura e da concentração de


cloretos.
C A P Í T U L O 02
Além das ações antrópicas no lançamento de efluentes, as concentrações de OD podem
variar naturalmente. Cursos d ’água de velocidade mais elevada favorecem o aporte do oxigênio da
atmosfera, ao passo que em lagos e reservatórios a concentração de OD pode superar à de saturação
em dias de intensa atividade fotossintética da comunidade algal e das plantas aquáticas. Este fenômeno
denominado supersaturação de OD somente pode ocorrer pela atividade fotossintética.
A redução do OD pode ocorrer por razões naturais, especialmente pela respiração ou pela
degradação da matéria orgânica pelos organismos presentes no ambiente aquático, conforme evidencia
a equação 2.9.
C6H 120 6 + 6 0 2 —» 6 C 0 2 + 6 H20 + Energia (2.9)

Outra forma de redução do OD nos corpos d’água refere-se às perdas para a atmosfera e oxidação
de íons. Nesta última premissa, lagos e reservatórios por vezes apresentam variações significativas nas
concentrações de OD no período noturno, graças ao inverso do processo da fotossíntese (equação 2.10)
realizado pelas algas e plantas aquáticas que, na respiração, consomem o oxigênio e liberam o gás
carbônico (C02).
6 C 0 2 + 6 H20 + Energia —» C6H 120 6 + 6 0 2 (2.10)

O aumento da concentração de C 0 2 pode causar também a redução mais significativa do pH e


favorecer a ressolubilização de diversos compostos depositados no fundo do corpo d ’água. Conforme
mencionado, a elevação das concentrações de ferro e manganês solúvel em águas captadas em
reservatórios de acumulação constituem consequência da redução do pH.
As variações nos teores de OD estão associadas aos processos físicos, químicos e biológicos
que ocorrem nos corpos d’água. Para a manutenção da vida aquática aeróbia são necessários teores
mínimos de oxigênio dissolvido de 2 a 5 mg/L, de acordo com o grau de exigência de cada organismo. A
concentração de oxigênio disponível mínima necessária para sobrevivência das espécies de água doce
é de 4 mg/L para a maioria dos peixes e de 5 mg/L para tmtas e salmões, o que explica a prevalência
destas espécies em águas de baixa temperatura principalmente no norte dos EUA e Canadá.
Em condições de anaerobiose (ausência de oxigênio dissolvido) os compostos químicos são
encontrados na sua forma reduzida (não oxidada), geralmente solúvel no meio líquido, disponibilizando,
portanto, as substâncias para assimilação pelos organismos que sobrevivem nestas condições no
ambiente aquático. A medida que se eleva a concentração de oxigênio dissolvido os compostos vão se
precipitando, ficando armazenados no fundo dos corpos d’água.

Salinidade
A salinidade das águas naturais vincula-se à presença de sais minerais dissolvidos formados
por ânions como cloreto, sulfato e bicarbonato e cátions como cálcio, magnésio, potássio e sódio. A
dificuldade inerente à determinação da concentração de cada sal - cujo somatório seria a mais precisa
indicação da magnitude da salinidade - culminou com o usual emprego da concentração de cloretos
como estimativa desta característica química. A concentração de cloretos como indicador da salinidade
insere-se também, guardadas as especificidades de cada corpo d’água, a condutividade elétrica ou
a concentração de sólidos totais dissolvidos. Como consequência, a determinação da condutividade
elétrica constitui-se indicador confiável da salinidade do corpo d ’água.
A salinidade dos corpos d'água resulta sobretudo dos seguintes fatores (Esteves, 1988):
i) intmsão de água do mar no aquífero freático, por vezes maximizada pela magnitude da
vazão recalcada e consequente rebaixamento do nível do lençol;
ii) grau do intemperismo e composição das rochas e solos da bacia de drenagem;
iii) balanço hídrico referente à precipitação e à evaporação;
CAPÍ TUL O 02

4[ &
iv) influência e características das águas subterrâneas;
v) lançamento de águas residuárias domésticas e industriais.23

Exemplifica o fator (iii) o aumento progressivo da concentração de cloretos em açudes da


Região Nordeste do País, em razão da significativa evaporação e da curta duração da estação chuvosa,
usualmente compreendida entre abril e julho. Apesar de não apresentar significado sanitário, maiores
concentrações de cloretos conferem sabor à água de consumo e maior índice de rejeição por parte da
população abastecida.
A afirmativa anterior e a intrínseca relação entre salinidade e a concentração de sólidos
dissolvidos confirmam-se pelas premissas estabelecidas pelos padrões de potabilidade nacional,
americano, canadense e da OMS, que convergem para os mesmos valores máximos recomendáveis
para concentração de cloretos e sólidos totais dissolvidos de 250 mg/L e 1000 mg/L, respectivamente.
A Resolução 357 do Conama estabelece para águas doces salinidade inferior a 0,5 %o (500 mg/L),
águas salobras até 30 %o e águas salinas valores superiores a 30 %o.
A perspectiva de redução da salinidade usualmente restringe-se ao emprego de unidades
trocadoras de íons, osmose inversa (tipo de filtração em membrana) ou, para vazões muito baixas,
destilação solar.

Demandas Química e Bioquímica de Oxigênio


Os parâmetros Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e Demanda Química de Oxigênio
(DQO) expressam a presença de matéria orgânica, constituindo-se em importante indicador de
qualidade das águas naturais. O primeiro parâmetro indica a intensidade do consumo de oxigênio (em
mg/L) necessário às bactérias na estabilização da matéria orgânica carbonácea, acabando por também
indicar a concentração do carbono biodegradável. A determinação da DBO realiza-se com base na
diferença na concentração de OD em amostra de água no período de cinco dias e temperatura de
20 °C. Desta forma, se amostra de água natural apresentar DBO de 5 mg/L serão necessárias 5 mg de
oxigênio dissolvido para estabilizar, no período de cinco dias e à temperatura de 20 °C, a quantidade
de matéria orgânica biodegradável contida em 1,0 L da amostra.
Já a DQO é determinada por titulação química com dicromato de potássio (K2Cr20 7) e abarca
toda matéria orgânica - passível ou não de degradação pela ação bacteriana - e o resultado é obtido
em menos de 3 h, sendo utilizada no monitoramento mais estrito da performance de estações de
tratamento de esgotos. Desta forma, a DBO refere-se à matéria orgânica passível de ser estabilizada
biologicamente, enquanto a DQO engloba a parcela estabilizada quimicamente, tendo, portanto, valor
sempre superior.
Da mesma forma que para o oxigênio dissolvido, ambos parâmetros não são monitorados nas
estações de tratamento de água, pois, a própria definição do manancial de abastecimento há de recair
para águas naturais com DBO comumente inferior a 5 mg/L. Valores mais elevados sucedem-se em
corpos d’água receptores de efluentes domésticos (estes com DBO da ordem de 200 a 400 mg/L) e
industriais ou de águas lixiviadas de criatórios de animais (currais ou pocilgas).

Carbono Orgânico total


Como um dos indicadores da concentração de matéria orgânica nas águas naturais, o carbono
orgânico total (COT) divide-se em frações referentes às parcelas dissolvida ou particulada. A medida

23. Estima-se que uma pessoa elimine diariamente algo como 6 g de cloretos, resultando em concentrações
superiores a 15 mg/L nos esgotos domésticos. Em contexto similar, efluentes de refinarias, indústrias
farmacêuticas e curtumes, comumente apresentam significativas concentrações de cloretos.
do COT dá-se valendo-se da determinação do C 0 2 liberado, devendo ser removidas as formas
inorgânicas, como, além do próprio C 0 2, carbonatos e bicarbonatos, passíveis de artificialmente elevar
o resultado.
Determina-se a fração dissolvida (carbono orgânico dissolvido - COD) ao filtrar a amostra de
água em membrana 0,45 pm, com a parcela retida constituindo o carbono orgânico particulado (COP).
A maior ou menor prevalência da parcela referente ao COD é resultante da origem da água natural.
Por motivos óbvios, águas subterrâneas usualmente apresentam parcela ínfima de COP, ao passo que
mananciais susceptíveis a receber despejos ou águas originárias do escoamento superficial sobre
áreas urbanas tenderão a apresentar percentuais mais significativos de matéria orgânica particulada,
corroborados também pela maior turbidez. Também neste caso, a perspectiva de florações algais
haverá de contribuir para incremento desta parcela na matéria orgânica presente nas águas.
Em águas superficiais o teor de COT varia de 1 a 20 mg/L, elevando-se para até 1000 mg/L nas
águas residuárias. Desta forma, alteração significativa deste parâmetro constitui-se em indicativo de
novas fontes poluidoras e balizador das análises a serem realizadas, tais como cor verdadeira, clorofila
a, fósforo total etc. Na figura 2.18 são apresentados os intervalos usuais para a concentração de COT
em águas naturais e residuárias.

^ Água do mar

Águas subterrâneas

___ _________________ Águas superficiais

___ H H I Efluentes de tratamento biológico

Média das Águas Superficiais = 3,5 mg/l Águas residuárias

0.1 0.2 0.5 1 2 5 10 20 50 100 200 500 1000


Carbono Orgânico Total • mg C/l

Figura 2.18. Amplitude de variação da concentração do COT em águas naturais.


Fonte: Cohn, Cox e Berger (1999).

A amplitude da concentração de COT nas águas superficiais guarda relação com a região
na qual se insere o corpo d ’água. Monitoramento realizado em oito corpos d ’água (rios, lagos e
reservatórios) da Região Amazônica apresentou concentrações significativamente superiores à média
da figura 2.18. As concentrações médias registradas com base em 20 a 28 observações variaram de
8,7 mg/L a 16,2 mg/L.
O COT, sobretudo na forma dissolvida, assume papel preponderante no desenvolvimento da
comunidade algal no ecossistema aquático. Além de se inserir na cadeia trófica de bactérias e algas
- como agente precipitador de nutrientes na camada bentônica para produção primária - , o COT
atua também no processo de fotossíntese, por intermédio da interferência na penetração das radiações
solares no corpo d’água.
A relevância do monitoramento do COT consolidou-se na perspectiva de minimizar a formação
dos THM e outros subprodutos da desinfecção. Neste contexto, pesquisa realizada com águas sintéticas,
objetivou avaliar os riscos de câncer decorrentes da formação de trihalometanos, à razão de número
de casos anuais por milhão de pessoas. Inicialmente, aferiu-se a formação individual das espécies
em função da concentração de COT. Os ensaios - cujos principais resultados estão apresentados na
figura 2 .1 9 - foram realizados à temperatura de 25 °C, tempo de contato de 3 horas e dosagens de cloro
de 0,5 a 1,5 mg/L (Black; Harrington; Singer 1996).

O Clorofórmio
□ Bromodíclorometano
A Dibromoclorometano
O Bromofórmio

Figura 2.19. Concentrações das espécies de THM resultantes da cloração de águas sintéticas.

Da análise dos resultados expressos na figura 2.19 depreende-se que a concentração total de
THM - somatório das quatro espécies - supera os limites máximos permissíveis no Brasil (100 pg/L)
para teor de COT superior a 3 mg/L. Embora as águas naturais usualmente apresentem baixas
concentrações de íon brometo - concentrações mais elevadas sucedem-se em áreas costeiras em
virtude da intrusão salina - , que favorece a significativa formação de compostos bromados, o limite de
3,0 mg/L de COT pode ser superado para outras águas sem ocasionar concentrações elevadas de THM.
Diversos pesquisadores demonstraram significativas correlações entre FPTHM (Formação
Potencial de THM) e COT para águas naturais potabilizáveis. Como exemplos, estudo realizado por
meio da análise das 59 sequências de amostras de água bruta afluente a 12 estações de tratamento,
determinou-se nítida correlação (R2 = 0,828) entre tais variáveis obtidas conforme mostrado na
figura 2.20 (Singer; Chang, 1989). Posteriormente, significância ainda maior foi obtida (R2 = 0,936)
para 133 amostras de águas drenadas de solos agriculturáveis, e oriundas de mananciais superficiais -
lagos, rios e reservatórios - e subterrâneos (Chapra; Canale; Amy, 1997).

Figura 2.20. Correlação entre as concentrações de FPTHM e COT referentes às análises do afluente de 12
estações de tratamento localizadas em seis estados americanos.
C A P ÍT U L O 02

■• ■ ■ • ' 51
Embora a Portaria 518 não faça menção ao COT - como também não o faz o padrão de
potabilidade americano e canadense o uso extensivo dos compostos de cloro como desinfetantes
passou a conferir maior importância a esse parâmetro, pois os ácidos fulvicos, assim como a biomassa
de algas e cianobactérias, constituem-se importantes precursores da formação dos THM. Todavia, o
elevado custo dos equipamentos de determinação do COT toma raríssimo no Brasil o monitoramento
deste parâmetro.
Um dos raros empregos de equipamentos para medição de COT em escala real no País ocorre
em uma estação de tratamento de médio porte (Q = 400 L/s) em Minas Gerais. A amostragem efetua-
se em escoamento contínuo altemadamente por período de 12 horas entre a água bmta e tratada, a
primeira captada diretamente sem qualquer estrutura de acumulação. Na figura 2.21 são apresentadas
as distribuições de frequência e frequência acumulada do monitoramento das concentrações de COT
verificadas no afluente no período de estiagem (agosto 1998). Tais concentrações foram determinadas
com base nas médias aritméticas dos valores instantâneos durante cada período diário de 12 horas.

Concentração de COT (mg/L)

Figura 2.21. Histograma da concentração de COT e curva dos percentuais acumulados para a água bmta.

Posteriormente, realizou-se idêntico monitoramento durante o mês de janeiro de 1999 e não


se verificou elevação significativa na concentração de COT. Em ambas situações, a correlação entre a
concentração de COT e a turbidez da água bmta foi insignificante e, como seria de se esperar graças
aos baixos valores de COT, pouco superior para o período de estiagem (r2 = 0,163) quando a turbidez
média foi da ordem de 24 uT elevando para 170 uT no período chuvoso.
Em ambos períodos, observam-se mais de 80 % dos valores amostrados iguais ou inferiores
a 1,0 mg/L de COT. No período chuvoso, verifica-se uma elevação deste percentual para 90 % das
amostras. Tais resultados provavelmente apontam menor capacidade das argilas predominantes na
bacia hidrográfica de adsorver compostos orgânicos. Valendo-se dos resultados do monitoramento
constata-se o baixo teor de COT nesta água bmta, quando comparados aos observados nos mananciais
americanos, e a possibilidade de acréscimos significativos no afluente à estação de tratamento pode ser
consequência de alguma atividade antrópica na bacia hidrográfica. Os teores de COT na água tratada -
também aferidos diariamente durante 12 horas - mantiveram-se consistentemente abaixo de 0,8 mg/L
(Libânio et al., 2000).

Compostos orgânicos
Relacionada ao COT, pois todos compostos ou contaminantes orgânicos têm o carbono
associado a um ou mais elementos, a concentração de diversos contaminantes orgânicos na quase
CA PÍTULO 02

52
totalidade reflete as consequências das atividades antrópicas para com a qualidade dos corpos d ’água.
Grupo de compostos orgânicos denominado hidrocarbonetos contêm apenas átomos de carbono e
hidrogênio, ao passo que vários outros incorporam também o oxigênio. Destacam-se pela presença nas
águas naturais o benzeno (C6H6), tolueno (C7H8), xileno (C8H10) e metano (CH4).
Além dos subprodutos da desinfecção e dos agrotóxicos, destaca-se variedade de compostos
orgânicos sintéticos resultado do lançamento de efluentes industriais, lixiviação de solos agriculturáveis
e de vias urbanas, e percolação de solos contaminados. Estes compostos, além do carbono e hidrogênio,
podem conter halogênios, tais como flúor e cloro, e metais inorgânicos, e a quase totalidade causa
efeitos adversos à saúde humana. Parcela destes compostos, utilizada na fabricação de solventes, é
passível de volatilização recebendo a óbvia denominação de compostos orgânicos voláteis. Embora
alguns destes possam causar danos à saúde humana, a principal dificuldade de monitoramento reside
na acurácia necessária à determinação de concentrações muito baixas na água de consumo.
Na Portaria 518, no grupo de substâncias químicas passíveis de risco à saúde, listam-se 12
compostos orgânicos sintéticos e estabelecem-se limites que variam de 0,50 pg/L para a acrilamida -
composto integrante dos polímeros orgânicos sintéticos por vezes utilizados no tratamento de água - a
70 pg/L para o tricloroeteno, utilizado como solvente na indústria química. No padrão de potabilidade
americano os contaminantes orgânicos incluem os agrotóxicos em listagem que integra 53 dos 87
parâmetros de qualidade de água que compõem a lista (AWWA - American Water Works Association,
2006). Na tabela 2.3 apresentam-se as concentrações máximas dos 12 compostos orgânicos integrantes
dos padrões de potabilidade nacional americano. Vale ressaltar a significativa convergência, para a
quase totalidade dos compostos orgânicos listados, entre os limites estabelecidos pela Portaria 518 e
pela OMS, na qual recebem a denominação de valores-guia.

Tabela 2.3. Concentrações máximas dos compostos orgânicos inseridos na Portaria 518 e
no padrão de potabilidade americano.
P a d rã o de P o ta b ilid a d e P a d rã o d e P o ta b ilid a d e
Com posto O rgânico
N a c io n a l (pg/L) A m e ric a n o * (pg/L)
Acrilamida 0,5 0,5
Benzeno 5 5
Benzo[a]pireno 0,7 0,2
Cloreto de vinila 5 2
1.2 Dicloroetano 10 5
1.1 Dicloroeteno 30 7
Diclorometano 20 5
Estireno 20 100
Tetracloreto de carbono 2 5
Tetracloroeteno 40 5
Triclorobenzenos 20 70
Tricloroeteno 70 5

* O padrão americano reporta-se :a mg/L e a alteração objetivou facilitar a comparação entre ambas legislações.

A comparação entre as concentrações máximas dos 12 compostos orgânicos comuns às duas


legislações remete aos distintos estágios de desenvolvimento industrial entre os EUA e o Brasil. Apenas
para três compostos orgânicos, a concentração máxima no padrão americano supera à do nacional,
provavelmente graças a maior susceptibilidade das águas nos EUA a esse tipo de contaminação e aos
equipamentos necessários às análises.
A USEPA {United States Environmental Protection Agency) estabelece interessante distinção
para os contaminantes orgânicos, dividindo-os em três categorias (AWWA, 2003). A primeira
(Categoria I) congrega os compostos sobre os quais há forte evidência acerca das suas propriedades
C A P ÍT U L O 02
carcinogênicas e a recomendação é de se atingir como objetivo concentração nula nas águas de consumo
(.Maximum Contaminant Levei Goal). Todavia, há limitações em termos da detecção destes compostos
por meio de técnicas laboratoriais confiáveis e da própria remoção na estação de tratamento. Para os
integrantes da Categoria II as evidências acerca das propriedades carcinogências não são definitivas,
mas outros efeitos nocivos à saúde já foram confirmados. Para os demais, Categoria III, não há
evidência de efeitos carcinogênicos, mas outros efeitos à saúde já se confirmaram, tais como, danos ao
fígado e aos sistemas cardiovascular e nervoso central. Com base nestas categorias estabelece-se valor
numérico para cada çontaminante.
Recentes pesqúisas têm-se reportado a produtos da indústria farmacêutica utilizados em
tratamentos de reposição hormonal, constituintes de pílulas anticoncepcionais e de cosméticos
presentes nos efluentes de estações de tratamento de esgotos. Estes compostos recebem denominações
várias de perturbadores endócrinos a agentes hormonalmente ativos, esta mais abrangente por
abarcar também alguns metais pesados, agrotóxicos e outros compostos orgânicos passíveis de atuar
no sistema hormonal dos seres vivos (Bianchetti, 2008). Há indícios que tais compostos nas águas
naturais possam afetar a biota aquática por meio da feminilização da fauna ictiológica reduzindo sua
capacidade de reprodução. Em segunda instância, podem fomentar o desenvolvimento de diversos
tipos de tumores e mesmo redução da fertilidade humana.

Ferro e Manganês
Ambos metais originam-se da dissolução de compostos de rochas e solos. Por ser um dos
elementos mais abundantes, o ferro é habitualmente encontrado nas águas naturais, superficiais e
subterrâneas, apresentando-se nas formas insolúvel (Fe+3) e dissolvida (Fe+2), como óxidos, silicatos,
carbonatos, cloretos, sulfatos e sulfitos. A segunda forma é frequente em águas subterrâneas de poços
artesianos, e no fundo de lagos e reservatórios de acumulação onde se verificam baixas concentrações
de oxigênio dissolvido. A equação 2.11 ilustra a forma usual do ferro em águas subterrâneas.
F eC 03 + C 0 2 + H20 -> Fe+2 + 2 HCOf (2.11)

Embora bem menos abundante e quando presente frequentemente associado ao feno, o


manganês também se apresenta na forma dissolvida (Mn+2) e insolúvel (Mn+3 e Mn+4) em menores
concentrações quando comparado ao ferro. Por se apresentar mais estável na forma reduzida do que
o ferro, a oxidação do manganês toma-se mais difícil e a simples aeração geralmente não é suficiente
para sua remoção. Em contrapartida, como usualmente apresenta-se nas formas de óxidos, carbonatos
ou hidróxidos pouco solúveis, as concentrações de manganês em águas superficiais raramente
excedem 1,0 mg/L, à exceção das mesmas circunstâncias verificadas para o ferro em relação a águas
subterrâneas de póços profundos com baixas concentrações de oxigênio dissolvido.
Para águas superficiais, a condição de anaerobiose nas camadas mais profundas dos reservatórios
de acumulação resulta da decomposição de matéria orgânica, favorecendo a solubilização de compostos
de ferro e manganês anteriormente precipitados. Conforme mencionado, tais metais apresentam-se na
forma de hidróxidos (Fe(OH)2 e Mn(OH)2), bicarbonatos (Fe(HC03)2 e M h(HC03)2), sulfatos (FeS04
e M nS04), entre outras. Adicionalmente, estes metais podem se apresentar complexados à matéria
orgânica, perspectiva que, embora não afete substancialmente os mecanismos de remoção, pode
favorecer a formação de subprodutos quando se efetua a pré-desinfecção com compostos de cloro.
Caso ocorra inversão térmica, compostos solúveis de ferro e manganês atingem as camadas
superficiais do corpo d’água e, com alguma frequência, o ponto de captação da água bmta. A aeração
superficial em razão da ação do vento fecha o ciclo por meio da nova oxidação destes compostos e
posterior sedimentação. Assim, estruturas de captação que permitem afluência da água bmta a distintas
CAPÍ TUL O 02

54
profundidades, denominadas torres de tomada, devem ser operadas pouco abaixo da superfície nos
reservatórios nos quais se verifica maior perspectiva de floração algal e pouco acima da camada na
qual a concentração de oxigênio dissolvido é nula.
Na estação de tratamento, a oxidação do ferro comumente conduz à formação do precipitado
de hidróxido de ferro, de fácil sedimentabilidade ou retenção no meio filtrante. Por outro lado, as
formas de dióxido de manganês decorrentes da oxidação deste metal apresentam-se como flocos
muito pequenos de menor sedimentabilidade e passíveis de mais facilmente não serem retidos no meio
filtrante. Atenua esta característica, a possibilidade dos flocos de hidróxido de ferro envolverem os
flocos de dióxido de manganês, favorecendo sua remoção.
Todavia, nas águas superficiais, com alguma frequência o ferro apresenta-se complexado à
matéria orgânica. Nestas circunstâncias, a matéria orgânica pode envolver o metal, minimizando
a oxidação e subsequente precipitação na forma de hidróxido. Diversas pesquisas evidenciaram
a capacidade de alguns ácidos orgânicos, como tânico e húmico, de formar complexos com ferro
ferroso (Fe+2), praticamente inviabilizando a oxidação com oxigênio. Como estes ácidos resultam
da decomposição da matéria orgânica de origem vegetal, reduz-se significativamente a remoção do
ferro (Sommerfeld, 1999). Neste contexto, a oxidação pode ser realizada com maior eficiência com
permanganato de potássio, cloro e seus compostos.
Mais rápida forma de oxidação dos compostos de ferro e manganês ocorre por meio de grupo
específico de bactérias aptas a converter o ferro solúvel (Fe+2) em insolúvel (Fe+3), sobretudo dos
gêneros Crenotrix, Leptothrix, Sphaerotilus e Gallionella e, não sem razão, recebem a denominação
de ferrobactérias. Estes microrganismos fazem-se presentes em águas subterrâneas em praticamente
todas as partes do Globo e, em condições favoráveis, mesmo em reservatórios de acumulação e lagos.
Além da presença de ferro e manganês, fatores como temperatura, insolação, pH, matéria orgânica e
potencial redox24 hão de influenciar no desenvolvimento das ferrobactérias
Especificamente nos sistemas de abastecimento de água, o desenvolvimento destes
microrganismos, habitualmente como consequência da desinfecção inadequada e remoção insatisfatória
de ferro e de manganês, conduz a severas incrustações nas paredes das tubulações causadas pela própria
biomassa e pelas formas insolúveis destes metais. Quando tal se sucede, reduz-se expressivamente a
capacidade de escoamento nas adutoras e redes de distribuição e confere-se cor, odor e sabor à água
de consumo. Sob condições favoráveis o biofilme já estabilizado formado por ferrobactérias toma-se
praticamente imune às dosagens de cloro residual comumente verificadas nas redes de distribuição.
Embora por si só não causem danos à saúde humana, as ferrobactérias podem mascarar a presença de
eventuais patogênicos e elevar as dosagens (demanda) de desinfetante.
Concentração mais significativa destes compostos na água bmta e remoção insatisfatória,
principalmente do manganês, culminaram no final da década de 1980 com a alteração do sentido do
escoamento dos filtros (de ascendente para descendente) de estação de filtração direta de grande porte
(vazão da ordem de 1,7 m3/s) que abastece a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ainda que as
condições de coagulação pareçam ter sido determinantes para resolução do problema, é igualmente
possível que as características do novo meio filtrante tenham favorecido a retenção de flocos de
menores dimensões e melhorado a qualidade do efluente da estação.
Situação semelhante foi vivenciada pelos profissionais responsáveis pela operação da estação
de tratamento de água da cidade canadense de Muskolca (vazão afluente da ordem de 350 L/s), na
província de Ontário, em setembro de 2001. A água bruta afluía à estação com concentração de

24. Potencial redox constitui a medida (em volts) da prevalência entre as forças redutoras ou oxidantes. Desta
forma, valores negativos indicam ambiente propício à redução, no caso de Fe+3 para Fe+ e Mn+ para Mn+2,
formas mais facilmente assimiláveis pelas ferrobactérias.

55
manganês de 0,44 mg/L - predominantemente na forma solúvel - e a redução era pouco significativa
no tratamento (0,38 mg/L), com efluente significativamente superior ao padrão de potabilidade da
Província (0,05 mg/L). A água bruta captada no Lago Stewart apresentava elevada concentração
de carbono orgânico total, da ordem de 5,3 mg/L, tomando temerária a pré-desinfecção com cloro
pela perspectiva de formação de THM e praticamente ineficaz a aeração. A solução recaiu para o
emprego da pré-oxidação com permanganato de potássio (KM n04), com dosagens de 1,5 a 2,0 mg/L.
Dosagens superiores de K M n04 conferiam cor à água tratada e elevavam o residual de manganês
(AWWA, 2003).
O ferro não aprèsenta inconveniente sanitário, mas de caráter econômico por produzir manchas
em roupas e aparelhos sanitários em concentrações superiores a 0,3 mg/L, e em maiores concentrações
conferir sabor à água de consumo. APortaria 518 e a OMS estabelecem concentração máxima de ferro
total de 0,3 mg/L, idêntico valor adotado pelo padrão americano e canadense. A remoção de ferro pode
se realizar por aeração - para favorecer a oxidação à forma insolúvel - , coagulação ou pré-desinfecção
com compostos de cloro.
Como o ferro, o manganês nas concentrações comumente encontradas nas águas naturais não
apresenta significado sanitário25 e os inconvenientes são de natureza estética e, em concentrações
superiores a 0,01 mg/L, de sabor adstringente. Concentrações superiores a 0,05 mg/L podem favorecer
o aparecimento de manchas em vestes e aparelhos sanitários. O padrão de potabilidade brasileiro
estabelece concentração máxima de 0,1 mg/L, ao passo que o americano e canadense limitam em
0,05 mg/L. Interessante salientar que a OMS estabelece valor significativamente mais elevado
(0,4 mg/L), ressaltando a possibilidade de reclamações dos usuários acerca da aparência, sabor e odor.
Por fim, ambos metais, após a oxidação por vezes na própria residência, atingindo a forma
insolúvel podem conferir cor marrom ou avermelhada à água de consumo e fomentar a rejeição pela
população abastecida.

Nitrogênio
O nitrogênio, gás mais abundante na atmosfera terrestre (78 %), pode ser encontrado nos corpos
d ’água em função do seu estado de oxidação (que varia de -3 a +5) sob as formas:
i) nitrogênio orgânico na forma dissolvida (compostos orgânicos nitrogenados como ureia e
aminoácidos26) e particulada integrando a biomassa dos organismos do meio aquático;
ii) nitrogênio molecular (N2), sujeito a constantes perdas na atmosfera;
iii) nitrogênio amoniacal, gás amônia (NH3) e íon amônio (NH4+), formas reduzidas presentes
em condições anaeróbias27;
iv) nitrito (NOf), forma intermediária encontrada em concentrações insignificantes sob condições
aeróbias em virtude da quase instantânea oxidação a nitrato;
v) nitrato (N 0 3‘), forma oxidada e nutriente essencial para a maioria dos organismos do corpo
hídrico.

O nitrogênio constitui, junto com o fósforo, nutriente essencial ao crescimento de algas,


cianobactérias e plantas aquáticas, facilmente assimilável nas formas de amônio e nitrato. Em relação
à forma molecular, fator relevante à floração de algumas espécies de algas e de cianobactérias em

25. Concentrações elevadas podem provocar distúrbios de natureza psicológica e neurológica.


26. Molécula orgânica usual componente das proteínas que apresenta pelo menos um grupo amina ligado a um
grupo carboxila.
27. A amônia apresenta-se na forma não ionizada (NH3) e/ou como íon amônio (NH4+).
lagos e reservatórios de acumulação, refere-se à capacidade de fixação do nitrogênio atmosférico - e
conversão a nitrato permitindo o seu crescimento mesmo quando as outras formas de nitrogênio não
estão disponíveis na massa líquida.
As principais fontes naturais da parcela dissolvida do nitrogênio constituem a decomposição
e excreção do fitoplâncton (sobretudo cianobactérias) e das macrófitas, a lise celular decorrente da
senescência ou herbivoria, proteínas, clorofila e outros compostos orgânicos. Estima-se que 10 % do
nitrogênio assimilado pelo fitoplâncton retome ao meio aquático como nitrogênio orgânico dissolvido.
De modo geral, o aporte externo de matéria orgânica e inorgânica, as precipitações e a mencionada
capacidade de fixação do nitrogênio atmosférico por algumas algas, bactérias e cianobactérias retratam
outras fontes naturais de nitrogênio para os corpos d ’água (Esteves, 1988).
Além da origem natural, a presença do nitrogênio nas águas pode denotar também significativa
origem antrópica, graças ao lançamento de despejos domésticos - a quase totalidade nas formas de
nitrogênio orgânico (40 %) e amônia (60 %) - , industriais e de criatórios de animais, assim como dos
fertilizantes (na forma de nitrato) utilizados em solos agriculturáveis passíveis de serem lixiviados
pelas chuvas.
O ciclo do nitrogênio, de forma simplificada, realiza-se por meio de bactérias nos processos
denominados nitrificação e desnitrificação. O primeiro consiste da sucessiva oxidação do gás amônia
(NH3) a nitrito e posteriormente a nitrato, realizado sob condições aeróbias pelas bactérias nitrificantes
do gênero Nitrosomonas, ao passo que o segundo refere-se à redução do nitrato a nitrogênio gasoso
realizado pelas bactérias do gênero Nitrobacter sob condições anóxicas (ausência de oxigênio livre).
Desta maneira, as formas do nitrogênio traduzem o estágio da poluição do corpo d'água. Concentrações
de nitrato e nitrito e as formas oxidadas indicam poluição remota, ao passo que nitrogênio orgânico ou
amoniacal poluição recente.28
Adicionalmente, concentrações significativas do íon amônio resultam em redução do oxigênio
dissolvido despendido na nitrificação e, em águas de pH elevado, ocorre a conversão no gás amônia29,
nocivo a algumas espécies de peixes mesmo em concentrações da ordem de 0,5 mg/L. O efeito nocivo
da amônia e sua relação com o pH das águas explica os distintos limites estabelecidos pela Resolução
357 do Conama30para águas de Classe 3, na qual se estabelecem concentrações máximas de nitrogênio
amoniacal total de 1,0 mg/L (para pH > 8,5) a 13,3 mg/L (para pH < 7,5). Em termos de potabilidade, a
Portaria 518 limita em 1,5 mg/L a concentração máxima de amônia (como NH3), valor coincidente com
o recomendado pela OMS visando a atenuar os problemas relacionados a odor da água de consumo.
A forma de nitrato está associada à doença metahemoglobinemia, responsável por acometer
bebês ao dificultar o transporte de oxigênio na corrente sanguínea podendo levar à morte. A
denominação genérica de doença do bebê azul decorre da redução do nitrato a nitrito na saliva ou
no trato intestinal e ao atingir a corrente sanguínea confere esta cor à pele da criança. Esta forma
do nitrogênio oxida a hemoglobina (proteína responsável pelo transporte de oxigênio) do sangue a
metahemoglobina, levando à anoxia. A redução é mais significativa, atingindo até 100 %, nos primeiros
três meses de vida da criança, ao passo que nos adultos somente 10 % do nitrato ingerido é passível

28. É comum na caracterização de afluentes, a estação de tratamento de esgotos reportar-se aò Nitrogênio Total
Kjeldahl (NTK) como o somatório do nitrogênio orgânico e amoniacal.
29. Esta conversão dá-se por meio da equação NH3 + H+ <-» NH4+. Assim, para valores de pH inferiores a 8,
praticamente toda amônia presente encontra-se na forma ionizada (NH4+), pH igual a 9,5 as formas ionizada
e não ionizada equivalem-se e pH superior a 11 toda amônia apresenta-se como NH3.
30. Tanto a Resolução 357 como a Portaria 518 reportam-se à concentração de nitrogênio em termos de amônia,
nitrito ou nitrato ou N-NH3, N-N02‘e N- NOf. Desta forma, 1,0 mg/L de nitrito (como N) equivale a 1,0 mg/L
de nitrato (como N), pois ambas formas apresentam apenas um átomo de nitrogênio. Similarmente, 4,43 mg/L
de nitrato é igual a 1,0 mg/L de nitrato (como N), razão entre o peso molecular do nitrato e do nitrogênio
(62/14). CAPÍTULO 02
57
de ser reduzido a nitrito. Águas de consumo com concentração inferiores a 10 mg/L não resultam
em desenvolvimento da metahemoglobinemia e somente 2,3 % dos casos parecem se relacionar a
concentrações entre 10 e 20 mg/L de nitrato. Por esta razão, a Portaria 518 e o padrão de potabilidade
americano estabelecem idênticos limites para nitrato (10 mg/L) e nitrito (1,0 mg/L). A OMS recomenda
para nitrato concentração de 50 mg/L (aproximadamente 11,3 mg/L como nitrogênio) e para nitrito
3 mg/L (aproximadamente 0,70 mg/L como nitrogênio).
A assimilação do nitrato pelas plantas - a ação fotossintética converte-o a nitrogênio orgânico
como integrante celular - concorre para que as concentrações sejam baixas nas águas superficiais,
usualmente inferiores a 2 mg/L. Em contrapartida, aquíferos freáticos em regiões de vegetação mais
escassa passíveis de contaminação por esgotos ou fertilizantes podem apresentar concentrações
superiores a 20 mg/L (Dezuane, 1997).

Fósforo
Por ser menos abundante que o nitrogênio, o fósforo - quase sempre na forma de fosfato
derivado do ácido fosfórico - acaba por se constituir com muita frequência no principal fator limitante
ao desenvolvimento de algas e plantas no meio aquático. Em termos mais generalistas, o fosfato
apresenta-se nos corpos d'água na forma orgânica ou inorgânica e particulada ou dissolvida, com o
fosfato total constituindo-se no somatório destas quatro frações.
A parcela orgânica do fosfato, particulada ou dissolvida, apresenta-se complexada à matéria
orgânica dos organismos integrantes do ecossistema aquático. Já o fosfato inorgânico de origem
natural usualmente origina-se da lixiviação das rochas fosfatadas, predominantemente constituídas de
apatita31, ou da agregação a compostos inorgânicos como hidróxido de ferro. Em áreas menos afetadas
pela ação antrópica, graças a percolação e armazenamento nos interstícios do solo, as águas subterrâneas
apresentam concentrações mais significativas de fosfato comparadas às águas superficiais. As formas
mais comuns nos corpos d'água, ortofosfatos e polifosfatos, resultam também do lançamento de
despejos domésticos32 e industriais, fertilizantes e lixiviação de criatórios de animais. Os polifosfatos,
todavia, apresentam baixa relevância em virtude da hidrólise e imediata conversão a ortofosfatos.
As formas de ortofosfatos, sendo HPOf2 a mais comum para as faixas de pH das águas naturais,
são as mais facilmente assimiláveis por algas e macrófitas incorporando-o à biomassa. Em águas não
poluídas, esta capacidade do fitoplâncton e das plantas aquáticas resulta em concentrações de fosfato
dissolvido comumente inferiores a 0,02 mg/L próximo à superfície do corpo d'água. O fósforo não
apresenta inconveniente de ordem econômica ou significado sanitário para águas de consumo humano,
não integrando os padrões de potabilidade nacional, americano e da OMS.

Fluoretos
Menos frequentes em águas superficiais que os cloretos, concentrações de fluoretos (F‘) são
relativamente comuns em águas subterrâneas decorrentes da decomposição de solos e rochas. Eventuais
lançamentos de despejos industriais concorrem para elevar as concentrações nas águas superficiais.
Em concentrações superiores a 2,0 mg/L podem favorecer o desenvolvimento da fluorose
- progressivo escurecimento e deterioração dos dentes. Não há comprovação de nenhum tipo de
carcinose ou outros efeitos adversos à saúde decorrente da ingestão de fluoretos. Todavia, ingestão

31. Mineral de fosfato de cálcio constituinte das rochas fosfatadas e empregado na fabricação de fertilizantes e do
ácido fosfórico.
32. Os esgotos domésticos concorrem para significativo aporte de fosfatos aos corpos d’água, consequência da
matéria orgânica e, em especial para as populações mais abastadas, do extensivo empregado de detergentes.
CAPÍ TUL O 02
durante período prolongado de água com concentrações superiores a 4,0 mg/L pode favorecer o
desenvolvimento de osteoesclerose33 assintomática. O padrão de potabilidade brasileiro e da OMS
estabelecem limite de 1,5 mg/L, ligeiramente superior ao estabelecido pela Resolução 357 do Conama
para águas Classe 3 (1,4 mg/L). A despeito da perspectiva da fluorose, o padrão de potabilidade
americano limita em 4,0 mg/L a concentração máxima de fiuoreto em água de consumo.
As concentrações de fluoretos nas águas de consumo objetivam minimizar o desenvolvimento
da cárie dentária em crianças até 12 anos e são condicionadas à temperatura média do ar, em função
do volume diário ingerido.

Metais pesados
A genérica denominação de metais pesados inserem-se amplo rol de elementos como cromo,
cobre, mercúrio, magnésio, chumbo, cádmio, zinco, cobalto, níquel, molibdênio e prata passíveis de
causar algum dano à saúde humana.34 Embora alguns possam desempenhar importantes funções aos
integrantes da biota aquática - por exemplo, magnésio e cobre, respectivamente, como integrantes da
clorofila e dos citocromos35 - , a quase totalidade apresenta algum grau de toxicidade aos organismos.
Interessante ressaltar que eventual hierarquia da toxicidade dos metais pesados apresentar-se-ia
distinta em função do organismo a ser considerado. Esta premissa reforça-se por eventuais efeitos
sinérgicos com outras características das águas naturais - turbidez, temperatura e oxigênio dissolvido
-, bem como pelo ânion ao qual o metal associa-se. Desta forma, a se considerar tão somente a fauna
ictiológica, mercúrio, cobre e zinco desempenham papel de relevo.
Diversos metais pesados são encontrados na forma dissolvida nas águas naturais, resultado
do lançamento de efluentes industriais (líquidos e gasosos), de fertilizantes e da lixiviação de áreas
de garimpo e mineração, com agravante de, conforme já mencionado, não conferir sabor ou odor à
água de consumo. Quando o aporte advém de fontes naturais em razão do intemperismo das rochas,
apresentam-se usualmente complexados à matéria orgânica, maximizando a sedimentação e reduzindo
a cor e turbidez das águas superficiais.
Aliada à toxicidade, estes metais tendem-se a potencializar na cadeia trófica. Cabe afirmar, a
concentração eleva-se à medida que se ascende na cadeia alimentar. Tal se deve pela capacidade do
fito e zooplancton de absorverem alguns metais. No primeiro caso, nos períodos de insolação mais
significativa e por consequência da atividade fotossintética, a concentração dos metais dissolvidos
tende a se reduzir no superfície do corpo d ’água.
No que tange aos eventos de intoxicação humana, constitui exemplo emblemático a contami­
nação por mercúrio ocorrida na Baía de Minamata no Japão na década de 1950 que ceifou a vida de
muitas pessoas, além de danos no sistema nervoso central em outras tantas. Naquela ocasião, despejos
de uma indústria eram lançados no mar e verificou-se o progressivo aumento da concentração de
mercúrio - na forma orgânica (metilmercúrio) - na biomassa dos peixes e dos habitantes da baía.
Ainda que menos frequente, o chumbo ocorre em águas também por meio da corrosão de
tubulações mais antigas soldadas com este metal. Uma série de danos pode ser causada pela
contaminação com chumbo, têm sido verificadas propriedades carcinogênicas em experiências com
cobaias. Denomina-se satumismo à intoxicação aguda por ingestão de chumbo e há uma suposição de
alta incidência desta enfermidade na população da Roma antiga, cujas canalizações eram constituídas
por este metal.

33. Doença que leva ao aumento da densidade dos ossos, dificultando os movimentos.
34. Há controvérsia no que tange a inserção do arsênio como metal pesado. Embora apresente efeitos bioacu-
mulativos - os organismos são incapazes de expeli-lo é tecnicamente considerado um metaloide, ou seja,
assemelha-se a um metal sem apresentar suas características (p.ex., condução da corrente elétrica).
35. Proteínas integrantes das mitocôndrias e que atuam no transporte de elétrons durante a respiração celular.
As concentrações máximas listadas nos padrões de potabilidade nacional - idênticas às
estabelecidas pela OMS - e americano para os cinco metais pesados mais frequentemente encontrados,
junto aos potenciais efeitos à saúde, são apresentadas na tabela 2.4.

Tabela 2.4. Concentrações máximas e potenciais efeitos à saúde dos cinco metais pesados presentes nas águas
naturais.
Portaria 5 1 8 P a d rã o A m e r i c a n o
M etal Pesado Potenciais Efeitos à Saúde
(mg/L) (mg/L)
Cádmio 0,005 0,005 Danos ao sistema renal e evidências de carci­
nose por inalação.
Chumbo 0,01 0,015 Danos no desenvolvimento menta! em
crianças e problemas renais relacionados a
pressão elevada em adultos.
Cobre 2,0 1,3 Disfunção intestinal para curta exposição e
danos nos rins e no fígado para exposição
mais prolongada.
Cromo* 0,05 0,1 Dermatite alérgica.
Mercúrio 0,001 0,002 Danos ao sistema renal.
* Os danos referem-se ao cromo hexavalente. Há evidências de carcinose em cobaias por inalação de cromo hexavalente. Estudos epidemiológicos
apontaram evidências de inalação de cromo hexavalente com desenvolvimento de câncer nos pulmões.

Arsênio
Este metaloide integra a crosta terrestre apresentando-se predominantemente na forma de
arsenopirita (FeAsS), orpimenta (As2S3) e realgar (AsS). Dos quatro estados de oxidação (-3, 0, +3 e
+5) apresenta-se mais comumente nas águas naturais como arsenito (+3) e arsenato (+5). A prevalência
de uma ou outra forma é governada pelo pH e na faixa de 6,5 a 8,5 - usual para significativa maioria
das águas superficiais e subterrâneas a espécie arsenito (H3A s0 3) predomina, ao passo que a forma
de arsenato (HAsCfr2) far-se-á presente no intervalo de pH de 7 a 11,5 (Montgomery, 2005). Este
apresentava-se predominantemente na forma dissolvida e mais tóxica (+3) prevalente em águas com
baixa concentração de oxigênio dissolvido. Estima-se que o arsenito seja 25 a 60 vezes m ais tóxico
que o arsenato.
As concentrações de arsênio são geralmente mais elevadas em águas subterrâneas e, salvo
exceções, nas águas superficiais as concentrações apresentam-se comumente em níveis abaixo dos
limites estabelecidos pelos padrões de potabilidade. Levantamento realizado valendo-se de 31250
amostras de mananciais subterrâneos, contemplando a totalidade dos estados americanos apontou
concentrações variáveis de arsênio em mais de 25 % das amostras (Hund et al., 2002).
Além das fontes naturais, o aporte de arsênio às águas naturais poderá advir de atividades
antrópicas relacionadas à mineração, à agricultura - como fungicida, inseticida e herbicida -, à indústria
madeireira e diversas atividades industriais (especialmente vidros e eletrônicos), além da queima de
combustíveis fósseis e posterior arraste pelas chuvas. No início do século XVIII o arsênio foi empregado
de forma medicinal visando ao tratamento da anorexia, reumatismo, tuberculose, asma e diabetes.
Ingestão oral de altas concentrações de arsênio culminam irritações gastrointestinais, acom­
panhadas pela sensação de sede, dificuldades de deglutição, baixa pressão sanguínea e convulsões. Doses
ainda mais elevadas podem levar à morte por colapso cardiovascular. A ingestão mais significante de
arsênio para maioria da população decorre dos alimentos, em especial, peixes e frutos do mar. Embora
menos significantes, por inalação os danos remetem ao desenvolvimento de câncer nos pulmões.
Estudos acerca dos possíveis danos à saúde humana em virtude do consumo prolongado de
água contendo arsênio emergiram nas últimas décadas apontando para desenvolvimento de tumores
nos rins, fígado e bexiga, além de danos à pele e ao sistema circulatório. Países como Mongólia, China,
Argentina, EUA, Chile, Hungria, México, entre outros, apresentam parcela da população abastecida
com águas subterrâneas com concentrações significativas de arsênio.
Neste contexto, destaca-se a contaminação ocorrida em Bangladesh que se estima tenha
acometido população da ordem de 35 milhões de pessoas. Tal se deu, a partir da década de 1970, graças
a significativa mortalidade infantil verificada à época decorrente, entre outros fatores, do consumo de
água superficial contaminada por esgotos domésticos. A supressão das fontes superficiais conduziu
à perfuração de inúmeros poços freáticos, levando à significativa redução da mortalidade infantil
nas três décadas subsequentes. Todavia, a despeito das melhores características bacteriológicas dos
mananciais subterrâneos, descobriu-se no final da década de 1980 que tais águas eram ricas em arsênio
naturalmente presente no solo da região. A sucessão de doenças de pele na população abastecida
confirmou como provavelmente o mais severo evento de contaminação por água de consumo que se
tem notícia (Rott; Kauffman, 2008).
O caráter cumulativo do arsênio nos seres humanos tem justificado a frequente denominação de
metal pesado. Os possíveis danos à saúde reverberaram na progressiva redução das concentrações máximas
estabelecidas pelos diversos padrões de potabilidade. Notadamente no Brasil, o limite preconizado pela
Portaria 518 (0,01 mg/L, idêntico ao estabelecido pelo padrão americano e pela OMS) é dez vezes inferior ao
recomendado pela Portaria 36 que vigeu até janeiro de 2003. Vale mencionar que o evento de contaminação
mencionado culminou com concentração limite de 0,005 mg/L estabelecida pelos padrões indiano e de
Bangladesh, pois estima-se que 85 milhões de pessoas possam vir a ser contaminadas por arsênio.

Agrotóxicos
A denominação genérica de agrotóxicos, pesticidas ou defensivos agrícolas abrange vasta
relação de compostos orgânicos sintéticos utilizados como herbicidas, inseticidas, fungicidas e
acaricidas extensivamente empregados, sobretudo na agricultura, no controle de pragas. Dados
relativos a 2008 indicam que a comercialização de tais produtos no País movimentou algo como
R$ 10,3 bilhões - representando 5,2 % do faturamento da indústria química -, montante dividido em
herbicidas (45 %), inseticidas (28 %) e fungicidas (21 %). As classificações toxicológica e ambiental
dos agrotóxicos com registro de uso no Brasil englobam quatro classes cada uma (classes I a IV),
apresentadas nas figuras 2.22 e 2.23 (Fernandes Neto, 2010).

Figura 2.22. Classificação toxicológica dos agrotóxicos com registro de uso no País.

Figura 2.23. Classificação ambiental dos agrotóxicos com registro de uso no País.
C A PÍ TU L O 02

6i
Cabe mencionar que 22 % dos agrotóxicos tiveram seus registros publicados anteriormente ao
Decreto de 98816 de 1990 e não apresentam classificação de periculosidade ambiental.
Os agrotóxicos podem também ser divididos em organoclorados - dos quais BHC e DDT
i

proibidos no Brasil desde 1983 organofosforados, organonitrogenados e carbamatos. Os primeiros


apresentam toxicidade variada inferida em função de bioensaios nos quais se determinam as doses
letais para 50 % das cobaias (LD50). Mesmo proibido em ambientes domésticos o BHC e o DDT
ainda tiveram grande uso. As campanhas de combate aos mosquitos e outros insetos transmissores de
doenças como a malária e a doença de Chagas utilizavam o BHC ainda por volta do início da década de
1980. No Brasil, seu uso foi limitado pela Portaria 329 de 02/09/85, permitindo sua utilização somente
no controle a formigas (Aldrin) e em campanhas de saúde pública (DDT e BHC).
A grande presença dos agrotóxicos organoclorados em amostras de água, especialmente
superficiais, tem surgido da extensiva aplicação agrícola e emissão industrial, como também a aplicação
direta em lagos e superfícies de rios para combater mosquitos e outros organismos. A conhecida
persistência deve-se à estabilidade química e à biodegrabilidade, junto com biossolubilidade em tecidos
lipídicos. Os resíduos destas combinações tomam-se parte intrínseca dos ciclos biológicos, geológicos
e químicos da terra, e já foram detectados no ar, água, solo e até mesmo na neve da Antártica, onde ao
que se sabe não foram empregados. Diversas pesquisas comprovaram que a presença de agrotóxicos
organoclorados em águas de abastecimento eleva os riscos de câncer e causa danos ao fígado e aos
sistemas nervoso, cardíaco, endócrino e reprodutor (Rand; Petrocelli, 1985).
Os agrotóxicos organoclorados são relativamente inertes e sua alta estabilidade está relacionada
às ligações carbono-cloro. Alguns destes compostos podem persistir por 15 a 20 anos no solo e parte
destes serem arrastados pelas chuvas (por lixiviação) para o interior dos cursos d ’água, que também
recebem estes compostos por meio de efluentes industriais, de esgotos, de sedimentos, da atmosfera
e por contaminação direta durante a aplicação. Assim, tanto mananciais de abastecimento quanto os
peixes que se alimentam de materiais retirados do fúndo desses locais apresentam concentração de
agrotóxicos, mesmo anos após a cessação da aplicação destes em regiões vizinhas.
A biodisponibilidade de determinado agrotóxico, ou seja, a quantidade deste composto que
existe disponível no meio ambiente para os peixes e vida silvestre, varia consoante às características
do próprio composto e do ambiente. A solubilidade na água e a adsorção às partículas do solo são
essenciais para determinar a tendência de determinada substância para se movimentar, ou não, através
do solo junto com águas de infiltração. A maioria dos agrotóxicos que apresenta baixa solubilidade na
água tem tendência para se ligar fortemente ao solo. A sua persistência e volatilidade afetam também
os padrões dè distribuição das substâncias.
A estrutura e composição do terreno são também muito importantes, uma vez que definem a
taxa de infiltração, por exemplo, solos ricos em argila e matéria orgânica tendem a adsorver muito mais
facilmente um composto do que solos arenosos e pobres em matéria orgânica. Além disso, a chuva, as
práticas de irrigação e a evapotranspiração podem afetar a mobilidade dos compostos. Características
da água como pH, temperatura, concentração de partículas suspensas e de outras substâncias químicas
dissolvidas implicam necessariamente em diferentes destinos dos agrotóxicos.
A tecnologia convencional de tratamento usualmente não é efetiva na remoção de agrotóxicos
organoclorados, havendo registros de concentrações praticamente equânimes nas águas bmta e tratada
(U. S. Environmental Protection Agency, 1992). No intuito de otimizar a remoção destes agrotóxicos
descortina-se, predominantemente, o emprego de carvão ativado, granular ou em pó, como adsorvente.
Adicionalmente, tais agrotóxicos podem também ser adsorvidos por alguns tipos de argilas, removidas
por sua vez no tratamento.
O padrão de potabilidade nacional estabelece concentrações máximas para 22 agrotóxicos,
número praticamente idêntico ao da legislação americana (23). Na tabela 2.5 apresentam-se os
principais danos à saúde e as concentrações máximas estabelecidas para os 11 agrotóxicos comuns a
ambas legislações.

Tabela 2.5. Concentrações máximas e potenciais efeitos à saúde de 11 agrotóxicos presentes nas águas naturais.
Portaria 5 1 8 P a d rã o A m e rica n o *
Agrotóxico P o te n cia is fcfeitos à S a ú d e
Ciug/L) Í|ig/L)
Alaclor 20,0 2 Anemia, aumento de risco de
câncer e danos aos rins, fígado e
olhos.
Atrazina 2 5 Danos ao sistema cardiovascuíar e
reprodutivo.
Clordano 0,2 2 Danos ao fígado e sistema nervo­
so, aumento de risco de câncer.
2,4 D 30 70 Danos aos rins, fígado e às glân­
dulas adrenais.
Endrin 0,6 2 Danos ao fígado.
Glifosato 500 700 Danos aos rins e sistema repro­
dutivo.
Heptacloro e Heptacloro epóxido 0,03 0,04 e 0,02 Danos ao fígado e aumento de
risco de câncer.
Hexaclorobenzeno 1 1 Danos aos rins, fígado e sistema
reprodutivo; aumento de risco de
câncer.
Lindano (y-BHC) 2 0,2 Danos aos rins e fígado.
Metoxicloro 20 40 Danos ao sistema reprodutivo.
Pentaclorofenol 9 1 Danos aos rins e fígado; aumento
de risco de câncer.
Simazina 2 4 Danos ao sangue.
* O padrão americano reporta-se a mg/L e a alteração objetivou facilitar a comparação entre ambas legislações.

A análise da tabela 2.5 evidencia menor sobreposição entre as duas legislações, não se
verificando tendência do padrão americano apresentar - como para os compostos orgânicos listados
na tabela 2.4 - concentrações máximas inferiores ao padrão nacional. Convém destacar que a quase
totalidade dos agrotóxicos não listados na legislação americana, e presentes na Portaria 518, tiveram
sua produção e utilização suspensas. Todavia, a toxicidade, persistência no ambiente e capacidade de
bioacumulação justificam sua manutenção no atual padrão de potabilidade brasileiro.
Assim como para substâncias radioativas, a OMS estabelece as concentrações máximas
calcadas em algo como ingestão diária aceitável, expressa em função da massa corporal (60 kg) e do
consumo médio diário per capita de água (2 L). Interessante constatar, além da praticamente igualdade
das concentrações com a Portaria 5 1 8 -1 5 dos 16 agrotóxicos presentes em ambas legislações -, que
esta metodologia estabelece que a ingestão de agrotóxicos por meio da água de consumo perfaz 10 %,
cabendo o restante aos alimentos. Para os seis agrotóxicos constantes na Portaria 518 e ausentes no
padrão de potabilidade da OMS, a justificativa embasa-se no fato dos efeitos tóxicos na saúde humana
não serem observados para as concentrações comumente verificadas nas águas naturais.

Características biológicas
As características biológicas das águas naturais referem-se aos diversos microrganismos que
habitam o ambiente aquático. Sua relevância manifesta-se na possibilidade de transmitir doenças e
na transformação da matéria orgânica dentro dos ciclos biogeoquímicos de diversos elementos como
nitrogênio. Na primeira premissa, diversas enfermidades são passíveis de serem transmitidas por
ingestão ou contato com água contaminada, conforme enuncia a tabela 2.6 (Daniel et a i, 2001).
C A P ÍT U L O 02
Tabela 2.6. Principais microrganismos relacionados às doenças de transmissão hídrica.
Q uantidade excretada M áxim a
Principais
Orç por indivíduo infectado/g sobrevivência Dose in fe cta n te *
D oenças
'. ; VIL!■ : na água (dias)
Escherichia coti Gastroenterite 108 90 102-109 1
S alm o n ella ty p h i Febre tifoide 106
V ibrio cho lerae Cólera 106 30 108
S alm onella Salmonelose 106 60-90 106-107
C ryptosporidium Cryptosporidiose 102 1-130***
E n ta m o e b a histolytica Disenteria amebiana 107 25 10-100
G iardia lam blia Giardíase 105 25 1-10
A d en o víru s (31 tipos) Doenças respiratórias 106 - ■
E ntero vírus (71 tipos) Gastroenterite, anomalias 107 90 1-72 j
(polio, echo, coxsackie) no coração, m eningite etc.
H e p a tite A Hepatite infecciosa 106 5-27 1-10
R otavírus Gastroenterite 106 5-27 1-10
Ascaris lu m b ric o id e s ** Ascaridíase 10-104 365 2-5
Taenia solium (solitária) Cisticercose 103 270 1
Schistosom a m an so in i Esquistossomose - - -

* Dose infectante que provoca sintomas clínicos em 50 % dos indivíduos testados.


** Modo de infecção: ingestão de ovos infectados, em água ou solo contaminado por fezes humanas ou ingestão de produtos crus contaminados.
*** Variável com a idade e o estado de saúde do indivíduo.

A segunda vertente consiste na degradação da matéria orgânica realizada por bactérias na


qual obtêm-se compostos minerais inorgânicos como nitratos, sulfatos e fosfatos, passíveis de serem
assimilados por outros microrganismos. O controle da qualidade da água de consumo para minimizar
a possibilidade de transmissão de doenças fundamenta-se no emprego de organismos indicadores,
pois o monitoramento individual dos microrganismos patogênicos seria inexequível. Adicionalmente,
a diluição dos despejos, a baixa concentração dos patógenos nas águas naturais e o fato de apenas
parcela da população afetada apresentar os sintomas inerentes à doença corroboraram o extensivo
uso de indicadores como forma de elevar a confiabilidade microbiológica da água de consumo. Neste
contexto, os resultados negativos das análises biológicas - bem como das físicas e químicas - , ainda
que realizadas rotineiramente, indicam que a qualidade da água atende aos requisitos do padrão de
potabilidade apenas no momento da coleta da amostra.
Na premissa do emprego de indicadores microbiológicos de contaminação de origem fecal
algumas características lhes são inerentes (Cohn; Cox; Berger, 1999):
i) estar presente, e em significativas maiores concentrações, sempre que os microrganismos
patogênicos também estiverem e ausente em águas não contaminadas;
ii) responder às características do meio ambiente e aos métodos de tratamento de forma similar
à dos microrganismos patogênicos;
iii) ser incapazes de se multiplicarem no ambiente externo ao intestino;
iv) ser de origem exclusivamente humana, estável - apresentando facilidade na contagem - e
não patogênico;
v) ser membro usual da flora intestinal de indivíduos sadios;
vi) dispor de métodos de análise de fácil exequibilidade, baixo custo e com obtenção dos
resultados confiáveis em curto espaço de tempo.

Bactérias coliformes
As bactérias do grupo coliforme habitam normalmente o trato intestinal dos animais de
sangue quente, servindo portanto como indicadoras da contaminação de uma amostra de água por
fezes, além de existirem naturalmente no solo e na vegetação. A maioria das doenças associadas à
CAPÍ TUL O 02
água —denominadas de transmissão ou veiculação hídrica - é transmitida por via fecal, ou seja,
os organismos patogênicos eliminados pelas fezes atingem o ambiente aquático. Desta forma, pode
ocorrer a contaminação das pessoas que se abasteçam ou, em contexto mais amplo, que tenham contato
com esta água.
As bactérias do grupo coliforme apresentam diversas características que explicam o extensivo
emprego como indicadores microbiológicos de qualidade de água. A primeira refere-se à elevada
quantidade eliminada diariamente por um indivíduo (de 1/3 a 1/5 do peso das fezes), culminando com
concentrações nos esgotos domésticos de 106 a 108 organismos/mL. Assim, eleva-se a probabilidade
da detecção dos coliformes nas amostras de água bruta e a possibilidade da presença de patogênicos
a estes associados.
O termo ‘coliformes totais’ inclui amplo rol de bactérias ambientais e de origem fecal capazes
de sobreviver no meio aquático, fermentar a lactose e produzir ácido ou aldeído em 24 horas à
temperatura de 35 a 37 °C. Outro grupo de bactérias, denominadas termotolerantes por serem capazes
de fermentar a lactose em temperatura elevada - 44,5 ± 0,2 °C - por um prazo de 24 horas, engloba
predominantemente (algo como 90 %) o gênero Escherichia, e em menor monta, Citrobacter,
Klebsiella e Enterobacter, os dois últimos passíveis de serem isolados em ambientes não poluídos
como água, solo e plantas. E. coli diferencia-se dos demais coliformes termotolerantes pela capacidade
de produzir a enzima (3-glucorinidase e, embora haja algumas evidências de poder se desenvolver em
solos tropicais, apresenta-se em elevadas concentrações nas fezes humanas e de animais, constituindo-
-se em indicador de poluição fecal.
Os gêneros mencionados representam percentual variável entre 3 e 4 % nas fezes humanas e 3 a
8 % nas fezes de animais. Estas assertivas confirmam-se por meio da figura 2.24 (a e b) que se reporta
a monitoramento da água bruta realizado em uma estação de tratamento canadense, cuja captação
efetua-se, sem qualquer estrutura de armazenamento, diretamente no curso d'água praticamente no
centro da cidade.

0 1000 2000 3000 0 1000 2000 3000


Coliformes termotolerantes (NMP/100 ml) E coli termotolerantes (NMP/100 mL)

Figura 2.24. Relação entre a coliformes totais e termotolerantes (a) e coliformes totais e E. coli (b) na água bruta
afluente à estação de tratamento de Edmonton (Canadá).

Os gráficos da figura 2.24, elaborados com base em 373 análises bacteriológicas realizadas em
2003, apontam - ainda que de forma subliminar - para a boa qualidade microbiológica da água bruta,
pois indicam que apenas parcela da concentração de coliformes termotolerantes é de fato de origem
fecal. Tal afirmativa comprova o êxito no controle das atividades antrópicas na bacia hidrográfica,
não ocorrendo em escala mais significativa lançamento de esgotos a montante do ponto de captação.
Posterior avaliação entre E. coli e coliformes totais, como não podia deixar de ser, apontou coeficiente
de determinação (R2) ainda menos significante (0,255). Estas assertivas encontram respaldo em
avaliação microbiológica de águas superficiais e subterrâneas realizada em diferentes regiões da índia.
A análise de coliformes termotolerantes para águas superficiais indicou 96 a 99 % como E. coli, ao
passo que em águas subterrâneas, menos susceptíveis à contaminação fecal, esse percentual reduzia-se
para 54 a 61 % (Ramteke et a l, 1992).
Desta forma, o impreciso termo coliformes fecais reporta-se às bactérias termotolerantejs,
incluindo os gêneros não necessariamente de origem fecal (Cerqueira; Horta, 1999). Já o termo
‘coliformes totais’ congrega um gmpo ainda mais amplo de bactérias aeróbias ou anaeróbias também
capazes de fermentar a lactose em 24 a 48 horas à temperatura 35 a 37 °C.
E. coli apresenta tempos variáveis de sobrevivência no ambiente e algumas formas são capazes
de causar sérios problemas intestinais (E. coli 0157:H7). Adicionalmente, exibe baixa ocorrência
no solo e na vegetação, e comumente não se multiplica no ambiente aquático. Como consequência,
consolida-se progressivamente no meio técnico a tendência do emprego do exame de E. coli no
monitoramento da água bmta, objetivando avaliar a probabilidade da presença de protozoários e
outros patógenos, e de coliformes totais para os efluentes das estações de tratamento, como balizador
da qualidade da água tratada e da própria eficiência da potabilização, e de avaliar a integridade do
sistema de distribuição. Nesta premissa, o padrão de potabilidade nacional estabelece que o efluente da
estação de tratamento e toda água de consumo - independente se de sistema individual (fontes, minas
ou poços) e coletivo - deva ser isento de coliformes totais.
A detecção de coliformes totais e fecais, qualitativa ou quantitativa, pode ser realizada pelo
método dos tubos múltiplos - técnica nos EUA utilizada quase exclusivamente até meados da década
de 1960 - , e por meio da contagem em membrana filtrante e em substrato cromogênico. Os resultados
apresentam-se termos de NMP/100 mL (Número Mais Provável por 100 mL), para o primeiro e terceiro
métodos, e de UFC/100 mL (Unidades Formadoras de Colônias por 100 mL) quando do emprego da
técnica de membrana filtrante. O método do substrato cromogênico apresenta como principal vantagem
o tempo de resposta de 24 horas, uma vez que realiza a determinação simultânea de E. coli e coliformes
totais, prescindindo de ensaios confirmatórios. Todavia, além dos resultados destas análises reportarem-
-se ao intervalo de confiança de 95 %, as limitações deste indicador (E. coli) residem em não identificar
com certeza a presença da espécie E. coli 0157:H7, de cistos e oocistos de protozoários e de viras. Desta
forma, seus resultados devem ser interpretados em conjunto com uma acurada avaliação sanitária da
bacia hidrográfica que identificará possíveis fontes de poluição e contaminação.

Algas e Cianobactérias
As algas (verdes e diatomáceas) e cianobactérias exibem nítida ubiquidade nas águas
superficiais, fazendo-se presentes em lagos, reservatórios de acumulação e cursos d ’água, respondendo
por meio da fotossíntese por parcela significativa da concentração de oxigênio dissolvido do meio
aquático. Especificamente, as cianobactérias fazem-se presentes em praticamente toda superfície
terrestre há mais de 3,5 bilhões de anos e a maioria das espécies apresenta crescimento significativo
nas faixas de pH (6,0 a 9,0) e temperatura (15 a 30 °C) usuais nos corpos d ’água das regiões tropicais.
A adaptabilidade ao ambiente faz com que as cianobactérias possam predominar mesmo em ambientes
pobres em nutrientes, pela capacidade de algumas espécies de fixação do nitrogênio do ar atmosférico
na forma metabolizável de amônio em estrutura denominada heterocito. Fossuem mecanismos que
as tomam aptas a tolerar altas concentrações de metais pesados e baixas de oxigênio dissolvido, e
incidência de radiação utravioleta, além de estruturas (aerótopos) que permitem o deslocamento ao
longo da coluna d' água. Já receberam a denominação de algas azuis, algas cianofícias e, a partir da
década passada, algumas características semelhantes às bactérias justificaram este último silogismo.
Os cursos d ’água pela própria aeração natural e pelo material em suspensão, salvo em situações
muito específicas, acabam apresentando concentrações (ou densidades) de algas e cianobactérias
menos pronunciadas. Contudo, excepcionalmente, verificou-se em outubro de 2007 no Rio das Velhas
- curso d'água que abastece mais da metade da população da Região Metropolitana de Belo Horizonte
- crescimento abmpto (denominado floração36) da concentração de cianobactérias, comprometendo
a qualidade das suas águas e culminando com cerceamento de diversos dos seus usos em parcela
significativa de sua extensão. Esta floração traduziu as próprias condições adequadas ao desenvolvimento
das cianobactérias. A menor vazão do curso d ’água no final do período de uma estiagem mais severa -
reduzindo a velocidade de escoamento e consequentemente a capacidade de aeração da massa líquida
a temperatura elevada, a menor concentração de sólidos suspensos, favorecendo a maior penetração da
luz solar, e o aporte de nutrientes forneceram as circunstâncias propícias para o surgimento da floração.
Com o início das chuvas, tais fatores (à exceção dos nutrientes) minimizaram-se e a concentração de
cianobactérias reduziu-se, embora o cenário anterior à floração permanecesse inalterado.
A interferência da presença de algas na potabilização das águas revela-se em várias perspectivas
de acordo com o(s) gmpo(s) predominante(s). Alguns gmpos de algas interferem no tratamento
das águas de diferentes formas. Usualmente, ocorrem aumento do consumo de produtos químicos,
redução da sedimentabilidade dos flocos e das carreiras de filtração,37 elevação da demanda de cloro
na desinfecção, com maior possibilidade de formação de THM, ocasionando maiores riscos à saúde
humana. Embora ainda sejam casos raros no Brasil, sucessivas florações culminaram com a mudança
do manancial ou com a alteração da tecnologia de tratamento com o emprego da flotação por ar
dissolvido, em virtude da mencionada baixa sedimentabilidade dos flocos formados.
Apesar das substâncias húmicas constituírem-se nos principais precursores de THM em
águas cloradas, pesquisas em laboratório confirmaram a relação entre a presença das algas e dos seus
subprodutos metabólicos com a concentração de THM. Constatou-se que os compostos orgânicos
excretados por algumas espécies apresentam igual importância na formação de clorofórmio (CHC13),
por unidade de COT, quanto os ácidos fúlvicos e húmicos. A importância destes compostos como
precursores de THM evidencia-se significativamente em populações predominantemente jovens, nos
períodos de elevada atividade metabólica da comunidade algal - meses de maior insolação, última fase
exponencial de crescimento. Este fato comprova-se pela análise da figura 2.25 na qual é apresentada
a relação entre a concentração total de THM e clorofila a, observada no reservatório de Occoquan
(Virgínia, EUA) no período de maio a novembro de 1975.

Carbono Orgânico Total (mg/L)

Figura 2.25. Correlação entre as concentrações médias de clorofila a e THM na água tratada.
Fonte: Hoehn et al. (1980).

36. Confere-se esta denominação quando o número de células de algas ou cianobactérias supera o valor médio
comumente registrado no corpo d’água.
37. Tempo, comumente em horas, entre duas lavagens consecutivas de uma unidade filtrante.
Em contexto provavelmente mais relevante, compostos orgânicos excretados por algumas
espécies de algas e cianobactérias podem conferir odor e sabor e, em maiores concentrações,
toxicidade às águas. Estima-se que dos aproximadamente 150 gêneros descritos, 40 sejam capazes fie
produzir toxinas (cianotoxinas) passíveis de causar algum dano à saúde (Molica; Azevedo, 2009). Às
cianotoxinas apresentam toxicidade variável, podendo levar à morte por parada respiratória, logo após
a exposição, ou produzir danos de efeitos mais prolongados. Segundo o seu modo de ação, as toxinas
produzidas por cianobactérias podem ser divididas nos seguintes grupos: hepatotoxinas, neurotoxinas,
endotoxinas e toxinas irritantes da pele. Os efeitos tóxicos, relacionados à cianotoxina e ao gênero de
cianobactérias responsáveis pela produção da mesma, estão apresentados na tabela 2.7.

Tabela 2.7. Principais efeitos sobre a saúde e cianobactéria e cianotoxinas responsáveis.


Gênero de cianobactéria
Cianotoxina .Efeitos tóxicos
responsável
Microcistina Anabaena spp, Microcysíis, Nostoc, Danos ao fígado e desenvolvimento de
Plankothrix, Hapalosiphon, Anabaenopsis tumores.
Nodularina Nodularia Danos ao fígado.
Cilindrospermopsina Cylindrospermopsis, Plankothrix, Aphani- Danos aos rins, fígado e outros órgãos, e
zomenon, Umezakia desenvolvimento de tumores.
Saxitoxina Anabaena, Aphanizomenon, Cylindros­ Danos ao sistema nervoso, falhas respira­
permopsis, Lyngbya tórias e sintomas agudos*.
Anatoxina Anabaena, Aphanizomenon, Plankothrix Danos ao sistema nervoso, falhas respira­
tórias e sintomas agudos*.
Fonte: * Os sintomas agudos manifestam-se por febre, distúrbios gastrointestinais, irritações na pele, garganta, olhos e nas vias respiratórias.

Fonte: AWWA (2003).

Algumas dúvidas ainda persistem em relação à possível vantagem adaptativa na produção


de cianotoxinas pelas cianobactérias. A hipótese mais aceita sustenta que estas substâncias tóxicas
tenham função de defesa, como a dos anti-herbívoros produzidos por algumas plantas, que inibem a
ação de predadores ou de algas competidoras.
Às cianobactérias tóxicas reporta-se a maioria dos casos de intoxicações envolvendo ficotoxinas
de águas doces ou marinhas. Tais intoxicações em humanos podem ocorrer pelo contato com a água
contendo células tóxicas, pelo consumo de peixes de locais contaminados e/ou de água contaminada,
sobretudo oriundas de reservatórios de acumulação. A ingestão de água contaminada por cianotoxinas
pode ocasionar distúrbios orgânicos de distintas naturezas. Em caso de acesso direto à corrente
sanguínea a sua atuação é geralmente fatal, como demonstrou o conhecido caso dos pacientes de uma
clínica de hemodiálise na cidade de Camam-PE em 1996, considerado um marco na comprovação
dos danos à saúde humana. Neste evento, 110 pacientes renais crônicos, após terem sido submetidos
a sessões de hemodiálise, passaram a apresentar quadro clínico compatível com hepatotoxicose.
Posteriormente, 54 pacientes renais crônicos vieram a falecer no decorrer de cinco meses após o inicio
dos sintomas. As análises laboratoriais possibilitaram o isolamento e detecção da microcistina-LR
no sistema de purificação de água da clínica, bem como amostras de sangue e fígado dos pacientes
intoxicados. As contagens de fitoplâncton realizadas nos anos anteriores demonstraram a presença
dos gêneros de cianobactérias Microcysíis ssp., Anabaena ssp e Anabaenopsis ssp no manancial
(Viana-Veronesi et al., 2009).
Há evidências que as tecnologias de tratamento usuais, envolvendo a coagulação química, não
são capazes de efetivamente remover as cianotoxinas dissolvidas na água. Tal provavelmente ocorra
porque os coagulantes usualmente empregados são ineficazes na desestabilização e precipitação desses
compostos, não sendo possível a separação das cianotoxinas nas etapas seguintes da potabilização
(Choras; Bartram, 1999; Azevedo; Brandão, 2003).
CAPÍ TUL O 02
Há intrínseca relação entre a concentração média de fósforo e a magnitude da comunidade
algal. Tal se deve pelo fato do fósforo ser provavelmente, para significativa maioria dos corpos d ’água,
o principal fator limitantes do crescimento da população de algas, juntamente com o nitrogênio. Este,
por sua vez, abundante no ar atmosférico (78 %), é fixado no meio aquoso por algumas espécies
de algas e, especialmente, cianobactérias, contribuindo ainda mais para a floração algal. A relação
entre a concentração de nutrientes e a formação de biomassa algal não é no entanto linear, adquirindo
usualmente uma configuração exponencial.
Uma das alternativas de controle da floração de algas consiste na pré-cloração ou aplicação
de algicidas, tais como compostos de cobre, sulfato de cobre em maior escala, e permanganato de
potássio. Também são usados em menor frequência compostos de prata, sais orgânicos de zinco,
ozônio, solventes aromáticos e peróxido de hidrogênio (água oxigenada). Nestas circunstâncias, o
rompimento da parede celular das algas ou das cianobactérias pode causar a liberação de diversas
toxinas deletérias à saúde humana e outros animais. Adicionalmente, pode ocorrer o aproveitamento
do material celular das algas mortas como substrato para outros microrganismos, também passíveis de
conferir sabor e odor às águas.
A dificuldade na remoção das cianotoxinas tem fomentado o estudo de algumas alternativas
com o fito de minimizar a afluência de cianobactérias à estação de tratamento. Experiência exitosa
ocorreu a partir de 2002 em uma captação de pequeno porte em um curso d’água próxima a Belo
Horizonte. Ao corpo hídrico de vazão de pequena magnitude aportava o efluente de diversas pocilgas
instaladas às margens, culminando com a floração de cianobactérias. Por meio de uma estrutura de
ferro galvanizado, em forma de anel, dotada de duas fileiras de orifícios posicionadas em ângulos de
45° e 90°, aplicava-se ar comprimido por meio de um compressor. Este aparato foi imerso 30 cm acima
do crivo da bomba e proporcionou aumento significativo da carreira de filtração, decréscimo no tempo
de funcionamento da estação de tratamento em virtude da maior produção de água - com consequente
redução do consumo de energia elétrica e de outros custos operacionais - e melhoria da qualidade
efluente, sobretudo no que tange à remoção de sabor e odor.
O evento de Camam e as confirmações científicas acerca dos efeitos danosos à saúde humana
em razão da ingestão de água contendo cianotoxinas concorreram para que na Portaria 518, além de
vedar o uso de algicidas, recomendasse o monitoramento mensal de cianobactérias na água bruta
quando o número de células for inferior a 10000 células/mL e semanal se superior. Caso o número de
cianobactérias na água bmta exceder 20000 células/mL, o monitoramento deverá se estender para o
efluente da estação de tratamento, entrada de clínicas de hemodiálise e indústrias de injetáveis. Esta
ampliação do monitoramento toma-se dispensável caso os bioensaios com camundongos atestem a
ausência de toxicidade da cianotoxina. Estabelecem-se ainda concentrações máximas de 1,0 pg/L para
microcistinas - facultando em 10 pg/L em até três análises consecutivas ou não no período de 12 meses
- e de 15,0 e 3,0 pg/L, respectivamente, para cilindrospermopsina e saxitoxinas. Outras cianotoxinas
não foram inseridas pela inexistência de técnicas de detecção padronizadas e pela necessidade
informações mais consolidadas. O padrão de potabilidade americano não se reporta a cianotoxinas e a
OMS estabelece de forma provisória apenas para microcistina-LR concentração máxima de 1,0 pg/L.

Protozoários
Os gêneros de protozoários associados a doenças de transmissão hídrica incluem Giardia,
Cryptosporidium, Toxoplasma, Cyclospora, Entamoeba, Isospora belli, Naegleria fowleri e
Acanthamoeba, capazes de produzir cistos ou oocistos resistentes às condições do ambiente. A
exceção dos dois últimos gêneros de vida livre, os demais fazem-se presentes nas fezes dos indivíduos
infectados.
C A P Í T U L O 02
Mesmo nos países desenvolvidos verifica-se, ainda que em muito menor monta, a prevalência
das doenças de veiculação hídrica. Embora diversas endemias comuns aos países em desenvolvimento,
em especial àqueles situados entre os trópicos, dificilmente são registradas nas nações desenvolvidas,
outros parasitos mais resistentes às condições do ambiente e à ação dos desinfetantes ainda grassam
em muitas regiões do Planeta. Dentre os parasitos usuais em mananciais de abastecimento destacam-se
os protozoários presentes mesmo em águas pristinas, julgadas até então imunes a quaisquer tipos de
deterioração da qualidade por origem antrópica. A salientada forma como os protozoários se apresentam
na natureza, como cistos e oocistos, explica sua prevalência em distintos tipos de ambiente e dificulta
o controle nos mananciais empregados para abastecimento. Adicionalmente, verifica-se a significativa
maior resistência à ação dos desinfetantes, em especial o cloro cujo mecanismo predominante de
inativação consiste na ruptura/oxidação da parede celular do microrganismo. Neste contexto, os
protozoários consolidaram-se comopatógenos emergentes no cenário dos microrganismos indicadores
de qualidade de água de consumo humano.
Destacam-se dois gêneros de protozoários - e mais especificamente uma espécie de cada um - de
maior interesse para águas de abastecimento. Giardia lamblia - que também recebe as denominações de
Giardia intestinalis e Giardia duodenalis - constitui-se na espécie de protozoário mais frequentemente
encontrada nas águas naturais passíveis de serem empregadas para abastecimento. Apresenta-se na
forma de cistos elipsoidais, com dimensão de 6 a 14 fim, e vários fatores, ainda que não plenamente
comprovados, concorrem para assegurar sua prevalência no meio ambiente, tais como apresentar
diversos mamíferos - castores, veados, entre outros - como reservatórios no reino animal e o fato de
permanecer infectante na água por um a três meses, especialmente a baixas temperaturas. Apresenta
dose infectante de até 10 cistos, condicionada à idade e ao estado de saúde do indivíduo, e, embora a
principal via de transmissão seja hídrica, outras formas de infecção têm sido verificadas (Cohn; Cox;
Berger, 1999). Estima-se que de 100 mil a 2,5 milhões de pessoas são infectadas anualmente nos EUA
e este gênero consiste no protozoário parasita mais frequentemente detectado em todo Globo (AJPHA;
AWWA; WEF, 2005).
A atual relevância da Giardia como um dos principais patógenos apresenta temporalmente
caráter interessante. Até meados da década de 1950, Giardia lamblia era considerado um comensal,38
tendo sido utilizado como placebo39em prisioneiros para identificação de outro protozoário (Entamoeba
histolytica) e, naquelas circunstâncias, nenhum tipo de malefício foi detectado, provavelmente, por se
tratar de um grupo assintomátieo (Rendtorff, 1954 apud Lindquist, 2004).
Em relação a outro gênero de protozoário, das 16 espécies conhecidas duas, Cryptosporidinm
parvum e Cryptosporidinm hominis, relacionam-se com os humanos e têm implicações com surtos
transmitidos por águas de consumo a partir da década de 1980 - atingindo tanto imunocompetentes
quanto imunocomprometidos embora outras espécies tenham sido isoladas valendo-se de infecções
humanas. As demais espécies acometem mamíferos, aves e répteis (Franco, 2007).
O primeiro caso comprovado de patogenicidade humana com C. parvum data de 1976 e as
parasitoses humanas usualmente referem-se a esta espécie. Apresenta-se na forma de oocisto, dimensão
de 4 a 6 pm, com amplo espectro de reservatórios no reino animal - incluindo gado, cães, gatos,
coelhos, veados, entre outros - e alta prevalência em águas superficiais. Estima-se que jovens bezerros
ou carneiros infectados possam produzir diariamente mais oocistos de Crypto que 1000 indivíduos
imunocomprometidos, atingindo algo como 1010oocistos por dia (Crockett; Haas, 1997). Concentrações
da ordem de 14000 e 5800 oocistos/L já foram reportadas em esgoto bruto e águas superficiais,

38. Parasita apto a viver no interior do organismo do hospedeiro sem, contudo, causar-lhe dano à saúde.
39. Substância sem efeito farmacológico, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de
suscitar ou controlar as reações geralmente de natureza psicológica.
CA PITULO 02
r/ t r ' ' .
respectivamente. Desta forma, têm sido detectados oocistos de Crypto mesmo em mananciais imunes ao
aporte de efluentes, especialmente durante o período chuvoso, provavelmente devido à lixiviação do solo
e consequente arraste das fezes de animais.
Há controvérsia sobre a dose infectante, também variável com a virulência da cepa, a idade e o
estado de saúde do indivíduo. Pesquisa com voluntários saudáveis apontou dose de 132 oocistos como
suficiente para acometer metade da população amostrada, com 20 % de infecção para 30 oocistos
(Hroncich, 1999). Há ainda menção à infecção de portadores do vírus HIV com apenas um único
oocisto.
O segundo relato de um surto de criptospodiose ocorreu em SanAntonio, Texas (EUA), em 1984.
Posteriormente, em Carrolton, Geórgia (EUA), surto de grandes proporções infectou aproximadamente
13 mil pessoas em 1987. No ano seguinte, na Inglaterra em Ayrshire, infiltração de dejetos de bovinos
utilizados como fertilizantes contaminou o reservatório de abastecimento da cidade, resultando em
aproximadamente 44 % de internações, indicando maior vimlência daquela cepa (Daniel et al., 1996).
No período de 1971 a 1985, registraram-se nos EUA 502 surtos envolvendo 111.228 casos de
doenças de veiculação hídrica. Aproximadamente na metade dos casos foi identificado o parasito e,
deste montante, um total de 92 surtos - acometendo 24.365 indivíduos -, foi atribuído ao protozoário
Giardia lamblia (Dubey; Speer; Fayer, 1990). Vale mencionar que parcela significativa dos casos
relatados originou-se de sistemas com operação deficiente das estações de tratamento ou desinfecção
ineficaz, por vezes apresentando ausência de cloro residual nas redes de distribuição.
No período entre 1988 e 1993, exames microbiológicos em 347 mananciais superficiais
empregados para abastecimento público nos EUA detectaram a presença de Giardia e Ciypto em,
respectivamente, 53,9 e 60,2 % dos mesmos. Embora os resultados não apontem a virulência da cepa,
dificuldades têm sido encontradas no intuito de superar a dicotomia, quando do emprego do cloro e
seus compostos como desinfetantes, de assegurar a inativação dos protozoários e de evitar a formação
de subprodutos da desinfecção. Igualmente, tem sido recomendada a coleta de amostras nas águas
dos mananciais e de abastecimento para a detecção de Giardia, de forma a avaliar a variação da
intensidade de ocorrência do parasito.
Tal constatação agrava-se pelo estudo realizado pelaUSEPA, no estado americano do Colorado,
estimando em 25 % o percentual dos surtos convenientemente registrados. No período de 1986 e 1992
ocorreu redução do número de surtos (110) e de indivíduos afetados (47 mil). A maioria dos surtos
reportados deveu-se à ineficácia no tratamento (49 %) e à contaminação no sistema de distribuição
(32 %), com significativa parcela decorrente do uso de água subterrânea sem ou com ineficiente
desinfecção.
O foco da comunidade científica em outros bioindicadores de qualidade de água direcionou-se
para os protozoários após o surto de Crypto ocorrido em Milwaukee, Wisconsin (EUA), acometendo
mais de 403 mil pessoas40 causando 4400 internações e 100 óbitos em abril de 1993 e custo global
estimado em 96,2 milhões de dólares. Naquela ocasião, os despejos da estação de tratamento de esgoto
eram lançados no mesmo Lago Michigan utilizado para abastecimento da população. Em decorrência
de suas dimensões e da forma encistada, este protozoário mostrou-se menos susceptível às dosagens
de cloro utilizadas na estação de tratamento de água, possibilitando o aparecimento do surto. Convém
salientar que a maioria dos óbitos (69) referiu-se a indivíduos com algum tipo de comprometimento do
sistema imunológico. A magnitude do surto e a virulência da cepa maximizam-se pelo fato da estação
de tratamento em questão abastecer população da ordem de 840 mil pessoas (de uma população total
da Cidade estimada à época em 1,5 milhão). Por fim, cabe ressaltar que durante o evento a água tratada

40. Esta estimativa fundamentou-se em uma pesquisa por amostragem, realizada por telefone, indagando quantas
pessoas na residência foram acometidas por diarréia no período de 18 de março a 08 de abril de 1993. C A P ÍT U L O 02

?I
atendeu aos requisitos de qualidade microbiológica calcada nos organismos indicadores, a despeito
do efluente apresentar, em virtude de problemas operacionais na estação, concentrações de oocistos
variando de 6,7 a 13,2 oocistos/100 L e turbidez de até 2,7 uT.
De janeiro a maio do ano seguinte ocorreu em Las Vegas no estado de Nevada (EUA) o
mais adequadamente documentado surto de criptosporidiose. Neste período foram acometidas 78
pessoas, 63 portadoras do vírus HIV, resultando em 41 óbitos. A água tratada efluía de uma estação
de grande porte, vazão afluente da ordem de 17,3 m3/s, cuja captação realizava-se por meio de
reservatório de acumulação à profundidade de 40 m. A água bruta apresentava características quase
pristinas, com turbidéz média de 0,14 uT e máxima de 0,30 uT. Monitoramento de 18 meses da
água bruta iniciado em agosto do mesmo ano confirmou tais características, pois apenas 6,4 %
das 578 amostras foram positivas para coliformes termotolerantes, com concentração máxima de
4 NMP/100 mL. Diferentemente do evento ocorrido em Milwaukee, durante o período do surto
não se verificou qualquer anomalia na performance da estação de tratamento e o monitoramento de
Crypto no efluente da estação realizado 18 meses após o surto (46 amostras) apontou apenas um
único resultado positivo de 1 oocisto/100 L. Por fim, posterior entrevista com as pessoas infectadas
evidenciou que 90 %41 mantinham hábito de consumir água sem qualquer tratamento domiciliar
(Roefer et a!., 1996).
O primeiro surto de giardíase na Noruega ocorreu em outubro de 2004 na cidade de Bergen
acometendo 1400 pessoas42 que se abasteciam do Lago Svartediket, um dos cinco mananciais
superficiais da cidade de população da ordem de 245 mil habitantes. Após o aparecimento do surto,
a concessionária responsável pelo abastecimento reduziu de 25 mil para 7000 pessoas a população
abastecida pelo Lago Svartediket. O surto ocorreu a despeito deste se localizar em região de montanhas
sem área residencial estabelecida nas cercanias, apenas construções esparsas à margem ligadas ao
sistema de coleta de esgotos da cidade. A conjunção de precipitações significativas nos meses de
agosto e setembro, de atividades de recreação às margens do lago e de vazamentos na rede coletora
de esgotos (que resultaram também em concentrações significativas de E. coli) parece ter sido a causa
do aporte de Giardia lamblia ao manancial. Por fim, a inadequação do tratamento - que se restringia
quase que apenas à desinfecção - forneceu as condições propícias para o aparecimento do. surto. Após
a comprovação do surto, aliada a uma série de medidas de proteção do manancial, uma nova estação
de tratamento de água a qual afluía água do Lago Svartediket entrou em operação em junho de 2007
apta a abastecer 55 mil pessoas (Eiltebroldc et al., 2008).
No Brasil, embora as informações sejam escassas, já foi comprovada a ocorrência de Crypto
em águas de abastecimento e, em outros dois estudos, a detecção de oocistos em 2,8, 4,3 e 24 % das
amostras de fezes diarreicas em, respectivamente, Alfenas e Uberlândia, em Minas Gerais, e Perus,
no estado de São Paulo, atingindo especialmente crianças de 0 a 6 anos da área urbana da cidade.
Similarmente, 94 casos de diarréia em crianças de 0 a 5 anos na cidade catarinense de Criciúma foram
predominantemente atribuídos à presença de Crypto. Percentuais mais elevados, 9,7 e 19,1 %, foram
identificados nas fezes de pacientes portadores do vírus HIV em Santos e Campinas, respectivamente.
Na cidade de Rio Grande (RS), provavelmente devido ao consumo de água contaminada, a totalidade
das 17 amostras de fezes coletadas em um grupo de dezenas de pessoas com quadro diarreico de um
acampamento apontou prevalência de oocistos de Crypto (Cerqueira, 2008).

41. Diferentemente do Brasil, é comum nos EUA e Canadá a população não fazer uso de unidades domiciliares
de tratamento de água, consumindo água diretamente da torneira (tap water).
42. 1400 pessoas foram diagnosticadas com giardíase, mas estima-se de 4000 a 6000 pessoas infectadas e destas
200 a 400 ainda apresentavam os sintomas 18 meses após o surto.
CAPÍ TUL O 02

7 —
Estudo epidemiológico mais abrangente realizado em Belo Horizonte apontou prevalência total
de criptosporidiose em aproximadamente 25 % da população infantil amostrada entre 1 e 5 anos.
Não se verificou significância estatística entre a população atendida e não atendida por redes de
abastecimento de água e coletora de esgotos na prevalência desta doença. O estudo, cuja síntese de
resultados está apresentada na tabela 2.8, concluiu que as protozooses podem ser transmitidas mesmo
em condições adequadas de distribuição de água e coleta de esgotos, tomando os cistos de Giardia e
oocistos de Crypto inadequados como indicadores de saúde (Azevedo, 2003).

Tabela 2.8. Parasitas nas fezes em população infantil de favelas de Belo Horizonte.
ÁREA - n ú m e ro (%)
CACE CASE SASE
C ryptosporidium
Positivo 32 (20,7) 45 (29,2) 39 (25,7)
Negativo 123 (79,3) 109 (70,8) 113 (74,3)
Giardia
Positivo 36 (23,4) 38 (24,7) 39 (25,7)
Negativo 119 (76,6) 116 (75,3) 113 (74,3)
CACE: área com abastecimento de água e com esgotamento sanitário.
CASE: área com abastecimento de água e sem esgotamento sanitário.
SASE: área sem abastecimento de água e sem esgotamento sanitário.

Pesquisa objetivou avaliar a concentração de cistos e oocistos de protozoários em distintos


ambientes. Em primeira instância, foram coletadas amostras no interceptor de esgotos sanitários da
Bacia do Ribeirão Arrudas, Belo Horizonte, durante duas semanas distintas, uma em um período não
chuvoso e a outra em período chuvoso. Em cada semana foram coletadas 15 amostras, compreendendo
cinco dias e três horários diários, apresentando concentrações médias de 102 a 104 oocistos/100 L e de
103 a 105cistos/100 L. Não foi identificado padrão de variação diária e semanal na concentração de
protozoários, verificando-se pequena elevação nos dias chuvosos.
Posteriormente, a presença de protozoários foi avaliada nos dois mananciais superficiais que
abastecem a cidade de Viçosa/MG. Detectaram-se concentrações médias de Giardia e Crypto da
ordem de 4-7 cistos/L e 6-20 oocistos/L; respectivamente, atingindo nos eventos de pico 510 oocistos
e 140 cistos/L. Em um dos mananciais, as concentrações de Giardia parecem estar associadas às de
endosporos e à turbidez, e as de Crypto apenas à turbidez. No outro manancial, Giardia se associa com
coliformes e com turbidez, e Crypto novamente com turbidez. Em ambos mananciais as ocorrências
de cada protozoário associam-se fortemente entre si. No que tange à remoção dos protozoários, em
apenas uma das três estações de tratamento, a unidade mais nova, não foram verificadas ocorrências
na água filtrada. As concentrações detectadas no efluente das duas estações apresentaram-se superiores
aos limites estabelecidos para riscos anuais de infecção de 10'4(uma infecção anual para cada grupo
de 10.000 pessoas) e pelo padrão de potabilidade europeu de 10 oocistos/100 L (Heller et a l, 2004).
Ainda em nível nacional, a persistência dos protozoários foi avaliada na desinfecção com
cloro do efluente de quatro estações de tratamento de esgotos, com distintas tecnologias, da Região
Metropolitana de Porto Alegre. Os resultados apontaram para uma concentração média dos efluentes
das estações de 1042 oocistos/100 L e 431 cistos/100 L, e para ausência de correlação com os valores
de turbidez, DQO e coliformes termotolerantes e totais. Verificou-se remoção total de cistos e oocistos
no efluênte de lagoas de estabilização em série, consequência da adsorção pelos sólidos sedimentáveis.
Todavia, estimou-se remoção de cistos de Giardia de 60 a 90 % e de oocistos de Crypto de <10 a
90 % em estações com tratamento secundário. A desinfecção realizada em regime de batelada com
tempos de detenção de 110, 61 e 30 min e dosagem de cloro de 6 mg/L, na forma de ácido hipocloroso,
mostrou-se insuficiente para inativação destes patógenos (Cardoso; Carli; De Luca, 2003).
O monitoramento dos protozoários é problemático, graças a suas dimensões, à baixa concen­
tração na massa líquida, ao volume necessário de água para consecução das análises, à inabilidade
em aumentar o número de indivíduos em culturas in vitro e à dificuldade de identificação quando
misturados a outras partículas. A USEPA estabelece como padrão para determinação de cistos e
oocistos em água o Método 162343 que preconiza distintos volumes de amostragem visando a elevar
a confiabilidade dos resultados. Para água bruta estabelece-se volume da amostra de 10 L e para água
tratada de 100 a 1000 L - pela maior presença de partículas suspensas e coloidais. O Método 1623
apresenta como vantagens a mais precisa distinção dos cistos de Giardia e oocistos de Crypto e,
decorrente do emprego de anticorpos específicos aos protozoários, a não ocorrência de falso-positivos.
As principais limitações reportam-se (Martins et al., 2009) (Pontius, 1996):
i) à incerteza da viabilidade e infecciosidade do microrganismo;
ii) a não permitir a identificação da espécie;
iii) ao custo elevado e à necessidade de mão de obra especializada;
iv) à presença de partículas suspensas e cátions bivalentes que podem interferir na ligação dos
anticorpos aos oocistos;
v) às perdas de oocistos no processo de concentração, resultando em contagens significati­
vamente inferiores à concentração real de protozoários na água de estudo;
vi) ao tempo excessivamente longo para detecção (um a dois dias).

Os sintomas da giardíase e da criptosporidiose, após período de incubação de uma a duas semanas,


são similares aos de outras doenças de veiculação hídrica, tais como náuseas, diarréias, dor intestinal
e, por vezes, anorexia. Finalmente, também integra o rol dos protozoários passíveis de causar alguma
doença de veiculação hídrica a espécie Entamoeba histolytica. Contudo, esta espécie não apresenta
reservatório no reino animal, restringindo sua transmissão aos corpos d’água receptores de esgotos.
O padrão de potabilidade nacional e da OMS não explicitam concentração máxima de
protozoários e, para o primeiro, o controle se faz de forma indireta ao recomendar turbidez do efluente
filtrado inferior a 0,5 uT em 95 % dos dados mensais e que toda água captada superficialmente deva
ser submetida à filtração, em virtude da maior resistência destes microrganismos à desinfecção com
cloro. A partir de 2006 a USEPA estabelece como recomendação para os sistemas de abastecimento de
pequeno porte a realização de monitoramento de Crypto em função da concentração de E. coli.
Na última edição do StandardMethods de 2005, sem especificar metodologia de determinação,
descrevem-se métodos para amostragem, concentração e purificação visando à análise de Giardia
e Ciypto. Os volumes de amostra variam de 10 a 1000 L (podendo ser de 500 mL para esgotos),
dependendo do método de concentração empregado e das características das águas bmtas ou tratadas.44
Adicionalmente, listam-se as vantagens e limitações de cada método de concentração e de purificação
das amostras, basicamente em termos do volume da amostra, do custo dos equipamentos e de pessoal
necessários, da taxa de recuperação de cistos e oocistos, e do tempo despendido para realização das
análises (APHA; AWWA; WEF, 2005). Provavelmente como consequência desta padronização, o
padrão americano recomenda remoção de 2 log e 3 log para oocistos de Crypto e cistos de Giardia,
respectivamente. Esta recomendação aplica-se aos sistemas de abastecimento que utilizam águas
superficiais (ou subterrâneas sob influência de água superficial) nos quais não há unidades de filtração.

43. Filtração, eluição, concentração, separação imunomagnética, imunofluorescência e identificação microscópica


integram as etapas do Método 1623.
44. Para concentração dos cistos e oocistos, considera-se como turbidez baixa valor inferior a 1,0 uT, moderada
de 1,0 a 10 uT e alta superior a 10 uT.
CA PÍTULO 02
As mencionadas dificuldades na detecção de cistos e oocistos de protozoários, associadas
ao alto custo das análises, têm fomentado o emprego de outros parâmetros que permitam estimar
a presença destes microrganismos na água bruta e tratada. Neste viés, a USEPA, a partir de 2006,
passou a recomendar que as determinações da concentração de Crypto no afluente aos sistemas de
pequeno porte vinculem-se à concentração de E. coli e ao tipo de manancial superficial. Desta forma,
concentrações de E. coli superiores a 10 NMP/100 mL em reservatórios ou lagos e 50 NMP/100 mL
em cursos d’água apontam para necessidade da determinação do protozoário.
Todavia, a utilização destes parâmetros substitutos, tradução literal de surrogate parameters,
como indicadores da presença de cistos e oocistos de protozoários em águas ainda é controvertida.
Em recente pesquisa, contemplando sete mananciais cujas águas bmtas afluíam a quatro estações de
tratamento de grande porte no estado americano de Utah, efetuou-se monitoramento de Crypto ao
longo de sete anos perfazendo 228 análises (empregando o mencionado Método 1623 da USEPA). Os
resultados foram classificados em função do tipo de manancial - cursos d’água (146) e reservatórios
de acumulação (82) -, das referidas recomendações da USEPA e das quatro estações do ano. Avaliou-
-se correlação entre a concentração de Crypto para com turbidez e concentração de E. coli. As análises
estatísticas apontaram correlações pouco significativas,45 e por vezes negativas, para com ambos
indicadores (Nieminski et al., 2010).
Especificamente em relação a E. coli algumas conjecturas podem ser tecidas visando a explicar
a recorrente baixa correlação verificada nesta e em outras pesquisas. Nos corpos d’água, bactérias do
gmpo coliforme tendem a se aglutinar junto às partículas de argila ou à matéria orgânica favorecendo
o aumento da velocidade de sedimentação, ao passo que os oocistos mantém sua individualidade.
Desta forma, toma-se compreensível as baixas correlações entre concentrações de Crypto e de E. coli,
principalmente para águas captadas em lagos e reservatórios.
Outra hipótese recai para maior persistência dos protozoários no ambiente comparada à da
bactéria E. coli. Enquanto os primeiros apresentam mortalidade natural em aproximadamente 67 dias,
para as bactérias indicadoras esta persistência reduz-se para algo como 2,5 a 5 dias.
Em relação aos fatores sazonais afloram duas perspectivas. As menores dimensões das bactérias
contribuem para maior penetração nos interstícios do solo, reduzindo o arraste durante os eventos de
precipitação menos pronunciados. Com alguma similaridade, a eliminação de oocistos pelos animais
também apresenta caráter sazonal e, ao passo que a presença de E. coli manifesta-se em todas as fezes,
os oocistos fazem-se presentes apenas nos indivíduos infectados.

Vírus entéricos
Diversas espécies de viras desenvolvem-se no trato intestinal (daí a denominação entéricos)
dos animais homeotermos, estes também designados animais de sangue quente, e pelas fezes atingem
os corpos d’água superficiais e subterrâneos. Esta denominação genérica abarca os vírus da hepatite
A e E, enter ovírus, adenovírus, rotavíras, entre outros (AWWA, 2006). Deste rol, os vírus da hepatite
e os enterovíras respondem por significativa parcela das infecções, especialmente nos países em
desenvolvimento. Vale destacar que, embora a transmissão pela água contaminada seja relevante - e
preponderante para o vírus da Hepatite E - , verifica-se transmissão por meio dos alimentos e contato
pessoal. Por não serem usualmente encontrados na flora intestinal dos humanos, somente os indivíduos
infectados, crianças em sua maioria, são capazes de excretar estes microrganismos, em magnitude

45. Como os resultados não apresentaram distribuição normal, realizaram-se testes não paramétricos deter­
minando-se o coeficiente de Spearman. A correlação mais significativa apontou coeficiente de Spearman de
0,54, que corresponde a coeficiente de determinação (R2) de aproximadamente 0,29, entre os valores médios
da concentração de Crypto e da turbidez de cada estação.

75
significativamente inferior à das bactérias coliformes.46 Vírus entéricos apresentam dimensões de 18
a 120 nm, são incapazes de se multiplicar no ambiente e estima-se em mais de 120 diferentes tipos
passíveis de infectar seres humanos.
Usualmente atribui-se à infecção por viras as epidemias de doenças de transmissão hídrica cujo
agente etiológico não foi adequadamente identificado. Levantamento realizado nos EUA, abarcando
449 surtos de doenças de transmissão hídrica no período de 1971 a 1994, apontou a giardíase e a doença
gastrointestinal aguda de etiologia não determinada como as mais frequentes (Rose; Daeschner; Patz,
2000). Todavia, a quase totalidade dos vírus já identificados é susceptível às tecnologias de tratamento
normal mente empregádas, incluindo-se a desinfecção com compostos de cloro, sendo relativamente
usual remoção e inativação de 2 a 4 log.
A despeito dos avanços na área de biologia molecular, não é recomendado o monitoramento
rotineiro de vírus no efluente das estações de tratamento de água. Desta forma, as legislações nacional,
americana e da OMS estabelecem os mencionados padrões de eficiência de remoção de turbidez,
associados às condições para realização da desinfecção47 visando à inobservância de vírus e cistos e
oocistos de protozoários na água de consumo.

Outros indicadores microbiológicos


Em termos microbiológicos, a prática de avaliação de qualidade da água de consumo humano
no Brasil centra-se no controle da presença de bactérias do grupo coliforme, seguindo tendência
internacional em vigor até o final da década de 1980. Tal controle baseia-se na lógica de organismos
indicadores, baseado no pressuposto de que, dadas as características dos coliformes, sua ausência nas
águas de abastecimento - sobretudo dos mencionados coliformes termotolerantes e mais especificamente
da bactéria Escherichia coli - significaria uma garantia sanitária da segurança microbiológica da água
em termos de saúde pública. Todavia, a despeito dos avanços nos métodos de detecção, tem sido
constatada a fragilidade deste controle. Embora de grande praticidade, conforme mencionado, o teste
de coliformes não garante a ausência nas águas de outros patogênicos, mais resistentes que as bactérias.
Preocupações mais recentes com o potencial patogênico das águas de consumo vêm se dirigindo, além
dos protozoários Giardia e Crypto, a outras bactérias, como Campylobacter e Aeromonas, e diversos
tipos de vírus entéricos. Doenças do aparelho respiratório também têm sido associadas à água, como a
pneumonia transmitida pela bactéria Legionella pneumophila.
Ainda no contexto dos mencionados indicadores da presença de cistos e oocistos de proto­
zoários, descortina-se a utilização de outros indicadores microbiológicos mais resistentes que E. coli
objetivando elevar a possibilidade de, na sua ausência, também estarem ausentes cistos e oocistos
de protozoários e vírus entéricos. Clostridium perfringens tem sido utilizado como indicador
bacteriológico de contaminação fecal, pois sua incidência no meio aquático está constantemente
associada a dejetos humanos, sendo sua presença detectada em fezes, esgotos e águas poluídas. Por
serem esporaladas, estas bactérias apresentam grande resistência aos desinfetantes e às condições
desfavoráveis do meio ambiente. A excepcional longevidade de seus esporos na água é útil na detecção
de contaminação fecal remota em situações em que outros indicadores menios resistentes como E. coli
já não estão mais presentes.

46. Conforme mencionado neste capítulo, as bactérias coliformes respondem por 1/3 a 1/5 do peso das fezes e por
concentrações 106a 108organismos/mL nos esgotos domésticos. Vírus entéricos são eliminados à razão de 107
a 1010por grama de fezes.
47. A Portaria 518 recomenda realizar a desinfecção com pH inferior a 8,0 e efluente da estação com concentração
de cloro residual livre superior a 0,5 mg/L.
Os colifagos constituem-se outra alternativa por serem víms bacteriófagos que infectam e
replicam em cepas hospedeiras de E. coli e parecem estar sempre presentes na amostra em estudo
na qual a E. coli é isolada, podendo também servir como indicadores da eficiência no tratamento na
remoção de Enterovíms e outros víms como o dá hepatite (Cerqueira; Horta, 1999).
Por fim, as bactérias heterotróficas, cuja determinação reporta-se à contagem em placa em
termos de UFC/100 mL - , constituem-se microrganismos que utilizam o carbono orgânico como
fonte de energia, constituem outro indicador ainda que de menor especificidade. Concentrações
repentinamente elevadas indicam má qualidade microbiológica da água em razão provavelmente
da desinfecção ineficaz. A despéito da reconhecida maior relevância de outras parcelas da matéria
orgânica, estudo em escala-piloto apontou conversão dos ácidos húmicos, que se relacionam à cor
verdadeira das águas naturais, em biomassa pelas bactérias heterotróficas nas redes de distribuição,
favorecendo o crescimento do biofilme nas tubulações. O crescimento das bactérias heterotróficas
pareceu ser mais pronunciado quando se adicionou ácido húmico com baixo e alto peso molecular
(Esteves, 1988).
No Brasil, as bactérias heterotróficas são comumente empregadas para avaliação da qualidade
microbiológica da água nas redes de distribuição. Neste contexto, visando a avaliar a integridade da
rede de distribuição, os padrões nacional e americano estabelecem valor-limite de 500 UFC/100 mL
e, no caso da Portaria 518, contemplando 20 % das amostras mensais coletadas para análise de
coliformes totais.

Comunidades hidrobiológicas
O conjunto dos organismos e microrganismos que habitam o ambiente aquático constitui as
três principais comunidades hidrobiológicas: plâncton, necton e benton. As algas, cianobactérias
e bactérias formam o fitoplâncton, ao passo que microcmstáceos, larvas de insetos e de moluscos,
vermes, protozoários e rotíferos constituem o zooplâncton. A comunidade planctônica traduz a base da
cadeia trófica, respondendo pela degradação da matéria orgânica e produção de oxigênio, essenciais
ao ecossistema aquático.
No topo da cadeia trófica, a comunidade ictiológica representa o necton e algumas espécies mais
exigentes em termos da concentração de oxigênio dissolvido tomam-se bons indicadores da qualidade
da água e, em outro contexto, podem desempenhar papel cmcial em programas de biomanipulação
visando à redução da eutrofização de lagos e represas.
Por fim, a comunidade bentônica, composta por larvas de insetos e anelídeos que habitam o
sedimento aquático, ou sua superfície, de lagos e rios, atua na solubilização do material sedimentado. O
fitobentos constitui-se de vegetais inferiores e superiores (como algumas macrófitas) e sua distribuição
no sedimento é governada pela penetração da luz e resultante fotossíntese. Em rios e lagos de baixa
profundidade e baixa concentração de sólidos suspensos, toda a superfície do sedimento pode ser
colonizada e influenciar significativamente diversos processos no ambiente aquático. O zoobentos
constitui-se, além de alguns representantes do zooplâncton, animais vertebrados e invertebrados -
moluscos, cmstáceos, insetos - , estes aptos a utilizar as macrófitas, a vegetação e as pedras como
substrato. Intervém de forma relevante na dinâmica de nutrientes no corpo aquático pela decomposição
da matéria orgânica e por se constituírem em alimento de diversos organismos aquáticos, especialmente
peixes. Sua distribuição é governada pela disponibilidade e qualidade de alimento, tipo de sedimento
(orgânico, arenoso ou argiloso), concentração de oxigênio dissolvido e gás sulfídrico, e temperatura
do corpo d ’água. Por serem sensíveis às alterações ambientais e apresentarem reduzida locomoção,
vinculada à velocidade de escoamento para os cursos d’água, acabam por se constituir excelentes
indicadores de qualidade de água (Esteves, 1988).

77
Características radioativas

Radioatividade pode ser conceituada como a desintegração espontânea, por unidade de massa e
de tempo, de um elemento radioativo - tais como urânio, rádio, tório, césio, entre outros - com emissão
de radiação, corpuscular ou eletromagnética. Radionuclídeos48 denominam-se os átomos que Se
desintegraram pela emissão da radiação e os raios alfa, beta ou gama são os mais comumente emitidos.
A radioatividade é medida em curies49 ou becquerel que traduz a taxa de caimento da radioatividade ou
o número de desintegrações por segundo que sofre o núcleo de um elemento radioativo.
A partir das décadas de 1950 e 1960, com o advento dos testes nucleares em diversos países,
passou-se avaliar a perspectiva de contaminação da população abastecida pela água de consumo que
pudesse conter substâncias radioativas ou elementos radioativos. A tais substâncias atribuem danos à
saúde humana que abrangem desenvolvimento de tumores, além de efeitos mutagênicos, somáticos
e teratogênicos.50 Contudo, quando comparada à exposição à radioatividade decorrente de causas
naturais, os efeitos à saúde humana advindos da água de consumo parecem ser comumente desprezíveis.
Estima-se que mais de 71 % das emissões radioativas passíveis de atingir o ser humano advêm de
fontes naturais, com o restante originando-se nos usos na medicina (20 %), na água e alimentos (8 %)
e outras fontes antrópicas (1 %) (World Health Organization, 2004).
Aguas superficiais e subterrâneas podem apresentar, em virtude do contato com solos e
rochas, radioatividade natural. Neste contexto, as concentrações de elementos radioativos tendem a
ser mais significativas em aquíferos profundos e fontes. Estima-se que em regiões como o estado de
Kerala (índia) e de Poços de Caldas a exposição natural da população à radiação seja até 10 vezes
superior à média, e não foram detectadas até o momento quaisquer anomalias na população. Aliado
aos testes nucleares, o crescente uso de radioisótopos na medicina para diversos tipos de tratamento
toma real a possibilidade de contaminação das águas superficiais pela disposição inadequada destes
resíduos.
O padrão de potabilidade nacional refere-se à radioatividade global alfa e beta, estabelecendo,
respectivamente, valores máximos permissíveis de 0,1 e 1,0 Bq/L. Ao passo que o padrão americano
lista quatro radionuclídeos, a OMS estabelece extensa lista de nucleotídeos cujos valores-guia foram
definidos com base em uma dose individual preestabelecida e de consumo diário per capita de 2,0 L.

48. Podem ser citados como exemplos de radionuclídeos Urânio-234, Rádio-226, Chumbo-210, Tório-230,
Césio-134, entre outros.
49. Curie (Ci) equivale a 3,7 x 1010desintegrações por segundo ou becquerels (Bq). Desta forma, mais usualmente
reporta-se a pico Curie (pCi = 10"12 Ci) e, em termos de concentração de atividade, a Bq/L.
50. Teratogênese consiste no desenvolvimento de anomalias no útero que levam à má formação do feto.
ín d ices de Q ualidade de Água

[...] Riacho Siriminzinho, então, possui-se, cheio de peixes grandes.


Roca e barulha: em vez de correr para baixo, sobe ao arrepio, faz
ondas, empurra-se para trás com tanta água do rio, supera o chão e
o tempo e confirma: toda a vida, todas as vidas, sim.
Guimarães Rosa - Ave Palavra (1970)

divulgação da interpretação de dados e parâmetros de qualidade de água de forma inteligível


ao público leigo, ainda que não seja exclusividade desta área de conhecimento em questão,
tem sido motivo de esforços de diversos pesquisadores. Há um grande número de tentativas
de reproduzir em único valor o significado de um conjunto de dados de distintas naturezas. Emergem
desta constatação, por exemplo, o índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o índice de Gini. O
primeiro constitui um índice estabelecido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD), também aplicável em nível municipal e estadual, que traduz as condições atingidas por uma
sociedade no tocante à educação, saúde (longevidade) e Produto Interno Bruto per capita. Assume o
máximo de 1,0 e estabelece-se como alto o valor de IDH superior a 0,80, médio no intervalo de 0,50
a 0,80 e baixo IDH inferior a 0,50.51 O segundo índice, cuja denominação reporta-se ao pesquisador
italiano Corrado Gini, mede o grau de desigualdade de renda das populações, variando de 0 a 1,0. A
medida que o índice se aproxima da unidade, cresce a desigualdade.
Especificamente relacionado à qualidade de água, neste capítulo serão abordados a metodologia
mais comumente empregada para o desenvolvimento de tais indicadores e, mais detalhadamente, dois
dos principais resultados da sua aplicação.

51. Especificamente em relação ao Brasil, de 2006 a 2007 o IDH do País variou de 0,808 para 0,813, mantendo
a 79a posição no conjunto de 182 países liderados por Nomega (0,971), Austrália (0,970) e Islândia (0,969).
Em nível estadual, os últimos dados referentes a 2005 apontam nítida distinção entre as regiões Sul, Sudeste
e Centro-Oeste, e as regiões Norte e Nordeste. Distrito Federal (0,874), Santa Catarina (0,840) e São Paulo
(0,833) apresentam-se como os estados com os mais elevados IDH, enquanto Alagoas (0,677), Maranhão
(0,683) e Piauí (0,703) os mais baixos.
Metodologia Delphi

Esta metodologia foi desenvolvida na década de 1950 e, à época, visava a obter o mais
significativo consenso de opinião sobre a seleção de uma meta ótima para o sistema industrial
americano, estabelecendo estimativa do número necessário de bombas atômicas como retrato do auge
da Guerra Fria entre os EUA e a ex-URSS. A metodologia consiste na aplicação de questionários a um
grupo de especialistas, objetivando definir pontos e estratégias consensuais sobre diversos temas, de
currículos acadêmicos ao planejamento urbano e regional. Para a consecução deste objetivo, quatro
pressupostos devempermear sua aplicação (Linstone; Turoff, 1975):
i) a garantia do anonimato, visando a reduzir fatores psicológicos, tais como a possível
influência da opinião de participantes com maior grau de especialização sobre os demais;
ii) a interação, por meio das várias rodadas de questionários permitindo aos participantes
revisarem suas decisões;
iii) o feedback, controlado entre duas rodadas sucessivas de questionários para informar cada
membro do grupo da opinião dos demais, comumente apresentado como um sumário numé­
rico anexado aos argumentos apresentados pelos painelistas;
iv) a representação estatística dos resultados.

A evolução do Delphi deu-se em duas formas distintas. Amais comum é a versão de papel e lápis,
na qual um monitor elabora um questionário a ser enviado a um grupo de respondentes. Quando este é
retomado, o monitor sumariza os resultados e baseando-se nestes desenvolve um novo questionário. Ao
grupo de respondentes é dado a oportunidade de revisar suas opiniões individuais, forma denominada
Delphi convencional. Na outra forma, denominada conferência Delphi, o monitor é substituído por um
programa de computador, este faz a compilação dos dados à medida que os participantes enviam suas
respostas e após a última resposta remetem-se o relatório e o novo questionário. Esta ferramenta tem a
vantagem de realizar o processo em tempo real (Lopes, 2005).
A metodologia Delphi constitui uma forma rápida e eficiente de debater temas polêmicos,
principalmente quando tempo e custo são fatores limitantes na promoção de encontros e conferências
ou quando os desacordos podem ser minimizados pelo anonimato. No entanto, este pode ser
bastante complexo e de difícil administração. Uma das maiores críticas ao processo é a falta de
padronização e consequente aplicação do método a diversos e diferentes tipos de problemas - como
aos relacionados à biodiversidade de florestas, turismo, disputas ambientais, previsões e outros
(Rowe; George; Bolger, 1991).

índice de qualidade de água

Baseando-se na metodologia Delphi, desenvolveu-se sistema de indexação para interpretar a


qualidade da água para recreação com contato na Nova Zelândia. Utilizou-se grupo de 16 profissionais
da área de qualidade da água provenientes de empresas de consultoria e de gerenciamento ambiental,
de institutos de pesquisa e de universidades. A pesquisa foi composta por duas fases, sendo a primeira
composta por quatro questionários objetivando levantar os parâmetros a serem incluídos no índice.
A segunda fase, composta por três questionários, solicitou aos painelistas que desenhassem curvas
relacionando a conformidade da qualidade da água para o uso recreacional à variação dos valores de
cada parâmetro. Finalmente um último questionário foi enviado aos respondentes questionando se
concordavam com as curvas definitivas. A novidade deste trabalho centrou-se na formulação final do
índice. Não foram definidos pesos para os parâmetros, pois o valor atribuído ao corpo d’água será igual
ao menor valor obtido por um dos parâmetros extraído das curvas resultantes. A justificativa para a
CA PÍ TUL O 03


não utilização de somatório ou produtório foi que o emprego destas técnicas de agregação de escores
de parâmetros individuais pode mascarar o valor baixo de um determinado parâmetro se os demais
possuírem valores elevados (Nagels; Davies-Colley; Smith, 2001).
A metodologia Delphi foi utilizada para coletar informações de especialistas visando ao
desenvolvimento de um plano de gerenciamento de 25 reservatórios de múltiplos usos nos EUA. Estas
informações eram basicamente acerca dos níveis necessários à sobrevivência da fauna ictiológica.
Questionários foram elaborados para cada reservatório e enviados a 26 especialistas, e, o número
de respondentes por reservatório variou de dois a oito, podendo um único especialista responder os
questionários referentes a mais de um reservatório. O primeiro questionário solicitava aos especialistas que
listassem as espécies críticas e o período que cada uma destas espécies eram particularmente sensíveis às
variações do nível do reservatório. No segundo questionário, os especialistas reavaliariam suas respostas
à luz da opinião do grupo. A pesquisa alcançou 85 % de retomo dos questionários e alta convergência das
opiniões para todos os reservatórios. As informações obtidas constituíram signiíicante componente para
o desenvolvimento de um modelo de auxílio-a-decisão no gerenciamento destes reservatórios. Com isto,
a pesquisa demonstrou que o método Delphi pode ser utilizado para obter informações importantes para
o gerenciamento de questões ambientais complexas (Taylor; Ryder, 2003).
Com o intuito de desenvolver um indicador que, por meio dos resultados das análises das
características físicas, químicas e biológicas, pudesse fornecer ao público em geral um balizador da
qualidade das águas de um corpo hídrico, foi desenvolvido o índice de Qualidade de Agua (IQA).
Para tal, utilizou-se a metodologia Delphi para estruturar a opinião de um gmpo de 142 profissionais
da área de qualidade da água. Dos painelistas inicialmente convidados, 66 % devolveram o primeiro
questionário a tempo de participar da segunda etapa, restando 94 painelistas dos quais 77 devolveram
o segundo questionário que finalmente estabeleceu o índice, culminando com abstenção de 46 %.
Inicialmente, foi elaborada uma lista enviada aos 142 integrantes do painel composta de 35
parâmetros, selecionados arbitrariamente para possível inclusão em um índice de qualidade da água.
Cada participante deveria selecionar para cada parâmetro uma das opções Incluir, Não Incluir ou
Indeciso, sendo possível listar outros parâmetros não incluídos nesta primeira lista. Cada parâmetro
selecionado com o item Incluir deveria receber peso variando de 1 a 5. Sumário dos resultados desta
primeira rodada foi enviado aos participantes, junto com o 2o questionário, para que comparassem suas
respostas com as do grupo e as reavaliassem, sendo também solicitada uma lista dos 15 parâmetros mais
importantes. Por fim, definiu-se lista composta por nove parâmetros e respectivos pesos integrantes do
IQA, conforme mostra a figura 3.1.

IQA (%)

Figura 3.1. Parâmetros e pesos finais para determinação do IQA.


C A P ÍT U L O 03
A importância do OD como principal parâmetro de caracterização qualidade do ambiente
aquático manifesta-se na própria determinação do IQA, respondendo por 17 % do valor final e sendo
individualmente o parâmetro mais relevante dos nove que o integram. Interessante também notar
certa sobreposição de alguns parâmetros que fornecem informações semelhantes, tais como o b
e DBO, turbidez e sólidos totais, e, em muitas circunstâncias, coliformes termotolerantes e DBO.
A concentração de sólidos totais e a turbidez, a despeito da sua relação com a parcela de sólidos
suspensos, respondem em conjunto e em igualdade por 16 % do valor a ser atribuído ao curso d ’água.
Definidos os parâmetros integrantes do IQA arrolados na figura 3.1 e os respectivos pesos,
no terceiro questionário coube aos painelistas esboçarem as curvas que segundo seu julgamento
representassem a variação da qualidade da água produzida pelas várias possíveis medidas do
parâmetro. As nove curvas utilizadas para o cálculo do IQA constituíram-se das curvas médias obtidas
das respostas de todos os respondentes (Brown et al., 1970).
Definidos os parâmetros integrantes do IQA e os respectivos pesos, no terceiro questionário
coube ao painelista desenhar as curvas que, segundo seu julgamento, representassem a variação da
qualidade da água produzida pelas várias possíveis medidas do parâmetro. As nove curvas utilizadas
para o cálculo do IQA constituíram-se das curvas médias obtidas das respostas de todos os respondentes.
Interessante ressaltar que a conjunção das respostas dos 77 painelistas restantes culminou com o fato
de todas as curvas resultantes dos nove parâmetros não contemplarem o valor de 100 %.
Inicialmente, o valor do IQA foi considerado como o somatório apresentado pela equação 3.1:

!QA = X w>• o.
i=l ( 31 )

Na qual:
w( = peso do parâmetro i;
q; = pontos recebidos pelo parâmetro i, retirados das curvas resultantes da opinião dos especialistas;
n = número de parâmetros.

Posteriormente, pesquisadores propuseram forma multiplicativa para o IQA devido funda­


mentalmente à possibilidade de eventual valor muito baixo de um dos parâmetros tomar-se menos
evidente pela formulação anterior. Na forma multiplicativa, os pesos manifestam-se como potências
dos pontos obtidos para cada parâmetro de qualidade de água, conforme enuncia equação 3.2
(Landwehr; Deininger, 1976).
9

iQ A = IIq r
i=l (3.2)

Avaliação particular foi realizada acerca da presença de agrotóxicos e outras substâncias tóxicas.
Estabeleceu-se que caso a concentração total de agrotóxicos excedesse 0,1 mg/L o valor do IQA seria
nulo, independentemente dos demais parâmetros.
Na figura 3.2 são apresentadas as curvas resultantes para os parâmetros OD à saturação e
Coliformes termotolerantes.
O mencionado fenômeno da supersaturação de OD, em virtude da atividade fotossintética das
algas, cianobactérias e plantas aquáticas explica a descontinuidade no valor a ser conferido ao curso
d’água. Por exemplo, caso o curso d’água apresente concentração de OD à saturação de 120 % e
como o peso deste parâmetro é 0,17, acrescería no valor final do IQA 0,153 (produto de 0,17 e 0,9).
Analogamente, concentração de coliformes termotolerantes de 1000 NMP/100 mL (3 log) resultaria
em 0,03 (produto de 0,15 e 0,20).
Coliformes termotolerantes (log MPN/100 mL)
Figura 3.2. Variação da pontuação para os parâmetros O D à saturação (a) e C oliform es term otolerantes (b).

As curvas resultantes da avaliação dos especialistas para os parâmetros p H e DBO são apresen­
tadas na figura 3.3 (a e b).

Figura 3.3. Variação da pontuação para os parâmetros p H (a) e D B O (b).

Da mesma forma, para um curso d ’água com pH da ordem de 6,6, sabendo-se que o peso
relativo deste parâmetro é 12%, este parâmetro contribuiria com 0,072 (produto de 0,12 por 0,6) no
valor final do IQA.
O IQA, além de comparar a qualidade de distintos corpos d’água, permite inferir o impacto de
ações que visem à preservação dos ecossistemas aquáticos. Com base no cálculo do IQA, definem-
-se os níveis de qualidade do corpo d’água relacionando o intervalo de variação do IQA a uma cor de
referência, conforme mostra a tabela 3.1.

Tabela 3.1. Classificação da qualidade da água em função do IQA.


Nível de Qualidade Intervalo do IQA Cor de referência
Excelente IQA > 90 Azul
Bom 70 < IQA < 90 Verde
Médio 50 < IQA < 70 Amarelo
Ruim 25 < IQA < 50 Marrom
M uito ruim 0 < IQA < 25 Vermelho '

Esta classificação singela estabelecida pela tabela 3.1 apresenta como vantagem a fácil
comunicação com o público leigo, abarcando inclusive a associação presente no inconsciente da
população ao relacionar a água de ótima qualidade à cor azul. Em contexto mais amplo, permite
a inserção das informações de qualidade das águas nos mapas das bacias hidrográficas, permitindo
de forma expedita identificar os pontos críticos dos cursos d’água e mesmo simular os efeitos da
construção de estações de tratamento de esgotos.
C A PÍ TU L O 03
índice de qualidade de água bruta

A despeito do seu emprego em diversos países do Planeta e por diversos órgãos ambientais no
Brasil como indicador da saúde ambiental dos corpos d’água, o IQA, como qualquer índice, apreserita
suas limitações. Conforme mencionado, evidencia-se nítida sobreposição de alguns parâmetros que
fornecem informações semelhantes, tais como OD e DBO, turbidez e sólidos totais, e, em muitas
circunstâncias, coliformes termotolerantes e DBO.
Todavia, nestas sobreposições não reside a inaplicabilidade do IQA como indicador da
tratabilidade das águas naturais. Uma vez que a maioria dos mananciais de abastecimento apresenta
baixa DBO, significativa concentração de OD à saturação - parâmetros que respondem em conjunto
por 27 % do índice - , indicador que abrangesse outras características das águas naturais teria maior
aplicabilidade. Similarmente, a maioria dos cursos d’água apresenta também baixa concentração de
nitratos e fosfatos, pois tais parâmetros manifestam-se mais significativamente quando a captação
realiza-se valendo-se de reservatórios de acumulação com algum grau de eutrofização. Por fim, ainda
no mesmo contexto, parâmetros como a cor verdadeira e contagem de algas (e/ou cianobactérias)
- ainda que subliminarmente contemplados no IQA - representam papel relevante no tratamento e
seriam importantes balizadores para distinção da tratabilidade das águas naturais. Diante do exposto,
salvo alguns mananciais mais comprometidos, o IQA apresentaria resultados de mesma magnitude e
pouco interferiria como instrumento de comparação das águas naturais em termos da maior ou menor
dificuldade na potabilização.
As mencionadas limitações do IQA motivaram pesquisa visando ao desenvolvimento de um
indicador que hierarquizasse, em relação à tratabilidade, as águas brutas afluentes às estações de
tratamento. Desta forma, para elaboração índice de Qualidade de Agua Bruta (IQAB), utilizou-se
a mesma metodologia Delphi. O painel compôs-se por 24 especialistas brasileiros em qualidade e
tratamento de água com formação em nível superior em Engenharia Civil (20) e Ciências Biológicas
(4), responsáveis por pesquisas, projetos e operação de estações de tratamento de água, abarcando
universidades, companhias estaduais de saneamento e empresas de engenharia das regiões Sul e
Sudeste. Deste grupo, 18 mantiveram-se até o final da pesquisa, resultando abstenção total de 25 %
(Souza; Libânio, 2009).
A pesquisa foi desenvolvida em duas fases distintas, consoantes com a metodologia Delphi.
Inicialmente, elaborou-se lista com 21 parâmetros de caracterização das águas naturais, apresentada
na tabela 3.2 encaminhada no I o questionário.

Tabela 3.2. Lista das características das águas naturais incluídas no Io questionário enviado aos painelistas.
Coliform es
Turbidez Cor Verdadeira E. coli Dureza
Term otolerantes
Algas Cianobactérias Alcalinidade pH Coliformes Totais
Sólidos Totais Amônia Sólidos Dissolvidos Temperatura Cloretos
Carbono Orgânico Total Nitrato Fosfato Ferro Manganês
Condutividade Elétrica

Vale mencionar que, à exceção do Carbono Orgânico Total, a quase totalidade destes parâmetros
é monitorada, ainda que com frequência variável, em parcela significativa das estações de médio e
grande porte do País. Tal assertiva justifica a ausência de alguns relevantes parâmetros de qualidade
e tratabilidade de água, tais como contagem de partículas, carbono orgânico dissolvido, absorção
UV-254, entre outros.
No Io questionário apresentou-se introdução explicitando todas as etapas da pesquisa, eviden­
ciando o papel de cada painelista, e a mencionada lista das características das águas naturais para as
quais o respondente deveria assinalar uma entre as três alternativas: Incluir, Não Incluir e Indeciso.
Após esta avaliação, caberia ao respondente atribuir nota até 100 - somente para as características
anteriormente assinaladas como Incluir —, de acordo com sua influência na tratabilidade da água.
Por fim, considerou-se a soma de todos os pontos atribuídos pelo respondente igual a 100, visando a
facilitar a padronização da distribuição dos pesos.
As respostas evidenciaram a inaplicabilidade do IQA como indicador da tratabilidade das águas
superficiais, conforme evidencia a figura 3.4.

Sólidos Dissolvidos —
Temperatura
Sólidos Totais
Coliformes Termotolerantes
Fosfatos
Dureza
Cloretos
Coliformes Totais □ 2° Questionário
Condutividade Elétrica □ 1° Questionário
Nitratos
CO T
Amônia
Alcalinidade
E. coli
Cianobactérias
Manganês
Ferro
Algas

PH
Cor verdadeira
Turbidez

0 20 40 60 80 100

Percentual de Inclusão (%)

Figura 3.4. Percentual de inclusão dos 21 parâmetros de qualidade de acordo com o painel.

De acordo com a figura 3.4, dos nove parâmetros que integram o IQA (figura 3.1), apenas
p H e Turbidez apresentaram percentual de inclusão superior a 60 % de acordo com a opinião dos
painelistas. Como seria de se esperar, a temperatura apresentou-se como característica pouco relevante
(20a posição em relevância somente superando Sólidos Dissolvidos), embora a coagulação de águas de
baixa temperatura seja significativamente mais difícil, situação usual nos países temperados. Contudo,
conforme mencionado no Capítulo 2, salvo algumas localidades específicas, as águas naturais nos países
tropicais acabam por apresentar variação pouco significativa nas temperaturas médias, proporcionada
pelo elevado calor específico deste fluido. Uma segunda constatação reporta-se ao papel de destaque
conferido ao parâmetro Turbidez. Uma vez que não é incomum estações de tratamento produzir efluente
filtrado com turbidez inferior a 0,5 uT, mesmo nos períodos chuvosos nos quais esta característica física
na água bmta supera frequentemente 300 uT, esta supremacia parece retratar mais sua importância
sanitária como indicador da remoção de cistos e oocistos de protozoários do que a dificuldade de
remoção propriamente dita.
Para favorecer a aplicabilidade do IQAB, decidiu-se restringi-lo a oito parâmetros a serem
definidos pelos painelistas no 2o questionário. Nesta escolha, os oito primeiros parâmetros mantiveram-
-se, ainda que com percentuais distintos, e novamente coube ao parâmetro Turbidez o maior percentual
de inserção (100 %) entre os integrantes do IQAB, conforme mostra a figura 3.5.
m Manganês 1
3
'CO 1
Cianobactérias
"O -
o E. coli |
<0
“O
Algas 1
3
Ferro 1

o Cor Verdadeira
"5 -
£ pH
CO
cl
Turbidez Z]
0 20 40 60 80 100
Percentual de inclusão (%)
Figura 3.5. Percentual de inclusão de cada parâmetro integrante do IQAB.

Finalmente, as respostas do 2o questionário permitiram estabelecer os pesos de cada um dos oito


parâmetros integrantes do IQAB. Em virtude da dispersão dos pesos conferidos, decidiu-se empregar a
mediana como medida de tendência central. Desta forma, os pesos finais dos parâmetros que compõem
o IQAB - apresentados na figura 3.6 - foram assim definidos:
i) os pesos de cada parâmetro foram multiplicados pelo percentual de inclusão, mantendo-se
os pesos dos parâmetros com percentual de 100 % e reduzindo-se os demais;
ii) dividiu-se cada peso pelo total de pesos atribuído pelo painelista, para que o somatório fosse
100.

Peso (%)

Figura 3.6. Pesos finais dos parâmetros que integram o IQAB.

De acordo com a figura 3.6, denota-se a coincidência do peso (12 %) atribuído ao parâmetro
pH em relação ao IQA (figura 3.1). Também a tendência do aumento da eutrofização dos mananciais
- como consequência da poluição pontual e difusa -, e a própria dificuldade de remoção destes
microrganismos, manifestou-se no percentual de 21 % do IQAB para conjunção dos parâmetros Algas
e Cianobactérias. O IQAB também contemplou dois parâmetros de difícil remoção, Cor Verdadeira e
Manganês, cuja simultaneidade - ainda que mais rara - pode conduzir à realização da coagulação em
dois estágios. Tal situação consubstancia-se pelas distintas faixas de pH ótimo de coagulação, baixo
para remoção da cor verdadeira e elevado para manganês. Esta situação inusual no País registra-se na
cidade finlandesa de Turku, em cuja estação (vazão média de 1,5 m3/s) realiza-se dupla coagulação
com sulfato férrico para valores de pH de coagulação da ordem de 5,0 e 10,5 (Wahlroos, 1990). Por
fim, cabe ressaltar que explicitamente não integram o padrão de potabilidade brasileiro os parâmetros
CAPÍ TUL O 03

86
Cor Verdadeira, Algas e Cianobactérias (no caso das últimas, há menção à concentração máxima de
ciano toxinas).
A formulação do índice objetivou agregar os parâmetros na combinação e simplificação para o
cálculo final do IQAB. Com este intuito, utilizou-se inicialmente o Somatório e o Produtório conforme
as equações 3.3 e 3.4:

IQAB = (3.3)
i= l

(3.4)
IQAB = f[ q r
i=1
Nas quais:
w.= peso atribuído a cada característica definido na pesquisa de opinião cujo somatório é igual a 100;
qj = pontuação atribuída a cada característica com base nos critérios de pontuação;
i = característica da água natural incluída no índice;
n = número de características.

A perspectiva de que a pesquisa se prolongasse em demasia culminou com a elaboração das


curvas sem a participação dos painelistas. Desta forma, elaboraram-se as oito curvas norteadoras dos
critérios de pontuação de cada parâmetro. Observou-se que a pontuação de cada parâmetro traduz
o valor de q na formulação do IQAB (equações 3.3 e 3.4) e o seu valor não podería ser nulo para
nenhum parâmetro, pois anularia o índice na forma do produtório, inviabilizando-o como indicador da
tratabifidade da água natural. Diferentemente das curvas utilizadas para o IQA, a elaboração das oito
curvas aplicáveis ao IQAB contemplou o valor máximo (100) para todos os parâmetros.
A seguir, apresentar-se-ão as curvas referentes aos quatro parâmetros mais significativamente
intervenientes na tratabifidade das águas naturais, de acordo com a opinião dos painelistas, responsáveis
em conjunto por 64 % do IQAB.
Para o parâmetro Turbidez, estabeleceu-se valor máximo de 300 uT, tomando o valor de q
assintótico para valores mais elevados. Tal se deveu à recorrente eficiência na remoção da turbidéz
quando a coagulação se realiza pelo mecanismo da varredura, mesmo para águas excessivamente
turvas com turbidez superior a 1000 uT. O critério de pontuação para Cor verdadeira norteou-se pela
variação usual deste parâmetro entre 0 e 200 uH, embora a Resolução 357 do Conama reporte-se à cor
verdadeira máxima de 75 uH para águas Classe 3. As curvas resultantes da avaliação dos especialistas
para os parâmetros Turbidez e Cor verdadeira são apresentadas na figura 3.7.

Figura 3.7. Variação da pontuação para os parâmetros Turbidez (a) e Cor verdadeira (b).
A opção por valores mínimos de q inferiores aos adotados para o parâmetro Turbidez
(figura 3.7a) fiou-se na reconhecida maior dificuldade na remoção da cor verdadeira, principalmente
para águas de alcalinidade mais significativa, pois, comumente as melhores condições de coagulação
!
manifestam-se para valores de pH mais baixos. Esta situação pode ocorrer quando o afluente à estação
de tratamento for a conjunção de distintos mananciais, pois, águas com cor verdadeira significativa
apresentam valores de alcalinidade mais baixa. Esta premissa orientou o conceito de coagulação
melhorada estabelecido pela American Water Works Association que preconiza remoção mínima de
20 % de COT por meio do progressivo aumento da dosagem de coagulante e manutenção do pH baixo
para favorecer a desinfecção com o cloro.
Na figura 3.8 (a e b) exemplifica-se o critério de pontuação para p H e Cianobactérias. Nota-se
que a pontuação do pH considera o emprego usual de alcalinizante e o quase inusitado de ácido como
auxiliares de coagulação nas estações de tratamento brasileiras. Neste contexto, o critério pautou-
-se em conferir maiores valores para q para águas naturais com mais baixos valores de pH e vice-
-versa. Por fim, a elaboração da curva para pontuação referente ao parâmetro Cianobactérias balizou-
-se nas recomendações da Portaria 518, na recorrente dificuldade de remoção e na perspectiva de
geração de cianotoxinas. Conforme mencionado no Capítulo 2, as primeiras referem-se à necessidade
de monitoramento mensal para concentrações - ou densidades - superiores a 10.000 células/mL e
semanal para concentrações superiores a 20.000 células/mL. A mencionada dificuldade de remoção
conduz, com alguma frequência e eficiência variável, à associação da pré-desinfecção ao dispendioso
emprego do carvão ativado, comumente em pó, para adsorção das cianotoxinas dispersas na massa
líquida após a lise celular.
As curvas resultantes da avaliação dos especialistas para os parâmetros Turbidez e Cor verdadeira
são apresentadas na figura 3.8.

Figura 3.8. Variação da pontuação para os parâmetros p H {a) e Cianobactérias (b).

Vale mencionar que embora a mesma Resolução 357 estabeleça concentração máxima de algas
em termos de clorofila-a (60 pg/L para águas Classe 3), diversas concessionárias do País realizam o
monitoramento com base no número de indivíduos por mL ou mesmo IJPA/mL (unidade padrão de
área). Desta forma, para apenas um único parâmetro {Algas) se estabeleceram dois critérios distintos
de pontuação - em função da concentração de clorofila-a e do número de indivíduos por mL - , ainda
que balizados nos mesmos conceitos da dificuldade de remoção.
Após a definição dos pesos e dos critérios de pontuação para os oito parâmetros, determinaram-
-se os valores do IQAB, nas formas de produtório e somatório, à água bruta afluente a cinco estações
convencionais de tratamento situadas no estado de Minas Gerais, às quais afluíam vazões médias
de 65 a 5800 L/s. Para tal propósito, utilizaram-se dados operacionais diários de 2008 abarcando as
características da água bruta. Objetivando avaliar o impacto da sazonalidade, para uma das estações
determinaram-se separadamente os valores do IQAB no período chuvoso - janeiro a março - e de
CA PÍTULO 0 3
OO
estiagem - junho a agosto. Para as demais estações, determinou-se o IQAB apenas para o período
chuvoso, prerrogativa fundamentada no princípio da mais difícil tratabilidade da maioria das águas
naturais nesta época do ano.
Para ao cálculo do IQAB, optou-se por empregar a mediana, como medida de tendência
central, dos valores de cada parâmetro, alguns dos quais determinados com frequência horária. A
primeira aplicação do IQAB deu-se para água natural captada de uma pequena barragem de nível.
Devido à escassa atividade antrópica na bacia hidrográfica, a ausência de florações de algas e de
cianobactérias tem justificado monitoramento apenas ocasional destes microrganismos. As tabelas 3.3
e 3.4 apresentam as determinações do IQAB para os períodos chuvoso e de estiagem.

Tabela 3.3. Exemplo de cálculo do IQAB para o período chuvoso.


Parâmetro W q
Mediana Som atório P rod utório
(unidade) (peso) (pontuação)
Turbidez (ui) 14,2 0,22 80 17,6 2,62
Cor Verdadeira (uH) 105 0,19 10 1,9 1,55
pH 6,63 0,12 90 10,8 1,72
Cianobactérias (células/mL) ND* 0,11 100 11 1,66
Algas (células/mL) ND* 0,10 100 10 1,58
E. co//(NMP/100 mL) 705 0,09 65 5,85 1,46
Ferro (mg/L) 2,85 0,09 11 0,99 1,24
Manganês (mg/L) 0,38 0,08 15 1,2 1,24
IQAB 59,34 41,12
* Não houve análises destes parâmetros nos dois períodos amostrados graças ao histórico de inobservância ao longo dos anos de operação
estação de tratamento.

Tabela 3.4. Exemplo de cálculo do IQAB para o período de estiagem.


■Parâmetro W q
Mediana S om atório P rod utório
(unidade) (peso) (pontuação)
Turbidez (uT) 6,68 0,22 85 18,7 2,66
Cor Verdadeira (uH) 45 0,19 50 9,5 2,1
pH 6,78 0,12 95 11,4 1,73
Cianobactérias (células/mL) ND* 0,11 100 11 1,66
Algas (células/mL) ND* 0,10 100 10 1,58
E. co//(NMP/100 mL) 98 0,09 70 6,3 1,47
Ferro (mg/L) 1,03 0,09 40 3,6 1,39
Manganês (mg/L) 0,14 0,08 40 3,2 1,34
IQAB 73,70 69,40
* Não houve análises destes parâmetros nos dois períodos amostrados graças ao histórico de inobservância ao longo dos anos de operação da
estação de tratamento.

Da análise dos resultados expressos nas tabelas 3.3 e 3.4 depreendem-se algumas constatações.
Como seria de esperar, o cálculo do IQAB pelo produtório toma-se mais susceptível a valores mais
baixos de algum parâmetro, mesmo de menor peso, quando comparado ao somatório. Esta assertiva
evidencia-se ainda mais claramente no período de estiagem, quando a usual melhora na tratabilidade
das águas naturais é espelhada pela elevação mais significativa do IQAB na forma do produtório -
da ordem de 70 %. Neste período a distinção entre as duas formulações toma-se menos evidente,
confirmando a tendência dos valores do IQAB aproximarem-se e tomando a comparação entre distintas
águas naturais menos acurada. Neste contexto, seguindo tendência de diversos órgãos ambientais em
relação ao IQA, recomenda-se o emprego do IQAB na forma do produtório, como ferramenta mais
fidedigna para avaliação da tratabilidade das águas naturais.
C A P ÍT U L O 03
Por fim, valendo-se dos dados operacionais diários de janeiro a março de 2008, detenninaram-se
os valores do IQAB para água natural afluente a quatro estações de médio e grande porte. Na tabela 3.5
apresentam-se tais resultados.

Tabela 3.5. Valores do IQAB e tipos de captação.


Estação d fazâo M édia
Sq Captação ' IQAB som atório IQAB p ro d u tó rio
Tratam ent (L/s)
1 Direta 380 92,19 91,90
2 Direta 700 74,01 69,33
3 Direta 5800 55,94 42,57
4 Reservatório de acumulação 3400 77,24 74,39 ;

- A despeito da exiguidade da amostra, interessante observar tendência dos valores do IQAB


reduzirem com o tempo de operação dos sistemas. Os dois sistemas com menores valores do IQAB,
para ambas formulações, foram implantados há mais de 40 anos, tomando-os mais susceptíveis aos
efeitos da ampliação do espaço urbano na alteração das características da água bruta. Corrobora esta
afirmativa os esforços empreendidos pela concessionária na tratabilidade do afluente à Estação 3,
que culminaram inclusive com a alteração do coagulante empregado após quase 20 anos de uso
ininterrupto.
Uma segunda constatação, similar à reportada para os resultados da tabela 3.4, remete à
tendência de equalização dos valores do IQAB em ambas formulações para águas naturais captadas
em mananciais mais preservados, caso específico do manancial cuja água bruta aflui à Estação 1.
A Evolução dos Padrões de' Potabilidade

no chapadão, ou q u a n d o os riachos c o rta m , muita


A n e s s a s viagens,
vez se tinha de matar a sede com águas quase assim, deitadas em
feio como um veneno - por não sermos senhores de nossas ações.

Guimarães Rosa - Noites do Sertão ( 1952)

Histórico
A possibilidade de se contrair doenças por meio da água foi há muito inferida pelo ser humano.
Hipócrates, na antiga Grécia - 460 a.C. fazia menção à importância da escolha dos mananciais
para abastecimento. Há registros da observação do cimrgião francês Ambroise Paré que, já no século
XVI, apontava como causa de doenças transmitidas por certas águas estagnadas a presença de animais
venenosos, tais como cobras, sapos, vermes e outros. Ainda que a comprovação da água como veículo
de doenças somente remonte aos meados do século XIX, era intrínseca a relação entre a maior
concentração de partículas e a perspectiva da presença de microrganismos patogênicos. Esta percepção
advinha em tempos remotos da contínua e inadequada deposição dos excretas no solo, posteriormente
arrastados pelas chuvas. Desta forma, à elevação da turbidez associava-se a possibilidade - que com
razoável frequência se confirmava - de transmissão de doenças graças ao aporte de microrganismos
aos corpos d’água. Tais motivos estéticos provavelmente tomaram a filtração e, principalmente, a
decantação como as formas.mais antigas de tratamento da água para consumo humano, objetivando
tão somente a remoção de partículas suspensas e odor.
A confirmação de tais suspeitas emergiu após a constatação empírica realizada pelo médico
inglês John Snow em 1855 - validada por Louis Paster quase 10 anos depois. Snow logrou êxito
ao comprovar a associação entre uma epidemia de cólera no distrito de Broad Streçt (Londres), que
vitimara 521 pessoas, e o abastecimento de água. Constatou que a população atingida pela moléstia
se abastecia por intermédio de um poço freático, contaminado por esgotos, situado no centro de uma
área da ordem de três hectares. Como aquela água era translúcida e dotada de sabor e odor agradáveis,
mesmo moradores que não residiam ou frequentavam aquela região a utilizavam para consumo.
■; Interessante ressaltar que a primeira edição da Enciclopédia Britânica (1771) fazia menção à filtra­
ção como forma de assegurar a limpidez das águas de consumo e que três anos antes uma lei municipal
promulgada recomendava que toda água servida à população londrina deveria ser submetida à filtração,
decorrente da percepção que a qualidade da água transcendia aos aspectos visuais e de sabor e odor.
Após os estudos de Snow e de Pasteur, sucederam-se a identificação e a classificação dos
agentes patogênicos causadores de diversas doenças de transmissão hídrica, tais como a febre tifoide
(1880), a cólera (1884), a disenteria (1898) e a febre paratifoide (1900).

Evolução dos padrões de potabilidade americanos


O primeiro sistema de abastecimento de água na América do Norte, empregando tubos de
madeira, data provavelmente de 1799, na cidade de Philadelphia (EUA), e no início do século (1900)
mais de 3000 sistemas já haviam sido implantados nas cidades americanas e contribuíram para
inúmeros surtos de doenças de transmissão hídrica. A preocupação com o padrão de potabilidade nos
EUA iniciou-se somente em 1914, referenciando-se tão somente à contaminação bacteriológica. O
padrão de potabilidade recomendava limite de 100 organismos/mL, para contagem de bactéria em
placa, e uma das cinco porções de 10 mL de cada amostra podería apresentar bactéria coliforme.52
Em 1925, a revisão do padrão de potabilidade vigente objetivou refletir os bons resultados
alcançados na redução dos surtos das doenças de transmissão hídrica por meio do tratamento das
águas de abastecimento, especialmente com advento da cloração. Foram inseridas recomendações
acerca da definição e proteção dos mananciais de abastecimento dos efeitos da poluição. Embora ainda
sem especificar a periodicidade e o número de amostras, os limites bacteriológicos tomaram-se mais
restritivos - no máximo 5 % das amostras poderíam conter B. coli -, bem como os aspectos estéticos.
A água de consumo deveria ser inodora, sem gosto, isenta de cor, além de não conter substâncias
minerais solúveis ou substâncias químicas utilizadas no tratamento. Estabeleceu-se o limite para
coliformes de 1 organismo/mL e foram inseridos pela primeira vez limites para chumbo, cobre, zinco,
ferro, entre outros. Interessante mencionar que a concentração máxima de ferro (0,3 mg/L) e o limite
de cor aparente (10 uH) estabelecidos neste padrão de potabilidade são ainda vigentes.
Sucessivas revisões ocorreram em 1942 - na qual foram pela primeira vez inseridos o número e
os pontos de amostragem para as análises bacteriológicas na rede de distribuição - , 1946 e 1962. Este
ultimo, que vigeu até dezembro de 1975, além da inserção de novos parâmetros, aludia à necessidade da
operação do sistema de abastecimento de água ser realizada sob supervisão de profissional qualificado.
Na tabela 4.1 apresenta-se síntese da evolução destes padrões de potabilidade.

Tabela 4.1. Evolução dos primeiros padrões de potabilidade americanos.


P a râ m e tro - 1914 1925 1942 1946 1962
Turbidez (uT) X X X 10 5***
Cor aparente (uH) X 20 (preferentemente 10) X 20 15
Arsênío (mg/L) X X X X 0,01
Cloreto (mg/L) X 250 250 250 250
Cobre (mg/L) X X 3,0 3,0 1,0
Fenóis (mg/L) X X 0,001 0,001 0,001
k k
Ferro (mg/L) X 0,3 0,3
Fluoreto X X X X 0,8 a 1 ,7 ****
Manganês (mg/L) X X * * 0,05
Nitrato (mg/L) X X X X 45**
Coliforme N M P < 2,2 N M P < 1,0 org/100 mL NMP < 1,0 org/100 mL Idem 1942 Idem 1942
org/100 mL
Número mínimo Não Não especificado Número mensal depen­ Idem 1942 Idem 1942 com
de amostras especificado dendo da população número mensal maior
abastecida
* A concentração de ferro e manganês inferior a 0,3 mg/L; ** Para concentração maior o consumidor deverá ser orientado a não utilizar água para
alimentação de bebês; *** Monitoramento mínimo semanal; **** Variável em função da temperatura média do ar.

Fonte: AWWA - American Water Works Association (1971).

52. Na realidade, à época, a designação referia-se a Bacterium coli e o termo grupo coliforme foi inserido no
Padrão de Potabilidade de 1942.
CAPÍ TUL O 04

9 2
Apesar deste esforço, levantamento realizado em 1969 - com vistas à revisão do padrão
de potabilidade de 1962 - apontou que 41 % dos sistemas de abastecimento não atendiam às
recomendações e limites estabelecidos, em um universo amostrai de 969 sistemas que respondiam por
12 % da população abastecida nos EUA. Este percentual era majoritariamente composto por pequenos
sistemas que abasteciam população inferior a 500 indivíduos e, embora a maioria da população
do país recebesse água de qualidade adequada, aproximadamente 360 mil pessoas recebiam água
potencialmente danosa à saúde (Pontius; Clark, 1999).
Nos EUA, cuja qualidade da água é regulamentada pela USEPA {UnitedStates Environmental
Protection Agency), já em 1974 o padrão de potabilidade recomendava turbidez efluente máxima de
1,0 u T - somente posta em prática no Brasil 18 anos mais tarde - , pois havia confirmações científicas
acerca da influência da presença de partículas coloidais e suspensas minimizando a eficiência da
cloração. Em relação a esta característica física, por exemplo, seus limites foram primeiramente
regulados em 1974 pelo SDWA (Safe D rink Water Act). A época, estabeleceu-se exigência de 1 uT
para o efluente combinado dos filtros em uma amostra por dia sendo 5 uT o valor máximo permitido.
Em 1989 foi promulgado o SWTR (Surface Water Treatment Rule) reduzindo os limites para 0,5 uT
para amostras coletadas a cada 7 horas, mantendo o valor máximo na rede de distribuição em 5 uT.
Atualmente, as legislações têm se tomado progressivamente mais complexas estabelecendo 0,3 uT
para água monitorada de cada filtro e 0,1 uT como meta a ser atingida. Esta progressiva redução do
limite de turbidez nos padrões de potabilidade fundamentou-se, muito mais do que razões estéticas,
na comprovada proteção dos microrganismos à ação do desinfetante exercida pelas partículas
suspensas, e também como consequência do mencionado surto de criptosporidiose ocorrido em
Milwaukee em 1993.
No período de 1998 a 2004, foram estabelecidas dez novas regulamentações. Dentre estas
destaca-se a D/DBPR (Stage 1 Desinfectants/Disinfection By-products Rule) que exige remoção
mínima da matéria orgânica em termos de COT (Carbono Orgânico Total), condicionada à
magnitude deste parâmetro e da alcalinidade na água bruta, com o intuito de diminuir a formação de
subprodutos da desinfecção com compostos de cloro. Como será abordado no Capítulo 7, sabe-se
que a remoção de matéria orgânica, usualmente monitorada em termos de cor verdadeira ou COT,
na coagulação faz-se com maior eficiência em valores de pH mais baixos. Desta forma, a remoção
recomendada de COT baliza-se em três intervalos de alcalinidade (inferior a 60 mg/L C aC 03, entre
60 e 120 mg/L C aC 03 e superior a 120 mg/L C aC 03) e três de COT (de 2 a 4 mg/L, de 4 a 8 mg/L
e superior a 8 mg/L).

Evolução dos padrões de potabilidade nacionais

No Brasil, somente em 1977 com o advento da Portaria 56 foi estabelecido o primeiro padrão de
potabilidàde definindo os limites máximos para as diversas características físicas, químicas e biológicas
inerentes às águas de consumo humano (Ministério da Saúde, 1977). Até então, recomendações do
Serviço Norte-Americano de Saúde Pública (UnitedStates Public Health Service) constituíam o único
balizador em relação à qualidade da água potável. Posteriormente, enfocando publicação anterior
da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Ministério da Saúde publicou, em janeiro de 1990, a
Portaria 36 aumentando o número de parâmetros e tomando alguns limites mais restritivos (World
Healthy Organization, 1983). Tais restrições culminaram com a postergação para janeiro de 1992 da
implementação desta Portaria, por solicitação de prefeituras, companhias estaduais de saneamento e
autarquias municipais responsáveis pela administração dos sistemas de abastecimento de água do País
(Ministério da Saúde, 1990).
C A PI TU L O 04

93
Posteriormente, após amplo processo de revisão da Portaria 36 integrando diversos segmentos
relacionados ao tema, foi publicada em dezembro de 2000 a Portaria 1469, com implementação
efetivada em j aneiro de 2003.
Em junho do mesmo ano, foi instituída a Secretaria de Vigilância em Saúde (SYS) do
Ministério da Saúde que assumiu as atribuições do Centro Nacional de Epidemiologia (Cenepi),
até então localizado na estrutura da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Em virtude desse novo
ordenamento na estrutura do Ministério da Saúde, a Portaria 1469 foi revogada, passando a vigorar a
Portaria 518 de março de 2004a mantendo-se inalterados o número e os valores máximos permissíveis
de cada parâmetro. As alterações processadas referem-se tão somente à transferência de competências
da Funasa para SYS e à prorrogação no prazo para que as instituições ou órgãos aos quais a Portaria
se aplica promovessem as adequações necessárias ao seu cumprimento. Estas adequações concernem
ao tratamento por filtração de água captada em manancial superficial e distribuída por meio de
canalização, e à obrigação do monitoramento de cianobactérias e cianotoxinas.
A significativa evolução do número de parâmetros contemplados nas três portarias brasileiras
é apresentada na figura 4.1.

Figura 4.1. Número de parâmetros contemplados no padrão de potabilidade estabelecido pelas três portarias.

Na figura 4.2 apresenta-se a discriminação do tipo dos parâmetros integrantes destas portarias.

251 □ Portaria 56/1977 22


■ Portaria 36/1990
| 20 - ■ Portaria 518/2004 18
17
14
f 15' 13
i? 24
10
1« 10'
E
3 5-

Inorgânicos Orgânicos Agrotóxicos Subprodutos Aceitação

Tipo de parâmetro

Figura 4.2. Discriminação da natureza dos parâmetros das três portarias nacionais (Bastos, 2003).

Além dos 22 parâmetros inseridos na Portaria 518 que não constavam na Portaria 36,
foram incluídos alguns agrotóxicos53 como Atrazina e Glifosato, o último por ser o herbicida mais
comercializado no País a despeito da toxicidade menos significativa. Foram mantidos alguns

53. Na realidade, trata-se de herbicidas organinitrogenados de uso intensivo no País, pois se estima que 60 % dos
agrotóxicos comercializados sejam desta natureza.
CA PÍTULO 04

94
agrotóxicos organoclorados não mais comercializados no Brasil - Aldrin, Endrin, Dieldrin e DDT
mas de alta persistência no solo e, por conseguinte, nas águas e que frequentemente se manifestam em
monitoramentos em bacias hidrográficas nas quais há atividade agrícola.
Além do padrão de potabilidade, a Portaria 518 estabeleceu os procedimentos e responsabilidades
relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano. Questões importantes
foram contempladas, implicando em significativo avanço, tanto em termos da abrangência da legislação,
definição mais clara de papéis dos diversos órgãos envolvidos, como com respeito ao próprio padrão
de potabilidade. Neste último, pode também ser destacada a inserção de cianobactérias - à época de
forma inédita em relação aos padrões internacionais - e, como meta, de víms e protozoários, assim
como a definição de um padrão microbiológico diferenciado em função das fontes ou sistemas de
distribuição.
Entre os parâmetros orgânicos contemplados na Portaria 518 estabelece a concentração
máxima para microcistina - hepatotoxina produzida por algumas espécies de cianobactérias, confor­
me mencionado no Capítulo 2 - de 1,0 pg/L, sendo aceitável 10 pg/L em até três amostras em
período de 12 meses. No mesmo viés, há recomendação das análises de cianotoxinas também incluir
saxitoxina e cilindrospermopsina, cujas concentrações máximas são 3,0 e 15,0 pg/L de equivalentes
STX, respectivamente. Em termos de monitoramento de cianobactérias na água bruta, a Portaria 518
enfatiza que o mesmo deverá ser mensal quando o número de células for menor que 10000 células/mL
e semanal se superior. Caso o número de cianobactérias na água bmta exceda 20000 células/mL, o
monitoramento deverá se estender para o efluente da estação, entrada de clínicas de hemodiálise e
indústrias de injetáveis. Esta ampliação do monitoramento toma-se dispensável caso os resultados em
bioensaios com camundongos atestem a ausência de toxicidade da cianotoxina. Outras cianotoxinas não
foram inseridas pela inexistência de técnicas de detecção padronizadas e pela necessidade de maiores
informações.
Uma das importantes premissas estabelecidas pela Portaria 1469 refere-se ao controle e à
vigilância da qualidade de água. O primeiro é realizado pela concessionária responsável pela operação
do serviço de abastecimento de água - companhia estadual de saneamento, autarquia municipal,
prefeitura ou empresa privada - , incluindo o controle operacional de todas as etapas do sistema de
abastecimento, quais sejam, captação, adução, tratamento, reservação e distribuição. Neste contexto, a
Portaria 1469 integra diversas formas de abastecimento não contempladas pela Portaria 36, tais como
clubes, condomínios, hotéis etc., atribuindo ao responsável pela operação assegurar a qualidade da
água de consumo. A realização da vigilância cabe ao Ministério da Saúde, por meio das secretarias
estaduais, de forma a verificar se a água distribuída atende às premissas estabelecidas pelo padrão de
potabilidade, além de avaliar os riscos à saúde da população abastecida.
Esta recomendação é consoante com a agência norte-americana de proteção ao meio ambiente
no que tange às normas para o tratamento de águas superficiais, estabelecendo que toda água a ser
distribuída coletivamente deva ser submetida à desinfecção e as águas captadas superficialmente
também à filtração (USEPA, 1989). Ainda relacionadas ao tratamento, duas outras importantes
recomendações da Portaria 518 referem-se aos pontos de amostragem para água filtrada e às condições
para desinfecção com compostos de cloro, em termos de tempo de detenção mínimo de 30 min, pH
inferior a 8,054, concentração mínima de cloro residual livre de 0,5 mg/L e manutenção de 0,2 mg/L
em qualquer ponto da rede de distribuição.
Em relação ao limite máximo para turbidez da água tratada, a Portaria 518 recomenda que
tal determinação se realize, preferencialmente, valendo-se do efluente de cada unidade filtrante. Esta

54. Conceito a ser abordado no Capítulo 13 que se refere à menor eficiência da cloração para valores de pH
superiores a 7,0, em razão da menor formação do ácido hipocloroso.
recomendação apoia-se no usual aumento da turbidez da água filtrada após a correção do pH, sobretudo
quando do emprego da cal hidratada para tal fim. Optou-se pela manutenção do limite anterior de
1,0 uT enfatizando, contudo, a importância de produzir água filtrada com turbidez inferior a 0,5 uT
em 95 % dos dados mensais, visando a maximizar a remoção de cistos e oocistos de protozoários, áo
contrário de vírus e bactérias, reconhecidamente mais resistentes à desinfecção. Desta fonna, espera-
-se obter conjuntamente na filtração e desinfecção remoção de 3 log de cistos de Giardia e 4 log de
viras.
O limite menos exigente para efluentes de filtros lentos decorre da comprovada maior eficiência
dessas unidades na inátivação/remoção de microrganismos, consequência dos mecanismos biológicos
que se sucedem no meio filtrante, a despeito do efluente poder apresentar turbidez mais elevada.
A Portaria 518 corrobora tendência internacional de considerar a determinação de E. coli como
indicador de contaminação fecal recente, pois, conforme assinalado no Capítulo 2, o termo ‘coliformes
fecais’ abarca espécies não exclusivamente de origem fecal. Nesta vertente, para água de consumo a
Portaria 518 recomenda a ausência de E. coli em qualquer amostra e como indicador da eficiência do
tratamento - e não de qualidade da água bruta - o emprego de coliformes totais. Esta premissa embasa-
se na eventual contaminação na rede de distribuição, mesmo que o efluente da estação apresente
qualidade microbiológica adequada. Tal se deve pela possibilidade de coliformes tennotolerantes
desenvolverem-se nas tubulações, caso haja disponibilidade de nutrientes, cloro residual nulo e
temperatura da água superior a 13 °C (Bastos et al., 2001).
Consoante com tendência dos padrões internacionais, a Portaria 518 não estabelece valor
numérico para vírus. Limitações em termos de custo, do número - existem mais de 120 tipos de vírus
entéricos e muitos sem técnica analítica estabelecida - e da complexidade dos testes restringiríam sua
análise rotineira a poucas estações.
A tabela 4.2 apresenta comparação entre os valores máximos permissíveis para alguns parâme­
tros contemplados pelas três portarias brasileiras.

Tabela 4.2. Limites máximos permissíveis de alguns parâmetros constantes nos sucessivos padrões de potabili-
dade brasileiros.
Parâmetro Portaria 56/1977 Portaria 36/1990 Portaria 518/2004
Turbidez (uT) 5 1 1*
Cor Aparente (uH) 20 15
Dureza Total (mg/L CaC03) X 500 500
Ferro Total (mg/L) 1 0,3 0,3
Manganês (mg/L) 0,5 0,1 0,1
pH X 6,0 a 8,5 6,0 a 9,5
Arsênio (mg/L) 0,1 0,05 0,01
Alumínio (mg/L) 0,1 0,2 0,2
* Valor recomendado para o efluente da estação podendo atingir excepcionalmente 5 uT na rede de distribuição, enfatizando turbidez inferior a
0,5 uT, para efluentes de filtros rápidos, e a 2,0 uT para efluentes de filtros lentos; ** Valor recomendado para o efluente da estação podendo atingir
. 15 uC na rede de distribuição.

Da análise da tabela 4.2 infere-se que para os parâmetros listados houve significativa redução
dos valores máximos permissíveis entre as portarias 56/1977 e 36/1990, à exceção do alumínio - cuja
suspeita recai na possibilidade de transmissão do Mal de Alzheimer. Esta redução foi corroborada
posteriormente pela Portaria 518/2004 (1469/2000), à exceção da cor aparente, da maior amplitude de
pH e da concentração de arsênio. Para o último, cabe registrar as consecutivas reduções dos valores
máximos permissíveis nas três portarias. Em termos gerais, de um total de 24 substâncias químicas
constantes na Portaria 36 mantidas pela Portaria 518, 14 tiveram seus valores máximos permissíveis
reduzidos e 5 elevados.
Um dos significativos avanços da Portaria 518 centra-se nos planos de amostragem, a serem
executados pelos responsáveis pelo controle da qualidade de água como uma das ferramentas de
avaliação de risco. Tais planos contemplam, de forma inédita no País, número mínimo de amostras em
função do ponto de amostragem - captação, efluente dos filtros, saída da estação e rede de distribuição
do tipo de manancial - superficial ou subterrâneo - e da magnitude da população abastecida. A
frequência de determinação de cada parâmetro varia com o custo e a complexidade da análise, com
o tipo de manancial e sua importância para avaliação de risco. Diversas análises na água distribuída
somente deverão ser realizadas, caso no monitoramento da água bruta ou no efluente da estação, tais
parâmetros se manifestarem.
Outros avanços compreenderam:
• a definição mais clara dos papéis/competências no que concerne à vigilância (setor de
saúde) e o controle (prestadores de serviços);
• a incorporação do conceito de avaliação sistêmica ao considerar a importância de se verificar
a qualidade da água desde o manancial até o ponto de consumo;
• a inclusão do conceito de solução alternativa de abastecimento de água;
• a assinalada exigência de desinfecção para toda água distribuída coletivamente.

Na tabela 4.3 apresenta-se comparação entre os padrões de potabilidade nacional e interna­


cionais para alguns parâmetros físicos e químicos, na qual se destaca a consonância dos valores
máximos permissíveis estabelecidos pela Portaria 518 com os vigentes em nível internacional.

Tabela 4.3. Limites máximos permissívèis de alguns parâmetros constantes em padrões de potabilidade inter­
nacionais.
Parâmetro \
Brasil OMS CEE**** EUA Canadá1
11
País ou Entidade .
Turbidez (uT) 1 5 X 0,3* 1,0**
Cor Aparente (uH) 15 X X 15 "j I J * * *

Ferro Total (mg/L) 0,3 0,3 0,1 0,3 0,3


Manganês (mg/L) 0,1 0,1 0,05 0,05 0,05
pH 6,5-9,5 6,5-8,5 X 6,5 - 8,5 6,5 - 8,5
[1] Health Canada (abr. 2004).
* Valor máximo permitido para 95% das amostras diárias em qualquer mês, não podendo exceder 1,0 uT, recomendando-se 0,1 uT; ** Não há
menção ao número de amostras e permite-se até 5,0 uT na rede de distribuição; *** Em termos de cor verdadeira; ****Comunidade Econômica
Européia.

Especificamente em relação ao Canadá, o padrão de potabilidade da província de Alberta no


que tange aos limites de turbidez, além de significativamente mais restritivo que o nacional, apresenta
algumas considerações interessantes. Faz-se distinção do valor máximo pennissível em função da
turbidez da água bruta. Para turbidez superior a 2,5 uT o efluente deve apresentar máximo de 0,5 uT
em 95 % das leituras realizadas a cada mês, não excedendo 1,0 uT em mais de 4 % das leituras mensais
e nunca superando 2,0 uT. Para água bruta com turbidez inferior a 2,5 uT, estabelece-se um mínimo
de 80 % de remoção média mensal - com a remoção média diária nunca inferior a 50 % - ou água
filtrada com turbidez inferior 0,1 uT. Adicionalmente, recomenda-se remoção mínima de 2,5 log e
2,0 log de partículas maiores que 2 pm, para estações com tecnologia convencional e filtração direta,
respectivamente, como forma de também otimizar a remoção de cistos e oocistos de protozoários.
Por fim, para as estações de tratamento por filtração lenta, de emprego restrito no País, o valor
máximo permissível é 1,0 uT em 95 % das leituras mensais, nunca devendo exceder 5,0 uT (Alberta
Environmental Protection, 1997).
As novas tendências internacionais de regulamentação dos padrões de potabilidade da água
indicam preocupação crescente com a presença de novos contaminardes orgânicos e inorgânicòs,
bem como com a introdução, na água, de numerosos subprodutos do próprio processo de tratamento.
Nesse particular, objetiva-se controlar, em especial, os subprodutos introduzidos pelos processos
de desinfecção, seja pelo emprego do cloro, seja pela utilização dos denominados desinfetantes
alternativos aos compostos de cloro.
Com alguma frequência, as revisões dos padrões de potabilidade de água para consumo
são motivadas por surtos ou eventos de contaminação que terminam por direcionar os esforços da
comunidade científica. A despeito desta evidência, a evolução das três portarias nacionais permite
supor que os futuros padrões de potabilidade no Brasil haverão de enfocar duas premissas básicas:
maior número e valores máximos permissíveis mais restritivos para alguns parâmetros de controle, e
aspectos relacionados à vigilância da qualidade de água para consumo humano.

P arâm etros de con trole da qualidade de água


Os parâmetros de controle devem se centrar nos compostos orgânicos e agrotóxicos, nos
denominados patógenos emergentes - em especial cistos e oocistos de protozoários e cianobactérias
(cianotoxmas) -, em algumas substâncias inorgânicas, e, em um delineamento de mais longo prazo,
nos subprodutos da desinfecção.
A expectativa de crescimento do aporte de agrotóxicos aos mananciais de abastecimento
justifica-se pelo incremento da agricultura no País, uso indiscriminado e desenvolvimento científico
que certamente culminará com o surgimento de novos produtos. Exemplifica esta suposição o fato
de, dos 22 agrotóxicos inseridos no atual padrão de potabilidade, 11 não constar na Portaria 36, além
dos que foram excluídos. Adicionalmente, conforme mencionado, verificou-se nítida supremacia na
redução dos valores máximos permissíveis. A perspectiva do aumento do número de parâmetros desta
natureza fundamenta-se também na última edição de 2004 dos Guias da OMS para águas de consumo
humano no qual são incluídos quatro novos compostos orgânicos, originários de atividades antrópicas
de cunho predominantemente industrial, e 17 novos agrotóxicos (World Healthy Organization, 2004).
Entre os compostos orgânicos sintéticos, recentemente o MTBE (metil terciário butil éter),
confonne salientado no Capítulo 2, passou a ser considerado como passível de conferir odor e sabor
às águas de consumo. Embora de presença mais comum em aquíferos freáticos pela contaminação
por postos de combustíveis, o MTBE pode atingir reservatórios e cursos d ’água por meio de emissões
de motores de barco e também redes de distribuição por eventos relacionados a pressões negativas e
vazamentos. A Portaria 518 não contempla tal composto, ao passo que o padrão canadense estabelece
o limite de 15 pg/L, da mesma ordem de grandeza do adotado em alguns estados americanos. Estima-
-se que concentrações inferiores a 40 pg/L não causem efeitos deletérios à saúde nem, para a maioria
das pessoas, sensação de odor e sabor que poderia concorrer para rejeição da água distribuída.
A sucessão de recentes pesquisas, significativamente motivadas pelo surto de Milwaukee
em abril de 1993, descortinou uma série de premissas relacionadas ao tratamento das águas de
abastecimento visando à remoção de Giardia e Ciypto que já repercutem no citado contexto de padrões
de potabilidade mais restritivos:
i) necessidade de produção de efluente da estação de tratamento de água com turbidez inferior
a 0,2 uT, para, nestas condições, alcançar até 3 log de remoção de cistos de Giardia.
Confonne mencionado, alguns estados dos EUA e províncias canadenses têm restringido
este parâmetro para 0,1 uT, objetivando maximizar também a remoção de Ciypto;
ii) controle do tamanho das partículas presentes na água filtrada de dimensões compatíveis à
dos cistos e oocistos (4 a 14 pm);
iii) em idênticas condições de tratamento, os oocistos são removidos à razão de 0,4 log inferior
em relação aos cistos;
iv) remoção de turbidez superior a 90 % assegurando eficiência mínima de 2 log para cistos e
oocistos;
v) remoção inferior a 90 % de turbidez nas estações deve assegurar eficiência mínima de 2 log
para cistos e oocistos de protozoários;
vi) concentrações máximas de cistos e oocistos de 7 x 10~6 e 3 x 10'5 org/L, respectivamente,
visando ao atendimento do grau de risco aceitável nos EUA, de uma infecção anual por
10 mil habitantes.

Neste cenário, ainda que tenham sido estabelecidas como meta, é razoável supor que eventual
revisão da Portaria 518 pode contemplar a redução do valor máximo permissível para turbidez da água
filtrada. Tal suposição calca-se no fato das análises de protozoários serem dispendiosas, demoradas,
de resultados imprecisos, requerem elevado grau de capacitação técnica e praticamente inaplicáveis
na quase totalidade das concessionárias de abastecimento de água do País. Como os protozoários
apresentam maior resistência aos processos de desinfecção, sobretudo com compostos de cloro, as
etapas da potabilização nas quais se otimiza a redução da turbidez - decantação e filtração para as
estações convencionais - haverão também de remover cistos e oocistos de protozoários. Desta forma,
a turbidez da água filtrada destaca-se como bom indicador da eficiência do tratamento, maximizando
a possibilidade de remoção destes microrganismos.
-A característica de indicador de performance do tratamento atenua-se para águas naturais de
turbidez muito baixa, por exemplo inferior a 3 uT, comumente captadas em grandes reservatórios de
acumulação. Conforme mencionado no Capítulo 2, esta premissa reforça-se pela ocorrência do surto de
criptosporidiose em Las Vegas em 1994. Naquela ocasião, a água bruta afluente à estação de tratamento
era praticamente pristina, captada em um grande reservatório de acumulação, dada a turbidez média
de apenas 0,14 uT e ausência de E. coli. Vale ressaltar que não houve registros de falhas no tratamento
- turbidez efluente média de 0,09 uT - e em todas as amostras de água filtrada não foram detectados
oocistos de Crypto. A crença na ocorrência do surto fundamentou-se no fato de parcela significativa
das pessoas atingidas portadoras do vírus HIV (63), de um total de 78, consumirem água do sistema de
abastecimento, ao passo que outros indivíduos igualmente portadores do vírus que utilizavam água mineral
não foram acometidos. Este surto confirma a baixa dose infectante deste protozoário, principalmente para
indivíduos com sistema imunológico comprometido (Roefer; Monscvitz; Rexing, 1996).
Nesta perspectiva, por serem mais precisos para águas com turbidez inferior a 0,1 uT,
os contadores de partículas, com detectores individualizados para cada unidade filtrante, vêm
progressivamente tomando-se usuais nas estações de tratamento de água dos países mais desenvolvidos.
Todavia, o elevado custo de tais equipamentos tende a postergar para mais longo prazo o uso na rotina
operacional das estações brasileiras, especialmente nas unidades de pequeno e médio porte.
Na prática, a maioria das estações de tratamento nos EUA, Canadá, Austrália e vários países
europeus adota limite para este parâmetro inferior de 0,3 uT, frequentemente menor que 0,1 uT, como
forma de otimizar a remoção de cistos e ooccistos de protozoários. Vale ressaltar que durante o famoso
surto de criptosporidiose de Milwaukee (Wiscosin, EUA) - no qual se estima que tenha acometido
mais de 403 mil pessoas - problemas operacionais fizeram com que a estação de tratamento produzisse
água filtrada com turbidez variando de 0,1 a 2,7 uT.
Em termos microbiológicos, o emprego da determinação de E .coli para água bruta, apesar de
fornecer informação fidedigna acerca da contaminação de origem fecal, não assegura a ausência de
cistos e oocistos de protozoários mesmo para águas isentas desta bactéria pela existência de reservatórios
destes microrganismos no reino animal. Desta forma, a conjunção da análise de coliformes totais e
turbidez do efluente dos filtros das estações há de conferir maior garantia da qualidade microbiológica
da água para consumo no que se refere à ausência de protozoários.
Também relacionada à progressiva deterioração dos corpos d’água, a presença de cianobactérias
tem se tomado frequente em praticamente todas as regiões do País. Conforme ressaltado, a Portaria
518 contemplou de forma inédita a análise de microcistina e abre-se a perspectiva que também a
determinação de saxitoxina e cilindrospermopsina seja inserida nos futuros padrões de potabilidade e
não apenas como recomendação de análise.
Algumas substâncias inorgânicas, cujos valores máximos permissíveis na Portaria 518 são
praticamente os mesmos estabelecidos pela OMS, podem ser alvo de futuras alterações, limitadas
nesta redução pelos limites de detecção de cada elemento. Dentre estas, destacam-se o alumínio, o
arsênio e o cromo, em função das pesquisas ora em curso acerca das concentrações capazes de induzir
efeitos deletérios sobre a saúde humana.
Em relação ao alumínio somam-se dois fatores: é o mais abundante elemento metálico na crosta
terrestre, à razão da ordem de 8 %, e, sobretudo na forma de sulfato de alumínio, extensivamente
utilizado na potabilização das águas para consumo. Há indícios que o Mal de Alzheimer esteja
relacionado à progressiva ingestão de alumínio, suspeita que explica limites inferiores adotados nos
EUA e Canadá (0,1 mg/L) aos do padrão de potabilidade nacional (0,2 mg/L). Minimiza tal indício
estimativa de que um indivíduo consumindo algo como 2 L diários de água com concentração de
alumínio desta magnitude, este volume responderá por menos de 2 % do total ingerido com o restante
advindo dos alimentos. Outras estimativas reportam-se a menos de 5 %.
0 arsênio provavelmente é a substância sobre a qual recaem as mais fortes evidências das
propriedades carcinogênicas por meio de diversos estudos epidemiológicos. Conforme evidencia a
tabela 4.2, houve três sucessivas reduções e o valor máximo permissível (0,01 mg/L), é ainda inferior
ao adotado no Canadá (0,005 mg/L). Este valor estabelecido pela Portaria 518 coincide com o padrão
americano, que somente começará a vigorar em 2006. O limite de detecção pode ser 0,1 ou 2 pg/L, em
função da técnica utilizada.
Da mesma forma, a concentração máxima de cromo foi significativamente reduzida nos dois
últimos padrões de potabilidade nacionais (de 0,1 para 0,05 mg/L), consoante com o padrão canadense.
Pesquisas em cobaias com cromo trivalente não apontaram efeitos carcinogênicos por ingestão oral.
Para o cromo hexavalente confirmou-se sua propriedade carcinogênica por inalação e ainda pairam
incertezas acerca da ingestão oral. O limite de detecção para cromo total varia de 0,05 a 0,2 pg/L.
Na última premissa, a referida evolução dos padrões de potabilidade culminou com a inserção
dos trihalometanos (THM), no final da década de 1970 no padrão americano e que foi contemplado
no País pela Portaria 36/90, como parâmetros de qualidade de água para consumo humano em função
de possíveis propriedades carcinogênicas. Estes compostos constituem-se subprodutos da cloração de
águas com teor de matéria orgânica e consistem nas seguintes espécies químicas principais: clorofórmio
(triclorometano), bromodiclorometano, dibromoclorometano e bromofórmio (tribromometano). Mais
recentemente foram também inseridos no padrão de potabilidade americano os ácidos haloacéticos
(AHA) como subprodutos da desinfecção com concentração máxima permissível de 60 pg/L.
A partir do início da década de 1970, diversos estudos toxicológicos e epidemiológicos
realizados nos EUA apontaram a correlação entre o emprego de compostos de cloro e as propriedades
carcinogênicas dos subprodutos da desinfecção. Conforme anteriormente assinalado, tais pesquisas
culminaram com a inserção em 1979 pela USEPA da concentração máxima permissível de 100 pg/L,
posteriormente reduzida para 80 pg/L, dos compostos THM nas águas de abastecimento. Todavia,
permanecem incertezas quanto à real toxicidade destes compostos comparada ao risco biológico que
CAPÍTULO 04

ÍO O
a redução das dosagens de cloro podería redundar. Tais incertezas confirmam-se pela amplitude de
variação das concentrações máximas apresentada na figura 4.3. Esta amplitude, no que concerne
aos países desenvolvidos, foi minimizada pela alteração no padrão de potabilidade canadense da
concentração máxima permissível de 350 para 100 pg/L, em vigor a partir de janeiro de 2005.

Valor máximo permissível (ug/L)

Figura 4.3. Concentração máxima permissível de THM em águas de abastecimento de alguns países.

Dentre os países listados nafigura 4.3, vale destacar a concentração máxima de THM permissível
na França (10 pg/L). Não sem razão predomina neste país, como em nenhum outro de mesmo porte, a
utilização do ozônio como desinfetante para águas de consumo.
Como não podia deixar de ser, o valor máximo permissível para THM somente foi estabelecido
na Portaria 36, mantido pela Portaria 518 e acrescido de outros quatro subprodutos incluindo o
bromato. Embora o padrão americano inclua valor máximo para AHA, procedimento não seguido
pelo canadense, a Portaria 518 não estabelece este limite. Novamente reportando-se aos Guias da
OMS, foram inseridas cinco novas substâncias em termos de subprodutos com interessante variação.
Não se estabelece valor máximo para THM. Ao invés, discriminam-se os quatro subprodutos e
suas respectivas concentrações máximas: clorofórmio (200 pg/L), bromodiclorometano (60 pg/L),
dibromoclorometano (100 pg/L) e bromofórmio (100 pg/L). Assim, definiu-se valor limite igual a
unidade, compreendendo a soma dos quocientes de cada espécie com sua mencionada concentração
máxima (Heller et al., 2005).
Relacionada à formação de THM e outros subprodutos da desinfecção, a concentração máxima
permissível de COT pode ser contemplada nos próximos padrões de potabilidade - embora ainda não o
seja em nível internacional - também como indicador da magnitude da cor verdadeira (este parâmetro
contemplado no padrão canadense). O alto custo dos equipamentos de detecção de COT constitui
claro empecilho para as estações de pequeno e médio porte do País, nas quais ainda se emprega disco
comparador para determinação da cor. Na Portaria 518, este parâmetro aparece subliminarmente por
meio dos limites para cor aparente e turbidez, e na ausência de odor e sabor.
Em relação aos subprodutos da desinfecção importante distinção deve ser observada. Esta
preocupação surgiu nos EUA e estendeu-se aos países desenvolvidos onde não grassam - por infra-
estrutura sanitária consolidada e também por diferenças climáticas - endemias de transmissão hídrica
comuns nos países em desenvolvimento, especialmente os localizados entre os dois trópicos. Nesta
vertente insere-se o exemplo do sistema de abastecimento de água de Amsterdam, no qual não se
confere cloro residual na rede de distribuição (em etapa alguma do processo de tratamento este
desinfetante faz-se presente), ao passo que a Portaria 518 recomenda manutenção de concentração
mínima de 0,2 mg/L. A despeito da inexistência de reservatórios domiciliares - situação similar de
outros países como EUA e Canadá -, impondo a manutenção de pressões positivas na rede, as menores
possibilidades de disseminação de algumas doenças de transmissão hídrica favorecem este modelo
operacional.
Desta forma, nos países em desenvolvimento o controle do risco biológico deve se sobrepor
ao risco químico, cujo equilíbrio, em função da dosagem de desinfetante, exemplifica-se teoricamente
por meio da figura 4.4.

Dose desinfectante

Figura 4.4. Comparação entre o risco biológico e o de fonnação de subprodutos da desinfecção.

Esta premissa foi contemplada nos Guias da OMS que enfatizam a importância da manu­
tenção do cloro residual nas redes de distribuição - para minimizar o recrudescimento micro-
biológico - e o fato dos riscos à saúde decorrentes da formação de subprodutos da desinfecção
serem significativamente inferiores aos biológicos na perspectiva de disseminação de doenças de
transmissão hídrica.

Vigilância
Apreservação da saúde da população abastecida provém da conjunção de padrões de potabilidade
restritivos e a eficácia das ações de vigilância da qualidade de água. Esta constitui-se um rol de
atividades que visam a identificar e avaliar os potenciais riscos à saúde advindos da água de consumo.
Estas atividades podem englobar inspeções nas diversas etapas do sistema de abastecimento ou das
soluções alternativas, análise e auditoria dos dados operacionais, e avaliação das condições segundo
as quais estes dados foram gerados. Em última instância, cabe à vigilância atestar a performance do
responsável pela operação do sistema de abastecimento de água.
A confirmação da relevância das ações de vigilância aflorou em pesquisa desenvolvida pela
OMS, objetivando determinar a prevalência das doenças de transmissão hídrica em 26 países da Europa
no período 1986-96, apontou que metade dos surtos foi atribuída a bactérias - Shigella, E. coli, S. typhi,
entre outras -, com prevalência de protozoários em apenas de 7 % dos casos. Foram adequadamente
reportados 277 de um total de 778 surtos - dos quais 70 % com identificação do agente etiológico
- e mais de 54 mil de um total superior a 64 mil casos. Esta pesquisa concluiu que nos países onde
vigoram padrões de potabilidade e programas de vigilância de qualidade mais restritivos, tais como
Inglaterra, País de Gales e Suécia, verificou-se a predominância dos surtos causados por protozoários,
em especial Cryptosporidium. Em contrapartida, países dotados de infraestmtura sanitária mais frágil
tais como, Croácia, Hungria e República Tcheca - como também é o caso do Brasil, em muitos casos
com vulneráveis soluções alternativas individuais - apresentaram significativa incidência de doenças
de origem bacteriana (Kramer et al., 2001).
CA PÍTULO 04

]1 Ç ' 2 '
Em termos de qualidade microbiológica, a tabela 4.4 pode se constituir como parâmetro nortea-
dor de avaliação da eficiência do responsável pela operação do sistema de abastecimento, baseado nos
dados operacionais da água tratada.

T abela 4.4. Avaliação do sistema de abastecim ento em função da percentagem de amostras negativas
para exame de E. coli.
Q ualidade do sistema Intervalo de população abastecida (hab.)
de abastecim ento < 5000 5000 a 100000 > 100000
Excelente 90 95 99
Boa 80 90 95
Regular 70 85 90
Ruim 60 80 85

Interessante salientar que as históricas limitações operacionais dos pequenos sistemas de


abastecimento, mesmo nos países desenvolvidos, são contempladas nas premissas delineadas pela
tabela 4.4. A medida que as ações no controle da qualidade de água começam a ser implementadas
pelo responsável pela operação do sistema, toma-se mais simples avaliar seus resultados.
Em uma visão sistêmica, é possível se estimar que as questões relacionadas à preservação dos
mananciais de abastecimento tendem a se agravar com o correr dos anos. Particularmente quando os
limites da bacia hidrográfica estendem-se além da jurisdição do município. Nestas circunstâncias, os
comitês de bacia constituem o mecanismo viável para administrar inevitáveis conflitos. Em muitas
circunstâncias, há maior viabilidade econômica, e mesmo em termos de resultados, quando a atuação
ocorre de forma a reduzir o aporte do poluente ao manancial ao invés de inserir novos produtos no
processo de potabilização ou mesmo modificações na estrutura do tratamento.
Valendo-se dos resultados das análises microbiológicas e da inspeção sanitária, as ações de
vigilância poderão ser hierarquizadas conforme exemplificado na tabela 4.5.

T a b e la 4.5. Avaliação da prioridade das ações de correção aplicáveis aos sistemas de abastecimento.
Nível de risco detectado na inspeção sanitária =^>
1 õ~~ 1 I 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8
oQ) ;-4
0-0
0 u lilflBiB
'S.u-i
fl3 0>
u -o
Ev» ccp
m
fü CfO A
1j X
w flj Risco mínimo -
Sem necessidade ÍVÍ8
de ação a cã
A: situação plenamente satisfatória com nível de risco microbiológico mínimo.
B: situação Satisfatória com Baixo Nível de Risco Microbiológico.
C: situação marginalmente satisfatória com baixo risco microbiológico, mas com possibilidade de água com características químicas insatisfatórias.
D: insatisfatório nível de risco.
E: inaceitável nível de risco.

Fonte: World Healthy Organization (2004).

Como forma de favorecer as atividades de vigilância da qualidade da água, os Guias da OMS


preconizam a necessidade de, preferencialmente, cada sistema de abastecimento definir um Plano de
Segurança da Agua (Water Safety Plan) para avaliar o risco à saúde, contemplando todas as etapas
do manancial à ligação domiciliar. Desta forma, evidencia-se o conceito de múltiplas barreiras como
ferramenta para, elevando-se a qualidade da água tratada, minimizar os riscos à saúde.
O Plano seria elaborado por uma equipe multidisciplinar de especialistas composta por
engenheiros, especialistas em qualidade de água, em saúde pública e em meio ambiente, representantes
C A F Í ! ULO 043
0
1

103
da sociedade local (consumidores) e do órgão responsável pela operação do sistema de abastecimento,
e usuários da bacia hidrográfica (agricultores, pecuaristas etc.). A complexidade do Plano seria
variável em função do porte do sistema, no tipo e vulnerabilidade do(s) manancial(is) - que influencia
a magnitude do risco à saúde das características da equipe de operação, entre outros fatores. Os
principais objetivos do Plano são a proteção dos mananciais - minimizando as possibilidades de
contaminação -, a redução ou remoção dos contaminantes no tratamento e assegurar a qualidade da
água de consumo na reservação, distribuição e mesmo no uso pela população abastecida.
Este Plano deve abarcar três fundamentos essenciais:
i) avaliação do sistema como um todo, objetivando determinar sua capacidade de distribuir
à população abastecida água com qualidade de acordo com o padrão de potabilidade. Esta
premissa aplicar-se-ia também na avaliação dos critérios de projeto dos sistemas a serem
implantados;
ii) identificação no sistema de abastecimento, e posterior monitoramento, das medidas de
controle de risco;
iii) planos de gerenciamento descrevendo as ações a serem implementadas em situações de
operação normal e em condições emergenciais, contemplando inclusive programas de apoio
e planos de comunicação para com a população abastecida.

A sistematização proposta pela OMS para o Plano de Segurança da Agua pode ser sintetizada
em nove tópicos:

1. Documentação e descrição do sistema de abastecimento


(características da bacia hidrográfica, tipo de captação, tratamento e reservação)
li
2. Com base na avaliação e caracterização dos fatores de risco (causado por agentes biológicos,
químicos ou radiológicos), identificar as possibilidades de entrada destes no sistema
II
3. Avaliação do sistema de abastecimento
li
4. Identificação das medidas de controle por meio das quais os riscos podem ser controlados
li
5. Definição dos parâmetros, da frequência e dos pontos de monitoramento no sistema,
estabelecendo os limites de performance aceitável
li
6. Estabelecimento de procedimentos de verificação da eficiência do Plano (validação)
em relação às metas de preservação da saúde
D
7. Desenvolvimento de programas de apoio contemplando treinamento de pessoal, padronização de
procedimentos operacionais, práticas de higiene para população etc.
li
8 . Definição dos planos de gerenciamento para situações normais, anômalas e emergenciais
li
9. Estabelecimento de documentação e estratégias de comunicação
Para o êxito do Plano, toma-se fundamental que a avaliação do sistema contemple detalhada
caracterização do manancial, identificação das possíveis fontes de poluição pontual e difusa na bacia
hidrográfica e definição das medidas de proteção do manancial, além de descrição do tratamento,
reservação e rede de distribuição. Tais requisitos permitirão com maior acurácia avaliar como os
agentes químicos e biológicos podem penetrar no sistema e, consequentemente, as possibilidades de
risco à saúde.
Embora a Portaria 518 não faça menção à necessidade de um plano nos moldes do proposto
pela OMS, alguns sistemas de grande porte no País dispõem de estratégias semelhantes, ainda que
menos abrangentes. Dentre os nove tópicos definidos pela OMS, a maior distinção para com a
realidade brasileira no que tange a estes sistemas de abastecimento centra-se em especial na ausência
de um plano de gerenciamento para situações emergenciais (8) e do desenvolvimento de programas
de apoio mais abrangentes (7). Por outro lado, para significativa maioria dos sistemas de pequeno e
médio porte, as ações praticamente restringem-se ao atendimento ao padrão de potabilidade vigente
(5) e a algumas iniciativas isoladas versando sobre a racionalização do consumo de água e noções de
educação sanitária para a população abastecida.
Poluição e Contaminação de M ananciais

[...] a água escorria das montanhas, brotava debaixo da terra, corria


nos vales e atravessava cada uma das propriedades, como se, antes
de todo o resto, fosse a água que lá estivesse.

Miguel Sousa Tavares - Rio das Flores (2008)

Conceito - ■■
Inicialmente há de fazer distinção entre os dois termos. Poluir significa conspurcar, sujar,
advindo do verbo latino polluere, ao passo que contaminar significa envenenar, infectar, também da
origem latina contaminare. Em conceito mais conservador, quase purista, poluição seria toda alteração
produzida no meio aquático e neste viés o hipotético lançamento de água tratada no oceano poderia sèr
classificado como uma forma de poluição. Em conceito mais moderno, poluição indica a ocorrência
de alterações prejudiciais ao meio aquático e quando tais alterações colocam em risco a saúde dos
elementos da biota ou do ser humano que dele faz uso, a poluição passa denominar-se contaminação.
Em outras palavras, pode-se poluir um corpo d ’água sem necessariamente contaminá-lo, mas a
ocorrência da contaminação como consequência de alguma ação antrópica estará sempre associada
à poluição.
A caracterização mais exata das alterações prejudiciais na qualidade das águas naturais
relaciona-se ao uso que se faz do recurso hídrico. Nesta vertente, a própria Resolução Conama
357/2005, ao classificar os cursos d’água em classes especial, 1, 2, 3 e 4, explicita alguns usos, tais
como abastecimento público, manutenção das espécies aquáticas, recreação de contato primário,
irrigação de hortaliças e aquicultura. Desta forma, águas com elevada concentração de algas poderíam
ser utilizadas para irrigação de várias culturas - como tem ocorrido em algumas circunstâncias com
efluentes de lagoas de estabilização de esgotos -, mas trariam diversos inconvenientes à operação das
estações de tratamento. Em outro exemplo, águas com elevada concentração de metais pesados ou
agrotóxicos usualmente não se prestariam ao abastecimento ou irrigação, mas poderíam ser utilizadas
para geração de energia ou transporte hidroviário.
Interessante consideração acerca dos conceitos de poluição e contaminação refere-se
à ubíqua presença de protozoários em águas superficiais. Conforme mencionado no Capítulo 2,
cistos e oocistos de tais microrganismos têm sido detectados mesmo em águas prístinas - águas
que não sofreram efeitos de ações antrópicas mantendo suas características originais por
possuírem reservatórios no reino animal e elevada resistência no meio ambiente. Estas águas
estariam contaminadas, mesmo sem terem sofrido nenhuma forma de poluição, e caso utilizadas
sem tratamento para consumo humano poderíam se tomar veículo na transmissão de doenças. Em
segundo contexto, águas subterrâneas podem apresentar concentrações elevadas de flúor ou arsênio
- como os aquíferos em Bangladesh e na China, e em menor monta nos EUA - , sem terem sofrido
qualquer efeito de poluição.
Embora estas duas classificações por vezes não sejam tão nítidas, pode-se afirmar que a
poluição dos corpos d ’água sucede-se de forma pontual ou difusa e por origem natural ou antrópica.
Na primeira distinção, a poluição pontual manifesta-se de forma concentrada no espaço como por
meio do lançamento de efluentes domésticos e industriais em um corpo d ’água ou da contaminação de
um manancial subterrâneo por postos de combustíveis. A poluição difusa, por sua vez, distribui-se ao
longo da extensão do curso d ’água ou do perímetro do reservatório, manifestando-se por exemplo no
arraste de agrotóxicos pela lixiviação do solo sendo por isso de mais difícil controle.
A segunda classificação em alguns casos é menos evidente, pois algumas atividades antrópicas
terminam por agudizar os efeitos de fenômenos naturais, como o assoreamento ou a eutrofização
dos corpos d’água. Também a primeira distinção, para as regiões urbanas - especialmente nos
países desenvolvidos apresenta alguma sobreposição na poluição dos mananciais subterrâneos
por postos de combustíveis. Embora em princípio sejam considerados como fontes pontuais, seu
elevado número acaba por lhes conferir características de poluição difusa. No final da década
de 1980, estimava-se que existiam nos EUA mais de dois milhões de tanques de combustíveis,
confirmando esta tendência.55
As alterações de origem antrópica na qualidade das águas naturais materializam-se, com óbvias
sobreposições, em função do tempo e do espaço. Em relação ao primeiro, a poluição pode assumir
caráter perene, acidental ou sazonal. O contínuo lançamento de águas residuárias nos corpos d ’água
e as infiltrações oriundas de fossas e aterros sanitários constituem exemplos clássicos de poluições
permanentes. Por outro lado, o rompimento de tubulações ou acidente com veículos transportando
cargas tóxicas e a lixiviação dos solos agriculturáveis carreando diversos agrotóxicos aos corpos
d ’água exemplificam, respectivamente, os tipos de poluições acidentais e sazonais.
Em termos gerais, a poluição das águas naturais pode ocorrer:
i) em primeira instância e quase que exclusivamente em virtude de atividades antrópicas,
pela introdução de substâncias estranhas (naturais ou artificiais) ao meio aquático, como o
lançamento de efluentes domésticos e industriais;
ii) pela introdução de substâncias naturais ou artificiais estranhas ao meio aquático, de origem
natural ou antrópica, como o aporte de sedimentos ou agrotóxicos pela lixiviação de solos
agriculturáveis da bacia hidrográfica.

Os principais agentes são:


i) matéria orgânica biodegradável predominantemente originária de esgotos domésticos, cuja
decomposição pelas bactérias aeróbias ocasionará redução do oxigênio dissolvido do corpo
d’água;
ii) compostos orgânicos sintéticos não biodegradáveis, como agrotóxicos e detergentes, e
metais pesados que conferirão toxicidade ao meio aquático;*25

55. Estima-se que em 2008 a frota de veículos dos EUA fosse superior a 250 milhões de unidades, representando
25 % do total mundial e uma relação per capita da ordem de 0,82 veículo/habitante. Esta cota reduz-se para
algo como 0,26 veículo/habitante no caso do Brasil.
iii) microrganismos patogênicos, elevando o risco sanitário em termos de consumo humano;
iv) sólidos em suspensão, cujo aporte concorrerá para o assoreamento dos corpos d ’água e
impactos no processo de potabilização;
v) nutrientes, como compostos de fósforo e de nitrogênio, resultando em proliferação de algas,
cianobactérias e plantas aquáticas.

Em relação à água como vetor de doenças, a significância dos diversos patógenos (iii) varia
em função de alguns balizadores, tais como persistência no ambiente aquático, possuir reservatório
no reino animal, entre outros. Nà tabela 5.1 apresenta-se uma relação dos principais microrganismos
patogênicos encontrados em águas naturais.

Tabela 5.1. Patogênicos de doenças de transmissão hídrica e sua significância nas águas naturais (Geneva, 2004).
Significado Persistência no Existência de
Patógeno Infecciosidade
sanitário meio aquático* reservatório animal
Bactéria
Campylobacter je ju n i Alta Moderada Moderada Sim
E. coli Alta Moderada Baixa Sim
Legionella Alta Multiplicação Moderada Não
Pseudomonas aeruginosa Moderada Provável multiplicação Moderada Não
Salmonella typhi Alta Moderada Baixa Sim
Outras Salmonella Alta Provável multiplicação Baixa Sim
Shigella spp. Alta Curta Moderada Não
Vibrio colerae Alta Curta Baixa Não
Vírus
Adenovírus Alta Longa Alta Não
Edenovírus Alta Longa Alta Não
Hepatite A Alta Longa Alta Não
Hepatite E Alta Longa Alta Potencialmente
Norovírus e Sapovírus Alta Longa Alta Potencialmente
Rotavírus Alta Longa Alta Não
Prozoários
Cryptosporidum parvum Alta Longa Alta Sim
Entamoeba histolytica Alta Moderada Alta Não
Giardia lamblia Alta Moderada Alta Sim
Helmintos
Dracunculus medinensis Alta Moderada Alta Não
Schistosoma spp. Alta Curta Alta Sim

* Detecção em estágio infectivo a 20 °C em até uma semana (curta), uma semana a um mês (moderada) e mais de um mês (longa).

Vale ressaltar que os patógenos transmitidos por via feco-oral apresentam variadas rotas de
transmissão além da água de consumo. Contaminação por meio dos alimentos, mãos, roupas, utensílios
constituem-se outras rotas quando as condições sanitárias são insatisfatórias.
Pode-se afirmar que, em última análise, o crescimento populacional verificado nas últimas
décadas é a maior causa da poluição dos corpos d’água, pois os impactos inerentes à ocupação
urbana e às atividades industriais, agrícolas e pecuárias resumem-se na consequência mais visível
deste crescimento. Aliado à maior geração de esgotos domésticos nos centros urbanos, agravando a
' poluição, o aumento da produção agrícola resulta em uso mais intensivo de agrotóxicos e fertilizantes,
que das mais variadas formas alcançam os corpos d ’água em uma das principais facetas da poluição
difusa. Neste cenário, o incremento das atividades industriais também culmina com a maior geração
de resíduos, favorecendo a contaminação especialmente por metais pesados. A exceção dos países
desenvolvidos, nos quais o tratamento dos esgotos domésticos em nível secundário contempla
C A P ÍT U L O 05
significativa parcela dos centros urbanos, nos demais países via de regra o impacto do lançamento
destes efluentes na deterioração da qualidade dos cursos d ’água supera o causado pelos despejos
industriais. :
A capacidade de um curso d ’água assimilar a carga orgânica decorrente do lançamento de
esgotos domésticos varia com a concentração de oxigênio dissolvido —esta, conforme enfatizado no
Capítulo 2, com a pressão atmosférica, temperatura e concentração de cloretos - e com a magnitude da
vazão comparada à dos despejos. No País, por exemplo, em diversas cidades de pequeno e médio porte
às margens dos rios na região Amazônica, os esgotos domésticos sem tratamento são lançados nestes
corpos hídricos sem ocasionar alteração significativa na qualidade das águas. Soma-se a capacidade
de recuperação, que mais notadamente os cursos d’água apresentam, denominada autodepuração. Este
processo consiste na conjunção de fenômenos físicos, químicos e biológicos, tais como a deposição,
reaeração, decomposição da matéria orgânica e fotossíntese, que pode culminar com a recuperação
da qualidade das águas após o lançamento dos despejos. O rio Tietê no estado de São Paulo constitui
um exemplo paradigmático, pois apresenta boa qualidade da água próximo à foz no rio Paraná,
sendo inclusive manancial de abastecimento de várias cidades após receber severa carga poluidora a
montante.
A conjunção dos fatores intervenientes, antrópicos e naturais, e dos indicadores de qualidade
das águas naturais é apresentada na figura 5.1 (Maciel, 2000).

Atividade Atividade Atividade Atividade


Outros
Industrial Minerária Urbana Rural

Físico-Químicos
O rig e m
Antrópica
Biológicos

Sedimentológicos

Ecotoxicológicos Indicadores mk

Hidrológicos

Satisfação do Usuário
O rig e m

Outros
Natural

Umidade Evaporação Insolação Topografia

Solo Temperatura Vento Precipitação

Radiação Microrganismos Cobertura Vegetal Outros

Figura 5.1. Fatores intervenientes e indicadores da deterioração da qualidade de água dos mananciais.

Os diversos fatores elencados pela figura 5.1 fomentam alterações nas características das águas
■naturais, restringindo em muitas circunstâncias vários dos seus usos. Contudo, tais impactos dar-se-
-ão de forma distinta, quer pela magnitude da poluição, quer pelas características do corpo d ’água. A
capacidade de cada corpo hídrico assimilar os efeitos da poluição varia em função do tipo, superficial
ou subterrâneo, do seu porte e das características da água.
T ip o s d e c a p ta ç ã o e s e u s e fe it o s s o b r e a q u a lid a d e d e á g u a

As possibilidades de poluição dos mananciais e de alteração das características das águas


naturais relacionam-se intrinsecamente com o tipo de captação, vale afirmar, com a própria definição
do manancial a ser utilizado para o abastecimento. Além das perspectivas de futura contaminação da
água bruta, relacionada ao tipo de ocupação da bacia hidrográfica, alguns critérios que balizam esta
escolha podem ser arrolados:
i) magnitude da vazão de demanda que, para os sistemas de maior porte, por si só alija
significativo número dé alternativas;
ii) características da água bmta;
iii) custos de implantação, operação e manutenção;
iv) perspectivas de ampliação da vazão captada, relacionada ao aumento da área do reservatório
de acumulação, à magnitude do curso d’água ou do aquífero subterrâneo.

Como primeiro critério de definição do manancial, a magnitude da vazão de demanda necessária


ao atendimento da população abastecível decorre da definição do consumo per capita (L/hab.dia), que,
por sua vez, envolve uma série de fatores, cuja hierarquização pode ser:
i) nível socioeconômico da população abastecida;
ii) presença de indústrias;
iii) fatores climáticos, tais como regime de precipitações, temperatura e umidade;
iv) porte, características e topografia da cidade;
v) percentual de hidrometração e custo da tarifa;
vi) administração do sistema de abastecimento de água.

As definições inerentes à captação influenciarão sobremaneira as demais etapas integrantes


dos sistemas de abastecimento de água, do tipo e extensão da adutora de água bmta à tecnologia de
tratamento a ser empregada. A medida que se eleva o número de parâmetros a serem monitorados e
se reduzem, ainda que em proporção variável, as concentrações máximas permissíveis para as águas
de consumo humano - conforme salientado no Capítulo 4 -, cresce a complexidade do processo de
potabilização, em nível de concepção e de acurácia da operação. Tal se verifica especialmente para os
maiores centros urbanos, cujos mananciais estão mais comprometidos. Desta forma, a premissa básica
de que o tratamento se inicia na captação, e por conseguinte na definição do manancial, é reforçada pela
importância do controle das atividades antrópicas na bacia hidrográfica na qual o manancial se insere.
Em tennos gerais, as captações podem utilizar mananciais superficiais e subterrâneos. As
primeiras valem-se diretamente dos cursos d ’água, represas e lagos, ao passo que as captações
subterrâneas, basicamente, aquíferos confinados e não confinados, denominados, respectivamente,
artesianos e freáticos. O abastecimento valendo-se de lagos naturais é muito raro no Brasil, onde
tais corpos d’água são de pequena dimensão. Exceção à regra constitui parcela do sistema de
Florianópolis abastecida pela Lagoa do Peri, à vazão da ordem de 200 L/s. Interessante ressaltar que
o delicado balanço hídrico que lá se sucede, graças a ausência de afluentes a este corpo d' água, levou
a concessionária responsável pelo abastecimento a instalar um pluviômetro próximo à captação para
com maior precisão aferir a magnitude da vazão aduzida à estação de tratamento. Ainda no mesmo
conceito, em diversos países, mesmo para sistemas de médio e grande porte utilizam-se lagos naturais
como mananciais de abastecimento. Constituem-se exemplos diversas cidades alemãs, como Stuttgart
- cuja captação em lago é interligada por adutora de extensão da ordem de 200 km - , e as americanas
e canadenses às margens da região dos Grandes Lagos.
Captações de água de chuva são raras no País, restritas quase que exclusivamente ao
abastecimento domiciliar na Região Nordeste. Interessante excecão refere-se à parcela habitada do
C A PI TU L O 05

111
arquipélago de Fernando de Noronha (PE) onde há uma estação de tratamento, operando por 10 a
12 h/dia à vazão da ordem de 20 L/s, à qual aflui água de chuva captada das encostas e armazenada
em reservatório de acumulação.
,

Captações superficiais
No que tange às captações superficiais, os profissionais responsáveis pela administração dos
sistemas de abastecimento de água têm-se deparado com inevitável e progressiva dicotomia. A escolha
do manancial deve privilegiar os cursos d’água mais próximos aos centros de consumo, reduzindo
os investimentos na adução, mas cuja qualidade haverá de requerer gastos mais significativos no
tratamento e maiores riscos à saúde da população abastecida? Ou a opção deverá recair nos mananciais
mais distantes, comumente dotados de água bruta de melhor qualidade e de preservação menos
problemática, minimizando por vezes os custos do tratamento e maximizando em contrapartida os da
adução?
Salvo exceções, a opção pela qualidade da água bruta adquire primazia na definição dos
mananciais abastecedores dos grandes centros urbanos, a ponto de parcela da vazão que abastece
a cidade de São Paulo advir de um reservatório de acumulação cuja área se estende até o estado de
Minas Gerais. Neste caso, vazão de 22 nrVs, que contribui para o caudal de 33 m3/s afluente à estação
de tratamento do Guaraú, é captada em um reservatório de acumulação formado pelas barragens dos
rios Jaguari e Jacareí nos limites destes estados.
A condição fundamental para escolha de um manancial superficial estabelece-se quando sua
vazão média supera a vazão de demanda necessária ao abastecimento da comunidade, ao todo ou em
parte. Esta ressalva se prende às estações às quais afluem águas captadas em mais de um manancial.
Comumente, esta situação ocorre baseado em sucessivas ampliações, sendo mais rara como premissa
inicial. Posteriormente, com base em registros fluviométricos, estimam-se as vazões máximas e
mínimas. As primeiras definirão o tipo de captação que preserve as estruturas hidráulicas nos períodos
das cheias. Esta perspectiva exemplifica-se pela figura 5.2, que mostra a estação elevatória de captação
superficial (a) e os efeitos da cheia de 1989 (b).

Figura 5.2. Captação superficial operando em condições normais (a) e durante evento de cheia (b).

Em relação à vazão mínima do manancial, duas vertentes descortinam-se. Caso a vazão de


demanda seja inferior à vazão mínima, pode-se optar por efetuar captação direta, reduzindo os custos
desta etapa do sistema de abastecimento. Todavia, nestas circunstâncias, a estação de tratamento
deverá estar apta a potabilizar água bruta cujas características - principalmente físicas - poderão
apresentar amplo espectro de variação entre os períodos chuvoso e de estiagem.
A segunda vertente verifica-se quando a vazão de demanda supera a vazão mínima do
manancial, situação usual para a maioria dos grandes sistemas e para Região Nordeste do País. Desta
CA PÍTULO 05

1 1 2 ■ ■ ...................
forma, há necessidade da construção de reservatórios de acumulação, objetivando regularizar o aporte
e a retirada de água para abastecimento. Durante o período chuvoso, no qual a vazão do curso d ’água
é superior à demanda do sistema de abastecimento, haverá o armazenamento para posterior liberação
no período de estiagem. A definição do volume útil do reservatório envolverá as vazões de demanda
e do curso d’água, as perdas por infiltração e evaporação, e a vazão de jusante. Diversas cidades de
maior porte do País são abastecidas por meio de reservatórios de acumulação, tais como, São Paulo
(Guarapiranga, Cantareira e outras represas de menor porte), Belém (Bolonha), Belo Horizonte (Serra
Azul, Várzea das Flores e Rio Manso), entre outras, além de um significativo número de açudes para
fins de abastecimento e irrigação construídos na Região Nordeste.
Apesar da legislação determinar que, em quaisquer circunstâncias, deverá ser assegurada a
vazão de jusante do curso d ’água, em diversos sistemas, ora operando com sobrecarga, praticamente
não ocorre superávit que permita assegurar esta vazão durante as estiagens mais severas. Na figura 5.3
apresenta-se um desenho esquemático de um reservatório de acumulação, com as diversas variáveis
envolvidas no balanço hídrico.

A o " (Adução + Avaporação + ^jusante + Qnfiltração) Atempo

Figura 5.3. Esquema típico de um reservatório de acumulação empregado em sistemas de abastecimento de água.

A existência de um reservatório de acumulação no sistema de abastecimento pode alterar as


características da água bruta, favorecendo o emprego de tecnologias de tratamento de implantação e
operação menos dispendiosas. Nesta alternativa sucede-se, quando comparada às captações diretas,
significativa redução dos picos de cor e turbidez - que tendem a se manifestar de forma mais destacada
nas primeiras chuvas após o período de estiagem - e, também como consequência, menor afluxo à
estação de microrganismos patogênicos, tais como bactérias, vírus e protozoários.
Em relação aos últimos, redução mais significativa pode ocorrer apenas em reservatórios de
grande porte com elevado tempo de detenção, pois estima-se que os oocistos de Cryptosporidium e
cistos de Giardia apresentem velocidade de sedimentação extremamente baixa - da ordem de 3 cm/dia
e 14 cm/dia (a 23 °C), respectivamente, enquanto partículas de areia de dimensão de mesma magnitude
(10 pm) da ordem de 864 cm/dia -, minimizando por este aspecto o efeito do represarnento das águas.
Esta baixa velocidade é favorecida pela densidade da ordem de 1,05, podendo ser elevada quando os
cistos e oocistos integram os efluentes domésticos tratados em nível secundário, pela perspectiva de
agregação com as partículas presentes (Medema et a l, 1998).
C A P ÍT U L O 05

113
Em contrapartida, aliado à magnitude do aumento do custo de implantação recomendando seu
emprego apenas quando indispensável, pode ocorrer periodicamente floração de algas e cianobactérias,
deteriorando a qualidade da água bruta, encarecendo e/ou reduzindo a eficiência da potabilização.
Tal se sucede em função das condições climáticas e características da bacia hidrográfica, além do
progressivo aumento da salinidade graças a evaporação. Adicionalmente, podem também suceder picos
extemporâneos de algumas características físicas em virtude do revolvimento do fundo por ocasião das
inversões térmicas, bem como elevação dos teores de ferro e manganês, oriundos da decomposição
anaeróbia no fundo e consequente aumento da concentração de gás carbônico na massa líquida.
Os reservatórios de acumulação podem também se prestar a outros fins, tais como recreação,
geração de energia, piscicultura, controle de enchentes e harmonia paisagística, embora vários destes
usos possam impactar a qualidade da água afluente à estação de tratamento.
Por fim, inexistentes no Brasil, as captações de água de degelo constituem alternativa viável
para diversas localidades situadas nas regiões mais frias do Planeta. Como não podia deixar de ser, as
águas de degelo apresentam-se comumente dotadas de características que praticamente prescindem
de tratamento. Usualmente, associa-se à captação de água de degelo outra unidade, superficial ou
subterrânea, passível de fornecer água bruta durante o período do inverno mais rigoroso, quando a
vazão obtida pela primeira reduz-se muito significativamente.

Captações subterrâneas
A água abaixo da superfície do solo pode ocorrer basicamente em duas zonas principais: zona
de aeração (não saturada) e zona saturada. A primeira é ocupada parcialmente pela água e pelo ar, na
qual ocorrem as principais interações entre os contaminantes e o solo, como uma zona de transição
entre a poluição na superfície e nas águas subterrâneas. A zona de aeração pode estar ausente em áreas
de pântanos, o que toma os aquíferos muito mais vulneráveis, ou atingir centenas de metros em regiões
áridas. Na zona saturada, os poros do solo estão completamente preenchidos pela água formando os
aquíferos, podendo até mesmo ocorrer a pressões superiores à atmosférica.
A perfuração de poços deve alicerçar-se, sempre que os recursos disponíveis o permitirem, no
levantamento do perfil geológico do terreno, objetivando identificar com maior acurácia a profundidade
e magnitude do lençol subterrâneo e definir a melhor localização do poço.
Denomina-se aquífero à camada de solo que contém água, com suficiente permeabilidade
para que possa ocorrer a retirada para os diversos usos. Aquífero freático consiste no lençol d ’água
situado acima de uma camada impermeável de solo submetido à pressão atmosférica, normalmente
de menor profundidade e menor custo de escavação. Todavia, uma vez que a zona de recarga abrange
praticamente toda a extensão do lençol, consequentemente aumenta a possibilidade de contaminação
por fossas, lixões e fontes de poluição difusa.
0 conceito de aquífero artesiano traduz uma camada de material sólido que contém água situada
entre duas camadas impermeáveis, usualmente a maior profundidade em relação ao lençol freático, e
■submetido a pressão superior à atmosférica. A zona de recarga, por meio da qual a água pode penetrar,
apresenta uma área restrita, reduzindo a possibilidade de contaminação. Na figura 5.4 apresenta-se
desenho esquemático dos aquíferos freático e artesiano.
A opção por captações subterrâneas apresenta algumas vantagens inquestionáveis. A primeira
consiste nas características da água bmta, consequência da percolação através dos interstícios granulares
do solo, permitindo, salvo algumas exceções, prescindir da quase totalidade das etapas inerentes à
potabilização. Desta forma, reduzem-se drasticamente os custos do tratamento, restringindo-o à
desinfecção, fluoretação e eventual correção do pH. Estas vantagens tomam-na opção preferencial
para o abastecimento de pequenas comunidades e individual, quando não se dispõe de sistema,
como fazendas, sítios e casas de campo. Para a captação de vazões de maior magnitude, com alguma
CAPÍ TUL O 05

i i ^
frequência utilizam-se poços profundos, havendo por vezes necessidade da instalação de uma unidade
de resfriamento.

Figura 5.4. Desenho esquemático dos dois tipos de aquíferos e poços.

Uma segunda vantagem associada à utilização de manancial subterrâneo reside, na maioria


dos casos, na inexistência de uma adutora de água bruta de maior extensão, pois, a perfuração pode
ocorrer próxima ao centro da comunidade abastecida e a unidade de desinfecção ser instalada contígua
ao poço.
Todavia, o emprego de águas subterrâneas com elevada dureza ou concentração de sais
dissolvidos, que poderão conferir sabor e odor à água distribuída, poderá concorrer, quando o problema
não é convenientemente sanado, para que a população acabe por rejeitar a água e abasteça-se em
mananciais sanitariamente comprometidos.
As mencionadas vantagens, a baixa disponibilidade hídrica superficial, mencionada na figura 1.2,
e a magnitude dos aquíferos culminaram com o emprego de mananciais subterrâneos em diversos países
da Europa, conforme mostra a figura 5.5, elaborada valendo-se dados de 2006.

Parcela do abastecimento por água subterrânea (%)

Figura 5.5. Abastecimento (%) por água subterrânea em alguns países europeus.
Fonte: IWA(2008).
C A P ÍT U L O 05

1 15
No Brasil, assim como nos EUAe Canadá, a maior disponibilidade concorreu para que as cidades
de maior porte sejam predominantemente abastecidas por mananciais superficiais e pode-se estimar
que uma parcela inferior a 30 % da população brasileira e canadense faça uso de água subterrânea. Nps
EUA, aproximadamente 50 % da população é abastecida por mananciais subterrâneos, perfazendo
36 % dos sistemas públicos e 95 % da população rural.
Com alguma distinção das captações subterrâneas, em diversos países europeus às margens do
Danúbio, Reno e Elba emprega-se a filtração em margem,56que consiste em captar a baixa profundidade
às margens de um curso d’água. Em algumas circunstâncias, esta alternativa tende a reunir as vantagens
das captações superficiais, no que tange à magnitude de vazão aduzida, e das subterrâneas no que diz
respeito à qualidade da água bruta. Nos períodos de estiagem com a redução da vazão escoada no curso
d’água, há também decréscimo da vazão aduzida. Esta limitação é contornada pelo maior número de
unidades, como exemplifica o sistema de abastecimento de Bupadesp, no qual uma série de captações
à margem do Danúbio totalizam vazão da ordem de 7 m3/s para o abastecimento da capital da Hungria.

Alterações nas características das águas superficiais

Conforme evidencia a figura 5.1, o clima constitui-se no principal fator de origem natural que
afeta as características das águas naturais, especialmente no que concerne o regime de precipitações.
Períodos de seca prolongada haverão de aumentar o impacto do lançamento nos cursos d ’água de
efluentes domésticos e industriais - mesmo tratados em nível secundário -, pois estes são menos
afetados na magnitude das vazões pelas condições climáticas. Desta forma, neste período quando a
vazão do curso d ’água sofre decréscimo significativo, também se reduz sua capacidade de diluição e de
assimilação da carga afluente, e tais lançamentos concorrerão para elevar a concentração de diversos
contaminantes nas águas naturais e reduzir, ainda que em menor monta, o teor de oxigênio dissolvido.
Monitoramento de cistos e oocistos de protozoários, em cursos d ’água receptores de efluentes
domésticos tratados, frequentemente têm apontado o aumento da concentração destes microrganismos
nos períodos de estiagem. O surto de criptosporidiose ocorrido na década de 1980 em Talent (Oregon,
EUA) coincidiu com período de estiagem. Naquela ocasião verificava-se o lançamento do efluente de
uma estação de tratamento de esgotos (em nível secundário com cloração) a 5 km a montante do curso
d’água que abastecia a cidade.
No caso de reservatórios de acumulação utilizados como mananciais, longos períodos de
estiagem, especialmente em regiões de maior insolação, favorecerão o aumento da salinidade e da
condutividade elétrica contribuindo para florações de algas e cianobactérias, que se intensificarão
caso haja lançamento de esgotos ou aporte de nutrientes ao corpo d ’água. Conforme salientado no
Capítulo 2, tais florações, não raro, provocam severos impactos na potabilização, além da redução
das carreiras de filtração, em termos de aumento da dosagem de coagulantes e dos tipos de produtos
químicos necessários à manutenção da qualidade da água tratada. Neste cenário, há possibilidade
do emprego de carvão ativado para adsorção dos produtos metabólicos da atividade algal e das
cianotoxinas produzidas pelas cianobactérias quando do uso da pré-desinfecção.
Em contrapartida, para cursos d ’água não sujeitos ao lançamento de efluentes, nos perío­
dos de estiagem verifica-se significativa redução da turbidez, embora não necessariamente da
cor verdadeira. Também as dosagens de coagulantes e a quantidade de lodo gerado reduzem-se
significativamente, bem como o dispêndio de água para lavagem dos filtros. No Brasil e em muitos
países é frequente neste período do ano o afluxo de água bruta às estações com características

56. Tradução literal poderia serfiltração à margem do rio decorrente do termo original ‘river bankfiltration’.
CAPÍTULO 05

12 l
praticamente de acordo com o padrão de potabilidade, especialmente quando oriunda de mananciais
protegidos de atividades antrópicas. Tais fatores concorrem para tomar a operação das estações de
tratamento mais simples. Esta assertiva foi confirmada em avaliação de 16 estações de tratamento
de água operadas por companhia estadual de saneamento e autarquias municipais no estado de
Minas Gerais, utilizando dados operacionais de 2000, 2002 e 2003. Verificou-se que no período
de estiagem o desempenho das estações pouco diferia entre si - o que não ocorreu no período
chuvoso quando algumas unidades apresentaram desempenho insatisfatório - , pois as limitações
operacionais tomam-se mais evidentes quando aflui à estação de tratamento água bmta de qualidade
inferior (Almeida; Viana; Libânio, 2005).
No período de maior intensidade de precipitações, para águas captadas em lagos e reser­
vatórios haverá um menor incremento nos valores de turbidez, cuja magnitude dependerá do uso do
solo e das características geomorfológicas da bacia hidrográfica, do tempo de detenção e do fator de
envolvimento. Este aporte de sólidos - especialmente areia, silte e argila - dar-se-á pelos próprios
tributários ao corpo d'água e por lixiviação do solo da bacia hidrográfica. Por outro lado, a redução
da insolação e este aumento da concentração de sólidos suspensos tendem a limitar as florações
algais e de cianobactérias.
O fator de envolvimento, como parâmetro morfológico, refere-se ao quociente entre a área da
bacia hidrográfica e da superfície dos lagos e reservatórios, sendo, portanto, adimensional. Lagos naturais
apresentam fator de envolvimento da ordem de algumas dezenas, enquanto que para reservatórios,
este parâmetro atinge algumas centenas e em alguns casos superior a 1000 (Von Sperling, 1999). Este
parâmetro relaciona-se com vulnerabilidade do corpo d’água. Quanto maior o fator de envolvimento,
maior a susceptibilidade do reservatório aos fenômenos que ocorrem na bacia hidrográfica para qualidade
da água.
Na figura 5.6 são apresentados os valores médios mensais, referentes a 1999, da turbidez da
água bruta afluente à estação de tratamento (vazão da ordem de 1,7 m3/s) de Calgary (Canadá), captada
de um reservatório de acumulação de grande porte.

Figura 5.6. Valores médios mensais de turbidez de água bmta captada em reservatório de acumulação.

Em semelhante contexto, na figura 5.7 são apresentados os valores médios mensais, referentes
a 2001, de turbidez e cor verdadeira da água bruta afluente à estação de tratamento de Várzea das
Flores (vazão da ordem de 1,0 m3/s), na região metropolitana de Belo Horizonte, na qual notam-se
resultados similares mesmo para reservatórios em clima tropical.
Figura 5.7. Valores médios mensais de turbidez e cor verdadeira de água captada em reservatório de acumulação.

A despeito de comumente o aporte de sólidos aos reservatórios não se manifestar em alterações


expressivas na turbidez da água bruta afluente às estações, como mostraram as figuras 5.6 e 5.7,
há outras consequências mais relevantes, tais como a aceleração do processo de assoreamento. Este
fenômeno consiste no aporte de areia, silte e argila ao curso d ’água ou reservatório decorrente da
lixiviação de vias urbanas, lotes, estradas e áreas agrícolas. Em primeira instância, deve-se enfatizar
que o assoreamento dos reservatórios e lagos é um processo inexorável e que as ações antrópicas
acabam por agravá-lo, reduzindo significativamente sua vida útil a ponto de culminar, nos casos mais
extremos, com a própria remoção da unidade.
Para os cursos d’água, a redução da seção de transversal pelo depósito de sedimentos elevará
a velocidade média de escoamento por ocasião do período chuvoso, aumentando a probabilidade
de erosão das margens, minimizando a recarga nos aquíferos concorrendo para no futuro reduzir as
vazões do curso d ’água nos períodos de estiagem.
Em outra perspectiva, o período chuvoso, dependendo do uso do solo na bacia hidrográfica,
pode também favorecer o aporte de nutrientes aos lagos e reservatórios. Neste panorama, o aumento
da concentração de nitrogênio e fósforo - especialmente o segundo - vai contribuir para o processo de
eutrofização. Este fenômeno constitui em essência na fertilização do corpo d ’água, por meio. deste aporte
de nutrientes ou do lançamento de esgotos domésticos, que favorecerá o desenvolvimento excessivo
de algas, cianobactérias e plantas aquáticas. Mais raramente, a eutrofização pode se suceder em cursos
d’água, graças a capacidade de reaeração, ao menor tempo de detenção para o desenvolvimento destes
organismos e, em alguns casos, à turbidez que minimiza a realização da fotossíntese.
A maior relevância do fósforo no processo de eutrofização centra-se na usual maior disponi­
bilidade de nitrogênio nos corpos d ’água e na capacidade de diversas cianobactérias de fixar o nitrogênio
do ar nos ambientes aquáticos, nos quais é fator limitante, gás que responde por aproximadamente
78 % da composição da atmosfera. A recorrente predominância de cianobactérias nos eventos de
eutrofização explica-se, além desta capacidade, pela rapidez na incorporação do fosfato solúvel e
alta proliferação em ambientes aquáticos de temperatura e salinidade mais elevadas, como ocorre por
exemplo em diversos açudes da Região Nordeste do País.
Como consequência deste estado trófico, dependendo da magnitude da floração algal, pode
ocorrer o incremento significativo da cor verdadeira, carbono orgânico total (COT) e compostos
orgânicos passíveis de conferir sabor e odor às águas de consumo. Além da perspectiva da formação
de subprodutos da desinfecção - trihalometanos e ácidos haloacéticos, em primeira instância - , com
, a morte das algas e plantas aquáticas pode ocorrer depleção do teor de oxigênio dissolvido do corpo
d’água em virtude da decomposição pelas bactérias aeróbias. Por vezes, este fenômeno é maximizado
pela decomposição da vegetação natural existente não retirada antes da construção da barragem, que
também favorecerá a redução da concentração de oxigênio dissolvido no corpo d ’água.
CA PÍTULO 05

n 8 ■' ' ■ ■ ........................ , ....


Conforme abordado no Capítulo 2, várias espécies de algas e cianobactérias conferem sabor e
odor às águas e as últimas são também produtoras de toxinas, como resultados do próprio metabolismo
ou na lise celular. Esta característica toma menos adequada a utilização de algicidas como o sulfato de
cobre ou mesmo a pré-desinfecção com compostos de cloro ou peróxido de hidrogênio, pois, elevar-se-
-ia a possibilidade da presença destas toxinas na água de consumo. A depleção de oxigênio dissolvido
toma o ambiente propício à ressolubilização de ferro e manganês, e mesmo do fosfato (presente na
forma de complexos), à redução do nitrato a amônia e outros compostos nitrogenados, aumentando
exponencialmente a possibilidade de problemas de odor e sabor. Embora em mananciais de abastecimento
casos extremos de eutrofização não sejam comuns, há registro da interdição da captação em um lago
natural, em um pequeno sistema de abastecimento no norte de Minas Gerais (2000 habitantes), graças a
floração de cianobactérias. Nesta situação, a despeito dos bons resultados na remoção de cianobactérias
no tratamento, a persistente presença de cianotoxina na água tratada culminou com a construção de uma
adutora de 10 km, de extensão que passou aduzir água tratada de outra localidade.
Para captação direta em cursos d ’água, o incremento da turbidez no período chuvoso usual­
mente é muito mais significativo, como também o aporte de outros contaminantes orgânicos
resultantes da lixiviação de solos agriculturáveis. Conforme também assinalado no Capítulo 2, dentre
estes, os agrotóxicos organoclorados merecem destaque pela extensiva aplicação e persistência no
meio ambiente. Desta forma, cursos d ’água e reservatórios de acumulação - e mesmo mananciais
subterrâneos - apresentam concentrações de agrotóxicos mesmo anos após a cessação da aplicação
destes na bacia hidrográfica.
Monitoramento de seis agrotóxicos organoclorados - BHC, dieldrin, endosulfan, aldrin,
heptacloro e DDT - nas águas bmta e tratada, e no solo foi realizado na região oeste do estado de São
Paulo de intenso cultivo de cana-de-açúcar. A amostragem foi iniciada no verão de 1997 e estendeu-se
até o verão de 2002, com as coletas ocorrendo em três períodos: outubro a dezembro, janeiro a março
e abril a junho. As amostras de água bruta foram coletadas às margens do curso d ’água e as de água
tratada em pontos da rede de distribuição, a uma distância aproximada de até 1 km da estação de
tratamento. As amostras de solo foram coletadas em média duas vezes por semana em plantações de
cana-de-açúcar em regiões próximas aos mananciais que abastecem a cidade. Todas as coletas foram
quintuplicadas, de modo a calcular a precisão do método pelo desvio padrão relativo, e os resultados
(em pg/L) estão apresentados nas figuras 5.8 e 5.9 (Rissato et a l, 2004).

1.2
1,0
0,8
0,6
0,4
0,2
0,0

- 0,2

Resíduo (pg/L) Resíduo (pg/L)


Figura 5.8. Mediana e distribuição das concentra­ Figura 5.9. Mediana e distribuição das concentra­
ções de agrotóxicos organoclorados na água bruta ções de agrotóxicos organoclorados no solo durante
durante período amostrado. período amostrado.
C A PÍ TU L O 05

119
Observa-se, na figura 5.8, que os teores de agrotóxicos na água bruta situaram-se sempre
acima do limite da Classe 2, sendo frequentemente superiores aos limites da Classe 3. Vale destacar
que os agrotóxicos Dieldrin e Aldrin, considerados altamente tóxicos, e heptacloro apresentaram
concentrações superiores aos limites estabelecidos pelo Conama para cursos d ’água Classe 3 em
100 % e 80 % das análises, respectivamente. Desta forma, as águas captadas do curso d’água em
questão, em tese, não se prestariam ao abastecimento público.
Os coeficientes de correlação entre as concentrações dos agrotóxicos na água bmta e no solo
foram baixos - o mais elevado (0,68) para o BHC - , o que mostra maiores concentrações de resíduo
dos organoclorados no solo. Esta concentração é influenciada pela estrutura molecular do agrotóxico,
concentração, além da temperatura, umidade e características físico-químicas do solo.
No bojo deste arraste de partículas - em diversos cursos d’água maximizado pela perspectiva
de ressuspensão do material depositado no fundo -, quando o manancial se insere em área de atividade
pecuária, pode ocorrer também o expressivo aumento da concentração de cistos e oocistos de
protozoários. Concorre para este aumento, a prática do emprego do esterco produzido com as fezes do
gado como corretivo de solo. Em países frios, esta tendência é ainda mais destacada, pois o esterco é
armazenado durante o inverno - quando o rebanho permanece recolhido - e aplicação no solo ocorre
com o início da primavera coincidente com a estação chuvosa, favorecendo este aporte.
A magnitude do impacto da atividade pecuária na possibilidade de carreamento de cistos
de Crypto evidencia-se pela estimativa de que bezerros e cordeiros infectados haverão de produzir
IO10 cistos por grama de fezes, considerando 5 a 15 kg diários e duração de uma semana o processo
infeccioso. Indivíduos contaminados no decorrer da infecção excretam 109 a IO10 cistos, perfazendo
uma relação equivalente de aproximadamente uma rês para 1000 indivíduos imunocomprometidos.
Neste sentido, além do arraste de partículas aos corpos d’água, a mencionada influência das
precipitações foi objeto de um estudo epidemiológico descritivo de uma série temporal de 449 surtos
de doenças de transmissão hídrica (DTH) ocorridos nos EUA de 1971 a 1994. As epidemias foram
categorizadas por ano, mês, estado, área, tipo de abastecimento de água - coletivo e individual -,
etiologia e fonte de água. Dessas epidemias, 108 foram associadas aos mananciais de superfície, 306
aos mananciais subterrâneos. Em 35 surtos, a fonte de abastecimento de água não foi identificada.
Cada epidemia foi plotada temporal e espacialmente mediante a utilização de Sistema Informação
Geográfica e correlacionada à pluviosidade medida em um raio de 80 km. Foram calculadas as médias
mensais de chuvas, no período de 20 anos, a média no mês de ocorrência do surto, bem como a dos três
meses que o antecederam. As epidemias de DTH mais frequentes provenientes das águas superficiais
foram a giardíase e a doença gastrointestinal aguda de etiologia não determinada. A análise estatística
demonstrou que de 20 % a 40 % dos surtos de DTH apresentaram uma associação temporal com
as precipitações extremas. Essa relação foi mais aparente nos surtos cujas fontes eram mananciais
superficiais. Associação estatisticamente significativa foi delineada entre a pluviosidade e os surtos de
DTH, em ambos os mananciais, mediante a utilização de dados coletados entre 1948 a 1994 (Rose;
Daeschner; Patz, 2000).
Os dados fornecidos pelo estudo confirmam que o clima pode afetar o transporte de conta-
minantes. Embora a pluviosidade, analisada separadamente, não seja indicativa de uma epidemia de
DTH, mudanças nos padrões climáticos podem elevar o potencial de exposição, resultar em sobrecarga
ao sistema de tratamento de água e, consequentemente, elevar o risco para a saúde pública. Enfatiza-
-se, então, a necessidade de focalizar a bacia hidrográfica para melhor proteger a qualidade da água e
a saúde das populações residentes na área de abrangência da bacia.
Atualmente, as precipitações são reconhecidas segundo os efeitos que provocam na qualidade
bacteriológica da água. As primeiras chuvas, por exemplo, apresentam maior capacidade de infiltração,
transporte e ressuspensão de sólidos. Num futuro próximo, a ocorrência de precipitações extremas
12VCÍ
na área de drenagem de uma bacia hidrográfica deverá ser considerada como alerta aos sistemas de
vigilância sanitária para a necessidade de adoção de medidas que minimizem os riscos de transmissão
de doenças às populações expostas. O intercâmbio de dados entre as diversas áreas - geologia,
informática, estatística, medicina, engenharias hidráulica e sanitária - possibilitará, cada vez mais, a
minimização desses riscos.
Os efeitos do regime de precipitações nas características das águas naturais hão de se manifestar
mais ou menos intensamente em função das características da bacia hidrográfica. Solos arenosos mais
susceptíveis à erosão contribuem mais significativamente ao aporte de partículas ao corpo d ’água,
tendência que se maximiza nas regiões de relevo mais acidentado. Conforme mencionado, a presença
ou manutenção da vegetação natural, especialmente próximo às margens do corpo d’água, atenuará
a magnitude deste aporte de sólidos e de outros contaminantes aos mesmos associados, além de
minimizar a erosão do solo.
O impacto da retirada da cobertura vegetal primitiva em termos da elevação do aporte de
sedimentos aos corpos d’água exemplifica-se na tabela 5.2.

Tabela 5.2. Estimativa do aumento do aporte de sedimentos devido à retirada da cobertura vegetal.
Região Modificação do uso do solo Aumento do aporte de sedimentos
Sul do Brasil Agricultura x 4500
Texas (EUA) Agricultura x 340
Oklahoma (EUA) Pecuária e agricultura x 5 0 - 100
Utah (EUA) Pecuária extensiva x 1 0 - 100
Califórnia (EUA) Pastagem x 5 - 25
Mississipi (EUA) Agricultura x 10 - 100
Rajasthan (fndia) Pecuária x 4 - 18
Ontario (Canadá) Urbanização x 25
Agricultura x 14
Fonte: Novotny e Olem (1994).

O período chuvoso concorre para o aumento do transporte de sedimentos aos corpos d’água,
cuja magnitude é agravada por diversas atividades antrópicas. Das atividades relacionadas na figura 5.1
e conforme mostra a tabela 5.2, a agricultura constitui-se indubitavelmente a mais impactante, por
ocupar grandes áreas, demandar grandes movimentos de terra - dependendo da cultura - e pelo
significativo desconhecido da população rural dos danos à qualidade de água dos mananciais. Nos
países sujeitos a períodos prolongados de neve, estes impactos agravam-se nas primeiras precipitações
no início da primavera com o degelo da camada superficial dos solos. A importância da cobertura
vegetal da bacia hidrográfica na manutenção das características das águas naturais manifesta-se ainda
mais claramente por ocasião dos incêndios. As chuvas subsequentes a tais eventos haverão de conduzir
ainda maior quantidade de partículas aos corpos d’água, comparada a bacias hidrográficas com mesmo
tipo de solo e sem cobertura vegetal.
O caudal produzido pelas águas pluviais decorrentes da lixiviação de solos urbanos de cidades
de maior porte frequentemente contribui em maior monta com a deterioração da qualidade dos corpos
receptores, quando comparado aos efluentes domésticos tratados em nível secundário. Elevação
significativa das concentrações de sólidos suspensos, matéria orgânica, agrotóxicos, nitrogênio,
fósforo, além de metais pesados - principalmente chumbo, zinco e cobre - tem sido verificada nos
monitoramentos dos cursos d ’água que atravessam cidades de maior porte. Por tais motivos, em
meados da década de 1980 a Environmental Protection Agency (EPA) classificou as águas pluviais
como o quarto principal fator na deterioração da qualidade dos cursos d’água e o terceiro em relação
aos lagos. C A P ÍT U L O 05

121
Além do aumento do percentual escoado em relação ao volume precipitado - manifestado
pelo coeficiente de deflúvio ou runoff1 -, a urbanização termina por aumentar a profundidade do
lençol freático em virtude da instalação das tubulações de água e esgoto. Como consequência, reduzTse
significativamente a magnitude do escoamento de base que alimentava os pequenos córregos durante
o período de estiagem, tomando-os efêmeros ou com o caudal predominantemente consistindo dos
efluentes lançados no curso d ’água. Em contrapartida, durante o período chuvoso, com a redução do
tempo de concentração5758na bacia graças a impermeabilização e aumento da velocidade de escoamento
nos cursos d’água receptores de águas pluviais, eleva-se a perspectiva de progressiva erosão das
margens. De tempos em tempos, também os resíduos sólidos que não foram removidos pelos serviços
de limpeza urbana - embalagens, folhas de árvore e escória da constmção civil - são arrastados pelas
precipitações mais intensas contribuindo para deteriorar severamente a qualidade dos corpos d ’água.
Sistematização das alterações das características das águas naturais, dos tipos de aporte e dos
impactos está apresentada na tabela 5.3.

Tabela 5.3. Alterações nas características das águas superficiais.


Impactos na qualidade de
Parâmetro/Contaminante Fonte de aporte
água e na potabilização
Sólidos Lixiviação de solos rurais e urbanos, Maior aporte de microrganismos.
lançamentos de efluentes e ativida­ Elevação da dosagem de coagu-
des de mineração lantes e do volume despendido na
lavagem de decantadores e filtros.
Nutrientes (N, P) Lançamento de efluentes, lixiviação Floração de algas, aumento da
de solos agriculturáveis e vias urba­ concentração de nitrato, redução
nas. de OD, ressolubilização de ferro e
manganês, geração de od or e sa­
bor, e da formação de subprodutos
da desinfecção. Aumento do custo
do tratamento, com perspectiva do
emprego de carvão ativado.
Metais pesados Lançamento de efluentes industriais Toxicidade para organismos aquá­
e lixiviação de solos urbanos ticos e elevação do risco sanitário
para água tratada.
Bactérias do grupo coliforme Lançamento de efluentes domésti­ Aporte de microrganismos patogê­
cos, percolação de fossas, lixiviação nicos mais resistentes à desinfecção.
de solos urbanos e de criatórios de
animais
Contaminantes orgânicos sintéticos Lançamento de efluentes indus­ Aumento do risco sanitário para
triais, lixiviação de solos agricultu­ água tratada e do custo do trata­
ráveis mento pelo uso de carvão ativado
para adsorção.
Óleos e graxas Lixiviação de vias urbanas, percola­ Toxicidade do meio aquático, possi­
ção por poços de combustíveis bilidade de geração de odor e sabor.

Nas regiões altamente industrializadas, também a poluição atmosférica pode contribuir para
o fenômeno da chuva ácida que concorre para redução do pH dos corpos d’água, especialmente os
superficiais. Esta acidificação das águas advém da emanação de gases, como o gás sulfídrico (H2S),
que se complexam com vapor d ’água formando ácidos (ácido sulfurico, por exemplo) que retomam
durante as precipitações.

57. Coeficiente adimensional (inferior a unidade), também denominado coeficiente de escoamento superficial,
que relaciona a vazão escoada à intensidade da precipitação para uma determinada bacia hidrográfica.
58. Conceito hidrológico que se refere ao tempo necessário para que a chuva que cai no ponto mais distante leva
para atingir o ponto de saída (exutório) da bacia hidrográfica.
Alterações nas características das águas subterrâneas

Às mencionadas vantagens do abastecimento por meio de águas subterrâneas em relação


aos mananciais superficiais - redução do custo da adução e melhor qualidade - soma-se a menor
vulnerabilidade à poluição. Como seria de se esperar, o referenciado estudo sobre influência das
precipitações na transmissão das D T K apontou menor correlação, ainda que existente, para os
mananciais subterrâneos, confirmando esta menor susceptibilidade. Por outro lado, no período de 1971
a 1994 foram registrados 650 surtos de DTH nos EUA, com 580 mil pessoas infectadas,59 58 % dos
quais associados à água subterrânea e 33 % à água superficial.
A perspectiva de contaminação dos aquíferos relaciona-se com diversos fatores, especialmente
o tipo de solo e a profundidade, tomando evidente que os aquíferos freáticos são significativamente
mais susceptíveis aos efeitos das ações antrópicas do que os artesianos. Apesar da significativa
menor vulnerabilidade dos aquíferos em relação aos mananciais superficiais, a poluição das águas
subterrâneas apresenta um agravante especificamente em relação à dos cursos d’água. Por não ocorrer
a autodepuração - que minimizaria os efeitos no caso do aporte de matéria orgânica - e pela lenta
renovação das águas nos aquíferos subterrâneos, os efeitos da deterioração da qualidade de água
podem continuar se manifestando mesmo anos após cessar a fonte de contaminação.
Assim como para as águas superficiais, a poluição de mananciais subterrâneos pode ser difusa -
como, por exemplo, a percolação de nitratos e agrotóxicos utilizados na agricultura - ou pontual, como
a poluição orgânica por meio de fossas, postos de combustíveis ou aterros sanitários, ambas quase que
exclusivamente de origem antrópica. Contaminação de origem natural de águas subterrâneas pode
ocorrer pela elevada concentração de fluoretos, cloretos e de alguns metais como arsênio.
Embora o impacto de cada fonte de poluição ou contaminação varie em função das características
do solo e profundidade do aquífero, em termos de poluição de origem urbana destacam-se como as
mais relevantes as redes coletoras de esgotos, os lixões e aterros sanitários, as lagoas de estabilização
e o lançamento de efluentes no solo (figura 5.10).

Figura 5.10. Principais fontes de poluição de origem urbana das águas subterrâneas.

Originárias de atividades agrícolas, as principais fontes de poluição dos aquíferos estão apresen­
tadas na figura 5.11.

59. Vale destacar que apenas um único surto em Milwaukee acometeu aproximadamente 403 mil pessoas. C A P ÍT U L O 05
Figura 5.11. Fontes de poluição dos mananciais subterrâneos de origem agrícola.

As fontes de poluição apresentadas nas figuras 5.10 e 5.11 são hierarquizadas na tabela 5.4 em
conjunção com os principais fatores ou atividades antrópicas impactantes aos mananciais subterrâneos
em quatro regiões dos EUA.

Tabela 5.4. Importância das fontes de poluição de águas subterrâneas nas regiões dos EUA.
Fatores ou atividades
Nordeste Noroeste Centro-sul Sudoeste
antrópicas/Região dos EUA
Tanques sépticos Alta Alta Alta Alta
Exploração de petróleo Moderada Moderada Alta Alta
Aterros sanitários Alta Moderada Moderada Moderada
Lixiviação de vias urbanas Moderada Alta Baixa Alta
Lagoas de estabilização, bacias Alta Alta Moderada Baixa
de detenção e outros reserva­
tórios artificiais de efluentes
Agrotóxicos Moderada Baixa Moderada Moderada
Fertilizantes Baixa Moderada Baixa Moderada
Disposição de efluentes no solo Baixa Insignificante Baixa Moderada
Efluentes de criatórios de ani­ Baixa Baixa Moderada Baixa
mais
Vazamentos em tanques de ar­ Moderada Moderada Moderada Moderada
mazenamento de produtos quí­
micos (incluindo postos de com­
bustíveis)
Irrigação Insignificante Moderada Moderada Moderada
Fonte: Novotny e Olem (1994).

Diversos microrganismos patogênicos, como protozoários, vírus e bactérias, não são natural­
mente presentes em águas subterrâneas e, quando se manifestam, comumente é indicativo de alguma
fonte de contaminação. Neste cenário, estima-se que no Brasil aproximadamente um terço da população
não disponha de sistemas de coleta de esgotos, elevando-se exponencialmente a possibilidade de
contaminação das águas subterrâneas pelo extensivo uso de fossas, com frequência construídas de
forma rudimentar. Mesmo nos EUA, aproximadamente 29 % da população dispõem os efluentes
domésticos em sistemas estáticos, com maior risco de atingir os aquíferos subterrâneos, justificando a
hierarquização apresentada na tabela 5.4.
Conforme mostrado na figura 5.10, a poluição dos aquíferos freáticos pode ocorrer por meio
das juntas ou vazamentos nas tubulações da rede coletora de esgotos - especialmente com o emprego
de tubos cerâmicos de baixa estanqueidade. Nas áreas urbanas dotadas destas redes, a contaminação
das águas subterrâneas apresenta duas outras relevantes fontes: os lixões e aterros sanitários, e os
postos de combustíveis. No primeiro caso, a percolação do lixiviado - cuja demanda bioquímica
de oxigênio comumente supera 10000 mg/L - através dos interstícios do solo pode praticamente
inviabilizar muitos dos usos do aquífero. O escoamento do lixiviado na zona não saturada realiza-se
verticalmente, reduzindo o tempo para atingir os lençóis freáticos, e na zona saturada será governado
pela direção preferencial do fluxo das águas subterrâneas. Agudiza esta possibilidade, a frequente
disposição de produtos tóxicos e de lixo hospitalar nestes locais podendo concorrer também para
a contaminação dos aquíferos por metais pesados. Estas contaminações mais usualmente ocorrem
por meio dos lixões - especialmente em cidades de pequeno e médio porte -, pois, em significativa
parcela dos aterros sanitários h á impermeabilização, comumente realizada por meio de solos argilosos
compactados e drenagem do lixiviado para uma unidade de tratamento.
A sobrevivência de bactérias entéricas no solo, com possibilidade de atingir os mananciais
subterrâneos, é influenciada por uma complexa interação entre as características destes microrganismos
e do solo, hidrologia, clima e qualidade da água, sintetizada na tabela 5.5.

Tabela 5.5. Fatores intervenientes na sobrevivência de bactérias entéricas no solo.


Fator interveniente Impacto na sobrevivência
Te o r d e u m id a d e E le v a d a s o b r e v iv ê n c ia e m s o lo s ú m id o s e d u r a n t e a s p r e c i­
p it a ç õ e s

C a p a c id a d e d e a rm a z e n a m e n to d e á g u a C u r t a s o b r e v iv ê n c ia e m s o lo s a r e n o s o s d e m e n o r c a p a c id a ­
d e d e a rm a ze n a m e n to d e ág u a

T e m p e ra tu ra L o n g a s o b r e v i v ê n c i a a b a ix a s t e m p e r a t u r a s

pH C u r t a s o b r e v i v ê n c i a e m s o l o s á c i d o s ( p H d e 3 ,0 a 5 ,0 )

L u z s o la r C u r t a s o b r e v iv ê n c ia n a s u p e r f íc ie d o s o lo

M a t é r ia o r g â n ic a E le v a o p e r í o d o d e s o b r e v iv ê n c ia c o m p o s s i b i l i d a d e d e r e c re s -
c i m e n t o q u a n d o s u f ic ie n t e m a t é r i a o r g â n i c a é d i s p o n í v e l

C o m p e tiç ã o c o m o u t r o s m ic r o r g a n is m o s n o s o lo A u m e n t o d a s o b r e v i v ê n c i a e m s o l o s e s t é r e is

Fonte: Smith(1999).

Estudos confirmam o teor de umidade como o parâmetro mais relevante à sobrevivência das
bactérias no solo. Estima-se que em condições adversas esta sobrevivência raramente exceda 10 dias,
podendo atingir até 100 dias em condições favoráveis. Estudos em escala de laboratório acerca da
sobrevivência de bactérias do gênero Salmonellae apontou, para temperatura superior a 35 °C, redução
de 2 log (99 %) obtida em menos de 2 semanas (Canter; Knox; Fairchild, 1987).
Uma vez que os poços freáticos são mais utilizados para o abastecimento de comunidades de
pequeno pórte, nas quais a construção e manutenção tendem a ser mais precárias, é relativamente comum
a deterioração da qualidade da água por contaminação bacteriana, mesmo em países desenvolvidos.
Levantamento realizado pelo Center fo r Disease Control (EUA) em 1990 apontou 41 e 11 % dos
poços amostrados com ocorrência de coliformes totais e termotolerantes, respectivamente, em virtude
da constmção e manutenção deficientes. Neste mesmo levantamento, correlações apontaram que o
percentual de ocorrência de coliformes totais tende a aumentar com a idade do poço e com o inverso
da profundidade. Estes resultados coadunam com estimativa realizada pela AWWA {American Water
Works Association) apontando que aproximadamente 40 % dos poços empregados no abastecimento
público nos EUA não apresentam dispositivos de proteção na borda, favorecendo que durante as
precipitações ocorra o carreamento de águas pluviais para o interior da unidade.
C A PÍ TU L O 05

125
No Brasil, diversas pequenas comunidades são abastecidas por poços rasos que captam água em
aquíferos freáticos, bastante susceptíveis à contaminação. Na maioria dos casos, tal ocorre em função
da inexistência de redes coletoras de esgotos, resultando no emprego extensivo de fossas negras,:e
pela escavação e revestimento inadequados dos poços. Neste contexto, inspeção sanitária realizada
na cidade paulista de Araraquara em 41 poços rasos não constatou nenhuma unidade devidamente
protegida de contaminação e, no município de Ponta Grossa (PR), de um total de 5200 poços avaliados,
94 % foram considerados desprotegidos (Gonsaga, 1996).
Por outro ladoxa conjunção de mecanismos físicos e químicos favorece a remoção de bactérias
nos interstícios do solo, além da competição por nutrientes. Entre os primeiros destaca-se a própria
ação de coar, capaz de reter os microrganismos de dimensões maiores que os interstícios do solo. O
mesmo estudo enfocando a bactéria Salmonellae apontou também que solos com mais de 35 % de
argila e apenas 5 cm de profundidade apresentavam remoção de 3 log. Entre os mecanismos químicos,
a adsorção aos grãos do solo toma-se o mais relevante. Esta última perspectiva adquire maior
importância em solos menos coesos, nos quais os interstícios são significativamente maiores que os
microrganismos. A despeito das bactérias e da maioria dos solos serem dotados de carga negativa, a
adsorção ocorrerá para águas de elevada força iônica ou levemente ácidas. A presença de cátions (Ca2+,
Na+, H+) na água neutralizará a carga superficial negativa das bactérias, favorecendo a adsorção nos
grãos do solo.
A presença de víms nas águas subterrâneas origina-se das mesmas fontes que as bactérias, ou
seja, percolação por fossas, lixões ou aterros sanitários e lagoas de estabilização, além da dispersão de
esgotos no solo. Contudo, em função da menor dimensão (23 a 80 nm), comparada à das bactérias (0,5
a 3 pm) e protozoários (4 a 12 pm), sua presença nas águas subterrâneas na ausência destes parasitos
pode ser facilmente explicada. Suspeita-se que a maioria dos surtos nos quais o agente etiológico não
foi identificado tenha sido causada por alguma espécie de víms.
A sobrevivência dos víms no solo é inversamente proporcional à temperatura que se constitui no
principal fator interveniente, seguida pelo teor de umidade, e a retenção efetua-se predominantemente
por adsorção aos grãos do solo. Embora a eficiência da adsorção varie com o tipo de víms, a retenção
tende a ser mais rápida para pH da água abaixo de 7,4, pois valores mais elevados favorecem a
ionização dos gmpos carboxílicos da proteína dos víms, aumentando a magnitude da carga negativa
e por conseguinte a repulsão aos grãos do solo. Assim como para as bactérias, a presença de cátions
favorecerá a redução da carga negativa dos víms ou do solo (ou mesmo de ambos), maximizando a
adsorção.
A contaminação por postos de combustíveis adquire maior complexidade, pelo número de
fontes - a ponto de poder, como citado, ser classificada como poluição difusa em regiões de elevado
nível socioeconômico - e dificuldade de controle. Esta possibilidade de contaminação dos aquíferos
pode ocorrer principalmente:
i) por vazamentos nos tanques subterrâneos em virtude da corrosão das unidades e das
tubulações, defeitos de fabricação ou na instalação dos tanques, tubulações e equipamentos
de abastecimento;
ii) por transbordamentos ou derramamentos durante as operações de descarga de combustível.

Embora ambos possam resultar em severa contaminação, os primeiros podem ter duração de
meses sem que sejam detectados permitindo a percolação de volumes significativos de combustível,
ao passo que os derramamentos comumente têm menor duração e intensidade. Conforme assinalado
no Capítulo 1, a gasolina apresenta entre os líquidos a menor viscosidade dinâmica favorecendo a
percolação através dos interstícios do solo.
Pesquisa desenvolvida objetivando avaliar os riscos de contaminação por poços de combustíveis
dos dois aquíferos ffeáticos de Belo Horizonte apontou que pelo menos 30 % destas unidades - de
um total de 310 cadastrados em 1999 - são passíveis de contribuir para eventual contaminação. Esta
conclusão fundamentou-se em uma amostragem de mais de 2/3 dos postos da Cidade, realizada por
meio de questionários e na idade superior a 20 anos dos tanques, a partir da qual as ocorrências de
vazamentos tendem a se elevar como consequência dos processos de corrosão (Loureiro et a i, 2002).
Com alguma constância associada aos efeitos da poluição, as águas subterrâneas podem apre­
sentar concentrações de metais que inviabilizem seu uso sem o devido tratamento. As principais
reações para a fixação dos metais pesados aos grãos do solo, evitando que atinjam os aquíferos, são
a adsorção - considerada a mais relevante - , troca iônica, precipitação química e complexação com
substâncias orgânicas. Troca iônica e reações de complexação entre os metais e as substâncias orgânicas
apresentam eficiência transitória. A primeira pela competição com cátions disponíveis (Ca2+, K+, Na+)
e, no segundo caso, se os complexos orgânicos forem biodegradáveis os metais serão liberados de
volta ao solo.
A efetividade de tais reações será influenciada pela composição e textura do solo, além do pH e
potencial redox do solo e dos íons associados. Solos finos retêm mais eficientemente os metais graças
a maior capacidade de troca de cátions. O pH do solo controla as reações de adsorção e precipitação,
como também verifica-se que a capacidade de troca de cátions eleva-se com o aumento do pH. A
importância do potencial redox do solo reside no fato de geralmente os metais serem mais solúveis nas
formas reduzidas. Por exemplo, o ferro na valência +2 apresenta-se solúvel, precipitando-se como Fe+3
nas formas insolúveis de Fe(OH)3 ou F eP 04. Desta forma, condições anaeróbias haverão de favorecer
o transporte de metais com maior probabilidade de atingir os aquíferos.
Os casos mais notáveis de contaminação de águas subterrâneas por metais ocorreram em
Bangladesh e na China. O abastecimento por aquíferos freáticos com concentração natural elevada de
arsênio culminou na maior contaminação da história da humanidade. Com estimativa de que 35 milhões
de pessoas tenham consumido por mais de 25 anos águas com concentração superior a 0,05 mg/L -
padrão brasileiro estabelece 0,01 mg/L e o canadense 0,025 mg/L - e que a população atingida supere
80 milhões, resultado da perfuração de 6 a 11 milhões de poços. Na China estima-se que 2 milhões
de pessoas estejam contaminadas com arsênio (Von Sperling, 2002). Nos EUA, aproximadamente
11 milhões de pessoas abastecem-se de mananciais subterrâneos nos quais a concentração de arsênio é
superior ao valor máximo permissível de 0,01 mg/L, em vigor a partir de janeiro de 2006.
Nas regiões mrais, a contaminação das águas subterrâneas também se realiza por meio da
infiltração de agrotóxicos e nitratos extensivamente utilizados na agricultura. Em áreas de pecuária
intensiva, parte da amônia liberada do esterco é introduzida na atmosfera e parte convertida por
microrganismos do solo em nitratos solúveis, como produto final da degradação aeróbia da matéria
orgânica, conforme referenciado no Capítulo 2. Como o nitrato tem alta mobilidade tanto em solos
saturados quanto insaturados, por ser solúvel em água, não se ligar a partículas do solo e apresentar
carga negativa (NOf), tomou-se um dos principais poluentes das águas subterrâneas.
Significativo aumento nas concentrações de nitratos em águas subterrâneas tem sido verificado
especialmente em solos arenosos submetidos à irrigação. Tal se confirmou por meio de comparação
realizada envolvendo o monitoramento semanal da concentração de nitratos em aquíferos freáticos
de dois solos arenosos, com e sem cultivo agrícola. No primeiro caso havia um sistema de irrigação
com pivô central e aplicação de fertilizantes por aspersão, ao passo que no segundo, praticamente
não se verificava nenhum tipo de uso do solo. Amostras coletadas nos poços em cada área apontaram
diferenças significativas nas concentrações de nitratos. Na área de cultivo a média das concentrações
de nitratos (como nitrogênio) foi 20 mg/L, variando de menos de 0,1 a 133 mg/L, ao passo que na área
com vegetação natural esta variação apresentou-se de 0,1 a 1,0 mg/L. Uma vez que a amostragem na
área cultivada efetuava-se em um poço localizado abaixo do pivô central, as concentrações médias
de nitrato apresentaram significativa variação sazonal, de acordo com as características da cultura e
o regime das precipitações. Este monitoramento concluiu que há um tempo de retardo de dois a três
meses, após a aplicação do fertilizante, para que os nitratos atinjam o lençol freático.
Por vezes associados aos nitratos, agrotóxicos de diversos tipos têm sido detectados nos
aquíferos subterrâneos, embora em baixas concentrações, mesmo nas regiões de uso mais intensivo.
Inicialmente, os agrotóxicos aportam aos corpos d ’água para posteriormente atingir os aquíferos
freáticos, conforme apresentado na figura 5.12.

Figura 5.12. Contaminação do aquífero freático por agrotóxicos.

Os fatores intervenientes na probabilidade da presença de agrotóxicos em mananciais subter­


râneos podem ser hierarquizados da seguinte forma:

Uso intensivo na área do manancial


b
Recarga no aquífero
b
Permeabilidade do solo
b
Solos cársticos ou não consolidados
b
Tipo de escavação do poço
b
Profundidade do poço
b
Selamento do poço
Os fatores mais comumente associados à presença de agrotóxicos em águas subterrâneas
relacionam-se às áreas de uso mais intensivo, à magnitude da recarga no aquífero - por precipitação ou
irrigação - e à construção do poço. Poços mais antigos, de escavação rudimentar e precária proteção
da borda do poço, em especial para solos de elevada permeabilidade, tendem a apresentar maior
probabilidade da ocorrência de agrotóxicos. A hierarquização sistematizada anteriormente, conferindo
à característica do solo e profundidade do poço importância fundamental, confirma-se pela tendência
da concentração de agrotóxicos nas águas subterrâneas ser baixa nas regiões de emprego mais restrito
destes produtos e apresentar alta variabilidade nas regiões de aplicação mais extensiva. Também os
efeitos sazonais da aplicação destes compostos orgânicos sintéticos - devido ao tipo de cultura -
manifestam-se menos intensamente à medida que se aumenta a profundidade do poço.
Ainda relacionada à agricultura, a irrigação realizada em larga escala em regiões áridas ou
semiáridas pode concorrer com o progressivo aumento da salinidade do solo e por consequência das
águas subterrâneas. Como parcela da água de irrigação é evaporada, em magnitude variável em função
da umidade da região, se a precipitação natural não é suficiente para controlar o aumento da salinidade,
comumente eleva-se a vazão de irrigação. Como consequência, o excesso de água drenado da superfície,
natural ou artificialmente, apresenta salinidade elevada, percolando e atingindo o aquífero, elevando
a salinidade das águas subterrâneas. No nordeste brasileiro, são relativamente comuns mananciais
subterrâneos com salinidade significativa, por vezes agravada nas áreas de irrigação. Conforme
assinalado no Capítulo 2, a salinidade pode ser avaliada com base na determinação da condutividade
elétrica (pS/cm) ou da concentração de sólidos totais dissolvidos.

Proteção de mananciais

Mananciais superficiais
O conceito de proteção dos mananciais de abastecimento insere-se na premissa das múltiplas
barreiras como forma de assegurar a qualidade da água de consumo. Embora o País conte com uma
legislação ambiental bastante restritiva quanto à emissão de poluentes no ambiente, a fragilidade
das estruturas político-administrativas dos órgãos ambientais não tem possibilitado uma efetividade
no cumprimento da lei. Dessa forma, os dispositivos legais existentes não têm sido suficientes para
garantir a utilização sustentável dos recursos hídricos em diversas regiões, na medida em que os corpos
d’água estão bastante vulneráveis aos poluentes sólidos, líquidos e atmosféricos.
Como uma das consequências deste quadro, no Brasil e na maioria dos países, o conceito de
preservação de mananciais refere-se, em outros termos, ao cerceamento do acesso à bacia hidrográfica,
facilitada pela distância no caso dos centros urbanos de maior porte. Nesta premissa, quando do
emprego de reservatórios de acumulação, aflora a recorrente questão da perspectiva de múltiplos usos
do corpo d’água.
Ainda que de impacto de difícil mensuração, as atividades de recreação podem contribuir com
a deterioração da qualidade de água. Interessante prerrogativa neste contexto é atribuída à AWWA ao
proibir tais atividades quando não há outro manancial disponível para o abastecimento da comunidade.
Quando as atividades de recreação são permissíveis estas excluem o banho, pois tem se verificado
aumento na concentração de diversos microrganismos, tais como Shighella, E. coli, vírus da hepatite e
cistos e oocistos de protozoários nos reservatórios onde tal uso era facultado. Monitoramento realizado
durante 3,5 anos, no estado do Maine (EUA), em dois lagos semelhantes em termos limnológicos,
apontou significativa maior concentração de coliformes totais no corpo d’água no qual as atividades
de recreação eram permitidas (Hroncich, 1999).
C A P ÍT U L O 05
A canoagem e a pesca, esta sem o uso de barcos a motor, constituem as atividades de recreação
menos impactantes à qualidade de água, com os riscos restringindo-se à possibilidade de incêndios
pelos acampamentos às margens do corpo d’água.
As ações para aumentar a vida útil de um reservatório ou de controle da eutrofização podem
ser divididas em duas categorias: preventivas e corretivas ou não estruturais e estruturais. As primeiras
centram-se na bacia hidrográfica e caracterizam-se por ações que visam a minimizar o aporte dos
poluentes - sólidos, nutrientes e matéria orgânica - ao corpo d’água e principiam por amplo programa
de educação ambiental para com os usuários. Já as medidas corretivas enfocam o reservatório e
objetivam assegurar o seu uso como manancial de abastecimento público.
As ações voltadas a minimizar o assoreamento dos reservatórios de acumulação, atenuando
secundariamente também o aporte de nutrientes, centram-se basicamente em duas vertentes: reduzir o
aporte de sedimentos por meio do controle da erosão na bacia hidrográfica e retirada, por descarga de
fundo ou dragagem, do material sedimentado. Reconhecem-se, porém, algumas dificuldades para seu
sucesso: os resultados obtidos são de médio ou longo prazo; pode haver uma dependência da anuência
e da participação ativa de muitos proprietários; e, de uma maneira geral, tem-se observado um aumento
da erosão face à ocupação das áreas próximas aos reservatórios. Adicionalmente, a constmção de bacias
de detenção nos tributários e, quando do lançamento de esgotos, de anéis interceptores circundando o
reservatório também se constituem outras medidas preventivas que reduzem o aporte de sólidos aos
reservatórios de acumulação.
Por outro lado, as médias corretivas - de eficiência restrita - convergem para a remoção dos
sedimentos por descarga de fundo ou dragagem. A utilização de comportas de fundo e outros sistemas
de escoamento hidráulico similares para permitir a passagem dos sedimentos pelas barragens não
impede o assoreamento dos reservatórios. Além disso, para o caso de descargas de fundo, a eficiência
pode se restringir à área mais próxima à barragem. A alternativa da dragagem só é utilizada em situações
extremas ou quando os sedimentos extraídos têm algum valor comercial, havendo estimativas de que
o custo de dragagem é 20 vezes maior do que o custo de disponibilizar volume de armazenamento
adicional em outro reservatório (Palmier; Libânio; Nascimento, 1999).
Na perspectiva da eutrofização, as primeiras ações centram-se no tratamento dos esgotos
antes do lançamento - em alguns casos em nível terciário para remoção de nutrientes - e no controle
das atividades agrícolas na bacia hidrográfica como forma de minimizar o aporte de compostos de
nitrogênio e fósforo ao reservatório. Este controle deve abarcar a pecuária e criação de animais também
com objetivo de reduzir a afluência de cistos e oocistos de protozoários. Dependendo da profundidade
do lençol freático e do tipo de solo, abre-se a perspectiva de infiltração de esgotos no terreno após
tratamento em nível primário. Uma alternativa de aplicação mais restrita consiste na transposição dos
esgotos para outra bacia hidrográfica ou o lançamento a jusante do reservatório. Esta última alternativa
foi empregada para a proteção da qualidade da água do reservatório de Várzea das Flores na Região
Metropolitana de Belo Horizonte, por meio do recalque de uma vazão de esgotos domésticos da ordem
de 150 L/s para uma outra bacia hidrográfica, objetivando atenuar os eventos de eutrofização.
Além do emprego de algicidas - com as restrições salientadas - , algumas das ações de
remediação dos efeitos da eutrofização consistem na aeração da camada mais profunda (hipolímnio),
por meio da recirculação da água, com objetivo de elevar a concentração de oxigênio dissolvido pelo
contato com a atmosfera e favorecer a liberação dos gases da degradação anaeróbia como metano, gás
sulfídrico e carbônico. Alternativa similar constitui na injeção de oxigênio, ambas viabilizando-se para
reservatórios mais profundos. A retirada mecânica das plantas aquáticas pode se fazer necessária nos
eventos mais expressivos de eutrofização.
As torres tomadas d’água em reservatórios susceptíveis a periódicas florações algais, comu-
_^ _ __ mente possibilitam a captação a diferentes profundidades, permitindo que a água bruta abaixo da zona
1 3 0 ' ' ■ • ■ - ■ ■
fótica aflua à estação de tratamento. Uma outra alternativa para captação em ambientes eutrofizados
constitui-se na constmção de barreiras à afluência das algas e cianobactérias à estação. Com este
intuito, desenvolveu-se um dispositivo para minimizar esta afluência, constando de um anel de ferro
galvanizado, dotado de duas fileiras de orifícios posicionadas em ângulos de 45 e 90°, através do
qual efetuava-se injeção de ar comprimido por meio de um compressor de vazão de 286 L/min. O
dispositivo foi colocado abaixo do crivo da tubulação de sucção da instalação de recalque de água
bruta e foi testado na captação flutuante em um curso d’água, conforme mostra a figura 5.13.

Aliada à baixa velocidade, este manancial constituía-se no corpo receptor dos esgotos
domésticos in natura de duas cidades com população da ordem de 100 mil habitantes, dos efluentes
de laticínio e de aproximadamente 150 pocilgas da região, culminando com significativo grau de
eutrofização. Verificou-se significativa redução da afluência de algas e cianobactérias à estação de
tratamento, cuja vazão é da ordem de 70 L/s, nos períodos de floração, minimizando os gastos com
carvão ativado no controle de odor e sabor (Viana et al., 2005).
Várias das ações destinadas à preservação da qualidade de água dos reservatórios também
se aplicam aos cursos d’água, tais como tratamento dos esgotos domésticos em nível secundário, a
construção de bacias de detenção na zona urbana objetivando minimizar o dano da afluência das águas
pluviais e, em casos de poluição mais severa, a própria aeração do curso d’água.
Com alguma frequência, a preservação dos cursos d’água adquire maior complexidade
quando os divisores de água estão além dos limites do município. Na Europa esta situação é ainda
mais complexa, pois as bacias hidrográficas de alguns dos principais cursos d’água deste continente
estendem-se por vários países. Nesta premissa, cresce a importância dos comitês de bacias hidrográficas
que regulamentem o uso da água e a ocupação do solo, além de fomentar a educação ambiental aos
usuários dos recursos hídricos procurando englobar as escolas da região. As ações devem se direcionar
a regulamentar a retirada de água para irrigação, à manutenção da vegetação nativa próxima às margens
do curso d’água, e, quando possível, até à aquisição de parcela da área da bacia hidrográfica pelo poder
público. Tem sido prática corriqueira no Brasil a desapropriação das áreas do entorno aos mananciais
abastecedores dos grandes centros urbanos, especialmente pelas companhias estaduais de saneamento.
O lançamento de esgotos sanitários, ainda que tratados, no interior de lagos e reservatórios ou
nos cursos d ’água próximo ao ponto de captação constitui-se extremamente impactante na perspectiva
A P ÍT U LO 05

131
de ocorrência das doenças de transmissão hídrica. As tecnologias de tratamento de esgotos em nível
secundário apresentam baixa eficiência na inativação de coliformes, embora diversos fatores - tais
como temperatura, insolação, pH, predação, entre outros - concorram para o decaimento natural
destes microrganismos indicadores. Outras características do corpo receptor contribuem para elevar
a taxa de decaimento bacteriano, tais como a turbulência, localização geográfica e as próprias
características biológicas das águas, ressaltando que os víms apresentam decaimento inferior ao das
bactérias coliformes.
Todavia, a despeito de tal constatação, a concentração de microrganismos tende a se elevar
no corpo d’água após ó despejo de esgotos, tomando a eficiência da potabilização o mecanismo mais
seguro na preservação da saúde da população. As recomendações do Conama 357/2005 estabelecem
que as águas de classes 2 e 3, destinadas ao abastecimento público após submetidas ao tratamento
convencional, devam apresentar concentração máxima de E. coli de 1000 e 4000 org/100 mL,
respectivamente.
A título de ilustração, admite-se o lançamento de 100 L/s de esgoto com concentração de E. coli
da ordem de 107 org/100 mL em um curso d’água de classe 2. Admite-se, igualmente, concentração nula
de E. coli no curso d'água a montante do lançamento dos despejos, velocidade média de escoamento
de 0,30 m/s e vazão de 10,0 m3/s, com a captação para abastecimento situando-se a 30 km a jusante
do ponto de lançamento dos despejos. Para o atendimento às premissas estabelecidas pela Resolução
Conama 357/2005, o tratamento do esgoto deveria apresentar eficiência de 98,8 % em termos de remoção
bacteriológica. Nestas condições, a redução natural,60 favorecida pela temperatura média das águas, será
de 94 %, com concentração de E. coli no ponto de captação da ordem de 6,1 x 105 org/100 mL, ainda
muito superior ao limite preconizado pelo Conama. Embora a legislação estabeleça os referidos limites
em toda extensão do curso d’água, o tratamento requerido poderia apresentar uma eficiência de 98,2%
na inativação de coliformes, uma redução desprezível comparada à anterior e igualmente inviável por
quaisquer processos aeróbios sem o emprego da desinfecção.
A importância da educação sanitária manifesta-se no exemplo da cidade de Edmonton
(população da ordem de 800 mil habitantes), capital da província de Alberta (Canadá). As captações
de água bmta realizam-se diretamente do curso d’água, vazão mínima da ordem de 300 m3/s, cuja
bacia hidrográfica cobre uma área de 28 mil km2, incluindo florestas, montanhas, vales e fazendas
de agricultura e pecuária. Adicionalmente, o rio corta a cidade e uma das captações está localizada
praticamente no centro, com ocupação urbana a montante e jusante ao longo das duas margens. Esta
captação responde por aproximadamente 1,5 m3/s e, à exceção do início da primavera quando ocorre o
degelo na região das Montanhas Rochosas onde se localiza a nascente do rio, a turbidez da água bmta
é inferior a 1 uT e cor verdadeira a 5 uC, indicativo da preservação do manancial pelos usuários da
bacia hidrográfica.
Para as bacias hidrográficas ocupadas, a proteção dos mananciais deve se iniciar pela elaboração
de um inventário detalhado das atividades antrópicas desenvolvidas capazes de impactar a qualidade
da água, superficial ou subterrânea. Neste inventário, avalia-se o risco em termos da distância à
captação, da possibilidade de percolação no solo e da existência de barreiras naturais ou artificiais
aos contaminantes. Dentre as últimas, existência de vegetação às margens dos mananciais ou áreas de
parques tende a minimizar estes impactos.

60. Nesta simulação, considerou-se coeficiente de decaimento bacteriano (Kb) de 1,0 dia"1e tempo de 1,16 dia, o
c a p ít oo último, consequência da relação entre a velocidade média e a distância do ponto de lançamento à captação.
132
Mananciais subterrâneos
A primeira medida obj etivando minimizar os riscos de contaminação de mananciais subterrâneos
consiste na proteção da borda do poço por meio do revestimento das paredes em alvenaria ou concreto
impedindo o arraste das águas pluviais para o interior deste e evitando o desmoronamento das paredes.
Uma segunda escavação com 10 cm de largura ao longo dos 3 m iniciais da parede a ser preenchida,
preferencialmente por concreto ou argila, minimizará a possibilidade de contaminação do poço. Por
fim, a instalação de uma tampa de concreto e o emprego de bombas manuais ou elétricas - evitando o
uso de baldes e cordas - haverão de assegurar uma melhor qualidade da água subterrânea.
Com base na proteção da borda do poço, estendem-se outras medidas objetivando preservar a
qualidade das águas subterrâneas. Neste contexto, inserem-se a gradação das áreas ao redor do poço
sujeitas a algum tipo de restrição de ocupação, ora em vigor em diversos países da Europa. Delimita-
-se inicialmente, uma área de proteção imediata nas circunvizinhanças do poço abrangendo, como na
Bielorrússia, de 30 a 50 metros ao redor da área de captação. A função precípua desta ação consiste em
minimizar as possibilidades de contaminação microbiológica e, consequentemente, a propagação de
doenças de transmissão hídrica. Posteriormente, são definidas as áreas de proteção próxima e distante,
objetivando restringir preferencialmente a migração de poluentes químicos. Nestas áreas limitam-se
algumas atividades antrópicas, tais como agricultura, construções, instalações de aterros sanitários e
lançamento de águas residuárias.
Enquanto para aquíferos artesianos a poluição ocorre na zona de recarga, para os aquíferos
freáticos, as fontes de poluição, salvo exceções, comumente localizam-se próximas ao poço, sendo
mais facilmente identificáveis. De qualquer forma, a preservação dos mananciais subterrâneos depende
essencialmente das práticas/atividades adotadas na superfície, uma vez que existem inúmeros sistemas
de comunicação entre as águas superficiais e subterrâneas. Desta forma, medidas preventivas referentes
à minimização do aporte de sedimentos e nutrientes aos mananciais superficiais acabam por reverberar
na preservação e proteção das águas subterrâneas. Dentre esses sistemas de comunicação, destacam-
-se as áreas de recarga de aquíferos, locais que favorecem a movimentação mais rápida de produtos
poluentes até a zona saturada. Esta constatação é particularmente importante quando os mananciais
são aquíferos artesianos cuja exploração, não raro, demanda altos investimentos de implantação. Para
aquíferos artesianos cujas zonas de recarga são susceptíveis à poluição, a redução da vazão captada
minimiza a possibilidade de contaminação. Em semelhante premissa, a perspectiva de intrusão salina
aumenta com a magnitude da vazão retirada.
Também a adequada drenagem do lixiviado dos aterros sanitários e a impermeabilização
das lagoas de estabilização de esgotos domésticos ou dos efluentes de criatórios de animais e aves
constituem, especialmente para os solos arenosos, importantes medidas preventivas para preservação
da qualidade das águas subterrâneas. Este tipo de contaminação dos aquíferos adquire maior gravidade
no que concerne a presença de cistos e oocistos de protozoários. Como as águas subterrâneas
comumente são tratadas apenas mediante a cloração - sabidamente ineficiente na inativação destes
microrganismos - , aumentam exponencialmente as possibilidades de surtos.
T ecnologias de Tratam ento

A parança que foi - conforme estou vivo lembrado - numa vereda


sem nome nem fama, corguinho deitado demais, de água muito
simplificada.

Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas ( 1956)

Fatores intervenientes na definição da tecnologia de tratamento

A potabilização das águas naturais para fins de consumo humano tem como função essencial
adequar a água bruta aos limites físicos, químicos, biológicos e radioativos estabelecidos pela Portaria
518, tomando o efluente da estação incapaz de transmitir qualquer maléfico à população abastecida.
Embora pareça, não há redundância na assertiva anterior. Esta adequação da água natural não assegura
intrinsecamente que substâncias e microrganismos não listados na Portaria 518, passíveis de causar
dano à saúde - como cistos e oocistos de protozoários -, não possam ainda se fazer presentes.
O tratamento de água consiste na remoção de partículas suspensas e coloidais, matéria orgânica,
microrganismos e outras substâncias possivelmente deletérias à saúde humana, porventura presentes
nas águas naturais, aos menores custos de implantação, operação e manutenção, e gerando o menor
impacto ambiental às áreas circunvizinhas. As tecnologias de tratamento disponíveis visam a conciliar
tais objetivos. Diferentemente do tratamento de águas residuárias de característica predominantemente
biológica, as tecnologias de tratamento das águas de abastecimento, na sua quase totalidade, abarcam
conjunto de processos e operações físico-químicos.
A definição da tecnologia a ser empregada no tratamento de água para consumo humano deve--
-se pautar sobretudo nas seguintes premissas principais:
• características da água bruta;
• custos de implantação, manutenção e operação;
• manuseio e confiabilidade dos equipamentos;
• flexibilidade operacional;
• localização geográfica e características da comunidade;
• disposição final do lodo.
Características da água bruta
Na avaliação das características físicas, químicas e biológicas da água bmta para fins de definição
da tecnologia de tratamento, provavelmente como fator mais importante, deve-se considerar a perspectiva
das alterações nestas decorrentes da ocupação da bacia hidrográfica na qual o manancial está inserido
e, em menor escala, de fenômenos naturais. Conforme mencionado no Capítulo 5, atividades antrópicas
ligadas à agricultura e à pecuária poderão fomentar, no presente e no futuro, o arraste de agrotóxicos e
nutrientes, no primeiro caso, e de cistos e oocistos de protozoários,6162no segundo.
A magnitude, a frequência e a gradação das alterações das características da água bmta
são também consequência das próprias características naturais da bacia hidrográfica, consoante à
composição predominante do solo e do tipo de cobertura vegetal porventura existente. Solos mais
erodíveis hão de favorecer, durante o período chuvoso, o aporte mais significativo de sólidos em
comparação a solos mais coesos. Neste viés, rios de velocidade mais elevada tendem a carrear maior
quantidade de sólidos decorrente da perspectiva de erosão das margens. Em contrapartida, cursos
d’água de velocidades mais baixas possibilitam maior decomposição da matéria orgânica vegetal
podendo culminar com teores de cor verdadeira mais significativos.
Com objetivo de balizar a definição da tecnologia de tratamento, o Conselho Nacional do Meio
Ambiente (Conama) elaborou classificação para as águas doces, salobras e salinas em função dos
usos preferenciais. As primeiras foram classificadas segundo cinco classes e as demais segundo outras
duas, com base na concentração de coliformes e de um rol de até 90 parâmetros físico-químicos. Na
tabela 6.1 estão apresentadas as classes e respectivos níveis de tratamento.

Tabela 6.1. Tratamento requerido em função da classificação das águas doces.6


Classificação Tratam ento Requerido
Classe Especial Desinfecção
Classe 1 Tratamento Simplificado*
Classe 2 Tratamento Convencional
Classe 3 Tratamento Convencional
Classe 4 Águas destinadas a usos menos exigentes
* Embora não haja menção explícita ao conceito, admite-se o emprego da filtração lenta neste caso.

A classificação do Conama 357/2005 assume valores excessivamente conservadores para


alguns parâmetros, tais como a cor verdadeira e turbidez cujos idênticos limites para as classes 2 e 3
são 75 uH e 100 uT, respectivamente. Agua bmta com turbidez superior a 500 uT durante os eventos
chuvosos afluindo a estações de tratamento toma-se situação relativamente comum para diversos
sistemas de abastecimento do País. Verifica-se igualmente o maior aporte de sólidos coincidente com
o início da estação chuvosa - para Região Sudeste do País entre outubro e novembro - , quando o solo
se encontra mais susceptível à lixiviação. O efeito das chuvas antecedentes testifica-se pela redução
das médias geométricas de turbidez registradas de janeiro a março quando comparadas aos dois meses
anteriores, para um índice pluviométrico de mesma ordem de grandeza, conforme exemplificado na
figura 2.3 do Capítulo 2. Nesta figura evidencia-se a magnitude do aporte de sólidos à estação, a
qual aflui em mais de 25 % do tempo, turbidez superior a 200 uT. De acordo com as recomendações
do Conama 357/2005 este manancial não poderia ser utilizado para abastecimento em pelo menos
cinco meses no ano, embora esta estação apresente consistentemente turbidez efluente atendendo ao
estabelecido pela Portaria 518.

61. Conforme abordado no Capítulo 2, o gado constitui-se em um dos principais reservatórios de protozoários.
62. Conselho Nacional do Meio Ambiente - Resolução 357 de 25 de março de 2005.
CA PÍTULO 06
Em contrapartida, cursos d’água aos quais afluem esgotos tratados-m esm o em nível secundário
- são susceptíveis a apresentar maior concentração de cistos e oocistos de protozoários, especialmente
no período de estiagem quando a vazão natural escoada reduz-se significativamente. Neste contexto,
paradoxalmente podem se associar valores de turbidez mais baixa ao maior risco sanitário.
Com intento similar ao do Conama, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT -
Associação Brasileira de Normas Técnicas, 1990) elaborou classificação das águas naturais para
abastecimento público, recomendando para cada uma delas uma linha de tratamento mínimo. Nesta são
contemplados apenas cinco parâmetros: DBO, concentração de coliformes, pH, cloretos e fluoretos.
Em função dos intervalos de variação e das concentrações limites de cada parâmetro, são definidas
quatro diferentes linhas básicas de tratamento conforme apresentado na tabela 6.2.

Tabela 6.2. Classificação das águas naturais para abastecimento público.


Parâmetro/Tipòs de Água : A B C D
Descrição Subterrâneas Subterrâneas ou Superficiais, bacias Superficiais, bacias
ou superficiais, superficiais, bacias não protegidas, não protegidas,
bacias protegidas não protegidas exigindo coagulação sujeitas a fonte de
atendendo ao padrão atendendo ao padrão para atendimento poluição, exigindo
de potabilidade de potabilidade após do padrão de processos especiais de
quanto aos demais tratam ento sem potabilidade tratamento
parâmetros coagulação
DB05 média (mg/L) < 1,5 1 ,5 - 2 ,5 2 ,5 - 4 ,0 > 4,0
DB05 máxima em qualquer 1 -3 3 -4 4 -6 > 6
amostra (mg/L)
Coliformes Totais média 5 0 -1 0 0 1 0 0 -5 0 0 0 5000 - 20000 > 20000
mensal em qualquer mês
(NMP/100 mL)
Coliformes Totais máxima > 100 em menos de > 5000 em menos de > 20000 em menos de X
(NMP/100 mL) 5% das amostras 20% das amostras 5% das amostras
Cloretos < 50 50 - 2 5 0 2 5 0 -6 0 0 > 600
CO
UJ

UJ
pH 5 -9 5 -9 5-9
I
p
Fluoretos < 1,5 1,5 - 3,0 > 3,0 X

Tratamento Tipo A: desinfecção e correção de pH.


Tratamento Tipo B: desinfecção, correção de pH e (i) sedimentação simples desde que o efluente se enquadre no padrão de potabilidade ou (ii)
filtração - precedida ou não de decantação - para águas afluentes à estação com turbidez inferior a 40 uT e cor aparente a 20 uC.
Tratamento Tipo C: coagulação, seguida ou não de decantação, filtração rápida, desinfecção e correção de pH.
Tratamento Tipo D: tratamento mínimo tipo C e complementar apropriado a cada caso.

Contudo, ao restringir os fatores intervenientes apenas às características da água bruta, as


recomendações da ABNT e do Conama terminam por convergir, quase invariavelmente, para a linha
de tratamento convencional. Adicionalmente, a própria metodologia de seleção da linha de tratamento,
prevista na referida norma, tem sido sujeita a críticas, sobretudo pelos parâmetros de caracterização da
água bruta adotados, mas também pelos limites recomendados para este. Além disso, a mesma norma
da ABNT recomenda a realização de ensaios em unidades-piloto, como balizadores para definição dos
parâmetros a serem aplicados na construção das instalações responsáveis pelas operações unitárias
usuais na potabilização da água. A realização de ensaios de tratabilidade tomaria mais acurada a
definição da tecnologia de tratamento, mesmo quando restritos apenas aos de bancada.

Custos de implantação, operação e manutenção


À importância dos custos de implantação, operação e manutenção da estação de tratamento
testifica-se na própria definição do manancial a ser utilizado para o abastecimento. Os custos de
implantação da unidade de tratamento constituem-se na conjunção das obras civis e dos custos do
terreno, do meio filtrante e dos equipamentos, obviamente relacionados à magnitude da vazão afluente,
à localização geográfica da estação em relação aos centros mais desenvolvidos e, em última instância,
à situação econômica do País na amortização do capital investido.
Devido a esta diversidade de fatores, os custos de implantação das estações de tratamento
de água apresentam variações significativas. Estações construídas em concreto, contemplando ás
principais etapas da potabilização e sem considerar as unidades destinadas ao tratamento dos resíduos
gerados no tratamento, tendem a apresentar custos da ordem de US$ 5 a 10 mil por L/s63. No mesmo
viés, unidades pré-fabricadas apresentam custos inferiores - US$ 4 a 6 mil por L/s -, mas hão de
demandar a construção da casa de química e da fundação de concreto sobre a qual será instalada a
estação de tratamento. Custos significativamente mais elevados são registrados nos EUA e Canadá,
variando de US$ 7,8 mil até US$ 25 mil por L/s (Kawamura, 2000).
Detalhado levantamento dos custos de implantação, praticados pela Companhia de Saneamento
Básico do Estado de São Paulo - Sabesp, para estação dotada de todas as etapas inerentes ao tratamento
apontou valor da ordem de R$ 14 mil por L/s, incluindo-se automação e controle, e acondicionamento
do lodo e das águas de lavagem dos filtros. Ao se acrescer sistema para dosagem e acondicionamento de
carvão ativado em pó (CAP) os custos superam R$ 27 mil por L/s, considerando estação de tratamento
apta a potabilizar 100 L/s (Mierzwa et a!., 2008).
Os custos de operação e manutenção compõem-se das despesas com energia elétrica, pessoal -
operacional e administrativo manutenção e reparo de equipamentos, e produtos químicos empregados
na potabilização. Os gastos com energia elétrica nos sistemas de abastecimento brasileiros perfazem de 10
a 20 % da arrecadação total - atingindo até 25 % em alguns casos -, constituindo-se no segundo insumo
mais relevante superado apenas pelas despesas com pessoal. Embora seja um dado dificilmente obtenível,
estima-se que os custos da produção de água tratada no País variem entre R$ 0,10 a 0,50/m3, excluindo-
-se gasto com pessoal de difícil inferência para as companhias estaduais de saneamento. Como a parcela
mais significativa desta despesa advém das instalações de recalque, há possibilidade de um manancial
de melhor qualidade ser preterido por outro com menores custos operacionais na adução. Nesta situação
usualmente opta-se por tecnologia de tratamento de implantação mais onerosa, mas apta a potabilizar
água de qualidade inferior. Na figura 6.1 apresentam-se discriminação das despesas de uma autarquia
municipal64no estado de Minas Gerais - também responsável pela coleta de esgotos - de cidade de médio
porte (população da ordem de 40 mil habitantes) relativas a 2009.

\ 1% - Empréstimos bancários
Outros investimentos - 24% t

Produtos químicos -1% t


Investimento em ligações de água - 2% t í 13% - Energia elétrica

Serviços de terceiros -15% t 1 44% - Despesas com pessoal

Figura 6.1. Exemplo de discriminação das despesas de uma autarquia municipal no estado de Minas Gerais.

Da análise da figura 6.1 evidencia-se o pequeno impacto do custo dos produtos químicos
utilizados no tratamento - sem emprego de CAP na potabilização. Adicionalmente, atenuam os custos
de energia elétrica o fato de parcela significativa da água bruta, captada exclusivamente em mananciais
de superfície, afluir por gravidade às estações de tratamento, especialmente durante o período chuvoso

63. Custos estimados com base em R$ 2,0 = US$ 1.


64. Além da sede municipal, a autarquia responde pelos serviços em seis distritos circunvizinhos.
do ano. No período de estiagem, o percentual da água bruta advinda de instalações de recalque cresce
e, consequentemente, o dispêndio com energia elétrica.
Interessante comparação pode ser realizada com outra autarquia municipal no estado de São
Paulo que responde pelo abastecimento e coleta de esgotos de população da ordem de 80 mil pessoas.
Diferentemente do caso anterior, o abastecimento divide-se quase igualmente entre duas captações
superficial e subterrânea, ambas com adução por recalque. As despesas médias relativas a 2007
apresentam-se mais detalhadamente discriminadas conforme denota a figura 6.2. Vale salientar que
esta autarquia, ao contrário do çxemplo anterior, apresentou em 2007 superávit anual da ordem de
R $ 3,6 milhões, representando 33 % da arrecadação.

Tratamento de água - 2% E t 4% - Frota


Informátíca e telefonia - 2% t— --------1 8% - Outras despesas
Investimentos - 7% I------
-----------1 21% - Energia elétrica
Tarifas bancárias - 3% I--------
Hidrômetros - 2% E — I 38% - Despesas com pessoal
Manutenção -13% E

Figura 6.2. Exemplo de discriminação das despesas de uma autarquia municipal no estado de São Paulo.

Valendo-se dos percentuais exibidos pela figura 6.2, infere-se a maior relevância das despesas
de energia elétrica, tradicionalmente p 2o insumo mais relevante na operação dos sistemas de abaste­
cimento de água e coleta de esgotos. Esta relevância atinge a primazia para diversos sistemas de
pequeno porte, para os quais o dispêndio com energia elétrica supera os gastos com pessoal (também
devido ao menor número de funcionários).
A mencionada redução do custo de implantação proporcionado por outras tecnologias de
tratamento relaciona-se essencialmente à menor área necessária à construção da unidade de tratamento.
A economia auferida pelo menor dispêndio de produtos químicos adquire menor relevância, em termos
do custo dos produtos propriamente ditos, reduzindo a vantagem decorrente do emprego de tecnologias
com menores gastos destes insumos. No que tange ao consumo de coagulantes, provavelmente a
principal vantagem decorrente do emprego de menores dosagens há de se consolidar pela perspectiva
da necessidade do acondicionamento do lodo e das águas de lavagem dos filtros, gerados em menor
monta para algumas tecnologias disponíveis.
Vale ressaltar que os custos dos produtos tomam-se insumo mais relevante quando há necessidade
da aplicação de dosagens mais significativas de CAP, de uso ainda incipiente no País, especialmente com
o fito de favorecer a adsorção de toxinas ou subprodutos do metabolismo de algas e cianobactérias. Ilustra
esta assertiva a contínua aplicação de CAP no tratamento das águas captadas na Represa do Guarapiranga
na cidade de São Paulo (vazão da ordem de 14 m3/s). Os sucessivos eventos de sabor e odor causados
pela presença de compostos orgânicos produzidos por cianobactérias e actinomicetos culminaram com a
aplicação contínua de CAP, elevando em aproximadamente R$ 0,05/m3 o custo da água tratada.
Esta incipiência confirma-se por recente levantamento realizado pela Copasa (Companhia de
Saneamento de Minas Gerais) que apontou o emprego intermitente do CAP em apenas seis das mais
de 500 estações de tratamento operadas no Estado. Paradoxalmente ao Brasil, estimativa reportada em
1986 apontou o uso do CAP em 29 % das 600 maiores estações de tratamento de água dos EUA, neste
caso também com o objetivo de remoção de precursores de trihalometanos (Snoeyink; Summers, 1999).
Como não podia deixar de ser, há intrínseca relação entre as ações de proteção à bacia hidro­
gráfica na qual o manancial se insere, os gastos com os produtos químicos (e de operação como
um todo) necessários à potabilização65 e mesmo a própria qualidade da água tratada. A preservação
da vegetação natural da bacia hidrográfica das ações antrópicas minimiza os efeitos da erosão e do
transporte de sedimentos ao corpo d’água, reduzindo o aporte de partículas - e dos microrganismo? a
elas associados - à estação de tratamento.
Corrobora a assertiva anterior levantamento realizado em 2002 pela American Water Works
Association em 40 sistemas de abastecimento nos EUA (dos quais 27 pela consistência das respostas
integraram a análise) visando a estimar a relação entre o percentual de vegetação da bacia, preservado
ou reflorestado, e os custos operacionais do tratamento.66 O estudo apontou que cada incremento de
10 % na área preservada ou reflorestada resulta em redução de aproximadamente 20 % no custo dos
produtos químicos, conforme mostra a figura 6.3.

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"E
oo 3

t 2,5
3,
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O
| 1.5
2
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3
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O
0 ---------------!--------------|------------- j--------------,--------------,--------------,
0 10 20 30 40 50 60
Área de vegetação da bacia hidrográfica (%)

Figura 6.3. Custo operacional do tratamento em função da área preservada da bacia hidrográfica.
Fonte: Ernst et al. (2004).

Interessante ressaltar os custos do tratamento de magnitude similar aos comumente verificados


no Brasil. Concorre para esta similaridade o fato de em nenhuma das 27 estações amostradas ocorrer
aplicação de CAP, como consequência das próprias características da água bruta.

Manuseio e confiabilidade dos equipamentos


Em relação ao manuseio e confiabilidade dos equipamentos envolvidos na operação e
monitoramento da potabilização, verifica-se a partir de meados da década passada o início do processo
de automação de diversas estações de tratamento de pequeno, médio e grande porte, predominantemente
nas regiões Sudeste e Sul do País, seguindo tendência dos países desenvolvidos. A maior confiabilidade
nas dosagens dos produtos químicos e no monitoramento mais estrito da qualidade da água tratada
insere-se também, ainda que de forma subjacente, a redução das despesas de pessoal como norteador
da automação das unidades de tratamento. Este processo tende a se estender também para os sistemas
de adução e de distribuição com o objetivo de reduzir o gasto com energia elétrica, nos primeiros, e
de minimização de perdas, por meio de um maior controle dos níveis dos reservatórios e das pressões
nas redes de distribuição nos últimos.
A automação objetiva aumentar a eficiência da potabilização e a confiabilidade do monitoramento
da qualidade da água tratada, e, como consequência, reduzir o índice de perdas - eventualmente até

65. Pesquisa em 12 estações no estado do Texas (EUA), a ser melhor detalhada no Capítulo 7, apontou incremento
de 0,25 % no custo do tratamento associado à elevação de 1 % da turbidez da água bruta.
66. Nesta análise não se considerou o dispêndio com energia elétrica.
CA PÍTULO 06

14© ' ' ' ' ' •


o consumo de energia elétrica na estação de tratamento67 por meio do controle mais rigoroso da
dosagem de produtos químicos que permitirá menor aporte de sólidos às unidades filtrantes e aumento
da duração das carreiras de filtração68.

No contexto internacional, levantamento realizado nos EUA, contemplando 392 estações de
tratamento, apontou significativa prevalência do emprego de instrumentos de escoamento contínuo
{online) em relação aos de bancada. Apenas 11 % das estações inseridas nesta amostragem não
dispunham deste tipo de instrumentos. Entre as estações dotadas de equipamentos online, verificou-
-se supremacia dos instrumentos destinados à determinação da concentração de oxidante (76 %) e de
partículas (65 %). Deste universo, como seria de se esperar, a aferição do cloro residual (91 %) e da
turbidez (77 %) foram os parâmetros de qualidade preponderantes (Frey; Sullivan; Lomaquahu, 2001).
A automação das estações de tratamento apresenta duas vertentes distintas, ainda que por
vezes complementares. Em uma primeira perspectiva objetiva-se tão somente o monitoramento das
características físico-químicas das águas bruta e tratada sem interferir nas etapas do tratamento. Não há
automatização de nenhuma etapa da operação, esta ainda executada pelo próprio operador da estação.
Na segunda vertente, além do monitoramento propriamente dito, a automação interfere nas etapas
da potabilização em termos, por exemplo, da dosagem de produtos químicos ou do encerramento de
carreiras de filtração. Evidentemente que no primeiro caso, embora em ambos o seja, o fator humano
assume papel mais relevante na operação pelas decisões a serem tomadas intervenientes na eficiência
do tratamento, das alterações das dosagens de coagulante à retirada de uma unidade filtrante para
lavagem.
Para ambas situações, em relação à água bruta, o tipo de captação e as características da
bacia hidrográfica, além das eventuais atividades antrópicas ali desenvolvidas, hão de governar o
número de parâmetros a serem monitorados. Para captações por meio de reservatórios de acumulação
o monitoramento contínuo deve contemplar, além de parâmetros mais corriqueiros - turbidez, cor,
alcalinidade, pH, entre outros - , nitrogênio, fósforo e carbono orgânico total (COT), como indicadores
da presença de algas, e agrotóxicos. O monitoramento do COT pode tomar-se ainda mais vantajoso, ou
necessário, para estações às quais afluem águas com cor elevada e turbidez baixa. Conforme salientado
no Capítulo 2, mananciais inseridos em áreas de intensa atividade pecuária podem estar sujeitos a
picos na concentração de protozoários - por alguns gêneros possuírem reservatório no reino animal
- e monitoramentos desta natureza têm sido realizados em diversas estações do Reino Unido, EUA e
Canadá. Nestes casos, dependendo do tipo de cobertura vegetal, a correlação entre a turbidez da água
bmta e o aporte de oocistos toma-se pouco consistente.
Para águas captadas diretamente de cursos d ’água o monitoramento contínuo deve abarcar,
quase que necessariamente, pH, alcalinidade, turbidez e a cor verdadeira, e somente em casos isolados
outros parâmetros relacionados à fertilização das águas ou à contaminação por metais pesados e
agrotóxicos.
Em ambos os casos a extensão da adutora de água bmta assume peculiar e paradoxal relevância.
Se por um prisma a constmção da unidade de tratamento próxima à captação facilita a otimização dos
recursos humanos para operação, em contrapartida, as eventuais alterações das características da água
bmta manifestam-se rapidamente à entrada da estação.

67. A maioria das estações brasileiras realiza lavagem dos filtros por meio de reservatórios elevados, predo­
minantemente, ou por recalque da água tratada diretamente do tanque de contacto. Assim, o aumento da
duração das carreiras acarretará a redução da frequência do funcionamento destas instalações de recalque. O
emprego do sistema de filtros denominado autolaváveis - no qual a unidade retirada de operação é lavada,
por manobra de registros, pela água filtrada produzida pelas demais - é praticamente restrito a estações de
pequeno porte.
68. Conceito, a ser detalhado no Capítulo 10, que se refere ao período de tempo decorrido entre duas lavagens
sucessivas da unidade filtrante.
C A PI TU L O 06

' ' ' ' ' ' ' ' 141


Para minimizar tais consequências, pode-se realizar o monitoramento da água bruta a montante
do ponto de captação com o fito de permitir à equipe de operação maior tempo para proceder às
eventuais alterações nas dosagens dos produtos químicos. Nestas circunstâncias, usualmente *o
monitoramento da turbidez adquire maior relevância do que o da cor verdadeira. Tal se deve pela
perspectiva de progressiva redução da concentração da matéria orgânica, em outras palavras da cor
verdadeira, consequência dos mecanismos físicos, químicos e microbiológicos que se sucedem no
corpo d ’água. Interessante monitoramento realizado em uma sucessão de quatro pequenas barragens
na Nomega apontou redução de 30 % da cor verdadeira em extensão inferior a 6 km (Gjessing, 1993).
No interior das estações de tratamento o monitoramento da eficiência da potabilização pode
ser realizado inicialmente por meio da turbidez da água filtrada e da concentração de cloro residual.
Raramente o processo inicial de automação não há de contemplar quase que impreterivelmente estas
fases. Neste viés, o monitoramento da turbidez da água filtrada apresenta alguns aspectos contraditórios.
Estudo, enfocando a confiabilidade, em termos de turbidez, dos efluentes de duas unidades
de filtração em escala-piloto, confirmou esta afirmativa. Para tal foram realizadas determinações
deste parâmetro com equipamentos de bancada e de escoamento contínuo. Valendo-se dos resultados
experimentais, foram efetuados testes de confiabilidade e de validade - considerando o turbidímetro
de bancada como padrão - , com os pontos de corte definidos consoante com as recomendações da
Portaria 518 (< 0,5 uT) e do padrão americano (< 0,3 uT). Por fim, efetuou-se uma análise de variância
e determinou-se o intervalo de confiança de 95 % para a média dos dados amostrais. Os resultados da
análise estatística corroboraram a constatação de que as determinações de turbidez estão condicionadas
aos distintos princípios de funcionamento dos equipamentos. Se tal fato é de pequena relevância para
água bruta afluente à estação de tratamento, não o é para a água filtrada pela nítida perspectiva da
sucessão de padrões de potabilidade progressivamente mais restritivos. As determinações médias de
turbidez com o emprego do equipamento de bancada (1,0474 ± 0,3664 uT) superaram em quase 30 %
às obtidas com o de escoamento contínuo (0,8097 ± 0,2834 uT). Na figura 6.4, reta a 45° traçada com
base na origem mostra que, para a totalidade das leituras, o turbidímetro de escoamento contínuo
gerou valores inferiores aos do de bancada.

Figura 6.4. Relação entre os valores obtidos no turbidímetro de bancada e de escoamento contínuo.
Fonte: Teixeira etal. (2004).

Em perspectiva semelhante, avaliação realizada em seis estações de tratamento de água dos


EUA comparando as determinações de cloro residual em equipamentos de bancada e de escoamento
contínuo apontou que consistentemente em cinco destas os primeiros apresentaram sempre concen-
trações inferiores. Por vezes, tais diferenças resultavam em coeficientes de determinação (R2) da
ordem de apenas 0,26 entre as duas leituras.
Como assinalado, na segunda vertente da automação há interferência no processo de trata­
mento podendo no limite a estação ter operação remota. Nesta perspectiva, precedendo a automação
propriamente dita, tomam-se fundamentais ações de otimização das operações e processos ineren­
tes à potabilização, tais como, definição das dosagens de coagulantes e do pH de coagulação -
preferencialmente via diagramas de coagulação dos gradientes de velocidade e dos tempos de
detenção para mistura rápida e floculação, da frequência de esgotamento das unidades de decantação,
da duração das carreiras de filtração e das lavagens, entre outras (Di Bernardo; Di Bernardo, 2000).
Basicamente a automação há de empregar Controlador Lógico Programável (CLP), com
software de supervisão, associado aos equipamentos necessários ao monitoramento da água bruta e
tratada (transdutores69), apto a enviar sinais aos dosadores de produtos químicos e válvulas (atuadores)
(Pinto et al., 1999). Embora outras etapas possam estar presentes, o ceme da automação consiste na
dosagem de produtos químicos atuantes na coagulação e no encerramento das carreiras de filtração.
Além da dosagem de coagulantes e do encerramento das carreiras de filtração, a automação
pode também envolver:
i) o controle do estoque de produtos químicos e dos gradientes de velocidade de mistura
rápida e de floculação ( para as unidades mecanizadas);
ii) a frequência de descarga dos decantadores;
iii) a duração da lavagem das unidades filtrantes por meio do monitoramento da turbidez da
água de lavagem;
iv) o controle das dosagens de cloro residual, de flúor e do pH da água tratada.

De forma implícita descortina-se a perspectiva de que a redução das despesas com pessoal
poderá compensar o aumento dos custos de aquisição e manutenção dos equipamentos envolvidos.
A título de ilustração, apenas um único operador responde pela principal estação de tratamento de
Edinburgo (Escócia) de vazão média da ordem de 960 L/s. Situações como esta são usuais no Japão,
Canadá, EUA e em outros países da Europa.
Por fim, o modus operandi centrado na lógica de que investimentos em automação substituem
aqueles necessários à melhoria do nível técnico da equipe de operação é reducionista. Esta assertiva
fundamenta-se na necessidade de se avaliar o grau de vulnerabilidade do tratamento, por meio
da inserção no processo rotinas de alarme - em termos de queda de energia elétrica, alterações
extemporâneas das características da água bruta, entre outros - que permitirão minimizar os riscos
à população abastecida. Nestas situações a acuidade da equipe de operação toma-se imprescindível
à manutenção da qualidade da água tratada, constituindo responsabilidade dos administradores dos
sistemas de abastecimento conferir à equipe o adequado treinamento.

Flexibilidade operacional
A flexibilidade operacional da unidade de tratamento e a confiabilidade da tecnologia na
consecução da água tratada daí advindas constituem importantes fatores de definição da tecnologia
de potabilização. Esta relevância maximiza-se em função das variações, sazonais ou futuras, das
características da água bmta, das possíveis avarias dos equipamentos e das fúturas alterações nos
limites recomendados para as características físicas, químicas, biológicas e radioativas integrantes do
padrão de potabilidade.

69. Transdutores constituem-se equipamentos aptos a transformar grandezas não elétricas (como unidades de pH,
turbidez etc.) em unidades elétricas. Os atuadores são os equipamentos atuantes no processo de tratamento,
tais como válvulas e dosadores.
C A PI TU L O 06

1 4 3
À maioria significativa das estações de tratamento do País, provavelmente excetuando-se as
localizadas na Região Norte, aflui ao longo do ano água bruta com duas características distintas,
condição similar à apresentada na figura 2.3. No período de estiagem, a água bruta tende a apresentar
turbidez mais baixa e, em alguns casos, cor elevada mais significativa. No período chuvoso ocorre o
inverso. Evidentemente que águas captadas de reservatórios de acumulação de maior porte haverão de
apresentar variações menos relevantes destas características, especialmente a turbidez.
Todavia, a eventual fragilidade da tecnologia de tratamento adotada ou mesmo da própria
operação da unidade, usualmente aflora nas mudanças bmscas das características da água bruta, em
razão do aporte de sólidos - suspensos ou dissolvidos - ou ao florescimento algal. As consequências de
tais alterações no desempenho da estação relacionam-se em muitos casos às variações da vazão afluente.
Uma vez que os parâmetros hidráulicos inerentes aos processos e operações unitárias da potabilização
variam ao longo do período de funcionamento da estação, a coincidência da deterioração episódica das
características da água bmta com a vazão máxima afluente diária pode causar maiores dificuldades à
equipe de operação da unidade de tratamento. Tal se sucede em diversos dias na estação mais quente,
e mais chuvosa, do ano. Neste período, frequentemente, a ocorrência de chuvas convectivas nos
finais de tarde, de maior intensidade e menor duração, coincidem com o período de maior demanda
de água. Esta demanda conduzirá à necessidade de maior produção de água tratada, à exceção dos
raros sistemas de abastecimento com elevado volume de reservação. Esta constatação ainda se agrava
para os pequenos sistemas de abastecimento nos quais a principal unidade de reservação também é
utilizada, dentro da própria estação de tratamento, para a lavagem das unidades filtrantes. Também
nestes casos, a equipe de operação condiciona a realização das lavagens no período noturno, quando
ocorre a inevitável redução da demanda. Isto frequentemente resulta em lavagem menos eficiente e/ou
maior dispêndio de água tratada.

Localização geográfica e características da comunidade


Estes fatores são abordados conjuntamente pelas diversas comunidades de menor porte localizadas
distantes dos centros mais desenvolvidos. Em função do nível técnico do pessoal de operação disponível na
região, a relevância da localização geográfica acaba por permear os dois fatores anteriormente enfocados.
Como premissa inicial, a automação, abordada no item Manuseio e confiabilidade dos equipamentos
(p. 140), tende a compensar as históricas limitações na operação das unidades de tratamento instaladas
em regiões carentes de mão de obra qualificada, ainda que não necessariamente as menos abastadas.
Em segunda instância, a localização geográfica e as características da comunidade hão de
influenciar a escolha dos diferentes tipos de alternativas relacionadas aos processos e operações
unitárias integrantes do tratamento. A primazia pelo uso da energia hidráulica em relação à mecânica
para unidades de mistura rápida e floculação para os pequenos sistemas toma-se quase imperiosa.
Aspectos operacionais relacionados ao manuseio dos equipamentos, à frequência e à confiabilidade
do monitoramento consolidam, quase como regra geral, a tendência das estações de menor porte
apresentarem água tratada de qualidade inferior. Atenua parcialmente esta constatação o fato das
pequenas comunidades estarem usualmente localizadas em regiões nas quais a deterioração da
qualidade da água bmta, decorrente das ações antrópicas, manifesta-se de forma menos aguda.
Embora no País ainda não haja levantamento sistemático da performance das estações de
pequeno porte, esta tendência foi confirmada em uma pesquisa circunscrita ao estado americano da
Pennsylvania. Considerando a turbidez da água filtrada como indicador da eficiência - especialmente
na remoção de protozoários - , realizou-se levantamento abarcando 75 estações de tratamento de água
com objetivo de identificar os fatores intervenientes na eficiência da potabilização. A turbidez da água
filtrada norteou a avaliação da eficiência das estações a despeito de algumas limitações tais como, a
desuniformidade na calibração e na manutenção de distintos equipamentos, os pontos e a frequência
das amostragens - embora neste último caso a legislação daquele Estado recomende intervalo máximo
de quatro horas entre as coletas, limitando a turbidez filtrada em 0,3 uT. Visando a minimizar tais
limitações e atender à legislação vigente, os dados de turbidez efluente das estações, referentes a
11 anos de operação, foram analisados considerando o 95° percentil, enfocando a média anual e o
valor máximo mensal registrados nas respectivas instalações potabilizadoras (figura 6 . 5). O estudo
estatístico apontou que, do universo amostrado, 95 % das médias anuais e dos valores máximos
mensais foram inferiores a 0,2 uT e 0,3 uT, respectivamente (Lusardi; Consonery, 1999).

População abastecida

Figura 6.5. Turbidez da água filtrada em função da magnitude da população abastecida.

A análise da figura 6.5 evidencia a influência da população abastecida, e consequentemente


da localização geográfica, na qualidade da água tratada. Para a magnitude da população abastecida,
unidades que atendiam pequenas comunidades, população inferior a 3.300 habitantes, apresentaram
desempenho inferior quando comparadas àquelas destinadas a cidades de maior porte, com população
superior a 100 mil habitantes. Todavia, estações que abastecem populações nos intervalos de 3.300-
10.000 e 10.000-100.000 habitantes apresentaram performance praticamente idêntica.
Em vertente semelhante, a mesma pesquisa distinguiu as estações em função do tipo de manan­
cial e os resultados estão apresentados na figura 6.6.

0,5
□ Média máxima mensal
0,4 □ Média máxima anual
li

O) p
0,3
TS3 3 0,2
5
0,1 -
0
Cursos d’água
J
Lagos ou represas Nascentes

Tipo de manancial

Figura 6.6. Turbidez da água filtrada em função do tipo de manancial.

Os resultados da figura 6.6 confirmam a mesma tendência. Ainda que, salvo exceções, as
nascentes apresentam-se mais protegidas das ações antrópicas, a água bruta aflui usualmente a estações
de tratamento de pequeno porte, de operação menos acurada, resultando em efluente de qualidade
inferior. Raciocínio inverso aplica-se a captações em cursos d’água, cujas vazões afluem a estações
de médio e grande porte de melhor qualidade operacional. A pesquisa também contemplou o tipo de
concessionária responsável pela operação do sistema. Todavia, do universo amostrai, apenas duas
estações de maior porte eram operadas por empresas privadas, inviabilizando eventual comparação
acerca da acurácia da operação.
C A PÍ TU L O 06

145
Disposiçlt© cl© lodo
Para as unidades de maior porte, mais recentemente no País passou a se considerar o acondi-
cionamento do lodo gerado e a perspectiva do reaproveitamento das águas de lavagem dos filtros
como fatores a serem avaliados na definição da tecnologia, e nos custos de implantação e operação da
unidade de tratamento. Embora raras estações disponham de unidades de acondicionamento do lodo
gerado nas unidades de decantação, tem sido estudado seu uso na confecção de tijolos e também o
reaproveitamento do coagulante.
A necessidade do acondicionamento e/ou tratamento do lodo e das águas de lavagem dos filtros
relaciona-se à disponibilidade hídrica da região e ao uso do curso d ’água a jusante. Neste contexto,
o reaproveitamento das águas de lavagem, ainda que praticamente inédito no Brasil, tem-se tomado
progressivamente mais empregado em outros países para os sistemas de abastecimento nos quais
verificam-se problemas de escassez ou custos elevados de adução da água bruta, em grande monta em
virtude do dispêndio de energia elétrica. Usualmente, da ordem de 2,0 a 5,0 % do volume tratado, este
acréscimo na vazão afluente será desprezível para os parâmetros hidráulicos inerentes à potabilização.
Todavia, duas análises distintas devem ser realizadas. Inicialmente, uma análise econômica há de
contemplar o custo das instalações de recirculação e da água tratada, o percentual de perdas do sistema
de distribuição e a tarifa praticada. Posteriormente, uma segunda análise sanitária permitirá inferir
o risco de eventual potencialização microbiológica na qualidade da água tratada. Esta avaliação
balizar-se-á no grau de proteção do manancial, no nível técnico da equipe de operação e na localização
geográfica da estação no que tange às endemias prevalentes.
O mencionado nível de proteção do manancial influencia na perspectiva de transmissão
das doenças de veiculação hídrica e na contaminação da água bruta por agrotóxicos. Desta forma,
o reaproveitamento das águas de lavagem constitui-se alternativa mais viável para estações cujos
mananciais estão localizados em bacias hidrográficas imunes às atividades pecuárias e agrícolas nas
quais o emprego de agrotóxicos seja corriqueiro. A delimitação da área de proteção do manancial
usualmente restringe-se à área a montante da captação, quando a mesma ocorre diretamente dos cursos
d ’água, ou às cercanias do açude ou reservatório de acumulação. Contudo, tal controle frequentemente
inviabiliza-se quando a área da bacia hidrográfica excede os limites do município abastecido,
ultrapassando por vezes até, como para a cidade de São Paulo, os limites do próprio Estado conforme
assinalado no Capítulo 5. Os recentes comitês de bacias hidrográficas surgiram no bojo desta limitação.

Tecnologias de tratam ento

Na potabilização das águas naturais, as tecnologias de tratamento apresentam, basicamente,


três fases nas quais processos e operações unitárias hão de se inserir: eletrificação, filtração e
desinfecção. Conforme mencionado, quando as características da água permitirem, como para
a maioria dos mananciais subterrâneos, apenas a desinfecção faz-se necessária para adequação ao
padrão de potabilidade. A medida que se verifica menor qualidade da água bruta à filtração, insere-se
a clarificação, objetivando em reduzir o aporte de partículas às unidades filtrantes. Em última análise
as etapas da potabilização funcionam como sucessivas barreiras à passagem de partículas, suspensas e
dissolvidas, e microrganismos para água tratada.
Neste contexto, é possível afirmar que a clarificação - abarcando as etapas de coagulação,
floculação e decantação/flotação - presta-se primordialmente à remoção dos sólidos suspensos e de
parcela dos sólidos dissolvidos. À subsequente filtração cabe essencialmente a remoção de sólidos
dissolvidos, microrganismos, tais como bactérias e cistos e oocistos de protozoários. Por fim, à
desinfecção cumpre inativar os micorganismos ainda presentes, como bactérias e vírus.
Para as águas superficiais70, as tecnologias de tratamento de água para abastecimento público
podem ser divididas com base na existência ou não do processo de coagulação química, premissa
corroborada pelo Conama 357/2005 e pela NBR 12216 conforme evidenciaram as tabelas 6.1 e 6.2.
A inexistência da coagulação inevitavelmente conduz ao emprego da filtração lenta, com ou sem
unidades de pré-tratamento em função das características da água bruta. Desta forma, a utilização da
filtração lenta usualmente denota-se baseado na sequencia apresentada na figura 6.7.

Figura 6.7. Fluxograma típico da tecnologia de filtração lenta.

A utilização dos filtros lentos suscita uma questão que transcende à simples semântica. A
tecnologia da filtração lenta, apresentada no fluxograma da figura 6.7, distingue-se de tecnologias
alternativas nas quais são utilizados filtros lentos a jusante de filtros rápidos com o intuito de
maximizar a remoção de cistos e oocistos de protozoários. Nestes casos, são utilizadas taxas de
filtração71 significativamente superiores às comumente preconizadas quando do emprego da tecnologia
da filtração lenta. Estações de grande porte que abastecem Amsterdam e Zurique exemplificam esta
afirmativa.
Visando a ampliar o espectro de utilização da filtração lenta, em sistemas de pequeno porte ■
na Colômbia - potabilizando vazões inferiores a 20 L/s - foram implantadas unidades de pré-
filtração a montante de filtros lentos. Tais sistemas, que receberam a denominação de Filtração em
Múltiplas Etapas, apresentam baixo custo operacional, embora os custos de implantação não sejam
significativamente inferiores ao dos sistemas mais comumente empregados no Brasil. Por vezes, em
função das características da água bruta, inserem-se dois pré-filtros em série (pré-filtro dinâmico e
de escoamento ascendente)72 a montante dos filtros lentos. Sistema com tal concepção foi constmído
em fins da década de 1990, vazão afluente de 10 L/s, para abastecimento de pequena comunidade na
região sudoeste de Minas Gerais (Di Bernardo; Paz, 2009b). Ainda com mesmo intuito de ampliar o
campo de aplicação da tecnologia de filtração lenta, tem sido estudado o emprego da coagulação, a
montante dos pré-filtros de pedregulho, restrita apenas aos momentos de maior aporte de sólidos. As
etapas subsequentes à filtração lenta também estão presentes nas demais tecnologias de tratamento.
Com o emprego da coagulação química, as tecnologias de tratamento passam a apresentar,
associadas à filtração rápida, duas variantes básicas dependentes da existência da unidade de decantação
(ou mais raramente flotação) precedendo a etapa de filtração. As tecnologias que não contam com esta
etapa para a sedimentação dos flocos denominam-se filtração direta. Estas subdividem-se em função
da presença de unidade espécificamente construída para floculação, podendo ainda contar com duas
unidades de filtros rápidos de escoamento ascendente e descendente em série, neste caso denominada
dupla filtração ou filtração em dois estágios. Quando a unidade de floculação não se faz presente
- embora esta operação unitária sempre ocorra independentemente da existência de uma unidade
específica para tal fim - a tecnologia passa a ser denominada de filtração direta em linha, mantendo

70. Nos países desenvolvidos, consiste notável exceção um dos sistemas de abastecimento da cidade de Nova
York (EUA) que utiliza manancial superficial submetido tão somente à desinfecção. Situação semelhante
verifica-se em Viena, cujo abastecimento das quase 1,6 milhão de pessoas efetua-se por captação superficial
nos Alpes e apenas desinfecção.
71. Principal parâmetro de projeto de unidades filtrantes, que relaciona a vazão afluente à área em planta do filtro,
referenciado comumente em termos de m3/m2.dia.
72. Maiores detalhes acerca das unidades de pré-filtração
1
são abordados no Capítulo 10. CÂ E' I I U L O 0 6
a denominação anterior para as estações dotadas de unidade de floculação. Nas figuras 6.8 e 6.9 são
apresentados os respectivos fluxo gramas.

Filtração de escoamento:
Desinfecção correção
Coagulação Hb - Ascendente
de pH fluoretação
Descendente

Figura 6.8. Fluxograma típico da tecnologia de filtração direta em linha.

Figura 6.9. Fluxograma típico da tecnologia de filtração direta.

Por fim, essencialmente em função das características da água bruta, faz-se necessário a
inserção de uma unidade para retenção - por sedimentação ou flotação - dos flocos formados na
floculação. Nestes casos a tecnologia denomina-se usualmente tratamento convencional (figura 6.10).
Esta denominação surgiu em 1890 no estado de Ohio (EUA) quando foi recomendada por George
Fuller a etapa de clarificação precedendo a filtração para as águas turvas do rio Ohio. A partir daí, nas
décadas seguintes a tecnologia que contemplasse aplicação de coagulante na unidade de mistura rápida,
floculação, sedimentação e filtração passou a ser denominada convencional. Atualmente consiste na
tecnologia estabelecida para a potabilização em 10 estados americanos e,indubitavelmente, a mais
difundida no Brasil e no exterior.

j ------------------- i / 4 Decan,açâ° Filtração de escoamento:


Desinfecção correção
Coagulação -!► Floculação ri - Ascendente
de pH fluoretação
- Descendente
*k Flotação

Figura 6.10. Fluxograma típico da tecnologia de tratamento convencional.

Particularmente, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, foram construídas diversas
estações empregando tecnologias de operação mais simples, como a filtração lenta, ou de menor
custo de implantação, como a filtração direta, e que atualmente utilizam a tecnologia convencional de
potabilização em virtude da deterioração da qualidade da água bmta. As estações de médio porte em
Viçosa, Itaúna - estas outrora de filtração lenta -, Itabira, em Minas Gerais, e Linhares, Colatina e São
Mateus, no Espírito Santo, testificam esta assertiva.
Embora contemplado pela figura 6.10, o emprego da flotação em estações de tratamento para
abastecimento público ainda é incipiente no Brasil e melhor se aplica às águas naturais com elevada
concentração de algas que reduziríam a sedimentabilidade dos flocos. Mesmo para a tecnologia de
filtração direta, uma unidade de flotação pode substituir a de floculação, por vezes instalada sobre
o meio filtrante com a denominação de floto-filtração. Esta alternativa empregada em escala real
nos EUA, a partir da década de 1990, tem sido alvo de pesquisas no País com resultados variáveis
e algumas estações de médio e grande porte em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo foram
construídas ou adaptadas para dela fazer uso.
A exceção da tecnologia da filtração lenta, às demais pode-se associar a etapa de pré-desinfecção
precedendo o processo de coagulação. Realizada com os mais variados propósitos, da oxidação de
ferro e manganês à remoção de algas, sua inserção objetiva com alguma frequência elevar a duração
das carreiras de filtração, além de assegurar melhor qualidade da água filtrada. Desta forma, o eventual
emprego da adsorção, da pré ou mesmo da inter-desinfecção não altera a tecnologia de tratamento na
qual tais processos possam se inserir.
Como já salientado, as características da água bruta tomam-se o principal fator interveniente na
definição da tecnologia de tratamento a ser empregada. Desta forma, são apresentados na tabela 6.3 os
limites recomendados para algumas características das águas naturais que podem subsidiar com maior
fidedignidade esta definição. Tais recomendações reportam-se a operação contínua. Água bruta com
valores mais elevados que se sucedam durante curtos períodos pode ser adequadamente tratada, e em
muitas estações em escala real de fato o são, pelas mencionadas tecnologias.

Tabela 6.3. Características das águas naturais em função da tecnologia de tratamento recomendada.
Característíca\ Dupla Filtração Filtração Filtração Direta
Convencional
Tecnologia Filtração Direta Lenta* em Linha
Turbidez (uT) < 3000 < 50 < 20 < 10 <5
Cor Aparente (uC) < 1000 < 50 < 20 < 20 < 15
E. co//(NMP/100 mL) < 106 < 103 < 103 < 103 < 100
Algas (UPA/mL) < 105 < 5000 < 103 < 250 < 100
* Sem o emprego de pré-filtros.
Fonte: Kawamura (2000).

Algumas considerações acerca dos balizadores listados na tabela 6.3 podem ser elaboradas.
No País há várias estações de filtração direta de escoamento ascendente às quais aflui água bruta com
valores de turbidez, ainda que em curtos períodos, superiores a 100 uT. A realização de descargas de
fundo intermediárias tem permitido maior duração das carreiras sem prejuízo da qualidade da água
filtrada. Para a tecnologia convencional, em termos práticos não há limite de turbidez da água bruta
à consecução de efluente compatível com o padrão de potabilidade, inclusive outros autores não
apresentam limites para esta característica física. Operacionalmente valores extremamente elevados
de turbidez decorrentes de precipitações intensas hão de fomentar a deposição de partículas nas
próprias unidades de floculação e de aumentar a frequência de limpeza dos decantadores. Por outro
lado, limites mais restritivos para cor verdadeira73 têm sido recomendados.
Ainda em relação à tabela 6.3, a tecnologia convencional de potabilização, com a inserção de
outras etapas como as mencionadas pré-desinfecção e adsorção, pode se prestar à potabilização da
quase totalidade das águas naturais, mesmo àquelas susceptíveis a receber esgotos domésticos. Desta
forma, o limite superior para E. coli prende-se menos à tecnologia em si e mais ao risco sanitário
inerente aos eventuais erros de operação.
A definição da tecnologia de tratamento em alguns casos apresenta nítida sobreposição,
tomando o enquadramento menos preciso. As mencionadas estações de tratamento de Amsterdam
inserem-se nesta premissa. Na realidade, ambas estações (vazões médias de 2,2 m3/s e 950 L/s)
apresentam de certa forma uma conjunção da tecnologia de filtração direta, tratamento convencional e
filtração lenta. Em ambas, a água bruta recebe dosagem de cloreto férrico, sem floculação, antes de ser
encaminhada ao reservatório de acumulação. Após a atípica sedimentação dos flocos no reservatório,
a água aflui sucessivamente ao filtro de escoamento descendente, à unidade de ozonização, à unidade
de abrandamento, ao filtro de carvão ativado e, finalmente, ao filtro lento. Esta última etapa objetiva
maximizar a remoção de cistos e oocistos de protozoários, pois não há desinfecção com cloro e nem a
manutenção da concentração residual na rede de distribuição.

73. Para água de um mesmo manancial usualmente não se verifica significativa correlação entre a cor verdadeira
e turbidez, e sim principalmente no período chuvoso entre a última e a cor aparente.
C . -F ÍT U LO Ofc

V
Na definição do manancial a ser empregado no abastecimento, em função da perspectiva
de produzir água tratada que atenda às premissas estabelecidas pela Portaria 518, tentativa de
hierarquização das características da água bruta poderia contemplar, nesta ordem, E. coli, contagem
de algas e cor verdadeira como os três parâmetros mais relevantes. O primeiro reporta-se ao contexto
de segurança sanitária pela possibilidade da água bmta como vetor de disseminação de doenças. A
contagem de algas e cianobactérias centra-se em primeira instância na tratabilidade, pelos problemas
operacionais advindos da floração nos mananciais, e também pela segurança sanitária em virtude da
possibilidade de geração de toxinas e de subprodutos do metabolismo algal que possam conferir odor
e sabor. A cor verdadeira adquire relevância não somente pela dificuldade de remoção e elevação do
custo do tratamento como, secundariamente, na perspectiva de geração de subprodutos da desinfecção
com cloro. Todavia, conforme abordado no Capítulo 3, no desenvolvimento do índice de Qualidade de
Agua Bmta (IQAB)74, visando a avaliar a tratabilidade das águas naturais pela tecnologia convencional,
coube à turbidez ser a característica considerada mais relevante pelos painelistas.
A principal vantagem do emprego da filtração direta consiste na significativa redução dos
custos de implantação e operação, pois tal tecnologia prescinde das quase sempre onerosas unidades
de decantação, uma vez que essa operação unitária sucede-se nos próprios interstícios do meio
filtrante. Desta forma, reduz-se, por vezes em até 50 %, a área necessária à constmção da estação
quando do emprego de decantadores de escoamento horizontal, fator frequentemente relevante para
unidades potabilizadoras de médio e grande porte. Em relação aos custos de operação, realizou-se no
Canadá estudo cotejando os custos operacionais de uma estação de filtração direta descendente e uma
convencional. Concluiu-se que na potabilização de águas de baixa cor verdadeira e turbidez, a primeira
apresentou economia anual na operação da ordem de 50 mil dólares, para uma produção equânime de
1,6 m3/s. Embora esta economia seja de pequena monta para a magnitude da vazão tratada, conforme
assinalado, a atual necessidade de disposição adequada do lodo dos decantadores tende a elevar os
custos de implantação e operacional das estações convencionais, decorrentes da área necessária e da
manutenção dos equipamentos instalados para tal fim (Wagner; Eludson Jr, 1982).
Ainda que com algumas limitações, a redução de custo decorrente do emprego da tecnologia
de filtração direta pode ser estimada com base no mencionado levantamento de custo de estações
de tratamento realizado valendo-se de informações fornecidas pela Sabesp. Nesta estimativa, as
unidades de floculação e decantação de alta taxa75 respondem diretamente por aproximadamente 15 %
total da unidade, reduzindo inicialmente o custo para R$ 12 mil por L/s. Indiretamente, há de se
verificar também redução das dimensões das unidades de adensamento e secagem do lodo - às quais
serão encaminhadas apenas as águas de lavagem -, da área requerida para construção e do custo dos
equipamentos para automação e controle operacional (Mierzwa et al., 2008).
Tais constatações foram também comprovadas em estudos em unidades-piloto que apontaram
para dosagens de até 25 % daquelas necessárias a uma estação convencional. Esta economia é
diretamente proporcional às características da água bmta, ou seja, quanto menor os índices de cor
verdadeira e turbidez maior a economia de coagulantes nas estações de filtração direta. Paradoxalmente,
nas estações convencionais ocorre o contrário. Desta forma, reduz-se em até 70 % o volume de lodo
gerado (Di Bernardo; Mendes, 1986).
Contudo, a tecnologia de filtração direta apresenta algumas limitações. Decorrente da
inexistência das unidades de decantação, e por vezes também de floculação, tal tecnologia apresenta
desempenho insatisfatório na potabilização de águas que apresentem continuamente cor verdadeira e

74. Integram o IQAB os seguintes parâmetros e respectivos pesos (%): turbidez (22 %), cor verdadeira (19 %),
pH (12 %), cianobactérias (11 %), algas (10 %), E. coli (9 %), ferro (8 %) e manganês (8 %).
75. Estas unidades, enfocadas no Capítulo 9, demandam área aproximadamente 20 % da necessária às unidades
de escoamento horizontal. A redução do custo de implantação não obedece a mesma proporção em virtude da
instalação dos módulos de decantação de alta taxa.
turbidez elevadas. Nestas circunstâncias ocorre sensível redução das carreiras de filtração, podendo
tomar o tratamento antieconômico.
Em relação às características da água bruta como balizador da definição da tecnologia de
tratamento, a concentração de algas assume relevante papel na perspectiva do emprego da filtração
direta. Estudos realizados pela CAESB, Companhia de Agua e Esgoto de Brasília, na estação de
tratamento do Rio Descoberto de filtração direta de escoamento descendente, avaliaram a influência da
concentração de algas no desempenho das unidades-piloto, operadas com taxas de 300 a 600 m3/m2.dia.
Tais estudos concluíram sobretudo pela necessidade da pré-floculação e do emprego de meios filtrantes
de areia praticamente uniforme, èm relação aos meios duplos, apesar da elevada concentração de algas
no efluente (Di Bernardo, 1992).
As dificuldades operacionais inerentes à tecnologia de filtração direta não se restringem tão
somente às características da água bmta. A ausência das unidades de decantação reduz o tempo de
detenção da água no interior da estação, por vezes de 2,5 h para menos de 30 min, e requer maior
habilidade dos operadores quando ocorrem bruscas alterações das características da água bruta. Esta
redução do tempo de detenção também interfere na eficiência na oxidação de alguns compostos
orgânicos ou subprodutos do metabolismo das algas quando do emprego da pré-desinfecção. Tal
assertiva agudiza-se quando a adutora de água bruta é de pequena extensão e a bacia hidrográfica
mais susceptível à erosão. Assim, alterações abruptas nas características da água bruta manifestam-se
rapidamente no afluente e, caso ocorram problemas de operação, também no efluente tratado.
Conforme salientado no Capítulo 5, no tratamento de águas brutas oriundas de lagos e represas, ■
as elevações de turbidez são menos significativas, tomando a possibilidade do emprego da filtração
direta mais viável. Contudo, em diversos mananciais desta natureza ocorrem florações de algas,
sazonais ou como consequência de atividades antrópicas, que podem causar - além da redução das
carreiras de filtração decorrente da precoce colmatação do meio filtrante - sensíveis alterações no
sabor e odor da água tratada.
O cotejo entre as vantagens e limitações desta tecnologia tem propiciado sua aplicação em
diversas estações de tratamento no Brasil e no exterior, especialmente para água bmta de lagos e
represas. No País destacam-se as estações do Rio Descoberto em Brasília (6 m3/s), Gavião em Fortaleza
(6 m3/s), Vargem das Flores e Serra Azul em Belo Horizonte (1,0 e 1,7 m3/s, respectivamente) e
Carapina em Vitória (1,5 m3/s). Dos muitos exemplos no exterior, a estação de Los Angeles (EUA)
destaca-se pelo porte - vazão média da ordem de 25 m3/s - , pelo emprego de filtro com meio filtrante
constituído apenas por antracito e pela elevadíssima taxa de filtração de quase 768 m3/m2.dia, definida
por estudo em escala-piloto com duração superior a cinco anos.
Em função das limitações ao emprego da filtração direta, a supremacia da tecnologia con­
vencional de tratamento de água no País materializou-se em levantamento realizado junto às
companhias estaduais de saneamento (figura 6.11).
Além da tecnologia convencional de tratamento, as outras estações utilizadas para o cálculo das
porcentagens apresentavam as tecnologias de filtração direta ascendente, filtração direta descendente,
dupla filtração e filtração lenta. Na figura 6.11 observa-se que em alguns estados da Região Nordeste,
tais como Ceará, Pernambuco, Alagoas e Sergipe o número de estações de tratamento convencional é
superado pelo número de estações não convencionais.
Estados

Figura 6.11. Percentagem de estações com tecnologia de tratamento convencional operadas por companhias
estaduais de saneamento.
Fonte: Di Bernardo et ai. (2003).

Por fim, é fundamental a realização de ensaios de tratabilidade precedendo a construção da


estação para melhor a balizar a definição da tecnologia de tratamento a ser empregada. Estes ensaios, a
serem melhor detalhados no Capítulo 11, devem ser realizados preferencialmente em unidades-piloto
de escoamento contínuo ou, na impossibilidade, em escala de laboratório com o emprego de reatores
estáticos. Neste contexto, a própria NBR 12216 ao estabelecer os parâmetros hidráulicos concernentes
às diversas etapas inerentes à potabilização enfatiza o uso de tais recomendações na impossibilidade
de realização destes ensaios.
Esta multiplicidade de fatores tem concorrido para o frequente problema da seleção da linha de
tratamento mais adequada ao atendimento aos padrões físicos e organolépticos. Conforme já ressaltado, a
definição da tecnologia de potabilização deve conciliar aspectos econômicos com a eficiência do processo,
objetivando empregar racionalmente os recursos disponíveis. Enfim, deve ser objeto de uma criteriosa
avaliação técnico-científica das diversas variáveis envolvidas, ao contrário da atual prática generalizada no
Brasil, por parte dos projetistas e das instituições públicas responsáveis pelos sistemas de abastecimento de
água, do emprego quase padronizado da linha convencional de tratamento. Assim, têm sido desconsideradas
variantes mais simplificadas de tratamento, mesmo para águas com qualidade compatível a tais soluções
como as oriundas de bacias hidrográficas bem protegidas e de reservatórios de acumulação.
Mesmo quando as características da água bmta praticamente impõem a definição pela tecnologia
convencional de tratamento, o levantamento dos parâmetros hidráulicos com base em ensaios de
tratabilidade, pode conduzir à redução do custo das unidades. Deve-se evitar a frequente transposição
destes parâmetros de uma estação de tratamento para outra, relevando as distintas características da
água bruta e o nível técnico do pessoal de operação.
Estabelecida a tecnologia de tratamento, a definição do local para a constmção da unidade de
tratamento, por sua vez será governada pelos seguintes fatores:
• custo do terreno e disponibilidade de área para futuras ampliações;
• disponibilidade de energia elétrica;
• condições geológicas e topográficas satisfatórias;
• facilidade de acesso e de transporte;
• abrigo quanto à possibilidade de inundações;
• distância da captação.
Quando a estação de tratamento não é constmída próxima à captação, cujas vantagens e
desvantagens já foram abordadas no item anterior, tem sido comum instalá-la em cota elevada em
relação à região central da cidade. Nestas circunstâncias, uma das unidades de reservação do sistema
é constmída contígua à estação objetivando otimizar a operação e mais facilmente conferir pressão
dinâmica mínima em toda rede de distribuição.
O 0 j
Coaguiação

[ ...] £ por isso, porque pertence a menos gente


£ mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Fernando Pessoa - O Guardador de Rebanhos (1912)

H istórico e conceito
Etimologicamente, oriundo de raiz latina, o verbo coagular significa converter em sólido
e o termo ‘coaguiação’ surgiu em 1844 derivado do francês coagulation. Este processo76 decorreu
inicialmente da necessidade de melhorar o aspecto visual da água para consumo humano. Ainda
que a comprovação da água como veículo de doenças remonte somente aos meados do século XIX,
era intrínseca a relação entre a maior concentração de partículas e a perspectiva da presença de
microrganismos patogênicos. Esta percepção advinha em tempos imemoriais da contínua e inadequada
deposição dos excretas no solo, posteriormente arrastados pelas chuvas. Desta forma, à elevação da
turbidez associava-se a perspectiva de transmissão de doenças devido ao aporte de microrganismos
aos corpos d ’água.
Em tempos remotos os egípcios já haviam adquirido o hábito de acondicionar a água bruta em
jarros durante alguns dias antes de consumi-la. Objetivavam primordialmente reduzir, com resultados
variáveis, a concentração de partículas suspensas e dissolvidas porventura presentes. Os frequentes
insucessos deste procedimento motivaram a busca de outras formas de clarificação. Embora indícios
mais remotos da coaguiação da água para fins de abastecimento reportem-se ao emprego de nozes na
índia no ano 400 da era cristã, registros mais confiáveis remontam ao século XVI no Egito. O processo
de coaguiação era realizado de forma totalmente empírica com amêndoas maceradas como coagulante.
As partículas suspensas e as amêndoas formavam um tipo de emulsão com a água e o óleo produzido
pelos grãos causava a agregação das partículas para posterior sedimentação nos jarros. Na mesma
época, com resultados insatisfatórios, empregava-se o feijão como coagulante no Sudão (Baker, 1949).
No século XVIII há registros do emprego de sais de alumínio na Inglaterra no tratamento de
águas minerais. A partir de 1827, verificava-se em Londres o emprego de sulfato férrico associado ao

76. Coaguiação é considerada um processo por envolver simultaneamente fenômenos químicos e físicos.
aquecimento da água coagulada, proporcionando a remoção da cor e da turbidez. Na mesma época
(1869) verificava-se na Holanda e Bélgica o emprego de dosagens de sulfato de alumínio de 10 a
20 mg/L, produzindo um precipitado que removia satisfatoriamente a turbidez.
Apenas no final do século XIX estabeleceu-se o processo de coagulação antecedendo a
filtração no tratamento de água nos EUA. O uso do sulfato de alumínio como coagulante era sugerido
como auxiliar da sedimentação nas estações nas quais os filtros ainda não haviam sido construídos.
Nessa situação insere-se estação de tratamento de água do estado de Nebraska na qual o emprego da
coagulação antecedeu em 34 anos à própria construção dos filtros.
A relevância dâ coagulação comprovou-se em levantamento realizado em estações de tratamento
dos EUA em 1989 que apontou como mais impactante na consecução dos objetivos de qualidade do
efluente, em termos de remoção de partículas, para eficiência deste processo quando comparada às
características físicas - em função da vazão afluente - das unidades amostradas (Logsdon et al., 2006).
A coagulação consiste essencialmente na desestabilização das partículas coloidais e suspensas
realizada pela conjunção de ações físicas e reações químicas, com duração de poucos segundos, entre
o coagulante - usualmente um sal de alumínio ou de ferro - , a água e as impurezas presentes. Em
solução aquosa os íons metálicos de ferro e de alumínio, positivamente carregados, formam fortes
ligações com os átomos de oxigênio podendo coordenar até seis moléculas de água ao redor, liberando
os átomos de hidrogênio (aumentando a concentração do íon H+) e reduzindo o pH da suspensão. Este
processo denomina-se hidrólise e os produtos formados constituem-se as espécies hidrolisadas de
ferro e alumínio, podendo culminar, em função da dosagem, no precipitado de hidróxido do metal.
Posteriormente, verifica-se o transporte dessas espécies para o contato com as impurezas presentes,
etapa denominada mistura rápida, causando - em função da magnitude da dosagem e pH de
coagulação - sua desestabilização ou envolvimento nos precipitados. Em seguida, com a aproximação
e colisão das partículas desestabilizadas, há formação dos flocos os quais podem ser removidos por
sedimentação, flotação e filtração. Assim, espera-se remover especialmente turbidez, matéria orgânica
coloidal, substâncias tóxicas de origem orgânica e inorgânica, e outras passíveis de conferir odor e
sabor à água, microrganismos em geral e os precursores da formação de trihalometanos elevando-se a
qualidade da água distribuída.
O processo de coagulação efetua-se na unidade de mistura rápida da estação e, como mencionado
no Capítulo 6, está presente na quase totalidade das tecnologias de tratamento, excetuando-se a
filtração lenta. Nas estações convencionais a eficiência da coagulação influi no desempenho das demais
etapas do tratamento, favorecendo a qualidade microbiológica do efluente, aumentando a duração das
carreiras dos filtros e reduzindo o custo do metro cúbico de água tratada.
A importância da coagulação testifica-se em duas vertentes distintas e complementares. No
contexto sanitário à remoção de partículas de dimensões microscópicas associa-se a de microrganismos
patogênicos. Tal assertiva assume maior relevância na comparação entre as dimensões médias
dos microflocos77 formados após a coagulação e dos diversos tipos de microrganismos geralmente
encontrados nas águas naturais. Ao passo que os primeiros apresentam usualmente dimensões variando
de 2 a 4 pm, para as bactérias do gênero Salmonella e coliformes totais as variações são de 0,5 a
2,0 pm e, para os vírus de 0,025 a 0,1 pm. Protozoários, sabidamente mais resistentes à desinfecção
com compostos de cloro, apresentam dimensões de 10 a 14 pm, para cistos de Giardia, e 4 a 6 pm de

77. Comumente referenciada ao diâmetro, a dimensão estimada dos flocos produzidos durante a floculação é
controvertida, por ser fortemente influenciada - além, é claro, do mecanismo de coagulação predominante
- pelo método de aferição. Contadores de partículas tendem a favorecer a ruptura dos flocos de maior
tamanho. Como exemplo, uma mesma amostra de água floculada apresentou, quando fotografados, flocos
com dimensão variando de 50 a 800 pm. Posterionnente, com o emprego de contador de partículas 95 % dos
flocos apresentaram dimensão inferior a 4 pm.
diâmetro para oocistos de Cryptosporidium. Da mesma forma, fibras de asbestos78, em relação às quais
há indícios de que possuam propriedades carcinogênicas, apresentam dimensões inferiores a 2 pm.
Como consequência, espera-se que os microrganismos sejam envolvidos na formação dos flocos de
maior tamanho.
Os contadores de partículas, de extensivo emprego especialmente nas estações de tratamento
dos EUA e Canadá, surgiram com o intuito de relacionar a remoção de partículas de determinada
faixa de tamanho à dos cistos e oocistos de protozoários. Seu emprego tem ainda estado associado
ao dos turbidímetros, de escoamento contínuo e de bancada, pelo fato da maioria dos equipamentos
disponíveis não contemplar partículas menores que 1 pm.
Embora não consensual, a distinção entre partículas suspensas e coloidais, ou partículas e
coloides, frequentemente é reportada à dimensão de 1 pm. Para efeito da coagulação, e do tratamento
como um todo, considera-se a maioria das bactérias e protozoários como partículas e os vírus como
coloides. Na figura 7.1 são apresentadas as dimensões das partículas e dos microrganismos presentes
nas águas naturais.

E-04 1.E-03 1.E-02 1.E-01 1.E+00 1.E+01 1.E+02 1.E+03 1.E+04 1.E+05

Diâmetros (micrômetros)

Figura 7.1. Dimensões das partículas e microrganismos presentes nas águas naturais.
Fonte: Letterman, Amirtharajah e 0 ’Melia (1999).

A segunda vertente que confirma a relevância do processo de coagulação é essencialmente


econômica. Partículas de síliça com diâmetro de 1 pm apresentam velocidade de sedimentação da
ordem de 1 mm/b (figura 7.2) e cuja densidade (2,65) é significativamente superior à dos diversos
microrganismos. À remoção de partículas desta magnitude de tamanho, certamente, há de se associar
à dos microrganismos patogênicos cujas dimensões estão apresentadas na figura 7.1. Uma vez que as
unidades de decantação de escoamento horizontal via de regra apresentam profundidade da ordem
de 4 m, seria necessário tempo aproximado de 4000 h para que a deposição ocorra. Isto resultaria em
áreas imensuravelmente maiores em razão do tempo de detenção usual de 1,5 a 3,0 h verificado nestas
unidades. Em unidades de decantação de alta taxa, a despeito de sua pouca relevância, o tempo de
detenção é frequentemente inferior a 10 min.

78. Mineral a base de silicato, fibroso, inalterável ao fogo, cuja variedade mais pura é o amianto. C A P Í T U L O 07

1 5 5
Vs (mm/dia)

Figura 7.2. Velocidade de sedimentação de partículas discretas de densidade 2,65 à temperatura de 15 °C.
Fonte: Valencia (1992).

Desta forma, o objetivo principal da coagulação, e da floculação como via de consequência,


consiste em elevar significativamente a velocidade de sedimentação do aglomerado de partículas a
ser formado pela adição do coagulante. Para estações de tratamento dotadas de unidades de flotação,
persiste o objetivo da coagulação em fomentar a agregação das partículas, porém sem conferir-lhes
elevada velocidade de sedimentação que prejudique o arraste pelas bolhas de ar.
A referida importância da coagulação no contexto sanitário evidencia-se em ampla gama de
circunstâncias. Vale salientar duas perspectivas contemplando estudos em escala real e unidades-piloto
direcionados à remoção de cistos de Giardia e oocistos de Crypto. Tais microrganismos apresentam
densidade inferior a 1,1 e os oocistos em particular velocidade de sedimentação inferior a 1 mm/h, não
se sedimentando mesmo em reservatórios com elevados tempos de detenção.
O primeiro estudo, fundamentado em levantamento realizado no Colorado (EUA) envolvendo
oito estações de tratamento de água, apontou a ausência ou ineficiência da coagulação como o fator
mais relevante na remoção de cistos de Giardia. Foram detectados cistos no efluente de duas das
unidades - já tendo anteriormente ocorrido a presença em outras três - e em sete das oito águas
naturais avaliadas. Quatro das estações não eram dotadas de dispositivos para mistura rápida, pois
às mesmas afluíam água de baixíssima turbidez. Após a adequação da coagulação em duas outras -
dotadas de unidade de mistura rápida não foram detectados cistos na água filtrada mesmo quando se
fizeram presentes na água bruta (Hendricks et al., 1988).
O segundo estudo, fundamentado em conjunto de pesquisas em unidades-piloto centradas nas
perspectivas de remoção e inativação de Crypto realizadas até 1998, realça a importância do conceito
de múltiplas barreiras como catalisador na remoção de oocistos deste protozoário. As pesquisas - e os
resultados delas originários - foram divididas em quatro vertentes principais, quais sejam, coagulação-
floculação/flotação-sedimentação, filtração em meio granular, filtração em membrana e desinfecção.
Quando os resultados das pesquisas permitiram foram delineados modelos matemáticos, sempre
considerando a remoção de Crypto como variável dependente, contemplando alguns dos diversos
fatores intervenientes em cada estudo. Além dos coeficientes de determinação (R2), os modelos
apresentaram distintas relevâncias em virtude do número de observações - os próprios resultados
das pesquisas - que os fundamentaram. Destaca-se, especificamente para coagulação-floculação-
sedimentação, com remoção estimada em 1 a 2 log, o modelo proposto que apresentou excelente
r-

aderência aos dados experimentais (R2 = 0,95; 24 observações). O mesmo foi composto por três
variáveis explicativas: dosagem de coagulante, pH da água bmta e dosagem de polímero. Em segundo
plano o modelo delineado para filtração rápida (R2 = 0,81; 24 observações) apresentou por sua vez
como variáveis explicativas turbidez e pH do afluente, a taxa de filtração e a profundidade do meio
filtrante como fatores mais relevantes na remoção de Crypto, estimada em 3 a 4 log (Haas et ah, 2001).

Mecanismos de coagulação
Inicialmente, para melhor compreender os mecanismos intervenientes no processo de coagu­
lação, vale ressaltar que as partículas suspensas e coloidais dispersas na água apresentam carga
predominantemente negativa. A mobilidade eletroforética constitui-se um dos parâmetros de avaliação
da magnitude da carga das partículas presentes nas águas naturais e, dependendo da tecnologia de
tratamento, do próprio êxito da coagulação. Sua determinação usualmente realiza-se utilizando uma
célula microeletroforética ao acondicionar a amostra de água em um tubo de pequeno diâmetro de
plástico ou vidro. A aplicação axial de um campo elétrico à amostra e a inserção de dois eletrodos nas
extremidades do tubo induzirá o deslocamento das partículas coloidais, fenômeno este denominado
eletroforese. A razão entre a velocidade média das partículas presentes e o gradiente de voltagem
ao longo do tubo constitui-se na mobilidade eletroforética, relacionando-se intrinsecamente com sua
carga superficial. Um segundo parâmetro de controle do processo de coagulação e que também traduz
a grandeza da carga superficial das partículas coloidais denomina-se o potencial zeta, relacionado à
eletroforese e determinado com base na própria mobilidade eletroforética.
Para a grande maioria das águas naturais, com pH da ordem de 7, a mobilidade eletroforética
(medida em pm/s.cm/V) apresentará valores ligeiramente negativos para este parâmetro. Distintas
suspensões - sílica, algas e, principalmente, argilas - , que haverão de conferir turbidez e eventualmente
cor verdadeira às águas naturais, também apresentam característica similar (figura 7.3).

Figura 7.3. Variação da mobilidade eletroforética em função do pH para distintas suspensões.


Fonte: Stumm e Morgan (1996).

Três distintos fenômenos favorecem o desenvolvimento de carga negativa na superfície


das partículas. Para o caso das argilas minerais, a carga negativa pode estar associada às próprias
imperfeições do cristal ou à substituição do átomo de silício por átomo de menor valência na estrutura
do cristal —alumínio, ferro ou magnésio —fenômeno denominado substituição isomórfica (figura 7.4).
Vale destacar que a magnitude da carga negativa independe das características da fase aquosa após a
formação do cristal.
VA?
Figura 7.4. Substituição de um átomo de silício por um de alumínio na estrutura tetraédrica da sílica.
Fonte: Letterman, Amirtharajah e 0 ’M elia (1999).

O segundo fenômeno refere-se ao fato de grupos funcionais como carboxilas ou hidroxilas


presentes na superfície das partículas, caso típico das bactérias agregadas às partículas coloidais,
dissociarem-se na água e, dependendo do grau de ionização e do pH do meio aquoso, produzirem carga
elétrica negativa. Por fina, também pode ocorrer a adsorção de íons específicos na superfície da partícula,
decorrentes das forças de van der Waals e pontes de hidrogênio (Amirtharajah; 0 ’Melia, 1990).
Quando as partículas coloidais são dispersas na água, íons de carga oposta (K+, Na+ e Ca^, por
exemplo) tendem a se aproximar de sua superfície formando uma camada de íons positivos e negativos,
denominada camada compacta ou camada de Stern, decorrente de forças de repulsão eletrostática e de
atração de van der Waals. Desta forma, apesar da carga negativa da maioria dos coloides a suspensão
tende a ser eletricamente neutra.
A estas forças de atração, que somente prevalecem a menores distâncias, contrapõem-se as forças
difusivas impelindo os íons, predominantemente positivos, na direção das menores concentrações
iônicas. Como consequência, há formação de uma segunda camada - denominada camada difusa - ao
redor das partículas, cuja espessura dependerá mais da concentração iônica do que propriamente do
tamanho da partícula, tendendo a manter a individualidade das partículas e a estabilidade da dispersão.
A medida que se afasta da superfície da partícula, menor se toma a concentração de íons ao redor,
resultando em nuvens de íons que circundam a partícula coloidal em até 300 nm, medida com base na
superfície da partícula em direção ao volume da solução na qual está dispersa.
Valendo-se da decrescente concentração de íons ao redor da partícula, surgem potenciais
elétricos de grande interesse ao processo de coagulação. Destacam-se o potencial existente na superfície
da partícula coloidal, máximo desenvolvido pelo sistema (potencial de Nemst), o existente na interface
entre as camadas- aderida e difusa, e o existente no plano de cisalhamento - o mencionado potencial
zeta plano que define a porção de água e, consequentemente de íons, que se move juntamente com
a partícula. Este plano está situado em alguma dimensão entre o limite externo da camada aderida e o
limite externo da camada difusa. O potencial zeta consiste em última instância na diferença de potencial
entre a superfície da camada compacta e o limite da camada difusa, ou seja, a energia eletrostática (em
Volts) a ser aplicada capaz de deslocar um íon de mesmo sinal do ponto mais remoto da camada difusa
à superfície da camada compacta (figura 7.5) (Hanh; Stumm, 1968).
Desta forma, a desestabilização referenciada no próprio conceito de coagulação permitirá a
aproximação das partículas vencendo a barreira de energia decorrente destes potenciais elétricos. Este
processo constitui-se na conjunção de quatro mecanismos abordados a seguir que podem inclusive
ocorrer simultaneamente.

CA PÍTU LO 07

158 ' ' ’ ........


Figura 7.5. Dupla camada e potenciais elétricos desenvolvidos ao redor da partícula.
Fonte: 0 ’Melia (1969 apud Faust; Aly, 1998).

Compressão da dupla camada


O primeiro mecanismo de coagulação consiste na compressão da referida dupla camada. O
aumento da força iônica, vale afirmar da concentração de íons, ocasiona a compressão da camada
difusa. Segundo o modelo de Schulze-Hardy (1900) tal intento é obtido muito mais facilmente com a
dispersão de íons de carga positiva trivalentes como ferro ou alumínio, a razões da ordem de 1:700 em
relação aos íons monovalentes e 1:60 em relação aos bivalentes (Montgomery, 1985).
Os íons de carga positiva atravessam a camada compacta, reduzindo a magnitude do potencial
zeta e a espessura da dupla camada, permitindo a posterior aproximação das partículas. Duas grandes
inconsistências da teoria da compressão da dupla camada residem na independência da dosagem de
coagulante com a concentração de partículas coloidais e nos maus resultados auferidos com o emprego
de sais de cálcio e magnésio como coagulantes com dosagens superiores às preconizadas pela lei de
Schulze-Hardy. Tais inconsistências apontam para outras interações, além dos efeitos eletrostáticos,
entre as espécies hidrolisadas do coagulante e as partículas dispersas na massa líquida.

Adsorção-desestabilização
O segundo mecanismo, também denominado adsorção-neutralização ou mesmo neutralização
de cargas, ocorre imediatamente após a dispersão do coagulante na massa líquida. Dependendo do pH
do meio, há formação de diversas espécies hidrolisadas de carga positiva que podem ser adsorvidas na
superfície das partículas, desestabilizando-as. Em alguns casos minúsculas partículas do coagulante,
produtos da hidrólise do sal, são adsorvidas pela superfície das partículas coloidais, podendo mesmo
resultar na reversão da carga da partícula e consequente restabilização da suspensão. Tal fato explica
a estreita faixa de variação - específica para cada água natural -, tanto em termos de dosagem de
coagulante quanto do pH resultante, para a qual a coagulação neste mecanismo é exitosa. Vale enfatizar
também que na maioria dos casos são esses produtos da hidrólise, e não os íons dos metais ferro e
alumínio, os principais agentes na coagulação. Desta forma, o pH - usualmente entre 4.5 e 6,5, para
1 5 9
coagulação com sulfato de alumínio - toma-se fator preponderante, pois governará a fonnação das
espécies predominantes e a eficiência do processo.
A adsorção ocorre em intervalo de tempo inferior a 1 s e elevado gradiente de velocidade79,
podendo suceder com dosagens inferiores às necessárias à compressão da camada difusa. A dosagem
de coagulante necessária à neutralização da carga é diretamente proporcional à concentração
e à área superficial do coloide, sendo, desta forma, influenciada pelo número e distribuição dos
tamanhos de partículas que constituem a dispersão. Em vista deste fato, muito provavelmente duas
águas com alcalinidade e turbidez de mesma magnitude desestabilizar-se-ão com dosagens distintas
de coagulante, ou seja, a água que apresentar maior número de partículas de menor dimensão -
provocando aumento da área superficial - há de necessitar dosagem mais elevada. A determinação
da mobilidade eletroforética constitui importante parâmetro de monitoramento desse mecanismo de
coagulação, uma vez que a adsorção se sucede nas vizinhanças do ponto isoelétrico para o qual o
potencial zeta é nulo.
A adsorção-neutralização como mecanismo de coagulação deve predominar em estações de
filtração direta de escoamento ascendente e descendente, pois os microflocos formados apresentam baixa
velocidade de sedimentação e alta resistência ao cisalhamento decorrente das forças hidrodinâmicas
do escoamento, sendo assim eficientemente retidos nos interstícios do meio filtrante.

Varredura
Em função do pH de coagulação, à medida que se eleva progressivamente, a dosagem do
coagulante passa a predominar o mecanismo da varredura, o mais recorrente nas estações de
tratamento de água. Esse mecanismo foi definido como sweep coagulation, pela inexistência de
uma relação estequiométrica entre a dosagem de coagulante e a área superficial das partículas
(Packman, 1965). Em função das dosagens de coagulante e do pH do meio, as partículas coloidais
são adsorvidas e as suspensas envolvidas pelo precipitado de hidróxido de alumínio ou de ferro.
Interessante estudo sugere que o precipitado formado nas condições da coagulação por varredura
apresenta carga positiva, explicando a atração eletrostática exercida sobre as partículas suspensas
(Dempsey 1984 apud Dennet et al., 1995).
O mecanismo da varredura inequivocadamente conduz a dosagens mais elevadas, quando
cotejadas às necessárias à adsorção-neutralização. Desta forma, o floco formado adquire maior
peso, sedimentando-se com maior facilidade nas unidades de decantação, tomando tal mecanismo
predominante nas estações convencionais de tratamento de água. Também quando do emprego da
flotação como etapa de separação dos flocos, a coagulação ocorre por varredura.
Os flocos formados pelo mecanismo da varredura apresentam densidade80 pouco superior à da
água (1,01 a 1,05), favorecendo em muitas circunstâncias a não sedimentação e consequente arraste
às unidades filtrantes. Em qualquer mecanismo de coagulação o processo de desestabilização pode
ser revertido caso haja variações no pH de coagulação ou da dosagem de coagulante, conduzindo à
restabilização das partículas coloidais e evitando a agregação.

79. Conceito que abarca as diferenças de velocidade (dv/dy) entre as linhas de corrente do escoamento indicando
a magnitude da turbulência à qual está submetida a massa líquida.
80. Conforme definido no Capítulo 2, embora haja distinções na literatura técnica, densidade é considerada um
adimensional que compreende a razão entre a massa específica do sólido (neste caso do floco) ou líquido
e a massa específica da água a 4 °C. Para os gases a referência se efetua com a massa específica do ar
atmosférico a 0 °C. Desta forma, é comum, embora intrinsecamente incorreto, nas Ciências Biológicas
referenciar-se às concentracões de algas como densidade de algas.
CAPÍ TUL O 0 7

1Ó 0
Formação de pontes químicas
A partir do final da década de 1950 nos EUA, com o objetivo de reduzir as dosagens do
coagulante e conferir ao floco maior densidade passaram a ser empregados polímeros orgânicos
naturais ou sintéticos, usualmente como auxiliares de floculação. Tais substâncias podem ser definidas
como compostos orgânicos de longas cadeias constituindo-se de série repetitiva de unidades químicas
unidas por ligações covalentes formando moléculas denominadas monômeros, e o peso molecular do
polímero é consequência da soma dos pesos dos diversos monômeros. Classe especial de polímeros
denomina-se polieletrólitos, distintos dos polímeros ordinários por possuírem grupos funcionais
ionizáveis capazes de serem adsorvidos na superfície dos coloides.
No emprego dos polímeros, a coagulação pode efetuar-se por intermédio da formação de
pontes químicas, quando as partículas coloidais são adsorvidas na superfície das diversas cadeias dos
polímeros. Para tal finalidade, a molécula do polímero deve ser longa o suficiente para minimizar o
efeito repulsivo da dupla camada quando da aproximação de mais de uma partícula e permitir a adsorção
em sua superfície. Há relação direta entre a área superficial das partículas coloidais e a dosagem ótima
de polímeros, e a melhor agregação não necessariamente ocorre para potencial zeta nulo. íons como
cálcio podem afetar a formação destas pontes químicas por interagirem com a superfície das cadeias
dos polímeros (Letterman; Amirtharajah; 0 ’Melia, 1999).
Uma vez que esse mecanismo de coagulação pode ocorrer com polímeros aniônicos, nos quais
predominam sítios negativos, somente a compressão da camada difusa não explicaria o processo. Desta
forma, tanto podem ocorrer ligações decorrentes de forças de atração eletrostática, quanto a prevalência
de pontes de hidrogênio ou das forças de van der Waals. Também excessiva dosagem de polímeros
evitará a formação de pontes pela ausência de sítios disponíveis, conforme apresentado na figura 7.6.

Figura 7.6. Representação esquemática da formação de pontes químicas com o emprego de polímeros.
Fonte: 0 ’Melia (1969 apud Faust; Aly, 1998). C A PÍ TU L O 07

a 'ó a
A despeito do alto custo quando comparado aos sais de ferro e alumínio, os polímeros são
com alguma frequência, especialmente nos EUA, utilizados como coagulantes primários para águas
naturais de baixa cor verdadeira sobretudo em estações de íiltração direta. Nestas circunstâncias
predominam os polímeros catiônicos de menor peso molecular e seu uso tem apresentado algumâs
vantagens, tais como:
• especificamente para estações de íiltração direta, formação de microflocos mais resistentes
à erosão nos interstícios do meio filtrante;
• redução do volume de lodo gerado;
• redução dos gastos com alcalinizantes para correção do pH final, uma vez que menores
dosagens de coagulante minimizam a queda mais acentuada do pH de coagulação;
• maior facilidade de desidratação do lodo gerado comparada aos sais de ferro e alumínio.

Na tabela 7.1 é apresentada uma síntese dos processos de desestabilização das partículas
coloidais.

T a b e la 7.1. Características dos processos de desestabilização das partículas.


. Compressão da Formação
■ Fenômeno Adsorção Varredura
Dupla Camada de Pontes
Interação química Ausente Predominante Secundária Predominante
Alta dosagem de Sem efeito Restabilização Favorável Restabilização
coagulante (ou polímero)
Relação entre Nenhuma ± Proporcional Nenhuma ± Proporcional
concentração de partículas
e dosagem de coagulante
Fração da superfície da Desprezível Em geral 50 % Total Variável
partícula coberta para
adequada agregação
Fonte: Masschelein (1992).

Fatores intervenientes na coagulação

Diversos fatores haverão de interferir em maior ou menor monta no processo de coagulação.


Embora não existam hierarquias absolutas em termos da coagulação, dentre os principais fatores
intervenientes destacam-se o tipo de coagulante, o pH e a alcalinidade da água bruta, a natureza e a
distribuição dos tamanhos das partículas causadoras de cor e turbidez, e a uniformidade de aplicação
dos produtos químicos na massa líquida. Em menor grau podem também ser mencionados a presença
de íons, a concentração e a idade da solução de coagulante, a temperatura da água e, dependendo do
mecanismo predominante, o gradiente de velocidade e o tempo de agitação na unidade de mistura rápida.

Tipo de Coagulante
E evidente que as características da água bruta vão influenciar na escolha do coagulante, mas
o êxito do processo de coagulação é indissociável do tipo de coagulante utilizado. A característica
fundamental para um coagulante ser empregado no tratamento de água consiste na capacidade de
produzir precipitados e espécies hidrolisadas em dissociação no meio aquoso, capazes de desestabilizar
ou envolver as partículas suspensas e coloidais presentes nas águas naturais. O cloreto de sódio constitui
contraexemplo interessante. Ao se dissociar na água os íons (Na+ e CE) atuam como cargas localizadas
e não produzem espécies hidrolizadas fundamentais à coagulação, sendo por vezes denominados
e le tr ó lito s in d ife r e n te s .
A definição do tipo de coagulante frequentemente deve fiar-se em fatores relacionados à
adequabilidade à água bruta, à tecnologia de tratamento, ao custo do coagulante propriamente dito e
dos produtos químicos porventura a ele associados - alcalinizantes, ácidos ou auxiliares de coagulação
- e ao custo e manutenção dos tanques e dosadores. Nas estações com tecnologia convencional
de potabilização, a inter-relação dos dois primeiros fatores materializa-se em última instância nas
características do afluente às unidades de filtração, usualmente em termos de turbidez e/ou cor da água
decantada. Desta forma, na análise global de custo dos coagulantes deve-se considerar o eventual
benefício advindo da redução do volume despendido na lavagem dos filtros, considerando a tarifa
média de consumo de água e o percentual de perdas no sistema de abastecimento. Frequentemente
a definição por coagulantes de maior custo justifica-se pelo aumento de receita decorrente da melhor
qualidade da água decantada e consequente aumento do volume tratado. Tais avaliações igualmente
aplicam-se para estações de filtração direta.
Outro aspecto que vem sendo progressivamente considerado relevante para a escolha do
coagulante refere-se à quantidade e características do lodo gerado no tratamento, as quais dependem
das características da água bruta e dos produtos químicos utilizados na coagulação. Consequentemente,
as características químicas e físicas dos resíduos gerados no tratamento de água serão influenciadas
pela composição do coagulante, e problemas relacionados ao manuseio e à disposição podem ser
minimizados ajustando-se o processo de coagulação, culminando em alguns casos com a alteração do
coagulante.
Ao longo das últimas décadas diversos sais têm sido utilizados como coagulantes, basicamente
de alumínio e ferro, e, mais raramente como mencionado, os polímeros orgânicos como coagulantes
primários em alguns países como EUA e Canadá. Com maior intensidade a partir de 1990, embora seu
emprego date do final da década de 1960 no Japão, tem sido estudada em distintas circunstâncias a
alternativa da aplicação do cloreto de polialumínio, também denominado hidroxi-cloreto de alumínio,
com bons resultados na remoção de cor para amplo espectro de pH de coagulação. As tabelas 7.2 e 7.3
apresentam as principais características dos coagulantes usualmente empregados (Vianna, 2001; Di
Bernardo; Di Bernardo; Centurione Filho, 2002).

Tabela 7.2. Coagulantes primários usualmente empregados no processo de coagulação.


Ponto de - Dosagens Massa
Composição Al20 3 ou
N om e Comercial . Congelamento usuais® . Específica Disponibilidade
Típica Fe (%) -
(°C) (mg/L) (kg/m3)
Sulfato de alum ínio111 AI2(SOA. n H20 121 8,3 a 17,1 -8 10 a 60 600 a 1400 Sólido ou líquido
Cloreto férrico FeCI3. 6 H20 1 2 a 14 - 20 a - 50 5 a 40 1425 Liquido (39 a 45 %)
Sulfato ferroso clorado Líquido (16 a 20 %)
FeSO„. 7 H20 10 a 12,5 -4 0 5 a 25 1470
(Caparrosa clorada)
Sulfato férrico FeS04. 9 H20 5 a 40 1530 a 1600 Sólido e Líquido (17 %)
Cloreto de 900 Sólido
Aln (OH)m Cl3 6 a 10,5141 - 12 < 10[51
polialum ínio

‘O sulfato de alumínio líquido é comumente fornecido a concentrações de 50 % peso/peso.


20 número de moléculas de água de hidratação varia dependendo do produto sendo 14,3 e 18 mais usuais.
3Dosagens aplicadas em estações convencionais.
4 Em função da basicidade de 50 ou 70 %.
5Uso ainda incipiente no País.
Tabela 7.3. Auxiliares de coagulação comumente empregados na potabilização.
Nome Comercial Fórmula Massa Específica (kg/m3) Disponibilidade
Cal hidratada Ca(OH)2 560 a 800 Sólido
Cal virgem111 CaO 800 a 1200 Sólido
Barrilha Na2C03 450 a 560 Sólido
Soda cáustica NaOH 1520 e 2130[2i Sólido e Líquido (50 %)
‘A cal virgem é aplicada ao tratamento após hidratação, transformando-se em cal hidratada.
2A massa específica da soda cáustica depende da disponibilidade, sendo da ordem de 1520 kg/m3 na forma sólida e 2130 lcg/m3
líquida.

Objetivando reduzir os custos de transporte, estações de tratamento de pequeno porte - e mesmo


as de grande porte das regiões Norte e Nordeste - comumente utilizam o coagulante na forma sólida e
a solução é preparada na estação. Em outro contexto, nota-se o incremento do emprego de coagulante
líquido, sobretudo na Região Sudeste do País, com resultados operacionais satisfatórios em estações
de médio e grande porte. As vantagens auferidas reportam-se à redução dos custos de manutenção dos
equipamentos, de limpeza da casa de química e do número de operadores da estação.
No processo de coagulação aos produtos químicos arrolados nas tabelas 7.3 e 7.4 inserem-
-se os polímeros orgânicos sintéticos ou naturais81 (polieletrólitos) utilizados mais comumente
como auxiliares de coagulação82. Conforme mencionado, sua utilização visa a elevar a velocidade
de sedimentação dos flocos ou, em estações de filtração direta, a aumentar a resistência destes aos
efeitos de cisalhamento provocado pelas forças hidrodinâmicas do escoamento pelos interstícios do
meio filtrante, retardando a ocorrência do traspasse83 e, consequentemente, prolongando a duração das
carreiras dos filtros (figura 7.7).

Figura 7.7. Atuação dos polímeros como auxiliares de coagulação para filtração direta.

81. O emprego de polímeros naturais praticamente é primazia dos países em desenvolvimento, entre os quais o
Brasil. Nos países desenvolvidos verifica-se plena hegemonia dos polímeros sintéticos.
82. A controvérsia quanto à denominação exata de auxiliares de coagulação, flo c u la ç ã o ou filtra ç ã o é algo
bizantina. Na realidade tais distinções referem-se basicamente ao ponto de aplicação do produto - na
unidade de mistura rápida, de floculação ou precedendo a filtração pois em quaisquer circunstâncias a
função primordial de fomentar a aglutinação dos flocos e conferir-lhes resistência à ruptura permanece a
mesma.
83. Os termos "tra sp a sse ’, "tresp a sse’ ou "tra n sp a sse ’ reportam-se ao fenômeno pelo qual as partículas - e de
roldão, eventualmente, microrganismos - atravessam os interstícios do meio filtrante ocasionando a queda
da qualidade do efluente.
De raríssimo emprego no Brasil, a sílica ativada84 também tem sido utilizada como auxiliar
de coagulação - cuja primeira experiência data de 1937 em Chicago (EUA) - associada ao sulfato de
alumínio. Sua aplicação, especialmente em águas de baixa temperatura, incrementa a formação dos
flocos - conferindo-lhes maior sedimentabilidade e resistência à erosão -, favorecendo maior penetração
no meio filtrante e podendo em alguns casos reduzir a dosagem de coagulante primário. Todavia, a sílica
ativada não apresenta comumente resultados satisfatórios quando associada a coagulantes à base de ferro.
Embora já viessem sendo fabricados logo após a 2a Guerra, os polímeros passaram a ser
empregados mais comumente a partir da década de 1960 nos EUA Os polímeros sintéticos apresentam
formulação variável em função do fabricante, frequentemente desconhecida, e os naturais são
constituídos à base de amido, ambos empregados com dosagens usualmente inferiores a 0,5 mg/L.
Nos polímeros podem predominar sítios ionizáveis positivos (catiônicos) e negativos
(aniônicos), ou nenhum destes (não iônicos). No citado emprego de polímeros como coagulantes
primários, a desestabilização pode se suceder de duas formas, ambas com base na adsorção do p o lím ero
às partículas coloidais. Para a coagulação com polímeros catiônicos, a adsorção neutraliza a carga
negativa das partículas permitindo a agregação. Nestes casos o tamanho do polímero, vale afirmar o
número de monômeros, adquire importância secundária, sendo comumente empregados polímeros
de menor peso molecular (< 500 kilodaltons). Em outro contexto, para os polímeros aniônicos ou
não iônicos, há a referida formação das pontes químicas conectando as partículas coloidais de carga
predominantemente negativas. Polímeros de maior peso molecular, em até 10 vezes aos utilizados
como coagulantes primários, fazem-se necessários nesta situação ( 0 ’Melia, 1978).
Quer como coagulantes primários quer especialmente como auxiliares de coagulação, os
polímeros são extensivamente utilizádos nos EUA. Levantamento realizado ainda na década de 1980
estimou que em mais da metade das estações empregava-se um ou mais polímeros e das 23 instalações
com melhor qualidade do efluente - em termos de turbidez da água filtrada - 20 utilizavam polímeros
como auxiliares de coagulação. No País, em uma pequena amostra de 16 estações de pequeno e
médio porte nos estados de Minas Gerais e São Paulo, a unidade que apresentou menor valor da
turbidez média no período de 2003-2004 (< 0,10 uT) utilizava polímero não iônico como auxiliar de
coagulação, potabilizando vazão média de 270 L/s e com turbidez da água bmta apresentando média
geométrica de 46 uT. A despeito de que características intrínsecas da água bmta hão de favorecer a
maior ou menor sedimentabilidade dos flocos, tais constatações apontam para inequívocas vantagens
do uso de polímeros como auxiliares de coagulação.
Nestas circunstâncias, há controvérsias acerca da ordem de aplicação dos produtos químicos
na unidade de mistura rápida, havendo recomendações da constmção de dois tanques para se efetuar
as distintas dispersões na água bmta. Inclusive a NBR 12216 recomenda que devem ser previstos
dispositivos individuais de mistura para cada produto químico aplicado na coagulação, o que não
ocorre na quase totalidade das estações de tratamento brasileiras (ABNT - Associação Brasileira de
Normas Técnicas, 1990).
Contudo, estas recomendações parecem estar principalmente direcionadas às estações de
tratamento dos EUA, nas quais predomina a dispersão dos coagulantes em tanques dotados de agitadores
mecanizados nos quais o tempo de detenção é em alguns casos da ordem de minutos. Desta forma, a
sequencia de aplicações dos produtos químicos - notadamente o coagulante e os polímeros - interfere
no tempo disponível para cada espécie química de promover a adsorção às partículas presentes na água
bmta. Por exemplo, a estação de tratamento da cidade califomiana de San Diego (vazão da ordem de
7,1 m3/s) dispõe de três unidades de mistura rápida mecanizada em série, com gradientes de velocidade e
tempos de detenção distintos, para aplicação sequencial de cal, sulfato de alumínio e polímero.

84. Trata-se de um composto de silicato de sódio, cuja alcalinidade é parcialmente neutralizada, ou ativada, com
ácido. C A PI TU L O 07

165
Alguns pesquisadores recomendam, quando do emprego de polímeros como auxiliares de
coagulação, que a aplicação ocorra 5 a 10 min após a dispersão do coagulante. Todavia, em escala
real, este procedimento toma-se inexequível para a maioria das estações do País. Uma vez que,
salvo exceções, a unidade de mistura rápida (e dessa maneira os tempos de detenção são comumente
inferiores a 1 s) está instalada contígua aos floculadores - de acordo com premissa estabelecida pela
NBR 12216 a esse respeito - , para atender esta recomendação a aplicação do polímero deveria ocorrer
no interior da própria unidade de floculação onde, em razão da menor turbulência, sua dispersão na
massa líquida seria menos eficiente.
Embora predominem recomendações da aplicação do polímero posterior à do coagulante
primário, há diversas estações no País nas quais a aplicação simultânea tem apresentado excelentes
resultados. Pesquisa realizada com água natural em reatores estáticos85 visando à filtração direta
avaliou a aplicação simultânea e posterior de polímero catiônico em relação ao sulfato de alumínio.
Nos diversos ensaios realizados esta distinção não apresentou maior significância e confirmaram a
melhoria da eficiência da coagulação - posteriormente testificada em filtro-piloto - com o uso de
dosagem de 0,25 mg/L de polímero.
Outro estudo contemplando a influência da ordem de aplicação do coagulante (nitrato férrico)
e polímero catiônico na remoção da turbidez (variável de 4 a 88 uT), além de confirmar a melhoria
da floculação com o emprego do auxiliar em especial para turbidez de maior magnitude, apontou
que a simultaneidade da aplicação apresentava melhores resultados. Os resultados sugerem que
como os tempos de mistura rápida eram superiores a 2 min (gradiente de velocidade de 450 s"1), esta
simultaneidade favorecia o aumento da resistência ao cisalhamento e o posterior aumento do tamanho
dos flocos (Ammary; Cleasby, 2004).
Em contraposição a tais vantagens, em países como Japão e Suíça há proibição do emprego
de polímeros, em outros como Alemanha e França severas restrições, em virtude dos contaminantes
orgânicos neles contidos que possam potencialmente causar algum malefício à saúde ou mesmo pela
perspectiva de formação de subprodutos da cloração. Embora algumas destas substâncias, como a
acrilamida, estejam inseridas nos limites estabelecidos pela Portaria 518 (concentração máxima de
0,5 pg/L), as baixas dosagens como auxiliares de coagulação tendem a reduzir tais riscos,
Além das distinções intrínsecas aos diversos coagulantes, há outras menos evidentes.
Coagulantes idênticos fornecidos por empresas diferentes podem apresentar performances distintas
na coagulação, consequência da variação das concentrações de impurezas devido às diferenças na
qualidade do material utilizado na produção. O sulfato de alumínio, por exemplo, pode ser extraído
de materiais ricos em alumínio, tais como bauxita, alumina, argilas, e outros minerais de silicato
de alumínio. A bauxita, rica em alumínio, é um solo formado há milhões de anos em condições
quentes e úmidas, ao passo que a alumina é um produto artificial, purificado, geralmente oriundo da
bauxita. O sulfato de alumínio produzido da bauxita usualmente contém concentrações mais altas
de impurezas (traços de metais, ânions e carbono orgânico) do que o produto extraído da alumina, o
qual, por sua vez, tende a conter concentrações mais altas de sódio e zinco (Letterman; Amirtharajah;
0 ’Melia, 1999). Adicionalmente, os coagulantes comumente apresentam concentrações variáveis de
outros contaminantes como chumbo, cádmio, vanádio, entre outros. Embora estes metais apresentem-
-se a baixas concentrações e na forma insolúvel, favorecendo a precipitação ou adsorção aos flocos

85. Termo que se reporta ao conjunto de jarros, frequentemente igual a seis, nos quais amostras da água de
estudo, natural ou sintética, são submetidas às etapas de coagulação, floculação e sedimentação ou filtração.
Estes ensaios são também denominados de teste de jarros, tradução literal de Jar Test, de uso extensivo nas
estações de tratamento de água.
formados, há probabilidade de concorrerem em algumas situações específicas, relacionadas a altas
dosagens, para o aumento da concentração de metais pesados na água tratada.
A estimativa da dosagem adequada dos produtos químicos - neste caso contemplando o
coagulante primário, o alcalinizante/acidificante e, eventualmente, o auxiliar de fioculação - definida
com base em cálculos estequiométricos é pouco acurada. Embora maior concentração de partículas, em
outros termos, turbidez e cor verdadeira mais elevadas, relaciona-se com dosagens mais significativas
de coagulante. A multiplicidade de parâmetros que caracterizam as águas naturais e influenciam no
processo de coagulação recomenda a definição do tipo e dosagem de coagulante fundamentando-se
em ensaios de tratabilidade. A metodologia para realização destes ensaios é abordada no Capítulo 11
referente à elaboração dos diagramas de coagulação.
Com o intuito de fornecer um balizador para dosagem de coagulante, pesquisa desenvolvida
com dados operacionais diários de seis estações de tratamento de água de Minas Gerais e São Paulo
objetivou elaborar modelo matemático que contemplasse a relação entre a dosagem de coagulante -
considerada como importante insumo nos gastos com produtos químicos - , a turbidez da água bruta e
dois parâmetros hidráulicos relevantes nas operações de fioculação e decantação, quais sejam, o tempo
de detenção e a velocidade de sedimentação. As estações, às quais afluíam vazões de 60 a 700 L/s,
apresentavam tecnologia convencional de tratamento e sulfato de alumínio como coagulante primário,
tendo sido utilizados dados referentes a dois meses do período de estiagem e dois meses do chuvoso
de 1999 (Libânio; Santos, 2001).
No desenvolvimento do modelo considerou-se a dosagem de coagulante como a variável de
interesse ou variável resposta e a turbidez foi escolhida como a variável explicativa das características da
água bmta, inclusive pelo fato de outras características, tais como cor verdadeira, ferro e manganês, não
fossem determinadas rotineiramente em todas estações integrantes do universo amostrai. Complementaram
as variáveis explicativas o tempo de fioculação e a velocidade de sedimentação ou taxa de aplicação
superficial, determinadas por meio da relação entre as características físicas da estação e a vazão afluente.
Com a finalidade de verificar a existência ou não de uma relação entre a dosagem e a localização geográfica
da estação de tratamento, esta última foi incluída no modelo como variável explicativa. A variável
localização geográfica foi representada por cinco variáveis dummy, Cb C2, C3, C4 e C5, correspondentes a
cada localidade. Uma variável dummy é aquela que pode receber apenas valores 0 ou 1.
O modelo resultante selecionado constituiu-se daquele que apresentou o maior coeficiente de
determinação (R2 = 0,94) e menores alterações nas estimativas dos coeficientes de regressão, quando
uma variável explicativa era adicionada ou retirada do modelo. Desta forma, a avaliação do impacto
das variações sazonais das características da água bruta nas dosagens de coagulante foi ilustrada por
meio do seguinte modelo de regressão apresentado pela equação 7.1:

Log (D) = 0,11 + 0,27-1 Log (T) + 0,0057 Tf + 0,712 Q + 0,374 C2 + 1,03 C4 + 0,593 C5 (7.1)

Em que:
D: dosagem de sulfato de alumínio (mg/L);
T: turbidez da água bmta afluente à s estações (uT);
Tf: tempo de fioculação (min);
Cb C2, C4 e C5: variáveis dummy correspondentes a cada estação.

Dentre as variáveis de interesse inicialmente consideradas, a variável regime de chuva foi


posteriormente excluída do modelo. Tal se deveu ao fato da própria turbidez representar fidedignamente
o impacto das variações sazonais das características da água bmta como variável explicativa para
a dosagem. Outra observação relevante refere-se à exclusão da velocidade de sedimentação e a
manutenção do tempo de fioculação, uma vez que ambos parâmetros são decorrentes da vazão afluente
C A PÍ TU L O 07

1 6 7
à unidade potabilizadora. A despeito da restrição do universo amostrai, tal constatação pode balizar as
futuras ampliações das estações de tratamento, ora operando com sobrecarga. Ainda que especulativa
a premissa de priorizar, em primeira instância, a construção de novas unidades de floculação parece
adquirir primazia em relação às unidades de decantação, pois uma coagulação exitosa haverá de
produzir flocos com maior densidade passíveis de se depositarem mesmo em decantadores operando
com sobrecarga.
Para as estações com tecnologia convencional, a comparação entre a eficiência dos coagulantes
mais usuais, sulfato de alumínio e cloreto férrico, fundamenta-se primordialmente nas características
de cada metal e das espécies hidrolisadas, na dosagem aplicada e na amplitude do pH para formação
do precipitado.
A distinção entre estes dois coagulantes manifesta-se nos diagramas de solubilidade para o
alumínio e o ferro, traçados de forma similar. Para o cloreto férrico, quando este sal é disperso na água,
o íon Fe+3 hidrata-se coordenando até seis moléculas de água formando o íon Fe (H20 )6+3. O íon Fe+3
apresenta-se nas águas naturais formando hidroxo-complexos mono ou polinucleares, caso contenham
um ou mais íons do metal. De acordo com Snoeyink e Jenkis (1980), valendo-se do conjunto de
equações86 a seguir são formados os seguintes hidroxo-complexos:
Fe (H20 ) 6+3 + OH' o Fe (H20 ) 5 (OH)+2 + H20

Fe (H20 ) 5 (OH)+2 + OH" Fe (H20 )4 (OH)2+ + H20

Fe (H20 )4 (OH)2++ OH' Fe (H20 ) 3 (OH)3(aq)

Fe (H20 ) 3 (OH)3(aq) + OH" o Fe (H20 )2 (OH)4‘ + H20

Por simplificação omitem-se as moléculas de água, denominadas ligantes, por estarem ligadas
ao íon do metal. Desta forma, as reações de hidrólise apresentam-se com as respectivas constantes de
equilíbrio87:
Fe+3 + H20 o Fe (OH)+2 + H+ logK = -2,16

Fe+3 + 2H20 Fe (OH)2++ 2H+ log K - - 6,74

Fe (OH)3(s) Fe+3 + 3OH' log K = - 38

Fe+3 + 4H20 Fe (OH)4- + 4H+ log K = - 23

2Fe+3+ 2H20 <=> Fe (OH)2+4 + 2H+ log K = - 2,85

As equações devem ser rearranjadas para que cada espécie esteja em equilíbrio em relação ao
precipitado de Fe (OH)3(s). Desta forma:
Fe+3+ H20 Fe (OH)+2 + H+ log K = - 2,16

Fe (OH)3(s) <^> Fe+3 + 30H “ logK = -38

H+.+ OH' o H20 log K = -14

Fe (OH)3(s) <=> Fe (OH)+2 + 20H ' log K?

86. Por simplificação decidiu-se não enumerar as equações que fundamentam os diagramas do sulfato de
alumínio e cloreto férrico.
87. Constante que contempla a razão entre as concentrações molares dos produtos e dos reagentes, variando
com a temperatura. Pode assumir outras denominações - constante de ionização ou hidrólise - consoante
com o sistema ao qual se refira. As concentrações molares corresponderão às molaridades das substâncias
após atingirem o equilíbrio.
CAPÍTULO 07

1 6 8
Para obtenção da constante de equilíbrio da equação resultante, tem-se inicialmente:
1Q-2’16 = [Fe (OH)+2] [H+] / [Fe+3]
10'38 = [Fe+3] [O H f/[F e (OH)3W]
1 0 14= [H+] [OH ]

Assumindo a concentração molar do precipitado de Fe (OH)3(s) igual à unidade e tomando o


logaritmo de ambos os lados da equação tem-se o sistema de três equações:
-2,16 = log [Fe (OH)+2] + log [H+] - log [Fe+3]
-38 = log [Fe+3] + 3 log [OH ]
14 = -lo g [H+] - log[OH]

Resultando:
-26,16 = log [Fe (OH)+2] + 2 log [OH ]

Rearranjando a equação anterior:


log [Fe (OH)+2] = 2 pOH -26,16

Uma vez que:


pH + pOH = 14

A equação que relaciona a concentração da espécie ao pH assume a forma:


log [Fe (OH)+2] = 1,84- 2pH

Com idêntico procedimento, para as demais espécies cujas equações serão:


log [Fe (OH)2+] = -2 ,7 4 -p H
log [Fe (OH)4"] = pH - 19
log [Fe (OH)2+4] = 5,2 - 4pH
log [Fe+3]= 4 - 3pH

Desta forma, a concentração de cada espécie hidrolisada passa ser controlada pelo pH. O diagrama
de solubilidade do cloreto férrico é traçado com bases nestas equações de reta relacionando o logaritmo
da concentração molar da espécie e o respectivo pH, conforme apresentado na figura 7.8.
0 diagrama da figura 7.8 reporta-se nas ordenadas às concentrações de ferro (em moles/L)
e, na rotina operacional das estações, comumente lida-se com a dosagem do produto comercial
(mg/L). A transformação é singela. Considerando o cloreto férrico comercial (FeCl3 .6 H20 ), o ferro
(peso molecular de 56 g) representa percentual de 20,7 % do peso molecular de 270,5 g do produio.
Desta forma, por exemplo, a dosagem de 27 mg/L do produto comercial aplicada em escala real
corresponderia a 5,6 mg/L de Fe. Em concentração molar, quociente do número de moles (massa/peso
molecular) e o volume da solução (1 L):
[Fe] = 0,0056 / 56 = 10"4 moles/L = > log [Fe] = - 4

A elaboração do diagrama para o sulfato de alumínio segue o mesmo procedimento. O compor­


tamento do íonAL3em solução é muito similar ao do íon Fe+3, com a diferença de formar um maior número
de espécies polinucleadas. Os principais complexos são formados com base nas seguintes equações de
hidrólise na presença do precipitado de hidróxido de alumínio (Benefield; Judkins; Weand, 1982):
Al+3 + H20 Al (OH)+2 + H+ log K = - 5,02

Al ( O H ) 3(s) AL3 + 3 OH log K = - 32,34

6AL3 + 15 H2Q o Al6 (OH)15+3 + 15 H+ log K = - 47,00

8AL3 + 20 H20 <=>Al8 (OH)20+4 + 20 H+ log K = - 68,70

13AL3 + 34 H20 A l13 ( O H ) 34+s + 34 H+ log K = - 97,39

AL3 + 4 H20 ‘ Al (OH)f + 4 H+ log K = -23,57

2A1+3 + 2 H 20 « Al2 (OH)2+4 + 2 H+ log K = - 6,27

Da mesma forma, tem-se:


AL3+ H20 o Al (OH)+2 + H+ log K = - 5,02

Al ( O H ) 3(s) Al+3 + 3 OH" log K = - 32,34

H + + O H -o H 2Q log K = -14

Resultando:
Al ( O H ) 3(s) Al (OH)+2 + 2 OH' log K = ?

Novamente, considerando a concentração molar do precipitado de hidróxido de alumínio igual


a unidade tem-se:
-24 = log [Al (OH)+2] + 2 (-14- lo g [H+]

log [Al (OH)+2] = 4,44 - 2 pH


As demais equações para as principais espécies serão:
log [Al6 (OH)15+3] = 10,96 - 3 pH

log [Alg (OH)20+4] = 8,58 —4 pH

log [Al 13 (OH)34+5] = 2 8 ,1 9 -5 pH

log [Al (OH)4 ] = p H - 13,91

log [Al (OH)2+4] = 13,05 - 4 pH

log [Al+3]= 9,66 - 3 pH

CAPÍTULO 07
-jL 7 ’ü
Para o sulfato de alumínio comercial (Al2(S 0 4)3.14,3 H20), o metal representa aproximadamente
9 % do peso molecular (54 g em 599,6 g), ou seja, para uma dosagem de 30 mg/L do produto comercial
tem-se 2,7 mg/L de Al, cuja concentração molar será:

[A1t ] - 0,0027 / 27 = IO"4 moles/L = log [Al] = - 4

Da mesma forma, o diagrama de solubilidade para o sulfato de alumínio é elaborado com base
nas equações anteriores e apresentado na figura 7.9.

Figura 7.9. Diagrama de solubilidade do sulfato de alumínio a 25 °C.

Nos diagramas das figuras 7.8 e 7.9, as áreas nas quais ocorre a formação dos precipitados
devem-se ao fato das linhas representarem as concentrações de cada uma das espécies passíveis de
ocorrer - em função do pH - em equilíbrio com o hidróxido do metal. As linhas que definem estas
áreas, para um dado valor de pH, constituem-se na soma das concentrações das espécies. Quando há
prevalência de uma determinada espécie, sua concentração aproximar-se-á do limite para formação do
precipitado.
Embora de uso mais restrito na rotina operacional das estações de tratamento, os diagramas
de solubilidade apontam algumas características marcantes destes coagulantes. Provavelmente a
mais relevante consiste na significativa diferença na amplitude do pH para formação do precipitado.
Conforme evidencia as figuras 7.8 e 7.9, esta característica toma águas turvas e de baixa alcalinidade
comumente passíveis de melhor coagular no mecanismo da varredura com cloreto férrico. Contudo,
a adição de cal e, se possível, o emprego de polímeros como auxiliares de coagulação podem tomar
bem sucedido o emprego do sulfato de alumínio e a definição final consolidar-se-á pelo custo global
dos produtos químicos envolvidos na coagulação, pela duração da carreira das unidades filtrantes e,
em alguns casos, pelo volume de lodo gerado.
A aplicação prática dos diagramas de solubilidade em escala real principiou com estudo
realizado no início da década de 1980 enfocando a coagulação com sulfato de alumínio de águas com
turbidez moderada e cor verdadeira baixa. Valendo-se de ensaios em reatores estáticos, os autores
identificaram quatro regiões no diagrama nas quais predominavam os mecanismos de coagulação,
córrelacionando-as às principais espécies hidrolizadas e ao valor da mobilidade eletroforética
(Amirtharajah; Mills, 1982). Diagrama similar ao delineado por estes pesquisadores é apresentado
na figura 7.10.
PH
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14

Figura 7.10. Diagrama de coagulação para o sulfato de alumínio comercial.


Fonte: Piotto e Gonçalves (1996).

Embora o diagrama da figura 7.10 tenha sido delineado para uma água sintética específica,
algumas inferências podem Ser extrapoladas para outras situações e, neste contexto, duas regiões
destacam-se. A primeira região (varredura) adquire importância crucial para a maioria das estações de
tratamento de água do País. Nesta, as partículas suspensas e coloidais são envolvidas pelo precipitado
de hidróxido de alumínio, consequência do emprego de dosagens de maior magnitude frequentemente
superiores a 15 mg/L (log [Al] = - 4,3). Ainda que a faixa de pH de coagulação há de variar com
alcalinidade da água bruta, o intervalo entre 6,3 a 8,5 verifica-se usualmente em escala real. A maior
área da região da varredura explica o fato de em diversas estações de tratamento a dosagem de
coagulante, e respectivo pH de coagulação, ser definida empiricamente e ainda assim a formação dos
flocos ocorrer de forma satisfatória.
Por outro lado, a região de adsorção-desestabilização - na qual ocorre a neutralização das cargas
das partículas pelas espécies hidrolisadas de alumínio carregadas positivamente - manifesta-se em faixas
exíguas de pH e dosagem de coagulante. Como consequência, estações de filtração direta carecem de
operação mais acurada que assegure as dosagens adequadas a este mecanismo de coagulação e eventuais
erros na definição das dosagens resultam em redução da carreira de filtração ou mesmo na ocorrência
do traspasse. Atenua esta perspectiva o fato do manancial, que viabilizou o emprego desta tecnologia,
comumente apresentar variações menos significativas nas características da água bmta.
Para uma faixa restrita de pH e ampla em termos de dosagem de coagulante apresenta-se a
região de restabilização. Nesta, as partículas coloidais foram neutralizadas pelas espécies hidrolisadas
de sulfato de alumínio a ponto do potencial zeta passar a ser positivo. Nestas circunstâncias, a
aglutinação das partículas para formação dos flocos é de pequena monta. Na rotina operacional das
estações a restabilização vai se manifestar associada à baixa concentração de partículas e à dosagem
de coagulante, sobretudo para águas naturais de alcalinidade mais baixa.
O hidróxido de alumínio formado apresenta-se, ainda que em menor grau, negativamente
carregado a pH superior a 8,0 e fortemente carregado com carga positiva a pH inferior a 7,0. Desta
forma, no intervalo de 7,0 a 8,0 há uma conjunção de mecanismos na qual predominam espécies
hidrolisadas negativamente carregadas (tais como Al (OH)4 ) e o hidróxido de alumínio carregado
positivamente. Ainda que com resultados mais modestos, a coagulação pode acontecer permitindo a
agregação das partículas.
CAPÍ TUL O 07

1 7 2
Quando se enfatiza a escolha do coagulante, ainda que uma afirmação peremptória acerca
da supremacia do cloreto férrico em relação ao sulfato de alumínio seja temerária, constata-se que
há significativo número de estudos nos quais se evidenciou tal superioridade em distintas situações
englobando águas sintéticas e naturais. A favor do sulfato de alumínio está sua maior disponibilidade e
menor custo, ao passo que para o uso do cloreto férrico, cuidados relativos à possibilidade de corrosão
das tubulações devem ser tomados.
Usualmente o emprego do cloreto férrico conduz a gradientes de velocidade de fioculação
ótimos mais elevados, quando .comparado ao sulfato de alumínio. Em função do próprio peso
molecular desse metal, os flocos apresentam-se mais densos, mais resistentes ao cisalhamento e com
maior sedimentabilidade podendo resultar em - para gradientes de velocidade mais baixos - deposição
nas próprias unidades de fioculação. Vale destacar que a deposição de flocos nas últimas câmaras de
fioculação, como também nos canais de distribuição de água floculada às unidades de decantação,
constitui fenômeno relativamente comum nas estações de tratamento brasileiras. Tal se sucede, mesmo
com o emprego do sulfato de alumínio, nos períodos chuvosos do ano de maior aporte de sólidos à
estação e consequente incremento na formação dos flocos.
Pesquisa comparando o desempenho do cloreto férrico e do sulfato de alumínio, concluiu que
temperaturas muito baixas, da ordem de 1 °C, parecem influir mais significativamente na formação de
flocos de alumínio. Estes frequentemente apresentaram menores dimensões quando comparados aos
formados a 20 °C. Em contrapartida, para a coagulação no mecanismo de adsorção-neutralização tais
efeitos foram menos relevantes (Morris; Knoclce, 1984).
Enfocando especificamente a remoção de cor aparente, estudo realizado em duas estações em
Minas Gerais, vazões afluentes de 95 e 24 L/s, objetivou avaliar a influência de dois tipos usuais de
coagulantes primários, sulfato de alumínio e cloreto férrico, empregados na coagulação de diferentes
tipos de águas naturais, para coagulação realizada no mecanismo de varredura. As águas naturais
afluentes à estação de maior porte apresentavam turbidez de 25 uT e cor aparente de 190 uC, ao passo
que para a outra unidade, turbidez de 14 uT e cor aparente de 80 uT.
O estudo concluiu que, apesar de um aumento no custo global dos coagulantes da ordem
de 60 % e da pequena diferença na eficiência, a elevação da qualidade da água decantada, o baixo
consumo de alcalinizante e a menor geração de lodo recomendaram o emprego do cloreto férrico para
as duas unidades potabilizadoras. Verificou-se, ao longo do trabalho experimental, que a velocidade
de formação dos flocos de cloreto férrico foi significativamente superior em relação ao sulfato de
alumínio, para elevadas velocidades de sedimentação88 de 3 e 6 cm/min. Desta forma, a ampliação das
unidades de fioculação em virtude de um eventual aumento da vazão afluente à estação de maior porte,
podería ser postergada com o emprego do cloreto férrico. Na mesma premissa, o emprego deste sal
adiou também a necessária construção de duas novas unidades filtrantes - as existentes operavam com
taxas de 205 a 267 m3/m2.dia - , aumentando a duração das carreiras (Libânio et a l, 1997).
Em perspectiva semelhante, outra pesquisa também comprovou a maior eficiência do cloreto
férrico em relação ao sulfato de alumínio na remoção da matéria orgânica natural (figura 7.11),
potencialmente precursora da formação de trihalometanos (THM) e outros subprodutos quando do
emprego de compostos de cloro na desinfecção, conforme mencionado no Capítulo 2. Nesta pesquisa
ficou patente a inviabilidade do emprego de polímeros orgânicos como coagulantes primários no
tratamento de águas ricas em matéria orgânica. Tal provavelmente deveu-se ao fato do mecanismo
predominante de remoção do carbono orgânico total (COT) efetuar-se pela adsorção ao precipitado de
hidróxido do metal (Crozes; White; Marshall, 1995).

88. ANBR 12216 recomenda, na ausência de ensaios, velocidade máxima de sedimentação de 2,78 cm/min.
’ C A P I T U L O '07

1 7 3
Figura 7.11. Comparação da eficiência do sulfato de alumínio e cloreto férrico na remoção de COT em águas
naturais.

Da análise da figura 7.11 infere-se que, para as águas avaliadas, a supremacia do cloreto férrico
tende a se consolidar à medida que se fazem necessárias dosagens mais elevadas para maior remoção
do COT. Provavelmente, tal ocorreu como consequência da mencionada distinção dos diagramas de
solubilidade de cada sal que evidencia maior amplitude de pH para formação do precipitado com
cloreto férrico. Como a remoção da matéria orgânica efetua-se mais êxitos amente a valores mais
baixos de pH, a supremacia do cloreto férrico encontra nesta premissa justificativa plausível.
Outro estudo de coagulação realizado no mecanismo da varredura, empregando água sintética
de turbidez da ordem de 22 uT e cor verdadeira de 47 uC, concluiu que o emprego do cloreto férrico
conduziu à dosagem ótima de 8,0 mg/L e remoção de turbidez da ordem de 95 %. Já com o sulfato
de alumínio a dosagem ótima subiu para 18 mg/L, com remoção inferior a 70 %. Contudo, vale
assinalar que tais resultados também foram obtidos com alta velocidade de sedimentação, 3,5 cm/min,
predominando a tendência de que as remoções aproximavam-se para velocidades mais baixas (Pádua,
1994). Desta forma, uma vez definidas adequadamente as dosagens, para as estações operando com
sobrecarga a distinção entre a eficiência de cada coagulante toma-se ainda mais relevante.
A partir do início da década 1990 a comparação entre coagulantes passou a contemplar também
o cloreto de polialumínio. Estudo em escala real comparou o desempenho deste coagulante ao sulfato
de alumínio para água natural de turbidez baixa e cor aparente moderada. No decorrer do trabalho
experimental a águabmta apresentou turbidez e cor aparente médias de 6,4 uT e 37 uC, respectivamente,
afluindo a uma estação convencional de tratamento de médio porte com vazão da ordem de 570 L/s.
Em primeira instância, enfocou-se a remoção destas características físicas e, posteriormente, também
de ferro e manganês (Prianti Jr. et al., 2000).
Inicialmente, por intermédio de ensaios em reatores estáticos, definiram-se as dosagens da ordem
de 11 mg/L, para o cloreto de polialumínio, e de 15 mg/L, para sulfato de alumínio. Vale ressaltar que as
dosagens de sulfato de alumínio eram as mesmas usualmente empregadas na rotina de operação da unidade
de tratamento. Após a definição das dosagens, empregou-se o cloreto de polialumínio durante cinco dias de
operação da unidade de tratamento. As análises de pH, cor e turbidez da água decantada efetuaram-se com
frequência horária, e as determinações de ferro e manganês com intervalo de 8 e 24 h, respectivamente.
CAPÍ TUL O 07
Durante idêntico período, aplicaram-se as dosagens usuais de sulfato de alumínio e determinaram-se as
características de interesse da água decantada com a mesma frequência. Em uma segunda etapa avaliou-se
a influência das características da água decantada no funcionamento de um dos filtros da bateria, no que
tange à qualidade do filtrado e à duração da carreira. Para tal, definiram-se em 0,8 uT a turbidez limite da
água filtrada e 10 min o tempo de duração da lavagem. Nas figuras 7.12a e 7.12b são apresentados valores
referentes às eficiências médias diárias obtidas durante a avaliação para cor aparente e turbidez.

O turbidez bruta □ turbidez dec. A cor apar. bruta O cor apar, dec.

Figura 7.12. Eficiência da coagulação com cloreto de polialumínio e sulfato de alumínio.

Os resultados apontaram, em termos de ferro total e manganês, a coagulação com cloreto


de polialumínio com remoções médias de 81 e 54 %, respectivamente, enquanto para o sulfato de
alumínio tais eficiências reduziram-se para 71 e 49 %, respectivamente. Como consequência da melhor
qualidade da água decantada, o filtro monitorado apresentou maior duração da carreira, culminando
com uma redução da ordem de 28 % no gasto com água de lavagem. A confirmação deste resultado ao
longo do ano motivaria economia anual superior a 130 mil m3. Considerando as tarifas vigentes e as
perdas de arrecadação no sistema de abastecimento de água da cidade, o custo do emprego do sulfato
de alumínio foi superior ao do cloreto de polialumínio. Esta estimativa não contemplou a economia
referente à energia elétrica e à manutenção das instalações de recalque, decorrente da elevação das
carreiras de filtração. Por fim, descortinou-se a hipótese de que o cloreto de polialumínio formou
flocos mais resistentes - mesmo aqueles não retidos nos decantadores - às forças hidrodinâmicas do
escoamento nos interstícios do leito filtrante. Desta forma, ocorreu maior penetração dos flocos na
camada superior do meio filtrante (antracito) e maior duração das carreiras de filtração.
Outro estudo, realizado para fins de definição das condições ótimas de coagulação de água
natural, avaliou três coagulantes primários, sulfato de alumínio, cloreto de polialumínio e polímero
natural à base de acácia. Para os dois primeiros coagulantes, avaliou-se o emprego de polímero sintético
catiônico como auxiliar de coagulação. A água bruta captada em um reservatório de acumulação
apresentava, no período chuvoso e de estiagem, as características listadas na tabela 7.4.

Tabela 7.4. Características das águas naturais no período chuvoso (tipo II) e de estiagem (tipo I).
' Característica ' Água Tipo I Água Tipo II
pH 8 , 3 - 8 ,6 8 .3 - 8 , 6

C o r A p a r e n t e (uH ) 3 2 -3 7 4 8 ,6 - 9 2 ,8

C o r V e r d a d e i r a (u H ) 8 ,6 - 9 ,6 4 . 3 - 7 ,1

C o n d u t i v i d a d e E lé t r ic a ( p S / c m ) 4 2 0 - 520 474 - 530

T u r b i d e z (u T ) 8 , 7 - 1 5 ,6 2 1 ,9 - 2 4

A l c a l i n i d a d e ( m g / L C a C 0 3) 140 136-143
Apresentam-se na tabela 7.5 os melhores resultados obtidos para as condições de mistura
rápida, floculação e decantação estabelecidas nos ensaios. Ressalte-se que para a seleção do melhor
resultado de cada coagulante considerou-se a menor dosagem capaz de produzir as maiores remoções
percentuais de turbidez e cor aparente. Vale igualmente mencionar que o emprego do polímero
catiônico como auxiliar de coagulação nos ensaios de Jar Test ocorreu apenas para as dosagens do
coagulante primário que apresentaram resultados satisfatórios.

Tabela 7.5. Parâmetros ótimos de coagulação para as águas de estudo em termos de remoção de turbidez e cor
aparente.
Água Tipo 1 Água Tipo II
Dosagem ótima de sulfato (mg/L) 25 ± 2 17 ± 2
Dosagem ótima de cloreto de polialum ínio (mg/L) 15 ± 2
Dosagem ótima de polímero natural (mg/L) 4 ± 1 4 ± 1
pH de coagulação (sulfato) 7,5 ± 0,1 7,5 ± 0,1
pH de coagulação (cloreto de polialum ínio) 7,3 ± 0,1
pH de coagulação (polímero natural) 8,1 ± 0,1 8,1 ± 0,1
Remoção de Turbidez (%) - Sulfato + Polímero (1,0 mg/L) 58 94
Remoção de Turbidez (%) - Cloreto de polialum ínio + Polímero (1,0 mg/L) 85
Remoção de Turbidez (%) - Polímero natural 94,1 96,8**
Remoção de Cor Aparente (%) - Sulfato + Polímero (1,0 mg/L) 23 91
Remoção de Cor Aparente (%) - Cloreto de polialum ínio + Polímero (1,0 mg/L) 63
Remoção de Cor Aparente (%) - Polímero natural 73,8 89,8**

: Para água Tipo II somente realizaram-se ensaios com sulfato de alumínio.


** Ensaios realizados com tempo de floculação de 11 min, gradiente de velocidade variável e água Tipo I acrescida de suspensão de caulinita para
elevação da turbidez.

Os resultados expressos na tabela 7.5 evidenciam, atipicamente, a supremacia do polímero


natural como coagulante primário recomendado para coagulação destas águas naturais. Aliada à
maior eficiência para ambas águas estudadas - tanto em termos de remoção de turbidez quanto de cor
aparente -, depreende-se a menor geração de lodo graças a dosagem significativamente inferior e a
dispensa do emprego de ácido (ou gás carbônico) para correção do pH de coagulação.
A sucessão de pesquisas comparando a eficiência de distintos coagulantes poderia suscitar
o emprego simultâneo destes quando disponíveis. Todavia, esta ideia não é nova. Em 1935 havia
menções às possíveis vantagens advindas do uso simultâneo de sulfato de alumínio e cloreto férrico
(Langelier, 1935). Todavia, estudo objetivando aliar o menor custo do sulfato de alumínio à maior
eficiência do cloreto férrico não alcançou resultados satisfatórios com o emprego simultâneo desses
sais. Utilizou-se água sintética com turbidez moderada (15 a 30 uT), elevado tempo de sedimentação
e mistura equânime de coagulantes em termos de peso equivalente. Possível competição entre os
coagulantes ou outras dosagens não contempladas nos ensaios pode ter sido os motivos dos resultados
insatisfatórios (Johnson; Amirtharajah, 1983).
Contudo, ainda que inusual, algumas estações utilizam ao longo do ano dois coagulantes
primários distintos, em função da sazonalidade das características da água bruta. Como exemplo,
a estação que abastece a capital peruana, Lima, vazão da ordem de 18 m3/s, dispõe de dosadores
individuais para cloreto férrico e sulfato de alumínio, empregados em distintos períodos do ano.
Em vertente semelhante, na estação de tratamento da cidade finlandesa Turlcu, vazão
estimada de 1,5 m 3/s, efetüa-se uma dupla coagulação com sulfato férrico objetivando a remoção de
turbidez, matéria orgânica - referenciada pelo carbono orgânico dissolvido (COD) - e manganês. Tal
procedimento fez-se necessário em razão das distintas faixas de pH para as quais é êxitos a a remoção
destes parâmetros. Em uma primeira etapa, para atingir o primeiro intento, realiza-se a coagulação
seguida de flotação com pH da ordem de 5. Após a flotação, aplica-se cal hidratada para elevação do
pH a 10,5 e efetua-se nova coagulação visando à remoção do manganês presente na forma dissolvida.
Após a segunda coagulação o caudal se divide em três distintas formas de clarificação e filtração:
i) floculação-flotação-filtração em carvão ativado;
ii) sedimentação-filtração em areia;
iii) sedimentação-filtração em carvão ativado.

Vale salientar que houve alteração do coagulante para atingir este objetivo. Sulfato de alumínio
vinha sendo empregado até meados da década de 1980, sendo substituído pelo sulfato férrico, apto a
formar precipitado em faixa mais ampla de pH de coagulação. Após a implantação deste tipo incomum
de coagulação de dois estágios, verificou-se significativa melhora na qualidade da água filtrada em
termos de odor e sabor, COD, fofmação de THM e concentração de manganês (Wahlroos, 1990).
Em uma análise mais ampla, que reforça a salientada dificuldade de se definir a priori a
supremacia de um coagulante, pesquisa realizada com dados diários referentes a 10 anos de operação
de 75 estações de tratamento convencional do estado da Pennsylvania não detectou supremacia dos
sais de alumínio e de ferro, e do cloreto de polialumínio. Todavia, além do óbvio pior desempenho
das unidades nas quais não se empregava qualquer tipo de coagulante - essencialmente verificado nos
sistemas de pequeno porte - , o emprego de polímeros como coagulantes primários também se mostrou
ineficiente (figura 7.13). As médias mensais e anuais da turbidez da água filtrada constituíram-se o
balizador da eficiência como indicador da remoção de protozoários, cujo padrão no Estado preconiza
valor máximo de 0,3 uT em 95 % das amostras mensais (Lusardi; Consonery, 1999).

Sais de Sais de Cloreto de Polímeros Nenhum


alumínio ferro polialumínio

Tipo de coagulante

Figura 7.13. Médias mensal e anual da turbidez filtrada das estações integrantes do universo amostrai em função
do tipo de coagulante.

Em termos microbiológicos, interessante comparação foi realizada em reatores estáticos, nas


condições ótimas de coagulação, contemplando coagulantes à base de ferro, sulfato de alumínio e cloreto
de polialumínio, cuja síntese dos resultados é apresentada nas figuras 7.14a e 7.14b. De maneira similar,
a despeito de pequena superioridade do sulfato de alumínio em relação aos demais na remoção de vírus,
a performance dos distintos coagulantes foi aproximadamente equânime (Lechevalier; Au, 2004).

□ E. coli ■ C. perfringens ■ Giardia □ Crypto □ MS-2 ■ Colifago ■ Poliovírus □ Echovírus

Figura 7.14. Remoção de microrganismos para condições otimizadas de coagulação.


C A P ÍT U L O 07

*77
Por fim, abrangente levantamento contemplou 50 estações de tratamento de água nos EUA
e Canadá nas quais ocorreram modificação do coagulante. A totalidade das estações potabilizava
águas superficiais e a maioria apresentava tecnologia convencional de tratamento. Deste universo,, a
87 e 34 % das unidades potabilizadoras amostradas afluíam vazões superiores a 420 L/s e 2,2 m3/s,
respectivamente. Interessante constatação advém do fato que, nestas alterações, em 60 % dos casos
o novo coagulante utilizado passou a ser o cloreto de polialumínio, de emprego ainda incipiente no
Brasil. Como não podia deixar de ser, em 86 % das alterações o coagulante substituído foi o sulfato de
alumínio, de uso mais extensivo também na América do Norte (figura 7.15).

Figura 7.15. Alterações de coagulantes ocorridas era 50 estações de tratamento dos EUA e Canadá.

Entre os fatores determinantes que resultaram em alterações do tipo de coagulante, há nítida


ênfase ao mencionado tratamento e manejo do lodo gerado, parcialmente explicada pela tecnologia
de potabilização preponderante e pela magnitude das vazões afluentes às estações amostradas.
Adicionalmente, a compatibilidade dos dosadores ao novo coagulante, as possíveis alterações nas
características da água bruta e a eficiência na remoção de partículas e de matéria orgânica integram os
diversos fatores avaliados inerentes à alteração do tipo de coagulante. Ainda são abordadas as metas
de eficiência estabelecidas - no que tange essencialmente à qualidade da água filtrada os fatores
inerentes à implementação do novo coagulante e os procedimentos para avaliação da performance da
estação de tratamento. Finalmente, o impacto da alteração do coagulante manifestou-se no atendimento
às regulamentações concernentes (i) à perspectiva de formação de subprodutos da desinfecção -
centrada na remoção da matéria orgânica (ii) à qualidade microbiológica com o fito de minimizar a
possibilidade de passagem de cistos e oocistos de protozoários, (iii) à concentração de chumbo, cobre
e arsênio, e (iv) à recirculação da água de lavagem dos filtros (Dewolf et al., 2003).
Nos primeiros períodos de operação da estação de tratamento após a alteração de coagulante,
por vezes, verificam-se dificuldades na adequada formação dos flocos quando da mudança brusca
das características da água bruta. Por ainda não se dispor de um histórico de dados operacionais
abrangente, relacionando a dosagem e pH de coagulação às características da água bruta, mudanças
repentinas no afluente podem favorecer mesmo no tratamento convencional maior aporte de partículas
aos filtros. Tal se manifestou por ocasião do surto de Crypto ocorrido em Milwaukee em 1993, que
se estima tenha acometido 403 mil pessoas. Em uma das estações que abastece a área da cidade na
qual o surto se manifestou, o sulfato de alumínio, que vinha sendo utilizado há quase 30 anos, havia
sido substituído pelo cloreto de polialumínio seis meses antes. Com o extemporâneo aumento da
turbidez da água bruta captada no Lago Michigan, houve por parte da equipe de operação da estação
(vazão da ordem de 4,3 m3/s) dificuldades em definir com precisão e rapidez as melhores condições
para coagulação, concorrendo para que a turbidez da água filtrada variasse de 0,1 a 2,7 uT durante o
período do surto, a despeito das baixas taxas de filtração da ordem de 160 m3/m2.dia. Estas dificuldades
culminaram com a paralisação do tratamento por período de oito dias, dois dias após a detecção do
surto (Fox; Lytle, 1996).
Alealinídade e pH
No inusual emprego de polímeros orgânicos como coagulantes primários, a alcalinidade e opH
parecem não afetar significativamente o processo de coagulação, neste caso governado pela própria
dosagem e concentração de partículas dispersas na massa líquida. Contudo, quando a coagulação se
efetua com sais de ferro ou de alumínio, independente do mecanismo predominante, o pH assume
importante papel na prevalência das espécies hidrolisadas do coagulante. Já a alcalinidade da água
bruta, natural ou artificial, funcionará como tampão, minimizando a queda muito acentuada do pH
de coagulação. Este fato adquire maior relevância no mecanismo da varredura quando o coagulante
empregado é o sulfato de alumínio, pois este apresenta espectro de variação mais restrito do pH de
coagulação para formação do hidróxido, comparado ao cloreto férrico.
Em contrapartida, para estações de filtração direta, nas quais o mecanismo de coagulação
predominante inclina-se para adsorção-desestabilização, alcalinidade mais significativa da água bruta
pode tomar-se fator de restrição ao êxito do processo, que usualmente se sucede com valores mais
baixos de pH. Neste mesmo contexto, embora águas coloridas tendam a apresentar pH e alcalinidade
baixos, pode haver necessidade do emprego de ácido como auxiliar de coagulação, concorrendo para
reduzir a dosagem do coagulante primário e a geração de lodo.
Corrobora assertiva anterior, estudo de coagulação realizado em escala-piloto utilizando
água natural de alcalinidade média de 53 mg/L C aC 03 e concentração variável de algas afluente a
uma estação de filtração direta em linha, vazão da ordem de 1,0 m3/s. Avaliaram-se quatro distintos
coagulantes e um tipo de sulfato de alumínio, utilizado juntamente com ácido, apresentou excelente
performance - quer nos ensaios em reatores estáticos quer em filtro-piloto -, emergindo a possibilidade
do emprego de ácido na coagulação em escala real. Esta alternativa, raramente empregada no País,
coaduna-se ao tratamento por filtração direta de águas naturais de pH e alcalinidade mais elevados
para a consecução do mecanismo de adsorção-desestabilização, predominante para valores de pH mais
baixos. Sem o emprego do ácido a adequada redução do pH somente ocorreria com dosagens elevadas
de coagulante favorecendo a prevalência da coagulação por varredura. Na estação de tratamento em
questão, o emprego do ácido poderia ser testado sem a realização da pré-desinfecção que - caso haja
novas florações de cianobactérias ou de outros gêneros de algas - pode favorecer o aporte de toxinas e/
ou substâncias passíveis de conferir odor e sabor à água tratada (Santos; Libânio; Pádua 2007).
Conforme mencionado, estima-se que a coagulação com sulfato de alumínio e sulfato ferroso
se efetue à razão da ordem de 1:0,589 e 1:0,64, respectivamente, em relação à alcalinidade natural da
água expressa em termos de bicarbonato (CaC03), pois o pH de coagulação normalmente varia de
5,5 a 7,5, intervalo no qual predomina esta forma. As equações 7.2 e 7.3 exemplificam estas relações
estequiométricas:

A12(S 0 4)3 . 18 H20 + 3 Ca(HC03)2 2 Al(OH)3(s) + 3 CaS04 + 6 C 02(g) + 18 H20 (7.2)

Fe2(S 0 4)3 .7 H20 + 3 Ca(HCQ3)2 -> 2 Fe(OH)3(s) + 3 CaS04 + 6 C 0 2(g) + 7 H20 (7.3)

Como exemplo, para uma estação de tratamento de água que potabilize 200 L/s, com dosagem
de 30 mg/L de sulfato de alumínio comercial (A12(S 04)3 . 14,3 H20 ) e à qual aflui água bruta com
alcalinidade de 10 mg/L CaCC3, tem-se:
® 1 mol de sulfato de alumínio reage com 3 moles de bicarbonato de cálcio (conforme
equação 7.2)
como consequência da relação entre os pesos [3. (162)/ 600], 1 mg/L de sulfato reagirá com
0,81 mg/L Ca(HCC3)2

89. Especificamente para a equação 7.2 a relação será de 1:0,45, variável com número de moléculas de água de
hidratação associado ao sulfato de alumínio. C Á P ÍT U L O 07

1 7 9
® expressando em termos de C aC 03, cuja relação entre os valores de equivalente-grama é
(100/2)/( 162/2), seria 0,5 mg/L ou seja 15 mg/L C aC 03
• como 1 mol de sulfato produz 2 moles de hidróxido de alumínio, a quantidade total de
hidróxido produzida será: (30 . 200 . 166/600 . 86400) = 143,4 kg/dia. Com base nesíe
parâmetro estimar-se-ia a quantidade de lodo gerada (Faust; Aly, 1998).

A dispersão do coagulante na água além do consumo da alcalinidade, propicia a liberação de


C 0 2 e consequente abaixamento do pH. Como forma de minimizar a queda muito significativa do
pH, procedimento corriqueiro consiste na aplicação de cal, denominada comumente cal primária,
na unidade de mistura rápida. A função de tamponamento da alcalinidade durante o processo de
coagulação evidencia-se por meio do gráfico da figura 7.16, no qual se apresenta a variação do pH
em função da dosagem de sulfato de alumínio para duas águas naturais com alcalinidade total 10 e
100 mg/L CaC03 (Budd et al., 2004).

(mg/L)

Figura 7.16. Variação do pH em função da dosagem de sulfato de alumínio.

Frequentemente há necessidade de se conferir à água tratada alcalinidade adicional - não


consumida durante a coagulação - para preservação dos condutos. A aplicação da cal hidratada para
correção do pH final tem como inconveniente a elevação da turbidez da água tratada. Com frequência
verifica-se a substituição da cal hidratada pela barrilha (carbonato de sódio) em estações que produzem
consistentemente água filtrada com turbidez inferior a 0,5 uT, consoante às recomendações do atual
padrão de potabilidade90, motivada pela elevação desta característica decorrente das impurezas
presentes na cal hidratada.
Exemplo interessante ocorreu durante algum tempo em uma das estações de tratamento, vazão
afluente da ordem de 600 L/s, que abastece a cidade de Belo Horizonte. As sucessivas elevações da
turbidez final conduziram à alteração do ponto de correção do pH para a última câmara de fioculação.
A qualidade da água bmta em termos microbiológicos, fruto da preservação dos três mananciais,
e a pré-cloração existente já asseguravam a inobservância dos microrganismos indicadores na água
filtrada91, com as impurezas presentes na cal sendo removidas na unidade de decantação.

90. Por esta razão a Portaria 518 recomenda que a aferição da turbidez final se efetue com base nos efluentes, de
preferência individuais, das unidades filtrantes.
91. Por motivos a serem abordados no Capítulo 13, a eficiência da cloração é governada pelo pH e reduz-se à
medida que esta característica química aumenta. Desta forma, a Portaria 518 recomenda que a desinfecção
seja realizada a valores de pH inferiores a 8,0 e é prática corrente nas estações brasileiras a aplicação da cal
secundária após a desinfecção.
CA PÍTULO 07
Posteriormente, idêntico procedimento foi testado em outra estação de tratamento de médio porte
no interior de São Paulo, cujas características da água bruta também favoreciam esta modificação, com
resultados insatisfatórios. Tal se deveu ao fato da formação dos flocos efetivamente se concretizar no
interior dos decantadores, pois os agitadores das unidades de floculação permaneciam constantemente
desligados em virtude da precoce formação dos flocos no longo canal de água coagulada. Com a
alteração do pH e consequentemente das espécies hidrolisadas do sulfato de alumínio, verificou-se
maior arraste de partículas e elevação da concentração de alumínio na água decantada.
Além da alcalinidade da água bruta, o pH de coagulação é consequência da dosagem de
coagulante e das características físicas e químicas da suspensão. Por exemplo, quando o tratamento
objetiva a remoção de ferro e manganês, via de regra, a coagulação há de se efetuar com pH mais
elevado. Outro fator que pode alterar, ainda que moderadamente, o pH de coagulação é a presença
de ânions, especialmente silicatos, sulfatos e fosfatos. A alteração do comportamento das espécies
hidrolisadas do metal por esses ânions se deve à eletronegatividade e à tendência destes de reagir
com o íon do metal ou com sítios positivamente carregados no precipitado de hidróxido (Letterman;
Vanderbrook, 1983).
Além da formação das espécies hidrolisadas, a importância do pH de coagulação manifesta-se
como ferramenta para minimizar a concentração de alumínio na água tratada, ao manter este parâmetro
no intervalo de 6,0 a 6,5, próximo ao pH de mínima solubilidade do hidróxido de alumínio.
Até a década de 1970, a remoção da turbidez constituía-se no foco principal das estações de
tratamento com a cor verdadeira, vinculada essencialmente ao aspecto estético da água tratada, sendo
removida como consequência. A inserção dos THM no padrão de potabilidade americano projetou a
remoção da matéria orgânica como um dos cemes da potabilização. No bojo desta mudança, com o fito
de maximizar a remoção dos precursores9293à formação dos subprodutos da cloração, delineou-se uma
orientação estabelecida pela USEPA {United States Environmental Protection Agency) - denominada
coagulação melhorada9* - centrada nas estações cujo afluente apresentasse concentrações de COT
superiores a 2 mg/L. Estas recomendações salientam, ainda que sem estabelecer limites máximos
para o COT na água tratada, a relevância da alcalinidade na coagulação e consolidam a perspectiva da
maior remoção da matéria orgânica em valores mais baixos de pH (tabela 7.6).

Tabela 7.6. Eficiência mínima recomendada para remoção de COT em função da alcalinidade.
C o n c e n tra ç ã o de ' Remoção Mínima Recomendada (%)
COT na água bruta Alcalinidade da Água Bruta (mg/L CaC03)
(mg/L).. <60 60 a 120 >120
2a4 35 25 15
4a8 45 35 25
>8 50 40 30
Fonte: USEPA - United States Environmental Protection Agency (1999).

Os requisitos listados na tabela 7.6 podem se tomar inviáveis para algumas águas naturais em
função da menor susceptibilidade da matéria orgânica à coagulação. Nestas circunstâncias, deve-se
determinar por meio de ensaios de coagulação em aparelhos de ja r test, a dosagem de coagulante para
a qual se obtém a menor concentração final de COT.

92. Em relação à cor verdadeira é mais usual na literatura internacional a referência à matéria orgânica natural
(NOM - Natural Organic Matter) presente nas águas.
93. Do original enhanced coagulation, que se constitui essencialmente da remoção mínima de 20 % de COT
por meio do progressivo aumento da dosagem de coagulante e manutenção de pH baixo para favorecer a
desinfecção com cloro. Tais premissas aplicam-se a estações de tratamento convencionais. . ^

■■ • • ■• . 181
Nalktresa e Distribuição dos Taimaiilios das Partículas
As impurezas presentes na água, em função de sua natureza e dimensões, podem apresentar-se
na forma coloidal, dissolvida ou suspensa, conferindo turbidez e/ou cor verdadeira às águas naturais.
A predominância de uma ou outra característica influenciará significativamente o processo, tanto na
dosagem do coagulante como no pH de coagulação.
Conforme mencionado no Capítulo 2, a cor verdadeira das águas naturais deve-se à presença
de substâncias húmicas de alto peso molecular - conjunção de ácidos fulvicos e húmicos - em estado
coloidal ou dissolvidoj apresentando dimensões inferiores a lpm , e substâncias não húmicas como
proteínas, carbohidratos, aminoácidos, entre outros. A eficiência da coagulação na remoção da matéria
orgânica dissolvida presente baliza-se na concentração destas substâncias na água, da dosagem do
coagulante empregado e do pH ótimo de coagulação. Diversos estudos indicam que a remoção da
matéria orgânica dissolvida, e consequentemente da cor, ocorre por mecanismos similares ao da
remoção da turbidez, ou seja, pelos mecanismos de adsorção-desestabilização, varredura, ou conjunção
de ambos, e formação de pontes químicas quando do emprego de polímeros.
Dependendo da magnitude da dosagem, para as faixas de pH de coagulação com sais de
alumínio, frequentemente ocorre a adsorção das partículas coloidais ao precipitado para valores de pH
superiores a 6,5, ao passo que para valores inferiores a 6,0 a remoção ocorre predominantemente no
mecanismo de adsorção-desestabilização, por meio da ação de espécies monoméricas e poliméricas
do alumínio. Estudos em águas naturais de cor elevada indicam pH ótimo variando de 5,2 a .5,7 e 4,0
a 4,6, para coagulação com sais de alumínio e ferro, respectivamente. A importância do pH testifica-se
também no controle do gráu de ionização das substâncias húmicas.
Usualmente tem se verificado que a remoção da cor se efetua próxima ao ponto isoelétrico
(mobilidade eletroforética nula), a pH mais baixo em relação à remoção de turbidez e a dosagem de
coagulante obedece uma relação estequiométrica com o índice de cor (Hundt; 0 ’Melia, 1988).
Estudo realizado com seis distintas águas naturais de cor elevada de diferentes regiões dos EUA
em reatores estáticos, ainda na década de 1960, apontou nítida relação estequiométrica entre a cor
verdadeira e a dosagem de coagulante. As águas apresentavam baixas turbidez e alcalinidade, a faixa do
pH de coagulação ótimo variou de 3,5 a 3,8, cor remanescente de 8 a 15 uC (remoção de 83 a 96 %) e as
maiores eficiências ocorreram na vizinhança do ponto isoelétrico. A mencionada relação estequiométrica
entre a dosagem ótima de coagulante e a cor verdadeira das águas naturais avaliadas apontou relação
linear entre tais variáveis e coeficiente de detenninação (R2) da ordem de 0,93 (Black et al., 1963).
Esta relação estequiométrica justifica os limites mais restritivos para cor verdadeira na
perspectiva do emprego da tecnologia de filtração direta apresentados no Capítulo 6. Para águas
naturais com cor verdadeira mais significativa, a consequente elevação da dosagem de coagulante
faz com que o mecanismo de coagulação convirja para a varredura com a formação do precipitado,
aplicável às estações convencionais de tratamento.
Usualmente, águas de cor elevada hão de coagular com dosagens de maior magnitude às
comparadas à coagulação de águas com turbidez elevada. Um dos princípios nos quais se fundamentou
o conceito de coagulação melhorada confirma esta tendência. Também corrobora esta afirmativa estudo
de coagulação com três águas sintéticas de distintas características utilizando sulfato de alumínio como
coagulante apontando dosagens significativamente superiores para remoção da cor verdadeira. Os
ensaios em reatores estáticos foram realizados para elevada velocidade de sedimentação (3,5 cm/min) e
confirmaram a tendência da maior remoção da cor suceder-se em pH mais baixo, conforme evidencia a
tabela 7.7 (Libânio, 1995).
Tabela 1. 1, Características das águas de estudo, dosagem de coagulante e eficiência de remoção.
Agu-a sipo i Agua tip o 11 Oqajc, ; i
Turbidez (uT) 22 ± 1 4 ± 1 175 ± 5
pH 7.6 ± 0.1 7.1 ± 0.1 7,1 ± 0.1
Cor Verdadeira (uC) 47 ± 3 97 ± 2 21 ± 2
Cor Aparente (uC) 140 ± 10 118 ± 6 ***
Alcalinidade (mg/L CaC03) 22.0 14.3 4.4
Dosagem ótima (mg/L) 18 114 70
pH de coagulação 7,1 ± 0,1 6,5 ± 0,1 6,9 ± 0,15
Eficiência (%)* 92/85* 78** g?**
* Remoção de turbidez e cor aparente, respectivamente.
** Remoção da cor verdadeira e da turbidez como características predominantes nas respectivas águas.

Ainda que de forma reducionista pela multiplicidade de características das águas naturais,
obviamente não contempladas na pesquisa, dos resultados contidos na tabela 7.7 depreende-se que
uma elevação de aproximadamente 100 % da cor verdadeira - água Tipo I para Tipo II - resultou em
aumento de mais de seis vezes na dosagem ótima de sulfato de alumínio. Em contrapartida, elevação
de oito vezes da turbidez, água Tipo I para Tipo III, culminou com dosagem ótima quatro vezes maior.
Para o tratamento de águas naturais de cor elevada a redução da dosagem de coagulante pode
ser alcançada por meio da pré-oxidação. Compostos de cloro, permanganato de potássio e, em menor
frequência, peróxido de hidrogênio e ozônio constituem nos oxidantes mais utilizados para tal fim. ■
Todavia, há perspectiva da formação de subprodutos e/ou, quando se verifica elevada concentração de
algas, liberação de compostos passíveis de conferir toxicidade, odor e sabor à água tratada.
'A coagulação é fortemente influenciada pelo tamanho das partículas, sobretudo quando o
mecanismo predominante é a adsorção. Nesse caso, como já ressaltado, a área superficial exerce papel
significativo na dosagem do coagulante em virtude da adsorção das espécies hidrolisadas na superfície
das partículas. A amplitude de variação da dosagem de coagulante no mecanismo de adsorção tende a
se elevar em função do número de partículas coloidais presentes na suspensão. Efeito similar se verifica
quando do emprego de polímeros como auxiliares de coagulação, uma vez que a área superficial das
partículas propicia maior entrelaçamento dos flocos.
Em contrapartida, na varredura, a formação dos flocos é fruto do envolvimento das partículas
coloidais pelo precipitado. Desta forma, a dimensão destas influenciará significativamente a densidade
e a velocidade de sedimentação dos flocos. Geralmente verifica-se que a densidade dos flocos é
inversamente proporcional ao tamanho das partículas primárias da suspensão. Esta relação é ainda
mais pronunciada em função das características físicas da água bruta, apresentando-se mais marcante
para águas de cor elevada (Tambo; François, 1991).
No mecanismo da varredura, o aumento da concentração de partículas propicia elevação da
probabilidade de choques, otimizando a floculação e conferindo aos flocos melhor sedimentabilidade.
Para as estações convencionais, os períodos do ano de baixa turbidez da água bruta favorecem a
perspectiva da recirculação das águas de lavagem, elevando a concentração de partículas e favorecendo
a formação dos flocos. Com este intuito, há recomendações da recirculação de parte da água de lavagem
dos filtros à unidade de mistura rápida à razão inferior a 10 %. Tal procedimento pode reduzir em até
20 % a dosagem de sulfato de alumínio, podendo, todavia, ocorrer a necessidade de pré-desinfecção
graças ao aumento do potencial microbiológico da água bruta.
, ■ . Desta forma, pesquisa em escala-piloto avaliou o impacto na eficiência do tratamento
convencional na remoção de oocistos de Crypto, quando do reaproveitamento, sem qualquer tipo
de pré-tratamento, das águas de lavagem dos filtros para taxas de recirculação de 4,3, 10 e 20 %. A
turbidez da água natural permaneceu inferior a 5,0 uT, durante cinco das oito semanas do trabalho
C A P ÍT U L O 07
experimental, atingindo picos de 40 a 50 uT no restante do período. Os oocistos de Crypto eram
inoculados no início do tratamento a concentrações da ordem de 200 mil oocistos/100 L. Acoagulação
realizou-se com sulfato de alumínio e cloreto de polialumínio, e a vazão afluente resultou em tempo 4e
detenção na unidade-piloto de 6 horas (Comwell; Macphee, 2001). ;
Ao longo dos ensaios a turbidez da água decantada variou entre 1,0 e 2,0 uT produzindo água
filtrada com média de 0,03 uT - cujas unidades filtrantes operaram com taxa superior a 350 m/dia não
apresentando alteração significativa com ou sem a recirculação das águas de lavagem. A remoção de
oocistos de Crypto apresentou-se ligeiramente superior quando da recirculação de 10 % das águas de
lavagem, comparada às duas demais situações. Como mencionado anteriormente, os autores creditam,
a despeito da temperatura da água bruta ter variado de 1,0 a 12,5 °C, ao aumento da eficiência das
etapas de coagulação, floculação e sedimentação a melhora da qualidade do filtrado quando do
reaproveitamento das águas de lavagem dos filtros, fato especialmente notável para águas de baixa
turbidez. Todavia, outras características porventura presentes na água bruta tais como, COT, manganês
e alguns subprodutos da desinfecção podem inviabilizar tal operação.
Uma bem-sucedida implementação do reúso das águas de lavagem dos filtros ocorre em uma das
maiores estações de tratamento no País de Gales, na cidade de Swansea, com vazão média da ordem de
2,0 m3/s, atingindo até 3,0 m3/s nos períodos de maior demanda. Esta unidade potabilizadora utiliza a
tecnologia da filtração direta - em escoamento descendente, taxas de filtração da ordem de 170 m3/m2 dia
e meio filtrante de areia e antracito -, com pré-desinfecção e floculação hidráulica. A água bmta é oriunda
de duas barragens em série, a primeira construída em meados do século XIX, concorrendo para afluir
por gravidade à estação, ao longo de todo ano, água bruta com turbidez inferior a 10 uT. A coagulação
sucede-se com sulfato de alumínio e polímero como auxiliar. As águas de lavagem das unidades filtrantes
são acondicionadas em dois tanques e retomam ao início do tratamento respondendo por 2 a 3 % da
vazão afluente. Todavia, cabe salientar que, aliada às baixas taxas de filtração, a localização e as ações de
preservação da bacia hidrográfica pela concessionária concorrem para elevada qualidade bacteriológica
da água bmta e produção de efluente com turbidez inferior a 0,5 uT.
Aliada à eficiência da coagulação propriamente dita, da natureza das partículas suspensas e
coloidais presentes na água bm ta descortina-se a perspectiva da remoção de agrotóxicos organoclorados
como consequência da adsorção pelas partículas de argila. Pesquisa, aludida no Capítulo 2, avaliou
a remoção de agrotóxicos organoclorados extensivamente utilizados no cultivo de cana-de-açúcar no
estado de São Paulo, com base em monitoramento realizado no período 1997 a 2002. Os estudos
foram realizados com o efluente de estação de tratamento de água de médio porte, vazão média de
600 L/s, dotada de tecnologia convencional de tratamento. As análises de agrotóxicos referiram-se à
determinação das concentrações de BHC, Dieldrin, Endosulfan, Aldrin, Heptacloro e DDT nas águas
bmta e tratada, e no solo. A amostragem foi iniciada no verão de 1997 e estendeu-se até o verão de
2002 (Rissato et al., 2004).
Para água tratada, de um total de 90 análises abarcando os seis agrotóxicos organoclorados
estudados, verificaram-se 10 concentrações iguais ou superiores às preconizadas pela referida Portaria
518. Tais resultados referiram-se aos mesmos agrotóxicos mencionados cujas concentrações na água
bmta superaram os limites estabelecidos pelo Conama 357 e apresentam os menores valores máximos
permissíveis para água de consumo. Vale destacar que os agrotóxicos Aldrin e Dieldrin apresentaram
oito resultados acima do padrão de potabilidade, cinco dos quais no último período amostrado entre
outubro/2001 e junho/2002.
Como a estação de tratamento não dispunha de dispositivo ou aplicação de qualquer produto
especificamente destinado à remoção de agrotóxicos - como carvão ativado em pó -, os resultados
das análises da água tratada, aliada à perspectiva de volatilidade de alguns destes compostos, devem-
-se provavelmente à forte capacidade adsortiva das argilas, ainda que seletiva, presentes na bacia de
CA PÍTULO 07

1 I Tl
drenagem. Neste contexto, ainda que especulativa, a adsorção do agrotóxico Aldrin pelas partículas
de argila parece ser menos significativa em função do maior coeficiente de correlação (0,84), para as
águas bmta e tratada, verificado entre os contaminantes avaliados. Provavelmente, o maior incremento
deste agrotóxico materializar-se-ia na deterioração da qualidade da água consumida pela população,
agravada pela baixa concentração estabelecida pela Portaria 518 (0,03 mg/L). De qualquer forma,
constata-se assim a importância do conhecimento da dinâmica da turbidez nas várias etapas do sistema,
considerando-se que este parâmetro é essencial à avaliação da eficiência da unidade de tratamento - na
perspectiva da remoção de protozoários e enterovíras -, provavelmente também o é para remoção de
agro tóxicos.
Objetivando inferir a influência da turbidez no custo da potabilização, pesquisa, enfocando 12
estações de tratamento de água no Texas (EUA), determinou intrínseca relação entre a variação das
características das águas naturais afluentes às distintas estações ao custo unitário da água tratada no
que tange aos produtos químicos. As vazões afluentes às unidades de tratamento, objeto do estudo,
variaram de 12 a 1300 L/s, com média de 325 L/s, e a amostragem contemplou dados mensais de
turbidez, pH, alcalinidade, das águas bruta e tratada, durante o período de três anos de operação das
estações. A pesquisa utilizou a turbidez como indicador da qualidade da água bmta, cuja média atingiu
23,1 uT, e concluiu que aumento de 1,0 % da turbidez afluente resultava em elevação global no custo
dos produtos químicos de 0,25 %, para custo unitário médio de U$ 0,023/m3 (Dearmont; McCarl;
Tolman, 1998).
Parcela significativa dos estudos de coagulação afere a eficiência do coagulante por meio
da análise da água floculada após período de sedimentação e, com muita frequência, utilizam-se
velocidades de sedimentação extremamente baixas que tendem a equalizar as performances. Premissa
fundamentada na aplicação da tecnologia convencional de potabilização e, via de consequência, da
varredura como mecanismo preponderante de coagulação. Sem realizar ensaios de sedimentação,
interessante estudo avaliou o desempenho do sulfato de alumínio e cloreto de polialumínio na remoção
de partículas de argila com dimensão inferior a 5 pm. Utilizou-se água sintética com concentração de
caolinita de 10 mg/L, pH de coagulação 7,0 ± 0,1 e temperatura de 20 ± 1 °C, coagulada com dosagens
de 0,3, 0,6, 1,2 e 2,0 mg/L de alumínio.94 Após a dispersão do coagulante no reator, a suspensão era
mantida a gradiente de velocidade constante de 147 s"1para análises contínuas da turbidez, número e
tamanho de partículas.
Definiram-se dois tempos para caracterizar o processo de coagulação. O primeiro (Tj)
referia-se ao início da redução do número de partículas de tamanho entre 1 e 5 pm, que perfaziam
aproximadamente 80 % do total da suspensão, e o segundo (T2) reportava-se ao tempo necessário para
redução deste número à metade.
Sabe-se que a formação das espécies hidrolizadas e do hidróxido de alumínio ocorre em menos
de 7 s, enquanto o tempo para a desestabilização e início da agregação varia com as características
da água e dosagem de coagulante aplicada. Neste estudo, admitiu-se que Tj corresponda ao tempo
necessário à formação das espécies hidrolizadas e à desestabilização das partículas, ao passo que
o tempo (T2) referia-se ao necessário ao início da agregação. Na figura 7.17 estão apresentados os
resultados desta avaliação.

94. Nos estudos que objetivam comparar coagulantes à base do mesmo metal, como neste caso, é adequado
reportar-se à dosagem em termos mg/L ou mol/L do metal. Com isso, para o sulfato de alumínio e o cloreto
de polialumínio, respectivamente, a referência às moléculas de água de hidratação e ao percentual de alumina
toma-se dispensável. Por exemplo, para o sulfato de alumínio comercial (Al2 (S04)3 14,3 H20), dosagem de
22 mg/L do produto equivale a aproximadamente 2,0 mg/L de alumínio.
Figura 7.17. Tempo para desestabilização e redução de partículas primárias em função da dosagem de alumínio.
Fonte: Matsui et al. (1998).

Na figura 7.19 denota-se que, para menores dosagens de coagulante, o tempo para início
da aglutinação (T2) reduz-se quando do emprego do cloreto de polialumínio. Para tais dosagens e
faixa de pH, o mecanismo predominante de coagulação foi a adsorção-desestabilização, indicando
que as espécies hidrolizadas produzidas pelo cloreto são mais estáveis tomando a desestabilização
das partículas mais rápida, especialmente para as dosagens de 0,3 e 0,6 mg/L. Para a dosagem mais
elevada, na qual o mecanismo predominante passa a ser a varredura, o tipo de coagulante parece não
interferir na redução do número de partículas.
Usualmente as características físicas de cor verdadeira e turbidez não se manifestam simultanea­
mente nas águas naturais. Mas, quando tal se sucede, frequentemente as dosagens e pH de coagulação
ótimos definidos por meio de ensaios de tratabilidade haverão de remover ambas características. Nas
figuras 7.18a e 7.18b estão apresentados resultados de ensaios de coagulação com sulfato de alumínio,
em termos de remoção de COT e turbidez, para a água do rio Mississipi (EUA) (AWWA - American
Water Works Association, 1979).

O 25 mg/L □ 50 mg/L A 75 mg/L 0 100 mg/L

2 3 4 5 6 7 8 9 10

PH

Figura 7.18. Turbidez da água decantada em função do pH e da dosagem de sulfato de alumínio e remoção de
COT em função do pH e da dosagem de sulfato de alumínio, aferida após etapa de decantação.

A análise das figuras 7.18a e 7.18b suscita algumas constatações relevantes. Ao contrário do que
ocorre para as dosagens de 25 e 100 mg/L, para as dosagens de sulfato de alumínio de 50 e 75 mg/L
a eficiência máxima na remoção de COT e turbidez realizou-se para pH de coagulação de mesma
magnitude. Uma segunda constatação decorre da existência de ampla faixa de pH - especialmente
para as dosagens mais elevadas - para a qual obteve-se alta remoção de turbidez. Todavia, em termos
de COT, há nitidamente um intervalo restrito de valores de pH da ordem de 5,0 para o qual a eficiência
da coagulação é máxima, coadunando-se com a tendência de remoção da cor verdadeira em valores de
pH de coagulação mais baixos.
Estudos enfocando a remoção da matéria orgânica nas águas naturais por coagulação têm
enfatizado, além da distinção da parcela referente às substâncias húmicas e não húmicas, a determinação
do peso molecular dos ácidos húmicos e fulvicos. No que se refere às substâncias húmicas, verifica-se
que moléculas de maior peso molecular95 são mais susceptíveis à coagulação e menos à adsorção por
carvão ativado, e para moléculas de menor peso molecular ocorre o inverso. Em semelhante contexto,
pesquisa apontou prevalência dos ácidos húmicos como principais precursores de THM e ácidos
haloacéticos (AHA), sendo que estes podem ser produzidos também valendo-se de substâncias não
húmicas (Sinhá; Amy; Sohn, 1997).
Todavia, no que concerne à identificação dos componentes da matéria orgânica, tais questões
ainda estão distantes da rotina operacional da totalidade das estações brasileiras e da maioria do
exterior, mesmo nos países desenvolvidos. O principal legado destas inferências consiste em evidenciar
a impropriedade da transposição das condições de coagulação de uma unidade de tratamento para
outra. Estações às quais afluem águas com mesma magnitude de pH, alcalinidade, cor verdadeira e
turbidez - ainda que com parâmetros hidráulicos idênticos96 - quase que certamente hão de operar
com dosagem de coagulante e respectivo pH de coagulação distintos. As substâncias húmicas e não
húmicas, responsáveis pela cor verdadeira, e a variação dos tamanhos das partículas, que respondem
pela turbidez, asseguram a unicidade de cada água natural no que tange à eficiência da coagulação.
Embora raramente tais características físicas se manifestem simultaneamente - há vários casos
de mananciais que apresentam cor verdadeira e turbidez pronunciadas mas em períodos alternados
do ano pode ocorrer a adsorção das substâncias húmicas pelas partículas de argila. Nestas
circunstâncias, a remoção da turbidez há de estar associada à da cor verdadeira. Contudo, para algumas
águas naturais, não se obtém eficiente remoção de turbidez para o par dosagem de coagulante x pH
de coagulação otimizado na remoção de cor verdadeira. Tal se sucede em função do pH mais elevado
para remoção da turbidez. Nestes casos, a definição da dosagem ótima deve privilegiar a característica
mais preponderante no atendimento ao padrão de potabilidade vigente e, secundariamente, o custo dos
produtos químicos envolvidos na coagulação.

Concentração da solução de coagulante e temperatura da água


A fúnção principal da unidade de mistura rápida é possibilitar o contato entre as espécies
hidrolisadas do coagulante e o maior número de partículas coloidais presentes na água bruta, daí
a relevância da uniformidade da dispersão. Nas estações de tratamento de água, a concentração do
coagulante é limitada pela dosagem empregada e, sobretudo, pelo volume dos tanques de preparo.
Quando as soluções de sulfato de alumínio e de cal hidratada são preparadas na própria estação de
tratamento é usual o emprego de concentrações de 10 e 5 %, respectivamente. Como consequência
toma-se frequente relação entre a vazão de coagulante e a vazão afluente à estação de tratamento de
1/5.000 a 1/10.000.

95. Estima-se que os ácidos fulvicos apresentem peso molecular de 500 a 2000 D (Daltons), ao passo que os
ácidos húmicos de 2000 até próximo de 100000 D.
96. Esta situação somente se sucede em estações pré-fabricadas, submetidas a vazões afluentes praticamente
constantes, utilizadas quase exclusivamente no abastecimento de comunidades de pequeno porte.
Para ilustrar afirmativa anterior, considera-se uma estação de tratamento à qual aflui vazão
média de 200 L/s (Qeta) e com dosagem (D) de sulfato de alumínio comercial (A12(S04)3 . 14,3 H20)
de 20 mg/L. A solução é preparada a 10 % (massa por volume). Nestas circunstâncias têm-se:
• Concentração da solução de coagulante (C) = 100.000 mg/L (100 g/L)
* Vazão de coagulante (q) =$> Qeta x D = q x C=^>q = 0,04 L/s = 40 mL/s => Qeta / q = 1/5.000

Embora possa parecer intuitivo que menores concentrações da solução de coagulante haverão
de favorecer o processo de coagulação, a importância deste parâmetro é ainda controvertida. Diversos
trabalhos reportam-se a bons resultados obtidos com soluções mais diluídas, preferencialmente com
concentrações menores que 0,5 %. Em contrapartida, outras pesquisas concluíram que concentrações
mais elevadas da solução de coagulante conduzem a gradientes ótimos de floculação mais baixos,
reduzindo nas unidades mecanizadas o dispêndio de energia elétrica. Embora soluções mais diluídas
não necessariamente redundem em maiores tanques de preparo, pois uma segunda diluição pode
ocorrer na canaleta ou tubulação de dispersão do coagulante, esta prática em realidade inexiste no
País nas estações nas quais a solução de coagulante é preparada. A diluição acaba sendo praticada em
algumas estações de tratamento que utilizam coagulante líquido adquirido já preparado.
Pesquisa contemplando nove tipos de águas naturais distintas demonstrou que, para velocidades
de sedimentação de 1,5 a 7 cm/min, a concentração da solução de coagulante não exerceu papel
significante para coagulação no mecanismo da varredura (Mendes, 1989). Também em outro estudo,
enfocando a coagulação de águas de cor elevada com sais de alumínio no mesmo mecanismo de
coagulação, não se verificou diferença substancial para as diferentes concentrações da solução de
coagulante (Dempsey; Ganho; 0 ’Melia, 1984).
Outra pesquisa avaliou a influência da concentração - a 0,1, 1,0 e 5 % massa/volume - e
das características da água de preparo da solução de coagulante, sulfato de alumínio e cloreto de
polialumínio, para a coagulação realizada no mecanismo de adsorção aplicada à filtração direta de
escoamento descendente. No preparo da solução foram utilizadas água destilada, água bruta de baixa
turbidez (< 10 uT) e água pré-clorada com 2,5 e 5,0 mg/L de cloro residual. Verificou-se para todas as
circunstâncias, nas concentrações e nas características do solvente, pouca ou nenhuma influência de
tais parâmetros na eficiência da coagulação. Vale registrar que o emprego de água bruta no preparo
da solução relaciona-se também, menos pela concentração de sólidos suspensos, mais pelo tipo
de unidade de mistura rápida, na perspectiva de causar entupimento dos orifícios de dispersão do
coagulante (Avelino et al., 2003).
Há igualmente grande controvérsia referente à influência da temperatura da água na coagulação.
Embora no Brasil esta questão adquira importância secundária, em alguns países do hemisfério norte
(alguns estados americanos, Canadá, Suécia, Finlândia, entre outros) são comuns temperaturas
inferiores a 5 °C, daí o ponto de congelamento do coagulante ser uma característica de maior relevância.
Uma linha de estudos preconiza que as velocidades de formação das espécies hidrolisadas e
do precipitado de sulfato de alumínio são inversamente proporcionais à temperatura, afetando, desta
forma, em maior escala o mecanismo da varredura. Nessa mesma vertente, pesquisas empregando
águas a 20 e 5 °C concluíram que os flocos formados a baixas temperaturas são menos resistentes às
forças hidrodinâmicas de cisalhamento, elevando a possibilidade do traspasse nos interstícios do meio
filtrante. Ainda que em menor magnitude, o mesmo também se sucede com os compostos de cloreto
férrico e policloreto de alumínio. Tal premissa fundamenta-se nas possíveis alterações na superfície
das argilas, na redução das forças de atração entre as partículas coloidais e no aumento da viscosidade
da água alterando as características do fluxo para uma mesma potência dissipada na massa líquida. Em
contraposição, outros estudos não chegaram a conclusões definitivas e enfatizam a pequena relevância
da temperatura quando a coagulação se efetua no pH ótimo (Hanson; Cleasby, 1990).
p-

Soma-se à inerente dificuldade de formação das espécies hidrolisadas e do precipitado, o fato


de no período do ano de menor temperatura se associar à menor turbidez da água bruta, quase que
invariavelmente inferior a 5 uT. Com a menor concentração de partículas, a coagulação na varredura
toma-se ainda mais problemática, podendo culminar com a produção de efluente tratado de qualidade
inferior.
A despeito destas constatações, na realidade uma das maiores limitações de se avaliar a real
influência da temperatura reside nos ensaios de sedimentação como forma de se aferir a eficiência da
coagulação, fortemente influenciados pela viscosidade da água. Nesta premissa a assertiva referente à
irrelevância da temperatura para coagulação no pH ótimo adquire maior consistência pela ausência de
sedimentação - empregou-se a filtração direta - nos ensaios de avaliação da coagulação.
Em outra abordagem, trabalhos mais recentes reportam-se à influência da temperatura na
concentração final de alumínio na água tratada, potencialmente responsável pelo Mal de Alzheimer.
Verificou-se que nas estações nas quais não se efetuava o abrandamento da água bruta, o residual de
alumínio era fortemente afetado por efeitos sazonais, cuja concentração em sua maior parte na forma
dissolvida, se reduzia nos períodos mais frios do ano.

Tempo de detenção e gradiente de velocidade da mistura rápida


A mencionada relação entre as vazões de coagulante e afluente à estação toma importante que
a homogeneização do coagulante na massa líquida ocorra com alta turbulência, para evitar que as
espécies hidrolisadas combinem-se mutuamente nos pontos de maior concentração do coagulante,
fenômeno denominado retromistura. Quando tal se sucede haverá maior gasto de coagulante para
se obter a plena desestabilização das partículas coloidais e/ou menor formação dos flocos. Desta
forma, maior uniformidade do gradiente de velocidade de mistura rápida (Gmr) na massa líquida é
fundamental para o êxito do processo de coagulação.
A magnitude das diferenças de velocidade das linhas de corrente perpendiculares ao escoamento
denomina-se gradiente instantâneo de velocidade. Considerando-se duas placas planas separadas por
um fluido e à placa superior aplica-se uma força F. Como resultado da tensão de cisalhamento, o perfil
de velociades em regime laminar97 entre duas placas planas apresenta-se conforme a figura 7.19.

Placa Móvel

(a) Perspectiva (b) Seção Longitudinal


Figura 7.19. Tensão de cisalhamento e gradiente de velocidade.

97. No regime de escoamento pode ocorrer a prevalência de forças de inércia - regime turbulento - ou de
viscosidade, regime laminar, e o cotejo de tais forças sintetiza-se na grandeza adimensional denominada
Número de Reynolds (Re). C A PÍ TU L O 07

189
O gradiente de velocidade foi estabelecido assumindo a laminaridade do escoamento, ainda na
década de 1940 a partir da equação 7.4 de Newton da viscosidade:
x = F / A = p dv/dy (7.4)

Em que:
x: tensão de cisalhamento (tangencial) por unidade de área na superfície normal à direção do gradiente
de velocidade (N/m2);
p: viscosidade absoluta do fluido (Pa.s);
dv/dy: gradiente instantâneo de velocidade ou taxa máxima de variação de velocidade na direção
normal à velocidade v (s"1).

Posteriormente, estes pesquisadores analisaram o fenômeno a partir de um cubo infinitesimal


(de volume dx dy dz) submetido a forças de massa - gravitacionais e centrífugas de pressão e de
cisalhamento. Somente o trabalho realizado pelas forças de cisalhamento é irreversível, dissipado em
calor pelo aumento da energia cinética das moléculas de fluido, e consequentemente da temperatura,
quando o elemento de fluido é submetido a uma deformação angular. Considerando u, v e w compo­
nentes da velocidade nas direções x, y e z, e a tensão de cisalhamento em termos da deformação
angular no plano XY tem-se:
xxy = xyx = p yxy = p (ôu/ôy + ôv/ôx)

Em que:
yxy: taxa de deformação angular (s"1).

Similarmente para os planos XZ e YZ tem-se:


xX2= xzx = p yxz = p (ôu/ôz + ôw/ôx)
Cy = Xyz = p yyz = p (ôv/ôz + ôw/ôy)

O trabalho realizado no plano XY no tempo dt é:


xxy dx dz yxy dy dt = p yxy yxy dy dx dz dt = y2xy p (dy dx dz) dt

E por unidade de volume no plano XY é:


4>xy = p y2xy = p (ôu/ôy + ôv/ôx)2

O trabalho total realizado pela força de cisalhamento por unidade de volume por unidade de
tempo nos três planos XY, Xz e YZ é:
(j) = ( ^ y + (j)XZ+ ( |) Zy = P G2

Em que:
(J>: trabalho por unidade de tempo e de volume (W/m3);
G: gradiente de velocidade absoluto (s"1).

Uma vez que o trabalho por unidade de tempo é igual a potência, na literatura a equação 7.5 é
usualmente apresentada como (Camp; Stein, 1943):

Gm = P (7.5)
p Vol

Ou na forma:

Gm = (7.6)

CAPÍ TUL O 07

190
Na qual:
Gm : gradiente de velocidade médio (s-1);
s: potência dissipada por unidade de massa (W/kg);
P: potência dissipada na massa líquida (W);
Vol.: volume da câmara ou reator (m3).

Para unidades hidráulicas de mistura rápida e floculação, a equação 7.5 toma-se:

(7.7)

Em que:
y: peso específico da água à dada temperatura (N/m3);
hf: perda de carga (m);
Q: vazão (m3/s).

E para as unidades mecanizadas dotadas de paletas, a equação do gradiente de mistura rápida


apresenta-se na forma mais geral como:

(7.8)

Na qual:
A: área da seção transversal das paletas normal à direção do fluxo (m2);
Cd: coeficiente de arraste;
Up: velocidade das paletas em relação à água (m/s);
v: viscosidade cinemática (m2/s).

A equação 7.5 tem sido contestada por alguns pesquisadores por ter sido delineada assumindo a
laminaridade do regime de escoamento em relação à trajetória das partículas - quando nas unidades de
mistura rápida e floculação predomina o regime turbulento - e a bidimensionalidade do fluxo. Nesse
contexto, Cleasby (1984) enfatiza a necessidade de diferentes modelos relacionando-os às dimensões
das partículas em relação à microescala de turbulência de Kolmogoroff (rj), dada pela equação 7.9.

(7.9)

Em que:
r\: microescala de turbulência de Kolmogoroff (m);
e: potência dissipada por unidade de massa (J/s kg).

Para que ocorram os choques, a movimentação de duas partículas uma em relação à outra
é governada por turbilhões - gmpos de moléculas de fluido próximas entre si que apresentam
velocidade de mesma magnitude - maiores que o diâmetro das mesmas e menores que a distância
que as separa.
Para as partículas com diâmetro inferior a o cálculo do gradiente de velocidade médio
efetua-se de acordo com a equação 7.9, pois o mecanismo de agregação depende da viscosidade do
fluido. Contudo, para as partículas de diâmetro maior a taxa de agregação é imune à viscosidade e a
equação 7.9 modifica-se e o gradiente de velocidade médio seria sintetizado pela equação 7.10:

Gm = e2/3 (7.10)
C Á P ÍT U L O 07
Em outras palavras, a equação 7.9 aplicar-se-ia adequadamente para unidades de mistura rápida,
com tempo de detenção inferior a 30 s, quando as partículas ainda apresentam dimensões inferiores à
microescala de Kolmogoroff. Para as unidades de floculação, como os turbilhões capazes de fomentar a
agregação das partículas são maiores que a microescala de Kolmogoroff, a equação 7.10 apresentar-sè-ia
como mais adequada.
Apesar das citadas restrições, a equação 7.5 é ainda extensivamente utilizada, quer para projetos
quer para operação de unidades de mistura rápida e floculação, e corroborada pela própria NBR
12216. Os parâmetros envolvidos na mesma têm sido testados em escala real com bons resultados.
Uma segunda atenuànte que corrobora o seu emprego reside no fato da determinação do gradiente de
velocidade nos usuais aparelhos de ja r test e nas unidades de mistura rápida e floculação efetuar-se
com base na mesma equação. Desta forma, minimiza-se a imprecisão nas determinações das dosagens
de coagulantes quando da realização de ensaios que as definam.
A despeito das controvérsias acerca da equação que melhor traduz o fenômeno, o conceito
de gradiente de velocidade passou a ser considerado relevante em várias etapas do tratamento: na
unidade de mistura rápida, nos floculadores - no interior das câmaras e nas passagens entre elas -, nas
comportas de acesso aos decantadores, no canal de água floculada e nas cortinas de distribuição no
interior das unidades de decantação.
Durante muito tempo predominou no meio técnico o paradigma de que a mistura rápida
deveria se efetuar, independente da tecnologia de tratamento, com elevado gradiente de velocidade,
preferencialmente superior a 600 s-1. Quanto ao tempo de detenção de mistura rápida (Tmr) as
recomendações eram ainda mais vagas, variando desde alguns segundos até 5 min. Levantamento
realizado nos EUA no final da década de 1980 apontou, nos projetos de estações convencionais, tempo
de mistura rápida variando de 50 a 300 s, com média de 100 s, e a predominância do emprego de duas
câmaras para tal fim (Masschelein, 1992). No Brasil não são raras estações de tratamento de água,
principalmente em sistemas de pequeno porte, nas quais a dosagem de coagulante realiza-se na própria
adutora de água bruta próxima à captação.98Nestas circunstâncias o tempo de detenção - vinculado ao
comprimento da tubulação e à velocidade média de escoamento - por vezes supera 30 min e, quando o
mecanismo predominante é a varredura, a coagulação é bem-sucedida. Em contrapartida, para unidades
de filtração direta esta alternativa quase que invariavelmente conduz a resultados insatisfatórios.
A atual tendência aponta para tempos de agitação inferiores a 5 s e gradientes da ordem de
1000 s"1. Na tabela 7.8 estão apresentadas algumas recomendações referentes aos dois parâmetros da
mistura rápida.

Tabela 7.8. Parâmetros recomendados para mistura rápida.


AW W Ae Reynolds Qasin,
NBR 12216 ' . , Kawam ura M asschelein Great Lakes
ASCE e R id ia rd s M o tle y e
(1989) (1992) (2003)
(1998) (1996) U Zhu (2000)
Gmr (s-') 700-1100 600-1000 700-1000 > 100
(200 a 400)** 700-1000
Tmr (S) 5 10-60 20-60*
10-300** 20 - 30 < 30 12-300
Gmr x Tmr 300-1600 30000-60000
* Valores usuais e valores encontrados na literatura.
** Valores recomendados.

A análise dos parâmetros de mistura rápida contidos na tabela 7.8, e suas nítidas lacunas, sugere
a menor relevância do Gmr e Tmr na coagulação, pois, em última instância, caberá ao mecanismo
de coagulação predominante - ou à tecnologia de tratamento como consequência - conferir a estes
parâmetros maior ou menor importância.

98. Também neste aspecto a NBR 12216 contempla esta alternativa ressaltando a necessidade de que cada
adutora - no caso de tubulações em paralelo - disponha de um dosador de coagulante.
CAPÍ TUL O 07

1 9 2 ' ' .
Esta premissa foi reforçada em pesquisa de opinião, utilizando metodologia Delphi", realizada
com especialistas brasileiros99100 com o objetivo de hierarquizar os parâmetros intervenientes na eficiência
de estações de tratamento convencionais. Segundo a opinião deste grupo, o Tmr constituiu-se no
parâmetro ao qual foi conferido o segundo menor peso (3 em um total de 100), com os dois parâmetros
da mistura rápida respondendo por 9 % da eficiência da potabilização (Lopes; Libânio, 2005).
Contudo, mesmo na varredura, em algumas circunstâncias a mistura rápida pode assumir
maior importância. Estudo em reatores estáticos com água natural apontou que a relevância da mistura
rápida tende a crescer quando a floculação é realizada a baixos gradientes de velocidade. E os flocos
formados na floculação após a mistura rápida pareciam conter 2,5 mais partículas do que os formados
sem a mistura rápida (Hudson Jr., 1965).
Quando a coagulação se realiza no mecanismo de adsorção-desestabilização há necessidade
de se conferir à massa líquida elevado gradiente de velocidade e tempo de agitação inferior a 1 s.
Tal se justifica em virtude da velocidade e irreversibilidade de formação dos produtos da hidróhse
do coagulante, posteriormente adsorvidos na superfície das partículas. Todavia, para a coagulação na
varredura, cuja formação do precipitado pode ocorrer em até 7 s, o tempo de detenção e o gradiente
de velocidade da mistura rápida desempenham papel secundário em relação às condições químicas -
dosagem, pH e alcalinidade - que permitirão, e fomentarão, a formação dos flocos.
Desta forma, foi realizado estudo com água sintética coagulada na varredura com sulfato de
alumínio e Gmr de 800 e 500 s"1para Tmr de 3 e 5 min, respectivamente. Os autores concluíram que
as condições de mistura rápida interferiram muito pouco na eficiência da floculação. Tal conclusão
é parcialmente explicada pela pequena variação do parâmetro GmrTmr - 144.000 e 150.000 -
empregado nestes experimentos (Villegas; Letterman, 1976).
Posteriormente, uma segunda pesquisa corroborou esta assertiva ao obter resultados bem
semelhantes para coagulação na varredura com pH de 7,8, gradientes médios de 300, 1000 e 16000 s'1
e dosagem de sulfato de alumínio de 30 mg/L. As águas de estudo apresentavam turbidez de 17 a
27 uT, alcalinidade de 80 mg/L CaC03 e pH de 8,0. Nesta etapa da pesquisa não se verificou diferenças
significativas na turbidez da água decantada para água coagulada com tais gradientes, embora novamente
o produto Tmr x Gmr tenha sido mantido aproximadamente constante (18000, 20000 e 18000, respec­
tivamente), mas de magnitude significantemente inferior à utilizada anteriormente (figura 7.20).

Tempo de sedimentação (min)

Figura 7.20. Turbidez remanescente para distintas condições de mistura rápida para coagulação no mecanismo
da varredura.
Fonte: Amirtharajah e Mills (1982).

99. Os princípios norteadores desta metodologia estão apresentados no Capítulo 3.


100. O painel foi composto por 18 profissionais de nível superior responsáveis por pesquisas, projetos e operação
de estações de tratamento de água, abarcando universidades, companhias estaduais de saneamento e
empresas de engenharia das regiões Sul e Sudeste, compreendendo os estados de RS, SC, MG, SP, PR e DF. C A PÍ TU L O 07

- 7' 5
Os mesmos pesquisadores, para a coagulação no mecanismo de adsorção - empregando
dosagens de 1, 5 e 30 mg/L, pH de 6,5 e 7,0 e idênticos gradientes de velocidade da etapa anterior
obtiveram em todos ensaios menor turbidez da água decantada para a coagulação realizada coqi o
maior gradiente conforme demonstrado na figura 7.21.

Figura 7.21. Turbidez remanescente para distintas condições de mistura rápida para coagulação no mecanismo
de adsorção-desestabilização.

As limitações deste estudo centram-se principalmente em duas premissas:


i) para o mecanismo de adsorção-desestabilização, a filtração em papel de filtro, ou preferen­
cialmente em areia, seria mais indicada para aferição da eficiência da mistura rápida;
ii) para varredura o emprego de elevado tempo de sedimentação (> 15 min) tendeu a tomar as
diferenças nos resultados menos evidentes.

Nos EUA, contradições acerca da importância do tempo de agitação de mistura rápida para
a coagulação afloraram na década de 1970, com recomendações em 1972 de tempo mínimo de 30 s
para quatro anos mais tarde reportarem-se ao tempo máximo de 30 s (Great Lalces, 1972/1976). Tais
contradições motivaram estudoobj etivando avaliar a influência do tipo de unidade de mistura rápida
na coagulação realizada no mecanismo da varredura que delineou algumas conclusões interessantes.
Foram avaliados cinco tipos de unidades de mistura rápida, compreendendo agitadores mecanizados
com turbinas e paletas, dois tipos de difusores e praticamente a ausência de um dispositivo para tal
fim por meio da simples dispersão da solução de coagulante dentro de uma tubulação de 150 mm
de diâmetro. Após tempo de sedimentação de 20 min, determinavam-se a turbidez e o número de
partículas. Os resultados confirmaram que quaisquer dos dispositivos testados, inclusive a simples
dispersão, são aptos a fomentar remoção de turbidez de mesma magnitude. Todavia, as dosagens de
sulfato de alumínio para a maior eficiência de remoção para cada dispositivo —ainda que de mesma
ordem de grandeza - variaram significativamente. Para os agitadores mecanizados as dosagens foram
da ordem de 37 mg/L, ao passo que para os demais 20 mg/L (Clark; Srivastava, 1994).
Estes resultados confirmaram parcialmente premissa anedótica vigente em diversas estações
de tratamento de água nos EUA nas quais se reportou que não ocorreram alterações significativas no
desempenho por ocasião da paralisação da unidade de mistura rápida. Também no Brasil situações
similares não são tão raras. Por exemplo, estação de grande porte (vazão da ordem de 1,0 m3/s) no
estado de Minas Gerais opera com os agitadores da unidade de mistura rápida permanentemente
desligados sem comprometer o atendimento ao padrão de potabilidade, ainda que neste caso o
desempenho seja favorecido pelas características da água bruta captada em grande reservatório de
acumulação.
Em 1984 o DEP - Department of Environmental Protection - do estado da Pennsylvania
(EUA), para assegurar a qualidade da água distribuída, iniciou a implantação do programa FPPE
- Filter Plant Performance Evaluation - com objetivo de determinar a efetividade da estação em
remover partículas na mesma faixa de tamanhos de protozoários patogênicos. Até 1996 avaliaram-
-se 290 estações e um dos dez problemas mais comumente identificados foi a ausência de unidade
de mistura rápida hidráulica ou mecanizada. Todavia, concluiu-se que, embora comum, este fator
não representava impacto substancial na performance da estação a menos que esta utilizasse baixas
dosagens de coagulante, ou seja, a adsorção-desestabilização como mecanismo de coagulação
(Consonery; Greenfield; Lee, 1997).
Por fim, objetivando definir o melhor par de valores Gmr e Tmr, no bojo de uma pesquisa
mais ampla, foram realizados ensaios em reatores estáticos visando à otimização da mistura rápida
para coagulação realizada no mecanismo da varredura. Utilizou-se água sintética com turbidez de
175 ± 5 uT, cor verdadeira de 21 ± 2 uC e dosagem ótima de sulfato de alumínio de 70,0 mg/L,
mantendo-se invariáveis as condições de floculação e sedimentação. Os resultados desta otimização
estão apresentados na figura 7.22.101

□ Tmr = 5 s □ Tmr = 10 s □Tmr=15s □ Tmr = 3 0 s □ i mr=45s □ T m r = 60 s

Gradiente de Velocidade (1/sj

Figura 7.22. Avaliação da relevância do Tmr e Gmr para coagulação no mecanismo da varredura.
Fonte: Libânio (1995).

Da análise dos resultados da figura 7.22 depreende-se que praticamente todos os Gmr testa­
dos apresentaram, para um ou mais Tmr, resultados satisfatórios. Destaca-se igualmente a maior
uniformidade para os tempos de detenção de 5 e 10 s na consecução da menor turbidez da água
decantada. Na situação ilustrada, a definição das condições ótimas de mistura rápida recairía para
tempo de agitação de 5 s, embora não necessariamente, e gradiente de velocidade de 400 a 1200 s"1,
condicionado ao tipo de unidade de mistura rápida. Esta conclusão adquire ainda maior relevância,
comparada às pesquisas anteriores, em função do baixo tempo de sedimentação empregado (2 min,
ocasionando velocidade da ordem de 3,5 cm/min), tomando a identificação das melhores condições de
mistura rápida mais evidente.

101. Erro de coleta inviabilizou o resultado referente ao gradiente de velocidade de 400 s 1e tempo de detenção
de 15 s.
Há de se enfatizar também que tempos de agitação mais elevados conduzem a câmaras de
mistura ou reatores tubulares de maior porte. Para unidades que envolvam dispêndio de energia elétrica
- agitadores mecanizados ou malhas difusoras - o emprego de menores gradientes de velocidade, sem
redução da eficiência da operação, redundará em economia no custo do tratamento.

Unidades de mistura rápida


Na aplicação dos produtos químicos há dois fenômenos distintos, embora semelhantes, e
complementares: dispersão e mistura. A primeira usualmente efetua-se, em estações de maior porte,
por meio de tubos de PVC perfurados, cortados longitudinalmente ao longo do eixo, ou, para pequenas
estações, mangueiras plásticas conectadas a bombas dosadoras ou a dosadores por gravidade. Já
a mistura do coagulante - daí a denominação mistura rápida - apresenta-se em duas alternativas
distintas, por meio da agitação mecânica ou hidráulica, visando à dispersão mais homogênea possível
dos produtos químicos na massa líquida. Embora a escolha do manancial e a proteção da bacia
hidrográfica na qual o mesmo se insere hão de interferir nas características da água e consequentemente
na potabilização, as unidades de mistura rápida constituem-se em última análise na primeira etapa do
tratamento propriamente dito para a quase totalidade das tecnologias aplicáveis.
A mistura rápida pode ser realizada por métodos mecanizados ou hidráulicos. Na essência,
como a própria NBR 12216 enfatiza, qualquer singularidade ou equipamento em tubulação, canal ou
câmara que confira o gradiente de velocidade e o tempo de detenção recomendados pode ser utilizado
como unidade de mistura rápida.
Diversos fatores interferem na definição do tipo de unidade de mistura rápida a ser utilizada
para a coagulação. Destacam-se a localização geográfica em relação aos centros mais desenvolvidos,
relevante na perspectiva de manutenção e operação da unidade, bem como as características da água
bmta quando esta é utilizada como solvente para o preparo da solução de coagulante. O emprego de
água bruta de dureza elevada ou passível de apresentar aumento significativo de turbidez favorece o
entupimento dos orifícios de alguns dispositivos de mistura rápida. No primeiro caso, a maioria das
águas superficiais do País apresenta baixos teores de dureza e este cuidado recai mais frequentemente
para a perspectiva de maior aporte de sólidos à estação quando do emprego da água bmta no preparo
da solução de coagulante e de cal.
Prática muito utilizada nas estações brasileiras consiste em locar a unidade de mistura rápida
o mais próximo possível dos tanques de preparo das soluções do coagulante e, especialmente, do
alcalinizante com o objetivo de reduzir os entupimentos nos condutos. De qualquer forma, no que tange
ao custo global de implantação da estação de tratamento, a unidade de mistura rápida perfaz montante
desprezível frente a outros insumos. Mesmo nos EUA, onde predominam as unidades mecanizadas
- por vezes dotadas de dois tanques em série -, estima-se que os custos das unidades de mistura
sejam inferiores a 0,3 % do custo global de implantação da estação de tratamento (Kawamura, 2000).
Levantamento realizado com dados fornecidos pela Companhia de Saneamento Básico do Estado dei
São Paulo (Sabesp) apontou que o custo da unidade de mistura rápida para uma estação convencional
de tratamento apta a potabilizar vazão de 100 L/s perfaz aproximadamente 1,0 %, excluídos os custos
do tratamento dos resíduos e do sistema de dosagem de carvão ativado em pó inusuais na quase
totalidade das estações de tratamento brasileiras. Este custo percentual reduzir-se-ia para 0,45 % com
tais inserções, aproximando-se dos registrados nos EUA (Mierzwa et a i, 2008).
Unidades mecanizadas de mistura rápida
Como mencionado, as unidades de mistura rápida mecanizadas detêm a primazia nos países
mais desenvolvidos, especialmente EUA e Canadá, ao passo que as hidráulicas são comumente
empregadas nos países europeus e em desenvolvimento. Para mistura mecanizada são empregados
agitadores do tipo turbina ou hélices (figura 7.23), nos quais a água bruta aflui à câmara de mistura e o
coagulante é comumente disperso por meio de bombas dosadoras.

Figura 7.23. Agitadores tipo turbina e de hélices utilizados para mistura rápida.

Câmaras de mistura de seção circular ou quadrada são utilizadas para abrigar os agitadores
tipo turbina. No primeiro caso, há recomendações acerca da profundidade do tanque ser da mesma
magnitude do diâmetro. A principal vantagem apregoada por tais misturadores em relação aos hidráu­
licos centra-se na perspectiva de variação do gradiente de velocidade da mistura rápida, passível de
ser alcançada pela mudança da rotação - e consequentemente da potência dissipada. Todavia, esta
vantagem minimiza-se pela desuniformidade da turbulência no interior da câmara de mistura rápida
e pela mencionada menor relevância desta etapa para as estações convencionais cujo mecanismo de
coagulação predominante é a varredura, evidenciada pelos resultados apresentados na figura 7.22.
Estudo enfocando reatores tipo turbina empregados na mistura rápida, definiu três zonas de
turbulência. O gradiente de velocidade médio (Gm) apresentou variações sensíveis no interior das
câmaras, oscilando de 0,5 Gm em 90 % do volume do reator a 2,3 e 7,0 Gm em 9,5 % e 0,5 %,
respectivamente, do volume restante (figura 7.24).

Figura 7.24. Dissipação da energia em uma unidade de mistura rápida mecanizada.


Fonte: Amirtharajah e 0 ’Melia (1990).
C A PÍ TU L O 07
Adicionalmente, pesquisa anterior enfatiza que a desuniformidade da agitação no interior
da câmara é diretamente proporcional à magnitude do gradiente de velocidade. Uma vez que este
parâmetro adquire maior relevância na coagulação por adsorção e para consecução da qual se fazem
necessários gradientes mais elevados, o emprego destas unidades pode minimizar o desempenho de
estações de filtração direta (Walker, 1971).
Ainda no mesmo contexto, o fluxo no interior da câmara de mistura rápida varia com a
configuração do agitador, conforme mostra a figura 7.25.

Figura 7.25. Padrão do fluxo para agitadores tipo turbina e hélice.


Fonte: Godfrey e Amirtharajah (1991).

Corrobora em termos qualitativos as variações da potência dissipada no interior da câmara de


mistura rápida a recomendação da NBR 12216 de maneira que a dispersão dos produtos químicos se
realize logo abaixo da hélice ou turbina do agitador.
A determinação do gradiente de velocidade para as unidades de mistura rápida com agitadores
tipo turbina efetua-se com base em um parâmetro adimensional denominado número de potência (Np),
expresso por meio da equação 7.11.

Em que:
P: potência dissipada na massa líquida (W);
D: diâmetro da turbina (m);
n: rotação (rpm);
p: massa específica da água (kg/m3).

O valor de Np relaciona-se com o tipo de agitador e com o regime de escoamento. Desta forma,
os agitadores haverão de apresentar distintos valores para Np. Para os agitadores com turbina de seis
pás retas comumente empregados no País e em regime turbulento (Re > 10.000), o valor de Np pass
a ser praticamente constante e igual a 5 conforme mostra a figura 7.26.
O número de Reynolds, por sua vez, é calculado por meio da equação 7.12:

(7.12)

Na qual:
Re: número de Reynolds;
p : viscosidade dinâmica da água (Pa.s).
102

Figura 7.26. Relação entre o Número de potência e o número de Reynolds para dois tipos de agitadores utilizados
em unidades de mistura rápida.

Para o tipo de turbina mais extensivamente utilizada no País para mistura rápida, são recomen­
dadas as seguintes relações entre dimensões da turbina e da câmara de mistura rápida (tabela 7.9)
apresentada na figura 7.30:

Tabela 7.9. Relações geométricas de turbina utilizada para mistura rápida.


2,7 < L/D < 3,3 2,7 < H/D < 3,9 0,75 < h/D < 1,3
B = 0,25 D b = 0,20 D e/D = 0,10
Fonte: Parlatore (1987 apudVianna, 2002b).

Figura 7.27. Parâmetros geométricos de turbina utilizada para mistura rápida.

Para água a 20 °C e regime turbulento102, o gradiente de velocidade de mistura rápida para


agitador tipo turbina é calculado pela equação 7.13.

Gmr = 4,8 n3 D5 (7.13)


Vol

Na qual:
Vol: volume da câmara de mistura rápida (m3).

102. A título de ilustração da intensidade da turbulência no interior de uma câmara de mistura rápida, uma turbina
de 50 cm de diâmetro à rotação de 50 rpm resultaria em Re superior a 200.000.
Cá P
Quando do emprego de unidades de mistura rápida com agitadores tipo turbina a NBR 12216
recomenda essencialmente que:
i) tempos de detenção inferiores a 2s exigem que o fluxo incida diretamente sobre as pás do
i
agitador;
ii) o coagulante deve ser disperso logo abaixo da turbina do agitador.

Exemplo \

Uma estação de tratam ento convencional potabiliza vazão de média de 1,0 m3/s empregando unidade de
mistura rápida tipo turbina de seis pás, com rotação de 130 rpm, com as seguintes características:
- área em planta da câmara de seção quadrada (L) = 1,2 m2
- profundidade da lâmina d ’ água (H) = 1,5 m
- diâmetro da turbina (D) = 0,45 m
- comprimento da pá (B) = 0,12 m
- largura da pá (b) = 0,09 m
- distância da extremidade inferior da pá ao fundo da câmara (h) = 0,40 m
- estatores (e) = 0,05 m
As recomendações listadas na tabela 7.9 estão praticamente atendidas (h/D = 0,89; L/D = 2,67 » 2,7; B = D/4
= 3,75 ~ 4). A p a rtir do valor do número de Reynolds estima-se o valor do Np. Para temperatura da água de
20 °C, tem-se:

Re = = 438750 => figura 7.27 => Np ~ 5, sendo pois aplicável a equação 7.13.
60x0,001 '

Os principais parâmetros de mistura rápida serão:


Tempo de detenção para mistura rápida => Tmr = Vol/Q = 1,8 s
/13030 455
Gradiente de velocidade de mistura rápida => Gmr = 4 , 8 v -----^ -----= 789 s = 789 s'1

Consoante às recomendações da NBR 12216, esta unidade prestar-se-á à realização adequada da mistura
rápida no que tange aos parâmetros de projeto (gradiente de velocidade e tempo/de detenção).

Altemativamente ao emprego dos agitadores mecanizados, a mistura rápida pode ser realizada com
o emprego de malhas difusoras. Estas constituem-se de tubos de PVC perfurados, com orifícios contrários à
direção do fluxo, dispostos transversalmente no canal ou tubulação de água bruta. A solução de coagulante
advém de uma bomba dosadora e o tempo de detenção relaciona-se ao volume do reator tubular (figura 7.28).

coagulante

tubos plásticos

orifícios
anel de distribuição
barras sólidas

válvulas para
corte A-A limpeza t válvula para
^ limpeza

Figura 7.28. Malha difusora empregada em tubulação como unidade de mistura rápida (Valencia, 1992).
A adequada dispersão do coagulante à massa líquida será, sobretudo, função do número total de
orifícios, distribuídos uniformemente, e da velocidade do jato. Desta forma, aNBR 12216 preconiza que:
• a área da seção transversal corresponde a cada jato (quociente entre a área transversal do
canal ou tubulação e o número de orifícios) não deve ser superior a 200 cm2;
• velocidade de escoamento da água onde os jatos são distribuídos deve ser superior a 2 m/s;
• os orifícios devem ter diâmetro igual ou superior a 3 mm;
• o sistema difusor deve permitir limpezas periódicas nas tubulações que distribuem a solução
de coagulante.

O gradiente de mistura rápida pode ser estimado com base na perda de carga decorrente da
velocidade de escoamento através do canal ou tubulação e da velocidade, no sentido contrário, dos
jatos com a solução de coagulante, por meio da equação (7.14):

hf = N-(Uo + Ue)2 (7.14)


L g

Na qual:
Uo: velocidade do jato de coagulante através do orfício da malha (m/s);
U e: velocidade de escoamento através do canal ou tubulação (m/s);
N: número de orifícios da malha difusora.

Outro parâmetro interveniente refere-se ao volume a jusante da malha no qual ocorrerá a


plena dispersão do coagulante. Neste contexto, há controvérsias. Resultados de ensaios experimentais
com a dispersão de cloreto de sódio através de 4 orifícios de 0,53 mm de diâmetro, espaçados de
12,7 mm, apontaram mistura da ordem de 90 %, à distância de 1,0 m a jusante da malha difusora.
Em contrapartida, avaliações em escala real estimam que a dissipação da energia produzida pelo
encontro do escoamento da água com os jatos de coagulante dar-se-á a uma distância de 2,5 vezes
o espaçamento entre os furos. Ainda que menos conservadora (espaçaiúento entre furos de 10 cm
resultaria em comprimento de 25 cm), a última premissa parece melhor adequar-se às malhas difusoras
comumente empregadas para mistura rápida. Desta forma, admitindo temperatura da água de 20 °C, o
gradiente de velocidade de mistura rápida pode ser estimado pela equação (7.15):

y Qo hf n (U e + Uo)2U o
Gmr = = 396 Do (7.15)
p Vol EA

Na qual:
Qo: vazão através dos orifícios da malha (m3/s);
Do: diâmetro dos orifício (m)s;
A: área da seção transversal do canal ou tubulação de água bmta no qual foi instalada a malha difusora
(m2);
E: espaçamento entre os orifícios (m).

Exemplo

Em uma estação de tratamento à qual afluí vazão média de 300 L/s deve se instalar, no canal de chegada da
água bruta, uma malha difusora com barras de diâmetro 1” (25,4 mm) apta a dispersar uma solução de sulfato
dé alumínio - concentração 10 % massa/volume - à dosagem média de 20 mg/L.
Admitindo:
- diâm etro dos.orifícios = 3 mm;
- espaçam ento entre o rifíc io s = 10 cm !
Vazão da solução de sulfato => qs x 5000 = 300 x 20 => q s = 0,12 L/s

Largura do canal = 50 cm
Considerar um cana l revestido de cim e n to liso => n = 0,013
Nesta condição, por meio da Equação de Manning:

Q = l A r h2'3 r
n
Para velocidade de escoam ento superior a 2 m /s e lâm ina d ’água de 30 cm , a d e c l i v i d a d e (I) será de 1%. i
Instalando-se 3 barras espaçadas de 15 cm
Á rea transversal do reator = 1500 cm 2 =e> Para um o rifíc io por 200 cm 2 = > 7 , 5 o rifíc io s => 8 orifícios => 3 orifícios
na barra cen tral e outros dois nas barras laterais, todos espaçados a cada 10 cm.
V e lo c id a d e a t r a v é s d o s o r if íc io s => Vo = 2,13 m /s

Tempo de m istura rápida = 0,12 s

G rad ien te de v elocid a d e = G m r = 3 9 6 x 0 , 0 0 3 . / = 165s“ 1 =165 s'1


V 0,10x0,15

Interessante ressaltar que o dimensionamento da malha seguindo as premissas da NBR 12216,


para estas dimensões do canal, chega a um impasse. Como não se podd reduzir o número ou a dimensão
de furos, para aumentar a velocidade através dos orifícios e com isso/o gradiente de velocidade, resta
a opção de modificar a seção transversal do canal, reduzindo a largura ou aumentando a declividade.
A maior limitação do emprego das malhas difusoras reside na obstrução dos orifícios pela
solução de coagulante e tem justificado a substituição desta alternativa em diversas estações brasileiras
nas quais havia sido anteriormente adotada. Como exemplo, a estação de grande porte - vazão média
da ordem de 3,4 m3/s - que abastece municípios de Betim e Contagem, situados nas cercanias de Belo
Horizonte, desativou o sistema de malha difusora e atualmente a mistura rápida ocorre hidraulicamente
por meio de vertedor tipo tulipa.

Unidades hidráulicas de mistura rápida


Com idêntico propósito de favorecer o contato entre as espécies hidrolisadas de alumínio e as
partículas, são também empregadas unidades de mistura rápida que utilizam a energia hidráulica, tais
como vertedores de seção retangular, vertedores triangulares - estes aplicáveis a pequenas estações -
e, especialmente, medidores Parshall.
Embora os vertedores permitam em várias situações a realização de uma dispersão adequada
do coagulante, a determinação da vazão afluente é relativamente imprecisa reduzindo usualmente o
espectro de aplicação desta alternativa para estações de pequeno porte. A dispersão do coagulante
pode ocorrer sobre a queda d ’água (figura 7.29) ou imediatamente a montante do ressalto hidráulico103,
fonnado no prolongamento do canal a jusante. Na primeira condição a perda de carga para a estimativa
do gradiente de velocidade consistirá da diferença entre o nível d ’água a montante da crista do vertedor
e a jusante da queda d ’água. Se a dispersão do coagulante não ocorre especificamente em uma câmara
de mistura rápida, pode se estimar o volume considerando-se a área em planta onde ocorre a turbulência

103. Fenômeno hidráulico no qual o escoamento passa abmptamente do regime supercrítico - de predominância
da carga cinética - ao subcrítico, idem da carga de pressão, em virtude da elevação da lâmina d’água.
causada pela queda da massa líquida. No segundo caso, o canal de água coagulada deve ser dotado de
um pequeno degrau que favoreça a elevação da lamina d’água e, consequentemente, a formação do
ressalto hidráulico.

Figura 7.29. Vertedor retangular utilizado para mistura rápida.

Alternativa ao vertedor retangular e construídos em chapa de aço, os vertedores triangulares


(figura 7.30) também prestam-se à mistura rápida, com as mesmas limitações em termos de medição
de vazão.

Figura 7.30. Vertedor triangular como unidade de mistura rápida em estação de médio porte (Q = 75 L/s).

Utilizado na maioria das estações de tratamento no Brasil, o medidor Parsfiall - por vezes
inadvertidamente denominado calha Parshall - foi desenvolvido no início do século passado pelo
engenheiro americano R. L. Parshall para fins de irrigação, e a partir da década de 1950 tem sido
empregado como unidade de mistura rápida.
As dimensões dos medidores Parshall são padronizadas valendo-se da dimensão da garganta (W).
Inicialmente estas unidades eram construídas em alvenaria de tijolos, frequentemente revestidas com
ladrilhos, e como consequência apresentavam imprecisão na determinação das vazões comprometendo
muitas vezes também a eficiência da coagulação. A partir do final da década de 1970 passaram a ser
construídos, com maior precisão das dimensões, em resina de poliéster ou fibra de vidro, ampliando seu
emprego também para estações de pequeno porte e pré-fabricadas. Na figura 7.31 apresenta-se esboço
de medidor Parshall, destacando o ponto de aplicação do coagulante no final da garganta onde se inicia
a formação do ressalto (corte).

Ponto de dispersão
do coagulante

Na figura 7.32 apresenta-se um medidor Parshall de fibra de vidro, ao qual se instalaram sensor
de ultra-som, visando à futura automação, e dosador de coagulante de nível constante, este para a
eventualidade de queda da energia elétrica e consequente paralisação das bombas dosadoras de sulfato
de alumínio.

Figura 7.32. Vista de montante para jusante de medidor Parshall de estação de médio porte (Q = 290 L/s).

As dimensões padronizadas do medidor Parshall apresentadas na figura 7.31 estão listadas na


tabela 7.10.
CAPI TUL O 07

204 '
Tabela 7.10. Dimensões padronizadas dos medidores Parshall.
w Vazão*
W (cm) A B C D E F G K N
(pol/pé) (L/s)
1" 2,5 36,3 35,6 9,3 16,8 22,9 7,6 20,3 1,9 2,9 5,0
3" 7,6 46,6 45,7 17,8 25,9 38,1 15,2 30,5 2,5 5,7 53,8
6" 15,2 62,1. 61,0 39,4 40,3 45,7 30,5 61,0 7,6 11,4 110,4
9" 22,9 88,0 86,4 38,0 57,5 61,0 30,5 45,7 7,6 11,4 252,0
r 30,5 137,2 134,4 61,0 84,5 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 455,9
1,5' 45,7 144,9 142,0 76,2 102,6 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 696,6
2' 61,0 152,5 149,6 ■> 91'5 120,7 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 937,3
3' 91,5 167,7 164,5 '' 122,0 157,2 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 1427,2
4' 122,0 183,0 179,5 152,5 193,8 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 1922,7
5' 152,5 198,3 194,1 183,0 230,3 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 2423,9
5' 183,0 213,5 209,0 213,5 266,7 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 2930,8
7' 213,5 228,8 224,0 244,0 303,0 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 3437,7
8' 244,0 244,0 239,2 274,5 340,0 91,5 61,0 91,5 7,6 22,9 3950,2
10' 305,0 274,5 427,0 366,0 475,9 122,0 91,5 183,0 5,3 34,3 5660,0
Fonte: Azevedo Netto (1969).

Como a figura 7.31 mostra, trata-se na realidade de um canal de seção e declividade variáveis
cujo princípio básico consiste de impingir a mudança das características do escoamento - de supercrítico
para subcrítico para que com base ^énTuma determinada profundidade se infira a vazão. Nesta
mudança o escoamento passa necessariamente pelo regime crítico e para uma dada profundidade é
possível determinar a velocidade média e, como consequência, a vazão. O ceme do cálculo da vazão
baliza-se na grandeza denominada número de Froude (para regime crítico igual a unidade) que abarca
a relação entre as cargas potencial e cinética do escoamento, apresentada pela equação 7.16:
Fr = U / (g y)0,5 (7.16)

Em que:
Fr: número de Froude;
U: velocidade média do escoamento (m/s);
y: profundidade média de escoamento (m);
g: aceleração da gravidade (m/s2).

Desta forma, atingida a condição de regime crítico (para a qual Fr = 1) obtém-se para cada valor
da profundidade da lâmina d ’água a velocidade média de escoamento e, como consequência, a vazão.
Por praticidade, uma vez que é difícil precisar em que ponto do trecho (F) ocorre o regime crítico, a
vazão acaba sendo determinada valendo-se da lâmina d’água no trecho convergente a 2/3 da garganta
(D’). Embora pouco comum, verifica-se em algumas estações de médio porte instalação de uma
placa perfurada de concreto, com orifícios de 50 ou 75 mm de diâmetro uniformemente espaçados, a
montante do medidor Parshall. Este dispositivo objetiva minimizar as flutuações da lâmina d ’água no
ponto de médição da vazão.
Além destas variações da lâmina d ’água, a confiabilidade do medidor Parshall vincula-se à
existência de descarga livre. Para que tal ocorra uma das seguintes condições deve ser atendida:
i) para medidores com W < 22,9 cm Efi/Hj < 0,60;
ii) para medidores com 30,5 cm < W < 2,44 m => H2/H] < 0,70;
iii) para medidores com W > 3,05 m => fl^/Eb < 0,80.

O b s .: a s a lt u r a s h f e H 2 r e f e r e m - s e a o p o n t o d e m e d iç ã o d a v a z ã o (D ’ ) e n o in íc io d o t r e c h o d iv e r g e n t e .
A inobservância da descarga livre conduz ao afogamento do medidor Parshall (figura 7.33),
fazendo com que o dispositivo perca a capacidade de determinação da vazão e reduzindo a eficiência
da mistura rápida.

Figura 7.33. Medidor Parshall afogado em estação de médio porte (Q = 230 L/s).

A determinação da vazão (m3/s), V n função da lâmina d’água H b no ponto de medição (m),


fundamenta-se em equações similares às utilizadas para os vertedores, também vinculadas à dimensão
da garganta (m):
i) para W = 7,6 cm =i> Q = 0,1765 H,1,547
n) para W = 15,2 cm => Q = 0,381 Hf1,580
ui) para W = 22,9 cm => Q = 0,535 H,1,530
iv) para 30,5 cm < W < 2,44 m => Q = 0,372 W (3,28IHj)1’568w°'°26
v) para 3,05 m < W < 15,25 m => Q = H 11’6(2’2926W+0’4737)

A determinação do tempo de detenção e do gradiente de velocidade no medidor Parshall não é


simples. Com base nas alturas conjugadas do ressalto razoável, estimativa do primeiro parâmetro pode
ser realizada por meio da velocidade média104 no trecho G ou do volume do ressalto. Interessante notar
que variações da vazão afluente à estação não provocam alterações significativas no tempo de detenção
para mistura rápida, uma vez que a velocidade de escoamento e a altura da lâmina d’água alteram-
-se em magnitude de mesma ordem de grandeza mantendo este parâmetro praticamente constante e
inferior a 1 s.
Além do tempo de detenção - ou do volume no qual ocorre o ressalto - , o valor do gradiente
de velocidade dependerá da diferença da energia específica105 a montante e a jusante do ressalto
hidráulico, conforme a equação 7.17. Desta forma:

E , = y 1+ U 12/2 g e E 2 = y2 + U22/2g (7.17)

a
h f = ( y 2-y,)3/ 4 y 1y2

104. Neste caso, razoável aproximação pode ser efetuada pela média aritmética das velocidades nas seções W e C.
105. Energia específica (E) constitui-se a soma da energia potencial e cinética. Considerando um canal horizontal
e tomando seu fundo como plano de referência tem-se E = y + U2/2g, na qual y é a profundidade da lâmina
d’água e U a velocidade média na seção transversal.
Nas quais:
E, e E2: energias específicas a montante e a jusante do ressalto (m);
yj e y2: lâminas d ’água a montante e a jusante do ressalto hidráulico, início e final do trecho G da
figura 7.31 (m);
Uj e U2: velocidades médias nas seções transversais a montante e jusante do ressalto (m/s);
hf: perda de carga no ressalto (m).

Embora a estimativa do tempo de detenção adquira menor relevância em função da sua restrita
variação, a maior complexidade ria determinação da perda de carga no ressalto tem tomado frequente
o emprego de ábacos para estimar o gradiente de velocidade nos medidores Parshall. As estimativas
do gradiente de mistura rápida com o emprego de tais ábacos (figura 7.34) apontam para valores
significativamente menores que quando do cálculo baseado na equação 7.17.

Vazão (L/s)

Figura 7.34. Ábaco para estimativa do gradiente de velocidade em medidores Parshall.

Por exemplo, por um medidor Parshall de 1’ (30,5 cm) escoa uma vazão de 100 L/s. Por
meio do ábaco da figura 7.32 o gradiente de velocidade seria da ordem de 800 s"1, ao passo que sua
determinação baseado da equação 7.17 apontaria para um valor da ordem de 1450 s"1. Tais diferenças
não hão de ser relevantes para as estações convencionais, podendo assumir maior importância para as
unidades com tecnologia de filtração direta na consecução dos ensaios que balizarão a definição das
dosagens de coagulantes.
Este tipo de unidade - dependendo do ponto de aplicação do coagulante - assegura boa
homogeneidade na dispersão, apresenta variações insignificantes no tempo de agitação e gradiente
de velocidade, e, quando funciona com descarga livre, boa eficiência como medidores de vazão. A
primeira característica manifesta-se no trecho (G) imediatamente a jusante da garganta, onde ocorre
a formação do ressalto hidráulico. Os resultados constantes na tabela 7.11 para um Parshall de 61 cm
(2’) de garganta submetido a um aumento de vazão de 50 % confirmam a segunda assertiva.

Tabela 7.11. Características hidráulicas de um Parshall de T (61 cm) aplicado à mistura rápida.
G r a d ie n te de lem po de
V a z ã o A flu e n te (L/s) H2 / H,
V e lo c id a d e (s'1) D e te n ç ã o {$)
600 1642 0.40 0.51
900 1684 0.38 0.59
*Relação entre as alturas no início do trecho divergente e no ponto de medição de vazão para assegurar descarga livre (< 0,70).
Fonte: Libânio, Vianna e Medeiros (1994).

Alterações significativas do gradiente de velocidade, sempre no sentido da elevação deste,


somente podem ser obtidas por intermédio da instalação de anteparo de madeira no canal de jusante,
assegurando ainda o seu funcionamento como medidor de vazão. Tal procedimento ao melhorar a
dispersão do coagulante na massa líquida, pode conduzir à redução das dosagens e ampliar o emprego
dos medidores Parshall para as estações convencionais que operam durante períodos do ano como
unidades de filtração direta, com a coagulação se efetuando no mecanismo de adsorção-desestabilização
(Pinto Coelho, 1988).
Aliada à baixa perda de carga e custos reduzidos de implantação e manutenção, a própria
necessidade de um medidor de vazão nas estações de tratamento contribuiu para a citada supremacia
dos medidores Parshall como unidades de mistura rápida no País. Em alguns casos tais unidades
foram instaladas a jusante de agitadores mecanizados, posteriormente desativados com a dispersão do
coagulante ocorrendo no início do trecho divergente do medidor.
Floculação

Queria era, um dia, que fosse, atravessar o rio, como quem abre
enfim os olhos.

Guimarães Rosa - Tutaméia ( 1967)

Considerações iniciais

Talvez por estar intrinsecamente relacionada à coagulação é difícil precisar quando as unidades
de floculação passaram a ser etapas integrantes do tratamento das águas de consumo humano. Os
registros históricos quase que tão somente se reportam ao emprego da coagulação associada à
sedimentação, em muitos casos na ausência da filtração, objetivando melhorar o aspecto estético das
águas naturais. Provavelmente, as estações construídas nos EUA foram as primeiras a contar com
unidades específicas para floculação a partir do início do século passado, com o incremento da filtração
rápida e a necessidade de reduzir o aporte de partículas às unidades filtrantes durante o período chuvoso.
A floculação é uma das operações unitárias106 da clarificação que se constitui um conjunto de
fenômenos físicos, nos quais se tenciona em última instância reduzir o número de partículas suspensas
e coloidais presentes na massa líquida. Para tal, fomecem-se condições, em termos de tempo e agitação
- como para as unidades de mistura rápida, vale afirmar, tempo de detenção e gradiente de velocidade -,
para que ocorram os choques entre as partículas anteriormente desestabilizadas pela ação do coagulante
objetivando a formação dos flocos a serem posteriormente removidos por sedimentação/flotação ou,
nas estações de filtração direta, nas próprias unidades de filtração. Também no mesmo contexto das
unidades de mistura rápida, a energia dissipada na massa líquida para fomentar a aglutinação das
partículas pode ser de origem mecânica ou hidráulica. A figura 8.1 representa esquematicamente este
conceito de progressiva redução do número de partículas presentes na água bruta (No) ao longo das
sucessivas câmaras da unidade de floculação (Nb N2, N3, ...).

106. Floculação, assim como a sedimentação e a flotação, é considerada uma operação unitária por envolver
apenas fenômenos físicos de aglutinação das partículas.
Nn> Na N,> N,

Figura 8.1. Representação esquemática do papel da floculação no tratamento de água.

Para as estações convencionais de tratamento a aferição do êxito da floculação efetua-se pelas


características da água decantada, cujo monitoramento centra-se na turbidez e, com menor frequência,
na cor aparente. Neste contexto, a U SEPA (United States Environmental Protection Agency) recomenda
turbidez máxima efluente das unidades de decantação de 1,0 e 2,0 uT, respectivamente, para água bmta
com turbidez inferior e superior a 10 uT.
Conforme já salientado no Capítulo 6, sempre que a tecnologia de tratamento envolver o
processo de coagulação, a floculação ocorre mesmo na ausência de uma unidade específica para tal
finalidade. Para as estações convencionais de tratamento, a ineficácia da floculação, intrinsecamente
relacionada ao desempenho da coagulação, aumentará a afluência de partículas às unidades filtrantes,
favorecendo a perspectiva de deterioração da água filtrada e reduzindo o intervalo entre lavagens
podendo tomar o processo de potabilização antieconômico. A avaliação da eficácia da floculação,
além do monitoramento mencionado, pode ser inferida por ocasião das limpezas das unidades de
decantação de escoamento horizontal. O perfil de depósito das partículas sedimentadas permite avaliar
a sedimentabilidade dos flocos no período entre duas limpezas consecutivas (figura 8.2).

Figura 8.2. Perfil do depósito do lodo em decantadores de escoamento horizontal.

No desenho esquemático da figura 8.2 evidencia-se que as condições de coagulação e floculação


que culminaram no Perfil 1 produziram flocos de melhor sedimentabilidade, passíveis de se depositarem
no início da unidade de decantação. Nas condições representadas pelo Perfil 2, descortina-se a perspectiva
de afluência das partículas aos filtros, quer pelo menor volume depositado quer pela distribuição mais
uniforme ao longo do comprimento da unidade de decantação. Na figura 8.3 apresenta-se o mencionado
perfil longitudinal em escala real de um decantador de escoamento horizontal implantado em estação de
tratamento na qual as operações de coagulação e floculação são realizadas de forma eficaz.
Figura 8.3. Perfil de lodo em decantador de escoamento horizontal de estação de médio porte (Q = 450 L/s).
Fonte: Pádua e Di Bernardo (1998).

Mecanismos de transporte e intervemieiites ma. flocmlação

Na realidade a menção aos mecanismos intervenientes na floculação refere-se à fonna como


o transporte das partículas desestabilizadas realiza-se para a formação dos flocos. O mecanismo de
transporte predominante será função das dimensões das partículas desestabilizadas e da progressiva
formação e crescimento dos flocos. O transporte das partículas pode ocorrer em virtude basicamente
de três fenômenos:
v i) ao movimento Browniano107 - denominado flo c u la ç ã o p e r ic in é tic a ;
ii) às diferenças de velocidade das linhas de corrente do fluido em escoamento - denominado
floculação ortocinética]
iii) às distintas velocidades de sedimentação dos flocos {sedimentação diferencial).

O movimento aleatório das partículas coloidais de dimensão inferior a 1 pm permite que ocorram
os primeiros choques. Pode-se afirmar que os primeiros contatos entre as partículas desestabilizadas
iniciam-se já na unidade de mistura rápida, decorrentes do movimento Browniano e da ação da
gravidade. Nesta fase, as partículas coloidais desestabilizadas chocam-se e aglomeram-se formando
pequenos flocos com dimensões usualmente inferiores a 1 pm. A despeito da menor relevância da
floculação pericinética na formação dos flocos, a possibilidade de contacto entre os flocos já formados
de maior dimensão com as partículas desestabilizadas remanescentes é governada pelo movimento
Browniano.
Já a floculação ortocinética decorre da introdução de energia externa que fomenta a aglutinação
das partículas desestabilizadas e dos microflocos - formados inicialmente por intennédio do movi­
mento Browniano -, para a formação de flocos de maior peso, passíveis de serem removidos por
sedimentação ou flotação. Os parâmetros inerentes à eficiência da floculação são o gradiente de
velocidade e o tempo de detenção hidráulico, quer no processo de agregação das partículas, quer
no processo de erosão dos flocos. Assim, a floculação ortocinética é o único mecanismo no qual o
profissional pode atuar de fonna a otimizar a operação. Cabe ressaltar que este mecanismo continua a
atuar mesmo após a unidade de floculação. Dependendo da configuração da estação de tratamento, o
canal de água floculada, as comportas de acesso aos decantadores e a própria cortina de distribuição
permitem que a floculação ortocinética ainda ocorra.

107. Denominação em virtude de Brown (1828), botânico inglês que estudou os movimentos erráticos dos grãos
de pólen dispersos no ar atmosférico.
C A P ÍT U L O 08

21 1
Admite-se que o decréscimo da concentração de partículas em relação ao tempo para uma
suspensão monodispersa - para a qual se considera que as partículas tenham mesma dimensão -
apresenta-se como uma equação cinética de segunda ordem (Stumm; Morgan, 1996):

— - = - kpN2 (8.1)

Em que:
N: número de partículas por unidade de volume no tempo t (n°/m3);
kp: constante referente aos encontros pericinéticos.

Segundo Smoluchowski (1917) a constante kp pode ser expressa por:

kp = ap 4 D 7i d (8.2)

Em que:
D: coeficiente de difusão do movimento Browniano (cm2/s);
d: diâmetro da partícula (cm);
ap: fator de eficiência das colisões decorrentes dos encontros pericinéticos.

O coeficiente de difusão, por sua vez, pode ser expresso pela equação 8.3 de Stokes-Einstein
(Ives, 1978):

D = K Ta (8.3)
3 7i p d

Em que:
K: constante de Bolzmann = 1,38 10'23(J/ K);
p: viscosidade absoluta do fluido (Pa.s);
Ta: temperatura absoluta (K).

Para uma suspensão monodispersa, a formação dos flocos em virtude da floculação pericinética
é sintetizada pela equação 8.4, obtida inserindo-se as equações 8.2 e 8.3 na equação 8.1:

j . = d N° = 4ap K Ta (No)2 (8.4)


^ dt 3p

Na qual:
Jpk: taxa de variação do número de partículas em função dos encontros pericinéticos (s"1);
No: número de partículas por unidade de volume no tempo t = 0 (n°/m3).

Com base na equação 8.4 depreende-se que a influência do movimento Browniano na floculação
relaciona-se duplamente com a temperatura da água em razão da viscosidade, independente da dimensão
das partículas. A menor influência dos encontros pericinéticos na floculação testifica-se, por exemplo,
para uma água com 104 vírus/mL a 20 °C (Ta = 293 °K). Nestas condições (p = 0,001 Pa.s), para se
reduzir tal concentração de víms à metade necessitar-se-ia de tempo da ordèm de 215 dias, admitindo
ap = 1,0.
A floculação pericinética adquire ainda menor relevância quando se considera que a p < 1,0 graças
a repulsão da dupla camada elétrica e às forças hidrodinâmicas. O fator ap relaciona-se à espessura da
dupla camada elétrica e ao diâmetro das partículas presentes na suspensão. Estima-se que para uma
suspensão de NaCl a 25 °C, diâmetro médio das partículas de 0,1 pm e força iônica de 0,001 M, o fator
de colisão é da ordem de 0,075. Desta forma, o tempo necessário para se obter remoção de 50 % da
concentração de víms no exemplo anterior elevar-se-ia para 2867 dias.
A modelação matemática dos encontros ortocinéticos fundamenta-se no modelo inicialmente
proposto por Smoluchowski (1917) para regime laminar:

N = -i- = NiN2G(di + d2)3 (8.5)

Em que:
G: gradiente de velocidade de floculação (s"!);
N) e N2: número de partículas de diâmetros d[ e d2 por unidade de volume (n°/m3).

Assumindo-se a esfericidade da partícula de referência, considerando as forças externas e as


hidrodinâmicas, tem-se:

Jok = = —4p-ao G r3 (No)2 ( 8.6)


dt 3
Em que:
Jok: taxa de encontros com a partícula de referência decorrente dos movimentos ortocinéticos (s'1);
ao: fator de eficiência das colisões decorrentes dos encontros ortocinéticos;
a: raio da partícula de referência (m).

Evidentemente que quando as forças de repulsão eletrostática predominam, a 0= 0, a suspensão


permanece estável.
A combinação dos encontros pericinéticos e ortocinéticos, equações 8.4 e 8.6, admitindo ao =
ap consubstancia-se na equação 8.7:

Jok _ 4 |i G r 3
(8.7)
Jpk K Ta

A supremacia da relevância da floculação ortocinética confirma-se ao se calcular a relação Jok/


Jpk na agregação de partículas de 10 pm - dimensão compatível à de cistos e oocistos de protozoários
-, para gradiente de velocidade de 30 s'1e água à temperatura de 20 °C (293 °K). Nestas circunstâncias,
a formação dos flocos devido aos encontros ortocinéticos supera em mais de 3700 vezes à dos
pericinéticos.
Acredita-se que, para partículas da ordem de 0,1 pm, o fenômeno de agregação seja governado
pelo movimento Browniano. Quando, após as aglomerações, as partículas passam a adquirir tamanho
superior a 1 pm, a formação dos flocos decorre dos encontros ortocinéticos. Na tabela 8.1 é comprovada
tal assertiva.

Tabela 8.1. Relação entre o gradiente de velocidade de floculação e o diâmetro máximo das partículas para a qual
são equânimes os movimentos pericinéticos e ortocinéticos à temperatura da água de 25 °C.
Gradiente de Velocidade (s1) 1 10 20 50 100
Diâmetro das partículas (pm) 2,1 1,0 0,8 0,6 0,46

Fonte: Ives (1978).

O terceiro mecanismo de floculação refere-se à sedimentação diferencial, decorrente da


desuniformidade de volume e de densidade dos flocos formados. Assim, os flocos adquirem distintas
velocidades de sedimentação, concorrendo para que no movimento descendente na unidade de
decantação ocorram os choques e a consequente formação de flocos mais pesados. Embora em
tese a sedimendação diferencial também possa ocorrer nos interstícios do meio filtrante - por ser a
sedimentação um dos mecanismos intervenientes na filtração -, e por conseguinte nas estações de
filtração direta, este fenômeno adquire maior relevância para as estações de tratamento com tecnologia
convencional de potabilização, sucedendo-se com maior intensidade no início da unidade de decan­
tação quando a concentração de flocos afluente é mais elevada. Acresce-se ainda o fato do tempo de
detenção nestas unidades ser da ordem de 2 horas, elevando a probabilidade de novos contatos entre
os flocos favorecendo a posterior deposição. Constata-se, em diversas estações de tratamento dotadas
de unidades de decantação de escoamento horizontal, que parcela significativa dos flocos sedimenta-se
antes do primeiro terço do comprimento do decantador, também como consequência deste mecanismo
de floculação.
Amodelação da sedimentação diferencial apoia-se na lei de Stokes, assumindo que o movimento
descendente das partículas se efetua em regime laminar.

g (pp - pa) d2
vt = ( 8. 8)
18 p
Em que:
g: aceleração da gravidade (m/s2);
vt: velocidade terminal de sedimentação (m/s);
pa e pp: massas específicas da água e da partícula (kg/m3).

A medida que a velocidade de sedimentação aumenta aparece uma força frenante, na direção
oposta denominada de força de arraste, definida por Stokes por meio da equação 8.9:

Fd = 3 tt p v d (8.9)

Na qual:
Fd: força de arraste (N);
v: velocidade de sedimentação da partícula de diâmetro d (m/s).

Estima-se que uma partícula com diâmetro dj sedimentando com velocidade vi se chocará com
todas as partículas de diâmetro dj e velocidade vj. Considerando Ni e Nj os números de partículas
por unidade de volume com diâmetros di e dj, o número de encontros em razão da sedimentação
diferencial pode ser estimado pela equação 8.10 (Amirtharajah; 0 ’Melia, 1990):

Jsd = -^(di + dj)2(vi + vj)ni Nj ( 8 . 10)

Em que:
Jsd: taxa de encontros com a partícula de referência decorrente da sedimentação diferencial (s_I);

Substituindo os valores das velocidades de sedimentação dados pela equação 8.8, obtém-se
pela equação 8.10 o modelo para a sedimentação diferencial.

Jsd = 71 gi f P— ^ - ( d i + dj3(di - dj)Ni Nj ( 8. 11)


72 p pa

Desta forma, a agregação das partículas desestabilizadas assume a forma geral representada
pela equação 8.12:

Jij = Kmt Ni Nj ( 8. 12)

A constante Kmt é função do mecanismo de transporte predominante e na tabela 8.2 são


enfocados os mecanismos de transporte de partículas coloidais presentes em suspensões mono e
heterodispersas, para a qual assume-se ap = ao = 1,0.
CA PITULO 08

214
Tabela 8.2. Cinética da floculação de suspensões mono e heterodispersas.
M ecanism o d e Transporte Suspensão H eterodispersa Suspensão M o n o d isp e rsa
Floculação Pericinética ... „„ 2 k Ta (di + dj)2 K p = 4 kTa
Kp~ 3 p di dj 3p

Floculação Ortocinética
Ko = {di +gdj)3G K o = 2d3 G

Sedimentação Diferencial Ks = 0
Ks = rc g l5 ~~A (di + dj) ’ (di - dj)

Na figura 8.4 apresenta-se desenho esquemático dos mecanismos de floculação e respectiva


unidade da estação de tratamento na qual os mesmos predominantemente se sucedem.

Floculação Pericinética Movimento Browniano e ação da gravidade

Mecanismo < Floculação Ortocinética Introdução de energia externa


da Floculação
Sedimentação Diferencial Desuniformidade de volume e densidade dos flocos

Unidade de
Floculador Decantador
Mistura Rápida

Figura 8.4. Mecanismos de formação dos flocos em estação convencional de tratamento de água.
Fonte: Libânio (2000).

Com o mesmo intuito, apresenta-se na tabela 8.3 visão geral dos processos envolvidos na
agregação das partículas coloidais e suspensas presentes nas águas naturais, e as unidades da estação
de tratamento onde, preponderantemente, estes ocorrem.

Tabela 8.3. Visão geral dos processos de agregação das partículas.


Fenôm eno A ção . Term inologia U n idade da Estação
Formação das espécies Preparo da solução de Preparo da solução de Tanques de preparo de solução
hidrolizadas coagulante coagulante
Dispersão do coagulante Mistura rápida M edidor Parshall, Vertedores, Agitadores
mecanizados e Malhas difusoras
Desestabilização das Compressão da camada Coagulação
partículas difusa
Adsorção-Neutralização Coagulação
Formação de pontes Coagulação
Varredura Coagulação *
Formação dos flocos Movim ento Browniano Floculação Pericinética Floculadores
Formação dos flocos Gradiente de Velocidade Floculação Ortocinética Floculadores, Canais de água floculada,
cortinas de distribuição e comportas de
acesso aos decanta d ores
Formação dos flocos Velocidade de sedimentaçãi Sedimentação Diferencial Decantadores

* Dependendo da configuração da estação de tratamento esta operação pode se iniciar na unidade de mistura rápida e se concretizar na primeira
câmara de floculação.
Fonte: Adaptada de James M. Montgomery (2005).
Mecanismos de agregação e ruptura dos flocos

O conjunto de fenômenos físicos que caracterizam os mecanismos de transporte intervenientes


na floculação abordados anteriormente converge para outros dois mecanismos, tão essenciais quanto
conflitantes à eficiência desta operação: a agregação e a ruptura dos flocos. Nessa premissa, em função
das características da água e das condições de coagulação e floculação, o crescimento dos flocos
efetua-se até um tamanho limite para o qual se equivalem as tensões de cisalhamento e as forças de
aglutinação que mantêm as partículas desestabilizadas aderidas à estrutura do floco. Com o progressivo
aumento das dimensões e da densidade, aliada à melhor sedimentabilidade, ocorre elevação da área
superficial dos flocos favorecendo a prevalência das forças hidrodinâmicas que tendem a provocar o
descolamento destas partículas.
Concorre para maximizar os efeitos da ruptura o fato dos flocos rompidos dificilmente voltarem
a se formar para as mesmas condições de floculação, mesmo quando se verifica o emprego de polímeros
orgânicos como coagulantes primários. Nestes casos, após a ruptura do floco, há tendência de que os
segmentos dos polímeros envolvam completamente a mesma partícula, reestabilizando-a e evitando
areagregação.
A origem dessa ruptura dos flocos é controvertida. Uma vertente aponta como principal
mecanismo de ruptura o diferencial de pressões existentes em lados opostos do floco, provocando sua
deformação (Tambo; François, 1991). Outra preconiza que as tensões de cisalhamento haverão de se
manifestar de forma menos significativa quando os turbilhões forem de dimensões bastante reduzidas
ou grandes o suficiente para envolver completamente o floco. Tais esforços de cisalhamento atingem
seu ponto máximo para os turbilhões de dimensões equivalentes ao diâmetro dos flocos favorecendo
a ruptura. Desta forma, as tensões de cisalhamento tendem a crescer com o tamanho dos turbilhões ou
dos flocos culminando com um tamanho máximo dos flocos, para cada condição de floculação, para
o qual as forças de agregação que mantêm as partículas primárias agregadas suplantam as tensões
de cisalhamento atuantes na superfície dos flocos (Parker; Kaufman; Jenkins, 1972). Evidentemente
as condições de floculação englobam as características da água, a dosagem e pH de coagulação, o
gradiente de velocidade e o tempo de floculação como principais balizadores.
Diversos pesquisadores reportam-se à intrínseca relação entre o tamanho máximo do floco e os
dois principais parâmetros físicos da floculação. Duas relações de proporcionalidade foram delineadas
para floculação realizada utilizando-se polímero como coagulante primário. A primeira reporta-se à
energia dissipada na massa líquida dada pela equação 8.13 (Amirtharajah; Tambo, 1991):

dm ax a e °’5 (8.13)
Na qual:
dmax: diâmetro máximo do floco;
e: potência aplicada por unidade de massa108;
w: expoente adimensional definido em função do regime de turbulência e do tipo de floco.

A segunda relação estimou o diâmetro máximo do floco em função do tempo ótimo de detenção
na unidade de floculação:

dm ax a Tp (8.14)
Na qual:
T: tempo de floculação ótimo;
(3: expoente variável de 0,2 a 0,5.

108. No Capítulo 7 apresentou-se a equação que relaciona o gradiente de velocidade médio à potência dissipada
por unidade de massa, na fonna Gm = (s /v)0i5.
CAPÍ TUL O 08
Na equação 8.14 o tempo para se atingir o tamanho máximo dos flocos é governado pela
intensidade de agitação conferida à massa líquida, variando de 1 a 3 min para rotação do agitador de
500 rpm e de 6 a 8 min para 250 rpm. Para cada condição de floculação havia uma melhor dosagem de
polímero que estava sempre associada ao menor gradiente de velocidade.
A modelação matemática dos antagônicos mecanismos de agregação e ruptura dos flocos
fundamenta-se inicialmente na equação 8.15 que contempla a redução do número de partículas afluente
(N) durante a floculação (Argaman, 1971):

dN = - fimcão de aeranacão (8.15)

Em que:
N: número de partículas primárias por unidade de volume no tempo t (n°/m3).

A fünção de agregação é delineada inicialmente com base no modelo de Smoluchowski (1917) para
o regime laminar, apresentado na equação 8.5. Para uma suspensão monodispersa, na qual di = dj = d e ni
= nj = n, e, uma vez que apenas uma parcela dos choques resultará efetivamente em agregação, inserindo o
mencionado fator de eficiência das colisões (oc0), a equação 8.5 transforma-se (Camp; Stein, 1943):

N = a o y n 2 d3 G (8.16)

Na qual:
n: número de partículas primárias por unidade de volume no tempo t (n°/m3).

Assumindo a esfericidade dos flocos, a fração volumétrica (§) destes definir-se-á como o
volume dos flocos por unidade de volume da dispersão:

(j> = M l (8.17)
6
Admitindo que cada colisão efetiva conduza ao desaparecimento de duas partículas desesta-
bilizadas e combinando as equações 8.16 e 8.17, tem-se:

dn _ 4 cio ([>n G ^g ^g-^


dt n

Desta forma, a taxa de agregação das partículas passa a ser:

= - K a nG (8.19)
dt

Em que:
Ka: constante adimensional de agregação dos flocos obtida experimentalmente por meio de ensaios
em reatores estáticos.

Por outro lado, a função de ruptura contempla o progressivo descolamento das partículas
desestabilizadas da estrutura dos flocos, à medida que a floculação progride, consolidando-se na
equação 8.20:

4°- = K b N„G2 (8-20)


dt
Na qual:
Kb: coeficiente de ruptura dos flocos (s).
A equação 8.20 evidencia a relevância do gradiente de velocidade na ruptura dos flocos
formados no início da floculação. A combinação das equações 8.15, 8.19 e 8.20 resulta na expressão
geral que contempla os mecanismos de agregação e ruptura dos flocos sintetizada pela equação 8.21:

% = - K a n G + K b n0 G2 (8.21)
dt
A relevância da magnitude do gradiente de velocidade mostra-se tanto pela sua lógica inserção
nos dois termos da equação 8.21, como aponta para os efeitos danosos à eficiência da floculação o
emprego de gradientes elevados que haverão de favorecer mais intensamente a ruptura ao invés da
agregação das partículas.
A integração da equação 8.21 apresenta a alteração do número de partículas primárias em cada
câmara de floculação resultando em (Argaman; Kaufman, 1970):

1 + KAGf-^-
JNi ___________m_ ( 8.22)
Nr 1 + K bG í 2^

Em que:
m: número de câmaras da unidade de floculação;
Tf: tempo de floculação (s);
Ni1, Njm: número de partículas primárias no afluente e na m-ésima câmara do floculador por unidade de
volume e de tempo (n°/m3).

Partindo da premissa que os coeficientes de agregação e ruptura mantenham-se inalterados em


todas as câmaras, os mesmos pesquisadores obtiveram a equação 8.23 ao enfocar a remoção global de
partículas primárias em um reator de câmaras em série:

Nf_ = _________ (1 + KaGf * Tf » uT l)__________


(8.23)
Nr 1 + KBG f 2T f mA '" J ( l + KAGf * Tf * m”1)'1

Em que:
Gf*: gradiente ótimo de velocidade (s"1);
Tf*: tempo ótimo de floculação (s).

O tempo de floculação e o gradiente de velocidade ótimos referenciados na equação 8.23 são


determinados com base em ensaios em reatores estáticos. Para a floculação efetuada em reatores de
escoamento contínuo de mistura completa (m = 1), a equação 8.23 resume-se à forma praticamente
idêntica à da equação 8.22:

n? . i + k ag ; t ; , ,onA,
n T~ 1 + K . G Í Ü V (8'24)

Para a determinação dos coeficientes de agregação e ruptura, assume-se que estes são definidos
em função das características da água e permanecem constantes para as distintas condições de
floculação, ou seja, para as diversas combinações de Gf x Tf e respectivas eficiências (No/N). Desta
forma, definida a melhor dosagem de coagulante e o pH de coagulação, variam-se os parâmetros Tf e
Gf, aferindo-se a remoção da característica de interesse, e determina-se KAe KB.
Interessante destacar que os valores de KA e KB determinados por Argaman e Kaufman - de
5,14 * 1CT5e 1,08 v 10"7s, respectivamente -, para água de turbidez moderada e sulfato de alumínio como
coagulante, são da mesma magnitude dos obtidos em distintas situações. Por exemplo, estudo para água
com turbidez de 200 uT e cor verdadeira de 5 uH, coagulada no mecanismo da varredura e gradiente de
velocidade de 10 a 100 s'1, apontou valores de KAe KB de 3,38 x 10'4 e 8,07 x 10"7s, respectivamente.
Outra pesquisa (Libânio; Pádua; Di Bernardo, 1996) com três distintas águas sintéticas - turbidez média
de 22 uT, 4 uT e 175 u T -, também coaguladas na varredura com sulfato de alumínio e baixo gradiente
de velocidade, apontou valores de KAde 2,34 x 10"4, 22,2 x IO"4 e 0,79 x l(f4, e ligeiramente inferiores
paraKB de 1,39 x 10'6 s, 3,69 x 10"6 s 14 x 10"6 s, respectivamente.
A validade da equação 8.23 foi aferida por intermédio de ensaios em reator de mistura completa
com agitadores de paleta e tipo turbina, cujos resultados estão apresentados na figura 8.5.

Figura 8.5. Variação da eficiência da floculação em função de Tf e Gf.

A figura 8.4 apresenta os resultados em função da relação número inicial e final de partículas
primárias, para floculação realizada com uma e quatro câmaras. Desta forma, evidencia-se a influência
do número de câmaras (m) na performance da unidade de floculação, pois, por exemplo, para Gf da
ordem de 60 s'1 o menor valor de Tf para o qual obter-se-ia remoção de 75 % (N°/Nm = 4) seria da
ordem de 2000 s para uma câmara e menos que 1000 s para quatro câmaras.
Os resultados comprovaram a eficácia do modelo proposto e demonstraram a inviabilidade do
Número de Camp109 como parâmetro balizador da floculação. Para tempos de floculação de 8, 12, 16
e 24 min e baixa velocidade de sedimentação, demonstrou-se que há clara associação entre Tf e Gf.
Neste mesmo trabalho os autores concluíram ainda que:
• os parâmetros físicos concernentes à eficiência da floculação são, basicamente, o tempo de
detenção e a potência aplicada à massa líquida (gradiente de velocidade);
• há um tempo de detenção mínimo abaixo do qual as taxas de agregação e erosão se
equivalem, reduzindo substancialmente a eficiência da floculação;
• um maior número de câmaras resulta em maior eficiência para um mesmo tempo de detenção
devido à redução do efeito de curto-circuito;
• para cada tempo de detenção existe um gradiente de velocidade a ele associado, pois há uma
relação direta entre o número de choques e a taxa de erosão dos flocos.

Indubitavelmente o modelo sintetizado pela equação 8.23 é adequado aos tempos usuais de
floculação empregados em tratamento de água. Todavia, o procedimento adotado pelos autores na
elaboração dos gráficos para a floculação realizada em reatores estáticos omitiu o improvável caráter
assintótico que o modelo preconiza para a eficiência em relação ao tempo de floculação. Como conse­

109. Conceito, a ser posteriormente melhor detalhado, que se refere à aproximadamente idêntica probabilidade
de choques em cada câmara por meio do produto Gradiente de velocidade x Tempo de floculação.
CA PÍ TU LO 08

V 1 Ol
quência, sua extrapolação para tempos de floculação mais elevados contraria os fundamentos dos
mecanismos de agregação e ruptura. Esta assertiva confirma-se pela análise da figura 8.6, elaborada
empregando os mesmos valores de KA e KB determinados por Argaman e Kaufman aplicados à
equação 8.23, para uma única câmara de floculação (m = 1). Desta forma, ao calcular a eficiência da
floculação - em termos de No/N - predefinindo-se o gradiente de velocidade e variando-se o tempo
de floculação explicita-se a imprecisão desse modelo para tempos mais elevados (Libânio; Pádua; Di
Bernardo, 1996).

Figura 8.6. Simulação da eficiência da floculação empregando a equação 8.19.

De uma breve análise da figura 8.6 emergem duas incongruências do modelo. A primeira consiste
no caráter assintótico da evolução da eficiência em relação ao tempo de floculação, especialmente para
os gradientes de velocidade mais altos (> 80 s'1). Certamente, com o aumento do tempo de floculação
- sobretudo para gradientes de velocidade de maior magnitude - eleva-se a perspectiva de ruptura
dos flocos, de forma que assumir a assintoticidade da eficiência na formação dos flocos em relação a
este tempo constitui indubitavelmente um sofisma. A segunda incongruência centra-se na tendência,
para os gradientes mais baixos, do - improbabilíssimo - aumento infinito da eficiência com o tempo
de floculação. O que provavelmente ocorrería está representado para as curvas dos gradientes de 120
e 160 s"1, com a redução da eficiência somente se manifestando para tempos de floculação ainda mais
elevados.
Nesta mesma linha, outros trabalhos experimentais têm confirmado nítida redução da eficiência
com o contínuo aumento do tempo de floculação. Um dos estudos mais abrangentes, realizado
em escala de laboratório para dez águas naturais e sintéticas distintas, contemplou a avaliação da
influência destes dois parâmetros em termos de remoção de cor aparente e turbidez. O estudo apontou
nítida associação do gradiente de velocidade com um respectivo tempo de detenção, ou em outras
palavras, para cada tempo de floculação há um único gradiente para o qual a eficiência é máxima,
e, na mesma vertente contemplada pelo Número de Camp, para tempos de floculação mais altos
associam-se gradientes mais baixos e vice-versa. Esta associação é evideúciada na figura 8.7, na qual
são apresentados os gradientes de velocidade ótimos obtidos para cada tempo de floculação avaliado
e a respectiva eficiência auferida em termos de cor aparente remanescente para as mesmas condições
de sedimentação (Mendes, 1989).
Da análise dos resultados da figura 8.7 infere-se que para maiores tempos de floculação,
associados a gradientes de velocidade de menor magnitude, a eficiência na remoção das partículas
tende a crescer até atingir um patamar no qual pequena melhoria é verificada. A partir do tempo de
floculação de 25 min (associado ao gradiente de 34 s'1) a eficiência toma-se praticamente assintótica.
Embora os ensaios experimentais não tenham contemplado tempos de floculação superiores a
60 min - mesmo porque praticamente inaplicáveis em escala real, salvo em estações nas quais a
vazão afluente reduz-se significativamente no período da madrugada - é plausível supor que a partir
de um determinado tempo a eficiência começaria a se reduzir, consequência da prevalência dos
efeitos de ruptura dos flocos.

Figura 8.7. Relação entre o tempo de floculação e o gradiente de velocidade ótimo.

Embora a consistência do floco varie com as condições de coagulação e características da


água bruta, pode se afirmar que, em escala real, gradientes de velocidade mais baixos (inferiores a
30 s'1) somente em circunstâncias atípicas, em termos de tempo de floculação, haverão de favorecer
a ruptura dos flocos. Para gradientes mais baixos a tendência assintótica do aumento da eficiência
com o tempo de floculação deixa de ocorrer somente para tempos mais elevados e neste contexto é
absolutamente incomum no País unidades de floculação com tempos de detenção superiores a 50 min.
Em contrapartida, para gradientes de velocidade mais elevados, o tempo a partir do qual predominam
os mecanismos de ruptura ocorre dentro do intervalo no qual se insere a maioria das unidades de
floculação em operação nas estações de tratamento de água brasileiras. Desta forma, verifica-se, a não
ser em situações muito peculiares, o aumento na eficiência da floculação - obtenível com a construção
de novas câmaras ou de unidades de floculação em paralelo - quando o tempo de detenção é elevado
e os gradientes de velocidade aplicados são de menor magnitude.

Fatores intervenientes na floculação

Evidentemente que todos os fatores intervenientes no processo da coagulação podem ser


listados como relevantes na eficiência da floculação. Além da coagulação propriamente dita, o gradiente
de velocidade e o tempo de detenção ou tempo de floculação constituem-se indubitavelmente nos
principais fatores intervenientes na floculação, ainda que para as unidades mecanizadas as geometrias
das câmaras e das paletas possam também ser secundariamente mencionadas. Tais parâmetros
governarão a densidade e o tamanho dos flocos formados, reduzindo a turbidez e/ou cor aparente da
água decantada ou, para estações de filtração direta, conferindo aos flocos maior resistência aos efeitos
de cisalhamento provocado pelas forças hidrodinâmicas do escoamento maximizando a retenção nos
interstícios do meio filtrante.
Até meados da década de 1960, nos projetos de estações de tratamento elaborados no País, as
unidades de floculação hidráulicas eram dimensionadas em função da velocidade de escoamento é do
tempo de detenção hidráulico. O primeiro parâmetro deveria ser de tal magnitude, usualmente inferior
a 0,30 m/s, que permitisse os choques entre as partículas e evitasse a ruptura ou sedimentação dos
flocos formados nas primeiras câmaras. Para as unidades mecanizadas, além do tempo de detenção,
empregava-se a velocidade periférica das paletas, limitada em 75 cm/s. Atualmente, ainda que o tempo
de detenção continue sendo fator preponderante, a inserção do conceito de gradiente de velocidade
de floculação relegou à velocidade de escoamento como parâmetro de projeto papel secundário no
dimensionamento destas unidades.
No sentido estrito do termo, o tempo de detenção hidráulico correspondería à razão entre o volume
útil da unidade de floculação e a vazão afluente à mesma. Este parâmetro abarca o tempo necessário à
redução do número de partículas desestabilizadas, consequência dos choques promovidos pela energia
dissipada na massa líquida. Contudo, na prática o valor teórico somente se verifica para as unidades de
floculação hidráulica dotadas de maior número de câmaras (preferencialmente superior a oito). Para as
unidades mecanizadas, cujo número de câmaras raramente é superior a quatro, há significativo efeito
de curto-circuito. Nestes casos, parcela substancial da vazão afluente permanece na unidade por tempo
inferior ao teórico - e esta redução é tão mais significativa quanto menor o número de câmaras para o
qual podem ter sido definidas as dosagens dos produtos químicos utilizados na coagulação. ■
Para definição do número de câmaras da unidade de floculação alguns fatores devem ser
considerados. Para as unidades mecanizadas se avalia a relação entre o custo dos equipamentos e a
inevitável perspectiva de redução da eficiência em razão dos curtos-circuitos. Alguns pesquisadores
recomendam mínimo de três câmaras, ao passo que outros reforçam a premissa de que os custos de
instalação e manutenção dos equipamentos inviabilizariam unidade de floculação com mais de quatro
câmaras. A NBR 12216 corrobora esta assertiva ao recomendar que preferencialmente as unidades
de floculação mecanizadas sejam dotadas de pelo menos três câmaras. No País, são raras as estações
de tratamento, principalmente as de grande porte, dotadas de floculadores mecanizados com mais de
quatro câmaras.
Para os floculadores hidráulicos a contrapartida da redução dos efeitos de curto-circuito reside
no aumento da perda de carga - consequência do maior número de aberturas - , podendo onerar os
custos da construção da unidade de decantação. Quando da frequente construção das unidades de
floculação e decantação sob a mesma fundação, a elevação da perda de carga no floculador pode
concorrer para redução da altura útil do decantador.
Os efeitos negativos de curto-circuito são implicitamente contemplados nas próprias recomen­
dações normativas. Por esta razão, a NBR 12216 preconiza que, na ausência de ensaios, os tempos de
detenção para as unidades de floculação hidráulicas e mecanizadas devam ser de 20 a 30 min e 30 a
40 min, respectivamente.
Embora a magnitude do curto-circuito relacione-se, além do número de câmaras, com o
tamanho e disposição das aberturas entre as câmaras - conferindo certa individualidade a cada unidade
de floculação - , sua estimativa pode ser realizada experimental ou matematicamente. A primeira pode
ser objeto de estimativa em escala-piloto ou real e a segunda em nível de projeto. Neste contexto, a
NBR 12216 faz vaga menção com intuito de evitar a passagem direta do fluxo através das câmaras
e, especificamente à disposição das passagens, recomenda a avaliação das direções de fluxo impostas
pelo sistema de agitação pela entrada da água na câmara.
Após a constmção da unidade, a determinação do tempo real de floculação toma-se imperiosa
visando a conferir maior fidedignidade aos resultados dos ensaios para definição das dosagens de
coagulantes. O método recomendado para esta estimativa consiste no ensaio com traçador. Este ensaio,
em síntese, constitui-se em alimentar o floculador com massa conhecida de um produto químico
selecionado, determinando-se sua concentração na saída da unidade em intervalos regulares de tempo.
O tempo de coleta para o qual verifica-se a máxima concentração do traçador (pico) corresponde ao
que mais se aproxima do tempo de detenção real da unidade de floculação.
Na figura 8.8 são apresentados resultados de ensaios com traçador realizados em unidade-
piloto para uma a quatro câmaras, empregando-se azul de metileno como traçador, leituras em
espectrofotômetro a cada 2 min e tempo de detenção teórico de 30 min.

Tempo de Detenção Real/Tempo de Detenção Teórico

Figura 8.8. Resultados de ensaios de traçador em unidade-piloto de floculação.110

Os resultados apresentados na figura 8.8 destacam os efeitos de curto-circuito nas unidades de


floculação mecanizadas. A despeito das inevitáveis flutuações nas leituras da transmitância, percebe-se
que para apenas uma câmara de floculação a concentração máxima do traçador manifestou-se apenas
4 min após a dispersão, elevando-se para 12, 18 e 24 min, à medida que se acrescentava uma câmara.
É intuitivo inferir que com número infinito de câmaras, a concentração máxima ocorrería para a razão
Treal/Tteórico igual a unidade, ou seja, não havería efeito de curto-circuito.
Ainda que considerando as mencionadas características intrínsecas de cada unidade de
floculação, alguns modelos matemáticos podem ser utilizados como razoável estimativa do tempo real
de detenção. Dentre estes, o modelo consistido na equação 8.25 (Camp, 1953):

C _ nn / t Y -1 -nt/T
(8.25)
Co (n — 1)! VT /

Na qual:
n: número de câmaras em série da unidade de floculação;
C0, C: respectivamente, concentração inicial do traçador e na saída da unidade após tempo t (mg/L);
t: tempo real de floculação (min);
T: tempo teórico de detenção hidráulico da unidade de floculação (min).

O emprego da equação 8.25 exemplifica-se na figura 8.9 para unidade de floculação com três
câmaras.10

110. Os resultados deste tipo de ensaio também podem ser apresentados em termos de frequência acumulada,
tomando mais simples relacionar o percentual da quantidade de traçador aplicada - em termos de volume ou
massa - que deixa a unidade à razão Treal/Tteórico.
n C A P I T U L O 08

223
1

0,8 -

0,6 -

0,4 -

0,2 -

0 0,5 1 1,5 2 2,5

Tempo de Detenção Real/Tempo de Detenção Teórico

Aplicação da equação 8.25 na avaliação do efeito de curto-circuito para unidade de floculação com
F ig u r a 8 .9 .
três câmaras.

Da análise da figura 8.9 constata-se que aproximadamente 4 % do volume do traçador deixa


a unidade de floculação em um quarto do tempo de detenção teórico e 19 % na metade deste tempo.
Interessante perceber que estas estimativas coadunam com os resultados experimentais anteriormente
apresentados na figura 8.8, ao se considerar as áreas sob a curva resultante do ensaio realizado com
três câmaras.
Também nesse contexto, modelo ainda mais simples foi proposto, apresentado na equação 8.26,
como forma de prever nos ensaios o efeito de curto-circuito, envolvendo os mesmos parâmetros da
equação 8.25 (Bratby, 1981).

T= (8.26)

De acordo com a equação 8.26, para uma unidade de floculação com três câmaras em série, o
tempo de detenção real seria aproximadamente 66 % do teórico, estimativa também sustentada nos
ensaios apresentados na figura 8.8 (tempo real da ordem de 60 % do teórico). Nesta premissa, para
uma unidade de floculação hidráulica dotada de 10 câmaras o tempo real toma-se 90 % do teórico,
comprovando o ínfimo efeito de curto-circuito.
Conforme salientado, os efeitos de curto-circuito somente assumem relevância, salvo raríssimas
exceções, para unidades mecanizadas, pois a própria concepção dos floculadores hidráulicos favorece
a redução do fenômeno. Na prática, em termos de projeto, o curto-circuito pode ser minimizado pela
disposição alternada das aberturas em relação à direção do escoamento. Embora pouco utilizada, a
inserção de anteparos logo após as aberturas - similarmente às unidades hidráulicas de escoamento
helicoidal - também constitui alternativa viável.
Operacionalmente, com objetivo de minimizar tais efeitos, nas unidades mecanizadas é comum
alternar o sentido da rotação das paletas, ou seja, na primeira câmara o eixo gira no sentido horário para
na segunda no sentido anti-horário e assim sucessivamente. Provavelmente este procedimento tenha
significância para gradientes de velocidade mais elevados, pois ensaio com traçador em unidade-piloto
com três câmaras, realizados com os agitadores funcionando e desativados, apontou a irrelevância
desta prática quando realizada para gradiente de 10 s"1(figura 8.10).

CA PÍTULO 08

2 24
Tempo de Detenção Real/Tempo de Detenção Teórico
Figura 8.10. Ensaio com traçador para unidade de floculação com três câmaras.

Os efeitos de curto-circuito puderam ser verificados em estudo em escala piloto, empregando


água sintética com turbidez da ordem de 22 uT, para floculação realizada com gradiente de velocidade
de 10 s"1e tempo de detenção de 45 min avaliada com quatro velocidades de sedimentação distintas.
A eficiência de remoção da turbidez para floculação realizada com quatro câmaras foi superior
em todas as avaliações, conforme mostra a figura 8.11, tendendo a se tomar mais evidente para
velocidades de sedimentação elevadas. As pequenas inconsistências verificadas para as velocidades
de sedimentação de 3,5 e 5,0 cm/min provavelmente decorreram de imprecisões na coleta das
amostras (Libânio, 1995).

Figura 8.11. Avaliação do efeito de curto-circuito em escala piloto.

Em escala real, a perspectiva de alterar o tempo de detenção é limitada. Para reduzi-lo - não
se tem notícia de alguma estação de tratamento na qual esta prática tenha sido empregada - basta
isolar uma ou mais câmaras, desde que manobra de registros ou comportas o permita. Obviamente
o tempo de detenção pode ser elevado com a constmção de outra unidade de floculação em paralelo
à(s) existente(s) ou aumentando-se o número de câmaras. Neste último caso, há de se avaliar com
acuidade o aumento da perda de carga total na unidade. Outra alternativa, aplicável sobretudo a
sistemas de pequeno porte nos quais as estações funcionem algo como 12 a 16 h diárias, consiste em
reduzir a vazão afluente, elevando-se o tempo de detenção e o período de funcionamento da unidade de
tratamento. Este procedimento somente viabiliza-se caso o volume de reservação do sistema permita
a redução da produção nos períodos de maior consumo do dia.
Gradiente de velocidade
As dimensões e a densidade dos flocos formados são fortemente influenciadas pelas colisões
decorrentes das diferentes velocidades das linhas de corrente contíguas na seção transversal âo
escoamento. Conforme definido no Capítulo 7, à magnitude destas diferenças de velocidade atribui-
-se denominação de gradiente instantâneo de velocidade. Nas unidades de floculação hidráulicas e
mecanizadas a agitação conferida à massa líquida pode ser decorrente, respectivamente, das mudanças
de direção do escoamento ou da rotação dos agitadores.
Como também mencionado no Capítulo 7 para as unidades de mistura rápida mecanizadas,
há sensível desuniformidade da potência dissipada na massa líquida, concorrendo para variações
sensíveis do gradiente de velocidade no interior da câmara. Desta forma, o gradiente de velocidade
rnédio de floculação (Gf), que corresponde ao trabalho total por unidade de tempo e volume, resulta:

(|)m
G f = (8.27)
p Vol p
Em que:
P: potência dissipada na massa líquida (W);
Vol : volume da câmara (m3);
(j)m: potência por unidade de volume dissipada na massa líquida (J/s m3).

A influência do gradiente de velocidade na formação dos flocos tem sido avaliada há mais
de três décadas. A relação tamanho/densidade do floco em função do gradiente de velocidade de
floculação já foi comprovada experimentalmente e, embora não possa ser considerado um paradigma,
o emprego de gradientes de velocidade mais elevados tende a favorecer a formação de flocos mais
densos e de menor dimensão e vice-versa. Neste contexto, pesquisa avaliou a relação entre o tamanho
e a densidade de flocos formados com sulfato férrico para gradientes de floculação de 11, 22, 30 e
40 s'1. Tais pesquisadores demonstraram que 0 aumento do tamanho do floco conduz à redução de sua
densidade, independente da magnitude do gradiente de floculação (Lagvankar; Gemmel, 1968).
Em contrapartida, quando a floculação se realiza com baixo gradiente de velocidade e longo
tempo de detenção, os flocos formados tenderão a apresentar maiores dimensões, menor densidade -
com alta percentagem de água incorporada à estrutura do floco - e menor resistância ao cisalhamento,
mas provavelmente com maior sedimentabilidade adequando-se às estações convencionais. Todavia,
pode se verificar o progressivo depósito nas camadas superficiais do meio filtrante dos flocos não
sedimentados concorrendo para, além de acelerar 0 consumo da carga hidráulica disponível, deteriorar
a qualidade do efluente, pois as forças hidrodinâmicas nos interstícios do meio granular tenderão a
arrastar fragmentos dos flocos - por si só menos resistentes - à água filtrada.
Nesta linha, outro estudo realizado com água sintética e baixas velocidades de sedimentação,
concluiu que o aumento da dosagem de coagulante conduz à redução do Gf ótimo111 para o mesmo
Tf, apontando para maior probabilidade de ruptura flocos produzidos por dosagens mais elevadas.
Por outro lado, conforme salientado, o efluente de um floculador com alto G f e baixo T f tende a
apresentar, via de regra, flocos de menores dimensões, mais densos e mais resistentes ao cisalhamento,
apropriados à filtração direta ascendente ou descendente. Nesse caso parcela mais significativa do
meio filtrante será efetivamente empregada na filtração, concorrendo para gradual evolução da perda

111. Este conceito reporta-se ao gradiente de velocidade e/ou tempo de floculação, obtidos em ensaios em
reatores estáticos '{jar test), para o qual ocorre a máxima remoção de turbidez ou cor aparente, para uma
determinada velocidade de sedimentação.
CA PÍTULO 08

22 6
de carga e maior duração das carreiras dos filtros. Posteriormente, estes pesquisadores propuseram a
seguinte relação entre o gradiente ótimo e o tempo de floculação (Villegas; Letterman, 1976):

Gf*n T f = K (8.28)

Em que:
Gf*: gradiente de velocidade ótimo (s"1);
Tf: tempo de floculação (min);
K, n: parâmetros que dependem das características da água.

Por fim, no mesmo contexto, utilizando dois tipos de águas sintéticas - turbidez 200 uT e
cor verdadeira 5 uC; turbidez 5 uT e cor verdadeira 200 uC - coaguladas com sulfato de alumínio,
pesquisa em reatores estáticos verificou que, para os dois principais mecanismos de coagulação -
adsorção e varredura -, há um gradiente mínimo de velocidade Gm’, que maximiza a correlação dos
dados experimentais de Gm* e Tf. Desta forma, a equação 8.28 transforma-se (Mendes, 1989):

(Gm* - Gm’)n Tf = K (8.29)

Ao se plotar esses dados em um papel bilogaritimico, os valores de Gf tendem a se estabilizar


com o aumento de Tf. Como seria de se esperar, a correlação dos valores de GnT-GnT em função de
Tf aproximou-se de uma reta.

Variação do gradiente de velocidade ao longo das câmaras


Como nas unidades de mistura rápida, há na floculação relação intrínseca entre o tempo de
detenção (Tf) e o gradiente de velocidade médio (Gf) aplicado à massa líquida. Tal relação materializa-
-se no adimensional Gf.Tf usualmente denominado Número de Camp (NC)112. O conceito que o
fundamenta se refere à perspectiva de conferir idêntica probabilidade de choques entre as partículas
desestabilizadas. Assim, em tese, obter-se-ia eficiência de mesma magnitude se menores tempos de
detenção hidráulico estiverem associados a gradientes de velocidade mais elevados ou vice-versa.
Este pesquisador preconiza que unidades de floculação com NC de 20.000 a 200.000, gradientes de
velocidade de 20 a 74 s"1, hão de apresentar performance satisfatória.
Esta premissa ainda norteia o dimensionamento de alguns floculadores hidráulicos com resultados
satisfatórios. Nestes casos, conjuntos de número variável de câmaras de idênticas dimensões constituem
compartimentos com gradientes de velocidade distintos. Por exemplo, estação de tratamento de médio
porte dispõe de uma unidade de floculação de escoamento vertical projetada, para vazão afluente de
110 L/s, com dez câmaras e 24 min de tempo de detenção. O floculador apresenta o Io compartimento
composto por duas câmaras com gradientes de velocidade da ordem de 60 s"1(NC = 17.280), o 2o com
três câmaras com gradientes de 40 s'1(NC = 17.280), e o 3o com as cinco restantes e gradientes de 20 s"1
(NC = 14.400). Desta forma, NC em cada compartimento apresenta-se de mesma ordem de grandeza e o
valor total (48.960) insere-se na faixa recomendada por Camp.
Contudo, no conceito do NC residem duas impropriedades.Aprimeira consiste em desconsiderar
que a floculação envolve simultaneamente os mecanismos de agregação e ruptura, parcialmente
explicitados pela própria lei de Newton da viscosidade. A segunda impropriedade, consoante os
estudos de Argaman e Kaufman haviam confirmado, reporta-se ao próprio desempenho das unidades
mecanizadas, nas quais pelo menor número de câmaras toma-se impraticável a aplicação do conceito

112. Conceito atribuído a Thomas Camp em função do já citado trabalho Flocculation andFlocculation Basins.
Este trabalho é considerado um marco no tratamento de água e à época um clássico pela American Society
Civil Engineering.
° CAPITULO 08
227
do NC. Adicionalmente, conforme mencionado, ainda que em menor monta a floculação possa ocorrer
mesmo para NC próximos de zero, pois o transporte das partículas realizar-se-ia quer pelo movimento
Browniano, quer pela sedimentação diferencial.
A minimização dos efeitos de cisalhamento dos flocos pode ser alcançada pelo já citado emprego
de polímeros orgânicos como auxiliares de floculação. Tais produtos, quando suas dosagens são definidas
de forma acurada, favorecem a formação de flocos mais resistentes ao cisalhamento, mesmo para maior
grau de agitação da massa líquida. Uma segunda alternativa para minimizar a ruptura dos flocos e
elevar a eficiência da floculação consiste na gradual redução do gradiente de velocidade ao longo das
câmaras. Os próprios mecanismos de agregação e ruptura conferem lógica à ideia da redução gradual
do gradiente de velocidade ao longo das câmaras, pois à medida que a formação dos flocos se sucede
cresce a possibilidade de que tais flocos possam se romper pelos efeitos de cisalhamento. Desta forma, a
gradação minimiza a ruptura e favorece a agregação das partículas remanescentes.
Além da gradação dos gradientes de velocidade ao longo das câmaras - para as unidades
mecanizadas - e dos compartimentos - para as hidráulicas com idêntico objetivo de minimizar a
ruptura dos flocos já formados, os gradientes das passagens devem ser sempre inferiores ao da câmara
anterior. As recomendações da NBR 12216 apontam, na ausência de ensaios, para valores máximos e
mínimos de 70 e 10 s"1, respectivamente, mas não faz menção à necessidade da gradação. Em estações de
tratamento mais antigas é frequente o emprego de gradientes de velocidade constantes, especialmente
as dotadas de unidades de floculação hidráulica e não submetidas a reformas ou ampliações.
A proposição de reduzir progressivamente a magnitude do gradiente de velocidade não é nova.
De forma empírica, diversas estações brasileiras já fazem uso desta prática desde a década de 1970,
antes mesmo da publicação de resultados mais consistentes de pesquisas acerca do tema.
Nesta mesma época, a perspectiva da variação dos gradientes de floculação ao longo das
câmaras foi foco de um estudo com água sintética com alcalinidade de 50 mg/L CaC03 e pH de
coagulação de 7,0. Para as mesmas condições de mistura rápida foram executados diversos ensaios
de floculação - balizados por um Número de Camp de 72.000 - com gradientes variáveis ao longo
das câmaras, mantendo-se o tempo de floculação constante de 20 min. Aferiu-se o desempenho
da floculação para velocidades de sedimentação de 3,0 e 0,6 cm/min. Os principais resultados são
apresentados na tabela 8.4 (Tekippe; Ham, 1971).

Tabela 8.4. Principais resultados para floculação em reator de escoamento


contínuo de quatro câmaras com gradientes constante e variável.
Sequência* Turbidez Residual M é dia (uT)
. de G f ( s 1) Vsc = 3 ,0 cm /m in Vsc = 0 ,6 c m /m in
57,5 - constante 2.98 1.02
80 - 50 - 50 - 50 1.25 0.58
50 - 80 - 50 - 50 2.72 1.45
50 - 50 - 80 - 50 1.10 0.48
50 - 50 - 50 - 80 1.82 0.60
1 4 0 -3 0 -3 0 -3 0 1.28 0.32
30- 1 4 0 -3 0 -3 0 1.65 0.39 ,
3 0 - 30 - 1 4 0 -3 0 1.85 0.68
3 0 - 3 0 - 3 0 - 140 4.15 0.90
14 0 - 9 0 - 7 0 - 5 0 0.56
14 0 - 1 0 - 3 0 - 5 0 — 2.15
* Variação do gradiente de velocidade a cada 5 min.

Os dados da tabela 8.4 permitem inferir, como seria de se esperar, que há uma tendência de
uniformização dos resultados correspondentes à velocidade de sedimentação da ordem de 0,6 cm/min,
para quase todas as sequências de gradiente ensaiadas. Contudo, a floculação realizada com gradiente
CA PITULO 08
de velocidade variável decrescente apresentou consistentemente melhores resultados em termos de
remoção de turbidez, quando comparada à floculação com gradiente constante. Vale ressaltar que
alguns ensaios apresentaram resultados interessantes. A 4a sequencia de gradação do gradiente de
velocidade, na qual após 10 min de floculação o gradiente foi aumentado de 50 para 80 s"1, apresentou a
melhor remoção para ambas velocidades de sedimentação. Tal procedimento foi repetido também após
5 e 15 min de floculação sem, contudo, se obter melhores resultados. Embora não esteja explicitado
no trabalho, supõe-se que a escolha dos gradientes, e consequentemente das sequências, tenha sido
aleatória minimizando parcialmente a relevância da pesquisa.
Posteriormente, por intermédio de interpolações gráficas dos resultados de otimização da flocu­
lação em reatores estáticos, foi desenvolvida metodologia de gradação dos gradientes de velocidade ao
longo das câmaras de floculação. A aplicação desta metodologia pressupõe a realização de ensaios em
reatores estáticos com distintas combinações de tempos de floculação e gradientes de velocidade. Na
tabela 8.5 estão apresentados os resultados de ensaios realizados para velocidade de sedimentação de
3,5 cm/min, turbidez inicial de 22 uT e cloreto férrico como coagulante (Pádua, 1994).

Tabela 8.5. Turbidez remanescente para distintas combinações de gradiente de velocidade médio e do tempo de
floculação.
■ Tempo de
Gf = 20 s'1' ' Gf = 30 s‘1 Gf = 40 s'1 Gf = 55 s-1 Gf =70 s
floculação (min)
5,0 22 18 14 8,4 18
7,5 8,6 5,5 5,7 6,2 7,3
10 4,8 3,5 3,9 4,3 9,0
15 2,7 ' 2,2 4,2 6,7 15
. 20 1,4 1,5 4,0 6,9 13
30 1-3 2,5 9,0 9,2 16
45 1,2 3,2 6,2 15 16
60 2,2 3,5 4,0 7,0 7,4

Como exemplo de aplicação desta metodologia, considera-se unidade de floculação de quatro


câmaras e tempo de floculação teórico de 20 min . A definição do gradiente da primeira câmara é
simples. Para o tempo de 5 min referente a cada câmara, o gradiente de velocidade de 55 s"1apresentou
o melhor resultado de acordo com a tabela 8.5 (Pádua; Di Bernardo; Libânio, 1998).
Para a determinação dos demais gradientes de velocidade faz-se necessário a elaboração de
gráficos, semelhantes ao da figura 8.11, relacionando a eficiência - usualmente em termos de remoção
ou turbidez remanescente - ao tempo de floculação para cada gradiente de velocidade. A definição dos
gradientes seguintes fia-se na premissa de que a água ao adentrar na câmara seguinte já foi submetida à
floculação na câmara anterior, ou seja, turbidez remanescente de 8,4 uT. Desta forma, para o gradiente
da 2a câmara, identifica-se em cada uma das quatro curvas113 o tempo de floculação para o qual ocorreu
o valor da turbidez de 8,4 uT, obviamente quando tal se sucede. A este tempo acresce-se o tempo de
floculação em cada câmara (5 min). Para este tempo resultante da adição de 5 min, o gradiente de
velocidade para o qual se obteve o menor valor da turbidez remanescente será o empregado na 2a
câmara. E assim sucessivamente para as 3a e 4a câmaras.
Valendo-se da análise das quatro curvas apresentadas na figura 8.12, percebe-se que o valor de
8,4 uT foi atingido nas três curvas de 20, 30 e 40 s'1 correspondendo aos tempos de floculação de 7,6,
6,9, 6,7.min, respectivamente. Acrescido o tempo de 5 min - correspondendo a 12,6, 11,9, 11,7 e 10 min

113. Na realidade seriam cinco curvas correspondentes aos cinco gradientes de velocidade testados. Todavia, a
definição do gradiente de 55 s"1para primeira câmara elimina a possibilidade do gradiente de 70 s"1compor
a sequência.
C A PÍ TU L O 08
(5 + 5 min, para G = 55 s'1) infere-se que o gradiente de velocidade de 30 s'1apresentou o menor valor
de turbidez remanescente (3,0 uT).

Figura 8.12. Determinação gráfica do gradiente de velocidade na 2a câmara de floculação.

Para o gradiente de velocidade das 3a e 4a câmaras, a análise restringe-se apenas às curvas


referentes aos gradientes de 20 e 30 s"1. Novamente, aos tempos de floculação para os quais se verificou
valor da turbidez remanescente de 3,0 uT - 14,1 e 11,9 min, respectivamente - acresce-se 5 min e
a curva que apresentar o menor valor da turbidez remanescente será o gradiente de velocidade na
3a câmara, conforme evidencia a figura 8.13.

Figura 8.13. Determinação gráfica do gradiente de velocidade na 3a câmara de floculação.

Por fim, realiza-se mesmo procedimento para o gradiente de velocidade na 4a câmara (figura 8.14).
Esta última análise é apenas confirmatória uma vez que carecería de fundamentação teórica-calcada nos
conceitos de ruptura e agregação do flocos - a possibilidade da escolha de outro valor para o gradiente
de velocidade que não fosse 20 s'1.

Desta forma, a sequência de gradientes de velocidade a ser aplicada à unidade de floculação


com quatro câmaras seria de 55, 30, 20 e 20 s"1.
A gradação dos gradientes de velocidade definida por esta metodologia foi testada em uma
unidade de escoamento contínuo,114para três águas sintéticas coaguladas com sulfato de alumínio, tendo
apresentado resultados consistentes (Libânio, 1995). As características de duas das águas estudadas e as
condições de realização dos ensaios estão listadas na tabela 8.6.

Tabela 8.6. Características das águas de estudo e parâmetros utilizados nos ensaios.
Caractérística/Parâm etro Água Tipo I Água Tipo
Turbidez (uT) 22 ± 1 4 ± 1
pH 7.6 ± 0.1 7.1 ± 0.1
Cor Verdadeira (uC) 47 ± 3 97 ± 2
Cor Aparente (uC) 140 ± 10 118 ± 6
Alcalinidade (mg/L CaC03) 22.0 14.3
Dosagem Ótima (mg/L) 18 114
Número de câmaras 4 4
Tmr (s) 5 5
Gmr (s1) 200 200
Tf (min) 30 20
G f (s'1)* 10 (40, 10, 10 e 10) 10 (30, 10, 10

Para as mesmas condições de coagulação, esta comparação efetuou-se com base na aplicação
do gradiente de velocidade ótimo (10 s'1) a todas as câmaras de floculação - aquele que apresentou
melhores resultados nos ensaios em reatores estáticos - e a sequência definida fundamentada nesta
metodologia. À exceção de uma única coleta, praticamente todas as demais 24 comparações para as
três águas de estudo com duas, três e quatro câmaras demonstraram a supremacia na eficiência de
remoção da turbidez ou cor aparente para floculação com gradiente de velocidade variável em relação
à realizada com gradiente de velocidade constante, para o tempo de floculação otimizado nos reatores
estáticos. A elevação da eficiência na remoção do parâmetro de interesse com gradiente de velocidade
variável manifestou-se especialmente para as maiores velocidades de sedimentação, indicativo da
formação de flocos de maior densidade.

114. Na realidade a unidade de escoamento contínuo podia ser operada com número variável de câmaras. Desta
forma, os ensaios foram realizados com duas, três e quatro câmaras para o melhor tempo de floculação
obtido nos ensaios em reatores estáticos. C A P Í T U L O 08
Na mesma vertente da assertiva anterior, de forma geral - para as condições ótimas de dosagem,
mistura rápida e floculação - , a redução das velocidades de sedimentação concorre para minimizar as
diferenças na eficiência para floculação realizada com gradiente de velocidade constante e variávpl.
Tal se verifica ainda mais claramente para águas de alta turbidez, cuja formação dos flocos é mais
favorecida pela maior probabilidade de choques.
Vale ressaltar que a comparação da sequência de gradientes de velocidade definida por esta
metodologia com gradiente constante tenderia realmente a apontar a supremacia da gradação deste
parâmetro. Eventual comparação para uma sequência aleatória de gradientes de velocidade - ao
invés de 10 s~‘ em todas as câmaras, por exemplo, 70, 50, 30 e 10 s"1 - , prática que parece ter sido
adotada em outros estudos, poderia também confirmar a superioridade da metodologia proposta, mas
provavelmente em termos menos evidentes.
Ainda que com tais ressalvas, o emprego da metodologia para gradação dos gradientes de
velocidade ao longo das câmaras de floculação pode constituir-se em boa alternativa para estações
operando com sobrecarga. Nesta situação é possível auferir eficiência similar com a gradação dos
gradientes de velocidade para tempos de floculação inferiores aos necessários para o emprego de
gradiente constante ao longo das câmaras.
Esta premissa norteou trabalho experimental em reatores estáticos para duas águas sintéticas
de turbidez (23 ± 3 uT) e cor verdadeira (15 a 50 uC) moderadas, coaguladas com sulfato de alumínio
e cloreto férrico. Após a definição da dosagem e pH ótimos de coagulação, realizou-se a comparação
da eficiência da floculação para velocidade de sedimentação de 3,5 e 2,5 cm/min com gradiente de
velocidade (ótimo) constante e variável. Para as duas águas estudadas, obtiveram-se reduções de 25
e 20 % do tempo de floculação com a gradação do gradiente de velocidade (Di Bernardo, L.; Di
Bernardo, A., 2001).
Para estações que tiveram aumento significativo da vazão afluente e ora operam com baixos
tempos de floculação, pode-se postergar a constmção de novas câmaras ou unidades de floculação
com a gradação dos gradientes de velocidade. Para as unidades de floculação hidráulica, a alteração
do gradiente de velocidade somente se verifica com a modificação das dimensões das passagens e,
sempre que possível, deve-se estudar a possibilidade de instalação de estruturas móveis de madeira que
permitam variar o gradiente em função das características da água bmta. Neste contexto, em estações
existentes o aumento do gradiente é sempre operação mais simples, bastando reduzir a dimensão da
passagem. Eventual necessidade de redução do gradiente toma-se mais problemática pela necessidade
de aumentar as dimensões - e reduzir consequentemente a perda de carga - , principalmente quando as
paredes internas do fioculador são constmídas em alvenaria ou concreto.
Apesar da sustentação teórica, a indissociabilidade dos parâmetros tempo de floculação e
gradiente de velocidade fragiliza-se, como regra geral, pelo mencionado fato de que em algumas estações
de tratamento durante a desativação dos agitadores pareceu não ter havido elevação significativa no
aporte de partículas aos filtros, pois a qualidade do efluente do decantador e a duração das carreiras
de filtração mantiveram-se inalteradas. Neste caso, além de características intrínsecas da água bruta
que podem favorecer a melhor sedimentabilidade dos flocos, os dois mecanismos de floculação -
movimento Browniano e a sedimentação diferencial - parecem ter compensado a inexistência de
aplicação de energia externa à massa líquida, sobressaindo a importância do tempo de detenção para
a formação dos flocos. Por outro lado, em consulta115 direcionada a profissionais do setor no intuito
de hierarquizar os parâmetros intervenientes na potabilização, o gradiente de velocidade foi um dos

115. O painel foi composto por 18 profissionais de nível superior responsáveis por pesquisas, projetos e operação
de estações de tratamento de água, envolvendo universidades, companhias estaduais de saneamento e
empresas de engenharia das regiões Sul e Sudeste, compreendendo os estados de RS, SC, MG, SP e PR.
CAPÍTULO 0-3
três parâmetros, de um total de 22, selecionados pela unanimidade dos painelistas nas duas rodadas da
pesquisa (Lopes; Libânio, 2005). Posteriormente, na definição dos pesos para cada parâmetro, coube
ao gradiente de velocidade de floculação responder por 8 % da eficiência do tratamento, como segundo
parâmetro mais relevante na opinião dos painelistas.

Geometria dos agitadores e das câmaras de floculação


Para as unidades de floculação com tempos de detenção mais curtos é de se esperar que as
câmaras de base quadrada apresentem desempenho inferior quando cotejadas às de base circular, em
função da maior possibilidade de zonas mortas. Contudo, para tempos de detenção mais longos a
forma das câmaras possivelmente não interferirá significativamente na eficiência da floculação e o
desempenho da unidade será governado pelo número de câmaras e pela disposição das passagens.
Evidentemente que as câmaras de floculação de seção quadrada são as mais extensivamente empregadas
por permitirem arranjos que viabilizam otimizar a área destinada à estação de tratamento e reduzir o
custo da construção pelo aproveitamento comum das paredes. Câmaras de seção circular predominam
nas estações pré-fabricadas, em especial com o uso de bandejas perfuradas como meio de conferir o
gradiente de velocidade à massa líquida. Secundariamente, as vazões para as quais estas unidades são
usualmente construídas concorrem para que a área, e consequentemente o material despendido, seja
de menor magnitude.
Evidentemente que a geometria dos agitadores somente pode influir na floculação mecanizada.
E é igualmente evidente que os estudos de avaliação da influência da geometria dos agitadores têm
sido realizados sobretudo em reatores estáticos e em menor monta em unidades-piloto de escoamento
contínuo. E apesar do rol de pesquisas realizadas com tal objetivo, permanecem controvérsias.
Valendo-se de estudo experimental pôde-se depreender que para a mistura rápida a geometria
do reator parece não afetar substancialmente a eficiência do processo de coagulação. Empregando
agitadores tipo hélice e turbina, e reatores cilíndricos e de base quadrada, verificou-se que os agitadores
tipo turbina apresentaram resultados ligeiramente superiores quando instalados nos reatores de base
quadrada. Os ensaios foram conduzidos para floculação com Gf de 10 s'1, Tf de 0, 15, 30, 45 e 60 min
e tempo de sedimentação de 30 min, obtendo-se ao final função que relaciona Tmr, Gmr e a dosagem
de coagulante à máxima eficiência. Em relação à geometria dos agitadores, os mesmos pesquisadores
afirmam que equipamentos de mistura rápida de diferentes geometrias, operando nas mesmas
condições de coagulação - dosagem, Gmr e Tmr -, apresentam resultados ligeiramente distintos.
A explicação fundamenta-se no fato dos reatores apresentarem, para o mesmo Gmr, turbilhões de
diferentes intensidades. Como limitação deste trabalho, verificada em outros similares, pode se citar
a comparação das distintas eficiências centrada na baixa velocidade de sedimentação que tende a
equalizar os resultados (Lettérman; Quon; Gemmel, 1973).
Utilizando três tipos de água sintética, pesquisa avaliou a influência da geometria dos agitadores
empregados em reatores estáticos de 2,0 e 16,4 L. Os diagramas de coagulação que definiram as
dosagens de sulfato de alumínio e o pH de coagulação foram elaborados nos reatores de 2,0 L e
tencionava-se aferir eventuais alterações na eficiência da floculação também decorrente do aumento
de escala. Os reatores utilizados estão apresentados na figura 8.15 (Libânio, 1995).
Na mesma vertente anterior, esta pesquisa concluiu que o efeito da geometria dos agitadores
se apresenta mais patente para elevadas velocidades de sedimentação para as três águas de estudo.
Todavia, a supremacia do tipo de agitador não se manifestou de forma homogênea, ou seja, para
dois tipos de água os resultados no reator de 2,0 L foram superiores aos obtidos no reator de 16,4 L
(figura 8.16) e o oposto ocorreu para água com turbidez e cor verdadeira moderadas.
c c
254

B B
115
50
115 x j-
NA

100

50
75 125
;5 " 27
l67
Planta \ Corte B-B planta corte C-C

Figura 8.15. Reatores estáticos de 2,0 e 16,4 L utilizados na pesquisa.

Velocidade de sedimentação (cm/min)

Figura 8.16. Comparação da eficiência da floculação para dois tipos de agitadores.

Outra pesquisa contemplando a floculação de água com suspensão de caulinita concluiu que a
ruptura dos flocos, para temperatura de 5 °C, é mais acentuada no agitador tipo turbina, comparado ao
de paletas. Provavelmente, tal se deva à menor resistência ao cisalhamento dos flocos formados a essa
temperatura, pois para temperatura de 20 °C não houve diferença substancial no comportamento dos
dois tipos de agitadores (Hanson; Cleasby, 1990).
A controvérsia acerca da real influência da geometria do agitador na floculação parece ser
decorrente da forma reducionista de determinação do gradiente de velocidade média fundamentada
na equação 8.27. Aliada às limitações já mencionadas, esta equação não contempla as distintas
distribuições das tensões de cisalhamento no interior da câmara em função do formato das hélices
ou das paletas do agitador. Pesquisadores enfatizam a sensível redução do Gf ótimo à medida que se
elevam as dimensões dos reatores. Nessa mesma vertente, o emprego de agitador de paletas resultaria
em gradientes de velocidade duas a três vezes mais altos para se obter a mesma eficiência conferida
pelo agitador tipo hélice (Oldshue; Mady, 1979).
Em contexto semelhante, avaliou-se a eficiência da floculação com agitadores de paletas paralelas
ao eixo e variando o número de braços e de paletas por braço nas condições ótimas de coagulação e
floculação - dosagem, Gmr, Tmr, Gf e Tf. O estudo apontou que para velocidades de sedimentação mais
elevadas, superiores a 2,0 cm/min, o aumento do número de braços e a menor rotação conduzem a melhores
resultados na remoção de turbidez. Todavia, para velocidades de sedimendação da ordem de 2,0 cm/min
não se verificou diferença substancial na eficiência da floculação para agitadores com um e quatro braços.
Tais resultados não se repetiram na remoção de cor aparente, enfatizando a eficiência de cada tipo de reator
, e agitador pode também se manifestar em função das características da água (Campos, 1993).
Nas unidades de floculação mecanizada, independente da geometria do reator, a turbulência gerada
pelos agitadores não se distribuirá de maneira equânime no interior da câmara. Estudo, referenciado
no Capítulo 7, enfocando reatores tipo turbina empregados na mistura rápida, definiu três zonas de
ÍT UL O 08
turbulência e tais conclusões podem ser transpostas para as unidades de floculação. Desta forma, o
gradiente de velocidade médio (Gm) variou de 0,5 Gmem 90 % do volume do reator a 2,3 e 7,0 Grn em
9,5 e 0,5 %, respectivamente, do volume restante (Amirtharajah; 0 ’Melia, 1990).
No mesmo contexto, na figura 8.17 é apresentada uma estimativa da variação da média do gradiente
de velocidade em relação ao volume da câmara, para três tipos de agitadores utilizados nas unidades de
floculação mecanizadas. Embora tais estudos estejam sempre limitados pela configuração específica de
cada agitador, esta figura destaca a praticamente equânime distribuição do gradiente de velocidade para
os agitadores do tipo axial de uso menos comum no País e apresenta resultados distintos dos mencionados
anteriormente para as unidades dotadas de turbinas. Para os agitadores com paletas, de uso mais extensivo
no País, evidencia-se a desuniformidade da distribuição do gradiente no interior da câmara.

Figura 8.17. Estimativa da distribuição do gradiente de velocidade em tipos de agitadores de floculadores


mecanizados.
Fonte: Hudson (1976 apud Amirtharajah, 1978).

Outro estudo enfatizou que a desuniformidade da agitação no interior da câmara é diretamente


proporcional à magnitude do gradiente de velocidade. Tal assertiva reforça a premissa da necessidade
de análise acurada para definição do gradiente ótimo de floculação e, para eficiência de mesma
grandeza, a opção por gradientes mais baixos - desde que não ocorra deposição de flocos - apresenta
a vantagem adicional de melhor uniformizar a agitação no interior da câmara (Wallcer, 1971).

Figura 8.18. Longo canal de água coagulada (aproximadamente 150 m) em estação de grande porte (Q = 6,5 m3/s).
C A PÍ TU L O 08

235
Por fim, embora não seja fator usualmente mencionado, concorre também para aumento da
eficiência da floculação a construção da unidade de mistura rápida contígua ao(s) floculador(es),
minimizando a denominada floculação incidental que ocorre nos longos canais de água coagulada,
conforme mostrado na figura 8.18, usualmente com comprimento superior a 30 m, ocasionando a
ruptura dos flocos na primeira câmara da unidade (ASCE; AWWA, 1998).
A afirmativa anterior foi confirmada ainda na década de 1960 em estação que potabilizava vazão
média de 1,3 m3/s nos EUA, cuja unidade de mistura rápida fora construída distante dos floculadores.
Tal estação sempre apresentava água decantada de menor turbidez quando os agitadores da unidade de
mistura rápida permaneciam desligados (Hudson Ir; Wolfner; 1967).
Similarmente, em estação de médio porte no estado de São Paulo, vazão média da ordem
de 800 L/s, os agitadores da unidade de floculação permanecem constantemente desligados, pois
seu acionamento resulta na ruptura dos flocos formados precocemente no canal de água coagulada
reduzindo consideravelmente a eficiência da decantação. Os dois floculadores de quatro câmaras de
cada módulo apresentam idênticas dimensões das aberturas, dispostas altemadamente em relação à
profundidade, e como principal desvantagem, além do efeito de curto-circuito, o baixo gradiente de
velocidade resultante, da ordem de apenas 12 s"1, e insignificante variação deste parâmetro em virtude
da posição da abertura em relação ao nível d Agua (figura 8.19).

Figura 8.19. Estação de tratamento na qual os agitadores das unidades de floculação permanecem desligados em
virtude da floculação incidental.

Neste contexto, para evitar a precoce formação de flocos, a NBR 12216 recomenda (item 5.8.8)
tempo máximo de 1 min para o percurso da água entre a unidade de mistura rápida e os floculadores. Este
tempo pode ser aumentado para 3 min caso haja um sistema que confira gradiente de velocidade igual
ou superior ao da primeira câmara de floculação, usualmente malhas de fios de arame ou nylon. Com
idêntico objetivo, estações de tratamento nos EUA por vezes dispõem de dispositivos de insuflação de ar
nos canais de água coagulada visando conferir gradientes de velocidade superiores a 150 sA
Tipos de unidades de flocu lação

A distinção dos tipos de floculadores fundamenta-se na forma de transferir energia à massa


líquida, hidráulica ou mecânica, para que possam ocorrer os choques entre as partículas desestabilizadas
e a consequente formação dos flocos. Para quaisquer tipos de unidades, a relevância do gradiente de
velocidade e do tempo de detenção como balizadores da floculação confirma-se pelos parâmetros de
projeto recomendados na literatura técnica listados na tabela 8.7.

Tabela 8.7. Parâmetros de projeto de unidades de floculação.


Gradiente de Tempo de
Gf xTf Fonte
Velocidade (s_1) Floculação (min)
10-70 1 2 0 0 -1 8 0 0 * *
ABNT (1990)
1800 a 2400***
20-75* 9 0 0 - 1500 40.000 - 75.000
AW W A e ASCE (1998)
10-60* 1 0 0 0 - 1500 30.000 - 60.000
Kawamura (2000)
10-50+ 1200
Montgom ery (1985)#
10-75++ 1800
15-60 1 2 0 0 -3 6 0 0 10.000 - 150.000 Qasim, Motley e Zhu (2000)
10-75*** 1 8 0 0 -2 4 0 0 * * *
Richter e Azevedo Netto (1991
25-65****
* Valores recomendados para filtração direta e tratamento convencional, respectivamente.
** Floculadores hidráulicos
*** Floculadores mecanizados
**** Mais comumente utilizado
+ Tratamento convencional e água bruta captada em rio.
++ Tratamento convencional e água bruta captada em reservatório.
# Valores sugeridos quando o sulfato de alumínio é utilizado como coagulante, quando utilizados sais de ferro o valor de G f
não deve ser superior a 50 s'1.

Cabe observar que, embora não haja unanimidade acerca do Número de Camp como norteador do
desempenho das unidades de floculação, os limites estabelecidos por este pesquisador para os gradientes
de velocidade há mais de meio século- 2 0 a 74 s"1- são corroborados pela maioria das fontes consultadas.
Por outro lado, resultados de pesquisa acerca do tempo necessário à desestabilização e início da
agregação permitem algumas suposições acerca dos intervalos de gradientes de floculação recomendados.
Neste estudo, ao centrar a estimativa do início da agregação em partículas menores que 5 pm, mesmo
com a suspensão estando submetida a gradiente de velocidade de 147 s"1, o incipiente tamanho dos
flocos minimizou o efeito de ruptura. Para as dosagens mais elevadas de coagulante - 1,2 e 2,0 mg/L
de alumínio -, o tempo necessário para o início da agregação foi da ordem de 50 s, não se verificando
significativa diferença entre o sulfato de alumínio e o cloreto de polialumínio (Matsui et a!., 1998).
Em vista de tais resultados, guardadas as distinções inerentes às características de cada água
natural - o mencionado estudo deu-se com água sintética e concentração de caolinita de 10 mg/L
é razoável supor que tempos de floculação mais altos associados a gradientes de velocidade iniciais
da ordem 100 s"1, transcendendo os limites listados na tabela 8.7, podem favorecer a floculação nas
estações de tratamento nas quais a unidade de mistura rápida é contígua aos floculadores. Neste caso,
gradientes desta magnitude poderíam ser aplicados no primeiro compartimento, que correspondería a
um menor número de câmaras, para as unidades hidráulicas. Para as unidades mecanizadas, o reduzido
número de câmaras provavelmente não resultaria em melhora da floculação, pois despender-se-ia algo
como um terço ou um quarto do tempo de detenção116 com gradientes cuja eficácia manifesta-se em
tempos significativamente mais curtos.

116. Para facilitar sua inserção no lay-out da estação de tratamento, quase como regra geral, as unidades de
floculação apresentam câmaras de idênticas dimensões e, como já salientado, para as unidades mecanizadas
este número dificilmente é superior a quatro.

237
Quase como regra geral, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, os floculadores hidráulicos
têm sido adotados para estações de pequeno e médio porte, sendo raro no País o emprego de floculação
hidráulica em estações que potabilizem vazão superior a 200 L/s. Já as unidades mecanizadas, de
emprego quase unânime nos EUA e Canadá, acabam por apresentar maior amplitude de aplicação, em
termos de vazão afluente, comumente utilizadas na implantação e na ampliação de estações de médio
e grande porte. Mesmo estações pré-fabricadas, destinadas a vazões inferiores a 100 L/s, apresentaram
nas primeiras concepções floculadores mecanizados de câmaras superpostas.

Unidades de floculação hidráulica


Antes da caracterização específica de cada tipo de unidade de floculação hidráulica, optou-se
por apresentar as equações de estimativa do gradiente de velocidade, por se constituírem no balizador
da magnitude da energia conferida à massa líquida para a formação dos flocos. Desta forma, para as
unidades de floculação hidráulica, o gradiente de velocidade deve-se à perda de carga nas passagens
entre as sucessivas câmaras. Assim como também para as unidades de mistura rápida, a equação 8.27
apresenta-se como:

Gf=J W (oo)
Na qual:
hf: perda de carga nas passagens (m);
y: peso específico da água (N/m3);
Vol: volume da câmara de floculação (m3);
Q: vazão afluente à unidade de floculação (m3/s).

Inserindo o tempo de detenção teórico (Tf = Vol/Q) para cada câmara e a expressão que relaciona
as viscosidades cinemática e absoluta (v = p/p), a equação 8.30 apresenta-se como referenciada na
NBR 12216:
g hf
Gf = (8.31)
v Tf

Em que:
v: viscosidade cinemática (m2/s);
Tf: tempo de detenção teórico para cada câmara de floculação (s);
g: aceleração da gravidade (m/s2).

Para água p 20 °C (v = 10~6 m2/s), tem-se:

Gf = 3 1 3 1 ^ / Ç (8.32)

Para estações existentes, de acordo com a magnitude da vazão afluente, a determinação da


declividade da linha d’água após as passagens e do volume de cada câmara fornecerá o gradiente de
velocidade de floculação. Em nível de projeto, a determinação da perda de carga decorre do tipo de
unidade de floculação hidráulica. Se para as unidades mecanizadas há desigual distribuição da energia
no interior da câmara, para os floculadores hidráulicos a dissipação de energia ocorre em volume de
difícil determinação. Em outras palavras, a energia que se dissipa sobre o volume de água que recém-
adentrou a uma determinada câmara, próximo à abertura, é provavelmente mais influenciada por esta
do que pela abertura seguinte que conectará à próxima câmara.

O 08
Para floculadores de escoamento horizontal, a perda de carga é função do escoamento entre
as chicanas e das mudanças de direção causadas nas passagens de uma câmara para outra. Desta
forma, inserem-se as respectivas velocidades de escoamento e estima-se a perda de carga por meio da
equação 8.33 (Fair; Geyer; Oltun, 1973):

hf NcVe2 + (Nc — l)V p2


(8.33)
2g

Na qual:
Nc: número de chicanas igualmente espaçadas;
Ve: velocidade média de escoamento entre as chicanas (m/s);
Vp: velocidade média nas passagens entre as câmaras (m/s).

Para floculadores de escoamento vertical e helicoidal - os primeiros, caso todas as passagens


estejam abaixo da linha d’água -, a perda de carga pode ser estimada por meio da equação 8.34 para
escoamento através de orifícios:

Q (8.34)
dAo

Em que:
Cd: coeficiente de descarga (usualmente 0,61 a 0,62);
Ao: área da passagem (m2).

A equação 8.34 guarda uma simplificação intrínseca. Consideram-se pequenos orifícios aqueles
cujas dimensões são muito menores do que a profundidade da lâmina d’água na qual se encontram
- dimensão vertical do orifício igual ou inferior a um terço da profundidade. Uma segunda condição
refere-se à área inferior a 10 % da superfície da câmara para se desprezar a velocidade do líquido na
superfície. A primeira condição por vezes não é obedecida para os floculadores de escoamento vertical
quando às passagens superiores há redução da lâmina d’água pela evolução da perda de carga. Ainda
que mais raramente tal possa ocorrer mesmo nas passagens inferiores nas últimas câmaras, nas quais
os menores gradientes de velocidade redundam em maior dimensão nas aberturas das últimas câmaras
onde já se verifica menor lâmina d’água.
Tanto para as unidades mecanizadas quanto para as hidráulicas o gradiente de velocidade
nas passagens deve ser inferior ao da câmara anterior, objetivando evitar a ruptura dos flocos. A
determinação do gradiente de velocidade nas passagens, quando estas estão abaixo da linha d ’água,
considera-se a perda de carga em conduto forçado, cujo comprimento é a espessura da chicana ou
parede. Desta forma, para temperatura de 20 °C, a equação 8.32 toma-se:

f JL JV f U A L U2
D 2g 4 Rh 2 g
Gp = 3131 = 3131' 354 U1 (8.35)
Vol AL
Q

Em que:
Gp: gradiente de velocidade nas passagens (s_1);
Rh: raio hidráulico (m);
f: coeficiente de atrito da Equação Universal de perda de carga;
U: velocidade média através da passagem (m/s).
O coeficiente de atrito f é função da rugosidade do material que constitui a passagem, do número
de Reynolds, e pode ser estimado por meio da equação 8.36:

1,325
f=
+ 5,76 Re-0'9)]2

Na qual:
s: rugosidade absoluta do material da abertura (m);
D: diâmetro da abertura (m);
Re: número de Reynolds.

Para aberturas de seção não circular, o diâmetro na equação anterior pode ser substituído por
4Rh117, uma vez que o escoamento através das passagens - e da unidade de floculação como um todo
- realiza-se em regime turbulento. Na tabela 8.8 são apresentados alguns valores para rugosidade
absoluta em função do tipo de material.

Tabela 8.8. Rugosidade absoluta para distintos materiais comumente


empregados nas passagens.
M aterial R ugosidade ab so lu ta (mm)
Concreto rugoso ou alvenaria 1a 3
Concreto liso 0,2 a0,3
Madeira 2
Ferro fundido 0,1 a0,3
Aço 0,1 a0,6
PVC 0,06

Floculadores de escoamento helicoidal


Nas unidades hidráulicas de escoamento helicoidal comumente dispõem-se em lados alternados
aberturas inferiores dotadas de anteparos ou curvas de 90° para impingir o escoamento sempre na
direção ascendente. Quando construídas em concreto, usualmente, o número de câmaras é inferior a
12, podendo com emprego de divisórias em madeira atingir até 24 câmaras.

Dreno

(b)
Figura 8.20. Floculador hidráulico de escoamento helicoidal (planta e corte).

Estas unidades são utilizadas em estações de tratamento de pequeno e médio porte, recebendo
também a denominação de floculadores Alabama (figura 8.20). Em algumas estações de tratamento

117. Raio hidráulico é o quociente entre a área molhada e perímetro molhado. Para aberturas de seção circular é o
próprio diâmetro (D) e de seção quadrada o lado (L). Para este caso Re = U 4Rh/v, na qual U é a velocidade
média através da passagem.
CA PÍTULO 03

2 40
nas quais foram construídas estas unidades, utilizando-se curvas de 90° em ferro fundido, verifica-se a
variação do gradiente de velocidade ao longo das câmaras e, ainda que de forma empírica, a inserção
do conceito do Número de Camp. Ou seja, predomina menor número de câmaras com passagens de
menor diâmetro - maior gradiente de velocidade - e vice-versa.
Na figura 8.21 apresentam-se dois floculadores de escoamento helicoidal dotados de 12 câmaras
aos quais aflui a cada um vazão da ordem de 100 L/s.

||i|
hui
a l v J

mmBL
ÇSmmmsr
IIÉÉii WÈÊÊÊBÈtíi

Figura 8.21. Par de floculadores de escoamento helicoidal implantado em estação de médio porte.

Da observação da figura 8.20 emerge a variação do gradiente de velocidade de floculação


em virtude da descontinuidade das profundidades das câmaras, especialmente para as três primeiras
unidades. Como gradientes mais elevados vinculam-se a maiores perdas de carga, a redução da
profundidade acaba sendo mais evidente para o conjunto de câmaras de gradientes mais altos.

Exemplo

Para uma estação de tratamento convencional tenciona-se dimensionar um floculador hidráulico de escoamento
helicoidal para os seguintes parâmetros de projeto:
Vazão = 200 L/s;
Tempo de floculação (Tf): 20 min;
Número de câmaras: 12;
Gradientes de velocidade: 60, 40 e 20 s'1.
Para tais unidades, recomenda-se que a distribuição dos gradientes de velocidade ao longo das câmaras
privilegie o conceito do Número de Camp (NC). Desta forma, para tempo de detenção em cada câmara de
100 s, tem-se:
Duas câmaras com gradiente de floculação de 60 s-1=> NC = 12.000
Quatro câmaras com gradiente de floculação de 40 s‘1=5- NC = 16.000
Seis câmaras com gradiente de floculação de 20 s'1=> NC = 12.000
Tf = 1200 s = Vol / Q => Volfloculador = 240 m3
Profundidade média da lâmina d ’ água = 4 m
Área em planta (Ap) = 60 m2 => Área de cada câmara de seção quadrada (Ac) = 5 mz => Ac = 2,3 x 2,3 m
Para tais m edidas das câm aras, descontadas as chicanas, tem-se:
Ap = 63,5 m => Tf = 21,2 min
As aberturas entre as câmaras apresentarão três dimensões visando a conferir os respectivos gradientes de
velocidade. Assim, utilizando as equações 8.30 ou 8.31:

ou

Para T f = 100 s, v = 10'6 m2/s e g = 9,8 m /s2 => Gf = 313 hf0,5


A perda de carga é dada pela equação 8.34:

hf = => Para Cd = 0,61 e Q = 0,2 m3/s => hf = 0,00548/Ào2

Assim, para cada dimensão da abertura associa-se a perda de carga e o respectivo gradiente de velocidade.
Gft = 60 s'1 => hq = 0,0367 rn => ÁOf = 0,386 m2 => Passagem de seção quadrada de lado iguala0,62 m
Gf2= 40 s'1 => hf2 = 0,0163 m => Ao2 = 0,580 m2 => Passagem de seção quadrada de lado iguala0,76 m
Gf3 = 20 s'1 => hf3 = 0,0041 m => Ao3 = 1,337 m2 => Passagem de seção quadrada de lado iguala1,16 m
A perda de carga total na unidade => hítotal = 0,0367 >< 2 + 0,0163 * 4 + 0,0041 >< 6 « 0,16 m
O cálculo dos gradientes de velocidade nas passagens efetua-se por meio da equação 8.35:

Para passagens de concreto liso, de acordo com a tabela 8.8, s = 0,1 mm, e o coeficiente f é determinado por
meio da equação 8.36:

1,325
f=

Aot = 0,149 m2 => U = 0,52 m /s


v = 106 m2/s e Rh = 0,62 m => Re = 3,2 x 105
f = 0,01586 =>Gfp1 = 21 s’1

Igualmente para as duas dimensões das passagens:


f 2 = 0,01601 => GfpZ = 10 s'1
f3 = 0,01667 => Gfp3 = 3 s'1

Os gradientes de velocidade nas passagens calculados são inferiores aos das câmaras a montante,
minimizando a possibilidade de ruptura dos flocos. Em outro contexto, não se verificou redução
significativa da lâmina d’água nas últimas câmaras - e consequentemente do tempo de detenção - em
razão da menor perda de carga total na unidade de floculação. Por fim, devem ser previstos anteparos
de madeira após as passagens instalados à distância igual à dimensão da abertura, objetivando impelir
o escoamento no sentido ascendente.

Floculadores de escoamento horizontal


As unidades de floculação hidráulica de escoamento horizontal, raramente empregadas no País
- à exceção de algumas estações de pequeno porte no Espírito Santo - , constituem-se em última
análise canais dotados de chicanas através das quais ocorrem as alterações da direção do escoamento
que hão de favorecer a formação dos flocos (figura 8.22).
vem da unidade
de mistura

> r

p/ unidade
separadora
N,

(a)
— — j— — j—

(b)
Figura 8.22. Floculador hidráulico de escoamento horizontal (planta e corte).

No Brasil uma bizarra aplicação destas unidades dá-se em uma estação de grande porte
em Minas Gerais, vazão afluente da ordem de 1,0 m3/s. Foi projetada uma unidade de floculação
mecanizada com seis câmaras, tempo de detenção da ordem de 16 min e passagens por meio de
aberturas contíguas às paredes, idênticas às mostradas na figura 8.22. Uma avaria nos conjuntos motor-
redutor provocou a paralisação de todos os agitadores e a floculação passou a se realizar por meio das
passagens pelas sucessivas câmaras com gradientes de floculação inferiores a 5 s"1. A performance da
estação de tratamento permaneceu satisfatória decorrente da qualidade da água bruta.
Levantamento realizado na África do Sul na década de 1990 apontou o emprego desta alternativa
de floculação em dez estações de tratamento com significativa amplitude de vazão afluente (58 L/s a
1,4 m3/s). A ressaltada vantagem dos floculadores hidráulicos quanto aos menores efeitos de curto-
circuito aflora implicitamente neste levantamento pelos baixos tempos de detenção verificados em
várias destas unidades. Por exemplo, a estação de maior porte apresentou tempo de floculação inferior
a 11 min e apenas em uma unidade este parâmetro foi superior a 16 min (Haarhoff, 1998).
Em função da disposição e espaçamento das chicanas confere-se o gradiente de velocidade
para a promoção dos choques e formação dos flocos. Provavelmente o fato destas unidades serem
construídas com profundidade inferior a 1 m, resultando em maior área em planta, tenha contribuído
para uso tão restrito. Interessante salientar que o princípio do Número de Camp não foi considerado
no projeto destas unidades no Espírito Santo. Embora com gradientes de velocidade decrescentes,
adotou-se tempo de detenção para cada gradiente aproximadamente constante uma vez que os
compartimentos apresentam volume de mesma ordem de grandeza. Esta ressalva prende-se ao fato de
ocorrer, pela evolução da perda de carga, redução progressiva da lâmina d ’água, resultando em menor
tempo de detenção nas últimas câmaras da unidade.
Estas unidades de floculação podem ser construídas com declividade de fundo - da ordem
de 1 % - que, além de favorecer as limpezas conforme recomendação da NBR 12216, atenua estas
variações no tempo de detenção. O espaçamento entre chicanas é variável em razão especialmente da
operação de limpeza. As mencionadas unidades do Espírito Santo apresentam espaçamentos de 18 a
70 cm. A NBR 12216 faz menção a um mínimo de 60 cm, podendo ser reduzido se as chicanas forem
removíveis.

C A P ÍT U L O 08
Dimensionar um floculador hidráulico de escoamento horizontal com chicanas de madeira removíveis a partir
dos seguintes parâmetros:
Vazão = 40 L/s;
Tempo de detenção: 20 min;
Gradientes de velocidade: 60, 40 e 20 s'1;
Como já salientado acerca das unidades no Espírito Santo, comumente definem-se três canais com distintos
espaçamentos entre chicanas. Neste exemplo, diferentemente, utilizar-se-á o conceito do Número de Camp
direcionando-o - em função deste espaçamento variável, e como consequência da dimensão das próprias
câmaras - ao tempo de detenção. Desta forma, tem-se:
Profundidade média = 0,50 m;
Tf = 1200 s = Vol / Q => Volnoculador = 48 m3
Área em planta (Ap) = 96 m2 => Largura do canal = 1,6 m => Comprimento to ta l do canal = 60 m. Objetivando
manter NC « constante, definem-se:
Para gradiente de floculação de 60 s_1=> Comprimento do canal de 12 m(20 %de Tf) => NC = 14,400
Para gradiente de floculação de 40 s'1=> Comprimento do canal de 18 m(30 %de Tf) => NC = 14.400
Para gradiente de floculação de 20 s‘1=> Comprimento do canal de 30 m(50 %de Tf) => NC = 12.000
Espaçamento entre as chicanas no primeiro trecho = 0,50 m;
Espaçamento entre as chicanas no segundo trecho = 0,50 m;
Espaçamento entre as chicanas no terceiro trecho = 0,75 m;
Para o 1o trecho do canal (60 s‘1), utilizando a equação 8.31 (Tf = 4 min), tem-se:

O número de chicanas igualmente espaçadas no 1o trecho do canal (Nq) será igual a 24. Para velocidade de
escoamento entre as chicanas (Ve) de 0,16 m/s, a velocidade nas passagens (Vp) será:
Nc Ve: + (Nc - 1) Vp2
hf = => Vp = 0,22 m /s => Área das passagens no 1o trecho = 0,182 m:
2g
Para lâmina d'água = 0,50 m => Distância da chicana à parede do canal = 0,36 m
2 ° trecho (40 s'1) => Tf = 6 min => hf2 = 0,0588 m
Considerando o mesmo espaçamento entre chicanas e lâmina d ’ água de 0,5 m => Ve = 0,13 m/s => Nc2 = 30 =>
Vp = 0,15 m/s => Área das passagens no 2° trecho = 0,267 m2 => Distância da chicana à parede do canal = 0,53 m
Por fim, adotando-se espaçamento de 0,75 m entre as chicanas.
3o trecho (20 s'1) => T f = 10 min => hf3 = 0,0490 m => Nc2 = 40
Para lâmina d’ água de 0,5 m => Ve = 0,11 m/s => Vp = 0,11 m/s => Área das passagens no 3o trecho = 0,364 m2
=> Distância da chicana à parede do canal = 0,73 m
A perda de carga total => hftotal = 0,196 m
Desta forma, objetivando m inim izar a redução do tempo de detenção nas câmaras do últim o compartimento
e favorecer a operação de limpeza, deve ser prevista declividade de 1 % ao longo dos canais.
Por fim, os gradientes de velocidade nas passagens118 serão calculados da mesma forma do exemplo anterior.
Para passagens de madeira - e = 2 mm - e por meio das equações 8.35 e 8.26, tem-se:
Ap, = 0,143 m2 => Vp-, = 0,22 m /s e Rh = 1,18 m => Re = 1,6 x 106=> f, = 0,01653 => Gfp1 = 4,3 s 11
8

118. O exemplo contempla o cálculo dos gradientes de velocidade nas passagens, embora aNBR 12216 se reporte
a esse parâmetro para unidades de floculação mecanizada.
Uma vez que o gradiente de velocidade na passagem para velocidade mais elevada foi
significativamente inferior ao vigente na câmara (60 s'1), certamente os demais serão ainda menores,
pois tanto o coeficiente de atrito como o raio hidráulico são de mesma ordem de grandeza.
Conforme mencionado, o exemplo anterior evidencia que a magnitude das velocidades de
escoamento e do espaçamento mínimo entre as chicanas causa redução da profundidade média de
tais unidades, conferindo-lhes área significativamente maior quando comparada a outras alternativas.
Vale enfatizar que a área da unidade de floculação de escoamento helicoidal seria inferior (60 m2),
comparada à necessária para a unidade de escoamento horizontal (96 m2), mesmo para vazão cinco
vezes maior (200 e 40 L/s).

Floculadores de escoamento vertical


Os floculadores hidráulicos de escoamento vertical apresentam-se com chicanas ou aberturas
superiores e inferiores. No primeiro caso ocorre escoamento livre por sobre as chicanas nas passagens
superiores e estas unidades frequentemente são dotadas de até 40 câmaras. No segundo caso, as aberturas
instaladas abaixo da linha d ’água asseguram-lhes o escoamento forçado, com o número de câmaras via
de regra inferior a 10. Com esta última concepção, diversas unidades foram construídas a partir da década
de 1960 pela Fundação SESP (Fundação Serviços Especiais de Saúde Pública atual Funasa) em Minas
Gerais, Espírito Santo e estados do Norte e Nordeste, com denominação de floculadores tipo Coxm .
Assim como para as unidades de escoamento horizontal, recomendam-se velocidades de escoamento
superiores a 0,10 m/s, objetivando minimizar a precoce deposição de flocos (figura 8.23).

Dreno Dreno

(b)

Figura 8.23. Floculador hidráulico de escoamento horizontal de passagem forçada (planta e corte).

Uma última alternativa de floculação hidráulica surgiu a partir do final da década de 1970,
como variante às mencionadas unidades de escoamento vertical. Com o fito de reduzir a área dos
floculadores mesmo mantendo tempos de detenção da ordem de 20 min, foram concebidas unidades
de escoamento vertical, sempre no sentido descendente através de bandejas perfuradas (Vianna, 1988),
destinadas às estações de tratamento pré-fabricadas (figura 8.24). Nestas unidades as bandejas são
instaladas no interior de câmaras cilíndricas de 3 a 4 m de altura, espaçadas de 60 a 80 cm, e a19

119. Alusão ao engenheiro norte-americano C. Cox ao qual são atribuídos os primeiros projetos destas unidades
de floculação durante sua atuação como consultor da antiga Fundação SESP.
C A P ÍT U L O 08

£ /•.
perda de carga decorrente do escoamento através dos orifícios conferem o gradiente de velocidade
de floculação. A passagem de uma câmara para outra dá-se por escoamento ascendente por meio
de tubulação central, na qual apoiam-se as bandejas. De acordo com a mencionada premissa de se
estabelecer a gradação deste parâmetro, comumente as bandejas apresentam diâmetro dos orifícios
progressivamente maiores.120 Estima-se que em Minas Gerais estejam operando mais de 200 estações
pré-fabricadas utilizando predominantemente este tipo de unidade de floculação hidráulica.

<b)

Figura 8.24. Desenho de floculador hidráulico de bandejas perfuradas (a) e detalhe da bandeja de uma das câmaras (b).

Para o dimensionamento das unidades de floculação hidráulica, além das premissas quanto
ao tempo de detenção e gradientes de velocidade arrolados na tabela 8.7, a NBR 12216 recomenda
velocidade de escoamento entre 0,10 e 0,30 m/s - para evitar a ruptura ou a precoce deposição dos
flocos - e espaçamento mínimo entre as chic