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Organização
Jan Bremmer e Herman Roodenburs

Tradução de
CYNTHIA AZEVEDO
e PAULO SOARES

E D I T O R A R E C O R D
RIO DE JANEIRO - SÃO PAULO
2000

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Uma história cultural do humor / organizado por
Jan Bremmer e Herman Roodenburg;
tradução de Cynthia Azevedo e Paulo Soares /
Nota Assessoria - Rio de Janeiro: Record, 2000.

Tradução de: A cultural history of humour
H58 ISBN 85-01-05311-2
1. Humorismo - História e crítica. I. Bremmer, Jan N. II. Roodenburg, Herman.
CDD-809.7
00-0460 CDU - 82-7(091)

Título original em inglês:
A CULTURAL HISTORY OF HUMOUR
Copyright © 1997 by Polity Press
Publicado originalmente pela Polity Press em acordo com
Blackwell Publishers Ltd.

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ISBN 85-01-05311-2

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.................. 47 5 ............ 76 8 ..........................................................................................................................................................O cômico e a Contra-Reforma na Holanda espanhola Johan Verberckmoes ....................................A conversa agradável: civilidade e piadas na Holanda seiscentista Herman Roodenburg ..................Cícero.......................................................................... 28 3 .......................O humor e a esfera pública na Alemanha do século XIX Mary Lee Townsend .... 128 11 .................... riso e o campo: reflexões da antropologia Henk Driessen ............................................O riso na Idade Média Jacques Le Goff ............................................................................................................................................................................... 5 Prefácio ....................... 143 Humor e História: bibliografia de pesquisa JOHAN VERBERCKMOES .................Livros de piada em prosa predominantes na Inglaterra entre os séculos XVI e XVIII Derek Brewer ................................................Humor...................... 7 Introdução: Humor e História Jan Bremmer e Herman Roodenburg..........................................................................................Sumário Os colaboradores............................. Plauto e o riso romano Fritz Graf ........ 112 10 ....................................................... 66 7 ...Bakhtin e sua teoria do carnaval Aaron Gurevich ..................................................................................................... 95 9 .............................................. 53 6 ............................A hilaridade parlamentar na Assembléia Constituinte Francesa (1789-91) Antoine de Baecque .......Fronteiras do cômico nos primórdios da Itália moderna Peter Burke ..............................................Piadas............ 36 4 .............................................................. 8 1 ................................ comediógrafos e livros de piadas na cultura grega antiga Jan Bremmer ....... 158 Índice de nomes............................................................................... 15 2 ........................................................................................................................................................................................................ 169 Índice por assunto ........................... 172 ...............................

Chaucer and his World (1978). 1973). co-autor de Roman Myth and Mythography (1987). É autor de The Early Greek Concept of the Soul (1983) e Greek Religion (1994). editor de Interpretations of Greek Mythology (1987). JAN BREMMER é professor de História da Religião na Universidade de Groningen. From Sappho to De Sade: moments in the history of sexuality (1989). Entre seus vários livros e volumes editados estão The Historical Anthropology of Early Modem Italy (1987). É autor de La caricature révolutionnaire (1988). The Fabrication of Louis XIV (1992). É também um dos fundadores e diretor da editora erudita Boydell and Brewer. Greek Mythology (1993) e Gottesnähe und Schadenzauber: Die Magie in der griechisch-römischen Antike (1996). ritual and ethnicity (1992). The Apocryphal Acts of John (1995) e The Apocryphal Acts of Paul and Thecla (1996) e co- editor de A Cultural History of Gesture (1991) e de Poverty and the Pyre: moments in the history of widowhood (1995)· DEREK S.. English Gothic Literature (1983). PETER BURKE é professor de História Cultural e membro da Emmanuel College na Universidade de Cambridge. Ele é autor de Eleusis und die orphische Dichtung Athens (1974). . e co-editor de Wanderungen (1995). The Art of Conversation (1993). HENK DRIESSEN faz conferências sobre Antropologia Cultural na Universidade de Nijmegen. BREWER é membro vitalício e ex-professor da Emmanuel College. e professor emérito de Inglês na Universidade de Cambridge. Montaigne (1994) e The Fortunes of the Courtier’: the European reception of Castiglione’s “Cortegiano” (1995). History and Social Theory (1992) . É autor de Agro-Town and Urban Ethos in Andalusia (1981) e On the Spanish- Moroccan Frontier: a study in power. FRITZ GRAF é professor de Latim e de Religiões do Mediterrâneo na Universidade de Basel. Le corps de l’histoire: métaphores et politique (1770-1800) (1993) e Les éclats du rire: essais sur la gaité française des Lumières au Romantisme (1996). editor de Klassische Antike und neue Wege der Kulturwissenschaften (1992) e Mythos in mythenloser Gesellschaft (1993). The French Historical Revolution (1990). An Introduction to Chaucer (1984) e Chaucer: the poet as storyteller (1984). Nordionische Kulte (1985). Symbolic Stories (1980).Os colaboradores ANTOINE DE BAECQUE é professor associado de História na Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines. Entre seus vários livros e volumes editados estão Chaucer (3a ed. editor de The Politics of Ethnographic Reading and Writing (1993) e co-editor de In de ban van betekenis: proeven van symbolische antropologie (1994).

Entre seus vários livros escritos e editados estão Time. departamento de Etnologia Européia. Intellectuals in the Middle Ages (1993) e Saint Louis (1996).AARON J. The Medieval Imagination (1988). Work and Culture in the Middle Ages (1980). Bélgica. JOHAN VERBERCKMOES é conferencista e pesquisador pós-doutorado do departamento de História. É autor de Onder censuur (1990) e The Eloquence of the Body: walking. Academia de Ciências. Meertens-Institute. 1550-1750 (1995). J. Moscou. MARY LEETOWNSEND é professora associada de História na Universidade de Tulsa. Universidade de Louvain (KUL). A Cultural History of Gesture (1991) e Image and Self-Image in Netherlandish Art. Entre seus vários livros estão Categories of Medieval Culture (1985). standing and sitting in the Dutch Republic (1997) e co-editor de Anecdota sive historiae jocosae de Aernout van Overbeke (1991). HERMAN ROODENBURG é pesquisador de História Cultural no P. É autora de Humor als Hochverrat: Albert Hopf unddie Revolution 1848 (1988) e Forbidden Laughter: popular humor and the limits of repression in nineteenth-century Prussia (1992). É autor de Laughter. The Birth of Purgatory (1984). History and Memory (1992). Academia Real de Artes e Ciências dos Países Baixos. Medieval Popular Culture (1988) e Historical Anthropology of the Middle Ages (1992). GUREVICH é professor emérito do Instituto de História Geral. festbooks and Society in the Spanish Netherlands (1997). . JACQUES LE GOFF foi diretor de pesquisa na École des Hautes Études en Sciences Sociales.

Meertens-Instituut. A. J. O. não apenas com os historiadores. a maioria dos historiadores evita o tema.Prefácio O humor tem sido pesquisado desde a Antigüidade e a partir de diferentes pontos de vista. em janeiro de 1994. a tradição literária. como sempre. O livro é dedicado à memória de etnólogo alemão Elfriede Moser-Rath. O conselho e o entusiasmo de Peter Burke e Johan Verberckmoes foram inestimáveis na definição do objetivo da conferência. Meertens-Instituut. Gravin van Bylandt Stichting em Haia. Tradicionalmente. C. história da literatura. a pesquisa histórica sobre o humor foi escrita por historiadores literários e etnólogos. A Academia Real de Artes e Ciências dos Países Baixos. etnólogos e antropólogos. ocorrida em Amsterdã. provou ser altamente catalisadora. J. mas também com os estudiosos de história da arte. Também nos beneficiamos muito do encorajamento do professor Jaap van Marle. Annabelle Mundy supervisionou com presteza o processo de editoração. passaram também a se interessar pelo tema. Jan Bremmer. considerando o humor como uma chave para compreender os códigos culturais e as percepções do passado. em Amsterdã. Rudi Künzel e Johannes Kolff com a conferência. que costumam se concentrar nos problemas relacionados com o gênero. Apoio financeiro também foi recebido da Oost- Europa Fonds da Academia Real e do M. ou nas questões de tipo e motivo. Suas pesquisas sobre o humor no início da Alemanha moderna permanecem como uma inspiração para todos nós. classicistas. Herman Roodenburg . Agradecemos a todos que tornaram esse evento possível. Também gostaríamos de expressar nossa gratidão à Dra. Este avanço e um crescente interesse entre os historiadores literários e os etnólogos numa perspectiva cultural mais ampla pareciam uma excelente oportunidade de organizar um colóquio sobre o assunto. agradecemos aos colaboradores por seu entusiasmo e interesse pelo colóquio. diretor do P. A conferência. a Faculdade de Teologia e Ciência da Religião de Rijksuniversiteit Gronnigen e o P. Foi apenas recentemente que esses historiadores. não seríamos capazes de oferecer ao leitor este livro contendo suas instigantes pesquisas sobre a vida no passado. e da ajuda de Benjamin Bremmer. Entretanto. Sem eles. Elena Gurevich por gentilmente acompanhar seu pai a Amsterdã. apoiaram a conferência com generosas contribuições. Jennifer Kilian e Thomas McCreight revisaram rápida e habilmente os textos em inglês dos colaboradores deste livro. Ken Dowden. Finalmente. que na época da conferência já estava muito doente e não pôde participar.

1873-4). também. org. e foi somente no início dos anos 1870 que alguns franceses começaram a pronunciá-la do jeito francês. p. onde e quando? No sentido estrito. ele primeiro traduziu humour como Laune 1 O estudo padrão do termo humor permanece sendo F. 1862). conforme foi empregado por Corneille em suas primeiras comédias.) . a noção de humor é relativamente nova. Les Misérables. Paris. Moland (54 vols. em 1765. Französisches etymologisches Wörterbuch. antes disso. o falecido Lord Heathfield e sua esposa. Madame de Charrière et ses amis (1740-1805) (Lausanne. Esta definição não só nos permite estender as investigações à Antigüidade. 69: “J’ai dans mes folies de cet humour qui’ils ne trouvent guère que dans leur île”. 4 (Basiléia. (N. propôs uma origem francesa para o termo.v. Études d’histoire littéraire (Paris. uma testemunha indireta. significava disposição mental ou temperamento. diferentemente. 800: “cette chose anglaise qu’on appelle l’humour”. derivava do humeur francês. 4 V. Paris. da Fundação Voltaire.3 Em 1862. entendemos o humor como qualquer mensagem — expressa por atos. empregamos a palavra em seu sentido mais genérico e neutro. 514. Na República Unida da Holanda. foi um dos primeiros escritos a empregar o termo com a acepção familiar aos modernos. Littré. et dans toutes les comédies antérieures” (from Questions sur l’encyclopédie). 1947).Introdução: Humor e História Jan Bremmer e Herman Roodenburg O que é humor? No título deste livro. * Gotthold Ephraim Lessing (1729-1871).5 Na Alemanha. o humor inglês ainda era visto como algo “que eles de fato só encontram na ilha deles”. um ensaio sobre a liberdade da graça e do humor — 1709). citado por P.4 Desenvolvimento semelhante pode ser observado em outros países. de notre mot humeur employé en ce sens dans les premières comédies de Corneille. significando “plaisanterie naturelle” (brincadeira natural). s. p. o francês caracteriza invariavelmente o termo como um empréstimo inglês — um tratamento do qual Voltaire é. p. E. 1952). 1907). O famoso Sensus communis: an essay on the freedom of wit and humour (Sensus communis·. 1 (Paris. L. mas é mais que duvidoso o fato de o significado inglês contemporâneo derivar também da França. por sua ajuda na identificação das citações de Voltaire.2 É verdade que o inglês “humour” originou-se do francês no sentido de um dos quatro fluidos principais do corpo (sangue. renomado dramaturgo alemão. 2 Oeuvres complètes de Voltaire. Em outras palavras. Voltaire.* Na realidade. 1877-85). de modo a cobrir uma ampla variedade de estilos: de apotegmas à troca de palavras. a palavra era uma “importação” inglesa. Ele alegava que o humor na nova acepção inglesa. Dictionnaire de la langue française (4 vols. Somos gratos ao Dr. naturalmente. bílis e bílis negra). Na verdade. à Idade Média e ao início do período moderno. para quem. von Wartburg. palavras. 176-222. 3 W. “Les anglais ont pris leur humour qui signifie chez eux plaisanterie naturelle. flegma. Hugo. vol.1 Em seu significado moderno. 5 Conforme observado por Belle van Zuylen em carta a seu irmão descrevendo os contatos com o general inglês Eliot. comicidade” e o considera “menos intelectual e mais agradável que o chiste”. imagens ou músicas — cuja intenção é a de provocar o riso ou um sorriso. de Lorde Shaftesbury. já que. como afirma claramente Lessing. pp. vol. dos trotes aos trocadilhos. 79. mas também fazer perguntas de interesse dos historiadores culturais: como o humor é transmitido e por quem. da farsa à sandice. conforme definida pelo Concise Oxford Dictionary. Baldensperger. Robert McNamee. vol. escritos.. 552-4. Godet. da T.. Victor Hugo ainda falava sobre “essa coisa inglesa chamada humor”. que define humor como “facécia. pp. foi pela primeira vez registrada na Inglaterra em 1682. de 1725 em diante.

9 A. como uma personagem de um dos romances de André Maurois. Estas duas palavras relativamente recentes descrevem um fenômeno que há muito as antecede. o carnaval e as festividades análogas podem corromper temporariamente as regras sociais rígidas a que todos nós obedecemos. Sämmtliche Schriften. como ilustrado pelo Witz (chiste) alemão ou o mop holandês. 1918). veja A. em vez de alto. Considerando esta diversidade. enquanto seu equivalente alemão. ou o que os ingleses chamam de humor”. De Freud e Bergson a Mary Douglas.6 E ainda em 1810. Em um contexto mais amplo. Estudiosos certamente tentaram encontrar tal coerência. . p. mas Witz surge primeiro no final do século XVIII. por exemplo. 10 Sobre os vários títulos. a primeira menção de um termo novo nem sempre implica o surgimento de um novo fenômeno. o humor e o riso correspondente também podem ser muito libertadores. G. den Schwierigkeiten und Missgeschicken des Alltags mit heiterer Gelassenheit zu begegnen”? Também faz parte deste estilo nacional a tendência para não reconhecer o senso de humor nos outros. der Unzulänglichkeit der Welt und der Menschen. havia sido um traço dominante do compositor. e sua equivalente mop. interviews. um prematuro biógrafo alemão de Joseph Haydn observou que “um tipo de brincadeira inocente. psicólogos. no final do século XIX. 1988). p. que humor e riso 6 C. Seria fascinante seguir os meandros do conceito de humor e de todos os outros termos humorísticos herdados da Antigüidade ou cunhados em tempos mais recentes. poderia ser abordado o tema dos estilos nacionais. K. 139: “La seule cause de cette guerre. National Styles of Humor (Nova York. os etologistas afirmavam que o riso começava numa exibição agressiva dos dentes. não é de espantar que. quando o dicionário padrão de francês Grand Robert define humor como “forme d’esprit qui consiste à présenter ou à deformer la réalité de manière à en dégager les aspects plaisants et insolites”.10 Uma falha comum a todas estas tentativas é o pressuposto tácito de que existe algo como uma ontologia do humor. Como parte desse empreendimento. que alega que a falta de senso de humor foi a única razão pela qual os alemães começaram a Grande Guerra. “Must classical music be entirely serious?”. 14. a piada curta que atinge abruptamente o clímax. define o termo como “Gabe eines Menschen. o Duden. em sua colaboração para este livro. esp. Tais narrativas já estavam presentes no século XVII. sociólogos e antropólogos têm se empenhado em encontrar uma teoria abrangente para o humor e o riso. em seu Music Sounded Out: essays. com humor de baixo nível. freqüentemente. filósofos. p. conceitos e práticas do riso.9 Embora o humor deva provocar o riso. Estes exemplos também mostram que termos específicos como piada. vol. Les silences du colonel Bramble (Paris. afterthoughts (Londres. 7 A citação foi extraída de um belo ensaio de Alfred Brendel.). Maurois. adotando o termo em seu sentido mais antigo. Lessing. embora depois se corrigisse.(humor). nem todo riso é fruto do humor. 4.8 O que significa. lectures. org. todos têm sua própria história e diferem mais entre si do que se pode imaginar. 12-53. Lachmann (13 vols. isto é. 7. consulte a bibliografia no final deste livro. p. pp. embora. 414: “von dem was die Engländer humor nennen”. 1838-40).7 Contudo. Ziv (org. 399 e vol. Todos nós sabemos como uma pitada inesperada de humor é capaz de desfazer um clima tenso num instante. c’est que les Allemands n’ont pas le sens de l’humour”. gag (caco) ou blague. O riso pode ser ameaçador e. realmente. 1990). Por outro lado. Jacques Le Goff observe que até agora foi impossível estabelecer a coerência entre as várias palavras. 8 Para se aprofundar mais no tema. Berlim.

M. de Beethoven. mas o homem moderno exprime o reconhecimento do humor com um civilizado risinho entre os dentes. dos trotes e livros de piadas. Não que toda fonte possível tenha sido esgotada: os amantes das Variações sobre uma valsa de Diabelli. e o estudo de jornais satíricos. das pinturas e coleções de anedotas — os colaboradores deste livro abriram novos panoramas na história cultural por seu uso de fontes rara ou inusitadamente exploradas. 11 G. Como Henk Driessen assinala no último capítulo. A ele pertence nossa primeira análise sistemática existente. Cada um a seu modo. pp. o riso é um fenômeno tão determinado pela cultura quanto o humor. 508-29. não é possível acompanhar as teorias antigas de humor de modo satisfatório. Contudo. pp. a atenção acadêmica dada ao humor em geral se concentrava em obras de literatura ou nos contos populares. só raras vezes estes estudos situam com clareza os textos dentro do grupo ou da cultura em que devem ter transitado. Citações e trechos destas e outras obras de Aristóteles e de sua escola peripatética mostram que. conforme a classificação dos índices por assunto organizados por etnólogos ou historiadores literários. e a discussão elaborada um século depois por Quintiliano está fortemente baseada nele. Exemplos típicos são os estudos do humor em obras de Shakespeare ou nos livros de humor do início do período moderno. de forma indireta e transformada pelas idéias romanas.11 Até os dias de hoje. a experiência de campo documenta a riqueza da expressão cômica no mundo todo: algumas tribos riem facilmente. Infelizmente. Infelizmente. conforme estudado por Antoine de Baecque). seguramente. já que o segundo livro da Poética de Aristóteles. de seu discípulo Teofrasto. certas religiões (como o início do cristianismo ou o cristianismo pós-Reforma) e grupos profissionais (como o riso dos políticos. Blaicher. embora. 1975). de Umberto Eco — assim como Sobre a comédia e Sobre o absurdo (fragmentos 709-10). das canções de Charles Ives ou das Aventures e Nouvelles aventures do compositor húngaro contemporâneo Gyorgy Ligeti logo notarão a ausência de qualquer referência ao humor na música. Dos filósofos e oradores. enquanto diz-se que outras são austeras e tristonhas. como o de Mary Lee Townsend. . de registros e diários do Parlamento. O humor foi estudado pela primeira vez de forma sistemática na Antigüidade. Os autores deste livro visam a uma aplicação mais ampla. abriu mais campos do que a maioria dos historiadores talvez desejasse. dos doutores da Igreja e manuais de civilidade. “Über das Lachen im englischen Mittelalter”. O mais interessante desses estudos procura relacionar os conteúdos do texto humorístico com tradições literárias específicas ou com um tipo ou tema em particular. Variação semelhante pode ser notada na história da Europa: os antigos anglo-saxões achavam normal rolar no chão de tanto rir.são transculturais e anistóricos. Douglas. A simples menção de Punch. na discussão sobre o humor em De oratore (Do orador — 2. neste aspecto. Deutsche Vierteljahrsschrift für Literaturwissenschaft und Geistesgeschichte. se perdera para sempre — tema brilhantemente explorado em O nome da rosa. Cícero adotou esta tradição. Um apreciador da excentricidade — da Power Court de Dublin — no formato de um moedor de pimentas observará a ausência da arquitetura. Private Eye ou National Lampoon sugere que a mídia impressa. certamente só revelou a ponta do iceberg.216-90). eles estão interessados no humor como a chave para certas culturas (como a Itália renascentista e a Alemanha do século XIX). 44 (1970). 83-9. dedicado à comédia. Esta variedade pressupõe o uso de uma gama de fontes de material mais ampla do que em geral se leva em conta. Implicit Meanings (Londres.

). 1 (Turku. ao passo que o menos elegante jocus. D. 1558] Heidelberg. “respeitabilidade” (2. Jäkel e A. “Quintilian’s theory of wit”. Pinkster e E. vol. em S. recordou a mocidade na corte de Haia. Na Antigüidade. de Quintiliano. era dentro de casa e não na esfera pública. onde tantos manuais de civilidade advertiam os leitores que a zombaria deveria ser inocente. vol.12 Cabe observar que o tratado de Cícero estava ativo no Renascimento e no início do período moderno.21). No fim de sua vida. De oratore libri III. 3. R. Em seu Libro del cortegiano. . Embora os romanos tenham usado vários termos sem muita coerência. A Reassessment of the Courtier (Edimburgo.262. M. mas. 1989). De fato. não estava em condições de replicar. como demonstra Jan Bremmer. Il galateo. Cícero discutiu o humor para leitores classe A. portanto. sobre o qual consulte o mais recente T. 14 Citado em S. que Quintiliano opõe a serium (6. Esta preocupação com a posição do grupo não excluía. quando ele aconselhou os colegas do Senado a não caçoarem um do outro.239- 47). pp. “gravidade”. de 1528. a burla ou trote brando. Van Zuylen van Nyevelt.14 Em outras palavras. M.). Preocupação semelhante com a posição do próprio grupo foi encontrada entre os espartanos e a aristocracia ateniense. 1994). veja A. 66. Cícero também fez distinção entre a “graça do conteúdo”. Sofia (1630-1714). Baldesar Castiglione.15 Na arte de pregar peças. o príncipe de Talmont. p. Cícero é também uma importante fonte do vocabulário romano de humor. Sofia é uma das poucas mulheres cujo humor (impiedoso) foi registrado. o lugar delas. com certeza no caso das mulheres da elite. pp. Woodhouse. O humor de boa qualidade conhece seus limites e evita a todo custo a imitação e as atitudes de mímicos e bufões (2. Cícero é somente um pouco mais breve que o Institutio oratoria 3. Por exemplo. considerações de grau e classe sociais freqüentemente excediam o decoro e as boas maneiras. org. e a “graça da forma”. p. por isso. em geral. independentemente do grau social de cada um.244. Leeman.30). facetiae. significa “piada” e também “zombaria”.6. Laughter down the Centuries. normalmente contrasta com gravitas. s. como a graça da ação. H. 172-333. Ela conta como adorava zombar de todo mundo (à railler tout le monde). ridicularizar aqueles que não pertenciam ao grupo ainda pode ter sido “como mordidas de cachorros”. tenhamos que recorrer a uma antropóloga 12 Para um comentário detalhado sobre Cícero. ele combinou os dois outros tipos.3.d.). Timonen (orgs. possivelmente permitia-se que as mulheres assistissem às comédias gregas (embora até mesmo isto permaneça em discussão). que veio pedir a mão de uma das princesas de Orange e. Conforme demonstra Fritz Graf. para o prazer dos gens d’esprit e pesar dos demais. Esta já era uma verdade reconhecida por Cícero. cuja finalidade era divertir o público sem perder a dignidade. a eleita de Hanover e mãe de George I. é possível fazer alguma diferenciação. zombar de outros que não pertencessem ao círculo. a criação de comentários engraçados e trocadilhos (2. significavam uma grosseria. Uma de suas vítimas favoritas era um forasteiro. “como mordidas de cordeirinhos” segundo Della Casa. portanto. que. 85-93. 101-8. Court Life in the Dutch Republic 1638-1689 (Londres e Nova York. 67.13 Castiglione também advertiu seus leitores para não fazerem troça de pessoas de boa formação. Castiglione fez a mesma distinção entre a graça do conteúdo e a graça da forma. Rabbie (orgs. Rumpf ([Florença. veja J. Não surpreende. 15 Giovanni della Casa. contar casos ou histórias pitorescas. mas acrescentou um terceiro tipo de humor. “dito espirituoso” ou “piada”. 13 Sobre a discussão de Castiglione a respeito de humor. 1988). Tullius Cicero. necessariamente. Viljamaa. Ele igualmente advertiu que chorar e rir ou imitar os gestos e as maneiras de outras pessoas eram vistos como atos indecorosos e. 1978). 3 (Heidelberg. 247). para pesquisar a graça feminina. pp.

Um novo exame das antigas fontes poderá. certamente no norte da Europa. Realmente. 1984). católicos e protestantes também não baniram todo o humor do púlpito. n. Realmente. todos focalizando o princípio do período moderno. “The mute nude female characters in Aristophanes plays”. Zweig. sobre a arte da conversação apreciada pelas classes altas holandesas.500 piadas. produto dos estratos sociais mais baixos. pp. Predigtmärlein der Barockzeit: Exempel. Moser-Rath. 7. 46-7. 17 Veja. estudiosas feministas têm mostrado o quanto o humor masculino era misógino nestes períodos e a freqüência com que historiadores do sexo masculino evitaram admitir este fato. na maior parte. 151 -74 (“Körpergroteske und Lachkultur im 16. 19 Veja.na Grécia moderna. inaceitável. a Contra-Reforma produziu suas próprias piadas e anedotas no combate aos protestantes. nos últimos anos. Até mesmo as igrejas do calvinismo holandês conheceram a alegria e o riso: 16 J.16 Devido à natureza de nossas fontes predominantemente masculinas. Além do mais. Boccaccio’s novellen in de kluchtcultuur van de Nederlandse renaissance (Amsterdã. nem a caracterização dele da cultura dos iletrados fundamentada no riso. van Stipriaan. 333-62. . por exemplo. Aaron Gurevich faz observações críticas a um famoso estudo de Bakhtin sobre Rabelais e sua interpretação da cultura popular como a cultura do riso. as mulheres tiveram uma participação mais ativa na vida pública. foram cautelosos ao sugerir esse prazer. muitas delas nada refinadas. 1992). Derek Brewer nos lembra que a “cultura popular abrange os cavalheiros”. suas vozes são. Schindler. Embora muitos intelectuais tenham condenado os livros de piadas. Schwank und Fabel (Berlim. nos anos 80. H. e Herman Roodenburg descreve um manuscrito holandês que contém cerca de 2. reparar o desequilíbrio neste aspecto. 18 R. Vários capítulos deste livro. afinal de contas. Speculum. 235. Ele não aceita a sugestão de Bakhtin de uma nítida oposição entre cultura erudita e cultura popular. 1996). Caviness. pp.19 A idéia de Bakhtin de uma influência perniciosa sobre o riso por parte da Igreja é. ao fazer isso eles freqüentemente revelavam profundo conhecimento do gênero. talvez. Leugens en vermaak. Widerspenstige Leute. por exemplo. Embora o riso seja freqüentemente associado às classes sociais mais baixas ou à cultura popular. o humor entre as mulheres também é difícil de se encontrar na Idade Média. pp.17 No início do período moderno. mas é quase certo que. que raras vezes são. 1992). contudo. 1974). Studien zur Volkskultur in der frühen Neuzeit (Frankfurt. p. segundo nos conta Johan Verberckmoes. ainda que para eliminar o medo e a ansiedade. 72-89. O risus monasticus (riso monástico). o risus paschalis (riso pascal) ou o famoso exempla desmentem esta imagem. em A. Ele permaneceu como um ingrediente importante do Barockpredigt (sermão barroco) alemão. esp. 357-62. Depois da Idade Média. o apreço da elite pelo humor (baixo) se tornou tão evidente que um recente estudo sobre a farsa na Holanda seiscentista repreende os estudiosos que. B. Jahrhundert”). Portrait of a Greek Mountain Village (Oxford. Richlin (org. Pornography and Representation in Greece and Rome (Nova York e Oxford. os estudiosos perceberam cada vez mais que foi a elite que mais desfrutou do material humorístico. 20 E. “Patron or matron? A Capetian bride and a vade mecum for her marriage bed”. embora as mulheres e as classes sociais mais baixas estejam representadas nas fontes. M.20 e na Holanda espanhola. este livro não concorda plenamente com tal ponto de vista. Sage. 68 (1993). conforme estudado por Jacques Le Goff. N. que a tensão presente no humor da elite pode muito bem ser resultante de uma certa tendência de nossas fontes.18 Não se deve esquecer. da mesma forma. fingidas e funcionam como um veículo para sustentar hierarquias existentes. discutem minuciosamente a importância das classes sociais mais altas. du Boulay.). pp.

213-14. Era de se esperar que nos tempos modernos psicólogos e sociólogos ficassem em primeiro plano. 324-8. O desaparecimento gradual deste ideal e a ascensão do cômico profissional moderno. Possivelmente. pp. ainda permanecem em grande parte inexplorados. que nos tempos de Plauto e Cícero era um mexeriqueiro malicioso. 1993). ambas bem assentadas na antiga retórica. Nossa palavra “escurril” ainda revela um pouco da depreciação do scurra. o hábito de colecionar e contar piadas se difundiu amplamente em todo o aspecto social. Freud.21 Pode-se perguntar por que o comportamento dos ministros preocuparia um professor de retórica. Enquanto os filósofos e retóricos da Antigüidade são os principais autores de importantes manuais e debates. pp. C. 21 Petrus Francius. 1996). mas na cultura em sua totalidade (estendendo-se dos códigos de civilidade às exigências de decoro na pintura. datado de 1535. Burke em The Art of Conversation (Cambridge. estava mais ou menos citando Cícero.um professor de retórica de Amsterdã criticou o fato de que os ministros soltavam piadas e gracejos que não ficariam bem no teatro. conforme nos mostra Johan Verberckmoes. veja também H. Current sociology — La sociologie contemporaine. e apenas o bobo da corte ascende socialmente. em seu Ecclesiastes. Por outro lado. sendo o estudo de Freud o exemplo mais largamente reconhecido desta tendência. Reality in a Looking-Glass: rationality through an analysis of traditional folly (Londres. J. nas regiões influenciadas pela Reforma. direta ou indiretamente. as prescrições da retórica antiga que. foram muitas vezes traduzidas. além disso. pessoas de posição social inferior. 23 Leia a brilhante introdução de Brian Vickers. em Mensen van de nieuwe tijd: een liber amicorum voor A. DerWitz und seine Bedeutung zum Unbewussten (Leipzig e Viena. mas quando Erasmo. Zijderveld. mas ainda um “homem de sociedade”. Na Idade Média. 1982) e “The sociology of humour and laughter”. A. .24 Em segundo lugar. 1988). como o palhaço. como Joseph Addison e Richard Steele. Posthuma: quibus accedunt illustrium eruditorum ad eundem epistolae (Amsterdã. na Idade Média os monges e outros teólogos estabelecem a lei. em geral. não só na retórica do fim do período medieval e início do período moderno. pp. Van Deursen (Amsterdã. No início do período moderno. Trad. há um constante rodízio entre os produtores de humor. Grécia e Roma mostram que o humor moderado se tornou o domínio da elite social. muitos meninos entraram para escolas onde se ensinava latim. eles mantiveram a posição de liderança da Flandres pós- tridentina. ao passo que os bufões e os mímicos aos poucos perderam a aprovação oficial. só recentemente tenha sido percebido de modo completo. também havia uma arte de brincar com as pessoas. é admirável como o discurso dominante muda nos diferentes períodos. julgou que bons pregadores deveriam evitar hábitos como contorcer o rosto ou gesticular como os bufões. ing. ele é. Oratio III (De usu eloquentiae in sacris). 1706). 24 S. 1905). leia o capítulo esplendidamente escrito por P. identificado com atores. Depois da Idade Média. quanto mais na igreja. 31-3 (1983). Assim como havia a arte da conversação.22 e deste modo eles aprenderam. 1960). menestréis e mímicos. Roodenburg. manuais de civilidade e escritos de ensaístas. teatro e dança contemporâneos). In Defence of Rhetoric (Oxford. pp. Th. Primeiro. 22 Sobre o conhecimento de latim no período moderno inicial. o cômico profissional do fim da Antigüidade e da Idade Média. e está claro que contar piadas até se tornou parte essencial da arte da conversação entre cavalheiros. 34-65. o forte impacto dessas influências. Strachey como Jokes and their Relation to the Unconscious (Londres. o comediante e o satirista. 1-103.23 Vamos concluir estes comentários preliminares com três observações sobre a evolução do humor através dos tempos. passam a dar o tom. “Predikanten op de kansel: een verkenning van hun eloquentia corporis’”.

25 Em seu clássico estudo sobre o humor na Inglaterra dos Tudor e Stuart. as damas e os cavalheiros já não participavam de certos tipos de humor. Ele fala de uma “desintegração” do humor tradicional. 26 K. Basiléia. que começou no século XVI: houve uma redução dos domínios. visivelmente sem graça. não mais se inseriam nas novas estruturas sociais. A maioria está relacionada com um fortalecimento da hierarquia. ao mesmo tempo. conforme relatado por Samuel Pepys. Em outras palavras. Também foi neste período que o bobo da corte saiu finalmente de cena. onde um “culto ao decoro” que sustentava os valores de sobriedade e austeridade aos poucos ganhou força. outras. omitiram as piadas e anedotas deliberadamente e se concentraram no gênero mais inocente das lendas e contos de fadas. segundo observa Thomas. 77-81. que quase meio século depois continua sendo o ponto central de referência para o estudo dessa evolução. Über den Prozess der Zivilisation (2 vols. no final do século XVII. Esta troca de “fronteiras” da arte cômica se enquadra no estudo de Norbert Elias sobre a ascensão da “civilização”. embora depois da Reforma padres e pastores protestantes tenham sido menos austeros nos sermões do que se costuma admitir. Até que ponto o humor mudou através dos séculos? Nossos antepassados riam das piadas como nós. que culminou. e destaca as áreas nas quais o riso não mais era permitido.27 A formulação de nosso conceito moderno de humor parece ter sido um subproduto destes avanços sociais maiores. que achava que “há certas coisas” que precisam ser protegidas da troça. Quando os irmãos Grimm redescobriram o povo e começaram a reunir contos populares. na Inglaterra e em outras partes da Europa. 27 É arriscado dizer que as palavras “pun” (trocadilho) e “joke” (piada) também foram registradas pela primeira vez em 1670 (Oxford English Dictionary. Podemos apreciar a graça de Erasmo. e várias até mesmo incompreensíveis. Elias. familiares e estranhos a nós. ocasiões e locais da arte cômica.26 Citando Francis Bacon. Em sua colaboração para este livro. mas os trotes apreciados pela aristocracia inglesa. 2a ed). Nós ainda estamos tentando preencher esse hiato. pelo menos em público. o início do período moderno testemunhou certas mudanças importantes. Thomas. 21 de janeiro de 1977. pp. ou seu senso de humor era radicalmente diferente do nosso? Aqueles que leram alguns dos textos humorísticos do passado podem ter achado que algumas piadas não são de todo ruins. Nessa época. . Times Literary Supplement. 1939). “The place of laughter in Tudor and Stuart England”. Era um legado que persistiria por muito tempo. ainda popular na zona rural inglesa. o humor polido e o humor popular se desenvolveram separadamente. que ridicularizava aqueles que estavam no poder e não diferia muito do riso revelado pelos senhores do desgoverno. o clero. Carlos II parece ter sido o último rei a levar a sério seu bobo da corte. Nosso terceiro e último ponto é a evolução do humor em si. Keith Thomas identificou mais ou menos a mesma evolução. estes textos se mostram. num desprezo genérico e neoclássico por todos os tipos de humor mais baixo. 25 N. Também foi esta preocupação com o decoro. Peter Burke ressalta algumas mudanças importantes. Thomas mencionou os domínios da Igreja e do Estado. Como vimos acima. hoje em dia parecem bem tolos. que levou os críticos literários agostinianos a escrever tanto sobre o humor e o riso. além disso. Tal riso subversivo. ou os bufões autorizados similares.

“Tudo bem”. como manipular 12 aros e dar cambalhotas em um aro com espadas verticais. o levara. p. cf. às corridas de cavalo. ele se posta na soleira e declara: “Todos vocês sabem que eu sou um bufão.11-16).. deita-se em um sofá e começa a gemer. No caminho de volta à casa.1 Tendo assim configurado a cena. seu tio. 141.tium. surge uma séria discussão na qual Philip intervém algumas vezes. por isso vim até aqui de propósito. “tome um lugar. Woldinga. o bufão. O bufão imediatamente tenta uma piada e fracassa terrivelmente. Quando as mesas já haviam sido tiradas. responde o anfitrião. imitando em minúcias a dança do rapaz e da moça.1 . parece sentir que a apresentação bem-sucedida da moça ameaçava sua própria condição de artista. alegando que a diversão da noite seria muito melhor se fossem agraciados com a sua presença. Philip. vol.Piadas. Xenofonte (c. Todd em Xenophon. Xenofonte aplica um conhecido recurso literário introduzindo um estranho. que permanecem totalmente quietos e festejam em silêncio. na falta de um equivalente melhor em português. J. Woldinga. O jovem Autólico acabara de conquistar a vitória no pan. isso produz o riso tão desejado (2. todos ficam estranhamente fascinados pela beleza do rapaz vitorioso e tão influenciados por Eros. Xenophons Symposium (Diss. “tornando cada parte móvel de seu corpo mais grotesca do que naturalmente era”.C. Loeb. Com esta cena intrigante. Calias avista Sócrates e um grupo de amigos. a fim de oferecer sua própria visão do venerado mestre Sócrates. Em minhas citações e em meu resumo. literalmente o “produtor de riso” (contudo. J. 1923). enrola-se na capa. o rico Calias. apenas alguns anos depois do brilhante e evocativo Banquete de Platão. chamaremos de bufão). 1938). um artista profissional de Siracusa entra na sala com uma flautista.430-350 a.C. Durante um debate acerca do bem mais * Sou muito grato a André Lardinois pelos comentários e a Robert Parker pela habilidosa correção do meu inglês. talvez estejam sedentos de riso”. Quando sua segunda piada também não é bem recebida. 1 Para um estudo completo do diálogo de Xenofonte veja G.) faz a abertura de seu Simpósio. Depois desses breves entreatos. Sócrates aceita e. . Xenophons Symposium. pois os convidados. daqui por diante. Ele se aproxima do filósofo e o convida para o banquete. ele pára de comer.2 Após uma súbita batida na porta. faz uma paródia da dupla. onde terminariam o dia com um banquete.C. pensando ser mais engraçado vir a seu jantar sem ser convidado do que vir a convite”. Só depois que os convidados prometem rir na vez seguinte e um deles ri às gargalhadas da desgraça do bufão. usei a tradução de O. o porteiro anuncia a chegada de Philip. Depois de a dançarina ter feito várias exibições de acrobacia. como você pode observar. Universidade de Amsterdã. a vila no Pireu. Symposium 174A. ele retoma o seu jantar (1. depois que os convidados se acomodam. 4 (Cambridge e Londres. Então. comediógrafos e livros de piadas na cultura grega antiga Jan Bremmer* Era uma noite quente de verão no ano de 422 a. uma dançarina e um belo rapaz que sabia tocar cítara e dançar. ele se levanta e. juntamente com seu pai Licón. embora bem alimentados de seriedade. composto depois de 380 a. Tendo-lhe sido permitida a entrada.. 2 O mesmo recurso ocorre em Platlo.22-3). a competição anual de luta e pugilato. Enfim. o gelotopoios.cra.

nos ambientes seguros do aposento mais importante da casa grega. Burkert. Vegetti (org. ele atuou durante um symposium. 5 Para uma boa pesquisa sobre as festividades antigas. “Gelotopoioi”. (elas) gentilmente me convidam para me juntar a elas. 170-95. já que as outras fontes não fornecem muito mais que um nome e um ou outro detalhe. Finalmente. depois. embora ele fosse. veja C. 1912).5 Como declarou o filósofo Demócrito: “Uma vida sem festivais é como uma estrada sem paragens” (fragmento 230).6 Uma outra ocasião para zombar das pessoas era a procissão dos atenienses a Elêusis. Seria normal que bufões se intrometessem em banquetes — e por quê? Quem eram eles e qual seria o seu repertório? Usavam livros de piadas? Por que Philip foi proibido de fazer certas comparações? Será que o humor era considerado perigoso? Esse último ponto nos conduz. As grandes comédias de Aristófanes nunca foram encenadas num dia qualquer do ano. pp. quase fim da noite. correm de mim sem sequer olhar para trás. finalmente.valioso de cada um. 92-113. Os grandes festivais religiosos. 3 (Turim. pp. Kent (org. em O. Price (orgs. a fim de que fossem iniciados nos Mistérios de Deméter. em Paulys Realencyclopädie der classichen Altertumswissenschaft. àqueles que tentaram “conter” o riso ou até mesmo se opuseram totalmente ao chiste e ao riso: os filósofos conservadores.). vol. temendo ser forçadas a rir sem vontade” (4. mas quando sofrem alguma contrariedade. em especial. Ao contrário. os homens ficavam em pé nos carros e zombavam dos passantes. em S. 1990). idem. 7 (Stuttgart. A descrição de Xenofonte do jantar de Calias é uma imagem bastante realista do entretenimento desfrutado pelos ricos e famosos no fim do século V em Atenas.11) e. permitiam aos gregos relaxar os padrões habituais de comportamento e entregar-se ao riso autêntico e ao humor irreverente. pp. Domestic Architecture and the Use of Space (Cambridge. mas apenas nas Dionísias (urbana e rural) e na Lenéia. Introduzione alle culture antiche. provavelmente. 1019-21. M. ele confirma que o seu orgulho assenta-se em fazer graça (3. Jameson.). que era o único aposento da casa ao qual os homens não pertencentes à família tinham acesso. Maas. o chamado ándron (1-13). 229. como é o caso da maioria dos artistas modernos. “Private space and the Greekcity”. 4 Cf. 1990). um dos convidados louva a habilidade de Philip em “acertar as características das pessoas”.). BUFÕES É um tanto estranho que a exibição de Philip não tenha ocorrido em um espaço público. 1992). 1983). pp.4 Era típico da civilização grega que as ocasiões de riso e zombaria não fossem as do cotidiano. em M. O bufão salta diante da possibilidade de exibir sua arte. Murray e S. veja P. vol. Essa também é a nossa mais extensa descrição de um cômico profissional.50). mas as do convívio social e das festividades. partindo de 3 Para uma pesquisa completa sobre os antigos bufões. 6 W. “Domestic space in the Greek City-state”. 29-54. jovem demais para ter estado presente em tais ocasiões. os espartanos e os primeiros cristãos. mas Sócrates o adverte de que ele só seria um bem valioso para os comensais se fosse “reticente em assuntos sobre os quais não se deveria falar”. . Homo necans (Berkeley. a Antestéria.8-10). “La festa”. Na Lenéia e em outra festa dionisíaca ateniense. pp. e “assim acabar com esse desconforto entre os convivas”(6.3 Isso levanta várias questões. explica a razão de tal orgulho: “sempre que as pessoas têm um pouco de sorte. The Greek City from Homer to Alexander (Oxford. Calame. Quando essa procissão.

15 Kassel e Austin. 175-98. E se. fr. Pellizer.14 Como diz o coro em Os aduladores.16 7 F. cf. pp. pp.Atenas. a política começou a se desenvolver em uma esfera à parte. Bremmer. esp. por último. eu o elogio ruidosamente. Sympotica (Oxford. Austin. Classical Quarterly. (orgs. em J. com sua preocupação em exibir riqueza e diversão. “The uses of laughter in Greek culture”. Die athenische Demokratie im 4. Braun. . 1995). passava na ponte sobre o rio Kéfisos. Gulick. Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik.C. Greek Religion (Oxford. em seus comentários ad loc. em Murray. Nicocles apud Stobaeus.). 25-37. adulava o anfitrião.8. Bremmer.66. 173-82. 278. 39 (1980). pp. 16 Eupolis. Slater (org. Graf. uma prostituta disfarçada (ou um homem) zombava dos cidadãos mais proeminentes pelo nome.). Aristophanic Comedy (Cambridge. pp. 172. 11 Sobre o simpósio. pp.7. o simpósio foi perdendo sua posição central e se tornou parte de uma esfera pessoal mais privada. 1983). 279- 96. 12 E. Transactions of the American Philological Association. 1995). Dining in a Classical Context (Ann Arbor. Homo necans.8 O humor podia ser perigoso. Burkert. 45-6. Dialogues d'histoire ancienne.). Woodbury. 21 (1995).. Entretanto. cada um de nós em uma direção — tudo para conseguir um bolo de cevada que não era nosso. por volta do fim do século VI. pp. por acaso.). Eder (org. Aqui os aristocratas discutiam política.15 Então o adulador tem que começar imediatamente com sua tagarelice engraçada ou é atirado porta afora. pp. R. Food in Antiquity (Exeter. veja também S. Alciphron 3. mas não menos importante. “Le rire d’Hadès”. 8. que não era mais monopólio da aristocracia. Loeb (superficialmente adaptado). de cuja excelente edição extraí todos os trechos da comédia grega. p.. Macho apud Athenaeus 579b. 1994). 39-48. Versuch eines Überblicks”. “Marginalia Manichaica”. Kassel e C. expresso minha admiração e finjo me deleitar com suas palavras. 29-34. “Lebensstil als Selbstdarstellung: Aristokraten beim Symposium”. “No laughing matter: a literary tactic in Herodotus”. fr. o bobo rico diz algo. 1990). Sympotica. pp. 1991). Stein-Hölkeskamp. J. 9 Isso é corretamente ressaltado por S. contando anedotas e cantando. o qual. Wilkins et al. 18-20. 177-84. era o local onde a elite demonstrava a sua superioridade. p. Vierneisei e B. o banquete que. em Euphronios und seine Zeit (Berlim. W. Quo modo risu ridiculoque Graeci usi sint (Diss. na idade arcaica (c. M. o adulador (kólax). Lateiner. Halliwell. 107 (1977). Chr. trad.11 Quando. Murray (org. 1974). se entretinham com dados e jogos. 239-40. pp. “para pagar” a sua comida. Bowie. Poetae comici Graeci. (Stuttgart. ‘Dichtung und Gesellschaft im 4. 8 J.13 Seus convidados logo passaram a incluir um tipo particular. veja O. K. evidentemente. 14 Timocles. pp.9 Os gregos sabiam muito bem que o riso poderia conter um lado muito desagradável. Eleusis und die orphische Dichtung Athens in vorhellenistischer Zeit (Berlim e Nova York.800- 500 a. 1991).7 Tanto Dioniso quanto Deméter eram deuses intimamente ligados à inversão da ordem social e ambos ocupavam uma posição “excêntrica” no panteão grego. Kunst der Schale — Kultur des Trinkens (Munique. 1944). firmavam alianças e. Kaeser (orgs. Então vamos ao jantar. C. 231-45. “Outlines of a morphology of sympotic entertainment”. T.). somente a partir de meados do século V os aristocratas atenienses puderam convidar todos os tipos de pessoas para suas mesas. o melhor estudo continua sendo L.). me fixo nele. B. B. Êupolis: Eu vou ao mercado. pp. Jahrhundert. Milanezi. “Barley cakes and emmer bread”. uma comédia de 421 de um contemporâneo de Aristófanes. em W. 10 D.10 Ora. 1990).12 Os aristocratas começaram então a mostrar características típicas de uma classe de lazer. A. Poetae comici Graeci (Berlim e Nova York. Seidensticker. Sobre o riso na cultura grega. não notaram que é uma piada (menor) porque o pio de cevada era o tipo mais barato. 41 (1991). Universidade de Harvard. Florilegium 14. Jahrhundert v. Quando descubro um comprador rico. 32. 1993). a quem chamava ho trephon (o alimentador). uma dessas ocasiões era o simpósio. 13 E.5. e seu lugar na cultura tinha de ser limitado a ocasiões estritamente definidas.

idem. 171. fr. em R.. F. “Ancient Greek wedding songs: the tradition of praise”. Fehr.v. Hague. 35 Kaibel.). P. 309-13. 14 West. Lukians Parasitendialog (Berlim e Nova York. “Theoxenia”. fr.20 No século V. Gulick. Die attische mittlere Komödie (Berlim e Nova York. 47 e 182. Eudikos. provoco muito riso e adulo o meu anfitrião”. 188. 22 Eudikos: Aristoxeno.19 mas por volta da metade do século IV a.300 a. Explicação: Harpocration s. Aristophanes: Frogs (Oxford. Die attische mittlere Komödie. “Entertainers at the Symposion: the Akletoi in the archaic period”. 29 e 31. 1. em outras palavras. Nesselrath. 91-107. pp. 150. Ancient Greek Cult Practice from the Epigraphical Evidence (Estocolmo. Food in Antiquity. de Platão. já que os gregos consumiam carne principalmente pelo sacrifício.. trad. p. era um funcionário religioso dos povoados áticos. “Menander. Linkeus de Samos in Athenaeus 245a. Journal of Folklore Research. também encontramos o termo bomolochos.). 1990). também sobre os parasitas engraçados. 20 (1983). 153.63. 9 (Nápoles. fragments 745 and 746K-T. Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik. 20 Sobre a relação entre esses dois termos. 229. K. tornando-se sinônimo de kólax. 125-8. 48s. Timóteo. no Ménon de Platão. como explica um antigo léxico. pp. fr. 19. Bruit Zaidman. 240. já que. Jameson. pp. 18 Epicarmo. com o passar do tempo. então. pp. Não é de estranhar que a comparação seja pouco aduladora: as comparações parecem evidenciar principalmente as peculiaridades físicas.. Demonax 63. fr. “que era por natureza um bufão e um imitador”. B. o termo aos poucos ganhou um sentido mais moderno. em Wilkins. 19 M. G. Lukians Parasitendialog. “Ritual eating in archaic Greece: parasites and pandroi”. ao passo que outros imitavam ditirambos e cantos para harpa. literalmente “alguém que come à mesa de outro”. Mas. fr. 21 Ferécrates. fr. Ásio. os cômicos também faziam comparações. Alexis. O local em particular pode parecer estranho à primeira vista. no qual Alcibíades compara Sócrates a “esses silenos colocados nas oficinas dos estatuários. já que também temos conhecimento de um outro gelotopoios do século IV.22 Além de piadas e imitações. “Labomolochia: autour de l’embuscade à l’autel”. pp. C. são belas as imagens dos seres belos” 17 Chegar sem convite era uma característica do parasita antigo.C. Agatocles: Diodoro Siculo 20. O tirano de Siracusa.. 29-49. cf. L. Cahiers du Centre Jean Berard. 46. a contribuição esperada dos não convidados. 92 (1992).As piadas eram. Dover. bomolocheuesthai.18 Originalmente. Sympotica. Filemon fr.2. esp.. e também. Menander’s Kolax. com aquele que não me deseja (e não há necessidade alguma de convidar). pp. no jantar sou uma pessoa espirituosa. 1984). Loeb. fr. um aspecto popular dos casamentos e simpósios. 1993). de Aristófanes. 88-121. Tal qual as piadas. chegou a se tornar muito popular imitando alguns dos presentes nas reuniões da assembléia popular. os bufões de sucesso notoriamente se transferiram dos altares dos devotos para as salas de jantar mais extravagantes da elite ateniense. 35-57. Nesselrath. um parasitós.C. 1994). H. da mesma forma. Alexis fr. 213.23 Encontramos essas comparações em As vespas. mas elas também ocorrem no Banquete. Aristófanes. como a imitação burlesca que Philip fizera dos dançarinos. . R. pp. 185-95. ao sátiro Mársias” (215A). provavelmente. 1985). cf. Sócrates observa que todas as pessoas bonitas gostam de um jogo de comparações porque “é-lhes mais vantajoso esse fato. 131-43. mas é algo esperado.21 O costume de trocar alimento por piadas era provavelmente antigo porque o verbo correspondente bomolocheuo significa “bancar o bufão” ou “entregar-se à obscenidade”. fr. pp. Agátocles (c. 196-203. B. embora por razões obscuras. fr. p. aquele que implora por comida.. pp. eram. Luciano. o número mais popular dos bufões. que viveu durante a primeira metade do século V: “Jantando com aquele que me deseja (ele precisa apenas me convidar) e. Brown. Nesselrath. and parasites and flatterers in Greek comedy”. 135 Wehrli (= Athenaeus 19s).17 como também torna- se evidente no discurso de outro parasita em uma comédia do siciliano Epicarmo. as paródias. Frontisi-Ducroux. pp. Apolodoro Carístio. que imitava pugilistas e lutadores. Crátino. 23 Sobre casamentos cf. 259. Hägg (org. literalmente “aquele que arma ciladas em altares”. em Murray. Na verdade.

aos calvos. 157. Da comédia. que gostava muito de todos os tipos de entretenimento. 487s. nos arredores de Atenas. J. de Xenofonte. 167-9. o segundo seria o inventor mitológico mais engenhoso da Grécia. Gli eroi greet (Roma. Anaxandrides fr. cf. pp. . Parker. pp. R. talvez por sorte. Aristophanes. Sympotica. onde os cínicos e os bastardos costumavam se encontrar. assim diziam. N. fr. Os membros do “clube” eram. que regularmente se encontravam no santuário de Héracles em Dioméia. pp. Fraenkel. amadores..”. Romagnoli. 163-4 e Addenda.. “chegou o palhaço Mandrógenes. Murray. Studi Italiani di filologia classica. onde a comida era abundante. 28 “Os sessenta”: Athenaeus 260b (de Hegesander). p. primeiramente. sabemos os nomes de vários bufões e parasitas. pois seus nomes mostravam que pertenciam à classe alta ateniense. 27 Embora provavelmente de maneira errada. cf. outra. Heidelberg 190. Uma das partes se refere àquelas de rosto vermelho. 26 Eupolis. do célebre palhaço ateniense Straton. 306.27 Eles eram tão famosos que circulavam dizeres como “Acabo de chegar dos sessenta” e “Os sessenta disseram isso e aquilo”. Kleine Schriften (Berlim e Nova York. chamado “os sessenta”.(80C). Elementi Plautini in Plauto (Florença. 422. evidentemente. 1991). que seriam ridicularizados por “você não tem uma cabeça mas. pp. estando os ditos espirituosos entre as suas invenções. que seriam ridicularizadas por frases delicadas como “você não tem um rosto. inclusive. Birds (Oxford. um renomado político. Brelich. cf. 13 (1905). 6l4d-e (também citado em Telefanes). 29. R. por que então Sócrates impediu Philip de fazê- las? Será que nem todos se alegravam com o humor? Antes de nos voltarmos para essa questão. As rãs 1451. pp. Calimedon. 1956.26 Em Atenas. o livro pertencia a um cômico profissional. havia até mesmo um clube de bufões. se essas comparações eram absolutamente normais. dado que Filipe II da Macedônia. O primeiro seria um dos mais famosos moradores das ilhas de Blest. Ele provocou muito riso entre nós com suas brincadeiras e depois dançou com a esposa. fr. p. 1971). Estrábico Calimedon: Timocles.C. 1996). 242-5). Um papiro do fim do século III a. o estrábico. como o encontrado no Simpósio. esse santuário é quase sempre identificado com aquele de Héracles em Kinosarges. p. contém uma enumeração de frases injuriosas. pp. 226. durante o casamento do macedônio Karanos.29 24 E. o problema do lugar exato em que deveríamos situar esses bufões dentro do espectro social. outro subúrbio ateniense.25 Mas. investiguemos. Davies. Dunbar. 29 Sobre clubes “anti-establishment” similares. 1995). 418-21 (= Rheinisches Museum 99. A atividade pode ter sido realizada em meio às famílias porque. na segunda metade do século IV. Athenian History: a history (Oxford. 25 P. 1958). o que mostra que eles eram bem conhecidos em Atenas (Athenaeus 240-6). Provavelmente. p. 1960). um descendente. A. Athenian Propertied Families (Oxford.28 Considerando que a bufonaria parece ter se tornado cada vez menos aceitável no século IV. E. cf. Kassel. enviou-lhes um talento em troca de suas piadas. o clube pode muito bem indicar a existência de um grupo de cidadãos que desejavam chocar a ordem social existente. um deles. Aristófanes. mas um sol noturno”.24 Aparentemente. essas comparações foram reunidas em livros (para o uso em banquetes?). que foram divididas em várias partes e dirigidas a pessoas segundo suas características físicas. que tinha mais de 80 anos” (Athenaeus 130C). 279. 251. 10. 385. era. ponto em que o papiro. Os comediógrafos podem até ter alcançado uma certa reputação por sua graça. já que a comédia criou uma dupla de inventores mitológicos para os atos espirituosos: Radamanto e Palamedes. Esses cômicos devem ter sido famosos até mesmo fora de Atenas. se interrompe.

O historiador Teopompo (c.33 De acordo com o Livro dos sonhos. Assim.5. Teopompo FGrH 115 F162.33 (Rei Seuthes). Infelizmente.20. “Barbers’ Shops and perfume shops: ‘symposia without wine’”. Athenaeus 130 (o palhaço Mandrógenes). Plutarco. Lísias 23. Jocelyn (org. Powell (org. 21. Rawson. Characters 8. entre a elite urbana. da Macedônia e dos sucessores de Alexandre. “sentando-se em barbearias e brincando de bufão”. Diodoro Siculo 20.. pp. no período romano.52. produzido em 200 a. em H. Menandro. Moralia 177A]). o Grande). Essa visão negativa da bufonaria cresceu com o passar do tempo e. do século II. num patamar bem inferior na escala social. Demóstenes 25. sem dúvida.211-14 (Ptolemeu). de Artemidoro. em A. Riqueza 338. apalpavam a comida diante deles. Sulla 2. Durante algum tempo.4. fr. 1995). Dionísio caiu do topo para o mais baixo estágio da sociedade. 548 Fortenbaugh.63.23ss. fingindo não vê-la. 194. até que Dionísio guiasse as suas mãos em direção aos pratos — uma atitude que os fez merecer o apelido de “bajuladores de Dionísio” (Dionysokolakes). a bufonaria perdeu bastante do seu status. 32 Filogelos. Moralia 509A. 33 Cf. 24. D.30 Contudo. n° 148 (a piada é uma versão “diluída” de uma apophthegma atribuída ao rei macedônio Archelaos [Plutarco. E. Nícias 30.5. o lugar por excelência da fofoca masculina. “The vulgarity of the Roman mime”. mas Philip também fazia comparações. o Grande. Cássio Dio 80. Uma indicação pode ser o fim de Dionísio II. Plutarco. Filodemo.3. Macedônia: Demóstenes 2. nem Xenofonte. fr.32 Em outras palavras.86. Os pássaros 1440ss.).31 A barbearia era.377-320) relata que ele estava perdendo aos poucos a visão. Antonius 9.19. um nome grego que significa “Homem Riso”. The Greek World (Londres. Dio Crisóstomo 32. 464s. Sucessores: Athenaeus 195f (Antíoco Epífanes dançou nu com palhaços). quando perguntado sobre como ser barbeado: “Em silêncio”. OS COMEDIÓGRAFOS E SEUS LIVROS Está claro que as habilidades de Philip se parecem apenas em parte com as dos artistas modernos. Não conhecemos. Athenaeus 261 c. não podemos ter certeza absoluta da existência de livros de piadas na última metade do século IV. sonhar com bufões significava então “logros e trapaças” (1. não só devido ao próprio barbeiro — uma prova é o pedido de seu cliente. nem outros autores nos fornecem qualquer exemplo das piadas. Os bufões usariam livros de piadas? Uma de nossas fontes sobre os “sessenta” diz que Filipe pediu que as piadas fossem copiadas. É muito estranho que Dionísio tenha finalmente perdido essa posição e terminado.3.20. Plutarco. S.2. 432-41. De ira col. 255-60. Josefo. cf. portanto. portanto. e que sugere o gelotopoios) fica em tamanha dificuldade que planeja organizar um leilão para vender seus livros de piadas. 244-5 (Ptolemeu). a natureza dessas piadas nem a sua origem. os bufões foram freqüentemente associados aos atores da mímica e. Fora de Atenas. segundo afirma Teopompo — o que não é necessariamente confiável —. 31 Teopompo FGrH 115 F 283b. que consistem em dizeres 30 Trácia: Xenofonte. veja também Teofrasto. Moralia 60B (Alexandre. Políbio 3. 1993). . que usou a comédia grega como sua fonte. Tria Lustra (Liverpool. os bufões eram convidados bem-vindos nas cortes dos reis vizinhos da Trácia. os seus parasitas se comportaram como se eles também sofressem dessa perda de visão.C.76). Em seu Stichus. parece que. 236 (Filipe II). Antiquitates 12. mas eles são confirmados pelo comediógrafo romano Plauto. pp. Eupolis. 246 (Lisimaco). Teofrasto. Lewis. mas outra fonte menciona que ele apenas pediu que elas fossem escritas. o que sugeriria um tipo de livro de piadas. Samia 510-13. Aristófanes.). uma arte que não é típica do entretenimento moderno. Anabasis 7. Contar piadas e interpretar são a marca de muitos comediógrafos modernos. o parasita Gelásimo (não por acaso. o tirano de Siracusa.

engraçados e lisonjeiros e pequenas mentiras. mas a natureza tardia de seu vocabulário sugere claramente que a edição final só teria sido feita no início da era bizantina. ao mesmo tempo. Das Apophthegma (Viena e Leipzig. veja A. Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik. Ele então escreve a seu pai: ‘Me dê os parabéns. sobre a tradição do texto... Vogt-Spira (org.36 Felizmente seu autor e propósito são desconhecidos e apenas uma piada se refere a um evento que pode ser datado: os jogos comemorativos do milênio de Roma. com certeza. 35 Veja Herman Roodenburg. A coleção deve ter sido reunida no século III. 1. chamada Filógelos. 41 Veja a discussão com nuanças em M. Uma série de manuscritos. a maioria das piadas enfoca sua estupidez ou inépcia social.. Hickey. 56 (1986). R. na feliz tradução de Barry Baldwin. 1924). 400 ibo intro ad libros et discam de dictis melioribus. Universidade da Basiléia. 1983). 339-41. pp.). “falar alto”. Sticbus 221: logos ridículos vendo. 110 são relativas ao scholastikos. como no exemplo seguinte que. Universidade de Colônia. Lardinois. Ancient Slavery and Modem Ideology (Nova York. mas discutiremos rapidamente alguns de seus principais pontos. ilustra a terrível realidade de uma antiga sociedade escravagista:41 “Quando um scholastikos teve um filho com uma escrava. Robert. pp. As piadas podem sugerir uma certa graça. em 21 de abril de 248 d. pp. . Está claro. p. 1989). 454.45. 110 (1996). já no fim da Antigüidade. a coleção de Plutarco de apophthegmata. o comediógrafo Satírio pensa em oferecer o seu livro de piadas à filha como dote (w. n°s 42-3. 34 Plauto. Journal des savants (1987). observa que a etimologia de apophthegma é obscura. contém uma coleção de 265 piadas. depois me aconselha a matar o meu!’” (n° 57). mas veja J.34 E no Persa. I. 88 (1991). 93-122.. “o intelectualóide”. 1980). Philogelos: der Lach freund (Munique. 1968). Parasitas plautinos: J. Capítulo 8 deste livro. 41-60.37 Uma fonte foi. veja A. adsentatiunculas ac perieratiunculas parasiticus·. 40 Sobre os scholastikos. Finley. pp. B. veja também o seu “John Tzetzes and the Philogelos”. pai. T. Byzantion. Rougé. Aphrodisias in Late Antiquity (Londres. 36 Para uma edição excelente com tradução e comentário. Studien zur Sprache des Philogelos (Diss. Mas ele respondeu: ‘Primeiro. 39 As piadas quase não têm recebido atenção recentemente. “Magic in the court of the governor of Arabia”. 1995). o advogado e também o professor pedantes — em suma. The Philogelos or Laughter-lover (Amsterdã. C. que esses comediógrafos possuíam livros de piadas para ajudá-los a ganhar a vida. “Plautus parasites and the Atellena”. 1968). pp. então. Entretiens Hardt.38 Obviamente. 127-31. pp. pp. ibid. nenhum deles posterior ao século X. seu pai o aconselhou a matá-lo. Lowe. Gemoll. que aqui aparece regularmente em forma “diluída” de piada. Baldwin. veja A. ou “Amante do Riso”. G. o espaço nos impede de analisar a fundo o seu conteúdo. Plauto não dá exemplo algum destas piadas.35 Como Xenofonte. Roueché. veja Fraenkel. como Aernout van Overbeke. Elementi Plautini. 1955). Universidade de Princeton. 68-9.. já estou ganhando dinheiro com os meus estudos!’” No entanto. mas a relação com phthengomai. “Le Philogélos et la navigation”. Studien zur vorliterarischen Periode im frühen Rom (Tübingen.. Para uma tradução inglesa. Wisdom in context: the use of gnomic statements in archaic Greek poetry (Diss. L. um autor anônimo produziu um livro de piadas que sobreviveu. provavelmente antes do século VI. 33. você enterra os próprios filhos. por sorte. Ho scholastikos (Diss. 161-9. define a palavra como um ato de falar mais marcado que apenas uma resposta “normal”. Para o nome de Gelásimo.39 Das 265 piadas. Claus. de Plauto. cavillationes. acrescente sobretudo C. 52-3. esp. 18-19. 38 W. literalmente “alguém que dá palestras ou assiste a elas” (scholas). 14 (Genebra. em G.40 É o estudante. 284. 1965). “A fragment of a letter from a bishop to a scholastikos". Ritter. Thierfelder. pp. 3-12. 1989). 37 Cf. Kotansky. como no número 55: “Um jovem e gracioso scholastikos vendera seus livros quando lhe faltou dinheiro. mas. 389-96). colecionavam piadas em cadernos para serem um sucesso social entre seus pares. Para a ocorrência da palavra no século IV.C. veja B. p. enquanto alguns comensais no início da modernidade.

1966). o avaro. 44 R. Beroli. Bremmer. esp. videntes. quando acordo fico tonto por meia hora antes de começar a me sentir bem’. “A esposa de um misógino. “Prophets. Timonen (orgs. van der Eijk et al. 1994). os médicos são o alvo ou desempenham papel coadjuvante. Rütten. . (orgs. mas Abdera era famosa por seu “filósofo sorridente” Demócrito. jurou que se enforcaria se qualquer coisa acontecesse a ele. seers. em P. Levando-se em conta que a misoginia era difundida na Antigüidade. o médico de Cime troca sua lâmina por uma mais cega” (n° 177). Cerca de 60 piadas dizem respeito a cidades da Antigüidade famosas por sua estupidez: Cime (na costa ocidental da moderna Turquia). Ancient Medicine in its Socio-Cultural Context (2 vols.43 Há sete piadas acerca de videntes e astrólogos. p.42 Em outras 30 piadas. pp. Laughter down the Centuries. covardes. e que se tornou uma figura popular nos tratados filosóficos e moralizantes do final das eras helenística e romana. Ou. apesar do ceticismo atestado por essas piadas. 7094v und 21137v+6934v”. é surpreendente que tão poucas piadas sejam obscenas ou digam respeito às mulheres. ou com as cidades famosas por sua estupidez: “Quando alguém procura um médico scholastikos e diz: ‘Doutor. Israel and early modern Europe”. glutões. que estava tão doente que achavam que ele ia morrer. 150-83). “Quando o paciente sente dor e chora alto. Enemies of the Roman Order (New Haven e Londres. o homem mostra vários corpos e lhe pede um sinal que identifique o pai. “The medical meeting place”. há pequenas seções de piadas sobre o preguiçoso. pp. gente que 42 T. P. cujas considerações sobre as fontes devem ser suplementadas com K. Zeitschrift fur Papyrologie und Epigraphik. 128-62. 3-22. que parece ter recebido seu nome por ter rido da estupidez dos seus concidadãos. numa época em que o tratamento de saúde ainda era muito pouco desenvolvido. R.44 Finalmente. Jäkel e A. que eram de fato os oradores. Oxy. e os satiristas romanos troçaram dos astrólogos e dos adivinhos. Animando-se. pp. 39-51. Demokrit. Brodersen. poetas e malabaristas (w. estes eram basicamente os intelectuais do seu tempo. 1184v. 102 (1994). Além do fato de serem intelectuais. pessoas com mau hálito e piadas misóginas. Sócrates enumera seus deuses guardiães: sofistas. Mais tarde. comemos ou fazemos amor?’ ‘O que você quiser. alcoólatras. “Hippokrates und Artaxerxes. Em As nuvens. Essas piadas raramente se destacavam do nível normal de piadas que celebram a estupidez de cidades vizinhas: “Um habitante de Cime leva o corpo do pai para o mumificador depois da morte dele em Alexandria. 100-10. talvez seja também relevante que os médicos quase sempre fizessem propaganda de suas habilidades e até mesmo realizassem cirurgias nas esquinas ou no teatro.). 1992). Numen. Inv. Amsterdã e Atlanta. Algumas destas piadas até combinam a alusão aos médicos com os já mencionados scholastikoi. Ainda assim.). elas não estão totalmente ausentes: “Disse um jovem à esposa voluptuosa: ‘Mulher. J. não tem pão”’ (n° 244). Müller. mas ambas as categorias conseguiram manter a sua influência por toda a Antigüidade. lachender Philosoph und sanguinischer Melancholiker (Leiden. É típico do status das piadas que elas não sejam mencionadas nesses excelentes livros. 18. A proeminência de “intelectualóides” e médicos na coleção de piadas possivelmente indica um ambiente social específico.(n° 171)”. Os videntes já eram um dos alvos favoritos na comédia antiga. ao retornar para buscá-lo. and politics in Greece. 40 (1993). pp. Em outras palavras. o médico responde: ‘Acorde meia hora mais tarde!’” (n° 3). 332-3). em S. “Demokrit-der ‘lachende Philosoph’”. 1. Ele responde: ‘Ele tossia’. I (Turku. pp. de Aristófanes. MacMullen. 1995). Sídon (no Líbano moderno) e Abdera (na costa da Trácia). ele perguntou: ‘Você fará o mesmo se eu me recuperar?’ (n° 248)”. Nutton. o que faremos. Zu P. A razão pela qual as duas primeiras cidades figuram nessas piadas é totalmente obscura. 43 V. J. Não surpreende que. os próprios médicos ou a medicina como um todo fossem alvo de escárnio.

. 49 M. 48 Degani. 19. ele próprio usa sem pudor. por suposição. Anaxágoras: Aelian. porém. ou raramente. Degani e J. pp. Paz 740-50. este orador conservador.48 Evidentemente.18). p. embora permaneça obscuro o motivo pelo qual esse livro de piadas foi composto. Ciro observa que os persas formulam uns aos outros apenas perguntas que podem ser facilmente respondidas e fazem apenas brincadeiras inocentes que não agridem ninguém (5.13. cf. Aqui nos confrontamos com a força negativa das piadas. Sommerstein. H. 167. 1985). A DOMESTICAÇÃO DA BUFONARIA E DO RISO As objeções de Sócrates poderiam ter correspondido ao tempo imaginário do Simpósio.34. 46 Frinico. Anaxágoras e o sábio rei Anácarsis. o melhor etnógrafo contemporâneo da Grécia. ter rido. trad. Aristófanes regularmente rejeita os truques cômicos de seus competidores.2. Bremer. que freqüentemente discute de forma indireta os costumes gregos e deve datar da primeira metade do século IV. a maré mudara e as maneiras mais refinadas que aos poucos se desenvolviam entre os aristocratas atenienses devem ter começado a tornar inaceitáveis os ataques pessoais e o humor menos refinado. que costumava idealizar o passado. Handley (eds). Varia historia 8. 146-9. E. Anacarsis: Athenaeus 613d. 45 Pitágoras: Diógenes Laércio 8. Por conseguinte. 1993). por volta de 420 ainda havia um forte senso de humor prevalecendo em Atenas e a ausência do riso foi vista como característica de um misantropo. são as classes urbanas mais baixas. Herzfeld. A. provavelmente. em J. M. Aristophane — Entretiens Hardt. 38 (Genebra. a Ciropédia. Este poder das piadas pode ainda ser observado na Creta contemporânea. p. já que uma recente antologia atribuiu a seguinte citação a Sócrates: “Deve-se usar o riso como se usa o sal — com parcimônia” (Stobaeus 3. mais tarde. O primeiro elemento deste desenvolvimento é também visível no tratado de Xenofonte sobre a educação do rei persa Ciro. M. 168. mais ainda as pessoas que vivem em uma cultura de verdadeira vergonha. 47 Aristófanes.49 Esta preocupação com o poder ofensivo das piadas parece ter se tornado mais evidente no decorrer do século IV. A crescente repulsa ao humor menos refinado se torna claramente visível em várias obras de Isócrates dos anos 350. Em seu Antidosis. recentemente mostrou um episódio no qual os aldeões cretenses pediriam permissão para recitar canções satíricas com o objetivo de não serem acusados de ofender a dignidade de alguém. em ibid. 8s. Michael Herzfeld. 1985). desaprova o fato de que hoje em dia “fala-se de homens que representam o bufão e têm a capacidade de zombar e arremedar como ‘talentosos’ — um título que deveria ser reservado a homens dotados da mais alta excelência” (284. de modo malicioso. The Poetics of Manhood (Princeton. alegasse não ter usado a fórmula cômica grosseira. Aristophanes: Peace (Warminster. que podem nos ferir e.18). empregada pela comédia antiga. Sócrates teria sido um dos vários filósofos com a reputação de nunca. O mesmo preconceito parece estar ocorrendo aqui. G.47 em suas últimas comédias. de Xenofonte.não se envolvia com qualquer tipo de trabalho manual.. Bremer e E. e corresponderia a este desprezo pelos intelectuais o fato de muitas piadas enaltecerem o bom senso do homem comum. os quais. assim como Pitágoras. fr. pp.45 Por outro lado. ele empregou cada vez menos a injúria pessoal e a bufonaria.46 embora Aristófanes regularmente. Se a atribuição estiver correta. W.20. a origem da coleção.

usando as suas próprias vozes em discussão sóbria. Calias. “Laughter. e não poupa nem a si mesmo. Mader. E em seu Areopagiticus. Coincide com a oposição de Platão ao riso o fato de que. J. pp.50 Ao contrário do rico Calias e seus amigos. pp. humor and related topics in Plato”. uma vez que ele considera como bufões comuns aqueles que se excedem no humor e preferem extrair o riso a dizer algo lisonjeiro ou evitar ferir o alvo de sua diversão. em Jäkel e Timonen. in Murray. trad. tanto Platão como Aristóteles. Neste ponto.52 mas ele apresenta uma análise sistemática da galhofa e do riso em sua Ética a Nicômaco (4. 27 (1966). Poetics (Indianápolis e Cambridge. pp. não era particularmente ascético e logo conseguiu desperdiçar a sua considerável herança com seu extravagante estilo de vida. fr.35. Mas onde os bebedores são homens de valor e cultura. “Laughter in Plato”. 38 (1985). Mnemosyne. pp. 1977). Classica et Medievalia. os principais filósofos do século IV. pp. De fato. Rankin. Platão rejeita a bufonaria na comédia porque ela pode fazer com que as pessoas a imitem. e encontram o seu entretenimento nos gorjeios delas. 261s. veja R. o anfitrião no Simpósio de Xenofonte. Stewart.51 O tratado de Aristóteles Sobre a comédia infelizmente não sobreviveu. de quem hoje falamos como pessoas espirituosas. .. acentuando a necessidade do riso contido. Naturalmente. Eles são bastante capazes de desfrutar a própria companhia sem tal frivolidade. 378-81.. G. (Protágoras 3-47CD) Conforme a descrição de Platão. 52 Para uma boa introdução à situação atual de nosso conhecimento. em sua cidade ideal. 29-36. Platão declara que os guardiães do Estado ideal são proibidos de se entregar ao riso porque o riso exagerado é normalmente seguido de uma reação violenta (388). Tecusan. pagam o preço das cantoras. 51 Davies. D.8). não os de um bufão. 1987). Z. Charlatão: Amphis. Athenian Propertied Families. ao passo que o bufão é escravo de seu senso de humor. Essa ênfase na moderação do riso também aparece em primeiro plano em A república. Academia: Aelian.Norlin). Varia historia 3. Laughter down the Centuries. o riso era proibido. podemos ver a tendência de Platão totalmente elaborada. se puder provocar o riso. M. Aristotle. inofensivo. 238-60. na discussão sobre a poesia (606). IV. e com relação àqueles com inclinação para a pilhéria (eutrapelous) e a bufonaria. veja H. Em Aristóteles. dançando ou tocando harpa. opuseram-se ao humor grosseiro e à obscenidade. M. nem aos outros. não encontrarás moça alguma cantando. o simpósio e o riso. Por outro lado. Janko. Sympotica. e ele próprio foi representado na comédia ateniense como um charlatão. Platão também rejeitou totalmente a presença de entretenimento pago no simpósio: as festas de vinho de segunda classe e as pessoas triviais. 12. Das Problem des Lachens und der Komödie bei Platon (Struttgart. sendo muito incultos para se entreterem enquanto bebem usando as próprias vozes e os recursos da conversação. São os homens que respeitam limites. e cada um esperando a sua vez de falar ou escutar — até mesmo quando se bebe muito. Em A república. aqueles que brincam de um modo refinado são chamados espirituosos (eutrapeloi). naquela época. E em As leis. “Laughter and the Greek philosophers: a sketch”. o 50 Sobre Platão. como pobres tolos” (49. a Academia. Norlin). de Vries. Tais homens. Platão chega a querer abolir completamente a comédia e deixar a bufonaria para escravos ou empregados estrangeiros (816-17). em sua escola. eram vistos. 186-213. “Logos Sympotikos: patterns of the irrational in philosophical drinking: Plato outside the Symposium”. reconhecida como uma obra conservadora. ele nota que as gerações anteriores “cultivaram os modos de um cavalheiro.

as discordâncias e as discussões internas se tornaram menos aceitáveis. pp. o bufão.7). fr. em J. em Jäkel e Timonen. insultar os outros com piadas também se tornou menos aceitável. pp. W. quatro séculos mais tarde. 54 Alexis. outras não o são. 22 (1991). “Sympotic ethics in the Odyssey”. Bremmer. O fato de que. D. pp. como tinham pouco a ganhar com sua participação na vida pública. Como a aristocracia começou a se retirar da vida pública e a se concentrar mais no simpósio. E assim como começaram a agir de modo mais controlado. Nagy. A Cultural History of Gesture (Cambridge. de Platão. pp. a Grécia antiga teve uma forte tradição de condenar a poesia. P. eutrapelos (espirituoso) também começa a perder a conotação negativa que ainda possuía. O século IV mostrou todos os sinais de um “aburguesamento” crescente. and sitting in ancient Greek culture”. Como pode ser explicada esta evolução. Além do mais. O’Leary. 16-35. 1979). Bremmer and H. P.56 CONTRA O HUMOR E O RISO Não é preciso supor que o crescente refinamento na cultura grega tenha realmente se tornado a regra. talvez possam aqui ser aplicadas as perspectivas desenvolvidas pelos sociólogos Norbert Elias e Pierre Bourdieu.18). das Lachen und die alte Komödie”. esp. veja A. mas seja discutida várias vezes em Aristóteles. pp.15. sugere que o 53 Sobre Aristóteles. Mussies. Heidelberg. esteja certo de escolher uma que seja adequada a você. 223-37. Tullius Cícero. “Aristotles. na passagem de Isócrates citada acima. como na antiga Irlanda. nas quais o elemento de bufonaria diminuiu e os insultos pessoais desapareceram do repertório cômico. com o correspondente refinamento moral: contar piadas dava passagem para a agudeza de espírito. Sympotica. por exemplo.. 213-20. Studies on the Hellenistic Background of the New Testament (Utrecht. 18-20. . Laughter down the Centuries. o irônico faz piadas para se divertir. eles também desenvolveram um estilo mais educado em seu comportamento no simpósio. Em primeiro lugar. M. no século IV. Leeman et al. de oratore libri III: Kommentar (3 vols. J. pp. Roodenburg (orgs. É significativo que a expressão “agudeza de espírito” (eutrapelia) não seja encontrada antes de A república. 59-70. 190-200.54 Esses estágios também se refletiram nas comédias. 160 com o comentário de Kassel e Austin. sua escola e humor. 1991). pp. Slater. The Best of the Achaens (Baltimore e Londres. Cambridge Medieval Celtic Studies. standing. eles precisavam se distinguir de outras maneiras.55 Ao mesmo tempo. pp. 56 Sobre esse avanço veja J. percebem-se dois avanços relativos ao humor no simpósio. W. “Is wittiness unchristian? A note on eutrapelia in Eph. “Jeers and judgments: laughter in early Irish literature”. Aristóteles resume suas opiniões na Retórica da seguinte forma: “Algumas piadas são adequadas a um cavalheiro. Plutarco (c. III. van der Horst.jovem não deveria ser exposto à conversa indecente — o legislador deveria inclusive bani- la totalmente da cidade (Política 7. G. estavam ocorrendo mudanças importantes na sociedade ateniense dessa época. 55 Cf. em Murray. em geral mais observada em relação à comédia do que ao simpósio? Evidentemente. A ironia serve melhor a um cavalheiro que a bufonaria. Flashar. como mostrou a reação de Sócrates. H. para divertir outras pessoas” (3. V4”. em idem. embora as discussões e as ofensas verbais sempre tenham feito parte da tradição do simpósio. 1990). 40-120) ainda julgasse necessário reiterar o argumento em favor da piada indolor (Moralia 629E).53 Assim. G. Em segundo. “Walking. 1989). 15-29. 222-75 (acusação à poesia).). a bufonaria se tornou cada vez menos aceitável para a classe alta como uma expressão de humor.

em A. Lore and Science in ancient Pythagoreanism (Cambridge. Powell (org.). Veja. e da maior fonte do pitagorismo antigo. de fato. por exemplo. Ascetam facetiis uti non debere (Patrologia Graeca 48.8. em dúzias de passagens. acrescente agora H. 1982).). o Paedagogus. pp.hábito de insultar estivesse profundamente arraigado no mundo do antigo simpósio. João Crisóstomo. Rahner. De beneficentia 9. fr.60 Clemente de Alexandria (c.C. Patrologia Graeca 58. João Crisóstomo. pp. 2. Reallexikon für Antike und Christentum. J. o filósofo do século IV Aristoxenus. “zombaria”. Kippenberg e G. “The Fathers on laughter”. não tem lugar na comunidade cristã (5. diz respeito ao riso: o próprio mestre supostamente nunca teria rido. o que. veja o brilhante estudo de W. 149-52.13 (Aristóxenos). pp. para ensinar os jovens cristãos de classe alta. de Platão. segundo relatos do pitagórico tirano de Siracusa. 22. Fragmenta ex commentariis in epistulam and Ephesios 24 (= Journal of Theological Studies. 60.58 Mas alguns foram ainda mais longe. 1989). segundo Plutarco em sua idealizada biografia de Licurgo (12. e Plutarco ressalta que o jovem poderia assistir às reuniões espartanas para se acostumar a zombar sem bufonaria e a suportar a zombaria. 16 (Stuttgart. 61 Essa oposição aos bufões é regularmente recorrente entre os doutores da Igreja. os hilotas. no Novo Testamento. os seguidores de Pitágoras foram ridicularizados pela comédia ateniense por suas tristes expressões faciais. 63-70 (alguns acréscimos). Basílico. que também discute a atitude problemática dos cristãos em relação ao humor.6-7). embriaguez e linguagem chula (5. Orpheus.2 (Paris.59 mas o chiste é condenado por autores cristãos um tanto tardios como Inácio. que escreveu um livro. Bremmer. Adkin. Gregório de Nissa. Varia historia 8. ele poderia pedir ao zombeteiro que parasse. quando um espartano não mais tolerasse ser ridicularizado. Burkert. pp. No entanto. G. . Epistola 4. Alexis. 3.53. MA. 1-25.7. Stroumsa (orgs. em Dictionnaire de spiritualité ascétique et mystique.5. 60. Porém. “Is wittiness unchristian?”. 1995). 6 (1985). 322-5. Foi sugerido que eutrapelía aqui signifique algo como “linguagem sugestiva”.150-215). pp. “Humor”.72. 58 E. evidentemente. 62.1. Riso: N. Orígenes e. 753-73 (não muito satisfatório). Os dois últimos chegaram ao ponto de condenar também o riso. Também Xenofonte menciona em seu folheto sobre a constituição espartana que os seus simpósios careciam de excessos. o autor (provavelmente não São Paulo) declara que a eutrapelía·.. 13. acrescente o provavelmente espúrio tratado de João Crisóstomo.6. 1972). Fisher. o espartano comenta que a sua cidade proibiu a indulgência festiva nessas ocasiões (637B).61 mas 57 Aelian. C..4). 1726- 9. “Religious secrets and secrecy in classical Greece”. provavelmente tornaram a festividade e a zombaria intoleráveis. hybris. 61-78. Orígenes. “Drink. uma dessas prescrições. 1996). pp. 62. 58. N.516. 60 Graça: Inácio.120. no sul da Itália. dedicou uma seção especial à questão do riso.50. Paedagogus 2. O primeiro grupo conhecido por opor-se ao riso foram os pitagóricos. vol. David.18 (Dioniso).1053-60). Clemente de Alexandria. o que este imediatamente fazia. Secrecy and Concealment (Leiden. por Basílio e João Crisóstomo. 4. “Laughter in Spartan society”. Spicq. Na epístola aos Efésios.57 Considerando que nós identificamos o simpósio e os festivais de Dioniso como os cenários para o humor. Patrologia Graeca 49. Luck.665. outros foram mais longe e se opuseram totalmente ao humor e ao riso. 559).75. Embora a figura de Pitágoras seja cercada de lendas e a falta de fontes escritas antigas torne muito difícil a reconstrução dessa fase do pitagorismo. vale observar que em As leis. and the promotion of harmony in Sparta”. literalmente.120 e passim. Clemente de Alexandria. Homilia 1. Dionísio II. pp. “Eutrapélie”. 59 Van der Horst. Por volta de 530 a. Sobre Pitágoras.6). Pitágoras deixou a ilha de Samos e se mudou para Cróton. Epístolas 2. em H. Notes de lexicographic néo-testamentaire: supplément (Friburgo e Göttingen. Ele quis banir os bufões da sociedade cristã. Astério. onde fundou um movimento baseado em inúmeras prescrições ascéticas. 201 (comédia). Classical Sparta: techniques behind her success (Londres.105. As fortes pressões na vida espartana para o término da hierarquia diante da ameaça da população subalterna. muitos padres fizeram.4 (que ainda combina bufões e parasitas). esp. ibid.235. 1902. 26-50. 1961). pp.

os espartanos e. Le Goff.-M. “Symbols of marginality from early Pythagoreans to late antique monks”. Desfrutar livremente o humor e o riso é a marca de uma comunidade tranqüila. pp. 39 (1992). em Méthodes chez Pascal (Paris. J. Le Goff. G. em C. Capítulo 6 deste livro. pp. aberta. 65 H.). do pagão Porfírio (25). 39 (1989). Não deveria surpreender que um grupo social que tentava manter o controle sobre todos os tipos de expressão física. peducation et société. esp. regra semelhante foi imposta por Basílio de Cesaréia (c. Pitágoras visitara Esparta para estudar as suas leis. Steidle. (eds). de Atanásio (14). foi tirada quase ao pé da letra de A vida de Pitágoras. De acordo com o filósofo pagão Jámblico. A esse respeito. os cristãos ascéticos. Charpentier (orgs. quod rident homines. “Das Lachen im alten Mönchtum”. esses doutores da Igreja seguiram a tradição dos filósofos mais conservadores. “Pascal et la doctrine du rire grave”.62 Deleitar-se com o humor e o riso abundante é eminentemente contrário a se esforçar para manter toda a vida sob controle. 135-88. pp. Setzier (orgs. M. Greece and Rome. 271-80. “Eutrapelie. Capítulo 3 deste livro. em muitos aspectos. Schmitz. Basílico. Haut moyendge: culture. Dufeil. Quarthai e W. 1990). os espartanos e os cristãos que conduziram a uma influência mútua no fim da Antigüidade. Lepelley et al. Bouché e H. pp.63 Em relação ao riso. . 243-65. Seria antinatural suprimir o riso. não de uma ideologia ascética ou de uma sociedade tensa. Benediktinische Monatischrift zur Pflege religiösen und geistigen Lebens. Études offertes à Pierre Riché (La Garenne-Colombes. 1986). durante muitos séculos.5. na qual ele observou que o santo jamais riu ou se lamentou. 1980). pp. argumento esse seguido por Pascal. Le Rire au Moyen Âge dans la littérature et lets arts (Bordeaux. plorandum est. Um sorriso deveria ser suficiente para o cristão. enquanto as mulheres e os rapazes deveriam ter muito cuidado para não rir. 63 Cf. Analecta Bollandiana. De fato. pp. “The rejection of humor in Western thought”. M. pp. 20 (1938). 3-15. 62 Clemente de Alexandria. Stadtverfassung — Verfassungsstaat — Pressepolitik (Sigmaringen. reeditado em seu Beiträge zum alten Mönchtum und zur Benediktusregel (Sigmaringen.65 E assim o eco do riso antigo seria ouvido. 205-6. pp. mas o cristão deve demonstrar moderação. 213-22.. em um grau ainda mais alto. a chamada Regulae fusius tractatae. dormir e a sexualidade. também se opusesse ao riso. Rahner. em seu Sobre a vida de Pitágoras (25). 111 (1993). J. 39. os pitagóricos e os primeiros cristãos eram muito mais inter-relacionados do que gostariam de admitir. J. “. em T. 330-79) em uma das primeiras regras monásticas. Philosophy East and West. Bremmer. J. pp. 346-53. Der ‘Unwert’ des Lachens in monastisch geprägten Vorstellungen der Spätantike und des frühen Mittelalters”. nas práticas e na hagiografia. 27 (1954). eine vergessene Tugend” Geist und Leben. Tomás de Aquino retomaria as idéias de Aristóteles sobre a eutrapelía e as interpretaria como um argumento pelo riso contido. 93-103. em F. Patrologia Graeca 31. segundo Clemente. como em todas as coisas. O seu estilo de vida cristão ainda era.961. Paedagogus 2. van Uytfranghe.). o que pode ser observado entre os pitagóricos. 1990). 64 B. e a passagem em A vida de Santo Antão. um estilo pagão. pp. “Le Riredans les règles monastiques du haut moyen âge”.. “Risus in theologia Thome”. 1979). Devem ter sido as semelhanças entre os pitagóricos. embora com moderação. essa herança combinada teria uma longa tradição na Igreja ocidental — comprovada pelas proibições e restrições ao riso nas Regras medievais monásticas. “L’Hagiographie: un ‘genre’ chrétien u antique tardif”.não pretendia abolir o riso completamente. como em relação a vários outros assuntos.45-8. Morreall. Morel. 205-14.64 Além dessa herança do fim da Antigüidade. pp. como comer. 147-63. Veiberckmoes.

“na comédia. insiste que foram os romanos que inventaram e cultivaram a sátira literária (embora a relação entre o humor e a sátira seja algo complicado).2: salsiores quam illi Atticorum Romani veteres atque urbani sales. (N.4 No nível menos superficial da teoria.1. 2 Quintiliano. . do século V a. elegante. quo genere non modo Plautus noster et Atticorum antiqua comoedia.2s).15. segundo disse Cícero com certo embaraço.93: satura quidem tota nostra est. 5 Macróbio. * Comédia de costumes da qual Menandro é um dos representantes.C. exposto à censura por ter exercido a boa medida da graça — opinião 1 Cícero. devemos consultar a própria literatura romana. Os dois principais gêneros dedicados ao humor. deve muito a ele. segundo relata Quintiliano (6.66: in comoedia claudicamus. Instituto oratoria 10. notoriamente espirituosos — mas a “graça polida da Roma antiga é mais espirituosa que a graça ática”. mas também os livros dos filósofos socráticos estão repletos do segundo tipo). ficamos para trás”: a exemplo de Aristóteles. da T. com o passar do tempo. para um homem não destituído de graça.) 3 Ibid. ele deve ter tomado a nova* comédia ática como referência. que permanece como uma das fontes principais.2 O mesmo Quintiliano. Saturnalia 2. insolente.. de Quintiliano (6. mesmo que em um nível superficial. 10. observa que. Plauto e o riso romano Fritz Graf Penso que. professor de retórica do final do século I d. Foi de grande ajuda o fato de ser ele um dos oradores mais espirituosos de sua época. Quintiliano.1 Para testar a veracidade desta afirmação.2.1.Cícero. A chamada comédia antiga. De officiis 1.3). Não que outros povos não fossem bem- humorados — em especial os atenienses.C. ele reuniu grande número de exemplos. tem em Aristófanes seu principal representante. alterum elegans urbanum ingeniosum facetum. não apenas sobre a prática da graça e do humor no discurso público. educada. foram bem representados em Roma. Em uma famosa observação.. embora o sempre curioso Aristóteles — no segundo livro perdido de sua Poética — tenha sido o primeiro a teorizar sobre o “ridículo” (to geloion) no contexto da comédia. a comédia e a sátira. 4 Cícero. O capítulo de Cícero é um manancial de informações.. ofensiva e sórdida. não apenas Plauto e a comédia antiga de Atenas.1.104: duplex omnino est iocandi genus. Ad familiares. Para ilustrar e fundamentar a sua perspectiva teórica. unum inliberale petulans flagitiosum obscenum.12. outra. entretanto. sed etiam philosophorum Socraticorum libri referti sunt (Há duas maneiras de fazer piadas: uma. ignóbil. nobre e espirituosa. como também na vida cotidiana da classe alta romana. 9.5 e que foi.3 Um século antes. Cícero Os romanos tinham orgulho de seu humor.2 . um número crescente de piadas (o seu servo Tiro já havia publicado uma coleção). é o longo e brilhante capítulo de Cícero sobre o humor — não apenas na retórica — do segundo livro de seu De Oratore (Do orador). O capítulo semelhante na Institutio Oratória. é mais fácil falar sobre qualquer outra coisa do que sobre piadas. a quem mais tarde a tradição atribuiu. o que era de fato um grande elogio. Cícero afirmara que o humor (urbanitas) de Plauto — o primeiro escritor e diretor romano de comédias com dedicação exclusiva — equiparava-se a Aristófanes e à comédia antiga ateniense.

Piadas sobre criminosos famosos e sobre grandes infortúnios desacreditarão quem as conta. 8 Cícero. 10 Ibid. Cícero aborda o problema da graça e suas limitações: o que marca o limite é “aquilo que é adequado” (toprepon) — categoria também apreciada por Panécio de Rodes. 1989).240: mimus et ethologus.da qual discorda Quintiliano (6.239: (ne.2).. Cícero descreve. cf. diz ele — mas novamente é preciso ter cuidado para não ir longe demais. já não o chamara num momento de raiva (fingida?) de “cônsul ridículo”?6 E outros contemporâneos. 2.. Há mais coisas no capítulo sobre os limites da graça do tratado retórico anterior De oratore. Tullius Cicero. o jovem e severo Catão. o humor mau instaura um tormento (flagitium) em seu portador. questões sérias. “polido” (urbanum. “infame” (flagitiosum) e “obscena” (obscenum). ainda menos benevolentes.8 A graça deve se manter dentro de determinados limites de respeitabilidade para ser socialmente aceitável. não de hostilizá- la. P. Corbett. 2. O orador.10 Mais tarde. De Oratore libri III. o “palhaço”?7 Essa discordância entre os contemporâneos de Cícero e seus posteriores admiradores implica animosidade e avaliações incoerentes — e aponta para os limites do humor. Comparatio Demonsthenis et Ciceronis 1. em quem o tratado inteiro está profundamente calcado e. 9 Cícero. 11 Ibid.237-9): “Deformidades e anomalias físicas são um grande campo para pilhérias”.11 Em suma. H. Em seu último tratado. Da mesma maneira. o orador é aconselhado a evitar o exagero da caricatura (imitatio depravata) para que ele não pareça um mimus e ethopoios. M. o scurra é definido como alguém que não conhece os limites do humor impostos pela seriedade (gravitas) e inteligência (prudentia: 2. De officiis (Dos deveres). ele esboça os limites gerais do humor: a graça deve se manter distante dos grandes crimes e da grande desgraça — ambos. os homens livres versus os escravos e versus os livres sem reputação. . por fim. ou melhor. usa o humor como um instrumento de persuasão a fim de conquistar a platéia. nem 6 Plutarco. a aparência corporal (2. 1986). obviamente.9 a classificação segue mais a praticabilidade romana do que a teoria ética grega. Leeman. De officiis 1.5. como só um habitante de cidade poderia ser).247). “inventivo” (ingeniosum) e “engraçado” (facetum). cf. Saturnalia 2..103f. um imitador grotesco de tipos. vol. cuja má reputação é famosa. O segundo plano se concentra em um assunto específico. scurra aut mimus. E o contemporâneo de Cícero. e há também diferenças em relação ao trabalho ético posterior. 7 Macróbio. a elegância e a criatividade inata (ingenium) são. o comentário de A.. não o apelidaram de scurra (escurra). enquanto a graça inaceitável é “imprópria para um homem livre” (inliberale).). apreciada também por Aristóteles. do geral para o particular.) scurrilis iocus sit aut mimicus. traços marcantes da classe superior. explora a graça aceitável e a inaceitável com a ajuda de vários termos intimamente relacionados: o humor aceito é “elegante” (elegam).1. D. The Scurra (Edimburgo. ad loc. As categorias sociais têm importância: os habitantes de cidade versus camponeses. por fim. De oratore 2.216-90. sem dúvida. No primeiro plano. “petulante” (petulans). Cícero já falara sobre isto mais de uma vez. caso contrário parecerá um palhaço ou um mímico. Pinkster e E Rabbie (orgs. Cícero atua em dois planos. e o orador deve tratá-los com seriedade para ser digno de crédito. 3 (Heidelberg.12: eum scurram ab inimicis appellari solitum.

freqüentemente. a quem o humor relaxa.236: haec ridentur quae notant et designant turpitudinem aliquam non turpiter. arrogantes e conscientes da própria classe como eles eram. Talvez esteja agora mais claro por que eram os inimigos de Cícero que o chamavam de palhaço: ele era. ao contrário. Cícero e Quintiliano determinam que o maior perigo para o orador é parecer um artista: sendo as técnicas semelhantes (e sendo os atores. Os limites do humor são assim definidos por sua função na retórica: a graça serve para conquistar a platéia — especialmente. embora faça as pessoas rirem. De oratore 2. o mimus. outro ponto se torna claro: é o desvio dentro desta mesma classe alta que o humor critica. Os mesmos resultados surgem da definição funcional de Cícero sobre o humor: o riso se extrai “do castigo da deformidade e da desgraça. Ênio veio à casa de Metelo e perguntou pelo senhor. não o é. sem causar vergonha”. um dito espirituoso pareceria uma abordagem muito superficial. o juiz.tudo que é ridículo é engraçado:12 o sannio. a serena presença de espírito que oferece uma réplica espirituosa para todas as situações e que pode funcionar como uma repreensão polida. ele deve se manter o mais perto possível deste ideal — daí a importância de gravitas e prudentia. afinal de contas. os tutores de jovens oradores).1. para conquistar a platéia. Os artistas profissionais — o palhaço. então. o cômico rude. mas Metelo. não apenas para um homo novus·. a distinção é ainda mais importante. Novamente. acreditei em sua empregada (os criados 12 Ibid. sem todo o tradicional refinamento da classe alta. . Acusá-lo de ultrapassar os limites do humor é algo que soa como uma consciência de classe e tinha grandes possibilidades de magoar Cícero. Instituio 6. Alguns dias depois. as regras da classe requerem tanto gravitas como urbanitas. em sua casa distante em Aventine. precaver-se para evitar um mal-entendido. Como era de se esperar.. o grande poeta. 13 Quintiliano. o senador solene não é aconselhado a ser bem- humorado para agradar à platéia. foi embora com a firme convicção de que a empregada não dissera a verdade. o grande Metelo quis visitar o velho Ênio.251: non omnia ridicula faceta. 2. a diferença é de posição hierárquica. Gravitas. Isso explica ainda melhor o papel do humor: a crítica direta e irrestrita entre membros da mesma classe. seriedade e respeitabilidade não excluem o humor. o sannio — pertencem todos a uma classe diferente: eles são os estrangeiros gregos. Quando observamos os exemplos dados por Cícero.14 A deformidade e a desgraça provêm de um desvio social: a função da graça é corrigir esse desvio — de um modo socialmente aceitável. Cícero insiste em que todas as regras e classificações referentes à graça oratória também sejam válidas para as situações cotidianas (2. mas Metelo o acalmou: “Outro dia. as principais virtudes desta classe. Em De oratore. o ethopoios. mas um comentário espirituoso pode amenizá-la. e ainda mais difícil.270): é a urbanitas que é exigida. conforme ressalta Quintiliano. um homo novus provinciano. Mais uma vez. O melhor exemplo é uma anedota contada por Cícero: “Certa vez. E isso explica os limites impostos: há desvios sociais tão sérios (ultrapassando as fronteiras de classe) que a graça não basta como corretivo e. 14 Cicero. É preciso. teria sido inconcebível. Ênio se aborreceu.3. Metelo gritou que não estava em casa. escravos ou servos.13 Um orador romano é a personificação do perfeito integrante da classe senatorial de Roma. portanto. conhecendo-o bem. desperta ou diverte. o firme conhecimento das normas sociais impõe os limites da graça e do humor. a empregada disse-lhe que ele não estava em casa.

). em geral parte do drama. a parábase. Horácio (que compartilhava a mesma teoria da graça de Cícero) diferia radicalmente em sua avaliação: ao primeiro — e. falta urbanitas. então por que você não acredita em mim agora?” (2. para Cícero. o autor de comédias. gêmeos separados no nascimento e reunidos quando jovens. Brink. a comédia nova grega passou dos assuntos políticos para as questões familiares — homens jovens que amam (seduzem ou estupram) meninas das classes inferiores. numa cena comum a todas as comédias de Aristófanes. característica que Horácio toma de uma de suas fontes imediatas. a sede de guerra dos generais atenienses em Lisístrata ou em A paz. da respeitabilidade — como ocorre. chamar um ao outro abertamente de mentiroso não era possível. Cícero havia comparado a graça de Plauto com a da comédia antiga ateniense — graça essa com a qual Aristóteles. Das Komische (Munique. Fuhrmann. 1976). Ars 270-4. 308: “Horácio surge aqui comoo crítico literário mais sensível”. já que essa crítica se repete em Roma. com polidez. É preciso observar seu humor mais de perto e compará-lo ao de Cícero para se entender o problema.15 Isto nos diz algo também sobre Plauto. mas não há o escárnio social. a falta de talento trágico em As rãs. 1971).17 Isto aconteceu não só porque os originais gregos não possuíam uma dimensão política — afinal. advertir quem ultrapassava seus limites. 65-101. p. como recordamos. ele preferia as sutilezas de Menandro e da comédia nova. O humor. sai desse papel para se dirigir diretamente ao público acerca dos problemas atuais. em Plauto. colocavam-se em um mesmo patamar. cf. Sem essa licentia. contanto que ela se mantenha dentro dos limites da honestas. “licenciosidade”. A comédia romana arcaica continuou a comédia nova grega. Horace on Poetry: the ‘Ars poetica’ (Cambridge. assim pensa ele. 76s. ele não é completamente contrário à licentia nas piadas. Obviamente. Até aqui a função da graça aristocrática e senatorial era preservar as regras desta classe — e. esse tipo de humor é fundamental: enredos inteiros surgem de situações públicas que pedem censura e correção — a demagogia de Cleon em Os cavaleiros. C. “Lizenzen und Tabus des Lachens: zur sozialen Grammatik der hellenistisch-römischen Komödie”. na voz de seu autor. a palavra-chave é inurbanum (273). para alguns.16 Esta falta tem a ver com sua licentia. Plauto. os fesceninos nativos feitos pelos primeiros camponeses romanos. 16 Horácio. Plauto pode ser medido em escalas diferentes: a honestas ciceroniana é um pouco diferente da urbanitas de Horácio. Preisendanz e Rainer Warnig (orgs. a comédia romana floresceu num período em que a vida pública romana era animada e suficientemente controversa para se expor ao comentário público —. a graça e até a indecência integram essa comédia também (em um grau muito maior do que os estudiosos tenderam a acreditar no começo desse século. . o maior escritor de comédias romanas — insiste ele. Enquanto. filhas perdidas reencontradas muito mais tarde como prostitutas. o coro.273). é outro assunto — mas eu espero que as conclusões expostas até aqui derramem alguma luz também sobre ele. não haveria também um bordão para Cícero: no entanto. O. Na comédia antiga ateniense. o poeta e o senador. O humor na retórica era considerado pelo próprio Cícero como um instrumento de crítica dentro do mesmo grupo social. mas 15 Aristóteles. conforme nos mostraram os novos papiros).romanos eram notórios mentirosos). adaptando peças gregas para o palco romano. e novamente a crítica social direta foi excluída. Plauto incorporava a urbanitas romana. em W. Ambos. pp. 17 M. Ética a Nicômaco 1128a 20. aqui pp. Quando as circunstâncias políticas mudaram. tinha seus problemas: à grosseria de Aristófanes.

1981). Elementi Plautini in Plauto (Roma. Antes. batendo na coxa. O protesto contra a maneira como as autoridades trataram um poeta da mesma categoria é formulado de dois modos — inicialmente. muito menos para a classe popular: piadas dentro do grupo funcionam como um instrumento de coesão grupal. depois. o famoso cavaleiro romano Névio é transformado em um estrangeiro (barbarus). eles são voltados para as falhas de comportamento mais gerais e privadas. conta com os dedos da mão direita. Bettini. pp. aí ele se vira. É complexo o modo como o humor é criado aqui e.20 e a sentença dele. eles jamais estenderam o direito de fazer piada sobre um nobre para além de seu próprio grupo. apóia a mão esquerda sobre a coxa esquerda. Além disso. descreve as suas ações: Veja. Mas agora ele conclui: põe uma coluna sob o queixo. o velho Peripletômeno. 31. quase ausentes em Plauto. mas eles não se referem a eventos históricos específicos. por outro lado. e assim transgride o decorum de sua 18 M. refletindo. é transformada em uma “boca com coluna”. pela inteligente cadeia de associações dentro da passagem (um queixo apoiado em um braço é comparado a um queixo sob o qual uma coluna foi construída. como a longa lista de maus modos na platéia que abre o Poenulo e que contém exemplos de humor de gênero (dirigido à matronae que ri muito alto. com uma expressão grave. . a cuja sentença de prisão ele alude em Miles gloriosus (O soldado fanfarrão) (w. Alusões a esses acontecimentos específicos que criticam as autoridades romanas ou seus contemporâneos são. significava um aristocrata) pelo nome: Névio. 79s. A coluna sob o queixo conduz a um breve comentário: “Fora com isto. II Verri. e depois. criticando de forma direta a boca com coluna (“Fora com isto. Alguns exemplos semelhantes vêm dos prólogos.. os columnatum. Fraenkel. 20 Sobre este procedimento. na prática. veja E. tenta descobrir um modo de se livrar de uma situação difícil. o escravo sagaz Paléstrio. deitar o verbo sendo castigado na colunata). isto é. pelo modo complicado com que Plauto contorna a proibição do livre discurso que. porque ele teria sido exposto na colunata do Fórum Romano. 1960). conduz a platéia para o problema. in I moderni alla ricerca di Enea (Roma. 200ss). mas tais referências são muito mais raras e vagas18 — como no caso de Névio. pp. pela maneira ainda mais inteligente de escapar à proibição escondendo-se atrás dos efeitos teatrais. teve que cumprir uma sentença de prisão pela transgressão desta lei ao encenar uma comédia.. Embora a brincadeira urbana fosse permitida entre os membros da classe alta. pp. isto não é cômico). 1969. por favor. como ele se encontra. 113ss). 19 Veja M. Até este ponto.porque a lei romana proibia ridicularizar um cidadão (o que. eu odeio este tipo de construção”: em si mesmo. acho que para estimular o coração. Barchiesi. pensando: ele bate no peito com os dedos. piadas de fora ameaçam o status. esta passagem é caracterizada por um brilhante metateatro:19 enquanto uma pessoa. e também do modo engraçado e ingênuo como isso é feito. Isso não significa que Plauto deixasse completamente de se referir a pessoas ou fatos contemporâneos. uma segunda pessoa. em função de uma fala teatral. essa ligação metafórica de queixo e coluna conduz a boca e coluna. devido às restrições impostas pela lei romana. O humor está aqui de duas maneiras: primeiro.. Verso un antropologia dell’intreccio (Urbino. um cavaleiro romano uma geração mais velho que Plauto. o humor resulta principalmente do fato de alguém descrever o que todos podem ver no palco. exatamente por ser tão complicado. 1991). 159s. eu odeio este tipo de construção: ouvi falar de uma coluna sob a boca do poeta estrangeiro com quem dois guardiões sempre dormem”. “Plautoe il metateatro antico”. 147ss (orig.

Mostellaria 755-809. em que eram abandonadas as regras da vida cotidiana. MA. de uma peça passada num mundo conhecido para uma cena num país estrangeiro associado ao luxo. deixa a entender que Roma é justamente o contrário. 43-6. homines servolos potare. o humor étnico plautino revela uma inclinação inteligente: ao atribuir a Atenas toda a imoralidade possível. o intuito do humor étnico não é a crítica. Praefatio 7. fazem amor e convidam as pessoas para os jantares: tudo isso é permitido em Atenas”. Aristotle: Poetics (Indianápolis e Cambridge. 22 Menaechmi 7-8: atque hoc poetae faciunt in comoediis. a comédia romana não muda a cena para Roma e mantém a localização grega. quo illud vobis Graecum videatur magis. baseados em suposições apriori sobre a sofisticada 21 E. mudanças abruptas de estilo. à lascívia e à falta de disciplina: “Não se surpreendam”. Ainda diferentes são os exemplos de humor étnico. como neologismos complexos e absurdos. no Menaechmi ele explica: “Os poetas costumam fazer o seguinte em suas comédias: eles supõem que tudo acontece em Atenas. seu humor específico era o humor do carnaval. Segal. . os resultados eram muito parciais. de modo a parecerem mais gregas. um tema bem mais comum na comédia romana que os escravos festeiros — e bem mais abominado pela moralidade romana. umare atque ad cenam condicere: licet haec Athenis nobis. pp. veja R. pelo menos de acordo com uma idéia um tanto debatida de Erich Segal. a correção. Plauto sabe bem disto. Plauto dirige com insistência a nossa atenção para o funcionamento da máquina cômica.”22 — não raro até nos detalhes da vida cotidiana.. Mas. na comédia antiga grega. 25 Tractatus Coislinianus: “riso provocado pela dicção e riso provocado por incidentes”. Para uma tradução desse tratado. de Menandro. Mas o principal campo do humor plautino é puramente teatral: a ação engraçada. como a existência de um gynaeceum (“dependências femininas”) numa casa e a concomitante hesitação de um homem em entrar nele. como a nova comédia grega era quase desconhecida até a publicação de O díscolo (ou O misantropo). adverte sua platéia em Stichus.25 e a maioria das características de Plauto encontra o seu paralelo na comédia nova e. 1987). A comédia plautina era um evento carnavalesco. Janko. 23 Plauto. reed. isto é. sem notas de rodapé (!).. omnis res gestas esse Athenis autumant. Há diferenças entre Plauto e os seus supostos modelos gregos e por quase um século estudiosos da literatura tentaram analisá-las. a comédia plautina parecia diferir fundamentalmente da comédia grega. 24 Stichus 446-8: atque id ne vos miremini. mas a platéia sabe muito bem que não é este o caso. isso é tão escandaloso quanto filhos que ludibriam seus pais (principalmente com a ajuda de escravos imaginativos e inescrupulosos). onde tudo o que é normalmente proibido torna-se permitido. conclui Segal. se passa na Grécia. a comédia romana criou um mundo desordenado de realidade invertida. piadas referentes sobretudo aos gregos. contudo. sobretudo em Atenas.posição social). veja Nepos. ou o que se poderia chamar de crítica de grupo jocosa (dirigida a categorias profissionais ou sociais cujos membros não seguem as regras de sua posição). enquanto a comédia ateniense se inseria bem nas regras de sua sociedade. Em uma coisa. sobretudo. seja ela antiga ou nova. Desse modo. 1987).23 Isso implica uma mudança fundamental.21 A comédia grega.24 Do ponto de vista romano. Normalmente. “com escravos que bebem. pancadarias muito divertidas e jogos de palavras de todos os tipos. Porém. Essa classificação (em “riso provocado por incidentes” e “riso provocado pela dicção”) corresponde às categorias já desenvolvidas na tradição aristotélica da comédia grega. Nova York e Oxford. mas a afirmação da própria identidade por meio da diferenciação. Roman Laughter: the comedy of Plautus (Cambridge. longas listas. 1968. em 1958.

isso é plausível e foi amplamente aceito entre os estudiosos atuais. 1993). era raríssima em Plauto. assim como a sátira. obviamente. 29 Bettini. 27 Veja especialmente Bettini. consagrações de templos ou triunfos) como em festivais regulares da cidade. 2. p. mas nem todos fazem parte do carnaval:28 para tanto. não para Terêncio. em honra a Apolo. já depravado) dos membros de um grupo — como no “Schnitzelbank” do Fastnacht de Basel ou. Terêncio.146: opprobria rústica fudit. Menander and Plautus: a study in comparison (Londres. entre os respectivos festivais romanos. um traço claro do humor carnavalesco é sua função social: é um humor que serve para criticar o desvio de comportamento (e. é basicamente conservadora. enquanto as outras celebrações da cidade (o ludi Apollinares. “tratava-se de grosseira ofensa”. já que a comédia. Juno e Minerva) não são festivais carnavalescos. Em segundo lugar. o ludi Romani e o ludi plebei. por uma dura experiência pessoal. Verso un antropologia dell’intreccio. O humor romano não é em nada diferente e específico: é o tipo de humor necessário a um profissional do palco cuja platéia tende a se retirar de uma apresentação enfadonha em busca de espetáculos mais estimulantes de gladiadores ou de circo — como descobriu outro grande escritor romano de comédias. O caráter carnavalesco. ainda há problemas. As comédias de Terêncio foram encenadas em ocasiões semelhantes às de Plauto. em qualquer lugar. apenas o ludi Megalenses (celebrado em honra a Cibele Anatólia) mostra características de inversão.26 O resultado é. em 1968. Verso un antropologia dell’intreccio. 30 Horácio. sem piadas hilariantes e sem ênfase nas inversões sociais. cujas comédias se mantêm muito mais próximas do espírito da comédia nova. com um humor mais moderado.29 Em terceiro lugar.30 Vimos como a crítica direta.comédia nova e o grosseiro humor plautino. para não nos distanciarmos de Plauto. não era inerente aos festivais. da T. não raro. especialmente a publicação de duas cenas do Dis Exapaton. tão comum na comédia antiga e na sátira. que foram transformadas na Bacchides. dizer a verdade. são necessárias características específicas de inversão ritual. 79-96. mas. para os deuses da cidade do Capitólio: Júpiter. de Plauto. Handley. se o fosse em algum lugar. Todo festival requer o abandono da normalidade cotidiana. a comédia romana — não só a plautina — era encenada durante festivais. só o seria na concepção plautina de comédia. pp. A descoberta do papiro. na arcaica ioca fescennina romana. a teoria funciona apenas para Plauto. Ela é inerente ao gênero.1. de Menandro. * Zombando. zombaria ritualizada que. Epístola. Primeiramente. 75. tendendo a corrigir.). (N.) . É uma diferença na função social do palco em Roma que influencia a escolha das técnicas que induzem ao riso. Enquanto os festivais dionisíacos gregos — as ocasiões comuns de encenação de tragédias e comédias — faziam parte do carnaval no sentido estrito.27 Contudo. 1968). tanto em ocasiões irregulares (como enterros. forneceu uma base nova e eficiente para tais comparações. Döpp (org. insiste na “forte diferença histórica e cultural” (“un forte scarto storico- culturale”) entre Plauto e Terêncio. De um modo bem geral. desapontador para quem procurava um humor romano radicalmente diferente do humor grego: as modificações de Plauto aumentam a hilaridade e a jocosidade das cenas e servem para criar uma ação mais animada e engraçada. 28 Uma diferenciação nem sempre feita nos ensaios em S. ao passo que uma moralização mais geral pode ser vista como uma função da comédia plautina — mas esta é uma função que toda comédia tem. segundo Horácio. a perversão por meio do escárnio (ridentem dicere verum* como 26 E. Karnevaleske Phänomene in antiken und nachantiken Kulturen und Literaturen (Trier. de certo modo.

236. Em um famoso artigo. 32 Cicero. o estudioso clássico alemão Hermann Usener há muito tempo argumentava que esta cena reflete o costume italiano de acusação pública ritual. mas Casina é. para acusar e criticar. às vezes surrealista. vol. e a diversão pela diversão. 377-80. até n. Há uma cena plautina que simboliza esta situação complexa. Leipzig. o que a marca carnavalesca nos faria esperar. “Italische Volksjustiz”. 4. CA: Violador de leis! BA: Bom! PS: Sedutor de jovens! BA: Forte. ele não usa a comédia com o mesmo objetivo com que Cícero ou os satiristas usaram o humor. mas por seu talento e espirituosidade. Então. uma exceção). o jovem Calídoro é enganado pelo perverso cáften Balio. Tal acusação ritual não é humorística per se. Usener. 1915). Em Plauto. A crítica direta não está no centro da comédia plautina: as comédias de Plauto acentuam os aspectos teatrais e são perfeitas em criar um mundo musical.32 Plauto teria concordado com a segunda declaração: o humor não pode ser turpis (torpe) e evita a linguagem obscena. sob vários aspectos. 360-6) Desse modo. pp. em seu Kleine Schriften (4 vols. . PS: Ex-escravo! BA: Por Júpiter. o jovem chama seu escravo Pseudolo e os dois agridem Balio com um longo insulto. depois Pseudolo. e em seguida os dois juntos.diz Horácio). PS: Fraudulento! CA: Impuro! PS: Cáften! CA: Sujo! BA: Excelentes cantores! (w. Plauto é admirado não por sua moralidade. De oratore 2. embora deva ser bem engraçada para os espectadores. Em Pseudolo. mas de duas outras fontes: do modo pelo qual os insultadores agem e falam — primeiro Calídoro.31 até quando Plauto encontrou parte da idéia já no seu modelo grego. E o humor resulta especialmente das reações de Balio: ele não se impressiona facilmente. CA: Enganador do povo! BA: Bastante óbvio. o teatro é muito presente e é a ação no palco a responsável pelo humor nesta cena. assim como as piadas sobre sexo (salvo a lasciva Casina. porém. 31 H. Na longa história de sua aceitação. e não uma qualidade humorística intrínseca e tradicional do que é representado. o humor não se origina do fato de que estamos assistindo a uma cena de repreensão pública. em um bom clímax. ele certamente é aliviado por esse antecedente de um ritual já existente. CA: Ladrão! BA: Ah-ah. o que se pode dizer de Plauto e o humor romano? Vimos que Cícero definiu o humor segundo uma função moralista. certamente. 14. limitando-o ao longo de frases similares como “rimos do que acusa o mau comportamento e o demonstra de maneira não muito ruim”. Contudo.

Moland (54 vols. 223. Ele acrescenta. 3 S. as posições teóricas que adotou e como o riso. seus atores e seu palco. Ele foi traduzido por Jan Bremmer e Herman Roodenburg. 4 J. Eu gostaria de convencer o leitor de que o riso é um assunto sobre o qual vale a pena refletir e. inglesa. Morreall. trad. Herzen. 1905). 1-14. J. que há mais de um século observou: “Seria muito interessante escrever a história do riso”. de maneira muito hábil. mas que não deve ser negligenciada: o riso é um fenômeno cultural. da pessoa ou das pessoas com quem se ri. 1935). L. 5 F. Concluirei citando o autor russo Alexander Herzen. seus alvos e suas formas não são constantes. pp.6 O que eu gostaria de fazer aqui é esboçar os problemas que surgem quando se constrói a história do riso no Ocidente medieval. sobretudo em relação à Idade Média. Em 1983. 20. 1900). Der Witz und seine Bedeutung zum Unbewussten (LeipzigeViena. o autor embarca em uma longa investigação e no final conclui: “É muito difícil não admitir a importância de sorrir e rir. o americano John Morreall publicou seu interessante livro Taking Laughter Seriously4 (Levando o riso a sério). não estou buscando causas metafísicas para o riso. Ceccarelli. estudar em termos históricos. sendo o restante uma grande decepção. 3 (1989). 6 A. 1983). que mantiveram seu estilo oral mas acrescentaram várias notas. o riso deve ter uma história. tento resgatar. Strachey como Jokes and their Relation to the Unconscious (Londres. porque ele é uma fonte de prazer. e cinco anos mais tarde o italiano F. por vezes de modo especialmente feliz. 1988). e foi nessa área que Freud percebeu uma convergência de suas próprias teorias com as idéias de Bergson. . seus rituais. Afinal de contas. funcionou na sociedade medieval. O riso é um fenômeno social. Le rire (Paris.O riso na Idade Média* Jacques Le Goff Quando começo a apresentar minha pesquisa sobre o riso na Idade Média. 2 H. uma que ri e outra de quem se ri. Ceccarelli publicou o seu estudo Sorriso e riso. a maneira como é praticado. Bergson. reais ou imaginárias: uma que provoca o riso. 8. 1954). * Esse capítulo se baseia em “Rire au Moyen Age”. o que a sociedade achava do riso. Por isso me sinto compelido a levar o leitor para o lado sério do riso — algo que conheço bem. 374-5 (de Questions sur l’encyclopédie). as atitudes em relação ao riso. de qualquer ponto de vista”. org. Na verdade.2 Ele salienta essa dimensão social. Freud. 1o de fevereiro de 1858. Rothwell como Laughter (Londres. sinto uma certa apreensão. Eu diria até mesmo que este é o único ponto interessante abordado por Bergson em seu estudo sobre o riso. Brereton e F. De acordo com a sociedade e a época. Taking Laughter Seriously (Albany. 1960). Espero confirmar uma observação inicial e muito genérica. que a facilidade com que muita gente considera fútil o estudo do riso e do sorriso é apenas parte de seu problema e de sua função. p.3 . Voltaire não escreveu que “as pessoas que buscam causas metafísicas para o riso não são alegres”?1 Porém. 1 Oeuvres complètes de Voltaire. pp. mas mutáveis. Ob iskusstve (Moscou. É uma prática social com seus próprios códigos. Ele exige pelo menos duas ou três pessoas. em particular. 1877-85). inglesa. trad. também em Herzen. em Kolokol (O Sino: um jornal russo).3 Como fenômeno cultural e social. Paris. muitas vezes.5 Depois de nos lembrar que toda explicação do ridículo simplesmente mata o riso e que a morte do riso deveria nos alarmar. C. e também. em suas várias formas. Sorriso e riso: saggio di antropologia biosociale (Turim. p. vol. Cahiers du Centre de recherches historiques. Nova York.

Talvez estejamos mais bem munidos em relação a esses textos. Por outro lado. responder pelas deficiências e lacunas de minha abordagem. perder de vista o que é peculiar ao cômico ou aos textos nos quais é expresso. é relativamente fácil reunir os textos mais ou menos teóricos e normativos que nos fornecem tanto atitudes em relação ao riso como recomendações de como se rir. Aqui. por outro. Há alguns anos.7 Também sugerirei algumas diretrizes para uma história da evolução das atitudes em relação ao riso e às formas do riso. As etapas. a documentação são diferentes para cada um — de um lado. do fim da Antigüidade ao Renascimento. questões e conceitos. (orgs. Études offertes à Pierre Riché (La Garenne-Colombes. 93-103. Haut moyen-âge: culture. tanto no nível teórico quanto no nível documental. em uma crônica em que se vê alguém começando a rir. em C. um estudo da história do riso tem dois aspectos. porque é necessário transformar uma análise de problemas do cômico em uma análise equivalente do riso. 1990). Observa-se que. ao mesmo tempo. o riso dos monges. Devo acrescentar que aqui nos deparamos com uma história dos valores e das atitudes mentais por um lado e. penso que nos deparamos com dois subconjuntos. assim como a etiqueta à mesa. de outro. naturalmente. a presença e as formas do riso — por exemplo. O problema da prática do riso é mais complexo. 7 J.). Poderia ser feita aqui uma distinção tradicional e falar-se da “teoria e da prática do riso”. assim como para o lugar do riso na sociedade medieval. risus monasticus. Finalmente. Devo acrescentar que meu trabalho ainda está em fase exploratória. há uma série inteira de textos sobre os modos de rir. Em outras palavras. . FUNDAMENTOS E OBJETIVOS DE MINHA PESQUISA Na minha opinião. meus amigos e eu dedicamos um seminário a esse assunto e muitos dos participantes já fizeram contribuições muito interessantes. Eles são muito diferentes. Depois. enumerarei os problemas encontrados no curso de minha investigação. com uma história das representações literárias e artísticas: uma história do riso e do fazer rir. as manifestações do riso por outras pessoas. mais importante. há os textos que mencionam. deve-se distinguir os textos nos quais o riso é julgado daqueles cujo objetivo é nos fazer rir. há o enorme campo do que geralmente é descrito como cômico. o método. tratarei de um ponto particular que eu pude. estudar com certa profundidade. Temos que descobrir se há uma noção unificadora por trás de todos. novamente. de forma muito limitada e ingênua. Le Goff. mas percebe-se logo o trabalho que isso requer. até agora. começarei delineando como esse tema surgiu em minha pesquisa e descrevendo minhas motivações e objetivos originais. Lepelley et al. O que não deve ser tomado como um captatio benevolentiae. as atitudes em relação ao riso. pp. como um exemplo. na Alta Idade Média. Aqui há uma dificuldade bem diferente. Por julgar que isso possa esclarecer minhas premissas e. éducation et société. De um lado. “Le rire dans les règles monastiques du haut moyen âge”. sem. Experimentar e assimilar todos esses exemplos do riso é importante para uma investigação desta natureza. Em relação ao primeiro aspecto. problemas esses que definem as premissas. a formulação do problema e. E aqui encontramos um dos grandes problemas de nossa pesquisa — a heterogeneidade dos documentos.

1987). R. pp. do começo do cristianismo ao fim da Idade Média.10 Deixo de lado o seu surgimento. pois. encontrado nos sermões. pp. das palavras. L’histoire. por conseguinte. as pessoas riem melhor no vernáculo que em latim. Se são a sua difusão. temos que nos remeter às línguas vernáculas. Finalmente.8 Passo agora a tratar de como me interessei pelo riso. Portanto. Há algum tempo já sabemos usar as perspectivas da linguagem. há o problema do meio lingüístico. a partir do século XIII. 158 (1992). dominados por um novo latim. trad. sobretudo em círculos eclesiásticos. familiar aos medievalistas: temos que conduzir nossa pesquisa no domínio do latim e no das línguas vernáculas. Por fim. Investigações completas de especialistas em lingüística ressaltaram que. Esse latim é impróprio para expressar o que definimos como sensibilidade. o tema de Aristóteles. heterogeneidade e fragmentação que constituem um dos maiores impedimentos ao estudo do assunto. European Literature and the Latin Middle Ages. R. como tradicionalmente fazia. que desenvolveu a tese de que o riso é um traço distintivo do homem. não se restringiu à sociedade monástica ou estritamente eclesiástica. 10 J. precisamos ir além do instrumento da linguagem. Penso que essa segunda investigação é ainda mais importante. “Jésus a-t-il ri?”. litúrgicos ou intelectuais. outro topos circulava por toda a Idade Média. embora seja uma mina de ouro de textos. a individualidade de sentimentos e idéias e. o latim escolástico. 1953). permite-nos tocar em muitos temas fundamentais do período em questão. parece que poucos medievalistas têm uma boa compreensão de como relacionar os documentos latinos e vernáculos. Le Goff. sobretudo do latim em comparação às línguas vernáculas.9 O tema pode parecer anedótico. isso. No século XIII. temas e idéias. temos inicialmente um grande problema: o dos complexos encadeamentos entre estes quatro domínios — valores. práticas e estéticas do riso. W. Felizmente. . embora o número de estudos sérios e inteligentes nessa área ainda seja muito pequeno. Um dos temas que identificamos aqui são as expressivas possibilidades dos vários idiomas usados na Idade Média. Para acrescentar mais uma observação preliminar: embora haja numerosas categorias de riso e o jogo de palavras não seja a categoria mais importante para provocá-lo. é preciso acentuar a importância das palavras e da linguagem. Para isso. Mais significativo é o fato de que esse topos. especialmente quando estudado em seu contexto medieval próprio. o latim tende a se tornar. usado basicamente em certos exercícios religiosos. não obstante. Sua breve digressão sobre a Igreja e o riso chamou minha atenção para o fato de que. de Curtius. 72-4. Acho que meu interesse foi ativado ao ler Literatura européia e a Idade Média latina. mas era também muito vivo no meio universitário. que possuem a sua própria história. um livro atualmente ultrapassado. se quisermos dar conta do cômico e do riso. pensamentos. a expressão facial e os gestos. a Universidade de Paris. as pessoas perguntavam se Jesus alguma vez rira em sua vida terrena. 9 E. mas é muito interessante. organizou um de seus quod libet anuais (um debate sobre um tema escolhido. Ao mesmo tempo. aqui o historiador está mais bem abastecido. embora seja igualmente interessante. pelo menos um idioma de especialistas. Trask (Princeton. do vocabulário e da semântica. temos que perceber que. incapaz de observar tudo o que é subjetivo. por diversas razões interessantes. 417-35. Infelizmente. Curtius. um tipo de conferência aberta ao público em geral) justamente sobre esse assunto. se não uma língua morta. Disso 8 Conforme aprendemos nos excelentes estudos de Paul Zumthor: Introduction à la poésie orale (Paris. na literatura homilética. e estudar a voz. 1983) e La lettre et la voix de la littérature médiévale (Paris.

mas também alguém claramente enquadrado em outro topos. pp. que também tiveram impacto sobre as práticas. o “rei cômico”. . pp. 1990). (N. 1996). 1963). a Igreja. os modos admissíveis de rir dos inadmissíveis. diante de um fenômeno que considera perigoso e realmente não sabe controlar. Em torno do riso desenvolveu- se. Ambas as visões são encontradas em autores eclesiásticos e não encontrei qualquer heresia do riso. Percebe-se até que o riso estava quase se tornando um instrumento de governo ou. uma expressão que me parece muito interessante. o homem que ri certamente se sentirá mais capaz de expressar a sua própria natureza. Esse não é. de qualquer modo. É nele que encontramos uma função praticamente obrigatória do rei — fazer piadas. rejeita-o totalmente. Saint Louis (Paris. O rex facetus figura em numerosos textos. e na tradição latina cristã medieval. que será cada vez mais apontado como o que deve ser imitado. da qual o escolasticismo se apropria. se considerarmos o riso um traço distintivo do homem. Um dos exemplos mais notáveis é fornecido por São Luís. org. Mais tarde. da T. o que se poderia chamar de um caloroso debate. cujas graças e as ocasiões em que rira de uma coisa ou outra estão todas registradas. o primeiro grande doutor franciscano e maître na Universidade de Paris de 1220 a 1240. O primeiro modelo do rex facetus foi Henrique II. não rira sequer uma vez em sua vida humana.) 12 Jean de Joinville. o rei resolveu a questão do seguinte modo: ele não ria às sextas-feiras! O maravilhoso Joinville* felizmente nos mostra um São Luís bastante inusitado: este não era apenas um homem propenso ao riso. então. o grande modelo para a humanidade. Ela alcança um tipo de codificação da prática do riso. por volta do século XII. Schmitt. ela consegue submeter o fenômeno ao seu controle. Um dos primeiros textos escolásticos foi escrito por Alexandre de Halès. mas essa é uma fronteira do assunto que ainda não foi corretamente explorada. então o riso como se torna estranho ao homem. o rex facetus. Por outro lado. historiador francês que acompanhou São Luís em sua sexta cruzada. inglesa M. As várias atitudes em relação ao riso encontram seu lugar dentro de uma certa ortodoxia. 161-353. com profundas conseqüências.surgiu na tradição latina. Evidentemente aconselhado por sua comitiva mendicante — dominicana e franciscana —. La raison des gestes dans l’Ocident médiéval (Paris.12 Parece que o rex facetus se tornou em particular um topos dentro de um contexto social e cronológico bem definido. mas “o homem dotado do riso”. Natalis de Wailly (Paris.11 Durante a primeira fase. Pois se Jesus. o contexto da corte. Os “relacionamentos jocosos” em duas sociedades africanas examinadas 11 Conforme estudado por J. 486-8. Histoire de Saint Louis. Shaw como Chronicles of the Crusades (Harmondswotth. uma imagem de poder. J. pelo menos a um homem cristão. Trad.-C. que se tornou uma imagem do rei. principalmente em crônicas inglesas do século XII. Depois há os brilhantes textos de Tomás de Aquino e Aberto Magno. 1874). distinguindo o riso bom do ruim. Talvez isso não seja totalmente verdadeiro. obviamente. * Jean Joinville. O RISO DE REIS E MONGES O que exatamente uniu esses dois temas? A situação é a mesma observada no caso da etiqueta à mesa ou dos gestos. Le Goff. Algumas funções do riso foram pesquisadas por antropólogos. embora facilmente mal interpretada — o tema do homo risibilis. o homem cuja característica mais marcante é o riso. “o homem ridículo” ou “o homem de quem se ri”.

Sempre me preocupei em integrar o corpo humano no estudo do desenvolvimento histórico. 1952). não apenas observando a história das atitudes corporais. 14 M. o riso era um meio de estruturar a sociedade ao seu redor. nas mãos do rei. está visivelmente ligada à regra de São Bento que. Structure and Function in Primitive Society (Londres. uma das muitas regras monásticas no Ocidente medieval entre os séculos V e IX. Mas talvez o que me tenha levado especificamente até o riso foi que. 271-93. A obscenidade também era um dos “deslizes” do riso. a partir do século IX. 1950). Radcliffe-Brown. especialmente entre o V e o VII. é o segundo grande inimigo do monge. conforme eu notava que meu amigo Umberto Eco não estava menos convencido da importância do riso na sociedade e na cultura medievais. era a regra quase universal de todo o 13 A. anormais ou provocativos. ao menos em parte. muitos dos que escreveram sobre o riso — historiadores. 90-116. na École des Hautes Études e no Centro de Pesquisas Históricas. 1979). De forma espantosa. Em um sentido amplo. A Regula Magistri do século VI. Penso ainda estarmos sob o feitiço do artigo de Marcel Mauss. A codificação do riso e a sua condenação nos círculos monásticos resultam. que o riso evolui do domínio do silêncio para o domínio da humildade: o riso é o oposto da humildade. uma certa mobilidade e evolução. reeditado em sua Sociologie et anthropologie (Paris. O riso é o jeito mais horrível e mais obsceno de quebrar o silêncio.14 O riso é um fenômeno expresso no corpo e pelo corpo. sobretudo em São Bento. Adiante vê-se.principalmente por Radcliffe-Brown são um exemplo. mostra. que é relativamente fácil e talvez o método mais superficial. inglesa como Sociology and Psychology (Londres. que é uma virtude existencial fundamental. tem-se a impressão de que. mas também por meio de uma história projetada para integrar as práticas corporais às grandes mudanças das sociedades históricas. O nome da rosa teve seu papel na orientação de minha pesquisa. Eco sugeriu com muita perspicácia uma ligação entre a atitude de seu monge e a de São Bernardo. inter alia aqueles entre genro e sogra. de sua perigosa relação com o corpo. . simultaneamente. 365-86. a inserção de uma passagem que condena o riso em um capítulo que trata dessa ou daquela virtude. assim como o ócio. que se opôs à representação de monstros nos romances.13 Há sociedades em que certos laços de afinidade. o riso geralmente surge no capítulo sobre o silêncio. “Les techniques du corps”. pp. muitos de nós estão tentando ampliar o domínio da história — da oralidade e do gesto — principalmente através de novos documentos. que continua sendo útil. R. “Les techniques du corps”. Mauss. pp. no século VI. aquelas do século V. chegou-se claramente a um conjunto diferente de sensibilidade e devoção. Nas primeiras regras monásticas. Em relação a esse silêncio monástico. O leitor deve se lembrar de que ele foi detestado pelo rigorosíssimo monge Jorge de Burgos. 39 (1935). historiadores literários ou filósofos (Bergson e até mesmo Freud) — pouco se interessaram por este aspecto essencial. o riso. Journal de psychologie normale et pathologique. o riso é uma violação gravíssima. dessa ou daquela regra de comportamento. Ainda se percebe aqui uma das alianças históricas entre as várias formas de desconfiança dirigida a fenômenos que fossem mais ou menos anárquicos. trad. Ele não troçava de todos indiscriminadamente ou da mesma maneira. devem ser expressos por meio de brincadeiras. pp. 97- 123. taciturnitas. pp. Nas várias regras monásticas da Alta Idade Média. Será possível que estruturas e práticas semelhantes existissem na Idade Média cristã? Examinando melhor certos textos.

enquanto a regra de São Bento é muito sucinta (uma das razões de seu sucesso: simplicidade e brevidade!). A. exemplificados pela famosa frase de Gregório. e não apenas com as práticas compreendidas no termo “riso” ou em seu campo semântico. é saber se podemos reduzir o riso a um fenômeno único. Acredito que foi dada muito pouca atenção ao fato de que o homem é fundamentalmente concebido como uma união inseparável do corpo e da alma. embora pouco considerado. ele deve. e bloquear o caminho do mal. É importante e necessário em uma pesquisa começar por arriscar hipóteses que ainda não possam ser fundamentadas por suficientes estudos.) como The Rule of St Benedict in Latin and English with Notes (Collegeville. que definiu o corpo como “a abominável vestimenta da alma”. por trás da qual podemos detectar tratados médicos e. a todo custo. Fry (org. ora bons. É impressionante que. A atenção foi voltada sobretudo para textos hostis ao corpo. textos do tipo ascético.monasticismo ocidental. crenças fisiológicas. Uma dessas diferenças é que. . Depois devemos conjugar essas hipóteses com nossos dados. no do mal. há duas fontes interiores. É justamente a Regula Magistri que explica com clareza como o corpo humano está posicionado em relação ao bem e ao mal. Assim vemos como o riso é a pior de todas as formas de expressão do mal que vêm de dentro: a pior poluição da boca. o bem e o mal possuem duas fontes. trad. o que o distingue de muitas outras religiões. Neste momento não posso afirmar. inglesa T. Quando o riso está começando. passa-se a lidar com palavras. que é a graça divina no caso do bem. MN. apesar de diferenças consideráveis. De fato. Ela mostra uma verdadeira fisiologia cristã. de fora para dentro ou de dentro para fora. mas sem as quais. há uma fonte exterior. eu acredito. a “barreira dos dentes” etc. por assim dizer. Havia uma tendência para focalizar o corpo como um instrumento do demônio. Não nos esqueçamos de que o cristianismo oferece a ressurreição do corpo. abandoná-las ou substituí-las. TIPOS DE RISO Aqui encontramos um problema fundamental. A Regula Magistri fala da “passagem da boca”. ambas provenientes do coração. então.15 Estudos criteriosos e convincentes demonstraram que a Regula Magistri antecede a regra de São Bento e que serviu como seu modelo. Todas essas idéias são amarradas a uma fisiologia cristã bastante extraordinária. Paris. e o diabo e a sua tentação. embora fosse ele também um instrumento da salvação. se necessário. De um lado. 1981). que são os pensamentos ora ruins. a Regula Magistri é um texto muito longo. Nas duas direções. Olhos. o corpo humano emprega filtros: os orifícios do rosto. ao se dedicar ao estudo das várias áreas do riso. De outro. 1972). adaptá-las e. mas também muito interessante e ultrapassa a psicologia individual. orelhas e boca são os filtros do bem e do mal e devem ser usados para permitir que o bem entre ou se expresse. conceitos. 15 Cf. que explica as exigências de comportamento ao mesmo tempo físicas e espirituais. É um texto firmemente apoiado em um dos fenômenos mais importantes da Idade Média. ser impedido de se expressar. Nosso primeiro problema. o Grande. La Règle de saint Benoît (2 vols. Estas são quase sempre tão diversas que se chega a duvidar de estar-se falando do mesmo assunto. não faríamos progresso algum. e que nela se é salvo de corpo e alma: o bem e o mal são praticados através do corpo. análises e reflexões. de Vogüé.

finalmente. é um legado que se mantém vivo na Idade Média. Foi esse termo que deu nome a um dos principais personagens do Velho Testamento. há a teoria do alívio. em dossiês compilados. O legado bíblico é muito forte. Pelo menos até o século XIV a Bíblia permanece sendo “o Livro”. Time. E como definiríamos “troca”? Voltemos aos legados culturais que influenciaram os conceitos de riso no Ocidente medieval. que a evolução das atitudes culturais relativas a vários fenômenos pode ser percebida. É nesse jogo de citações. nos primeiros séculos da Idade Média. que significa “riso”. Este problema não foi suficientemente tratado por estudiosos. . Goldhammer (Chicago e Londres. É impossível levá-la a sério. Estudei este método em relação ao trabalho: na Alta Idade Média. qualificados como as “formas eternas do riso”. é quase uma tautologia. 1980). segundo a qual as pessoas que riem liberam um comportamento que. resultante de sua tentativa de elaborar uma explicação única e sucinta: “o riso resulta de uma troca psicológica agradável”. 71-86. basicamente. ponto de partida de suas reflexões. talvez ainda mais neste caso. teria expressão e conseqüências muito mais difíceis. Estamos bem munidos para nossa investigação. Entre as teorias do riso propostas. para os quais o hebraico possui duas palavras bem distintas. A primeira palavra é interessante para os medievalistas porque. mas também por definir três tipos de riso: o espirituoso. mas em formas novas e renovadas. No livro de Freud sobre humor. tentam entender um fenômeno e formar uma opinião. em que Freud analisa o humor e a piada. pp. a unidade deriva de seu método de análise. elaborada a partir de sua idéia da percepção de uma ação mecânica na qual devia ter havido algo espontâneo. Work and Culture in the Middle Ages. “riso zombateiro. dependendo da época. Quando as pessoas da Idade Média. nem mesmo pelos maiores deles. (N. naturalmente. a saber. É surpreendente que ele não tenha exposto o problema da unidade do riso. na percepção de algo fora dos padrões normais da natureza ou da sociedade. compilaram dossiês sobre a maioria dos principais problemas enfrentados em sua sociedade.* um dos grandes trabalhos sobre o assunto. o cômico e o bem-humorado. todas as reflexões teóricas e regras práticas partem dela. e a outra é lâag. a separação entre dois tipos de riso bem diferentes. quanto em monografias. e é revelador notar que. Os clérigos e os intelectuais sempre procederam deste jeito e. A segunda é a teoria da incongruência: o riso se origina. A. os clérigos em particular. Há toda uma literatura sobre o nome Isaac no pensamento judaico. desenfreado”. John Morreall destaca três principais: a teoria da superioridade. “riso feliz.) 16 J. os intelectuais cristãos compilaram um dossiê que começa com todas as citações bíblicas referentes ao trabalho ou que pudessem ser citadas a propósito do trabalho. Isaac. fiquei surpreso por descobrir que ele raramente considera o corpo. Morreall propõe uma nova. de 1905. Esse é também o caso do riso. no Talmud e nos * O humor e sua relação com o inconsciente. Tendo exposto essas três teorias. E. Le Goff. de outro modo. tanto nos dicionários da Bíblia e do Novo Testamento. Embora tenha empregado o mesmo método para definir e analisar essas três formas de riso. A primeira é sâkhaq. da T. maligno”. já que há vários artigos bons sobre o riso no Antigo e no Novo Testamento.16 Esse é um jogo muito importante. certos textos são citados e outros são ignorados. trad. Parece-me que a distinção básica do Velho Testamento continuou a ter peso por um longo período. referem-se primeiro à Bíblia. não de uma unidade objetiva real dos fenômenos estudados. segundo a qual a pessoa que ri essencialmente tenta dominar um interlocutor ou alguém que o encara por causa do seu riso. essa é a teoria proposta por Bergson.

A confusa Sara diz a Jeová que ela. Sara abertamente põe-se a rir. Acho que os esforços do pensamento medieval para distinguir o riso bom do mau apenas dão continuidade a essa separação. certamente. demoras. subrisus. a relação entre textos e imagens. 2. . deslocamentos e. discrepâncias. Uma criança nasce para Sara e Abraão. Pléiade (2 vols. da qual há coleções do século VIII em diante. entre iconografia e tema. Por outro lado. É uma preciosidade cômica. ao mesmo tempo. assim como sobre os curas. nossos bons monges certamente tiveram momentos de diversão nos mosteiros. Na minha opinião. Há anedotas sobre monges. Mas assim tiveram que fazer devido ao latim. Tem-se a impressão de que. que é então chamada “riso”. pp. vol. O outro lado do problema é como fazer com que as pessoas riam através de obras de arte. Algum tempo depois Jeová aparece a Sara e lhe diz: “Serás mãe”. O RISO E A SOCIEDADE Entre os problemas encontrados há também o da relação entre o riso e a sociedade. joca monacorum. Abraão: “Será que um centenário vai ter um filho e que. 525-43 (“De l’essence du rire et généralement du comique dans les arts plastiques”). vê- se o sorriso brotar em pinturas e esculturas: os famosos anjos sorridentes. ed. e ela foi assimilada com esforço. por muito tempo subrisus não significou “sorriso” e sim “riso à socapa”. como fazia com freqüência. O grego possui duas palavras derivadas da mesma raiz: gélân e katagêlan. isto é. não se encontra tentativa alguma de representar o riso. o cristianismo bloqueou esse aspecto zombeteiro do riso. “riso furtivo”. Paris. no qual as virgens sábias sorriem e as tolas riem às escondidas. uma imagem pode exibir silêncios. parece haver mais do que apenas uma persistência conceituai dessas duas formas de riso e que as sociedades cristãs do passado tiveram grande dificuldade em considerá-las como sendo o mesmo tipo. Trata-se de uma questão que considero interessante e fundamental. muito sensato. O latim só possuía risus. tu riste”. Observemos os capítulos do Gênesis (17 e 18) nos quais o nascimento de Isaac é anunciado. na verdade. Um dia Jeová aparece a Abraão. Só se tornou “sorriso” após uma clara mudança de valores e comportamentos — talvez no século XII? Me pergunto se sorrir não é uma das criações da Idade Média. o riso malicioso. De quem e do que se ria? De grupos ou de classes? Nossos monges deviam respeitar os seus “sins” e “nãos” específicos. 17 Um texto importante a esse respeito é Baudelaire. mas tem suas considerações. Este é um texto surpreendente e. Isaac. não rira durante a predição. O latim teve muita dificuldade em formar tal palavra. e lhe diz: “Serás pai”. Observando-se as representações artísticas do nascimento e da história de Isaac. através do cômico e da caricatura. o tema das virgens sábias e tolas. que era um riso ilegítimo e proibido. por muito tempo.17 Esse é um problema que surge bem tarde. No ano seguinte o evento acontece. aos 90 anos. mas. judeus e armênios. Oeuvres complètes. certamente. o grego possuía uma palavra para sorriso. 1958). Comparada a um texto. Havia um risus monasticus. definido como sendo especificamente mau. Eles até mesmo criaram um tipo de piada escrita. Sara vai dar à luz?” Abraão mantém-se em silêncio. Jeová finge acreditar mas finalmente diz: “Sim.comentários rabínicos. Gélân é o riso natural e katagélân.

eles contavam histórias sobre senhores feudais e sobre guerreiros. O objetivo era contar a história mais extraordinária sobre feitos heróicos. mas entre si. no Percival de Chrétien deTroyes. e que misturou ficção com realidade. ele pode nos revelar as estruturas de uma sociedade e seus modos de funcionamento. Tanto para o riso como para a comunicação. Há outros temas surpreendentes. Carlos Magno e seus doze companheiros. Fui surpreendido por um paralelismo de atitudes e evolução entre o riso e outro fenômeno que cheguei a estudar — o sonho. nos mostra como. contando gabs. Eles podem ser encontrados nos mais antigos textos cômicos que nos restaram. prevalece. Havia um riso feudal maravilhoso.19 Também há a repressão e a sufocação do sonho. Georges Bataille escreveu que “o riso é a forma específica da interação humana”. do século IV ao X. Falei sobre o riso antropológico e a ligação entre o riso e o folclore. Era assim que os personagens passavam uma boa parte de seu lazer. a criança que ri no momento em que vai ser morta ou. . do qual o riso durante a Páscoa (risus paschalis) é o exemplo mais importante. Isso mostra que. o gab (tagarelar). Mas não nos esqueçamos de que. a sátira e a paródia se desenvolvem e dentro da Igreja surge um controle do riso. 19 J. encontramos no próprio ambiente monástico o contraponto da joca monacorum. aterrorizaram o espião enviado pelo imperador para sondar seus planos. Ao observarmos como ele atua. um tipo de divertimento feudal semelhante aos tall stories (contos fantásticos). como anfitriões do imperador de Constantinopla. Ostermärchen und Ostergelächter (Frankfurt e Berna. Outro tipo é o riso ritual. escatológicos e obscenos. Em todo caso. os componentes eróticos. 1980). pp. Em decorrência disso. invenção e inspiração. mesmo nos períodos em que teorias hostis ao riso parecem predominar. é a época da liberação e do controle do riso. assim como dos sonhos e dos 18 V. no qual vejo também um certo paralelo com a história do sonho e do gesto. A sociedade começa a se olhar no espelho e os Estados seculares percebem como são ridículos. Há pouco falei sobre o que eu chamo de “deslizes”. seja em termos teóricos ou práticos. Uma chanson de geste bem antiga. Um segundo período. 193-242. a Pèlerinage de Charlemagne. longe da batalha. ligada inter alia à ascensão da laicidade e à literatura vernácula. durante o qual o modelo monástico. Wendland. Era um turbilhão de imaginação. neste meio há um gênero literário que tende à direção oposta e parece escapar à repressão. creio eu. Vamos falar sobre o riso em grupos. que são muito importantes.18 CONCLUSÃO Elaboremos agora uma síntese provisória e um esboço cronológico. 1988). nas mais antigas chansons de geste. a jovem que não rira por seis anos. The Medieval Imagination (Chicago e Londres. sobretudo na literatura — por exemplo. Quando os homens não estavam nos aposentos das mulheres. já que o riso diabólico hipnotiza as pessoas. assim como há a repressão do riso. um período de riso reprimido e sufocado. se este é um período no qual as lágrimas parecem submergir o riso. Cortar ao meio um cavaleiro e seu cavalo com um só golpe de espada era o menor de tais exageros. Le Goff. Também falei sobre o “relacionamento jocoso”. Há um primeiro período. uma prática que dificilmente reprime o riso consegue ainda sobreviver.

Francisco fala a seus irmãos: “Nas atribulações. Vercauteren. dominada pela Igreja. O Ministro Geral mostrou a esses jovens que eles não deveriam exagerar: São Francisco não passara a vida em riso desvairado. Há uma série de textos fascinantes (que darão origem a muitos outros) relativos ao termo hilaris. Theory and History of Folklore (Manchester. segundo Bakhtin. Vladimir Propp era igualmente interessado no assunto e Gurevich analisara criticamente as idéias de Bakhtin sobre o riso.24 De um modo geral. Graças à perestroika. Capítulo 4 deste livro. Em geral.gestos. 1984). também. meu amigo Bronislaw Geremek. Finalmente. na presença daqueles que o atormentam. The Court Society. a expressão “o doador sorridente” (hilaris dator) começa a aparecer. escrita por um franciscano inglês do século XIII. Bakhtin. org. Propp. De adventu fratrum minorum in Angliam. E. 1983).20 A seguir. “Smechovoj mir” drevnej Rusi (Leningrado. Um bom estudo de Fernand Vercauteren mostra como. hilaris se aplica ao rosto: vultus hilaris significa um rosto feliz. trad. Tvorcestvo Fransua Rable i narodnaja kultura srednevekovja i Renessansa (Moscou. são novamente as cortes reais que funcionam como o centro da domesticação do riso. Possuímos um texto que é sua contraprova: a narrativa da chegada dos franciscanos à Inglaterra nos anos de 1220 a 1223. temos aqui uma escola completa de especialistas em riso que. “Avec le sourire. mas certamente não um rosto hilário. trad. que aceitara jovens membros. No nível das práticas. N. pp. que ele considerava fundamental e que fora traduzido para o alemão. 1968). R. Iswolsky como Rabelais and his World (Bloomington. pp. S. 2a ed. M. encontramos o riso escolástico e o estabelecimento de uma casuística do riso. chegamos ao riso “desenfreado” e às teorias de Mikhail Bakhtin. Jephcott (Oxford. em Mélanges offerts à Rita Lejeune (2 vols. famoso medievalista polonês. trad. Lichacev e A. conhecemos os elementos essenciais do seu trabalho. creio. 1991). Por volta de 1980. 23 M.”.22 Ela relata que o mosteiro franciscano em Oxford. .. De maneira oposta. Sherley-Price como The Corning of the Franciscans (Oxford.21 Não basta a um doador fazer a doação. S. O riso. alemã como Die Lachwelt des Alten Rusland. inglesa H. Thomas de Eccleston. O riso realmente se torna uma forma de espiritualidade e comportamento. trad. Suponho que isso signifique que as doações estejam se tornando cada vez menos importantes e. o Renascimento. permaneçam sempre hilari vultu”. V. Lachmann (Munique. e acabaram por perturbar as autoridades franciscanas. 1964). na forma hilaris. Assim. tentou aplicar as recomendações de São Francisco de maneira tão escrupulosa que eles se abandonaram a grandes crises de riso enlouquecido. 1984). se torna um atributo de São Francisco de Assis e uma das manifestações de sua santidade. enviou-me um livro de D. Quem é qualificado para rir? Que tipo de riso é permitido? Quando? Como? Tempo de rir e tempo de chorar — é com isso que São Luís se preocupa.23 Bakhtin pertenceu a toda uma escola de estudiosos soviéticos interessados no riso e no cômico. ele deve fazê-lo mostrando que o faz com satisfação. Gembloux. que estejam sendo feitas cada vez menos voluntariamente — o que sabemos que aconteceu de fato. 1965). reforça a importância do tema. cujo início ele data bem 20 Cf. 45-56. 24 D. Não creio que Norbert Elias esteja falando sobre esses aspectos do riso e do cômico. 124- 46 (publicado pela primeira vez em 1939). nem propusera tal modelo “hilariante” de santidade. Gurevich. agradável. a expressão corresponde quase exatamente ao que hoje chamaríamos um rosto sorridente. 1. inglesa L. Elias. a Idade Média. 22 Thomas de Eccleston. Pancenko. 1976. 21 F. Lichacev sobre o riso. 1969). foi uma época de tristeza. mas eles se ajustariam bem às suas categorias e teorias. Foi por este motivo que a fórmula “doador sorridente” foi imediatamente adotada.. nas escrituras do final do século XI. vol.

Essa é a batalha entre o riso e o anti-riso. que é muito próximo e. que talvez seja a contribuição mais importante de Bakhtin à temática do riso.anteriormente. Esta é uma tese bastante contestável. não para o francês ou o inglês. Além disso. ela foi traduzida para o alemão (Lachkultur) mas. mas pode-se extrair algumas idéias de Bakhtin: em primeiro lugar. também uma expressão disso. mesmo que precise ainda ser qualificada. o seu tema de uma relação com a cidade e a área pública é muito interessante. A área pública é o lugar onde o riso surge. Comparado a um outro tema. seria a batalha entre o carnaval e a quaresma. “a cultura do riso”. Eu creio que podemos redescobrir a importância do riso no funcionamento de práticas culturais e sociais. Mas não havia um riso camponês? Ou teria sido apenas depreciado e reprimido como o riso de outras classes menosprezadas na Idade Média — as das crianças e das mulheres? Finalmente. há esta boa expressão. foi o grande momento da liberação do riso. Houve uma cultura do riso com todas as suas implicações. infelizmente. uma periodização do riso. . de certo modo.

a verdadeira imagem dessa realidade. crenças. Imediatamente compreendemos que Bakhtin tinha tocado um novo universo de idéias. Suas obras continuam sendo bastante aceitas entre os historiadores da cultura. mostrou a questão principal e muito importante que é a cultura popular. Os editores procuraram preservar a qualidade oral da palestra de Gurevich. Como se sabe. portanto. . do complexo formado pelo comportamento humano e pelo conjunto de valores. amor. o carnaval era a destilaria dessa cultura popularesca. surge o perigo de destruirmos. É muito difícil * Devido à perda da visão. eu gostaria de fazer algumas observações sobre Bakhtin e sua teoria sobre o carnaval. Aqui. eu deveria me concentrar em seu estudo principal sobre François Rabelais e a cultura do carnaval medieval e renascentista. “Un Diogene alia ricerca dell’uomo: Aaron Gurevic”. Suas obras impressionaram profundamente o público em geral. e continua bastante contraditório. a cultura dos homens cultos. não só em meu país como também. H. Iswolsky como Rabelais and his World (Londres. No outro pólo da cultura medieval. por meio deste procedimento. trad. ingl. em A. Bakhtin encontrou a tradição popular. 1965). a cultura da Igreja. pp. M. dominada pelo riso. o cômico. 1 Cf. 87-153. é difícil negar que sua idéia é muito fecunda se a utilizarmos com precaução. ou seja. Gurevic. Além disso. Na visão dele. Ele a classificou como séria. Bakhtin. O conceito de cultura popular não era muito difundido entre os historiadores antes do aparecimento do livro de Bakhtin. A primeira edição do livro de Bakhtin só foi publicada na Rússia em 1965. Era a cultura oficial.4 . o satírico. após um ostracismo de 25 anos. Entretanto.1 Mickhail Bakhtin foi um dos grandes pensadores russos da primeira metade deste século. J. Bakhtin traçou um quadro da cultura medieval dividida em dois pólos opostos. em muitos outros grupos de estudiosos eruditos. só falarei um pouco sobre ele e depois entrarei na discussão de sua teoria. veja C. 1991). Para um estudo informativo da obra de Gurevich. Esta cultura foi caracterizada por Bakhtin como uma cultura do agelastoi. liderança e comportamento — universo este denominado a Atlântida submersa. já que os estudiosos que tentam elucidar aspectos das atitudes mentais (a história dos sentimentos humanos como medo. das pessoas que nunca riam e que até odiavam o riso. amizade. editado e transcrito a partir de uma gravação. Lezioni romane (Turim. Um bastante sombrio. amedrontada e amedrontadora. A despeito dessas dúvidas. após a tradução de seu livro. Tvorcestvo Fransua Rable i narodnaja kultura srednevekovja i Renessansa (Moscou. ele examinou apenas um aspecto disso. mesmo assim. O texto foi. Bakhtin tratou a cultura popular da Idade Média e do Renascimento como uma cultura de carnaval ou do riso. Como o conteúdo de seu livro é familiar a todos que se interessam pela história do humor. Castelli. mas.Bakhtin e sua teoria do carnaval Aaron Gurevich* Uma história do humor me parece uma questão bastante discutível. tão logo tentamos extrair alguns aspectos da realidade de seus contextos vitais. 1968). Aaron Gurevich não pôde fornecer a versão escrita de sua apresentação oral feita no congresso de Amsterdã sobre o humor. Naturalmente. Sua proposição era que o riso representava a característica principal da cultura popular. Seu livro foi uma revelação para todos nós. humor e assim por diante) necessariamente têm que extrair esses padrões de uma visão de mundo mais abrangente.

tão logo um historiador tenta analisar um carnaval acontecido em um momento específico e em uma cidade específica. Emmanuel Le Roy Ladurie. Considerando que Bakhtin estudou a cultura cristã medieval. acho importantíssimo acentuar a diferença entre o carnaval europeu e o mesmo fenômeno fora da Europa. um momento no qual os sentimentos populares estão livres de qualquer obstáculo. Torna-se. Fête et révolte: des mentalités populaires du XVIe au XVIIe siècle (Paris. Mas. muito difícil separar um único sentimento do conjunto muito mais abrangente e complexo de sentimentos e emoções das pessoas. deve-se levar em conta que. Ele tratou o carnaval como um fenômeno cujas raízes estavam num passado bem remoto. Há outro ponto que eu gostaria de enfatizar. um período muito conhecido como as batalhas dos huguenotes. no qual os nobres da cidade atacaram os artesãos e mataram muitos deles. . estabelecer um elo entre o carnaval medieval e os antigos saturnais e bacanais. 2 E. e o livro de Bakhtin foi aprovado por etnólogos e antropólogos com grande euforia. ódio e massacre poderiam ser os ingredientes do carnaval. porque na história verdadeira o riso e a alegria andam lado a lado com o ódio e o medo. Le carnaval de Romans (Paris. o quadro torna-se muito mais complicado. 1976). os etnólogos tinham conhecimento dessa idéia. há alguns traços de luta e revolta que foram registrados na textura latente do carnaval. ocorrido no início de 1580. Ele liga essa cultura à idéia de “massa popular coletiva imortal”. com manifestações dos cidadãos. entretanto. Le Roy Ladurie. os etnólogos estudam as características que poderiam ter relação com as festas de carnaval de tribos e povos não-europeus. mas logo se transformou num massacre cruel.encontrar no livro de Bakhtin uma definição perfeita da cultura popular como a cultura do riso. a festividade foi se transformando no tipo de guerra civil que se difundiu pelo sul da França no final do século XVI. Conforme destacou outro historiador francês. Não apenas alegria e humor. portanto. É neste ponto que inicio minha crítica. não só festa e descanso da população. quando o inverno cruza com o verão.-M. um eminente historiador francês. O carnaval é uma marca que surge em espaço de tempo anual: todos os anos. chega o carnaval. Há algum tempo. Yves Bercé. 1979) 3 Y. geralmente. uma cidade do sul da França.2 O carnaval começou como sempre. mas já que nossa preocupação é com a realidade da história medieval e do Renascimento. Portanto. seria possível. partindo de seu ponto de vista. Bakhtin não se interessou por qualquer outro aspecto dela. Durante muitos anos. o quadro parece ser bastante diferente. O trabalho de Le Roy Ladurie é muito importante no contexto de nossa análise da obra de Bakhtin. Vamos exemplificar: Bakhtin via no carnaval apenas uma festividade. Assim. Bakhtin trata a cultura popular como uma cultura absolutamente isenta de qualquer forma de fobia ou medo. Talvez isto fosse verdade se estivéssemos tratando de um aspecto filosófico bastante abstrato. Porém. porque este enfatizou o aspecto etnológico do carnaval pelo fato de ser apresentado todos os anos e cada novo carnaval ser semelhante ao anterior. publicou um livro sobre um carnaval em Romans. como ele expressou — um corpo que está morrendo e imediatamente renasce. excetuando o riso. Parece bastante estranho que em seu livro Bakhtin nunca mencione o cristianismo ou o deus cristão: a cultura popular na Europa medieval e renascentista parece existir isenta de qualquer conteúdo religioso ou sem qualquer ligação com a religião.3 Isto me parece uma observação bastante importante. com danças e canções. mas também crueldade.

antes do carnaval autêntico. tal visão é muito difícil de ser aceita. o riso não era estranho à Igreja. a cultura do riso? Quando estudamos profundamente as fontes medievais verificamos que. e o medo da condenação eterna era parte essencial de sua visão de mundo. Nesses exempla há um grande volume de material que poderia ser considerado importante para a história do riso e do humor. essa idéia 4 J. O carnaval é uma grande festividade nas cidades medievais desenvolvidas. Porém. encontramos somente no final da Idade Média. no início do Renascimento. em geral. Como podemos combinar estas emoções contrastantes? Este é um problema pouco elucidado pelos historiadores. inseridas nos sermões monásticos e clericais. desde o começo do século XIII eram. Esse medo era muito intenso. seu medo era. Monges e clérigos tinham um papel ativo no trajeto do carnaval muito antes da época de Rabelais. Menache. parece absolutamente impossível caracterizar a cultura popularesca como uma cultura baseada primeiramente e sobretudo no riso e na alegria. Ele só apareceu naquele período específico da história européia no final da Idade Média. Para um historiador. psicologicamente aliviado por sua atitude em relação ao riso e à felicidade. em primeiro lugar. portanto. L’humour en chaire: le rire dans l’église médiévale (Genebra. Somente através dessa combinação podemos compreender melhor a cultura popular da Idade Média. o carnaval é uma expressão da cultura do riso. não é um traço da cultura popular em todas as diferentes épocas. 1994). carnaval e terror. Todos os indícios da História que poderiam ser interpretados como aspectos do carnaval não são anteriores ao fim do século XIII e começo do século XIV.4 Isto é também ilustrado pelos chamados exempla. mas é possível insistir que a cultura popular medieval seja. com seu novo tipo de população concentrado em um território e se desenvolvendo dentro de uma nova forma de cultura medieval. Assim. Inicialmente. Apenas recentemente uma nova pesquisa realizada por historiadores de Israel demonstra de maneira muito clara que a Igreja não se opunha ao riso. com enredo elaborado. a maioria das pessoas simples iria para inferno. a tradição de inverter as ordens social e religiosa estabelecidas. Por outro lado. Alegria e medo estavam intrínseca e intimamente interligados. ele imaginou que fora do período do carnaval as normas do governo existissem na cultura popular — o conceito de ordem segundo o qual o mundo inteiro estava organizado. naturalmente. antes de tudo. Assim. O carnaval como festividade completa. podemos afirmar que no bojo da cultura popular havia alegria e medo. . Mas eu gostaria de acentuar que é possível falar apenas de um suposto carnaval. Outras objeções me ocorrem quando penso no tratamento que Bakhtin deu ao carnaval como um fenômeno cujo começo ocorreu em tempos imemoriais. O carnaval. Naturalmente. Se analisarmos as fontes históricas. grandiosa. tais como danças. A explicação parece clara. ainda que em tempos mais remotos possamos. logo veremos que um de seus principais aspectos era o medo. minha maior objeção é a seguinte. porque estava associado à idéia de que. até certo ponto. mas eu me permitirei adiantar a seguinte hipótese: exatamente porque a maioria das pessoas não conseguia se libertar desse medo da condenação eterna. canções e outras representações. Bakhtin destacou que no cerne do carnaval estava a idéia de subverter a realidade. Horowitze S. após a morte. observar alguns aspectos das festividades que marcavam a transição do inverno para a primavera. breves narrativas didáticas que.

havia um nível de existência humana real com todos os seus sentimentos. por sua vez. Podemos notar que na imaginação popular esse quadro poderia ser facilmente transferido para algo bem diferente. que parecem estar perfeitamente claros na ideologia reconhecida. não era tão arraigada no conceito popular quanto o era na mente dos intelectuais.5 no qual procuro demonstrar que. suas emoções e idéias correntes muito distantes da ideologia oficial. sob este nível de expressão. Na Rússia moderna anterior à perestroika. há muitas histórias sobre demônios que lamentam ser compelidos a deixar o céu e seguir Lúcifer para o inferno. Por outro lado. e o mesmo poderia ser dito do comportamento do próprio Cristo. de acordo com a teoria aceita. Eles tentam se reconciliar com Deus e chegam até a se confessar mas. 1045-63. naturalmente. Gurevich. se subordinavam umas às outras. o universo era dividido em camadas diferentes que. de modo que Deus e os anjos. entre o céu e o inferno. Assim. onde ele fez conferências no instituto pedagógico e ficou afastado de muitas fontes tradicionais e da moderna literatura estrangeira. De qualquer forma. em absoluto. in Santi e demoni nell’alto medioevo occidentale = Settimane di studio del Centro italiano di studi sull’alto medioevo. esses limites entre o bem e o mal. Ele poderia abandonar sua cruz. Em um nível (o nível superior. . na base dessa pirâmide. cheguei à conclusão de que essa organização rígida do universo. mas como criaturas que não eram. Parece que tal contraste entre o nível de vida aceito e o verdadeiro conteúdo da existência foi transposto por Bakhtin para o distante período da Idade Média. não são tão claros e tão polarizados na imaginação popular. pp. 36 (Spoleto. proclamada por teólogos e filósofos. não podem ser salvos porque o pecado do orgulho impede a reconciliação com Deus. O santo que estava zangado com seu devoto poderia bater nele e até matá-lo. o que claramente contrasta com os fatos comprovados pelos estudos históricos. Resumindo. 5 A.parecia absolutamente verdadeira. Mas suponho que sua teoria sobre o carnaval foi produzida por alguns impulsos diferentes. Abaixo deles havia um nível de seres humanos e. mas também uma característica real de religiosidade popular cotidiana. “Santi iracondi e demoni buoni negli ‘exempla’”. Logicamente. ficavam no topo. mas permanece a questão: por que Bakhtin descreveu de modo unilateral o riso e o carnaval na Idade Média. ficava o inferno habitado por demônios e pelos pecadores que se tornaram vítimas do poder demoníaco. de natureza diferente de personagens endemoniados. juntamente com os santos e outras pessoas eleitas. Mas. oculto da perspectiva oficial. visível) havia uma realidade ideológica com todos os seus slogans e falsas idéias. mas depois de ter estudado as fontes da Igreja que poderiam ser associadas às tradições populares. Bakhtin transpôs alguns aspectos da vida contemporânea na Rússia stalinista para a época da Idade Média e do Renascimento. Ao construir uma polaridade absoluta entre a cultura oficial e a cultura popular do carnaval. Encontramos santos que se comportaram não tanto como representantes de valores superiores. castigar um pecador e até matá-lo. Nesta seqüência. eu me permito mencionar o meu trabalho intitulado “Evil saints and good demons” (Santos endemoniados e bons demônios). tendo sido exilado para a pequena cidade de Saransk. eu gostaria de destacar que essa obra de Bakhtin foi muito proveitosa por ter trazido enorme estímulo intelectual a novas pesquisas. Bakhtin trabalhou longe de Moscou e de São Petersburgo. por detrás dele. havia dois níveis absolutamente diferentes de realidade. a tendência para virar o mundo de ponta-cabeça era não apenas inerente no carnaval. 1989).

13. alguns dos trabalhos mais fecundos. os monges. Sugiro que o problema seja equacionado de maneira diferente. mas eu gostaria de concluir minha participação dizendo que. Tendo em vista o conceito de “cultura popular” introduzido principalmente por Bakhtin. É muito vaga. Embora isto não tivesse ocorrido de forma consciente ou intencional. A teoria de Bakhtin sobre o carnaval na cultura popular é unilateral e. foram obra de historiadores com idéias bastante unilaterais. Portanto. org. portanto. Assim. os prelados da Igreja. Gregory of Tours (c. ela queimou-se.539-94) descreve em detalhes as querelas teológicas entre padres católicos ortodoxos e os sectários do arianismo. Todos eram cristãos e. do outro. tinham pontos em comum com a cultura e a religiosidade das pessoas cultas. portanto. Darmstadt. Prefiro. Um anel foi lançado em um caldeirão de água fervente e os disputantes deviam retirá-lo de lá. prefiro não tratar da cultura popular de uma forma definitiva porque desconhecemos o que foi tal fenômeno. à cultura dos intelectuais de um lado e. Nesse trabalho hagiográfico ele conta que uma discussão entre os padres católicos e arianistas ortodoxos foi solucionada por meio de uma provação. E também do carnaval. a cultura do povo.81). mesmo as pessoas mais incultas possuíam alguma informação quanto aos conceitos e crenças cristãos. cabe enfatizar que esta idéia não é muito adequada. e todos a aplicam a seu modo. porque havia muitas ligações entre a Igreja e o povo até a Reforma. Todos que viveram na sociedade cristã medieval pertenciam a níveis culturais diferentes. tal transposição da situação presente para o passado ocorre periodicamente em pesquisas de fatos históricos. 1970-2). . 6.Na realidade.6 Gregory retorna a um episódio semelhante em seu Libri miraculorum (1. Em sua History of the Franks (História dos francos). dos iletrados. Assim que o arianista pôs sua mão na água para apanhar o anel. intelectualmente estimulantes. Sendo assim. Cabe lembrar que todas as informações que podemos reunir sobre a cultura popular temos que tirar de fontes escritas. 5. deviam-se às circunstâncias em que Bakhtin viveu. Contudo. porém. 40. Este é um dos paradoxos da história da cultura. no estudo da história cultural. a oposição entre cultura erudita e a cultura popular é uma contradição peculiar da mente medieval.43. Na minha opinião. Naturalmente. portanto. Em seguida um monge católico tentou pescar 6 Historiae Francorum (Gregorii episcopi Turonensis Historiarum libri decem). lembrando que na mente de cada um existiram níveis diferentes. os eruditos e os teólogos dispunham de muito mais informações e conhecimentos sobre a verdade cristã do que as pessoas comuns. que eram mais características da mentalidade do povo simples. R. Posso citar aqui apenas um exemplo. cf. falar da cultura medieval grosso modo. Buchner (2 vols. E esses documentos foram preparados por representantes das camadas sociais cultas. portanto. os dados sobre a cultura popular são sempre transformados e reinterpretados pelo erudito. os camponeses e os artesãos. 10. e ele conclui com a observação de que essas disputas terminaram sem qualquer resultado decisivo: nem católicos nem arianistas venceram. o problema não se limita à oposição entre cultura erudita e cultura popular. Algumas distorções da visão de mundo medieval. historicamente incorreta. a distância não era tão clara. Um nível se relacionava com a cultura oficial e a religiosidade e o outro estava ligado a crenças e às chamadas superstições.5.

Havia duas facetas da mesma verdade e Gregory expressou-as de maneira diferente em virtude das diferentes exigências retóricas e estéticas de ambos os estilos nos quais ele escreveu. que era capaz de combinar abordagens diferentes para a mesma verdade religiosa. Agora levanta-se a questão quanto à pretensão de Gregory of Tours ao escrever esta história. Mas para mim o mais interessante é que Gregory tinha a possibilidade de examinar o mesmo fenômeno relacionado com a vida religiosa partindo de dois pontos de vista: não há contradição interior em sua interpretação dessa disputa entre arianistas e católicos.o anel e. Esta ausência de contradição parece ter sido o aspecto essencial de seu pensamento. eu acredito que o problema formulado por Bakhtin como uma nítida oposição entre a cultura erudita e a popular parece ser necessariamente transformado no atributo interno do espírito medieval. alguma interpretação estilizada. depois de procurar algum tempo. muito simplificada? Suponho que a resposta seja negativa. . É possível supor que em um exemplo ele nos deu uma informação verdadeira sobre a contenda e no outro. ele conseguiu encontrá-lo sem queimar o braço. Desse modo. Portanto. que combinava abordagens diferentes para a mesma questão. a contenda foi resolvida do modo mais claro pela provação.

Keith Thomas2 dedicou uma palestra ao “lugar do riso” no início da Inglaterra moderna. 1968). Daí a existência de um lugar para a história do riso. assim como são difíceis de traduzir de uma cultura para outra. 3 Robert Darnton. O que faz uma geração rir tem pouco efeito sobre a seguinte.4 Freud. Segundo. 5 Sigmund Freud. 21 de Janeiro de 1977.. Nos primórdios da Europa moderna. Na década de 1960. ing. brincadeiras que outrora eram aceitáveis em lugares públicos dignos. há dois objetivos relacionados com a mudança. as mudanças a longo prazo nas piadas sugerem uma possibilidade de argumentos em favor da existência de um nível intermediário entre os mundos consciente e inconsciente. as piadas sobre maridos enganados hoje fracassam. Michael Mulkay. sugeriu que o riso subversivo institucionalizado no carnaval era tolerado pelas autoridades da Igreja e do Estado na Idade Média e no Renascimento. Qual o objetivo da história do humor? Na verdade. que eram vistos por eles como imutáveis. mas reprimido daí em diante. rev. No nível psicológico mais profundo. foram oficialmente banidos deles. talvez ele esteja certo. as atitudes em relação ao humor têm mudado ao longo do tempo. Bakhtin. . Primeiro.. Times Loiterary Supplement.Fronteiras do cômico nos primórdios da Itália moderna Peter Burke A brincadeira — ou o riso — tem seu lugar entre os objetos na nova história sociocultural. 1984). O desafio para o historiador cultural é historiar a teoria de Freud. as piadas mudam com o passar dos séculos. Na década de 1970. Nesse nível. Rabelais and his World (trad. é claro. Mass. porque sua idéia do surgimento do autocontrole e da elevação do “limiar do constrangimento” é tão aplicável ao humor quanto aos modos à mesa.5 Sua ênfase no humor com expressão de ansiedade nos oferece uma importante alternativa à visão do riso liberador de Bakhtin (que na verdade foi apresentada como alternativa à de Freud). Também se poderia recorrer aqui a outro teórico cultural. Apesar disso. Nos anos 80. 1984). Jokes and their Relation to the Unconscious (Ed. “The Place of Laughter in Tudor and Stuart England”. 4 Vladimir Propp. “Ritual Laughter in Folklore”. enfatizando o que descreveu como função liberadora do “riso popular”. Aumor and Laughter: na Anthropological Approach (Ithaca. Norbert Elias (embora ele tenha poucas coisas explícitas a dizer sobre o riso). achava que as piadas revelam desejos ou ansiedades inconscientes subjacentes. 2 Keith Thomas. como demonstram as remontagens da comédia elisabetana ou da 1 Mikhail M. 1985). Bakhtin. The Great Cat Massacre (Nova York. não despertam mais interesse. por exemplo. 1988). Michael Apte. Nova York. as brincadeiras mudam com o passar do tempo porque os objetos de ansiedade também mudam com o passar do tempo. São difíceis de traduzir de um período para outro.5 . uma brincadeira macabra feita por alguns aprendizes parisienses do século XVIII com os mestres e senhoras. Cambridge. como igrejas e cortes. On Humour (Cambridge. 1965). Por exemplo. como para a sociologia ou antropologia do riso. em Theory and History of Folklore (Manchester. Robert Darnton3 contou a história do “grande massacre do gatos”. Bakhtin1 fez do assunto o tema central de seu estudo sobre Rabelais.

últ. giocare. Os adjetives eram. beffa. ing. estão burlare. Entre os verbos. legerezza. festevole. de “captar a alteridade”. onde. Esta é a justificativa para as muitas palavras italianas que aparecerão a seguir. Daí a necessidade da pergunta dos historiadores culturais: Quando uma brincadeira deixa de ser uma brincadeira? Quando. Australian Journal of Science. as variedades de humor registradas na Itália em fins do período medieval e início do moderno suas definições funções. por mais importantes que sejam. The Great Cat Massacre (Nova York. 26. de Boccaccio a Bandello ou. 263-8. grottesco. Um antropólogo certa vez descreveu acusações de bruxaria como uma “medida padrão” social que revelava as tensões específicas de determinadas culturas. scherzoso. piacevolezza e scherzo. giuocatore ou scherzatore. 1350-1550 Começaremos com um esboço desse “sistema”.pazzia. embora se fizesse uma distinção entre beffare e o mais brando porém mais contínuo beffeggiare. as divisas. para quem uma piada é engraçada ou não? Quais os limites. giuoco. A abordagem aqui aditada será antropológica. mottevole. em seu famoso ensaio sobre o Renascimento. 1878. nos concentraremos no que é mais estranho para nós no passado e tentaremos torná-lo inteligível. Civilization of the Renaissance in Italy (ttid. ed Harmondsworth. que poderíamos traduzir como “provocar”. enquanto o brincalhão era chamado de beffardo. 6 Max Marwick. buffone. de todos. havia um diversificado leque de termos disponíveis para distinguir as variedades de brincadeiras e humor. sciocco e outros. O SISTEMA DO CÔMICO NA ITÁLIA. burlona. Será feita uma tentativa para seguir o conselho de Darnton. giocoso. as fronteiras do cômico? Que diferenças elas apresentam diante de conceitos diferentes e como se transformam ao longo do tempo? O objetivo deste capítulo é tratar esses problemas concentrando-se em um único gênero cômico. No italiano da época. burlesco. 7 Robert Darnton.6 As brincadeiras são outra medida padrão semelhante. beffatore. da Peste Negra à Contra-Reforma. 1990). Também se podem analisar as piadas em termos de agressão deslocada ou sublimada: guerra de classe.Restauração.7 Por essa razão a ênfase aqui recairá sobre o que deixou de ser engraçado. 8 Jacob Burckhardt. e não nas continuidades culturais. no sentido de nos manter perto das categorias e distinções nativas entre engraçado e sério. a brincadeira de mau gosto ou beffa. 1984). gêneros e assim por diante. em outras palavras. uccellare. “Witchcraft as a Social Strain-Gauge”. Apesar de Jacob Burckhardt. em outras palavras. conhecedores nesse campo. como logo revela a linguagem do período. étnica ou entre os sexos travada por outros meios. . burla. de uma maneira mais geral. A riqueza de vocabulário sugere que os italianos eram. facezia. na verdade. As palavras para a brincadeira incluíam baia. embora pareçam ter feito os contemporâneos de Shakespeare e Wycherley se acabar de tanto rir. os mais ricos: beffabile. dedicar algumas páginas perspicazes ao que chamou de “troça e humor modernos” (“der moderne Spott und Witz”).8 Mas sem dúvida interessava aos contemporâneos. reinserindo-a no que se poderia chamar de “sistema do cômico” contemporâneo. beffevole. o tema não atraiu muitos historiadores.

11 André Rochon. A paródia era outro gênero favorecido. peixes ou livros. org. . Nino Borsellino. Studies in Philology 55. As famosas coletâneas incluem as histórias atribuídas ao sacerdote Arlotto Mainardi e as colecionadas pelos humanistas Poggio Bracciolini e Angelo Poliziano. Paul Larivaille. The Italian Renaissance Garden (New Haven. 1969). de Gianbattista Lalli. 1962). Claudia Lazzaro.10 Assim como o verso sem sentido. Morgante (batizado com o nome de um famoso gigante). 13 Eugenio Battisti. o pênis dependurado sobre o casco. L’antirinascimento. eram demonstrações desse senso de humor. 1973). 1980). 1978). é sugerido pela inscrição “lasciate ogni pensiero” (“deixai para trás todo pensamento”).. e confirmado pelas observações em uma discussão da época sobre grutas. uma gigantesca boca do inferno de pedra. 2 vols. como L’Eneide travestite (1618). 10 Paul Grendler. construído a alguns quilômetros de Viterbo para um dos membros da família Orsini em fins do século XVI. como o anão da corte do grão-duque Cosimo de’Medici. Que esta parte do “Bosque Sagrado” era uma brincadeira. em que se diz que deviam ser providas de “máscaras assustadoras ou ridículas”. ridicularizava os romances de cavalaria. Vicino Orsini und der heilige wald von Bomarzo. del Priuli. M. “Architecture and Rhetoric in Giulio Romano’s Palazzo del Te”. vol. como nos falsos elogios de Francesco Berni e Ortensio Lando. (Worms. “erudita” ou popular. 1987). vêem-se choques visuais como o friso em que algumas peças parecem escorregar e os tetos em afrescos que parecem desmoronar sobre o visitante. embora beirando à blasfêmia. Pietro Aretino fra Rinascimento e Manierismo (Roma. Infinite Jest: Wit and Humor in Italian Renaissance Art (Nova York. em New Light on Old Masters (Oxford. Os retratos do pintor milanês Arcimboldo. nos Jardins Boboli em Florença. por exemplo.12 Talvez devam ser entendidos como uma espécie de brincadeira de mau gosto. A falsificação dos recém-descobertos “grotescos” clássicos incluía estátuas para jardins.14 9 Georg Luck. No Palazzo del Te. parodiava os livros corteses. Paul Barolsky. As histórias (novelle) eram muitas vezes cômicas. Gombrich. No que poderíamos descrever como “parque temático” privado de Bomarzo. projetado por Giulio Romano. parodiando Dante. Paul Barolsky.11 Também havia várias formas cômicas nas artes visuais. pançudo e sentado com as pernas muito abertas sobre uma tartaruga. Apreciava-se muito o paradoxo. enquanto as piadas adotavam com freqüência a forma de história. 1975). por exemplo. Infinite Jest: Witand Humor in Italian Renaissance Art (Nova York. 12 Ernst H. de liberação das convenções sociais. “Vir Facetus: a Renaissance Ideal”. abrangendo a comédia original de “pancadaria” de Arlequim na Commedia dell’Arte. de Pulci. L’antirinascimento (Milão. 1986). 1990).107-21. “Pouvoir (du) rire. do patrício veneziano Gianfrancesco Loredan. 1962). apresentado nu. (Milão. ou Epitafi giocosi (1680). facezie. 14 Eugenio Battisti. em Mântua. Ragionamenti. Ludovico Domenichi. 1985). Il cimiterio. Domenichi”. As contribuições do poeta barbeiro Burchiello a esse gênero foram imortalizadas por um novo verbo. de A. Théorie et pratique des fácéties aux 15e et 16e siècles: des facéties humanistes aux trois recueils de L. Gli anticlassicisti del’500 (Roma e Bari.13 Os jardins eram um lugar de diversão. 3 (Paris. Réécritures. 1978). combinando assim o sério com o cômico. que aparentemente funcionava como um local fresco para piqueniques. Incluíam a própria comédia. Morgante. que criava rostos com frutas. Horst Bredekamp. burchiellegare. A variedade de gêneros cômicos merece ser enfatizada. havia. Formes et significations de la beffa. 2 (Paris. Critics of the Italian World (Madison. Parodiaram-se a Eneida e os epitáfios em obras hoje esquecidas do século XVII.9 Os sermões muitas vezes continham histórias desse tipo. as últimas publicadas sob o nome do editor. que eram reunidas e impressas. de Aretino. Ana Fontes.

seção 85). por exemplo. scherni. Nuova Antplogia. suscita a questão dos limites do permissível. Vários italianos da época conquistaram fama inter-regional. em que direção. vestiu-se de frade e parodiou rituais eclesiásticos. ou mesmo do século XVII. Giovanni Della Casa distinguiu beffe de insultos apenas em termo da intenção do ofensor.17 Apesar disso. 1913-23). . que podiam ser encontrados na corte e em toda parte. 16 Francesco Malaguzzi Valeri. em Attraverso il’500 (Turim. em particular. período e grupos sociais envolvidos. Revendo de nossa própria época a Itália do Renascimento. pelo menos em uma ocasião. vol. que “não ofende. Francesco Malaguzzi Valeri. os limites ou fronteiras transgredidos são sempre instáveis. A ambigüidade também leva à questão da função. em um extremo do espectro. Lamaschem di Bertoldo (Turim. pois os efeitos na vítima eram mais ou menos os mesmos (capítulo 19). 1913-23). Nenhuma discussão do humor medieval ou do início do período moderno seria completa sem referência aos bobos profissionais. Assuntos religiosos podiam ser tema de brincadeiras sem causar ofensa. O riso era sempre um fim em si. entre eles Dolcibene. em certas ocasiões. Bertoldo. em Theory and History of Folklore. 9 (Manchester. The Fool (Londres. nani e Schiavi dei Gonzaga ai tempi d’Isabella d’Este”. 15 Alessandro Luzio e Rodolfo Renier. dijfamazioni. trattenimento. o Scocola de Borso d’Este em Ferrara (imortalizado nos afrescos de Schifanoia). o que parece mais surpreendente. de o risco atuar. 18 Vladimir Propp. seção 93). com quem. “Un buffone di Leone X”. 1916). 1935). ou pelo menos não muito” (livro 2. truffle. momento. 118 e 119 (1891). o Galateo (1558). 17 Arturo Graf. vol. Mais uma vez. No Cortesão de Castiglione (livro 2. e no outro. Em seu diálogo O cortesão (1528). sobre o quê? Embora a idéia de transgressão seja fundamental para o cômico. La corte di Lodovico il Moro. nessa profissão. offese. “Buffoni. Enid Welsford. como Fra Mariano na corte de Leão X. La drammaturgia della settimana Santa in Italia (Milão. os dois Gonellas. alfronti. o Diodato de Beatrice d’Este em Milão e o Fritella de Isabella d’Este em Mântua.16 Na introdução às histórias de Antonfrancesco Grazzini.15 A idéia do cômico ou do brincalhão não foi definida de maneira penetrante nesse período. 1976). como uma espécie de ritual. 1 (Milão. Baldassare Castiglione definiu a burla como um “engano amistoso”. uma senhora diz que mesmo os freis e as freiras tinham permissão de divertir-se nessa época e vestir-se com membros do sexo oposto. diporto. variando com o local. Poderíamos interpretar. Até onde se pode ir sem ir longe demais. Claudio Bernardi. 1990). em truques e insultos — inganni. mas dissimulada em entretenimento ou diversão — spasso. cap. região. ou ambivalência. Mattello. o riso oriental como riso ritual. Sacerdotes podiam ser bufões. 1 (Milão. Bernardo Bibbiena critica Boccaccio por uma piada que “passa dos limites” (passa il termine). Dois informantes do século XVI dão testemunho da dificuldade de delimitar as fronteiras. 1984). “Ritual Laughter in Folklore”. Piero Camporesi. passadas no carnaval. havia as limitações. Essa ambigüidade. Já se salientou a presença de elementos rituais no humor de uma figura cômica do século XVI. se não internacional. é a generosidade ou permeabilidade dos limites. em seu livro de conduta. ou estranho. La corte di Lodovico il Moro. um bobo da corte em Mântua.18 Logo veremos exemplo do riso como instrumento de vingança. trastullo —. ou poderia ser um meio para outro fim? Uma possibilidade a se considerar é a idéia do folclorista russo Vladimir Propp.

25 André Rochon.24 São ainda mais importantes nas setenta beffe em 214 nouvelle de Matteo Bandello.25 O material do século XVI também inclui peças. A. de uma peça pregada em um carpinteiro gordo pelo arquiteto Filippo Brunelleschi.20 O Decameron. . P. Rotunda. os antropólogos encontram o costume muito vivo entre jovens adultos. 1985). The Poetics of Manhood: Contest and Identity in a Cretan Moutain Village (Princeton. 1972). sobretudo em Florença. e Il marescalco. as beffe reaparecem nas histórias de Francesco Sacchetti. histórias e outras fontes. F. Rodini. é claro.19 Apesar disso.21 Mais tarde. Robert J.. org. Metaphors of Masculinity (Nova York. pois seus gostos não são pelo sexo oposto. 1975). de Boccaccio. org. 1955). uma diversão carnavalesca em que o Mestre do Cavalo na corte do duque de Mântua é informado de que o duque quer que ele se case. Descreve-se o incidente na peça como uma “burla” (Ato 5. No caso da categoria K 1200-99. de D. 1986). encontram-se nos contos de Masuccio Salernitano e Sabadino degli Arienti. Thompson fornece 27 exemplos (entre eles oito de Boccaccio). (Paris. Grazzini (Madison. da Andaluzia a Creta. truque ou beffa. 1980). No século XV. ocorrendo em dezoito histórias. 23 Claudio Varese. Más notícias para o sujeito.22 Há também a história anônima. giarda ou natta. Nas histórias de Antonfrancesco Grazzini (morto em 1584). para descobrir então que sua “noiva” é um pajem. por exemplo. Prosatori Volgari del Quattrocento (Milão. Formes et significations de la beffa (Paris.26 Para recapitular esse indício e colocá-lo em perspectiva comparativa. Rotunda. 1972).. Formes et significations de la beffa. Para a categoria X 0-99. beffare e beffatore oitenta vezes. e usam-se os termos beffa. 1970). Formes et significations de la beffa (Paris. a figura recorrente dos engraçadinhos no folclore mundial (incluindo a China. 1972). 26 André Rochon. Formes et significations de la beffa (Paris. do século XV. André Rochon. Os truques ocorrem ao todo em 27 histórias. “la capitale de la beffa”. enquanto em partes do mundo mediterrâneo. Cena 11). “Humor da Derrota”. Este exemplo é ainda mais interessante porque brinca com a idéia de identidade em um período que Burckhardt descreveu como uma era de individualismo.. vinte. org. parecia existir uma ênfase incomum nesse tipo de humor na Itália. 1972). Formes et significations de la beffa. Se as brincadeiras de mau gosto são ou não universais. 1972). restrita à península ou ao período discutido. 21 Giuseppe Mazzotti. de Maquiavel. Figuras como Panurge e Till Eulenspiegel (para não mencionar os fabliaux medievais) testemunham o amor pelas beffe na Europa do norte e central. não estava. como diz um crítico francês. “Engano em uma Posição Humilhante”. A BEFFA A brincadeira de mau gosto. 24 André Rochon. também conhecida como burla. 22 André Rochon. Formes et significations de la beffa (Paris. The Wold at Playin Boccaccio’s “Decameron” (Princeton. enquanto Rotunda oferece 19 Stanley Brandes.23 Quanto às beffe na nouvella do século XVI. org. 2 (Paris.. representa um óbvio ponto de partida para o estudo do gênero. de Pietro Aretino. África Ocidental e os índios norte-americanos) sugere que são no mínimo extremamente difundidas. encontramo-nas em toda parte. 20 André Rochon. “a beffa é a chave”.. mas ele vai até o fim da cerimônia. Michael Herzfeld. vol. Thompson dá quatro exemplos. como A mandrágora. org. e muitas vezes descrita em livros de anedotas. poderíamos cotejar a pesquisa mundial de lendas e contos populares do folclorista americano Stith Thompson com um índice de temas especializado da nouvella italiana.

La corte di Lodovico il Moro. Esse “caso” pode ter se transformado numa novella. lugares-comuns. em 1315. a fronteira entre o engano relativamente inofensivo e o logro ou agressão mais sérios.31 Não era muito diferente da prática italiana generalizada de jogar água nas pessoas durante o carnaval.32 Mais uma vez. mais exatamente os toscanos.27 Os italianos. As histórias são estilizadas. A ficção. em gioco e giustizia Nell’ltalia di Comune. projetada por Vignola para os Farnese.28 Outro testemunho vem dos arquivos judiciais. 1 (Milão. quanto às brincadeiras que ofendem e por isso levam a processos legais. 30 Tom V. Claudia Lazzaro. 1990). A dificuldade de definir as fronteiras do cômico é visível nesses arquivos. mas a carta foi julgada não difamatória e apenas “uma brincadeira. Il Gran Cardinale: Alessandro Farnese. onde Montaigne estava entre as vítimas. por exemplo. uma vítima de um ataque verbal (por meio de um soneto) queixou-se ao tribunal. São cheias de topoi. (Copenhaque. Cohen. é boa demonstração de fantasia. pegando os convidados de surpresa e encharcando-os até a pele. Il cortegiano ferrarese (Florença. 1955-8). Motif-Index of the Italian Novella in Prose (Bloomington. Na Bolonha do século XVI. Mas podemos tirar conclusões sobre a vida social com base nessa demonstração? Era a beffa um costume social ou apenas um jogo literário? As brincadeiras de mau gosto são famosas por terem sido representadas em algumas cortes na Itália renascentista. Essa forma branda de beffa era comum nos círculos aristocráticos.29 Também sugerem que o carnaval era a época preferida para beffe. org. ou em Ferrara sob os Este. parecem ter sido obcecados por esse tema. era inevitável alguém passar dos limites costumeiros e alguns casos terminarem no tribunal. da imaginação coletiva. Retornemos por um momento ao jardim do Renascimento. 29 Gherardo Ortalli. Patron of the Arts (New Haven e Londres. Esses arquivos sugerem que as tabernas eram o local preferido para beffe. Sixteenth-Century Journal 19 (1988). na verdade estavam sujeitas a uma dupla estilização quando circulavam por dois meios de comunicação. Dominic Rotunda. 1992).nada menos que 72. No norte da Itália. Gherardo Ortalli (Treviso e Roma 1993). como testemunha o caso de um misterioso rolo da corda em Roma. Alguns dos exemplos citados acima suscitam o problema dos limites da brincadeira. Sex and Gender (Baltimore. As mesmas histórias têm diferentes heróis. por exemplo. Motif-Index of Folk Literature. 1990). em 1551. no século XVI. É desnecessário dizer que há problemas para o historiador cultural tratar desse indício literário. projetada por Buontalenti para Francesco I de’Medici. evidentemente.30 A cultura material também fornece indício de brincadeiras. orgs. Stefano Prandi. assim como em Pratolino. dare la burla era uma expressão empregada para descrever falsas promessas de casamento. . 1942). 1990). 1913-23). 32 Edward Muir e Guido Ruggiero. 28 Francisco Malaguzzi Valeri. vol. quando sete judeus fingiram prender um napolitano. como no caso de uma peça pregada em um certo Furlinfan na aldeia de Lio Maggiore. “Il giudice e la taverna”. onde talvez houvesse fontes ocultas ativadas ao sinal do anfitrião. The Italian Renaissance Garden (New Haven. não no carnaval dos cristãos. oral e impresso. na época do carnaval judaico (Purim). 6 vols. por exemplo. e pode ser documentada em Caprarola. numa época em que as brincadeiras eram com muita freqüência ofensivas e os insultos às vezes assumiam formas brincalhonas. “The Case of he Mysterious Coil of Rope”. em Milão. 31 Clare Robertson.. sob os Sforza. contendo 27 Stith Thompson.

livro 33 Claudia Evangelisti. como no caso de Sabadino degli Arienti. ed. convidando-o. em outras palavras. que tinha um talento especial para meter-se em apuros. “Libelli famosi: processi per scritte infamanti nella Bologna di fine ‘500’ ”. Muitas vezes a beffa foi apresentada como “obra de arte”. n° 47). Annali della Fondazione Einaudi 26 (1992).algumas coisas risíveis”. na década de 1970. em que os governantes eram muitas vezes civis e não soldados. envergonhar e na verdade aniquilar socialmente rivais e inimigos. A beffa muitas vezes não era “pura” diversão. ou a um “piacevolo e ridicolo inganno” (livro 2. 1980). 1973). Grazzini. A cultura da Itália renascentista era agonística.35 3. isto é. 1955). como testemunha o relato da vida cotidiana em uma pequena cidade do sul da Itália. A não ser. Deveria proporcionar prazer estético. Quem conta a história é Maquiavel em sua famosa “Descrição da maneira como o duque Valentino (Cesare) assassinou Vitelozzo Vitelli”. A beffa era forma apropriada de brincadeira em uma cultura competitiva que também se poderia chamar de uma “cultura da trapaça”. foi chamado perante o tribunal do governador de Roma em 1603 (em companhia de outros pintores). esperava e recompensava era. Mesmo hoje. Não seria muito exagerado sugerir uma ligação entre sua posição política e seu interesse dramático pelas beffe. e a seus companheiros. Os títulos das histórias. na linguagem maquiavélica. ou. a entrar em seus aposentos desarmado e mandando estrangulá-los ali. n° 3. o pintor Michelangelo di Caravaggio. 1878. o tema de beffatore beffato. 34 Walter Friedlaender. que é o ponto de vista que se estimula que o leitor adote.35). The Poetics of Manhood: Contest and Identity in a Cretan Moutain Village (Princeton. se referem à “giocosa astuzia” (livro 2. mas em alguma outra parte expressa sua enorme admiração por Cesare. “sim”. livro 4. Michael Herzfeld. “remase vergognato” (n° 16) ou “resta vergognato” (nos 31. acusado do que seu colega Baglioni chamou de “versos em minha desonra”. parte 2 (trad. ing.33 Por outro lado. do ponto de vista do gozador ou dos espectadores. Maquiavel escreveu de uma maneira fria. pois se tem especial prazer com o que se chama de “il contracambio”. como às vezes é chamada) é outro motivo recorrente nas novelle (Bandello. e às vezes era descrita como beffa. Os títulos de algumas histórias reforçam essa percepção. .36 A vingança (bella vendetta. Civilization of the Renaissance in Italy. Harmondsworth. de um antropólogo britânico que descreve um pai perguntando repetidas vezes ao filho pequeno: “Sei furbo?” A resposta que queria. pensemos em Cesare Borgia e na famosa cilada que armou para os inimigos em Sinigaglia. livro 1. mas um meio de humilhar. além da mais óbvia Schadenfreude. Cinco outros comentários talvez ponham a beffa com mais firmeza em seu contexto cultural. é claro. últ. para adaptar a visão geral do Renascimento de Burckhardt. descarada. raposas em vez de leões. exemplificada em termos mais vívidos em Florença. por exemplo. Tratava-se de uma cultura em que a honra e a vergonha eram valores dominantes. o gozador gozado (Bandello. além de a história de Florença ser apresentada em termos dramáticos. 1. a de Bandello por exemplo. 35 John Davis. n° 6. os italianos aprovam explicitamente as pessoas astutas (furbó). é claro. por exemplo). Land and Family in Pisticci (Londres. n° 45). em que uma frase recorrente é “setrova vergognato” (n° 1). Sua peça A mandrágora é “maquiavélica” no interesse por estratagemas. Caravaggio Studies (Princeton. Metaphors of Masculinity (Nova York. 1990).34 Voltando-nos para o mundo da política. 36 Jacob Burckhardt. que a vítima inverta as posições com o agressor. 1985). Stanley Brandes. Prazeroso. um “torpedo” (como os gângsteres ítalo- americanoso chamariam na era de Al Capone). 2.

Lacorte di Lodovico il Moro. embora sejam famosos por divertir-se com o senso de humor e os comportamentos bizarros dos anões e bobos. vol. de Mântua e Cosimo I da Toscana. 38 Francisco Malaguzzi Valeri. MUDANÇAS NO SISTEMA Quais foram então as principais mudanças no sistema. Grazzini livro 1. confirmando a afirmação de Enid Welsford sobre “o declínio do bobo da corte” no século XVII. em duas histórias em que o que se supunha ser muito engraçado é a castração da vítima (Bandello. até solenes. tendemos a pensar nos sacerdotes como pessoas sérias. 1913-23). tendemos a pensar nos governantes do Renascimento. Numa história de Bandello (livro 1. e o fez. n° 35). fazendo seu jardim ser invadido por animais selvagens que mataram suas galinhas. Os leitores com muita probabilidade vão achar a história muito repugnante.) Assim como o marido enganado. n° 9 etc. a princesa Beatrice d’Este pregou uma peça no embaixador de Ferrara. Madonna Cassandra tem um caso amoroso com um frade.39 Ao refletirmos sobre as razões para essas mudanças. toma pílulas laxativas e a cobre toda de fezes na cama. 39 Enid Welsford. 1 (Miläo. como vimos. na época do Concílio de Trento. Hoje. ing. jovens e velhos. para divertimento do marido de Beatrice. Lodovico Sforza. Provas em arquivos confirmam o testemunho da ficção a esse respeito. se não antes. essa situação não duraria. A agressão e o sadismo também aparecem sempre. 1935). o governante do estado. Estes exemplos reforçam um aspecto que a famosa discussão de Bakhtin sobre a agressão festiva parece esquecer: que as brincadeiras não eram divertidas para todos. clérigos e leigos. n° 20. “Buffoni. nani e schiavi dei Gonzaga ai tempi d’Isabella d’Este”. ao preço de transgre dir os limites do aceitável em nossa própria cultura. por um padre. n° 2). Arlotto Mainardi. 5. os toscanos do século XV se divertiam com os gracejos atribuídos a um padre paroquial rural da região. Mikhail M. como Isabella d’Este. Mais uma vez. mas também dedicada a outra. para nos lembrar da “alteridade” da Itália do século XVI. nas atitudes para com as brincadeiras entre os italianos? Embora se perceba uma mudança de posição na década de 1520. um movimento europeu de 37 Alessandro Luzio e Rodolfo Renier. Na corte de Milão em 1492. um artesão vai ao barbeiro fazer a barba e vê que os sapatos do barbeiro são muito grandes. A percepção de distância cultural se torna ainda maior se trouxermos à memória o fato de que a última história não apenas era contada sobre uma senhora. Exatamente por isso que é citada aqui.37 O ponto importante a enfatizar. veste-se como o frade. Numa história contada por Sabadino (n° 16). o marido descobre. Contudo. Era hora de mudar. pelo menos em público. ela é mais óbvia no período 1550-1650. Bakhtin. talvez seja útil distinguirmos entre os aspectos religiosos e seculares do que Norbert Elias denominou de “processo civilizador”. The Fool (Londres. . homens e mulheres. 2. que havia vítimas além de espectadores ou ouvintes. por exemplo. Rabelais and his World (trad. e. como sempre sérios. pelo menos para o período 1350-1550.38 Contudo. 1968). Nuova Antologia 118 (1891). por exemplo. Isso nos leva ao que Bakhtin chamou de “estrato físico inferior”. Paola Gonzaga. e a observação de Bakhtin sobre a “desintegração do riso popular” no mesmo período.. livro 2. Mass. 4. é a generalizada participação — tanto de gozadores quanto de vítimas — de príncipes e camponeses. Fra Mariano fazia o papel de bobo na corte do papa Leão X. Cambridge. “Sentiu um grande desejo de mijar neles”.

Algumas formas tradicionais de brincadeiras que já haviam sido criticadas por clérigos estrangeiros — o carnaval por Erasmo e a folia de Páscoa pelo reformador suíço Oecolampadius — eram agora condenadas pelos italianos por motivos religiosos ou morais.6).40 Uma coletânea de piadas de Luigi Guicciardini também era descrita na folha de rosto como “moralizada” (“ridotti a moralità”). eliminando blasfêmias e observações anti-clericais. escritas por volta de 1580. mas para reduzir sua influência. com uma nota introdutória explicando a necessidade de retirar as piadas “que pareceram ao inquisidor livres demais”. O editor Ludovico Domenichi fez cortes na edição de 1548 das facezie compiladas pelo humanista Angelo Poliziano. As histórias do padre bufão Arlotto. e acrescentando preceitos morais a cada piada. e as revisou ainda mais para a edição de 1562. publicadas pela primeira vez por volta de 1516. Brown. embora os leitores talvez não achassem essa embalagem moral de todo convincente. continuassem inéditas até o século XVIII.). Cosimo de’Medici. Eliminaram-se termos como “frade”. Archivio Storico Lombardo 14 (1887). “a contenção social em favor da autocontenção”). ou na igreja. “Un episodio della storia della censura in Italia nel secolo XVI: l’edizione spurgata del Cortegiano”. Começaram a considerar cada vez mais indecorosas as piadas quando contadas por clérigos. Print Culture in Renaissance Italy (Cambridge. Aretino juntou-se a Lutero e Calvino no Índex de Livros Proibidos (compilado na Itália. 42 Vittorio Cian.41 As brincadeiras no livro 2 do Cortesão de Castiglione foram submetidas a tratamento semelhante na edição expurgada de 1584. 41 Andrea Sorrentino. em 1554.35 etc. que fingiu ser o arcanjo Gabriel para seduzir uma devota senhora veneziana. 40 Brian Richardson. ou sobre temas sacros. desaparecera inteiramente da coletânea. embora obrigatório para toda a Igreja). As histórias foram republicadas com cortes em 1582. “Aims and Methods of the Second Rassettatura of the Decameron”. mas apesar disso o contador de histórias Straparola certa vez foi intimado perante a Inquisição veneziana. Studi Secenteschi 8 (1967). Bandello publicou suas histórias bem a tempo. enfatizada por meio de metáforas como “curas”. “arcanjo”. embora as do escritor florentino Antonfrancesco Grazzini. Já se descrevera que Arlotto curara alguém do mau hábito de cuspir perto do altar.autocontrole (mais precisamente. referente à hipocrisia de um inquisidor. cujo comportamento devia ser marcado por gravitas. enquanto outras que escarneciam do clero sofreram drástica revisão. 1994). As histórias de Boccaccio talvez fossem todas proibidas no Concílio de Trento se o duque de Florença. . Peter M. porque era um lugar sagrado. Não se podia censurar com igual facilidade os contos orais. Uma delas. nos 3. dera uma lição aos rapazes que queriam uma rápida “missa de caçador” (nos 5. Editavam-se cada vez mais beffe impressas para indicar uma moral.42 O clero da Contra-Reforma iniciara uma “ofensiva cultural”. ao preço de tornar uma história totalmente sem sentido — a do frei Alberto. não para proibir todas as formas de brincadeiras. não houvesse enviado um embaixador ao Concílio para solicitar a suspensão da proibição. mudando o título para o mais sério Detti e fatti. “lições” e “punições”. 1935). A recepção diferente do Decameron faz um esclarecedor e detalhado estudo de caso das atitudes em mutação. Bandello chamara a atenção para as implicações éticas de suas histórias (no livro 1. La lettratura italiana e il Sant Ufficio (Nápoles. aqui considerado em sua versão da Contra-Reforma italiana. foram expurgadas a partir de 1565.

os Discursos sobre o que é adequado a um jovem nobre que serve a um grande príncipe (1565). Neophilologus 58 (1974). mais rigoroso que seus antecessores. 1886). preferindo às brincadeiras de mau gosto as verbais. ou pelo menos de uma mudança mais generalizada de atitudes (de qualquer modo entre as classes superiores). Instructions Pastorum (Augsburg. 46 Norbert Elias. resultando em escândalo. mais tarde. que deviam ser adequadas a lugares. . org. 45 Franz Reusch.As carreiras dos padres bufões como Arlotto e Fra Mariano passaram a parecer indecorosas — e. Não concordaria com Vladimir Propp sobre o riso ritual. Peter Burke. galhofa e desprezo. como vimos. Talvez tivesse em mente a tradicional imagem de São José chifrado pelo Espírito Santo. de Baldassare Castiglione.44 O Índex de Sexto V (1590). haja dois autores cujos livros de conduta ficaram famosos: o Cortegiano. org.45 Numa carta de 1608. outra figura importante da Contra-Reforma. que poderiam estimular mais o riso que a edificação (“quae risum potius quam aedificationem pariant”). ing. quase inimagináveis. 1623). 1994). cap. André Rochon. Popular Culture in Early Modem Europe. diziam aos leitores que não fossem os primeiros a pilheriar. 1990). é sem dúvida significativo que entre seus críticos. expressou sua oposição a detalhes reveladores sobre a vida dos santos. 43 (Gênova. Segundo a opinião de Borromeo. Os oradores de Castiglione criticam as beffe por razões morais. Lettere.46 Por exemplo. Em seu concílio provincial de 1565.. mas no contexto do início do século XVI parecem quase puritanas. de Giovanni Della Casa.47 MUDANÇAS NA BEFFA Retornando à beffa. Também instruía os pregadores a não contarem histórias engraçadas. La commedia dell’arte e la società barocca (Roma.. São Carlo Borromeo denunciou as festas da Páscoa por provocar risos. vol. Die “indices librorum prohibitorum” des sechszehnten Jahrhunderts (Tübingen. de Gianbattista Giraldi Cinthio (mais conhecido como dramaturgo). estendendo-se do surgimento do classicismo nas artes à retirada da participação da cultura popular. Carlo Bovomeo. The Civilizong Process (trad. 1994). tempos e pessoas. 1758). uma mudança que Elias descreveu em termos de autocontrole cada vez maior. 2ª ed. 1975). As críticas hoje talvez pareçam paliativas. enquanto o autor censurou algumas de suas próprias piadas na terceira versão manuscrita de seu tratado. e não demeritórias de um cavalheiro (“chenon disdicano ad buom libero e costumato”). ele admitiu a necessidade de as pessoas pregarem peças 43 Claudio Bernardi. “The Jests in Castiglione’s Il Cortegiano”. O patrício genovês Ansaldo Cebà enfatizou a necessidade de moderação nas piadas. É necessário ver essa ofensiva clerical como parte de um movimento mais amplo. apesar de suas pretensões a moralismo. 2 (Paris. Francesco Taviani. e Galateo. 48 Robert Grudin. ou “civilização”. Robert Bellarmine. La drammaturgia della settimana Santa in Italia (Milão. pois isso poderia ser interpretado como um desrespeito ao príncipe. Do ponto de vista da “civilização”. 1969).43 O papa Pio V emitiu um decreto contra o riso “imoderado” na igreja.48 Quanto à contra- reforma moralista de Della Casa. o costume religioso de representar as vidas de Cristo e dos santos fora corrompido pela perversidade humana. El silencio ser necessário en el choro (Roma. 1582). 44 Martin de Azpilcueta. ou revolucionárias. inclui as coletâneas de facezie editadas por Domenichi e Guicciardini. 47 Ansaldo Cebà. Oxford. Formes et significations de la beffa. (Aldershort.

inventada nos círculos dos Carracci e Bernini entre o início e meados do século XVII. Não parece insensato sugerir que a obsessão barroca com o trocadilho foi uma forma de compensação psicológica. A tendência foi gradual. agora tinha o cuidado de não ofender a modéstia da senhoras com sua burle. quando agora lhes negavam as formas anteriores de alívio cômico. 6-7 (Londres. 54 Ernst Kris. e assim por diante — além de palestras zombeteiras e paródias que constavam de grande parte de seus programas.52 O teórico do século XVII Emmanuel Tesauro (que se poderia descrever em linguagem de hoje como um teórico literário) expressou um novo ideal de elegância: pôr de lado as “brincadeiras populares” (facetie popolari). os “Irrefletidos” (Spensierati). Formes et significations de la beffa (Paris. em que “um grande jarro de água e cinza quente” cai na cabeça de um amante quando chega à casa de sua amada. de Gianfrancesco Loredan. escritas por Giulio Cesare Croce. foi um típico representante do movimento cultural que hoje chamamos de “barroco”. 1670). Il Galateo. 1972). caps. reimp. mas não escatologia. Grazzini”. 52 Amedeo Quondam. 51 André Rochon. F. em Letteratura Italiam. incluem violência. 1982). que remontam ao início do Renascimento. (Turim.49 Outro indício também aponta na direção da definição mais incisiva de padrões e a limitação a área do publicamente permissível. os “Confusos”. org. O que substituiu a tradicional beffa? Característica do novo regime de humor é a beffa relativamente branda de Girolamo Parabosco. não repentina. Parece também ter ocorrido uma mudança entre as classes mais altas em direção à graça espirituosa e ao senso de humor verbal.uma nas outras.54 É claro que a tese de Elias sobre o surgimento do autocontrole ou “civilização” não deve ser enunciada de uma maneira tão simples. tornam-se. . Esses grupos de debate. “Bernini and the Art of Soial Satire”. porém se preocupava muito mais com as brincadeiras verbais que com as de mau gosto. os “Imaturos” (Immaturi).50 Outro escritor da moderna literatura italiana comentou a “crise” e declínio da beffa no século XVII. “La structure de la beffa dans le Cene d’A. um crítico moderno declarou que houve uma mudança de perspectiva. 19 (Florença. algumas das quais reproduzidas em Bizarrie academiche (1638). org. os “Incultos” (Incolti). Em outras palavras. Outra forma de compensação foi o surgimento da caricatura. Não rejeitou de todo a beffa. 50 Michel Plaisance. vol. o herói de um ciclo de piadas de fins do século XVI. uma reação ao encolhimento da influência do cômico. 49 Giovanni Della Casa. caps. provavelmente na década de 1580. 1558). 53 Emmanucle Tesauro. “L’accademia”. cada vez mais formais e brincalhões de maneira respeitável. em Rochon (1972). Pode-se exemplificar a mudança segundo os nomes humorísticos que se tornaram quase de rigueur para os membros e as próprias academias — os “Dorminhocos” (Addormentati). uma forma de sociabilidade cada vez mais importante nas cidades italianas dos séculos XVI e XVII. Psychoanalytic Explorations in Art. Il cannocchiale aristotelico. Alberto Asor Rosa. do gozador para a vítima. mas também criticou certos tipos de beffa. poique a vida nesse vale de lágrimas precisa de algum tipo de alívio (sollazzo). a Intronati. ao mesmo tempo. sugerindo que necessitavam de uma trégua da idealização. foi obra de artistas famosos pelo classicismo de seus traços. History of European Ideas 4 (1983). Uma nobre companhia teatral de Siena. 11. Irving Lavin. As brincadeiras representadas por Bertoldo. os “Imobilizados” (Gelati). 1953). 1 (Turim..51 No mínimo. No caso das beffe contadas por Grazzini.53 Nesse sentido. foi purificada. Mudança que pode ser exemplificada pela vida nas academias.

O exemplo sugere que talvez fosse prudente não falar tanto de uma profunda mudança na psicologia humana quanto de mudanças nas convenções sociais. Por exemplo. Diary. Em vez de falar em “declínio” das formas tradicionais de humor a partir do final do século XVI. em diferentes momentos e em diferentes lugares. as fontes continuavam em funcionamento no século XVII e até mais tarde. Bertoldo. As beffe de Grazzini. Assim. em que o amarram e o fazem desfilar pelas ruas com os órgãos genitais expostos. mas também na tradição popular. as fronteiras sociais do cômico mudaram.. e só foi bem-sucedida em medidas variadas. . entre diferentes grupos. Adriano Banchieri. Becelli reescreveu as façanhas do famoso gozador medieval como Il Gonella (1739). 1698). A Voyage of Italy. O “bando”. foi republicado em 1736. um grande jato d’água nos atinge em cheio a cara”. A essa altura. ou mesmo em diferentes tipos de situação. constatamos um retorno ao Renascimento. foram publicadas pela primeira vez em 1756. o reflorescimento do Renascimento no século XVIII foi acompanhado — e talvez tenha dependido — de um distanciamento cultural. Vários textos cômicos do século XVI reapareceram nessa época. Um relato da vida do famoso padre bufão Arlotto Mainardi foi publicado em Veneza em 1763. O que encontramos no período 1550-1650. de visita em 1645. 1955). Somos menos cruéis e mais civilizados. embora o fizesse sob um pseudônimo. Como o sexo. como ele sugere? Nos dias de hoje é impossível um massacre de gatos? No Cambridge Evening News. é central nos dois exemplos.provocou resistência. ou mesmo nos seiscentos anos que o separam de Boccaccio. O nobre florentino Niccolò Strozzi contou em meados do século XVII a história de uma beffa em que se deixava a vítima a noite inteira na Piazza della Signoria. de onde veio e que festeja em toda a sua obra. nas regras do jogo. podemos recorrer a uma história do século XX contada romancista Vasco Pratolini em seu romance As moças de San Frediano (1949). John Evelyn. mas em formas revisadas.. como testemunham dois viajantes ingleses (entre outros). C. um monge beneditino. por um bando de seis moças que ele tentou seduzir individualmente. uma evocação da cultura operária tradicional nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Contudo. Studi Secenteschi 23 (1982). noticiou-se um incidente em que um rapaz que discutira com a namorada vingou-se dela pondo seu gato no forno de microondas. E. com alegorias. é impossível reprimir de todo o riso. Não parece que nos deslocamos para muito longe nos quatrocentos anos que separam Pratolini. 2 (Oxford. com uma diferença. Para prosseguir nesse tema do distanciamento. G. no início da década de 1990. por exemplo. da cultura operária de Florença. em verso. 56 John Evelyn.55 Em Patrolino. publicou obras cômicas no século XVII. vol. de Beer. “Awertimenti necessari per i cortegiani”. (Londres. em particular. 57 Richard Lassels. nas fronteiras do cômico. talvez seja útil retornar aos comentários de Darnton sobre a “alteridade”. O castigo de “Bob”. desse modo revelando que violava o tabu da Contra-Reforma. o Don Juan local. ou brigata.56 Richard Lasseis relatou a visita “à Gruta do Cupido com os assentos nos quais.57 No século XVIII. S. reescrito por vinte homens de letras. são restrições 55 John Woodhouse. quando nos sentamos. org. Pratolini não apenas se inclui em uma alta tradição literária. O que era representado no século XIV como um costume social geral agora se associa a jovens adultos da classe operária. diz que ele e seus companheiros ficaram “bem encharcados por causa de nossa curiosidade”. org. assume a forma de uma beffa na tradição florentina. reimp. escritas por volta de 1580. poderíamos empregar o termo mais preciso de Bakhtin: “desintegração”.

cada vez maiores à participação pública de clérigos. uma intensificação no policiamento das fronteiras. ocasiões e locais cômicos. . uma elevação do limiar. mulheres e cavalheiros em certos tipos de brincadeiras. uma redução de influências.

1996) e Laughter. Naquela manhã.1 A Contra-Reforma ou Reforma católica foi uma campanha de cristianização e uma reação a todos os tipos de costumes tradicionais. Shateren: geschiedenis van het lachen in de Spaanse Nederlanden (Nijmegen. Manuscritos. Somente depois de 1585. Louvain. peregrinações e vocações foram estimuladas. f. “Quanta impertinência há no verme miserável que ri diante de seu Deus. Schertsen. ou espanhola. A participação em práticas sacramentais. Verberckmoes. bebendo alegremente. a Contra-Reforma começou lentamente. 1997). até 1607 (o influente III Concílio Provincial de Mechelen) ou 1609 (o começo da trégua dos 12 anos). somado ao fato de verem seu rosto negro. No entanto. em Borgerhout. Willibrord. devoções. antes da missa. Inicialmente. fez com que as pessoas na igreja rissem em voz alta. Veja também Schertsen. procissões. o rei bebe”. cuja revisão já havia começado antes do Concílio de Trento (1545-63) e fora da Igreja. 107. . o padre deu uma cochilada.O cômico e a Contra-Reforma na Holanda espanhola Johan Verberckmoes O padre da igreja de St. com suas bebidas. As festividades públicas. Então. Ninguém apareceu para a confissão. porque iria rezar uma missa na manhã seguinte. segundo os historiadores que analisaram os registros da visitação episcopal. recreação mista e visitas a tabernas de aldeias foram restringidas. Sob o efeito da cerveja da noite anterior. a infindável repetição de interdições na segunda metade do século XVII poderia sugerir que pouco progresso fora obtido na reforma da moralidade pública. ter dedicado uma carta pastoral inteira à irreverência nas igrejas demonstra os limites das restrições à expressão física. Isso. próximo a Antuérpia. de repente. schimpen. A pesquisa para esse artigo foi baseada em J. foram consideradas uma ameaça à ortodoxia e à boa moral. a Contra-Reforma dá um grande passo à frente. schaterlachen: het komische in de cultuur van de Spaanse Nederlanden (16de-17de eeuw) (Diss. o Cristo humilhado?” era a pergunta retórica do bispo. Além disso. Bailes. esta reforma católica provavelmente causou um impacto significativo na população da Holanda meridional apenas entre 1650 e 1750. Jestbooks and Society in the Spanish Netherlands (Londres. o clero católico deu início a uma ação rápida de restabelecimento do seu poder. o bispo de Ghent. Biblioteca da Universidade. Ou será que o clero continuamente aumentava suas exigências morais? De qualquer modo. 1993). tratava-se de um movimento basicamente repressivo. o fato de. para apagar os rastros deixados pelos “heréticos” calvinistas.. Mas não ficara até tarde. devido à revolta contra a Espanha. Aproximadamente a partir de 1609 — e fortemente apoiada pelo arquiduque Alberto da Áustria (1559-1621) e por Isabella Clara Eugênia (1566-1633) —. Por outro lado. danças e máscaras. gritou: “O rei bebe. schimpen. por exemplo. Albert de Hornes. ele se sentou no confessionário. Na Holanda meridional. comemorava a Festa de Reis entre amigos. o bispo lhe deu uma reprimenda.6 . ainda com o rosto negro em decorrência do ritual de enegrecimento da noite anterior — na Festa de Reis. ao saber. fontes seculares indicam o reaparecimento de 1 Ghent. quando a maioria das cidades meridionais havia sido reconquistada pelo exército espanhol. Sonhou que estava novamente entre os amigos e. o padre se envergonhou e. ‘t Verdrij des droefheyts ende melancolie. 1816. ainda em 1690. os bobos sujavam com fuligem os rostos de quem não respondia com rapidez ao brinde “o rei bebe”.

em 1627. outros sustentam que o movimento realmente jamais criou raízes e que. 1978). e seu L’Invention de l’homme moderne: sensibilités. 605-31. Contudo. 1978).4 Nos dois casos. 201. 4 (1995). Robert Muchembled argumentou que a opressão da cultura popular tornou mais difícil o riso nas cidades francesas a partir do final do século XVI. De Ram e J. 1984). “With and without the Counter-Reformation: the Catholic church in the Spanish Netherlands and the Dutch Republic. Inheriting Power: the story of an exorcist. 1987). Historical Anthropology in Early Modem Italy: essays on perception and communication (Cambridge. Van geuzenstad tot katholiek bolwerk. 4 (Mechelen e Louvain. R. ao contrário. 71 (1985).X. pp. Culturepopulaire et culture des élites dans la France moderne. O historiador francês Jean Delumeau cita vários teólogos do século XVII que pensavam que o homem deveria evitar o riso por causa de sua condição pecaminosa. pp. por exemplo. Cochrane (Chicago e Londres. Muchembled. entre os diferentes grupos sociais envolvidos. tenha também restringido essa visão. sua irmã Duyfken sempre a 2 A tese da cristianização é defendida por M. Archiv fur Reformationsgeschichte. F. 4 J. Trajecta. enquanto brinca e ri com uma menina camponesa. 198-223. embora ele. A tese da resistência é defendida por R. em Het openbaar initiatief van de gemeenten in België: historische grondslagen (Ancien Régime) (Bruxelas. Em um trabalho inicial. “Een kwarteeuw historische produktie in België betreffende de religieuze geschiedenis van de Nieuwe Tijd”. Antwerpen en de contrareformatie (Turnhout. Cloet. 3 Veja. Lille. representadas pela gula ao comer e beber ou pela linguagem corporal provocativa. à indulgência e à licenciosidade. Soly. 1984). pp. à dança mista e às canções de amor executadas por um grupo de dançarinas exemplificam a distinção entre o riso profano e a alegria ortodoxa enfaticamente imposta pela Contra- Reforma. Willeynken ri do espetáculo de bonecos “até as lágrimas correrem pela face” (“ick lach dat mijn ooghen tranen”). 1990). XVe-XVIIIe siècles (Paris. No concurso de canto. 1983). o riso estava definitivamente associado à sensualidade. vol. Catholic Historical Review. 547-75 e C. 1988). O interesse pelo riso de muitos heróis da Contra-Reforma desaparecera. que é um meio de comunicação não-verbal. pp. trad. Levi. Assim. L. Synodicon Belgicum. G. enquanto alguns historiadores eclesiásticos sustentam que a aculturação do povo na Contra-Reforma teve êxito em alguns períodos.3 Minha proposta é ampliar a nossa compreensão da Contra-Reforma em geral e de sua manifestação na Holanda espanhola. especificamente pela introdução do riso. Thijs. . A Contra-Reforma possui má reputação em relação ao humor.2 Desafiando o conceito doutrinário da Contra- Reforma como um movimento mais ou menos uniforme. com ênfase na comunicação interativa. Ela assiste a uma festa dançante de cabras e bodes.). 81 (1990).festividades populares profanas por volta de 1700. com metas claras a serem alcançadas e um oponente doméstico identificado na população católica. Suas reações opostas a um espetáculo de bonecos em uma quermesse. 1988). os historiadores. 16de-18de eeuw”. comprova esse horror ao riso obsceno. P. veja P. Harline. mais tarde. cujas pesquisas são mencionadas em M. Burke. 349-52. A. pp. 510-11. que faz as pessoas rirem e garante à menina a vitória. L. citadelle de la contre-réforme? (1598-1668) (Dunquerque. Van de Velde (orgs. Culture populaire et culture des élites dans la France moderne. A review of the literature since 1945”. O folheto religioso popular Duyfkens ende Willemynkens pelgrimagie. H. 1968) e outros historiadores religiosos. abarcando a questão-chave da corporalidade estranha à espiritualidade na visão de mundo cristã. K. 1858). “Openbare feesten in Brabantse en Vlaamse steden. p. 1580-1650. pp. provocou resistências passiva e ativa. moeurs et comportements collectifs sous l’Ancien Régime (Paris. publicado pela primeira vez em Bruxelas. têm voltado a atenção para as ambigüidades dessa reforma. Cf. Sobre a citação da carta de Hornes. 239- 62. também não-verbal. Muchembled. F. G. A devota Duyfken — literalmente “pombinha” — e a brincalhona Willemynken — literalmente “meu próprio desejo” — são duas irmãs cuja vida é representada como uma peregrinação à Jerusalém sagrada. ultimamente. Tracy. “Official religion and popular religion in recent historiography of the Catholic reformation”. Lottin. Delumeau. Cloet. Hetkerkelijk leven in een landelijke dekenij van Vlaanderen tijdens deXVIIde eeuw: tielt van 1609 tot 1700 (Louvain. e A. XVe-XVIIIe siècles (Paris. Willemynken participa com a canção “Uma criatura de Vênus que escolhi” (“Een Venus dierken heb ick uyt verkoren”). J. Lepéché et lapeur: la culpabilisation en Occident (XIIIe-XVIIIe siècles) (Paris.

adverte para não perder tempo com prazeres vãos, uma precaução reforçada por detalhes
significativos na história: Willemynken pega piolho na quermesse, excremento é espirrado
nela ao dançar e, com a sua canção, ela ganha um grinalda de flores podres. O seu estilo de
vida viciado na sensualidade é literalmente impuro.5
Esta é uma mensagem moral simples, cuja linguagem fora desenvolvida antes de os
moralistas da Contra-Reforma se apropriarem dela novamente.6 Pinturas dos séculos XVI
e XVII de grupos alegres, casamentos de camponeses, quermesses ou interiores de tabernas
quase sempre mostram participantes que riem cruelmente ou um comediante que ri,
transmitindo a extravagância e a vaidade de beber, comer, dançar e amar desenfreadamente.
Nessas pinturas, são feitas referências à impureza semelhantes às do folheto religioso. O
artista antuerpiano Jacob Jordaens, por exemplo, pintou várias versões da Festa de Reis nas
décadas de 1630 e 1640. Enquanto o rei provisório erguia seu copo e a sala ressoava com o
grito de “o rei bebe”, um bêbado vomitava, uma criança fazia xixi e o traseiro de outra
criança era limpo.7 O tipo de riso expresso em pinturas do gênero e apreciado por
Willemynken é aquele associado às funções inferiores do corpo, a cultura popular do riso
conforme analisada em Rabelais pelo ensaísta russo Mikhail Bakhtin.8
Não há dúvidas de que esse tipo de riso foi condenado na Contra-Reforma. No
entanto, não é tão certo que ele tenha realmente desaparecido ou só funcionado dentro dos
limites impostos pela cultura oficial, conforme alega Bakhtin. Em Duyjkens ende
Willemynkens pelgrimagie, Willemynken defende sua conduta argumentando que o riso é
humano. É impossível ser sério todo o tempo, alega: “Eu preciso rir de vez em quando, para
que meu coração o sinta”. Além do mais, “as pessoas são seduzidas pelo riso e por isso
preferem escutar canções cômicas”. E Willemynken continua: “O que o povo iria dizer?
Eles zombariam de nós se não procurássemos outra recreação além de colher flores”. Por
outro lado, a piedosa Duyfken reconhece que não há nada contra a alegria, contanto que
haja uma razão boa e pura. Para ela, não há dúvidas de que encontrará a alegria perfeita na
sagrada Jerusalém, onde seu noivo a espera.9
Mas adiar o riso até uma outra vida decerto não era algo pelo qual todos ansiassem.
O argumento de que as pessoas antes de tudo buscam algo cômico encapsulou uma
reclamação habitual entre os escritores religiosos na Contra-Reforma. O cônego regular de
Windesheim, Pieter Croon de Mechelen, observou que livros contendo uma mensagem
virtuosa eram deixados de lado até que as pessoas envelhecessem, ao passo que piadas e
tolices eram lidas imediatamente e dez vezes mais.10

5
Boetius a Boiswert, Duyfkens ende Willemynkens pelgrimagie tot haren beminden binnen Ierusalem, org. H. J. A. Ruys (Utrecht,
1910), pp. 174-8, 187-90 e 295-9.
6
Sobre as interpretações cristãs e medievais do riso, veja J. Le Goff, “Lé rire dans les règles monastiques du haut moyen âge”, em
C. Lepelley et al. (orgs.), Haut moyen-âge: culture, éducation et société. Études offertes à Pierre Riché (La Garenne-Colombes,
1990), pp. 93-103; G. H. M. Posthumus Meyjes, Geloven en lachen in de historie (Leiden, 1992); J. Horowitz e S. Menache,
L’humour en chaire: le rire dans l'église médiévale (Genebra, 1994); J. Le Goff, Capítulo 3 deste volume.
7
A. A. Van Wagenberg-Ter Hoeven, “The celebration of Twelfth Night in Netherlandish art”, Simiolus. Netherlands Quarterly
for the History of Art, 22 (1993-4), pp. 65-96. Sobre o debate da interpretação de cenas do gênero, veja P. Vandenbroeck,
“Verbeeck’s peasant weddings: a study of iconography and social function”, Simiolus, 14 (1984), pp. 79-124, e W. S. Gibson,
“Verbeeck’s grotesque wedding feasts: some reconsiderations”, Simiolus, 21 (1992), pp. 29-39.
8
M. Bakhtin, Rabelais and his World, trad. H. Iswolsky (Londres, 1968).
9
Boetius a Bolswert, Duyfkens, ibid.
10
P. Croon, Almanach voor heden en morghen ende daer op vermaeckelijcke uyt-legginghen met gheestelijcke bemerckingen: voor
een nieuw-iaer (Antuérpia, 1665), p. 339. Cf. também D. Idinav [=J. David, sj], Lot van wiisheyd ende goed geluck: op drije
hondert ghemeyne sprek-woorden: in rijme gestelt (Antuérpia, 1606), pp. 4-5.

O meio óbvio de reprimir o riso secular, considerado um autêntico obstáculo para a
verdadeira vida cristã, foi simplesmente proibir o riso. “Não ria e não diga nada que desperte
o riso”, previne Inácio de Loiola nos acréscimos à primeira semana de seus Exercícios
espirituais.11 Nos concílios provinciais e nos sínodos que se seguiram ao Concílio de
Trento, o clero regular e secular era instruído a não provocar o riso durante os serviços. A
moderação do próprio riso do clero era imperativa, até mesmo durante a recreação, já que a
gravidade de sua função deveria ser demonstrada permanentemente para o mundo externo.
No começo do século XVII, o decano de Hulst em Zeeuws-Vlaanderen — naquela época
ainda uma parte da diocese de Ghent — ouviu rumores sobre o padre Petrus Stevens de
Onssenisse, que rezara a missa de modo tão esquisito que fora visto mais como um palhaço
do que como padre (“tam mirabili modo celebrat ut potius histrionem quam sacerdotem
referat”). Em seu relatório de visitação, o decano escreveu que lhe faria uma visita de
surpresa, mas nada mais sabemos sobre isso.12 Dois visitantes da abadia beneditina de
Affligem, em 1634, descobriram, para desgosto deles, que eram feitas brincadeiras na
enfermaria e que o silêncio no dormitório era perturbado por risos excessivos.13 Em 1645,
Antoon Triest, bispo de Ghent, confirmou as regras das noviças em Ghent, as quais
estaleleciam que essas mulheres eram proibidas de cantar canções indecentes ou mundanas,
contar histórias frívolas, rir alto e dormir em pares na mesma cama.14 Contudo, uma
aplicação rígida da regra de repressão do riso não parece ter sido uma grande preocupação
da hierarquia da Contra-Reforma no controle do clero.
A dupla advertência para não provocar riso e não se viciar no riso remonta aos
doutores da Igreja, como João Crisóstomo, e as regras monásticas de São Bento de Nursia
e muitos outros. Para São Bento, não cair facilmente no riso e falar sem rir eram sinais de
humildade.15 O riso em excesso era condenado especialmente por estar muitas vezes ligado
aos prazeres carnais pecaminosos. Alguns chegam a considerar o riso um insulto a Deus,
como os monges letrados podiam ler no Apophthegmata christianorum, do cônego da
Antuérpia, Laurentius Beyerlinck: “Um velho viu alguém rindo e disse: ‘Devemos prestar
contas de toda a nossa vida ao Senhor do céu e da terra e vocês riem’”.16 Todavia, o
argumento teológico crucial contra o riso era que, de acordo com os evangelhos, Cristo
jamais rira, enquanto seus lamentos foram registrados. Desenvolvido do grego pelos
doutores da Igreja João Crisóstomo e Basílio, este argumento foi introduzido no
cristianismo latino por Rufino de Aquiléia, por volta do ano 400. Após essa época, tornou-
se um tema recorrente da escritura teológica, que sem dúvida contribuiu para o juízo
negativo do riso na tradição cristã.17 Porém, o argumento poderia ser interpretado de
maneiras diferentes. O escolástico do século XII Pedro Cantor alegava que Cristo, embora
nunca tivesse rido, era capaz de fazê-lo, porque o riso era próprio do homem. Para o Cristo

11
I. de Loiola, Écrits, org. M. Giuliani (Paris, 1991), pp. 98-9.
12
T. B. W. Kok, Dekenaat in de steigers: kerkelijk opbouwwerk in het Gentse dekenaat Hulst, 1596-1648 (Tilburg, 1971), p. 389.
13
H. Verleyen, Dom Benedictus van Haeften, proost van Affligent, 1588-1648: bijdrage tot de studie van het kloosterleven in de
Zuidelijke Nederlanden (Bruxelas, 1983), p. 99.
14
Ghent, Archives Klein Begijnhof, K1S9/8, Cap. III, item IV (Devo essa referência a H. Cailliau e M. Cloet).
15
Cf. G. Perduyn, LXXII instrumenten der goede wercken van den H. Benedictus: alles getrockenop sermoonen voor alle de
zondagen des jaers (Bruxelas, 1697), instrumentos 54 e 55 (com meus agradecimentos a H. Storme).
16
L. Beyerlinck, Apophthegmata christianorun (Antuérpia, 1608), p. 514.
17
Cf. Le Goff, “Le Rire”, pp. 93-5; Delumeau, Le péché, p. 511.

encarnado, a negação do riso só poderia ter sido uma virtude se ele realmente tivesse a
capacidade de rir como qualquer ser humano, argumentava Cantor.18
Este último argumento foi ampliado pelo humanista e professor da Universidade de
Louvain Erício Puteanus que, em 1611, defendeu publicamente o riso e o filósofo grego
Demócrito durante as quaestiones quodlibeticae, contendas sobre todos os assuntos
possíveis organizadas anualmente por volta do dia de Santa Luzia, 13 de dezembro. Este
concurso intelectual integrava os festivais carnavalescos de inverno que, no ambiente latino,
estavam associados à Saturnália romana. Embora a ocasião legitimasse um discurso sobre
um assunto tão trivial como o riso, Puteanus desenvolveu explicitamente a tese de que o
riso é uma expressão de sabedoria, dando-lhe, assim, uma posição privilegiada em sua
filosofia de vida. Um dos argumentos de Puteanus se referia ao fato de Cristo recusar o riso.
De acordo com Puteanus, Cristo escolhera não rir para deixar um exemplo. Ao se recusar
deliberadamente a fazer algo próprio da natureza humana, ele encontrara o melhor modo de
convencer as pessoas de que o verdadeiro riso só poderia ser encontrado em Deus. Em suma,
o riso era de origem divina, o que também podia ser determinado, continua Puteanus, ao se
considerar que Isaac, cujo nome significa “riso”, fora uma vítima, assim como o próprio
Cristo.19
Deus era o segredo do riso verdadeiro e bom. Reforçar essa mensagem era outro
modo de resolver a dificuldade da conciliação entre o riso e a virtude cristã. Os moralistas
da Contra-Reforma se referiam a essa questão introduzindo uma sucessão de lamentos e
risos. Há um tempo de chorar e um tempo de rir, diz a Bíblia, e os escritores moralistas,
como o cônego regular Pieter Croon de Mechelen ou o pre-monstratense antuerpiano Jacob
Moons, repetiam o veredicto do doutor da Igreja Orígenes: “Agora é o tempo de chorar e
no céu será o tempo de rir”. O cristão deveria apenas esperar até a redenção dos pecados na
Jerusalém sagrada, onde encontraria o único riso natural. Esse pessimismo agostiniano fez
com que os religiosos Bossuet e de Rancé condenassem o riso, além de conduzir a rígidos
princípios morais. De uma maneira mordaz, mas também expressa no século XVII, por
exemplo, pelo jesuíta Adriaen Poirters, isso significa nada menos que: “Ri melhor quem ri
por último”.20
A conseqüência mais terrível da teologia da danação eterna de Santo Agostinho era
a ameaça de que Deus riria dos pecadores não arrependidos no inferno. O historiador
literário italiano Piero Camporesi mostrou que essa idéia perversa era formulada, no final
do século XVII, nos sermões do eremita agostiniano descalço lombardo Ângelo Maria de
San Filippo, e de outros. Como um segundo Nero, Deus ridicularizaria o condenado nas
chamas crepitantes, negando-lhes, assim, a chance final da salvação. Já em 1682, e antes
desses padres italianos, Jacob Moons daria a sua audiência flamenga uma idéia do que
poderia ser esperado de um tal Deus ridens ou “Deus que ri”: aqueles que durante a sua vida

18
Cf. E. R. Curtius, Europäische Literatur und lateinisches Mittelalter (6a ed., Berna e Munique, 1966), pp. 422-3.
19
O discurso de Puteanus foi publicado sob o título Democritus, sive de risu dissertatio saturnalis: publice Lovanii habita
(Louvain, 1612) e reimpresso várias vezes. Demócrito e o riso: Bremmer, Capítulo 1 deste livro.
20
P Croon, Cocus bonus oft geestelycke bemerckingen op de tafel ende spysen van een volkommen maeltyt (Bruges, s.d.), parte II,
pp. 16 e 257; J. Moons, Sedelyck vermaeck tonneel (Antuérpia, 1675), pp. 384-5; Posthumus Meyjes, Geloven en lachen, p. 14;
Delumeau, Le Péché, pp. 330-1; A. Poirters, Het Masker van de wereldt afgetrocken, org. J. Salsmans e E. Rombauts (Oisterwijk,
1935), p. 50: “T is soo, Philothea, al soo veel hebbense jae meer, de ghene die naer lacchen, als die voor lacchen”.

p. humoris melancolici. 58-70. 346- 53. Geist und Leben. Quando as crianças a reverenciavam no noviciado de Ghent. p. “Eutrapelie. Moons. não por vaidade ou imprudência. monges de semblante melancólico. 22 A. 33. 55-61: Le Goff. p. pp. pp. julgando que zombavam dela. Capítulo 1 deste livro. Catarina começava a rir e assim mostrava a sua gentileza”.23 Segundo a sua biografia espiritual. pp. e finalmente ameaçando os pecadores insistentes com a afirmativa de que Deus riria por último.25 Até nos mosteiros. 598. “Ele deve vir de dentro e tocar o coração. 27 Cf. La Fable mystique:XVIe-XVIIe siècle (Paris. lemma ‘reir’. p. H. Poitrey. entre outros. De Certeau. então. 1989). Esses eram os bobos para Cristo e os herdeiros de uma antiga tradição cristã. Tomás de Aquino interpretou teologicamente essa eutrapelia como um riso moderado que não interfere com a caridade. para evitar brigas e discórdias e para espantar o desânimo e a ira. o riso secular e imoderado foi considerado prejudicial a um bom cristão. 163-4 (Devo essa referência a H. p. De acordo com Aristóteles em Ética a Nicômaco. trad. 1980). De Smidt.24 O riso pela paz e pela quietude parecia o casamento perfeito do estoicismo com a abnegação católica. Catarina Daneels. abram espaço” —.22 O riso poderia ser. Tanto do ponto de vista moral quanto teológico. 292. eine vergessene Tugend”. dos quais Filippo Neri é o mais conhecido. o riso poderia ter um significado religioso mais profundo. essa eutrapelia cristã foi defendida. 361-9 (p. 1647). Vocabulario de Santa Teresa (Madri. J. 24 F. o que nos fará rir bem”.zombaram do clero e de outras pessoas que viraram as costas ao mundo seriam ridicularizados pelo próprio Deus na hora de sua morte. da aldeia flamenga de Hazebroek.. Teresa de Ávila escreve que o riso a ajudou a compreender o seu próprio sofrimento (“Me rió y conozco mi miséria”). 366: “Jacobus Rahier. era “muito inclinada ao riso. os escritores espirituais prometiam que as lágrimas terrenas seriam seguidas de riso celestial. como o beneditino Jacques Rahier em Stavelot. Doorluchtich ende stichtich leven van louffr: Catharina Daneels (Antuérpia. pp. Bulletin de l’institut historique belge de Rome. 370. 95-6. J. pp.26 O argumento mais convincente pelo riso cristão era chamado eutrapelia. os quais poderiam contribuir de modo positivo para a perfeição de um estilo de vida cristão. embora também fosse algo natural.21 Faço um breve resumo. 1682). 1975).. Saward. Para alguns santos e místicos. de alcançar um equilíbrio entre o excesso e a falta. Deblaere. Perfect Fools: folly for Christ’s sake in Catholic and orthodox spirituality (Oxford. a freira de Louvain. ofte den waeren af-druck der wereldtsche sottigheden (Bruxelas. M.. Quando alguém na casa quebrava algo ou fazia qualquer outra coisa errada e esperava ser repreendido. a santa está lá. cf. 23 Poirters. M. eram incentivados abertamente a rir. et pusillanimis. Storme). Afinal. De mystieke schrijsterMaria Petyt (1623-1677) (Ghent. mas por uma alegria natural.27 No século XVII. De sotte Wereldt. Bremmer. No entanto. “Les Moines de l’abbaye de Stavelot en 1633”. hoje no norte da França. ipsum semper potius ad hilaritatem oporter excitare quam ad tristitiam inducere”). Rahner. 27 (1954). 26 J. a identificação do riso profano também permitiu a aceitação de outros tipos de riso. sustentava o jesuíta Adriaen Poirters. “Delectatio” und “Utilitas”: ein Beitrag zur Verständnis mittelaltlicher komischer Literatur (Bema. HetMasker. por 21 P. e quem ria apenas uma vez por mês mal tinha alma. Suchomski. J. A mística Maria Petit. 344 (referência à sabedoria 4:18). De Grieck. 37 (1966). a eutrapelia é a propriedade de ser engraçado de modo civilizado. pp. 1983). o riso era natural. 1962). 1982). 117-21. . A disciplina mais rígida significava a renúncia ao riso. Hoyoux. “Le rire”. Aymard (Paris. J. a expressão de verdadeiros sentimentos cristãos.. pp. 1682). Sedelycken vreughden bergh (Antuérpia. alegava o popular escritor de Bruxelas Joan de Grieck. Camporesi. conhecia o mesmo tipo de riso. L’Enfer et le fantasme: une théologie baroque. mas como essa era uma exigência quase utópica. pois ela adquirira uma reputação de santidade — “Olhem. Maria Petit às vezes ria. 25 J.

Francisco de Sales, em sua Introduction à la Vie Dévote, que também exercia grande
influência na Holanda espanhola. Eutrapelia, diz ele, “significa boa conversação, jogo de
palavras em uma atmosfera de alegria e descontração modestas. É uma recreação honrada
nas ocasiões frívolas oferecidas pelas imperfeições humanas. Contudo, não deve se tornar
escárnio, que indica desprezo pelo próximo”.28 Blaise Pascal chamou de veracidade,
discrição e devoção, que podem ser resumidas como caridade, os segredos do verdadeiro
riso cristão, princípios que, segundo ele, contribuíam para o sucesso de uma piada.29
Teoricamente, misturar a graça com a moral e a caridade cristã era a solução ideal.
Até mesmo festivais populares se tornavam aceitáveis quando se aplicava a regra da
recreação respeitosa. Festas de Reis, argumenta o cônego regular Pieter Croon, são
toleráveis quando os participantes são comedidos, quando o cômico faz piadas honradas,
quando todos riem de modo virtuoso, quando há amor e afeto. Reformulando o ritual, Croon
tornou legítima a cerimônia da bebida na Festa de Reis referindo-se à explicação dada pelo
“evangelho de outra linhagem” (“Evangelie vanden spin-rock”), o que, na verdade,
significava tratar-se de uma mentira manifesta: durante uma de suas visitas ao menino Jesus
em Belém, os três reis magos viram o bebê mamar no seio sagrado de sua mãe. Eles
disseram entre si: “O rei bebe”, frase que veio a ser o grito popular na Festa de Reis.30
Apesar das muitas declarações públicas sobre a moderação do riso, a Contra-
Reforma produziu também a sua própria marca de humor irrestrito. Sob o pretexto de
reprovar as imperfeições dos outros, todos os tipos de piadas foram liberados. Chamar a
isso de “recreação respeitosa” e rotular as piadas de seus oponentes de “escárnio” era
simplesmente uma questão de autojustificação. Considere-se, por exemplo, a piada contada
por Francisco Costero, um jesuíta nascido em Mechelen, em 1532, e uma das figuras mais
importantes da Contra-Reforma na Holanda espanhola entre 1585 e 1619, ano de sua morte.
Em 1604, Costero escreveu que, cerca de 20 anos antes, ele vivera em Fulda, na Alemanha,
onde os jesuítas tinham um cozinheiro, Michiel, que aprendera latim e até mesmo algumas
frases gregas com os estudantes que vinham à sua cozinha.
Quando Michiel foi à aldeia para comprar bois, o pastor protestante local quis converter
o cozinheiro jesuíta. Ele lhe fez perguntas em latim, mas o cozinheiro conseguiu
responder no mesmo idioma. O pastor tentou até mesmo o grego, mas, para seu
assombro, o cozinheiro respondeu com uma frase grega que ouvira dos estudantes e que
dizia: “Eis alguém que lhe responderá”. Depois disso, o pastor desistiu e se orgulhou
por ter falado com o mais culto de todos os jesuítas. Ao voltar para casa, o cozinheiro
contou, de maneira jocosa, ao reitor e aos outros jesuítas, o que acontecera, de modo
que todos riram. Alguns dias depois, quando um estudante leigo de Würzburg, que
ouvira falar do fato, veio a Fulda, ele advertiu o pastor: se o cozinheiro deles já é um
homem tão culto, o que esperar então de seus médicos?31
As imperfeições dos outros como objeto apropriado ao ridículo significava para o clero da
Contra-Reforma, antes de tudo, rir dos pastores protestantes. Até 1621 — o fim da trégua

28
François de Sales, Oeuvres (Paris, 1969), p. 207 (Introduction, parte III, cap. 27); cf. A. L. J. Daniels, Les Rapports entre St
François de Sales et les Pays-Bas, 1550-1700 (Nijmegen, 1932).
29
B. Pascal, Les Provinciales, org. L. Cognet (Paris, 1965), pp. 193-214; cf. J. Morel, “Pascal et la doctrine du rire grave”, in
Méthodes chez Pascal (Paris, 1979), pp. 213-22.
30
P. Croon, Almanach, pp. 131-8, cf. Van Wagenberg-Ter Hoeven, “The celebration”, pp. 77-8.
31
Cf. R. Hardeman, Franciscus Costerus (1532-1619) (Alken, 1933), pp. 19-20 (extraído de Weder-legginghe Francisci Costeri...
(Antuérpia, 1604), p. 131). Parafraseei a citação em vez de traduzi-la literalmente.

dos 12 anos — e até mesmo depois desse ano, alguns jesuítas, como Costero, Johannes
Gouda ou Maximiliaan van Habbeke, usavam o púlpito para zombar de seus adversários.
Embora tenham sido alertados por seus superiores para moderar a linguagem e embora
rejeitassem formalmente a opportuna jocatio — o uso de piadas em sermões —, há
evidências de que esses jesuítas mostravam caricaturas no púlpito, falavam
zombeteiramente e usavam uma linguagem corporal grotesca; em resumo, faziam de tudo
para atrair a cultura oral e visual de sua audiência. Em folhetos e pasquins, Costero,
Johannes David e outros jesuítas usavam uma linguagem rabelaisiana.32
As piadas sobre pastores reformados foram definitivamente integradas na cultura da
Contra-Reforma, ressaltando, de um modo carnavalesco, seus fundamentos teológicos e
educacionais. O refugiado inglês católico Richard Verstegen, por exemplo, preencheu
anedotas, diálogos, epigramas, epitáfios cômicos, provérbios, noticiários e esboços de
personagens com estereótipos anti-reformistas. Verstegen vinha de uma família que
emigrara de Guelderland para a Inglaterra no início do século XVI, enquanto ele se fixara
em Antuérpia em 1587. Publicou muitos folhetos, livros e noticiários em Antuérpia, entre
1617 e 1633, e seus trabalhos foram plagiados por escritores da Contra-Reforma ao longo
do século XVII.33
Mas as piadas sobre os pastores reformados eram também populares na tradição oral.
Basicamente, essas piadas sobre os protestantes eram muito parecidas, enfocando o
conhecimento deturpado da Bíblia dos pastores reformados ou das irmãs da Bíblia,
salientando suas opiniões e dissenções teológicas e exibindo a sua ânsia por disputas. No
final de cada piada, eles são forçados a se manter em silêncio.
Um pastor protestante ou holandês era passageiro do barco entre Ghent e Bruges. Logo
começou a discutir com os católicos presentes, já que eles não eram tão conhecedores
da Bíblia quanto ele. Dois frades franciscanos também estavam presentes na chata. Um
deles trazia um pacote às costas. Quando o protestante viu o pacote, voltou-se para o
frade e o desafiou a falar sobre as Escrituras. O padre recusou-se a responder, sabendo
que não ganharia crédito em tal disputa. O pastor então lhe perguntou o que ele
carregava no grande pacote. “É um órgão”, respondeu o padre. “Toque uma melodia
para nós”, disse o protestante. O padre replicou em seguida: “Ponha sua boca na parte
de trás e sopre no tubo, ele soará como um órgão”. Ao ouvir aquela resposta, todos
riram do pastor.34
Cito em especial esta última frase da anedota porque ela é um exemplo do “riso textual”,
quase sempre encontrado em livros de piadas, e que ajuda a provar que esses casos foram

32
J. Andriessen, De jezuïeten en het samenhorigheidsbesef der Nederlanden, 1585-1648 (Antuérpia, 1957), pp. 184-90; R. Mortier,
Un Pamphlet jésuite “rabelaisant”, le “hochepot ou Salmigondi des folz” (1596): étude historique et linguistique suivie d’une
édition du texte (Bruxelas, 1959); K. Porteman, “Na 350 jaar: de “Sermoonen” van Franciscus Costerus”, Ons Geestelijk Erf,
43 (1969), pp. 209-69; H. Storme, Preekboeken en prediking in de Mechelse kerkprovincie in de 17e en de 18e eeuw (Bruxelas,
1991), pp. 203-6, considera que, pela evidência de coletâneas impressas de sermões, os sermões cômicos deveriam ser
excepcionais; compare, entretanto, com as observações de H. Roodenburg, Onder censuur: de kerkelijke tuchtin de
gereformeerde gemeente van Amsterdam, 1585-1700 (Hilversum, 1990), p. 41. Veja neste contexto também V. Wendland,
Ostermärchen und Ostergelächter: bmuchtümliche Kanzelrhetorik und ihre kulturkritische Würdigung seit dem ausgehenden
Mittelalter (Frankfurt, 1980), M. J. Jacobelli, Il ‘risuspaschalis’ e il fondamento teologico del piacere sessuale (Brescia, 1990).
33
Cf. E. Rombauts, Richard Versiegen: een polemist der contra-reformatie (Bruxelas, 1933); W. J. C. Buitendijk, Het calvinisme
in de Spiegel van de Zuidnederlandse literatuur der Contra-Reformatie (Groningen e Batavia, 1942), pp. 155-228; idem,
“Richard Verstegen als Verteiler en journalist”, De Nieuwe Taalgids, 46 (1953), pp. 21-30, e “Richard Verstegen’s playsante
conterfeytsels en coticepten”, De Nieuwe Taalgids, 46 (1953), pp. 71-9.
34
Ghent, Biblioteca da Universidade, Manuscritos, 1816, ff. 22-3 (veja nota 1). Nessa coletânea de manuscritos, datada de cerca
de 1700, o autor ainda desconhecido refere-se às tradições escritas e orais (“Soube por meu pai” etc.).

realmente considerados cômicos no século XVII. Ela também pode ser interpretada como
um aviso do colecionador ao leitor de que a anedota tem uma intenção cômica.
Era crucial na estratégia da Contra-Reforma (e da Reforma) a insistência dos
reformadores na separação dos domínios do sagrado e profano. Isso também envolvia uma
reformulação das emoções. As lágrimas foram promovidas como características de um
estilo de vida verdadeiramente piedoso. Por outro lado, o riso só era aceitável no contexto
da defesa teológica ou da reação moral contra a vaidade mundana e a extravagância. O
último resultou na reavaliação do tema da loucura nos escritos didático-moralistas a partir
do jesuíta Adriaen Poirters. No entanto, isso não resultou em livros engraçados, embora
esses escritores tenham reutilizado as anedotas cômicas para ilustrar seu desdém pela
vaidade mundana. O riso era, nesse caso, mais um estado d’alma que uma expressão
corporal espontânea.35
Ainda mais importante, a separação forçada dos domínios do sagrado e do profano
criou todo um novo campo de humor. Aqueles que publicamente exibiam irreverência eram
levados aos tribunais eclesiásticos ou seculares e condenados. Entre eles estava o
manipulador de bonecos Jacob Cobbeniers e sua esposa, Elisabeth Lauwers que, por volta
de 1600, em uma peça de bonecos, deixaram São Pedro e São Paulo beijar e sentir uma
mulher, Margrite, e até mesmo deixaram os dois santos se abraçarem; ou ainda Elisabeth
Blondeel que, na noite de Natal de 1622, na igreja de Impe, próxima a Bruxelas, na presença
de 40 pessoas, sentou-se no confessionário, colocou o barrete do padre em sua cabeça e
ouviu a confissão de um rapaz.36
No entanto, havia meios mais sutis de ultrapassar os limites — por exemplo, as
piadas que sempre podiam ser interpretadas de diferentes modos. A despeito da censura, os
livros de piada continuaram a ser publicados na Holanda espanhola até 1627. Após essa
data, nenhuma outra coletânea foi impressa, embora algumas evidências revelem que cópias
das edições antigas ainda estavam sendo vendidas. Na segunda metade do século XVII,
coleções moralistas de anedotas parecem ter substituído os livros de piada. Ainda por volta
de 1700, pelo menos três novos livros de piada foram impressos no vernáculo, um dos quais
era um suplemento de um almanaque popular durante o ano 1701, que continha apenas três
anedotas (do século XVI).
Nessas últimas coletâneas e no manuscrito citado, cerca de um sexto das anedotas se
refere a padres, monges, freiras, aos sacramentos sagrados e à Igreja. As alegações do século
XVI de gula, estupidez e cobiça foram repetidas, referindo-se sobretudo ao comportamento
do clero regular. Porém, mais importantes e relativamente novas em relação ao século XVI
eram as piadas cujo tema eram as práticas cristãs e a posição dominante do padre em sua
paróquia. De acordo com essas piadas, os padres no púlpito faziam com que as suas
audiências rissem alto. Elas fazem comparações engraçadas — por exemplo, comparando
um auxiliar, que era um feio corcunda, com o coletor de impostos bíblico Zaqueus nas
árvores.37 Manifestações engraçadas de resistência no confessionário também foram

35
Poirters, Het Masker; a principal referência a essa literatura ainda é E. Rombauts, “De letterkunde der XVIIe eeuw in Zuid-
Nederland”, em Geschiedenis van de letterkunde der Nederlanden, vol. 5 (Antuérpia, Bruxelas e Hertogenbosch, 1952), pp.
379-482.
36
E. Peeters, “Van poppenspel naar brandstapel: een proces voor de vierschaar van Eppegem in 1601-1602”, De Brabantse
Folklore, 199 (1973), pp. 325-34; J. De Brouwer, De kerkelijke rechtspraak en haar evolutie in de bisdommen Antwerpen, Gent
en Mechelen tussen 1570 en 1795, vol. II (Tielt, 1972), p. 81.
37
Ghent, Biblioteca da Universidade, Manuscritos, 1816, f. 2; compare também ff. 2-3, 14-15, 30-2, 43-4, 65-7 e 139.

1816. J. 29-33. o próprio Cristo jamais rira.d. Até mesmo o humor irrestrito encontrou seus defensores entre o clero católico romano. W.. 1816. Den seer vermaeckelycken kluchtvertelder (Ypres e Antuérpia. escapou do ridículo. campos inteiramente novos de humor surgiram a partir da Contra-Reforma. Biblioteca da Universidade. 78-9. um padre repreendeu as crianças por não aprenderem nada. cit. s. por sua vez. 38 A. Ela se afogará imediatamente’”.40 Piadas. “Em 1682”. os limites foram impostos e legitimados por meio de apelos à decência. pegue a rã. desde que o objetivo e o oponente fossem apropriados. L. Desse modo. L. um criado tira um penico de sob a mesa onde Triest está sentado e isto provoca gargalhadas entre os companheiros de mesa. W. ‘Como é?’ ‘Bem’. “perto de Bruges. Manuscritos. até mesmo de natureza escatológica. um dos bispos mais zelosos da Contra-Reforma.. Manuscritos. 1 e 69. Ainda assim o riso como tal também poderia ser considerado um pálido reflexo da felicidade divina. Além disso. 48. Um menino respondeu: ‘Você sabe afogar uma rã?’ ‘Não’. ponha uma varinha entre as suas mandíbulas e jogue-a na água. 21-2. J.registradas. respondeu o padre. Biblioteca da Universidade. praticava-se a eutrapelia. .39 Nem mesmo o bispo de Ghent. Antoon Triest. como a anedota do camponês que foi aconselhado pelo padre a aprender as suas orações e que. ff. p. Veja também a anedota citada no início deste capítulo. Ao refinar o humor e afiná-lo aos princípios da caridade cristã. que era benéfica à alma. o riso pode ser entendido como o meio de comunicação que revestiu a aprendizagem espiritual e a hegemonia cultural da Contra-Reforma com códigos de expressão visual e oral extraídos do cotidiano e das experiências corporais comuns. e compare pp.. pp. e compare ff.38 Esse último modelo foi freqüentemente adotado em piadas relativas ao catecismo. Em uma anedota.). 47. 39 Ghent. f. op. foram integradas à cultura da Contra- Reforma na Holanda espanhola. recomendou que o padre aprendesse a fazer um chapéu de palha. Não raro a resposta vem da boca de crianças. assim como por argumentos teológicos — segundo a Bíblia. Naturalmente. conta uma anedota. baseados em uma velha desconfiança cristã do riso. explicou o menino. veja também A. 40 Ghent. 119-20 e 139.

revista e ampliada. pressupõe e pode deliberadamente excluir estranhos. portanto. Integra. 2a ed. hostis às minorias dominantes. Surge. já que só podemos discutir as piadas escritas ou impressas. 1990). A piada política nos tempos modernos talvez seja a sofisticação da piada tradicional em sua natureza oral. Ethnic Humor Around the world: a comparative analysis (Bloomington. paradoxalmente. o estranho pode ser um superior. FBA. org. e aos editores.7 . as piadas tendem a endossar o preconceito popular. 2 C. quase todas as piadas tradicionais. incluindo as novas do tipo tradicional. a cultura mais geral do humor em uma sociedade e é. Por isso as piadas tradicionais.Livros de piada em prosa predominantes na Inglaterra entre os séculos XVI e XVIII Derek Brewer* Uma piada é uma forma de miniarte verbal destinada a provocar o riso. É originalmente oral. (Muito embora eu tenha passado pela experiência * Quero registrar minha gratidão a Peter Burke. é que podemos apreciar a maioria dessas antigas piadas. As piadas políticas eram consideradas subversivas. caçoam de uma vítima que é ou passa a ser um estranho.1 Embora não necessariamente. UM CENÁRIO SOCIAL NECESSÁRIO A natureza de uma piada é promover o humor e a harmonia do grupo que compartilha dela e seus pressupostos implícitos. embora negligenciado na história da literatura e da cultura. sobretudo nos antigos países comunistas. e a Julian Roberts. Tradicionalmente. Davies. no século XIX. Apenas quando nos imaginamos nas circunstâncias originais e nos lembramos de nossa humanidade comum. um paradoxo da discussão histórica. da Emmanuel College. surge a noção de que as piadas são. por mais curtas que sejam. sejam elas políticas ou intelectuais. contada a um grupo fechado. personificando e atraindo um grupo de pessoas de gostos parecidos. subversivas. em várias formas. com introdução de Derek Brewer (Cambridge. em geral. especialmente por existirem em coleções.2 ou o antifeminismo quase tão universal. ou ainda o escárnio dos deficientes físicos. Elas correspondem aos sentimentos das pessoas comuns. É por essa razão que. 1 Medieval Comic Tales. da Biblioteca Bodleian. em parte. do privilégio e da proteção do grupo fechado. são. que representam os estranhos. portanto. por expressarem a solidariedade de pessoas comuns contra os “estranhos” opressores. até certo ponto. priva-a de boa parte de sua força emocional. a exemplo da universalmente praticada piada étnica. sendo por vezes até arriscado escrevê-la ou imprimi-la. por seus valiosos conselhos editoriais. . classificadas de forma semelhante (os livros de piadas) é algo considerável. ou a encarnação da moral convencional em vez da real. É uma narrativa breve de alguma adversidade curiosa. pela própria existência. incongruência ou réplica inteligente. A forma escrita descontextualiza a piada. tratando das contingências e tensões da vida comum. “politicamente incorretas”. um indicador do que nela se entende como engraçado. por isso em prosa. 1996). Qualquer grupo. O conhecimento relativo a tais piadas. pelas sugestões úteis. reunidas em grupos também comuns.

havia piadas na Antigüidade clássica e na Idade Média. Um exemplo pode ser 3 Poggio Bracciolini. no século XV. Em compensação. Liberfacetiarum. em Opera omnia. elas circularam à vontade na Europa e foram impressas em 1477. em si mesmo. I: Facetiae. con una premessa di R. O leitor solitário pode imaginar-se no grupo.. mas também pode colocar-se como o estranho. o segundo livro. Por serem muito populares.de tentar demonstrar a fragilidade de uma dessas piadas velhas. 4 T. o que resultou em gargalhada geral). com um pouco mais de ênfase na necessidade de se evitar a indecência. originalmente.4 Nenhum livro de cortesia medieval fala muito sobre a arte da conversação. Fubini = Monumenta política et philosophica rariora. as circunstâncias culturais — as classes sociais e condições das pessoas envolvidas. Series II 4-7 (4 vols. J. sob o domínio do duque Guidobaldo (1504-8). .3 Trata-se de uma série de anedotas escabrosas. podemos nos voltar para a história do próprio gênero. embora haja nelas ironia e paradoxo de sobra. não havia essa intenção. Cabe ao cortesão entremear sua conversa com piadas. Hoby. 1561). a partir do século XVI há uma série de livros de cortesia que normalmente se referem a tal arte e fazem algumas referências às piadas. 1964-9). The Courtyer. A ausência do grupo social e da animação geral. Naturalmente. Vol. Castiglione. algumas das quais sobreviveram durante muitos séculos. de Sir Thomas Hoby (1530-66). 1968). 1528 (Londres. O cortesão não deveria zombar ou escarnecer do fraco. Hurword (Nova York e Londres. trad. Turim. um verdadeiro livro de piadas. embora algumas delas sejam tão longas e circunstanciais a ponto de se confundirem com o gênero próximo do conto cômico. de Baldassare Castiglione (1478- 1529). de Il Cortegiano por B. contando-a a um grupo. e menos ainda sobre piadas. Mas não há motivo para se achar a análise e a história divertidas. para citar Hoby. que incluem piadas contra os corcundas (um tipo favorito durante vários séculos). The Courtyer. mas em geral considera-se o primeiro livro de piadas formal — ou melhor. mas que receberam um polimento literário. Uma compreensão importante e negligenciada no espaço cultural das piadas no século XVI é dada pela notável posição que lhes atribui o influente livro sobre o comportamento na corte: Il libro del cortegiano (1528). Ainda assim. as qualidades) e sobre piadas e brincadeiras divertidas”. o Livro II de Il Cortegiano é. incluindo uma versão em inglês. a “frieza” da impressão. B. Mas Castiglione se refere aos comediógrafos com desprezo e lamenta as piadas grosseiras ou sujas. Escritas em latim por volta de 1450. possibilitam a análise cultural e a história. publicada pela primeira vez em 1561. versa sobre “os seus usos (isto é. The Courtyer. destacando. Ele se baseia em conversas supostamente ocorridas na corte de Urbino. outros autores adotaram itens particulares e livros semelhantes começaram a ser publicados na Europa. a coleção de piadas reunida pelo notável humanista Poggio Bracciolini (1380-1459). antes de tudo. Com essas considerações preliminares em mente. às vezes antigas. o primeiro de quatro importantes livros que compõem o todo. trad. ensina as qualidades ideais de um cortesão. caso em que a piada pode ofender quando. não raro com anedotas decididamente indelicadas. informal — como sendo o Facetiae. durante o que seria o equivalente à nossa pausa para o café. Poggio alega que elas eram contadas por gente de renome sobre outras pessoas também de renome — fofoca espirituosa e maliciosa —. O livro foi diversas vezes reimpresso e traduzido para vários idiomas. consideradas provenientes da fofoca entre os secretários papais em Roma. a linguagem culta como um indicativo do grupo educado e socialmente coeso do qual se originam.

1701. Ele ressalta o decoro e o autocontrole nas maneiras e é menos tolerante com a piada por ser “agressiva”. charadas. Ele analisa as várias causas da melancolia... H. F. done into English by Robert Peterson (Londres. or A Correction of Several Indecencies Crept into Civil Conversation (Londres. O livro mais importante do século XVI sobre retórica. Gabriel Harvey: his life. 7 Thomas Wilson. deve ser considerado. que ocupam nossas mentes na maior parte do tempo em que estamos a sós. 6 John della Casa Galateo. membro graduado) da faculdade chamada Christ Church em Oxford.encontrado em The Refin’d Courtier (O cortesão refinado). perguntas e ordens. Relacionados com elas. registrando várias curas através de uma extensa série de referências literárias. Pepys nos proporciona o próprio sabor da piada. travessuras. que fazem dele um grande comparatista em vários campos. piadas. o Cortesão em italiano. A treatise of the Manners and Behaviours.. Para uma consideração mais específica da Inglaterra. 8 V.7 Embora baseado em fontes clássicas. for the Use of All Suche as are Studious of Eloquence (A arte da retórica. o xadrez. “small trunks”. o jogo do filósofo. 238-9. G. The Art of Rhetorique. n° 120. e outras versões em 1673. volante. temos duas fontes inestimáveis sobre o século XVII: Burton e Pepys. adaptações e imitações inglesas sem dúvida exerceram influência na Inglaterra. Stern. para uso de todos os estudiosos da eloqüência). 1698. entre a classe alta. . jogos de tabuleiros. foi o de Thomas Wilson. 1969). 5 N.8 O clima geral e as ligações humanistas são claros. cantos. resultantes do mesmo interesse humanista no comportamento educado e polido. 1909). Amsterdã. 1663. são as cartas. 1774). org. nosso Wilson”. incluindo o amor e a religião. escrito por Giovanni Della Casa. Das três partes da obra.5 Havia mais versões baseadas em uma tradução espanhola. As recreações comuns que temos no inverno. publicado pela primeira vez em 1621 e ampliado em edições sucessivas até a edição póstuma de 1651. edições posteriores surgiram em 1679 e 1686. pp. 1703. 1979). da qual minhas citações foram extraídas. sobretudo os livros de piadas.. ou A Correction of Several Indecencies Crept into Civil Conversation (Uma correção das várias indecências insinuadas na conversação polida). tanto na vida da corte quanto na classe média. Ele nos conduz ao nosso tema quando inclui as recreações do povo inglês entre as possíveis curas para a melancolia. marginalia and library (Oxford. bilhar. o gamão e os dados. Quintiliano. o mais breve e mais familiar. O humor sempre é zombeteiro. Escreveu um longo tratado com o título auto- explicativo de The Anatomy of Melancholy (A anatomia da melancolia). Galateo. W. ele possui sua própria individualidade e um estilo vivaz. Robert Burton (1577-1640) era um pesquisador (isto é... arcebispo de Benevento. perguntas e respostas. Mair (Oxford. The Art of Rhetorique.6 Essas obras estrangeiras e suas traduções. O notável humanista Gabriel Harvey possuiu uma cópia da segunda edição e nela escreveu: “Um de meus melhores livros sobre a arte de contar piadas: em seguida Tullie (Cícero). revisto e ampliado em 1567. Seu alcance é enciclopédico. máscaras. rainhas. The Refin’d Courtier. fac-símile em The English Experience Series. passatempos. danças.. 1576. A obra é uma paráfrase de outro famoso livro de cortesia italiano do século XVI. histórias pitorescas de cavaleiros errantes. Burton é mais geral. adivinhações. publicado pela primeira vez em 1553. em língua inglesa. quase toda a segunda é dedicada a analisar e exemplificar todos os tipos de piada. mas a admite nas conversações polidas. a partir do século XVI. 199. e traduzido pela primeira vez para o inglês por Robert Peterson em 1576. Evidencia o ambiente social em que o humor. música. são os vários trabalhos sobre retórica. De todos.

amantes. em alguns casos. assistir a uma “divertida” — uma peça cômica. ilustrada de diversas maneiras nos próprios livros de piadas. por extensão. contar piadas. Essas piadas. às vezes. as fábulas milésicas. quando se encontram com três ou quatro bons companheiros. através de várias culturas. 1739). que são as mais antigas piadas registradas). org. beber o dia inteiro em uma taberna ou cervejaria. da burguesia próspera e dos artesãos. ele foi com sua esposa e Sara. só masculinas ou em companhia mista. embora as evidências sejam escassas e dispersas. 1845 e 1848. edições em 1742. “perguntas e ordens” era um jogo de salão que quase sempre utilizava perguntas e ordens sexuais. sobreviveram por séculos. como os velhos amigos sempre fazem. 11 R. Matthews. os cortesãos. a governanta de Lorde Sandwich. As melhores citações da agitada vida social do século XVII em Londres são as fornecidas por Pepys em seu Diário. ocasionalmente. donzelas. segundo sugere uma nota de rodapé. contar casos absurdos etc. de 1526. gigantes. Em 21 de maio de 1662. comerciantes e gente comum. duendes. conforme aparece em Joe Miller’s Jests. contar velhas histórias perto da lareira. bruxas. causou “alegria” durante a noite na casa de sua tia 9 O jogo do filósofo era uma espécie de xadrez bem complicado. 2. Noite de reis e As alegres comadres de Windsor. Os livros envolvem grupos sociais e uma influência oral. gnomos etc. ele cita uma piada parlamentar bastante grosseira — sendo o grupo aqui envolvido o dos membros da Câmara dos Comuns. or The Wits Vade-Mecum. pp. Membro 4. normalmente em prosa. até mesmo bairros superpovoados e casas de campo isoladas. Por exemplo. embora. Talvez por esse motivo os camponeses sejam o alvo de várias piadas. do habitante da cidade ou do erudito. cantar. cavalheiros. em 7 de maio de 1662. aos quais podemos acrescentar os lares dos bispos e. Burton esboça o possível cenário da taberna. . Latham e W. refletindo o preconceito dos próprios livros de piadas em relação à vida urbana. com sua simplicidade. ou ao sol. como as contadas pela velha a Psiquê em Apuleio (isto é. Em Howleglas.11 Ele nota muitas ocasiões sociais. Londres. com uma introdução útil.10 Elas bem podem ter sido velhas histórias. trapaceiros. n° 168. Ele registra uma variedade de tipos de humor.9 Burton acrescenta mais adiante na página: O grande prazer de certos homens é fumar.. sobretudo em relação a Londres... 1970). todos ficam satisfeitos. Jest upon Jest: a selection from the jestbooks and collections of merry tales published from the reign of Richard III to George III (Londres. eles zombem. Sec. Em 21 de setembro. a baixa e a alta nobreza e os simplórios camponeses. Elijah Jenkins (pseudônimo de John Mofley) (Londres. que alguns adoram ouvir e outros adoram contar. The Anatomie of Melancholy (Londres. talvez até mesmo milênios. outros cenários são sugeridos pela ação e o nível social de A megera domada. 1651). Esse livro foi muito popular: três edições no primeiro ano e outras cinco nos seis anos seguintes. The Diary of Samuel Pepys (11 vols. 1970-83). os romances de Boccacio e outros. discursar. do início do século XVI. “small trunks” é o que chamamos de Resta Um. A isto acrescente-se a vida prolífica das ruas. Leia. 1745. 46-7. Mas o conselho de Ratsey aos jogadores é “Ide a Londres”. Ou. até as igrejas do século XVI. sendo apenas alteradas as circunstâncias superficiais da narrativa. em que “estávamos muito alegres”. de Shakespeare — cenários domésticos da nobreza. anões. assim como o clero em viagem. os interessados em suas atividades. há aldeias com igrejas e cemitérios.. falar alto. ladrões. John Wardroper. todos homens e. em Ratseis Ghost (1605) há indícios de um viajante e de jogadores a passeio no campo. Parte 2. 10 Robert Burton. fadas. apinhadas de artesãos. 1832. e em A Hundred Mery Talys. O grande cenário dos grupos sociais das piadas e dos livros de piadas é muito relevante para a sua verdadeira compreensão.

em que “estávamos muito à vontade. memorizar) quando poderia conseguir o livro”. mas a sua participação no divertimento geral. em outro jantar com os oficiais da marinha. não mencionarei aqui”. “uma história belíssima e que merecia aprender sem livro (isto é. Isso não só ilustra a companhia das mulheres. Essas considerações ilustram o hábito de colecionar histórias para novamente contá- las ou registrar em livros. Pepys escreveu cartas fingindo ser o ladrão que a roubara em 28 de agosto de 1661 e. Pepys escreveu outra carta exigindo um resgate de 30 xelins que. não havendo cadeiras”. mas ainda social.. o livro de contos se perdeu. possibilitou que todos se embebedassem tanto. as quais anotei em meu livro de contos e. eles beberam um bocado “e contaram muitas histórias pitorescas. Pepys estava se divertindo com histórias agradáveis de Coventry e de Sir John Mennis e. quando Pepys participou de um “belíssimo jantar” na casa de seu irmão Tom com amigos do clero. e que. mas. alguns pertencentes a Pepys — ou então na citação de um provérbio). A informalidade social explica as variações nas diferentes versões (uma característica da literatura tradicional) e o domínio da prosa. quando se encontraram. 1655). foi “elegantemente molhado” pelo que deveria ter sido uma fonte de brincadeira. sendo o deão apenas um homem fraco. e brincando de “eu amo meu amor com um A porque ele tal e tal. Pepys assinala ter ouvido. com raras exceções. estava muito contente “pelas muitas e excelentes histórias contadas pelo Sr. Na noite de 14 de novembro de 1660. . ele convidou Lorde Sandwich para a casa de sua amante em Chelsea. Homens cultos. ao entrar no jardim. em especial a própria duquesa e Lady Castlemayne. mas não muito alegres. mas não fica claro se ele a achou engraçada). Coventry. Em certa ocasião. Isso ilustra bem como essas histórias oscilam dentro e fora das tradições oral. foi a alegre noite de 4 de março de 1669. Em 2 de setembro. em todo nosso período. Sir William Batten e outros colegas de Pepys roubaram temporariamente uma caneca de prata de Sir William Penn. e explica por que o seu estilo normalmente conserva certas características orais. todos eles provocaram-no sobre isso. como mostrado acima. quando foi pago. Em 9 de outubro de 1660. em 12 de maio 1660. Musarum deliciae or The Muses Recreation (Londres. contar e registrar o que. ouviu durante o jantar algumas piadas grosseiras de Sir John Mennis. Pepys e seus amigos “estavam muito alegres à mesa e contavam casos”. e de bom humor estávamos todos”. eram muito engraçados”. (A nuança de “pitoresca” é bem conveniente pelo registro de 1º de junho de 1663. escrita e impressa. portanto. freqüentemente.elogiando a missa católica romana. têm interesse em ouvir. Em 29 de abril de 1663. ele viu o rei e as nobres senhoras dançando ao som da canção cômica Cuckolds All A-Row. Outra noite diferente. “o que causou um ótimo divertimento” (1o de setembro 1661). Ninguém fala em versos em uma festa de amigos (exceto brevemente numa charada — existiam livros pitorescos de charadas em verso. quando Pepys viu o duque e a duquesa de York e algumas grandes damas “sentados em um tapete no chão. Ele também as tinha anotado em outubro. novamente. Há outra referência a elas em 28 de março de 1664. Em 30 de outubro de 1662. Pepys registrou alguns trotes. em geral na companhia de mulheres. (Pepys registra a história de uma engenhosa fraude de seguro em 30 de novembro de 1663.12 Na noite de 31 de dezembro de 1662. e alguns deles. são piadas muito antigas. provocando sua tia protestante por ela lamentar a morte da irmã (um bom exemplo de humor malicioso). em 5 de dezembro de 1663. em 9 de 12 Sir John Mennis. Em 24 de outubro. infelizmente. apesar de muito bom”). espirituoso e co-autor de um livro obsceno e um tanto cômico..

Burton atribui o nome de “piada mordaz”. Não seria surpresa encontrar essas histórias como façanhas de Til Eulenspiegel ou de outros protagonistas dos livros de piadas. por zombarem de seus superiores. Em 12 de setembro. A subversão aqui é muito ambígua. Ele reconhece também o elemento mais profundo da hostilidade. espirituoso etc. que Sir William foi incapaz de compreender o que haviam feito quando confessaram o trote. um estranho temporário. que não conseguem conter o riso e a zombaria a respeito de tudo que parece estranho” (Diário. 2. mas o leitor não é surpreendido. fornecendo vários exemplos da história clássica de comediógrafos. a dor de outrem. a partir de 1660. pode ter limitado um pouco do humor com o ato de 1643. que se despiu no balcão de um restaurante no Covent Garden. de modo que o guarda foi acusado. obsceno. grosseiro. Penn. Em 23 de outubro de 1668. 1640 a 1660. naturalmente. Parte 1. “o que nos causou mais divertimento ainda”. hoje área central de Londres. A julgar por esses e pela contínua produção de livros de piadas ao longo do século e até os nossos dias. Um relato bizarro (dos procedimentos legais) é feito em 1o de julho de 1663 a respeito de Sir Charles Sedley.) 13 Burton.da T. Vários outros bons exemplos de ocasiões para o riso. mas como uma causa da melancolia. “abusado das escrituras” e rezado um obsceno “Sermão do Charlatão”. como já foi notado. 4. formada de cidadãos respeitáveis e responsáveis. “o que”. (N. O interregno puritano. Sec. A história é verdadeira e Sedley foi multado em 500 libras. que houve menos riso no final do século do que no início dele. * Antigo mercado. A piada de um grupo é. 27 de novembro de 1662). ao caloroso sentimento de grupo gerado pela piada. a calúnia. restaurantes e lojas. Nota-se aqui o caráter agressivo e subversivo das piadas. “a velha de Woolwich” contada ao barqueiro dele.* perante mil pessoas. Aqui o grupo faz de um de seus próprios membros. “Deus nos proteja dele”.13 Ele quer a prática da generosidade. sob o qual ele agrupa o sarcasmo. lutando com o guarda e sendo presos. que pagaram caro. com pubs. mas mesmo durante esse período foram publicados alguns livros de piadas e. O rei tomou o partido deles. O Diário de Pepys em 1668 registra muitas reuniões alegres e faz outras referências a histórias cômicas (por exemplo. algo como uma explosão da literatura humorística de vários tipos. Ele conclui que esse é um mundo louco. Burton faz justiça. o desejo de magoar e assim por diante. freqüentemente. brutal. até mesmo na justiça. como era de se esperar. na minha opinião. ilustrando vários tipos de humor — físico. Há aqui também uma importante verdade psicológica que quase sempre é negligenciada pelos fornecedores de piadas em todas as épocas e pelos pesquisadores do humor. Subsec. Pepys soube por Sir William Batten “que Sir W. e não vê genialidade na piada. Membro 4. Pepys anota “a natureza absurda dos ingleses. mas esses exemplos devem ser suficientes. há. . “é uma ignomínia”. Sedley e Buckhurst são vistos correndo pelas ruas para cima e para baixo “com seus traseiros nus”. — podem ser extraídos do diário. Penn levou nossa brincadeira da caneca muito a sério — o que lamento”. não parece. tendo depois executado vários gestos obscenos. Essa é a visão tradicional. Sua principal discussão com respeito à piada não a coloca como um alívio à melancolia. incluindo a benevolência do rei com os infratores e o tratamento injusto com a guarda. The Anatomie. 2 de junho de 1668). diz Pepys.setembro.

em A C Mery Talys. 1991). cf. da sabedoria convencional parece não ter sido muito ao gosto de Burton ou do inglês em geral. Parte 3. igualmente grosseira e não mencionado por Burton. 1866). em Amsterdã. org. 8’.16 Cita Ben Jonson (1572-1637) algumas vezes. Lib. e abriu caminho entre as classes sociais mais altas sem sentimento de inferioridade.28. 3.. Outra ed. Ele também faz uma breve referência a Marcolphus como uma figura de feiúra repulsiva. Marcolf é um cômico vulgar em contraposição à sabedoria de Salomão — no mínimo. Outra ed. Mas após um tolerante relato de adultério. Sec. Revised Short Title Catalogue. talvez mais prodigioso ainda. 3. Veja também Shakespeare’s Jest Book. e deve ter gastado a maior parte de seu tempo sozinho adquirindo o hábito prodigioso de ler e. de escrever. com introdução e notas de H. Bennett (org. ele não era um freqüentador assíduo de tabernas. É bastante sério. 1864). M.14 Burton parece não entender a piada e elogia o controle do traído. A Hundred Mery Talys. Subsec. em G. Membro 5. mas jamais Shakespeare ou outros dramaturgos. 16 Ibid.17 Marcolphus é uma figura estranha. e nenhum texto posterior nos resta). Shakespeare Jest-Books. 1526?. . (Entretanto. Embora The Hundred 14 Aparece. — Gottingen. (British Library). Membro 4. Londres. Pepys era diplomado pela Magdalene College. listas 23663. Sec. 1492. Jones. como será observado. Burton. J. 1548. Os mais recentes exemplos do século XVIII apenas refletem com mais clareza a interligação entre os vários tipos de recreação e expressão verbal implícitos nos livros de piadas anteriores. Ele cita uma velha história sobre um gabola que fracassa comicamente ao tentar cumprir sua ameaça contra um homem mais forte que o traíra com sua mulher. Membro 4. G. 2. Duff com introdução. Carew Hazlitt (3 vols. prevê o desprezo erudito posterior. Sec. pp. A consciência de Burton da amargura da piada coincide com a dos escritores dos livros de cortesia. mas rude. uma tolerância à subversão.4. Ben Jonson abre caminho presumivelmente por seu neoclassicismo.5. A CULTURA POPULAR INCLUI OS CAVALHEIROS Os livros de piadas são sempre considerados com alguma ambivalência pelas pessoas cultas mas. Peterborough E. no período medieval. dois livros de piadas. Howleglas. Univ. 15 Burton. Camb. The Dialogue or Communing between the Wise King Solomon and Marcolphus (Antuérpia. 1. provavelmente. mas também o interesse do colecionador. fac-símile org.15 Ele considera os livros de brincadeiras e piadas impróprios para leitura. 4 fragmentos fol. 2. se não eram apreciados. pois ele possuía. Quatro folhas na encadernação de outro livro. Rastell. As atitudes dos escritores cultos em relação aos livros de piadas tornam- se aos poucos mais explícitas e. The Anatomie. Embora alegre quando em grupo. 1892). a esse respeito. Havia em inglês arcaico um Dialogue between Salome and Saturn (Diálogo entre Salomé e Saturno). em Cambridge. E. como Pepys ilustra. Essa paródia inteligente. Copland?. Parte 3. “Marcolf the Trickster in late medieval art and literature: or the mystery of the bum in the oven”. 1976. um trecho da literatura “sábia”. 23664. mesmo que em partes. por exemplo. nem bom companheiro.. certamente foram lidos. Vol. Londres. com introdução e notas de W.). 139-74. assumiu seu lugar). Parte 2. 17 Ibid. Spoken in Jest (Sheffield. Saturno se tornou Marcolf e. R. 2. 23664. Subsec. Em nenhum momento Burton recomenda a piada como cura para a melancolia. mas também pode se dever a sua grande ênfase na leitura. De algum modo. ele se refere rapidamente a uma piada de um livro de piadas. Burton presumivelmente conheceu uma versão latina (a inglesa foi publicada com o nome de Marcolf em 1492. mais diferenciadas. org. Oesterley (Londres.

Uma é sobre corcundas. em edições posteriores. org. Nenhuma delas é grosseira. 137 — Muito barulho por nada). o austero solteiro William Sancroft (1617-93). Moore também tinha uma expressiva coleção de folhetos e a legou para a biblioteca da Universidade de Cambridge. F. projetado para um público maior. p. que eles “são muito apreciados por aqueles que desejam acrescentar pequenas peças que tendem a provocar risos às suas coleções de livros de primeira classe”. atribuído a Andrew Boorde. Kahrl. Sir Nicholas Le Strange (1603-56). Wardroper. Cambridge. em 1735.18 O outro é The Banquet of Jests (Banquete de piadas. A história de sua impressão é impossível de ser reconstituída por completo (mas veja nota 14). As próprias piadas e seus livros eram colecionados por estudiosos e cavalheiros durante todo o século XVII. em formato in-fólio. desfaziam-se com facilidade. Os livros de piadas continuaram a ser usados. com uma introdução de H. Não obstante. Jest upon Jest. Muitas são antigas. contendo mais de 600 itens. 20 Wardroper. 18 S. Wardroper. Dogberry e Verges. 1975-93). contendo 105 piadas tradicionais. sendo impresso e possivelmente compilado por John Rastell. hoje na Biblioteca Bodleian. “Die Bedeutung der Vulgaria-Sammlung von Samuel Pepys’. 21 Sir Nicholas Le Strange.20 Os cavalheiros também colecionavam manuscritos. Jest upon Jest. nessa como em outras peças de Shakespeare. a quem devemos um dos fragmentos de uma edição in-oitavo de The Hundred Mery Talys.v. pp. p. 199. entre 1630 e 1640.21 Um de meus antecessores como professor na Emmanuel. Mas ele também compilou um manuscrito. pode muito bem sugerir que esse livro de piadas em particular tornara-se antiquado. 13 (1966). Small Books and Pleasant Histories: popular fiction and its readership in seventeenth century England (Londres e Cambridge. um versátil monge rabelaisiano. Algumas estão em latim. nem mesmo eram historiadores culturais avant la lettre. Já mencionamos o livro de contos de Pepys. dizendo. hoje perdido. Benedick e seus amigos lembram o humor dos livros de piadas. org. Benedick e Beatrice (Muito barulho por nada. e aparecendo. 152. classificados sob o termo Vulgaria em seus catálogos. H. Esses cavalheiros não perderam o seu senso de proporção. Como tais livros eram baratos e malfeitos. sobre os livros de piadas. Lippincott = Salzburg Studies in English Literature. deixou para a faculdade uma considerável biblioteca erudita de cerca de 6 mil volumes. Thomas Hearne resume a situação. e cujo próprio sobrenome significa “piada”. K. p. embora muito abreviadas. q. 29 (Salzburg. Studies of the Renaissance. as piadas e os gracejos trocados por Beatrice. 11. R. talvez. que se tornou médico. o guarda. “The medieval origins of the sixteenth-century English jest-books”. J. 1714) de Ely (onde há um lindo monumento a ele na catedral). 1981). inclui dois livros de piadas. Um deles é uma edição de 1630 de um livro de piadas do século XVI.. são puros (em todos os sentidos da palavra) protagonistas dos livros de piadas. e que registra o nome da pessoa que lhe contou cada história. 1630) que. hoje na Biblioteca Bodleian. Merry Passages and Jests: a manuscript jestbook of Sir Nicholas Le Strange (1603-55). organizou uma coleção por ele chamada de Merry Passages and Jests (Passagens pitorescas e piadas). Latham e outros (7 vols. Göller. foi logo lançado no formato in-oitavo mais barato. em 1526.19 Outro colecionador foi o bispo Moore (m.. 19 Veja Catalogue of the Pepys Library at Magdalene College Cambridge. II. Mesmo a coleção de Burton. 109-16. M. Spufford. 1974). foi ligado ao nome de Archie Armstrong. à exceção de Burton. Elizabethan and Renaissance Studies. i. Archiv. Jest upon Jest. com fortes raízes medievais. O repúdio a The Hundred Mery Talys pelos cortesãos de Shakespeare. 216 (1979). Pepys colecionou um número considerável de livretos pitorescos.Mery Talys fosse um produto do sofisticado círculo humanista. 166- 83. Eles parecem ter lido. . pp. O livro é The Merry Tales of the Mad- Men of Gottam (Contos alegres dos loucos de Gottam).

as várias classes literárias e sociais se mesclavam de um modo bem medieval e o mesmo ocorria com sua literatura recreativa. The Four Ps (impresso pela primeira vez em 1545?). escreveu uma pequena peça. é hoje vendido apenas em bancas de livros baratos”.22 Era nessas bancas que colecionadores como Pepys e Moore montavam suas coleções. difere um pouco dos escritores criativos que permanecem na tradição popular. foi considerado por estudiosos e cavalheiros como um livro cheio de graça e alegria. como Burton. unindo a transmissão oral. da região central da Inglaterra (no caso de Burton. Sutton Coldfield). escrita e impressa. p. No fim. Como sempre. As piadas viveram entre a palavra oral.embora sem avaliar muito bem. A sua existência é. Heywood escreveu um interlúdio. . fluidas e variáveis. de modo singular. The Four Elements (Os quatro elementos. versáteis. 1520). para o próprio prazer. em seu Athenae Oxoniensis (1692). como as charadas. mas. os livros de piadas às vezes compilados por eles mesmos para a sua própria diversão. assim como coleções de provérbios e epigramas também enquadrados nessa mesma área de literatura popular. já que seria talvez extravagante falar da “influência” dos livros de piadas na literatura superior. que tinha vários interesses intelectuais e literários. o exemplo mais interessante é Shakespeare. a quem também foi atribuída uma das supostas comédias de Rastell. depois de muitas vezes impresso. Elas eram. a mudança de gosto do prazer honesto para o de um colecionador não é claro e definido. 1547). no reinado de Henrique VIII (m. uma parte da vida social — pois que comunidade. Ele era um estudante de gramática. o intelectual. col. e mesmo depois. c. Mas como Pepys e os outros mostram. Rastell. No século XVI. se aproximam da tradição dos livros de piadas. como já foi explicado pelos exemplos citados. mesmo que com um pouco de indiferença. existe sem piadas? A Hundred Mery Talys inclui contos com uma provável base oral. Em Burton já vemos o início da retirada do intelectual do cotidiano geral e o começo de uma classificação mais delimitada na literatura inglesa. “em cujo reinado. O cunhado de More. sem parentesco com Thomas Heywood (?1575-164l). Uma comparação entre Burton e Shakespeare num caso particular é reveladora. mas se origina de um círculo especificamente culto: os humanistas associados a Sir Thomas More (ele próprio um famoso piadista). e duas comédias. mesmo solene. Jest upon Jest. aquilo que coleciona por seu interesse social ou interesse em antigüidades. ao que parece. O colecionador pode ainda apreciar. e são. “Popular” não significa “de classe inferior”. impressa em 1638). como quase toda a literatura secular tradicional. diz ele. 60. e várias comédias com estilo próximo ao dos livros de piadas. Heywood era bisavô de John Donne. 22 Wardroper. I. refere-se a The Merry Tales ofthe Mad-Men of Gottam (um dos livros da coleção de Burton). Mas Burton. cujas obras. c. Nesses casos. 199. escrita e impressa. fica claro que os livros de piadas fazem parte de toda uma tradição de humor compartilhada com as grandes obras. tendo nela a sua fonte e para ela contribuindo. Anthony à Wood. Seu genro era John Heywood (1497?-1580?). Foi impresso. historiador da Universidade de Oxford. a exemplo de The Wise Woman of Hogsdon (A sábia mulher de Hogsdon. 1604.

costumavam cultivar as “notas nativas e selvagens” de Shakespeare. 25 D.25 Em Heuterus. uma humanidade e uma compaixão superiores a muitas das impiedosas piadas tradicionais. em A megera domada. quase idêntico à piada apresentada por Shakespeare com o funileiro bêbado Christopher Sly. O ponto principal é que a anedota não é sobre um episódio histórico. embora alguns de seus trotes possam parecer um pouco grosseiros aos ternos corações modernos.23 Ele a retirou da história latina da Borgonha escrita por Heuterus.. não há quase escatologia e. P. O mesmo arquétipo do maravilhoso sonho inebriado é lembrado por Shakespeare quando revela o sonho de Bottom em Sonho de uma noite de verão. Shakespeare mostra-se. p.Tipo J2322. em que o caso é contado como verídico. escrita por volta de 1592. fortemente situados na tradição humanista das piadas de tipo cavalheiresco. por sua negligência ou ignorância de Shakespeare (em comparação a seu conhecimento de Ben Jonson). Motif Index of the Italian Novella (Bloomington. Sec.27 Shakespeare. Seus príncipes — até mesmo o melancólico Hamlet. mostra-se na mesma tradição neoclássica. Helsinque. entretanto. entre os bem-nascidos e o povo. Aarne. como aleguei. nesse humor genuinamente popular. 373-4). Escritores neoclássicos eruditos do século XVII. entretendo-o com diversões requintadas. publicada em 1584. 26 Shakespeare. nenhum deles é selvagem. um lorde encontra um camponês bêbado adormecido. na tradição popular geral. como diz indomavelmente Parolles em Tudo está bem quando acaba bem (IV. The Taming of the Shrew. contendo tudo. É bem pouco provável que Shakespeare tenha lido Heuterus como sua fonte. desperta-o e finge ser ele um grande lorde. . mesmo que seus palhaços e muitos atos pertençam à tradição geral — embora realmente haja pouca diferença. O episódio foi chamado pelos editores de “O sonho do homem que desperta”. nas duas peças de Henrique IV — e seus cortesãos estão. mas sobretudo o príncipe Hal. “Some observations on the development of literalism and verbal criticism”. The Types of the Folktale (2a ed. ainda medieval ou “gótico”. escritas e impressas. Aparece em As mil e uma noites. iv. Brewer. org. talvez originário da Ásia. 27 D. como Milton e Jonson. como aquela na qual essa história aparece em 1630. o livro. Poética. 1942). 24 A.26 Se assim fosse. outra das peças de Shakespeare cuja estrutura básica na tradição folclórica 23 Burton.24 É também encontrado como uma novela italiana. Rotunda. “Simplesmente o que sou me fará viver”. Burton. H. 2. Ele pode ter encontrado a história em alguma coleção anterior de anedotas impressas. sem esforço. S. mostrando-as munidas de uma autoconfiança inabalável. não conhecido na Europa até o século XVIII. desapareceu. como tantos outros do mesmo tipo. Thompson. Essas histórias oscilam entre formas orais. 1982). Shakespeare combina piadas tradicionais com réplicas espirituosas. 1973). mas um antigo conto folclórico cômico e popularmente difundido. OS LIVROS DE PIADAS E A LITERATURA INGLESA Burton conta uma das piadas que ele chama de “piadas inocentes dos grandes homens”. J. rev. como tantos outros. na linguagem dos historiadores da arte. É um trote num camponês bêbado. Parte 2. Ele protege as vítimas dos trotes que apresenta. cultos e ignorantes. Mas não importa. mas ele é conto folclórico tipo 1531. ao contrário. veste-o com roupas finas. Oliver (Oxford. 35. é antiquado. Suas piadas sexuais não são vulgares pelos padrões modernos. The Anatomie. enquanto mostra uma gentileza. 71-95. Membro 4. chamado por Aarne-Thompson de “O homem que pensa que esteve no Paraíso”. Depois o faz dormir novamente e o devolve às suas roupas velhas e à pobreza anterior. um conto tradicional. um tipo de egoísmo essencialista. 2 (1974). pp.

embora regida por influências continentais. de quem zombamos. 1969). 145-61. é do mesmo tipo do humor matrimonial dos livros de piadas. Plautus and the Humanist Tradition (Cambridge. G. Enquanto o conhecimento literário de Shakespeare. paradoxalmente semelhante ao do Satanás de Milton. Takamiya e R. Ainda assim. tratava-se essencialmente de um gênero humanista. por toda a base tradicional de muitas piadas. Este não é o lugar para caracterizá- la e tratei de vários aspectos em outra parte. principalmente do século XVI.30 O gênero dos livros de piadas floresceu e. pp. e à recusa de Shylock em ser humilhado. Shakespeare. como mostrei em detalhes. não apenas a estrutura do “Sonho do homem que desperta”. em T. A distinção de classes começa a se fazer sentir. Wilson. como comenta F. “The English jestbooks of the sixteenth and early seventeenth centuries”.29 Ele nem precisaria encontrar fontes específicas. não foi bem avaliado. embora de um tipo totalmente tradicional. Essa é a humanidade de Shakespeare. 30 Brewer. que é uma das muitas correntes a se juntarem no que vem a ser o poderoso rio do romance. Ainda assim. como já foi dito. com 28 L.popular é muito pouco compreendida hoje. “Elizabethan merry tales andThe Merry Wives of Windsor: Shakespeare and popular literature”. dentro de uma tradição de humor realmente popular e socialmente inclusiva (em especial como é encontrada nos livros de piadas) não foram suficientemente valorizados. Mais ainda é o elaborado trote pregado em Malvolio em Noite de reis. que começa como o próprio estereótipo da esposa de mau gênio. 31 E P. começa por apresentar comicamente o judeu Shylock como um vilão. 1990). Shakespeare. Em A megera domada. o seu espírito puritano admiravelmente invencível. volta-se para o humor dos livros de piadas tradicionais em busca de matéria-prima pronta para uso. . Além do mais. como se revelaria. mereceu ampla justiça nos últimos anos. mais extenso que as anedotas dos livros de piadas. essencialmente um gênero neoclássico. excepcionalmente explícito e auto-explicativo para Shakespeare.). em H. o seu lugar e o de muitos outros intelectuais e cavalheiros. W. Shakespeare. Brewer. o truque verbal aplicado em Shylock para levá-lo à merecida derrota no final é do tipo dos livros de piadas. é puro material de livros de piadas. Todos sabemos como a simpatia de Shakespeare e da platéia se transfere para o judeu por algum tempo. 1992). com pressa para preparar uma peça cômica encomendada. Shakespeare and the Traditions of Comedy (Cambridge. o aparecimento do realismo da vida cotidiana nas anedotas dos livros de piadas alimenta o realismo. Shakespearian and Other Studies (Oxford. e o humanismo se torna neoclassicismo. O mercador de Veneza. Salingar. numa dessas peças. O século XVII registra um certo progresso na especialização da literatura. ocasionalmente. P. atrai a nossa compaixão e torna a piada ao mesmo tempo mais cômica e menos ofensiva. sobretudo na comédia. Mesmo assim. 285-324.). mas toda a história da domesticação da esposa de Petrucchio. Só nesse campo. As alegres comadres de Windsor. deixa claro que ele é merecidamente enganado. 1974). Shakespeare não só pode como inventa um enredo. Riehle. pp. embora não haja vestígio anti-semita nos livros de piadas ingleses até o século XIX. O nome de Malvolio. “Some observations”.31 Um dos primeiros exemplos desse desenvolvimento. Chaucer to Shakespeare: essays in honour of Shinsuke Ando (Cambridge. Esse é o primeiro século no qual aspectos literários e sociais podem ser chamados “baixos” e foram muitas vezes injustamente identificados entre si. Temos o desenvolvimento da crítica literária neoclássica na Inglaterra. Gardner (org. mas com muito do seu sabor e. 29 D. Beadle (org. Wilson.28 Editores e críticos ignoram os livros de piadas ou os tratam com o desdém da cultura literária e exclusivista neoclássica.

Pope e Swift estavam próximos da linha de humor dos livros de piadas. Em algumas obras. e é curioso que. ao passo que a influência de Cervantes é difundida. é uma série de episódios de livros de piadas. aos dos livros de piadas. Em todos eles. uma reversão interessante do fluxo de empréstimo e influência. 1978). como a obra de Rabelais. ou romance picaresco. hoje. como no século XVIII. que ainda não são bem romances. Swift e Sterne foram diretamente influenciados por Rabelais. mas a pequena mudança não é surpreendente. enquanto o elemento sexual foi um pouco 32 Brewer. “Elizabethan merry tales”. chegamos ao Dom Quixote. o humor é áspero. são Rabelais e Cervantes. Prior e Gay. o elemento malandro. Mais tarde. Poems on Several Occasions (Londres.34 Ver Chaucer como um escritor basicamente cômico e obsceno é uma idéia ainda alimentada em nossos dias e. que muito influenciaram o romance na Inglaterra e estão bem próximos do humor dos livros de piadas. O tom pode ser um pouco diferente daquele anterior à Guerra Civil. embora esse desenvolvimento tenha sido precedido por alguns como Sir John Mennis (acima). a “novela” anônima. é muito mais do que um livro de piadas — mas sobre o qual não é demais afirmar que sua inspiração básica é idêntica ao humor deles. Ela reflete um público leitor mais amplo e um maior interesse em um tipo de “decoro”. foi adicionado um elemento escatológico significativo. Matthew Prior relata a história indecente. Muitos incidentes são próximos. O século XVIII assistiu a um florescimento da escrita humorística em geral. impresso em 1553. zombeteiro e até mesmo brutal. Londres. Brewer (org. do mesmo tipo de Lazarillo. 97. Tanto Rabelais como Cervantes foram traduzidos para o inglês durante o século XVII. os elementos escatológicos. um deles independentemente compartilhado com um livro de piadas inglês do século XVI. se não de fato comparáveis. insensível. Mas há “biografias” de livros de piadas em grande quantidade na segunda metade do século XVI e no século XVII na Inglaterra. do anel de Hans Carvel. pp. de Thomas Deloney (1560-1600). p. Eles diferem em sua elaboração e na grande habilidade poética.32 De Lazarillo. 150-1. que hoje em dia são chamadas de “carnavalescas”. para não estender- me. Em Rabelais. é fornecido pelas histórias. Foi o século XVIII na Inglaterra que rotulou Chaucer como um poeta basicamente cômico e indecente.. Chaucer: the critical heritage (2 vols. . de Lazarillo de Tormes. muito típica nos livros de piadas. de Cervantes que. bem parecidos com as anedotas dos livros de piadas. Andrew Boorde. Prior. Lazarillo une os episódios para fazer um livro maior do que qualquer volume do seu tipo no idioma inglês. a farsa ruidosa. Houve várias adaptações modernas desses contos de Chaucer no século XVIII. Reeve. têm ligações muito óbvias com os livros de piadas. sem usar uma palavra agressiva. as inversões cômicas. fragmentos de Swift. 1721).33 Pope. Rabelais é uma versão infinitamente maior de nosso próprio Dr. Tales and Quicke Answeres.incidentes semelhantes. foram incorporados aos livros de piadas do fim do século XVIII. Summoner e Shipman. Até então ele era considerado o nobre poeta filosófico do amor. Na Espanha. 34 D. Dois grandes escritores continentais do século XVI. em particular. promovida por versões distorcidas de fabliaux·. escreveram versos cômicos no estilo “chauceriano”.). 33 M. em vários casos. a exemplo dos contos de Miller. repetindo anedotas características dos livros de piadas.

embora Boswell considere que esse costume. apesar de engraçado. Collected Works of Oliver Goldsmith (Oxford. ainda que não propriamente como cômica. 1991). Strachey (org. 3 de abril de 1773). consistia basicamente em trocadilhos (Boswell. não há muita novidade nisso. rindo das próprias brincadeiras e de piadas impróprias. o riso é muito intolerante e malcriado. como o fazem alguns críticos modernos. tão próximo do humor zombeteiro dos livros de piadas.”. Boswell comenta que eles “riram muito” e que o 35 Como pode ser visto em textos reeditados em B. também. Bowden (org. por um lado. não devemos dar muita importância às observações de Chesterfield. 209-13. ele simplesmente inseriu a escatologia em visões modernas. outubro de 1780). pode ser resumida. segundo Dr. como o jovem puritano Milton retrata “o riso que se segura”. A história da “recepção” nos conta tanto ou mais sobre os leitores mais recentes do que sobre o autor original.39 Na verdade. de 19 outubro de 1748.). um livro de piadas bem tradicional aparecesse com seu nome. que certa vez disse que as cartas de Chesterfield “ensinam a moral de uma prostituta e as maneiras de um mestre de dança”. notamos a passagem de Oliver Goldsmith em The Deserted Village (A aldeia abandonada. também era um esnobe. cf. The Oxford Companion to English Literature (5th edn. 39 Oliver Goldsmith.37 Na verdade. 1770): “O riso alto que falava a mente desocupada” (1. “Elizabeth na merry tales”. sejam eles mais ou menos cruéis com sua vítima?). mas que ainda se orgulhava do requinte dele.). vol. acima citado. 36 Brewer. Também é paradoxal que Goldsmith tenha defendido o riso e se oposto aos comentários de Chesterfield sobre ele. a exemplo de Joe Miller. 120. bastante superficial na época. Histórias de cômicos ou trapaceiros como Ratsey desaparecem com Archie Armstrong. além da “chocante distorção da fisionomia que ele provoca”. 1966). inevitavelmente a famosa crítica de lorde Chesterfield ao riso. n° 1 (1773). de Peterson (1576). reedit. Segundo Chesterfield. mal Chesterfield acabara de morrer. em A. “de tal jeito que Sua Majestade riu com entusiasmo” e.minimizado.). pela reação de Elizabeth I a “como Tarlton bancou o bêbado perante a rainha”. Johnson. . Eighteenth Century Modernizations from the Canterbury Tales (Cambridge. como mostra a história dos livros de piadas. Oxford 1985). Johnson. 38 Peterson.. que só se satisfaz com coisas tolas. Johnson também era capaz de rir cordialmente. Em 17 de maio de 1775. Na carta 146. um ruído desagradável. Ele. Sua carta 144. p. continuem sendo usados. 153. Ao contrário. 40 Citado por M.35 O século XVIII não dedicou surpreendente ingenuidade a extrair significados estranhamente obscenos do texto de Chaucer. e cuja graça. Parte da mudança nas maneiras. O registro de trotes quase desaparece dos livros de piadas por volta de 1700 (mas será realmente que os trotes na vida atual chegam a desaparecer? Não conseguimos nos lembrar deles. Esta última lembra. por volta de 1631-2 (a data presumida da composição de L’Allegro). teve um tratamento mais cordial para com o riso.38 É um paradoxo que. 4-6..). The Westminster Magazine or The Pantheon of Taste. Chesterfield. pp.122).. tem uma passagem significativa condenando o riso (o povo diz “estar alegre”). Friedman (org. pois a verdadeira graça e o bom senso jamais provocam o riso. fosse então algo do passado. 1901). de 9 de março de 1748. O Gahteo.40 Em pelo menos uma ocasião excedeu o guarda do Tâmisa num cômico e ofensivo insulto (Boswell.36 Por outro lado. ele dizia ao filho (para quem originalmente foram escritas as cartas) que “o riso alto é o riso da turba. Drabble (org. e Mrs. elogia a “graça” nas maneiras e condena “a risada inconveniente”. embora nomes de atores. 37 C. “A comparison between laughing and sentimental comedy”. The Letters of the Earl of Chesterfield to his Son (Londres. Pilkington tenha florescido na metade do século XVIII. Galateo. p. pp. 3.

Elizabeth I gostava de seus cômicos. para o azar de muitos homens pobres. cômicos e palhaços. mais uma vez se estabelecendo na tradição popular geral. até que ele exagerou com o arcebispo Laud e foi despedido em 1637. pois seu sucessor. que satirizava o rei em suas canções. Para a Inglaterra. Tom Davies disse: “Ele ri como um rinoceronte”. V. a classificação de Paulson do Life de Boswell como o auge dos livros de piadas tem seu valor — ao menos por apreender o elemento oral das piadas ao criar o cenário social de vários tipos de réplica. por ordens do rei. 43 A Banquet of Jests and Merry Tales by Archie Armstrong. 1982). A Banquet of Jests and Merry Tales. Mesmo assim. que dedica um valioso capítulo a “O bobo da corte na Inglaterra”. Algumas conseguiam escapar com críticas. brincadeiras rudes e trotes. uma profunda análise teórica. por fim erradamente ligada a seu nome. teve. “um tipo de resmungo bem-humorado”. não sendo um avarento. juntamente com anões e outros desafortunados. Apesar do exagero. Armstrong representa uma linha comprida que se estende de volta à Antigüidade de bobos naturais ou planejados. com introdução anônima (Londres. No tempo de Henrique I da Inglaterra. Era um escocês que fizera uma fortuna confortável de um monopólio concedido por Jaime I na fabricação de cachimbos de barro.43 A decadência de Archie Armstrong pode ter indicado uma mudança nos costumes. Welsford. embora os controlasse rigidamente. . adequadamente formuladas. Muckle John. Reality in a Looking Glass: rationality through an analysis of traditional folly (Londrcs. o ladrão de ovelhas no drama medieval Townley Second Shepherds’ Play. 197. ao longo do século XVIII. O assunto é discutido por Enid Welsford. diziam. cujas variadas funções são investigadas no clássico estudo de Welsford. 1979). 1838).). p. 1935). para escarnecer dos outros e ser humilhados. Archie Armstrong era extraordinariamente notável e afortunado. ele era um encrenqueiro malicioso e praticamente o seu único recurso era o insulto com palavras chulas.41 Essas pessoas desfrutavam de um variado grau de liberdade. A. org. The Fool: his social and literary history (Londres. embora com mais humanidade. 1889). C. ou com chistes perspicazes e sátira apropriada. The Sports and Pastimes of the People of England. Ele se aposentou numa fazenda ao norte da Inglaterra e morreu como proprietário de terras em 1672. foi reimpressa e ampliada nove vezes ao longo do período da Commonwealth e posteriormente. Strutt. The Fool and the Trickster: studies in honour of Enid Welsford (Cambridge. org. 41 E. Veja também P. bufões. A. Zijderveld.42 A sorte de Archie ilustra um certo progresso na civilização. seus olhos arrancados como punição e por isso morreu. não deixou grande impressão. e talvez para a Europa. O CÔMICO: CONTINUIDADE E MUDANÇA Uma breve passada pela história do bobo e do bobo da corte revela outro aspecto desse complexo tema. o trovador Luke de Barra. Algumas sociedades bastante primitivas os preservaram. Muito vaidoso. 42 J. a seus superiores.riso de Johnson era memorável. Jaime I e Carlos I o apreciavam e o recompensavam. para serem alvo de zombarias. Elas podiam deliciar-se com a zombaria. Williams (org. Shakespeare fez o uso mais notável do bobo/palhaço/cômico. William Hone (Londres. A coleção de piadas publicada pela primeira vez anonimamente em 1630. As piadas são antigas e um episódio de sua vida contado por um editor anônimo de A Banquet of Jests do século XIX é uma variante da história de Mak. Ela discute Archie Armstrong em particular.

por mais importante que fosse. como também com medo da danação. Os objetos de humor mudaram um pouco. Pepys registra. Os corcundas já não eram mais um alvo tão freqüente de zombarias. mas com esperança de arrependimento. porém Pepys responsabiliza o rei por ter amigos como Rochester. Em 8 de dezembro de 1666. Tom Killigrew (um alegre fanfarrão. segundo o rei. Eles viveram em um mundo físico austero. “com pessoas nobres entre outras. o enfraquecimento. piadas e o palco. mas foi nomeado cômico do rei (Guilherme III de Orange. ou Thomas Killigrew. A posição oficial de Killigrew era a de camareiro dos aposentos do rei. Não encontro referência aos bobos da corte na Inglaterra depois disso.Welsford revela seu declínio na parte final do século XVII na França e na Inglaterra.”. mas também era possível . Porém. já que. em 13 de fevereiro de 1668. embora não o total desaparecimento. Killigrew estava no lado dos anjos. The ParsonsWedding (O casamento do pároco). os homens normalmente condenavam a loucura. “Um famosíssimo mentiroso”. nem do humor ou do riso. A família de Killigrew teve certo destaque. excetuando a libertinagem. muitas vezes percebido como a expressão de um outro mais verdadeiramente espiritual. Pepys o conheceu em 24 de maio de 1660. mas um cavalheiro muito estimado pelo rei): entre as muitas histórias pitorescas contadas por ele.. e isso parece verdade. sem culpa. A opinião habitual tem sido de que Archie Armstrong. um Falstaff. e as piadas sobre os infelizes (à exceção das anedotas sobre irlandeses) tornaram-se um pouco menos populares. da visão de mundo medieval. vol. com limites morais definidos freqüentemente infringidos. no navio que levava o rei para a Inglaterra. tornou- se famoso como bobo da corte. com privilégio. Pepys ouviu a história de como Lorde Rochester esbofeteou Killigrew por sua falta de pudor. o holandês) em 1694. O fim do século XVII marca o fim de uma era. Em 16 de fevereiro de 1669. com o objetivo de mantê-los a seu serviço. onde ele mantinha uma prostituta por 20 xelins por semana para oito ou dez de seus atores.. n. O bobo é parte de uma cosmovisão que caracteriza as sociedades agrárias. Henry. mas também coletivas. Há uma forte ligação entre bobos. ultrajar ou zombar de qualquer pessoa. sob o título de bobo ou cômico do rei e podia. sendo mais um bom companheiro. Mas não marca o fim dos livros de piadas. foi o último. definitivamente.) por seu comportamento violento e licencioso. para chapéus e sinos. “banido duas vezes da corte” (Diary. conforme anota Pepys em 24 de janeiro de 1669. comediógrafos. pela regalia de sua posição”. que Killigrew “recebia uma bonificação além do guarda-roupa. Thomas Killigrew também era um dramaturgo. com pequenas diferenças básicas. hierárquicas e agressivas. Esse era um trote mais brando e menos perigoso do que muitos. relatam que ele deu um conselho muito franco e sincero ao rei sobre o seu ócio. Thomas Killigrew teve um filho. ele era ligeiramente diferente dos bobos da corte anteriores. Dentro desse mundo de austeridade. cuja peça mais popular era uma comédia obscena. X. “Um dos jovens galantes com pior reputação da corte”. ela foi encenada pela primeira vez em 1640/1 e impressa em 1664 juntamente com outras peças. s. Novamente observamos a continuidade após o interregno puritano. tendo também sido mestre de cerimônias e gerente do Teatro Real. “Companion”. Mas o antigo companheiro de deboche de Carlos II na França. Tom Killigrew (1612-83). “o jovem Killigrew” (l637-1705). uma era sobre como escrevera uma carta três ou quatro dias antes para a princesa Royall sobre a rainha Dowager da Judéia e da Palestina. loucura. etc. Em status e atividade.

3 de abril de 1663). sendo a lista facilmente aumentada.perguntar. há menos piadas sobre padres ignorantes ou fúteis.45 Parece não ter havido qualquer diminuição significativa da publicação de livros de piadas depois de 1640. durante a Commonwealth. satisfações e frustrações humanos. à exceção. p. À medida que ficam menos satíricas. Os livros de piadas continuam inabaláveis até hoje. os revolucionários sempre reagiram e condenaram a repressão até chegarem ao poder. freqüentemente. eles satirizaram a religião falsa ou ignorante nos padres ou leigos. The Fool. elas podem ser consideradas apenas como aceitação do que é imoral. fosse “um tempo de agonia excessivamente longo” e muitas partes de sociedade inglesa compartilharam — ainda compartilham — de seus sentimentos fundamentais. das de cunho político. Areopagiticus (1644). 195. estava se dissolvendo. conhecendo várias maneiras de se ajustar a ela em vez de aboli-la. assim como um verdadeiro rei precisa de um verdadeiro bobo. possui o mistério do absoluto. na imperfeição humana e na eficácia do ritual”. seita ou partido político. Pepys registra um bom sermão cômico contra eles e Hugh Peters (Diário. p. mas parecem não ter feito objeção às piadas. Tal controle não é a prerrogativa de qualquer fé religiosa. Sublinhando a mudança. embora com algumas mudanças de ênfase. No período posterior. a uma sociedade que reconhecia a inevitabilidade da dor. Na década de 1660 foram feitos ataques satíricos aos “presbíteros”. os livros de piadas continuam porque. todos pertencem ao mesmo regime. como o bobo de Shakespeare: “Quem é o sábio. seu escárnio frente a “tudo o que parece estranho”. fortalecem a rigidez da repressão. embora ele também pudesse falar severamente ao bobo (I Coríntios 15:36). Os livros de piadas não são especificamente anti-religiosos. 154. Welsford podia ter acrescentado.) Ele ensaia. medos. quem é o tolo?” São Paulo poderia dizer: “Falo como um bobo” (II Coríntios 11:23). The Fool. Isto parece se referir ao Estatuto de 1643. sua hostilidade com os incapazes e os efeminados. o Padre e o Bobo. No período inicial. Um verdadeiro bobo precisa de um verdadeiro rei. que provocou a redação e a publicação (sem licença) do nobre e patriótico protesto de Milton. como Carlos II. talvez. e condena os nomes daqueles que no passado tentaram controlar a liberdade de expressão. havia o contínuo e intrínseco absurdo de ser humano.44 E. (O seu protesto não o impediu de agir como um censor em 1651-2. Ainda estamos sujeitos a esses fatores. nem no princípio. quaisquer que sejam as deficiências individuais. brincam com os eternos absurdos. todos pertencem essencialmente a uma sociedade moldada pela crença na ordem divina. um apelo à liberdade (limitada) de expressão. embora. nem depois. não totalmente sem razão. com exceção de uma queda nos anos de 1640-60. quando eles próprios. O rei. em seu modo realista e desprendido. o seu “senso de glória”. e também menos blasfêmias engraçadas. contradições. Por definição. O prefácio à edição de 1657 de A Banquet of Jests informa ao leitor que ele conteria mais piadas se não tivesse sido censurado. 45 Welsford. . como o bobo. confuso ou ridículo na vida como ela é. Os puritanos podem ter condenado os jogos de maio. “O Rei. 44 Welsford. Essa paisagem psicológica coletiva. embora especialmente na década de 1650 pareça ter havido vários relatos satíricos ou cômicos das façanhas de patifes. embora nossas circunstâncias sejam diferentes.

The ‘Disciplina Clericalis’ of Petrus Alphonsi. 1991). A. . I. o aparentemente piedoso contrabandista no Capítulo XIII do Redgauntlet. R. Hodgkinson. Ele reflete o começo da rejeição à indecência pública no século XIX que. Cambridge. E. não existe esta seção no vol. 239. Ao mesmo tempo.. Em nenhum período parece ter havido menos riso. Smile Therapy (Londres. de Ben Jonson. Wardroper (nota 9) e Zall.1971). Eberhard Hermes. O mote das antigas piadas se enfraquece com a condição social. R. os puritanos logo ganharam na mentalidade popular do final do século XVI e do início do século XVII — segundo a representação feita pelos dramaturgos —.). Storytellers: folktales and legends from the south (Atenas e Londres. 1791. 1974. em Bartholomew Fair. que lê com devoção o que podia ser um salmo. 1977). John Ashton. Tendo começado como um partido defensor de uma forma especial de governo da Igreja. e org. mas a natureza básica das piadas se altera apenas um pouco. Burison (ore. a medicina nos permite hoje concordar com a Bíblia e com Andrew Boorde: o riso é realmente bom para nós. Popular Culture in Early Modern Europe (Londres. o Malvolio de Shakespeare em Noite de reis e o Zeal-of-the-land-busy. Anecdota sive historiae jocosae. 1882). representam o tipo. Petrus Alphonsi. inglesa P. Dekker e H. Chap-Books of the Eighteenth Century (Londres. Peter Burke. nada engraçada e muito mais radical que as indecências ingênuas dos “livros pitorescos”. org. 1933). trad. o educado mas debochado marinheiro Nanty Ewart dá o nome de “obscenidade que no fim não prejudica”.46 Bibliografia Complementar As obras básicas são as de Schulz. Há uma evocação brilhante e mais recente na pessoa de Mr. II. 46 L. Wilson (nota 31). trad. 1978). Watson (org. O jovem herói do romance se torna repugnante pelo caráter devasso do livro. “Pensamentos Alegres para Homens Alegres. 1991). ou a Mother Midnight’s Miscellany for the Small Hours” (Coleção da mãe meia- noite para a madrugada). 99-100. Scott marca uma mudança cultural na parte final do século XVIII e no primeiro quarto do século XIX. Quarrie (Berkeley. 6a ed (Londres: Everyman Library. Uma boa relação de livros de piadas até 1660 é encontrada em G. Aernout van Overbeke. pp. vol.234. gerou a face obscura. org. uma reputação até merecida de “estraga-prazeres” e hipócritas. Roodenburg (Amsterdã. Malone. James Boswell. The Life of Dr Johnson. The New Cambridge Bibliography of English Literature (2 vols. mais tarde nesse século. de Scott (1824). Thomas Trumbull.). 1989). J. eles sintetizam uma discussão contra e a favor da obscenidade na literatura que continua até hoje. E como uma última ironia.

Seção E 10 possui vários livros de piadas. Puns (Oxford.. of epigrams. com revisões de The Book Collector [1963]. G. J. Recreation for ingenious head-pieces. M. Epitaphs. 1605. pp. reed. Charlton MA (Manchester. 1975).. (Londres. 1964). The Pastyme of People e A New Boke of Purgatory by J. Musarum Deliciae or the Muses Recreation de Sir J. Popular and Polite Art in the Age of Hogarth and Fielding (Notre Dame. VI.W. 1598-1660 (Urbana. 1603-1625 (Cambridge. 1966). 200. Paulson. 1889). 13 (Nova York. The Renaissance Imagination. textos em inglês arcaico). The Fables of Alfonce and Poge (Londres. Solomon and Saturn: the poetical dialogues of Solomon and Saturn. 1669-1745 (Londres. . em The Poems. Fantastickes. 1963. Imitations of English Poets I. Menner = Modern Lang. R. . e Ja. Stearns. 90-114 “Jokes”. J. 700. R. P. Neville Davies (Cambridge e Totowa. R. Zall. Caxton. Foxon. Constitutional Documents of the Reign of James I. 1979). Libertine Literature in England. or The Second Part of his Madde Pranks and Robberies. 1912). 1932). org. Assoc. Douglas. of America. Twickenham Edition (Londres. Robert Hays Cunninghan. org. The Cobbler of Canterbury: Frederic Ouvry’s edition of 1862. org. A. Oxford. Biblioteca Bodleian. Geritz.. Sir John Mennis. Purity and Danger (Londres. M. 1484). Paul Radin. 1655). Howleglas (?1528). 1984). 1930). Implicit Meanings (Londres. Amusing Prose Chap-Books Chiefly of Last Century (Londres. S. vol. F. Francies a number. Manchester. [James Smith] (Londres. E. R. vol. pp. B. 151-237: veja Zall. Reproduzido em fac-símile da cópia preservada na John Rylands Library. 1985). Jung) (Londres. M. Tanner. Chaucer.. A Hundred Mery Tales etc. 1954). com uma introdução de H. 1956). org. D. 14 (Nova York e Londres. abundance. com introdução de H. Ault e John Butt. Albert J. Minor Poems org. The Douce Collection na Biblioteca Bodleian. . Schulz. NJ. Redfern. The Harding Collection. 117 (Berlim. The Trickster: a study in American Indian mythology (com comentários de Karl Kerényi e C. W. Pope. 1654). 1954). The Strenuous Puritan: Hugh Peter. N. Rastell with a facsimile of The Pastyme.. Ratseis Ghost. “Die englischen Schwankbücher bis herab zu Dobson’s drie bobs (1607)” = Palaestra. 1976). P. 1941. Monografia Ser.

. A Nest of Ninnies and Other English Jestbooks of the Seventeenth Century. J. Zall (Lincoln. Taylor.). 21 de janeiro de 1977.A. 1970). P. The Literary Riddle before 1600 (Berkeley e Los Angeles. M. Zall (org. P.. . K. 1963). M. A Hundred Merry Tales and Other English Jestbooks of the Fifteenth and Sixteenth Centuries (Lincoln. The Cobler of Canterburie (Diss. 1948). selecionado e org. “The place of laughter in Tudor and Stuart England”. H. Times Literary Supplement. Würster. 1983). Thomas. 77-81. Regensburg.

veja Elfriede Moser-Rath. Herman Roodenburge Harm Jan van Rees (Amsterdã. Fazendo uma crítica. por James R. e sua cultura quase sempre são deixados de lado. os verdadeiros contadores de histórias. AS PIADAS E O HISTORIADOR O que temos. Anecdota sive historiae jocosae: een zeventiendeeeuwse verzameling moppen en anekdotes. esp. como os contos de fadas. vol. 212-28. Anecdota sive historiae jocosae. 16]. Geburtstag”. veja idem. ele surge como um cômico incansável — e um glutão. Rudolf Dekker. “Gedanken zur historischen Erzählforschung: Kurt Ranke zum 65. Van Overbeke. em outro manuscrito ele surge como um companheiro bem-humorado. “Some thoughts on historical narrative research (On the occasion of Kurt Rankes sixty-fifth birthday)”. Como foi observado. os rumos da sua difusão e as mudanças sofridas no processo. ao encontrar um parente distante. de todos os livros de piadas publicados naquele século. o que eles conseguiram foram extensas listas de casos isolados nas quais o povo. e trad. 2 Para uma crítica interessante. 1986). na qual o autor emprega exemplos tirados de sua própria pesquisa sobre o humor.A conversa agradável: civilidade e piadas na Holanda seiscentista Herman Roodenburg Certa vez. org. então. aceitou “mais ou menos bem” o cumprimento. Primeiro. Em terceiro lugar. esp.1 Por muito tempo. para situar o conteúdo de seu material numa longa cadeia de variantes do mesmo “tipo” ou “motivo”. Deste modo. a maioria dos estudos feitos sob esta perspectiva resultou em estreitos caminhos seguidos durante longos períodos. Também conhecemos a identidade de seu autor. foram analisadas sob uma perspectiva “histórico-geográfica”: a abordagem clássica empregada pelos estudiosos.500 piadas e anedotas. quando e com quem ele falou. 64-6. as piadas e as narrativas populares. o manuscrito original encontra-se na Biblioteca Real em Haia. era um cômico de talento. sabemos que ele adorava contar piadas e temos uma boa idéia de onde. assim lemos. Na verdade. 214-15. Zeitschrift für Volkskunde. 1991) [= Publikaties van he P. em German Volkskunde: a decade of theoretical confrontation.8 . . Para uma tradução inglesa. simplório). Mas esta síntese permaneceu enganosa. 69 (1973). em várias anedotas que circularam após sua morte. eles finalmente esperavam chegar a um panorama global das origens dos contos. Partes do presente capítulo se baseiam na introdução desta edição. 61-81. principalmente dentro de um único gênero. Porém. eles distinguem sua coleção. sempre pronto a contar uma piada ou a deixar escapar uma tirada inteligente. Enfim. Estes dados tão completos não são muito comuns no século XVII. além disso. não faltam motivos para dedicar um capítulo inteiro só a este “imbecil”.2 1 Aernout van Overbeke. Meertens-Instituut. Segundo. o advogado Aernout van Overbeke (1632-74) foi tachado por este homem de halve geck (tolo. pp. org. debate and reorientation (1967-1977). J. sabemos que ele gostava de brincadeiras e. este respeitável cidadão de Haia deixou para trás um extenso manuscrito contendo cerca de 2. é uma grande coletânea de material sobre o humor. Dow e Hannjost Lixfeld (Bloomington. Os fatos são claros. pp. Para estes e outros aspectos técnicos. Foi somente no século XIX que a coletânea recebeu seu título atual. veja a Introdução. as lendas e os provérbios.

66 (1964). em particular Johannes Bolte e Albert Wesselski: alargar o escopo. os estudiosos passavam a enfocar um único período e a analisar os materiais originais disponíveis com maior amplitude. veja Muriel Saville-Troike.. und 18. O estudo da representação sofreu forte influência das formulações de Hyme. introdução. Veja também seu Foundations in Sociolinguistics: an ethnographic approach (Filadélfia.). Por exemplo. Oxford. Esta abordagem provou ser fecunda. J. . ainda que a maioria dos estudiosos do começo do humor moderno fosse receptiva a essas questões. observou-se que “hoje em dia. Os muitos livros de piadas publicados na Holanda do século XVII são um bom exemplo.). 1984). quais eram as ocasiões para contar e ouvir piadas e de que grau de competência comunicativa o artista precisava? Em outras palavras: quem contava quais piadas para quem e como?4 Infelizmente. veja Richard Bauman (org. “Lustige Gesellschaft”: Schwank und Witz des 17. 1-34. sobretudo em relação ao início do período moderno. Gumperz (orgs. Predigtmärlein der Barockzeit: Exempel. as impressoras. 1992). Schwank und Fabel in geistlichen Quellen des oberdeutschen Raumes (Berlim. Wolfgang Brückner. conseguem o máximo de Till Eulenspiegels”. Anders het le Deel van Milde St. quem eram os contadores de piadas e seu público. 1964). e Joshua Fishman. Vamos examinar rapidamente esta literatura. em D. veja especialmente Elfriede Moser-Rath. 1972). ele tinha um propósito. Outra abordagem foi desenvolvida nos anos 60. PIADAS PUBLICADAS Em 1653. pp. suas fontes não o eram. 4 Para obter conhecimentos teóricos sobre essas questões.. Muitos desses estudos mais recentes não só contêm valiosa informação contextual. leia os textos clássicos de Dell Hymes. uma pesquisa bastante conservadora relaciona 25 livros 3 Para consultar alguns estudos pioneiros. 2 (1965). Só no século XVII. D. soo zy segge/Aen Uylespiegels ‘t meeste gelt”.. 1653). “Who speaks what language to whom and when”. 5 “De beste boecken blyven leggen/Nu onverkoft. Os livros de piadas eram muito procurados tanto no sul quanto no norte dos Países Baixos. Sage. Volkserzählung und Reformation: ein Handbuch zur Tradierung und Funktion volkstümlicher Erzählstoffe im Protestantismus (Berlim. 67-88. Ouwville. “Introduction: toward ethnographies of communication”. as perguntas feitas pelos estudiosos da narração de histórias contemporâneas — desviando o foco de interesse dos textos para a competência dos artistas e suas atuações — foram difíceis de responder. e contribuíram de modo substancial para nossa compreensão das estruturas culturais e sociais do período. Sobre os livros de piadas alemães. Para uma introdução útil às idéias de Hymes e outros estudiosos que contribuíram para o desenvolvimento do setor. 1970). assim dizem. os melhores livros permanecem disponíveis. soo is ‘t gestelt/De druckers winnen. Folklore. The Ethnography of Communication = edição especial de American Anthropologist. Extraído de De verloore uren van Mons. e muito menos resgatar o modo como estas narrativas passaram para a forma oral. o método adotado foi o proposto por alguns críticos da escola histórico- geográfica.3 Mesmo assim. parte 2. na conversação diária. Hymes e J. Rudolf Schenda. 1770-1910 (Frankfurt am Main. Eles fornecem poucos dados sobre a autoria ou sobre o público leitor. como também elucidam a relação complexa entre os textos e a sua recriação na tradição oral. La Linguistique. 1982). veja Elfriede Moser-Rath. The Ethnography of Communication: an introduction (2a ed. tornando quase impossível indicar os círculos sociais nos quais este tipo de humor deve ter prosperado. Volk ohne Buch: Studien zur Sozialgeschichte der populären Lesestoffe. Limitando-nos às formas de humor. Jahrhunderts in kultur-und sozialgeschichtlichem Kontext (Stuttgart. Enquanto a procura para tipos e motivos era certamente mantida. para uma introdução proveitosa ao estudo do folclore e da representação. Marten (Roterdã. pp. 1974).5 Embora o autor ora citado exagerasse num esforço para promover o próprio livro de piadas. ainda assim esbarramos nas mais simples perguntas. Cultural Performances and Popular Entertainments: a communications- centered handbook (Nova York e Oxford. Em vez de fazer cortes transversais ao longo do tempo..

10 A autoria que Schmidt atribui ao gráfico e livreiro Jan van Duisberg não é convincente. org. os autores dos livros de piada holandeses tomaram emprestado a torto e a direito. Brückner. Verhuyck. . Apesar de alegar novidade e originalidade. 37-40. P. Jahrhundert: Probleme populärer Kultur in Deutschland. 2. exempla. Ele não inclui os pequenos livros de piadas impressos como suplementos dos almanaques populares. embora as evidências sejam superficiais. “Clément Marot als Schwankfigur”.13 Além disso. 1985). Jahrhundert”.. Blickle e D. J. W. vol. Wiesbaden. os livros também foram publicados em cidades como Amsterdã e Leiden. Para algumas críticas. 1991). foram provavelmente compilados pelo tipógrafo e livreiro de Utrecht Simon de Vries (1628-1708). Veja Schmidt. mais precisamente.8 Um outro. Dokumentaal. que também foi atribuído a Simon de Vries. “‘Burger-Lust’: unterhaltende Gebrauchsliteratur im 17. 9 Koopmans e Verhuyck. portanto. 1993). toda essa produção estava restrita ao sul dos Países Baixos ou. veja Koopmans e Verhuyck.9 E o mesmo vale para De geestvan Jan Tamboer (1656). 882-3. nós que. Antes de 1600. Breuer (2 vols. pode ter sido compilado pelo ator. nem as chamadas Schwank-biografias: pseudobiografias baseadas nas piadas. Een kijk op anecdotencollecties in dezeventiende eeuw (Amsterdã e Atlanta. tais práticas constituem um grave retrocesso para qualquer busca de tipos e motivos. pp. a questão relativa a sua autoria continua sem resposta. pois o plágio não assolou este tipo de literatura. 23-6. Plake P.11 Evidentemente. passim. a maioria dos compiladores holandeses fez uso de material que variava de novelas. pp. à cidade de Antuérpia. Leven en werk van de zeventiende-eeuwse Veelschrijver Simon de Vries (Amsterdã e Atlanta.10 Desconhecemos. 276-7. pp. A maioria dos livros foi publicada depois de 1650. porém foi só na segunda metade do século XVII que o gênero atingiu sua maior popularidade. 33-45. epigramas e apotegmas. 270. Fabula. “Een bibliografie van zeventiende-eeuwse kluchtboeken”. 13 Para este argumento relacionado com os livros de piadas holandeses. P. A idéia de que os compiladores quisessem o anonimato para evitar alegações de plágio não é muito provável. Que tal variedade era apreciada pelos leitores. I43ss. Eifriede Moser-Rath. Zeventiende-eeuwse kluchtboeken uit de Nederlanden: een descriptieve bibliografie (Utrecht. pp. como foi constatado pelo falecido etnólogo Elfriede Moser-Rath. Kluchtboeken.de piadas que passaram por mais de 70 impressões e edições. Deveria ser indicado que o autor emprega critérios rígidos. já que seu argumento se baseia. e circularam por toda a Europa num ativo intercâmbio internacional. Dois dos livros de piadas publicados na república. especialmente na Alemanha. 881-98. a maioria dos autores. pp. não havia muita honra a ser obtida com estas obras. na Inglaterra e na Alemanha. Het leven en bedrijf van Clément Marot (1653). Muitas das piadas foram extraídas até mesmo de livros de piadas e outras coletâneas humorísticas publicadas na França.12 Em outras palavras. pp. J. p. idem. Verkruijsse. em parte na autoria de Van Duisberg do Schimpigen Bolwormspiegel. 20 (1979). facécias e prognósticos zombeteiros a charadas. veja A. 42. Een drukkendgewicht. 16 (1987). 47ss. pp.6 Quem eram os autores ou os compiladores desses livros? Temos alguns registros (na maior parte franceses) de alguns originais nos quais vários livros eram baseados. 7 Veja Schmidt. “Lustige Gesellschaft”. 137-50. P. pode-se concluir dos subtítulos dos livros de 6 P. Een kijk op anecdotencollecties. pp. provavelmente. Een kijk op anecdotencollecties. 12 Elfriede Moser-Rath. Kluchtboeken. Klugtige tyd-verdryver (1653) e Schimpigen Bolwormspiegel (1671). 8 Arianne Baggerman. em Literatur und Volk im 17. esp. 11 Cf. os teríamos estimulado! Como o livro de piadas pertencia ao mais baixo dos gêneros literários. Depois dessa época. Schmidt.7 mas dados sobre a autoria holandesa são escassos. e J. Koopmans e P. muitas das narrativas incluídas nos livros de piada não estavam ligadas à cultura local ou nacional. tipógrafo e livreiro Jan Zoet (1615-74). do mesmo modo que as coletâneas holandesas ofereceram material para livros de piada impressos em outras partes da Europa. 1986).

de Bebel. o grande filólogo holandês Joseph Scaliger. Margaret Spufford. 17 Het aantekeningenboek van Dirck Jansz. 16 Een nyeuwe cluchtboeck. 121-2. Een menighte treffelijcke boecken: Nederlandse boekhandelscatalogi in het begin van de zeventiende eeuw (Utrecht. tanto o nobre Philips de Marnix. o gênero ainda era popular entre intelectuais. Pleij. eles permanecem incomodamente reticentes. é uma indicação que não deve ser esquecida.15 Nos primeiros anos do século XVII. “Lustige Gesellschaft”. os intelectuais eram provavelmente consumidores “primários” dos livros de piada — por exemplo. os notários simplesmente omitiram os livros menores e mais baratos. van Grinsven. Decameron. Uma das poucas pistas fornecidas — freqüentemente encontrada na folha de rosto — é que eles se destinavam à kluchtlievende jonckheyt. pp. 14 Moser-Rath. . além dos livros de piada. 126-8.piada. quanto o burgomestre de Leiden. conhecido por suas conversas informais. J. porém não dispomos de informações que confirmem ou mesmo caracterizem o processo. Por exemplo. 48. D. pp. org. de Boccaccio. de Georg Wickram. H. 18 Cf. PIADAS EM MANUSCRITO Felizmente. e La vida de Lazarillo de Tormes. do qual ele pode ter copiado os ditos anotados por todo o seu diário “para instruir e aperfeiçoar moralmente os filhos”. 1607). Koopmans e Verhuyck. van Selm. 157ss. ele elaborou uma lista de seus mais de 40 livros. 1983). 1987). e impressos similares também chegaram até nós. que tinha um exemplar de Rollwagenbüchlein. porém. B. 1981). Daniel de Dieu (m. p.18 Os livros de piadas podem ter vendido bem. Fabelen van Aesopus e Floris ende Blancefloer. Schouten e F. possuíam uma edição alemã de Schimpff und Ernst. van Thijn (Muiderberg. originalmente publicado em 1555. incluindo folhetos famosos como Tijl Uilenspiegel. Embora paradoxal.16 Uma fonte fascinante sobre o tema é um diário mantido pelo cavalheiro-fazendeiro frísio Dirck Jansz. 1993). do público dos livros de piada? Infelizmente. em 1609. pp.14 E o que dizer dos leitores. possuía uma cópia do Nederlantsche wechcorter. Do mesmo modo. p. GA. um livro de piadas publicado pouco antes de sua morte. 47-61. o Scaligeriana. P. Porém. à “mocidade admiradora do humor”. um livro de piadas reservado a “idosos apreciadores do humor” não teria muita procura. org. outros textos. incluindo um ministro da cidade de Flushing. onde eram recomendados repetidas vezes. de Johannes Pauli. Jan Dircksz van Brouckhoven. mas para o historia dor ou etnólogo que tenta identificar quem contava quais piadas para quem e como. No século XVI. Aldegonde e secretário de Guilherme de Orange.17 Nessa época o gênero pode ter começado a cair na escala social. Lorde de St. Reinaert de Vos. Een kijk op anecdotencollecties. pp. Anos mais tarde. de Erasmo. Por volta de 1605. Gerbenzon (Hilvetsum. Facetiae. Small Books and Pleasant Histories: popular fiction and its readership in XVIIth century England (Atenas. 8ss. 43. dados sobre a propriedade são também raros. é mais provável que a intenção fosse meramente o seu uso privado. Naturalmente. cf. Mas o fazendeiro também mencionou um livro de piadas anônimo. foi justamente esta variedade que por fim definiu o gênero dos livros de piadas. 15 Entre os outros livros pertencentes a Marnix estão as edições do Apophthegmata. ou os relacionaram em listas com irritantes cabeçalhos tais como “livros diversos”. ao prepararem inventários. há alguns manuscritos do século XVII que deviam ser destinados à publicação.

também adotam um ponto de vista um tanto “ortodoxo”. mostrando que van Overbeke foi ao mesmo tempo cronista e piadista. embora um deles. o Ancião (1596-1688). mais autobiográficas do que fomos levados a pensar.20 Um segundo documento. está no Arquivo Municipal de Haia. H.21 assim como Anecdota sive historiae jocosae. pp. 10 de abril de 1869. org. O que torna esses manuscritos fascinantes é que eles nos trazem informações. no qual ele registrou um grande número de piadas e anedotas extraídas do seu cotidiano. registrado em ambas as versões com um narrador em primeira pessoa. a dama Alice. “Overbeke en Huygens”. “Aanteekeningen van Constantijn Huygens jr. as questões relativas ao contexto: seu público e as ocasiões de contar piadas. Ambos registraram um grande número de diálogos nos quais alegremente colocaram em cena a família. 86 [1993]. em especial o de considerar a presença de narradores em primeira pessoa como prova autobiográfica. Lippincott (Salzburgo. Como se pode notar. escrito por Samuel van Huls. Koopmans e Verhuyck. Algumas delas até figuram nos dois manuscritos. incluindo algumas bem obscenas contadas pela própria mãe. outras nas quais van Huls ou van Overbeke se puseram em cena podem ter sido mais verdadeiras. raedsels. sugerem que Nicholas Le Strange. Englesche ende Fransche Annotatien. mesmo que os eventos nos pareçam animados e genuínos. veja também D. tenha se perdido no século XIX. de Overbeke. o máximo que poderíamos ter dito das piadas contidas no Anecdota de van Overbeke é que elas eram do tipo que circulava nas mais altas rodas de Haia. De Nederlandsche Spectator. Com o testemunho dele à mão. muito do humor pode ter sido tomado emprestado de outras fontes. escrito por Constantijn Huygens. spreeckwoorden. há um manuscrito do nobre Nicholas Le Strange (1603-55). Se estes homens e mulheres fizeram ou disseram mesmo as coisas atribuídas a eles. vereador de Haia. Em sua crítica à nossa edição de van Overbeke (Tineke ter Meer.19 Da Holanda seiscentista conhecemos três desses manuscritos. bestaende in verscheijde leeringen. Nieuwe Taalgids. 1974). Os historiadores literários e etnólogos advertiram freqüentemente contra essas armadilhas. 93-4. ao representar pessoas de seu meio. Sem as informações fornecidas por van Huls. incluindo um diálogo entre os dois homens. é uma outra história. deveria ser levado a sério. naturalmente. veagen ende antwoorden. esses dois autores viveram em Haia. 315-60). 21 O manuscrito. sua atuação. Latijnsche. enfijne en grove storien. bedriegerijen.”. pode ter aderido à tradição literária dos “frame tales” e dos narradores imaginários. Em outras palavras. secretário particular do príncipe Guilherme III. temos razão para enfocar o narrador e sua atuação e. Een kijk op anecdotencollecties. seu conselho sensato. Capítulo 7 deste livro. Porém. um dos aspectos mais interessantes dos dois manuscritos é o grau surpreendente de correspondência.22 Como no caso dos livros de piada. . assim como esta anedota derivou de uma conversa real. oock kluchten. Brewer. 19 Merry Passages and Jeasts: a manuscritpjest book of Sir Nicholas Le Strange (1603-1655). gedenckweerdige spreucken. seu público e as ocasiões sociais que ele aproveitava para contar as piadas. chamado Eenighe Duijtsche. relativas ao contador de piadas. botticheit. amigos e conhecidos.semelhante à prática de Dirck Jansz de copiar piadas para o aperfeiçoamento moral de seus filhos. o Jovem (1628-97). Veegens. Encontramos van Overbeke contando uma piada ou dizendo algo espirituoso em cerca de 37 anedotas registradas por van Huls. Da Inglaterra seiscentista. 20 O manuscrito ainda estava preservado em 1869. ainda que poucas. por exemplo. P. pp. ainda existe. 22 Curiosamente. Veja D.

van Overbeke deu três schellingen a um doceiro pelo privilégio de comer waffles à vontade. a imagem ilustre de época de Ouro do século XIX. que registrou tantas piadas e anedotas relacionadas com outras pessoas. esta era uma famosa convenção retórica. registrou muitas anedotas interessantes sobre a vida do pintor. Como tem sido defendido. Aernout van Overbeke”. exaltada como um período de homens honestos e honrados. cuja obra. que van Overbeke aceitasse o elogio “mais ou menos bem”? Vamos rever rapidamente os fatos que conhecemos sobre este homem. Bem mais tarde. O livro foi um grande sucesso. sob o título de De rijm-wercken van wijlen den heer en meester Aernout van Overbeke. ao incluir duas destas anedotas em seu prefácio. o pai de Aernout era 23 “Vermaeckelijcke voor-reden”. contemporâneo de van Overbeke. antes de finalmente ficar satisfeito. algo semelhante aconteceu a Jan Steen. de van Overbeke. Matthijs van Overbeke e Agatha Scholiers. Uma décima e última edição foi publicada em 1719. 1 (1883). Entretanto. veja a introdução ao Anecdota. Desse modo. in syn leven advocaet voor den E. Seus pais. o poeta foi até repudiado como um vrolijke lichtmis. não apreciava o senso de humor de van Overbeke (ele também era um bom conhecedor do Anedocta) e por isso tentou banalizar sua poesia tratando-a como produto de um vagabundo irresponsável. Seu credo religioso e sua origem flamenga constituíram graves obstáculos para a obtenção de posições elevadas na República Holandesa e. 24 J. Como explica a escritora Mariët Westermann. Afirmando que a vida de Steen era tão burlesca quanto a sua arte. 1678). seu crítico. “libertino alegre”. Worp. o livro contém uma seleção de poemas cômicos (incluindo alguns “jogos de salão” disputados nos casamentos de amigos e conhecidos) e até mesmo exemplos de sua poesia séria. um depois do outro. a vida e a época de van Overbeke. em Aernout van Overbeke. embora bondoso. Visitando a feira de Roterdã (assim conta uma das histórias). não correspondia aos padrões. A. Oud-Holland. “Mr. permaneceu convenientemente intacta. 25 Para uma biografia mais completa (e alguns aspectos técnicos do manuscrito). para abrir o apetite do leitor. xi-xvii. De geestige werken van Aernout van Overbeke. Publicado quatro anos depois da morte de van Overbeke.23 Naturalmente. seria ele realmente um “imbecil”? Não é significativo. Van Overbeke devorou 84 waffles.24 Obviamente. o historiador literário J. de um modo geral. Porém. para fazer parte da classe dirigente urbana. de van Overbeke. para onde suas famílias haviam fugido. Aernout van Overbeke foi o quarto de cinco filhos. Worp.A. um de seus biógrafos. p. Para desespero do padeiro. 266.25 VENCENDO OS INGLESES Nascido em Leiden em 1632. apareceram no mesmo ano. Uma segunda e uma terceira edições ampliadas. Hove van Hollant (Amsterdã. o editor acrescentou um par de anedotas que apresentam o poeta como cômico e um glutão incrível. no fim do século XIX. nasceram em Flanders e mudaram-se para a Holanda depois de uma longa estada na Alemanha. como anotou van Huls. DEVORANDO “WAFFLES” Curiosamente. membros da Igreja luterana. são em parte obscurecidas pelas anedotas sobre o próprio homem. Arnold Houbraken. possivelmente seguida pelo editor desconhecido de Geestige werken. . Mas seria nosso advogado realmente esse “libertino”. por conseguinte. essa voracidade se encaixaria em qualquer “imbecil”.

encontrando-as em várias ocasiões: nos jantares. van Coninxloo. ele recebeu o diploma em 1655. mas na época deve ter sido duro de 26 Van Overbeke. o jovem advogado vivia com classe. podia se permitir tal modo de vida. se reunia com os van Overbeke para debater assuntos teológicos e outros. em condições de adquirir uma das melhores casas de Leiden e uma propriedade rural. que faz bom uso da riqueza dele”. médicos. Van Overbeke compôs uma nova versão luterana dos salmos. e começou a exercer a profissão alguns anos depois. Huygens. De uma das narrações em primeira pessoa. Alguns anos depois. Eles então poderão nos vingar”. No mesmo período. uma realização notável para um “libertino alegre”. que são figuras marcantes no Anecdota. tabeliães. na quadra de jogo. como devia ser comum aos filhos de famílias prósperas. dat de onse noodtsakelijck Fransche kraemers sullen moeten worden. Depois de estudar Direito na Universidade de Leiden. Até mesmo os quadros tiveram que ser vendidos. entre eles Gerardus Vossius e Caspar Barlaeus. Lá ele travou muitas amizades e relações.. podem ter precipitado sua morte por morbo melancholico. a versão não foi aprovada pelo ministério luterano. Matthijs também era conhecido pelo mecenato e pela sua impressionante coleção de quadros. ende wij klaeren het soo. em parte movidas pelos próprios irmãos.26 Em 1663 as coisas ficaram ainda piores. e a publicou através de uma tipografia em Amsterdã. contada tanto no Anecdota como no manuscrito de van Huls. constituídos principalmente de advogados. ‘t Is geen noodt’. respondeu Huygens. porém. Muitos anos depois. ‘betaelt den bock. todos pintores altamente valorizados na ocasião. que na qualidade de secretário da Casa de Orange se interessou pela arte da pintura. e o poeta sem sorte foi forçado a comprar de volta a edição inteira. Além disso. não.um homem rico. sij schryven doch en maecken het daernae dat haer kinders jonckers. “pois eles fazem isso de modo que os filhos deles serão os nobres e nós aceitamos de tal forma que os nossos serão os alfaiates. que van Overbeke contava suas piadas e anedotas. Anecdota. em 1638. . Savery e Vrancx. um grupo de estudiosos. a maioria deles incunábulos de importantes textos gregos impressos em Veneza por volta de 1500 e ilustrados por Albrecht Dürer. outro ponto em comum com Jan Steen. Infelizmente. porém. A julgar pela quantidade de títulos registrados nos cartórios da cidade. Ele possuía obras de Rubens. esbarrou em crescentes dificuldades financeiras. “Faça-se de bobo”. dat mijn Fransche kraemer François de la Smagge mijn rekening uyttermaeten goddeloos hadde overgegeven. Bailly. n° 509: “Ick klaegde eens aen Christiaen Huijgens. escreveu favoravelmente a respeito de “Overbeke. O poeta Constantijn Huygens Sr. van de Velde. bem menos abastado e perdulário. ele alegremente ridicularizou a si próprio por parecer “tão amável quanto se eu estivesse propagando salmos luteranos o dia todo”. Porcellis. descobrimos que van Overbeke se queixou uma vez das contas do alfaiate com Christiaan Huygens. matemático famoso e filho de Constantijn Huygens Sr. Era nestes círculos — uma camada social logo abaixo dos regentes e da nobreza —. Barlaeus era até mesmo amigo da família. van Overbeke chegou a comprar 14 preciosos volumes da biblioteca de um humanista. seyde hij. Ele viu a coleção provavelmente em 1630. Problemas financeiros também fizeram parte da vida de Aernout: provavelmente até mais. ele era respeitado por intelectuais e artistas. aos 22 anos. segundo nos informa uma crônica familiar. comerciantes e altos funcionários. e ele deixou a viúva e os filhos com sérias dívidas.. As ações judiciais resultantes. em Haia. porque ele lidava mal com dinheiro. Durante alguns anos. livros e moedas. num sarau (van Overbeke tocava violino) ou passeando pelos arredores de Haia. Van Overbeke. Die mogen dan voor ons revenge nemen en bruyen haer kinders sooals sij oude duyvels ons gedaen hebben’”.

Het leven en bedrijf van Clément Marot (Amsterdã. em 1674. apesar do desânimo pelo fato de que. Marot e também Béroalde de Verville. Primeiro. como o alto funcionário a bordo. . um aspecto que ainda voltarei a abordar. van Overbeke já havia gastado a soma ultrajante de 2. xii-xvii. Ao afastar-se da costa frísia. de van Overbeke.27 Em 1668. mas van Overbeke conseguiu uma boa posição. como os franceses Clément Marot e Simon Goulart. Outros aspectos do Anecdota eram bem diferentes. 1652). a frota ricamente carregada — formada por 15 navios — foi atacada pelos ingleses. veja Moser-Rath. 29 Claus Narr e Marot receberam suas próprias coleções.engolir. o Anecdota. ele serviu até mesmo como almirante da frota. Een kijk op anecdotencollecties. Embora haja poucas coincidências. Sua permanência foi breve: ele voltou para a Holanda em 1672 e. 1655). à sátira social e à comédia de costumes. Por exemplo. Este humor obsceno incluía piadas que deixaram de ser apreciadas abertamente na segunda metade do século XVII e outras que. o camponês ingênuo.29 Dentro destes temas. “Clément Marot”. Por influência de Cornelis Backer. com a idade relativamente jovem de 41 anos. o mais alto tribunal de justiça na colônia das índias Orientais. a mulher brigona e insaciável. E mais. até onde sei. veja a introdução ao Anecdota. Michiel de Ruyter. Morreu dois anos depois. em seu Le 27 Van Overbeke. o que os torna até mais engraçados. Veja Het leven en bedrijfvan Klaas Nar (Amsterdã. Van Overbeke venceu e foi trazido a salvo pelo almirante mais famoso da república.28 O ANECDOTA À primeira vista. 28 Para maiores detalhes. E em terceiro. ele foi designado para o Raad van Justitie.440 piadas e anedotas. como o marido dominado. ou o alemão Claus Narr. sobre a coleção Marot e seus problemas. Era uma saída conhecida para as pessoas cujos credores estavam batendo à porta. a piada de van Overbeke sobre “costumes espanhóis e turcos” já havia sido contada por Poggio. Frenqüentemente os papéis são invertidos. Koopmans e Verhuyck.000 guilderes entretendo a princesa das Frísias Orientais. fervilham personagens gastos pelo tempo. veja Étienne Tabourot des Accords. a maioria das piadas nestes livros e no Anecdota se refere a pessoas famosas (de Sócrates a Henrique IV). van Overbeke registrou a versão mais resumida possível do material dele. ou o montante líquido de 500 guilderes. 1654). 1614). Les apophthègmes ou contes facétieux du sieur Goulard (Paris. nosso “imbecil” voltou para casa como herói nacional. Estes temas principais eram seguidos das piadas sobre bobos e lunáticos e das brincadeiras feitas por “bobos”. ao sexo e ao casamento. Em segundo lugar. 16. 88 piadas deste livro reapareceram em De gaven van de milde St Marten (Amsterdã. o humor era dúbio e pouco fazia para alterar as hierarquias sociais e sexuais estabelecidas. Sobre a coleção Goulard original. por exemplo. Os diretores da companhia premiaram o herói com uma corrente de ouro. diretor da Companhia das índias Orientais. enquanto esperava pela escolta de de Ruyter no porto de Delfzijl. muitas piadas. nunca foram impressas. retratavam pessoas do próprio meio de van Overbeke. apresenta poucas diferenças em relação aos livros de piadas contemporâneos. as piadas sobre sexo são certamente mais numerosas e sujas. mas outros livros de piadas também contaram as histórias deles. o camponês desleixado ou a mulher vigorosa que consegue o melhor de seus “melhores”. inclusive várias das sexualmente diretas. a atual cidade de Jacarta. nos livros de piada e no Anecdota. ele teve até que se mudar para a Batávia. Porém. contendo exatas 2. De rijm-wercken.

gedwongen om saemen te slaepen.’ Sij. Esta importante coletânea intitulada De dictis et factis Alphonsi regis Arragonum. was tot Leyerdorp met eenige mackers tot Haesje’s vrolijck geweest. 1970). Porém. em que ele registra uma piada sobre um homem e seu genro que foram obrigados a compartilhar uma cama numa taberna. In’t wederkeeren sagh hij een juffer uyt een speelhuysjen op den Rhijn uytkijcken. latim e até em espanhol e italiano. situação nada estranha mesmo entre a elite seiscentista. ele não gosta de andar descalço pela grama recém-aparada. Hij stapte buyten het tentje van de schuyt en ontrent het roer staende. O homem acorda e grita: “Droga! O que há com você? Para me livrar disso. Virgílio e Lucano. assim lemos. veja também Bremmer. uma é sobre o xerife de Amsterdã. door gebreck van beddens. e publicada em 1455. correu para a popa do navio e urinou. Embora seja uma piada bastante inocente. E se o Anecdota origina-se em boa parte da inspiração deles na tradição popular dos livros de piada. Porém. mas podiam incluir uma observação espirituosa. Sobre o gênero. que. . Aernout Hooft. Apophthegma und Scherzrede: die Geschichte einer einfachen Gattungsform und ihrer Entfaltung im 17. Além disso. Tais declarações podiam ser sérias e didáticas. como um verdadeiro machão. exibiu o pênis e gritou: “Você não tem isto”. ende blyde wereldt (1671). e nenhuma falava de sodomia. quando era estudante. Ao ver uma jovem olhando para o rio do jardim de casa. antwoorde: “Ick hebb’ er wel beter gesien’”. (Riscado mas ainda legível:) Des nachts springt de soon de vader op ‘t lijf in groote furie en begint hem braef te caresseren. R. de 1610. Isso era diferente no Anecdota de van Overbeke. entre elas Eerlycke uren (1661) e De droeve. mesmo nessas coleções controvertidas. Capítulo 1. foi a um passeio de barco perto de Leiden. A partir de 1660. muitas piadas latinas contêm referências tácitas à Vulgata ou a autores clássicos. 31 “Aernout Hooft. ao mesmo tempo questionando a masculinidade de Hooft e confirmando a lascívia e a insaciabilidade de todas as mulheres. criticadas pela grosseria e pela obscenidade.31 Há muitas dessas piadas. nota 39. trock hij van leer om sijn water te maecken en hem een slinger gevende riep hij tot de juffer: ‘Dat en hebt gij niet. O que se seguiu era menos comum. 32 Um apotegma pode ser definido como um dito memorável (Sententia) provocado por uma situação (occasio) concreta e. noch Student sijnde. até mesmo para a elite. esta piada não fala de pessoas específicas. Ela fala de um homem que calçou o sapato de uma criança no seu “nariz” porque a esposa raspou as partes íntimas e.30 Naturalmente. Mas a mulher. Piadas como essas já não eram mais impressas na época de van Overbeke. Jahrhundert (Bad Homburg. cujo apelido era Panormita. rei de Aragão e primeiro o rei de Nápoles e da Sicília. Outra característica são as centenas de piadas em inglês. neste livro. Degaven van de milde St Marten (1654). Onderwegen wierden sij. escrita pelo humanista Antonio Beccadelli. veja T. mas outras piadas obscenas falavam. como o St Niklaesgift (1644). eles igualmente se baseiam na tradição mais erudita dos apotegmas. em geral. Então. Verweyen. Por exemplo. as piadas sexuais já eram menos explícitas. deve ter sido considerada muito indecente. alemão. Sem identificar estas referências perde-se facilmente o sentido. condenaram os livros de piada mais velhos e famosos. um bon mot ou uma pronta resposta. Het leven en bedrijf van Clément Marot (1656) e De geest van Jan Tamboer (1656). algumas compilações novas. replicou: “Já vi melhores” (537). eu te dei minha filha” (207). No meio da noite. entre eles Horácio. francês. “o genro monta no pai com grande furor e começa a acariciá- lo vigorosamente”. Era um mundo muito masculino. segundo ele explica para ela. foi 30 “Seker edelman reysde met zijn schoonvader nae den bisschop van Spier. ‘Wat donders begint gij? Om daervan vrij te zijn heb ik u mijn dochter gegeven’”. Dominar todos esses idiomas era algo excepcional.32 Entre o material consultado por van Overbeke — direta ou indiretamente — estão os apotegmas de Afonso.moyen de parvenir. bastante comum. já que foi parcialmente eliminada. sonder haer om te keeren. este humor forte é apenas um lado do Anecdota.

Francis Bacon e Julius Wilhelm Zincgref. Der Witz. pp. é mais provável que van Overbeke tenha simplesmente preferido o estilo lacônico para facilmente dispor dos diálogos essenciais e decisivos. Isso pode ser comprovado na seguinte “anedota” sobre o poeta e editor Adriaen van Steyn. Sem os adornos e até mesmo sem os elementos básicos. foi. em 1669 foi publicada uma edição holandesa: Julius Wilhelm Zincgreven e Johannes Leonard Weidner. Latina. com seus temas e suas personagens clássicas. Berlim. Tirou muita coisa de Zincgref. Francis Bacon incluiu ditos populares.38 Porém. Hispanica collecta à Geraerdo Tuningio Leidensi (Leiden. esperando que o narrador o realce. 8. o padeiro. 1609). Figuren. também foi publicado em Amsterdã em 1653. 148. Por exemplo. O ANECDOTA EM AÇÃO Tendo todo este rico material à mão. 36 Tineke ter Meer. o Teutsche Apophthegmata. 1991). o gênero adquiriu uma expressão diferente. Snelen dicht: een Studie over de epigrammen van Constantijn Huygens (Amsterdã. para o estilo de contar piadas. “Jochum. 35 Julius Wilhelm Zincgref. Formen der “Volkspoesie“ (2a edição ampliada. de 1625. Por exemplo. Porém. 37 Apophthegmata Graeca. p. ainda está desbotado. ampliado por Johann Leonhard Weidner. p. Italica. Lutz Röhrich. é difícil dizer algo sobre as técnicas empregadas por van Overbeke. na maioria dos casos ele as anotou na versão mais curta possível. Old and New. 60-71. quando Steyn saía de casa muito cedo”. 1977). podemos dizer. a coleção também incluía um tipo de humor sobre sexo não encontrado nos livros de piada de seu tempo. A edição de Amsterdã desta obra.34 O livro deste último. Speculum boniprincipis. provavelmente. Duytsche Apophthegmata ofkloeck-uytgesprokene wysheydt bestaende in sin-pit-pant-en spot-redenen (Amsterdã. como fez Julius Wilhelm Zincgref em sua influente coleção de apotegmas alemães. com seu fraseado afiado. mais democrática. O material. assim lemos.33 Mais importante são as coleções de apotegmas de Erasmo. 1653). Huygens Sr. Teutsche Apophthegmata (Amsterdã.seguida por uma edição ampliada produzida por Aeneas Sylvius. 33 Antonio degli Beccadelli. são bem mais antigas do que os estudiosos do gênero admitem. 34 Erasmo compilou uma extensa coletânea de apotegmas da Antigüidade (seu Apophthegmatum opus. . em estilo quase telegráfico e sem qualquer adorno. em alguns casos ele parece ter aperfeiçoado as narrativas para sua verdadeira atividade.35 em seu livro de epigramas. publicado pela primeira vez com um título diferente (Der Teutschen scharfsinnige kluge Spruch) em 1626. Veja Hermann Bausinger. van Overbeke registrou uma gama notável de piadas. publicado pela primeira vez em 1531) mas estava interessado apenas nos ditos de pessoas famosas. pp.37 Desse modo. Podíamos ver isto como outro indício de que nossas piadas do século XX. Funktionen (Stuttgart. 1980). como van Overbeke procedeu? Como ele formulou suas piadas? De modo surpreendente. ele podia apreciar os dois. sive vitaAlphonsi regisAragoniae (Amsterdã. Formen. Korenbloemen.36 Entre os livros que van Overbeke deve ter copiado textualmente está uma coletânea de apotegmas publicada em 1609 pelo professor de Direito de Leiden. No início do século XVII. uma de suas estratégias era avivar o material atribuindo ao verdadeiro autor ou ao compilador um papel no seu próprio enredo. Embora predominasse o humor típico dos livros de piada. 881-2. 1646). em seu Apophthegms. 38 Etnólogos alemães admitiram que o moderno Witz somente surgiu no final do século XVIII. como as características de dialeto. “Bürger-Lust”’. e um tipo de humor sutil e sofisticado que atrai um público culto e até mesmo erudito. “Ultimamente. Gerardus Tuning (1566-1610).0 caráter “democrático” das duas coleções foi acentuado pelo fato de os autores preferirem seu idiomanativo. publicado pela primeira vez em 1658. que surgiu em 1646. Obviamente. 1669). Mas veja Moser-Rath. a fonte de vários apotegmas incluídos no Anecdota.

a esposa do gerente do hotel. o Korenbloemen. O poeta aparece em 16 anedotas de van Overbeke. Que van Overbeke possuía este talento pode ser deduzido do apelido Nout. pieterselie. Quando um dos amigos (chamado Pieter) está acariciando a empregada (chamada Celij) na escadaria. Curiosamente. não admira que ele esteja soprando’”. Em uma das histórias. Entre suas demais habilidades estava a de situar um epigrama em seu próprio círculo social. o primeiro nome de uma mulher (popular no século XVII). n° 7. Mais uma vez. que soa quase como um nome artístico. Adriaen van Steyn. Anecdota.41 A questão é que Pieter é o primeiro nome de um homem e Celij. van Overbeke conseguia intensificar bastante o impacto dramático e semântico de suas atuações. p. 91. Estes exemplos sugerem que boa parte do material humorístico publicado — livros de piadas. A parte final é dita por um dos outros amigos.soprava forte a buzina. levando a crer que os dois se conheciam bem. 315-60. sentindo-se desprezado por sua “amante”. Porém. Erasmo e Bacon. Porém. . Esta história. publicado em 1630. para os outros exemplos. Mas.40 Incluindo os autores ou compiladores de seu material no meio do próprio material. encontramos o espanhol Floresta Española. quais eram os contextos sociais e culturais de sua atuação? Que significado eles 39 Van Overbeke. mas o mesmo trocadilho já havia sido explorado por Huygens em 1658. 99. pede pieterselie (salsa). na verdade. no estilo telegráfico típico de van Overbeke. 40 Estes e outros empréstimos foram apontados por Ter Meer. é o padeiro. para um procedimento ligeiramente diferente: Anecdota. p. Huygens colhera o trocadilho de um livro de piadas inglês chamado A Banquet of jests and Merry Tales (Um banquete de piadas e contos alegres). ele submeteu suas fontes escritas a um processo de apropriação. tocavam uma buzina quando o pão ficava pronto). Como demonstra o seguinte trocadilho (n° 633 da coleção). coleções de epigramas e apotegmas — recebeu uma “segunda vida” quando foi selecionada e adotada por um piadista capaz. n° 239. lendo o epigrama. e Steyn. da palavra holandesa para salsa. “Overbeke en Huygens”. pp. De fato. encontramos apenas “Moy Anne” (Adorável Anne). 41-2. pp. parece bastante autêntica (os padeiros. é um aviso de que o pão está quente’.39 Outra vítima da habilidade de van Overbeke era Huygens Sr. 57-60. ele perguntou. Huygens. veja o Anecdota. 1669). mas van Steyn também era o autor de uma coleção de epigramas chamada De puntige poëet in de wapenen. que alegremente responde: “Estão na escadaria”. Entre as outras fontes estrangeiras usadas em Korenbloemen. n° 482. Três conhecidos de van Overbeke reuniram-se numa pousada no campo. pp. 41 Hoje em dia escreve-se peterselie. todas elas remontam à poesia epigramática de Huygens. na qual encontramos exatamente o mesmo trocadilho. ou de “recriação produtiva”. ‘alguém está em perigo. Mais do que apenas memorizar as narrativas para reproduzi-las com exatidão. por um competente contador de histórias. a história inicialmente parece verdadeira. além das coleções de Lycosthenes. ocupada na cozinha. queixa-se de que ela lhe roubou o coração e deve devolvê-lo. e Steyn. quase sem graça. Se ela recusasse. ‘Oh. veja também seu Snel en dicht. há motivo para o alarme?’ ‘Nada (respondeu alguém). ele diria a todos que ela é volúvel (112). se o pão está quente. o qual sabemos que van Overbeke levou consigo na viagem para a Batávia. De puntige poëet in de wapenen of de nieuwe stapel punt-dichten (Roterdã. é quase sempre a insipidez das piadas (a maioria delas funciona melhor como epigramas) que trai sua procedência. atribuído por van Huls e o desconhecido editor de seu Geestige werken. apenas narrado na primeira pessoa. narrada na primeira pessoa. ‘O que está havendo?’. colocando as pessoas de seu ambiente como as principais personagens.

89-122. 46 “Eine Sammulung von Anekdoten und Maximen ist für den Weltmann der gröbte Schatz. 47 Para a edição holandesa. entre textos e atuação. p.42 Roger Chartier. De volmaeckte hovelinck (Amsterdã. The cultural Uses of Print in Early Modern France (Princeton. argumentava que muitos textos europeus do início da era moderna “tinham a função precisa de desaparecer como discurso”. eles constituíram um subgrupo importante dos manuais de civilidade. coleções de apotegmas e outras compilações de humor são. but also what to say to whom. 6.) A idéia foi originalmente desenvolvida por Hymes como uma correção da definição de Chomsky de competência lingüística. Baseando-se na retórica antiga. Para citar o mais famoso de todos: “Uma coleção de anedotas e máximas é para um homem do mundo o maior tesouro. especialmente nos textos de Cícero e Quintiliano. 1993). Citado por Verweyen. A arte de contar piadas. em idem. da habilidade de comunicação exigida das classes altas. porém. 7ff. como fez Chartier. 1-34. veja Baldassare Castiglione. 45 Conforme resumido por Muriel Saville-Troike. “The social history of language”. o que motivou van Overbeke. Como exemplos desses textos. van Huls e Huygens Jr. quando ele sabe como inserir as primeiras nos lugares apropriados no meio da conversação e recordar-se das últimas nos momentos oportunos”. 44 Peter Burke. “The art of conversation in early modern Europe”. um tipo muito diferente de texto. a começar seus manuscritos? A CONVERSA CIVILIZADA Nos últimos dez anos. 1987). The Ethnography of Communication. e como dizê-lo de modo apropriado numa determinada situação. der letzten im treffenden Falle sich zu erinnern weib”. ele endossou o que fora enfatizado em todos os manuais de civilidade anteriores a sua época: o domínio da conversação espirituosa e divertida era a marca da civilidade. de Castiglione. naturalmente.46 Embora Goethe tenha escrito esta frase no começo do século XIX. 209ss. era parte integrante da arte da conversação. 1662). só seria válido para os livros de piada mais antigos com sua miscelânea de ernsten luim (solenidade e júbilo). veja Peter Burke. mas também o que dizer a quem. and how to say it appropriately in any given situation.tiraram destes contextos e como contribuíram para eles? Em outras palavras.47 42 Veja Peter Burke. Sobre a receptividade de Castiglione. 14. Apophthegma und Scherzrede. 43 Roger Chartier. publicado em 1528. ele se refere ao famoso artes moriendi e aos inúmeros livros de boas maneiras e civilidade. pp. combinando assim a arte de contar piadas com o material humorístico em si. em idem. The Art of Conversation. pp. as múltiplas relações entre a escrita e a fala. o autor oferecia aos leitores um colóquio divertido sobre tal conversação junto com uma interessante seleção de piadas e anedotas.45 Esperava-se que pessoas bem-educadas não só soubessem se ocupar de conversação mas também que soubessem ser espirituosas e divertidas.” (A competência da comunicação envolve o conhecimento não apenas do código lingüístico. esp. Este ideal foi habilmente expresso em The Courtier (O cortesão). p. Enquadrá-los na mesma categoria de “discurso”. Conforme observou Peter Burke. pp. p.43 Outro exemplo menos conhecido são os textos sobre a “arte da conversação”. por exemplo. uma virtude à qual os defensores da urbanidade estavam bem atentos. The Art of Conversation (Cambridge. não só ocuparam os estudantes de línguas como também começaram a intrigar os historiadores culturais. wenn er die ersten an schicklichen Orten in’s Gespräch einzustreuen. 21: “Communicative competence involves knowing not only the language code. The Fortunes of the Courtier: the European reception of Castiglione’s Courtier .44 Livros de piadas.

1995). 50-2. O leitor é apresentado a um cavalheiro menos culto.49 Em sua introdução. byeenkomsten. principalmente no século XVIII. publicados em 1644. por certo aqueles escritos no século XVII. 1644). “De etiquette van het schertsen: opvattingen over de lach in Nederlandse etiquetteboeken en spectators uit de achttiende leuw”. en welvoegende hoffelykheden onderwyzende hoe ieder een . aangenaam maken. 93-136. daar hy dagelyks in studeert. o Groot ceremonie-boeck der beschaafde zeeden. num manual holandês intitulado Hoofsche Welleventheid. e sua condenação da linguagem indecente e do excesso de mímica. e depois fica à espera de uma chance para soltar um deles”. mas nas compilações mais ambiciosas. met abelheit ingeschoten te worden: oock kan menze zomtijts op hun zelven verhalen”. ou Iok en ernst. Cabe ressaltar que as páginas dedicadas às piadas não foram extraídas de de Courtin. pp. de Jan de Brune. de Autoine de Courtin. Allerlei deftige hofredenen. Zy dienen om. 191: “die altoos een woordenboekje van geestige zeggingen in zyn zak draagt. De Achttiende Eeuw. by treffelijke lieden gebruikelijk (Amsterdã. O texto deste pequeno tratado se baseia em grande parte no Nouveau traité de la civilité qui se pratique en France. en nodigh zijn”. tussen allerlei voorvallende praat. en geestige antwoorden. aerdige hofrednen. geen van de geringste plaatsen toekomt. het bescheiden gebruik van aardige hofredenen.48 Nos livros de piada em geral. en loffelyke welgemanierdheit. pp. quinkslagen. antwoorden. V[an] L[aar]. omitiu o humor.. já que as pessoas preferiam tê-los sempre à mão. onder andere dingen. “que sempre carrega um dicionário de ditos espirituosos no bolso. Gevonden en gesproken van prinssen. 52 C. depois de ter memorizado os gracejos palavra por palavra — um perfeito exemplo de incompetência comunicativa. ceremonieel. in maeltyden. no prefácio da edição de 1669 de Zincgref lemos: “Hier zijn sinspreucken. mas o de deixar dar na vista. Conforme esclarece. 25 (1993).. observava-se que a arte de contar piadas faria com que se “fosse estimado por todas as pessoas gentis e agradável a qualquer companhia”. veja também a introdução de Bremmer e Roodenburg. veja a introdução de Herman Pleij a Een nyeuwe clucht boeck. En al wat dien gelijkvormigh met de naam van Apophthegmata verstaan wort. de Brune exalta o uso adequado de ditos espirituosos (aardige hofredenen). esses objetivos eram apenas insinuados. veja Jacqueline de Man. en vrientschap verwekken. vragen.50 O fato de os livros de piadas. welleevendheid. of oock tegenwoordig leven (Amsterdã. spreuken. deste livro. en geselschappen voorvallen. die. mas continuou salientando que saber ser espirituoso era um atrativo social desejável. [1735]). het is een zaak van onverwrikkelike vastigheit. prefácio. 48 Nieuwe verhandeling van de hoofsche wellevendheit. 51 Não é coincidência que a história se refira a um livro de bolso. elas ajudam uma pessoa a “se fazer agradável na companhia de outrem e suscitam a amizade”. gelikenissen. Para uma visão geral e útil do decoro e o ato de contar piadas. como o Apophthegmata. e o Capítulo 2. e Moser-Rath. p. Veja Zincgreven e Weidner. que ele decora dia após dia. boerteryen. o Jovem. bemind en gelukkig te maaken (Amsterdã.51 O erro do cavalheiro não era tanto o de ter recorrido ao livro. Vale citar por extenso o título do livro: Jan de Brune de Jonge. zich behoorden te gedraagen. Por exemplo. conforme indicava o manual. as piadas deveriam surgir de modo espontâneo e sem esforço. serem explorados nas conversações decorre de um importante manual de civilidade do século XVIII.. 50 Veja a introdução do autor: “Nu. Duytsche apophthegmata. dan nadat hy’er vyf-en-twintig van buiten heeft geleerd. die alt’ samen dicht by onze tijden geleeft hebben. en voorts door geheel Nederland. apesar de tudo. geletterden. Ele jamais comparece a uma reunião sem saber 25 ditos de cor. que explica até como não ser engraçado. E mais uma vez repetia as distinções de Cícero entre a piada sociável e a piada agressiva. Amsterdã. Mais tarde. Iok en ernst: Dat is. boa parte dos tratados sobre civilidade. Novamente. 44-5. pp. essencial ao que era chamado freqüentemente de “a ciência de conversar agradavelmente”.52 Até a discussão de Quintiliano (Cambridge. Sobre estes aspectos. 192: “Men moet ook niet. deftige gelijckenissen. en hy verschynt nooit in het gezelschap. 49 Por exemplo. om zich zelven in deeze wereld. 1677). in den ommegang. Sobre Cícero e Quintiliano. “Lustige Gesellschaft”. como se os bons mots (ditos espirituosos) brotassem de repente e fluíssem naturalmente da conversa. in Den Haag aan het Hof. en andere staatspersoonen. Veja também p. dat. Ele também previne seus leitores de que os ditos devem ser habilmente introduzidos (met abelheit) nas conversas. a mensagem correspondia exatamente aos códigos expressos nos manuais de civilidade. publicado em 1677. Het groot ceremonie-boeck der beschaafde zeeden. gedenckwaerdige spotteryen. en dan Staat hy op wacht om gelegenheid te hebben van’er een uit de mouw te schudden”. 1671).. de Graf. de Zincgref. die alle dagen. eenige van . raadsels. Os livros de piadas e outras coletâneas humorísticas não raro eram edições in-oitavo. mevrouwen.

em que ela menciona o significado destes livros sobre conversação e sociabilidade. 1740). Sobre este importante manual. 1877). extraída do Institutio oratoria. Een drukkend gewicht. Leiden. 2.. 917-34. é significativo que nenhum deles tenha alcançado esta fase e que as anedotas. et de Literature curieuses et interessantes. Scaliger também figura no Anecdota (n° 1855). Em 1694. era apresentada como “algo que serve para criar ditos espirituosos com habilidade e para ensinar a zombar.57 Talvez o propósito dos manuscritos não fosse apenas o uso pessoal. em J. “Lektüre für den Bürger: Eigenart und Vermittlungsfunktion der polyhistorischen Reihenwerke Martin Zeillers (1589-1661)”. Cf. (2 vols. mexericos e informações para serem usados na hora apropriada em companhia apropriada. veja Herman Roodenburg. Pithou. A Cultural History of Gesture from Antiquity to the Present Day (Cambridge. 57 Jan de Brune de Jonge.. 1677). A posse de tal munição social não podia deixar de impressionar o acompanhante. publicar a própria coleção tinha seus perigos. exatamente como Geestige en vermaeckelijcke reys- beschryving. 56 Journaal van Constantijn Huygens jr. assim nos conta de Brune em Wetsteen der vernuften. 379 (7 de julho de 1694). Literatur und Volk. de van Overbeke. Le Cardinal du Perron. é bem possível que os três manuscritos. 55 Um famoso polímata holandês foi o editor de Utrecht Simon de Vries. 926-7. Thuana. 2. Scaliger. Scaliger (2a ed. as piadas sexuais mais grosseiras — tenham sido destinados à publicação. critiques. o professor deixou de ser considerado uma companhia tão agradável quanto era antes: seus gracejos haviam se tornado de domínio público e ele não inventou novos. de Thou. Muito do que o homem contou fora tirado de Les Galanteries des rois de France. Utrecht. morales. sive excerpta ex ore Jos. Eles bem podem ter circulado entre parentes ou amigos. en boerten (Leiden. vol. qui leur entendoient dire tous les jours des particularitez d’Histoire. . Fr. ou pelo menos partes deles — omitindo. Uma tradução holandesa das idéias dele. 1991). presentes nos manuscritos de van Overbeke e de van Huls. Por exemplo. Porém. Um fenômeno comparável eram as “conversas de mesa”. por exemplo. Veja Baggerman. Conforme seu compilador declarou: “Disciples des ces grands hommes. Wetsteen der vemuften. como Gerardus Tuning viria a descobrir. les escrivoient pour leur propre usage”. em Brückner et al. Dienende om bequaemlijk quinkslagen uyt te vinden. ele registrou a tentativa de um diplomata holandês para impressionar seu acompanhante revelando toda sorte de intrigas ocorridas na corte de Versalhes. zy moeten uit het onderhoud natuurlyker wyze voortspruiten.). “‘The Hand of Friendship’: shaking hands and other gestures in the Dutch Republic”.. diários e outros documentos semelhantes podem ter servido igualmente como “caixas de ferramentas” para a arte da conversação. jokken. Além disso. en zonder leeven”. vol. want zonder het zelve zyn ze laf. dizer gracejos e contar piadas de modo apropriado”.56 Voltando a nosso argumento. uma carta cômica sobre sua viagem para a Batávia. um livro que Huygens emprestara recentemente para ele. num estilo quase telegráfico. p. maar zy moeten op het zelve oogenblik geformeerd en ter wereld gebragt worden. esp.sobre o riso fora incluída nessa sociabilidade. 53 Van het lachen uyt M. pp. Wilhelm Kühlmann. fossem registradas sem qualquer floreio. Mas Huygens era bem informado. pp. Aug.55 Como tal literatura funcionava e como o conhecimento dela foi usado nas conversações são aspectos bem ilustrados pelos diários de Huygens. et Colomesiana: ou remarques historiques. J. droog. et P. “Aen den lezer”. Bremmer e H. de Critique. por exemplo. Scaligeriana. 1668). foi lida buiten geleerde en bestudeerde zeggingen gebruiken als men vermakelyk boerten wil. Roodenburg (orgs. pp. Colomies (Amsterdã. entre elas o famoso Scaligeriana. Perroniana. et litteraires de Jos. os diários de Huygens Jr. 209- 10.54 ou as coleções de curiosidades selecionadas do mundo inteiro e publicadas por polímatas no país e no exterior. Pithoeana.53 De fato. esp. 54 Veja. en wel te passe te konnen schertsen. estão repletos de anedotas. 156ss. Fabius Quintilianus van den Spreekkunstelijke Onderwijsing. Depois que seus apotegmas foram impressos. Scaligeriana.

Por exemplo. pp.59 Até a melancolia poderia ser dissipada por meio da conversação e da boa companhia. Huygens incluiu um poema espirituoso.61 Van Overbeke pertenceu a um período anterior. “para encurtar o caminho” ou para “dissipar a melancolia”. talvez depois da morte deste em 1674. MELANCOLIA. assim nos contam outros livros de piadas. Huygens Sr. um tema importante no trabalho do sociólogo Norbert Elias. Os livros. é muito direto e o oposto de um 58 Um destes amigos deve ter sido o regente de Delft. e que logo alcançaram a República Holandesa. de van Huls e de Huygens deve ter sido o de servir à arte da conversação de seus autores. “O principal é encontrar-se livre para rir e brincar”. Pieter Teding van Berkhout. em seu manuscrito. . van Huls pode ter visto a coleção de van Overbeke. 59 Vermeerderde Nederlandtschen wech-corter inhoudende verscheyden nteuwe vertellingen. como diz um livro de piadas) com tal literatura. escreveu uma carta ao amigo Barlaeus. o tipógrafo holandês de Rabelais desculpou-se pela linguagem do autor mostrando “que ele. Porém. a sociabilidade sugerida pelos livros de piada e pelos manuscritos não era exatamente a arte da conversação proposta nos tratados franceses escritos no final do século XVII. no lugar da fofoca em trens e barcos”. passando o tempo antes da hora de dormir (“estas noites longas”. no qual os originais em latim também são citados. 60 Ambas as cartas citadas em Blok. no qual Jan Steen. os livros de piada também eram lidos em silêncio.58 Esse público também poderia explicar por que. Para alegrar o paciente.por alguns amigos antes de ser encaminhada por eles a um editor em 1671. Estas mudanças podem ser vistas como parte de um aumento geral do autocontrole e da disciplina. 1629). O conteúdo.60 Obviamente. passoys le reste de la soyrée a la lecture d’un grand Journal que Naut Overbeeck avoit envoyé des Indes”. van warachtighe geschiedenissen. mas o tédio poderia ser combatido também por meios mais sociáveis. um período no qual as farsas populares ainda não haviam sido depuradas em conseqüência do classicismo francês. que teve cinco edições entre 1699 e 1709. oock op weghen te verteilen tot vercortinghe des weghs (Amsterdã. Eram eles tão menos refinados ou a visão que temos deles é demais influenciada pelos comentários depreciativos da geração seguinte? Em 1682. e para isso ele deveria procurar a companhia de amigos. Na verdade. mas ainda nos deixa às escuras quanto à geração de Steen e van Overbeke. o Vermeerderde Nederlandtschen wech-corter de 1609 se autodeclarava “muito agradável de ler e próprio para contar em viagens a fim de encurtar o caminho. 61 O mais popular foi Modèles de conversationspour les personnes polies. O diário se encontra na Biblioteca Real de Haia. Em 1637. ende dienstelijck om in plaetse van achterclap op waghens ende in schuyten. contudo Barlaeus respondeu que estava sem disposição “para quaisquer brincadeiras” e que quase “arrancara a urbanidade da categoria das virtudes”. pertencendo a outro século. ainda podia explorar suas piadas grosseiras.. 1697). de Morvan de Bellegarde (Paris. INTELECTUAIS E CULTURA CÔMICA Naturalmente. recomendando-lhe que se defendesse da melancolia. 58-61. Imaginemos um leitor solitário. entre outros. provavelmente. Devo esta informação a Jan van der Waals. atendiam às duas funções. o propósito básico dos manuscritos de van Overbeke. já que algumas das anedotas coincidentes são extraordinariamente semelhantes na composição e na escolha das palavras. van Huls se dirige “aos leitores” e àqueles que “ouvem ou lêem” suas “travessuras”. que anotou em seu diário: “Je .. seer genoechelijck om lesen. poderia ajudar a “encurtar o tempo”.

p. Mantive a tradução dessa passagem em Jerry Palmer. É este caráter cômico — a mistura de gêneros e estilos. Mas também chamou Gargântua e Pantagruel de “enigma” e “quimera”: “É uma combinação monstruosa de observação engenhosa e fina e corrupção suja. Hetgroot schilderboek (2 vols. tal amplitude já não era permitida. Realmente. 64 Gérard de Lairesse.64 O que parece ter ocorrido. que atraíram a elite por seu enfoque na trapaça e na ambigüidade. nas décadas finais. então. já que discursos eloqüentes são muito profundos. Amsterdã. e é perfeitamente adequado aos mais delicados”. “Den Hollandze drukker tot de leesers”. vai muito além do péssimo. com as quais eles rebentam de rir. é que a elite começou a desligar-se não tanto da cultura popular. 122-3. As mulheres bíblicas de Rembrandt. Porém. ao imitar os folhetos de seu tempo e também ao adotar a “corporalidade grotesca” associada com as classes populares. por que Steen se retratou em suas próprias telas. ele se pôs em cena nas seguintes palavras: Principalmente de manhã. Curiosamente. 114. 1994). Não faltam tabaco e aguardente. assim como não se aceitava mais que os pintores em geral tomassem uma criada rechonchuda e a pintassem como uma donzela. al te openhartig en een averechts huigchelaar is). Como explicou Gerard de Lairesse. van Overbeke fez algo semelhante. conforme explica Westermann. é uma aldeia pobre. a celebração da trapaça e da ambigüidade — que persistiria ainda no século XVII: Jan Steen era um mestre nesta arte. mas de sua própria exploração maliciosa desta cultura ou do que via como tal. onde é bom.62 Mais esclarecedor. pego meu violino. vol. entretanto. pp. 63 Citado em Mikhail Bakhtin. Rabelais lutou para acabar com a hierarquia dos gêneros literários. 1682). Nem se esperava que os gêneros fossem misturados ou que temas nobres fossem tratados em outro estilo que não o nobre. eu divirto os marinheiros conversando com eles sobre suas antigas vilanias e sobre como chegaram às Índias Orientais ou. o pintor de cenas históricas (que era o estágio mais alto a que se podia aspirar) deveria escolher seus modelos somente na classe alta bem-educada e elegante. 56. chega a ser excelente. eram agora condenadas. 1970).. as farsas exibidas no teatro de Amsterdã. e é o tipo de coisa que encanta o populacho. quando os padrões sociais e estéticos começaram a convergir. Onde é ruim. Dali em diante. 173-4. La Bruyère também se refere ao humor de Clément Marot. 65 “Reisbeschrijving van Aernout van Overbeke”. só conseguiriam sobreviver nas versões expurgadas produzidas pelos protagonistas do classicismo francês. a elite não apreciava mais a baixa comédia e sua corporalidade. É também esta mistura de gêneros e estilos que nos ajuda a entender. que não chega a ter quermesse uma ou duas vezes na semana. L’oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Age et sous la Renaissance (Paris.dissimulado” (dat hy van een ander eeuw. Taking Humour Seriously (Londres e Nova York. Em uma carta inédita sobre sua viagem às Índias Orientais. é o que La Bruyère escreveu em 1690. 1669. me sento diante do mastro e toco e canto como um louco. 1707). recorro a minhas piadas e brincadeiras. que vão muito bem com a música. Sob o impacto dos mais recentes códigos de civilidade. retratadas com as barras das meias nos joelhos. mais ou menos da mesma maneira que os narradores dos livros de piadas em De geest van Jan Tamboer. 64. ou que um colegial desajeitado fosse vestido como um cavalheiro. Ele achou Rabelais simplesmente “incompreensível” e “imperdoável pela imundície espalhada em seus escritos”. François Rabelais (Amsterdã. Quando canso de fazer graça. O manuscrito se encontra na Biblioteca Real em Haia.65 62 Alle de geestige werken van Mr. pp.63 Como foi discutido. . 1.

as piadas e a alusão à quermesse: esta cena poderia ter sido pintada por Jan Steen. . que se incluiria entre os personagens. as canções e a música.O fumo e a bebida. veja o próximo artigo de Rudolf Dekker em Annales ESC.66 66 Para uma posterior exploração dessas correspondências.

No começo da revolução. exatamente como admitira ao se apresentar. Depois de alguns instantes.” Foi neste ponto do discurso que o jornalista do Moniteur universel. Suas proposições mal tinham sido ouvidas. em meio a uma gargalhada geral. A atividade parlamentar muito agitada. Em outras ocasiões deve ter havido uma digressão no estado mental global dos representantes do povo: “A declaração provocou uma gargalhada geral. Esses jornalistas estavam assistindo da mesma galeria o modo e o ritmo do trabalho conduzido pelos 945 parlamentares no novo anfiteatro da Salle des Menus-Plaisirs em Versalhes. às vezes. o corpo político riu. aparentemente inoportunas. e os parlamentares. que nas transcrições dos debates (a partir da “Chambre de la Restauration”) foi em geral classificado sob o título de “hilaridade”. assim como a maioria dos outros “logógrafos” que transcreviam o “discurso nacional” para publicação em seus jornais. por vezes bastante tensa. acabava dando oportunidade a explosões de riso. do filósofo Mounier e do conde de Antraigues. um grupo com quase mil parlamentares decididos. antes e depois das atividades legislativas. ou elas podiam ser vistas como uma parte bem elaborada do discurso político de autoria de um dos mestres da arte. exaustos por um dia de trabalho excessivamente longo. O caso que acabei de contar me levou a uma análise mais sistemática do comportamento dessa primeira Assembléia Nacional francesa. freqüentemente difícil e austera. mas revelam ao historiador uma característica específica da Assembléia Nacional: na ocasião. a última vez. poderia confessar seus pecados”. Esta análise se baseia na observação do riso. depois prosseguiu com a proposta de que a Assembléia Nacional se dedicasse à religião. apesar de a assembléia estar se divertindo com suas sugestões espirituais”. em meio à discussão parlamentar sobre a Declaração dos Direitos Humanos e de Cidadania que se seguiu aos discursos contraditórios e “metafísicos” de Malouet. quando a organização das sessões parlamentares ainda não havia sido estabelecida. Lemos algo assim: “O riso irrompeu”. um padre subiu à tribuna para gaguejar o seguinte pedido: “Peço a tolerância desta assembléia para um tímido principiante que está falando diante de vós pela primeira e. O padre titubeou. deixando o padre aturdido sozinho na tribuna.. o padre “prosseguiu sem se perturbar. “a quem cada parlamentar. ou. estes momentos de humor eram considerados uma ação coletiva. anotou: “Risos altos irromperam na assembléia”. este relato não deveria surpreender. com um altar e um capelão num gabinete vizinho.A hilaridade parlamentar na Assembléia Constituinte Francesa (1789-91) Antoine de Baecque Na segunda-feira. bastante desnorteado diante da platéia. Refletindo melhor. com um pouco mais de detalhe. certamente.9 .. 3 de agosto de 1789. Não tendo terminado o discurso. Novamente. o presidente da assembléia interrompeu o orador e oficialmente encerrou o que se tornara uma longa sessão. “altas explosões de riso foram ouvidas”. e eu gostaria de vos falar sobre um assunto relacionado com minha linha de trabalho. . Não devemos estabelecer objetivos muito elevados para nós. os jornalistas anotaram que nesse exato momento “o riso irrompeu”. que se reuniram durante o período de maio de 1789 a setembro de 1791. dada a dignidade da instituição. Essas explosões podiam ser interpretadas como uma simples liberação de tensão. muito menos aceitas.

“La gaieté-française: essai sur un ‘état sensible de la nation française’ au XVIIIe siècle”. 1867-). certos debates. naturalmente. a data da reunião dos États Généraux (Estados Gerais). não houve um só riso registrado entre 8 de junho e 4 de julho.2 freqüentemente notada por observadores. severidade e lirismo. a assembléia não riria uma só vez. teriam rido publicamente 14 vezes por mês no passado. Quando reli os registros parlamentares da Assembléia Constituinte. totalmente contrário às esperanças e expectativas de um palco público renovado para o modernismo político. o humor político coletivo se estabeleceu como ferramenta de persuasão e combate? Esse humor dentro da Assembléia difundia-se pelos textos. ou entre 8 e 28 julho. o riso se tornara uma prática comum dentro da assembléia. era muito menos favorável ao riso do que às iniciativas políticas. Durante vários dias. Antes. Também serão seguidas outras linhas de investigação: como. entusiasmo. Em todo caso. e que também prevalecia quando a Assembléia Nacional era convocada. de Baecque. o que supõe uma tipologia do riso naquele momento da história: quais eram as circunstâncias e o contexto do riso durante as sessões parlamentares? Esta abordagem também envolve uma tipologia de “piadas” e situações cômicas específicas desse grupo de quase mil homens cultos. do revolucionário Bertrand Barère. já que essas explosões de riso não aconteciam em base regular. em 1789 nenhum riso foi registrado entre 5 de maio. o Le Point du jour. a “alegria francesa”. meu projeto não é uma cronologia de momentos humorísticos dentro da Assembléia Constituinte. registrados pelo três principais diários parlamentares da época: Le Moniteur. se bem que ambígua. mesmo que a assembléia pudesse ser vista como representante da elite esclarecida no fim do Antigo Regime. a rascunhos de declaração e ao que os contemporâneos logo rotularam de “estados de humor” da assembléia: medo. Por outro lado. ou mais de 14 vezes por mês. um membro da nobreza aberto a novas idéias. sobretudo aqueles ocorridos durante o outono de 1789 sobre os estatutos religiosos e as propriedades do clero. uma vez que isto não seria muito significativo. e 8 de junho. Se este conjunto de informações registradas for estudado com seriedade. Os membros da assembléia. ou 1 Archives parlementaires de 1787 à 1860 recueil complet des débats législatifs et politiques des chambres françaises.1 contei 408 incidentes distintos de riso no decorrer de 28 meses de sessões. riam a cada dois dias em média. esta constatação. de Le Hodey. Annales ESC (no prelo) (edição especial sobre a história do riso). na verdade por várias semanas ocasionalmente. quando o primeiro riso coletivo da assembléia foi registrado por um jornalista. o historiador pode testemunhar a construção de uma arena política que parece correr o risco de se tornar um “palco de comédia público”. considerados coletivamente. O perigo existente era o da desunião e da corrupção. sous la direction de MM Mavidal et Laurent (Paris. Certamente. imagens e gestos da cultura do riso. Naturalmente. os cronistas da época julgavam com severidade a presença do riso nos círculos parlamentares internos. O riso era provocado por “comentários inoportunos”. . me ocuparei principalmente com a questão de por que havia o riso. no começo da revolução. Por exemplo. e o Le Logographe. provocaram confrontos violentos e memoráveis cenas burlescas na Assembléia Nacional. seja para criticá-la ou para louvá-la. Eu não afirmaria que um advogado. Baseado nestes 408 casos registrados de riso. por si só. Os 408 incidentes podiam ser interpretados de várias maneiras. talvez não importe muito. 2 A. e um padre-filósofo. O verão de 1789.aproveitaram este momento de algazarra para pedir a suspensão da sessão” (28 de julho de 1789). também.

Os mesmos preceitos foram aplicados às comemorações públicas no final do Antigo Regime e durante a revolução.4 A tranqüilidade das deliberações sugere um ideal de razão. The Great Cat Massacre (Nova York. no primeiro código interno de conduta dos 600 membros do tiers état (terceiro estado). esta declaração não é menos interessante: o riso é mais bem avaliado quando colide com as fontes de cultura oficial (neste caso. quando o historiador tem dificuldade em compreendê-lo. primeiro percebidos como mutuamente incompatíveis. mesmo entre as mais fundamentais divergências. no princípio.* Este defendia um estado de impassibilidade. ao se deparar com algo anormal e inesperado. (N.3 Este é o caso do riso na assembléia em que a França devia ser regenerada. já que foram considerados prejudiciais. antes da revolução de 1789. na eclosão do riso. o historiador contribui. O costume de se reunir de forma sensata e “filosófica” no fim do iluminado século XVIII pressupõe essas “assembléias há muito estabelecidas.) 4 A. e isso é de se 3 Robert Darnton. sempre lamentaram. Havia uma desconfiança geral em relação aos ajuntamentos entusiasmados. aos carnavais. “escolhidos para impor o código interno de conduta. a passagem do estado de alegria. de solenidade. que ele está em condições de dar vazão a suas interpretações mais interessantes. Les Méthodes de travail de la Constituante (Paris. que silenciaria as explosões de riso do grupo como um todo e conteria suas emoções coletivas: “Os membros da assembléia permanecerão em silêncio e não trocarão de lugar. COMENTÁRIOS INOPORTUNOS Em 6 de junho de 1789. na França. 1989). * Nome dado. RISOS. por fim. para a noção de “revolução à revelia”. Além disso. . onde nenhuma tensão ou emoção forte transtorne a presença física e natural da comunidade”. ao grupo de pessoas que não gozava de privilégios. como o tiers état em 1789. uma realidade contrária ao ideal proclamado por causa da imperfectibilidade do mundo. ao da filosofia e da sabedoria legislativa foi muitas vezes descrita como um salto de uma era para outra. da T. foi proclamado um rígido ideal para as assembléias políticas. Dentro da estrutura de uma assembléia mais limitada. Estão vedados insultos e exibições de caráter individual. Renunciando ao riso dentro da assembléia política. Não será permitido nenhum sinal de aplauso ou aprovação. Do aspecto metodológico. e também. além de qualquer explosão de riso”. a desconfiança do discurso público durante os debates tumultuados e o louvor à impassibilidade pública. perigosos e capazes de levar o grupo à extrema agitação. e subseqüentemente a Assembléia Nacional. acabam encontrando um ponto em comum: quatro “censores”. às outras recepções alegres demais e até mesmo à animação das multidões. que ele se torna um descobridor. O historiador Robert Darnton escreveu que é justamente quando o historiador se sente completamente perdido. o clima da assembléia será divertido. devem ser colocados em cada canto da sala”. Avaliando esses 408 incidentes. os franceses conseguiriam se transformar: “Sei que. de certo modo. quando é impróprio rir. Castaldo. o riso era provocado por um espírito partidário que os revolucionários. os registros dos procedimentos parlamentares).permitindo que a melhor parte do espírito francês se rendesse àquela alegria tradicional que a geração nova e renascida buscava suprimir. 1984).

Até agora. contudo. de reflexão profunda. por seu patriotismo. ele procure nos dirigir moções mais condizentes com a agenda do dia e em ocasiões mais propícias (risos)”. “Les corps du carnaval politique”. em janeiro de 1789: O francês sempre tem que começar e terminar cantando e escarnecendo. pp. selada pelos sustentáculos filosóficos e depois expandida como um ideal pela nova assembléia. depois de um mês de sessões diárias. Ofendido. de entusiasmo nobre. tão espiritual. de rir em espetáculos. esta aliança da política com a moral. E ainda mais: apesar da superficialidade freqüentemente maligna desta nação. (N. foi * Filósofo francês. a assembléia do tiers état foi surpreendida por sua primeira explosão coletiva de riso. ele chegou a admitir um tipo de remorso. de participar de competições. “um reconhecimento de que a moção apresentada era de fato prematura”. Entretanto. . Este momento inicial de riso. mas uma afronta política. esta nação tão jovial. até a assembléia política às vezes fazia uso do riso. porque lhe foi vedada a instrução e negada a possibilidade de tratar das questões públicas. Malouet pelas idéias que nos transmitiu.) 5 A. essencialmente frívola e gaiata. Um desconhecido parlamentar da região de Languedoc fez um comentário sarcástico para humilhar o loquaz colega. escreveu o autor da Première lettre à un ami sur l’Assemblée des États Généraux. Por fim. porém. estou muito longe de crer que sua essência seja tão frívola quanto aparenta. tão pronta a rir. De modo sintomático. mas não só do riso: mais freqüentemente murmuraria. pretendendo assim aplacar a ira deste grande corpo político. persisto. em Le Corps de l’histoire: métaphores et politique (1770-1800) (Paris. 303-41. Malouet. ele estava querendo agir assim em quase todas as nossas sessões. ela é capaz de se elevar às alturas da seriedade. E. assim como de se aprofundar nas discussões mais sublimes. tal nação. não é. Como no caso das celebrações públicas nas quais. às vezes era lograda por atitudes que predominavam anteriormente. caro amigo. Gabriel Bonnot de Mably. esperamos que. esta nação aparentemente manteve um espírito brincalhão porque foi proibida de argumentar. de olhar balões e fogos de artifício. um parlamentar em grande evidência. aplaudiria e até causaria constrangimento aos oradores. porque brincar era a única coisa permitida. sendo considerado o “profeta” da revolução. de modo nenhum. desde o começo da revolução. quando se propõe a atingir metas importantes. como em sessões anteriores. revivendo “jogos dos escravos” e “crianças do passado”. de Baecque. Até agora. Em 8 de junho de 1789. voltou para apresentar uma moção que dessa vez não estava na agenda legislativa. Nenhum código de conduta ou censor poderia evitar isto. uma nação que produziu um Montesquieu. mas um burburinho reprovador o fez permanecer calado. Envolva-a em questões mais sérias e verás que tipo de ajuda obterá. assuntos políticos são muito sérios e muito importantes.esperar”. é capaz de esforços sérios. uma barulhenta demonstração de divisão e desordem. a Câmara Municipal de Paris foi obrigada a ceder à alegria francesa em celebrações especiais “de comida e bebida em excesso”. Ao contrário. 1993). uma explosão duas vezes mais imprópria porque desafiava um regulamento e não era mera diversão.5 Da mesma forma. onde o sábio Mably* traçou com mão firme os princípios da lei e do governo e a eterna aliança da política com a moral. na qual um Jean-Jacques Rousseau desenvolveu as maiores verdades morais e políticas. Malouet tentou se justificar. apenas dois dias depois da adoção e do anúncio público do primeiro regulamento da Assembléia. influenciou os revolucionários franceses. tão amistosa. da T. Uma gargalhada soou na sala: “Somos gratos ao Sr. que tipo de apoio ela pode usufruir de seu patriotismo. Acredite-me.

e em uníssono. estamos nos aprofundando não apenas em outro gênero de riso — afinal ele ainda se enquadra no âmbito de considerar as palavras. outro não’ foi repetido com o mesmo fervor. pelas minhas contas. do ponto de vista político. expressão ou gesto a fim de provocar o riso. um riso retumbante ecoava de todos os lados: “Queime-as. queime as cartas. expressa por estados de espírito e sentimentos. até mesmo minutos. irmão mais jovem do patriótico orador. nem mesmo o mais brilhante. além de sua impassibilidade. ao comportamento e às ações inoportunos: um aparte esdrúxulo perdido em meio a um árduo debate.significativo: em primeiro lugar. recorrer ao humor estava de acordo com uma regra tácita imposta pela disposição coletiva dos parlamentares: nenhum parlamentar. . Para cada resposta. O abade insistiu. o complemento natural. Esta regra instintiva. mas diverti-los para ser ouvido. além de servir como antídoto natural à “arrogância” dos homens no poder. “que ao decreto fosse apensada a determinação de que os animais de caça só poderiam ser caçados com armas inofensivas”. Esse era o contexto quando o abade Grégoire quis ler em voz alta uma série de cartas anônimas que recebera: “Um categórico ‘não’ se ouviu na sala da assembléia. além de suas preocupações legislativas. a seu modo. Embora explicitamente proibido pelo código de conduta interno. expressões ilógicas ditas por um membro muito moralista — a exemplo do bispo de Chartres que propôs.. um pastiche ou uma paródia feita por um virtuoso ou de um apreciador. a despeito de si própria. Excepcionalmente. em geral. a assembléia deixaria realmente os limites do papel que lhe cabia e escutaria.. subterfúgios passageiros. serviu para restabelecer a ordem. expressões e gestos fora do contexto — mas também em outro tipo de base racional: distorcer de propósito uma palavra. queime-as. era. Neste ponto. Eram. alguns momentos de delírio abalavam tanto a assembléia que — quase sempre depois de um longo dia de atividade e debate — ela se achava “em outro mundo”. disparates não intencionais constatados em um decreto. Por exemplo. Lavie replicou prontamente de sua cadeira: ‘Pergunto se fomos convocados aqui para um curso sobre epigramas e se a tribuna 6 Sessão de 3 de agosto de 1789. já que um parlamentar normalmente invocaria a censura e logo restabeleceria a ordem para a instituição. um trocadilho. Ele então disse que o autor dessas cartas anônimas ameaçara denunciá-lo no Palais-Royal se as cartas não fossem lidas. Este era um mundo no qual o comportamento seguia um tipo regressivo de análise racional denunciado pelos observadores mais críticos e jornalistas da época. impedindo assim este subterfúgio de se tornar. foi logo interrompido severa e friamente por um colega: “O Sr. Porém. em Archives parlementaires. cerca de 200. Por vezes. uma perda de controle. Estes eram os principais “momentos cômicos” na assembléia. um mundo além do código interno de conduta. tentou tirar proveito de um trocadilho que havia provocado riso geral.”6 Este tipo de conduta ou expressão inconveniente podia às vezes chegar à sofisticação da arte da paródia. Um trejeito não intencional e cômico era acompanhado de um tipo de provocação: a idéia não era tanto convencer os colegas recorrendo ao riso. boa parte do riso na assembléia não tinha este propósito virtuoso. na ausência de qualquer restrição. o cão de guarda do código interno de conduta e uma das regras adotadas pelo bom senso. em 7 de agosto de 1789. nem mesmo Malouet ou Mirabeau. o riso foi autorizado porque restabeleceu a ordem e injetou uma dose de humildade. Durante alguns segundos. O humor se opunha principalmente ao discurso. deveria exercer influência excessiva sobre os colegas. quando o visconde de Mirabeau.

Esta diversão estava arraigada nas bases culturais principais e comuns do período: a cultura latina. e fragmentada. só havia um entre eles que sistematicamente utilizava a arma cômica como uma prática política e. provocando uma breve e contida explosão de riso. troças das “assembléias nacionais” (que consistiam em maridos traídos. em Archives parlementaires. . em outro mundo — mesmo que só por algum tempo — além de seu papel e racionalidade habituais.8 Seguindo essa linha. se encontrasse realmente.) — e por vezes conseguia penetrar a essência dos “verdadeiros” debates políticos mais respeitáveis da assembléia. reagindo pelo riso. num período de cerca de dez 7 Sessão de 26 de setembro de 1789. pelo menos. Cada vez que aconteciam. sujeitos velhacos etc. basicamente não autorizada. apesar disso.7 Se a assembléia. e um padre. paródias de decretos. esta cultura da caricatura utilizou em grande parte a arena política como fonte favorita de material — pastiches da Declaração dos Direitos Humanos. a cultura religiosa e a cultura científica eram as fontes mais freqüentemente citadas. como no caso do padre que cita Horácio. como uma paródia bíblica do fim do mundo: “Os cedros libaneses estão de cabeça para baixo!” Cada período teve seus temas preferidos para as paródias. Essas citações bíblicas e latinas reinventadas e inconvenientes. Tratava-se do visconde de Mirabeau. ela. não se afastou da sofisticação dos tempos. pronunciou. pastiche. talvez. Porém. da paródia e do arremedo. o gesto ou a atitude imprópria diante dos colegas. Pode-se dizer que este tipo de riso estava reposicionando uma cultura tradicional de alta sociedade em direção à nova cultura política. que geralmente cerca o mundo político — uma das técnicas predominantes nos textos políticos e nos panfletos na época: citações erradas da Bíblia. “em meio aos acessos mais ardentes de riso”. 8 Sessão de 3 de agosto de 1789. ocasionalmente — cerca de dez vezes ao mês — uma mistura de várias abordagens (paródia. em 3 de agosto de 1789 a assembléia decidiu não limitar o tempo concedido aos oradores. uma base cultural comum. às vezes. uma breve reorientação. calou o padre e depois o desconcertou arremedando um provérbio latino. Vale notar que explosões de riso iriam sistematicamente acompanhar os trocadilhos relacionados com estas três bases culturais.é um palco’”. citações erradas) pudesse se apoderar subitamente da agenda política. de algo bem próximo. e. prostitutas. muitas vezes por provocação. eram. estimulada por uma só consciência coletiva. tradicionalista e notório contra-revolucionário. por meio do riso. Seu “curso sobre epigramas” começou em setembro de 1789. Era como se. paródias de fábulas mitológicas ou pastiches da atividade taxonômica. A partir de 1789. ou. e assim buscaram corromper. apenas para que o presidente da assembléia repetisse. a versão da época da falsa publicidade. em Archives parlementaires. freqüentemente mal avaliada. estava ocorrendo um tipo de contaminação cultural: o riso. O “jeito” high society de brilhar iria intervir e causar um pequeno curto-circuito no jeito político de impressionar. uma prática comum da alta sociedade e do jornalismo. Uma arte da diversão e algumas personagens foram os dois principais ingredientes para o riso “inoportuno” na Assembléia Nacional. atingia a Assembléia Nacional por meio de algumas personagens. A Assembléia depressa identificou seus folgazões mais alegres — e também depressa passou a desconfiar deles. diante de uma gargalhada geral. Este. que transtornam a serenidade da assembléia. empregava regularmente a palavra. De um ponto de vista. estes encontros eram significativos: um tipo de riso inoportuno explorava a arte do pastiche.

dirigiu-se ao presidente da assembléia com palavras tão desrespeitosas e inesperadas que provocaram uma reação de revolta geral: “Sr.meses. Um membro do parlamento clamou: “Quando as minutas dos procedimentos serão compostas em epigramas. A ASSEMBLÉIA NACIONAL NO CERNE DA ALEGRIA FRANCESA Logo depois. Um parlamentar continuou: “Somente para serem substituídos por suas graças. a Assembléia. uma porta deve estar aberta ou fechada” (risos). embora não lhe faltasse verve. entretanto.. embora inicialmente estivesse fora de contexto e se tornasse engraçado justamente por ser excepcional e extravagante. este espaço idealmente preservado. depois da leitura pública das minutas da sessão do dia anterior. fosse de sua cadeira ou da tribuna. Em janeiro de 1790 ele propôs. seu conjunto de atitudes e um ideal de comportamento impassível e deferente — com o ambiente externo. ele fez anotações com uma certa liberdade de expressão não necessariamente apreciada pelos demais membros. Seu impacto foi sentido ao contaminar as atividades internas da Assembléia Nacional — um espaço preservado por seu código de conduta interna. considerado difícil de modificar mesmo que cada indivíduo estivesse se esforçando para criar um novo homem. um homem regenerado. durante um debate dedicado às fazendas nacionais de criação de cavalos. Em 26 de setembro de 1789. e para esta ele simplesmente omitira todos os detalhes (murmúrios). Quase sempre interrompendo para contradizer o irmão. por quanto tempo a dignidade de nossas sessões será ridicularizada?” O visconde de Mirabeau então se desculpou. ele irritava profundamente os colegas durante o estabelecimento de leis e decretos. tiveram duas boas razões para apelar para o riso. diante da multiplicação de eventos . podemos ver que o riso desempenhava um papel central na assembléia. De fato. ele se apresentaria como o “marimbondo- caçador do poder legislativo”. Desse modo. também tradicional em sua prerrogativa e mais essencial numa época em que. um espaço político aberto ao mais contraditório dos estados de humor. Presidente. e todos ficarão contentes” (gargalhada geral). ao final da longa e tumultuada sessão de 16 de janeiro de 1790. dotado do “zumbido mais epigramático” e da “garganta mais alegre da aristocracia”.. o jovem Mirabeau — já apelidado de “Mirabeau. uma “declaração dos direitos dos cavalos”.” Ao que ele replicou: “Eu simplesmente não sei o que fazer para obedecer a esta assembléia. Primeiro. foi colocado no centro da alegria francesa. Do mesmo modo. E foi uma vez mais o visconde quem. eles procuraram confirmar o caráter tradicionalmente “alegre” do francês. o barril” por causa de sua corpulência e da gulodice detalhada em seus escritos satíricos — foi bruscamente afastado: Houve longas discussões sobre a edição das minutas. dizendo que na sessão anterior fora acusado de verbosidade. durante sua posse como secretário da assembléia. escritores políticos trabalhando em um foro público desde o fim de 1788 graças à liberdade de imprensa. A segunda razão tinha a ver com o desenvolvimento de uma técnica poderosa de convencimento. Sua tática parlamentar de se retratar como um “guerrilheiro” contra- revolucionário o levou a parodiar e. pontuadas por murmúrios e risos abafados. ele comandou essa “guerra de risos”. As transcrições das minutas não foram consideradas dignas. em setembro de 1789. tendo como pano de fundo risos e zombarias. envie-nos ao jantar e nós lhe enviaremos a embalagem.

A razão é bastante clara: é como os rebanhos que se divertem na pradaria quando podem pastar livremente. ou. Um sorriso amistoso. O autor prosseguiu atribuindo a si próprio a missão de convencer pela participação na “troça”: “Nada me leva a ser mais amistoso do que sua alegria. que inspira todos a tua volta e que te permite a reconciliação com o mais obstinado de teus inimigos. cada autor estava procurando atrair os leitores em potencial. Todo mundo. um meio para o discurso persuasivo — assim Cérutti via a retórica desta “alegria decente” apropriada às pregações. Um ornamento do espírito. e ao partirmos para o assunto mais sério. como veremos depois. seria sua primeira resposta. sem data). procurarei o apoio do principal autor da época que. Com isso.10 Cérutti definiu a personalidade francesa por sua “vivacidade” e sua “cordialidade”: “Possuis”. dedicou mais atenção à “alegria francesa”. sem dúvida graças à formação jesuíta (ele era um brilhante instrutor na instituição). trocadilhos e situações cômicas. quem sabe até astuto. uma essência de alegria toda própria. no fim de 1788. Nem a alegria pode ser transmitida aos súditos infelizes do despotismo.9 primeiramente exaltada por Francisco de Sales e depois por seus seguidores. embora em termos contrastantes. Riso e “despotismo” são incompatíveis: A alegria não pode existir sob um governo despótico. Esta condenação originou-se de uma desconfiança básica de qualquer humor que afastasse o discurso legislativo do ideal da razão. Contudo introduziu esta retórica em um contexto político. escreveu ao francês. Para esclarecer este debate sobre o uso correto do riso que invadiu a Assembléia Nacional. Joseph-Antoine Cérutti. Eu seria capaz de distinguir um de teus compatriotas só pelo jeito como ele me escuta falar. Lettre sur les avantages et les origines de la gaieté française (Paris. O riso.políticos e de jornalistas concorrentes. nem a ser mais útil: é ornamental. apresentando aos leitores ansiosos e atentos personagens fictícias. a despeito de sua condenação severa pela Assembléia Nacional. é engenhoso”. Esta aplicação da alegria estava no cerne das discussões conduzidas por jornalistas revolucionários. ele forneceu um retrato detalhado dos costumes políticos relacionados com a inclinação para a alegria. e berram de horror antes de serem sacrificados. ética e prática para o uso da a “alegria decente” com o objetivo de atrair e convencer seus seguidores. revisou um de seus manuscritos para reimpressão conforme a situação política se desenvolvia: Les avantages et les origines de la gaieté française (As vantagens e as origens da alegria francesa). 9 Veja também Bremmer. preso demais a sua opulência para ser onerado. ou pelas escolas jesuítas que tentaram fornecer uma estrutura teórica. 10 Joseph-Antoine Cérutti. invocaria. eu não duvido de que poríamos fim à brincadeira mais agradável. monarquista e patriótica. Capítulo 1 deste livro. Cérutti incumbiu-se de definir o uso político do riso. foi portanto relacionado com o riso como “ingrediente de persuasão” a fim de modelar uma estrutura política na qual as duas facções. e tão obcecado pelo prazer que não consegue desfrutá-lo. uma piada estimularia imediatamente a conversa. rivalizassem entre si. em termos de “vivacidade francesa”. Não pode estar no déspota que é venerado demais para ser menosprezado. dali em diante. . que se entristecem ao entrar no estábulo. esta virtude útil da eutrapélie. de qualquer coisa que pudesse dividir o corpo político em facções rivais.

porém”. atribuída ao regime monárquico brando: os franceses são as “crianças” do rei e do riso.Entretanto. pode e deve. e monárquico tal qual o teu. um Estado despótico e uma monarquia branda. e teve que acolher estas crianças. Possuis liberdade suficiente. era levada por meio da brincadeira e do riso à “vivacidade” e à “cordialidade”. Há um só Estado monárquico. mas não independência suficiente. Entre o “horror” do despotismo e a “felicidade” bastante severa da república. uma canção só contentaria umas poucas pessoas preocupadas com o sistema político. os súditos alegres de um monarca como o rei da França. O pai representa os republicanos. 1791). Alguns revolucionários procurariam modificar estas crianças pela aplicação de princípios republicanos. mas a imaginação brincalhona que. Foi com esta demonstração da utilidade da comédia alegórica de Rabelais que Ginguené convidou seu público a 1er o “Maître François”. essas seleções se baseavam essencialmente na linguagem corporal. uma versão revisada da “monarquia moderada”). acusações de “frivolidade”. A alegria é. ocultando assim toda a verdade. do ponto de vista de Cérutti. 11 Pierre-Louis Ginguené. Por exemplo. Em uma república. com corpo e alma moldados pela revolução. apresentou uma interpretação civilizada e proveitosa de Rabelais. Inicialmente. Tal sistema proporciona a flexibilidade para um espírito dinâmico e brincalhão. seu amigo Ginguené. conforme Ginguené. súditos que são obedientes por honra. mas sem divertimento. A idéia de diversão e brincadeira não costuma combinar com a seriedade da república. o colaborador mais próximo do Feuille villageoise (Jornal da aldeia). Rabelais “escreveu numa época em que era preciso se proteger com um véu alegórico. . Porém. De l’autorité de Rabelais dans la révolution présente (em Utopie et à Paris. portanto. em relação à forma de governo peculiar ao espírito alegre francês (a “monarquia constitucional”. considere uma família em que o pai governa. os escravos. a felicidade é alcançada.11 em quem Ginguené reconhecia o mesmo intuito do ex-jesuíta. no passado. Ele invocou a “forma narrativa” da alegoria para enganar os censores e as “superstições feudais” parecidas. e líderes poderosos e afáveis que governam por paixão. apenas a “monarquia moderada” podia acomodar de modo favorável o senso de humor francês: Teu clima te prepara para a alegria. ocultara a verdade. teu governo te liga a ela. “falta de conteúdo” e “zombaria” eram atiradas uma após a outra para contrastar esta versão do “francês do passado” com o homem “renovado”. Certos autores patrióticos apoiaram Cérutti nesta esfera da “sedução pela decência no riso”. levantar este véu e soltar as rédeas do riso persuasivo. Para estar completamente convencido da diferença existente neste aspecto específico entre uma república. “a verdade marcha de cabeça erguida”. Neste caso. não importa quão transparente ele possa ter sido”. A revolução não ocorreu exatamente em solo novo. e as crianças. riso e “república” certamente também não são compatíveis: “A guerra só poderia romper num Estado republicano em que algum tipo de jovialidade pudesse ser ouvida. e a tolice de um indivíduo nada significa para quem contempla as necessidades de um público maior”. onde a alegria pode ser expressa positivamente e reina desimpedida. os escravos se debilitam e as crianças brincam. para lhes mostrar o caminho para a “felicidade”. graças à revolução. o poder de convencimento é transmitido por meio de artimanhas infantis: a política. “Nesta época. todas as vítimas desgraçadas do governo despótico.

de “Grippeminaud”. Este tema encontrou apoio num panfleto anticlerical impresso em janeiro de 1790. e brilham hoje com uma franqueza. grotesco sem beleza. sobre o uso adequado do riso. leia e ria. talvez até útil. extravagante. devem ser particularmente enfatizadas. Mas os contos agradáveis. Cada vez que eu pegava meu Rabelais. dos salafrários e bêbados venerando o “papado” que os favorece com um “disfarce soberano”. impedir possíveis intrigas. de significado obscuro. teria algo de picante. a leitura era um pouco seletiva porque a reputação de Rabelais continuou escorregando. uma razão superior e uma sabedoria que considero encantadoras. que tudo isso. depois. o fazendeiro geral. rejeitando todos os elementos de exagero grotesco: Sou cauteloso quanto a tudo que é aprovado e quanto a reler tudo: o que é exagerado. e poderia deixar uma marca nas atitudes por sua autoridade cômica. mesmo que seu redescobrimento datasse dos anos 1770. Talvez você não esteja desperdiçando seu tempo” — assim dizia um “anúncio” do mesmo autor que reimprimiu o panfleto malicioso e alegre La Vie et l’oeuvre de feu l’abbé Bazin. No entanto. era somente depois de ter relido todas as passagens marcadas em meu exemplar que eu conseguia largá-lo. à guisa de riso. punir os maus cidadãos denunciando com excessiva ironia sua maldade e sua baixeza. da rainha com a “grande chaleira”. releia e pondere. as muitas características de um estilo engenhoso e delicado. insignificante e vulgar só teve a chance de me entediar uma vez. longe de dificultar as manobras necessárias para assegurar nossa liberdade. contanto que sejam respeitáveis. proporcionem conselho saudável. bispo de Mizoura em Mizourie). “Sob um envoltório muito alegre e até bem manchado. a depredação parlamentar. repito. serviria para manter todas as pessoas concentradas em seus deveres. De modo semelhante. obsceno sem alegria. sua farsa e suas “imagens obscenas” poderiam ter ameaçado o decoro da alegria francesa. “Leitores. leiam e riam da aristocracia”. das “17. alguns conceitos filosóficos e vários comentários defendidos pela revolução em andamento.. prevenir desejos de auto-engrandecimento e. Ele recorreu a algumas personagens de Rabelais para rir um riso contido do rei com a “grande garganta”. Le Régimentde la calotte. agradável e imaginativo que elas continham sobre “les Grands”. Seu aspecto grotesco. Jovem. este trabalho firmou uma série de conceitos de moral pura. Foi preciso manter sua obra dentro do reino da imaginação cômica. mais importante.. as declarações de intenções extraídas dos folhetos demonstravam o forte domínio que a persuasão por meio do riso decente exercia sobre as imaginações brincalhonas da “nova geração” da revolução. trivial. as imagens que pincelam os conceitos filosóficos por seus aspectos alegres. depois de uma dedicatória explícita. E acho que esta alegria. evêque de Mizoura en Mizourie (Vida e obra do falecido abade Bazin. os monges e até mesmo sobre o papa. Ginguené desenvolveu um código a partir da leitura das “passagens marcadas”. todas essas expressões ousadas que eram adequadas ao passado assim permaneceram em nosso tempo até alguns anos atrás. a uma “alegria mais serena” e não menos patriótica: As expressões públicas de divertimento devem ser especialmente encorajadas. Além disso. e dos prelados da “ilha de Papimanie”. dos “nobres gatos presunçosos”.913 vacas” necessárias para manter o censo. e as obras que. Eu pensava que o material preciso. tentava levar o revolucionário francês. sobre as fantasias beligerantes. que se tornara “muito sério e só sonha com castigo e vingança”. contrastando-o com a “fisionomia . que. foram apontados vários folhetos patrióticos de maio de 1789 com o intuito de promover o tiers état por meio da alegria.

aquele que consegue escarnecer da “cerimônia ridícula” imposta pela hierarquia das cadeiras e da roupa durante a procissão e depois na sessão de abertura dos États Généraux. esses folhetos celebravam “a alma para rir a ponto de chorar”. tendo localizado um talentoso gravador. passou a publicar uma caricatura por edição para se juntar. causou um rebuliço por causa de seu estilo cáustico. 1788). Mentes sutis poderiam encontrar nessas galerias de personagens uma oportunidade para exercitar o virtuosismo de sua escrita. e que incluía entre seus seguidores mestres da ironia e virtuosos em sua arte. A partir de um único detalhe. Surgiu contra a vontade de Cérutti. a “melhor das ordens”. A assembléia foi. os membros do parlamento). uma imaginação sutil poderia extrair uma característica desagradável que servia para “cortar em fatias os corpos de vítimas inocentes com a caneta satírica”. Desde o princípio de novembro de 1789. Como um aparte. desse modo. todos rivais na République des lettres do Antigo Regime antes de se tornarem rivais na vanguarda da literatura revolucionária. e eu cito. Cérutti também não foi poupado dos punhais. juntamente com várias outras publicações seguidas por séries de “folhetos cômicos”. apoiado por um poderoso editor do Palais Royal. 13 Antoine Rivarol. Nesse tiers état. Weber. herdeiros do marquês de Bièvre. o criador da versão francesa do trocadilho”. Havia até um tipo de renascimento tomando forma: o movimento literário nascido no começo dos anos 1780. Ali também surgiu. seguido pelo Petit dictionnaire des grands hommes de la Révolution. o jornal criado pelo grupo de satiristas. o Actes des apôtres (Atos dos Apóstolos). Gattey. eles se concentraram então em ridicularizar a arrogância dos revolucionários transformados em políticos. desde que adotou o apelido de “Des Superfícies” na Bibliothèque de la cour et de la ville e requereu o seguinte comentário de Rivarol: “Nada indiferente jamais foi produzido pela mão de tão grande autor.arrogante” da nobreza e o “rosto pálido” do clero. como Rivarol. Os “humoristas patrióticos” atacavam os adversários chamando-os de “almas sutis demais” e os retratavam nos seguintes termos: “Rivarol convenceu o livreiro Le Jay de que a sátira é o primeiro gênero da literatura. transformada num palco cômico. Petit dictionnaire des grands hommes de la Révolution (Paris. em 1790) de fato tinha como alvo precisamente o desmembramento de corpos. Champcenetz. Ao apropriar-se da noção de “alegria decente”. 1790). Ginguené e Grouvelle. “às almas mais alegres de todo o país. uma paródia bíblica. Palissot. agora tinha chegado o tempo de entreter este mundo. Dois séculos inteiros foram gastos para educar o mundo. . “relatando de modo divertido as ações e os gestos dos novos apóstolos da liberdade” (isto é. a “corrupção e a decadência do riso”. o que 12 La Satyre universelle: prospectus dédié à toutes les puissances de la terre (Paris. e a partir de uma característica desenhar um retrato difamatório. Ela visava ao ponto central do novo sistema político. já que até o tédio pode ser agradavelmente compreendido”. O grupo. a imagem da assembléia havia sido seriamente degradada por esses ataques humorísticos.12 A arma usada por esses “humoristas tradicionalistas” era o desmembramento satírico dos corpos de suas vítimas. A arte da caricatura praticada por grupos de satiristas (cujo humor afiado e cáustico foi bem ilustrado por Rivarol em seu Petit almanach de nos grands hommes em 1788. levava avante a revolução. a sátira contra-revolucionária encontrou rapidamente seu lugar. a própria Assembléia Nacional.13 Foi para combater este “tédio” que o grupo de satiristas se formou. Entre o outono de 1789 e a primavera de 1790. fazê-lo esquecer tudo que aprendeu e forçá-lo a se tornar medíocre”. segundo Cérutti. Sabathier e Dorat. com a mesma veia de Actes des apôtres.

uma descrição da abertura do “Club de la Révolution” própria para uma festa à fantasia. foi transformada. em junho de 1790. e que a alegria tão essencial ao espírito parecia para sempre banida da capital. Nesse trabalho. A Salle du Manège. No início de janeiro de 1790. La Grande ménagerie. Nós só podemos responder de uma maneira vitoriosa às objeções desses dissidentes. onde transcorriam as sessões Tuileries. n° 1. e (conforme o título de um destes folhetos cômicos) num “Espetáculo Nacional”. Não se deve esperar um diário absolutamente preciso. Le Livre nouveau des charlatans modernes. minha intenção não é. por meio de anedotas. foi apelidado “Riquetti-la-tonne”. e que a França. Il est possible d'en rire. Eles pegaram a idéia do carnaval e a impingiram. na Assembléia Nacional como um “teste de riso”. no capítulo datado do “dia dos reis”. paródias de decretos e piadas. de modo algum. No espaço de 15 edições. depois de ter dado o exemplo de coragem e rigor para toda a Europa. Aqui. e que consiste em informar diariamente os aspectos mais importantes das deliberações de nosso respeitável corpo senatorial. Foi o Actes des apôtres. os monarquistas mais uma vez se aproveitaram avidamente do tema dos ataques subversivos perpetrados por meio do riso. enquanto o instrui”. me firmar como jornalista. num teatro do riso. Ele discutiu a natureza deste acordo em uma das primeiras edições do Les Dîners. Ousamos dizer que hoje a revolução severa e triste foi consumada. que acionou o riso. Além do mais. encontramos o visconde de Mirabeau que. Não. Indivíduos maliciosos espalharam que a atual revolução não seria duradoura porque modificara o alegre espírito francês. em janeiro de 1790: É um tipo de compromisso contratual.representou uma virada total no ideal de impassibilidade e solenidade. quando abolir os títulos de nobreza era um item muito importante na agenda. as sessões da nossa Assembléia Nacional são muito mais cativantes: elas realmente servem ao propósito de nos divertir. depois de já ter oferecido à Europa os modelos para as constituições já escritas 14 Spectacle de la Nation (Paris. como o gafanhoto egípcio — costumam devorar um ao outro. Tirando proveito do carnaval próximo. um antigo e consagrado espetáculo cômico”. em meio a este grupo de literatura satírica política. como se esperava. La Chronique du manège. Mirabeau desenvolveu. que farei o possível para cumprir. crônicas e detalhes reveladores e anedóticos da imprensa satírica contra-revolucionária. O folheto inspirado por este título prosseguia declarando: “Os grandes comediantes da Salle du Manège exibirão hoje Le roi dépouillé. como o Almanach des métamorphoses nationales. o Mirabeau jovem havia firmado uma espécie de acordo com o leitor: o autor precisa “entreter seu leitor. o mais zombeteiro retrato dos parlamentares que agem de forma grotesca no palco da “Comédie Nationale”. sem data). Les Chevaux au manège e Mes étrennes aux douze cents. or the truth cornes out while laughing. . uma celebração de riso e caricatura que a recém- criada Câmara Municipal de Paris banira formalmente das ruas por medo dos inimigos mascarados e para libertar-se de atitudes anteriores. propondo. essa sátira da Assembléia Nacional ainda era montada. esses já existem em quantidade suficiente e. nessas publicações. Ele era o autor de um jornal totalmente dedicado à narração humorística dos debates na Assembléia Nacional: Les Dîners.14 Esta fase cômica estava associada a jornais especializados inspirados nas paródias. já que tanto desprezo essa linha de trabalho. por escrito.

e divertiam-se a valer sem modéstia ou reserva. vou ainda mais longe. que havia se tornado o “Circo Nacional da Caricatura”. comentando: “A publicidade é a salvaguarda do povo”. XXIII (1790). que foi chamado de “Masque Sérénissime” (uma referência ao carnaval veneziano). tentando. virando-o contra os novos poderes revolucionários — a Câmara Municipal de Paris e a Assembléia Nacional. Esta arte do “disfarce revelador”. Considerando que vocês se esforçam para desmascarar os outros. podemos dizer. The Great Patriotic Costume Ball (O grande baile de fantasia patriótico) captou estes sinais denunciatórios. A sátira seria usada agora para pastiches de linguagem denunciadora. já que duas importantes Carnavais politiques foram publicadas na terça- feira gorda (terça-feira de carnaval. o duque de Orléans “disfarçado de príncipe consangüíneo”. insinuando delicadamente a linguagem de um defensor da revolução. o prefeito de Paris. A “guerra de epigramas” conduzida pelo satirista monarquista tinha um grande virtuosismo literário: conseguiu devolver ao carnaval sua função subversiva. Essa história carnavalesca espalhou-se muito depressa. vocês proíbem os comerciantes de exibir máscaras e fantasias em suas lojas. encarnado numa única personagem grotesca com um “corpo inchado e vermelho”. eu gostaria de fantasiá-los do modo mais parecido possível com sua verdadeira aparência física. Mardi-gras). Talleyrand como “grippe-sol”. em 9 de fevereiro de 1790. na França. “Enquanto a 15 Les Actes des apôtres. Aiguillon como “hermafrodita”. pp. que ele se apressou em transcrever “em seus mais completos e mais engraçados detalhes”. 19-20. foi levada ainda mais longe pelo Carnaval politique de 1790 ou o Mardi-Gras Exile at the National Assembly (O exílio de Mardi-Gras na Assembléia Nacional). continuará sendo o centro da arte da mímica. não suspendeu a proibição do ano anterior. como sempre. a sátira monarquista conseguiu repetir seu sucesso de 1790. e por escrever. Assim escreveu o satirista. como foi revelado por vários indivíduos por trás de suas “máscaras medonhas”. não removendo as máscaras como os jornalistas patrióticos se esforçaram por fazer.. decidiu buscar refúgio na Assembléia: O carnaval é proibido ao povo. contudo. “atribuir a cada pessoa uma fantasia apropriada”. uma natureza que a municipalidade “desprezava” e que os jacobinos “ignoravam”. desde os tempos da revolução. nem a Assembléia Constituinte. “com suas próprias máscaras”. mas descrevendo-as meticulosamente a fim de melhor revelar a “verdadeira natureza” dos políticos revolucionários. e então apresentou os disfarces e os “parlamentares mascarados” desse carnaval patriótico conduzido pelos jacobinos: Le Chapelier como “mordomo”. a França. sobretudo os arautos patrióticos. Cap. O carnaval de 1791 parece ter seguido a mesma direção: Bailly. ou. sim. Apoiada pela “natureza alegre” do francês. O olhar de Mardi-Gras atravessando a sala da assembléia observava cada um. Já que Mardi-Gras. vocês organizavam um entre vocês. assim denominada no folheto. fora enxotado da rua. . o médico Louis Guillotin como “serralheiro carregando seu novo instrumento”. Théroigne de Méricourt como “Flore”. Mirabeau como um “homem honesto” e o abade Grégoire como um “rabino”. A sátira monarquista não se rendeu. da apreciação da caricatura e do entretenimento alegre.. mas não se envergonham de usá-las vocês mesmos para os eventos mais sérios e mais importantes.15 A descrição não poupou nem Condorcet. Sob pena de multas.

. Os 408 casos de riso que se espalham sobre os assentos dos parlamentares haviam sido. acrescentando complexidade à versão monarquista de Mardi-Gras. ridicularizando a “felicidade decretada por nossos novos soberanos. ou. O riso se tornara de fato. considerados inoportunos. Também fantasiados e ridículos eram os espetáculos de Santerre. virtuosa e engraçada introduziu-se na Assembléia Nacional: ela opunha os jornalistas patrióticos (Cérutti. os franceses permanecerão franceses. mas sempre assumirá a personalidade que melhor lhe serve”. dentro das paredes da nação. criou o confronto e a batalha dos “três mascarados”. O senso de humor monarquista apoderou-se deste “alegre espírito francês”. para jogá-lo contra a inovação. equivalendo às “veracidades mais precisas sobre a alegria francesa”. ou aqueles de La Fayette (o “acrobata municipal”) e de Mirabeau (a “Comédie Nationale”). O USO POLÍTICO DO RISO Agora podemos reavaliar as explosões de riso na Assembléia Nacional de um ponto de vista mais político. Desse modo. com facções bem nítidas a partir de setembro de 1789. ingressou vigorosamente no corpo representativo nacional. explicava Le Carnaval jacobite ou The Patriotic Ball. durante o “trois jours gras”. o banquete e os mascarados patrióticos). forjado durante séculos pela “monarquia justa”. dentro de uma sala de reunião que fora concebida para promover a unanimidade. o riso nesse ponto deixou de ser apenas uma interrupção inoportuna entre dois debates.França for a França. o espirituoso Mercier e seu Literary and Patriotic Annals) aos grupos satíricos de Mirabeau do Actes des apôtres e Les Diners. a princípio. o Clube dos Jacobinos. ou assim parecia. um folheto que reutilizou o título do ano anterior sem quaisquer alterações. dentro . A loucura do povo pode mudar de nome e de rosto.”. definido como sendo eterno. um espetáculo sem igual. Uma “guerra de risos” virulenta. sempre teremos nosso carnaval e o adaptaremos aos nossos conceitos morais. após choques e misturas de disfarces. quando as diretrizes partidárias estavam sendo traçadas na Assembléia Nacional. mais uma vez. em que o encontro e a batalha terminaram. os desfiles grotescos de papel passaram a comandar as assembléias revolucionárias para caracterizar seus membros. em outras palavras. essa batalha de risos. ou seja. descreveu a “lista de máscaras” que estariam em exibição no “Club des Jacobins”. La Jacobinière. Dali por diante. branca. Porém. uma concessão ao espírito francês. com “uma bela torrente revolucionária”. o cáustico Camille Desmoulins e suas Revolutions de France et de Brabant. Foram introduzidos alguns rostos novos. o “Jacobinière du Faubourg Saint-Antoine”. essa alegria avançou muito depressa no mundo político por meio das batalhas travadas nas representações: o riso fora usado como arma política. Então. Nesse mesmo contexto. não mais incitada apenas por um padre perdido e confuso em pé na tribuna. O riso tornou-se peculiar ao escritor monarquista. The Carnival of 1791. tendo sitiado a Assembléia Nacional. Além disso. apesar do idealismo sereno e impassível.. Ginguené. com um véu sobre a cabeça” cuja presença “era avisada com antecedência de modo a não assustar”. politizou-se e. ela conseguiu dividir os membros da assembléia segundo diretrizes “partidárias”. Banquet and Masquerade (O baile. o sutil Gorsas e seu Courrier des départements. como um “fantasma” Robespierre “em uma fantasia longa.

Não é meu desejo nem minha intenção criticar suas brincadeiras. o patriótico orador que. que quase sempre se baseava na provocação. apesar de proibidos pelo código interno de conduta. como Mirabeau pedira. Como tal. Entendo que se diz que não há lados em uma assembléia formada em círculo (novamente risos). tal qual os aplausos. em 19 de setembro de 1789. eles também seguiram o grupo de satiristas que estava promovendo uma campanha muito ativa para o uso do riso como meio de se opor a idéias novas. O velho Mirabeau compreendeu com grande acuidade a estratégia política do humor monarquista do irmão. em seu Les Diners. vaiasse a imitação. divertida e significativa: “Um parlamentar no lado direito da sala clamou como Tito (ou seja. No início do outono de 1789. e contou piadas que até então haviam provocado um riso inconveniente. em outras palavras. e o parlamentar que permanecia anônimo não sabia onde se sentar: “Peguei uma cadeira”. neutralizar o riso fazendo uma simples concessão à brincadeira de acordo com a alegria francesa. agora tratava de política: o riso provocado por seus comentários se tornou o riso político em poucos meses. pois em janeiro de 1790. Este obstinado membro do parlamento se ocupa da diversão alegre para nos dividir e. e eles conseguiram. daquele ponto em diante. Parlamentares patrióticos da assembléia não podiam deixar de participar do humor. “bem no meio da sala para mostrar que não sou nem de direita nem de esquerda (risos). mas afirmo que é impossível perceber a verdade em meio ao choque de opiniões”. titubeando. O riso. Duval d’Espréménil. mas também conseguiram utilizá- lo em benefício próprio. Paralelamente aos satiristas monarquistas. burburinhos e vaias. Os parlamentares do lado direito da sala riram muito desta hábil imitação. os membros do parlamento sabiam perfeitamente bem que o riso havia se tornado uma das atitudes mais adequadas a este “choque de opiniões”. Assim. seu irmão. Para ele se tornou essencial poder perceber com clareza as conseqüências nocivas desta estratégia. or the truth comes out while laughing. mas é meu dever refutar sua opinião e suas fontes quando elas me parecem perigosas. os humoristas procuravam se colocar à direita do presidente. Seu poder derivava de sua habilidade para distinguir os partidos adversários. em 10 de outubro de 1789. . Este poder do riso era tão sensível que quando um principiante subiu a tribuna. gaguejando. Pegar um assento na assembléia passou a ser o mesmo que escolher o acampamento político. teremos destruído algo’”. ele conta esta breve anedota. embora dali por diante não conseguisse extirpá-lo da assembléia: a tradição francesa decidira de outra maneira. Esta tática baseada na guerra de risos foi logo descoberta por alguém próximo de Mirabeau. Era algo que Mirabeau captara mais depressa que o resto. não compete a mim reprovar a persistência deste indivíduo (o irmão dele) com seu tom de alegria. se realmente a alegria for uma tradição abençoada do espírito francês.da “Sainte Masure”. uma arma tão poderosa quanto o era do lado de fora. repreendeu severamente o visconde depois de um trocadilho dúbio inserido nas minutas das sessões: Sempre considerei como prova de boa conduta que o trabalho seja executado com alegria. a desunião é uma maldição. desde que se mantenha decente. este dia não será perdido. e se apoiava no Mirabeau jovem. contribuía para traçar um mapa dos membros dos partidos. podia-se notar um grupo de humoristas patriotas se formando dentro da própria assembléia. embora presumivelmente o “lado sensato” da sala. Este grupo era menos individualista que os monarquistas. Revendo a tática empregada por Mirabeau. disse o recém-chegado. parodiando alegremente Tito num gênero que imitava o mais rígido dos romanos no Congresso): ‘Para nós. ele entendeu. o lado à esquerda do presidente.

O humor. os grupos também pudessem conduzir ataques de ironia contra os poderes vigentes. pouco a pouco a guerra de papel no começo da revolução permitiu que o riso fosse algo mais do que uma concessão temporária ou imprópria: ele se tornara uma arma política entre outras no arsenal. . o riso foi considerado inicialmente uma concessão à alegria francesa. O riso irrompeu novamente: “Com esta moção que também tende a estabelecer um governo despótico. um ritual vital nas práticas parlamentares francesas. os protestos vieram de todos os lados. Ou foram até mais longe. o poder dependia essencialmente do monarca”. Um comentário se ouviu apesar do tumulto reinante: ‘Poderia nosso obstinado colega ir juntar-se ao outro orador em Constantinopla’. Dali em diante. nela. Porém. e nosso obstinado colega. quando o conflito do humor do Palais- Royal. poderia ser interpretado como inoportuno. por sua parte. A esquerda e a direita alcançaram esta distinção em grande parte por agirem de acordo com essas disposições políticas. Os 408 casos de riso na Assembléia Nacional francesa no período entre 1789 e 1791 traçaram um itinerário fascinante do uso do humor. estes incidentes de riso dirigidos a simples e inoportunos comentários estenderam- se à reconstrução de uma verdadeira cerimônia política. o riso funcionou na Assembléia Nacional como um príncipe rituel de réalité (princípio do ritual da realidade). os parlamentares renunciaram ao ideal filosófico de impassibilidade para se reunirem em torno de uma prática muito eficaz e ao mesmo tempo real e ritual: o riso em grupo. O cronista anotou as reações imediatas dos parlamentares: “Altos brados trouxeram o obstinado parlamentar de volta à ordem. Um eclesiástico então subiu à tribuna: “Vamos enfim tratar desta constituição. do burburinho e das explosões de riso constituía uma espécie de ritual. o riso estava justa e igualmente dividido entre o lado esquerdo e o lado direito do presidente. o riso havia se transformado em política nas mentes dos patriotas: um monarquista estava na tribuna e fez a seguinte declaração tradicionalista: “Sob a monarquia. na rue Saint-Jacques. embora. uma voz se elevou sobre o burburinho da multidão: ‘Estamos falando de uma monarquia aqui. Esta réplica sarcástica levou o orador a se sentar imediatamente em meio a uma gargalhada geral”. Está mais do que na hora de nos dedicarmos como nunca à religião que professamos”. uma arma eficaz que os partidos utilizaram para se distinguir e atacar um ao outro na assembléia. uma cerimônia de reconhecimento mútuo. por exemplo. quando o debate crucial sobre o veto real estava começando — um debate que dividiria profundamente a assembléia —. Em 28 de agosto de 1789. mas era mais eficiente. cruel com seus integrantes minoritários. Da mesma forma. ou uma assembléia dividida por seus estados de humor.Maury e Cazalès. está discutindo um regime despótico’”. quando relacionado com esse tipo ideal de solenidade exigida pelos novos representantes de um povo livre e regenerado. Por meio dele. Ele acabava de ingressar na política. Esta assembléia algumas vezes poderia até ser. havia infiltrado as fileiras e os assentos da Assembléia. Outra voz mandou o orador tradicionalista de volta ao lugar dele em meio a uma explosão de risos: “Sugiro enviar o obstinado para Constantinopla”. Até certo ponto. O uso do aplauso. dirigidos contra a constituição de um cenário parlamentar democrático. uma tradição que não podia simplesmente ser posta de lado e que teria sido desastroso ignorar. pelo riso.

10 - O humor e a esfera pública na
Alemanha do século XIX
Mary Lee Townsend*

Em 1848, assim como em 1989, a revolução varreu o continente europeu e definiu a ferro
e sangue as questões que moldariam a história européia nos próximos 150 anos. Durante as
décadas anteriores, na Alemanha como em outros lugares, a voz do povo foi abafada e
forçada a se expressar através das ambigüidades do humor e da sátira. O humor popular
progrediu nesses anos pré-revolucionários, permitindo que os alemães participassem de
uma cultura da divergência, ativa e oculta, muito semelhante a suas contrapartidas na
Europa Oriental da Guerra Fria, onde o humor se tornou uma arma política importante
contra os regimes repressivos.
No entanto, o humor era mais do que apenas “política por outros meios”. Numa
época de grande mudança social, enquanto uma sociedade tradicional baseada em bens dava
lugar a um confuso mundo novo, marcado pela industrialização, pela urbanização e pela
mobilidade social, o humor popular preenchia uma gama de necessidades. Proporcionava
simples entretenimento, encorajava os alemães a desopilar o fígado e lhes permitia explorar
e negociar as instáveis fronteiras do admirável mundo novo à volta deles.
A força do humor se tornou cada vez mais visível na Alemanha oitocentista, à
medida que ele transbordava de um passatempo tradicional para um produto comercial, do
mercado de massa. Durante a primeira metade do século, o humor popular saiu das ruas e
entrounas salas de estar. Era um fenômeno alemão, na realidade europeu, mas aconteceu de
modo surpreendente no Estado da Prússia, principalmente na cidade de Berlim. Ali o humor
popular, chamado Berliner Witz, manifestou-se na cena literária e artística, ziguezagueando
pelos limites convencionais: entre o dialeto e o Hochdeutsch, a caricatura e a arte, a cultura
inferior e a alta cultura.1
Este humor não era simplemente um produto comercial fútil, que brotou da noite
para o dia para saciar uma ânsia de novidade e diversão. Os habitantes da capital da Prússia
durante muito tempo se orgulharam de sua graça, e durante a explosão editorial pré-
revolucionária eles traduziram esta tradição oral em textos e quadros. Guias de viagem
aclamavam Berlim como a “cidade-mãe da graça”, citando a fama dos nativos na imitação,
na zombaria, na franqueza e no ar de troça. Entusiastas alegavam que esta peculiar graça
áspera era quase um fenômeno natural, uma característica inata das classes sociais mais
baixas de Berlim.2

*
Agradeço ao Programa de Pesquisa da Universidade de Tulsa pela ajuda na preparação deste ensaio.
1
Devido ao meu enfoque nos exemplos publicados e comerciais dos chistes berlinenses, seria mais exato chamá-los de “mercado
de massa”, em vez de humor popular. Porém, os alemães do século XIX usavam o mesmo termo, Volkswitz, para descrever tanto
o “humor nativo” (Mutterwitz) das classes sociais mais baixas de Berlim quanto o humor criado para comercialização por
escritores e artistas profissionais. Eu também prefiro usar este termo, que traduzo como humor popular. Uma das coisas mais
surpreendentes sobre esse humor é que ele ocupava um território intermediário entre a alta cultura e a cultura popular, e fornece
um excelente exemplo de como era tênue a distinção entre as duas.
2
Uso a palavra classe no sentido geral de estrato social, de acordo com o costume contemporâneo; durante as décadas em questão,
Klasse, Klassen, Schicht e Stand eram quase sempre usadas de forma alternada.

Devido à importância da graça, os observadores conceberam idéias diferentes sobre
sua função na sociedade. Alguns, incluindo radicais e conservadores, acreditavam que o
humor estimulava os cidadãos a dissipar a raiva e a frustração que, de outro modo, poderiam
ser dirigidas contra a ordem estabelecida. Em 1843, um autor advertiu a censura e as
autoridades policiais para deixarem aberto o “respiradouro” (Luftloch) de Berlim. Do
contrário, as pessoas “só iriam remoer as coisas (mais) sombrias”. Três anos depois, em
1846, o literato comunista Ernst Dronke disse, torcendo o nariz, que o humor político era
realmente um benefício para o Estado. “Se o berlinense risse de algo, ‘aquilo deixava de
existir’ para ele. Ele o ignora com equanimidade”.3
O escritor liberal Theodor Mundt apresentava outro ponto de vista e alegava que, em
1844, o humor popular era “o Robespierre dos berlinenses”, sua carta-régia, sua
constituição, seu tudo e seu nada”.4 Aos olhos dele, a graça de Berlim poderia incitar a
rebelião ou acalmar espíritos indisciplinados. Em qualquer caso, era uma força a ser
considerada.
Esta era uma alegação ousada. Em 1844, mais ainda do que hoje, Robespierre
simbolizava o perigo — tanto quando o dinamismo libertador — da Revolução Francesa.
Mas os contemporâneos não discutiram a caracterização de Mundt.5 Tampouco recusaram
a aparente ambigüidade de sua alegação de que o humor pudesse funcionar ao mesmo tempo
como uma força revolucionária e como uma válvula de segurança. Pelo contrário, eles
também reconheceram o papel multifacetado do humor na sociedade alemã.
A frase chocante de Theodor Mundt e o intenso debate contemporâneo sobre o
humor atrai a curiosidade do leitor do século XX. Como devemos interpretar o entusiasmo
com o humor popular — e o temor dele? A graça espirituosa e o humor não são atributos
convencionalmente associados com a Alemanha, em particular a Alemanha do sério século
XIX. E a imagem de um “Robespierre” em Berlim dificilmente se encaixa em nosso quadro
dos chamados alemães apolíticos. Se esta era uma época de repressão política, censura
rígida e recato moralista, como podemos explicar as incontáveis piadas e caricaturas que
desafiavam, às vezes abertamente e às vezes sorrateiramente, as convenções políticas e
morais? Além do mais, quem não quer saber exatamente que papel desempenhou o humor
popular na sociedade oitocentista? Teria sido usado como um apelo à ação ou apenas
funcionou como uma forma de extravasar a frustração? Em outras palavras, era o humor
uma força verdadeiramente revolucionária, ou era uma forma sutil de controle social que
serviu para pacificar mais adiante uma população já dócil? Ou será que há uma outra razão
para que o humor ganhasse tanta importância neste momento da história alemã?
Para responder a estas perguntas, temos que nos voltar para o humor em si e
examinar o contexto e o conteúdo das piadas e das caricaturas individualmente. Mas

3
F. Gustave Kühne, Mein Carneval in Berlin 1843 (Braunschweig, 1843), p. 26, chama a graça berlinense de Luftloch; E. Dronke,
Berlin (Berlim, 1846), repr. org. R. Nitsche (Darmstadt, 1974), p. 19.
4
T. Mundt, Die Geschichte der Gesellschaft in ihren Entwickelungen und Problemen (Berlim, 1844), pp. 6-7.
5
O livro de Mundt se baseava numa série de palestras públicas dadas em 1844. Em seu Berliner Stecknadeln, pg. 2, (Berlim, 1844),
p. 26, Feodor Wehl cita com aprovação a passagem sobre Robespierre, diretamente das conferências. A polícia de Berlim não
menciona a frase em seus relatórios sobre as palestras de Mundt; veja Brandenburgisches Landeshauptarchiv (Potsdam), Provinz
Brandenburg, Rep. 30 Berlim, C. Pol. Präs., Tit. 95 (14519), Acta des Königlichen Polizei-Präsidii zu Berlin betreffend das zu
beobachtende Verfahren bei Ertheilung der Erlaubniß zur Haltung und Ankündigung von Privat-Vorlesungen, 1820-59, Bl. 21-
22; e Brandenburgisches Landeshauptarchiv (Potsdam), Provinz Brandenburg, Rep. 30 Berlim, C. Pol. Präs., Tit. 165 (20292),
Acta collect, des Königlichen Polizei-Präsidii zu Berlin betreffend die von einzelnen Personen hier zuhaltenden [sic] Vorlesugen
p.p., 1836-44, Bl. 151-6.

também precisamos examinar o humor em seu conjunto, em sua função mais ampla e global
na sociedade.6 O simples ato de compartilhar o riso era mais importante do que o conteúdo
específico ou o impacto imediato de qualquer piada ou caricatura. Rir junto significava
participar de uma cultura comum, uma forma de comunicação sobre assuntos de interesse
mútuo. Assim sendo, o humor ajudava a construir um espaço público, um campo ou arena
onde poderiam ser discutidos todos os tipos de idéias, fossem elas políticas, sociais ou
morais. As visões expressas dentro deste espaço público nunca eram monolíticas ou
uniformes. O humor popular estabelecia um sentido de comunidade entre os participantes
mas, ao mesmo tempo, ajudava a definir e a esclarecer as diferenças dentro daquela
comunidade. O riso, fosse ele trivial, subversivo ou um pouco de cada, fazia parte de um
debate público constante, em que os alemães do século XIX se definiram e definiram a
cultura nacional recém-nascida.
Tendo isso em mente — que todos os exemplos individuais de humor devem ser
considerados tendo o todo como pano de fundo —, é útil nos concentrarmos num único
estudo de caso. O nome dele é Eckensteher Nante e era a figura cômica favorita do período
pré-1848.
Eckensteher eram os trabalhadores rudes e indisciplinados da vida real, familiares
por toda a Europa Central. A palavra é traduzida literalmente por “aquele que fica no canto”.
“Nante”, que é o diminutivo de Ferdinand, era quase sempre o nome de batismo dado ao
Eckensteher literário e iconográfico. Até hoje, o nome Nante sugere o estereótipo criado
por Dörbeck do proletário corpulento e insolente. (Por conveniência, neste ensaio usaremos
a palavra Eckensteher para indicar os indivíduos reais, e o nome Nante para indicar a
caricatura ficcional criada na arte e na literatura). Para fins históricos, Nante é ideal, pois
ele ilustra as características principais do humor durante o século XIX: (1) a
comercialização do humor para um mercado de massa; (2) a ação recíproca dos estereótipos
humorísticos e da realidade social nos quais eles eram baseados; (3) a grande variedade de
conteúdo no humor, da pilhéria inocente à crítica política agressiva. Finalmente, (4) Nante
nos permite dizer algo sobre a função global do humor.
Em resumo, Nante demonstra como o humor desempenhou um papel crucial na
criação de uma esfera pública na Europa Central.7 A comercialização possibilitou a Nante
ter um amplo impacto. As ambigüidades do humor lhe permitiram servir a muitas funções,
transpondo as fronteiras da cultura baixa e alta, atraindo públicos diferentes, e sendo
interpretado de muitas maneiras. Compartilhar o riso com Nante permitiu que os alemães
moldassem uma cultura política forte além dos limites da repressão; mas o riso dirigido a
Nante ajudou a prever os limites da rebelião na Alemanha pré-revolucionária.

6
P. Burke, Popular Culture in Early Modern Europe (Nova York, 1978), prólogo, também salienta que “ele está mais interessado
no código de cultura popular do que em mensagens individuais, e apresenta uma descrição simplificada das maiores constantes
e das principais tendências”.
7
Aqui sou evidentemente grata a Jürgen Habermas em Strukturwandel der Öffentlichkeit: Untersuchungen zu einer Kategorie der
bürgerlichen Gesellschaft (Darmstadt, 1962); e Habermas, “The public sphere”, trad. Shierry Weber Nicholsen, em Jürgen
Habermas on Society and Politics: a reader, org. Steven Seidman (Boston, 1989), pp. 398-404.

Jochen Krengel e Jutta Wietog. eles tentaram atrasar o relógio restabelecendo a “velha ordem”. e 8. geralmente com 30 a 60 páginas in-oitavo e quase sempre com uma ilustração na primeira página. não chegava a ser um exagero. assombrados pelo fantasma da Revolução Francesa e pelo pesadelo de um povo que decapitava seu rei. 234. Trabalhos escritos no dialeto local eram particularmente bem recebidos. As estatísticas do censo prussiano de 1871 mostram que. 1982). Na Alemanha isto levou aos Decretos de Carlsbad de 1819. e. Devido à sua enorme atração. O Eckensteher Nante amadureceu durante a Restauração. uma série de leis rígidas elaboradas para reprimir todas as formas de dissensão política. impôs estas medidas e acrescentou algumas leis próprias ainda mais rígidas. a Alemanha criou um novo gênero de publicação: o humor popular comercial. o papel mais barato e o advento da litografia tornaram possível imprimir a custo mais baixo. Uma das táticas mais bem- sucedidas que eles encontraram foi o uso do humor. p. como Estado membro da Confederação alemã. caricaturas. . ela também estimulou a experimentação. Wolfram Fischer. (N. escritores. cartazes e volantes do gênero humorístico. não sabiam ler nem escrever. Berlim tinha um estoque aparentemente infinito de escritores e artistas dispostos a se dedicar ao humor. Entre seus regulamentos mais importantes estava o da censura.8 Os editores também estavam em boa situação: o cilindro de impressão. cerca de 40 por cento da população acima de seis anos era alfabetizada. A Prússia. Ironicamente. pp. em Londres. NANTE NA GRUB STREET* Vamos começar pela comercialização do humor. piadas e sátiras. artistas e editores experimentaram muitos formatos: quadros. Também havia um enorme público em potencial. os monarcas da Europa dormiam mal à noite. mais marcante no período. Na Europa Central. o “folheto de chistes” (Witzhefte). 444-5.) 8 R. Depois de décadas de guerras revolucionárias e de ocupação napoleônica. Esta censura notória resultou numa certa brandura na literatura e na arte alemãs. No Congresso de Viena. O sucesso deste novo gênero foi surpreendente. que lhes permitia ocultar os significados sob a aparência de entretenimento “inocente”.60 por cento dos nascidos entre 1802 e 1811. à medida que escritores e artistas buscavam maneiras de escapar ao olho sempre atento do Estado. charadas de jornal. conforme jovens empreendedores se aproveitavam da tradicional graça berlinense e a adaptava às necessidades da incipiente imprensa de massa da Alemanha. da T. Figuras batidas como o Eckensteher Nante eram usadas em série pelos humoristas e freqüentemente copiadas pelos concorrentes. Em conseqüência. calcula 40 por cento. onde viviam esses escritores. A rua hoje se chama Milton Street. Temos registros concretos de * Representa o mundo dos escritores pobres e assalariados. Schenda. Sozialgeschichtliches Arbeitsbuch I: Materialien zur Statistik des Deutschen Bundes. A ferrovia ajudou a cortar os custos de transporte e inovações mercadológicas permitiram que os livreiros atingissem um público cada vez maior. uma época de grande instabilidade política e repressão. fornece estatísticas do censo de Berlim que mostram que apenas 15. em 1815. em 1830. em 1840. calendários e almanaques distorcidos de forma humorística. Berlim logo se tornou o centro desta nova tendência editorial. 1815-1870 (Munique. 1977).39 por cento dos berlinenses nascidos em 1801 ou antes. Volk ohne Buch: Studien zur Sozialgeschichte der populären Lesestoffe 1770-1910 (Munique. Quando os contemporâneos alegaram que “todo mundo” na Prússia lia a nova literatura de humor popular. de 85 a 90 por cento da população de Berlim com 29 anos ou mais conseguia ler e escrever.

Os berlinenses mais pobres possivelmente tomavam conhecimento dessas publicações nas vitrines das lojas e nos bares e as adquiriam de segunda mão ou nas bibliotecas volantes. 1992). “Lachen Verboten: zur Sozialgeschichte des Berliner Witzes im Vormärz. descendo a escala social. e os escritores e artistas que testavam os limites do poder do Estado. Afinal. e um humor que violava tabus poderia abalar os alicerces morais do Estado. aparecendo com regularidade na imprensa diária. que reconhecia as possibilidades explosivas do ridículo. os funcionários do governo permitiam até certo ponto as publicações humorísticas porque elas representavam uma alternativa inócua à agitação política. por vezes até mencionado como candidato a imperador de uma Alemanha unida. uma duquesa e até membros da corte em Berlim. personificando as esperanças. Forbidden Laughter: popular humour and the limits ofrepression in nineteenth-century Prussia (Ann Arbor. o Nante 9 Para uma análise do público. uma interpretação da classe média de uma figura da classe baixa. os temores e as fantasias da classe média em relação ao “povo”. onde fica o fictício Eckensteher Nante? Ele foi criado por profissionais.10 Desse modo. Quando a revolução de 1848 estourou. industriais. O humor político poderia contaminar o populacho com idéias sediciosas. meninos de recados. mas que estavam familiarizadas com o Eckensteher comum. ele era uma importante figura política. Nante representou muito mais. criados. ricos industriais. pp. o preço dessas publicações e as necessidades mercadológicas de seus criadores — escritores. o Nante literário apresentava. um motorista de táxi. Mas também temiam a outra face da graça de Berlim. da distribuição e do preço de compra. pp. Wandlungen einer Stadtsprache: Berlinisch in Vergangenheit und Gegenwart (Berlim. a polícia prussiana. O crescimento do humor de massa documenta. Além disso. 1815-1848”. preocupada com o possível impacto da personagem. Mas. naturalmente.9 A polícia prussiana estava indecisa quanto a este novo humor comercial. uma complexa luta pela supremacia entre um regime prussiano cada vez mais tenso. como veremos. trabalhando como biscateiro em Berlim. Por fim. assim. lojistas e prósperos artesãos. pessoas que ficavam a uma certa distância social e econômica das classes mais baixas. 171-91. 183-210. O herói aqui é.). Logo se tornou um símbolo do Volk (povo) alemão como um todo. homens que precisavam vender para ganhar o pão de cada dia. O ECKENSTEHER REAL E FICTÍCIO O Eckensteher Nante começou a vida modestamente. da estrutura do texto. Além do mais. como os livros de piadas e as caricaturas circulavam à vontade. no ano de 1832. veja Mary Lee Townsend. manteve um olho cauteloso em todas as manifestações literárias e artísticas de Nante. . E era comprado pela classe média mais ampla. em grande parte. aprendizes. Por um lado. uma análise textual da literatura sugere que grande parte (mas não todo ele) deste humor era acessível à maioria dos leitores. Porém. qualquer idéia perigosa que escapasse da censura sob a forma de piada “inofensiva” decerto atingiria todas as camadas da sociedade. artistas e editores — sugerem que os verdadeiros consumidores da graça berlinense provinham da faixa média mais ampla da sociedade. 1988). desde alguns aristocratas até. 10 Sobre a censura do humor e a polícia prussiana veja Mary Lee Townsend.pessoas de todas as camadas sociais que liam esses folhetos e viam essas caricaturas. em Norbert Dittmar e Peter Schlobinski (orgs. Uma curta lista incluiria o ajudante de um barbeiro. mulheres comerciantes.

O comediante Beckmann e outros imitadores haviam rebaixado Nante a um mero “bobo da corte a todo custo”. 13 Glaßbrenner para A. Adolph Glaßbrenner. Nante era geralmente um simples artista de teatro de variedades. empregando algumas noções do dialeto de Berlim. disse Glaßbrenner. Abteilung II.. Goethe-und Schiller-Archiv. “Ein Mensch namens Nante: zur Geschichte der NanteDarstellung”. Seu único momento dramático acontece numa cena breve diante do delegado de polícia. Isto ocorreu até no primeiro folheto do Eckensteher de Glaßbrenner. Depois. ele era um recurso literário que lhes permitia fazer comentários cautelosos sobre os acontecimentos. contando piadas inocentes e comentando a cena local. Nante era um trabalhador contratado para cortar madeira e que acaba por ajudar a seqüestrar uma criança. Em novembro do mesmo ano. Nante havia se tornado o símbolo de Berlim. carta a Veit and Co. 28. O ator que desempenhou o papel. um talentoso comediante chamado Friedrich Beckmann. É assim que vejo Nante”. havia um fio 11 V. o Eckensteher imaginário tinha raízes profundas na realidade. Glaßbrenner declarou que seus folhetos de piadas anteriores. Não. Landesarchiv Berlim. Nante não era mais o proletário sábio nem mesmo o filisteu alemão tímido e parvo. “fervilhavam de mau gosto” e foram “escritos mais para proveito do editor do que para o próprio”. No. Weinholz. Nante é “o representante do mais baixo Volk no qual [há]. o amável burguês de Berlim. emprestou humor e vida inusitados ao personagem. em dezembro. Rep. Holtei e Glaßbrenner haviam incentivado Beckmann a escrever a peça. . Para alguns escritores. Quando o Eckensteher da literatura nasceu. Mas. Para a maioria dos leitores. espirituoso e. Autographen- Sammlung. Na vasta literatura do Eckensteher publicada após 1832..12 Por volta de 1847. 14 Ao procurar um possível editor. Beckmann escreveu uma peça intitulada Der Eckensteher Nante im Verhör. 12 Glaßbrenner numa carta a um destinatário desconhecido..11 O impacto de Nante foi tão forte que mesmo 40 anos depois Glaßbrenner assinou uma carta enviada a um admirador identificando-se como “humorista e criador do Eckensteher Nante Strumpf”. sua concepção original de Nante fora corrompida.. pp. 857.? Nante é muito rude e muito estúpido. 19 (1968). publicou seu primeiro folheto do Eckensteher. 241. e Beckmann roubara descaradamente muitas piadas e uma canção do folheto de Glaßbrenner. 566. Porém. No. o humorista mais famoso de Berlim. Nationale Forschungs und Gedenkstätten der Klassischen Deutschen Literatur in Weimar. ele lamentou. incluindo o primeiro folheto do Eckensteher. Museum für Deutsche Geschichte. 5 de novembro de 1873.. apesar de sua crítica. havia tantos tipos diferentes de Eckensteher na literatura que Glaßbrenner aconselhou outro escritor a não usar a figura em sua obra: O que se espera que Nante represente? Berlim? Deus proíbe: Berlim é muito eminente! O inteligente. a carta se perdeu em 1857. uma oposição inconsciente a todas as condições que o oprimem.13 Glaßbrenner tinha razão. Sua história de vida tem muito a nos contar sobre os companheiros de carne e osso e sobre a sociedade alemã como um todo. 6 de julho de 1837. Jahrbuch für brandenburgische Landesgeschichte. Tennigkeit. que se estendeu na cena diante do delegado da peça de Holtei. Só depois Glaßbrenner e outros humoristas usaram Nante como porta-voz no intuito de estimular a consciência política. 21-35. 15 de setembro de 1847. Contudo.literário e iconográfico. gostaria de dizer. Glaßbrenner. ele era um personagem secundário de uma peça local de Karl von Holtei. e não sua contrapartida real e desordeira. Abteilung Fundus. Assim surgiu uma rivalidade entre os três quanto ao crédito da criação do Eckensteher Nante. agarrou a oportunidade e. Acc.14 Para a maioria dos humoristas.

Conforme diz a enciclopédia. Berlim/GDR. veja Horst Denkler. a polícia acabou com o registro do Eckensteher e o proibiu de vadiar pelas ruas. corri [de volta] a Berlim e quis abraçar todos os Eckensteher”. Não foi por acaso que Nante se tornou tão popular. o Eckensteher era conhecido por seus comentários ásperos e cortantes dirigidos aos passantes.. 10 de novembro de 1837. Antes de 1840. Zedlitz acima. n. matreiros e galhofeiros. Werke.). Uma enciclopédia de Berlim publicada em 1834 o descreve como um trabalhador que gastava mais tempo esperando trabalho nas esquinas do que trabalhando de fato. man hatte sie an der Poststraßen-Ecke gesehen”. táxis baratos tornaram os carregadores obsoletos. Eles eram bastante visíveis. Segundo um viajante inglês. quase sempre vadiando nas esquinas movimentadas. escreveu: “Eu. p. L.18 Não fica claro quanto da graça legendária do Eckensteher era natural e quanto simplesmente lhe foi atribuído por escritores e artistas fantasiosos. a explosão populacional do país. 1834). 17 Sobre a expulsão do Eckensteher. 9. por exemplo. Citação. . 28. p. Hoje a palavra Eckensteher é geralmente traduzida por “vadio” e isto se aproxima da realidade histórica. 1981). 19 Os contemporâneos exaltavam Dörbeck e Glaßbrenner por sua precisão. educados ou incultos”.. mas é possível notar que suas idéias coincidiam com as de seus colegas. (orgs. Robert Springer. nas caricaturas e na literatura de linha humorística. e assim podia ser chamado de diarista.17 Em seu auge. O jovem Karl Marx. em Karl Marx e Friedrich Engels. “Diese Typen eines Nante. 18 W. passando o tempo ou à espera de trabalho. Harold T. Berlins Strassen. veja. “eles são astutos. às vezes. 40. p. A personagem Nante representava constantemente — embora nem sempre de modo consciente — os sentimentos mais íntimos dos berlinenses em relação à estrutura social instável da cidade e o alarmante aumento da tensão entre as classes. por exemplo. Neuestes Conversations-Handbuch für Berlin und Potsdam zum täglichen Gebrauch der einheimischen und Fremden aller Ständen (Berlim. Betteridge (NovaYork. org. org. rev. a migração maciça para a cidade e as graves crises econômicas tinham gerado um número imenso de desempregados. Howitt. o Eckensteher continuou vivo na imaginação dos berlinenses. sempre popular no teatro. “Einleitung und Editionsbericht”. Entre eles estava Nante. 1971). As vezes ele aceitava trabalhar por dia. Colônia. de uma certa indiferença especulativa e uma previsão confortável” do possível surgimento de empregos mais bem remunerados. p. Kneipen und Clubs im Jahre 1848 (Berlim. Em algum lugar na fronteira entre os estratos sociais mais baixos de trabalhadores respeitáveis e os mal-afamados e criminosos de Berlim vinha o Eckensteher. esta “situação não é o resultado da falta de oportunidade de trabalho mas. têm a última palavra. seu pretenso talento para a réplica se tornou uma ferramenta literária útil. Adolf Glaßbrenner: Unterrichtung der Nation. sejam estes de nível alto ou baixo. Institut für Marxismus- Leninismus beim ZK der SED (42 volumes até adata. o Eckensteher era uma figura habitual nas ruas de Berlim e o berlinense comum o via diariamente. 1850). diz dos folhetos de Glaßbrenner. 441. são secos. vol. em Horst Denkler et al.15 Por volta de 1832. Zedlitz.comum a todas essas versões do Eckensteher. o mencionou em uma carta ao pai. The Rural and Domestic Life of Germany: with characteristic sketches of its cities and scenery (Londres. 115. 1956-). Descrevendo seu ativo bom humor depois de uma excursão pelo país. e têm certeza de dirigir o riso contra seus antagonistas. New Cassell’s German Dictionary. Karl Breul. 15 Carta datada de Berlim. ano do nascimento de Nante... 159-60. livros muito objetivos sobre Berlim pareciam paráfrases de Glaßbrenner. 16. Ausgewählte Werke und Briefe (3 volumes.16 Em 1840. 39.. 16 Definição moderna. pp. ao contrário. 1842). vol. Mesmo depois de desaparecer das ruas da cidade. Não sabemos ao certo o grau de precisão das descrições do Eckensteher feitas por Glaßbrenner. 1. p.19 De qualquer modo.

vol. ela quer uma bebida”. 22 Nante Strumpfs hinterlassene Papiere. 7. Blaubart: Ach so. Nante als Fremdenführer. Lenz. NANTE E O ÚLTIMO RISO Agora que conhecemos um pouco sobre seus antecedentes.. e combinando esta com o plural da palavra nádegas. “. Nante Strumpf bei der Einholung (2a ed. já que ignoras teu caráter feminino?”22 Essas piadas sobre temas universais e inocentes constituíam grande parte do humor do Eckensteher literário. un halten se ihr een Bund Heu vor. quem sabe isso ajuda”. mesmo quando o homem é irritável”. ele expressa o tormento com mulheres decididas. .24 As etapas iniciais de construção da ferrovia na Prússia foram marcadas por forte especulação. des helft vielleicht. 1839-41). 40. 21 Dr D. Ela sempre cederá. die man in hundert Jahren erfinden wird. 12. Em um folheto. 1834). Blaubart. replica: “Ah. Sie zeigen sich sehro indringlich. p. org. NANTE: OS acionistas (Akzionärsch) também consideram a ferrovia como a oitava maravilha (do mundo). salte e pegue um fardo de feno. vol. Muito desse humor era tagarelice alegre. springen se raus. 32. daß Sie Ihr’n weublijen Kurrakter so entfremden?”. diz Nante. se will saufen”. 7 (Berlim. fraseados tolos e piadas sobre temas inocentes. que andou bebericando aguardente o dia todo. Nante implica: “Blaubart. Ele cria uma palavra nova. 24 L.. desprezando a palavra para acionista.23 Blaubart é um cocheiro e as ferrovias ameaçam sua profissão. 23 Leitores cultos teriam reconhecido esses nomes: Barba-Azul... Sonderdruck aus den Berlinischen Blättern für Geschichte und Heimatkunde. Quando Nante e seu filho estão em meio à multidão que espera para ver o rei e a rainha andarem pela cidade. Uma série de folhetos sobre Nante na recém-construída ferrovia é típica. 1. a tal ponto que Nante discute o assumo com naturalidade. Ele reage à nova máquina com temor e aborrecimento. “Ouça”.. Die wird immer nachgeben. “Heer’n Se. vol. são empurrados por uma menina atrás deles. repr. Por acaso és a filha do líder parisiense George Sand. 7.. e ganha o título de “Doutor da Sabedoria Mundana”. Seind Sie villeicht eine Dochter von de Parisermacher George Sandten. No primeiro folheto. “eine vielosaufische Abhandlung”. Herbert Sommerfeld. é possível analisar as piadas e as caricaturas que giraram em torno do Eckensteher Nante. o assassino de esposas no famoso conto de fadas. “Nante: Blaubart. Nante auf Reisen oder Schattenspiel an der Wand! (2ª ed.21 Às vezes o humor sobre mulheres era entrelaçado com observações contemporâneas. 1842). 1840). e Aspásia.. Mostrando um quadro de uma mulher feita de borracha. Nante auf der Berlin-Potsdamer Eisenbahn (5 vols.20 Freqüentemente Nante desabafava suas frustrações sobre temas universais como o casamento. que significa literalmente “muita bebida”..: ein Wegweiser (Berlim. O condutor explica que a máquina não tem água suficiente. wenn och der Mann kriblich is”. Akzionärsch. Nante pega um trem para Potsdam com o amigo Blaubart (Barba-Azul) e sua esposa Aspásia. Berlim. p. “estás te mostrando muito violenta. Quando o trem pára inesperadamente. oder Ganz Berlin für 7-1/2 Sgr. p. Sie Mamsell. Conducteur: Die Maschine hat nicht Wasser genug. a esperta esposa de Pérides. Ärsche: BLAUBART: Ele anda terrivelmente rápido — os táxis com motor de um cavalo serão arruinados. 1936). ele explica ao público: “Será inventada dentro de cem anos. mas seu verdadeiro suporte vinha da graça meditativa. “Doctor der Weltweisheit”. Berlim. p. ne Frauenperschon von Gummi- Elasticum.. ASPÁSIA: Com que eles estão surpresos? 20 Dr Nante. Aktionär. Berlim. “vielosaufisch” também pode ser traduzido por “filo-sal-fico”. Um Eckensteher escreve um tratado sobre “viel-o-sauf-ische”..

aber meine Frau wird se woll kennen. Na literatura e na caricatura. C. geralmente bebendo o tempo todo. . Quando Nante morre em uma das histórias. die Akzionärsch betrachten die Eisenbahn ooch als des achte Wunder. “Vendi imediatamente por um táler e aluguei uma fantasia”. “. “. 30 A. 31 Para uma introdução à literatura teórica sobre o humor da superioridade e do descrédito veja A. vol. não é essa. o Eckensteher bêbado era em geral cômico. 1844).25 O tema mais incisivo na literatura do Eckensteher era o álcool. Der ewige Jude: ein Berliner-Puppenspiel (Demmin. 1. 17) que Glaßbrenner usou o álcool a princípio como objeto de sátira. ou não iriam. 27 J. mas minha esposa saberá reconhecer. como ficou claro nos parágrafos seguintes. Hopf. p. un mir’ne Maskengarderobe davor geborgt”. Piadas negativas sobre Nante às vezes o retratavam como um grosseirão pretensioso que dispara uma série de asneiras. Nante auf der Berlin-Potsdamer Eisenbahn. vii).. un det habe ick gleich vor’n Dhaler verkooft. Morreall.29 E sai em busca de uma bebida. 1. Glaßbrenner deixou de rir do Eckensteher para rir com ele. seus companheiros da vida real estavam bebendo mais.. 16. können Sie mir vielleicht insinuiren. research and applications (Londres. was des vor’ne Symfomanie is.28 Em uma história. Elas também revelam as atitudes subjetivas dos berlinenses em relação às mudanças que ocorrem à volta deles.27 No início dos anos 1830. “Ick habe heute Armenholz gekriegt. Chapman e H. 1838). o autor culpa “a temperança da sociedade e o transbordamento de uísques”. esp. Entre 1806 e 1831. e se sentir superior. mas raramente simpático. 26 Nante Strumpf hinterlassene Papiere. die kenn’ ick nich. Ela se compadece mas pergunta onde ele conseguiu dinheiro para ir ao baile.17.. Humour and Laughter: theory. NANTE: Com o que é feito do dinheiro. Muitos Eckensteher que não conseguiam.). veja também J. Foot (orgs. Alguém pergunta ao vizinho: “Será que você poderia me dizer que sinfomania a orquestra está tocando?” O homem responde: “Ninfomania? Não. os primeiros cinco ensaios.er starb am Mäßigkeitsverein und einer Überfüllung von Korn und Bittern”. p. die des Orchester spielt?” “Nymfomanie? ne. vol. ela não é válida para a literatura do Eckensteher em geral. Drink. die is musikalisch”. parte 1. Taking Laughter Seriously (Albany. um pouco antes de 1848. “Blaubart: Es jeht doch schändlich schnell — da müssn woll die Eenspänner zu Jrunde jehen.. conhecidos de um Eckensteher estão assistindo a um teatro de marionetes com música. Por exemplo. 1976). 28. uma mulher num baile à fantasia conversa com um Eckensteher que está para ser despejado no dia seguinte por falta de pagamento do aluguel. inculto. Nante Strumpf Weltgang (Berlim. J. (p. Ele explica que simplesmente cobrou por sua porção de lenha.30 O leitor comum que compreendeu os mal-entendidos poderia rir do Nante rude. p. Quase sempre essas asneiras o levavam a confundir áreas geográficas ou usar mal as expressões estrangeiras e abusar de termos empolados. Aspasia: Worüber wundern se sich denn? Nante: Wo des Jeld bliebt”. Embora essa mudança possa ser verdadeira no caso de Glaßbrenner. 1846). Nante ou um de seus companheiros bebe constantemente de sua garrafa de genebra. que foi distribuída aos pobres como caridade. 1983 ).26 No enterro. ele o usou como veículo da sátira. 13. 29 A. p. e boa parte do humor gira em torno de bares e embriaguez. Esta história de humor tinha claras raízes na realidade.31 25 Lenz. Piadas sobre o Eckensteher e sua bebida refletem muito mais do que esta realidade objetiva. 28 Horst Denkler sugere na introdução de sua antologia sobre os textos de Glaßbrenner (veja n. 1. enquanto Nante estava ganhando popularidade. Roberts. S. desse modo. Lumpazi’s Carneval. Em quase todos os folhetos e caricaturas. o consumo de bebidas alcoólicas na Prússia quase triplicou. encontrar um emprego regular enchiam as horas (e complementavam a alimentação) com aguardente barata. Nante: Ja. mas que em seus trabalhos. Bierglas. Temperance and the Working Class in Nineteenth-Century Germany (Boston. pp· 1-37. Die schöne Hulda (Charlottenburg. ela é musical”. 1984). os amigos o homenageiam lançando garrafas de genebra em sua sepultura. vol. em um folheto.

). H. sobre a pobreza. Conze. Cerca de 50 a 60 por cento da população na Prússia passava necessidades em 1846. Organization and Revolution: working class associations in the German revolutions of 1848-1849 (Princeton. passim. Alguém ri furtivamente quando o pobre-diabo vence. Alguns se preocupavam com a ameaça da revolução. Veja também o fascinante argumento de Dieter Richter em Das fremde Kind: zur Entstehung der Kindheitsbilder des bürgerlichen Zeitalters (Frankfurt am Main. Moderne deutsche Sozialgeschichte (4a ed. 35 Beta (pseudônimo de Heinrich Bettziech). temiam a perda do status social e econômico. Nante. 12-13. Assim. W. 1966). enquanto outros. portanto.33 Os gigantescos deslocamentos sociais e econômicos do período da Restauração deram a muitos alemães boas razões para temer as classes inferiores. p. 122. por exemplo. Zerbst. 5. pp. preenchendo. Der Eckensteher in anderm Costüm oder: Nante und sein Rock (2a ed. 34 Conze. Nante o trapaceia. Quando o policial lhe traz o casaco e pede a gorjeta habitual. É claro que não pode ser usado para pagar o casaco. Nante não é um “pobre digno”. Wehler (org. uma necessidade subjetiva premente na restauração da Alemanha. e muitos não conseguiram se adaptar. Este humor também levava a considerar que o Eckensteher não merecia a simpatia deles. Mas os leitores da classe média podiam sentir um frisson extra. 1846). 65-6. sem o Mittelstand dourado”. Colônia. Afinal de contas. uma das questões mais amplamente discutidas na época. “die Klassen bröckeln immer rascher auseinander”. Mas o pobre-diabo não é muito atraente. Qualquer um poderia rir das artimanhas da comédia-pastelão de Nante ou quando ele enganava os burocratas e a lei. Berlin und Potsdam: ihre Vergangenheit. Nante deve comparecer ao tribunal porque encomendou um casaco e o alfaiate quer o dinheiro. Sozialer Abstieg und die . do Volk e das crianças. Gegenwart und Zukunft (Munique.34 Alguns observadores temiam que a mobilidade social sem precedentes das décadas de 1830 e 1840 estivesse provocando a desintegração e a polarização social. “A desintegração dos estados e das classes anteriores foi tão longe que agora só há ricos e pobres. Marquardt. Nante era preguiçoso e desonesto.35 32 Jean P-r. Então. F.32 Esse tipo de humor do Eckensteher ajudou a gerar uma sensação de distância das classes mais baixas. pp. “Sozialer Aufstieg. bêbado. Piadas que debochavam de Nante reforçavam a sensação de coesão social da classe média e a ajudava a se sentir mais segura em seu elevado patamar social. 1987) de que durante o século XIX a classe média ficou fascinada com (e em parte construiu) a “diversidade” dos aborígines. A pobreza. mais honrados. D. Por fim. em H. “Vom ‘Pöbel’ zum ‘Proletariat’: sozialgeschichtliche Voraussetzungen für den Sozialismus in Deutschland”. mais diligentes. Rir de Nante servia para reafirmar que eles eram diferentes: eles eram mais bem-educados. Em uma história. anunciou o jornalista e democrata Heinrich Bettziech em 1846. Nante é engraçado ao humilhar os burocratas pomposos com sua brilhante simplicidade. “Pöbel zum Proletariat”. até mesmo com as pessoas de sua classe social. aumentara de modo dramático. sem querer. ele é tolo e não particularmente nobre. P. arranca algumas moedas do bolso e diz ao juiz que aquilo é tudo que ele possui no mundo. Sobre os clubes. Os tempos eram difíceis. o grande número de clubes e a discussão cada vez mais estridente sobre a pobreza. 33 Muitos outros fenômenos culturais do período indicam este desejo de uma sensação de segurança e da prova da “diversidade” das classes mais baixas. o escrevente fica tão cansado das desculpas esfarrapadas de Nante que concorda em pagar a dívida dele. por exemplo. Ele apenas tem sorte pelo fato de sua teimosia e sua graça acabarem induzindo o escrevente a doar o dinheiro necessário. “As classes sociais se esfacelam cada vez mais rapidamente”. 1833).. 1973 [1954]). Esse humor poderia ser interpretado de maneira diferente por diferentes leitores. p.-U. mais moderados. deixa cair mais dinheiro no chão e se apressa em explicar que economizou aquilo para comprar aguardente para o aniversário da mulher. As cenas em que Nante aparecia no tribunal empregavam um humor dúbio. sobretudo os artesãos.. Ele é traiçoeiro. Noyes.

na verdade. esse humor assumia a forma de zombaria contra os idealistas liberais que. schön für’s Vaterland zu sterben . dois Eckensteher discutem a Guerra de Libertação contra Napoleão. de modo que ele agora está oficialmente sob a suspeita de ter cometido um crime. isso significava que a personagem do Eckensteher criticava o Estado prussiano. 31. 36 Nante Strumpfs hinterlassene Papiere. pergunta impaciente: “Você também fala francês?” “Falar eu falo. arrogantes.36 À primeira vista. Os dois já haviam lutado corajosamente pelo país deles e ajudaram a libertá-lo do jugo estrangeiro. egoístas e ineficazes. 37 L. mas ninguém me entende”. parte 2. Quando os humoristas usavam Nante para criticar o Estado. p. 75. eles o faziam de forma indireta. 1975). Quando Nante se vangloria de também ter estado em Paris como soldado voluntário. aqui quem fala é um padeiro. por exemplo. . Nante personificava o nobre Volk alemão e sua oposição ao repressivo status quo. Nante não acha graça. Embora esta instabilidade provocasse um número grande de piadas negativas sobre o Eckensteher. Rebbenhagen auf dem Berliner Corso (Berlim. observa que essa mobilidade social teve um custo psicológico para a camada média da sociedade. Nante protesta: Entstehung der Berliner Arbeiterklasse. 4. “Worüber ick mir blos gewundert habe. weil man sonst als Invalide nich zu leben hat”. Ele defende a mudança política e social que beneficiaria toda a sociedade. porque assim você não precisa viver como um veterano incapaz”. Sua recompensa é o desemprego e a desesperança. em teoria. 1845). Aqui Nante não é exatamente um herói ou um representante da pobreza digna.. um ex-soldado comenta com o amigo: “É bom morrer pela Pátria. vol. simpatizavam com os pobres. mas que eram. O tratamento vergonhoso dado pelo Estado prussiano a seus veteranos é um tema recorrente em muitos folhetos. A chave é a referência às Guerras de Libertação.. Boa parte do humor do Eckensteher tentou preencher a lacuna entre o biscateiro e os socialmente superiores criando uma sensação de identidade entre Nante e o leitor. Muitos deles retrataram Nante de forma mais simpática.. “Sprechst du denn ooch franzesch?” “Ick spreche woll. inclusive as classes mais baixas.Bettziech exagerou. há muito mais por trás dela. Em um livro de piadas publicado em 1845. o amigo Bummel relembra: “O que me surpreendeu foi que em Paris as criancinhas falavam um francês perfeito”. o delegado explica que alguém pedira informações sobre Nante na noite anterior. Qualquer um podia achar graça. nem todos os humoristas reagiram desse modo. 1839). Nante Strumpfs [sic] Weltgang (Berlim. Em uma cena típica. Nante descreve um sonho no qual ele encontra um delegado de polícia.. Geschichte und Gesellschaft.. Em outros casos. Ele comenta assuntos correntes e encoraja o leitor a rir com ele do Estado prussiano. 14. 1806-1848”. Em alguns casos. aber es versteht mir keener”.37 Outro solidário Eckensteher representante do oprimido Volk alemão é Nante Nantino. Em vez de rir. “. Ele é mais um vadio. que experimentou uma nova “Angst vor ihrem Schicksal”. No sonho. No entanto. p. e quem já tentou falar um idioma estrangeiro podia se identificar com o pobre Bummel. Os dois heróis de guerra também servem para lembrar que o rei Frederico Guilherme III jamais outorgou a constituição prometida em 1815. mas o tom de sua análise reflete a sensação geral de um motim social na Berlim pré-revolucionária. parece tratar-se de uma piada comum. Weyl.. deß in Paris die kleene Kinder ganz gut franzesch sprechen konnten”. p.

41 A. e o comerciante de grãos Sauger (Sugador. . será que o senhor não estava sonhando?” O policial responde: “Isso não importa. torcendo o nariz: “Eles são proletários. publicado pouco antes da revolução de 1848. Um dos participantes mais ativos é um homem que vive de renda. p. Nante Nantino. Não podemos permitir tais criaturas num clube exclusivo como o nosso”. Wir können doch nich zugeben. Tit.. no sentido de “sugar até a última gota”). Gen. mesmo leitores da classe média. ele satiriza um grupo de ricos que organizou um clube para discutir a difícil situação dos pobres. 87. der Traum eines Polizeico-mmissarien is hinreichender Verdacht”.. o sacristão se opõe dizendo que 38 Ad. Nante e o amigo Brenneke dão um jeito de participar da reunião e explicam que vieram “representar a pobreza”. os leitores. oder: die Entstehung der norddeutschen Volkspoesie (Leipzig.“Ora. 2. “Des sind ja Proletarier. 5. Sr. e a utilizam como um lugar para praticar procedimentos parlamentares para o caso de serem eleitos para um cargo político. wackelig steht er schon. Quando alguém sugere que ao pobre só deveria ser permitido ter dois filhos. que caia. 1848). Einzelne Schriften: 1. denn fallt der um. Naturalmente. é chamado Fusler (Fusel-oiler. Der kleine Landtag und sein Schluß. Schweißpresser protesta contra a intromissão. depois de um caloroso debate. seu nome é Schweißpresser (Espremedor de Suor). o autor esperou evitar a proibição do folheto. ele já parece pálido pela morte. “Den ollen Ludwig Philippen muß ick aber ooch bald umschmelzen lassen. 9. Bem.. Hopf. Berlin wie es ist undtrinkt. p. “Hören Se mal. escute aqui. Bl. 1847). e o amigo dele. Lembre-se. 1. verunglimpfenden Ausfallen auf Adel. já está trêmulo. 39 Relatório policial. Abteilung Merseburg. Die Censur und den Debit kleiner satyrischer Volksschriften. Rep. O presidente é Dumkofsky (Pateta). Num folheto publicado em 1847. claro. esse “procedimento” logo degenera em discursos e discussões bombásticos. ele cairá. 1843. er hat lange genug gestanden”. Nantes politisches Wachskabinet nebst einer sehr interessanten Unterhaltung zwischen Nante und Brenneke über das neue Strafgesetzbuch (Berlim.41 Cada sócio do clube pronuncia um discurso seguido de um debate. p. Mas o que faço com seu ministro Goodso (Guizot)? Se tiro Philip. e portanto não seria suficientemente perigoso para declará-lo ilegal. Delegado. o dono da destilaria.p. Nante Nantino. 40 A. 1843). os sócios permitem que Nante e Brenneke permaneçam. Entre os demais sócios estão o dono da padaria. Geheimes Staatsarchiv Preußischer Kulturbesitz. 15.39 Em outro folheto. podem novamente se sentir solidários com ele. afinal. Hopf. Polizei p. O ex- Eckensteher está ocupado limpando as peças e falando consigo mesmo sobre a situação na França. Estes homens vêem a organização deles como um tipo de mini-Assembléia Prussiana Unida. álcool acrílico). der letzte Sonnenbruder. já ficou [lá] muito tempo. 10. o leitor está rindo de um sonho — não da realidade — sobre a arbitrariedade da polícia prussiana. er sieht schon so dodenfarbig aus. mas decidiram que o folheto não atrairia as classes mais baixas. Brennglas [pseudônimo de Adolph Glaßbrenner]. no auge da escassez de batata e da depressão industrial. Finalmente. daß sone Subjecte in eine noble Gesellschaft wie die unsrige”.. Quando ele chega à figura de Luís Filipe. Logo no início. de que se trata de um clube de caridade. Ministerium des Innern und der Polizei.38 Fazendo da cena inteira uma seqüência do sonho relatado por Nante. vol. o sonho de um delegado já é (elemento) suficiente para suspeitar”. O registro policial sobre o folheto mostra que as autoridades não foram enganadas por essa manobra. Albert Hopf era um mestre nesse tipo de humor. Acta betr. 77. No. Herr Komzarius. Na laß ihm fallen. Os sócios-fundadores possuem nomes reveladores. vielleicht haben Sie ooch man blos jedrömt?” “Des ist janz eingal. comenta: Em breve terei que derreter o velho Ludwig-Philip. mit Berlinismen. Kleisack (saco de farinha). Aber wat mach’ ich denn mit seinem Minister Gütso? Nehme ick Philippen von’n Platz.40 Quando um Eckensteher repreende os idealistas liberais em vez do Estado. um Nante politicamente atento casou-se com uma mulher que possui um museu de cera. Neste clássico recurso literário. oder Nante und Brenneke als Abgeordnete (Berlim.

Posso garantir-lhes.). e F. 43 Sobre as despesas com a subsistência em Berlim veja Noyes. Do princípio ao fim. O proprietário de uma fábrica descreve sua generosidade e a ingratidão da classe operária: Tratei as pessoas como um pai. Veja também o excêntrico mas útil Sigrid Weigel. 16. cavalheiros. pendendo à margem da sociedade respeitável.. Primeiramente. Essas publicações revolucionárias caracterizavam o Eckensteher em todos os papéis políticos possíveis. manche Arbeeter haben et bei mir die Woche bis auf drei Dhaler Verdienst gebracht. p. o imperador de uma Alemanha unida.44 Desde sua primeira aparição.43 Em seguida. sem dependentes. 198. 1974). meine Herren. o Eckensteher. incluindo. quando vi que ficaram arrogantes com este salário alto. Como foi que Nante conseguiu atrair um público tão grande — dos motoristas de táxi assalariados. NANTE E A ESFERA PÚBLICA Nante continuou progredindo durante e depois da revolução de 1848. que alguns de meus operários ganharam até três táleres por semana. Als ick aber sah. ele permaneceu um intérprete privilegiado das esperanças e dos temores de todos os alemães. 31. Os pseudodefensores dos pobres ficam tão chocados com a franqueza dele que o obrigam a sair e encerram a reunião. 1979). cartazes e folhetos. Sozialgeschichte Heute (Göttingen. apliquei pequenas deduções. os padeiros também. em H. no decorrer da revolução e depois dela.42 Considerando que um trabalhador solteiro. literalmente qualquer um poderia rir com Nante quando ele fez troça das ferrovias modernas ou passou a perna em seus inquisidores numa sala de 42 Hopf. Organization and Revolution. finalmente. Nante censura a falta de sinceridade deles. p. Nante se baseava num fenômeno familiar: os biscateiros que se aglomeravam nas ruas das cidades da Europa Central. veja IV 1249b S. a ironia nesta observação era óbvia. o padeiro argumenta que a extinção do imposto do moinho ajudaria os pobres e. estava numa posição privilegiada para observar e tecer comentários sobre essa sociedade.-U. sempre agitando causas políticas. Como vimos. Por fim. sobretudo durante a primeira metade do século XIX. Em segundo lugar. riu de problemas universais. precisava de mais de dois táleres por semana para as despesas mínimas com seu sustento. “Ich habe wie een Vater an die Menschen gehandelt. Nante percorreu o espectro inteiro do humor na arte e na literatura: deliciou-se com piadas inocentes. da machte ick kleene Abzüge”. volantes. para Kaiser Nante. ele investigou as ambigüidades do humor e transmitiu múltiplas mensagens para públicos diferentes. Flugblattsammlung. Schweißpresser veta a idéia. mulheres do comércio e empregados domésticos aos mais elevados níveis da nobreza? A resposta é tripla. estamos finalmente em condições de perguntar por que ele foi um sucesso comercial tão grande. Mas. por acaso. Depois de examinar bem de perto o Eckensteher Nante. Ele pleiteia trabalho e salários justos. Ele estrelou caricaturas. Marquardt.. Ick kann Ihn versichern. Der kleine Landtag.. refletiu sobre as mudanças sociais e engajou-se na crítica política.. Flugschriftenliteratur 1848 in Berlin: Geschichte und Öffentlichkeit einer volkstümlichen Gattung (Stuttgart. daß sie bei den hohen Lohn übermüthig wurden. Wehler (org. pois teme que um imposto de renda passasse a ser necessário. em 1832. p. 44 The Märkisches Museum (Berlim) possui uma excelente coleção de volantes de 1848 em Abteilung Geschichte. . D. com sua expansão dramática do ponto de vista social e econômico. “A working dass in Berlin in the 1840s?”.isso reduziria o dinheiro obtido nos batismos.

as piadas e as caricaturas do Eckensteher apontam para uma relação ambivalente entre os dois principais estratos sociais na sociedade pré-revolucionária — a classe social mais baixa dos desempregados e subempregados. embora por um fio. Havia muitos grupos.tribunal. as piadas e as caricaturas que retratavam Nante como a personificação do oprimido Volk alemão revelavam um conjunto diferente de sentimentos. Outros. não havia uma divisão clara entre classes sociais bem definidas. Power in the Blood: popular culture and village discourse in early modern Germany (Cambridge. preguiça e brutalidade. Para quem está disposto a “ler” Nante em suas muitas manifestações. temos que considerá-lo no todo. à medida que lutavam para se libertar de um passado absolutista e para conseguir uma forma de vida pública mais participativa. Este humor constituía uma parte importante da esfera pública que os europeus estavam começando a erigir para eles. À primeira vista. ele pode agir como um guia para as realidades sociais e políticas da Alemanha oitocentista. a renda e a auto-estima. onde o discurso público era severamente controlado.W. faz uma observação similar em sua discussão sobre uma aldeia do século XVII. sintetizadas no Eckensteher Nante. conseguiram manter. o humor popular pode ter feito pouco para direcionar a rudimentar consciência política dos alemães no início do século XIX. muitas vezes o simples ato de falar em voz alta era considerado uma manifestação política. ao mesmo tempo. O humor do Eckensteher no período da Restauração reflete tanto o abismo entre esses dois estratos quanto a ambivalência da classe média em relação a esse abismo.45 No fim. e a grande classe média de prósperos negociantes. Esse debate público era certamente difuso e quase sempre ambíguo. homens de negócios e burocratas. profissionais. . como parte de um debate público maior. Nesse cenário. Situados em algum lugar entre as duas estavam os oprimidos artesãos da Alemanha. que era uma sociedade repressiva sem um veículo parlamentar para a ação política e com fortes tabus contra muitas formas de auto-expressão. p. Isso era verdade especialmente na Prússia. de que as “autoridades entendiam o discurso como um ato”. e 45 D. subgrupos e indivíduos se acotovelando em suas trajetórias para cima ou para baixo na escada socioeconômica. havia uma crescente sensação de “nós” contra “eles”. O “nós” eram aqueles que tinham uma fonte regular de renda e se consideravam respeitáveis. mas só o fato de existir era importantíssimo. Mas. Sabean. Isto nos leva ao terceiro e último ponto: para entender a função do humor popular na Alemanha do século XIX. 1984). alimentando e fortalecendo o nível geral de espírito crítico. Dada a grande mobilidade social da época. mas manteve essa consciência viva. Mas os leitores da classe média notariam outras dimensões para esse humor: eles também estariam rindo de Nante e dos amigos dele por causa de sua ignorância. a ambigüidade e os múltiplos significados das piadas e caricaturas sobre o Eckensteher pareciam contrariar qualquer conclusão rígida sobre seu decisivo impacto social. Consideradas em conjunto. As piadas que ridicularizavam Nante externavam a repugnância e o medo disfarçado que essas pessoas sentiam das classes mais baixas. Esse humor refletia o desejo dos liberais da classe média de unir todo o “povo” contra o repressivo Estado prussiano. Por outro lado. Alguns escorregaram e caíram na classe mais baixa. não necessariamente contraditório. O “eles” eram as classes mais baixas. como aqueles que freqüentavam livrarias e bibliotecas. 84.

proporcionando muito do combustível retórico e emocional que inflamou a revolução em 1848. 1982). MA. . veja The Great Cat Massacre and Other Episodes in French Cultural History (Nova York. e The Literary Underground of the Old Regime (Cambridge. p. passim. 1984).46 46 Robert Darnton vê ligações semelhantes entre os jornais sensacionalistas do antigo regime e a Revolução Francesa. 178.

de duplo ou mesmo triplo sentido. em parte porque eu visitara sua aldeia natal e éramos ambos estranhos em um festival de mouros e cristãos de uma cidadezinha no sul da Espanha. 1 Sobre uma recente discussão da convergência entre história e antropologia veja: P. sim. Sobrevoando a região de Rife ao norte da África. ele olhou para as montanhas lá embaixo e pensou em voz alta sobre * Meus sinceros agradecimentos a William Christian Jr. O título deste artigo expressa os meus dois propósitos. riso e o campo: reflexões da antropologia Henk Driessen* Ridendo dicere severum. um problema de discurso. Essa perspectiva relativista é um dos pontos de convergência da antropologia e da história cultural. Em junho de 1993. por suas sugestões. O segundo é fornecer evidências das funções e dos significados do humor.Humor. é uma qualidade vital da condição humana. incluindo a subcultura acadêmica. para ressaltar a sua atitude política no ambiente festivo. O ESTUDO ANTROPOLÓGICO DO HUMOR O humor é um tema enganoso e de difícil exploração em termos multiculturais e temporais. que estudava em Granada. Mimun falou-me da sua aversão pelo regime do rei Hassan II e. New Perspectives on Histórica! Writing (Cambridge. a Joy Clephart e Willy Jansen por compartilharem a sua graça comigo.11 . O humor quase sempre reflete as percepções culturais mais profundas e nos oferece um instrumento poderoso para a compreensão dos modos de pensar e sentir moldados pela cultura. O que o torna fascinante e relevante para antropológos e historiadores é o fato de fornecer pistas para o que é realmente importante na sociedade e na cultura. . Certa noite.). um jovem ativista berbere do Marrocos. desta vez não em comunidades estranhas e. conheci Mimun. Gostamos um do outro. ele fez algumas piadas sobre o rei. inclusive esta: O rei Hassan viajava para a França em seu jato particular.1 O primeiro problema encontrado tanto por antropólogos quanto por historiadores é um problema de linguagem. O primeiro é revelar algumas das dificuldades do estudo comparativo das piadas e fazer um breve exame da pesquisa antropológica sobre o humor. A análise antropológica e histórica do humor pressupõe a consciência de que a realidade é constituída de fatores sociais e culturais. Burke (org. 1991). na tribo dos etnógrafos que fazem pesquisa de campo. Darei um exemplo de minha experiência recente para ilustrar essa questão. Friedrich Nietzsche O humor é divertido e sério ao mesmo tempo. correções e piadas.

92. “Diga-me qual é. Em suma. Igualmente problemática é a quarta mudança. inclusive para mim. A primeira. . de certo modo opostos à seriedade. uma cena hilariante para todas as pessoas envolvidas. O conselheiro pensou por um instante e replicou: “Há uma solução simples para esse problema. a insensatez. Johan Huizinga. atire seu relógio de ouro pela janela e quem o encontrar será feliz”. p. A compreensão também melhora ao se conhecer a opinião popular sobre os conselheiros: naturalmente indignos de confiança. é a do tema. No dia seguinte. ele suspirou. pode ser. Concordo com Mary Douglas. realidades próprias. interpretação. Ele a ouvira pela primeira vez no idioma local (o tamazight) e por isso precisou traduzi-la para mim. para esse artigo. vindo de um país democrático onde a piada política era e ainda é subdesenvolvida. como um fundamento da cultura. Majestade. Majestade.3 2 J. A compreensão dessa piada melhora se houver um conhecimento prévio da natureza conflituosa das relações entre os berberes e os árabes. Ela circula amplamente entre os rifenhos. e que se pode rir por outras razões que não seja a compreensão de uma piada”. Implicit Meanings: essays in anthropology (Londres. anotei-a em holandês e. textualização e evocação é um processo delicado no qual a expressão da piada é deslocada em quatro mudanças.2 Embora o riso. embora intimamente ligados. Deixando de lado as puras essências. em Homo ludens. Não é necessário entrar na fisiologia e na psicologia do riso. segundo Huizinga. 3 Veja M. evidentemente. meu caro amigo”. Hassan. o timbre. Majestade”. Huizinga. cada uma delas. Homo ludens: proeve eener bepaling van het spel-element der cultuur (Groningen. não devem ser considera dos inseparáveis. 1938). os problemas econômicos e políticos dessa parte de seu reino. nascido em Rife. Essas idéias compartilham a sua irredutibilidade. eles não estão necessariamente vinculados ao lúdico. cada qual contendo os seus próprios grupos de referentes. Douglas. respondeu o rei. a mudança de três idiomas. É sabido que o humor político floresce quando há repressão política e dificuldades econômicas. constituindo. Em 1959. a mímica e as atitudes que acompanharam a real narração da piada e as condições em que ela foi contada. então príncipe herdeiro. o tom. uma boa guia em assuntos de piadas. 5-6. a segunda. Compreendi isso quando fiz meu primeiro trabalho de campo na Espanha franquista. se saltardes depois de seu relógio não fareis apenas os rifenhos felizes. eu a traduzi para o inglês. que afeta a essência. Parte da graça da piada se perde inevitavelmente durante esse processo. Este. “Hum. mas toda a nação!” Meu companheiro contou-me essa piada em espanhol. comandou o exército que reprimiu cruelmente uma insurreição rifenha bombardeando aldeias do Rif central. o distanciamento no tempo e no espaço e a terceira. gostaria de salientar que o humor e o riso. Essa quádrupla tradução. pp. 1975). nem são ingredientes dele. Nesse caso. o gestual. que levanta a questão da relação entre piada e experiência. tentou captar a brincadeira em sua forma pura. já que é amplamente sabido que se pode apreciar uma piada sem de fato rir. a da oralidade para a escrita. este exemplo ilustra o problema da contextualização. respondeu: “Bem. “O que posso fazer para tornar essas pessoas felizes?”. a piada e o cômico sejam. eu acabara de fotografar Mimun na frente de um engraçado grupo de soldados mouros que seguravam uma bandeira com dizeres árabes sem sentido. dirigindo-se ao conselheiro. que “seria errado supor que o teste final de uma piada é provocar ou não o riso. mas nesse caso só farei um rifenho feliz”. “Bem.

195-210. Combinando Bergson e Freud. no Capítulo 8 deste livro. algo organizado e controlado. 10 Veja. 3 (1968). . 122. “The sociology of humour and laughter”. Jean Kommers) é um assunto que não posso desenvolver neste artigo. 2 (Darmstadt. já que sua eficácia depende muito de uma atitude não-verbal. No guia para a pesquisa de campo da antropologia social britânica. 1990).7 Mas. pp.4/níví. Contar piadas.. devemos evitar considerar muito literalmente a idéia de um palco cultural. palhaçada e a conversação comum. pp. Apte. filósofos e psicólogos. 361-76). L. ImplicitMeanings. al-Sayyid Marsot. como James Frazer e Edward Westermarck. 8 Douglas. “O controle social da cognição: alguns fatores da percepção da piada” foi. D. das espontâneas. por algo vital. Veja também Roodenburg. 90-114 (= Man. no sentido antropológico. num certo sentido. “Humor: the two edged sword”. 1952). em Everyday Life in the Muslim Middle East. Mary finalmente sugere que a conquista da consonância entre diferentes esferas da experiência é uma fonte de profunda satisfação para os envolvidos.5 Entretanto.4 As piadas são representadas em um palco cultural por atores no meio do público. Em que a antropologia contribuiu ou contribui para a compreensão do humor? Antigos antropólogos. histórias. uma erupção de vida para Bergson. ela encontra a essência da piada em seu ataque ao controle: “algo formal é atacado por algo informal. reimpr. 11 Veja. 6 Notes and Queries on Anthropology (6a ed. A citação seguinte está na página 96. provérbios e canções apareçam em categorias separadas como pontos de interesse do trabalho de campo. é um discurso direto. 6). o mais sofisticado ensaio de um antropólogo sobre o humor até o começo da década de 1980. 1951 [1874]). contos populares. pantomima são fundamentais para o humor. pp. 9 Veja A. A.10 Ela então distingue as piadas padronizadas. Bowen e E. Early (Bloomington. entretanto. que ocorrem em um contexto convencional. formas rituais. Humor and Laughter: an anthropological approach (Ithaca. 206. Schopenhauer. penso eu. A. em seu Die Welt als Wille und Vorstellung. para uma reflexão anterior sobre o mecanismo do humor. 13 (1940). 131 ). “On joking relationships”. 254-64. o humor. estudaram o humor quase sempre de um modo antiquado. pp. mímica. pp. 1985). enérgico.9 Ela continua: “A piada relaciona elementos discrepantes de tal modo que um modelo aceito é desafiado pelo aparecimento de outro. diversões. o cômico foi deixado para folcloristas. “Zur Theorie des Lächerlichen”. C. 95. 1993). raramente como um recurso para a análise cultural. em seu Structure and Function in Primitive Society (Londres. Current Sociology. L. Que a literatura colonial seja repleta de piadas sobre os nativos (comunicação pessoal. já que estava mais interessado nas implicações estruturais do que no conteúdo simbólico desses relacionamentos. uma piada é um jogo sobre a forma. 90-104. É o contexto mais amplo que importa ao identificarmos os modelos de piadas e seus significados.6 O artigo de Radcliffe-Brown sobre os relacionamentos jocosos foi. L. histórias. Radcliffe-Brown. Nova York. R. que de algum modo estava escondido no primeiro”. p.8 Em outras palavras. que usa a expressão “uma brincadeira sobre significados” (p. 5 Veja M. de libido para Freud”. org. Londres. os antropólogos se interessaram mais pelo humor graças ao impacto da análise simbólica e a um “retorno 4 Veja A. a piada e o riso não são mencionados. Gestos. vol. edição especial tópico 31 (1983). O ensaio de Mary Douglas. 7 A. inovador. embora jogos. p. Schopenhauer. fora a atenção dada ao relacionamento jocoso e ao papel da figura do trapaceiro em mitos e rituais. especialmente p. Zijderveld.11 No final da década de 70 e no começo da década de 80. um gênero performático que inclui brincadeiras. que alega que essa alegria e essa satisfação têm origenj na vitória da percepção empírica sobre o pensamento (p. O modelo da piada pode ser facilmente identificado pela forma verbal de piadas e trocadilhos padronizados. Mas a piada espontânea organiza toda a situação em seu modelo. “Zur Theorie des Lächerlichen”. embora ele tenha estudado o assunto de um modo unilateral.

Fischer. 15 C. Um segundo marco no estudo do cômico é a abrangente pesquisa de Christie Davies sobre o humor étnico. P. 1986). muito mais consciente desse problema. abrangente e sofisticado.literário”. E. humor infantil. 89-115. Natural Symbols: explorations in cosmology (Harmondsworth. 13 Veja. 14 Douglas.-P. Apte. que trata de “uma pequena área de texto carregado de emoção: o uso do humor na descrição etnográfica. o trapaceiro no folclore e os aspectos biossocial e evolutivo do riso e do sorriso. A. Martin. o estúpido e o matreiro. em vez de trabalhos pedantes” (p. 1990). de modo que o antropólogo deva acreditar no que acontece quando uma piada é contada? Será que não é possível fazer uma análise geral de piadas independentemente da cultura? Quando as pessoas jogam excrementos umas nas outras sempre que se encontram. essa técnica é raramente empregada em textos sociais científicos” (p. Scham und Schweigen. Como é amplamente conhecido. mesmo assim.. 119-52. o humor contribui para a eficácia retórica. Clifford e G. em Der Wissenschaftler und das Irrationale. vol. p. “Ethnicity and the post-modern arts of memory”. 2. Davies.600 referências bibliográficas. abrange e discute cerca de 800 fontes relacionadas com os seguintes tópicos: relacionamento jocoso. os defeitos mais freqüentemente ridicularizados podem ser organizados em pares (por exemplo. isso pode set interpretado como um caso de graça. embora recentemente com maior interesse. seja real ou verbalmente.14 A sensibilidade para a variação cultural cresce com a experiência prolongada e a pesquisa de campo diversificada. 194-234. Trata-se de um livro convencional. Seu autor.. um tema ao qual desejo voltar posteriormente. Implicit Meanings.. Mahadev Apte. ele rejeita a possibilidade de uma teoria geral do humor e prefere enfocar uma “posição intermediária” na forma de proposições teóricas relativas a cada um dos tópicos. Veja M. J. Davies argumenta que “as piadas étnicas são meios pelos quais os contadores de piada atribuem deficiências humanas a outros grupos étnicos de forma excessiva ou absurda. humor étnico. essa noção significa uma descrição convencional e ficcional 12 Parece-me que esse crescente interesse pelo humor tem relação com o uso cada vez maior da ironia como metáfora na etnografia. Humor and Laughter. and irony as voices in Erving Goffman’s Asylums”. militarismo e covardia) que se relacionam a situações comuns.12 O primeiro estudo do cômico em antropologia. G. por exemplo. Há alguns incovenientes em sua abordagem. H. Hoje existem muitas análises de ironias anteriormente não percebidas ou mal interpretadas (revelações tanto intencionais quanto involuntárias) em textos etnográficos do passado. 14. distinto do estereótipo étnico. Dada a sua sofisticação. satire. pp. desigualdade sexual no humor.15 Ele lida principalmente com o conteúdo das piadas e trata muito pouco da forma. com mais de 1. a idéia de um riso vociferante e alto pode ser imprópria em companhia educada.. que não lida com os aspectos simbólicos do humor e também exclui a obscenidade. surgiu em 1985. fundamentado em uma perspectiva comparativa e universal. Uma rebelião secundária contra o paradigma positivista criou espaço para novos temas de pesquisa e novas formas de escrita etnográfica. Marcus (Berkeley. ambíguas e realmente contraditórias. Davies introduz a noção de um “roteiro étnico”. idem. Duerr (Frankfurt am Main. 90).. D. “Lachen und Leib. p. ou apenas anotado como um caso de arremesso de excrementos? Este é o problema central de toda interpretação”. pp. Mary Douglas. Muitas de suas proposições afirmam o óbvio. J. Sprache und Spiel: die Ethnologie als feucht-fröhliche Wissenschaft”. p. 19 (1990). Mas o que é considerado alto e vociferante pode variar muito”. M. 229). o estúpido e o covarde. Fine e D. humor sobre linguagem e religião. 148: “O humor étnico é menos provável em sociedades pequenas e muito homogêneas do que em grandes sociedades heterogêneas e complexas”. o que possibilita uma elegância estética e uma leitura agradável. da estrutura e do contexto. embora útil. 92: “Então qual é a diferença entre um insulto e uma piada?. Mas ainda existe um potencial considerável para a construção de textos com a utilização do humor e de outros mecanismos que chamem a atenção para as suas próprias limitações e graus de acuidade. Escreve ele: “A ironia e o humor são táticas que os etnógrafos só começaram a apreciar lentamente. . pp. cita o exemplo do riso e escreve: “Em qualquer um dos vários sistemas sociais. Journal of Contemporary Ethnography. org. “A partisan view: sarcasm. Ethnic Humor around the World: a comparative analysis (Bloomington. p. Será que a percepção de uma piada é culturalmente determinada. em Writing Culture: thepoetics andpolitics of ethnography. Para ele.13 Apte também negligencia o problema de significado envolvido na comparação multicultural. 307. ed.. 1973). Veja também K. 1985). a dilemas que parecem gerar incerteza e ambivalência”. Koeping.

Ethnic Humor around the World. Por outro lado. HUMOR E RISO NA ANTROPOLOGIA Afirma-se que a sociologia e o humor têm muito em comum. explicando o óbvio. a antropologia pode oferecer aos historiadores perspectivas e conceitos para a discussão dos significados e funções simbólicos do comportamento jocoso no passado. piadas espanholas urbanas sobre a estupidez das pessoas de Lepe. Desse modo. 16 Veja J. os sociólogos freqüentemente aparecem como sujeitos monótonos. Seu valor também repousa no conhecimento de que os temas do humor revelam questões importantes das sociedades envolvidas: desde os interesses dominantes. 17 Zijderveld. uma tarefa que requer uma análise contextuai meticulosa. pp. contradições e ambivalências. e as piadas étnicas podem ser contadas em ambientes de mistura étnica. Os estudos mencionados mostram que o humor cria uma realidade própria. . gênero e etnia) até seus contrapontos. mas que este não é necessariamente o caso. 721. graça. uma publicação interdisciplinar que testemunha o crescente interesse no assunto por parte dos antropólogos e historiadores. O roteiro demonstra que contar piadas tem uma relação complexa com a experiência. a importância dos estudos antropológicos sobre o cômico está em suas perspectivas universais e multiculturais. Por exemplo. submetendo-as a uma investigação minuciosa. 3-4. rudes.17 Mas faltam à corrente sociológica principal quase todas as características de alegria. Sherzer. que concordam em seu objetivo de relativizar as rotinas estabelecidas da vida cotidiana. Para o historiador cultural. a auto-depreciação é uma estratégia conhecida no humor judaico). De um ponto de vista etnográfico. piadas holandesas sobre flamengos. O autor usa a noção para explicar por que contar uma piada étnica pode ser uma manifestação de preconceito. Os antropólogos documentam a riqueza da expressão cômica em todo o mundo. Entretanto. muitas piadas étnicas guardam apenas uma vaga semelhança com a realidade cotidiana (piadas americanas sobre poloneses. gênero e contexto. dominadores. As interpretações de Davies devem ser finalmente comparadas com a narração efetiva de piadas em contextos multiétnicos. devo ressaltar que a evidência desse estudo difere em muitos aspectos da evidência de campo sobre a efetiva narração de piadas. Nos pesadelos antropológicos. o grau de correspondência entre as piadas e os outros domínios da experiência deve ser avaliado em cada forma. a partir de meados da década de 1980. muitos estudos sobre o humor. que passaram a publicar.16 Davies e Apte são membros do conselho editorial de Humor: international journal of humor research. p. Os membros de um grupo contam e gostam de ouvir piadas sobre si mesmos (por exemplo. 93 (1991).de grupos étnicos que formam o pano de fundo necessário para uma piada. muitas piadas políticas estão firmemente arraigadas na realidade social e política das sociedades envolvidas. na Andaluzia rural. “The sociology of humour and laughter”. e piadas das Ilhas Canárias sobre o povo de Gomera são casos desse tipo). imaginação e senso crítico cultural. as atitudes e valores relativos à identidade (por exemplo. American Anthropologist. Vou tratar agora de um caso específico: o humor e o riso no trabalho de campo e nos textos antropológicos.

E. 503-7. Anthropology as Cultural Critique: an experimental moment in the human sciences (Chicago. Embora as pessoas dediquem um bom tempo às atividades econômicas.18 A antropologia compartilha com o humor a estratégia básica da desfamiliarização: o senso comum é rompido. palhaços. Como o passado estudado pelos historiadores é. e sua aparência e saúde surgem como preocupação dominante no comportamento das pessoas. 19 Veja Marcus e Fischer. 20 Para consultar duas recentes e influentes contribuições no perene eterno debate sobre o relativismo cultural. a única esperança do homem é evitar essas condições pelo uso das poderosas influências do ritual e da cerimônia. o inesperado é evocado. Lowenthal. e os Carib e Arawak das Antilhas. O foco dessa atividade é o corpo humano. Esses preparados são obtidos de vários profissionais 18 Veja G. Fischer. Marcus e M. 263-78..19 Essa é a tarefa do relativismo cultural. American Anthropologist. cliques. os assuntos familiares são colocados em contextos pouco conhecidos. Spiro. 22 H. M. embora contestada. 1985). da T. (N. com bastante sucesso. que também é conhecido por duas grandes façanhas — o arremesso de um pedaço de wampum* que cruzou o rio Pa-To-Mac e a derrubada de uma cerejeira na qual morava o Espírito da Verdade. trapaceiros. 275). soltando foguetes. (. em termos ocidentais. os antropólogos são aparentados dos trapaceiros.. M. vendemos o estranho. manter o mundo abalado.20 Nesse aspecto. sua nação foi criada por um herói culto. Tem sido a tarefa de outros tranquilizar. pp. são modos exóticos de vida. pp. sobre discussões posteriores a respeito das técnicas de crítica cultural na antropologia. 21 Cf. 137-8. Notgnihsaw. piadistas e comediantes. Anthropology as Cultural Critique. que é uma doutrina básica. “Body ritual among the Nacirema”. publicado há 40 anos em uma das mais respeitadas revistas de antropologia. ou mesmo chocantes. Talvez um dos exemplos mais famosos dessa qualidade lúdica da antropologia seja um artigo de Horace Miner sobre o ritual corpóreo. um dos escritores mais talentosos e bem- humorados da antropologia. para parafrasear David Lowenthal. Australopitecos. destinada a combater a intolerância e o racismo. megalíticos — apregoamos anomalias. 1 (1986). da antropologia. valores e preocupações diferentes. 1986) pp. M. pp.. D. veja C. 58 (1956). virando mesas. Geertz. Pouco se sabe sobre sua origem. 86 (1984). Encarcerado em um tal corpo. 259-86. Todas as casas possuem um ou mais santuários dedicados a esse propósito. American Anthropologist.) A convicção fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é feio e de que a sua tendência natural é a debilidade e a doença. descreve da seguinte maneira a essência da profissão: “Temos buscado. (. Nessa arca são guardadas as muitas poções mágicas e simpatias sem as quais nenhum nativo acredita poder viver.) O ponto central do santuário é uma caixa ou arca embutida na parede. embora a tradição diga que vieram do leste. os Yaqui e Tarahumare mexicanos.21 um país estranho com costumes. a nossa é desestabilizar. a maior parte dos frutos desses trabalhos e uma porção considerável do dia são gastos em rituais. Os antropólogos freqüentemente reexaminam as categorias para entender o que. O humor como crítica é mais característico da antropologia e surge da própria natureza do trabalho antropológico tradicional. A cultura dos Sonacirema é caracterizada por uma economia de mercado altamente desenvolvida que evoluiu em um rico habitat natural. preconceitos e diferenças culturais. Cultural Anthropology. o relativismo e a crítica culturais também se incluem no trabalho dos historiadores culturais. o resultado da perspectiva obtida pela pesquisa de campo na periferia do mundo ocidental. Geertz. “Cultural relativism and the future of anthropology”. * Contas feitas de conchas e usadas pelos índios norte-americanos como dinheiro ou como enfeite. Mercadores do espanto” (p. para tornar o público ou os leitores conscientes de suas próprias premissas. J. puxando o tapete..) .22 Veja a seguir: [Os Sonacirema] são um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree canadenses. The Past is a Foreign Country (Cambridge. Miner. De acordo com a mitologia dos Sonacirema. “Distinguished lecture: anti antirelativism”.

Fui informado de que o ritual consiste em inserir um pequeno maço de pêlos de porco na boca. Usando a linguagem “neutra” da ciência comportamental. enquanto outros reagem com irritação e tendem a ver esse papel como mais uma prova da natureza não tão científica da disciplina antropológica. FL... em troca de outro presente. Os curandeiros possuem um templo imponente. mas também por ser a experiência que mais marca a identidade profissional. sondas e agulhas. 6 (1977). sovelas. Desde então. os curandeiros não fornecem as poções curativas para os seus clientes. Esses profissionais possuem uma impressionante parafernália que consiste em uma variedade de verrumas. 1993).. Decerto apenas um pequeno número das publicações de antropólogos é explicitamente desfamiliarizante e divertido. um número crescente de pesquisadores focalizou a lente antropológica — polida entre as tribos da África. A maioria dos trabalhos da antropologia tradicional não tem essa característica de humor. Essa fonte é a pesquisa de campo etnográfica. Essa escrita só é compreendida pelos curandeiros e pelos herboristas que.. Miner desfamiliariza e critica uma parte de sua própria sociedade e cultura.). fazendo-a parecer exótica e até mesmo bizarra.. apesar de sua 23 Essa mudança encontrou considerável resistência entre os próprios antropólogos. Annual Review of Anthropology. O artigo de Miner foi escrito numa época em que poucos antropólogos realizavam pesquisa de campo em sua própria sociedade. para uma discussão de pontos de vista resultante de diferentes posições internas e externas. as pessoas procuram um homem sagrado da boca uma ou duas vezes por ano. Isso. pp. só podem ser executadas nesse templo. não apenas por ser a principal estratégia de pesquisa e a fonte mais importante de evidências. Essas cerimônias incluem não só o taumaturgo. (. o fons et orígo da antropologia. Ásia e América Latina — em comunidades e problemas “domésticos”. assim como o do seu pai fundador e o do templo dos curandeiros). de qualquer tamanho. necessárias ao tratamento de pacientes muito doentes. O trabalho de campo em lugares não muito familiares ainda é o ofício da antropologia. (. 349-78. Cole. simpático e agradavelmente excêntrico. Um dos paradoxos da disciplina é que a experiência de pesquisa de campo. As cerimônias mais elaboradas.) O ritual corpóreo diário executado por todos inclui um rito bucal. . Driessen (org. Os mais poderosos entre eles são os curandeiros. em todas as comunidades. este rito envolve uma prática que assusta ao não iniciado. mas um grupo permanente de empregadas uniformizadas que se movem calmamente pelas câmaras do templo com trajes e penteados que as identificam. Veja J. Entretanto. “Anthropology comes part- way home: community studies in Europe”. fornecem a simpatia pedida. The Politics of Ethnographic Reading and Writing: confrontations of Western and indigenous views (Saarbrücken e Fort Lauderdale. e então mover o maço em uma série de gestos formais. W. porém. Veja também H. graça e sátira.) Além do rito bucal particular. Apesar do fato de essas pessoas serem tão atentas ao cuidado da boca. não altera o fato de que há na antropologia uma fonte de potencial humorístico que não está tão prontamente disponível para as outras disciplinas das ciências sociais e humanas. O leitor deve ter reconhecido nessa citação o culto à saúde dos anglo-americanos (o nome da “tribo” deve ser lido de trás para a frente.. ou latipsoh. cuja ajuda deve ser recompensada com bons presentes. entremeada por conceitos antropológicos comuns. Essa mudança de interesse aumentou a capacidade de desmascarar os mitos da singularidade e da superioridade ocidentais. apenas decidem quais devem ser os ingredientes e então os anotam em uma linguagem antiga e secreta. junto com certos pós mágicos. especializados.23 O papel trapaceiro do antropólogo é percebido por estudiosos de outras disciplinas acadêmicas (em particular os sociólogos) e por leitores de um público mais amplo com sentimentos diferentes: alguns o julgam fantástico.

há muito vem sendo envolvida em uma mística. 131-8. em The Human Way: readings in anthropology. R. os antropólogos raramente consideram o papel vital do humor e do riso no trabalho de campo e na construção da evidência etnográfica. quando ela teve que provar que era um integrante maduro da comunidade científica. Os professores contavam aos alunos que partiam coisas deste tipo: “Você deve levar bastante geléia e tênis baratos”. Uma das raras publicações do ponto de vista de um “nativo” sobre os antropólogos é J.27 Há também anedotas sobre a excentricidade dos professores que fazem pesquisa de campo: para manter a privacidade enquanto escrevia suas anotações na Nova Guiné holandesa. 25 (1955). “Anote tudo e se mantenha longe das mulheres”.24 Trabalhos escritos sobre a pesquisa de campo envolvem inevitavelmente uma revelação do ego que a maioria dos antropólogos tem evitado. Behind Many Masks·. . cafés.26 É como se o humor tivesse sido censurado e relegado a uma vida semi-secreta nas notas de campo.. como mecanismos retóricos. “Leve uma vara grande para os cachorros”.25 Mesmo nesses relatos confessionais. ethnography and impression management in a Himalayan hill village (Ithaca. H. sobretudo na fase formativa da antropologia. 71-7. 1975). Bernard (Nova York. um antropólogo colocou sua dentadura em uma pequena mesa à entrada de sua barraca. 1964). “On the clan of anthropologists”. diferentes da etnografia “real”. D. exigindo de cada um a invenção de métodos próprios. Berreman. o crescente ceticismo acerca das doutrinas positivistas do processo de pesquisa e o maior reconhecimento da dimensão construtiva da pesquisa de campo etnográfica produziram várias publicações sobre a experiência pessoal de pesquisa de campo. 1984). pp. jantares e bares. Os melhores conselhos que Laura Bohannan recebeu foram: “Use sempre tênis baratos. B. Return to Laughter: an anthropological novel (1954. Vansina. 4. 24 Veja G. Tales of the Field: on writing ethnography (Chicago. A dimensão subjetiva do trabalho de campo tem sido depreciada. p. 25 Veja. que caracterizou essa atmosfera como uma “conspiração do silêncio”. F. 138-52. em The Human Way. Mas no fim da década de 1960.importância. entre outros. Ellen (org. em corredores.). Lee. veja também R. três filhos e um antropólogo. pp. a água escorre mais depressa” e “Você vai precisar de mais mesas do que imagina”. 1962). 1988). Nova York. Bohannan (pseud. Van Maanen. Essas histórias circulam entre os antropólogos durante as reuniões informais paralelas às conferências e aos seminários. “Initiation Rituals of the Bushong”. Nova York. Todos sabem hoje em dia que a família comum de um Pueblo ou a típica família mexicana é formada por um pai. org. “Eating Christmas in the Kalahari”. J. isto é. Africa. pp. Ethnographic Research: a guide to general conduct (Londres. Há muitos outros usos e funções do humor. 26 Novamente nesse artigo limito-me ao humor e ao riso no trabalho de campo (relatos). Salinas. educacionais e polêmicos. Há algumas piadas tradicionais que confirmam isso. Mas as histórias pitorescas de campo raramente entram no discurso externo da antropologia. ignorada ou escondida do público sob a pressão do modelo científico dominante. Algumas dessas piadas tradicionais giram em torno da falta de treinamento em pesquisa de campo e da idéia que se tem deste trabalho como um rito de passagem. gostaria de mencionar J. reed. da graça e da ironia nos escritos antropológicos. Elenore Smith Bowen). Além dos exemplos discutidos aqui. R. uma mãe. 27 L. com exceção dos textos em forma de livros de viagem e romances. Gostaria agora de tentar ilustrar as diferentes formas que o humor e o riso podem adquirir no campo e discutir algumas das poucas descrições publicadas.

O riso torna suportável o insuportável. Tais situações são freqüentes. o que. 1985). mas usei a palavra buco (bode). em maior ou menor grau. Isso nem sempre é divertido para os antropólogos. Compreender o senso de humor é um grande passo para se familiarizar com uma cultura estranha. embora tendam a diminuir com o passar do tempo. Quase sempre as primeiras pessoas que procuram os antropólogos são os bobos e os idiotas da aldeia. o deixou sem fôlego por um momento (imagino-o pensando: “De estranhos pode-se esperar tudo”). o conceito nunca foi aplicado. da sua tendência de forçar as suas próprias suposições culturais sobre a cultura investigada e dos esforços para se (super)adaptar à vida local. do qual são a causa. e. pois nem sempre se compreende o porquê. RISO SEM PIADAS Parece haver muito riso sem piadas durante os primeiros contatos entre o antropólogo e a comunidade anfitriã. H. pedi um balde (cubo) ao carteiro que me alugou uma casa. RELACIONAMENTO JOCOSO NO CAMPO O humor freqüentemente se torna institucionalizado.28 Esse riso é recíproco. cujas deficiências ainda não foram percebidas pelo pesquisador. Essa experiência pode ser embaraçosa e frustrante. Esse incidente foi. A estranha aparência física do antropólogo já provoca risadas nos anfitriões. provocou gargalhadas entre as pessoas que testemunhavam a cena. . Por meio de gestos consegui indicar o objeto que queria. Fischer. sobretudo durante as primeiras semanas de trabalho de campo. histérico. entre os informantes (se é cortês. Mesmo havendo uma ampla bibliografia sobre o relacionamento jocoso tanto em sociedades tribais como industriais. e que. 28 H. obviamente. padronizado. Muito riso também surge nas primeiras tentativas desajeitadas do antropólogo de conversar com os anfitriões no idioma deles. obrigatório e baseado no parentesco). Fischer (Berlim. quando me estabeleci em uma cidade rural da Andaluzia para fazer um trabalho de campo. como pessoas marginais. elas continuam ocorrendo periodicamente. em Feldforschungen: Berichte zur Einführungin Probleme und Methoden. Ambas as partes encontram no riso uma área comum de comunicação e um alívio para a tensão inerente à situação. conciliatório). às relações entre os antropólogos e seus informantes. Rir e provocar risos também fazem parte das inevitáveis gafes dos antropólogos. Lembro-me de que. identificam o recém- chegado como alguém do seu tipo. p. e quando compreendido. org. o relacionamento jocoso pode ser definido como um comportamento brincalhão padronizado entre duas pessoas (às vezes. até onde sei. na tentativa de se superar uma situação que pode ser embaraçosa. por muito tempo. 29. incômoda e atordoante para as duas partes. Eles exibem o antropólogo à comunidade. parte do circuito de piadas locais. O etnológo alemão Hans Fischer descreve a sua chegada entre os Watut de Papua Nova Guiné no fim da década de 1950: “Dei apertos de mão. Ampliando a definição original de Radcliffe-Brown (que tratou apenas do tipo formal. na interação entre o antropólogo e a comunidade investigada. já que eles devem tentar encontrar o sentido do riso. ri o quanto pude e não entendi uma palavra do que eles disseram”. “Erste Kontakte: Neuguinea 1958”. cruel.

“Joking relationship”. p. embora eu tenha aprendido a respondê-la (o que foi muito apreciado). Veja também H. pois ele e os outros campesinos (camponeses) que trabalham no campo estão muito cansados para fazer qualquer coisa à noite. Humor and Laughtier. nas montanhas da Guatemala: Nas reuniões. 206-7: “Clubes masculinos. parece ter ficado furioso.30 Um dos raros livros que tratam de forma consistente do riso em uma situação de pesquisa de campo é o clássico Return to Laughter. Gould e W. tolices. 30-1. Return to Laughter. J. inevitáveis em todas as situações exclusivamente masculinas. a permissão (às vezes. 31 E. Piadas em reuniões sociais masculinas freqüentemente tratam de mulheres e sexualidade: vejaT. 358. Driessen. 237-53. pp. a troça. Consta que ele disse que não a teria mandado para lá se soubesse que ela escreveria um livro como esse. Apte. totalmente ausente na relação entre o antropólogo e a comunidade e os informantes investigados. J. virou objeto de piada e zombaria em reuniões masculinas durante toda a minha permanência na Espanha. L. “Gestured masculinity in rural Andalusia”. org. o insulto. Roodenburg (Cambridge. publicado pela primeira vez em 1954 na forma de um romance e sob um pseudônimo. há as piadas sem graça. 248. já que os antropólogos são muitas vezes adotados por uma comunidade ou por uma família e assumem papéis quase de parentes engraçados. estimulam a camaradagem animada entre os membros e promovem uma imagem hostil. de fazer piadas sobre a suposta simetria entre a minha altura e o tamanho do pênis. 1991). Este comportamento mostra um humor recíproco ou não-recíproco. os estudantes. mesmo que desejada. o uso de termos obscenos. embaraços e irracionalidades. Todos (até eu) gostam de piadas e casos que são contados e recontados. voluntários e baseados na amizade. de modo algum. obrigação) para implicar com a outra ou ridicularizá-la. Bremmer e H.29 A qualidade da afinidade não está. Por exemplo. De modo geral. os relacionamentos jocosos entre antropólogos e informantes são pessoais. Kolb (Nova York. Heggenhoughen. enquanto esta não deve se ofender. verbal ou não-verbal. pp. em A Cultural History of Gesture. p. Eles podem se tornar padronizados e ritualísticos com o tempo. a minha altura. considerável para as sociedades mediterrâneas. e de inventar teorias para explicar por que eu nunca me embebedara: “Demora muito para que o álcool alcance o seu cérebro” etc. que inclui a provocação. de colocar homens baixinhos ao meu lado. Middleton. Muitas delas usam o duplo sentido e. Seu professor. sejam dos Mehinaku ou dos americanos. em A Dictionary of the Social Sciences. por tradição. Anxious Pleasures: the sexual lives of an Amazonian people (Chicago. 30 K. freqüentemente na presença de uma platéia. “The inseparability of reason and emotion in the anthropological perspective”. A zombaria nem sempre era agradável. a piada. A causa da insistência nessa brincadeira era que a minha estatura incomum tocara num ponto sensível do código de masculinidade. Piadas e brincadeiras. “On joking relationships”. Ernesto me disse que nós. de fato compartilhadas pelos pesquisadores de campo em diversas situações) de seu relato científico baseado em um trabalho de campo na Nigéria. de Laura Bohannan.entre dois grupos) no qual uma delas tem. Os homens nunca se cansavam de subir em tamboretes de bar para ultrapassar-me em altura. pp. sempre me pediam para contar piadas. servem com eficácia a esses dois fins”. J. org.31 29 Veja Radcliffe-Brown. Gregor. naturalmente. 1964). 1985). . a zombaria. Smith Bowen. em The Naked Anthropologist. das mulheres. a retirada de objetos e brincadeiras grosseiras. é que somos capazes de animar e “levantar o astral” a toda hora. Um colega americano teve uma experiência semelhante entre os índios de Cakchiquel. para que se separasse a dimensão subjetiva (as alegrias e frustrações. Meyer Fortes.

Era impossível levar comigo alimento suficiente para toda a aldeia.. Quando ele me perguntou o que eu comia. “Adivinhe!” Ele parou de pedir um pedaço. Ela escreveu: “O riso deles diante do sofrimento era apenas um símbolo do abismo entre o mundo deles e o meu (. Esses problemas são fonte tanto de frustração quanto de humor.. “Estou com fome” é quase uma forma de saudação entre eles. (..) Descobri que manteiga de amendoim e biscoitos são um alimento muito nutritivo e fácil de preparar em viagens. um povo que ri alto. O romance descreve o processo bastante doloroso pelo qual o antropólogo aprende a aceitar os Tiv como eles são. o banho. Uma vez me referi à manteiga de amendoim como esterco de gado. o sono.) Mais do que isso. especialmente os que se relacionam com a comida. Outros exemplos do relacionamento jocoso podem ser extraídos do trabalho de campo de Chagnon entre os Ianomami na floresta tropical da Venezuela e do Brasil. (. Eles acharam muito repugnante. ocasião em que ela recuperou sua capacidade de rir de si mesma com os Tiv. “eles combatem a tristeza com o riso”).. ele discute alguns dos problemas que parecem ser quase universais entre os pesquisadores de campo. Os Tiv freqüentemente explodiam em riso (“. Durante aquela sessão. respondi: “Carne de boi”. solucionei melhor os meus problemas. enxugava óculos imaginários. sem intenção de uso ou adoração.. o que me transformou em uma trapaceira: alguém que parece ser o que não é e que professa fé em algo em que não crê. A autora perdeu temporariamente a capacidade de rir com os Tiv quando ela viu crianças zombando de um velho cego.. “ao menos aqui as pessoas não têm medo de se soltar. . Laura voltou ao campo e foi convidada para uma noite de narração de histórias. No primeiro capítulo de sua famosa monografia.. erros de gramática e hábitos de falar com uma precisão tão impiedosa que. rabiscava no ar como se escrevesse em um caderno.. Sempre havia riso”. (. mesmo rindo da minha própria dor. pode- se manter um puro e sério sentido da tragédia que é o infortúnio. e esse era um de meus meios de adaptação. a falta de privacidade e a solidão.. o riso é essencial à sanidade”... (.. Os pesquisadores de campo desenvolvem estranhos mecanismos de defesa.) num lugar onde as pessoas riem da miséria humana. mas eles pareciam não entender isso. um dos narradores começou a fazer o papel de informante diante de outro que representava o papel do pesquisador de campo: “Accident parecia ansioso ou confuso.) Outros se revezaram imitando os europeus”.. a nossa doutrina de generosidade com os animais. Num ambiente em que a tragédia é genuína e freqüente. Após uma devastadora epidemia de varíola. eu comia salsichas em lata e estava cansado dos pedidos de um de meus convidados para comer parte da minha comida. Eu também ria”. Em outra ocasião.. Era parecido demais com as fezes de animais para estimular o apetite deles. como a proporcionada pela civilização. Então ele me perguntou: “Que parte do animal você está comendo?”. Ela refletiu sobre esse período de liberdade da seguinte maneira: “Muitos de meus dilemas morais se originaram da própria natureza de meu trabalho. Essa aceitação inevitavelmente envolve um questionamento de seus próprios valores. os meus gestos. parecia a mais selvagem extravagância”. por mera generosidade... arrumava saias imaginárias e imitava o meu sotaque. ao que respondi. Considere os seguintes exemplos: Compartilhar a comida é importante para os Ianomami no sentido de demonstrar amizade. era um dos poucos alimentos que os índios me deixavam comer em relativa paz.. em lugar do que eles deveriam ou poderiam ser.. o que provocou um riso estrondoso entre os adultos.) Só em uma vida bem protegida.

1992). literature (Berkeley. Jackson escreve: “Enquanto em nossa ‘conversa de corredor’. R. os Ianomami possuem tabus muito rígidos sobre nomes: Eles gostaram de me ver aprendendo esses nomes. 1968). erradamente. org. A. ambivalência e dilema. 26). E. “fezes de gavião” e “ânus sujo”. . Stoller. comecei a compreender o motivo do riso. Krupat.32 Não deveria surpreender que as relações entre os antropólogos e informantes mostrassem várias características do relacionamento jocoso descrito na literatura antropológica. embora muitos deles se refiram ao uso da ironia como uma metáfora da escrita etnográfica. as refinadas formas de etiqueta muitas vezes são afetadas pelo exagero das piadas. Observou-se que os antropólogos tendem a evitar falar sobre as notas de campo ou mesmo fazer piada sobre elas. Clifford. não só em relação aos anfitriões mas também em função de si mesmos. Não é de admirar que as vítimas ficassem irritadas.33 Buscam relações de trabalho e amizade com seus anfitriões dentro de um contexto velado de diferenças de poder. pp. J. Eles chegam como estranhos para mergulhar na vida da comunidade investigada e meter-se à força naquela comunidade. Estranhamente. Chagnon teve que recorrer à listagem de nomes. O informante sussurrava ao meu ouvido o nome da pessoa. 1989). pp. Isso fez com que se armasse o palco para converter um projeto sério em uma farsa. nenhum desses autores se refere à questão do humor e do riso no campo. mesmo tendo diplomas universitários e sendo oriundos de sociedades geralmente mais poderosas do que as investigadas. Sanjek (Ithaca. Veja J. Presumi. celebramos e colhemos anedotas sobre a aventura e a arte do trabalho de campo. 11. P. Depois de um período de participação extensa e intensiva. 8. Eles se familiarizaram com muitos aspectos delicados da vida local. Essa era uma interpretação razoável. Jackson. 1988). já que a pessoa cujo nome eu dizia em voz alta invariavelmente se irritava. MA. 3-33. Sua missão nunca é completamente transparente para seus anfitriões. Os antropólogos freqüentemente se envolvem no relacionamento jocoso com seus informantes. Todos então insistiam para que eu repetisse o nome em voz alta e riam histericamente quando eu pronunciava o nome de modo desajeitado. M. 1992). Hammersley. Geertz. os antropólogos. P. The Predicament of Culture: twentieth-century ethnography. nem permanecem completos estranhos. Começam a participar mais ou menos como crianças inocentes. Ethnocriticism: ethnography history. mas mantêm uma certa distância. Depois de aprender o que significavam alguns dos nomes. Entretanto. “pênis longo”. vêem o campo de longe. 1992). A. Nem se tornam verdadeiros membros da comunidade. J. Por exemplo. nós. acrescentando que ele era o pai de tal e tal criança. entre os homens Maroons do Suriname. Works and Lives: the anthropologist as author (Oxford. 1990). 7.34 As duas partes lidam com 32 N. Yanomamö: the fierce people (Nova York. Nova York.Para pesquisar genealogias. sentados diante de seus computadores. 34 A vasta bibliografia de relatos do campo atestam o fato de que a pesquisa de campo é repleta de emoção. Espera-se do pesquisador de campo que ele brinque com os seus informantes (comunicação pessoal. mas permanecer afastados. Chagnon. as tensões permanecem — porque em outras ocasiões usamos nossas notas de campo como evidência de objetividade e rigor” (p. e assim por diante. Bonno Thoden van Velzen). Dumont. devido às ambivalências inerentes ao papel dos antropólogos de campo. 33 Uma ambigüidade semelhante marca a atitude dos antropólogos em relação às suas notas de campo. em Fieldnotes: the making of anthropology. “I am a fieldnote: fieldnotes as a symbol of professional identity”. Presumi que o riso era uma resposta à violação do tabu de nomes ou em função de minha pronúncia. Alguns exemplos recentes do trabalho de reflexão são C. Visayan Vignettes: ethnographic traces of a Philippine island (Chicago. What’s Wrong with Ethnography? Methodological explorations (Londres. 1988 ). brincando e zombando de nossas tentativas de ser objetivos e científicos no meio da selva. que receberia respostas verdadeiras para cada pergunta e que obteria a melhor informação se trabalhasse em público. literature. Eles desejam ser envolvidos na vida local. eles voltam às suas próprias sociedades onde. Eles têm que atingir um equilíbrio entre a participação e a observação. The Taste of Ethnographic Things: the senses in anthropology (Filadélfia. Cada informante tentava superar seus pares inventando um nome mais ridículo que o anterior ou afirmando que o indivíduo sobre quem eu perguntava era casado com a mãe ou com a filha. and art (Cambridge. Alguns dos exemplos mais engraçados são “vagina cabeluda”.

o estojo de minha câmera foi imediatamente agarrado pelo que parecia ser um carregador entusiasmado. atraso no capital. Sua monografia baseada na pesquisa de campo entre os Dowayos. os antropólogos de campo costumam comemorar e trocar piadas sobre o campo quando estão nos bastidores. Veja também o seu A Plague of Caterpillars: a return to the African bush (Harmondsworth. algo como ‘boceta’. tanto 35 N. bem-humorado e hilariante de seus textos populares. A maioria dessas e de outras experiências (obter concessão e permissão para pesquisa. 1983). UM CÔMICO PROFISSIONAL Como foi mostrado acima. Um motorista de táxi solícito me levou até o hotel por apenas cinco vezes o preço da tarifa normal”. o que aumentou a incompreensão”. boceta?’ Mas meus problemas não eram exclusivamente com vaginas interrogativas. Cito algumas passagens. Assim. Barley. não exibe o tom engraçado. The Innocent Anthropologist: notes from a mud hut (O antropólogo inocente: notas sobre uma cabana de lama). gafes). Como eu praticara essa frase muitas vezes. Au secours!’ Au voleur!’. problemas semelhantes me perseguiam em relação à comida e à cópula”. 1987) e Not a Hazardous Sport (Harmondsworth. aliviam a tensão e oferecem entretenimento. A obscenidade nunca está muito longe em Dowayo. 1989). e seus textos populares sobre o trabalho de campo são únicos devido à graça constante e a seu tom humorístico. O humor e o riso ajudam a tornar possível a comunicação. eu não falo Fulani’. Sobre a chegada ao campo: “Os habitantes da aldeia se apressaram e apertaram minha mão tagarelando em um confuso Fulani. The Innocent Anthropologist: notes from a mud hut (Londres. Symbolic Structures: an exploration of the culture of the Dowayos (Cambridge. Eu havia aprendido os rudimentos desse idioma em Londres e assim pude ao menos dizer: ‘Desculpem-me.muitas ambivalências. Seu primeiro e melhor livro. ligada a uma oração para convertê-la em uma pergunta. Eu então me confundia e divertia os Dowayos saudando-os da seguinte forma: ‘O céu está claro para você. Me pus a persegui-lo. Assim. 1983). conselho de professores. Uma mudança de tom transforma a partícula interrogativa. Mudei de idéia quando ele rapidamente desapareceu na distância. na palavra mais lasciva do idioma.35 narra sua primeira pesquisa antropológica de campo no fim da década de 1970 com os Dowayos dos Camarões. Sobre o aprendizado de um idioma tonal: “Meu fraco domínio do idioma também representava um grave perigo. O homem cujos joelhos não são marrons será notado por todos os tipos de pessoas. Felizmente. enquanto os seus relatórios são quase completamente destituídos de humor e escárnio. O antropólogo britânico Nigel Barley é uma exceção. eu gritei. que foi traduzido para muitas línguas. ela saiu bastante fluente. os antropólogos dificilmente são conhecidos como escritores humorísticos. usando todo tipo de frases incomuns na fala cotidiana. reduzem a hostilidade. vermes no campo. eu o alcancei e começamos a lutar. tensões e dilemas através do humor e do riso. Tudo terminou com um soco rápido que deixou aberto um lado do meu rosto e o estojo comigo. Sobre a chegada ao aeroporto nacional: “As primeiras impressões são muito importantes. Ele zomba da profissão em livros muito lidos fora da carreira. ele foi retido pelo trânsito. . facilitam o contato.

frustrantes quanto divertidas, é familiar aos pesquisadores de campo em muitos contextos
diferentes.36 Barley escreveu para um público mais amplo sobre a tradição oral da tribo
pesquisada com um ótimo senso de humor, graça, escárnio e um lápis afiado. Usando à
vontade a condescendência e o exagero, a ironia, a sátira e a paródia, ele desmascara boa
parte da mística em torno do trabalho de campo em lugares exóticos. O livro se tornou muito
popular entre os estudantes, ao menos na Holanda, embora os pesquisadores de campo
profissionais o tenham recebido com menos entusiasmo. Alguns colegas acharam que ele
zombou demais da profissão, que lavou a sua roupa suja em público. Eles se preocupavam
com a imagem pública da antropologia e sentiam que esse livro reforçaria os estereótipos
públicos sobre a trivialidade e a irrelevância da disciplina. Realmente, há aqui um pouco de
motivo para preocupação. Como o humor e a ironia funcionam indiretamente, existe a
possibilidade de que o leitor comum confunda o antropólogo com um turista de mochila
melhorado. Outros colegas simplesmente evitam discutir o livro.37 Será que o seu orgulho
profissional foi atingido? Será que eles estariam envergonhados e desconfiados do tom
popularizado do livro? Será que sofrem de jalousie de métier? Ou simplesmente não
compartilham do senso de humor de Barley?38 Seja o que for, está claro que os críticos de
Barley não considerariam Rabelais ou Nietzsche patronos de sua profissão.

CONCLUSÃO

O que foi escrito sobre as funções do humor nas sociedades tribais também se aplica à
dinâmica social da comunidade antropológica, à própria subcultura profissional. Nesse
sentido, não há nada que diferencie o humor e o riso dos pesquisadores de campo. Eles
ajudam a promover a comunicação, criam um ambiente de relaxamento e fortalecem a
coesão.39 Podemos reconhecer aqui uma função social geral do humor como delimitador
das fronteiras do grupo, formados por símbolos e atitudes que ajudam a desenvolver um
tipo de esprit de corps. Essas histórias de humor permanecem em grande parte dentro da
tribo e isso se explica pelo fato de que elas também expõem as emoções e a vulnerabilidade
dos pesquisadores de campo e dos informantes. Mesmo assim, elas não só marcam a
identidade profissional da antropologia, como parecem estimular uma sensação de
superioridade diante das disciplinas correlatas.
O conteúdo de muitas piadas se relaciona com situações ambíguas comumente
experimentadas no campo, com dilemas que geram insegurança. Um dilema básico é
inerente à própria observação participante: quando se envolver e quando se manter à
distância. Como é firmemente atestado pelo romance de Laura Bohannan, o trabalho de
campo gera uma “dupla consciência”, um choque entre as perspectivas internas da

36
Há, por exemplo, humor melhor e mais sutil acerca de temas semelhantes em A. Gottlieb e P. Graham, Parallel Worlds: an
anthropologist and a writer encounter Africa (Nova York, 1993).
37
The Innocent Anthropologist é raramente mencionado na bibliografia profissional. Uma das poucas menções que pude encontrar
em revistas de antropologia está em W. Arens, American Anthropologist, 87 (1985), p. 170.
38
Houve muita controvérsia a respeito da publicação póstuma do diário de Malinowski. Esse livro se contrapõe totalmente ao
relato de Barley. Aqui não há humor ou escárnio e, sim, poderação e autopiedade. Outro gênero de texto, que posso apenas
mencionar de passagem, é o romance no qual os antropólogos aparecem de forma bem-humorada, irônica ou satírica. Um dos
melhores exemplos é Less than Angels, de Barbara Pym (1955). Este livro mostra miniaturas precisas e divertidas da comunidade
antropológica.
39
Veja, entre outros, F. C. Miller, “Humor in a Chippewa tribal council”, Ethnology, 6 (1967), pp. 263-71.

comunidade investigada e as da sociedade à qual o antropólogo pertence, entre a experiência
interna e a externa. Nesse aspecto, a experiência da pesquisa de campo se assemelha à
dificuldade das minorias étnicas na sociedade ocidental. Foi ressaltado que o humor pode
estimular uma fonte de sensibilidade exacerbada e que os melhores comediantes quase
sempre pertenciam às minorias.40 De fato, a pesquisa de campo pressupõe o distanciamento
e a capacidade de rir de si mesmo. O humor atenua muitas das dificuldades inerentes à
função do pesquisador de campo. Acho que o potencial do humor também deveria ser usado
em textos, para tornar a etnografia mais vívida, acessível, divertida e fiel.
Parece-me que o mesmo se aplica ao trabalho dos historiadores culturais que
precisam atravessar o abismo cultural entre o passado e o presente e, ao fazê-lo, lidar com
as contradições e ambigüidades da evidência. Há, naturalmente, uma diferença fundamental
entre o antropólogo no campo e o historiador no arquivo: os informantes do último não
falam nem respondem com piadas, ao menos não no sentido direto dos informantes do
antropólogo de campo. Mesmo assim, tanto o estudo histórico como o antropológico sobre
o humor exigem senso de humor e relativismo por parte do investigador e escritor. Creio
que poderia ser escrito um ensaio semelhante sobre os significados e as funções do humor
na comunidade profissional dos historiadores, enfocando os arquivos.

40
Veja U. Hannetz, Cultural Complexity: studies in the social organization of meaning (Nova York, 1992), pp. 132-3. Além do
mais, a antropologia é intermediária entre as ciências humanas e as sociais.

Humor e História: bibliografia de pesquisa
JOHAN VERBERCKMOES

Esta bibliografia apresenta uma seleção de livros e artigos sobre a história do riso e do
humor com a finalidade de dar informações sobre a variedade de pesquisas passadas e
recentes, levando em conta a relativa confusão acerca dos limites exatos do tema. Com
certeza não é uma bibliografia completa. Estudos sobre a ironia, a sátira, o teatro e a
comédia não foram incluídos, bem como as antologias e os estudos sobre autores
individuais. Sobre a caricatura, apenas algumas introduções gerais com boas bibliografias
foram mantidas, e também alguns levantamentos mais antigos. A Seção 7 contém uma
seleção pessoal de alguns dos principais estudos teóricos. A recente bibliografia de Don
Nilsen, Humor Scholarship, contém muito pouco sobre história e humor e se concentra mais
nos estudos norte-americanos. Sou grato a Jan Bremmer e a Herman Roodenburg por suas
várias sugestões.

I. Estudos sobre Humor

Chapman, A. J. e Foot, H. C. (orgs.), Its a Funny Thing, Humour: international conference on
humour and laughter (Oxford, 1977), pp. 469-504.
Nilsen, D. L. F., Humor Scholarship: a research bibliography (Westport, CT, e Londres, 1993).

II. Estudos Gerais

Alexandre, A., L’art du rire et de la caricature (Paris, 1892).
Bennett, G., Spoken in Jest (Sheffield, 1991).
Billington, S., A Social History of the Fool (Brighton e Nova York, 1984).
Bouza, F., Locos, enanos y hombres de placer en la corte de los Austrias. Oficio de burlas (Madri,
1991).
Cameron, K. (org.), Humour and History (Oxford, 1993).
Cazamian, L., The Development of English Humor (Durham, NC, 1952).
Davies, C., Ethnie Humor around the World: a comparative analysis (Bloomington, 1990).
Duvignaud, J., Le propre de l’homme. Histoires du comique et de la dérision (Paris, 1985).
Escarpit, R., L’humour (6a ed., Paris, 1976).
Flögel, K. F., Geschichte der komischen Literatur (4 vols., Liegnitze Leipzig, 1784-7).
, Geschichte des Grotesk-Komischen. Ein Beitrag zur Geschichte der Menschheit (Liegnitz e Leipzig,
1788); reeditado por M. Bauer (2 vols., Munique, 1914).
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Luke de 154 Chrétien de Troyes: Percival 78 Basílio de Cesaréia 43. Sobre a comédia 40. rei 38 Men of Gottam 145 Anaxágoras 38 Borgia.Índice de nomes Abraão (bíblico) 76 Bohannan. rei de Aragão 177 Boorde. Geoffrey: Contos de Canterbury 152 antropólogo inocente) 269 Chesterfield. Caspar 173. As nuvens. Christie 256 Boccaccio. 55-56. 123 Boswell. 157. Robert 144. Cesare 101-102 Apte.89-90. Il marescalco 99. Giovanni 18. N.: European Literature and the Latin Bercé. Jacob 95 Nicômaco 40.51. Mahadev 255 Borromeu. Elisabeth 127 Davies. 107-108 Bakhtin. 136 Deloney. Pierre 14 Beethoven. Aristóteles 40. Matteo 99. 181. Heinrich 239 Daneels. Pieter 119. A. Laura 262. MarcoTulio 17.87. Return to Laughter Agátocles 31 265 Alberto Magno 70 Bolte. 110 Burton. 20. 111. Michelangelo di 101 Bacon. 123 Bento. 266 Banchieri. 157 Barlaeus. 111. Brewer. De Officiis 52-56. 120 Cícero. James 153 Arcimboldo 96 Bourdieu. A Banquet of Jests and 137-139. Henri 15. 213 erudita versus popular 19.98. Andrew: The Merry Tales of the Mad- Anácarsis. Laurentius 120 Darnton. De Oratore Batten. Tomás de 44. Dom Quixote 151 world 83-90 Chagnon. R. Robert 93. Galateo 108. Johannes 166 Afonso. Facetiae 135 Ragionamenti 96 Bremmer. 105 Carlos II da Grã-Bretanha 155. 255 Ciro da Pérsia 38 Bettziech. sobre a burla 97. 63. 106 Della Casa. Ansaldo 107 cultura popular 83-92. 55 Beccadelli. Giovanni 95. Decameron 99.123. C. F. Baldassare 107-108. Thomas 150 . decoro 18. definição de Bataille. Catarina 123 Beyerlinck. Lorde (Philip Stanhope) 152 Barra. Pietro 105. Georges 78 humor 54. o carnaval e a Cebà. The Anatomy of Melancholy Armstrong. Sir William 141 52. 143. 70. 105. 177 Castiglione.51. riso Wetsteen der vemuften 183 como traço distintivo do homem 69. Derek 20 domesticação da bufonaria. 120 Curtius. Ceccarelli. As vespas. Jacob e Elisabeth 127 Beckmann. 121. Joseph-Antoine 208. Ludwig van: Variações sobre uma Costerus. Robert 107 Croon. 147 Camporesi. Piero 122 Artemidoro: Livro dos sonhos (Dreambook) 34 Cantor. a cultura do riso 81. Roger 181 Barley. Giulio Cesare 108 Bellarmine. de Baecque. Friedrich 233 Corneille. Franciscus 124 valsa de Diabelli 17 Croce. Antonio degli: De dictis etfactis Cinthio. 37. 184 Chartier. Jan de: Iok en ernst 182. Poética 17 Burke. Jan 18 Aristófanes 30. Ética a Burckhardt. Peter 22 Arlotto Mainardi 96. 179 147 Aarne-Thompson. 155. 66. Pedro 120 Atanásio: A vida de Santo Antão 44 Caravaggio. Rabelais and his Cervantes. 75. E. Gianbattista Giraldi 107 Alphonsi regis Arragonum 177 Clemente de Alexandria 43 Becelli. Pierre 41 Aretino. G. Nigel: The Inocent Anthropologist (O Chaucer. 18.85. São 72-73. 198 Blondeel. Francis 22. Mikhail M. São Cario 106 Aquino. Yves 86 Middle Ages 69 Bergson. Bracciolini. 135-136. Poggio 96. Miguel de 150. 110 Cobbeniers. Archie 155. Antoine 16 O cortesão 106. 271. 51-56. Adriano 109 Carlos I da Grã-Bretanha 154 Bandello. A. cultura Cérutti. 32 Brune the Younger.: Sorriso e riso 66 desintegração do riso popular 105. comparação com Shakespeare Merry Tales 145.

Henry 156 Filipe II da Macedônia 33. Adolph 233 Luís Filipe da França 241 Goethe. 108 Mainardi. 79. o Grande 73 Marcolf 143 Gregório de Tours: History of the Franks 91. Antonfrancesco 98. sobre a paródia deTito 220. 21. Jean 117 Huygens Sr. Dirck 169 105. Hans 263 Lassels.. 254 Isócrates: Antidosis 39. Camille 218 Huygens o Jovem. O 17. Jacques 15. 105. Thomas: The Wise Woman of Hogsdon Moore. abade 202 Malouet 201 Gregório I. Albert de (bispo de Ghent) 116 Mundt.180 Nome da rosa. Cosimo de’ 106 Harvey. 20 Frazer. Arnold 172 Narr. Johan: Homo ludens 253 Nietzsche. Gotthold 14 relação com o inconsciente 74 Lichacev. Jean. Pierre-Louis 210-212 17 São Luís 70-71 Glaßbrenner. Inácio de Loiola: Exercícios espirituais 119 235 Isaac (bíblico) 76 Douglas. 151 Haydn. 102 Grazzini. Ernst 226 Jaime I da Inglaterra. 36. Oliver 152 Lucano 177 Goulart. Areopagitica 157-158 Hearne. processo civilizador Jansz. Joannes (Hüssgen) 105 . Joseph 14 Milton. Marcel 72 Halès.184. Constantijn 173. Sir John 139. 41. John: The Four Ps 146 Moons. John 110 Killigrew. 105. 99. Claus 175 Hugo. 179. Thomas 156 Fischer.Delumeau. Franz Burchard: Eckensteher Nante 228. 83-92 Mauss. Areopagiticus 39 Driessen. Arlotto 96.218. 110 Grégoire. Richard 110 Francisco de Assis 80 Le Goff. Karl 234 Grimm. Henk 16 Ives. 109 João Crisóstomo 43. Clément 175 miraculorum 91 Marx. Nicolau 102. D. 103. visconde André de 203-206. Sigmund 15. Les Diners Herzfeld. 71 Huygens. 42 de conversações 183 Domenichi. Sir Thomas: The Courtyer 135 Morreall. Bispo de Ely 145 146 More. irmãos 23 Guicciardini. John 74. 34 Killigrew.179. Samuel van 170. Bartholomew Fair 158 Eupolis: Os aduladores 30 Jordaens. Alexandre de 70 Medici. São Fillippo 122 Huizinga. Francesco 107 Maurois. Friedrich 251 Huls o Ancião. Christiaan 174 Oecolampadius. S. Constantijn 170. Mary 15. Ben 143. Johann Wolfgang von 181 Lowenthal. Emmanuel 85 Freud. Dr. senhor de 70 20 Jonson. Victor 14 Neri. 80 Gelasimo 34 Ligeti. Aaron 80. 107 Jâmblico: Sobre a vida de Pitdgoras 44 Dörbeck. Horace 258-259 Henrique II da França 71 Mirabeau. Ludovico 96.107. Alexander 66 Mirabeau. Simon 175 Maquiavel. John 152. Michael 38 214. Jacob 121. David 258 Goldsmith. Robert 117 Horácio 177. John 155 Hornes. Karl von 232 Moser-Rach. Elfriede 168 Hopf. Sir Thomas 146 Hoby. Gyorgy: Aventures e Nouvelles aventures Ginguené. Thomas 145 Miner. André 15 Gurevich. Libri Marot. Desidério 22. 105. apotegmas 177. Theodor 226 Houbraken. 120 Korenbloemen 179 Desmoulins. 120 Elizabeth I da Inglaterra 154 Johnson. Gabriel 137 Menandro 60 Hassan II do Marrocos 252 Mennis. Demócrito 29. ridículo 61 Muckle. 122 Heywood. Heuterus 147-148 repreendido pelo irmão 220 Heywood. James 254 Le Roy Ladurie. 255: O humor e sua Lessing. Samuel 153 Erasmo. diários Dionísio II de Siracusa 33-34. Norbert 22. conde Honoré de 220 Herzen. VI da Escócia 154 Elias. 204. Charles 17 Dronke. A mandrâgora 99. Albert 241 Muchembled. Taking Laughter Seriously 66 Holtei. sobre Plauto 56. Jacob 118 Evelyn. Eclesiastes Joinville.

175-177. Vasco: As moças de San Frediano 110 (perdido) 17 Prior. Ciropédia 38. Casina 63. Enid 105. Jan 185-186 Pio V. Muito barulho portuda 144. Keith 22-23 Pulei. John 144. Laurence 151 Platão: Ménon 32. 154. cenários Panécio de Rodes 52 138. Depuntigepolet in de Plauto 55-63. François 83. sobre o humor romano 51 Usener. devora 84 waffles mercador de Veneza 149. Georg: Rollwagenbüchlein 169 Sancroft. Erício 120 Thompson. Anthony Ashley Cooper): 28. R. Aernout van 35. 186-187 147. P. 146 Virgilio 177 Rivarol. Stichus 59 Jests 145 Plutarco 42. Lodovico 104 Xenofonte 34-35. Blaise 123 149. 157 Penn. sobre Cícero 52. papa 107 Pepys. 106 Teresa de Ávila 122 Pope. Niccolò 109-110 Poirtets. Gargântua e Verberckmoes. A.210. Adriaen van 179. de Windsor 149. Sir Walter: Redgauntlet 159 Wilson. Jan 168 acaba bem 149. 40 Sensus communis 13 Zincgref. Maximilien de 226-227 Vries. coleção de apophthegmata 35 Strozzi. 186 Rufino de Aquiléía 120 Westermarck. Noite de rets Pascal. 158. Anecdota sive historiae humanidade e simpatia por piadas 148. 44 Townsend. Richard 125 Rastell. Erich 59 Worp. As alegres comadm 172. Mary Lee 17 Quintiliano 54. D. Miles gloriosus 57. 207 Wickram. Maria 122 Steen. Johann Leonhard 177-178 Roodenburg. 38 Peterson. Adriaen 121 Terêncio 60. Samuel 22. 128 Institutio oratoria 182. atuação 178. Anthony à: Athenae Oxoniensis 145 Segal. 172 Sforza. Edward 254 Sales. J. 42. papa 107 Sterne. ofensa pelo riso 39. formação 147-148. São Francisco de 123. Merry Passages and Poenulo 58. Angelo 96. 32. Sonho de uma noite de verão 180. Pauli. 38. Thomas: The Art of Rhetorique 136-137 Sedley. 42. 100 Wesselski. Strange.151. Vladimir 80 Thomas. Antoon. Sir Charles 141 Wood. Herman 20 Welsford. Matthew 151 Teopompo 33-34 Propp. Johan 20 Pantagruel 185 Vercauteren. Emmanuel 109 Porfírio: A Vida de Pitágoras 44 Teofrasto: Sobre a comédia e sobre o ridículo Pratolini. vida e formação 173-175. Lorde (3°. Sir William 141 Sexto V. Hermann 62 Rabelais. 145. 181. Persa 35. Albert 166 Rousseau. 155 Rotunda. Banquete Stevens. 32. Alexander 151 Tesauro. 182 Shakespeare. Simon de 168 Romano. 65 Robespierre. Stith 100 Pitágoras e pitagóricos 38. eleita de Hanover 18-19 Petyt. 155 Sócrates 27-28. Petrus 119 32 Steyn. Simpósio 27- Shaftesbury. A. Bacchides 60. Triest. A megera domada 149. 254. Julius Wilhelm 177-178. William 145 Sara (bíblica) 76 Wilson.184. 172. Robert 153 Sofia.Overbeke. 264 Verstegen. Jean-Jacques 200 Westermann. 183 humor 17. 182. uso de histórias folclóricas 147-148. Giulio 96 Weidner. bispo de Ghent 119-120. Nicholas Le 170. Fernand 79-80 Radcliffe-Brown. 170. Gerardus 178. 71. Mariet 20. F. 139-142. wapenen 179 Menaechmi 59. Antoine 213 Voltaire 13-14. . O jocosae 166. Luigi: Morgante 96 Thomas de Eccleston 80 Puteanus. Vocabulário latino de Tuning. William: Tudo está bem quando Zoet. R 150 Scott. Johannes: Schimpff und Emst 169 uso de bobos 154. 61 Poliziano.

alemã 231. livros de piada e 262. 171. como riso e comentários inoportunos 199-206. 237-238. na Antigüidade 21. 179 225-229. o scurra 21. riso bíblico 74- 77. riso em Bacchides (Plauto) 60 grupo 77-78. o Eckensteher 244 Restauração pós-napoleônica na Alemanha alfabetização 230 229-232. o uso produtores de humor 22. manter fontes em beffa 99-104. mau gosto 100. usos de 218. Aduladores. para o sucesso de Nante. razões sociais censura 210. arianismo 91. alivio da Alegres comadres de Windsor. constrangimento de Cícero 52- pesquisadores de campo que riem e são objeto 56. 38-41. dissolução de regras Banquete (Platão) 32 pelo humor 15. silêncio 183-184 pontos de contexto 102-104 Courtyer. Grã- antropólogos como uma subcultura 271. caricaturas: Alemanha oitocentista 228. deprezo As vespas (Aristófanes) 32 grego pelo riso e pela bufonaria 27-34. The (Wilson) 136 105. contexto dos textos . ver também Areopagiticus (Isócrates) 39 contexto social Arianismo 91 cômicos e bufões: declínio do bobo da corte 23. Art of Rhetorique. um padre tenta falar 195. 157. bobos da corte italianos 97-98. 154-159. classe e caricaturas do Aventures e Nouvelles aventures (Ligeti) 17 século XIX na Alemanha 243-244. codificação do riso 70. Mardi Gras 216. mudanças sociais 225-229. 181-184. piadas de bobos encontradas no artes visuais: pintores italianos 96 Anecdota de Overbeke 175-176. As (Shakespeare) tensão social 15. 42-43. na corte puritana político do riso 219-223. aristocracia se distingue 41. 186-187. 142-143 preocupar com panfletos oníricos 240-241 Anecdota sive historiae jocosae (van Overbeke) charadas 168 166. o Eckemteher antropologia: relacionamento jocoso na África 71.Índice por assunto Ação legal: convicções pela irtevetência 127. 40 popular barbearias 34 Contos de Canterbury 151-152 conversação 19. 177 popular 19. ódio e massacre 86. Actes des apôtres e paródia Camarões 269 bíblica 213-214. polarização na Alemanha 239. 266 cavalheiros 144-147. Bartholomew Fair (Jonson) 158 contar piadas 21. Assembléia Nacional francesa: de riso 195-198. ideal de comportamento austero comida 266 199-200 contexto social: recomendações de Cícero para Athenae Oxoniensis (à Wood) 146 posição social 52-53. ver trotes italianos 100-101. crueldade. ponto de vista cantar 120 de Bakhtin sobre o medo 85. 157. 29-30. cultura Simpósio (Xenofonte) 27. The (Hoby) 135 bobos ver cômicos e bufões crime e criminosos 53 Brasil 266 cristianismo 85. Polícia prussiana deixa de se Anatomy of Melancholy (Burton) 137. zombaria fora do circulo Areopagiticus (Milton) 157-158 18. 175-178. piadas 133-134. 32. mudança da alta sociedade para a política Shakespeare 154. 124 censura da restauração pós-napoleônica 229. 38. Os (Êupolis) 30 preocupação da Contra-Reforma com 115- álcool 237 116. comédia romana 59. declínio no humor italiano 107-111. ver também classe. Bretanha 150. 168. Casina (Plauto) 63 232. humor preenchendo muitas Banquet of Jest and Merry Tales. 155. não convidados e 203. sátira impressa parasitas 30-31 211-216. Grécia 30. A (Armstrong) necessidades em tempos de mudança social 145. Reis 115. 53. 228. domínio do humor na elite social 257/ papel de trapaceiro do antropólogo 258. cultura erudita versus apophthegmata 35. Contra-Refocma 126-127. 118. Mardi- 149-150 Gras político francês 216-218. Festa de humor amargo dos veteranos de guerra 239. brincadeiras de Alemanha: Berliner Witz (graça berlinense) 226. 179-180 Ciropédia (Xenofonte) 38 Antidosis (Isócrates) 39 classe: extravagâncias de Nante. todos gostam da nova literatura de humor de riso 262-271. estudos sobre o humor 251 . insultos 101 também Eckensteher Nante Actes des apôtres (publicação) 213-214 carnaval e festivais: idéias de Bakhtin 83-92.

143 Espanha 264 humor: ambigüidade e limites de transgressão 94- Estados Unidos 259-260 95. 120. limites das piadas 94-95. instruções para trotes 99 Duyfkens ende Willemynkens pelgrimagie Het leven en bedrijf van Clément Marot (folhetim) 117-118 (possivelmente Zoet) 168. produzido pelo próprio humor da Contra.99-100. Facetiae (Bracciolini) 135 107. vista como origem do Depuntigepoeet inde wapenen (van Steyn) 179 “humor” 14 Decameron (Boccaccio) 99. exigência do humor na elite social oradores romanos 55. encenação de história: historiadores culturais 257. política 239-242. 235. Igreja feminismo ver mulheres católica romana Festivais dionisíacos 29. alegria gêneros 185-186 patriota 206-212. 176 Grã-Bretanha: vida da corte e da classe média 137- De officiis (Cícero) 52-56 144. paraíso 121. mudança de fontes de autoridade 20. “o ver também narração de histórias doador sorridente” 79-80. Igrejas protestantes. tipos nacional 201. 51. 272. defesa do riso 86-88. 108. santos maus e Fabelen van Aesopus 169 f bons demônios 88. Roma usa a comédia nova como desfamiliarização 258-261 modelo 55-61. 71. 123 definição de Cícero 54. 168 122. 119-120. francesa contexto social funções e partes do corpo: Cícero adverte sobre Cime 36 deformidades causadas por excesso de piadas De dictis etfactisAlphonsi regisArragonum 53. Darnton Beckmann 232-233. primeiros padres contra exempla 168 demonstrações de riso 43-44. localizações apropriadas por Plauto 59. Exercidos espirituais (Inácio de Loiola) 119 eutrapelia e riso cristão 128. piadas de corcundas 156. nota de Cícero sobre a (Cervantes) 151 oratória 51-56. determinados de riso 16. relativamente recente 21. razões busca por um caminho de disseminação e do sucesso 243-245 mudança das histórias 166 Ecclesiastes (Erasmo) 20 Histórias folclóricas 147-148. Bakhtin e 89-92. 55 inglesa 147-154. beffa italiana (Beccadello) 177-178 102 De droeve. Homo ludens (Huizinga) 253 Reforma 124. 22-23. sermões com histórias 96. ende blyde wereldt 176 Galateo (Delia Casa) 18. bufões 29-34. 254. temas 78. preservação dos romano 54. deprezo grego pelo riso e gregos usados como diversão no humor pela bufonaria 38-41. comédia Decretos de Carlsbad 229-230 antiga versus nova 37. mudança de fronteiras 21-22. mistura de reprimido na Contra-Reforma 117. percepção do caráter cultura: contexto de textos literários 16. 176 Eckensteber Nante 228. reprovação do riso em peças pascais 106. 53. acécias. Ética a Nicômaco (Aristóteles) 40. riso cultura popular 19. dois tipos de riso 76 Dialogue between Salome and Satum (anônimo) grupos profissionais 16 143 Guatemala 265 Dis Exapaton (Menandro) 60 Dom Quixote guia prático 67-68. eutrapelia 41. 120-129. e carreira 232-235. força negativa do Floris ende Blancefloer (folhetim) 169 humor 38-39 França: “humour” como um termo inglês 14. 166 epigramas 168 History of the Franks (Gregório de Tours) 91 escárnio: perigos da diferença de posição social Holanda ver Países Baixos 18. literários 16. origens sobre os historiadores perdidos 198-199. folhetos patrióticos 212. 61 crueldade: beffa italiana 104. oposição ao riso deformidade ver funções e partes do corpo 42-44.136 De gaven van de milde St Marten 176 Gargântua e Pantagruel (Rabelais) 185 Degeestvan Jan Tamboer (anônimo) 168. Plutarco o quer banido 42 Hoofiche Welleventheid 182 escultura 96-97 Howleglas (anônimo) 138. 123. Cícero 17-18. ver também Assembléia Nacional fundamento 254. bobos para Cristo 121. ver também antropologia. 207 Jesus riu? 69. censura 240-241. salvação para o Fala em público: Cícero sobre a oratória 51-56. 106 graça: termos gregos 42 decoro e dignidade: temas inaceitáveis segundo Grécia: condenar a poesia 41. 264. 104-107 fontes dominadas pelos homens 19. ver também monges tema de enredos em mudanças políticas 57 e mosteiros. brincadeira como um sátira212. usos de Shakespeare Eerlycke uren 176 147-148. sobriedade apenas família: relacionamento jocoso 71-78. clima e política 209- . efeitos dos livros de piada na literatura De oratore (Cícero) 52.

146 (Boarde) 145 Igreja Católica 20 Mil e uma noites. 106. atuações de van Overbeke 179 Itália: sistema cômico 93-98. força negativa 38. vergonha 38. As (Pratolini) 110 jesuíta culto 124-125. Rabelais próximo do limite 210. Reforma 106. Leis (Platão) 39 uso universal do humor 71. o Eckensteher sobre 235-236. O Mercador de Veneza. ver também monges e mosteiros monges e freiras 127-128. piadas da Contra-Reforma cortês 123. conto do cozinheiro Moças de San Frediano. ver também escárnio os exemplos mais antigos 135-136. 182 misoginia em períodos da história 19 intelectuais: desdém de Aristófanes 37. 158 168 Nome da rosa. 54. 78. humor próprio 123. gêneros de . II (Aretino) 99 palavra 14. Itália 95. repressão da Contra. estilos nacionais 14-15. influência dos livros de também autores teatrais individuais piada em inglês 146-147. As 148 Igreja Católica Romana: convicções sobre a Miles gloriosus (Plauto) 57 irreverência 127-128. regras monásticas e riso 72. mímica: advertência de Cícero contra 18. 210. situação dentro da cultura 16. O (Eco) 17. tranqüilidade do diário de Pepys monges definem o tom 21 durante a época puritana 142. piadas piadas 167-172 e contadores de piadas italianos 97. alegria francesa depois da modelos da comédia nova grega 55-62. festival de 29 sexualidade Les Diners (Mirabeau) 214 Países Baixos: Contra-Reforma e riso 115-119. ver também Roma obscenidade: Pepys narra o comportamento de Lazarillo de Tormes 151 Sedley 141. con dições do Nuvens. 102 para 119. A (Maquiavel) 99. Institutio oratória (Quintiliano) 52. poucas informações sobre ironia 40 o público 167. 71 Korenbloemen (Huygens) 179 Nova Guiné 262 Latim: melhor riso no vernáculo 68. anedotas sobre padres. 98. Libri miraculorum (Gregório de Tours) 91 humor da classe alta holandesa 20. imitação do antropólogo 266 livros proibidos 105. ver Revolução 206-222. efeito puritano moralidade 63 na literatura 158 Morgante (Pulei) 96 Cortesão. rodízio entre os produtores de humor 21 melancolia 184 Humor: international joumal of humor research Menacchmi (Planto) 59 257 Ménon (Platão) 32 Humor e sua relação com o inconsciente. The (Barley) 269 fontes históricas dominadas pelos homens 19. Megera domada. A (provavelmente Rastell) Merry Tales of the Mad-Men of Gottam. O (Shakespeare) 149 (Freud) 74 Merry Passages andJests (L’Estrange) 145 Hundred Mery Talys. 30. tendência natural Mandrágora. piadas Irlanda 41 como atuações 254. reação aos textos históricos 21. 51. comédia grega literatura: insensatez nos textos didático-moralistas antiga versus nova 38. 144. 115-120. gab erudita versus popular 19-20. 181 Muito barulho pomada (Shakespeare) 144 incongruência 75 mulheres: Nante. Marrocos 252 como tema de estudo para a antropologia 251. 115. Innocent Anthropologist. O (Castiglione) 97. 136.149 257. cultura Narração de histórias: censura de Igreja 106. abrangentes do humor por antropólogos 255. romanos usam 126-127. 186 feudal 78. origens da Marescalco. 125-126. The 138. ver também Lenéa. eutrapelia e riso Igrejas protestantes 20. ver Persa (Plauto) 35 também piada e livros de piada em prosa Filógelos (anônimo) 35-37 livros de piadas alemães 230-231 piada e livros de piadas em prosa: estudos Mágoa e hostilidade: Burton reconhece 142. piadas impressas Percival (Chrétien de Troyes) 78 167-170. A (Shakespeare) 147. livros de linguagem: jogos de palavras barrocos 109. melhor Papai Noel (St Niklaesgift) 176 riso no vernáculo 68 paradoxo 96 Livro dos sonhos (Dreambook) (Artemidorus) 34 paródia 96 literatura oral ver histórias folclóricas. As (Aristófanes) 37 riso 76. nar ração de pastiche 204 histórias peças: festivais gregos 29. ver também beffa National Lampoon 17 jesuítas 124 Judeus 149 Nigéria 265 Klugtige tyd-verdryver (possivelmente de Vries) Noite de reis (Shakespeare) 149. piadas como instrumentos Iok en emst (de Brune) 182 para a arte da conversação 182-183. conto do padre bêbado monges e mosteiros 79.

sonhos 79. São Luís. 40. política: crítica de Aristófanes a situações públicas romana 37.154-159. o Eckensteher 240-241. Aristóteles diz ser Venezuela 266 próprio do homem 69. ver artes visuais plágio 168 218. piadas: definição 128-129. Itália 106. 240 piada sobre o rei Hassan II 253. Grécia 33-37. Lorde Chesterfield o chama de Wise Woman of Hogsdon. o uso por Rabelais 151 Realeza ver reis. 83-90 trapaceiros: antropólogos 258-262.79. alívio de tensão 196. . diferenças vergonha 38 multiculturais 256. demonstração primitiva 144-147. The (anônimo) 136 trotes 18. The (Heywood) 146 rude 153. cavalheiros e cultura popular monges 72-73. fenômeno social 66 publicados durante a censura da Igreja 127. o rei Tudo está bem quando acaba bem (Shakespeare) humorista 70-71 149 religião ver cristianismo Rússia 89 República. estudos de autoria e prudência 54 público 166-167 sátira: revistas 16.87. uso político do riso 219-222. Schimpffund Emst (Pauli) 169 Schimpigen intelectuais consomem livros de piada 169 Bolwormspiegel (possivelmente de Vries) 168 Poenulo (Plauto) 58 Sensus (Shaftesbury) 13 Poética (Aristóteles) 17 sexualidade: em Anecdota de Overbeke 176. rainhas e cortes trocadilho: história da palavra 25. humor dentro do contexto Sonho de uma noite de verão (Shakespeare) 147 de mudança social na Alemanha 225-229. mudança de perspectiva do humorista Regula Magistri (regras monásticas) 72 para vítima 108. reprimido manuscritos na Holanda 170-172. cultura do 16. impressos na Holanda 167-170. Wetsteen der vemuften (de Brune) 183 tipos de 73-78. Vermeerderde Nederlandtschen wech-corter 184 defendido por autores cristãos 120-121. rainhas e cortes: declínio do bobo 23. 266. beffa italiana 99-104. 51 francesa 207-208. agressiva 15. Nante. França pós-revolucionária 212- pinturas. Os (TheFourPs) (Heywood) 146 Tijl Uilenspiegel (folhetim) 169 Rabelais and his World (Bakhtin) 19. expressão 16. material 168. relato Reinaert de Vos (folhetim) 169 de Pepys 22. 255-256 diferente 57-60. piadas verbais vistas como reis. beffa Ratseis Ghost (anônimo) 139 italiana 99-104. doador sorridente 80. videntes e astrólogos 37 antigos padres da Igreja contra 119-120. A (Platão) 39 Universidade de Paris 69 retórica 136 Variações sobre uma valsa de Diabelli Retum to Laughter (Bohannan) 265 (Beethoven) 17 riso: antiga oposição a 42-44. o palavra 25. romana 38 platéias: falta de informações históricas 166. 138 teatro ver peças Punch 17 Teoria do alívio do riso 75 Quatro Ps. O uso político Sorriso e riso (Ceccarelli) 66 do riso 219-222 Stichus (Plauto) 34. corte italiana 96. ritual 98. vingança: beffa italiana 102-104 eutrapelia e caridade cristã 123. 171-172 Roma: comédias traduzidas para um contexto piadas étnicas ou racistas. 141. formas anteriores dos oradores devem preservar sua gravidade e termos Witz e mop 14. humor expressa Sobre a comédia (Teofrasto) 17 solidariedade 133. origens da naContra-Reforma 115-119. mais civilizadas 108-109 105. alegria Sobre a comédia (Aristóteles) 17. vocabulário latino de humor 17. Rollwagenbüchlein (Wickram) 169 van Overbeke 165-166. 59 Private Eye 17 superioridade 75 propriedade ver decoro Taking Laughter Seriously (Morreall) 66 Protâgoras (Platão) 40 tabernas 100. exigência do humor na elite piadas sobre sogras 71 social 21. salsa na Redgauntlet (Scott) 159 escadaria 180 Refind Courtier. ver também obscenidade 56.81.

Ou visite a nossa home page: http://www.br . Válido somente no Brasil.com. Escreva para RP Record Caixa Postal 23.CEP 20922-970 dando seu nome e endereço e tenha acesso a nossas ofertas especiais.052 Rio de Janeiro.record. Seja um Leitor Preferencial Record e receba informações sobre nossos lançamentos. RJ .Este livro foi composto na tipologia AGaramond em corpo 11/15 e impresso em papel Chamois Fine 80g/m2 no Sistema Cameron da Divisão Gráfica da Distribuidora Record.