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Periódicos do Século XIX – Rio de Janeiro/Biblioteca

Nacional

DIÁRIO ILUSTRADO

13 – 5 – 1887 p.2

“Estão expostos na casa Vietas & C. três pratos pintados à óleo pelo professor de desenho do Lyceu
de Artes e Ofícios Estevão Silva.
O Sr. Estevão Silva que fez o curso de pintura histórica em nossa academia dedicou-se há tempos a
essa especialidade de pintura de frutas.
Um prato pequeno representando um grupo de belos morangos e folhas. Os dois maiores
agrupamentos de frutas de muitas qualidades de nosso país.
São trabalhos pacientes, aprimorados, onde a pureza da tinta e a verdade das cores, e exatidão de
contorno fazem-lhe o maior cabedal.
São trabalhos para amadores que se detêm nas minuciosidades preciosas da arte que passam quase
desapercebidas à vulgar maneira de ver, sequiosa de paisagem luminosa e variedade de tons vivos ...”
[ parece que essa seção começa nessa data ]
MANOEL CARNEIRO

p.1
BELLAS-ARTES

“Fui ontem visitar a exposição artística do primoroso pintor Estevão Silva, exposição aberta desde o
dia dois do corrente, em uma das salas do Lyceu de Artes e Ofícios.
Ele expõe o resultado de três anos de labor assíduo, inteligente, consagrado a pintura de frutas
brasileiras. São oitenta quadros diversos, apresentando frutas de todas as espécies, grupadas, umas partidas a
caca, outras que se entreabrem pelo sazonamento natural.
Conheço a meses o Sr. Estevão Silva. Excessivamente modesto, demasiado tímido, vive metido no
seu atelier, rodeado de suas fruta, de suas telas, dos seus pratos de porcelana, das suas tintas a pintar sempre
com muito cuidado, escrupulosamente, mas com calma e convicção dos grandes trabalhos.
Os primeiros trabalhos de seu pincel, que tive a ocasião de apreciar, pareceram-me admiráveis. Uma
execução meticulosa, uma pureza de tintas extraordinária revelaram-me nele um verdadeiro artista, sem
arrebatamentos que o gênero não permite, mas minuciosamente, admiravelmente observados.
Entretanto na exposição, sente-se o prazer de quem olha para uma mesa aberta de flores frescas e
belos frutos maduros. Às vezes despertam desejos os seus quadros, desejos inocentes de trincar a talhada de
uma melancia rubra e partida, uma romã aberta como uma boca de menina, numa provocação acesa de beijos.
São quadros da sala de jantar. E que diabólico aperitivo!
Na sua especificidade este pintor é admirável dou-lhe orgulhosamente meus sinceros aplausos.
Percorrendo a sala, sentimo-nos ao fim de alguns minutos um pouco fatigados.
É a monotonia da exposição. As paisagens que ele apresenta são pouco para a variedade do todo.
Frutas. Mas frutas admiráveis, mas que fartam-nos os olhos ao fim de alguns segundos.
Nas paisagens o visitante para diante de cada tela e tem para ocupá-lo apenas a execução do trabalho,
o pensamento e o sentimento do pintor. Diante de um quadro de frutas não tem outro desejo que o de aplaudir
a execução quando elas são pintadas pelo Sr. Estevão Silva. O desejo de comê-las vem um pouco mais tarde,
o que comprova a perfeição dos trabalhos. .
. . . Um dos alunos do Lyceu, de 8/ 9 anos visitava a exposição, devorando com o olhar aquelas frutas
apetitosas, . . . desafiarem-lhe a gulodice e longe de alcançar a mão.... Meteu a mão no bolso e, com um
níquel em punho dirigiu-se ao pintor que conversava comigo a um canto da sala:
- Quanto custam aquelas mangas? Quero levar uma a mamã, que é douda por elas(sic)...
Pusemo-nos a rir.
. . . um dos quadros mais primorosos e felizes da exposição o nº 35, que representa um grupo de belas
mangas da Bahia dentro de um prato branco. Fora do prato há uma começando a esfolar.
Há uma verdade de cor, de perspectiva extraordinária. As sombras merecem do Sr. Estevão Silva um
extremo cuidado.” . . . .

M.C

O MEQUETREFE
15 – 07 – 1887 Nº 348 p.8

“É o nome de um preto, que vale mais do que milhares de brancos do meu conhecimento.
Emancipou-se pelo talento, libertando-se do esquecimento, a que hão de ser condenados os que não
compreendem o valor do artista privilegiado, e o deixam recorrer por necessidade ao pincel, que só devia ser
manejado por inspiração e pelo gosto.
Estevão traz na sala Dr. Ferreira de Araújo, do Lyceu de Artes e Ofícios, uma exposição de quadros à
óleo, que vale mais que os orçamentos da fazenda do Sr. Cotegipe, formulados pelo Sr. Belizário e mais por
homens do eito da R. do Sacramento; porque mais glória há de vir deles a este pobre pátria, do que das
mentiras oficiais, com que se escondem as mazelas do erário e das secretarias de Estado.
Estevão Silva é artista de inspiração; tem a paixão do belo, e o culto da natureza. Reproduz e cria.
Nesta sua exposição, que é quase exclusivamente de frutas, há telas soberbas, em que a disposição
artística e inteligente escolha dos frutos produzem um belo efeito.
Concorra o público à exposição do nosso patrício, premiando assim o seu talento e esforços; e com
a aquisição de seus quadros forneça-lhe os meios para a conclusão de seus estudos, que não só auxiliará o
artista, mas muito mais ainda o progresso de nossas artes e o futuro da pátria”.

Novembro de 1891 Nº 531

Capa retrato desenhado de Estevão Silva


p. 2 Estevão Silva

“Não diremos que Estevão Silva pintasse uvas, que os pássaros julgando-as naturais viessem picá-
las. Entretanto ele era incapaz de pintar por exemplo; laranjas violáceas ou bananas azuis.

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Na sua especialidade, Estevão Silva era muitíssimo aceitável. Seus quadros podem figurar sem pejo
entre os dos melhores pintores” ....

NOVIDADES (Folha da Tarde)

16-7- 1887 p. 1
DE PALANQUE
“Depois de examinar o aparelho do Dr. Martins, [experimento promovido pelo clube de Engenharia] desçam
os leitores ao pavimento inferior do Lyceu, e visitem a exposição de quadros de Estevão Silva.
Este pintor tem uma especialidade; as frutas, pinta-as com uma perfeição admirável; não me parece
que nesse gênero encontre no Brasil competidor que o exceda, nem mesmo o iguale. Há nos seus quadros
ananases, mangas, ameixas, cambucás, laranjas, carambolas, melancias erc. , que fazem crescer água na boca,
tal é a verdade e a consciência com que estão reproduzidos. O Estevão tem delicadeza do toque e certeza do
colorido e contorno, é um hábil pintor de natureza morta, que não deve fugir de sua especialidade.
Creio que no firme propósito de mostrar ao público que o seu pincel é essencialmente pomareiro,
que o Estevão expôs igualmente uma ou duas paisagens muito defeituosas. Continue o nosso distinto artista a
dar-nos frutos do seu talento, recorrendo sempre, e exclusivamente, aos de nossa flora”
Eloy, o heroe

O PAIZ

BELLAS ARTES 8- 07 – 1887 p.1

“Visitamos a exposição dos quadros do pintor brasileiro Estevão Silva, que merece ser apresentado
ao público fluminense como um mestre na especialidade de frutas e folhagens.
Cerca de 70 quadros sob más condições dispostos em uma das salas do Lyceu de artes e Ofícios
oferecem largo exemplo da atividade e excelência do pincel deste artista, que é digno de todas as atenções.
Para quebrar a monotonia que resulta dos assuntos, frutos, flores, natureza morta e viva expôs
também o Sr. Estevão Silva, quatro paisagens que pecam pela cor falsa e demasiado carregada do céu. A
vegetação que, além de pouco observada e de colorido só exato se cada árvore fosse aproximada do
expectador é pesada.
O Sr. Estevão Silva não é paisagista, em compensação tem quadros de frutas que são primores, que
podem figura n’uma exposição européia.

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Tomamos notas dos seguintes, que recomendamos aos amadores, notando que pela rapidez com que
fizemos esta nossa primeira visita não nos foi possível talvez observar todos os quadros que merecem menção
especial.
Logo ao entrar na sala de exposição á direita, encontra-se o quadro nº 36. É uma cesta de madeira
tosca, cheias de orquídeas em flor – um exemplar da ‘catalea phoebesea’, que não produz mais efeito por
serem as suas flores de colorido pálido, mas chamamos a atenção para a espessura que se percebe nas folhas e
o relevo da planta em todos os seus detalhes.
Essas mesmas qualidades notam-se no quadro 20, sapotis.
Mas para evitar uma análise de cada um dos quadros que mais nos impressionaram, diremos que
todos eles são agrupados com muita arte e que o colorido e o desenho são perfeitos em alguns, que nunca
mais se apagam da memória do visitante.
Basta portanto citar os números e assinalar o seu assunto especial
7 – um belíssimo limão doce umas pitangas
8 – uvas, notável pela disposição graciosa dos cachos
12 – um galho da tamarineira servindo de fundo a uma abóbora e frutos diversos. Tem grande valor esse
quadro, e em um concurso de pintura neste gênero pode ser apresentado sem receio
13 – ameixas rosáceas com aquela ‘pellucis’ fina, cantalilha obtida com raríssima felicidade e as folhas
nervosas e denticuladas vistas de ambos os lados
17 – ananás e mangas. O primeiro está bem tocado. As escamas são ásperas e salientes e a rama bem
estudada
19 – pitangas m todas as gradações transparentes de epiderme fina e lustrosa
31 – cajus
39 – um galho de romeira, com as folhas meio secas e diversos frutos habilmente dispostos. Há muita
minuciosidade. Os bagos purpúreos destacam-se dos galhos e sente a dureza da casca
58 – frutas de conde, romãs e uvas. As primeiras são de grande verdade
Finalmente uma grande tela apresentando aves,armas e utensílios venatórios.
Uma exposição não oferece ao artista, um momento de ser ele o alvo das ovações..... O Sr. Estevão
Silva não verá a multidão aplaudi-lo, mas tem a seu lado a imprensa que o aclama e a consciência de um
espírito severo ... que o aplaude sem reservas . . . ”

21-07-1887 p. 2
“A exposição de quadros de frutas do hábil pintor Estevão Silva foi visitada ontem por grande
número de pessoas entre as quais os Srs. .... Rodolpho Bernardelli, desembargador Muniz Barreto ... Ângelo
Agostini, entre outros.
Nestes dois dias os painéis do inteligente artista têm tido grande procura, sendo justamente
reputados.

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E já que tratamos do Sr. Estevão Silva não é somente um pintor de frutas, mas também um bom
retratista, a julgar pelos que conheceram Ferreira de Menezes, que a uma voz proclamam a perfeição do
trabalho sob qualquer ponto de vista.”

SETE DIAS 10 – 11 – 1891


[NOTÍCIA SOBRE A MORTE DE Estevão Silva]
“Fez-se especialista na pintura de frutas. Os seus quadros a princípio defeituosos, fracos, forma
melhorando, e nos últimos tempos Estevão Silva fizera-se realmente notável nesse gênero, em que era o
único entre nossos artistas.
A sua última exposição realizada há cerca de um mês no salão de O Paiz, foi um verdadeiro triunfo
para o malogrado artista nacional.
Os seus quadros mereceram justos e gerais encômios do público e da crítica. Entre eles havia
trabalhos verdadeiramente magistrais ...
Estevão era professor de desenho do Lyceu de Artes e Ofícios...”

REVISTA ILUSTRADA

Nº 294 8 – 4 – 1882 p.6

“Dous retratos de Sras., um . . . . cor de café com leite, outro café puro e bem torrado pelo Sr.
Estevão Silva. Na verdade, não compreendo que o autor desses dois retratos seja o mesmo que pintou o S.
Pedro ouvindo cantar o galo, que esteve na exposição industrial e que muito me agradou.
Ambos os retratos estão bem desenhados, mas como não tem a menor força de luz na cabeça,
suponho que foram desenhados de dia e pintados de noite ...”

UM ATENTADO [ Crítica ao trabalho de um artista não citado pode ser Estevão Silva? ] p.6 e 7

“Acham-se expostos na Academia de Belas-Artes, uns horrores pintados á óleo sobre papelão,
representando, - isto é- com pretensões de representar frutas e outras cousas mais, que tem causado péssima
impressão em todos os visitantes que tiveram a desgraça de olhar para eles.
............................................................................................
Um desses horrores representa uma espécie de mulher com um papagaio às costas . . . .....
Esse então é um cúmulo!
[a respeito de uma aquisição feita pela academia comenta que]
. . . “uma dúzia de folhas de papel borradas a aquarela, representando orquídeas, feitas pela mesma pessoa
que expôs os horrores de que acima falamos” . . .

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Sem assinatura a na ser ***

28 – 5 – 1887 Nº 126
p. 4 BELLAS – ARTES
[crítica ao trabalho de Estevão Silva]
[elogiando os pratos pintados com frutas na casa de Vieitas, diz o crítico]

...”mangas, as saborosas mangas, que, na opinião de Alencar, tanto influenciam para adocicar a pronunciação
brasileira: São de amarelo quente, banhado de rubro. Colhidas ao tempo . Bem sazonadas. Figos, belos figos,
ouvides, apetitosos, de uma cor escura, descendo para a cor do vinho tinto Açor. Um cacho de cocos de
tucuns, parecidos na forma e no colorido com uvas pretas do Douro, magníficos pelo sabor. Róseos jambos,
aveludados pêssegos, corados de carmim, macios araçás, pitangas de gomos escarlates, e um mamão aberto
ao meio em talhado, fruto insosso ao paladar delicado, porém querido dos pequenos pássaros cantores ...
Esses três pratos forma pintados por Estevão Silva, um artista que tem demonstrado verdadeira
paixão por esse gênero. Pinta-los assim é difícil , pinta-los melhor é impossível. Nas frutas nada mais se pode
desejar, mas onde o artista podia emendar-se é nas sombras. As sombras projetadas carregam muito o
conjunto ...”
ALFREDO PALHETA

Miranda, A. de. Revista Ilustrada, Rio de Janeiro, nº 633, novembro de 1891. p. 2.

“...Era um negro de talento e um artista incansável. Preconceitos da raça afastaram-no do convívio social.
Vivia só, esquecido no atelier, observando friamente os preceitos de sua arte. Era este seu único consolo, sua
única felicidade (...) Convencido da improficuidade da luta nesse terreno secundário para as Artes, Estevão
Silva abandonou-o minado pela dor de não ter nascido branco.”