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Universidade Nova de Lisboa

Escola Nacional de Saúde Pública

CULTURA DE SEGURANÇA E ACIDENTES DE TRABALHO:
ESTUDO DE CASO EM DOIS SERVIÇOS NÃO CLÍNICOS DE UM
HOSPITAL CENTRAL

XVII Mestrado em Saúde Pública

Tiago Pereira Lopes Gonçalves Matoso

Orientador:

Prof.ª Doutora Ema Sacadura Leite

Lisboa

Junho de 2016
ii
CULTURA DE SEGURANÇA E ACIDENTES DE TRABALHO:
ESTUDO DE CASO EM DOIS SERVIÇOS NÃO CLÍNICOS DE UM
HOSPITAL CENTRAL

Tiago Pereira Lopes Gonçalves Matoso

Orientador:

Prof.ª Doutora Ema Sacadura Leite

Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Saúde Pública,

pela Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa

iii
iv
Agradecimentos

Gostaria de agradecer a todas as pessoas que, de uma forma direta ou indireta,
contribuíram para a realização deste trabalho:

À Prof.ª Ema Leite, orientadora científica desta dissertação, o meu agradecimento por todo o
apoio, disponibilidade e amizade ao longo dos anos, cujo grau de exigência e vontade de
melhorar me inspiraram a embarcar neste desafio.

À Prof.ª Sílvia Silva, pela disponibilização do questionário de avaliação de clima
organizacional e de segurança, e pelos conselhos partilhados.

Aos meus colegas do Serviço de Saúde Ocupacional, em particular à Tina, pelo apoio que
me deram ao longo dos meses em que decorreu este Mestrado.

A todos os trabalhadores, chefias e responsáveis dos serviços onde decorreu este trabalho,
o meu agradecimento pela disponibilidade e colaboração prestados.

À minha família, a coisa mais importante do mundo.

v
vi
Resumo

Os acidentes de trabalho e as doenças profissionais constituem um verdadeiro tema de
Saúde Pública se atentarmos na sua expressão à escala internacional e nacional, estando
associados a elevados custos pessoais, sociais e económicos. Neste contexto, várias
instituições têm vindo a salientar a importância de conceitoscomo os de cultura e clima de
segurança, particularmente após a ocorrência de grandes desastres como o de Chernobyl.

Osobjetivos deste trabalho consistiram em caracterizar os principais aspetos da cultura e do
clima de segurança em dois serviços não clínicos hospitalarescom incidências elevadas de
acidentes de trabalho e analisar a existência de relações entre o clima de segurança e os
indicadores de sinistralidade. A amostra em estudo consistiu no total de trabalhadores que
desempenham funções operacionais nos dois serviços (N=86), coincidindo com a população
alvo. O clima de segurança foi avaliado através de um questionário; a cultura foi analisada
através de análise documental, observação de campo e realização de entrevistas individuais
(para além do questionário). O estudo da associação entre clima de segurança e os
indicadores de sinistralidade foi efetuado através do coeficiente de correlação de Pearson.

Os resultados da avaliação do clima de segurança apontam no sentido de um clima não
muito forte em ambos os serviços. A análise da cultura permitiu aceder a alguns valores
nucleares sobretudo relacionados com a valorização da produção ou a prioritização
atribuída à produção / qualidade sobre a segurança. A análise de correlações entre os
resultados obtidos nas diferentes escalas do clima de segurança e as taxas de sinistralidade
não permitiram confirmar a hipótese da existência de uma relação positiva entre um clima de
segurança forte e menores taxas de sinistralidade laboral. A informação recolhida poderá
ser utilizada para alicerçar intervenções futuras no sentido de melhorar a segurança dos
trabalhadores e diminuir o número de acidentes de trabalho.

Palavras-chave:Cultura de segurança; clima de segurança;acidentes de trabalho.

vii
Abstract

Occupational accidents and illnesses have large individual, social and economic costs, and
become a true Public Health issue when we analyze its international and national magnitude.
In this context, several institutions have stressed the importance of the concepts of safety
culture and climate, particularly after disasters like Chernobyl.

The aim of this study is to explore safety culture and climate in two support hospital
departments characterized by high incidence rates of occupational accidents and
analyzecorrelations of safety climate and accident rates. The sample consisted in all theblue
collar workers of both departments. In order to evaluate safety climate, a questionnaire was
used; safety culture was analyzed through fieldwork consisting of observations at worksites,
interviews and document analysis. Correlations between safety climate and accident rates
were assessed through Pearson coefficient.

Results of safety climate evaluation in the two departments showed a median strength safety
climate.Safety culture analysis allowed the identification of some core values related to the
value given to production and prioritization of production / quality over safety. Correlations
obtained in this study between safety climate results and accident rates didn’t allow the
confirmation of the hypothesis that a positive link exists between a strong safety climate and
low accident rates. The results of this study can be used to develop future intervention
strategies in order to improve workers safety and decrease work accidents in the hospital.

Keywords: Safety culture; safety climate; occupational accidents.

viii
ix
Índice Geral

Agradecimentos …………………………………………………………………. v

Resumo ………..…………………………………………………………………. vii

Abstract ………..…………………………………………………………………. viii

Índice de figuras …………………………………………………………………. xiv

Índice de quadros ………………………………………………………………. xv

Índice de gráficos ………………………………………………………………. xvii

Lista de abreviaturas e siglas ………………………………………………...... xviii

1. Introdução ………………………………………………………………………. 1

1.1. 1.1. Pertinência do tema ………………………………………………………….. 1

1.1. 1.2. Definição do problema ……………………………………………………….. 2

1.2. 1.3. Modelo teórico deste trabalho………………………………………………. 3

1.4. Objetivos e perguntas de investigação……………………………………. 4

2. Estado da arte ……………………………………………………………………. 6

2.1. A segurança e saúde do trabalho………………………………………… 6

2.1.1. Objetivos da segurança e saúde do trabalho…………………………... 7

2.1.2. Acidentes de trabalho……………………………………………………… 9

2.1.3. Doenças profissionais…………………………………………………… 12

2.2. A gestão da segurança e saúde do trabalho…………………………… 14

2.3. Cultura organizacional……………………………………………………… 15

2.4. Cultura de segurança e saúde…………………………………………….. 17

2.4.1. A importância da cultura de segurança e saúde do trabalho………….. 17

2.4.2. Cultura de saúde…………………………………………………………… 18

2.4.3. Cultura de segurança do doente………………………………………… 19

x
2.4.4. Cultura de segurança do trabalho……………………………………….. 20

2.4.4.1. Segurança nas organizações………………………………………… 20

2.4.4.2. Cultura de segurança…………………………………………………. 21

2.4.4.3. Níveis de análise da cultura………………………………………… 24

2.4.4.4. Clima de segurança…………………………………………………… 26

2.4.4.5. Desempenho em termos de segurança…………………………….. 28

2.5. Análise da cultura de segurança……………………………………….... 29

2.5.1. Abordagens da análise da cultura e do clima de segurança…………. 30

2.5.2. Síntese e modelo de análise……………………………………………… 34

2.5.3. Triangulação……………………………………………………………….. 35

2.5.4. Considerações pré-análise……………………………………………….. 36

3. Metodologia do estudo …………………………………………………………. 37

3.1. Delineamento do estudo …………………………………………………… 37

3.2. População-alvo …………………………………………………………...... 37

3.3. Critérios de inclusão e de exclusão…………………………………….. 37

3.4. Unidade elementar de investigação…………………………………….. 38

3.5. Amostra………………………………………………………………………. 38

3.6. Instrumentos utilizados…………………………………………………… 38

3.6.1. Instrumento quantitativo: questionário de clima de segurança………. 38

3.6.2. Instrumentos qualitativos…………………………………………………. 41

3.6.2.1. Análise documental………………………………………………….. 41

3.6.2.2. Observação de campo……………………………………………….. 43

3.6.2.3. Entrevistas individuais………………………………………………… 44

3.7. Procedimentos……………………………………………………………… 44

xi
3.8. Operacionalização da medição da associação entre clima de
segurança e nível de sinistralidade…………………………………………... 47

3.9. Análise dos dados………………………………………………………..... 47

3.10. Aspetos éticos………………………………………………………….... 49

4. Resultados ………………………………………………………………………… 50

4.1. Enquadramento dos Serviços estudados……………………………….. 50

4.2. Estudo de caso: Serviço de Logística…………………………………… 51

4.2.1. Caracterização do Serviço…………………………………………………. 51

4.2.2. Caracterização sócio demográfica………………………………………… 52

4.2.3. Clima de segurança………………………………………………………… 53

4.2.4. Sinistralidade no Serviço de Logística…………………………………….. 54

4.2.5.Doenças profissionais no Serviço de Logística…………………………... 56

4.2.6. Medidas propostas pelo Serviço de Saúde Ocupacional e
implementadas pelo Serviço de Logística……………………………………….. 56

4.2.7. Observação de campo……………………………………………………… 57

4.2.8. Entrevistas individuais……………………………………………………… 58

4.2.9. Integração de dados: análise da cultura de segurança…………………. 59

4.3. Estudo de caso: Serviço de Instalações e Equipamentos……………. 64

4.3.1. Caracterização do Serviço…………………………………………………. 64

4.3.2. Caracterização sócio demográfica………………………………………… 64

4.3.3. Clima de segurança…………………………………………………………. 66

4.3.4. Sinistralidade no Serviço de Instalações e Equipamentos……………… 67

4.3.5. Doenças profissionais no Serviço de Instalações e Equipamentos……. 69

4.3.6. Medidas propostas pelo Serviço de Saúde Ocupacional e
implementadas pelo Serviço de Instalações e Equipamentos…………………. 70

xii
4.3.7. Observação de campo……………………………………………………… 71

4.3.8. Entrevistas individuais………………………………………………………. 71

4.3.9. Integração de dados: análise da cultura de segurança………………….. 72

4.4. Associação entre clima de segurança e sinistralidade……………….. 80

5. Discussão de resultados ……………………………….………………………. 82

5.1. Aspetos metodológicos …………….……………………………………… 82

5.2. Perguntas de investigação / hipóteses em estudo …………….……… 82

6. Conclusões e perspetivasfuturas……………………………………………. 89

Bibliografia………………………………………………………………………………. 91

Anexos …………………………………………………………………………………… 98

Anexo 1 - Questionário de clima de segurança…………………………………. 99

Anexo 2 - Checklist requisitos segurança e saúde do trabalho……………….. 103

Anexo 3 – Guião de entrevista semi-estruturada……………………………….. 104

Anexo 4 – Organigrama Serviço de Logística ………………………………….. 105

Anexo 5 – Organigrama Serviço de Instalações e Equipamentos ……………. 106

xiii
Índice de figuras

Figura 1: Estimativas globais de acidentes de trabalho e workrelatedillnesses: dados
relativos a 2010 …………….………………………………...…………………………………… 7

Figura 2: Extracto do relatório INSAG 7 ……………..…………………………………………. 21

Figura 3: Níveis de cultura organizacional ……………………………………………………… 25

Figura 4: Modelo de análise da cultura de segurança ………………………………………... 35

Figura 5: Escalas e dimensões do questionário de clima de segurança……………………. 39

Figura 6: Categorias e valores nucleares identificados na LOG……………………………… 63

Figura 7: Categorias e valores nucleares identificados no SIE……………………………….. 79

xiv
Índice de quadros

Quadro 1: Doenças profissionais reconhecidas em Portugal por grupo de doenças e ano
(2001-2008)……………………………………………………………………………………………. 13

Quadro 2: Definições de cultura de segurança …………………………………………………… 22

Quadro 3: Definições de clima de segurança ……………………..……………………………….. 26

Quadro 4: Exemplos de questionários que podem ser utilizados para avaliar o clima de
segurança ……………………………………………………………………………………………… 31

Quadro 5: Síntese dos principais instrumentos que podem ser utilizados para avaliar a
cultura de segurança ………………………………………….……………………………………… 34

Quadro 6: Dimensões da escala conteúdos do clima de segurança……………………………. 40

Quadro 7: Dimensões da escala práticas organizacionais de segurança………………………. 40

Quadro 8: Dimensões da escala envolvimento pessoal com a segurança……………………. 41

Quadro 9: Cronograma de atividades relativas às autorizações e procedimentos do
trabalho………………………………………………………………………………………………….. 46

Quadro 10: Sectores da LOG, respetivas responsabilidades e número de
profissionais……………………………………………………………………………………………. 51

Quadro 11: Distribuição por grupos etários dos profissionais da LOG……………………….... 52

Quadro 12: Distribuição por nível de escolaridade dos profissionais da LOG………………... 52

Quadro 13: Distribuição por antiguidade dos profissionais da LOG………………………….... 52

Quadro 14: Clima de segurança na LOG (médias e desvios-padrão)…………………………. 53

Quadro 15: Evolução temporal do número de acidentes de trabalho (AT) por sector da LOG. 54

Quadro 16: Evolução temporal do número de dias perdidos por sector da LOG……………... 55

Quadro 17: Tipo de acidentes de trabalho ocorridos na LOG…………………………………... 55

Quadro 18: Taxas de sinistralidade por sector da LOG…………………………………………… 55

xv
Quadro 19: Medidas propostas (P) pelo SSO e implementadas (I) pela LOG…………………. 56

Quadro 20: Grau de cumprimento dos requisitos da checklist na LOG………………………… 57

Quadro 21: Categorias de codificação das entrevistas realizadas na LOG e respetivas
frequências ……………………………………………………………………………………………. 58

Quadro 22: Oficinas do SIE, respetivas responsabilidades e número de profissionais…..... 64

Quadro 23: Distribuição por grupos etários dos profissionais do SIE………………................ 65

Quadro 24: Distribuição por nível de escolaridade dos profissionais do SIE…………………… 65

Quadro 25: Distribuição por antiguidade dos profissionais do SIE…………………………...... 65

Quadro 26: Clima de segurança no SIE (médias e desvios-padrão)…………………………... 66

Quadro 27: Evolução temporal do número de acidentes de trabalho (AT) por oficina do SIE. 67

Quadro 28: Evolução temporal do número de dias perdidos por oficina do SIE……………… 68

Quadro 29: Tipo de acidentes de trabalho ocorridos no SIE……………………………………… 68

Quadro 30: Taxas de sinistralidade por oficina do SIE………………………………………….. 69

Quadro 31: Doenças profissionais notificadas no SIE…………………………………………… 69

Quadro 32: Medidas propostas (P) pelo SSO e implementadas (I) pelo SIE………………… 70

Quadro 33: Grau de cumprimento dos requisitos da checklist no SIE……………………….... 71

Quadro 34: Categorias de codificação das entrevistas realizadas no SIE e respetivas
frequências …………………………………………………………………………………………… 72

Quadro 35: Resultados do clima de segurança: supervisores do SIE (médias e desvios-
padrão) ……………………………………………………………………………………………….. 78

Quadro 36: Médias obtidas nas escalas do questionário de clima de seg. e taxas de
sinistralidade…………………………………………………………………………………………… 80

Quadro 37: Correlações (coeficiente de Pearson) entre os resultados nas escalas de clima
de segurança e taxas de sinistralidade e respetiva associação……………………………….. 80

xvi
Índice de gráficos

Gráfico 1: Taxa de incidência de acidentes de trabalho mortais por 100.000 trabalhadores: dados
relativos a 2011 e 2012…………………………………………………................................................. 9

Gráfico 2: Taxa de incidência de acidentes de trabalho não-mortais por 100.000 trabalhadores:
dados relativos a 2011 e 2012…………………………………………………...................................... 10

Gráfico 3: Evolução do número total de acidentes de trabalho em Portugal e taxa de incidência por
1.000 trabalhadores 2003-2013…………………………………………………………………………….. 11

Gráfico 4: Evolução do número de acidentes de trabalho mortais em Portugal e taxa de incidência
por 100.000 trabalhadores 2003-2013………………………………………………............................. 11

Gráfico 5: Estimativas globais de mortalidade relacionada com o trabalho: dados relativos a 2011. 12

Gráfico 6: Incapacidades originadas por acidentes de trabalho na LOG……….............................. 54

Gráfico 7: Total de medidas preventivas e corretivas propostas pelo SSO à LOG ao longo dos
anos ………………............................................................................................................................. 56

Gráfico 8: Incapacidades originadas por acidentes de trabalho no SIE……………………………...... 68

Gráfico 9: Total de medidas preventivas e corretivas propostas pelo SSO ao SIE ao longo dos
anos…………………………………………………………………………………………………………….. 70

xvii
Lista de abreviaturas e siglas

EPI – Equipamento de Proteção Individual

EU-OSHA – European Agency for Safety and Health at Work

HSE – Health and Safety Executive

HSL – Health and Safety Laboratory

IAEA – International Atomic Energy Agency

ILO – International Labour Organization

LOG – Serviço de Logística

SIE – Serviço de Instalações e Equipamentos

SSO – Serviço de Saúde Ocupacional

SST – Segurança e saúde do trabalho

WHO – World Health Organization

xviii
1. Introdução

1.1. Pertinência do tema

Nos últimos anos têm vindo a ocorrer mudanças profundas no mundo do trabalho:
reestruturações de empresas, downsizing, aumento do número de trabalhadores
subcontratados ou adoção de novas tecnologias. Em muitas partes do mundo, os setores
primário e secundário estão a diminuir, enquanto o sector terciário se encontra em grande
expansão. A composição demográfica da força de trabalho está também a mudar, assim
como as exigências relacionadas com a conjugação de trabalho e família (EU-OSHA, 2014).

Os cidadãos em idade activa passam cerca de um terço da sua vida a trabalhar. Nesse
sentido, devido ao peso que assume na vida das pessoas, o trabalho deve ser objeto da
maior atenção das intervenções em Saúde Pública (SOUSA-UVA, SERRANHEIRA, 2013).

A segurança e saúde ocupacionais são elementos essenciais no mundo do trabalho. A
prevenção de acidentes de trabalho e de doenças profissionais tem sido objeto de políticas
públicas, tendo os governos aprovado legislação implementando requisitos mínimos de
segurança e penalizações para os não cumpridores. Também as administrações de
empresas tentaram criar standards mínimos de segurança para limitar a ocorrência de
lesões ocupacionais.

Os acidentes de trabalho e as doenças profissionais tornam-se um verdadeiro tema de
Saúde Pública se atentarmos na sua expressão à escala internacional e nacional. Em
Portugal, a Estratégia Nacional para a Segurança e Saúde no Trabalho 2015-2020
(Resolução do Conselho de Ministros nº 77/2015) reconhece a sua importância realçando“a
dimensão nacional dosproblemas associados à segurança e saúde no trabalho,no que
concerne aos elevados índices de sinistralidadelaboral e de absentismo e aos elevados
custos sociaise económicos associados aos acidentes e às doençasprofissionais”.

Um dos principais fatores contribuintes para a ocorrência de acidentes de trabalho
identificados pela Organização Internacional do Trabalho (TAKALA, URRUTIA, 2009) é a
existência de uma cultura de segurança pobre. Outros organismos e instituições mundiais e
europeias salientam a importância e necessidade de uma cultura de prevenção e segurança
para a prevenção de acidentes.

Apesar de existirem divergências na concetualização teórica do conceito de cultura de
segurança entre diferentes autores, o conceito adquiriu, nos últimos anos, um papel central
na explicação de acidentes de trabalho. Para este facto contribuíram de forma decisiva

1
grandes acidentes como o de Chernobyl ou do vaivém espacial Columbia. Estes acidentes,
com grandes repercussões e múltiplas causas, vieram pôr em evidência a natureza
complexa dos acontecimentos que antecedem um acidente e colocaram os valores, normas
e práticas de segurança no centro das atenções (GULDENMUND, 2010).

Um conceito relacionado com o de cultura de segurança é o de clima de segurança. A
definição de clima de segurança revela um maior consenso entre diferentes autores,
correspondendo às perceções dos trabalhadores sobre vários aspetos relacionados com a
segurança na organização a que pertencem (ZOHAR, 2003). O clima de segurança resulta
assim de processos psicológicos de interpretação do meio de trabalho.

Nos últimos anos surgiram algumas tentativas teóricas de integração dos conceitos de
cultura e de clima de segurança. Alguns autores sugerem que o clima de segurança pode
ser considerado uma manifestação da cultura de segurança, à semelhança do que acontece
com os conceitos de cultura e de clima organizacionais (SILVA, 2008).

O estudo da cultura de segurança de uma organização é uma área em que vários saberes
se cruzam, particularmente os fundamentados numa perspetiva psicossocial das
organizações. Esta perspetiva parte do princípio de que existem outros aspetos que podem
influenciar a prevenção de riscos profissionais, para além de aspetos apenas formais.

1.2. Definição do problema

Os estabelecimentos de saúde são organizações complexas, sendo que muitos dos
contextos em que os trabalhadores executam as suas tarefas, bem como a multiplicidade de
tarefas que executamsujeitam-nos a grande variedade de fatores de risco profissional
(LEITE, SOUSA-UVA, 2015).

Este trabalho incide sobre os trabalhadores que desempenham funções operacionais em
dois serviços não clínicos de um hospital central: o Serviço de Logística e o Serviço de
Instalações e Equipamentos. Ao longo dos últimos anos, registaram-se vários acidentes de
trabalho em ambos os serviços, sendo a sua incidência superior a muitos dos serviços
clínicos do mesmo hospital. Apesar de múltiplas medidas implementadas no sentido de
melhorar as condições de trabalho dos profissionais (ex. beneficiação das instalações,
aquisição de equipamentos de proteção individual) os acidentes de trabalho continuam a
ocorrer periodicamente, com consequências para os trabalhadores e organização. Esta
observação sugere que poderão existir outros fatores a influenciar a sua ocorrência, sendo
importante tentar perceber se a cultura de segurança pode ser um deles.

2
A exploração da cultura e doclima de segurança num dado contexto de trabalho pode
permitir identificar sinais de deterioração nas práticas de trabalho, o que pode servir de
indicador de que algum acidente grave pode vir a ocorrer. Este aspeto preditivo da cultura
de segurança constitui, de acordo com Guldenmund (2010) um dos motivos de o conceito se
ter tornado tão apelativo para investigadores e pessoas que trabalham na área da
segurança e saúde do trabalho.

1.3. Modelo teórico deste trabalho

De acordo com vários autores (GULDENMUND, 2010; SILVA, 2008) nenhuma análise
empírica de um conceito pode ser feita até esse conceito ser bem compreendido. O
enquadramento teórico deverá então constituir o guia para a investigação empírica. A
definição de um construto estabelece a base da pesquisa, ou seja, o levantamento de
hipóteses, estabelecimento de paradigmas de pesquisa e interpretação dos dados.

Neste trabalho, e de acordo com Guldenmund (2010), cultura de segurança é entendida
como o conjunto de crenças, valores e normas partilhados pelos membros de uma
organização que constituem os pressupostos básicos dessa organização relativamente a
segurança. Este conjunto de crenças, valores e normas tem origem na cultura
organizacional e é transmitido aos novos membros através de processos de interação
social.

Clima de segurança é entendido neste trabalho como as perceções partilhadas sobre os
valores, crenças, normas, procedimentos e práticas de segurança (GULDENMUND, 2000).
O clima corresponde a uma manifestação temporal da cultura que se reflete nas perceções
partilhadas pelos membros de uma organização num determinado momento,
correspondendo ao nível intermédio da cultura de segurança (SILVA, 2008).

A análise da cultura de segurança da organização deve incluir os vários níveis de
manifestação da mesma. Neste trabalho, para caracterizar o clima de segurança foi utilizado
um questionário. No entanto, para tentar compreender os pressupostos básicos, este
instrumento não é suficiente, pelo que se recorreu a outras técnicas de recolha de dados,
nomeadamente análise documental, observação e realização de entrevistas individuais.

Neste trabalho, a análise e compreensão da cultura de segurança dos dois serviços
estudados constituiu o primeiro objectivo. No entanto, existe também a expectativa de que
esta análise possa servir para fundamentar sugestões ou recomendações que possam ser

3
efetuadas aos serviços envolvidos para melhorar a segurança dos trabalhadores desses
serviços e diminuir o número de acidentes de trabalho.

Em relação ao nível de análise deste trabalho, ele enquadra-se numa perspetiva
diferenciadora da cultura organizacional, que considera a existência de subculturas dentro
da organização(CHAMBEL, CURRAL, 2008). Uma vez que este trabalho se desenvolve
numa organização de elevada dimensão e complexidade (um hospital central constituído por
dois pólos, altamente especializado e com mais de 6000 profissionais), optou-se por uma
focalização ao nível do Serviço e não da organização como um todo.

Foram escolhidos dois serviços que apresentam características de estabilidade do ponto de
vista organizacional há alguns anos. Esta característica é apontada por diversos autores
como importante para a sedimentação de uma cultura partilhada (GULDENMUND, 2010).

1.4. Objetivos e perguntas de investigação

Objetivo geral:

Caracterizar os principais aspetos da cultura e do clima de segurança em dois
serviços não clínicos de um hospitale analisar as relações existentes entre a
caracterização efetuadanos dois serviços e os indicadores de sinistralidade.

Objetivos específicos:

Identificar os aspetos da cultura de segurança mais relevantes no Serviço de
Logística e no Serviço de Instalações e Equipamentos do hospital em estudo.
Avaliar o clima de segurança no Serviço de Logística e no Serviço de Instalações e
Equipamentos do hospital em estudo.
Comparar o clima e a cultura de segurança nos dois serviços estudados.
Estudar a associação entre os valores obtidos na avaliação do clima de segurança e
os indicadores de sinistralidade no conjunto dos dois serviços estudados.

4
Perguntas de investigação:

1. Quais os principais aspetos do clima de segurança no Serviço de Logística e no
Serviço de Instalações e Equipamentos?
2. Existem diferenças a nível do clima de segurança nos dois serviços da mesma
organização?
3. Quais os principais aspetos da cultura de segurança no Serviço de Logística e no
Serviço de Instalações e Equipamentos?
4. Existem diferenças a nível da cultura de segurança nos dois serviços da mesma
organização?
5. Existe associação entreo clima de segurança e os indicadores de sinistralidade nos
serviços estudados?

As hipóteses levantadas são as seguintes:

1. Existem diferenças a nível do clima de segurança nos dois serviços da mesma
organização.
2. Existem diferenças a nível da cultura de segurança nos dois serviços da mesma
organização.
3. Existe uma relação positiva entre um clima de segurança forte e menores taxas de
sinistralidade laboral.

5
2. Estado da arte
2.1. A segurança e saúde do trabalho

O Trabalho, enquanto fator determinante do desenvolvimento humano, tem representado
um papel de grande importância na história da humanidade. A salubridade do ambiente de
trabalho constitui um elemento relevante em matéria de saúde e bem-estar das populações.
Trabalhadores saudáveis e seguros em locais de trabalho saudáveis e seguros são por
certo mais produtivos e, dessa forma, participantes no desenvolvimento económico e social
que o trabalho pode proporcionar (EUROPEAN NETWORK FOR WORKPLACE HEALTH
PROMOTION, 2007; SOUSA-UVA, 2011).

Nas últimas décadas, o trabalho tem passado por profundas mudanças caracterizadas,
entre outras, pelo grande fluxo de trabalhadores entre os três setores de atividade
económica e por importantes mudanças tecnológicas. Estas profundas mudanças
tecnológicas e organizacionais associadas à terciarização e à globalização da economia
mundial, têm colocado novos desafios às relações entre o trabalho e a saúde dos
trabalhadores (SOUSA-UVA, SERRANHEIRA, 2013).

Para além disso, assiste-se ao crescimento recente de novas formas de relações de
trabalho entre empregador e empregado, como o teletrabalho, o “outsourcing”, o trabalho
temporário ou o sazonal, as quais implicam novas condições e condicionantes do trabalho
que podem ter implicações negativas na segurança e saúde dos trabalhadores (TAKALA,
URRUTIA, 2009).

Organismos internacionais como a Organização Internacional do Trabalho têm vindo a
chamar a atenção para as questões relacionadas com a segurança e saúde, como aspetos
essenciais de um trabalho “decente” (ILO, 2005).

No quadro seguinte apresentam-se algumas estimativas globais desta organização relativas
a acidentes de trabalho e workrelatedillnesses (ILO, 2014).

6
Figura 1: Estimativas globais de acidentes de trabalho e workrelatedillnesses: dados relativos a 2010

- Cerca de 2,3 milhões de pessoas morreram em resultado de
acidentes de trabalho e work related illnesses;
- Ocorreram mais de 350.000 mortes provocadas por acidentes
de trabalho;
- Ocorreram mais de 313 milhões de acidentes de trabalho não
mortais (com pelo menos 4 dias de ausência ao trabalho) ;
- Ocorreram mais de 1,9 milhões de mortes relacionadas com
work related illnesses;
- 6.300 pessoas morreram por dia devido a acidentes de
trabalho e work related illnesses.

NOTA: Conceito de work related illnesses : doenças multifactoriais na população trabalhadora, que
podem ser causadas, agravadas, aceleradas ou exacerbadas pela exposição profissional, ou causa
de diminuição da capacidade de trabalho (HAMALAINEN, 2010).

Fonte: ILO, 2014

De acordo com a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, a nível europeu
(EU-27), em 2007, 5.580 acidentes de trabalho originaram a morte do trabalhador e 2,9% da
força de trabalho teve um acidente que resultou em mais de três dias de ausência ao
trabalho. Para além disso, aproximadamente 23 milhões de pessoas tiveram um problema
de saúde causado ou agravado pelo trabalho ao longo de um período de 12 meses (EU-
OSHA, 2014).

2.1.1. Objetivos da segurança e saúde do trabalho

A Organização Mundial de Saúde definiu saúde não apenas como a ausência de doença,
mas como um estado de completo bem-estar físico, mental e social(LOUREIRO, MIRANDA,
2010).

De acordo com a EU-OSHA (TAKALA, URRUTIA, 2009) um local de trabalho saudável é
aquele onde, dentro da medida do possível, não existem fatores de risco que possam afetar
a saúde do trabalhador. O ambiente de trabalho saudável será aquele em que não ocorrem
acidentes de trabalho ou doenças profissionais, não ocorre discriminação de qualquer tipo e
que possibilita um equilíbrio com as necessidades pessoais e familiares. Deverá ser ainda
um local que proporcione oportunidades para o desenvolvimento profissional e a promoção
do bem-estar dos trabalhadores.

Os objetivos fundamentais da segurança e saúde do trabalho (SST),são a prevenção de
riscos profissionais e a promoção da saúde de quem trabalha. É importante assegurar que

7
os acidentes de trabalho e doenças profissionais sejam prevenidos tanto quanto possível,
mas também promover comportamentos seguros e saudáveis entre todos os trabalhadores.

As abordagens relativas à segurança e saúde nos locais de trabalho têm-se centrado
sobretudo nos fatores de risco de natureza profissional, incidindo nas consequências
negativas do trabalho sobre a saúde. Desta forma são muitas vezes esquecidos os aspetos
positivos que o trabalho pode trazer em termos de satisfação, bem-estar e realização
pessoal. O trabalho possui também uma vertente salutogénica e não apenas patogénica
(LOUREIRO, MIRANDA, 2010).

De acordo com Sousa-Uva e Serranheira (2013), é necessário um maior investimento na
capacitação e autonomia dos trabalhadores em matéria de segurança e saúde do trabalho,
que estimule a prevenção dos riscos profissionais e a promoção da sua saúde. A informação
e formação dos trabalhadores constitui, neste âmbito, uma importante ferramenta da gestão
de riscos profissionais.

No entanto, o desenvolvimento de atividades na área de SST é ainda visto, frequentemente,
como um “custo” e não como um investimento na qualidade de vida e de trabalho das
pessoas ou como podendo contribuir para a melhoria de produtividade das organizações. A
SST deverá antes ser encarada como motor e não como obstáculo, constituindo uma
componente essencial do crescimento económico e do desenvolvimento social (EU-OSHA,
2010; SOUSA-UVA, SERRANHEIRA, 2013).

Várias organizações têm vindo a salientara relação entre boas práticas de SST e ganhos em
termos de produtividade, menos dias de ausência ao trabalho e,diretamente, em poupança
de dinheiro. A Associação Alemã de Companhias Seguradoras, por exemplo, calcula um
retorno da prevenção de 1,6 para uma empresa de média dimensão. Um estudo realizado
por esta organização revelou que 33 de 34 empresas declararam que o dinheiro investido
emprevenção compensa em termos de benefícios monetários para a empresa. A poupança
média por empresa foi estimada em 436,10 euros por trabalhador por ano (EU-OSHA ,
2010).

A realidade, no entanto, é que os acidentes de trabalho e doenças profissionais continuam
atualmente a constituir um problema a nível nacional, europeu e mundial, com graves
consequências sociais e económicas. As lesões e mortes relacionadas com o trabalho
continuam a acontecer quer em países industrializados, quer em países em
desenvolvimento (ILO, 2014).

8
2.1.2. Acidentes de trabalho

Os custos económicosdos acidentes de trabalho são muito elevados. No Reino Unido, os
acidentes de trabalho e os novos casos de doença profissional em trabalhadores, originaram
um custo estimado de 14.2 biliões de libras para a economia britânica em 2012/13 (HSE,
2014).

Para além dos custos económicos, os acidentes de trabalho possuem também elevados
custos sociais (BARLING, FRONE, 2004). As estatísticas oficiais relativas ao número e
custos económicos associados a lesões ocupacionais, não refletem os custos associados ao
sofrimento humano resultante das mesmas. As pessoas afetadas incluem não só o próprio
acidentado, mas também os que o rodeiam. Para além disso, o impacto dos acidentes de
trabalho na produtividade vai muito além da esfera de trabalho, afectando a sua contribuição
para a família e comunidade.

Ao longo dos últimos anos, tem-se observado uma redução no número de acidentes de
trabalho mortais e não mortais, pelo menos em termos dos países industrializados (ILO,
2007; ILO, 2014). No entanto, apesar dos progressos verificados, as preocupações com a
segurança e saúde no local de trabalho não podem ser esquecidas.

A nível da União Europeia, a redução do número de acidentes de trabalho continua a ser
uma prioridade (TAKALA, URRUTIA, 2009). Os gráficos seguintes apresentam alguns dados
comparativos da realidade em diferentes países da UE, em termos das taxas de incidência
de acidentes mortais e não mortais.

Gráfico 1: Taxa de incidência de acidentes de trabalho mortais por 100.000 trabalhadores: dados
relativos a 2011 e 2012

Fonte: Eurostat, 2015

9
Gráfico 2: Taxa de incidência de acidentes de trabalho não-mortais por 100.000 trabalhadores: dados
relativos a 2011 e 2012

Fonte: Eurostat, 2015

Como pode ser concluído da análise dos gráficos apresentados Portugal apresentou em
2011 e 2012, taxas elevadas de incidência de acidentes de trabalho mortais e não-mortais
comparativamente a outros países da EU. Em 2012, em termos de acidentes de trabalho
mortais, Portugal foi o quinto país com maior taxa de incidência entre todos os países da
EU; em termos de acidentes de trabalho não mortais ficou em primeiro lugar.

De acordo com a Norma Portuguesa 4397:2001, relacionada com os sistemas de gestão da
segurança e saúde do trabalho, acidente de trabalho é entendido como aquele que se
verifique no local e tempo de trabalho e produza, direta ou indiretamente lesão corporal,
perturbação funcional ou doença de que resulte redução na capacidade de trabalho ou de
ganho ou a morte. É esta também a definição adoptada pela Lei nº 98/2009, que
regulamenta o regime de reparação de acidentes de trabalho e de doenças profissionais em
Portugal.

Os gráficos seguintes apresentam alguns dados relativamente aos acidentes de trabalho
ocorridos em Portugal.

10
Gráfico 3: Evolução do número total de acidentes de trabalho em Portugal e taxa de incidência por
1.000 trabalhadores 2003-2013

400.000 46,9
46,6 46,7 46,7
46,2
350.000
45,3 44,0 44,1 44,1
300.000 43,7
237.222 234.109 228.884 237.392 237.409 240.018 42,5
250.000 217.393 215.632 209.183
193.611 195.578
200.000

150.000

100.000

50.000

0
2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Total de acidentes de trabalho Taxa de incidência

Fonte: Adaptado de PORDATA, 2015

Gráfico 4: Evolução do número de acidentes de trabalho mortais em Portugal e taxa de incidência por
100.000 trabalhadores 2003-2013

Fonte: Adaptado de PORDATA, 2015

Relativamente à realidade portuguesa assistiu-se, na década que decorreu entre 2003 e
2013 (ano mais recente com dados disponíveis), a uma redução de mais de 40.000
acidentes de trabalho. A redução mais significativa a nível percentual deu-se, no entanto, a
nível dos acidentes de trabalho mortais, em que o seu número baixou quase 50% numa
década (de 312 em 2003 para 160 em 2013).

11
De qualquer forma “tal redução não deve, no entanto, esmorecer os nossos esforços na
diminuição dos acidentes de trabalho que, de facto, podem ser reduzidos tendencialmente a
zero” (SOUSA-UVA, SERRANHEIRA, 2013).

2.1.3. Doenças profissionais

As doenças profissionais diferem dos acidentes de trabalho em três aspetos: o tempo de
ocorrência é mais longo (podendo chegar a dezenas de anos); a identificação do agente
etiológico não é tão fácil; a lesão / doença é também mais difícil de ser identificada (SOUSA-
UVA, SERRANHEIRA, 2013).

Para além das doenças profissionais (entendidas como doenças contraídas como resultado
da exposição a fatores de risco no local de trabalho), existem outros conceitos relevantes
quando se aborda os potenciais efeitos dos fatores de risco laborais na saúde. Um deles é o
conceito mais abrangente de work-relatedillnesses(conceito definido na Figura 1), as quais
possuem causa multi-fatorial, podendo ser causadas, agravadas, aceleradas ou
exacerbadas pela exposição profissional (HAMALAINEN, 2010).

De acordo com a ILO (2014), em 2010, a nível global, ocorreram mais de 1,9 milhões de
mortes relacionadas comwork-relatedillnesses, cerca de seis vezes mais do que o total de
mortes ocorridas por acidente de trabalho no mesmo período.

Gráfico 5: Estimativas globais de mortalidade relacionada com o trabalho: dados relativos a 2011

Fonte: ILO, 2014

Analisando o gráfico 5, pode constatar-se que, a nível global, de entre as work-
relatedillnesses, as doenças cardiovasculares e circulatórias foram aquelas que estiveram

12
relacionadas com mais mortes (35%), seguidas das neoplasias (29%) e das doenças
transmissíveis (10%).

De acordo com Hamalainen (2010), as doenças transmissíveis constituem um problema
sobretudo nos países em desenvolvimento, enquanto as neoplasias relacionadas com o
trabalho contribuem de forma considerável para o número de doenças oncológicas que
ocorrem nos países desenvolvidos. Assim, pode observar-se a nível do mundo do trabalho
uma tendência de transição epidemiológica global, observada também a nível das doenças
não relacionadas com o trabalho (LOPEZ et al., 2006).

Vários estudos sugerem que o número de work-relatedillnessesse encontra subestimado
(HAMALAINEN, 2010; ILO, 2014). De facto, enquanto as consequências dos acidentes de
trabalho são sentidas de forma imediata, a extensão do impacto das work-relatedillnessesé
mais difícil de estimar. Para além disso, as doenças causadas pelo ambiente de trabalho
recebem menos atenção da parte dos meios de comunicação social e da esfera política do
que os acidentes de trabalho, mais visíveis e fáceis de reportar (TAKALA, URRUTIA, 2009).

As estatísticas disponíveis sobre doenças profissionais em Portugal contemplam o momento
da participação obrigatória da doença à Segurança Social eo seu reconhecimento.

Quadro 1: Doenças profissionais reconhecidas em Portugal por grupo de doenças e ano (2001-2008)

Fonte: Adaptado de EUROGIP, 2012

Como se pode observar no quadro, parece existir uma tendência de aumento do
reconhecimento de doenças profissionais entre 2001 e 2008 (ano mais recente ao qual foi
possível ter acesso a dados estatísticos sobre doenças profissionais em Portugal). Os
agentes físicos foram aqueles que estiveram etiologicamente relacionados com a maioria
das doenças profissionais reconhecidas; estas doenças relacionaram-se sobretudo com
perturbações músculo-esqueléticas e surdez profissional.

13
2.2. A gestão da segurança e saúde do trabalho

De acordo com a Directiva-Quadro 89/391/CEE (União Europeia, 1989), a fim de alcançar a
melhoria contínua da segurança e saúde dos trabalhadores, é necessária uma gestão
baseada numa estratégia sistemática e integrada, pró-ativa e participativa.

Uma gestão eficaz da SST implica a sua articulação com a gestão geral da organização,
assim como a consideração de questões relacionadas com a regulamentação e questões
técnicas (EU-OSHA, 2010).

De facto, a SST constitui uma área altamente regulamentadae cuja gestão, numa primeira
análise, se baseia numa abordagem sobretudo racional. Se se considerar os diplomas legais
que se aplicam à área da SST em Portugal, o seu número total é difícil de estimar, atingindo
com certeza as largas dezenas, senão mesmo as centenas de diplomas.

Para além da legislação,um outro exemplo desta abordagem da SST são os Sistemas de
Gestão da Segurança e Saúde no Trabalho (Norma Portuguesa 4397:2001). Estes
salientam aspetos relacionados com a importância de empregadores e trabalhadores
deverem estar conscientes dos riscos profissionais; análise sistemática dos riscos, de forma
que os mesmos possam ser eliminados ou reduzidos a níveis aceitáveis; e assegurar que
esses riscos permanecem no mais baixo nível possível.

No entanto, a SST envolve mais do que apenasquestões formais. A prevenção de riscos e a
segurança e saúdetêm a ver com pessoas, pelo que os aspetos comportamentais e os
processos sociais e culturais não podem ser esquecidos (HALE, HOVDEN, 1998;
ZWETSLOOT, STEIJGER,2013).

De acordo com ZWETSLOOT e STEIJGER(2013), as organizações podem ter uma
perspetiva estratégica, tática ou operacional na área da SST. A perspetiva estratégica dá
grande ênfase ao papel da liderança pela influência que tem sobre toda a organização
(KINES et al., 2011). De acordo com os mesmos autores uma característica importante de
uma cultura de SST preventiva é o compromisso da administração com a "visão zero"(ou
seja, a crença de que todos os acidentes e danos são evitáveis), eo desejo de a tornar
realidade. O oposto da "visão zero" é a crença de que os acidentes e os danos são
lamentáveis, constituindo uma consequência inevitável do trabalho; esta perspetiva implica
que os acidentes e lesões são aceitáveis.

A perspetivatática salienta sobretudo a interação entre os valores partilhados na
organização e osdiferentes sistemas que a constituem, podendo ser representada pelo
modelo dos 7S de McKinsey (PETERS, WATERMAN, 1982). Aplicando o modelo à área da

14
SST, pode compreender-se que, tal como outros sistemas da organização, os sistemas
técnicos de segurança e os sistemas de gestão de SST interagem com os valores
partilhados (a cultura da organização).

Numa perspetiva operacional da SST, o foco são os comportamentos inseguros e não
saudáveis, vistos como um obstáculoao controlo do risco e como precursores de acidentes
ou problemas de saúde.

2.3. Cultura organizacional

As organizações podem ser consideradas como comunidades sociais que partilham um
conjunto de valores fundamentais. Os valores centrais de uma organização são
reconhecidos como os principais determinantes da identidade da organização, influenciando
asua missão, visão e estratégias, bem como a concepção e funcionamento dos seus
sistemas, estrutura ou políticas (CHAMBEL, CURRAL, 1995).

O estudo da cultura das organizações teve um importante impulso qualitativo durante a
década de oitenta do século passado, graças ao desenvolvimento de estudos de grande
dimensão sobre características culturais de empresas de sucesso e à criação de modelos
teóricos integrados de cultura organizacional (CHAMBEL, CURRAL, 1995).

Compreender como as decisões são tomadas numa organização, como são estabelecidas
prioridades e como se comportam os seus elementos, implica proceder à análise da
organização.Existem vários modelos de análise das organizações. Um dos mais conhecidos
é omodelo dos 7S de McKinsey (PETERS, WATERMAN, 1982). Um outro modelo de
organização identificatrês componentes principais: "estrutura", "processos" e "cultura”
(ANTONSEN, 2009; GULDENMUND, 2010):

- a estrutura organizacional relaciona-se com os aspetos formais de uma organização.
Engloba as infra-estruturas, mas também a distribuição de funções e responsabilidades,
questões de controlo e autoridade (poder).

- os processos organizacionais referem-se ao core business e processos de suporte da
organização. Incluem sistemas de gestão, bem como processos de interação sociais, ou
seja, tudo o que diz respeito a relações sociais,comunicação, troca de informação,
cooperação, confiança, competição ou conflito.

- a cultura organizacional tem a ver com os aspetos informais do trabalho e da organização.
Relaciona-se com aquilo que as pessoas valorizam/não valorizam e com as crenças e

15
convicções partilhadas. A cultura organizacional é por vezes descrita como "a forma como
fazemos as coisas por aqui".

Neste modelo, os três componentes organizacionais - estrutura, processos e cultura –
encontram-se interligados, afetando-se uns aos outros e atuando sobre as pessoas da
organização. Para além disso, este triângulo organizacional é influenciado porum contexto
mais amplo, que inclui a cultura nacional, regional, setorial e / ou profissional, a situação
política e económica, a regulamentação, o desenvolvimento tecnológico, entre outros.

De acordo com Schein (1992), a cultura de um grupo é um padrão de pressupostos básicos
partilhados que funcionaram suficientemente bem para serem considerados válidos e,
consequentemente, serem transmitidos aos novos membros como a maneira correcta de
perceber, pensar e sentir numa organização. Para que um grupo tenha uma cultura é
condição necessária que exista uma estabilidade de pertença e um passado de
aprendizagem comum.

No entanto, uma organização raramente é constituída por um grupo único e homogéneo,
sendo constituída por um aglomerado de subgrupos que poderão ter visões próprias da
realidade. Poderá então dizer-se que podem coexistir numa organização uma cultura
dominante e muitas outras subculturas, que partilham até certo ponto os pressupostos da
organização, mas que introduzem pressupostos específicos ao subgrupo. Essas subculturas
podem estar relacionadas com diferentes departamentos, níveis hierárquicos, funções, etc.
Esta perspetiva da cultura organizacional é designada como perspetiva diferenciadora
(ANTONSEN, 2009; CHAMBEL, CURRAL, 2008).

Particularmente em organizações de grande dimensão e complexidade, as variações entre
subgrupos são substanciais, sugerindo não ser possível falar numa única cultura
organizacional(SCHEIN, 1992). De facto, odesign de organizações de grande dimensão
envolve a estruturação em departamentos e níveis hierárquicos (MINTZBERG, 1995), o que
significa que a interação e comunicação irão ter lugar em subgrupos dentro da organização
mais alargada.

De acordo com alguns autores, a cultura organizacional constitui um antecedente da cultura
de segurança. Uma outra perspetiva defende que a cultura de segurança constitui uma parte
da cultura organizacional global, afectando as atitudes e crenças dos seus membros em
relação ao desempenho em segurança (HSL, 2002; SILVA, 2008).

16
2.4. Cultura de segurança e saúde

A forma como é encarada a área da segurança e saúde do trabalho numa organização pode
ser compreendida a partir das inter-relações estabelecidas entre os três componentes
organizacionais atrás mencionados: estrutura, processos e cultura (EU-OSHA, 2010). A
cultura organizacional, tal como as outras componentes, influencia aspetos relacionados
com a segurança e saúde.

O termo "cultura de segurança e saúde” não é usado com muita frequência na literatura
científica. A maior parte da investigaçãofoca, sobretudo, os conceitos de "cultura de
segurança" e "clima de segurança" (EU-OSHA, 2011; ZWETSLOOT, STEIJGER, 2013).

2.4.1. A importância da cultura de segurança e saúde do trabalho

Várias organizações internacionais têm vindo a salientar a importância do desenvolvimento
de uma cultura de segurança e saúde do trabalho. De acordo com a Organização
Internacional do Trabalho, um elemento-chave para a gestão da SST consiste na promoção
de uma cultura de prevenção dentro da organização. De acordo com esta organização, o
direito a um ambiente de trabalho seguro e saudável deve ser respeitado,
devendoempregadores e trabalhadores participarativamente na sua construção (ILO, 2005).

A nível da União Europeia, um dos eixos centrais da estratégia na área da SST consiste em
integrar a prevenção de riscosno planeamento de políticase em todas as vertentes da vida
dos trabalhadores. Esta estratégia define como prioridadesenfrentar os problemas de SST
associados com custos humanos e financeiros graves, promovendo o valor económico da
SST e apoiando o desenvolvimento de uma cultura preventiva (EU-OSHA, 2005).

A Rede Europeia para a Promoção da Saúde no Trabalho (ENWHP, 2007) define a
promoção da saúde no local de trabalho como os esforços combinados de empregadores,
trabalhadores e sociedade para melhorar a saúde e bem-estar das pessoas no trabalho.
Trabalhadores saudáveis, motivados e qualificados são vistos como fundamentais para o
bem-estar social e económico da União Europeia.

Em Portugal otermocultura de segurança ou cultura de prevenção (como por vezes é
referida) entraram nos anos mais recentes no léxico da área da SST.A Estratégia Nacional
para a SST 2015-2020 (Resolução do Conselho de Ministros nº 77/2015) estabelece a
importância da promoção de uma cultura de prevenção como um dos pilares fundamentais
para ser atingido o primeiro objetivo estratégico: o de “promover a qualidade de vida no
trabalho e a competitividade das empresas”.

17
O Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, instituído pela Organização Internacional
do Trabalho, tem como objetivo homenagear as vítimas de acidentes de trabalho e doenças
profissionais, sendo comemorado oficialmente em inúmeros países como parte integrante
da estratégia para a segurança e saúde no trabalho. De acordo com a Autoridade para as
Condições de Trabalho, outro objetivo deste Dia é o de promover a criação e fortalecimento
de uma cultura global de segurança através da sensibilização de todos os atores laborais
(site ACT, consultado em Março de 2016).

2.4.2. Cultura de saúde

A cultura organizacional é apontada como um importante determinante de mudança
comportamental na área da segurança e saúde do trabalho. No entanto, enquanto já existe
uma tradição de investigação sobre o tema da cultura de segurança, o tema da cultura da
saúde organizacional é muito menos abordado. Em consequência, instrumentos relativos à
avaliação da cultura de saúde organizacionalsão difíceis de encontrar (EU-OSHA, 2011).

Alguns estudos que podem ser referidos nesta área são os de Peterson e Wilson (1998),
que desenvolveram o modelo Culture-Work-Health, em que se salienta a importância de
uma interdependência entre a saúde individual e a organizacional. Em 2002, os mesmos
autores integraram no modelo a noção de stresse relacionado com o trabalho (PETERSON,
WILSON, 2002). A cultura organizacional é vista como um importante elemento na
compreensão do stresse relacionado com o trabalho, constituindo a chave para o
desenvolvimento de intervenções eficazes nesta área.

O conceito de "organização saudável" explora também a relação entre cultura
organizacional e saúde. Organização saudável é definida como aquela cujacultura, práticas
de gestão e ambiente de trabalho criam um ambiente que promove a saúde, eficiência e
desempenho de seus colaboradores (SALANOVA, 2008). Organizações saudáveis são
capazes de equilibrar os objetivos de desempenho económicocom objetivos orientados para
a saúde e bem-estar dos trabalhadores, adaptando-se a um contexto de mudança constante
em termos de ambiente económico e social.

Da mesma forma, a Rede Europeia para a Promoção da Saúde no Trabalho defende
"trabalhadores saudáveis em organizações saudáveis”, salientando a importância da
contribuição das práticas de gestão para a consolidação de uma cultura de saúde(ENWHP,
2007).

18
2.4.3. Cultura de segurança do doente

Um tópico relacionado com o conceito de cultura de segurança, é o de "cultura de
segurança do doente". Seria difícil não abordar este conceito num trabalho em que, embora
a população-alvo seja constituída por trabalhadores de serviços não clínicos, o contexto é o
hospitalar.A literatura sobre o tema da segurança do doente é muito vasta, saindo fora do
âmbito deste trabalho. Serão apenas abordados de forma abreviada alguns aspetos em que
os conceitos de segurança do doente e segurança dos profissionais se relacionam.

A segurança do doente encontra-se direcionada para a proteção de doentes e não para a
proteção dos trabalhadores das organizações de prestação de cuidados de saúde (FLIN et
al., 2009).No entanto, segurança do doente e segurança do profissional podem também ser
olhadas como “duas faces da mesma moeda” (SERRANHEIRA et al., 2009). De facto, o
surgimento de duas expressões diferentes (duas “seguranças” ou “safety”: patientsafety e
occupationalsafety) surge como característica da área da saúde, sendo que na segurança
do doente se pretende adoptar estratégias que permitam prevenir danos a um interveniente
específico (o “doente”) já de si fragilizado.

Reflectindo sobre esta relação entre as expressões segurança do doente e segurança do
profissional, não se pode deixar de pensar numa série de aspetos em que ambas se inter-
relacionam. Desde logo a adoção de uma perspetiva sistémica na análise da causalidade
dos fenómenos ligados à ocorrência de eventos adversos / acidentes de trabalho, mas
também o conjunto de metodologias de que se servem para tentar alcançar as suas
finalidades (REASON, 2002). Mesmo que os termos utilizados não sejam exatamente os
mesmos, existem analogias entre eles. Na minha opinião, as “linguagens” utilizadas são
muito próximas.

Um tema que tem vindo a ganhar relevo progressivo na área da segurança do doente é o da
cultura de segurança do doente nas organizações de saúde (SOUSA et al., 2009). O
conceito de cultura de segurança do doente tem as suas raízes no conceito de cultura
organizacional, salientando o conjunto de crenças, valores e normas partilhados pelos
membros de uma organização, que constituem os pressupostos básicos dessa organização
sobre segurança do doente (FLINet al., 2009). O conceito é análogo ao de cultura de
segurança ocupacional, embora o objecto seja diferente.

Alguns estudos recentes têm tentado analisar a cultura de segurança em diferentes tipos de
organizações de saúde, estabelecendo uma ligação entre a cultura de segurança do hospital
e a segurança do doente e do profissional (NAVEH et al., 2005).

19
2.4.4. Cultura de segurança do trabalho

O conceito de cultura de segurança surgiu inicialmente associado ao setor da indústria
nuclear, mas com o decorrer dos anos foi “exportado” para outros setores de atividade. Em
quase 30 anos de pesquisa nesta área, os estudos emergiram sobretudo dos campos da
psicologia social e organizacional.

No entanto, hoje em dia, o conceito foi apropriado não apenas por investigadores da área
científica como também por organizações ligadas à área da segurança e saúde do trabalho.
Muitas empresas de consultoria também o utilizam com vista a abordagens mais
pragmáticas. Não será por isso de estranhar que uma pesquisa da expressão “safetyculture”
num dos motores de busca mais conhecidos da internet origine 129.000.000 de resultados
(pesquisa efetuada em 4 de Maio de 2016).

2.4.4.1. Segurança nas organizações

O conceito de segurança refere-se a um estado ou situação em que o risco quantitativo é
considerado aceitável ou tão baixo quanto possível (de acordo com o princípio ALARA: as
low as reasonablyachievable) (REASON, 1997). No entanto, segurança também se refere a
um sentimento de controlo, o qual pode ou não estar alinhado com as descrições
quantitativas de risco. Este sentimento de “estar em segurança”parece estar relacionado
com o grau de confiança sentido em relação aos sistemas de segurança implementados na
organização e às instituições públicas (ZWETSLOOT, STEIJGER, 2013).

A segurança também constitui uma prática, já que se refere à capacidade para reduzir ou
eliminar a probabilidade de ocorrência de eventos perigosos. Esta prática refere-se a
aspetos do desempenho no trabalho e às barreiras (físicas, organizacionais ou tecnológicas)
implementadas para reduzir a possibilidade de ocorrência de acidentes (ANTONSEN, 2009).

Neste trabalho, o conceito de segurança é entendido na perspetiva de Antonsen (2009)
como segurança em relação a acontecimentos não intencionais ocorridos nas
organizações.Este tipo de acontecimentos pode incluir acidentes de grandes dimensões
(com potencial catastrófico em termos de perdas de vidas humanas, consequências
ambientais ou financeiras), acidentes de trabalho (envolvendo menos pessoas) e acidentes
que envolvem terceiras pessoas (passageiros, doentes, etc.).

As abordagens utilizadas para analisar as causas dos acidentes e melhorar a segurança nas
organizações têm variado ao longo do tempo. Hale e Hovden (1998) dividem a história da
pesquisa sobre segurança e tentativas para a melhorar em três fases. Numa primeira fase, a

20
segurança seria vista como uma questão tecnológica, podendo ser melhorada construindo
máquinas e equipamentos mais seguros. Esta fase decorreu desde o início do século XIX
até meados do século XX.A segunda fase caracterizou-se pela introdução da componente
humana na análise dos acidentes de trabalho (SILVA, 2008). Surge assim um foco
crescente no nível individual, tentando melhorar-se os níveis de segurança através de um
recrutamento adequado, de uma consolidação das competências dos trabalhadores e da
aposta na sua motivação. Esta fase decorreu até 1980.A terceira fase da pesquisa sobre
segurança caracteriza-se por um foco crescente nas condições organizacionais de
segurança, particularmente o papel dos sistemas de gestão da segurança.

Um dos temas relacionados com as condições organizacionais de segurança é o da cultura
de segurança, que emerge na sequência da ocorrência dos grandes acidentes das décadas
de setenta e oitenta. Desta forma, a abordagem cultural da segurança constitui uma
extensão da terceira fase da segurança descrita por Hale e Hovden (ANTONSEN, 2009).No
entanto, enquanto a filosofia da gestão da segurança é predominantemente orientada para
aspetos formais da organização (que planeia e controla com base em objetivos), a
abordagem da cultura de segurança é orientada para os aspetos informais da organização.

2.4.4.2. Cultura de segurança

O termo "cultura de segurança" foiusado pela primeira vez após o acidente ocorrido na
central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. O relatório de investigação do
Internacional Nuclear SafetyAdvisoryGroup (INSAG, 1992) pertencente à Agência
Internacional de Energia Atómica (IAEA), identificou uma "cultura de segurança pobre" como
um dos fatores que contribuíram para um dos mais graves acidentesde sempre envolvendo
centrais nucleares.

Figura 2: Extracto do relatório INSAG 7

“The accident can be said to have flowed from deficient safety culture, not only at the Chernobyl
plant, but throughout the Soviet design, operating and regulatory organizations for nuclear power
that existed at the time. Safety culture requires total dedication, which at nuclear power plants is
primarily generated by the attitudes of managers of organizations involved in their development
and operation. An assessment of the Chernobyl accident in this respect demonstrates that a
deficit in safety culture was inherent not only to the stage of operation, but also and to no lesser
extent to activities at other stages in the lifetime of nuclear power plants (including design,
engineering, construction, manufacture and regulation).”
Fonte: INTERNATIONAL NUCLEAR SAFETY ADVISORY GROUP
INSAG-7 The Chernobyl Accident: updating of INSAG-1. Vienna: IAEA, 1992

21
Investigações de outros grandes acidentes ocorridos nos anos seguintestambém
identificaram aspetos culturais como fatores causais. Alguns dos exemplos apontados
incluem o incêndio na estação deKing’sCrossem Londres (1987), a explosão ocorrida na
plataforma de produção de petróleo PiperAlphano Mar do Norte (1988) e os acidentes com
os vaivém espaciais Columbia e Challenger(ANTONSEN, 2009).

Desde então, o conceito de cultura de segurança tem sido cada vez mais utilizado na
investigação sobre segurança, particularmente emsetores de alto risco, tais como o nuclear,
a indústria petroquímica, os transportes públicos de massa (setor ferroviário e aviação),
sendo reconhecida a importância do fator humano e deaspetos organizacionais informaisna
ocorrência de acidentes e na prevenção de riscos (ANTONSEN, 2009).

No entanto, a cultura organizacional e a cultura de segurança são conceitos abstratos, o que
deu aos investigadores um elevado grau deliberdade sobre o seu entendimento e a sua
colocação em prática (HAVOLD, 2007). De facto, parece existiralguma falta de consenso
sobre a forma como o conceito de cultura de segurança é compreendido e inúmeras
definições do mesmo(GULDENMUND, 2010; HSL, 2002; SILVA, 2008). O quadro abaixo
exemplifica algumas das definições de cultura de segurança encontradas na literatura.

Quadro 2: Definições de cultura de segurança

A maioria destas definições baseiam-se numa dasprimeiras definições desenvolvidas: a
doInternacional Nuclear SafetyAdvisoryGroup(INSAG, 1991) contextualizada no setor
nuclear, como pode ser observado na definição apresentada no Quadro 2.No entanto,
parecem existir poucos quadros de referência teóricos para explicar as relações entre

22
cultura organizacional e segurança. Muita da investigação sobre cultura de segurança
parece assentar no pressuposto de que existe uma relação entre cultura e segurança,
embora esta relação seja ainda pouco testada através de investigação empírica
(ANTONSEN, 2009).

Em 1997 Reason afirmava que “poucas expressões são usadas mais frequentemente em
discussões sobre tecnologias de risco do que a expressão cultura de segurança. No
entanto, poucos conceitos são tão pouco compreendidos.” (REASON, 1997).

De acordo com Antonsen (2009), o desenvolvimento do conceito de cultura de segurança
teve a suaorigem nos trabalhos de Turner. Este autor foi um dos primeiros a efetuar estudos
comparativos das sequências de acontecimentos que levaram à ocorrência de grandes
desastres.Turner efetuou os primeiros estudos sobre a relação entre processos culturais e
segurança organizacional, sendo dos primeiros autores a conceptualizar os acidentes como
resultado de um processo e não apenas como acontecimentos súbitos.De acordo com
Turner e Pidgeon (1997), os grandes acidentes são originados por complexas cadeias de
acontecimentos que se vão acumulando ao longo do tempo, sendo que a sequência que
leva ao acidente pode ser iniciada muito antes da ocorrência do evento desencadeador
desse acidente. A esta fase prévia ao evento desencadeador, Turner chamou período de
incubação do acidente.

Esta forma de ver os acidentes como originados pela conjugação de condições latentes e
falhas ativas veio a influenciar o desenvolvimento de modelos de acidentes como o
conhecido modelo do “queijo suiço” de Reason (1997).

Durante o período de incubação do acidente, existem sinais ou sintomas de que as coisas
poderão “correr mal”. A capacidade de a organização detectar esses sinais de perigo
depende da rigidez de perceções e crenças existentes na mesma, os quais constituem um
dos aspetos de particular interesse para a relação com a cultura de segurança.Isto ilustra
um dos paradoxos da cultura organizacional e de segurança, que consiste numa “forma de
ver”, mas também numa “forma de não” ver os sinais de perigo no ambiente de trabalho
(TURNER, PIDGEON, 1997).

Um outro grupo de investigadores estudou as características comuns de organizações que,
apesar de serem muito susceptíveis ao risco, apresentam elevados níveis de segurança, as
chamadas highreliabilityorganizations. Alguns dos aspetos referidos relacionam-se com a
atribuição de um papel determinante aos líderes da organização (SILVA, 2008).

Vários investigadores e organizações tentaram descrever o que caracteriza uma cultura de
segurança positiva. Por exemplo, para o Internacional Nuclear SafetyAdvisoryGroup(INSAG,

23
1991), as organizações com uma cultura de segurança positiva seriam caracterizadas por
comunicações assentes na confiança mútua, por perceções partilhadas acerca da
importância da segurança e pela confiança na eficácia das medidas de prevenção.

Para Reason (1997) uma organização com uma cultura de segurança positiva possui quatro
características inter-relacionadas:

1. Uma cultura de reporte: onde as pessoas comunicam prontamente problemas, erros e
quase-acidentes;
2. Uma cultura justa: em que existe uma atmosfera de confiança que encoraja as pessoas a
reportar informação relevante e onde todos os elementos sabem o que constitui um
comportamento aceitável ou inaceitável;
3. Uma cultura flexível: que permite a adaptação às mudanças de condições ou novas
exigências, mantendo o foco na SST;
4. Uma cultura de aprendizagem: onde as pessoas, individualmente e colectivamente
desejam melhorar a SST e refletem sobre o seu próprio comportamento e o dos outros.

No entanto, enquanto alguns autores encaram a cultura de segurança como um estado que
se deseja atingir e que a organização “tem” ou “não tem” (INSAG, 1991; REASON, 1997),
outros descrevem-na como uma hierarquia em desenvolvimento, ou seja, uma série de
níveis de cultura de segurança crescente (PARKER, LAWRIE, HUDSON, 2006).

2.4.4.3. Níveis de análise da cultura

A imagem de uma cebola, composta por diferentes camadas, é frequentemente usadacomo
analogia para ilustrar a cultura organizacional e de segurança (EU-OSHA, 2011). Schein
(1992)faz uma distinção entretrês níveis diferentes de cultura organizacional, os quais, de
acordo com a IAEA (2002), também podem ser aplicados à cultura de segurança:

(1) artefactos observáveis: inclui os elementos tangíveis / visíveis e identificáveis numa
organização. Exemplos relacionados com a segurança do trabalho são posters ou
slogans,documentos e relatórios relacionados com a segurança (de auditorias, de
acidentes), práticas de trabalho, utilização de equipamento de proteção individual, entre
outros.

(2) valores manifestos: inclui os aspetos declarados ou desejados pela organização.
Exemplos são as declarações escritas ou oraisdo empregador (ex. relacionadoscom a
prioridade atribuída à segurança vs. metas de produção). Os valores também incluemas
atitudesdos trabalhadores em relação a comportamentos (por exemplo relativos a trabalho

24
seguro ou à comunicação sobre a segurança), em relação aoutras pessoas (por exemplo
colegas de trabalho, supervisores, gestores), questões relacionadas com o "software" (por
exemplo, procedimentos de segurança, formação), e "hardware" (por exemplo,
equipamentos de proteção individual).

(3) pressupostos básicos: referem-se às convicções partilhadas em matéria de segurança
entre os membros de uma organização. Esses pressupostos são implícitos e invisíveis, mas
evidentes para os membros. Podem ser sobre o que é seguro eo que não é, podem
relacionar-se com osperigos ou a limpeza dos locais de trabalho, sobre o tempo gasto em
questões de segurança, ou sobre se é aceitável corrigir o comportamento inseguro de outras
pessoas.

Os três níveis da cultura organizacional encontram-se representados no modelo seguinte.

Figura 3: Níveis de cultura organizacional

Artefactos observáveis
Valores manifestos
Pressupostos básicos

Fonte: Adaptado de EU-OSHA, 2011

Enquanto os artefactos correspondem a uma camada mais superficial, o núcleo da cultura
organizacional são os pressupostos básicos. Estes são invisíveis e não podem ser
acedidosde maneira direta. Os pressupostos básicos podem, contudo, mostrar-se através
das camadas exteriores, podendo ser descobertos através da exploraçãodos valores e dos
artefactos (GULDENMUND, 2010).

As inconsistências entre os valores e os artefactos podem ajudar a revelar os pressupostos
básicos e ajudar a compreender a cultura da organização. Por exemplo alguns valores
declarados relacionados com a segurança podem defender a importância de trabalhar em
segurança, de uma comunicação aberta, da promoção do equilíbrio trabalho-família, etc. No
entanto, esses valores podem ser mais ou menos consistentes com artefactos como por
exemplo os sistemas de incentivo ou as práticas de gestão.

A cultura organizacional influencia as atitudes, motivação e comportamentos dos gestores,
supervisores e trabalhadores. Ela influencia as práticas de trabalho, as perceções,
compreensão e gestão dos riscos em matéria de segurança e saúde do trabalho e a forma
como esses riscos são analisados. Também determina que riscos são considerados

25
aceitáveis eo que é considerado como um comportamento responsável em termos de SST
(ZWETSLOOT, STEIJGER, 2013).

Em organizações em que a produtividade é muito valorizada, os trabalhadores podem, na
tentativa de manter ou aumentar essa produtividade, ponderar a violação das regras de
segurança estabelecidas. Em organizações com uma cultura de segurança, produção e
segurança não são vistas como contraditórias, mas como dois lados da mesma moeda
(GULDENMUND, 2010).

2.4.4.4. Clima de segurança

Embora os termos "clima de segurança" e “cultura de segurança” estejam relacionados e
sejam muitas vezes usados como sinónimos, clima de segurança e cultura de segurança
não são a mesma coisa.A relação entre os dois conceitos tem sido alvo de intensa
discussão teórica, embora um ponto em que existe acordo consiste no facto de oconceitode
clima de segurançater precedido o de cultura de segurança (HSL, 2002; ZWETSLOOT,
STEIJGER, 2013).

Embora Guldenmund (2010) localize as primeiras pesquisas sobre clima de segurança nos
anos 50 do século XX, é o estudo de Zohar de 1980 que é o mais citado como o criador do
conceito. De acordo com Zohar (1980), o nível de segurança de uma organização é
influenciado pelas atitudes dos gestores em relação à segurança e a prioridade percebida
que é atribuída à formação sobre segurança pelos trabalhadores.

O quadro abaixo exemplifica algumas das definições de clima de segurança encontradas na
literatura.

Quadro 3: Definições de clima de segurança

26
Estudos posteriores ao de Zohar, como o de Flinet al. (2000) vieram confirmar muitas das
teses defendidas por Zohar. Estes autores procederam a uma meta análise de estudos
empíricos sobre clima de segurança, tendo encontrado cinco grandes temas comuns a estes
estudos:

1) Aspetos relacionados com a gestão: relacionados com o empenhamento dos
gestores na segurança em relação a outros objetivos organizacionais (como por ex.
a produção); este é o tema mais abordado na revisão efetuada.
2) Sistema de segurança: vários aspetos dos sistemas de segurança das organizações
constituem um tema recorrente nos estudos analisados por Flin e colaboradores.
Entre as dimensões abordadas nesta categoria, incluem-se as opiniões sobre
políticas de segurança, equipamento de segurança e autorizações de trabalho, assim
como opiniões relacionadas com a notificação de acidentes.
3) Risco: esta categoria consiste nas perceções e atitudes em relação ao risco e à
segurança, incluindo adoção de comportamentos de risco e perceções sobre os
perigos do ambiente de trabalho.
4) Pressão de trabalho: esta categoria relaciona-se com a carga e ritmo de trabalho, ou
seja, com o equilíbrio entre exigências de produção e segurança.
5) Competência: este fator inclui aspetos como a seleção e formação dos
trabalhadores, assim como a avaliação do desempenho.

Flinet al. (2000) mencionam como categoria adicional a importância dos procedimentos e
regras estabelecidose o nível de cumprimento destas regras pelos trabalhadores, embora
este tema não seja tão recorrente nos estudos que analisaram.

De acordo com Antonsen (2009), as dimensões do clima de segurança referidas por Flin e
colaboradores são muitas vezes incluídas nos estudos sobre cultura de segurança. No
entanto, embora as definições e dimensões analíticas de clima e cultura de segurança
sejam idênticas, existem diferenças conceptuais entre elas. Enquanto a cultura é
normalmente encarada como referindo-se a significados e crenças profundamente
enraizados na organização, o clima é visto como uma manifestação superficial da cultura
(SCHEIN, 1992).

A expressão “cultura” tem vindo a substituir a expressão “clima” na investigação. Em muitos
estudos é difícil distinguir explicitamente estudos de clima e de cultura. Alguns autores
parecem “cair na armadilha” de queé suficiente estudar o clima para tirar inferências sobre a
cultura, com base no pressuposto de que o clima constitui uma manifestação da cultura
(ANTONSEN, 2009).

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Esta é, no entanto, uma estratégia problemática, já que, tal como Schein refere (1992), não
existe necessariamente uma consistência entre os valores manifestos (o clima) e os
pressupostos básicos que formam a base da cultura organizacional. Silva (2008) refere-se a
esta dualidade distinguindo valores declarados (os valores manifestos) e valores em uso (ou
valores nucleares). Consequentemente, o estudo empírico do clima não é suficiente para
tirar conclusões sobre a cultura organizacional.

De acordo com Guldenmund (2010), o clima de segurança pode serconsiderado como um
reflexo superficial e momentâneo da cultura de segurança de uma organização, quase como
uma fotografia. A cultura de segurança inclui as convicções implícitas, mais profundas, que
são compartilhadasentre os membros do grupo. Essas convicções podem ser expressas
através do clima de segurança, que diz respeito às perceçõespartilhadas dos trabalhadores
em matéria de segurançaacerca do seu ambiente de trabalho.

Cox e Flin (1998) recorrem a uma metáfora para ilustrar a relação entre os dois conceitos.
Segundo os mesmos, a cultura de segurança pode ser olhada como a personalidade de
uma organização, enquanto o clima de segurançacorresponderia ao seu humor ou mood.

Num artigo em que avaliou trinta anos de pesquisa sobre clima de segurança, Zohar (2010)
salienta três áreas específicas dasperceçõessobre segurança que deveriam ser alvo de
investigação adicional:

- prioridade atribuída à segurança em comparação com outros elementos, como a
produtividade;
- comparação entre a importância atribuída à segurança pelos gestores e a sua tradução na
prática operacional;
- análise de potenciais inconsistências entre as políticas e procedimentos definidos pelos
gestores da organização e a forma como são postos em prática pelos supervisores a níveis
organizacionais mais baixos.

2.4.4.5. Desempenho em termos de segurança

A questão chave na abordagem da cultura de segurança consiste em encontrar uma relação
entre a cultura de segurança da organização e o desempenho em termos de segurança
(EU-OSHA, 2011). Exemplos de indicadores do desempenho em termos de segurança
podem ser o número de incidentes ou acidentes que ocorrem, o cumprimento de normas e
procedimentos estabelecidos, ou a ocorrência de comportamentos inseguros dos
trabalhadores.

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De acordo com vários autores, ao reforçar-se a cultura de segurança da organização, o
comportamento dos trabalhadores, a sua compliance com normas estabelecidas e a sua
participação seriam influenciados positivamente, levando eventualmente a um maior nível de
segurança na organização(GULDENMUND, 2010). Algumas revisões de meta-análise
sugerem que o clima de segurança(ou seja, as perceções partilhadas dos trabalhadores
sobre segurança) constitui um preditor do desempenho em termos de segurança, sendo
esta observação transversal a vários setores e países (CHRISTIAN et al., 2009; CLARKE,
2006).

Um estudo realizado por Smith e Wadsworth (2009)não só mostrou uma ligação entre o
clima de segurança e desempenho de segurança a nível da empresa, mas também uma
associação consistente entre as perceções dos trabalhadores e o desempenho individual
em termos de segurança, saúde e bem-estar.

Encarar o clima de segurança como um indicador para o desempenho de segurança torna-o
um conceito bastante apelativo para investigadores, gestores e profissionais de SST. De
facto,essa relação poderia constituir uma base para uma abordagem mais pró-ativa da SST,
ou seja para, com base nos resultados da avaliação, serem adoptadas medidas
preventivasantes da ocorrência de acidentes de trabalho (FLINet al, 2000).

No entanto, autores como Antonsen (2009) argumentam que a relação entre clima de
segurança e desempenho em termos de segurança pode não ser tão linear quando se
analisam acidentes graves ou desastres (como por exemplo nas indústrias de alto risco).
Com base num estudo de caso de um incidente grave ocorrido em 2003 numa plataforma
norueguesa de exploração de petróleo e gás (a plataforma Snorre Alfa),o autorencontrou
uma discrepância entre os resultados de uma pesquisa de clima de segurança realizada no
ano anterior ao do incidente e as conclusões da investigação pós incidente. Este autor
defende, desta forma, uma abordagem mais holística na avaliaçãoda cultura de segurança
de uma organização.

2.5. Análise da cultura de segurança

Uma abordagem cultural da área da SST implica um alargamento para além da perspetiva
da tradicional avaliação de risco tal como abordado na Directiva Quadro 89/391/EEC (1989).
A cultura de segurança e saúde no trabalho pode ser entendida como um conceito útil para
explorar como aspetos organizacionais informais influenciam a segurança e saúde de uma
forma positiva ou negativa. No entanto, isto não quer dizer que a SST deva apenas ser
analisada ou reduzida a uma questão de cultura (ANTONSEN, 2009).

29
A abordagem cultural da SST não significa que o foco principal deva ser obrigatoriamente a
mudança da cultura organizacional de segurança. Analisar as diferentes camadas da cultura
da organização e tentar alterar os elementos culturais fundamentais (isto é, os pressupostos
básicos), exigiria um enorme investimento de tempo e energia (HAUKELID, 2008).

De acordo com Guldenmund (2010) a análise da cultura de SST deve, portanto, ser vista
como uma oportunidade para olhar a organização de uma maneira diferente, incluindo a
forma como a SST é entendida em todos os níveis hierárquicos. O conhecimento e
informações obtidas a partir de uma tal abordagem e avaliação cultural pode, por sua vez,
ser muito útil no processo de mudança de políticas, processos e práticas relacionadas com a
SST. No entanto, este processo deve ser conduzido passo a passo, levando em
consideração a cultura existente e o contexto. Eventualmente, este processo poderá
conduzir a um melhor desempenho da SST (GULDENMUND, 2010).

2.5.1. Abordagens da análise da cultura e do clima de segurança

De acordo com Guldenmund (2010), podem ser identificadas três grandes abordagens no
que diz respeito à análise da cultura e do clima de segurança numa organização:

1) Abordagem analítica ou psicológica:

A abordagem analítica ou psicológica / psicométrica é a mais frequente na avaliação da
cultura de segurança, centrando-se especificamente sobre o clima de segurança
organizacional (ANTONSEN, 2009; HOPKINS, 2006). O clima de segurança pode ser
avaliado através da realização de inquéritos por questionário aplicados a um grupo de
trabalhadores numa organização.

Neste tipo de abordagem, é solicitado aos trabalhadores que respondam a um questionário,
que os inquire sobre a sua perceção / opinião (ou a perceção que é partilhada entre colegas
de trabalho) sobre algumas dimensões relacionadas com a segurança. Os dados resultantes
são analisados, proporcionando a obtenção de uma “fotografia” do clima de segurança da
organização, no momento da aplicação do questionário (GULDENMUND, 2007). Estes
questionários podem variar no grau de complexidade e número de itens, o que poderá afetar
as taxas de resposta (no caso de ser demasiado extenso). A Agência Internacional de
Energia Atómica (IAEA, 2002), nas suas orientações, recomenda um número de 60 a 80
itens para cobrir os tópicos mais importantes.

As dimensões subjacentes ao clima de segurança, ao serem avaliadas utilizando
questionários com resultados numéricos, permite que sejam feitas comparações com

30
resultados de aplicações anteriores (permitindo por exemplo quantificar e avaliar os efeitos
de intervenções), e / ou com os resultados de outros grupos ou unidades de trabalho. No
entanto, de acordo com autores como Guldenmund (2010), este potencial decomparação
dentro da mesma organizaçãoou entre organizações é limitado.

Zohar (1980) desenvolveu uma das primeiras escalas de clima de segurança. Desde então,
muitas outras foram desenvolvidas, testadas e aplicadas em todo o mundo, em vários
setores de atividade.Várias publicações compararam questionários de avaliação do clima de
segurança, a fim de analisar as suas definições subjacentes, dimensões, validade preditiva,
entre outras (FLIN et al, 2000; HAUKELID, 2008; SILVA, 2008).Uma revisão da literatura
efetuada porSeoet al. (2004), em que dezasseis questionários de avaliação do clima de
segurança foram examinados, identificou cinco principais dimensões do conceito de clima
de segurança: compromisso da gestão com a segurança; apoio do supervisor em termos de
segurança; apoio dos colegas de trabalho em termos de segurança; participação dos
trabalhadores na tomada de decisões relacionadas com a segurança; nível de competência
dos trabalhadores em relação à segurança.

O quadro seguinte apresenta alguns exemplos de questionários de avaliação do clima de
segurança referidos na literatura.

Quadro 4: Exemplos de questionários que podem ser utilizados para avaliaro clima de segurança

Nome Autor País de origem Sector
Universidade de Loughborough,
Loughborough Safety Climate Assessment Toolkit Exploração offshore de petróleo e
Health & Safety Executive (HSE) Reino Unido
(LSCAT) gás
(Cox & Cheyne, 2000)
Eurocontrol
Prestadores de Serviços de
Safety Culture Toolbox (desenvolvido com a colaboração da União Europeia
Navegação Aérea
Universidade de Aberdeen)
Inspecção Ferroviária
HRMI Safety Culture Inspection Toolkit Reino Unido Sector ferroviário
(desenvolvido pela Human Engineering Ltd.)

Multilevel Safety Climate Scale
Zohar (1980), Zohar e Luria (2005) Israel Indústria de manufatura
(Organisational and Grouplevel Safety Climate)
Norwegian Offshore Risk and
Instituto de Investigação de Stavanger Exploração offshore de petróleo e
Safety Climate Inventory Noruega
(Tharaldsen et al., 2008) gás
(NORSCI)
Nordic Occupational Safety Climate Questionnaire Consórcio de organizações Escandinavas
Países nórdicos Construção civil
(NOSACQ) (Kines et al., 2011)

Inventário de clima organizacional e de segurança Centro de Investigação e Intervenção Social
Portugal
(ICOS) (CIS) ISCTE (Silva et al., 2004)
Fonte: Adaptado de EU-OSHA, 2011

Alguns dos questionários referidos no Quadro 4 (como o
LoughboroughSafetyClimateAssessmentToolkit) são apresentados nos formatos de toolbox
ou de toolkit, incorporando vários instrumentos para a avaliação do clima, mas também da
cultura de segurança. Vários destes questionários permitem efetuar estudos comparativos
entre diferentes organizações, setores de atividade ou países; podem também ser usados
para comparar diferentes departamentos dentro da mesma organização. Podem ser

31
utilizados para efeitos de investigação, mas também como instrumentos de diagnóstico do
clima de segurança ou de avaliação do impacto de intervenções a nível das perceções
relacionadas com a segurança (EU-OSHA, 2011).

Alguns aspetos importantes aquando da condução de um inquérito por questionário
relacionado com a avaliação do clima de segurança são os seguintes (ZWETSLOOT,
STEIJGER, 2013):

- o inquérito só deve ser feito quando existe apoio da parte da gestão de topo, incluindo uma
clara intenção de desencadear ações posteriores com base nos seus resultados;
- os vários níveis hierárquicos deverão participar no processo;
- os resultados do inquérito deverão ser entendidos como feedback construtivo, ser usados
para o diálogo e melhoria, e não como base para críticas destrutivas;
- a participação deverá ser voluntária e informada e o anonimato deve ser garantido;
- os trabalhadores devem poder ter acesso aos resultados, os quais devem ser discutidos de
forma construtiva.

Uma questão-chave no que diz respeito à avaliação do clima de segurança de uma
organização é que os resultados das escalas de clima de segurança são por vezes
utilizados para tirar conclusões diretas sobre a cultura de segurança.Antonsen (2009) afirma
que esta pode ser uma estratégia pouco adequada, uma vez que pode haver discrepâncias
entre o que as pessoas referem fazer (ou seja, como os trabalhadores respondem a
questionários sobre segurança) e o que as pessoas realmente fazem e como se comportam.

Esta perspetiva é apoiada por Guldenmund (2010) que salienta que a aplicação de
questionários dá apenas uma perspetiva parcial, devendo a cultura ser "experienciada" a
todos os níveis de uma organização, explorando a interação total entre os diferentes
aspetos organizacionais (estrutura - processos – cultura).

2) Abordagem académica ou antropológica:

Em contraste com a abordagem analítica que recorre a questionários para avaliar o clima de
segurança no momento de aplicação (é orientada para o presente), a abordagem académica
focaliza-se sobretudo no passado, recorrendo a estatísticas de acidentes, políticas de
gestão, etc. (GULDENMUND, 2010). Esta abordagem é sobretudo descritiva, recorrendo a
métodos de recolha de dados baseados ou “inspirados” na investigação antropológica e
sociológica. Os dados são sobretudo recolhidos através de trabalho de campo, usando
técnicas como a observação, análise de documentos, entrevistas e focusgroups
(ANTONSEN, 2009).

32
Cada uma destas técnicas permite aceder a informação sobre camadas específicas da
cultura organizacional ou de segurança. Assim, a observação permite aceder sobretudo aos
artefactos da organização; a análise de documentos permite obter informação sobre os
artefactos, mas também sobre os valores manifestos; as entrevistas com elementos da
gestão, profissionais da área da segurança ou trabalhadores, permitem aceder a informação
sobre artefactos e valores, mas também dar pistas de interpretação para contextos
complexos; os focusgroups podem ser usados para discutir resultados e observações,
ajudando a ter uma visão mais qualitativa da organização.

Alguns autores defendem que estas técnicas deverão ser aplicadas por alguém com know-
how específico nas mesmas e que seja externo ao grupo ou à organização, de forma a
garantir a sua neutralidade (GULDENMUND, 2010). Esta é uma abordagem que requer um
grande investimento em termos de tempo, mas é aquela que dá mais garantias de se
conseguir aceder às camadas mais profundas da cultura organizacional.

3) Abordagem pragmática:

Nesta abordagem, o foco é a avaliação do estado atual de maturidade da organização em
termos de cultura de segurança, atribuindo-lhe uma pontuaçãonumaescala de maturidade
cultural predefinida, constituída por diferentes níveis. O objetivo último consiste em definir e
explorar o que deve ser feito para desenvolver a cultura de segurança da organização e
fazê-la evoluir para um nível mais alto de maturidade (ou, pelo menos, fazê-la manter o atual
nível de maturidade). A abordagem pragmática é, portanto, mais orientada para o futuro,
possuindo um carácter prescritivo (normativo), mais do que simplesmente descritivo (EU-
OSHA, 2011).

Um exemplo de um instrumento de avaliação que se enquadra numa abordagem pragmática
é o "Programa Hearts&Minds”. Este programa foi desenvolvido pelaShell para a indústria
petrolífera e distingue cinco estágios diferentes de maturidade cultural, que correspondem
aos cinco níveis do modelo"Culture Step Ladder” desenvolvido pelo HSE: nível patológico,
nível reactivo, nível controlador, nível proactivo e nível generativo.

O“Hearts&MindsToolkit”recorre a checklists paraavaliar o estado de desenvolvimento da
cultura de segurança. Estas devem ser completadas por um grupo ou equipa
detrabalhadores durante sessões orientadas por um especialista. As respostas aos
diferentes itens / dimensões permitem identificar a maturidade da cultura de segurança. Os
resultados de tal avaliação podem ser relacionados com outras ferramentas de forma a
traçar um plano de ação que permita a progressão da cultura de segurança da organização
até ao nível seguinte de maturidade (EU-OSHA, 2011).

33
2.5.2. Síntese e modelo de análise

O quadro seguinte sintetiza os diferentes instrumentos que podem ser utilizados para
analisar a cultura de segurançae o foco principal da atenção de cada um deles. Encontra-se
também assinalado o nível da camada cultural (artefactos observáveis, valores manifestos e
pressupostos básicos) que cada instrumento permite analisar.

Quadro 5: instrumentos que podem ser utilizados para analisar a cultura de segurança

Como já referido atrás, o núcleo da cultura de segurança de uma organização ou seja, os
pressupostos básicos, são invisíveis, não podendo ser avaliados de forma direta. Só
explorando as camadas externas da cultura (artefactos e valores manifestos) se poderá
compreender as convicções mais profundas na organização.

De acordo com Guldenmund (2010), é através da confrontaçãoda informação recolhida
relativa a artefactos e valores manifestos (ou seja, da descoberta de congruências e
incongruências nessa informação) que pode ser possível tentar formular alguns
pressupostos básicos partilhados pelos membros da organização,um pouco à semelhança
da dialética Hegeliana entre tese, antítese e síntese. São esses pressupostos básicos que
permitem contextualizar e compreender toda a informação dispersae obter pistas sobre
quais as convicções coletivas, constituindo o resultado final do processo de análise da
cultura.

34
A figura abaixo apresenta um modelo de análise da cultura de segurança numa
organização.

Figura 4: Modelo de análise da cultura de segurança

Recolha de Avaliação do
artefactos e conjunto de
valores manifestos pressupostos Revisão
relacionados com a básicos e relações : não
segurança entre eles

Confirmação ou
Formulação de
infirmação de
pressupostos
hipóteses
básicos sobre
formuladas
segurança

Formulação de
hipóteses, ou seja,
situações em que
os pressupostos
básicos se tornam
visíveis Fonte: Adaptado de Guldenmund, 2010

De acordo com a noção de DeGroot de ciclo empírico (DeGROOT, 1961 citado por
GULDENMUND, 2010), a investigação empírica deve passar por cinco fases sucessivas
(observação, indução, dedução, testagem de hipóteses e avaliação). Para Guldenmund, a
compreensão da cultura de segurança de uma organização também deve passar por este
ciclo empírico, devendo os dados recolhidos ser reprocessados e o ciclo percorrido várias
vezes até se chegar aos pressupostos básicos da cultura ou a sua essência. O núcleo da
cultura, no entanto, encontra-se implícito na organização, pelo que ele apenas pode ser
revelado por comparação com outra cultura. Apenas após um processo de “descodificação”
é que o “verdadeiro” significado por detrás dos valores manifestos pode revelar-se.

2.5.3. Triangulação

As três abordagens mencionadas (analítica, académica e pragmática)utilizam formas
diferentes de avaliar a cultura de segurança de uma organização, recorrendo a instrumentos
específicos. Nenhuma delas deve, no entanto, ser vista como a única verdadeira
abordagem. Pelo contrário, elas devem ser consideradas como complementares
(GULDENMUND, 2010).

Muitos autores enfatizam que nenhuma técnica usada isoladamente é suficiente para
compreender a cultura de segurança. Defendem por isso uma abordagem holística e multi-

35
métodos(ANTONSEN, 2009; HAUKELID, 2008; SILVA, 2008). Esta abordagem pode ser
referida como “triangulação”.A abordagem desenvolvida por exemplo pela IAEA ('Guidance
for use in theenhancementofsafetyculture”, 2002), recomenda a utilização de vários métodos
e instrumentos para conseguir uma melhor compreensão da cultura de segurança da
organização.

2.5.4. Considerações pré-análise

De acordo com Guldenmund (2010), a análise da cultura de segurançanuma organização
pode ser desencadeada por dois motivos principais: para efetuaruma mudança cultural (que
é muitas vezes parte de uma agenda mais ampla); para tentar resolver um problema
persistente específico.No primeiro caso, uma abordagem pragmáticadeve ser adoptada, a
fim de explorar e definir o que deve ser feito para promover um aumento do nível da cultura
de segurança da organização.Se o motivo estiver relacionado com uma tentativa de resolver
um problema específico, uma abordagem mais académica pode ser mais relevante,
utilizando-se instrumentos como observações, análise de documentos e entrevistas, para
tentar descobrir quais os aspetos culturais / informais que podem estar na origem desse
problema.

Antes de se dar início ao processo de avaliação da cultura de segurança de uma
organização e decidir qual a melhor estratégia e instrumentos a utilizar, deve-se primeiro
tentar determinar o verdadeiro propósito de tal avaliação (EU-OSHA, 2011). Para além
disso, quanto maior a complexidade de uma organização mais sofisticado será o processo
de avaliação da cultura de segurança, aumentando o grau de exigência em termos de
recursos necessários para a efetuar. Por outro lado, quanto mais rigoroso e completo for o
processo, maior o potencial benefício (ANTONSEN, 2009).

36
3. Metodologia do estudo

3.1. Delineamento do estudo

O tipo de estudo realizado consistiu no estudo de dois casos referentes a dois serviços não
clínicos hospitalares: Serviço de Logística e Serviço de Instalações e Equipamentos.
Envolveu um estudo observacional, transversal do tipo descritivo (no que respeita à análise
dos resultados do questionário e dos dados recolhidos através dos métodos qualitativos
utilizados). Incluiu ainda uma análise retrospetiva de dados em relação a alguns registos:
acidentes de trabalho e doenças profissionais; medidas propostas pelo Serviço de Saúde
Ocupacional e implementadas pelos dois serviços.

O estudo possui uma componente analítica no que diz respeito à relação entre as variáveis
relacionadas com a avaliação do clima de segurança e as variáveis relacionadas com os
indicadores de sinistralidade.

De forma a proceder à avaliação da cultura de segurança dos dois Serviços em estudo
contemplando os vários níveis a que esta se manifesta, recorreu-se à triangulação de
métodos para a recolha de dados (BRYMAN, 2012). De facto, para além de um questionário
(metodologia quantitativa) para aceder às perceçõessobre o clima de segurança, aplicou-se
uma metodologia qualitativa para avaliação de outros aspetos da cultura de segurança,
incluindo análise documental, observação de campo e realização de entrevistas individuais.

3.2. População-alvo

A população alvo estudada foi constituída pelos profissionais que desempenham funções
operacionais, pertencentes a dois Serviços não clínicos de um hospital central,
nomeadamente o Serviço de Logística e o Serviço de Instalações e Equipamentos.

3.3. Critérios de inclusão e de exclusão

O critério de inclusão no estudo foi pertencer ao Serviço de Logística ou ao Serviço de
Instalações e Equipamentos e desempenhar funções operacionais. Critérios de exclusão
poderiam apenas constituir eventuais ausências ao trabalho de longa duração (ex. baixas
médicas) dos profissionais, o que não se veio a verificar durante a fase de aplicação dos
questionários.

37
3.4. Unidade elementar de investigação

Trabalhador com funções operacionais pertencente ao Serviço de Logística ou ao Serviço
de Instalações e Equipamentos do hospital em estudo que aceitou participar no mesmo.

3.5. Amostra

A amostra do estudo coincidiu com a população-alvo.

3.7. Instrumentos utilizados:

3.7.1. Instrumento quantitativo: questionário de clima de segurança

O Inventário de Clima Organizacional e de Segurança (ICOS)foi desenvolvido pelas
Professoras Sílvia Silva e Luísa Lima, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da
Empresa. Teve como base uma revisão de literatura e outras metodologias de avaliação
quantitativas propostas por outros autores (questionários de clima organizacional e de
segurança) como por ex. Quinn e Spreitzer (1991) ou Ostromet al. (1993).

O questionário ICOS consiste em duas partes: uma relacionada com a perceção do clima
organizacional e outra relacionada especificamente com a perceção do clima de
segurança.O questionário utilizado neste estudo consistiu numa versão simplificada do
ICOS, abrangendo apenas a parte relacionada com o clima de segurança (Anexo 1). Neste
estudo utilizou-se a versão portuguesa do questionário, validada em 2008 pela Professora
Sílvia Silva (SILVA, 2008).

A decisão de aplicar apenas a parte do questionário relacionada com o clima de segurança
relacionou-se, por um lado, com o facto de ambos os Serviços pertencerem ao mesmo
hospital, pelo que vários aspetos do clima organizacional não revelariam, provavelmente,
diferenças significativas; por outro lado, a decisão foi tomada com o objetivo de abreviar o
número de questões colocadas, tendo em conta o tipo de população-alvo do estudo, em que
uma parte importante possui um baixo nível de escolaridade formal, para além de ser
constituída por profissionais muito pouco acostumados a este tipo de solicitação.

Os resultados dos estudos realizados sobre o questionário de clima de segurança,
revelaram que o mesmo apresenta, no geral, boas qualidades psicométricas. Os resultados
obtidos revelaram a existência de uma boa fidelidade teste-reteste (com correlações entre
0,781 e 0,990), boa validade convergente e satisfatória validade divergente (SILVA, LIMA,
BAPTISTA, 2004).Estudos adicionais revelaram que o instrumento possui boa sensibilidade,

38
muito boa consistência interna, uma estrutura factorial confirmada pelos dados e boa
validade preditiva (SILVA, 2008).

O questionário aplicado é constituído por um total de 52 itens.Os itens são apresentados
numa escala tipo likert de sete pontos, relativa a concordância. A escala varia entre 1:
“discordo totalmente” e 7 “concordo totalmente”. Relativamente a cada frase apresentada, é
solicitado ao respondente que assinale a sua resposta marcando com um círculo o número
que melhor traduz a sua opinião.

O questionário de clima de segurança inclui quatro escalas principais (algumas das quais
constituídas por diferentes dimensões) as quais se encontram representadas na figura
seguinte:

Figura 5: Escalas e dimensões do questionário de clima de segurança

1. Segurança 2. Conteúdo do 3. Práticas 4. Envolvimento
como um valor clima de organizacionais pessoal com a
organizacional segurança de segurança segurança

- Valores - Apoio - Internalização da
- Crenças - Objectivos segurança
- Normas - Regras - Implicação
- Inovação pessoal com a
segurança
- Orgulho na
segurança

5 itens 11 itens 22 itens 8 itens

Seguidamente descrevem-se cada uma dessas escalas:

1. Segurança como um valor organizacional:

Esta escala tem como objetivo avaliar a perceção geral atribuída à segurança. É constituída
por cinco itens que avaliam a perceção da importância da segurança através dos valores,
normas e crenças de segurança na organização (ex. “Na sua empresa é importante a
segurança das pessoas.”).

2. Conteúdo do clima de segurança:

Esta escala abrange quatro dimensões, apresentadas no quadro seguinte:

39
Quadro 6: Dimensões da escalaconteúdos do clima de segurança

Esta escala permite calcular dois tipos de resultados: por um lado, o resultado para cada
dimensão obtido através do cálculo da média das respostas dadas nos itens; por outro lado,
um índice de força dos conteúdos (orientações) do clima de segurança, o qual corresponde
à média das quatro dimensões.

3. Práticas organizacionais de segurança:

Tem como objetivo avaliar a perceção das práticas organizacionais de segurança
específicas e relevantes na organização. Inclui as seguintes dimensões:

Quadro 7: Dimensões da escalapráticas organizacionais de segurança

4. Envolvimento pessoal com a segurança:

Esta escala tem como objetivo avaliar a perceção sobre o grau de envolvimento na
segurança dos trabalhadores que fazem parte da organização, ou seja, centra-se sobretudo
nos indivíduos e não tanto no nível organizacional. Abrange três dimensões:

40
Quadro 8: Dimensões da escala envolvimento pessoal com a segurança

Os itens do questionário original foram adaptados para utilização no presente estudo, cujo
foco não é a organização como um todo (ou seja, o hospital), mas sim o Serviço.

Para além destas escalas, foi introduzida uma adicional, baseada em versões posteriores do
ICOS, sobretudo direccionada para as perceções dos trabalhadores sobre a importância
atribuída pelas chefias directas às questões da segurança no trabalho. Esta escala é
constituída por 6 itens (ex. “O meu chefe direto chama a atenção dos trabalhadores que não
cumprem as regras de segurança.”).

Inclui também um conjunto de questões sócio-demográficas, com o objetivo de caracterizar
os respondentes quanto a sexo, idade, escolaridade, posição hierárquica (chefia ou
trabalhador), oficina (do SIE) ou setor (da LOG) a que pertence e antiguidade no Serviço.

3.7.2. Instrumentos qualitativos:

As perceções dos trabalhadores sobre segurança estão sobretudo relacionadas com o
conceito de clima. Os questionários utilizados para avaliar o clima permitem aceder aos
aspetos mais visíveis da cultura. No entanto, uma caracterização da cultura de segurança
mais completa e aprofundada deverá contemplar alguns aspetos adicionais, nomeadamente
a utilização de técnicas qualitativas(GULDENMUND, 2010; SILVA, 2008). Com o objetivo de
recolher dados para proceder à exploração da cultura de segurança em cada Serviço
estudado, foram utilizados os seguintes instrumentos qualitativos:

3.7.2.1. Análise documental

A análise documental englobou documentos diversos relativos aos dois serviços estudados:
informação disponível na intranet do hospital, documentos relacionados com o sistema de
gestão da qualidade implementado, procedimentos de trabalho estabelecidos, relatórios de
atividade e registos de formação dos trabalhadores.

Foi também analisada retrospetivamente informaçãosobre participações de acidentes e
incidentes de trabalho, relatórios de sinistralidade, relatórios de avaliação de riscos
profissionais, pareceres técnicos relativos a medidas corretivas e preventivas e notificações

41
de doenças profissionais. Esta informação foi recolhida junto do Serviço de Saúde
Ocupacional do hospital.

Analisaram-se os indicadores de sinistralidade disponíveis relativos aosdois serviços em
estudo, referentes aos últimos 5 anos (2011 a 2015). Foram considerados nesta análise os
acidentes de trabalho notificados ao Serviço de Saúde Ocupacional do hospital estudado,
em que foi elaborada participação à Seguradora. Foram considerados apenas os acidentes
ocorridos com pessoal das áreas operacionais (ou seja, foram excluídos acidentes ocorridos
com outros profissionais de cada um dos Serviços pertencentes a áreas não operacionais –
administrativos por exemplo). Foram excluídos desta análise os acidentes denominados in
itinere (ou seja acidentes ocorridos no trajeto de casa para o trabalho ou vice-versa).

Calcularam-se as taxas de sinistralidade referentes aos dois serviços em estudo, tendo
como base a sinistralidade ocorrida nos últimos 5 anos (2011 a 2015). Foram calculadas as
taxas de incidência, frequência e gravidade de acordo com as fórmulas de cálculo
adoptadas pela Autoridade para as Condições de Trabalho:

No entanto, em vez de serem calculadas com base anual, foi utilizada a média do número
de acidentes de trabalho ocorridos nos 5 anos em estudo, assim como a média de dias
perdidos no mesmo período. Deve ser referido que o cálculo destas taxas permite efetuar
uma comparação entre setores / serviços com diferentes características em termos de
número de efetivos ou número de horas trabalhadas, permitindo ir além de uma comparação
do número absoluto de acidentes de trabalho ou de dias perdidos.

Relativamente às doenças profissionais, foi efetuado o levantamento de todas as situações
notificadas por médicos do trabalho do SSO e reconhecidas pela Segurança Social,
relativamente a trabalhadores pertencentes aosdois serviços em estudo, nos últimos 5 anos
(2011 a 2015).

Para além dos indicadores relativos à sinistralidade e às doenças profissionais, um outro
indicador que se considerou ser interessante analisar neste estudo foi o relacionado com as
medidas preventivas ecorretivas propostas pelo Serviço de Saúde Ocupacional do hospital
em que se inserem os dois serviços estudados, e até que ponto essas medidas propostas

42
foram implementadas em cada um deles. Já que se trata de medidas propostas a partir de
processos de avaliação de riscos profissionais, constituem medidas de gestão desses
mesmos riscos, relacionados com a segurança, higiene e saúde dos profissionais em causa.
Algumas dessas medidas propostas também tiveram como origem a ocorrência de
acidentes de trabalho em que foi considerado importante sugerir medidas corretivas.

Procedeu-se à análise das referidas medidas desde que o SSO foi criado no hospital (em
2006) até final de 2015. Essas medidas podem estar relacionadas com aspetos das
instalações de trabalho, máquinas ou equipamentos de trabalho, práticas de trabalho ou
equipamentos de proteção individual. São propostas às lideranças dos serviços e o seu grau
de implementação pode dar uma ideia da importância ou prioridade atribuída à segurança
por esses serviços.

3.7.2.2. Observação de campo

A observação de campo incidiu na análise de quatro temas: as instalações de trabalho
(limpeza e organização dos espaços, sinalização e instruções de segurança afixadas), os
equipamentos e ferramentas de trabalho (disponibilidade de equipamentos de trabalho com
sistemas de segurança incorporados, disponibilidade de equipamentos de proteção
individual, manutenção dos equipamentos em bom estado de conservação), os
comportamentos dos trabalhadores (utilização de equipamento de proteção individual,
cumprimento de procedimentos de trabalho) e a organização de emergência (disponibilidade
de equipamento de combate a incêndios e de caixas de primeiros socorros).

Foram elaboradas checklists específicas de avaliação de cada um destes temas (Anexo 2),
com base nos requisitos legais e normativos em vigor. Foram calculados scores totais de
cumprimento desses requisitos para cada setor / oficina observada.

A observação de campo implicou a visita aos locais onde se desenrola a atividade de
trabalho dos trabalhadores dos serviços estudados, incluindo o trabalho no armazém ou nas
oficinas, mas também algumas visitas de acompanhamento de trabalhos realizados em
diferentes locais do hospital onde é necessária a colaboração destes elementos. As notas
relacionadas com a observação efetuada incluíram informação variada, abrangendo os
aspetos mencionados acima, mas também comentários efetuados pelos trabalhadores.

A realização das visitas e a recolha de dados através da checklist teve como objetivo fazer
um ponto da situação actualizado relativamente ao grau de cumprimento dos vários
requisitos relacionados com a segurança e saúde do trabalho específico para cada setor da
Logística e para cada oficina do SIE.

43
3.7.2.3. Entrevistas individuais

Foi elaborado um guião semi-estruturado orientador das entrevistas individuais realizadas
com os responsáveis dos dois Serviços estudados (Anexo 3). Este guião encontra-se
estruturado em seis partes principais: visão da segurança como valor do Serviço;
preocupações da gestão com a segurança; objetivos relacionados com a segurança;
valorização de regras e procedimentos de segurança; comunicação e formação sobre
segurança; aprendizagem com acidentes e incidentes. O objetivo destas entrevistas
consistiu em recolher informação sobre a evolução das perspectivas sobre segurança ao
longo dos anos em cada serviço e perceções actuais.

Foram realizadas também entrevistas de caráter mais informal e aberto com supervisores e
trabalhadores em funções operacionais de cada Serviço. Estas entrevistas foram orientadas
para os temas: relevância da área segurança no Serviço, práticas e problemas de
segurança no Serviço. A partir destas entrevistas foi possível recolher mais dados para
ajudar a contextualizar as perceções sobre segurança em cada serviço.

Foram anotadas as respostas dos entrevistados durante a realização das entrevistas com os
responsáveis e imediatamente após as entrevistas informais com supervisores e
trabalhadores. As respostas dos entrevistados foram seguidamentetranslacionadas para um
formato escrito passível de análise. Procedeu-se de seguida à análise de conteúdo das
entrevistas (VALA, 1986), recorrendo à categorização de segmentos do texto de conteúdo
comum. Foi possível assim agrupar conteúdos sob a mesma categoria. Calculou-se também
a frequência de vezes que emergem as diferentes categorias.

3.7. Procedimentos

Pretende-se neste capítulo a elaboração de um plano lógico com vista a obter respostas
para as perguntas de investigação formuladas anteriormente.

Primeira e segunda perguntas de investigação:“quais os principais aspetos do clima de
segurança no Serviço de Logística e no Serviço de Instalações e Equipamentos?” e “existem
diferenças a nível do clima de segurança nos dois serviços da mesma organização?”

Relativamente à primeira e segunda perguntas de investigação optou-se por aplicar um
questionário: uma versão simplificada do ICOS (Inventário de Clima Organizacional e de
Segurança). Foi solicitada à autora autorização para utilização do mesmo em Outubro de
2015, a qual foi concedida no mesmo mês.

Em Dezembro de 2015, o questionário foi submetido a pré-teste com uma amostra de
assistentes operacionais do hospital (N=5), pertencentes a outros Serviços que não os

44
contemplados no presente estudo. Com base nesse pré-teste, efetuaram-se alguns
ajustamentos no questionário, particularmente a simplificação de alguns itens que geraram
dúvidas nos respondentes e a clarificação da formulação de algumas frases, adaptando-as
ao “léxico” hospitalar. Por exemplo a palavra “empresa”, utilizada no questionário original, foi
substituída pela palavra “Serviço”.

Após as aprovações dos responsáveis dos dois Serviços, o questionário foi aplicado a todos
os profissionais com funções operacionais, assim como aos respetivos supervisores. Antes
de cada sessão com cada grupo de respondentes explicaram-se os objetivos do estudo e
solicitou-se a colaboração sincera dos mesmos, alertando para o facto de não haver
respostas certas nem erradas. Foi reforçado o carácter de anonimato e confidencialidade
dos dados recolhidos.

Ao longo do mês de Janeiro de 2016, o questionário foi aplicado aos profissionais do SIE
por oficina (sete sessões no total), enquanto na Logística foram formados grupos de
profissionais de setores diferentes (num total de quatro sessões), de forma a perturbar o
mínimo possível o funcionamento do Serviço. O autor do presente estudo esteve presente
em todas as sessões de forma a poder apoiar os respondentes no preenchimento e
esclarecer eventuais dúvidas.

Terceira equarta perguntas de investigação: “quais os principais aspetos da cultura de
segurança no Serviço de Logística e no Serviço de Instalações e Equipamentos?” e “existem
diferenças a nível da cultura de segurança nos dois serviços da mesma organização?”

Relativamente à terceira e quarta perguntas de investigação, efetuou-se pesquisa
bibliográfica no sentido de avaliar qual a melhor metodologia para aceder à cultura de
segurança.De forma a caracterizar da forma mais completa possível os aspetos ligados à
cultura de segurança, recorreu-se a metodologia qualitativa (incluindo observação, análise
documental e realização de entrevistas individuais com responsáveis, supervisores e
trabalhadores dos dois Serviços em estudo).

Arecolha de informação documental, elaboração de checklists e observações de campo
foram efetuadas ao longo dos primeiros quatro meses de 2016. As visitas efetuadas aos
locais de trabalho incluíram: visita ao armazém central do serviço de logística e à sala de
distribuição de material, num total de duas visitas; visita a todas as oficinas do SIE, num total
de sete visitas.

45
As entrevistas individuais semi-estruturadas aos responsáveis de cada serviço estudado
foram efetuadas em Abril de 2016. Foi realizada uma entrevista em cada Serviço estudado.
Estas entrevistas decorreram em salas de reuniões dos serviços. As entrevistas abertas
informais com supervisores e trabalhadores foram realizadas nos locais de trabalho dos
entrevistados, durante Fevereiro e Março de 2016. Ao todo foram realizadas duas
entrevistas a trabalhadores da Logística (pertencentes a dois setores diferentes) e três
entrevistas a profissionais do SIE (um supervisor e dois trabalhadores, todos pertencentes a
diferentes oficinas). Todos os entrevistados possuíam pelo menos três anos de trabalho no
Serviço, de forma a garantir que possuíam uma perspetiva temporal da evolução das
questões relacionadas com segurança no seu Serviço.

Quinta pergunta de investigação:(“existe associação entreo clima de segurança e os
indicadores de sinistralidade nos serviços estudados?”)

Relativamente à quinta pergunta de investigação analisou-se a relação entre as variáveis de
avaliação do clima de segurança e as variáveis relacionadas com os indicadores de
sinistralidade nos dois Serviços estudados. Para se proceder a esta análise, consideraram-
se as médias obtidas nas escalas do questionário aplicado e as taxas de incidência,
frequência e gravidade, em cada setor da Logística e em cada oficina do Serviço de
Instalações e Equipamentos. Compararam-se assim os resultados das perceções de
segurança dos trabalhadores em cada setor/oficina, com as respectivas taxas de
sinistralidade nesse setor/oficina.

O cronograma de todo o processo encontra-se apresentado noquadro abaixo.

Quadro 9: Cronograma de atividades relativas às autorizações e procedimentos do trabalho

46
3.8. Operacionalização da medição da associação entre clima de segurança e nível
de sinistralidade

As variáveis dependentes e independentes consideradas para o estudo da associação entre
clima de segurança e nível de sinistralidade, foram as seguintes:

Variáveis independentes:

Foram consideradas como variáveis independentes as médias obtidas nas cinco escalas do
questionário de clima de segurança aplicado:

1. Segurança como um valor organizacional
2. Conteúdo do clima de segurança
3. Práticas organizacionais de segurança
4. Envolvimento pessoal com a segurança
5. Valorização da segurança pelas chefias directas

Variáveis dependentes:

Foram consideradas como variáveis dependentes os valoresdos indicadores de
sinistralidade:

1. Taxa de incidência
2. Taxa de frequência
3. Taxa de gravidade

3.9. Análise dos dados

Descreve-se seguidamente o procedimento adoptado para analisar a informação recolhida
através dos diferentes instrumentos.

Os dados do questionário de avaliação do clima de segurança foram submetidos a análise
quantitativa utilizando o programa de estatística SPSS Statistics versão 22. A referida
análise foi efetuada pordimensão e escala avaliada, calculando as respectivas médias e
desvios-padrão.

Relativamente à análise da cultura de segurança em cada serviço estudado, o modelo dos
três níveis da cultura proposto por Schein (1992) (artefactos observáveis, valores manifestos
e pressupostos básicos) constitui um modelo descritivo que permite estruturar o processo de
investigação empírico.

47
Para estruturar o processo utilizou-se o modelo proposto por Guldenmund (2010) e
apresentado na Figura 6.De acordo com este autor, o núcleo da cultura de segurança de
uma organização ou seja, os pressupostos básicos, são invisíveis, não podendo ser
avaliados de forma direta. Assim, só explorando as camadas externas da cultura (artefactos
e valores manifestos) se podetentar compreender as convicções mais profundas.

Os vários instrumentos utilizados (análise documental, observação e entrevistas) serviram
numa primeira fase para recolher informação sobre artefactos e valores manifestos acerca
de segurança em cada serviço estudado. Os dados recolhidos serviram também para ajudar
a contextualizar os resultados obtidos através do questionário de clima de segurança.

A análise do conjunto de dados obtidos através dos diferentes instrumentos seguiu o
método da análise de conteúdo (VALA, 1986). O processo de análise iniciou-se após a
recolha de toda a informação disponível, tendo sido desenvolvido um sistema de categorias
independentes para agrupar e interpretar os dados. Estas categorias correspondem às
principais categorias de análise que se conseguiu identificar possuindo um nível alargado de
abstração e abrangência.

A comparação da informação recolhida relacionada com artefactos observáveis e valores
manifestos resultou na descoberta de semelhanças mas também de contrastes entre eles,
de congruências e incongruências. Tentou harmonizar-se esta informação de forma a
identificar os valores nucleares, ou seja, os valores em uso em cada serviço (SILVA, 2008) e
tentar formular alguns pressupostos básicos partilhados pelos seus membros.

De forma a assegurar a qualidade, fiabilidade e credibilidade deste estudo foi recolhida
informação recorrendo a vários métodos e instrumentos diferentes. Os entrevistados
pertenciam a diferentes níveis hierárquicos, foram realizadas várias visitas aos serviços em
momentos diferentes e foi analisada informação contraditória.

Relativamente à medição da associação entre clima de segurança e nível de sinistralidade,
foi efetuada a análise de associação entre variáveis numéricas (as médias obtidas nas
diferentes escalas do questionário aplicado e as taxas de sinistralidade relacionadas com
incidência, frequência e gravidade) através do coeficiente de correlação de Pearson. Foram
identificadas tendências em termos de associações, de acordo com os valores obtidos no
referido coeficiente (AGUIAR, 2007):

- até 0,25: associação inexistente
- de 0,25 a 0,50: associação ligeira
- de o,50 a 0,75: associação moderada
- de 0,75 a 1: associação forte

48
Foi considerado existir associação estatisticamente significativa quando o valor p
encontrado seja inferior a 0,05.

3.10. Aspetos éticos

Para realização deste estudo nos dois Serviços referidos, foi enviado ao Conselho de
Administração do hospital um pedido de autorização, no dia 2 de Novembro de 2015, com
resposta de deferimento no dia 9 de Dezembro de 2015. Nesse pedido eram explicitados os
objetivos do estudo, a população alvo e a metodologia a aplicar.

Em Janeiro de 2016 foram efetuadas reuniões com os responsáveis dos dois Serviços (11
de Janeiro com o SIE; 14 de Janeiro com a LOG), no sentido de apresentar os objetivos do
presente estudo, metodologia a utilizar, motivar para o mesmo e programar as sessões de
aplicação dos questionários.

Todos os trabalhadores foram esclarecidos relativamente à participação voluntária e
anónima neste estudo.

49
4. Resultados

4.1. Enquadramento dos Serviços estudados

Os dois Serviços estudados fazem parte de um hospital central com uma população de
trabalhadores de mais de 6000 pessoas. São ambos Serviços não clínicos, ou seja, não
estão envolvidos na prestação de cuidados directos a doentes. Do ponto de vista
organizacional, os dois Serviços estudados não têm tido alterações substanciais na sua
orgânica interna (representada nos organogramas apresentados à frente) desde há vários
anos. Os Directores de Serviço ocupam há vários anos as respectivas posições (o Director
do SIE ocupa a posição há dez anos, enquanto o de Logística a ocupa há cerca de cinco
anos). O mesmo acontece com os responsáveis e supervisores dos dois Serviços.

Quanto aos profissionais com funções operacionais, a grande maioria trabalha no hospital
há vários anos. Tanto no caso do SIE como da LOG, as novas admissões têm sido muito
limitadas: apenas três profissionais entraram para a LOG nos últimos cinco anos; e apenas
um profissional entrou para o SIE nos últimos três anos. Desta forma, pode constatar-se que
ambos os Serviços são constituídos por grupos de profissionais com vários anos de trabalho
em conjunto e que se integram em estruturas organizacionais estáveis.

Trata-se de dois Serviços que integram grupos de profissionais que executam funções
operacionais diversas recorrendo a equipamentos de trabalho muito variados, em que os
aspetosrelacionados com a segurança com que executam o trabalho é muito importante
para os próprios, mas também para os seus “clientes” internos (outros profissionais do
hospital e doentes internados) e externos (todos os utentes do hospital). Muitas das
atividades desempenhadas pelos trabalhadores de ambos os serviços são efetuadas
individualmente ou em pequenas equipas, em qualquer local do hospital onde esse trabalho
seja requerido e muitas vezes sem supervisão directa por parte das chefias.

O ambiente organizacional que fornece o contexto em que decorre a atividade, ou seja, o
hospital, caracteriza-se pela complexidade e pela estabilidade (MINTZBERG, 1995). A
pressão para a produção surge sobretudo da parte de serviços clínicos (os “clientes” dos
dois serviços estudados) incidindo maioritariamente nos trabalhadores da distribuição (no
caso da Logística) e nos operários da electricidade e canalização (no caso do SIE).

O hospital central onde decorreu o estudo possui um Serviço de Saúde Ocupacional (SSO)
interno, contemplando as áreas técnicas da saúde e da segurança e higiene do trabalho.
Uma das responsabilidades deste Serviço consiste na assessoria aos diferentes serviços
clínicos e não clínicos do hospital em termos da avaliação e gestão de riscos profissionais.

50
Nesse sentido, o SSO pode propor medidas preventivas e corretivas relacionadas com os
riscos profissionais.

4.2. Estudo de caso: Serviço de Logística

4.2.1. Caracterização do Serviço

A missão do Serviço de Logística (LOG) consiste na gestão e organização de toda a cadeia
de abastecimento de materiais de consumo clínico, administrativo e hoteleiro no hospital. As
suas responsabilidades relacionam-se assim com todos os aspetos implicados na gestão de
bens consumíveis necessários às atividades do hospital, em colaboração com os serviços
clínicos e com outros serviços de apoio.

O Serviço de Logística é certificado pela Norma NP EN ISO 9001 (Sistemas de Gestão da
Qualidade) desde Maio de 2011. O Sistema de Gestão da Qualidade é auditado
frequentemente, com o objectivo de obter a conformidade com os requisitos da Norma e
estimular a melhoria contínua.

O organigrama do Serviço de Logística encontra-se representado no Anexo 4. No armazém
central, podem identificar-se diferentes setores, cujas responsabilidades e número de
profissionais estão identificados no quadro seguinte:

Quadro10: Setores da LOG, respectivas responsabilidades e número de profissionais

A totalidade dos profissionais que desempenham funções operacionais no Serviço de
Logística é de N=28. Pertencem às categorias profissionais de assistente operacional e de
assistente técnico. Todos reportam ao responsável do armazém central.

51
4.2.2. Caracterização sócio demográfica

No serviço existem apenas duas profissionais do sexo feminino, todos os restantes são do
sexo masculino. A média de idades dos profissionais da LOG situa-se nos 40,3 anos, sendo
a distribuição por grupos etários apresentada no quadro seguinte:

Quadro11: Distribuição por grupos etários dos profissionais da LOG

Como se pode observar no quadro, metade dos profissionais da LOG situam-se no grupo
etário entre os 30 e os 39 anos.

A distribuição dos profissionais da LOG por níveis de escolaridade encontra-se representada
no quadro seguinte:

Quadro12: Distribuição por nível de escolaridade dos profissionais da LOG

Como se pode observar no quadro, 60,7% dos profissionais completaram pelo menos 10
anos de escolaridade, sendo que destes, 4 deles possuem licenciatura.

Quadro13: Distribuição por antiguidade dos profissionais da LOG

Apenas 3 dos profissionais da LOG (10,7%) trabalham no serviço há menos de 5 anos.
Todos os outros já trabalham no serviço há mais tempo, sendo que metade têm entre 5 e 9
anos de antiguidade.

52
4.2.3. Clima de segurança

Todos os profissionais pertencentes aos vários setores do serviço de LOG responderam ao
questionário (total de 28 profissionais), sendo assim obtida uma taxa de resposta de 100%
neste serviço. Apresentam-se seguidamente os resultados obtidos nas diferentes dimensões
do clima de segurança avaliados através de questionário no Serviço de LOG.

Quadro14: Clima de segurança no Serviço de LOG (médias e desvios-padrão)

Todas as dimensões se situam ligeiramente acima do ponto médio da escala utilizada, o que
poderá apontar no sentidoda existência de um clima de segurança no serviço que não é
muito forte.

A escala em que o resultado foi mais elevado (5,21) foi a da segurança como valor,
revelando a perceção de uma valorização da segurança no serviço. Em relação aos
conteúdos do clima de segurança, estes revelam a existência de um clima orientado para o
controlo do cumprimento de regras estabelecidas pelo serviço, e uma fraca valorização da
introdução de práticas inovadoras em termos de segurança.

As perceções relacionadas com as práticas organizacionais de segurança reflectem um
reconhecimento da eficácia das práticas instituídas dentro do serviço, assim como uma
tendência de valorização da segurança mesmo quando confrontada com pressões para a
produção e com aumentos do ritmo de trabalho. As comunicações relacionadas com a
segurança não parecem ser muito valorizadas dentro do serviço.

53
A escala que avalia o grau de envolvimento dos trabalhadores na segurança é das que
revela valores mais elevados. Salienta-se a internalização e a implicação pessoal com a
segurança, no sentido de uma valorização da segurança pelos indivíduos e da adoção de
comportamentos com ela relacionados independentemente do grau de controlo exercido
pelas chefias. Parece existir uma perceção de valorização das questões da segurança pela
chefia directa, embora esta tendência não seja muito forte.

4.2.4.Sinistralidade no Serviço de Logística

No quadro seguinte, estão representados os acidentes de trabalho notificados por
profissionais da Logística (LOG), por setor, ao longo dos últimos 5 anos:

Quadro 15: Evolução temporal do número de acidentes de trabalho (AT) por setor da LOG

Como se pode observar, nos últimos 5 anos foram notificados pelos profissionais da LOG,
um total de 12 acidentes de trabalho, o que corresponde a uma média de 2,4 acidentes por
ano. O setor onde ocorreram mais acidentes foi o da distribuição (N=7).

A maior parte dos acidentes originaram incapacidade temporária parcial para o trabalho (7
em 12) sendo que os restantes 5 originaram incapacidade temporária absoluta (baixa ou
ausência ao trabalho), como pode ser observado no gráfico seguinte.

Gráfico6: Incapacidades originadas por acidentes de trabalho na LOG

5
7 Inc. Temporária Parcial
Inc. Temporária Absoluta

No quadro seguinte, estão representados os dias de ausência ao trabalho originados por
acidentes notificados por profissionais da LOG, por setor, ao longo dos últimos 5 anos:

54
Quadro 16: Evolução temporal do número de dias perdidos por setor da LOG

Como se pode observar, os acidentes ocorridos ao longo dos últimos 5 anos originaram um
total de 40 dias de trabalho perdidos, correspondendo a uma média de 8 dias perdidos por
ano. O único setor onde ocorreram acidentes de trabalho com baixa foi o da distribuição.

O quadro seguinte apresenta quais os tipos de acidente ocorridos na LOG no período em
estudo.

Quadro17: Tipo de acidentes de trabalho ocorridos na LOG

Tal como pode ser observado, o acidente mais frequentemente notificado nos últimos 5
anos foi a mobilização de cargas com esforço excessivo.

Calcularam-se as taxas de sinistralidade referentes ao Serviço de Logística. As taxas
referidas encontram-se apresentadas abaixo.

Quadro 18: Taxas de sinistralidade por setor da LOG

Relativamente à taxa de gravidade, o único setor para o qual foi possível calcular a mesma
foi o da distribuição, já que foi o único onde ocorreram acidentes de trabalho que originaram
a perda de dias de trabalho. Também é no setor da distribuição, quando comparado com os

55
outros setores da LOG, que podem ser observadas as maiores taxas de incidência e de
frequência de acidentes de trabalho.

4.2.5.Doenças profissionais no Serviço de Logística

Após análise das notificações de doença profissional efetuadas por médicos do trabalho do
SSO, verificou-se que não houve nenhuma participação de doença profissional
relativamente a trabalhadores da Logística nos últimos cinco anos.

4.2.6. Medidas propostas pelo Serviço de Saúde Ocupacional e implementadas pelo
Serviço de Logística

As medidas preventivas ou corretivas propostas pelo Serviço de Saúde Ocupacional (SSO)
do hospital ao longo dos anos encontram-se representadas no gráfico seguinte.

Gráfico7: Total de medidas preventivas e corretivas propostas pelo SSO à LOG ao longo dos anos

12

10

8

6

4

2

0
2009 2010 2014
Instalações Máquinas / equipamentos
Práticas de trabalho Protecção individual (EPI)

Como se pode observar, as medidas mais vezes propostas estiveram relacionadas com as
instalações (nomeadamente com as condições de segurança no armazém central, onde se
desenrola parte da atividade operacional) mas também com o reforço de práticas de
trabalho seguras. Pode verificar-se que essas medidas foram propostas sobretudo nos anos
de 2009 e 2010, tendo havido necessidade de reforçar alguns aspetos em 2014. O quadro
abaixo representa o grau de implementação prática de cada uma das medidas propostas à
LOG.

Quadro 19: Medidas propostas (P) pelo SSO e implementadas (I) pela LOG

56
Como se pode verificar, o nível total de implementação de medidas propostas pelo SSO na
LOG foi de 80,5%. As medidas propostas à LOG no respeitante a máquinas e equipamentos
de trabalho, assim como no respeitante a práticas de trabalho, tiveram taxas de
implementação elevadas. As medidas relativas à aquisição de equipamentos de proteção
individual foram totalmente implementadas. Mesmo medidas que à partida poderiam ser
mais difíceis de implementar, como as relacionadas com as instalações, tiveram uma
implementação de cerca de 70%.

4.2.7. Observação de campo

O quadro abaixo apresenta o grau de cumprimento atual dos requisitos legais e normativos
relacionados com diferentes temas (instalações, equipamentos, etc.), constituindo o
resultado da checklist aplicada no Serviço de Logística. Apresentam-se os resultados, em
percentagem, de cumprimento relativamente ao total de requisitos constantes de cada
checklist. Os resultados são apresentados por setor do Serviço.

Quadro 20: Grau de cumprimento dos requisitos da checklist na LOG

O grau de compliance geral da Logística relativamente aos requisitos legais e normativos,
avaliado através da checklist utilizada, foi de 77%. Destacam-se, pela positiva, os temas dos
equipamentos de proteção individual (86% de cumprimento) e da organização de
emergência (85% de cumprimento).

Em termos de setores destaca-se, pela positiva, a recepção com um grau de cumprimento
de 84% e o picking com 81%. A distribuição e o imobilizado obtêm valores mais baixos, o
que está relacionado, sobretudo, com o tipo de trabalho realizado.

Enquanto os trabalhadores da recepção e do picking trabalham no armazém central, os da
distribuição e do imobilizado trabalham, uma grande parte do tempo, nas instalações dos
serviços do hospital aos quais dão apoio. Os trabalhadores da distribuição procedem à
reposição do material clínico ou administrativo necessário nesses serviços; os do
imobilizado colaboram em mudanças dos mesmos. Nestes serviços, existe uma grande
diversidade de condições de trabalho, sendo que nem sempre os espaços destinados ao

57
material são os mais adequados (trata-se muitas vezes de arrecadações de área e pé direito
limitados, com grande acumulação de materiais e equipamentos) dificultando a realização
das tarefas. Também os equipamentos postos à disposição dos trabalhadores da
distribuição e imobilizado não são os ideais: carros de distribuição de grande capacidade e
altura (os mais utilizados têm 1,80 m de altura) que favorecem a adoção de posições
corporais extremas durante o trabalho; meios mecânicos igualmente pouco adaptados no
caso dos trabalhadores do imobilizado.

4.2.8. Entrevistas individuais

As entrevistas individuais realizadas com o responsável do Serviço de Logística e com
trabalhadores de diferentes setores foram sujeitas a análise de conteúdo, procedendo-se à
categorização de segmentos do texto de conteúdo comum, o que permitiu o agrupamento
de conteúdos sob a mesma categoria.

O quadro abaixo apresenta as categorias que foram descodificadas e a frequência de vezes
que cada uma dessas categorias emergiu nas entrevistas à gestão e aos trabalhadores.

Quadro 21: Categorias de codificação das entrevistas realizadas na LOG e respectivas frequências

A categoria segurança é aquela que surge com maior frequência na análise realizada, o que
estará certamente relacionado com a contextualização da entrevista a que se procedeu com
cada entrevistado antes do início de cada uma delas, situando o trabalho presente nesta
área. Este tema surge bastante associado neste serviço ao tema da segurança de bens
materiais. Por exemplo, quando os entrevistados verbalizam exemplos de práticas de
segurança no serviço, vários dos exemplos referidos são sobre segurança de materiais.

Muito próximas em termos de frequência total com que surgem nas entrevistas, encontram-
se as categorias qualidade e desempenho, o que poderá reflectir a importância atribuída a
estes dois temas quer por parte da gestão (com maior ênfase na qualidade), quer por parte
dos trabalhadores (dando maior ênfase às exigências de desempenho). A categoria

58
regrassurge também associada às anteriormente referidas, sendo um conceito presente na
realidade quotidiana da gestão e dos trabalhadores.

4.2.9. Integração de dados: análise da cultura de segurança

A análise e comparação dos dados recolhidos através dos diferentes instrumentos utilizados
relativos ao serviço de Logística permitiu identificar categorias e conteúdos associados, os
quais se apresentam seguidamente:

a. Valores do Serviço

No serviço, existe sobretudo uma preocupação com a qualidade, transversal aos vários
níveis hierárquicos e aos vários setores do serviço. O sistema de gestão da qualidade
implementado em 2011 implica uma lógica de serviço ao cliente (os diferentes serviços do
hospital), em que a produção da logística permita assegurar e potenciar a produção do
hospital. Esta preocupação é manifesta nos documentos consultados, como a política da
qualidade do serviço, mas sobressai também nas entrevistas realizadas à gestão e aos
trabalhadores, em que a categoria qualidade é uma das que emerge com mais frequência.

Muito associado às preocupações com a qualidade surge a valorização do desempenho,
expresso na política de qualidade através da associação dos conceitos qualidade e
produção/operação. Esta valorização é observável também nas entrevistas realizadas à
gestão e aos trabalhadores, em que a categoria desempenho é das que mais se salientam
em termos de frequência de utilização. Tal como referido de forma pragmática pelo
responsável do serviço: “O trabalho na logística é simples: é carregar coisas, de forma a dar
a melhor resposta aos serviços do hospital.”

O desejo de melhorar continuamente os vários aspetos do funcionamento do serviço torna-
se mais explícito a partir da implementação do sistema de gestão da qualidade em 2011,
mas sempre esteve presente na história do serviço nos últimos 10 anos. As iniciativas de
melhoramento e modernização do serviço, adaptando-o aos novos modelos de gestão nesta
área, passaram ao longo dos anos pela construção de raiz de um novo armazém central,
pela criação de um sistema integrado de gestão de stocks, através de requisições
electrónicas e um novo modelo de distribuição de material aos serviços.

b. Valorização da segurança

A área segurança é encarada como uma obrigatoriedade associada aos requisitos de
manutenção da certificação da qualidade atribuída. A segurança é sobretudo associada à
proteção de bens materiais do serviço, embora esteja também associada à segurança das
pessoas do serviço.

59
A preocupação com a segurança de materiais e produtos no serviço é observável através da
importância atribuída à organização de emergência no serviço (na checklistde observação
de campo este tema revela um grau de cumprimento dos mais elevados: 85%). Existe a
consciência das consequências que poderiam advir de uma ocorrência como um incêndio,
não só em termos das centenas ou milhares de euros de prejuízo que poderia acarretar,
mas também das consequências em termos do funcionamento do próprio hospital. Existe
uma tentativa clara de prevenir este tipo de ocorrências ou de dotar os trabalhadores das
competências que permitam intervir o mais precocemente possível na sua resolução.
Exemplos destas iniciativas são as inspecções periódicas efetuadas a todas as instalações
e meios de combate a incêndios, a política de existência em permanência de pelo menos
um trabalhador no armazém central ou a formação periódica em utilização de extintores
ministrada a todos os trabalhadores.

A perspetiva da segurança na sua vertente de proteção dos trabalhadores e prevenção de
acidentes de trabalho tem pontos de sobreposição com a segurança de materiais. Por
exemplo, quando se pretende prevenir um incêndio no serviço, essa preocupação tem
origem na defesa de bens e de trabalhadores. Existem, no serviço, iniciativas dirigidas para
a formação periódica dos trabalhadores em áreas como a mobilização manual e mecânica
de cargas pesadas, armazenagem correta de produtos químicos perigosos e atuação em
caso de derrame dos mesmos. Este tipo de formação tem sido realizada periodicamente ao
longo dos anos, tendo como destinatários todos os trabalhadores.

Relativamente à questão da prioridade relativa entre produção/qualidade e segurança no
serviço é verbalizado pela gestão que: “a perspetiva do serviço é a de que qualidade e
segurança estão em igual ordem de prioridade, e uma não exclui a outra”. No entanto,
analisando documentos importantes do serviço, como a declaração da política de qualidade
aprovada pelo conselho de administração do hospital, verifica-se que a palavra segurança
não é referida uma única vez no documento.

As perspetivas da gestão e as perceções dos trabalhadores relativamente às prioridades
estabelecidas no serviço parecem ser contraditórias. Enquanto para o responsável do
serviço “não há urgência no fornecimento de produtos que justifique quebra das regras de
segurança pelos trabalhadores”, a perceção dos trabalhadores assume aspetos opostos. De
acordo com um dos entrevistados: “Se houver muito trabalho, lá se vai a segurança. Nada
nos é exigido explicitamente, mas para bom entendedor meia palavra basta e nós sabemos
que se não aparecer o trabalho feito haverá consequências para o serviço, mas também
para nós.”.

60
c. Práticas de gestão

As práticas de gestão estão orientadas para a prossecução da missão e dos valores do
serviço, que, como já referido atrás, se orientam sobretudo para a qualidade e o
desempenho. Por exemplo, as práticas de gestão interna dos recursos humanos reflectem
essa orientação como é visível a nível da selecção de novos trabalhadores (em que se
valoriza por exemplo aqueles que já possuem a habilitação de condução de empilhadores,
para que o hospital não tenha que assumir o custo dessa formação e possam começar logo
que são admitidos a desempenhar tarefas que implicam a sua condução), a nível da
integração de pessoal (em que existe um processo de integração de novos trabalhadores
estruturado e programado ao longo de duas semanas) ou no processo de avaliação de
desempenho (em que trabalhadores que não cumpram os objectivos definidos são
chamados à atenção ou eventualmente, em situações limite, afastados do serviço).

As medidas propostas pelo SSO na área da segurança e saúde do trabalho são vistas como
mais-valias, que defendem o serviço de não conformidades que possam ser detectadas em
auditorias da qualidade ou inspecções por parte dos serviços oficiais (como a realizada ao
serviço pela Autoridade para as Condições de Trabalho em 2008). Neste sentido, bastante
atenção é prestada, por exemplo, à disponibilização de equipamentos de proteção individual
para os trabalhadores, nomeadamente de calçado de segurança, o qual foi adquirido em
2012, após sugestão do SSO. Observando o Quadro 19 relativo ao grau de implementação
de medidas propostas pelo SSO ao longo dos anos, verifica-se um grau de implementação
superior a 80%.

d. Regras e procedimentos instituídos

No serviço, o cumprimento das regras instituídas é muito valorizado, já que o cumprimento
dessas regras é visto como aquilo que permite assegurar um serviço eficiente e eficaz aos
clientes internos. As regras estão assim muito associadas ao desempenho dos
colaboradores, sendo que desvios ao seu cumprimento são desincentivados. De acordo
com um dos trabalhadores: “Existe um controlo muito grande das regras estabelecidas e
quem não cumpre é penalizado… o cumprimento reflecte-se nas avaliações de desempenho
que recebemos.”.

As regras instituídas estão relacionadas com a valorização do produto existente no serviço.
Mais uma vez, mesmo as “regras de segurança” estão muito relacionadas com este aspeto.
Alguns exemplos constituem o controlo de acessos de pessoas ao armazém central, a
proibição de fumar em todas as áreas do serviço, ou as sessões de formação ministradas
sobre a forma adequada de “conduzir” os carros de distribuição de material.

61
Estas regras, no âmbito da segurança, não se encontram formalizadas por escrito, ou seja,
para além de sinalização afixada nos diferentes locais do serviço, não existem
procedimentos escritos sobre a forma segura de desempenhar as diferentes tarefas.

O cumprimento das regras pelos trabalhadores é sobretudo incentivado pelas chefias
através dos mecanismos de avaliação do desempenho, já que a supervisão directa é difícil
de assegurar. O responsável do armazém tem sob a sua supervisão directa 28 pessoas,
pertencentes aos quatro setores do armazém central, sendo que cada um destes setores
não possui coordenadores próprios. De acordo com o mesmo: “o cumprimento [das regras
de segurança] depende de pessoa para pessoa. Alguns fazem sempre de acordo com as
regras, enquanto outros, quando eu dou as costas, voltam a fazer erradamente.”

Em sentido inverso ao que acontece com as regras instituídas no serviço, a inovação nas
questões relacionadas com segurança parece ser pouco valorizada. No questionário de
clima de segurança esta tendência é bastante evidente: de facto, a dimensão inovação é
aquela que assume um valor mais baixo (4,04) entre todas as avaliadas. Os conteúdos do
clima revelam a existência de uma fraca valorização da introdução de práticas inovadoras
em termos de segurança, sendo desencorajadas iniciativas individuais relacionadas com
esta área.

e. Comunicação sobre riscos e segurança

De acordo com o responsável do serviço o tema da segurança não é abordado com os
trabalhadores em reuniões do serviço, nem existe a prática de análise conjunta ou partilha
de informação sobre acidentes de trabalho ocorridos no serviço, globalmente com todos os
trabalhadores ou por setor (como se pode verificar através da análise dos indicadores de
sinistralidade, o setor da distribuição é claramente aquele em que ocorreram maior número
de acidentes e o único em que ocorreu perda de dias de trabalho devido a essas
ocorrências).

Este aparente desinvestimento nas comunicações sobre segurança da parte da gestão do
serviço, traduz-se nas perceções dos trabalhadores quando avaliam os itens relacionados
com esta dimensão no questionário de clima de segurança. De acordo com os resultados
obtidos, as comunicações relacionadas com a segurança não parecem ser muito
valorizadas dentro do serviço(o resultado nesta dimensão é de 4,28).

Também em algumas entrevistas aos trabalhadores este tema emerge: “Relativamente à
possibilidade de termos um acidente, não há grande exteriorização de preocupação da parte
das chefias, ou seja, se a têm, não a demonstram.”

62
Não existem registos internos relativos à ocorrência de acidentes ou incidentes, sendo esta
responsabilidade delegada no SSO do hospital. De acordo com o responsável do serviço,
pode proceder-se à análise interna de acidentes de particular gravidade e adotar medidas
em conformidade. De qualquer forma, de acordo com a gestão, as causas dos acidentes
relacionam-se sobretudo com “distrações ou falta de atenção” dos trabalhadores.

Existe um reconhecimento da parte da gestão de quais são os principais riscos profissionais
a que os trabalhadores estão expostos e de quais as operações de trabalho mais criticas. A
forma de realizar estas operações em segurança é abordada no processo de integração de
novos trabalhadores.

Outra das formas de comunicar os riscos profissionais a que os trabalhadores estão
expostos é através de sessões de formação realizadas periodicamente pelo SSO do
hospital. Os novos trabalhadores são integrados nestas sessões quando estas ocorrem,
independentemente da altura em que comecem a trabalhar no serviço (ou seja, podem
passar vários meses até um novo colaborador ter formação em segurança e saúde do
trabalho).

A figura seguinte sintetiza as principais categorias identificadas na integração dosdados
relacionados com a análise da cultura de segurança, assim como os valores nucleares no
Serviço de Logística.

Figura 6: Categorias e valores nucleares identificados na LOG

Categorias: Valores nucleares:

a. Valores do Serviço - Qualidade e desempenho como
b. Valorização da segurança valores do serviço
c. Práticas de gestão - Prioridade à qualidade e produção
d. Regras e procedimentos instituídos sobre segurança do trabalho
e. Comunicação sobre riscos e - Preocupações da gestão centradas
segurança na segurança de bens e de pessoas
- Orientação para cumprimento de
regras instituídas
- Inovação pouco valorizada
- Comunicação sobre riscos e
segurança pouco desenvolvida

63
4.3. Estudo de caso: Serviço de Instalações e Equipamentos

4.3.1.Caracterização do Serviço

O principal objectivo do Serviço de Instalações e Equipamentos (SIE) consiste em planear e
executar a manutenção (preventiva e corretiva) dos equipamentos gerais e cirúrgicos do
hospital, assim como das instalações e infra-estruturas. O Serviço participa no planeamento
e elaboração de projectos de beneficiação e remodelação de serviços do hospital, e
coordena a execução de obras.

O organigrama do SIE encontra-se representado no Anexo 5. Os profissionais que
desempenham funções operacionais são operários com a categoria profissional de
assistente operacional. Encontram-se distribuídos por diversas oficinas, cada uma das quais
com um supervisor. A chefia directa dos supervisores é o responsável do Núcleo de
Manutenção.

Os operários do SIE distribuem-se por dois pólos do hospital estudado, sendo que seis das
oficinas se situam num dos pólos (neste trabalho designado de pólo A) e apenas uma no
outro pólo (neste trabalho designado de pólo B). A oficina que se situa no pólo B abrange
diversas valências (ex. canalização, electricidade), sendo constituída por profissionais com
diferentes especializações.A distribuição de operários e responsabilidades atribuídas a cada
oficina encontram-se identificadas no quadro seguinte:

Quadro22: Oficinas do SIE, respetivas responsabilidades e número de profissionais

A totalidade dos profissionais que desempenham funções operacionais no SIE é de N=58.

4.3.2. Caracterização sócio demográfica

Todos os profissionais do SIE pertencem ao sexo masculino. A média de idades dos
profissionais do SIE situa-se nos 46,7 anos, sendo a distribuição por grupos etários
apresentada no quadro seguinte:

64
Quadro23: Distribuição por grupos etários dos profissionais do SIE

Como se pode observar no quadro, metade dos profissionais do SIE possuem mais de 50
anos de idade, sendo que destes, 7 têm mais de 60 anos.

A distribuição dos profissionais do SIE por níveis de escolaridade encontra-se representada
no quadro seguinte:

Quadro24: Distribuição por nível de escolaridade dos profissionais do SIE

Como se pode observar no quadro, colaboram no mesmo serviço pessoas com níveis de
escolaridade muito distintos. Se 25,9% dos profissionais possuem entre 10 e 12 anos de
escolaridade (o que poderá querer dizer que completaram algum tipo de formação de nível
técnico-profissional nas suas áreas de trabalho), 19% possuem apenas até 4 anos de
escolaridade completos (e situam-se na faixa etária dos 50/60 anos). O profissional que
possui licenciatura é um dos supervisores.

Quadro25: Distribuição por antiguidade dos profissionais do SIE

Aproximadamente 38% dos profissionais do SIE possuem 20 ou mais anos de serviço no
hospital, correspondendo assim a uma antiguidade elevada. Apenas 7 dos profissionais do
SIE (12,1%) trabalham no serviço há menos de 5 anos.

65
4.3.3. Clima de segurança

Foram analisados os dados obtidos através da aplicação do questionário de avaliação do
clima de segurança a todos os profissionais com funções operacionais do Serviço de
Instalações e Equipamentos do hospital estudado.

Todos os profissionais pertencentes às várias oficinas do SIE responderam ao questionário
(total de 58 profissionais), sendo assim obtida uma taxa de resposta de 100% neste serviço.
Apresentam-se seguidamente os resultados obtidos nas diferentes dimensões.

Quadro26: Clima de segurança no SIE (médias e desvios-padrão)

Como se pode verificar, praticamente todas as dimensões se situam ligeiramente acima do
ponto médio da escala utilizada (exceptuando a dimensão da formação em segurança, em
que o resultado se situa abaixo do ponto médio – 3,76). Esta observação poderá apontar no
sentidoda existência de um clima de segurança no serviço que não é muito forte.

A escala em que o resultado foi mais elevado foi a do envolvimento pessoal com a
segurança (5,30). Parece evidenciar-se, assim, uma tendência para a adoção de condutas
de trabalho seguras e de uma partilha de responsabilidades pela segurança entre todos,
para além de um sentimento de orgulho no desempenho em segurança. Parece existir uma
internalização da segurança pelos trabalhadores (esta é a dimensão com valor mais elevado
de todas as avaliadas – 5,39), no sentido de uma adesão dos trabalhadores às regras de

66
segurança independentemente de qualquer tipo de pressão ou obrigatoriedade externa de o
fazer.

Os resultados revelam que, no Serviço, existe uma perceção geral da segurança como valor
(média geral de 5,23). Os conteúdos do clima de segurança revelam a existência de um
clima orientado para a valorização do bem-estar e segurança dos trabalhadores dentro do
Serviço. Parece ainda ser dado algum peso à implementação de regras de segurança e ao
controlo do seu cumprimento e uma perceção de valorização das questões da segurança
pela chefia directa, embora esta tendência não seja muito marcada.

As perceções relacionadas com as práticas organizacionais de segurança são aquelas que
assumem valores mais baixos entre as dimensões analisadas. Particular evidência pela
negativa assume a formação em segurança (3,76), demonstrando que aspetos como a
qualidade, a eficácia ou a periodicidade da formação são percecionados como insuficientes
pelos trabalhadores. Ainda relativamente às práticas organizacionais relacionadas com a
segurança, não parece haver uma perceção marcada entre os trabalhadores no sentido de
haver uma grande preocupação da gestão do serviço com as questões da segurança. As
comunicações relacionadas com a segurança também não parecem ser muito valorizadas
no serviço.

4.3.4. Sinistralidade no Serviço de Instalações e Equipamentos

No quadro seguinte, estão representados os acidentes de trabalho notificados por
profissionais do Serviço de Instalações e Equipamentos (SIE), por oficina, ao longo dos
últimos 5 anos:

Quadro 27: Evolução temporal do número de acidentes de trabalho (AT) por oficina do SIE

Como se pode observar, nos últimos 5 anos foram notificados por profissionais pertencentes
ao SIE um total de 58 acidentes de trabalho, o que corresponde a uma média de 11,6
acidentes por ano. A oficina onde ocorreram mais acidentes foi a da construção civil (N=18).

67
A maior parte dos acidentes (N=36; 62%) originaram incapacidade temporária absoluta
(baixa ou ausência ao trabalho), sendo que 15 (26%) originaram incapacidade temporária
parcial e apenas 7 (12%) não originaram qualquer tipo de incapacidade.

Gráfico8: Incapacidades originadas por acidentes de trabalho no SIE

12%

26% Sem Incapacidade
62% Inc. Temporária Parcial
Inc. Temporária Absoluta

No quadro seguinte, estão representados os dias de ausência ao trabalho originados por
acidentes notificados por profissionais do SIE, por oficina, ao longo dos últimos 5 anos:

Quadro 28: Evolução temporal do número de dias perdidos por oficina do SIE

Como se pode observar, os acidentes ocorridos ao longo dos últimos 5 anos originaram um
total de 838 dias de trabalho perdidos, correspondendo a uma média de 167,6 dias perdidos
por ano. Em termos absolutos, a oficina onde se perderam mais dias de trabalho devido a
acidentes de trabalho foi a da construção civil.

O quadro seguinte apresenta quais os tipos de acidente ocorridos no SIE no período em
estudo.

Quadro29: Tipo de acidentes de trabalho ocorridos no SIE

68
Tal como pode ser observado, o acidente mais frequente (22,4%) foi a mobilização de
cargas com esforço excessivo, embora tenham também ocorrido outro tipo de acidentes
com alguma frequência, como o choque contra objectos (19%), as quedas / desequilíbrio de
profissionais (19%) e a projecção de objectos (17,2%).

Calcularam-se as taxas de sinistralidade referentes ao SIE. As taxas referidas encontram-se
apresentadas abaixo.

Quadro 30: Taxas de sinistralidade por oficina doSIE

Foi na oficina de serralharia e material cirúrgico que se verificaram as maiores taxas de
incidência, de frequência e de gravidade de acidentes de trabalho, quando comparadas com
as outras oficinas do SIE.

4.3.5.Doenças profissionais no Serviço de Instalações e Equipamentos

Após análise das notificações de doença profissional efetuadas por médicos do trabalho do
SSO, verificou-se que houve duas participações de doença profissional relativas a
trabalhadores do SIE, nos últimos cinco anos.

Quadro 31: Doenças profissionais notificadas no SIE

Ambas as doenças notificadas se relacionam com a exposição a agentes físicos (ou factores
relacionados com a atividade), uma das características do trabalho no SIE. À data da
recolha dos dados (Maio de 2016) não tinha sido recepcionada no SSO qualquer informação
sobre o reconhecimento destas duas doenças profissionais pela Segurança Social.

69
4.3.6.Medidas propostas pelo Serviço de Saúde Ocupacional e implementadas pelo
Serviço de Instalações e Equipamentos

As medidas preventivas ou corretivas propostas pelo SSO relativamente ao SIE ao longo
dos anos encontram-se representadas no gráfico seguinte.

Gráfico 9: Total de medidas preventivas e corretivas propostas pelo SSO ao SIE ao longo dos anos

35

30

25

20

15

10

5

0
2006 2008 2011 2012 2013 2014 2015

Instalações Máquinas / equipamentos
Práticas de trabalho Protecção individual (EPI)

Como se pode observar, a proposta de medidas corretivas ou preventivas para o SIE
revestiu-se de um carácter bastante regular ao longo dos anos. Essas medidas estiveram
relacionadas com vários aspetos das instalações, equipamentos de trabalho e EPI, mas
estiveram sobretudo orientadas para o reforço de práticas de trabalho seguras. Mesmo em
2015 (o ano mais recente em análise), várias medidas foram propostas ou voltaram a ser
reforçadas.

O quadro abaixo representa o grau de implementação prática de cada uma das medidas
propostas ao SIE.

Quadro 32: Medidas propostas (P) pelo SSO e implementadas (I) pelo SIE

Como se pode verificar, o nível total de implementação de medidas propostas pelo SSO no
SIE foi ligeiramente superior a 50%. Vários tipos de medidas propostas ao SIE tiveram taxas
de implementação baixas ou muito baixas, particularmente a nível da implementação de
práticas de trabalho seguras. A área dos EPI foi a que teve uma taxa de implementação
mais elevada (73%), correspondendo a um esforço do serviço no sentido da disponibilização
de equipamento de proteção individual indispensável a um trabalho em segurança.

70
4.3.7. Observação de campo

O quadro abaixo apresenta o grau de cumprimento atual dos requisitos legais e normativos
relacionados com diferentes temas (instalações, equipamentos, etc.), constituindo o
resultado da checklist aplicada no SIE. Apresentam-se os resultados em percentagem de
cumprimento relativamente ao total de requisitos constantes de cada checklist. Os
resultados são apresentados por oficina do Serviço.

Quadro 33: Grau de cumprimento dos requisitos da checklist no SIE

O grau de compliance geral do SIE relativamente aos requisitos legais e normativos,
avaliado através da checklist utilizada, foi de 65%. Destaca-se pela positiva o tema dos
equipamentos de proteção individual (75% de cumprimento). Em termos das diferentes
oficinas, destaca-se pela positiva a canalização com um grau de cumprimento de 74% e a
electricidade com 71%. Pela negativa destaca-se a serralharia e material cirúrgico (54%) e a
construção civil (62%).

Em termos de instalações e espaços de trabalho o valor obtido (66%) reflecte o investimento
que foi feito nos últimos anos na requalificação das instalações das oficinas, embora nem
sempre as condições de arrumação e de limpeza no interior das mesmas sejam as
melhores. Embora tenham sido adquiridas, nos últimos anos, ferramentas mecânicas e
eléctricas de apoio à realização das diferentes atividades, existem ainda máquinas antigas
que não cumprem os requisitos de segurança e cuja adaptação às normas atuais é bastante
difícil de conseguir.

As práticas de trabalho são o tema em que o grau de cumprimento é menor (57%),
salientando-se a não utilização de EPI que estão disponíveis para utilização pelos
trabalhadores, a sua utilização incorreta (ou não adequada à tarefa que está a ser
desempenhada), ou não ativação de mecanismos de segurança existentes (ex. ventilação
mecânica das áreas de trabalho).

4.3.8. Entrevistas individuais

As entrevistas individuais realizadas com o responsável do SIE e com supervisores e
trabalhadores de diferentes oficinas foram sujeitas a análise de conteúdo, procedendo-se à

71
categorização de segmentos do texto de conteúdo comum, o que permitiu o agrupamento
de conteúdos sob a mesma categoria. O quadro abaixo apresenta as categorias que foram
descodificadas e a frequência de vezes que cada uma dessas categorias emergiu nas
entrevistas à gestão e aos supervisores e trabalhadores.

Quadro 34: Categorias de codificação das entrevistas realizadas no SIE e respectivas frequências

A categoria segurança é aquela que surge com maior frequência na análise realizada, o que
estará certamente relacionado com a contextualização da entrevista efetuada junto de cada
entrevistado, situando o trabalho presente nesta área. Muito próxima desta categoria em
termos de frequência surge a de material de proteção, o que poderá reflectir uma
associação entre os dois conceitos quer por parte da gestão, quer por parte de supervisores
e operários.

Conteúdos relacionados com a categoria produção surgem também referidos
frequentemente nas entrevistas, sobretudo relacionados com as exigências para a produção
sentidas pelos supervisores e trabalhadores, e com a falta de recursos humanos para lidar
com as mesmas. É referido algumas vezes o papel assumido pelo responsável da
manutenção na introdução de algumas mudanças na área da segurança no SIE desde a sua
entrada há cerca de 6 anos para o Serviço. O próprio responsável, na entrevista, assume o
desejo de desenvolvimento de uma cultura de segurança no serviço.

4.3.9. Integração de dados: análise da cultura de segurança

A análise e comparação dos dados recolhidos através dos diferentes instrumentos utilizados
relativos ao Serviço de Instalações e Equipamentos permitiu identificar categorias e
conteúdos associados, os quais se apresentam seguidamente:

72
a. Valores do Serviço

No serviço existe uma preocupação marcada com a produção, originada pela pressão de
apresentar “trabalho feito” por parte do conselho de administração do hospital, mas também
por parte dos outros serviços. De facto, aspetos como a qualidade e rapidez de resposta são
altamente valorizados pelos serviços-cliente do SIE, já que interferem com o desempenho
dos profissionais de saúde, assim como com a qualidade e segurança dos serviços
prestados aos utentes do hospital.

Esta preocupação sobressai também nas entrevistas realizadas à gestão e aos
trabalhadores, em que a categoria produção é uma das que emerge com mais frequência.
Esta categoria é até mais frequente nas entrevistas do grupo dos supervisores e
trabalhadores, talvez por serem estas pessoas quem mais se encontra presente na primeira
linha de interação com os serviços do hospital, sendo por isso quem mais sente o grau de
exigência e pressão por parte destes.

A importância dos aspetos ligados à produção, foram, de acordo com o elemento da gestão
do SIE entrevistado, um dos motivos do reforço da equipa através da admissão de um novo
responsável da manutenção. A sua entrada para o hospital ocorreu em 2010, numa fase da
vida do hospital caracterizada por um grande dinamismo em termos de obras de
beneficiação dos serviços do hospital.

b. Valorização da segurança

Os aspetos relacionados com a segurança do trabalho no SIE têm vindo a receber atenção
crescente ao longo dos últimos dez anos, particularmente a partir da criação do SSO no
hospital. De facto, desde a sua criação que um dos serviços alvo prioritários da ação do
SSO foi o SIE. A partir de 2006, o SSO iniciou o processo de avaliação de riscos
profissionais em conjunto com o SIE, tendo proposto medidas técnicas de gestão dos riscos
profissionais desde esse ano e, de forma regular, ao longo dos seguintes.

A atenção à segurança do trabalho (a par com a optimização da produção) também foi, de
acordo com o elemento da gestão entrevistado, um dos motivos que levou à admissão do
novo responsável de manutenção. Já nessa altura existia no serviço a noção de que havia
vários aspetos a melhorar em termos de segurança.

As preocupações com a segurança no serviço parecem estar sobretudo associadas aos
equipamentos de proteção individual. Foi esta a área em que o serviço mais investiu ao
longo dos últimos anos, de forma a disponibilizar os equipamentos necessários a um
trabalho em segurança. Observando o Quadro 32 pode verificar-se que as medidas

73
propostas pelo SSO a este nível ao longo dos anos foram as que tiveram um maior grau de
implementação (73,3%).

Numa perspetiva mais recente, aquando da aplicação da checklist de observação de campo
já no âmbito deste trabalho (em 2016), também se pode verificar um grau de compliance
dos mais elevados em termos de disponibilidade e conformidade de EPI, com várias oficinas
a situarem-se acima dos 80% de cumprimento. Um outro dado que vai no sentido desta
associação segurança/ EPI, deriva da análise da frequência com que surge a categoria
material de proteção nas entrevistas realizadas à gestão e aos trabalhadores.

Relativamente à questão da prioridade relativa entre produção e segurança no serviço é
verbalizado pela gestão que: “Não há pressão para a produção que justifique pôr a
segurança de lado”. Acrescenta ainda que “Se algum trabalhador o faz [dar prioridade ao
trabalho sem respeitar os aspetos da segurança] é por iniciativa própria e porque se quer
despachar mais depressa”.

c. Práticas de gestão

As instalações e espaços de trabalho das oficinas têm sido, nos últimos anos, alvo de
investimento, no sentido da sua requalificação e disponibilização de melhores condições aos
utilizadores. As zonas de apoio (zonas de refeição, vestiários e balneários) foram também
objecto de beneficiação.Nos últimos anos também têm sido adquiridos pelo Serviço e
disponibilizados aos profissionais diversos equipamentos de proteção individual (incluindo
fardamento próprio, calçado de segurança, luvas deproteção de diferentes tipos ou proteção
respiratória), para além de terem sido colocadas caixas de primeiros socorros em todas as
oficinas.

Estas iniciativas da parte da gestão são reconhecidas pelos trabalhadores e supervisores.
Existe ainda a perceção no serviço da importância que teve a entrada do novo responsável
da manutenção e das alterações introduzidas a partir dessa altura. De acordo com um dos
supervisores entrevistado: “as coisas em termos de segurança têm estado a melhorar desde
há alguns anos para cá, principalmente desde que chegou a nova chefia”.

As medidas propostas pelo SSO à direcção do SIE na área da segurança e saúde do
trabalho ao longo dos anos têm tido na generalidade uma taxa de implementação baixa. De
facto, observando o Quadro 32, verifica-se um grau de implementação de cerca de 51% da
totalidade de medidas propostas. Esta implementação é baixa sobretudo a nível de práticas
de trabalho relacionadas, por exemplo, com a utilização dos EPI disponíveis pelos
trabalhadores ou observáveis na não ativação de mecanismos de proteção de ferramentas
ou sistemas de segurança. Várias propostas do SSO relacionadas com operações de

74
trabalho que envolvem um grau de risco elevado para os trabalhadores, como a
implementação de um sistema de autorizações de trabalho nesse tipo de operações,
também nunca foram implementadas pelo serviço.

d. Regras e procedimentos instituídos

No serviço, não existem quaisquer regras ou procedimentos de segurança formalizados por
escrito, ou seja, para além de sinalização de segurança afixada nas oficinas, não existem
procedimentos escritos sobre a forma segura de desempenhar as diferentes tarefas.

De acordo com o responsável entrevistado, a forma de desempenhar as tarefas em
segurança é aprendida pelos trabalhadores nos seus cursos de formação de base. Outras
indicações particulares sobre segurança (como por exemplo a utilização de uma nova
ferramenta) são comunicadas através da cadeia hierárquica aos trabalhadores.

De acordo com o responsável da manutenção, onão cumprimento das indicações
relacionadas com segurança pelos trabalhadores é penalizado através de repreensões
verbais quando é detectado no decorrer das atividades do dia-a-dia. Um outro mecanismo
mais formal de valorização / penalização do cumprimento / não cumprimento é o sistema de
avaliação do desempenho instituído (SIADAP), no item relacionado com a segurança.

O controlo do cumprimento destas indicações de segurança é, no entanto, difícil de
assegurar. As atividades de trabalho são desempenhadas individualmente ou em pequenas
equipas de trabalhadores não apenas nas oficinas, mas em múltiplos locais dispersos pelo
hospital. O cumprimento das indicações de segurança é deixado em grande parte ao critério
de cada trabalhador. Para o responsável do serviço “no caso dos trabalhadores mais novos
ou daqueles que vieram de outras empresas, a interiorização dos aspetos de segurança é
mais fácil”.

No aspeto do cumprimento das regras de segurança no quotidiano dos trabalhadores
existem claramente aspetos contraditórios nos dados analisados, particularmente entre as
perceções reveladas no questionário de clima de segurança e as práticas de trabalho
observadas.

Em relação ao questionário de clima de segurança, a escala em que o resultado foi mais
elevado no SIE foi a do envolvimento pessoal com a segurança (5,30). Este resultado
relaciona-se com a perceção de que são adotadas condutas de trabalho seguras, apontando
também no sentido de uma internalização da segurança pelos trabalhadores (esta é a
dimensão com valor mais elevado de todas as avaliadas – 5,39). No entanto, os dados
relativos à implementação de medidas propostas pelo SSO ao longo dos anos, ou os

75
resultados da checklist de observação de campo apontam para o não cumprimento de
práticas de segurança em aspetos como a não utilização de EPI pelos trabalhadores, ou a
adoção de comportamentos inseguros.

Um dos operários entrevistado, que em 2015 esteve envolvido em dois acidentes de
trabalho, verbalizou um dos exemplos em que pode não ser utilizado o EPI no decorrer das
atividades de trabalho: “às vezes não temos o material connosco e estamos na outra ponta
do hospital [relativamente à oficina] e não dá para irmos buscar; aí tem de ser sem o
material”.

A análise dos dados relativos à sinistralidade no SIE revela também que a ocorrência de
acidentes de trabalho decresceu em 2013 e 2014 mas voltou a aumentar em 2015, apesar
da introdução de várias medidas relacionadas com a segurança de instalações ou da
disponibilização de EPI. Em várias participações de acidentes de trabalho analisadas,
verifica-se que uma das causas dos mesmos foi a não utilização de um equipamento de
proteção que estava disponível para ser utilizado pelo trabalhador.

e. Comunicação sobre riscos e segurança

De acordo com o responsável do serviço, temas relacionados com segurança são
abordados pela gestãoem reuniões com os supervisores, sendo estes os responsáveis por
transmitir aos operários os conteúdos partilhados. Para o mesmo responsável: “os
encarregados têm um papel muito importante na passagem da mensagem aos
trabalhadores”.

Não existem registos internos relativos à ocorrência de acidentes ou incidentes, sendo esta
responsabilidade delegada no SSO do hospital. A análise de acidentes e incidentes no
serviço parece ocorrer em alguns casos, sendo que algumas medidas podem ser adotadas
internamente. Para o responsável do serviço entrevistado, este tipo de iniciativas ajudam a
“dar pistas” aos trabalhadores sobre a valorização da segurança pela gestão.

No entanto, não existe uma prática regular de partilha de informação com os trabalhadores
sobre acidentes de trabalho ocorridos no serviço. Esta prática é quase inexistente mesmo
em termos da partilha de informação entre os trabalhadores que pertencem à mesma oficina
(como se pode verificar através da análise dos indicadores de sinistralidade, existem
oficinas em que os acidentes são mais frequentes – como a de construção civil - ou se
revestem de maior gravidade - como a de serralharia e material cirúrgico).

76
De acordo com os resultados obtidos no questionário de clima de segurança, as
comunicações relacionadas com a segurança não parecem ser muito valorizadas dentro do
serviço (o resultado nesta dimensão foi de 4,20).

Um outro aspeto dos resultados do clima de segurança relacionado com a comunicação
sobre riscos e segurança são os aspetos relacionados com a formação. A dimensão da
formação em segurança é a que obtém o valor mais baixo de entre todas as avaliadas
(3,76), revelando uma perceção de desinvestimento nesta área pela gestão do serviço.

De facto, para além de algumas sessões de formação on-job sobre acidentes de trabalho ou
sobre utilização de extintores, não existe formação periódica sobre segurança do trabalho
ou sobre os riscos profissionais a que os trabalhadores estão expostos. Mesmo os novos
trabalhadores não têm qualquer tipo de formação inicial para além daquela que lhes é
ministrada nos cursos de formação de base.

Uma ação de formação em segurança, higiene e saúde do trabalho para todos os
trabalhadores chegou a ser trabalhada entre o SIE e o SSO, acabando por nunca se
realizar. Os formadores internos do SIE que as iriam assegurar assumiram novas tarefas no
serviço, deixando de ter disponibilidade para as levar à prática e nunca chegando a ser
nomeados novos formadores para os substituir. Na reunião realizada com o responsável da
manutenção e com os supervisores, no âmbito da apresentação e pedido de colaboração
neste estudo, foi verbalizado um grande interesse relativamente à possibilidade de ser
realizada formação aos trabalhadores do SIE.

f. Papel dos supervisoresna segurança

Os supervisores de cada uma das equipas de trabalho em cada oficina do SIE assumem um
papel importante na dinâmica interna do Serviço. Em termos hierárquicos o seu papel formal
é bastante marcado, assumindo uma autoridade formal em aspetos como a gestão de
escalas na oficina ou a gestão do trabalho diário entre os operários.

A maior parte dos supervisores das diferentes oficinas começou por trabalhar como operário
no hospital, acabando por assumir responsabilidades de supervisão por critérios de
antiguidade no serviço e acordo da parte da gestão. A maior parte dos supervisores
atualmente em funções no SIE são pessoas com antiguidade elevada no hospital,
pertencem aos grupos etários mais elevados e possuem nível de escolaridade baixo. De
facto, dos sete supervisores, quatro deles têm mais de 50 anos, mais de 28 anos de
antiguidade no hospital e o 8º ou 9º ano de escolaridade. Os outros três são mais novos,
têm menor antiguidade e maior grau de escolaridade.

77
Em termos dos aspetos relacionados com a segurança, o seu papel é muito importante, pois
estabelecem a ligação entre a gestão e os operários na abordagem de assuntos
relacionados com segurança, mas também pelo exemplo que dão na valorização quotidiana
da mesma. A maior parte dos supervisores participam ativamente nas tarefas de cada
oficina (não são apenas coordenadores do trabalho a efetuar), sendo muitas as
oportunidades para demonstrar a forma como valorizam as questões relacionadas com a
segurança perante os seus subordinados.

No entanto, parece existir no SIE alguma heterogeneidade nas perceções e comportamento
dos supervisores quando as questões de segurança estão em causa. Se alguns deles são
os primeiros a dar o exemplo no que às questões de segurança diz respeito, utilizando os
equipamentos de proteção necessários à realização de uma dada tarefa ou chamando a
atenção quando presenciam comportamentos inseguros da parte de subordinados, outros
não demonstram o mesmo comportamento. Um exemplo relaciona-se com a introdução do
calçado de segurança no serviço em 2011, em que alguns supervisores demonstraram
grande resistência à sua utilização, acabando por começar a utilizá-los regularmente depois
dos próprios operários.

Foram analisados os resultados das perceções de clima de segurança entre os supervisores
do SIE, verificando-se uma perceção de forte valorização da segurança pelas suas chefias,
ou seja, pela gestão do Serviço (valor de 5,95 nesta escala). Verifica-se também que o valor
obtido nesta escala é superior ao valor obtido na escala de envolvimento pessoal na
segurança (4,84), que reflete, entre outras dimensões, o grau de internalização de valores
associados à segurança ou o orgulho em trabalhar em segurança.

Quadro35: Resultados do clima de segurança: supervisores do SIE (médias e desvios-padrão)

78
As perceções dos operários sobre a valorização da segurança pelos seus supervisores
reveladas no questionário de clima de segurança acabam por traduzir esta heterogeneidade
de comportamentos por parte de diferentes supervisores (a escala de valorização da
segurança pelas chefias directas tem resultado de 4,61, com desvio-padrão de 2,03).

O desinvestimento na área da segurança evidenciado por alguns supervisores do SIE pode
ajudar a compreender observações como os baixos níveis de cumprimento de requisitos de
segurança principalmente a nível de práticas de trabalho reveladas na checklistaplicada ou
na não implementação de medidas propostas pelo SSO ao longo dos anos. De facto, se
alguns deles são os primeiros a não adotar comportamentos de segurança básicos,
provavelmente também não irão reforçar positivamente boas práticas dos seus
subordinados ou alertar para comportamentos inseguros.

A figura seguinte sintetiza as principais categorias identificadas na integração dosdados
relacionados com a análise da cultura de segurança, assim como os valores nucleares no
Serviço de Instalações e Equipamentos.

Figura 7: Categorias e valores nucleares identificados no SIE

Categorias: Valores nucleares:
- Produção como valor do serviço
a. Valores do Serviço - Segurança associada a
b. Valorização da segurança equipamentos de protecção
c. Práticas de gestão individual
d. Regras e procedimentos instituídos - Investimento da gestão em
e. Comunicação sobre riscos e segurança
segurança - Formalização de regras e
f. Papel dos supervisores na procedimentos de segurança pouco
segurança valorizada
- Comunicação sobre riscos e
segurança pouco desenvolvida
- Segurança como responsabilidade
individual

79
4.4. Associação entre clima de segurança e sinistralidade

Apresentam-se no quadro abaixo os resultados obtidos nas diferentes escalas de avaliação
do clima de segurança e as taxas de incidência, frequência e gravidade em cada setor /
oficina dos Serviços estudados.

Quadro 36: Médias obtidas nas escalas do questionário de clima de seg. e taxas de sinistralidade

Escalas de avaliação do clima de segurança Taxas de sinistralidade
Práticas Envolvimento Valorização da
Segurança como Conteúdo do clima
Sector / Oficina organizacionais de pessoal na segurança pelas Incidência Frequência Gravidade
valor de segurança
segurança segurança chefias directas
Recepção 4,80 4,06 4,55 4,77 4,97 66,7 34,7 0,0

Picking 4,91 4,19 4,23 4,36 4,19 57,1 29,8 0,0

Distribuição 5,30 4,48 4,52 5,17 4,64 116,7 60,8 347,2

Imobilizado 6,40 5,18 5,12 5,96 5,33 66,7 34,7 0,0

Construção Civil 5,41 4,37 4,26 5,19 4,12 257,1 133,9 1339,3

Electromecânica 5,54 4,95 4,35 5,25 5,05 228,6 119,0 1889,9
Serralharia e material
5,15 4,73 4,25 5,72 4,88 300,0 156,3 3177,1
cirurgico
Canalização 5,51 5,21 4,50 5,75 5,02 177,8 66,3 862,4

Electricidade 4,78 4,44 4,24 4,98 4,54 100,0 40,2 1091,0

Mecânica Auto 4,53 3,70 4,30 4,46 4,67 66,7 34,7 590,3

Polo B 5,29 4,89 4,33 5,60 4,57 244,4 127,3 1446,8

Através do coeficiente de correlação de Pearson, foram identificadas tendências em termos
de associações entre as variáveis relacionadas com o clima e as taxas de sinistralidade.

Quadro 37: Correlações (coeficiente de Pearson) entre os resultados nas escalas de clima de
segurança e taxas de sinistralidade e respetiva associação

Na análise efetuada, não foram encontradas associações estatisticamente significativas
entre nenhumas das variáveis estudadas, para o nível de significância estabelecido
(p<0,05). De qualquer forma, podem identificar-se algumas tendências a nível de algumas
associações, em termos da força da associação ou em termos do sentido da mesma
(positiva ou negativa).

A nível das escalas da segurança como valor e da valorização da segurança pelas chefias
directas não foi encontrada qualquer associação com as taxas de sinistralidade.

80
Os resultados encontrados sugerem uma associação ligeira entre os conteúdos do clima de
segurança e as práticas organizacionais de segurança, e os valores das taxas de incidência,
frequência e gravidade. No entanto, esta associação parece ser de sentido contrário em
cada escala. No caso dos conteúdos do clima de segurança, a obtenção de valores mais
elevados parece associar-se positivamente com valores mais elevados nas taxas de
sinistralidade. Pelo contrário, valores mais elevados nas perceções relacionadas com
práticas organizacionais de segurança, parecem associar-se a menores taxas de
sinistralidade.

Os resultados sugerem ainda uma associação moderada entre envolvimento pessoal na
segurança e a taxa de incidência de acidentes de trabalho e uma associação ligeira com as
taxas de frequência e gravidade. Estas associações parecem indicar que um envolvimento
mais forte com a segurança se associa a maiores taxas de sinistralidade.

81
5. Discussão de resultados

5.1. Aspetos metodológicos

A utilização de diferentes instrumentos de recolha de dados sobre a cultura de segurança
nos dois serviços estudados permitiu a recolha de grande quantidade de informação sobre
os mesmos. A sua análise permitiu identificar congruências mas também várias
discrepâncias. No entanto, neste processo tornou-se bem saliente a importância de
utilização de múltiplos instrumentos para avaliar a cultura de segurança e não apenas de um
único (como por exemplo o questionário), na linha do defendido por autores como Silva
(2008), Haukelid (2008) ou Antonsen(2009).

5.2. Perguntas de investigação / hipóteses em estudo

Neste trabalho tentou-se encontrar respostas para as várias perguntas de investigação
formuladas e hipóteses em estudo.

Relativamente à primeira e à segunda perguntas de investigação,(“quais os principais
aspetos do clima de segurança no Serviço de Logística e no Serviço de Instalações e
Equipamentos?” e “existem diferenças a nível do clima de segurança nos dois serviços da
mesma organização?”), verificou-se que em ambos os serviços estudados, praticamente
todas as dimensões do questionário de clima de segurança se situaram ligeiramente acima
do ponto médio da escala utilizada (a única excepção foi a dimensão da formação em
segurança no SIE que se situou abaixo do ponto médio). Esta observação poderá apontar
no sentido da existência de climas de segurança não muito fortes em ambos os serviços.

Tanto no serviço de Logística como no SIE parece existir uma perceção da segurança como
valor do Serviço (5,21 na LOG; 5,23 no SIE) no sentido de que o mesmo reforça a
importância da segurança de pessoas, equipamentos ou instalações de trabalho. No
entanto, é importante ter presente que esta é a escala em que poderá existir maior
tendência no sentido de uma desejabilidade social, ou seja, pode haver respostas em que o
trabalhador responde da forma “politicamente correcta”.

É interessante verificar que, em ambos os serviços, a escala que avalia o grau de
envolvimento dos trabalhadores na segurança foi das que revelou valores mais elevados
(4,96 na LOG; 5,30 no SIE) em comparação com outras, talvez por se centrar sobretudo nos
indivíduos e não tanto ao nível do Serviço. Salienta-se a internalização e a implicação
pessoal com a segurança, no sentido de uma valorização da segurança pelos indivíduos e

82
da adoção de comportamentos com ela relacionados, independentemente do grau de
supervisão pelas chefias.

O facto de noquestionário de clima de segurança, as respostas a praticamente todas as
dimensões se terem situado ligeiramente acima do ponto médio da escala utilizada, poderão
revelar alguma defensividadeda parte dos trabalhadores. Esta defensividade, no caso do
Serviço de Logística, poderá ter estado relacionada com o clima de alguma insegurança
laboral vivida no momento do estudo. De facto, pouco tempo antes da aplicação dos
questionários tinha saído um funcionário do Serviço e durante o corrente ano já se
encontrava prevista a substituição de outros quatro: dois que solicitaram recolocação e dois
que teriam problemas de desempenho de acordo com o responsável do Serviço. Esta
insegurança poderá ter contribuído para os respondentes evitarem respostas extremas,
particularmente nos itens mais relacionados com a gestão do Serviço. No caso do SIE,
apesar da tentativa de simplificação de vários itens do questionário, a interpretação de
algumas perguntas pode ter-se revelado difícil para alguns trabalhadores de nível mais
baixo de escolaridade e pouco habituadas a serem solicitadas para este tipo de reflexão.

Relativamente à primeira e à segunda perguntas de investigação tinha sido formulada a
hipótese: “existem diferenças a nível do clima de segurança nos dois serviços da mesma
organização”, a qual não parece então confirmar-se em face dos resultados da avaliação do
clima de segurança nos dois serviços estudados. De facto, existem apenas pequenas
diferenças em algumas escalas, sendo que as perceções relativamente aos temas
abordados parecem ter tendências semelhantes.

Relativamente à terceira e à quarta perguntas de investigação,(“quais os principais aspetos
da cultura de segurança no Serviço de Logística e no Serviço de Instalações e
Equipamentos?” e “existem diferenças a nível da cultura de segurança nos dois serviços da
mesma organização?”), verificou-se que em ambos os Serviços estudados a pressão para a
produção é muito grande, a qual recai sobre as atividades específicas de cada um deles.
Esta pressão parte do conselho de administração do hospital, mas também de todos os
outros serviços do hospital aos quais prestam apoio. De facto, falhas na rapidez ou eficácia
dos serviços prestados pela Logística ou pelo SIE podem colocar em causa a segurança e
qualidade da prestação de cuidados aos doentes.

Trata-se de dois serviços que apresentam características de estabilidade do ponto de vista
organizacional há alguns anos, o que permitiu uma consolidação progressiva de alguns
aspetos culturais. No entanto, os dois serviços apresentam características diferentes, tanto a
nível dos trabalhadores que os constituem como a nível dos perfis de sinistralidade que
apresentam. A comparação das populações de trabalhadores de cada serviço, na sua

83
globalidade, permite concluir que os da Logística são mais novos e com um nível de
escolaridade superior aos trabalhadores do SIE. Em termos de sinistralidade, o SIE
apresenta taxas superiores à Logística particularmente em termos da gravidade dos
acidentes de trabalho ocorridos nos últimos cinco anos. No SIE foram notificadas nos
últimos dois anos duas doenças profissionais; nenhuma foi notificada relativamente a
trabalhadores da Logística.

Em ambos os serviços se pode observar que os aspetos formais relacionados com a
segurança se encontram pouco sedimentados (ex. inexistência de procedimentos de
trabalho escritos; sistema de autorizações de trabalho não implementado). Autores como
Guldenmund (2010) salientam o facto de que, mesmo que numa organização não existam
os aspetos formais relacionados com a segurança, a cultura de segurança, ao remeter para
aspetos informais, poderia contribuir para a não ocorrência de acidentes de trabalho de
grande gravidade.

No caso dos serviços estudados, para além de os aspetos formais relacionados com a
segurança se encontrarem pouco desenvolvidos, os aspetos informais também o parecem
estar. De facto, através da análise dos dados recolhidos recorrendo a diferentes
instrumentos, comparando informação congruente e discrepâncias, foi possível identificar
alguns valores nuclearescomuns a ambos os serviços, um dos quais consiste na valorização
da produção (e também da qualidade no caso da Logística), acima de todos os outros (como
por exemplo a segurança).

Um outro aspeto comum a ambos (e que poderá eventualmente constituir uma explicação
para o facto de os aspetos formais de segurança se encontrarem tão pouco desenvolvidos)
consiste na noção existente nos serviços estudados, de que os aspetos da segurança do
trabalho não são uma responsabilidade primária do serviço, mas antes uma área que se
encontra delegada num outro serviço do hospital: neste caso o Serviço de Saúde
Ocupacional (SSO). Neste sentido, aspetos como a avaliação de riscos profissionais, a
comunicação sobre acidentes ou a formação dos trabalhadores parecem ser percecionados
como responsabilidade do referido SSO e apenas acessoriamente uma responsabilidade
interna.

Em ambos os serviços estudados a supervisão da atividade dos trabalhadores é difícil de
exercer, devido ao grande número de trabalhadores com um único responsável (no caso da
Logística) ou às próprias características do trabalho, disperso por diferentes locais do
hospital (no caso da Logística e do SIE). A responsabilidade pela segurança dos
trabalhadores assume então um carácter marcadamente individual (cada um é responsável
pela sua própria segurança).

84
Mesmo a autoridade hierárquica formal, bem sedimentada em ambos os serviços, parece
não o ser em termos de segurança, pelo menos em relação a alguns supervisores do SIE.
De facto, as questões de segurança dos operários, para os supervisores, parecem ser mais
vistas como assunto de cada operário (“cumprir” ou “não cumprir”, “aleijar-se” ou “não se
aleijar”) do que como uma responsabilidade partilhada entre operários e chefias. Talvez
porque os supervisores foram eles próprios operários, parece existir uma cultura entre os
supervisores, de que “se eu no meu tempo executava o trabalho em condições muito piores
[sem EPI ou com ferramentas de trabalho mais rudimentares] vocês, com tantas coisas
disponíveis, também têm de o fazer”. Um exemplo concreto observado em contexto de
trabalho real relacionou-se com um operário a executar uma operação de trabalho em pé
sobre o rebordo de uma janela, sendo que o trabalho era executado do lado de fora do
edifício. A altura da janela ao chão era de cerca de seis metros de altura. Para além disso, o
operário encontrava-se a fumar enquanto realizava o trabalho. O supervisor, ao chegar ao
local, não fez qualquer observação ao operário sobre a sua conduta, deixando-o
simplesmente terminar o trabalho.

Várias discrepâncias foram encontradas na análise da informação recolhida através de
diferentes instrumentos neste trabalho. Um exemplo das discrepâncias encontradas a nível
da Logística, foi a existência de valores defendidos na entrevista por elementos da gestão
(defendendo a igual valorização de qualidade e segurança) não congruentes com artefactos
como a documentação escrita do Serviço (em que a palavra “segurança” é praticamente
inexistente).

Um exemplo de uma discrepância encontrada no SIE relaciona-se com a questão da
internalização da segurança pelos trabalhadores. No questionário aplicado esta constituiu a
dimensão com um valor mais elevado (5,39), o que faria pressupor uma adesão dos
trabalhadores às regras de segurança independentemente de qualquer tipo de pressão ou
obrigatoriedade externa de o fazer. No entanto, na entrevista realizada com o responsável
do Serviço, o mesmo referiu ter de chamar várias vezes a atenção dos trabalhadores por
não estarem a utilizar os EPI necessários à tarefa em que estão empenhados e que, mais
ainda, os trabalhadores os voltam a retirar se “não estiver a olhar”. Para além disso, a
análise dos dados relativos à implementação de medidas propostas pelo SSO ao SIE
(Quadro 32) ou o grau de cumprimento em termos da checklist aplicada (Quadro 33), revela
que a não adoção de práticas de trabalho seguras pelos trabalhadores é precisamente a
área em que o grau de implementação de medidas e de cumprimento de requisitos foi mais
baixo.

85
Embora a análise da cultura da organização (o hospital) em que se inserem os serviços
estudados não constituísse objetivo deste trabalho, parecem existir vários aspetos dessa
cultura que influenciam aspetos da segurança dos trabalhadores ao nível de cada serviço.
Esta observação está de acordo com o defendido por autores como Silva (2008) que vêem a
cultura de segurança como integrando o conjunto mais vasto da cultura organizacional e
sendo por esta influenciada.

Um exemplo são as práticas de avaliação de desempenho existentes na organização. De
facto, embora exista um item relacionado com a segurança no SIADAP (Sistema de
Avaliação de Desempenho da Administração Pública) e em ambos os serviços estudados o
pessoal operacional seja avaliado relativamente a este item, existem muito poucas
consequências práticas dessa avaliação. Ou seja, para além de uma contribuição residual
para a nota de avaliação final, não existe qualquer impacto em termos de sistema de
recompensa. O SIADAP, na sua generalidade, parece ser pouco valorizado na organização,
tanto por chefias como por trabalhadores, o mesmo acontecendo relativamente aos aspetos
do mesmo que avaliam a segurança.

Outro aspeto em que a cultura organizacional parece influenciar a cultura de segurança no
hospital relaciona-se com uma orientação prioritária para a segurança do doente e não tanto
do profissional. Por exemplo analisando o conteúdo das comunicações institucionais que
têm origem no Conselho de Administração do hospital, disponíveis na intranet, verifica-se
uma clara orientação para questões relacionadas com a segurança do doente. Só mais
recentemente vai sendo possível encontrar comunicações que também incluem a segurança
e saúde dos profissionais.

Para além disso, alguns autores parecem sugerir também um sentimento de “imunidade”
aos fatores de risco profissionais presentes no ambiente de trabalho, por parte dos
profissionais de saúde (LEITE, SOUSA-UVA, 2015). Talvez este sentimento, aparentemente
caracterizador de profissionais pertencentes a serviços clínicos de um hospital, possa
também ser extensível a trabalhadores de serviços não clínicos, como os pertencentes aos
serviços estudados neste trabalho.

Ainda em relação à quarta pergunta de investigação tinha sido formulada a hipótese:
“existem diferenças a nível da cultura de segurança nos dois serviços da mesma
organização”. Em face dos resultados da análise da cultura de segurança efetuada nos dois
serviços estudados, parece verificar-se a existência de algumas semelhanças em termos de
alguns valores nucleares (valorização da produção; prioritização atribuída à produção /
qualidade sobre a segurança) assim como se verifica uma tendência de delegação de
muitas das responsabilidades relacionadas com a área da segurança e saúde dos

86
trabalhadores no SSO do hospital. No entanto, existem também algumas diferenças entre os
dois serviços, a mais marcada das quais está relacionada com o papel dos supervisores na
(não) adoção de comportamentos de segurança pelos trabalhadores no caso do SIE, assim
como o caráter atribuído neste Serviço à segurança como uma questão de responsabilidade
individual.

O facto de parecerem existir mais semelhanças do que diferenças a nível dos valores
nucleares entre os serviços estudados, sugere a existência de algo comum a ambos os
serviços que poderá influenciar a cultura de segurança. Esse elemento comum poderá ser a
cultura organizacional, o que reforça a ideia expressa por Silva (2008) no sentido de que a
cultura de segurança integra o conjunto mais vasto da cultura organizacional, sendo por esta
influenciada.

Relativamente à quinta pergunta de investigação,(“existe associação entreo clima de
segurança e os indicadores de sinistralidade nos serviços estudados?”), a análise dos dados
da sinistralidade relativos aos últimos cinco anos nos dois serviços estudados revela a
existência de taxas de incidência de acidentes de trabalho superiores (no caso da Logística)
ou muito superiores (no caso do SIE) às taxas de incidência globais nos trabalhadores
portugueses (Gráfico 3).

O setor da Logística onde ocorreram mais acidentes nos últimos cinco anos foi o da
distribuição (N=7) e o único onde ocorreu perda de dias de trabalho em consequência
desses acidentes. No SIE, foi na oficina de construção civil que ocorreram maior número de
acidentes de trabalho nos últimos cinco anos (N=18) e em que estes originaram um maior
número de dias perdidos em termos absolutos. No entanto, foi na oficina de serralharia e
material cirúrgico que se verificaram as maiores taxas de incidência, frequência e gravidade
de acidentes de trabalho, quando comparadas com as outras oficinas do SIE. Estas taxas
estarão certamente relacionadas com o facto de ser uma oficina com um reduzido número
de profissionais (N=4) e com um número anual mais reduzido de horas trabalhadas, mas em
que os acidentes de trabalho e suas consequências em termos de dias perdidos têm tido um
peso relativo maior.

A análise de correlações entre os resultados obtidos em cada setor da Logística e em cada
oficina do SIE com as respetivas taxas de sinistralidade, não permitiram confirmar a
hipótese levantada neste trabalho e fundamentada em estudos como o de Silva, Lima e
Baptista (2004) no sentido de que: “existe uma relação positiva entre um clima de segurança
forte e menores taxas de sinistralidade laboral”.

87
De facto, os valores obtidos nas diferentes escalas de clima de segurança nos dois serviços
situaram-se, na sua generalidade, pouco acima do ponto médio da escala utilizada, pelo que
não foi possível identificar um “clima de segurança forte” em nenhum dos setores / oficinas
nos quais foi aplicado o questionário.

Para além disso, os testes estatísticos efetuados permitiram apenas identificar algumas
tendências que sugerem que perceções sobre práticas de segurança mais fortes a nível do
serviço se encontram ligeiramente relacionadas com taxas de sinistralidade inferiores.

Uma tendência um pouco mais robusta (mas de sentido contrário à hipótese formulada) foi
identificada entre um nível de envolvimento pessoal na segurança mais forte e taxas de
sinistralidade mais elevadas. Esta última associação poderá estar relacionada com uma
tendência de maior notificação de acidentes de trabalho por parte de trabalhadores que
valorizam mais a segurança e que por isso poderão eventualmente estar mais conscientes
da importância de notificar ocorrências a esse nível.

88
6. Conclusões e perspetivasfuturas

O estudo realizado permitiu concluir o seguinte:

A avaliação do clima de segurança no Serviço de Logística e no SIE, efetuada através
de um questionário, revelou que praticamente todas as dimensões se situaram
ligeiramente acima do ponto médio da escala utilizada, o que sugere a existência de
climas de segurança não muito fortes. Tanto no Serviço de Logística como no SIE
parece existir uma perceção da segurança como valor do Serviço, tendo a escala que
avalia o grau de envolvimento dos trabalhadores na segurança sido das que revelou
valores mais elevados. Poderá ter existido alguma tendência de defensividade dos
trabalhadores na resposta ao questionário.

A análise da cultura de segurança no Serviço de Logística e no SIE recorrendo a
múltiplos instrumentos, tornou possível aceder a alguns valores nucleares,sobretudo
relacionados com a valorização da produção e a prioritização atribuída à produção /
qualidade sobre a segurança, assim como uma tendência de delegação de muitas das
responsabilidades relacionadas com a área da segurança e saúde dos trabalhadores no
Serviço de Saúde Ocupacional do hospital.

Neste trabalho não foi possível a formulação de pressupostos básicos sobre a cultura
de segurança nos serviços estudados, ou seja, não foi possível explorar os níveis mais
profundos da cultura dos serviços. Esta exploração apenas seria possível dispondo de
mais tempo para a sua concretização. De facto, a validação dos pressupostos básicos
apenas seria possível no caso de surgirem oportunidades para os mesmos serem
postos à prova em situações concretas em que se pudesse comprovar a sua “partilha”
nos serviços estudados, o que implicaria um tempo de observação superior àquele de
que foi possível dispor neste trabalho.

As semelhanças encontradas a nível de clima e cultura de segurança entre os dois
serviços estudados sugerema existência de uma influência da cultura da organização (o
hospital) sobre a referida cultura de segurança. Alguns aspetos da cultura hospitalar
relevantes a este nívelparecem relacionar-se com a orientação prioritária para a
segurança do doente, o sentimento de “imunidade” relativamente a fatores de risco
presentes no contexto de trabalho ou a fraca valorização de aspetos das práticas de
recursos humanos como a avaliação de desempenho. Esta observação está de acordo
com o defendido por autores como Silva (2008) que vêem a cultura de segurança como

89
integrando o conjunto mais vasto da cultura organizacional e sendo por esta
influenciada.

A análise de correlações entre os resultados obtidos nas diferentes escalas do clima de
segurança e as taxas de sinistralidade, não permitiram confirmar a hipótese levantada
neste trabalho e fundamentada em estudos como o de Silva, Lima e Baptista (2004) no
sentido da existência de uma relação positiva entre um clima de segurança forte e
menores taxas de sinistralidade laboral. Os resultados semelhantes obtidos a nível do
clima de segurança nos dois serviços não parecem relacionar-se com perfis de
sinistralidade diferentes e muito menos permitem afirmar que seja um clima de
segurança fraco que esteja na origem de mais acidentes de trabalho. De facto, a
relação entre clima de segurança e sinistralidade não é clara neste trabalho.

Perspetivasfuturas:

Embora a análise de aspetos formais relativos à organização da segurança em cada
serviço estudado não constituísse o objetivo deste trabalho (já que exploração da
cultura de segurança se centra sobretudo em aspetos informais das organizações), foi
possível constatar que existem várias lacunas a este nível em ambos os serviços. Estas
relacionam-se por exemplo com a inexistência praticamente total de procedimentos ou
instruções de trabalho escritas sobre o desempenho de tarefas em segurança ou
inexistência de autorizações de trabalho para atividades de risco elevado.

A riqueza da informação recolhida através dos diferentes instrumentos e os resultados
encontrados neste trabalho permitiram clarificar algumas lacunas existentes a nível de
aspetos formais e informais da área da segurança e saúde nos serviços estudados e na
sua relação com o SSO do hospital. Esta informação poderá ser utilizada para alicerçar
intervenções futuras e fundamentar recomendações que possam ser efetuadas aos
serviços envolvidos para melhorar a segurança dos trabalhadores e diminuir o número
de acidentes de trabalho.

90
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97
ANEXOS

98
99
100
101
102
Anexo 2 - Checklistrequisitos SST

SERVIÇO: SETOR / OFICINA:

DATA:

PRÁTICAS DE TRABALHO: Conforme NC NA OBS.
Utilização de EPI disponíveis
EPI adequado ao trabalho que está a ser realizado
Activação de mecanismos de seg de ferramentas
Activação de sistemas de ventilação
Cumprimento de instruções de trabalho
TOTAL (em %)

103
Anexo 3 – Guião de entrevista semi-estruturada

Serviço: Entrevistado: Data:

1. Visão da segurança como um valor do Serviço:

1. Qual a missão do Serviço?
2. Quais os valores mais importantes dentro do Serviço? (ex: produtividade, qualidade, satisfação do cliente)
3. Qual a importância geral atribuída à segurança no Serviço? (é vista como prioridade, como valor, outra…)
4. Qual a prioridade dada à segurança em comparação com outras áreas (ex. produção, qualidade, ambiente)? Ex.
situações de pressão de produção.
5. Evolução da importância atribuída à segurança ao longo dos últimos anos no Serviço?
6. Sistema de Gestão da Segurança implementado ou já pensaram implementar?

2. Preocupações da gestão com a segurança:

1. São feitas reuniões sbseg no Serviço?
2. Requisitos de seg são tidos em conta aqd da aquisição de novos equipamentos de trabalho para o Serviço? (ex.
inclusão de cláusulas sbseg nos cadernos de encargos de aquisição desses equips)
3. Responsável de segurança interno do Serviço nomeado?
4. Existem responsáveis de seg por oficina / sector do Serviço?
5. É feita avaliação de riscos para os trabalhadores antes da introdução de novos equips ou operações de trabalho?
6. Quem é envolvido na identificação e controlo dos riscos? (incluem todos os níveis hierárquicos)
7. Disponibilização de EPI aos trabalhadores?

3. Objectivos relacionados com a segurança:

1. São estabelecidos objectivos relacionados com seg? (ex. nº de acidentes de trabalho)
2. Como é valorizado o cumprimento dos objectivos de segurança? (ex. incluído no SIADAP, objs de seg por oficina /
sector)
3. São comunicados os objs a atingir em termos de seg / nº de acidentes? (ex. acidentes zero no Serviço)

4. Valorização de regras e procedimentos de segurança:

1. Existem procedimentos (escritos) sb forma de execução de operações de trabalho, incluindo aspectos
relacionados c a seg?
2. Sistema de autorizações de trabalho implementado?
3. Como é valorizado o cumprimento das regras de segurança instituídas?
4. Consequências do incumprimento de regras de seg estabelecidas? (ex. nãoutiliz EPI)
5. Exigências de seg a empresas externas que prestam serviços ao Hospital?
6. Há introdução de novas normas de segurança, actualizadas em função do que se faz noutras organizações
semelhantes / noutros países? (Inovação)

5. Comunicação e formação sobre segurança:

1. Os riscos profissionais são comunicados aos trabalhadores?
2. É dada formação aos trabalhadores sbseg?
3. Motivos dessa formação? (introdução de novos equipamentos de trabalho, periodicidade definida)
4. Integração de novos trabalhadores como é feita?

6. Aprendizagem organizacional com os acidentes e incidentes:

1. Há registos internos das ocorrências (acidentes / incidentes)?
2. Porque ocorrem acidentes no Serviço?
3. Há tentativa de compreender as causas do acidente?
4. Quem está envolvido nessa investigação de causas?
5. Quando ocorre um acidente / incidente, há partilha / difusão de informação sobre o mesmo?
6. Com quem é partilhada esta informação (chefias, trabalhadores)?
7. Os acidentes ocorridos provocam mudanças no Serviço? (ex. reajuste de procedimentos, aquisição de novos EPI)

104
Anexo 4 – Organigrama Serviço de Logística

Direcção do Serviço

Gestão da Qualidade

Armazém Central
Apoio à gestão de stocks

Recepção Picking Distribuição Imobilizado

105
Anexo 5 – Organigrama Serviço de Instalações e Equipamentos

Direcção do Serviço

Apoio técnico

Núcleo de Manutenção
Apoio operacional

Serralharia e
Construção
Electricidade Electromecânica Canalização material Mecânica Auto
Civil
cirúrgico

106