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Reis, A & Costa, M.A.M. (2013).

Cuidados de saúde a imigrantes: Para uma cultura de
segurança e confiabilidade. Revista de Segurança Comportamental, GA, Lda. Lisboa,
Portugal, 7, 18-20.

ARTIGO PUBLICADO
Cuidados de saúde a imigrantes : Para uma cultura de segurança e confiabilidade
a
Autora: Alcinda Sacramento Costa dos Reis
b
Co-autora: Mª Aminda Mendes Costa
a
Afiliação: ICBAS/UP
Enfermeira, Mestre em Ciências de Enfermagem e Doutoranda em Ciências de Enfermagem (ICBAS –
UP);
 Docente na Escola Superior de Saúde de Santarém/IPS
 Investigadora da Unidade de Investigação do IPS (UIIPS)
b
Afiliação: ICBAS/UP
Enfermeira, Mestre e Doutorada em Ciências da Educação (FPCE-UL);
 Presidente da CAE – Enfermagem, na Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior
(A3ES)
 Investigadora da Unidade de Formação e Investigação em Adultos e Idosos (UNIFAI)

Resumo: Abordam-se falhas emergentes na segurança dos cuidados de saúde a imigrantes em contexto
do processo de comunicação

A segurança nos cuidados de saúde deve ser contextualizada às particularidades do
processo de interação e comunicação entre cuidador e cuidado, para além do que são
os procedimentos desenvolvidos. Estes processos são específicos quando as díades de
cuidados se particularizam aos enfermeiros com pessoas imigrantes, em organizações
prestadoras de cuidados de saúde.
Tal processo de interação e comunicação, entendemo-lo nas situações de cuidados,
em linha com Davidhizar & Giger (2001)1; a comunicação surge para estes autores
como uma das seis áreas de variação e diversidade humanas, que deverá
necessariamente ser avaliada com vista a um cuidar congruente com a cultura dos
imigrantes. Esta perspetiva vem sendo defendida há largos anos por Leininger (1994;
1998) 2;3, que assume a necessidade de que os enfermeiros desenvolvam as suas
competências culturais, assentes no desenvolvimento de uma relação de confiança,
coerência e cuidado mútuo entre quem cuida e quem é cuidado.

1
Davidhizar, R. & Giger, J.N. (2001). Teaching culture within the nursing curriculum using the Giger-
Davidhizar model of transcultural nursing assessment. Journal of Nursing Education, 40(6), 282-284
2
Leininger, M.M. (1994). Nursing and Antropology: two worlds to blend.Ohio: Greyden Press
3
Leininger, M.M.(1998). Transcultural Nursing: concepts,theories and practices(2ªed.). New York:
McGraw Hill
Em concordância com Purnell (2011)4, reforçamos as assunções da mesma autora a
este propósito, referindo que um imigrante que experiencie cuidados de enfermagem
que falhem relativamente à sua coerência com as respetivas crenças, valores e modos
de vida pode vivenciar situações de conflito, stress e insegurança no seu percurso de
vida, portanto potencialmente promotores de desequilíbrios nos seus processos de
saúde e de doença.
A comunicação no processo de interação entre enfermeiros e imigrantes, é por isso
desenvolvida a partir de um conjunto de fatores universais, mas que têm variações de
acordo com as especificidades das pessoas e dos grupos, relacionadas com base no
modelo de avaliação transcultural de Giger & Davidhizar (2007)5, com: a linguagem
falada, a qualidade da voz e da dicção, o uso de comunicação não-verbal e do próprio
silêncio. Purnell (2011)4, releva a este propósito, a importância de que os técnicos de
saúde na equipa multidisciplinar de cuidados a imigrantes tenham os conhecimentos e
a capacidade necessários para que este tipo de informação seja mobilizada em ordem
a um planeamento congruente com as suas reais necessidades de saúde e ao
desenvolvimento de uma relação de confiança.
Para o desenvolvimento da congruência nos cuidados, é necessária uma gestão
adequada das diferenças culturais entre técnicos de saúde e imigrantes e a negociação
de objetivos comuns e interdependentes na díade de cuidados; esta gestão está
intimamente ligada à clarificação do que são cuidados culturalmente seguros na
equipa de saúde e à problematização desta necessidade nas unidades de saúde. É hoje
mandatório o desenvolvimento de competências culturais nos técnicos de saúde, para
que estes se assumam como promotores da segurança nos cuidados que desenvolvem
(Purnell, 2011; Campinha-Bacote, 2003)4;6.
Este desenvolvimento pressupõe a inexistência de espaço na equipa multidisciplinar,
a falhas humanas; contudo os cuidados de saúde a pessoas imigrantes, vêm refletindo
e sendo ligados a algumas dificuldades nas práticas desenvolvidas em organizações de
saúde.
Embora uma elevada percentagem de imigrantes no nosso país, seja lusófona,
verifica-se mesmo assim frequentemente uma má comunicação entre eles e os
técnicos de saúde, resultando em atrasos nos diagnósticos e na pouca segurança e

4
Purnell, L. (2011). Models and theories focused on culture. In Butts, J.B. & Rick, K.L. Philosophies and
theories for advanced nursing practice (pp. 225-568), Hattiesburg: Jones & Bartlett Learning
5
Giger, J., Davidhizar, R.E., Purnell, L., Harden, J.T., Phillips, J. & Strickland, O. (2007). American
academy of nursing expert panel report:developing cultural competence to eliminate health disparities in
ethnic minorities and other vulnerable populations. Journal of Transcultural Nursing. 18(2), 95-10
6
Campinha-Bacote, J. (2003). Cultural desire: the key to unlocking cultural competence. Transcultural
C.A.R.E. Associates, 42(6), 239-240
adesão aos cuidados de saúde, face às reais necessidades das pessoas (Machado, 2009;
Abreu, 2008)7;8.
Têm surgido algumas acções políticas, visando a minimização destas constatações,
tais como a publicação do Plano de Integração dos Imigrantes (2007) 9; outras ações
mais específicas ligadas ao Alto Comissariado para a Integração e Diálogo Intercultural
(ACIDI), têm-se focado tangencialmente na melhoria da adequação dos cuidados de
saúde a imigrantes; a gestão das diferenças culturais no processo de interação e
cuidados entre imigrantes e técnicos de saúde tem vindo a revelar-se como
fundamental para o desenvolvimento da segurança neste processo.
Existe contudo ainda um tímido desenvolvimento de acções ligadas a uma
intervenção clínica adequada e à consciência de que é urgente o desenvolvimento de
uma cultura de segurança e confiabilidade na equipa de cuidados de saúde a
imigrantes, que vá para além da tradução da mensagem verbal no processo de
comunicação (Vega, 2001)10.
Pessoalmente, vimos desenvolvendo uma investigação onde, partindo de uma
orientação etnográfica, pretendemos “descobrir os significados das acções observadas”
aprendendo com as pessoas (Streubert & Carpenter, 2002)11, sendo que nos temos
assumido como principal instrumento do processo de investigação em observação
participante (Spradley, 1980)12; visamos compreender como decorre a interação entre
enfermeiros e imigrantes e avaliar a maturidade no desenvolvimento de uma cultura
de segurança na comunicação entre partes. Os sujeitos (enfermeiros e imigrantes), vêm
sendo observados no contexto habitual em que as situações de cuidados ocorrem –
unidades de saúde e domicílios dos imigrantes, desenvolvendo-se assim uma análise
indutiva, e uma maior proximidade com os sujeitos do estudo.
Pensando nestes técnicos de saúde e nas interações observadas, impõe-se um olhar
para os fatores influenciadores do seu desempenho, emergentes neste estudo, no
contexto do relacionamento com imigrantes.

7
Machado, M.C. (2009). Globalização, multiculturalidade e saúde. In Lopes, J.C.R., Santos, M.C.,
Matos, M.S.D. & Ribeiro, O.P. (Eds.), Multiculturalidade : perspectivas da enfermagem- contributos
para melhor cuidar (pp. 3-10). Loures: Lusociência8 Abreu,W.(2008). Transições e Contextos
Multiculturais.Coimbra: Formasau
8
Abreu,W.(2008). Transições e Contextos Multiculturais.Coimbra: Formasau
9
Plano para a integração dos imigrantes (2007). ACIDI - Alto comissariado para a integração e diálogo
intercultural. Resolução do Conselho de Ministros nº63-A/2007.Lisboa: Presidência do Conselho de
Ministros
10
Vega, A. (2001). Soignants/soignés: pour une approche anthropologique des soins infirmiers.
Bruxelles: de boeck
11
Streubert, H.J. & Carpenter, D.R. (2002). Investigação qualitativa em enfermagem: Avançando o
imperativo humanista, (A.P.S. Santos, Trad.)(2ª ed).Loures: Lusociência. (Obra original publicada em
1999)
12
Spradley, J.P.(1980). Participant observation. Orlando: Library of Congress Cataloging in Publication
Data
De acordo com os dados obtidos, identificamos algumas pré-condições para atos
inseguros tais como o deficit na preparação pessoal dos técnicos e erros de perceção
daí decorrentes (Shapell & Wiegmann 2001; 2009)13;14, colocando em risco o
desenvolvimento de uma cultura de segurança e confiabilidade nos contextos
multiculturais de cuidados.
Relatamos o caso de situação observada numa visita domiciliária que
acompanhámos, durante o trabalho de campo do nosso estudo onde este tipo de
fatores é visível: trata-se de uma jovem mãe romena, com uma criança prematura,
previamente identificada pela enfermeira responsável da unidade de cuidados na
comunidade local, como situação de risco, pelas dúvidas colocadas face ao
desenvolvimento das competências maternas da jovem:
“Como faz com o leite?” pergunta a enfermeira quando percebe que a mãe
não está a amamentar como seria de esperar; a mãe encolhe os ombros e não consegue estabelecer-se
comunicação efetiva; observamos uma lata de leite perto do berço da bebé e a enfermeira tenta que a
mãe demonstre como faz a sua preparação, sem sucesso; passa à observação dos registos no livrinho da
bebé e chama a atenção para a data da próxima consulta na unidade de saúde, novamente sem
obtenção de feedback no processo de comunicação; a jovem permaneceu imóvel, pouco expressiva e
aparentemente desinteressada; saímos com a sensação da precariedade do processo de comunicação e
na incerteza quanto ao “futuro” da saúde da bebé e da mãe.
Validando a sensação da comunicação ineficaz com a enfermeira, confirmámos a
insegurança e frustração da técnica face aos resultados obtidos mas ainda a sua
consciência de que surgem dificuldades em “transmitir” segurança para os outros,
“quando nós mesmos estamos inseguros em relação à interpretação das mensagens
que transmitimos; é um turbilhão de emoções às vezes”; embora reiterando que nestas
situações as visitas domiciliárias são feitas mais frequentemente “para irmos
registando a evolução”, sem garantia contudo de conseguir estratégias eficazes de
comunicação e do estabelecimento de uma relação de confiança.
Dos resultados preliminares desta investigação concluímos: torna-se particularmente
relevante a necessidade de construção de uma cultura de segurança entre técnicos de
saúde e imigrantes, partindo de uma base de confiabilidade e interdependência nas
díades de cuidados, obviando-se choques culturais, processo de comunicação ineficaz
pela barreira da língua, uso de crianças/familiares/vizinhos como intérpretes e o
recurso inespecífico à gestualidade.

13
Shapell, S.A. & Wiegmann, D.A. (2001). Applying reason: the human factors analysis and
classification system (HFACS). Human Factors and Aerospace Safety, 1, 59-86
14
Shapell, S.A. & Wiegmann, D.A. (2009). Developing a methodology for assessing safety programs
targeting human error in aviation. The International Journal Of Aviation Psychology, 19, 252-269
Referências Bibliográficas
1
Davidhizar, R. & Giger, J.N. (2001). Teaching culture within the nursing curriculum using the Giger-
Davidhizar model of transcultural nursing assessment. Journal of Nursing Education, 40(6), 282-284
2
Leininger, M.M. (1994). Nursing and Antropology: two worlds to blend.Ohio: Greyden Press
3
Leininger, M.M.(1998). Transcultural Nursing: concepts,theories and practices.(2ª ed.). New York:
McGraw Hill
4
Purnell, L. (2011). Models and theories focused on culture. In Butts, J.B. & Rick, K.L. Philosophies and
theories for advanced nursing practice (pp. 225-568), Hattiesburg: Jones & Bartlett Learning
5
Giger, J., Davidhizar, R.E., Purnell, L., Harden, J.T., Phillips, J. & Strickland, O. (2007). American
academy of nursing expert panel report:developing cultural competence to eliminate health disparities in
ethnic minorities and other vulnerable populations. Journal of Transcultural Nursing. 18(2), 95-102
6
Campinha-Bacote, J. (2003). Cultural desire: the key to unlocking cultural competence. Transcultural
C.A.R.E. Associates, 42(6), 239-240
7
Machado, M.C. (2009). Globalização, multiculturalidade e saúde. In Lopes, J.C.R., Santos, M.C.,
Matos, M.S.D. & Ribeiro, O.P. (Eds.), Multiculturalidade : perspectivas da enfermagem- contributos
para melhor cuidar (pp. 3-10). Loures: Lusociência
8
Abreu,W.(2008). Transições e Contextos Multiculturais.Coimbra: Formasau

9
Plano para a integração dos imigrantes (2007). ACIDI - Alto comissariado para a integração e diálogo
intercultural. Resolução do Conselho de Ministros nº63-A/2007.Lisboa: Presidência do Conselho de
Ministros
10
Vega, A. (2001). Soignants/soignés: pour une approche anthropologique des soins infirmiers.
Bruxelles: de boeck
11
Streubert, H.J. & Carpenter, D.R. (2002). Investigação qualitativa em enfermagem: Avançando o
imperativo humanista, (A.P.S. Santos, Trad.)(2ª ed).Loures: Lusociência. (Obra original publicada em
1999).
12
Spradley, J.P.(1980). Participant observation. Orlando: Library of Congress Cataloging in Publication
Data
13
Shapell, S.A. & Wiegmann, D.A. (2001). Applying reason: the human factors analysis and
classification system (HFACS). Human Factors and Aerospace Safety, 1, 59-86
14
Shapell, S.A. & Wiegmann, D.A. (2009). Developing a methodology for assessing safety programs
targeting human error in aviation. The International Journal Of Aviation Psychology, 19, 252-269